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Assédio Moral no Local de Trabalho - Estudo FGV

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algumas das desculpas usadas dentro da organização 
para ocultar a importância deste fenômeno, tais como dizer que isto faz parte da natureza do 
trabalho; dizer que toda relação humana é conflituosa; que este tipo de ação serve para 
“despertar os insolentes”; fingir não ver o que está acontecendo (limpar as mãos). 
 
Todas estas justificativas parecem fazer sentido até nos depararmos com alguém que sofre 
com esta violência. Aí vemos como a realidade é muito diferente e como é descabido aceitar 
que estes comportamentos possam fazer parte da rotina de alguém. Do ponto de vista pessoal 
a justificativa é a de que infelizmente sabemos como este assunto pode ser grave e danoso 
para as pessoas e também para as organizações, visto que muito frequentemente até as pessoas 
mais capazes caem nas teias de um assédio moral. 
 
Esperamos que este trabalho possa ajudar vítimas a se conscientizar sobre este tipo de 
violência e que elas possam encontrar meios para se defender. O estudo de Bondi e Gregersen 
(2004) mostrou que o fato de as vítimas não terem conhecimentos suficientes sobre este 
fenômeno e sobre a maneira correta de abrir um processo contra os agressores acaba 
prejudicando suas chances de defender-se eficazmente contra esta violência. Além disto, 
segundo observações de Hoel (2004), a percepção da seriedade destes problemas e a vontade 
de resolvê-los parecem estar fortemente conectadas com o reconhecimento de sua importância 
e seriedade. Talvez por medo, preconceito, ou falta de interesse, apesar de tão cotidiano, este 
assunto é comumente evitado. Muitas pessoas preferem se concentrar em aspectos mais 
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funcionalistas ou mais positivos da vida dentro das organizações a tratar destes aspectos mais 
negativos do comportamento humano. 
 
Mas, não se pode fechar os olhos para as práticas que ocorrem dentro das organizações e 
esperar que magicamente desapareçam. Nem é possível se enganar dizendo que o mundo não 
tem seu lado perverso e pernicioso. Ao escolher este tema, assumimos a vida organizacional 
em toda a sua complexidade; ao evitá-lo, assumimos indiretamente que o assédio moral 
ocorre excepcionalmente na vida organizacional ou que nunca vai acontecer conosco. 
Desnudar a realidade para melhor entender este problema foi a forma que encontramos para 
lidar com esta violência. 
 
 
2. Foco deste estudo 
 
 
De certa forma, evitar este tema é simplificar a realidade, é recusar ver que as organizações 
muitas vezes não sabem como lidar com estas questões, é ignorar que os indivíduos são 
multidimensionais (subvertendo o termo caro a MARCUSE, 1966), vivendo em complicadas 
redes sociais, onde trabalho e vida pessoal se misturam. Não se pode deixar que as pessoas 
simplesmente escondam o que lhes aconteceu, pois o trabalho afeta profundamente a vida, 
dentro e fora do emprego, como os suicídios cometidos dentro do ambiente de trabalho 
exacerbam. 
 
Usando os argumentos de Caldas (2000) quando tratava de outro tema desconfortável para as 
organizações - as demissões -, este também é um trabalho sobre as escolhas que as pessoas 
fazem dentro das empresas, e também as escolhas das próprias organizações. Pode-se escolher 
aceitar uma situação de assédio moral, seja como vítima ou como testemunha, e as empresas 
podem escolher permitir sua ocorrência dentro de suas paredes. 
 
Podemos dividir os objetivos deste trabalho em individuais e organizacionais. No nível 
individual, este trabalho pretende, principalmente, mostrar que este não é um fenômeno raro 
dentro das organizações e que suas vítimas precisam ser assistidas. Pretende-se desnudar o 
processo do assédio moral para que se entenda o que acontece e possa-se combater este 
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problema. No nível organizacional, este trabalho pretende estimular a reflexão sobre os custos 
das situações de assédio moral, os impactos diretos e indiretos sobre a produtividade, sobre o 
trabalho em equipe e sobre os resultados da empresa. Pretende-se, também, estimular a 
reflexão sobre as condições que favorecem o seu surgimento, o papel dos diversos atores 
organizacionais no seu enfrentamento e os mecanismos já testados de combate e repressão 
deste mal nas organizações. 
 
3. Estrutura do estudo 
 
 
Para atingir estes objetivos separamos os resultados de nossa pesquisa em quatro grandes 
blocos de categorias, esquematizados na figura da página seguinte: 
Figura-1 Estrutura da dissertação 
 
 
 
 
1. Assédio moral 
como processo 
2. Causas 
3. Conseqüências 
4. Perfil da 
vítima 
5. Direções 
6. Perfil do 
agressor 
7. Custos 
1. Panorama 
geográfico 
internacional 
2. Estudos no 
Brasil 
1. Prevenção 
 
2. Combate 
 
 a) Legislação 
 b) Sindicatos 
 c) Empresas 
 d) Indivíduos 
 
 
 
 PARTE III 
 
 As pesquisas 
 feitas no mundo 
PARTE IV 
 
Mecanismos de 
combate e 
prevenção 
 PARTE II 
 
 Aspectos 
 dos estudos 
PARTE I 
 
Contexto 
sócio-
organizacional 
1 A violência e a 
violência no 
trabalho 
 
2. Contexto das 
mudanças na 
organização do 
trabalho 
 
3. Violência ou 
dominação? 
 
4. Poder e controle 
 
5. Evolução das 
pesquisas sobre 
assédio moral 
 
6. Os dilemas 
conceituais 
INTRODUÇÃO 
 
Foco 
Estrutura 
Metodologia 
Portanto após convidar o leitor a se aventurar neste tema, resta-nos agora explicar as quatro 
partes em que dividimos o nosso trabalho. 
 
A Parte I abordará a cronologia do desenvolvimento dos estudos sobre assédio moral, a 
importância deste tema para a área de Administração e para a qualidade de vida dos 
trabalhadores. Além disto, abordaremos a violência no trabalho, o contexto organizacional 
que favorece o seu aparecimento, a dificuldade conceitual do assédio moral, a nomenclatura e 
fronteiras com outros temas. 
 
Na Parte II serão detalhadas as categorias mais freqüentemente analisadas nas pesquisas. 
Iremos discorrer sobre como este é um fenômeno de múltiplas faces, suas manifestações, as 
tipologias e as direções. Nesta parte iremos abordar também as conseqüências das ações de 
assédio moral para as vítimas, para as organizações e também para a sociedade. 
 
Após descrever e relacionar os resultados das principais pesquisas sobre assédio moral, 
pretendemos, na 3ª parte do trabalho, abordar algumas pesquisas feitas em diferentes países e 
como este mal aflige a todos. Deste modo pretendemos detalhar as pesquisas e artigos 
realizados por pesquisadores da Europa (Suécia, Finlândia, Noruega, Dinamarca, França, 
Reino Unido, Bélgica, Espanha, Holanda, Suíça e Áustria), Estados Unidos, Canadá, 
Austrália, África do Sul, Japão, Colômbia, Argentina, Peru e Chile. Assim como 
apresentaremos os estudos e as especificidades desta forma de violência refletidas nas 
pesquisas feitas no Brasil. 
 
Dedicaremos a quarta parte às questões legais, ao papel dos sindicatos, bem como às possíveis 
ações de prevenção e estratégias de como lidar com esta agressão. No que diz respeito ao 
aspecto jurídico da situação no Brasil pretendemos abordar os avanços que este estudo trouxe 
ao tema, suas limitações e possíveis encaminhamentos para o futuro. 
 
 
 
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4. Metodologia de Investigação 
 
Este projeto concentra-se na investigação, reflexão, tradução, análise e comentários das 
questões sobre assédio moral no ambiente de trabalho e suas relações com as organizações e 
os indivíduos. A metodologia escolhida foi a revisão e produção bibliográficas baseada em 
uma varredura das publicações acadêmicas disponíveis sobre este tema. 
 
Este é um trabalho multidisciplinar, que pretende reunir os diferentes olhares resultantes das 
contribuições de pesquisadores advindos principalmente das áreas de Psicologia, da área de 
Administração e do Direito. Pois, ao reunir e comparar