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Relações raciais no Brasil: alguns conceitos para auxiliar na compreensão (e superação) do racismo nosso de cada dia Tanara Forte Furtado1 Existem diferentes raças humanas? Existe racismo no Brasil? Por que é que preto é cor e negro é raça? As cotas raciais são discriminatórias? E racismo reverso, existe ou não existe? Perguntas deste tipo costumam surgir quando conversamos sobre as relações raciais no contexto brasileiro. É possível até mesmo que sejamos pegos(as) de surpresa por alguém que afirme que a escravidão negra africana não foi empreitada europeia, visto que os africanos já se escravizavam entre si. E é possível que não saibamos como rebater essa e outras afirmações. No intuito de auxiliar a condução desses diálogos é que escrevo este texto: não tenho a pretensão de esgotar os conceitos, tanto no que diz respeito ao acervo, quanto em relação às definições apresentadas. O objetivo é apresentar um conjunto de termos 1 Doutora em Educação. Supervisora Pedagógica do Centro de Formação Continuada de Professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (FORPROF/UFRGS). Coordenadora Adjunta do Curso de Aperfeiçoamento UNIAFRO: Política de Promoção da Igualdade Racial na Escola - (UNIAFRO/UFRGS) e do Programa de Extensão Diálogos sobre a ERER e a Educação Básica – UFRGS. Idealizadora, em conjunto com a Profa. Dra. Gládis Elise Pereira da Silva Kaercher (DEE/PPGEDU/UFRGS), do primeiro material gráfico-plástico de produção nacional voltado à educação da relações étnico-raciais em sala de aula (https://issuu.com/sextantefabico/docs/sextante_51__2018-1_/s/10685127). E-mail: tanara.forte.furtado@gmail.com. As considerações presentes neste texto são baseadas em estudo publicado sob a forma de tese de doutoramento de minha autoria, intitulada Educação das Relações Étnico-Raciais e desestabilização de subjetividades em formação continuada de professoras no Curso UNIAFRO/UFRGS (2013-2014) e defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul no ano de 2022. https://issuu.com/sextantefabico/docs/sextante_51__2018-1_/s/10685127 que acredito serem relevantes para a construção de repertório teórico-conceitual para tratar da questão racial brasileira. Espero contribuir com a identificação, reconhecimento e compreensão dos fenômenos e dos processos que se articulam em nossas relações raciais cotidianas. Raciologia, eugenia e raça Quando nos dispomos a discutir as relações raciais é muito comum que pessoas brancas - e até mesmo negras – afirmem que não é possível falarmos sobre a existência de raça entre as pessoas em razão da Biologia já ter comprovado que, no que diz respeito aos humanos, raças não existem. Essa afirmação evoca, de fato, práticas e teorias que foram vigentes por um período de tempo considerável: desde os séculos XV e XVI, se optarmos por demarcar o conceito de raça cunhado no momento do colonialismo europeu; ou desde o século XIX, se optarmos por demarcar a teoria evolutiva darwiniana, o modelo mendeliano de herança, a teoria celular de Schleiden-Schwann-Virchow e a eugenia, até o momento que sucedeu o fim da Segunda Guerra Mundial e o Holocausto Judeu. Tratam-se de práticas e teorias vigentes nesse período em que ciências como a Antropologia, a Sociologia, a Geografia, a Psicologia, a Medicina, a Biologia e o Direito, dentre outras, ancoraram suas análises nos estudos da raciologia (ou ciência das raças), que tinha como principais pressupostos: 1 - Crença na realidade das raças (humanas); 2 - Crença na correspondência entre elementos físicos e morais; 3 - Crença na predominância das características do grupo “raciocultural” no comportamento do sujeito: ou seja, não adiantava tentar educar os sujeitos. De forma que a solução encontrada foi a eugenia, que se constituía na intervenção na reprodução das raças (SCHWARCZ, 2017, P. 101) Precisamos, portanto e em primeiro lugar, demarcar e reconhecer que este se tratou de um abandono epistemológico tardio2: foi somente após o fim da II Guerra 2 A esse respeito, de um abandono demasiado tardio do racismo científico, sugiro a leitura da obra Discurso sobre o Colonialismo, de Aimé Césaire: nela o autor coloca em pé de igualdade o racismo, o colonialismo e o nazismo e denuncia o fato de se tratarem de diferentes caras de uma mesma realidade opressora, fundamentada no conceito de raça e, portanto, negadora do Ser Humano. Para Césaire, o 2 Mundial e do Holocausto Judeu que as ciências em geral passaram a refutar3 o racismo científico, descartando4 a existência de diferentes raças entre os humanos. Mas então fica a pergunta: se, de fato e ao menos formalmente5, as ciências cessaram os estudos e análises racialistas, por que continuamos6 a usar o conceito de raça? Ocorre que quando nós usamos o termo raça para tratarmos das relações entre as pessoas (relações raciais), estamos acionando o conceito desde uma perspectiva sociológica e não biológica. Ou seja, estamos assumindo a existência de raças no campo social: admitimos que elas devem ser teorizadas enquanto [...] construtos sociais, formas de identidade, baseadas numa idéia biológica errônea, mas socialmente eficaz para construir, manter e reproduzir diferenças, privilégios. Se as raças não existem num sentido estrito e realista de ciência, ou seja, se não são um fato do mundo físico, elas existem, contudo, de modo pleno, no mundo social, produtos de formas de classificar e identificar que orientam as ações humanas”. (GUIMARÃES, 2009, p.67) Trata-se, portanto, da apropriação política e teórica – reivindicada pelos movimentos negros e acolhidas por teóricos progressistas - de um conceito que anteriormente foi usado para subjugar, e do seu reposicionamento (e até mesmo inversão) – para a demarcação de uma análise política e social das consequências desses processos de dominação. Nós estamos usando um conceito que tem validade no mundo social para discutir as desigualdades, discriminações e hierarquias que foram produzidas 6 Importante registrar que as considerações a esse respeito refletem o nosso posicionamento teórico, ético e político, que coexiste com outros distintos e até mesmo divergentes, todos antirracistas, inclusive. A esse respeito sugiro a leitura da obra Racismo e Antirracismo no Brasil, de Antônio Sérgio Alfredo Guimarães. 5 Será que os serviços de mapeamento genético como aqueles oferecidos por empresas como ONERA® e MEUDNA® não colocam em suspeição tal abandono? Visto que, “as pesquisas na área de genética são responsáveis por capitanear empreendimentos genealógicos verdadeiramente arqueológicos, por meio dos quais, garantidas as condições financeiras dos interessados, é possível averiguar a herança genômica de até oito gerações passadas. Ora, qual a lógica empreendida em tal esforço? Será que não estamos tentando – ainda que de forma mascarada – atestar coeficientes de nobreza e distinção, remetendo assim à noção de superioridade operada pelo conceito de raça biológica no final do século XIX?” (FURTADO, 2022) 4 Manifesto da comunidade científica de biólogos, publicado em 2006 e assinado por 600 cientistas. Disponível em: https://www.martinwinckler.com/Y-a-t-il-des-races-dans-l-espece-humaine. Acessado em: 13/09/2022. 3 Publicação da UNESCO, datada de 1950, que denuncia as atrocidades cometidas em nome da ciência das raças humanas. Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000128291. Acessado em: 13/09/2022. escândalo de Hitler se deu pelo fato de, pela primeira vez na história, os racistas terem aplicado o seu racismo a um povo branco. 3 https://www.martinwinckler.com/Y-a-t-il-des-races-dans-l-espece-humaine https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000128291 pelos mecanismos de subjugação. Afinal, como combater as consequências dos processos que foram instaurados por discriminação de raça - (a escravidão negra africana), sem remeter à ideia de raça? Penso ser impossível. Então, nos debates progressistas sobre a questão racial no Brasil, é precisoRacismo e antirracismo no Brasil. São Paulo: Editora 34, 2009 _________________________________. Preconceito e discriminação. São Paulo: Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo, 2004. HOFBAUER, Andreas. Branqueamento e democracia racial: sobre as entranhas do racismo no Brasil. 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Oracy. Preconceito racial de marca e preconceito racial de origem: sugestão de um quadro de referência para a interpretação do material sobre relações raciais no Brasil. In: Tanto preto quanto branco: estudos de relações raciais. São Paulo: T.A. Queiroz, 1985. _________________. Preconceito de marca. As relações raciais em Itapetininga. São Paulo: Edusp, 1998. OLIVEIRA, Eduardo de Oliveira e. O mulato, um obstáculo epistemológico. In: Argumento, ano 1, n.3: 65-74, Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra, 1974. PERLMAN, Janice. Favela: quatro décadas de transformações no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2020. RAMOS, Alberto Guerreiro. Introdução crítica à sociologia brasileira. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1995. SILVA, Juremir Machado da. Raízes do conservadorismo brasileiro: a abolição na imprensa e no imaginário social. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018. SILVA, Petronilha Beatriz Gonçalves. Aprendizagem e Ensino das Africanidades Brasileiras. 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Abolição jurídica da escravatura, desigualdades raciais, política de branqueamento, (mito da) democracia racial, Programa UNESCO sobre as relações raciais no Brasil Retornando à discussão sobre a raciologia e a eugenia é importante atentarmos para o fato de que, à época em que os estudos cientificamente racistas promulgavam a necessidade de melhoria das raças através da intervenção na reprodução, com o objetivo final de perpetuar a raça mais pura e superior de todas (a raça ariana), a miscigenação7 já era fenômeno biológico constituidor da população brasileira. Portanto, neste contexto, admitir que a miscigenação era a degeneração de um povo implicava em condenar nossa nação. Certamente que isso não poderia ser admitido pelos estadistas da época, que estavam justamente às voltas com a construção da nossa identidade nacional. Nós estamos falando sobre o período que antecedeu a abolição da escravatura, época em que o Brasil já sofria forte pressão internacional para dar fim à escravidão negra africana. O que aconteceu então? Ora, nossos intelectuais governistas fizeram uma apropriação seletiva da teoria da eugenia: primeiro, argumentaram que embora existisse transmissão de características específicas de cada raça, esse processo era dinâmico, ou seja, era possível evoluí-las; segundo, ao invés de admitirem a miscigenação como um problema inverteram a lógica e transformaram-na em solução: argumentaram que a miscigenação em nosso país era positiva, pois nos cruzamentos entre as raças branca, negra e indígena, sobressaíam sempre os traços brancos, que era, afinal, a raça mais forte; em seguida e como resultado destas duas interpretações, sustentaram a ideia de promover o branqueamento 7 À respeito da complexidade envolvida no processo de construção da identidade nacional e das consequências e obstáculos que seu principal fundamento (a ideologia do branqueamento) e sua principal estratégia (mestiçagem, enquanto dispositivo de reprodução eugênica) impuseram e ainda impõem à articulação em torno de uma identidade negra nacional, sugiro a leitura da obra Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra, de Kabengele Munanga. 4 da população por meio da miscigenação até que ela evoluísse ao ponto de se tornar branca e, portanto, superior. Pouco tempo depois, já no contexto do pós-abolição, os intelectuais governistas acreditavam que levaria cerca de um século para que a nossa população se tornasse branca. E isso não é especulação: essa previsão consta em estudo apresentado pelo médico e antropólogo brasileiro João Batista de Lacerda, enviado para representar nosso país, na condição de Delegado Oficial do Brasil, no Congresso Universal das Raças, realizado em Londres no ano 19118. Segundo Lacerda - que ocupou os cargos de Ministro da Agricultura, Diretor do Museu Nacional, Presidente da Associação Brasileira de Medicina e teve, inclusive, sua viagem à Londres financiada pelo governo de Hermes da Fonseca - seria necessário menos de um século para que a população brasileira se tornasse branca. Isso ocorreria por três razões: a) seletividade sexual dos mulatos, que prefeririam se relacionar com parceiros que aumentassem a chance de terem descendentes mais pertos do tipo branco ideal; b) crescente entrada de imigrantes europeus brancos e c) os problemas sociais e o abandono que a população negra foi obrigada a enfrentar no pós abolição. É importante analisarmos em maior profundidade o terceiro motivo apresentado por Lacerda e identificarmos ao menos uma das razões pelas quais, no contexto do final do séc. XIX e início do século XX, o Estado brasileiro não endereçou nenhuma ação de política pública para o acolhimento da população negra no pós-abolição (nem mesmo aos sujeitos anteriormente libertos ou nunca escravizados): a intenção era deixar-nos livres, para que morrêssemos todos(as)9. Abolição jurídica da escravatura é como nomeamos esse processo fabricado pelo Estado brasileiro, por meio do qual a todo esse contingente populacional - sejam aos sujeitos já alforriados, sejam aqueles que se tornaram livres a partir de então - não foi endereçada nenhuma ação de Estado no intuito de garantir empregabilidade, moradia, 9 Eles combinaram de nos matar. Mas como a gente combinamos de não morrer (EVARISTO, 2016), você está a ler essas linhas. 8 A comunicação original, na íntegra, está disponível em: https://bdor.sibi.ufrj.br/bitstream/doc/16/1/0023%20ocr.pdf. Acessado em 14/09/2022. 5 https://bdor.sibi.ufrj.br/bitstream/doc/16/1/0023%20ocr.pdf https://bdor.sibi.ufrj.br/bitstream/doc/16/1/0023%20ocr.pdf saúde e educação: nenhuma indenização, nenhum reparo, nenhuma assistência para recomeçar a vida10. Seja antes ou a partir do dia 13 de maio de 1888, em um dia você era escravo(a) e, no outro, estava livre: sem casa para morar11 e sem emprego (nesta época o Estado brasileiro incentivava a mão-de-obra branca importada da Europa, como veremos a seguir). A compreensão dos contextos acima apresentados nos auxilia a reconhecer o Estado brasileiro enquanto agente que ativamente incentivou, financiou e produziu sistemas que impuseram - e ainda hoje impõem - expressivo conjunto de prejuízos simbólicos e materiais à população negra brasileira, e que foram e ainda são fatores de interdição e privação de direitos fundamentais. A essas diferenças estruturais entre sujeitos negros e brancos chamamos desigualdades raciais (GUIMARÃES, 2004). A conjunção destes contextos e decisões culminou, aqui no Brasil, nas políticas públicas que incentivaram a vinda de imigrantes europeus de pele branca. Isso fica muito evidente quando analisamos os dados referentes a essa importação em massa: ao 11 Pensando no contexto do Rio de Janeiro, por exemplo, de forma grosseira podemos considerar que o surgimento das favelas cariocas remete ao período colonial, quando cerca de 30% da população carioca foi expulsa de suas casas, que passaram a ser moradia dos acompanhantes da família real (MAGALHÃES, 2010). Podemos, também, considerar os agrupamentos de quilombos que se estabeleceram como locais de abrigo e resistência, sobretudo a partir da metade final do século XIX. E podemos, ainda, considerar a demolição dos cortiços determinada pelo então prefeito Pereira Passos já no período pós-abolição, ocasião que resultou no despejo dos moradores que, para evitarem a rua, juntaram os restos de madeira sobrados da demolição e construíram os primeiros barracos. Para saber mais sobre o tema sugiro a leitura das obras Breve história das favelas, de Luis Kehl (2011); A invenção da favela, de Licia do Prado Valladares (2007) e Favela: quatro décadas de transformações no Rio de Janeiro, de Janice Perlman (2020), dentre outros. 10 Em caso de acusação de anacronismo (comumente apresentada sob a frase de que eles eram homens do seu tempo), no que diz respeito à argumentação de que as práticas escravagistas não devem ser julgadas a partir das convenções morais e sociais contemporâneas e sim compreendidas a partir dos contextos em que foram praticadas, - algo como se precisássemos olhar para a humanidade do passado com as lentes de sua época (FURTADO, 2022) - sugiro a leitura de SILVA(2018): Um dos erros de interpretação do passado é o de supor que as pessoas de certa época não poderiam perceber o que se só se tornaria um valor dominante muito depois. Trata-se de uma espécie de concepção evolucionista por meio da qual o presente sempre está à frente do passado. Uma leitura menos idealizada ou menos inocente pode ser esta: nos conflitos de qualquer época, os atores sociais travam batalhas armados de estratégias que não dispensam o cinismo, o pragmatismo, o interesse material acima de qualquer princípio moral para si mesmos ou para parte da sociedade em que atuam. Ver a escravidão como uma monstruosidade incompreensível significa absolver em massa aqueles que a praticaram, defenderam, valorizarame prorrogaram (SILVA, 2018. p. 267). A obra em questão apresenta e analisa, criticamente, relevante corpus documental coletado junto aos documentos oficiais do Parlamento Brasileiro datados entre a segunda metade do século XIX e início do século XX, no intuito de denunciar e demarcar o fato de que a escravidão negra africana e de seus descendentes em solo brasileiro não foi um equívoco, mas sim uma escolha em que se disputavam um imaginário, uma visão de mundo e um modo de produção (SILVA, 2018. p. 267). 6 longo de 30 anos, portanto em período de tempo dez vezes menor, foram trazidos cerca de 3,9 milhões de imigrantes europeus. Levou-se trezentos anos para trazer ao Brasil número similar de africanos(as). Ao conjunto de estratégias pautadas pelo pensamento eugenista nacional e adotadas pelo Estado brasileiro com o objetivo de assegurar o melhoramento e, portanto, embranquecimento da população, chamamos de política de branqueamento12. Associaram-se às estratégias da política de branqueamento um conjunto de discursos oficiais - difundidos no final do século XIX e início do século XX13 - elaborados a partir da ideia de que no Brasil, justamente em razão do alto índice de miscigenação, não havia racismo. A essa estratégia discursiva, chamamos democracia racial: uma construção ideológica fundamentada na ausência de segregação oficial e confrontos raciais que atravessou a história nacional e ainda hoje povoa grande parte do imaginário social brasileiro, sendo competentemente acionada para dificultar ou mesmo inviabilizar a discussão das desigualdades raciais nos campos político e econômico. Frequentemente você poderá se deparar com a expressão mito da democracia racial, conceituação que tem relação com os resultados do Programa UNESCO sobre as relações raciais no Brasil de que tratarei na sequência deste texto. Apesar da concretude das ações racistas do Estado brasileiro, a força do discurso político oficial de negação da existência do racismo foi tamanha que chamou a atenção 13 À respeito da disputa em torno das teorias e métodos de pesquisa relacionados aos estudos africanos e às relações raciais brasileiras, marcada mais pela concorrência em torno de posições de prestígio do que por questões referentes à filiações teóricas propriamente ditas, recomendo a leitura da dissertação de mestrado de Sarah Calvi Amaral Silva (2010). Neste estudo, Sarah destaca a relevância do I Congresso Afro-Brasileiro de Recife (1934) e do II Congresso Afro-Brasileiro de Salvador (1937) enquanto eventos pioneiros em realizar genuínas tentativas de superação das escolas do evolucionismo e do racismo científico. A ampliação do horizonte analítico apresentada nestes eventos foi fortemente influenciada pelos estudos do antropólogo Franz Boas e girava em torno dos estudos alinhados à negritude, por um lado e, por outro, à mestiçagem. Em que pese as críticas posteriormente endereçadas ao relativismo cultural, marcadas pela denúncia da substituição da raça pela cultura no que diz respeito aos processos discriminatórios, é preciso reconhecer que tais ideias representaram – à época - significativo avanço, sobretudo no tocante às contundentes críticas endereçadas aos projetos de poder elaborados com base no racismo científico e na eugenia (FURTADO, 2022). 12 No censo de 1920 consta, inclusive, um registro que explicita a intenção de utilizar os brancos importados para embranquecer a nossa população. O trecho diz o seguinte: "[constata-se] uma tendência que está se tornando mais visível e definida: [...) [a] progressiva arianização de nossos grupos regionais.” Já em 1945, no final do Estado Novo de Getúlio Vargas, um Decreto-Lei publicado a fim de estimular a imigração europeia sustentou-se do seguinte modo: “[...] a necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características básicas mais desejáveis de sua ascendência” (HOFBAUER, 2011). 7 de outras nações e chegou mesmo a convencê-las da nossa democracia racial14. Foi por essa razão que nos anos de 1951 e 1952 o Brasil foi contemplado com recursos da UNESCO destinados ao financiamento de um projeto de pesquisa por meio do qual nós mostraríamos ao mundo e ensinaríamos aos demais países como viver em plena harmonia racial. Pois, ainda que política de branqueamento não tivesse atingido sua meta principal - embranquecer a totalidade da população - o Estado brasileiro foi ágil em remodelar o discurso e afirmar que porque éramos miscigenados é que vivíamos em harmonia racial. Ocorreu, entretanto, que o tiro saiu pela culatra: os estudos da pesquisa denunciaram15 a existência de um tipo de racismo muito nosso, muito específico: um racismo à brasileira. Um racismo que só se manifesta na intimidade, não em público. Um racismo que acontece na esfera privada. Um racismo silencioso, difícil de ser registrado e, portanto, comprovado. A esse respeito, considerando que a pesquisa foi realizada nos anos de 1951 e 1952, gostaria de tecer uma breve consideração sobre aquilo que entendo se tratar de uma recente – ainda que pequena - mudança no comportamento coletivo de nossa sociedade. Em grande parte em razão do viés ideológico do presidente eleito no pleito de 2019 (e de seus apoiadores e aliados na gestão do país) e da influência e identificação de parcela da população branca brasileira com seus discursos, tenho tido a impressão de que o racismo até então praticado majoritariamente na esfera íntima (casa, bares. etc), tem se tornado cada vez mais público (lojas, restaurantes, centros de compra, shows, parques, etc). Se, por um lado, é triste, lamentável e revoltante nos depararmos com esse suposto aumento de atos racistas, algo como se estivéssemos retrocedendo no 15 O termo mito, associado ao conceito de democracia racial conforme destacado anteriormente tem, portanto, o objetivo de tornar explícito que a democracia racial brasileira é fictícia/inventada/fantástica/irreal. Ou seja, mitológica. Talvez em razão da denúncia apontada, talvez por outra razão que desconhecemos, o fato é que O Programa UNESCO sobre as relações raciais no Brasil não teve grande repercussão junto aos países europeus, a ponto de que seu relatório final não foi publicado. 14 Talvez se consideramos que, àquela época, olhava-se para o racismo a partir das práticas da segregação racial norte-americana e do aphartheid sul-africano, fique mais fácil compreendermos porque o Brasil foi tomado como modelo mundial de convivência racial harmônica. 8 comportamento social, por outro acredito que esses episódios oportunizam ao menos quatro importantes reflexões. (1) A população branca brasileira foi e continua sendo, como nós negros(as) já temos dito há séculos, majoritariamente racista: ocorre que agora grupo expressivo de pessoas brancas sentem-se autorizadas a externar o seu racismo . Não se trata, a meu ver, de um aumento do racismo no Brasil, mas sim de sua publicização. (2) Essa publicização pode e deve ser acionada a partir de uma perspectiva de denúncia que seja capaz de explicitar, àqueles(as) que ainda têm dúvidas, que somos um país racista e que, portanto, precisamos não só manter, como ampliar as legislações e políticas destinadas ao enfrentamento e extinção do racismo. (3) Não precisamos mais recorrer apenas a relatos de situações ocorridas no interior de espaços privados nos quais, frequentemente, as informações se resumem à palavra da vítima (negra) contraposta à palavra do agressor (branco): os atos racistas estão aí expostos a quem a reflexão e o combate interessar possam. (4) Os atos racistas ocorridos de forma pública, cujos autores(as) sofrem muito pouca ou nenhuma consequência jurídica, tornam explícita a ineficiência das legislações específicas existentes no que diz respeito à capacidade em reconhecer e punir efetivamente os insultos, as ofensas, as interdições e as condutas violentas e abusivas às quais nós negros(as) somos expostos(as) cotidianamente. De forma que podemos - e devemos – evitar que estes episódioscaiam no esquecimento, pois se tratam de evidências que atestam a urgente necessidade de atualização dos dispositivos legais existentes16. Racismo individual (pré-conceito, preconceito e discriminação racial) estratificação social, racismo institucional, representatividade, racismo estrutural e racismo reverso (não, não existe!) 16 No Brasil, a legislação específica sobre o tema se dá através da Lei n.º1.716, de 5 de janeiro de 1989. Ainda que se configure em conquista importante da população negra brasileira, sobretudo ao considerarmos o intervalo de 101 anos entre esta a abolição da escravatura, a forma como foi redigida é por demais limitada e precisa ser atualizada. Grosso modo, a lei tipifica o crime de racismo apenas para situações que envolvem segregação e exclusão. Os demais atos, que constituem a maioria esmagadora das situações a que nós negros(as) somos expostos(as) cotidianamente (ver nota de rodapé n.º 18, p. 11) e que são os verdadeiros responsáveis por nosso adoecimento psicológico e físico, são tipificados como injúria racial não sendo, portanto, regulamentados pela Lei n.º 1.716 e sim pelo parágrafo 3.º do artigo 140 do Código Penal, no capítulo dos crimes contra a honra. Ora, tal discrepância consiste em que, ao fim e ao cabo, os crimes de racismo que são realmente praticados pela população branca brasileira não são passíveis de punição pela lei que versa especificamente sobre o tema e tampouco são enquadrados como tal: tornam-se crimes contra a honra e não crimes de racismo. A esse respeito sugiro a leitura da obra Preconceito e Discriminação, de Antônio Sérgio Alfredo Guimarães (2004). 9 Até aqui você já leu a palavra racismo vinte e cinco vezes, sem que ela tenha sido conceituada. Não se trata de esquecimento: foi uma estratégia adotada justamente para que você pudesse associar o termo às suas pré-noções. De modo que, daqui em diante, fica o convite para pensá-la em relação com as considerações que serão apresentadas. Quando falamos de racismo é comum pensarmos na relação entre pessoas negras e pessoas brancas e é sobre esse tipo específico de racismo - o racismo antinegro - que trata este texto. Contudo é importante termos em mente que existem outras tipologias de racismo, como o anti-asiático e o anti-indígena, por exemplo17. Igualmente é importante reconhecer que o racismo se relaciona a outros mecanismos de exclusão como o preconceito de classe social, a homofobia, a xenofobia, etc. Mas, vamos ao racismo antinegro. Para fins deste texto parto da conceituação do Prof. Antônio Sérgio Alfredo Guimarães (2009), para quem o racismo é evocado desde seus contornos estruturais e estruturantes, tratando-se de: [...]uma concepção de raças biológicas, uma atitude moral em tratar de modo diferente membros de diferentes raças e uma posição estrutural de desigualdade social entre as raças. (GUIMARÃES, 2009, p.65-66) Reconhecer tais dimensões não implica na negação da ação dos indivíduos, mas sim na compreensão de que este processo de fabricação de desigualdades a partir do racismo independe da intenção dos sujeitos: [...] o racismo é uma forma sistemática de discriminação que tem a raça como fundamento, e que se manifesta por meio de práticas conscientes ou inconscientes que culminam em desvantagens ou 17 Existem autores que consideram o escopo das práticas racistas de forma mais ampliada do que aquela apresentada neste texto e consideram também o racismo cultural, o racismo comunitarista (ou diferencialista), o racismo ecológico (ambiental), o racismo aversivo, o racismo simbólico (os dois últimos compondo o racismo recreativo). Minha redução à análises das manifestações sob as formas do racismo individual (preconceito e discriminação racial), institucional e estrutural é muito mais uma opção em razão dos objetivos e extensão deste texto, do que efetivamente contraposição a essas outras concepções. Acredito que as variadas manifestações racistas podem ser compreendidas, em maior ou menor medida, a partir destas três perspectivas que estou abordando e seus contornos específicos serão devidamente analisados no restante dos módulos dos cursos Desconstruindo o Racismo na Prática: UNIAFRO/UFRGS. 10 privilégios para indivíduos, a depender do grupo social ao qual pertençam. (ALMEIDA, 2020, p. 32) Racismo, a meu ver, no caso brasileiro, é um fenômeno social que se apresenta, a um só tempo, irredutível ao indivíduo (GUIMARÃES, 2009) e a partir do qual indivíduos e instituições conferem tratamento desigual a pessoas portadoras de traços fenotípicos associados à ancestralidade africana e que, justamente por estar presente na origem da formação da sociedade brasileira – por meio do processo de escravização de negros(as) africanos(as) e seus(as) descendentes – impregna estruturalmente nossos arranjos políticos, econômicos e culturais. Em que pese ser sabedora de que alguns intelectuais dedicados à discussão das relações raciais, justamente por destacarem a dimensão estrutural do racismo, acreditam ser improdutiva a diferenciação entre preconceito e discriminação racial, opto por alinhar-me aos estudos da psicologia social que – ao considerarem o indivíduo em sua relação com a cultura e não como ser isolado ou autossuficiente – nos mostram as variadas possibilidades de agência diante deste fenômeno e trazem à cena as sutilezas e nuances presentes em nossas ações (racismo individual - preconceito e discriminação racial), por meio das quais somos implicados na manutenção da estrutura social racista. Não se trata de reduzir a abordagem do racismo a um fenômeno ético ou psicológico, uma patologia a ser combatida no comportamento dos indivíduos. Embora ele seja de fato anormal e criminoso (ALMEIDA, 2020). Trata-se de acreditar no poder da educação como ato de transformação e de buscar forças para empreender a luta antirracista no cotidiano através da ampliação das possibilidades de análise do fenômeno, tomando como marcadores válidos manifestações que evidenciam tanto as dimensões micro quanto macrossociais. No campo de análise da dimensão microssocial é que situam-se os conceitos de pré-conceito, preconceito e discriminação. Um primeiro apontamento a ser feito é a necessidade de diferenciação entre pré-conceito e preconceito. O pré-conceito constitui-se em uma operação mental primordial no estabelecimento de relações entre o indivíduo e o mundo/outros indivíduos e é responsável pela demarcação do ponto de partida desta interação. Entretanto e idealmente, neste processo interativo, o sujeito conhecedor deve estar aberto ao entendimento do objeto/sujeito de conhecimento. Trata-se de via de mão 11 dupla: parte-se daquilo que é concebido de antemão e – a partir da troca – modifica-se aquilo que se pensava, como também pode-se modificar o próprio objeto/sujeito de conhecimento. Quando, por outro lado, o sujeito conhecedor não se abre para o objeto/sujeito de conhecimento, impedindo assim que suas ideias pré-concebidas sejam modificadas ou ainda quando esse movimento de abertura ocorre de forma exagerada, sem que haja reflexões próprias sobre aquilo/aquele que se pretende conhecer, estamos diante do fenômeno do preconceito. Quando o preconceito em questão se dá a partir de valoração baseada em noções estereotipadas da ideia de raça, temos o preconceito racial. Em ambos os casos – pré-conceito e preconceito – poderíamos dizer que estamos nos referindo a fenômenos circunscritos ao campo das ideias e que, portanto, suas manifestações não têm impacto concreto nas situações de vida dos sujeitos. Podemos arriscar uma brincadeira semântica: não existe o verbo preconceituar, mas sim o verbo discriminar. Ora, como não preconceituamos, não somos capazes de atingir os indivíduos com nossas ideias. Contudo, tal suposição mostra-se uma cilada teórica ao considerarmos a relação existente entre o discurso e a prática social. Sob esta ótica, que diferencia as ideias das ações, o trânsito do fenômeno seria realizado pelo ato de discriminação,configurado enquanto uma atitude de tratamento diferenciado a determinados grupos. Quando os atributos elencados para o agrupamento dos indivíduos alvo da discriminação dizem respeito a noções estereotipadas da ideia de raça, temos a discriminação racial. As ações de discriminação racial, possibilitadas pelo exercício de poder, podem ser tanto diretas, quanto indiretas. No primeiro caso nos deparamos com situações de “repúdio ostensivo a indivíduos ou grupos, motivados pela condição racial” e, no segundo caso, trata-se de “um processo em que a situação específica de grupos minoritários é ignorada [...], ou sobre a qual são impostas regras de neutralidade racial” (ALMEIDA, 2020)18. 18 Ao considerarmos a perspectiva individual do racismo é interessante refletirmos também sobre o conceito de microagressões. Sugiro, a esse respeito, a leitura da obra Racismo recreativo, de Adilson Moreira (2019), em que o autor apresenta análise competente e assertiva sobre as estratégias e subterfúgios usados para dar vazão, consciente ou inconscientemente, ao racismo. Alerta, ainda, que não se tratam exclusivamente de comportamentos explicitamente racistas, pelo contrário: são potentes e violentos porque são sutis. Três seriam os tipos de microagressoões: o microassalto, o microinsulto e a microinvalidação. 12 Em ambos os casos, temos como consequência o fenômeno intergeracional da estratificação social “[...] em que o percurso de vida de todos os membros de um grupo social – o que inclui as chances de ascensão social, de reconhecimento e de sustento material – é afetado”. (ALMEIDA, 2020, p. 33) Aproveito para tomar a estratificação social justamente como exemplo de um fenômeno que, partindo de ações de indivíduos, extrapola subjetividades e torna-se capaz de imprimir marcas e prejuízos concretos nas expectativas de condições de vida de determinado grupo de sujeitos ao longo do tempo, no caso em questão, dos negros. Tal exemplo evidencia a complexa relação existente entre ações individuais e estruturas sistêmicas. Se, por um lado, a sociedade não é o resultado da simples soma da ação de seus indivíduos, ela tampouco se faz à revelia destas ações. Isto posto e voltando o olhar para as possibilidades de análise da dimensão macrossocial do fenômeno do racismo, situo a seguir os conceitos de racismo institucional e racismo estrutural. A concepção de racismo institucional avança em relação à anterior na medida que reconhece os conflitos raciais como parte das instituições e observa a supremacia branca no poder da maior parte das sociedades e agremiações. Ocorre que, ao longo do tempo, os postos de poder das instituições são hegemonicamente ocupados por indivíduos pertencentes a determinados grupos raciais e, por esse motivo, não é de se estranhar que são seus os interesses e as pautas defendidas. Uma vez no poder, estes grupos passam a dispor de condições concretas e simbólicas que atuam como ferramentas para a manutenção de privilégios e vedação de acesso a indivíduos pertencem a outros grupos raciais, culminando no silenciamento de ideias e projetos divergentes e configurando desta forma uma espécie de supremacia racial institucional19. Trata-se de uma complexa rede de poder e influência que, por calar 19 As cotas raciais para investidura de cargo público (concurso público), nos processos eleitorais dos poderes legislativo e executivo e também em empresas privadas, , ao promoverem a representatividade - aqui compreendida enquanto “a participação das minorias em espaços de poder e privilégio social” (ALMEIDA, 2020, p. 109) e ainda que tal participação não possa ser interpretada como implicação direta de reconfiguração de poder - são capazes de proporcionar a abertura de espaços políticos onde reivindicações podem ser repercutidas e narrativas discriminatórias pautadas na subalternidade podem ser desconstruídas. Trata-se de oportunizar a fala e a escuta de outras vozes, que não aquelas histórica e politicamente comprometidas com os anseios e projetos dos grupos que tradicionalmente ocupam os postos de poder na sociedade brasileira e que, portanto, possuem interesses em reproduzir e manter os arranjos de poder já estabelecidos. 13 outras vozes, acaba sendo tomada como natural e, mais das vezes, única. Essa naturalidade é difundida e acolhida pelos indivíduos a partir dos referenciais e padrões que são impostos e propagados pelas instituições: nosso horizonte civilizatório de política, beleza, status, consumo, gostos pessoais, etc., passa a ser ditado por esses discursos valorativos e a possibilidade de compreensão desta trama é tão mais viável quanto mais criticamente conseguimos refletir. E, a esse respeito, não sejamos ingênuos. É imperativo considerar a complexidade dos processos – intermediados pelas condições econômicas e sociais e pelas diferenças subjetivas e materiais delas decorrentes – que operam na fabricação dos modos como nos relacionamos com as realidades e as ficções e a partir dos quais construímos nossos sistemas hierárquicos e classificatórios: O gosto classifica aquele que procede a classificação: os sujeitos sociais distinguem-se pelas distinções que eles operam entre o belo e o feio, o distinto e o vulgar; por seu intermédio, exprime-se ou traduz-se a posição desses sujeitos nas classificações objetivas. (BOURDIEU, 2007, p. 13) Não se trata de considerar que haja uma estrutura soberana capaz de capturar a autonomia das pessoas, tampouco de crer na possibilidade de uma pessoa totalmente autônoma. Trata-se de refletir sobre o que é produzido, o que é construído, o que é subjetivado e o que é possível numa perspectiva de consideração do potencial de agência das pessoas. Sob esta ótica, portanto, o rompimento da noção de neutralidade institucional é, o primeiro, senão o mais importante, passo dessa caminhada. O conceito de racismo estrutural amplia ainda mais o horizonte analítico já alargado pelo conceito anterior: além de evidenciar que os mecanismos de produção e manutenção do racismo independem da intenção individual – ainda que a comportem em certa medida – ao se configurarem enquanto estratégias de controle de aparatos institucionais, denuncia que o modo de funcionamento das instituições está alinhado à ordem social vigente e é por ela não somente desejado, como assegurado: As instituições são apenas a materialização de uma estrutura social ou de um modo de socialização que tem o racismo como um de seus componentes orgânicos. Dito de modo mais direto: as instituições são racistas porque a sociedade é racista. (ALMEIDA, 2020, p. 47) 14 Novamente nos deparamos com a intersecção entre comportamentos individuais e estruturas sistêmicas: somos porque a sociedade é. A constatação deste fato, a nosso ver, mais do que nos entristecer e desanimar diante da luta antirracista, deve atuar como motor de propulsão na busca por soluções que encontrem estratégias de mobilização e conscientização individuais e coletivas (se não acreditássemos nisso, sequer estaríamos a escrever este texto) e também – e sobretudo – ações organizadas comprometidas com a instauração de rupturas profundas nas estruturas políticas, sociais e econômicas. Termos como estruturas sociais, políticas e econômicas, controle de aparatos institucionais, instituições, supremacia racial institucional nos levam a pensar em uma disposição hierárquica. Ou seja: um sistema estruturado conforme os graus de importância, em que os elementos (pessoas), são organizados (posicionadas) de acordo com seus níveis de poder (neste texto, que analisa o racismo, de acordo com a sua raça). As palavras chaves, portanto, para compreender o porquê da impossibilidade de existir o racismo reverso são estruturas de poder. No Brasil, estruturalmente falando (considerando a contextualização histórica, política, econômica e social apresentada anteriormente) a posição de uma pessoa negra é sempre inferior à posição de uma pessoa branca, mesmo quando a primeira exerce, por exemplo, um cargode chefia sobre a segunda. De forma que, quando uma pessoa negra discrimina racialmente uma pessoa branca (sim, isso acontece!), ainda assim, estruturalmente, a concretude das condições de existência (expectativa de vida, expectativa de empregabilidade, média salarial, expectativa de ser abordada de forma abusiva pelos poderes policiais, etc) daquela pessoa branca e do seu coletivo (de pessoas igualmente brancas) seguem intactas. Ou seja, a discriminação racial de uma pessoa negra (ou de um coletivo de pessoas negras) em relação a uma pessoa branca (ou a um coletivo de pessoas brancas) não tem o poder de abalar as estruturas racistas que alicerçam nossa sociedade (não, isso não acontece!). Políticas de redistribuição e reconhecimento, igualdade, diferença, desigualdade, equidade Espero que neste segmento do texto você tenha compreendido que para falar sobre o racismo na sociedade brasileira é preciso reconhecer a agência do Estado brasileiro na produção das desigualdades raciais e a dimensão estrutural deste fenômeno 15 na constituição da nossa sociedade, bem como as suas consequências, que são sentidas por nós, negros, cotidianamente em diferentes esferas das nossas vidas. Ou seja, são prejuízos e desvantagens com os quais temos que lidar tanto no plano material, quanto no plano simbólico. Assim, quando falamos em políticas de redistribuição e reconhecimento estamos falando em corrigir/reparar essas consequências, que estruturaram a nossa sociedade no passado e ainda reverberam no nosso presente sob as formas de injustiça sócio-econômica (exploração e marginalização do trabalho e exploração) e injustiça cultural ou simbólica(que tem a ver com os padrões sociais de representação, dominação cultural, invisibilidade de representação e desrespeito), cristalizando desigualdades raciais por meio de processos como, por exemplo, a estratificação social. E essas injustiças a gente consegue enxergar com muita facilidade. Vamos fazer um exercício bem rápido e pensar: qual a cor da maioria das pessoas que fazem o serviço braçal de limpeza das ruas e coleta de lixo, que trabalham nas portarias dos prédios dos bairros de classe alta e das mulheres que trabalham como auxiliares de limpeza, diaristas ou empregadas domésticas? Agora, vamos pensar na mídia audiovisual: quantas atrizes e atores negros são protagonistas de novelas do horário nobre? Quantos jornalistas são âncoras em programas de veiculação nacional relevante? Foi somente em 2019 a Rede Globo de Televisão® passou a ter uma jornalista âncora negra fixa no jornal de maior audiência da emissora. Essa realidade com a qual nos deparamos hoje não é fruto da preguiça ou da falta de capacidade da população negra do nosso país. Ela está intimamente conectada ao longo período de escravidão adotado pelo Estado brasileiro, à forma como ele conduziu o processo de abolição da escravatura e aos atos de privação, desasistência, interdição, discriminação e expectativa de extermínio20 que se seguiram no pós-abolição, reverberando na atualidade. Se nós considerarmos, por exemplo, o processo de escolarização formal da população negra brasileira e adotarmos períodos de 30 anos como demarcadores 20 Ver a nota de rodapé n.º 8. (p.5) 16 geracionais, basta consultarmos os marcos legais21 para verificarmos que estamos falando de mais de 10 gerações sem acesso massivo e sistematizado às escolas públicas22. Podemos considerar, ainda, a interdição do acesso a terras: data de 18 de setembro de 1850 a Lei n.º 601 aquela que ficou conhecida como Lei de Terras e que registra o período em que, mesmo possuindo dinheiro para a compra, era proibido aos negros comprarem terras em nosso país. Esses são apenas dois exemplos de ações oficiais do Estado brasileiro que impuseram uma série de impedimentos para a emancipação dos negros africanos e seus descendentes em nosso país. Portanto, quando nós ouvimos declarações como: “Sou contra as cotas raciais, acho um absurdo, porque acredito que todos são capazes de buscar suas oportunidades por meios próprios, tendo muita dedicação, estudo e perseverança”; Ou: “Eu acredito que essas cotas são discriminação, preconceito. Não é por causa da cor da pele que a pessoa tem menos inteligência do que uma pessoa de pele branca”; Ou ainda: “No momento em que existem as cotas raciais já está de alguma forma discriminando o negro, pois não é a cor que vai decidir a capacidade intelectual e sim o esforço e dedicação de cada um.” 22 Certamente que nem todas as pessoas negras ficaram analfabetas. Sobretudo porque se organizaram e buscaram estratégias não formais de escolarização, seja através das “Irmandades Negras” ou “Clubes Negros”, entre outros. Isso sem esquecer dos quilombos, enquanto territórios de resistência e, no limite, de sobrevivência. 21 Para saber sobre a contextualização histórica e as legislações que regulamentaram o acesso , a interdição e a permanência da população negra brasileira nas instituições formais de educação sugiro a leitura de FURTADO (2022), mais especificamente do capítulo 3 - Sobre o campo: contextualização histórica e implicações dos marcos legais das políticas públicas educacionais e nas condições de interdição, acesso e permanência da população negra brasileira nas institucionais educacionais formais. 17 É importante que nós sejamos capazes de identificar que estes discursos estão sustentados pela teoria da meritocracia, que seria o princípio que regula uma sociedade a partir, somente, das aptidões de cada um. Ou seja, uma sociedade em que o sucesso de cada um depende apenas de seu próprio esforço, dedicação, capacidade, inteligência, etc. Ora, um sistema meritocrático só pode ser sustentado em uma sociedade na qual todos os indivíduos, sem exceção, possuem exatamente as mesmas oportunidades. Logo, se considerarmos os contextos já apresentados, bem como o estendimento das suas consequências na contemporaneidade, fica evidente que a população negra brasileira não dispôs - e ainda hoje não dispõe - das mesmas oportunidades que a população branca brasileira23. É nesse contexto que as políticas de redistribuição têm por objetivo sanar a injustiça sócio-econômica através da reestruturação político-econômica, sendo materializadas através, por exemplo, de programas de distribuição de renda e reorganização do trabalho. Já as políticas de reconhecimento estão relacionadas a mudanças culturais e simbólicas como, por exemplo, representações positivadas de identidades frequentemente desrespeitadas (FRASER, 2001). Importante registrar que essa separação se dá apenas para fins didáticos de facilitar a compreensão pois, na prática, ambas contém em si pressupostos que são compartilhados. De forma que, promover políticas de redistribuição e reconhecimento, não se trata de culpar as pessoas brancas de hoje pelas mazelas do passado, tirando delas vagas em concursos públicos ou vestibulares, ou o que quer que seja. Nem de desconsiderar a dimensão da desigualdade de classes, até mesmo porque porque dentro do escopo das 23 Por óbvio que reconhecemos que os imigrantes europeus brancos também passaram por dificuldades quando chegaram ao Brasil. Entretanto, é importante ter em mente a diferença radical que caracteriza essas duas realidades (dos africanos e seus descendentes e dos imigrantes europeus brancos e seus descendentes): Uma história totalmente diferente da história dos emigrados europeus, árabes, judeus e orientais que, voluntariamente decidiram de sair de seus respectivos países, de acordo com a conjuntura econômica e histórica interna e internacional que influenciaram suas decisões para emigrar. Evidentemente, eles também sofreram rupturas que teriam provocado alguns traumas, o que explicaria os processos de construção das identidades particulares como a “italianidade brasileira” , a identidade gaúcha, etc. Mas em nenhum momento a cor de sua pele clara foi objeto de representações negativas de construção de uma identidade negativa que, embora inicialmenteatribuída, acabou sendo introjeitada , interiorizada e naturalizada pelas próprias vítimas da discriminação racial. (MUNANGA, 2003) 18 políticas públicas educacionais existem as cotas sociais, que são destinadas a estudantes egressos(as) de escola pública, independente de raça. Trata-se de compreendermos e reconhecermos os processos e mecanismos de manutenção e de perpetuação do racismo. Sobretudo porque falar sobre isso não é falar apenas sobre o passado e tampouco apenas sobre negros(as). Falar sobre racismo é falar sobre relações. No caso do racismo antinegro é falar sobre relações entre pessoas negras e brancas. A esse respeito não temos dúvidas de que um dos maiores desafios para a superação do racismo seja a tomada de consciência das pessoas brancas em relação aos seus privilégios e vantagens - simbólicos e materiais - que lhes são concedidos tão somente pelo fato de carregarem em seus corpos a brancura, dispositivos que nomeamos como privilégio branco. A dificuldade em se perceber como privilegiado está intimamente atrelada à lógica da branquitude24, aqui entendida enquanto produto da dominação das colônias europeias, diretamente relacionado à supremacia branca global, impossível de ser compreendido à revelia de análise das relações de poder que a forjaram e, portanto, do contexto da expansão colonial europeia. O reconhecimento de que a branquitude se trata de uma problemática histórica, social e processualmente localizada – e não uma identidade fixa e imutável – é ponto fundamental para compreendermos a “combinação de fatores históricos e de mecanismos ligados ao presente” (COROSSACZ, 2017, p. 199). Penso que a potencialidade do conceito reside exatamente na possibilidade de denúncia da continuidade e reprodução das desigualdades raciais e no rompimento do silêncio (pacto 24 Se nós somos capazes de reconhecer os efeitos psicológicos do legado da política de branqueamento sobre o processo de construção da identidade negra, nós precisamos reconhecer estes efeitos também no processo de construção da identidade branca. As discussões mais aprofundadas a esse respeito serão apresentadas nos módulos Branquitude: contribuições para a compreensão do conceito na vida cotidiana e Racismo, sofrimento psíquico e branquitude, partes integrantes do M.O.O.C. Desconstruindo o racismo na prática: UNIAFRO/UFRGS – Curso 3, disponível nesta mesma plataforma. 19 narcísico da branquitude25) sobre a agência das pessoas brancas na produção, manutenção e perpetuação do racismo na contemporaneidade. As políticas de redistribuição e reconhecimento, portanto, têm a difícil missão de transformar nossa realidade imediata e agregada através do sanamento das injustiças econômicas e simbólicas imputadas, no caso da análise deste texto, à população negra brasileira. Para compreendermos esse processo em sua complexidade é importante conhecermos os conceitos de equidade, igualdade, diferença e discriminação positiva. Imagino que você já tenha visto na internet um comparativo entre duas imagens em que três crianças estão assistindo a um jogo de futebol em um estádio. Nas duas imagens nós vemos três crianças, as mesmas três crianças. Essas três crianças têm uma diferença entre si: elas possuem alturas diferentes. E isso, isoladamente, não é nem pior, nem melhor. É apenas diferente. Provavelmente elas tenham idades diferentes. Ocorre que, na imagem do lado esquerdo, nós vemos as três crianças em cima de caixotes da mesma altura. Ou seja, elas estão sendo tratadas com igualdade. A mais alta está com todo o campo de visão liberado, a do meio até consegue enxergar alguma coisa da partida de futebol, mas a menor não consegue ver absolutamente nada. Neste exemplo, tratar igualmente as três crianças com alturas diferentes acabou por transformar uma diferença (a altura) em uma desigualdade (campo de visão prejudicado), que se converteu em uma desvantagem da qualidade de visibilidade do jogo. Já na imagem do lado direito, nós vemos as mesmas três crianças, sendo tratadas de forma desigual. A mais alta está diretamente no chão, a do meio está em cima de um caixote e a menor está em cima de dois caixotes. E, desta forma, todas têm a mesma qualidade de visibilidade do jogo. Ou seja, conseguiu-se promover a equidade. 25 O conceito de pacto narcísico da branquitude foi cunhado pela psicóloga Maria Aparecida da Silva Bento a partir da pesquisa realizada para fins da sua tese de doutoramento (2002) e diz respeito à cumplicidade estabelecida entre as pessoas brancas que, ao não falarem sobre seus privilégios, garantem a manutenção e reprodução das estruturas raciais injustas que lhes garantem vantagens. Recentemente a autora publicou obra específica sobre o conceito: O pacto da branquitude (2022), cuja leitura sugiro àqueles(as) que se interessarem em conhecer um pouco mais sobre as consequências e implicações desta cumplicidade na manutenção da hierarquia das relações raciais. 20 Em resumo: para promover a equidade nós precisamos tratar pessoas diferentes de forma desigual, com o objetivo de evitar desigualdades e promover que todas tenham a mesma oportunidade. Esse dispositivo através do qual os indivíduos são tratados desigualmente com vistas a corrigir desvantagens chamamos de discriminação positiva: [definida como] a possibilidade de atribuição de tratamento diferenciado a grupos historicamente discriminados com o objetivo de corrigir desvantagens causadas pela discriminação negativa – a que causa prejuízos e desvantagens. (ALMEIDA, 2020, p.34) Ou seja, diante da impossibilidade do desaparecimento das diferenças - que foram transformadas em desigualdades – surge a oportunidade de transformá-las em objetos de compensação. É fato que há um impasse nesse processo de promoção de equidade e deriva daí, talvez, grande parte do desconforto em relação às políticas de ações afirmativas para a população negra brasileira, por exemplo. O impasse está em que os grupos marginalizados querem, a um só tempo, afirmar e obter reconhecimento de suas diferenças e garantir tratamento igualitário. A discriminação positiva é a premissa da lógica operada nas políticas de ações afirmativas (uma dentre as muitas ações de que se valem as políticas de redistribuição e reconhecimento) que tem nas cotas raciais e sociais duas de suas estratégias mais conhecidas. Cotas raciais são aquelas destinadas exclusivamente a indivíduos pertencentes a grupos que, em razão de sua classificação racial, cultural, econômica, política e reiteradamente excluídos e marginalizados26 como, por exemplo – no contexto das políticas educacionais brasileiras - negros(as), indígenas e quilombolas. Já as cotas sociais são aquelas destinadas a sujeitos oriundos de grupos familiares com baixa renda, egressos de escolas públicas e pessoas com deficiência. Ambas se configuram enquanto estratégias adotadas nas políticas de ações afirmativas. Entretanto, as primeiras, quando direcionadas para a população negra, tem a intencionalidade de garantir, para além da redistribuição econômica, a reparação e o reconhecimento político-identitário dos(as) negros(as) com vistas a promover a 26 São os grupos que referimos como minorias: trata-se de conceituação de perspectiva sociológica e não aritmética, sob a qual reunimos conjunto de pessoas que são significativamente excluídas e marginalizadas em razão de sua classificação racial, cultural, econômica e/ou política. 21 reeducação das relações entre sujeitos brancos e negros, processo conhecido como educação das relações étnico-raciais. Importante pontuar, ainda, que as políticas de ações afirmativas não rompem com a meritocracia, pelo contrário, elas estão alinhadas a esta lógica a medida em que buscam corrigir desvantagens imputadas ao sujeito que não sejam advindas única e exclusivamente de sua capacidade ou pela falta dela. Ou seja, pretende-se corrigir e não eliminar os mecanismos de seleção por mérito. Etiqueta racial, identidade racial/pertença racial e heteroidentificaçãoracial Um dos argumentos mais utilizados na tentativa de invalidar as políticas de ações afirmativas para a população negra brasileira gira em torno da ideia de que, no Brasil, não é possível afirmar quem é negro e quem é branco27. O famoso pezinho na senzala. Pois bem, que a miscigenação28 é um fenômeno biológico atestado em nossa sociedade desde a época colonial, não há dúvidas. Ocorre, contudo, que se considerarmos os contextos histórico e político de construção da nossa identidade nacional - em que esse simples fenômeno biológico recebeu a missão política de homogeneizar e salvar a população (através do branqueamento racial) - e dermos uma olhada em volta, percebemos que o resultado desejado não deu muito certo, não é mesmo? Conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, 56,10%29 da população brasileira se declara negra. Sobre esse dado, a primeira consideração tem que ver com a compreensão do enquadramento racial realizado pelo instituto. Para o IBGE os grupos raciais brasileiros são quatro: negros, brancos, amarelos e indígenas. Já as cores, são cinco: preta, parda, branca, amarela e indígena. O grupo racial negro é composto pela soma dos indivíduos pretos e pardos. 29 Disponível em: https://lupa.uol.com.br/jornalismo/2019/11/20/consciencia-negra-numeros-brasil/. Acessado em 28 de setembro de 2022. 28 Ver nota de rodapé n.º 7. (p.4) 27 Os primeiros estudos sobre a identidade racial branca brasileira datam da década de 1940 (Virgínia Leone Bicudo (2010 [1945], 1955) ; Oracy Nogueira (1985 [1954], 1998 [1955]) , Alberto Guerreiro Ramos (1957), Eduardo de Oliveira e Oliveira (1974) e Abdias do Nascimento (1978)) e serão tratados de forma mais aprofundada no módulo Branquitude: contribuições para a compreensão do conceito na vida cotidiana, parte integrante do M.O.O.C. Desconstruindo o racismo na prática: UNIAFRO/UFRGS – Curso 3, disponível nesta mesma plataforma. 22 https://lupa.uol.com.br/jornalismo/2019/11/20/consciencia-negra-numeros-brasil/ A segunda consideração tem que ver com a autoidentificação racial (identidade racial) e a heteroidentificação racial e, para pensarmos sobre isso, precisamos refletir sobre aquele que é um dos principais, senão o principal, marcador fenotípico: a cor da pele. A cor da nossa pele é tanto algo que nós percebemos de nós mesmos, como algo que é percebido pelos outros. E este é um fator importante, mas não isoladamente determinante, no processo de construção de uma identidade racial politizada, da nossa pertença racial. Ou seja, como nós nos vemos tem a ver com a nossa identidade e, a forma como os outros nos veem, tem a ver com a nossa heteroidentificação racial. De forma que a cor da nossa pele (nem o nosso cabelo, nariz ou boca) não é capaz de, isoladamente, anunciar a nossa pertença racial. É por isso, por exemplo, que algumas vezes olhamos para uma pessoa de cor parda e a classificamos como negra e, conversando com ela, constatamos que ela não se autodeclara desta forma e sim como branca. E o inverso também pode acontecer: podemos nos deparar com uma pessoa de pele clara e classificá-la como branca e, ao conversarmos com ela, constatamos que ela se autodeclara como negra (que, na categorização do IBGE, em razão do tom mais claro da pele, seria a cor parda). Em situações como essas, em que nos vemos diante da necessidade de identificar racialmente alguém, é comum ouvirmos certas expressões que fazem parte daquilo que chamamos de etiqueta racial e que são utilizadas por pessoas receosas de estarem sendo indelicadas (termos como, por exemplo, pessoa morena ou pessoa de cor em substituição ao termo negro(a)): A tradição de ausência de segregação legal, conhecida como “democracia racial”, fez com que se desenvolvesse uma etiqueta racial na qual o tratamento racial desaparece, tornando-se mesmo ofensivo e indelicado classificar racialmente as pessoas. Se um negro pertence ao mesmo meio social do branco, o que pode ser percebido pelos outros diversos marcadores, chamar alguém de negro ou preto é ofensivo, posto que significa classifica-lo de uma maneira explicitamente racial (e não através de marcadores culturais e socioeconômicos). (GUIMARÃES, 2004, p. 38) Expressões deste tipo costumam ser rejeitadas por pessoas negras que possuem uma identidade racial negra política consolidada. Esse fenômeno de evitação da palavra negro(a) ocorre também porque aqui, no Brasil, o significado desta palavra depende diretamente da visão de quem a fala. 23 Negro(a), para os militantes, ativistas e intelectuais negros(as) e também para as pessoas brancas comprometidas com o antirracismo, é um termo utilizado de forma positivada, através do qual se pretende demarcar a dimensão política das relações raciais no nosso país. Já para pessoas racistas, a mesma palavra pode se prestar a ofender, diminuir e ridicularizar. Quando as ações têm desdobramentos jurídicos, contudo para os juízes de direito, em geral, a transgressão dessa etiqueta social é vista não como o que realmente é, ou seja, indício de motivação racial da discriminação perpretada, mas como crime contra a honra (calúnia ou difamação). Esta interpretação é extremamente perversa não só porque desqualifica a motivação racial de um ato que atenta contra liberdades fundamentais do cidadão (prisão, constrangimento ilegal ou lesão corporal), mas também porque enfraquece a possibilidade mesma de tipificação do incidente como crime contra a honra, pois, afinal, pode-se sempre alegar, como se tem feito repetidamente, que a designação racial de uma pessoa pela cor é apenas uma classificação objetiva da cor da pele (e não racial) ou uma forma corrente de tratamento. (GUIMARÃES, 2004, p.38)30 Cuti (2010) nos ajuda a refletir sobre as estratégias que possivelmente pautam o silenciamento da palavra negro(a) e que vão desde a perda do poder de ofensa desse vocábulo quando substituído pelo prefixo afro, até a potencialidade de desacomodação que sua pronúncia provoca junto aos ouvidos de um racista mascarado pela hipocrisia que recorre aos artifícios do eufemismo nas figuras de linguagem. Neste contexto, a substituição de negro por afro possibilita o enfoque da questão racial desde uma perspectiva confortável, sem “[...] necessitar de confronto com a ideologia racista, negando-lhe a existência.” e, ao mesmo tempo, “[...] impedir a transformação do seu significado negativo para positivo, é abortar o processo iniciado pelos próprios negros na busca de sua cidadania.”(CUTI, 2010, p. 6-7). E, como resolver esta questão? Como nomear racialmente alguém? Salvo a especificidade das bancas de aferição de autodeclaração racial dos concursos públicos31, acredito que a melhor estratégia é perguntar como a pessoa se autodeclara. 31 As bancas de aferição ou comissões de heteroidentificação são dispositivos legais que tentam evitar a utilização fraudulenta das cotas raciais. A esse respeito verificar a Ação Direta de Constitucionalidade n.º 41, disponível em: https://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=13375729. Acessado em: 17 de outubro de 2022. 30 Ver nota de rodapé n.º 16. (p.9) 24 https://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=13375729 A complexidade desta situação se deve, em grande parte, ao fato de que a identidade racial ou pertença racial está relacionada à formação da subjetividade de cada um que, por sua vez, tem que ver com todo o conjunto de experiências do indivíduo ao longo da vida, tanto no campo social, como no afetivo, político, cultural, econômico e etc32. E, no Brasil, essa conformação da subjetividade se torna ainda mais peculiar ao considerarmos a política de branqueamento adotada pelo Estado brasileiro que, mesmo não tendo alcançado seu objetivo maior, deixou marcas profundas na população, tanto negra, quanto branca, a medida que deixou de ser ações políticas de Estado e se transformou em dispositivo ideológico33. É provável que você já tenha ouvido expressões do tipo: fulanacasou com o fulano e clareou a família/melhorou a família ou clareou/melhorou a raça. Ou ainda, no caso de pessoas negras de pele mais clara (parda) e/ou com elevados poder aquisitivo e nível de escolarização: fulano é um negro de alma branca. O discurso por meio do qual se pretendeu introjetar na população negra a ideia de que clarear a pele e/ou a família significa melhorar, embora date do final do século XIX, é ainda hoje presente em muitos lares brasileiros. Esse discurso exaustivamente repetido, de que nós negros somos inferiores aos brancos resultaram na introjeção de uma baixíssima auto-estima na população negra e, consequentemente, numa supervalorização demasiadamente exacerbada da identidade racial branca34. É possível também que você conheça uma pessoa (que você considera) negra que diz não gostar de pessoas negras e tampouco se autodeclara como tal. Para entendermos esse processo precisamos tanto considerar as consequências da ideologia do branqueamento, quanto retomar o conceito de identidade racial para percebermos que, na verdade, sobre essa pessoa que você conhece, o que é mais possível de se dizer é sobre a cor da pele. Já o modo como ela experiencia politicamente a sua pertença racial não é possível de ser verificado apenas pelo fenótipo. 34 Ver a nota de rodapé n.º 24. (p.19) 33 Ver a nota de rodapé n.º 7. (p.4) 32 Ver a nota de rodapé n.º 7. (p.4) 25 Africanidades brasileiras e diáspora africana Mas, voltemos ao pezinho na senzala que, supostamente, todo brasileiro tem… Capoeira, samba, carnaval, feijoada e roupa branca na virada do ano são exemplos de artefatos e práticas culturais frequentemente lidas como “brasileiras”. Tratam-se daquilo que a grande mestra Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva (2005) nomeou como africanidades brasileiras: [...] modos de ser, de viver, de organizar suas lutas, próprios dos negros brasileiros, e de outro lado, às marcas da cultura africana que, independentemente da origem étnica de cada brasileiro, fazem parte do seu dia-a-dia. Mais do que a exaltação do exótico ou do divertido, as africanidades brasileiras constituem-se em vasto repertório de conhecimentos sobre os quais a [...] formação de atitude respeitosa de reconhecimento da participação e contribuição dos afro-brasileiros na sociedade brasileira requer que preconceitos e discriminações contra este grupo sejam abolidos, que sentimentos de superioridade e de inferioridade sejam superados, que novas formas de pessoas negras e não negras se relacionarem sejam estabelecidas. Esses modos de sermos, vivermos e organizarmos nossas lutas, essa persistência - junção de existência e resistência - é que preenche de significado o conceito de diáspora africana: a reivindicação do reconhecimento e da valorização da trajetória daqueles(as) que, uma vez arrancados(as) de seu lugar de origem, criativa e arduamente reestruturam-se humana e socialmente a partir das possibilidades tensamente experienciadas em novo território e cultura, ressignificando a si mesmos (as) e aos(as) seus(as) no transcorrer dos séculos. Diaspóricos(as) somos nós, negros(as) reinventando-nos e humanizando-nos a todo e cada dia. E nesse processo (que é coletivo), ao menos nas últimas décadas pudemos contar com políticas públicas específicas - empreendidas pelo Estado brasileiro a partir da trajetória de lutas dos movimentos negros - que deram origem a um conjunto de entidades e ações voltadas à reparação de séculos de preconceito e discriminação fundados na escravização e no colonialismo. Entretanto, em que pese nossa trajetória e existência diaspóricas, é imperativo demarcar significativa lentidão no que diz respeito a mudanças estruturais da situação 26 da população negra brasileira, pois que ainda nos deparamos com permanências históricas herdeiras da mentalidade colonial e escravagista e atualizadas por mecanismos contemporâneos de opressão, basta lembrarmos dos 80 tiros35 e o assassinato de João Alberto Silveira Freitas36. Essas duas tragédias, como tantas outras, infelizmente não são fatos isolados. São reflexo de uma cultura de Estado racista e genocida (ampliada para as práticas cotidianas das empresas de segurança privada). Entretanto, elas ressoaram e seguem ressoando como denúncias da prática de extermínio dos homens negros, sendo responsáveis pela mobilização de diferentes atores sociais na luta contra o racismo. Lamentável que esse adensamento da discussão sobre o racismo ocorra a partir de uma dor irreparável: a da perda de uma pessoa amada, como certamente foi o caso destes dois homens negros brasileiros, Evaldo e João Alberto. Penso que uma das manifestações mais nobres e desafiadoras de um conceito seja a ultrapassagem dos muros acadêmicos e sua operacionalização na vida cotidiana, ou seja, que sejamos capazes de acioná-lo a partir de uma chave de leitura que nos auxilie a refletir e transformar nossa realidade imediata e agregada, pois: No momento em que os indivíduos, atuando e refletindo, são capazes de perceber o condicionamento de sua percepção pela estrutura em que se encontram, sua percepção muda, embora isso não signifique, ainda, a mudança da estrutura. Mas a mudança da percepção da realidade, que antes era vista como algo imutável, significa para os indivíduos vê-la como realmente é: uma realidade histórico-cultural, humana, criada pelos homens e que pode ser transformada por eles. (FREIRE, 2018, p.66) Espero que esse texto seja capaz de contribuir para a ampliação dessa discussão e que os conceitos aqui apresentados, de forma sucinta e sem pretensão de aprofundamento acadêmico, mas desde uma perspectiva teórica, ética e politicamente comprometida, sejam apropriados por quem lhes é de direito. Nós: brasileiros(as) – 36 Episódio ocorrido na cidade de Porto Alegre (município desde onde escrevemos este texto), em novembro de 2020, que culminou no assassinato, por espancamento e asfixia, de João Alberto Silveira Freitas, pelas mãos de seguranças de uma loja da rede Carrefour. 35 Trata-se de trágica ação da Polícia Militar do Rio de Janeiro, ocorrida em 07 de abril de 2019. Na ocasião, em razão de perseguição a um indivíduo suspeito de furtar um veículo, 12 militares dispararam mais de 80 tiros em direção ao carro onde estavam o músico Evaldo Rosa, seu filho, sua esposa e uma amiga. Além de Evaldo, morreu também o catador Luciano Macedo e o sogro deste último, Sérgio Gonçalves de Araújo. 27 negros(as) e brancos(as) que acreditamos que outras formas de nos relacionarmos racialmente, que não aquelas racistas, são possíveis. Referências bibliográficas BENTO, Cida. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. ___________. Branqueamento e branquitude no Brasil. In: CARONE. Iray, BENTO, Maria Aparecida Silva. Psicologia Social do Racismo: estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil. Rio de Janeiro: Vozes, 2014. pp. 59-90. BICUDO, Virgínia Leone. Estudo de atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo. São Paulo: Editora Sociologia e Política, 2010. ____________________. Atitudes de alunos de grupos escolares em relação com a cor de seus colegas. In: BASTIDE, Roger; FERNANDES, Florestan (Org.). Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo. São Paulo: Editora Anhembi/Unesco, 1955. pp.227-310 CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre o Colonialismo. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1978. CUTI, Luiz Silva. Quem tem medo da palavra negro? In: Revista Matriz: uma revista de arte negra. Porto Alegre: Grupo Caixa Preta, novembro de 2010. EVARISTO, Conceição. A gente combinamos de não morrer. In: Olhos d’água. Rio de Janeiro: Pallas: Fundação Biblioteca Nacional, 2016. FURTADO, Tanara Forte. Educação das Relações Étnico-Raciais e desestabilização de subjetividades em formação continuada de professoras no Curso UNIAFRO/UFRGS (2013/2014). (Tese de Doutorado). Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Educação. Programa de Pós-Graduação em Educação. 2022. 281p. GUIMARÃES, Antônio Sérgio Alfredo.