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<p>Créditos e Copyright</p><p>Língua Portuguesa I - Fonética e</p><p>Fonologia / Fonética e Fonologia</p><p>NÚCLEO COMUM</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>2</p><p>Créditos e copyright</p><p>Vanessa Laurentina Maia</p><p>Crb8 71/97</p><p>Bibliotecária UNIMES</p><p>Este curso foi concebido e produzido pela UNIMES Virtual. Eventuais marcas aqui</p><p>publicadas são pertencentes aos seus respectivos proprietários.</p><p>A UNIMES Virtual terá o direito de utilizar qualquer material publicado neste curso</p><p>oriundo da participação dos alunos, colaboradores, tutores e convidados, em</p><p>qualquer forma de expressão, em qualquer meio, seja ou não para fins didáticos.</p><p>É proibida a reprodução total ou parcial deste curso, em qualquer mídia ou formato.</p><p>M772l Monte, Vanessa Martins do.</p><p>Língua Portuguesa I – Fonética e Fonologia / Vanessa Martins do</p><p>Monte. Atualizado por Irene da Silva Coelho. - Santos, 2023.</p><p>73 fls.</p><p>Universidade Metropolitana de Santos, Licenciatura em Letras, 2009.</p><p>1. Ensino a distância. 2. Letras. 3. Língua Portuguesa.</p><p>CDD 469.8</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>3</p><p>SUMÁRIO</p><p>Aula 01_A Fonética, a Fonologia e a fonética articulatória ......................................... 4</p><p>Aula 02_Ponto e modo de articulação ........................................................................ 9</p><p>Aula 03_O alfabeto internacional .............................................................................. 14</p><p>Aula 04_Os dialetos do Brasil: as consoantes oclusivas, africadas e laterais ........... 17</p><p>Aula 05_Os dialetos do Brasil: os “erres", as fricativas e nasais .............................. 20</p><p>Aula 06_Os segmentos vocálicos: a altura da língua ............................................... 23</p><p>Aula 07_Os segmentos vocálicos: articulações secundárias.................................... 27</p><p>Aula 08_A sílaba ...................................................................................................... 31</p><p>Aula 09_ As vogais pretônicas e postônicas............................................................. 35</p><p>Aula 10_Introdução à fonologia ................................................................................ 40</p><p>Aula 11_Fonemas e Alofones ................................................................................... 46</p><p>Aula 12_Alofonia: variantes posicionais e variantes livres ........................................ 51</p><p>Aula 13_A estrutura da sílaba .................................................................................. 55</p><p>Aula 14_O acento ..................................................................................................... 58</p><p>Aula 15_Os processos fonológicos e os traços distintivos ........................................ 62</p><p>Aula 16_As regras fonológicas e o sistema ortográfico ............................................ 67</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>4</p><p>Aula 01_A Fonética, a Fonologia e a fonética articulatória</p><p>Palavras-chave: conceitos; fonética; fonologia.</p><p>Quando iniciamos qualquer estudo, é importante que fique claro o objeto de</p><p>estudo, tanto da fonética quanto da fonologia, o sistema oral da língua. No nosso</p><p>caso, a língua portuguesa falada no Brasil. A linguagem oral surgiu há cerca de</p><p>100.000 anos, com o Homo sapiens, e foi, por assim dizer, a primeira forma de</p><p>elaboração de um pensamento racional, o que possibilitou um relevante aumento na</p><p>interação entre os homens. Dessa forma, pode-se considerar que a fala foi um dos</p><p>instrumentos responsáveis pela formação de uma sociedade, agregando homens</p><p>que pensavam da mesma forma e ajudando a organizar os pensamentos de forma</p><p>mais racional. Os homens passaram a representar os papéis de falantes e ouvintes,</p><p>de emissores e receptores. A escrita só surge cerca de 4.000 anos antes de Cristo,</p><p>na Mesopotâmia, bem após a data aproximada estabelecida para o surgimento da</p><p>fala.</p><p>Vamos avaliar agora quais são os objetivos e o campo de estudo das</p><p>disciplinas Fonética e Fonologia dentro da língua oral.</p><p>A fonética estuda a face concreta da fala, ou seja, o modo como os sons são</p><p>produzidos e assimilados pelo corpo humano. O objeto de estudo da fonética são as</p><p>unidades mínimas dos sons da fala, que são classificadas de acordo com o modo</p><p>como são articuladas e estudadas individualmente. A descrição, classificação e</p><p>transcrição desses sons são os objetivos da fonética.</p><p>Atualmente, a fonética moderna, ou experimental, faz uso de aparelhos</p><p>e softwares, como sintetizadores de voz, para estudar a formação da voz e dos sons</p><p>e a maneira como eles são interpretados pelo ouvido do receptor. Uma aplicação</p><p>interessante dessa disciplina é a chamada fonética forense, muito utilizada na área</p><p>da justiça para identificação de vozes em escutas telefônicas autorizadas.</p><p>A fonologia, por sua vez, surge a partir dos estudos de linguística moderna</p><p>iniciados por Ferdinand de Saussure, no final do século XIX e início do século XX. O</p><p>objeto de estudo da fonologia, também denominada fonêmica (sobretudo pelos</p><p>linguistas norte-americanos), são os sons de uma língua, mas não do ponto de vista</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>5</p><p>físico, de como são produzidos, e sim de como funciona uma sequência de sons em</p><p>determinada língua e como acontece a construção de sentido que eles produzem</p><p>quando agrupados. Por exemplo, se dissermos a palavra “carro” e a palavra “caro”,</p><p>o ouvinte de língua portuguesa identifica a diferença de som, que conduz a dois</p><p>significados distintos. Muda-se apenas um som da palavra “carro” para “caro”, mas</p><p>o receptor da mensagem é capaz de codificar a mudança e interpretar as palavras</p><p>corretamente: carro — automóvel — e caro — preço alto. Os sons de cada uma das</p><p>línguas combinados formam unidades de significado que os falantes daquela língua</p><p>conseguem decodificar — é justamente nesse campo que entram os estudos</p><p>fonológicos.</p><p>Esta disciplina apresentará a você, os principais conhecimentos relacionados</p><p>à fonética e fonologia, que muitas vezes se confundem. A cada aula, novos conceitos</p><p>serão discutidos e é de extrema importância que você, aluno, compreenda</p><p>plenamente os conceitos de uma aula antes de iniciar a próxima, já que, na maioria</p><p>das vezes, os conhecimentos estarão interligados.</p><p>Fonética articulatória: o aparelho fonador</p><p>Agora que o objeto de estudo da fonética já está bem definido, iremos começar</p><p>a estudar o modo pelo qual produzimos os sons que constituem nossa fala, o que</p><p>chamamos de fonética articulatória. O conjunto de órgãos utilizados na produção dos</p><p>sons é denominado aparelho fonador. É interessante lembrar que os órgãos que</p><p>utilizamos para falar não têm como função primária a articulação de sons, mas sim</p><p>outras atividades, como respirar e engolir.</p><p>O aparelho fonador pode ser dividido em três grupos: sistema respiratório,</p><p>sistema fonatório e sistema articulatório. O sistema respiratório é composto pelos</p><p>pulmões, músculos pulmonares, tubos brônquios e traqueia. A função primária do</p><p>sistema respiratório é a respiração, cujos movimentos são o de inspiração e</p><p>expiração.</p><p>O sistema fonatório é composto pela laringe, onde se localizam os músculos</p><p>que obstruem a passagem de ar, conhecidos como cordas ou pregas vocais.</p><p>Quando esses músculos não estão obstruindo a passagem de ar, o espaço que ali</p><p>fica é chamado de glote. A função primária da laringe é obstruir a entrada de</p><p>alimentos nos pulmões, por meio da cartilagem móvel chamada epiglote.</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>6</p><p>O sistema articulatório é composto por: faringe, língua, nariz, dentes e lábios.</p><p>A função primária do sistema articulatório está ligada ao ato de comer.</p><p>O aparelho fonador é formado pelos três sistemas</p><p>interpretação — uma vez que falantes sabem</p><p>que a sequência ‘sp’ não ocorre em início de palavra em português.</p><p>Certamente a palavra ‘spali’ é interpretada como uma palavra estrangeira</p><p>para falantes do português. Claro que se lançarmos um sabonete no</p><p>mercado como o nome de ‘spali’ os falantes do português serão capazes de</p><p>pronunciar este nome: ‘spali’. Contudo, os falantes farão as devidas</p><p>alterações na sequência sonora para que esta palavra se adeque aos</p><p>princípios de organização da cadeia sonora do português. Assim, um ‘i’ será</p><p>inserido antes do ‘s’ inicial porque a língua portuguesa não permite ‘s’</p><p>seguido de outra consoante em início de palavra.</p><p>Sabemos que as línguas possuem conjuntos de fonemas distintos. O inglês,</p><p>por exemplo, tem o som “th”, como em “that”, que não existe em português. É claro</p><p>que um estudante brasileiro que resolva aprender a língua inglesa terá condições de</p><p>adquirir aquele som, mas tal fonema não pertence à sua língua materna.</p><p>Um outro exemplo de estudo da fonologia é a maneira pela qual um segmento</p><p>pode ser alterado em determinada sequência sonora. Quando estudamos os</p><p>segmentos consonantais, vimos que geralmente antes de [e,i], as consoantes [t,d]</p><p>sofrem um processo de palatalização, sendo pronunciadas como [tʃ] e [dʒ], das</p><p>palavras “tchau” e “Djalma”. Assim as palavras “tia” e “dia” normalmente são</p><p>articuladas como “tchia” e “djia”. Tal fenômeno não ocorre, entretanto, quando depois</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>41</p><p>de [t,d] temos as vogais [a,o,u]. Esse tipo de análise — de contextos de ocorrência</p><p>de determinados fenômenos da língua — é objeto de estudo da fonologia.</p><p>Premissas fonológicas: ambiente</p><p>Antes de começarmos a estudar a análise fonêmica ou fonológica, é</p><p>importante nos acostumarmos a alguns conceitos relacionados à fonêmica, que são</p><p>fundamentais para o entendimento do tipo de análise que essa disciplina realiza a</p><p>partir de uma cadeia sonora.</p><p>A primeira questão relaciona-se a uma diferença essencial em relação à</p><p>análise fonética, que tinha objetivos distintos da fonêmica. Enquanto a transcrição</p><p>fonética de determinado vocábulo era colocada entre colchetes, como [‘vaka] “vaca”,</p><p>a representação fonêmica é colocada entre barras transversais — /’vaka/. Nem</p><p>sempre, porém, a transcrição fonética e a transcrição fonêmica são idênticas, como</p><p>acontece com a palavra “vaca”. Há casos em que a transcrição fonêmica (ou</p><p>fonológica) difere da fonética, como, por exemplo, a palavra “carta”, em que a</p><p>representação fonológica, /’kaRta/, é diferente da representação fonética, [‘kaɾta].</p><p>Para entendermos a diferença de representação e o uso do símbolo R, até então</p><p>desconhecido, é preciso compreendermos as quatro premissas básicas do modelo</p><p>estruturalista, propostas por Silva (2003, p.119-125).</p><p>Primeira Premissa – Ambiente</p><p>A primeira premissa diz respeito à alteração dos sons de acordo com o</p><p>ambiente em que se encontram. Chamamos ambiente ou contexto os segmentos</p><p>que precedem ou seguem determinado segmento, consonantal ou vocálico.</p><p>Segundo Silva (2003, p. 119), há três ambientes considerados mais propícios à</p><p>modificação de segmentos:</p><p>1. sons vizinhos (precedentes ou seguintes);</p><p>2. fronteiras de sílabas, morfemas, palavras e sentenças;</p><p>3. a posição do som em relação ao acento.</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>42</p><p>Um exemplo de contexto seria V V, onde o traço central ( ) representa o</p><p>segmento a ser estudado e o símbolo V representa uma vogal. Neste caso, o</p><p>contexto seria um segmento entre vogais, ou seja, em posição intervocálica. Se</p><p>quisermos nos referir ao [s] intervocálico, podemos escrever: [s] ocorre V V ([s]</p><p>intervocálico, ou [s] (ocorre entre vogais).</p><p>Um exemplo interessante e esclarecedor sobre os ambientes que provocam</p><p>alteração nos sons é o das sibilantes em final de sílaba, [s,ʃ,z,ʒ]. Como estudamos na</p><p>aula 8, os sons desses fonemas podem marcar variação dialetal, como é o caso do</p><p>dialeto carioca, em que a palavra “chispa” será representada foneticamente como</p><p>[‘ʃiʃpa].</p><p>Além de marcarem variação dialetal, os fonemas sibilantes apresentam</p><p>comportamento condicionado pelo contexto quando estão em posição de final de</p><p>sílaba, como nas palavras:</p><p>• caspa cabisbaixo</p><p>• gosta desde</p><p>• busca musgo</p><p>• esfinge desvio</p><p>Pronuncie as palavras acima e perceba que quando o “s” ortográfico é seguido</p><p>pelos segmentos consonantais surdos, ou desvozeados, [p,t,k,f], na coluna da</p><p>esquerda, as sibilantes que os precedem também são surdas, ou desvozeadas, [s]</p><p>ou [ʃ] (dialeto carioca e outros). Já quando as sibilantes são seguidas pelos</p><p>segmentos consonantais sonoros, ou vozeados, [b,d,g,v], elas passam a ser</p><p>sonoras, ou vozeadas, [z] ou [ʒ] (dialeto carioca e outros).</p><p>Tal fenômeno é chamado assimilação, que ocorre quando uma propriedade</p><p>articulatória de um segmento é compartilhada pelo segmento adjacente. No caso das</p><p>sibilantes acima, a propriedade de vozeamento, ou sonoridade, dos segmentos</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>43</p><p>consonantais [b,d,v,g] é assimilada pelas sibilantes que os seguem, que também</p><p>passam a ter a propriedade do vozeamento.</p><p>Segunda Premissa – Simetria</p><p>A segunda premissa relaciona-se à simetria dos sistemas sonoros. Quando</p><p>estudamos os segmentos consonantais, vimos que temos uma consoante fricativa</p><p>labiodental desvozeada, ou surda, [f], e uma consoante fricativa labiodental vozeada,</p><p>ou sonora, [v]. Sempre esperamos encontrar, portanto, o par da consoante surda, que</p><p>é sonoro, no caso [f] e [v].</p><p>A simetria fonética é um aspecto esperado nos sistemas sonoros, porém há</p><p>sistemas onde não se encontra simetria, como é o caso da língua bardi (Silva, 2003,</p><p>p. 122). Observe o quadro das vogais do português e da língua bardi (Austrália):</p><p>[i] [u]</p><p>[e] [o]</p><p>[ɛ] [ɔ]</p><p>[a]</p><p>português</p><p>[i] [u]</p><p>[ɔ]</p><p>[a]</p><p>bardi</p><p>Observe que na língua bardi não há nenhuma vogal média anterior [ɛ] que</p><p>corresponda à vogal média posterior [ɔ]. Em português, ao contrário, encontramos</p><p>perfeita simetria, a cada vogal anterior, média ou alta, corresponde uma vogal</p><p>posterior.</p><p>No latim, o quadro das consoantes era relativamente diferente das</p><p>consoantes do português. Não havia, por exemplo, a correspondente sonora da</p><p>consoante fricativa ápico-alveolar surda [s]. Não havia também a correspondente</p><p>sonora da consoante fricativa labiodental [f]. As consoantes sonoras [z] e [v] surgem</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>44</p><p>somente nas línguas românicas. Dessa forma, podemos afirmar que o sistema das</p><p>consoantes latinas apresentava certa assimetria.</p><p>Terceira Premissa – flutuação</p><p>A terceira premissa relaciona-se às diferentes formas de articular determinado</p><p>fonema. Vimos, por exemplo, que em muitos dialetos do português brasileiro, os</p><p>segmentos consonantais [t,d] tendem a sofrer palatalização quando seguidos do</p><p>segmento vocálico [i], transformando-se nas africadas [tʃ,dʒ] — sons iniciais das</p><p>palavras tchau e Djalma. Podemos afirmar, assim, que há uma flutuação na</p><p>pronúncia das consoantes oclusivas alveolares (ou dentais), que podem ser mais</p><p>palatalizadas, transformando-se em africadas, ou menos, como é o caso do dialeto</p><p>de Curitiba-PR.</p><p>Tal flutuação de pronúncia não causa alteração de sentido; decodificamos as</p><p>duas pronúncias, [‘tia] e [‘tʃia], como “tia”. Dizemos, portanto, que a flutuação no grau de</p><p>palatalização, ou entre oclusivas alveolares e africadas, não é foneticamente</p><p>relevante na maior parte dos dialetos do português brasileiro.</p><p>Se tomarmos, no entanto, a língua inglesa, veremos que a palatalização ou</p><p>não de determinado segmento consonantal causa alteração de sentido, portanto a</p><p>flutuação</p><p>no grau de palatalização é foneticamente relevante no inglês. Tomemos as</p><p>palavras cat (gato) e catch (pegar). Na primeira, temos uma consoante oclusiva</p><p>alveolar, [t], que não é palatalizada, e na segunda temos uma africada [tʃ], que é</p><p>palatalizada.</p><p>A alteração no nível de palatalização, que transforma a fricativa [t] em africada,</p><p>[tʃ], provoca alteração de sentido no inglês, por isso dizemos que a flutuação, neste</p><p>caso, é foneticamente relevante.</p><p>Quarta Premissa – Segmentos Suspeitos</p><p>A quarta premissa fonológica diz respeito aos segmentos suspeitos dos</p><p>sistemas sonoros. Vimos na aula 17 o exemplo da palavra “spali” dado por Silva</p><p>(2003, p. 91). Na língua portuguesa, não há caso de palavra com sílaba começada</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>45</p><p>por “s” seguido por outra consoante. Assim, uma transcrição fonética como [s’pali]</p><p>seria suspeita, já que os falantes do português não realizam este tipo de articulação,</p><p>tão frequente no inglês, como no caso de star (estrela) e stone (pedra).</p><p>A sequência característica do português é vogal seguindo “s” em início de</p><p>sílaba, como “estrela”, “espírito” e “escola”. Portanto, esta sequência, comum em</p><p>português, influencia a pronúncia de um segmento desconhecido para a língua,</p><p>chamado aqui de segmento suspeito. Esta influência faz com que a pronúncia da</p><p>sequência “spali” seja [is’pali].</p><p>Na aula de hoje, terminamos o estudo das premissas fonológicas</p><p>fundamentais para a realização de análises fonêmicas. Vimos, na terceira premissa,</p><p>que um som pode flutuar em um dado sistema sonoro, podendo ser considerado</p><p>relevante, quando causa alteração de sentido, ou irrelevante, quando não causa. Na</p><p>quarta e última premissa, estudamos os segmentos suspeitos, que sofrem influência</p><p>das sequências características de uma língua.</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>46</p><p>Aula 11_Fonemas e Alofones</p><p>Palavras-chave: fonema; alofone; vozeamento.</p><p>Estudaremos dois conceitos essenciais para a análise fonêmica: o conceito</p><p>de fonema e o conceito de alofone.</p><p>Quando começamos a realizar as transcrições fonéticas, utilizando os</p><p>símbolos do alfabeto fonético internacional, estávamos preocupados com a maneira</p><p>pela qual os sons eram articulados pelo falante. Assim, se tivéssemos de transcrever</p><p>a pronúncia de um falante do dialeto carioca, iríamos usar os símbolos específicos</p><p>para marcar suas variações de pronúncia, como o [ʃ] para representar o “s” ortográfico</p><p>na palavra “costa”. Se o falante fosse paulista, no entanto, utilizaríamos o símbolo [s]</p><p>para representar o “s” ortográfico de “costa”. Perceba que utilizando um outro símbolo,</p><p>a palavra representada seria a mesma: “costa” — co[ʃ]ta ou co[s]ta. Chamamos cada</p><p>segmento sonoro estudado pela fonética de fone.</p><p>Na fonêmica, ou fonologia, o objetivo do estudo não é mais o mesmo, apesar</p><p>de também trabalharmos com cadeias sonoras. A fonêmica está interessada nos</p><p>sons de uma dada língua que tenham valor distintivo, como, por exemplo, “bote” e</p><p>“pote”. Neste caso, os sons [b] e [p] estão em oposição, porque o uso de um ou outro</p><p>som implica alteração de sentido. Temos, assim, um par mínimo, que caracteriza</p><p>unidades fonêmicas distintas, /b/ e /p/, que são denominadas fonemas. Para</p><p>transcrever os fonemas, utilizamos as barras transversais, como no exemplo acima:</p><p>/p/ e /b/. Quando efetuamos a troca de um fonema em uma sequência sonora para</p><p>verificar se temos um par mínimo, como a troca de /b/ por /p/, realizamos um</p><p>processo denominado comutação.</p><p>Para identificar os fonemas de uma língua, buscam-se duas palavras com</p><p>significados diferentes, mas com cadeia sonora idêntica, ou seja, que tenha alteração</p><p>de apenas um segmento, como é o caso de bote/pote. A cadeia sonora final “ote” é</p><p>idêntica, mas há a comutação entre /b/ e /p/, que causa alteração de significado.</p><p>Denominamos essas duas palavras de par mínimo.</p><p>Podemos fazer o seguinte exercício para apreendermos o conceito de</p><p>fonema e par mínimo: vamos investigar se os sons [t,d] são distintivos em</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>47</p><p>português, ou seja, se podem ser considerados fonemas. Tente encontrar duas</p><p>palavras com cadeias sonoras idênticas que possuam significados diferentes, uma</p><p>que tenha o som [t] e outra, o som [d]. Um exemplo seria “nato” e “nado”. Essas duas</p><p>palavras constituem um par mínimo, uma vez que têm significados distintos, mas</p><p>cadeia sonora idêntica, ou seja, com alteração de apenas um segmento: [t] e [d].</p><p>Podemos dizer, então, que o par mínimo “nato/nado” caracteriza os fonemas /t,d/.</p><p>Um par mínimo é suficiente para caracterizar dois fonemas.</p><p>Em todas as línguas, existem sons foneticamente semelhantes, identificados</p><p>pela sigla SFS. Esses sons possuem pelo menos uma propriedade fonética em</p><p>comum. Nos casos que estudamos acima, os fonemas /b/ e /p/ podem ser</p><p>considerados SFS, uma vez que os dois sons têm duas propriedades fonéticas</p><p>comuns: são oclusivos e bilabiais. Os fonemas /t/ e /d/ também são foneticamente</p><p>semelhantes, já que ambos são oclusivos alveolares (ou dentais). Perceba que os</p><p>fonemas /b,p,t,d/ também são SFS entre si: os quatro são oclusivos.</p><p>Quando temos um par de sons foneticamente semelhantes, esse par passa a</p><p>ser suspeito. Isso significa que devemos procurar, para um par suspeito, um</p><p>exemplo de par mínimo para averiguar se os sons que os constituem podem ser</p><p>considerados fonemas. Quando não encontramos um par mínimo para determinado</p><p>par suspeito, devemos concluir que aqueles sons não são fonemas.</p><p>Como exemplo de par suspeito, temos o par [t] e [tʃ], considerados sons</p><p>foneticamente semelhantes por terem ponto de articulação muito próximo. Como</p><p>esses sons são considerados SFS, temos de buscar um par mínimo para poder</p><p>classificá-los como fonemas. Como já estudamos, pode-se verificar que [tʃ] ocorre</p><p>em certos dialetos somente diante de [i] e suas variantes, e que [t] ocorre nos demais</p><p>ambientes. Verifica-se ainda que no ambiente em que ocorre [tʃ], não ocorre [t].</p><p>Assim, os segmentos [tʃ] e [t] estão em distribuição complementar.</p><p>Consideramos, portanto, esses segmentos como alofones do fonema /t/ e</p><p>não como fonemas, já que não há em português um par mínimo que os caracterize.</p><p>Escolheu-se o símbolo /t/ para representar o fonema, pois o alofone [t] ocorre em</p><p>muito mais casos do que o alofone [tʃ]. Podemos representar esse fenômeno do</p><p>português brasileiro como:</p><p>/t/ → [tʃ] / [i] (e suas variantes)</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>48</p><p>Tal regra pode ser lida como: o fonema /t/ manifesta-se foneticamente como</p><p>[tʃ] quando seguido pelo segmento [i] (e suas variantes). O fonema é sempre</p><p>transcrito entre barras transversais, /t/, e o alofone, entre colchetes, [tʃ], já que</p><p>representa a maneira como o som é articulado. A barra transversal depois do fonema</p><p>indica que tal regra acontecerá no ambiente a ser descrito depois dela. O traço indica</p><p>a posição do segmento descrito, no caso o fonema /t/, e o que vem a seguir, o</p><p>ambiente: seguido de [i] e suas variantes.</p><p>Na transcrição fonêmica, somente os fonemas estão presentes, os alofones</p><p>são representados pelos fonemas de que são variação. Para transcrever</p><p>fonologicamente a palavra “tia”, sempre utilizaremos a transcrição /’tia/, apesar de</p><p>foneticamente a transcrição poder ser [‘tʃia], dependendo do dialeto em questão. O</p><p>que importa para a fonologia é o fonema, e não as diferentes maneiras como ele</p><p>pode ser articulado, preocupação esta ligada à fonética.</p><p>Alofonia de/R/</p><p>Os estudos fonológicos da língua portuguesa do Brasil levaram à identificação</p><p>de dezenove fonemas: /p, b, t, d, k, g, f, v, s, z, ʃ, ʒ, m, n, ɲ, l, ʎ, ɾ, R/. Estes fonemas são</p><p>idênticos para todos os dialetos</p><p>do português brasileiro, “exceto para falantes de</p><p>certos dialetos, como, por exemplo, de Cuiabá, que não apresentam os fonemas /ʃ, ʒ/</p><p>em ‘chá, já’ e sim os fonemas /tʃ, dʒ/ na posição inicial nestas palavras” (SILVA, 2003,</p><p>p. 151).</p><p>Quando estudamos as premissas da fonologia, vimos que o ambiente interfere</p><p>na produção dos sons e que um segmento pode assimilar uma propriedade do</p><p>segmento adjacente, como ocorre com as sibilantes, que se tornam vozeadas, ou</p><p>sonoras, quando seguidas por consoantes vozeadas ou sonoras. Tais contextos</p><p>propiciam a ocorrência dos alofones, ou seja, a variação de pronúncia de um mesmo</p><p>fonema, como estudamos na aula passada.</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>49</p><p>Passaremos a estudar neste momento a chamada “alofonia de vozeamento”,</p><p>que ocorre com o fonema /R/ e com o fonema /S/. Na aula de hoje, analisaremos o</p><p>caso do fonema /R/ em contexto de posição final de sílaba.</p><p>Quando temos um “r” ortográfico em posição final de sílaba, como em “torta,</p><p>carta, mar”, podem ocorrer diferentes pronúncias: no dialeto carioca ocorrem [X] ou</p><p>[ɣ] (fricativas velares) e no dialeto de Belo Horizonte ocorrem [h] ou [ɦ] (fricativas</p><p>glotais). Apesar da mudança de pronúncia, as palavras acima são interpretadas da</p><p>mesma forma, não havendo, portanto, prejuízo de significado quando se altera a</p><p>maneira de articular o som de “r”. Dizemos assim que não há contraste fonêmico</p><p>entre o som [X], ou [ɣ], e o som [h], ou [ɦ], em posição final de sílaba ou de palavra.</p><p>Para sabermos quando ocorre o som [X], que é uma fricativa velar</p><p>desvozeada/surda, e quando ocorre o som [ɣ], que é sua correspondente</p><p>vozeada/sonora, basta investigar o comportamento desses sons em determinado</p><p>corpus, que pode ser composto, por exemplo, por uma série de entrevistas gravadas</p><p>com falantes do dialeto carioca.</p><p>Avaliando um corpus proveniente do dialeto do Rio de Janeiro, veremos que</p><p>o comportamento do /R/ em final de sílaba é semelhante ao das sibilantes na mesma</p><p>posição. Quando o /R/ ocorre em limite de sílaba (travamento silábico) seguido de</p><p>consoante vozeada, ou sonora, como em “cerda”, ele compartilhará da propriedade</p><p>articulatória da consoante que o segue, no caso o fonema /d/, tornando-se vozeado,</p><p>ou sonoro: [ɣ]. É um caso de assimilação, como estudamos na aula 18.</p><p>O mesmo acontece no dialeto de Belo Horizonte, o som [ɦ], consoante fricativa</p><p>glotal vozeada/sonora, ocorrerá sempre que for seguido por consoante</p><p>vozeada/sonora, em limite de sílaba (travamento silábico), como em “arnica”, em que</p><p>o /R/ em final de sílaba é seguido pela consoante nasal sonora, ou vozeada, [n].</p><p>Quando ao /R/ em final de sílaba, seguir-se uma consoante desvozeada, ou</p><p>surda, o som do /R/ também será desvozeado ou surdo, representado pelo fone [h],</p><p>no caso do dialeto de Belo Horizonte, e pelo fone [X], no caso do dialeto do Rio de</p><p>Janeiro. Veja os casos de “torta” e “carta”, nos quais ao /R/ segue-se o fonema /t/,</p><p>que é surdo, ou desvozeado.</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>50</p><p>Vimos, portanto que o fonema /R/ em posição final de sílaba sofre um</p><p>processo de assimilação, assumindo a propriedade articulatória de vozeamento da</p><p>consoante que o segue, o que constitui uma alofonia de vozeamento.</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>51</p><p>Aula 12_Alofonia: variantes posicionais e variantes livres</p><p>Palavras-chave: variante posicional; variante livre; alofone.</p><p>Anteriormente, estudamos as variações do /R/ em posição final de sílaba</p><p>(travamento silábico), que são condicionadas pelo contexto: presença ou ausência</p><p>de consoante sonora depois de /R/.</p><p>Agora, abordaremos o “r” em posição intervocálica (entre vogais), em que há</p><p>contraste fonêmico, ou seja, duas palavras se distinguem se há alteração do fonema.</p><p>O exemplo clássico para provar esse contraste, utilizado na primeira aula deste</p><p>curso, é o par mínimo caro/carro. Na palavra “caro”, em todos os dialetos do</p><p>português brasileiro, ocorrerá o tepe (vibrante simples), chamado “r” fraco: /’kaɾo/. Já no</p><p>caso de “carro”, sempre ocorrerá o chamado “R” forte, cuja realização fonética é</p><p>bastante variável no português brasileiro: [X,h,ř]. Em todos os casos de “R” forte,</p><p>porém, a representação fonêmica será sempre /R̅/: /’kaR̅o/; já que nas transcrições</p><p>fonêmicas, como já vimos, não se representam os alofones.</p><p>Quando o contexto determina a ocorrência de um alofone, como ocorre com</p><p>o fonema /R/ em posição final de sílaba, temos uma variante posicional. A</p><p>consoante que segue o fonema /R/ determina se o alofone será articulado com a</p><p>propriedade de vozeamento ou de desvozeamento. Se a consoante for</p><p>sonora/vozeada, o /R/ também será sonoro ou vozeado: [ɣ, ɦ]. Se a consoante for</p><p>surda/desvozeada, o /R/ também será surdo ou desvozeado: [X,h].</p><p>No caso do “R” forte intervocálico ocorre outra situação. Ele pode ser</p><p>manifestado foneticamente como [X,h,ř], independente do contexto. Neste caso,</p><p>temos uma variante livre, que não é determinada pelo ambiente fonológico, apenas</p><p>pela variação dialetal.</p><p>As variantes posicionais e as variantes livres são os dois casos de alofonia</p><p>que podem ocorrer em uma determinada língua. Em português, um outro exemplo</p><p>de alofonia com variante livre é a articulação do fonema /t/, que pode ter como ponto</p><p>de articulação os alvéolos, correspondendo à oclusiva alveolar [t], ou os dentes</p><p>incisivos superiores, correspondendo à oclusiva dental [t̪], marcada com o símbolo [ ],</p><p>que significa que a articulação é dental. A percepção acústica de tal diferença é</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>52</p><p>sutil, visto que os sons são muito próximos. A articulação, alveolar ou dental, ocorre</p><p>independente do contexto, por isso trata-se de variantes livres do fonema /t/.</p><p>Fonemas e Alofones Consonantais (/S/)</p><p>Como vimos, em posição de final de sílaba, o “s” ortográfico apresenta grande</p><p>variação de pronúncia nos dialetos do Brasil. Verificamos, quando tratamos do</p><p>processo de assimilação, que a sibilante assimila a propriedade articulatória da</p><p>consoante que a segue, da mesma forma como ocorre com o /R/ em final de sílaba.</p><p>Pronuncie as palavras da lista abaixo e tente verificar a propriedade de</p><p>vozeamento da sibilante (em negrito). Observe se o som do “s” ortográfico será</p><p>vozeado/sonoro ou desvozeado/surdo.</p><p>• caspa</p><p>• gosta</p><p>• busca</p><p>• esfinge</p><p>• cabisbaixo</p><p>• desde</p><p>• musgo</p><p>• desvio</p><p>Notamos que diante de [p,t,k,f], que são consoantes surdas, ou desvozeadas,</p><p>a sibilante também será surda, ou desvozeada. (Veja a coluna da esquerda.) Esta</p><p>sibilante poderá ser representada tanto pelo som [s], que ocorre em grande parte dos</p><p>dialetos do português brasileiro, quanto pelo som [ʃ], que ocorre no dialeto do Rio de</p><p>Janeiro. Como a alteração na forma de pronúncia, [s] ou [ʃ], não provoca alteração</p><p>de significado, não se trata de um contraste fonêmico, mas sim de alofonia.</p><p>Diante das consoantes sonoras, ou vozeadas, [b,d,v,g], as sibilantes</p><p>assimilam a propriedade articulatória de vozeamento, tornando-se também</p><p>vozeadas: [z] ou [ʒ] (dialeto do Rio de Janeiro).</p><p>Os alofones do “s” ortográfico em posição de final de sílaba são representados,</p><p>portanto, pelos símbolos [s,z,ʃ,ʒ]. O fonema que ocorre nesta posição</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>53</p><p>é representado por /S/. Assim, a transcrição fonêmica da palavra “musgo” será</p><p>sempre /’muSgo/, independente de a pronúncia ser através do alofone [z] ou do</p><p>alofone [ʒ].</p><p>É importante lembrar que em outras posições, como entre vogais, as sibilantes</p><p>são representadas pelos fonemas /s,z,ʃ,ʒ/, já que não ocorrem como alofones, mas como</p><p>fonemas, representando contraste fonêmico em pares mínimos de palavras.</p><p>Observe o exemplo abaixo dado por Silva</p><p>(2003, p. 145):</p><p>Ortográfico Fonêmico Fonético</p><p>assa /’asa/ [‘asə]</p><p>asa /’aza/ [‘azə]</p><p>acha /’aʃa/ [‘aʃə]</p><p>haja /’aʒa/ [‘aʒə]</p><p>Observe que, nos casos listados acima, temos os chamados pares mínimos,</p><p>ou seja, palavras com sequência sonora idêntica (vogal “a” – consoante – vogal “a”),</p><p>diferenciadas apenas por um fonema. Tal contraste fonêmico permite a afirmação de</p><p>que /s,z,ʃ,ʒ/ são fonemas do português.</p><p>Em ambiente de posição final de sílaba, porém, perde-se o contraste fonêmico</p><p>entre aqueles sons, que passam a ser considerados alofones do fonema</p><p>representado por /S/. Esse processo é chamado de neutralização, que ocorre</p><p>quando dois ou mais fonemas perdem a distinção entre si. As sibilantes, neste caso,</p><p>que eram distintas em posição intervocálica (entre vogais), como podemos observar</p><p>na tabela acima, perdem a sua distinção em posição final de sílaba, deixando de</p><p>existir contraste fonêmico entre duas palavras.</p><p>Sintetizando, estudamos a alofonia do fonema /S/ em posição final de sílaba</p><p>e vimos que os alofones [s] e [ʃ], surdos/desvozeados, ocorrem quando seguidos de</p><p>consoantes surdas/desvozeadas, e que os alofones [z] e [ʒ], sonoros/vozeados,</p><p>ocorrem quando seguidos de consoantes sonoras/vozeadas. Analisamos também a</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>54</p><p>posição intervocálica das sibilantes, na qual existe contraste fonêmico entre os</p><p>fonemas /s,z,ʃ,ʒ/. O conceito de neutralização explica o fenômeno da perda da</p><p>distinção entre esses sons em posição final de sílaba.</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>55</p><p>Aula 13_A estrutura da sílaba</p><p>Palavras-chave: sílaba; padrões; estrutura.</p><p>Estudamos na aula anterior o conceito de sílaba, que, a priori, foi definido a</p><p>partir da corrente de ar pulmonar que passa pelo trato vocal, ou aparelho fonador,</p><p>durante a produção dos sons. A sílaba estaria, então, associada a cada jato de ar</p><p>expelido pelo movimento de contração do pulmão.</p><p>Apesar de difícil definição, o conceito de sílaba é intuitivo, podendo ser</p><p>observado nas crianças que começam a ser alfabetizadas e percebem que os</p><p>segmentos da língua podem ser agrupados na forma de sílaba (NETTO, 2001, p.</p><p>141). A sílaba representa a menor unidade fonética da fala e os fonemas só podem</p><p>existir dentro dela. Desde o início do curso, estamos analisando os sons em palavras,</p><p>que são constituídas por sílabas. Não seria possível, por exemplo, estudarmos o</p><p>fonema /S/ fora de uma sílaba, pois ele só faz sentido dentro dessa unidade mínima</p><p>sonora da fala.</p><p>A principal característica da estrutura de uma sílaba, como já estudamos, é a</p><p>existência de uma vogal, que constitui seu núcleo. Nas partes periféricas da sílaba,</p><p>ou seja, antes e depois da vogal, podem existir um ou mais segmentos. A vogal é</p><p>representada pela letra V e as consoantes, que ocupam a posição periférica, pela</p><p>letra C. Dessa forma, uma língua pode ser classificada como CV, o que significa que</p><p>todas as suas sílabas serão formadas por uma consoante seguida por uma vogal.</p><p>Outra língua pode ser classificada como CV e V, o que representa que suas sílabas</p><p>podem ser formadas tanto por consoante seguida de vogal quanto por uma vogal</p><p>sozinha na sílaba.</p><p>Em português, a estrutura da sílaba comporta os seguintes padrões:</p><p>• V – e-lo, pi-a-da, ba-ú</p><p>• CV – me-lão, ba-ca-na</p><p>• VC – or-ca, mo-er</p><p>• CVC – ver-da-de, con-tor-no, con-ter</p><p>• CCV – prê-mio, a-bra-ço, ma-no-pla</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>56</p><p>• VCC – aus-te-ro</p><p>• CCVC – a-tlas, a-troz</p><p>• CVCC – pais, pers-pec-ti-va</p><p>• CCVCC – trans-por-te</p><p>Depois de observamos os exemplos de palavras em português que</p><p>preenchem os padrões silábicos listados, devemos ter claro que o português é uma</p><p>língua com grandes possibilidades de arranjo silábico, podendo ocorrer muitos tipos</p><p>de estruturas silábicas.</p><p>O primeiro padrão (V), chamado sílaba simples, irá ocorrer sempre em</p><p>palavras com hiatos, já que há neste tipo de encontro vocálico a existência de duas</p><p>vogais. Já o padrão CV é comum a todas as línguas do mundo e admite quase todos</p><p>os fonemas em português. No caso de CCV, teremos o chamado encontro</p><p>consonantal tautossilábico (na mesma sílaba), em que a segunda consoante sempre</p><p>será /l/ ou /ɾ/: clara, prato, glote, abridor etc.</p><p>No padrão VC, observamos a chamada sílaba travada, ou travamento</p><p>silábico, que já estudamos quando vimos a alofonia de /R/ e de /S/. Na posição da</p><p>consoante, só ocorrerão os alofones [s,z,ʃ,ʒ] de /S/, a lateral /l/ velar, que</p><p>frequentemente sofre vocalização, passando a /w/, e os alofones do fonema /R/. Veja</p><p>os exemplos: estrela, alto e arco. Como os alofones de /S/ são neutralizados, ou</p><p>seja, deixam de ter contraste fonêmico na posição final de sílaba, ou travamento</p><p>silábico, eles são representados pelo símbolo /S/, que representa um arquifonema.</p><p>Você deve ter notado que, no exemplo do padrão VCC, utilizamos a palavra “aus-</p><p>te-ro”. Em fonética, vimos que esse ditongo (au) é formado por uma vogal, “a”, e um</p><p>glide, ou semivogal, “u”. Por que não consideramos, então, tal sílaba como VVC? A</p><p>questão é tema de pesquisa de muitos autores, que buscam a melhor solução para</p><p>a classificação dos glides (ou semivogais): eles estariam entre as vogais (V) ou entre</p><p>os elementos assilábicos, as consoantes (C)?</p><p>Mattoso Câmara, o precursor dos estudos de fonologia do português brasileiro,</p><p>assumiu primeiramente os glides como segmentos consonantais, porém, mais tarde,</p><p>revisou sua teoria e propôs a classificação dos glides como vogais. Assim, a</p><p>estrutura silábica do português pode ser definida como CCVVCC. Há, em português,</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>57</p><p>sílabas simples, com uma só vogal, e sílabas complexas, com consoantes, podendo</p><p>haver uma ou duas consoantes prevocálicas e uma ou duas consoantes</p><p>posvocálicas. Observe algumas regras importantes sobre a estrutura silábica do</p><p>português:</p><p>• Se houver duas consoantes prevocálicas, a segunda será sempre /l/ ou /ɾ/,</p><p>formandos os encontros consonantais (preço, trato).</p><p>• As consoantes posvocálicas poderão ser /S/, /N/, /R/ e /l/ (bosque, anjo, corte</p><p>e multa).</p><p>• Se houver duas consoantes posvocálicas, a segunda será obrigatoriamente /S/</p><p>(monstro e transporte).</p><p>Estudamos a sílaba em português, que é sempre constituída por uma vogal</p><p>em seu núcleo, podendo ou não ter consoantes periféricas, chamadas elementos</p><p>assilábicos. Vimos quais são os principais padrões silábicos do português e que</p><p>fonemas podem ocupar cada posição, como também a questão dos glides, ou</p><p>semivogais, cuja classificação em consoantes ou vogais é controversa.</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>58</p><p>Aula 14_O acento</p><p>Palavras-chave: acento; tonicidade; vocábulo fonológico.</p><p>Enquanto algumas línguas apresentam padrões acentuais fixos, como é o</p><p>caso do francês, idioma no qual todas as palavras recebem acento na última sílaba</p><p>(oxítonas), o português pode receber acento nas três penúltimas sílabas da palavra.</p><p>Uma palavra tem geralmente uma sílaba pronunciada com maior esforço</p><p>muscular, com maior intensidade expiratória; esta sílaba possui o chamado</p><p>acento intensivo. Tal termo, no entanto, é substituído por acento tônico, que não</p><p>seria o mais adequado pelo fato de o português ter emprestado esse termo do grego,</p><p>que era uma língua tonal, diferente do português, que não é tonal. As nomenclaturas</p><p>“tônico, átono, oxítono, paroxítono e proparoxítono” estão ligadas ao tom, que não</p><p>existe em língua portuguesa. De qualquer forma, como são as expressões já</p><p>estigmatizadas, continuaremos adotando-as.</p><p>Em português, o acento é distintivo, ou seja, a mudança na posição do acento</p><p>pode diferenciar vocábulos. Os substantivos proparoxítonos</p><p>utilizados na música</p><p>“Construção”, de Chico Buarque, ilustram o contraste acentual entre as palavras:</p><p>público (substantivo) / publico (verbo – 1ª p.s.), tráfego (substantivo) / trafego (verbo</p><p>- 1ª p.s.), música (substantivo) / musica (verbo – 3ª p.s.). Outros exemplos, como</p><p>sábia/sabia/sabiá, são frequentes em língua portuguesa.</p><p>A partir da análise da tonicidade em vocábulos em língua portuguesa, Mattoso</p><p>Câmara propôs quatro graus de acento em português brasileiro:</p><p>• grau 3 – aplicado à sílaba tônica, com maior intensidade</p><p>• grau 2 – aplicado a uma sílaba tônica de menor intensidade</p><p>• grau 1 – aplicado à sílaba átona pretônica</p><p>• grau 0 – aplicado à sílaba átona postônica</p><p>Se observarmos o sistema de graduação do acento proposto por Mattoso,</p><p>veremos que a sílaba átona postônica, ou seja, a sílaba que vem após a tônica é a</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>59</p><p>mais débil de todas, ou seja, a que apresenta a maior atonicidade (grau 0). Já as</p><p>sílabas anteriores à tônica são mais intensas do que a postônica, apresentando</p><p>menor atonicidade (grau 1). As sílabas de grau 2 ocorrem apenas quando se tem</p><p>duas palavras juntas.</p><p>Observe os exemplos das palavras abaixo:</p><p>[ka . ‘la . dʊ] - calado</p><p>1 3 0</p><p>[‘mu . lə] - mula</p><p>3 0</p><p>[ʒa . ka. ‘ɾɛ] – jacaré 1</p><p>1 3</p><p>As palavras acima são consideradas vocábulos fonológicos. A primeira,</p><p>“calado”, apresenta esquema acentual 1-3-0; a segunda, “mula”, tem esquema 3-0;</p><p>e a terceira, 1-1-3. O conceito de vocábulo fonológico está diretamente ligado à</p><p>noção de acento.</p><p>Nos exemplos acima, o vocábulo formal corresponde ao vocábulo fonológico.</p><p>Na estrutura da fala, porém, muitas vezes o vocábulo fonológico representa mais de</p><p>um vocábulo formal. Vamos estudar essas diferenças em nossa próxima aula.</p><p>O vocábulo fonológico</p><p>Cavaliere (2005, p. 136) fornece um exemplo interessante para entendermos</p><p>o conceito de vocábulo fonológico. Em “doce de leite”, a distribuição acentual permite</p><p>que se identifique um grupo de força, formado pela união da locução “de leite”, que</p><p>é pronunciada como um único vocábulo fonológico: [dɪ’leytʃɪ]. Neste caso, dois</p><p>vocábulos formais, a preposição “de” e o substantivo “leite”, representam um único</p><p>vocábulo fonológico, já que o grupo de força constituído por “de leite” é acentuado</p><p>como uma única palavra.</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>60</p><p>Observe o exemplo dado por Silva (2003, p. 184) que mostra a utilização do</p><p>acento de grau 2:</p><p>a) habilidade</p><p>/a . bi . li . ‘da . de/</p><p>1 1 1 3 0</p><p>b) hábil idade (como palavras individuais)</p><p>/’a . bil/ /i . ‘da . de/</p><p>3 0 1 3 0</p><p>c) hábil + idade (como grupo de força)</p><p>/ˌa . bi . li . ‘da . de/ 2</p><p>0 1 3 0</p><p>Veja que em a), o vocábulo formal “habilidade” apresenta esquema acentual</p><p>1-1-1-3-0. As vogais pretônicas têm valor 1, a vogal tônica valor 3 e a vogal postônica</p><p>valor 0. Se tomarmos os vocábulos formais “hábil” e “idade”, isoladamente, como</p><p>mostrado em b), teremos os esquemas acentuais 3-0 e 1-3-0, respectivamente, com</p><p>a vogal tônica de “hábil” marcada pelo valor 3 e a vogal postônica por 0, e em “idade”,</p><p>temos a tônica com valor 3 (“da”), a pretônica com valor 1 e a postônica com valor 0.</p><p>Quando, entretanto, pronunciamos as palavras juntas, como na expressão</p><p>“hábil idade” (adjetivo + substantivo), como mostrado em c), os dois vocábulos</p><p>formais passam a constituir um grupo de força, caracterizando o que chamamos de</p><p>vocábulo fonológico. A vogal de “hábil”, que era tônica, passa a receber o grau 2,</p><p>que é aplicado à sílaba tônica de menor intensidade quando se juntam duas palavras.</p><p>O diacrítico (ˌ) é a indicação fonética do acento secundário, que, como estudamos</p><p>na aula 13, serve para marcar as sílabas pretônicas ou postônicas dotadas de</p><p>acento.</p><p>Perceba como o esquema acentual de “habilidade”, 1-1-1-3-0, é diferente do</p><p>esquema de “hábil idade”, 2-0-1-3-0. O acento pode ser visto, portanto, como um</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>61</p><p>elemento que delimita o vocábulo fonológico, demarcando-o, além de distingui-lo de</p><p>outro vocábulo fonológico, como é o caso da distinção “habilidade”/“hábil idade”,</p><p>obtida apenas pela diferença da distribuição acentual.</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>62</p><p>Aula 15_Os processos fonológicos e os traços distintivos</p><p>Palavras-chave: processos fonológicos; traços distintivos; exemplos.</p><p>Devemos lembrar que a língua é um organismo biopsicossocial, por isso</p><p>passível de mudanças, que acompanham as alterações da sociedade, em termos</p><p>biológicos, psicológicos, sociais, e também culturais. Se uma língua não sofresse</p><p>mudanças ao longo do tempo, estaria fadada ao colapso, uma vez que deixaria de</p><p>atender às exigências dos falantes.</p><p>A descrição dos processos fonológicos, também chamados de metaplasmos</p><p>nos estudos de história da língua, auxilia na comparação entre os diversos dialetos</p><p>existentes no Brasil. As mudanças na língua podem ser condicionadas, quando o</p><p>ambiente fonológico favorece a ocorrência de determinado fenômeno,</p><p>ou independentes, quando ainda não se encontrou a razão para tal fenômeno</p><p>ocorrer.</p><p>Os processos fonológicos, que iremos estudar a seguir, são muitas vezes alvo</p><p>de preconceito por grupos de falantes escolarizados, que resistem às mudanças.</p><p>Como se estuda em sociolinguística, a mudança linguística sempre ocorre de baixo</p><p>para cima, ou seja, originando-se nas camadas mais baixas da pirâmide social. O</p><p>papel das camadas mais elevadas é tentar frear e criar estigmas para certas</p><p>alterações na língua.</p><p>Em muitos casos, observamos que há grande carga de preconceito</p><p>linguístico, mas, por outro lado, é importante que haja certa resistência à mudança,</p><p>pois a língua não pode ser alterada tão rapidamente, se não as novas gerações de</p><p>falantes não teriam tempo de absorver todas as mudanças em tão curto espaço de</p><p>tempo. Dessa maneira, a mudança e a resistência à mudança são duas realidades</p><p>que operam em conjunto para a manutenção de uma língua que se adeque às novas</p><p>necessidades, mas que também não perca sua principal função: a de ferramenta de</p><p>comunicação.</p><p>Existem quatro tipos de processos fonológicos: por adição, por supressão, por</p><p>transposição e por transformação. A maior parte dos exemplos utilizados aqui foram</p><p>retirados de Cavaliere (2005, p. 58).</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>63</p><p>1. Processos por adição</p><p>a) Prótese: quando um fonema é adicionado no início da palavra,</p><p>como mostrar > amostrar, levantar > alevantar.</p><p>b) Epêntese: quando um fonema é adicionado no meio da palavra, como</p><p>“adevogado” ou “adivogado”, por advogado; e “decepição” por decepção.</p><p>c) Paragoge: quando um fonema é adicionado no fim da palavra, como</p><p>os estrangeirismos club > clube, stand > estande etc.</p><p>2. Processos por supressão</p><p>a) Aférese: quando há supressão de um ou mais fonemas no início da</p><p>palavra, como “cê” por você e “tá” por estar.</p><p>b) Síncope: quando há supressão de fonema no interior da palavra,</p><p>como “córgo”, por córrego, “xicra”, por xícara, e “colherinha” por</p><p>colherzinha.</p><p>c) Apócope: quando há queda de um fonema no fim da palavra, como</p><p>“falá” e “fazê” por falar e fazer.</p><p>d) Crase: ocorre quando uma de duas vogais idênticas é suprimida,</p><p>como em “alcol” por álcool.</p><p>3. Processos por transposição</p><p>a) Hiperbibasmo: consiste no deslocamento do acento tônico de uma</p><p>palavra. A gramática normativa condena esse tipo de mudança: “monolito”</p><p>por monólito e “biotipo” por biótipo.</p><p>b) Metátese: consiste na troca de posição de fonemas dentro de uma</p><p>palavra, geralmente para obter uma sequência de sons mais agradável aos</p><p>ouvidos (eufonia). Como exemplos, temos “mulçumano” por muçulmano e</p><p>“estrupo” por estupro.</p><p>4. Processos por transformação</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>64</p><p>a) Assimilação: já estudamos o processo de assimilação neste curso</p><p>quando tratamos, por exemplo, do fonema /S/ em posição final de sílaba</p><p>(posvocálico) que adquire a propriedade de vozeamento da consoante que</p><p>o segue, tornando-se sonoro ou vozeado (rasga, desvio). Outro exemplo</p><p>de assimilação ocorre em “mendingo” por mendigo e “ingnorante” por</p><p>ignorante, em que a assimilação nasaliza uma vogal.</p><p>b) Diferenciação: o exemplo típico deste processo é a ditongação, que</p><p>pode ser observada em “Andréia” por Andrea, “freiado” por freado e “vouo”</p><p>por vôo.</p><p>c) Dissimilação: consiste em uma alteração que diferencia a articulação</p><p>de fonemas contíguos para torná-los mais claros ou agradáveis para os</p><p>ouvidos (eufonia). A palavra bêbedo, do latim bibĭtum, fixou-se no Brasil</p><p>como bêbado, provavelmente para evitar a sequência de vogais análogas</p><p>(e-e), tornando a pronúncia mais clara.</p><p>Os traços distintivos</p><p>A fonologia gerativa, que surgiu no século XX, após os primeiros estudos de</p><p>fonêmica, fundamentados em uma proposta estruturalista, teve como fundador</p><p>Noam Chomsky, que juntamente com Morris Halle, publica em 1968 o volume The</p><p>sound pattern of English.</p><p>A fonologia gerativa tem como princípio o fato de que o falante possui uma</p><p>estrutura profunda da língua, que é formada pelas informações gramaticais. Esta</p><p>estrutura profunda passa por regras transformacionais que gera estruturas</p><p>superficiais. As estruturas de superfície acessam o componente fonológico e geram</p><p>as representações fonéticas. Esta nova maneira de analisar e descrever a língua</p><p>revoluciona muitos estudos relacionados à linguagem humana, que passam a tratar</p><p>a gramática como um conjunto de regras formais que gera as sentenças bem-</p><p>formadas da língua, que são finitas.</p><p>Anteriormente, estudamos o conceito de par mínimo, que se apoia na</p><p>oposição entre dois fonemas, como entre /b/ e /p/ nas palavras “bote” e “pote”, por</p><p>exemplo. Se compararmos os traços fonológicos de /b/ e /p/, veremos que ambos</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>65</p><p>têm traços oclusivos e bilabiais, diferindo-se apenas pelo papel das cordas vocais,</p><p>um é sonoro/vozeado (/b/), o outro é surdo/desvozeado (/p/). Nota-se, portanto, que</p><p>os dois fonemas distinguem-se apenas por um traço.</p><p>No sistema de traços distintivos, deixamos de utilizar duas características</p><p>articulatórias para marcar as oposições, como em surdo x sonoro. As notações</p><p>passam a ser feitas por um único traço, a que se atribui o valor +, indicando presença,</p><p>e o valor –, que indica ausência. O uso dos valores + e – recebe a denominação de</p><p>notação binária. Os traços distintivos podem ser definidos, portanto, como as</p><p>propriedades mínimas de caráter acústico ou articulatório (sonoridade, anterioridade,</p><p>nasalidade etc.) que constituem os sons da língua.</p><p>Para descrever uma determinada língua utilizando o sistema de traços</p><p>distintivos, é preciso antes estabelecer quais traços são pertinentes naquela língua.</p><p>Alguns especialistas estudaram quais seriam os traços pertinentes para o português</p><p>brasileiro e listaremos, a seguir, os traços selecionados para as vogais e para as</p><p>consoantes. No caso das vogais, foram selecionados três traços: elevação da língua,</p><p>[±alta] e [±baixa]; recuo ou avanço da articulação, [±recuada] e arredondamento dos</p><p>lábios, [±arredondada].</p><p>As vogais [+baixas] são /a,ɛ,ɔ/, as vogais [-baixas] e [-altas] são /e,o/ e as</p><p>vogais [+altas] são /i,u/. As [-recuadas] são /i,e,ɛ/ e as [+recuadas] são /a,u,o,ɔ/. As [-</p><p>arredondadas] são /i,e,ɛ,a/ e as [+arredondadas] são /u,o,ɔ/.</p><p>Cavaliere (2005, p. 71) propõe uma reflexão importante acerca dos traços</p><p>distintivos utilizados para as vogais do português brasileiro. Perceba que todas as</p><p>vogais [+arredondadas] também são [+recuadas], como é o caso de /u/, /o/ e /ɔ/. A</p><p>existência desses dois traços é, portanto, redundante, já que não serve como</p><p>instrumento de distinção entre as três vogais citadas.</p><p>Para as consoantes, os principais trabalhos da fonologia gerativa elegeram os</p><p>seguintes traços distintivos: modo de articulação: [±contínua], [±lateral]; zona de</p><p>articulação: [±anterior], [±coronal]; papel das cordas vocais: [±sonoro]; papel das</p><p>cavidades oral/nasal: [±nasais]; e efeito acústico: [±soante].</p><p>Veremos as características de cada traço distintivo das consoantes:</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>66</p><p>[+contínua]: consoantes articuladas com obstrução parcial da passagem de ar,</p><p>como as fricativas /f,v,s,z,ʃ,ʒ/, as laterais /l,ʎ/ e as vibrantes /ɾ,ʀ/.</p><p>[-contínua]: consoantes articuladas com obstrução total da passagem de ar, como</p><p>as oclusivas /p,b,t,d,k,g/ e as nasais /m,n,ɲ/.</p><p>[+laterais]: consoantes articuladas com a passagem de ar pelos lados da boca, como</p><p>as laterais /l,ʎ/.</p><p>[-laterais]: incluem-se neste grupo as demais consoantes, em que o ar não passa</p><p>pelos lados da boca.</p><p>[+anteriores]: consoantes articuladas na parte da frente da cavidade bucal, entre os</p><p>alvéolos e os lábios, como as bilabiais /p,b,m/, as alveolares ou dentais /t,d,s,z,n,l,ɾ/ e</p><p>as labiodentais /f,v/.</p><p>[-anteriores]: consoantes articuladas na parte posterior da cavidade bucal, entre o</p><p>palato duro e o véu palatino, como as velares /k,g,R/, as alveopalatais /ʃ,ʒ/ e as</p><p>palatais /ɲ,ʎ/.</p><p>[+coronais]: consoantes articuladas com o dorso da língua, como as alveolares ou</p><p>dentais /t,d,s,z,ʃ,ʒ,n,l,ɾ/ e as palatais /ɲ,ʎ/.</p><p>[-coronais]: incluem-se neste grupo as demais consoantes, que não são articuladas</p><p>com o dorso da língua.</p><p>[+sonoras]: são as consoantes sonoras ou vozeadas.</p><p>[-sonoras]: são as consoantes surdas ou desvozeadas.</p><p>[±nasais]: são as consoantes que possuem ou não o traço de nasalidade.</p><p>[+soantes]: são as consoantes que apresentam alta sonoridade, aproximando-se dos</p><p>sons vocálicos, constituindo até base de sílaba em algumas línguas. Fazem parte</p><p>deste grupo as laterais /l,ʎ/, as vibrantes /ɾ,ʀ/ e também as nasais /m,n,ɲ/.</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>67</p><p>Aula 16_As regras fonológicas e o sistema ortográfico</p><p>Palavras-chave: regras; fonemas; sistema ortográfico.</p><p>Veremos que a partir dos traços distintivos é possível formalizar alguns</p><p>processos comuns que ocorrem nos atos de fala. Um exemplo de formalização desse</p><p>processo é:</p><p>/t/ → [tʃ] / [i] (e suas variantes)</p><p>Este é um exemplo de regra fonológica, que sempre deve ser lido da esquerda</p><p>para a direita. O elemento à esquerda, no caso do exemplo acima o fonema /t/,</p><p>transforma-se no elemento à direita, no caso [tʃ]. Depois da barra, é dado o ambiente</p><p>onde ocorre o processo descrito antes da barra. O traço sublinhado, , representa a</p><p>posição do segmento em estudo, no caso o fonema /t/. O ambiente descrito na regra</p><p>acima é antes de [i] e suas variantes. A regra pode ser lida da seguinte forma: o</p><p>fonema /t/ manifesta-se foneticamente como [tʃ] quando seguido pelo segmento [i] (e</p><p>suas variantes).</p><p>Também podemos ter uma regra fonológica em que só apareçam os traços</p><p>distintivos relevantes para o processo descrito. Para nos habituarmos a este tipo de</p><p>regra, no entanto, precisamos internalizar todos os traços distintivos estudados na</p><p>aula anterior. A primeira regra estudada na aula de hoje, relativa ao fonema /t/, pode</p><p>ser escrita da seguinte forma, utilizando somente traços distintivos:</p><p>[+consonantal]</p><p>[-contínuo]</p><p>[-sonora] → [+palatalizada] / V</p><p>[+anterior] [+alta]</p><p>[+coronal] [-recuada]</p><p>O primeiro traço, [+consonantal], relaciona-se a todos os fonemas</p><p>consonantais, por isso sempre que tivermos presença do traço consonantal,</p><p>saberemos que se trata de uma consoante. O segundo traço, [-contínuo], diz respeito</p><p>às consoantes articuladas com interrupção</p><p>total da passagem de ar, as chamadas</p><p>oclusivas /p,b,t,d,k,g/ e as nasais /m,n,ɲ/. O terceiro traço refere-se à sonoridade, ou</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>68</p><p>vozeamento, das consoantes. Das consoantes listadas acima, retiramos as que não</p><p>possuem traço [-sonoro]: /b,d,g,m,n,ɲ/, ou seja, aquelas que são [+sonoras]. Sobram</p><p>as consoantes /p,t,k/. O traço [+anterior] exclui a consoante /k/, já que este fonema</p><p>é velar, portanto pronunciado na parte posterior da cavidade bucal. O traço</p><p>[+coronal], por sua vez, exclui a consoante /p/, que é [coronal], ou seja, pronunciada</p><p>sem o dorso da língua. Sobra, portanto, apenas o fonema /t/, que possui todos os</p><p>traços distintivos listados na regra. A regra mostra que este fonema, /t/, torna-se</p><p>palatalizado quando seguido de vogal [+alta] e [-recuada]. A única vogal que</p><p>apresenta esses traços é a vogal /i/. Assim, temos o mesmo efeito da regra disposta</p><p>pelos fonemas e fones, /t/ e [tʃ], no início da aula. A diferença entre as duas formas de</p><p>representação reside no nível de abstração, que é mais elevado na regra que utiliza</p><p>apenas os traços distintivos e não os símbolos propriamente.</p><p>Outro exemplo de regra fonológica que utiliza apenas os traços distintivos em</p><p>sua formalização é o processo descrito abaixo, a respeito das vogais.</p><p>V → [-baixa] /</p><p>[+baixa] [-acentuada]</p><p>[±recuada]</p><p>Tal regra pode ser lida como: as vogais /ɛ,ɔ/ tornam-se /e,o/ quando não</p><p>acentuadas. Interpretamos a regra dessa maneira, pois sabemos que as vogais</p><p>[+baixas] e [±recuadas] são /ɛ,ɔ/ e que as vogais [-baixas] são /e,o/. O ambiente de</p><p>ocorrência, neste caso, mostra que haverá a transformação quando as vogais não</p><p>forem acentuadas: [-acentuada].</p><p>O sistema ortográfico e os fonemas vocálicos</p><p>Em história da língua, a escrita do português costuma ser dividida em fonética,</p><p>até o século XV, e pseudoetimológica, até o século XX. De acordo com os</p><p>pesquisadores do português arcaico, período que compreende os primeiros</p><p>documentos escritos em português até Camões, a língua era escrita o mais próximo</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>69</p><p>possível da forma como os sons eram pronunciados. A partir do século XV, no</p><p>entanto, sob a influência do Renascimento, buscam-se as raízes greco-latinas dos</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>70</p><p>vocábulos, que passam a ser escritos com os grafemas utilizados na Antiguidade</p><p>Clássica.</p><p>A correspondência entre a etimologia e a alteração que se propunha na forma</p><p>de grafar as palavras não era sempre coerente com a origem dos vocábulos. Muitas</p><p>vezes, inseriam-se grafemas como ph, th e ch e dobravam-se as letras, mm, tt e pp,</p><p>em palavras em que não se justificava etimologicamente o uso de tais grafemas, com</p><p>o objetivo apenas de tornar a escrita mais elegante. Afinal, com o retorno da tradição</p><p>clássica era interessante recuperar as formas de escrita antigas. Por isso, tal período</p><p>foi denominado pseudoetimológico.</p><p>No início do século XX, há várias tentativas de padronização do sistema de</p><p>escrita, iniciadas pelo filólogo português Gonçalves Vianna. Somente em meados</p><p>dos anos de 1940, publica-se uma lei no Brasil e em Portugal para uniformizar a</p><p>escrita. A legislação descreve as principais regras do sistema de escrita em</p><p>português, que deve ser ensinado nas escolas e utilizado pelos meios de</p><p>comunicação oficiais. A legislação ainda vigora atualmente, com pouquíssimas</p><p>alterações.</p><p>Vamos avaliar na aula de hoje, as relações entre o sistema ortográfico e o</p><p>sistema fonológico, observando como os sons que produzimos na fala podem ser</p><p>transcritos em uma representação gráfica. Devemos lembrar que, segundo as teorias</p><p>mais recentes acerca da linguagem, a língua escrita deixa de ser uma mera</p><p>representação da língua oral, constituindo um sistema linguístico com relativa</p><p>autonomia em relação à fala. As diversas relações entre o sistema de escrita e o</p><p>sistema de fala formam a concepção de língua atual.</p><p>Iniciaremos nosso estudo pelas vogais do português. A representação das</p><p>vogais nasalizadas é realizada por meio do uso do sinal diacrítico ~ (til) ou das letras</p><p>m e n: lã, maçã, põe, bem, nem, ambiente etc. Observe que quando m e</p><p>n aparecem em posição final, as pronúncias podem variar. Para a palavra “bem”, por</p><p>exemplo, podem ocorrer as seguintes pronúncias:</p><p>• [‘bẽỹ] – vogal nasal + semivogal (ou glide) nasalizada</p><p>• [‘bẽỹñ] - vogal nasal + semivogal (ou glide) nasalizada + consoante nasal</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>71</p><p>As vogais baixas, /ɛ,ɔ/, são representadas pelas letras e e o, que podem ou não</p><p>apresentar diacríticos, como o acento agudo (é, ó). Veja os seguintes casos: reto,</p><p>convexo, mulher, bola, obra, toca (sem diacrítico), ralé, café, média, vovó,</p><p>óculos, módico (com diacrítico). O uso ou não do diacrítico depende das chamadas</p><p>regras de acentuação, que buscam, através da descrição do sistema linguístico,</p><p>estabelecer procedimentos para acentuar ou não as palavras de acordo</p><p>principalmente com a posição da sílaba tônica.</p><p>As letras e e o podem representar também, em alguns contextos, as vogais</p><p>altas /i,u/ ou /ɪ,ʊ/, como em escola, geralmente pronunciada /ɪ/scola; menina,</p><p>pronunciada m/i/nina; mosquito, pronunciado m/u/squito; colher, pronunciada</p><p>c/u/lher; medo, pronunciado med/ʊ/.</p><p>Estudamos na aula de hoje, a relação entre os fonemas vocálicos e o sistema</p><p>ortográfico (as letras que utilizamos para representá-los). Na última aula de nosso</p><p>curso, estudaremos a relação entre os fonemas consonantais e o sistema</p><p>ortográfico.</p><p>O sistema ortográfico e os fonemas consonantais</p><p>Vejamos como se comportam as letras em relação aos sons consonantais.</p><p>Comecemos pela letra c, que pode representar tanto uma consoante oclusiva</p><p>velar, [k], como em casa, boca, ocre e claro, quanto uma consoante constritiva</p><p>alveolar, [s], como em cidade, cenário, maçã e poça. Neste caso, o contexto</p><p>determina o som, [k] ou [s]. Diante de a, o e u e de consoante o som será sempre [k]</p><p>e diante de e e i e com cedilha (ç), o som será sempre [s].</p><p>A letra x talvez seja a que represente mais sons no português brasileiro.</p><p>Observe os exemplos abaixo e tente identificar os diferentes sons representados</p><p>pela letra x:</p><p>1. exame, exato e exôdo. 2. xícara, enxada e caixa.3. complexo, axioma e oxítono.</p><p>4. texto, auxílio e exterior.</p><p>Em 1, temos a letra x representando o som [z]. Em 2, a letra x representa o</p><p>som [ʃ]. O som [ks] é representado no exemplo 3. Já em 4, temos x representando o</p><p>som de [s]. Veja que em posição intervocálica (entre vogais) a letra x pode</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>72</p><p>representar quatro sons. No entanto, algumas regras podem ser estabelecidas para</p><p>determinar que som a letra x irá representar. Entre a letra e e uma vogal, por exemplo,</p><p>o som será sempre [z], como pode ser observado na regra 1. Observe a formalização</p><p>das regras abaixo:</p><p>A regra 2 pode ser lida da seguinte forma: a letra x manifesta-se foneticamente</p><p>como [ʃ] quando precedida de consoante (C) ou em início de palavra (o símbolo #</p><p>seguido de representa início de palavra). A regra 3 determina que a letra x manifesta-</p><p>se foneticamente como [ks] em final de palavra (o símbolo # precedido de significa</p><p>final de palavra). A regra 4 determina que a letra x pode manifestar-se como [ʃ,s,ks]</p><p>quando está entre vogais (V).</p><p>Vamos tentar ler agora a regra que determina os sons que a letra s representa:</p><p>Vemos que a letra s manifesta como [z], quando em posição intervocálica e</p><p>quando vem antes de uma consoante sonora. Nos demais contextos, a letra s terá</p><p>som de [s]. Esta regra não abrange, no entanto, a alofonia do fonema [S], uma vez</p><p>que no dialeto</p><p>carioca, diante de consoante sonora, a letra s representará o som [ʒ], e</p><p>diante de consoante surda, o som [ʃ].</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>73</p><p>Existem outros diversos exemplos que provam a falta de correspondência</p><p>entre os sons e as letras que os representam. Assim, muitas vezes uma letra</p><p>corresponde a mais de um som (veja os exemplos com x e s), e um mesmo som</p><p>pode ser representado por mais de uma letra, como é o caso do som [s], que pode</p><p>ser representado pelas letras s (sapo), x (texto) e z (paz).</p><p>Percebemos na aula passada e na aula de hoje que as letras que utilizamos</p><p>na escrita não representam fielmente a pronúncia das palavras, portanto as letras</p><p>não têm valor fonológico. A função da escrita, como vimos, não é representar</p><p>fielmente a fala, mas sim servir de instrumento de comunicação entre indivíduos, por</p><p>isso deve haver certa uniformidade da escrita. Ao longo do curso, nos deparamos</p><p>com diversos dialetos espalhados pelo Brasil. Se cada um deles fosse tentar</p><p>representar na escrita as suas pronúncias particulares, com certeza teríamos uma</p><p>língua escrita tão complexa que não possibilitaria a comunicação entre os indivíduos.</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>CAMARA JR, J. M. Estrutura da língua portuguesa. Petrópolis: Vozes, 1970.</p><p>CONDÉ, Valéria Gil; GIL, Beatriz D.; CARDOSO, Elis de Almeida. Modelos de</p><p>análise linguística. São Paulo: Contexto,2009.</p><p>CUNHA, Celso & CINTRA, Lindley. Nova gramática do português</p><p>contemporâneo. Rio de Janeiro: Lexikon, 2017.</p><p>ENGELBERT, Ana Paula Petriu Ferreira. Fonética e Fonologia da língua</p><p>portuguesa. Curitiba, Intersaberes,2012.</p><p>FIORIN, José Luiz. Introdução à linguística II-Princípios de Análise. SP: Contexto,</p><p>2010.</p><p>SILVA, Thaís Cristófaro da. Fonética e fonologia do português: roteiro de estudos</p><p>e guia de exercícios. São Paulo: Contexto, 1999.</p><p>SILVA, Thaís Cristófaro da. Dicionário de Fonética. São Paulo: Contexto, 2011.</p><p>SILVA, Thaís Cristófaro da; et al. Fonética Acústica: os sons do português</p><p>brasileiro. São Paulo: Contexto, 2019.</p><p>SCARA, Izabel Christine. Para conhecer fonética e fonologia do português</p><p>brasileiro. São Paulo: Contexto,2015.</p><p>descritos acima, que,</p><p>combinados, produzem um número limitado de sons. Existem cerca de 120 sons que</p><p>podem ocorrer nas línguas naturais. Toda pessoa com um aparelho fonador</p><p>saudável é capaz de produzir todos os sons de qualquer língua. Porém, pesquisas</p><p>realizadas na área de aquisição de línguas estrangeiras provam que, até certa idade,</p><p>na adolescência, a capacidade de articular novos sons é maior. As crianças que</p><p>aprendem novas línguas, portanto, provavelmente as falarão sem qualquer sotaque,</p><p>ao passo que os adultos apresentarão sotaque.</p><p>A maneira como os órgãos formadores do aparelho fonador se comporta</p><p>determinará o tipo de som articulado. Os sons são formados, basicamente, pela</p><p>passagem da corrente de ar pulmonar pelo aparelho fonador.</p><p>O ar passa pela glote, onde se localizam as cordas ou pregas vocais, que</p><p>são, como vimos, os músculos que podem ou não obstruir a passagem de ar. Se</p><p>houver algum tipo de obstrução na passagem do ar, o som produzido será chamado</p><p>consoante ou segmento consonantal. Se não houver nenhuma obstrução na</p><p>passagem do ar, o som produzido será chamado vogal ou segmento vocálico. Essa</p><p>distinção entre vogais e consoantes existentes em todas as línguas naturais é de</p><p>fundamental importância para a fonética.</p><p>Se as cordas vocais vibram durante a produção de um som, este é chamado</p><p>sonoro ou vozeado. Se, pelo contrário, as cordas não vibrarem, o som é chamado</p><p>surdo ou desvozeado. Todas as vogais e algumas consoantes são sonoras. Os</p><p>sons surdos são compostos somente pelas consoantes, nunca por vogais. Na</p><p>produção das consoantes surdas, o ar passa pelas cordas vocais sem fazê-las vibrar.</p><p>Silva (2003, p. 28) propõe uma interessante tarefa para perceber a diferença entre</p><p>os sons surdos e sonoros:</p><p>Coloque sua mão espalmada contra a parte central anterior do pescoço</p><p>(onde nos homens temos o ‘Pomo de Adão’). Pronuncie então o som inicial</p><p>da palavra ‘vá’ de maneira contínua (verifique que apenas a consoante</p><p>esteja sendo pronunciada). Agora pronuncie da mesma maneira continuada</p><p>o som inicial da palavra ‘fé’. Faça a alternância entre v e f algumas vezes</p><p>(Pronuncie apenas a consoante!). Você deve observar que durante a</p><p>produção de v haverá vibração transferida para a sua mão e que durante a</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>7</p><p>produção de f a vibração não ocorre. O som v é vozeado [sonoro] e o</p><p>som f é desvozeado [surdo].</p><p>O comportamento do véu palatino, ou palato mole, e da úvula (mais</p><p>conhecida como “campainha”) irá determinar se um som é oral ou nasal.</p><p>Quando produzimos a vogal a, a úvula fica levantada, assim o ar não passa</p><p>para a cavidade nasal, não provocando ressonância (repercussão de sons). A esse</p><p>som damos o nome de oral. Quando produzimos, porém, a vogal ã, a úvula abaixa</p><p>e o ar passa para a cavidade nasal, provocando ressonância. O som é, portanto,</p><p>nasal. Os sons nasais e orais servem tanto para as vogais quanto para as</p><p>consoantes. Experimente produzir o som do segmento consonantal m e do p,</p><p>articulando somente a consoante. Veja se você consegue perceber a mudança de</p><p>posição da úvula.</p><p>Observe na figura abaixo a localização do palato mole e da úvula. Perceba</p><p>que o palato mole é composto de um músculo (daí o termo ‘mole’) na parte posterior</p><p>do popularmente conhecido “céu da boca”. O palato duro, por sua vez, é a parte</p><p>óssea, localizada na frente (parte anterior) do “céu da boca”.</p><p>Fonte: Engelbert, Ana Paula Petriu Ferreira. Língua Portuguesa em Foco. Editora Intersaberes Ltda.,</p><p>2012, p.19.</p><p>Sintetizando....</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>8</p><p>Aprendemos que os sons da fala são produzidos por um conjunto de órgãos</p><p>denominado aparelho fonador. Vimos também que o principal elemento</p><p>responsável pela articulação de sons é a corrente de ar pulmonar, que pode ou</p><p>não ser obstruída durante sua passagem pelo aparelho fonador. Quando a corrente</p><p>de ar é obstruída temos a articulação das consoantes. Quando a corrente não é</p><p>obstruída produzimos as vogais. Verificamos a importância das cordas vocais, que</p><p>podem ou não vibrar durante a passagem do ar, gerando os sons sonoros e surdos,</p><p>respectivamente. Por fim, aprendemos que quando a úvula fica levantada e impede</p><p>o ar de passar para a cavidade nasal, temos um som oral (como o a); quando</p><p>a úvula abaixa e permite a passagem do ar para a cavidade nasal, provocando a</p><p>ressonância, temos um som nasal (como o ã).</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>9</p><p>Aula 02_Ponto e modo de articulação</p><p>Palavras-chave: articulação; pontos; modos.</p><p>Vamos aprofundar nossos conhecimentos sobre o aparelho fonador,</p><p>conhecendo seus articuladores passivos e ativos, que irão determinar os tipos de</p><p>sons os quais produzimos. É importante lembrar que estudaremos nesta disciplina</p><p>apenas os sons existentes em língua portuguesa.</p><p>Os articuladores ativos, como o próprio nome sugere, são aqueles que</p><p>podem se movimentar, alterando, portanto, a configuração do trato vocal (sinônimo</p><p>de aparelho fonador). Os articuladores ativos do aparelho fonador são quatro, a</p><p>saber:</p><p>- O lábio inferior;</p><p>- A língua;</p><p>- O palato mole, ou véu palatino (que já vimos na aula passada);</p><p>- As cordas vocais.</p><p>Os articuladores passivos, por sua vez, são fixos, ou seja, não podem se</p><p>movimentar. O aparelho fonador possui três articuladores passivos:</p><p>- O lábio superior;</p><p>- Os dentes superiores;</p><p>- O céu da boca, que se divide em: alvéolos, palato duro, palato mole (ou véu</p><p>palatino) e úvula (“campainha”).</p><p>O palato mole pode atuar tanto como articulador ativo, quando permite a</p><p>passagem do ar para as cavidades nasais, produzindo os sons nasais, quanto como</p><p>passivo, quando articula segmentos velares, que veremos adiante.</p><p>Agora que já finalizamos nossos conhecimentos básicos sobre o aparelho</p><p>fonador, podemos estudar como os sons são articulados, verificando o trabalho dos</p><p>articuladores ativos em relação aos passivos.</p><p>De acordo com os articuladores usados para produzir determinado som,</p><p>temos o lugar, ponto ou zona de articulação. Por exemplo, ao pronunciarmos a</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>10</p><p>palavra “Bahia”, percebemos que o lábio inferior toca o superior durante a produção</p><p>do segmento inicial (“b”), por isso, esse segmento consonantal é chamado</p><p>bilabial quanto ao ponto de articulação. Quando dizemos “fã”, nota-se que o lábio</p><p>inferior toca os dentes superiores (incisivos) temos, portanto, um som</p><p>labiodental quanto ao ponto de articulação. Veja abaixo a relação dos pontos de</p><p>articulação em língua portuguesa propostos por Silva (2003, p. 32):</p><p>• Bilabial: O articulador ativo é o lábio inferior e como articulador passivo temos o</p><p>lábio superior. Exemplos: pá, boa, má.</p><p>• Labiodental: O articulador ativo é o lábio inferior e como articulador passivo</p><p>temos os dentes incisivos superiores. Exemplos: faca, vá.</p><p>• Dental: O articulador ativo é ou o ápice da língua [a borda frontal da língua, a</p><p>ponta] ou a lâmina [a borda superior, o corpo] da língua e como articulador</p><p>passivo temos os dentes incisivos superiores. Exemplos: data, sapa, Zapata,</p><p>nada, lata.</p><p>• Alveolar: O articulador ativo é o ápice ou a lâmina da língua e como articulador</p><p>passivo temos os alvéolos (observe na figura da aula anterior a localização dos</p><p>alvéolos). Consoantes alveolares diferem de consoantes dentais apenas quanto</p><p>ao articulador passivo. Em consoantes dentais temos como articulador passivo</p><p>os dentes superiores. Já nas consoantes alveolares temos os alvéolos como</p><p>articulador passivo. Exemplos: data, sapa, Zapata, nada, lata. [A diferença da</p><p>articulação dental e alveolar é mínima, sendo quase imperceptíveis</p><p>acusticamente. Por isso, os exemplos aqui fornecidos valem para ambos os</p><p>casos.]</p><p>• Alveopalatal (ou pós-alveolares):</p><p>O articulador ativo é a parte anterior da língua</p><p>e o articulador passivo é a parte medial do palato duro. Exemplos: tia, dia (no</p><p>dialeto carioca), chá, já.</p><p>• Palatal: O articulador ativo é a parte média da língua e o articulador passivo é a</p><p>parte final do palato duro. Exemplos: banha, palha.</p><p>• Velar: O articulador ativo é a parte posterior da língua e o articulador passivo é o</p><p>véu palatino ou palato mole. Exemplos: casa, gata, rata (o som r de “rata” varia</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>11</p><p>consideravelmente dependendo do dialeto em questão. Indicamos aqui a</p><p>pronúncia velar que ocorre tipicamente no dialeto carioca. (...)</p><p>• Glotal: Os músculos ligamentais da glote comportam-se como articuladores.</p><p>Exemplo: rata (na pronúncia típica do dialeto de Belo Horizonte).</p><p>A familiarização com os pontos de articulação e com os tipos de sons</p><p>produzidos tenderá a crescer quando pensarmos nos vários falares do Brasil: o</p><p>curitibano fala “leite” de uma forma, o carioca de outra e o paulistano de outra. A</p><p>percepção dessas diferenças nos falares auxiliará no entendimento dos diferentes</p><p>sons que podem ser produzidos quando mudamos o ponto de articulação. Para nos</p><p>acostumarmos às nomenclaturas utilizadas na definição dos pontos de articulação,</p><p>basta associá-las aos termos que estudamos na figura do aparelho fonador da aula</p><p>passada.</p><p>Modo de articulação</p><p>A forma como os articuladores se posicionará, influenciará diretamente no</p><p>modo de passagem da corrente de ar pelo aparelho fonador. A cada modo de</p><p>passagem de ar, teremos, portanto, um modo de articulação.</p><p>Segundo os modos de articulação, as consoantes podem ser classificadas,</p><p>em língua portuguesa, como:</p><p>• Oclusivas ou Plosivas: há uma obstrução completa da passagem da</p><p>corrente de ar através da boca. O palato mole fica levantado e a corrente de</p><p>ar pulmonar é encaminhada para a cavidade oral. Tal modo de articulação</p><p>gera as consoantes oclusiva</p><p>orais: p (por), b(bola), t (tem), d (dado), c (cá), g (gafe).</p><p>• Nasais: há uma obstrução completa da passagem da corrente de ar através</p><p>da boca. A diferença da nasal para a oclusiva é que o palato mole fica</p><p>abaixado e a corrente de ar é dirigida para a cavidade nasal. Temos as</p><p>seguintes consoantes nasais: m (mato), n (nulo), nh(ganho).</p><p>• Fricativas ou Constritivas: como o radical da palavra indica, fricativa</p><p>relaciona-se à fricção provocada pela aproximação dos articuladores. Não há</p><p>obstrução completa da passagem de ar, como nas consoantes oclusivas e</p><p>nasais, mas apenas parcial.</p><p>As consoantes</p><p>fricativas são: f (fã), v (véu), s (seu), z (azia), ch (chá), j (jaca), r (reto).</p><p>Africadas: as consoantes africadas são, na verdade, uma mistura das consoantes</p><p>oclusivas e fricativas. Ocorre um momento inicial de oclusão, ou seja, de interrupção</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>12</p><p>da passagem do ar, seguido por uma fricção, com a saída do ar, parcialmente bloqueada.</p><p>As consoantes africadas que temos em português dependem da forma de realização de</p><p>algumas consoantes. Se pronunciarmos a palavra tia, utilizando na produção do primeiro</p><p>som [t] somente a oclusão, com o ápice (ponta) da língua tocando os dentes incisivos</p><p>superiores</p><p>• ou os alvéolos, será uma consoante oclusiva; porém se pronunciarmos a mesma</p><p>palavra como “tchia”, será uma consoante africada, com um momento inicial</p><p>oclusivo, [t], seguido da fricção, [ch]. O mesmo se verifica em dia/djia. Pronuncie</p><p>as palavras e perceba a diferença!</p><p>• Vibrante simples (tepe): o ápice (ponta) da língua toca rapidamente os alvéolos,</p><p>uma única vez, produzindo uma rápida obstrução da passagem de ar. É o som</p><p>de caro, cera. Também pode ser chamada de tape ou flape.</p><p>• Vibrante múltipla: o ápice (ponta) da língua toca algumas vezes os alvéolos,</p><p>causando vibração e produzindo uma rápida obstrução da passagem de ar. Em</p><p>alguns lugares do estado de São Paulo, nas regiões de colonização italiana e no</p><p>português europeu é encontrado esse tipo de consoante. Para exemplificar pode-</p><p>se tomar o r do espanhol em rosa e do italiano em rosso.</p><p>• Retroflexa: como a etimologia indica, “retro” significa atrás e “flexa” relaciona-se</p><p>à flexão, ao ato de dobrar, curvar. Assim, retroflexa é aquela consoante produzida</p><p>com a flexão da ponta da língua para trás, tocando o palato duro. O exemplo</p><p>típico desta consoante é o “dialeto caipira”, em palavras como porta e tarde. É o</p><p>mesmo som produzido no /r/ do inglês, como em: guitar e dark.</p><p>• Laterais: a língua toca os alvéolos superiores e o ar fica impedido de passar pela</p><p>via central da cavidade bucal, escapando pelas paredes laterais da boca, daí o</p><p>nome “laterais”. É o que ocorre com as consoantes l e lh em leite, falha e anel</p><p>(da forma que “anel” é pronunciado no sul do Brasil e no português europeu).</p><p>A forma de agrupar os vários conjuntos de consoantes quanto ao modo de</p><p>articulação varia de autor para autor. Convém, portanto, observar algumas outras</p><p>formas de agrupamento. Muitos autores dividem as consoantes em dois grandes</p><p>grupos: oclusivas e constritivas. É o caso dos gramáticos Celso Cunha e Lindley</p><p>Cintra. O grupo das oclusivas divide-se em orais (p, b, t, d, c, g) e nasais (m, n, nh).</p><p>Das constritivas fazem parte as consoantes fricativas (f, v, s, z, ch e j), as laterais (l</p><p>e lh) e as vibrantes (r e rr), todas orais. Outros autores, adotando teorias mais</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>13</p><p>recentes, utilizam o termo ‘contínuos’ para designar todos os sons não-oclusivos, ou</p><p>seja, todos os sons que não sofrem interrupção total da passagem do ar na cavidade</p><p>bucal. Os sons contínuos são, portanto, as consoantes fricativas (ou constritivas),</p><p>africadas, vibrantes e laterais.</p><p>O mais importante, porém, é saber que existem diferentes modos de articular</p><p>os sons em língua portuguesa e a terminologia utilizada para designar cada um</p><p>desses modos está diretamente relacionada à forma como o ar passará pela</p><p>cavidade bucal.</p><p>No caso das oclusivas, há uma oclusão, com a obstrução total da passagem</p><p>do ar. Na pronúncia de papai, por exemplo, se prestarmos atenção à produção da</p><p>consoante inicial, sentiremos que o ar chega à boca, e há uma tensão das paredes</p><p>da bochecha, com os lábios fechados, até a explosão, quando os lábios se abrem,</p><p>permitindo a passagem da corrente de ar e gerando o som do p. Portanto, só há som</p><p>após a abertura dos lábios, antes o ar estava totalmente obstruído.</p><p>No caso das fricativas, ou constritivas, há uma fricção do ar, que passa</p><p>levemente obstruído pela cavidade bucal, como em feliz, em que a corrente de ar</p><p>passa entre os dentes incisivos superiores e o lábio inferior. No caso das vibrantes,</p><p>tem-se a vibração da ponta da língua tocando o palato duro, como em caro e carro.</p><p>Nas laterais, o ar escapa pelas laterais da boca, como em luto.</p><p>A terminologia é indispensável para a correta classificação das consoantes,</p><p>por isso, é fundamental apreender os termos aqui apresentados, tanto relacionados</p><p>ao ponto de articulação, quanto ao modo de articulação. A relação entre o termo em</p><p>questão e a ação dos articuladores facilita bastante o aprendizado dos termos, como</p><p>vimos acima. Oclusivas vêm da oclusão do ar; fricativas, da fricção do ar; laterais, do</p><p>ar que escapa pelas laterais da boca; vibrantes, da ponta da língua que vibra uma</p><p>ou mais vezes, e assim por diante.</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>14</p><p>Aula 03_O alfabeto internacional</p><p>Palavras-chave: alfabeto; símbolos; transcrição.</p><p>Vimos que os sons são articulados através da passagem de uma corrente de</p><p>ar pelo aparelho fonador, e que existem alguns critérios de classificação desses</p><p>sons. O primeiro critério é o papel das cordas, ou pregas vocais, que determinam se</p><p>o som é surdo/desvozeado, quando não</p><p>vibram, ou sonoro/vozeado, quando vibram.</p><p>O segundo é o papel das cavidades oral e nasal, que indicam se os sons são orais</p><p>ou nasais (ex.: ã, nem). O terceiro critério estudado foi o ponto de articulação, que</p><p>determina se um som é labiodental, bilabial, velar, palatal etc., de acordo com o</p><p>articulador utilizado na produção do som. O quarto e último critério é o modo de</p><p>articulação, que avalia a forma pela qual a corrente de ar passa pelo trato vocal</p><p>(sinônimo de aparelho fonador), dividindo-se as consoantes em oclusivas, fricativas,</p><p>laterais, vibrantes, dentre outras.</p><p>Agora que já estudamos, inicialmente, a forma de classificação dos sons,</p><p>iremos aprender um conceito muito importante nesta aula. Cada um desses sons,</p><p>chamados fones, pode ser definido como a menor unidade sonora de uma</p><p>determinada língua. Trata-se de um conceito que não deve ser confundido com a</p><p>letra. A língua oral compreendida como a realidade física dos sons, estudada</p><p>cientificamente pela fonética, é composta de fones, enquanto a língua escrita é</p><p>constituída de letras e grafemas.</p><p>A palavra carro, por exemplo, possui cinco letras: c-a-r-r-o, porém apenas</p><p>quatro fones: /k/, /a/, /ř/ e /ʊ/. Já a palavra caro tem quatro letras (c-a-r-o) e quatro</p><p>fones (/k/, /a/, /ɾ/, /ʊ/). A diferença de sentido que a alteração de um fone, como no</p><p>exemplo acima, provoca na compreensão das palavras é tema de estudo da</p><p>fonologia, ciência que busca descrever a estrutura e o funcionamento do sistema de</p><p>sons de uma dada língua. Para a fonologia, a unidade mínima sonora de uma língua</p><p>é o fonema, que é uma unidade abstrata com valor distintivo, como estudaremos</p><p>adiante.</p><p>Os estudos de fonética e fonologia estudam e descrevem quase todas as</p><p>línguas conhecidas, por isso a Associação Internacional de Fonética (IPA –</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>15</p><p>International Phonetic Association) criou um alfabeto internacional com os fonemas</p><p>que ocorrem em todas as línguas já estudadas e sistematizadas. Para cada fonema,</p><p>é utilizado um símbolo. Para fazer o download das fontes dos símbolos fonéticos,</p><p>basta acessar o banco de textos do ambiente EAD – Unimes.</p><p>Veja abaixo a tabela com os principais símbolos fonéticos consonantais</p><p>utilizados em português.</p><p>Ponto de Articulação</p><p>Modo de</p><p>Articulação</p><p>Papel das</p><p>Cordas</p><p>Vocais</p><p>bilabial</p><p>labiodental</p><p>dental</p><p>ou</p><p>alveolar</p><p>alveopalatal</p><p>palatal</p><p>velar</p><p>glotal</p><p>Oclusiva</p><p>surdo</p><p>sonoro</p><p>p</p><p>b</p><p>t</p><p>d</p><p>k</p><p>g</p><p>Africada</p><p>surdo</p><p>sonoro</p><p>tʃ (č ou tš) dʃ</p><p>(ĵ ou dž)</p><p>Fricativa</p><p>surdo</p><p>sonoro</p><p>f</p><p>v</p><p>s</p><p>z</p><p>ʃ (š)</p><p>ʒ (ž)</p><p>X</p><p>ɣ</p><p>h</p><p>ɦ</p><p>Nasal</p><p>sonoro</p><p>m</p><p>n</p><p>ɲ (ñ) ỹ</p><p>Tepe</p><p>sonoro</p><p>ɾ</p><p>Vibrante</p><p>sonoro</p><p>ř</p><p>Retroflexa</p><p>sonoro</p><p>ɹ</p><p>Lateral</p><p>sonoro</p><p>l ɫ</p><p>ʎ lʲ</p><p>Os símbolos entre parênteses são variações dos símbolos recomendados pelo</p><p>alfabeto fonético internacional.</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>16</p><p>É fundamental o conhecimento dos principais símbolos fonéticos, pois as</p><p>transcrições de palavras são realizadas por meio deles. As transcrições fonéticas</p><p>podem ser latas ou amplas (lato sensu) e estritas ou restritas (stricto sensu). As</p><p>transcrições amplas não contemplam algumas especificidades de realização dos</p><p>sons, como, por exemplo, a palatalização, que é a pronúncia de um som com o corpo</p><p>da língua bem elevado, tocando a região anterior do palato duro. Essas</p><p>especificidades são chamadas articulações secundárias e dizem respeito a</p><p>determinados contextos de produção de sons. É natural, por exemplo, que seguidas</p><p>das vogais i e e, algumas consoantes sejam pronunciadas com a lâmina da língua</p><p>mais próxima do palato duro: família, liturgia, tentáculo, quilha. Para marcar esse</p><p>fenômeno (palatalização), utiliza-se um o símbolo j, que é colocado sobrescrito à</p><p>direita do segmento, como em lj, tj e kj. Nas transcrições fonéticas são utilizados</p><p>colchetes, [ ], e o símbolo é utilizado antes da sílaba tônica ou acentuado. Exemplo</p><p>de transcrição ampla: casa - [‘kaza].</p><p>Resumindo... aprendemos o conceito de fone, indispensável para o estudo de</p><p>fonética articulatória, e os símbolos relevantes para a língua portuguesa utilizados</p><p>internacionalmente para a representação dos fonemas. Vimos também que as</p><p>transcrições fonéticas utilizam os símbolos em questão e podem ser</p><p>amplas (aquelas que não contemplam uma especificidade da articulação) ou</p><p>estritas (aquelas que marcam todas as especificidades da pronúncia).</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>17</p><p>Aula 04_Os dialetos do Brasil: as consoantes oclusivas, africadas</p><p>e laterais</p><p>Palavras-chave: dialeto; consoantes oclusivas; consoantes africadas; laterais.</p><p>O Brasil é um país de grandes proporções territoriais, formado por uma vasta</p><p>população (cerca de 180.000.000 de habitantes) cuja cultura forjou-se durante</p><p>séculos de miscigenação entre diferentes povos: portugueses, índios, africanos,</p><p>italianos e espanhóis, dentre outros. Essa mistura de falares resultou em um país</p><p>com diversos dialetos espalhados por seu território. No Brasil, portanto, há muitos</p><p>falares. Em alguns dialetos mais marcados, torna-se fácil reconhecer seu falante. Se</p><p>conseguimos identificar algum indivíduo pelo seu modo de falar, isso ocorre graças</p><p>a realizações particulares de determinados fonemas que conseguimos distinguir,</p><p>relacionando-o a um conhecimento prévio de que em tal lugar do Brasil se fala</p><p>daquela maneira, portanto o indivíduo deve ser daquela região.</p><p>Apesar de os meios de comunicação que utilizam a língua oral, como a</p><p>televisão e o rádio, tentarem falar um dialeto padrão, sabe-se que não se pode definir</p><p>um dialeto padrão do português brasileiro devido às diferentes formas de realização</p><p>dos fonemas. As diferenças existentes entre as diversas formas de se comunicar</p><p>através de uma mesma língua é o campo de estudo da sociolinguística, que estuda</p><p>as relações entre língua e sociedade.</p><p>Vamos agora estudar algumas variações de pronúncia do português do Brasil,</p><p>que devem ser marcadas por símbolos diferentes nas transcrições fonéticas. A</p><p>impressão da tabela apresentada na aula anterior facilitará a apreensão desta e das</p><p>próximas aulas, pois os símbolos utilizados devem se tornar cada vez mais</p><p>familiares.</p><p>As consoantes oclusivas bilabiais, [p] e [b], e velares, [k] e [g], não sofrem</p><p>variação de pronúncia nos dialetos do português brasileiro. Portanto, a consoante</p><p>oclusiva bilabial surda corresponde a uma única pronúncia: [p], assim como a</p><p>consoante oclusiva bilabial sonora: [b]. Veja as transcrições abaixo:</p><p>• pata – [‘pata]</p><p>• bala – [‘bala]</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>18</p><p>• casa – [‘kaza]</p><p>• gato – [‘gatʊ]</p><p>É importante lembrar que, como comentado na aula passada, nas transcrições</p><p>fonéticas utilizam-se colchetes e o símbolo ‘antes da sílaba tônica da palavra. O</p><p>símbolo ʊ, utilizado na transcrição da palavra “gato”, será estudado mais adiante, mas</p><p>pode-se adiantar que ele representa uma das formas de produção da vogal [u].</p><p>Perceba que para representar o segmento oclusivo velar surdo, som normalmente</p><p>representado pela letra c em língua portuguesa, como na sílaba-ca, de casa, utiliza-</p><p>se o símbolo [k]; a letra c não é utilizada em nenhum símbolo fonético, à exceção de</p><p>č, símbolo alternativo para representar o som tʃ (tchau).</p><p>Se as consoantes oclusivas bilabiais e velares não apresentam variação de</p><p>pronúncia em português, em outros segmentos, porém, há variação, como é o caso</p><p>da consoante lateral sonora alveolar, [l]. Na maior parte dos dialetos do português</p><p>brasileiro, a lateral realiza-se como uma consoante alveolar ou dental ou ocorre a</p><p>vocalização</p><p>do segmento, que passa a ser pronunciado como a vogal [u].</p><p>Em alguns dialetos do Sul, por outro lado, a lateral é velarizada em final de</p><p>sílaba, ou seja, a parte posterior da língua levanta-se em direção ao véu palatino.</p><p>Muitas professoras do antigo primário utilizavam-se desse tipo de articulação para</p><p>tentar mostrar as diferenças de pronúncia entre as palavras grafadas com l e com u.</p><p>Exemplo: sal e mingau. Na verdade, forçava-se uma diferença entre as pronúncias</p><p>dessas duas palavras para tentar ensinar ao aluno o uso correto das letras l e u,</p><p>quando, na realidade, na maior parte do Brasil, não há a mínima diferença de</p><p>articulação dos dois sons finais. No caso de sal, à exceção do Sul do país, ocorre a</p><p>vocalização da lateral em posição final de sílaba ou palavra, e ela passa a ser</p><p>articulada como uma vogal do tipo [u], que é transcrito como [w]. No Sul, a pronúncia</p><p>desse mesmo segmento acontece por meio da velarização, através de uma</p><p>consoante lateral alveolar velarizada, representada por [ɫ]. Dessa forma, a</p><p>transcrição da palavra sal pode ser [‘saɫ] ou [‘saw], dependendo do modo como os</p><p>segmentos são realizados.</p><p>Observe abaixo as transcrições das palavras tia e dia:</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>19</p><p>• tia – [‘tʃia]</p><p>• dia – [‘dʒia]</p><p>Na maior parte do Sudeste brasileiro, essas são as pronúncias típicas das</p><p>palavras tia e dia. As consoantes oclusivas alveolares/dentais surdas e sonoras, [t]</p><p>e [d], sofrem o processo de palatalização diante do segmento [i], passando a ser</p><p>pronunciadas como africadas alveopalatais, como o primeiro som da palavra tchau,</p><p>no caso da surda (tʃ), e como o primeiro som do nome próprio Djalma, no caso da</p><p>sonora (dʒ). Também podem ser usados os símbolos concorrentes č ou tš para tʃ e os</p><p>símbolos ĵ ou dž para dʒ.</p><p>As oclusivas velares, [t] e [d], não sofrem variação, a não ser nos contextos</p><p>descritos acima, podendo ter articulação alveolar ou dental. Veja abaixo os exemplos</p><p>de transcrições:</p><p>• toda – [‘toda]</p><p>• diga – [‘diga]</p><p>Para os sons destacados nas palavras mancha e canja, também há</p><p>concorrência de símbolos, porém todos se referem ao mesmo segmento: fricativa</p><p>alveopalatal surda (vozeada) e sonora (desvozeada). Os símbolos do alfabeto</p><p>fonético internacional são os que aparecem na primeira transcrição das palavras</p><p>abaixo: ʃ e ʒ. Os símbolos š e ž são concorrentes.</p><p>• mancha – [‘mãʃa] ou [‘mãša]</p><p>• canja – [‘kãʒa] ou [‘kãža]</p><p>Além de nos acostumarmos à transcrição fonética das palavras, esta aula</p><p>também nos ensinou que, no Brasil, existem diferentes pronúncias para um mesmo</p><p>vocábulo. Esta diferença é marcada por símbolos fonéticos distintos, como [‘tʃia] e</p><p>[‘dʒia], com segmentos palatalizados (tchau eDjalma), ou [‘tia] e [‘dia], com</p><p>segmentos que não sofrem palatalização, sendo exclusivamente dentais ou</p><p>alveolares.</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>20</p><p>Aula 05_Os dialetos do Brasil: os “erres", as fricativas e nasais</p><p>Palavras-chave: dialetos; [X] carioca; fricativas; nasais.</p><p>Anteriormente, estudamos alguns sons característicos de dialetos do Brasil,</p><p>como o [ɫ] utilizado no Sul do país e os sons palatais tʃ e dʒ dos dialetos do sudeste</p><p>brasileiro. Neste momento, estudaremos mais algumas pronúncias típicas de certas</p><p>regiões brasileiras, como o /r/ carioca, o /r/ mineiro, o /r/ paulista e o /r/ caipira.</p><p>Observemos o exemplo de transcrição abaixo:</p><p>remo – [‘Xemo], [‘hemo] e [‘řemo]</p><p>O exemplo acima mostra que diferentes pronúncias são representadas por</p><p>símbolos diferentes. A primeira pronúncia, representada pelo símbolo X, é típica do</p><p>dialeto carioca. Há, neste caso, fricção na região velar (área do véu palatino ou palato</p><p>mole) — o segmento consonantal é classificado como fricativa velar surda ou</p><p>desvozeada. Ocorre em início de palavra (remo), em início de sílaba precedida por</p><p>vogal (carro) e por consoante (Israel), e pode ocorrer também em final de sílaba</p><p>seguida por consoante surda, como em torta, e em final de palavra, como cor.</p><p>A segunda pronúncia, representada pelo som h, é típica do dialeto de Belo</p><p>Horizonte. O ponto de articulação do segmento consonantal é a laringe, ou seja, as</p><p>cordas vocais. Sua classificação é fricativa glotal desvozeada. Não é uma produção</p><p>frequente do Brasil, ocorrendo somente no estado de Minas Gerais, sobretudo em</p><p>sua capital. É o mesmo som da palavra inglesa hat, e um som muito comum na língua</p><p>árabe, ocorrendo nos mesmos contextos do [X] carioca.</p><p>A terceira pronúncia é típica do português europeu e pode ser observada em</p><p>certas variantes do português brasileiro, como em alguns dialetos do português</p><p>paulista e em áreas de colonização italiana. O segmento é chamado vibrante alveolar</p><p>vozeada ou sonora, representado pelo símbolo ř. A produção desse som, já descrita</p><p>quando tratamos do ponto de articulação, ocorre quando o ápice (ponta) da língua</p><p>toca algumas vezes os alvéolos, causando vibração e produzindo uma rápida</p><p>obstrução da passagem de ar. Para exemplificar pode-se tomar o r do espanhol</p><p>em rosa e do italiano em rosso.</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>21</p><p>Os sons estudados acima, a fricativa velar [X] e a fricativa glotal [h] dos</p><p>dialetos carioca e de Belo Horizonte, são as representações surdas ou desvozeadas.</p><p>Há também os segmentos sonoros ou vozeados, representados pelos símbolos [ɣ] e</p><p>[ɦ], que ocorrem em final de sílaba seguida de consoante sonora ou vozeada, como a</p><p>palavra carga: [‘kaɣga] ou [‘kaɦga].</p><p>Nesse mesmo contexto de final de sílaba, ainda podem ocorrer nos dialetos</p><p>do português do Brasil dois outros sons: a retroflexa alveolar, [ɹ], e a tepe alveolar,</p><p>[ɾ], já estudadas quando tratamos do modo de articulação das consoantes. Assim,</p><p>nos dialetos caipiras, a transcrição de “carga” seria [‘kaɹga]. Em alguns dialetos, pode</p><p>ocorrer o tepe alveolar em final de sílaba: [‘kaɾga]. O tepe sempre ocorre, em todos os</p><p>dialetos do Brasil, em posição intervocálica (entre vogais) e quando vem depois de</p><p>consoante, como em caro — [‘kaɾʊ] (intervocálica) e broto — [‘bɾotʊ] (seguida de</p><p>consoante).</p><p>As fricativas e as nasais</p><p>Assim como as consoantes oclusivas bilabiais, [p] e [b], e velares, [k] e [g], as</p><p>consoantes fricativas labiodentais, [f] e [v], também não sofrem alteração de</p><p>pronúncia no Brasil. Observe as transcrições abaixo:</p><p>• fita – [‘fita]</p><p>• veto – [‘vetʊ]</p><p>Já as consoantes fricativas alveolares, [s] e [z] são uniformes em início de sílaba,</p><p>mas marcam variação dialetal em final de sílaba. Observe os exemplos:</p><p>• selo – [‘selʊ]</p><p>• caça – [‘kasa]</p><p>• zaga – [‘zaga]</p><p>• casa – [‘kaza]</p><p>• paz – [‘pas], [‘paz] ou [‘paʃ]</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>22</p><p>As quatro primeiras transcrições ilustram as fricativas alveolares em início de</p><p>sílaba, quando não sofrem variação de pronúncia no português brasileiro. Já a última</p><p>transcrição mostra três formas distintas de realização do vocábulo “paz”. A primeira,</p><p>com a fricativa alveolar surda ou desvozeada, [s], comum na maior parte do Brasil,</p><p>quando à fricativa segue-se uma consoante surda (ex.: paz perpétua); a segunda,</p><p>com a fricativa alveolar sonora ou vozeada, [z], que ocorre quando à fricativa segue-</p><p>se uma consoante sonora ou uma vogal (ex.: “paz de Cristo”, “paz e amor”); a terceira</p><p>transcrição, com o símbolo [ʃ], já estudado ([‘mãʃa]), representa uma pronúncia típica</p><p>do dialeto carioca.</p><p>As nasais, [m] e [n] são uniformes em todos os dialetos do português do Brasil.</p><p>O [n] sofre alguma variação, pois pode ocorrer com articulação alveolar ou dental,</p><p>mas tal variação é marcada somente na transcrição fonética estrita, através do</p><p>símbolo, como em [‘n̪ ada].</p><p>A nasal palatal sonora ou vozeada, representada pelo símbolo [ɲ] (alfabeto</p><p>fonético) ou ñ (símbolo concorrente), quase não ocorre no português brasileiro.</p><p>Conforme colocado na tabela dos segmentos consonantais (aula 5), há um outro</p><p>som, representado pelo símbolo [ỹ] e chamado glide (semivogal) palatal nasalizado.</p><p>Estudaremos adiante esse tipo de variação quando tratarmos das vogais do</p><p>português.</p><p>A consoante lateral palatal sonora, representada pelo símbolo [ʎ], é rara no</p><p>português brasileiro, ocorrendo na pronúncia de poucos falantes. Geralmente, o som</p><p>produzido é a lateral alveolar palatalizada [lʲ]. A palavra folha pode ser representada</p><p>pela transcrição [‘foʎa] ou por [‘folʲa]; mas a mais comum no Brasil é a segunda forma.</p><p>Sintetizando: vimos que as fricativas labiodentais, [f] e [v], não sofrem variação</p><p>de pronúncia, ao passo que as alveolares, [s] e [z], sofrem quando em final de sílaba.</p><p>É o caso de [‘paʃ], do dialeto carioca. Estudamos também as consoantes nasais, [m] e</p><p>[n], e a nasal palatal, [ɲ], que é rara no português brasileiro, sendo frequentemente</p><p>articulada como o glide palatal [ỹ]. Por fim, vimos a consoante lateral palatal sonora [ʎ],</p><p>pouco comum, e a lateral alveolar palatalizada [lʲ], mais comum no português do Brasil.</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>23</p><p>Aula 06_Os segmentos vocálicos: a altura da língua</p><p>Palavras-chave: segmentos vocálicos; língua; altura.</p><p>Estudaremos agora os segmentos vocálicos, que, ao lado dos segmentos</p><p>consonantais, formam o conjunto de fonemas de uma língua, no nosso caso, a língua</p><p>portuguesa falada no Brasil.</p><p>A principal diferença entre os segmentos consonantais e os vocálicos é a</p><p>obstrução, total ou parcial, da corrente de ar. Enquanto, nas consoantes, havia algum</p><p>tipo de obstrução da passagem de ar, na produção dos segmentos vocálicos não há</p><p>nenhuma obstrução.</p><p>Se o estudo das vogais do português parece ser simples, o linguista Mattoso</p><p>Câmara (2004, p. 39) faz importante advertência:</p><p>Em referência às vogais, a realidade da língua oral é muito mais complexa</p><p>do que dá a entender o uso aparentemente simples e regular das cinco</p><p>letras latinas vogais na escrita. O que há são 7 fonemas vocálicos</p><p>multiplicados em muitos alofones. Os falantes de língua espanhola têm, em</p><p>regra, dificuldade de entender o português falado, apesar da grande</p><p>semelhança entre as duas línguas, por causa dessa complexidade em</p><p>contraste com a relativa simplicidade e consistência do sistema vocálico</p><p>espanhol.</p><p>O conceito de alofones, citado por Mattoso Câmara, será estudado mais</p><p>adiante, mas pode-se adiantar que se relacionam às diferentes formas de realização</p><p>de um mesmo fonema, como, por exemplo, o /r/ carioca e o /r/ caipira.</p><p>A maneira de classificação dos segmentos vocálicos difere da classificação</p><p>dos sons consonantais, já que a produção do som ocorre de modo distinto.</p><p>Classificamos as vogais de acordo com os seguintes critérios: posição da língua em</p><p>relação à altura, posição da língua em termos anterior/posterior e arredondamento</p><p>ou não dos lábios.</p><p>O critério da altura da língua refere-se à elevação da língua na cavidade bucal</p><p>no sentido vertical. A visualização desse critério torna-se simples ao imaginarmos o</p><p>aparelho fonador na posição do ato de “mostrar a língua”. Se a língua estiver abaixo</p><p>daquele ponto, verticalmente, dizemos que tal vogal é baixa; se a língua estiver</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>24</p><p>acima daquele ponto, dizemos que a vogal é alta. Como a língua eleva-se</p><p>gradualmente, consideramos quatro graus de elevação: baixa, média-baixa, média-</p><p>alta e alta.</p><p>Se pronunciarmos a vogal i seguida da vogal a e atentarmos para a posição</p><p>da língua, perceberemos que na produção do i, a língua está muito mais alta do que</p><p>na produção do a, quando a língua fica abaixada, encostando seu ápice nos dentes</p><p>incisivos inferiores. Silva (2003, p.66) lembra que alguns autores consideram a altura</p><p>em termos de abertura/fechamento da boca. Assim, quando pronunciamos a vogal i,</p><p>que é alta, a boca está quase fechada, ao passo que quando pronunciamos a vogal</p><p>a, que é baixa, a boca está bem aberta. A equivalência entre os termos, portanto,</p><p>será a seguinte:</p><p>altura da língua abertura/fechamento da boca</p><p>baixa aberta</p><p>média-baixa meio-aberta</p><p>média-alta meio-fechada</p><p>alta fechada</p><p>Tradicionalmente, as vogais são dispostas em um sistema vocálico triangular,</p><p>proposto por Trubetzkoy, organizado pela altura da língua.</p><p>altas [i] [u]</p><p>médias-altas [e] [o]</p><p>médias-baixas [ɛ] [ɔ]</p><p>baixa [a]</p><p>O sistema disposto acima inclui as sete vogais que ocorrem em posição tônica</p><p>no português. As médias-baixas, representadas pelos símbolos [ɛ] e [ɔ], são os sons</p><p>abertos de [e] e [o], como em ré e pó.</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>25</p><p>Começamos agora o estudo das vogais, principiando pelo primeiro critério de</p><p>classificação dos segmentos vocálicos: a altura da língua. Experimente pronunciar</p><p>as sete vogais dispostas no triângulo tentando perceber as mudanças de posição da</p><p>língua.</p><p>Os segmentos vocálicos: anterioridade/posterioridade da língua</p><p>e arredondamento dos lábios</p><p>A posição da língua quanto à anterioridade e à posterioridade difere da</p><p>posição da língua em relação à altura, pois o parâmetro agora passa a ser o lugar</p><p>ocupado pela língua durante a produção do segmento vocálico no eixo horizontal,</p><p>não mais no eixo vertical, quando estudamos a altura.</p><p>O corpo da língua pode se posicionar mais para trás ou mais para frente da</p><p>cavidade bucal. Para visualizar o comportamento da língua, basta dividir a cavidade</p><p>bucal em três partes simétricas: anterior, localizada na frente da cavidade; posterior,</p><p>localizada na parte final da cavidade; e central, que fica entre as partes anterior e</p><p>posterior. Assim, o corpo da língua pode ocupar três lugares: anterior, central e</p><p>posterior.</p><p>Quando pronunciamos a vogal i, depois a vogal u, percebemos que o corpo</p><p>da língua fica bem para frente na cavidade bucal na articulação do i e bem para trás</p><p>na articulação do u. Dizemos então que o i é uma vogal anterior e o u é uma vogal</p><p>posterior. A única vogal tônica central do português é o a, que é articulado com o</p><p>corpo da língua no centro da cavidade bucal.</p><p>O terceiro critério de classificação das vogais é o arredondamento ou não dos</p><p>lábios. Quando articulamos um segmento vocálico, nossos lábios podem estar</p><p>estendidos ou arredondados. As vogais o e u, por exemplo, são arredondadas, pois</p><p>nossos lábios se arredondam para produzi-las; o que não acontece com as vogais</p><p>i e e, que são articuladas com os lábios estendidos. Tente pronunciar essas vogais</p><p>e perceber a diferença de posicionamento dos lábios.</p><p>Abaixo, coloca-se um quadro dos sete segmentos vocálicos que ocorrem em</p><p>posição tônica no português brasileiro, de acordo com os símbolos adotados pelo</p><p>IPA (International Phonetic Association).</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>26</p><p>anterior central posterior</p><p>arred. não-</p><p>arred.</p><p>arred. não-</p><p>arred.</p><p>arred. não-</p><p>arred.</p><p>alta</p><p>i</p><p>u</p><p>média-alta</p><p>e</p><p>o</p><p>média-</p><p>baixa</p><p>ɛ</p><p>ɔ</p><p>baixa</p><p>a</p><p>Abaixo, seguem-se algumas transcrições de palavras para a observação e</p><p>assimilação dos símbolos utilizados para os segmentos vocálicos:</p><p>• pata – [‘pata]</p><p>• caqui – [ca’ki]</p><p>• pacu – [pa’ku]</p><p>• mercê – [meɾ’se]</p><p>• café – [ka’fɛ]</p><p>• avô – [a’vo]</p><p>• avó – [a’vɔ]</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>27</p><p>Aula 07_Os segmentos vocálicos: articulações secundárias</p><p>Palavras-chave: segmentos vocálicos; ditongos; glides.</p><p>Assim como os segmentos consonantais, os segmentos vocálicos também</p><p>apresentam especificidades de articulação, as chamadas articulações secundárias.</p><p>A duração</p><p>de um determinado segmento vocálico é um exemplo de articulação</p><p>secundária. Não tão importante na língua portuguesa, a duração é fundamental em</p><p>outras línguas, como no latim, que possuía as vogais breves e as vogais longas. Em</p><p>português, pode-se dizer que as vogais acentuadas são percebidas como mais</p><p>longas do que as vogais que não são acentuadas.</p><p>Como os segmentos vocálicos são produzidos geralmente com as cordas</p><p>vocais vibrando, são considerados vozeados ou sonoros. Em alguns contextos,</p><p>porém, os segmentos vocálicos perdem a característica de vozeados e passam a ser</p><p>produzidos sem a vibração das cordas vocais, como acontece com as consoantes</p><p>surdas ou desvozeadas. Esse fenômeno é chamado desvozeamento e ocorre,</p><p>sobretudo, em vogais não acentuadas em final de palavra, como em “gato, rata e</p><p>dote”. O desvozeamento é marcado por um pequeno círculo colocado abaixo do</p><p>segmento vocálico, como [ḁ]. Assim esse segmento é entendido como um [a]</p><p>desvozeado.</p><p>Outra articulação secundária dos segmentos vocálicos, bastante produtiva em</p><p>português, é a nasalização. Quando estudamos as consoantes nasais, vimos que</p><p>elas são articuladas com o abaixamento do véu palatino, que permite a passagem</p><p>da corrente de ar para a cavidade nasal, e o ar é expelido pelas narinas. O mesmo</p><p>acontece com os segmentos vocálicos. Para marcar a nasalidade, será utilizado um</p><p>til (~) sobre a vogal: [ã], que caracteriza o segmento [a] com a propriedade da</p><p>nasalização.</p><p>A última articulação secundária dos segmentos vocálicos relaciona-se à</p><p>tensão. Os segmentos podem ser tensos ou frouxos. Como vimos no</p><p>desvozeamento, os segmentos vocálicos em finais de palavra são normalmente</p><p>desvozeados e também frouxos (ou lax), pois necessitam de pouco esforço muscular</p><p>para sua produção. Em contrapartida, os segmentos tensos são produzidos com</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>28</p><p>maior esforço muscular, como as vogais tônicas. Silva (2003, p.72) fornece o</p><p>seguinte exemplo: “Segmentos frouxos ocorrem no português brasileiro em vogais</p><p>átonas finais: ‘patu, safari’. As vogais altas frouxas (e átonas postônicas) em ‘patu,</p><p>safari’ podem ser contrastadas com as vogais altas tensas (e tônicas) em ‘jacu,</p><p>saci’”. As vogais frouxas são normalmente representadas pelos símbolos [ɪ,ʊ].</p><p>A classificação dos segmentos vocálicos, portanto, é feita segundo alguns</p><p>critérios: altura da língua, anterioridade ou posterioridade da língua, arredondamento</p><p>ou não dos lábios e articulações secundárias (desvozeamento, nasalização e</p><p>tensão). Ao descrevermos uma vogal, colocaremos esses critérios sempre na ordem</p><p>apresentada acima, ou seja: altura da língua, anterioridade/posterioridade,</p><p>arredondamento/não arredondamento e articulação secundária. Dessa forma, a</p><p>vogal [õ] será descrita da seguinte forma: “vogal média posterior arredondada nasal”.</p><p>Observe abaixo a classificação das vogais tônicas do português:</p><p>[a] – vogal baixa central</p><p>[e] – vogal média-alta anterior não arredondada</p><p>[ɛ] – vogal média-baixa anterior não arredondada</p><p>[o] – vogal média-alta posterior arredondada</p><p>[ɔ] – vogal média-baixa posterior arredondada</p><p>[i] – vogal alta anterior não arredondada</p><p>[u] – vogal alta posterior arredondada</p><p>Os ditongos e os glides</p><p>Após a descrição dos segmentos consonantais e vocálicos, que se</p><p>caracterizam de acordo com o modo de articulação, o ponto de articulação, o papel</p><p>das cordas vocais e das cavidades nasal e oral, no caso das consoantes, e segundo</p><p>a posição da língua e dos lábios, no caso das vogais, passaremos a estudar os</p><p>ditongos, que são uma sequência de segmentos.</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>29</p><p>Em um ditongo, conforme aprendemos no Ensino Médio, existe a junção de</p><p>uma vogal com uma semivogal. Em fonética e fonologia, muitos autores utilizam o</p><p>termo ‘glide’ (pronuncia-se gl[ai]de) em vez de ‘semivogal’. O uso do termo ‘glide’ em</p><p>vez de ‘semivogal’ justifica-se pelo fato de os glides poderem apresentar tanto</p><p>características fonéticas de vogais quanto de consoantes. A característica que</p><p>diferencia os segmentos vocálicos dos consonantais é a passagem livre da corrente</p><p>de ar, própria das vogais, ou a passagem obstruída (total ou parcialmente), própria</p><p>das consoantes. Os glides ora apresentam uma característica ora outra. Em</p><p>português, porém, a maioria dos autores considera os glides como segmentos</p><p>vocálicos.</p><p>Os ditongos são considerados vogais que apresentam mudanças de</p><p>qualidade contínuas dentro de um percurso na área vocálica (Silva, 2003, p. 73). As</p><p>vogais que não apresentam mudança são chamadas monotongos, e são aquelas</p><p>descritas nas aulas passadas.</p><p>A principal característica dos ditongos é ocorrer em uma única sílaba,</p><p>diferenciando-se, portanto, de uma sequência de vogais, tradicionalmente chamada</p><p>de hiato. O verbo “moer”, por exemplo, conjugado na 3ª pessoa do singular do</p><p>presente do indicativo, “mói”, apresenta um ditongo: -ói, que é representado por [ɔI̯].</p><p>Essa representação mostra que há um movimento contínuo da língua entre as duas</p><p>posições articulatórias: de [ɔ] até [I]. Esses dois segmentos formam uma única sílaba:</p><p>seu núcleo é o [ɔ] e o outro segmento é assilábico, por isso, é representado com o</p><p>símbolo [ ]̯ . É o chamado glide. Assim, sempre embaixo do segmento que</p><p>corresponde ao glide do ditongo, será usado o sinal [ ]. No caso de “mói”, o glide é</p><p>o [I̯]: [‘mɔI̯].</p><p>A sequência de vogais, chamada hiato, difere-se do ditongo por ocorrer em</p><p>duas sílabas. No mesmo verbo, “moer”, a 1ª pessoa do singular do pretérito perfeito</p><p>conjuga-se “moí”. Nesse caso, cada vogal é pronunciada em uma sílaba e possui</p><p>qualidade vocálica distinta: [mo’i]. Cada vogal constitui um núcleo, ou pico, de sílaba.</p><p>Cada segmento vocálico, portanto, tem uma proeminência acentual, que o</p><p>caracteriza como pico de sílaba. Já o glide não tem proeminência acentual, por isso</p><p>é considerado assilábico, e representado pelo símbolo [̯].</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>30</p><p>Os glides em português são somente dois: [I̯] e [ʊ̯ ]. Em outras línguas, no</p><p>entanto, podem existir mais glides, além dos dois do português. As vogais [̯I, ʊ], não</p><p>ocorrem somente como glides, podendo ocorrer também em final de palavra átono,</p><p>como o exemplo gato – [‘gatʊ]. São as chamadas vogais frouxas, ou lax, já que</p><p>exigem pouco esforço muscular quando comparadas às tensas, [i,u].</p><p>O glide e sua representação são fundamentais nas transcrições fonéticas.</p><p>Veja-se o exemplo da palavra gratuito. Podemos ter uma pronúncia como sequência</p><p>de vogais: [gɾatu’itʊ]. Dessa forma, a palavra terá quatro sílabas: [gɾa.tu.’i.tʊ] (o ponto é</p><p>utilizado para marcar o limite das sílabas). Agora, se a pronúncia for como ditongo,</p><p>teremos: [gɾa.tuI̯.tʊ], com apenas três sílabas. O ditongo, [uI̯], inicia com</p><p>proeminência acentual na área vocálica de [u] e termina sem proeminência acentual</p><p>na área de [I̯], constituindo [uI̯] uma única sílaba. Temos, assim, uma sequência de</p><p>vogal, [u], e glide, [I̯]. A essa sequência damos o nome de ditongo decrescente. À</p><p>sequência inversa, glide-vogal (como via – [vI̯a], damos o nome de ditongo</p><p>crescente.</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>31</p><p>Aula 08_A sílaba</p><p>Palavras-chave: sílaba; tonicidade; estrutura.</p><p>Um componente fundamental da produção dos sons é a corrente de ar, que</p><p>passa pelo trato vocal, sendo modulada de diversas formas, gerando o som. O</p><p>conceito a ser estudado na aula de hoje é a sílaba, cuja definição moderna relaciona-</p><p>se justamente ao mecanismo de corrente de ar pulmonar.</p><p>Leia atentamente o trecho abaixo, retirado de Silva (2003, p.76) sobre a</p><p>definição de sílaba:</p><p>Na produção do mecanismo de corrente de ar pulmonar, o</p><p>ar não é expelido</p><p>dos pulmões com uma pressão regular e constante. De fato, os movimentos</p><p>de contração e relaxamento dos músculos respiratórios expelem</p><p>sucessivamente pequenos jatos de ar. Cada contração e cada jato de ar</p><p>expelido dos pulmões constitui a base de uma sílaba. A sílaba é então</p><p>interpretada como um movimento de força muscular que se intensifica</p><p>atingindo um limite máximo, após o qual ocorrerá a redução progressiva</p><p>desta força.</p><p>Podemos fazer uma analogia trivial para esclarecer o conceito de sílaba.</p><p>Imagine-se enchendo um balão. O primeiro movimento é a inspiração do ar, que é</p><p>armazenado nos pulmões e depois soprado dentro do balão. Após a saída do ar,</p><p>novamente inspira-se o ar para continuar o processo. Cada sopro de ar dentro do</p><p>balão corresponderia ao jato de ar expelido durante a nossa fala, que equivale a uma</p><p>sílaba.</p><p>A estrutura da sílaba é dividida em três partes. A parte central e obrigatória,</p><p>chamada de núcleo ou pico, é preenchida por um segmento vocálico em português.</p><p>As outras duas partes, chamadas periféricas, podem ou não ser preenchidas. Se a</p><p>parte periférica for preenchida, sempre será ocupada por segmentos consonantais</p><p>ou por um glide. Se não houver preenchimento da parte periférica, a sílaba será</p><p>formada por um segmento vocálico, que preencherá toda a estrutura da sílaba.</p><p>Vejamos o exemplo dado por Silva (ibidem):</p><p>A sílaba inicial da palavra ‘atrás’ por exemplo apresenta apenas o segmento</p><p>vocálico. A sílaba final da palavra ‘atrás’ apresenta a parte periférica à</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>32</p><p>esquerda preenchida por duas consoantes: tr. A parte periférica à direita é</p><p>preenchida pela consoante s. O pico silábico da sílaba final da palavra</p><p>‘atrás’ é a vogal a que se encontra entre as consoantes tr e s.</p><p>Analisemos outros exemplos de palavras em português para apreendermos o</p><p>conceito de sílaba:</p><p>• rapaz – a primeira sílaba, ra, apresenta o segmento vocálico [a] como pico de</p><p>sílaba e tem a parte periférica à direita preenchida pelo segmento consonantal</p><p>[ř]. A segunda sílaba, paz, apresenta o pico de sílaba preenchido pelo segmento</p><p>vocálico [a], a parte periférica à esquerda preenchida pelo segmento consonantal</p><p>[p] e a parte periférica à direita, pelo segmento [s]. (Para estes exemplos, não</p><p>estamos considerando as variações dialetais, que podem, por exemplo, levar à</p><p>articulação do segmento inicial consonantal da palavra como [X] ou [h]);</p><p>• amar – o segmento vocálico [a] preenche todas as partes da estrutura da primeira</p><p>sílaba, constituindo o pico de sílaba. A segunda sílaba, mar, tem como pico o</p><p>segmento vocálico [a], a parte periférica à esquerda preenchida pelo segmento</p><p>consonantal [m] e à direita, pelo segmento [ɾ].</p><p>• marra – a primeira sílaba, ma, apresenta como pico o segmento vocálico [a] e a</p><p>parte periférica à esquerda preenchida pelo segmento consonantal [m]. A</p><p>segunda sílaba, rra, tem o pico no segmento vocálico [a] e a parte periférica à</p><p>esquerda preenchida pelo segmento consonantal [ř]. Perceba neste exemplo que a</p><p>divisão em sílabas de acordo com a fonética e a fonologia nada tem a ver com a</p><p>divisão tradicional, que dividiria a palavra marra em marra. Note que os dois “rr”</p><p>representam um único fonema, marcado pela vibrante múltipla, [ř].</p><p>Tente realizar o mesmo exercício descrito acima com as palavras carro, faro,</p><p>atroz, época e brisa.</p><p>Resumindo... aprendemos o conceito de sílaba adotado pela fonética e</p><p>fonologia, que se relaciona ao jato de ar expelido durante a contração dos pulmões.</p><p>Vimos que a sílaba tem três partes: a central, chamada pico ou núcleo de sílaba,</p><p>sempre preenchida por um segmento vocálico, e as duas partes periféricas, cujo</p><p>preenchimento, opcional, sempre é feito pelos segmentos consonantais.</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>33</p><p>A sílaba: tonicidade</p><p>O acento das palavras é estudado pela tonicidade, que é fundamental em</p><p>Língua Portuguesa.</p><p>A tonicidade é caracterizada, fisicamente, por um jato de ar mais forte em</p><p>relação às outras sílabas, não acentuadas ou átonas. Ao pronunciarmos uma vogal</p><p>tônica, elevamos o volume de nossa voz, o que faz com que percebamos facilmente</p><p>a tonicidade de um segmento vocálico. As vogais átonas são pronunciadas com um</p><p>volume de voz mais baixo, portanto percebidas de maneira distinta pelo nosso</p><p>aparelho auditivo.</p><p>As vogais, que sempre constituem pico de sílaba, dividem-se em tônicas e</p><p>átonas. As vogais tônicas ou acentuadas têm o acento mais forte, chamado acento</p><p>primário, e apresentam proeminência acentual em relação às demais vogais da</p><p>palavra. As vogais átonas ou não acentuadas têm um acento chamado secundário</p><p>ou são isentas de acento. É importante fazer um alerta para que não se confunda o</p><p>acento relativo à tonicidade com o acento gráfico, utilizado em algumas palavras para</p><p>marcar a tonicidade. A palavra “pato”, por exemplo, tem a vogal [a] tônica, com acento</p><p>primário, apesar de não ter acento gráfico. Essa distinção é fundamental para a correta</p><p>assimilação do conceito de sílaba tônica, que muitas vezes não é marcada na escrita</p><p>com um acento gráfico (´ ou ^).</p><p>Nas transcrições fonéticas que estamos realizando, utilizamos um apóstrofo</p><p>precedendo a vogal ou a sílaba acentuada: [‘řatʊ]. As vogais tônicas estão em</p><p>oposição às átonas, que se subdividem em pretônicas e postônicas. As vogais</p><p>pretônicas, como o prefixo indica, vêm antes do acento tônico, e as vogais</p><p>postônicas, depois do acento tônico. Como vimos, as vogais átonas podem ter um</p><p>acento secundário ou serem isentas de acento. Se tiverem um acento secundário,</p><p>este pode ser marcado por um apóstrofo colocado na parte inferior ou pelo símbolo</p><p>de acento grave: [,ka’ɾa] ou [kà’ɾa] — “cará”.</p><p>Quando a vogal átona é isenta de acento, não se coloca nenhum símbolo</p><p>distintivo. Temos como exemplo a palavra “morada”, em que a primeira vogal, átona,</p><p>tem acento secundário; a segunda vogal, tônica, tem acento primário; e a terceira</p><p>vogal, átona, é isenta de acento: [,mo’ɾada] ou [mò’ɾada]. A vogal átona [o] é</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>34</p><p>pretônica, já que se localiza antes do acento tônico, e a vogal átona [a] final é</p><p>postônica, pois se localiza após o acento tônico.</p><p>O ritmo da fala é caracterizado justamente pela relação entre os acentos</p><p>primários e secundários e a ausência de acento. O ritmo é responsável pela</p><p>organização da cadeia sonora, que é regida pelos acentos nas sílabas. Em línguas</p><p>tonais, como o mandarim (China), os picos de sílaba carregam tons, que podem ser</p><p>altos, médios, baixos ou de contorno. A cada alteração de tom, pode processar-se</p><p>uma alteração de sentido na palavra.</p><p>Resumindo... estudamos a tonicidade - vogais tônicas e átonas - a sua</p><p>importância para o ritmo da fala, a forma de percepção pelos ouvintes, com o</p><p>aumento do volume de voz na sílaba tônica, e a maneira de representá-la, através</p><p>dos acentos primários, marcados pelo apóstrofo superior (‘), dos acentos</p><p>secundários, marcados pelo apóstrofo inferior ou pelo acento grave, e da isenção de</p><p>acentos, que não é marcada nas transcrições fonéticas.</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>35</p><p>Aula 09_ As vogais pretônicas e postônicas</p><p>Palavras-chave: vogais; posições; pronúncias.</p><p>Ao iniciarmos o estudo sobre o sistema vocálico do português, classificamos</p><p>apenas as vogais tônicas, cujo conceito aprendemos na aula passada. É importante</p><p>lembrar que as vogais tônicas são homogêneas no português, ou seja, quase não</p><p>apresentam variações nos dialetos brasileiros, e correspondem a sete fonemas.</p><p>Observe a tabela abaixo, já apresentada na aula 10.</p><p>Anterior central posterior</p><p>arred. não-</p><p>arred.</p><p>arred. não-</p><p>arred.</p><p>arred. não-</p><p>arred.</p><p>alta</p><p>I</p><p>u</p><p>média-alta</p><p>e</p><p>o</p><p>média-</p><p>baixa</p><p>ɛ</p><p>ɔ</p><p>baixa</p><p>a</p><p>Vejamos agora, as vogais pretônicas orais e as postônicas orais do português</p><p>brasileiro. Observe abaixo o quadro das vogais pretônicas orais:</p><p>Anterior central posterior</p><p>arred. não-</p><p>arred.</p><p>arred. não-</p><p>arred.</p><p>arred. não-</p><p>arred.</p><p>alta</p><p>i</p><p>u</p><p>média-alta</p><p>e</p><p>o</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>36</p><p>média-</p><p>baixa</p><p>(ɛ)</p><p>(ə)</p><p>(ɔ)</p><p>baixa</p><p>a</p><p>Como vimos quando estudamos as consoantes, os diferentes dialetos do</p><p>Brasil realizam alguns fonemas de formas distintas. É o que veremos no caso das</p><p>vogais pretônicas, que têm sua pronúncia alterada dependendo da região do país.</p><p>Normalmente, as vogais [i,e,o,u] são pronunciadas da mesma forma: sinal, geral,</p><p>coral e musical. Porém, há algumas palavras que apresentam variação em sua</p><p>pronúncia, como: menino e coruja. Podem ocorrer três pronúncias distintas:</p><p>• com [e,o] pretônicos – m[e]nino e c[o]ruja</p><p>• com [i,u] pretônicos – m[i]nino e c[u]ruja</p><p>• com [ɛ, ɔ] pretônicos – m[ɛ]nino e c[ɔ]ruja</p><p>Esta variação entre os segmentos vocálicos marca uma variação dialetal, ou</p><p>seja, mostra que existem diferenças de pronúncia nos dialetos do português</p><p>brasileiro. Os sons [ɛ, ɔ] estão entre parênteses no quadro das pretônicas justamente por</p><p>ocorrem em condições específicas, marcando uma variação dialetal.</p><p>Outro segmento entre parênteses, [ə], ocorre somente em alguns dialetos,</p><p>como o carioca. É uma vogal central média-baixa, que também pode ocorrer,</p><p>segundo Silva (2003, p. 81) em alguns dialetos paulistas, quando ao [a] segue-se</p><p>uma consoante nasal, como em cama e cana.</p><p>As vogais postônicas do português brasileiro podem ser subdividas em finais</p><p>e mediais. Assim, como as pretônicas, as vogais postônicas também são importantes</p><p>instrumentos para marcarem as variações dialetais.</p><p>As vogais postônicas finais são, na maior parte dos dialetos do português,</p><p>representadas pelos sons [I,ə,ʊ] que, como vimos, são vogais frouxas, em oposição às</p><p>tensas, necessitando de menor esforço muscular para serem produzidas. A</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>37</p><p>palavra “verde”, por exemplo, tende a ser pronunciada como [‘veɾdI] e não como</p><p>[‘veɾde], apesar de esta última forma poder ocorrer em alguns dialetos do Brasil. A</p><p>palavra “gato”, que vimos anteriormente, é outro exemplo. Na maior parte do Brasil,</p><p>fala-se [‘gatʊ], porém podemos encontrar pronúncias como [‘gato]. Outro exemplo é</p><p>palavra “gota”, que pode ser pronunciada [‘gotə] (mais comum) ou [‘gota] (mais rara). É</p><p>comum encontrar nos autores somente as vogais [I,ə,ʊ] na descrição das vogais</p><p>postônicas finais em português. Porém, não podemos descartar as outras vogais,</p><p>[i,e,a,o], apesar de bem mais raras.</p><p>As vogais postônicas mediais ocupam a posição entre a vogal tônica e a vogal</p><p>átona final, em palavras proparoxítonas. Um exemplo é a vogal i da palavra “público”.</p><p>Perceba que o segmento vocálico [i] encontra-se entre a vogal tônica [u] e a átona</p><p>final, [o] ou [ʊ]. Segundo Silva (2003, p. 87), existem muitas diferenças de pronúncia</p><p>das vogais postônicas mediais no português brasileiro. Em estilo formal, as vogais</p><p>postônicas mediais mais frequentes são [i,e,a,o,u]; já em estilo informal as vogais</p><p>[I,ə,ʊ] ocorrem com mais frequência.</p><p>Observe abaixo os exemplos fornecidos por Silva (2003, p. 90), que analisou as</p><p>vogais mediais em um estudo piloto no Brasil.</p><p>• tráfico – tráf[i]co (formal) – tráf[I]co (informal)</p><p>• sílaba – síl[a]ba (formal) – síl[ə]ba (informal)</p><p>• cédula – céd[u]la (formal – céd[ʊ]la (informal)</p><p>Estudamos as vogais pretônicas, que ocorrem antes do acento tônico, e as</p><p>vogais postônicas finais e mediais, que ocorrem após o acento tônico. Percebemos</p><p>que as vogais átonas, tanto pretônicas quanto postônicas, marcam variação dialetal,</p><p>sendo produzidas de diferentes formas nos dialetos do português brasileiro.</p><p>As vogais nasais</p><p>Informações importantes: algumas vogais são produzidas com o abaixamento</p><p>do véu palatino, o que faz com que a corrente de ar penetre na cavidade nasal. Esse</p><p>fenômeno provoca a alteração da qualidade vocálica das vogais, que passam a ser</p><p>nasais, em oposição às vogais orais. Em português, porém, a qualidade vocálica das</p><p>vogais nasais não é tão diferente da qualidade das orais, por isso para representar</p><p>as nasais utiliza-se o mesmo símbolo das orais com um til (~) colocado acima delas.</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>38</p><p>Dessa forma, temos cinco vogais nasais em português: [ã,ẽ,ĩ,õ,ũ]. As vogais</p><p>médias-baixas [ɛ,ɔ] nasais são equivalentes às vogais médias altas [e,o], por isso</p><p>tratamos as vogais nasais como altas, médias ou baixa. As altas são [ĩ,ũ], as médias,</p><p>[ẽ,õ] e a baixa, [ã].</p><p>As vogais nasais ocorrem tanto em meio de palavra quanto em final de</p><p>palavra. Observe os exemplos abaixo retirados de Silva (2003, p. 91):</p><p>Final de palavra</p><p>[ĩ] vim – [‘vĩ] [ẽ]</p><p>(não há) [ã]</p><p>lã – [‘lã]</p><p>[õ] tom – [‘tõ]</p><p>[ũ] jejum – [ʒe’ʒũ]</p><p>Meio de palavra</p><p>[ĩ] cinto – [‘sĩtʊ]</p><p>[ẽ] cento – [‘sẽtʊ]</p><p>[ã] santo – [‘sãtʊ]</p><p>[õ] conto – [‘kõtʊ]</p><p>[ũ] assunto – [a’sũtʊ]</p><p>Em alguns dialetos do Brasil algumas vogais sofrem um fenômeno chamado</p><p>nasalidade. Tal fenômeno ocorre quando a vogal, normalmente oral, é seguida por</p><p>uma consoante nasal [m,n,ɲ]. Um exemplo bastante comum de palavra com variação</p><p>de pronúncia conforme o dialeto é “banana”, que pode ser produzida como b[a]nana</p><p>(oral) ou b[ã]nana (nasal).</p><p>A nasalidade não pode ser confundida com a nasalização, que ocorre</p><p>quando uma vogal é obrigatoriamente nasal. Como exemplo, temos a palavra “vã”</p><p>(adjetivo feminino) em oposição a “vá” (presente do subjuntivo do verbo “ir”). Se a</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>39</p><p>vogal [a] do adjetivo “vã” não for articulada como nasal, há uma alteração de sentido</p><p>na palavra, ou seja, a vogal nasal, neste caso, é obrigatória. Casos semelhantes a</p><p>este são denominados nasalização.</p><p>Confira no quadro abaixo casos de nasalidade e de nasalização:</p><p>Nasalidade (não há alteração de sentido) Nasalização (há alteração de sentido)</p><p>b[a]nana / b[ã]nana v[a] / v[ã] (vá / vã)</p><p>V[a]nessa / V[ã]nessa f[i]ta / f[ĩ]ta (fita / finta)</p><p>pij[a]ma / pij[ã]ma b[o]ba / b[õ]ba (boba / bomba)</p><p>f[ɔ]me / f[õ]me c[ɔ]ta / c[õ]ta (cota / conta)</p><p>Sintetizando as ideias, vimos que os três principais critérios de classificação</p><p>das vogais: altura da língua, anterioridade e posterioridade da língua e</p><p>arredondamento ou não dos lábios, além disso a diferença entre a nasalização e</p><p>nasalidade.</p><p>UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS</p><p>Núcleo de Ensino a Distância</p><p>40</p><p>Aula 10_Introdução à fonologia</p><p>Palavras-chave: premissas; ambiente; simetria; flutuação, segmentos suspeitos.</p><p>A fonética se distingue da fonologia apesar de as duas ciências se situarem</p><p>no mesmo campo de conhecimento: os sons da fala. Enquanto a fonética se ocupa</p><p>do modo de produção e assimilação dos sons pelo corpo humano, a fonologia,</p><p>também chamada de fonêmica, relaciona-se ao estudo da sequência de sons</p><p>que formam um significado para uma determinada língua. O objetivo da</p><p>fonologia é, portanto, a descrição e a análise de como cada língua natural organiza</p><p>os sons.</p><p>Um bom exemplo de estudo realizado pela fonologia é dado por Silva (2003,</p><p>p. 117):</p><p>Mesmo sem sabermos o significado de uma palavra como ‘sali’ sabemos</p><p>que a cadeia de segmentos é possível de ocorrer em uma palavra do</p><p>português. Portanto, falantes do português interpretam ‘sali’ como sendo</p><p>uma palavra possível do português. Por convenções ortográficas inferimos</p><p>que tal palavra é oxítona e a pronunciamos [sa’li]. Entretanto, uma palavra</p><p>como ‘spali’ não tem a mesma</p>