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<p>30 M. I. Finley que se convencionou aceitar como o fim da Antiguidade). A per- manência da língua grega é irrelevante. Antes de mais nada, os significados das palavras podem modificar-se radicalmente. o cargo de strategos, ainda comum na Grécia romana, não se assemelha à strategia das poleis do século V a. C. mais do que os baronatos da Inglaterra do século àqueles da Magna Carta. Em segundo lugar, Capítulo 1 durante um longo espaço de tempo, o legado foi transmitido em latim de e para escritores latinos. Mesmo após o reflorescimento da Grécia, na Renascença, os autores romanos continuaram a desta- Política car-se na crônica - basta citar Ovídio e a mitologia grega. A difusão de idéias e instituições - o legado é uma forma de difusão, mais no tempo do que no espaço - jamais se constitui o ato mecânico de copiar meramente por amor à cópia. Legado im- plica valores. É sempre seletivo, isto é, existe também rejeição, M. I. Finley ausência de legado, e também infinita adaptação, modificação, distorção. Grande parte deste livro consiste de um relato de tais Em Atenas, explicava o sofista Protágoras, "quando o objeto transformações e rejeições. A estrutura institucional e social da de sua deliberação implica sabedoria política, (...) eles ouvem a civilização européia modificou-se fundamentalmente, não só uma, cada homem, porque supõem que todos devem participar desta porém várias vezes, nos mais de dois mil anos decorridos desde o virtude; do contrário, não poderiam existir poleis" (Platão, Protá- fim da Hélade clássica. Não houve, portanto, legado institucional goras, 322E-323A). em qualquer sentido significativo, em que pese as ocasionais e Eurípedes expendeu a mesma opinião em sua obra As supli- inúteis tentativas de regredir no tempo e mesmo falsas alegações, cantes (II, 438-41), escrita nos anos 420: citando as palavras do mais comuns, de remota autoridade quanto a instituições e mudan- arauto, na reunião da Assembléia "Que homem tem um bom ças institucionais. conselho a oferecer à cidade (pólis) e deseja torná-lo conhecido?" A Revolução Francesa, conforme tem sido observado com comentou Teseu: "Isso é liberdade. Quem deseja é ilustre; quem compreensível exagero, desfraldou alternadamente a bandeira da não deseja cala-se. Para a cidade, que poderia ser melhor?" República Romana e a do Império Romano. Não foi, é claro, nem Os julgamentos de Protágoras e de Eurípedes só foram possí- uma coisa nem outra, o que constitui excelente exemplo do uso (ou veis em virtude de uma inovação grega fundamental: a política. do abuso) ideológico do passado para fins atuais. Houve, entretan- Governo é outra coisa: toda sociedade, qualquer que seja sua com- to, um legado cultural substancial, autêntico - o que é um lugar- plexidade, requer dispositivos para fixar normas e fazê-las obede- comum e a complexidade de adaptá-lo a uma série de diferen- cidas, para desempenhar funções comunitárias, militares e civis e tes ambientes é talvez o mais interessante e mais difícil de todos os solucionar disputas. Toda sociedade requer também a sanção de aspectos. dispositivos e de normas, bem como uma noção de justiça. Os gre- gos, porém, adotaram uma decisão radical e dupla. Localizaram a fonte da autoridade na pólis, na própria comunidade, e decidiram- M. Finley (1998) legado da se pela política da discussão aberta, eventualmente pela votação por meio da contagem do número de cabeças. Isso é política, e os Uma Brasilia,</p><p>32 Finley o legado da Grécia 33 dramas e a historiografia grega do século V revelam até que ponto A Sólon de Atenas, ao contrário, coube a tarefa de codificação a política chegou a dominar a cultura grega. por meio de acordo mútuo entre as partes litigantes; não invocava É óbvio, discutia-se política nas sociedades vizinhas e mais nem inspiração ou revelação divina, nem "sangue real". antigas, nos círculos das cortes dos reis do Egito, da Assíria e da Essa insistência no caráter secular da vida pública parece ne- Pérsia, ou em níveis menos elevados nas cortes dos sátrapas gligenciar a religiosidade ubíqua dos gregos. Havia altares por toda persas e nos círculos dos "heróis" homéricos. Tais discussões não parte; nenhum ato público (e poucos atos privados sérios) era reali- constituíam política, entretanto, por não serem abertas nem obri- zado sem um sacrifício inicial; o juramento era o endosso habitual gatórias. o rei ou sátrapa recebia conselhos, mas não era forçado a em acordos públicos; os deuses eram consultados por meio de orá- dar-lhes atenção, nem mesmo a solicitá-los. Os que tinham acesso culos e de outros modos, e partilhavam as vitórias; a realização de a eles planejavam, tramavam e, por vezes, conspiravam, a fim de festivais religiosos importantes era de responsabilidade do Estado, lhes imporem decisões, procedimento denominado "governo de bem como o castigo pela irreverência e a Entretanto, sala de espera", de preferência a "governo de sala de audiências". nem no período clássico nem no helênico essa ponderável quanti- o mesmo se aplica aos tiranos gregos, cuja existência se constituía, dade de atividades rituais colidia, normal ou seriamente, com as portanto, negação da idéia de pólis, e em cujos regimes a política decisões políticas, ou delas divergia. deixava de existir. Podia-se adiar uma batalha durante alguns dias; uma condena- Deve-se reconhecer que houve também algumas comunidades ção por culpa de irreverência talvez prejudicasse a profissão de políticas primitivas não-gregas, pelo menos entre os fenícios e os alguém, mas não se conhece caso em que o oráculo de Delfos, por etruscos. exemplo, decidisse a respeito do curso de atividades de um Estado Não deixa de ser verdadeira, porém, a afirmativa de que, efeti- (o que é diferente de explicar retrospectivamente um fracasso). No vamente, os gregos "inventaram" a política. Na tradição ocidental, leste helenístico posterior a Alexandre, talvez de modo ainda mais a história política sempre se iniciou com os gregos, o que é simbo- significativo, os reis do Egito e da Síria tornaram-se deuses, sendo lizado pela própria palavra "política", cuja raiz se encontra na pa- sua divindade ressaltada em cultos, ou em suas moedas, e ocasio- lavra pólis. Além disso, em nenhuma outra sociedade do Oriente nalmente em seus cognomes (Epifânio, a Revelação de Deus), mas Próximo a cultura era tão politizada quanto entre os gregos. suas leis e editos eram invariavelmente promulgados em nome dos Tampouco qualquer sociedade anterior secularizou o governo, homens, e não dos deuses, e jamais se considerava sacrilégio sua em todos os seus aspectos ideológicos e práticos, como a grega. transgressão. Nada mais pôde ser retirado, por exemplo, do Código de Hamu- mesmo ocorria nos tribunais: as testemunhas continuavam a rabi. Do extenso preâmbulo consta, no parágrafo inicial: depor sob juramento, mas este se tornara uma cerimônia, não a prova formal de antigamente (Homero, Ilíada, 23, 581-5). Agora e Ilio," para a prosperidade do povo, me chamaram pelo era necessário persuadir juízes e jurados; a ameaça de que o perjú- nome de Hamurabi, o venerável príncipe temente a Deus, a fim rio provocaria a ira dos deuses já não convencia. Como, pois, defi- de fazer surgir na Terra a justiça, destruir o mal e os perversos, nir e determinar justiça e injustiça? Esse, obviamente, o problema evitar que os fortes oprimam os fracos. contido na literatura grega, não só na arcaica como na clássica, e mais agudamente entre os filósofos, a começar pelos sofistas. Mas tal fato constituía também um problema nos negócios práticos, não em termos abstratos ou gerais, mas nas decisões do dia-a-dia de assembléias, magistrados e tribunais. Uma vez que falta à religião Anu: deus supremo da mitologia (N.T.) grega, desde o passado mais remoto que podemos investigar, o componente da revelação os oráculos e outras formas de comu- ou flion: um dos nomes de Tróia. (N.T.)</p><p>34 M. Finley o legado da Grécia 35 nicação com poderes sobrenaturais eram ligados a atos específicos, É compreensível que nossas principais fontes se concentrem não a princípios ou até mesmo do que se pode chamar a "quase- no stasis constitucional, ou seja, no conflito entre oligarquia e de- revelação" de um Hamurabi, o homem tinha de recorrer a si pró- mocracia, o mais importante estímulo à guerra civil de caráter total. prio e a seus ancestrais (tradição e costume) para as respostas. Em No entanto, elas também oferecem suficientes exemplos de stasis momentos difíceis, talvez os gregos se tenham voltado para um entre facções oligárquicas, lembrando-nos de que política não era "legislador", a fim de codificar as soluções corretas, mas essa deci- algo restrito a democracias. As oligarquias também aceitavam o são não advinha da regra da autoconfiança humana. poder da lei e também lhes faltava uma autoridade de sanção ex- Para que tal sociedade funcionasse e não desmoronasse, era terna; portanto, constituíam-se, igualmente, em sociedades políti- essencial um amplo consenso, uma noção de comunidade e uma cas. Os tipos de participantes e de instrumentos de atividades autêntica disposição por parte de seus membros para viverem con- políticas diferiam, mas não o papel subjacente representado pela forme certas regras tradicionais, aceitarem as decisões das autori- política. dades legítimas, só fazerem modificações mediante amplo debate e Hoje, o direito de voto é amplamente reconhecido como o posterior consenso; numa palavra, aceitarem o "poder da lei" tão mais essencial dos privilégios (e um dever) de um cidadão. E era proclamado pelos escritores gregos. Por conse- também o que ocorria, dentro de certos limites, na República ro- guinte, o processo resultou tanto em novas regras quanto, simulta- mana. Na pólis grega, contudo, embora se tratasse de um impor- neamente, em sua sanção; e, como já foi dito antes, a isso se chama tante direito, representava apenas um dentre vários direitos política. Ademais, em um mundo de profundas desigualdades, igualmente exclusivos o direito à propriedade, o direito a con- mesmo entre os membros da comunidade (bastante afastados da- trair casamento legal com outro cidadão, o direito de participar de queles que, como os escravos, eram totalmente discriminados), de várias atividades ligadas a cultos importantes e só nas democra- comunidades diminutas, tanto em termos de território quanto de cias estava à disposição de todos os cidadãos, enquanto os demais população, as questões eram relativamente claras e óbvias, en- direitos eram universais, normalmente até mesmo sob tiranias. Por quanto os conflitos eram agudos. conseguinte, a qualidade de membro do corpo de "cidadãos ativos" A palavra grega para a expressão "conflito político" era stasis, e a de membro da "comunidade (koinonia) de todos os cidadãos" termo bastante estranho, com uma gama de conotações que variava não era coextensiva; daí, igualmente, a desde o quotidiano "conflito entre partes" (para utilizar uma ana- com que o stasis ligado ao acesso aos direitos políticos degenerava crônica frase moderna) até guerra civil declarada, o que marca o em guerra civil. fracasso final do consenso e o abandono da política. Guerras civis, Os direitos políticos sobre os quais eles lutavam incluíam com os derramamentos de sangue, exílios e desloca- embora o transcendessem o direito à escolha de autoridades e mentos de propriedades, eram frequentes nas clássicas cidades- corpos legislativos. Em debate estava a participação direta, pela Estado, com algumas notáveis como Atenas e Esparta. voz e pelo voto, no processo de decisão e no processo judiciário Elas foram motivo de muita preocupação entre os grandes escrito- (entendido de modo suficientemente amplo, de forma a incluir a res políticos sobreviventes Tucídides, Platão e Aristóteles e, avaliação do desempenho e, se necessário, a punição de autorida- desta maneira, tendemos a julgar a situação de forma equivocada. des civis e militares). o direito a voto, noutras palavras, significa- Unicamente em Utopia pode haver uma sociedade sem qualquer va, acima de tudo, o direito de votar num corpo legislativo ou dissensão a respeito de questões importantes; em uma sociedade judiciário, e não meramente participar de uma eleição. Essa a razão política, o "conflito entre partes" é essencial à continuidade de sua pela qual os governos clássicos gregos, fossem oligárquicos ou existência e ao seu bem-estar, e é tão errado encarar de forma pejo- democráticos, são classificados como "direitos", em contraste com rativa todos os exemplos nas poleis gregas quanto o seria denegrir a política partidária contemporânea.</p><p>36 I. Finley o legado da Grécia 37 a expressão "representativos". Tanto em Atenas como em outras tabus no que concerne a culto e a relações sexuais, o corpo sobera- democracias, quando cada cidadão se tornava membro, exceto no era incondicionalmente livre quanto às decisões que tomava. alguns, excluídos em virtude de transgressões pessoais específicas, Em certas áreas ou facetas do comportamento humano, ele nor- o "governo pelo povo" eventualmente adquiria conotação literal malmente não interferia, mas apenas por não o desejar, ou por não jamais atingida antes, ou desde então, na história ocidental. pensar em fazê-lo. o indivíduo não possuía direitos naturais de Entretanto, pessoa alguma, nem mesmo o mais "radical" de- interditar um ato do Estado, nem direitos inalienáveis eram conce- mocrata, desejaria destruir a tradicional "comunidade" dos cida- didos ou sancionados por uma autoridade maior. Não existia auto- dãos, um fechado conjunto de famílias cujos membros sucediam ridade maior. uns aos outros na ordeira das gerações. Conforme o De modo ideal, naturalmente, uma participação total no pro- costume grego, os "atenienses" (jamais "Atenas") declaravam cesso decisório significava todo o direito a influir nas decisões, guerra aos "espartanos" (não a "Esparta"). Se não se tratasse de um não só pelo pronunciamento, no corpo soberano, mas também ateniense nato, apenas por ato formal do corpo soberano se podia pelo voto, quer se tratasse de uma oligarquia ou de uma democra- admitir alguém como membro da comunidade. Não só as mulheres, cia. E, ainda sob o ponto de vista ideal, um direito total significa- crianças e escravos eram excluídos, o que não surpreende, mas va igualdade com cada um dos outros membros e a prerrogativa também os escravos libertos (diferentemente da prática romana) ou de falar livremente. As assembléias de cidadãos gregos não se os homens livres que migravam de outros Estados gregos ou do restringiam a democracias: já são mencionadas nos poemas ho- mundo "bárbaro", ou mesmo seus filhos, nascidos e criados em méricos, mas nelas, as pessoas comuns eram meros ouvintes; em cidades que os classificavam como estrangeiros. Creta e Esparta, segundo Aristóteles (A política, 1272a10-12), No período clássico, as concessões de cidadania a pessoas de elas se limitavam a votar proposições que lhes eram apresentadas fora eram raras e sempre resultavam de atos ou circunstâncias ex- pelos antigos e pelas autoridades. Na forma final, porém, da de- cepcionais. Aristóteles, escrevendo no fim do período clássico, mocracia ateniense e possivelmente de outras democracias gre- observou que uma política mais generosa constituía, em fases de gas, cada cidadão presente tinha, em princípio, o direito de redigir grave escassez de mão-de-obra, medida provisória abandonada tão ou de emendar projetos, de pronunciar-se a favor ou contra os logo terminasse a crise (A política, 1278a26-34). Cabe acrescentar requerimentos apresentados por outros. Isso estava implícito no que as democracias, ao que parece, eram particularmente ciosas pregão do arauto: "Quem tem bom conselho a dar à pólis e deseja quanto à cidadania. torná-lo conhecido?" Em termos políticos, a comunidade exercia poder total, porém Na prática, as coisas eram diferentes. A Assembléia ateniense nos limites impostos pelo "poder da lei", o que significa que, por normalmente se reunia num anfiteatro natural, na colina denomi- mais que existisse esse entendimento, e em razão de determinados nada Pnyx, e é surpreendente que, em semelhante ajuntamento, ao ar livre, de milhares de homens, que não dispunha de modernos dispositivos amplificadores, com uma pauta que Há confusão em algumas obras modernas sobre esse assunto, quando chamam a devia ser cumprida em um único dia, o cidadão comum desejasse Bulé Ateniense (Conselho), por exemplo, um corpo representativo. Nenhuma ou ousasse pedir a palavra e fosse ouvido, se fizesse isso. Não é comunidade tão complexa quanto Atenas poderia funcionar sem delegar muito preciso que nos obriguemos a crer no incrível: a evidência literária do trabalho diário do governo e da administração a indivíduos ou a pequenos grupos. A verdadeira está no poder. Em uma democracia representativa, e epigráfica não deixa dúvida de que os pronunciamentos e a real o "controle" popular fica restrito à escolha de funcionários e de uma assembléia formulação de políticas e de proposições constituíam um monopó- legislativa, seguida pelo direito de rejeitá-los em eleição Numa democracia não há simplesmente um controle indireto, mas uma sobera- nia popular imediata. A diferença será facilmente observada na decisão de decla- Lugar, na Atenas Clássica, onde eram reunidas as assembléias do povo. (N.E.) rar guerra.</p><p>38 o legado da Grécia 39 lio do que podemos chamar "pequena classe política", aqueles em o comparecimento às reuniões da Assembléia quem Tucídides pensara (8, 1.1) ao reclamar que, confirmado o constituía o último dos deveres a serem pagos com um subsídio desastre siciliano, o novo "se voltara contra os oradores públicos diário, no início do século IV, depois da derrota dos Trinta Tiranos. (rhetores) que haviam favorecido a expedição, como se eles pró- Permanece controverso qual seria a média da Escavações prios tivessem votado a favor arqueológicas revelaram que, no século V, a Pnyx não poderia con- Portanto, qualquer avaliação da política na pólis requer cuida- ter mais de 6 mil homens e que foram realizadas ampliações no sé- doso equilíbrio entre ideal e realidade, entre ideologia e prática. culo IV, sendo a capacidade talvez duplicada por volta de 330 a. C. Não constitui grande desvantagem que só se possa tentar fazê-lo no sugestão plausível foi a de que a fixação de pagamento pela que concerne a Atenas, ante as condições de nossos indícios, uma frequência requeria tais modificações, e de que, no século IV, o vez que Atenas era a quinta-essência da pólis política. o que se número de 6 mil era normal, aumentando em reuniões destinadas a segue, se aplica, pois, específica e unicamente a Atenas, embora o itens importantes dos negócios públicos. mesmo se possa presumir a propósito das outras democracias, sob Quanto a se dever considerar alta ou baixa a regular de 15% a 20% dos homens qualificados, é assunto subjetivo, que aspectos importantes, mas não sob todos. A restrição mais evidente para atingir-se esse ideal, com sua não poderia ser resolvido satisfatoriamente. Mais objetivo seria in- ênfase na igualdade, advinha da ponderável desigualdade entre os dagar: até que ponto é representativa essa amostra de 15% a 20%? membros da população de cidadãos. Basta limitar as diferenças à Impossível responder de acordo com os indícios de que dispomos, riqueza. Sem meios nem tempo para obter educação adequada, ou embora repetidas tentativas tenham sido realizadas no sentido de para manter os padrões das finanças, das relações exteriores e de uma estimativa a partir de ocasionais observações nas fontes. outros assuntos de interesse público, dificilmente se poderia espe- É inegável que, em determinadas ocasiões, inevitavelmente rar que um cidadão se pronunciasse e fosse ouvido por ocasião das ambos os setores da população o mais rico e o mais pobre deliberações. Ele poderia, mesmo, considerar excessivamente cus- tiveram representação inferior à adequada, por motivos militares; a toso e incômodo com regularidade as reuniões da As- primeira, por exemplo, em 462 a. C., quando Címon contratou a aju- sembléia, quarenta dias por ano, durante o ano todo, em particular da de 4 mil hoplitas para ajudar Esparta a dominar a revolta ilota se se tratasse de um camponês que vivesse nas aldeias mais afasta- em Messênia; a última, em 411, quando a frota ateniense estava das da Ática. Isso era tão evidente que foram adotadas providências, ancorada em Samos. Pode-se supor que a ausência de 4 mil hopli- principalmente nas décadas do meio do século V, para igualar os tas favoreceu os avanços democráticos iniciados por Efialtes; sem cidadãos de modo artificial. Os cargos públicos, em sua quase to- dúvida, a ausência de milhares de thetes foi vital para o golpe oli- talidade, inclusive os dos quinhentos membros do Conselho, eram gárquico de 411. escolhidos ao acaso e exercidos em rodízio, de maneira a não só os Igualmente, não cabe dúvida de que os políticos em atividade tornar acessíveis ao povo, mas também a assegurar a disseminação consideravam a importância de tais flutuações de comparecimento, de experiência direta nos negócios estaduais do dia-a-dia a uma incluindo-as em seus cálculos táticos. Em grande parte, esse aspecto proporção notavelmente grande do corpo de cidadãos. Foi ainda essencial da política ateniense o planejamento, a organização e introduzido o princípio de que os homens que prestassem serviços a manobra que ocorriam sem cessar não consta das fontes de nos corpos administrativo e judicial deveriam ser recompensados pesquisa disponíveis, onde não se encontra coisa alguma compará- com um pequeno subsídio 3 Esta é uma cifra muito maior do que as que apresentam os relatos modernos; eu sigo as análises detalhadas das evidências apresentadas por M. H. Hansen, em 2 A observação de Tucídides expõe mordazmente a questão da responsabilidade "How many Athenians attended the Ecclesia?". Greek, Roman, and Byzantine studies, XVII (1976), pp. 115-134. política, à qual devemos retornar posteriormente.</p><p>40 Finley o legado da Grécia 41 vel às cartas de Cícero. A atenção concentra-se nos debates na só no contexto particular como no político, em oligarquias e demo- Assembléia, resumidos por Tucídides, ridicularizados por Aristó- A terminologia reflete o caráter pessoal e fluido dos agru- fanes e Platão, ou exemplificados nos discursos que nos ficaram de pamentos, que, não obstante, eram eficazes e, na verdade, Demóstenes e Ésquines. Eles certamente eram importantes, bem essenciais, a despeito de sua natureza informal e transitória. mais do que os atuais debates parlamentares. E certamente, tam- As duas palavras gregas comuns para um grupo desse tipo são bém, os líderes políticos não cometeriam a loucura de arriscar sua hetaireia e synomosia, algumas vezes transpostas para o inglês habilidade política e suas carreiras apenas em seu poder de oratória. com o pálido termo club, que tem pelo menos o mérito de ressaltar o jogo político era duro. Os pronunciamentos de Ésquines e seu aspecto social, como as expressões gregas. Não se tratava de Demóstenes, não importa quão alterados tenham sido antes de sua organizações políticas, nem na essência nem na origem (exceto no publicação, constituem uma orientação mais segura para o estilo que concerne aos grupos conspiradores que surgiram com a finalida- áspero desse jogo do que a austera versão de Tucídides ("relatada" de de preparar o golpe oligárquico de 411). Com senão por inteiro em seu próprio idioma). Eles nos informam como os sempre eram clubes de jantar de homens que haviam feito juntos políticos falavam em público e que argumentos desenvolviam, seu primeiro serviço militar, aos 18 e 19 anos de idade. A afiliação a mas, infelizmente, pouco revelam além de alusões a propósito da esses clubes era restrita, por definição, à metade mais rica da po- atividade política diária fora das reuniões da Assembléia e do Con- pulação, àqueles que estavam sujeitos aos deveres da infantaria, selho ou em negociações diplomáticas. A única prova concreta de como os hoplitas, a mesma camada social que monopolizou a lide- apuração de votos, por exemplo, encontra-se em um lote de acha- rança política e parte da atividade política profissional ao longo da dos arqueológicos casuais, no bairro dos oleiros: mais de 11 mil história de Atenas. A mudança de liderança ocorrida durante a óstracos do século V a. C., com inscrições de nomes. Tratava-se de Guerra do Peloponeso operou-se dentre desse limitado círculo: indicações de votação em cerâmica utilizada em um caso de ostra- "novos políticos", como Cléon, odiados e escarnecidos pelos dra- cismo, procedimento pelo qual determinada figura política era maturgos e pelos filósofos, eram tão ricos quanto os membros da enviada ao exílio por dez anos, se um mínimo de 6 mil votos fosse tradicional aristocracia dos proprietários de terras, com quem com- recolhido. Nessa coleção, alguns homens são citados em muitos petiam no campo da autoridade política, sem jamais substituí-los dos óstracos: o nome de encontra-se em mais de tre- completamente. Não se tem notícia de um só político importante zentos, obviamente gravados por um pequeno número de mãos. oriundo de um background de pobreza. Tampouco existiam clubs Em outras palavras, óstracos eram preparados de antemão em desse tipo cujos membros fossem da classe baixa. grande quantidade e distribuídos, numa forma elementar de vota- Não é fácil avaliar a disposição da massa populacional para confiar a política ativa a um pequeno número de cidadãos mais ção. Havia falta de dispositivos formais para tais atividades, das ricos, apoiados por seus amigos e associados da classe alta. Em quais a distribuição de óstracos constitui apenas um pequeno particular, seria preciso resistir à tentação de ceder à apatia política exemplo. Na verdade, não existiam partidos políticos, simples- popular. Então, como agora, a política era útil à maioria das pessoas, mente por falta do indispensável patrocínio. o sistema governa- e não a um interesse ou a uma finalidade em si. Por um lado, a mental não proporcionava empregos, pois não havia cargos tagarelice e as piadas políticas eram apreciadas por todos, consti- eletivos nem burocracia administrativa; a economia oferecia parcas tuindo a política assunto permanente de conversas; por outro, a oportunidades para contratos públicos, monopólios, autorizações ou subvenções. Em vez disso, os políticos tinham de contar com 4 parentescos e com pequenos grupos informais ou círculos sociais, Uma boa ilustração de Tebas é dada pelo trabalho histórico anônimo conhecido como Hellenica Oxyrhynchia, cap. 12, numa passagem na qual o autor destaca identificados na linguagem da época como "os de Fulano ou Sicra- claramente a inseparabilidade entre a política e as preocupações pessoais das no" (ou "do lado de Fulano ou Sicrano"), frase que se repetia não classes políticas.</p><p>o legado da Grécia 43 42 M. I. Finley árdua tarefa, quase que de tempo integral, de formular políticas e tal, pouco participassem dos debates políticos públicos gregos e sugerir sua aceitação pela máquina governamental era deixada a das responsabilidades políticas. Cícero certamente se apercebeu cargo de pequeno número de homens, que não só possuíam conhe- desse contraste, quando nas páginas iniciais do terceiro livro de cimento e dispunham de tempo, mas também gozavam de confian- suas Leis insistiu em que o imperium é essencial, por natureza, à ça de vastos segmentos da massa de cidadãos. justiça e à existência pacífica, seja no lar, seja no Estado. o sentido Um dos desafios pragmáticos do sistema é até que ponto havia radical de imperium é "ordem", "autoridade", e, embora os roma- continuidade de política por um período mais longo. Estudos sobre nos falassem do imperium populi Romani a sabedoria do povo a história do império ateniense, no século V, bem como da Segun- romano normalmente tinham em mente o poder oficial dos da Liga Ateniense e da complexa luta com Filipe da Macedônia, no mais altos magistrados, e é isso que Cícero enaltecia: "Pode-se na século IV, revelam a notável realização ateniense nesse desafio. verdade dizer que o magistrado é a lei enunciada (lex loquens), e a Houve desacordos e fracassos que sociedade não os teve? lei, um magistrado silencioso". Daí ser a obediência ao magistrado mas foram sobrepujados por uma hábil busca de objetivos mais condição necessária a uma sociedade justa. o limite entre altos, durante longos períodos. o fato de os historiadores modernos cia à lei e obediência ao magistrado (ou monarca) pode parecer aprovarem tais políticas, ou as desaprovarem, seguindo a orienta- indistinto, mas a distância entre as duas ênfases, a grega clássica e ção de antigos críticos, é irrelevante para o assunto de que trata, a romana, é intransponível e a última, não a primeira, viria a pro- como irrelevante é a habitual condenação dos "demagogos". porcionar o principal legado político à maior parte da história eu- "Quanto ao sistema ateniense de governo", escreveu um panfletista ropéia oligárquico no final do século V (Ps.-Xenofonte, A Constituição de Um grave colapso da responsabilidade política poderia condu- Atenas, 3,1 "não gosto dele. Entretanto, já que eles resolveram zir à anarquia; porém, na Grécia clássica, conduzia comumente à transformar-se numa democracia, parece-me que estão preservando guerra civil. Já se observou que a imunidade ateniense era excepcio- nal, embora não única Esparta consistiu noutra exceção durante bem a democracia". A continuidade da política implica mais do que liderança ca- longo tempo, embora por motivos diferentes. E por quê? Especifi- paz. No tipo de sociedade sob consideração, isso seria impossível camente, por que a pólis grega com tanta deixava de sem que a massa de cidadãos participasse de ampla responsabilida- resolver suas diferenças internas por meios políticos? Essa per- de política. A responsabilidade, que não é um conceito facilmente gunta deve ligar-se a outra. Por que as poleis gregas guerreavam definível, possui vários elementos nesse contexto. Um deles é, niti- incessantemente entre si? Não há resposta simples. No atual con- damente, "obediência à lei", não no mero sentido do respeito à lei texto, talvez baste a sugestão de que faltavam às poleis gregas re- de modo geral, mas também no da aceitação de todas as decisões cursos humanos, agrários e materiais que proporcionassem a seus específicas adotadas pelos corpos soberanos na conformidade dos cidadãos a "boa vida" que constituía a finalidade declarada do Es- preceitos legais, independentemente do quão dolorosos ou objetá- tado. Elas só eram capazes de vencer a escassez crônica à custa veis eles possam ser, do ponto de vista pessoal. Platão, em seja de uma parte de sua coletividade, seja de outros Estados. É discute maravilhosamente essa posição. Um segundo elemento da inútil especular sobre o possível surgimento do stasis sem fim do responsabilidade está evidente na relação entre a "classe política século IV se se tivesse permitido que os gregos sozinhos pusessem ativa", os líderes políticos e o resto dos cidadãos. A responsabili- em ordem seus assuntos, pois o poder externo superior forneceu a dade cívica, pode-se dizer, pois, consiste na seleção responsável de resposta, a começar com Filipe da Macedônia e seu filho Alexandre. líderes que, por sua vez, respondem por suas ações e políticas. Alexandre morreu em 323 a. C.; Aristóteles, no ano seguinte. Os "oradores" contra os quais se voltavam os atenienses não mundo helênico que se seguiu era monárquico quanto à forma de ocupavam cargos públicos; não eram o que os romanos chamavam governo. Algumas poleis independentes, como Rodes, sobrevive- "magistrados", e é significativo que os funcionários públicos, como ram como comunidades genuinamente políticas, até que a con-</p><p>44 M. I. Finley o legado da Grécia 45 quista romana fez cair o pano sobre a cena. Elas eram a exceção, apoiavam em burocracias, fenômeno novo na história grega; para a porém, e sofriam constante pressão dos reis. Embora a palavra elaboração de políticas, apoiavam-se em conselhos de "amigos" e, pólis continuasse a ser usada regularmente por toda a parte, a reali- como último recurso, no próprio direito ilimitado de tomar deci- dade aproximou-se muito mais de "cidade", no sentido estrito, do Era o governo de antecâmara. A "opinião pública", sem dúvi- que de pólis, no significado clássico. As cidades tornaram-se maio- da, manifestava-se, porém jamais por meio de discussão aberta sobre res no período helenístico, e seu número aumentou graças a novas o passado, pois para isso, no momento, faltavam tribunais. A política fundações nos territórios ocidentais conquistados por Alexandre: desaparecera; não havia legado da cidade-Estado como organismo Alexandria e Antióquia são os principais exemplos. político, no mundo grego pós-Alexandre. Nessas cidades, existia ainda a aparência de contínua atividade Tampouco houve tal legado em períodos posteriores da histó- política: lutava-se vivamente pelos cargos públicos; havia desacor- ria. Isso quer dizer que a longa e complexa história do legado cul- dos a propósito de políticas e dissensões faccionárias. Na maioria tural da Grécia era precisamente aquela; não se fazia acompanhar das cidades, porém naquelas situadas em territórios governados de um legado institucional. Esparta proporciona exemplos sufici- por monarcas o tema da política reduzia-se a uma vaga ima- entes: entre os muitos admiradores de Esparta ao longo dos sécu- gem. Os negócios políticos e militares foram-lhes completamente los, e mais recentemente na Alemanha nazista, não podem ser retirados, e os reis intervinham em assuntos puramente internos, encontrados sequer traços da idéia de tomar por modelo ou imitar quando lhes convinha. No final do século IV a. C., por exemplo, as instituições espartanas, tão diversas dos "valores" ou da Antígono I da Macedônia ordenou a fusão de duas cidades da Ásia espartanos. o mesmo é verdadeiro no que concerne a Atenas, com Menor, Teos e Lebedos, e estabeleceu com detalhes não apenas os uma exceção de pouca importância, embora interessante, à qual termos, mas também o regime legal dessa voltaremos em breve. Não surpreende que, em muitas cidades, os cargos municipais A política, como tal, constitui uma forma de comportamento passassem a ser ligados ao culto e aos jogos, substituindo os ar- público que pode existir em inúmeras sociedades radicalmente contes e os strategoi, postos políticos e militares da clássica cida- diferentes. A noção de "legado" só é significativa no que respeita à de-Estado. Paradoxalmente, a palavra "democracia" adquiriu estrutura na qual a política se desenvolve, não à política em si. Em sentido radicalmente novo, bem como certo prestígio entre os princípio, é possível tomar por empréstimo uma máquina de go- gregos helenísticos, significava entre os gregos sob verno ou um sistema legal, no todo ou em parte, conforme ocorreu imperadores romanos, podia até ser usada para expressar elogio ao amplamente na América Latina. Não é difícil compreender que coisa alguma sequer remotamente comparável jamais foi tentada imperador autocrata: com as instituições gregas, atenienses ou espartanas, democráticas Uma democracia comum da terra foi criada, sob um único ho- ou oligárquicas (embora elas fizessem livremente empréstimos mem, o melhor, soberano e dirigente, e todos se reúnem, como mútuos). num centro cívico comum, para que cada um receba o que lhe é As explicações originam-se, em grande parte, diretamente do devido (Aélio Aristides, A Roma, 60). fato de que a política grega pressupunha comunidades pequenas, situadas face a face; todas as suas principais instituições eram Os monarcas helenísticos, ao contrário dos tiranos gregos ante- baseadas nisso e não podiam ser transferidas para unidades terri- riores, procuraram institucionalizar e legitimar sua posição, mas toriais maiores. Nestas últimas, certa forma de representação era não eram monarcas "constitucionais". Institucionalmente, eles se inevitável, no caso da necessidade de tomadas de decisões basea- das em debate e acordo. Por sua vez, a representação requeria dife- rentes mecanismos das formas de pólis grega (apesar de os velhos 5 Welles, Royal correspondence in the Hellenistic period (New Haven, rótulos terem sido mantidos, por vezes), e um relacionamento dife- Conn., 3-4.</p><p>o legado da Grécia 47 46 M. Finley rente, embora definido, entre os membros do corpo de cidadãos e a campo. Com a criação do Império por Augusto, desaparecem todas as dúvidas. "classe política ativa". Nada disso, é claro, se aplica à Roma republicana, que fora Daí por diante, até os nossos dias, houve pouca oportunidade uma cidade-Estado em sua origem e manteve a ficção de constituir para qualquer influência. Somente as comunas do final da Idade uma cidade-Estado depois de se tornar concretamente um grande Média e da Renascença, principalmente na Itália, eram bastante Estado territorial. Desnecessário seria argumentar no sentido de pequenas em extensão. Entretanto, elas vieram a existir em dois que a Roma republicana era uma sociedade inteiramente política; contextos diferentes, econômica e politicamente, com relações apenas nos preocupa a presença ou a ausência de um legado grego muito diferentes entre cidade e campo, em todos os níveis, seja quanto ao lado institucional, assunto diverso do impacto da filoso- naquele da classe camponesa, seja no da nobreza feudal, para que fia política grega. A respectiva cronologia lança uma advertência pudesse haver empréstimos, ainda que dispusessem de muitos co- imediata: o interesse romano em escritores e teoristas gregos não é nhecimentos sobre as clássicas cidades-Estado gregas, o que de encontrado muito anteriormente ao ano 200 a. C., cerca de um fato não ocorria. século depois do colapso da clássica pólis grega, nem, igualmente, Outro óbice era a antiga hostilidade contra a democracia, à muito depois de se instaurar o sistema institucional romano. Esse qual a Atenas clássica era integralmente ligada. Wordsworth estava fato, por si, não afasta a possibilidade da influência grega na Roma sendo provocador, e não satírico, quando escreveu, numa carta primitiva: não é necessário que os homens se voltem para os livros particular, em 1794: "Não pertenço a essa detestável classe de a fim de aprender com seus vizinhos. gente chamada democrata". Bastaria ler as primeiras histórias Embora possamos ignorar como evidente ficção a referência a modernas da Grécia, escritas, nessa época, por Gillies, Mitford ou Sólon, por exemplo, feita pelo sábio Dionísio de Halicarnasso, Thirwall. Quando Grote respondeu, por assim dizer, expressou a escrevendo na época de Augusto, a um senador do século V a. C. filosofia dos utilitários: eles constituíam a exceção à qual já se fez (Antiguidades romanas, 5, 65.1), as comunidades gregas já existiam referência, e o valor que atribuíam à experiência política de Atenas no sul da Itália quando Roma ainda não era mais que uma tosca era educativo, em sentido um pouco limitado. "Sem embargo dos aldeia sob domínio etrusco. Uma possível fonte de conhecimento e defeitos", escreveu John Stuart Mill, "do sistema social e das idéias empréstimo estava, portanto, à mão. Devemos julgar segundo as morais da Antiguidade, a prática do dicastério e da eclésia eleva- próprias instituições; não há outro rumo a seguir. Podem-se desco- ram os padrões intelectuais da média dos cidadãos atenienses bem desenvolvimentos paralelos, mas não se trataria apenas de acima de qualquer coisa de que até agora haja exemplo em qual- reações independentes a problemas similares em pequenas comu- quer outra massa de homens, antiga ou reflexo da nidades que viviam e cresciam sob condições ecológicas e tecnoló- Oração Fúnebre em Tucídides é evidente: é no campo da teoria gicas comparáveis, com raízes comuns em épocas pré-históricas política, e não no das instituições, que se deve procurar um possí- vel legado. ainda mais distantes? Assim, ao ser derrubada a monarquia, outros tiveram de encar- regar-se da comunidade, e estes eram, naturalmente, aqueles que detinham o poder, especificamente os chefes de famílias aristocrá- ticas que controlavam a terra, os recursos básicos. Quando nos voltamos para detalhes e, na verdade, para a estrutura da máquina governamental, para a estrutura do comportamento político, as diferenças são tão fundamentais que é forçoso concluir contra a 6 Citado em R. R. Palmer, "Notes on the use of the word 'democracy' 1789- existência de qualquer legado grego significativo em Roma nesse 1799", Political Science Quarterly, LXVIII (1953), pp. 203-226. 7 Considerations on representative government (Everyman Library), p. 216.</p><p>Capítulo 2 Teoria política R. I. Winton e Peter Garnsey criaram a política; criaram também a teoria de sua política, criati- e existe era, idealmente, uma comunidade Os gregos uma relação óbvia entre esses dois elementos de iguais, vidade. A determinavam a política em debate aberto e reflexões politai, que debate tendia a gerar, por si, comentários observações e do. Tal termos nos quais ocorria: por exemplo, as Cléon quanto aos caráter da Assembléia ateniense, por e pólis apresentadas 3, 36-49). organiza- os sobre o "Debate (Tucídides, Didoto no política grega pode ser considerada uma abstração era, desta inerente reflexão a propósito da natureza da diverso pólis, e em A teoria tendência refletiva: a teoria política dos gregos dirigida basicamente, a intelectual autoconsciente, específicas. - como empreendimento geral - do debate sobre matérias políticas a respeito nível mais era, portanto, uma atividade secundária, afirmação A teoria política em que era tratado seu assunto, embora essa de desempe- do nível mira sugerir que lhe faltava o elemento originou. não nho tenha em característico da atividade principal da qual teoria se política político de obras que ainda sobrevivem, a que a Em termos de Platão e de Está claro, porém, anteri- grega teoria é política, aquela no sentido por nós sugerido, havia surgido da Guerra do Peloponeso, publicada pela Editora Universidade de Brasília. (N.E.)</p><p>50 M. I. Finley o legado da Grécia 51 ormente. Dada a natureza de nossos indícios, e a do próprio as- Os primeiros teoristas autênticos da pólis foram os sofistas e sunto, é impossível produzir informações exatas, mas descontada a Sócrates. Suas carreiras simbolizam a nova relação que eles cria- dúbia evidência da primitiva teoria política pitagórica, as primeiras ram com a pólis: enquanto procuravam compreender o sentido tentativas para analisar a pólis parecem ter sido realizadas no sé- abstrato da pólis, nem os sofistas nem Sócrates viviam como poli- culo V. tai comuns. Os sofistas passaram grande parte de suas vidas afas- Houve antecedentes: os versos de Sólon são exemplo óbvio. tados de suas cidades de origem, viajando pela Grécia como um Mas Sólon preocupou-se essencialmente com determinada crise em todo; Sócrates permaneceu em Atenas, mas participou o mínimo determinada pólis, e seu verso político constitui uma contribuição a possível da vida política habitual. o auto-afastamento da política um debate político específico. A análise da pólis levada a efeito de suas cidades pode realmente ter constituído condição necessária fora do contexto dos debates políticos individuais inicialmente à análise que fizeram da pólis. surgiu como uma forma distinta de atividade intelectual durante o Qualquer tentativa para avaliar o pensamento político desses período decorrido entre as guerras pérsica e peloponésica. Foi nes- homens deve começar com uma enfática advertência no que con- se período que a tragédia atingiu seu auge. A reflexão sobre o ca- cerne à prova. Os sofistas foram escritores fecundos, mas, exceção ráter das peças teatrais produzidas nessa fase talvez ajude a definir feita a dois curtos exercícios retóricos da autoria de Górgias, suas o surgimento contemporâneo da teoria política. o tema central obras só sobreviveram diretamente em fragmentos, consistindo, em dessas peças é a política assuntos tais como a natureza da justiça sua maior parte, de uma única frase, algumas vezes de uma só pa- e a relação entre os polites, individualmente, e seus companheiros lavra. A fim de tentar reconstituir suas idéias, seria preciso que nos politai. voltássemos para provas secundárias, acima de tudo para as forne- Seria, entretanto, absurdo caracterizar a Oréstia, de Ésquilo, cidas por Platão, especialmente em seus primeiros diálogos. por exemplo, como uma obra de teoria política: Ésquilo não se Essa prova é, infelizmente, muito indireta. Platão atribui vários preocupa em oferecer uma suposta análise do conceito de justiça pontos de vista e argumentos aos sofistas, individualmente e como do tipo apresentado em A república, de Platão. As obras dos escri- uma classe, e é sempre necessário que se indague se tais imputa- tores de tragédias podem ser vistas como um estágio intermediário ções são historicamente exatas, uma vez que, afora outras conside- entre os dois níveis de raciocínio político que distinguimos: sendo rações, Platão era radicalmente hostil aos sofistas. No caso de eles próprios elementos da vida institucional formal da pólis ateni- Sócrates, Platão constitui novamente nossa fonte mais importante, ense, brindam suas platéias (que, em outro papel, constituíam a suplementada por Xenofonte e Aristóteles. Sócrates, que, pessoal- Assembléia ateniense) com o espetáculo de homens em busca de mente, nada escreveu, figura em quase todos os diálogos de Platão, compreender suas experiências. Seus esforços originam reflexões de modo que a questão da autenticidade é bem maior do que no que alcançam o nível mais abstrato; mas o alvo de tais reflexões caso dos sofistas. Mais uma vez, o assunto torna-se complexo pela continua a ser os assuntos e os indivíduos, em cada caso. Há uma atitude de Platão: a hostilidade com relação aos sofistas é acompa- nítida diferença entre o modo pelo qual um autor de tragédias nhada de respeito a Sócrates. aborda temas políticos e a tentativa mais rigorosamente analítica Os sofistas eram principalmente professores que ministravam que se desenvolveu em meados do século V. o surgimento desta instrução formal de um tipo inteiramente novo. próprio fato de última marca o início da teoria política grega como tal. Pitágoras, por exemplo, ter-se disposto a ensinar politike techne, a arte de ser polites, sugere uma atitude analítica com relação à pólis; e parece clara a relação entre a atividade dos sofistas como profes- Trilogia de Ésquilo, representada em Atenas em 458 a. C., compreen- sores e suas tentativas de avaliar teoricamente a natureza da pólis. dendo Agamenon (publicada pela Editora Universidade de As coéforas Se queriam atrair estudantes dispostos a pagar por seus ensina- e As eumênides. (N.E.) mentos, eles tinham de oferecer algo que ainda não estivesse dis-</p><p>52 Finley o legado da Grécia 53 ponível conhecimentos sistematizados e articulados em assuntos fistas; mas se qualquer pessoa, por meio de transmissão de políticos. Até então, os jovens haviam confiado em associações qualquer conhecimento que possua, transformar em amigo al- informais e sem concepcionalismo com membros mais velhos de sua guém que ele saiba naturalmente talentoso, achamos que está pólis, habitualmente parentes ou amigos de suas famílias. A educa- procedendo como um bom e honrado cidadão deve proceder. ção sofística constituía uma dupla inovação: instrução formal, de base teórica, ministrada por alguém que não fosse membro da pólis Nada disso implica que a reação aos sofistas fosse de franca antipatia e de total rejeição: na verdade, eles obtinham sucesso de seu aluno. A hostilidade enfrentada pelos sofistas pode ser en- considerável, o que deve significar que o que ofereciam era consi- tendida como reação a ambas as concepções de tradição. derado valioso, conforme indica Sócrates ao contradizer a censura Aspecto fundamental da teorização sofística foi o fato de te- rem os sofistas criado a retórica análise das formas de argu- de Ánites a eles (Platão, Mênon, 91C-92A). Deve-se concluir que os sofistas eram considerados com ambivalência radical: se cons- mento usadas na Assembléia e nos tribunais e sua localização tituíam uma inovação ameaçadora em seu papel de professores, sua no âmago de seu processo educativo. Além disso, preocupavam-se eficiência era também reconhecida e utilizada; se sua análise dos eles com o estudo dos conceitos personificados pela pólis e, no caso de Protágoras, pelo menos, com a compreensão da pólis como conceitos em cujos termos funcionava a pólis revelasse inadequa- um todo. Tais esforços o que não surpreende evidenciavam ção intelectual entre os politai comuns, também isso dado o caráter da pólis poderia ser aceito como um estimulante desafio, incoerência ou impropriedade nas atitudes predominantes, por exemplo, na conversação entre Alcebíades e Péricles sobre o con- em vez de ser rejeitado como subversivo, ou simplesmente ignorado. ceito de lei (Xenofonte, Memorabilia [Memoráveis], 1, 2.40 ss.). Embora a exata natureza ou mesmo a capacidade intelectual da Tampouco surpreende que a iniciativa causasse opróbio: os mem- atividade dos sofistas como teoristas políticos não possam ser de- bros de comunidades que agissem com base no debate racional terminadas, é possível estabelecer com que assunto se relaciona- dificilmente acolheriam uma demonstração de falta de lógica na vam. A ênfase colocava-se na pólis considerada abstração do estrutura conceitual segundo a qual atuavam. Protágoras, por imenso número de poleis características espalhadas por todo o exemplo, parece ter sido bem consciente dessa reação hostil (Pla- mundo grego. Essas poleis apresentavam enorme variedade em tão, Protágoras, 316C-D), acrescida ainda do elemento financeiro suas instituições, na estrutura básica que as distinguia de outras nas relações entre sofistas e alunos, e possivelmente do sentimento sociedades como uma classe. Poder-se-ia caracterizar a teoria de que essa relação tinha nuances de prostituição homossexual. Na tica dos sofistas como uma tentativa de definir e analisar o que as Memorabilia (1, 6.13), de Xenofonte, atribui-se a Sócrates a se- muitas poleis gregas tinham em comum e de dar sentido à notável diversidade evidente entre elas. guinte frase: Uma das mais nítidas maneiras pelas quais diferiam as poleis Conosco... o mesmo ponto de vista é adotado quanto ao que é era relativa a quais de seus membros possuíam cidadania integral. decente e o que não é no que diz respeito à concessão não só de o surgimento da democracia pôs em cheque a natureza da cidada- beleza física, mas de sabedoria. Um homem que vende seus fa- nia, as qualidades e os dons intelectuais exigidos e o modo pelo vores, por certo preço, a qualquer um que os deseje, é chamado qual estes podiam ser obtidos. Quando a demos, em sentido estrito, alcoviteiro (...) Do mesmo modo, aqueles que vendem o saber, começou a reivindicar o direito à cidadania integral, a ideologia por certo preço, a qualquer um que o deseje, são chamados so- tradicional, elitista, da capacidade política tornou-se problemática: as suposições transformaram-se em pontos de debate. A discussão sobre se a arete capacidade exigida para parti- A famosa afirmação de Protágoras de que "em cada questão há argumentos de cipação eficaz na direção da pólis - podia ser ensinada, ou se era ambos os lados" deve ter ocorrido em um tratado de retórica; ela pode ser vista como uma articulação da prática política e legal.</p><p>54 M. I. Finley o legado da Grécia 55 herdada, e neste caso, até que ponto, estava no âmago do debate subseqüente: a distinção entre o que é necessário e o que é eventual nas sociedades humanas. Uma das formas assumidas por esse con- político do século V. No "Grande Discurso", em Protágoras (321C-328D), de Pla- traste foi aquela entre nomos e phusis, "convenção" e "natureza": tão, o sofista alega ser razoável que os atenienses permitam a qual- entre o que os homens podiam decidir por si e a circunstância quer cidadão contribuir para os debates de assuntos políticos, pois lutável. Ambos os conceitos haviam-se desenvolvido durante a era todos os cidadãos têm a necessária capacidade, ou seja, resultado arcaica, mas seu uso em conjunto como instrumento analítico sur- de um processo de socialização iniciado na primeira infância e giu primeiro no século V. Deve ficar claro, entretanto, que essa continuado ao longo de toda a vida. Do mesmo modo como todos dicotomia, em particular, era apenas um dos instrumentos de con- os cidadãos necessariamente praticam a politike arete, todos a en- dução da análise do necessário e do eventual na sociedade humana; sinam. o sofista simplesmente faz melhor aquilo que o polites ela não se encontra presente no argumento de Protágoras no senti- comum pratica durante o tempo todo. Dessa maneira, Protágoras do de que a pólis é uma forma necessária de sociedade, baseada, apresenta uma linha adequada de democracia e educação sofista, e por sua vez, em uma teoria sobre a origem da pólis. os pontos por ele levantados tornaram-se os principais da teoria Tradicionalmente se estabelece uma nítida distinção entre os sofistas e Sócrates. Nesse contexto, entretanto, o que desperta a política de Platão e de Aristóteles. Embora as poleis gregas diferissem no concernente à propor- atenção é a íntima relação entre eles. É verdade que Sócrates re- ção em que seus politai exerciam integralmente a cidadania, elas jeitou explicitamente o papel de professor e, é claro, não exigia que partilhavam a convicção de que a característica definidora da rela- aqueles com quem dialogava lhe pagassem taxas. Participava, po- ção entre aqueles integralmente politai era a de que esta se baseava rém, com os sofistas, da preocupação no sentido de elucidar os no nomos, código que proporcionava participação igual a todos na conceitos em cujos termos funcionava a pólis. Ao contrário dos pólis. Os gregos denominavam isonomia essa forma de relação sofistas, Sócrates parece não ter apresentado nenhuma análise substantiva desses conceitos; limitou-se a chamar a atenção para a entre os politai. antônimo era a tirania, violação do código por um polites inabilidade dos atenienses comuns em considerar de modo coerente que conseguia situar-se acima de seus pares polites. A atitude gre- os conceitos que utilizavam em sua atividade política. ga ante a tirania era ambivalente: o tirano era, ao mesmo tempo, o A substancial contribuição de Sócrates era mais uma teoria a mais afortunado e o mais iníquo dos homens. propósito de como devia ser conduzida a análise dos conceitos Parece claro que, em seu esforço no sentido de analisar a pólis, políticos. Ele acreditava que a real compreensão de um conceito só os sofistas destacavam essa ambivalência, levantando as questões podia ser atingida por meio de raciocínio que se justificasse a cada fundamentais de como e por que deviam os politai respeitar o no- passo. Para garantir isso, devia a análise tomar a forma de discus- mos; em que sentido o tirano era injusto ou iníquo, ou qual a natu- são com outros, nada sendo tomado por certo, e defendendo-se o reza do nomos. A ideologia existente não podia fornecer respostas acordo em cada fase da discussão. As exigências de Sócrates no coerentes. Crucialmente, a suposição de que o nomos tinha sanção sentido da avaliação de um conceito eram tais que ele considerou divina se defrontava com a dificuldade de que a religião existia inadequadas as teorias propostas pelos próprios teoristas. Faltava- institucionalmente como elemento da própria pólis, e desse modo lhes o rigor analítico essencial. Assim, ele fez maiores exigências não podia ser utilizada como base de um estudo intelectualmente intelectuais a si próprio e a outros do que fizeram os sofistas. Ain- adequado da pólis. Dado o caráter da religião grega, a crença nos da assim, o ateniense comum tinha razão ao considerar Sócrates e deuses tradicionais tornou-se problemática, juntamente com a pólis os sofistas empenhados no mesmo tipo de atividade: ambos esta- vam avaliando a pólis de maneira nova. e como aspecto dela. Ao envolver-se nesses assuntos, alguns sofistas deram início a surgimento da teoria política é por vezes caracterizado uma distinção conceitual que se tornou básica na teoria política como um movimento de análogo ao do século XVIII.</p><p>56 M. Finley o legado da Grécia 57 o paralelo parece-nos em virtude da ausência, na Gré- aspecto constante merece destaque, de início. Afora a Apologia, cia do século V, do tipo de um corpo de doutrina sistemático e versão platônica do discurso de Sócrates em seu julgamento, todos articulado, enfrentado pelos pensadores do Iluminismo do século os escritos tomam a forma de diálogos, nos quais o próprio Platão XVIII. A religião era profundamente importante para os gregos; a nunca aparece como participante. pólis consistia em uma comunidade de homens e deuses, porém os É um notável paradoxo que um pensador, famoso por suas assuntos referentes aos deuses estavam sujeitos a debate, precisa- opiniões autoritárias, tenha usado, ao longo de sua carreira, um mente, do mesmo modo como todos os outros assuntos. Daí por estilo que, estritamente falando, não o compromete com uma única quê, também nesse campo, serem os sofistas "subversivos", não no proposição, nem sobre política nem sobre qualquer outro assunto. que concerne a um sistema de idéias estabelecido, mas em suas Esse artifício de auto-anulação pode ser interpretado de manei- tentativas de encontrar sentido, sistematizando-as para as suposi- ras várias. Numa análise do pensamento político de Platão, pode ções implícitas na sociedade. o mesmo se aplica a Sócrates. ser visto como expressão de sua relação com a pólis. A essência da E a experiência de Sócrates foi fundamental à carreira inte- pólis como comunidade política reside em sua institucionalização lectual de Platão. Sócrates é apresentado por Platão como o modelo do debate; Platão, acreditando a pólis comumente condicionada do homem bom, a antítese do protótipo do homem mau, do tirano, com todos os acordos políticos em vigor a ser radicalmente e sua importância para Platão está simbolizada em seu papel de corrupta, uma vez que seus principais políticos utilizam a retórica protagonista em todos os diálogos primitivos e médios. Na verda- como meio imediato de ocupação e como disfarce para ocultar de, Sócrates aparece em todas as obras de Platão, com a única ex- interesses pessoais, defendia uma reforma que substituísse o debate ceção de seu último trabalho, As leis. Sócrates preocupara-se com a político pela imparcial dialética filosófica exemplificada em suas análise dos conceitos políticos e morais destinados a levar ao en- obras. A relação entre esses dois tipos de discussão constitui tema tendimento do que ele acreditava essencial para "viver bem". Só- central de todo o pensamento político de Platão. crates agia em nível individual. Evitando tanto quanto lhe era Dois magníficos diálogos, dentre os primeiros, Protágoras e possível o envolvimento político, ele buscava o aperfeiçoamento Górgias, exprimem a crítica feita por Platão à teoria e à prática da moral para si mesmo e para seus interlocutores por intermédio de política No primeiro, é proporcionada a Protágoras conversa pessoal. uma antecipada oportunidade de estabelecer, em considerável ex- Platão elaborou o compromisso socrático para com o discer- tensão, sua teoria da pólis como comunidade na qual todos os nimento moral de dois modos: primeiro, desenvolveu a Teoria das membros possuem, pelo menos, competência mínima em arete, e o Formas; segundo, ampliou o alcance da análise do indivíduo para a papel do sofista como mestre particularmente hábil de arete. racio- pólis. Acreditava ele que a virtude requer uma estrutura institucio- cínio posterior de Sócrates revela que Protágoras, na verdade, não nal que poderia ser obtida em teoria, se não realizada na prática. pode definir de um modo coerente o real sentido de arete. o con- Essa ampliação foi institucionalmente incluída na Academia, fun- traste entre a prática da retórica e a dialética socrática é também dada por Platão provavelmente nos anos 380, e destinada, pelo básico em Górgias, obra consideravelmente mais longa. Sócrates, menos em parte, a proporcionar uma educação intelectualmente ante a assertiva que Górgias havia acabado de apresentar, ao final rigorosa para a vida política, em vez de na vida política. de um excelente pronunciamento, no sentido de ser capaz de res- Nos diálogos primitivos e nos médios, os temas políticos ten- ponder a qualquer pergunta sobre qualquer assunto, levou-o a uma diam a emaranhar-se num complexo conjunto de assuntos. Os úl- discussão a propósito da natureza de seu próprio assunto: a retóri- timos diálogos são mais rapidamente classificáveis quanto à ca. Górgias logo se reconheceu sem capacidade intelectual sufici- matéria, sendo o político e As leis claramente "políticos". desen- ente para o debate e cortesmente desistiu. Seu aluno Polus volvimento que caracteriza a obra de Platão como um todo é sur- substituiu-o como campeão da retórica e foi eventualmente forçado preendentemente evidente .em seu pensamento político, mas um a concordar em que, embora a retórica seja um caminho para o</p><p>58 M. I. Finley o legado da Grécia 59 poder, a opinião comum de que o extremo poder implica a suprema A enunciação da pólis ideal tinha sido tentada na sugestão an- felicidade é radicalmente falsa: o tirano é, de fato, o mais infeliz terior de Sócrates no sentido de que isso poderia facilitar a iniciativa dos homens. de justificar sua asserção de que a dikaiosune, convencionalmente, A essa altura, seu anfitrião ateniense, Cálicles, surgiu com mas de modo impróprio, traduzida como "probidade", é um bem uma declaração brilhantemente vigorosa a propósito de que a tese per se, e de que sua natureza talvez seja mais facilmente perceptível poderia ser correta. Por sua vez, examinou a argumentação de Só- se se considerar a dikaiosune não em relação ao indivíduo, mas à crates e também ele, afinal, se viu forçado a admitir que sua posi- pólis, onde se pode supor que ela fosse, como realmente era, de ção era intelectualmente insustentável. Cálicles é apresentado alcance maior que o de um decreto. Ele então planeja uma pólis como um ambicioso político ateniense. Sócrates ama a filosofia; ideal, compreendendo três elementos: governantes, soldados e Cálicles, a demos ateniense (481D). Dificilmente a tese de Cálicles trabalhadores. poderia ser considerada a de um democrata sincero. A intenção de Uma vez que, ex hypothesi, a pólis é boa, ela possuirá o que se Platão, pode-se supor, é sugerir que a verdadeira dinâmica da polí- convencionou serem as quatro virtudes: sabedoria, coragem, mode- tica ateniense é aquela exaltada por Cálicles cruel ambição ração (tradução também inadequada para o termo sophrosune) e egoísta. (Observa-se que Sócrates elogia Cálicles por sua disposi- dikaiosune. As três primeiras são identificadas como aplicáveis ção de declarar abertamente aquilo que outros evitavam admitir.) respectivamente aos governantes, aos soldados e aos trabalhadores; Além disso, Sócrates alega que a opinião de Cálicles no sentido de a dikaiosune fica por ser definida. A reflexão sugeriu a Sócrates ser o político o mestre de seus concidadãos é o oposto da verdade: que dikaiosune consiste em uma pessoa realizar aquilo para o que a nas circunstâncias, o político só pode ser bem-sucedido tornando-se natureza a dotou: a pólis ideal possui dikaiosune na medida em que servidor da demos, sujeitando-se a todas as suas inclinações. ver- cada classe executa a função que lhe é adequada. dadeiro exercício da arte de ser político não consiste em curvar-se Será que essa análise funciona no que diz respeito à dikaiosu- aos desejos da demos, mas em tornar a demos tão boa quanto pos- ne individual? Sócrates alega que sim: a alma individual (psyche) sível. único verdadeiro homem de Estado de Atenas é Sócrates, compreende três elementos análogos aos três elementos da pólis: de quem Cálicles escarneceu por exercer a filosofia "cochichando razão, disposição e propensão. Também a dikaiosune consiste de com três ou quatro rapazes num canto" (485D). cada elemento executar sua função característica. Uma vez que A conclusão atingida no Górgias de que só o filósofo, aparen- a função da razão é obviamente dirigir, a implica que a temente inútil, está preparado para a atividade política constitui o dikaiosune da alma só existe quando a razão domina os outros dois tema central da principal obra construtiva de Platão sobre teoria elementos; similarmente, na pólis só existe dikaiosune quando a política, A república, diálogo em que ele reúne vasta gama de tópi- classe que detém a cultura governa as outras duas. cos: política, moral, estética, educação, psicologia, epistemologia Entretanto o que é vital -, a relação entre governantes e assuntos tratados em suas obras anteriores. A tese decisiva de A governados é de afetuosa harmonia. Ao contrário de todas as poleis república no sentido de que "a menos que os filósofos se tornem existentes, nas quais existem de fato pelo menos duas poleis, a dos reis em nossas cidades, ou que aqueles a quem agora chamamos ricos e a dos pobres, em inimizade uma com a outra, a pólis ideal é reis e governantes empreendam, séria e adequadamente, a busca da caracterizada pelo desejo de subordinação por parte das duas clas- filosofia, e haja a união dessas duas coisas poder político e co- ses mais baixas e pelo altruístico exercício de autoridade pelos nhecimento filosófico (...) não podem terminar as dificuldades governantes, cuja preocupação visa ao bem, não de sua própria (...) de nossas cidades, nem, imagino eu, da raça humana", surge no classe, mas da pólis como um todo. Essa obrigação é sublinhada fim do volume 5, quase na metade da obra. Sócrates expõe esse pela extinção das duas principais forças que causam o abuso do ponto de vista em resposta à pergunta sobre como a pólis ideal, poder: os governantes são proibidos de possuir bens particulares e descrita nos volumes 2 a 5, poderia ser formada. de constituir família.</p><p>60 Finley o legado da Grécia 61 A analogia entre pólis e alma é fundamental à tese do diálogo Diz-se que Platão dedicou grande cuidado à frase inicial de como um todo. As dificuldades que ela envolve não podem ser A república. Não se diz o mesmo a propósito de As leis, mas cer- discutidas aqui: originam-se, acima de tudo, do fato de que um dos tamente não é por acaso que a palavra de abertura desta sólida obra elementos da analogia, a alma, é, em si, essencial ao outro, a pólis. (sem dúvida a mais longa de todas) é theos Deus. Três homens Os problemas resultantes são talvez mais agudos no caso da tercei- idosos, um cretense, um espartano e um ateniense, caminhavam de ra classe. Um dos motivos pelos quais não podem eles ser imputados Cnossos ao santuário de Zeus, no monte Dicta, em conversação convincentemente a Platão é que seu interesse estava claramente convenientemente vaga. Ao final do volume 3, sabe-se que o cre- focalizado nas duas classes altas, e mais particularmente na mais tense é membro de uma comissão encarregada de elaborar as leis alta, ora definida como a dos A argumentação de para uma nova cidade a ser fundada. Ele propõe que seus compa- Platão a propósito dessa classe fixa-se no assunto de sua educação. nheiros se unam a ele na elaboração desse conjunto de leis, à me- A república nada tem a dizer sobre as instituições políticas, no dida que prosseguem sua jornada. o restante da obra é dedicado a sentido estrito; Platão refere casualmente as leis que os governan- essa elaboração. tes talvez achem necessário promulgar, mas e isso é claro o debate é conduzido pelo ateniense, e até mesmo a simulação não se preocupa com a elaboração de uma estrutura constitucional, de diálogo é totalmente deixada de lado, em alguns trechos. o ateni- o que é compreensível, uma vez que, na pólis ideal, a política, no ense, principalmente, discorre sobre distribuição de terras (a ser divi- sentido comum, não existe: nenhum conflito de interesses ou de dida em 5.040 lotes, em posse perpétua), sobre cidadania, família, opiniões pode surgir entre seus elementos constitutivos. o conflito educação, instituições políticas e jurídicas e, acima de tudo, sobre o entre retórica e filosofia é solucionado pela criação de uma socie- código de leis para a nova cidade. o contraste com A república é dade com bases filosóficas, na qual a retórica não possui papel óbvio. Enquanto esta obra ignorava detalhes constitucionais, As leis expõe-nos com minúcia (embora caracteristicamente vaga algum. Conforme observado anteriormente, os diálogos mais recentes sobre matéria decisiva, como terem ou não todos os cidadãos o de Platão são caracterizados por uma especificação maior quanto direito de se pronunciar na Assembléia). Notadamente, Platão ago- ao tema. Os dois ligados a temas políticos são o estadista e As leis. ra desiste do ideal de governo pelos filósofos-reis. Ele reconhece o primeiro é, no seu todo, uma das mais áridas obras de Platão, que nenhum ser humano pode, de modo seguro, ser investido de embora animado por uma análise maravilhosamente sarcástica da poder absoluto. política conforme vinha sendo praticada. Explorando uma analogia A lei, conforme expresso na Constituição e no código de leis continuamente presente em suas obras políticas, Platão retrata uma da pólis, substitui a filosofia como base da sociedade. A retórica é pólis cujos cidadãos se recusam a reconhecer o conhecimento auto- restabelecida como elemento essencial do código de leis, cada lei rizado daqueles que possuem experiência técnica e insistem em devendo ser prefaciada por um preâmbulo cuja finalidade é persua- subordinar estes últimos a leis que nada mais são do que resultado dir os cidadãos a cumpri-la. A tese fundamental de As leis é que a da ignorância popular. Tal é o destino do verdadeiro homem de lei condiciona a razão; a lei é a personificação humana da divina Estado na pólis contemporânea. Não se especifica cidade alguma, Razão que governa o universo. A tradicional religião grega não mas não pode haver dúvida de que Platão se referia a Atenas. Essa proporcionava legitimação intelectualmente adequada para essa crítica é feita num capítulo do diálogo em que se argumenta que o tese. Platão apresenta-a no volume 10, argumentando em contrário governante ideal pode prescindir da lei escrita, e o principal inte- àqueles que sustentavam serem as leis humanas apenas invenções resse de o político no estudo do pensamento político de Platão está dos homens. "Deus é a medida de todas as coisas; não, como dizem em tornar claro que ele mantém ainda sua crença no ideal de um eles, um homem" (716C). As leis constitui, prima facie, uma obra severamente pessi- filósofo-rei absoluto. mista, e não simplesmente em virtude de exprimir a renúncia de</p><p>62 M. Finley o legado da Grécia 63 Platão no que concerne aos filósofos-reis como um ideal ilusório, Por exemplo, encontra-se em Aristóteles uma firme e pene- mas pelas opiniões sobre a vida humana em geral que ali estão trante ênfase na teologia. Tanto a Ética a Nicômaco como A políti- contidas. Os homens não passam de brinquedos dos deuses; os ca se iniciam com uma declaração sobre a doutrina dos fins. assuntos humanos não têm grande importância embora nos seja Entretanto, a hipótese teológica é também fundamental na doutrina necessário tratar deles como se tivessem (803B). Entretanto, seria de Platão. um engano encarar a atitude de Platão em As leis como de desprezo o fim do homem é descrito de formas variadas pelos dois filó- por este mundo. reconhecimento, por parte de Platão, da impro- sofos como o bem do homem, viver bem e ser feliz eudaimo- priedade de suas idéias políticas anteriores não dá origem à resi- Eudaimonia é a palavra preferida de Aristóteles, e na Ética gnação, mas a uma obra gigantesca, que apresenta alternativa mais ele apresenta a primeira análise sistemática do que deve ser eudai- viável. A filosofia já não deve mais governar; a razão humana, mon. o conceito é também fundamental para Platão eudaimonia porém, continua a ser necessária e competente em assuntos é um ingrediente necessário ao Estado ideal de A república e cos: a tarefa do legislador é determinar "o que é bom e conveniente ele não se teria ofendido ou surpreendido com coisa alguma no para toda a pólis em meio à corrupção das almas humanas, contra- raciocínio de Aristóteles sobre eudaimonia ou com sua eventual pondo-se às mais fortes concupiscências, não tendo o homem outro definição da palavra como a atividade da alma de acordo com a auxílio exceto o seu próprio, permanecendo solitário e seguindo virtude. A procura humana do bem ou da felicidade é colocada neces- apenas a razão" (835C). A filosofia política de Aristóteles é intimamente ligada à sua sariamente no contexto da pólis. Consta da Ética e está reiterado filosofia moral e à sua filosofia da natureza, e por elas fortemente em A política que o indivíduo e a pólis têm fins semelhantes. No influenciada. Todavia, o próprio fato de que ele elaborou A política, volume I de A política, o assunto é apresentado em forma de dis- com exame muitas vezes detalhado e especializado dos temas polí- cussão sobre o crescimento da pólis, sendo o homem considerado ticos, indica que considerava a filosofia política merecedora de am- por natureza um zöon politikon, um ser naturalmente adequado à pla atenção, por direito próprio. A política é a única obra de pólis e precisando viver numa pólis. epigrama é de Aristóteles, Aristóteles de filosofia política sistemática. Todavia, como prepa- mas seu conteúdo é propriedade comum de todos os gregos da ração, foram incluídos em seu texto nada menos de 158 estudos de época clássica, bem como seu corolário a superioridade da socie- constituições distintas. Tal fato deveria evitar que subestimássemos dade grega, em razão de possuir a pólis. Platão, para quem o ho- a importância atribuída por Aristóteles à política e à filosofia polí- mem bom e bom cidadão eram idênticos, estava de pleno acordo. tica. As "ciências teóricas" constituíam preocupação mais funda- É de deduzir-se do relato teológico de Aristóteles sobre a pólis mental de Aristóteles, mas é digno de nota que ele caracterizava a que a vida da pólis é uma meta mais completa do que a de qualquer política como a architectonike techne, aquela arte, dentre as ciên- indivíduo. Já isso está implícito na Ética, na caracterização da po- cias práticas, que presidé e controla todas as outras, inclusive a ética. lítica como a architectonike techne, o que é explicado com a se- Um paralelo entre A política e as obras mais políticas de Pla- guinte assertiva: tão, em especial A república, será necessariamente predominante na argumentação que se segue. Aristóteles critica o Mesmo que o bem da comunidade coincida com o do indivíduo, raciocínio de Platão em A política, bem como em suas obras éticas, o bem da comunidade é nitidamente um bem maior e mais per- e isso reflete algumas significativas diferenças entre os dois filóso- feito a atingir e conservar. Não se quer com isso negar que o bem do indivíduo seja válido. Mas o que é bom para uma nação fos, não só quanto à doutrina como quanto aos métodos; mas Aristóteles, que trabalhara na Academia durante vinte anos, era ao mesmo tempo herdeiro e crítico de Platão. 2 Eudaimonia, diferentemente de "felicidade", significa tanto o "estar bem" quanto o "agir</p><p>o legado da Grécia 65 64 ou uma cidade tem qualidade mais elevada, mais divina dedicados ao assunto, encontrando-se uma breve discussão prévia (1094b6ss.). em volumes anteriores. Havia um consenso fundamental entre Platão e Aristóteles quanto aos princípios básicos do Estado ideal. Em A política, essa tese é mais desenvolvida, por meio da (Para nossos fins, aqui, importa pouco que Aristóteles tenha per- conclusão, por um argumento evolucionista, de que a pólis é a mitido, em geral, que tais princípios fossem relativamente inde- realização máxima do homem. A pólis nasceu da aldeia, a aldeia pendentes um do outro, enquanto a tendência de Platão é unificá- nasceu da família, a família tinha suas raízes na associação de ho- los.) Primeiro, na boa pólis, os cidadãos prosperam, levam boa mens com mulheres e com escravos. Esse processo evolutivo atin- vida. Para Aristóteles, esta constituía a principal finalidade da pó- ge seu fim e sua meta na pólis, que, ao contrário de outras formas lis. Segundo, a boa pólis é uma pólis "justa". Dikaiosune era um de associação, é auto-suficiente. A pólis é, portanto, a mais alta conceito fundamental para ambos os filósofos, mesmo que suas forma de associação natural. Daí se infere, pois, que o indivíduo é análises não coincidissem. Terceiro, numa boa pólis, os acordos subserviente ao Estado, com o apoio da doutrina do todo e das políticos são eficazes e vantajosos, servindo não só ao interesse partes. Essa doutrina de modelo biológico aparece comum como ao interesse de indivíduos ou grupos. em A política, aliada a uma explícita analogia com o corpo, como A diferença nos estudos dos dois filósofos sobre dikaiosune (a ocorre no seguinte trecho: ser discutida resumidamente) está em marcante contraste não só com as hipóteses que eles partilhavam sobre os fins, mas também com o Além do mais, a cidade ou Estado tem prioridade sobre a famí- papel extremamente semelhante do interesse sumpheron em lia e sobre qualquer indivíduo entre nós, eis que o todo deve so- suas teorias, conforme se configura nas condições para a estabili- brepor-se às partes. Separem-se mão ou pé do corpo e eles não serão mais mão ou pé, exceto no nome... o corpo terá sido ar- dade constitucional, em sua preocupação (característica de toda a ruinado, não mais possuindo o poder e a função que fazia dele o tradição do pensamento político grego) com as causas da instabili- que era (...) É claro, portanto, que o Estado é não só inerente dade, e nas dessa preocupação sobre seus pontos de como precedente ao indivíduo, pois, como o indivíduo não é vista quanto a quem devia governar. Em A república, os únicos totalmente auto-suficiente depois da separação, permanecerá na administradores capazes de governar no interesse de todos os seto- mesma relação com o todo que têm as outras partes res da comunidade, capazes, portanto, de manter um Estado está- vel, eram os filósofos. Na época em que escreveu As leis, Platão havia chegado ao reconhecimento de que as qualidades exigidas A concepção orgânica da pólis e também a doutrina da supre- não se encontravam nesses homens "Estamos falando agora de macia do Estado sobre o indivíduo estão presentes em A república. homens, não de deuses (732F)" mas sim num pequeno grupo de Essa doutrina, com seus aspectos totalitários, talvez afronte a inte- das leis, eleitos por uma lista de 5.040 cidadãos. ligência moderna, mas teria sido aceita como inteiramente natural Aristóteles declara, no final do volume 3, que o melhor Estado pelos gregos. A autoridade do Estado grego clássico era, em prin- será governado por uma só pessoa de extrema virtude ou por um cípio, ilimitada; estendia-se até mesmo ao campo da moralidade. E corpo de pessoas assim. Pensaram alguns que ele tinha em mente isso era reconhecido igualmente por democratas e oligarcas. Além seu antigo aluno Alexandre, o Grande, quando escreveu sobre o do mais, invariavelmente, na teoria política grega a doutrina en- homem que merecia ser soberano "não provisoriamente, mas de contrava-se ligada a idéias positivas sobre o caráter e as finalidades modo absoluto" (1288a28). Tal suposição é improvável, não só do Estado. porque Aristóteles guarda silêncio quase total sobre a monarquia Tais idéias são expostas em detalhe no contexto da discussão macedônica (e poder-se-ia dizer que o faz à maneira de desafio), sobre o Estado ideal, as características que o definem e os princípios mas porque parece pensar no "super-homem" como possibilidade que o embasam. Os volumes 7 e 8 de A política são inteiramente apenas teórica. Aristóteles não encara com agrado o super-homem.</p><p>66 Finley o legado da Grécia 67 No volume 1, classifica-o como inadequado para a pólis (apolis), e econômica e política. Por exemplo, no capítulo sobre família, no no volume 3 revela quase a mesma relutância em admiti-lo. Sus- volume 1, encontramos argumentos que afirmam a inferioridade peitamos que Aristóteles, no íntimo, acreditava em governo cons- das mulheres, justificam a sujeição dos escravos e à titucional e no domínio da lei. De qualquer modo, ele se ocupa aquisição de propriedade além da necessária à auto-suficiência muito mais da forma de governo, sua melhor constituição, contro- tudo com base em um apelo à natureza. Também no volume 1 a lada por uma "classe média" composta de homens de bens modes- supremacia da pólis sobre outras associações e sobre indivíduos é tos e de virtude incomum, que não favoreceriam nem os estabelecida, e no volume 3 o problema de como atingir a dikaio- extremamente pobres nem os extremamente ricos. sune entre homens diferentes é resolvido por meio de argumentos A simpatia de Aristóteles para com a idéia de super-homem é oriundos da natureza. Neste último caso, foi decidido que a distri- daquelas que ocorrem em muitas ocasiões em que um método a buição de bens e honrarias deveria ser realizada de acordo com o priori e até dedutivo de argumento pode coexistir neste caso, mérito. Isso é compatível com o fim do Estado, que existe para em idêntico debate com uma tentativa mais indutiva ou de bom- promover uma vida boa. senso. Aristóteles tem sempre sido colocado em contraste com Outra regra fixada pela natureza que figura em Platão no que concerne a seu compromisso com um método cientí- A política é "nada em excesso", a doutrina do meio-termo introdu- fico particularmente empírico e a seu desligamento de uma visão zida em apoio da idéia da dikaiosune distributiva (sem resultados da realidade constituída de idéias eternas, formas absolutas, apenas gerais felizes) e como justificativa da preferência de Aristóteles por apreendidas pelo intelecto. uma política de centro. Aristóteles, entretanto, não era, de modo algum, cético ou re- Considerando-se que Aristóteles é evidentemente tão apegado lativista na teoria do conhecimento ou em sua maneira de teorizar a uma análise política apriorística e onerada pela teoria, poder-se-ia sobre a sociedade e a política. Ele julgava haver encontrado base indagar que espaço sobraria para um método de argumentação objetiva para a teoria política da natureza. Porém, suas observações mais empírico. Aristóteles critica severamente Platão por deixar de a propósito da natureza e do que está de acordo com ela não são relacionar suas doutrinas com a experiência dos homens. Se o Es- meramente descritivas: estão tão impregnadas de hipóteses aprio- tado ideal era tão superior, diz Aristóteles (volume 2), a essa altura rísticas quanto qualquer dos pontos de vista mais evidentemente já deveria ter sido descoberto. Todas as boas coisas já foram des- metafísicos de Platão, isso porque constituem cobertas, mesmo não lhes tendo sido concedida necessariamente afirmativas sobre fins. A definição de "natural" como final, em vez uma experiência sistemática. Além do mais, é inteiramente impos- de primeiro estado de alguma coisa, é básica. Falando de pólis, diz sível instituir a cidade de Platão e aqui Aristóteles apresenta Aristóteles: algumas considerações, em sua maior parte de natureza prática. Argumentos igualmente pragmáticos são utilizados contra as pro- Esta associação é o fim das outras, e sua natureza é, em si, um vidências de Platão para assegurar a unidade em sua cidade fim; pois qualquer que seja o produto final do processo de aper- apesar da propriedade em comum, da eliminação da família e da feiçoamento de qualquer objeto, a isso podemos chamar sua transferência de crianças entre as classes. natureza, que homem, cavalo, família ou qualquer outra coisa Em seu próprio estudo das constituições, ele enfatiza forte- visa a ser. Além disso, a meta e o fim só podem ser o que é mente, no início, as verdadeiras e práticas realidades da política melhor, a perfeição; e a auto-suficiência é, ao mesmo tempo, grega: "É necessário dizer, porém, um pouco mais extensamente o fim e perfeição (1252b31ss.). que é cada uma dessas constituições" (1279b12-12). Até mesmo a A natureza assim definida é invocada a fim de confirmar todas tirania, que, conforme se afirmava comumente, constituía a nega- as convicções conservadoras de Aristóteles sobre a vida social, ção do governo constitucional, é objeto de análise, por sinal uma análise notavelmente desapaixonada. Com espírito um tanto se-</p><p>o legado da Grécia 69 68 M. I. Finley melhante, ele insiste na redução da dicotomia oligarquia- Dessa forma, Aristóteles apresenta uma definição rudimen- cracia em termos classistas A argumentação sobre tar do método "aporético", que envolve o surgimento de dificul- oligarquia e democracia propicia um vivo exemplo do quanto ele dades (aporiai) ligadas aos conceitos básicos de teoria política. aprecia a classificação e a subclassificação, interpretáveis em ter- A conduta encontra-se claramente estabelecida no volume 7 da mos de sua experiência e interesses científicos. Aristóteles não Ética. o primeiro passo é determinar as aparências, ou aquilo de aceita uma simples dicotomia; em vez disso, há cinco tipos princi- que parece se tratar (ta phainomena); o segundo é identificar as pais de democracia e quatro de oligarquia. Essa conclusão é prece- aporiai; o terceiro, resolvê-las, se possível confirmando todas as opi- dida da observação geral de que existe uma pluralidade de niões recebidas (ta endoxa), ou pelo menos a maioria delas, e as mais constituições. Cada cidade possui uma pluralidade de "partes", isto autorizadas: é, classes ou grupos sociais, que diferem entre si na espécie, dife- Pois, se não só refutarmos as objeções mas também deixarmos rindo também de Estado para Estado. intactas as opiniões comuns, teremos comprovado suficiente- Daí se infere que há muitas formas de constituição, na medida mente o caso (1145b1-7). em que existem tipos de organização de acordo com as superio- ridades e as diferenças das partes (1290a12-13). método é imediatamente utilizado para solapar a explicação socrática (e platônica) dos erros no comportamento humano, em Aristóteles era o que mais se aproximava de um cientista polí- termos de ignorância intelectual, em vez de fraqueza moral. Asse- tico no que a ciência política se reporta ao relato descritivo do gura Aristóteles que isso está claramente em oposição àquilo "de funcionamento do governo fruto do Mundo Entretanto, que parece se tratar". Aristóteles jamais teria recomendado o título de "filósofo político": o mesmo método é apresentado no relato sobre dikaiosune contido em A política. Platão não é criticado abertamente, porém É necessário dizer, porém, um pouco mais extensamente, o que sua redefinição radical de dikaiosune, não só para a pólis mas tam- é cada uma dessas constituições, pois o assunto envolve deter- bém para a alma, em termos de adequada coordenação de suas minadas dificuldades e é característica especial daquele que es- partes componentes, é implicitamente rejeitada como só vagamente tuda qualquer assunto filosoficamente, e não apenas sob o ligada à utilização comum da língua e às opiniões dos homens. ângulo de seu aspecto prático, que ele não negligencie ou omita Aristóteles, ao contrário, inicia com a ajuizada idéia de dikaiosune ponto algum, mas que traga à luz a verdade sobre cada um deles como igualdade e honestidade (12801a12). A questão principal é (1279b11-16). como se deve julgar a igualdade. Aristóteles ouve as principais rei- vindicações conflitantes, embora nem sempre com simpatia. A cren- ça democrática em oportunidades iguais para todos os cidadãos livres é rapidamente rejeitada, por colidir com a firme convicção 3 o argumento parece mostrar que o número de membros da assembléia governa- de Aristóteles no sentido de que os homens são moralmente desi- mental, se pequeno numa oligarquia ou grande numa democracia, é casual devi- guais. o argumento oligárquico de que aqueles que dão contribui- do ao fato de que os ricos são poucos em todos os lugares e os pobres, muitos. ção maior deveriam receber uma porção maior dos benefícios é Contudo, a diferença real existente entre democracia e oligarquia é a pobreza e a aceito. Entretanto, quando se trata de considerar qual seria o tipo riqueza. Onde quer que os homens governem em razão de suas riquezas, sejam eles poucos ou muitos, isso é oligarquia, e onde o pobre governa, isso é demo- de contribuição, Aristóteles recusa o investimento financeiro, o cracia. nascimento nobre e o nascimento livre (a base das reivindicações 4 Observe nessa conexão o estudo de 158 constituições realizado por Aristóteles e de oligarcas, aristocratas e democratas, respectivamente) em favor sua escola. o único trabalho que sobreviveu dessa grandiosa pesquisa é a Cons- tituição de Atenas.</p><p>70 M. Finley o legado da Grécia 71 de atos nobres. A "organização de Aristóteles é mais boa vida, embora admita também os critérios mais pragmáticos do dikaios do que as alternativas, pois aqueles que nela se beneficiam interesse sumpheron. Esses tipos de contraste colaboram para a da distribuição de bens e honras são homens de grande virtude, definição do caráter especial de A política. cujas vidas se afinam com a finalidade correta do Estado. o início da era helenística6 foi um período de vigorosa ativi- Embora se tenha invocado aqui o princípio teológico, bem dade filosófica, particularmente em Atenas, que mantinha seu pa- como a doutrina do meio-termo, em apoio de sua escolha de orga- pel de local de reunião e centro institucional de filósofos de todo o nização política e também de sua definição de dikaiosune, não se mundo de língua grega. Para a filosofia política, todavia, foi uma trata de uma dessas ocasiões em que ele o utiliza de modo desas- fase improdutiva. o que sabemos está seriamente limitado pelo trado. Caso não exista um indivíduo de bondade transcendental estado fragmentário das provas; parece certo, porém, que nem um nem um conjunto considerável de homens honestos, ele está único dos milhares de tratados filosóficos elaborados no período de pronto a apresentar algumas soluções, em segunda (ou terceira) Aristóteles a Cícero (só ao estóico Crisipo é creditada a autoria de escolha. A forma exata de constituição deveria refletir o modo 750 livros) pode ser descrito como uma avaliação substancial da como a honestidade, a riqueza, o nascimento nobre e o nascimento natureza da pólis e dos conceitos ligados a ela. A obra de Zenão, livre todos atributos necessários da pólis são distribuídos A república, e a obra de Crisipo, do mesmo nome, cujos títulos entre os membros da comunidade. Nenhuma constituição única poderiam indicar que versavam sobre tratados políticos sérios e seria adequada para todos os lugares. Além disso, a dikaiosune sistemáticos, na verdade não o eram. A política, de Aristóteles, não pode caracterizar qualquer dentre diversas constituições, desde que teve sucessor. Enquanto isso, essa obra desapareceu da vista e da a autoridade em exercício governe no interesse comum. Há sentido, mente, virtualmente não tendo parte na discussão filosófica, até portanto, no fato de ter o método aporético terminado em algo me- que foi redescoberta na Itália e na França do século XIII. nos que uma solução pré-fabricada, se não estritamente na aporia Em contrapartida, a filosofia moral prosperou. No entanto, o total, no sentido socrático de frustração. que foi produzido pelos cínicos, os céticos, os epicuristas e os es- Cabe enfatizar o pluralismo dos métodos. e suposições de tóicos movimentos filosóficos mais característicos da época Aristóteles quanto ao tema e à função adequados da teoria política. divergia categoricamente da tradição clássica por não convergir Por exemplo, ele associa a preocupação com o Estado ideal ao para a pólis. Já durante a vida de Platão e Aristóteles, Diógenes, o interesse pela análise dos reais tipos de constituição e à apresenta- Cínico (de Sinope), "um Sócrates enlouquecido", conforme Pla- ção de orientação política prática. Sua teoria de natureza é difundi- pregara a irrelevância da pólis e de todos os sistemas políti- da, e entretanto ele recorre regularmente a opiniões recebidas. cos, afirmando que a virtude dos homens sábios é auto-suficiente. Aprecia estruturas explanatórias altamente teóricas e ainda assim o Cinismo causou profundo impacto no Estoicismo primitivo. Para se baseia fortemente no bom-senso. Tem claro e irrestrito compro- nós, o principal interesse do Ceticismo, inesperadamente instalado misso com determinados valores e hipóteses quanto à pólis, porém na Academia, desde meados do século III, reside no fato de que seu está inteiramente disposto a deixar dificuldades sem solução. Fi- inexorável criticismo negativo obrigou os estóicos à revisão e ao nalmente, para citar uma preferência que ele próprio não teria re- desenvolvimento de suas doutrinas. conhecido, utiliza critérios morais, tais como dikaiosune, virtude, 6 Nosso interesse maior é no período que vai da morte de Alexandre, o Grande, 5 A politéia é apresentada como uma das três constituições perfeitas, monarquia, em 323, até a metade do século II a. C. Depois disso, os filósofos gregos traba- aristocracia e politéia, da qual tirania, oligarquia e democracia são formas dege- de forma intensa sob a sombra de Roma, com uma perda de neradas. Aristóteles não discute em lugar nenhum o que é a politéia ou como ela independência e vitalidade. 7 funciona. Ver, por exemplo, 1293b32-94a25 (mistura de democracia e oligar- Aspects of de M. Finley (segunda edição, Penguin, 1977), cap. 7, quia), 1295a25-96a22 (normas de uma "classe média").</p><p>72 Finley o legado da Grécia 73 o Estoicismo primitivo ou "clássico" é muito enganoso. Isso seu próprio espírito e a vontade daquele que dirige o universo se explica grandemente em termos dos fatores a que acabamos de (Diógenes Laerte, 7, 88). aludir o estado insatisfatório das provas e a óbvia instabilidade doutrinal da teoria política estóica. É de justiça que se atribua não A vida na pólis era classificada juntamente com riqueza, só a Zenão, mas também a Crisipo, uma fase iconoclástica juvenil. boa saúde e outras "coisas a preferir" como "indiferente" (nem Isso está bem fixado, pelo menos quanto a Zenão, que estudou com boa nem má), sem significação para o desenvolvimento de uma o cínico Crates (dentre outros) antes de atingir a respeitabilidade disposição no sentido da virtude. maior da Academia, sob a direção de A Politéia, de A participação na política recebia dos estóicos um tipo seme- Zenão, é, sem dúvida alguma, uma obra anterior. Seu Estado ideal lhante de limitada avaliação positiva. pensamento estóico poste- é um paraíso cínico; uma pólis, porém despida de todos os aspectos rior, no mesmo espírito, preconizava que os concidadãos de uma característicos de uma pólis. As instituições sociais, econômicas e pessoa eram objeto da natural oikeiosis dessa pessoa palavra políticas estão todas ausentes; nenhuma diferença baseada em intraduzível que significa aproximadamente "preocupação com", sexo, nascimento ou origem única é reconhecida. "boa disposição para com"-, porém somente depois da própria A vida é conduzida de acordo com a natureza, e as implica- família, das outras relações e, acima de tudo, da própria pessoa. ções dessa máxima cínica são apresentadas com tal insensibilidade Tanto quanto podemos afirmar, nenhum conceito estóico pos- para com as opiniões convencionais que teriam agradado a Dióge- suía conteúdo político evidente. Pode-se dizer que a oikeiosis teve nes. No Estado de Crisipo, o canibalismo, viver com uma prostituta implicações políticas, e não mais do que isso, no pensamento estói- e à sua custa e deixar de enterrar os mortos são práticas aceitáveis co clássico. Os estóicos posteriores na verdade deduzem dikaiosu- (SVF, III, 746, 751, 755).8 Sem dúvida, essas obras continham ne de oikeiosis. Não há indicação de que o Estoicismo clássico alguns traços de doutrina positiva: a auto-suficiência do homem considerasse a dikaiosune outra coisa senão um aspecto da virtude sábio, o valor da amizade, a harmonia e a igualdade da comunida- pessoal (cf. SVF, III, 264). Seus componentes piedade, gentile- de. Nada continham, porém, sobre a fraternidade entre os homens, za, solidariedade e conduta honesta governam as relações hu- uma vez que o Estado ideal era composto só de sábios. De substan- manas (exceto no caso da piedade), mas não se encaixam de modo cial teoria política, parece não haver coisa alguma. peculiar ou fundamental no contexto político. Conceitos como A madura atitude de Zenão quanto à pólis se baseava prova- "justiça natural" e "lei natural" estão implícitos em alguns frag- velmente no fato de que esta proporcionava background adequado mentos de Crisipo: em um deles, insiste-se em que justo" (to para a vida humana. Crisipo aceitava explicitamente o dogma dikaion, provavelmente, neste caso, indistinguível de dikaiosune), aristotélico de que o homem era, por natureza, talhado para a vida a lei e a exata razão existem por natureza, não por convenção (SVF, na pólis (SVF, III, 314). Todavia, o homem não considerava a pólis III, 308); em outro, todas as leis e as constituições existentes são o máximo do empreendimento humano nem a realização do poten- rejeitadas como não tendo "atingido o alvo" (SVF, III, 324). cial humano. Para os estóicos, a meta final era a harmonia da alma As noções de "justiça universal" e de "direito comum" para do indivíduo com o universo: todos os homens parecem ter sido pouco destacadas até o período romano. Foi Cícero quem as tornou populares, baseando-se em A virtude do homem feliz e uma vida consistem em filósofos do "período médio" do Estoicismo, particularmente em serem todas as ações baseadas no princípio da harmonia entre Igualmente, a concepção puramente moral de to kathekon (que não deve ser traduzido como "dever", no sentido moderno, mas como que é apropriado") não tomou cor política inequívoca senão quando adotada pelos aristocratas romanos, também pela 8 SVF = Stoicorum Veterum Fragmenta, ed. H. von Arnim (4 vols., reedição Stuttgart, intervenção de Panécio. efeito do kathekon (traduzido para o 1964).</p><p>74 M. Finley o legado da Grécia 75 latim como officium) e da idéia concomitante de constantia, que, A versão epicurista dessa teoria de pacto social está resumida juntas, se vinculam de modo consistente a uma fase de vida pre- na seguinte máxima: dominada de alguém e à conduta que esta requer, pode ser medido nas carreiras de figuras famosas da vida política romana, como o Jamais houve uma dikaiosune absoluta, mas apenas um pacto jovem Catão, Thrasea Paetus, Helvidio Prisco e Marco feito em transações entre homens, nos mais diversos locais e As principais influências formativas de Epicuro foram a filo- épocas, a fim de evitar que prejuízos sejam causados ou sofri- dos (Diógenes Laerte, 10, 150, 33). sofia natural jônica, que ele estudara sob Nausifanes, o democríti- co, e o ceticismo de Pirro, amigo pessoal de Nausifanes. A teoria passa por uma modificação epicurista característica Com o primeiro, aprendeu que o homem é produto da combi- na máxima que se segue, a qual estabelece que, embora a adikia, nação acidental de átomos que se movem no espaço vazio; com o em si, não seja má (não mais que a dikaiosune, em si, é boa), suas último, o desejo de desligar-se do mundo e a busca de ataraxia, o são, em virtude do temor de ser descoberta pelas libertação dos distúrbios. 10 o resultado foi um sistema doutrinário forças da lei e da ordem. Isso equivale a uma rejeição do dito de que contrastava radicalmente com os pressupostos básicos de Pla- Antifonte, o Sofista (fr. 44, Diels-Kranz), no sentido de que é des- tão, de Aristóteles e dos estóicos. necessário se comportar como dikaios quando não há testemunhas Quanto à pólis, Epicuro adotou uma posição negativa. Ao para a conduta de alguém. contrário dos estóicos, ele rejeitou a máxima aristotélica de que o Seria engano, porém, atribuir a Epicuro (ou, aliás, a Antifonte) homem é naturalmente talhado para a vida na pólis (fr. 523 U.). uma explicação abrangente de dikaiosune. Em geral, embora seja Para Epicuro, a raison d'être do Estado consiste simplesmente em legítimo caracterizar a filosofia epicurista como uma reafirmação possibilitar ao filósofo atingir a paz de espírito. A lei positiva, dos valores da teoria filosófica do século V contra o peso maciço igualmente, tem a função de proteger os sábios dos prejuízos e não da doutrina platônica e aristotélica, isso não deve ser tomado no a de impedir os sábios de prejudicar outros (fr. 530 U.). sentido da implicação de que os epicuristas hajam produzido qual- o pensamento de Epicuro sobre dikaiosune apresenta notável quer coisa que se pudesse chamar teoria política sistemática. semelhança com o raciocínio de origem sofista utilizado por Glau- A pobreza da teoria política helenística é um fato irrecusável. contra Sócrates em A república, volume 2. Qualquer explicação deve começar pelo contexto político. o retro- cesso para filosofias egocêntricas que ressaltavam a felicidade o que eles dizem é que nosso instinto natural é o de infligir da- nos ou prejuízos e evitar sofrê-los, mas que as desvantagens de individual e a suficiência da virtude, independentemente de cir- passar por eles excedem as vantagens de infligi-los; depois de cunstâncias externas, era principalmente uma reação ao advento do experimentar ambos, portanto, os homens decidem que (...) se- Estado em larga escala e a falência da pólis livre. Uma reação ria melhor combinar um com o outro e evitar ambos. Eles con- muito diferente, embora igualmente previsível, a essas mudanças tinuam a fazer leis e acordos mútuos, e ao que as leis foi a proliferação de tratados de realeza, obras de lisonja, análises estabelecem chamam legal e certo. Esta a origem e a natureza pouco sérias portanto, não integradas no espírito de Aristóteles. da dikaiosune (A república, 358e3-359a5). A teoria de realeza mais acessível é aquela emanada dos neopitagó- ricos se se pode supor que o conteúdo básico das obras de Dio- togenes, Ecfanto e Stenidas (escritas durante o Império Romano), das quais possuímos substanciais fragmentos, se originaram de 9 Ver, de P. A. Brunt, "Stoicism and the Papers of the British School obras anteriores escritas no período helenístico. É também a mais at Rome, XLIII (1975), pp. 7-35. extravagante, chegando à doutrina do rei como a própria lei (nomos 10 D. L. Sedley argumenta a favor da influência positiva de Pirro; Etudes sur l'épicurisme antique, ed. J. Bollack e A. Laks (Cahiers de philologie, I, 1976).</p><p>76 M. I. Finley o legado da Grécia 77 empsuchos, ou lex animata), por meio de uma analogia entre o ca pode a dikaiosune ser localizada e atingida a finalidade para o cosmos e a sociedade política. homem? e as respostas que ela proporcionou em termos de pólis Pelo menos três estóicos primitivos, Cleantes, Perseu e Sfai- não os teriam satisfeito. Mas isso não quer dizer que se afirmasse ros, escreveram, sobre a realeza, tratados dos quais nada restou. serem as doutrinas clássicas politicamente subversivas. A doutrina o estilo dessas obras não deve ter sido negativo. Perseu e Sfairos de Aristóteles, no sentido de que a pólis é condição necessária para foram conselheiros de reis, o último em lugar de seu mestre Cle- se alcançar felicidade, poderia talvez ser tomada como um ataque antes e de seu aluno Crisipo, tendo ambos recusado o convite do oculto às estruturas políticas alternativas. Contra isso, porém, deve rei do Egito. Crisipo, porém, recomendou que o homem sábio de- ser estabelecida a doutrina essencialmente quietista do volume 10 veria tornar-se rei ou conselheiro real (SVF, III, 691) e referia-se, da Ética, de que o maior bem para o homem é a meditação filosófi- em outro local, ao governo de um rei como inexplicável (Diógenes ca. Se as elites das cidades gregas tivessem adotado este ponto de Laerte, 7, 122), aparentemente tendo abandonado a distinção aris- vista, teriam garantido longa vida para a monarquia absoluta. totélica entre monarcas constitucionais e monarcas absolutos. Epi- Seja como for, somente a hostilidade dos democratas atenien- curo, que também escreveu um tratado sobre a realeza (do qual ses com relação a Aristóteles está bem documentada. Depois de quase nada é conhecido), talvez tenha adotado uma posição um sua morte, suas idéias foram propagadas por seu sucessor Teofras- pouco mais crítica. De qualquer maneira, diz-se que ele advertira to, tolerado pelos macêdonicos (que confiaram Atenas em primeiro contra a busca de "simbiose" como um monarca (fr. 6 U.). Por lugar a um discípulo de Aristóteles, Demétrio de Falero). Estratão, outro lado, ele podia também defender que se fizesse corte a um que sucedeu Teofrasto em cerca de 287 a. C., não participava de monarca, caso a ocasião o exigisse (fr. 577 U.). Ele próprio, nas seus interesses. Pode-se dizer que a teoria política aristotélica mor- palavras de Momigliano, "se movimentava inteligentemente entre reu de morte natural durante sua direção da escola. os reis helênicos". 11 Os gregos haviam criado uma nova disciplina, a filosofia polí- declínio da teoria política clássica foi também previsível. tica; equiparam-na com vocabulário apropriado, uma série de con- A análise da pólis possivelmente foi, em parte, um acidente da rea- ceitos, tema, nela se empenharam sistematicamente, por meio de ção contra o sistema moral dedutivo de Platão e a teologia aristoté- debate, instrução e composição literária. Além disso, o considerá- lica. Para ambos os filósofos, era axiomático que a virtude estava vel conjunto de obras literárias produzido por eles contém pelo embutida na pólis. Uma consideração mais pragmática era o caráter menos duas reconhecidas como clássicas, A república, de Platão, e irreal e anacrônico da maior parte da doutrina básica de Platão e de A política, de Aristóteles. Aristóteles. Nunca se pretendeu que a pólis de Platão se asseme- É fácil exagerar o impacto dessas obras na teoria política grega lhasse à realidade, mas o ideal cívico de Aristóteles dificilmente como um todo, ao longo do tempo. Na história do pensamento pode ter parecido mais prático e igualmente remoto com relação ao filosófico e religioso europeu, o platonismo praticamente se apro- mundo contemporâneo. o que merece comentário é a ausência de ximou da metafísica platônica e dos vários sistemas derivados do qualquer tentativa de interpretação da política clássica em termos original e por ele inspirados. Depois da Antiguidade recente, os helenísticos. Os próprios alunos e herdeiros de Aristóteles não temas políticos de A república foram influentes entre filósofos e tinham maior ambição do que executar as teorias do mestre. pensadores políticos, principalmente em dois períodos: na Renas- Não há indicação de que os reis macedônicos deliberadamente cença quando deixaram sua marca nos escritos de humanistas tenham acelerado o declínio da teoria política clássica. As dúvidas como Erasmo, Bodin e More e em nossa própria época, no que ela trouxe principalmente, em que estrutura social ou políti- contexto do conflito contemporâneo entre ideologias e sistemas democráticos e totalitários. A curiosa importância atribuída nessa controvérsia às atitudes pessoais de Platão, na medida em que estas 11 A. Momigliano, em resenha no Journal of Roman Studies, XXXI (1941), p. 156. podem ser isoladas numa obra que possui, afinal, caráter forte-</p><p>78 M. Finley mente utópico, é, em si, um testemunho da autoridade do homem e do lugar básico reservado à sua obra no currículo universitário. o interesse despertado pela teoria política aristotélica na últi- ma fase do período medieval foi, de modo geral, mais apropriado. A política, recentemente redescoberta, constituiu arma importante nas mãos dos republicanos do norte da Itália, em sua luta em defe- Capítulo 3 sa da autonomia de suas cidades contra a intromissão eclesiástica. De modo mais geral, o ressurgimento de A política entre outras obras perdidas de Aristóteles levou ao desenvolvimento de uma concepção secular de sociedade, a fim de competir e gradativa- Homero e a epopéia mente afastá-la com a teoria dominante. Depois da Re- nascença, A política, como A república, pode-se supor, foi amplamente lida entre as pessoas cultas, porém teve pouca influên- cia direta no desenvolvimento da moderna filosofia política. Só K. W. Grandsden possui interesse histórico o fato de que Marx admirava Aristóteles (e Lutero insultava-o). De qualquer forma, Aristóteles conquistou A Ilíada e a Odisséia são, por consenso geral, o início da lite- respeito ou atraiu críticas, por suas contribuições à ciência e à lógi- ratura européia. Poder-se-ia esperar que as mais antigas obras so- ca, mais do que por sua filosofia política. breviventes de uma cultura fossem fragmentárias, sem forma, ou Enquanto tópicos como a justiça, a lei, a natureza do homem, primitivas. A Ilíada e a Odisséia, entretanto, são obras-primas as origens e os fins do Estado, ou as constituições e seu declínio completamente realizadas, poemas narrativos de enorme extensão e sempre fizeram parte do tema da filosofia política, outros tópicos sofisticação. Representam a época heróica da Grécia com extraor- de interesse básico para os filósofos modernos não foram avaliados dinária vivacidade e clareza e, por isso, têm sido amplamente con- pelos gregos. Por exemplo, as noções de liberdade e dos efetivos sideradas, de alguma forma, autênticas ou "verdadeiras". De modo direitos do indivíduo estão ausentes do pensamento grego. Ao geral, era aceito, na Grécia clássica, que elas fossem atribuídas a contrário, aquelas relativas a compromisso e obrigação política só um poeta da Idade do Ferro, de grande genialidade, a cujo respeito estão presentes de forma embrionária. Em geral, o elemento pres- não sabemos virtualmente coisa alguma, exceto seu nome: Home- critivo da filosofia política grega é extremamente ro. Os poemas tornaram-se, em época antiga, a base da cultura e da A definição de Platão para dikaiosune como saúde da alma educação gregas, bem como firmaram o mais alto padrão de supe- torna ocioso qualquer conselho no sentido de que ela seja acatada. rioridade poética. Platão, em A república, investiu contra eles, por Aristóteles igualmente supõe que desejaremos completar os fins ser de opinião que a poesia deveria ser proibida, em virtude de delineados pela natureza porque nos interessa fazê-lo, enquanto a contar "mentiras". Os gregos não distinguiam entre ficção e falsi- filosofia estóica, por meio do conceito de kathekon, simplesmente dade, porém o que principalmente incomodava Platão, como havia nos impõe que acompanhemos o passo da natureza, a fim de de- incomodado moralistas que o antecederam, não eram os heróis de sempenhar o papel que nos foi confiado pela Providência. A relati- Homero, que, no seu conjunto, agem racionalmente e com dignida- va negligência da teoria política grega a que nos referimos reflete a de, sob a pressão psicológica de situações extremas, mas seus re- distância a que os últimos pensadores se afastaram das preocupa- latos do comportamento ultrajante dos deuses, que se envolvem em ções (e métodos) de seus antigos semelhantes, o que, por sua vez, fraudes, disputas, adultério e violência. Ao combater Homero, reflete as diferenças entre as sociedades antiga e moderna. Platão estava-lhe, na realidade, prestando uma homenagem. Sua</p>