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<p>A DOUTRINA DA EXPIAÇÃO</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>A Teologia Sistemática, ao tratar da Soteriologia (doutrina da salvação)</p><p>aborda de forma extensa, a doutrina da obra de Cristo, chamada de</p><p>expiação.</p><p>Uma compressão mais ampliada sobre a obra de redenção e remissão</p><p>de pecados, a natureza desta obra, a sua necessidade e extensão somente</p><p>é possível através de uma correta perspectiva da doutrina da expiação,</p><p>conquanto este é um dos aspectos elementares da obra salvívica que Jesus</p><p>Cristo veio realizar.</p><p>A prática dos ritos sacrificiais na Antiga Aliança tinha como objetivo único</p><p>propiciar ao sacrificante, mediante inúmeros e solenes rituais, a expiação de</p><p>sua culpa. A aproximação do homem pecador ao Deus puramente santo,</p><p>requer instrumentos que sirvam de atenuantes da culpa deste para com</p><p>Aquele. Por isso, desde os tempos primórdios, no sacrifício vicário de animais</p><p>está implícito o princípio divino que “sem derramamento de sangue não há</p><p>remissão de pecados.” (Hb. 9:22).</p><p>A necessidade da reparação da culpa tornou-se absolutamente</p><p>necessária com a entrada do pecado no mundo. Por causa do pecado</p><p>cometido por Adão e a transferência por imputação da corrupção e da</p><p>culpa para todos os seus descendentes, em função da sua relação de pacto</p><p>federal que exercia. Uma parede de separação foi erguida entre Deus e o</p><p>homem; porque Deus na Sua infinita santidade e pureza não podia se</p><p>relacionar com o homem impuro, devido ao pecado que cometera.</p><p>Ademais, a Sua justiça fora violentamente ferida. A transgressão de Sua lei</p><p>não poderia, de forma alguma permanecer impune. Ainda que o amor de</p><p>Deus seja suficiente para apaziguar a Sua ira contra o pecado; Sua justiça</p><p>precisava ser satisfeita; conquanto, ambos são atributos do Ser divino e um</p><p>não pode, de modo nenhum contrariar, o outro, pois Deus, na sua essência,</p><p>não se contradiz. Por isso, algo precisava ser feito, para que fosse reparado o</p><p>agravo causado à justiça santa de Deus.</p><p>A expiação, mediante sacrifício substitutivo, com o derramamento do</p><p>sangue deste, foi a forma adotada e instituída por Deus; constituindo-se no</p><p>único elo possível de ligação entre o Deus puramente Santo e Justo e o</p><p>homem pecador. Somente o sangue de uma vítima sacrificial podia propiciar</p><p>Deus ao homem. Nisto consiste a eficácia da expiação: uma vida dada por</p><p>outra vida.</p><p>Ao longo deste estudo iremos descobrir o significado de expiação; sua</p><p>origem; seu conceito; natureza e aplicação, sob uma análise Bíblico-</p><p>Teológica. Nossa preocupação é estabelecer o conceito de expiação no</p><p>Antigo Testamento, definindo sua possível origem na história e sua</p><p>oficialização como prática religiosa absolutamente necessária, bem como</p><p>demonstrando a prática do sacrifício expiatório e sua normatização pela Lei.</p><p>O foco é a relação do conceito de expiação entre o Antigo e o Novo</p><p>Testamento, abordando a sua aplicação sob a perspectiva</p><p>neotestamentária e apontando as alterações ocorridas nesta transição.</p><p>Conforme vimos no estudo anterior, os ofícios de Cristo, que inicia a</p><p>exposição da doutrina de Sua obra são evidenciados. Salientamos a causa</p><p>e necessidade da expiação, sua natureza e sua extensão, bem como as</p><p>objeções a ela.</p><p>A EXPIAÇÃO, SEU SIGNIFICADO</p><p>O sentido linguístico do termo - Em termos da língua portuguesa, o Dicionário</p><p>da Língua Portuguesa define expiação como sendo um “s. f. acto ou efeito</p><p>de expiar; cumprimento de pena ou castigo; penitência; pl. preces para</p><p>aplacar a cólera celeste.”</p><p>O sentido etimológico do termo</p><p>Em termos etimológicos, a Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia,</p><p>refere que Expiação “vem do latim, ex (completamente)</p><p>+ piare, significando, aplacar. “ A Enciclopédia da Bíblia Cultura Cristã indica</p><p>que “‘expiação’ interpreta corretamente a ação do verbo heb. רפּכ, a raiz</p><p>significando ‘cobrir’”. O Novo Dicionário da Bíblia indica que a “palavra</p><p>ocorre no AT para traduzir palavras do grupo kpr, e é encontrada uma vez no</p><p>NT para traduzir o vocábulo katallage (vocábulo este, que é mais</p><p>apropriadamente traduzido por ‘reconciliação’)”.</p><p>O sentido teológico do termo</p><p>A expiação, segundo o Novo Dicionário da Bíblia, “é empregado em</p><p>teologia para denotar a obra de Cristo ao tratar do problema do pecado</p><p>apresentado pelo pecado humano, levando os pecadores à relação correta</p><p>com Deus”. A Enciclopédia da Bíblia Cultura Cristã refere que Expiação refere</p><p>que:</p><p>“A palavra expiação significa um relacionamento harmonioso ou aquilo</p><p>que promove tal relacionamento harmonioso ou aquilo que promove tal</p><p>relacionamento, isto é, a reconciliação. É usada principalmente em</p><p>referencia à reconciliação entre Deus e o homem efetuada pela obra de</p><p>Cristo. A necessidade desta reconciliação entre é a brecha no</p><p>relacionamento original entre o Criador e a criatura, ocasionada pela</p><p>rebelião pecaminosa do homem”.[</p><p>Grudem define expiação como “a obra que Cristo realizou em sua vida</p><p>e morte para obter nossa salvação”. Pearlman define o ato de expiar o</p><p>pecado como “ocultar o pecado de Deus de modo que o pecador perca o</p><p>seu poder de provocar a ira divina”. Expiação é a “tradução da palavra</p><p>hebraica Kippur, uma forma intensiva que significa ‘cobrir com um preço’”.</p><p>Podemos concluir que expiação se refere ao sacrifício perfeito de Cristo</p><p>na cruz, o qual aplacou a ira de Deus, resultante do pecado da humanidade,</p><p>sendo que o Seu sangue cobriu as transgressões do homem permitindo agora</p><p>à humanidade, por meio de Cristo, ser reconciliada com Deus.</p><p>NECESSIDADE DE EXPIAÇÃO</p><p>A expiação é necessária basicamente devido a “dois fatos: santidade</p><p>de Deus e a pecabilidade do homem”.</p><p>A pecabilidade do homem</p><p>O pecado do homem, colocou-o numa posição de separação e</p><p>inimizade para com Deus. O homem não consegue fazer nada por si mesmo</p><p>para conseguir alterar esta situação. A expiação, como veremos de seguida,</p><p>é necessária devido a três aspetos: “a universalidade do pecado, a</p><p>seriedade do pecado, e a incapacidade do homem resolver o problema do</p><p>pecado”.</p><p>a) A universalidade do pecado - Deus criou Adão, coloca-o no jardim e</p><p>dá-lhe uma simples ordem “da árvore da ciência do bem e do mal, dela não</p><p>comerás” (Génesis 2:17 ARC). Myer Pearlman explica que Deus ao permitir-</p><p>lhe escolher estava a:</p><p>(…) prover um teste pelo qual o homem pudesse, amorosa e livremente,</p><p>escolher servir a Deus e dessa maneira desenvolver o seu caráter. Sem</p><p>vontade própria o homem teria sido meramente uma máquina.</p><p>Deus queria que o homem livremente o amasse e servisse. No entanto,</p><p>Adão desobedece (Génesis 3), e conforme Deus lhe tinha dito antes, ele</p><p>ficou condenado à morte (Génesis 2.17).</p><p>A desobediência de Adão não tem apenas como consequência a sua</p><p>expulsão do jardim do Éden ou a sua própria morte, mas a sua desobediência</p><p>altera a condição de toda a humanidade perante Deus, pois “quando Adão</p><p>pecou, Deus considerou todos os que descenderiam de Adão pecadores”.</p><p>Paulo explica que, por um só homem, Adão, e pela sua transgressão,</p><p>toda a humanidade está sujeita ao pecado (Romanos 5.12-21 ), pois “Deus</p><p>entendeu que todos nós pecamos quando Adão desobedeceu”. Deste</p><p>modo, fica claro que “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”</p><p>(Romanos 3.23 ARC).</p><p>b) A seriedade do pecado - O pecado não é algo que devemos</p><p>considerar de uma forma leviana, pelo contrário, ele é demasiado grave</p><p>para Deus, que qualquer desobediência a Deus é abominável aos seus olhos,</p><p>pois Deus é tão puro, que não pode ver o mal (Habacuque 1.13), que pelo</p><p>nosso pecado, antes de termos sido reconciliados com Deus, éramos seus</p><p>inimigos (Colossenses 1.21). A condição de pecador do homem fá-lo esperar</p><p>um juízo de Deus para com os seus adversários (Hebreus 10.27).</p><p>c) Incapacidade do homem de resolver o problema do pecado - O</p><p>homem não consegue em momento algum purificar-se a si mesmo (Salmos</p><p>20.9), “nenhuma obra da lei será capaz de tornar o homem justificável idóneo</p><p>para</p><p>com Deus (Rm 3.20; Cl 2.16). Se tiver de depender se si mesmo, o homem</p><p>nunca será salvo” .</p><p>2. A santidade de Deus</p><p>Deus é santo, logo Ele é “justo em caráter e conduta”. No âmbito da sua</p><p>relação com o homem, Ele estabeleceu leis que “são a transcrição da</p><p>natureza divina”, e que “unem o homem ao seu Criador pelos laços de</p><p>relação pessoal e constituem a base da responsabilidade humana”.</p><p>A relação de intimidade que existia entre Deus e homem “foi perturbada</p><p>pelo pecado que é um distúrbio da relação pessoal entre Deus e o homem”.</p><p>O pecado impede que Deus e o homem possam relacionar-se, pois é “um</p><p>ataque contra a honra e santidade de Deus”.</p><p>Como vimos, o pecado é uma afronta direta a Deus. Deus não o suporta,</p><p>como é claro em Isaías 59.2. A santidade de Deus e o pecado do homem</p><p>são incompatíveis. A sua santidade está estritamente ligada à sua justiça. A</p><p>afronta à santidade de Deus exige a sua justiça. Myer Pearlman refere que:</p><p>(…) se Deus permitisse que sua honra fosse atacada então ele deixaria</p><p>de ser Deus. Sua honra pede a destruição daquele que lhe resiste; sua justiça</p><p>exige a satisfação da lei violada; e sua santidade reage contra o pecado</p><p>sendo essa reação reconhecida como manifestação da ira.</p><p>Segundo a Enciclopédia Bíblia Cultura Cristã, “o pecado é rebelião</p><p>contra Deus, e ele inevitavelmente deve reagir com ira. o pecado de fato</p><p>cria uma terrível responsabilidade e a inexorável exigência da justiça divina</p><p>deve ser satisfeita”. Paulo escreve que “do céu se manifesta a ira de Deus</p><p>sobre a impiedade e injustiça dos homens (Romanos 1:18 ARC).</p><p>A Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, relativamente à ira de Deus,</p><p>refere que:</p><p>(…) não foi castigo que Cristo sofreu na cruz, e sim a ira. A punição é algo</p><p>contra o ofensor; mas a ira que foi descarregada contra Cristo foi contra a</p><p>ofensa, o pecado. Cristo suportou aquela ira que o ser e a natureza de Deus</p><p>sempre e eternamente sentirão contra o pecado. O pecador não pode</p><p>aproximar-se de Deus, mas deve morrer, deve perecer em sua presença</p><p>santa – não porque Deus lhe vote ódio, mas porque Deus é santo. Por essa</p><p>razão essa razão é que Cristo morreu – e foi abandonado à ira de Deus,</p><p>porque tomou sobre si mesmo os nossos pecados, sobre seu próprio corpo no</p><p>madeiro.</p><p>A CAUSA DA EXPIAÇÃO</p><p>A expiação era necessária pois, como vimos anteriormente, o homem</p><p>estava em pecado e o seu pecado é incompatível com a santidade de</p><p>Deus, impossibilitando o relacionamento entre Deus e o homem.</p><p>Wayne Grudem refere que “o amor e a justiça, foram a causa última da</p><p>expiação”. Nem uma, nem a outra são mais importantes, porque sem amor</p><p>Deus não teria tomado a decisão de nos resgatar e sem a sua justiça, a</p><p>exigência que existia no pagamento da pena pelo pecado, e que só poderia</p><p>ser cumprida em Cristo, nunca teria acontecido.</p><p>1. A justiça de Deus</p><p>A justiça de Deus “clamou pelo castigo pelo pecador, mas sua graça</p><p>proveu um plano para o perdão. Ao mesmo tempo ele faz justiça a seu</p><p>caráter como Deus Justo e reto”.</p><p>A justiça de Deus “requeria que Deus encontrasse o meio para que a</p><p>penalidade que nos era devida por causa de nossos pecados fosse paga”.</p><p>Romanos 3.25 refere que Deus, o Pai, “propôs [a Jesus] para propiciação pela</p><p>fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados”</p><p>(ARC).</p><p>Paulo escreve em 2 Coríntios 5.21 que “aquele [Jesus] que não conheceu</p><p>pecado, [Deus] o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça</p><p>de Deus” (ARC). A Enciclopédia Bíblica Cultura Cristã refere, relativamente a</p><p>este texto que:</p><p>(…) Cristo não foi feito pecador no sentido de ser poluído interiormente.</p><p>Em vez disso foi considerado pecador; o pecado do homem lhe foi imputado,</p><p>assim como sua justiça foi imputada aos homens. Ele levou sobre si a</p><p>condenação do pecado, de maneira que agora não há mais condenação</p><p>para aqueles que estão em Cristo Jesus (Rm.8:1). Ele foi feito “maldição por</p><p>nós”, a fim de que nele fôssemos feitos justiça de Deus (Gl 3.13).</p><p>Com esta ação Deus, não abdicou nem da sua santidade, nem da sua</p><p>justiça, pelo contrário, demonstra-as, assim como ao seu imenso amor, deste</p><p>modo “o castigo do pecado foi pago no Calvário, e a lei divina foi honrada;</p><p>dessa maneira Deus pôde ser benévolo sem ser injusto, e justo sem ser</p><p>inclemente”.</p><p>2. O amor de Deus</p><p>A expiação é a maior expressão de amor alguma vez feita. Deus “amou</p><p>o mundo de tal maneira deu seu Filho unigénito, para que todo aquele que</p><p>crê não pereça mas tenha a vida eterna” (João 3.16). A Enciclopédia Bíblica</p><p>Cultura Cristã explica que:</p><p>(…) a expiação encontra sua explicação definitiva num desejo</p><p>insondável de Deus em relação às suas criaturas pecaminosas e alienadas.</p><p>ele se agradou, por razões que só ele conhece, em demonstrar seu amor</p><p>àqueles que são indignos. O Senhor amou os homens com amor eterno (Jr</p><p>31.3), e no tempo devido demonstrou este amor no fato de que Cristo morreu</p><p>por eles quando ainda eram pecadores (Rm 5.8). Essa, é a razão final para a</p><p>expiação.</p><p>Na obra da expiação é que compreendemos o amor de Deus, mesmo</p><p>nós não amando a Deus, Deus envia seu Filho para que por ele fosse feita</p><p>propiciação pelos nossos pecados (1 João 4:10). Nunca ninguém vai</p><p>descobrir nela própria “nenhum valor ou dignidade que justifique o amor</p><p>divino, ainda assim Deus as ama porque ele é amor”.</p><p>A EXPIAÇÃO NO ANTIGO TESTAMENTO</p><p>O uso de sacrifícios existem em várias culturas desde os séculos, pois</p><p>“apesar de serem perversões do modelo original, os sacrifícios pagãos</p><p>baseiam-se em duas ideias fundamentais: adoração e expiação”. O modelo</p><p>original é o que é explicado por todo o Antigo Testamento, o qual</p><p>passaremos a explicar.</p><p>No Antigo Testamento, os sacrifícios, “(…) dão testemunho da ruptura na</p><p>comunhão entre Deus e o homem pecador, reconhecem a justiça de juízo</p><p>divino sobre o homem como pecador e, finalmente, constituem a provisão</p><p>para o pecador e, finalmente, constituem a provisão para o perdão do</p><p>homem e a sua reconciliação com Deus, o que foi divinamente apontado”.</p><p>É importante destacar que antes da morte sacrificial de Cristo, era</p><p>necessário oferecer sacrifícios regularmente, para compensar os pecados</p><p>cometidos. Os sacrifícios do Antigo Testamento “tiveram o seu cumprimento</p><p>na morte de Cristo, uma sombra daquilo que haveria de vir.</p><p>1. O efeito substitutivo dos sacrifícios do Antigo Testamento</p><p>Os sacrifícios tinham efeito substitutivo, pois a vítima estava em lugar do</p><p>pecador, conforme indica Millard Erickson, estes: “foram livrados da punição</p><p>pela imposição de algo entre o pecado deles e Deus. Deus, portanto via o</p><p>sacrifício expiatório em lugar do pecado.” Para poder verificar-se este efeito</p><p>substitutivo, era ainda precisos que fossem cumpridos outros requisitos. A</p><p>vítima a sacrificar “sempre tinha que ser sem defeito, o que indica a</p><p>necessidade de perfeição”. A vítima a sacrificar “não era barata, pois o</p><p>pecado nunca deve ser considerado coisa banal”.</p><p>A vítima em si, não tinha valor expiatório, pois, a expiação era obtida não</p><p>por qualquer valor inerente na própria vítima oferecida, mas sim porque o</p><p>sacrifício é o meio divinamente apontado para fazer expiação.</p><p>Estando estes aspetos cumpridos, a pessoa por quem a expiação estava</p><p>sendo feita devia apresentar o animal e colocar as mãos sobre ele (Lv 1.3,4).</p><p>A imposição de mãos sobre o animal simbolizava uma transferência da culpa</p><p>do pecador para a vítima. Depois, a oferta ou sacrifício era aceite pelo</p><p>sacerdote.</p><p>Em todo este processo de expiação a morte da vítima era a parte mais</p><p>importante pois era nesse momento que, a vítima, através do derramamento</p><p>de sangue espiava os pecados do pecador. Apesar de ser necessário que</p><p>sangue fosse derramando para cobrir os pecados o seu efeito só aconteceria</p><p>se o pecador se aproximasse de Deus com fé e arrependimento, situação</p><p>que fica clara em Hebreus 11, pois todos os heróis</p><p>descritos, foram justificados</p><p>pela fé. Todos os que são descritos com maior pormenor, são todos aqueles</p><p>que viveram no período anterior à lei.</p><p>Davi no Salmo 51, quando arrependido do seu pecado, refere nos</p><p>versículos 16 a 18 que: “(…) te não comprazes em sacrifícios, senão os daria;</p><p>tu não te deleitas em holocaustos. Os sacrifícios para Deus são o espírito</p><p>quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó</p><p>Deus… Então te agradarás de sacrifícios de justiça dos holocaustos e das</p><p>ofertas queimadas; então, se oferecerão novilhos sobre o teu altar”.</p><p>Davi compreendeu o significado dos sacrifícios, pois, como refere F. B.</p><p>Meyer relativo a este Salmo: Não há sacrifício mais agradável a Deus do que</p><p>um coração contrito, nem oferta mais preciosa que um espírito quebrantado.</p><p>2. A expiação ao longo do Antigo Testamento</p><p>Veremos de seguida como a expiação é surge em todo o Antigo</p><p>Testamento.</p><p>A expiação no Éden - No Jardim do Éden, após a queda de Adão, Deus</p><p>“ofereceu um vislumbre da solução que viria por meio de seu único Filho (cf.</p><p>Gn 3.15)”. Gênesis 3.15 é chamado por muitos teólogos de proto evangelho,</p><p>porque neste texto Deus promete o vindouro Salvador, o nosso Senhor Jesus</p><p>Cristo, que destruiria Satanás de seu poder e desfaria sua má obra, assim</p><p>como um homem ao esmagar a cabeça de uma serpente debaixo de seus</p><p>pés. o Senhor estava mostrando misericórdia mesmo quando Ele julgava (Gn</p><p>4.15).</p><p>Deus cobriu Adão e Eva de vestes feitas de peles de animais (Gênesis</p><p>3:20). Deus veste-os pois com a sua queda, eles se tornaram conscientes da</p><p>nudez física – o que era uma indicação exterior da nudez da consciência.</p><p>Seus esforços em se cobrirem exteriormente com folhas e interiormente com</p><p>desculpas foram em vão.</p><p>O Dr. Franklin Ferreira indica que “o princípio de se ter sacrifícios para</p><p>apagar os efeitos do pecado é estabelecido logo em seguida pela morte de</p><p>animais, com o intuito de providenciar a vestimenta do primeiro casal (Gn</p><p>3:21)”.</p><p>Em Gênesis 3.21 é a primeira vez que é mencionada na Bíblia a matança</p><p>de animais para o uso humano. O derramamento de sangue destes animais</p><p>foi, de certa forma, percursor do sistema de sacrifícios de inúmeros animais,</p><p>conforme a Lei revelada no Sinai a Moisés, e todos os sacrifícios que</p><p>aparecem no Antigo Testamento já apontavam para o fato de que um dia</p><p>haveria o maior sacrifício de todos: a morte vicária de Jesus, para o perdão</p><p>de todos os nossos pecados e a nossa libertação do jugo de Satanás.</p><p>Como podemos concluir, o primeiro sacrifício é instituído por Deus, e</p><p>executado por Ele, mas o último e derradeiro é o Seu próprio Filho a ser</p><p>sacrificado por toda a humanidade, trazendo expiação aos pecados ao seu</p><p>povo.</p><p>Os sacrifícios nos patriarcas - Após a instituição dos sacrifício pelo próprio</p><p>Deus no Éden, essa prática é verificável em todo o Gênesis, até à sua</p><p>regulamentação quando Deus dá a lei a Moisés.</p><p>O sacrifício que Abel apresentou a Deus, descrito em Gênesis 4.4, foi</p><p>aceito por Deus. O sacrifício de animais apresentado foi aceito, porque esse</p><p>tinha sido o método indicado por Deus.</p><p>Algumas linhas de interpretação indicam que o referido sacrifício,</p><p>apenas foi um sacrifício de adoração. No entanto, Hebreus 11.4, refere-se</p><p>que “Abel ofereceu a Deus maior sacrifício do que Caim, pelo que alcançou</p><p>testemunho de que era justo”. Abel, profundamente consciente de pecado,</p><p>sentia que era necessário um sacrifício; portanto, sua fé o salvou; por ela, ele</p><p>se acha ligados a todos os que crêem. (Ver Hebreus 11.4).</p><p>Outro grande exemplo de sacrifício, verificamos em Gênesis 22.1-19,</p><p>quando Deus pediu a Abraão para sacrificar Isaque, o filho da promessa. Este</p><p>foi um sacrifício estranho, pedir a um homem para sacrificar o seu filho, mas</p><p>em ato de fé e obediência, Abraão estava disposto a fazê-lo, e isso era</p><p>apenas o que Deus queria que ele fizesse.</p><p>Deus nunca quis que Abraão sacrificasse seu filho, pois para Deus retirar</p><p>a vida a alguém é algo para Deus abominável. Deus demonstra em Gênesis</p><p>4.8-16 quão terrível é a condenação por homicídio, quando ao questionar</p><p>Caim da morte do seu irmão, castigou-o, e determina que aqueles que o</p><p>matasse seriam ainda mais severamente castigados. Também outros textos,</p><p>revelam que Deus abomina o sacrifício humano, tais como Levítico 18:21,</p><p>Levítico 20:2, Deuteronômio 12:31 e Salmos 106:35-38.</p><p>Deus nunca aceitaria sacrifício humano, pois este nunca, como vimos</p><p>antes, seria impuro, imperfeito. Daí sempre era necessário um substituto.</p><p>Paralelo entre o sacrifício oferecido no altar, como substituto de Isaque, e</p><p>Cristo oferecido na cruz como nosso substituto. Embora Deus tenha impedido</p><p>Abraão de sacrificar o seu filho, Ele não poupou seu próprio Filho, Jesus, da</p><p>morte de cruz. Se Jesus não tivesse vivido, toda a humanidade morreria. Deus</p><p>enviou seu único Filho para morrer por nós a fim de que pudéssemos ser</p><p>poupados da morte eterna merecida e ganhar a vida eterna (Jo 3.16).</p><p>Outro episódio importante para a compreensão dos sacrifícios, e que é</p><p>descrito em Êxodo 12, é a instituição da primeira Páscoa. Os hebreus estavam</p><p>oprimidos no Egito, e Deus envia Moisés para os libertar.</p><p>Deus ordena ao povo para sacrificar um cordeiro ou cabrito sem mácula,</p><p>e espargir as ombreiras das portas, e assim quando o anjo da morte passasse,</p><p>eles fossem salvos. Ao matarem o cordeiro, os israelitas estariam derramando</p><p>sangue inocente, e o animal sacrificado servia de substituto do primogênito</p><p>que seria morto naquela casa. Desse ponto em diante, o povo hebreu</p><p>entenderia com clareza que, para ser poupado da morte, uma vida inocente</p><p>deveria ser sacrificada em seu lugar.</p><p>Os sacrifícios na lei - O capítulo 16 de Levítico explica como tinham que</p><p>ser efetuados os sacrifícios expiatórios. Percebemos neste capítulo que, não</p><p>bastava apenas efetuar um sacrifício pelos pecados, era necessário fazer</p><p>confissão dos mesmos.</p><p>A cerimônia se desenrolava com muitos detalhes, alguns dos quais não</p><p>são bem compreendidos, embora fique totalmente claro que naquele dia</p><p>havia o mais elevado exercício da função mediadora do sumo sacerdote.</p><p>Sendo ele próprio um pecador e representante de um povo pecaminoso,</p><p>despia suas vestes sacerdotais, banhava-se e se vestia com roupas</p><p>destituídas de qualquer tipo de ornamento, apropriadas para alguém que</p><p>suplicava por perdão. Essa roupa era totalmente branca, simbolizando a</p><p>pureza requerida daqueles que entrariam na presença do Santo de Israel.</p><p>Assim preparado e vestido, o sumo sacerdote oferecia os sacrifícios que eram</p><p>o climax de todo o sistema de purificação de Levítico. Por meio desses</p><p>sacrifícios, que envolviam a confissão do pecado (o sacerdote impunha suas</p><p>mãos sobre a cabeça do bode expiatório, confessava as transgressões de</p><p>Israel, colocando-as sobre a cabeça do bode, Lv 16.21), e a aspersão do</p><p>sangue sete vezes no propiciatório, onde habitava a presença de Deus, o</p><p>sacerdote fazia a expiação dos pecados do povo. Assim, por meio de um</p><p>ato cerimonial no santuário central, a paz e a comunhão com o Deus da</p><p>aliança eram restauradas. Simbolicamente, operava-se a total remoção da</p><p>causa da alienação de Deus, pela entrega da vida de um animal e pelo</p><p>envio de outro animal para o deserto.</p><p>Estes sacrifícios envolviam sempre sangue, pois segundo Levítico 17.11,</p><p>era por meio de sangue que se fazia expiação de pecados. Quando o</p><p>sangue produz expiação, aprendemos que ele assim opera porque</p><p>representa a vida do animal imolado. Uma vida dada por outra vida.</p><p>A Expiação nos Profetas - O capítulo 53 de Isaías, é em termos do Antigo</p><p>Testamento, o capítulo chave acerca da expiação. Este capítulo refere-se</p><p>ao Messias iria tomar sobre si as nossas transgressões, que Ele seria ferido e</p><p>quebrantado pelas nossas transgressões, pois Ele estava assumindo sobre Ele</p><p>o castigo que nos daria a reconciliação com Deus.</p><p>Uma expressão</p><p>difícil de entender surge no versículo 10. “… ao SENHOR</p><p>agradou o moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por</p><p>expiação…”. Este versículo demonstra claramente, a forma como a ira de</p><p>Deus contra o pecado da humanidade tinha que ser satisfeita. Earl</p><p>Radmacher explica da seguinte forma este versículo:</p><p>Ao pai agradou que o Filho morresse, porque esse ato encobrirá os</p><p>pecados de muitos e os reconciliará com Deus (v. 11) a expiação e</p><p>representada na oferta de expiação, o sacrifício de um cordeiro para</p><p>garantir o perdão divino (Lv 5.6,7,15; 7.1; 14.12; 19.21). Aqui o profeta Isaías</p><p>descreve o Servo do Senhor como uma oferta de expiação.</p><p>Este texto demonstra como seria a obra do Messias prometido, e da sua</p><p>entrega expiatória pelos pecados, tendo-se cumprido na sua integridade</p><p>com o sacrifício de Cristo na cruz.</p><p>Continua....</p>

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