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<p>FilosoFia</p><p>2ª</p><p>Fa</p><p>se</p><p>- U</p><p>FU</p><p>/ M</p><p>eD</p><p>“Desde que comecei a integrar as ações do movimento negro e a</p><p>estudar a fundo as relações raciais, passei a prestar atenção ao número</p><p>de pessoas negras nos ambientes em que frequento, e que papel</p><p>desempenham. Nos ambientes acadêmicos e próprios ao exercício</p><p>da advocacia, percebi que, na grande maioria das vezes, eu era uma</p><p>das poucas pessoas negras, senão a única na condição de advogado</p><p>e de professor.</p><p>Entretanto, essa percepção se altera completamente quando,</p><p>nesses mesmos ambientes, olho para os trabalhadores da segurança</p><p>e da limpeza: a maior parte dos negros e negras como eu, todos</p><p>uniformizados, provavelmente mal remunerados, quase imperceptíveis</p><p>aos que não foram “despertados” para as questões raciais como eu fui.</p><p>Essa segregação não oficial entre negros e brancos, que vigora</p><p>em muitos espaços sociais, é sustentada por argumentos e explicações</p><p>falaciosas. Eis algumas delas:</p><p>1 - Pessoas negras são menos aptas para a vida acadêmica e para</p><p>a advocacia.</p><p>2 - Pessoas negras, como todas as outras pessoas, são afetadas</p><p>por suas escolhas individuais, e sua condição racial nada tem a</p><p>ver com a situação socioeconômica.</p><p>3 - Pessoas negras, por fatores históricos, têm menos acesso</p><p>à educação e, por isso, estão alocadas em trabalhos menos</p><p>qualificados, os quais, consequentemente, são mal remunerados.”</p><p>ALMEIDA, Sílvio Luiz de. O que é racismo estrutural? Coleção Feminismos Plurais.</p><p>Belo Horizonte: Letramento, 2018, p. 47-48. (Adaptado)</p><p>A) Explique as razões que fazem com que as afirmações 1 e 2 sejam</p><p>racistas.</p><p>B) Com base na afirmação 3, explique o porquê das pessoas negras</p><p>terem menos acesso à escolarização e por que essa desigualdade</p><p>também está ligada à questão racial.</p><p>Resolução</p><p>A) A afirmação 1 é racista por defender a inferioridade intelectual de um</p><p>sujeito, segundo a cor de sua pele. Aqui o negro é visto como “bár-</p><p>baro”, “inferior”. Associar, portanto, aptidão acadêmica e a aptidão</p><p>para advogar a cor da pele, configura o que podemos chamar de</p><p>racismo aberto que ocorre quando há afirmações racistas dirigidas</p><p>diretamente aos sujeitos de pele negra. Já a afirmação 2 é racista</p><p>porque joga a culpa do racismo na própria mão dos negros, ao dis-</p><p>sociar o racismo das condições históricas, sociais e econômicas,</p><p>naturalizando, desse modo, a desigualdade racial e econômica, o</p><p>que é chamado de racismo estrutural. Ademais, vale lembrar que</p><p>a afirmação 2, ainda é racista, porque esquece deliberadamente</p><p>que o sistema capitalista foi fundado em termos racistas, a partir da</p><p>invasão das Américas e consequentemente, com a escravização</p><p>do povo preto.</p><p>B) Podemos afirmar, segundo a afirmação 3, que as pessoas negras</p><p>têm menos acesso à escolarização porque historicamente elas foram</p><p>mantidas em cativeiro físico e mental pelos povos autodeclarados</p><p>brancos; segundo a ótica do branco (que se diz sujeito racional</p><p>e criador de cultura) o negro (exótico, não civilizado na visão do</p><p>branco) somente é aceito no mundo do branco em alguns nichos</p><p>culturais (música, esporte, etc.) e, sobretudo, como mão de obra a</p><p>ser explorada. Essa postura dos brancos reverbera durante toda a</p><p>construção do sistema capitalista de produção, o que faz com que</p><p>os negros sejam relegados à função de meros trabalhadores mal</p><p>pagos e mal qualificados. Os negros, desse modo, são a “carne</p><p>mais barata” e menos instruída do mercado, porque o próprio mer-</p><p>cado capitalista foi fundado em termos racistas. Assim, a criação</p><p>da expressão “branco” e “não-branco”, por uma visão eurocêntri-</p><p>ca, caracterizou o “negro” como não humano, impossibilitando a</p><p>existência de uma identidade para esse povo. De tal sorte, tem-se</p><p>que as questões políticas e históricas também são um processo de</p><p>construção da subjetividade.</p>