Prévia do material em texto
<p>A controvérsia Clark- Van Til</p><p>Volume 1</p><p>Felipe Sabino de Araújo Neto (org.)</p><p>Copyright © 2019 de Edições Calcedônia</p><p>■</p><p>Todos os direitos em língua portuguesa reservados por</p><p>EDIÇÕES CALCEDÔNIA</p><p>Brasília, DF, Brasil</p><p>■</p><p>1a edição, 2019</p><p>■</p><p>Tradução: Fabrício Tavares de Moraes</p><p>Revisão: Felipe Sabino de Araújo Neto</p><p>Capa: Russ Saberton</p><p>■</p><p>PROIBIDA A REPRODUÇÃO POR QUAISQUER MEIOS,</p><p>SALVO EM BREVES CITAÇÕES, COM INDICAÇÃO DA FONTE.</p><p>Todas as citações bíblicas foram extraídas da</p><p>versão Almeida Revista e Atualizada (ARA),</p><p>salvo indicação em contrário.</p><p>Prefácio</p><p>Com a tradução de suas obras, os filósofos e teólogos calvinistas Cornelius</p><p>Van Til e Gordon Clark tornam-se mais e mais conhecidos no Brasil. A famosa</p><p>controvérsia entres eles é conhecida de muitos, mas entendida por poucos. Mesmo</p><p>entre os poucos que conhecem o teor da disputa, pouquíssimos se interessam em ler</p><p>os documentos, ou sequer tiveram acesso aos tais. É para suprir essa lacuna que</p><p>inicio esta “pequena série”.</p><p>Este primeiro volume consiste na tradução do The Answer [A resposta].</p><p>Trata-se de documento redigido por um comitê designado pelo Presbitério da</p><p>Filadélfia para oferecer uma resposta ao The Text of a Complaint [O texto de uma</p><p>queixa]. O documento é assinado por Alan Tichenor (presidente), Robert Strong</p><p>(secretário), Floyd E. Hamilton, Edwin H. Rian e Gordon H. Clark.</p><p>Boa leitura!</p><p>— Felipe Sabino de Araújo Neto</p><p>Brasília, 28 de janeiro de 2019</p><p>A RESPOSTA</p><p>A uma queixa contra as diversas ações e decisões do Presbitério da Filadélfia</p><p>tomadas numa reunião extraordinária realizada em 7 de julho de 1944.</p><p>Proposto ao Presbitério da Filadélfia da Orthodox Presbyterian Church [Igreja Presbiteriana</p><p>Ortodoxa] pelo Comitê Eleito pelo Presbitério a fim de preparar tal resposta.</p><p>ALAN TICHENOR, Presidente.</p><p>ROBERT STRONG, Secretário.</p><p>FLOYD E. HAMILTON.</p><p>EDWIN H. RIAN.</p><p>GORDON H. CLARK.</p><p>Sumário</p><p>A QUESTÃO LEGAL</p><p>SOBRE A INCOMPREENSIBILIDADE [DE DEUS]</p><p>SOBRE O INTELECTO, VONTADE E EMOÇÕES</p><p>SOBRE A SOBERANIA E RESPONSABILIDADE</p><p>SOBRE A OFERTA DO EVANGELHO</p><p>A transcrição do exame teológico de 7 de julho de 1944 é demasiadamente imprecisa. Muitas das</p><p>palavras não fazem bastante sentido devido aos erros no relatório. Citamos, contudo, sem</p><p>nenhuma tentativa de corrigir a linguagem. As referências nesta Resposta são feitas no seguinte</p><p>modo:</p><p>(P. 10, 2; O. 40) indica o Queixoso, Cópia Impressa, página 10, coluna 2; página original 40. A</p><p>transcrição do exame teológico de 7 de julho de 1944 é citada por página e linha.</p><p>A QUESTÃO LEGAL</p><p>O Presbitério da Filadélfia, por meio desta, responde à Queixa do Sr. John W. Betzold e</p><p>outros contra certas ações do Presbitério em associação com suas decisões em licenciar e ordenar</p><p>Gordon H. Clark, Ph.D.</p><p>O Presbitério nega que a reunião especial realizada a 7 de julho de 1944 tenha sido ilegal.</p><p>O Queixoso alega que a reunião foi ilegal, com base no fato de que não houve emergência que</p><p>justificasse a convocação para a reunião. O Queixoso aparentemente sustenta que, mesmo se</p><p>tivesse prevalecido uma situação que o Presbitério usualmente julgaria como uma emergência,</p><p>ainda assim a reunião teria sido ilegal, visto que as questões particulares para os quais a reunião</p><p>foi convocada não eram questões próprias de uma reunião especial.</p><p>Esta reunião especial, em questão, foi convocada de acordo com a Forma do Governo,</p><p>Capítulo X, seção 9. O Presbitério afirma que houve de fato uma emergência que justificasse a</p><p>convocação e que esta se encontra de acordo com a prática presbiteriana que tem sido levada a</p><p>cabo durante anos. A prática uniforme da Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos da América e</p><p>também da Orthodox Presbyterian Church [Igreja Presbiteriana Ortodoxa], nesta questão,</p><p>indicam o sentido que tem sido consistentemente disponibilizado nessa seção da Forma de</p><p>Governo. Uma leitura das atas de quaisquer presbitérios da Igreja Presbiteriana nos Estados</p><p>Unidos indicará que, por muitos anos, reuniões especiais foram convocadas quando um número</p><p>suficiente de presbíteros sentiu que a conveniência do Presbitério ou de alguma das pessoas</p><p>envolvidas na questão discutida gerava uma emergência. Esta tem sido a prática consistente do</p><p>Presbitério da Filadélfia. Das reuniões especiais do Presbitério, transcrita nas Atas,</p><p>provavelmente uma foi convocada numa emergência que se conformava à definição da palavra</p><p>segundo o Queixoso — isto é, “ocorrências importantes desconhecidas na última reunião</p><p>precedente e que não podem ser diferidas até a reunião mencionada, tais como escândalo</p><p>levantado quanto ao caráter de um ministro visando destruir sua utilidade, e que por conseguinte</p><p>traz reprovação à religião; ou conflitos numa congregação nos quais paira a ameaça de sua</p><p>dissolução; ou algum erro [teológico] nocivo ou introdução de heresias...” (P. 1, 3; O. 4). Todas</p><p>as reuniões especiais realizadas por este Presbitério foram feitas de acordo com a reconhecida</p><p>prática presbiteriana — isto é, foram convocadas quando o adiamento de uma questão até a</p><p>próxima reunião habitual prejudicaria seriamente um candidato, um ministro, uma igreja ou o</p><p>Presbitério. Os queixosos anteriormente participaram de tais reuniões [especiais] sem queixa.</p><p>Com fins de referência a um dos vários exemplos que poderiam ser citados, em 8 de julho</p><p>de 1941, uma reunião especial foi realizada a fim de ordenar o Licenciado Eugene D. Bradford.</p><p>As Atas do Presbitério não reportam qual foi a emergência que levou à convocação dessa</p><p>reunião, no entanto, os presbíteros se lembram de que o Sr. Bradford recebeu e aceitou a</p><p>convocação para [pastorear] uma igreja independente, de modo que tanto ele quanto a igreja</p><p>teriam sido seriamente prejudicados se sua ordenação tivesse sido postergada até a próxima</p><p>reunião regular do Presbitério.</p><p>Os moderadores e um número suficiente de outros presbíteros julgaram tal caso como</p><p>uma emergência de acordo com os termos da Forma de Governo, Capítulo X, seção 9, e o</p><p>Presbitério concordou com esse juízo ao proceder com a questão com vistas à qual a reunião fora</p><p>convocada. Não há indicação no relatório de que as ações dessa reunião não tenham sido</p><p>unânimes. Dos sete ministros presentes, então, naquela reunião, quatro estão agora entre os</p><p>queixosos!</p><p>Uma postergação do exame do Dr. Clark prejudicá-lo-ia seriamente. Por mais de um ano</p><p>a questão de sua ordenação foi colocada perante o Presbitério. Dr. Clark realizou duas viagens de</p><p>Wheaton, Illinois, à Filadélfia, a fim de se apresentar ao Presbitério ou seu comitê para os</p><p>candidatos. Ele viajou, com seus próprios recursos, cerca de 3000 milhas para essas</p><p>apresentações. Ele teve que adiar o planejamento de seu futuro até que a questão de sua</p><p>ordenação fosse estabelecida. Um outro adiamento de seus planejamentos futuros teria afetado</p><p>seriamente sua utilidade no serviço cristão. No momento da reunião especial, Dr. Clark se</p><p>encontrava no leste [dos Estados Unidos] tratando de outras questões. Ele, contudo, não planejou</p><p>estar naquela região no momento da reunião regular, e não poderia fazer uma viagem especial</p><p>naquela ocasião. Cortesia e consideração ao Dr. Clark foram as diretrizes para a convocação de</p><p>uma reunião especial num momento conveniente a ele. Os responsáveis pela convocação da</p><p>reunião foram atenciosos para marcar um dia no qual não houvesse impedimento aparente para</p><p>evitar a presença de qualquer membro que pudesse participar da reunião regular. Ora, que a data</p><p>estabelecida foi a mais conveniente para o Presbitério é evidenciada pelo fato de que a reunião</p><p>foi a que contou com o maior número de presentes na história do Presbitério.</p><p>SOBRE A INCOMPREENSIBILIDADE [DE DEUS]</p><p>Deixando o aspecto legal da Queixa a fim de nos voltarmos aos seus aspectos teológicos,</p><p>o Presbitério deseja, em primeiro lugar, sublinhar a sutileza das questões envolvidas. Atentem</p><p>para o fato de que o Dr. Clark subscreve inequivocamente a Confissão de fé de Westminster. O</p><p>segundo exame se preocupou profundamente com as implicações filosóficas de certas frases na</p><p>Confissão e nas interpretações particulares</p><p>A segunda seção teológica da Queixa trata sobre dois temas: em primeiro lugar, o problema das</p><p>emoções em Deus; e, em segundo, o problema da relação entre a atividade intelectual do homem</p><p>e suas atividades emocionais e volitivas. O primeiro desses problemas é discutido nas páginas</p><p>25, 26, 29, 30, 31 e 36 da Queixa. A Resposta analisará esse problema antes de iniciar a</p><p>discussão do restante das páginas 25-41, na qual os queixosos afirmam seus pontos de vistas</p><p>concernentes ao segundo problema.</p><p>A disputa surge da afirmação na Confissão de que Deus “é sem corpo, sem membros, não</p><p>sujeito às paixões” (Capítulo 2, 1). Os credos continentais, em geral, não apresentam essa frase.</p><p>É encontra nos Artigos Irlandeses de 1615, e aparentemente foi adotada pela Assembleia de</p><p>Westminster a partir dos Trinta e Nove Artigos de 1563. O primeiro desses artigos afirma: “Deus</p><p>aeternus, incorporeus, impartibilis, impassibilis”, isto é, “Deus eterno, sem corpo, sem membros</p><p>[ou partes] ou paixões”. Visto que o texto em latim é definitivo, e uma vez que o sentido de</p><p>impassibilis na história pregressa da filosofia e teológica é bastante claro, o problema teológico</p><p>essencial é se um Deus emocional é ou não impassibilis [Ver: Trinta e Nove Artigos da Religião:</p><p>Artigo 1 — Charlie].</p><p>O conceito de paixão ou passibilidade [patência?] é um termo técnico, que aqui negamos</p><p>como atribuível a Deus, teve origem em Aristóteles. Sua definição básica, conforme a Metafísica</p><p>D 21, é “‘afeição’ significa (1) uma qualidade a respeito da qual uma coisa pode ser alterada...</p><p>(2) as alterações já atualizadas; (3) especialmente alterações e movimentos danosos, e, acima de</p><p>tudo, injúrias dolorosas; (4) experiências prazerosas ou dolorosas, quando em larga escala são</p><p>chamadas ‘afeições’”. Em De Anima, III, 3, 429ª 7, Aristóteles utiliza a mesma palavra para se</p><p>referir às emoções. Conforme Notas de R.D. Hicks, in Aristóteles, De Anima, 403ª 16. Santo</p><p>Agostinho lista (em Confissões X, 22) a luxúria, felicidade, medo e tristeza como as quatro</p><p>perturbações ou paixões da alma. Descartes escreveu um Tratado das Paixões da Alma. Ele lista</p><p>seis paixões básicas: admiração, amor, ódio, desejo, alegria e tristeza; e as associa intimamente</p><p>com as perturbações corporais. Emoções bastante óbvias são incluídas na esfera das paixões. Na</p><p>história da teologia, filosofia e linguagem, portanto, não é incomum — pelo contrário, é bastante</p><p>comum — encontrar emoções classificadas como uma espécie do gênero paixão. A paixão é um</p><p>termo mais amplo, e emoção está nele incluso. Por conseguinte, os queixosos não deveriam se</p><p>opor a tal uso linguístico. Eles podem querer definir os termos de modo a excluir emoção da</p><p>paixão. Que eles o façam: eles não possuem o direito de altercar contra o uso mais comum. A</p><p>emoção, portanto, tal como o Dr. Clark a define, está incluída no conceito de paixão que a</p><p>Confissão nega a Deus.</p><p>A Queixa (P. 8, 1; O. 29) sugere que a definição de emoção do Dr. Clark é, a priori, uma</p><p>excentricidade. Se isto fossem verdade, embora não seja, ainda assim não haveria fundamento</p><p>algum para queixa. A confusão no argumento da Queixa torna-se óbvia por meio de uma análise</p><p>da definição de emoção pela qual os queixosos desejam substituir a definição do Dr. Clark. Os</p><p>queixosos querem definir emoção como (P. 8, 1; O. 30) “algo que impulsiona a vontade e, assim,</p><p>determina a ação”. Desta definição segue-se uma de duas consequências. Em primeiro lugar, se o</p><p>termo retém alguma de suas conotações coloquiais, então a raiva e o ódio podem determinar</p><p>ações, pois, coloquialmente, são emoções; no entanto, o cálculo frio e destituído de emoção</p><p>acerca dos riscos de um negócio jamais poderia impulsionar a vontade, pois tal atividade é</p><p>intelectual. Ou, em segundo lugar, se os queixosos admitem que as considerações da verdade,</p><p>por vezes, influenciam a conduta, segue-se que eles são culpados de uma excentricidade a priori</p><p>ao chamar a atividade intelectual de emoção. O desejo de substituir a definição de emoção do Dr.</p><p>Clark por uma outra não é fundamento adequado para a queixa.</p><p>A referência final para esse assunto é (P. 9, 2-3; O. 36), “uma revisão da negação direta do Dr.</p><p>Clark de qualquer coisa que possa ser chamada de ‘emoção’ em Deus, conforme citado acima,</p><p>impressionar-nos-á pelo fato de que não somente faz violência à doutrina bíblica e reformada...”.</p><p>O Dr. Clark jamais fez “negação direta do Dr. Clark de qualquer coisa que possa ser chamada de</p><p>‘emoção’ em Deus”. Amor ou ira “podem ser chamados de emoções”. E o Dr. Clark jamais</p><p>negou amor e ira a Deus. Ele sustenta que, embora algumas pessoas possam chamar o amor e ira</p><p>de Deus de emoções, o melhor seria classifica-los como volições. Nessa perspectiva, o Dr. Clark</p><p>está de acordo com uma considerável parcela da história da teologia, e mesmo do uso na</p><p>literatura teológica. Como um exemplo desta última (no entanto, não da teologia reformada), é</p><p>possível citar Pascal, na página 24 da tradução Everysman’s: “É natural para a mente crer, e para</p><p>a vontade, amar”. Como um exemplo do pensamento calvinista, as seguintes frases de Augustus</p><p>Toplady são apropriadas (Complete Works [Obras Completas], 1869, p. 106, 107 e 687): Deus</p><p>“não é, por exemplo, irascível e previsível; passível a emoções de alegria e tristeza; ou passivo</p><p>em qualquer sentido”. “Quando o amor é predicado a Deus, não queremos com isto dizer que ele</p><p>está possuído do amor como uma paixão ou afeição... o amor, portanto, quando atribuído a Deus</p><p>significa... sua vontade, propósito e determinação eternos para resgatar, abençoar e salvar seu</p><p>povo”.</p><p>R. L. Dabney, Syllabus and Notes [Ementa e Notas], 1927, página 153, sustenta a visão do Dr.</p><p>Clark de modo particularmente claro:</p><p>“Nossa Confissão diz que Deus não possui membros nem paixões. Que Ele possui algo análogo</p><p>ao que, no homem, é chamado de princípios ativos, é evidente, pois ele (Deus) deseja e age; por</p><p>conseguinte, ele deve sentir. Mas esses princípios ativos não devem ser concebidos como</p><p>emoções, no sentido de acessos oscilantes de sentimentos. Em outras palavras, neles estão</p><p>ausentes aquela agitação e ímpeto que mudam do frio para o quente, e do quente para o frio, os</p><p>quais constituem as características da paixão em nós. Em Deus, são inefáveis, fixos, pacíficos e</p><p>inalteravelmente calmos, embora sejam as fontes da volição. Ora, aprendemos que tais princípios</p><p>existem, embora incompreensíveis a nós, a partir deste fato: que nas criaturas mais sábias e mais</p><p>santas, os princípios ativos possuem menos de paixão e agitação, e, todavia, não são, de modo</p><p>nenhum, ineficazes como fontes de ação — por exemplo, a indignação moral no pai ou</p><p>governante santo e sábio. Que essa concepção acima da calma imutabilidade dos princípios</p><p>ativos de Deus é necessário, torna-se visível a partir do seguinte: as agitações das paixões literais</p><p>são incompatíveis com sua bem-aventurança. Os objetos desses sentimentos estão tão</p><p>completamente presentes à Mente Divina, num só tempo, como os demais; de modo que não há</p><p>nada que cause oscilações. E tal oscilação constituiriam uma mudança nele. Quando, portanto, as</p><p>Escrituras falam de Deus se irando, se arrependendo, derramando sua fúria contra seus</p><p>adversários, em associação a algum evento particular ocorrendo no tempo, devemos</p><p>compreendê-los antropologicamente. O que se quer dizer é que nas manifestações exteriores de</p><p>seus princípios ativos é como se esses sentimentos tivessem vindo à tona.”</p><p>A evidência da Queixa é que os queixosos sabem e admitem que o Dr. Clark está de acordo</p><p>com a Confissão. Na página 51, os queixosos admitem: “Em relação a isso, é preciso fazer</p><p>referência novamente à visão do Dr. Clark Segundo a qual Deus não possui emoções. Se</p><p>tomarmos como base sua definição de emoção, Deus certamente não as possui”. Em outras</p><p>palavras, os queixosos sabem e admitem que quando o Dr. Clark fala que Deus não possui</p><p>emoções, seu pensamento está correto. E ainda que cientes disso, eles gastaram seis páginas</p><p>tentando descrevê-lo como estando gravemente em desacordo com a Confissão.</p><p>O segundo problema</p><p>dessa seção diz respeito à psicologia humana, e sua discussão</p><p>novamente salientará o fato de que a Queixa não é uma questão de doutrinas da Confissão de fé</p><p>de Westminster, mas de sutilezas técnicas e abstrusas mais apropriadas aos filósofos do que aos</p><p>pregadores. A acusação levantada contra o Dr. Clark é que ele ordena os vários tipos de</p><p>atividades da alma num esquema hierárquico no qual os atos intelectuais se encontram no topo.</p><p>Essa posição, afirmam os queixosos, é “intelectualismo humanista” (P. 7,3; O. 29). Que tal</p><p>posição é uma forma de intelectualismo, não se nega; mas que é humanista é uma acusação tão</p><p>completamente em desacordo com a evidência que somente pode ter sido feito num momento de</p><p>impulsividade. Os queixosos virtualmente entregam sua defesa, pois citam (P.8, 3; O. 32)</p><p>Calvino, em suas Institutas, XV, 6-8, ao dizer que “o intelecto governa sobre a vontade”[1]; e</p><p>então tentam argumentar que Calvino não quis dizer isso. Um sumário dessas seções de Calvino</p><p>mostrar-se-á instrutivo.</p><p>Calvino começa essas seções das Institutas que tratam sobre a psicologia humana destacando</p><p>Platão como o filósofo pagão que, mais claramente do que os demais, percebeu que a alma é</p><p>imortal. Ele faz uma breve menção da relação entre corpo e alma, e enfatiza que a alma com seu</p><p>conhecimento inato, incluindo a semente da religião, encontra seu propósito principal na</p><p>adoração a Deus. Ele então analisa a alma, e repudia a teoria de que o homem possui duas almas,</p><p>uma sensitiva e outra racional. Mas prefere deixar a totalidade da discussão aos filósofos, visto</p><p>que está longe da teologia. Não obstante, Calvino não proíbe o estudo de tal filosofia e, de fato, a</p><p>considera bastante útil e prazerosa. Em seguida, esboça a hierarquia aristotélica usual das</p><p>funções da alma: os sentidos especiais, o senso comum, a imaginação, a razão e, por fim, a</p><p>inteligência[2]. Este esquema, de si mesmo, é suficiente para demonstrar que Calvino colocou a</p><p>atividade intelectual no ápice das funções da alma. Isso torna-se mais claro na medida em que</p><p>prosseguirmos. A vontade, ele continua, escolhe aquilo que a razão e o entendimento lhe</p><p>propõem; a faculdade irascível [ou força da cólera] apreende os objetos apresentados pela</p><p>imaginação e sensibilidade[3]. Tudo isto é estritamente falando uma forma de intelectualismo.</p><p>Calvino admite que tais discussões são obscuras, e se alguém prefere uma distribuição diferente</p><p>dos poderes da alma, ele não objetará, pois a discussão dificilmente toca algum artigo da fé. Ele</p><p>chega mesmo a sugerir uma divisão mais simples que lhe seria conveniente: a alma humana</p><p>consiste em duas partes, sendo elas o intelecto e a vontade. O ofício do intelecto é discernir as</p><p>coisas propostas de modo que reconheça o que deve ser aprovado e o que deve ser desaprovado;</p><p>o ofício da vontade, por sua vez, é eleger e seguir o que o entendimento ditou como bom e</p><p>rejeitar e evitar o que ele desaprovou”[4]. “O intelecto”, Calvino continua, “é como um condutor e</p><p>governador da alma, que a vontade sempre considera seu gesto e espera pelo seu juízo em</p><p>relação aos desejos. Além destes, “na alma, não há nenhuma potência que não possa ser</p><p>retamente referida a um ou a outro desses dois”, isto é, a vontade e o intelecto. (A emoção não é</p><p>mencionada). E para enfatizar a primazia do intelecto ainda mais, Calvino lhe atribuiu o termo</p><p>estoico hegimonikon, a parte principal ou governante[5]. Até aqui a posição de Calvino.</p><p>Destarte, é óbvio que Calvino está longe de sustentar a teoria dos queixosos. A teoria deles</p><p>não é suficientemente trabalhada na Queixa, mas claramente rejeitam a noção de que o intelecto</p><p>possui qualquer superioridade sobre as emoções. A Queixa (P. 8, 3; O. 32) afirma: “tanto</p><p>Calvino (!) e Bavinck insistem na atividade total do ser humano na religião, com nenhuma</p><p>subordinação de uma faculdade à outra”. Também afirma (P. 9, 1; O. 34): “da função equivalente</p><p>das várias faculdades humanas”. E também (P. 9, 2; O. 35): “Mais uma vez, há três funções</p><p>igualmente importantes e superiores”.</p><p>Obviamente, portanto, os queixosos sustentam que a emoção e inteleção estão exatamente no</p><p>mesmo nível; não há, de modo nenhum, superioridade ou subordinação. Mas se esta teoria fosse</p><p>verdade, se a emoção e intelecção são igualmente elevadas, então seria indiferente se um</p><p>indivíduo seguisse a raiva ou seu juízo sóbrio da verdade. Se a emoção não está subordinada ao</p><p>intelecto, segue-se que a emoção poderia rejeitar o melhor pensamento do indivíduo — por meio</p><p>do desespero ou medo — com o mesmo direito que o intelecto poderia julgar infundados esse</p><p>desespero ou medo. De fato, se a emoção fosse igual ao intelecto, não haveria necessidade de</p><p>que este último conduzisse ou julgasse entre certo e errado: a emoção poderia governar-nos de</p><p>igual modo. E essa teoria dos queixosos é aquilo que desejam transformar em teste de ortodoxia!</p><p>Eles exigem que o Presbitério declare como nulas e inválidas várias decisões e decretos porque o</p><p>homem neles envolvido [o Dr. Clark] concorda antes com Calvino do que com algumas</p><p>tendências mais modernas.</p><p>A fim de demonstrar que Calvino e o Dr. Clark não estão sozinhos ao sustentarem essas</p><p>posições, algumas citações serão aqui disponibilizadas, embora não acompanhadas de uma</p><p>análise. Note-se que o intelecto é colocado em primeiro lugar, a vontade em segundo, e as</p><p>emoções recebem uma ênfase menor.</p><p>Charnock, Discurso IV, Sobre o Culto Espiritual, página 210: “Devemos adorar a Deus</p><p>com os mesmos poderes de nossa alma por meio dos quais o contemplamos; não podemos pensar</p><p>acerca dele a não ser com nossas mentes, nem amá-lo a não ser com nossa vontade; e não</p><p>podemos adorá-lo sem os atos de pensamento e amor”. Ibid, página 211: “Esse Ser excelente</p><p>dever ser honrado com os mesmos movimentos do intelecto e da vontade, com os poderes maios</p><p>puros e mais espirituais da natureza do homem”. “A oração (no caso, as vãs repetições) é</p><p>murmurada no privado, superficialmente, como um papagaio aprende as lições pela repetição,</p><p>não compreendendo aquilo que fala, nem para qual fim fala; de maneira que [tal oração] não</p><p>glorifica a Deus em pensamento e em espírito, com intelecto e vontade”. Ibid., página 212: “Um</p><p>ato sincero da mente e da vontade... foi exigido por Deus”. Ibid., página 248: “Ele (Deus)</p><p>conferiu ao homem uma natureza espiritual, para que ele possa retribuir-lhe um culto espiritual;</p><p>ele ilumina o entendimento, para que possa ter um culto racional; e molda novamente a vontade</p><p>para que o homem possa oferecer um culto voluntário”. Charles Hodge, Teologia Sistemática,</p><p>volume II, página 99, assinala: “Sua (do homem) razão estava sujeita a Deus; sua vontade estava</p><p>sujeita à sua razão; suas afeições e apetites à sua vontade”. Ver também a citação de</p><p>Breckenridge abaixo [do texto de Hodge]. Essas considerações mostram que o ponto de vista do</p><p>Dr. Clark acerca do intelecto, vontade e emoções segue uma linha distinta da teologia</p><p>reformada.</p><p>O argumento, até aqui, é completamente suficiente para refutar essa seção da Queixa,</p><p>mas é necessário que, de passagem, atentemos ainda para certas insinuações menores e</p><p>representações equivocadas, a fim de evitar que a Igreja atribua ao Dr. Clark as implicações que</p><p>os queixosos tentam lançar forçosamente sobre ele.</p><p>Em primeiro lugar, há certo método de argumentação que é sub-repticiamente danoso. A</p><p>Queixa recorrentemente cita teólogos exemplares e faz afirmações de teologia ortodoxa</p><p>calculadamente com o intuito de dar a impressão que o Dr. Clark não aceita tais posições</p><p>comumente aceitas. Seria demasiadamente trabalhoso examinar cada caso separadamente. Mas</p><p>visto que a Queixa distorce a posição do Dr. Clark quando cita evidências (e evidências que</p><p>frequentemente contradizem o que é afirmado), o leitor deveria ser cauteloso em aceitá-las como</p><p>insinuações reais sem qualquer evidência. Em segundo lugar, a Queixa diz (P. 7, 2; O. 27), “a</p><p>atividade da vontade que o Dr. Clark subordina ao intelecto parece ser pouco menos do que ‘um</p><p>ato voluntário de prestar atenção’, o qual resulta numa apreensão intelectual (29:</p><p>3-4)”. Contudo,</p><p>a transcrição contradiz essa assertiva. A transcrição (29: 3-4) reza: “A apreensão intelectual é o</p><p>resultado de um ato voluntário de prestar atenção. Não é possível conhecer coisa alguma a não</p><p>ser por meio de um ato da vontade, e, todavia, o conhecimento, em si mesmo, é um ato de</p><p>apreensão intelectual devido aos seus aspectos volitivos”. As cinco últimas palavras desse</p><p>excerto da transcrição não fazem sentido, embora a parte anterior da sentença seja clara. Afirma-</p><p>se que em todo ato intelectual deve haver um ato voluntário de atenção. A partir dessa posição</p><p>essencialmente agostiniana, os queixosos deduzem a conclusão absurda de que a única ação da</p><p>vontade é um prestar atenção voluntário. É possível, de semelhante modo, argumentar que, uma</p><p>vez que os alguns gregos são atenienses, todos os gregos são atenienses. Os queixosos</p><p>argumentam que, uma vez que a apreensão intelectual exige a atenção voluntária, não existe</p><p>outra forma de atividade volitiva. À parte do contexto histórico e à parte de questões de lógica, a</p><p>própria transcrição apresentou evidências suficientes para demonstrar a falsidade da declaração</p><p>que presentemente discutimos. Na transcrição (17, 3), o Dr. Clark se refere ao quarto</p><p>mandamento como um objeto para obediência voluntária; e na página 32, 4, ele menciona que o</p><p>oitavo mandamento demanda um ato de obediência. Obviamente que obediência a esses</p><p>mandamentos não é simplesmente atenção voluntária a suas palavras de forma a compreendê-las.</p><p>Tal atenção é necessária, mas não é a única forma de ação volitiva.</p><p>Um terceiro desses pontos menores — menores para o presente propósito de refutar a</p><p>Queixa — é a tentativa de entender que o Dr. Clark predica a Deus a mesma relação hierárquica</p><p>que a discussão atribuiu ao homem. Ora, com exceção da negação de reviravoltas emocionais em</p><p>Deus — e isto é apenas a boa teologia reformada –, o Dr. Clark nada disse acerca da relação</p><p>entre intelecto e vontade em Deus. No entanto, o argumento geral (P. 8, 1-2; O. 30, 31) procede</p><p>da suposição de que o Dr. Clark afirma a primazia do intelecto em Deus, assim como no homem.</p><p>Devido a essa suposição subjacente, os queixosos declaram (P. 8, 2; O. 31): “Ao que parece, a</p><p>teologia reformada se encontra desprovida de quaisquer referências a uma primazia do intelecto</p><p>em Deus. Com efeito, toda indicação é de que quaisquer faculdades distinguíveis que existam em</p><p>Deus são igualmente fundamentais, igualmente proeminentes, igualmente importantes e do</p><p>mesmo nível funcional”. Uma vez que o Dr. Clark não fez qualquer menção a esse tema, o</p><p>argumento é irrelevante. Mas, visto que os queixosos introduziram uma questão tão alheia, é</p><p>prudente incluir nesta réplica a citação de Breckenridge supracitado.</p><p>Robert J. Breckenridge, The Knowledge of God Objectively Considered [O Conhecimento de</p><p>Deus Objetivamente Considerado], 1858, página 289, escreve:</p><p>“O Intelecto e a Vontade pertencem exclusivamente àquilo que é</p><p>espiritual; e o Poder é inseparável de nossa concepção primária de</p><p>Vontade, dirigida pela Inteligência. Quando acrescentamos ao Espírito</p><p>infinito assim dotado a Sabedoria e o Conhecimento, infinitos como</p><p>são, bem como tudo que é tão infinito quanto o é a essência da qual</p><p>todos eles são Atributos; [quando fazemos assim], podemos dizer que</p><p>temos uma concepção tão completa quanto podemos cogitar do</p><p>sublime contorno da natureza racional de Deus considerada</p><p>separadamente tão longe quanto somos capazes. Qualquer que seja a</p><p>natureza daquela inefável distinção, que expressamos por meio de O</p><p>Verdadeiro e O Falso, é inconcebível que tal Ser não a perceba [a</p><p>distinção] eternamente e eternamente a respeite. Se sua própria</p><p>natureza é o fundamento da distinção, então a distinção é comensurada</p><p>com seu Ser; isto é, é uma distinção infinita e eterna. É à luz dessa</p><p>distinção que nossas faculdades racionais tomam conhecimento de</p><p>tudo aquilo que lhes é submetido; é pautada na sua realidade que</p><p>dependem todo crescimento no conhecimento e todo crescimento na</p><p>sabedoria de nossa parte. Sem essa distinção, não é fácil, se é que é</p><p>possível, afixar qualquer ideia àquilo que chamamos Inteligência; e se</p><p>for obliterada, obliteramos, ao mesmo tempo, a distinção entre Bem e</p><p>Mal, visto que o Bem é sempre o Verdadeiro, e o Mal é sempre o</p><p>Falso. É, portanto, a natureza racional de Deus que subjaz à natureza</p><p>moral de Deus; e embora ambos os aspectos de seu Ser fornecem os</p><p>meios mais distintos de investigar e compreendê-la, o racional</p><p>antecede o moral”. Ibid. página 426: “Atentando para a natureza moral</p><p>de Deus, e para tais Perfeições infinitas como o Amor, assistidos pela</p><p>Bondade e Misericórdia, e ordenados em Justiça e Longanimidade,</p><p>vemos prontamente a ligação de todas essas afeições com a Vontade</p><p>divina: e à medida em que contemplamos na natureza moral do homem</p><p>a imagem dessa natureza moral de Deus, percebemos as mesmas</p><p>ligações dessas qualidades morais umas com as outras, e com sua (de</p><p>Deus) Vontade.”</p><p>Com efeito, o Dr. Clark não sustenta uma primazia do intelecto em Deus, mas a citação</p><p>acima demonstra que, contrariamente à assertiva da Queixa, essa visão já apareceu na teologia</p><p>reformada.</p><p>O quarto desses pontos menores é a acusação de que o Dr. Clark “deliberadamente evitou</p><p>responder” uma certa questão (P. 8, 1; O. 30); sendo a referência a página 16 da transcrição. O</p><p>Dr. Clark não evitou deliberadamente responder a qualquer questão. Na verdade, a questão, tal</p><p>como reportada na transcrição, é a seguinte:</p><p>“Pergunta [doravante P.]: Quando a Confissão de Fé diz: “Deus é sem corpo, sem membros, não</p><p>sujeito às paixões”, isto significa que sentimento e emoção estão ausentes em Deus? Resposta</p><p>[doravante R.]: Sim. P. Eu vou definir sentimentos e emoções: Com isto quero dizer — afeição é</p><p>o senso de atividade de princípios com referência a objeções. Agora repetirei a questão caso</p><p>queira. R. Vá em frente. P. E por sentimento ou emoção quero dizer — no sentido de atividade</p><p>principal com referência a objetos. R. Eu esqueci o modo de responder a essa questão — sim ou</p><p>não. P. A Confissão de Fé diz: ‘Deus é sem corpo, sem membros’. R. A resposta é sim, mas</p><p>protesto contra o terrível inglês de tua afirmação, a palavra: ‘emoção’ — deixe para lá o inglês.</p><p>P. Tu queres dizer que Deus jamais agiu sobre algo além de si mesmo? R. Eu não estou te</p><p>entendendo. P. O que eu gostaria de saber é isto: podemos chamar esses sentimentos ou emoções</p><p>em Deus, e eu defini-los-ia como análogos aos nossos sentimentos e emoções e afeições no</p><p>sentido de que são princípios ativos, ativos com referência a objetos. Por exemplo: Deus está</p><p>irado para com o ímpio; Deus ama seu povo eternamente; negarias isto? R. Está correto, sim,</p><p>correto; o que tu dizes está correto. P. É isso que a Confissão quer dizer? R. Não, aquilo — não</p><p>aquilo que significa aqui — não é aquilo que a Confissão quer dizer.</p><p>Evidentemente, o Dr. Clark estava simplesmente dizendo a verdade quando disse: “Eu não</p><p>estou te entendendo”. A questão é virtualmente ininteligível. Não há evidência de intenção de se</p><p>recusar a responder. A transcrição mostra que o Dr. Clark concorda que Deus está irado com o</p><p>ímpio, que Deus ama eternamente seu povo; mas não é disto que a Confissão está tratando</p><p>quando afirma que “Deus é sem corpo, sem membros, não sujeito às paixões”.</p><p>E em quinto e último lugar: a Queixa afirma (P. 10, 2; O. 40), “o Dr. Clark não nega a</p><p>necessidade ou o fato da regeneração, no entanto, ele não faz distinção qualitativa absoluta entre</p><p>o conhecimento do homem irregenerado e o conhecimento do homem regenerado. Com o mesmo</p><p>desprendimento, o mesmo “senso comum”, o irregenerado e o regenerado são capazes de</p><p>compreender proposições reveladas ao homem (p. 20; 28:13-16; 31:13-17; 34:13-35:2).” Se os</p><p>queixosos tivessem citados essas passagens da transcrição em vez de simplesmente se referirem</p><p>a elas, todos teriam vistos que todas elas, com exceção da última, não possuem relação alguma</p><p>com a questão da regeneração, e que a última é, na verdade, contraditória à assertiva deles. A</p><p>discussão foi centrada na proposição</p><p>“dois vezes dois é igual a quatro”. O Dr. Clark afirmou que</p><p>qualquer homem que conhece essa proposição a conhece por meio das definições dos números e</p><p>mediante as leis da lógica. Destarte, a transcrição continua:</p><p>P. De onde obtemos essas leis da lógica? R. ‘Ilumina a todo homem’. (Evidentemente a</p><p>transcrição omite parte dessa citação.) [Nota de Charlie: ver João 1:9 Versão King James]. P. É</p><p>possível que, por meio da eficácia do pecado, o homem não será capaz de deduzir as proposições</p><p>concernentes a Deus? R. Esse é geralmente o caso”.</p><p>Em outras palavras, os queixosos insinuam que o Dr. Clark sustenta que a regeneração não</p><p>renova a mente ou que o pecado não a afetou; ao passo que o Dr. Clark disse especificamente</p><p>que o pecado geralmente leva os homens a cometer falácias lógicas. Portanto, os queixosos citam</p><p>evidências que não somente são irrelevantes, mas também evidências que contradizem a</p><p>acusação que fazem. Análises posteriores a respeito do conhecimento do homem irregenerado e</p><p>do homem irregenerado mostrar-se-ão proveitosas, porém, podemos conceder ao assunto uma</p><p>breve menção. Tanto o regenerado quanto o irregenerado podem, com o mesmo desprendimento,</p><p>entender a proposição: “Cristo morreu pelos pecadores”. A regeneração, a despeito da teoria da</p><p>Queixa, não é uma mudança no entendimento dessas palavras. A diferença entre regenerado e</p><p>irregenerado reside no fato de que o primeiro crê na proposição, ao passo que o último não. A</p><p>regeneração reconhece Cristo como Senhor; o outro não. Um é um sujeito solícito; o outro é um</p><p>rebelde. A regeneração não é necessariamente uma mudança no entendimento de proposições.</p><p>Um homem irregenerado pode compreender a proposição de que “Cristo morreu pelo pecador”,</p><p>mas longe de saber que é verdadeira, concebe-la como falsa. Estritamente falando, ele sabe</p><p>apenas que “as Escrituras ensinam que Cristo morreu pelos pecadores”. Quando se trata de um</p><p>regenerado, seu entendimento da proposição pode não sofrer mudança alguma; o que acontece é</p><p>que, agora, ele aceita como verdadeira aquilo que anteriormente simplesmente compreendia. Ele</p><p>não mais simplesmente sabe que “as Escrituras ensinam que Cristo morreu pelos pecadores”; ele</p><p>agora sabe que “Cristo morreu por pecadores”. Nada nessas considerações busca sugerir que a</p><p>regeneração é completamente descrita aqui. Essas observações somente tocam brevemente na</p><p>mudança do conhecimento envolvido na regeneração. A renovação da imagem original de Deus</p><p>e a implementação por parte do Espírito de novos “hábitos” exigiriam um tratamento mais</p><p>amplo.</p><p>Os queixosos continuam com sua acusação, afirmando que “não há uma única partícula de</p><p>evidência de que a atividade religiosa do homem sofre qualquer mudança qualitativa por meio da</p><p>regeneração”. Essa acusação é mais extensiva do que a anterior, pois a esta última se referia</p><p>unicamente à mudança no conhecimento e no entendimento, ao passo que aquela trata-se de uma</p><p>acusação que cobre toda a atividade religiosa. Mas a própria admissão da Queixa de que “o Dr.</p><p>Clark não nega a necessidade ou fato da regeneração” solapa por completo sua própria posição</p><p>acerca do tema. A fim de apreender corretamente a situação, é preciso notar primeiramente que o</p><p>exame perante o Presbitério não dizia respeito à questão da regeneração. Não há razão, portanto,</p><p>para esperar muito sobre o assunto na transcrição. Ao longo das seis horas de exame, na reunião</p><p>de março do Presbitério, o Dr. Clark satisfez o Presbitério no tocante a esse assunto assim como</p><p>no restante da Confissão, de modo que não havia necessidade de repetir a questão. Os queixosos</p><p>queriam discutir essas outras sutilezas filosóficas, de modo que a transcrição contém muito</p><p>pouco acerca de regeneração. E nestas circunstâncias, os queixosos presentemente acusam o Dr.</p><p>Clark de “racionalismo, intelectualismo humanista... independência viciosa com relação a Deus”</p><p>(P. 10, 2; O. 40). Tendo em vista que há evidência insuficiente na transcrição, talvez nos seja</p><p>permitido fazer referências a alguns escritos do Dr. Clark. Em outra seção da Queixa, os</p><p>queixosos fazem isso; e presumivelmente esta presente resposta à Queixa faz o mesmo. Eis o que</p><p>o Dr. Clark diz em sua obra Reading in Ethics [Preleções Sobre a Ética], p. 115-118:</p><p>“Mas o cristianismo possui não apenas um objetivo totalmente</p><p>diferente, mas um objetivo radicalmente oposto. No Novo Testamento,</p><p>em vez do desenvolvimento das habilidades naturais, o desejável era a</p><p>morte do homem natural e o nascimento de um homem novo e</p><p>sobrenatural. A morte da velha natureza é necessária devido à sua</p><p>corrupção. Mesmo antes do nascimento, todos os indivíduos estão</p><p>implicados no pecado original de Adão e alienados da vida de Deus.</p><p>‘Por isso, o pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está</p><p>sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar. Portanto, os que estão na</p><p>carne não podem agradar a Deus’ (Romanos 8:7-8). O resultado é que</p><p>todos pecaram, e não há um justo sequer, ou alguém capaz de</p><p>satisfazer a Deus em qualquer aspecto... Esse novo nascimento é</p><p>acompanhado não pela vontade do homem, mas pela vontade de Deus</p><p>que concede a todos os que creem em seu Filho unigênito o poder de se</p><p>tornarem filhos de Deus... Uma vez que o homem deve ser redimido do</p><p>pecado mediante o sangue de Jesus, perante o qual ele pode viver uma</p><p>vida realmente moral, o fim último do homem não será o</p><p>desenvolvimento de sua natureza corrupta e não-espiritual.”</p><p>E essas são as palavras daquele a quem os queixosos acusam de “intelectualismo</p><p>humanista” e “independência viciosa com relação a Deus”.</p><p>Concluindo, o Presbitério acredita que essa seção da Queixa falha completamente em</p><p>provar que o Dr. Clark está em desconformidade com o sistema de doutrina da Confissão. Não se</p><p>trata, de maneira alguma, de doutrina estritamente teológicas, mas implicações tênues dessas</p><p>doutrinas; e as implicações são falaciosas. Portanto, essa seção da Queixa não demonstra que o</p><p>Presbitério da Filadélfia errou ao licenciar e ordenar o Dr. Clark.</p><p>SOBRE A SOBERANIA E RESPONSABILIDADE</p><p>A terceira seção da Queixa se encontra no intervalo entre a página 42 até a página 50, e trata</p><p>sobre o paradoxo da soberania divina e a responsabilidade humana. A acusação feita é de que o</p><p>Dr. Clark “decididamente fez violência a esta última”, isto é, a responsabilidade humana; e que,</p><p>portanto, não há similaridade entre a perspectiva do Dr. Clark e a Confissão de fé de</p><p>Westminster. Ora, simplesmente não há evidência disso.</p><p>Os queixosos em vez de sustentarem sua acusação, usaram o espaço [da reunião] para</p><p>levantar objeções à afirmação do Dr. Clark de que a responsabilidade e soberania não lhe</p><p>parecem contraditórias. Os queixosos sustentam que a responsabilidade e a soberania deveriam</p><p>parecer contraditórias a todos. Isto levanta duas questões: As Escrituras nos encorajam a uma</p><p>tentativa de solução de paradoxos? E as Escrituras nos fornecem algumas pistas para a solução</p><p>desse paradoxo em particular?</p><p>Com relação à primeira dessas perguntas, podemos notar que a Confissão de fé de</p><p>Westminster, I, VI, afirma: Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias</p><p>para a sua glória e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado nas</p><p>Escrituras ou pode ser lógica e claramente delas deduzido.” A Confissão, portanto, em vez de</p><p>considerar como racionalista uma abordagem lógica das Escrituras, aprova as deduções lógicas</p><p>deduzidas a partir delas; com efeito, a Confissão é, em si mesma e em grande medida, um</p><p>conjunto dessas deduções. B. B. Warfield em Revelation and Inspiration [Revelação e</p><p>Inspiração], página 12, afirma: “Mas a revelação, ao final das contas, é o correlato do</p><p>entendimento e tem como finalidade imediata apenas a produção de conhecimento, embora não,</p><p>evidentemente, o conhecimento com um fim em si mesmo, mas visando a salvação”. Como é</p><p>possível supor que Deus revelaria ao homem algo irracional ou ininteligível? Por certo há “certas</p><p>coisas difíceis de se entender” (2 Pedro 3:16), mas se a Bíblia realmente revela a Deus, ela não</p><p>pode ser ininteligível. Deus nos</p><p>ordena a examinar as Escrituras; somos encorajados ao</p><p>entendimento destas. Calvino, nas Institutas, III, XXI, 3, responde àqueles que creem que não se</p><p>deve investigar a doutrina da predestinação demonstrando que tal atitude é, com efeito, uma</p><p>acusação de que Deus não sabia o quanto deveria revelar. Sem dúvida essa doutrina, e todas as</p><p>demais, devem ser estudadas com cuidado e cautela; todavia, as Escrituras em lugar algum</p><p>proíbem-nos de tentar resolver paradoxos que são revelados. Duas proposições quaisquer podem</p><p>aparecer contraditórias a alguém, quanto menos uma pessoa estudou a Bíblia, mais</p><p>provavelmente encontrará dificuldades; e o conselho geralmente dado é estudar mais</p><p>profundamente e compreender mais. Pode-se facilmente interpretar que a Queixa está impedindo</p><p>todo progresso ulterior o entendimento da palavra revelada de Deus. A posição do</p><p>presbiterianismo, todavia, tem sido de que as confissões de fé são o ápice do entendimento do</p><p>homem acerca das Escrituras. A Queixa aparentemente sugere que aqueles que buscam avançar</p><p>no conhecimento teológico por meio da exegese e dedução da palavra de Deus são, desse modo,</p><p>culpados de heresias. Tal posição deve ser rejeitada.</p><p>De modo recíproco, qualquer um que argumente que determinado paradoxo revelado não</p><p>pode ser resolvido está, virtualmente, afirmando onisciência. Aquele que diz que um dado</p><p>paradoxo não pode ser resolvido está logicamente sugerindo que ele examinou todos os versos</p><p>nas Escrituras, que exauriu todas as implicações de todos os versos, e que não há, em tudo isto,</p><p>uma solução de sugestão. Tal pessoa deve possuir um conhecimento tremendo da Bíblia. E isto é</p><p>exatamente aquilo que os queixosos reivindicam. Eles afirmam (P. 12, 1; O. 46): “Nem mesmo</p><p>as Sagradas Escrituras oferecem uma solução”. Isto é uma reivindicação de um conhecimento</p><p>exaustivo de toda a Bíblia. Certamente é mais modesto acreditar que alguém resolveu um</p><p>paradoxo do que afirmar que ele não pode ser resolvido. É verdade que certos teólogos</p><p>chamaram esse paradoxo de insolúvel; porém, se as Escrituras não proíbem, não há razão pela</p><p>qual os outros homens não deveriam tentar resolvê-lo.</p><p>Ademais, a resolução de um paradoxo não pode ser uma tarefa sobre-humana tal como os</p><p>queixosos aparentemente pensam. Eles dizem (P. 12, 1; O. 46): “O Dr. Clark afirma</p><p>despudoramente que, para seu pensamento, o problema deixou de ser um problema”. A aparente</p><p>intenção é fazer o Dr. Clark afirmar que não subsistem mais quaisquer problemas com relação à</p><p>soberania e responsabilidade. Na verdade, vários problemas subsistem. O único problema que o</p><p>Dr. Clark pensa que solucionou é a alegação anticristã de que a soberania divina e a</p><p>responsabilidade humana são contraditórias. Afirmar, ainda que equivocadamente, que é possível</p><p>demonstrar que um não contradiz o outro não é afirmar que se conhece tudo acerca do assunto.</p><p>A segunda questão é: As Escrituras fornecem quaisquer indícios para a solução desse</p><p>paradoxo em particular? O Dr. Clark crê que tenha encontra a chave para tal solução. Ele pode</p><p>estar equivocado, mas como podem os queixosos, que não são oniscientes, afirmar que não há</p><p>solução alguma? Antes de 325 d.C.[6] alguém poderia dizer que o ensino bíblico sobre o Pai, o</p><p>Filho e o Espírito Santo era autocontraditório. Todavia, Atanásio resolveu esse paradoxo — sem,</p><p>no entanto, exaurir a questão da Trindade. As duas naturezas de Cristo podem ter parecido</p><p>contraditórias nesses primeiros dias da Igreja; entretanto, o Concílio de Calcedônia resolveu o</p><p>paradoxo. Na história da lógica secular, houve certos problemas durante a Idade Média que</p><p>foram chamados de insolubilia. Mas em 1850, um lógico inglês pensou ter encontrado a solução.</p><p>Mas não encontrou; contudo, deu um primeiro passo em direção à solução, e lógicos posteriores</p><p>aprimoram os estudos a partir dele, até que os atuais lógicos não mais consideram as insolubia</p><p>como insolúveis. É apenas possível que o Dr. Clark, ainda que equivocado, possa ter descoberto</p><p>uma pista que conduza à solução. De todo modo, ele afirmar que a solução reside, em sua quase</p><p>totalidade, na superfície das Institutas, de Calvino. A fim de desenvolver a sugestão de Calvino,</p><p>é preciso reajustar sua exegese de Romanos 9. Calvino, como os queixosos são cautelosos em</p><p>citar, diz que Romanos 9:20 é uma resposta preliminar[7], e que os versos próximos ao fim do</p><p>capítulo e o capítulo seguinte são o começo de uma solução mais fundamental. O Dr. Clark, pelo</p><p>contrário, pensa que Romanos 9:20 é o princípio fundamental e derradeiro, como Calvino</p><p>virtualmente admite nas Institutas III, XXIII, 2; e que a última seção consiste de deduções,</p><p>aplicações ou elaborações. Este não seria o único exemplo de uma ausência de consistência plena</p><p>entre os comentários de Calvino e suas Institutas.</p><p>Visto que todo mundo comente equívocos nas exegeses, não vem ao caso se o Dr. Clark</p><p>está certo ou errado nesse ponto. Tudo que deveria ser do interesse do Presbitério é se o Dr.</p><p>Clark afirma tanto a soberania quanto a responsabilidade. O fato de tentar solucionar o paradoxo</p><p>é, em si mesmo, prova de que aceita ambas as proposições. Os queixosos tentam comparar o Dr.</p><p>Clark aos arminianos e aos antinomianos (P. 12, 1-2; O. 47). Esses dois grupos, afirmam os</p><p>queixosos, também tentaram solucionar esse paradoxo. Mas, na verdade, nenhum desses dois</p><p>grupos tentou resolvê-lo. Paradoxos não são solucionados, mas meramente negados por meio da</p><p>rejeição de uma das partes. Os arminianos rejeitam a predestinação absoluta; e os antinomianos</p><p>rejeitam a moralidade. Em nenhum dos casos tratava-se de duas proposições aparentemente</p><p>contraditórios que se mostraram inconsistentes. Cada grupo simplesmente negou uma das duas</p><p>proposições. Ora, não é isto o que o Dr. Clark fez; antes, ele afirmou ambas e tentou demonstrar</p><p>que são consistentes. Todavia, os queixosos não acusam o Dr. Clark de arminianismo; eles o</p><p>acusam de antinomianismo (P. 12, 2; O. 48). Para aqueles que desejam julgar mais a fundo essa</p><p>acusação, já que não há evidência para isso na Queixa, o Presbitério chama atenção para o</p><p>tratado de oito páginas do Dr. Clark acerca de Romanos 6, o qual foi distribuído pelo nosso</p><p>Comitê de Educação Cristã.</p><p>É pertinente notar que o Dr. Clark, em vez de abordar esses problemas numa base</p><p>racionalista, chega às suas conclusões a partir de uma exegese das Escrituras.</p><p>Como em outras seções da Queixa, há nessa também representações distorcidas e</p><p>incidentais, assim como inferências falaciosas.</p><p>Por exemplo, parece haver a impressão de que é heterodoxo citar os estoicos porque eram</p><p>pagãos. Além do fato de que Calvino tomou de empréstimo partes da psicologia de Platão,</p><p>Aristóteles e os estoicos, é possível ainda considerar Atos 17:28-29, passagem na qual o</p><p>Apóstolo Paulo aprova certo ensinamento estoico acerca da natureza de Deus.</p><p>Em seguida, a tentativa de encontrar, por meio de um estudo mais profundo das Escrituras,</p><p>a solução de paradoxos — um uso da exegese que os queixosos chamam de racionalismo — é,</p><p>aos olhos deles, incompatível com a sujeição da razão humana à Palavra divina (P.12, 1; O. 47).</p><p>Em outras palavras, um homem que tenta compreender o que Deus lhe revelou não pode estar</p><p>sujeito à revelação; e se quanto mais compreende, menos está sujeito, provavelmente quanto</p><p>menos ele compreende, mais sujeito ele está [à revelação]; de modo que o homem realmente</p><p>obediente e devoto deve ser completamente ignorante. Com que direito os queixosos afirmam</p><p>que a tentativa de compreender as Escrituras é inconsistente com a crença nelas?</p><p>Novamente, os queixosos afirmam que o Dr. Clark “separa a responsabilidade humana da</p><p>liberdade humana” (P.12,3; O. 49). Porém, um estudo dos artigos do Dr. Clark demonstra que</p><p>ele aceita a concepção de Hodge de “livre-agência moral”; ele rejeita aquela liberdade de escolha</p><p>contrária na qual os arminianos desejam pautar a responsabilidade. Deve-se notar que a</p><p>“liberdade humana” possui vários sentidos. Pode significar liberdade política, liberdade de</p><p>causação mecânica, liberdade da vontade em relação ao intelecto,</p><p>liberdade do pecado, liberdade</p><p>de escolha contrária, liberdade em relação a Deus, e livre agência moral. Quando um autor</p><p>argumenta a favor ou contra a “liberdade”, o crítico deve determinar a qual liberdade o autor se</p><p>refere. Aplicar a um sentido do termo liberdade aquilo que o autor diz acerca de outro sentido de</p><p>liberdade, conforme os queixosos fazem aqui, não é um procedimento acadêmico.</p><p>À vista de todas essas considerações, o Presbitério conclui que essa seção da Queixa não</p><p>prova sua acusação.</p><p>SOBRE A OFERTA DO EVANGELHO</p><p>A última seção teológica da Queixa trata da oferta do Evangelho. Uma vez que a resposta à</p><p>Queixa já é demasiadamente volumosa, é de bom tom usar de brevidade neste término. E a</p><p>brevidade será suficiente, pois mais uma vez a acusação essencial é racionalismo, e tal acusação</p><p>já foi refutada.</p><p>Uma vez mais também os queixosos demonstram sua indisposição em se contentarem com</p><p>a redação da Confissão de fé de Westminster. Na primeira seção da Queixa, não estavam</p><p>satisfeitos com a afirmação da Confissão no tocante à incompreensibilidade de Deus, mas</p><p>desejaram impor sobre ela um irracionalismo estranho e místico; na segunda seção, estavam</p><p>indispostos a se contentarem com a doutrina de Westminster que exclui as paixões da</p><p>consciência de Deus: embora tenham admitido que o ponto de vista do Dr. Clark estava correto,</p><p>atacaram-no; na terceira seção, os queixosos se mostraram insatisfeitos com o encorajamento que</p><p>a Confissão faz à abordagem lógica ou racional das Escrituras: neste ponto novamente eles</p><p>assumiram um posicionamento que se reduz ao irracionalismo; e, presentemente, na última</p><p>seção, ignoram a Confissão, um apelo, e apelam a um credo anterior e inferior.</p><p>A Igreja deveria notar que o Dr. Clark está de pleno acordo com a Confissão de</p><p>Westminster com relação à oferta do Evangelho. A Confissão, VII, iii, assinala: Tendo-se o</p><p>homem tornado, pela sua queda, incapaz de ter vida por meio deste pacto, o Senhor dignou-se a</p><p>fazer um segundo pacto, geralmente chamado de pacto da graça; neste pacto da graça ele</p><p>livremente oferece aos pecadores a vida e salvação através de Jesus Cristo, exigindo deles a fé,</p><p>para que sejam salvos, e prometendo o seu Santo Espírito a todos os que estão ordenados para a</p><p>vida, a fim de dispô-los e habilitá-los a crer”. O Dr. Clark está de pleno acordo com isso. Os</p><p>queixosos, contudo, não estavam satisfeitos com a aceitação do Dr. Clark da afirmação da</p><p>Confissão, mas insistiram na palavra sincera ao descrever a oferta do Evangelho.</p><p>Ora, os queixosos (P. 13, 1; O. 51) admitem que a palavra “sincera” tem pouco significado</p><p>em qualquer frase em particular, já que Deus é sincero em tudo que faz. Não houve necessidade</p><p>dos teólogos de Westminster utilizá-la; e, de semelhante modo, não havia necessidade de os</p><p>queixosos utilizá-la. É supérfluo. Esta é uma das duas razões para a relutância do Dr. Clark em</p><p>usar o termo. Esclareceu-se quão necessário é definir os termos com precisão. A diferença</p><p>qualitativa entre a verdade de uma proposição para o homem e a mesma verdade para Deus</p><p>permanece indefinida na Queixa. A palavra “emoção” é definida de modo descuidado. Neste</p><p>caso, o Dr. Clark poderia não saber qual significado aplicar à palavra “sincero”. E por esse</p><p>motivo, ele se recusou a usá-la. A segunda razão está intimamente ligada à primeira. Uma vez</p><p>que a palavra “sincero” é duma aplicação tão geral, podendo, inclusive, ser utilizada com várias</p><p>conotações, os arminianos usaram-na para distinguir sua doutrina da nossa. Os luteranos fazem a</p><p>mesma coisa com a palavra “sinceramente”. De acordo com W.G. Polack, em The Building of a</p><p>Great Church [A Edificação de uma Grande Igreja], na página 151, o Sínodo de Missouri, em</p><p>1881, adotou, dentre outros, o seguinte ponto: “Cremos, ensinamos e confessamos que Deus</p><p>amou o mundo desde a eternidade, criou todos os homens para a salvação e nenhum para a</p><p>perdição, e sinceramente deseja a salvação para todos os homens”.</p><p>Essas são, pois, as palavras utilizadas pelos inimigos do calvinismo a fim de fazê-lo</p><p>parecer odioso. A recusa do Dr. Clark em usar tais palavras provém de seu desejo de não ser</p><p>acusado de arminianismo. E aparentemente teve sucesso, pois arminianismo é uma acusação que</p><p>os queixosos não lhe fizeram.</p><p>A Igreja agiria bem em comparar as questões descuidadas dos queixosos ao examinar o Dr.</p><p>Clark, bem como sua linguagem desatenta na Queixa com a excelente acurácia de um teólogo</p><p>meticuloso como R. L. Dabney. Em seu Syllabus and Notes [Ementas e Notas] (p. 559), ele</p><p>afirma:</p><p>“Em quinto lugar: Quando afirmamos essa compaixão sincera de Deus em seus chamados</p><p>comuns aos não-eleitos, não lhe atribuímos nada fútil, ou insincero; porque, nesta expressa</p><p>condição: eles se voltarão, ele (Deus) não diz em lugar algum que tem o desejo de ver alguém</p><p>salvo enquanto permanecer em rebeldia. Nem diz, em qualquer momento, que é seu propósito</p><p>incondicional compelir todos a se voltarem para ele. Porém, Deus diz: Ele gostaria de ver todos</p><p>salvos contanto que se voltassem (a ele). De modo que sua vontade no chamado universal não</p><p>está fora de harmonia com sua presciência. E por fim: as convite e advertências àqueles que ele</p><p>antevê que o rejeitarão são expressões necessárias de suas perfeições. O fato de que dado pecado</p><p>é antevisto não exclui seu caráter moral; e, desse modo, não deveria constituir uma razão pela</p><p>qual um Deus justo se abstenha de proibi-lo ou advertir contra ele. Que Deus, todavia, permite</p><p>que as criaturas cometem esse pecado contra seus convites é, portanto, apenas a velha questão</p><p>sobre a permissão do mal. E não uma nova questão.”</p><p>Embora os queixosos possam reprovar Dabney por tentar responder algumas perguntas e</p><p>solucionar paradoxos em vez de permitir que as coisas permaneçam sem explicação, a afirmação</p><p>de Dabney é o tipo de redação cuidadosa que deve ser aprovada. Esta é a forma de doutrina que o</p><p>Dr. Clark aceita; e isto é suficiente.</p><p>* * * * *</p><p>Preliminarmente à conclusão desta resposta à Queixa, o Presbitério chama a atenção para aquilo</p><p>que é exigido de uma Queixa que se proponha, neste caso por vias indiretas, a provar a acusação</p><p>de heresia. No famoso caso Briggs, há cinquenta anos atrás, o sr. John J. McCook, membro do</p><p>comitê de acusação, argumentou: “Não é necessário delongarmo-nos no fato de que um ministro</p><p>não pode ser julgado pelas consequências que podem ser deduzidas de suas doutrinas” (página</p><p>4). No presente caso, contudo, é necessário delongarmo-nos nesse fato. Os critérios que o comitê</p><p>de acusação no caso Briggs estabeleceu para si mesmo não são os da presente Queixa. Esta faz</p><p>deduções extremamente tênues das afirmações do Dr. Clark, por vezes contradizendo</p><p>diretamente a evidência. O Dr. Clark não reconhece essas deduções; e, todavia, com base nessas</p><p>deduções não reconhecidas e repudiadas, a Queixa solicita que sua licença e a decisão de sua</p><p>ordenação sejam declaradas nulas e inválidas. Uma vez reconhecido, esse procedimento não</p><p>deveria exigir comentário. A administração eclesiástica seria possível caso os ministros fossem</p><p>ser condenados com base nas deduções questionáveis de seus oponentes?</p><p>Em conclusão, o Presbitério nega que a reunião realizada em 7 de julho de 1944 tenha sido</p><p>ilegal e que suas ações são, portanto, inválidas. O Presbitério julga que a Queixa falhou em</p><p>comprovar que o pensamento do Dr. Clark “apresenta todas as características do racionalismo e</p><p>do intelectualismo humanista… e independência viciosa com relação a Deus” (P. 10, 2; O. 40).</p><p>O Presbitério nega “que os vários pontos de vista do Dr. Clark tal como anunciados na reunião, e</p><p>com os quais a Queixa está em causa, estão equivocados e em conflito com os requerimentos</p><p>constitucionais para a licença e ordenação, de modo que a decisão de levar a cabo seu exame</p><p>teológico, a decisão de renunciar a dois anos de estudo num seminário teológico, a decisão de</p><p>proceder com a licença do Dr. Clark, a decisão de licenciá-lo, a decisão de considerarem seu</p><p>exame para a licença como sendo satisfatório para sua ordenação, e a decisão de ordenar o Dr.</p><p>Clark,</p><p>são equivocadas e inconstitucionais, sendo, portanto, nulas e inválidas (P. 15, 3; O. 61). O</p><p>Presbitério insta com os queixosos para: que estudem a presente resposta à Queixa; que</p><p>reconheçam que distorceram os pontos de vista do Dr. Clark, e que erraram ao levantar a</p><p>acusação de que “o Dr. Clark deliberadamente evitou responder” (P. 8, 1; O. 30) uma questão</p><p>que lhe foi dirigida durante seu exame; e que revoguem, pois, sua Queixa.</p><p>[1] Nas palavras de Calvino: “Em outro lugar, veremos quão firme é o governo do intelecto para conduzir a vontade; aqui apenas</p><p>queremos mostrar que, na alma, não há nenhuma potência que não possa ser retamente referida a um ou a outro desses dois”</p><p>(Instituição da Religião Cristã, p. 181-182) (Nota do Tradutor).</p><p>[2] “Depois vem a imaginação, que discerne o que o senso comum apreendeu; depois vem a razão, que contém o juízo universal;</p><p>e, por fim, vem a inteligência, que contempla com fixo e tranquilo olhar o que a razão costuma revolver discorrendo” (Instituição</p><p>da Religião Cristã, p. 180) (Nota do Tradutor).</p><p>[3] “Admito também que a estas três faculdades intelectuais — inteligência, razão e imaginação — correspondem outras três</p><p>apetitivas: a vontade, cujo ofício é buscar o que a mente e a razão propõem; a força da cólera, que segue o que é posto pela razão</p><p>e imaginação; a força da concupiscência, que apreende os objetos apresentados pela imaginação e pela sensibilidade” (p. 180)</p><p>(Nota do Tradutor).</p><p>[4] Instituição da Religião Cristã, p. 180</p><p>[5] “Assim, Deus formou a alma do homem com o entendimento, por meio da qual pudesse discernir o bem do mal, o justo do</p><p>injusto e, instruído com a luz da razão, ver o que seguir ou evitar. Por isso os filósofos chamaram a parte que dirige de</p><p>‘governadora’” (Instituição... p. 182).</p><p>[6] Referência ao Concílio de Nicéia, no qual se deliberou, dentre vários outros artigos, a questão da Trindade e, em oposição à</p><p>heresia arianista (do bispo Ário), a divindade do Filho, Jesus Cristo (Nota do Tradutor).</p><p>[7] Calvino, em seu comentário aos Romanos, no capítulo 9, versículo 20, afirma: “Quem és tu, ó homem, para discutires com</p><p>Deus?”: “... É evidente que o apóstolo não encarece nenhuma outra causa acima da vontade de Deus. A solução óbvia para o</p><p>problema estava nas bases justas para diferença. Por que, pois, ele não faz uso desta breve resposta, senão que destina à vontade</p><p>divina um lugar de muito mais proeminência, acima de qualquer outra causa? Se a objeção de que Deus reprova ou elege, em</p><p>consonância com sua vontade, aos que ele não honra com seu favor, ou àqueles a quem demonstra amor imerecido – se esta</p><p>objeção fosse falsa, então Paulo não se teria omitido em refutá-la. Os ímpios alegam que os homens estariam isentos de culpa se</p><p>porventura a vontade divina tivesse o primeiro lugar em sua salvação ou em sua destruição. Paulo nega isso? Não! E por sua</p><p>resposta ele confirma que Deus determina tratar com os homens como lhe apraz. No entanto, os homens se erguem em sua ira a</p><p>fim de contender com Deus, mas sem qualquer proveito, visto que ele tem direito de impor a suas criaturas o que é do seu agrado.</p><p>Os que dizem que Paulo, sem razão alguma e sem saber o que responder, recorreu a subterfúgios e reprovações, estão</p><p>dolosamente a caluniar o próprio Espírito Santo. O apóstolo não queria senão começar ou lançar mão do que podia servir-lhe para</p><p>manter a equidade e retidão de Deus, visto não haver sido compreendidas. De fato, ele suavizará seu segundo argumento de tal</p><p>maneira que não poderá deduzir-se dele uma defesa plena, senão que, para provar-nos a justiça divina, nos dirá que precisamos</p><p>considera-la com humildade e reverência. Ele tomou, pois, a verdade mais adequada para admoestar os homens sobre sua própria</p><p>condição, dizendo: ‘Visto que és homem, deves reconhecer por ti mesmo que não passas de pó e cinza. Por que, pois, contendes</p><p>com o Senhor acerca daquilo que longe estás de compreender?’ Em suma, o apóstolo não introduziu em sua discussão o que</p><p>poderia ter dito, mas o que nossa ignorância poderia aceitar. Os presunçosos são rancorosos, porque, ao admitirem que os homens</p><p>são rejeitados ou escolhidos pelo secreto conselho de Deus, Paulo não oferece nenhuma explicação, como se o Espírito de Deus</p><p>fosse silencioso por carência de razão, e não por querer admoestar-nos através de seu silêncio – um mistério que nossas mentes</p><p>não podem compreender, mas que deveria nos constranger a prestar-lhe reverente adoração. E assim ele freia a perversidade da</p><p>curiosidade humana. Saibamos, pois, que Deus deixa de falar-nos, não por qualquer razão, mas pelo fato de saber que sua infinita</p><p>sabedoria não pode ser compreendida dentro de nossa tacanha capacidade. E assim, apiedando-se de nossa fragilidade, ele nos</p><p>convida ao cultivo da moderação e da sobriedade. Porventura pode o objeto perguntar a quem o fez? Como vemos, Paulo</p><p>continua insistindo sobre a necessidade de consideramos justa a vontade de Deus, embora pode ser que a razão para isso nos</p><p>esteja oculta. Ele mostra que Deus é usurpado de seu direito, caso não seja livre para tratar com suas criaturas segundo seu justo</p><p>modo de proceder. Isso parece desagradável a muitos. Outros alegam ainda que Deus seria muitíssimo desonrado caso um poder</p><p>tão arbitrário lhe fosse atribuído. Mas seu escrúpulo faz deles melhores teólogos que Paulo, o qual estabeleceu como regra de</p><p>humildade para os crentes, que devessem erguer os olhos para a soberania divina, e que não seja ela medida pelos seus tacanhos</p><p>critérios” (João Calvino, Comentário de Romanos, p. 393-395, Editora Fiel). [Nota do Tradutor].</p><p>A QUESTÃO LEGAL</p><p>SOBRE A INCOMPREENSIBILIDADE [DE DEUS]</p><p>SOBRE O INTELECTO, VONTADE E EMOÇÕES</p><p>SOBRE A SOBERANIA E RESPONSABILIDADE</p><p>SOBRE A OFERTA DO EVANGELHO</p><p>que os questionadores, agora os queixosos, lhes</p><p>deram. Este fato deve ficar claro para todos aqueles que desejam enxergar esta Queixa sob a</p><p>verdadeira luz. Os queixosos não encontraram objeção às visões doutrinas do Dr. Clark acerca da</p><p>inspiração verbal e plenária das Escrituras; criação; providência e milagres; ou a queda do</p><p>homem. Os queixosos não pretendem questionar a doutrina da expiação, chamado eficaz,</p><p>justificação pela fé, santificação ou escatologia do Dr. Clark. Destarte, não surpreende o fato de</p><p>que, na reunião com o maior número de presenças da história do Presbitério da Filadélfia, o</p><p>exame teológico do Dr. Clark foi validado por mais de três quartos dos votos do Presbitério.</p><p>Nesta reunião, mesmo alguns dos próprios queixosos votaram na aprovação do exame. Mais de</p><p>três quartos do Presbitério da Filadélfia mostraram-se satisfeitos com a subscrição [aderência] do</p><p>Dr. Clark à Confissão de fé de Westminster.</p><p>E, presentemente, uma Queixa contra o Presbitério se encontra assinada por três pessoas</p><p>alegando equívocos nas visões do Dr. Clark com relação a: (1) a incompreensibilidade de Deus e</p><p>a relação entre o conhecimento de Deus e o conhecimento do homem; (2) as relações entre o</p><p>intelecto, vontade e emoções; (3) a relação entre a soberania divina e a responsabilidade humana;</p><p>(4) a oferta do Evangelho ao homem. Subjacente a todas essas acusações está a suposição de que</p><p>o pensamento do Dr. Clark “apresenta todas as características do racionalismo, intelectualismo</p><p>humanista” e “independência viciosa com relação a Deus” (P. 10, 2; 0. 40).</p><p>A primeira seção da Queixa diz respeito à doutrina da incompreensibilidade de Deus.</p><p>Antes de analisar tal seção pormenorizadamente, o Presbitério julga melhor realizar algumas</p><p>observações com relação à doutrina em questão. A Queixa [Denúncia], conforme será visto</p><p>adiante, lança a acusação de “que a visão do Dr. Clark sobre a incompreensibilidade de Deus está</p><p>definitivamente em desacordo com o sentido que essa doutrina possui na teologia cristã” (P. 5, 1;</p><p>O. 18). Tal acusação assume que, em toda a extensão da teologia cristã, essa doutrina teve</p><p>somente um significado exato, pois a Queixa (P. 4, 2; O. 15) também se refere ao “seu sentido</p><p>uniforme na história do pensamento cristão”; de semelhante modo, a acusação assume que a</p><p>teoria dos queixosos é a que possui um sentido exato e que, ao discordar deles, o Dr. Clark</p><p>rejeita esse elemento uniforme na teologia cristã. Essas suposições são, contudo, falsas. A</p><p>incompreensibilidade de Deus, tal como explicada por Dionísio, o Aeropagita, é completamente</p><p>diferente da doutrina exposta por Charles Hodge. Uma comparação entre outros dois teólogos</p><p>pode revelar outras diferenças, embora menos contrastantes. A suposição de que é possível</p><p>determinar o “sentido de que essa doutrina possui na teologia cristã” é, portanto, falsa. Ademais,</p><p>vários dos pontos particulares em questão nessa Queixa foram tratados exaustivamente na</p><p>história da teologia. O Presbitério não pode afirmar que nenhum livro ou manuscrito jamais</p><p>discutiu esses pontos, pode, todavia, afirmar que não há posição perfeitamente exata reconhecida</p><p>por um número extenso de teólogos.</p><p>A visão exposta na Queixa é que, “dada sua própria natureza, Deus necessariamente</p><p>permanece incompreensível ao homem” (P. 2, 3: O. 8); não é “a doutrina que Deus somente pode</p><p>ser conhecido caso ele próprio se faça conhecido e na medida mesma em que fez conhecido”</p><p>(ibid.). Ademais, todo conhecimento que o homem pode alcançar difere do conhecimento de</p><p>Deus “num sentido qualitativo e não simplesmente em grau” (P. 4, 2; O. 15). Portanto, o</p><p>conhecimento de Deus e o conhecimento do homem “não coincidem em nenhum ponto sequer”</p><p>(P. 5, 3; O. 21). Uma proposição não “possui, para o homem, o mesmo sentido que tem para</p><p>Deus” (P. 5, 2; O. 20). O conhecimento humano é “análogo ao conhecimento que Deus possui,</p><p>mas jamais pode se identificar com o conhecimento” que Deus “possui acerca da mesma</p><p>proposição” (P. 5, 3; O. 21). “O conhecimento divino, como divino, transcende o conhecimento</p><p>humano como humano, mesmo quando este conhecimento humano é comunicado por Deus” (P.</p><p>3, 1; O. 9). “Devido à sua própria natureza infinita e absoluta, o conhecimento que Deus possui</p><p>de si mesmo e de todas as coisas deve permanecer um mistério que a mente finita do homem não</p><p>pode penetrar” (ibid.). Esta afirmação não significa simplesmente que o homem não pode</p><p>penetrar esse mistério sem o auxílio da revelação; significa que mesmo a revelação da parte de</p><p>Deus não pode fazer com que o homem compreenda o mistério, pois as sentenças anteriores</p><p>afirmam que é a natureza de Deus que o torna incompreensível, e não a ausência de revelação</p><p>acerca dessa natureza. No decorrer da análise [dos Queixosos], essas citações com o argumento</p><p>dos quais foram extraídas aparentemente implicarão dois pontos principais. Em primeiro lugar,</p><p>há verdades que Deus não pode colocar em forma proposicional; esta porção de verdade não</p><p>pode ser expressa conceitualmente. Em segundo lugar, a porção de verdade que Deus pode</p><p>expressar em forma proposicional jamais possui, para o homem, o mesmo sentido que possui</p><p>para Deus. Toda proposição que o homem conhece tem um sentido qualitativamente diferente</p><p>para Deus. O homem é capaz de apreender somente uma analogia da verdade, que, visto ser uma</p><p>analogia, não é, em si, uma verdade.</p><p>Por outro lado, o Dr. Clark argumenta que a doutrina da incompreensibilidade de Deus, tal</p><p>como disposta nas Escrituras e na Confissão de fé de Westminster, inclui os seguintes pontos: 1)</p><p>A essência do ser de Deus é incompreensível ao homem, a não ser que Deus revele verdades</p><p>concernentes à sua própria natureza; 2) a forma de conhecimento de Deus, uma eterna intuição, é</p><p>impossível ao homem; 3) o homem jamais pode conhecer exaustiva e completamente o</p><p>conhecimento de Deus acerca de qualquer verdade em todas suas relações e implicações; porque</p><p>cada verdade possui um número infinito de relações e implicações, e visto que cada uma dessas</p><p>implicações, por sua vez, possui outras infinitas implicações, estas devem, mesmo no céu,</p><p>permanecer inexauríveis ao homem; 4) mas o Dr. Clark sustenta que a doutrina da</p><p>incompreensibilidade de Deus não implica que uma proposição, por exemplo, dois vezes dois</p><p>são igual a quatro, possui um sentido para o homem e um sentido qualitativamente diferente para</p><p>Deus, ou que alguma verdade é conceitual ao passo que outra é não-conceitual em sua natureza.</p><p>Eis o ponto crucial da questão. Ao insistir que o conhecimento de Deus é</p><p>qualitativamente diferente do conhecimento do homem e que “seu [de Deus] conhecimento e</p><p>nosso conhecimento” não “coincidem em nenhum ponto”, a Queixa está, na verdade,</p><p>apresentando uma teoria de uma verdade duplicada; ao passo que o Dr. Clark advoga que a</p><p>natureza da verdade é uma só, que no caso de o homem conhecer qualquer produto da verdade,</p><p>tanto Deus quanto o homem conhecem o mesmo e idêntico produto, no qual o conhecimento</p><p>divino e o humano coincidem. De acordo com a Queixa, o homem jamais pode conhecer sequer</p><p>um produto da verdade conhecida por Deus; o homem é capaz de conhecer somente uma verdade</p><p>“analógica”, e esta, por seu turno, não é a mesma verdade que Deus conhece, pois, segundo os</p><p>queixosos, a verdade que Deus conhece é “qualitativamente” diferente, e ele não pode revelá-la</p><p>ao homem, visto que este é uma criatura. Repetindo: a verdade que Deus conhece e a verdade</p><p>que o homem conhece jamais são a mesma verdade, pois não “coincidem em nenhum ponto”.</p><p>Por conseguinte, o conhecimento de Deus é incompreensível ao homem devido à razão</p><p>específica de que Deus não pode revelar nenhum fato particular acerca disso [isto é, de seu</p><p>conhecimento] sem destruir o “relacionamento Criador-criatura”. O Dr. Clark sustenta que Deus</p><p>pode revelar qualquer elemento do seu conhecimento na forma proposicional sem destruir o</p><p>relacionamento Criador-criatura, e que tal proposição revela tem o mesmo sentido para Deus e</p><p>para o homem quando — como é, por vezes, o caso — o homem a compreende. No entanto, qual</p><p>é</p><p>o sentido da doutrina da incompreensibilidade de Deus ensinada nas Escrituras e na Confissão</p><p>de fé de Westminster? Embora a Queixa afirme que sua “doutrina da incompreensibilidade é o</p><p>ensino das Escrituras” e que é “ensinada em várias passagens e está implícita na doutrina da</p><p>transcendência divina que é, por toda parte, ensinada e pressuposta nas Escrituras”, cita somente</p><p>umas poucas passagens, indubitavelmente selecionadas porque supostamente apresentam a mais</p><p>forte evidência escriturística da doutrina. A primeira dessas passagens é Salmo 145:3: “a sua</p><p>grandeza é insondável”. A segunda passagem citada é Isaías 40:28: “Não se pode esquadrinhar</p><p>seu entendimento”. E a terceira é de um enunciador não-inspirado em Jó 11:7,8: “Porventura,</p><p>desvendarás os arcanos de Deus ou penetrarás até à perfeição do Todo-Poderoso? Como as</p><p>alturas dos céus é a sua sabedoria; que poderás fazer? Mais profunda é ela do que o abismo</p><p>[Sheol]; que poderás saber?”. A raiz hebraica para os termos “insondável”, “esquadrinhar” e</p><p>“desvendarás”, usados respectivamente nas três passagens, é chaqar, que significa buscar ou</p><p>examinar. As passagens todas ensinam que o homem, por meio de seus esforços solitários, não</p><p>pode esquadrinhar a grandiosidade ou entendimento de Deus. Não ensinam, portanto, que Deus</p><p>não pode revelar nenhuma proposição particular acerca de sua grandeza, pois elas são, de fato, e</p><p>em si mesmas, proposições acerca da grandiosidade e entendimento de Deus. Agora, com relação</p><p>à porção que Deus revelará ao homem é uma questão completamente diferente; tais versos,</p><p>entretanto, não implicam que há um ponto do conhecimento divino que Deus não pode revelar,</p><p>caso ele o deseje. E certamente não implicam que alguma verdade é não-conceitual em sua</p><p>natureza. Ora, que tipo de verdade a verdade não-conceitual seria?</p><p>1 Timóteo 6:16, “[Deus] que habita em luz inacessível, a quem homem algum jamais viu, nem é</p><p>capaz de ver”, é citado como evidência de que “o homem, sendo criatura, jamais pode transpor</p><p>ou mesmo se aproximar à contemplação de Deus tal como ele é em si mesmo” (P.4, 3; O. 17).</p><p>Mas não é isto que esse versículo afirma; ele não diz que o homem não pode contemplar ou</p><p>pensar a respeito de Deus; antes, afirma que o homem não pode vê-lo. Teófilo, citado por Meyer</p><p>(in loc.), compreende o verbo como literalmente “ver”, de modo que significa que Deus é um</p><p>espírito invisível. É somente o místico Dionísio que toma o verbo “ver” no sentido intelectual de</p><p>“contemplar”, de maneira a fazer com que o verso signifique que Deus é inconcebível. Ora, que</p><p>essa interpretação mística da teologia negativa [nota] está equivocada, e que o verbo “ver”, nesse</p><p>versículo em particular, deve ser compreendido literalmente, é corroborado por Jó 19:26-27: “em</p><p>minha carne (ou sem a minha carne) verei a Deus. Vê-lo-ei por mim mesmo, os meus olhos o</p><p>verão, e não outros”. Numa análise superficial, Jó aparentemente contradiz Paulo. O verbo</p><p>hebraico em Jó, chazah, em geral significa contemplar. E deve significar isto nesse versículo,</p><p>pois o sentido literal da visão física tornaria o versículo inconsistente com o ensino das</p><p>Escrituras sobre a espiritualidade de Deus. O sentido literal em Jó tornaria falso o verso.</p><p>Destarte, Jó definitivamente afirma que o homem há de contemplar a Deus. Visto que 1 Timóteo</p><p>6:16 não pode contradizer o ensino de Jó, deve-se referir à visão literal, não à contemplação, e,</p><p>portanto, a exegese da Queixa demonstra-se equivocada. A espiritualidade e invisibilidade Deus,</p><p>e não seu caráter inconcebível, é também ensinada em João 1:18 e João 6:46, e a esse ensino,</p><p>este último verso expressamente acrescenta o fato da revelação. Por conseguinte, esses versos</p><p>não deveriam ser citados como prova de que Deus possui um conhecimento que não pode ser</p><p>revelado ao homem.</p><p>Deuteronômio 29:29, “As coisas encobertas pertencem ao SENHOR, nosso Deus, porém as</p><p>reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre”, também apoia a visão do Dr.</p><p>Clark a respeito do conhecimento de Deus. O homem não é capaz, por si mesmo, de descobrir os</p><p>segredos de Deus; ele pode apenas conhecer aquilo que Deus lhe revela; mas quando as verdades</p><p>são reveladas, elas o são para serem compreendidas, pois “pertencem a nós e a nossos filhos,</p><p>para sempre”. Além disso, ninguém tem o direito de estabelecer um limite ao poder de Deus em</p><p>revelar, no céu, qualquer ponto que, presentemente, esteja dentre as coisas secretas. Até que ele</p><p>seja revelado, o homem não pode descobri-lo; com efeito, é incompreensível porque está</p><p>encoberto.</p><p>Duas outras passagens citadas, de igual modo, concordam com a visão do Dr. Clark: Mateus</p><p>11:27 (e Lucas 10:22): “Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão</p><p>o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”. Somente o Filho possui o conhecimento</p><p>original e não-derivado do Pai que pode transmitir a revelação. O homem não pode conhecer a</p><p>Deus a não ser que o Filho “o queira revelar”. Mas quando o Filho revela a Deus, o homem pode</p><p>conhecê-lo verdadeiramente na medida em que ele (Deus) é revelado; tal conhecimento é</p><p>conhecimento verdadeiro, tanto para o homem quanto para Deus.</p><p>Romanos 11:33, referido na Queixa mas não citado, também ensina a mesma doutrina bíblica</p><p>que o Dr. Clark aceita. Nenhum desses versos fornece traços do estranho ensino da Queixa de</p><p>que há uma parte do conhecimento de Deus que não pode ser revelado ao homem, caso Deus</p><p>tenha optado por isso, sem destruir a distinção entre o Criador e a criatura. É pertinente indagar</p><p>como essa distinção seria destruída caso Deus fizesse o homem compreender algum elemento do</p><p>conhecimento de modo que tanto o conhecimento divino quanto o humano coincidissem no</p><p>ponto revelado por Deus ao homem. É claro que o conhecimento de Deus do objeto não seria</p><p>exaurido por aquilo que ele revelasse ao homem, no entanto, na medida em que o homem</p><p>compreende a verdade revelada, seu conhecimento coincidiria com aquela parte do</p><p>conhecimento de Deus que ele optou por revelar. Tal proposição seria verdadeira tanto para Deus</p><p>quanto para o homem; mas aquilo que Deus não revela permanece incompreensível.</p><p>A passagem mais plausível que os queixosos citam para apoiar sua posição é Isaías 55:8-9. Ora,</p><p>caso sua doutrina não esteja fundamentada nesse versículo, torna-se difícil ver em que parte das</p><p>Escrituras pode ser encontrada. A passagem é: “Porque os meus pensamentos não são os vossos</p><p>pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o SENHOR, porque, assim como</p><p>os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos</p><p>caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos”. Num primeiro</p><p>momento, esta passagem aparentemente favorece o posicionamento dos queixosos. Parece</p><p>ensinar que não podemos pensar os pensamentos de Deus — na verdade, não nos é possível</p><p>sequer pensar os pensamentos de Deus segundo ele. Mas, conforme visto, desde que essa ideia</p><p>não é sustentada pelas outras passagens citadas, deveríamos ser cautelosos para não ir</p><p>diretamente à conclusão de que ela é inescapavelmente ensinada aqui. O contexto desses versos</p><p>auxilia na compreensão do sentido pretendido pelo profeta. Numa passagem magistral que</p><p>ordena ao ímpio retornar ao Senhor, há a promessa de que Deus irá perdoar de modo abundante,</p><p>“porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus</p><p>caminhos”. O ponto aqui é que, na perspectiva humana, o ímpio jamais deveria ser perdoado, ou</p><p>jamais seria perdoado. Isto é o que o ser humano pensaria. Deus, entretanto, pensa diferente. Ele</p><p>conhece algo que o homem não conhece; Deus sabe que há de enviar seu Filho a fim de carregar</p><p>o castigo pelo pecado, de modo que a justiça e misericórdia se encontrem. Desse modo, os</p><p>caminhos e pensamentos de Deus com relação à salvação são tão diferentes dos do homem como</p><p>o céu se encontra acima da terra. Consequentemente, o significado dos versículos se encontra na</p><p>comparação entre os pensamentos humanos e os pensamentos de Deus acerca da salvação. Deus</p><p>possui planos</p><p>de enviar um Salvador substituto, que não fora revelado (até então) ao homem, e</p><p>esses planos eram tão gloriosos que não existam critérios terrenos com os quais compará-los.</p><p>Evidentemente há dois níveis indicados nessa passagem: no nível divino, há o conhecimento</p><p>racional, ao passo que no nível humano há ideias falsas e ignorância. Há dois níveis, certamente,</p><p>mas não dois níveis de conhecimento. Uma pessoa, portanto, deveria hesitar em afirmar que essa</p><p>passagem ensina que “o abismo que separa o conhecimento divino do conhecimento humano” é</p><p>intransponível por Deus caso ele escolha transpô-lo, pois, no caso em questão, ele, com efeito, o</p><p>atravessou ao enviar o Salvador. Assim, podemos ver e compreender parcialmente, entretanto</p><p>verdadeiramente, a razão pela qual Deus pode perdoar os pecadores arrependidos na dispensação</p><p>do Antigo Testamento. Concluímos, portanto, que mesmo essa passagem, a mais plausível</p><p>citada, de fato não apoia o posicionamento dos queixosos no que toca à incompreensibilidade de</p><p>Deus.</p><p>Uma breve referência poderia ser feita com relação a certas passagens que, dentre várias outras,</p><p>claramente corroboram a argumentação de Dr. Clark que Deus é verdadeiramente cognoscível na</p><p>medida em que revela a si mesmo ao homem. João 17:3 diz: “E a vida eterna é esta: que te</p><p>conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste”. É dito que o</p><p>conhecimento de Deus é a essência da vida eterna. Não se estabelece limite algum sobre o</p><p>montante de conhecimento que o povo pode ter a respeito de Deus. Outros versículos ensinam</p><p>que o homem apenas pode conhecer aquilo que o Filho revela, mas é clara a afirmação de que o</p><p>Filho pode revelar a seu povo aquilo que quiser. E assume-se que tal conhecimento é verdadeiro</p><p>e válido tanto para Deus quanto o homem. Indubitavelmente seria apenas o conhecimento que</p><p>uma criatura pode compreender, mas nenhum limite é estabelecido para a compreensão da</p><p>verdade revelada. O modo de Deus conhecer certamente é diferente, e permanecerá eternamente</p><p>incompreensível ao homem, mas não há evidência de que há alguns elementos do conhecimento</p><p>acerca de Deus que ele não fosse capaz de revelar-nos, caso assim optasse.</p><p>A segunda passagem é João 7:17: “Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito</p><p>da doutrina, se ela é de Deus ou se eu falo por mim mesmo”. Neste versículo, temos a descrição</p><p>do verdadeiro caminho ao verdadeiro conhecimento da doutrina divinamente revelada. Buscar</p><p>fazer a vontade de Deus é o caminho para o conhecimento da revelação de Deus. Certamente o</p><p>conhecimento da verdade revelada por Deus é, nesse ponto, uma meta colocada perante o</p><p>homem que deseja cumprir a vontade de Deus. É possível que o homem jamais alcance a meta</p><p>do perfeito conhecimento da verdade revelada, mas nenhuma barreira de mistério se encontra</p><p>“erigida na revelação divina e que” está “completamente além dos poderes de compreensão da</p><p>mente finita”. Pelo contrário, está implícito de que não há tais barreiras na verdade revelada para</p><p>aquele que deseja fazer a vontade de Deus.</p><p>A terceira passagem é: “Pois tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito”</p><p>(Romanos 15:4; cf. 1 Coríntios 10:11). Na medida em que Deus revelou a verdade ao homem,</p><p>ele sem dúvida quis que o homem buscasse compreender seu sentido [da verdade revelada]. O</p><p>Presbitério não encontra nada nas Escrituras que implique que Deus estabeleça um sentido</p><p>diferente numa determinada proposição daquilo que ele deseja que o homem compreenda.</p><p>Quando as Escrituras afirmam, “conhecereis a verdade” (João 8:32), certamente a suposição é</p><p>que se trata da mesma verdade para Deus e homem. Quando Cristo disse aos seus discípulos:</p><p>“quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade” (João 16:3). Ele</p><p>certamente quis dizer que, sob a direção do Espírito Santo, o homem é capaz de investigar toda a</p><p>verdade revelada, e a afirmação aparentemente é que o Espírito Santo poderia, caso assim</p><p>escolhesse, revelar qualquer verdade particular ao homem. Isto não é afirmar, todavia, que o</p><p>homem pode, em algum ponto na eternidade, se tornar onisciente por meio da compreensão de</p><p>verdades seguidas umas às outras reveladas a ele por parte de Deus. O conhecimento do homem</p><p>seria sempre temporário e jamais incluiria o conhecimento imediato e intuitivo de Deus, ou o</p><p>conhecimento de todas as relações e implicações de todas as proposições. O conteúdo necessário</p><p>da onisciência inclui o conhecimento daquilo que é, para o homem, o futuro infinito, o passado e</p><p>todo seu conteúdo, e todas as relações e implicações infinitas de todos os produtos do</p><p>conhecimento, passadas, presentes e futuras, bem como a autoconsciência infinita de Deus, tanto</p><p>de sua natureza triúna e da maneira pela qual ele conhece o universo, incluindo o conhecimento</p><p>que Deus possui acerca daquilo que lhe é possível fazer, mas que jamais fará. O homem jamais</p><p>pode se tornar onisciente por meio da adição de um produto do conhecimento após outro</p><p>[sucessivamente] por toda a eternidade.</p><p>Várias outras passagens das Escrituras corroboram a visão do Dr. Clark acerca dessa questão. O</p><p>Salmo 36:9: “na tua luz, vemos a luz”, não afirma que veremos somente um reflexo analógico da</p><p>luz. Sentido similar se encontra em Salmo 43:3, “Envia a tua luz e a tua verdade, para que me</p><p>guiem”. Particularmente significativo é 1 Coríntios 13:12, “Agora, conheço em parte; então,</p><p>conhecerei como também sou conhecido”, pois não é estabelecido nenhum limite ao</p><p>conhecimento que os homens redimidos obterão no céu. Se os redimidos conhecerão tal como</p><p>Deus os conhece, então aparentemente Deus revelará um volume ainda maior de conhecimento</p><p>na vida futura do que presentemente imaginamos. Ademais, esse versículo implica que, embora</p><p>nosso conhecimento presente seja parcial, é, todavia, conhecimento verdadeiro do mesmo</p><p>sentido que tem para Deus.</p><p>Tal posição está longe da chamada visão quantitativa da verdade, a qual os queixosos afirmam</p><p>que destruiria o abismo que separa o conhecimento divino e o conhecimento humano,</p><p>destruindo, pois, a distinção entre Criador e criatura. A teoria deles falha em compreender o</p><p>sentido correto de onisciência, e, de semelhante modo, falha em enxergar o significado da</p><p>injunção escriturística de “crescer no conhecimento” (2 Pedro 3:18). Onde nas Escrituras há a</p><p>evidência de que uma verdade ou proposição é qualitativamente diferente para Deus e homem?</p><p>Onde nelas podemos encontrar a ideia de que o conhecimento de Deus e o conhecimento do</p><p>homem não coincidem em sequer único ponto?</p><p>Mesmo com base na acusação dos queixosos, de que o “Dr. Clark nega que há uma distinção</p><p>qualitativa entre os conteúdos do conhecimento de Deus e os conteúdos do conhecimento</p><p>possível ao homem, antes, na medida mesma em que há qualquer distinção entre ambos, tal</p><p>distinção é simplesmente quantitativa” (P. 5, 1; O. 19), não se segue que a distinção entre a</p><p>criatura e o Criador é rompida desta forma, ou que há “um ataque à majestade de Deus” (P. 3, 1;</p><p>O. 9). Quando se entende onisciência como acima especificado, o crescimento do homem em</p><p>conhecimento mediante a revelação no plano temporal, ainda que por toda a eternidade, estaria,</p><p>mesmo assim, aquém da onisciência. Com efeito, conforme veremos adiante, o Dr. Clark não</p><p>nega, todavia, a distinção qualitativa entre o conhecimento de Deus e do homem.</p><p>A Confissão de fé de Westminster apoia menos ainda essa estranha doutrina de que existem áreas</p><p>misteriosas do conhecimento de Deus, as quais não lhe é possível revelar ao homem, ou as quais</p><p>o homem não pode compreender, caso Deus lhas revelasse. No capítulo II, artigo 1, da</p><p>Confissão, e também no Catecismo Maior, pergunta 7, a palavra “incompreensível” ocorre como</p><p>um dos atributos de Deus. Não se ensina teoria alguma da incompreensibilidade, e nenhuma</p><p>explicação é dada do sentido no qual o termo é utilizado, embora talvez haja uma dica com</p><p>relação ao sentido no texto prova utilizado — Salmo 145:3, “a sua grandeza é insondável”.</p><p>Conforme demonstrado, esse versículo apoia a visão do Dr. Clark, segundo</p><p>a qual o homem não</p><p>pode, por meio de seus próprios esforços, sondar ou obter conhecimento acerca da grandiosidade</p><p>de Deus. O Dr. Clark subscreve, portanto, a doutrina ensinada na Confissão.</p><p>O Presbitério conclui, portanto, que nem nas Escrituras nem na Confissão há qualquer evidência</p><p>de que Deus, caso assim escolha, não é capaz de revelar qualquer elemento de [seu]</p><p>conhecimento ao homem; nem [há evidências] de que o homem cessaria de ser uma criatura</p><p>mediante o entendimento ou buscando compreender tal revelação; nem há qualquer evidência de</p><p>que uma proposição é qualitativamente diferente para o homem e Deus; nem que o conhecimento</p><p>de Deus e o conhecimento do homem não coincidem em um único ponto sequer.</p><p>Tendo contrastado o argumento essencial da Queixa com relação ao conhecimento de Deus e sua</p><p>incompreensibilidade com a posição sustentada pelo Dr. Clark no tocante a esses pontos, e tendo</p><p>também demonstrado que tanto as Escrituras quanto a Confissão de fé de Westminster apoiam</p><p>antes o posicionamento do Dr. Clark do que o da Queixa, é necessário, pois, proceder com a</p><p>análise desta, em si mesma.</p><p>O primeiro dos três passados enumerados afirma que “a afirmação fundamental feita pelo Dr.</p><p>Clark é que a verdade, seja na mente divina ou na mente humana, é sempre proposicional”. O</p><p>Presbitério replica a tal assertiva apontando que não há nada nas transcrições que justifiquem</p><p>isso. A transcrição é demasiadamente imperfeita e, por vezes, ininteligível, no entanto, as</p><p>passagens citadas na Queixa não têm relação alguma com a verdade tal como se encontra na</p><p>mente divina. As três passagens citadas tratam somente da verdade tal como se encontra na</p><p>mente humana, e, portanto, a Queixa distorce o posicionamento do Dr. Clark. Ora, o Dr. Clark</p><p>afirmou que toda verdade pode ser expressa em proposições, isto, todavia, não significa que</p><p>Deus pensa em proposições. Os queixosos, a fim de serem justos, deveriam ter notado que, na</p><p>transcrição (26, 1-9 e 27, 24-28, 22), o Dr. Clark nega o que eles afirmam na Queixa.</p><p>A primeira dessas passagens diz: “Pergunta [doravante P.]: Dr. Clark, o sr. disse que o</p><p>conhecimento do homem é de uma série de proposições, isto é, discursivamente. Resposta</p><p>[doravante R.]: Sim. P. [Também afirmou] que o conhecimento de Deus é intuitivo. R. Sim. P. O</p><p>sr., então, quer dizer que Deus vê todas as coisas em todas suas infinitas relações de um só</p><p>relance?”. R. Sim, é uma linguagem estranha, mas não conheço outra melhor, caso me exija algo</p><p>além disso”. A segunda passagem contém essas palavras: “P. O sr. crê que o conhecimento</p><p>intuitivo de Deus é o mesmo que nosso conhecimento discursivo. R. Bem, creio que não, dois</p><p>vezes dois é igual a quarto, tanto para Deus quanto para nós; esta é a expressão do conhecimento</p><p>de Deus e se desconhecemos o objeto que Deus conhece, então nos encontramos num estado de</p><p>absoluta ignorância. P. O sr. se importa de repetir sua afirmação ou a afirmação do sr. Andrews,</p><p>qual foi mesmo? SR. ANDREWS: Conforme me lembro, foi: ‘O conhecimento de Deus é</p><p>intuitivo e ele vê e conhece todas as coisas em todas as suas relações infinitas de um só</p><p>relance.’” Estas duas passagens da transcrição, embora breves, incompletas e imperfeitas,</p><p>demonstram claramente que o Dr. Clark não sustenta que o conhecimento de Deus é</p><p>proposicional. Os queixosos, em sua acusação acima, ignoraram o relatório.</p><p>Com esse primeiro ponto baseado numa falsa afirmação, o restante da primeira etapa perde toda</p><p>força. Os queixosos, por exemplo, afirmam (P. 5, 2; O. 19), “Esta visão da verdade, deve-se</p><p>notar, concebe a verdade como fundamentalmente quantitativa…”. Mesmo no caso do homem,</p><p>que é capaz de pensar apenas discursivamente, não se segue tal conclusão. Partindo do fato de</p><p>que cada proposição pode ser enumerada, os queixosos inferiram que a verdade é numérica ou</p><p>quantitativa. Trata-se de uma lógica realmente péssima. A falácia consiste em enfatizar um fato</p><p>de menor importância a fim de dar a impressão de que nenhum outro fato está envolvido. É</p><p>verdade que os homens conhecem várias proposições e cada proposição é distinta. Podemos</p><p>dizer que uma mente que conhece nove proposições conhece mais do que uma mente que</p><p>conhece apenas seis. Todavia, a insignificância da mera quantidade pode ser vista caso</p><p>consideremos que uma mente pode conhecer seis proposições integradas, ao passo que a outra</p><p>mente possui nove pedaços de informação desconexas. Não somente é possível distinguir a</p><p>informação que duas mentes possuem por meio do grau de conexão lógica entre suas partes, mas</p><p>há também uma diferença na importância relativa dos julgamentos. Por exemplo, duas mentes</p><p>podem ambas conhecer seis proposições, porém uma destas mentes conhece seis regras gerais,</p><p>enquanto a outra, seis fatos particulares. O número de proposições — a quantidade, tal como a</p><p>Queixa denomina — é a mesma para ambos os casos, mas a primeira mente é a melhor. Os</p><p>queixosos, portanto, não possuem evidência de que o Dr. Clark advoga ser fundamentalmente</p><p>quantitativo.</p><p>Destarte, os queixosos não foram capazes de compreender o Dr. Clark, distorceram e deturparam</p><p>seriamente seus pontos de vista. Eles concluem (P. 5, 2; O. 20) que o Dr. Clark considera que “o</p><p>conhecimento é uma questão de proposições separada do sujeito cognoscente, isto é, afirmações</p><p>autocontidas e independentes”. Isto é completamente leviano, pois não há qualquer evidência</p><p>para apoiar essa afirmação. O Dr. Clark rejeita a ideia de que a verdade é independente de Deus.</p><p>Os queixosos (P. 6,2; O. 22) também afirmam que “a abordagem do Dr. Clark é quantitativa do</p><p>início ao fim”. Eles também se equivocam (P. 5, 3; O. 21) quando dizem que ele reduz “o</p><p>conhecimento em pontos desconexos”. É, portanto, por meio de um descuido tanto para com a</p><p>lógica quanto para com a evidência que a Queixa pode concluir que (P. 5,2; O. 19), “Esta visão</p><p>da verdade, deve-se notar, concebe a verdade como fundamentalmente quantitativa”. Conforme</p><p>demonstrado, a Queixa é, no mínimo, imprecisa quando (P. 5, 1; O. 19) afirma que o Dr. Clark</p><p>sustenta que a distinção entre o conhecimento de Deus e o do homem é “simplesmente</p><p>quantitativa”.</p><p>O método que os queixosos seguiram é centrar a atenção em determinado acidente de uma</p><p>proposição e, então, afirmar tenazmente que não há nada mais a ser dito. Visto que cada</p><p>proposição é numericamente distinta, eles inferem que não há nada a não ser distinção numérica.</p><p>Posteriormente na Queixa, eles apresentam uma razão para sua preocupação com relação ao que</p><p>se trata aparentemente de tecnicismos lógicos vazios. Eles afirmam (P.7,2; O.28): “Este</p><p>conhecimento das proposições não pode, na natureza dos casos, refletir ou inspirar qualquer</p><p>reconhecimento, por parte do homem, de sua relação com Deus, pela simples razão de que as</p><p>proposições possuem o mesmo conteúdo, significam a mesma coisa, para Deus e para o</p><p>homem”. Se esse pronunciamento for aplicado num caso concreto, significa que a verdade</p><p>“Cristo morreu pelos nossos pecados” não pode refletir ou inspirar o reconhecimento da relação</p><p>do homem com Deus. Ora, porque proposições tais como “Cristo morreu pelos nossos pecados”</p><p>não podem refletir a verdade de Deus, é algo que os queixosos não explicam. Simplesmente</p><p>fazem uma afirmação ex cathedra. É possível indagar qual é a utilidade de todas as proposições</p><p>das Escrituras, já que não refletem Deus e sua relação com o homem? E se proposições não</p><p>podem inspirar qualquer reconhecimento, por parte do homem, de sua relação com Deus, por que</p><p>deveríamos pregar o Evangelho? O Dr. Clark crês que a pregação do Evangelho, não destituído</p><p>do poder regenerador ou iluminador do Espírito Santo, serve ao expresso propósito de ensinar ao</p><p>homem em que deve crer com relação a Deus e ao dever que Deus dele requer. Dado que as</p><p>Escrituras estão na forma proposicional, a afirmação da Queixa de que nenhuma afirmação na</p><p>Bíblia pode refletir ou inspirar qualquer reconhecimento, por parte do homem, de sua relação</p><p>com Deus é absurda e anti-bíblica. A segunda parte da mesma sentença parece apresentar uma</p><p>razão para a primeira</p><p>parte: as proposições não podem inspirar reconhecimento de Deus, “pela</p><p>simples razão de que proposições possuem o mesmo conteúdo, significam a mesma coisa, para</p><p>Deus e para o homem”. Os queixosos, portanto, negam que as proposições tenham o mesmo</p><p>sentido para Deus e para o homem. Mas esta negação anula a Bíblia por inteiro. A mesma ideia</p><p>se encontra em outro lugar. A Queixa infere como conclusão indefensável a partir dos pontos de</p><p>vista do Dr. Clark que (P. 5,2; O. 20) “uma proposição deveria possuir, para o homem, o mesmo</p><p>sentido que tem para Deus”. Eis aqui a diferença essencial com relação a essa questão entre o Dr.</p><p>Clark e a Queixa. Ele sustenta que as proposições possuem um único sentido — o mesmo para</p><p>Deus e o homem. A Queixa evidentemente assume que uma dada proposição possui dois</p><p>sentidos inteiramente diferentes. O homem pode compreender um destes sentidos; o outro</p><p>sentido somente Deus sabe, e o homem não possui ideia alguma do que sentido que tem para</p><p>Deus. Porém se assim o é, qual seria o destino da doutrina da inspiração verbal? A proposição</p><p>“Cristo morreu pelos nossos pecados” possui um significado único, definitivo e direto. Dizer que</p><p>Deus estabelece outro sentido indesvelável sobre essas palavras é esvaziar a Bíblia da verdade e</p><p>negar que, de fato, revela a mente de Deus. Esta dedução lógica da Queixa deve ser repudiada.</p><p>Envolvida na discussão dessas mesmas páginas da Queixa está o papel da razão no conhecimento</p><p>religioso. “Deve ser observado que o Dr. Clark não afirma derivar esse julgamento das</p><p>Escrituras; é, antes, visto como um axioma da razão” (P.5, 2; O. 19). Os queixosos também</p><p>afirmam (P. 5,2; 9. 20) “e não se deve negligenciar que, nessa associação, o Dr. Clark não</p><p>reivindica prova escriturística para sua afirmação fundamental quanto ao caráter do</p><p>conhecimento”. É possível imaginar que os queixosos exigiriam provas exegéticas mesmo para</p><p>os teoremas da geometria. Posteriormente eles afirmam (P.6, 3; O. 24,25): “E seu erro</p><p>aparentemente se deve ao fato de que ele não aborda a doutrina por meio de uma exegese das</p><p>Escrituras. Sua abordagem, pelo contrário, embora reconhecidamente levando em conta certos</p><p>ensinamentos das Escrituras, é, em larga medida, racionalista. Seu argumento é erigido sobre</p><p>certos princípios derivados da razão. Não se pode esperar uma teologia sadia de um método</p><p>defeituoso. Em resume, portanto, sustentamos que tanto a formulação dessa doutrina e o método</p><p>pelo qual é desenvolvida não estão em harmonia com o Presbiterianismo ortodoxo”.</p><p>Já foi demonstrado que a posição do Dr. Clark está de acordo com as Escrituras, mas a</p><p>implicação dessa acusação aparentemente é que um apelo aos princípios da razão não se está em</p><p>harmonia com o Presbiterianismo ortodoxo. Porém, em primeiro lugar, parte dessa discussão não</p><p>se encontra desassociada das Escrituras como queixosos parecem imaginar. É verdade que a</p><p>afirmação “a verdade pode ser sempre expressa em proposições” não é uma conclusão baseada</p><p>na exegese de um certo número de passagens das Escrituras. A doutrina da representatividade</p><p>federal de Adão pode ser deduzida por meio da exegese de Romanos 5:12ss; e a unidade do</p><p>pacto da graça mediante a exegese do capítulo 3 da carta aos Gálatas. Não há uma única</p><p>passagem da qual, por meio da exegese, seja possível deduzir que a verdade pode ser sempre</p><p>expressa em proposições. No entanto, é preciso insistir que a Bíblia, como um todo, está escrita</p><p>na forma proposicional. As proposições da Bíblia não são proposições sobre proposições; isto é,</p><p>a Bíblia não é um compêndio de lógica. Todavia, a Bíblia é lógica; seu ensino, proposicional; e</p><p>tendo em vista o fato de que Deus escolhe palavras e proposições para sua revelação — em vista</p><p>do fato de que Deus não escolheu algumas formas não-proposicionais de revelação –, precisamos</p><p>ter cautela para não depreciar as proposições. Portanto, há pontos de apoios escriturísticos, ainda</p><p>que não sejam exegéticos, para a visão proposição da verdade.</p><p>Em segundo lugar, e agora indo diretamente ao ponto, um apelo aos princípios da razão</p><p>não está em desconformidade com o presbiterianismo ortodoxo. Cremos que há de se admitir que</p><p>William Brenton Green, falecido professor de apologética no Seminário Princeton, era um</p><p>presbiteriano ortodoxo. A seguinte citação do artigo The Function of Reason in Christianity [A</p><p>função da razão no cristianismo], de W. Brenton Greene, Jr., no periódico The Presbyterian and</p><p>Reformed Review, volume VI, 1895, página 499 em diante, ilustra uma visão que possui ampla</p><p>aceitação.</p><p>Para tudo aquilo que logicamente precede as Escrituras, como o Ser de</p><p>Deus, a necessidade de uma revelação escrita, etc., é preciso retornar À</p><p>filosofia, à razão pura e simples… Destarte, Henry B. Smith muito</p><p>apropriadamente disse: “Se não podemos construir os fundamentos e</p><p>os baluartes do sistema cristão sobre solo impenetrável; se não</p><p>podemos demonstrar a possibilidade dos milagres e da revelação; se</p><p>não podemos provar — de modo absoluto — a existência de um</p><p>Governador sábio, inteligente, pessoal e providencial que governa</p><p>sobre todas as coisas: então estamos chafurdando na infidelidade, ou</p><p>capitulando perante uma fé infundada. Se não podemos estabelecer</p><p>esses pontos no campo da discussão aberta, simplesmente não</p><p>podemos estabelecê-la de modo algum”… A razão deveria distinguir,</p><p>dentre as interpretações das Escrituras, entre aquelas que estão acima</p><p>da razão no verdadeiro sentido de além dela, e aquilo que está acima</p><p>da razão no sentido equivocado de não relacionado a ela, ou contrário</p><p>a ela. Isto é, como uma revelação, deve evidenciar racionalmente seu</p><p>direito de ser crida; desse modo, conforme visto, não pode conter em si</p><p>nada irracional ou impossível. Para decidir com relação a isto, contudo,</p><p>a razão deve agir racionalmente e não caprichosamente. Seus juízos</p><p>devem ser guiados por princípios que recomendem a si mesmos à</p><p>consciência comum dos homens tais como aquilo que é impossível é o</p><p>que envolve uma contradição; que é impossível que a revelação negue</p><p>qualquer verdade devidamente autenticada, seja da intuição,</p><p>experiência ou ciência; que é impossível que seja verdadeiro aquilo</p><p>que a razão não é capaz de compreender. Tudo isto deve assim ser;</p><p>pois Deus, que é a Razão Suprema, não pode deixar de ser racional e,</p><p>portanto, consistente em si mesmo”</p><p>A frase em itálico é expressa de maneira estranha, todavia, suas implicações para a</p><p>doutrina da incompreensibilidade são tremendas.</p><p>Essa citação de W. Brenton Greene, Jr., particularmente sua aprovação das duas</p><p>sentenças de Henry B. Smith, podem parecer racionalistas para aqueles que não foram criados na</p><p>tradição presbiteriana. O Presbitério não insiste que a posição de Greene deva ser aceita. O ponto</p><p>em questão é que temos aqui um homem que todos reconheciam como ortodoxo; ele não apenas</p><p>é um ministro presbiteriano, era também professor de apologética naquela que era, então, a</p><p>fortaleza da ortodoxia presbiteriana. E esse professor de apologética apresenta um escopo à razão</p><p>ainda mais amplo do que o do Dr. Clark. “Se”, conforme argumenta a Queixa, “não se pode</p><p>esperar uma teologia sadia de um método defeituoso”, e se um método defeituoso corrompe a</p><p>doutrina de um indivíduo acerca da expiação, bem como todas as demais doutrinas, segue-se,</p><p>pois, que, segundo o argumento da Queixa, os pontos de vistas teológicos de Greene foram</p><p>completamente heréticos, já que seu método é ainda mais “racionalista” do que o alegado com</p><p>relação ao Dr. Clark. Se a Orthodox Presbyterian Church [Igreja Presbiteriana Ortodoxa] está</p><p>pronta para exigir a subscrição a um apologista em particular, permitem, portanto, que tal</p><p>mudança venha por meio de um esforço aberto para reformar a Confissão de Fé e não por meio</p><p>do método indireto de uma Queixa contra uma ação particular de um Presbitério.</p><p>Também A. A. Hodge, em seu Esboços de Teologia, apela à razão. Na página 19, 8, 2º,</p><p>ele se refere à “luz da natureza”. Logo abaixo ele trata da “demonstração da possibilidade a priori</p><p>de uma revelação sobrenatural”. Na página 37, ele responde às</p><p>objeções de Hume por meio de</p><p>um apelo a “um juízo universal e necessário da razão”. Na página 45, ele afirma: “É certo que as</p><p>intuições das verdades necessárias são idênticas em todos os homens. Elas não são</p><p>generalizações das experiências, antes, são pressupostas em todas as experiências”. Vejam</p><p>particularmente sua defensa da teologia natural na página 53, 1, 1º; página 54, 2, 2º; também a</p><p>página 61, 10. Na página 62, 14, 1º, ele, de semelhante modo, assinala: “A Razão é a revelação</p><p>primária que Deus forneceu ao homem, necessariamente pressuposta em cada revelação</p><p>subsequente de qualquer tipo... Desse modo, nenhuma revelação subsequente pode contradizer a</p><p>ação legítima da razão em sua própria esfera... Crer é assentir a uma coisa como sendo</p><p>verdadeira, porém, perceber que tal coisa contradiz a razão é perceber que ela não é verdadeira</p><p>(itálicos de Hodge). Novamente, na página 63, 15, 1º: “Os primeiros princípios de uma</p><p>verdadeira filosofia são pressupostos em toda a teologia, tanto a natural quanto a revelada. 2º, as</p><p>Escrituras, embora não projetadas primeiramente para ensinar filosofia, ainda assim</p><p>necessariamente pressupõe e envolve os princípios fundamentais de uma verdadeira filosofia”.</p><p>Se os queixosos objetam que o método do Dr. Clark é defeituoso, também devem</p><p>repudiar os métodos do antigo [Seminário] Princeton como estando “em desconformidade com o</p><p>presbiterianismo ortodoxo”. O Presbitério não afirma que a Confissão requer aderência à toda</p><p>apologética de Princeton. Outras formas de apologética são também permitidas.</p><p>Mas sem uma reforma específica de nossos padrões [Símbolos e Confissões], qualquer</p><p>tentativa de exaltar um método como sendo o único ortodoxo e ao mesmo tempo repudiar todos</p><p>os apelos a verdades apriorísticas da razão é intolerável.</p><p>Em seguida, é necessário procedermos com algumas análises das acusações de</p><p>“intelectualismo humanista”, posteriormente lançadas contra o Dr. Clark em dois pontos (P. 7, 3;</p><p>O. 29; e P. 10, 2; O. 40), e de racionalismo no sentido teológico (P. 10, 2; O. 40; e P. 10, 3; O.</p><p>41; P. 6, 3; O. 25). A Queixa não acusa o Dr. Clark de sustentar a teoria sofista do “homem como</p><p>medida de todas as coisas”, ou seu equivalente moderno, o pragmatismo. Portanto, admite-se</p><p>unanimemente que o Dr. Clark não faz da mente humana o critério da verdade. O</p><p>intelectualismo, em oposição ao pragmatismo, sustenta que a verdade é imutável e independente</p><p>do homem. O Dr. Clark sustenta a forma usual de intelectualismo, a saber, que a verdade é, de</p><p>fato, independente do homem, embora não independente de Deus; e a esta posição, juntamente</p><p>com a aceitação do Dr. Clark das Escrituras como a única regra de fé e prática, livram-no da</p><p>acusação adicional de racionalismo.</p><p>Embora o conteúdo essencial da Queixa seja o anti-intelectualismo, é difícil encontrar</p><p>num cristianismo doutrinalmente cônscio qualquer razão para se opor ao intelectualismo. A</p><p>Queixa, todavia, vai mais longe e acusa o Dr. Clark de intelectualismo “humanista”. Ao usar a</p><p>noção de humanismo, a Queixa obviamente não se refere ao fenômeno renascentista do estudo</p><p>dos clássicos da Antiguidade ou o moderno estudo das Humanidades. O humanismo, na</p><p>terminologia filosófica moderna, é nada mais do que um termo polido para o ateísmo. Embora o</p><p>humanismo seja predominantemente pragmático e anti-intelectualista, uma teoria do</p><p>intelectualismo humanista sustentaria que a verdade imutável não depende de Deus nem do</p><p>homem, mas finalmente, e em última análise, sobre o universo corporal e espacial ou algum</p><p>outro fundamento alegado. É questionável se a Queixa realmente quer dizer aquilo que</p><p>aparentemente diz ao acusar o Dr. Clark de “intelectualismo humanista”, pois isto seria acusá-lo</p><p>de ateísmo. Uma acusação destas seria nada menos do que calúnia e difamação.</p><p>Visto que o segundo passo do argumento desta parte da Queixa depende ou repete o</p><p>primeiro passo, não é necessário muito mais no que diz respeito a uma réplica. É preciso apontar,</p><p>contudo, que o segundo passo começa com uma afirmação falsa. Os queixosos afirmam: “O Dr.</p><p>Clark sustenta que o conhecimento humano de uma proposição, caso seja realmente</p><p>conhecimento, é idêntico ao conhecimento de Deus dessa mesma proposição”. Os queixosos</p><p>fazem referência a sete passagens na transcrição a fim de dar suporte ao seu argumento. Nem</p><p>sequer uma das sete referências diz algo que lembra, ainda que remotamente, a sentença acima, e</p><p>duas deles a contradizem diretamente. Página 18, linha 23, da transcrição é uma dessas</p><p>referências. A passagem, obviamente registrada incorretamente em detalhe, reza: “Eu tenho</p><p>conhecimento de dois pontos, em geral esse assunto. Isto é — o método do conhecimento –, o</p><p>conhecimento não é, no caso de Deus, aquisicional, mas em nosso caso, sim. Este é um dos</p><p>pontos, e o único outro ponto que tem referência ao sujeito é: O objeto conhecido tal com dois</p><p>mais dois é igual a quatro. Sustento que isto é idêntico para Deus, mas o método de</p><p>conhecimento é inteiramente diferente”. Na mesma página da transcrição (18, 5), o Dr. Clark</p><p>afirmou: “Em resumo, devo dizer que o conhecimento de Deus é intuitivo e o nosso,</p><p>indispersivo?” (sic). A outra das duas referências que expressam essencialmente o mesmo</p><p>pensamento é 28, 14-22. Em outras palavras, na transcrição, o Dr. Clark afirma que o</p><p>conhecimento de Deus de um dado objeto não é o mesmo que o conhecimento do homem desse</p><p>mesmo objeto. E os queixosos, após terem lido essas passagens, afirmam que “o Dr. Clark</p><p>sustenta que o conhecimento do homem acerca de uma proposição... é idêntico ao conhecimento</p><p>de Deus dessa mesma proposição”. A Queixa, portanto, tentou atribuir ao Dr. Clark a própria</p><p>posição que ele explicitamente negou.</p><p>Ao estudar esse assunto, é preciso atenção a fim de evitar certas confusões aparentemente</p><p>comuns. Exige-se, pois, uma precisão rigorosa. A palavra conhecimento possui dois sentidos;</p><p>ambos são bons usos do vernáculo [no caso, a língua inglesa]; mas jamais se deve tomar um pelo</p><p>outro. Quando alguém diz: “Este homem tem um grande conhecimento”, a palavra se refere aos</p><p>objetos, isto é, refere-se às verdades ou proposições que ele conhece. Por outro lado, quando se</p><p>diz: “O homem possui conhecimento discursivo”, a palavra aqui se refere não aos objetos</p><p>conhecidos, mas ao modo de conhecer. A simples expressão “conhecimento de Deus” pode se</p><p>referir tanto a um quanto a outro significado, mas aquilo que é verdadeiro para um desses</p><p>sentidos não o é para o outro. Na frase “O conhecimento de Deus com relação a uma</p><p>proposição...”, a palavra conhecimento se refere ao caráter intuitivo de sua cognição. Não pode</p><p>se referir ao conteúdo conhecido, pois se o fizesse, a frase poderia ser reproduzida exatamente</p><p>como “o objeto de Deus de um objeto”, ou “a verdade de Deus de uma verdade”, ou ainda “a</p><p>proposição de Deus de uma proposição”. Os queixosos, ao atacarem a posição do Dr. Clark, não</p><p>estão preocupados com o conhecimento do sentido do modo de cognição. Eles distinguem e</p><p>admitem que o Dr. Clark diferencia entre intuição e discurso, no entanto, eles afirmam que o</p><p>modo de cognição divino não é parte da doutrina da incompreensibilidade. Desse modo, a teoria</p><p>da Queixa é que os objetos ou verdades conhecidos por Deus são diferentes daqueles conhecidos</p><p>pelo homem. Outra confusão possível surge da ambiguidade da palavra sentido [meaning]. Por</p><p>vezes, a palavra em língua inglesa meaning significa implicação; por exemplo quando alguém</p><p>diz: “As nuvens no céu hoje implicam chuva amanhã”. Portanto, é possível dizer que Deus</p><p>percebe mais sentido numa proposição particular do que o homem, porque ele (Deus) enxerga as</p><p>implicações de longo alcance dessa proposição. Contudo, este não é o sentido de meaning nessa</p><p>discussão. A Queixa (P. 6, 1-2; O. 23) definitivamente deixa de lado esse sentido como sendo</p><p>irrelevante. Destarte, aqueles que analisam a Queixa e esta réplica devem se restringir a outro e</p><p>mais básico sentido do termo meaning. O sentido mais básico é simplesmente a verdade</p><p>particular em si mesma. A proposição: “dois vezes dois é igual</p><p>a quatro”, à parte de tudo o mais,</p><p>implica, significa apenas aquilo que afirma. É difícil, ou melhor, impossível expressar o sentido</p><p>dessa proposição em quaisquer termos mais simples do que as palavras “dois vezes dois é igual a</p><p>quatro”. É nesse sentido que a Queixa afirma que tal proposição possui dois sentidos diferentes.</p><p>Embora essas distinções sejam claras e elementares, a experiência demonstra que são</p><p>frequentemente confundidas.</p><p>O que o Dr. Clark afirmou foi que, embora o conhecimento por parte de Deus de uma</p><p>verdade seja diferente do conhecimento do homem dessa mesma verdade, ambos, não obstante,</p><p>conhecem a mesma verdade; se de fato o homem conhece alguma coisa. A Queixa declara se</p><p>tratar de um pré-requisito para a boa reputação ministerial acreditar que o conhecimento de Deus</p><p>e o conhecimento do homem não “coincidem em nenhum ponto sequer” (P. 5, 3; O. 21). A</p><p>Queixa tenta estabelecer, como teste de ortodoxia, a negação de que o homem conhece mesmo</p><p>uma das verdades que Deus conhece. Se, portanto, Deus conhece que dois vezes dois é igual a</p><p>quarto, e que Cristo morreu por nossos pecados, o homem não pode conhecer essas proposições.</p><p>Deus e homem, de acordo com a Queixa, não podem conhecer a mesma verdade, visto que o</p><p>conhecimento de Deus e o conhecimento do homem “não coincidem em nenhum ponto sequer”.</p><p>É este o ponto de vista que os queixosos estão tentando tornar o teste de ortodoxia. Em resposta a</p><p>isto, o Presbitério deseja sugerir que se o homem não conhece ao menos uma única verdade que</p><p>Deus conhece, se o conhecimento do homem e o conhecimento de Deus não coincidem em</p><p>sequer um único detalhe, então o homem não conhece coisa alguma. Deus conhece toda a</p><p>verdade, e se a mente do homem não é capaz de apreender uma verdade sequer, segue-se que a</p><p>mente do homem não apreende verdade alguma. Longe de ser um teste de ortodoxia, este teste</p><p>imposto pela Queixa nada mais é do que ceticismo e irracionalismo.</p><p>A Igreja tem o direito de saber que tipo de estranhas doutrinas a Queixa está transformando</p><p>em teste de ortodoxia. Isto significa que Deus, ao saber que dois vezes dois é igual a quarto,</p><p>também percebe intuitivamente a conexão lógica com algum teorema da matemática superior</p><p>ainda não descoberto pelo homem? A Queixa entende que quando Deus pensa: “Cristo morreu</p><p>por nossos pecados”, ele também compreende as consequências de longo alcance que o homem</p><p>jamais sonhou? Não, não é este o ponto que a Queixa discute. Conforme a transcrição demonstra,</p><p>o Dr. Clark sustenta que Deus conhece todas essas implicações. Todavia, este ponto de vista do</p><p>Dr. Clark é aquilo que a Queixa rejeita como uma visão “quantitativa” da verdade. A Queixa não</p><p>está argumentando que Deus conhece mais proposições. Seu ponto é que a primeira proposição</p><p>em si, isto é, dois vezes dois é igual a quatro, no seu sentido mínimo e mais estreito, é</p><p>qualitativamente diferente para Deus. O que é essa diferença qualitativa? É uma questão que a</p><p>Queixa não respondeu. As qualidades ordinariamente reconhecidas das proposições simples são:</p><p>afirmativa, negativa, universal, particular, verdadeira e falsa. Será que os queixosos creem que</p><p>uma proposição que é afirmativa para o homem é negativa para Deus? Ou que uma proposição</p><p>que é verdadeira para Deus é falsa para o homem? Ora, eles não expressam aquilo que entendem</p><p>como diferença qualitativa. Contudo, se eles não afirmam claramente aquilo que essa diferença</p><p>qualitativa é, como tal qualidade desconhecida pode se tornar um teste de ortodoxia?</p><p>De qualquer forma, a Queixa definitivamente afirma que o conhecimento do homem e o</p><p>conhecimento de Deus “coincidem em nenhum ponto sequer”. Essa assertiva não se refere aos</p><p>respectivos modos de conhecer a verdade, conforme será evidenciado na terceira etapa. Antes,</p><p>refere-se estritamente à verdade em si mesma. A Queixa ensina que uma dada proposição não</p><p>significa, para Deus, a mesma coisa que significa para o homem. “Dois vezes dois é igual a</p><p>quatro” é uma proposição dada; destarte, significa uma coisa para o homem e outra coisa</p><p>qualitativamente diferente para Deus. A verdade “Cristo morreu por nossos pecados” não possui</p><p>o mesmo sentido para Deus e para o homem. Talvez para Deus signifique que Cristo não morreu</p><p>por nossos pecados? Os queixosos, é claro, negariam que tal verdade poderia significar isto para</p><p>Deus. Todavia, sua filosofia não lhes dá razão para fazer tal negação?</p><p>A Queixa ensina que a verdade que o homem possa possuir é uma analogia da verdade que</p><p>Deus possui; isto é, o homem pode ter é uma similaridade da verdade que Deus possui; no</p><p>entanto, ele não pode ter a verdade de Deus em si mesma, possui apenas uma analogia desta</p><p>verdade. Os queixosos indubitavelmente afirmariam que devemos aceitar esse dogma porque</p><p>Deus o revelou na Bíblia. Mas onde, nas Escrituras, se encontra tal revelação? Não é uma</p><p>dedução válida do relacionamento Criador-criatura. Uma dedução válida desse relacionamento</p><p>seria que o homem somente pode pensar os pensamentos de Deus após ele e não pode gerar</p><p>pensamento que já não estejam na mente de Deus. E tais pensamentos deveriam possuir o mesmo</p><p>sentido tanto para Deus quanto para o homem; eles não seriam meras analogias para o sentido de</p><p>(que tem para) Deus. O modo de Deus pensar é diferente dos processos de pensamento do</p><p>homem, mas o resultado do raciocínio humano, caso este raciocínio seja verdadeiro, é que ele</p><p>compreende ao menos a única verdade que Deus pensa. Ademais, a suposição de que o homem</p><p>sabe que sua verdade é uma analogia da verdade de Deus visto que Deus assim o revelou possui</p><p>consequências alarmantes. Como é possível saber que essa afirmativa, em si mesma, é verdade</p><p>tal como o é para Deus? Com base na teoria dos queixosos, a proposição “a verdade que o</p><p>homem possui é analógica” é, em si mesma, apenas uma analogia. Não é a verdade que Deus</p><p>possui, nem seria possível ao homem saber que foi Deus que estava revelando tal proposição,</p><p>pois, novamente, a proposição “Deus está revelando que tal verdade é analógica” é apenas uma</p><p>analogia da verdade. É somente possível estar certo de que tal proposição não é a verdade de</p><p>Deus. De semelhante modo, também com base na teoria dos queixosos, é impossível a</p><p>transposição de uma analogia da verdade para a verdade em si mesma. Todo nosso pensamento</p><p>está encerrado em analogias e semelhanças e, portanto, não podem coincidir com a verdade de</p><p>Deus nem sequer num único ponto. Esta posição de fato rompe qualquer conexão entre o</p><p>conhecimento de Deus e o conhecimento do homem, soçobrando-nos num ceticismo absoluto.</p><p>Se os queixosos não podem saber o que Deus quer dizer, então como eles podem saber que</p><p>Deus não quer dizer isto ou aquilo? Eles afirmam que há uma semelhança ou analogia entre a</p><p>verdade que Deus sabe e a verdade qualitativamente diferente que o homem sabe. Mas com que</p><p>direito eles afirmam uma semelhança quando não podem descrever a diferença qualitativa? Ou,</p><p>como podem afirmar que duas coisas se assemelham quando eles nunca conheceram e jamais</p><p>conhecerão uma delas? Uma pessoa pode dizer que dois homens se parecem caso somente tenha</p><p>visto ambos os homens. Mas não pode legitimamente afirmar uma semelhança entre um homem</p><p>que já tenha visto e outro que não. De semelhante modo, se um homem conhecesse o sentido [de</p><p>um pensamento] de Deus, ele a compararia com o seu, notando, assim, a similaridade ou</p><p>diferença. Se eu conheço tua opinião, posso dizer que é semelhante ou dessemelhante à minha.</p><p>Todavia, se não conheço tua opinião, não há maneira de saber se ela é idêntica ou contraditória à</p><p>minha. Do mesmo modo, se o conhecimento do homem e o conhecimento de Deus não</p><p>“coincidem em nenhum ponto sequer”, então, à vista de tudo que sabemos, talvez Cristo não</p><p>tenha morrido por nossos pecados. E os queixosos desejam tornar seus pontos de vista em</p><p>critério de ortodoxia! Onde na Confissão de fé de Westminster há uma filosofia como essa?</p><p>[Durante a preparação desta réplica, notou-se uma frase no periódico The Presbyterian</p><p>Guardian, com a qual aqueles que assinaram a Queixa não concordam. Na</p><p>página 351, coluna 3,</p><p>da edição do dia 10 de dezembro de 1944 do período supracitado, a seguinte sentença aparece:</p><p>“Os queixosos certamente deixaram claro que, com base em seu ponto de vista, o conhecimento</p><p>que o homem porventura venha a desfrutar duma proposição não pode estar em desacordo com o</p><p>sentido que tal proposição tenha para Deus, visto que o conhecimento do homem é análogo”. Se,</p><p>todavia, os queixosos deixaram isto claro, não o fizeram, contudo, na Queixa. De fato, é</p><p>duvidoso que eles deixaram isto claro em algum lugar. Afinal, não o fizeram no editorial do qual</p><p>a sentença acima foi extraída. Além da ausência de qualquer definição da palavra “analógica”, a</p><p>frase “em desacordo com” é insatisfatória. A proposição “José foi vendido para o Egito” não está</p><p>em desacordo com a proposição “Davi foi um grande rei”. Por conseguinte, devemos supor que</p><p>uma dessas proposições é um análogo da doutra e que Deus, portanto, talvez sobreponha o</p><p>sentido da primeira proposição sobre o segundo? Se alguém está interessado numa teoria</p><p>filosófica do conhecimento, a frase “em desacordo com” não resolve nenhum problema</p><p>epistemológico. Palavras indefinidas e frases extensas não ajudam a pensar claramente. Um</p><p>momento de reflexão bastará para demonstrar que não há proposição verdadeira “em desacordo</p><p>com” qualquer outra proposição verdadeira. Atenção para o uso dessa frase na Queixa (P. 5, 1;</p><p>O. 18), acima citado no terceiro parágrafo da seção “Sobre a Incompreensibilidade”. Destarte,</p><p>dizer que o sentido que Deus atribui a uma proposição não “está desacordo com” o sentido</p><p>encontrado nesta proposição pelo homem é dizer muito pouco, na verdade. A questão realmente</p><p>séria, contudo, não é aquilo que os queixosos dizem que agora creem, mas, sim, o que</p><p>escreveram e assinaram na Queixa. Se a Orthodox Presbyterian Church, num momento infeliz,</p><p>aprovou a Queixa, será o texto desta que definirá a posição da igreja. O Presbitério não pode</p><p>levar em conta a mudança de pontos de vista dos queixosos como indivíduos. Antes, é</p><p>convocado a responder a Queixa. E a ação da igreja, em qualquer voto formal, será uma ação</p><p>baseada na Queixa tal como escrita e assinada].</p><p>Na terceira parte do argumento, os queixosos fizeram certas admissões. Eles admitem (P. 6, 2; O.</p><p>23) que o Dr. Clark distingue entre o conhecimento de Deus e o conhecimento do homem acerca</p><p>uma verdade. Mas, então, os queixosos deixam de dar o devido peso a estas suas admissões.</p><p>Embora admitam que o Dr. Clark tenha afirmado essa distinção, eles argumentam como se não</p><p>tivesse. Eles tentam justificar sua ignorância a respeito da evidência. Os queixosos admitem que</p><p>o Dr. Clark faz uma distinção qualitativa entre o conhecimento de Deus e o conhecimento do</p><p>homem porque ele reconhece a diferença fundamental entre o modo de conhecimento divino e</p><p>humano. Desse modo, os queixosos fizeram esta impressionante afirmativa: “contudo, admitir</p><p>isso não afeta o ponto presentemente em questão, uma vez que a doutrina do modo de</p><p>conhecimento divino não é uma parte da doutrina da incompreensibilidade de seu conhecimento.</p><p>Esta última diz respeito apenas aos conteúdos do conhecimento divino” (P.6, 2; O. 23). Os</p><p>queixosos efetivamente afirmam que o modo de conhecimento de Deus não é uma parte da</p><p>doutrina da incompreensibilidade. Uma ou duas citações dos grandes teólogos reformados serão</p><p>suficientes para refutar essa afirmação. Um brilhante teólogo da Northern Presbyterian Church</p><p>[Igreja Presbiteriana do Norte], Robert J. Breckenridge, em sua obra The Knowledge of God</p><p>Objectively Considered [O Conhecimento de Deus Analisado Objetivamente] (1858), página</p><p>275, assinala “o modo por meio do qual a Inteligência divina concebe todas as coisas,</p><p>distintamente, simultaneamente, e por meio de um único ato, está completamente além de nossa</p><p>compreensão; essa Inteligência é, portanto, incompreensível” (cf. p. 285-287). O dr.</p><p>Breckenridge afirma que o modo de conhecimento divino é, de fato, uma parte da</p><p>incompreensibilidade de Deus. Charnock também demonstra que os queixosos entenderam</p><p>erroneamente a doutrina da incompreensibilidade de Deus. No Discurso VIII, Sobre o</p><p>Conhecimento de Deus, ele trata primeiramente do número infinito de verdades que Deus</p><p>compreende. Na página 408, Charnock afirma: “Quem, então, pode sondar aquilo que não se</p><p>pode numerar?”. É este conceito de um quantitativo matemático de um número infinito de</p><p>proposições que desagrada aos queixosos. Após enumerar ao longo de várias páginas os</p><p>inumeráveis objetos do conhecimento de Deus, Charnock, por fim (página 451), chega ao modo</p><p>de conhecimento de Deus. Nesse ponto, ele diz: “Visto que Deus, por conseguinte, está, em ser e</p><p>perfeição, infinitamente acima do homem mais do que este está acima de uma animália, o modo</p><p>como se dá seu conhecimento deve ser infinitamente superior ao conhecimento humano — mais</p><p>do que o conhecimento do homem está acima do conhecimento de uma animália; nosso</p><p>entendimento pode apreender um objeto num momento em que se encontra numa grande</p><p>distância de nossos sentidos; nosso olhar, ao se direcionar para cima, pode contemplar os céus,</p><p>por exemplo; o modo de Deus compreender deve estar inconcebivelmente acima de nossos</p><p>pálidos reflexos; assim como o modo de seu ser é infinitamente mais perfeito do que todos os</p><p>entendimentos de suas criaturas. Decerto, não somos mais capazes de apreender o modo de</p><p>conhecimento de Deus do que somos com relação à sua essência; e a mesma incapacidade no</p><p>homem, que o torna incapaz de compreender o ser de Deus, torna-lhe, de semelhante modo,</p><p>incapaz de compreender o modo de conhecimento de Deus”. E daí segue uma discussão da</p><p>maneira de Deus conhecer na qual a distinção usual entre intuição e discursão é feita, como o Dr.</p><p>Clark o fez quando examinado. À vista disto, a Queixa afirma que o modo como se dá o</p><p>conhecimento de Deus não é uma parte da doutrina da incompreensibilidade, e com base nessa</p><p>sentença ex cathedra tenta justificar sua ignorância e distorção da evidência.</p><p>Veremos agora como as inúmeras citações feitas pelos queixosos no início de seus</p><p>argumentos tem pouco a ver com as acusações feitas ao Dr. Clark. Em geral, as citações dizem</p><p>que o conhecimento do homem é finito, limitado e parcial; difere do conhecimento de Deus não</p><p>simplesmente em grau, mas também em tipo. “Compreender”, diz Charles Hodge, “é ter um</p><p>conhecimento completo e exaustivo de um objeto”. Mas as citações não apresentam nenhuma</p><p>base para afirmar que Deus não pode se expressar em palavras; que as palavras não podem</p><p>inspirar qualquer reconhecimento, por parte do homem, de sua relação para com Deus; que as</p><p>afirmações na Bíblia significam uma coisa para o homem e outra qualitativamente diferente para</p><p>Deus; ou que o modo de conhecimento de Deus não é uma parte da doutrina da</p><p>incompreensibilidade de Deus.</p><p>O Presbitério deve enfatizar que, nessas questões que dizem respeito às implicações</p><p>filosóficas do conhecimento de Deus e do conhecimento do homem, muito pouco foi escrito por</p><p>teólogos reformados. É um campo da doutrina que é quase inexplorado. Com efeito, é notável</p><p>quão raro encontramos literatura sobre o assunto que vá além dos primeiros princípios gerais.</p><p>Tendo em vista essa situação, é deveras impróprio para a Queixa dogmatizar. Pode ser que essa</p><p>discussão irá contribuir na busca para a verdade, mas, antes de tudo, certamente pede antes por</p><p>cautela e humildade do que por um Queixa.</p><p>Em conclusão, o Presbitério acredita que essa seção da Queixa falha completamente em</p><p>provar que o Dr. Clark está em desconformidade com o sistema de doutrina ensinado na</p><p>Confissão de fé de Westminster; os artigos nos quais os queixosos insistem estão completamente</p><p>fora do sistema de doutrina da Confissão; não são, de modo algum, e estritamente falando,</p><p>doutrinas teológicas, mas implicações tênues dessas doutrinas; e essas implicações podem muito</p><p>bem ser falaciosas. Consequentemente, esta seção da Queixa não foi capaz de demonstrar que o</p><p>Presbitério da Filadélfia errou ao licenciar e ordenar o Dr. Clark.</p><p>SOBRE O INTELECTO, VONTADE E EMOÇÕES</p>