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<p>LUIZ (organizadores) TEORIAS DA COMUNICAÇÃO Conceitos, escolos e tendências Edição EDITORA VOZES Petrópolis 2003</p><p>PASTA: TEXTO 2/3/4 N° DE FOLHAS: 30. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Teorias da comunicação : conceitos, escolas e (organizadores) Antonio Hohlfeldt, Luiz C. Martino, Vera Veiga França. RJ : Vozes, 2001. ISBN 85.326.2615-7 1. Comunicação Hohlfeldt, Antonio II. Martino, Luiz C. III. França, Vera Veiga. 01.3139 CDD-302.2 Índices para catálogo sistemático: 1. Comunicação : Teoria : Sociologia 302.2 2. Teoria da comunicação : Sociologia 302.2</p><p>3. DA COMUNICAÇÃO/A COMUNICAÇÃO COMO OBJETO Vera Veiga 1. o que é a comunicação? Ao iniciarmos uma reflexão sobre a teoria (ou teorias) da comunicação, nossa primeira indagação refere-se ao seu ob- jeto: afinal, teoria sobre o quê? que quer dizer "comunica- ção"? Um campo científico (uma ciência, uma disciplina ou um determinado domínio do saber) se define antes de tudo pelo seu objeto. objeto da comunicação, qual é?! A resposta mais imediata à questão, trazida pela nossa vivência (ou senso comum), vai resgatar - ou apoiar-se - na sua dimensão empírica: trata-se de um objeto que está à nos- sa frente, disponível aos nossos sentidos, materializado em objetos e práticas que podemos ver, ouvir, tocar. A comuni- cação tem uma existência sensivel; é do dominio do real, tra- ta-se de um fato concreto de nosso cotidiano, dotada de uma presença quase exaustiva na sociedade Ela está nas bancas de revista, na televisão da nossa casa, no rádio dos carros, nos outdoors da cidade, nas campanhas dos candidatos políticos e assim por diante. Se estendemos mais os exemplos (e também nosso critério de pertinência), va- mos incluir nossas conversas cotidianas, as trocas simboli- cas de toda ordem (da produção dos corpos às marcas de lin- guagem) que povoam nosso dia-a-dia. Professora da UFMG.</p><p>Veigo Assim, que uma primeira resposta à indagação so- bre 0 objeto da comunicação nos ostenta, com firmeza, um ou conjunto de objetos empíricos. Uma firmeza enganosa, temos que registrar em seguida. Os objetos (ao contrário do que nos diz a intuição imediata) não se encontram prontos e recortados: os "objetos" do mundo são recortados (ou religados) por nosso olhar e nossa compreensão, por nossa maneira de ver. Senão vejamos: quando dizemos que o objeto da comunicação são os meios de comunicação de massa, e dentre eles a televisão, por exem- plo, ao exatamente, estamos nos referindo? Ao aparelho todo desenvolvimento tecnológico que possibilitaram transmitir e receber sons e imagens instantaneamente, nos quatro cantos do mundo, com alto grau de precisão? A ma- neira como foram se conformando as mensagens (a produ- ção discursiva) dentro desse novo meio? À diversidade de produtos (gêncros discursivos) que foram ai gerados? Ao de- sempenho, competências, à cultura profissional, enfim, dos que trabalham? Às do processo de produ- ção e circulação dos produtos (das rotinas produtivas às téc- nicas de inserção e disputa de mercado)? Aos hábitos, com- interpretações, re-elaborações e usos específicos dos telespectadores? Ou às influências a que eles estão ex- postos? A sociedade que criou e impulsionou uso da tv? Ou à sociedade que é "criada" pela tv? À tv com relação ao rá- dio, ao cinema, à revista ilustrada, que a precederam? Ou às modificações que ela vem sofrendo, com a chegada do vi- deo, dos canais a cabo, das imagens digitais, do mundo da web? Quem sabe a tudo isso em conjunto não apenas a tele- visão, mas essa nova realidade, criada pela presença dos vá- rios meios de comunicação, com o que isto significou na re- configuração das nossas experiências cotidianas e das várias outras dimensões do real? Essa última afirmativa - fazendo corresponder comuni- cação/meios de comunicação, ou realidade mediática - que parece convincente é amplamente accita, não significaria, no entanto, afirmar também a inexistência da comunicação 40</p><p>0 objeto comuniccção nos períodos anteriores? Mas, então, como podemos nomear que faziam nossos seus feitos, de- cidindo suas querelas, instituindo seus valores, invocando seus deuses, cantando seus amores? Ora, é obvio que os homens sempre se comunicaram, que os primeiros agrupamentos humanos, aquilo que pode- mos intuir como o embrião da vida social, apenas se consti- tuíram sobre a base das trocas simbólicas, da expressividade dos homens. É obvio que a comunicação processo social básico de produção e partilhamento do sentido através da materialização de formas simbólicas - existiu desde sempre na história dos homens, não foi inventada pela imprensa, pela tv, pela A modernidade não descobriu a co- municação apenas a problematizou e complexificou seu desenvolvimento, promovendo o surgimento de múltiplas formas e modulações na sua realização. E aqui vale um registro curioso não apenas a palavra comunicação é como é sobretudo a partir do século XX (mais particularmente na sua segunda metade), que a pa- lavra começa a ser dita à exaustão. Antes nomeavam as práticas, os procedimentos, os objetos: era a linguagem; a re- tórica; os arautos; os avizzi; o jornal (...) Por que agora a no- 1. é também perspectiva desenvolvida por Rüdiger (1998). que argumenta: "Entre- comunicação social meios de comunicação, não se confundam cada vez mais cm nosso tempo, não são coisa: remetem problemáticas de que não SC uma à outra esfera do saber" (p. 15). comunicação "deve ser reser- vado à interação humana, à troca de mensagens entre os seres humanos, scjam quais forem os aparatos responsáveis por sua mediação. A comunicação representa um processo social com relação 20 qual chamados meios de comunicação de massa são simples- meete a mediação extremidades encontram sempre as o mundo da vida em (p. 17). 2. Cf. Debray "Na França, o comunicação remonta século XIV. inventado por filósofo e conselheiro rei Carlos V que fundou primeira bi- blicteca real. (...) No século XIV, cra nove, pois o universo medieval cia apenas o conceito de comunhão que supõe uma uma simbiose so- mente scus atores, mas entre os as A intriga gica SC trama completamente a montante, em redor desse primeiro desgrudamento, dessa dessa liberação de uma distância problemática, entre um saber uma forma, uma informação e um médium (o reflexo de nova entre os homens cm que a questão da circulação do sentido surge como algo que não é que de 41</p><p>meação "comunicação"? Pela proliferação virótica dos meios e dos seus produtos? Em Mas sempre se poderia conti- nuar dizendo (como aliás diz): o cinema, a imprensa, o discurso, a persuasão (...) rótulo comunicação quererá di- zer algo a mais do que a da prática ou do especifico já diz? É com este questionamento que retomamos a discussão sobre o objeto da comunicação, direção a um outro tipo de resposta. Se a primeira resposta apontou um objeto empi- rico (um elenco de práticas distintas), é importante realçar que a palavra comunicação se reveste ainda de um outro sen- tido, ou dimensão: cla é também um conceito, uma forma de apreensão, uma "representação" dessas diferentes práticas uma de concebê-las e Avançamos assim na busca de nossa resposta: o objeto da comunicação não são os objetos "comunicativos" do mun- do, mas uma forma de identificá-los, de falar deles - ou de construi-los conceitualmente. E aqui chegamos ao veio toca- do por nossa indagação: quando se pergunta pelo objeto da comunicação, não nos referimos a objetos disponíveis no mundo, mas que a comunicação, enquanto conceito, constrói, aponta, deixa ver. Essa é a natureza de um "objeto de construções edificadas pelo próprio pro- cesso de conhecimento, a partir de suas ferramentas e do seu cognitivo" disponível (o conhecimento com o qual se conta para poder conhecer mais). Chegamos também aos primeiros obstáculos do nosso campo, que são as dificuldades enfrentadas pelos estudos da comunicação na construção - solidificada, partilhada - de seu objeto. 2. o objeto e conhecimento o trabalho de conhecimento tem início com a identifica- ção de seu objeto - nós conhecemos alguma coisa que é pre- ciso identificar, delimitar. A questão do objeto assim, o 42</p><p>ponto de partida. Mas, antes de nessa discussão (e buscando mais subsidios para vale refletir um pouco sobre o próprio processo de conhecer. Conhecer é atividade especificamente humana. Ultra- passa o mero "dar-se conta e significa a apreensão, a in- terpretação. Conhecer a presença de sujeitos; um objeto ou problema que suscita sua atenção compreensi- va; uso de instrumentos de apreensão; um trabalho de de- sobre. Como fruto desse trabalho, cria-se uma re- presentação do conhecido - que já não é mais o objeto ini- cial, mas uma construção do sujeito (resultado da relação que se estabelece entre objeto). conhecimento pro- duz, assim, modelos de apreensão - que por sua vez vão ins- truir conhecimentos futuros. De tal maneira que é perceber, no ato de conhe- cimento, a tensão entre objeto (do mundo) e lo de apreensão; o cruzamento de duas dinâmicas opostas, que representar através de duas atitudes básicas: a abertura para o mundo, a cristalização (ou enquadramento) do mundo. Conhecer significa voltar-se para a realidade, e "deixar falar" o nosso mas conhecer significa tam- apreender mundo através de esquemas já conhecidos, identificar no novo a permanência de algo já existente ou re- conhecível. predomínio de uma ou outra dessas tendências efeitos negativos, e é através de seu equilibrio que se pode alcançar conhecimento mesmo tempo atento ao novo e enriquecido pelas experiências cognitivas anteriores. Naturalmente não existe uma única forma e um cami- nho para o conhecimento. Nós conhecemos primordialmente como resultado de nossa vivência - nosso estar no mundo, nossa ação no mundo. Mas conhecemos também através de vários processos mediadores, tais como o acesso a informa- a fruição experiências misticas ou espirituais. Nós conhecemos ainda através de um trabalho sistemático de pesquisa e estudo, com a utilização de métodos especifi- 43</p><p>Vero Veigo França cos. A esta última forma de conhecimento chamamos conhe- cimento científico. No caso da comunicação, componente básico da vida so- cial, experiência permanente do homem, o aprendizado co- meça com os primeiros dias de vida. Aprendemos as formas comunicativas de nossa cultura, aprendemos a nos comuni- car, reconhecemos os modelos comunicativos com os quais nos defrontamos. A exposição c o uso permanente dos meios de comunicação fazem deles práticas e objetos familiares e amplamente conhecidos pelos membros da sociedade. Fala- mos deles, de seus conteúdos, do desempenho dos persona- gens que os habitam; dominamos, em certa medida, seu fun- cionamento; dirigimo-lhes críticas. Trata-se ai de um conhecimento vivo, intuitivo, espontâ- neo - c que apresenta uma grande riqueza em função de seu enraizamento no terreno da experiência c sua sintonia com nosso viver cotidiano, com as indagações, problemas e jos que povoam a vida do dia-a-dia. Esse conhecimento, no entanto, e na medida mesmo de sua natureza e operacional, apresenta limites - que o conhecimento cientifico procura ultrapassar, através da criação e uso de instrumentos adequados (métodos e téc- nicas de pesquisa, categorias analíticas) e de uma prática cui- dadosa e disciplinadora. Digamos que as formas intuitivas de apreensão, senso comum, constroem conhecimento possível, imediato; o conhecimento necessário em face das situações vividas, conjugando aspectos de experiências ante- riores e a criatividade ativada pelo novo. A ciência, menos imediata e procurando afastar-se um pouco do vivido, estaria comprometida com a busca permanente do conhecimento objetivo, fidedigno, aprofundado e sistemático da realidade. Ao registrar a busca do conhecimento objetivo não pode- mos, entretanto, esquecer que a ciência é um fenômeno so- cial e histórico, sujeito a condicionamentos e influências. o que significa: é também parcial sujeita a erros. Não ultra- 44</p><p>0 objeto do como objeto passa, por vezes, senso comum, e é com permea- da pela ideologia (ou pelo viés dos interesses, da preservação ou conquista de posições de poder). Mas na medida em que se atém a seus objetivos, e man- tém uma permanente de seus métodos e seus re- sultados, expondo-se permanentemente ao crivo de sua vali- dade, constitui sem dúvida o caminho mais profícuo para uma maior compreensão da realidade - que é o ponto de partida e de retorno de toda reflexão. Essa vinculação com a realidade não é - ou não pode ser uma retórica vazia na discussão sobre o conhecimento. Vinculada às outras formas de conhecimento, a ciência pre- tende alcançar um maior refinamento, um maior alcance. Ou- tras diferentes formas de conhecimento atendem a diferentes objetivos (sobreviver, viver bem, experimentar, melhorar nossa posição, etc.) num processo em que o conhecimento é apenas fator subsidiário ou decorrente. A ciência, compro- metida também com a melhor qualidade da vida no mundo, tem como objetivo primeiro o próprio conhecimento. o que não significa, é bom realçar, tomar o conhecimento como um valor em si, ou para si (num processo de isolamento e auto-alimentação). o conhecimento desenvolvido pela ciência é estimulado pela realidade e volta para ela - mas à condição de tanto estabelecer proximidade quanto saber guardar afastamento. Dito de outra maneira, poderíamos indicar um duplo mo- vimento na relação entre a ciência e a prática (entre a ciência e o campo do fazer, a realidade sensível). o primeiro movi- mento seu ato fundador é justamente a estreita vinculação com o mundo. Uma teoria sem prática é pura abstração; só a prática é fundadora é ela que problematiza, instiga, coloca questões. o homem teoriza não apenas porque pensa, mas porque sente, age, se relaciona. Mas a ação no mundo separada da teoria é ação animali- zada e não humana. E um segundo movimento - condição da 45</p><p>Vera Veiga reflexão é de Não cabe à teoria captar mecani- camente reflexos do mundo, mas produzir reflexões sobre mundo. Conhecer não é apenas re-conhecer a prática, mas antecipá-la, revesti-la de sentidos, isto é, abrir o ato para seu significado cultural. É com esse movimento que conhecimento começa e termina na prática; afasta-sc c rctorna ao que negou - afir- mando-o dentro de uma nova forma de existência (ou signi- ficação). E comunicação, como se dá este movimento? Ora, é cle inclusive que nos ajuda a entender porque os estudos nesse domínio são recentes (e porque a própria palavra é recente). Quando a modernidade (rompendo com o mundo da tradição e com a legitimidade prévia de uns locutores autoriza- razão, capacidade homem de ação autônoma palco poucos vontade traz o ao centro do - o homem dotado de e ser de esse novo sujeito de poder, nessa nova etapa de sua experiência no mundo, se vê às voltas com seu instrumento primordial, que é a A palavra a ser dita, a palavra a ser a pala- vra em busca de sua legitimação, a palavra que se prolifera... A modernidade transformou a comunicação em problema; le- vantou questões em torno de uma prática até então natural, na- turalizada prática esta que desde então se impôs aos homens como algo a ser melhor conhecido. A resposta ao desafio é a apreensão e a conformação des- ses estímulos na forma de um "objeto" recortado; é a trans- formação do problema sentido em problema formulado; é construir desse problema um objeto de conhecimento. 3. "A virada da modernidade caracteriza em primeiro lugar, no século XVII, pela desva- lorização do e pela concentração sobre ato de a Quando se tinha quanto locutor fala ao a atenção voltava para 0 ato de decodificar os os do mundo. Mas quando essa certeza fica perturbada com as instituições politicas que davam garantia, perganta-se pela possibilidade de achar substitutos para único E a Com do Princiro Locutor surge problema da comunicação, ou seja, de linguagem que se deve não mais somente 229). 46</p><p>0 objeto da comunicação/A como objeto 3. surgimento e as dificuldades da teoria Em torno da comunicação, e como resultado dos esfor- de conhecê-la, começam a surgir estudos, teorias. Mas o que é teoria? Uma teoria é um sistema de enunciados, um corpo organizado de idéias sobre a realidade ou sobre um certo aspecto da realidade. Etimologicamente, teoria signifi- ca contemplação, exame, abstração intelectual; é o resultado do duplo movimento apontado acima - vinculação com a realidade e autonomia da reflexão. Não apenas o conhecimento cientifico produz teorias. Conforme também já realçado, nossa convivência nosso desempenho no terreno da comunicação promovem um gran- de estoque de conhecimentos sobre ela. Mas ao lado desse conhecimento, no entanto, um outro esforço compreensivo vem sendo desenvolvido no da ciência, através do de- senvolvimento de inúmeros estudos sobre meios de co- municação e a realidade comunicativa. A teoria ou teorias da comunicação são o resultado e a sistematização dessas inú- meras e distintas iniciativas, com pretensão de co- nhecer a comunicação. A trajetória desses esforços não tem sido isenta de obstá- culos; esse campo de estudo vem sendo atravessado desde início por uma série de tensões, contradições e dificuldades decorrentes algumas da a de seu objeto, ou da relação por vezes conflituosa que se estabelece entre o campo da teo- ria e o campo da prática; outras de ordem propriamente teóri- ca (na acomodação dos diferentes tratamentos conceituais e na construção de seus próprios referenciais). Um primeiro aspecto ou dificuldade com evo- cado diz respeito ao protagonismo da prática com relação ao desenvolvimento da ou a uma "dinâmi- ca invertida" que teria ocorrido no campo de estudo da co- municação. Reportando-nos, por exemplo, à origem das ciências sociais, é interessante lembrar que o surgimento dessas ciências se deu como resultado de uma intervenção e</p><p>Vero Veigo de um trabalho de recorte, no domínio de uma totalidade, que é a realidade social, dando origem às diferentes disciplinas. trabalho de conhecimento (o esforço teórico) de certa forma e construiu objetos de conhecimento distintos antes existia, indivisa, a realidade social). No caso da comuni- cação, foi o desenvolvimento das práticas, a invenção dos no- vos meios de comunicação que motivaram os estudos susci- taram a reflexão. próprio espaço acadêmico foi inaugurado ou estimulado por um investimento de ordem pragmática: cur- SOS profissionalizantes na área de comunicação - (o de jorna- lismo, sobretudo) - antecederam a criação das teorias, que vie- ram quase a reboque, complementando a formação técnica e abrindo-a para sua dimensão humanista c Esse primado da prática trouxe alguns inconvenientes ou distorções. Uma delas é a natureza instrumental da demanda. Enquanto atividade essencialmente envolvida com proces- so produtivo da sociedade, a comunicação está sempre às voltas com a qualidade de seu desempenho - configurando uma demanda operacional e a consequente orientação prag- mática de muitas pesquisas empreendidas. Com o estudo da comunicação se desenvolve voltado para a ob- tenção de determinados resultados, guiado por finalidades específicas - o que certamente compromete o distanciamen- to crítico necessário ao conhecimento. Cumpre ainda lem- brar o poder de que se reveste a comunicação na sociedade a função que ela desempenha no seio das re- lações políticas, econômicas e que significa dizer: o conhecimento da comunicação não está isento do revesti- mento ideológico e de condicionamentos de toda ordem. A crítica à proximidade c identificação exageradas com a prática, em outros casos, produziu excesso inverso, que é o isolamento da abstração intelectual, a ado- ção de esquemas teóricos fechados produziram, por vezes, não apenas o distanciamento, mas mesmo o desprezo pela empiria. Ora, uma teoria que se coloca fora do horizonte da prática que a se converte em pura abstra- 48</p><p>0 objeto da comunicação objeto ção. A onipotência de uma teoria que abandona a referên- cia das questões concretas e especificas da realidade comu- nicativa que a cerca acarreta também a perda do seu papel explicativo e da sua razão de ser. Uma outra dificuldade decorre da extensão e diversidade da dimensão empírica que a comunicação recobre ou da ex- trema diversidade dos fatos e práticas que constituem seu obje- to. As inúmeras atividades profissionais de comunicação (jor- nalismo, publicidade, relações públicas, etc.); os diferentes vei- culos (o jornal impresso diário, o jornal televisivo, a Internet); as inúmeras linguagens (a linguagem cinematográfica, publici- tária, videográfica, cotidiana...) assumem dinâmicas e configu- tão particulares que toma-se impossível pensar na construção e utilização de esquemas conceituais capazes de abarcar e dar conta de uma tal diversidade. A essa diversidade soma-se a mobilidade do objeto em- a constante mutação das práticas comunicativas, ver- dadeiras revoluções tecnológicas a que temos assistido parti- cularmente nos últimos anos, dá-se num ritmo que a reflexão acadêmica não consegue (em função de sua natureza e seu tempo) acompanhar. São distintos o tempo da reflexão e o tempo da prática; mais ainda essa distinção se faz sentir num campo onde a prática se renova quase anualmente. o que im- possibilita o acompanhamento mais próximo e torna rapida- mente ultrapassados muitos esforços investigativos. Um outro aspecto se refere à heterogeneidade dos apor- tes teóricos acionados para a sua Fenômeno empírico com tantas facetas, a comunicação suscita plos olhares; é um objeto complexo que apresenta recortes de serem investigados por várias disciplinas. De tal maneira que aquilo que chamamos "teoria da comunica- ção", principalmente em seus primórdios, apresenta-se como um corpo heterogêneo, descontínuo e mesmo incipiente de proposições e enunciados sobre a comunicação, fruto de in- vestigações oriundas das mais diversas filiações (sociolo- 49</p><p>gia, antropologia, psicologia, entre outras) - cada uma re- fletindo olhar específico e 0 instrumental metodológico de sua disciplina de origem. Essa herança tanto enriquece os olhares quanto dificulta a integração teórica e metodológica do campo. Infelizmente, c como agravante nessc quadro já compli- cado pela diversidade, manifesta-se ainda nos estudos sobre a comunicação uma forte tendência aos modismos: quadros conceituais, temáticas e vertentes explicativas se sucedem ao longo dos anos, sem alcançar o necessário aprofundamento e maturação. Apesar de sua pretensão cientifica, é necessário ressaltar a natureza intuitiva e às vezes apressada de muitas investigações, improvisando métodos, incorporando concei- tos nem sempre pertinentes ou que tenham passado pela ne- cessária adequação. Enfim, o espaço acadêmico da comunicação apresenta-se permeado por diferentes tensões - na articulação das teorias; na relação entre teoria e prática; na diferenciação, pluralidade e movimento de seus objetos. o corpo das teorias da comuni- cação apresenta-se como um quadro fragmentado - tanto no que diz respeito à heterogeneidade dos aportes, quanto à di- versidade das práticas que abarca. É possível, apesar disso, tomá-lo enquanto tal - um dominio específico? elenco de estudos que compõem o que chamamos "teoria" ou da comunicação" pode começar a ser visto como uma nova disciplina ou campo científico particular? Como dissemos acima, o surgimento de uma disciplina não está vinculado aos objetos do mundo (não corresponde a uma divisão natural dos objetos da natureza), mas à constitui- ção de uma tradição de trabalho, que foi capaz de estabelecer um objeto próprio e métodos específicos de abordagem. Nosso percurso veio indicando que os estudos da comu- nicação não alcançaram exatamente esse estatuto - não há uma tradição estabelecida, o campo da comunicação ainda 50</p><p>não constituiu com clareza seu objeto, nem sua metodologia. o que coloca uma nova questão: se os estudos da comunica- ção não constituem um campo disciplinar próprio, onde é que eles se situam? Eles não estão exatamente ou especificamente em nenhum outro campo; hoje não é correto (não corresponderia à reali- dade) dizer que se encontram espalhados em vários campos. Já podemos identificar (e devemos registrar) a constituição e o agrupamento de um razoável "estoque" de estudos, um pe- queno patrimônio de conhecimento específico sobre a comu- nicação. Esses estudos trazem a marca de suas várias disci- plinas de origem; a reflexão sobre a comunicação suscita a contribuição de várias disciplinas, atravessa fronteiras esta- belecidas, promove migrações conceituais, colagens, justa- posições. resultado dessa composição nem sempre é ade- quado, é verdade - mas é suscitador de novos sentidos. É na medida desse movimento de congregação de olhares diver- SOS, com o objetivo de constituir um novo olhar, que pode- mos pensar campo de estudos da comunicação enquanto ou espaço interdisciplinar (lembrando que a inter- disciplinaridade é transitória: quando ela consegue se estabi- lizar, criar referências, fincar sim, podemos falar do surgimento de um domínio novo). 4. Primeiros estudos da comunicação: breve panorama histórico Para o bem ou para o mal, vale sempre lembrar que a ciência é e é histórica. É um produto dos homens e das condições vividas; traz as marcas de suas necessidades, suas vicissitudes, seus limites e seus investimentos. Essas dificuldades do campo teórico da comunicação fo- ram criadas e vividas historicamente, e traduziram (e tradu- zem) a forma de inserção da ciência no mundo. Traçar agora- 51</p><p>França mesmo que de forma sucinta - um breve panorama das teo- rias, realçando as condições e estímulos que motivaram seu surgimento, bem como o seu caráter recente, pode ajudar-nos a situar melhor os aspectos apontados acima. Seria equivocado afirmar que até então os homens (e as sociedades) não se preocuparam com a comunicação (ainda que não nomeada desta maneira). Já entre os gregos, a mais de dois mil anos, encontramos os sofistas exercitando o uso da palavra e ensinando a arte do discurso. Os filósofos, por sua vez, reivindicavam a discussão organizada de homens racionais; Platão realça a importância do discurso que busca a verdade, distinguindo-o da retórica; a retórica como a busca de todos os meios de persua- são; classifica e organiza suas técnicas. Não obstante, estudos específicos sobre fazer comuni- cativo, ou sobre os meios de comunicação, datam do início do século São contemporâneos das profundas mudan- ças que atingiram esse e que se referem ao desen- volvimento vertiginoso das técnicas; profissionalização das práticas; às novas configurações es- paço-temporais que se estabelecem no âmbito da nova reali- dade comunicativa. Se estabelecemos uma primeira correlação entre a in- tensificação das práticas comunicativas e a maior necessi- dade de seu conhecimento, tampouco podemos separar o quadro do desenvolvimento dos meios de comunicação (e dos estudos sobre os meios) da dinâmica mais ampla que mar- cou a primeira metade do século XX, das intensas transfor- mações vividas pelo mundo, das necessidades que as socie- dades ocidentais formularam à comunicação. Os estudos sobre a comunicação tanto foram provocados pela chegada dos novos meios, como foram também, e sobretudo, de- mandados por uma sociedade que necessitava usar melhor a comunicação para a consecução de seus projetos. co- da comunicação surge marcado pelas questões 52</p><p>0 objeto como objeto colocadas pela urbanização crescente do mundo, pela fase de consolidação do capitalismo industrial e pela instalação da sociedade de consumo, pela expansão do imperialismo (notadamente 0 imperialismo norte-americano), pela divi- são política do globo entre capitalismo e comunismo. A ace- leração dos estudos reflete também o papel central ocupado pela ciência, que responde cada vez mais pelo progresso e planificação da vida social. É nesse contexto que vamos identificar o surgimento dos primeiros trabalhos. Alguns autores apontam o pionei- rismo do alemão de Otto Groth que, em Estrasburgo, nas primeiras décadas do século XX, dedicou-se a escrever uma espécie de enciclopédia sobre o jornalismo (conhecida como "teoria do diário"). Mas é nos Estados Unidos, a partir de 1930, que começa a se desenvolver um tipo de pesquisa voltada para os meios de comunicação de massa, particularmente para seus efeitos e funções. E são estes estudos, conhecidos como mass com- munication research, que teriam inaugurado ou marcado o "nascimento" da teoria da Esse nascimento teve paternidade reconhecida; quatro pesquisadores são apon- tados como "pais fundadores" da pesquisa comunicação. São eles: Paul Harold Kurt Lewin e Carl Esse período assiste à criação de vários insti- tutos centros de pesquisa, com o desenvolvimento de pro- 4. Estudos da Escola de Chicago são anteriores; mas apenas recentemente são contabiliza dos na dos estudes da 5. P. Lazarsfeld era formado em Viena, dedicos sobretudo das as- diências dos meios de comunicação de à caractorização dos processos de formação da pública. 6. H. Lasswell era cientists politico, trabalhou com opinião pública; identificou as funções da comunicação; um que SC quase um paradigma da ("Quem, diz que canal, a quem, com que 7. K. Lewin cra formado cm desenvolveu estudos sobre a comunicação cm grupos; sobre lideres de 8. C. Hovland com pesquisas experimentais sobre in- fluências mudanças de 53</p><p>Vera Vega jetos abrangentes e ambiciosos, a montagem de experimen- tos, possibilitando a formulação das primeiras teorizações sobre o papel dos meios e o processo de influência. Tais estudos estavam intimamente ligados a motivações de ordem politica e por um lado, a expansão da produção industrial e a necessidade de ampliar a venda dos novos produtos (de estimular a formação e ampliação dos mercados consumidores) estimula investimento em pes- quisas voltadas para o comportamento das audiências e para aperfeiçoamento das técnicas de intervenção e persuasão. Por outro lado, a reacomodação do mundo sob impacto da fase monopolista do capitalismo, bem como a ascensão dos Estados Unidos como grande potência imperialista, atribuem à comunicação um papel estratégico. Já na I Guerra Mundial, na Europa, os meios de comuni- cação são chamados a desempenhar o papel de persuasores das vontades e sentimentos individuais da população civil na sustentação da economia e fortalecimento do sentimento nacional. Pouco depois, a crise de 29 e a retomada econô- mica dos Estados Unidos sob a égide do New Deal incluem a comunicação no projeto de planificação e racionalização da sociedade. Mas foi sobretudo a II Grande Guerra que veio expor a potencialidade o alcance da comunicação, através dos programas empreendidos pela Alemanha nazista, sob a inspiração de J. Goebbels com o uso da propaganda como mecanismo de controle e manipulação politi- co-ideológica, a combinação de formas interpessoais e massivas, a utilização máxima dos meios disponíveis (com programações dirigidas tanto a um público inter- no quanto externo). Paralelamente, deve-se registrar tam- volume e a eficácia da propaganda dos aliados nessa guerra. Os Estados Unidos retomam e adaptam as técnicas de Goebbels e desenvolvem seu modelo próprio de interven- ção. Instituições públicas e privadas, civis e militares se de- 54</p><p>0 objeto como dicam a análises e experimentos, testando e aperfeiçoando o desempenho e a eficácia da comunicação. No pós-guerra, a comunicação continua a cumprir um papel crucial no contexto da Guerra Fria e na política intervencionista americana. Dos serviços de informação à difusão de produ- tos culturais, passando pela criação de agências de desenvol- vimento e institutos de pesquisa nos países do Terceiro Mun- do, toda uma politica de intervenção centrada nas manipula- ções ideológicas (no "domínio das mentes e corações") vêm incentivar e exigir o desenvolvimento das pesquisas e maior domínio das técnicas e do fazer comunicativo. Naturalmente esta é apenas uma etapa da história que contextualiza surgimento dos primeiros estudos sobre os meios de comunicação de massa mas uma etapa que mar- cou o desenvolvimento posterior desses estudos, imprimin- do uma concepção muito duradoura da comunicação, iden- tificada como processo de transmissão que tem como obje- tivo a persuasão. Mesmo nos Estados Unidos, outros estudos e tendências voltadas para a comunicação humana e social se desenvolve- ram, trilhando caminhos opostos-a Escola de Chicago: a pers- pectiva conhecida como interacionismo simbólico - a Escola de Palo Alto. Mas é interessante perceber que tais estudos per- maneceram até muito recentemente de certa forma apartados da chamada "teoria da comunicação", ou das abordagens que tra- tam da comunicação institucional ou de massa (processada através dos meios) porque não estavam afinados com a pro- blemática formulada pela época, voltada antes para o conheci- mento e a obtenção de Apenas mais recentemente meça a se desenvolver uma confluência maior entre as diferen- tes perspectivas de estudo, e a incorporação, na análise dos mei- os, de referenciais oriundos da etnometodologia, de teorias so- bre a produção social da realidade, entre outros. Na Europa, os estudos sobre os meios de na primeira metade do século XX, não se desenvolveram 55</p><p>Vero Veigo com a mesma intensidade, e se construíram sobre bases com- pletamente distintas, seguindo uma orientação mais especu- lativa e intelectualista, totalmente desvinculada de objetivos (ou operacionais). final dos anos 20 início dos anos 30 marcam surgi- mento de importante corrente de estudos sobre a cultura da sociedade industrial, e que também uma influência decisiva na orientação de estudos posteriores sobre os meios de comunicação - a Teoria ou Escola de Frankfurt, como é mais conhecida. A Teoria Crítica se desenvolve em contraposição e quase como um - para a perspec- tiva pragmática e positivista americana, promovendo uma critica severa à mercantilização da cultura e à manipulação ideológica operada pelos meios de comunicação de massa. Na França, no final dos anos 30, é criado Instituto Fran- cês de Imprensa, onde Jacques Kayser inaugura a perspecti- va das análises morfológicas dos jornais. Alguns anos mais tarde, e sob a inspiração estruturalista, surgem trabalhos im- portantes de reflexão sobre a cultura de massa, bem como uma semiologia dos produtos culturais. Na Inglaterra, rediscutindo distinguindo da tradição estruturalista francesa, os estudos sobre os meios surgem no âmbito das análises sobre a dinâmica da produção cultural na sociedade Ultrapassando as entre os diferentes níveis de cultura, os ingleses e sobretudo o Center of Contemporary Cultural Studies, da Universidade de Birmingham - buscam analisar a produção cultural (e os meios de comunicação) inscrida no contexto das práticas so- ciais cotidianas e da Na as primeiras investigações sobre a comunicação surgem marcadas por forte influência america- na tanto do ponto de vista do modelo como da for- mulação das temáticas a serem investigadas. Na década de 9. Na primeira metade do século XX foram desenvolvidos algans estudos esporádicos so- bre a legislação dos de comunicação. 56</p><p>do como objeto 70, o pensamento latino-americano no campo das ciências sociais é atravessado por um profundo sentimento crítico e antiimperialista; intelectuais de formação marxista desen- volvem uma chamada "teoria da dependência". No seio dós estudos da comunicação surge o do imperialismo cultural, bem como a proposição de um novo modelo e uma nova prática comunicativa - a comunicação horizontal, ou participativa. Propõe-se uma nova ordem internacional da comunicação; nos vários países luta-se pela constituição de políticas nacionais de comunicação, pela democratização dos meios. Esse é em grossos traços - o quadro que se delineava até por volta de 1970. Novas tendências de estudo se delineiam em nossos dias - tanto na América Latina quanto na Europa e Estados Unidos. Algumas perspectivas caducaram e ul- trapassadas; outras, anteriormente pouco evidenciadas (data- das algumas do do século XX), são retomadas e ganham um novo investimento. Novas proposições e temáticas apare- cem em cena. Há uma reconfiguração do quadro das teorias, e uma perspectiva mais propriamente comunicativa começa a se evidenciar. Tais mudanças traduzem de forma própria os reordenamentos vividos pela sociedade nesse final de século- que incluem uma verdadeira revolução no campo das tecnolo- gias da informação; profundas alterações no campo dos valo- res, no universo das representações, no desenho das relações e no quadro das sociabilidades. mundo que encerra o século XX não é o mesmo que o iniciou. Esse breve percurso - mapeando tendências que serão melhor apresentadas nos capítulos que se seguem - apenas pretendeu indicar e enfatizar o quanto o estudo da comunica- ção, a orientação da pesquisa, a seleção das temáticas, a cons- trução dos modelos teóricos acompanham e refletem a dinã- mica global e as diferentes fases vividas pela sociedade em momentos sucessivos. A constituição da teoria da comunica- ção é também um processo histórico, reflete a experiência c as tendências da vida social. 57</p><p>Vero Veigo França 5. As diversas correntes de estudo da comunicação Como já ressaltamos, a teoria da comunicação se carac- teriza sobretudo pela heterogeneidade das correntes e con- cepções que abriga, e a apresentação de um quadro geral das teorias esbarra na dificuldade de sistematização: não há como apresentar de forma orgânica e estruturada um quadro que é fragmentado C descontínuo. Vários esquemas de agrupamento vêm sendo tentados, e cada época se identifica melhor com um tipo de critério (ou seja, também essa leitura e sistematização dos estudos refle- te preocupações datadas). Há trinta anos atrás, quando o mun- do ainda era divido em dois grandes blocos, e os conceitos de "direita" e "esquerda" encontravam referentes mais nítidos, adotou-se uma primeira classificação mais global ainda bastante grosseira que dividia e agrupava os estudos e cor- rentes teóricas de acordo com dois grandes paradigmas: paradigma da ordem (nomeando a chamada "pesquisa admi- nistrativa", desenvolvida pelos americanos), e o paradigma do conflito (perspectiva crítica, de viés marxista) to Em alguns momentos achou-se oportuno ordenar os estu- dos segundo um desenho disciplinar: sociologia da comunica- psicologia da comunicação; comunicação biológica; fun- damentos filosóficos da e assim por diante. Já foi tentado também um agrupamento dos estudos se- gundo sua filiação às distintas correntes de pensamento: cor- rente funcionalista (ou positivista); marxista; estruturalista. Essa tentativa esbarra, entretanto, no cipoal de concepções (e pseudofiliações) da maioria dos estudos, sem falar nas inú- meras tendências em que se desdobram cada grande corrente. 10. Umberto um conhecido estude distingiu os apocalipticos (referin- do-se ao pensamento critico que na cultura de a anticultura sinal da barbá- ric) os (pensamento marcado pela accitação passiva feliz da cultura de 58</p><p>0 do comunicação/A como Uma outra forma de apresentação pode tomar como refe- rência a base geográfica: Escola Americana; Escola France- sa; Escola Latino-Americana. Esse sistema, que tem como vantagem a contextualização dos estudos, tem inconveniente de encobrir tendências distintas e, às ve- zes, criar uma falsa unificação rótulo "Escola Americana" remete mais especificamente à corrente funcionalista - C deixa de fora outras tendências; falar de "Escola Francesa" é mais um artificio de abordagem que propriamente a identifi- cação de uma tendência, etc.). A identificação de universidades, institutos ou centros de pesquisa já é uma nomeação mais atenta à especificidade de algumas tradições. Ela, no entanto, deixa de fora algumas perspectivas que se desenvolveram de forma mais lizada (ou pulverizada) ou que correspondem, em alguns ca- aos trabalhos ou obra de um só autor. Uma outra tentativa é o agrupamento temático, confor- me a abordagem e a ênfase especifica dada ao objeto (ou pro- cesso) da comunicação. Tomando, por exemplo, os diferen- tes elementos ou instâncias que compõem o processo comu- nicativo, podemos identificar e agrupar estudos voltados mais especificamente para a instância da produção (ou para lugar do emissor); para a instância da recepção; para a técni- ca, meio ou suporte; para a mensagem (ou produção discur- siva). Mas outros recortes a clivagens distintas: alguns se ocupam da conceituação e formalização do proces- outros desenvolvem uma abordagem mais global e ma- enfocando a relação/inserção da comunicação na sociedade, etc. Em síntese: um roteiro de apresentação dos estudos é uma tarefa complexa, por trabalhar com um corpo tanto he- terogêneo e fragmentado no que diz respeito a seus elemen- tos, quanto desigual no seu desenvolvimento. Supõe esco- indica uma perspectiva; enfim, traduz um trabalho de interpretação (do pesquisador mas também aquele permiti- do por uma determinada 59</p><p>Vera Veiga Referências bibliográficas BELTRÁN, Luiz Ramiro. 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