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<p>(Descrição da imagem) O layout da primeira página do texto é composto por triângulos em verde,</p><p>amarelo, laranja e ocre ocupando a parte superior da página como uma moldura. Alguns deles estão com a</p><p>ponta para baixo. Abaixo, o logo do Uniafro onde as letras UNI estão em verde e AFRO, em ocre. Acima</p><p>e abaixo da palavra UNIAFRO, em verde, lê-se: Curso de Aperfeiçoamento e Política de Promoção da</p><p>Igualdade Racial na Escola. À esquerda da palavra UNIAFRO, 8 triângulos encaixam-se em dois grupos</p><p>sobrepostos. Em cada grupo, quatro triângulos alternam suas pontas para cima e para baixo,</p><p>encaixando-se. Nas demais páginas, apenas o logo da Uniafro aparece no rodapé esquerdo. (Fim da</p><p>descrição)</p><p>Relações raciais no Brasil: alguns conceitos para auxiliar na compreensão (e</p><p>superação) do racismo nosso de cada dia</p><p>Tanara Forte Furtado1</p><p>Existem diferentes raças humanas? Existe racismo no Brasil? Por que é que</p><p>preto é cor e negro é raça? As cotas raciais são discriminatórias? E racismo reverso,</p><p>existe ou não existe?</p><p>1 Doutora em Educação. Supervisora Pedagógica do Centro de Formação Continuada de Professores da</p><p>Universidade Federal do Rio Grande do Sul (FORPROF/UFRGS). Coordenadora Adjunta do Curso de</p><p>Aperfeiçoamento UNIAFRO: Política de Promoção da Igualdade Racial na Escola - (UNIAFRO/UFRGS)</p><p>e do Programa de Extensão Diálogos sobre a ERER e a Educação Básica – UFRGS. Idealizadora, em</p><p>conjunto com a Profa. Dra. Gládis Elise Pereira da Silva Kaercher (DEE/PPGEDU/UFRGS), do primeiro</p><p>material gráfico-plástico de produção nacional voltado à educação da relações étnico-raciais em sala de</p><p>aula (https://issuu.com/sextantefabico/docs/sextante_51__2018-1_/s/10685127). E-mail:</p><p>tanara.forte.furtado@gmail.com. As considerações presentes neste texto são baseadas em estudo</p><p>publicado sob a forma de tese de doutoramento de minha autoria, intitulada Educação das Relações</p><p>Étnico-Raciais e desestabilização de subjetividades em formação continuada de professoras no Curso</p><p>UNIAFRO/UFRGS (2013-2014) e defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação da</p><p>Universidade Federal do Rio Grande do Sul no ano de 2022.</p><p>https://issuu.com/sextantefabico/docs/sextante_51__2018-1_/s/10685127</p><p>Perguntas deste tipo costumam surgir quando conversamos sobre as relações</p><p>raciais no contexto brasileiro. É possível até mesmo que sejamos pegos(as) de surpresa</p><p>por alguém que afirme que a escravidão negra africana não foi empreitada europeia,</p><p>visto que os africanos já se escravizavam entre si. E é possível que não saibamos como</p><p>rebater essa e outras afirmações.</p><p>No intuito de auxiliar a condução desses diálogos é que escrevo este texto: não</p><p>tenho a pretensão de esgotar os conceitos, tanto no que diz respeito ao acervo, quanto</p><p>em relação às definições apresentadas. O objetivo é apresentar um conjunto de termos</p><p>que acredito serem relevantes para a construção de repertório teórico-conceitual para</p><p>tratar da questão racial brasileira. Espero contribuir com a identificação,</p><p>reconhecimento e compreensão dos fenômenos e dos processos que se articulam em</p><p>nossas relações raciais cotidianas.</p><p>Raciologia, eugenia e raça</p><p>Quando nos dispomos a discutir as relações raciais é muito comum que pessoas</p><p>brancas - e até mesmo negras – afirmem que não é possível falarmos sobre a existência</p><p>de raça entre as pessoas em razão da Biologia já ter comprovado que, no que diz</p><p>respeito aos humanos, raças não existem.</p><p>Essa afirmação evoca, de fato, práticas e teorias que foram vigentes por um</p><p>período de tempo considerável: desde os séculos XV e XVI, se optarmos por demarcar</p><p>o conceito de raça cunhado no momento do colonialismo europeu; ou desde o século</p><p>XIX, se optarmos por demarcar a teoria evolutiva darwiniana, o modelo mendeliano de</p><p>herança, a teoria celular de Schleiden-Schwann-Virchow e a eugenia, até o momento</p><p>que sucedeu o fim da Segunda Guerra Mundial e o Holocausto Judeu.</p><p>Tratam-se de práticas e teorias vigentes nesse período em que ciências como a</p><p>Antropologia, a Sociologia, a Geografia, a Psicologia, a Medicina, a Biologia e o</p><p>Direito, dentre outras, ancoraram suas análises nos estudos da raciologia (ou ciência das</p><p>raças), que tinha como principais pressupostos:</p><p>1 - Crença na realidade das raças (humanas);</p><p>2 - Crença na correspondência entre elementos físicos e morais;</p><p>3 - Crença na predominância das características do grupo “raciocultural” no</p><p>2</p><p>comportamento do sujeito: ou seja, não adiantava tentar educar os sujeitos. De forma</p><p>que a solução encontrada foi a eugenia, que se constituía na intervenção na reprodução</p><p>das raças (SCHWARCZ, 2017, P. 101)</p><p>Precisamos, portanto e em primeiro lugar, demarcar e reconhecer que este se</p><p>tratou de um abandono epistemológico tardio2: foi somente após o fim da II Guerra</p><p>Mundial e do Holocausto Judeu que as ciências em geral passaram a refutar3 o racismo</p><p>científico, descartando4 a existência de diferentes raças entre os humanos.</p><p>Mas então fica a pergunta: se, de fato e ao menos formalmente5, as ciências</p><p>cessaram os estudos e análises racialistas, por que continuamos6 a usar o conceito de</p><p>raça?</p><p>Ocorre que quando nós usamos o termo raça para tratarmos das relações entre as</p><p>pessoas (relações raciais), estamos acionando o conceito desde uma perspectiva</p><p>sociológica e não biológica. Ou seja, estamos assumindo a existência de raças no campo</p><p>social: admitimos que elas devem ser teorizadas enquanto</p><p>[...] construtos sociais, formas de identidade, baseadas numa idéia</p><p>biológica errônea, mas socialmente eficaz para construir, manter e</p><p>reproduzir diferenças, privilégios. Se as raças não existem num</p><p>sentido estrito e realista de ciência, ou seja, se não são um fato do</p><p>6 Importante registrar que as considerações a esse respeito refletem o nosso posicionamento teórico, ético</p><p>e político, que coexiste com outros distintos e até mesmo divergentes, todos antirracistas, inclusive. A</p><p>esse respeito sugiro a leitura da obra Racismo e Antirracismo no Brasil, de Antônio Sérgio Alfredo</p><p>Guimarães.</p><p>5 Será que os serviços de mapeamento genético como aqueles oferecidos por empresas como ONERA® e</p><p>MEUDNA® não colocam em suspeição tal abandono? Visto que, “as pesquisas na área de genética são</p><p>responsáveis por capitanear empreendimentos genealógicos verdadeiramente arqueológicos, por meio dos</p><p>quais, garantidas as condições financeiras dos interessados, é possível averiguar a herança genômica de</p><p>até oito gerações passadas. Ora, qual a lógica empreendida em tal esforço? Será que não estamos tentando</p><p>– ainda que de forma mascarada – atestar coeficientes de nobreza e distinção, remetendo assim à noção de</p><p>superioridade operada pelo conceito de raça biológica no final do século XIX?” (FURTADO, 2022)</p><p>4 Manifesto da comunidade científica de biólogos, publicado em 2006 e assinado por 600 cientistas.</p><p>Disponível em: https://www.martinwinckler.com/Y-a-t-il-des-races-dans-l-espece-humaine. Acessado em:</p><p>13/09/2022.</p><p>3 Publicação da UNESCO, datada de 1950, que denuncia as atrocidades cometidas em nome da ciência</p><p>das raças humanas. Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000128291. Acessado em:</p><p>13/09/2022.</p><p>2 A esse respeito, de um abandono demasiado tardio do racismo científico, sugiro a leitura da obra</p><p>Discurso sobre o Colonialismo, de Aimé Césaire: nela o autor coloca em pé de igualdade o racismo, o</p><p>colonialismo e o nazismo e denuncia o fato de se tratarem de diferentes caras de uma mesma realidade</p><p>opressora, fundamentada no conceito de raça e, portanto, negadora do Ser Humano. Para Césaire, o</p><p>escândalo de Hitler se deu pelo fato de, pela primeira vez na história, os racistas terem aplicado o seu</p><p>racismo a um povo branco.</p><p>3</p><p>https://www.martinwinckler.com/Y-a-t-il-des-races-dans-l-espece-humaine</p><p>https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000128291</p><p>mundo físico, elas existem, contudo, de modo pleno, no mundo social,</p><p>produtos de formas de classificar e identificar que orientam as ações</p><p>humanas”. (GUIMARÃES, 2009, p.67)</p><p>Trata-se, portanto, da apropriação política e teórica – reivindicada pelos</p><p>movimentos negros</p><p>Aimé. Discurso sobre o Colonialismo. Lisboa: Livraria Sá da Costa</p><p>Editora, 1978.</p><p>CUTI, Luiz Silva. Quem tem medo da palavra negro? In: Revista Matriz: uma revista</p><p>de arte negra. Porto Alegre: Grupo Caixa Preta, novembro de 2010.</p><p>EVARISTO, Conceição. A gente combinamos de não morrer. In: Olhos d’água. Rio de</p><p>Janeiro: Pallas: Fundação Biblioteca Nacional, 2016.</p><p>FURTADO, Tanara Forte. Educação das Relações Étnico-Raciais e desestabilização de</p><p>subjetividades em formação continuada de professoras no Curso UNIAFRO/UFRGS</p><p>(2013/2014). (Tese de Doutorado). Universidade Federal do Rio Grande do Sul.</p><p>Faculdade de Educação. Programa de Pós-Graduação em Educação. 2022. 281p.</p><p>GUIMARÃES, Antônio Sérgio Alfredo. Racismo e antirracismo no Brasil. São</p><p>Paulo: Editora 34, 2009</p><p>_________________________________. Preconceito e discriminação. São Paulo:</p><p>Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo, 2004.</p><p>HOFBAUER, Andreas. Branqueamento e democracia racial: sobre as entranhas do</p><p>racismo no Brasil. Disponível em:</p><p>28</p><p>https://andreashofbauer.files.wordpress.com/2011/08/branqueamento-e-democracia-racial_finalc3adssima_2011.pdf</p><p>https://andreashofbauer.files.wordpress.com/2011/08/branqueamento-e-democracia-raci</p><p>al_finalc3adssima_2011.pdf. Acessado em: 22/09/2022.</p><p>KEHL, Luis. Breve história das favelas. São Paulo: Editora Claridade, 2010.</p><p>LACERDA, João Batista de. Congresso Universal das Raças (1911): Apreciação e</p><p>comentários. Museu Nacional. Brasil, Rio de Janeiro, 1912. Disponível em:</p><p>https://bdor.sibi.ufrj.br/bitstream/doc/16/1/0023%20ocr.pdf. Acessado em 14/09/2022.</p><p>________________________. Sur les métis au Brésil. Premier Congrés Universel des</p><p>races. França, 1911. Disponível em:</p><p>https://bdor.sibi.ufrj.br/bitstream/doc/35/1/Surlesmetis%20cdr.pdf. Acessado em</p><p>30/09/2022.</p><p>MAGALHÃES, José Carlos Ramos. Histórico das favelas do Rio de Janeiro. In:</p><p>Desafios do desenvolvimento. 2010. Ano 7. Edição 63 – 19/10/2010. Disponível em:</p><p>https://www.ipea.gov.br/desafios/index.php?option=com_content&view=article&id=111</p><p>1:catid=28&Itemid=23#:~:text=Com%20as%20demoli%C3%A7%C3%B5es%20dos%</p><p>20corti%C3%A7os,acomodar%20o%20fluxo%20de%20imigrantes. Acessado em</p><p>29/09/2022.</p><p>Manifesto da comunidade científica de biólogos, publicado em 2006 e assinado por 600</p><p>cientistas. Disponível em:</p><p>https://www.martinwinckler.com/Y-a-t-il-des-races-dans-l-espece-humaine. Acessado</p><p>em: 13/09/2022.</p><p>MOREIRA, Adilson. Racismo recreativo. São Paulo: Sueli Carneiro: Pólen, 2019.</p><p>CUTI, Luiz Silva. Quem tem medo da palavra negro? In: Revista Matriz: uma revista</p><p>de arte negra. Porto Alegre: Grupo Caixa Preta, novembro de 2010.</p><p>MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional</p><p>versus identidade negra. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019.</p><p>_____________________. Diversidade, etnicidade, identidade e cidadania. Ação</p><p>Educativa, ANPED. Palestra proferida no 1º Seminário de Formação Teórico</p><p>Metodológico do Concurso negro e Educação – SP. 2003. Disponível em:</p><p>https://periodicos.uff.br/revistamovimento/article/view/32511. Acesso em 19/08/2020.</p><p>NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo</p><p>mascarado. São Paulo: Perspectivas, 2016.</p><p>29</p><p>https://andreashofbauer.files.wordpress.com/2011/08/branqueamento-e-democracia-racial_finalc3adssima_2011.pdf</p><p>https://andreashofbauer.files.wordpress.com/2011/08/branqueamento-e-democracia-racial_finalc3adssima_2011.pdf</p><p>https://bdor.sibi.ufrj.br/bitstream/doc/35/1/Surlesmetis%20cdr.pdf</p><p>https://bdor.sibi.ufrj.br/bitstream/doc/35/1/Surlesmetis%20cdr.pdf</p><p>https://www.ipea.gov.br/desafios/index.php?option=com_content&view=article&id=1111:catid=28&Itemid=23#:~:text=Com%20as%20demoli%C3%A7%C3%B5es%20dos%20corti%C3%A7os,acomodar%20o%20fluxo%20de%20imigrantes</p><p>https://www.ipea.gov.br/desafios/index.php?option=com_content&view=article&id=1111:catid=28&Itemid=23#:~:text=Com%20as%20demoli%C3%A7%C3%B5es%20dos%20corti%C3%A7os,acomodar%20o%20fluxo%20de%20imigrantes</p><p>https://www.ipea.gov.br/desafios/index.php?option=com_content&view=article&id=1111:catid=28&Itemid=23#:~:text=Com%20as%20demoli%C3%A7%C3%B5es%20dos%20corti%C3%A7os,acomodar%20o%20fluxo%20de%20imigrantes</p><p>https://www.ipea.gov.br/desafios/index.php?option=com_content&view=article&id=1111:catid=28&Itemid=23#:~:text=Com%20as%20demoli%C3%A7%C3%B5es%20dos%20corti%C3%A7os,acomodar%20o%20fluxo%20de%20imigrantes</p><p>https://www.martinwinckler.com/Y-a-t-il-des-races-dans-l-espece-humaine</p><p>NOGUEIRA. Oracy. Preconceito racial de marca e preconceito racial de origem:</p><p>sugestão de um quadro de referência para a interpretação do material sobre relações</p><p>raciais no Brasil. In: Tanto preto quanto branco: estudos de relações raciais. São</p><p>Paulo: T.A. Queiroz, 1985.</p><p>_________________. Preconceito de marca. As relações raciais em Itapetininga.</p><p>São Paulo: Edusp, 1998.</p><p>OLIVEIRA, Eduardo de Oliveira e. O mulato, um obstáculo epistemológico. In:</p><p>Argumento, ano 1, n.3: 65-74, Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra, 1974.</p><p>PERLMAN, Janice. Favela: quatro décadas de transformações no Rio de Janeiro.</p><p>Rio de Janeiro: FGV Editora, 2020.</p><p>RAMOS, Alberto Guerreiro. Introdução crítica à sociologia brasileira. Rio de</p><p>Janeiro: Editora UFRJ, 1995.</p><p>SILVA, Juremir Machado da. Raízes do conservadorismo brasileiro: a abolição na</p><p>imprensa e no imaginário social. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.</p><p>SILVA, Petronilha Beatriz Gonçalves. Aprendizagem e Ensino das Africanidades</p><p>Brasileiras. In: MUNANGA, Kabengele (org.). Superando o racismo na escola.</p><p>Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e</p><p>Diversidade, 2005. p. 155-172.</p><p>UNESCO. The race qiestion. In: UNESCO AND ITS PROGRAMME. 1950</p><p>Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000128291. Acessado em:</p><p>13/09/2022.</p><p>VALLADARES, Licia Do Prado. A invenção da favela: do mito de origem a</p><p>favela.com. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2005.</p><p>30</p><p>https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000128291</p><p>e acolhidas por teóricos progressistas - de um conceito que</p><p>anteriormente foi usado para subjugar, e do seu reposicionamento (e até mesmo</p><p>inversão) – para a demarcação de uma análise política e social das consequências desses</p><p>processos de dominação. Nós estamos usando um conceito que tem validade no mundo</p><p>social para discutir as desigualdades, discriminações e hierarquias que foram produzidas</p><p>pelos mecanismos de subjugação. Afinal, como combater as consequências dos</p><p>processos que foram instaurados por discriminação de raça - (a escravidão negra</p><p>africana), sem remeter à ideia de raça? Penso ser impossível. Então, nos debates</p><p>progressistas sobre a questão racial no Brasil, é preciso ter em mente que o conceito de</p><p>raça é evocado desde essa perspectiva sociológica.</p><p>Abolição jurídica da escravatura, desigualdades raciais, política de</p><p>branqueamento, (mito da) democracia racial, Programa UNESCO sobre as</p><p>relações raciais no Brasil</p><p>Retornando à discussão sobre a raciologia e a eugenia é importante atentarmos</p><p>para o fato de que, à época em que os estudos cientificamente racistas promulgavam a</p><p>necessidade de melhoria das raças através da intervenção na reprodução, com o objetivo</p><p>final de perpetuar a raça mais pura e superior de todas (a raça ariana), a miscigenação7</p><p>já era fenômeno biológico constituidor da população brasileira.</p><p>Portanto, neste contexto, admitir que a miscigenação era a degeneração de um</p><p>povo implicava em condenar nossa nação. Certamente que isso não poderia ser admitido</p><p>pelos estadistas da época, que estavam justamente às voltas com a construção da nossa</p><p>identidade nacional. Nós estamos falando sobre o período que antecedeu a abolição da</p><p>escravatura, época em que o Brasil já sofria forte pressão internacional para dar fim à</p><p>escravidão negra africana.</p><p>7 À respeito da complexidade envolvida no processo de construção da identidade nacional e das</p><p>consequências e obstáculos que seu principal fundamento (a ideologia do branqueamento) e sua principal</p><p>estratégia (mestiçagem, enquanto dispositivo de reprodução eugênica) impuseram e ainda impõem à</p><p>articulação em torno de uma identidade negra nacional, sugiro a leitura da obra Rediscutindo a</p><p>mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra, de Kabengele Munanga.</p><p>4</p><p>O que aconteceu então?</p><p>Ora, nossos intelectuais governistas fizeram uma apropriação seletiva da teoria</p><p>da eugenia: primeiro, argumentaram que embora existisse transmissão de características</p><p>específicas de cada raça, esse processo era dinâmico, ou seja, era possível evoluí-las;</p><p>segundo, ao invés de admitirem a miscigenação como um problema inverteram a lógica</p><p>e transformaram-na em solução: argumentaram que a miscigenação em nosso país era</p><p>positiva, pois nos cruzamentos entre as raças branca, negra e indígena, sobressaíam</p><p>sempre os traços brancos, que era, afinal, a raça mais forte; em seguida e como</p><p>resultado destas duas interpretações, sustentaram a ideia de promover o branqueamento</p><p>da população por meio da miscigenação até que ela evoluísse ao ponto de se tornar</p><p>branca e, portanto, superior.</p><p>Pouco tempo depois, já no contexto do pós-abolição, os intelectuais governistas</p><p>acreditavam que levaria cerca de um século para que a nossa população se tornasse</p><p>branca. E isso não é especulação: essa previsão consta em estudo apresentado pelo</p><p>médico e antropólogo brasileiro João Batista de Lacerda, enviado para representar nosso</p><p>país, na condição de Delegado Oficial do Brasil, no Congresso Universal das Raças,</p><p>realizado em Londres no ano 19118.</p><p>Segundo Lacerda - que ocupou os cargos de Ministro da Agricultura, Diretor do</p><p>Museu Nacional, Presidente da Associação Brasileira de Medicina e teve, inclusive, sua</p><p>viagem à Londres financiada pelo governo de Hermes da Fonseca - seria necessário</p><p>menos de um século para que a população brasileira se tornasse branca. Isso ocorreria</p><p>por três razões: a) seletividade sexual dos mulatos, que prefeririam se relacionar com</p><p>parceiros que aumentassem a chance de terem descendentes mais pertos do tipo branco</p><p>ideal; b) crescente entrada de imigrantes europeus brancos e c) os problemas sociais e o</p><p>abandono que a população negra foi obrigada a enfrentar no pós abolição.</p><p>É importante analisarmos em maior profundidade o terceiro motivo apresentado</p><p>por Lacerda e identificarmos ao menos uma das razões pelas quais, no contexto do final</p><p>do séc. XIX e início do século XX, o Estado brasileiro não endereçou nenhuma ação de</p><p>política pública para o acolhimento da população negra no pós-abolição (nem mesmo</p><p>8 A comunicação original, na íntegra, está disponível em:</p><p>https://bdor.sibi.ufrj.br/bitstream/doc/16/1/0023%20ocr.pdf. Acessado em 14/09/2022.</p><p>5</p><p>https://bdor.sibi.ufrj.br/bitstream/doc/16/1/0023%20ocr.pdf</p><p>https://bdor.sibi.ufrj.br/bitstream/doc/16/1/0023%20ocr.pdf</p><p>aos sujeitos anteriormente libertos ou nunca escravizados): a intenção era deixar-nos</p><p>livres, para que morrêssemos todos(as)9.</p><p>Abolição jurídica da escravatura é como nomeamos esse processo fabricado pelo</p><p>Estado brasileiro, por meio do qual a todo esse contingente populacional - sejam aos</p><p>sujeitos já alforriados, sejam aqueles que se tornaram livres a partir de então - não foi</p><p>endereçada nenhuma ação de Estado no intuito de garantir empregabilidade, moradia,</p><p>saúde e educação: nenhuma indenização, nenhum reparo, nenhuma assistência para</p><p>recomeçar a vida10.</p><p>Seja antes ou a partir do dia 13 de maio de 1888, em um dia você era escravo(a)</p><p>e, no outro, estava livre: sem casa para morar11 e sem emprego (nesta época o Estado</p><p>brasileiro incentivava a mão-de-obra branca importada da Europa, como veremos a</p><p>seguir).</p><p>11 Pensando no contexto do Rio de Janeiro, por exemplo, de forma grosseira podemos considerar que o</p><p>surgimento das favelas cariocas remete ao período colonial, quando cerca de 30% da população carioca</p><p>foi expulsa de suas casas, que passaram a ser moradia dos acompanhantes da família real</p><p>(MAGALHÃES, 2010). Podemos, também, considerar os agrupamentos de quilombos que se</p><p>estabeleceram como locais de abrigo e resistência, sobretudo a partir da metade final do século XIX. E</p><p>podemos, ainda, considerar a demolição dos cortiços determinada pelo então prefeito Pereira Passos já no</p><p>período pós-abolição, ocasião que resultou no despejo dos moradores que, para evitarem a rua, juntaram</p><p>os restos de madeira sobrados da demolição e construíram os primeiros barracos. Para saber mais sobre o</p><p>tema sugiro a leitura das obras Breve história das favelas, de Luis Kehl (2011); A invenção da favela, de</p><p>Licia do Prado Valladares (2007) e Favela: quatro décadas de transformações no Rio de Janeiro, de Janice</p><p>Perlman (2020), dentre outros.</p><p>10 Em caso de acusação de anacronismo (comumente apresentada sob a frase de que eles eram homens do</p><p>seu tempo), no que diz respeito à argumentação de que as práticas escravagistas não devem ser julgadas a</p><p>partir das convenções morais e sociais contemporâneas e sim compreendidas a partir dos contextos em</p><p>que foram praticadas, - algo como se precisássemos olhar para a humanidade do passado com as lentes de</p><p>sua época (FURTADO, 2022) - sugiro a leitura de SILVA(2018): Um dos erros de interpretação do</p><p>passado é o de supor que as pessoas de certa época não poderiam perceber o que se só se tornaria um</p><p>valor dominante muito depois. Trata-se de uma espécie de concepção evolucionista por meio da qual o</p><p>presente sempre está à frente do passado. Uma leitura menos idealizada ou menos inocente pode ser esta:</p><p>nos conflitos de qualquer época, os atores sociais travam batalhas armados de estratégias que não</p><p>dispensam o cinismo, o pragmatismo, o interesse material acima de qualquer princípio moral para si</p><p>mesmos ou para parte da sociedade em que atuam. Ver a escravidão como uma monstruosidade</p><p>incompreensível significa absolver em massa aqueles que a praticaram, defenderam, valorizaram e</p><p>prorrogaram (SILVA, 2018. p. 267). A obra em questão apresenta e analisa, criticamente, relevante corpus</p><p>documental coletado junto aos documentos oficiais do</p><p>Parlamento Brasileiro datados entre a segunda</p><p>metade do século XIX e início do século XX, no intuito de denunciar e demarcar o fato de que a</p><p>escravidão negra africana e de seus descendentes em solo brasileiro não foi um equívoco, mas sim uma</p><p>escolha em que se disputavam um imaginário, uma visão de mundo e um modo de produção (SILVA,</p><p>2018. p. 267).</p><p>9 Eles combinaram de nos matar. Mas como a gente combinamos de não morrer (EVARISTO, 2016),</p><p>você está a ler essas linhas.</p><p>6</p><p>A compreensão dos contextos acima apresentados nos auxilia a reconhecer o</p><p>Estado brasileiro enquanto agente que ativamente incentivou, financiou e produziu</p><p>sistemas que impuseram - e ainda hoje impõem - expressivo conjunto de prejuízos</p><p>simbólicos e materiais à população negra brasileira, e que foram e ainda são fatores de</p><p>interdição e privação de direitos fundamentais. A essas diferenças estruturais entre</p><p>sujeitos negros e brancos chamamos desigualdades raciais (GUIMARÃES, 2004).</p><p>A conjunção destes contextos e decisões culminou, aqui no Brasil, nas políticas</p><p>públicas que incentivaram a vinda de imigrantes europeus de pele branca. Isso fica</p><p>muito evidente quando analisamos os dados referentes a essa importação em massa: ao</p><p>longo de 30 anos, portanto em período de tempo dez vezes menor, foram trazidos cerca</p><p>de 3,9 milhões de imigrantes europeus. Levou-se trezentos anos para trazer ao Brasil</p><p>número similar de africanos(as).</p><p>Ao conjunto de estratégias pautadas pelo pensamento eugenista nacional e</p><p>adotadas pelo Estado brasileiro com o objetivo de assegurar o melhoramento e,</p><p>portanto, embranquecimento da população, chamamos de política de branqueamento12.</p><p>Associaram-se às estratégias da política de branqueamento um conjunto de</p><p>discursos oficiais - difundidos no final do século XIX e início do século XX13 -</p><p>elaborados a partir da ideia de que no Brasil, justamente em razão do alto índice de</p><p>miscigenação, não havia racismo. A essa estratégia discursiva, chamamos democracia</p><p>racial: uma construção ideológica fundamentada na ausência de segregação oficial e</p><p>13 À respeito da disputa em torno das teorias e métodos de pesquisa relacionados aos estudos africanos e</p><p>às relações raciais brasileiras, marcada mais pela concorrência em torno de posições de prestígio do que</p><p>por questões referentes à filiações teóricas propriamente ditas, recomendo a leitura da dissertação de</p><p>mestrado de Sarah Calvi Amaral Silva (2010). Neste estudo, Sarah destaca a relevância do I Congresso</p><p>Afro-Brasileiro de Recife (1934) e do II Congresso Afro-Brasileiro de Salvador (1937) enquanto eventos</p><p>pioneiros em realizar genuínas tentativas de superação das escolas do evolucionismo e do racismo</p><p>científico. A ampliação do horizonte analítico apresentada nestes eventos foi fortemente influenciada</p><p>pelos estudos do antropólogo Franz Boas e girava em torno dos estudos alinhados à negritude, por um</p><p>lado e, por outro, à mestiçagem. Em que pese as críticas posteriormente endereçadas ao relativismo</p><p>cultural, marcadas pela denúncia da substituição da raça pela cultura no que diz respeito aos processos</p><p>discriminatórios, é preciso reconhecer que tais ideias representaram – à época - significativo avanço,</p><p>sobretudo no tocante às contundentes críticas endereçadas aos projetos de poder elaborados com base no</p><p>racismo científico e na eugenia (FURTADO, 2022).</p><p>12 No censo de 1920 consta, inclusive, um registro que explicita a intenção de utilizar os brancos</p><p>importados para embranquecer a nossa população. O trecho diz o seguinte: "[constata-se] uma tendência</p><p>que está se tornando mais visível e definida: [...) [a] progressiva arianização de nossos grupos regionais.”</p><p>Já em 1945, no final do Estado Novo de Getúlio Vargas, um Decreto-Lei publicado a fim de estimular a</p><p>imigração europeia sustentou-se do seguinte modo: “[...] a necessidade de preservar e desenvolver, na</p><p>composição étnica da população, as características básicas mais desejáveis de sua ascendência”</p><p>(HOFBAUER, 2011).</p><p>7</p><p>confrontos raciais que atravessou a história nacional e ainda hoje povoa grande parte do</p><p>imaginário social brasileiro, sendo competentemente acionada para dificultar ou mesmo</p><p>inviabilizar a discussão das desigualdades raciais nos campos político e econômico.</p><p>Frequentemente você poderá se deparar com a expressão mito da democracia racial,</p><p>conceituação que tem relação com os resultados do Programa UNESCO sobre as</p><p>relações raciais no Brasil de que tratarei na sequência deste texto.</p><p>Apesar da concretude das ações racistas do Estado brasileiro, a força do discurso</p><p>político oficial de negação da existência do racismo foi tamanha que chamou a atenção</p><p>de outras nações e chegou mesmo a convencê-las da nossa democracia racial14. Foi por</p><p>essa razão que nos anos de 1951 e 1952 o Brasil foi contemplado com recursos da</p><p>UNESCO destinados ao financiamento de um projeto de pesquisa por meio do qual nós</p><p>mostraríamos ao mundo e ensinaríamos aos demais países como viver em plena</p><p>harmonia racial. Pois, ainda que política de branqueamento não tivesse atingido sua</p><p>meta principal - embranquecer a totalidade da população - o Estado brasileiro foi ágil</p><p>em remodelar o discurso e afirmar que porque éramos miscigenados é que vivíamos em</p><p>harmonia racial.</p><p>Ocorreu, entretanto, que o tiro saiu pela culatra: os estudos da pesquisa</p><p>denunciaram15 a existência de um tipo de racismo muito nosso, muito específico: um</p><p>racismo à brasileira. Um racismo que só se manifesta na intimidade, não em público.</p><p>Um racismo que acontece na esfera privada. Um racismo silencioso, difícil de</p><p>ser registrado e, portanto, comprovado.</p><p>A esse respeito, considerando que a pesquisa foi realizada nos anos de 1951 e</p><p>1952, gostaria de tecer uma breve consideração sobre aquilo que entendo se tratar de</p><p>15 O termo mito, associado ao conceito de democracia racial conforme destacado anteriormente tem,</p><p>portanto, o objetivo de tornar explícito que a democracia racial brasileira é</p><p>fictícia/inventada/fantástica/irreal. Ou seja, mitológica. Talvez em razão da denúncia apontada, talvez por</p><p>outra razão que desconhecemos, o fato é que O Programa UNESCO sobre as relações raciais no Brasil</p><p>não teve grande repercussão junto aos países europeus, a ponto de que seu relatório final não foi</p><p>publicado.</p><p>14 Talvez se consideramos que, àquela época, olhava-se para o racismo a partir das práticas da segregação</p><p>racial norte-americana e do aphartheid sul-africano, fique mais fácil compreendermos porque o Brasil foi</p><p>tomado como modelo mundial de convivência racial harmônica.</p><p>8</p><p>uma recente – ainda que pequena - mudança no comportamento coletivo de nossa</p><p>sociedade.</p><p>Em grande parte em razão do viés ideológico do presidente eleito no pleito de</p><p>2019 (e de seus apoiadores e aliados na gestão do país) e da influência e identificação de</p><p>parcela da população branca brasileira com seus discursos, tenho tido a impressão de</p><p>que o racismo até então praticado majoritariamente na esfera íntima (casa, bares. etc),</p><p>tem se tornado cada vez mais público (lojas, restaurantes, centros de compra, shows,</p><p>parques, etc).</p><p>Se, por um lado, é triste, lamentável e revoltante nos depararmos com esse</p><p>suposto aumento de atos racistas, algo como se estivéssemos retrocedendo no</p><p>comportamento social, por outro acredito que esses episódios oportunizam ao menos</p><p>quatro importantes reflexões. (1) A população branca brasileira foi e continua sendo,</p><p>como nós negros(as) já temos dito há séculos, majoritariamente racista: ocorre que</p><p>agora grupo expressivo de pessoas brancas sentem-se autorizadas a externar o seu</p><p>racismo . Não se trata, a meu ver, de um aumento do racismo no Brasil, mas sim de sua</p><p>publicização. (2) Essa publicização pode e deve ser acionada a partir de uma perspectiva</p><p>de denúncia que seja capaz de explicitar, àqueles(as) que ainda têm dúvidas, que somos</p><p>um país racista e que, portanto, precisamos não só manter, como ampliar as legislações</p><p>e políticas destinadas ao enfrentamento e extinção do racismo. (3) Não precisamos mais</p><p>recorrer apenas a relatos de situações ocorridas</p><p>no interior de espaços privados nos</p><p>quais, frequentemente, as informações se resumem à palavra da vítima (negra)</p><p>contraposta à palavra do agressor (branco): os atos racistas estão aí expostos a quem a</p><p>reflexão e o combate interessar possam. (4) Os atos racistas ocorridos de forma pública,</p><p>cujos autores(as) sofrem muito pouca ou nenhuma consequência jurídica, tornam</p><p>explícita a ineficiência das legislações específicas existentes no que diz respeito à</p><p>capacidade em reconhecer e punir efetivamente os insultos, as ofensas, as interdições e</p><p>as condutas violentas e abusivas às quais nós negros(as) somos expostos(as)</p><p>cotidianamente. De forma que podemos - e devemos – evitar que estes episódios caiam</p><p>no esquecimento, pois se tratam de evidências que atestam a urgente necessidade de</p><p>atualização dos dispositivos legais existentes16.</p><p>16 No Brasil, a legislação específica sobre o tema se dá através da Lei n.º1.716, de 5 de janeiro de 1989.</p><p>Ainda que se configure em conquista importante da população negra brasileira, sobretudo ao</p><p>considerarmos o intervalo de 101 anos entre esta a abolição da escravatura, a forma como foi redigida é</p><p>9</p><p>Racismo individual (pré-conceito, preconceito e discriminação racial)</p><p>estratificação social, racismo institucional, representatividade, racismo estrutural e</p><p>racismo reverso (não, não existe!)</p><p>Até aqui você já leu a palavra racismo vinte e cinco vezes, sem que ela tenha</p><p>sido conceituada. Não se trata de esquecimento: foi uma estratégia adotada justamente</p><p>para que você pudesse associar o termo às suas pré-noções. De modo que, daqui em</p><p>diante, fica o convite para pensá-la em relação com as considerações que serão</p><p>apresentadas.</p><p>Quando falamos de racismo é comum pensarmos na relação entre pessoas negras</p><p>e pessoas brancas e é sobre esse tipo específico de racismo - o racismo antinegro - que</p><p>trata este texto. Contudo é importante termos em mente que existem outras tipologias de</p><p>racismo, como o anti-asiático e o anti-indígena, por exemplo17. Igualmente é importante</p><p>reconhecer que o racismo se relaciona a outros mecanismos de exclusão como o</p><p>preconceito de classe social, a homofobia, a xenofobia, etc. Mas, vamos ao racismo</p><p>antinegro.</p><p>Para fins deste texto parto da conceituação do Prof. Antônio Sérgio Alfredo</p><p>Guimarães (2009), para quem o racismo é evocado desde seus contornos estruturais e</p><p>estruturantes, tratando-se de:</p><p>17 Existem autores que consideram o escopo das práticas racistas de forma mais ampliada do que aquela</p><p>apresentada neste texto e consideram também o racismo cultural, o racismo comunitarista (ou</p><p>diferencialista), o racismo ecológico (ambiental), o racismo aversivo, o racismo simbólico (os dois</p><p>últimos compondo o racismo recreativo). Minha redução à análises das manifestações sob as formas do</p><p>racismo individual (preconceito e discriminação racial), institucional e estrutural é muito mais uma opção</p><p>em razão dos objetivos e extensão deste texto, do que efetivamente contraposição a essas outras</p><p>concepções. Acredito que as variadas manifestações racistas podem ser compreendidas, em maior ou</p><p>menor medida, a partir destas três perspectivas que estou abordando e seus contornos específicos serão</p><p>devidamente analisados no restante dos módulos dos cursos Desconstruindo o Racismo na Prática:</p><p>UNIAFRO/UFRGS.</p><p>por demais limitada e precisa ser atualizada. Grosso modo, a lei tipifica o crime de racismo apenas para</p><p>situações que envolvem segregação e exclusão. Os demais atos, que constituem a maioria esmagadora das</p><p>situações a que nós negros(as) somos expostos(as) cotidianamente (ver nota de rodapé n.º 18, p. 11) e que</p><p>são os verdadeiros responsáveis por nosso adoecimento psicológico e físico, são tipificados como injúria</p><p>racial não sendo, portanto, regulamentados pela Lei n.º 1.716 e sim pelo parágrafo 3.º do artigo 140 do</p><p>Código Penal, no capítulo dos crimes contra a honra. Ora, tal discrepância consiste em que, ao fim e ao</p><p>cabo, os crimes de racismo que são realmente praticados pela população branca brasileira não são</p><p>passíveis de punição pela lei que versa especificamente sobre o tema e tampouco são enquadrados como</p><p>tal: tornam-se crimes contra a honra e não crimes de racismo. A esse respeito sugiro a leitura da obra</p><p>Preconceito e Discriminação, de Antônio Sérgio Alfredo Guimarães (2004).</p><p>10</p><p>[...]uma concepção de raças biológicas, uma atitude moral em tratar de</p><p>modo diferente membros de diferentes raças e uma posição estrutural</p><p>de desigualdade social entre as raças. (GUIMARÃES, 2009, p.65-66)</p><p>Reconhecer tais dimensões não implica na negação da ação dos indivíduos, mas</p><p>sim na compreensão de que este processo de fabricação de desigualdades a partir do</p><p>racismo independe da intenção dos sujeitos:</p><p>[...] o racismo é uma forma sistemática de discriminação que tem a</p><p>raça como fundamento, e que se manifesta por meio de práticas</p><p>conscientes ou inconscientes que culminam em desvantagens ou</p><p>privilégios para indivíduos, a depender do grupo social ao qual</p><p>pertençam. (ALMEIDA, 2020, p. 32)</p><p>Racismo, a meu ver, no caso brasileiro, é um fenômeno social que se apresenta,</p><p>a um só tempo, irredutível ao indivíduo (GUIMARÃES, 2009) e a partir do qual</p><p>indivíduos e instituições conferem tratamento desigual a pessoas portadoras de traços</p><p>fenotípicos associados à ancestralidade africana e que, justamente por estar presente na</p><p>origem da formação da sociedade brasileira – por meio do processo de escravização de</p><p>negros(as) africanos(as) e seus(as) descendentes – impregna estruturalmente nossos</p><p>arranjos políticos, econômicos e culturais.</p><p>Em que pese ser sabedora de que alguns intelectuais dedicados à discussão das</p><p>relações raciais, justamente por destacarem a dimensão estrutural do racismo, acreditam</p><p>ser improdutiva a diferenciação entre preconceito e discriminação racial, opto por</p><p>alinhar-me aos estudos da psicologia social que – ao considerarem o indivíduo em sua</p><p>relação com a cultura e não como ser isolado ou autossuficiente – nos mostram as</p><p>variadas possibilidades de agência diante deste fenômeno e trazem à cena as sutilezas e</p><p>nuances presentes em nossas ações (racismo individual - preconceito e discriminação</p><p>racial), por meio das quais somos implicados na manutenção da estrutura social racista.</p><p>Não se trata de reduzir a abordagem do racismo a um fenômeno ético ou</p><p>psicológico, uma patologia a ser combatida no comportamento dos indivíduos. Embora</p><p>ele seja de fato anormal e criminoso (ALMEIDA, 2020). Trata-se de acreditar no poder</p><p>da educação como ato de transformação e de buscar forças para empreender a luta</p><p>antirracista no cotidiano através da ampliação das possibilidades de análise do</p><p>fenômeno, tomando como marcadores válidos manifestações que evidenciam tanto as</p><p>11</p><p>dimensões micro quanto macrossociais. No campo de análise da dimensão microssocial</p><p>é que situam-se os conceitos de pré-conceito, preconceito e discriminação.</p><p>Um primeiro apontamento a ser feito é a necessidade de diferenciação entre</p><p>pré-conceito e preconceito. O pré-conceito constitui-se em uma operação mental</p><p>primordial no estabelecimento de relações entre o indivíduo e o mundo/outros</p><p>indivíduos e é responsável pela demarcação do ponto de partida desta interação.</p><p>Entretanto e idealmente, neste processo interativo, o sujeito conhecedor deve estar</p><p>aberto ao entendimento do objeto/sujeito de conhecimento. Trata-se de via de mão</p><p>dupla: parte-se daquilo que é concebido de antemão e – a partir da troca – modifica-se</p><p>aquilo que se pensava, como também pode-se modificar o próprio objeto/sujeito de</p><p>conhecimento. Quando, por outro lado, o sujeito conhecedor não se abre para o</p><p>objeto/sujeito de conhecimento, impedindo assim que suas ideias pré-concebidas sejam</p><p>modificadas ou ainda quando esse movimento de abertura ocorre de forma exagerada,</p><p>sem que haja reflexões próprias sobre aquilo/aquele que se pretende conhecer, estamos</p><p>diante do fenômeno do preconceito. Quando o preconceito em questão se dá a partir de</p><p>valoração baseada em noções estereotipadas da ideia de raça, temos o preconceito</p><p>racial.</p><p>Em ambos os casos – pré-conceito e preconceito – poderíamos dizer que</p><p>estamos nos referindo a fenômenos circunscritos ao campo das ideias e que, portanto,</p><p>suas manifestações não têm impacto concreto nas situações de vida dos sujeitos.</p><p>Podemos arriscar uma brincadeira semântica: não existe o verbo preconceituar, mas sim</p><p>o verbo discriminar. Ora, como não preconceituamos, não somos capazes de atingir os</p><p>indivíduos com nossas ideias. Contudo, tal suposição mostra-se uma cilada teórica ao</p><p>considerarmos a relação existente entre o discurso e a prática social.</p><p>Sob esta ótica, que diferencia as ideias das ações, o trânsito do fenômeno seria</p><p>realizado pelo ato de discriminação, configurado enquanto uma atitude de tratamento</p><p>diferenciado a determinados grupos. Quando os atributos elencados para o agrupamento</p><p>dos indivíduos alvo da discriminação dizem respeito a noções estereotipadas da ideia de</p><p>raça, temos a discriminação racial.</p><p>As ações de discriminação racial, possibilitadas pelo exercício de poder, podem</p><p>ser tanto diretas, quanto indiretas. No primeiro caso nos deparamos com situações de</p><p>12</p><p>“repúdio ostensivo a indivíduos ou grupos, motivados pela condição racial” e, no</p><p>segundo caso, trata-se de “um processo em que a situação específica de grupos</p><p>minoritários é ignorada [...], ou sobre a qual são impostas regras de neutralidade racial”</p><p>(ALMEIDA, 2020)18.</p><p>Em ambos os casos, temos como consequência o fenômeno intergeracional da</p><p>estratificação social “[...] em que o percurso de vida de todos os membros de um grupo</p><p>social – o que inclui as chances de ascensão social, de reconhecimento e de sustento</p><p>material – é afetado”. (ALMEIDA, 2020, p. 33)</p><p>Aproveito para tomar a estratificação social justamente como exemplo de um</p><p>fenômeno que, partindo de ações de indivíduos, extrapola subjetividades e torna-se</p><p>capaz de imprimir marcas e prejuízos concretos nas expectativas de condições de vida</p><p>de determinado grupo de sujeitos ao longo do tempo, no caso em questão, dos negros.</p><p>Tal exemplo evidencia a complexa relação existente entre ações individuais e</p><p>estruturas sistêmicas. Se, por um lado, a sociedade não é o resultado da simples soma da</p><p>ação de seus indivíduos, ela tampouco se faz à revelia destas ações.</p><p>Isto posto e voltando o olhar para as possibilidades de análise da dimensão</p><p>macrossocial do fenômeno do racismo, situo a seguir os conceitos de racismo</p><p>institucional e racismo estrutural.</p><p>A concepção de racismo institucional avança em relação à anterior na medida</p><p>que reconhece os conflitos raciais como parte das instituições e observa a supremacia</p><p>branca no poder da maior parte das sociedades e agremiações. Ocorre que, ao longo do</p><p>tempo, os postos de poder das instituições são hegemonicamente ocupados por</p><p>indivíduos pertencentes a determinados grupos raciais e, por esse motivo, não é de se</p><p>estranhar que são seus os interesses e as pautas defendidas. Uma vez no poder, estes</p><p>grupos passam a dispor de condições concretas e simbólicas que atuam como</p><p>ferramentas para a manutenção de privilégios e vedação de acesso a indivíduos</p><p>18 Ao considerarmos a perspectiva individual do racismo é interessante refletirmos também sobre o</p><p>conceito de microagressões. Sugiro, a esse respeito, a leitura da obra Racismo recreativo, de Adilson</p><p>Moreira (2019), em que o autor apresenta análise competente e assertiva sobre as estratégias e</p><p>subterfúgios usados para dar vazão, consciente ou inconscientemente, ao racismo. Alerta, ainda, que não</p><p>se tratam exclusivamente de comportamentos explicitamente racistas, pelo contrário: são potentes e</p><p>violentos porque são sutis. Três seriam os tipos de microagressoões: o microassalto, o microinsulto e a</p><p>microinvalidação.</p><p>13</p><p>pertencem a outros grupos raciais, culminando no silenciamento de ideias e projetos</p><p>divergentes e configurando desta forma uma espécie de supremacia racial</p><p>institucional19. Trata-se de uma complexa rede de poder e influência que, por calar</p><p>outras vozes, acaba sendo tomada como natural e, mais das vezes, única. Essa</p><p>naturalidade é difundida e acolhida pelos indivíduos a partir dos referenciais e padrões</p><p>que são impostos e propagados pelas instituições: nosso horizonte civilizatório de</p><p>política, beleza, status, consumo, gostos pessoais, etc., passa a ser ditado por esses</p><p>discursos valorativos e a possibilidade de compreensão desta trama é tão mais viável</p><p>quanto mais criticamente conseguimos refletir.</p><p>E, a esse respeito, não sejamos ingênuos. É imperativo considerar a</p><p>complexidade dos processos – intermediados pelas condições econômicas e sociais e</p><p>pelas diferenças subjetivas e materiais delas decorrentes – que operam na fabricação dos</p><p>modos como nos relacionamos com as realidades e as ficções e a partir dos quais</p><p>construímos nossos sistemas hierárquicos e classificatórios:</p><p>O gosto classifica aquele que procede a classificação: os sujeitos</p><p>sociais distinguem-se pelas distinções que eles operam entre o belo e o</p><p>feio, o distinto e o vulgar; por seu intermédio, exprime-se ou traduz-se</p><p>a posição desses sujeitos nas classificações objetivas. (BOURDIEU,</p><p>2007, p. 13)</p><p>Não se trata de considerar que haja uma estrutura soberana capaz de capturar a</p><p>autonomia das pessoas, tampouco de crer na possibilidade de uma pessoa totalmente</p><p>autônoma. Trata-se de refletir sobre o que é produzido, o que é construído, o que é</p><p>subjetivado e o que é possível numa perspectiva de consideração do potencial de</p><p>agência das pessoas.</p><p>Sob esta ótica, portanto, o rompimento da noção de neutralidade institucional é,</p><p>o primeiro, senão o mais importante, passo dessa caminhada.</p><p>19 As cotas raciais para investidura de cargo público (concurso público), nos processos eleitorais dos</p><p>poderes legislativo e executivo e também em empresas privadas, , ao promoverem a representatividade -</p><p>aqui compreendida enquanto “a participação das minorias em espaços de poder e privilégio social”</p><p>(ALMEIDA, 2020, p. 109) e ainda que tal participação não possa ser interpretada como implicação direta</p><p>de reconfiguração de poder - são capazes de proporcionar a abertura de espaços políticos onde</p><p>reivindicações podem ser repercutidas e narrativas discriminatórias pautadas na subalternidade podem</p><p>ser desconstruídas. Trata-se de oportunizar a fala e a escuta de outras vozes, que não aquelas histórica e</p><p>politicamente comprometidas com os anseios e projetos dos grupos que tradicionalmente ocupam os</p><p>postos de poder na sociedade brasileira e que, portanto, possuem interesses em reproduzir e manter os</p><p>arranjos de poder já estabelecidos.</p><p>14</p><p>O conceito de racismo estrutural amplia ainda mais o horizonte analítico já alargado</p><p>pelo conceito anterior: além de evidenciar que os mecanismos de produção e</p><p>manutenção do racismo independem da intenção individual – ainda que a comportem</p><p>em certa medida – ao se configurarem enquanto estratégias de controle de aparatos</p><p>institucionais, denuncia que o modo de funcionamento das instituições está alinhado à</p><p>ordem social vigente e é por ela não somente desejado, como assegurado:</p><p>As instituições são apenas a materialização de uma estrutura social ou</p><p>de um modo de socialização que tem o racismo como um de seus</p><p>componentes orgânicos. Dito de modo mais direto: as instituições são</p><p>racistas porque a sociedade é racista. (ALMEIDA, 2020, p. 47)</p><p>Novamente nos deparamos com a intersecção entre comportamentos individuais</p><p>e estruturas sistêmicas: somos porque a sociedade é. A constatação deste fato, a nosso</p><p>ver, mais do que nos entristecer e desanimar diante da luta antirracista, deve atuar como</p><p>motor de propulsão na busca por soluções que encontrem estratégias de mobilização e</p><p>conscientização individuais e coletivas (se não acreditássemos nisso, sequer estaríamos</p><p>a escrever este texto) e também – e sobretudo – ações organizadas comprometidas com</p><p>a instauração de rupturas profundas nas estruturas políticas, sociais e econômicas.</p><p>Termos como estruturas sociais, políticas e econômicas, controle de aparatos</p><p>institucionais, instituições, supremacia racial</p><p>institucional nos levam a pensar em uma</p><p>disposição hierárquica. Ou seja: um sistema estruturado conforme os graus de</p><p>importância, em que os elementos (pessoas), são organizados (posicionadas) de acordo</p><p>com seus níveis de poder (neste texto, que analisa o racismo, de acordo com a sua raça).</p><p>As palavras chaves, portanto, para compreender o porquê da impossibilidade de existir</p><p>o racismo reverso são estruturas de poder.</p><p>No Brasil, estruturalmente falando (considerando a contextualização histórica,</p><p>política, econômica e social apresentada anteriormente) a posição de uma pessoa negra</p><p>é sempre inferior à posição de uma pessoa branca, mesmo quando a primeira exerce, por</p><p>exemplo, um cargo de chefia sobre a segunda.</p><p>De forma que, quando uma pessoa negra discrimina racialmente uma pessoa</p><p>branca (sim, isso acontece!), ainda assim, estruturalmente, a concretude das condições</p><p>de existência (expectativa de vida, expectativa de empregabilidade, média salarial,</p><p>expectativa de ser abordada de forma abusiva pelos poderes policiais, etc) daquela</p><p>15</p><p>pessoa branca e do seu coletivo (de pessoas igualmente brancas) seguem intactas. Ou</p><p>seja, a discriminação racial de uma pessoa negra (ou de um coletivo de pessoas negras)</p><p>em relação a uma pessoa branca (ou a um coletivo de pessoas brancas) não tem o poder</p><p>de abalar as estruturas racistas que alicerçam nossa sociedade (não, isso não acontece!).</p><p>Políticas de redistribuição e reconhecimento, igualdade, diferença,</p><p>desigualdade, equidade</p><p>Espero que neste segmento do texto você tenha compreendido que para falar</p><p>sobre o racismo na sociedade brasileira é preciso reconhecer a agência do Estado</p><p>brasileiro na produção das desigualdades raciais e a dimensão estrutural deste fenômeno</p><p>na constituição da nossa sociedade, bem como as suas consequências, que são sentidas</p><p>por nós, negros, cotidianamente em diferentes esferas das nossas vidas. Ou seja, são</p><p>prejuízos e desvantagens com os quais temos que lidar tanto no plano material, quanto</p><p>no plano simbólico.</p><p>Assim, quando falamos em políticas de redistribuição e reconhecimento estamos</p><p>falando em corrigir/reparar essas consequências, que estruturaram a nossa sociedade no</p><p>passado e ainda reverberam no nosso presente sob as formas de injustiça</p><p>sócio-econômica (exploração e marginalização do trabalho e exploração) e injustiça</p><p>cultural ou simbólica(que tem a ver com os padrões sociais de representação,</p><p>dominação cultural, invisibilidade de representação e desrespeito), cristalizando</p><p>desigualdades raciais por meio de processos como, por exemplo, a estratificação social.</p><p>E essas injustiças a gente consegue enxergar com muita facilidade.</p><p>Vamos fazer um exercício bem rápido e pensar: qual a cor da maioria das</p><p>pessoas que fazem o serviço braçal de limpeza das ruas e coleta de lixo, que trabalham</p><p>nas portarias dos prédios dos bairros de classe alta e das mulheres que trabalham como</p><p>auxiliares de limpeza, diaristas ou empregadas domésticas? Agora, vamos pensar na</p><p>mídia audiovisual: quantas atrizes e atores negros são protagonistas de novelas do</p><p>horário nobre? Quantos jornalistas são âncoras em programas de veiculação nacional</p><p>relevante? Foi somente em 2019 a Rede Globo de Televisão® passou a ter uma</p><p>jornalista âncora negra fixa no jornal de maior audiência da emissora.</p><p>Essa realidade com a qual nos deparamos hoje não é fruto da preguiça ou da</p><p>falta de capacidade da população negra do nosso país. Ela está intimamente conectada</p><p>16</p><p>ao longo período de escravidão adotado pelo Estado brasileiro, à forma como ele</p><p>conduziu o processo de abolição da escravatura e aos atos de privação, desasistência,</p><p>interdição, discriminação e expectativa de extermínio20 que se seguiram no</p><p>pós-abolição, reverberando na atualidade.</p><p>Se nós considerarmos, por exemplo, o processo de escolarização formal da</p><p>população negra brasileira e adotarmos períodos de 30 anos como demarcadores</p><p>geracionais, basta consultarmos os marcos legais21 para verificarmos que estamos</p><p>falando de mais de 10 gerações sem acesso massivo e sistematizado às escolas</p><p>públicas22.</p><p>Podemos considerar, ainda, a interdição do acesso a terras: data de 18 de</p><p>setembro de 1850 a Lei n.º 601 aquela que ficou conhecida como Lei de Terras e que</p><p>registra o período em que, mesmo possuindo dinheiro para a compra, era proibido aos</p><p>negros comprarem terras em nosso país.</p><p>Esses são apenas dois exemplos de ações oficiais do Estado brasileiro que</p><p>impuseram uma série de impedimentos para a emancipação dos negros africanos e seus</p><p>descendentes em nosso país.</p><p>Portanto, quando nós ouvimos declarações como:</p><p>“Sou contra as cotas raciais, acho um absurdo, porque acredito que</p><p>todos são capazes de buscar suas oportunidades por meios próprios,</p><p>tendo muita dedicação, estudo e perseverança”;</p><p>Ou:</p><p>“Eu acredito que essas cotas são discriminação, preconceito. Não é</p><p>por causa da cor da pele que a pessoa tem menos inteligência do que</p><p>uma pessoa de pele branca”;</p><p>22 Certamente que nem todas as pessoas negras ficaram analfabetas. Sobretudo porque se organizaram e</p><p>buscaram estratégias não formais de escolarização, seja através das “Irmandades Negras” ou “Clubes</p><p>Negros”, entre outros. Isso sem esquecer dos quilombos, enquanto territórios de resistência e, no limite,</p><p>de sobrevivência.</p><p>21 Para saber sobre a contextualização histórica e as legislações que regulamentaram o acesso , a</p><p>interdição e a permanência da população negra brasileira nas instituições formais de educação sugiro a</p><p>leitura de FURTADO (2022), mais especificamente do capítulo 3 - Sobre o campo: contextualização</p><p>histórica e implicações dos marcos legais das políticas públicas educacionais e nas condições de</p><p>interdição, acesso e permanência da população negra brasileira nas institucionais educacionais formais.</p><p>20 Ver a nota de rodapé n.º 8. (p.5)</p><p>17</p><p>Ou ainda:</p><p>“No momento em que existem as cotas raciais já está de alguma forma</p><p>discriminando o negro, pois não é a cor que vai decidir a capacidade</p><p>intelectual e sim o esforço e dedicação de cada um.”</p><p>É importante que nós sejamos capazes de identificar que estes discursos estão</p><p>sustentados pela teoria da meritocracia, que seria o princípio que regula uma sociedade</p><p>a partir, somente, das aptidões de cada um. Ou seja, uma sociedade em que o sucesso de</p><p>cada um depende apenas de seu próprio esforço, dedicação, capacidade, inteligência,</p><p>etc.</p><p>Ora, um sistema meritocrático só pode ser sustentado em uma sociedade na qual</p><p>todos os indivíduos, sem exceção, possuem exatamente as mesmas oportunidades.</p><p>Logo, se considerarmos os contextos já apresentados, bem como o estendimento</p><p>das suas consequências na contemporaneidade, fica evidente que a população negra</p><p>brasileira não dispôs - e ainda hoje não dispõe - das mesmas oportunidades que a</p><p>população branca brasileira23.</p><p>É nesse contexto que as políticas de redistribuição tem por objetivo sanar a</p><p>injustiça sócio-econômica através da reestruturação político-econômica, sendo</p><p>materializadas através, por exemplo, de programas de distribuição de renda e</p><p>reorganização do trabalho. Já as políticas de reconhecimento estão relacionadas a</p><p>mudanças culturais e simbólicas como, por exemplo, representações positivadas de</p><p>identidades frequentemente desrespeitadas (FRASER, 2001). Importante registrar que</p><p>essa separação se dá apenas para fins didáticos de facilitar a compreensão pois, na</p><p>prática, ambas contém em si pressupostos que são compartilhados.</p><p>23 Por óbvio que reconhecemos que os imigrantes europeus brancos também passaram por dificuldades</p><p>quando chegaram ao Brasil. Entretanto, é importante ter em mente a diferença radical que caracteriza</p><p>essas duas realidades (dos africanos e seus descendentes e dos imigrantes europeus brancos e seus</p><p>descendentes): Uma história totalmente diferente da história dos emigrados europeus, árabes, judeus e</p><p>orientais que, voluntariamente decidiram de sair de seus respectivos países, de acordo com a conjuntura</p><p>econômica e histórica interna e internacional que influenciaram suas decisões para emigrar.</p><p>Evidentemente, eles também sofreram rupturas que teriam provocado alguns traumas, o que explicaria os</p><p>processos de construção das identidades particulares como a “italianidade brasileira” , a identidade</p><p>gaúcha, etc. Mas em nenhum momento a cor de sua pele clara foi objeto de representações negativas de</p><p>construção de uma identidade negativa que, embora inicialmente atribuída, acabou sendo introjeitada ,</p><p>interiorizada e naturalizada pelas próprias vítimas da discriminação racial. (MUNANGA, 2003)</p><p>18</p><p>De forma que, promover políticas de redistribuição e reconhecimento, não se</p><p>trata de culpar as pessoas brancas de hoje pelas mazelas do passado, tirando delas vagas</p><p>em concursos públicos ou vestibulares, ou o que quer que seja. Nem de desconsiderar a</p><p>dimensão da desigualdade de classes, até mesmo porque porque dentro do escopo das</p><p>políticas públicas educacionais existem as cotas sociais, que são destinadas a estudantes</p><p>egressos(as) de escola pública, independente de raça.</p><p>Trata-se de compreendermos e reconhecermos os processos e mecanismos de</p><p>manutenção e de perpetuação do racismo. Sobretudo porque falar sobre isso não é falar</p><p>apenas sobre o passado e tampouco apenas sobre negros(as). Falar sobre racismo é falar</p><p>sobre relações. No caso do racismo antinegro é falar sobre relações entre pessoas negras</p><p>e brancas. A esse respeito não temos dúvidas de que um dos maiores desafios para a</p><p>superação do racismo seja a tomada de consciência das pessoas brancas em relação aos</p><p>seus privilégios e vantagens - simbólicos e materiais - que lhes são concedidos tão</p><p>somente pelo fato de carregarem em seus corpos a brancura, dispositivos que nomeamos</p><p>como privilégio branco.</p><p>A dificuldade em se perceber como privilegiado está intimamente atrelada à</p><p>lógica da branquitude24, aqui entendida enquanto produto da dominação das colônias</p><p>europeias, diretamente relacionado à supremacia branca global, impossível de ser</p><p>compreendido à revelia de análise das relações de poder que a forjaram e, portanto, do</p><p>contexto da expansão colonial europeia.</p><p>O reconhecimento de que a branquitude se trata de uma problemática histórica,</p><p>social e processualmente localizada – e não uma identidade fixa e imutável – é ponto</p><p>fundamental para compreendermos a “combinação de fatores históricos e de</p><p>mecanismos ligados ao presente” (COROSSACZ, 2017, p. 199). Penso que a</p><p>potencialidade do conceito reside exatamente na possibilidade de denúncia da</p><p>continuidade e reprodução das desigualdades raciais e no rompimento do silêncio (pacto</p><p>24 Se nós somos capazes de reconhecer os efeitos psicológicos do legado da política de branqueamento</p><p>sobre o processo de construção da identidade negra, nós precisamos reconhecer estes efeitos também no</p><p>processo de construção da identidade branca. As discussões mais aprofundadas a esse respeito serão</p><p>apresentadas nos módulos Branquitude: contribuições para a compreensão do conceito na vida cotidiana e</p><p>Racismo, sofrimento psíquico e branquitude, partes integrantes do M.O.O.C. Desconstruindo o racismo</p><p>na prática: UNIAFRO/UFRGS – Curso 3, disponível nesta mesma plataforma.</p><p>19</p><p>narcísico da branquitude25) sobre a agência das pessoas brancas na produção,</p><p>manutenção e perpetuação do racismo na contemporaneidade.</p><p>As políticas de redistribuição e reconhecimento, portanto, têm a difícil missão de</p><p>transformar nossa realidade imediata e agregada através do sanamento das injustiças</p><p>econômicas e simbólicas imputadas, no caso da análise deste texto, à população negra</p><p>brasileira. Para compreendermos esse processo em sua complexidade é importante</p><p>conhecermos os conceitos de equidade, igualdade, diferença e discriminação positiva.</p><p>Imagino que você já tenha visto na internet um comparativo entre duas imagens</p><p>em que três crianças estão assistindo a um jogo de futebol em um estádio. Nas duas</p><p>imagens nós vemos três crianças, as mesmas três crianças. Essas três crianças têm uma</p><p>diferença entre si: elas possuem alturas diferentes. E isso, isoladamente, não é nem pior,</p><p>nem melhor. É apenas diferente. Provavelmente elas tenham idades diferentes.</p><p>Ocorre que, na imagem do lado esquerdo, nós vemos as três crianças em cima de</p><p>caixotes da mesma altura. Ou seja, elas estão sendo tratadas com igualdade. A mais alta</p><p>está com todo o campo de visão liberado, a do meio até consegue enxergar alguma coisa</p><p>da partida de futebol, mas a menor não consegue ver absolutamente nada.</p><p>Neste exemplo, tratar igualmente as três crianças com alturas diferentes acabou</p><p>por transformar uma diferença (a altura) em uma desigualdade (campo de visão</p><p>prejudicado), que se converteu em uma desvantagem da qualidade de visibilidade do</p><p>jogo.</p><p>Já na imagem do lado direito, nós vemos as mesmas três crianças, sendo tratadas</p><p>de forma desigual. A mais alta está diretamente no chão, a do meio está em cima de um</p><p>caixote e a menor está em cima de dois caixotes. E, desta forma, todas têm a mesma</p><p>qualidade de visibilidade do jogo. Ou seja, conseguiu-se promover a equidade.</p><p>25 O conceito de pacto narcísico da branquitude foi cunhado pela psicóloga Maria Aparecida da Silva</p><p>Bento a partir da pesquisa realizada para fins da sua tese de doutoramento (2002) e diz respeito à</p><p>cumplicidade estabelecida entre as pessoas brancas que, ao não falarem sobre seus privilégios, garantem a</p><p>manutenção e reprodução das estruturas raciais injustas que lhes garantem vantagens. Recentemente a</p><p>autora publicou obra específica sobre o conceito: O pacto da branquitude (2022), cuja leitura sugiro</p><p>àqueles(as) que se interessarem em conhecer um pouco mais sobre as consequências e implicações desta</p><p>cumplicidade na manutenção da hierarquia das relações raciais.</p><p>20</p><p>Em resumo: para promover a equidade nós precisamos tratar pessoas diferentes</p><p>de forma desigual, com o objetivo de evitar desigualdades e promover que todas tenham</p><p>a mesma oportunidade.</p><p>Esse dispositivo através do qual os indivíduos são tratados desigualmente com</p><p>vistas a corrigir desvantagens chamamos de discriminação positiva:</p><p>[definida como] a possibilidade de atribuição de tratamento</p><p>diferenciado a grupos historicamente discriminados com o objetivo de</p><p>corrigir desvantagens causadas pela discriminação negativa – a que</p><p>causa prejuízos e desvantagens. (ALMEIDA, 2020, p.34)</p><p>Ou seja, diante da impossibilidade do desaparecimento das diferenças - que</p><p>foram transformadas em desigualdades – surge a oportunidade de transformá-las em</p><p>objetos de compensação. É fato que há um impasse nesse processo de promoção de</p><p>equidade e deriva daí, talvez, grande parte do desconforto em relação às políticas de</p><p>ações afirmativas para a população negra brasileira, por exemplo. O impasse está em</p><p>que os grupos marginalizados querem, a um só tempo, afirmar e obter reconhecimento</p><p>de suas diferenças e garantir tratamento igualitário.</p><p>A discriminação positiva é a premissa da lógica operada nas políticas de ações</p><p>afirmativas (uma dentre as muitas ações de que se valem as políticas de redistribuição e</p><p>reconhecimento) que tem nas cotas raciais e sociais duas de suas estratégias mais</p><p>conhecidas. Cotas raciais são aquelas destinadas exclusivamente a indivíduos</p><p>pertencentes a grupos que, em razão de sua classificação racial, cultural, econômica,</p><p>política e reiteradamente excluídos e marginalizados26 como, por exemplo – no contexto</p><p>das políticas educacionais brasileiras - negros(as), indígenas e quilombolas. Já as cotas</p><p>sociais são aquelas destinadas a sujeitos oriundos de grupos familiares com baixa renda,</p><p>egressos de escolas públicas e pessoas com deficiência. Ambas se configuram enquanto</p><p>estratégias adotadas nas políticas de ações afirmativas.</p><p>Entretanto, as primeiras, quando direcionadas para a população negra, tem a</p><p>intencionalidade de garantir, para além da redistribuição econômica, a reparação e o</p><p>reconhecimento político-identitário dos(as) negros(as) com vistas a promover a</p><p>26 São os grupos que referimos como minorias: trata-se de conceituação de perspectiva sociológica e não</p><p>aritmética, sob a qual reunimos conjunto de pessoas</p><p>que são significativamente excluídas e</p><p>marginalizadas em razão de sua classificação racial, cultural, econômica e/ou política.</p><p>21</p><p>reeducação das relações entre sujeitos brancos e negros, processo conhecido como</p><p>educação das relações étnico-raciais. Importante pontuar, ainda, que as políticas de</p><p>ações afirmativas não rompem com a meritocracia, pelo contrário, elas estão alinhadas a</p><p>esta lógica a medida em que buscam corrigir desvantagens imputadas ao sujeito que não</p><p>sejam advindas única e exclusivamente de sua capacidade ou pela falta dela. Ou seja,</p><p>pretende-se corrigir e não eliminar os mecanismos de seleção por mérito.</p><p>Etiqueta racial, identidade racial/pertença racial e heteroidentificação</p><p>racial</p><p>Um dos argumentos mais utilizados na tentativa de invalidar as políticas de</p><p>ações afirmativas para a população negra brasileira gira em torno da ideia de que, no</p><p>Brasil, não é possível afirmar quem é negro e quem é branco27. O famoso pezinho na</p><p>senzala.</p><p>Pois bem, que a miscigenação28 é um fenômeno biológico atestado em nossa</p><p>sociedade desde a época colonial, não há dúvidas. Ocorre, contudo, que se</p><p>considerarmos os contextos histórico e político de construção da nossa identidade</p><p>nacional - em que esse simples fenômeno biológico recebeu a missão política de</p><p>homogeneizar e salvar a população (através do branqueamento racial) - e dermos uma</p><p>olhada em volta, percebemos que o resultado desejado não deu muito certo, não é</p><p>mesmo?</p><p>Conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE,</p><p>56,10%29 da população brasileira se declara negra. Sobre esse dado, a primeira</p><p>consideração tem que ver com a compreensão do enquadramento racial realizado pelo</p><p>instituto. Para o IBGE os grupos raciais brasileiros são quatro: negros, brancos,</p><p>amarelos e indígenas. Já as cores, são cinco: preta, parda, branca, amarela e indígena. O</p><p>grupo racial negro é composto pela soma dos indivíduos pretos e pardos.</p><p>29 Disponível em: https://lupa.uol.com.br/jornalismo/2019/11/20/consciencia-negra-numeros-brasil/.</p><p>Acessado em 28 de setembro de 2022.</p><p>28 Ver nota de rodapé n.º 7. (p.4)</p><p>27 Os primeiros estudos sobre a identidade racial branca brasileira datam da década de 1940 (Virgínia</p><p>Leone Bicudo (2010 [1945], 1955) ; Oracy Nogueira (1985 [1954], 1998 [1955]) , Alberto Guerreiro</p><p>Ramos (1957), Eduardo de Oliveira e Oliveira (1974) e Abdias do Nascimento (1978)) e serão tratados de</p><p>forma mais aprofundada no módulo Branquitude: contribuições para a compreensão do conceito na vida</p><p>cotidiana, parte integrante do M.O.O.C. Desconstruindo o racismo na prática: UNIAFRO/UFRGS –</p><p>Curso 3, disponível nesta mesma plataforma.</p><p>22</p><p>https://lupa.uol.com.br/jornalismo/2019/11/20/consciencia-negra-numeros-brasil/</p><p>A segunda consideração tem que ver com a autoidentificação racial (identidade</p><p>racial) e a heteroidentificação racial e, para pensarmos sobre isso, precisamos refletir</p><p>sobre aquele que é um dos principais, senão o principal, marcador fenotípico: a cor da</p><p>pele. A cor da nossa pele é tanto algo que nós percebemos de nós mesmos, como algo</p><p>que é percebido pelos outros. E este é um fator importante, mas não isoladamente</p><p>determinante, no processo de construção de uma identidade racial politizada, da nossa</p><p>pertença racial. Ou seja, como nós nos vemos tem a ver com a nossa identidade e, a</p><p>forma como os outros nos veem, tem a ver com a nossa heteroidentificação racial. De</p><p>forma que a cor da nossa pele (nem o nosso cabelo, nariz ou boca) não é capaz de,</p><p>isoladamente, anunciar a nossa pertença racial.</p><p>É por isso, por exemplo, que algumas vezes olhamos para uma pessoa de cor</p><p>parda e a classificamos como negra e, conversando com ela, constatamos que ela não se</p><p>autodeclara desta forma e sim como branca. E o inverso também pode acontecer:</p><p>podemos nos deparar com uma pessoa de pele clara e classificá-la como branca e, ao</p><p>conversarmos com ela, constatamos que ela se autodeclara como negra (que, na</p><p>categorização do IBGE, em razão do tom mais claro da pele, seria a cor parda).</p><p>Em situações como essas, em que nos vemos diante da necessidade de</p><p>identificar racialmente alguém, é comum ouvirmos certas expressões que fazem parte</p><p>daquilo que chamamos de etiqueta racial e que são utilizadas por pessoas receosas de</p><p>estarem sendo indelicadas (termos como, por exemplo, pessoa morena ou pessoa de cor</p><p>em substituição ao termo negro(a)):</p><p>A tradição de ausência de segregação legal, conhecida como</p><p>“democracia racial”, fez com que se desenvolvesse uma etiqueta racial</p><p>na qual o tratamento racial desaparece, tornando-se mesmo ofensivo e</p><p>indelicado classificar racialmente as pessoas. Se um negro pertence ao</p><p>mesmo meio social do branco, o que pode ser percebido pelos outros</p><p>diversos marcadores, chamar alguém de negro ou preto é ofensivo,</p><p>posto que significa classifica-lo de uma maneira explicitamente racial</p><p>(e não através de marcadores culturais e socioeconômicos).</p><p>(GUIMARÃES, 2004, p. 38)</p><p>Expressões deste tipo costumam ser rejeitadas por pessoas negras que possuem</p><p>uma identidade racial negra política consolidada.</p><p>Esse fenômeno de evitação da palavra negro(a) ocorre também porque aqui, no</p><p>Brasil, o significado desta palavra depende diretamente da visão de quem a fala.</p><p>23</p><p>Negro(a), para os militantes, ativistas e intelectuais negros(as) e também para as pessoas</p><p>brancas comprometidas com o antirracismo, é um termo utilizado de forma positivada,</p><p>através do qual se pretende demarcar a dimensão política das relações raciais no nosso</p><p>país. Já para pessoas racistas, a mesma palavra pode se prestar a ofender, diminuir e</p><p>ridicularizar. Quando as ações têm desdobramentos jurídicos, contudo</p><p>para os juízes de direito, em geral, a transgressão dessa etiqueta social</p><p>é vista não como o que realmente é, ou seja, indício de motivação</p><p>racial da discriminação perpretada, mas como crime contra a honra</p><p>(calúnia ou difamação). Esta interpretação é extremamente perversa</p><p>não só porque desqualifica a motivação racial de um ato que atenta</p><p>contra liberdades fundamentais do cidadão (prisão, constrangimento</p><p>ilegal ou lesão corporal), mas também porque enfraquece a</p><p>possibilidade mesma de tipificação do incidente como crime contra a</p><p>honra, pois, afinal, pode-se sempre alegar, como se tem feito</p><p>repetidamente, que a designação racial de uma pessoa pela cor é</p><p>apenas uma classificação objetiva da cor da pele (e não racial) ou uma</p><p>forma corrente de tratamento. (GUIMARÃES, 2004, p.38)30</p><p>Cuti (2010) nos ajuda a refletir sobre as estratégias que possivelmente pautam o</p><p>silenciamento da palavra negro(a) e que vão desde a perda do poder de ofensa desse</p><p>vocábulo quando substituído pelo prefixo afro, até a potencialidade de desacomodação</p><p>que sua pronúncia provoca junto aos ouvidos de um racista mascarado pela hipocrisia</p><p>que recorre aos artifícios do eufemismo nas figuras de linguagem.</p><p>Neste contexto, a substituição de negro por afro possibilita o enfoque da questão</p><p>racial desde uma perspectiva confortável, sem “[...] necessitar de confronto com a</p><p>ideologia racista, negando-lhe a existência.” e, ao mesmo tempo, “[...] impedir a</p><p>transformação do seu significado negativo para positivo, é abortar o processo iniciado</p><p>pelos próprios negros na busca de sua cidadania.”(CUTI, 2010, p. 6-7).</p><p>E, como resolver esta questão? Como nomear racialmente alguém? Salvo a</p><p>especificidade das bancas de aferição de autodeclaração racial dos concursos públicos31,</p><p>acredito que a melhor estratégia é perguntar como a pessoa se autodeclara.</p><p>31 As bancas de aferição ou comissões de heteroidentificação são dispositivos legais que tentam evitar a</p><p>utilização fraudulenta das cotas raciais. A esse respeito verificar a Ação Direta de Constitucionalidade n.º</p><p>41, disponível em: https://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=13375729.</p><p>Acessado em: 17 de outubro de 2022.</p><p>30 Ver nota de rodapé n.º 16. (p.9)</p><p>24</p><p>https://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=13375729</p><p>A complexidade desta situação se deve, em grande parte, ao fato de que</p><p>a</p><p>identidade racial ou pertença racial está relacionada à formação da subjetividade de cada</p><p>um que, por sua vez, tem que ver com todo o conjunto de experiências do indivíduo ao</p><p>longo da vida, tanto no campo social, como no afetivo, político, cultural, econômico e</p><p>etc32.</p><p>E, no Brasil, essa conformação da subjetividade se torna ainda mais peculiar ao</p><p>considerarmos a política de branqueamento adotada pelo Estado brasileiro que, mesmo</p><p>não tendo alcançado seu objetivo maior, deixou marcas profundas na população, tanto</p><p>negra, quanto branca, a medida que deixou de ser ações políticas de Estado e se</p><p>transformou em dispositivo ideológico33.</p><p>É provável que você já tenha ouvido expressões do tipo: fulana casou com o</p><p>fulano e clareou a família/melhorou a família ou clareou/melhorou a raça. Ou ainda, no</p><p>caso de pessoas negras de pele mais clara (parda) e/ou com elevados poder aquisitivo e</p><p>nível de escolarização: fulano é um negro de alma branca.</p><p>O discurso por meio do qual se pretendeu introjetar na população negra a ideia</p><p>de que clarear a pele e/ou a família significa melhorar, embora date do final do século</p><p>XIX, é ainda hoje presente em muitos lares brasileiros. Esse discurso exaustivamente</p><p>repetido, de que nós negros somos inferiores aos brancos resultaram na introjeção de</p><p>uma baixíssima auto-estima na população negra e, consequentemente, numa</p><p>supervalorização demasiadamente exacerbada da identidade racial branca34.</p><p>É possível também que você conheça uma pessoa (que você considera) negra</p><p>que diz não gostar de pessoas negras e tampouco se autodeclara como tal. Para</p><p>entendermos esse processo precisamos tanto considerar as consequências da ideologia</p><p>do branqueamento, quanto retomar o conceito de identidade racial para percebermos</p><p>que, na verdade, sobre essa pessoa que você conhece, o que é mais possível de se dizer é</p><p>sobre a cor da pele. Já o modo como ela experiencia politicamente a sua pertença racial</p><p>não é possível de ser verificado apenas pelo fenótipo.</p><p>34 Ver a nota de rodapé n.º 24. (p.19)</p><p>33 Ver a nota de rodapé n.º 7. (p.4)</p><p>32 Ver a nota de rodapé n.º 7. (p.4)</p><p>25</p><p>Africanidades brasileiras e diáspora africana</p><p>Mas, voltemos ao pezinho na senzala que, supostamente, todo brasileiro tem…</p><p>Capoeira, samba, carnaval, feijoada e roupa branca na virada do ano são</p><p>exemplos de artefatos e práticas culturais frequentemente lidas como “brasileiras”.</p><p>Tratam-se daquilo que a grande mestra Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva (2005)</p><p>nomeou como africanidades brasileiras:</p><p>[...] modos de ser, de viver, de organizar suas lutas, próprios dos</p><p>negros brasileiros, e de outro lado, às marcas da cultura africana que,</p><p>independentemente da origem étnica de cada brasileiro, fazem parte</p><p>do seu dia-a-dia.</p><p>Mais do que a exaltação do exótico ou do divertido, as africanidades brasileiras</p><p>constituem-se em vasto repertório de conhecimentos sobre os quais a</p><p>[...] formação de atitude respeitosa de reconhecimento da participação</p><p>e contribuição dos afro-brasileiros na sociedade brasileira requer que</p><p>preconceitos e discriminações contra este grupo sejam abolidos, que</p><p>sentimentos de superioridade e de inferioridade sejam superados, que</p><p>novas formas de pessoas negras e não negras se relacionarem sejam</p><p>estabelecidas.</p><p>Esses modos de sermos, vivermos e organizarmos nossas lutas, essa persistência</p><p>- junção de existência e resistência - é que preenche de significado o conceito de</p><p>diáspora africana: a reivindicação do reconhecimento e da valorização da trajetória</p><p>daqueles(as) que, uma vez arrancados(as) de seu lugar de origem, criativa e arduamente</p><p>reestruturam-se humana e socialmente a partir das possibilidades tensamente</p><p>experienciadas em novo território e cultura, ressignificando a si mesmos (as) e aos(as)</p><p>seus(as) no transcorrer dos séculos.</p><p>Diaspóricos(as) somos nós, negros(as) reinventando-nos e humanizando-nos a</p><p>todo e cada dia. E nesse processo (que é coletivo), ao menos nas últimas décadas</p><p>pudemos contar com políticas públicas específicas - empreendidas pelo Estado</p><p>brasileiro a partir da trajetória de lutas dos movimentos negros - que deram origem a um</p><p>conjunto de entidades e ações voltadas à reparação de séculos de preconceito e</p><p>discriminação fundados na escravização e no colonialismo.</p><p>Entretanto, em que pese nossa trajetória e existência diaspóricas, é imperativo</p><p>demarcar significativa lentidão no que diz respeito a mudanças estruturais da situação</p><p>26</p><p>da população negra brasileira, pois que ainda nos deparamos com permanências</p><p>históricas herdeiras da mentalidade colonial e escravagista e atualizadas por</p><p>mecanismos contemporâneos de opressão, basta lembrarmos dos 80 tiros35 e o</p><p>assassinato de João Alberto Silveira Freitas36.</p><p>Essas duas tragédias, como tantas outras, infelizmente não são fatos isolados.</p><p>São reflexo de uma cultura de Estado racista e genocida (ampliada para as práticas</p><p>cotidianas das empresas de segurança privada). Entretanto, elas ressoaram e seguem</p><p>ressoando como denúncias da prática de extermínio dos homens negros, sendo</p><p>responsáveis pela mobilização de diferentes atores sociais na luta contra o racismo.</p><p>Lamentável que esse adensamento da discussão sobre o racismo ocorra a partir de uma</p><p>dor irreparável: a da perda de uma pessoa amada, como certamente foi o caso destes</p><p>dois homens negros brasileiros, Evaldo e João Alberto.</p><p>Penso que uma das manifestações mais nobres e desafiadoras de um conceito</p><p>seja a ultrapassagem dos muros acadêmicos e sua operacionalização na vida cotidiana,</p><p>ou seja, que sejamos capazes de acioná-lo a partir de uma chave de leitura que nos</p><p>auxilie a refletir e transformar nossa realidade imediata e agregada, pois:</p><p>No momento em que os indivíduos, atuando e refletindo, são capazes</p><p>de perceber o condicionamento de sua percepção pela estrutura em</p><p>que se encontram, sua percepção muda, embora isso não signifique,</p><p>ainda, a mudança da estrutura. Mas a mudança da percepção da</p><p>realidade, que antes era vista como algo imutável, significa para os</p><p>indivíduos vê-la como realmente é: uma realidade histórico-cultural,</p><p>humana, criada pelos homens e que pode ser transformada por eles.</p><p>(FREIRE, 2018, p.66)</p><p>Espero que esse texto seja capaz de contribuir para a ampliação dessa discussão</p><p>e que os conceitos aqui apresentados, de forma sucinta e sem pretensão de</p><p>aprofundamento acadêmico, mas desde uma perspectiva teórica, ética e politicamente</p><p>comprometida, sejam apropriados por quem lhes é de direito. Nós: brasileiros(as) –</p><p>36 Episódio ocorrido na cidade de Porto Alegre (município desde onde escrevemos este texto), em</p><p>novembro de 2020, que culminou no assassinato, por espancamento e asfixia, de João Alberto Silveira</p><p>Freitas, pelas mãos de seguranças de uma loja da rede Carrefour.</p><p>35 Trata-se de trágica ação da Polícia Militar do Rio de Janeiro, ocorrida em 07 de abril de 2019. Na</p><p>ocasião, em razão de perseguição a um indivíduo suspeito de furtar um veículo, 12 militares dispararam</p><p>mais de 80 tiros em direção ao carro onde estavam o músico Evaldo Rosa, seu filho, sua esposa e uma</p><p>amiga. Além de Evaldo, morreu também o catador Luciano Macedo e o sogro deste último, Sérgio</p><p>Gonçalves de Araújo.</p><p>27</p><p>negros(as) e brancos(as) que acreditamos que outras formas de nos relacionarmos</p><p>racialmente, que não aquelas racistas, são possíveis.</p><p>Referências bibliográficas</p><p>BENTO, Cida. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.</p><p>___________. Branqueamento e branquitude no Brasil. In: CARONE. Iray,</p><p>BENTO, Maria Aparecida Silva. Psicologia Social do Racismo: estudos sobre</p><p>branquitude e branqueamento no Brasil. Rio de Janeiro: Vozes, 2014. pp. 59-90.</p><p>BICUDO, Virgínia Leone. Estudo de atitudes raciais de pretos e mulatos em São</p><p>Paulo. São Paulo: Editora Sociologia e Política, 2010.</p><p>____________________. Atitudes de alunos de grupos escolares em relação com a cor</p><p>de seus colegas. In: BASTIDE, Roger; FERNANDES, Florestan (Org.). Relações</p><p>raciais entre negros e brancos em São Paulo. São Paulo: Editora Anhembi/Unesco,</p><p>1955. pp.227-310</p><p>CÉSAIRE,</p>