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<p>G. K. CHESTERTON</p><p>SANTO TOMÁS DE AQUINO</p><p>BIOGRAFIA</p><p>TRADUÇÃO E NOTAS DE Carlos Ancêde Nougué</p><p>NOTA PRÉVIA DO TRADUTOR</p><p>O original de que nos utilizamos para esta tradução é o da Ia. edição inglesa</p><p>(St. Thomas Aquinas), da Coleção "Black Jacket Books", mesclando-lhe</p><p>porém passagens da Ia. edição francesa (Saint Thomas d'Aquin), da Librarie</p><p>Plon, com tradução de Maximilien Vox.</p><p>Ademais, não nos furtamos a utilizar boas soluções que Antônio Álvaro</p><p>Dória, o tradutor português desta obra, encontrou para as dificuldades de</p><p>trasladar tão único e brilhante estilo à nossa língua.</p><p>G. K. CHESTERTON*</p><p>Gustavo Corção</p><p>GRAÇAS À VIGILÂNCIA de Antônio Olinto, na sua "Porta de Livraria"</p><p>de O Globo, chego ainda a tempo para saudar o centenário de G. K.</p><p>Chesterton, o incomparável escritor inglês que mais indelevelmente me</p><p>marcou a alma nos dias em que andei perdido pelo mundo a procurar uma</p><p>luz, luz de João e Maria, luz de Casa, luz de acolhimento entre as trevas de</p><p>meu triste exílio. Devo a Chesterton as primeiras grandes alegrias católicas.</p><p>No seu grande livro, Ortodoxy, onde esteve mais à vontade para atirar nos</p><p>braços da cruz seu jogo de inebriantes paradoxos, entre outras descobertas</p><p>maravilhosas do cristianismo, ele nos diz aquilo que Cristo de si mesmo nos</p><p>escondeu: "There was some one thing that was too great for God to show us</p><p>when He walked upon our earth; and I have sometimes fancied that it was</p><p>His mirth." Tentemos traduzir estas palavras de ouro com que Chesterton</p><p>fecha sua obra-prima: "Uma coisa houve que era n'Ele grande demais para</p><p>nos ser mostrada enquanto Ele andou por este mundo, e eu penso às vezes</p><p>que foi sua alegria." Ou seu riso. Ou seu júbilo. O termo mirth é aqui</p><p>intraduzível. E ouso dizer que o grande mestre da língua fechou seu livro-</p><p>jóia sabendo bem que só o podia encerrar com um termo impróprio,</p><p>tratando-se de coisa que esteve sempre presente e todavia escondida na vida</p><p>de Jesus.</p><p>Outro notável inglês deixou-nos, sobre a poesia, uma definição</p><p>inesquecível: "poetry is emotion recollected in tranquility"; donde nós</p><p>tiramos uma definição de liturgia: "liturgy is passion recollected in</p><p>tranquillity", cujo teor paradoxal, próprio do Mistério da Fé, parece mostrar,</p><p>sob as aparências do júbilo e da festa, a dor e o Sangue de nossa Redenção.</p><p>Fiel a esse espírito, Chesterton não procurou nos seus tão admirados</p><p>paradoxos fazer acrobacias verbais, e muito menos procurou jogos para</p><p>agradar os jovens e os imaturos. Pascal, com seu timbre de abismos, não é</p><p>mais trágico nem mais sério do que Gilbert Keith Chesterton, em cuja obra,</p><p>como disse atrás, eu tive a felicidade de encontrar o caminho daquilo que</p><p>Jesus nos escondeu, isto é, das mais puras e vivas alegrias católicas deste</p><p>mundo. Com um extraordinário vigor do Dom de Ciência, que está na linha</p><p>da Fé e da Esperança, isto é, das virtudes peregrinas, Chesterton viu que o</p><p>mundo, e mais fortemente os dias deste século de corrida atrás do vento,</p><p>está desconcertado, subvertido, de cabeça para baixo, e então, para poder</p><p>descobrir melhor seus erros e suas malícias, punha-se ele mesmo</p><p>freqüentemente de pernas para o ar. Sua obra de apologia, assim</p><p>condicionada, fazia função de revulsivo, de purgativo, e operava inopinadas</p><p>restaurações nos desconcertos do mundo. O personagem principal de O</p><p>poeta e os loucos era ágil nessa ginástica, e, em quase todos os contos dessa</p><p>série, quem diz loucuras é o sábio, o sisudo, o poeta, o sério; e quem fazia</p><p>as mais desvairadas loucuras era o homem pausado, equilibrado na</p><p>representação diplomática dos desvarios do tempo.</p><p>Chesterton criou, depois de Edgar Poe e Conan Doyle, o tipo de novela</p><p>policial em que o genial investigador, longe de ser o esmiuçador sagaz e</p><p>raciocinante, era o Padre Brown, o Padre Vicente O.F.M., seu amado</p><p>confessor, que tinha os olhos lavados pela Fé e pelo colírio das lágrimas e</p><p>assim conseguia, mesmo cochilando, descobrir os meandros da malícia</p><p>mais pela ingenuidade do que pela sagacidade. Em A Esfera e a Cruz,</p><p>espécie de romance simbólico e apocalíptico, reaparece o personagem</p><p>obsessivo de Chesterton, em luta implacável, mas por fim cordialíssima,</p><p>com o ateísmo desvairado da época. Na verdade, porém, não é o ateu</p><p>Tornbull o adversário; não, em A Esfera e a Cruz, o espírito hediondo que</p><p>Chesterton detesta, como detesta o Diabo, é o liberalismo que pretende</p><p>evitar o confronto e a luta entre o Bem e o Mal. O personagem mais</p><p>repugnante da sucessão de figuras que se levantam contra o Combate é o</p><p>pacifista, contra o qual Chesterton não disfarça sua náusea extrema. Porque</p><p>Chesterton foi sempre um guerreiro. Em tempo e contratempo combateu o</p><p>bom combate, e guardou a Fé até o momento supremo em que o Padre</p><p>Vicente, depois de ministrar-lhe a extrema-unção, ajoelhou-se aos pés da</p><p>cama do agonizante e com piedade profunda beijou a pena que estava à</p><p>mesa-de-cabeceira, como que a descansá-la também, depois de ter escrito</p><p>mais de oitenta volumes a serviço de seu Rei e de sua Dama.</p><p>Grande falta nos fazem hoje autores como Chesterton, que souberam</p><p>desarmar, denunciar, desmascarar os ídolos, os ideais dos tempos modernos,</p><p>que não passam das "antigas virtudes cristãs tornadas loucas" ou perversas.</p><p>Na falta dessa leitura saudavel, tônica, fortificante, curativa, inebriante do</p><p>melhor espírito, surgiu em seu lugar, a fazer um sucesso editorial que</p><p>deveria ruborizar o planeta Terra e empalidecer o planeta Marte, surgiu o</p><p>repulsivo impostor Teilhard de Chardin, que renega a Fé, abandona os</p><p>mestres da Companhia de Jesus e da Igreja, para inventar uma gnose tola,</p><p>de medíocre ciência ensopada com religião ainda pior, graças a cuja fétida</p><p>composição consegue atrair os espíritos fracos.</p><p>Não me canso de agradecer a Deus o fato de ter encontrado Chesterton nos</p><p>dias de desolação em que, sempre crendo em Deus Todo-Poderoso, Criador</p><p>do Céu e da Terra, das coisas visíveis e invisíveis, não conseguia,</p><p>entretanto, encontrar a alameda e a porta de Sua Casa. A par de todos os</p><p>defeitos e imperfeições, tenho a alma muito agradecida, porque desde cedo</p><p>até tarde, na tarde da vida, deu-me Deus a ventura de sentir a dependência</p><p>em que vivi, de minha mãe, de meus irmãos, de meus alunos, de meus</p><p>professores, de todos os que neste longo trajeto que já se aproxima do</p><p>marco assinalado pelo salmista para os vigorosos, sim, sempre tive a</p><p>ventura de sentir muito melhor o bem que me fizeram e que especialmente</p><p>reservo aos que me ajudaram na morte para o mundo. E entre esses reservo</p><p>um especial lugar no altar que hoje adornei em meu velho coração para</p><p>lembrar G. K. Chesterton.</p><p>O resto desta apologia e deste estudo está no livro Três alqueires e uma</p><p>vaca, que escrevi quando, graças a Chesterton, entre tantos autores e</p><p>amigos, consegui passar no vestibular da Casa do Pai, isto é, consegui</p><p>voltar à Fé e à Igreja de meu batismo. Ave Maria!</p><p>Notas</p><p>* Artigo saído em O Globo de 6/6/1974.</p><p>CHESTERTON: UMA MISSÃO</p><p>ÚNICA *</p><p>Rosa Clara Elena</p><p>FOI UMA FIGURA solitária e originalíssima nas letras universais. A sua</p><p>vastíssima obra transformou-se num autêntico front que compensaria não</p><p>pouco uma arte e uma filosofia corroídas pelo mal, pelo erro e pela feiúra.</p><p>Chesterton passeou com sua capa e sua imensa humanidade pelas ruas,</p><p>pelos salões, pelas tabernas e pelas salas de aula não só da Inglaterra mas de</p><p>muitos outros lugares do mundo para plantar a semente do catolicismo,</p><p>ensinando a pensar com senso comum e com humor. Poeta, narrador,</p><p>ensaísta, jornalista, historiador, biógrafo, filosofo, desenhista,</p><p>conferencista... foi o mais completo e brilhante apologista do catolicismo</p><p>num século que elaborou sistematicamente um discurso demolidor contra a</p><p>Igreja e a fé católicas.</p><p>Gilbert Keith Chesterton nasceu em 29 de maio de 1874 em Kensington</p><p>(Londres). Era o segundo dos três filhos de Edward Chesterton e Marie</p><p>Louise Grosjean. Conquanto batizado e formado segundo a religião</p><p>anglicana, desde muito pequeno Chesterton demonstrou admiração pelo</p><p>católico, especialmente pela pessoa da Santíssima Virgem. Como</p><p>confessava anos depois: "Mal consigo recordar</p><p>só foi mais cristão, mais católico, e até mais asceta.</p><p>Também o tomista teve a liberdade de ser aristotélico, em vez de se ver</p><p>obrigado a ser agostiniano. Foi assim maior teólogo, teólogo mais ortodoxo,</p><p>mais dogmatista, havendo recuperado, por meio de Aristóteles, o mais</p><p>insondável dos dogmas — as núpcias de Deus com o homem, e portanto</p><p>com a matéria.</p><p>Ninguém pode compreender a grandeza do século XIII sem ter presente que</p><p>houve então um desenvolvimento de coisas novas, produzido por uma coisa</p><p>viva. Neste sentido foi, realmente, mais ousado e mais livre do que aquilo</p><p>que chamamos Renascimento, que não passou da ressurreição de coisas</p><p>velhas descobertas numa coisa morta. Neste sentido, o medievalismo não</p><p>foi renascimento, mas simplesmente nascimento. Não ergueu os seus</p><p>templos modelando-os pelos túmulos, nem chamou do Hades11 os deuses</p><p>mortos. Criou uma arquitetura tão moderna como a moderna engenharia, e</p><p>que ainda hoje se considera a arquitetura mais moderna. E sucedeu que no</p><p>Renascimento se lhe seguiu uma mais antiquada. Neste sentido, o</p><p>Renascimento poderia chamar-se a Recaída. Diga-se o que se disser do</p><p>gótico e dos Evangelhos segundo o comentário de Santo Tomás, eles não</p><p>constituíram uma recaída. Este foi um novo impulso, semelhante ao</p><p>impulso titânico da engenharia gótica; e a sua força estava num Deus que</p><p>torna novas todas as coisas.</p><p>Em uma palavra, Santo Tomás estava tornando a Cristandade mais cristã</p><p>tornando-a mais aristotélica. Isto não é um paradoxo, mas um truísmo</p><p>demasiado evidente, que só pode não ser compreendido pelos que talvez</p><p>saibam o que significa aristotélico mas esqueceram simplesmente o que</p><p>significa cristão. Comparado a um judeu, a um muçulmano, a um budista, a</p><p>um deísta ou a alternativas mais evidentes, cristão quer dizer homem crente</p><p>em que a deidade ou a santidade se uniu à matéria ou entrou no mundo dos</p><p>sentidos. Alguns escritores modernos, não compreendendo este simples</p><p>ponto, falaram até como se a aceitação de Aristóteles fosse uma espécie de</p><p>concessão feita aos árabes, exatamente como um pároco modernista que</p><p>fizesse alguma concessão aos agnósticos. Eles podiam também dizer que as</p><p>Cruzadas foram uma concessão feita aos árabes, e que Santo Tomás, ao</p><p>salvar Aristóteles de Averróis,12 fazia outra concessão aos árabes.</p><p>Os cruzados queriam recuperar o lugar em que o corpo de Cristo estivera,</p><p>porque acreditavam ser ele um lugar cristão. Santo Tomás queria recuperar</p><p>o que, em essência, era o próprio corpo de Cristo, o corpo santificado do</p><p>Filho do Homem, tomado o mediador milagroso entre o céu e a terra. E</p><p>queria o corpo com todos os seus sentidos, porque acreditava que era uma</p><p>coisa cristã. Podia ser uma coisa mais humilde e mais familiar do que o</p><p>espírito platônico, mas por isso é que era uma coisa cristã. Ou então, se o</p><p>preferirem, Santo Tomás escolheu o caminho mais humilde, ao seguir os</p><p>passos de Aristóteles. Assim fez Deus, quando trabalhava na oficina de</p><p>José.</p><p>Finalmente, estes dois grandes homens estavam não só unidos entre si mas</p><p>separados da maior parte dos seus camaradas e contemporâneos, pelo</p><p>próprio caráter, digamos assim, revolucionário da sua revolução.</p><p>Em 1215, o castelhano Domingos de Gusmão fundou uma Ordem muito</p><p>semelhante à de Francisco, e, por singularíssima coincidência da história,</p><p>quase ao mesmo tempo que Francisco. O seu fim era, em princípio, pregar a</p><p>filosofia católica aos hereges albigenses,13cuja filosofia própria constituía</p><p>uma das muitas formas desse maniqueísmo que interessa muito a esta</p><p>história. Tinha este as suas raízes no remoto misticismo e no</p><p>desprendimento moral do Oriente, e tornava-se, por isso, inevitável que os</p><p>dominicanos viessem a constituir uma irmandade de filósofos, enquanto os</p><p>franciscanos eram, comparativamente, uma irmandade de poetas.</p><p>Por esta e por outras razões, São Domingos e seus seguidores são pouco</p><p>conhecidos ou compreendidos na Inglaterra de hoje; estiveram envolvidos,</p><p>por acaso, numa guerra religiosa que se seguiu a um argumento teologico, e</p><p>houve, na atmosfera da nossa terra, durante o século passado, algo que</p><p>tornou o argumento teologico ainda mais incompreensível do que a guerra</p><p>religiosa. O resultado final é de certo modo curioso, porque São Domingos,</p><p>mais ainda do que Sao Francisco, se assinalou nesta independencia</p><p>intelectual e estrito modelo de virtude e de veracidade que a cultura</p><p>protestante está habituada a considerar protestante. Foi a seu respeito que se</p><p>contou o caso (e teria sido certamente mais divulgado entre nós se se</p><p>tratasse de um puritano) em que o Papa apontou para o magnífico palácio</p><p>papal e disse:</p><p>— Pedro já não pode dizer: "Nao tenho prata nem ouro".</p><p>E o frade espanhol respondeu:</p><p>— Não, nem pode dizer agora: "Levanta-te e anda".</p><p>Há pois outro aspecto por que a história popular de São Francisco se pode</p><p>considerar uma espécie de ponte entre o mundo medieval e o moderno.</p><p>Baseia-se no próprio fato, já mencionado, de que São Francisco e São</p><p>Domingos vivem na história como tendo feito a mesma obra, e no entanto</p><p>se encontram separados na tradição popular inglesa, da maneira mais</p><p>estranha e inexplicável. Nos seus países de origem são semelhantes a</p><p>gêmeos celestes, irradiando a mesma luz do céu, parecendo às vezes dois</p><p>santos com a mesma auréola, tal qual outra Ordem pintou a santa pobreza</p><p>na figura de dois cavaleiros montados no mesmo cavalo. Servindo-nos das</p><p>lendas da nossa terra, diriamos que andam quase tão unidos como São Jorge</p><p>e o dragão. São Domingos é ainda concebido como inquisidor, a excogitar</p><p>instrumentos de tortura, ao passo que São Francisco já é aceito como</p><p>humanitário, a lamentar a existência das ratoeiras. Parece-nos, por exemplo,</p><p>muito natural e cheio das mesmas associações de flores e de fantasias</p><p>maravilhosas que o nome de Francisco pertencesse a Francisco</p><p>Thompson.14 Mas suponho que pareceria menos natural chamá-lo</p><p>Domingos Thompson, ou julgar que um homem com grandes simpatias</p><p>populares e ternura prática pelos pobres poderia usar o nome de Domingos</p><p>Platter.15 Seria como se ele se chamasse Torquemada Thompson.16</p><p>Deve haver algo de errôneo por trás desta contradição, a fazer que se</p><p>tornem antagonistas diante dos estrangeiros aqueles que na sua terra foram</p><p>aliados. Em qualquer outra questão, o fato seria evidente ao senso comum.</p><p>Suponhamos que os liberais ingleses ou os livre-cambistas achavam que,</p><p>em certas regiões remotas da China, Cobden era dentre todos considerado o</p><p>monstro mais cruel, e Bright o santo sem mácula.17 Eles haviam de supor</p><p>que havería erro em algum lugar. Suponhamos que os evangélicos</p><p>americanos tinham conhecimento de que na França ou na Itália, ou em</p><p>outras civilizações em que não tinham entrado Moody e Sankey,18 havia a</p><p>crença popular de que Moody era um anjo e Sankey um demonio; eles</p><p>haveríam de suspeitar que devia haver confusão em algum lugar. Alguma</p><p>distinção acidental posterior deve de ter interrompido o curso principal de</p><p>uma tendência histórica. Estes paralelos não são tão fantásticos como</p><p>possam parecer. Cobden e Bright foram, em verdade, chamados</p><p>"torturadores de crianças", por ódio à sua suposta dureza com respeito aos</p><p>males depois remediados pelos decretos relativos à indústria fabril; e alguns</p><p>chamariam ao sermão de Moody e Sankey a respeito do inferno uma</p><p>exposição infernal. Tudo isso é questão de opinião; mas ambos os homens</p><p>tiveram a mesma opinião, e deve haver grande erro numa opinião que os</p><p>separa tão completamente.</p><p>E sem dúvida alguma há erro total na lenda a respeito de São Domingos. Os</p><p>que conhecem algo acerca dele sabem que era missionário e não</p><p>perseguidor militante; que a sua contribuição para a religião foi o rosário e</p><p>não a grade do tormento; que toda a sua ação não terá significado se não</p><p>nos lembrarmos de que as suas famosas vitórias eram vitórias de persuasão</p><p>e não de perseguição. É verdade que ele creu na justificação da perseguição,</p><p>no sentido de o braço secular poder reprimir as desordens religiosas. Mas</p><p>todo o mundo acreditava então no poder coercitivo, e ninguém mais do que</p><p>o elegante blasfemador Frederico</p><p>II, que não acreditava em mais nada.</p><p>Dizem alguns que foi ele o primeiro a queimar hereges; é que ele pensava</p><p>que um dos seus privilégios e deveres imperiais era perseguir hereges. Mas</p><p>falar de São Domingos como se ele nada mais fizesse senão perseguir</p><p>hereges e como censurar o Padre Matthew19 — que persuadiu milhões de</p><p>bêbados à temperança — pelo fato de a lei permitir às vezes que um bêbado</p><p>fosse preso por um policial. Isso é não atingir a questão central, que está em</p><p>que este homem particular possuía o gênio da conversão, sem recurso à</p><p>violência.</p><p>A diferença real entre São Francisco e Sao Domingos, a qual não</p><p>desacredita nenhum deles, é que a São Domingos aconteceu ter de</p><p>envolver-se numa grande campanha pela conversão dos hereges, ao passo</p><p>que São Francisco teve apenas a missão mais sutil da conversão de seres</p><p>humanos. Todos sabem muito bem que, embora precisássemos de alguém</p><p>como São Domingos para converter os pagãos ao Cristianismo, temos</p><p>maior necessidade ainda de alguém como São Francisco para converter os</p><p>cristãos ao Cristianismo. Não devemos, porém, perder de vista o problema</p><p>especial de São Domingos, que foi o de tratar com uma população inteira,</p><p>reinos, cidades e províncias que se tinham afastado da fé e petrificado em</p><p>novas religiões, estranhas e anormais. Que ele conseguisse cativar massas</p><p>de homens tão enganados unicamente falando e pregando constitui um</p><p>triunfo enorme, digno de troféu colossal. Chamam a São Francisco</p><p>humanitário por procurar converter os sarracenos e ter falhado; a São</p><p>Domingos chamam fanatico e beato por tentar converter os albigenses e</p><p>consegui-lo. Sucede no entanto que estamos situados num ponto ou recanto</p><p>curioso das colinas da história, de onde podemos ver Assis e as montanhas</p><p>da Úmbria, mas encontramo-nos longe do vasto campo de batalha da</p><p>Cruzada do Sul, do milagre de Muret e do milagre maior de São Domingos,</p><p>quando as raízes dos Pireneus e as costas do Mediterrâneo viram o</p><p>desespero asiático derrotado.</p><p>Há porem um laço mais antigo e essencial entre São Domingos e Sao</p><p>Francisco, mais de acordo com o objetivo imediato deste livro. Em tempos</p><p>posteriores ambos foram glorificados, porque ambos, no seu tempo, tinham</p><p>sido infamados, ou pelo menos tornados impopulares, por terem feito a</p><p>coisa mais impopular que pode fazer-se: iniciaram um como movimento</p><p>popular. O homem que se atreve a apelar diretamente para o vulgo cria</p><p>sempre uma longa série de inimigos — a principiar pelo próprio vulgo. A</p><p>medida que as classes pobres começam a compreender que ele pretende</p><p>ajudá-las e não molestá-las, as classes superiores começam a retrair-se, e</p><p>resolvem abster-se e não prestar-lhe apoio. Os ricos, e até os instruídos, às</p><p>vezes acham, não sem razão, que aquilo transformará o mundo, não só no</p><p>seu mundanismo ou na sua ciência mundana, mas até certo ponto talvez na</p><p>sua ciência verdadeira. Tal sentimento não foi menos natural neste caso,</p><p>quando consideramos, por exemplo, a atitude, em verdade temerária, de Sao</p><p>Francisco de desprezar os livros e a instrução, ou a tendência,</p><p>posteriormente manifestada pelos frades, de apelar para o Papa com</p><p>desprezo aos bispos e às autoridades eclesiásticas locais.</p><p>Em resumo: São Domingos e São Francisco criaram uma como revolução,</p><p>tão popular e impopular como a Revolução Francesa. Mas é muito difícil</p><p>sentir hoje que até a mesma Revolução Francesa foi tão nova como</p><p>realmente foi. Durante algum tempo a Marselhesa ressoou como a voz de</p><p>um vulcão, ou como a música de um terremoto, e os reis da terra tremeram,</p><p>temendo que o céu caísse — ou que se fizesse justiça? Hoje se toca a</p><p>Marselhesa nos jantares diplomáticos, nos quais sorridentes monarcas se</p><p>encontram com milionários radiantes, e é ela muito menos revolucionaria</p><p>do que o Home, Sweet Home.20</p><p>Importa muito recordar também que os revolucionários modernos acham</p><p>insuficiente a revolta dos jacobinos franceses, exatamente como acham</p><p>insuficiente a revolta dos frades. Dizem que nenhum destes foi bastante</p><p>longe; mas muita gente julgou, naquele tempo, que foram longe de mais.</p><p>Pelo que respeita aos frades, as autoridades do Estado e, de certo modo, até</p><p>a Igreja ficaram profundamente impressionadas à vista desses rudes e</p><p>fogosos pregadores populares, em liberdade entre o povo. Não nos é fácil</p><p>ver como acontecimentos distantes sejam assim desconcertantes e até</p><p>desonrosos. As revoluções acabam por tornar-se instituições; as jovens</p><p>revoltas tornam-se velhas; e o passado, que estava cheio de coisas novas, de</p><p>divisões, de inovações e de insurreições, parece-nos uma simples trama de</p><p>tradição defunta.</p><p>Mas se desejarmos um único fato que torne vivido esse choque de</p><p>transformação e de desafio, e que mostre quão bruta e esfarrapada, quão</p><p>tumultuosa na sua destemida novidade, quão miserável e afastada da vida</p><p>requintada esta experiência dos frades realmente pareceu a muita gente</p><p>naquela época, há um fato muito a propósito que o revela. Mostra como</p><p>uma Cristandade organizada e já antiga sentiu algo semelhante ao fim de</p><p>uma idade; e como os próprios caminhos da terra pareceram tremer debaixo</p><p>dos pés do novo exército sem nome: a Marcha dos Mendigos. Uma canção</p><p>mística infantil recorda a atmosfera desta crise: "Au, au, ladram os caes, os</p><p>Mendigos descem à cidade!" Houve muitas cidades que quase se</p><p>fortificaram contra eles, e muitos cães de guarda de proprietários e de</p><p>fidalgos ladraram realmente, e ladraram alto, quando esses Mendigos</p><p>passaram. Mais alta, porém, era a canção dos Mendigos, que cantavam o</p><p>seu Cântico do Sol, e mais agudo o latido dos galgos celestes, os Domini</p><p>canes das histórias medievais: os Cães de Deus.</p><p>E, se quisermos calcular quão real e fulminante pareceu esta revolução</p><p>monastica, e o que de irrevogável e de decisivo trouxe consigo,</p><p>acompanhemos agora o primeiro e mais extraordinário acontecimento da</p><p>vida de Santo Tomás de Aquino.</p><p>Notas</p><p>1 Falstaff (1370-1459), famoso capitão e diplomata inglês, foi senescal da</p><p>Normandia e governador do Maine, além de companheiro de orgias de</p><p>Henrique IV, rei da Inglaterra. Shakesperare fez dele, em Henrique IV e em</p><p>As Alegres Comadres de Windsor, o tipo do glutão, do libertino, do cínico.</p><p>Mestre Slender San, por seu lado, personagem também das Alegres</p><p>Comadres de Windsor, é de grande magreza e de caráter diverso do caráter</p><p>de Falstaff. Chesterton, porém, só os compara aqui pelo aspecto físico.</p><p>2 Os Contos de Cantuária são de Geoffrey Chaucer (1340-1400), poeta</p><p>inglês que muito contribuiu para a fixação da língua e da gramática</p><p>inglesas.</p><p>3 "Arame vivo" traduz aqui a expressão "live wir". A solução, excelente, é</p><p>do tradutor português Antônio Álvaro Dória.</p><p>4 Poeta e crítico inglês (1822-1888), repassado de helenismo e sobrançaria.</p><p>5 Filósofo e sociólogo inglês (1820-1903), de fulcro evolucionista.</p><p>6 Trata-se de São Dionísio Areopagita, ateniense convertido ao</p><p>Cristianismo por São Paulo (cf. Atos dos Apóstolos, XVII, 34) e primeiro</p><p>Bispo da sua cidade. Por muito tempo se lhe atribuíram as obras do Pseudo-</p><p>Dionísio, escritor grego anônimo (séculos V e VI) cujas obras são sínteses</p><p>cristãs de inspiração neoplatônica.</p><p>7 Os sacerdotes romanos, também chamados "agoureiros", que extraíam</p><p>presságios do canto e do vôo das aves.</p><p>8 Emprego aqui a palavra "liberalismo" no sentido rigorosamente teológico</p><p>com que Newman e outros teólogos a empregaram. No sentido popular e</p><p>político, como adiante salientarei, Santo Tomás tendeu antes para liberal,</p><p>particularmente com relação ao seu tempo. (N. do A.)</p><p>9 Poeta norte-americano (1819-1892), talentoso mas eivado de misticismo</p><p>democrático e erótico.</p><p>10 Escritor inglês (1885-1930), cujos livros podem considerar-se até mais</p><p>que eróticos — obscenos.</p><p>* Termo que designa a autonomia reclamado pelos irlandeses entre 1870 e</p><p>1914.</p><p>11 Na mitologia greco-latina, os Infernos, para onde iam tanto os justos</p><p>como os réprobos (aqueles para os Campos Elíseos, estes para o Tártaro).</p><p>Hades, para os gregos (ou Plutão, para os romanos), era também o deus que</p><p>ali governava.</p><p>12 Médico e filósofo hispano-árabe (1126-1198), cuja doutrina,</p><p>de</p><p>tendência materialística e panteística, foi combatida por Santo Tomás de</p><p>Aquino.</p><p>13 Albigenses ou cátaros constituíam a seita religiosa, de fundo</p><p>maniquefsta, que desde o século XII se propagara pelo Sul da França, nos</p><p>arredores de Albi, e contra a qual ordenou uma Cruzada o Pnpn Inocfincio</p><p>III,</p><p>14 Trata-se de Francis Joseph Thompson (1859-1907), inglês em cuja</p><p>poesia tem lugar de destaque n natureza e as crianças.</p><p>15 Suponho tratar-se, aqui, de referência a Thomas Platter (1499-1582), o</p><p>humanista e protestante suíço que, após uma infancia de mendicante, se</p><p>torna professor e homem de negócios.</p><p>16 O dominicano Tomás de Torquemada (1420-1498) foi inquisidor-mor de</p><p>Castela e Aragão.</p><p>17 Tanto Richard Cobden (1804-1865), economista e industrial inglês,</p><p>como João Bright (1811-1889), um dos líderes do Partido Liberal britânico,</p><p>foram propagadores do livre-cambismo, ou seja, a doutrina segundo a qual</p><p>não devem existir obstáculos nem incentivos alfandegários ao comércio</p><p>internacional.</p><p>18 Refere-se o autor aos norte-americanos Dwight L. Moody (1837-1899) e</p><p>Ira David Sankey (1840-1908), que chefiaram o movimento protestante</p><p>American Singing Pilgrim.</p><p>19 Frade capuchinho que fundou na Irlanda, em 1839, o movimento</p><p>antialcoólico.</p><p>20 Título de certa canção inglesa ("Lar, Doce Lar").</p><p>II. O ABADE FUGITIVO</p><p>TOMÁS DE AQUINO SURGIU, de modo estranho e algo simbólico, do</p><p>próprio centro do mundo civilizado do seu tempo, o ponto central ou núcleo</p><p>dos poderes que então dominavam o conjunto da Cristandade. Com todos</p><p>estava ele relacionado intimamente, até com alguns que bem poderíamos</p><p>descrever como destruidores da Cristandade. Toda a questão religiosa, todas</p><p>as disputas internacionais eram para ele questões de família.</p><p>Nasceu entre purpuras, quase literalmente no próprio coração da púrpura</p><p>imperial, pois seu primo era o Sacro Imperador Romano. Se não tivesse</p><p>posto de parte o seu escudo, poderia ter esquartelado nele metade dos reinos</p><p>da Europa. Era italiano, francês, alemão; por todos os modos europeu. Por</p><p>um lado herdou a energia que originou o episódio dos normandos, cujas</p><p>estranhas incursões organizadas zuniam como nuvens de flechas por todos</p><p>os cantos da Europa, até aos confins da terra: um grupo, no séqüito do</p><p>duque Guilherme, para o norte, através de neves que cegavam, correu até</p><p>Chester; outro, pisando o rastro dos gregos e dos cartagineses, através da</p><p>Sicília, foi até às portas de Siracusa. Outro vínculo de sangue o ligava aos</p><p>grandes imperadores do Reno e do Danúbio, que se diziam herdeiros da</p><p>coroa de Carlos Magno. Frederico Barbarroxa, que dorme sob o rio</p><p>impetuoso, era seu tio-avô, e Frederico II, a "admiração do mundo", seu</p><p>primo em segundo grau. E no entanto se sentia preso por centenas de laços</p><p>mais estreitos à vida intima e alegre, à vivacidade local, às pequenas nações</p><p>cercadas de muralhas e aos mil santuários da Itália. Herdando este</p><p>parentesco físico com o imperador, mantinha, com muito mais firmeza, os</p><p>seus laços espirituais com o Papa. Ele compreendeu o significado de Roma</p><p>e em que sentido ela ainda governava o mundo, e não estava disposto a crer</p><p>que os imperadores alemães do seu tempo, muito menos que os</p><p>imperadores gregos de outras eras, poderiam ser efetivamente romanos</p><p>contra a vontade de Roma.</p><p>A esta compreensão cosmopolita da posição herdada acrescentou, depois,</p><p>muitas coisas suas, que contribuíram para o conhecimento mútuo entre os</p><p>povos, e lhe deram algo do caráter de embaixador e de intérprete. Viajou</p><p>muito. Muito conhecido em Paris e nas universidades alemãs, esteve</p><p>também, mui provavelmente, na Inglaterra. Esteve, naturalmente, em</p><p>Oxford e em Londres, e já se disse até que pisamos as pegadas dele e dos</p><p>seus companheiros dominicanos ao descermos pelo rio até à estação</p><p>ferroviária que ainda conserva o nome de Blackfriars.1 A verdade, porém,</p><p>diz respeito tanto às viagens do seu espírito como às do corpo.</p><p>Estudou a literatura até dos adversários do Cristianismo, com muito mais</p><p>cuidado e imparcialidade do que era comum então. Buscou, em verdade,</p><p>compreender o aristotelismo árabe dos muçulmanos, e escreveu um tratado</p><p>altamente humano e sensato sobre o problema do tratamento dos judeus.</p><p>Sentiu-se sempre inclinado a considerar todas as coisas por dentro, e teve</p><p>sorte, sem dúvida, por ter nascido dentro do alto sistema estatal e político</p><p>do seu tempo. Talvez se possa inferir da seguinte passagem da sua historia o</p><p>que ele pensava a respeito destas duas coisas.</p><p>Santo Tomás poderia muito bem ser considerado o homem internacional,</p><p>para adotarmos o título de um livro moderno. Mas quase nem é preciso</p><p>lembrar que viveu numa era internacional, num mundo que era</p><p>internacional no sentido de que nenhum livro ou nenhum homem moderno</p><p>pode sugerir. Se a memória não me falha, o candidato moderno a homem</p><p>internacional foi Cobden, que foi um homem nacional quase anormalmente,</p><p>estritamente nacional, muito bom homem, mas que podemos imaginar</p><p>apenas a mover-se entre Midhurst e Manchester. Possuía uma política</p><p>internacional e entregava-se às viagens internacionais; mas, se continuou a</p><p>ser uma pessoa nacional, foi por continuar a ser pessoa normal, quer dizer,</p><p>normal no século XIX.</p><p>No século XIII, todavia, não era assim. Então um homem de influência</p><p>internacional, como Cobden, podia ser também quase de nacionalidade</p><p>internacional. Os nomes de nações, de cidades, de lugares de origem não</p><p>significavam essa profunda divisão própria do mundo moderno. Tomás de</p><p>Aquino, quando estudante, tinha a alcunha de Boi da Sicília, conquanto a</p><p>sua terra natal fosse perto de Nápoles. Isto porém não impediu que a cidade</p><p>de Paris o considerasse simples e firmemente parisiense, por ter sido uma</p><p>das glórias da Sorbonne, que se propôs sepultar-lhe os ossos após a sua</p><p>morte.</p><p>Tomemos um contraste mais evidente com os tempos modernos. Considere-</p><p>se o que se entende, na linguagem moderna, por professor alemao, e,</p><p>depois, imagine-se que o maior de todos os professores alemães, Alberto</p><p>Magno,2 foi uma das glórias da Universidade de Paris; e foi em Paris que</p><p>Santo Tomás de Aquino o defendeu. Pense-se no professor alemão</p><p>moderno, famoso em toda a Europa pela popularidade alcançada ensinando</p><p>em Paris.</p><p>Assim, se houve guerra entre a Cristandade, foi uma guerra internacional,</p><p>no sentido especial em que falamos de paz internacional; não uma guerra</p><p>entre duas nações, mas entre dois internacionalismos; entre dois Estados</p><p>mundiais: a Igreja Católica e o Santo Império Romano. A crise política da</p><p>Cristandade afetou a vida de Tomás de Aquino, logo de início, com um</p><p>grave desastre, e, posteriormente, de diversas maneiras. Tinha ela muitos</p><p>elementos: as cruzadas; o rescaldo do pessimismo albigense, sobre o qual</p><p>São Domingos triunfara pelos argumentos e Simão de Monforte pelas</p><p>armas; a experiência de uma Inquisição que nascera desta crise, e muitas</p><p>outras coisas.</p><p>Falando contudo de modo geral, é o período do grande duelo entre os papas</p><p>e os imperadores, isto é, os imperadores alemães da casa de Hohenstaufen,</p><p>que se intitulavam a si próprios sacros imperadores romanos. Não obstante,</p><p>o período particular da vida de Tomás de Aquino foi totalmente obscurecido</p><p>por um imperador singular, mais italiano do que alemão, o brilhante</p><p>Frederico II, chamado a "admiração do mundo". Diga-se de passagem que o</p><p>latim era a língua mais viva deste tempo, e muitas vezes se sente certa</p><p>fraqueza na tradução necessária. Parece-me ter lido algures que a palavra</p><p>utilizada era mais expressiva do que "admiração do mundo", e que o seu</p><p>título medieval era stupor mundi, que é mais propriamente o "assombro do</p><p>mundo".</p><p>Algo de semelhante hã de observar-se mais tarde a respeito da linguagem</p><p>filosófica, e da imperfeição de traduzir uma palavra como ens por ser. Mas</p><p>por ora o parêntese tem outra utilidade, porque se pode muito bem dizer que</p><p>Frederico efetivamente assombrou o mundo, que havia algo de atordoante e</p><p>de incompreensível nos golpes que desferiu na religião, como o golpe com</p><p>que quase dá início à biografia de Santo Tomas de Aquino. Também lhe</p><p>podemos chamar</p><p>estupefaciente, no sentido de que o seu próprio brilho tem</p><p>tornado bem estúpidos alguns dos seus admiradores modernos.</p><p>Porque Frederico II é a primeira figura, muito feroz e ruinosa, que passa a</p><p>cavalo pelo cenário do nascimento e da infância do seu primo, cenário de</p><p>luta acirrada e de incêndios. E permita-se-nos abrir um parêntese com o seu</p><p>nome, por duas razões particulares; antes de tudo porque a sua reputação</p><p>romanesca, até entre historiadores modernos, disfarça e em parte oculta o</p><p>fundo verdadeiro do quadro da época; depois, porque a tradição em foco</p><p>envolve diretamente toda a condição de Santo Tomás de Aquino. A opinião</p><p>do século XIX, tão estranhamente julgada ainda hoje a opiniào moderna por</p><p>muitos modernos, com respeito a um homem como Frederico II foi muito</p><p>bem resumida por um vitoriano genuíno, creio que Macaulay: Frederico foi</p><p>"estadista numa época de cruzados, filósofo numa era de monges". Note-se</p><p>que a antítese implica a suposição de que um cruzado não pode ser</p><p>facilmente estadista, e de que um monge não pode ser facilmente filósofo.</p><p>Para tomarmos, todavia, apenas este exemplo especial, fácil seria apontar</p><p>que bastam somente os casos de dois homens famosos no tempo de</p><p>Frederico II para destruir a suposição e a antítese. São Luís, apesar de</p><p>cruzado e até de cruzado infeliz, foi em verdade estadista mais feliz que</p><p>Frederico II. Pela sua política prática, popularizou, solidificou e santificou o</p><p>mais poderoso governo da Europa, a ordem e a concentração da monarquia</p><p>francesa, a única dinastia que constantemente ganhou força durante 500</p><p>anos, até às glórias do gratid siècle, ao passo que Frederico caiu perante o</p><p>papado, as repúblicas e uma ampla coligação de padres e de povos.</p><p>O Santo Império Romano, que ele quis fundar, era antes um ideal, no</p><p>sentido de sonho; nunca chegou, certamente, a ser um fato como o sólido</p><p>Estado que os estadistas franceses fundaram. Ou, tomando outro exemplo</p><p>da geração imediata, um dos estadistas mais estritamente práticos da</p><p>história, o nosso Eduardo I, também foi cruzado.</p><p>A outra metade da antítese é ainda mais falsa, e aqui até mais a propósito.</p><p>Frederico II não foi um filósofo na era dos monges, mas um sujeito que</p><p>balbuciava filosofia na era do monge Tomás de Aquino. Era, sem dúvida,</p><p>indivíduo inteligente e até brilhante, mas se realmente deixou quaisquer</p><p>notas sobre a natureza do ser e do vir-a-ser, ou do sentido preciso em que as</p><p>realidades podem referir-se à Realidade, não penso que tais notas estejam</p><p>agora a excitar a curiosidade dos calouros de Oxford ou dos literatos de</p><p>Paris, nem, muito menos, a dos pequenos grupos de tomistas que já</p><p>chegaram até Nova York e Chicago. Não é faltar ao respeito devido ao</p><p>imperador dizer que, com certeza, ele não foi filósofo no sentido em que</p><p>Tomás de Aquino o foi, e menos ainda filósofo tão grande, tão universal ou</p><p>tão permanente. E Tomás de Aquino viveu precisamente na era dos monges,</p><p>e exatamente no meio dos monges a que Macaulay se refere como</p><p>incapazes de produzir filosofia.</p><p>Não é preciso insistir nas causas deste preconceito vitoriano, que alguns</p><p>ainda julgam tão avançado, e que surgiu principalmente de uma noção</p><p>estreita ou isolada: que nenhum homem poderia naturalmente construir o</p><p>melhor dos mundos modernos se seguisse o principal movimento do mundo</p><p>medieval. Estes vitorianos pensavam que só os hereges tinham auxiliado a</p><p>humanidade: só o homem que quase fez naufragar a civilização medieval</p><p>podia servir para erguer a civilização moderna. Daqui nasceram muitas e</p><p>muitas fábulas cômicas, como a de que as catedrais devem de ter sido</p><p>edificadas por uma sociedade secreta de pedreiros-livres, ou a de que o</p><p>poema de Dante deve de ser um criptograma referente às esperanças</p><p>políticas de Garibaldi.3Mas pela sua própria natureza a generalização não é</p><p>provável, e não é verdadeira de fato. Este período medieval foi antes,</p><p>especialmente, o período de pensamento comunal ou corporativo, e, em</p><p>tantos assuntos, verdadeiramente mais vasto do que o pensamento</p><p>individualista moderno.</p><p>Pode-se provar isto rapidamente com o simples fato de como se emprega a</p><p>palavra "estadista". Para um homem da época de Macaulay, estadista queria</p><p>sempre dizer: homem que defende os interesses nacionais mais estreitos do</p><p>seu próprio Estado contra outros Estados, como Richelieu defendeu os da</p><p>França, ou Chatham os da Inglaterra, ou Bismarck os da Prússia. Mas se um</p><p>homem quisesse realmente defender todos estes Estados, combiná-los a</p><p>todos, fazer deles uma irmandade viva para resistir a qualquer perigo</p><p>externo, como contra os milhões de mongóis — então esse pobre diabo não</p><p>poderia, evidentemente, considerar-se em verdade um estadista. Seria</p><p>apenas um cruzado.</p><p>Assim, não haveria injustiça em dizer que Frederico II foi cruzado, embora</p><p>fosse antes um anticruzado. Ele foi, sem dúvida, um estadista internacional.</p><p>Realmente constituiu um tipo particular, a que podemos chamar soldado</p><p>internacional. O soldado internacional é sempre muito odiado pelos</p><p>internacionalistas. Odiaram Carlos Magno, Carlos V e quantos tentaram</p><p>criar o Estado mundial, que eles reclamam dia e noite aos gritos. Mas</p><p>Frederico é mais duvidoso, e tem-se duvidado menos dele. Consideravam-</p><p>no a cabeça do Santo Império Romano, e acusavam-no de querer ser a</p><p>cabeça de um autêntico império romano não-santo. Mas, ainda que ele fosse</p><p>o Anticristo, seria ainda um testemunho da unidade da Cristandade.</p><p>Naquela época havia, porém, uma qualidade estranha, que, sendo</p><p>internacional, era igualmente interna e íntima. A guerra, no amplo sentido</p><p>moderno, é possível não por haver mais homens que discordam, mas por</p><p>haver mais que concordam. Sob as coerções tipicamente modernas, como a</p><p>educação obrigatória e o serviço militar obrigatório, há áreas pacíficas tão</p><p>grandes, que todos podem concordar em chegar à guerra. Naquela época os</p><p>homens discordavam até acerca da guerra, e a paz podia surgir em qualquer</p><p>lugar. A paz interrompia-se com contendas, e as contendas com perdoes. A</p><p>individualidade hesitava como quem entra e sai de um labirinto; os</p><p>extremos espirituais estavam separados entre si por muralhas, numa única</p><p>cidade pequena e amuralhada; e, assim, vemos a grande alma de Dante</p><p>dividida, espécie de chama fendida, amando e odiando a sua própria cidade.</p><p>Esta complexidade individual é intensamente marcada na historia particular</p><p>que temos de contar aqui, em esboço muito geral. Se alguém quiser saber o</p><p>que significa dizer que a ação foi mais individual e realmente incalculável,</p><p>pode bem fixar algumas das fases da história da grande casa feudal de</p><p>Aquino, a qual tinha o seu castelo perto de Nápoles. No pequeno incidente</p><p>que se vai contar agora, notaremos cinco ou seis fases desta espécie.</p><p>Landolfo de Aquino, decidido guerreiro feudal, típico da sua época, seguiu</p><p>de armadura e a cavalo atrás das bandeiras imperiais, e atacou um mosteiro,</p><p>porque o imperador considerava o mosteiro fortaleza do Papa, seu inimigo.</p><p>Mais tarde, veremos o mesmo senhor feudal mandar o próprio filho para o</p><p>mesmo mosteiro, naturalmente por conselho amigável do mesmo Papa.</p><p>Ainda mais tarde, outro dos seus filhos, inteiramente por conta própria, se</p><p>revolta contra o imperador e marcha enquadrado nos exércitos do Papa,</p><p>pelo que será executado pelo imperador, com prontidão e rapidez. Quem</p><p>nos dera saber mais a respeito do irmão de Tomás de Aquino, o qual</p><p>arriscou a vida e a perdeu para defender a causa do Papa, causa que era, em</p><p>todos os seus elementos humanos essenciais, a causa do povo. Talvez não</p><p>fosse santo, mas deve de ter possuído algumas das qualidades do mártir.</p><p>Entretanto, dois outros irmãos também ardorosos e ativos, aparentemente ao</p><p>serviço do imperador que lhes matara o terceiro irmão, conseguiram raptar</p><p>outro irmão por não concordarem com a simpatia dele pelos novos</p><p>movimentos sociais religiosos. Tal é o enredo em que vivia esta distinta</p><p>família medieval. Não era uma guerra de nações, mas uma grande questão</p><p>de família.</p><p>Nada obstante, a razão para nos determos aqui na posição do imperador</p><p>Frederico, como tipo do seu tempo pela</p><p>sua cultura, pela sua violência, pelo</p><p>seu interesse pela filosofia, e pelas suas disputas com a religião, não está</p><p>simplesmente relacionada com estas coisas. Talvez seja ele aqui a primeira</p><p>figura que atravessa o palco, porque uma das suas próprias ações típicas</p><p>precipitou a primeira açao ou obstinada inação que principiou as aventuras</p><p>pessoais de Tomás de Aquino neste mundo. A história também serve para</p><p>ilustrar a teia extraordinária em que uma família como a do conde de</p><p>Aquino se encontrou envolvida, estando simultaneamente tão próxima da</p><p>Igreja e em tão acirrada luta com ela.</p><p>Porque Frederico II, no decurso daquelas notáveis manobras militares e</p><p>políticas, que iam desde a queima dos hereges até à aliança com os</p><p>sarracenos, se apossou, como aguia rapace (e a águia imperial era bem</p><p>rapace), de um grande e rico mosteiro, a abadia beneditina de Monte</p><p>Cassino; assaltou-o e saqueou.</p><p>A algumas milhas do mosteiro de Monte Cassino, havia um grande</p><p>penhasco ou rochedo, ereto como pilar dos Apeninos, coroado por um</p><p>castelo de nome Rocha Seca (Roccasseca), e era ele o ninho de águias em</p><p>que as aguietas do ramo Aquino da família imperial aprendiam a voar. Ali</p><p>vivia o conde Landolfo de Aquino, pai de Tomás de Aquino e de outros sete</p><p>filhos. A família, sem dúvida, seguia-o na vida militar, à moda feudal, e, ao</p><p>que parece, algo teve que ver com a destruição do mosteiro. Mas era</p><p>característico da teia do tempo o conde Landolfo ter pensado, mais tarde,</p><p>que seria antes boa tática e delicado pôr ali o filho Tomás como abade do</p><p>mosteiro, o que constituiria graciosa desculpa para com a Igreja, e também,</p><p>segundo se depreende, a solução de uma dificuldade familiar.</p><p>Porque havia muito descobrira o conde Landolfo que nada se podia fazer do</p><p>seu sétimo filho, Tomás, senão um abade ou coisa parecida. Nascido em</p><p>1227,4 desde criança mostrara misteriosa relutância em vir a ser uma</p><p>aguieta rapace, ou até em interessar-se pela arte da altanaria, pelos torneios</p><p>ou por quaisquer empresas de cavalaria. Era um rapaz alto, pesado e</p><p>sossegado, extraordinariamente calado, abrindo raras vezes a boca, ou mais</p><p>precisamente só para perguntar, de súbito e de modo inesperado, ao mestre:</p><p>—Que é Deus?</p><p>Não sabemos qual fosse a resposta, mas é provável que ele continuasse a</p><p>procurá-la incansavelmente dentro de si mesmo. O único lugar próprio para</p><p>uma pessoa desta espécie era a Igreja, e presumivelmente o claustro; quanto</p><p>a isso não havia dificuldade particular. Era muitíssimo fácil, para um</p><p>homem da posição do conde Landolfo, conseguir de qualquer mosteiro que</p><p>lhe recebesse o filho, e, neste caso particular, pensou ser boa idéia que fosse</p><p>ali recebido em alguma dignidade oficial, própria da sua elevada categoria</p><p>social. Tudo portanto se dispôs suavemente para Tomás de Aquino vir a ser</p><p>monge, o que parece ter sido o seu desejo, e cedo ou tarde tornar-se o abade</p><p>de Monte Cassino. Mas foi então que ocorreu o caso curioso.</p><p>Até onde podemos penetrar os fatos obscuros e discutíveis, parece que o</p><p>jovem Tomás de Aquino entrou um dia no castelo do pai e, com toda a</p><p>calma, anunciou que se fizera frade mendicante da nova ordem fundada</p><p>pelo espanhol Domingos, algo assim como se o primogênito do cavaleiro</p><p>chegasse a casa e informasse estouvadamente à família que se tinha casado</p><p>com uma cigana, ou como se o herdeiro de um duque fory5 afirmasse que,</p><p>no dia seguinte, tomaria parte numa marcha organizada pelos comunistas</p><p>contra a fome. Por isso, como já observamos, podemos bem avaliar o</p><p>abismo entre o monacato antigo e o novo, e como foi o terremoto das novas</p><p>ordens franciscana e dominicana.</p><p>Tomás parecia querer ser monge; abriram-se-lhe silenciosamente as portas,</p><p>e, por assim dizer, estavam preparadas as longas avenidas da abadia, a</p><p>própria alfombra, para o levar até ao trono de abade mitrado. Disse que</p><p>queria ser frade, e a família atirou-se a ele como animais ferozes. Os irmãos</p><p>correram a persegui-lo pelas estradas, quase lhe arrancaram o hábito do</p><p>corpo, e finalmente o encerraram numa torre como se fosse um louco.</p><p>Não é muito fácil seguir o curso desta furiosa questão familiar nem como</p><p>ela acabou por se desfazer de encontro à tenacidade do jovem frade.</p><p>Segundo alguns depoimentos, a desaprovação da mãe foi de curta duração,</p><p>passando-se ela para o lado do filho; mas não foram tão-só os parentes que</p><p>se moveram hostilmente contra ele. Pode-se dizer que a classe governante</p><p>central da Europa, em parte constituída pela família, se encontrava em</p><p>efervescência por causa do lamentável jovem lamentável; até ao Papa</p><p>pediram uma intervenção cautelosa, e propuseram, uma vez, que se</p><p>permitisse a Tomas usar o hábito dominicano e, assim mesmo, exercer as</p><p>funções de abade no mosteiro beneditino. A muitos isto parecia hábil</p><p>transigência, mas não se recomendava ao rígido espírito medieval de Tomás</p><p>de Aquino, o qual declarou asperamente que queria ser dominicano na</p><p>ordem dominicana e não num baile de máscaras, sendo deixada então de</p><p>lado, ao que parece, a proposta diplomática.</p><p>Tomas de Aquino queria ser frade. Este fato espantava os contemporâneos,</p><p>e ate em nós desperta interesse, porque tal desejo, limitado literal e</p><p>estritamente a esta asserção, foi a única coisa prática a que a sua vontade</p><p>esteve presa fortemente, com obstinação inquebrantável, até à morte. Ele</p><p>não queria ser abade, não queria ser monge, não queria sequer ser prior ou</p><p>superior na sua própria comunidade; não queria ser frade proeminente ou</p><p>importante — queria ser simples frade. É como se Napoleão insistisse em</p><p>permanecer simples soldado a vida toda.</p><p>Naquele indivíduo forte, sossegado, culto e um tanto acadêmico, havia algo</p><p>ainda não satisfeito antes de fazer-se mendicante por meio de proclamação</p><p>autorizada e nomeação oficial. E isto é tanto mais interessante quanto ele,</p><p>cumprindo mil vezes mais que o seu dever, não foi inteiramente</p><p>mendicante, nem parecia ser um bom mendicante. Nada tinha do</p><p>vagabundo nativo, como haviam tido os seus grandes precursores. Não</p><p>nascera com nada de menestrel vagamundo, como São Francisco, nem de</p><p>missionário errante, como Sao Domingos. Mas insistia em pôr-se sob</p><p>ordens militares, para fazer tais coisas por vontade de outrem, caso</p><p>necessário.</p><p>Podemos compará-lo a algum dos aristocratas mais magnânimos que se</p><p>alistaram nos exércitos revolucionários, ou a alguns dos melhores poetas e</p><p>eruditos que se alistaram voluntariamente como simples soldados na</p><p>Grande Guerra. Algo da coragem e da firmeza de Domingos e de Francisco</p><p>lhe desafiara o profundo senso de justiça. E, ao mesmo tempo que</p><p>continuava a ser pessoa muito razoável e até diplomática, nunca deixou que</p><p>se abalasse a férrea imobilidade da decisão tomada na mocidade, nem o</p><p>puderam afastar da alta e nobre ambição de ocupar o mais baixo dos</p><p>lugares.</p><p>O primeiro efeito da sua decisão, como já vimos, foi muito mais</p><p>estimulante e até surpreendente. O geral dos dominicanos, sob cujas ordens</p><p>estava Tomás, provavelmente conhecia bem as tentativas diplomáticas para</p><p>o desalojar, e as dificuldades mundanas de lhes resistir. O expediente de que</p><p>se valeu foi retirar de vez da Itália o noviço, ordenando-lhe a partida para</p><p>Paris junto com alguns frades.</p><p>Houve algo de profético nesta primeira viagem do mestre das nações,</p><p>porque em verdade Paris estava destinado a ser, de certo modo, o termo da</p><p>sua jornada espiritual, dado ser ali que ele iria defender os frades e</p><p>simultaneamente desafiar os antagonistas de Aristóteles. Mas esta sua</p><p>primeira viagem a Paris estava fadada a interromper-se dentro em muito</p><p>pouco. Os frades tinham chegado a uma curva da estrada, ao pé de uma</p><p>fonte, um pouco ao norte de Roma, quando foram alcançados por uma</p><p>cavalgada louca de captores, que saltaram sobre Tomás como ladrões de</p><p>estrada, sendo, porém, de fato, os seus irmãos, desnecessariamente</p><p>alvoroçados.</p><p>Tinha muitos irmãos, mas talvez só dois tenham participado nesta aventura.</p><p>Entre os irmãos era ele o sétimo, e os partidários do controle da natalidade</p><p>talvez lamentem que este filósofo tenha vindo aumentar,</p><p>desnecessariamente, a nobre linhagem dos</p><p>celerados que o raptaram. Aquilo</p><p>era um caso muito estranho. Há algo de singular e de pitoresco na idéia de</p><p>raptar um frade mendicante, a que se poderia chamar, de certa maneira, um</p><p>abade fugitivo. Há um complexo cômico e trágico nos motivos e propósitos</p><p>daqueles três estranhos parentes. Há uma espécie de contradições cristãs no</p><p>contraste entre a ilusão febril da importância das coisas, sempre</p><p>característica dos homens chamados práticos, e a pertinácia, muito mais</p><p>prática, dos homens chamados teoricos.</p><p>Então cambaleavam ou se arrastavam aqueles estranhos irmãos pelo seu</p><p>caminho trágico, como agentes de polícia a levar um criminoso; sucede,</p><p>todavia, simplesmente, que os criminosos é que procediam a prisão. As suas</p><p>figuras aparecem assim durante um momento no horizonte da história;</p><p>irmãos tão sinistros como nenhuns outros desde Caim e Abel. Porque tal</p><p>estranho ultraje na grande família de Aquino tem, em verdade, aspecto</p><p>simbólico, por representativo de algo que para sempre fará da Idade Media</p><p>um mistério e um aturdimento, capaz de interpretações vivamente</p><p>contrastantes, como as trevas e a luz. Porque em dois daqueles homens</p><p>rugia, ou melhor, raivava um orgulho selvagem de sangue e de fidalguia,</p><p>embora fossem príncipes da sociedade mais requintada da época, orgulho</p><p>que parecia mais próprio de tribo a dançar em torno do totem. Por então</p><p>tinham esquecido tudo exceto o nome de família, a qual é sempre algo mais</p><p>reduzido do que uma tribo, e muito mais reduzida do que uma nação.</p><p>E a terceira figura daquelas três, nascida da mesma mae e talvez</p><p>parecidíssima com as demais no rosto e aspecto, tinha um conceito de</p><p>fraternidade muito mais amplo que muitas democracias modernas, por não</p><p>ser nacional mas internacional, uma fé na misericórdia e na modéstia muito</p><p>mais profunda que a simples suavidade de maneiras do mundo moderno, e</p><p>um energico juramento de pobreza, que atualmente se consideraria</p><p>tresloucado exagero de revolta contra a plutocracia e o orgulho.</p><p>Do mesmo castelo italiano saíram dois selvagens e um sábio, ou um santo</p><p>muito mais pacífico que muitos sábios modernos. É este o duplo aspecto</p><p>que confunde infindáveis controvérsias. É isto o que constitui o enigma da</p><p>Idade Media, a qual não era uma idade — mas duas. Consideramos os</p><p>costumes de alguns homens, e julgamos ser a idade da pedra; consideramos</p><p>o espírito de outros homens, e cremos que poderiam viver na idade de ouro,</p><p>na Utopia mais moderna. Sempre houve homens bons e homens maus, mas</p><p>naquela época os bons, que eram sábios, viviam com os maus, que eram</p><p>simples. Viviam na mesma família, criavam-se no mesmo lar, e entravam</p><p>em luta, como lutaram os irmãos de Aquino ao arrastar o novo frade pela</p><p>estrada e encerra-lo no castelo, no alto do monte.</p><p>Quando os parentes procuraram arrancar-lhe o hábito de frade, parece tê-los</p><p>rechaçado com a energia aguerrida dos antepassados, e diriamos até que</p><p>com êxito, pois a tentativa foi deixada de lado. Aceitou a prisão com a</p><p>calma costumada, e naturalmente não se importou muito que o deixassem</p><p>filosofar no interior de uma masmorra ou de uma cela. No modo como a</p><p>historia é contada, há, em verdade, algo a sugerir-nos que se deixou</p><p>transportar à prisão como estátua de pedra inerte. Só uma das histórias que</p><p>nos contam do seu cativeiro no-lo mostra efetivamente encolerizado, e mais</p><p>encolerizado do que nunca estivera ou havia de estar depois. Este episódio</p><p>impressionou a imaginação dos contemporâneos por motivos mais</p><p>importantes, mas tem interesse também psicológico e moral.</p><p>Por uma vez na vida, a primeira e a última, Tomás de Aquino saiu</p><p>realmente hors de lui a dominar uma tempestade fora da torre da</p><p>inteligência e da contemplação em que comumente vivia. Aconteceu isso</p><p>quando os irmãos lhe introduziram na cela uma cortesã tentadora e pintada,</p><p>com o intuito de lhe darem a surpresa de uma tentação súbita, ou de pelo</p><p>menos o envolverem num escândalo.</p><p>A sua cólera justificava-se até por padrões morais menos rigorosos que os</p><p>dele, porque a baixeza era pior ainda que a grosseria do expediente. Até por</p><p>motivos de menor importância não ignorava que os irmãos sabiam, e bem o</p><p>sabiam, que ele não ignorava ser uma injúria à sua honra o suporem sequer</p><p>que, ante tão vil provocação, pudesse romper os seus propósitos; e ele tinha</p><p>a apoiá-lo um sentimento muito mais terrível: toda a enorme ambição de</p><p>humildade que era, para ele, a voz de Deus, vinda do Céu. Neste unico</p><p>lampejo, vemos esta grande figura tão pesada em atitude ativa ou até</p><p>agitada; porque realmente ficou muito agitado. Saltou da cadeira, arrancou</p><p>um tição ao lume, e, com ele na mão, brandiu-o como a uma espada de</p><p>fogo.</p><p>A mulher, como era natural, gritou e fugiu, ou seja, fez exatamente o que</p><p>ele pretendia, mas é curioso imaginar o que ela deve de ter pensado daquele</p><p>louco de estatura monstruosa, agitando chamas, e ameaçando,</p><p>aparentemente, atear fogo à casa. Tudo o que ele fez, porém, foi correr atrás</p><p>dela até à porta, batê-la e trancá-la. Depois, com uma espécie de impulso de</p><p>ritual violento, cravou o tição incandescente na porta, traçando nela, a</p><p>negro, um grande sinal da cruz. Em seguida tornou a atirar o tição ao lume,</p><p>e sentou-se naquela cadeira de estudioso sedentário, essa cátedra de</p><p>filosofia, esse secreto trono de contemplação de que nunca mais voltaria a</p><p>erguer-se.</p><p>Notas</p><p>1 Literalmente, "Frades Negros".</p><p>2 O dominicano Santo Alberto Magno (1193-1280) era natural de</p><p>Lawengen, na Suábia. Lecionou nas universidades de Paris e de Colônia, e,</p><p>além de ter escrito diversos comentários sobre a Sagrada Escritura, foi no</p><p>seu tempo um dos maiores cultores das ciências. Acusam-no falsamente de</p><p>dedicar-se à magia e ao ocultismo, e não são da sua autoria os livros acerca</p><p>desses assuntos que correm com o seu nome. Deixou obra vastas ma, e é</p><p>conhecido como "Doutor Universal". Foi beatificado em 1622 e canonizado</p><p>em 1931, ano em que também foi declarado Doutor da Igreja.</p><p>3 Célebre aventureiro italiano (1807-1882) que, além de tomar parte na</p><p>insurreição republicana do Rio Grande contra o governo brasileiro em 1839,</p><p>pelejou pela unificação da Itália, primeiro contra a Áustria, e depois contra</p><p>o reino das Duas Sicílias (Expedição dos Mil) e o papado. Em 1870-1871</p><p>pos a sua espada no serviço da França.</p><p>4 Hoje se admite, geralmente, que foi 1225 o ano do seu nascimento.</p><p>5 Partido político organizado no reinado de Carlos II. Propugnava a</p><p>doutrina do direito divino dos reis, opondo-se às reformas liberais</p><p>introduzidas na Inglaterra em 1688, e tinha por adversários os Whigs.</p><p>III. O BATISMO DE</p><p>ARISTÓTELES</p><p>ALBERTO DE SUÁBIA, acertadamente denominado o Grande, foi o</p><p>fundador da ciência moderna. Mais que ninguém, foi ele quem contribuiu</p><p>para preparar o processo que transformou o alquimista no químico, e o</p><p>astrólogo no astrônomo. E estranho que, tendo sido no seu tempo, por este</p><p>aspecto, quase o primeiro astrônomo, figure agora na lenda quase como o</p><p>último astrólogo. Os historiadores sérios vão deixando de lado a idéia</p><p>absurda de a Igreja medieval ter perseguido todos os homens de ciência</p><p>como a feiticeiros, o que está muito próximo de ser o contrário da verdade.</p><p>Se o mundo algumas vezes os perseguiu como a feiticeiros, outras vezes, de</p><p>maneira oposta, os seguiu por feiticeiros. Só a Igreja os considerava, real e</p><p>unicamente, homens de ciência. Muitos clérigos investigadores foram</p><p>acusados de magia por fabricar lentes e espelhos; acusavam-nos os seus</p><p>vizinhos rudes e rústicos, e naturalmente teriam sido acusados igualmente</p><p>se os vizinhos fossem pagãos, puritanos ou adventistas do sétimo dia. Mas</p><p>até neste caso eles teriam mais sorte em ser julgados pelo papado do que se</p><p>fossem simplesmente linchados pelos leigos.</p><p>O pontífice católico não denunciou Alberto Magno como feiticeiro. Foram</p><p>as tribos semipagãs do Norte que o admiraram como tal. São as tribos</p><p>semipagãs das atuais cidades industriais, os leitores dos livros de sonhos,</p><p>dos folhetos dos charlatães e dos profetas jornalistas, que ainda o admiram</p><p>como astrólogo. Admite-se que o conjunto da sua ciência conhecida,</p><p>de</p><p>fatos estritamente materiais e mecânicos, era espantoso para um homem do</p><p>seu tempo. E verdade que, em muitos outros casos, havia certa limitação</p><p>aos dados da ciência medieval, mas por certo isto nada tinha que ver com a</p><p>religião medieval. Porque os dados de Aristóteles e da grande civilização</p><p>grega foram, em diversos aspectos, ainda mais limitados. Mas, com efeito,</p><p>não é tanto uma questão de acesso aos fatos como de atitude para com eles.</p><p>A maior parte dos escolásticos, se fossem informados, pelos únicos</p><p>informadores que tinham, de que o licorne possuía tão-somente um chifre,</p><p>ou de que a salamandra era capaz de continuar viva no fogo, utilizariam</p><p>isso mais como ilustração de lógica do que como incidente da vida. O que</p><p>em verdade diziam era:</p><p>— Se um licorne tem apenas um chifre, dois licomes têm tantos como uma</p><p>só vaca.</p><p>E isto não é menos verdade ainda que o licorne exista somente na fábula.</p><p>Mas nos tempos medievais de Alberto, assim como nos tempos antigos de</p><p>Aristóteles, apareceu algo como a idéia de dar ênfase à pergunta:</p><p>— Mas tem em verdade o licorne um único chifre, e a salamandra um fogo</p><p>em vez de um fogão?</p><p>É indubitável que, quando os limites sociais e geográficos da vida medieval</p><p>começaram a permitir-lhes buscar salamandras no fogo e licornes no</p><p>deserto, tiveram de modificar muitas das suas idéias científicas, fato que os</p><p>expõe precisamente ao escárnio de uma geração de cientistas que acaba de</p><p>descobrir que Newton é um despropósito, que o espaço é limitado, e que</p><p>não existe nada disso a que se convencionou chamar átomo.</p><p>Este grande alemão, conhecido no seu período de mais celebridade como</p><p>professor em Paris, fora anteriormente, e por algum tempo, professor em</p><p>Colônia. Nesta bela cidade romana reuniam-se à sua volta, aos milhares, os</p><p>amantes daquela vida extraordinária: a vida acadêmica da Idade Media.</p><p>Chegavam em grandes grupos chamados nações, e isto ilustra muito bem a</p><p>diferença entre o nacionalismo medieval e o moderno. Porque, conquanto</p><p>sucedesse haver, certa manhã, uma contenda entre os estudantes espanhóis e</p><p>os escoceses, ou entre os flamengos e os franceses, e reluzirem as espadas</p><p>ou voarem as pedras por motivos puramente patrióticos, o fato é que todos</p><p>tinham vindo à mesma escola para aprender a mesma filosofia. E, apesar de</p><p>isto não impedir o deflagrar de uma desordem, podia influir muito no seu</p><p>acabar.</p><p>Ante estes grupos variegados de homens, vindos dos confins da terra, o pai</p><p>da ciência desenrolava o rolo de pergaminho da sua estranha ciência: do sol,</p><p>dos cometas, dos peixes e das aves. Era um aristotélico a desenvolver, por</p><p>assim dizer, a única indicação experimental de Aristóteles, e nisto era</p><p>inteiramente original.</p><p>Importava-se pouco com ser original a respeito das matérias mais profundas</p><p>do homem e da moral, as quais se contentava em tratar com um</p><p>aristotelismo modesto e cristianizado; de certa forma, estava pronto até a</p><p>transigir com as conclusões meramente metafísicas dos nominalistas e dos</p><p>realistas.1 Nunca teria sustentado sozinho a grande batalha que se</p><p>avizinhava por uma Cristandade equilibrada e mais humana. Mas, quando</p><p>ela chegou, pôs-se inteiramente ao seu lado. Chamaram-lhe o Doutor</p><p>Universal, pela extensão dos seus conhecimentos; em verdade, porém, era</p><p>especialista. A lenda popular nunca é inteiramente falsa; se o homem de</p><p>ciência é feiticeiro, ele era-o. E o homem de ciência foi sempre muito mais</p><p>feiticeiro do que o padre, dado que prefere "dominar os elementos" a</p><p>submeter-se ao espírito, que é mais elementar do que os elementos.</p><p>Entre os estudantes que se amontoavam nas salas de aula, havia um que,</p><p>notório pela estatura elevada e pela corpulência, não conseguia ou não</p><p>queria ser notável por outra coisa. Mantinha-se tão calado nos debates, que</p><p>os companheiros começaram a dar à palavra "mudez" a mesma significação</p><p>que os americanos lhe dão, pois na América a palavra é sinônima de</p><p>"estupidez". Claro está que, daí a pouco, até a estatura imponente começou</p><p>a ter só a imensidade ignominiosa do rapaz grande que fica para trás, na</p><p>classe inferior. Chamaram-lhe o Boi Mudo. Tornou-se objeto não só de</p><p>zombaria, mas também de piedade. Um estudante bondoso condoeu-se</p><p>tanto dele, que buscou ajudá-lo com explicações, ensinando-lhe os</p><p>elementos da lógica, como se se tratasse de lhe ensinar o alfabeto num livro</p><p>de primeiras letras. O jovem bruto agradeceu-lhe com delicadeza tocante, e</p><p>o filantropo continuou com êxito, até chegar a um ponto quanto ao qual ele</p><p>próprio sentiu dúvidas, e de fato errou. Em face disto, o bruto, com toda a</p><p>aparência de embaraço e perturbação, apresentou uma solução possível, que</p><p>em verdade era a solução exata. O benévolo estudante ficou boquiaberto,</p><p>como se estivesse a olhar para um monstro, ao ver o que se lhe afigurava</p><p>uma misteriosa massa de ignorância e inteligência. E começaram a correr</p><p>pelas escolas estranhos rumores.</p><p>Certo religioso regular, um dos biógrafos de Tomas de Aquino (escusado</p><p>era dizê-lo, do bruto em foco), disse que no fim daquela entrevista "o seu</p><p>amor da verdade lhe levou de vencida a humildade", o que, compreendido</p><p>devidamente, era a exata verdade. Mas no sentido secundário, psicológico e</p><p>social, não descreve todo o turbilhão de elementos que se revolviam no</p><p>interior daquela enorme cabeça. Todas as anedotas a respeito de Tomás de</p><p>Aquino, que são relativamente poucas, têm uma vivacidade muito própria,</p><p>se visualizamos o tipo de homem, e este é um exemplo excelente. Entre</p><p>aqueles elementos havia a dificuldade que a inteligência generalizadora</p><p>sente em adaptar-se, de súbito, a um pormenor insignificante da vida</p><p>cotidiana.</p><p>Havia a reserva das pessoas efetivamente bem-educadas, que não buscam</p><p>exibir-se; havia talvez até algo daquela estranha paralisia e tentação de</p><p>preferir os próprios erros às longas explicações, o que levou Sir James</p><p>Barrie,2 em divertida historieta, a consentir que lhe dessem um irmão</p><p>Henrique, que ele nunca tivera, em vez de ter o incomodo de dizer uma</p><p>palavra que corrigisse o engano.</p><p>Estes elementos atuaram, sem dúvida, juntamente com a extraordinária</p><p>humildade daquele homem extraordinário; mas outro elemento esteve junto</p><p>com o seu indiscutível "amor da verdade", para pôr fim a explicações</p><p>erradas. E elemento que nunca deve omitir-se no caráter de Santo Tomás.</p><p>Por muito sonhador, distraído ou mergulhado em teorias que estivesse,</p><p>possuía ele muitíssimo senso comum, ou bom senso, e, quando chegou o</p><p>tempo não só de ser ensinado mas de o ensinarem mal, assomou dentro dele</p><p>algo que disse com acrimonia:</p><p>— Oh! isso tem de acabar!</p><p>Parece provável que tenha sido o próprio Alberto Magno, professor e sábio</p><p>mestre de todos estes jovens, quem primeiro suspeitou nele qualquer coisa</p><p>de semelhante. Dava a Tomás pequenos trabalhos que fazer, já de anotação,</p><p>já de exposição, e persuadiu-o a deixar de lado o acanhamento, de modo</p><p>que tomasse parte em pelo menos um debate.</p><p>Alberto era um velho muito esperto, e estudara os hábitos de outros animais</p><p>além da salamandra e do licome. Estudara muitos exemplares da mais</p><p>monstruosa das monstruosidades: a que se chama homem. Conhecia os</p><p>sinais e características do tipo de homem que é, com modos inocentes, um</p><p>monstro dentre os homens. Era por demais bom mestre para não saber que o</p><p>bruto nem sempre o é. Achou graça quando soube que este bruto fora</p><p>alcunhado de Boi Mudo pelos condiscípulos. Tudo isso é muito natural,</p><p>mas não apaga o sabor do quê de estranho e de simbólico quanto à ênfase</p><p>extraordinária com que por fim falou. Porque Tomás de Aquino era ainda</p><p>geralmente conhecido apenas como aluno obscuro e obstinadamente calado,</p><p>dentre muitos outros mais brilhantes e prometedores, quando o grande</p><p>Alberto quebrou o silêncio com a sua famosa apóstrofe e profecia:</p><p>— Chamais-lhe o Boi Mudo. Pois vos digo que este boi mudo há de mugir</p><p>tão alto, que os seus mugidos encherão o mundo.</p><p>A Alberto Magno, como a Aristóteles, a Santo Agostinho ou a quaisquer</p><p>outros mestres antigos, Santo Tomás estava sempre pronto a dar graças por</p><p>todos os seus conhecimentos, com a humildade do coração.</p><p>Não obstante, o</p><p>seu pensamento constituía um progresso em relação ao de Alberto e dos</p><p>demais aristotélicos, exatamente como o era em relação ao de Agostinho e</p><p>dos agostinianos.</p><p>Alberto chamara a atenção para o estudo direto dos fatos naturais, ainda que</p><p>por meio de fábulas como a do licorne e a da salamandra; mas o monstro</p><p>chamado homem aguardava uma vivissecção muito mais sutil e flexível. Os</p><p>dois homens, no entanto, tornaram-se amigos íntimos, e a sua amizade</p><p>conta muito nesta luta central da Idade Média. Porque, como se verá, a</p><p>reabilitação de Aristóteles foi uma revolução quase tão revolucionária como</p><p>a exaltação de São Domingos e de Sào Francisco, e Santo Tomás estava</p><p>destinado a desempenhar em ambas importante papel.</p><p>Como já sabemos, a família Aquino deixara de parte por fim a perseguição</p><p>vingativa do seu patinho feio, o qual, como frade negro, talvez devesse</p><p>chamar-se a sua ovelha negra. Contam-se algumas historias pitorescas desta</p><p>fuga. A ovelha negra, em geral, vale-se por fim das questões entre as</p><p>ovelhas brancas da família. Começam por questioná-lo, mas terminam por</p><p>questionar-se umas às outras. Ha um relato algo confuso a respeito dos</p><p>membros da família que se passaram para o seu lado, quando ainda estava</p><p>preso na torre. Mas é fato ter sido ele muito amigo das irmãs, não sendo por</p><p>isso, provavelmente, fábula o terem-lhe elas preparado a fuga.</p><p>Segundo o relato, amarraram ao alto da torre uma corda presa a grande</p><p>cesto, e deve de ter sido um cesto muitíssimo grande, se é verdade que foi</p><p>assim que desceu da prisão e fugiu para o mundo. Seja como for, ele fugiu</p><p>por energia, externa ou interna. Mas era pura energia individual. O mundo</p><p>andava ainda atrás dos frades e perseguia-os, exatamente como quando</p><p>fugiam pela estrada de Roma. Tomás de Aquino teve a boa sorte de se</p><p>abrigar à sombra de um extraordinário e grande frade, cuja respeitabilidade</p><p>era difícil questionar, o sábio e ortodoxo Alberto. Mas logo até ele e os seus</p><p>foram perturbados pela tempestade crescente que ameaçava os novos</p><p>movimentos na Igreja.</p><p>Alberto foi chamado a Paris para receber o grau de doutor, mas todos</p><p>sabiam que cada movimento naquele jogo tinha o caráter de um desafio.</p><p>Fez no entanto um pedido, um só, o qual naturalmente pareceu excêntrico:</p><p>poder levar o Boi Mudo. Partiram os dois, como frades vulgares ou</p><p>vagabundos religiosos; dormiram pelos mosteiros que encontraram no</p><p>caminho, e por fim no mosteiro de Santiago em Paris, onde Tomás</p><p>encontrou outro frade, que também lhe foi outro amigo.</p><p>Talvez por estarem sob o perigo da tormenta que ameaçava todos os frades,</p><p>o franciscano Boaventura contraiu tão grande amizade com o dominicano</p><p>Tomás, que os contemporâneos os compararam a Davi e a Jônatas.3 O caso</p><p>tem certo interesse, porque seria muito fácil representar o franciscano e o</p><p>dominicano a simplesmente contradizer-se um ao outro. O franciscano pode</p><p>representar-se como pai dos místicos, e estes podem representar-se como</p><p>homens que afirmam ser o fim supremo ou a alegria final da alma antes</p><p>sensaçao que pensamento. O mote dos místicos foi sempre "prova e verás".</p><p>Ora, Santo Tomás começou também por dizer "prova e verás", mas disse-o</p><p>dos primeiros conhecimentos rudimentares do animal humano.</p><p>Bem se poderia afirmar que o franciscano considera o gosto em último</p><p>lugar, e que o dominicano o considera em primeiro. Poder-se-ia dizer que o</p><p>tomista começa com algo concreto, como o gosto de uma maçã, e depois</p><p>deduz as leis divinas da vida da inteligência, ao passo que o místico esgota</p><p>primeiro a inteligência, e diz por fim que o sentimento de Deus é</p><p>semelhante ao gosto de uma maçã. Um inimigo comum poderia dizer que</p><p>Santo Tomás começa por provar o fruto, precisamente onde termina São</p><p>Boaventura. Mas ambos têm razão. Se assim o posso dizer, no terreno da</p><p>Verdade é privilegio das pessoas que se contradizem, cada qual no seu</p><p>mundo, terem ambas razão. O místico tem razão ao dizer que entre Deus e o</p><p>homem há uma união que é essencialmente uma história de amor, modelo e</p><p>tipo de todas as histórias de amor. O dominicano intelectual tem igualmente</p><p>razão ao dizer que o entendimento se acha como em casa no mais alto dos</p><p>céus, e que a ânsia da verdade pode suplantar e até destruir todos os apetites</p><p>mesquinhos do homem.</p><p>A esta altura, Tomás e Boa ventura sentiam dentro de si a coragem de</p><p>considerar que tinham razão, animados pelo quase universal consenso em</p><p>que eram tidos, de não tê-la nenhum deles. Estava-se então numa época de</p><p>profunda perturbação, e, como é comum em tempos semelhantes, os que</p><p>buscavam endireitar as coisas eram acusados mui vigorosamente de as</p><p>entortar. Ninguém sabia quem levaria a melhor naquela confusão geral: se o</p><p>islã, se os maniqueus do Sul,4 se o imperador falso e escaminho, se os</p><p>cruzados, se as velhas ordens da Cristandade.</p><p>Mas certos espíritos tinham um pressentimento muito nítido de que tudo se</p><p>estava desfazendo, e de que as recentes tentativas de remédio, nos seus</p><p>excessos, faziam parte da mesma dissolução social. Havia duas coisas que</p><p>esses homens consideravam indícios de ruína: uma, pelo lado do Oriente,</p><p>era a terrível aparição de Aristóteles, espécie de deus grego adorado por</p><p>crentes árabes; a outra, a nova liberdade dos frades. Era a abertura do</p><p>mosteiro e a dispersão de religiosos mundo afora.</p><p>O sentimento geral de que eles vagueavam como fagulhas de uma fogueira</p><p>até então contida, a fogueira do excepcional amor de Deus; o sentimento de</p><p>que, com os conselhos de perfeição, ir iam perturbar grandemente os</p><p>espíritos simples; de que acabariam por tornar-se demagogos; tudo isso por</p><p>fim se concretizou no famoso livro Os Perigos dos Últimos Tempos, da</p><p>autoria de um furioso Guilherme de Santo Amor; este livro apelava para o</p><p>rei de França e para o Papa, a fim de que mandassem fazer um inquérito.</p><p>Tomás e Boaven-tura, os dois discordantes amigos, com os seus respectivos</p><p>universos opostos, foram ambos a Roma para defender a liberdade dos</p><p>frades.</p><p>Tomás de Aquino defendeu o grande voto da sua juventude, defendendo a</p><p>liberdade e os pobres, e esse foi naturalmente o ponto culminante da sua</p><p>carreira, geralmente triunfante, porque então fez retroceder todo o</p><p>movimento retrógrado do momento. Autores responsáveis têm dito que, se</p><p>não fosse ele, todo o grande movimento dos frades teria sido destruído.</p><p>Com esta vitória, o estudante acanhado e inexperiente torna-se, finalmente,</p><p>personagem histórico e homem público. Depois disso, passou a identificar-</p><p>se com as ordens mendicantes. Pode-se por certo dizer que Santo Tomás</p><p>alcançou renome com a defesa das ordens mendicantes contra os que</p><p>tinham, a respeito delas, a mesma opinião que a família dos Aquinos. Há no</p><p>entanto diferença entre o homem que se torna célebre e o que realmente faz</p><p>uma obra. A obra de Tomás de Aquino não chegara ainda; mas</p><p>observadores menos argutos do que ele já podiam vê-la aproximar-se.</p><p>De maneira geral, o perigo vinha dos ortodoxos, ou daqueles que</p><p>identificavam mui facilmente a rotina com a ortodoxia, e pretendiam obter</p><p>uma condenação final e definitiva de Aristóteles. Com esse objetivo já</p><p>houvera condenações precipitadas e quase às cegas, publicadas aqui e ali, e</p><p>aumentava cada dia a pressão dos agostinianos mais rígidos sobre o Papa e</p><p>os principais juizes.</p><p>O perigo aparecera naturalmente, por causa da circunstância histórica e</p><p>geográfica da proximidade dos islâmicos e da cultura de Bizâncio. Os</p><p>árabes tinham-se apossado dos manuscritos gregos antes que os latinos, que</p><p>eram os herdeiros legítimos dos gregos. E os muçulmanos, conquanto não</p><p>fossem muito ortodoxos no interior do islã, estavam transformando</p><p>Aristóteles num filósofo panteísta, ainda menos aceitável aos cristãos</p><p>ortodoxos. Esta segunda controvérsia requer, porém, explicação mais</p><p>completa do que a primeira. Como se acentuou na introdução, muita gente</p><p>de hoje sabe bem que São Francisco foi, ao menos, um libertador que</p><p>angariou maiores simpatias; que, fosse qual fosse a sua opinião positiva a</p><p>respeito do medievalismo, os frades constituíam, de certo e relativo modo,</p><p>um movimento popular,</p><p>a tender para uma fraternidade e uma liberdade</p><p>maiores, e uma investigação algo mais completa mostraria que aquilo era</p><p>tão certo com respeito aos dominicanos como com respeito aos</p><p>franciscanos. Não é natural que hoje se levante alguém a defender os abades</p><p>feudais, ou os monges fixos e estacionários, contra inovadores tao atrevidos</p><p>como São Francisco e Santo Tomás. Por isso nos permitimos resumir, em</p><p>poucas palavras, o grande debate acerca dos frades, ainda que no seu tempo</p><p>ele tenha abalado toda a Cristandade.</p><p>O grande debate acerca de Aristóteles, todavia, apresenta maior dificuldade,</p><p>porque há concepções modernas errôneas a esse respeito, as quais podemos</p><p>examinar... com um pouco mais de trabalho.</p><p>Talvez possamos afirmar que, a rigor, a história não registra nada disso que</p><p>chamamos revolução. Os fatos são sempre uma contra-revolução. Os</p><p>homens andaram sempre a revoltar-se contra os últimos rebeldes, ou até a</p><p>arrepender-se da última rebelião, o que se poderia ver nas modas</p><p>contemporâneas mais despretensiosas, se o espírito moderno não houvesse</p><p>adquirido o hábito de considerar o rebelde mais recente e o revoltado de</p><p>todas as épocas ao mesmo tempo. A moça moderna que usa batom e bebe</p><p>coquetéis é tão rebelde contra a mulher do século XIX partidária dos</p><p>direitos da mulher, com os seus colarinhos altos e engomados e a sua</p><p>rigorosa temperança, como esta foi rebelde contra a mulher vitoriana das</p><p>valsas lânguidas e do álbum cheio de citações de Byron, ou como esta</p><p>igualmente fora rebelde contra a mãe puritana, para quem a valsa era uma</p><p>orgia selvagem e Byron o bolchevista do seu tempo. Enquadremos até a</p><p>mãe puritana na história, e veremos que ela representa uma revolta contra a</p><p>relaxação da igreja inglesa da época dos cavaleiros,5 a qual fora de início</p><p>uma revolta contra a civilização católica, e esta, por sua vez, uma revolta</p><p>contra a civilização pagã.</p><p>Ninguém, a não ser um louco, pode pretender que todas essas coisas foram</p><p>progresso, pois que claramente elas seguiram ora um caminho, ora outro.</p><p>Seja contudo qual for a verdadeira, uma coisa é certamente falsa: o costume</p><p>moderno de as considerar unicamente do ângulo moderno. Porque isso é ver</p><p>somente o final da história; revoltam-se contra o que não conhecem por ter</p><p>surgido não sabem quando; fixando-se unicamente no final, ignoram-lhe o</p><p>princípio, e por conseguinte o próprio ser. A diferença entre os fatos menos</p><p>importantes e os mais importantes é que nestes há, em verdade, um impulso</p><p>humano tão forte, que os homens saem deles como quem se acha num</p><p>mundo novo, e esta mesma novidade lhes permite prosseguir por muito</p><p>tempo, e geralmente demasiado tempo. É por tais coisas começarem por</p><p>uma vigorosa revolta que o impulso intelectual dura o tempo suficiente para</p><p>lhes dar o aspecto de se sobreviverem. Excelente exemplo disto é a</p><p>autêntica história da ressurreição e do abandono de Aristóteles. No fim do</p><p>Medievo o aristotelismo envelhecera. Raramente uma novidade tão</p><p>palpitante e tão apreciada se pode tornar tão cediça como esta.</p><p>Quando os modernos, correndo a mais negra cortina de obscurantismo que</p><p>jamais obscureceu a história, decidiram que nada tinha importância maior</p><p>antes do Renascimento e da Reforma, começaram a sua carreira moderna</p><p>caindo de imediato num erro enorme: o erro com respeito ao platonismo.</p><p>Encontraram, a vaguear pelas cortes dos orgulhosos príncipes do século</p><p>XVI (o ponto mais remoto da história a que se permitiam chegar), certos</p><p>artistas e sábios anticlericais que, dando mostras de fastio por Aristóteles, se</p><p>supunha favoreciam secretamente Platão. Os modernos, profundamente</p><p>ignorantes de toda a história medieval, caíram logo na armadilha. Pensaram</p><p>que Aristóteles era uma antiqualha ou rude tirania, vinda da profunda</p><p>escuridão da idade das trevas, e que Platão era um prazer pagão</p><p>inteiramente novo, até então não provado por cristãos. O Padre Knox</p><p>demonstrou em que surpreendente estado de inocência se encontra o</p><p>espírito do Sr. H. L. Mencken, por exemplo, a este respeito. Com efeito, a</p><p>história é exatamente ao contrário. Se havia algo que fosse a antiga</p><p>ortodoxia, era o platonismo. O aristotelismo é que era precisamente a</p><p>inovação. E o orientador desta inovação foi o homem que este livro tem por</p><p>objeto.</p><p>A verdade é que a Igreja Católica histórica começou por ser platônica, ou</p><p>melhor, por ser até demasiado platônica. O platonismo estava naquele</p><p>mesmo ar grego dourado que respiravam os primeiros grandes teólogos</p><p>gregos. Os Padres cristãos eram muito mais neoplatônicos do que os sábios</p><p>do Renascimento, que eram unicamente neoneoplatônicos. Para Crisóstomo</p><p>ou Basílio,6era tão comum e natural pensar no Logos ou na Sabedoria,</p><p>objeto dos filósofos, como é hoje, para qualquer partidário de qualquer</p><p>religião, falar dos problemas sociais, do progresso ou da crise econômica</p><p>mundial. Santo Agostinho seguiu uma evolução mental costumada, ao ser</p><p>platônico antes de ser maniqueu, e maniqueu antes de ser cristão. E foi</p><p>exatamente nesta última associação que se viu o primeiro leve indício do</p><p>perigo de ser demasiado platônico.</p><p>Desde o Renascimento até ao século XIX, os modernos tiveram um amor</p><p>quase monstruoso aos antigos. Ao considerarem a vida medieval, não</p><p>podiam considerar os cristãos senão como discípulos dos pagãos: de Platão,</p><p>nas idéias; de Aristóteles, na razão e na ciência. Não era assim. Em certos</p><p>aspectos, até do ângulo mais monotonamente moderno, o catolicismo estava</p><p>muitos séculos adiantado tanto ao platonismo como ao aristotelismo.</p><p>Podemos observá-lo ainda, por exemplo, na impertinente tenacidade da</p><p>Astrologia. Neste assunto, os filósofos estavam todos do lado da</p><p>superstição, enquanto os santos e todas as pessoas semelhantemente</p><p>supersticiosas eram contra a superstição. Mas até os grandes santos tiveram</p><p>dificuldade em se desvencilhar dela. Sempre fizeram duas objeções os que</p><p>suspeitavam do aristotelismo de Tomás de Aquino; consideradas em</p><p>conjunto, parecem-nos hoje muitíssimo estranhas e cômicas. Uma era a</p><p>opinião de que as estrelas são seres pessoais que nos governam a vida; a</p><p>outra, a grande teoria genérica de que os homens têm uma inteligência</p><p>coletiva, opinião evidentemente oposta à individualidade do espírito</p><p>humano imortal. Ora, ambas essas teorias têm curso entre os modernos, tão</p><p>forte é ainda a tirania dos antigos. A astrologia espalha-se pelos jornais de</p><p>domingo, e a outra doutrina revestiu a sua centésima forma naquilo a que se</p><p>chama comunismo, ou espírito da colmeia.</p><p>Antes de passar adiante, esta posição não deve interpretar-se mal. Quando</p><p>exaltamos o valor prático da revolução aristotélica e a originalidade de</p><p>Tomás de Aquino em chefiá-la, não queremos dizer que os filósofos</p><p>escolásticos anteriores a ele não fossem filósofos, ou não fossem altamente</p><p>filosóficos, ou não houvessem tido contacto com a filosofia da Antiguidade.</p><p>Se alguma vez houve profunda ruptura na história filosófica, não foi antes</p><p>de Santo Tomás, ou no início da história medieval, mas sim depois de Santo</p><p>Tomás e no início da história moderna. A grande tradição intelectual que</p><p>chegou até nós, desde Pitágoras e Platão, nunca se interrompeu ou perdeu</p><p>com ninharias como o saque de Roma, o triunfo de Átila ou todas as</p><p>invasões bárbaras da idade das trevas. Tal não se deu senão após a</p><p>introdução da imprensa, o descobrimento da América, a fundação da</p><p>Sociedade Real7e todo o progresso do Renascimento e do mundo moderno.</p><p>Foi então, se o foi em alguma altura, que se perdeu ou rompeu o longo fio,</p><p>fino e delicado, que vinha desde a Antiguidade remota, o fio desta rara</p><p>mania dos homens — o hábito de pensar.</p><p>Isto se prova pelo fato de se ter de em grande parte esperar o século XVIII</p><p>ou o fim do século XVII para começar a encontrar, nos livros impressos</p><p>deste último período, ao menos o nome dos novos "filósofos", que eram, se</p><p>tanto, nova espécie de filósofos. Mas a era de declínio do Império, a idade</p><p>das trevas e a alta Idade Média, conquanto demasiado tentadas a desprezar</p><p>o que se opunha à filosofia platônica, nunca desprezaram a filosofia.</p><p>Neste sentido, Santo Tomás,</p><p>como tantos outros homens muito originais,</p><p>tem antigos e ilustres predecessores. Constantemente ele se refere às</p><p>autoridades anteriores, de Santo Agostinho a Santo Anselmo,8 e de Santo</p><p>Anselmo a Santo Alberto, e, ainda quando difere desses Doutores, defere a</p><p>eles.</p><p>Certo anglicano muito culto disse-me um dia, não sem leve ressaibo de</p><p>ironia:</p><p>— Não consigo compreender por que é que todo o mundo fala como se</p><p>Santo Tomás de Aquino fosse o princípio da filosofia escolástica.</p><p>Compreendería se dissessem que era o fim dela.</p><p>Fosse o comentário intencionalmente acre ou não, podemos estar certos de</p><p>que a resposta de Santo Tomás teria sido perfeitamente urbana. E em</p><p>verdade seria fácil responder, com certa complacência, que na sua</p><p>linguagem tomista o fim de uma coisa não significa a sua destruição, mas a</p><p>sua perfeição. Nenhum tomista se queixará se o tomismo for o fim da nossa</p><p>filosofia, no mesmo sentido em que Deus é o fim da nossa existência.</p><p>Porque isto não quer dizer que deixaremos de existir, mas sim que nos</p><p>tornaremos tão perenes como a philosophia perennis. Pondo porém de parte</p><p>esta pretensão, é importante lembrar que o meu ilustre interlocutor tinha</p><p>perfeitamente razão em admitir dinastias inteiras de filósofos doutrinários,</p><p>anteriores a Tomás de Aquino, que prepararam a época da grande inovação</p><p>dos aristotélicos. Efetivamente esta inovação não foi algo inesperado ou</p><p>imprevisto.</p><p>Um criterioso escritor da Revista de Dublin, há não muito tempo, notou que</p><p>em certos aspectos toda a natureza da metafísica progredira imensamente de</p><p>Aristóteles a Tomás de Aquino. E não é falta de respeito ao gênio primitivo</p><p>e imenso do Estagirita dizer que, em certos aspectos, ele foi em verdade</p><p>apenas um rude e tosco fundador de filosofia, comparado a algumas das</p><p>sutilezas subseqüentes do Medievo; e que o grego deixou algumas grandes</p><p>indicações que os escolásticos desenvolveram, com os mais delicados e</p><p>belos matizes. Pode ser exagero, mas há nisto alguma verdade.</p><p>Como quer que seja, é fato que na filosofia aristotélica, sem falar agora na</p><p>platônica, havia já uma tradição de profunda e inteligente interpretação. Se</p><p>posteriormente esta delicadeza degenerou em pura sutileza, nem por isso</p><p>deixou de ser mui delicada sutileza, e trabalho que requeria instrumentos</p><p>mui científicos.</p><p>O que tornou a revolução aristotélica profundamente revolucionária foi o</p><p>fato de ser religiosa. E é este um ponto tão fundamental, que julguei</p><p>conveniente apresentá-lo nas primeiras páginas deste livro — que a revolta</p><p>foi em grande parte uma revolta dos elementos mais cristãos da</p><p>Cristandade. Santo Tomás, exatamente como São Francisco, sentiu no</p><p>subconsciente que a massa da sua gente ia deixando a sólida doutrina e</p><p>disciplina católica, gasta lentamente durante mais de mil anos de rotina, e</p><p>que a fé precisava ser apresentada a uma nova luz e vista por ângulo</p><p>diverso. Não tinha outro motivo senão o de desejar torná-la popular para a</p><p>salvação do povo. De maneira geral, é verdade que por algum tempo ela</p><p>fora demasiado platônica para ser popular. Precisava ele de algo como o</p><p>toque sagaz e familiar de Aristóteles, para transformá-la de novo em</p><p>religião de senso comum. Tanto o motivo como o método se manifestam na</p><p>controvérsia de Tomás de Aquino com os agostinianos.</p><p>Antes de tudo, devemos recordar que a influência grega continuou a se</p><p>fazer sentir desde o Império Grego, ou ao menos desde o mesmo centro do</p><p>Império Romano, situado agora na cidade grega de Bizâncio e já não em</p><p>Roma. Tal influência era bizantina em todos os sentidos, no bom e no mau.</p><p>Como a arte bizantina, era severa, matemática e um tanto terrível; como a</p><p>etiqueta bizantina, era oriental e ligeiramente decadente. Devemos ao saber</p><p>do Sr. C. Dawson muita luz sobre o modo como Bizâncio lentamente se</p><p>cristalizou numa espécie de teocracia asiática, mais semelhante à do</p><p>sagrado imperador da China. Mas até as pessoas incultas podem ver a</p><p>diferença no modo como o Cristianismo oriental simplificava tudo: no</p><p>modo, por exemplo, como reduzia as imagens a ícones que melhor se</p><p>poderiam chamar figurinos do que verdadeiros quadros com variedade e</p><p>arte; e isso fez decidida e destrutiva guerra às estátuas.</p><p>Vemos, assim, esta coisa estranha: o Oriente era a terra da cruz, e o</p><p>Ocidente a terra do crucifixo. Os gregos estavam-se desumanizando por um</p><p>símbolo radiante, enquanto os godos se iam humanizando por um</p><p>instrumento de tortura. Só o Ocidente fez quadros realistas da maior de</p><p>todas as histórias originárias do Oriente.</p><p>Eis por que o elemento grego na teologia cristã tendeu cada vez mais a se</p><p>converter numa espécie de platonismo seco, algo feito de diagramas e de</p><p>abstrações, todas elas muitíssimo nobres, sem dúvida, mas não</p><p>suficientemente tocadas por esta coisa imensa que, por definição, é quase o</p><p>contrário das abstrações: a Encarnação. O seu Logos era o Verbo, mas não o</p><p>Verbo feito carne. Por vias muito sutis, que não raro escapavam à definição</p><p>doutrinai, este espírito se espalhou pelo mundo da Cristandade, a partir de</p><p>onde o sagrado imperador se sentava debaixo de mosaicos dourados; e a</p><p>civilização do Império Romano nivelou-se na degradação moral, que</p><p>preparou uma espécie de caminho suave para Maome. Sim, porque o islã</p><p>foi a realização final dos iconoclastas.9 Muito antes disto, porém, já havia</p><p>essa tendência a tornar a cruz meramente decorativa como o crescente,</p><p>transformá-la num símbolo como a chave grega ou a roda de Buda. Mas há</p><p>algo de passivo em tal mundo de símbolos; a chave grega não abre porta</p><p>nenhuma, enquanto a roda de Buda gira sempre mas não avança nunca.</p><p>Em parte graças a essas influências negativas, em parte graças a um</p><p>ascetismo necessário e nobre, que buscava rivalizar com o padrão tremendo</p><p>dos mártires, as primitivas idades cristãs tinham sido demasiado</p><p>anticorporeas e demasiado próximas da perigosa linha do misticismo</p><p>maniqueu. Havia no entanto muito menos perigo em os santos macerarem o</p><p>corpo do que em os sábios o desprezarem. Admitida toda a grandeza da</p><p>contribuição de Agostinho para o Cristianismo, havia, de certo modo,</p><p>perigo mais sutil no Agostinho platônico que no Agostinho maniqueu. Dela</p><p>proveio uma mentalidade que, inconscientemente, levou à heresia de dividir</p><p>a substância da Trindade. Pensava-se que Deus era, de modo demasiado</p><p>exclusivo, um Espírito que purifica ou um Salvador que redime, e muito</p><p>pouco um Criador que cria. Eis por que homens como Tomás de Aquino</p><p>entendiam dever corrigir Platão pelo recurso a Aristóteles, este estagirita</p><p>que considerou as coisas como as encontrou, exatamente como Tomás de</p><p>Aquino as aceitou conforme Deus as fez. Em toda a obra de Santo Tomás, o</p><p>mundo de criação positiva está perpetuamente presente. Humanamente</p><p>falando, foi ele quem salvou o elemento humano na teologia cristã, embora</p><p>utilizasse, por conveniência, certos elementos da filosofia pagã. Mas, como</p><p>eu já disse, o elemento humano é também cristão.</p><p>O pânico pelo perigo aristotélico, o qual passara pelos elevados postos da</p><p>Igreja, foi provavelmente um vento seco do deserto. Em verdade, vinha</p><p>mais carregado do medo de Maome que do medo de Aristóteles, o que não</p><p>deixa de ser irônico, porque com efeito havia muito mais dificuldade em</p><p>reconciliar Aristóteles com Maomé do que em reconciliá-lo com Cristo. O</p><p>islã é essencialmente um credo simples para homens simples, e em verdade</p><p>não se pode converter jamais o panteísmo num credo simples, porque é</p><p>demasiado abstrato e a um só tempo demasiado complicado. Há pessoas</p><p>simples, crentes num Deus pessoal, e há ateus de espírito ainda mais</p><p>simples do que os crentes num Deus pessoal. Mas poucos podem, com toda</p><p>a simplicidade, aceitar por deus um universo sem Deus. O muçulmano,</p><p>comparado com o cristão, ao mesmo tempo que tinha um Deus talvez</p><p>menos humano, tinha um Deus mais pessoal, se tal é possível.</p><p>A vontade de Alá era verdadeiramente vontade, e não podia transformar-se</p><p>em corrente ou tendência. Em todo esse aspecto cósmico e abstrato, o</p><p>católico era mais acomodatício do que o muçulmano — até certo ponto. O</p><p>católico podia admitir, ao menos,</p><p>um tempo em que a imagem</p><p>de Nossa Senhora não se erga muito concretamente no meu espírito [...].</p><p>Quando recordava a Igreja Católica, recordava-a a Ela; quando tentava</p><p>esquecer a Igreja Católica, tentava esquecê-la a Ela".</p><p>Chesterton ficaria profundamente marcado pela qualidade da sua infância,</p><p>enriquecida pelo talento artístico de seu pai, um apaixonado do Medievo e</p><p>da cultura gótica, que se dedicou a formar os filhos com invenções suas de</p><p>todo o tipo: teatros de marionete, iluminuras medievais, estampas antigas...</p><p>Toda a obra de Chesterton está embebida daquela sã imaginação, da</p><p>delicadeza e da sensibilidade do seu lar; tanto, que voltaria repetidas vezes</p><p>ao longo da vida "ao guinhol da infância", especialmente a um de motivo</p><p>medieval, cujas figuras, feitas também por seu pai, representaram</p><p>simbolicamente os princípios e os nobres sentimentos que defendería</p><p>depois: assim, no palco infantil coexistiam um Castelo, uma Dama, um</p><p>Inimigo e um Herói; alegoria também de uma batalha espiritual em que</p><p>Chesterton entrou ainda muito jovem.</p><p>Ademais, é notável em Chesterton a atitude sempre presente em sua vida,</p><p>como naquele teatro, do humilde "segundo plano", de espectador, num</p><p>estado de "espanto perpétuo" diante do universo, espanto que o permitiria</p><p>chegar à Verdade.</p><p>A harmonia e originalidade de seus pais foram também terreno propício</p><p>para o menino que anos depois seria um lúcido defensor da família, com</p><p>aquela maneira tão sua de mergulhar nos tesouros imensos e no verdadeiro</p><p>colorido do lar. (Assim o faria em obras como O Que Está Mal no Mundo,</p><p>A Superstição do Divórcio, Hereges, O Homem que Sabia Viver, Brave New</p><p>Family, traduzida para o espanhol como El amor o la Fuerza dei Sino).</p><p>Depois de fazer os seus estudos secundários no colégio de São Paulo de</p><p>Hammersmith (aí ganharia um prêmio literário prestigioso com um poema</p><p>sobre São Francisco Xavier), Chesterton ingressa numa escola de arte, a</p><p>Slade School de Londres (1893), onde começa a carreira de pintura, carreira</p><p>que ele deixa inconclusa para dedicar-se totalmente ao jornalismo e à</p><p>literatura. Mas toda a sua obra está repleta da plasticidade do pintor, e por</p><p>todas as suas páginas encontramos as pinceladas de imponentes descrições,</p><p>de um homem admirado pelo mosaico do universo e suas cores.</p><p>Por estes anos Chesterton é um jovem magro, pensativo, lento nas suas</p><p>maneiras, mas de uma velocidade mental inesperada. Assim o demonstraria</p><p>nas típicas sociedades e clubes ingleses que começa a freqüentar nos</p><p>alvores do Novecentos, onde já se afazia notar pelas idéias diametralmente</p><p>opostas às que predominavam então. E Chesterton será desses poucos</p><p>escritores cristãos que impuseram um verdadeiro respeito intelectual,</p><p>porque seu catolicismo — então em gestação — sua capacidade para</p><p>discutir as filosofias imperantes (pessimismo, niilismo, materialismo,</p><p>darwinismo...) vinham cheios de um talento poético e de uma inteligência</p><p>que perturbavam sempre o seu auditório e os seus leitores. Vinha</p><p>diretamente, ademais, contra todo o relativismo de pensamento. Recorda,</p><p>por exemplo, um diálogo muito representativo daqueles centros de arte:</p><p>"Uma espécie de teósofo me disse: 'O bem e o mal, a verdade e a mentira, a</p><p>loucura e a cordura são só aspectos do mesmo movimento ascendente do</p><p>Universo.' Já nessa época me ocorreu perguntar: "Supondo que não haja</p><p>diferença entre o bem e o mal, ou entre a verdade e a mentira, qual é a</p><p>diferença entre ascendente e descendente?'."</p><p>Matrimônio e primeiras obras</p><p>Em um famoso bairro de intelectuais — Bedford Park — em 1896,</p><p>Chesterton enamora-se de Francês Blogg, a mulher que pouco depois se</p><p>tornaria sua esposa e que estimulou admiravelmente o caudal artístico do</p><p>marido. Era uma mulher tão discreta como brilhante, e inspirou a</p><p>Chesterton belos textos sobre o amor e o matrimônio, cheios de verdadeira</p><p>delicadeza. Anglicana também, foi Francês, não obstante, quem fez</p><p>Chesterton estudar seriamente o cristianismo, além de ter contribuído com</p><p>isso para a sua conversão (conversão que levaram a termo ambos, ainda que</p><p>em momentos diversos).</p><p>A primeira obra de Chesterton é um grupo de poemas e ilustrações, com o</p><p>título de Greybeards at Play, publicada em 1900, onde já se revelaria o seu</p><p>humor tonificante e o seu desejo permanente de transmitir o gozo pela</p><p>realidade gratuita da vida. O seu segundo livro, O Cavaleiro Indômito e</p><p>outros poemas (1901), mais profundo e incisivo, chamou a atenção da</p><p>crítica. Aí publicava um dos seus mais famosos poemas: "À Criança Que</p><p>Não Nasceu".</p><p>A carreira de Chesterton se compreende bem se se considera que toda a sua</p><p>vida se dedicou a contestar o pessimismo ateu e quantas teorias se</p><p>dedicaram a olhar com frieza a existência. Pode-se dizer que o eixo de sua</p><p>obra é "esmagar" ou "golpear", como ele mesmo dizia, contra o</p><p>esquecimento de Deus. Mediante as suas primeiras obras, diz-nos, "queria</p><p>expressar, conquanto não soubesse fazê-lo, que nenhum homem sabe quão</p><p>otimista é, ainda chamando-se pessimista, porque não mediu realmente a</p><p>gratidão da sua dívida para com Aquele que o criou e lhe permitiu ser algo.</p><p>No fundo do nosso pensamento, existia uma labareda ou estalido de</p><p>surpresa ante a nossa própria existência. O objeto da vida artística e</p><p>espiritual era trazer para a superfície esta submersa aurora maravilhosa".</p><p>Certamente não é este o espírito da arte moderna, e por isso podemos falar</p><p>de uma solidão em Chesterton, solidão que ganha mérito porque ninguém,</p><p>como ele então, se encarregou de "trazer uma aurora maravilhosa", mas</p><p>sim, ao contrário, de elaborar deformações, pesadelos ou abstrações</p><p>incompreensíveis da realidade.</p><p>A pena diferente e ardente de Chesterton suscita imediatamente grande</p><p>admiração. Desde que começou a escrever no famoso Daily News, o jornal</p><p>teve a tiragem dobrada. Entre 1903 e 1908, escreve várias obras de enorme</p><p>qualidade: a biografia de um poeta vitoriano, Robert Browing (1903): um</p><p>ensaio que provocou grande polêmica, Hereges (1905), onde Chesterton</p><p>"contende amistosamente", mas sempre implacável, com Bernard Shaw,</p><p>Nietzsche, H. G. Wells, entre outros muitos pensadores e filosofias</p><p>anticatólicas. Em 1906 publica uma jóia da literatura inglesa: Vida de</p><p>Dickens, uma das mais finas e profundas interpretações do célebre escritor</p><p>(muitos anos depois escreveria outra brilhante biografia literária Robert</p><p>Louis Stevenson).</p><p>Em 1908 aparece o romance mais famoso de Chesterton: O Homem Que</p><p>Foi Quinta-feira, romance que tem a virtude de combinar com genialidade</p><p>a aventura e a filosofia. Chesterton denuncia aí, em diálogos antológicos, o</p><p>dano imenso que pode acarretar uma arte, especialmente literária,</p><p>contaminada de má filosofia, de má filosofia — em muitos casos —</p><p>talentosamente apresentada. (Que diria de Harry Potter, das obras de</p><p>Gabriel Garcia Márquez, Humberto Eco, C. J. Cela etc. etc?)</p><p>Ortodoxia</p><p>Somente em duas semanas, e quase ao mesmo tempo que O Homem Que</p><p>Foi Quinta-feira, Chesterton escrevia uma obra crucial na sua carreira; com</p><p>ela muitos se converteram ao catolicismo: Ortodoxia. Esta obra surgia pelo</p><p>"desafio" que lhe havia feito um crítico quando da publicação de Hereges,</p><p>recriminando-lhe que era muito fácil isso de discutir todas as filosofias e</p><p>todos os autores sem definir clara e terminantemente a própria. Chesterton</p><p>não se fez rogar: traçou uma incrível autobiografia de uma alma que</p><p>procurou e achou a Verdade pelos caminhos mais inesperados: "se a alguém</p><p>interessa [diz nas primeiras páginas] saber como as flores do campo ou as</p><p>palavras lidas num ônibus, os acidentes da política ou os fragores da</p><p>juventude confluíram em mim, sob determinada lei, para produzir uma</p><p>convicção de ortodoxia cristã, esse, confio eu, lerá com agrado estas</p><p>páginas". E talvez o mais espantoso de Ortodoxia seja a enorme riqueza de</p><p>dados e fatos díspares que Chesterton reúne e analisa, ao mesmo tempo com</p><p>profundíssima lucidez e profundidade afetiva, até dar com o catolicismo. O</p><p>seu método é certamente inusual, porque — diz-nos — assim como um</p><p>homem, para defender a supremacia da civilização sobre a barbárie,</p><p>que Aristóteles tinha razão acerca das</p><p>manifestações impessoais de um Deus pessoal. Donde podermos dizer, de</p><p>maneira geral, que os filósofos muçulmanos que se tornavam bons filósofos</p><p>se convertiam em maus muçulmanos. É natural, pois, que muitos bispos e</p><p>doutores receassem que os tomistas se tornassem bons filósofos e maus</p><p>cristãos. E também havia muitos, da escola estrita de Platão e Agostinho,</p><p>que negavam terminantemente fossem os tomistas bons filósofos. Entre</p><p>estas paixões muito incongruentes — o amor de Platão e o receio de</p><p>Maomé — houve um momento em que a perspectiva da cultura aristotélica</p><p>na Cristandade pareceu de fato muito sombria. Dos postos elevados</p><p>trovejaram anátemas sobre anatemas, e na fúria da perseguição, como não</p><p>raro sucede, pareceu um momento que só uma ou duas figuras</p><p>permaneciam de pé no terreno varrido pela tormenta. Ambas vestiam o</p><p>hábito preto e branco dos dominicanos: Alberto e Tomás de Aquino</p><p>mantinham-se firmes.</p><p>Nesta espécie de luta há sempre confusão, e as maiorias transformam-se em</p><p>minorias, e vice-versa, como por magia. E sempre difícil fixar a data do</p><p>retorno da maré, que parece ser uma sucessão de redemoinhos; as próprias</p><p>datas parecem sobrepor-se umas às outras e confundir a crise. Mas o ponto</p><p>crítico desde o momento em que os dois dominicanos ficaram sós até que</p><p>toda a Igreja, por fim, se alinhou a eles encontra-se talvez próximo da</p><p>ocasião em que foram, praticamente, levados ante um juiz hostil, mas não</p><p>injusto. O Bispo Tempier, de Paris, era na aparência um belo exemplar do</p><p>velho clérigo fanático, e pensava que admirar Aristóteles fosse uma</p><p>fraqueza que facilmente levava à adoração de Apoio. Por má sorte vinha a</p><p>ser, além disso, um dos velhos conservadores sociais que haviam sentido</p><p>intensamente o movimento popular dos frades pregadores. Mas era também</p><p>homem honesto, e Tomás de Aquino nunca pediu outra coisa senão dirigir-</p><p>se a homens honestos. A sua volta havia outros revolucionários</p><p>aristotélicos, mas de espécie muito mais duvidosa. Estava ali Siger, o sofista</p><p>do Brabante,10 que aprendera dos árabes todo o seu aristotelismo, e que</p><p>tinha uma engenhosa teoria acerca de como um agnóstico árabe podia ser</p><p>também cristão. Havia milhares de jovens como os que tinham aclamado</p><p>Abelardo,11 cheios do espírito juvenil do século XIII e embriagados do</p><p>vinho grego de Estagira. Contra eles, deprimente e implacável, estava o</p><p>velho partido puritano dos agostinianos, demasiado satisfeitos de poder</p><p>condenar os racionalistas Alberto e Tomás juntamente com os equívocos</p><p>metafísicos muçulmanos.</p><p>Pareceria que a vitória de Tomás era, em verdade, uma vitória pessoal. Ele</p><p>não retirou uma só das suas proposições, conquanto se diga que o bispo</p><p>conservador lhe acabou por condenar algumas, após a sua morte. De modo</p><p>geral, porém, Tomás de Aquino convenceu muitos dos seus críticos de que</p><p>era tão bom católico como eles. Houve uma série de disputas entre as</p><p>ordens religiosas em seguida a esta crise de controvérsia. Mas pode-se</p><p>talvez dizer que o fato de um homem como Tomás de Aquino ter</p><p>conseguido, ainda que parcialmente, satisfazer um homem como Tempier</p><p>punha termo à disputa essencial. O que já era familiar a poucos tornou-se</p><p>familiar a muitos: que um aristotélico podia, verdadeiramente, ser cristão.</p><p>Outro fato acompanhou a conversão geral, e assemelha-se curiosamente à</p><p>história da tradução da Bíblia e à sua suposta supressão pelos católicos. Por</p><p>trás da cena, onde o Papa era muito mais tolerante do que o bispo de Paris,</p><p>os amigos de Tomás de Aquino tinham estado a trabalhar intensamente em</p><p>nova traduçao de Aristóteles. Isso demonstrava que, em muitos aspectos, a</p><p>traduçao herética tinha sido uma tradução muito herética. Com a conclusão</p><p>final de tal obra, podemos dizer que a grande filosofia grega entrou</p><p>finalmente no patrimônio da Cristandade. O processo fora definido, algo</p><p>humoristicamente, como "o batismo de Aristóteles".</p><p>Todos temos ouvido falar da humildade do homem de ciência, de muitos</p><p>que eram genuinamente humildes, e de alguns que se sentiam orgulhosos da</p><p>sua humildade. Neste breve estudo seremos obrigados a repetir muitas</p><p>vezes que Tomás de Aquino teve realmente a humildade do homem de</p><p>ciência, como variante especial da humildade do santo. É verdade que não</p><p>contribuiu, por si próprio, com nada de concreto para a experiência ou</p><p>pormenor da ciência física. Neste ponto, pode-se dizer, até ficou atrás da</p><p>geração passada, e foi muito menos cientista experimental do que o seu</p><p>mestre Alberto Magno. Mas, apesar disso, historicamente foi grande amigo</p><p>da liberdade da ciência.</p><p>Os princípios que assentou sao talvez, se bem compreendidos, os melhores</p><p>que se podem apresentar para proteger da perseguição obscurantista a</p><p>ciência. Por exemplo: quanto às Escrituras, ele fixou primeiro o fato óbvio,</p><p>esquecido por quatro séculos de furiosa luta sectária, de que a sua</p><p>significação está muito longe de ser evidente por si própria, e de que</p><p>devemos não raro interpretá-la à luz de outras verdades. Se uma</p><p>interpretação literal é, real e claramente, contraditada por um fato óbvio,</p><p>então não podemos dizer senão que a interpretação literal há de ser falsa.</p><p>Mas o fato deve ser verdadeiramente um fato obvio. E infelizmente os</p><p>homens de ciência do século XIX estavam tão prontos a concluir depressa</p><p>que qualquer conjectura a respeito da natureza era um fato óbvio como</p><p>estavam prontos os sectários do século XVII a concluir que qualquer</p><p>conjectura acerca das Escrituras era a explicação evidente. Assim, as teorias</p><p>particulares quanto ao que devia significar a Bíblia e as teorias prematuras</p><p>quanto ao que devia significar o mundo encontraram-se em larga e acesa</p><p>controvérsia, particularmente na era vitoriana, e esta colisão grosseira de</p><p>duas formas de ignorância muito inquieta ficou conhecida como</p><p>controvérsia entre a ciência e a religião.</p><p>Mas Santo Tomás possuía a humildade científica, no sentido muito vivo e</p><p>especial de quem estava pronto a ocupar o lugar mais baixo para examinar</p><p>as coisas mais humildes. Não fez, como o faz qualquer especialista</p><p>moderno, o estudo do verme como se este fosse o mundo, mas quis começar</p><p>a estudar a realidade do mundo na realidade do verme. O seu aristotelismo</p><p>significava simplesmente que o estudo do fato mais insignificante leva ao</p><p>estudo da verdade mais elevada. Que para ele o processo fosse lógico e não</p><p>biológico, que dissesse respeito mais à filosofia do que à ciência, isto não</p><p>altera a idéia essencial: entendia que era melhor principiar pelo fundo da</p><p>escada. Mas também deu, com a sua opinião sobre o problema das</p><p>Escrituras e da ciência, e sobre outras questões, uma espécie de documento</p><p>para pioneiros mais puramente práticos do que ele. Em suma, disse que, se</p><p>eles pudessem realmente provar as suas descobertas de ordem prática, a</p><p>interpretação tradicional das Escrituras deveria ceder ante tais descobertas.</p><p>Dificilmente se poderia exprimir com maior lealdade e clareza. Se</p><p>deixassem a resolução do problema a ele e a homens como ele, nunca teria</p><p>havido controvérsia entre a ciência e a religião. Santo Tomás fez tudo o que</p><p>pôde para delimitar nitidamente os dois campos e traçar uma fronteira justa</p><p>entre eles.</p><p>Tem-se muitas vezes observado, com um sorriso, que o Cristianismo falhou,</p><p>e com isso se quer dizer que ele nunca teve aquela supremacia avassaladora,</p><p>imperial e forçada própria a todas as revoluções, que foram falhando</p><p>sucessivamente. Nunca houve nenhum momento em que se pudesse dizer</p><p>que todos os homens eram cristãos, como se pôde dizer, durante muitos</p><p>meses, que todos eram monárquicos, republicanos ou comunistas. Mas, se</p><p>historiadores sensatos quiserem entender o sentido em que o caráter cristão</p><p>triunfou, não poderiam achar caso melhor que a forte pressão moral de um</p><p>homem como Santo Tomás em apoio do racionalismo sepulto dos pagãos,</p><p>que até então não fora desenterrado senão para divertimento dos hereges.</p><p>Foi rigorosa e precisamente porque uma nova espécie de homem estava</p><p>Lucky de Oliveira</p><p>Underline</p><p>levando a investigação racional por um caminho novo que os homens</p><p>esqueceram a maldição caída sobre os templos dos demônios mortos e os</p><p>palácios dos déspotas mortos; esqueceram até a nova fúria, provinda da</p><p>Arábia, contra a qual lutavam em defesa das vidas, porque o homem que</p><p>lhes pedia voltassem ao seu juízo, ou regressassem aos seus sentidos, não</p><p>era sofista, mas santo. Aristóteles descrevera o homem magnânimo, que é</p><p>grande e que sabe que o é. Mas Aristóteles nunca teria recuperado a sua</p><p>grandeza aos olhos do mundo se não fosse o milagre que criou o mais</p><p>magnânimo dos homens: um homem que é grande, e que sabe que é</p><p>pequeno.</p><p>Há certa importância histórica no que alguns chamariam o peso do estilo</p><p>empregado. Tem isto uma curiosa impressão de sinceridade, que, como</p><p>creio, exerceu considerável efeito nos contemporâneos. Tem-se às vezes</p><p>chamado céptico ao santo. A verdade, porém, é que o toleravam como</p><p>céptico porque era manifestamente santo. Quando parecia erguer-se como</p><p>aristotélico obstinado, quase indiscernível dos hereges árabes, creio</p><p>seriamente que o que o protegia era em grande parte o prodigioso poder da</p><p>sua simplicidade, a sua bondade manifesta e o seu amor à verdade. Os que</p><p>se erguiam contra a altiva confiança dos hereges tinham de deter-se, vendo-</p><p>se obrigados a ficar de pé junto a uma espécie de gigantesca humildade</p><p>semelhante a montanha, ou talvez ao imenso vale que é o molde da</p><p>montanha. Admitindo todas as convenções medievais, podemos ver que,</p><p>com os demais inovadores, isto nem sempre foi assim. Os demais, desde</p><p>Abelardo ate Siger de Brabante, nunca perderam, no longo decurso da</p><p>história, certo ar de ostentação. Mas ninguém pôde observar, nem um só</p><p>momento, que Tomás de Aquino mostrasse ostentação. A própria</p><p>monotonia da dicção, de que alguns se queixavam, era grandemente</p><p>convincente. Ele podia ter mostrado graça e sabedoria; mas foi tão</p><p>prodigiosamente sério, que mostrou a sua sabedoria sem a sua graça.</p><p>Após o triunfo, chegou o momento do perigo. Assim acontece sempre com</p><p>as alianças, e especialmente porque Tomás de Aquino combatia em duas</p><p>frentes. O seu principal objetivo era defender a fé contra o abuso de</p><p>Aristóteles, e fê-lo ousadamente, defendendo o uso de Aristóteles. Ele sabia</p><p>perfeitamente que os exercitos de ateus e de anarquistas se encontravam na</p><p>sombra, a aplaudir-lhe a vitória aristotélica sobre o que ele mais estimava.</p><p>Não obstante, nunca foi a existência de ateus, nem de árabes, nem de</p><p>pagãos aristotélicos que alterou a extraordinária compostura controversista</p><p>de Tomas de Aquino. O verdadeiro perigo, imediato à vitória que alcançara</p><p>em favor de Aristóteles, apresentou-se com toda a vivacidade no caso</p><p>curioso de Siger de Brabante, que merece ser estudado por quem quiser</p><p>começar a compreender a história estranha da Cristandade. Caracteriza-se</p><p>por aquele fenômeno algo estranho que tem acompanhado</p><p>permanentemente a fé, apesar de não ser notado pelos seus modernos</p><p>inimigos, e de so o ser raramente pelos seus próprios amigos modernos. É o</p><p>fato simbolizado pela figura do Anticristo, espécie de Cristo duplicado, ou</p><p>pelo profundo provérbio de que o demônio é o macaco imitador de Deus. É</p><p>o fato de que a falsidade nunca e tão falsa como quando está muito próxima</p><p>da verdade. E quando o golpe chega mais perto do nervo da verdade que a</p><p>consciência cristã grita de dor. Ora, Siger de Brabante, seguindo certos</p><p>aristotélicos árabes, formulou uma teoria que muitos leitores modernos de</p><p>jornais teriam imediatamente declarado ser a mesma de Santo Tomás. Foi</p><p>isso o que, finalmente, fez erguer o santo no seu último e mais veemente</p><p>protesto.</p><p>Ele ganhara a batalha por alargar o campo da filosofia e da ciência.</p><p>Desbravara o terreno para um bom entendimento entre a fé e a investigação,</p><p>entendimento que tem sido geralmente observado entre os católicos, e</p><p>certamente nunca abandonado sem desastre. Defendera que o homem de</p><p>ciência deve continuar a explorar e a fazer experiências livremente,</p><p>enquanto não exija uma infalibilidade e finalidade que é contra os seus</p><p>próprios princípios exigir. A Igreja, por seu lado, deve continuar a expor e a</p><p>definir as coisas sobrenaturais, enquanto não exija o direito de alterar o</p><p>depósito da fé, o que é contra os seus próprios princípios exigir. Depois de</p><p>ter afirmado isto, apareceu Siger de Brabante a dizer algo de tão</p><p>horrivelmente parecido e tão horrivelmente diferente, que (como o</p><p>Anticristo) poderia ter iludido os próprios eleitos.</p><p>Siger de Brabante disse isto: teologicamente a Igreja por certo tem razão,</p><p>mas pode não tê-la cientificamente. Há duas verdades: a do mundo</p><p>sobrenatural, e a do mundo natural, que contradiz a primeira. Quando</p><p>falamos como naturalistas, podemos supor que o Cristianismo é tolice, mas</p><p>depois, quando nos lembramos de que somos cristãos, temos de admitir que</p><p>Lucky de Oliveira</p><p>Underline</p><p>o Cristianismo é verdadeiro, ainda que pareça loucura. Em outras palavras,</p><p>Siger de Brabante fendeu a cabeça humana em duas, como o golpe de que</p><p>nos fala a velha lenda guerreira, e declarou que o homem tem dois</p><p>entendimentos, devendo com um deles crer totalmente, e podendo com o</p><p>outro descrer completamente. A muitos isto pareceria pelo menos uma</p><p>parodia ao tomismo. Com efeito, era o assassínio do tomismo. Nao eram</p><p>dois modos de alcançar a mesma verdade; era um modo errôneo de</p><p>pretender que há duas verdades. E é muitíssimo interessante notar que foi</p><p>esta a ocasião única em que o Boi Mudo saltou realmente como um touro</p><p>bravo. Quando se ergueu para responder a Siger de Brahante, estava</p><p>completamente transfigurado, e o próprio estilo das suas frases, que é como</p><p>o tom da voz de um homem, alterou-se subitamente. Nunca se zangara com</p><p>nenhum dos adversários que discordavam dele; mas estes haviam tentado a</p><p>pior das traições: haviam-no levado a concordar com eles.</p><p>Os que se queixam de os teólogos estabelecerem distinções sutis,</p><p>dificilmente poderiam encontrar melhor exemplo da sua própria sem-razão.</p><p>Com efeito, entre dois cambiantes sutis pode haver contradição pura e</p><p>simples. E assim era neste caso. Santo Tomás queria que a única verdade</p><p>fosse atingida por dois caminhos, precisamente porque tinha a certeza de</p><p>haver uma só verdade. Por ser a fé a única verdade, nada do que se</p><p>descobrisse na natureza poderia vir a contradizer a fé. Por ser a fé a única</p><p>verdade, nada realmente deduzido dela poderia vir a contradizer os fatos.</p><p>Era de fato uma confiança curiosamente ousada na realidade da religião,</p><p>confiança que, apesar de pretenderem alguns negá-la, se tem justificado até</p><p>agora. Os fatos científicos, que no século XIX se supunha contradizerem a</p><p>fé, sao quase todos considerados ficções anticientíficas no século XX. Até</p><p>os materialistas abandonaram o materialismo, e os que nos prelecionaram a</p><p>respeito do determinismo em psicologia falam-nos já do indeterminismo na</p><p>matéria. Mas, fosse justa ou não, a sua confiança era acima de tudo a</p><p>confiança em que há uma só verdade, que não pode contradizer-se a si</p><p>mesma. E aqueles derradeiros inimigos se levantaram subitamente para</p><p>dizer-lhe que concordavam plenamente com ele, ao afirmarem que há duas</p><p>verdades contraditórias. A verdade, no dizer medieval, tem duas caras com</p><p>um só capuz; e aqueles sofistas de duas caras se atreviam a sugerir que era o</p><p>capuz dominicano.</p><p>Lucky de Oliveira</p><p>Underline</p><p>Por isso, na sua última batalha e pela primeira vez, lutou como se estivesse</p><p>munido de uma acha-d'armas. Nas suas palavras há um tinir metálico, que</p><p>se sente por baixo da paciência quase impessoal que manteve no debate</p><p>com tantos inimigos. "Vejam qual é a nossa refutação do erro. Não se baseia</p><p>em documentos de fé, mas nas razões e afirmações dos próprios filósofos.</p><p>Se há pois alguém que, orgulhando-se ostensivamente da sua suposta</p><p>ciência, queira atacar o que escrevemos, não o faça em nenhum canto nem</p><p>diante de crianças, impotentes para se decidir em assuntos tão difíceis.</p><p>Responda em público, se a isso se atrever. Encontrar-me-á a arrostá-lo, e</p><p>não só a minha pessoa insignificante, mas muitos outros que só querem o</p><p>estudo da verdade. Ou daremos batalha aos seus erros, ou remédio à sua</p><p>ignorância."</p><p>O Boi Mudo está agora a mugir como quem se defende, e no</p><p>entanto se mostra terrível e dominador contra toda a matilha que ladra e o</p><p>persegue. Já assinalamos por que razão, nesta polêmica com Siger de</p><p>Brabante, Tomás de Aquino soltou estes trovões de paixão puramente</p><p>moral: porque todo o trabalho da sua vida se via atacado, traiçoeiramente,</p><p>por aqueles que se tinham beneficiado das suas vitórias sobre os</p><p>conservadores. Esta é talvez a sua ocasião única de paixão pessoal,</p><p>excetuada uma simples chispa em meio às perturbações da juventude; e</p><p>mais uma vez luta contra os inimigos com um tição ardente.</p><p>E, todavia, até neste isolado apocalipse de cólera há uma frase que podemos</p><p>apontar, em todos os tempos, aos homens que se encolerizam por razões</p><p>muito menos dignas. Se há frase que mereça gravar-se no mármore como</p><p>representativa da racionalidade mais calma e mais resistente da sua</p><p>inteligência sem par, é a que saiu com o restante desta lava em fusão. Se há</p><p>frase que fique na história como típica de Tomás de Aquino, é a respeitante</p><p>ao seu argumento: "Nao se baseia em documentos de fé, mas nas razões e</p><p>afirmações dos próprios filósofos." Quem dera que todos os doutores</p><p>ortodoxos fossem, nas deliberações, tão razoáveis como Tomás de Aquino</p><p>na cólera! Quem dera que todos os apologistas cristãos se lembrassem desta</p><p>máxima e a escrevessem em letras garrafais nas paredes, antes de nestas</p><p>afixar quaisquer outras!</p><p>No auge da cólera, Tomás de Aquino compreende o que tantos defensores</p><p>da ortodoxia não compreendem. Não é bom dizer a um ateu que ele é ateu,</p><p>ou acusar aquele que nega a imortalidade da infâmia de a negar, ou</p><p>Lucky de Oliveira</p><p>Underline</p><p>imaginar que se pode obrigar o adversário a admitir que está em erro,</p><p>servindo-se de princípios de outrem e não dele para provar que erra. Depois</p><p>do grande exemplo de Santo Tomás, mantém-se o princípio, ou devia ter-se</p><p>mantido sempre, de que ou não devemos discutir com homem algum, ou o</p><p>devemos combater no seu próprio campo e não no nosso.</p><p>Podemos substituir a discussão por outra coisa desde que a nossa</p><p>consciência no-lo permita. Mas, _se argumentamos, devemos argumentar</p><p>"com as razões e as afirmações dos próprios filósofos". Há muito bom</p><p>senso em certo dito atribuído a um amigo de Santo Tomás, o grande São</p><p>Luís, rei de França, que os levianos citam como modelo de fanatismo. Diz</p><p>ele que "ou hei de discutir com um infiel exatamente como um filósofo</p><p>autêntico pode discutir, ou então hei de meter-lhe uma espada no corpo até</p><p>aos copos". Um filósofo autêntico (até da escola antagônica) será o primeiro</p><p>a concordar que São Luís foi perfeitamente filósofo.</p><p>Assim, na última grande crise de controvérsia da sua campanha teológica,</p><p>Tomás de Aquino conseguiu dar aos amigos e inimigos não só uma liçao de</p><p>teologia mas também uma lição de controvérsia, de fato a sua última</p><p>controvérsia.</p><p>Ele fora homem de enorme apetite pelas controvérsias, o que se dá mais ou</p><p>menos com todo o mundo, santos ou pecadores. Mas, após o grande duelo</p><p>vitorioso com Siger de Brabante, sentiu-se repentinamente esmagado pelo</p><p>desejo de silêncio e sossego, e acerca disto disse a um amigo algo estranho,</p><p>que noutro lugar terá melhor cabida. Regressou à extrema simplicidade do</p><p>ambiente monástico, e pareceu não desejar mais nada senão um descanso</p><p>perpétuo.</p><p>Chegou então, da parte do Papa, um pedido para que se fosse cumprir certa</p><p>missão diplomática ou de controvérsia, e preparou-se para lhe obedecer. Só</p><p>andara, porém, poucas milhas nessa viagem, quando morreu.</p><p>Notas</p><p>1 Chamavam-se nominalistas aqueles para quem as idéias gerais não</p><p>existem, e os nomes com que se pretende designá-las são meros sinais</p><p>aplicáveis, indistintamente, a diversos indivíduos. Realistas eram aqueles</p><p>para quem as idéias universais correspondem a realidades independentes da</p><p>inteligência.</p><p>2 Romancista e autor dramático inglês (1860-1937), criador do tipo de</p><p>Peter Pan.</p><p>3 A amizade entre o rei Davi e Jonatas, filho de Saul, é narrada no Primeiro</p><p>Livro de Samuel, XVIII.</p><p>4 Ou seja, como já vimos, os cátaros ou albigenses.</p><p>5 No princípio dos embates entre o rei Carlos I da Inglaterra e o</p><p>Parlamento, os partidários do monarca, anglicanos de religião,</p><p>denominavam-se cavaleiros. Os partidários do Parlamento, rebeldes em</p><p>termos de religião, denominavam-se puritanos, mas pelos adversários eram</p><p>zombeteiramente chamados cabeças redondas, porque, contrariamente a</p><p>moda de então, usavam o cabelo curto.</p><p>6 Refere-se o autor, sucessivamente, a São João Crisóstomo (344-407), o</p><p>Boca de Ouro, um dos Padres da Igreja, o qual, patriarca de Constantinopla</p><p>e célebre pela sua eloqüência e homílias, foi perseguido pela imperatriz</p><p>Eudóxia; e a São Basílio (329-379), também Padre da Igreja e Bispo de</p><p>Cesaréia, o qual, além de autor de Cartas sobre doutrina, disciplina e moral,</p><p>foi um dos fundadores do monaquismo cristão.</p><p>7 Agremiação científica fundada em Londres em 1660, e até hoje existente.</p><p>8 Arcebispo de Cantuária (1033-1109), nascido em Aosta, foi Santo</p><p>Anselmo como o elo entre Santo Agostinho, o último dos Padres da Igreja,</p><p>e Santo Tomás de Aquino.</p><p>9 Seita do século VIII que não admitia as imagens de santos (iconoclastas</p><p>quer dizer quebradores de imagens) na vida cristã. Esta heresia, que fez</p><p>desaparecer numerosas obras de arte cristãs, foi extinta no século IX, após</p><p>ser condenada pelo Concilio de Nicéia (787) e pelo de Constantinopla</p><p>(842).</p><p>10 Siger de Brabante (1235-1281), professor da Universidade de Paris.</p><p>11 Célebre filósofo francês (1079-1142), conhecido sobretudo pelos seus</p><p>amores com Heloísa, e cuja vida repleta de acidentes é por demais</p><p>conhecida. Espírito brilhante conquanto pouco profundo, Abelardo viu-se</p><p>aclamado por uma multidão de estudantes, que segundo se diz eram em tão</p><p>grande número, que as aulas do mestre tiveram de passar a ser dadas ao ar</p><p>livre. Após o incidente ruidoso com a discípula Heloísa, retratou-se das</p><p>opiniões errôneas, e chegou a ser abade de Saint-Gildas-de-Rhuys.</p><p>IV. MEDITAÇÃO SOBRE OS</p><p>MANIQUEUS</p><p>CORRE UMA ANEDOTA a respeito de Santo Tomás de Aquino que o</p><p>ilumina como num relâmpago, não só exterior mas também interiormente,</p><p>porque não apenas o revela como caráter, e até caráter de comédia,</p><p>mostrando-nos as características do seu tempo e ambiente social, mas</p><p>também, conquanto por breve instante, nos revela cristalinamente o seu</p><p>espírito. Foi um incidente vulgar sucedido um dia, quando o arrancaram à</p><p>força do seu trabalho, quase podemos dizer do seu divertimento, pois que</p><p>ambas as coisas coexistiam para ele na sua desusada mania de pensar, a</p><p>qual, para certos homens, é coisa muito mais inebriante do que a própria</p><p>bebida.</p><p>Santo Tomás recusara sempre muitos convites sociais para comparecer às</p><p>cortes dos reis e dos príncipes, não por ser insociável, porque de fato não o</p><p>era, mas por estar constantemente absorto nos gigantescos planos de</p><p>exposição e de argumentação que lhe encheram a vida. Em certa ocasião,</p><p>contudo, foi convidado para comparecer à corte de Luís IX, de França, mais</p><p>conhecido como o grande São Luís. E, por alguma razão, as autoridades</p><p>dominicanas da sua ordem disseram-lhe que aceitasse, o que ele fez de</p><p>imediato, dado ser um frade obediente até nos seus arroubos, ou melhor, no</p><p>seu constante transe de reflexão.</p><p>É um fato contrário à hagiografia convencional a tendência de tornar todos</p><p>os santos iguais entre si, sendo que nenhuns homens são tão diferentes</p><p>como eles, nem sequer os assassinos. Dificilmente poderia haver contraste</p><p>mais completo, à parte o essencial da santidade, que entre Santo Tomas e</p><p>São Luís. Este nascera cavaleiro e rei, mas era daqueles homens em quem</p><p>certa simplicidade, mesclada com coragem e atividade, torna natural e de</p><p>certo modo fácil desempenhar direta e prontamente qualquer dever ou</p><p>cargo, ainda que oficial. Era homem em quem a santidade e a saúde jamais</p><p>se incompatibilizaram, e tiveram como resultante a ação. Nunca se deu a</p><p>pensar demasiado no sentido de se dar demasiado a teorias. Mas até na</p><p>teoria possuía essa espécie de presença de espírito própria do homem</p><p>invulgar</p><p>e em verdade prático quando tem de pensar. Nunca disse coisas</p><p>fora de propósito, e era ortodoxo por instinto. No velho provérbio pagão —</p><p>que desejava reis filósofos ou filósofos reis — havia certa inexatidão com</p><p>respeito a um mistério que apenas o Cristianismo podia revelar. Porque,</p><p>conquanto seja possível a um rei querer muito ser santo, não é possível a</p><p>um santo querer muito ser rei. Um homem de bem dificilmente sonhará</p><p>sempre com vir a ser grande monarca, mas é tal a liberdade da Igreja, que</p><p>não pode impedir até um grande monarca de sonhar em vir a ser homem de</p><p>bem.</p><p>Luís, todavia, era uma espécie de homem franco e bravo, que não se</p><p>incomodava particularmente com ser rei, como não se teria importado com</p><p>ser capitão, sargento ou qualquer outra coisa no seu exército. Ora, a um</p><p>homem como Santo Tomás não teria agradado nada ser rei ou estar rodeado</p><p>da pompa ou da política dos reis; não só a sua humildade mas até uma</p><p>espécie de enfado subconsciente e um grande desprezo pela futilidade, tão</p><p>próprios de homens calmos, cultos e de alta inteligência, o teriam</p><p>efetivamente impedido de entrar em contato com a complexidade da vida da</p><p>corte. Por toda a vida também desejou ardentemente manter-se à margem da</p><p>política, e não havia símbolo político mais impressionante, ou de certo</p><p>modo mais provocante, naquele momento, que o poder do rei em Paris.</p><p>Paris era então, em verdade, uma aurora borealis, um nascer do sol no</p><p>norte. Ha que recordar que as regiões mais próximas de Roma se tinham</p><p>corrompido pela ação do paganismo, do pessimismo e das influências</p><p>orientais, a mais respeitável das quais era a de Mafoma. A Provença e todo</p><p>o sul tinham sido invadidos por uma febre de niilismo ou misticismo</p><p>negativista, e da França do norte tinham vindo as lanças e as espadas para</p><p>varrer as doutrinas anticristãs. No Norte da França brotara também aquele</p><p>esplendor de construções que brilha como as lanças e as espadas: as</p><p>primeiras flechas do gótico.</p><p>Agora estamos habituados à patina acinzentada das construções góticas,</p><p>mas elas deviam ter sido muito diferentes quando se ergueram, brancas e</p><p>brilhantes, para os céus setentrionais, cheias de ouro e de cores refulgentes:</p><p>era um novo vôo da arquitetura, tão maravilhoso como o das aeronaves. O</p><p>novo Paris que São Luís deixou no fim do seu reinado deve de ter sido</p><p>branco como os lírios e esplêndido como a auriflama.</p><p>Foi ele o início dessa coisa grande e nova que viria a ser a Nação francesa, a</p><p>qual iria tomar parte e sair vencedora na velha pugna do Papa e do</p><p>imperador nas terras de onde Tomás viera. Este no entanto veio de muito</p><p>má vontade e, se assim o podemos dizer de homem tão amável, até muito</p><p>mal-humorado. Quando chegou a Paris, mostraram-lhe, do alto de um</p><p>monte, aquele esplendor dos novos pináculos, e alguém disse:</p><p>— Como deve ser grandioso possuir tudo isto.</p><p>Tomás de Aquino apenas resmungou:</p><p>— Quem me dera possuir aquele manuscrito de Crisóstomo que não posso</p><p>obter.</p><p>Levaram aquele enorme e relutante bloco pensativo para o seu lugar, à mesa</p><p>do banquete real, e tudo o que sabemos a respeito de Tomás nos diz que ele</p><p>se mostrou perfeitamente delicado com aqueles com que falou; mas falou</p><p>pouco, e logo o esqueceram, no meio da mais brilhante e ruidosa</p><p>conversação do mundo: o barulho da conversação francesa. Não sabemos</p><p>de que falavam os franceses, mas esqueceram tudo quanto respeitava ao</p><p>grande italiano gordo que estava entre eles, e parece também natural que ele</p><p>os esquecesse a todos. Repentinos silêncios ocorrem até na conversação dos</p><p>franceses, e num destes se deu uma interrupção.</p><p>Por muito tempo não houvera palavra ou movimento naquela vasta mole de</p><p>pano preto e branco, qual bobo de luto, que o revelava como frade</p><p>mendicante das ruas e contrastava com todas as cores, figuras e brasões</p><p>daquele primeiro e fresco amanhecer da cavalaria e da heráldica. Os</p><p>escudos triangulares, os penachos e as lanças pontiagudas, as espadas da</p><p>Cruzada, as janelas esguias e os capacetes cônicos repetiam, por toda a</p><p>parte, esse novo espírito medieval francês, que, sob todos os aspectos,</p><p>chegou oportunamente. Mas as cores das roupas eram vivas e variegadas,</p><p>com pouco que censurar na sua riqueza, dado que São Luís, que tinha a</p><p>qualidade especial do dito apropriado, dissera aos seus cortesãos: "Evite-se</p><p>a vaidade, mas todo o homem deve vestir-se bem, segundo a sua categoria</p><p>social, para que a sua mulher possa amá-lo mais facilmente."</p><p>De súbito os copos saltaram, tombaram com ruído no prato, e a grande</p><p>mesa tremeu, porque o frade deixara cair o pesado punho como uma clava</p><p>de pedra e com fragor de explosão, assustando a todos, e exclamara com</p><p>voz forte, mas como homem atacado de sonambulismo:</p><p>— E isto há de dar cabo dos maniqueus!</p><p>O paço de um rei, até quando o é de um santo, tem as suas convenções.</p><p>Uma sacudidela abalou toda a corte, e todos ficaram como se o frade gordo</p><p>da Itália atirasse um prato contra o rei Luís ou com uma pancada lhe</p><p>jogasse a coroa ao chão. Todo o mundo olhou timidamente para o terrível</p><p>lugar que, durante mil anos, foi o trono dos Capetos, e naturalmente houve</p><p>muitos dispostos a atirar pela janela o grande mendigo vestido de preto.</p><p>Mas São Luís, simples como parecia, não era só fonte medieval de honra e</p><p>até de misericórdia; era também a fonte de dois rios eternos: a ironia e a</p><p>cortesia da França. Virou-se para os secretários e pediu-lhes, em voz baixa,</p><p>que fossem com as suas tabuinhas para junto do controversista abstrato e</p><p>tomassem nota do argumento que lhe ocorrera, porque devia de ser</p><p>importante e ele podia esquecê-lo.</p><p>Detive-me nesta anedota, primeiro, como disse, porque é uma das que nos</p><p>dão o instantâneo mais vivo do grande personagem medieval, em verdade</p><p>de dois grandes personagens medievais. Mas serve também, especialmente,</p><p>para que a tomemos como tipo ou ponto de partida, por causa do vislumbre</p><p>que nos dá da principal ocupação do nosso homem, e do que se lhe poderia</p><p>encontrar no pensamento, se este fosse assim surpreendido, em qualquer</p><p>ocasião, por um filósofo indiscreto, ou através de uma fechadura</p><p>psicológica. Não era em vão que ele se mostrava ainda preocupado, até na</p><p>corte branca de São Luís, com a nuvem negra dos maniqueus.</p><p>Este livro pretende ser somente o esboço de um homem, mas deve mais</p><p>adiante referir-se, ainda que rapidamente, a um método e uma significação,</p><p>ou àquilo a que o nosso jornalismo tem o costume aborrecido de chamar</p><p>"mensagem". Dedicar-se-ão algumas páginas ao homem em relação com a</p><p>sua teologia e a sua filosofia; mas aquilo de que pretendemos falar aqui é</p><p>algo de mais geral e de mais pessoal até do que a sua mesma filosofia. Foi</p><p>algo que poderia chamar-se alternadamente a sua atitude moral, a sua</p><p>predisposição de temperamento e o fim da sua vida em relação com os</p><p>efeitos sociais e humanos, porque ele sabia melhor que muitos de nós que</p><p>há só um fim nesta vida e que este está para além dela. Mas, se quiséssemos</p><p>representar de maneira pitoresca e simples o que ele queria para o mundo, e</p><p>o que foi a sua obra na história além das definições teóricas e teológicas,</p><p>bem poderíamos dizer que foi dar realmente um golpe mortal nos</p><p>maniqueus.</p><p>Pode ser que o significado completo desta afirmação não seja claro para os</p><p>que não estudam a história da teologia, e talvez até menos claro para os que</p><p>a estudam. De fato, pode parecer igualmente descabido em história e em</p><p>teologia. Em história, São Domingos e Simão de Montfort1 tinham já</p><p>resolvido razoavelmente o caso dos maniqueus. E em teologia é claro que</p><p>um doutor enciclopédico como Tomás de Aquino se bateu contra mil outras</p><p>heresias além da maniqueísta. Não obstante, isto representa a sua posição</p><p>principal e a orientação que deu a toda a história da Cristandade.</p><p>Parece-me bom interpor este capítulo, conquanto o seu fim possa parecer</p><p>mais vago que o resto, porque há uma espécie de erro grave a respeito de</p><p>Santo Tomás e do seu credo, o que constitui obstáculo para muita gente de</p><p>hoje compreendê-los cabalmente. Surge mais ou menos assim: Santo</p><p>Tomás, como outros frades, e especialmente outros santos,</p><p>vivemuma_:vida</p><p>de renúncia e austeridade. Os seus jejuns, por exemplo, contrastavam</p><p>singularmente com o luxo em que poderia ter vivido, se o tivesse preferido.</p><p>Este elemento tem importância imensa na sua religião, como modo de</p><p>afirmar a vontade contra o poder da natureza, de agradecer ao Redentor o</p><p>compartilhar-lhe os sofrimentos, de tornar o homem pronto para qualquer</p><p>coisa como missionário ou mártir, e ideais semelhantes.</p><p>Estas coisas são raras na moderna sociedade industrial dov Ocidente, fora da</p><p>Igreja, e por isso é que se julga que a Igreja não significa outra coisa. Não é</p><p>comum que um alderman2 jejue 40 dias, que um político faça o voto de</p><p>silêncio dos trapistas ou que um homem da cidade leve vida de rigoroso</p><p>celibato. Por isso o leigo de classe média está convencido não só de que o</p><p>Cristianismo é somente ascetismo mas também de que o ascetismo não é</p><p>senão pessimismo. E é tão amável esse leigo, que explica o motivo</p><p>verdadeiro por que respeitam os católicos esta virtude heróica; e está</p><p>sempre pronto para mostrar que a filosofia em que se inspiram é um ódio</p><p>oriental por tudo quanto se encontra ligado à natureza e uma aversão</p><p>puramente "schopenhaueriana" à vontade de viver.3</p><p>Numa critica "excelente" ao livro de Miss Rebeca West sobre Santo</p><p>Agostinho, li a afirmação assombrosa de que a Igreja Católica considera o</p><p>sexo como participante da natureza do pecado. Como pode o casamento ser</p><p>sacramento se o sexo é pecado? Ou por que é que são os católicos os que</p><p>defendem a natalidade, e os seus inimigos os que favorecem a sua</p><p>limitação? Deixo ao crítico o cuidado de pensar a sério nisto. O meu intuito</p><p>não tem nada que ver com esta parte do argumento, mas com outra.</p><p>A crítica moderna vulgar, vendo este ideal ascético numa Igreja autoritária e</p><p>não o vendo na maior parte dos habitantes de Brixton ou de Brighton, pode</p><p>dizer: "Ora, aí está o resultado da autoridade; seria preferível ter religião</p><p>sem autoridade". Mas em verdade uma experiência mais ampla fora de</p><p>Brixton ou de Brighton revelaria o engano. E raro encontrar um alderman a</p><p>jejuar ou um político trapista; mas é ainda mais raro ver freiras suspensas</p><p>no ar, de ganchos ou de lanças;4 nunca se viu que um orador da Catholic</p><p>Truth Society,5 em Hyde Park, começasse o seu discurso espetando-se com</p><p>facas; um estranho que visite qualquer presbitério raramente encontrará o</p><p>pároco deitado no chão, com um fogareiro em cima do peito a queimá-lo,</p><p>enquanto pronuncia jaculatórias espirituais.</p><p>E porém tudo isso fazem, por exemplo, na Ásia, entusiastas voluntários que</p><p>atuam unicamente sob o grande impulso da religião, mas de uma religião</p><p>não imposta comumente por qualquer autoridade imediata, e também não</p><p>certamente por esta autoridade a que nos referimos. Em resumo, um</p><p>conhecimento real da humanidade dirá a todos que religião é coisa muito</p><p>terrível; que é realmente um fogo devastador; e que a autoridade é muitas</p><p>vezes necessária não só para a conter mas também para a impor.</p><p>O ascetismo, ou luta contra os apetites, é também um apetite. Nunca pode</p><p>eliminar-se das estranhas ambições do homem. Mas pode manter-se dentro</p><p>de limites razoáveis; e é praticado com muito mais equilíbrio sob a</p><p>autoridade católica do que na anarquia paga pu puritana. Não obstante, todo</p><p>este ideal, conquanto seja parte essencial do idealismo católico quando bem</p><p>compreendido, não representa senão um lado, como um rebento no tronco</p><p>principal. Não é o principio primário da filosofia católica; é tão-só uma</p><p>dedução particular da ética do Catolicismo. E, se olhamos as coisas à luz do</p><p>essencial desta filosofia, verificamos a contradição pura e simples entre o</p><p>frade que jejua e o faquir que se dependura em ganchos.</p><p>Ora, ninguém começara a compreender a filosofia tomista, que em verdade</p><p>é a filosofia católica, sem que advirta logo que a sua base primária e</p><p>fundamental é o louvor da vida, o louvor do ser, o louvor de Deus como</p><p>Criador do mundo. Tudo o mais segue muito atrás disto, estando</p><p>condicionado por várias complicações, como a Queda, ou a vocação de</p><p>heróis. O mal-estar surge porque o espírito católico se move sobre dois</p><p>planos: o da Criação e o da Queda.</p><p>Um paralelo aproximado seria, por exemplo, o da invasão da Inglaterra.</p><p>Seria possível decretar o estado de guerra no condado de Kent, por ter o</p><p>inimigo ali desembarcado, mas ao mesmo tempo poderia haver relativa</p><p>liberdade em Hereford; isto porém não afetaria o amor de um patriota inglês</p><p>por Hereford ou por Kent, e as medidas estratégicas de Kent não afetariam</p><p>o amor dessa região. Porque o amor da Inglaterra perduraria, para ambas as</p><p>partes serem redimidas pela disciplina e todos gozarem nelas da liberdade.</p><p>Qualquer extremo do ascetismo católico é uma precaução, prudente ou não,</p><p>contra o mal da Queda; jamais implica dúvida quanto à excelência da</p><p>Criação. E é nisto que realmente difere não só daquela excessiva</p><p>excentricidade do sujeito que se dependura de ganchos mas também de toda</p><p>a teoria cósmica que é o gancho de que ele se dependura. Em muitas</p><p>religiões orientais é realmente verdade que o ascetismo é pessimismo; que o</p><p>asceta se tortura mortalmente por ódio abstrato à vida; que quer não só,</p><p>simplesmente, dominar a natureza como devia, mas contrariá-la o mais cjue</p><p>possa. E, conquanto em milhões de populações religiosas da Ásia tome</p><p>forma mais suave que a dos ganchos, é um fato, em que muito pouco se</p><p>adverte, que a doutrina da negação da vida domina efetivamente, como</p><p>primeiro princípio, em tão vasta escala. E uma das formas históricas que</p><p>tomou foi exatamente a deste grande inimigo do Cristianismo: o</p><p>maniqueísmo.</p><p>Aquilo a que se chama filosofia maniqueísta revestiu muitas formas; em</p><p>verdade, ela atacou o que é imortal e imutável com uma curiosíssima</p><p>espécie de imortal mutabilidade. É como a lenda do feiticeiro que se</p><p>transforma em cobra ou em nuvem; e o conjunto tem essa nota inominada</p><p>de irresponsabilidade que tem muito da metafísica e da moral da Ásia,</p><p>donde proveio o mistério maniqueu. Mas é sempre, de uma forma ou de</p><p>outra, a idéia de que a natureza é má, ou de que o mal está pelo menos</p><p>enraizado na natureza. O ponto essencial vem a ser este: assim como o mal</p><p>tem raízes na natureza, assim tem direitos nela. O mal tem tanto direito de</p><p>existir como o bem.</p><p>Como já se disse, esta doutrina revestiu muitas formas. As vezes era um</p><p>dualismo que igualava o mal ao bem, de tal modo que nenhum deles se</p><p>poderia considerar usurpador. Mais freqüentemente era uma idéia geral de</p><p>que os demônios tinham feito o mundo material, e de que, se havia espíritos</p><p>bons, estes se relacionavam apenas com o mundo espiritual.</p><p>Posteriormente, tomou também a forma de calvinismo, que afirmava que</p><p>Deus fizera realmente o mundo, mas em certo sentido criara o mal, do</p><p>mesmo modo que o bem: fizera uma vontade má e um mundo mau.</p><p>Segundo esta opinião, se um homem preferir condenar a alma em vida, não</p><p>está contradizendo a vontade de Deus, mas cumprindo-a.</p><p>Nestas duas formas, a do gnosticismo e a do calvinismo, vemos a variedade</p><p>superficial e a unidade fundamental do maniqueísmo. Os velhos maniqueus</p><p>ensinavam que Satanás é o autor de toda a obra de criação, comumente</p><p>atribuída a Deus. Os novos calvinistas ensinaram que Deus originara toda a</p><p>obra de condenação comumente atribuída a Satanás. Um se voltava para</p><p>trás, para o primeiro dia em que um demônio agira como um deus; o outro</p><p>olhava para a frente, para um último dia em que um deus agiu como</p><p>demônio. Mas ambos tinham a idéia de que o criador da terra foi primeiro o</p><p>criador do mal, quer lhe chamemos demônio ou deus.</p><p>Havendo tantos maniqueus entre os modernos, como já poderemos</p><p>observar, alguns devem estar de acordo com esta opinião; outros se sentirão</p><p>surpresos com ela; outros talvez se surpreendam somente com o motivo por</p><p>que lhe fazemos objeções. Para compreender a controvérsia medieval,</p><p>devemos dizer algo da doutrina católica, que tanto é moderna como</p><p>medieval. A frase "Deus olhou para todas as coisas e viu que eram boas"</p><p>encerra um sentido sutil, que o pessimista popular não pode entender ou</p><p>tem demasiada pressa</p><p>em contestar. É a tese de que não há coisas más, mas</p><p>somente mau uso das coisas. Ou, se o preferirem, não há coisas más, mas</p><p>somente maus pensamentos e, em especial, más intenções. Em verdade, só</p><p>os calvinistas podem crer que o inferno esteja pavimentado com boas</p><p>intenções. É exatamente esta a única coisa com que não pode estar</p><p>pavimentado.</p><p>É possível, todavia, ter más intenções quanto a coisas boas; e coisas boas,</p><p>como o mundo e a carne, tem sido de fato deturpadas por uma intenção má</p><p>chamada demônio. Mas não é ele que pode fazer más as coisas; estas estão</p><p>exatamente como no primeiro dia da criação. Só o trabalho do céu foi</p><p>material: a fabricaçao de um mundo material. O trabalho do inferno é</p><p>puramente espiritual.</p><p>Este erro revestiu depois muitas formas, mas, como quase todos os erros,</p><p>teve em especial duas: uma mais feroz, que era exterior à Igreja e a atacava;</p><p>outra, mais insidiosa, que existia no seio da Igreja e a corrompia. Nunca</p><p>houve época alguma em que a Igreja não se sentisse espremida entre essa</p><p>invasão e essa traição. Assim aconteceu, por exemplo, na época vitoriana.</p><p>"A competição" darwiniana, no comércio como no conflito das raças, foi</p><p>inteiramente um assalto do ateísmo no século XIX, assim como o</p><p>movimento bolchevista dos sem-Deus no século XX. Vangloriar-se da</p><p>prosperidade bruta, admirar os milionários mais asquerosos, que</p><p>armazenaram trigo por meio de trapaças, falar a respeito dos "inadaptados"</p><p>(à imitação do pensador científico que desejasse acabar com todos eles,</p><p>porque não pode sequer acabar a sua própria frase... inadaptados quê?) —</p><p>tudo isso é tão clara e simplesmente anticristão como a missa negra.</p><p>Nao obstante, certos católicos fracos e mundanos empregaram esta gíria em</p><p>defesa do capitalismo, na sua primeira e débil resistência ao socialismo.</p><p>Não puseram termo a todos os seus disparates senão quando apareceu a</p><p>grande encíclica do Papa sobre os direitos do trabalho.6 O mal está sempre</p><p>dentro e fora da Igreja, mas numa forma mais violenta fora e numa forma</p><p>mais branda dentro. Assim aconteceu também no século XVII, quando</p><p>havia o calvinismo fora dela e o jansenismo dentro dela.7 E assim aconteceu</p><p>no século XIII, quando o perigo exterior evidente estava na revolução dos</p><p>albigenses, mas o perigo interior residia em germe no próprio</p><p>tradicionalismo</p><p>dos agostinianos, porque estes provinham somente de Agostinho, mas</p><p>Agostinho provinha em parte de Platão, e Platão tinha razão, embora não de</p><p>todo. É uma verdade matemática que, se uma linha não se dirigir perfeita e</p><p>diretamente para um ponto, mais se afastará dele quanto mais próxima dele</p><p>estiver. Ao fim de mil anos de extensão, o desvio do platonismo chegara</p><p>muito perto do maniqueísmo.</p><p>Os erros populares têm quase sempre um fundo de verdade. Quase sempre</p><p>se relacionam com uma realidade extrema, a respeito da qual os que os</p><p>corrigem se enganam. É um caso curioso que "amor platônico" tenha</p><p>chegado a significar para os iletrados algo de mais puro e mais limpo do</p><p>que para os letrados. No entanto, até os que se dao conta da grande chaga</p><p>dos gregos podem compreender como muitas vezes a perversidade vem de</p><p>uma má espécie de pureza.</p><p>Ora, a mentira mais profunda dos maniqueus consistia em identificar a</p><p>pureza com a esterilidade, o que contrasta singularmente com a linguagem</p><p>de Santo Tomás, que sempre relaciona a pureza com a fecundidade, quer</p><p>natural, quer sobrenatural. E o que é muito estranho, como já disse, é que</p><p>resta um fundo de realidade na afirmação vulgar de que o colóquio entre</p><p>Samuel e Susana é "perfeitamente platônico".</p><p>É certo que, independentemente da perversão da sua época, há em Platão</p><p>uma certa idéia de que os homens viveríam melhor sem o corpo, que as</p><p>cabeças poderiam alçar vôo e encontrar-se no espaço, numa espécie de</p><p>núpcias intelectuais, como querubins de um quadro. A mais recente fase</p><p>desta filosofia "platônica" foi a que inflamou o pobre D. H. Lawrence,</p><p>levando-o a dizer disparates, e provavelmente sem se dar conta de que a</p><p>doutrina católica do casamento afirma muito do que ele disse, mas sem</p><p>dizer disparates.</p><p>Seja como for, é historicamente importante ver que o amor platônico</p><p>desfigurou um pouco tanto o amor humano como o divino, na teoria dos</p><p>primitivos teólogos. Muitos homens medievais que negavam com</p><p>indignação a doutrina albigense da esterilidade se sentiram, porém,</p><p>propensos a abandonar o corpo com desespero, e alguns a abandonar tudo</p><p>com o mesmo desespero.</p><p>Em verdade, isto ilustra vivamente a estupidez provinciana dos que fazem</p><p>objeção ao que eles chamam "credos e dogmas". Foi precisamente o credo e</p><p>o dogma o que salvou a saúde moral do mundo. Essas pessoas propõem, em</p><p>geral, uma religião alternativa de intuição e de sentimento. Se na era</p><p>realmente das trevas tivesse havido uma religião de sentimento, teria sido</p><p>de sentimento negro e suicida. Foi o credo rígido que resistiu ao ímpeto</p><p>desse sentimento suicida. Os críticos do ascetismo têm talvez razão quando</p><p>supõem que muitos eremitas ocidentais se sentiam muito semelhantes a</p><p>faquires orientais. Mas o que não podiam era pensar como faquires</p><p>orientais, por serem católicos ortodoxos. E só o dogma manteve o seu</p><p>pensamento em contato com um pensamento mais saudável e humano. Não</p><p>podiam negar que um Deus bom criara um mundo normal e natural; e não</p><p>podiam dizer que o demônio fizera o mundo, porque não eram maniqueus.</p><p>Milhares de entusiastas do celibato, na era da grande corrida para o deserto</p><p>ou para o claustro, poderiam ter chamado pecado ao casamento, se</p><p>considerassem somente os seus ideais individuais, à moda moderna, e os</p><p>seus sentimentos imediatos a respeito do casamento. Felizmente, tinharfi de</p><p>aceitar a autoridade da Igreja, que definira não ser pecado o casamento.</p><p>Uma religião moderna e emotiva poderia, em um momento, ter</p><p>transformado o Catolicismo no maniqueísmo. Mas, ainda que o sentimento</p><p>religioso tornasse os homens loucos, lá estava a teologia para os curar.</p><p>Neste sentido é que surge Santo Tomás como o grande teólogo ortodoxo,</p><p>que recordou aos homens a doutrina da criação, quando muitos.deles se</p><p>inclinavam ainda para o pessimismo e a destruição. E ridículo que os</p><p>críticos do medievalismo citem uma centena de frases medievais, que</p><p>parecem tocadas de simples pessimismo, sem no entanto compreender o</p><p>fato central: que os homens medievais não se importavam com ser antigos</p><p>ou modernos e não aceitavam a autpndacLe de uma disposição por ela ser</p><p>melancólica, frias, importavam-se muitíssimo com a ortodoxia, que não é</p><p>uma jtisposiçao ou inclinação.</p><p>Foi por Santo Tomás ter podido provar que a sua glorificação do Criador e</p><p>da Sua alegria criadora era mais ortodoxa que qualquer pessimismo</p><p>ambiente que ele dominou a Igreja e o mundo, o qual aceitou esta verdade</p><p>corno critério. Mas, ainda que se admita esta imensa impotência impessoal,</p><p>pode-se concordar que havia também um elemento pessoal. Como muitos</p><p>dos grandes mestres religiosos, individualmente ele estava apto para a</p><p>missão que Deus lhe destinara. Se quisermos, poderemos chamar instintivo</p><p>a este talento, e poderemos descer até lhe chamarmos temperamento.</p><p>Quem quer que pretenda popularizar um filosofo medieval deve servir-se de</p><p>uma linguagem que seja muito moderna e muito pouco filosófica. Não é</p><p>isto escarnecer do que é moderno, mas uma conseqüência de andarem os</p><p>modernos tão habituados a falar de sentimentos e de emoções, em especial</p><p>nas artes, que se desenvolveu um vocabulário abundante mas vago e mais</p><p>próprio para referir os cambiantes do ambiente que as atitudes ou posiçoes</p><p>definidas. Como já se notou, até os filósofos modernos se parecem com os</p><p>poetas modernos em dar uma cor pessoal à própria verdade, e muitas vezes</p><p>em contemplar a vida com óculos de diferentes cores. Dizer que</p><p>Schopenhauer via em tudo a negra melancolia, ou que William James8 tinha</p><p>visão mais cor-de-rosa, seria mais claro e mais simples que chamar</p><p>pessimista a um e pragmatista ao outro.</p><p>Essa perversidade moderna tem o seu valor, conquanto os modernos o</p><p>exagerem, exatamente como a lógica medieval tinha o seu valor, apesar de</p><p>o exagerarem na baixa Idade Média. Mas o ponto está em que, para explicar</p><p>os medievais aos modernos, temos muitas vezes de nos servir desta</p><p>moderna linguagem. De outro modo, perderiam o seu verdadeiro caráter,</p><p>por causa de certas idéias preconcebidas e ignorâncias a respeito de todos</p><p>esses caracteres medievais. Ora, há algo que existe em toda a obra de Santo</p><p>Tomás de Aquino como uma grande luz, algo que é fundamental e que</p><p>talvez fosse nele inconsciente, que ele talvez passasse por alto como</p><p>qualidade pessoal sem importância, e que hoje não se pode expressar senão</p><p>por uma palavra de jornalismo barato, provavelmente sem sentido algum</p><p>para ele.</p><p>Entretanto, a única palavra justa que exprime bem essa atmosfera é —</p><p>otimismo. Sei que este termo esta hoje, no século XX, ainda mais</p><p>desacreditado que no século XIX. Há pouco tempo se falava em ser otimista</p><p>a propósito do êxito da guerra; fala-se agora em ser otimista a propo to do</p><p>restabelecimento do comércio; talvez se fale amanhã em ser otimista a</p><p>propósito de um torneio internacional de pingue-pongue. Mas os homens da</p><p>era vitoriana queriam dizer algo mais do que isso, quando empregavam a</p><p>palavra otimismo a propósito de Browning,9 Stevenson10 ou Walt Whitman.</p><p>E, em sentido muito mais lato e mais luminoso que nesses homens, foi o</p><p>termo basicamente verdadeiro em Santo Tomás de Aquino. Ele creu na vida</p><p>com a mais sólida e colossal convicção; e em algo de semelhante ao que</p><p>Stevenson chamou o grande teorema da vivência da vida. Respiramo-lo, de</p><p>certo modo, nas suas primeiras frases a respeito da realidade do ser. Se o</p><p>intelectual do Renascimento põe assim a questão: "Ser ou não ser, eis a</p><p>questão", então o pesado doutor medieval responderá certamente, com voz</p><p>de trovão:</p><p>— Ser, eis a resposta.</p><p>A questão é importante; muitos, com toda a naturalidade, falam do</p><p>Renascimento como da época em que certos homens começaram a crer na</p><p>vida. A verdade é que foi a época em que alguns homens, pela primeira vez,</p><p>começaram a descrer dela. Os medievais tiveram de pôr muitas restrições, e</p><p>algumas talvez excessivas, à ânsia, quase diria à fúria humana e universal</p><p>pela vida. Essas restrições tinham sido expressas muitas vezes em termos</p><p>fanáticos e violentos, termos próprios dos que resistem a uma grande força</p><p>natural, a força de homens que querem viver. Nunca, até começar o</p><p>pensamento moderno, tiveram eles realmente de se bater com homens que</p><p>queriam morrer. Esse horror os ameaçara no albigensianismo asiático, mas</p><p>nunca entre eles foi normal... até hoje.</p><p>Este fato, porém, se toma em verdade muito significativo, quando</p><p>comparamos o maior dos filósofos cristãos com os únicos homens que se</p><p>pareciam algo com ele ou eram capazes de vir a ser seus rivais, pessoas com</p><p>quem ele nunca teve diretamente discussões: a muitos nunca os vira, de</p><p>alguns jamais ouvira falar. Platão e Agostinho eram os únicos com que ele</p><p>poderia tratar, como fez com Boaventura, ou mesmo com Averróis.</p><p>Mas temos de ir buscar em outro lugar os seus rivais verdadeiros, os únicos</p><p>rivais da teoria católica: são os chefes dos grandes sistemas' pagãos, alguns</p><p>muito antigos, outros muito modernos, como Buda, entre aqueles, e</p><p>Nietzsche, entre estes. É quando vemos a sua gigantesca figura erguida no</p><p>meio desse vasto cenário cosmico que verificamos: primeiro, que é ele o</p><p>único teólogo otimista; segundo, que o catolicismo é a única teologia</p><p>otimista. Alguma coisa de mais suave e de mais atraente se pode obter do</p><p>afrouxamento da teologia e da mistura da crença com tudo o que a</p><p>contradiz; mas, entre os credos universais coerentes, este é o único que esta</p><p>inteiramente ao lado da vida.</p><p>A religião comparada tem-nos permitido, na verdade, comparar as</p><p>religiões... e pô-las em contraste. Há 50 anos se procurava provar que todas</p><p>eram mais ou menos semelhantes, demonstrando-se, em geral,</p><p>altemadamente, serem todas do mesmo modo dignas e todas do mesmo</p><p>modo indignas. Desde então este processo, que não era científico, começou</p><p>de repente a sê-lo, e descobriu a profundidade dos abismos e a altura dos</p><p>montes. É em verdade uma excelente melhoria que as pessoas sinceramente</p><p>religiosas se respeitem umas às outras. Mas o respeito descobriu diferença</p><p>onde o desprezo apenas via indiferença.</p><p>Realmente, quanto mais apreciamos o desgosto de Buda pelo mundo e pela</p><p>sua renúncia, mais vemos que, do ângulo intelectual, aquele ideal era quase</p><p>antípoda da salvação do mundo por Cristo. O cristão queria evadir-se do</p><p>mundo para o universo; o budista quer evadir-se do universo, ainda mais do</p><p>que do mundo. O budista quereria aniquilar-se; o cristão quer voltar à sua</p><p>criação: ao seu Criador. É o ideal budista tão perfeitamente o inverso da</p><p>idéia da cruz como árvore de vida, que há certa desculpa em pôr as duas</p><p>coisas lado a lado, como se tivessem a mesma significação. De certo modo</p><p>sao paralelas e equivalentes, como o monte de terra e a cova, o vale o</p><p>monte.</p><p>Há um sentido em que aquele desespero sublime é a única coisa que resta a</p><p>quem põe de lado esta divina audácia. E até verdade que o homem</p><p>verdadeiramente espiritual e intelectual vê nisso uma espécie de dilema,</p><p>uma difícil e terrível escolha. Pouco mais há na terra que possa comparar-se</p><p>em plenitude com essas coisas. E aquele que não subir a montanha de</p><p>Cristo cairá realmente no abismo de Buda.</p><p>O mesmo se dá, de modo menos lúcido e digno, com a maior parte das</p><p>outras alternativas da humanidade pagã; quase todas tendem a voltar àquele</p><p>torvelinho de repetição que todos os antigos conheceram. Quase todos</p><p>voltam sempre à idéia de regresso. Foi isso o que o Buda descreveu de</p><p>modo tão sombrio com a roda da tristeza. E verdade que o pobre Nietzsche</p><p>buscou apresentar como sabedoria alegre (Gaia Scientia) o que Buda</p><p>descrevera como roda da tristeza. Só posso dizer que, se a simples repetição</p><p>foi a idéia que ele teve da sabedoria alegre, gostaria de saber qual era a</p><p>idéia que ele fazia da sabedoria triste. Mas, no caso de Nietzsche, o fato é</p><p>que isso não pertence ao momento da sua partida, mas ao da sua queda.</p><p>Ocorreu-lhe no fim da vida, quando estava próximo do colapso mental, e</p><p>opòe-se inteiramente às suas primitivas e mais belas aspirações de liberdade</p><p>total ou de inovação fresca e criadora. Uma vez, pelo menos, tentou romper,</p><p>mas também ele já estava esmagado... pela roda.</p><p>Sozinha na terra, erguida e liberta de todas as rodas e redemoinhos do</p><p>mundo, levanta-se a fé de Santo Tomás, fundamentada e equilibrada com</p><p>algo mais que a metafísica oriental e que a pompa e o esplendor pagãos,</p><p>mas a única a declarar, de modo vital e vivido, que a vida é uma história</p><p>viva e verdadeira, com um grande princípio e um grande fim; com raízes na</p><p>primitiva alegria de Deus e com o seu pleno desenvolvimento na felicidade</p><p>final da humanidade, abrindo com o coro colossal em que os filhos de Deus</p><p>gritavam de alegria, e terminando nesta camaradagem mística demonstrada</p><p>de modo vagamente profético nestas velhas palavras, que têm o movimento</p><p>de uma dança arcaica: "Porque as Suas delícias são estar com os filhos dos</p><p>homens".</p><p>É destino desta obra não ser mais que esboço em matéria de filosofia,</p><p>esboço pobre, ou antes vazio, a respeito de teologia, e ir pouco mais além</p><p>de um silêncio honesto em assuntos de santidade. E no entanto tem de ser o</p><p>refrão constante deste pequeno livro, refrão que ele é forçado a repetir com</p><p>certa monotonia, que nesta história a filosofia dependeu da teologia e a</p><p>teologia dependeu da santidade. Em outras palavras, tem de repetir o</p><p>primeiro fato que realçamos no primeiro capítulo: que esta grande criação</p><p>intelectual foi criação cristã e católica, e não pode compreender-se que seja</p><p>outra coisa. Foi Santo Tomás de Aquino quem batizou Aristóteles, quando</p><p>Aristóteles não podia ter batizado Santo Tomas de Aquino; milagre</p><p>puramente cristão, que fez levantar o grande pagão dentre os mortos. E isto</p><p>(como o próprio Santo Tomás podia dizer) se prova de três modos, que será</p><p>bom resumirmos, à guisa de sumário deste livro.</p><p>Primeiramente, com a vida de Santo Tomás; prova-se com o fato de que só</p><p>a sua gigantesca</p><p>e sólida ortodoxia podia ter defendido tantas coisas que</p><p>então pareciam heterodoxas. A caridade encobre uma multidão de pecados,</p><p>e neste sentido a ortodoxia encobre uma multidão de heresias, ou aquilo que</p><p>se pode tomar, à primeira vista, por heresia. Precisamente porque o seu</p><p>catolicismo pessoal era tão convincente é que ao seu aristotelismo</p><p>impessoal se concedeu o benefício de ser examinado. Ele não cheirava à</p><p>acha inerte, porque cheirava ao tição, que tão rápida e instintivamente</p><p>empunhou quando se deu um assalto real a moral católica.</p><p>Há uma frase moderna, tipicamente cínica, que a propósito do homem</p><p>muito bom assim se exprime: é tão bom, que não serve para nada. Santo</p><p>Tomás foi tão bom, que serviu para tudo; tão bom, que a sua garantia</p><p>tornava bom o que outros consideravam as especulações mais selvagens e</p><p>atrevidas, terminando no culto do nada. Se não batizou Aristóteles, foi pelo</p><p>menos seu padrinho e defensor; jurou que o velho grego não fazia mal, e</p><p>todo o mundo creu na sua palavra.</p><p>Segunda prova: com a filosofia de Santo Tomás; prova-se pelo fato de que</p><p>tudo nela dependia do novo motivo cristão para estudar os fatos como</p><p>distintos das verdades. A filosofia tomista começou pelas mais humildes</p><p>raízes do pensamento, os sentidos e os truísmos da razão, que um sabio</p><p>pagão poderia ter desprezado como desprezava as artes servis. Mas o</p><p>materialismo, mero cinismo num pagão, pode ser humildade cristã num</p><p>cristão. Santo Tomás quis começar por referir os fatos e as sensações do</p><p>mundo material, exatamente como teria querido começar por lavar os pratos</p><p>e as travessas no convento.</p><p>O sentido do seu aristotelismo foi que, conquanto o senso comum, a</p><p>respeito das coisas concretas, fosse em verdade uma espécie de labor servil,</p><p>não tinha de sentir-se envergonhado de ser servus servorum Dei.11 Entre os</p><p>pagãos, o simples céptico podia tornar-se num simples cínico; Diógenes,12</p><p>na sua cuba, teve sempre algo de veemente pregador da lei, de gesto</p><p>energico; mas até a sujidade dos cínicos se dignificou no pó e nas cinzas</p><p>dos santos. Se esquecemos isto, esquecemos todo o significado da maior</p><p>revolução da história. Houve um motivo novo para começar pelo mais</p><p>material e até pelas coisas mais insignificantes.</p><p>Terceira prova: com a teologia de Santo Tomás; prova-se com a tremenda</p><p>verdade em que se baseia toda esta teologia ou qualquer outra teologia</p><p>cristã. Em verdade, havia nova razão para considerar os sentidos e as</p><p>sensações do corpo e as experiências do homem vulgar com uma reverência</p><p>que teria assombrado o grande Aristóteles, e que nenhum homem do mundo</p><p>antigo poderia sequer ter começado a compreender. O corpo já não era o</p><p>que fora quando Platão e Porfírio13 e os velhos místicos o tinham dado</p><p>como morto. Estivera pendente de um patíbulo e surgira de um túmulo.</p><p>Já não era possível a alma desprezar os sentidos que tinham sido os órgãos</p><p>de algo superior ao homem. Podia Platão desprezar a carne; Deus porém</p><p>não a desprezara. Os sentidos tinham sido verdadeiramente santificados, tal</p><p>qual quando são benzidos, um por um, no batismo católico. "Ver é crer" já</p><p>não era a afirmação trivial de um simples idiota ou indivíduo vulgar, como</p><p>no mundo de Platão, mas misturara-se às condições reais da verdadeira</p><p>crença. Estes espelhos móveis que mandam mensagens ao cérebro do</p><p>homem, esta luz que se lança no cérebro mostraram ao próprio Deus o</p><p>caminho de Betânia ou a luz do elevado rochedo de Jerusalém. Estes</p><p>ouvidos que retinem com os ruídos vulgares são idênticos aos que levaram</p><p>também ao conhecimento secreto de Deus o ruído da multidão que agitava</p><p>palmas, e da que gritava pela crucificação. Depois que a Encamaçao se</p><p>tomou a idéia central da nossa civilização, era inevitável que houvesse um</p><p>retorno ao materialismo, no sentido de justa valorização da matéria e do</p><p>corpo. Uma vez que Cristo tinha ressuscitado, era inevitável que também</p><p>Aristóteles reaparecesse.</p><p>Aí estão três razões, autênticas e suficientíssimas, do apoio geral que o</p><p>Santo deu a uma sólida filosofia objetiva. E no entanto havia algo mais,</p><p>muito vasto e muito vago, a que tentei dar leve expressão com a</p><p>interposição deste capitulo. É difícil expressá-lo por completo sem o perigo</p><p>terrível de se tornar popular, ou o que os modernistas erradamente</p><p>imaginam ser popular; em resumo: o perigo de passar da religião à</p><p>religiosidade.</p><p>Há contudo em Santo Tomas um tom geral e um temperamento que são tão</p><p>difíceis de evitar como a luz do dia numa grande casa com janelas. E a</p><p>atitude positiva de um espírito como que repleto e repassado da luz do sol e</p><p>do calor da admiração pelas coisas criadas. Há uma audácia peculiar, na</p><p>comunidade católica, pela qual os homens juntam aos seus nomes próprios</p><p>os títulos tremendos da Trindade e da Redenção, de modo que uma freira</p><p>pode chamar-se "do Espírito Santo", ou um homem levar um peso da</p><p>magnitude de São João da Cruz. Neste sentido, o homem que estamos</p><p>estudando pode perfeitamente chamar-se Santo Tomás do Criador.</p><p>Os árabes têm uma frase acerca dos cem nomes de Deus, mas também</p><p>receberam a tradição de um nome tremendo e inefável, porque exprime o</p><p>próprio ser; mudo e todavia tão terrível como um grito inaudível e muito</p><p>próximo: a proclamação do Absoluto. E talvez nenhum outro homem</p><p>estivesse algum dia tão perto de chamar o Criador pelo verdadeiro nome, o</p><p>qual apenas pode escrever-se: Eu sou.</p><p>Notas</p><p>1 Comandante da vitoriosa Cruzada contra os albigenses.</p><p>2 Dignidade municipal na Inglaterra. Aproximadamente, vice-presidente de</p><p>uma câmara municipal.</p><p>3 Refere-se Chesterton ao pessimismo do filósofo alemão Artur</p><p>Schopenhauer (1788-1860), pessimismo que, como se lhe vê em O Mundo</p><p>como Vontade e como Representação, se funda na oposição entre a vontade</p><p>e a inteligência.</p><p>4 Alusão a certas práticas do hinduísmo.</p><p>5 Sociedade da Verdade Católica.</p><p>6 Trata-se da Rerum Novarum, de Leão XIII.</p><p>7 Chama-se jansenismo à doutrina de Jansênio (1585-1638), teólogo</p><p>holandês e bispo de Ypres, a respeito da graça, da predestinação e da</p><p>capacidade moral do homem presente, e que, adotada na abadia de Port-</p><p>Royal, instituiu um rigorismo moral de caráter terrificante.</p><p>8 Filósofo americano (1842-1910), um dos fundadores do pragmatismo.</p><p>9 Robert Browning (1812-1889), poeta inglês da época vitoriana.</p><p>10 Robert Louis Stevenson (1850-1894), romancista escocês.</p><p>11 "Servo dos servos de Deus", frase empregada pelos Papas, após o seu</p><p>nome, nas encíclicas e nos breves.</p><p>12 Filósofo grego (413-327) da escola cínica, do qual mais se conhecem</p><p>aspectos anedóticos do que propriamente doutrinais. Afetava profundo</p><p>desprezo pelas riquezas, e, vivendo dentro de uma cuba, dizia obedecer tão-</p><p>só às leis da natureza.</p><p>13 Filósofo neoplatônico (234-305), discípulo de Plotino.</p><p>V. A VIDA REAL DE SANTO</p><p>TOMÁS</p><p>A ESTA ALTURA, até um esboço tão rude e externo de um grande santo</p><p>exige que se escreva algo que não concorda com o restante, o único que</p><p>valia a pena escrever, mas que é impossível. Um santo pode ser qualquer</p><p>tipo de homem, com a qualidade adicional de ser simultaneamente único e</p><p>universal. Podemos dizer até que o que separa um santo dos homens</p><p>ordinários é a sua disposição habitual de se confundir com os homens</p><p>ordinários. Neste sentido, a palavra "ordinário" há de entender-se no seu</p><p>significado etimológico e nobre, vinculado à palavra "ordem".</p><p>Um santo está muito além de quaisquer desejos de distinção; é a única</p><p>espécie de homem superior que nunca quis ser pessoa superior. Mas tudo</p><p>isto advém de um grande fato central, que ele não condescende em chamar</p><p>privilégio, mas que é na sua própria natureza uma espécie de segredo, e</p><p>nesse sentido quase uma forma de propriedade privada. Como com toda a</p><p>verdadeira propriedade particular, basta a ele possuí-la, sem com isso querer</p><p>limitar o número de pessoas que a possuem. Constantemente busca ocultá-</p><p>la com um tipo de boas maneiras celestiais, e Tomás de Aquino buscou</p><p>ocultá-la mais que todos. Para a penetrarmos na medida do possível, será</p><p>melhor começar pelos estratos superiores, e atingir o interior mediante o</p><p>que de mais notável</p><p>se mostrava no exterior.</p><p>A aparência ou presença corporea de Santo Tomás de Aquino é, em</p><p>verdade, mais fácil de reconstituir que a de muitos que viveram antes da</p><p>época dos retratos a óleo. Tem-se dito que no seu ser físico ou aspecto</p><p>externo pouco havia de italiano; mas isto é, na melhor das hipóteses,</p><p>consoante imagino, uma comparação inconsciente entre Santo Tomás e São</p><p>Francisco, e, na pior, somente uma comparação entre ele e a lenda</p><p>apaixonada de vivazes tocadores de realejo e de sorveteiros incendiários.</p><p>Nem todos os italianos são vivazes tocadores de realejo, e muito poucos são</p><p>como São Francisco. Uma nação jamais é um tipo, mas quase sempre é uma</p><p>mescla de dois ou três tipos mais ou menos característicos.</p><p>Santo Tomás foi de certo tipo que não é tão comum na Itália como em</p><p>italianos pouco comuns. A sua corpulência facilitou o considerarem-no</p><p>humoristicamente um tipo desses barris ambulantes, freqüentes nas</p><p>comédias de muitas nações. Ele próprio divertia-se com isso. Talvez seja</p><p>ele, e não nenhum partidário irritado dos partidos agostiniano ou árabe, o</p><p>responsável pelo sublime exagero de ser preciso cortar um pedaço da mesa,</p><p>em forma de meia-lua, para que ele pudesse sentar-se a ela. É certo que foi</p><p>um exagero; é certo que a sua estatura chamava mais a atenção que a sua</p><p>gordura; mas, acima de tudo, é certo que aquela cabeça era bastante</p><p>impressionante para dominar o corpo, e de tipo bem marcado e</p><p>inconfundível, a julgar pelos retratos tradicionais e pelas descrições da sua</p><p>pessoa. Era desse tipo de cabeças de largas maxilas e queixo pesado, de</p><p>nariz romano e de grande fronte algo calva, que, apesar da plenitude, dá</p><p>também, aqui e ali, uma curiosa impressão de concavidades como cavernas</p><p>do pensamento.</p><p>Napoleão tinha uma cabeça como esta sobre um corpo pequeno. Mussolini</p><p>tem-na hoje em cima de um corpo muito maior, mas igualmente ativo.</p><p>Pode-se ver nos bustos de muitos imperadores romanos e, ocasionalmente,</p><p>sobre o pobre colarinho de algum criado italiano, mas que é geralmente</p><p>chefe de criados. O tipo é tão inconfundível, que não posso deixar de pensar</p><p>que o vilão mais sagaz de novela ligeira, no sensacional romance vitoriano</p><p>A Mulher de Branco, foi em verdade copiado por Wilkie Collins de um</p><p>autêntico conde italiano; está em contraste total com o vilão convencional,</p><p>magro, moreno e gesticulador que os vitorianos apresentavam geralmente</p><p>como conde italiano. Alguns hão de lembrar-se (creio eu) de que o conde</p><p>Fosco, cavalheiro calmo, corpulento e colossal, tinha a cabeça precisamente</p><p>como um busto de Napoleão de proporções heróicas. Seria um vilão</p><p>melodramático, mas era um italiano razoavelmente convincente... dessa</p><p>espécie. Se lhe relembrarmos os modos calmos e o excelente senso comum</p><p>das palavras e ações externas de todos os dias, teremos talvez uma imagem</p><p>simplesmente material do tipo de Tomás de Aquino; com um leve esforço</p><p>de imaginação, ter-se-á o conde Fosco transformado de repente em santo.</p><p>Os retratos de Santo Tomás, apesar de muitos terem sido pintados muito</p><p>após a morte, são todos evidentemente retratos do mesmo homem. Aparece</p><p>erguendo altivamente a cabeça napoleônica sobre o grande vulto escuro do</p><p>corpo, como na Disputa do SS. Sacramento de Rafael. Certo retrato de</p><p>Guirlandaio realça algo que revela, especialmente, o que podemos chamar a</p><p>sua esquecida qualidade italiana, e também pontos que são muito</p><p>importantes no místico e no filósofo. Afirma-se universalmente que Tomás</p><p>de Aquino era o que comumente se chama um homem distraído, e este tipo</p><p>tem sido muitas vezes representado na pintura, séria ou humorística, mas</p><p>quase sempre em um dentre dois ou três modos convencionais. As vezes a</p><p>expressão dos olhos é vaga, como se a abstração significasse, em verdade,</p><p>permanente distração. Outras vezes se representa, mais respeitosamente,</p><p>com expressão de profunda ansiedade, como se estivesse desejando</p><p>ardentemente algo muito afastado, que não pode ver mas somente desejar,</p><p>como miragem indistinta.</p><p>Reparem nos olhos do retrato de Santo Tomás por Guirlandaio e verão a</p><p>profunda diferença. Enquanto os olhos estão, de fato, completamente</p><p>alheados do que o cerca, de tal maneira que o vaso de flores que está acima</p><p>da cabeça do filósofo poderia cair sobre ela sem lhe chamar a atenção, estão</p><p>porém longe de refletir ansiedade nem, muito menos, inação. Arde neles um</p><p>fogo de profunda excitação interior; são olhos de grande vivacidade e muito</p><p>italianos. O homem está pensando em algo; mas em algo que atingiu uma</p><p>crise. Não está sem pensar em nada, nem a pensar em algo sem</p><p>importância, nem, o que é quase pior, a pensar em tudo. Deve ter havido</p><p>nos seus olhos essa ardente vigilância interna na ocasião em que bateu na</p><p>mesa e espantou os convivas do banquete do rei.</p><p>Dos hábitos pessoais que acompanham a pessoa física, temos também</p><p>algumas impressões convincentes e confirmantes. Quando não estava</p><p>sentado e imóvel lendo um livro, andava em volta dos claustros, caminhava</p><p>depressa e até com ímpeto, ação muito própria dos homens que travam as</p><p>suas batalhas na inteligência. Sempre que o interrompiam, mostrava-se</p><p>muito delicado, e pedia mais desculpas dos que lhas pediam. Mas via-se</p><p>nele algo que demonstrava que se sentia muito mais feliz quando não o</p><p>interrompiam. Mostrava-se disposto a parar o seu passeio verdadeiramente</p><p>peripatético; cremos, contudo, que quando o recomeçava devia andar ainda</p><p>mais depressa.</p><p>Tudo isso leva a concluir que a sua abstração superficial, a que o mundo</p><p>via, era de um tipo peculiar. Há que compreender de que qualidade era,</p><p>porque há diversas espécies de abstração mental, incluída a de alguns</p><p>poetas e intelectuais pretensiosos, em quem o espírito notoriamente nunca</p><p>esteve presente. Há a abstração dos contemplativos, quer sejam eles da</p><p>verdadeira espécie de cristãos contemplativos, que contemplam alguma</p><p>coisa, quer sejam da espécie falsa dos contemplativos orientais, que</p><p>contemplam o nada.</p><p>É evidente que Santo Tomás não era nenhum místico budista, mas não creio</p><p>que os seus acessos de abstração fossem sequer os de um místico cristão. Se</p><p>ele teve transes de verdadeiro misticismo cristão, teve o cuidado que não</p><p>ocorressem à mesa das outras pessoas. Suponho-o propenso aquela espécie</p><p>de encantamento mais própria realmente do homem prático que do</p><p>totalmente místico. Ele emprega a conhecida distinção entre vida ativa e</p><p>contemplativa, mas, nos casos que aqui importam, creio que até a sua vida</p><p>contemplativa era ativa. Nada tinha que ver com a sua vida mais elevada,</p><p>no sentido da sua verdadeira santidade. Faz-nos lembrar Napoleão, que</p><p>teve, segundo dizem, um acesso de aborrecimento na opera e confessou</p><p>depois que estivera a pensar como poderia conseguir a combinação de três</p><p>corpos de exercito em Frankfurt com dois outros em Colônia.</p><p>Tal era o caso de Tomás de Aquino: se os seus sonhos diurnos eram sonhos,</p><p>eram sonhos de dia claro, sonhos de dia de batalha. Se falava consigo</p><p>próprio, era porque estava discutindo com qualquer outro. Podemo-nos</p><p>expressar de outra maneira, dizendo que os seus sonhos diurnos, como os</p><p>sonhos de um cão, eram sonhos de caça, de perseguição do erro e também</p><p>da verdade, de seguimento de todas as idas e vindas da falsidade evasiva, de</p><p>rastreamento dela até o final, até a sua furna no inferno. Ele teria sido o</p><p>primeiro a admitir que o pensador errôneo ficaria provavelmente mais</p><p>surpreso com saber de onde advinha o seu pensamento do que qualquer</p><p>outra pessoa com descobrir aonde ele ia dar. Mas o sentido de perseguir,</p><p>conhecia-o ele certamente, e tanto, que lhe causou mil equívocos e más</p><p>interpretações o fato de a perseguição dizer-se em latim persecutio.</p><p>Ninguém menos que ele tinha o que vulgarmente se chama têmpera de</p><p>perseguidor; mas possuía a qualidade que em tempos ruins é levada muita</p><p>vez a perseguir, e isto quer simplesmente dizer que tudo vive em qualquer</p><p>lugar e nada morre senão em sua própria casa. Que ele por vezes, neste</p><p>sentido, perseguia em sonho a misteriosa caça, ainda à luz clara do dia, é</p><p>perfeitamente verdade.</p><p>Era, no entanto, um sonhador ativo,</p><p>se é que não era também o que</p><p>comumente se chama homem de ação; e nessa caça devia ser em verdade</p><p>contado entre os domini canes, e por certo o mais forte e o mais magnanimo</p><p>dos galgos do céu.</p><p>Deve de haver muita gente que nem sequer compreende a natureza desta</p><p>espécie de abstração. Mas infelizmente há também muita gente que não</p><p>compreende a natureza de nenhuma espécie de argumento. De fato creio</p><p>que há hoje, entre os vivos, menos gente que compreenda argumentos do</p><p>que a havia há 20 ou 30 anos; e Santo Tomás talvez preferisse a sociedade</p><p>dos ateus do século XIX à dos cépticos vazios do século XX. Como quer</p><p>que seja, uma das desvantagens reais do grande e glorioso esporte da</p><p>argumentação é a sua excessiva lentidão. Se se argumenta com honestidade,</p><p>como sempre fazia Santo Tomás, ver-se-á que por vezes o assunto parece</p><p>não ter fim. Ele dava-se perfeita conta disso, como se vê em muitas</p><p>passagens. Por exemplo: o seu argumento de que a maior parte dos homens</p><p>deve ter uma religião revelada, por não terem tempo para argumentar, ou</p><p>seja, para argumentar com lealdade. Há sempre tempo para argumentar</p><p>pouco sinceramente, ainda que numa época como a nossa.</p><p>Estando resolvido a argumentar, ou seja, a argumentar honestamente, a</p><p>responder a todo o mundo, a tratar de tudo, escreveu livros suficientes para</p><p>fazer afundar um navio ou guarnecer uma biblioteca, apesar de ter morrido</p><p>em idade relativamente pouco avançada. E provável que não o tivesse</p><p>podido fazer se não vivesse a pensar, quando não escrevia, mas acima de</p><p>tudo a pensar com combatividade. No seu caso, isto não quer dizer com</p><p>acrimônia, com desprezo ou sem caridade, mas combativamente. Com</p><p>efeito, o homem que não está preparado para argumentar é comumente o</p><p>que está mais pronto para escarnecer. Esta é a razão por que na literatura</p><p>recente tem havido tão poucos argumentos e tanta ironia.</p><p>Ja observamos que houve somente uma ou duas ocasiões em que Santo</p><p>Tomás se permitiu uma invectiva; não houve uma só ocasião em que se</p><p>permitisse um ato de desprezo. O seu caráter curiosamente simples, a sua</p><p>inteligência lúcida mas laboriosa não podem resumir-se melhor do que</p><p>dizendo que não sabia desprezar ninguém. Em um duplo sentido, era um</p><p>aristocrata intelectual; nunca foi todavia um esnobe intelectual. Nunca se</p><p>incomodou com saber se aqueles com quem falava eram mais ou menos</p><p>daquelas pessoas com que o mundo considera digno falar; e, ao que parece,</p><p>era impressão dos seus contemporâneos que os que recebiam as migalhas</p><p>do seu claro entendimento ou da sua sabedoria eram tanto nulidades como</p><p>pessoas de categoria, tanto gente insignificante como inteligente.</p><p>O que para ele tinha interesse eram as almas de todos os seus semelhantes, e</p><p>nunca jamais classificar a inteligência de alguns deles, o que, por um lado,</p><p>era demasiado pessoal, e, por outro, demasiado arrogante para o seu espírito</p><p>e temperamento particular. Interessava-se, sim, e muitíssimo, pelo assunto</p><p>de que tratava, e talvez às vezes falasse durante muito tempo, conquanto</p><p>provavelmente andasse habitualmente calado durante muito mais tempo.</p><p>Mas sentia em si esse desprezo inconsciente que toda e qualquer pessoa</p><p>realmente inteligente sente por uma intelligentsia.</p><p>Como a maior parte dos que se interessam pelos problemas comuns do</p><p>homem, também ele parece ter tido uma correspondência considerável; mas</p><p>devemos ter presente que a correspondência era muito mais difícil no seu</p><p>tempo. Conhecemos muitíssimos casos em que pessoas completamente</p><p>desconhecidas lhe escreveram fazendo perguntas, e por vezes perguntas</p><p>muitíssimo ridículas. Respondeu a todas com aquele misto de paciência e</p><p>de bom senso que na maior parte das pessoas racionais tende a tornar-se</p><p>impaciência. Um, por exemplo, perguntava-lhe se os nomes de todos os</p><p>bem-aventurados estavam escritos num rolo de papel exposto no céu.</p><p>Respondeu com calma inabalável:</p><p>"Que eu saiba, não é bem assim. Em todo o caso, não há perigo nenhum em</p><p>afirmá-lo."</p><p>No retrato de Santo Tomás pintado por um italiano, notei que o pintor o</p><p>mostra vivaz até na abstraçao, e na atitude silenciosa de quem vai falar.</p><p>Nessa grande tradição, os quadros estão comumente cheios de pormenores</p><p>demonstrativos de grande imaginação. Quero referir-me ao tipo de</p><p>imaginação de que Ruskin1 falou, quando viu que na brilhante cena da</p><p>crucificação de Tintoreto a face de Cristo se mostra escura e quase invisível,</p><p>mas que o resplendor em torno da cabeça surpreende pelo tom esbatido e</p><p>pardo como a cor da cinza. Seria difícil dar mais poderosamente, de modo</p><p>tão impressionante, a idéia da própria divindade em eclipse. Ora, há um</p><p>detalhe que podemos talvez imaginar igualmente significativo no retrato de</p><p>Tomas de Aquino. O artista, tendo dado aos olhos muita vivacidade e</p><p>vigilância, sentiu talvez que acentuou demasiadamente a combativa</p><p>concentração do santo; mas, por alguma razão, pôs-lhe no peito um</p><p>emblema muito curioso, como se fora um terceiro olho, simbólico e de</p><p>ciclope. Não é, pelo menos, um símbolo cristão normal, mas algo de mais</p><p>semelhante ao disco solar como aparecia na face de algum deus pagão; a</p><p>face, porém, mostra-se obscura e misteriosa, e só os raios que dela se</p><p>emitem a rodeiam como um anel de fogo.</p><p>Não sei se se tem dado a isto algum sentido tradicional, mas o seu</p><p>significado simbólico é estranhamente apropriado. Este sol secreto,</p><p>ofuscado pelo excesso de luz, ou cuja luz servia somente para iluminar os</p><p>outros, poderia muito bem ser o símbolo exato desta vida interior e ideal do</p><p>santo, que se ocultava não só nas palavras e ações externas mas até nos seus</p><p>silêncios exteriores e automáticos, e nos seus acessos de reflexão. Em suma,</p><p>este desprendimento espiritual não deve confundir-se com o seu hábito</p><p>ordinário de se concentrar em meditação profunda e séria. Ele era um</p><p>homem totalmente despreocupado das críticas fáceis ao seu proceder</p><p>externo ordinário, como são muitos homens formados segundo um grande</p><p>modelo masculino e que herdaram, inconscientemente, certa largueza e</p><p>brilho social.</p><p>A respeito todavia da sua vida interior de santidade, foi profundamente</p><p>reservado. Tal reserva tem, em verdade, acompanhado comumente a</p><p>santidade, pois o santo mostra um horror imenso ao farisaísmo. Mas em</p><p>Tomás de Aquino se tornou ainda mais sensível, e o que muita gente</p><p>chamaria mórbido. Não se importou com que o apanhassem distraído em</p><p>divagação intelectual enquanto se bebia no banquete real, porque se tratava</p><p>unicamente de um caso de controvérsia. Mas, quando se tratava de saber se</p><p>tivera uma visão de São Paulo, alarmava-se até à agonia, com medo de que</p><p>se falasse disto, motivo por que não foi possível certificar o fato. É</p><p>desnecessário dizer que os seus seguidores e admiradores estavam tão</p><p>desejosos de reunir estas histórias miraculosas quanto ele se sentia ansioso</p><p>por ocultá-las; não obstante, uma ou duas parece terem sido conservadas</p><p>com certa garantia de verdade.</p><p>Mas há por certo na sua vida menos casos destes, conhecidos de todo o</p><p>mundo, do que no caso de muitos santos, igualmente sinceros e até</p><p>igualmente modestos, mas mais preocupados com o zelo e menos sensíveis</p><p>à publicidade. A verdade é que, por este aspecto, tanto na vida como na</p><p>morte pesa sobre Santo Tomás uma espécie de enorme e muda</p><p>tranqüilidade. Ele foi uma dessas coisas grandes que desejam ocupar</p><p>pouquíssimo lugar.</p><p>Depois de morrer, obviamente, produziu-se certo movimento quanto aos</p><p>seus milagres, e também quanto ao seu funeral, quando a Universidade de</p><p>Paris quis mandá-lo sepultar. Nao conheço detalhadamente a longa história</p><p>de outros planos para o sepultarem, que vieram a terminar com a deposição</p><p>dos seus ossos sagrados na igreja de São Sernin, em Toulouse, precisamente</p><p>no centro dos campos de batalha em que os seus dominicanos tinham</p><p>vencido a peste do pessimismo do Oriente. Em todo o caso, não é fácil</p><p>imaginar o seu túmulo como centro de devoção alegre, ruidosa e popular,</p><p>quer na forma medieval, quer na moderna.</p><p>Rigorosamente falando, Santo Tomas está longe de ser um autêntico</p><p>puritano; chega até a fazer provisões para um feriado e</p><p>poderia</p><p>começar por qualquer "ponta" ou circunstância, "tenho geladeira", "há</p><p>policiais", dado que em si mesma a civilização integra coisas evidentes e</p><p>razoáveis, do mesmo modo o catolicismo explica tão completamente os</p><p>fatos da vida humana que, diz, "para defendê-lo, tanto faz começar por uma</p><p>cabaça ou por um táxi".</p><p>Chesterton estuda diversas filosofias da história: materialismo,</p><p>subjetivismo, determinismo, panteísmo... nenhuma explica aceitavelmente o</p><p>relevo e a complexidade da existência. E dirá Chesterton que os que o</p><p>"empurraram" cada vez mais para a Igreja foram precisamente aqueles</p><p>agnósticos que lhe suscitaram "dúvidas mais profundas que as suas". Um</p><p>dos fatos que analisa é a quantidade de acusações contraditórias que</p><p>recebeu a Igreja: ou era demasiado pomposa ou demasiado austera,</p><p>aterrorizadora ou prometedora de uma felicidade sem fim; obstinava-se em</p><p>que as pessoas deviam ter muitos filhos ou não devia tê-los em absoluto:</p><p>fecundidade e celibato... So o pecado original, conclui Chesterton, explica o</p><p>porquê de uma proposição complexa, só o catecismo satisfaz essa mesma</p><p>complexidade da alma humana; só a aceitação de grandes mistérios, e não o</p><p>desgaste racional por compreender tudo, nos coloca na realidade: "o</p><p>cristianismo planta a semente do dogma na mais pura sombra, e por isso lhe</p><p>é dado crescer". Somente a ortodoxia católica fez feliz ao homem: "é como</p><p>os muros postos ao redor de um precipício onde pode brincar uma porção</p><p>de crianças". Só a cruz na sua interseção contraditória de linhas é livre,</p><p>estende os seus quatro braços para o infinito, enquanto o círculo — símbolo</p><p>das religiões orientais — está escravizado na sua única linha, a serpente que</p><p>morde a própria cauda. Somente o cristianismo com o mistério</p><p>"escandaloso da cruz" propõe uma solução cordata e verdadeira. Chesterton</p><p>ensina-nos, pois, a desconfiar das explicações aparentemente "coerentes",</p><p>lineares, que deixam um monte de fatos sem explicar.</p><p>O dom da existência, as maravilhas do universo são as primeiras punções</p><p>diante de que Chesterton descobre Deus; mergulha no sentimento de</p><p>surpresa e gratidão que lhe produz cada coisa: "no espanto há um elemento</p><p>positivo de prece"; mergulha também no afeto que experimentava ante os</p><p>obséquios de Deus: "senti-me perdidamente enamorado do universo",</p><p>enquanto o filósofo moderno o estudava para metê-lo na cabeça, mas sem</p><p>enamorar-se dele, sem medir um instante o seu valor real. Este valor —</p><p>com mais razão depois da Redenção — é nobremente descrito através de</p><p>uma comparação: assim como Robinson Crusoé na sua ilha entesoura</p><p>pequenos utensílios, especialmente porque foram resgatados de um</p><p>naufrágio, o homem deveria pensar que não só podia "não ter sido" mas</p><p>também que "tornou a ser", foi salvo de um grande naufrágio; daí que todas</p><p>as coisas devam apreciar-se duplamente, como Crusoe aprecia os seus</p><p>despojos.</p><p>O Homem que sabia viver</p><p>Dizia o notável escritor francês, Paul Claudel, que Chesterton teve a missão</p><p>de "refazer uma imaginação e uma sensibilidade católicas, murchas há</p><p>quatro séculos". E outro grande escritor, o Padre Leonardo Castellani, dizia</p><p>que esta missão chestertoniana consistiu em "rir, fantasiar, disputar, atirar-se</p><p>no pasto e andar de pernas para o ar, cantar as verdades mais gordas à tesa</p><p>Inglaterra, denegrir copiosamente os políticos, banqueiros, cientistas e</p><p>literatos, escarnecer os inimigos e crer na Igreja Católica Romana; mas a</p><p>graça está em que isto último é o que dá poder ao primeiro". A graça é</p><p>também que Chesterton cultivou a imaginação fundado no catecismo e ao</p><p>serviço dele.</p><p>Há, como diz Castellani, uma atitude em Chesterton — eminentemente</p><p>católica — que desconcertou sempre os seus contemporâneos: o júbilo. Mas</p><p>como o seu era um júbilo que estava junto a uma inteligência colossal,</p><p>Chesterton encarregou-se de extirpar consideravelmente o preconceito entre</p><p>cientistas e intelectuais que une a fé à estreiteza mental e a fé à tristeza.</p><p>Neste sentido, o tema do seu melhor romance, O Homem Que Sabia Viver</p><p>(1912), é uma reprovação "jocosa" ao mundo moderno pela sua profunda</p><p>tristeza, pela sua assombrosa falta de diversões autênticas e simples, pela</p><p>sua frieza, pela sua tremenda indiferença para com as coisas essenciais e</p><p>para com o espetáculo tão rico da criação, pela sua incapacidade para</p><p>enamorar-se de nada; uma reprovação muito profunda a toda a "mitologia e</p><p>jargão científico" (leia-se evolucionismo e a ciência que se jacta de</p><p>prescindir de Deus), que no fundo é estéril e aborrecida, tão profusa como</p><p>sonífera. Por isto, dira Chesterton — uma verdade gorda à "tesa filosofia"</p><p>— que o verdadeiro problema prático que a filosofia deve resolver é ensinar</p><p>a gozar das coisas, e, o mais difícil, saber conservar este gozo. É também</p><p>esta obra — em grande medida, autobiográfica — um convite vigoroso ao</p><p>matrimônio, ao amor verdadeiro entre homem e mulher, à conservação do</p><p>seu encanto, à conquista perene, à delicadeza e à hombridade. Nunca se</p><p>insistirá suficientemente naqueles traços inequívocos que atravessam a obra</p><p>e a vida de Chesterton: uma profunda delicadeza e cavalheirismo;</p><p>delicadeza, certamente, para com a mulher, mas que se estende a todas as</p><p>coisas.</p><p>A conversão ao catolicismo</p><p>Chesterton confessava na Autobiografia que um pequeno "catecismo de um</p><p>pennig" lhe disse tudo o que a ciência, a filosofia pagã e o mundo não</p><p>tinham sabido sequer balbuciar. Disse-lhe o que ele de algum modo sempre</p><p>ensinara, que o orgulho e o desespero eram um pecado, e que a forma mais</p><p>feliz de estar no mundo era "resolvendo-se a ser humilde".</p><p>A entrada de Chesterton no seio da Igreja Católica deu-se em 1922. Atrás</p><p>deste passo estavam o escritor católico Hilaire Belloc, com quem</p><p>Chesterton desde 1900 mantinha estreita amizade; um sacerdote com quem</p><p>também teve longa e fecunda amizade, o Padre 0'Connor, inspirador das</p><p>histórias mais famosas de Chesterton (as histórias detetivesco-filosoficas do</p><p>Padre Brown), e com quem faria a sua confissão geral. Não obstante, acima</p><p>de tudo e fincada na sua alma, foi, como se assinalou antes, uma antiga</p><p>devoção à Santíssima Virgem o que o levou definitivamente para a Igreja</p><p>Católica: motivo, ademais, de um dos seus melhores veios poéticos</p><p>(dedicou um precioso poema às suas dores, A Rainha das Sete Espadas). E</p><p>na obra Por Que Me Converti ao Catolicismo Chesterton nos diz: "Creio</p><p>poder assegurar que a primeira coisa a atrair-me no catolicismo foi, em</p><p>verdade, o que devia ter-me afastado dele [...]. Recordo especialmente os</p><p>casos em que as inculpações de dois autores sérios fizeram que me</p><p>parecesse desejável precisamente o condenado. No primeiro, mencionavam</p><p>[...] com tremor e estremecimento, uma espantosa blasfêmia que tinham</p><p>encontrado num místico católico a falar da Santíssima Virgem: Todas as</p><p>demais criaturas devem tudo a Deus, mas a ela Deus mesmo tem de estar</p><p>agradecido'. Eu, pelo contrário, estremeci como se ouvisse um alto som de</p><p>trombeta e disse quase em voz alta: 'Que magnífico é isto!' Pareceu-me</p><p>como se o milagre da encarnação [...] mal se pudesse expressar melhor nem</p><p>mais claramente".</p><p>Na véspera da sua confissão, Chesterton passeava com o seu pequeno</p><p>catecismo pelo jardim de casa, como um menino, sussurrando coisas e com</p><p>uma felicidade mal contida. Dizia depois que o dia da sua primeira</p><p>comunhão "foi o mais feliz da sua vida". Quando lhe perguntavam o que o</p><p>tinha levado a dar aquele passo, respondia: "a Igreja Católica é a única que</p><p>realmente apaga os pecados". E, se pensamos na melhor personagem criada</p><p>por Chesterton, um humilde sacerdote que resolve casos policiais, o padre</p><p>Brown, compreende-se até que ponto se sentia atraído pelo mistério único</p><p>da confissão, pois criou um padrezinho aparentemente sem carisma, mas</p><p>que ocultava um conhecimento profundo da alma humana. Chesterton quis</p><p>ressaltar assim numa personagem: a peculiar sabedoria que vem de um</p><p>confessionário e o poder de um sacerdote ao desfazer os pecados (em duas</p><p>das melhores histórias, As Pegadas Misteriosas e O Martelo de Deus, o</p><p>sacerdote confessa os delinqüentes). Isto era inédito</p><p>a organizar um lauto</p><p>banquete para os seus amigos mais novos — o que lhe da certo ar de</p><p>familiaridade. A tendencia dos seus escritos, atendendo à sua época, é</p><p>razoável em admitir o exercício físico, e sai um pouco do seu assunto para</p><p>dizer que os homens devem amenizar a vida com piadas e até com</p><p>travessuras. Apesar disso, todavia, não podemos imaginar a sua</p><p>personalidade como um tipo de ímã para as multidões, nem o caminho do</p><p>túmulo de Santo Tomás em Toulouse é uma rua de tabernas, como o do</p><p>túmulo de Santo Tomás de Cantuária.</p><p>Creio que detestava barulho. Reza uma lenda que ele não gostava de</p><p>trovoada, mas isto é contraditado pelo fato de se manter superiormente</p><p>calmo durante um naufrágio. Seja porém como for, e isso concernia,</p><p>naturalmente, à sua saúde, de certo modo delicada, ele era por certo muito</p><p>calmo. Temos a impressão de que devemos tomar, pouco a pouco,</p><p>consciência da sua presença como de um imenso pano de fundo.</p><p>Se este leve esboço fosse digno do assunto de que trata, deveria aparecer</p><p>aqui algo daquela estupenda firmeza na fé, em presença da qual todas as</p><p>suas bibliotecas de filosofia e até de teologia não eram senão um monte de</p><p>papéis sem importância. E certo que ela existiu nele, desde o princípio, na</p><p>forma de convicção, muito antes de poder começar a assumir a forma de</p><p>controvérsia. Foi muito viva na infância, decorrida em circunstâncias em</p><p>que as anedotas da meninice e as brincadeiras têm muita probabilidade de</p><p>realmente permanecer. Desde o início deu esta prova completa e decisiva de</p><p>verdadeiro catolicismo ortodoxo: a paixão impetuosa, impaciente e</p><p>insofrível pelos pobres, e até aquela prontidão para se tornar incômodo aos</p><p>ricos, nascida de um veemente desejo de saciar os famintos. Isto pode nada</p><p>ter que ver com o intelectualismo de que mais tarde o acusariam nem, ainda</p><p>menos, com nenhuns hábitos de dialética.</p><p>Parece pouco provável que na idade de seis anos sentisse ambição de</p><p>responder a Averróis, nem soubesse o que é a causalidade eficiente, nem</p><p>sequer que já tivesse descoberto, como o fez em idade mais avançada, toda</p><p>a teoria por que o amor de um homem por si mesmo é sincero, constante e</p><p>indulgente, e que um amor assim deve transferir-se, quanto possível intacto,</p><p>para o amor do próximo. Em idade tão jovem não compreendeu tudo isto.</p><p>Apenas o pôs em prática. Mas em todo o ambiente das suas ações se respira</p><p>certa convicção. Por exemplo, é admiravelmente típico daquele</p><p>aristocrático lar medieval que os pais não se tivessem oposto muito, se é</p><p>que se opuseram alguma vez, às dádivas feitas aos mendigos e aos</p><p>vagabundos, mas sim que tal desagradasse profundamente aos criados mais</p><p>categorizados.</p><p>Nada obstante, se considerarmos o caso tão seriamente como se devem</p><p>considerar todas as infantilidades, podemos aprender algo deste misterioso</p><p>estado de inocência, que é a primeira e a melhor fonte de todas as nossas</p><p>indignações posteriores. Podemos começar por compreender por que,</p><p>juntamente com a evolução do seu espírito, espírito grande e muito</p><p>solitário, crescia também, com firmeza, uma ambição que era o inverso de</p><p>tudo o que o rodeava. Podemos adivinhar o que dentro dele se ia</p><p>avolumando, seja de protesto, seja de profecia, seja de súplica por sua</p><p>libertação, antes de deixar a família aturdida com arremessar para longe não</p><p>só os atributos da nobreza mas também todas as formas de ambiçao, até a</p><p>eclesiástica. A sua infância revela já uma alusão a esse primeiro grande</p><p>passo da idade viril, a fuga de casa para os caminhos, e a declaração de</p><p>também querer ser mendigo.</p><p>Há ainda outro caso que é como uma segunda luz, ou seqüência, em que as</p><p>circunstâncias externas nos dão um vislumbre do seu sentido interno.</p><p>Depois do caso do tição ardente e da mulher que o tentou na torre, diz-se</p><p>que teve um sonho em que dois anjos o cingiram com um cordão de fogo,</p><p>que lhe causou terrível dor e ao mesmo tempo lhe deu uma terrível força, e</p><p>que ele acordou, soltando grande grito na escuridão.</p><p>Isto também tem algo de muito impressionante naquelas circunstâncias, e</p><p>provavelmente encerra verdades que algum dia serão mais bem</p><p>compreendidas, quando os padres e os médicos tiverem aprendido a falar</p><p>uns com os outros sem a etiqueta, já gasta, das negações do século XIX.</p><p>Seria fácil analisar um sonho, como o médico do século XIX fez em</p><p>Armadale, estudando-o nos detalhes dos dias passados: primeiro a imagem</p><p>do cordão, naquela sua luta contra os que lhe queriam arrancar o hábito de</p><p>frade; depois a linha de fogo correndo através da tapeçaria da noite,</p><p>proveniente do tição que ele tirara do fogo. Mas, se em Armadale o sonho</p><p>se cumpriu misticamente, também muito misticamente se cumpriu em</p><p>Santo Tomás. Porque ele, com efeito, após o incidente ficou completamente</p><p>sossegado com respeito a essas lutas da sua natureza humana, conquanto</p><p>seja muito provável que o incidente tenha causado nele uma elevação da</p><p>sua humanidade normal — o que lhe produziu um sonho mais forte do que</p><p>um mero pesadelo. Não é aqui o lugar para analisar o fato psicológico que</p><p>tanto embaraça os não-católicos: o de como os padres conseguem ser</p><p>celibatários sem deixar de ser viris.</p><p>Como quer que seja, parece provável que ele, neste ponto, foi menos</p><p>incomodado do que a maior parte. Isto nada tem que ver com a verdadeira</p><p>virtude, que reside na vontade; santos tão santos como ele rolaram sobre</p><p>silvas para abrandar os ímpetos da paixão; ele contudo nunca teve</p><p>necessidade de antiestimulante, pela simples razão de que neste aspecto,</p><p>como em muitos outros, nunca sentiu grande estimulação. Muito tem de</p><p>ficar por explicar, porque é obra dos mistérios da graça; mas há</p><p>provavelmente certa verdade na idéia psicológica de "sublimação", que é a</p><p>elevação de uma energia inferior até fins mais elevados, de maneira que o</p><p>apetite quase se lhe desvaneceu na fornalha da energia intelectual. Por</p><p>causas naturais ou sobrenaturais, é provável que nunca soubesse ou sofresse</p><p>muito neste ponto, no seu espírito.</p><p>Há momentos em que o leitor mais ortodoxo se sente tentado a odiar o</p><p>hagiógrafo tanto quanto ama o santo. Este esconde sempre a sua santidade;</p><p>é regra invariável. E o hagiógrafo por vezes parece mais um perseguidor a</p><p>buscar frustrar o santo, um espião ou um indiscreto, pouco mais respeitoso</p><p>que um jornalista americano ao entrevistar alguém.</p><p>Estes sentimentos são muito delicados e parciais, e vou agora provar a</p><p>minha afirmação mencionando um ou dois dos incidentes que só por tal</p><p>caminho deplorável puderam vir a cair no domínio público.</p><p>Parece certo que viveu uma espécie de segunda vida, esta vida misteriosa</p><p>que é como uma reprodução divina em nós e que nos faz viver uma segunda</p><p>existência. Parece que alguém conseguiu ter uma leve notícia do tipo de</p><p>milagre solitário que os psiquiatras modernos chamam levitação, e esse</p><p>alguém, por certo, há de ter sido ou mentiroso ou testemunha presencial,</p><p>pois não pode ter havido dúvida ou meio termo a respeito de um prodígio</p><p>sucedido a tal pessoa. Deve de ter sido como ver uma grande coluna de</p><p>igreja suspensa do céu como uma nuvem.</p><p>Ninguém sabe, creio eu, que tipo de tempestade de exaltação espiritual ou</p><p>de angústia produz esta convulsão na matéria ou no espaço, mas o fato</p><p>acontece com certeza. Até no caso dos vulgares médiuns espíritas, sejam</p><p>quais forem as razões, os fatos são muito difíceis de refutar. Mas,</p><p>naturalmente, a revelação mais característica desta faceta da sua vida se</p><p>encontrará na célebre história do milagre do crucifixo. Quando ele se</p><p>encontrava na tranquilidade da igreja de Sao Domingos, em Nápoles,</p><p>ouviu-se uma voz que saía de uma imagem de Jesus Cristo crucificado; esta</p><p>voz disse ao frade ajoelhado que ele tinha escrito bem, e propôs-lhe a</p><p>escolha de uma recompensa dentre todas as coisas do mundo.</p><p>Creio que nem todos têm apreciado o significado desta história particular</p><p>aplicada a este santo particular. É fato muito conhecido e freqüente, se o</p><p>consideramos simplesmente um oferecimento feito a um devoto da solidão</p><p>ou da simplicidade, para escolher entre todas as coisas boas da vida. O</p><p>eremita, verdadeiro ou fingido,</p><p>o faquir, o fanático ou o cínico, o estilita em</p><p>cima da sua coluna ou Diógenes na sua cuba podem representar-se tentados</p><p>pelos poderes da terra, do ar ou dos céus, com a oferta do que há de melhor</p><p>dentre todas as coisas, e a responder que de nada precisam. No cínico ou</p><p>estóico grego realmente significava uma simples negação positiva, ou seja,</p><p>que queriam o nada, que o nada era de fato o que queriam. Por vezes</p><p>expressava uma nobre independência e as virtudes gêmeas da Antiguidade:</p><p>o amor da liberdade e o ódio do luxo. Outras vezes expressava só uma auto-</p><p>suficiência, que é o verdadeiro oposto da santidade.</p><p>Mas as histórias e os santos desta espécie não abarcam o caso de Santo</p><p>Tomás. Ele não era pessoa que não precisasse de nada, pois se interessava</p><p>enormemente por tudo. A sua resposta não é tão inevitável ou simples como</p><p>alguns possam supor. Comparado com muitos outros filósofos, tinha grande</p><p>avidez na aceitação das coisas, fome e sede das coisas. Tinha como norma</p><p>filosófica que há realmente coisas e não somente uma coisa, que a</p><p>pluralidade existe tão realmente quanto a unidade. Não quero dizer coisas</p><p>de comer, de beber ou de vestir, conquanto ele nunca negasse a estas o seu</p><p>lugar na nobre hierarquia do ser, mas sim coisas para pensar, e</p><p>especialmente coisas para provar, experimentar e conhecer.</p><p>Ninguém supoe que Tomás de Aquino, quando Deus lhe deu a escolher</p><p>dentre todos os seus dons, fosse pedir um milhar de libras, a coroa da Sicília</p><p>ou um vinho raro da Grécia. Mas podia pedir coisas que efetivamente</p><p>desejava, pois que era homem que podia ter aspirações como, por exemplo,</p><p>a do manuscrito perdido de São Joao Crisóstomo. Podia pedir a solução de</p><p>qualquer dificuldade antiga, ou o segredo de uma ciência nova, ou uma</p><p>chispa do inconcebível espírito intuitivo dos anjos, ou uma das mil coisas</p><p>que teria satisfeito realmente o seu vasto apetite viril, tão vasto como a</p><p>própria vastidao e variedade do universo.</p><p>A questão é que, para ele, quando a voz falou entre os braços abertos de</p><p>Jesus crucificado, estes braços estavam em verdade amplamente abertos e</p><p>abrindo gloriosissimamente as portas de todos os mundos. Eram braços que</p><p>apontavam para o oriente e o ocidente, para os extremos da terra, e para os</p><p>próprios extremos da existência. Estavam em verdade abertos num gesto de</p><p>onipotente generosidade: o próprio Criador a oferecer a própria criação,</p><p>com todo o infinito mistério dos seres diversos e do coro triunfal das</p><p>criaturas. E este o fundo esplendoroso da multiplicidade do ser, que dá força</p><p>particular, e até uma espécie de surpresa, à resposta de Santo Tomás,</p><p>quando levantou, a cabeça finalmente e disse, com esta audácia quase</p><p>blasfema que forma uma só coisa com a humildade da sua religião:</p><p>— Quero-Te a Ti.</p><p>Para acrescentar a esta história a ironia final e decisiva, tão singularmente</p><p>cristã para os que a podem em verdade compreender, alguns julgam que a</p><p>audácia se suaviza insistindo em que ele disse: "Só a Ti".</p><p>Destes milagres, em sentido rigoroso, não há tantos como na vida de santos</p><p>menos imediatamente influentes; mas são sem dúvida muito bem</p><p>autenticados por ser ele, Santo Tomás, um conhecido homem público de</p><p>posição eminente e, o que lhe é ainda mais favorável, por ter tido alguns</p><p>inimigos altamente considerados, aos quais se poderia confiar a</p><p>comprovação dos seus prodígios. Há ao menos um milagre de cura: o de</p><p>uma mulher que lhe tocou o hábito; e vários incidentes que podemos</p><p>considerar variantes da história do crucifixo de Nápoles. Entre eles há um</p><p>de maior importância, por nos levar ao lado da sua vida religiosa mais</p><p>íntima e pessoal, ou até emocional, que se exprimiu em poesia.</p><p>Quando estava em Paris, os outros doutores da Sorbonne lhe apresentaram</p><p>um problema a respeito da natureza da transformação mística dos elementos</p><p>no Santíssimo Sacramento, e ele escreveu logo, como era costume seu, uma</p><p>demonstração muito cuidada e lúcida, com a sua opinião. Escusado é dizer</p><p>que sentiu, com simplicidade de coração, a pesada responsabilidade e a</p><p>gravidade de tão judicial decisão, e parece, naturalmente, ter-se preocupado</p><p>muito mais do que costumava com a sua obra. Buscou luz na oração e</p><p>intercessão mais prolongada que de costume, e por fim, com um desses</p><p>poucos mas impressionantes gestos corporais que caracterizam as ocasiões</p><p>importantes da sua vida, depôs a tese aos pés do crucifixo do altar, e ali a</p><p>deixou ficar como à espera de julgamento. Depois se virou, desceu os</p><p>degraus e ficou submerso uma vez mais em oração; diz-se, no entanto, que</p><p>os demais frades estavam à espreita, e que tinham boas razões para o fazer,</p><p>pois declararam mais tarde que viram, com os seus olhos mortais, a figura</p><p>de Cristo descer da cruz e deter-se junto do manuscrito, dizendo:</p><p>— Tomás, escreveste bem a respeito do Meu Corpo.</p><p>Depois desta visão é que dizem ter-se dado o incidente da levitação</p><p>miraculosa.</p><p>Disse um observador arguto e contemporâneo de Santo Tomás de Aquino:</p><p>"Ele podia restaurar sozinho toda a filosofia, se ela se tivesse perdido num</p><p>incêndio". E isto o que se queria significar dizendo que era um espírito</p><p>original e criador, que teria podido criar o seu próprio cosmo das pedras e</p><p>das palhas, ainda sem os manuscritos de Aristóteles ou de Agostinho. Há</p><p>porém aqui uma confusão, não pouco comum, entre aquilo em que um</p><p>homem é muitíssimo original e aquilo em que mostra muito interesse; ou</p><p>entre aquilo que ele faz melhor e aquilo que ele mais ama. Por Santo Tomás</p><p>ser um filósofo único e surpreendente, é que se torna inevitável que este</p><p>livro tenha de ser simplesmente, ou principalmente, um esboço da sua</p><p>filosofia. Não pode nem pretende ser resumo da sua teologia, porque a</p><p>teologia de um santo é simplesmente o teísmo de um santo, ou melhor, o</p><p>teísmo de todos os santos. É menos individual, mas é muito mais intenso.</p><p>Tem que ver com a origem comum, mas quase não há ocasião para</p><p>originalidade.</p><p>Assim, o que somos levados a ver primeiro em Santo Tomás é o autor da</p><p>filosofia tomista, da mesma maneira como o que primeiro evocamos em</p><p>Cristóvão Colombo é o descobridor da América, conquanto fosse ele muito</p><p>sincero na sua pia esperança de converter o Cã da Tartária; ou como em</p><p>Jaime Watt o que vemos é o descobridor da máquina a vapor, conquanto ele</p><p>pudesse ter sido um devoto adorador do fogo, um sincero calvinista escocês</p><p>ou todo o tipo de coisas curiosas.</p><p>Como seja, é muito natural que Agostinho e Tomás de Aquino, Boaventura</p><p>e Duns Scot, todos os doutores e todos os santos se aproximassem uns dos</p><p>outros, na medida em que se aproximam da divina unidade das coisas, e</p><p>que, neste sentido, houvesse menos diferença entre eles na teologia do que</p><p>na filosofia. É fato que, em certos assuntos, já os críticos de Tomás de</p><p>Aquino foram de opinião que a sua filosofia afetou muito a sua teologia.</p><p>Isto é verdade, em particular no que diz respeito à acusação de ele ter</p><p>tornado o estado beatífico demasiado intelectual, concebendo-o como a</p><p>satisfação do amor da verdade mais do que como a verdade do amor. É</p><p>certo que os místicos e os homens da escola franciscana falaram mais longa</p><p>e amorosamente da admitida supremacia do amor.</p><p>Mas era mais por uma questão de ênfase, talvez levemente influenciada</p><p>pelo temperamento; e, no caso de Santo Tomás, pode muito bem ser (para</p><p>sugerir uma coisa mais fácil de sentir que de explicar) que se tratasse de</p><p>vaga influência de uma espécie de pudor.</p><p>Que o êxtase supremo seja mais afetivo do que intelectual não é assunto de</p><p>profunda discussão entre homens que acreditam que é as duas coisas, mas</p><p>que não têm nem podem imaginar o que seja a experiência real de cada</p><p>uma. Quer-me todavia parecer que, ainda que Santo Tomás tivesse crido</p><p>que tal êxtase era tão afetivo como São Boaventura julgava, nunca sobre o</p><p>assunto se teria exprimido como este santo. Ter-se-ia visto sempre</p><p>embaraçado para escrever sobre o amor com tanta desenvoltura.</p><p>A única exceção que se permitiu foi a sua rara mas notável produção</p><p>poética. Toda a santidade é segredo, e a sua poesia sagrada foi realmente</p><p>uma secreção, tal qual a pérola numa</p><p>ostra hermeticamente fechada. Talvez</p><p>escrevesse mais do que se sabe, mas parte dela, pelo menos, chegou ao</p><p>conhecimento do público graças à circunstância particular de lhe terem</p><p>pedido que compusesse o oficio para a festa de Corpus Christi, festa</p><p>estabelecida logo a seguir à controvérsia para a qual ele contribuirá com</p><p>aquele rolo escrito que depusera no altar.</p><p>Revela-se aqui por certo um aspecto inteiramente diverso do seu gênio,</p><p>porque realmente o era. Em regra, foi prosador eminentemente prático;</p><p>alguns diriam, até: prosador muito prosaico. Nas suas controvérsias atendia</p><p>sobretudo a duas qualidades: a clareza e a cortesia. E manteve-as, porque</p><p>eram qualidades totalmente práticas, pois influíam nas probabilidades de</p><p>conversão. Mas o autor do ofício de Corpus Christi não foi simplesmente o</p><p>que até os ignorantes chamariam um poeta; foi o que os exigentes</p><p>chamariam um artista.</p><p>A sua dupla atividade recorda antes a dupla atividade de qualquer grande</p><p>artista do Renascimento, como Michelangelo ou Leonardo da Vinci, que</p><p>costumavam trabalhar nas muralhas exteriores, planejando e edificando as</p><p>fortificações da cidade, e em seguida retirar-se para uma câmara interior,</p><p>para lavrar ou modelar uma taça ou um capitel de relicário.</p><p>O ofício de Corpus Christi é semelhante a um velho instrumento musical</p><p>curiosa e cuidadosamente adornado de pedras e metais de muitas cores. O</p><p>autor reuniu, como feixe de ervas raras, textos pouco familiares, que falam</p><p>de alimento e seus benefícios; nota-se a falta de algo que domine, e chama a</p><p>atenção a harmonia, tudo porém encadeado em duas vigorosas poesias</p><p>líricas latinas. O Padre John 0'Connor traduziu-as com uma habilidade</p><p>quase miraculosa, mas o bom tradutor será o primeiro a concordar que</p><p>nenhuma tradução é boa ou, pelo menos, suficientemente boa. Como</p><p>havemos nós de arranjar oito curtas palavras inglesas que possam significar:</p><p>"Sumit unus, sumunt mille; quantum isti, tantum ille"? Como alguém há de</p><p>realmente reproduzir o som do Pange Lingua, quando a primeira sílaba tem</p><p>clangor de timbales?</p><p>Além da poesia, havia outra via, a da afeição no trato particular, mediante a</p><p>qual este homem grande e tímido sabia mostrar que tinha realmente tanta</p><p>caritas como São Francisco, e com certeza tanta como qualquer teólogo</p><p>franciscano. Não é provável que Boaventura pensasse que no coração de</p><p>Tomás faltava amor a Deus, quando é certo que nunca lhe faltou amor a</p><p>Boaventura. Por toda a sua própria família sentiu ele uma ternura constante,</p><p>quase poderíamos dizer obstinada, o que, levando em consideração o modo</p><p>como ela o tratara, parece requerer não só caridade mas também a sua</p><p>virtude característica da paciência. Perto do fim da vida, parece ter</p><p>procurado apoio na estima por um de seus irmãos de religião, um frade</p><p>chamado Reginaldo, a quem disse confidências estranhas e muito</p><p>surpreendentes, de uma espécie que Santo Tomás até aos mesmos amigos</p><p>rara vez dizia. Foi a Reginaldo que fez, com algumas reticências, a sua</p><p>última e muito extraordinária confidência, conclusão da sua carreira de</p><p>controversista e, praticamente, da sua vida terrena, confidência que a</p><p>história nunca pode explicar.</p><p>Retornara ele vitorioso do seu último combate com Siger de Brabante;</p><p>retornara, e recolheu-se a solidão. Esta polêmica particular foi o único</p><p>ponto, podemos dizer, em que a sua vida exterior e a interior se cruzaram e</p><p>coincidiram. Lembrava-se de como desejara ardentemente, desde a infância,</p><p>reunir todos os aliados na batalha por Cristo; de como, só muito tempo</p><p>depois, conseguira para aliado Aristóteles; e agora, neste último pesadelo</p><p>do sofisma, verificava pela primeira vez que alguns queriam, em verdade,</p><p>que Cristo se curvasse diante de Aristóteles. Nunca mais se curou do</p><p>profundo abalo. Ganhou a batalha por ser o cérebro mais forte do seu</p><p>tempo, mas não pôde esquecer tal inversão de todo o ideal e fim da sua</p><p>vida. Era desses homens que detestam ter ódio de alguém. Nao estava</p><p>habituado a odiar nem sequer as idéias odiosas dos outros, além de certo</p><p>ponto. Mas, nos abismos da anarquia abertos pela sofistica de Siger acerca</p><p>do duplo espírito do homem, vira a possibilidade da morte de toda a idéia</p><p>de religião e até de toda a idéia de verdade. Breves e fragmentárias como</p><p>são as frases que o recordam, podemos concluir que retornou com uma</p><p>espécie de horror daquele mundo exterior em que sopravam tão fortes</p><p>ventos de doutrina, e a ansiar o mundo interior que qualquer católico pode</p><p>possuir e no qual o santo não está separado dos homens simples. Reatou a</p><p>vida regular da estrita religião, e, durante algum tempo, não disse nada a</p><p>ninguém. E depois aconteceu algo (diz-se que quando celebrava missa) cuja</p><p>natureza nunca será conhecida dos homens mortais.</p><p>O amigo Reginaldo pediu-lhe que voltasse também aos seus hábitos,</p><p>igualmente regulares, de ler e escrever, e de seguir as controvérsias do</p><p>momento, mas ele respondeu com estranho calor:</p><p>— Já não posso escrever.</p><p>Parece ter havido um silêncio, após o qual Reginaldo se atreveu a tornar</p><p>novamente ao assunto, e Tomás respondeu-lhe, ainda com mais vigor:</p><p>— Já não posso escrever. Vi coisas ao lado das quais tudo quanto escrevi</p><p>não passa de uma palha.</p><p>Em 1274, quando Tomás de Aquino tinha quase 50 anos, o Papa, satisfeito</p><p>pela recente vitória sobre os sofistas árabes, mandou-lhe um recado</p><p>pedindo-lhe que fosse a um concilio que se realizaria em Lyon sobre tais</p><p>assuntos controversos. Ergueu-se com obediência automática, como se</p><p>ergue um soldado, mas podemos supor que nos seus olhos houvesse algo a</p><p>dizer aos circunstantes que a obediência à ordem exterior não contradiz, de</p><p>fato, a obediência a alguma ordem interior mais misteriosa, a um sinal só</p><p>por ele visto. Partiu com o amigo, propondo-se descansar e passar a noite na</p><p>casa da irmã, a quem era profundamente devotado. Mas, quando lá chegou,</p><p>venceu-o doença desconhecida.</p><p>Não precisamos discutir os incertos problemas da medicina. E verdade que</p><p>ele fora sempre um desses homens saudáveis que comumente são vencidos</p><p>por pequenas doenças. Também é verdade que não se pode encontrar</p><p>explicação óbvia para esta sua doença particular. Levaram-no a um</p><p>mosteiro em Fossa Nuova, e o seu fim misterioso chegou a passos largos.</p><p>Talvez valha a pena notar, para os que consideram que ele tinha em pouca</p><p>conta o aspecto emotivo ou romântico da verdade religiosa, que pediu que</p><p>lhe lessem os Cantares de Salomao, do princípio ao fim. Os sentimentos</p><p>daqueles que o rodeavam devem de ter sido variados e difíceis de descrever,</p><p>mas certamente muito diferentes dos do moribundo. Este confessou os</p><p>pecados e recebeu o seu Deus; e podemos ter a certeza de que o grande</p><p>filósofo deixara por completo de pensar em filosofia. O mesmo não se deu,</p><p>contudo, com os que o tinham amado, ou com os que simplesmente</p><p>viveram no seu tempo.</p><p>Os elementos da narrativa são tão poucos, mas tão essenciais, que nos causa</p><p>forte impressão a leitura da história nos seus dois aspectos emocionantes.</p><p>Os assistentes devem de ter sentido que no meio deles um grande espírito,</p><p>semelhante a uma grande fábrica, trabalhava ainda. Por certo sentiram que,</p><p>naquele momento, o interior do mosteiro era mais vasto do que o exterior.</p><p>Era como essas potentes máquinas modernas que abalam o trepidante</p><p>edifício em que se abrigam. Em verdade, aquela máquina era feita das rodas</p><p>de todos os mundos, e girava como este cosmo de esferas concêntricas que,</p><p>seja qual for a sua sorte em face dos progressos da ciência, fica sempre</p><p>como algo de simbólico para a filosofia; a profundeza das duplas e triplas</p><p>transparências mais misteriosas do que a escuridão; a séptupla, o terrível</p><p>cristal.</p><p>No mundo deste espírito havia uma roda de anjos, uma roda de planetas e</p><p>uma roda de plantas ou de animais; mas havia também uma ordem justa e</p><p>inteligível de todas as coisas terrenas, uma sã autoridade e uma liberdade</p><p>digna, uma centena de respostas a cem perguntas na complexidade da ética</p><p>ou da economia. Mas deve de ter havido um momento em que todos os</p><p>homens notaram que a trovejante fabrica do pensamento parara</p><p>repentinamente,</p><p>e que, após o abalo da imobilidade, aquela roda não</p><p>tornaria a fazer estremecer o mundo; que nada havia então naquela casa</p><p>vazia senão uma grande massa de escombros; e o confessor, que estivera</p><p>com ele no quarto, saiu apressadamente, como cheio de medo, murmurando</p><p>que a sua confissão fora a de uma criança de cinco anos.</p><p>Notas</p><p>1 John Ruskin (1819-1900), crítico de arte, sociologo e escritor inglês</p><p>vinculado ao movimento chamado "pré-rafaelismo".</p><p>VI. INTRODUÇÃO AO</p><p>TOMISMO</p><p>QUE O TOMISMO SEJA a filosofia do bom senso, proclama-o o mesmo</p><p>bom senso.</p><p>Isto porém carece de certa explicação, porque há muito tempo nós</p><p>consideramos estas coisas com muito pouco senso comum. Para o nosso</p><p>bem ou para o nosso mal, desde a Reforma a Europa, e mais especialmente</p><p>a Inglaterra, tem sido em sentido muito particular a pátria do paradoxo;</p><p>quero dizer, no sentido de que o paradoxo está perfeitamente à vontade e os</p><p>homens estão habituados a ele. O exemplo mais vulgar é o de os ingleses se</p><p>orgulharem de que são práticos porque não são lógicos.</p><p>Para um grego antigo ou para um chinês isto significaria exatamente o</p><p>mesmo que dizer que os empregados de Londres sao especialistas na</p><p>arrumação dos livros comerciais por não terem profundos conhecimentos de</p><p>aritmética. Mas o mal não está tanto em ele ser um paradoxo, mas em o</p><p>paradoxo ter-se tomado ortodoxia, e os homens descansarem nele tão</p><p>sossegadamente como em algo comum. Não esta em que o homem prático</p><p>se ponha de pernas para o ar, o que às vezes pode ser uma ginastica</p><p>estimulante, conquanto impressionante: está em ele permanecer assim e até</p><p>dormir nesta posição. Repare-se bem neste ponto importante, porque de per</p><p>si o uso do paradoxo desperta a inteligência. Tomemos um bom paradoxo,</p><p>como o de Oliver Wendell Holmes:1 "Dêem-nos o supérfluo da vida, que</p><p>dispensaremos o necessário". É engraçado e por isso prende a atenção; tem</p><p>um leve ar de provocação, e encerra uma verdade real, ainda que</p><p>romanesca.</p><p>Quase toda a sua graça reside na antítese dos termos contraditórios. Mas</p><p>muitas pessoas hão de concordar em que haveria perigo considerável em</p><p>basear todo o sistema social na noção de que as coisas necessárias não sao</p><p>necessárias, como alguns fizeram basear toda a Constituição inglesa na</p><p>noção de que a falta de senso realizará sempre o mesmo que o senso</p><p>comum. Não obstante, ainda aqui se poderia dizer que o exemplo aliciador</p><p>se espalhou, e que o moderno sistema industrial parece dizer na realidade:</p><p>"Dêem-nos superfluidades como o sabonete de alcatrão, que dispensaremos</p><p>necessidades como o trigo".</p><p>Isso é de todos bem conhecido; mas aquilo em que não se tem reparado</p><p>muito até agora é que não só a atividade prática mas também as filosofias</p><p>abstratas do mundo moderno sofreram tal desvio extravagante. Desde o</p><p>início do mundo moderno, no século XVI, nenhum sistema de filosofia</p><p>correspondeu realmente ao sentido comum das realidades, aquilo a que os</p><p>homens normais, se os deixassem entregues a si mesmos, chamariam senso</p><p>comum. Cada um partia de um paradoxo, um ângulo particular que exigia o</p><p>sacrifício do que se chamaria um ângulo sensato.</p><p>É o traço comum a Hobbes e a Hegel, a Kant e a Bergson, a Berkeley e a</p><p>William James. O homem tinha de crer em algo em que nenhum homem</p><p>normal acreditaria, se o apresentassem de repente à sua simplicidade; por</p><p>exemplo: que a lei está acima do direito, ou que o direito não tem nada que</p><p>ver com a razão, ou que as coisas são unicamente como nós as imaginamos,</p><p>ou que tudo é relativo a uma realidade que não existe. O filósofo moderno</p><p>proclama, como homem de toda a confiança, que se um dia lhe</p><p>concedermos isto o mais será fácil: ele endireitará o mundo, se um dia lhe</p><p>consentirem este giro no espírito.</p><p>Há que entender que, neste assunto, falo como um pobre diabo, ou, como</p><p>diriam os nossos primeiros democráticos,2 como moron3 ou entào como</p><p>leigo no assunto. E o único objetivo deste capítulo é demonstrar que a</p><p>filosofia tomista está mais próxima do espírito do homem de cultura</p><p>mediana que a maioria das filosofias.</p><p>Não sou, como o Padre D'Arcy — cujo admiravel livro sobre Santo Tomás</p><p>me esclareceu quanto a muitos problemas — um filósofo treinado,</p><p>habituado à técnica da profissão. Mas espero que o Padre D'Arcy me perdoe</p><p>se tomar um exemplo do seu livro que esclarece precisamente o que quero</p><p>dizer. Sendo um filósofo treinado, está naturalmente habituado a aturar</p><p>filósofos. Sendo também um padre treinado, esta naturalmente habituado</p><p>não só a suportar alegremente os tolos mas (o que por vezes é mais difícil) a</p><p>suportar com a mesma alegria as pessoas inteligentes.</p><p>Sobretudo, o seu vasto conhecimento da metafísica o habilitou a suportar</p><p>com paciência as pessoas inteligentes, quando estas cedem à loucura. O</p><p>resultado é que ele pôde escrever com calma e até com doçura frases como</p><p>esta: "Pode-se descobrir certa semelhança entre o escopo e o método de</p><p>Santo Tomás e os de Hegel. Há no entanto diferenças notáveis. Para Santo</p><p>Tomás é impossível que possam coexistir duas coisas contraditórias; a</p><p>realidade e a inteligibilidade correspondem-se, mas uma coisa deve</p><p>primeiro ser, para ser inteligível".</p><p>Perdoe-se ao homem do povo se ele acrescentar que a "notável diferença"</p><p>de que D'Arcy fala lhe parece estar em que Santo Tomás tinha juízo e em</p><p>que Hegel estava louco. O moron recusa-se a admitir que Hegel possa</p><p>existir e não existir ao mesmo tempo, ou que possa ser possível</p><p>compreender Hegel se não houver Hegel para compreender.</p><p>O Padre D'Arcy, todavia, fala deste paradoxo hegeliano como de coisa</p><p>muito conhecida de todo o mundo, e certamente o seria se a nossa ocupação</p><p>de todos os dias fosse ler todos os filósofos modernos, com tanto cuidado e</p><p>com tanta simpatia como ele o fez. E isto é o que pretendo dizer ao afirmar</p><p>que um filósofo moderno começa por um grande embaraço. Com certeza</p><p>não é demasiado dizer que parece uma aberração mental afirmar que os</p><p>contrários não são incompatíveis, ou que uma coisa pode "ser" inteligível e</p><p>não "ser", ainda, de modo nenhum existente.</p><p>Contra tudo isso, a filosofia de Santo Tomás funda-se na convicção</p><p>universal e comum de que os ovos são ovos.4 Pode o hegeliano dizer que</p><p>um ovo é, em verdade, uma galinha, por ser parte do interminável processo</p><p>do vir-a-ser; pode o berkeleiano sustentar que os ovos estrelados têm</p><p>somente a existência dos sonhos, dado ser tão fácil chamar ao sonho a causa</p><p>dos ovos como aos ovos a causa do sonho; pode o pragmatista acreditar que</p><p>tiramos melhor partido dos ovos mexidos, esquecendo que sempre foram</p><p>ovos, mas recordando somente a mistura. Nenhum discípulo de Santo</p><p>Tomás, porém, precisa estragar o juízo para ver como há de estragar os</p><p>ovos, nem pôr a cabeça em determinado ângulo ao olhar para os ovos, nem</p><p>trocar a vista olhando para eles, ou fechar o outro olho para ver nova</p><p>simplificação dos ovos. O tomista põe-se firmemente na luz clara, comum a</p><p>todos os homens, seus irmãos; põe-se na comum evidência de que os ovos</p><p>não são galinhas, nem sonhos, nem meras hipóteses de caráter prático, mas</p><p>coisas certificadas pela autoridade dos sentidos, a qual provém de Deus.</p><p>Desse modo, até os que apreciam a profundeza metafísica do tomismo em</p><p>outras matérias têm manifestado surpresa por ele não tratar do que muitos</p><p>consideram hoje a principal questão metafísica: se podemos provar que é</p><p>real o ato primário do conhecimento de qualquer realidade. A resposta é que</p><p>Santo Tomás descobriu imediatamente o de que tantos cépticos modernos</p><p>têm começado com grande dificuldade a suspeitar: que um homem ou tem</p><p>de responder a essa pergunta afirmativamente, ou de outra maneira nunca</p><p>poderá responder a nenhuma pergunta, nem fazê-la, nem sequer existir</p><p>intelectualmente, para responder como para perguntar.</p><p>Suponho que é de alguma forma verdade que um homem pode ser céptico</p><p>radical; mas então não pode ser mais nada, nem sequer defensor do</p><p>ceticismo radical. Se alguém acha que todos os movimentos do seu espírito</p><p>não têm significação, então também tal espírito não a tem, nem ele próprio</p><p>a tem, e nada significará tentar descobri-la.</p><p>A maioria dos cépticos radicais</p><p>parecem sobreviver porque não são coerentes nem de maneira alguma</p><p>radicais. Primeiro negarão tudo, e depois admitirão algo, quando mais não</p><p>seja por amor ao argumento — ou antes, não raro, por amor ao ataque sem</p><p>argumento. Vi um exemplo, quase surpreendente, dessa frivolidade</p><p>essencial num professor de ceticismo absoluto, num jornal de dias atrás.</p><p>Alguém escreveu dizendo que não aceitava nada além do solipsismo, e</p><p>acrescentou que se admirava muita vez de que esta filosofia já não estivesse</p><p>em voga. Ora, o solipsismo significa unicamente que se acredita na própria</p><p>existência, mas não se acredita em mais ninguém e em nada mais. E nunca</p><p>se lembrou este pobre sofista de que, se a sua filosofia fosse verdadeira,</p><p>evidentemente não haveria outros filósofos para a professarem.</p><p>A esta pergunta — "Existe alguma coisa?" — Santo Tomás começa por</p><p>responder: "Sim". Se ele começasse por responder "Nào", não seria</p><p>começar, mas acabar.</p><p>Isto é o que alguns dentre nós chamamos senso comum. Ou não há</p><p>filosofia, nem filósofos, nem pensadores, nem pensamento, nem nada, ou</p><p>então há uma verdadeira ponte entre o espírito e a realidade. Mas ele é em</p><p>verdade menos exigente do que muitos pensadores, muito menos do que a</p><p>maior parte dos pensadores racionalistas e materialistas, quanto ao que este</p><p>primeiro passo requer. Como veremos, limita-se a dizer que supõe o</p><p>conhecimento do ens como uma coisa que tem realidade objetiva</p><p>independente de nós. Ens é ens: ovos são ovos; e não é admissível que</p><p>todos os ovos se tenham encontrado num ninho ilusório.</p><p>Inútil é dizer que eu não sou tão tolo para sugerir que todos os escritos de</p><p>Santo Tomás sejam simples e diretos, no sentido de serem fáceis de</p><p>entender. Ha passagens que eu, por mim, não sou capaz de entender; há</p><p>passagens que embaraçam filósofos muito mais cultos e logicos que eu; há</p><p>passagens acerca das quais os maiores tomistas ainda discordam e discutem.</p><p>Mas uma coisa é ser uma passagem difícil de ler ou de entender, e outra é</p><p>ser difícil de aceitar, uma vez entendida. É como escrever em caracteres</p><p>chineses — O gato sentou-se no tapete; ou em caracteres hieroglíficos —</p><p>Maria tinha um cordeirinho.</p><p>O único ponto que estou salientando aqui é que Tomás de Aquino está</p><p>quase sempre do lado da simplicidade, e apóia a aceitação dos truísmos</p><p>comuns pelo homem comum. Por exemplo, uma das passagens mais</p><p>obscuras, na minha opinião muito desautorizada, é aquela em que explica</p><p>como o entendimento tem certeza de um objeto externo, e não apenas de</p><p>uma impressão desse objeto; e no entanto o alcança, aparentemente, por</p><p>meio de um conceito, conquanto este não se confunda com a impressão.</p><p>Mas o que interessa aqui é que ele explica como o entendimento tem a</p><p>certeza de um objeto externo. Basta para isso que a sua conclusão seja o que</p><p>se chama conclusão do senso comum, que o seu fim seja justificar o senso</p><p>comum, embora o justifique precisamente numa passagem de sutileza</p><p>pouco comum. Mas, quanto aos filósofos posteriores, o problema é que as</p><p>suas conclusões são tão obscuras quanto a demonstração, e que chegam a</p><p>um resultado de que resulta o caos.</p><p>Infelizmente, entre o homem da rua e o Anjo das escolas há neste momento</p><p>um muro de tijolo, muito alto, com espetos em cima, a separar dois homens</p><p>que, de muitas formas, admitem a mesma coisa.</p><p>partido dos ovos mexidos, esquecendo que sempre foram ovos, mas</p><p>recordando somente a mistura. Nenhum discípulo de Santo Tomás, porém,</p><p>precisa estragar o juízo para ver como há de estragar os ovos, nem pôr a</p><p>cabeça em determinado ângulo ao olhar para os ovos, nem trocar a vista</p><p>olhando para eles, ou fechar o outro olho para ver nova simplificação dos</p><p>ovos. O tomista põe-se firmemente na luz clara, comum a todos os homens,</p><p>seus irmãos; poe-se na comum evidência de que os ovos não são galinhas,</p><p>nem sonhos, nem meras hipóteses de caráter prático, mas coisas certificadas</p><p>pela autoridade dos sentidos, a qual provém de Deus.</p><p>Desse modo, até os que apreciam a profundeza metafísica do tomismo em</p><p>outras matérias têm manifestado surpresa por ele não tratar do que muitos</p><p>consideram hoje a principal questão metafísica: se podemos provar que é</p><p>real o ato primário do conhecimento de qualquer realidade. A resposta é que</p><p>Santo Tomás descobriu imediatamente o de que tantos cépticos modernos</p><p>têm começado com grande dificuldade a suspeitar: que um homem ou tem</p><p>de responder a essa pergunta afirmativamente, ou de outra maneira nunca</p><p>poderá responder a nenhuma pergunta, nem fazê-la, nem sequer existir</p><p>intelectualmente, para responder como para perguntar.</p><p>Suponho que é de alguma forma verdade que um homem pode ser céptico</p><p>radical; mas então não pode ser mais nada, nem sequer defensor do</p><p>ceticismo radical. Se alguém acha que todos os movimentos do seu espírito</p><p>não têm significação, então também tal espírito não a tem, nem ele próprio</p><p>a tem, e nada significará tentar descobri-la. A maioria dos cépticos radicais</p><p>parecem sobreviver porque não são coerentes nem de maneira alguma</p><p>radicais. Primeiro negarão tudo, e depois admitirão algo, quando mais não</p><p>seja por amor ao argumento — ou antes, não raro, por amor ao ataque sem</p><p>argumento. Vi um exemplo, quase surpreendente, dessa frivolidade</p><p>essencial num professor de ceticismo absoluto, num jornal de dias atrás.</p><p>Alguém escreveu dizendo que não aceitava nada além do solipsismo, e</p><p>acrescentou que se admirava muita vez de que esta filosofia já não estivesse</p><p>em voga. Ora, o solipsismo significa unicamente que se acredita na própria</p><p>existência, mas não se acredita em mais ninguém e em nada mais. E nunca</p><p>se lembrou este pobre sofista de que, se a sua filosofia fosse verdadeira,</p><p>evidentemente não haveria outros filósofos para a professarem.</p><p>A esta pergunta — "Existe alguma coisa?" — Santo Tomás começa por</p><p>responder: "Sim". Se ele começasse por responder "Não", não seria</p><p>começar, mas acabar.</p><p>Isto é o que alguns dentre nós chamamos senso comum. Ou não há</p><p>filosofia, nem filósofos, nem pensadores, nem pensamento, nem nada, ou</p><p>então há uma verdadeira ponte entre o espírito e a realidade. Mas ele é em</p><p>verdade menos exigente do que muitos pensadores, muito menos do que a</p><p>maior parte dos pensadores racionalistas e materialistas, quanto ao que este</p><p>primeiro passo requer. Como veremos, limita-se a dizer que supõe o</p><p>conhecimento do ens como uma coisa que tem realidade objetiva</p><p>independente de nós. Ens é ens: ovos são ovos; e não é admissível que</p><p>todos os ovos se tenham encontrado num ninho ilusório.</p><p>Inútil é dizer que eu não sou tão tolo para sugerir que todos os escritos de</p><p>Santo Tomás sejam simples e diretos, no sentido de serem fáceis de</p><p>entender. Há passagens que eu, por mim, não sou capaz de entender; há</p><p>passagens que embaraçam filósofos muito mais cultos e lógicos que eu; há</p><p>passagens acerca das quais os maiores tomistas ainda discordam e discutem.</p><p>Mas uma coisa é ser uma passagem difícil de ler ou de entender, e outra é</p><p>ser difícil de aceitar, uma vez entendida. É como escrever em caracteres</p><p>chineses — O gato sentou-se no tapete; ou em caracteres hieroglíficos —</p><p>Maria tinha um cordeirinho.</p><p>O único ponto que estou salientando aqui é que Tomás de Aquino está</p><p>quase sempre do lado da simplicidade, e apóia a aceitação dos truísmos</p><p>comuns pelo homem comum. Por exemplo, uma das passagens mais</p><p>obscuras, na minha opinião muito desautorizada, é aquela em que explica</p><p>como o entendimento tem certeza de um objeto externo, e não apenas de</p><p>uma impressão desse objeto; e no entanto o alcança, aparentemente, por</p><p>meio de um conceito, conquanto este não se confunda com a impressão.</p><p>Mas o que interessa aqui é que ele explica como o entendimento tem a</p><p>certeza de um objeto externo. Basta para isso que a sua conclusão seja o que</p><p>se chama conclusão do senso comum, que o seu fim seja justificar o senso</p><p>comum, embora o justifique precisamente numa passagem de sutileza</p><p>pouco comum. Mas, quanto aos filósofos posteriores, o problema é que as</p><p>suas conclusões são tão obscuras quanto a demonstração, e que chegam a</p><p>um resultado de que resulta o</p><p>caos.</p><p>Infelizmente, entre o homem da rua e o Anjo das escolas há neste momento</p><p>um muro de tijolo, muito alto, com espetos em cima, a separar dois homens</p><p>que, de muitas formas, admitem a mesma coisa.</p><p>O muro é quase um acidente histórico; pelo menos, foi construído há muito</p><p>tempo, por razões que não dizem respeito às necessidades dos homens</p><p>normais de hoje nem, muito menos, à maior necessidade dos homens</p><p>normais, que é ter uma filosofia normal.</p><p>A primeira dificuldade é simplesmente uma diferença de forma, não no</p><p>sentido medieval, mas no sentido moderno. Há primeiro um simples</p><p>obstáculo de linguagem; depois outro, mais sutil, de método. Mas a</p><p>linguagem é, em si mesma, muito importante; até quando traduzida, é ainda</p><p>linguagem estrangeira, e, como outras linguagens estrangeiras, muitas vezes</p><p>mal traduzida. Como acontece com toda a literatura de outra época ou país,</p><p>possui um ambiente que está acima da simples tradução das palavras, como</p><p>elas são traduzidas num guia de conversação para viajantes. Por exemplo,</p><p>todo o sistema de Santo Tomas assenta numa idéia gigante e todavia</p><p>simples, que abrange todas as coisas existentes e as que poderiam existir.</p><p>Ele representou esta concepção cósmica pela palavra ens, e quem conhecer</p><p>algo de latim, ainda que não muito bem, achará que a palavra é própria e</p><p>conveniente, precisamente como achará própria qualquer palavra francesa</p><p>num trecho de boa prosa francesa. Deveria ser somente uma questão de</p><p>lógica, mas é também uma questão de linguagem.</p><p>Infelizmente, não há tradução satisfatória para a palavra ens. A dificuldade é</p><p>mais verbal que lógica, mas é de ordem prática. Quero dizer que, quando o</p><p>tradutor traduz para o inglês—"ser", temos a noção de um ambiente muito</p><p>diverso. O ambiente não deveria afetar esses absolutos da inteligência, mas</p><p>afeta. Os novos psicólogos, que se encontram quase furiosamente em luta</p><p>com a razão, nunca se cansam de dizer que, aos próprios termos que</p><p>empregamos, é dada pelo nosso subconsciente uma cor que desejaríamos</p><p>expulsar do consciente. E não é preciso ser tão idealistamente irracional</p><p>como um psicólogo moderno para admitir que a forma e o som das palavras</p><p>têm muita importância, tanto em prosa, mesmo a mais pobre, como na mais</p><p>bela poesia. Não podemos impedir a imaginação de fazer associações</p><p>despropositadas até em ciências abstratas como a matemática. O rapaz da</p><p>escola, após passar rapidamente da história para a geometria, pode em certo</p><p>momento relacionar os ângulos do triângulo isósceles com os anglos da</p><p>Crônica Anglo-Saxônia, e até o velho matemático, se não for tão louco</p><p>como o julga o psicanalista, pode ter, nas raizes do seu intelecto</p><p>subconsciente, algo de material na sua idéia de raiz.</p><p>Ora, infelizmente sucede que a palavra ser, dado que chega a um inglês de</p><p>hoje através de associações modernas, tem uma espécie de atmosfera</p><p>nebulosa que não existe na palavra latina, curta e incisiva. Talvez lhe</p><p>represente na imaginação fantásticos professores que agitam as mãos e</p><p>dizem:</p><p>— Assim nos alçamos às alturas inefáveis do ser puro e radiante.</p><p>Ou então, o que é pior ainda, professores verdadeiros, da vida real, que</p><p>dizem:</p><p>— Todo o ser é vir-a-ser, e não é senão a evolução do nao-ser pela própria</p><p>lei do seu ser.</p><p>Talvez lhe recorde apenas canções românticas, de velhas novelas de amor:</p><p>"Belo e adorável ser, luz e vida do meu próprio ser".</p><p>Como quer que seja, a palavra tem uma espécie de sonoridade velada, como</p><p>se somente pessoas muito vagas a empregassem, ou como se pudesse</p><p>significar todas as especies de coisas diversas.</p><p>Ora, a palavra latina ens tem som análogo ao da inglesa end.5 É terminante</p><p>e rápida; é só ela, e nada mais. Já censuraram a escolásticos como Tomás de</p><p>Aquino o discutir se os anjos podem manter-se de pé na ponta de uma</p><p>agulha. É ao menos certo que esta primeira palavra de Santo Tomás é tão</p><p>incisiva como a ponta de um alfinete. Porque, num sentido quase ideal,</p><p>também é uma ponta. Quando todavia dizemos que Santo Tomás de Aquino</p><p>está fundamentalmente ligado à idéia de ser, não a devemos tomar em</p><p>nenhuma das acepções mais obscuras a que nos tenhamos acostumado, ou</p><p>de que estejamos já fartos, como acontece à prosa idealista, que é mais</p><p>retórica do que filosofia. A retórica é algo muito bonito, no seu devido</p><p>lugar, com o que de boa vontade teria concordado um mestre medieval, ao</p><p>ensina-la nas escolas ao mesmo tempo que ensinava a lógica. Mas Santo</p><p>Tomás de Aquino não é absolutamente nada retórico. Talvez seja até</p><p>insuficientemente retórico. Em Agostinho abundam os bordados de</p><p>púrpura, mas não os há em Tomás de Aquino. É certo que em certas</p><p>ocasiões, bem contadas, caiu na poesia; raras vezes na oratória. E tão pouco</p><p>estava em contato com certas tendências modernas, que sempre que</p><p>escreveu poesia a vazou em verdadeira forma poética.</p><p>Há outro aspecto que notaremos mais tarde. Possuiu de modo especial</p><p>aquela filosofia que inspira a poesia, como inspirou, em grande parte, a</p><p>poesia de Dante. E poesia sem filosofia possui somente inspiração, ou, em</p><p>linguagem vulgar, somente vento. Ele teve, por assim dizer, imaginação</p><p>mas sem imagens, e até isto talvez seja demasiada generalização. Há uma</p><p>imagem sua, verdadeira poesia e também verdadeira filosofia, a respeito da</p><p>árvore da vida, que se inclina com grande humildade por causa do próprio</p><p>peso dos seus frutos da vida, coisa que Dante poderia ter descrito de</p><p>maneira a submergir-nos no tremendo crepúsculo e quase intoxicar-nos com</p><p>o fruto divino. Mas podemos dizer que comumente as suas palavras são</p><p>breves, ainda quando os seus livros são longos.</p><p>Tomei por exemplo a palavra ens justamente porque é um dos casos em que</p><p>o latim e mais claro que o inglês mais simples. E o seu estilo, ao contrário</p><p>do de Santo Agostinho e de muitos doutores católicos, é sempre mais</p><p>simples, e por isto mais claro que o estilo colorido. Muita vez é difícil de</p><p>compreender, mas isto se dá simplesmente porque os assuntos são tão</p><p>difíceis, que qualquer inteligência que não seja como a dele só com</p><p>dificuldade os poderá compreender de todo. Não se trata, contudo, que ele o</p><p>torne obscuro pelo emprego de palavras desconhecidas, ou até, mais</p><p>propriamente, por empregar palavras pertencentes só à imaginação ou à</p><p>intuição.</p><p>No que respeita ao método, ele é talvez o único verdadeiro racionalista</p><p>entre todos os filhos dos homens. Isto nos leva a outra dificuldade — a do</p><p>método lógico. Nunca pude compreender por que e que se julga que um</p><p>silogismo e algo de rígido ou de antiquado. Ainda menos posso</p><p>compreender o que se quer dizer quando se fala como se a indução tivesse</p><p>tomado o lugar da dedução. A dedução consiste em que de premissas</p><p>verdadeiras deriva uma conclusão verdadeira. O que se chama indução</p><p>parece simplesmente significar amontoar um maior número de premissas</p><p>verdadeiras; ou talvez, em certos assuntos de ciências naturais, o dar-se</p><p>muito mais ao trabalho de verificar que são verdadeiras.</p><p>Pode ser verdade que o homem moderno extraia mais conclusões de muitas</p><p>premissas relativas a micróbios ou a asteróides do que o homem medieval</p><p>podia extrair de muito poucas premissas acerca de salamandras e de</p><p>licornes. Mas o processo de dedução, partindo de dados, é para o espírito</p><p>moderno o mesmo que foi para o espírito medieval; o que pomposamente se</p><p>chama indução é meramente a reunião de mais dados. E Aristóteles ou</p><p>Tomás de Aquino, ou qualquer outro com os seus cinco sentidos,</p><p>concordariam naturalmente em que a conclusão só podia ser verdadeira se</p><p>as premissas o fossem, e que, quanto mais premissas verdadeiras houvesse,</p><p>melhor. A infelicidade da cultura medieval foi não haver mais premissas</p><p>verdadeiras, por causa das condições muito mais rudes de viagem ou de</p><p>experimentação.</p><p>Por muito perfeitas, porém, que fossem essas condições de viagem ou de</p><p>experimentação, só podiam produzir premissas; seria ainda necessário</p><p>deduzir conclusões. Mas muitas pessoas modernas falam como se aquilo a</p><p>que chamam indução fosse algum meio mágico de chegar a uma conclusão</p><p>sem empregar nenhum desses velhos e horrorosos silogismos. O</p><p>certo é que</p><p>a indução não nos leva a conclusão alguma. A indução só nos leva a uma</p><p>dedução. Se algum dos três termos silogísticos não for verdadeiro, a</p><p>conclusão não será verdadeira. Assim, os grandes cientistas do século XIX,</p><p>em cuja veneração fui criado (dizia-se sempre então: "aceitando as</p><p>conclusões da ciência"), entraram a examinar cuidadosamente o ar e a terra,</p><p>os produtos químicos e os gases, sem dúvida muito mais minuciosamente</p><p>do que Aristóteles ou Tomás de Aquino, e depois voltaram e deram corpo à</p><p>sua conclusão final num silogismo: "Toda a matéria é feita de corpúsculos</p><p>microscópicos indivisíveis; o meu corpo é feito de matéria; logo, o meu</p><p>corpo é feito de corpúsculos microscópicos indivisíveis".</p><p>Não erravam na forma de raciocinar, pois este é o único meio de fazê-lo.</p><p>Neste mundo não há nada senão um silogismo... e uma falácia. Mas por</p><p>certo estes homens modernos sabiam, como o sabiam os medievais, que as</p><p>suas conclusões não seriam verdadeiras a não ser que as premissas o</p><p>fossem. E aí é que começava a trapalhada, pois os cientistas, ou os seus</p><p>filhos e os seus sobrinhos, saíram e foram dar mais uma olhada na natureza</p><p>grosseiramente nodosa da matéria, e ficaram surpresos por encontrar que</p><p>não era nada disso.</p><p>Voltaram pois atrás, e completaram o processo com o silogismo: "Toda a</p><p>matéria é feita de prótons e de elétrons que giram; o meu corpo é feito de</p><p>matéria; logo, é feito de prótons e de eletrons que giram". Aí está outro bom</p><p>silogismo, conquanto os cientistas devessem observar a matéria mais uma</p><p>ou duas vezes, antes de sabermos se a premissa é verdadeira e a conclusão</p><p>também. Mas no processo final da verdade não há nada mais que um bom</p><p>silogismo. Fora dele só há o mau silogismo, desta espécie muito em moda:</p><p>"Toda a matéria é feita de prótons e de elétrons; eu gostaria muito de pensar</p><p>que o espírito é exatamente como a matéria; logo, hei de anunciar ao</p><p>microfone ou pelo megafone que o meu espírito é feito de prótons e de</p><p>elétrons". Mas isso não é indução, é somente um grave erro de dedução.</p><p>Não é um modo novo e diferente de pensar; é tão-somente deixar de pensar.</p><p>O que realmente se pode criticar, e com toda a razão, é que os velhos</p><p>silogistas por vezes expunham longamente os três termos do silogismo, o</p><p>que, evidentemente, nem sempre é preciso. Um homem pode descer muito</p><p>mais depressa os três degraus, mas não os pode descer se eles não existirem.</p><p>Se o fizer, quebrará a cabeça, exatamente como se se jogasse da janela de</p><p>um quarto andar. A verdade a respeito dessa falsa antítese de indução e</p><p>dedução é simplesmente esta: à medida que as premissas ou os dados se</p><p>acumulavam, ganhavam ênfase e pormenor provenientes da dedução final a</p><p>que conduziam.</p><p>Mas levavam efetivamente a uma dedução final; ou então não levavam a</p><p>nada. O homem lógico tinha tanto que dizer acerca de elétrons e de</p><p>micróbios, que se demorou nesses dados iniciais e abreviou ou subentendeu</p><p>o silogismo final. Se todavia raciocinasse corretamente, embora com</p><p>rapidez, raciocinaria silogisticamente. Com efeito, Tomás de Aquino não</p><p>argumenta usualmente com silogismos em forma, apesar de argumentar</p><p>sempre silogisticamente, quer dizer: não expõe, um por um, todos os passos</p><p>do raciocínio em cada caso. O que se diz a esse respeito faz parte daquela</p><p>lenda do Renascimento, que corre por aí livremente e ainda em grande parte</p><p>não verificada, consoante a qual os escolásticos eram todos medievais</p><p>maçantes, rígidos e maquinais. É verdade que ele argumenta com certa</p><p>austeridade e desdem pelos ornatos, o que pode fazê-lo parecer monótono,</p><p>em especial aos que procuram as formas modernas de graça e de fantasia.</p><p>Tudo isso, contudo, nada tem que ver com a pergunta feita no princípio</p><p>deste capítulo, a que é preciso responder agora, no fim: Que pretende ele</p><p>com a sua argumentação? A esse propósito pode-se repetir energicamente</p><p>que argumenta a favor do senso comum; argumenta a favor de um senso</p><p>comum que ainda hoje se recomenda por si mesmo à maior parte das</p><p>pessoas comuns; argumenta a favor dos axiomas populares, como: ver é</p><p>crer; a prova do bolo faz-se comendo-o; um homem não pode saltar sobre o</p><p>próprio peito nem negar a própria existência.</p><p>Muitas vezes mantém o seu ponto de vista servindo-se de abstrações, mas</p><p>as abstrações não são mais abstratas do que energia, evolução ou espaço-</p><p>tempo, e não nos fazem cair em contradições incríveis a respeito da vida</p><p>comum. O pragmatista deseja ser prático, mas a sua prática vê-se, afinal,</p><p>que é inteiramente teórica. O tomista começa por ser teórico, mas a sua</p><p>teoria chega a resultados totalmente práticos. É por isso que grande parte do</p><p>mundo está hoje retornando a ele.</p><p>Finalmente, há uma dificuldade real na língua estrangeira,</p><p>independentemente até do fato vulgar de ser língua latina. A moderna</p><p>terminologia filosófica não é sempre exatamente idêntica ao inglês simples,</p><p>e.a terminologia filosófica medieval não é idêntica sequer à moderna</p><p>terminologia filosófica. Em verdade, não é muito difícil apreender o</p><p>significado dos principais termos, mas a sua significação medieval é por</p><p>vezes exatamente o contrário da sua significação moderna. Exemplo</p><p>característico é o da palavra "forma", que é fundamental. Hoje dizemos:</p><p>"Pedi uma desculpa formal ao deão"; ou: "Quando nos inscrevemos no</p><p>Clube Tip-Cat, as normas de inscrição foram meramente formais". Mas o</p><p>que queremos dizer é que foram inteiramente fingidas, ao passo que Santo</p><p>Tomás, se fosse membro do Clube Tip-Cat querería dizer exatamente o</p><p>contrário. Ele entendería que as normas para a inscrição se relacionavam</p><p>com o próprio coração, com a alma, com o íntimo de todo o ser do Clube</p><p>Tip-Cat, e que a desculpa pedida ao deão o era tão essencialmente, que</p><p>arrancava do próprio coração lágrimas de verdadeiro arrependimento.</p><p>Porque "formal", na linguagem tomista, quer dizer verdadeiro, ou que</p><p>possui a qualidade real e decisiva que faz com que uma coisa seja ela</p><p>mesma e não outra. Comumente, quando ele diz que uma coisa é feita de</p><p>forma e de matéria, reconhece muito bem que a matéria é o elemento mais</p><p>misterioso, indefinido e informe, e que o que identifica perfeitamente uma</p><p>coisa é a sua forma. A matéria é, por assim dizer, não tanto a massa sólida,</p><p>como a líquida ou gasosa do cosmos. E nisto os cientistas mais modernos</p><p>começam a concordar com ele.</p><p>Mas a forma é o ato; é o que faz com que o tijolo seja tijolo, um busto seja</p><p>um busto, e não a massa informe de que qualquer dos dois pode ser feito. A</p><p>pedra que quebrou uma estatueta num nicho gótico podia ser também uma</p><p>estatueta, e, à análise química, a estatueta não é senão pedra. Mas esta</p><p>análise química é falsa como analise filosófica.</p><p>A realidade, o que torna as duas coisas reais, está na idéia da imagem e na</p><p>idéia do que a quebra. Isso é apenas um exemplo, de passagem, da</p><p>propriedade da terminologia tomista, mas não é mau espécime introdutório</p><p>da verdade do pensamento tomista. Todo e qualquer artista sabe que a</p><p>forma não é superficial, mas fundamental; sabe que a forma é o alicerce.</p><p>Todo e qualquer escultor sabe que a forma da estatua não é o seu exterior,</p><p>mas antes o seu interior, e até no sentido de ser o interior do escultor. Todo</p><p>e qualquer poeta sabe que a forma do soneto não é somente a forma que</p><p>essa poesia reveste, mas a própria poesia. Nenhum crítico moderno que não</p><p>compreenda o que o escolástico medieval entendia por forma pode entrar</p><p>em debate intelectual com ele como de igual para igual.</p><p>Notas</p><p>1 Humorista norte-americano (1809-1894).</p><p>2 Ou seja, os norte-americanos.</p><p>3 Tolo, imbecil, idiota.</p><p>4 Trata-se, aqui, do provérbio inglês "eggs is eggs", ou seja, "as coisas são o</p><p>que são".</p><p>5 End traduz-se pelo português "fim" em grande parte das suas acepções.</p><p>VII. A FILOSOFIA PERENE</p><p>É PENA QUE A PALAVRA antropologia se tenha degenerado até ao ponto</p><p>de só estudar os antropóides. E agora está irremediavelmente ligada a</p><p>disputas sem interesse, entre professores de pré-história (em mais de um</p><p>sentido), para que se saiba se uma lasca de pedra é dente de homem ou de</p><p>macaco, questão que por vezes</p><p>vem a ser resolvida como naquele famoso</p><p>caso em que se viu tratar-se do dente de um porco. Está perfeitamente certo</p><p>que haja uma ciência puramente física de tais coisas, mas o nome</p><p>empregado em geral poderia muito bem, por analogia, ter sido aplicado a</p><p>coisas não só mais vastas e mais profundas mas também mais apropriadas.</p><p>Assim como na América os novos humanistas acusaram os velhos</p><p>humanistas de o seu humanitarismo se ter concentrado, em grande parte, em</p><p>coisas que não são especialmente humanas, como condições físicas,</p><p>apetites, necessidades econômicas, ambiente etc., assim, na prática, os que</p><p>se chamam antropólogos têm de limitar o seu espírito às coisas materiais</p><p>que não são notavelmente antropológicas. Têm de pesquisar através da</p><p>história e da pré-história, em busca de algo que não é certamente o homo</p><p>sapiens, mas é sempre, de fato, considerado simius insipiens. O homo</p><p>sapiens só pode considerar-se em relação com a sapientia, e só um livro</p><p>como o de Santo Tomás é, em verdade, dedicado à idéia intrínseca de</p><p>sapientia. Em uma palavra, devia haver um estudo real chamado</p><p>antropologia que correspondesse à teologia. Neste sentido, Santo Tomas de</p><p>Aquino é, talvez mais que qualquer outra coisa, um grande antropólogo.</p><p>A todos esses excelentes e eminentes homens de ciência que andam</p><p>empenhados no estudo real da humanidade, na sua relação com a biologia,</p><p>peço desculpa pelas palavras de abertura deste capítulo. Imagino todavia</p><p>que eles hão de ser os primeiros a reconhecer que houve um desejo muito</p><p>desproporcionado, na ciência dos vulgarizadores, em converter o estudo de</p><p>seres humanos em estudo de selvagens. A selvageria não é história; é o</p><p>começo ou o fim da história.</p><p>Desconfio que os maiores cientistas haveriam de concordar que muitos</p><p>professores se perderam assim no deserto ou nos matagais, e que, querendo</p><p>estudar a antropologia, nada mais conseguiram que a antropofagia. Não</p><p>obstante, tenho razões particulares para fazer preceder esta sugestão de uma</p><p>antropologia mais elevada, por um pedido de desculpa a certos biólogos</p><p>genuínos, que parecem estar incluídos, mas com certeza não estão, num</p><p>protesto contra a ciência popular barata. Porque a primeira coisa que se</p><p>deve dizer de Santo Tomás como antropólogo é que ele é, em verdade,</p><p>notavelmente semelhante à melhor espécie dos antropólogos biológicos</p><p>modernos, a espécie dos que se consideram a si mesmos agnósticos. Este</p><p>ponto é um fato histórico tão importante e decisivo na história, que precisa</p><p>realmente ser recordado e fixado.</p><p>Santo Tomás de Aquino assemelha-se, muito, ao grande professor Huxley, o</p><p>agnostico inventor da palavra agnosticismo. Assemelha-se na sua maneira</p><p>de iniciar o argumento, e é diferente de todos os demais antecessores e</p><p>sucessores, até à época huxleiana. Ele adota quase literalmente a definição</p><p>do método agnóstico de Huxley: "seguir a razão até aonde ela for". Mas</p><p>aonde vai ela? Eis a questão. E ele que nos lega esta afirmação quase</p><p>surpreendentemente moderna ou materialista: "tudo o que está na</p><p>inteligência passou pelos sentidos". Foi por aqui que ele começou, como</p><p>qualquer cientista moderno, ou antes, como qualquer materialista dos</p><p>nossos dias, que mal pode chamar-se agora homem de ciência; exatamente</p><p>o extremo oposto ao do simples místico. Os platônicos, ou pelo menos os</p><p>neoplatônicos, tendiam todos à opinião de que o espírito se iluminava</p><p>inteiramente de dentro; Santo Tomás insistiu em que ele era iluminado por</p><p>cinco janelas, as que chamamos as janelas dos sentidos. Mas queria que a</p><p>luz exterior fosse iluminar a que já estava dentro. Queria estudar a natureza</p><p>do homem, e não meramente a dos musgos e cogumelos que podia ver da</p><p>janela, e que apreciava apenas como primeira experiência esclarecedora do</p><p>homem. E, partindo deste ponto, continua a escalar a casa do homem,</p><p>degrau por degrau, andar por andar, até chegar à torre mais elevada, e</p><p>descobrir a mais vasta visão.</p><p>Em outras palavras, Santo Tomás é um antropólogo, com uma teoria</p><p>completa do homem, certa ou errônea, mas uma teoria. Ora, os</p><p>antropólogos modernos, que se consideram a si mesmos agnósticos,</p><p>falharam inteiramente como antropólogos. Dadas as suas limitações, não</p><p>puderam alcançar uma visão completa do homem nem, muito menos, uma</p><p>visão completa da natureza. Começaram por pôr de lado o que chamaram o</p><p>incognoscível. Se pudéssemos, em verdade, tomar o incognoscível no</p><p>sentido de perfeição última, quase se compreendería ainda essa</p><p>incompreensibilidade. Mas logo se verificou que todas as coisas que se</p><p>tornaram incognoscíveis eram exatamente as que o homem tinha mais</p><p>necessidade de conhecer. É preciso saber se o homem é responsável ou</p><p>irresponsável, perfeito ou imperfeito, perfectível ou imperfectível, mortal</p><p>ou imortal, escravo ou livre, não para compreendermos a Deus, mas para</p><p>compreendermos o homem. Nenhum sistema que deixe estas coisas sob a</p><p>nuvem da dúvida religiosa pode pretender-se uma ciência do homem:</p><p>encontrar-se-ia tão longe da teologia como da antropologia.</p><p>Tem o homem livre-arbítrio, ou a sua certeza de que pode escolher é uma</p><p>ilusão? Possui ele uma consciência? Tem ela alguma autoridade, ou é</p><p>somente o preconceito do passado tribal? Há alguma esperança real de se</p><p>chegar a resolver estas coisas por meio da razão humana, e terá ela alguma</p><p>autoridade? Deve-se considerar a morte o fim de tudo, e o auxílio milagroso</p><p>como possível? Ora, é inteiramente disparatado dizer que estas coisas são</p><p>remotamente incognoscíveis, como a distinção entre os Querubins e os</p><p>Serafins ou a processão do Espírito Santo. Talvez os escolásticos tenham</p><p>ido demasiado longe, além dos justos limites, na tentativa de aprofundar o</p><p>estudo acerca dos Querubins e dos Serafins. Mas, quando perguntavam se</p><p>um homem pode escolher, ou se terá de morrer, faziam perguntas naturais</p><p>de história natural, precisamente como a de se um gato pode arranhar, ou a</p><p>de se um cão pode farejar.</p><p>Nada do que se chame a si mesmo ciência completa do homem pode evitá-</p><p>las. E os grandes agnósticos as evitaram. Podem ter dito que não tinham</p><p>provas científicas; mas não chegaram sequer a apresentar uma hipótese</p><p>verdadeiramente científica. O que apresentaram em geral foi uma</p><p>contradição grosseira e anticientífica. A maior parte dos moralistas</p><p>monistas diziam simplesmente que o homem não tem livre-arbítrio, mas</p><p>deve pensar e agir heroicamente como se o tivesse. Huxley fez da</p><p>moralidade, e até da moralidade vitoriana, uma moral perfeitamente</p><p>sobrenatural. Atribuiu-lhe direitos arbitrários sobre a natureza, o que</p><p>constitui uma espécie de teologia sem teísmo.</p><p>Não sei com certeza por que razão Santo Tomás foi chamado o Doutor</p><p>Angélico, se foi porque tivesse um temperamento angélico, ou por ter a</p><p>inteligência de um anjo; ou se houve alguma lenda posterior, segundo a qual</p><p>ele se tenha concentrado todo no estudo dos anjos... em especial de anjos</p><p>sobre pontas de agulha. Se assim é, não compreendo como surgiu esta idéia.</p><p>A história oferece-nos muitos exemplos do habito irritante de dar nomes a</p><p>todos, relacionando-os com qualquer particularidade, como se as pessoas</p><p>não fizessem nunca senão isso. Quem foi que começou com o tolo hábito de</p><p>chamar ao Dr. Johnson "o nosso lexicógrafo", como se ele nunca tivesse</p><p>feito outra coisa senão escrever um dicionário? Por que é que a maior parte</p><p>das pessoas insistem em considerar o grande e amplo espírito de Pascal</p><p>precisamente do ângulo mais estreito, aquele em que se adelgaçou em ponta</p><p>de lança, pelo despeito dos jansenistas contra os jesuítas? Talvez seja</p><p>possível, pelo que sei, que tal classificação de Tomas de Aquino entre os</p><p>especialistas fosse uma depreciação obscura do seu universalismo, pois é</p><p>esta um meio muito vulgar para diminuir os homens de letras ou de ciência.</p><p>Santo Tomás deve de ter tido certo número de inimigos, conquanto quase</p><p>nunca os tratasse como tais. Infelizmente, o bom temperamento muitas</p><p>vezes irrita mais que o mau, e ele, afinal, causara graves danos, como</p><p>muitos homens medievais teriam pensado, e, o que é mais curioso, danos a</p><p>ambas as partes. Fora revolucionário contra</p><p>Agostinho e tradicionalista</p><p>contra Averróis. A muita gente deve de ter parecido que tentava fazer</p><p>naufragar essa antiga beleza da Cidade de Deus, que tinha certa semelhança</p><p>com a República de Platão. A outros podia parecer que infligira às forças</p><p>crescentes e niveladoras do Islã golpe tão duro e dramático como o assalto</p><p>de Godofredo a Jerusalém. É possível que tais inimigos, para o perderem</p><p>com leves louvores, falassem da sua obra respeitabilíssima sobre os anjos</p><p>como quem dissesse que Darwin era realmente digno de fé quando escrevia</p><p>sobre os insetos coralinos, ou que algumas das poesias latinas de Milton são</p><p>a glória do seu autor. Mas isso é apenas conjetura, e muitas outras sao</p><p>possíveis. Eu me inclino a crer que realmente Santo Tomás se interessava</p><p>em particular pela natureza dos anjos, pela mesma razão que o levou a</p><p>interessar-se ainda mais pela natureza dos homens.</p><p>Fazia isso parte do forte interesse pessoal pelas coisas subordinadas e</p><p>semidependentes, e que existe em todo o seu sistema; uma hierarquia de</p><p>liberdades superiores e inferiores. Ele interessava-se pelo problema do anjo,</p><p>como se interessava pelo problema do homem, porque era um problema e,</p><p>especialmente, porque era um problema de uma criatura intermédia.</p><p>Não pretendo tratar aqui esta qualidade misteriosa tal como ele a concebe</p><p>nesse ser intelectual imperscrutável que é menos que Deus, porém mais que</p><p>o homem. Foi todavia esta qualidade de elo da corrente ou de degrau da</p><p>escada que principalmente o teólogo teve em mente, ao desenvolver a sua</p><p>teoria dos graus do ser. Acima de tudo, é isto que o impulsiona quando acha</p><p>tão fascinante o mistério central do homem. E para ele a questão é sempre</p><p>que o homem não é balão que sobe ao ceu nem toupeira que vive</p><p>unicamente a remexer a terra, mas antes algo semelhante a uma árvore,</p><p>cujas raízes se alimentam da terra enquanto os ramos mais altos parecem</p><p>subir quase até às estrelas.</p><p>Salientei que o livre-pensamento moderno tem deixado tudo envolto em</p><p>névoas, até a sua própria liberdade de pensar. A afirmação de que o</p><p>pensamento é livre leva primeiro à negação de que a vontade o seja; mas</p><p>ainda a respeito disso não havia nada de determinado entre os próprios</p><p>deterministas. Na prática, disseram aos homens que deviam considerar a</p><p>vontade como livre, conquanto o não fosse. Quer dizer: o homem deve</p><p>viver uma vida dupla, exatamente a velha heresia de Siger de Brabante</p><p>acerca do espírito duplo. Em outros termos: o século XIX deixou tudo num</p><p>caos, e a importância do tomismo no século XX está em que pode devolver-</p><p>nos um cosmo organizado. Aqui só podemos apresentar o mais elementar</p><p>esboço da maneira como Tomas de Aquino, como os agnósticos,</p><p>começando nos porões cósmicos, conseguiu subir às torres cósmicas.</p><p>Sem pretender abranger a idéia tomista essencial dentro de tais limites,</p><p>permita-se-me revelar uma espécie de versão grosseira da questão</p><p>fundamental, tal qual se me apresenta, consciente ou inconscientemente,</p><p>desde a infância. Quando uma criança olha por uma janela e vê alguma</p><p>coisa, por exemplo um canteiro verde do jardim, que vê ela ou fica ela a</p><p>conhecer neste momento? Ou melhor, vê ela alguma coisa? Em volta desta</p><p>questão gira toda a espécie de jogos infantis de filosofia negativa. Um</p><p>brilhante cientista vitoriano deliciar-se-ia com declarar que a criança não vê</p><p>relva nenhuma, mas unicamente uma espécie de névoa verde refletida no</p><p>frágil espelho do olho humano. Essa amostra de racionalismo me</p><p>impressionou sempre como irracional quase até à demência. Se ele não tem</p><p>certeza da existência da relva que vê através do vidro de uma janela, como</p><p>pode ter certeza da existência da retina, que vê através do vidro de um</p><p>microscopio? Se a vista engana em um caso, por que é que não pode seguir</p><p>a enganar?</p><p>Homens de outra escola respondem que a relva é uma simples impressão de</p><p>verde no espírito, e que a criança não pode ter certeza senão do espírito.</p><p>Declaram que ela só pode ser consciente da sua consciência, que é a única</p><p>coisa de que a criança não tem consciência absolutamente nenhuma. Neste</p><p>sentido, seria muito mais verdadeiro dizer que há relva e não há criança do</p><p>que dizer que há uma criança consciente mas não há erva. Santo Tomás de</p><p>Aquino, intervindo de súbito nesta questão infantil, diz que a criança</p><p>conhece o ens. Muito antes de saber que a relva é relva, ou que ela é ela, a</p><p>criança sabe que uma coisa é uma coisa. Talvez fosse melhor dizer, muito</p><p>categoricamente (com um murro na mesa): "Há um É”. Esta credulidade</p><p>monástica é que Santo Tomás nos pede de entrada. Muito poucos descrentes</p><p>começam por nos pedir para crer tão pouco. E, todavia, sobre esta realidade,</p><p>tão fina como a ponta de um alfinete, ele vai erguer, por longos processos</p><p>lógicos que nunca foram realmente derrubados com êxito, todo o sistema</p><p>cósmico da Cristandade.</p><p>Dessa maneira, Tomás de Aquino estabelece de modo muito profundo, mas</p><p>muito prático, que instantaneamente, com esta idéia da afirmação, vem a</p><p>idéia da contradição. É instantaneamente evidente, até para a criança, que</p><p>não pode haver ao mesmo tempo afirmação e contradição. Chame-se como</p><p>se chamar aquilo que vê — prado, miragem, sensaçao ou estado consciente</p><p>— quando o vê, ela sabe que não é verdade que não o vê. Ou se chame</p><p>como se chamar o que se supõe estar ela fazendo — ver, sonhar ou ter</p><p>consciência de uma impressão — ela sabe que, se o está fazendo, é mentira</p><p>dizer que o não faz. Já, portanto, passou um pouco além até do primeiro fato</p><p>de ser; segue-o como sombra o primeiro credo ou lei fundamental — que</p><p>uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo, donde, em linguagem</p><p>popular, há uma falsa e uma verdadeira. Digo em linguagem popular,</p><p>porque Tomás de Aquino nunca é tão sutil como quando diz que ser não é, a</p><p>rigor, a mesma coisa que a verdade; ver a verdade deve significar a</p><p>apreciação do ser por qualquer espírito capaz de o fazer.</p><p>Não obstante, de modo geral, entrou neste mundo primevo de pura</p><p>atualidade a divisão e o dilema que traz ao mundo a última espécie de</p><p>guerra — o eterno duelo entre o sim e o não. É por causa desse dilema que</p><p>muitos cépticos têm aborrecido o universo e pervertido o espírito, com o</p><p>mero intuito de fugir. São esses que afirmam haver algo que é ao mesmo</p><p>tempo sim e não. Não sei sequer se eles não pronunciam Yo.1</p><p>O segundo degrau, após a aceitação da realidade ou certeza, ou como quer</p><p>que lhe chamemos em linguagem popular, é muito mais difícil de explicar</p><p>nesta linguagem. Representa, contudo, precisamente o ponto onde quase</p><p>todos os outros sistemas entram por caminhos errôneos, e, tomando o</p><p>terceiro degrau, abandonam o primeiro. Tomás de Aquino afirmou que a</p><p>nossa primeira apreensão do fato é um fato, e não o pode negar sem</p><p>contradição. Mas, quando chegamos a olhar para o fato ou fatos como se</p><p>nos apresentam, observamos que têm um caráter muito esquisito, que fez</p><p>muitos modernos tornar-se cépticos acerca deles, de modo estranho e</p><p>inquieto.</p><p>Por exemplo, estão continuamente a variar, a deixar de ser uma coisa para</p><p>ser outra; ou as suas qualidades dependem de outras coisas; ou parecem</p><p>mover-se incessantemente; ou parecem desvanecer-se por completo. Neste</p><p>ponto, como digo, muitos sábios perdem o domínio do primeiro princípio</p><p>da realidade, que antes admitiam, e entram a dizer que não há senão</p><p>mudanças, ou relações, ou devir, ou então que não há absolutamente nada.</p><p>Tomás de Aquino dá ao argumento outro rumo, de harmonia com a sua</p><p>primeira concepção da realidade. Não há dúvida de que o ser é, ainda que</p><p>ele às vezes pareça vir-a-ser. Isso é porque o que vemos não é a plenitude</p><p>do ser, ou (para continuar com uma espécie de linguagem popular) nunca</p><p>vemos o ser ser tanto quanto ele pode ser. O gelo muda-se em água fria, e a</p><p>água fria, aquecida, torna-se água quente: não pode ser as três coisas ao</p><p>mesmo tempo. Mas isto não faz com que ela deixe de ser real nem a</p><p>transforma em pura relação; somente significa que o seu ser está limitado a</p><p>ser uma coisa de cada vez. A plenitude do ser, todavia, inclui todas as suas</p><p>modalidades, e sem ela as formas inferiores</p><p>ou aproximadas do ser não</p><p>podem explicar-se convenientemente, a não ser que se expliquem dizendo</p><p>que não são coisa alguma.</p><p>Este simples esboço, quando muito, pode ser mais histórico que filosófico.</p><p>É impossível condensar ele provas metafísicas de tal idéia, especialmente</p><p>na linguagem metafísica medieval. Mas esta distinção em filosofia é</p><p>tremenda como ponto culminante da história. A maior parte dos pensadores,</p><p>ao aperceber-se da aparente mutabilidade do ser, esqueceram em verdade a</p><p>idéia que faziam do ser, e acreditaram só na mutabilidade. Nem sequer</p><p>podem dizer que uma coisa se muda em outra; porque seria necessário que</p><p>pelo menos em dado momento uma coisa fosse o que é. Há somente</p><p>mudança. Seria mais lógico chamar-lhe "nada a mudar-se em nada" do que</p><p>dizer (por estes princípios) que houve alguma vez ou haverá um momento</p><p>em que a coisa foi ou será ela própria. Santo Tomás afirma que o objeto</p><p>comum é alguma coisa em qualquer momento; mas que não é tudo o que</p><p>podia ser. Há uma plenitude de ser, em que ela podia ser tudo quanto pode</p><p>ser. Assim, enquanto a maior parte dos sábios não chegam por fim senão a</p><p>uma pura mudança, ele chega à última coisa que é imutável, porque é todas</p><p>as outras coisas ao mesmo tempo. Enquanto eles falam de mudança, que e</p><p>realmente uma mudança para o nada, ele fala de uma imutabilidade que</p><p>contém as modificações de tudo. As coisas mudam porque são imperfeitas,</p><p>mas a sua realidade só se pode explicar como participação de algo que é</p><p>perfeito: Deus.</p><p>Historicamente pelo menos, foi nesta viragem árdua e perigosa que todos os</p><p>sofistas se seguiram uns aos outros, ao passo que o grande Escolástico</p><p>seguiu pela estrada real da experiência e da expansão até às cidades que se</p><p>contemplam, até às cidades que se edificam. Todos eles falharam neste</p><p>primeiro estádio, porque, para empregarmos as palavras do velho jogo,</p><p>subtraíram o número em que pensaram antes. O primeiro ato do intelecto é</p><p>o reconhecimento de alguma coisa, de uma ou mais coisas. Mas, porque o</p><p>exame da realidade mostra que ela não é fixa nem definitiva, concluíram</p><p>que não há nada fixo nem definitivo. Assim, de várias maneiras, todos</p><p>começaram a ver uma coisa como se ela fosse mais tênue do que é, uma</p><p>espécie de onda, de fluidez, de instabilidade absoluta.</p><p>Santo Tomas, para nos servirmos da mesma imagem rude, viu uma coisa</p><p>que era mais espessa que uma coisa; que era até mais sólida que os fatos</p><p>sólidos, ainda que secundários, que ele começara por admitir como fatos.</p><p>Dado que sabemos serem reais, qualquer elemento ilusório ou</p><p>desconcertante na sua realidade não pode deixar de ser realidade também, e</p><p>deve simplesmente dizer respeito à realidade real. Uma centena de</p><p>filosofias humanas, existentes na superfície da terra, desde o nominalismo</p><p>ao nirvana e a maia,2 desde o evolucionismo informe ao estúpido</p><p>quietismo,3 todas resultaram desta primeira quebra da corrente tomista;</p><p>persuadiram-se de que, porque o que vemos não nos satisfaz ou não se</p><p>explica por si, já não é sequer o que vemos. Esse cosmo é uma contrad :ao</p><p>de termos e estrangula-se a si mesmo; mas o tomismo liberta-se. O defeito</p><p>que notamos no que existe está, simplesmente, em que não é inteiramente</p><p>tudo o que é. Deus é mais atual que o homem, mais atual que a matéria,</p><p>porque Deus, com todos os seus poderes, é a cada instante a imortalidade</p><p>em ato.</p><p>Sucedeu há pouco uma comedia cósmica de tipo muito curioso, em que</p><p>andaram envolvidas as opiniões de espíritos muito brilhantes, como o Sr.</p><p>Bernard Shaw e o Deão da catedral protestante de Sao Paulo. Foi assim:</p><p>livres-pensadores de muitas categorias têm dito muita vez que não precisam</p><p>da Criação, porque o cosmo existiu sempre e sempre deveria existir. O Sr.</p><p>Bernard Shaw acrescentou que se tomara ateu porque o universo estivera a</p><p>fazer-se a si mesmo desde o principio, ou até sem princípio nenhum; o deão</p><p>Inge, em seguida, manifestou-se consternado ante a idéia de que o universo</p><p>pode ter fim. A maioria dos cristãos modernos, vivendo por tradição onde</p><p>os cristãos medievais podiam viver pela lógica ou pela razão, sentiram</p><p>vagamente que era uma idéia terrível privá-los do dia do Juízo Final. A</p><p>maior parte dos modernos agnósticos (que se sentem satisfeitíssimos por</p><p>lhes chamarem terríveis às idéias) gritaram o mais que puderam, de comum</p><p>acordo, que o universo feito por si mesmo, existente por si mesmo, e</p><p>verdadeiramente científico, nunca precisara ter princípio nem poderia vir a</p><p>ter fim.</p><p>Neste mesmo momento, de súbito, como o gajeiro de um navio que avisa</p><p>em altos brados da aproximação de um rochedo, o autêntico homem de</p><p>ciência, o especialista que estava examinando os fatos, anunciou em alta</p><p>voz que o universo caminlnva para o fim. É claro que não estivera dando</p><p>atenção à tagarelice dos amadores, mas principalmente examinando a</p><p>contextura da matéria, e disse que ela se desintegrava; o mundo estava, em</p><p>aparência, dissociando-se por uma explosão gradual chamada energia; tudo</p><p>devia com certeza ter fim e tivera, provavelmente, início. Em verdade, isto</p><p>era desconcertante, não para os ortodoxos, mas muito especialmente para os</p><p>não-ortodoxos, muito mais facilmente impressionáveis. O deão Inge, que</p><p>durante anos andara fazendo conferências aos ortodoxos a respeito do dever</p><p>severo de aceitar todas as descobertas científicas, positivamente lamentou</p><p>em voz alta esta descoberta científica verdadeiramente falha de tato, e</p><p>implorou aos descobridores científicos que fossem descobrir algures outra</p><p>coisa diferente. Parece quase incrível, mas é fato que perguntou o que é que</p><p>Deus teria para se entreter se o universo acabasse. Por aqui se vê quanto os</p><p>espíritos modernos precisam de Tomás de Aquino. Mas até sem ele mal</p><p>posso imaginar que qualquer homem educado, quanto mais um homem tão</p><p>culto, acredite em Deus sem presumir que Deus tem em Si todas as</p><p>perfeições, incluindo a alegria eterna, e não precisa do sistema solar para Se</p><p>entreter como com um circo.</p><p>Fugir dessas afirmações, preconceitos e desapontamentos particulares, para</p><p>o mundo de Santo Tomás, é como fugir de uma luta dentro de um quarto</p><p>escuro para a luz do dia. Santo Tomás diz, com muita clareza, que</p><p>pessoalmente crê que este mundo teve começo e terá fim, porque tal é o</p><p>ensinamento da Igreja, cuja autoridade de magistério perante a humanidade</p><p>ele defende algures com dúzias de argumentos totalmente diversos. Como</p><p>quer que seja, a Igreja disse que o mundo acabaria, e pelo visto tinha razão,</p><p>supondo-se sempre (como se supoe sempre que o supomos) que os mais</p><p>modernos homens de ciência têm razão. Mas Tomás de Aquino diz que não</p><p>vê argumento apodíctico que prove só pela razão que este mundo deva ter</p><p>fim ou começo. Por outro lado, está perfeitamente certo de que, ainda que</p><p>não tivesse fim nem começo, haveria ainda assim exatamente a mesma</p><p>necessidade lógica de um Criador. Quem não o vir, diz ele amavelmente,</p><p>não compreende em verdade o que vem a ser um Criador.</p><p>Porque Santo Tomás se refere não a uma imagem medieval de um velho rei,</p><p>mas a este segundo passo no grande argumento acerca do ens, o segundo</p><p>ponto, tão difícil de definir com precisão em linguagem vulgar. É por isso</p><p>que o trouxe para aqui na forma particular do argumento que postula um</p><p>Criador, ainda que não haja dia de Criação. Considerando o ser tal como é</p><p>agora, como um bebê considera a relva, vemos outra coisa a respeito dele;</p><p>em linguagem popular, parece secundário e dependente. A existência existe,</p><p>mas não existe suficientemente por si mesma e nunca chegaria a isso</p><p>simplesmente com continuar a existir. A mesma idéia primária que nos diz</p><p>que o ser é diz-nos que ele não é ser perfeito; não meramente imperfeito no</p><p>sentido controverso e popular de encerrar pecado ou dor, mas imperfeito</p><p>como ser, menos real do que a sua realidade quer dar a entender.</p><p>Por exemplo, o seu ser é muita vez somente vir-a-ser, começar a ser ou</p><p>deixar de ser; pressupõe uma coisa mais constante ou completa, da qual por</p><p>si não é pura imagem. É este o significado desta frase medieval basica —</p><p>"Tudo o que se move é movido por outro", que, na clara sutileza</p><p>na narrativa policial, e</p><p>por isso estas histórias, como tantas obras de Chesterton, possuem</p><p>qualidades entremescladas que raramente se encontrarão noutro escritor:</p><p>arte imaginativa e poética de grande qualidade e verdadeira fé.</p><p>O final de uma batalha</p><p>Como fruto da conversão, merecem especial atenção três obras-mestras: O</p><p>Homem Eterno (1925), Santo Tomás de Aquino (1935) e a Autobiografia</p><p>(1936). A primeira, conquanto menos difundida que Ortodoxia, é para</p><p>muitos críticos a melhor obra de Chesterton. Ali ele reflete sobre a criatura</p><p>chamada homem e sobre o homem chamado Cristo. É um compêndio da</p><p>história da Humanidade, na qual intervém o mistério único de Deus</p><p>encarnado, e da origem da Igreja Católica e do Cristianismo; tudo</p><p>observado como pela primeira vez e de ângulos completamente novos.</p><p>Chesterton consegue que o leitor veja as coisas à luz do senso comum e da</p><p>lógica, e não segundo as teorias que aparentemente dão uma explicação</p><p>satisfatória da origem do cosmo, do homem e da religião: "Muitas</p><p>modernas histórias da humanidade começam com a palavra evolução. E isto</p><p>porque há um não sei que de brando, de suave, de gradual, de tranqüilizador</p><p>na palavra e também na idéia. Naturalmente, não é uma palavra prática nem</p><p>uma idéia aproveitável. Ninguém pode imaginar como o nada pôde evoluir</p><p>até transformar-se em algo [...]. É muito mais lógico começar dizendo: 'No</p><p>princípio Deus criou o céu e a terra' [...]. A palavra 'evolução' parece ter</p><p>certa tendência a substituir a palavra 'explicação' [...]. Um fato não é mais</p><p>ou menos inteligível segundo a velocidade com que se cumpre [...]. A</p><p>feiticeira grega pôde transformar os marinheiros em porcos com um simples</p><p>toquezinho da sua varinha de condão. Mas ver um marinheiro amigo nosso</p><p>transformar-se paulatinamente em porco não seria muito mais</p><p>tranqüilizador." E preciso ter muito mais fé para ver andar o mundo por si</p><p>só, nascendo da grande explosão ou da "mãe rocha", é preciso ter muito</p><p>mais fé para crer na teoria de Einstein, que deixar entrar em todos os</p><p>processos uma inteligência. Ou, se não, se cairá na fábula de Teilhard de</p><p>Chardin que nos diz que a "mãe rocha" pensa, que a matéria pensa. O</p><p>homem demonstrou que, quando não aceita a inteligência divina na</p><p>Criação, se obriga a dar alguma inteligência à matéria, ainda que caindo no</p><p>absurdo.</p><p>Chesterton faz, ademais, um extraordinário estudo das profundas diferenças</p><p>entre as religiões e a única religião verdadeira; a sua análise não parte de</p><p>uma associaçao que une as religiões segundo um critério fácil e evidente;</p><p>considera-as pelo que cada qual espiritualmente significa, estudando a</p><p>verdadeira origem e sentido de cada uma delas. Para isto divide o estudo em</p><p>"quatro epígrafes": Deus, os deuses, os demônios, os filósofos. A Igreja</p><p>Católica, diz Chesterton, "é de tal modo única, que é quase impossível dar</p><p>uma prova sensível disso, pois o povo quer ser convencido por via de</p><p>analogia: e não há caso análogo neste assunto". Idéia que surgia novamente</p><p>na Autobiografia: a teologia católica "é a única não só que pensou, mas que</p><p>pensou sobre tudo. Que quase todas as demais teologias ou filosofias</p><p>contém alguma verdade, não o nego; ao contrário, é isso o que afirmo, e é</p><p>disso que me queixo. Sei que todos os demais sistemas ou seitas se</p><p>contentam com seguir uma verdade, teológica ou teosófica, ética ou</p><p>metafísica; e, quanto mais reclamam-se universais, mais isso significa que</p><p>colhem algo e o aplicam a tudo".</p><p>Sobre a última biografia de Chesterton, Santo Tomás de Aquino, sao</p><p>reveladoras as palavras do especialista por excelência no tomismo, o</p><p>francês Etienne Gilson: "Chesterton desespera qualquer pessoa. Estudei</p><p>Santo Tomás a vida inteira, e nunca teria sido capaz de escrever um livro</p><p>como este. [...] Considero, sem comparaçao alguma, que é o melhor livro</p><p>jamais escrito sobre Santo Tomás. Só um gênio podia fazer algo assim.</p><p>Todo o mundo admitirá sem nenhuma duvida que e um livro inteligente,</p><p>mas poucos leitores que tenham passado vinte ou trinta anos estudando</p><p>Santo Tomás de Aquino e tenham publicado dois ou três volumes sobre o</p><p>tema poderão dar-se conta de que a chispa de Chesterton lhes deixou ao rés</p><p>do chão a erudição. Adivinhou tudo o que eles tentavam expressar</p><p>desajeitadamente com formulas acadêmicas. Chesterton era um dos</p><p>pensadores mais profundos que existiram. Era profundo porque tinha razão,</p><p>e não podia deixar de tê-la; mas tampouco podia deixar de ser modesto e</p><p>amavel; por isso, considerava-se um entre muitos, desculpava-se de ter</p><p>razão e fazia-se perdoar a profundidade com o engenho".</p><p>A Autobiografia é uma obra peculiaríssima. No último capítulo, por</p><p>exemplo, faz uma defesa magistral do catolicismo servindo-se somente de</p><p>"um dente de leão". Encontraremos o melhor Chesterton, agradecido e</p><p>comovido diante de Deus pela existência: "Um homem não se torna velho</p><p>sem que o aborreçam; mas eu envelheci sem aborrecer-me. A existência é</p><p>ainda uma coisa estranha para mim, e, como a um estrangeiro, dou-lhe as</p><p>boas-vindas. Para começar, ponho o princípio de todos os meus impulsos</p><p>intelectuais diante da autoridade à qual vim ao final, e descobri que estava</p><p>aí antes que eu a pusesse. Encontro-me ratificado na minha realização deste</p><p>milagre que é estar na vida; não de modo vago e literário, como o que usam</p><p>os cépticos, mas num sentido definido e dogmático: o de ter recebido a vida</p><p>pelo único que pode fazer os milagres".</p><p>Desgastado por uma batalha ininterrupta, heróica em muitos casos, sem</p><p>queixar-se nunca, Chesterton falecia em 14 de junho de 1936, aos sessenta e</p><p>dois anos. Deixava todos os seus bens para a Igreja Católica, e, sobretudo, o</p><p>bem incalculável de uma obra que foi reunida atualmente em quase</p><p>quarenta volumes. Uma obra que contém não só todos os gêneros possíveis,</p><p>mas todos os temas possíveis. O Papa Pio XI, grande admirador de</p><p>Chesterton, a quem conhecera pessoalmente em Roma, dizia num telegrama</p><p>dirigido ao povo da Inglaterra, por ocasião da morte do escritor: "Santo</p><p>Padre profundamente consternado morte de Gilbert Keith Chesterton,</p><p>devoto filho Santa Igreja, dotado defensor da Fé Católica".</p><p>Notas</p><p>* Artigo extraído e traduzido da revista Tradición Católica, da Fraternidade</p><p>São Pio X, abril de 2002, n° 175, pp. 13-23.</p><p>SANTO TOMÁS DE AQUINO</p><p>Assim como se pode considerar São Francisco o protótipo dos aspectos</p><p>romanescos e emotivos da vida, assim Santo Tomás é o protótipo do seu</p><p>aspecto racional, razão por que, em muitos aspectos, estes dois santos se</p><p>completam. Um dos paradoxos da história é que cada geraçao é convertida</p><p>pelo santo que se encontra mais em contradição com ela. E, assim como</p><p>São Francisco se dirigia ao século XIX prosaico, assim Santo Tomas tem</p><p>mensagem especial que dirigir à nossa geração, um tanto inclinada a descrer</p><p>do valor da razão.</p><p>Chesterton</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>ESTE LIVRO NÃO se pretende mais que esboço popular de uma grande</p><p>figura histórica que deveria ser mais popular. Alcançará o seu fim se levar</p><p>os que apenas ouviram falar de Santo Tomás de Aquino a ler melhores</p><p>livros a seu respeito. Por causa desta limitação necessária, seguem-se certas</p><p>conseqiiências, que talvez devamos acentuar desde já.</p><p>Em primeiro lugar, esta narrativa é contada sobretudo para os que não</p><p>pertencem ao Credo de Santo Tomás e podem sentir interesse por ele, como</p><p>eu o sinto por Confúcio ou por Maomé. Mas, por outro lado, a própria</p><p>necessidade de apresentar um resumo preciso implicava que esse resumo se</p><p>fizesse à luz de outros princípios, abraçados pelos que pensam de modo</p><p>diferente. Se eu fizer um esboço de Nelson' destinado sobretudo a</p><p>estrangeiros, terei de explicar, por menor izadamente, muitas coisas que</p><p>todos os ingleses conhecem, e, como é natural, de omitir, por brevidade,</p><p>muitos pormenores que muitos ingleses desejariam conhecer. Seria porém</p><p>difícil escrever uma narrativa viva e comovente a respeito de Nelson</p><p>omitindo por completo o ter ele combatido contra os franceses. Seria inútil</p><p>fazer um esboço de Santo Tomás e ocultar o ter ele combatido contra os</p><p>hereges; e, todavia, o fato em si pode embaraçar</p><p>de Santo</p><p>Tomás, significa inexprimivelmente mais que a simples frase deísta —</p><p>"alguém deu corda no relógio" —com que é natural se confundisse muitas</p><p>vezes. Se alguém pensar profundamente, verá que o movimento supõe algo</p><p>essencialmente incompleto, que se aproxima de algo mais completo. O</p><p>verdadeiro argumento é muito técnico, e diz respeito ao fato de a</p><p>potencialidade não se explicar só por si; além disso, em qualquer caso, só</p><p>pode desdobrar-se o que estiver dobrado.</p><p>Basta dizer que os evolucionistas modernos querem ignorar o argumento</p><p>não por terem descoberto nele alguma falha, porque nunca chegaram sequer</p><p>a descobrir o próprio argumento, mas porque são demasiado superficiais</p><p>para notar a falha do argumento deles; porque a fraqueza da sua tese está</p><p>protegida por uma fraseologia da moda, como a força da velha tese está</p><p>protegida por uma fraseologia fora de moda. Para aqueles porém que</p><p>pensam verdadeiramente, há sempre algo realmente inconcebível a respeito</p><p>de todo o cosmo evolutivo, tal qual o concebem, porque é algo que surge do</p><p>nada, uma onda d'água sempre crescente a sair de um jarro vazio. Os que</p><p>aceitam isto simplesmente, sem ver sequer a dificuldade, não têm</p><p>probabilidade de se aprofundar tanto como Santo Tomás de Aquino e de ver</p><p>a solução da dificuldade. Em uma palavra, o mundo não se explica a si</p><p>mesmo e não pode faze-lo so com o fato do seu desenvolvimento constante.</p><p>Mas, como quer que seja, é absurdo que o evolucionista se queixe dizendo</p><p>que não se compreende que um Deus, reconhecidamente inconcebível,</p><p>fizesse tudo do nada — e depois pretenda que é mais concebível que o nada</p><p>se tenha mudado em todas as coisas.</p><p>Vimos que muitos filósofos deixam simplesmente de filosofar a respeito das</p><p>coisas porque elas mudam; também deixam de filosofar a respeito delas</p><p>porque diferem. Não temos espaço para seguir Santo Tomás ao longo de</p><p>todas essas heresias negativas, mas devemos dizer uma palavra a respeito</p><p>do nominalismo ou da dúvida fundada sobre as coisas que diferem. Todos</p><p>sabem que os nominalistas declararam que as coisas diferem demasiado</p><p>para poderem classificar-se, e por isso são apenas etiquetadas. Tomas de</p><p>Aquino foi um realista firme, mas moderado, e por isso afirmava que há em</p><p>verdade qualidades gerais, como a de que os seres humanos são humanos, e</p><p>outros paradoxos. Se fosse um realista extremo, chegaria quase a platônico.</p><p>Ele reconhecia que a individualidade é concreta, mas dizia também que ela</p><p>coexiste com um caráter comum que torna possível a generalização. Com</p><p>efeito, como na maioria dos casos, ele disse precisamente o que todo o</p><p>senso comum diria, se heréticos inteligentes nunca tivessem perturbado o</p><p>senso comum. Não obstante, continuam, ainda, a perturbá-lo. Recordo-me</p><p>de quando o Sr. H. G. Wells teve um ataque alarmante de filosofia</p><p>nominalista e publicou livro após livro para defender a opinião de que todas</p><p>as coisas são únicas e diferentes, como a de que um homem é de tal maneira</p><p>indivíduo, que nem sequer é homem. É fato curioso e quase cômico que</p><p>esta negação caótica atrai especialmente os que estão sempre a queixar-se</p><p>do caos social, e que se propõem a regularizá-lo por meio das normas</p><p>sociais mais violentas. São precisamente os que dizem que nada pode</p><p>classificar-se, e que dizem também que tudo pode codificar-se. Assim, o Sr.</p><p>Bernard Shaw disse que a única regra de ouro é que não há regra de ouro</p><p>alguma. Prefere uma lei de ferro, como na Rússia.</p><p>Mas isso é só uma pequena incoerência de alguns modernos como</p><p>indivíduos. Ha uma incoerência muito mais profunda neles como teoricos</p><p>com respeito à teoria geral chamada Evolução Criadora. Parece que</p><p>imaginam que evitam a dúvida metafísica acerca da simples mudança</p><p>afirmando (não fica muito claro o motivo) que ela será sempre para melhor.</p><p>Sem embargo, a dificuldade matemática de achar um ângulo numa curva</p><p>não se resolve virando o papel de pernas para o ar e dizendo que a curva</p><p>antes virada para baixo é agora uma curva virada para cima. O fato é que</p><p>não há ponto ou lugar algum em que tenhamos logicamente o direito de</p><p>dizer que a curva chegou ao seu ponto máximo, ou revelou o ponto de</p><p>partida ou de chegada. Não importa que esses teóricos prefiram rir do caso</p><p>e digam: "Basta que haja sempre um além", em vez de lamentarem, como</p><p>muitos poetas realistas do passado, a tragédia da simples mutabilidade das</p><p>coisas. Não basta que haja sempre um além, porque poderia estar além do</p><p>que se pode suportar. Em verdade, a única desculpa dessa opinião é que o</p><p>tédio puro é uma agonia tal, que qualquer movimento se toma alívio.</p><p>Mas a verdade é que eles nunca leram Santo Tomás, porque achariam, com</p><p>não pequeno terror, que realmente concordam com ele. O que efetivamente</p><p>eles querem dizer é que a evolução não é uma simples série de variações,</p><p>mas o desabrochar de algo, o qual, se assim se desdobra, ainda que tal</p><p>desabrochar leve doze milhões de anos, deve já preexistir. Em outros</p><p>termos, concordam com Tomás de Aquino em que há em tudo uma potência</p><p>que não chegou ao seu fim realizando-se no ato. Mas, se se trata de</p><p>determinada potência orientada para determinado ato, então é porque existe</p><p>um Grande Ser, em quem todas as potencialidades preexistem como causa</p><p>exemplar dos entes. Em outras palavras, toma-se impossível até dizer que a</p><p>evolução é para melhor, a não ser que o melhor exista em alguma parte,</p><p>quer antes, quer depois da mudança. De outro modo voltaremos à variação</p><p>pura, como os cépticos mais vazios ou os pessimistas mais escuros a</p><p>veriam. Suponhamos dois caminhos inteiramente novos e abertos ante o</p><p>progresso da evolução criadora. Como há o evolucionista de saber qual dos</p><p>aléns é o melhor sem aceitar do passado e do presente alguma norma</p><p>corrente do melhor? Pela sua teoria superficial, tudo pode modificar-se,</p><p>tudo pode aperfeiçoar-se, ate a natureza do aperfeiçoamento. Mas, no seu</p><p>senso comum adormecido, não pensam realmente que um ideal de bondade</p><p>possa mudar-se num ideal de crueldade. E típico neles empregar por vezes</p><p>com medo a palavra "intenção", mas corar à simples menção da palavra</p><p>"pessoa".</p><p>Santo Tomás é tudo o que há de mais oposto ao antropomórfico, apesar da</p><p>sua agudeza como antropólogo. Certos teólogos chegaram até a sustentar</p><p>que ele tem muito de agnostico e que deixou a natureza de Deus reduzida a</p><p>uma abstração demasiado intelectual. Mas não necessitamos sequer de</p><p>Santo Tomas; necessitamos somente do nosso senso comum para nos dizer</p><p>que, se houve desde o princípio alguma coisa a que se podia chamar</p><p>intenção ou finalidade, esta deveria residir em algo que possui os elementos</p><p>essenciais de uma pessoa. Nào pode haver uma intenção a pairar no ar</p><p>sozinha, da mesma maneira que não pode haver uma lembrança que</p><p>ninguém recorda ou um gracejo que ninguém disse. A única coisa que resta</p><p>aos defensores de tais teorias é refugiar-se na irracionalidade mais</p><p>completa; mas ainda assim será impossível provar que qualquer pessoa tem</p><p>o direito de não ser razoável, se se negar a Santo Tomás o direito de o ser.</p><p>Em um esboço que pretende somente reduzir-se à expressão mais simples,</p><p>parece-me ser esta a verdade mais elementar quanto ao filósofo Santo</p><p>Tomás. Ele é, por assim dizer, alguém que se conserva fiel ao primeiro</p><p>amor, amor que surgiu no primeiro encontro. O que quero dizer é que ele</p><p>reconheceu imediatamente uma qualidade real nas coisas, e mais tarde</p><p>resistiu a todas as dúvidas desintegradoras que surgiam da própria natureza</p><p>destas coisas. E por isso que saliento, já nas primeiras páginas, o fato de</p><p>haver uma espécie de humildade e fidelidade puramente cristãs sob o seu</p><p>realismo filosófico.</p><p>Após ter visto simplesmente uma vara ou uma pedra, Santo Tomas podia</p><p>dizer, com tanta verdade como São Paulo depois da revelação dos segredos</p><p>celestes: "Não fui desobediente à visão celestial". Porque, apesar de a vara</p><p>ou a pedra serem uma visão terrena, é por meio delas que Santo Tomas</p><p>encontra caminho para o céu; e o importante é que ele obedece à visão; não</p><p>a desmente. Quase todos os outros sábios que guiaram ou desorientaram a</p><p>humanidade a traíram desculpando-se</p><p>de uma maneira ou de outra.</p><p>Dissolvem a vara ou a pedra nas soluções químicas do ceticismo, quer</p><p>simplesmente no tempo e na evolução, quer nas dificuldades de classificar</p><p>seres únicos, quer na dificuldade de reconhecer a variedade admitindo ao</p><p>mesmo tempo a unidade. O primeiro destes três chama-se debate acerca do</p><p>fluxo e da transição indefinida; o segundo é o debate a respeito do</p><p>nominalismo e do realismo, ou da existência de idéias universais; o terceiro</p><p>chama-se o antigo enigma metafísico da unidade e da pluralidade. Mas</p><p>todos podem reduzir-se, sob uma imagem grosseira, a esta mesma asserção</p><p>acerca de Santo Tomás. Ele ainda é fiel à primeira verdade e recusa a</p><p>primeira traição. Não negará o que viu, conquanto seja realidade secundária</p><p>e variável. Não subtrairá os números em que primeiro pensou, conquanto</p><p>haja grande quantidade deles.</p><p>Ele viu a relva, e não dirá que a não viu só porque hoje existe e amanha será</p><p>metida no forno. Esta é a substância de todo o ceticismo acerca da</p><p>mudança, transição etc. Tomas de Aquino não dirá que não há relva mas</p><p>apenas crescimento. Se a relva cresce e murcha, isto só pode significar que</p><p>faz parte de algo mais vasto, e muito mais real até, e não que a relva seja</p><p>menos real do que parece. Santo Tomás tem o direito realmente lógico de</p><p>dizer, com palavras do místico moderno A. E.: "Principio pela relva a ligar-</p><p>me de novo ao Senhor".</p><p>Ele viu a relva e a semente e não dirá que não diferem por haver algo de</p><p>comum à relva e à semente, nem que esta diferença não é real. Ele não dirá,</p><p>com os nominalistas puros, que pelo fato de o grão poder diferenciar-se em</p><p>toda a espécie de frutos, ou de a relva ser esmagada até se tomar em lama</p><p>de mistura com qualquer tipo de plantas, já não pode haver classificação</p><p>para distinguir as plantas da lama, ou já não pode estabelecer-se uma</p><p>distinção perfeita entre os pastos e o gado. Por outro lado, ele não dirá com</p><p>os platônicos puros que, fechando os olhos, viu o fruto perfeito na sua</p><p>própria cabeça antes de ter visto qualquer diferença entre a relva e o grão.</p><p>Viu uma coisa, e a seguir outra, e depois uma qualidade comum, mas não</p><p>pretende, realmente, ter visto a qualidade antes do objeto.</p><p>Ele viu a relva e o cascalho, quer dizer, viu coisas em verdade diferentes, e</p><p>que não podem classificar-se ao mesmo tempo como relva e grão. Logo à</p><p>primeira visão do fato, mostra-se-nos um mundo de coisas realmente</p><p>estranhas, não simplesmente estranhas para nós, mas estranhas entre si. Os</p><p>objetos diversos não precisam ter nada em comum senão o ser. Tudo é ser,</p><p>mas não é verdade que tudo seja unidade. É aqui, como eu disse, que Santo</p><p>Tomás se separa claramente, poderia dizer-se como a modo de desafio, dos</p><p>panteístas e dos monistas. Todas as coisas são, mas entre as coisas que são</p><p>há o que se chama diferença, assim como o que se chama similitude. E aqui</p><p>estamos uma vez mais ligados ao Senhor, não só pela universalidade da</p><p>relva mas pela irredutibilidade da relva ao cascalho. Porque este mundo de</p><p>seres diferentes e variados é especialmente o mundo do Criador cristão, o</p><p>mundo das coisas criadas por um Criador artista, muito diferente do mundo</p><p>que fosse uma só coisa, ao modo de um véu brilhante e trêmulo de</p><p>movimento evolutivo desorientador, como o concebem tantas antigas</p><p>religiões da Asia e os modernos sofistas da Alemanha. Contra todos, Santo</p><p>Tomás mantém-se obstinado na mesma obstinada fidelidade objetiva. Viu a</p><p>relva e o cascalho, e não é desobediente à visão celestial.</p><p>Em suma: a realidade das coisas, a mutabilidade das coisas, a diversidade</p><p>das coisas e todas as outras coisas semelhantes que se lhes podem atribuir</p><p>são seguidas cuidadosamente pelo filósofo medieval, sem perder contato</p><p>com o aspecto original da realidade. Não há espaço neste livro para</p><p>especificar os mil passos de pensamento com que demonstra ter razão. Mas</p><p>a questão é que, até independentemente de ter razão, ele é realista. É realista</p><p>em sentido muito curioso e muito seu, distinto do sentido medieval, e quase</p><p>oposto ao sentido moderno da palavra. Até as dúvidas e dificuldades acerca</p><p>da realidade o levaram a crer antes em mais realidade do que em menos.</p><p>A ilusão das coisas, que tem tido efeitos tão tristes em tantos sábios, neste</p><p>produz quase o efeito contrário. Se as coisas nos iludem, é por serem mais</p><p>reais do que parecem. Como fins em si, elas sempre nos enganam, mas,</p><p>como coisas que tendem a um fim mais elevado, são até mais reais do que</p><p>as julgamos. Se elas parecem ter uma relativa não-realidade (por assim</p><p>dizer), é por serem potência e não ato; não alcançaram ainda o seu completo</p><p>desenvolvimento; são como pacotes de sementes ou caixas de fogos de</p><p>artifício. Têm em si a potência de serem mais reais do que são atualmente.</p><p>E há um mundo superior de coisas, a que o Escolástico chamou plenitude</p><p>ou consumação, na qual toda esta relatividade relativa se torna atualidade,</p><p>na qual as sementes rebentam em flor ou os foguetes em chama.</p><p>Deixo o leitor aqui, no degrau mais baixo desta escada da lógica por que</p><p>Santo Tomas assediou a Casa do Homem e nela entrou. Basta dizer que com</p><p>os seus argumentos honestos e laboriosos subiu aos mais altos cimos e falou</p><p>com os anjos nos terraços de ouro. Esta é, em linhas muito imperfeitas, a</p><p>sua filosofia. E impossível em tal esboço descrever-lhe a teologia. Quem</p><p>escrever livro tão pequeno sobre homem tão grande deve deixar de fora</p><p>alguma coisa. Os que o conhecem melhor, melhor compreenderão a razão</p><p>por que, após considerações tão consideráveis, deixei de fora a única coisa</p><p>importante.</p><p>Notas</p><p>1 Neste Yo funde Chesterton duas palavras inglesas: yes (sim) e no (não).</p><p>2 No budismo, nirvana é o estado de ausência total de sofrimento, paz e</p><p>plenitude a que se chega por uma evasão de si; é, em verdade, o nada, que</p><p>esta falsa religião identifica com a realização da sabedoria.—No hinduísmo,</p><p>maia é a aparência, considerada ilusória, da diversidade do mundo, que</p><p>ocultaria a verdadeira unidade universal.</p><p>3 Doutrina mística e herética, particularmente difundida na Espanha e na</p><p>França do século XVII, consoante a qual a perfeição moral consiste na</p><p>anulação da vontade, na indiferença absoluta e numa inerte união</p><p>contemplativa com Deus.</p><p>VIII. A HERANÇA DE SANTO</p><p>TOMÁS</p><p>DIZ-SE MUITAS VEZES que Santo Tomás, ao contrário de São Francisco,</p><p>não consentiu o elemento poético na sua obra. Por exemplo: há poucas</p><p>referências ao prazer das flores e dos frutos naturais, conquanto mostre</p><p>muito interesse pelas raízes ocultas da natureza. Nào obstante, confesso que</p><p>ao ler a sua filosofia tenho uma impressão muito peculiar e poderosa,</p><p>análoga à poesia. E, curioso, é de certo modo mais semelhante à pintura, e</p><p>recorda-me muito o efeito produzido pelos melhores pintores modernos</p><p>quando projetam uma luz estranha e quase crua sobre objetos rígidos e</p><p>retangulares, ou quando parecem estar tateando em busca das próprias</p><p>colunas do subconsciente. Talvez seja porque na sua obra há uma qualidade</p><p>que é primitiva, no melhor sentido de uma palavra tão mal empregada; mas,</p><p>como quer que seja, o prazer é positivamente não só da razão mas também</p><p>da imaginação.</p><p>Talvez a impressão se relacione com o fato de os pintores tratarem de coisas</p><p>sem palavras. Um artista é capaz de desenhar, com toda a gravidade, as</p><p>curvas imponentes de um porco, porque não está pensando na palavra</p><p>porco. Não há pensador que pense as coisas com tanta certeza e sem ser</p><p>induzido em erro pela influência indireta das palavras como Santo Tomás</p><p>de Aquino. É verdade que não desfruta das vantagens da palavra, mas</p><p>também não lhe padece as desvantagens. Nisto difere nitidamente, por</p><p>exemplo, de Santo Agostinho, que, entre outras coisas, era um espírito</p><p>cintilante. Também foi uma espécie de prosador-poeta, com tal poder sobre</p><p>as palavras no seu aspecto etéreo e emocional, que nos seus livros abundam</p><p>belas passagens que se fixam na memória como árias musicais: o illi in vosa</p><p>saeviant, ou a inesquecível exclamação: "Tarde te amei, ó Beleza antiga!"</p><p>É certo que há pouco ou nada disto em Santo Tomás, mas, se ele não foi</p><p>dotado</p><p>do segredo da magia das palavras, também esteve livre do abuso</p><p>dela, como acontece com os sentimentais e os artistas egoístas, o que, em</p><p>verdade, pode tomar-se em magia muito negra e mórbida. E, em verdade, é</p><p>por meio de uma comparação assim, com o intelectual puramente</p><p>introspectivo, que podemos ter uma idéia da verdadeira natureza daquilo</p><p>que descrevo ou que, antes, não consigo descrever; quero dizer: a poesia</p><p>elementar e primitiva que brilha através de todos os seus pensamentos e</p><p>especialmente através do pensamento em que baseia todo o seu sistema. É a</p><p>intensa retidão do seu sentido de relação entre o espírito e o objeto real</p><p>exterior ao espírito.</p><p>Esta estranheza das coisas, que é a luz de toda a poesia e, em verdade, de</p><p>toda a arte, está de fato relacionada com a sua realidade ou o que se chama</p><p>a sua objetividade. O que é subjetivo toma-se sempre pesado; e é</p><p>precisamente o que é objetivo que é estranho neste estado imaginativo.</p><p>Nisto, o grande contemplativo é diametralmente o oposto do falso</p><p>contemplativo, do místico que olha somente para o interior da alma, ou do</p><p>artista egocêntrico, que se afasta do mundo e vive somente no seu próprio</p><p>espírito.</p><p>Segundo Santo Tomás, o espírito atua livremente, por si, mas a sua</p><p>liberdade consiste exatamente em achar caminho para a liberdade e para a</p><p>luz do dia, para a realidade e para a terra da vida. No subjetivista, a pressão</p><p>do mundo empurra a imaginação para dentro. No tomista, a energia do</p><p>espírito impele a imaginação para fora, porque as imagens que procura são</p><p>coisas reais. Toda a sua sedução e magia, por assim dizer, consiste em</p><p>serem coisas reais, coisas que não se encontram com olhar para o interior</p><p>do espírito. A flor e uma visão porque não é só visão. Ou, se quiserem, é</p><p>visão porque não é sonho. Nisto reside para o poeta a estranheza das pedras,</p><p>das árvores, dos objetos sólidos: são estranhos por serem sólidos. Estou</p><p>falando primeiramente a maneira poética, e, em verdade, é preciso ter muito</p><p>mais sutileza técnica para falar à maneira filosófica. Segundo Tomás de</p><p>Aquino, o objeto torna-se parte da inteligência; mais que isso, segundo ele,</p><p>a inteligência torna-se então objeto. Todavia, como um comentador acentua</p><p>com agudeza, ela só se torna objeto, mas não o cria. Em outras palavras, o</p><p>objeto é objeto; pode existir e existe de fato fora da inteligência ou na</p><p>ausência dela. E por isso amplia a inteligência, de que se toma parte. A</p><p>inteligência conquista uma nova província como um imperador, mas tão-só</p><p>por ter obedecido a um sinal como servo. A inteligência abriu as portas e as</p><p>janelas, porque a atividade natural do que esta dentro de casa é descobrir o</p><p>que está fora dela. Se por um lado a inteligência em si mesma é suficiente,</p><p>por outro lado não se basta a si mesma. Porque este alimentar-se do fato é</p><p>ela própria. Como órgão, tem um objeto que é objetivo — o alimentar-se da</p><p>forte e estranha comida da realidade.</p><p>Note-se como este ângulo evita dois erros — abismos opostos de</p><p>impotência. A inteligência não é meramente receptiva, no sentido de</p><p>absorver sensações como mata-borrão; sobre esta espécie de moleza tem-se</p><p>baseado todo esse materialismo covarde, que concebe o homem como</p><p>completamente subserviente ao meio circundante. Por outro lado, a</p><p>inteligência não é puramente criadora, no sentido de fazer pinturas nas</p><p>janelas e depois confundi-las com a paisagem exterior. Mas é ativa, e a sua</p><p>atividade consiste em seguir, até aonde a vontade quiser, a luz exterior que</p><p>em verdade cai sobre as paisagens reais. É isto o que dá uma qualidade</p><p>indefinivelmente viril e até aventurosa a esta maneira de encarar a vida,</p><p>quando se compara com a que defende que as influências materiais se</p><p>impõem a um espírito absolutamente inerme, ou com a que admite que a</p><p>atividade psicológica cria e exterioriza um mundo fantástico e sem base.</p><p>Em outros termos, a essência do senso comum tomista é que dois agentes</p><p>estão trabalhando — a realidade e a consciência dela — e que do seu</p><p>encontro resulta uma espécie de casamento. Em verdade, é um casamento</p><p>verdadeiro, porque e fecundo, sendo esta a única filosofia existente hoje no</p><p>mundo realmente fecunda. Produz resultados práticos, precisamente porque</p><p>e a combinação de um espírito aventuroso com um fato estranho. O Sr.</p><p>Maritain serviu-se de admirável metáfora ao dizer que o fato externo</p><p>fecunda a inteligência interna, assim como a abelha fecunda a flor. Seja</p><p>como for, é sobre esse casamento, ou como queiram chamar-lhe, que se</p><p>baseia todo o sistema de Santo Tomás: Deus fez o homem para que pudesse</p><p>entrar em contato com a realidade, e o que Deus juntou ninguém o separe.</p><p>Ora, vale a pena notar que esta é a única filosofia construtiva. De quase</p><p>todas as outras filosofias se pode dizer, com toda a verdade, que os seus</p><p>adeptos procedem contrariamente ao que pensam, ou não fazem nada.</p><p>Nenhum céptico procede como tal, assim como não procede fatalmente</p><p>nenhum fatalista. Todos, sem exceção, procedem segundo o princípio de</p><p>que e possível supor o que não é possível crer. Nenhum materialista,</p><p>persuadido de que as suas resoluções são obras do barro, sangue e</p><p>hereditariedade, hesita em tomar as suas resoluções por si mesmo. Nenhum</p><p>céptico, que crê que a verdade é subjetiva, tem nenhuma hesitação em</p><p>considerá-la objetiva.</p><p>Por isso a obra de Tomás de Aquino possui uma qualidade construtiva que</p><p>não existe em quase nenhum dos sistemas cósmicos posteriores. Porque ele</p><p>já está construindo uma casa, enquanto os especuladores mais recentes se</p><p>encontram ainda na fase de experimentar os degraus de uma escada de mão,</p><p>a mostrar a irremediável fragilidade dos tijolos mal cozidos, a analisar</p><p>quimicamente o nível de bolha de ar, e comumente questionando até a</p><p>possibilidade de fabricar as ferramentas com que se há de construir a casa.</p><p>Tomás de Aquino está muito à frente deles, muito além do que se costuma</p><p>imaginar quando se diz que um homem está à frente do seu século; está</p><p>séculos adiante do nosso. Lançou uma ponte sobre o abismo da primeira</p><p>dúvida e encontrou a realidade para além — e sobre ela começou a edificar.</p><p>A maior parte das filosofias modernas não são filosofia, mas dúvida</p><p>filosófica, isto é, dúvida sobre a possibilidade de haver filosofia.</p><p>Se aceitarmos o ato ou argumento fundamental de Santo Tomas na</p><p>aceitação da realidade, as deduções por tirar daí serão igualmente reais:</p><p>serão coisas e não palavras. Ao contrário de Kant e da maior parte dos</p><p>hegelianos, ele tem uma fé que não é somente dúvida acerca da dúvida. Não</p><p>é só o que se chama vulgarmente fé a respeito da fé: é uma fé acerca do</p><p>fato. Daqui pode prosseguir e deduzir, desenvolver e decidir, como homem</p><p>que planeja uma cidade e se senta numa cadeira de juiz. Mas, desde essa</p><p>época, nunca pensador algum julgou que havia evidencia real de alguma</p><p>coisa, ainda a evidência dos sentidos, que fosse bastante forte para suportar</p><p>o peso de uma dedução bem precisa.</p><p>De tudo isso podemos facilmente inferir que este filósofo não se limita a</p><p>tocar nos assuntos sociais, ou a levá-los em consideração na sua marcha</p><p>para as coisas espirituais, conquanto seja sempre esta a sua direção. Mas</p><p>apossa-se deles e não só lhes pega, mas domina-os. Como todas as suas</p><p>controvérsias provam, ele foi talvez um exemplo completo de mão de ferro</p><p>dentro de luva de veludo.</p><p>Era um homem que sempre dirigia a atenção para o concreto, e parece</p><p>colher na passagem até as coisas passageiras. Para ele até o que era</p><p>momentâneo era momentoso. O leitor sente que qualquer ponto</p><p>insignificante dos nossos hábitos de economia, ou qualquer ato humano sem</p><p>importância, fica imediatamente quase abrasado sob os raios convergentes</p><p>de uma lente de aumento. É impossível dar nestas páginas a milésima parte</p><p>das decisões sobre pormenores de vida que podem encontrar-se na sua obra;</p><p>seria como reimprimir os relatórios judiciais de um século incrível de juizes</p><p>justos e de magistrados sensatos. Podemos apenas tocar em um ou dois</p><p>casos notáveis deste gênero.</p><p>Acentuei já a necessidade de se empregarem palavras de ambiente moderno</p><p>para nos referirmos a certas</p><p>coisas de ambiente antigo, como quando</p><p>dissemos que Santo Tomás foi o que a maior parte dos homens de hoje</p><p>vagamente entendem por otimista. Da mesma maneira, ele foi também, em</p><p>grande parte, o que eles compreendem por liberal. Não quero dizer que</p><p>nenhuma das suas mil sugestões políticas se adapte a tal ou qual doutrina</p><p>política, se é que hoje há doutrinas políticas bem definidas. Quero dizer</p><p>com isto que ele tem uma espécie de confiança no espírito de compreensão,</p><p>equilíbrio e crítica livre. Talvez não seja liberal com os exageros dos</p><p>modernos, porque entendemos mais por modernos os homens do século</p><p>passado do que os do atual. Ele foi muito liberal em comparação com os</p><p>mais modernos de todos os modernos, porque quase todos eles se estão</p><p>tornando fascistas e hitleristas. O que importa frisar é que evidentemente</p><p>preferia as decisões que se tomam por deliberação e não por ação despótica.</p><p>E, ao mesmo tempo que, como todos os seus contemporâneos e</p><p>correligionários, não duvida de que a autoridade pode ser autoritária, é</p><p>adverso a toda a sua tendência a ser arbitrária. E muito menos imperialista</p><p>do que Dante, e até o seu papismo não e muito imperial. Gosta muito de</p><p>frases como "uma multidão de homens livres", matéria essencial de uma</p><p>cidade, e salienta muito o fato de a lei deixar até de ser lei quando deixa de</p><p>ser justiça.</p><p>Se esta obra fosse de controvérsia, todos os capítulos poderiam ser</p><p>dedicados à economia e ética do sistema tomista. Tornar-se-ia fácil</p><p>demonstrar que, neste assunto, ele foi tão profeta como filosofo. Previu</p><p>desde o início o perigo dessa exclusiva confiança no comércio e no sistema</p><p>de troca, que começou mais ou menos na sua época e que culminou no</p><p>colapso comercial do mundo nos nossos dias. Nao se limitou a afirmar que</p><p>a usura é antinatural, conquanto nisto seguisse simplesmente Aristóteles e o</p><p>senso comum evidente, que nunca se viu contraditado por ninguém até à</p><p>época dos homens de negocio que nos impeliram para o colapso.</p><p>O mundo moderno começou com Bentham, autor da Defesa da Usura,1 e</p><p>terminou, ao fim de cem anos, pela opinião vulgar em qualquer jornal de</p><p>que as finanças não têm defesa. Mas Santo Tomás foi muito mais fundo do</p><p>que isso. Chegou até a citar a verdade, ignorada durante a longa idolatria do</p><p>negócio, de que as coisas que os homens produzem somente para vender</p><p>tendem a tornar-se piores em qualidade do que as que produzem para</p><p>consumir. Algo da nossa dificuldade acerca das finas nuanças do latim se</p><p>sentirá quando chegarmos ao ponto em que ele afirma que há sempre certas</p><p>inhonestas no negocio. Por inhonestas não entende precisamente</p><p>desonestidade, mas, aproximadamente, "algo de indigno", ou, mais próximo</p><p>da verdade talvez, "algo não perfeitamente digno". E tinha razão, porque o</p><p>negócio, no sentido moderno, significa vender alguma coisa por um pouco</p><p>mais do que vale, e nem os economistas do século XIX o teriam negado.</p><p>Somente teriam dito que ele não era homem prático, e isto parecia razoável</p><p>enquanto esta opinião conduzia à prosperidade prática. As coisas sao um</p><p>pouco diferentes agora, quando ela levou a bancarrota universal.</p><p>Não obstante, nesta passagem colidimos com um colossal paradoxo de</p><p>história. A filosofia e a teologia tomistas, comparadas com lealdade às</p><p>outras filosofias, como a budista ou a monista, às outras teologias, como a</p><p>calvinista ou a Christian Scientist,2 são um sistema notoriamente ativo e ate</p><p>combativo, cheio de senso comum e de confiança construtiva, e por isso</p><p>normalmente cheio de esperança e de promessas. E esta esperança não é vã,</p><p>nem estas promessas deixam de cumprir-se. No momento atual, tão pouco</p><p>esperançoso, não há homens tão esperançosos como aqueles que</p><p>consideram agora Santo Tomás como guia em uma centena de perguntas</p><p>angustiantes a respeito das artes, da propriedade e da ética econômica. Há</p><p>inegavelmente um tomismo esperançoso e criador na nossa epoce Mas</p><p>causa-nos estranheza o fato de que não se tenha dado o mesmo logo em</p><p>seguida ao tempo de Santo Tomás. É verdade que houve grande impulso de</p><p>progresso no século XIII, e em alguns pontos, como no estado social do</p><p>camponês, as coisas melhoraram muito no fim da Idade Media. Mas</p><p>ninguém pode honestamente dizer até que ponto o espírito popular dos</p><p>frades contribuirá para os movimentos populares medievais que surgiram</p><p>mais tarde, ou até que ponto este grande Frade, com as suas luminosas</p><p>regras de justiça e a sua simpatia permanente pelos pobres, terá contribuído</p><p>indiretamente para o melhoramento que certamente se deu.</p><p>Mas os que lhe seguiram o método, separando-o do seu espírito moral,</p><p>degeneraram com estranha rapidez, e com certeza não foi entre os</p><p>escolásticos que tal melhoramento se deu. De alguns deles só podemos</p><p>dizer que tomaram da escolástica o que nela havia de pior, e o fizeram</p><p>degenerar ainda mais. Continuaram a apoiar-se nos degraus da lógica, mas</p><p>cada degrau da lógica os afastava do senso comum. Esqueceram que Santo</p><p>Tomás começara quase como agnóstico, e pareciam resolvidos a não deixar</p><p>nada, nem no Céu nem no Inferno, acerca do qual se pudesse ser agnóstico.</p><p>Eram uma espécie de racionalistas furiosos, que de boa vontade não teriam</p><p>deixado por esclarecer nenhum mistério da Fé. Na velha escolástica há algo</p><p>que aos modernos dá a impressão de fantasioso e pedante; mas, bem</p><p>entendida a coisa, há um belo espírito nesta fantasia. É o espírito da</p><p>liberdade e, sobretudo, o espírito do livre-arbítrio. Nada parece mais</p><p>esquisito, por exemplo, do que as especulações acerca do que teria</p><p>acontecido a cada vegetal, animal ou anjo se Eva tivesse preferido não</p><p>comer o fruto da árvore. Estas especulações eram no princípio cheias de</p><p>interesse por causa da escolha, por causa da idéia de que ela podia ter</p><p>escolhido outra coisa. Foi este pormenorizado método de detetives que veio</p><p>a seguir-se, mas sem o interesse da primitiva história detetivesca. O mundo</p><p>encheu-se de volumes incontáveis, que provavam pela lógica mil coisas que</p><p>só podem ser conhecidas de Deus. Desenvolveram tudo o que realmente era</p><p>estéril na escolástica, e deixaram-nos a nós tudo o que realmente é fértil no</p><p>tomismo.</p><p>Há para isso muitas explicações históricas. Ha a peste negra, que paralisou</p><p>a Idade Média, e o conseqüente declínio da cultura clerical, que tanto</p><p>contribuiu para provocar a reforma. Mas suspeito que haja também outra</p><p>causa, que só se pode explicar dizendo que os fanaticos coevos que tiveram</p><p>controvérsia com Tomás de Aquino triunfaram, de certo modo, afinal. Os</p><p>agostinianos, em verdade de espírito estreito, homens que viram da vida</p><p>cristã só o caminho estreito, que não podiam sequer compreender o</p><p>entusiasmo do grande Dominicano ante a brilhante luz do Ser, nem a glória</p><p>de Deus em todas as suas criaturas; homens que continuaram a apoiar-se</p><p>febrilmente em cada texto ou até em cada verdade que parecia pessimista</p><p>ou paralisadora — estes tristes cristãos não podiam ser arrancados da</p><p>Cristandade, e ficaram à espera de uma oportunidade. Os agostinianos</p><p>rígidos, homens que não queriam a ciência, nem a razão, nem o uso racional</p><p>das coisas seculares, podem ter sido derrotados na controvérsia, mas</p><p>ficaram com uma paixão da convicção acumulada. Ora, havia um mosteiro</p><p>agostinho no Norte, no qual se estava quase dando a explosão.</p><p>Tomás de Aquino vibrara o golpe, mas não liquidara totalmente os</p><p>maniqueus, que não são fáceis de liquidar, no sentido de liquidar</p><p>definitivamente. Ele tinha assegurado que as linhas principais do</p><p>Cristianismo tradicional fossem sobrenaturais mas não antinaturais, e que</p><p>nunca fossem obscurecidas por uma falsa espiritualidade, a ponto de lançar</p><p>no esquecimento o Criador e Jesus Cristo feito Homem. Mas como a sua</p><p>tradição se perdeu em hábitos de pensamento menos liberais ou menos</p><p>criadores, e como a sociedade medieval declinou e caiu por outras causas,</p><p>aquilo contra o qual ele combatera se introduzira de novo na Cristandade.</p><p>Certo espírito ou elemento na religião cristã, necessário e por vezes nobre,</p><p>mas que carecia sempre de ser contrabalançado por elementos de fé mais</p><p>brandos e generosos, começou,</p><p>uma vez mais, a fortalecer-se à medida que</p><p>o esqueleto da escolástica se tornava rígido ou estalava.</p><p>O temor de Deus, que é o princípio da sabedoria, e que por isso pertence</p><p>aos princípios, e que se sente no frio das primeiras horas antes da alvorada</p><p>da civilização; o sopro que vem da selva, e rodopia em turbilhão, e quebra</p><p>os deuses de pedra; o poder ante o qual as nações do Oriente se prostram,</p><p>rastejantes; o sopro à frente do qual os profetas primitivos correram nus e</p><p>aos gritos, simultaneamente proclamando o seu deus e dele fugindo; o</p><p>temor que está enraizado, com razão, nos princípios de toda a religião,</p><p>verdadeira ou falsa: o temor do Senhor que é princípio mas não fim de toda</p><p>a sabedoria.</p><p>Observa-se muita vez — como exemplo da inconsciência irônica dos</p><p>governantes diante das revoluções e, em especial, da frivolidade dos que</p><p>são chamados os papas pagãos do Renascimento na sua atitude para com a</p><p>Reforma — que quando o Papa ouviu falar dos primeiros movimentos do</p><p>protestantismo, iniciado na Alemanha, disse somente, de modo</p><p>despreocupado, que se tratava de "uma contenda entre frades". Todos os</p><p>Papas estavam, evidentemente, habituados a querelas entre as ordens</p><p>monásticas, mas tem-se acentuado sempre, como negligência estranha e</p><p>quase imprevidente, que ele não seria capaz de ver mais que isto, nos</p><p>princípios do grande cisma do século XVI. E, no entanto, vendo melhor as</p><p>coisas, há uma parte de verdade nessa expressão que lhe censuram. Em</p><p>certo sentido, os cismáticos tinham uma espécie de ascendência espiritual</p><p>na época medieval. Vimo-lo já no começo deste livro; era uma querela de</p><p>frades. Vimos como o grande nome de Santo Agostinho, sempre citado por</p><p>Tomás de Aquino com grandíssimo respeito, mas por vezes mencionado</p><p>para discordar dele, cobria uma escola agostiniana de pensamento, que</p><p>sobreviveu por mais tempo, como é natural, na Ordem Agostiniana. A</p><p>diferença, como todas as diferenças entre católicos, era só de critério. Os</p><p>agostinianos frisavam mais a idéia da impotência do homem ante Deus, a</p><p>onisciência de Deus acerca do destino do homem, a necessidade do temor</p><p>santo e da humilhação do orgulho intelectual, mais do que as verdades</p><p>contrárias e correspondentes do livre-arbítrio, da dignidade humana ou das</p><p>boas obras. Nisto, de certa maneira, continuavam a nota distintiva de Santo</p><p>Agostinho, ainda hoje considerado, até certo ponto, o doutor determinista</p><p>da Igreja.</p><p>Mas há ênfase e ênfase, e havia de vir uma época em que acentuar um</p><p>aspecto significaria simplesmente contradizer o outro. Ao fim e ao cabo,</p><p>talvez tudo começasse por uma bulha de frades, mas o Papa estava ainda</p><p>para aprender a que ponto um frade pode ser bulhento. Porque havia certo</p><p>frade, naquele mosteiro agostinho das florestas alemãs, que pode dizer-se</p><p>era um talento único e especial para a ênfase; para isso e nada mais; para a</p><p>ênfase com aspecto de terremoto. Era filho de um cortador de lousa, homem</p><p>de voz potente e certa personalidade imponente, glutão, sincero e mórbido,</p><p>e chamava-se Martinho Lutero. Nem Santo Agostinho nem os agostinianos</p><p>teriam desejado ver o dia dessa defesa da tradição agostiniana, mas de certa</p><p>forma essa tradição foi talvez vingada afinal de contas.</p><p>Ela saiu outra vez da sua cela em dias de tormenta e ruína, e com voz nova</p><p>e poderosa reclamou uma religião elementar e emotiva e a destruição de</p><p>todas as filosofias. Tinha horror e asco especial às grandes filosofias gregas</p><p>e a escolástica, que se fundara sobre aquelas. Possuía uma teoria que era a</p><p>destruição de todas as teorias; tinha uma teologia própria, que era por si</p><p>mesma a morte da teologia. O homem nada podia dizer a Deus, excetuando</p><p>um grito quase inarticulado de misericórdia, a pedir o auxilio sobrenatural</p><p>de Cristo, num mundo em que todas as coisas naturais eram inúteis. A razão</p><p>era inútil.. A vontade era inútil. O homem não tinha mais poder para mover-</p><p>se uma polegada do que uma pedra. O homem não podia confiar mais</p><p>naquilo que tinha na cabeça do que num nabo. Nada ficava na terra nem no</p><p>céu, a não ser o nome de Cristo, erguido numa invocação solitária mas tão</p><p>terrível como o grito de uma fera tomada de dor.</p><p>Temos de ser justos para com as gigantescas figuras humanas que são, com</p><p>efeito, os gonzos da história. Por muito e justamente forte que seja a nossa</p><p>convicção na controvérsia, nunca ela nos deve induzir erradamente a crer</p><p>que algo vulgar transformou o mundo. Assim acontece com o grande frade</p><p>agostiniano que se vingou de todos os ascetas agostinianos da Idade Media,</p><p>e cuja figura gorda e corpulenta foi suficientemente ampla para ocultar</p><p>durante quatro séculos a montanha humana, já distante, de Tomás de</p><p>Aquino. Não é, como os modernos gostam de dizer, uma questão de</p><p>teologia. A teologia protestante de Martinho Lutero era algo que todo e</p><p>qualquer protestante moderno mandaria passear, ou, se a frase é</p><p>desrespeitosa, digamos que nenhum teria escrúpulo de a olhar com</p><p>desprezo.</p><p>Esse protestantismo era pessimismo; não era mais que pura insistência na</p><p>inutilidade de toda a virtude humana, como tentativa para escapar ao</p><p>Inferno. Esse luteranismo é agora quase irreal; Lutero, todavia, não foi</p><p>irreal. Ele foi um desses grandes barbaros primitivos a quem foi dado</p><p>revolucionar o mundo. Comparar em qualquer sentido filosófico estas duas</p><p>figuras que avultam tanto na história seria, realmente, fútil e até incorreto.</p><p>Na esfera da inteligência, a inteligência de Lutero, comparada com a de</p><p>Tomás de Aquino, seria quase invisível. Mas não é totalmente falso dizer,</p><p>como tantos jornalistas têm dito sem se importar se isto é verdade ou não,</p><p>que Lutero iniciou uma época e deu começo ao mundo moderno.</p><p>Foi ele o primeiro homem que empregou conscientemente a sua consciência</p><p>ou o que mais tarde se chamou a sua personalidade. Com efeito, teve forte</p><p>personalidade. Tomás de Aquino teve personalidade ainda mais forte: tinha</p><p>presença maciça e magnética, inteligência que podia atuar como um enorme</p><p>sistema de artilharia espalhado pelo mundo todo, e aquela instantânea</p><p>prontidão de espírito no debate, que só por si já merece o nome de talento.</p><p>Mas nunca lhe ocorreu servir-se de outra coisa que não fosse a sua razão,</p><p>em defesa de uma verdade distinta dele mesmo. Nunca se lembrou Aquino</p><p>de se servir de Aquino como arma. Não há indícios de ter utilizado as suas</p><p>vantagens pessoais, de nascimento, de corpulência, de inteligência ou de</p><p>educação, em nenhuma controvérsia com ninguém.</p><p>Em suma, pertenceu a uma idade de despreocupação intelectual, de</p><p>inocência intelectual, que foi efetivamente intelectual. Ora, Lutero deu</p><p>inicio à mentalidade moderna dos que se prendem a coisas não meramente</p><p>intelectuais. Não se trata de uma questão de elogio ou de censura; não vem</p><p>agora ao caso dizer que ele era uma forte personalidade ou um indivíduo</p><p>insuportável. Quando citava um texto da Escritura, inserindo uma palavra</p><p>que a ela não pertencia, contentava-se com gritar a todos os críticos:</p><p>— Digam-lhes a todos que o Dr. Martinho Lutero assim o dirá sempre!</p><p>É a isso que hoje chamamos personalidade. Um pouco mais tarde, chamou-</p><p>se-lhe psicologia. Depois, chamou-se-lhe anúncio ou arte de vender. Não</p><p>estamos, contudo, discutindo acerca de vantagens ou desvantagens. Deve-se</p><p>dizer deste grande agostiniano pessimista não só que triunfou por fim sobre</p><p>o Anjo das Escolas mas que, em sentido muito real, fez o mundo moderno.</p><p>Destruiu a razão e substituiu-a pela sugestão.</p><p>Diz-se que o grande reformador queimou em público a Suma Teológica e as</p><p>demais obras de Tomás de Aquino, e com a fogueira desses livros podemos</p><p>bem pôr fim a este. Dizem que e muito difícil queimar um livro, e deve ter</p><p>sido dificílimo queimar uma montanha de livros como aquela com que o</p><p>Dominicano contribuirá para as controvérsias da Cristandade. Como seja,</p><p>há algo de triste e de apocalíptico na idéia dessa destruição, quando</p><p>consideramos a compacta complexidade de toda esta visão enciclopédica de</p><p>coisas sociais, morais e especulativas.</p><p>Todas as definições densas e precisas que excluíam tantos erros e extremos;</p><p>todos os juízos</p><p>amplos e equânimes sobre o conflito de direitos ou a</p><p>preferência dos males; todas as amplas especulações sobre as limitações do</p><p>governo e as convenientes condições de justiça; todas as distinções entre o</p><p>uso e o abuso da propriedade particular; todos os preceitos e exceções com</p><p>respeito ao grande mal da guerra; todas as condescendências com a</p><p>fraqueza humana e todas as solicitudes pela saúde humana: toda esta massa</p><p>de humanismo medieval se contorceu em espirais de fumaça diante dos</p><p>olhos do seu inimigo, e este rústico apaixonado se regozijou turvamente</p><p>porque os dias da inteligência eram passados. Ardeu frase por frase,</p><p>silogismo por silogismo, e as maximas de ouro transformaram-se em</p><p>chamas douradas nessa derradeira e moribunda glória de tudo o que um dia</p><p>fora a grande sabedoria dos gregos.</p><p>A síntese central da história, destinada a unir o mundo antigo com o</p><p>moderno, desfez-se em fumaça e, para meio mundo, passou despercebida</p><p>como tênue nuvem de vapor.</p><p>Por algum tempo pareceu que essa destruição teria sido decisiva. É o que se</p><p>vê ainda no fato desconcertante de no Norte os modernos poderem ainda</p><p>escrever histórias da filosofia nas quais a filosofia se detém nos últimos</p><p>sofistas da Grécia e de Roma, não se tornando a falar nela outra vez senão</p><p>com o aparecimento de um filósofo de terceira ordem, como foi Francis</p><p>Bacon.3 E porém este livrinho, que naturalmente nada mais fará, ou que</p><p>pouco mais valor pode ter, será pelo menos testemunha do fato de que a</p><p>maré tornou a subir.</p><p>Passem 400 anos, e este livro, assim o espero (e sinto-me feliz por dizer que</p><p>o creio), se perderá e esquecerá sob uma onda de melhores livros a respeito</p><p>de Santo Tomás de Aquino, que estão neste momento saindo de todos os</p><p>prelos da Europa e até da Inglaterra e da América. Comparado a esses</p><p>livros, este é, evidentemente, uma produção magra e de amador. Mas não é</p><p>provável que venha a ser queimado; e, se o fosse, não deixaria falta alguma</p><p>digna de nota no meio dos novos e magníficos trabalhos que hoje se</p><p>dedicam à philosophia perennis — a Filosofia imorredoura.</p><p>Notas</p><p>1 Jeremias Bentham (1748-1832) foi um defensor do sistema conhecido por</p><p>Utilitarismo, cuja base é considerar que o motor das nossas ações é o</p><p>interesse pessoal.</p><p>2 A Christian Science é uma seita protestante de caráter extremista, e muito</p><p>difundida na América do Norte.</p><p>3 Político e filósofo inglês (1561-1626), tipicamente renascentista.</p><p>CAPA</p><p>NOTA PRÉVIA DO TRADUTOR</p><p>G. K. CHESTERTON*</p><p>CHESTERTON: UMA MISSÃO ÚNICA *</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>I. DOIS FRADES</p><p>II. O ABADE FUGITIVO</p><p>III. O BATISMO DE ARISTÓTELES</p><p>IV. MEDITAÇÃO SOBRE OS MANIQUEUS</p><p>V. A VIDA REAL DE SANTO TOMÁS</p><p>VI. INTRODUÇÃO AO TOMISMO</p><p>VII. A FILOSOFIA PERENE</p><p>VIII. A HERANÇA DE SANTO TOMÁS</p><p>o próprio fim em vista.</p><p>Não posso senão manifestar a esperança, e também a confiança, de que os</p><p>que me consideram herege não me censurem o exprimir as minhas</p><p>convicções, e, com certeza, ainda menos o exprimir as convicções do meu</p><p>herói.</p><p>Há apenas um ponto em que tal questão interessa a esta simples narrativa: é</p><p>a convicção, que manifesto uma ou duas vezes no seu decurso, 1 de que o</p><p>cisma do século XVI foi, em verdade, uma revolta retardada dos</p><p>pessimistas do século XIII, um retorno do velho puritanismo agostiniano2</p><p>contra a liberalidade aristotélica. Sem isso, não teria podido pôr a minha</p><p>figura histórica no campo da história. Mas o conjunto tem em vista tão-</p><p>somente apresentar o esboço imperfeito de uma figura enquadrada numa</p><p>paisagem, e não uma paisagem com figuras.</p><p>Em segundo lugar, num resumo desta natureza, quase nada mais posso dizer</p><p>a respeito do filosofo senão mostrar que tinha uma filosofia. So dei, por</p><p>assim dizer, amostras dessafilosofia. Afinal, torna-se de todo impossível</p><p>tratar de maneira conveniente a sua teologia. Uma senhora minha conhecida</p><p>encontrou um livro com excertos comentados de Santo Tomas, e começou</p><p>esperançosamente a ler um passo com o inocente título de "A simplicidade</p><p>de Deus". Daí a pouco pôs o livro de lado, com um suspiro, e disse:</p><p>— Ah! se a simplicidade de Deus é assim, que será a Sua complexidade!?...</p><p>Com todo o respeito por esse excelente comentário tomístico, não tenho</p><p>desejo algum de que este livro venha a ser posto de parte, à primeira vista,</p><p>com suspiro análogo. Para mim, a biografia é uma introdução à filosofia, e</p><p>esta uma introdução à teologia. Não posso levar o leitor senão até um pouco</p><p>além do primeiro degrau.</p><p>Em terceiro lugar, não julguei necessário referir-me àqueles críticos que, de</p><p>quando em quando, representam para a galeria, reimprimindo bocados de</p><p>demonologia medieval, na esperança de horrorizar o público atual tão-</p><p>somente pelo emprego de linguagem desusada. Tenho por certo que os</p><p>homens cultos sabem que Santo Tomás e todos os seus contemporâneos, e</p><p>até todos os seus opositores, durante séculos, acreditaram em demônios e</p><p>fatos semelhantes, mas não julguei conveniente mencioná-los aqui, pela</p><p>simples razão de que não ajudam a destacar ou a realçar o retrato. Em tudo</p><p>isto não houve discordância entre os teólogos protestantes e católicos</p><p>durante todas as centenas de anos em que houve teologia; nem Santo Tomás</p><p>se notabilizou por ter tais opiniões, mas por sustentá-las, com moderaçao.</p><p>Se não discuti semelhantes assuntos, não foi porque tivesse razões para os</p><p>ocultar, mas porque, pessoalmente, de modo nenhum dizem respeito à única</p><p>pessoa que quis tornar conhecida. Apesar de tudo, quase não há aqui espaço</p><p>para o enquadramento de tal figura.</p><p>Notas</p><p>1 Horatio Nelson (1758-1805), o almirante inglês que saiu vitorioso sobre</p><p>os franceses nas batalhas navais de Abuquir e Trafalgar, morrendo porém</p><p>nesta última.</p><p>2 Quer dizer, o puritanismo de certas correntes agostinianas que</p><p>antecederam, ao longo dos séculos, Santo Tomás. Entender-se-a melhor este</p><p>ponto ao longo do livro.</p><p>I. DOIS FRADES</p><p>ANTES DE MAIS NADA, permitam-me um breve comentário acerca</p><p>daquela conhecida personalidade que se lança, precipitadamente, até onde</p><p>os próprios Anjos do Doutor Angélico receariam penetrar.</p><p>Há algum tempo, escrevi um livrinho desta espécie e proporções acerca de</p><p>Sào Francisco de Assis, e, pouco depois (não sei quando nem como, como</p><p>diz a canção, e certamente também não sei por quê), prometi escrever um</p><p>livro semelhante a respeito de Santo Tomás de Aquino. A promessa, na sua</p><p>audácia, era franciscana, e o paralelo estava muito longe de ser tomístico,</p><p>na sua lógica. Pode-se fazer um esboço de São Francisco; de Santo Tomás</p><p>só se pode traçar o plano, como se se tratasse de uma cidade labiríntica,</p><p>apesar de ele, de certo modo, adaptar-se tanto a um livro muito maior como</p><p>a um muito menor. O que realmente se sabe da sua vida pode-se dizer em</p><p>meia dúzia de páginas, porque não desaparece, como São Francisco,</p><p>debaixo de uma torrente de casos pessoais e de lendas populares. O que</p><p>sabemos, ou poderíamos saber, ou talvez possamos ter a sorte de aprender a</p><p>respeito da sua obra encherá provavelmente mais bibliotecas no futuro do</p><p>que encheu no passado.</p><p>Podemos dar um breve esboço de São Francisco; mas, no que respeita a</p><p>Santo Tomás, tudo depende do acabamento desse esboço. De certa maneira,</p><p>seria até medieval iluminar uma miniatura do Poverello, cujo próprio nome</p><p>é diminutivo. Mas fazer um compêndio, ao modo de comprimidos, do Boi</p><p>Mudo da Sicília está além das possibilidades dos que conseguem, por esse</p><p>processo, meter um boi numa xícara de chá. Podemos porém abrigar a</p><p>esperança de vir a fazer um esboço de biografia, agora que todo o mundo</p><p>parece capaz de escrever um resumo de história ou de qualquer outra coisa.</p><p>Apenas, no caso presente, o esboço excede as suas próprias proporções.</p><p>Não existe por aí, nos guarda-roupas, o hábito capaz de cobrir este frade</p><p>colossal.</p><p>Eu já disse que esses retratos só o podem ser em esboço, mas o contraste</p><p>real é aqui tão flagrante, que, se víssemos agora aparecer em silhueta estas</p><p>duas pessoas a descer o monte no seu hábito de frade, até acharíamos</p><p>cômico esse contraste. Seria a mesma coisa que ver, lá longe, as silhuetas de</p><p>D. Quixote e de Sancho Pança, ou de Falstaff e do Mestre Slender.1 São</p><p>Francisco era magro, pequeno e vivaz — fino como um cordel, vibrante</p><p>como a corda de um arco, e, nos seus movimentos, semelhante a uma flecha</p><p>disparada. A vida toda ele foi um conjunto de mergulhos e de fugas:</p><p>correndo atrás do mendigo, ou nu pela floresta, atirando-se para o estranho</p><p>navio, ou se arremessando para a tenda do sultão e propondo atirar-se ao</p><p>fogo. Exteriormente, deve ter-se assemelhado ao esqueleto muito fino e</p><p>amarelado de uma folha outonal, a dançar eternamente adiante do vento; em</p><p>verdade, porém, ele e que era o vento.</p><p>Santo Tomás era grande e pesado como um touro: gordo, vagaroso,</p><p>tranqüilo; brando e magnânimo, mas pouco sociável; tímido, ainda que se</p><p>considere à parte a humildade da santidade; abstrato, ainda sem as suas</p><p>eventuais experiências de transporte ou êxtase, cuidadosamente ocultadas.</p><p>Sao Francisco era tão fogoso e até irrequieto, que os eclesiásticos diante dos</p><p>quais aparecia de repente o julgavam doido. Santo Tomás mostrava-se tão</p><p>tardo, que os mestres nas escolas que freqüentava com regularidade o</p><p>supunham estúpido. Em verdade, pertencia a essa classe de estudantes, não</p><p>raros, que preferem ser considerados estúpidos a ver os seus sonhos</p><p>invadidos por estúpidos mais ativos e animados. Esse contraste exterior se</p><p>torna extensivo a quase todos os aspectos das duas personalidades. O</p><p>paradoxo de São Francisco é que, amando a poesia tão apaixonadamente,</p><p>desconfiava muito dos livros. O fato saliente em Santo Tomás consistia em</p><p>amar os livros e viver deles; em viver a vida própria do clérigo ou letrado</p><p>dos Contos de Cantuária,2 o qual preferia possuir cem livros de Aristóteles</p><p>e sua filosofia a todas as riquezas que o mundo lhe pudesse dar. Quando lhe</p><p>perguntavam o que agradecia mais a Deus, respondia simplesmente:</p><p>— Ter compreendido todas as paginas que li.</p><p>São Francisco punha grande vivacidade nas suas poesias, ao passo que nos</p><p>seus documentos era indeciso; Santo Tomás devotou-se toda a vida a</p><p>documentar os sistemas completos das literaturas pagã e cristã; e, como</p><p>homem que descansa, de vez em quando escrevia um poema.</p><p>Ambos viram o mesmo problema por ângulos diferentes: o da simplicidade</p><p>e o da sutileza. São Francisco julgava ser bastante abrir o coração aos</p><p>maometanos para os persuadir a não adorar Maomé. Santo Tomás quebrava</p><p>a cabeça com distinções e deduções muito sutis a respeito do absoluto ou do</p><p>acidente, apenas para evitar que interpretassem erradamente Aristóteles.</p><p>Sao Francisco era filho de um negociante de classe média, e, enquanto toda</p><p>a sua vida foi de revolta contra a vida mercantil do pai, conservou, apesar</p><p>de tudo, alguma coisa da animação e social adaptabilidade que torna um</p><p>mercado tão ruidoso como</p><p>uma colmeia. É como se diz vulgarmente: amigo</p><p>que era dos prados verdes, não deixava a relva crescer-lhe debaixo dos pés.</p><p>Ele era um arame vivo,3 como dizem os milionários e os bandidos</p><p>americanos. É característico dos mecanicistas modernos lembrar-se só da</p><p>metáfora mecânica tirada de coisas inanimadas, ainda quando procuram</p><p>imaginar um ser vivo. Aquilo a que se chama verme vivo existe, mas não há</p><p>um arame vivo. São Francisco sinceramente consentiria que lhe chamassem</p><p>verme, mas muito vivo. Sendo o maior inimigo do ideal "andar a adquirir",</p><p>abandonara, é certo, o "adquirir", mas continuava a "andar".</p><p>Por seu lado, Santo Tomas provinha de um mundo em que poderia ter-se</p><p>dado a todas as comodidades; sempre foi desses homens cujo trabalho tem</p><p>algo da serenidade do ócio. Foi trabalhador tenaz, mas ninguém o poderia</p><p>supor precipitado. Tinha em si algo de indefinível, que caracteriza os que</p><p>trabalham quando não precisam trabalhar. Por ser ele um grande senhor de</p><p>nascimento, tal serenidade pôde ficar como hábito quando já não constituía</p><p>motivo. Mas nele se expressava unicamente nos seus elementos mais</p><p>atraentes; havia, por exemplo, algo disso na sua cortesia e na sua paciência</p><p>espontâneas. Qualquer santo é homem antes de ser santo, e um santo pode</p><p>fazer-se de qualquer espécie de homem; muitos escolhem entre os</p><p>diferentes tipos de santos segundo o gosto de cada um. Confesso porém</p><p>que, enquanto a glória romanesca de Sao Francisco nada perdeu, para mim,</p><p>do seu esplendor, comecei a sentir nos últimos anos quase tanta ou, por</p><p>certos aspectos, muito mais afeição por este homem que inconscientemente</p><p>vivia num grande coração e numa grande cabeça como alguém que herdasse</p><p>uma grande casa e nela oferecesse hospitalidade generosa, mas algo</p><p>despreocupada. Há ocasiões em que São Francisco, o homem menos</p><p>mundano que jamais andou por este mundo, se mostra mais prático do que</p><p>eu esperava.</p><p>Recentemente, Santo Tomás de Aquino reapareceu na cultura corrente das</p><p>universidades e dos salões de modo tal, que há dez anos pareceria estranho.</p><p>Esta atenção que se concentra nele é, sem dúvida alguma, muito diferente</p><p>da que popularizou São Francisco há uns vinte anos. O santo é remédio por</p><p>ser antídoto. Realmente é esta a razão por que o santo é tantas vezes mártir:</p><p>tomam-no por veneno por ser teriaga. Em geral sucede restabelecer ele a</p><p>saúde do mundo exagerando aquilo que o mundo despreza: um elemento</p><p>qualquer, que não é, de modo nenhum, sempre o mesmo em todas as</p><p>épocas. No entanto, cada geração procura o seu santo por instinto, não o</p><p>que ela quer, mas o de que precisa. Com certeza é este o significado destas</p><p>palavras, tão mal compreendidas, dirigidas aos primeiros santos — "Vós</p><p>sois o sal da terra" — que levaram o ex-imperador da Alemanha a</p><p>proclamar, com a maior seriedade, que os seus rotundos alemães eram o sal</p><p>da terra, querendo dizer com isso que eram os mais fortes e, por</p><p>conseguinte, os melhores do mundo. O sal, todavia, serve para condimentar</p><p>e conservar a carne não por lhe ser semelhante a ela, mas por ser muito</p><p>diferente dela. Cristo não disse aos Seus Apóstolos que eram unicamente</p><p>excelentes pessoas, ou as únicas pessoas excelentes, mas que eram pessoas</p><p>excepcionais, permanentemente discordantes e incompatíveis; o texto a</p><p>respeito do sal da terra é em verdade tão vivo e penetrante como o gosto do</p><p>sal. Por serem pessoas excepcionais, e que não deveríam perder a sua</p><p>qualidade excepcional. "Se o sal perder o sabor, com que havemos de</p><p>salgar?" é uma pergunta muito mais aguda do que qualquer lamentação a</p><p>respeito do preço da melhor carne. Se o mundo se tornar demasiado</p><p>mundano, pode ser censurado pela Igreja; mas, se a Igreja se tornar</p><p>demasiado mundana, não pode ser censurada por mundana pelo mundo.</p><p>Daqui resulta o paradoxo da história, de cada geração ser convertida pelo</p><p>santo que mais em desacordo está com ela. São Francisco despertou uma</p><p>atração curiosa e quase sobrenatural entre os vitorianos e entre os ingleses</p><p>do século XIX, que pareciam à primeira vista muitíssimo presumidos e</p><p>satisfeitos a respeito do seu comércio e do seu senso comum. Até os liberais</p><p>ingleses que ele criticou por sua presunção, e não só um inglês presumido</p><p>como Matthew Amold,4 começaram a descobrir, pouco a pouco, o mistério</p><p>da Idade Média através da história estranha contada com penas e chamas</p><p>nos quadros hagiográficos de Giotto. Havia algo na história de São</p><p>Francisco que deixava para trás todas aquelas qualidades inglesas, muito</p><p>vulgares e vãs, para chegar a outras, mais ocultas e humanas: a brandura</p><p>secreta do coração, o vago sentimento poético, o amor da paisagem e dos</p><p>animais.</p><p>São Francisco de Assis foi o único católico medieval que realmente se</p><p>popularizou na Inglaterra, por seus méritos próprios. Foi em grande parte</p><p>devido a um sentimento subconsciente que o mundo moderno desprezou</p><p>esses méritos particulares. As classes médias inglesas encontraram o seu</p><p>único missionário na figura que, dentre todas as do mundo, mais</p><p>desprezavam: um mendigo italiano.</p><p>Assim, pois, como o século XIX se prendeu ao romance franciscano,</p><p>precisamente porque desprezara o romance, assim o século XX já se está</p><p>prendendo à teologia racional tomística, porque tem desprezado a razão. A</p><p>um mundo indolente e apático, o Cristianismo apresentou-se na forma de</p><p>um vagabundo; a um mundo que se tornou demasiado rude, o Cristianismo</p><p>voltou na forma de um mestre de lógica. No tempo de Herbert Spencer,5os</p><p>homens queriam curar-se da indigestão; no tempo de Einstein, querem</p><p>curar-se das vertigens. No primeiro caso, perceberam vagamente que foi</p><p>após longo jejum que São Francisco cantou o Cântico do Sol e os louvores</p><p>da terra fértil. No segundo caso, já vão percebendo vagamente que, embora</p><p>desejem apenas compreender Einstein, é necessário primeiro compreender o</p><p>uso do entendimento. Começam a ver que, assim como o século XVIII se</p><p>considerou a idade da razão, e o século XIX se julgou a do senso comum,</p><p>assim o século XX não consegue ainda considerar-se outra coisa além da</p><p>idade do disparate pouco vulgar. Nessas condições, o mundo precisa de um</p><p>santo; mas, acima de tudo, precisa de um filósofo. E estes dois casos</p><p>demonstram que o mundo, façamos-lhe esta justiça, tem o instinto do que</p><p>necessita. A terra era realmente muito chata para aqueles vitorianos que</p><p>com todo o vigor repetiam ser redonda; e o Alverne dos estigmas marcava a</p><p>única montanha da planície. Mas a terra é um terremoto constante, e, na</p><p>aparência, infindável, para os modernos por quem Newton foi posto de</p><p>parte juntamente com Ptolomeu. Para estes há algo de mais escarpado e até</p><p>inacreditável do que uma montanha: um pedaço de terreno realmente</p><p>sólido; o nível do homem de cabeça equilibrada. Assim na nossa época: os</p><p>dois santos atraíram duas gerações, uma de românticos, a outra de cépticos;</p><p>todavia, na sua época, realizavam a mesma obra: uma obra que transformou</p><p>o mundo.</p><p>Além disso, pode-se dizer com verdade que a comparação é ociosa e não se</p><p>adapta bem até como fantasia, visto que os homens não eram propriamente</p><p>da mesma geração ou do mesmo momento histórico. Se há dois frades que</p><p>se possam apresentar como um par de gêmeos celestiais, a comparação</p><p>evidente seria entre São Francisco e Sao Domingos. As relações de São</p><p>Francisco com Santo Tomás foram, se tanto, como de tio para sobrinho; e a</p><p>minha caprichosa divagação pode talvez parecer apenas uma versão profana</p><p>do "Tomás, deixa passar teu tio". Porque, se São Francisco e São Domingos</p><p>foram dois grandes irmãos gêmeos, Santo Tomás foi evidentemente o</p><p>primeiro grande filho de São Domingos, como o foi de São Francisco o seu</p><p>amigo São Boa ventura. Não obstante, tenho razão (em verdade, dupla</p><p>razão) para falar dos títulos independentes de dois frontispícios, e pôr Santo</p><p>Tomás ao lado de São Francisco, em vez de o pôr junto do franciscano</p><p>Boaventura. É que a comparação, por muito vaga e inadequada que pareça,</p><p>é em verdade uma espécie de pequeno atalho até ao âmago da história,</p><p>levando-nos pelo caminho mais rápido à verdadeira questão da vida e obra</p><p>de Santo Tomás de Aquino.</p><p>Hoje a maioria tem uma idéia imperfeita, mas</p><p>pitoresca, da vida e obra de Sao Francisco de Assis. E o caminho mais</p><p>breve para contar a outra história é dizer que, conquanto os dois homens</p><p>estivessem assim em contraste em quase todos os aspectos, em verdade</p><p>executavam a mesma obra. Um deles o fazia no mundo mental, e o outro no</p><p>mundo mundano. Era porém o mesmo grande movimento medieval,</p><p>conquanto ainda pouco compreendido. Em sentido construtivo, foi não só</p><p>mais importante do que a Reforma, mas foi a Reforma.</p><p>A respeito deste movimento medieval, há dois fatos que devemos acentuar</p><p>em primeiro lugar. Não são evidentemente fatos contrários, mas talvez</p><p>respostas a falácias contrárias. Primeiramente, apesar de tudo o que alguma</p><p>vez se disse a respeito da superstição, da idade das trevas e da esterilidade</p><p>da escolástica, não há dúvida de que foi, em todos os aspectos, um</p><p>movimento de expansao, sempre a mover-se na direção de uma luz mais</p><p>clara e até de uma liberdade mais ampla. Em segundo lugar, apesar de tudo</p><p>o que se disse depois a respeito do progresso, do Renascimento e dos</p><p>precursores do pensamento moderno, foi na quase totalidade um</p><p>movimento de entusiasmo teológico ortodoxo que brotava do íntimo. Não</p><p>foi uma transigência com o mundo, ou uma rendição aos pagãos ou</p><p>heréticos, nem sequer um simples pedido de auxílio externo, ainda quando</p><p>pediu esse auxílio. Enquanto chegava à luz do dia comum, assemelhava-se</p><p>à açâo de uma planta que, pelos próprios meios, lança as folhas para a luz, e</p><p>não à ação de quem simplesmente permite que a luz do dia entre numa</p><p>prisão.</p><p>Em resumo, foi o que em linguagem técnica se chama uma evolução da</p><p>doutrina. Mas parece haver estranha ignorância não só quanto ao</p><p>significado técnico da palavra, mas até quanto ao seu significado natural.</p><p>Os críticos da teologia católica parecem supor que isso não é tanto uma</p><p>evolução quanto uma explicação; que é, quando muito, uma adaptação.</p><p>Imaginam eles que o seu próprio êxito é o êxito da rendição, mas este não é</p><p>o significado natural da palavra "evolução". Quando falamos de uma</p><p>criança bem desenvolvida, queremos dizer que cresceu e se fortaleceu por</p><p>sua força própria, e não que anda envolta em almofadas de empréstimo, ou</p><p>que caminha sobre pernas de pau para parecer mais alta. Quando dizemos</p><p>que um filhote de câo está a se transformar em cão, não queremos dizer</p><p>com isso que o seu crescimento se deve a algum compromisso com um</p><p>gato, mas que se torna cada vez mais cão, e não menos cão. O</p><p>desenvolvimento é a expansão de todas as qualidades e conclusões de uma</p><p>doutrina, enquanto restar tempo para as distinguir e deduzir; a questão,</p><p>neste ponto, é que a expansão</p><p>da teologia medieval foi simplesmente a compreensão plena desta teologia.</p><p>E é de importância primária compreender primeiro este fato na época do</p><p>grande dominicano e do primeiro franciscano, porque a tendência de</p><p>ambos, humanística e naturalística de mil maneiras, foi realmente o</p><p>desenvolvimento da doutrina suprema, que foi também o dogma de todos os</p><p>dogmas. É nisso que a poesia popular de São Francisco e a prosa quase</p><p>racionalista de Santo Tomas mostram nitidamente que são parte do mesmo</p><p>movimento. Ambas são grandes crescimentos do desenvolvimento catolico,</p><p>dependentes de elementos externos como qualquer coisa que vive e cresce,</p><p>isto é, o ser vivo digere esses elementos e transforma-os, mas continua a ser</p><p>como é, e não como eles são. Um budista e um comunista podem imaginar</p><p>duas coisas que ao mesmo tempo se comam uma à outra como a forma</p><p>perfeita de unificação. Tal não se dá, porém, com os seres vivos. São</p><p>Francisco contentou-se com chamar-se o trovador de Deus, mas não se</p><p>contentou com o Deus dos trovadores. Santo Tomás não reconciliou Cristo</p><p>com Aristóteles; reconciliou Aristóteles com Cristo.</p><p>Sim: apesar dos contrastes tão notórios e até cômicos, como a comparação</p><p>entre o homem gordo e o homem magro, o alto e o baixo, não obstante o</p><p>contraste entre o vagabundo e o estudante, entre o aprendiz e o aristocrata,</p><p>entre o bibliófobo e o bibliófilo, entre o mais rude dos missionários e o mais</p><p>brando dos professores, o grande fato da história medieval é que estes dois</p><p>grandes homens estavam realizando a mesma grande obra — um no</p><p>gabinete, o outro na rua. Não traziam nada de novo ao Cristianismo, no</p><p>sentido de pagão ou de herético; pelo contrário, estavam levando o</p><p>Cristianismo à Cristandade. Realizavam-no, porem, contra a pressão de</p><p>certas tendências históricas, que se haviam tornado hábitos inveterados em</p><p>muitas grandes escolas e autoridades dentro da Igreja cristã; e serviam-se de</p><p>instrumentos e armas que a muita gente pareciam associados à heresia ou ao</p><p>paganismo.</p><p>Sao Francisco servia-se da natureza exatamente como Santo Tomas se</p><p>servia de Aristóteles; e a alguns parecia que utilizavam, respectivamente,</p><p>uma deusa e um sábio pagão. O que em verdade estavam fazendo,</p><p>especialmente Santo Tomas, constitui o assunto principal destas paginas.</p><p>Mas é conveniente poder compará-lo desde o princípio com um santo mais</p><p>popular, porque poderemos assim apreender-lhe a substância de maneira</p><p>mais popular. Talvez possa parecer paradoxal dizer que estes dois santos</p><p>nos salvaram da pura espiritualidade — terrível juízo. Talvez possa</p><p>interpretar-se mal eu dizer que São Francisco, com todo o seu amor aos</p><p>animais, nos salvou de sermos budistas, e que Santo Tomás, com todo o seu</p><p>amor à filosofia grega, nos salvou de sermos platônicos. Mas é melhor dizer</p><p>a verdade na sua forma mais simples: ambos reafirmaram a Encarnação</p><p>tomando a trazer Deus à terra.</p><p>Esta analogia, que talvez pareça algo remota, é em verdade o melhor</p><p>prefácio à filosofia de Santo Tomás. Como adiante havemos de considerar,</p><p>o lado puramente espiritual ou místico do Catolicismo desempenhara</p><p>importante papel nos primeiros séculos católicos, através do gênio de Santo</p><p>Agostinho, que fora platônico, e talvez nunca deixasse de sê-lo; através do</p><p>transcendentalismo da suposta obra do Areopagita;6 através da influência</p><p>oriental do Segundo Império e da influência algo asiática do reino quase</p><p>pontificai de Bizancio. Todas essas coisas contrabalançavam o que se</p><p>poderia chamar o elemento ocidental, embora tenha igual direito de chamar-</p><p>se elemento cristão, visto que o seu senso comum e apenas a santa</p><p>familiaridade do Verbo feito carne. De qualquer modo, deve bastar por ora</p><p>dizer que os teólogos se tinham cristalizado um pouco numa espécie de</p><p>orgulho platônico, na posse de verdades interiores intangíveis e</p><p>intraduzíveis, como se nenhuma coisa da sua sabedoria tivesse raiz em</p><p>alguma parte do mundo real. Ora, a primeira coisa que Santo Tomas fez,</p><p>embora não fosse a última, foi dizer a estes transcendentalistas puros algo</p><p>que, em essência, é o seguinte:</p><p>"Longe de um pobre frade vir negar que vos trazeis na cabeça esses</p><p>deslumbrantes diamantes, todos talhados nas formas cristalográficas mais</p><p>perfeitas, brilhantes de luz puramente celestial; e os tendes aí quase antes de</p><p>começar a pensar, para não dizer antes de começar a ver, ouvir e sentir. Mas</p><p>eu não tenho vergonha de dizer que a minha razão é alimentada pelos meus</p><p>sentidos; que devo muito do que penso ao que vejo, cheiro, provo e palpo; e</p><p>que, para olhar as coisas de um ângulo racional, me sinto obrigado a</p><p>considerar real esta realidade. Em resumo e com toda a humildade: não</p><p>creio que Deus quisesse que o homem exercesse unicamente essa espécie</p><p>peculiar, elevada e abstrata de intelecto que tendes a fortuna de possuir; mas</p><p>creio que há um campo intermédio de fatos que são apresentados pelos</p><p>sentidos como matéria para a razão; e que nesse campo esta tem o direito de</p><p>governar, como representante de Deus dentro do homem. É verdade que</p><p>tudo isto é inferior aos anjos, mas é muito superior aos animais e a todos os</p><p>objetos materiais que o homem encontra à sua volta. Realmente, o homem</p><p>pode ser também um objeto, e até um objeto deplorável. Mas o que o</p><p>homem fez, o homem pode fazê-lo; e, se um velho pagào antiquado,</p><p>chamado Aristóteles, pode ajudar-me a fazê-lo, agradecer-lho-ei com toda a</p><p>humildade."</p><p>Assim</p><p>principiou o que é conhecido, geralmente, por apelo de Santo Tomas</p><p>a Aristóteles, eque poderia chamar-se apelo à razão e à autoridade dos</p><p>sentidos. E é óbvio que há uma espécie de paralelo popular neste fato: São</p><p>Francisco ouvia não só os anjos mas também os pássaros. E, antes de</p><p>chegarmos aqueles aspectos de Santo Tomas rigidamente intelectuais,</p><p>devemos acentuar que nele, como em São Francisco, há um elemento</p><p>prático preliminar que é sobretudo moral; uma espécie de humildade boa e</p><p>sincera; e uma prontidão no homem para considerar-se a si mesmo, de certo</p><p>modo, como animal, à semelhança de Sao Francisco, que comparou o corpo</p><p>a um burro. Pode-se dizer que o contraste tem valor como quer que seja, até</p><p>como metáfora zoológica, e que, se São Francisco era semelhante àquele</p><p>burro vulgar que levou Cristo a Jerusalém, Santo Tomás, que efetivamente</p><p>foi comparado a um boi, se assemelhava antes àquele monstro apocalíptico</p><p>de mistério quase assírio, o boi alado. Mas não devemos permitir que o que</p><p>pode pôr-se em contraste venha a eclipsar o que era comum, nem esquecer</p><p>que nenhum dos dois teria sido tão altivo que não esperasse com tanta</p><p>paciência como o boi e o burro no presepio de Belém.</p><p>Como dentro em pouco havemos de ver, havia evidentemente muitas outras</p><p>idéias, mais curiosas e complexas, na filosofia de Santo Tomás, a par da sua</p><p>idéia primária de um núcleo de senso comum alimentado pelos cinco</p><p>sentidos. Mas, neste passo, o que é importante notar é que esta doutrina não</p><p>só era tomista mas era uma doutrina verdadeira e eminentemente cristã. A</p><p>respeito deste ponto alguns escritores modernos têm escrito muitos</p><p>disparates, e mostram algo mais do que a sua ordinária ingenuidade em</p><p>ignorar a questão. Tendo, sem argumentos, admitido em princípio que</p><p>qualquer emancipação deve afastar os homens da religião e levá-los para a</p><p>irreligiáo, esqueceram cegamente qual é o aspecto mais saliente da própria</p><p>religião.</p><p>Não será possível ocultar a ninguém por muito mais tempo que Santo</p><p>Tomas de Aquino foi um dos grandes libertadores do intelecto humano. Os</p><p>sectários dos séculos XVII e XVIII eram essencialmente obscurantistas, e</p><p>defenderam a lenda obscurantista de o escolástico ser obscurantista. Isto</p><p>está quase morto no século XIX e desaparecerá de todo no século XX. Nada</p><p>tem que ver com a verdade da teologia deles nem dele, mas apenas com a</p><p>verdade da proporção histórica, que começa a reaparecer à medida que as</p><p>controvérsias vão morrendo. É fato de extraordinária importância na</p><p>história dizer, com verdade, que Santo Tomás foi um grande homem que</p><p>reconciliou a religião com a razão; que a fez estender até à ciência</p><p>experimental; que insistiu em que os sentidos são as janelas da alma, e que</p><p>a razão tem o direito divino de se alimentar dos fatos, e que é próprio da fé</p><p>digerir a carne dura das mais difíceis e mais práticas filosofias pagãs.</p><p>Tal qual a estratégia militar de Napoleão, Santo Tomas combatia por tudo o</p><p>que é liberal e esclarecido, se o comparamos com os seus rivais ou, no caso,</p><p>os seus sucessores e vencedores. Os que, por outras razões, aceitam o efeito</p><p>final da Reforma, terão apesar disso de enfrentar este fato: o escolástico é</p><p>que foi o reformador, e em relação a ele os reformadores posteriores foram</p><p>reacionários. Emprego o termo não como censura, do meu ângulo, mas</p><p>como fato, do ângulo progressista moderno. Por exemplo: os reformadores</p><p>pregaram que o espírito devia regressar à suficiência literal da Escritura</p><p>hebraica, quando Santo Tomás já falara do espírito a comunicar as luzes da</p><p>graça às filosofias gregas. Ele insistiu no dever social das obras; eles,</p><p>somente no dever espiritual da fé. Era a própria essência do ensino tomista</p><p>poder confiar na razão; era a própria essência do ensino luterano não poder</p><p>confiar nela de modo algum.</p><p>Quando se acha que este fato é um fato, o perigo está em que qualquer</p><p>oposição instável pode cair de repente no extremo oposto. Os que, até</p><p>aquele momento, acusaram o escolástico de dogmático começarão a</p><p>admirá-lo como a um modernista que diluiu o dogma; irão, a toda a pressa,</p><p>a enfeitar-lhe a estátua com todas as flores murchas do Progresso, a</p><p>apresentá-lo como homem adiantado em relação à sua época, o que sempre</p><p>se considerou o mesmo que estar de acordo com a nossa; e a fazer pesar</p><p>sobre ele a acusação infundada de ter originado a mentalidade moderna.</p><p>Descobrir-lhe-ão os atrativos, e um pouco apressadamente concluirão que</p><p>se parecia com eles porque era atraente. Até certo ponto isto é bastante</p><p>tolerável; já aconteceu com São Francisco. Mas, no caso deste último, não</p><p>iria além de certo ponto. Ninguém, nem sequer um livre-pensador como</p><p>Renan ou Matthew Arnold, ousará dizer que São Francisco foi apenas um</p><p>cristão devoto, ou que teve outra intenção fundamental além de imitar a</p><p>Cristo. Sào Francisco, todavia, teve também esse efeito libertador e</p><p>humanizador sobre a religião, conquanto talvez mais na imaginação do que</p><p>na razão.</p><p>Ninguém diz, porem, que São Francisco relaxava o código cristão, quando</p><p>o que fazia era, evidentemente, apertá-lo, tal como costumava fazer à corda</p><p>do hábito. Ninguém diz que ele abria as portas ao ceticismo ou dava</p><p>passagem ao humanismo pagão, ou suspirava pelo Renascimento, ou fazia</p><p>concessões aos racionalistas. Nenhum biografo pretende que São Francisco,</p><p>quando, segundo se diz, abria os Evangelhos ao acaso e lia os grandes</p><p>textos a respeito da pobreza, em verdade abria a Eneida e praticava a Sors</p><p>Virgiliana, por respeito à literatura e à cultura pagãs. Nenhum historiador</p><p>pretenderá que São Francisco escreveu o Cântico do Sol imitando um hino</p><p>homérico a Apoio, ou que amava as aves porque aprendera</p><p>meticulosamente todas as trapaças dos áugures romanos.7</p><p>Em resumo: muita gente, cristã ou pagã, admite agora que o sentimento</p><p>franciscano era essencialmente cristão, desenvolvendo-se interiormente</p><p>como fruto de uma fé inocente (ou ignorante, se o preferirem) na própria</p><p>religião cristã. Ninguém, como já disse, afirma que São Francisco recebeu</p><p>de Ovídio a inspiração fundamental. Igualmente seria de todo falso dizer</p><p>que a recebeu de Aristóteles. Toda a lição da sua vida, especialmente da</p><p>primeira fase, toda a história da sua infância e da escolha de uma carreira</p><p>mostra que era sumamente e francamente devoto, e que amava</p><p>apaixonadamente o culto católico, muito antes de ver que tinha de combater</p><p>por ele. Mas há também um fato particular e concludente que, uma vez</p><p>mais, une Santo Tomás a São Francisco. Parece ter-se esquecido, de modo</p><p>estranho, que estes dois santos estavam em verdade a imitar um Mestre, que</p><p>não era Aristóteles nem, muito menos, Ovídio, quando santificavam os</p><p>sentidos ou as coisas simples da natureza, quando São Francisco andava</p><p>humildemente no meio dos animais, ou quando Santo Tomás argumentava</p><p>urbanamente com os gentios.</p><p>Os que desconhecem isto ignoram a essência da religião, ainda que esta</p><p>fosse uma superstição. Sim, ignoram a própria essência daquilo que eles</p><p>diriam supersticiosíssimo. Refiro-me a toda a impressionante história do</p><p>Deus-Homem nos Evangelhos. Alguns a desconhecem até no que se refere</p><p>a São Francisco e à sua pura e inculta atração pelos Evangelhos. Dirão que</p><p>a sua facilidade e gosto em aprender com as flores ou com as aves só pode</p><p>levar ao Renascimento pagão. A realidade, porem, que salta aos olhos, é</p><p>que isto orienta outra vez para o Novo Testamento, e, ademais, se a alguma</p><p>coisa leva, é ao realismo aristotélico da Summa de Santo Tomás de Aquino.</p><p>Eles imaginam vagamente que quem procure humanizar a divindade a</p><p>paganizará, sem ver que a humanização da divindade é, em verdade, o</p><p>dogma mais forte, mais rígido e mais difícil de compreender do Credo. São</p><p>Francisco assemelhava-se mais a Cristo, e não a Buda, quando considerava</p><p>os lírios do campo ou as aves do céu; e Santo Tomás tornava-se, com efeito,</p><p>mais cristão, e não simplesmente mais aristotélico, quando insistia em que</p><p>Deus e a imagem de Deus tinham entrado em contato, através da matéria,</p><p>com um mundo material. Estes santos eram, no sentido mais exato do</p><p>termo, humanistas, porque</p><p>insistiam na imensa importância que o ser</p><p>humano tem no esquema teologico das coisas.</p><p>Não eram, porém, humanistas que seguiam por uma via de progresso que</p><p>leva ao modernismo e ao ceticismo geral, porque no seu próprio</p><p>humanismo afirmavam um dogma, agora considerado amiúde o super-</p><p>humanismo mais supersticioso. Estavam a corroborar aquela</p><p>impressionante doutrina da Encarnação, que os cépticos acham difícil de</p><p>crer. Não pode haver ponto mais difícil na teologia cristã do que a</p><p>divindade de Cristo.</p><p>Vem aqui muito a propósito lembrar que estes homens se tornaram mais</p><p>ortodoxos quando se tornaram mais racionais ou naturais. Só sendo assim</p><p>ortodoxos podiam ser assim racionais e naturais. Em outras palavras, o que</p><p>em verdade se pode chamar teologia liberal saía do fundo da alma,</p><p>informada dos primeiros mistérios do Catolicismo. Mas esta liberalidade</p><p>nada tinha que ver com o liberalismo; de fato, ainda hoje não pode coexistir</p><p>com o liberalismo.8 O assunto é tão importante, que vou tomar uma ou duas</p><p>idéias especiais de Santo Tomás para ilustrar o que pretendo. Sem me</p><p>antecipar ao esboço elementar do tomismo que se fará mais adiante, há que</p><p>acentuar desde já os pontos seguintes.</p><p>Por exemplo: foi uma idéia muito especial de Santo Tomás que o homem</p><p>deve estudar-se na sua humanidade completa; que um homem não é homem</p><p>sem o corpo, tal como o não e sem a alma. Um cadáver não é um homem;</p><p>mas um espírito também o não é. A anterior escola de Santo Agostinho e</p><p>até a de Santo Anselmo tinham desprezado isto, tratando a alma como o</p><p>único tesouro necessário, encerrado temporariamente num desprezível</p><p>invólucro. Até nisto eram menos ortodoxos, sendo mais espirituais. As</p><p>vezes vagueavam pela orla daqueles desertos orientais que se estendem até</p><p>à terra da transmigração, onde a alma, que é essencial, pode passar por uma</p><p>centena de corpos acidentais, reencarnada até em corpos de animais ou de</p><p>aves. Santo Tomás levantou-se energicamente para defender o fato de que o</p><p>corpo de um homem é o seu corpo, como o seu espírito é o seu espírito; e</p><p>que só ele, homem, pode equilibrar e unir os dois.</p><p>Ora, esta noção é, de certo modo, naturalista e muito próxima do respeito</p><p>moderno às coisas materiais; um elogio do corpo que poderia ser cantado</p><p>por Walt Whitman9 ou justificado por D. H. Lawrence;10 algo que poderia</p><p>chamar-se humanismo ou ser até reclamado pelo modernismo. De fato,</p><p>pode ser materialismo, mas é o oposto perfeito do modernismo. Está ligado,</p><p>do ângulo moderno, ao mais monstruoso, ao mais material e, portanto, ao</p><p>mais miraculoso dos milagres. Está relacionado especialmente com a mais</p><p>assombrosa espécie de dogma que o modernista menos pode aceitar: a</p><p>ressurreição do corpo.</p><p>O seu argumento em favor da Revelação é também perfeitamente</p><p>racionalista e, por outro lado, decididamente democrático e popular. Este</p><p>argumento não é de modo nenhum um argumento contra a razão. Pelo</p><p>contrário, parece querer admitir que a verdade poderia alcançar-se por</p><p>processo racional, se este fosse bastante racional e também bastante</p><p>prolongado. Realmente, há no seu caráter algo, ao qual chamei algures</p><p>otimismo, e para o qual não conheço outro termo adequado, que o levou a</p><p>exagerar um pouco até que ponto todos os homens chegariam, por fim, a</p><p>prestar atenção à razão.</p><p>Nas suas controvérsias, sempre admite que eles ouvirão a voz da razão, isto</p><p>é, crê firmemente que os homens se convencerão com argumentos, quando</p><p>chegarem ao fim do argumento. Mas o seu senso comum lhe diz também</p><p>que não se pode argumentar indefinidamente. Eu poderia convencer um</p><p>homem de que a matéria, como origem do espírito, não tem significação</p><p>alguma, se fôssemos ambos muito amigos e discutíssemos todas as noites</p><p>durante quarenta anos. Mas, muito tempo antes de ele se convencer no leito</p><p>de morte, outros mil materialistas teriam nascido, e ninguém pode explicar</p><p>tudo a todo o mundo. Ora, Santo Tomas é da opinião de que as almas dos</p><p>rudes trabalhadores, e de todas as pessoas simples, são tão importantes</p><p>como as almas dos pensadores e dos investigadores da verdade, e pergunta</p><p>como é que todas estas pessoas poderão arranjar tempo para raciocinar tão</p><p>longamente como o exige a busca da verdade. O tom de todo o passo</p><p>mostra, ao mesmo tempo, respeito a investigação científica e forte simpatia</p><p>pelo homem médio.</p><p>O seu argumento da Revelação não é, pois, contra a razão, mas a favor da</p><p>Revelação. A conclusão que ele tira daí é que os homens devem receber, de</p><p>modo miraculoso, as verdades morais mais elevadas, sem o que a maioria</p><p>as desconhecería absolutamente. Os seus argumentos são racionais e</p><p>naturais, mas a sua conclusão é toda sobrenatural; e, como acontece sempre</p><p>na sua argumentação, não é fácil achar alguma conclusão além da sua. E,</p><p>quando se chega a isto, vê-se que é uma coisa tão simples como o próprio</p><p>São Francisco o poderia desejar: a mensagem do céu, a história que é</p><p>contada do céu, o conto de fadas realmente verdadeiro.</p><p>É ainda mais claro quanto aos problemas mais debatidos, como o do livre-</p><p>arbítrio. Se há algo que Santo Tomás toma a peito, é o que podemos chamar</p><p>soberanias ou autonomias subordinadas. Ele era, se nos permitem a</p><p>impertinência, um forte governador autônomo. Podemos até dizer que</p><p>defendeu sempre a independência de coisas dependentes. Insistiu em que</p><p>uma coisa pode ter os seus direitos próprios, nos seus domínios próprios.</p><p>Essa foi a sua atitude para com o Home Rule* da razão e até dos sentidos:</p><p>"Filha sou na casa de meu pai, mas senhora na minha." E, exatamente neste</p><p>sentido, acentuou ele certa dignidade no homem, que às vezes ficava muito</p><p>diluída nas generalizações puramente teísticas a respeito de Deus.</p><p>Ninguém diria que ele queria separar o homem de Deus; o que ele queria</p><p>era frisar a distinção entre um e outro. Neste forte sentido de dignidade e</p><p>liberdade humanas, há muito que pode ser, e é considerado agora, nobre</p><p>liberalidade humanística. Nao esqueçamos, porém, que o seu alvo era</p><p>precisamente este livre-arbítrio, ou responsabilidade moral do homem, que</p><p>tantos liberais modernos viriam a negar. Desta liberdade sublime e perigosa</p><p>depende o ceu e o inferno, e todo o misterioso drama da alma. É distinção e</p><p>não separação; mas um homem pode separar-se de Deus, o que, de certo</p><p>modo, é a maior das distinções.</p><p>Apesar de ser matéria mais metafísica, à qual nos teremos de referir adiante,</p><p>embora muito superficialmente, a mesma coisa acontece com a velha</p><p>disputa filosófica a respeito da pluralidade e da unidade. Sào as coisas tão</p><p>diferentes que jamais possam classificar-se, ou tão unificadas que nunca se</p><p>possam distinguir?</p><p>Sem pretendermos responder aqui a uma pergunta como esta, diremos, de</p><p>modo genérico, que Santo Tomas fica definitivamente ao lado da variedade,</p><p>como coisa tão real como a unidade. Nesta, e em questões análogas, afasta-</p><p>se muitas vezes dos grandes filósofos gregos, às vezes seus modelos; e</p><p>afasta-se absolutamente dos grandes filósofos orientais, de certo modo seus</p><p>rivais. Ele parece estar muito seguro de que a diferença entre o giz e o</p><p>queijo, ou entre os porcos e os pelicanos, não é mera ilusão ou</p><p>deslumbramento do nosso espírito desvairado, cego por uma só luz, mas</p><p>exatamente o que todos acham que é. Pode-se dizer que isto é puro senso</p><p>comum, o senso comum de que porcos sao porcos, no sentido do senso</p><p>comum aristotélico, tão terra-a-terra, do senso comum humano e pagão.</p><p>Note-se, porem, que também aqui os extremos da terra e do céu se tocam,</p><p>porque também o temos na idéia cristã e dogmática da criação, de um</p><p>Criador que criou os porcos, distinto de um cosmo que unicamente lhes</p><p>permitiu o desenvolvimento.</p><p>Em todos estes casos vemos repetir-se o que afirmamos no início. O</p><p>movimento tomista em metafísica, como o movimento franciscano na moral</p><p>e nos costumes, foi uma expansão e uma libertação. Mas foi principalmente</p><p>um desenvolvimento interno da teologia cristã, e certamente não foi uma</p><p>retirada da teologia cristã sob influências pagãs ou meramente humanas. O</p><p>franciscano teve liberdade para ser frade em vez de se ver obrigado a ser</p><p>monge. Com isso</p>