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<p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>1</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>2</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Sumário</p><p>Como tirar o melhor proveito deste E-BOOK? ......................................................................................... 3</p><p>DIREITO CONSTITUCIONAL ...................................................................................................................... 5</p><p>DIREITO PROCESSUAL PENAL ................................................................................................................. 61</p><p>DIREITO PENAL..................................................................................................................................... 117</p><p>LEGISLAÇÃO EXTRAVAGANTE .............................................................................................................. 171</p><p>DIREITO ADMINISTRATIVO .................................................................................................................. 228</p><p>DIREITOS HUMANOS............................................................................................................................ 279</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>3</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Como tirar o melhor proveito deste E-BOOK?</p><p>Pense nesse e-book como um precioso suporte para o seu treinamento de questões discursivas</p><p>para concursos de Delegado de Polícia. Portanto, atente-se para algumas regras basilares:</p><p>1. Cada questão deste material é acompanhada de um material de leitura/julgados e da nossa</p><p>sugestão de resposta. Nunca leia a sugestão de resposta sem tentar responder a questão. A fim</p><p>de que a sua resposta não seja um completo chute, excepcionalmente, estude o material de</p><p>leitura/julgados para depois responder. Quando isso acontecer, a sugestão é que o estudo</p><p>ocorra em um dia e, a elaboração da sua resposta, no dia seguinte. Isso serve, inclusive, como</p><p>diretriz de estudo para discursivas em geral.</p><p>2. Ao fazer um simulado, NÃO o corrija no mesmo dia. Corrija 1 a 3 dias depois. No simulado, a</p><p>sua memória é ativada, ajudando na retenção do conteúdo; ao corrigir em dia distinto, existe</p><p>nova ativação dessa memória de modo a potencializar a retenção do conteúdo.</p><p>3. Cerca de 1 a 2 meses após o simulado, refaça ele novamente. Isso vai trazer uma avaliação</p><p>muito boa sobre a sua capacidade de retenção de conteúdo no médio/longo prazo. Mas faça</p><p>isso de forma diferente: em um simulado DE QUESTÕES OBJETIVAS de múltipla escolha,</p><p>identifique porque cada assertiva está correta ou errada. No caso de um simulado DE QUESTÕES</p><p>DISCURSIVAS, refaça as questões e compare sua evolução.</p><p>4. Vamos continuar o nosso treinamento? Aqui está um cupom de desconto -</p><p>VOUSERDELEGADO2 - para você inserir no momento da compra do nosso Curso de Discursivas</p><p>para Delegado da PC-MG. Todo o valor utilizado na aquisição desse e-book será revertido na</p><p>compra do curso (desconto não cumulativo com outras promoções do site). 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Como requisito central para manutenção do procedimento nesse grupo, deve-se</p><p>verificar a existência dos pressupostos para o trâmite da futura ação penal no Tribunal de Justiça do Estado de São</p><p>Paulo.</p><p>Diante do exposto, na qualidade do mencionado Delegado de Polícia, faça a triagem dos três fatos abaixo narrados,</p><p>todos cometidos por Deputados Estaduais da atual legislatura, os quais foram encaminhados para a sua análise nesta</p><p>data, fundamentando a sua resposta:</p><p>• Caso 1: Em fato ocorrido em meados de 2022, mas que se tornou público mês passado, deputado estadual</p><p>“A” foi indicado como suposto autor de um crime em que teria exigido valor em pecúnia para votar contra</p><p>determinado projeto, caso reeleito para o cargo. (7,0 pontos)</p><p>• Caso 2: Em fato ocorrido este mês e com repercussão na imprensa, deputado estadual “B” foi indicado</p><p>como autor de um homicídio de jornalista que publicava matérias criticando a postura do deputado</p><p>enquanto defensor de ideias religiosas, a maioria direcionada contra pessoas de grupos LGBT. (7,0 pontos)</p><p>• Caso 3: Em fato ocorrido mês passado, deputado estadual “C” agrediu seu vizinho, cenário que resultou em</p><p>lesões corporais de natureza grave, em virtude de discussão envolvendo eleições para síndico do prédio.</p><p>(6,0 pontos)</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>7</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:</p><p>Caso 1 (7,0 pontos)</p><p>Caso 2 (7,0 pontos)</p><p>Caso 3 (7,0 pontos)</p><p>são contempladas com a prisão especial, tema que foi</p><p>objeto de ação no Supremo Tribunal Federal A prisão especial não é uma nova modalidade</p><p>de prisão cautelar, mas apenas uma forma diferenciada de recolhimento da pessoa presa</p><p>provisoriamente (prisões cautelares), segregada do convívio com os demais presos</p><p>provisórios, até a condenação penal definitiva.</p><p>O julgar uma ação, o Supremo Tribunal Federal declarou inconstitucional a prisão especial</p><p>daqueles diplomados por qualquer das faculdades superiores da República. Para o Tribunal,</p><p>trata-se de uma medida discriminatória, que promove a categorização de presos e que, com</p><p>isso, ainda fortalece desigualdades. Em outras palavras, existe verdadeiro privilégio que, em</p><p>última análise, materializa a desigualdade social e o viés seletivo do direito penal e malfere</p><p>preceito fundamental da Constituição que assegura a igualdade entre todos na lei e perante a</p><p>lei.</p><p>Contudo, as demais espécies de prisão especial continuam válidas, tal como a prisão</p><p>especial dos policiais civis, prevista no art. 295 do CPP e em legislações extravagantes. Isso</p><p>ocorre porque a prisão especial de certas categorias é um fator de discrimine justificado em</p><p>razão das atividades promovidas e do risco que pode representar para tais pessoas o contato</p><p>com o preso comum.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>29</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA</p><p>Imagine que, semana passada, a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, por iniciativa do</p><p>Governador do Estado, aprovou um Projeto de Emenda à Constituição do Estado de São Paulo</p><p>com a finalidade de reestruturar a Polícia Civil. A emenda veiculou o seguinte conteúdo:</p><p>Art. 140 À Polícia Civil, função essencial à Justiça, dirigida por delegados de polícia de</p><p>carreira, bacharéis em Direito, incumbe, ressalvada a competência da União, as funções de</p><p>polícia judiciária e a apuração de infrações penais, exceto as militares.</p><p>§ 1º O Delegado- Geral da Polícia Civil será nomeado pelo Governador do Estado e escolhido</p><p>entre os integrantes da última classe da carreira de delegado de polícia.</p><p>§ 2º O Delegado de Polícia é legítima autoridade policial, a quem é assegurada</p><p>independência funcional pela livre convicção nos atos de polícia judiciária.</p><p>§ 3º Os Delegados de Polícia integram as carreiras jurídicas do Estado, dispensando-lhes o</p><p>mesmo tratamento protocolar.</p><p>À luz da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, analise cada um dos dispositivos acima</p><p>citados. (20,0 pontos).</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>30</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:</p><p>Função essencial à justiça – inconstitucional por violar parâmetro</p><p>federal (5,0 pontos)</p><p>STF declarou constitucional o §1º, desde que respeite iniciativa do</p><p>Governador OU redação originária (5,0 pontos)</p><p>Independência funcional: inconstitucional, mas possui independência</p><p>técnica (5,0 pontos)</p><p>Não é carreira jurídica - inconstitucional (5,0 pontos)</p><p>Português</p><p>NOTA FINAL</p><p>MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA:</p><p>DELEGADO NA ESTRUTURA DA POLÍCIA</p><p>A Polícia Judiciária encontra-se localizada dentro do Título V da Constituição Federal</p><p>denominado “Da defesa do Estado e das Instituições Democráticas”, de modo a possuir papel</p><p>ativo na segurança pública, preponderantemente, em seu viés investigativo. Trata-se de uma</p><p>normativa da Constituição Federal que se apresenta como norma constitucional de reprodução</p><p>obrigatória, ou seja, que não pode ser alterada pelas Constituições Estaduais. Com base nesse</p><p>argumento, o STF28 declarou inconstitucional norma de Constituição estadual que estabeleceu</p><p>a natureza jurídica da Polícia Civil como função essencial à atividade jurisdicional do Estado e</p><p>à defesa da ordem jurídica por estar em desacordo com o parâmetro federal.</p><p>Superado esse ponto, o Delegado de Polícia representa a classe mais elevada da Polícia Civil,</p><p>responsável pela organização administrativa do órgão e pela chefia da investigação criminal.</p><p>Apesar de ser a classe mais elevada, o Delegado de Polícia também está submetido a regras</p><p>de hierarquia em relação a outros Delegados de Polícia. Por exemplo, o Delegado de Polícia que</p><p>atua em uma Delegacia regional está submetido ao Superintendente e, ambos, estão submetidos</p><p>ao Delegado-Geral da Polícia Civil.</p><p>Faz-se necessário ressaltar que essa relação hierárquica entre os delegados diz respeito</p><p>somente aos aspectos administrativos, uma vez que o Delegado de Polícia é dotado de</p><p>independência técnica (para o STF) para o exercício fim de sua profissão (a investigação criminal</p><p>e a presidência do inquérito policial). A única exceção a essa independência, prevista na Lei n°</p><p>12.830/13, consiste na possibilidade de um delegado de polícia hierarquicamente superior avocar</p><p>a presidência de um inquérito policial de um Delegado de Polícia a ele subordinado, em despacho</p><p>fundamentado (forma escrita), desde que seja comprovado o interesse público ou inobservância</p><p>dos procedimentos previstos em regulamentos internos da Polícia:</p><p>Art. 2º, 4º O inquérito policial ou outro procedimento previsto em lei em curso somente</p><p>poderá ser avocado ou redistribuído por superior hierárquico, mediante despacho</p><p>28. ADI 5522, Relator(a): GILMAR MENDES, Tribunal Pleno, julgado em 21/02/2022.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>31</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>fundamentado, por motivo de interesse público ou nas hipóteses de inobservância dos</p><p>procedimentos previstos em regulamento da corporação que prejudiquem a eficácia da</p><p>investigação.</p><p>É também no mesmo sentido o teor da Súmula nº 11, aprovada no I Seminário Integrado da</p><p>Polícia Judiciária da União e do Estado de São Paulo: Repercussões da Lei 12.830/13 na</p><p>Investigação Criminal, realizado na Academia de Polícia Coriolano Nogueira Cobra, em 26 de</p><p>setembro de 2013, com a participação de Delegados da Polícia Civil do Estado de São Paulo e da</p><p>Polícia Federal:</p><p>Súmula nº 11: O ato administrativo que determina a avocação de inquérito policial, ou de</p><p>outro procedimento análogo previsto em lei, reclama, como pressuposto de validade dos</p><p>atos investigatórios subsequentes, circunstanciada motivação que, necessariamente, deverá</p><p>estar relacionada à indevida condução da investigação, suficientemente demonstrada.</p><p>Além da chefia da investigação criminal, que é largamente estudada neste livro, ao Delegado</p><p>de Polícia também incumbe a organização administrativa da Polícia. Essa questão fica bem nítida,</p><p>por exemplo, nas chefias da Polícia Civil e dos Departamentos de Polícia Judiciária. A Autoridade</p><p>Policial, portanto, deve gerir a Delegacia na qual trabalha, verificar constantemente a estrutura</p><p>física e de pessoal, administrar o depósito de objetos apreendidos e o almoxarifado, entre outras</p><p>atribuições.</p><p>Como estrutura administrativa mais elevada da Polícia Civil, tem-se o Delegado-Geral da</p><p>Polícia Civil. Em relação a essa função comissionada, de acordo com o STF,29 é constitucional</p><p>norma da Constituição do Estado que restringe a escolha do Delegado-Geral da Polícia Civil</p><p>aos integrantes da última classe da carreira, desde que previsto pela redação originária da</p><p>Constituição Estadual ou eventual Emenda à Constituição Estadual respeite norma de</p><p>iniciativa privativa do Governador do Estado. Contudo, tal tema, atualmente, é regulado pela</p><p>pela Lei Orgânica das Polícias Civis, de modo que, atualmente, escolha do Delegado-Geral da</p><p>Polícia Civil é restrita aos integrantes da classe mais elevada da carreira.</p><p>Ainda sobre o Delegado-Geral da Polícia Civil, é inconstitucional a existência de mandato</p><p>para o cargo de Delegado-Geral da Polícia Civil por se tratar de cargo em comissão, violando o</p><p>modelo presente na Constituição Federal.30</p><p>Também é inconstitucional norma da Constituição Estadual, de iniciativa parlamentar,</p><p>que disponha sobre nomeação, pelo Governador, de ocupante de cargo de Diretor-Geral da</p><p>Polícia Civil, a partir de listra tríplice elaborada pelo Conselho Superior de Polícia. A</p><p>jurisprudência do STF pacificou-se no sentido de prestigiar a redação do art. 144, § 6º, da</p><p>Constituição da República, segundo a qual as forças policiais subordinam-se aos Governadores</p><p>dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios, sendo inconstitucional o esvaziamento desta</p><p>norma pela criação de requisitos como a formação de lista tríplice.31</p><p>29. ADI 3922, Relator(a): ROSA WEBER, Tribunal Pleno, julgado em 25/10/2021.</p><p>30. ADI 4515, Relator(a): GILMAR MENDES, Tribunal Pleno, julgado em 03/05/2021.</p><p>31. ADI 6923, Relator(a): EDSON FACHIN, Tribunal Pleno, julgado em 03/11/2022.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>32</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>CARREIRA JURÍDICA</p><p>O cargo de Delegado de Polícia é uma das poucas carreiras que consegue aglutinar a</p><p>necessidade de o seu titular ser, ao mesmo tempo, administrador, policial e operador do Direito.</p><p>Com a Constituição Federal de 1988, essa carreira passou por uma grande alteração</p><p>paradigmática, uma vez que deixou de ser atrelada a um regime totalitário, tendo como</p><p>consequências a necessidade de proteção aos direitos e garantias fundamentais de todas as pessoas</p><p>e o notório processo de qualificação de seus respectivos profissionais.</p><p>A função da Autoridade Policial não se restringe a coletar as informações para que o</p><p>Ministério Público analise e, se cabível, apresente a denúncia. O inquérito policial é o primeiro</p><p>instrumento de justiça social e é essencial para a ação penal, tanto que a quase totalidade das ações</p><p>penais são precedidas do inquérito.</p><p>A qualidade das investigações criminais está diretamente ligada à atuação do Delegado de</p><p>Polícia no curso do inquérito policial. Uma investigação mal-feita, além de poder acarretar</p><p>diversas nulidades, contribui diretamente para a falta de elementos de informação para a denúncia</p><p>e a consequente irresponsabilidade penal do autor do fato.</p><p>É nesse contexto que se insere a necessidade de reconhecer o cargo de Delegado de Polícia</p><p>como integrante de uma carreira jurídica. Com efeito, a definição de atividade jurídica é</p><p>estabelecida pelo artigo 59, da Resolução nº 75, do Conselho Nacional de Justiça:</p><p>Art. 59. Considera-se atividade jurídica, para os efeitos do art. 58, § 1º, alínea “i”:</p><p>I – aquela exercida com exclusividade por bacharel em Direito;</p><p>II – o efetivo exercício de advocacia, inclusive voluntária, mediante a participação anual</p><p>mínima em 5 (cinco) atos privativos de advogado (Lei nº 8.906, 4 de julho de 1994, art. 1º)</p><p>em causas ou questões distintas;</p><p>III – o exercício de cargos, empregos ou funções, inclusive de magistério superior, que exija a</p><p>utilização preponderante de conhecimento jurídico;</p><p>IV – o exercício da função de conciliador junto a tribunais judiciais, juizados especiais, varas</p><p>especiais, anexos de juizados especiais ou de varas judiciais, no mínimo por 16 (dezesseis)</p><p>horas mensais e durante 1 (um) ano;</p><p>V – o exercício da atividade de mediação ou de arbitragem na composição de litígios.</p><p>O cargo de Delegado de Polícia se insere em dois incisos do art. 59 da citada Resolução, o</p><p>que serve como importante vetor interpretativo do que pode ser qualificado como “carreira</p><p>jurídica”. Os Delegados de Polícia, todos bacharéis em Direito, no exercício de suas atribuições</p><p>constitucionais, auxiliam o Poder Judiciário, formalizando o fato criminoso e interpretando o</p><p>Direito no caso concreto.</p><p>Nesse contexto, o Supremo Tribunal Federal já reconheceu a natureza jurídica da atividade</p><p>exercida pelo Delegado de Polícia. No julgamento da ADI 3460,32 o Ministro Carlos Ayres Brito</p><p>assim se manifestou:</p><p>Há exceções, reconheço, nesse plano do preparo técnico para a solução de controvérsias. E</p><p>elas estão, assim penso, justamente nas atividades policiais e nas de natureza cartorária. É</p><p>que a Constituição mesma já distingue as coisas. Quero dizer: se a atividade policial diz</p><p>respeito ao cargo de Delegado, ela se define como de caráter jurídico. (...) Isto porque: a)</p><p>desde o primitivo § 4º, do artigo 144, da Constituição, que o cargo de Delegado de Polícia é</p><p>32. ADI 3460, Relator(a): Min. CARLOS BRITTO, Tribunal Pleno, julgado em 31/08/2006.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>33</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>tido como equiparável àqueles integrantes das chamadas carreiras jurídicas (...).</p><p>Em face do que foi apresentado, o trabalho desenvolvido pelos Delegados de Polícia é</p><p>considerado como atividade pertencente à área do Direito, não por uma construção</p><p>doutrinária ou ficção legislativa, mas, sim, com fundamento na natureza e essência de sua</p><p>atividade.</p><p>Retomando a análise do tema propriamente dito, não só a nível constitucional, mas também</p><p>na Lei nº 12.830/13, que dispõe sobre a investigação policial conduzida pelo Delegado de Polícia,</p><p>existe o reconhecimento do cargo como carreira jurídica:</p><p>Art. 2º As funções de polícia judiciária e a apuração de infrações penais exercidas pelo</p><p>delegado de polícia são de natureza jurídica, essenciais e exclusivas de Estado.</p><p>Art. 3º O cargo de delegado de polícia é privativo de bacharel em Direito, devendo-lhe ser</p><p>dispensado o mesmo tratamento protocolar dos magistrados, membros da Defensoria</p><p>Pública, do Ministério Público e advogados.</p><p>Na mesma linha, foi publicada a Lei n° 13.047/14, que alterou a Lei n° 9.266/96 e acrescentou</p><p>os seguintes dispositivos legais:</p><p>Art. 2º-A, parágrafo único. Os ocupantes do cargo de Delegado de Polícia Federal,</p><p>autoridades policiais no âmbito da polícia judiciária da União, são responsáveis pela direção</p><p>das atividades do órgão e exercem função de natureza jurídica e policial, essencial e</p><p>exclusiva de Estado.</p><p>Art. 2º-B. O ingresso no cargo de Delegado de Polícia Federal, realizado mediante concurso</p><p>público de provas e títulos, com a participação da Ordem dos Advogados do Brasil, é</p><p>privativo de bacharel em Direito e exige 3 (três) anos de atividade jurídica ou policial,</p><p>comprovados no ato de posse.</p><p>Contudo, o STF julgou a ADI 551733 em novembro de 2022 e declarou inconstitucional</p><p>dispositivo da Constituição do Estado do Espírito Santo34 que qualificavam os Delegados de</p><p>Polícia como carreira jurídica. O argumento central se extrai do inteiro teor do acórdão:</p><p>Por outro lado, ao cuidar do tema segurança pública, não garantiu autonomia de qualquer</p><p>espécie, quer às polícias e aos corpos de bombeiros militares, quer às polícias civis. Antes,</p><p>explicitou a subordinação e a vinculação hierárquico-administrativa ao Chefe do Executivo.</p><p>Assim, o estabelecimento das funções do delegado de polícia como essenciais do Estado e</p><p>dotadas de natureza jurídica discrepa, a mais não poder, do modelo concebido pelo</p><p>constituinte originário.</p><p>Do mesmo modo, aos delegados de polícia não foi conferida a garantia da independência</p><p>funcional como ocorreu com os integrantes do Judiciário (CF, art. 95), do Parquet (CF, art.</p><p>127, § 1º) e da Defensoria Pública (CF, art. 134, § 4º).</p><p>A autonomia administrativa e financeira e a independência funcional não se compatibilizam</p><p>com a submissão hierárquica da polícia judiciária ao Chefe do Poder Executivo.</p><p>A falta de previsão constitucional não deve ser entendida como omissão a ser suprida ou</p><p>lacuna a ser integrada. Trata-se, antes, de legítima opção político-normativa de não estender</p><p>determinada disciplina jurídica a outras situações, revelando-se incabível a aplicação por</p><p>analogia. Não há espaço, portanto, para inovação pelo constituinte derivado decorrente, o</p><p>qual deve observar o tratamento federal, forte no princípio da simetria.</p><p>33. ADI 5517, Relator(a): NUNES MARQUES, Tribunal Pleno, julgado em 22/11/2022.</p><p>34. Segue a normativa declarada inconstitucional: “§ 3º No desempenho da atividade de polícia judiciária, instrumental</p><p>à propositura das ações penais, a Polícia Civil exerce atribuição essencial à função jurisdicional do Estado e à</p><p>defesa da ordem jurídica. § 4º Os Delegados de Polícia integram as carreiras jurídicas do Estado, dispensando-lhes</p><p>o mesmo tratamento legal e protocolar, motivo pelo qual se exige para o ingresso na carreira o bacharelado em</p><p>Direito e assegura-se a participação da Ordem dos Advogados do Brasil em todas as fases do concurso público.”</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>34</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Essa decisão tomada pelo STF em face da Constituição do Estado do Espírito Santo é um</p><p>reflexo de uma jurisprudência, atualmente já pacífica, que tem incidido sob inúmeras outras</p><p>Constituições Estaduais, como de Tocantins e Minas Gerais. De todo modo, ainda se encontram</p><p>plenamente vigentes as legislações federais regentes da matéria, quais sejam, a Lei nº 12.830/13 e a</p><p>Lei n° 13.047/14.</p><p>INDEPENDÊNCIA FUNCIONAL</p><p>O STF, na ADI 5579,35 decidiu pela inconstitucionalidade da autonomia funcional do</p><p>Delegado de Polícia, peritos, médicos-legistas e outros cargos correlatos, bem como de toda a</p><p>Polícia Judiciária, ao argumento de violar certos pressupostos constitucionais, como o poder de</p><p>requisição do Ministério Público e a subordinação administrativa, funcional e financeira em</p><p>relação ao Governador, que possui a direção superior da Administração Pública estadual (art. 144,</p><p>§6º, da Constituição Federal).</p><p>Contudo, no mesmo julgado, o Tribunal consignou que tal conclusão “não afasta o dever</p><p>desses servidores públicos em atuarem com o rigor da independência técnica, em especial,</p><p>das funções como de peritos criminais, médicos-legistas e datiloscopistas policiais, cabendo a</p><p>esses profissionais analisar vestígios e elementos de convicção e interpretá-los, sem</p><p>interferências ilegítimas, à luz de seus conhecimentos técnicos e de sua experiência”.</p><p>O Tribunal afasta a “autonomia funcional” para afirmar que tais cargos possuem</p><p>“independência técnica”, não admitindo interferências ilegítimas em suas atuações. Trata-se de</p><p>uma mera questão de nomenclatura jurídica (nomen iuris), mas com a mesma repercussão</p><p>defendida ao longo deste tópico. Do exposto, a independência funcional (ou independência</p><p>técnica, nas palavras do STF), constitui pressuposto de atuação dos Delegados de Polícia e decorre</p><p>implicitamente do sistema constitucional vigente.</p><p>Cita-se, contudo, uma exceção à independência técnica do Delegado de Polícia: a utilização</p><p>do argumento “legítima defesa da honra”. Por mais que o Delegado de Polícia seja dotado de</p><p>independência técnica ao decidir, ele não poderá fazer uso durante a investigação ou mesmo</p><p>sugerir o arquivamento do procedimento com base no argumento da legítima defesa da honra.</p><p>Existe decisão vinculante e com efeito erga omnes do Supremo Tribunal Federal36 sobre o tema,</p><p>sob pena de nulidade do ato praticado pela Autoridade Policial. Igual raciocínio aplica-se para o juiz</p><p>e para o Tribunal do Júri. A legítima defesa da honra não é espécie de legítima defesa, pois aquele</p><p>que pratica feminicídio em cenário de adultério não está a se defender, mas a atacar uma mulher de</p><p>forma desproporcional, covarde e criminosa. Nas palavras do Tribunal, “a legítima defesa da honra</p><p>é recurso argumentativo/retórico odioso, desumano e cruel utilizado pelas defesas de acusados</p><p>35. ADI 5579, Relator(a): CÁRMEN LÚCIA, Tribunal Pleno, julgado em 21/06/2021, PROCESSO ELETRÔNICO</p><p>DJe-128 DIVULG 29-06-2021.</p><p>36. ADPF 779 MC-Ref, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 15/3/2021.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>35</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>de feminicídio ou agressões contra a mulher para imputar às vítimas a causa de suas próprias</p><p>mortes ou lesões”.</p><p>Contudo, em cenário típico de reação legislativa com finalidade de alteração jurisprudencial,</p><p>o Congresso Nacional publicou a Lei Orgânica das Polícias Civis, trazendo em seu corpo a</p><p>autonomia funcional dos Delegados de Polícia:</p><p>Art. 26 da Lei nº 14.735/23. Parágrafo único. Cabe ao delegado de polícia</p><p>presidir o inquérito policial, no qual deve atuar com isenção, com autonomia</p><p>funcional e no interesse da efetividade da tutela penal, respeitados os direitos e as</p><p>garantias fundamentais e assegurada a análise técnico-jurídica do fato.</p><p>SUGESTÃO DE RESPOSTA:</p><p>No caso narrado, a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, por iniciativa do</p><p>Governador do Estado, aprovou um Projeto de Emenda à Constituição do Estado de São Paulo</p><p>com a finalidade de reestruturar a Polícia Civil. Deve-se, ato seguinte, analisar cada um dos seus</p><p>dispositivos.</p><p>Em relação ao caput, é inconstitucional a qualificação da Polícia Civil como função essencial</p><p>à Justiça. Existe violação do parâmetro estabelecido na Constituição Federal, que estabelece, de</p><p>um lado, a Polícia Civil dentro do título relativo à defesa do Estado e das Instituições</p><p>Democráticas e, por outro lado, elenca taxativamente os órgãos que são qualificados como</p><p>funções essenciais à justiça.</p><p>Em relação ao parágrafo primeiro, a normativa é constitucional e a Constituição Estadual</p><p>pode restringir a escolha do Delegado-Geral da Polícia Civil aos integrantes da última classe da</p><p>carreira, consoante consta da Lei Orgânica das Polícias Civis atualmente vigente.</p><p>Em relação ao parágrafo segundo, o STF entendeu ser inconstitucional atribuir a</p><p>independência funcional ao Delegado de Polícia por violar o poder de requisição do Ministério</p><p>Público e a subordinação administrativa,</p><p>funcional e financeira em relação ao Governador.</p><p>Contudo, o Tribunal afirmou que tal cargo possui independência técnica, não admitindo</p><p>interferências ilegítimas em sua atuação. Em evolução sobre o tema, a Lei Orgânica das Polícias</p><p>Civis trouxe mais uma vez a independência funcional para os Delegados de Polícia, tornando a</p><p>normativa constitucional.</p><p>Por fim, em relação ao parágrafo terceiro, é inconstitucional afirmar que o Delegado de</p><p>Polícia se apresenta como carreira jurídica por violar o princípio da simetria e inovar em tema</p><p>não tratado pela Constituição Federal.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>36</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA</p><p>Um cidadão, em razão de problema pessoal e temporário de saúde, não pôde comparecer ao teste de</p><p>aptidão física do concurso que então participava, cenário que levou a sua exclusão do certame. Diante</p><p>deste cenário, entrou com uma ação judicial e ganhou, em sede liminar, o direito de ter o teste físico</p><p>remarcado, alcançando, assim, a sua aprovação no certame e a posse no cargo desejado. Na época do</p><p>deferimento da medida liminar, a jurisprudência dos Tribunais Superiores estava em consonância com o</p><p>decidido pelo juiz de primeira instância. O caso, dez anos depois, chegou ao Supremo Tribunal Federal,</p><p>mas o entendimento dos Ministros ao julgar a ação seguiu caminho contrário à jurisprudência até então</p><p>pacífica, no sentido de que seria constitucional a proibição da remarcação de teste físico em razão de</p><p>problema pessoal e temporário do candidato. Ademais, o Supremo Tribunal Federal decidiu não aplicar o</p><p>novo entendimento no caso julgado ou nos casos em trâmite até a data do julgamento, de modo a manter</p><p>o cidadão no cargo, mas afirmou que esse seria o novo parâmetro para casos futuros.</p><p>Considerando a situação narrada, redija um texto dissertativo à luz da jurisprudência do STF,</p><p>mencionando e explicando a técnica de julgamento utilizada em sede de controle difuso de</p><p>constitucionalidade pelo Pretório Excelso [valor: 4,00 pontos]. Ademais, exponha os fundamentos</p><p>jurídicos que justificaram a nova posição do Tribunal e explique se seria hipótese de incidência in caso da</p><p>teoria do fato consumado [valor: 3,00 pontos]. Por fim, analise e fundamente se a técnica utilizada se</p><p>trata de um exemplo de modulação de efeitos para fins da incidência do art. 27 da Lei n° 9.868/99 [valor:</p><p>3,00 pontos].</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>37</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:</p><p>Citar e explicar a técnica (4,0 pontos)</p><p>Aplicação da teoria do fato consumado (3,0 pontos)</p><p>Modulação? (3,0 pontos)</p><p>Português (0,2 por erro)</p><p>NOTA FINAL</p><p>MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA:</p><p>SENTENÇA DE AVISO OU PROSPECTIVE OVERRULING OU PURE PROSPECTIVE</p><p>As sentenças de aviso têm por finalidade sinalizar uma alteração futura na jurisprudência de um</p><p>Tribunal, sem que tal alteração tenha repercussão no caso em que ela é proferida. Em outras</p><p>palavras, o Tribunal sinaliza de forma prospectiva (para o futuro) a revogação (overruling) de um</p><p>determinado entendimento da sua jurisprudência. Antes de aprofundar no tema, faz-se</p><p>necessário trabalhar melhor o que é overruling.</p><p>Em controle concentrado de constitucionalidade, o STF toma decisões vinculantes para todos os</p><p>tribunais. Esse limite subjetivo do efeito vinculante não abrange o próprio Supremo Tribunal</p><p>Federal, que, posteriormente, em outra ação, pode se posicionar de forma distinta ao que</p><p>decidido em julgado anterior (esse fenômeno é chamado de overruling37), revogando o primeiro</p><p>entendimento. Assim, no overruling, o STF supera determinado entendimento, fixando outra</p><p>orientação em julgado posterior.</p><p>No controle difuso de constitucionalidade, pela literalidade do art. 52, X, da CF, não existe o</p><p>efeito vinculante e erga omnes para todos os membros do Poder Judiciário, e um juiz de primeira</p><p>instância ou outro Tribunal não está vinculado ao que foi decidido pelo STF. Apesar desse</p><p>cenário, quando o STF em controle difuso de constitucionalidade, contraria sua jurisprudência</p><p>até então pacífica, fala-se em overruling (revogação de entendimento pretérito por nova</p><p>decisão.</p><p>Voltando ao tema da questão, tem-se o RE 630733.10 O STF fixou um novo entendimento de que</p><p>não é possível a remarcação de teste de aptidão física em concurso público em razão de</p><p>problema pessoal e temporário de saúde. Por haver violação ao princípio da isonomia, a vedação</p><p>do edital para tais candidatos mostrou-se constitucional. Em síntese, inexiste um direito</p><p>constitucional à remarcação de provas em razão de circunstâncias pessoais dos candidatos. Não</p><p>37 Trata-se de termo decorrente do stare decisis norte-americano que possibilita a revogação do precedente pelo</p><p>mesmo tribunal que o proferiu ou por tribunal superior. É interessante dizer que “a abrupta e irregular revogação</p><p>dos precedentes é compreendida pelos juristas norte-americanos como um indício de irracionalidade e não de</p><p>progresso na Corte” (APPIO, 2008, p. 67).</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>38</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>obstante, o mencionado entendimento não foi aplicado no próprio RE 630733 ao argumento de</p><p>que a liminar foi concedida no ano de 2002 (o julgamento no STF ocorreu em 2013) e o candidato</p><p>já estava empossado no cargo há mais de 10 anos, motivo pelo qual os Ministros modularam os</p><p>efeitos da decisão de modo a não se aplicar tal entendimento no caso em julgamento. Os</p><p>Ministros ressaltaram que a situação não se tratava de aplicação da teoria do fato consumado,</p><p>mas de garantir a segurança jurídica nos casos de sensível mudança da jurisprudência.</p><p>Vale a pena leitura dos informativos sobre o tema:</p><p>Concurso público e segunda chamada em teste de aptidão física</p><p>Os candidatos em concurso público não têm direito à prova de segunda chamada nos testes de</p><p>aptidão física em razão de circunstâncias pessoais, ainda que de caráter fisiológico ou de força maior,</p><p>salvo contrária disposição editalícia. Com base nessa orientação, o Plenário, por maioria, negou</p><p>provimento a recurso extraordinário. No caso, o recorrido não se submetera ao teste de aptidão física</p><p>na data designada pelo edital do concurso, pois se encontraria temporariamente incapacitado em</p><p>virtude de doença — epicondilite gotosa no cotovelo esquerdo — comprovada por atestado médico.</p><p>O tribunal de origem, com fundamento no princípio da isonomia, afastara norma, também prevista</p><p>em edital, que regulamentaria aplicação de prova de capacidade física em processo seletivo instituído</p><p>pela Academia Nacional de Polícia [“os casos de alterações orgânicas (estados menstruais,</p><p>indisposições, cãibras, contusões, etc.) que impossibilitem o candidato de submeter-se aos testes ou</p><p>diminuam sua capacidade física</p><p>e/ou orgânica não serão aceitos para fins de tratamento diferenciado</p><p>por parte da Administração”]. Primeiramente, rememorou-se precedentes no sentido de que a</p><p>remarcação de teste de aptidão física para data diversa daquela prevista em edital de certame, em</p><p>virtude da ocorrência de caso fortuito que comprometesse a saúde de candidato, devidamente</p><p>comprovado por atestado médico, não afrontaria o princípio da isonomia (RE 179500/RS, DJU de</p><p>15.10.99; AI 825545 AgR/PE, DJe 6.5.2011 e RE 584444/DF, DJe de 26.3.2010). RE 630733/DF, rel.</p><p>Min. Gilmar Mendes, 15.5.2013. (RE-630733)</p><p>Ressaltou-se que a discussão não se restringiria à eventual violação do princípio da isonomia pela</p><p>mera remarcação de teste de aptidão física. Afirmou-se que, embora esta Corte tivesse considerado</p><p>legítima a possibilidade de se remarcar teste físico em razão de casos fortuitos, a existência de</p><p>previsão editalícia que prescrevesse que alterações corriqueiras de saúde não seriam aptas a ensejar</p><p>a remarcação de teste físico não ofenderia o princípio da isonomia. Esse princípio implicaria</p><p>tratamento desigual àqueles que se encontrassem em situação de desigualdade. Deste modo,</p><p>aplicável em hipótese na qual verificado de forma clara que a atuação estatal tivesse beneficiado</p><p>determinado indivíduo em detrimento de outro nas mesmas condições. Asseverou-se, portanto, que,</p><p>em essência, o princípio da isonomia não possibilitaria, de plano, a realização de segunda chamada</p><p>em etapa de concurso público decorrente de situações individuais e pessoais de cada candidato,</p><p>especialmente, quando o edital estabelecesse tratamento isonômico a todos os candidatos que, em</p><p>presumida posição de igualdade dentro da mesma relação jurídica, seriam tratados de forma</p><p>igualitária. RE 630733/DF, rel. Min. Gilmar Mendes, 15.5.2013. (RE-630733)</p><p>Aduziu-se que o concurso público permitiria não apenas a escolha dos candidatos mais bem</p><p>qualificados, mas também que o processo de seleção fosse realizado com transparência,</p><p>impessoalidade, igualdade e com o menor custo para os cofres públicos. Dessa maneira, não seria</p><p>razoável a movimentação de toda a máquina estatal para privilegiar determinados candidatos que se</p><p>encontrassem impossibilitados de realizar alguma das etapas do certame por motivos exclusivamente</p><p>individuais. Consignou-se que, ao se permitir a remarcação do teste de aptidão física nessas</p><p>circunstâncias, possibilitar-se-ia o adiamento, sem limites, de qualquer etapa do certame, pois o</p><p>candidato talvez não se encontrasse em plenas condições para realização da prova, o que causaria</p><p>tumulto e dispêndio desnecessário para a Administração. Aludiu-se que não seria razoável que a</p><p>Administração ficasse à mercê de situações adversas para colocar fim ao certame, de modo a deixar</p><p>os concursos em aberto por prazo indeterminado. RE 630733/DF, rel. Min. Gilmar Mendes,</p><p>15.5.2013. (RE-630733)</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>39</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Assinalou-se que, na espécie, entretanto, o recorrido realizara a prova de aptidão física de segunda</p><p>chamada em razão de liminar concedida pelo Poder Judiciário, em 2002, confirmada por sentença e</p><p>por acórdão de tribunal regional, tendo sido empossado há quase dez anos. Sublinhou-se que, em</p><p>casos como este, em que se alteraria jurisprudência longamente adotada, seria sensato considerar a</p><p>necessidade de se modular os efeitos da decisão com base em razões de segurança jurídica. Essa seria</p><p>a praxe nesta Corte para as hipóteses de modificação sensível de jurisprudência. Destacou-se que não</p><p>se trataria de declaração de inconstitucionalidade em controle abstrato, a qual poderia suscitar a</p><p>modulação dos efeitos da decisão mediante a aplicação do art. 27 da Lei 9.868/99. Tratar-se-ia de</p><p>substancial mudança de jurisprudência, decorrente de nova interpretação do texto constitucional, a</p><p>impor ao STF, tendo em vista razões de segurança jurídica, a tarefa de proceder a ponderação das</p><p>consequências e o devido ajuste do resultado, para adotar a técnica de decisão que pudesse melhor</p><p>traduzir a mutação constitucional operada. Registrou-se que a situação em apreço não diria respeito</p><p>a referendo à teoria do fato consumado, tal como pedido pelo recorrido, mas de garantir a segurança</p><p>jurídica também nos casos de sensível mudança jurisprudencial. Por fim, conquanto o recurso tivesse</p><p>sido interposto antes da sistemática da repercussão geral, atribuiu-se-lhe os efeitos dela decorrentes</p><p>e assegurou-se a validade das provas de segunda chamada ocorridas até a data de conclusão do</p><p>presente julgamento. RE 630733/DF, rel. Min. Gilmar Mendes, 15.5.2013. (RE-630733)</p><p>Vencido o Min. Marco Aurélio, que também negava provimento ao recurso, mas com fundamentação</p><p>diversa. Anotava que a pretensão do recorrido teria sido agasalhada pelo tribunal regional em</p><p>observância aos princípios da acessibilidade aos cargos públicos, isonomia e razoabilidade, e seria</p><p>socialmente aceitável. Explanava que em situações excepcionais, desde que demonstrada a justa</p><p>causa, seria possível colocar em segundo plano o edital. Reputava que, considerada a aplicação da lei</p><p>no tempo — haja vista que o interesse em recorrer surgira em 3.11.2003, antes, portanto, da</p><p>introdução do instituto da repercussão geral pela EC 45/2004 — não se poderia emprestar a este</p><p>julgamento as consequências próprias da admissibilidade da repercussão geral, a irradiar-se a ponto</p><p>de ficarem os tribunais do país autorizados a declarar prejuízo de outros recursos. RE 630733/DF, rel.</p><p>Min. Gilmar Mendes, 15.5.2013. (RE-630733)</p><p>Por fim, as sentenças de aviso são qualificadas como uma espécie de modulação de efeitos,</p><p>como se compreende da ementa da ADI 402911: “A modulação de efeitos possui variadas</p><p>modalidades, sendo adequada ao caso sub judice a denominada pure prospectivity, técnica</p><p>de superação da jurisprudência em que o novo entendimento se aplica exclusivamente para</p><p>o futuro, e não àquela decisão que originou a superação da antiga tese”.</p><p>SUGESTÃO DE RESPOSTA:</p><p>O caso retrata o que a doutrina e os tribunais qualificam como sentença de aviso, prospective</p><p>overruling ou pure prospective. As sentenças de aviso têm por finalidade sinalizar uma alteração</p><p>futura na jurisprudência de um Tribunal, sem que tal alteração tenha repercussão no caso em</p><p>que ela é proferida. Em outras palavras, o Tribunal sinaliza de forma prospectiva (para o futuro)</p><p>a revogação (overruling) de um determinado entendimento da sua jurisprudência.</p><p>No caso, o STF fixou um novo entendimento de que não é possível a remarcação de teste de</p><p>aptidão física em concurso público em razão de problema pessoal e temporário de saúde. Por</p><p>haver violação ao princípio da isonomia, a vedação do edital para tais candidatos mostrou-se</p><p>constitucional. De igual modo, inexiste um direito constitucional à remarcação de provas em</p><p>razão de circunstâncias pessoais dos candidatos. Ressaltou-se que a situação não se tratava de</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>40</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>aplicação da teoria do fato consumado, mas de garantir a segurança jurídica nos casos de</p><p>sensível mudança da jurisprudência.</p><p>Por fim, as sentenças de aviso são qualificadas como uma espécie de modulação de efeitos, já</p><p>que, pelas regras básicas dos efeitos de uma decisão em sede de controle difuso de</p><p>constitucionalidade, o novo</p><p>entendimento deveria incidir no caso sob julgamento, o que não</p><p>ocorreu.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>41</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA</p><p>O Poder Constituinte é aquele responsável pela criação de uma nova Constituição, iniciando um</p><p>novo ordenamento jurídico. O poder constituinte derivado, além dos limites explícitos presentes</p><p>no texto constitucional, possui também limites implícitos.</p><p>Considerando a tema exposto, redija um texto dissertativo elencando três limites implícitos ao</p><p>poder de reforma [valor: 3,0 pontos], conceitue a teoria da dupla revisão constitucional [valor:</p><p>2,0 pontos], demonstrando a sua relação com os limites implícitos e se tal teoria possui</p><p>aplicabilidade no Brasil [valor: 5,0 pontos].</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>42</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:</p><p>3 limites implícitos ao poder de reforma</p><p>Conceito de teoria da dupla revisão constitucional</p><p>Relação e aplicação</p><p>Português (0,2 por erro)</p><p>NOTA FINAL</p><p>MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA:</p><p>Espécies de Poder Constituinte:</p><p>• Originário → é o poder responsável pela criação da CR que, portanto, a antecede.</p><p>É o poder mais elevado. A criação da nova constituição ocorre sempre em um</p><p>“momento de ruptura”, este podendo ser:</p><p>o Pacífico: é um momento de transição entre regimes.</p><p>OBS: Poder Constituinte Transicional: tem-se como exemplo a</p><p>Constituição de 1988, pois não surgiu a partir de um golpe de estado, mas</p><p>sim da chamada transição constitucional.</p><p>o Beligerante: decorre de movimentos armados como revolução, golpe de</p><p>Estado,...</p><p>• Derivado → consiste na capacidade de alterar a constituição após sua criação ou</p><p>de criar uma Constituição Estadual.</p><p>o Reformador: é o autorizado pelo originário para alterar a constituição,</p><p>podendo ser por EC (reforma, art. 60 da CF) ou por projeto de reforma</p><p>de revisão ( EC decorrente dos art. 2° e 3° ADCT).</p><p>o Decorrente: é aquele responsável pela autorização à criação de uma CE,</p><p>se dividindo em: (art. 25 da CR e 11 ADCT)</p><p>▪ Institucionalizador (ou inicial): é o que cria a CE e lei orgânica.</p><p>▪ Reforma estadual: é o responsável pela alteração da CE.</p><p>➢ Normal: a alteração da CE só depende da vontade dos</p><p>parlamentares.</p><p>➢ Extraordinário: independe da vontade dos parlamentares</p><p>e ocorre quando uma EC ou revisão estão em conflito com</p><p>a CE, acarretando a revogação dos dispositivos contrários.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>43</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Ademais, existem limites implícitos ao poder constituinte derivado reformador:</p><p>• o povo como titular do poder constituinte</p><p>• o congresso como titular do poder constituinte derivado</p><p>• os dispositivos constitucionais que prescrevem as cláusulas expressas</p><p>O tema ainda trata da dupla revisão constitucional.</p><p>Trata-se de uma teoria relativa ao poder de reforma da Constituição (adotada,</p><p>por exemplo, por Jorge Miranda em Portugal e, no Brasil unicamente por Manoel</p><p>Gonçalves Ferreira Filho). A “Teoria da Dupla Reforma” surgiu em Portugal, por</p><p>volta de 1989, e teve por finalidade adequar a Constituição desse país às regras</p><p>da União Europeia e permitir a sua entrada no bloco. Em uma primeira revisão,</p><p>revoga-se o dispositivo da constituição que prevê o rol das cláusulas pétreas (no</p><p>Brasil, seria o o artigo 60, § 4º) para, em seguida, fazer as alterações</p><p>necessárias e ao final estabelecer novamente as cláusulas pétreas. A teoria foi</p><p>efetivamente utilizada em Portugal.</p><p>Ocorre um fato curioso atualmente no Brasil, o artigo 60, § 4º da Constituição</p><p>Federal menciona que todos os dispositivos constitucionais que tratem de</p><p>matérias nele mencionadas não poderão ser alterados. Entretanto, não existe</p><p>nenhuma norma inserida na Constituição que proteja e impeça uma possível</p><p>anulação do artigo 60, existindo apenas uma limitação material implícita, que já</p><p>é suficiente para tornar o artigo 60, § 4º inalterável. E essa limitação implícita, de</p><p>acordo com a doutrina majoritária, já é suficiente para impedir a dupla revisão.</p><p>Não existe entendimento do STF sobre o tema.</p><p>SUGESTÃO DE RESPOSTA:</p><p>O poder constituinte derivado reformador tem por finalidade alterar a Constituição Federal,</p><p>sendo dotado de limites expressos e implícitos. Dentre os limites implícitos, citam-se o povo</p><p>como titular do poder constituinte, o congresso como titular do poder constituinte derivado e</p><p>os dispositivos constitucionais que prescrevem as cláusulas expressas.</p><p>Em relação a esse último limite implícito, insere-se o debate da teoria da dupla revisão</p><p>constitucional. Essa teoria surgiu em Portugal e teve por finalidade adequar a Constituição desse</p><p>país às regras da União Europeia e permitir a sua entrada no bloco. Em uma primeira revisão,</p><p>revoga-se o dispositivo da constituição que prevê o rol das cláusulas pétreas para, em seguida,</p><p>fazer as alterações necessárias e ao final estabelecer novamente as cláusulas pétreas. Apesar de</p><p>efetivamente utilizada em Portugal, não é majoritariamente admitida no Brasil por violar um</p><p>dos limites implícitos ao poder constituinte derivado reformador, qual seja, a proibição de</p><p>revogar os dispositivos constitucionais que prescrevem as cláusulas expressas.</p><p>http://www.jusbrasil.com.br/topicos/10633322/artigo-60-da-constitui%C3%A7%C3%A3o-federal-de-1988</p><p>http://www.jusbrasil.com.br/topicos/10632328/par%C3%A1grafo-4-artigo-60-da-constitui%C3%A7%C3%A3o-federal-de-1988</p><p>http://www.jusbrasil.com.br/topicos/10633322/artigo-60-da-constitui%C3%A7%C3%A3o-federal-de-1988</p><p>http://www.jusbrasil.com.br/topicos/10632328/par%C3%A1grafo-4-artigo-60-da-constitui%C3%A7%C3%A3o-federal-de-1988</p><p>http://www.jusbrasil.com.br/legislacao/155571402/constitui%C3%A7%C3%A3o-federal-constitui%C3%A7%C3%A3o-da-republica-federativa-do-brasil-1988</p><p>http://www.jusbrasil.com.br/legislacao/155571402/constitui%C3%A7%C3%A3o-federal-constitui%C3%A7%C3%A3o-da-republica-federativa-do-brasil-1988</p><p>http://www.jusbrasil.com.br/legislacao/155571402/constitui%C3%A7%C3%A3o-federal-constitui%C3%A7%C3%A3o-da-republica-federativa-do-brasil-1988</p><p>http://www.jusbrasil.com.br/topicos/10633322/artigo-60-da-constitui%C3%A7%C3%A3o-federal-de-1988</p><p>http://www.jusbrasil.com.br/topicos/10633322/artigo-60-da-constitui%C3%A7%C3%A3o-federal-de-1988</p><p>http://www.jusbrasil.com.br/topicos/10632328/par%C3%A1grafo-4-artigo-60-da-constitui%C3%A7%C3%A3o-federal-de-1988</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>44</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA</p><p>As condições</p><p>precárias para o trabalho ou mesmo a baixa remuneração de policiais civis</p><p>desencadeiam manifestações por partes desses servidores em face do respectivo</p><p>governo. Por exemplo, no ano de 2022, no Estado de Pernambuco, houve decretação</p><p>de greve parcial por parte de policiais, com a paralização de certas atividades. Sobre o</p><p>tema, responda:</p><p>a) Qual a normativa constitucional e legal sobre o direito de greve dos policiais civis?</p><p>[valor: 10,0 pontos]</p><p>b) Qual o entendimento do STF sobre o tema? [valor: 10,0 pontos]</p><p>c) Policiais que participam do movimento grevista podem ser punidos</p><p>disciplinarmente? [valor: 10,0 pontos]</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>45</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:</p><p>Normativa constitucional (explícita x implícita) e legal (10,0 pontos)</p><p>Entendimento do STF: tese de repercussão geral (10,0 pontos)</p><p>Punição disciplinar de policiais grevistas (10,0 pontos)</p><p>Português</p><p>NOTA FINAL</p><p>MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA:</p><p>A Constituição Federal não estendeu às polícias civis e federal a proibição do direito de greve.</p><p>Ao contrário, no que diz respeito aos Policiais Militares e às Forças Armadas, somente a esses</p><p>são proibidas a greve e a sindicalização, tal como previsto no art. 142, § 3°, IV, da Constituição</p><p>Federal.</p><p>A despeito do tratamento constitucional diferenciado, o STF38 utilizou o mencionado</p><p>dispositivo constitucional para também proibir o direito de greve para as Polícias Civis e Federal</p><p>ao argumento de serem tais atividades análogas aos dos Militares.</p><p>Apesar de essa argumentação perder força ao longo dos anos, a conclusão se manteve intacta.</p><p>Atualmente, de acordo com entendimento do STF exarado no ARE 65443239, as Polícias Civis e</p><p>Federal não possuem direito de greve por possuírem em seu quadro carreiras que garantem a</p><p>normalidade democrática. Como a Constituição Federal estabeleceu um capítulo específico para</p><p>tratar da segurança pública, implicitamente outorgou a tais carreiras um regramento diferenciado</p><p>em relação aos demais servidores públicos, com prerrogativas e responsabilidades específicas.</p><p>O Ministro relator ponderou não se tratar, no caso, de um conflito entre o direito de greve e</p><p>o princípio da continuidade do serviço público ou da prestação de serviço público. Haveria, na</p><p>verdade, um embate entre o direito de greve, de um lado, e o direito de toda a sociedade à garantia</p><p>da segurança pública, à garantia da ordem pública e da paz social, de outro. Em outras palavras,</p><p>eventuais movimentos grevistas de carreiras policiais podem levar à ruptura da segurança pública,</p><p>o que é tão grave a ponto de permitir a decretação do estado de defesa (CF, art. 136) e, se o estado</p><p>de defesa não responder ao anseio necessário à manutenção e à reintegração da ordem, a</p><p>decretação do estado de sítio (CF, art. 137, I).</p><p>Via de consequência, a prevalência do interesse público e do interesse social na manutenção</p><p>da ordem pública, da segurança pública, da paz social sobre o interesse de determinadas categorias</p><p>38. Rcl 11246 AgR, Relator(a): Min. DIAS TOFFOLI, Tribunal Pleno, julgado em 27/02/2014.</p><p>39. ARE 654432, Relator(a): Min. EDSON FACHIN, Relator(a) p/ Acórdão: Min. ALEXANDRE DE MORAES,</p><p>Tribunal Pleno, julgado em 05/04/2017.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>46</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>de servidores públicos – o gênero servidores públicos. Deve-se excluir a possibilidade do</p><p>exercício do direito de greve por parte das carreiras policiais, dada a sua incompatibilidade com</p><p>a interpretação teleológica do sistema constitucional vigente.</p><p>Com base em toda essa argumentação, o Tribunal fixou as seguintes teses de repercussão geral:</p><p>“1 – O exercício do direito de greve, sob qualquer forma ou modalidade, é vedado aos policiais</p><p>civis e a todos os servidores públicos que atuem diretamente na área de segurança pública. 2</p><p>– É obrigatória a participação do Poder Público em mediação instaurada pelos órgãos</p><p>classistas das carreiras de segurança pública, nos termos do art. 165 do Código de Processo</p><p>Civil, para vocalização dos interesses da categoria”.</p><p>Nova regulamentação com a Lei Orgânica Nacional das Polícias Civis que foi publicada:</p><p>Art. 30 § 5º Deve ser garantida a participação do poder público em mediação judicial proposta</p><p>pelos órgãos classistas da polícia civil para a negociação dos interesses de seus representados,</p><p>como forma alternativa ao exercício do direito de greve.</p><p>Ainda sobre o tema:</p><p>Policiais civis e restrições à promoção ou à participação em manifestações - ADPF 734/PE</p><p>ODS: 16</p><p>Resumo:</p><p>É compatível com o sistema normativo-constitucional vigente, norma estadual que veda a</p><p>promoção ou a participação de policiais em manifestações de apreço ou desapreço a quaisquer</p><p>autoridades ou contra atos da Administração Pública em geral.</p><p>Apesar da imprescindibilidade da liberdade de expressão, enquanto direito fundamental que visa</p><p>evitar a prática de censura pelo Estado, é possível restringi-lo como qualquer outro, ante a inexistência</p><p>de direitos intocáveis (1).</p><p>As carreiras da área de segurança pública devem obediência aos princípios da hierarquia e da</p><p>disciplina, que regem a corporação, incumbindo-lhes a manutenção da segurança interna, da ordem</p><p>pública e da paz social.</p><p>Nesse contexto, as restrições da lei estadual impugnada são adequadas, necessárias e</p><p>proporcionais. Isso porque os policiais civis são agentes públicos armados cujas manifestações de apreço</p><p>ou desapreço relativamente a atos da Administração em geral e/ou a autoridades públicas em particular</p><p>podem implicar ofensa ao art. 5º, XVI, da CF/1988, segundo o qual se reconhece a todos o direito de</p><p>reunir-se pacificamente e “sem armas” (2).</p><p>https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=5991755</p><p>http://portal.stf.jus.br/hotsites/agenda-2030/index.html</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>47</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Assim, cumpre conciliar esses valores constitucionais: de um lado, a liberdade de expressão dos</p><p>policiais civis e, de outro, a segurança e a ordem públicas, bem como a hierarquia e a disciplina que regem</p><p>as organizações policiais.</p><p>Com base nesse entendimento, o Plenário, por unanimidade, considerou recepcionados pela</p><p>Constituição Federal de 1988 os incisos IV e V do art. 31 da Lei 6.425/1972 do Estado de Pernambuco (3)</p><p>e, por conseguinte, julgou improcedente a ação.</p><p>(1) Precedentes citados: ADI 5.852; ADI 1.969; ADPF 353; ARE 654.432 e HC 141.949.</p><p>(2) CF/1988: “Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e</p><p>aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade,</p><p>nos</p><p>termos seguintes: (...) XVI - todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de</p><p>autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio</p><p>aviso à autoridade competente;”</p><p>(3) Lei 6.425/1972 do Estado de Pernambuco: “Art. 31. São transgressões disciplinares: (...) IV - Promover ou participar</p><p>de manifestações de apreço ou desapreço a quaisquer autoridades; V - Manifestar-se ou participar de manifestações contra atos da</p><p>Administração Pública em geral.”</p><p>ADPF 734/PE, relator Ministro Dias Toffoli, julgamento virtual finalizado em 12.4.2023</p><p>SUGESTÃO DE RESPOSTA:</p><p>A Constituição Federal não estendeu expressamente às polícias civis e federal a proibição do</p><p>direito de greve. Ao contrário, no que diz respeito aos Policiais Militares e às Forças Armadas,</p><p>somente a esses são proibidas a greve e a sindicalização, tal como previsto no art. 142, § 3°, IV,</p><p>da Constituição Federal.</p><p>Contudo, para o Supremo Tribunal Federal, as Polícias Civis e Federal não possuem direito</p><p>de greve por possuírem em seu quadro carreiras que garantem a normalidade democrática. Como</p><p>a Constituição Federal estabeleceu um capítulo específico para tratar da segurança pública,</p><p>implicitamente outorgou a tais carreiras um regramento diferenciado em relação aos demais</p><p>servidores públicos, com prerrogativas e responsabilidades específicas. Nessa linha, a vedação ao</p><p>direito de greve decorreria implicitamente do sistema constitucional vigente ao dar prevalência</p><p>ao direito de toda a sociedade à garantia da segurança pública, à garantia da ordem pública e da</p><p>paz social.</p><p>Em relação à legislação base, até a presente data inexiste regulamentação específica sobre o</p><p>tema, em especial para as suas consequências em relação aos direitos dos servidores policiais</p><p>civis. As diretrizes, portanto, decorrem de decisões dos Tribunais Superiores que julgam a</p><p>temática quando provocados. Inicialmente, fixou-se em sede de repercussão geral que é</p><p>obrigatória a participação do Poder Público em mediação instaurada pelos órgãos classistas das</p><p>carreiras de segurança pública, nos termos do art. 165 do Código de Processo Civil, para</p><p>vocalização dos interesses da categoria.</p><p>https://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=754492192</p><p>https://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=AC&docID=484308</p><p>https://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=756349187</p><p>https://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=14980135</p><p>https://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=14700730</p><p>https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=5991755</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>48</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Apesar de tais entendimentos pacificados, ainda assim existem deflagrações de movimentos</p><p>grevistas. Quando isso ocorre, mostra-se constitucional a punição dos policiais civis por</p><p>caracterização de transgressão disciplinar, tal como já decidiu o Supremo Tribunal Federal ao</p><p>indicar que é compatível com o sistema normativo-constitucional vigente norma estadual que</p><p>veda a promoção ou a participação de policiais em manifestações de apreço ou desapreço a</p><p>quaisquer autoridades ou contra atos da Administração Pública em geral.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>49</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA</p><p>Em março de 2021, o STJ determinou, com efeito erga omnes, que as Polícias</p><p>Militares do país gravassem em vídeo a permissão dos moradores todas as vezes que</p><p>precisassem invadir uma residência sem ordem judicial e fora das hipóteses legalmente</p><p>previstas. Igual entendimento seria também aplicável para os policiais civis, uma vez</p><p>que busca-se majorar os direitos fundamentais de ações sem justa causa das forças de</p><p>segurança.</p><p>Sobre o tema, indique o entendimento atual do Supremo Tribunal Federal acerca da</p><p>decisão do STJ, bem como analise se, para o STF, seria privativa da União a proposição</p><p>legislativa sobre a gravação em vídeo das ações dos agentes de segurança pública. (30</p><p>pontos)</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>50</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:</p><p>STF reformou decisão do STJ – indicar fundamentos (10,0 pontos)</p><p>STF aceita outros meios – gravação, testemunhas, desde que haja</p><p>comprovação da voluntariedade (10,0 pontos)</p><p>STF – legislações estaduais podem fazer tal tipo de regulamentação,</p><p>não sendo privativa da União (10,0 pontos)</p><p>Português</p><p>NOTA FINAL</p><p>MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA:</p><p>Em março de 2021, o STJ40 determinou, com efeito erga omnes, que as Polícias Militares do</p><p>país gravem em vídeo a permissão dos moradores todas as vezes que precisarem invadir uma</p><p>residência sem ordem judicial e fora das hipóteses legalmente previstas.</p><p>Nas palavras do Tribunal, “A prova da legalidade e da voluntariedade do consentimento para</p><p>o ingresso na residência do suspeito incumbe, em caso de dúvida, ao Estado, e deve ser feita com</p><p>declaração assinada pela pessoa que autorizou o ingresso domiciliar, indicando-se, sempre que</p><p>possível, testemunhas do ato. Em todo caso, a operação deve ser registrada em áudio-vídeo e</p><p>preservada tal prova enquanto durar o processo” 41. Assim, além da documentação escrita da</p><p>diligência policial (relatório circunstanciado), ela deve ser registrada em vídeo e áudio, de</p><p>maneira a não deixar dúvidas quanto à legalidade da ação estatal como um todo e,</p><p>particularmente, quanto ao livre consentimento do morador para o ingresso domiciliar.</p><p>Em sede recursal, no final de 2021, o STF42 entendeu que a decisão do STJ exorbitou a sua</p><p>competência constitucional por dois motivos. Primeiro, porque o Habeas Corpus julgado é ação</p><p>individual e não permite sua utilização de forma abrangente e totalmente genérica (erga</p><p>omnes). Segundo, porque a decisão extrapolou a competência do STJ ao restringir as hipóteses</p><p>constitucionais de inviolabilidade do domicílio, inovando em matéria constitucional, de modo</p><p>a criar uma nova exigência – a gravação audiovisual da autorização do morador – não prevista</p><p>no artigo 5º, inciso XI, da CF.</p><p>40. HC n. 598.051/SP, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 2/3/2021, DJe de 15/3/2021.</p><p>41. HC n. 598.051/SP, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 2/3/2021, DJe de 15/3/2021.</p><p>42. RE 1342077, julgado em 02/12/2021, Min. Alexandre de Moraes.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>51</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Nesse julgamento, o Ministro Alexandre de Moraes fixou a seguinte tese: “É incabível ao</p><p>Poder Judiciário, em sede de Habeas Corpus individual, determinar ao Poder Executivo que</p><p>faça o aparelhamento de suas polícias como medida obrigatória para executar buscas</p><p>domiciliares, sob o argumento de serem necessárias para evitar eventuais abusos e</p><p>ilegalidades.”</p><p>Posteriormente, no início de 2022, ao julgar a ADPF nº 635,43 o STF decidiu pela</p><p>obrigatoriedade o Estado do Rio de Janeiro, em até 180 dias, instalar equipamentos de GPS e</p><p>sistemas de gravação de áudio e vídeo nas viaturas policiais e nas fardas dos agentes de</p><p>segurança pública, com o posterior armazenamento digital dos respectivos arquivos. Essa</p><p>obrigação foi decorrência direta do descumprimento da Lei nº 5.588/09, do Estado do Rio de</p><p>Janeiro, que, desde 2009, determinava a instalação dos mencionados equipamentos.</p><p>SUGESTÃO DE RESPOSTA:</p><p>O STJ determinou, com efeito erga omnes, que as Polícias Militares do país gravem em vídeo</p><p>a permissão dos moradores todas as vezes que precisarem invadir uma residência sem ordem</p><p>judicial e fora das hipóteses legalmente previstas.</p><p>Ao assim proceder, o STF entendeu que a decisão do STJ exorbitou a sua competência</p><p>constitucional por dois motivos. Primeiro, porque o Habeas Corpus julgado é ação individual e</p><p>não permite sua utilização de forma abrangente e totalmente genérica (erga omnes). Segundo,</p><p>porque a decisão extrapolou a competência do STJ ao restringir as hipóteses constitucionais de</p><p>inviolabilidade do domicílio, inovando em matéria constitucional, de modo a criar uma nova</p><p>exigência – a gravação audiovisual da autorização do morador – não prevista no artigo 5º, inciso</p><p>XI, da CF.</p><p>De todo modo, ainda assim a prova da legalidade e da voluntariedade do consentimento</p><p>para o ingresso na residência do suspeito incumbe, em caso de dúvida, ao Estado, e deve ser</p><p>feita com declaração assinada pela pessoa que autorizou o ingresso domiciliar, indicando-se,</p><p>sempre que possível, testemunhas do ato, sendo possível os eu registro em vídeo facultado aos</p><p>policiais envolvidos na medida.</p><p>Posteriormente, em 2022, o STF decidiu pela obrigatoriedade o Estado do Rio de Janeiro,</p><p>em até 180 dias, instalar equipamentos de GPS e sistemas de gravação de áudio e vídeo nas</p><p>viaturas policiais e nas fardas dos agentes de segurança pública, com o posterior</p><p>43. ADPF 635 MC-ED, Relator(a): EDSON FACHIN, Tribunal Pleno, julgado em 03/02/2022.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>52</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>armazenamento digital dos respectivos arquivos. Essa obrigação foi decorrência direta do</p><p>descumprimento da Lei nº 5.588/09, do Estado do Rio de Janeiro, que, desde 2009, determinava</p><p>a instalação dos mencionados equipamentos, não sendo competência privativa da União a</p><p>regulamentação do tema.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>53</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA</p><p>Em 2020, no RMS nº 61302, o STJ fez uso do princípio da proporcionalidade para</p><p>legitimar o uso do geofencing como instrumento de investigação criminal. Com uso no</p><p>marketing e em empresas, o Geofencing faz uso de GPS, antenas de celulares ou até</p><p>mesmo de sinais Wi-Fi para estabelecer limites virtuais (ou “perímetro geográfico virtual”</p><p>ou “cercas virtuais”) para o mundo real. Sobre o tema da proporcionalidade:</p><p>a) Conceitue a proporcionalidade e a insira no estudo das regras e dos princípios;</p><p>(10 pontos)</p><p>b) Indique e conceitue os 3 substratos da proporcionalidade; (15 pontos)</p><p>c) Explique o motivo de parte da doutrina refutar a proporcionalidade como um</p><p>princípio. (5 pontos)</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>54</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:</p><p>Conceito de proporcionalidade e relacionar com regras x princípios</p><p>(10,0 pontos)</p><p>SUBSTRATOS:</p><p>• adequação (5,0 pontos)</p><p>• Necessidade (5,0 pontos)</p><p>• Proporcionalidade em sentido estrito? (5,0 pontos)</p><p>Proporcionalidade não é um princípio - explicação (5,0 pontos)</p><p>Português</p><p>NOTA FINAL</p><p>MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA:</p><p>Sobre o GEOFENCING: https://www.instagram.com/p/Cv-BR2HORIY/?hl=pt</p><p>Sobre a aplicação da proporcionalidade do GEOFENCING – retirado da ementa do julgado:</p><p>“Quanto à proporcionalidade da quebra de dados informáticos, ela é adequada, na medida em</p><p>que serve como mais um instrumento que pode auxiliar na elucidação dos delitos, cuja</p><p>investigação se arrasta por dois anos, sem que haja uma conclusão definitiva; é necessária,</p><p>diante da complexidade do caso e da não evidência de outros meios não gravosos para se</p><p>alcançarem os legítimos fins investigativos; e, por fim, é proporcional em sentido estrito, porque</p><p>a restrição a direitos fundamentais que dela redundam - tendo como finalidade a apuração de</p><p>crimes dolosos contra a vida, de repercussão internacional - não enseja gravame às pessoas</p><p>eventualmente afetadas, as quais não terão seu sigilo de dados registrais publicizados, os quais,</p><p>se não constatada sua conexão com o fato investigado, serão descartados. Logo, a ordem judicial</p><p>para quebra do sigilo dos registros, delimitada por parâmetros de pesquisa em determinada</p><p>região e por período de tempo, não se mostra medida desproporcional, porquanto, tendo como</p><p>norte a apuração de gravíssimos crimes cometidos por agentes públicos contra as vidas de três</p><p>pessoas - mormente a de quem era alvo da emboscada, pessoa dedicada, em sua atividade</p><p>parlamentar, à defesa dos direitos de minorias que sofrem com a ação desse segmento podre</p><p>da estrutura policial fluminense - não impõe risco desmedido à privacidade e à intimidade dos</p><p>usuários possivelmente atingidos pela diligência questionada.”</p><p>PRINCÍPIO DA PROPORCIONALIDADE</p><p>https://www.instagram.com/p/Cv-BR2HORIY/?hl=pt</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>55</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Antes de se adentrar propriamente no estudo dessa técnica de julgamento, faz-se necessário</p><p>entender o contexto em que ela ocorre, qual seja, dentro do fenômeno da colisão dos princípios e</p><p>direitos fundamentais, a qual possui substancial diferença em relação ao fenômeno do conflito</p><p>das regras.</p><p>Distinção entre regras e princípios</p><p>Regras e princípios são espécies do gênero “normas”. É possível afirmar, de maneira geral,</p><p>que as regras são específicas para determinados</p><p>casos e direcionadas para certas situações em</p><p>específico. Já os princípios e os direitos fundamentais trazem consigo um alto grau de</p><p>generalidade e aplicabilidade, regendo praticamente todo o direito positivo, inclusive no que se</p><p>refere ao preenchimento de lacunas.</p><p>Contudo, ressalta Alexy44 que a real diferença entre os institutos não está no seu grau de</p><p>generalidade ou aplicabilidade, mas, sim, nas suas respectivas qualidades.</p><p>A qualidade dos princípios (e dos direitos fundamentais) está relacionada com sua</p><p>possibilidade de aplicação em determinado caso. O princípio não é uma fonte ou um limite em</p><p>si mesmo, pois sua incidência deve ser orientada por premissas norteadoras de um caso concreto,</p><p>a fim de determinar in concreto o valor de um princípio. Em outras palavras, os princípios</p><p>constituem para o autor mandamentos de otimização, ou seja, são normas que ordenam que algo</p><p>seja realizado na maior medida possível, conforme as possibilidades jurídicas e fáticas. Isto</p><p>significa que podem ser satisfeitos em diferentes graus e que a medida da sua satisfação depende</p><p>não apenas das possibilidades fáticas, mas também das jurídicas.</p><p>Por outro lado, consoante Alexy45, a qualidade das regras, desde que sejam regras válidas, está</p><p>relacionada com a obrigatoriedade de seu cumprimento dentro do ordenamento jurídico. Em</p><p>razão de elas determinarem certa conduta no mundo fático, não pode o agente tentar se escusar de</p><p>sua aplicação. Nesse contexto, uma regra não deve ser avaliada quanto à sua extensão, devendo ser</p><p>cumprida tal como prevista na lei.</p><p>Ainda sobre o tema, Alexy46 ensina que o conflito de regras tem por base o plano da validade,</p><p>existindo somente dois meios para solucionar esta problemática. O primeiro meio tem por fim evitar</p><p>o conflito de normas (por exemplo, por intermédio de uma regra de exceção), enquanto o segundo</p><p>busca solucionar eventual conflito. Uma regra pode ser válida ou inválida, não podendo duas regras</p><p>conflitantes subsistir simultaneamente no sistema. Patente a invalidade de uma regra, esta deve ser</p><p>afastada do ordenamento jurídico e ser aplicada a regra válida. Se sua validade é comprovada, ela</p><p>possui exigibilidade e caráter coercitivo. Assim, se duas regras são conflitantes, não existindo entre</p><p>elas regra de exceção, nada mais resta senão a retirada de uma do ordenamento jurídico.</p><p>Diferentemente dos conflitos de regras que ocorrem no plano da validade, a colisão de</p><p>princípios ou direitos fundamentais ocorre no plano do peso ou do valor ou da importância. Em</p><p>razão disso, a colisão de princípios não resulta na expulsão daquele que não foi utilizado, já que</p><p>o peso de um foi maior que o do outro em determinado caso.</p><p>Posta essa premissa, se determinado princípio ou direito fundamental não é aplicado no caso</p><p>in concreto, isso não importa na sua revogação, mas tão somente no fato de que, para aquela</p><p>hipótese, o seu valor ou peso foi mais fraco do que o valor de outro princípio. A não aplicação de</p><p>certo princípio não importa na sua expulsão do sistema, uma vez que seu plano de atuação é distinto</p><p>das regras. Do mesmo modo, a não aplicação determinante de um princípio em um caso específico</p><p>não significa que, no futuro, ele não possa ser aplicado, então de forma preponderante.</p><p>44. ALEXY, Robert. Teoria dos Direitos Fundamentais. São Paulo: Malheiros, 2008b, p. 90.</p><p>45. ALEXY, 2008b, p. 92-93.</p><p>46. ALEXY, 2008b, p. 92.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>56</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Um dos métodos para solucionar essa colisão de princípios ou de direitos fundamentais é</p><p>justamente o método da proporcionalidade, consoante estudo que segue. Contudo, observe,</p><p>primeiramente, o quadro mnemônico das diferenças entre regras e princípios:</p><p>NORMA</p><p>REGRAS</p><p>PRINCÍPIOS OU</p><p>DIREITOS</p><p>FUNDAMENTAIS</p><p>Grau de Generalidade Baixo Alto</p><p>Grau de Aplicabilidade</p><p>Pensado para alguns casos</p><p>específicos.</p><p>Impossível determinar todas</p><p>as possibilidades de</p><p>aplicação.</p><p>Qualidade</p><p>Obrigatoriedade de seu</p><p>cumprimento.</p><p>Possibilidade de aplicação</p><p>em um determinado caso.</p><p>Nomenclatura para o</p><p>fenômeno das regras e</p><p>princípios</p><p>contraditórios</p><p>Conflito de Regras Colisão de Princípios</p><p>Plano de atuação Validade Peso ou Valor</p><p>Solução para o conflito</p><p>de regras ou colisão de</p><p>princípios</p><p>Regra de Exceção ou a</p><p>retirada da regra do</p><p>ordenamento jurídico por</p><p>meio de premissas como “lei</p><p>posterior revoga lei anterior”,</p><p>“lei superior revoga lei</p><p>inferior”, e outras.</p><p>Princípio da</p><p>Proporcionalidade</p><p>Contexto de aplicação</p><p>da solução de conflitos</p><p>e colisões</p><p>Feito em abstrato.</p><p>Técnica possível de ser</p><p>utilizada somente num caso</p><p>concreto.</p><p>Os subprincípios do princípio da proporcionalidade</p><p>O princípio da proporcionalidade, também chamado de princípio da razoabilidade ou ainda</p><p>de princípio da proibição de excesso, que busca solucionar a colisão entre princípios e entre</p><p>direitos fundamentais, deve ser analisado dentro de seus três subprincípios ou substratos:</p><p>adequação, necessidade e proporcionalidade em sentido estrito.</p><p>O primeiro substrato do princípio da proporcionalidade é a adequação, também chamada</p><p>de idoneidade. De acordo com tal subprincípio, a adequação exige que as medidas adotadas sejam</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>57</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>idôneas a atingir os objetivos pretendidos, pois, se não forem aptas para tanto, hão de ser</p><p>consideradas inconstitucionais. Desse modo, esse primeiro elemento consiste na exigência do</p><p>nexo causal entre o meio e o fim, ou seja, deve-se verificar se o meio escolhido é capaz de</p><p>fomentar o direito fundamental a se proteger. É o que leciona Alexy47:</p><p>O princípio da idoneidade exclui o emprego de meios que prejudiquem a realização de, pelo menos,</p><p>um princípio, sem, pelo menos, fomentar um dos princípios ou objetivos, cuja realização eles</p><p>devem servir.</p><p>O STF, na ADI-MC 85548, declarou a inconstitucionalidade da lei estadual que determinou</p><p>a pesagem de botijões de gás entregues ou recebidos para substituição por outro botijão, à vista</p><p>do consumidor, com pagamento imediato de eventual diferença de gás a menor, com fundamento</p><p>no substrato da adequação ou idoneidade. No caso, o meio escolhido (pesagem de botijões na</p><p>presença do consumidor) prejudicava o direito fundamental (proteção do consumidor), pelos</p><p>motivos que seguem: (a) a aquisição de balanças a serem utilizadas para pesagem requereria</p><p>investimento em pesquisa e instalação, repercutindo no valor final do produto; (b) no caso das</p><p>balanças que não fossem facilmente retiradas da carroceria do veículo, o consumidor teria que</p><p>subir na carroceria para acompanhar a medição; (c) nos casos em que o consumidor recebesse o</p><p>botijão em local distante do veículo, não haveria praticidade na proposta feita pela lei, por terem</p><p>o consumidor e o entregador que retornar ao veículo para conferência do produto; (d) a natural</p><p>instabilidade dos veículos de transporte de gás tornaria equivocada a mensuração do gás</p><p>remanescente nos botijões. Em razão do exposto, o meio escolhido, em vez de proteger o direito</p><p>fundamental, na verdade, dificultava sua realização, não sendo, portanto, um meio adequado ao</p><p>que se propôs.</p><p>O segundo subprincípio da proporcionalidade consiste na necessidade,</p><p>Português (0,25 por erro até o limite de 5,0 pontos)</p><p>NOTA FINAL</p><p>MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA:</p><p>Distinguindo entendimentos sobre a incidência do</p><p>foro por prerrogativa de função entre o STF e o STJ</p><p>A principal finalidade do inquérito policial é apurar a autoria e a materialidade das infrações</p><p>penais, de modo a contribuir na formação do convencimento (opinio delicti) do Ministério Público</p><p>e, excepcionalmente, da vítima (querelante). No entanto, é possível que, no curso da investigação</p><p>criminal, o Delegado de Polícia verifique que um dos autores seja um cidadão que possua foro</p><p>por prerrogativa de função. Diante do exposto, questiona-se: A Autoridade Policial possui</p><p>atribuição para investigar um cidadão que possua foro por prerrogativa de função?</p><p>A questão foi amplamente debatida na Pet 3825 QO,1 julgada em 2007, pelo STF. De um</p><p>lado, o Ministro Sepúlveda Pertence se posicionou pela possibilidade de a Autoridade Policial</p><p>investigar pessoas com foro por prerrogativa de função, e, por outro lado, o Ministro Gilmar</p><p>Mendes, que inclusive liderou seus pares, entendeu que o Delegado de Polícia não possui</p><p>atribuição para investigar pessoas com foro por prerrogativa de função.</p><p>O Ministro Sepúlveda Pertence2 motivou sua decisão em três fundamentos: (a) a</p><p>instauração de inquérito policial para a apuração de fato em que se verifique a possibilidade</p><p>de envolvimento de titular de foro por prerro­gativa de função não depende de iniciativa do</p><p>Ministério Público vinculado ao respectivo Tribunal, nem o mero indiciamento formal reclama</p><p>prévia decisão de um Desembargador desse Tribunal; (b) tanto a abertura das investigações</p><p>de qualquer fato delituoso, quanto, no curso delas, o indiciamento formal, são atos privativos</p><p>do Delegado de Polícia que preside o inquérito policial; e (c) a prerrogativa de foro do suposto</p><p>autor do fato delituoso é critério exclusivo para determinar a competência jurisdicional</p><p>1. Pet 3825 QO, Relator(a): Min. Sepúlveda Pertence, Relator(a) p/ Acórdão: Min. Gilmar Mendes, Tribunal Pleno,</p><p>julgado em 10/10/2007.</p><p>2. Pet 3825 QO, Relator(a): Min. Sepúlveda Pertence, Relator(a) p/ Acórdão: Min. Gilmar Mendes, Tribunal Pleno,</p><p>julgado em 10/10/2007.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>8</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>originária do Tribunal respectivo, quando do oferecimento da denúncia ou, eventualmente,</p><p>antes dela, se se fizer necessária diligência sujeita à prévia autorização judicial, não</p><p>abrangendo o procedimento investigatório prévio.</p><p>Por outro lado, de acordo com o Ministro Gilmar Mendes,3 se a Constituição Federal</p><p>estabelece, por exemplo, que os agentes políticos respondem, por crime comum, perante o</p><p>STF (CF, art. 102, I, b), não há razão constitucional plausível para que as atividades diretamente</p><p>relacionadas à supervisão judicial (abertura de procedimento investigatório) sejam retiradas</p><p>do controle judicial do STF, devendo, portanto, a iniciativa do procedimento investigatório ser</p><p>confiada ao MPF com a supervisão do Ministro-Relator do STF.</p><p>O Ministro Sepúlveda Pertence foi voto vencido e fixou-se o entendimento de que não é</p><p>qualquer suposto autor de crime que pode ser investigado em um inquérito policial. Apesar</p><p>de a Constituição Federal indicar somente o órgão competente para o julgamento das</p><p>autoridades com foro por prerrogativa de função e silenciar acerca do procedimento</p><p>investigatório preparativo para a ação penal, o Pretório Excelso entende que o foro por</p><p>prerrogativa de função se estende também à etapa da investigação criminal.</p><p>Em síntese, no que diz respeito às autoridades com foro no STF, o Tribunal4 entende que a</p><p>abertura do procedimento investigativo, as medidas cautelares e o indiciamento pela Autoridade</p><p>Policial estão condicionados à autorização do Ministro relator da causa no STF. Nessas</p><p>hipóteses, a abertura do procedimento ou ato de indiciamento pela Autoridade Policial apresenta-</p><p>se como ato complexo por depender de duas vontades para a sua efetivação.</p><p>Segue um exemplo para ilustrar a questão. Trata-se da quebra do sigilo bancário feita pelo</p><p>STF em 2018 em face do Presidente da República, a fim de instruir inquérito policial em</p><p>andamento relativo ao “Decreto dos Portos”, onde supostamente houve favorecimento a</p><p>determinada empresa. Como um Presidente da República possui foro por prerrogativa de função</p><p>no STF, cabe a esse Tribunal decidir sobre as medidas cautelares relativas às investigações</p><p>criminais em curso.</p><p>E mais, nos casos em que o investigado com foro por prerrogativa de função é identificado</p><p>no curso da investigação criminal, ainda assim é necessária a remessa ao Tribunal competente.</p><p>Nas palavras do STF5, “a prerrogativa de foro enseja a imediata remessa do inquérito à corte</p><p>competente e não seu trancamento automático por nulidade processual”. Contudo, a</p><p>caracterização do foro reclama que a participação da autoridade deva estar fundamentada em</p><p>elementos de informação aptos a provocar a convicção de que pode realmente ter havido algum</p><p>envolvimento dessa autoridade com prerrogativa. Em outras palavras, a caracterização do foro</p><p>não pode decorrer de meras alusões genéricas mencionando o nome da autoridade, sendo</p><p>imprescindíveis, para tanto, elementos de informação aptos a provocar a convicção de que</p><p>3. Pet 3825 QO, Relator(a): Min. Sepúlveda Pertence, Relator(a) p/ Acórdão: Min. Gilmar Mendes, Tribunal Pleno,</p><p>julgado em 10/10/2007.</p><p>4. Inq 2411 QO, Relator(a): Min. Gilmar Mendes, Tribunal Pleno, julgado em 10/10/2007.</p><p>5. RHC 122338 AgR, Relator(a): Min. ALEXANDRE DE MORAES, Primeira Turma, julgado em 22/03/2019. HC</p><p>153417 ED-segundos, Relator(a): Min. ALEXANDRE DE MORAES, Primeira Turma, julgado em 12/03/2019.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>9</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>pode realmente ter havido algum envolvimento da autoridade com prerrogativa.6 No mesmo</p><p>sentido é a posição do STJ:</p><p>A mera presença de autoridade com foro por prerrogativa de função em conversas captadas</p><p>por meio de procedimento de interceptação telefônica não é suficiente para determinar a</p><p>imediata remessa dos autos ao foro competente em razão da pessoa. Este procedimento</p><p>deve ser tomado após exame acerca da idoneidade e da suficiência dos dados colhidos para</p><p>se firmar o convencimento acerca do possível envolvimento do detentor de prerrogativa de</p><p>foro com a prática dos fatos apurados. Precedentes.7</p><p>Por outro lado, em relação aos foros por prerrogativa dos demais Tribunais, as duas turmas</p><p>do STJ seguem linha distinta da sistemática presente no STF. O STJ faz uma interpretação</p><p>restritiva do entendimento acima apresentado, no sentido de que o posicionamento do STF sobre</p><p>o tema se aplica somente ao respectivo Tribunal, uma vez que a extensão do foro por prerrogativa</p><p>de função à etapa investigativa decorre exclusivamente de determinação presente no Regimento</p><p>Interno do STF. Nessa linha, para o STJ, o Delegado de Polícia pode investigar e indiciar pessoas</p><p>com foro por prerrogativa de função sem ingerência do respectivo Tribunal; a única ressalva</p><p>seria eventual medida cautelar que deve ser encaminhada ao Tribunal de foro para análise da</p><p>representação. Segue o entendimento</p><p>ou exigibilidade, em</p><p>que se verifica se o meio adequado é o menos lesivo (mais benigno). Caso exista um meio menos</p><p>lesivo do que aquele proposto, o meio proposto será inconstitucional por se mostrar desarrazoado.</p><p>Samuel Meira Brasil Júnior49 exemplifica, a seguir, esse subprincípio:</p><p>Podemos encontrar um exemplo desse critério em uma decisão judicial que, aplicando o art.</p><p>461 do CPC,50 determine a interdição de uma empresa como meio coercitivo para o</p><p>cumprimento da decisão, quando a imposição de multas seria suficiente para compelir o</p><p>responsável a acatar a respectiva decisão. Neste exemplo, as duas medidas são adequadas,</p><p>porém a astreinte é mais branda que a interdição da fábrica, o que tornaria desnecessário impor</p><p>a segunda medida, por ser mais restritiva de direitos do que a primeira. Assim, existindo um</p><p>meio mais suave (a imposição de multa), a medida escolhida pela hipotética decisão (a</p><p>interdição da fábrica) revela-se excessiva e, portanto, ofende o postulado da</p><p>proporcionalidade.</p><p>É importante ressaltar que nesse substrato da proporcionalidade, a segunda medida</p><p>escolhida, que substituiu a primeira, deve ser também adequada, ou seja, deve também passar</p><p>pelo filtro do subprincípio da adequação ou idoneidade.</p><p>O último substrato da proporcionalidade é a proporcionalidade em sentido estrito. É nesse</p><p>momento em que é feita a ponderação entre a colisão de direitos fundamentais, que se mostram</p><p>contrários no caso concreto (um direito que é cumprido e um direito que não é cumprido). Eis as</p><p>etapas a serem analisadas, segundo Alexy51, na proporcionalidade em sentido estrito:</p><p>• Primeira: Deve ser comprovado o grau de não cumprimento de determinado princípio ou</p><p>direito fundamental;</p><p>47. ALEXY, Robert. Constitucionalismo discursivo. Tradução de Luís Afonso Heck. Porto Alegre: Livraria do</p><p>Advogado, 2008a, p. 110.</p><p>48. ADI-MC 855, julgada em 6/3/2008, Rel. Sepúlveda Pertence, conforme noticiado no Inf. 497 do STF.</p><p>49. BRASIL Jr. Samuel Meira. Justiça, direito e processo: a argumentação e o direito processual de resultados justos.</p><p>São Paulo: Atlas, 2008, p. 99.</p><p>50. No atual CPC, similar redação consta do art. 497.</p><p>51. ALEXY, 2008a, p. 111.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>58</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>• Segunda: Deve ser comprovado o grau de cumprimento do outro princípio ou direito</p><p>fundamental;</p><p>• Terceira: Deve-se efetuar a ponderação (ou sopesamento) entre os direitos fundamentais (ou</p><p>entre os princípios) e verificar se o cumprimento de um direito fundamental (ou</p><p>princípio) justifica o não cumprimento de outro.</p><p>“Como exemplo, poderíamos imaginar o confinamento de um portador de AIDS por toda a</p><p>vida, como forma de evitar a disseminação da doença, promovendo o princípio que protege a</p><p>saúde pública. Mesmo supondo que essa medida seja adequada (com o confinamento evita-se a</p><p>disseminação da doença) e necessária (não haveria outro meio mais brando de evitar a</p><p>disseminação da doença), ainda assim seria completamente desproporcional, pois causaria uma</p><p>interferência ao princípio da dignidade da pessoa humana em um grau absolutamente intolerável.</p><p>A medida visa a uma consequência que não pode ser qualificada como mais importante que o</p><p>outro princípio”52.</p><p>Outro exemplo, da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, diz respeito ao julgamento</p><p>do HC 8242453, em que Siegfried Ellwanger postulava a cassação de sua condenação pelo</p><p>Tribunal a quo, que determinava sua prisão por fazer apologia a ideias preconceituosas e</p><p>discriminatórias contra a comunidade judaica, por meio de edição e publicação de obras escritas</p><p>veiculando ideias antissemitas. O Ministro Gilmar Mendes, em seu voto, faz a análise de cada um</p><p>dos substratos do princípio da proporcionalidade, como se observa abaixo:</p><p>É evidente a adequação da condenação do paciente para se alcançar o fim almejado, qual seja,</p><p>a salvaguarda de uma sociedade pluralista, onde reine a tolerância. Assegura-se a posição do</p><p>Estado, no sentido do defender os fundamentos da dignidade da pessoa humana (art. 1º, III, da</p><p>CF), do pluralismo político (art. 1º, V, da CF), o princípio do repúdio ao terrorismo e ao</p><p>racismo, que rege o Brasil nas suas relações internacionais (art. 4º, VIII), e a norma</p><p>constitucional que estabelece ser o racismo um crime imprescritível (art. 5º, XLII).</p><p>Também não há dúvida de que a decisão condenatória, tal como proferida, seja necessária, sob</p><p>o pressuposto de ausência de outro meio menos gravoso e igualmente eficaz. Com efeito, em</p><p>casos como esse, dificilmente vai se encontrar um meio menos gravoso a partir da própria</p><p>definição constitucional. Foi o próprio constituinte que determinou a criminalização e a</p><p>imprescritibilidade da prática do racismo. Não há exorbitância no acórdão.</p><p>Tal como anotado nos doutos votos, não se trata, aqui, sequer de obras revisionistas da História,</p><p>mas de divulgação de ideias que atentam contra a dignidade dos judeus. Fica evidente,</p><p>igualmente, que se não cuida, nos escritos em discussão, de simples discriminação, mas de textos</p><p>que, de maneira reiterada, estimulam o ódio e a violência contra os judeus. Ainda assim, o próprio</p><p>Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul agiu com cautela na dosagem da pena, razão</p><p>pela qual também aqui a decisão atende ao princípio da “proibição do excesso”.</p><p>A decisão atende, por fim, ao requisito da proporcionalidade em sentido estrito. Nesse plano,</p><p>é necessário aferir a existência de proporção entre o objetivo perseguido, qual seja, a preservação</p><p>dos valores inerentes a uma sociedade pluralista, da dignidade humana, e o ônus imposto à</p><p>liberdade de expressão do paciente. Não se contesta, por certo, a proteção conferida pelo</p><p>constituinte à liberdade de expressão. Não se pode negar, outrossim, o seu significado</p><p>inexcedível para o sistema democrático. Todavia, é inegável que essa liberdade não alcança a</p><p>intolerância racial e o estímulo à violência, tal como afirmado no acórdão condenatório. Há</p><p>inúmeros outros bens jurídicos de base constitucional que estariam sacrificados na hipótese de</p><p>se dar uma amplitude absoluta, intangível, à liberdade de expressão na espécie.</p><p>Assim, a leitura da decisão condenatória evidencia que não restou violada a</p><p>proporcionalidade.</p><p>52. BRASIL Jr. 2008, p. 100.</p><p>53. HC 82424, julgado em 17/9/2003, Rel. para acórdão Ministro Maurício Corrêa.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>59</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Afinal, a proporcionalidade é um princípio?</p><p>Esse é um tema que já apareceu em prova oral da magistratura, uma vez que a</p><p>proporcionalidade não foi concebida como um princípio por Robert Alexy.</p><p>Como visto, a qualidade dos princípios está relacionada com sua possibilidade de aplicação</p><p>em determinado caso. Se a proporcionalidade for colocada como um princípio, então ela poderá</p><p>ser afastada em um caso concreto, quando em colisão com outro princípio, algo inviável.</p><p>A proporcionalidade não entra em colisão com outro princípio; pelo contrário, ela resolve</p><p>o problema da colisão dos princípios. Assim, respondendo à pergunta, a proporcionalidade não</p><p>é um princípio, mas, sim, é como um postulado ou uma técnica à disposição do intérprete</p><p>para resolver a colisão de princípios</p><p>e direitos fundamentais.</p><p>SUGESTÃO DE RESPOSTA:</p><p>O tema se insere no estudo das normas, que possui como espécies as regras e os</p><p>princípios. As regras, desde que sejam regras válidas, está relacionada com a obrigatoriedade</p><p>de seu cumprimento dentro do ordenamento jurídico. Por outro lado, os princípios constituem</p><p>mandamentos de otimização, ou seja, são normas que ordenam que algo seja realizado na maior</p><p>medida possível, conforme as possibilidades jurídicas e fáticas. Isto significa que podem ser</p><p>satisfeitos em diferentes graus e que a medida da sua satisfação depende não apenas das</p><p>possibilidades fáticas, mas também das jurídicas.</p><p>Diferentemente dos conflitos de regras que ocorrem no plano da validade, a colisão de</p><p>princípios ocorre no plano do peso ou do valor ou da importância e um dos métodos para</p><p>solucionar essa colisão de princípios é justamente o método da proporcionalidade. A correta</p><p>compreensão da proporcionalidade envolve a aplicação dos seus três substratos.</p><p>O primeiro substrato do princípio da proporcionalidade é a adequação, também chamada</p><p>de idoneidade. De acordo com tal subprincípio, a adequação exige que as medidas adotadas</p><p>sejam idôneas a atingir os objetivos pretendidos, pois, se não forem aptas para tanto, hão de</p><p>ser consideradas inconstitucionais. Assim, deve-se verificar se o meio escolhido é capaz de</p><p>fomentar o direito fundamental a se proteger.</p><p>O segundo subprincípio da proporcionalidade consiste na necessidade, ou exigibilidade,</p><p>em que se verifica se o meio adequado é o menos lesivo (mais benigno). Caso exista um meio</p><p>menos lesivo do que aquele proposto, o meio proposto será inconstitucional por se mostrar</p><p>desarrazoado.</p><p>O último substrato da proporcionalidade é a proporcionalidade em sentido estrito. Deve-</p><p>se efetuar a ponderação (ou sopesamento) entre os princípios e verificar se o cumprimento de</p><p>um direito fundamental (ou princípio) justifica o não cumprimento de outro.</p><p>Por fim, resta analisar porque certos doutrinadores refutam a proporcionalidade como</p><p>um princípio. Se a proporcionalidade for colocada como um princípio, então ela poderá ser</p><p>afastada em um caso concreto, quando em colisão com outro princípio, algo inviável. Contudo,</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>60</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>a proporcionalidade não entra em colisão com outro princípio; pelo contrário, ela resolve o</p><p>problema da colisão dos princípios. Para essa doutrina, a proporcionalidade não é um princípio,</p><p>mas, sim, é um postulado ou uma técnica à disposição do intérprete para resolver a colisão de</p><p>princípios.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>61</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DIREITO PROCESSUAL PENAL</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>62</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA</p><p>O Código de Processo Penal brasileiro trabalha com diferentes standards probatórios a</p><p>depender da medida cautelar que se busca fazer uso. No atual cenário jurisprudencial,</p><p>destacam-se as fundadas suspeitas e as fundadas razões, em especial no âmbito da atuação</p><p>policial, seja das polícias judiciárias, seja das polícias militares.</p><p>No que diz respeito ao tema das medidas cautelares e à luz da jurisprudência dos Tribunais</p><p>Superiores, identifique as medidas cautelares que possuem por pressuposto a comprovação das</p><p>fundadas suspeitas e das fundadas razões. Ademais, conceitue cada um desses standards</p><p>probatórios, indicando os seus principais limites jurisprudenciais. [valor: 20,0 pontos].</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>63</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:</p><p>Fundadas suspeitas: (10,0 pontos)</p><p>• Indicação da medida cautelar</p><p>• Conceito</p><p>• Limitação jurisprudencial</p><p>Fundadas razões: (10,0 pontos)</p><p>• Indicação da medida cautelar</p><p>• Conceito</p><p>• Limitação jurisprudencial</p><p>Português (0,25 por erro até o limite de 5,0 pontos)</p><p>NOTA FINAL</p><p>MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA:</p><p>FUNDADAS RAZÕES: Veja a referência legal:</p><p>Art. 240. A busca será domiciliar ou pessoal.</p><p>§ 1o Proceder-se-á à busca domiciliar, quando fundadas razões a autorizarem, para:</p><p>a) prender criminosos;</p><p>b) apreender coisas achadas ou obtidas por meios criminosos;</p><p>c) apreender instrumentos de falsificação ou de contrafação e objetos falsificados ou</p><p>contrafeitos;</p><p>d) apreender armas e munições, instrumentos utilizados na prática de crime ou</p><p>destinados a fim delituoso;</p><p>e) descobrir objetos necessários à prova de infração ou à defesa do réu;</p><p>f) apreender cartas, abertas ou não, destinadas ao acusado ou em seu poder, quando</p><p>haja suspeita de que o conhecimento do seu conteúdo possa ser útil à elucidação do fato;</p><p>g) apreender pessoas vítimas de crimes;</p><p>h) colher qualquer elemento de convicção.</p><p>O tema é alvo de reiteradas decisões judiciais dos Tribunais Superiores, destacando-se o atual</p><p>embate entre STJ e STF. Em caso recente, o STF cassou decisão do STJ sobre a invasão domiciliar</p><p>sem autorização judicial.</p><p>De acordo com a jurisprudência pacífica do STJ, “o ingresso em moradia alheia depende, para</p><p>sua validade e regularidade, da existência de fundadas razões (justa causa) que sinalizem para</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>64</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>a possibilidade de mitigação do direito fundamental em questão”. A denúncia anônima, por si</p><p>só, não justifica a invasão, nem mesmo se conjugada com o nervosismo do alvo e a</p><p>sua fuga para dentro de casa de ponto de tráfico de drogas, sendo necessária investigação</p><p>prévia para caracterização das fundadas razões.</p><p>Pela primeira vez, um caso similar ao narrado chegou ao STF.</p><p>No caso, uma guarnição da PM fazia ronda quando foi abordada por indivíduo anônimo que</p><p>afirmou ter visto outra pessoa portanto um "tablete que aparentava ser de maconha". Quando</p><p>chegaram ao local apontado, um homem fugiu para dentro de sua residência. Ao invadir o</p><p>local, os PMs encontraram 89kg de maconha, sem qualquer investigação prévia.</p><p>Veja 3 elementos centrais do caso narrado: denúncia anônima, fuga e ausência de</p><p>investigação prévia.</p><p>No STF, ao julgar o caso, o Ministro Alexandre</p><p>de Moraes, contudo, entende que o STJ</p><p>errou, uma vez que “acrescentou requisitos que não existem no dispositivo</p><p>constitucional que regulamenta a violação de domicílio”. Assim, o STJ teria criado</p><p>"uma nova exigência (diligência investigatória prévia) para a plena efetividade dessa</p><p>garantia individual, desrespeitando o decidido por essa Suprema Corte."</p><p>Em conclusão de julgamento, o STF pontuou que “não há qualquer ilegalidade na ação</p><p>dos policiais militares, pois as fundadas razões para a entrada dos policiais no</p><p>domicílio foram devidamente justificadas no curso do processo, em correspondência</p><p>com o entendimento da Corte no RE 603.616/RO, Rel. Min. Gilmar Mendes,</p><p>Tribunal Pleno, DJe de 10/5/2016.</p><p>O STF54, contudo, abriu divergência em relação ao STJ em julgados do final de 2023. Nos</p><p>precedentes, o Ministro Alexandre de Moraes entendeu que o STJ errou, uma vez que</p><p>acrescentou requisitos que não existem no dispositivo constitucional que regulamenta a</p><p>violação de domicílio. Assim, o STJ teria criado "uma nova exigência (diligência</p><p>investigatória prévia) para a plena efetividade dessa garantia individual, desrespeitando o</p><p>decidido por essa Suprema Corte." De forma mais incisiva, para o STF, “não há qualquer</p><p>ilegalidade na ação dos policiais militares, pois as fundadas razões para a entrada dos policiais no</p><p>domicílio foram devidamente justificadas no curso do processo, em correspondência com o</p><p>entendimento do Tema 280 de Repercussão Geral por essa Suprema Corte”.</p><p>54 RE 1447045 AgR, Relator(a): ALEXANDRE DE MORAES, Primeira Turma, julgado em 02-10-2023. RE</p><p>1462592 AGR, Relator(a): ALEXANDRE DE MORAES, Primeira Turma, julgado em 05-12-2023.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>65</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>FUNDADAS SUSPEITAS: A busca e apreensão pessoal, prevista no art. 244 do CPP, está</p><p>limitada pelo direito à intimidade de cada pessoa, prevista no art. 5º, inciso X, da Constituição</p><p>Federal. Em razão dessa limitação constitucionalmente estabelecida, a busca em uma determinada</p><p>pessoa deve ser devidamente fundamentada por circunstâncias fáticas relacionadas a alguma</p><p>infração criminal, cabendo ao policial agir de ofício, sem a necessidade de prévia autorização</p><p>judicial.55 A cláusula constitucional de proteção à intimidade não constitui hipótese de reserva de</p><p>Jurisdição, devendo o policial agir ex oficio sempre que houver fundada suspeita de</p><p>envolvimento de um cidadão em infração penal. Nesse sentido, tem-se a posição do STJ:56</p><p>2. Inexistem direitos absolutos e ilimitados e, para que aparentes contradições entre</p><p>princípios de igual matiz sejam solvidas – aplicando-se a norma constitucional de forma</p><p>segura e coerente -, utiliza-se o princípio também constitucional da proporcionalidade. (...)</p><p>4. Em razão do alto grau de afetação de direitos e por ser vexatória e invasiva, a medida de</p><p>busca pessoal é excepcional, devendo a autoridade policial agir com extrema cautela,</p><p>evitando-se atos abusivos, somente levando-a a cabo quando houver fundada suspeita de</p><p>que o indivíduo esteja na posse de arma proibida, com objetos que constituam corpo de</p><p>delito, com instrumento de crimes, entre outros.</p><p>Sobre o tema, os Tribunais Superiores equiparam a busca veicular (feito no veículo de pessoa</p><p>suspeita) à busca pessoal. Por isso, em regra, a busca veicular não necessita de autorização judicial</p><p>e pode ser feita com fundamento nos arts. 240, §2º, e 244, ambos do Código de Processo Penal,</p><p>de modo que mostra necessário comprovar a “fundada suspeita”. Vale pontuar que a ausência da</p><p>fundada suspeita torna as provas ilegais57. Existe, contudo, uma situação em que a busca veicular</p><p>necessita de prévia autorização judicial: quando o carro for utilizado como residência da</p><p>pessoa, hipótese em que o mandado de busca e apreensão será obrigatório, tal como a pessoa</p><p>que usa a boleia do caminhão como residência58.</p><p>Aqui vale um questionamento central: em que consiste essa “fundada suspeita”?</p><p>Esse tema foi tratado pelo STJ59 em precedente paradigmático sobre o tema no ano de 2022.</p><p>Exige-se, em termos de standard probatório para busca pessoal ou veicular sem mandado</p><p>judicial, a existência de fundada suspeita (justa causa), “baseada em um juízo de</p><p>probabilidade, descrita com a maior precisão possível, aferida de modo objetivo e</p><p>devidamente justificada pelos indícios e circunstâncias do caso concreto de que o indivíduo</p><p>esteja na posse de drogas, armas ou de outros objetos ou papéis que constituam corpo de</p><p>delito, evidenciando-se a urgência de se executar a diligência”. 60</p><p>55. LIMA, 2011, p. 1032; OLIVEIRA, 2010, p. 452.</p><p>56. HC 257.002/SP, Rel. Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, QUINTA TURMA, julgado em 17/12/2013, DJe</p><p>19/12/2013.</p><p>57. HC 672.063/SP, julgado em 05/10/2021. HC 673.489/SP, julgado em 14/10/2021.</p><p>58. HC 21.6437/DF, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 20/09/2012.</p><p>59. RHC n. 158.580/BA, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 19/4/2022, DJe de</p><p>25/4/2022.</p><p>60. RHC n. 158.580/BA, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 19/4/2022, DJe de</p><p>25/4/2022.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>66</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Atente-se que, a normativa constante do art. 244 do CPP não se limita a exigir que a suspeita</p><p>seja fundada. É preciso, também, que esteja relacionada à posse de arma proibida ou de</p><p>objetos ou papéis que constituam corpo de delito. Vale dizer, há uma necessária referibilidade</p><p>da medida, vinculada à sua finalidade legal probatória, a fim de que não se converta em salvo-</p><p>conduto para abordagens e revistas exploratórias (fishing expeditions), baseadas em suspeição</p><p>genérica existente sobre indivíduos, atitudes ou situações, sem relação específica com a posse de</p><p>arma proibida ou objeto (droga, por exemplo) que constitua corpo de delito de uma infração penal.</p><p>O art. 244 do CPP não autoriza buscas pessoais praticadas como rotina ou praxe do</p><p>policiamento ostensivo, com finalidade preventiva e motivação exploratória, mas apenas</p><p>buscas pessoais com finalidade probatória e motivação correlata.</p><p>Nas palavras do STJ61, “não satisfazem a exigência legal, por si sós, meras informações de</p><p>fonte não identificada (e.g. denúncias anônimas) ou intuições e impressões subjetivas,</p><p>intangíveis e não demonstráveis de maneira clara e concreta, apoiadas, por exemplo,</p><p>exclusivamente, no tirocínio policial. Ante a ausência de descrição concreta e precisa, pautada</p><p>em elementos objetivos, a classificação subjetiva de determinada atitude ou aparência como</p><p>suspeita, ou de certa reação ou expressão corporal como nervosa, não preenche o standard</p><p>probatório de fundada suspeita exigido pelo art. 244 do CPP”.</p><p>É por isso que, o fato de haverem sido encontrados objetos ilícitos após a revista não convalida a</p><p>ilegalidade prévia, pois é necessário que o elemento fundada suspeita de posse de corpo de delito seja</p><p>aferido com base no que se tinha antes da diligência. A violação dessas regras e condições legais para</p><p>busca pessoal resulta na ilicitude das provas obtidas em decorrência da medida. Em resumo, o que poderá</p><p>justificar a busca pessoal?</p><p>• NÃO PODE: passagem anterior por tráfico de drogas, denúncia anônima62,...</p><p>• NÃO PODE: Uso do “sexto sentido policial” (termo usado pelo STJ) ou do tirocínio</p><p>policial63;</p><p>• NÃO PODE: suspeição genérica existente sobre indivíduos (ex: indivíduo em local</p><p>conhecido por tráfico)64, atitudes (ex: nervosismo)65, situações ou cor da pele66;</p><p>• NÃO PODE: uso do direito ao silêncio pelo alvo;</p><p>• PODE JUSTIFICAR: pessoa abordada faz uso de respostas vagas e imprecisas para</p><p>responder perguntas simples67.</p><p>• PODE JUSTIFICAR: pessoa esteja atuando de modo suspeito ou furtivo (ex: tentativa de</p><p>fuga a pé após ordem policial), sem presença de elementos preconceituosos (AgRg no</p><p>HC 790805, 8/2023)</p><p>• PODE JUSTIFICAR: policial dá ordem de parada ao carro, mas a pessoa empreende</p><p>fuga (AgRg no HC 822922, 8/2023)</p><p>Esse precedente do STJ, que exige “elementos sólidos, objetivos e concretos para a</p><p>realização de busca pessoal”, tem por base 3 fundamentos:</p><p>61. RHC n. 158.580/BA, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 19/4/2022, DJe de</p><p>25/4/2022.</p><p>62 RHC 158580.</p><p>63 HC 737075;</p><p>64 AgRg no RHC 174818.</p><p>65 Resp 1961459.</p><p>66 HC 660930.</p><p>67 AgRg no HC n. 789.491/PR, julgado em 24/4/2023.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>67</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>a) evitar o uso excessivo desse expediente e, por consequência, a restrição</p><p>desnecessária e abusiva dos direitos fundamentais à intimidade, à privacidade e à</p><p>liberdade (art. 5º, caput, e X, da Constituição Federal), porquanto, além de se tratar</p><p>de conduta invasiva e constrangedora mesmo se realizada com urbanidade, o que</p><p>infelizmente nem sempre ocorre, também implica a detenção do indivíduo, ainda</p><p>que por breves instantes;</p><p>b) garantir a sindicabilidade da abordagem, isto é, permitir que tanto possa ser</p><p>contrastada e questionada pelas partes, quanto ter sua validade controlada a</p><p>posteriori por um terceiro imparcial (Poder Judiciário), o que se inviabiliza quando</p><p>a medida tem por base apenas aspectos subjetivos, intangíveis e não</p><p>demonstráveis;</p><p>c) evitar a repetição ainda que nem sempre consciente de práticas que reproduzem</p><p>preconceitos estruturais arraigados na sociedade, como é o caso do perfilamento</p><p>racial, reflexo direto do racismo estrutural. 68</p><p>Deve-se pontuar que existe uma hipótese na qual a busca pessoal não está</p><p>necessariamente ligada a uma fundada suspeita de envolvimento de um cidadão em infração</p><p>penal. Quando o juiz autoriza a busca e apreensão domiciliar, todas as pessoas que estão no</p><p>interior da residência no momento do cumprimento da diligência poderão, a critério da</p><p>Autoridade Policial, ser revistadas. Em outras palavras, como coloca Eugenio Pacelli de</p><p>Oliveira,69 se a medida mais grave que é a violação do domicílio já possui um mandado judicial,</p><p>seria incoerente não poder o exequente dessa medida revistar todas as pessoas encontradas no</p><p>local, em especial porque as provas buscadas poderiam estar escondidas nos bolsos dessas</p><p>pessoas.</p><p>Ainda sobre o tema, deve-se diferenciar a “busca pessoal” da “abordagem policial”,</p><p>procedimentos distintos à luz da prática policial e com igual tratamento diferenciado no âmbito</p><p>do STJ. Em síntese, a abordagem policial se apresenta como uma primeira etapa que pode, a</p><p>depender do caso concreto, ter como etapa seguinte a busca pessoal.</p><p>A abordagem policial (também chamada de abordagem preventiva ou administrativa ou de</p><p>segurança, consoante indica parte da doutrina70) se apresenta como relevante instrumento</p><p>operacional de trabalho, fundamentada no poder de polícia e utilizada por qualquer órgão do art.</p><p>144 da Constituição Federal (ou mesmo instituições com poder de polícia, como a Polícia</p><p>Legislativa, Polícia Judicial e a Guarda Municipal), que tem por finalidade fiscalizar pessoas ou</p><p>coisas, garantindo a segurança pública e prevenindo a ocorrência de crimes. Não se exige como</p><p>standard probatório a “fundada suspeita”, tal como estudado acima para a busca pessoal ou</p><p>68. RHC n. 158.580/BA, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 19/4/2022, DJe de</p><p>25/4/2022.</p><p>69. OLIVEIRA, 2010, p. 452.</p><p>70. LESSA, 2022.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>68</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>veicular, bastando, para a abordagem policial, nas palavras do STJ71, a “atitude suspeita”. É</p><p>essa a linha trabalhada por Marcelo de Lima Lessa72, como se observa abaixo:</p><p>A abordagem preventiva (e falemos preliminarmente da abordagem, para depois</p><p>enfrentarmos a busca), é uma interpelação excepcional decorrente do poder de polícia e do</p><p>poder-dever de vigilância do Estado, e que objetiva, com razoabilidade e prévia suspeita</p><p>perceptiva objetiva (note-se, e não mera suposição para fins de invasão sumária de</p><p>privacidade), preservar a ordem pública, prevenir delitos e atos antissociais ou atender as</p><p>conveniências e necessidades coletivas. Diz-se também que tem ela natureza protetiva (ou</p><p>de segurança) por exigir a suspeita razoável (e não mera suspeita) de que o indivíduo</p><p>representa algum tipo de perigo atual ou iminente para o policial ou para o público em geral,</p><p>exigindo-se, assim, uma ação ativa (e jamais omissiva) dos órgãos de defesa social.</p><p>Em regra, ela é executada sem finalidade processual (não visa primordialmente obter prova</p><p>ou elementos informativos, ou seja, não se tem, ainda, uma evidência da posse de armas</p><p>proibidas, objetos ou documentos que constituam corpo de delito) e tem por objetivo principal</p><p>manter a segurança e a ordem pública, tratando-se de ação legitimada na Lei Federal n°</p><p>5.172/66 (que define o poder de polícia) e em outras normas legais e administrativas.</p><p>O autor73 cita alguns casos típicos de aplicação da abordagem policial:</p><p>• pessoa caminhando em local de baixa rotatividade, carregando caixas ou objetos</p><p>durante a noite ou madrugada (pode ser um furtador);</p><p>• pessoas surpreendidas em atitudes incivilizadas ou antissociais;</p><p>• execução de manobras veiculares arriscadas;</p><p>• ausência de emplacamento veicular;</p><p>• vidros do veículo quebrados;</p><p>• ocupante de veículo proferindo ofensas a pedestres;</p><p>• abuso imoderado de buzina;</p><p>• farol apagado a noite; e</p><p>• sinal de farol dado de forma intercalada e insistente.</p><p>Em um caso julgado pelo STJ,74 a polícia militar conferiu comando de parada a um homem</p><p>que estava em seu veículo, conduzindo-o em “zigue-zague” em área conhecida por casos</p><p>corriqueiros de roubos de veículos. Após a parada, o cidadão foi abordado pela polícia, o qual</p><p>apresentou todas as documentações do veículo. Essa abordagem policial foi correta em razão da</p><p>“atitude suspeita” do condutor, contudo, de acordo com o Tribunal, não existiam elementos que</p><p>justificassem a sequência da ação por meio da busca pessoal e veicular, uma vez que, além do</p><p>“zigue-zague”, não se tinha qualquer outra informação investigativa sobre o cidadão. Após a</p><p>apresentação das documentações, os policiais procederam a busca pessoal e veicular, logrando</p><p>êxito no encontro de drogas, mas que foram declaradas ilegais pela completa ausência da “fundada</p><p>suspeita” (não existiam elementos sólidos, objetivos e concretos de que o cidadão estava na posse</p><p>de entorpecentes para a realização de busca pessoal).</p><p>71. AgRg no HC n. 788.316/RS, relator Ministro Reynaldo</p><p>Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 7/2/2023.</p><p>72. LESSA, 2022.</p><p>73. LESSA, 2022.</p><p>74. AgRg no HC n. 788.316/RS, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 7/2/2023.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>69</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>A abordagem policial pode, em muitos cenários, restar evidente. Contudo, isso não implica</p><p>na possibilidade de se proceder, sequencialmente, a busca pessoal em razão dos requisitos</p><p>distintos a serem necessários para cada medida. No caso julgado pelo STJ, por exemplo, se a</p><p>documentação apresentada pelo cidadão estivesse adulterada ou se os documentos fossem</p><p>falsificados, aí sim a “fundada suspeita” existiria para fins de se proceder legalmente a busca</p><p>pessoal.</p><p>SUGESTÃO DE RESPOSTA:</p><p>De acordo com a legislação vigente e o Superior Tribunal de Justiça, as fundadas razões</p><p>se apresentam como requisito para o ingresso em residência alheia sem autorização judicial</p><p>prévia. Em tal cenário, mostra-se necessária a comprovação da justa causa que sinalize para a</p><p>possibilidade de mitigação do direito constitucional da proteção do domicílio”.</p><p>Assim, ainda de acordo com o Tribunal, a denúncia anônima, por si só, não justifica a</p><p>invasão, nem mesmo se conjugada com o nervosismo do alvo e a sua fuga para dentro de</p><p>casa de ponto de tráfico de drogas, sendo necessária investigação prévia para caracterização</p><p>das fundadas razões. Por outro lado, em decisões recentes, o STF entende que o STJ errou, uma</p><p>vez que acrescentou requisitos que não existem no dispositivo constitucional que regulamenta</p><p>a violação de domicílio, tal como a exigência da investigação prévia.</p><p>Em relação às fundadas suspeitas, essa é exigida para fins busca pessoal ou veicular sem</p><p>mandado judicial. Trata-se de uma justa causa baseada em um juízo de probabilidade, descrita</p><p>com a maior precisão possível, aferida de modo objetivo e devidamente justificada pelos indícios</p><p>e circunstâncias do caso concreto de que o indivíduo esteja na posse de drogas, armas ou de</p><p>outros objetos ou papéis que constituam corpo de delito, evidenciando-se a urgência de se</p><p>executar a diligência.</p><p>Por fim, o fato de haverem sido encontrados objetos ilícitos após a revista não convalida</p><p>a ilegalidade prévia, pois é necessário que o elemento fundada suspeita de posse de corpo de</p><p>delito seja aferido com base no que se tinha antes da diligência. Para fins de standard</p><p>probatório, não se admite a denúncia anônima, o uso do tirocínio policial, suspeição genérica</p><p>sobre indivíduos, o nervosismo do alvo, entre outros.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>70</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA</p><p>Um instrumento de investigação muito usado na rotina policial consiste no reconhecimento de</p><p>pessoas, tema que passou por profunda alteração jurisprudencial nos últimos. Em um desses</p><p>casos analisados pelo STJ, o cidadão X, que não era sequer suspeito do crime, foi à delegacia</p><p>apenas para acompanhar seu pai, que fora preso por roubo e respondia ao IP. Para realizar o</p><p>procedimento de reconhecimento pessoal do genitor, o cidadão X concordou, junto com seu</p><p>irmão, em figurar como filler para fins do art. 226 do CPP. O alinhamento, que era destinado</p><p>apenas ao reconhecimento do investigado, acabou resultando também no reconhecimento</p><p>desse cidadão. Os dois foram reconhecidos e, ao final do processo, foram condenados.</p><p>No que diz respeito ao tema do reconhecimento de pessoas, analise se a condenação é possível</p><p>no caso narrado. Ao responder a questão, conceitue a figura do filler. Após, indique se o filler</p><p>pode ser filho do investigado. Aborde, ainda, se a ilicitude do reconhecimento de pessoas</p><p>importa na invalidade da sentença condenatória. Por fim, o reconhecimento de pessoas pode</p><p>ser feito por meio de videoconferência? [valor: 20,0 pontos].</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>71</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:</p><p>Condenação pode ocorrer? DEPENDE – trabalhar 2 cenários (6,0</p><p>pontos)</p><p>Conceito de filler (3,0 pontos)</p><p>Filler pode ser filho do investigado (3,0 pontos)</p><p>Ilicitude do reconhecimento x invalidade da sentença condenatória</p><p>(4,0 pontos)</p><p>Pode ser feito por vídeo conferência? (4,0 pontos)</p><p>Português (0,25 por erro até o limite de 5,0 pontos)</p><p>NOTA FINAL</p><p>MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA:</p><p>• Proceder a reconhecimento de pessoas e coisas e a acareações (inciso VI): A acareação</p><p>(art. 229 do CPP) é um instrumento para esclarecer contradições entre os diversos</p><p>depoimentos prestados ao longo do inquérito policial. O reconhecimento de coisas</p><p>(art. 226 e seguintes do CPP) permite a identificação, por exemplo, da arma do crime.</p><p>Por fim, o reconhecimento de pessoas pode se dar por duas formas: o reconhecimento</p><p>fotográfico (aceito pela jurisprudência com aplicação, no que for possível, do</p><p>disposto no art. 226 e seguintes do CPP – “o reconhecimento fotográfico serve como</p><p>prova apenas inicial e deve ser ratificado por reconhecimento presencial, assim que</p><p>possível”75) e o reconhecimento pessoal (regulado pelo art. 226 e seguintes do CPP).</p><p>Observe que “o reconhecimento de pessoa, presencialmente ou por fotografia,</p><p>realizado na fase do inquérito policial, apenas é apto para identificar o réu e fixar a</p><p>autoria delitiva quando (a) observadas as formalidades previstas no art. 226 do Código</p><p>de Processo Penal e (b) quando corroborado por outras provas colhidas na fase judicial,</p><p>sob o crivo do contraditório e da ampla defesa”76. De forma mais incisiva, os requisitos</p><p>são cumulativos, ou seja, o reconhecimento de pessoa durante a investigação em</p><p>desconformidade com o art. 226 do CPP, mesmo que confirmado no curso da ação</p><p>penal, não retira a sua nulidade, mantendo-se inservível como prova na ação penal</p><p>(a confirmação em Juízo não consiste em elemento probatório independente, pois</p><p>decorre e é diretamente afetada pelo primeiro reconhecimento contaminado).77</p><p>Deve-se pontuar que a invalidade do reconhecimento pessoal não acarretará</p><p>automaticamente a invalidade de eventual sentença condenatória, desde que a</p><p>75. AgRg no HC 664.916/SP, Rel. Ministro JOEL ILAN PACIORNIK, QUINTA TURMA, julgado em 22/06/2021.</p><p>HC 648.232/SP, Rel. Ministro OLINDO MENEZES (DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TRF 1ª</p><p>REGIÃO), SEXTA TURMA, julgado em 18/5/2021.</p><p>76. HC 591.920/RJ, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, QUINTA TURMA, julgado em 22/06/2021. HC 652.284/SC,</p><p>Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 27/4/2021.</p><p>77. HC 591.920/RJ, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, QUINTA TURMA, julgado em 22/06/2021. AgRg no REsp</p><p>n. 1.969.149/RS, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, julgado em 28/11/2022.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas</p><p>Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>72</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>autoria delitiva tenha se fundamentado em outros elementos de prova, como a prova</p><p>pericial, documental e testemunhal produzida durante a instrução criminal78. Por</p><p>fim, o reconhecimento de pessoas pode ser feito por vídeo conferência quando o</p><p>investigado estiver preso, na linha da jurisprudência dos Tribunais Superiores que</p><p>amplia o uso de recursos tecnológicos para o processo penal e para a investigação</p><p>criminal.</p><p>Ponto novo sobre o tema:</p><p>POLÍCIA PODE USAR FILHO DO INVESTIGADO COMO FILLER NO RECONHECIMENTO DE</p><p>PESSOAS?</p><p>ENTENDA O CASO JULGADO: Um cidadão que não era sequer suspeito do crime, foi à</p><p>delegacia apenas para acompanhar seu pai (esse fora preso por roubo e respondia</p><p>ao IP). Para realizar o procedimento de reconhecimento pessoal do genitor, o</p><p>acusado concordou, junto com seu irmão, em figurar como dublê (filler) para</p><p>preencher o alinhamento exigido pelo art. 226 do CPP. O alinhamento, que era</p><p>destinado apenas ao reconhecimento do investigado (pai), acabou resultando</p><p>também no reconhecimento desse cidadão. Os dois foram reconhecidos.</p><p>Mas o que é um filler?</p><p>Um filler, por definição, é uma "pessoa livre de qualquer suspeita de ter cometido o crime</p><p>investigado, que é apresentada em conjunto com o suspeito em um alinhamento". Ou seja, tal</p><p>cidadão não participa na condição de suspeito a ser reconhecido, mas, tão somente, de</p><p>"figurante".</p><p>Mas, o filler pode ser um familiar? Se sim, tal prova é válida?</p><p>O FILLER (“dublê”) pode ser um parente, pois o art. 226 do CPP não impõe limitações nesse</p><p>sentido. Contudo, isso não implica em afirmar que tal cidadão poderá ser condenado ao final</p><p>do processo penal. Nesse ponto, o STJ (HC 663.710-SP, 20/6/2023,) fez clara distinção:</p><p>• AUSÊNCIA DE OUTRO ELEMENTOS: Mesmo se realizado em conformidade com o</p><p>modelo legal (art. 226 do CPP), o reconhecimento pessoal, embora seja válido, não tem</p><p>força probante absoluta, de sorte que não pode induzir, por si só, à certeza da autoria</p><p>delitiva, em razão de sua fragilidade epistêmica.</p><p>78. AgRg nos EDcl no HC n. 786.011/RJ, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em</p><p>13/12/2022.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>73</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>• PRESENÇA DE OUTROS ELEMENTOS: Para o “dublê” ser considerado culpado, devem</p><p>existir outros elementos de prova que corroborem a conclusão do reconhecimento,</p><p>não sendo esse, por si só, suficiente para garantir a condenação. A condenação de</p><p>alguém, em um processo penal, não pode ser decorrente de uma convicção apoiada em</p><p>prova de fragilidade epistêmica, pois geraria uma inversão do ônus da prova contra o</p><p>investigado (a prova cabe à acusação).</p><p>SUGESTÃO DE RESPOSTA:</p><p>No caso narrado, o elemento central passa pela figura do filler, o qual pode ser</p><p>conceituado como pessoa livre de qualquer suspeita de ter cometido o crime investigado, que</p><p>é apresentada em conjunto com o suspeito em um alinhamento. Trata-se de um mero figurante,</p><p>função essa que pode ser exercida também pelo filho do investigado.</p><p>O tema guarda relação com o procedimento do reconhecimento de pessoas, cuja</p><p>utilidade enquanto prova envolve a necessária observância das formalidades previstas no art.</p><p>226 do Código de Processo Penal, bem como deve ser corroborada por outras provas colhidas na</p><p>fase judicial, sob o crivo do contraditório e da ampla defesa.</p><p>No entanto, deve-se pontuar que a invalidade do reconhecimento pessoal não acarretará</p><p>automaticamente a invalidade de eventual sentença condenatória, desde que a autoria delitiva</p><p>tenha se fundamentado em outros elementos de prova.</p><p>Ainda em relação ao caso narrado e à luz do que foi exposto, para o figurante ser</p><p>considerado culpado, devem existir outros elementos de prova que corroborem a conclusão do</p><p>reconhecimento, não sendo esse, por si só, suficiente para garantir a condenação.</p><p>Por fim, o reconhecimento de pessoas pode ser feito por vídeo conferência quando o investigado</p><p>estiver preso, na linha da jurisprudência dos Tribunais Superiores que amplia o uso de recursos</p><p>tecnológicos para o processo penal e para a investigação criminal.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>74</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA</p><p>A regulamentação no Código de Processo Penal da cadeia de custódia inaugurou um novo marco</p><p>legal, em muito direcionado às provas físicas. A cadeia de custódia das provas digitais, por</p><p>ausência de regulamentação legal, foi alvo de intensa jurisprudência dos Tribunais Superiores.</p><p>Sobre o tema, conceitue a cadeia de custódia [valor: 4,0 pontos]. Após, identifique os cuidados</p><p>que a polícia deve ter com a prova digital armazenada em um celular, bem como aborde a</p><p>nulidade caso o procedimento não seja observado [valor: 10,0 pontos]. Por fim, como se dá a</p><p>cadeia de custódia do "print screen” de conversas em aplicativos como Whatsapp [valor: 6,0</p><p>pontos].</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>75</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:</p><p>Conceito de cadeia de custódia (4,0 pontos)</p><p>Cuidados que a polícia de ter (6,0 pontos)</p><p>Nulidade (4,0 pontos)</p><p>Cadeia de custódia do “print screen” (6,0 pontos)</p><p>Português (0,25 por erro até o limite de 5,0 pontos)</p><p>NOTA FINAL</p><p>OBS para TODOS: A questão não envolve o ACESSO ao celular pela polícia, mas os CUIDADOS</p><p>que a polícia deve ter com A PROVA DIGITAL ARMAZENADA NO CELULAR. São temas com</p><p>tratamentos diferenciados no STJ. Cuidado!</p><p>MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA:</p><p>CADEIA DE CUSTÓDIA</p><p>1. Conceito</p><p>Nos termos previstos no art. 6º do CPP, logo que tiver conhecimento da prática da infração</p><p>penal, a autoridade policial deverá (inciso VII) determinar, se for caso, que se proceda a exame</p><p>de corpo de delito e a quaisquer outras perícias.</p><p>O exame de corpo de delito é considerado um dos principais instrumentos para a</p><p>comprovação da materialidade do delito ou de alguma das qualificadoras do crime, sendo</p><p>obrigatório quando a infração deixar vestígios, não podendo supri-lo a confissão do acusado</p><p>(art. 158 do CPP). Nesse contexto se apresenta a cadeia de custódia, a qual tem por finalidade</p><p>garantir a legitimidade do vestígio e a legalidade da prova pericial.</p><p>Nos termos do art. 158-A do Código de Processual Penal, considera-se cadeia de custódia o</p><p>conjunto de todos os procedimentos utilizados para manter e documentar a história cronológica</p><p>do vestígio co5etado em locais ou em vítimas de crimes, para rastrear sua posse</p><p>e manuseio a</p><p>partir de seu reconhecimento até o descarte.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>76</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Nessa linha, como bem coloca Geraldo Prado,79 a cadeia de custódia se apresenta como</p><p>relevante instrumento para “assegurar a integridade dos elementos probatórios”, de modo a</p><p>garantir a “rastreabilidade probatória”80 do vestígio.</p><p>Observe que, até 2019, o tema possuía uma lacuna no direito brasileiro, sem tratamento legal</p><p>específico, cenário que foi alterado em razão da inserção do art. 158-A e seguintes ao Código de</p><p>Processo Penal pela Lei nº 13.964/19. Esse marco legislativo possui relevância, pois, de acordo</p><p>com o STJ,81 “não é possível se falar em quebra da cadeia de custódia, por inobservância de</p><p>dispositivos legais que não existiam à época”.</p><p>2. Procedimento da cadeia de custódia</p><p>Nos termos do art. 158-A, § 1º, do CPP, o início da cadeia de custódia dá-se com a</p><p>preservação do local de crime ou com procedimentos policiais ou periciais nos quais seja</p><p>detectada a existência de vestígio. E o primeiro agente público que reconhecer um elemento</p><p>como de potencial interesse para a produção da prova pericial fica responsável por sua</p><p>preservação, devendo assegurar a integridade do local em que ele for localizado e informar o</p><p>respectivo órgão para dar continuidade ao procedimento da cadeia de custódia.</p><p>Uma vez identificado o vestígio de interesse criminal, fica proibida a entrada em locais</p><p>isolados bem como a remoção de quaisquer vestígios de locais de crime antes da liberação por</p><p>parte do perito responsável, sendo tipificada como fraude processual a sua realização.</p><p>O art. 158-B do CPP regulamentou em detalhes a cadeia de rastreabilidade do vestígio, a qual</p><p>é composta pelas seguintes etapas:</p><p>I – reconhecimento: ato de distinguir um elemento como de potencial interesse para a</p><p>produção da prova pericial;</p><p>II – isolamento: ato de evitar que se altere o estado das coisas, devendo isolar e preservar o</p><p>ambiente imediato, mediato e relacionado aos vestígios e local de crime;</p><p>III – fixação: descrição detalhada do vestígio conforme se encontra no local de crime ou no</p><p>corpo de delito, e a sua posição na área de exames, podendo ser ilustrada por fotografias,</p><p>filmagens ou croqui, sendo indispensável a sua descrição no laudo pericial produzido pelo</p><p>perito responsável pelo atendimento;</p><p>IV – coleta: ato de recolher o vestígio que será submetido à análise pericial, respeitando suas</p><p>características e natureza;</p><p>V – acondicionamento: procedimento por meio do qual cada vestígio coletado é embalado</p><p>de forma individualizada, de acordo com suas características físicas, químicas e biológicas,</p><p>para posterior análise, com anotação da data, hora e nome de quem realizou a coleta e o</p><p>acondicionamento;</p><p>VI – transporte: ato de transferir o vestígio de um local para o outro, utilizando as condições</p><p>adequadas (embalagens, veículos, temperatura, entre outras), de modo a garantir a</p><p>manutenção de suas características originais, bem como o controle de sua posse;</p><p>VII – recebimento: ato formal de transferência da posse do vestígio, que deve ser</p><p>documentado com, no mínimo, informações referentes ao número de procedimento e</p><p>unidade de polícia judiciária relacionada, local de origem, nome de quem transportou o</p><p>79. PRADO, Geraldo. Prova Penal e Sistema de Controles Epistêmicos: a quebra da cadeia de custódia das provas</p><p>obtidas por meios ocultos. São Paulo: Marcial Pons, 2014, p. 80.</p><p>80. EDINGER, Carlos. Cadeia De Custódia, Rastreabilidade Probatória. Revista Brasileira de Ciências Criminais, v.</p><p>120, p. 237-257, mai.-jun./2016.</p><p>81. RHC 141.981/RR, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em</p><p>23/03/2021.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>77</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>vestígio, código de rastreamento, natureza do exame, tipo do vestígio, protocolo, assinatura</p><p>e identificação de quem o recebeu;</p><p>VIII – processamento: exame pericial em si, manipulação do vestígio de acordo com a</p><p>metodologia adequada às suas características biológicas, físicas e químicas, a fim de se obter</p><p>o resultado desejado, que deverá ser formalizado em laudo produzido por perito;</p><p>IX – armazenamento: procedimento referente à guarda, em condições adequadas, do</p><p>material a ser processado, guardado para realização de contraperícia, descartado ou</p><p>transportado, com vinculação ao número do laudo correspondente;</p><p>X – descarte: procedimento referente à liberação do vestígio, respeitando a legislação</p><p>vigente e, quando pertinente, mediante autorização judicial.</p><p>A inobservância deste caminho acarreta quebra da cadeia de custódia e a potencial ilicitude</p><p>da prova. Mas o não cumprimento dos dispositivos legais é capaz de acarretar automaticamente</p><p>a inadmissibilidade da respectiva prova?</p><p>De acordo com o STJ,82 “a violação da cadeia de custódia traçada pelo Código de Processo</p><p>Penal deve ser sopesada pelo magistrado sentenciante com os demais elementos produzidos</p><p>na investigação para aferir se, ao fim e ao cabo, a prova deve ser considerada confiável”. Trata-</p><p>se, portanto, de uma nulidade relativa. No julgado, o ministro Rogerio Schietti afastou a tese de</p><p>que a quebra da cadeia de custódia da prova gere, de forma automática e irremediável, a</p><p>inadmissibilidade ou nulidade da prova, tal como defende parte da doutrina. Essa interpretação</p><p>precisou ser feita pelo STJ porque o CPP, apesar de ser exaustivo na forma como as provas devem</p><p>ser custodiadas e periciadas (artigos 158-A a 158-F), não dispôs sobre as consequências jurídicas</p><p>da quebra dessa cadeia ou do descumprimento de um desses dispositivos legais.</p><p>3. Perícia e cadeia de custódia</p><p>De acordo com o art. 158-C do CPP, a coleta dos vestígios deverá ser realizada</p><p>preferencialmente por perito oficial, que dará o encaminhamento necessário para a central de</p><p>custódia, mesmo quando for necessária a realização de exames complementares.</p><p>No que diz respeito à atividade do perito, tal como previsto no art. 158-D do CPP, o recipiente</p><p>para acondicionamento do vestígio será determinado pela natureza do material, além da</p><p>necessidade de seguir as diretrizes abaixo:</p><p>§ 1º Todos os recipientes deverão ser selados com lacres, com numeração individualizada,</p><p>de forma a garantir a inviolabilidade e a idoneidade do vestígio durante o transporte.</p><p>§ 2º O recipiente deverá individualizar o vestígio, preservar suas características, impedir</p><p>contaminação e vazamento, ter grau de resistência adequado e espaço para registro de</p><p>informações sobre seu conteúdo.</p><p>§ 3º O recipiente só poderá ser aberto pelo perito que vai proceder à análise e,</p><p>motivadamente, por pessoa autorizada.</p><p>§ 4º Após cada rompimento de lacre, deve se fazer constar na ficha de acompanhamento de</p><p>vestígio o nome e a matrícula do responsável, a data, o local, a finalidade, bem como as</p><p>informações referentes ao novo lacre utilizado.</p><p>§ 5º O lacre rompido deverá ser acondicionado no interior do novo recipiente.</p><p>4. Cadeia de Custódia e a Prova Digital</p><p>O STJ reconhece a volatilidade intrínseca dos dados armazenados digitalmente, mas</p><p>reconhece, igualmente, a existência de técnicas e procedimentos a serem adotados para</p><p>82. HC 653.515, Rel. Ministro Rogerio Schietti, julgado</p><p>em 26/11/2021.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>78</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>verificar se alguma informação foi alterada, suprimida ou adicionada após a coleta inicial das</p><p>fontes de prova pela polícia.</p><p>De acordo com o STJ,83 o policial responsável deverá utilizar técnicas específicas para</p><p>manuseio desses dados e exemplifica com o seguinte procedimento:</p><p>• copiar integralmente (bit a bit) o conteúdo do dispositivo, gerando uma imagem dos</p><p>dados: um arquivo que espelha e representa fielmente o conteúdo original;</p><p>• aplicar uma técnica de algoritmo hash, em que é possível obter uma assinatura</p><p>única para cada arquivo – uma espécie de impressão digital ou DNA, por assim</p><p>dizer, do arquivo. Esse código hash gerado da imagem teria um valor diferente caso</p><p>um único bit de informação fosse alterado em alguma etapa da investigação.</p><p>Mesmo alterações pontuais e mínimas no arquivo resultariam numa hash totalmente</p><p>diferente, pelo que se denomina em tecnologia da informação de efeito avalanche. Desse modo,</p><p>comparando as hashes calculadas nos momentos da coleta e da perícia (ou de sua repetição</p><p>em juízo), é possível detectar se o conteúdo extraído do dispositivo foi alterado, minimamente</p><p>que seja. Não havendo alteração (isto é, permanecendo íntegro o corpo de delito), as hashes serão</p><p>idênticas, o que permite atestar com elevadíssimo grau de confiabilidade que a fonte de prova</p><p>permaneceu intacta.</p><p>Inexistindo algum procedimento de registro e segurança da informação digital (teste de</p><p>confiabilidade), fica caracterizada a quebra da cadeia de custódia da prova digital. O STJ ficou</p><p>a seguinte tese para esse cenário: “São inadmissíveis as provas digitais sem registro documental</p><p>acerca dos procedimentos adotados pela polícia para a preservação da integridade,</p><p>autenticidade e confiabilidade dos elementos informáticos.”</p><p>5 Cadeia de custódia e o "print screen” de conversas em aplicativos (Whatsapp, Telegram e</p><p>outros)</p><p>Em evolução jurisprudencial, o STJ passou a admitir a utilização do print screen de conversas de</p><p>aplicativos sem que tal cenário acarrete a quebra da cadeia de custódia., desde que não haja</p><p>qualquer indício de adulteração da prova ou da ordem cronológica da conversa:</p><p>2. No presente caso, não foi verificada a ocorrência de quebra da cadeia de custódia, pois</p><p>em nenhum momento foi demonstrado qualquer indício de adulteração da prova, ou de</p><p>alteração da ordem cronológica da conversa de WhatsApp obtida através dos prints da tela</p><p>do aparelho celular da vítima.</p><p>3. In casu, o magistrado singular afastou a ocorrência de quaisquer elementos que</p><p>comprovassem a alteração dos prints, entendendo que mantiveram "uma sequência lógica</p><p>temporal", com continuidade da conversa, uma vez que "uma mensagem que aparece na</p><p>parte de baixo de uma tela, aparece também na parte superior da tela seguinte, indicando</p><p>que, portanto, não são trechos desconexos".</p><p>4. O acusado, embora tenha alegado possuir contraprova, quando instado a apresentá-la,</p><p>furtou-se de entregar o seu aparelho celular ou de exibir os prints que alegava terem sido</p><p>83. Inf. 763 STJ, segredo de justiça, 07/02/2023.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>79</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>adulterados, o que só reforça a legitimidade da prova.</p><p>5. "Não se verifica a alegada 'quebra da cadeia de custódia', pois nenhum elemento veio</p><p>aos autos a demonstrar que houve adulteração da prova, alteração na ordem cronológica</p><p>dos diálogos ou mesmo interferência de quem quer que seja, a ponto de invalidar a</p><p>prova".84</p><p>Na mesma linha, o STF85 pontuou que “as declarações ofensivas à honra podem ser provadas por</p><p>qualquer meio, como o whatsapp, sendo desnecessária a vinda aos autos de gravação original ou</p><p>de ata notarial".</p><p>SUGESTÃO DE RESPOSTA:</p><p>Considera-se cadeia de custódia o conjunto de todos os procedimentos utilizados para manter</p><p>e documentar a história cronológica do vestígio coletado em locais ou em vítimas de crimes, para</p><p>rastrear sua posse e manuseio a partir de seu reconhecimento até o descarte. Busca-se, com isso,</p><p>assegurar a integridade dos elementos probatórios, de modo a garantir a rastreabilidade</p><p>probatória do vestígio.</p><p>Em relação à prova digital, a finalidade da cadeia de custódia é a mesma, mas alguns</p><p>procedimentos específicos são necessários de acordo com o STJ. Por um lado, a polícia deve</p><p>copiar integralmente (bit a bit) o conteúdo do dispositivo, gerando uma imagem dos dados, ou</p><p>seja, um arquivo que espelha e representa fielmente o conteúdo original. Por outro lado, deve o</p><p>policial aplicar uma técnica de algoritmo hash, em que é possível obter uma assinatura única para</p><p>cada arquivo.</p><p>Inexistindo algum procedimento de registro e segurança da informação digital (teste de</p><p>confiabilidade), ou mesmo se houver arquivo com hash distinta do original, fica caracterizada</p><p>a quebra da cadeia de custódia da prova digital. De modo mais específico, são inadmissíveis as</p><p>provas digitais sem registro documental acerca dos procedimentos adotados pela polícia para a</p><p>preservação da integridade, autenticidade e confiabilidade dos elementos informáticos.</p><p>Por fim, o STJ passou a admitir a utilização do print screen de conversas de aplicativos sem que</p><p>tal cenário acarrete a quebra da cadeia de custódia., desde que não haja qualquer indício de</p><p>adulteração da prova ou da ordem cronológica da conversa. Trata-se de entendimento já</p><p>seguido pelo STF, sendo desnecessária a vinda aos autos de gravação original ou de ata notarial.</p><p>84 AgRg no HC n. 752.444/SC, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 4/10/2022, DJe</p><p>de 10/10/2022.</p><p>85 AO 2002, 2ª Turma, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 02/02/2016.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>80</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA</p><p>Na redação clássica do art. 28 do CPP, se o órgão do Ministério Público, ao invés de apresentar</p><p>a denúncia, requerer o arquivamento do inquérito policial ou de quaisquer peças de informação,</p><p>o juiz, no caso de considerar improcedentes as razões invocadas, fará remessa do inquérito ou</p><p>peças de informação ao procurador-geral, e este oferecerá a denúncia, designará outro órgão</p><p>do Ministério Público para oferecê-la, ou insistirá no pedido de arquivamento, ao qual só então</p><p>estará o juiz obrigado a atender.</p><p>Sobre o tema, qual a atual sistemática do arquivamento à luz da literalidade do CPP [valor: 4,0</p><p>pontos]. Em julgamento histórico, ocorrido em agosto de 2023, em quatro ADIs, qual foi o</p><p>impacto da decisão do Supremo Tribunal sobre a nova sistemática [valor: 4,0 pontos]? Por fim,</p><p>identifique a natureza jurídica do ato que arquiva o inquérito policial em 3 momentos distintos:</p><p>na redação anterior do art. 28 do CPP, na literalidade da nova redação prevista no art. 28 CPP e</p><p>na nova redação do art. 28 do CPP após decisão do STF [valor: 12,0 pontos].</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>81</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:</p><p>Nova sistemática do CPP (4,0 pontos)</p><p>Impacto da decisão do STF (4,0 pontos)</p><p>Natureza jurídica do ato que arquiva o IP:</p><p>• Redação anterior do art. 28 do CPP (4,0 pontos)</p><p>• Literalidade da nova redação do art. 28 do CPP (4,0 pontos)</p><p>• Nova redação do art. 28 após STF (4,0 pontos)</p><p>Cadeia de custódia do “print screen” (6,0 pontos)</p><p>Português (0,25 por erro até o limite de 5,0 pontos)</p><p>NOTA FINAL</p><p>MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA:</p><p>(NOVA REDAÇÃO) Art. 28. Ordenado o arquivamento do inquérito policial ou de quaisquer</p><p>elementos informativos da mesma natureza, o órgão do Ministério Público comunicará à vítima,</p><p>ao investigado e à autoridade policial e encaminhará os autos para a instância de revisão</p><p>ministerial para fins de homologação, na forma da lei. (Redação dada pela Lei nº 13.964, de</p><p>2019) (Vigência) (Vide ADI 6.298) (Vide ADI 6.300) (Vide ADI 6.305)</p><p>§ 1º Se a vítima, ou seu representante legal, não concordar com o arquivamento do</p><p>inquérito policial, poderá, no prazo de 30 (trinta) dias do recebimento da comunicação, submeter</p><p>a matéria à revisão da instância competente do órgão ministerial, conforme dispuser a respectiva</p><p>lei orgânica. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência)</p><p>§ 2º Nas ações penais relativas a crimes praticados em detrimento da União, Estados e</p><p>Municípios, a revisão do arquivamento do inquérito policial poderá ser provocada pela chefia do</p><p>órgão a quem couber a sua representação judicial.</p><p>Natureza jurídica da deliberação que determina o arquivamento do inquérito</p><p>policial</p><p>Ponto de relevância, relativo ao tema do arquivamento, diz respeito à natureza jurídica da</p><p>deliberação que determina o arquivamento do inquérito policial.</p><p>No que diz respeito à redação originária do art. 28 do CPP, observe que o STF, com base</p><p>na súmula 524, acima citada, qualifica a deliberação judicial como um “despacho”. No mesmo</p><p>sentido, tem-se a redação do art. 67, I, do CPP. Observe que um despacho tem por finalidade</p><p>somente dar impulso e movimentação à marcha processual. Como o arquivamento tem por</p><p>objetivo encerrar o procedimento criminal, produzindo, inclusive, a coisa julgada, esse ato</p><p>teria, na verdade, a natureza de decisão: sentença, decisão judicial administrativa, sentença</p><p>própria, entre outras, a depender da linha doutrinária adotada.</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2019/Lei/L13964.htm#art3</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2019/Lei/L13964.htm#art3</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2019/Lei/L13964.htm#art20</p><p>http://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=5840274</p><p>http://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=5840552</p><p>http://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=5844852</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2019/Lei/L13964.htm#art3</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2019/Lei/L13964.htm#art20</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>82</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Deve-se ressaltar que o debate segue outra linha em razão da nova redação do art. 28 do</p><p>CPP, tal como visto acima, uma vez que o magistrado não é mais competente para o</p><p>arquivamento. O arquivamento é feito pelo Ministério Público, tratando-se, portanto, de ato de</p><p>natureza administrativa, em razão da natureza administrativa da investigação criminal.</p><p>Enquanto ato administrativo, qual a sua classificação?</p><p>No âmbito do direito administrativo, o ato administrativo pode ser classificado em simples,</p><p>composto e complexo.86 O ato simples depende da vontade de uma pessoa para ocorrer, como</p><p>é a maioria dos atos administrativos. O ato composto resulta da prática de dois atos, um</p><p>principal e outro acessório, apresentando-se como um complementar ao outro; nessa</p><p>classificação, existe a vontade de um órgão que se apresenta como principal e o outro órgão se</p><p>submete à decisão do primeiro. O ato complexo tem incidência quando existem duas vontades</p><p>para a prática de determinado ato, sendo que tais vontades se apresentam em igualdade para</p><p>que o ato efetivamente ocorra.</p><p>Trazendo tal questão para a nova redação do art. 28 do CPP, para Coutinho e Morata 87,</p><p>trata-se de ato composto. Diferentemente do ato de indiciamento em hipóteses de foro por</p><p>prerrogativa de função que se apresenta como ato complexo, a decisão de arquivamento é,</p><p>de fato, ato composto, já que a decisão que efetivamente arquiva a investigação é do</p><p>Ministério Público. Por isso, se o Delegado de Polícia sugerir o arquivamento da investigação</p><p>e o Ministério Público discordar, a decisão que prevalece é a do Ministério Público, salvo</p><p>decisão judicial trancando o inquérito policial.</p><p>Observem que a lei nada coloca sobre a necessidade de se submeter essa decisão do</p><p>Ministério Público ao Poder Judiciário, na linha do que é indicado pela doutrina alinhado ao</p><p>sistema acusatório (CF, art. 129, I e CPP, art. 3º-A). Contudo, por maioria, o Plenário do STF</p><p>atribuiu interpretação conforme ao novo caput do art. 28 do CPP, alterado pela Lei nº</p><p>13.964/2019, para assentar que, ao se manifestar pelo arquivamento do inquérito policial ou de</p><p>quaisquer elementos informativos da mesma natureza, o órgão do Ministério Público</p><p>submeterá sua manifestação ao juiz competente, bem como comunicará à vítima, ao</p><p>investigado e à autoridade policial, podendo encaminhar os autos para o Procurador-Geral ou</p><p>para a instância de revisão ministerial, quando houver, para fins de homologação, na forma da</p><p>lei.</p><p>Observe que, após a decisão vinculante do STF88 em sede de controle de</p><p>constitucionalidade, manteve-se o controle judicial no procedimento de arquivamento da</p><p>investigação criminal. Apesar de a nova redação do artigo 28 ser clara, de modo a afastar o</p><p>controle do juiz sobre a promoção de arquivamento, o STF retomou parte da sistemática</p><p>revogada via controle de constitucionalidade. Assim, qual a natureza jurídica após essa decisão?</p><p>86. MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. 42 ed. São Paulo: Malheiros, 2016, p. 196-197.</p><p>87. COUTINHO; MURATA, 2019.</p><p>88 ADI 6928, 24/08/2023.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>83</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Alexandre Morais da Rosa e Aury Lopes Jr,89 em artigo publicado dia 11/10/2023, informam</p><p>ser difícil indicar exatamente a natureza jurídica em razão de os votos ainda não serem públicos,</p><p>mas existem duas possibilidades:</p><p>• retoma-se a natureza jurídica da redação originária do art. 28 do CPP em razão da</p><p>necessidade de submissão do arquivamento ao Poder Judiciário; ou</p><p>• mantem-se a nova natureza jurídica do art. 28 do CPP, uma vez que a decisão final</p><p>sobre arquivamento terá natureza administrativa e ficará a cargo da instância</p><p>revisora do MP.</p><p>Com os votos publicados e posicionamentos doutrinários, verificou-se que o ato de</p><p>arquivamento, previsto no art. 28 do CPP, tem natureza jurídica de ato administrativo, com</p><p>todas as repercussões que isso significa.</p><p>SUGESTÃO DE RESPOSTA:</p><p>Pela nova sistemática do arquivamento do inquérito policial, regulada pelo art. 28 do CPP,</p><p>ordenado o seu arquivamento, o órgão do Ministério Público comunicará à vítima, ao</p><p>investigado e à autoridade policial e encaminhará os autos para a instância de revisão ministerial</p><p>para fins de homologação. Contudo, se a vítima, ou seu representante legal, não concordar com</p><p>o arquivamento do inquérito policial, poderá, no prazo de 30 (trinta) dias do recebimento da</p><p>comunicação, submeter a matéria à revisão da instância competente do órgão ministerial,</p><p>conforme dispuser a respectiva lei orgânica.</p><p>À luz do dispositivo legal, o Poder Judiciário não atua no mencionado procedimento.</p><p>Contudo, por maioria, o Plenário do STF atribuiu interpretação conforme à inovação legislativa</p><p>para assentar que, ao se manifestar pelo arquivamento do inquérito policial, o órgão do</p><p>Ministério Público deve submeter a sua manifestação ao juiz competente, podendo encaminhar</p><p>os autos para o Procurador-Geral ou para a instância de revisão ministerial, quando houver, para</p><p>fins de homologação, na forma da lei.</p><p>Dentro do contexto apresentado, deve-se analisar a natureza jurídica do ato que arquiva o</p><p>inquérito policial. Pela revogada redação do art. 28 do CPP, o STF qualificava como despacho,</p><p>mas a doutrina entendia como verdadeira decisão, dado o caráter terminativo do ato. Pela</p><p>literalidade da nova redação do art. 28 do CPP, tem-se verdadeira decisão administrativa,</p><p>inexistindo trâmite judicial. De igual modo, após a decisão do STF, apesar da possibilidade de</p><p>submissão do arquivamento ao magistrado, a decisão final terá natureza administrativa e ficará</p><p>a cargo da instância revisora do MP.</p><p>89 https://www.conjur.com.br/2023-out-10/criminal-player-terceiro-modelo-arquivamento-supremo-</p><p>tribunal-federal</p><p>https://www.conjur.com.br/2023-out-10/criminal-player-terceiro-modelo-arquivamento-supremo-tribunal-federal</p><p>https://www.conjur.com.br/2023-out-10/criminal-player-terceiro-modelo-arquivamento-supremo-tribunal-federal</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>84</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA</p><p>O Pacote Anticrime trouxe inúmeras inovações para o processo penal como um todo. Algumas</p><p>delas também tiveram impacto na investigação criminal, em especial para fortalecer o sistema</p><p>acusatório em detrimento do sistema inquisitivo. Nesse contexto, destaca-se o art. 3º, A, que</p><p>determina: “O processo penal terá estrutura acusatória, vedadas a iniciativa do juiz na fase de</p><p>investigação e a substituição da atuação probatória do órgão de acusação”.</p><p>Sobre o tema, conceitue o chamado “sistema acusatório” e indique a interpretação conferida</p><p>ao mencionado artigo pelo Supremo Tribunal Federal (10,0 pontos). Após, analise se,</p><p>atualmente, é possível a iniciativa probatória do juiz na fase investigativa, exemplificando caso</p><p>possível (6,0). Por fim, finalizada a investigação criminal e denunciado o cidadão pelo MP, qual</p><p>será o destino dos autos do inquérito policial? (4,0 pontos)</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>85</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:</p><p>Conceituar “sistema acusatório” (5,0 pontos)</p><p>Interpretação ao art. 3º A (5,0 pontos)</p><p>Iniciativa probatória do magistrado + exemplo (6,0 pontos)</p><p>Destino dos autos do IP (4,0 pontos)</p><p>Português (0,25 por erro até o limite de 5,0)</p><p>NOTA FINAL</p><p>MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA:</p><p>Conceito de sistema acusatório:</p><p>O sistema acusatório é caracterizado pela separação de funções, tendo às partes (e não o juiz,</p><p>que deve agir como um juiz-espectador) a gestão probatória, criando a possibilidade para que a</p><p>imparcialidade se manifeste. Esse sistema tem por característica a garantia o contraditório,</p><p>sendo a posição do julgador baseada em não proceder de ofício.</p><p>No sistema acusatório, cabe às partes a iniciativa da produção da prova.</p><p>Aury Lopes Jr: "O sistema acusatório é um imperativo do moderno</p><p>processo penal, frente à atual estrutura social e política do Estado.</p><p>Assegura a imparcialidade e a tranquilidade psicológica do juiz que</p><p>sentenciará, garantindo o trato digno e respeitoso com o acusado, que</p><p>deixa de ser um mero objeto para assumir sua posição de autêntica parte</p><p>passiva do processo penal. Também conduz a uma maior tranquilidade</p><p>social, pois se evitam eventuais abusos da prepotência estatal que se pode</p><p>manifestar na figura do juiz 'apaixonado' pelo resultado de seu labor</p><p>investigador e que, ao sentenciar, olvida-se dos princípios básicos de</p><p>justiça, pois tratou o suspeito como condenado desde o início da</p><p>investigação".</p><p>O sistema acusatório foi inserido de forma expressa no CPP pelo pacote anticrime à luz do</p><p>seguinte dispositivo legal:</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>86</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Art. 3º-A. O processo penal terá estrutura acusatória, vedadas a iniciativa do juiz na fase de</p><p>investigação e a substituição da atuação probatória do órgão de acusação.</p><p>Um dos elementos centrais do sistema acusatório é o distanciamento do juiz com a investigação</p><p>criminal. Contudo, o STF90 atribuiu interpretação conforme ao art. 3º-A do CPP para assentar</p><p>que o juiz, pontualmente, nos limites legalmente autorizados, pode determinar a realização</p><p>de diligências suplementares, para o fim de dirimir dúvida sobre questão relevante para o</p><p>julgamento do mérito.</p><p>Contudo, quais são os limites legalmente autorizados? Os limites legalmente autorizados são os</p><p>dispostos nos artigos 155 a 156, abaixo analisados.</p><p>Esse é um tema que tem por pressuposto uma questão que pecorre inúmeros tópicos da</p><p>investigação criminal. Em sede de inquérito policial, utiliza-se o termo “elementos de</p><p>informação”, e não “elementos de prova”. Isso é decorrência da reforma promovida ao CPP pela</p><p>Lei nº 11.690 de 2008, que passou a diferenciar os dois conceitos:</p><p>Art. 155 do CPP: O juiz formará sua convicção pela livre apreciação da prova produzida em</p><p>contraditório judicial, não podendo fundamentar sua decisão exclusivamente nos elementos</p><p>informativos colhidos na investigação, ressalvadas as provas cautelares, não repetíveis e</p><p>antecipadas.</p><p>O termo “prova” é utilizado para se referir aos elementos produzidos em contraditório</p><p>(mesmo que diferido), ao passo que o termo “elementos de informação” abrange todos os</p><p>demais que foram produzidos inquisitoriamente ou por uma das partes fora do devido processo</p><p>legal.91</p><p>E, então, coloca-se o seguinte questionamento: existe produção de “elementos</p><p>da 5ª Turma do STJ: 8</p><p>1. No que concerne às investigações relativas a pessoas com foro por prerrogativa de função,</p><p>tem-se que, embora possuam a prerrogativa de serem processados perante o tribunal, a lei</p><p>não excepciona a forma como se procederá à investigação, devendo ser aplicada, assim, a</p><p>regra geral trazida no art. 5º, inciso II, do Código de Processo Penal, a qual não requer prévia</p><p>autorização do Judiciário. “A prerrogativa de foro do autor do fato delituoso é critério</p><p>atinente, de modo exclusivo, à determinação da competência jurisdicional originária do</p><p>tribunal respectivo, quando do oferecimento da denúncia ou, eventualmente, antes dela, se</p><p>se fizer necessária diligência sujeita à prévia autorização judicial” (Pet 3825 QO, Relator p/</p><p>acórdão: Min. Gilmar Mendes, Pleno, julgado em 10/10/2007). Precedentes do STF e do STJ.</p><p>2. Não há razão jurídica para condicionar a investigação de autoridade com foro por</p><p>prerrogativa de função a prévia autorização judicial, sendo certo que a garantia constitucional</p><p>diz respeito tão somente ao processamento e ao julgamento de eventual ação penal movida</p><p>em desfavor de ocupante de cargo cujo status constitucional assegure privilégio de foro, de</p><p>modo a evitar persecução criminal infundada. Por isso, não há que se falar em nulidade</p><p>quando o procedimento de investigação instaurado pelo Ministério Público prossegue sem</p><p>a chancela do Poder Judiciário, pois trata-se de procedimento pré-processual, não</p><p>acobertado pela garantia de foro especial.</p><p>3. Em resumo: a) O Código de Processo Penal prevê, como primeira hipótese, a instauração de</p><p>inquérito policial ex officio pela Polícia Judiciária, em cumprimento de seu dever</p><p>constitucional, sem necessidade de requerimento ou provocação de qualquer órgão externo;</p><p>b) O Supremo Tribunal Federal, no julgamento do Recurso Extraordinário n. 593.727/MG,</p><p>assentou a concorrência de atribuição entre o Ministério Público e a Polícia Judiciária para</p><p>realizar investigações criminais; c) Sendo assim, a mesma sistemática é válida tanto para</p><p>procedimentos investigatórios ordinários quanto para investigações que envolvam</p><p>6. HC 153417 ED-segundos, Relator(a): Min. ALEXANDRE DE MORAES, Primeira Turma, julgado em</p><p>12/03/2019.</p><p>7. HC 482.175/GO, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em</p><p>19/03/2019.</p><p>8. RHC 79.910/MA, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em</p><p>26/03/2019. No mesmo sentido, julgado analisando de forma mais específica o ato de indiciamento: AgRg no HC</p><p>404.228/RJ, Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, julgado em 01/03/2018. No mesmo sentido, a 6ª</p><p>Turma do STJ: AgRg no AREsp 1541633/PR, Rel. Ministro ANTONIO SALDANHA PALHEIRO, SEXTA</p><p>TURMA, julgado em 06/10/2020.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>10</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>autoridades com prerrogativa de função; d) Por constituírem limitações ao poder de</p><p>investigação conferido pela Constituição Federal à Polícia Judiciária e ao Ministério Público, as</p><p>hipóteses em que a atividade investigatória é condicionada à prévia autorização judicial</p><p>exigem previsão legal expressa – REsp n. 1.697.146/MA, Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA</p><p>TURMA, julgado em 9/10/2018, DJe 17/10/2018. No mesmo diapasão: RHC n. 93.723/PE,</p><p>Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA, julgado em 7/8/2018, DJe 15/8/2018 e RHC</p><p>n. 73.829/CE, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em</p><p>23/05/2017, DJe 31/05/2017.</p><p>4. A defesa tem razão quando sustenta que a quebra de sigilo bancário, além de outras</p><p>medidas acobertadas pela reserva de jurisdição, devem partir do Juízo competente para o</p><p>julgamento da ação principal. (...)</p><p>E o STF, está de acordo com tal entendimento do STJ?</p><p>Inicialmente, as duas Turmas do STF divergiam sobre o tema.</p><p>De acordo com a 1ª Turma do STF9, “o ato de instauração de inquérito ou procedimento</p><p>investigatório contra Prefeitos Municipais independe de autorização do Tribunal competente para</p><p>processar e julgar o detentor da prerrogativa de foro”. De forma mais incisiva, vale citar parte do</p><p>inteiro teor deste julgado: “Nessa toada, como bem salientou o parecer ministerial: no que</p><p>concerne às investigações relativas a pessoas com foro por prerrogativa de função, tem-se que,</p><p>embora possuam a prerrogativa de serem processados perante o tribunal, a lei não excepciona a</p><p>forma como se procederá à investigação, devendo ser aplicada, assim, a regra geral trazida no art.</p><p>5º, inciso II, do Código de Processo Penal, a qual não requer prévia autorização do Judiciário”.</p><p>Por outro lado, para a 2ª turma do STF10, “é indispensável a existência de prévia autorização</p><p>judicial para a instauração de inquérito ou outro procedimento investigatório em face de</p><p>autoridade com foro por prerrogativa de função em TJ.”</p><p>O tema teve novo avanço em meados de 2022. Por unanimidade, em 16/05/2022, o STF11</p><p>validou dispositivo do regimento interno do Tribunal de Justiça do Amapá que incluiu, entre as</p><p>atribuições do desembargador-relator, a prerrogativa de autorizar a instauração de inquérito, a</p><p>pedido do procurador-geral de Justiça, contra autoridades com prerrogativa de foro no tribunal.</p><p>A partir desse julgado, levantou-se o seguinte questionamento: e se o RI nada prever, ainda assim</p><p>precisa de autorização judicial do foro para instaurar a investigação?</p><p>No dia 29/09/2023, o STF12, em sede de medida cautelar na ADI 7447, fez referência a ADI</p><p>7083, acima citada, e tratou do tema de modo a responder essa pergunta. Consignou-se que “pela</p><p>interpretação sistemática da Constituição da República e adotando-se a jurisprudência</p><p>consolidada neste Supremo Tribunal, a mesma razão jurídica aproveitada para justificar a</p><p>necessidade de supervisão judicial dos atos investigatórios de autoridades com prerrogativa</p><p>de foro no Supremo Tribunal Federal aplica-se às autoridades com prerrogativa de foro</p><p>submetida a outros Tribunais.”</p><p>Ainda de acordo com o voto do Relator, “quanto à necessidade de supervisão judicial dos</p><p>atos investigatórios, tem-se, pela interpretação sistemática da CF/88 e com fulcro na</p><p>9. HC 177992 AgR, Relator(a): ROSA WEBER, Primeira Turma, julgado em 23/08/2021.</p><p>10. HC 201965/RJ, relator Min. Gilmar Mendes, julgamento em 30.11.2021.</p><p>11. ADI 7083, Rel. Min. Cármen Lúcia, 13.05.2022.</p><p>12 Adi 7447, 29/09/2023, Rel Min.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>11</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>jurisprudência consolidada desta Corte, que o mesmo tratamento conferido às autoridades</p><p>com foro por prerrogativa de função no STF deve ser aplicado, por simetria, àquelas com foro</p><p>em outros tribunais, em observância ao princípio da isonomia, que garante o mesmo</p><p>tratamento aos que estejam em situação igual”.</p><p>Nessa linha, o STF abre divergência clara em relação ao STJ13 (o STJ ainda mantém, de</p><p>forma contrária ao STF, a sua jurisprudência em julgado de agosto de 2023), quando caracterizado</p><p>o foro por prerrogativa de função acerca da necessidade de prévia autorização do respectivo foro</p><p>para instaurar investigação, para indiciar e para eventual medida cautelar.</p><p>A questão da pertinência temática</p><p>O foro por prerrogativa de função tem início com a diplomação, em relação aos cargos</p><p>eletivos, ou com a posse,</p><p>de prova”</p><p>em sede de inquérito policial?</p><p>No curso do inquérito policial, além dos elementos de informação, serão produzidas provas</p><p>cautelares, não repetíveis e as antecipadas, com o contraditório diferido. Perícias e documentos</p><p>produzidos na fase inquisitorial são revestidos de eficácia probatória sem a necessidade de</p><p>serem repetidos no curso da ação penal por se sujeitarem ao contraditório diferido.92 Veja um</p><p>quadro do que cada fase do processo penal é capaz de produzir:</p><p>INQUÉRITO POLICIAL AÇÃO PENAL</p><p>– Elementos informativos</p><p>– Provas cautelares, não repetíveis e</p><p>antecipadas</p><p>– Provas produzidas em</p><p>contraditório ou decorrentes do IP</p><p>(cautelares, não repetíveis e antecipadas)</p><p>com contraditório diferido</p><p>90 ADI 6928, 24/08/2023.</p><p>91. LIMA, 2011, p. 116.</p><p>92. AgRg no REsp 1522716/SE, Rel. Ministro ANTONIO SALDANHA PALHEIRO, julgado em 20/03/2018.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>87</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Desses elementos produzidos no curso da investigação criminal, o que pode ser utilizado</p><p>para subsidiar a denúncia a pronúncia e a sentença?</p><p>Em regra, os elementos de informação produzidos no curso do inquérito policial devem</p><p>ser repetidos em juízo. Isso consta do art. 155 do CPP, ao prescrever que o juiz formará sua</p><p>convicção pela livre apreciação da prova produzida em contraditório judicial, não podendo</p><p>fundamentar sua decisão exclusivamente nos elementos informativos colhidos na investigação,</p><p>ressalvadas as provas cautelares, não repetíveis e antecipadas. Existem 3 cenários que</p><p>demandam melhor análise:</p><p>• para a denúncia ou queixa, todo o acervo probatório decorrente do inquérito policial</p><p>pode ser utilizado, uma vez que o art. 155 do CPP não se direciona a esse momento</p><p>processual. Isso ocorre porque o inquérito policial é essencialmente inquisitivo e, nos</p><p>termos do art. 12 do CPP, “O inquérito policial acompanhará a denúncia ou queixa,</p><p>sempre que servir de base a uma ou outra.”.</p><p>• para a pronúncia, o STJ93 pontuou que é ilegal a sentença de pronúncia com base</p><p>exclusiva em elementos de informação produzidos exclusivamente no inquérito, sob</p><p>pena de igualar em densidade a sentença que encerra o jus accusationis à</p><p>decião de recebimento de denúncia. Todo o procedimento delineado entre os arts.</p><p>406 e 421 do Código de Processo Penal disciplina a produção probatória destinada a</p><p>embasar o deslinde da primeira fase do procedimento do Tribunal do Júri.</p><p>• para a sentença, igual ocorre em relação à pronúncia, de acordo com jurisprudência</p><p>pacífica do STF e STJ, os elementos de informação produzidos na fase</p><p>investigatória, sem a participação das partes, NÃO podem, isoladamente, subsidiar</p><p>uma condenação.</p><p>O art. 155 do CPP tem por finalidade evitar o contato judicial com as provas inquisitoriais, o</p><p>que poderia interferir na sua imparcialidade para o julgamento da causa. Por isso, a atuação do</p><p>magistrado no inquérito policial deve ocorrer de forma excepcional.</p><p>Nesse contexto, no curso do inquérito policial, o seu contato com a investigação somente</p><p>ocorre em três hipóteses: (a) quando houver lesão ou ameaça de lesão a direitos subjetivos,</p><p>(b) quando houver algum tipo de prejuízo à efetividade da jurisdição penal e (c) quando</p><p>houver necessidade de controle da legalidade dos atos produzidos no curso do inquérito</p><p>policial.</p><p>Outro tipo de atuação por parte do magistrado importaria na violação ao princípio</p><p>constitucional da imparcialidade, uma vez que ele tomaria conhecimento do material</p><p>probatório. De acordo com Eugênio Pacelli de Oliveira,94 o sistema acusatório não permite que</p><p>o juiz tenha contato direto com as provas produzidas nessa etapa:</p><p>Ora, não cabe ao juiz tutelar a qualidade da investigação, sobretudo porque sobre ela,</p><p>ressalvadas determinadas provas urgentes, não se exercerá jurisdição. O conhecimento judicial</p><p>acerca do material probatório deve ser reservado à fase de prolação de sentença, quando se</p><p>93. AgRg no HC 684577, julgado em 05/2022 e REsp. 1.932.774, julgado em 02/2021.</p><p>94. OLIVEIRA, 2010, p. 11.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>88</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>estará no exercício de função tipicamente jurisdicional.</p><p>O STF95 seguiu o entendimento doutrinário acima ao concluir que:</p><p>[...] o Judiciário, em nosso sistema processual penal, atua no inquérito para assegurar a</p><p>observância dos direitos e liberdades fundamentais e dos princípios sobre os quais se assenta o</p><p>Estado Democrático de Direito.</p><p>Em sentido contrário, a reforma do CPP, promovida pela Lei nº 11.690, de 2008, facultou</p><p>ao juiz a produção da prova no curso do inquérito policial, desde que preenchidos alguns</p><p>requisitos. Segue, abaixo, o dispositivo legal:</p><p>Art. 156. A prova da alegação incumbirá a quem a fizer, sendo, porém, facultado ao juiz de ofício:</p><p>I – ordenar, mesmo antes de iniciada a ação penal, a produção antecipada de provas</p><p>consideradas urgentes e relevantes, observando a necessidade, adequação e proporcionalidade</p><p>da medida;</p><p>Nestor Távora e Fábio Roque Araújo96 chamam a atenção para a duvidosa</p><p>constitucionalidade do artigo. A produção da prova pelo juiz, de ofício, no curso do inquérito</p><p>policial, ocasionaria a violação ao sistema acusatório. O magistrado, na hipótese legal, também</p><p>exteriorizaria um juízo de valor sobre os fatos ao verificar o que se trata de prova “urgente e</p><p>relevante”, antecipando a sua análise sobre diversas questões de direito, violando o princípio</p><p>constitucional da imparcialidade.</p><p>Em tese, toda produção antecipada de provas autorizada ou determinada pelo magistrado</p><p>consiste numa medida cautelar, uma vez que possuem caráter excepcional. Citam-se, como</p><p>exemplos, o mandado de busca e apreensão, a interceptação telefônica e a quebra do sigilo de</p><p>dados bancários ou fiscais.</p><p>Essas hipóteses, por serem medidas cautelares em sentido estrito, devem ter preenchidos,</p><p>além dos requisitos de cada medida, os pressupostos do fumus comissi delicti (existência de</p><p>indícios plausíveis da comprovação de que um determinado cidadão está envolvido em uma</p><p>infração penal) e do periculum in mora (risco ou prejuízo que a não realização imediata da</p><p>diligência poderá acarretar para a investigação criminal e posterior instrução criminal).</p><p>A partir de um poder geral de cautela, o magistrado pode, também, conceder outras medidas</p><p>cautelares não previstas em lei, mas necessárias para o inquérito policial ou para a ação penal.</p><p>Diante do exposto, questiona-se: A idade avançada de uma pessoa pode ser fundamento para o</p><p>periculum in mora de eventual medida cautelar com a finalidade de sua oitiva antecipada no curso</p><p>do inquérito policial e de posterior aproveitamento de seu depoimento na ação penal?</p><p>A análise deve ser feita a partir de cada caso concreto, norteada pela razoabilidade, de modo</p><p>a envolver a análise de elementos como a idade da pessoa, a sua saúde e o risco que a não</p><p>realização imediata dessa prova poderá acarretar para a futura instrução criminal. Deve-se levar</p><p>em consideração, ainda, fatores como a demora no trâmite de inquéritos policiais e da futura ação</p><p>penal. Em regra, nos termos da Súmula nº 455 do STJ, a decisão que determina a produção</p><p>95.</p><p>HC 92893, Relator(a): Min. Ricardo Lewandowski, Tribunal Pleno, julgado em 2/10/2008, conforme noticiado no</p><p>Inf. 522 do STF.</p><p>96. TÁVORA e ARAÚJO, 2010, p. 223. No mesmo sentido, é a posição de Eugênio Pacelli de Oliveira (2010, p. 11).</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>89</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>antecipada de provas com base no art. 366 do CPP deve ser concretamente fundamentada, não a</p><p>justificando unicamente o mero decurso do tempo. Excepcionalmente, o STF97 entendeu ser</p><p>possível a antecipação de provas em situação correlata:</p><p>No caso, o paciente foi denunciado pela suposta prática de homicídio culposo na direção de veículo</p><p>automotor, delito previsto no art. 302 da Lei 9.503/1997. Como estava foragido, foi citado por</p><p>edital, com a consequente suspensão do processo (CPC/1973, art. 366). O juízo determinou, em</p><p>seguida, a realização de audiência de produção antecipada de prova. Na impetração, o réu alegava</p><p>haver cerceamento de defesa em virtude de, na mencionada audiência, a antecipação de prova ter</p><p>como único fundamento o decurso do tempo. A Turma entendeu que a antecipação da prova</p><p>testemunhal configura medida necessária, pela gravidade do crime praticado e possibilidade</p><p>concreta de perecimento, haja vista que as testemunhas poderiam se esquecer de detalhes</p><p>importantes dos fatos em decorrência do decurso do tempo. Afirmou que a antecipação da oitiva</p><p>das testemunhas não revela nenhum prejuízo às garantias inerentes à defesa. Afinal, quando o</p><p>processo retomar seu curso, caso haja algum ponto novo a ser esclarecido em favor do réu, basta</p><p>se proceder à nova inquirição.</p><p>Ainda sobre o tema, de acordo com o STJ,98 é possível a antecipação da colheita da prova</p><p>testemunhal, com base no art. 366 do CPP, nas hipóteses em que as testemunhas são policiais.</p><p>Isso ocorre porque “é justificável a antecipação de provas para a oitiva de testemunhas policiais,</p><p>já que, nesse caso, o simples decurso do tempo traz efetivo risco de perecimento da prova</p><p>testemunhal, por esquecimento, dada a natureza dessa atividade profissional, diariamente em</p><p>contato com fatos delituosos semelhantes, devendo ser ouvidas com a máxima urgência</p><p>possível.”</p><p>Por fim, é importante ressaltar que, seja nas hipóteses em que a atuação do magistrado é</p><p>constitucional, seja na hipótese do art. 156, inciso I, do CPP, o juiz que atuar no inquérito policial</p><p>estará prevento para a futura ação penal99.</p><p>UMA ATENÇÃO:</p><p>Art. 12 do CPP, “O inquérito policial acompanhará a denúncia ou queixa, sempre que</p><p>servir de base a uma ou outra”.</p><p>Art. 3º, § 3º, do CPP: Os autos que compõem as matérias de competência do juiz das garantias</p><p>ficarão acautelados na secretaria desse juízo, à disposição do Ministério Público e da defesa, e</p><p>não serão apensados aos autos do processo enviados ao juiz da instrução e julgamento,</p><p>ressalvados os documentos relativos às provas irrepetíveis, medidas de obtenção de provas ou</p><p>de antecipação de provas, que deverão ser remetidos para apensamento em apartado.</p><p>97. HC 135386/DF, rel. orig. Min. Ricardo Lewandowski, rel. p/ o ac. Min. Gilmar Mendes, julgamento em</p><p>13.12.2016.</p><p>98. AgRg no AREsp n. 1.995.527/SE, relator Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, julgado em</p><p>19/12/2022.</p><p>99. HC 94188, Relator(a): Min. EROS GRAU, Segunda Turma, julgado em 26/0/2008; HC 93762, Relator(a): Min.</p><p>Eros Grau, Segunda Turma, julgado em 29/4/2008; HC 99353, Relator(a): Min. Eros Grau, Segunda Turma,</p><p>julgado em 18/08/2009.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>90</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Muito se discutia sobre um conflito de regras entre o art. 12 e o art. 3º-C, §3º, ambos do CPP.</p><p>Contudo, o STF100 declarou a inconstitucionalidade, com redução de texto, dos §§ 3º e 4º do art.</p><p>3º-C do CPP, e atribuiu interpretação conforme para entender que os autos que compõem as</p><p>matérias de competência do juiz das garantias serão remetidos ao juiz da instrução e</p><p>julgamento.</p><p>SUGESTÃO DE RESPOSTA:</p><p>O sistema acusatório é caracterizado pela separação de funções, de modo que órgãos diferentes</p><p>possuem atribuição de investigar, acusar e julgar. Um dos elementos centrais guarda relação</p><p>com a gestão probatória, que não é de iniciativa do magistrado, que deve se distanciar até dos</p><p>elementos de informação produzidos durante a investigação criminal. É nesse contexto que se</p><p>insere a inovação do pacote anticrime ao estabelecer o art. 3º-A do CPP.</p><p>Contudo, o STF atribuiu interpretação ao mencionado artigo para assentar que o juiz,</p><p>pontualmente, nos limites legalmente autorizados, pode determinar a realização de diligências</p><p>suplementares, para o fim de dirimir dúvida sobre questão relevante para o julgamento do</p><p>mérito. Admite-se, portanto, a iniciativa probatória do magistrado, mesmo no âmbito</p><p>investigativo.</p><p>Como exemplo, cita-se a possibilidade de o magistrado, de ofício, ordenar, mesmo antes de</p><p>iniciada a ação penal, a produção antecipada de provas consideradas urgentes e relevantes,</p><p>observando a necessidade, adequação e proporcionalidade da medida.</p><p>Por fim, como consta do art. 12 do CPP, o inquérito policial acompanhará a denúncia ou queixa,</p><p>sempre que servir de base a uma ou outra. Essa disposição encontra-se vigente por</p><p>entendimento do STF de que os autos que compõem as matérias de competência do juiz das</p><p>garantias serão remetidos ao juiz da instrução e julgamento.</p><p>100 ADI 6928, 24/08/2023.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>91</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA</p><p>Após meses de investigação, o inquérito policial é encaminhado ao Delegado de Polícia</p><p>supostamente pronto para ser relatado. Neste momento, o advogado do investigado protocola</p><p>uma petição com as seguintes solicitações: (a) a tese central que se coloca em relação ao caso</p><p>investigado encontra-se pendente de julgamento no STF com determinação específica de</p><p>suspensão dos procedimentos pelo Tribunal, de modo que o advogado solicita o cumprimento</p><p>da decisão e a suspensão do inquérito policial; (b) solicita a quebra do sigilo dos dados da</p><p>comunicação do Whtasapp de um número de celular de um cidadão foragido a fim de provar a</p><p>inocência do seu cliente, em conjunto com pedido de multa diária para o cumprimento pela</p><p>mencionada empresa; e (c) alega a inconstitucionalidade da condução coercitiva oposta ao seu</p><p>cliente, na linha do que decidido pelo STF, mesmo que o objetivo tenha sido para proceder o</p><p>seu reconhecimento pessoal, de modo a solicitar que tal prova seja desconsiderada.</p><p>Na qualidade do Delegado de Polícia, analise a possibilidade de cumprimento de cada um dos</p><p>pedidos feitos pelo advogado (20,0 pontos)</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas</p><p>Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>92</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:</p><p>Solicitação 1: suspensão da repercussão geral não incide nas</p><p>investigações criminais (6,0 pontos)</p><p>Solicitação 2:</p><p>• Impossível a quebra em razão da criptografia ponta a</p><p>pontoa (3,5 pontos)</p><p>• Impossível também a multa diária pelo mesmo motivo (3,5</p><p>pontos)</p><p>Solicitação 3: condução coercitiva para fins de reconhecimento</p><p>pessoal é plenamente possível (7,0 pontos)</p><p>Português (0,25 por erro até o limite de 5,0)</p><p>NOTA FINAL</p><p>MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA:</p><p>RECONHECIDA A REPERCUSSÃO GERAL DE UMA QUESTÃO PELO STF, É POSSÍVEL A</p><p>SUSPENSÃO DO TRÂMITE DO INQUÉRITO POLICIAL?</p><p>O Supremo Tribunal Federal já reconheceu, por diversas vezes, a repercussão do novo CPC</p><p>no âmbito do processo penal. A questão levantada nesse tópico diz respeito a possibilidade (ou</p><p>não) de suspensão dos procedimentos investigativos quando a questão central tiver repercussão</p><p>geral reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal, nos termos do art. 1035, § 5ª, do CPC.</p><p>O tema foi objeto do RE 966177,101 julgado pelo Pleno do STF em meados de 2017, e</p><p>consignou-se que em nenhuma hipótese o sobrestamento dos procedimentos com fundamento no</p><p>mencionado artigo abrangeria inquéritos policiais ou procedimentos investigatórios conduzidos</p><p>pelo Ministério Público. Em outras palavras, o reconhecimento da repercussão geral de uma</p><p>questão pelo STF não possui qualquer repercussão no trâmite do inquérito policial.</p><p>Nos casos em que o acesso direto pelo Delegado de Polícia se mostrar ilegal e demandar uma</p><p>autorização judicial, deve-se considerar que muitas dessas redes sociais (v.g. WhatsApp) são</p><p>protegidas por criptografia ponta a ponta. Nas palavras do Ministro Ribeiro Dantas, Relator do</p><p>RMS 60531102:</p><p>101. RE 966177, rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 7/6/2017.</p><p>102. RMS 60.531/RO, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, Rel. p/ Acórdão Ministro RIBEIRO DANTAS, TERCEIRA</p><p>SEÇÃO, julgado em 09/12/2020.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>93</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Criptografia de ponta a ponta é a proteção dos dados nas duas extremidades do processo,</p><p>tanto no polo do remetente quanto no outro polo do destinatário. Nela, “dois tipos de</p><p>chaves são usados para cada ponta da comunicação, uma chave pública e uma chave</p><p>privada. As chaves públicas estão disponíveis para as ambas as partes e para qualquer</p><p>outra pessoa, na verdade, porque todos compartilham suas chaves públicas antes da</p><p>comunicação. Cada pessoa possui um par de chaves, que são complementares. [...] O</p><p>conteúdo só poderá ser descriptografado usando essa chave pública (...) junto à chave</p><p>privada (...). Essa chave privada é o único elemento que torna impossível para qualquer</p><p>outro agente descriptografar a mensagem, já que ela não precisa ser compartilhada.</p><p>Como essa chave privada se apresenta inacessível, inclusive para a própria rede social, o</p><p>STJ103 compreende ser impossível aplicar multa contra os aplicativos pelo fato de a empresa</p><p>não conseguir interceptar as mensagens trocadas pelos usuários. Nesses cenários, o único modo</p><p>de a polícia conseguir acesso a tais mensagens se dá pela apreensão física do aparelho celular,</p><p>seguida da respectiva perícia no seu conteúdo (em regra, mediante prévia autorização judicial).</p><p>O tema da condução coercitiva teve importante capítulo no ano de 2018 em razão do</p><p>julgamento conjunto das ADPFs 395 e 444. O STF declarou “a incompatibilidade com a</p><p>Constituição Federal da condução coercitiva de investigados ou de réus para interrogatório,</p><p>tendo em vista que o imputado não é legalmente obrigado a participar do ato, e pronunciar a</p><p>não recepção da expressão ‘para o interrogatório’, constante do art. 260 do CPP”.104 Observe</p><p>que, de todas as hipóteses do art. 260 do CPP, a não recepção se restringe à finalidade do</p><p>interrogatório, de modo que é possível a condução coercitiva do investigado para o seu</p><p>“reconhecimento ou qualquer outro ato que, sem ele, não possa ser realizado”, por exemplo,</p><p>eventual condução coercitiva do investigado para proceder a sua qualificação (até porque o</p><p>investigado não possui direito ao silêncio em relação a sua qualificação) ou para fins de</p><p>reconhecimento de pessoas. Ademais, ainda se mostra possível a condução coercitiva em relação</p><p>a outros atores da investigação criminal, como a vítima ou testemunhas.</p><p>SUGESTÃO DE RESPOSTA:</p><p>A questão narra um cenário em que, após meses de investigação, o inquérito policial é</p><p>encaminhado ao Delegado de Polícia supostamente pronto para ser relatado, momento em que</p><p>o advogado do investigado faz algumas solicitações.</p><p>103. RMS 60.531/RO, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, Rel. p/ Acórdão Ministro RIBEIRO DANTAS, TERCEIRA</p><p>SEÇÃO, julgado em 09/12/2020.</p><p>104. ADPF 444, Relator(a): Min. GILMAR MENDES, Tribunal Pleno, julgado em 14/06/2018.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>94</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Em relação à primeira solicitação, eventual suspensão decorrente de decisão do STF em sede de</p><p>repercussão geral não alcança as investigações em andamento. O argumento do advogado,</p><p>portanto, não está correto.</p><p>Em relação à segunda solicitação, o argumento do advogado também não está correto. Em razão</p><p>da criptografia ponta-a-ponta, não é possível a quebra do sigilo das comunicações do Whatsapp,</p><p>de modo que também não é possível a imposição de multas diárias à empresa, pois ela também</p><p>não possui acesso às chaves de criptografia.</p><p>Em relação à terceira solicitação, inexiste inconstitucionalidade da condução coercitiva oposta</p><p>ao investigado, pois o STF declarou a não recepção da condução coercitiva exclusivamente para</p><p>fins do seu interrogatório.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>95</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA</p><p>O Código de Processo Penal, em seu art. 107, impõe que o Delegado de Polícia deve se declarar</p><p>suspeito quando ocorrer motivo legal. Determinado Delegado de Polícia.</p><p>Redija um texto dissertativo sobre o dever de imparcialidade do Delegado de Polícia, abordando</p><p>o seu conceito [valor: 4,0 pontos] e o seu fundamento constitucional e legal, caso existentes</p><p>[valor: 6,00 pontos]. Cite, ainda, dois exemplos dos motivos legais mencionados pelo art. 107</p><p>do CPP [valor: 6,00 pontos]. Por fim, exponha a posição do Supremo Tribunal Federal em relação</p><p>à possível nulidade dos elementos informativos do inquérito policial quando o Delegado de</p><p>Polícia deveria se declarar suspeito, mas assim não procedeu [valor: 4,00 pontos].</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>96</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:</p><p>Conceito (4,0 pontos)</p><p>Fundamento constitucional e legal (6,0 pontos)</p><p>2 exemplos (6,0 pontos)</p><p>Posição do STF (4,0 pontos)</p><p>Português (0,2 por erro)</p><p>NOTA FINAL</p><p>MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA:</p><p>Na presidência do inquérito policial, o Delegado de Polícia deve atuar de modo que sua atividade</p><p>não seja direcionada à condenação ou absolvição de quem se investiga, além de não poder</p><p>privilegiar a defesa (advogado de defesa ou defensor público) ou a acusação (advogado de</p><p>acusação ou Ministério Público) na colheita de provas. Tem-se, portanto, que a finalidade do</p><p>inquérito policial não é subsidiar eventual futura ação penal, mas, sim, colher informações</p><p>necessárias para a “reconstrução” do fato, a partir de sua documentação no procedimento.</p><p>Nesse contexto, os deveres de imparcialidade e isenção da Autoridade Policial devem ser</p><p>qualificados como verdadeiros fundamentos para o exercício do cargo.</p><p>Cândido Rangel Dinamarco, 105</p><p>ao tratar da imparcialidade sob a perspectiva do processo civil,</p><p>faz algumas ponderações aplicáveis ao inquérito policial:</p><p>Seria absolutamente ilegítimo e repugnante o Estado chamar a si a atribuição de solucionar conflitos,</p><p>exercendo o poder, mas permitir que seus agentes o fizessem movidos por sentimentos ou interesses</p><p>próprios, sem o indispensável compromisso com a lei e os valores que ela consubstancia –</p><p>especialmente com o valor do justo. Os agentes estatais têm o dever de agir com impessoalidade,</p><p>sem levar em conta esses sentimentos e interesses e, portanto, com abstração de sua própria pessoa.</p><p>O juiz, ao conduzir o processo e julgar a causa, é naquele momento o próprio Estado, que ele</p><p>consubstancia nessa atividade.</p><p>Do mesmo modo, seria absolutamente repugnante que a Autoridade Policial se movesse por</p><p>sentimento ou interesse próprio, demonstrando um descompromisso com a lei e com os mais</p><p>altos valores constitucionais. Uma investigação previamente direcionada e com a finalidade de</p><p>punir ou defender determinado cidadão subverteria a finalidade de um procedimento que deve</p><p>se pautar na proteção aos direitos fundamentais.</p><p>No entanto, não se pode confundir neutralidade com imparcialidade. O Delegado de Polícia deve</p><p>ser imparcial e isento, mas não é neutro. Sobre o tema, Fredie Didier Jr.106</p><p>afirma que:</p><p>Não se pode confundir neutralidade e imparcialidade. O mito da neutralidade funda-se na</p><p>possibilidade de o juiz ser desprovido de vontade inconsciente; predominar no processo o interesse</p><p>das partes e não o interesse geral da administração da justiça; que o juiz nada tem a ver com o</p><p>resultado da instrução. Ninguém é neutro, porque todos têm medos, traumas, preferências,</p><p>experiências, etc. Já disse o poeta que nada do que é humano é estranho ao homem (TERÊNCIO,</p><p>"Homo sum, humani nihil a me alienum puto"). O juiz não deve, porém, ter interesse no litígio, bem</p><p>como deve tratar as partes com igualdade, garantindo o contraditório em paridade de armas (fair</p><p>hearing, como dizem os americanos): isso é ser imparcial.</p><p>105 DINAMARCO, Candido Rangel. Instituições de Direito Processual Civil. 6ª ed. São Paulo: Malheiros, 2009, p. 205, v.1.</p><p>106 DIDIER JR, Fredie. Curso de Direito Processual Civil: Teoria Geral do Processo e Processo de Conhecimento. 9ª ed. Bahia:</p><p>JusPodivm, 2008, p. 67, v.1.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>97</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Do mesmo modo, o Delegado de Polícia, apesar de imparcial, não é neutro, uma vez que sua</p><p>atuação é influenciada pela experiência, por suas convicções pessoais, ou seja, pelo paradigma</p><p>de vida no qual está inserido.</p><p>De início, o cargo de Delegado de Polícia caminhava no sentido de ter uma disposição legal</p><p>expressa sobre o tema em debate. No entanto, a Lei n° 12.830/13 foi vetada exatamente no</p><p>ponto que determinava os deveres de convencimento técnico-jurídico, de isenção e de</p><p>imparcialidade ao Delegado de Polícia. Segue o dispositivo vetado:</p><p>Art. 2°, § 3º O delegado de polícia conduzirá a investigação criminal de acordo com seu livre</p><p>convencimento técnico-jurídico, com isenção e imparcialidade.</p><p>Abaixo, as razões do veto:</p><p>Da forma como o dispositivo foi redigido, a referência ao convencimento técnico-jurídico poderia</p><p>sugerir um conflito com as atribuições investigativas de outras instituições, previstas na Constituição</p><p>Federal e no Código de Processo Penal. Desta forma, é preciso buscar uma solução redacional que</p><p>assegure as prerrogativas funcionais dos delegados de polícias e a convivência harmoniosa entre as</p><p>instituições responsáveis pela persecução penal.</p><p>O fundamento do veto guarda relação com o poder de requisição do Ministério Público, por</p><p>existir um temor de que a redação do dispositivo pudesse comprometer a sua “atribuição</p><p>investigativa”. Data venia, o veto, em si, foi desnecessário por dois motivos.</p><p>Primeiro, porque a desnecessidade do veto decorre da própria interpretação do dispositivo</p><p>vetado, que não pode ser divorciada da Constituição Federal. Em outras palavras, uma simples</p><p>interpretação do dispositivo vetado a partir das normas constitucionais vigentes demonstraria</p><p>que a condução da investigação criminal pelo Delegado de Polícia de acordo com seu livre</p><p>convencimento técnico-jurídico estaria limitada pelo poder de requisição do Ministério Público.</p><p>Segundo, porque o conteúdo do dispositivo, apesar de vetado, já integra o rol dos deveres</p><p>funcionais atribuído aos Delegados de Polícia implicitamente pelo sistema constitucional</p><p>vigente, ou alguém considera possível a condução de uma investigação de modo que se</p><p>privilegie a defesa ou a acusação, violando os deveres de imparcialidade e isenção? Ou, ainda,</p><p>uma atuação da Autoridade Policial desassociada de uma análise técnica-jurídica do fato?</p><p>Em razão do exposto, uma atuação do Delegado de Polícia fundamentada no dever de</p><p>imparcialidade traduz na existência de uma investigação criminal voltada unicamente para a</p><p>análise do fato, sem que seja tendenciosa do ponto de vista da acusação ou da defesa. A nova</p><p>Lei Orgânica Nacional das Polícias Civis, publicada em 2023, trouxe previsão legal específica:</p><p>Art. 4º São princípios institucionais básicos a serem observados pela polícia civil,</p><p>além de outros previstos em legislação ou regulamentos:</p><p>XII - atuação imparcial na condução da atividade investigativa e de polícia</p><p>judiciária;</p><p>XV - autonomia, imparcialidade, tecnicidade e cientificidade investigativa,</p><p>indiciatória, inquisitória, notarial e pericial;</p><p>XVII - natureza técnica e imparcial das funções de polícia judiciária civil e de</p><p>apuração de infrações penais, sob a presidência e mediante análise técnico-jurídica</p><p>do delegado de polícia;</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>98</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Art. 29. Todos os ocupantes de cargos efetivos da polícia civil, nos limites de suas</p><p>atribuições</p><p>legais e respeitada a hierarquia e a disciplina, devem atuar com</p><p>imparcialidade, objetividade, técnica e cientificidade.</p><p>Uma questão relativa ao dever de imparcialidade guarda relação com o dever de suspeição das</p><p>Autoridades Policiais, tem que é regulado pelo art. 107 do CPP:</p><p>Art. 107. Não se poderá opor suspeição às autoridades policiais nos atos do inquérito, mas deverão</p><p>elas declarar-se suspeitas, quando ocorrer motivo legal.</p><p>Como se verifica pela literalidade do dispositivo legal, os investigados e o Ministério Público não</p><p>podem arguir a suspeição do Delegado de Polícia na condução do inquérito policial. Contudo, o</p><p>dispositivo legal impõe um dever à Autoridade Policial para que ela se dê por suspeita quando</p><p>ocorrer motivo legal.</p><p>Os motivos legais estão enumerados no art. 254 do CPP, os quais se aplicam ao Delegado de</p><p>Polícia:</p><p>Art. 254. O juiz dar-se-á por suspeito, e, se não o fizer, poderá ser recusado por qualquer das partes:</p><p>I - se for amigo íntimo ou inimigo capital de qualquer deles;</p><p>II - se ele, seu cônjuge, ascendente ou descendente, estiver respondendo a processo por fato análogo,</p><p>sobre cujo caráter criminoso haja controvérsia;</p><p>III - se ele, seu cônjuge, ou parente, consanguíneo, ou afim, até o terceiro grau, inclusive, sustentar</p><p>demanda ou responder a processo que tenha de ser julgado por qualquer das partes;</p><p>IV - se tiver aconselhado qualquer das partes;</p><p>V - se for credor ou devedor, tutor ou curador, de qualquer das partes;</p><p>VI - se for sócio, acionista ou administrador de sociedade interessada no processo.</p><p>Como exposto acima, o CPP impõe um dever à Autoridade Policial para que ela se declare</p><p>suspeita quando ocorrer motivo legal; no entanto, qual a consequência em relação aos</p><p>elementos informativos produzidos por esse Delegado de Polícia se o mesmo não se declara</p><p>suspeito quando deveria assim proceder?</p><p>De acordo com o STF,107</p><p>”a suspeição de autoridade policial não é motivo de nulidade do</p><p>processo, pois o inquérito é mera peça informativa, de que se serve o Ministério Público para o</p><p>início da ação penal”.</p><p>SUGESTÃO DE RESPOSTA:</p><p>Na presidência do inquérito policial, o Delegado de Polícia deve atuar de modo que sua atividade</p><p>não seja direcionada à condenação ou absolvição de quem se investiga, além de não poder</p><p>privilegiar a defesa (advogado de defesa ou defensor público) ou a acusação (advogado de</p><p>acusação ou Ministério Público) na colheita de provas. Tem-se, portanto, que a finalidade do</p><p>inquérito policial não é subsidiar eventual futura ação penal, mas, sim, colher informações</p><p>necessárias para a “reconstrução” do fato, a partir de sua documentação no procedimento.</p><p>107 RHC 131450, Relator(a): Min. CÁRMEN LÚCIA, Segunda Turma, julgado em 03/05/2016.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>99</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Nesse contexto, os deveres de imparcialidade e isenção da Autoridade Policial devem ser</p><p>qualificados como verdadeiros fundamentos para o exercício do cargo.</p><p>Em outras palavras, seria absolutamente repugnante que a Autoridade Policial se movesse por</p><p>sentimento ou interesse próprio, demonstrando um descompromisso com a lei e com os mais</p><p>altos valores constitucionais. Uma investigação previamente direcionada e com a finalidade de</p><p>punir ou defender determinado cidadão subverteria a finalidade de um procedimento que deve</p><p>se pautar na proteção aos direitos fundamentais.</p><p>O cargo de Delegado de Polícia, atualmente, é regido pela imparcialidade à luz das disposições</p><p>legais específicas presentes na Lei Orgânica Nacional das Polícias Civis. Ademais, infere-se o</p><p>dever de imparcialidade a partir das normas constitucionais.</p><p>Em outras palavras, se o art. 144 da Constituição Federal confere ao Delegado de Polícia o poder</p><p>de conduzir uma investigação criminal, só o pode constitucionalmente fazer sem ser</p><p>tendencioso, de acordo com seu livre convencimento técnico-jurídico. Uma atuação do</p><p>Delegado de Polícia fundamentada no dever de imparcialidade traduz na existência de uma</p><p>investigação criminal voltada unicamente para a análise do fato, sem que seja direcionada do</p><p>ponto de vista da acusação ou da defesa.</p><p>Por isso, ocorrendo motivo legal, o Delegado de Polícia deve se declarar suspeito, tal como se</p><p>for amigo íntimo ou inimigo capital de qualquer dos envolvidos ou mesmo se for credor ou</p><p>devedor, tutor ou curador, de qualquer das partes. Ademais, não existe qualquer consequência</p><p>em relação aos elementos informativos produzidos por esse Delegado de Polícia se o mesmo</p><p>não se declara suspeito quando deveria assim proceder. De acordo com o STF, a suspeição de</p><p>autoridade policial não é motivo de nulidade do processo, pois o inquérito é mera peça</p><p>informativa, de que se serve o Ministério Público para o início da ação penal.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>100</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA</p><p>Um Delegado de Polícia preside inquérito policial, no qual se investiga um crime de homicídio.</p><p>Após inúmeras investigações, Silvana é apontada como a principal suspeita do fato. Acontece</p><p>que, no local dos fatos, foram encontradas amostras de sangue da suposta autora, sendo que</p><p>Silvana se nega veementemente a fornecer qualquer material biológico para confronto de DNA.</p><p>Sabendo que Silvana está grávida, o Delegado de Polícia, no dia do parto, dirigiu-se ao Hospital</p><p>e conseguiu coletar a placenta da suposta autora. Assim, o Delegado de Polícia consegue fazer</p><p>o confronto de DNA entre os materiais coletados, confirmando a autoria do crime.</p><p>Redija um texto dissertativo sobre a situação narrada, diferenciando provas invasivas de provas</p><p>não invasivas [valor: 4,00 pontos] e identificando qual desses tipos de prova está presente no</p><p>caso narrado [valor: 3,00 pontos]. Por fim, exponha a posição do Supremo Tribunal Federal</p><p>acerca da constitucionalidade/legalidade da utilização contra a vontade do autor de provas</p><p>invasivas e de provas não invasivas no curso de uma investigação criminal, em especial do caso</p><p>narrado [valor: 3,00 pontos].</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>101</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:</p><p>Provas Invasivas x Provas Não Invasivas</p><p>Qual está presente?</p><p>Entendimento do STF</p><p>Português (0,2 por erro)</p><p>NOTA FINAL</p><p>MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA:</p><p>Em razão do princípio da liberdade dos meios de prova, aplicável no inquérito policial, todos os</p><p>elementos de informação, nominados ou inominados, são admitidos no curso da investigação</p><p>criminal.</p><p>No entanto, a Constituição Federal, no art. 5º, inciso LVI, afirma serem inadmissíveis as provas</p><p>(e, portanto, os elementos de informação) obtidas por meios ilegais. A vedação das provas e dos</p><p>elementos de informação ilegais atua no controle</p><p>da regularidade da atividade estatal, de modo</p><p>a desestimular a adoção de práticas probatórias contrárias à Constituição e à lei por quem é o</p><p>responsável direto por sua produção. Assim, cumpre função inibitória, ao mesmo tempo em que</p><p>tutela determinados direitos reconhecidos como fundamentais pelo ordenamento jurídico.</p><p>Nesse contexto, o princípio da liberdade dos meios de prova e dos elementos de informação</p><p>não é absoluto, pois não são admitidos quando ilegais. De acordo com Paulo Rangel108, os meios</p><p>de prova e os elementos de informação ilegais se subdividem em ilícitos e ilegítimos:</p><p>• Meios de prova ou elementos de informação ilícitos são produzidos com desrespeito</p><p>às regras de direito material, de modo a violar os direitos e garantias fundamentais.</p><p>Tem-se, como exemplo, a confissão obtida mediante tortura.</p><p>• Meios de prova ou elementos de informação ilegítimos são produzidos com</p><p>desrespeito às regras de direito processual. Tem-se, como exemplo, a lavratura do auto</p><p>de constatação provisória da droga sem a assinatura do perito.</p><p>No que diz respeito ao tema, uma questão de constante controvérsia na doutrina guarda relação</p><p>com a possibilidade de o Delegado de Polícia efetuar intervenções corporais, mesmo com</p><p>autorização judicial, por exemplo, no corpo da vítima ou autor do fato de forma contrária a sua</p><p>vontade, com a finalidade de coletar sangue ou cortar um pedaço do cabelo.</p><p>A questão é bem sintetizada por Alexandre Morais da Rosa.109</p><p>Inicialmente, o autor pontua que</p><p>o recolhimento de material genético (cabelo, sangue, entre outros), encontrado na cena do</p><p>crime, pode ser legalmente colhido pela equipe pericial. Em seguida, o autor analisa que o tema</p><p>108 RANGEL, Paulo. Direito processual penal. 16. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009, p. 431.</p><p>109 ROSA, 2017, p. 439.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>102</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>deve ser estudado por dois prismas: (a) provas invasivas são intervenções corporais que</p><p>necessitam de penetração no organismo humano, por instrumento ou substância, com a</p><p>finalidade de extrair ou analisar alguma parte dele, como o exame de sangue, o exame</p><p>ginecológico e a endoscopia, sendo tais provas vedadas em absoluto pela Constituição Federal</p><p>por violar a integridade física, a dignidade da pessoa humana e a honra; (b) provas não invasivas</p><p>consistem em inspeção corporal, sem penetração no corpo humano e nem extração de parte</p><p>dele, como as perícias realizadas em fios de cabelo encontrados no chão, em materiais fecais,</p><p>entre outros, sendo tais provas admitidas pela Constituição Federal e pelo STF.</p><p>O material genético (filtro de cigarro, copos, talheres, escovas de dente, escovas, pentes, entre</p><p>outros) descartado pelo cliente, por se configurar como res nullius, pode ser</p><p>constitucionalmente recolhido. No entanto, como defende o mencionado autor,110</p><p>“veda-se o</p><p>uso de tática manipuladora, modalidade de doping, pelo qual se estende o interrogatório para</p><p>fins de que o agente tenha fome, sede, necessidades fisiológicas, colhendo-se posteriormente o</p><p>material utilizado (copos, talheres, guardanapos etc.)”.</p><p>Cita-se, por fim, um emblemático julgado do STF111 relativo às provas não invasivas. No caso,</p><p>Glória Trevi estava presa para ser extraditada e, durante esse período, ficou grávida, acusando</p><p>policiais federais da autoria, sem delimitar exatamente o autor do fato. Com o suposto estupro</p><p>e diante da possibilidade de o filho ser brasileiro, a extradição não poderia ocorrer. De um lado,</p><p>todos os policiais federais negaram a ocorrência do estupro e se disponibilizaram a fazer o</p><p>exame de DNA; por outro lado, Glória Trevi se negou a disponibilizar material necessário para</p><p>fazer o DNA a fim de provar as suas alegações. Para solucionar o impasse, o STF admitiu a coleta</p><p>de material biológico da placenta de Glória Trevi, por ocasião do nascimento do seu filho. O STF</p><p>colocou na balança4 "bens jurídicos constitucionais como 'moralidade administrativa',</p><p>'persecução penal pública' e 'segurança pública' que se acrescem, - como bens da comunidade,</p><p>na expressão de Canotilho, - ao direito fundamental à honra (CF, art. 5°, X), bem assim direito à</p><p>honra e à imagem de policiais federais acusados de estupro da extraditanda, nas dependências</p><p>da Polícia Federal, e direito à imagem da própria instituição, em confronto com o alegado direito</p><p>da reclamante à intimidade e a preservar a identidade do pai de seu filho". Ao final, verificou-se</p><p>que nenhum dos policiais federais era o pai do recém-nascido, de modo a se concluir pela</p><p>falsidade da alegação de estupro e admitir a extradição de Glória Trevi.</p><p>SUGESTÃO DE RESPOSTA:</p><p>A questão hipotética gira em torno de conceitos que envolvem intervenção corporais e</p><p>intervenções não corporais, executadas pela polícia a fim de instruir procedimento investigativo</p><p>em curso. De um lado, provas invasivas são intervenções corporais que necessitam de</p><p>penetração no organismo humano, por instrumento ou substância, com a finalidade de extrair</p><p>ou analisar alguma parte dele, como o exame de sangue, o exame ginecológico e a endoscopia,</p><p>Por outro lado, provas não invasivas consistem em inspeção corporal, sem penetração no corpo</p><p>humano e nem extração de parte dele, como as perícias realizadas em fios de cabelo</p><p>110 ROSA, 2017, p. 439.</p><p>111 Rcl 2040 QO, Relator(a): Min. NÉRI DA SILVEIRA, Tribunal Pleno, julgado em 21/02/2002.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>103</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>encontrados no chão, em materiais fecais, entre outros, sendo tais provas admitidas pela</p><p>Constituição Federal e pelo Supremo Tribunal Federal.</p><p>As provas invasivas são vedadas em absoluto pela Constituição Federal por violar a integridade</p><p>física, a dignidade da pessoa humana e a honra. São verdadeiras prova ilícitas já que produzidas</p><p>com desrespeito às regras de direito material, violando os direitos e garantias fundamentais.</p><p>As provas não invasivas são admitidas, em regra geral, pela doutrina, por ser decorrente de</p><p>material genético presentes em filtro de cigarro, copos, talheres, escovas de dente que foram</p><p>descartados pelo cliente. Nesse sentido, lembra-se decisão do Supremo Tribunal Federal similar</p><p>ao cenário narrado na questão e relativa ao conhecido caso Glória Trevi, em que foi admitida a</p><p>coleta de material biológico de sua placenta, por ocasião do nascimento do seu filho. A exceção,</p><p>de acordo com a doutrina, fica por conta da utilização de uma prática manipuladora, conhecida</p><p>como doping, pelo qual, por exemplo, se estende o interrogatório ou depoimento de um</p><p>envolvido para fins de que o agente tenha fome, sede, ou outras necessidades fisiológicas,</p><p>colhendo-se, posteriormente, o material genético presente no copo ou no tolher sem que ele</p><p>tenha conhecimento ou contra a sua vontade.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>104</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA</p><p>O inquérito</p><p>policial constitui um procedimento administrativo e privativo da Polícia Judiciária,</p><p>que tem por finalidade apurar a autoria e a materialidade das infrações penais. Em determinado</p><p>procedimento, um delegado de polícia necessita cumprir um mandado de busca e apreensão</p><p>em um escritório de advocacia e assim procede, mas o fato não é acompanhado por</p><p>representante da OAB.</p><p>Analise o caso à luz da jurisprudência do STF, elencando os três requisitos para o cumprimento</p><p>específico desse mandado de busca [valor: 6,0 pontos]. Ademais, verifique se as provas</p><p>eventualmente colhidas no caso são lícitas [valor: 4,0 pontos].</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>105</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Ingresso em residência</p><p>Ingresso em quarto de hotel</p><p>Português (0,2 por erro)</p><p>NOTA FINAL</p><p>MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA:</p><p>Para a análise da iniciativa e decretação da busca e apreensão, faz-se necessário distinguir a</p><p>busca e apreensão pessoal da busca e apreensão domiciliar.</p><p>A busca e apreensão pessoal, prevista no art. 244 do CPP, está limitada pelo direito à intimidade</p><p>de cada pessoa, prevista no art. 5º, inciso X, da Constituição Federal. Em razão dessa limitação</p><p>constitucionalmente estabelecida, a busca em uma determinada pessoa deve ser devidamente</p><p>fundamentada por circunstâncias fáticas relacionadas a alguma infração criminal, cabendo ao</p><p>policial agir de ofício, sem a necessidade de prévia autorização judicial.112 A cláusula</p><p>constitucional de proteção à intimidade não constitui hipótese de reserva de Jurisdição,</p><p>devendo o policial agir ex oficio sempre que houver fundada suspeita de envolvimento de um</p><p>cidadão em infração penal. Nesse sentido, tem-se a posição do STJ:113</p><p>2. Inexistem direitos absolutos e ilimitados e, para que aparentes contradições entre</p><p>princípios de igual matiz sejam solvidas - aplicando-se a norma constitucional de forma</p><p>segura e coerente -, utiliza-se o princípio também constitucional da proporcionalidade. (...)</p><p>4. Em razão do alto grau de afetação de direitos e por ser vexatória e invasiva, a medida de</p><p>busca pessoal é excepcional, devendo a autoridade policial agir com extrema cautela,</p><p>evitando-se atos abusivos, somente levando-a a cabo quando houver fundada suspeita de</p><p>que o indivíduo esteja na posse de arma proibida, com objetos que constituam corpo de</p><p>delito, com instrumento de crimes, entre outros.</p><p>Existe uma hipótese na qual a busca e apreensão pessoal não está necessariamente</p><p>ligada a uma fundada suspeita de envolvimento de um cidadão em infração penal.</p><p>Quando o juiz autoriza a busca e apreensão domiciliar, todas as pessoas que estão no</p><p>interior da residência no momento do cumprimento da diligência poderão, a critério</p><p>da Autoridade Policial, ser revistadas. Em outras palavras, como coloca Eugenio Pacelli de</p><p>Oliveira,114 se a medida mais grave que é a violação do domicílio já possui um mandado judicial,</p><p>seria incoerente não poder o exequente dessa medida revistar todas as pessoas encontradas no</p><p>local, em especial porque as provas buscadas poderiam estar escondidas nos bolsos dessas</p><p>pessoas.</p><p>112. LIMA, 2011, p. 1032; OLIVEIRA, 2010, p. 452.</p><p>113. HC 257.002/SP, Rel. Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, QUINTA TURMA, julgado em</p><p>17/12/2013, DJe 19/12/2013</p><p>114. OLIVEIRA, 2010, p. 452.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>106</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Já a busca e apreensão domiciliar, como se observa pela redação do art. 5°, inciso XI, da Constituição</p><p>Federal, só pode ser autorizada pelo juiz, motivo pelo qual esse caso é qualificado como uma</p><p>hipótese de reserva de Jurisdição. Note-se que a autorização judicial somente é necessária quando</p><p>não houver o consentimento do morador.</p><p>No caso de busca e apreensão domiciliar, cabe ao Delegado de Polícia postular um mandado</p><p>judicial, expondo os motivos de fato e de direito que fundamentam o pedido, de modo a apontar</p><p>qual das alíneas do art. 240, § 1°, incide in caso:</p><p>a) prender criminosos;</p><p>b) apreender coisas achadas ou obtidas por meios criminosos;</p><p>c) apreender instrumentos de falsificação ou de contrafação e objetos falsificados ou</p><p>contrafeitos;</p><p>d) apreender armas e munições, instrumentos utilizados na prática de crime ou destinados</p><p>a fim delituoso;</p><p>e) descobrir objetos necessários à prova de infração ou à defesa do réu;</p><p>f) apreender cartas, abertas ou não, destinadas ao acusado ou em seu poder, quando haja</p><p>suspeita de que o conhecimento do seu conteúdo possa ser útil à elucidação do fato;</p><p>g) apreender pessoas vítimas de crimes;</p><p>h) colher qualquer elemento de convicção.</p><p>Busca e apreensão em escritório de advocacia</p><p>A busca e apreensão em escritório de advocacia não é vedada pelo ordenamento jurídico pátrio.</p><p>No entanto, possui diversos requisitos, tais como: (a) a busca e apreensão deve decorrer de</p><p>decisão judicial que demonstra de forma específica e fundamentada a real necessidade de ela</p><p>ser cumprida em escritório de advocacia; (b) a necessidade de o mandado de busca ser</p><p>específico para o escritório de advocacia; (c) a necessidade de a busca ser acompanhada por</p><p>um representante da OAB; (d) a necessidade do mandado de busca ser específico em relação</p><p>aos documentos a serem apreendidos, para que não se apreendam documentos relativos a</p><p>pessoas que não sejam alvo da investigação. Sobre o tema, segue importante julgado do STF115:</p><p>1. O sigilo profissional constitucionalmente determinado não exclui a possibilidade de</p><p>cumprimento de mandado de busca e apreensão em escritório de advocacia. O local de</p><p>trabalho do advogado, desde que este seja investigado, pode ser alvo de busca e apreensão,</p><p>observando-se os limites impostos pela autoridade judicial. 2. Tratando-se de local onde</p><p>existem documentos que dizem respeito a outros sujeitos não investigados, é indispensável</p><p>a especificação do âmbito de abrangência da medida, que não poderá ser executada sobre</p><p>a esfera de direitos de não investigados. 3. Equívoco quanto à indicação do escritório</p><p>profissional do paciente, como seu endereço residencial, deve ser prontamente</p><p>comunicado ao magistrado para adequação da ordem em relação às cautelas necessárias,</p><p>sob pena de tornar nulas as provas oriundas da medida e todas as outras exclusivamente</p><p>delas decorrentes.</p><p>A ausência dos requisitos mencionados no parágrafo anterior torna a busca ilegal por configurar</p><p>potencial cenário de fishing expedition, o que é vedado pelo sistema constitucional brasileiro,</p><p>com a consequente ilegalidade das provas produzidas. Observe um caso analisado pelo STF116</p><p>115. HC 91610, Relator(a): Min. Gilmar Mendes, Segunda Turma, julgado em 8/6/2010.</p><p>116 RCL 43479, Relator(a): Min. Gilmar Mendes, Segunda Turma, julgado em 10/08/2021.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>107</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>em 2021: “a jurisprudência do STF confere interpretação estrita e rígida às normas que</p><p>possibilitam a realização de busca e apreensão, em especial quando direcionadas a advogados</p><p>no exercício de sua profissão. Na situação em apreço, não foram observados os requisitos legais</p><p>nem as prerrogativas da advocacia, com ampla deflagração de medidas que objetivaram ‘pescar’</p><p>provas (fishing expedition) contra os advogados denunciados e possíveis novos investigados.</p><p>Ressalta-se que, ao deferir a busca e apreensão, a autoridade reclamada não demonstrou a</p><p>imprescindibilidade em concreto da medida para o processamento dos fatos.”</p><p>SUGESTÃO DE RESPOSTA:</p><p>O sigilo profissional do advogado, constitucionalmente estabelecido, não exclui a possibilidade</p><p>de cumprimento de mandado de busca e apreensão em escritório de advocacia. Contudo,</p><p>existem alguns requisitos a serem respeitados: prévia autorização judicial que demonstra de</p><p>forma específica e fundamentada a real necessidade de ela ser cumprida em escritório de</p><p>advocacia, necessidade de o mandado de busca ser específico para o escritório de advocacia, a</p><p>necessidade de a busca ser acompanhada por um representante da OAB e a necessidade do</p><p>mandado de busca ser específico em relação aos documentos a serem apreendidos.</p><p>Desse modo, levando o tema para o caso narrado, as provas serão provas oriundas da medida serão</p><p>nulas e todas as outras exclusivamente delas decorrentes.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>108</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA</p><p>Em determinado Estado da Federação, as Polícias Civis e Militares têm desenvolvido</p><p>certas animosidades em razão de embates corporativos. De um lado, os policiais militares</p><p>iniciaram a lavratura de termo circunstanciado, contrariando entendimento do Conselho</p><p>da Polícia Civil. Como resposta, os Delegados de Polícia passaram a investigar todos os</p><p>casos de homicídios dolosos praticados por policiais militares em razão da função contra</p><p>vítima civil. À luz das normativas constitucionais e da jurisprudência recente dos</p><p>Tribunais Superiores, responda os seguintes questionamentos:</p><p>a) A atuação dos Policiais Militares está correta? Fundamente sua resposta [valor:</p><p>10,0 pontos]</p><p>b) A atuação dos Delegados de Polícia está correta? [valor: 10,0 pontos]</p><p>c) Em quais cenários o delegado de polícia pode investigar um militar? [valor: 10,0</p><p>pontos]</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>109</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:</p><p>PM pode lavrar TC + fundamentos do STF (10,0 pontos)</p><p>Delegado pode investigar homicídio doloso praticado por militar</p><p>contra civil + fundamento (10,0 pontos)</p><p>Outro caso de investigação por Delegado de Polícia (10,0 pontos)</p><p>Português</p><p>NOTA FINAL</p><p>MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA:</p><p>PONTO 1: Termo Circunstanciado</p><p>“Termo Circunstanciado não é procedimento investigativo, mas peça informativa com</p><p>descrição detalhada do fato e as declarações do condutor do flagrante e do autor do fato.”ADI</p><p>6264 – 02/2023. ADI 3807 – 08/2020.</p><p>“A decisão sobre a atribuição para lavratura do TCO guarda semelhança com a competência</p><p>organizacional da Administração Pública, razão pela qual pode ser feita por decreto de</p><p>organização do Poder Executivo”.ADI 3807 – 08/2020.</p><p>“O termo ‘autoridade policial’, contido no art. 69 da Lei nº 9.099/95, que trata da atribuição para</p><p>lavrar TCO, abrange todas as autoridades policiais, não somente a Polícia Judiciária. Extrai-se</p><p>dos argumentos que os policiais elencados no art. 144 da CF são autoridades policiais para fins</p><p>do art. 69 da Lei nº 9.099/95”. ADI 3807 – 08/2020.</p><p>“O TCO pode ser lavrado por integrantes da Polícia Judiciária ou da polícia administrativa –</p><p>bombeiros militares”. ADI 6264 – 02/2023</p><p>“Norma estadual que atribui essa competência à polícia militar não viola a divisão</p><p>constitucional de funções entre os órgãos de segurança pública”. ADI 5637 – 03/2022.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>110</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>“Nos termos do art. 48, §3º, da Lei de Drogas, o magistrado pode lavrar TC sem que isso viole</p><p>a sua imparcialidade”. ADI 3807 – 07/2020.</p><p>PONTO 2:</p><p>Até o ano de 2017, a atribuição investigativa da Polícia Civil abrangia todos os crimes</p><p>praticados por militares que não estivessem expressamente previstos no Código Penal Militar, de</p><p>modo que os crimes decorrentes da legislação penal extravagante tinham suas investigações</p><p>presididas por Delegado de Polícia. Por exemplo, os crimes de abuso de autoridade, tráfico de</p><p>drogas e tortura eram investigados pela Polícia Civil.</p><p>A Lei nº 13.491/17 trouxe novo regramento sobre o tema, de modo a alterar o conceito de</p><p>crime militar próprio. Antes desse marco legislativo, crime militar próprio era aquele praticado</p><p>por militar em razão da sua atividade, desde que tipificado no Código Penal Militar. Observe a</p><p>redação originária do dispositivo legal e sua nova redação pela mencionada lei:</p><p>Redação antiga do CPM Redação atual do CPM</p><p>Art. 9º Consideram-se crimes militares, em</p><p>tempo de paz:</p><p>(...)</p><p>II – os crimes previstos neste Código,</p><p>embora também o sejam com igual</p><p>definição na lei penal comum, quando</p><p>praticados:</p><p>Art. 9º Consideram-se crimes militares, em</p><p>tempo de paz:</p><p>(...)</p><p>II – os crimes previstos neste Código e os</p><p>previstos na legislação penal, quando</p><p>praticados: (Redação dada pela Lei nº</p><p>13.491, de 2017)</p><p>A alteração impactou no próprio conceito de crime militar próprio, de modo que,</p><p>atualmente, abrange qualquer crime (previsto em no Código Penal Militar ou em legislações</p><p>penais extravagantes) praticado por militar em razão da sua atividade. Por isso, a partir da</p><p>mencionada alteração, crimes como abuso de autoridade, tráfico de drogas e tortura são</p><p>investigados pela Polícia Militar e julgados pela Justiça Militar (e não mais pela Justiça Estadual).</p><p>O Delegado de Polícia não possui mais atribuição para presidir tais investigações quando</p><p>cometidos por policial militar no exercício de sua função.</p><p>Em síntese, atualmente, o Delegado de Polícia deve verificar se o fato cometido pelo PM é</p><p>crime militar ou crime comum. Essa premissa gera o seguinte cenário:</p><p>CRIME MILITAR CRIME COMUM</p><p>Investigação pela própria Polícia Militar. Investigação pela Polícia Civil.</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2017/Lei/L13491.htm</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2017/Lei/L13491.htm</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>111</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Essa distinção de atribuição investigativa está alinhada com a jurisprudência pacífica do STJ,</p><p>de modo que o Delegado de Polícia presidirá a investigação de crime comum cometido por</p><p>policial militar, por exemplo, a violência doméstica cometida pelo militar em face de sua esposa</p><p>ou um homicídio por ele cometido em face de um cidadão em cenário sem relação com a sua</p><p>função policial:</p><p>“O entendimento do Superior Tribunal de Justiça é no sentido de que (policial de folga) não</p><p>se enquadra no conceito de crime militar previsto no art. 9º, I, alíneas “b” e “c”, do Código</p><p>Penal Militar o delito cometido por Policial Militar que, ainda que esteja na ativa, pratica a</p><p>conduta ilícita fora do horário de serviço, em contexto dissociado do exercício regular de</p><p>sua função e em lugar não vinculado à Administração Militar. (...) Diante disso, a Lei n.</p><p>13.491/2017 não tem aplicação no caso, tendo em vista que o acusado é um policial de folga,</p><p>hipótese que não se tornou crime militar nos termos da novel legislação.”117 (HC 764059,</p><p>02/2023)</p><p>Homicídio doloso cometido por policial militar contra civil: atribuição investigativa da Polícia</p><p>Civil ou da Polícia Militar?</p><p>Outra grande questão, diz respeito aos limites e possibilidades da atribuição investigativa da</p><p>Polícia Civil nos crimes de homicídios dolosos cometidos por policial militar contra civil. Não há</p><p>consenso sobre o tema. Em determinados Estados, a titularidade da investigação é da Polícia Militar</p><p>e, em outros estados, a titularidade é da Polícia Civil. Afinal, considerando a Constituição Federal e a</p><p>legislação infraconstitucional, de qual órgão é a atribuição investigativa nesses crimes?</p><p>A reposta passa pela análise da Lei nº 9.299 de 1996, a qual modificou a competência da</p><p>Justiça Castrense e a natureza do crime de homicídio doloso praticado por militar contra civil,</p><p>cenário confirmado por ocasião da publicação da Lei nº 13.491/17 (salvo em algumas exceções</p><p>abaixo listadas). Para ilustrar o tema, segue a modificação perpetrada nos art. 9º, §§ 1º e 2º, do</p><p>Código Penal Militar, e 82 do Código de Processo Penal Militar:</p><p>Art. 9º, § 1º Os crimes de que trata este artigo, quando dolosos contra a vida e cometidos por</p><p>militares contra civil, serão da competência do Tribunal do Júri. (Redação dada pela Lei nº</p><p>13.491, de 2017)</p><p>§ 2º Os crimes de que trata este artigo, quando dolosos contra a vida e cometidos por</p><p>militares das Forças Armadas contra civil, serão da competência da Justiça Militar da União,</p><p>se praticados no contexto: (Incluído pela Lei nº 13.491, de 2017) 118</p><p>I – do cumprimento de atribuições que lhes forem estabelecidas pelo Presidente da</p><p>República ou pelo Ministro de Estado da Defesa; (Incluído pela Lei nº 13.491, de 2017)</p><p>II – de ação que envolva a segurança de instituição militar ou de missão militar, mesmo que</p><p>não beligerante; ou (Incluído pela Lei nº 13.491, de 2017)</p><p>III – de atividade de natureza militar, de operação de paz, de garantia da lei e da ordem ou</p><p>de atribuição subsidiária, realizadas em conformidade com o disposto no art. 142 da</p><p>Constituição Federal e na forma dos seguintes diplomas legais: a) Lei nº 7.565, de 19 de</p><p>dezembro de 1986 – Código Brasileiro de Aeronáutica; b) Lei Complementar no 97, de 9 de</p><p>junho de 1999; c) Decreto-Lei nº 1.002, de 21 de outubro de 1969 – Código de Processo</p><p>Penal Militar; e d) Lei nº 4.737, de 15 de julho de 1965 – Código Eleitoral. (Incluído pela Lei</p><p>117. HC n. 764.059/SP, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, julgado em 7/2/2023.</p><p>118. Sobre o tema, encontra-se em trâmite no STF a ADI 5901, com parecer favorável da Procuradoria-Geral da</p><p>República, que tem por objeto exatamente a inconstitucionalidade do art. 9°, § 2º e seus incisos, da Lei nº</p><p>13.491/17.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>112</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>nº 13.491, de 2017)</p><p>Art. 82 do Código de Processo Penal Militar: O foro militar é especial, e, exceto nos crimes</p><p>dolosos contra a vida praticados contra civil, a ele estão sujeitos, em tempo de paz: (...) § 2º.</p><p>Nos crimes dolosos contra a vida, praticados contra civil, a Justiça Militar encaminhará os</p><p>autos do inquérito policial militar à justiça comum.</p><p>Os citados parágrafos foram inseridos por questões históricas e fatídicas decorrentes da</p><p>participação de inúmeros membros da Polícia Militar na execução criminosa de crianças e</p><p>adolescentes em nosso país119. Isso possibilitou o julgamento dos Policiais Militares pelo Tribunal</p><p>do Júri, vinculado à Justiça Comum. Nesse sentido, é possível citar farta jurisprudência:</p><p>HABEAS CORPUS. PROCESSUAL PENAL. HOMICÍDIOS QUALIFICADO TENTADO E</p><p>CONSUMADO PRATICADO POR POLICIAL MILITAR CONTRA CIVIS. COMPETÊNCIA DO</p><p>TRIBUNAL DO JÚRI. ORDEM DE HABEAS CORPUS DENEGADA. 1. O Tribunal do Júri é</p><p>competente para condenar Policial Militar, que pratica crime de homicídio contra civil, bem</p><p>assim para aplicar, como efeito da condenação o disposto no art. 92, inciso I do Código Penal.</p><p>Precedentes desta Corte. 2. Habeas corpus denegado. (HC 173.873/PE, Rel. Ministra</p><p>LAURITA VAZ, QUINTA TURMA, julgado em 20/09/2012, DJe 26/09/2012)</p><p>(...) 3. Situação em que, muito embora os investigados alegassem ter agido em legítima</p><p>defesa, as imagens de vídeo coletadas pela Polícia Civil demonstram a deliberada intenção do</p><p>policial de derrubar o civil da motocicleta, de chutá-lo quando deitado no solo e de desferir</p><p>um tiro mortal, sem que o civil esboce qualquer reação nesse ínterim. Reforçam essa</p><p>conclusão a necropsia que detectou tiro “de diante para trás e de cima para baixo” e a</p><p>constatação, pela perícia, de que não havia arma diversa da dos policiais no local dos fatos.</p><p>4. Havendo nítidos indícios de que o homicídio foi cometido com dolo, é de se reconhecer a</p><p>competência da Justiça Comum estadual para o processamento e julgamento tanto do</p><p>Inquérito Policial quanto da eventual ação penal dele originada. (STJ – CC 158.084/RS, Rel.</p><p>Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, TERCEIRA SEÇÃO, julgado em 23/05/2018, DJe</p><p>05/06/2018)</p><p>1. A competência da Justiça Militar tem previsão constitucional, ressalvando-se a competência</p><p>do Tribunal do Júri nos casos em que a vítima for civil, conforme art. 125, § 4º, da CF. Dessa</p><p>forma, assentou a Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça, que, nesses casos, o inquérito</p><p>pode ser conduzido pela Polícia Civil, pois, aplicada a teoria dos poderes implícitos, emerge da</p><p>competência de processar e julgar, o poder/dever de conduzir administrativamente inquéritos</p><p>policiais (CC n. 144.919/SP, Rel. Ministro FELIX FISCHER, Terceira Seção, julgado em</p><p>22/6/2016, DJe 1º/7/2016). AgRg no RHC 122.680/PR, Rel. Ministro REYNALDO SOARES</p><p>DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 03/03/2020, DJe 09/03/2020)</p><p>Como se observa pelos julgados acima, mais do que a mudança da competência, a</p><p>modificação legal descaracterizou como delito castrense os homicídios dolosos cometidos por</p><p>policiais militares contra civil no exercício da função de policiamento ostensivo, de modo a</p><p>concluir pela competência da Justiça Comum. Nessa linha de pensamento, também houve a</p><p>mudança da titularidade para a investigação desses delitos, que passou a ser da Polícia Civil.</p><p>Afinal, como se observa pelo art. 144, §§ 4º e 5º, da Constituição Federal, a Policia Militar</p><p>somente investiga crimes militares, no qual não mais se insere a hipótese em tela.</p><p>Há quem sustente que o STF possui posicionamento sobre o tema e que a questão foi decidida</p><p>por ocasião do julgamento da ADI 1494-3. A assertiva não é</p><p>verdadeira! No curso da ADI 1494-</p><p>3, houve somente o julgamento da medida cautelar, mais especificamente no dia 04/09/97, no</p><p>qual os Ministros do STF não visualizaram o periculum in mora e o fumus boni iuris para a</p><p>suspensão do art. 82, § 2º, do CPPM. Ao final, a ação foi extinta sem julgamento de mérito, uma</p><p>vez que reconheceram a ilegitimidade ativa da ADEPOL da Brasil para a propositura da ADI. Em</p><p>119. Nesses termos, o voto do Ministro Celso de Mello na ADI 1494 MC, Relator(a): Min. CELSO DE MELLO,</p><p>Tribunal Pleno, julgado em 09/04/1997.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>113</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>outras palavras, não houve decisão de mérito sobre o caso; assim, não houve um pronunciamento</p><p>do STF sobre a legitimidade da investigação conduzida pela Polícia Militar no caso de crime</p><p>doloso contra a vida praticado por policial militar contra civil, diferentemente do que se observa</p><p>pelas decisões acima do STJ que concluíram pela competência da Justiça Estadual e, portanto,</p><p>pela atribuição investigativa da Polícia Civil.</p><p>Após a Lei nº 9.299/96, a questão foi rediscutida com a promulgação da Emenda</p><p>Constitucional nº 45 de 2004, conhecida como a reforma do Poder Judiciário. A citada previsão</p><p>legal foi promovida a status constitucional nos seguintes termos:</p><p>Art. 125, § 4º, da Constituição Federal: Compete à Justiça Militar estadual processar e julgar</p><p>os militares dos Estados, nos crimes militares definidos em lei e as ações judiciais contra</p><p>atos disciplinares militares, ressalvada a competência do júri quando a vítima for civil,</p><p>cabendo ao tribunal competente decidir sobre a perda do posto e da patente dos oficiais e</p><p>da graduação das praças.</p><p>A norma constitucional segue a linha do conteúdo das disposições legais e da jurisprudência</p><p>do STJ, no sentido de que a Justiça Militar não possui competência para efetuar o julgamento de</p><p>homicídio doloso praticado por policial militar contra civil, bem como a Polícia Militar não mais</p><p>possui a titularidade da atribuição investigativa. Confirmou-se, com isso, a transmutação da</p><p>natureza jurídica desse delito, que passou a ser de natureza civil e, portanto, de atribuição</p><p>investigativa da Polícia Civil.</p><p>Outro argumento equivocadamente utilizado para sustentar que a atribuição investigativa</p><p>desses crimes continuaria com a Polícia Militar foi abordado no julgamento da medida cautelar</p><p>no curso da ADI 1494-3, qual seja, a referência ao art. 82, § 2º, do Código de Processo Penal</p><p>Militar, inserido pela Lei nº 9.299/96:</p><p>Art. 82, § 2º, do Código de Processo Penal Militar: Nos crimes dolosos contra a vida,</p><p>praticados contra civil, a Justiça Militar encaminhará os autos do inquérito policial militar à</p><p>justiça comum.</p><p>Com base nesse dispositivo legal, alega-se que houve somente a mudança da competência entre</p><p>a Justiça Militar e a Justiça Comum, mas que a atribuição investigativa continuaria a ser da Polícia</p><p>Militar, tanto que, ao final, caberia à Justiça Militar encaminhar os autos do inquérito policial militar</p><p>à Justiça Comum.</p><p>Note a questão temporal dos fatos. A medida cautelar, julgada em 1997, e o artigo, incluído</p><p>em 1996, são anteriores à Emenda Constitucional nº 45 de 2004, o que torna ainda mais forte o</p><p>argumento de que, atualmente, a interpretação veiculada em alguns manuais não mais encontra</p><p>respaldo jurídico. Em outras palavras, o dispositivo citado não foi recepcionado (ou seja, foi</p><p>revogado) pela Emenda Constitucional nº 45 de 2004.</p><p>Ademais, a inserção do § 2º ao art. 82 do Código de Processo Penal Militar teve por finalidade</p><p>determinar o encaminhamento à Justiça Comum de todos os inquéritos policiais militares que</p><p>estivessem em trâmite na Justiça Militar à época, para que fossem redistribuídos às Delegacias da</p><p>Polícia Civil com atribuição para o feito.</p><p>Em razão de todo o exposto, a partir de uma leitura constitucional e jurisprudencial sobre o</p><p>tema, por não ser hipótese de crime militar, a investigação de tais crimes é atribuição em caráter</p><p>indelegável da Polícia Civil. Entendimento em sentido contrário configuraria grave</p><p>inadmissibilidade pelo Poder Judiciário das provas produzidas pela Polícia Militar (provas</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>114</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>produzidas de forma contrária ao texto da Constituição e da Lei), de modo a contribuir para a</p><p>impunidade dos envolvidos.</p><p>É possível citar, ainda, as diretrizes elencadas na Resolução nº 08, de 21 de dezembro de</p><p>2012, editada pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, notadamente o</p><p>artigo 2º:</p><p>Art. 2º Os órgãos e instituições estatais que, no exercício de suas atribuições, se</p><p>confrontarem com fatos classificados como “lesão corporal decorrente de intervenção</p><p>policial” ou “homicídio decorrente de intervenção policial” devem observar, em sua atuação,</p><p>o seguinte:</p><p>I – os fatos serão noticiados imediatamente a Delegacia de Crimes contra a Pessoa ou a</p><p>repartição de polícia judiciária, federal ou civil, com atribuição assemelhada, nos termos do</p><p>art. 144 da Constituição, que deverá:</p><p>a) instaurar, inquérito policial para investigação de homicídio ou de lesão corporal;</p><p>b) comunicar nos termos da lei, o ocorrido ao Ministério Público.</p><p>II – a perícia técnica especializada será realizada de imediato em todos os armamentos,</p><p>veículos e maquinários, envolvidos em ação policial com resultado morte ou lesão corporal,</p><p>assim como no local em que a ação tenha ocorrido, com preservação da cena do crime, das</p><p>cápsulas e projeteis até que a perícia compareça ao local, conforme o disposto no art. 6º,</p><p>incisos I e II; art. 159; art. 160; art. 164 e art. 181, do Código de Processo Penal;</p><p>III – é vedada a remoção do corpo do local da morte ou de onde tenha sido encontrado sem</p><p>que antes se proceda ao devido exame pericial da cena, a teor do previsto no art. 6º, incisos</p><p>I e II, do Código de Processo Penal;</p><p>IV – cumpre garantir que nenhum inquérito policial seja sobrestado ou arquivado sem que</p><p>tenha sido juntado o respectivo laudo necroscópico ou cadavérico subscrito por peritos</p><p>criminais independentes e imparciais, não subordinados às autoridades investigadas;</p><p>V – todas as testemunhas presenciais serão identificadas e sua inquirição será realizada com</p><p>devida proteção, para que possam relatar o ocorrido em segurança e sem temor;</p><p>O entendimento da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, exposto na</p><p>resolução supramencionada, alinha-se com toda exposição defendida nessas breves linhas e vai</p><p>além ao consolidar um procedimento para a atuação da Polícia Civil nesses crimes, de modo a</p><p>refutar qualquer atividade investigativa pela Polícia Militar.</p><p>Sobre o tema, o Conselho Superior da Polícia Federal e o Conselho Nacional dos Chefes de</p><p>Polícia Civil publicaram a Resolução Conjunta n° 2/2015 com o seguinte teor:</p><p>Art. 1º – Ficam definidos os procedimentos internos a serem adotados pelas polícias</p><p>judiciárias em face de ocorrências em que haja resultado lesão corporal ou morte</p><p>decorrentes de oposição à intervenção policial.</p><p>Art. 2º – Os dirigentes dos órgãos de polícia judiciária providenciarão para que as</p><p>ocorrências de que trata o art. 1º sejam registradas com a classificação “lesão corporal</p><p>decorrente de oposição à intervenção policial” ou “homicídio decorrente</p><p>em relação aos cargos decorrentes de concurso público. Até o ano de</p><p>2018, o foro por prerrogativa de função, ou foro privilegiado, na interpretação adotada pelo</p><p>Supremo Tribunal Federal, alcançava todos os crimes de que são acusados os agentes públicos,</p><p>inclusive os praticados antes da investidura no cargo e os que não guardam qualquer relação com</p><p>o seu exercício.</p><p>Contudo, atualmente, o foro não abrange todos os crimes cometidos por essas autoridades,</p><p>uma vez que o STF limitou a sua incidência para os casos com a pertinência temática devidamente</p><p>comprovada. À luz do que decidido na AP 937 QO,14 a partir de 2018, a comprovação da</p><p>pertinência temática envolve o preenchimento de dois requisitos cumulativos:</p><p>• Requisito temporal: o crime deve ser praticado durante o exercício do cargo, sendo</p><p>tal requisito de ordem objetiva (análise de marcos temporais delineados);</p><p>• Requisito material ou substancial: o crime deve ter sido praticado em razão do</p><p>cargo, sendo tal requisito de ordem subjetiva (faz-se necessário analisar à luz das</p><p>provas o preenchimento do requisito).</p><p>Preenchidos os dois requisitos, estará caracterizada a incidência do foro por prerrogativa de</p><p>função. Atenção para a distinção jurisprudencial:</p><p>• Entendimento do STF: a abertura do procedimento investigativo, as medidas</p><p>cautelares e o indiciamento pela Autoridade Policial ficam condicionados à</p><p>autorização do Ministro relator.</p><p>• Entendimento do STJ: somente as medidas cautelares ficam condicionadas à</p><p>autorização do Ministro ou Desembargador relator, podendo o Delegado de Polícia</p><p>abrir procedimento investigativo e indiciar independentemente do respetivo foro por</p><p>prerrogativa.</p><p>Contudo, como ficam os crimes em que os dois requisitos não estão preenchidos?</p><p>13 AgRg no HC n. 764.270/SC, relator Ministro Jesuíno Rissato (Desembargador Convocado do TJDFT),</p><p>Sexta Turma, julgado em 14/8/2023.</p><p>14. AP 937 QO, Relator(a): Min. ROBERTO BARROSO, Tribunal Pleno, julgado em 03/05/2018.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>12</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Os crimes sem preenchimentos de tais requisitos não ficarão sob a supervisão do respectivo</p><p>Tribunal, de modo que a abertura do procedimento investigativo e o indiciamento pela</p><p>Autoridade Policial são feitos diretamente pelo Delegado de Polícia sem ingerência do Tribunal,</p><p>do mesmo modo que as medidas cautelares serão representadas diretamente ao juiz de</p><p>primeira instância.</p><p>Observe o quadro mnemônico:</p><p>SITUAÇÃO</p><p>STF – CENÁRIO</p><p>INVESTIGATIVO</p><p>STJ – CENÁRIO INVESTIGATIVO</p><p>1. Crime cometido antes da</p><p>diplomação</p><p>Investigação e indiciamento pelo Delegado sem autorização do Tribunal.</p><p>Medidas cautelares em 1ª instância. 2. Crime cometido após a</p><p>diplomação e SEM relação</p><p>com as funções</p><p>3. Crime cometido após a</p><p>diplomação e COM relação</p><p>com as funções</p><p>Precisa de autorização do</p><p>Tribunal para instauração do</p><p>procedimento investigativo,</p><p>indiciamento e medida</p><p>cautelar.</p><p>Investigação e indiciamento pelo</p><p>Delegado sem autorização do Tribunal.</p><p>Precisa de autorização do Tribunal</p><p>somente para as medidas cautelares.</p><p>4. Crime ocorrido após o fim</p><p>do mandato</p><p>Investigação e indiciamento pelo Delegado sem autorização do Tribunal.</p><p>Medidas cautelares em 1ª instância.</p><p>Sobre o indiciamento pelo Delegado de Polícia em investigação envolvendo foro no STF, vale</p><p>citar um importante detalhe. O Ministro Roberto Barroso, em decisão liminar, no INQ 4621, de 2018,</p><p>autorizou o indiciamento por Delegado de Polícia, sem necessidade de prévia autorização do STF, em</p><p>face do Presidente da República à época. No caso, prevaleceu o argumento de que o indiciamento</p><p>seria legítimo e não dependeria de autorização judicial prévia, uma vez que o inquérito contra o</p><p>Presidente da República foi instaurado e tramitou sempre sob a supervisão de Ministro do STF,</p><p>pontuando, ainda, que o indiciamento é ato privativo da autoridade policial, nos termos da Lei n°</p><p>12.830/13. De acordo com o voto do Ministro, a autorização para prévio indiciamento somente seria</p><p>necessária quando a investigação não tiver sido previamente autorizada pelo ministro relator.</p><p>Ainda sobre o indiciamento pelo Delegado de Polícia em investigação envolvendo os demais</p><p>foros (STJ e demais Tribunais), vale citar decisão da 5ª Turma do STJ15 que denegou habeas</p><p>corpus contra ato de Delegado de Polícia e “assentou o entendimento de que o mero indiciamento</p><p>em inquérito policial, desde que não seja abusivo e ocorra antes do recebimento da exordial</p><p>15. AgRg no HC 404.228/RJ, Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, julgado em 01/03/2018.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>13</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>acusatória, não constitui manifesto constrangimento ilegal”. Em sentido contrário, como colocado</p><p>acima, o atual entendimento do STF.</p><p>Reeleição e mandatos</p><p>Os cargos eletivos estão sujeitos a cenários de reeleição ou mesmo eleição para outro cargo,</p><p>além da possibilidade de existir interregno entre os mandatos. Por isso, questiona-se: terminado</p><p>o mandato devidamente seguido de nova eleição (ou reeleição), ocorrerá a prorrogação</p><p>(manutenção) do foro por prerrogativa?</p><p>O tema deve ser analisado à luz de três cenários distintos: reeleição, eleição sucessiva para</p><p>cargo distinto e interregno de mantado.</p><p>O cenário da “reeleição” está caracterizado quando o cidadão era ocupante de um mandato e</p><p>consegue se reeleger para o mesmo cargo de forma sequencial. Nesse ponto, de acordo com o STF,</p><p>mostra-se desimportante a circunstância de os delitos haverem sido praticados em mandato anterior,</p><p>bastando que a atual diplomação decorra de sucessivas e ininterruptas reeleições. Por isso, o foro</p><p>por prerrogativa terá a sua competência mantida.16 Por exemplo, um Deputado Federal está em</p><p>seu terceiro mandato, todos decorrente de reeleição (sucessivas e ininterruptas reeleições), e é</p><p>investigado por um crime praticado no primeiro mandato durante o exercício do cargo e em razão</p><p>dele. Nesse exemplo, o foro por prerrogativa no STF será mantido e a investigação continuará neste</p><p>Tribunal.</p><p>O cenário da “eleição para novo cargo” está caracterizado quando o cidadão era ocupante</p><p>de um mandato e consegue ganhar nova eleição sequencial (sem interregno de mandato), mas</p><p>para um cargo distinto daquele que ocupava. Nesse cenário, precisamos distinguir duas situações:</p><p>a existência ou não de mandatos cruzados.</p><p>O mandato cruzado tem incidência quando, por exemplo, um deputado federal é eleito senador</p><p>ou vice-versa. Em tal situação, o STF17 decidiu que a existência de mandatos cruzados sequenciais</p><p>dentro do Poder Legislativo na esfera federal gera a manutenção do foro por prerrogativa neste</p><p>Tribunal (STF).</p><p>Ainda sobre esse ponto, se for hipótese de existência de mandatos cruzados sequenciais,</p><p>iniciado no Poder Legislativo estadual e finalizado no Poder Legislativo federal, tal cenário gera</p><p>a manutenção do foro por prerrogativa? O case guarda relação com Flávio Bolsonaro quando</p><p>ele ainda era deputado estadual. No caso, ele era investigado por fatos relacionados à função de</p><p>deputado estadual no TJ/RJ e foi eleito Senador de forma sequencial. Esperava-se, à época, que</p><p>o caso fosse enviado para o juiz de 1º instância; contudo,</p><p>de oposição à</p><p>intervenção policial”, conforme o caso.</p><p>Art. 3º – Havendo resistência à legítima ação policial de natureza preventiva ou repressiva,</p><p>ainda que por terceiros, o delegado de polícia verificará se o executor e as pessoas que o</p><p>auxiliaram se valeram, moderadamente, dos meios necessários e disponíveis para defender-</p><p>se ou para vencer a resistência.</p><p>§ 1º – Se do emprego da força resultar ofensa à integridade corporal ou à vida do resistente,</p><p>deverá ser imediatamente instaurado inquérito policial para apuração dos fatos, com</p><p>tramitação prioritária.</p><p>§ 2º – A instauração do inquérito policial será comunicada ao Ministério Público e à</p><p>Defensoria Pública, sem prejuízo do posterior envio de cópia do feito ao órgão correcional</p><p>correspondente.</p><p>§ 3º – Os objetos relacionados a evento danoso decorrente de resistência à intervenção</p><p>policial, como armas, material balístico e veículos, deverão ser apreendidos pelo delegado</p><p>de polícia.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>115</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>§ 4º – O delegado de polícia responsável pela investigação do evento danoso com resultado</p><p>morte deverá requisitar o exame pericial do local, independentemente da remoção de</p><p>pessoas e coisas.</p><p>§ 5º – O delegado de polícia poderá requisitar registros de comunicação e de movimentação</p><p>das viaturas envolvidas na ocorrência, dentre outras providências.</p><p>§ 6º – O delegado responsável pela investigação representará pelas medidas cautelares</p><p>necessárias à identificação de todos os policiais envolvidos na ação, ainda que figurem entre</p><p>aqueles qualificados na comunicação do fato.</p><p>§ 7º – Sem prejuízo do disposto no parágrafo anterior, o delegado poderá requisitar a</p><p>apresentação dos policiais envolvidos na ocorrência, bem como de todos os objetos que</p><p>posam interessar à investigação, sob pena de responsabilidade administrativa e criminal em</p><p>caso de descumprimento da requisição.</p><p>§ 8º – No caso de morte do resistente, é obrigatória a juntada do respectivo laudo</p><p>necroscópico ou cadavérico aos autos do inquérito policial.</p><p>Firmada a premissa acima, é possível citar um exemplo de repercussão nacional ocorrido em</p><p>2013: o caso do desaparecimento de Amarildo na Rocinha do Rio de Janeiro após entrar numa viatura</p><p>da Polícia Militar, cujo fato foi investigado pela Polícia Civil por haver a possibilidade de se tratar</p><p>de um crime doloso (tentado ou consumado) contra a vida de um civil praticado por policiais</p><p>militares.</p><p>Em síntese, atualmente, o entendimento, na forma da Constituição, da lei e da jurisprudência,</p><p>é no sentido de que a Polícia Civil possui a atribuição exclusiva para investigar crimes dolosos</p><p>(tentados ou consumados) cometidos por um policial militar contra a vida de um civil.</p><p>SUGESTÃO DE RESPOSTA:</p><p>A Constituição Federal, em seu art. 144, delimita as atribuições das policiais civis e militares.</p><p>Por um lado, cabe às polícias civis, dirigidas por delegados de polícia de carreira, ressalvada a</p><p>competência da União, as funções de polícia judiciária e a apuração de infrações penais, exceto</p><p>as militares. Por outro lado, às polícias militares cabem a polícia ostensiva e a preservação da</p><p>ordem pública.</p><p>Apesar de assim delineado, a jurisprudência dos Tribunais Superiores tem exercido papel</p><p>funcionais em certos temas.</p><p>Sobre a lavratura do termo circunstanciado pela Polícia Militar, uma vez que não se trata</p><p>de procedimento investigativo, mas peça informativa com descrição detalhada do fato e as</p><p>declarações do condutor do flagrante e do autor do fato. Ademais, o termo ‘autoridade policial’,</p><p>contido no art. 69 da Lei nº 9.099/95, que trata da atribuição para lavrar o termo</p><p>circunstanciado, abrange todas as autoridades policiais, não somente a Polícia Judiciária.</p><p>Sobre a investigação dos Delegados de Polícia, não poderão presidir investigação de crimes</p><p>militares. Acontece que o homicídio doloso praticado por militar contra civil não se apresenta</p><p>como um crime militar, mas civil, sendo sua investigação pela Polícia Civil nos termos das</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>116</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>normativas da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e do Conselho</p><p>Superior da Polícia Federal e o Conselho Nacional dos Chefes de Polícia Civil.</p><p>Por fim, também será atribuição da Polícia Civil a investigação de outros crimes comuns</p><p>cometidos por policiais militares. Por exemplo, a violência doméstica cometida pelo militar em</p><p>face de sua esposa.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>117</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DIREITO PENAL</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>118</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA</p><p>No início deste ano, uma jovem se dirigiu a uma farmácia de seu bairro para aplicação de</p><p>medicamento intravenoso, na região do glúteo, em procedimento padrão para esse tipo de</p><p>medicamento. Em local resguardado do público na farmácia, o farmacêutico solicitou que a</p><p>jovem abaixasse a calça para aplicação do medicamento, que foi prontamente atendido, mas</p><p>durante o procedimento o farmacêutico “deu uma lambida” na região.</p><p>Sobre o fato narrado, identifique o crime, bem como indique se é necessária a representação da</p><p>vítima e se, em tese, a tentativa é admissível em tal crime. Reanalise o caso se o relatado fosse</p><p>em face de uma vítima menor de 14 anos. [valor: 20,0 pontos].</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>119</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:</p><p>Cenário 1: vítima maior de 18 anos (10,0 pontos)</p><p>• Identificação do crime</p><p>• Tentativa</p><p>• Ação penal pública incondicionada</p><p>Cenário 2: vítima menor de 14 anos (10,0 pontos)</p><p>• Identificação do crime</p><p>• Tentativa</p><p>Ação penal pública incondicionada</p><p>Português (0,25 por erro até o limite de 5,0 pontos)</p><p>NOTA FINAL</p><p>MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA:</p><p>ATENÇÃO: SIM, esse fato é real! A questão foi inspirada na seguinte notícia:</p><p>https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2023/03/10/mulher-tem-nadega-</p><p>lambida-por-farmaceutico-no-df.htm</p><p>Afinal, qual o crime? Trata-se de um ato libidinoso?</p><p>A lambida, do modo como executada, sem dúvida, trata-se de um ato libidinoso</p><p>capaz de</p><p>caracterizar a incidência de crime contra a liberdade sexual, já que o farmacêutico buscava</p><p>satisfazer desejo de natureza sexual (art. 213 a 216-A do CP). Sendo a vítima maior de idade,</p><p>afasta-se eventual crime sexual contra vulnerável (art. 217-A e seguintes do CP).</p><p>Crime de estupro (art. 213 CP)?</p><p>Afasta-se o tipo penal em razão de inexistir violência ou grave ameaça no caso.</p><p>Crime de violência sexual mediante fraude (art. 215 CP)?</p><p>Afasta-se o tipo penal, uma vez que não houve qualquer consentimento da vítima e nem existe</p><p>qualquer elemento de fraude ou meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade</p><p>da vítima. A ideia da fraude está em obter o consentimento (por meio do ardil), consentimento</p><p>esse que inexistiu (o ato foi contra a vontade da vítima).</p><p>Crime de assédio sexual (art. 216-A do CP)?</p><p>https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2023/03/10/mulher-tem-nadega-lambida-por-farmaceutico-no-df.htm</p><p>https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2023/03/10/mulher-tem-nadega-lambida-por-farmaceutico-no-df.htm</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>120</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Afasta-se o tipo penal em razão de inexistir entre agressor e vítima relação de superior</p><p>hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função.</p><p>Crime de Importunação sexual (art. 215-A do CP)?</p><p>Exato!!! O caso se amolda ao tipo penal:</p><p>Art. 215-A. Praticar contra alguém e sem a sua anuência ato libidinoso com o</p><p>objetivo de satisfazer a própria lascívia ou a de terceiro:</p><p>Pena - reclusão, de 1 (um) a 5 (cinco) anos, se o ato não constitui crime mais</p><p>grave.</p><p>Algumas informações sobre o crime de Importunação sexual (art. 215-A do CP):</p><p>• Crime comum (qq pessoa pode ser autor ou vítima);</p><p>• Elemento subjetivo é o dolo consciente da prática da conduta (não se admite a</p><p>culpa);</p><p>• Em tese admite-se a tentativa, apesar de ser difícil de visualização na prática</p><p>(Rogério Sanches); e</p><p>• Ação Penal Pública Incondicionada.</p><p>CRIATIVO 7:</p><p>Sobre o caso, alguns me perguntaram: E se a vítima fosse menor de 14 anos, qual seria o</p><p>crime?</p><p>Seria um caso típico de estupro de vulnerável (art. 217-A do CP), já que a lambida constitui</p><p>ato libidinoso. Lembre-se que, em face de menores de 14 anos, não se necessita da violência</p><p>ou grave ameaça por ser a violência presumida para o tipo penal.</p><p>Art. 217-A. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de</p><p>14 (catorze) anos:</p><p>Pena - reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos.</p><p>SUGESTÃO DE RESPOSTA:</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>121</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>A questão narra um cenário em que uma jovem tem a sua nádega lambida por um farmacêutico</p><p>durante um procedimento padrão para aplicação de medicamento. A conduta se qualifica como</p><p>um ato libidinoso, uma vez que o autor do fato buscava satisfazer desejo de natureza sexual.</p><p>Trata-se de crime de importunação sexual, que se procede de ofício, sem necessidade de</p><p>representação por ser crime de ação penal pública incondicionada. Ademais, o crime admite a</p><p>forma tentada.</p><p>Por fim, caso a vítima fosse menor de 18 anos, seria o crime de estupro de vulnerável, uma vez</p><p>que a lambida constitui ato libidinoso, não se exigindo a violência ou grave ameaça por ser a</p><p>violência presumida para o tipo penal. Trata-se de ação penal pública incondicionada e o crime</p><p>é admitido na forma tentada.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>122</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA</p><p>Cidadão é convidado por estranhos, após um jogo de futebol, para comemorarem a vitória do</p><p>time. Às 4h da manhã, esse cidadão acorda sozinho na mesma mesa, localizada à frente do bar,</p><p>o qual já se encontrava fechado. Após investigação criminal, verificou-se que o cidadão fora</p><p>dopado, mas não foi possível realizar a perícia. Ademais, teve a mochila com notebook,</p><p>headphone, celular e carteira com cartões bancários levados, além de R$ 15 mil sacados de sua</p><p>conta. Após uso do rastreamento do celular, identificou-se um dos autores do fato e, com a</p><p>sequência das investigações, foi possível identificar mais um elemento, além da participação do</p><p>dono do bar, o qual era responsável por levar a bebida dopada enquanto os demais finalizavam</p><p>a empreitada criminosa. Um desses investigados confessou que sempre portava uma arma de</p><p>fogo de uso restrito, caso houvesse algum problema, a qual foi apreendida em sua casa após</p><p>operação policial, arma essa que comprara dois anos atrás. Dois desses investigados</p><p>confessaram a ingestão pela vítima da bebida alcoólica dopada. Após divulgação do fato,</p><p>verificou-se que outros cinco fatos similares ocorreram nos últimos 30 dias.</p><p>Sobre o fato narrado, identifique os crimes, fundamentando a sua resposta [valor: 15,0 pontos].</p><p>Por fim, qual o impacto da não realização da perícia? [valor: 5,0 pontos].</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>123</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:</p><p>Art. 157, § 2º, II, do Código Penal + explicações (5,0 pontos)</p><p>Art. 288, parágrafo único, do Código Penal + explicações (5,0 pontos)</p><p>Art. 16 da Lei nº 10.826/03 (desígnio autônomo) (5,0 pontos)</p><p>Ausência da perícia e substituição por outras provas (5,0 pontos)</p><p>Português (0,25 por erro até o limite de 5,0 pontos)</p><p>NOTA FINAL</p><p>MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA:</p><p>ATENÇÃO: SIM, esse fato é real! A questão foi inspirada na seguinte notícia, ocorrida</p><p>EM SÃO PAULO:</p><p>https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2023/08/16/advogado-e-convidado-para-mesa-</p><p>em-bar-dopado-e-roubado-por-grupo-em-sp-selfie-registrou-rostos.ghtml</p><p>AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. ROUBO. REGIME PRISIONAL AGRAVADO.</p><p>POSSIBILIDADE. DELITO PRATICADO MEDIANTE O GOLPE CONHECIDO COMO "BOA</p><p>NOITE, CINDERELA". VÍTIMA ABANDONADA INCONSCIENTE AO RELENTO. GRAVIDADE</p><p>CONCRETA EVIDENCIADA.</p><p>1. O roubo cometido mediante o golpe "Boa noite, Cinderela" excede as elementares do</p><p>tipo penal, dado os riscos que a substância entorpecente misturada com álcool pode</p><p>acarretar à saúde do ofendido, situação, no caso, ainda agravada, pois a vítima foi</p><p>abandonada desacordada em plena via pública, ficando exposta a novos perigos e à</p><p>prática de outros crimes.</p><p>2. Entende esta Corte que "a estipulação do regime de cumprimento da pena não está</p><p>atrelada, em caráter absoluto, à pena-base. O fato de esta ser colocada no mínimo legal</p><p>não torna obrigatória a fixação de regime menos severo, desde</p><p>que, por meio de</p><p>elementos extraídos da conduta delitiva, seja demonstrada a gravidade concreta do</p><p>crime, de forma a autorizar a imposição de regime mais rigoroso do que aquele permitido</p><p>pelo quantum da reprimenda" (HC n. 262.939/SP, relator Ministro Sebastião Reis Júnior,</p><p>Sexta Turma, julgado em 8/4/2014, DJe 25/4/2014).</p><p>3. Agravo regimental desprovido.</p><p>(AgRg no HC n. 782.694/SP, relator Ministro Jesuíno Rissato (Desembargador Convocado</p><p>do TJDFT), Sexta Turma, julgado em 17/4/2023, DJe de 20/4/2023.)</p><p>https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2023/08/16/advogado-e-convidado-para-mesa-em-bar-dopado-e-roubado-por-grupo-em-sp-selfie-registrou-rostos.ghtml</p><p>https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2023/08/16/advogado-e-convidado-para-mesa-em-bar-dopado-e-roubado-por-grupo-em-sp-selfie-registrou-rostos.ghtml</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>124</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO ESPECIAL. ROUBO</p><p>SIMPLES. COLOCAÇÃO DE SONÍFERO. "BOA NOITE CINDERELA". EXAME DE CORPO DE</p><p>DELITO. PERÍCIA PARA ANÁLISE DA SUBSTÂNCIA UTILIZADA. NÃO REALIZADA. PROVA</p><p>TESTEMUNHAL. POSSIBILIDADE. ROBUSTEZ DO ACERVO PROBATÓRIO PARA</p><p>CONDENAÇÃO. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO.</p><p>I - A Primeira Turma do col. Pretório Excelso firmou orientação no sentido de não admitir</p><p>a impetração de habeas corpus substitutivo ante a previsão legal de cabimento de</p><p>recurso próprio (v.g.: HC n. 109.956/PR, Rel. Min. Marco Aurélio, DJe de 11/9/2012;</p><p>RHC n. 121.399/SP, Rel. Min. Dias Toffoli, DJe de 1º/8/2014 e RHC n. 117.268/SP, Rel.</p><p>Min. Rosa Weber, DJe de 13/5/2014). As Turmas que integram a Terceira Seção desta</p><p>Corte alinharam-se a esta dicção, e, desse modo, também passaram a repudiar a</p><p>utilização desmedida do writ substitutivo em detrimento do recurso adequado (v.g.: HC</p><p>n. 284.176/RJ, Quinta Turma, Rel. Min. Laurita Vaz, DJe de 2/9/2014; HC n. 297.931/MG,</p><p>Quinta Turma, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, DJe de 28/8/2014; HC n. 293.528/SP,</p><p>Sexta Turma, Rel. Min. Nefi Cordeiro, DJe de 4/9/2014 e HC n. 253.802/MG, Sexta</p><p>Turma, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, DJe de 4/6/2014).</p><p>II - Portanto, não se admite mais, perfilhando esse entendimento, a utilização de habeas</p><p>corpus substitutivo quando cabível o recurso próprio, situação que implica o não</p><p>conhecimento da impetração.</p><p>Contudo, no caso de se verificar configurada flagrante ilegalidade apta a gerar</p><p>constrangimento ilegal, recomenda a jurisprudência a concessão da ordem de ofício.</p><p>III - O exame de corpo de delito direto, por expressa determinação legal, é</p><p>indispensável nas infrações que deixam vestígios, podendo apenas</p><p>supletivamente ser suprido pela prova testemunhal quando impossível sua</p><p>realização, ex vi do art. 167 do Código de Processo Penal.</p><p>IV - Na hipótese, ante o desaparecimento dos vestígios pela digestão do sonífero, a</p><p>prova testemunhal reunida no processo supre a realização do exame de corpo de delito,</p><p>restando comprovada a materialidade do delito de roubo pela redução da capacidade de</p><p>resistência da vítima.</p><p>Habeas corpus não conhecido.</p><p>(HC n. 308.825/SP, relator Ministro Felix Fischer, Quinta Turma, julgado em 17/9/2015,</p><p>DJe de 24/9/2015.)</p><p>EM RAZÃO DE D[UVIDAS, SOBRE OS DESÍGNIOS AUTÔNOMOS E INAPLICABILIDADE</p><p>DO PRINCÍPIO DA CONSUNÇÃO:</p><p>AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. ROUBO MAJORADO. PORTE ILEGAL DE</p><p>ARMA DE FOGO. PLEITO DE RECONHECIMENTO DO PRINCÍPIO DA CONSUNÇÃO.</p><p>OCORRÊNCIA ISOLADA DOS CRIMES EM QUESTÃO. CONTEXTO FÁTICO DISTINTOS,</p><p>CRIMES AUTONÔMOS. INVERSÃO DO JULGADO. NECESSIDADE DE REEXAME DO</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>125</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>ACERVO FÁTICO-PROBATÓRIO DOS AUTOS. IMPOSSIBILIDADE NA VIA DO HABEAS</p><p>CORPUS. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO.</p><p>1. No tocante a aplicação do princípio da consunção, reconhecida a autonomia</p><p>dos desígnios do paciente e a distinção dos bens jurídicos tutelados pelas</p><p>normas penais, evidencia-se, no caso, a inaplicabilidade do referido princípio,</p><p>dada a ocorrência isolada dos crimes de roubo e porte ilegal de arma de fogo,</p><p>o que denota a impossibilidade da absorção de um delito pelo outro.</p><p>2. Ademais, para infirmar as conclusões das instâncias ordinárias seria necessário</p><p>revolver o contexto fático-probatório dos autos, providência que não se adequa à via</p><p>estreita do habeas corpus.</p><p>3. Agravo regimental não provido.</p><p>(AgRg no HC n. 836.737/PR, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma,</p><p>julgado em 22/8/2023, DJe de 28/8/2023.)</p><p>Rogério Sanches + STJ, AgRg no AREsp 1.425.424, Rel. Min. Jorge Mussi, 5ª</p><p>Turma, j. 06.08.2019: Segundo a jurisprudência desta Corte, não há bis in idem na</p><p>condenação pelo crime de associação criminosa armada e pelo de roubo</p><p>qualificado pelo concurso de agentes, pois os delitos são autônomos, aperfeiçoando-</p><p>se o primeiro independentemente do cometimento de qualquer crime subsequente.</p><p>Ademais, os bens jurídicos protegidos pelas normas incriminadoras são distintos – no</p><p>caso do art. 288, parágrafo único, do CP, a paz pública e do roubo qualificado, o</p><p>patrimônio, a integridade física e a liberdade do indivíduo.</p><p>Sobre a associação criminosa armada somente por 1 indivíduo, 3 correntes (na correção</p><p>ACEITAREI qualquer corrente abaixo devidamente fundamentada)</p><p>• Hungria e Noronha: basta 1 integrante</p><p>• Bento de Faria: maioria dos membros deve estar armado</p><p>• Fragoso + sanches: depende do caso concreto - "O juiz deverá reconhecer que o bando é</p><p>armado, quando, pela quantidade de membros que portem armas ou pela natureza da arma</p><p>usada, seja maior o perigo e o temor causado pelos malfeitores. Conforme sejam as</p><p>circunstâncias, pode bastar que apenas um se apresente armado, sem que se exija que o faça de</p><p>forma visível ou ostensiva."</p><p>SUGESTÃO DE RESPOSTA:</p><p>A questão narra um cenário em que um cidadão fora dopado e teve a mochila com notebook,</p><p>headphone, celular e carteira com cartões bancários levados, além de R$ 15 mil sacados de sua</p><p>conta.</p><p>Trata-se de um cenário típico de roubo, uma vez que os autores subtraíram coisa móvel alheia</p><p>após reduzirem a capacidade de resistência da vítima por meio de substância inserida em</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>126</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>bebida. No fato incide, ainda, a causa de aumento do concurso de pessoas. Contudo, não incide</p><p>a causa de aumento específica da arma de fogo, uma vez que a violência ou a ameaça não foi</p><p>exercida por meio desse instrumento. Houve uma verdadeira distribuição de tarefas, de modo</p><p>que os três envolvidos respondem pelo crime do art. 157, § 2º, II, do Código Penal.</p><p>Mesmo que não realizada a perícia, o roubo está caraterizado. No caso, com base no art. 167 do</p><p>CPP, não sendo possível o exame de corpo de delito, por haverem desaparecido os vestígios, a</p><p>prova testemunhal ou mesmo outros elementos probatórios poderão suprir-lhe a falta,</p><p>consoante doutrina e jurisprudência.</p><p>Tem-se, ainda, o crime de associação criminosa armada, prevista no art. 288, parágrafo único,</p><p>do Código Penal.</p><p>Existem 4 pessoas envolvidas em cenário de estabilidade, com crimes similares</p><p>ocorridos nos último 30 dias. Mesmo que só uma pessoa esteja armada, trata-se de arma de</p><p>fogo de uso restrito que estava à disposição do grupo em caso de necessidade, como relatado</p><p>por um dos supostos autores.</p><p>Em relação ao proprietário da arma de fogo de uso restrito, tem-se o crime do art. 16 da Lei nº</p><p>10.826/03, uma vez que identificado desígnio autônomo para o porte, independentemente da</p><p>associação criminosa.</p><p>Por fim, considerando a reiteração dos fatos nos último 30 dias, tem-se a incidência da figura do</p><p>crime continuado, devidamente prevista no art. 71 do Código Penal.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>127</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA</p><p>Cidadão é flagrado perto de estabelecimentos comerciais portando um simulacro de arma de</p><p>fogo. Um policial militar visualizou ele com um volume na cintura e o abordou, encontrando o</p><p>instrumento após busca pessoal. Ato seguinte, o cidadão foi conduzido até a Delegacia de</p><p>Polícia.</p><p>Considerando que a busca pessoal foi legal, na qualidade do Delegado de Polícia que recebeu a</p><p>ocorrência, indique as providências cabíveis ao caso narrado. [valor: 8,0 pontos]. Ademais, caso</p><p>a prisão em flagrante do cidadão se desse imediatamente após o efetivo emprego do simulacro</p><p>de arma de fogo em que ele lograsse êxito na subtração de diversos itens de uma loja, quais</p><p>seriam as providências cabíveis ao caso narrado pelo Delegado de Polícia. [valor: 8,0 pontos].</p><p>Ainda sobre o desdobramento do caso, se o réu for primário, sem antecedentes criminais e o</p><p>valor da coisa subtraída for de R$70,00, pode-se falar na aplicação do princípio da</p><p>insignificância? [valor: 4,0 pontos].</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>128</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:</p><p>CASO1: (8,0 pontos)</p><p>• Ausência de crime</p><p>• Não lavrar APFD e colocar em liberdade sem qualquer</p><p>procedimento criminal</p><p>• Apreender simulacro e encaminhar ao exército</p><p>CASO 2: (8,0 pontos)</p><p>• Crime de roubo na forma simples</p><p>• lavrar APFD</p><p>• Apreender simulacro e encaminhar ao exército</p><p>Incabível a insignificância + fundamento (4,0 pontos)</p><p>Português (0,2 por erro)</p><p>NOTA FINAL</p><p>MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA:</p><p>Portar simulacro de arma de fogo, por si só, é crime? Caracteriza roubo ou furto o seu</p><p>uso? Na forma simples ou na forma qualificada?</p><p>Recomendo a leitura:</p><p>https://jus.com.br/artigos/105338/armas-de-brinquedo-replicas-e-simulacros-passam-</p><p>agora-a-ser-armas-de-fogo-de-uso-proibido</p><p>HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO. IMPOSSIBILIDADE. ROUBO.</p><p>EMPREGO DE SIMULACRO. MAJORANTE. DOSIMETRIA. REGIME INICIAL. PENA-BASE</p><p>ALTERADA. MÍNIMO LEGAL. CIRCUNSTÂNCIAS JUDICIAIS FAVORÁVEIS. ENUNCIADO</p><p>N. 440 DA SÚMULA DO STJ E 718 E 719 DO STF. CONSTRANGIMENTO ILEGAL</p><p>VERIFICADO. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO. ORDEM CONCEDIDA DE OFÍCIO.</p><p>1. Diante da hipótese de habeas corpus substitutivo de recurso próprio, a impetração</p><p>sequer deveria ser conhecida, segundo orientação jurisprudencial do Supremo Tribunal</p><p>Federal e do próprio Superior Tribunal de Justiça. Contudo, considerando as alegações</p><p>expostas na inicial, razoável a análise do feito para verificar a existência de eventual</p><p>constrangimento ilegal que justifique a concessão da ordem de ofício.</p><p>2. A jurisprudência desta Corte Superior é reiterada no sentido de não aplicar</p><p>o princípio da insignificância a crimes praticados mediante violência ou grave</p><p>ameaça à pessoa.</p><p>3. O pedido de absolvição não comporta provimento, isso porque a condenação do</p><p>paciente não foi fundada apenas no reconhecimento pessoal que se pretende anular.</p><p>Com efeito, a sentença relata a existência de outras provas independentes que levaram</p><p>ao convencimento do Juízo sobre a autoria e materialidade do crime.</p><p>https://jus.com.br/artigos/105338/armas-de-brinquedo-replicas-e-simulacros-passam-agora-a-ser-armas-de-fogo-de-uso-proibido</p><p>https://jus.com.br/artigos/105338/armas-de-brinquedo-replicas-e-simulacros-passam-agora-a-ser-armas-de-fogo-de-uso-proibido</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>129</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Estando a sentença devidamente fundamentada, não é possível acolher a tese defensiva</p><p>que pretende a absolvição por ausência de provas, uma vez que presentes outros</p><p>elementos suficientes para ensejar a condenação.</p><p>4. A jurisprudência desta corte é reiterada no sentido de que, por mais</p><p>ameaçadora que tenha sido a utilização do simulacro, não há a incidência da</p><p>majorante do uso da arma, uma vez que ausente a potencialidade lesiva</p><p>característica do instrumento. Precedentes.</p><p>Desse modo, necessária a reforma da dosimetria da pena para afastar a majorante do</p><p>art. 157, §2º, inciso I e fixar a pena definitiva no mínimo legal.</p><p>2. É firme neste Tribunal a orientação de que é necessária a apresentação de motivação</p><p>concreta para a fixação de regime mais gravoso, fundada nas circunstâncias judiciais do</p><p>art. 59 do Código Penal. Nesse sentido, foi elaborado o enunciado n. 440 da Súmula</p><p>desta Corte que prevê: "fixada a pena-base no mínimo legal, é vedado o estabelecimento</p><p>de regime prisional mais gravoso do que o cabível em razão da sanção imposta, com</p><p>base apenas na gravidade abstrata do delito".</p><p>Seguindo tal entendimento, a mera referência genérica, pelas instâncias ordinárias, à</p><p>violência e à grave ameaça empregadas no delito de roubo ou à intranquilidade social</p><p>que a conduta gera, não constitui motivação suficiente, por si só, para justificar a</p><p>imposição de regime prisional mais gravoso, porquanto refere-se à situação já prevista</p><p>no próprio tipo.</p><p>Outrossim, reconhecidas as circunstâncias judiciais favoráveis e a primariedade do réu,</p><p>a quem foi imposto - após a exclusão da majorante - reprimenda definitiva igual a 4</p><p>anos de reclusão, é cabível a imposição do regime aberto para iniciar o cumprimento da</p><p>sanção corporal, à luz do art. 33, §§ 2º e 3º, do Código Penal.</p><p>Habeas corpus não conhecido. Ordem concedida, de ofício, para excluir a majorante do</p><p>emprego de arma de fogo, reduzir a pena ao mínimo legal e fixar o regime inicial aberto.</p><p>(HC n. 365.549/SP, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, julgado em</p><p>9/3/2017, DJe de 17/3/2017.)</p><p>SUGESTÃO DE RESPOSTA:</p><p>No caso narrado, um cidadão é flagrado perto de estabelecimentos comerciais portando um</p><p>simulacro de arma de fogo. Há de se ressaltar que esse porte não constitui crime por ausência</p><p>de tipo penal específico. Nesse caso, o Delegado de Polícia não lavrará o Auto de Prisão em</p><p>Flagrante Delito, devendo colocar o conduzido em liberdade sem qualquer procedimento</p><p>criminal, mas apreenderá o simulacro de arma de fogo por ser item controlado pelo Exército</p><p>(Art. 14, II, do Decreto nº 11.615/23 e art. 127 do Decreto</p><p>nº 10.030/19), devendo ao Exército</p><p>ser encaminhado.</p><p>Contudo, diferente é o cenário em que a prisão em flagrante do cidadão se desse após efetiva</p><p>utilização do simulacro de arma de fogo em que ele lograsse êxito na subtração de diversos itens</p><p>da loja. Nesse caso, o Delegado de Polícia lavrará o Auto de Prisão em Flagrante Delito pelo</p><p>crime de roubo na sua forma simples (art. 157, caput, do Código Penal), bem como apreenderá</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>130</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>o simulacro de arma de fogo por ser item controlado pelo Exército (Art. 14, II, do Decreto nº</p><p>11.615/23 e art. 127 do Decreto nº 10.030/19), devendo ao Exército ser encaminhado.</p><p>Por fim, de acordo com o STJ, o princípio da insignificância é inaplicável aos crimes praticados</p><p>mediante violência ou grave ameaça à pessoa, como é o crime de roubo, mesmo que em sua</p><p>forma simples.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>131</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA</p><p>Policial civil estava chegando em casa com seu filho de meses em seu colo, abrindo o portão</p><p>para adentrar ao local. Neste momento, ao olhar para o lado, o policial observa o cachorro do</p><p>vizinho correndo em sua direção, animal com quem o policial não tem qualquer contato. Diante</p><p>de tal cenário, o policial efetua dois disparos contra o animal, que vem imediatamente a óbito.</p><p>Verificou-se, depois, que o cachorro fugiu e que ele era manso, não representando qualquer</p><p>risco para o policial civil.</p><p>Diante do exposto, analise a conduta do policial. (10,0 pontos) Reanalise o caso, levando em</p><p>consideração que o cachorro fosse, realmente, atacar o policial por ordem do vizinho em razão</p><p>de desavenças pessoais. (10,0 pontos)</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>132</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:</p><p>CENÁRIO 1: (10,0 pontos)</p><p>• estado de necessidade + explicação</p><p>• é putativo (descriminante) + explicação</p><p>• isento de pena ou ausência de crime</p><p>CENÁRIO 2: (10,0 pontos)</p><p>• Legítima defesa</p><p>• Ausência de crime</p><p>Português (0,25 por erro até o limite de 5,0)</p><p>NOTA FINAL</p><p>MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA:</p><p>Erro sobre elementos do tipo (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984)</p><p>Art. 20 - O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo, mas permite</p><p>a punição por crime culposo, se previsto em lei. (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984)</p><p>Descriminantes putativas (Incluído pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984)</p><p>§ 1º - É isento de pena quem, por erro plenamente justificado pelas circunstâncias, supõe</p><p>situação de fato que, se existisse, tornaria a ação legítima. Não há isenção de pena quando o</p><p>erro deriva de culpa e o fato é punível como crime culposo.(Redação dada pela Lei nº 7.209, de</p><p>11.7.1984)</p><p>Erro determinado por terceiro (Incluído pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984)</p><p>§ 2º - Responde pelo crime o terceiro que determina o erro. (Redação dada pela Lei nº</p><p>7.209, de 11.7.1984)</p><p>Erro sobre a pessoa (Incluído pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984)</p><p>§ 3º - O erro quanto à pessoa contra a qual o crime é praticado não isenta de pena. Não se</p><p>consideram, neste caso, as condições ou qualidades da vítima, senão as da pessoa contra quem</p><p>o agente queria praticar o crime. (Incluído pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984)</p><p>Estado de necessidade</p><p>Art. 24 - Considera-se em estado de necessidade quem pratica o fato para salvar de perigo</p><p>atual, que não provocou por sua vontade, nem podia de outro modo evitar, direito próprio ou</p><p>alheio, cujo sacrifício, nas circunstâncias, não era razoável exigir-se. (Redação dada pela</p><p>Lei nº 7.209, de 11.7.1984)</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1980-1988/L7209.htm#art20</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1980-1988/L7209.htm#art20</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1980-1988/L7209.htm#art20</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1980-1988/L7209.htm#art20</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1980-1988/L7209.htm#art20</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1980-1988/L7209.htm#art20</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1980-1988/L7209.htm#art20</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1980-1988/L7209.htm#art20</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1980-1988/L7209.htm#art20</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1980-1988/L7209.htm#art20</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1980-1988/L7209.htm#art24</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1980-1988/L7209.htm#art24</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>133</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>§ 1º - Não pode alegar estado de necessidade quem tinha o dever legal de enfrentar o</p><p>perigo. (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984)</p><p>§ 2º - Embora seja razoável exigir-se o sacrifício do direito ameaçado, a pena poderá ser</p><p>reduzida de um a dois terços. (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984)</p><p>Legítima defesa</p><p>Art. 25 - Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários,</p><p>repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem. (Redação dada pela</p><p>Lei nº 7.209, de 11.7.1984) (Vide ADPF 779)</p><p>Parágrafo único. Observados os requisitos previstos no caput deste artigo, considera-se</p><p>também em legítima defesa o agente de segurança pública que repele agressão ou risco de</p><p>agressão a vítima mantida refém durante a prática de crimes. (Incluído pela Lei nº 13.964,</p><p>de 2019) (Vide ADPF 779)</p><p>Estado de Necessidade: é o conflito entre vários bens jurídicos diante de uma situação de perigo.</p><p>- Requisitos objetivos do Estado de Necessidade:</p><p>• Perigo deve ser atual (perigo presente)</p><p>o ≠ de perigo iminente: é o perigo de um perigo, ou seja, um perigo bem distante</p><p>para permitir o sacrifício de direito alheio. OBS: se o perigo advém de injusta</p><p>agressão humana, estaremos diante da legitima defesa.</p><p>o Esse perigo pode ser causado por conduta humana, por comportamento animal</p><p>ou por fato da natureza.</p><p>o Não tem destinatário certo este perigo.</p><p>• Salvar direito próprio (estado de necessidade próprio) ou alheio (estado de necessidade</p><p>de terceiro).</p><p>• A situação de perigo não tenha sido causada voluntariamente pelo agente</p><p>• Inexistência do dever legal de enfrentar o perigo (≠ de ser herói)</p><p>Ex: bombeiro – não pode alegar EN enquanto é possível enfrentar o perigo. Não é um</p><p>dever absoluto, só há o dever enquanto houver a possibilidade de enfrentar o perigo.</p><p>• Inevitabilidade do comportamento lesivo: é o único meio para proteger o direito era</p><p>sacrificando um bem jurídico alheio o seu ou de outrem.</p><p>o Se houver alternativa entre sacrificar o bem jurídico e não sacrificar, e o agente</p><p>escolhe o mais fácil que é sacrificando, responde por crime.</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1980-1988/L7209.htm#art24</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1980-1988/L7209.htm#art24</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1980-1988/L7209.htm#art25</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1980-1988/L7209.htm#art25</p><p>http://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=6081690</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2019/Lei/L13964.htm#art2</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2019/Lei/L13964.htm#art2</p><p>http://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=6081690</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>134</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>- Requisito subjetivo do EN:</p><p>• O agente deve ter conhecimento que está diante de um Estado de Necessidade. Esse</p><p>requisito decorre da teoria finalista. Ex. médico que convence a amante fazer aborto.</p><p>No momento da curetagem, descobre que o aborto era realmente necessário, pois se</p><p>tratava de gravidez de alto risco. Responde pelo crime, pois sua intenção não era salvar</p><p>a amante (pois que não sabia do risco antes de iniciar o procedimento), mas sim o</p><p>aborto.</p><p>OBS: é possível estado de necessidade X estado de necessidade? Sim, por ex: naufrágio, onde</p><p>ficam 2 pessoas a deriva em um pedaço de madeira.</p><p>- Classificação:</p><p>• Quanto ao titular do bem jurídico ameaçado:</p><p>o EN próprio → protege-se bem jurídico próprio</p><p>o EN de terceiro → protege-se bem jurídico alheio</p><p>• Quanto ao elemento subjetivo do agente:</p><p>o EN real → existe situação de perigo</p><p>o EN putativo → o perigo é imaginário (não existe)</p><p>▪ Evitável (inescusável): responde pelo crime culposo (§1º, art. 20, CP);</p><p>▪ Inevitável (escusável): isenção de pena.</p><p>Legítima Defesa:</p><p>Art. 25 - Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios</p><p>necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem.</p><p>Estado de necessidade Legitima defesa</p><p>- perigo atual (ou iminente implícito para alguns);</p><p>- agressão justa;</p><p>- é o conflito entre vários bens jurídicos diante de</p><p>uma situação de perigo;</p><p>- o perigo decorre de fato humano ou natural;</p><p>- perigo atual ou iminente;</p><p>- Agressão injusta;</p><p>- é o conflito entre vários bens jurídicos diante de</p><p>ameaça ou ataque a um bem jurídico;</p><p>- agressão humana dirigida;</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>135</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>- os interesses em conflito são legítimos. - os interesses do agressor são ilegítimos.</p><p>Bem jurídico tutelado: a legítima defesa tem aplicação na proteção de qualquer bem jurídico</p><p>tutelado pela lei, desde que presentes seus requisitos. Ressalta-se que o bem somente será</p><p>passível de defesa se não for possível socorrer-se do Estado para a sua proteção. Rogério Greco</p><p>defende que não cabe legítima defesa da vítima ameaçada de um mal, futuro, injusto e grave</p><p>(ex. ameaça de morte). Há quem abrande tal requisito, afirmando que determinadas ameaças,</p><p>por serem de tal grave que legitimariam a ação, tornando-se exclusão da culpabilidade, por</p><p>inexigibilidade de conduta diversa. Ex. pessoa ameaçada de morte pelo “Fernandinho Beira-</p><p>mar” – controverso.</p><p>- Espécies:</p><p>• Legítima defesa autêntica ou real: quando a agressão injusta está efetivamente</p><p>ocorrendo. É a forma comum, tradicional em que se fazem presentes todos os requisitos;</p><p>• Legítima defesa putativa ou imaginária: quando a injusta agressão é imaginária, que</p><p>ocorre somente na mente do agente. Trata-se de clássico exemplo de descriminante</p><p>putativa (art. 20, 10, CP). Na hipótese, pode não haver a exclusão da antijuridicidade, se</p><p>o erro for inescusável e o fato for previsto como crime culposo, vez que faltará um dos</p><p>elementos indispensáveis à sua configuração;</p><p>OBS: ataque animal espontâneo é Estado de necessidade, mas se o animal atacar por ordem do</p><p>dono é legítima defesa.</p><p>SUGESTÃO DE RESPOSTA:</p><p>Policial civil chegou em casa com seu filho de meses em seu colo, quando visualizou</p><p>um cachorro do vizinho correndo em sua direção e, por segurança, o policial efetuou</p><p>dois disparos contra o animal, que veio imediatamente a óbito. Contudo, verificou-se,</p><p>depois, que o cachorro fugiu e que era manso, não representando qualquer risco para</p><p>o policial civil.</p><p>Tem-se clara hipótese de estado de necessidade putativo. O estado de necessidade</p><p>está caracterizado em razão da necessidade de o policial se salvar e salvar o seu filho</p><p>do perigo atual advindo do suposto ataque do cachorro, que não provocou por sua</p><p>vontade, nem podia de outro modo evitar. Ademais, a descriminante putativa está</p><p>presente, sendo isento de pena o policial por erro justificado pelas circunstâncias</p><p>narradas.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>136</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Cenário diferente, contudo, ocorreria se o cachorro fosse, realmente, atacar o policial</p><p>por ordem do vizinho em razão de desavenças pessoais. Nesse caso, tem-se hipótese</p><p>de legitimidade defesa, pois usou do único meio que tinha em mãos, a arma de fogo, de</p><p>modo a repelir injusta agressão em face de sua pessoa e de seu filho. Não existe,</p><p>portanto, crime no caso narrado.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>137</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA</p><p>Cidadão, maior de idade, decide ir com amigos a um clube noturno da cidade para se divertirem</p><p>e aproveitarem a noite. Esse cidadão conhece uma mulher e, de forma consensual, decidem ir</p><p>para o motel da cidade. Após momentos intensos e sem uso de preservativo, trocam telefone e</p><p>cada um vai para a sua casa. Nas semanas seguintes, ele não consegue contato com ela. Mais</p><p>de um mês depois, o cidadão recebe da mulher em seu celular a seguinte mensagem “Bem-</p><p>vindo ao mundo do HIV”. Desesperado, ele faz o exame que dá positivo para a infecção do</p><p>mencionado vírus. Ele, então, procura o Delegado de Polícia e reporta o ocorrido.</p><p>À luz do exposto, indique as correntes doutrinárias e jurisprudenciais acerca da tipificação da</p><p>transmissão dolosa do vírus HIV. [valor: 20,0 pontos].</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>138</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:</p><p>Corrente 1: art. 131 (5,0 pontos)</p><p>Corrente 2: art. 121 (5,0 pontos)</p><p>Corrente 3: lesão corporal gravíssima (5,0 pontos)</p><p>STJ e STF: corrente 3 (5,0 pontos)</p><p>Português (0,2 por erro)</p><p>NOTA FINAL</p><p>MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA:</p><p>Basicamente, destaca-se a existência de 3 correntes de destaque:</p><p>a) Perigo de contágio de moléstia grave (art. 131 do Código Penal):</p><p>Perigo de contágio de moléstia grave</p><p>Art. 131 - Praticar, com o fim de transmitir a outrem moléstia grave de que está contaminado,</p><p>ato capaz de produzir o contágio:</p><p>Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa.</p><p>O que é “moléstia grave”. Rogério Sanches explica que parte da doutrina qualifica o crime como</p><p>um tipo penal em branco, que deve ser complementado por lista do Ministério da Saúde.</p><p>Contudo, majoritariamente, entende-se que essa lista é meramente exemplificativa e que pode</p><p>ser ampliada por uma “atividade médica valorativa” na forma pericial.</p><p>b) Homicídio doloso (art. 121 do CP): Essa linha já foi fortemente defendida no início de difusão</p><p>da doença, pela inexistência de cura e morte inevitável em poucos anos. Até que a morte</p><p>estivesse caracterizada, o crime incidia na forma tentada. A evolução da medicina, contudo, tem</p><p>afastada a caracterização do homicídio doloso. Ademais, a caracterização do animus necandi</p><p>mostra-se sempre difícil em tais casos.</p><p>c) Lesão Corporal qualificada pela enfermidade incurável (art. 129, § 2º, II, do CP): Atualmente,</p><p>esse é o entendimento predominante na doutrina em razão das repercussões físicas do doente</p><p>e da constante necessidade de acompanhamento médico.</p><p>E nos Tribunais Superiores?</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>139</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>De início, veja esse julgado do STF. O Tribunal AFASTOU a tipificação como crime de homicídio:</p><p>Portador do Vírus HIV e Tentativa de Homicídio – 2</p><p>Em conclusão de julgamento, a Turma deferiu habeas corpus para imprimir a</p><p>desclassificação do delito e determinar o envio do processo para distribuição a uma das varas</p><p>criminais comuns estaduais. Tratava-se de writ em que se discutia se o portador do vírus HIV,</p><p>tendo ciência da doença e deliberadamente a ocultando de seus parceiros, teria praticado</p><p>tentativa de homicídio ao manter relações sexuais sem preservativo. A defesa pretendia a</p><p>desclassificação do delito para o de perigo de contágio de moléstia grave (CP: “Art. 131</p><p>Praticar, com o fim de transmitir a outrem moléstia grave de que está contaminado, ato capaz</p><p>de produzir o contágio: ...”) — v. Informativo 584. Entendeu-se que não seria clara a</p><p>intenção do agente, de modo que a desclassificação do delito far-se-ia necessária, sem,</p><p>entretanto, vinculá-lo a um tipo penal específico. Tendo em conta que o Min. Marco</p><p>Aurélio, relator, desclassificava a conduta para o crime de perigo de contágio de moléstia</p><p>grave (CP, art. 131) e o Min. Ayres Britto, para o de lesão corporal qualificada pela</p><p>enfermidade incurável (CP, art. 129, § 2º, II), chegou-se a um consenso, apenas para afastar</p><p>a imputação de tentativa de homicídio. Salientou-se, nesse sentido, que o Juiz de Direito,</p><p>competente para julgar o caso, não estaria sujeito sequer à classificação apontada pelo</p><p>Ministério Público.</p><p>HC 98712/SP, rel. Min. Marco Aurélio, 5.10.2010. (HC-98712)</p><p>Veja o STJ:</p><p>“O Supremo Tribunal Federal, no julgamento do HC 98.712/RJ, Rel. Min. Marco Aurélio (1ª</p><p>Turma, DJe 17/12/2010), firmou a compreensão de que a conduta de praticar ato sexual</p><p>com a finalidade de transmitir AIDS não configura crime doloso contra a vida. (...) O ato de</p><p>propagar síndrome da imunodeficiência adquirida não é tratado no Capítulo III, Título I, da</p><p>Parte Especial, do Código Penal (art. 130 e seguintes), onde não há menção a enfermidades</p><p>sem cura. Inclusive, nos debates havidos no julgamento do HC 98.712/RJ, o eminente</p><p>Ministro Ricardo Lewandowski, ao excluir a possibilidade de a Suprema Corte, naquele caso,</p><p>conferir ao delito a classificação de ‘Perigo de contágio de moléstia grave’</p><p>(art. 131 do Código Penal), esclareceu que, ‘no atual estágio da ciência, a enfermidade é</p><p>incurável, quer dizer, ela não é só grave, nos termos do art. 131’. Na hipótese de</p><p>transmissão dolosa de doença incurável, a conduta deverá será apenada com mais rigor</p><p>do que o ato de contaminar outra pessoa com moléstia grave, conforme previsão clara do</p><p>art. 129, § 2º, inciso II, do Código Penal. A alegação de que a vítima não manifestou</p><p>sintomas não serve para afastar a configuração do delito previsto no art. 129, § 2º,</p><p>inciso II, do Código Penal. É de notória sabença que o contaminado pelo vírus do HIV</p><p>necessita de constante acompanhamento médico e de administração de remédios</p><p>específicos, o que aumenta as probabilidades de que a enfermidade permaneça</p><p>assintomática. Porém, o tratamento não enseja a cura da moléstia” (STJ, HC 160.982/DF,</p><p>Rel.ª Min.ª Laurita Vaz, 5ª T., DJe 28/05/2012, RT, v. 925, p. 663)</p><p>Nesse sentido, jurisprudencialmente, a transmissão dolosa (intencional e consciente) do vírus</p><p>HIV implica na prática de crime de lesão corporal de natureza gravíssima, adequando-se ao</p><p>conceito de enfermidade incurável (art. 129, § 2º, II, do CP) [2].</p><p>SUGESTÃO DE RESPOSTA:</p><p>http://www.stf.jus.br/portal/processo/verProcessoAndamento.asp?numero=98712&classe=HC&origem=AP&recurso=0&tipoJulgamento=M</p><p>https://stf.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/4108920/habeas-corpus-hc-98712</p><p>https://www.jusbrasil.com.br/legislacao/1033465/c%C3%B3digo-penal-decreto-lei-2848-40</p><p>https://stf.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/4108920/habeas-corpus-hc-98712</p><p>https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10623702/artigo-131-do-decreto-lei-n-2848-de-07-de-dezembro-de-1940</p><p>https://www.jusbrasil.com.br/legislacao/1033702/c%C3%B3digo-penal-decreto-lei-2848-40</p><p>https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10624670/artigo-129-do-decreto-lei-n-2848-de-07-de-dezembro-de-1940</p><p>https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10624438/par%C3%A1grafo-2-artigo-129-do-decreto-lei-n-2848-de-07-de-dezembro-de-1940</p><p>https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10624376/inciso-ii-do-par%C3%A1grafo-2-do-artigo-129-do-decreto-lei-n-2848-de-07-de-dezembro-de-1940</p><p>https://www.jusbrasil.com.br/legislacao/1033465/c%C3%B3digo-penal-decreto-lei-2848-40</p><p>https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10624670/artigo-129-do-decreto-lei-n-2848-de-07-de-dezembro-de-1940</p><p>https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10624438/par%C3%A1grafo-2-artigo-129-do-decreto-lei-n-2848-de-07-de-dezembro-de-1940</p><p>https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10624376/inciso-ii-do-par%C3%A1grafo-2-do-artigo-129-do-decreto-lei-n-2848-de-07-de-dezembro-de-1940</p><p>https://www.jusbrasil.com.br/legislacao/1033465/c%C3%B3digo-penal-decreto-lei-2848-40</p><p>https://stj.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/865717599/habeas-corpus-hc-160982-df-2010-0016927-3</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>140</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>A transmissão dolosa do vírus HIV possui, historicamente, três correntes doutrinárias.</p><p>Primeiro, tem-se o crime de perigo de contágio de moléstia grave. Rogério Sanches explica que</p><p>parte da doutrina qualifica o crime como um tipo penal em branco, que deve ser</p><p>complementado por lista do Ministério da Saúde. Contudo, majoritariamente, entende-se que</p><p>essa lista é meramente exemplificativa e que pode ser ampliada por uma “atividade médica</p><p>valorativa” na forma pericial. De todo modo, não é o entendimento majoritário.</p><p>Segundo, tem-se o crime de homicídio, em sua forma tentada ou consumada, a depender do</p><p>caso concreto. Contudo, a tipificação mostra-se complexa, seja pelo avanço da medicina, seja</p><p>pela difícil caracterização da intenção de matar do agente.</p><p>Terceiro, tem-se o crime de lesão corporal qualificada pela enfermidade incurável. Trata-se do</p><p>entendimento doutrinário majoritário em razão da ausência de cura, das repercussões físicas do</p><p>doente e da constante necessidade de acompanhamento médico.</p><p>Por fim, o STF e STJ seguem a terceira linha doutrinária. Isso ocorre porque a transmissão dolosa</p><p>de uma doença incurável deve ser apenada de forma mais grave do que a mera contaminação</p><p>de uma moléstia grave.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>141</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA</p><p>João decide subtrair objetos da casa de um cidadão e pula o muro adentrado no imóvel de posse de uma</p><p>arma de fogo. Arromba a porta, anuncia o assalto e efetua um disparo de advertência contra o cidadão</p><p>quando este tenta impedir a continuação da ação delituosa, acertando a parede da casa. João então</p><p>reconhece o cidadão como Pedro, um amigo seu de infância e desiste de continuar a execução do crime.</p><p>Ao sair da residência de Pedro, João é preso em flagrante pela Polícia Militar e conduzido à Delegacia de</p><p>Polícia. Lavrado o auto de prisão em flagrante, o setor de investigação identificou que era de</p><p>conhecimento de todos de onde João morava que tal arma estava em sua posse há muitos anos, apesar</p><p>de não possuir autorização para seu uso.</p><p>Considerando a situação hipotética, redija um texto dissertativo, acerca das principais diferenças entre</p><p>desistência voluntária e arrependimento eficaz [valor: 3,0 pontos], identificando se é possível a incidência</p><p>de uma delas no caso narrado [valor: 3,0 pontos]. Ademais, identifique e explique os possíveis crimes</p><p>praticados por João [valor: 4,0 pontos].</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>142</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:</p><p>Desistência voluntária x arrependimento eficaz (3,0 pontos)</p><p>Incidência no caso (3,0 pontos)</p><p>Tipificações (4,0 pontos)</p><p>Português (0,2 por erro)</p><p>NOTA FINAL</p><p>Considerando a situação hipotética, redija um texto dissertativo, acerca das principais diferenças entre</p><p>desistência voluntária e arrependimento eficaz [valor: 3,0 pontos], identificando se é possível a incidência</p><p>de uma delas no caso narrado [valor: 3,0 pontos]. Ademais, identifique e explique os possíveis crimes</p><p>praticados por João [valor: 4,0 pontos].</p><p>MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA:</p><p>DESISTÊNCIA VOLUNTÁRIA E ARREPENDIMENTO EFICAZ</p><p>Art. 15 - O agente que, voluntariamente, desiste de prosseguir na execução ou impede que o resultado</p><p>se produza, só responde pelos atos já praticados.</p><p>O art. 15, CP traz em si o caso de tentativa abandonada ou qualificada, a qual se divide em duas</p><p>espécies:</p><p>• Desistência voluntária – 1ª parte do art. 15.</p><p>• Arrependimento eficaz – 2ª parte do art. 15.</p><p>a) Natureza jurídica da tentativa qualificada:</p><p>• Miguel Reale Jr. e Rogério Greco e Damásio: é uma atipicidade do crime inicialmente</p><p>querido, pois as circunstâncias são inerentes a vontade do agente</p><p>• Nelson Hungria, LFG: causa de extinção da punibilidade do crime inicialmente querido</p><p>por razões de política criminal. Por isso você responde pelos atos até então praticados</p><p>b) Elementos da Tentativa abandonada ou qualificada:</p><p>• Início da execução – por necessitar do início da execução, isso impede sua incidência em</p><p>crime culposo ou preterdoloso segundo Francisco Dirceu. Não obstante, é</p><p>perfeitamente cabível na culpa imprópria (ex: 2 caçadores na floresta, em que um acerta</p><p>o outro e aquele leva este ao hospital – responderá por lesão corporal culposa e não</p><p>homicídio culposo).</p><p>• Não consumação por circunstâncias INERENTES à vontade do agente.</p><p>Vamos ao estudo das duas formas de tentativa abandonada ou qualificada:</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>143</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DESISTÊNCIA VOLUNTÁRIA: dentro da linha do iter criminis, o agente inicia a execução, mas a</p><p>interrompe (desiste) quando ainda tinha atos executórios a serem praticados. O agente somente</p><p>responde pelos atos já praticados.</p><p>Ex: agente quer matar outrem e atira em sua perna. Este vai ao chão e clama por sua vida. O</p><p>agente sensibilizado desiste de praticar homicídio. Responderá pelos atos já praticados (lesão</p><p>corporal);</p><p>Ex: vai furtar uma casa e pula um muro adentrando no imóvel, quando então desiste. Responde</p><p>pelo art. 150 CP;</p><p>Ex: vai furtar uma casa, pula um muro adentrando no imóvel, arromba a porta e anuncia o</p><p>assalto. Em razão de pedido da vítima, desiste do crime e vai embora. Responde pelo art. 150,</p><p>CP e por crime de dano (se causar dano à porta). Ele continua “senhor da resolução”;</p><p>Ex: vai furtar uma casa, pula um muro adentrando no imóvel, arromba a porta e anuncia o</p><p>assalto. Ouve o barulho da sirene da polícia e desiste do crime. Nesse caso, houve desistência</p><p>por sua vontade (responde só pelo art. 150 CP, crime de dano) ou resta tipificada a tentativa</p><p>(responde por tentativa de roubo – grave ameaça, crime de dano e art. 150 CP)? Nesse caso,</p><p>coloca Rogério Greco que sua paralização foi decorrência da “impossibilidade de continuar o</p><p>crime” – fórmula de Frank. Pois, se não tivesse escutado a sirene, teria continuado normalmente</p><p>o crime.</p><p>ARREPENDIMENTO EFICAZ OU RESIPISCÊNCIA (ZAFFARONI): o agente inicia a execução e a</p><p>termina, quando então se arrepende e passa a agir de modo contrário impedindo a ocorrência</p><p>do resultado:</p><p>• O arrependimento deve ser eficaz, ou seja, deve evitar a consumação do resultado. Se</p><p>for ineficaz, será mera atenuante de pena (art. 65, CP) do crime cometido.</p><p>Ex: A atira em B todas as munições que tinha no revólver e decide levar a vítima para o hospital,</p><p>salvando-a. Responde por lesão corporal (leve, grave ou gravíssima);</p><p>Ex: A empurra B ao mar com intenção de matá-lo, sabendo que este não sabe nadar, com o fim</p><p>de causar a morte por afogamento. Observa-se que os atos executórios foram encerrados. No</p><p>entanto, logo após o encerramento, A, arrependido, resolveu salvar a vítima não permitindo a</p><p>morte. Se a vítima sair ilesa do ataque, o agente não responderá por absolutamente nada, pois</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>144</p><p>www.brunozanotti.com.br</p><p>// curso@brunozanotti.com.br</p><p>não houve lesão a qualquer bem jurídico; se, entretanto, sofrer alguma lesão, esta será atribuída</p><p>ao agente.</p><p>OBS: a tentativa qualificada ou abandonada também é chamada de “PONTE DE OURO” de</p><p>Franz Von Liszt – “pode, porém, a lei, por considerações de política criminal, construir uma</p><p>ponte de ouro para a retirada do agente que já se tornará passível de pena”. Esse</p><p>entendimento deu base para a criação do instituto da tentativa qualificada, com a diferença</p><p>que responderá pelos atos já praticados.</p><p>Do mesmo modo que na desistência voluntária, no arrependimento eficaz basta a</p><p>voluntariedade e não precisa de espontaneidade!</p><p>Atenção para julgado relativo ao tema:</p><p>PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. PORTE DE</p><p>ARMA DE FOGO E DISPARO. CONSUNÇÃO. CONTEXTOS FÁTICOS DISTINTOS. SÚMULA 7/STJ.</p><p>AGRAVO IMPROVIDO. 1. Aplica-se o princípio da consunção aos crimes de porte ilegal e de</p><p>disparo de arma de fogo ocorridos no mesmo contexto fático, quando presente nexo de</p><p>dependência entre as condutas, considerando-se o porte crime-meio para a execução do</p><p>disparo de arma de fogo. 2. Concluindo o Tribunal de origem, com apoio no conjunto</p><p>probatório dos autos, que os crimes de posse e de disparo de arma de fogo não foram</p><p>praticados no mesmo contexto fático, porquanto se aperfeiçoaram em momentos diversos</p><p>e com desígnios autônomos, a reversão do julgado encontra óbice na Súmula 7/STJ. 3.</p><p>Agravo regimental improvido. (AgRg no AREsp 1211409/MS, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO,</p><p>SEXTA TURMA, julgado em 08/05/2018, DJe 21/05/2018)</p><p>SUGESTÃO DE RESPOSTA:</p><p>O arrependimento eficaz e a desistência voluntária são tratados dentro de um estudo mais</p><p>amplo chamado tentativa abandonada ou qualificada. Nos dois casos, o agente inicia a</p><p>execução, mas não consuma por fatores inerentes à sua vontade. A diferença é que, no</p><p>arrependimento eficaz, o agente inicia a execução e a termina, quando então se arrepende e</p><p>passa a agir de modo contrário impedindo a ocorrência do resultado, ao passo que, na</p><p>desistência voluntária, o agente inicia a execução, mas a interrompe quando ainda tinha atos</p><p>executórios a serem praticados.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>145</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>No caso narrado, é possível identificar a existência da desistência voluntária em relação ao crime</p><p>de roubo, uma vez que João reconheceu Pedro como um amigo seu de infância, interrompendo</p><p>a execução do mencionado crime sem subtrair qualquer bem alheio móvel, de modo que o</p><p>agente responderá somente pelos atos já praticados, quais sejam, o crime de posse de arma de</p><p>fogo (tinha a arma há tempos, em contexto fático distinto do cenário criminoso), o crime de</p><p>porte de arma de fogo (que absorve o disparo de arma de fogo, já que foram no mesmo contexto</p><p>fático), o crime de dano (dano causado à porta por arrombá-la) e o crime de violação de</p><p>domicílio.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>146</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA</p><p>O estudo do iter criminis constitui um dos pontos centrais do Direito Penal e, nas palavras de Eugenio Raúl</p><p>Zaffaroni, tem início no foro íntima da pessoa, como um produto de sua imaginação, até que se opere a</p><p>consecução de elementos executórios para a consumação do delito, exteriorizados no mundo fático.</p><p>Considerando a tema citado, conceitue iter criminis, demonstrando as fases que compõem a sua estrutura</p><p>[valor: 8,0 pontos]. Ademais, analise se nas duas primeiras fases é possível a existência de crimes,</p><p>apresentando, pelo menos, um exemplo de crime em cada fase, caso existente [valor: 6,0 pontos]. Por</p><p>fim, diferencie conceitualmente a consumação do exaurimento do crime [valor: 6,0 pontos].</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>147</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:</p><p>Conceito e fases do iter criminis</p><p>2 primeiras fases e possibilidade de existência de crimes + exemplos</p><p>Diferenciar consumação e exaurimento</p><p>Português (0,2 por erro)</p><p>NOTA FINAL</p><p>MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA:</p><p>ITER CRIMINIS: o iter criminis é o caminho percorrido pelo crime. Em regra, o crime percorre 4</p><p>fases:</p><p>Atenção: “o iter criminis é um instituto específico para os crimes dolosos, não se falando em</p><p>caminho do crime quando a conduta do agente for culposa” – Greco e Luiz Regis Prado.</p><p>1ª fase – cogitação ou cogitatio → é a fase interna do iter criminis. Nessa fase o agente</p><p>antecipa e representa mentalmente o resultado, escolhendo em abstrato os meios necessários</p><p>a serem utilizados no cometimento da infração. Nada é punível nessa fase, pois não existe</p><p>exteriorização dos pensamentos.</p><p>2ª fase – preparação ou conatus remotus → inicia a fase externa do iter criminis, onde estão</p><p>presentes atos que levarão à execução do crime. Nesse momento o agente adquire os meios</p><p>necessários (ex: faca, arma, convida outras pessoas, procura o lugar mais apropriado, desenha</p><p>o plano de fuga).</p><p>Em regra, só se pune o crime após o início da execução (3ª fase). Contudo, em algumas</p><p>hipóteses, o legislador eleva à categoria de infração autônoma um ato que, por natureza, seria</p><p>considerado preparatório ao cometimento de outra infração penal. Essa escolha do legislador é</p><p>aleatória e tem por base política criminal, por exemplo:</p><p>• Art. 288 CP – quadrilha ou bando – são atos preparatórios (divergente na doutrina).</p><p>Crítica Damásio – na verdade o crime do art. 288 é ato executório do crime de</p><p>quadrilha ou bando, mas sendo também um ato preparatório para outros crimes.</p><p>• Porte de arma sem a devida licença;</p><p>• Porte de instrumentos destinados à realização de furtos (art. 25, LCP);</p><p>3ª fase – execução ou conatus proximus → iniciada a execução, três são as conseqüências</p><p>possíveis: (a) o agente consuma a infração penal por ele pretendida – crime consumado, (b) em</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>148</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>virtude de circunstâncias alheias à sua vontade a infração não se consuma – crime tentado, ou</p><p>(c) por sua própria vontade o agente desiste de consumar o crime – tentativa abandonada.</p><p>4ª fase – consumação ou meta optata ou summatum opus → para parte da doutrina, essa</p><p>fase encerra o iter criminis. Importância de identificar o momento da consumação, com algumas</p><p>consequências:</p><p>• A prescrição conta a partir da consumação;</p><p>• Fixa competência do foro (CPP).</p><p>Nos crimes permanentes, a 4ª fase se protrai no tempo. Algumas características:</p><p>• Admite flagrante</p><p>a qualquer tempo;</p><p>• A prescrição só começa a correr depois de cessada a permanência;</p><p>• Aplica a súmula 711 do STF: “A lei penal mais grave aplica-se ao crime continuado ou ao</p><p>crime permanente, se a sua vigência é anterior à cessação da continuidade ou da</p><p>permanência.”</p><p>OBS: crimes que não percorrem as 4 fases:</p><p>• Crime formal → dispensa o resultado;</p><p>• Crime de mera conduta → não possui o resultado.</p><p>Exaurimento do crime: existe divergência na doutrina se seria uma 5ª etapa do iter criminis,</p><p>sendo assim admitido por Rogério Greco (em sentido contrário, Cezar Roberto Bitencourt). Os</p><p>atos posteriores à consumação são mero exaurimentos do crime, esgotando-o por completo e</p><p>posteriores ao iter criminis. Nem todos os crimes possuem exaurimento.</p><p>O exaurimento importa em um crime que já foi consumado, sendo que esse exaurimento não</p><p>influi na existência do crime, mas agrava a sua pena. Ex: extorsão mediante sequestro – a</p><p>vantagem auferida é mero exaurimento, já que o crime se consuma com o pedido do valor.</p><p>SUGESTÃO DE RESPOSTA:</p><p>O iter criminis consiste no caminho percorrido pelo crime, tendo o seu início no foro íntimo da</p><p>pessoa, como um produto da sua imaginação, até que se opere a consecução de elementos</p><p>executórios para a consumação do delito. Esse caminho se opera em quatro fases, quais sejam,</p><p>a cogitação, a preparação, a execução e o resultado. Parte da doutrina defende, ainda, a</p><p>existência de uma quinta fase conhecida como exaurimento.</p><p>Em regra, nas duas primeiras fases não existem crimes sendo executados. A exceção fica na</p><p>segunda fase – a preparação –, no qual estão presentes atos que levarão a execução do crime</p><p>imaginado, podendo-se citar o porte de arma de fogo para a execução de um roubo ou</p><p>homicídio.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>149</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Por fim, a consumação, nos termos do art. 14, inciso I, do Código Penal, ocorre quando o crime</p><p>reúne todos os elementos de sua definição legal. Já o exaurimento importa em atos posteriores</p><p>à consumação do crime, majorando a pena, esgotando-o por completo.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>150</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA</p><p>Roberto vai à casa de sua ex-mulher, Rita, para ver a sua filha e entregar um presente.</p><p>Cobrado da pensão alimentícia que estava atrasada por mais de 1 mês, Roberto começa</p><p>uma forte discussão com Rita que acaba em agressão dele. Rita perdeu dois dentes por</p><p>causa de um soco de Roberto. Os vizinhos chamam a polícia, e Roberto é preso. Na</p><p>delegacia, Roberto alega que Rita é portadora de uma doença nos dentes, e que não foi</p><p>o seu soco que causou a perda dos dois dentes na briga. O Ministério Público ofereceu</p><p>denúncia contra Roberto, imputando-lhe a prática do crime de lesão corporal de</p><p>natureza gravíssima (deformidade permanente) praticado no âmbito doméstico (art.</p><p>129, § 2º, IV, do Código Penal, na forma da Lei nº 11.340/2006). A defesa de Roberto</p><p>requereu que a imputação fosse desclassificada para lesão corporal de natureza leve.</p><p>Para fundamentar seu pedido, o acusado invocou laudo pericial juntado aos autos, no</p><p>qual ficou consignado que a vítima é “portadora de problemas dentários que levam à</p><p>perda precoce dos dentes. Provável doença periodontal em evolução”. De acordo com</p><p>o laudo, antes mesmo da agressão, havia programação de exodontia (remoção cirúrgica</p><p>dos dentes) para colocação de prótese (dentadura).</p><p>Diante do caso em tela, com base na Doutrina e na Jurisprudência do STJ, responda os</p><p>seguintes questionamentos:</p><p>a) O Ministério Público acertou ao denunciar Roberto imputando-lhe a prática</p><p>do crime de lesão corporal de natureza gravíssima (deformidade permanente</p><p>- art. 129, § 2º, IV, do Código Penal)? Fundamente.</p><p>b) Explique o que são concausas e em qual se enquadra o caso narrado?</p><p>c) De acordo com o STJ, o requerimento da defesa de Roberto deve prosperar?</p><p>Explique</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>151</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>152</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:</p><p>MP acertou?</p><p>Conceito de concausa + enquadramento</p><p>Defesa foi correta?</p><p>Português (0,2 por erro)</p><p>NOTA FINAL</p><p>a) O Ministério Público acertou ao denunciar Roberto imputando-lhe a prática</p><p>do crime de lesão corporal de natureza gravíssima (deformidade permanente</p><p>- art. 129, § 2º, IV, do Código Penal)? Fundamente.</p><p>b) Explique o que são concausas e em qual se enquadra o caso narrado?</p><p>c) De acordo com o STJ, o requerimento da defesa de Roberto deve prosperar?</p><p>Explique</p><p>MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA:</p><p>Artigo importante a ser lido sobre o tema proposto:</p><p>Código Penal:</p><p>Lesão corporal</p><p>Art. 129. Ofender a integridade corporal ou a saúde de outrem:</p><p>Pena - detenção de três meses a um ano.</p><p>§ 1º. Se resulta:</p><p>I - Incapacidade para as ocupações habituais, por mais de trinta dias;</p><p>II - perigo de vida;</p><p>III - debilidade permanente de membro, sentido ou função;</p><p>IV - aceleração de parto:</p><p>Pena - reclusão de um a cinco anos.</p><p>§ 2º. Se resulta:</p><p>I - Incapacidade permanente para o trabalho;</p><p>II - enfermidade incurável;</p><p>III perda ou inutilização do membro, sentido ou função;</p><p>IV - deformidade permanente;</p><p>V - aborto:</p><p>Pena - reclusão de dois a oito anos.</p><p>(Grifo nosso)</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>153</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Doutrina:</p><p>Concausas:</p><p>As concausas são eventos que, em conjunto com a conduta do agente, contribuem para a</p><p>ocorrência do resultado do crime.</p><p>“É possível que mais de uma causa auxilie na produção do resultado, bem como que uma</p><p>concausa o produza de forma total e absolutamente independente. Concausas, portanto, são</p><p>antecedentes causais de um mesmo resultado, são comportamentos cuja não ocorrência</p><p>eliminaria o resultado.” (AVELAR, Michael Procópio. Manual de Direito Penal. Salvador:</p><p>JusPODIVM, 2022, p. 322).</p><p>Concausas absolutamente independentes e relativamente independentes:</p><p>a) Absolutamente independentes: a causa do resultado não se origina, direta ou indiretamente,</p><p>da conduta. Possuem origem totalmente diversa. Rompem o nexo causal.</p><p>É o caso do sujeito que envenena sua sogra para se vingar dela. Entretanto,</p><p>a 2ª Turma do STF18 concluiu pela</p><p>16. Inq 4435 AgR-quarto/DF, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 13 e 14/3/2019.</p><p>17. PET 9189, rel. para acórdão Edson fachin, julgado em 14/05/2021.</p><p>18. Rcl 41910 MC, rel. Ministro Gilmar Mendes, julgado em30/11/2021.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>14</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>manutenção do foro no TJ do procedimento que tem por objeto a investigação do mencionado</p><p>crime.</p><p>Nas demais situações, em que não existam os mandados cruzados citados, a tendência, de</p><p>acordo com a doutrina, é que o foro por prerrogativa não seja mantido.</p><p>O cenário de “interregno de mandato” está caracterizado quando o cidadão era ocupante de</p><p>um mandato, mas não consegue se reeleger; contudo, algum tempo depois, consegue um novo</p><p>mandato. Não existe uma sequência entre os mandatos, de modo que eventual crime cometido no</p><p>primeiro mandato não terá mantido o foro por prerrogativa de função em razão do novo</p><p>mandato.19 Por exemplo, Deputado Estadual comete um crime durante o exercício do caro e em</p><p>razão dele, mas, não consegue se reeleger. No futuro, em nova eleição, esse cidadão consegue se</p><p>eleger Deputado Estadual. Nesse exemplo, o foro por prerrogativa não será mantido, pois não</p><p>existe sequencia entre os mandatos.</p><p>Não se pode esquecer que o STF fixou a premissa de que, uma vez publicado o despacho</p><p>de intimação para apresentação das alegações finais, o foro por prerrogativa não terá mais</p><p>qualquer alteração. Nessa linha, não importa que o detentor do foro por prerrogativa seja eleito</p><p>após um tempo para novo mandato (interregno de mandato), ou mesmo que seja eleito de forma</p><p>sequencial para cargo distinto (eleição para novo cargo), ou ainda que não seja eleito (e fique sem</p><p>cargo). Em qualquer dessas três hipóteses aqui mencionadas, o Tribunal com foro por prerrogativa</p><p>continuará competente para o respectivo julgamento se houver a fixação definitiva da</p><p>competência.</p><p>SUGESTÃO DE RESPOSTA:</p><p>As análises dos casos citados possuem por pressuposto o trâmite da futura ação penal no</p><p>Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, ou seja, a caracterização do foro por prerrogativa de</p><p>função, de modo que o crime ocorrido deve se dar em razão da função e no curso do mandato.</p><p>Em relação ao primeiro caso, o fato se deu em 2022 e o deputado estadual foi reeleito para o</p><p>mesmo cargo, de modo que o foro por prerrogativa será mantido no Tribunal de Justiça, uma</p><p>vez que está presente a pertinência temática. Ademais, de acordo com o STF, uma vez ocorrida</p><p>a reeleição, não existe alteração no foro por prerrogativa.</p><p>Em relação ao segundo caso, em fato de 2023, o crime se deu em razão da função, já que</p><p>relacionado à função de parlamentar e ocorrido no curso do mandato, de modo que o foro por</p><p>prerrogativa será mantido no Tribunal de Justiça.</p><p>Por fim, em relação ao terceiro caso, em fato também de 2023, não haverá a incidência do foro</p><p>por prerrogativa, uma vez que o fato não possui pertinência temática em relação ao cargo de</p><p>deputado estadual.</p><p>19. RE 1185838/SP, rel. Min. Rosa Weber, julgamento em 14.5.2019.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>15</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA</p><p>Governador de certo Estado da Federação foi indiciado como autor do crime de tráfico de</p><p>drogas, estando a frente de uma organização criminosa que envolve indivíduos da alta sociedade</p><p>e empresários. Após o fim das investigações, ele e os demais cidadãos foram denunciados por</p><p>inúmeros crimes. Por meio do seu advogado, em preliminar de defesa, alega-se a ocorrência de</p><p>nulidade no procedimento em razão de a Constituição Estadual estabelecer imunidade</p><p>processual para a sua pessoa, nos mesmos moldes da imunidade estabelecida na Constituição</p><p>Federal para o Presidente da República. Como argumento secundário, o advogado alega que</p><p>não foi respeitada a licença prévia pela Assembleia Legislativa para instauração do processo</p><p>contra a sua pessoa, tal como previsto na Constituição Estadual.</p><p>Diante do exposto, analise as defesas apresentadas pelo advogado do Governador do Estado.</p><p>(10,0 pontos) Ao responder, indique e aborde as imunidades estabelecidas pela Constituição</p><p>Federal ao Presidente da República nos crimes comuns. (10,0 pontos)</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>16</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:</p><p>Defesa 1 – norma da CE inconstitucional + fundamento (5,0 pontos)</p><p>Defesa 2 – norma da CE inconstitucional + fundamento (5,0 pontos)</p><p>Imunidade (10,0 pontos)</p><p>Português (0,25 por erro até o limite de 5,0 pontos)</p><p>NOTA FINAL</p><p>MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA:</p><p>Normativa Constitucional:</p><p>Art. 51. Compete privativamente à Câmara dos Deputados:</p><p>I - autorizar, por dois terços de seus membros, a instauração de processo contra o</p><p>Presidente e o Vice-Presidente da República e os Ministros de Estado;</p><p>Art. 86. Admitida a acusação contra o Presidente da República, por dois terços da Câmara</p><p>dos Deputados, será ele submetido a julgamento perante o Supremo Tribunal Federal, nas</p><p>infrações penais comuns, ou perante o Senado Federal, nos crimes de responsabilidade.</p><p>§ 1º O Presidente ficará suspenso de suas funções:</p><p>I - nas infrações penais comuns, se recebida a denúncia ou queixa-crime pelo Supremo</p><p>Tribunal Federal;</p><p>II - nos crimes de responsabilidade, após a instauração do processo pelo Senado Federal.</p><p>§ 2º Se, decorrido o prazo de cento e oitenta dias, o julgamento não estiver concluído,</p><p>cessará o afastamento do Presidente, sem prejuízo do regular prosseguimento do processo.</p><p>§ 3º Enquanto não sobrevier sentença condenatória, nas infrações comuns, o Presidente</p><p>da República não estará sujeito a prisão.</p><p>§ 4º O Presidente da República, na vigência de seu mandato, não pode ser</p><p>responsabilizado por atos estranhos ao exercício de suas funções.</p><p>https://jurisprudencia.stf.jus.br/pages/search/sjur118064/false</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>17</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>ADI 1021</p><p>Órgão julgador: Tribunal Pleno</p><p>Relator(a): Min. ILMAR GALVÃO</p><p>Redator(a) do acórdão: Min. CELSO DE MELLO</p><p>Julgamento: 19/10/1995</p><p>Publicação: 17/11/1995</p><p>Ementa</p><p>E M E N T A: AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE - CONSTITUIÇÃO DO ESTADO</p><p>DE SÃO PAULO - OUTORGA DE PRERROGATIVAS DE CARÁTER PROCESSUAL PENAL AO</p><p>GOVERNADOR DO ESTADO - IMUNIDADE A PRISÃO CAUTELAR E A QUALQUER</p><p>PROCESSO PENAL</p><p>ao deixá-la bebendo</p><p>o café que preparou, cheio de estricnina, entra a vizinha dela, também sua inimiga, e dispara</p><p>cinco tiros de fuzil em sua direção, provocando sua morte instantânea. Perceba que a concausa</p><p>(os tiros de fuzil e os ferimentos por ele causados) são absolutamente independentes do</p><p>comportamento do agente (envenenamento). Tendo sido preparado ou não o café com</p><p>substância venenosa, a vizinha entraria para matar sua inimiga, por uma briga com relação à</p><p>cerca divisória das casas. Por isso, sua independência é absoluta. Um antecedente não dependia</p><p>do outro para ocorrer. Por isso, o nexo causal sempre é rompido, devendo o agente responder</p><p>pelos atos que já praticou. No caso do sujeito que aplicou veneno no café, deve responder pela</p><p>tentativa de homicídio.” (AVELAR, Michael Procópio. Manual de Direito Penal. Salvador:</p><p>Juspodivm, 2022, p. 322).</p><p>b) Relativamente independentes: a causa do resultado não se situa na linha de desdobramento</p><p>causal da conduta. Entretanto, origina-se, mesmo que indiretamente, da conduta do agente.</p><p>É o caso do sujeito que é esfaqueado por outro, gravemente, após uma partida de futebol, por</p><p>desentendimentos sobre a marcação ou não de um gol. A vítima é socorrida, mas, no hospital,</p><p>tem complicações, decorrentes de uma infecção hospitalar, e morre. A concausa (infecção</p><p>hospitalar) não é totalmente independente do antecedente, o comportamento do agente (os</p><p>golpes de faca). O indivíduo só foi parar no hospital e necessitou ser internado porque foi</p><p>lesionado pelo sujeito ativo. Deste modo, um antecedente dependeu do outro para ocorrer. Se</p><p>ele tivesse saído da partida de futebol e ido para casa jantar com sua esposa, não teria ido ao</p><p>hospital e, assim, contraído a infecção. Portanto, temos uma causa relativamente independente</p><p>que, em regra, não rompe o nexo causal. No nosso exemplo dado, o sujeito deve responder pelo</p><p>crime de homicídio consumado, já que a concausa era apenas relativamente independente.”</p><p>(AVELAR, Michael Procópio. Manual de Direito Penal. Salvador: Juspodivm, 2022, p. 322).</p><p>(Fonte: Dizer o Direito)</p><p>Jurisprudência:</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>154</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>A lesão corporal que provoca na vítima a perda de dois dentes tem natureza grave</p><p>(art. 129, § 1º, III, do CP), e não gravíssima (art. 129, § 2º, IV, do CP). A perda de</p><p>dois dentes pode até gerar uma debilidade permanente (§ 1º, III), ou seja, uma</p><p>dificuldade maior da mastigação, mas não configura deformidade permanente (§</p><p>2º, IV). STJ. 6ª Turma. REsp 1620158-RJ, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado</p><p>em 13/9/2016 (Info 590).</p><p>(Fonte: Dizer o Direito)</p><p>Informativo 707 do STJ:</p><p>Tema: Lesão corporal grave. Perda dos dentes. Doença preexistente que causa a</p><p>perda precoce dos dentes. Concausa anterior relativamente independente.</p><p>Desclassificação para lesão leve. Impossibilidade.</p><p>Verificado que a lesão é o resultado das agressões sofridas, a existência de</p><p>concausa anterior relativamente independente não impede a condenação pelo</p><p>crime de lesão corporal grave.</p><p>Informações de Inteiro teor: A existência de concausa anterior relativamente</p><p>independente não impede a condenação pelo crime de lesão corporal grave. Isso</p><p>porque, na situação em análise, caso a conduta do agente fosse mentalmente</p><p>suprimida, a vítima não teria perdido os dois dentes naquele momento.</p><p>Destaca-se, ainda, que o magistrado sentenciante entendeu que a perda dos dois</p><p>dentes encontra desdobramento causal das agressões sofridas. Dessa forma, não</p><p>obstante a existência da doença preexistente que causa a perda precoce dos</p><p>dentes, a vítima somente perdeu os dentes em tal oportunidade em razão da</p><p>conduta do agente.</p><p>Ademais, esta Corte superior entende que a perda dos dentes configura a</p><p>debilidade permanente de membro, sentido ou função, conforme o seguinte</p><p>precedente: "Assim, a perda de dois dentes, muito embora possa reduzir a</p><p>capacidade funcional da mastigação, não enseja a deformidade permanente</p><p>prevista no referido tipo penal, mas sim, a debilidade permanente de membro,</p><p>sentido ou função, prevista no art. 129, § 1º, III, do Código Penal" (REsp</p><p>1.620.158/RJ, Relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, DJe de</p><p>20/9/2016).</p><p>Processo em segredo de justiça, Rel. Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta</p><p>Turma, por unanimidade, julgado em 13/3/2023, DJe 16/3/2023.</p><p>(Fonte: Portal do STJ)</p><p>SUGESTÃO DE RESPOSTA:</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>155</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>No caso em tela, o Ministério Público errou ao denunciar Roberto, imputando-lhe a prática do</p><p>crime de lesão corporal de natureza gravíssima (deformidade permanente). Conforme</p><p>jurisprudência do STJ, a lesão corporal que provoca na vítima a perda de dois dentes tem</p><p>natureza grave, e não gravíssima, pois a perda de dois dentes pode até gerar uma debilidade</p><p>permanente, ou seja, uma dificuldade maior da mastigação, mas não configura deformidade</p><p>permanente.</p><p>As concausas são eventos que, em conjunto com a conduta do agente, contribuem para a</p><p>ocorrência do resultado do crime. Elas podem ser absolutamente independentes ou</p><p>relativamente independentes. No caso narrado, em relação ao problema dental que a vítima</p><p>tinha, tem-se uma concausa anterior relativamente independente, que, portanto, não impede</p><p>a condenação pelo crime de lesão corporal grave.</p><p>Por fim, o requerimento da defesa de Roberto não deve prosperar, pois a perda dos dois dentes</p><p>encontra desdobramento causal das agressões sofridas. Desse modo, não obstante a existência</p><p>da doença preexistente que causa perda precoce dos dentes, a vítima somente perdeu os dentes</p><p>em tal oportunidade, em razão da conduta do agravante, de modo que, suprimida mentalmente</p><p>a conduta do réu, a ofendida não teria perdido os dentes naquele momento. Desta forma, a</p><p>existência de concausa anterior relativamente independente não impede a condenação pelo</p><p>crime de lesão corporal grave.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>156</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA</p><p>David, estrangeiro de nacionalidade holandesa, vem para o Brasil para trabalhar e guarda poucas</p><p>porções de maconha em sua residência pensando que o fato não é proibido no território</p><p>brasileiro, já que, em seu país, a maconha é liberada em pequenas quantidades para</p><p>armazenamento em depósito, com o fim de consumo pessoal.</p><p>O caso narrado, de acordo com a doutrina, é um exemplo claro de erro no direito penal à luz da</p><p>corrente finalista de Hans Welzel. Desta forma, responda os seguintes questionamentos:</p><p>a) Conceitue erro de tipo e erro de proibição, diferenciando um do outro, e demonstrando</p><p>em qual erro se enquadra a situação de David.</p><p>b) Explique o que é erro de tipo essência e seus pressupostos?</p><p>c) O que são descriminantes putativas?</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>EBOOK</p><p>POR DELITOS ESTRANHOS A FUNÇÃO GOVERNAMENTAL -</p><p>INADMISSIBILIDADE - OFENSA AO PRINCÍPIO REPUBLICANO - USURPAÇÃO DE</p><p>COMPETÊNCIA LEGISLATIVA DA UNIÃO - PRERROGATIVAS INERENTES AO PRESIDENTE</p><p>DA REPUBLICA ENQUANTO CHEFE DE ESTADO (CF/88, ART. 86, par. 3. E 4.) - AÇÃO</p><p>DIRETA PROCEDENTE. PRINCÍPIO REPUBLICANO E RESPONSABILIDADE DOS</p><p>GOVERNANTES. – (...) - A imunidade do Chefe de Estado a persecução penal deriva de</p><p>cláusula constitucional exorbitante do direito comum e, por traduzir consequencia</p><p>derrogatória do postulado republicano, só pode ser outorgada pela propria Constituição</p><p>Federal. Precedentes: RTJ 144/136, Rel. Min. SEPÚLVEDA PERTENCE; RTJ 146/467, Rel.</p><p>Min. CELSO DE MELLO. Analise do direito comparado e da Carta Politica brasileira de 1937.</p><p>IMUNIDADE A PRISÃO CAUTELAR - PRERROGATIVA DO PRESIDENTE DA REPUBLICA -</p><p>IMPOSSIBILIDADE DE SUA EXTENSAO, MEDIANTE NORMA DA CONSTITUIÇÃO</p><p>ESTADUAL, AO GOVERNADOR DO ESTADO. - O Estado-membro, ainda que em norma</p><p>constante de sua propria Constituição, não dispõe de competência para outorgar ao Governador</p><p>a prerrogativa extraordinária da imunidade a prisão em flagrante, a prisão preventiva e a prisão</p><p>temporaria, pois a disciplinação dessas modalidades de prisão cautelar submete-se, com</p><p>exclusividade, ao poder normativo da União Federal, por efeito de expressa reserva</p><p>constitucional de competência definida pela Carta da Republica. - A norma constante da</p><p>Constituição estadual - que impede a prisão do Governador de Estado antes de sua condenação</p><p>penal definitiva - não se reveste de validade jurídica e, consequentemente, não pode subsistir</p><p>em face de sua evidente incompatibilidade com o texto da Constituição Federal.</p><p>PRERROGATIVAS INERENTES AO PRESIDENTE DA REPUBLICA ENQUANTO CHEFE DE</p><p>ESTADO. - Os Estados-membros não podem reproduzir em suas proprias Constituições</p><p>o conteudo normativo dos preceitos inscritos no art. 86, par.3. e 4., da Carta Federal, pois</p><p>as prerrogativas contempladas nesses preceitos da Lei Fundamental - por serem</p><p>unicamente compativeis com a condição institucional de Chefe de Estado - são apenas</p><p>extensiveis ao Presidente da Republica. Precedente: ADIn 978-PB, Rel. p/ o acórdão Min.</p><p>CELSO DE MELLO.</p><p>Observação</p><p>- Acórdãos citados: ADI 978, ADI 980, Queixa-crime 427 - QO, RE 153968, RE 159230; RTJ</p><p>131/486, RTJ 144/136, RTJ 146/467. Número de páginas: 48. Análise: 30/04/2009, MMR.</p><p>Revisão: 04/08/2009, JBM. Alteração: 13/04/2011, DCR.</p><p>ADI 5540</p><p>https://jurisprudencia.stf.jus.br/pages/search/sjur118064/false</p><p>https://jurisprudencia.stf.jus.br/pages/search/sjur118064/false</p><p>https://jurisprudencia.stf.jus.br/pages/search/sjur400895/false</p><p>https://jurisprudencia.stf.jus.br/pages/search/sjur400895/false</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>18</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>Órgão julgador: Tribunal Pleno</p><p>Relator(a): Min. EDSON FACHIN</p><p>Julgamento: 03/05/2017</p><p>Publicação: 28/03/2019</p><p>Ementa</p><p>Ementa: AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. ART. 92, §1º, I, DA CONSTITUIÇÃO</p><p>DO ESTADO DE MINAS GERAIS. EXIGÊNCIA DE AUTORIZAÇÃO DA ASSEMBLEIA</p><p>LEGISLATIVA PARA O PROCESSAMENTO DE GOVERNADOR DE ESTADO POR CRIME</p><p>COMUM PERANTE O SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. DESNECESSIDADE.</p><p>PROCEDÊNCIA PARCIAL DA AÇÃO. FIXAÇÃO DE TESE. 1. Não há fundamento normativo-</p><p>constitucional expresso que faculte aos Estados possuírem em suas Constituições</p><p>estaduais a exigência de autorização prévia da Assembleia Legislativa para o</p><p>processamento e julgamento de Governador por crime comum perante o Superior</p><p>Tribunal de Justiça. 2. A regra do art. 51, I, CRFB, prevista de forma expressa apenas para o</p><p>Presidente da República, não comporta interpretação extensiva aos Governadores de Estado,</p><p>visto que excepciona a regra geral que estabelece a ausência de condição de procedibilidade</p><p>política para o processamento de ação penal pública. 3. A exigência de autorização prévia de</p><p>Assembleia Estadual para o processamento e julgamento de Governador do Estado por crime</p><p>comum perante o Superior Tribunal de Justiça ofende o princípio republicano (art. 1º, caput,</p><p>CRFB), a separação de Poderes (art. 2º, caput, CRFB) e a cláusula geral de igualdade (art. 5º,</p><p>caput, CRFB). 4. Ação direta de inconstitucionalidade julgada parcialmente procedente, com</p><p>fixação da seguinte tese: Não há necessidade de prévia autorização da Assembleia Legislativa</p><p>para o recebimento de denúncia ou queixa e instauração de ação penal contra Governador de</p><p>Estado, por crime comum, cabendo ao STJ, no ato de recebimento ou no curso do processo,</p><p>dispor, fundamentadamente, sobre a aplicação de medidas cautelares penais, inclusive</p><p>afastamento do cargo.</p><p>Tese</p><p>Não há necessidade de prévia autorização da Assembleia Legislativa para o recebimento de</p><p>denúncia ou queixa e instauração de ação penal contra Governador de Estado, por crime comum,</p><p>cabendo ao STJ, no ato de recebimento ou no curso do processo, dispor, fundamentadamente,</p><p>sobre a aplicação de medidas cautelares penais, inclusive afastamento do cargo.</p><p>Observação</p><p>SUGESTÃO DE RESPOSTA:</p><p>Em relação ao crime comum, o Presidente da República é dotado de imunidade em</p><p>relação ao processo, uma vez que na vigência do seu mandato, não pode ser responsabilizado</p><p>por atos estranhos ao exercício de suas funções. Durante o mandato, o processo e a prescrição</p><p>ficam suspensos. O Presidente da República também é dotado de imunidade em relação à</p><p>prisão, pois, enquanto não sobrevier sentença condenatória, o Presidente da República não</p><p>estará sujeito a prisão.</p><p>http://portal.stf.jus.br/hotsites/agenda-2030/</p><p>http://portal.stf.jus.br/hotsites/agenda-2030/</p><p>http://portal.stf.jus.br/hotsites/agenda-2030/</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>19</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>O Supremo Tribunal Federal entende que tais prerrogativas foram outorgadas ao</p><p>Presidente da República na qualidade de Chefe de Estado, não podendo ser estendidas aos</p><p>demais Chefes do Poder Executivo. As normativas se apresentam como normas constitucionais</p><p>de repetição proibida, de modo que a primeira defesa do advogado não merece prosperar.</p><p>Por fim, no que diz respeito à licença prévia pela Assembleia Legislativa para instauração</p><p>do processo contra o Governador do Estado, o Supremo Tribunal Federal entende pela sua</p><p>inconstitucionalidade. Isso ocorre porque tal imunidade deveria estar prevista no texto da</p><p>Constituição Federal por limitar a responsabilidade penal do Chefe do Executivo, não na</p><p>Constituição Estadual, tal como se deu no caso narrado.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>20</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA</p><p>Durante o trâmite de um projeto de lei no Congresso Nacional, versando sobre estrutura e</p><p>funcionamento das polícias, um dos Deputados Federais consegue materializar uma manobra</p><p>regimental para que fosse imposto ao projeto o rito de urgência, mesmo que a matéria não</p><p>preenchesse todos os requisitos regimentais para estar nesse rito. Diante desse cenário, um</p><p>partido político provoca o Supremo Tribunal Federal via Mandado de Segurança para</p><p>fins de</p><p>desfazer a mencionada manobra, alegando a inconstitucionalidade da decisão.</p><p>Diante do exposto, analise se o caso se apresenta como possível hipótese de controle abstrato</p><p>ou concreto de constitucionalidade. (3,0 pontos) Ademais, seria admissível o uso do Mandado</p><p>de Segurança no caso apresentado? Indique os fundamentos. (7,0 pontos) Por fim, em quais</p><p>cenários o seu uso é admitido pela jurisprudência do STF? (10,0 pontos)</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>21</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:</p><p>Controle concreto (3,0 pontos)</p><p>Não admissão do MS: (7,0 pontos)</p><p>• Legitimidade não é do partido político</p><p>• Rito de urgência é questão interna corporis</p><p>Casos de admissão (10,0 pontos): trâmite de PL x PEC</p><p>Português (0,25 por erro até o limite de 5,0)</p><p>NOTA FINAL</p><p>MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA:</p><p>Poder Judiciário: Consoante posição do STF, o controle preventivo pelo Poder Judiciário ocorre</p><p>em bases excepcionais. Admite-se o controle incidental da constitucionalidade por meio de</p><p>um mandado de segurança, a ser interposto originariamente no STF (art. 102, inciso I,</p><p>alínea ‘d’, da Constituição Federal), por qualquer parlamentar (essa legitimidade ativa é</p><p>exclusiva do parlamentar, não a possuindo qualquer outra pessoa), cujo objeto é o projeto</p><p>de lei ou de emenda constitucional viciado. É direito-função do parlamentar participar de um</p><p>processo legislativo constitucionalmente hígido. Algumas peculiaridades desse mandado de</p><p>segurança:</p><p>– Trata-se de hipótese de controle difuso de constitucionalidade, exercido de forma</p><p>incidental, pela via de exceção ou defesa. Mas trata-se de controle abstrato? Paulo</p><p>Gustavo Branco e Bernardo Gonçalves afirmam que sim, uma vez que analisa a lei em</p><p>tese (controle abstrato); Marcelo Novelino, Dirley da Cunha Jr., Pedro Lenza e Nathalia</p><p>Masson (MAJORITÁRIO): é controle concreto por seu um “direito subjetivo” do</p><p>parlamentar em participar de um processo legislativo hígido.</p><p>– “A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal – embora reconheça, ao membro do</p><p>Congresso Nacional, qualidade para fazer instaurar o controle jurisdicional pertinente ao</p><p>processo de elaboração normativa – nega-lhe, no entanto, legitimidade ativa para</p><p>prosseguir no processo mandamental, quando, em decorrência de fato superveniente, a</p><p>proposição normativa, em tramitação na esfera parlamentar, vem a transformar-se em lei</p><p>ou a converter-se em emenda à Constituição. A superveniência da aprovação parlamentar</p><p>do projeto de lei ou da proposta de emenda à Constituição implica a perda da legitimidade</p><p>ativa dos membros do Congresso Nacional para o prosseguimento da ação mandamental,</p><p>que não pode ser utilizada como sucedâneo da ação direta de inconstitucionalidade.”20</p><p>– Como se verifica pelo MS 32033,21 julgado em meados de 2013 pelo Pleno do STF,</p><p>essa hipótese de controle preventivo de constitucionalidade é medida de exceção,</p><p>admitida em duas hipóteses: “a) proposta de emenda à Constituição manifestamente</p><p>ofensiva a cláusula pétrea; e b) projeto de lei ou de emenda em cuja tramitação se</p><p>verificasse manifesta afronta a cláusula constitucional que disciplinasse o</p><p>correspondente processo legislativo.” Em outras palavras, o controle de</p><p>20. Conforme acórdão de inteiro teor do MS 22487, publicado no Inf. 239 do STF.</p><p>21. MS 36662 AgR, Relator(a): Min. ALEXANDRE DE MORAES, Tribunal Pleno, julgado em 25/10/2019.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>22</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>constitucionalidade de um projeto de emenda constitucional abrange tanto o conteúdo</p><p>quanto o procedimento, ao passo que o controle de constitucionalidade de um projeto</p><p>de lei não abrange a análise de vícios de ordem material (conteúdo) de um projeto em</p><p>trâmite, mas, tão-somente, os vícios formais decorrentes da não observância do</p><p>procedimento da espécie legislativa.</p><p>– “É pacífica a orientação jurisprudencial desta Suprema Corte no sentido de que, a</p><p>proteção ao princípio fundamental inserido no art. 2º da CF/1988, segundo o qual, são</p><p>Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o</p><p>Judiciário, afasta a possibilidade de ingerência do Poder Judiciário nas questões de</p><p>conflitos de interpretação, aplicação e alcance de normas meramente regimentais</p><p>(questão interna corporis)”22. Importante ressaltar que, nesse ponto, o Ministro</p><p>Gilmar Mendes, em decisão monocrática cautelar no MS 26.915, entendeu que</p><p>“nenhum assunto, quando suscitado à luz da Constituição, poderá estar previamente</p><p>excluído da apreciação judicial”23, como se dá no caso das normas regimentais que</p><p>constituam normas constitucionais interpostas. Nas palavras do Ministro Gilmar</p><p>Mendes, ao citar Gustavo Zagrabelsky, “se as normas constitucionais fizerem</p><p>referência expressa a outras disposições normativas, a violação constitucional pode</p><p>advir da violação dessas outras normas, que, muito embora não sejam formalmente</p><p>constitucionais, vinculam os atos e procedimentos legislativos, constituindo-se</p><p>normas constitucionais interpostas”24. No caso, o Ministro, liminarmente, analisou</p><p>o art. 43 do Regimento Interno da Câmara dos Deputados25 à luz das normas</p><p>constitucionais do devido processo legislativo, fixando o entendimento de que o artigo</p><p>não é aplicável às propostas de Emenda à Constituição, quando a iniciativa é</p><p>obrigatoriamente coletiva, o que poderia levar a situações absurdas que deixariam sem</p><p>resposta alguns questionamentos, tais como: “Imagine-se uma PEC que, por inegável</p><p>oportunidade, tenha sido subscrita por todos os membros da Comissão de Constituição</p><p>e Justiça e de Redação, de todos os partidos e blocos. Ou, ainda, o caso de várias PECs</p><p>apensadas que, no seu conjunto, contenham as assinaturas de todos os membros da</p><p>Casa. Quem haveria de relatá-la [sic], a prevalecer tal entendimento? Quem poderia</p><p>Presidir a Comissão Especial, nessas circunstâncias? Estariam todos os parlamentares</p><p>subscritores impedidos?”26. No final de 2012, o MS 26.91527 foi extinto sem</p><p>julgamento do mérito por perda do objeto. Por isso, foi mantido o entendimento da</p><p>impossibilidade do controle judicial dos atos discricionários do Congresso Nacional,</p><p>22. Tal questão é duramente criticada por Marcelo Cattoni (Devido processo legislativo: Uma justificação democrática</p><p>do controle jurisdicional de constitucionalidade das leis e do processo legislativo. 2. ed. Belo Horizonte:</p><p>Mandamentos, 2006, p. 50-51): “Ao contrário do que sustenta o Supremo Tribunal Federal, esses requisitos</p><p>formais são, de uma perspectiva normativa, condições processuais que devem garantir um processo legislativo</p><p>democrático, ou seja, a institucionalização jurídica de formas discursivas e negociais que, sob as condições de</p><p>complexidade da sociedade atual, devem garantir o exercício da autonomia jurídica – pública e privada – dos</p><p>cidadãos. O que está em questão é a própria cidadania em geral e não o direito de minorias parlamentares ou as</p><p>devidas condições</p><p>para a atividade legislativa de um parlamentar ‘X’ ou ‘Y’. Não se deve, inclusive, tratar o</p><p>exercício de um mandato representativo como questão privada, ainda que sob o rótulo de ‘direito público subjetivo’</p><p>do parlamentar individualmente considerado, já que os parlamentares, na verdade, exercem função pública de</p><p>representação política...”.</p><p>23. MS 26.915 MC, julgada monocraticamente em 8/9/2007, Rel. Ministro Gilmar Mendes, cujo inteiro teor foi</p><p>publicado no Inf. 483 do STF.</p><p>24. MS 26.915 MC, julgada monocraticamente em 8/9/2007, Rel. Ministro Gilmar Mendes, cujo inteiro teor foi</p><p>publicado no Inf. 483 do STF.</p><p>25. Art. 43 do Regimento Interno da Câmara dos Deputados: “Nenhum Deputado poderá presidir reunião de Comissão</p><p>quando se debater ou votar matéria da qual seja Autor ou Relator.</p><p>Parágrafo único. Não poderá o Autor de proposição ser dela Relator, ainda que substituto ou parcial”.</p><p>26. MS 26.915 MC, julgada monocraticamente em 8/9/2007, Rel. Ministro Gilmar Mendes, cujo inteiro teor foi</p><p>publicado no Inf. 483 do STF.</p><p>27. MS 26.915, julgado em 27/9/2012, Rel. Ministra Rosa Weber.</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>23</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>envolvendo questões políticas e questões interna corporis, mesmo quando se tratar de</p><p>norma constitucional interposta.</p><p>DIREITO ADMINISTRATIVO – LICITAÇÃO E CONTRATOS; CONCESSÃO E PERMISSÃO; CONTRATOS</p><p>ADMINISTRATIVOS; PARCERIA PÚBLICO-PRIVADA; PRORROGAÇÃO ANTECIPADA</p><p>Prorrogação e (re)licitação de contratos de parceria entre município e a iniciativa</p><p>privada - ADPF 971/SP, ADPF 987/SP e ADPF 992/SP</p><p>Resumo:</p><p>A adoção do rito de urgência em proposições legislativas é prerrogativa regimental atribuída à</p><p>respectiva Casa Legislativa e consiste em matéria “interna corporis”, de modo que não cabe ao Poder</p><p>Judiciário qualquer interferência, sob pena de violação ao princípio de separação dos Poderes (CF/1988,</p><p>art. 2º).</p><p>A jurisprudência desta Corte é consolidada no sentido de que o Poder Judiciário não pode</p><p>apreciar o mérito da opção do Poder Legislativo pela tramitação abreviada de projeto de lei ou de outras</p><p>proposições de sua competência (1).</p><p>É constitucional lei municipal que, ao regulamentar apenas o seu interesse local, sem criar</p><p>novas figuras ou institutos de licitação ou contratação, estabelece diretrizes gerais para a prorrogação</p><p>e relicitação dos contratos de parceria entre o município e a iniciativa privada.</p><p>Na espécie, a lei municipal impugnada regulou os serviços públicos de sua própria competência,</p><p>definindo os institutos da prorrogação contratual, da prorrogação antecipada, e da relicitação, além das</p><p>condições e formas para a prorrogação dos contratos de parceria, a definição dos conceitos e requisitos</p><p>para a relicitação, e do objeto nos contratos de parceria.</p><p>Dessa forma, a norma atuou dentro da discricionariedade que lhe é conferida (CF/1988, art. 30,</p><p>I e II), sem avançar em temas de caráter geral relacionados à licitação e à contratação (2). Nesse contexto,</p><p>disciplinou somente aspectos da gestão administrativa dos contratos de parceria, permitindo ao</p><p>administrador, com base nas normas gerais federais relacionadas ao tema, decidir do melhor modo para</p><p>atender ao interesse público.</p><p>Ademais, houve plena observância aos requisitos necessários ao reconhecimento da higidez da</p><p>prorrogação antecipada, a saber: (i) que o contrato vigente de concessão ou permissão que será</p><p>prorrogado tenha sido previamente licitado; (ii) que o edital de licitação e o contrato original autorizem a</p><p>prorrogação; (iii) que seja viabilizada à Administração Pública, na figura do Poder concedente, uma</p><p>decisão discricionária e motivada; e (iv) que essa decisão seja sempre lastreada no critério da</p><p>vantajosidade (3).</p><p>Com base nesse entendimento, o Plenário, em apreciação conjunta, por unanimidade, julgou</p><p>improcedentes as ações para assentar a constitucionalidade da Lei 17.731/2022 do Município de São</p><p>Paulo/SP.</p><p>(1) Precedentes citados: ADI 6.968 e MS 38.199 MC.</p><p>(2) Precedente citado: RE 1.159.577 AgR.</p><p>https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=6400169</p><p>https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=6432159</p><p>https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=6439335</p><p>https://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=760833559</p><p>http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=759025926</p><p>http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=749317136</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>24</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>(3) Precedente citado: ADI 5.991.</p><p>ADPF 971/SP, relator Ministro Gilmar Mendes, julgamento virtual finalizado em 26.5.2023 (sexta-feira),</p><p>às 23:59</p><p>ADPF 987/SP, relator Ministro Gilmar Mendes, julgamento virtual finalizado em 26.5.2023 (sexta-feira),</p><p>às 23:59</p><p>ADPF 992/SP, relator Ministro Gilmar Mendes, julgamento virtual finalizado em 26.5.2023 (sexta-feira),</p><p>às 23:59</p><p>SUGESTÃO DE RESPOSTA:</p><p>A utilização de Mandado de Segurança no cenário narrado configura hipótese de controle difuso</p><p>de constitucionalidade, exercido de forma incidental, pela via de exceção ou defesa, apresentando-</p><p>se como controle concreto para doutrina majoritária.</p><p>A utilização dessa ação no caso narrado é incabível por dois motivos. Primeiro, porque a</p><p>legitimidade para a ação não é do partido político, mas do parlamentar. Segundo, porque a</p><p>definição do rito de urgência se apresenta como questão interna corporis, insuscetível de</p><p>questionamento pela via do mandado de segurança.</p><p>De todo modo, o uso do mandado de segurança como instrumento de controle de</p><p>constitucionalidade preventivo constituo medida de exceção, admitida em duas hipóteses: em</p><p>face de proposta de emenda à Constituição manifestamente ofensiva a cláusula pétrea e em face</p><p>projeto de lei ou de emenda em cuja tramitação se verificasse manifesta afronta a cláusula</p><p>constitucional que disciplinasse o correspondente processo legislativo.</p><p>http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=755270659</p><p>https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=6400169</p><p>https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=6400169</p><p>https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=6432159</p><p>https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=6432159</p><p>https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=6439335</p><p>https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=6439335</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>25</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA</p><p>“Apesar de ter sido extinto pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o direito a prisão</p><p>especial continua valendo para, ao menos, 2.425.890 brasileiros. Na lista, encontram-</p><p>se, por exemplo parlamentares. O levantamento foi feito pelo portal R7 com base em</p><p>números informados por órgãos e entidades representativas.” Fonte: portal R7</p><p>Sobre o cenário delineado, a notícia informa o fim da prisão especial pelo STF. Discorra</p><p>sobre o tema, conceituando “prisão especial” (2,0 pontos). Ademais, ela era</p><p>capaz de</p><p>incidir em prisões cautelares e definitivas? (3,0 pontos) A prisão especial é</p><p>constitucional ou inconstitucional? (10,0 pontos) Por fim, como está a situação,</p><p>atualmente, em relação aos policiais civis? (5,0 pontos) Todas as respostas devem ser</p><p>fundamentadas.</p><p>Versão Definitiva da Questão Dissertativa</p><p>01</p><p>02</p><p>03</p><p>04</p><p>05</p><p>06</p><p>07</p><p>08</p><p>09</p><p>10</p><p>11</p><p>12</p><p>13</p><p>14</p><p>15</p><p>16</p><p>17</p><p>18</p><p>19</p><p>20</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>26</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>DISTRIBUIÇÃO DOS PONTOS:</p><p>Conceito de prisão especial (2,0 pontos)</p><p>Incide em prisões cautelares (não incide em definitivas) (3,0 pontos)</p><p>Prisão especial pode ser inconstitucional (art. 295, VII) e</p><p>constitucional nas demais (5,0 pontos)</p><p>• Indicar o fundamento de inconstitucionalidade (5,0 pontos)</p><p>Prisão especial para os policiais civis – constitucionalidade pelo fato</p><p>de discrimine (5,0 pontos)</p><p>Português</p><p>NOTA FINAL</p><p>MATERIAL DE LEITURA E/OU JULGADOS SOBRE O TEMA:</p><p>No Brasil, várias categorias profissionais são contempladas com “prisão especial”, tema que</p><p>sempre é objeto de questionamentos quanto a sua constitucionalidade. Entenda que</p><p>a prisão especial não é uma nova modalidade de prisão cautelar, mas apenas uma forma</p><p>diferenciada de recolhimento da pessoa presa provisoriamente, segregada do convívio com</p><p>os demais presos provisórios, até a condenação penal definitiva. O art. 295 do CPP traz um rol</p><p>exemplificativo dessas categorias, contemplando as forças policiais, tema que é complementado</p><p>pelas Leis nº 4.878/65 e 5350/67.</p><p>Art. 295. Serão recolhidos a quartéis ou a prisão especial, à disposição da autoridade</p><p>competente, quando sujeitos a prisão antes de condenação definitiva:</p><p>I - os ministros de Estado;</p><p>II – os governadores ou interventores de Estados, ou Territórios, o prefeito do Distrito</p><p>Federal, seus respectivos secretários e chefes de Polícia;</p><p>II - os governadores ou interventores de Estados ou Territórios, o prefeito do Distrito</p><p>Federal, seus respectivos secretários, os prefeitos municipais, os vereadores e os chefes de</p><p>Polícia; (Redação dada pela Lei nº 3.181, de 11.6.1957)</p><p>III - os membros do Parlamento Nacional, do Conselho de Economia Nacional e das</p><p>Assembléias Legislativas dos Estados;</p><p>IV - os cidadãos inscritos no "Livro de Mérito";</p><p>V - os oficiais das Forças Armadas e do Corpo de Bombeiros;</p><p>V – os oficiais das Forças Armadas e os militares dos Estados, do Distrito Federal e dos</p><p>Territórios; (Redação dada pela Lei nº 10.258, de 11.7.2001)</p><p>VI - os magistrados;</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1950-1969/L3181.htm#art295ii</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/LEIS_2001/L10258.htm#art295v</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>27</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>VII - os diplomados por qualquer das faculdades superiores da República; (Vide ADPF nº</p><p>334)</p><p>VIII - os ministros de confissão religiosa;</p><p>IX - os ministros do Tribunal de Contas;</p><p>X - os cidadãos que já tiverem exercido efetivamente a função de jurado, salvo quando</p><p>excluídos da lista por motivo de incapacidade para o exercício daquela função;</p><p>XI - os guardas-civis dos Estados e Territórios, ativos ou inativos. (Incluído pela Lei</p><p>nº 4.760, de 1965)</p><p>XI - os delegados de polícia e os guardas-civis dos Estados e Territórios, ativos e</p><p>inativos. (Redação dada pela Lei nº 5.126, de 20.9.1966)</p><p>§ 1o A prisão especial, prevista neste Código ou em outras leis, consiste exclusivamente no</p><p>recolhimento em local distinto da prisão comum. (Incluído pela Lei nº 10.258, de</p><p>11.7.2001)</p><p>§ 2o Não havendo estabelecimento específico para o preso especial, este será recolhido em</p><p>cela distinta do mesmo estabelecimento. (Incluído pela Lei nº 10.258, de 11.7.2001)</p><p>§ 3o A cela especial poderá consistir em alojamento coletivo, atendidos os requisitos de</p><p>salubridade do ambiente, pela concorrência dos fatores de aeração, insolação e</p><p>condicionamento térmico adequados à existência humana. (Incluído pela Lei nº</p><p>10.258, de 11.7.2001)</p><p>§ 4o O preso especial não será transportado juntamente com o preso</p><p>comum. (Incluído pela Lei nº 10.258, de 11.7.2001)</p><p>§ 5o Os demais direitos e deveres do preso especial serão os mesmos do preso</p><p>comum. (Incluído pela Lei nº 10.258, de 11.7.2001)</p><p>Contudo, em março de 2023, o STF analisou uma dessas prisões especiais na ADPF 334, que teve</p><p>como objeto o art. 295, inciso VII (“diplomados por qualquer das faculdades superiores da</p><p>República”), do CPP.</p><p>No caso, para o Tribunal, existe nítida violação do princípio da igualdade, sendo</p><p>tal prisão “verdadeiro privilégio que, em última análise, materializa a desigualdade social e o</p><p>viés seletivo do direito penal e malfere preceito fundamental da Constituição que assegura a</p><p>igualdade entre todos na lei e perante a lei". Ainda, de acordo com o STF, “trata-se, na</p><p>realidade, de uma medida discriminatória, que promove a categorização de presos e que, com</p><p>isso, ainda fortalece desigualdades, especialmente em uma nação em que apenas 11,30% da</p><p>população geral tem ensino superior completo e em que somente 5,65% dos pretos ou pardos</p><p>conseguiram graduar-se em uma universidade”. Em outras palavras, “a legislação beneficia</p><p>justamente aqueles que já são mais favorecidos socialmente, os quais já obtiveram um</p><p>privilégio inequívoco de acesso a uma universidade”.</p><p>Contudo, como colocado, o objeto da ADPF foi somente o art. 295, inciso VII (“diplomados por</p><p>qualquer das faculdades superiores da República”), do CPP. Assim continuam plenamente</p><p>válidas as outras prisões especiais, pois, como indicou o próprio STF, a prisão especial de</p><p>certas categorias (e aqui se inserem policiais, magistrados, promotores, chefes dos poderes,</p><p>entre outros) é um fator de discrimine justificado em razão das atividades promovidas e do</p><p>risco que pode representar para tais pessoas o contato com o preso comum.</p><p>https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=4728410</p><p>https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=4728410</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1950-1969/L4760.htm#art295xi</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1950-1969/L4760.htm#art295xi</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1950-1969/L5126.htm#art1</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/LEIS_2001/L10258.htm#art295%C2%A71</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/LEIS_2001/L10258.htm#art295%C2%A71</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/LEIS_2001/L10258.htm#art295%C2%A71</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/LEIS_2001/L10258.htm#art295%C2%A71</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/LEIS_2001/L10258.htm#art295%C2%A71</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/LEIS_2001/L10258.htm#art295%C2%A71</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/LEIS_2001/L10258.htm#art295%C2%A71</p><p>EBOOK 3 – Questões Discursivas Prof. Bruno Zanotti</p><p>@delegadobrunozanotti (instagram)</p><p>28</p><p>www.brunozanotti.com.br // curso@brunozanotti.com.br</p><p>SUGESTÃO DE RESPOSTA:</p><p>No Brasil, várias categorias profissionais</p>