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<p>2006 - reimpr. Este livro ou parte dele não pode ser reproduzido por qualquer meio sem autorização escrita do Editor GEORGE YÚDICE D585e Yúdice, George A conveniência da cultura: usos da cultura na era global / George Yúdice; tradução de Marie-Anne Kremer. Belo Horizonte: Editora UFMG; 2004. 615 p. - il. (Humanitas) Inclui Título original: The expediency of culture: uses of culture in ESTE LIVRO É PATRIMÔNIO CULTURAL DA the global era UNIVERSIDADE FEDERAL DO PAMPA ZELE ISBN: 85-7041-438-2 TENHA MÁXIMO CUIDADO COM ELE PORQUE OUTROS 1. Cultura. 2. Política cultural. 3. Globalização - Aspectos sociais. I. PRECISARÃO USÁ-LO Título II. Kremer, CDD: 306 CDU: 316.7 Ficha catalográfica elaborada pela CCQC - Central de Controle de Qualidade da Catalogação da Biblioteca Universitária UFMG chamada: 316.7 Y94c A CONVENIÊNCIA DA CULTURA cod barras: UB022569 local: SAOBORJA inclusão: 16/01/2013 USOS DA CULTURA NA ERA GLOBAL n controle: 00045164 TRADUÇÃO EDITORAÇÃO DE TEXTO: Ana Maria de Moraes KREMER REVISÃO DE TEXTO E NORMALIZAÇÃO: Maria do Carmo Leite Ribeiro REVISÃO DE PROVAS: Maria do Carmo Leite Ribeiro, Rúbia Santos Santa Fé PROJETO GRÁFICO: Glória Campos - Mangá FORMATAÇÃO E PRODUÇÃO GRÁFICA: Eduardo Ferreira CAPA: Montagem de Cássio Ribeiro IMAGEM DA CAPA: Detalhe de "La cloud" ["A de Alfredo Jaar. REIMPRESSÃO insite2000. Fotografia de George Yúdice. EDITORA UFMG Av. Antônio Carlos, 6627 - Ala direita da Biblioteca Central - Térreo Campus Pampulha - 31270-901 - Belo Horizonte/MG Tel (31) 3499-4650 Fax (31) 3499-4768 www.editora.ufmg.br editora@ufmg.br Belo Horizonte Editora UFMG 2006</p><p>a com a N T R D e investimento transnacionais. Isso não significa que os U A U efeitos dessa cultura transnacional crescente - evidente nas indústrias do entretenimento e na assim chamada sociedade civil global das ONGs - sejam homogeneizados. Diferenças regionais e nacionais, entendidas como campos de força dife- rentemente estruturados que formam sentido de qualquer Em recente encontro internacional de especialistas em fenômeno de uma canção pop ao ativismo ambiental e política cultural, uma funcionária da UNESCO lamentou fato anti-racista são funcionais para comércio e ativismo de que a cultura é invocada para resolver problemas que globais. anteriormente eram da competência das áreas econômica e política. No entanto, ela prosseguia, único meio de convencer os líderes governamentais e empresariais de que vale a pena apoiar a atividade cultural é argumentando que ela reduz os conflitos sociais e promove desenvolvimento econômico (Yúdice, 2000b: 10). Este livro visa fornecer uma compreensão, além de uma série de ilustrações, de como a cultura, enquanto recurso, ganhou legitimidade e deslocou ou absorveu outros conceitos a ela conferidos. Permita-me enfatizar desde já que não estou reprisando a crítica de Adorno e Horkheimer no que concerne aos bens de consumo e sua instrumentalização. Conforme explico no Capítulo I, a cultura como recurso é muito mais do que uma mercadoria; ela é eixo de uma nova estrutura epistêmica na qual a ideologia e aquilo que Foucault denominou sociedade disciplinar (isto é, a imposição de normas a instituições como a educacional, a médica, a psiquiátrica etc.) são absorvidas por uma racionalidade econômica ou ecológica, de tal forma que gerenciamento, a conservação, acesso, a distribuição e investimento em "cultura" e seus resultados - tornam-se prioritários. A cultura como recurso pode ser comparada à natureza como recurso, especialmente desde que ambas negociem através da moeda da diversidade. Pense em incluindo conhecimento tradicional e científico que dela se tem, que, segundo a "Convenção da Diversidade Biológica", precisa ser protegida e conservada a fim de "manter (...) seu potencial de atender as necessidades e aspirações de gerações presentes e futuras" ("Convenção 5"). Levando em consideração a propensão da empresa privada em buscar lucros a todo custo, a tendência de nações desenvolvidas de ter vantagens sobre os países em desenvolvimento, a legitimidade do conheci- mento científico maior do que a do tradicional, a poluição 12</p><p>sempre crescente, e assim por diante, então a questão principal Enquanto eu abertamente identifico vilões e heróis neste mais solícita é gerenciamento de recursos, de conhecimentos, livro, a maioria das situações que examino são mais complexas. de tecnologias, e risco proveniente desses itens, definido Alguns leitores dos meus manuscritos se perguntavam se eu de várias formas. não estaria sendo pessimista a respeito das perspectivas dos A cultura, para a maioria das pessoas, não evoca a mesma movimentos sociais. Um leitor anônimo observou que "con- urgência no combate à ameaça de morte, embora verdade clusões preventivas têm mais peso do que a política comunitária que muitos lamentam a devastação que O turismo, fast food do trabalho cultural". Estou, certamente, emitindo uma nota [comida rápida] e as indústrias de entretenimento global de precaução no que tange à celebração da agência cultural, provocam nos estilos de vida tradicionais. Entretanto, mais tão preponderante no trabalho dos estudos culturais. Mas essa recentemente, os mesmos administradores de recursos precaução não é resultado de um desejo de ser desmancha- globais "descobriram a cultura", e referiram-se, pelo menos prazeres; ela decorre de uma noção diferente de agenciamento. verbalmente, às noções de manutenção cultural e investimento Para alguns, os relativamente "sem poder" podem extrair força cultural. Por um lado, chegou-se ao senso comum que, para de sua cultura para enfrentar a investida violenta dos poderosos. preservar a biodiversidade, as tradições culturais também Para outros, conteúdo da cultura em si é quase irrelevante; precisam ser mantidas. Por outro lado, debate-se ou até que importa é que ela escora uma política de mudança. Ao mesmo, acredita-se que investimento (sensível ao gênero mesmo tempo que essas perspectivas podem ser bastante e raça) em cultura fortalecerá a fibra da sociedade civil, que, atraentes, é também verdade que a expressão cultural em si por sua vez, serve de hospedeiro ideal para desenvolvi- não é suficiente. Nesses debates, é bom munir-se de sólido mento político e econômico. conhecimento acerca das complexas maquinações envolvidas Nem sempre é fácil fazer com que ambos os aspectos no exame de uma agenda vista através de uma gama de instâncias sociopolíticos e econômicos de gerenciamento cultural intermediárias, situadas em diversos níveis, povoadas de outras agendas similares, que se sobrepõem ou se diferenciam. Os cheguem a um acordo sem problemas ou contradições. Considere, por exemplo, que ao aceitar as formas ocidentais pesquisadores dos estudos culturais muitas vezes enxergam de legislação a fim de proteger suas tecnologias (por exemplo, a agência cultural de forma mais circunscrita, como se a a engenharia das variedades de grãos) e práticas culturais expressão ou a identidade individual ou grupal em si levasse (por exemplo, as pinturas oníricas dos aborígenes), povos não à mudança. Mas, como Iris Marion Young aponta: "Nós nos ocidentais podem sofrer transformações ainda mais rápidas. encontramos situados em relações de classe, gênero, raça, Se determinada tecnologia ou um certo ritual não é comu- nacionalidade, religião e assim por diante, [dentro de uma mente como forma de propriedade protegível, a 'dada história de significados sedimentados e uma paisagem apelação à legislação ocidental para assegurar que terceiros material, interagindo com outros no campo que são fontes não se aproveitem dela quase certamente acarretará na acei- tanto de possibilidades de ação como de coação" (2000: tação do princípio de propriedade. O que acontecerá quando Os ativistas negros participantes do Grupo Cultural Afro formas não ocidentais de conhecimento, tecnologia e práticas Reggae, cujo ativismo cultural eu examino no Capítulo V, não culturais forem incorporadas à lei de propriedade intelectual e conseguem simplesmente se estabelecer sem negociar com de direitos autorais? Será que a venda da cultura "inalienável" ativistas sociais oficiais, pessoas de destaque da comunidade, se tornará algo parecido com a venda de licença de poluição representantes da Igreja, jornalistas, advogados, acadêmicos, nos Estados Unidos, pela qual, companhias que reduzem sua empresários, filantropos, indústrias do entretenimento e da emanação tóxica podem vender os direitos de emissão de tais música, grupos de solidariedade internacionais, e represen- poluentes do ar? Cada vez mais, tanto nos recursos culturais tantes de fundações. Eles precisam trabalhar, algumas vezes quanto nos naturais, gerenciamento é nome do jogo. com estratégias diferentes, em várias frentes. E cada um dos militantes com que eles se confrontam em determinada situação 14 15</p><p>também precisa negociar em vários níveis. O funcionário da para turismo e para a promoção das indústrias que exploram Fundação Ford no Rio, por exemplo, precisa se comunicar patrimônio cultural. As indústrias da cultura de massa, em com diretor do escritório central e com os funcionários da especial as indústrias do entretenimento e dos direitos do Fundação em Nova York antes da aprovação de qualquer autor que vêm integrando cada vez mais a música, filme, agenda. vídeo, a televisão, as revistas, a difusão por satélite e a cabo, Trabalhar nesses diferentes níveis, um fenômeno cada vez constituem os maiores contribuidores americanos do produto mais familiar quando os agentes transnacionais se envolvem nacional bruto. no "local", impulsiona a agência na direção da performativi- A noção de cultura como recurso pressupõe seu gerencia- dade, que é o tópico do Capítulo II. Quando a negociação da mento, uma perspectiva que não era característica nem da agência cultural depende de numerosas instâncias, "cuidado alta cultura nem da cultura cotidiana no sentido antropológico. de si [individual ou coletivo]" torna-se performativo. Como E para complicar ainda mais a questão, a cultura como recurso argumento no final do Capítulo I, sobre a conveniência, existe circula globalmente, numa velocidade crescente. Conse- uma compatibilidade entre a noção de Foucault a respeito do qüentemente, seu gerenciamento, que por meio século foi dirigido cuidado de si [souci de soi] e a performatividade; a ética de em escala nacional na maioria dos países da Europa, da Amé- Foucault pressupõe uma prática reflexiva do autogerencia- rica Latina e nos Estados Unidos embora neste país, a mento frente a modelos (ou aquilo que Bakhtin denomina administração local da cultura predominou sobre a escala "vozes" e "perspectivas") impostos por uma determinada nacional, inclusive no auge do NEA (National Endowment sociedade ou formação cultural. A noção bakhtiniana do autor for Arts) é agora coordenado tanto local quanto supra- pode servir de protótipo da ética performativa de Foucault, nacionalmente por corporações e pelo setor não-governamental uma vez que ele/ela é uma orquestração das "vozes" alheias, internacional (por exemplo, UNESCO, fundações, ONGs). Apesar uma apropriação que consiste em "povoar essas 'vozes' com da circulação global, ou talvez por causa dela, emergiu uma as intenções do próprio indivíduo, com os sotaques próprios nova divisão internacional de trabalho cultural que imbrica a do indivíduo em questão" (1981: Ele ou ela que pratica diferença local com administração e investimento transnacio- cuidado de si precisa também forjar sua própria liberdade nais. Isto não significa que os efeitos dessa cultura transnaci- trabalhando através dos "modelos que ele [sic] encontra em onal crescente evidente nas indústrias do entretenimento sua cultura e que são propostos, sugeridos, impostos a ele e na assim chamada sociedade civil global das ONGs sejam por sua cultura, sua sociedade, e seu grupo social" (Foucault, homogeneizados. Diferenças regionais e nacionais, entendidas 1997: 291). como campos de força diferentemente estruturados que No Capítulo I, faço uma revisão das maneiras de se investir formam sentido de qualquer fenômeno de uma canção em cultura, distribuída nas mais diversas formas, utilizada pop ao ativismo ambiental e anti-racista são funcionais como uma atração para desenvolvimento econômico e turístico, para comércio e ativismo globais. como mola propulsora das indústrias culturais e como uma fonte No Capítulo II, "O imperativo social do desempenho", inesgotável para as novas indústrias que dependem da proprie- examino como esses campos estruturados de força são com- dade intelectual. Conseqüentemente, conceito de recurso preendidos enquanto conjuntos de injunções performáticas absorve e elimina distinções até então prevalecentes nas relacionadas com os pactos de reciprocidade, estruturas definições da alta cultura, da antropologia e da cultura de interpretativas e condicionamentos institucionais de produção massa. A alta cultura torna-se um recurso para desenvolvi- mento urbano no museu contemporâneo (por exemplo, de comportamento e de conhecimento. A sinergia produzida pelas relações entre as instituições do Estado e da sociedade Guggenheim de Bilbao). Rituais, práticas estéticas do dia-a-dia, civil, judiciário, a polícia, escolas e universidades, a mídia tais como canções, lendas populares, culinária, costumes e outras e mercados de consumo delineia a compreensão e compor- práticas simbólicas, também são mobilizados como recursos tamento. Essa força performativa é exemplificada por uma 16 17</p><p>análise das guerras culturais que, argumento, a perder frente às vicissitudes elaboradas pela globalização. A uma fantasia societária pela qual O normativo e não norma- sociedade civil tornou-se conceito dileto de muitos movi- tivo colidem frontalmente, mas acabam se igualando. Por um mentos partidários da reforma e da revolução, abrandados lado, as guerras culturais nos trouxeram os delírios de Jesse Helms e outros conservadores; por outro lado, muitos pela inviabilidade do socialismo como uma alternativa esquerdistas culturais ficaram mais do que satisfeitos em apertar política, pelo menos num futuro próximo. O atual domínio do neoliberalismo pacote de medidas que inclui a os botões certos e, no processo, ganhar a visibilidade que liberalização do comércio, a privatização, a redução (e, em acompanha a hipocrisia e espetáculo escancarado. A noção de fantasia é utilizada no sentido psicanalítico para referir-se alguns casos, a quase eliminação) de serviços sociais subsi- diados pelo Estado, tais como assistência médica e educação, ao caráter projetivo desse distanciamento cultural. a redução de salários e enfraquecimento dos direitos Um dos aspectos mais significativos do ativismo cultural trabalhistas tem contribuído para desvio da atenção de grupos de identidade é que ele foi, em parte, facilitado política da esquerda desde a tomada do poder estatal (que, pela legislação e devido processo. Enquanto teóricos da em muitos casos, não sanou a questão da soberania) até crítica racial pensam que império da lei é "composto questões de direitos civis e humanos e qualidade de essencialmente por escolhas feitas a favor ou contra povo e Partidos políticos convencionais e mesmo progressistas imposto pela violência" Ross (2000), concordando com a visão conseguiram fazer muito pouco para opor-se a essas políticas, de lei de Foucault (1997) como um imperativo violento de ora porque processo político institucionalizado é altamente uma "sociedade que se defende a si mesma", a lei é, entretanto, ineficaz em sua resposta aos anseios sociais, ora porque grandes um princípio fundamental para a ação. De fato, a lei é também pressões oriundas de interesses econômicos internacionais um dado na performatividade cotidiana da sociedade ameri- não somente desencorajaram a reforma, mas também efetiva- cana, como observado por Judith Butler. Talvez a maior mente pioraram as condições, tais como a lacuna cada vez discrepância entre os Estados Unidos e outros países das maior na distribuição de renda. os Américas tem a ver com a força performativa da lei. É ampla- atores mais inovadores no estabelecimento de temários para mente reconhecido por todas as Américas que a lei é permeável programas sociais e políticos são os movimentos das bases e ao favor, à hierarquia e outras vicissitudes personalistas, as organizações não-governamentais nacionais e internacionais mesmo nos anos que se seguiram à ditadura quando a legis- (ONGs) que os apóiam. Esses atores apostaram na cultura, lação dos direitos humanos acompanhava boa parte do definida de várias formas, como um recurso já na mira da ativismo da região. A lei, portanto, não desperta as mesmas fantasias projetivas em todas as sociedades, fantasias estas exploração pelo capital (por exemplo, na mídia, no consu- mismo e no turismo), e uma base de resistência à devastação que invadem as questões de identidade. Um exame da cultura desse mesmo sistema econômico. do favor no Brasil traz à tona essa diferença. O Capítulo III, "A globalização da cultura e a nova socie- Os Capítulos IV e V "A funkificação do Rio" e "A cultura dade civil", explora de que maneira campo transdisciplinar a serviço da justiça social" como um todo, constituem um dos Estudos Culturais poderia lidar com as mudanças culturais estudo de caso da transformação da luta social, especialmente forjadas pelos processos de globalização. Interessa-me em a exclusão racial e a ilegalidade nas favelas do Rio de Janeiro, especial como esses processos geraram discussões sobre num recurso que grupos culturais "ONG-izados" podem papel da sociedade civil na renegociação do compromisso mobilizar para obter maior capacidade de ação. O Capítulo tradicional entre Estado e os diversos segmentos da nação IV narra denegrecimento da maior parte dos jovens negros (o E pluribus unum). Essa revisão é muitas vezes trazida à das favelas e sua música predileta, especialmente funk, que baila por comunidades locais que têm muito a ganhar ou muito vem sendo associado à violência, como rap nos Estados Unidos dos anos 1980. É significativo que a preferência pelo 18 19</p><p>funk tenha se distanciado da tradicional adesão ao samba, a "música do povo". Na verdade, os "funkeiros" buscaram percepção da sociedade civil não como espaço habermasiano contrariar desempenho do "popular", subordinado, mas, de livre debate e formação de opinião, mas como uma no entanto, aceito pela elite, com uma música que desafiasse das políticas neoliberais que reduzem e privatizam social e essa acomodação. O funk, e outras músicas negras proveni- o cultural. Até mesmo a atividade política pode acontecer em entes da diáspora como rap e reggae, contestou lugar do lugares onde "a compra de mercadorias representa um ato político", bem como uso de cartões de crédito com consci- povo negro no Brasil, uma forma de ter controle do acesso ao espaço público privatizado. ência social. Literalmente, é possível fazer política nas compras ou exibindo nas roupas próprio slogan político favorito. À medida que os apelos de extração racial feitos em nome Os pesquisadores dos estudos culturais defenderam essa do funk e do rap ganharam maior reconhecimento, especi- política consumista nos anos 1980 e 1990 alegando que, à almente por parte de ONGs nacionais e internacionais e fundações medida que consumismo fortalece a identidade, indivíduo americanas como a Rockefeller, "grupos culturais" tiveram a está mais bem preparado para fazer exigências na esfera chance de abrir um espaço para a busca de seus direitos. No institucional neoliberal. Tal política ainda precisa passar por Capítulo V, examino uma rede cultural jovem e uma iniciativa um teste mais rigoroso, especialmente se ela é crivada de de ação de cidadania, ambas destacando a noção de cultura contradições advindas de opositores à globalização que, como terreno no qual novas narrativas legitimadoras foram entretanto, consomem a música e outras formas de diversão construídas para naturalizar a aspiração neoliberal de expur- produzidas pela mais globalizante das indústrias os con- gar social do governamental. O neoliberalismo re-introduz glomerados do entretenimento. a expectativa de que "instituições de assistência" devem ser O Capítulo VII, "A globalização da América Latina: Miami", situadas dentro da sociedade civil, não no governo. Essa examina a "ponte" ou "corredor" entre questão abre novos espaços para ativismo que permite certos Estados Unidos e toda a América Latina. Miami é exemplo tipos de habilitação ao mesmo tempo que disponibiliza das economias criativas que foram observadas nos últimos novas formas de gerenciamento social. Como lembra Foucault, anos devido ao uso que fazem da cultura e da inovação como "a sociedade civil é conjunto concreto dentro do qual esses propulsoras do crescimento econômico. Em Miami, as indústrias pontos abstratos, os homens econômicos, precisam ser situados da cultura, em especial a da música, da televisão, dos portais para que sejam gerenciáveis adequadamente" (1979). A da Internet, da fotografia fashion e das instituições artísticas, estrutura da rede adotada pelos grupos que examino nesta desempenham esse papel. Inicialmente ali localizadas para obra também dissemina fenômeno da agência: ela é estrati- tirar vantagem dos mercados latino-americanos e dos mercados ficada por atores de diferentes posições sociais, a saber, os americano-latinos, essas indústrias também reúnem grupos grupos de ativistas culturais, a comunidade em cujo nome de trabalhadores culturais que se interessaram pela própria ativismo é fontes de fomento que variam desde Miami e começaram a transformar a cidade. Argumento que órgãos governamentais e fundações locais até corporações essa transformação é parte de uma internacionalização que transnacionais e ONGs, inclusive Banco Mundial e Banco torna Miami uma cidade pós-Cubana ou pós-Caribenha. Mas Interamericano de Desenvolvimento (BID). Os discursos desses essa é uma internacionalização problemática, pois a fusão grupos são amplamente influenciados por aquela rede de entusiasmada do multiculturalismo americano e da colaboradores e intermediários. latino-americana, embora mais conciliadora do que a tradicional O Capítulo VI, "Consumo e cidadania?", é uma exploração ordem racial americana, intensifica a desigualdade histórica, mais abrangente dos meios pelos quais consumismo invadiu especialmente a dos imigrantes negros. Nesse capítulo também as formas de negociação da identidade, do status e da influência examino a alegação de que os imigrantes racializados contri- política das pessoas. Nesse capítulo, estimo grau de viabilidade da buem para a economia cultural, ao mesmo tempo que são explorados por ela; eles "dão vida" à cidade, como argumenta 20 UNIPAMPA 21</p><p>Castells, não somente através de seu trabalho nas indústrias de serviço, como também por seu impacto cultural através da a fronteira, como também na noção mesma de colaboração, música, dança, culinária e festividades. Essa é uma contribuição ser um conceito importante para aqueles que advogam a pouco reconhecida na divisão internacional do trabalho cultural. habilitação legal através de programas artísticos embasados na comunidade. Algo parecido com que ocorre com as No Capítulo VIII, "Livre-comércio e cultura", examino os maquiladoras industriais acontece nesse lugar, que nos regimes de propriedade internacional que permitem aos con- permite falar em maquiladoras culturais. glomerados manter domínio sobre uma parte considerável da produção cultural e, especificamente, sobre a sua distri- Na "Conclusão" considero, de forma breve, se os fenômenos buição e os benefícios dela decorrentes. O próprio conceito examinados nos capítulos anteriores se mantêm num mundo de inovação como mola propulsora de acúmulo de capital é caracterizado pela crise, exemplarmente a que foi gerada pelos muitas vezes identificado com a cultura. Nesse capítulo ataques de 11 de setembro, contrastados à estabilidade vemos de que maneira as estratégias do comércio global assumida por aqueles que reclamam conveniência para a cultura. rearticulam todas as de cultura, até mesmo com os A cultura teria poder de reconstruir a comunidade quando mundo é lançado à crise? produtos e serviços economicamente mais rentáveis, por exemplo, software de computação e os sites da Internet, que são tratados como formas culturais de propriedade intelectual e "conteúdo" cultural, respectivamente. Além disso, analiso as estratégias para a integração cultural na América Latina, que, mesmo con- testando a desmesurada influência dos Estados Unidos e da cultura do entretenimento transnacional, também dependem cada vez mais das associações com o capital privado e as políticas neoliberais. Dou especial atenção aos complementos culturais do Tratado de Livre-Comércio da América do Norte (NAFTA) e do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL). A diver- sidade cultural, por exemplo, se incorpora e, de certa forma, se neutraliza com esses lugares como parte da divisão inter- nacional do trabalho cultural. Capítulo IX, "Produzindo a economia cultural: a arte colaboradora do inSite", é uma extrapolação do Capítulo VIII de um estudo de caso de um programa trienal de eventos artísticos, inSite, realizado no corredor San Diego-Tijuana que atravessa a fronteira Estados Unidos-México. Não obs- tante o evento se desvie significativamente das questões vin- culadas ao comércio, uma boa parte da divisão do trabalho cultural que caracteriza as relações mercantilistas também aqui é evidente. Essa divisão é encontrada no financiamento do evento, na relação entre artistas e público, e nas expectativas suscitadas pelas "comunidades" ou delas. O capítulo versa sobre a economia política e cultural de um vasto evento artístico, cada vez mais influente. É central à questão fato de labor (trabalho), não só na assimetria que corta transversalmente 22 UNIPAMPA 23</p><p>C A r L A DA CULTURA Mas é a cultura - não somente a crua tecnologia - que determinará se os Estados Unidos mantêm seu status de nação preeminente da Internet. Lohr CULTURA COMO RECURSO Discuto neste livro que papel da cultura expandiu-se como nunca para as esferas política e econômica, ao mesmo tempo que as noções convencionais de cultura se esvaziaram muito. Em vez de focalizar conteúdo da cultura - ou seja, modelo da melhoria (segundo Schiller ou Arnold) ou da distinção (segundo Bourdieu), tradicionalmente aceitos, ou a sua antropologização mais recente, como todo um meio de vida (Williams), segundo a qual reconhece-se que a cultura de qualquer um tem valor - talvez seja melhor fazer uma abordagem da questão da cultura de nosso tempo, caracteri- zada como uma cultura de globalização acelerada, como um recurso. Permita-me fazer um breve parêntese a respeito da referência indispensável à discussão de Heidegger sobre o recurso como uma reserva disponível (Bestand) e ao leque de discussões sobre a globalização. Voltarei a essas questões, mas o que eu gostaria de frisar desde já é que a cultura está sendo crescentemente dirigida como um recurso para a melhoria sociopolítica e econômica, ou seja, para aumentar sua participação nessa era de envolvimento político decadente, de conflitos acerca da cidadania (Young, 2000:81-120), e do surgimento daquilo que Jeremy Rifkin (2000) chamou de "capitalismo cultural". A desmaterialização característica de várias fontes de crescimento econômico - por exemplo, os</p><p>direitos de propriedade intelectual segundo a do GATT (Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio) e da OMC Também no plano econômico, a Europa do século XIX (Organização Mundial do Comércio) e a maior distribuição assistiu à crescente sujeição do artista e do escritor ao imperativo de bens simbólicos no comércio mundial (filmes, programas comercial. Neste contexto, e com a emergência de novas de televisão, música, turismo etc.) deram à esfera cultural um tecnologias como a litografia, a fotografia, filme e a gravação de som, alguns teóricos e críticos chegaram a definir arte em protagonismo maior do que em qualquer outro momento da contraposição ao comercial. Em seu famoso ensaio datado história da modernidade. Pode-se dizer que a cultura sim- de 1938, "On the fetish-character in music and regression of plesmente se tornou um pretexto para a melhoria sociopolítica listening", Theodor Adorno rejeitou embasamento político- e para crescimento econômico, mas, mesmo se fosse esse econômico da nova comunicação de massas, que desviou caso, a proliferação de tais argumentos nos fóruns onde se engajamento da arte de seu valor de uso para lançá-la ao discutem projetos referentes à cultura e ao desenvolvimento "caráter fetichista das mercadorias" 1984: 25). locais, bem como na UNESCO, no Banco Mundial e na assim Se na primeira metade do século XX Adorno pôde definir chamada sociedade civil globalizada que reúne fundações arte como O processo pelo qual O indivíduo ganha liberdade internacionais e ONGs, todos esses fatores têm operado uma exteriorizando-se, em contraste ao filistino "quem anseia pela transformação naquilo que entendemos por cultura e que arte por aquilo que consegue extrair dela" 25), hoje fazemos em seu nome. em dia é quase impossível encontrar declarações públicas que A relação entre as esferas cultural e política ou cultural e não arregimentem a instrumentalização da arte e da cultura, econômica não é nova. Por um lado, a cultura é veículo no ora para melhorar as condições sociais, como na criação de qual a esfera pública emerge no século XVIII, e, como tolerância multicultural e participação cívica através de defesas argumentam os estudiosos de Foucault e dos estudos culturais, como as da UNESCO pela cidadania cultural e por direitos ela se tornou um meio de internalizar controle social culturais, ora para estimular crescimento econômico através isto é, via disciplina e governamentalidade ao longo dos de projetos de desenvolvimento cultural urbano e a concomitante séculos XIX e XX. Tony Bennett (1995), por exemplo, demons- proliferação de museus para turismo cultural, culminados trou que a cultura proporcionou não somente uma melhoria pelo crescente número de franquias de Guggenheim. ideológica, segundo a qual as pessoas seriam avaliadas em Para ilustrar até que ponto isso é verdade, considere American termos de valor humano, mas também uma inscrição material canvas, um relatório de 1997 do National Endowment for the nas formas de comportamento. O comportamento humano foi Arts (NEA) [Fundo Nacional das Artes] sobre lugar das artes transformado pelas exigências físicas envolvidas na movimen- e da cultura na sociedade americana. tação pelas escolas e museus: modo de andar, de se vestir, de falar etc. O que também foi bem estudada é a utilização Não mais restritas unicamente às esferas sancionadas da cultura, política da cultura para promover uma ideologia em particular as artes poderiam ser literalmente espalhadas por toda a estru- com vistas a interesses clientelistas ou à bajulação nas relações tura encontrando seu lugar numa variedade de serviços exteriores, como já foi evidenciado no avanço da cultura do comunitários e atividades de desenvolvimento econômico proletariado pela Comissão Soviética de Iluminismo (Fitzpa- de programas para a juventude e prevenção ao crime até o treinamento profissional e relações raciais bem longe das trick, 1992), no patrocínio clientelista do muralismo pelo Estado funções estéticas tradicionais das artes. Esse papel adicional mexicano nos anos 1920 e 1930 (Folgarait, 1998), ou na também pode ser visto nas várias novas parcerias que as busca de influências nas relações exteriores como no caso organizações artísticas assumiram nos últimos anos, quando do US's Good Neighbor [O bom vizinbo dos Estados Unidos] distritos educacionais, parques e departamentos de recreação, (Yúdice, 2000a) e nas políticas culturais durante a Guerra Fria espaços para convenções e visitantes, câmaras de comércio, e um grande número de órgãos de bem-estar social, todas ser- (Saunders, 1999). vindo para dar proeminência aos aspectos utilitários das artes na sociedade contemporânea (Larson, 1997: 127-128). 26 27</p><p>O papel adicional contendo a cultura se deve em parte a interessadas. Tanto que elas colocam em movimento uma força redução da subvenção estatal direta de todos os serviços sociais, performativa particular, assunto que desenvolvo no Capítulo inclusive da cultura, que requer uma nova estratégia de II, "O imperativo social do desempenho". Conservadores e legitimação na era pós-Ford e pós-Direitos Civis nos Estados liberais não querem dar um ao outro benefício da dúvida Unidos A defesa da centralidade da cultura para a solução de que a arte está além do interesse. (É claro, a maioria dos de problemas sociais não é novidade, mas ela tomou diferentes esquerdistas, seguindo Marx e Gramsci, já acreditavam que a formas no passado, como a re)produção ideológica de cidadãos cultura éuma luta política.) Quando os conservadores come- dignos (tanto burgueses quanto proletários ou nacionais). a exercer maior influência nos anos 1980 e 1990, essa Embora, por muito tempo, tenha havido programas de terapia crença básica do caráter interessado da arte e da cultura era artística para deficientes mentais ou para presidiários, a cultura manifestada pela eliminação de direitos e de programas não era normalmente vista como a terapia adequada para redistributivos que beneficiam os grupos marginalizados e disfunções sociais como racismo ou genocídio. Tampouco que constituíam a herança da Grande Sociedade de Johnson, foi levada em consideração, historicamente, como um incentivo e pela erradicação do legado dos direitos civis. Muitos para crescimento econômico. Por que nos voltamos para a desses programas foram legitimados por alegações de que legitimação baseada na utilidade? Existem, acredito, duas razões as necessidades desses grupos eram baseadas em premissas principais. A globalização pluralizou os contatos entre os de diferença cultural, que tiveram de ser consideradas como diversos povos e facilitou as migrações, problematizando assim um fator decisivo na distribuição do reconhecimento e de uso da cultura como um expediente nacional. Além disso, recursos. Os conservadores, por outro lado, viram essas nos Estados Unidos, fim da Guerra Fria enfraqueceu o fun- diferenças como incapacidades ou falhas morais (por exemplo, damento legitimador de uma crença na liberdade artística, e, a "cultura da pobreza" atribuída a minorias raciais ou o liber- com ele, apoio incondicional às artes, que, até momento, tinismo das preferências e práticas sexuais de gays e lésbi- constituía principal indicador da diferença com a União cas) que tornaram esses grupos desqualificados para assumir Soviética. Evidentemente, esse patrocínio da liberdade motivado recursos públicos (veja Capítulo II). pela política era fundamental para que se desse a certas modalidades artísticas (jazz, dança moderna, expressionismo Mas a tática de reduzir as despesas estatais, que pode abstrato) encorajamento necessário para que "Nova York parecer a sentença de morte das atividades artísticas e culturais roubasse a idéia de arte moderna" de Paris, segundo Serge sem fins lucrativos é, na verdade, sua condição de possibilidade Guilbaut (1983). continuada. setor das artes e da cultura alega que pode resolver os problemas dos Estados Unidos: melhorar a educação, Sem a legitimação da Guerra Fria, não se contiveram os abrandar a rixa racial, ajudar a reverter a deterioração urbana argumentos utilitários nos Estados Unidos. A arte se dobrou inteiramente a um conceito expandido de cultura que pode através do turismo cultural, criar empregos, diminuir a cri- resolver problemas, inclusive de criação de empregos. Seu minalidade, e talvez até tirar algum lucro. Essa reorientação das artes está sendo realizada por seus administradores. objetivo é auxiliar na redução das despesas e, ao mesmo tempo, ajudar a manter nível da intervenção estatal para a estabili- Assim como nos casos clássicos da governamentalidade em que há total subordinação dos técnicos aos administradores dade do capitalismo. Uma vez que todos os atores da esfera cultural se prenderam a essa estratégia, a cultura não é mais (Castel, 1991: 293), os artistas estão sendo levados a gerenciar experimentada, valorizada ou compreendida como transcen- o social (veja Capítulo IX). E justamente quando a academia dente. E enquanto esse for caso, os apelos à cultura não se voltou aos "profissionais gerenciadores" que fazem a estarão mais ligados a essa estratégia. As guerras culturais, conexão das profissões liberais tradicionais ("um acervo técnico por exemplo, adquirem a forma que tomam num contexto em de conhecimentos, educação avançada [...] associações e que a arte e a cultura são vistas como fundamentalmente publicações profissionais, códigos de ética") com gerenciamento 28 29</p><p>corporativo intermediador na tarefa de produzir estudos, pesquisa, divulgação, desenvolvimento institucional etc. em desenvolvimento. Ela pode gerar renda através do turismo, (Rhoades; Slaughter, 1997: 23), também setor artístico e do artesanato, e outros empreendimentos culturais" (Banco cultural se expandiu criando uma enorme rede de adminis- Mundial, 1999a: 11). "O patrimônio gera valor. Parte de nosso tradores da arte que intermediam as fontes de fomento, por desafio mútuo é analisar os retornos locais e nacionais dos um lado, e artistas e/ou comunidades por outro. Como suas investimentos que restauram e extraem valor do patrimônio contrapartes na universidade e no mundo dos negócios, eles cultural não importando se a expressão é construída ou precisam produzir e distribuir os produtores de arte e cultura, natural, tais como a música indígena, teatro, as artes" (Banco Mundial, 1999a: 13). que, por sua vez, alimentam comunidades ou consumidores. Considere agora a estratégia de empréstimo do Banco Interamericano de Desenvolvimento na esfera cultural. Segundo DESENVOLVIMENTO CULTURAL um representante do banco "dada a ortodoxia econômica em todo mundo, velho modelo de apoio público às artes por parte do Estado está morto. Os novos modelos consistem de Essa perspectiva não é exclusividade dos Estados Unidos. parcerias com setor público e com instituições financeiras Um importante planejador cultural e membro do Grupo Europeu internacionais, em particular os Bancos de Desenvolvimento de Estudos sobre a Cultura e Desenvolvimento atribui vários Multilateral (BDMs) como Banco Mundial e Banco Intera- propósitos à arte e à cultura: promovem a coesão social em mericano de Desenvolvimento" (Santana, 1999). O recurso questões divergentes e, desde que é um setor de trabalho do capital cultural é parte da história do reconhecimento da intenso, elas ajudam na redução do desemprego (Delgado, insuficiência do investimento no capital físico durante os anos 1998). De fato, quando instituições poderosas como a União 1960, no capital humano dos anos 1980, e no capital social Européia, Banco Mundial, Banco Interamericano de dos anos 1990. Cada nova noção de capital foi projetada como Desenvolvimento (BID), as maiores fundações internacionais, um meio de melhorar algumas falhas de desenvolvimento e assim por diante, começam a compreender a cultura como na estrutura precedente. O conceito de capital social foi uma esfera crucial para investimentos, a cultura e as artes operacionalizado nos BDMs levando em consideração cunho são cada vez mais tratadas como qualquer outro recurso. social de seus projetos Esse conceito James D. Wolfensohn, presidente do Banco Mundial, liderou também resultou do reconhecimento de que, enquanto os a tendência dos bancos multilaterais de desenvolvimento de retornos econômicos foram substanciais nos anos 1990, a desigualdade cresceu exponencialmente. A fraca premissa da incluir a cultura como catalisadora do desenvolvimento teoria econômica neoliberal não foi confirmada. Conseqüente- humano. Em sua conferência de abertura para O encontro mente, recorreu-se aos investimentos na sociedade civil, e a internacional intitulada "As contas da cultura: financiamento, cultura é a sua maior atração. recursos, e a economia da cultura em desenvolvimento Segundo Santana (1999), os exemplos empíricos sugerem sustentável" (outubro de 1999), ele enfatizou uma "visão holística que há substância nesse argumento. Por exemplo, os indica- de desenvolvimento" que focaliza a conquista do poder da dores sociais de Villa El Salvador no Peru apontaram para comunidade dos pobres de forma a que possam manter um impressionante crescimento em seus quase 30 anos de sustentar esses bens que os capacitam a suportar "trauma existência. Em 1971, os sem-teto invadiram Lima e O governo e a perda", afugentar a "desagregação social", "manter a os assentou numa área semidesértica. Vinte anos depois eles auto-estima" e ainda fornecer recursos materiais. Ele comenta: compreendiam uma cidade de 8.100 habitantes com um dos "Existem dimensões de desenvolvimento da cultura. A cultura melhores indicadores sociais do país. O analfabetismo caiu material e expressiva é um recurso subvalorizado nos países de um índice de 5,8 para a mortalidade infantil foi reduzida a uma taxa abaixo da média de 67 por 1000, e os registros da 30 31</p><p>educação básica cresceram à cifra dos acima da média. saúde, na educação, na formação de capital social ou no apoio A variável que explica esses números, de acordo com Santana, e reforço da sociedade civil. Uma vez que encontro em que é a cultura, que viabiliza a consolidação da cidadania fundada Santana fez essa apresentação tinha O objetivo de alcançar na participação ativa da população. A maioria das pessoas organizações culturais que buscavam novos parceiros de era proveniente das terras altas do Peru e manteve seus financiamento, uma variedade de situações foi discutida. Um costumes culturais indígenas, seu trabalho comunitário e sua dos projetos considerados aptos a receber financiamento é solidariedade, fatores que forneceram as características festival cultural anual CREA na Colômbia (Ochoa, 2001). necessárias a esse desenvolvimento. Santana comparou essas Concursos de música eram realizados em todos os municípios características às tradições cívicas e culturais que, segundo do país, e um número de finalistas era selecionado para Robert Putnam (1993), possibilitaram progresso da região competir em festivais estaduais, que, por sua vez, faziam uma norte da Itália. Conseqüentemente, se pudesse ser demons- seleção dos finalistas para competir em festival de escala trado, ele acrescenta, que a cultura produz os padrões da con- nacional. Os músicos vinham de todas as partes do país, fiança, da cooperação e da interação social que resultam numa inclusive aquelas controladas por guerrilhas e grupos para- economia mais vigorosa, mais democrática e governo efetivo, militares. Foi comentado que os festivais eram a única além de menores problemas sociais, então será provável que ocasião em que havia contato e troca entre adversários e os BDMs investirão em projetos de desenvolvimento cultural. diferentes partes do Conseqüentemente, pode-se concluir Existem, naturalmente, dezenas de milhares de projetos que haveria maior probabilidade de retorno na condição de culturais em todo e qualquer país. Como financiadores do que esses festivais contribuíssem para processo de pacifi- tipo do BID decidem em que investir? Mecanismos de com- cação e, nesse ínterim, criar um ambiente mais seguro para pensação e incentivos precisam ser designados, comenta investimentos. Santana, para gerar confiança de que haverá um retorno para Todavia, para se receber financiamentos deve haver os investidores. Esses mecanismos funcionariam como uma dados quantitativos para que a equipe técnica do banco possa alternativa para preço. Em que tipo de raciocínio os agentes avaliar impacto dos festivais e medir benefício em termos econômicos podem se fiar para investir em cultura? Que tipo de um ambiente mais seguro para investimento e retorno. Os de estrutura de incentivos surtirá em resultados? Incentivos, instrumentos de aferição precisam medir as possibilidades ele adiciona, podem prover um ambiente estável para além das intuições e opiniões. É por isso que a maioria dos investimento privado em cultura, diferente do caráter heróico projetos culturais financiados por BDMs se atrelam a outros do investimento privado em cultura. Além disso, modelo projetos educacionais ou de renovação urbana. Esse modo de financiamento cultural precisa ser limitado a segmentos de aproveitamento tem a ver com a dificuldade que os bancos específicos da cultura porque a demanda de recursos é grande têm em lidar com a Desprovidos de dados concretos, e porque somente aqueles que podem gerar retorno serão indicadores, por exemplo, é difícil justificar investimentos em financiados. Nesse cenário, alerta Santana, "a cultura pela cultura", seja lá que isso represente, nunca receberá projetos. E, é claro, existem dificuldades metodológicas no desenvolvimento de indicadores para a cultura. O conceito é fomentos a não ser que possa oferecer uma forma indireta de cunhado segundo indicadores econômicos, que possibilitam retorno. aos economistas a determinação da "saúde" econômica e a As diferentes espécies de retorno são incentivos fiscais, previsão dos tipos de intervenções que a fortalecerão. Eviden- comercialização institucional ou valor publicitário, e a con- temente, existem diferentes abordagens para se precisar versão da atividade não comercial em atividade comercial. indicadores, dependendo de que critérios são apresentados: Os BDMs priorizam os projetos de financiamento cultural que econômicos (quantos empregos serão produzidos), profissionais mantêm alguma relação com as áreas tradicionais destes bancos (seriam as instituições artísticas hegemônicas viáveis?), ou e precisam ter um resultado instrumental, por exemplo, na referentes à justiça social (os valores e preferências culturais 32 UNIPAMPA 33</p><p>dos residentes da comunidade serão compreendidos e honrados na Escócia" e "um sentido do lugar, um sentido do ser" que quando os recursos forem destinados ao apoio cultural?) se escutam na Nova Zelândia, Escócia e Canadá, respectiva- (Jackson, 1998: 2, 33). Na verdade, existem importantes dife- mente (Volkerling, 2001: Projetos similares foram desen- renças aqui, e ethos democrático da terceira opção certa- volvidos numa leva de cidades latino-americanas: Puerto mente será bem-vindo. No entanto, resultado final é que as Madero Abarca, 2001) e Palermo Viejo (Oropeza, instituições culturais e financiadores estão cada vez mais 2001) em Buenos Aires, Puerto Digital, em voltados para a medida da utilidade, pois não há outra Abarca, 2001), e em Valparaíso, que contratou a equipe que legitimação aceita para O investimento social. Dentro desse renovou porto de Barcelona para as Olimpíadas de 1992 e contexto, a idéia de que a experiência de jouissance, que deverá ser primeiro anfitrião do Fórum Universal das desvelamento da verdade, ou a crítica desconstrutiva podem Culturas, cujo objetivo principal, entre outros, é explorar e ser critérios admissíveis para investimento em cultura, celebrar as maneiras pelas quais a "criatividade de todas as se esvai como uma fantasia digna de uma chacota kafkiana. nações" pode ser aproveitada para desenvolvimento, a inclusão da diversidade e a coexistência pacífica (Yúdice, A ECONOMIA CULTURAL 2001b, Universal Forum of Cultures Barcelona, 2004). Evidencia-se dos exemplos dados, e a partir dos que ainda serão analisados neste livro, que a compreensão e a prática No entanto, a noção de cultura sofreu várias mutações para satisfazer as exigências do resultado final. As tendências da cultura são bastante complexos, situados na interseção artísticas, como multiculturalismo, que enfatizam a justiça das agendas da economia e da justiça social. A cultura é cada social (talvez compreendida como uma representação visual vez mais invocada não somente como uma propulsora do nas esferas públicas) e as iniciativas para promover desenvolvimento do capital; repetiu-se ad nauseum que a a utilidade sociopolítica e a econômica foram fundidas numa indústria audiovisual só perde para a indústria aeroespacial noção daquilo que eu denomino a "economia cultural" e aquilo nos Estados Unidos. Alguns até defendem que a cultura se que a retórica New Laborite de Blair intitulou "economia transformou na própria lógica do capitalismo contemporâneo, criativa". Circulando domesticamente, bem como pelo mundo, uma transformação que "já está desafiando muitos de nossos tal qual "Cool Britannia" [Bretanha legal], essa economia criativa pressupostos básicos a respeito do que constitui a sociedade inclui uma agenda sociopolítica, especialmente protagonismo humana" (Rifkin, 2000: 10-11). Essa culturalização da economia do multiculturalismo enquanto incorporado nas obras dos não aconteceu naturalmente, é claro; ela foi cuidadosamente assim chamados jovens artistas britânicos, bem como um coordenada através de acordos comerciais e de propriedade programa econômico; por exemplo, pensar que a criatividade intelectual, como GATT e a OMC, de leis que controlam fornecida por esta nova geração tenha transformado Londres movimento do trabalho mental e físico, por exemplo, leis de num "eixo criativo para as tendências da música, moda, arte imigração etc. Em outras palavras, a nova fase do crescimento e design" (Mercer, 52). Aplicando a lógica que econômico, a economia cultural, também é uma economia ambiente criativo gera inovação (Castells, 2000), promoveu-se política. Thomas Streeter observa que a "criação da proprie- a cultura da Londres moderna como fundamento para a dade" ou seja, a transformação, digamos, da transmissão denominada nova economia baseada no "fornecimento de do sinal de radiodifusão em algo que pode ser comprado e conteúdo", que deveria ser a máquina propulsora da acumu- vendido, que é fundamental para o lucro na mídia eletrônica lação. Essa premissa é bastante disseminada pela retórica ame- não acontece simplesmente na "ausência de controle político ricana de uma "nova economia" e pela publicidade elogiosa ou social", mas "envolve um esforço contínuo e coletivo (...) e enfática a respeito da "economia criativa" dos britânicos, de transformar atividades sociais em propriedade" (1996: 164). reverberada nas expressões "hot nation" (nação quente), "criar 34 35</p><p>A criação da propriedade e as condições infra-estruturais e legais para torná-la lucrativa não são, obviamente, pois é a "nossa cultura" que é exportada. Todavia, pode-se perguntar, como já foi, de fato, perguntado, se esse tipo de Considere, por exemplo, a indústria cinematográfica ameri- produção faz uma diferença simbólica quando se lida com cana, que, desde sua fuga da Nova York sindicalizada até produtos culturais, tais como filmes, música, shows de Los Angeles nos anos 1920, estabeleceu uma relação sólida com televisão, e novas diversões para internautas. Os franceses capital financiador e com órgãos do governo americano já discutiram longamente a respeito, por exemplo, em suas encarregados do comércio. Quando a indústria se transfor- tentativas de isentar a cultura do circuito do GATT e das mou, no período pós-Segunda Guerra Mundial devido ao negociações da OMC, que os filmes e a música são cruciais desafio da televisão e dos processos antimonopólio que a para a identidade cultural e não deveriam ser sujeitos aos forçaram a se desfazer das salas de projeção, Hollywood mesmos termos do mercado, como, por exemplo, carros e tênis. começou a equilibrar risco do investimento em seus produtos Os negociadores americanos contra-argumentaram que os com elevado coeficiente de capital, subcontratando no exterior filmes e programas de televisão são bens, sujeitos aos mesmos redes compostas de companhias de produção independente termos. Enquanto esse debate é realmente importante, e pode-se para prestar serviços como a execução de roteiros, de elenco, discernir efeitos de significado devido a esse modo de de design para cenários, cinematografia, vestuário, mixagem produção flexível (por exemplo, os filmes hollywoodianos e direção sonora, edição, processamento fílmico etc. A confeccionados para atrair os espectadores estrangeiros), os indústria cinematográfica vem sendo realmente caracterizada principais efeitos desta nova divisão internacional de trabalho como modelo pós-fordiano de especialização flexível cultural não se limitam, por exemplo, ao fato de utilizar ou (Storper, 1989: 277; Yúdice, 1999b), e ela pode ainda ser vista não mais atores multiculturais ou mais atores europeus. como precursora daquilo que Manuel Castells (1996) deno- que é mais importante é que os direitos autorais estão cada minou "sociedade em rede". Além disso, uma série de pres- vez mais nas mãos dos produtores e distribuidores, dos maiores especialmente deslocamento da produção em estúdio conglomerados de entretenimento que foram cumprindo para uma produção de locação mais barata, levou à desinte- gradualmente os requisitos para obter a propriedade intelec- gração vertiginosa e à recomposição do complexo industrial tual, a tal ponto que os "criadores" são hoje um pouco mais do entretenimento (Storper, 1989: 289). Parte dessa história é do que meros "provedores de conteúdo". Na verdade, a mudança de Hollywood para O exterior, primeiramente através Hollywood vem sendo líder na internacionalização da lei de de sua aquisição de cinemas no exterior para suplementar propriedade intelectual. Como notam Miller et al., "os direitos seus magros resultados domésticos, e, em última instância, autorais e controle da propriedade intelectual garantiram para tirar proveito da internacionalização de seus serviços o internacionalismo hollywoodiano porque eles estabilizam de produção, ou seja, da divisão de trabalho. Hoje, um festival o mercado e tornam previsível, um fator crucial dado aos ou uma bienal de cinema ou de artes são tão internacionais tremendos custos da produção de filmes de longa-metragem" quanto as roupas que vestimos ou os carros que dirigimos, (2001: Capítulo 4). com peças de aço produzidas num país, os componentes O que começamos a ver é, assim, modelo de maquiladora eletrônicos em outro, e couro e plástico num terceiro, na indústria fílmica também presente em todas as outras indús- sendo finalmente montados em outros trias nas quais a acumulação é baseada nos direitos de propri- Os cidadãos americanos se esquecem da ameaça em edade intelectual e no conceito mais difuso dos direitos de potencial que a internacionalização da divisão do trabalho propriedade cultural. O lucro é obtido na possessão (ou, como oferece. Alguns podem estar conscientes da perda potencial diria Storper, criação) dos direitos de propriedade; os que de empregos ligados à produção audiovisual para Canadá não têm esses direitos ou que os perderam devido à aplicação ou Austrália, mas culturalmente parece não haver ameaça, de leis concebidas para favorecer os interesses das corporações são relegados ao trabalho de provedores de serviço e de conteúdo. 36 37</p><p>A culturalização da assim chamada nova economia, baseada a marca distintiva da grandiosidade estilística de Frank Gehry, no trabalho cultural e mental (Terranova, 2000) ou, os líderes da cidade instalaram O magnetismo necessário para melhor ainda, na expropriação do valor da cultura e do atrair atividades que "dariam vida", citando a frase de Manuel trabalho intelectual tornou-se, com O auxílio da nova Castells: "Juntamente com a inovação tecnológica, uma tecnologia de comunicações e informática, a base de uma extraordinária atividade urbana emergiu (...) fortalecendo a nova divisão de trabalho. E à medida que as comunicações tessitura social de bares, restaurantes, encontros casuais na permitem localizar serviços e produtores independentes de rua etc. que dão vida ao lugar." Melhorando dessa forma a se estabelecerem em quase todo mundo, também estamos qualidade de vida faz com que a cidade atraia e mantenha os diante de uma nova divisão internacional de trabalho cultural inovadores indispensáveis à nova "economia criativa" (Castells, (Miller, 1996) necessária ao fomento da inovação e para a 2000). "Conhecimento, cultura, arte (...) ajudarão a dar um criação de conteúdo. A culturalização é também uma economia impulso a Bilbao levando-a à restrita lista de melhores do política, pois governo americano vem fazendo O papel do mundo", segundo Alfonso Martínez Cearra, presidente da maior protagonista ao certificar que os Estados Unidos Bilbao Metrópoli 30, uma rede que promove desenvolvi- podem manter seu domínio sobre a nova economia. Exem- mento da cidade composta por funcionários do governo, plarmente, O relatório a respeito da Propriedade Intelectual e empresários, educadores, diretores filantropos e executivos a Infra-estrutura Nacional da Informação realizado pelo Grupo da mídia que lideram desenvolvimento da cidade (Jacobs, de Estudos da Casa Branca (IITF) recomendava apoio aos 1997: 14). Outra cidade pós-industrial que se voltou para a regimes de propriedade intelectual para que a provisão de cultura para reavivar a economia é Peekskill, Nova York. Acre- conteúdo assegurasse domínio americano na nova economia: ditando que "os artistas são uma espécie de peixe-piloto "Todos os computadores, telefones, scanners, impressoras, para a renovação conselho municipal criou um interruptores, roteadores, cabos, redes e satélites do mundo", distrito artístico e ofereceu incentivos, como espaços de baixo grupo de estudos argumenta, "não criarão uma infra-estrutura que os artistas possam utilizar ao chegar da cidade de nacional de informação (NII) se não houver conteúdo. O que Nova York (Peterson, 1999). levará a NII em frente é conteúdo que se desloca através Essas iniciativas também têm uma desvantagem, pois, como dessa infra-estrutura": recursos informativos e de entreteni- nos casos clássicos de ascensão social, elas tendem a deslocar mento; acesso aos recursos culturais mundiais; inovação de residentes. Em outro momento, analiso um exemplo de produtos; e maior variedade no consumo cultural (Estados desenvolvimento cultural que envolveu famoso grupo Unidos, 1995). musical afro-brasileiro Olodum tanto na renovação do Atividades mais tradicionais como turismo cultural e Pelourinho, local histórico de tráfico de escravos e atual centro desenvolvimento das artes também estão facilitando a da indústria de turismo, quanto no irônico deslocamento de transformação de cidades pós-industriais. O exemplo mais seus residentes pobres (veja Yúdice, 2000d). Recorrer à "eco- sensacional é O Museu Guggenheim em Bilbao, que está nomia criativa" evidentemente favorece a classe profissional servindo de modelo para franqueamento de museus em gerenciadora, mesmo quando ela vende seu produto baseado outras partes do mundo, como o Rio de Janeiro e Lyons na retórica da inclusão multicultural. Grupos subordinados (Iturribarria, 1999; Rojas, 2000). Líderes locais da política e ou minoritários situam-se nesse esquema como trabalhadores do empresariado, preocupados com a desgastada infra- de serviços de nível inferior e como provedores de experiências estrutura pós-industrial de Bilbao e com a reputação pelo étnicas e outras culturas que "dão vida", que, de acordo com terrorismo da cidade, procuraram revitalizá-la com investi- Rifkin, "representam um novo estágio do desenvolvimento mentos na infra-estrutura cultural que atrairia turistas e capitalista" (2000: 265). Assim, desenvolvimento econômico lançaria fundações para uma complexa economia da indústria necessariamente pressupõe gerenciamento de populações de serviços, informação e cultura. Ao investir num museu com a fim de diminuir risco de violência na compra e venda de 38 UNIPAMPA 39</p><p>experiências. O sistema de de Bilbao instalou câmeras de segurança em todas as estações para monitorar as atividades da diferença" deveria reconhecer aquele contexto e respeitar dos viajantes (Jacobs, 1997: 13-14); Peekskill teve suas ruas as noções de responsabilidade e direitos ali desenvolvidos equipadas com essas câmeras em cada esquina num esforço (Fierlbeck, 1996: 4, 6). de controlar comércio de drogas. Muitos habitantes, entretanto, interpretaram esse procedimento como uma forma de controlar os residentes negros, muitos dos quais ficaram desempregados CIDADANIA CULTURAL devido a evasão industrial em favor do Terceiro Mundo. Os líderes da cidade foram acusados de interpretar Os direitos culturais incluem a liberdade de se engajar na desenvolvimento urbano em termos raciais, tentando atrair atividade cultural, falar a língua de sua escolha, ensinar sua profissionais brancos e limitando a mobilidade das minorias língua e cultura a seus filhos, identificar-se com as comunidades (Peterson, 1999). culturais de sua escolha, descobrir toda uma variedade de A culturalização, portanto, também é baseada na mobili- culturas que compreendem patrimônio mundial, adquirir zação e no gerenciamento de populações, em especial das conhecimento dos direitos humanos, ter uma educação, não populações marginais que "realçam a vida" e que nutrem a deixar representar-se sem consentimento ou ter seu espaço inovação dos "criadores" (Castells, 2000). Isso significa fazer cultural utilizado para publicidade, e ganhar respaldo público uma aliança entre a cultura enquanto práticas vernáculas, para salvaguardar esses direitos (Grupo de Friburgo, 1996). noções de comunidade e desenvolvimento econômico. Veri- No entanto, como expôs um comentarista, os direitos cul- ficamos tal fato nas cidades globais que concentram centrais turais são as "Cinderelas da família dos direitos humanos" de comando e controle para corporações transnacionais e, (Filibek, 1995: 75), pois sua definição ainda é ambígua a simultaneamente, um número crítico de serviços complemen- lista completa do que deve ser incluído em "cultura" ainda tares e avançados ao produtor. Esses serviços concentram-se não está clara, e nem é fácil conciliar aplicabilidade universal nas cidades, como Manuel Castells observa, onde a inovação ao relativismo cultural (Niec, 1996: 5). Além disso, mesmo se resulta de uma sinergia de redes de empresas complementares os direitos culturais se referem a coletividades, os direitos e de reservatórios de "talento humano", muitos dos quais individuais dos membros destas coletividades têm prioridade, compreendiam migrantes intranacionais e internacionais. Para pelo menos em tratados internacionais. Assim sendo, os atrair esse talento, Castells prossegue, as cidades precisam direitos culturais não são universalmente aceitos e, na maioria oferecer uma alta qualidade de vida, que significa que elas dos casos, não são jurisdicionados, que não ocorre com são também as maiores geradoras de capital e valor culturais. os direitos econômicos cujo status é firmemente calcado na O papel da cultura no acúmulo de capital, não é, no entanto, lei internacional (Steiner; Alston, 1996: 268). Além do mais, limitado a essa função ancilar; ela é essencial aos processos mesmo se os direitos culturais chegassem a receber validade da globalização, que são evidentes em Miami, tópico do universal, daí não se infere que, em contextos culturais dife- Capítulo VII. A globalização, de fato, revigorou conceito de rentes, eles serão aplicados da mesma forma. Sistemas legais cidadania cultural desde que os direitos políticos, na maioria diferenciados oferecem contextos fortes ou fracos nos quais são das vezes, não se apliquem a imigrantes e trabalhadores assegurados os direitos da cidadania, sejam eles políticos, civis indocumentados. Entretanto, a idéia de que as diferentes ou humanos. É por isso que falo em diferentes campos de culturas do povo e as necessidades daí decorrentes deveriam força para a encenação ou desempenho de normas ou para ser reconhecidas é um poderoso argumento que encontrou a crítica das normas no Capítulo II. Todavia, alguns direitos receptividade em vários fóruns internacionais. À medida que jurisdicionados se sobrepõem a direitos culturais, como no a identidade social é desenvolvida num contexto cultural caso do direito à informação. No entanto, como esse direito coletivo, discute-se que a inclusão democrática de "comunidades é exercido depende do contexto cultural (Niec, 1996: 8). Como observa Javier Pérez de Cuéllar, presidente da Comissão Mundial 40 41</p><p>da Cultura e do Desenvolvimento em sua introdução ao relatório da UNESCO intitulado "Nossa diversidade criativa", "os ponto de vista da classe hegemônica), a cultura serve de base direitos econômicos e políticos não podem ser realizados ou garantia para fazer "reivindicações de direitos no terreno separadamente dos direitos sociais e culturais" (1996: 11). público" (Rosaldo, 1997: 36). Uma vez que a cultura é que "cria espaço onde as pessoas se 'sentem seguras' e 'em casa', Nos Estados Unidos, essa legislação dos direitos culturais onde elas se sentem como pertinentes e partícipes de um grupo", positivos remonta a precedentes jurídicos e institucionais de acordo com essa perspectiva, ela é condição necessária estabelecidos na era dos direitos civis. A história revela uma para a formação da cidadania (Flores; Benmayor, 1997: 15). dialética interessante entre a desvalorização de grupos mino- No Capítulo VI, faço um relato do surgimento dessa nova ritários por exemplo, os negros e porto-riquenhos citados forma de direitos de cidadania e indico que, originalmente, por Moynihan (1965) e Glazer e Moynihan (1963) que são as exigências para a qualificação dos direitos convencionais caracterizados como desprovidos, por razões culturais, de à cidadania não eram baseadas no relativismo cultural de associações voluntárias e outras características de uma socie- pertencimento a culturas específicas. dade civil valorizada e ativismo daqueles grupos que Assim, se a democracia deve ser promovida, as esferas inverteram a tese da "cultura da pobreza", valorizando exa- públicas em que a deliberação sobre as questões do bem tamente aquilo que os desqualificava aos olhos da cultura público é realizada deve ser permeável às diferentes culturas. dominante (por exemplo, os clubes sociais porto-riquenhos e tradições de adoção, não reconhecidos por Glazer e Moynihan A conduta relativista na teoria antropológica que defende a "cultura comunal" como um conjunto de idéias e valores como autênticas associações benéficas). Uma vez que a aculturação sujeita à norma, implícita à análise e à política que imbui indivíduo de identidade (Sapir, 1924: 401) é, das ciências sociais hegemônicas, foi vista como impraticável, desta feita, mobilizada para fins políticos. A cultura é, assim, as práticas culturais dos grupos minoritários puderam ser mais do que um ajuntamento de idéias e valores. Ela é, entendidas como estratégias comunitárias de sobrevivência segundo Flores e Benmayor, fundamentada na diferença, que funciona como um recurso (1997: 5). O conteúdo da cultura dignas de aceitação. Em contraste com os pressupostos assi- diminui em importância à medida que a utilidade da reivin- milacionistas e progressistas subjacentes à tese de Glazer e Moynihan, os multiculturalistas apelam para uma posição dicação da diferença como garantia ganha legitimidade. O resultado é que a política vence conteúdo da cultura. Iris igualitária pluralista ou relativista através da qual diferentes culturas têm parcelas iguais na constituição da sociedade e Marion Young comenta que "as reivindicações pelo reconhe- são expressões de uma forma de humanidade. cimento cultural normalmente são meios para se chegar ao esvaziamento do domínio ou da privação injusta" (83). Apesar É essa noção de cultura que sustenta conceito de cidadania de reconhecer que "as pessoas descobrem-se a si mesmas através cultural desenvolvido por Renato Rosaldo no fim dos anos das afinidades culturais que as solidificam em grupos em 1980 (Rosaldo, 1989; Rosaldo e Flores, 1987). Em contraposição virtude de seu encontro com aqueles que são culturalmente às noções convencionais de cidadania, que enfatizam a a cultura não tem um "em si", ela é um recurso aplicabilidade universal, mesmo que formal, de direitos para a política. "É importante lembrar, todavia, que uma grande políticos para todos os membros de uma nação, Rosaldo extensão do campo de conflitos entre os grupos diferenciados postulou que a cidadania cultural implica que grupos unidos culturalmente não é cultural, mas uma competição acerca de por certos aspectos sociais, culturais e/ou físicos não deveriam territórios, recursos ou empregos" (91). ser excluídos da participação nas esferas públicas de deter- minada constituição política com base naqueles aspectos ou Os argumentos de Young, que correspondem à nova características. Num contexto jurídico que habilita a litigação conjuntura epistêmica de "conveniência" que passo a explicar contra a exclusão e um ethos cultural-político que evita a adiante, são bastante úteis, pois demonstram como debate comu- marginalização do "não normativo" (assim considerado pelo nitário liberal sobre a universalidade frente à especificidade, 42 43</p><p>ou do "bem comum" versus a perspectiva a partir dos "conhecimentos situados", é superado. Contra a filosofia emancipação, a racionalidade cognitivo-instrumental da política liberal clássica identificada com John Rawls, Young ciência, que infligiu danos à natureza e ajudou a regular aponta que as instituições e outras entidades formadoras de corpo e a transformá-lo em bem de consumo por meio da redes sociais realmente importam e que indivíduos que se biotecnologia, tomou precedência sobre as racionalidades abstêm de participar de tais redes é algo que não existe. Mas moral-prática e estético-expressiva. Quando a "emancipação contra as perspectivas comunitárias, Young argumenta que a moderna sucumbiu à regulação moderna" regida pelo mercado, estrutura social toma a precedência sobre a de identidade, ela "deixou de ser outro da regulação" para se tornar seu rejeitando posicionamento de Charles Taylor de que a duplo. Enquanto a revolução e "futuros alternativos" já não política do reconhecimento das diferenças grupais (ou cultura) parecem ameaçar a dominação capitalista, "uma nova sensação seja, em si mesma, um objetivo. No lugar disso, uma política de insegurança proveniente do medo dos desenvolvimentos de reconhecimento é, "geralmente, uma parte ou um meio incontroláveis" resulta da "assimetria entre a capacidade de para se chegar à reivindicação pela inclusão social ou política agir e a capacidade de predizer" (1995: 8-9). ou como um fim para as desigualdades estruturais que a pre- A projeção de Santos de um novo paradigma utópico é judicam" (104-105). Sua intenção é mostrar que "a maioria fundamentada (previsivelmente) na ativação de um "princípio das reivindicações políticas baseadas em grupos não pode comunitário", baseado na solidariedade, e de um "princípio ser reduzida a conflitos acerca da expressão e da preservação estético-expressivo", baseado na autoria e na artefatualidade do significado cultural" (104). Evidentemente, a cultura é uma (1995: 478), que, por sua vez, deveria levar a alternativas categoria reducionista para Young. Ao mesmo tempo que emancipatóriais como a abolição da hierarquia Norte-Sul reconheço a força dos argumentos de Young, explico a seguir (1995: 487), conhecimento centrado na autoridade compar- que a governamentalidade opera num campo de força em que tilhada (1995: 489), novas formas de sociabilidade caracteri- mercado, com suas técnicas de diferença gerenciada como zadas por hierarquias fracas, pluralidade de poderes e leis, recurso primário, causa grandes erosões à esfera pública fluidez nas relações sociais (1995: 492-493), e um gosto habermasiana idealizada que a autora adota. barroco pela mistura ou mestiçagem Na seção seguinte, comento significado da transformação No entanto, que parece ter se desenvolvido com a apro- da cultura em recurso. Gostaria de prefacear esse comentário ximação das duas "representações inacabadas da moderni- observando que fato de a cultura se aproximar da comuni- dade" é um mecanismo de controle ainda mais difuso. Nas dade expressa a busca da justiça social e os direitos do últimas três décadas, ativistas e teóricos progressistas, que cidadão, além de ser sobredeterminada pela penetração da romperam com a tônica estatista e cognitivista do marxismo lógica do capital nos recessos ainda da vida. Em tradicional e com as inflexões (modernistas) anti-racionais e sua definição de pós-modernidade, Fredric Jameson caracteriza mercantilizadas das artes, colocaram a estética e a comunidade esses lugares como inconsciente e Terceiro Mundo. na formulação de uma alternativa cultural-política para a Segundo modelo weberiano ou habermasiano, os dois A guinada antropológica na conceitualização das seriam definidos, respectivamente, como a fonte da raciona- artes e da sociedade coincide com que poderia ser chamado lidade estético-expressiva e como a forma de organização de poder cultural termo que escolhi para expressar a social que ainda está fora do alcance da regulação ocidental. extensão do biopoder na era da globalização e também é Fazendo uma elaboração a partir desse modelo, Boaventura uma das razões principais pelas quais a política cultural de Sousa Santos explica que a racionalidade estético-expres- tornou-se fator visível para repensar os acordos coletivos. siva e a comunidade foram ofuscadas pela outra lógica do Exatamente esse termo reúne que na modernidade pertencia desenvolvimento moderno. No eixo da regulação, mercado à emancipação, por um lado, e à regulação, por outro. Mas prevaleceu sobre Estado e a comunidade; no eixo da como demonstro ao longo deste livro, essa conjunção é talvez a expressão mais clara da conveniência da cultura. 44 45</p><p>Ela é utilizada para resolver uma série de problemas para a comunidade, que parece só ser capaz de se reconhecer na Podemos encontrar essa estratégia em muitos e diferentes cultura, que, por sua vez, perdeu sua especificidade. Conse- setores da vida uso da alta cultura (por a cultura e a comunidade são apanhadas por exemplo, museus e outras manifestações de alta cultura) para os um pensamento circular, tautológico. Esse é um problema objetivos do desenvolvimento urbano; a promoção de culturas reconhecido por representantes da instituição que tem feito nativas e patrimônios nacionais a serem consumidos no turismo; tudo para colocá-lo em execução. Conforme observou diretor lugares históricos que são transformados em parques temáticos da Divisão da Indústrias Culturais e Direitos do tipo Disney; a criação de indústrias de cultura transnacional Autorais na UNESCO, em recente encontro, a cultura está como complemento para a integração supranacional tanto sendo invocada para resolver problemas que antes eram de na União Européia quanto no Mercosul (veja Capítulo VIII); domínio da economia e da política (Yúdice, 2000b: 10). a redefinição de propriedade intelectual como formas de cultura com a finalidade de incitar acúmulo de capital na informática, À medida que compreensões anteriores acerca de câno- nas comunicações, nos produtos farmacêuticos, no entreteni- nes culturais de excelência artística padrões simbólicos mento, e assim por diante. Em outro trabalho, fiz uma revisão que dão coerência e, portanto, equipam um grupo de pessoas de vários projetos resultantes desse caráter instrumentalista ou sociedade com valores humanos perdem força, vemos da política cultural (Yúdice, 1999c). aqui uma interação da conveniência da cultura. Nos nossos American canvas, relatório do NEA que mencionei tempos, representações e reivindicações de diferença cultural anteriormente, ao discorrer sobre uma série de discussões são convenientes na condição de que elas multipliquem as municipais com pessoas de todos os segmentos da sociedade mercadorias e confiram direitos à comunidade. Embora interessadas na salvaguarda do sistema de apoio às artes, fez Virginia R. escreva que, para se entender que as seguintes recomendações: cultura significa quando ela é "invocada para descrever, analisar, discutir, justificar e teorizar", é preciso focalizar "naquilo que está sendo cumprido socialmente, Está na hora para aqueles que conhecem valor das artes (...) de se tornarem membros do conselho da escola, da comissão discursivamente" (1992: É esse objetivo deste livro. municipal e regional, da comissão de planejamento e de zone- amento, do alojamento, da associação dos comerciantes, da biblioteca (...) A questão não é simplesmente reduzir a relevância A CONVENIÊNCIA DA CULTURA das artes àquelas várias questões cívicas, mas controlar os fundos públicos que fluem através desses canais, pois parte deles pode ser aproveitada pelas artes. Há vários sentidos em que a idéia de conveniência da cultura como reserva disponível pode ser compreendida aqui, Outro defensor mencionado no relatório aponta que "precisa- mas quero deixar claro desde início que não é meu propó- mos insistir que, quando estradas, esgotos, prisões, bibliotecas sito desestimar essa estratégia como uma corrupção da cultura, e escolas são planejados e financiados (...) que as artes também ou como uma redução cínica dos modelos-símbolos ou sejam planejadas e financiadas. Precisamos encontrar os itens estilos de vida à "mera" política. Desqualificações dessa pontuais, as categorias orçamentárias e os dólares em todas natureza são muitas vezes fundamentadas num desejo nos- essas fontes locais" (Larson, 1997: 83). tálgico ou reacionário pela restauração de um pedestal para Seria realmente cínico qualificar políticas de identidade a cultura, presumivelmente desacreditada pelos filistinos que como uma aberração quando a conveniência da cultura é uma absolutamente não acreditam nela. Tampouco está certo característica óbvia da vida contemporânea. Ao invés de nos fazer expiar tipo de política de identidade que descrevi atrelarmos à censura, pode ser mais efetivo para os propósitos brevemente, pois ele não é único a lançar mão da cultura do pensamento estratégico estabelecer uma genealogia da como conveniência, como um recurso para outros fins. transformação da cultura em recurso. O que ela nos assinala a respeito do nosso período histórico? 46 47</p><p>Embora meu entendimento de cultura como recurso não tudo se apresentará somente no desocultamento da reserva seja heideggeriano, uma breve reflexão acerca de sua noção disponível" (1977: 33). Surpreendentemente, ao final do de reserva disponível ajudará a situar meu próprio argumento ensaio sobre a tecnologia, Heidegger acalenta a possibi- frente à modernidade e à pós-modernidade. Em "A questão lidade de que uma vez que a tecnologia tenha tomado tudo relativa à tecnologia" (1950), Heidegger identifica tecnologia em todo lugar, "a essência da tecnologia pode advir à presença como uma forma de compreensão na qual a natureza se trans- no acontecer da verdade". Para que isso seja possível, a forma num recurso, um meio ao fim, ou uma "reserva dispo- reflexão sobre a tecnologia, ele nos diz, precisa acontecer nível". Tudo, incluindo seres humanos, vem a ser enxergado "numa esfera que seja, por um lado, familiar à essência da como algo que está pronto a ser utilizado como recurso. Em tecnologia e, por outro, fundamentalmente diferente ensaio anterior, "A era da imagem do mundo" (1938), quando Essa esfera de reflexão, ele acrescenta, é a arte. Todavia, se ainda não fala de uma "reserva disponível", Heidegger, no a essência da tecnologia impregnou todas as coisas, impondo- entanto, caracteriza a era moderna, em que a representação nos a percepção da arte por meio da estética, então "tanto se oferece como tecnologia, como aquilo que torna invisível mais misteriosa se torna a essência da arte" (1977: 35). a essência das A ciência, enquanto tecnologia como paradoxo que soa ao fim desse ensaio oferece uma uma transformação autônoma da práxis, a transmutação da obra de arte num objeto de "mera experiência subjetiva", a possibilidade, dentro da modernidade ou no fim dela, que é excluída por outras interpretações do papel da arte. Para consumação da vida humana como cultura e a perda dos deuses (1977: 116) são os fenômenos que realizam a "era da Peter Bürger, por exemplo, quando a burguesia expande seus domínios, até mesmo as resistências à razão instrumental imagem do mundo", onde a opacidade da encarnação cognitiva da era anterior se torna invisível. Heidegger postulava "o ou poderemos substituir ordenamento são crescentemente cálculo, planejamento e a modelagem de todas as coisas" ordenadas via institucionalização, que desse modo separa a estética de outras esferas da vida social. Na tentativa de con- (1977: 135) precisamente a definição de Foucault da a arte e a vida, a vanguarda primeiro estetiza a vida e governamentalidade para caracterizar a transição da economia então institucionaliza essa estetização (1984: 49). Um para- do lar para a sociedade como um todo, quando a res publica doxo semelhante é evidente na aproximação da cultura e da ou coisas como clima, a riqueza, a doença, a indústria, as comunidade, como Santos caracteriza essas duas "represen- finanças, os costumes, e assim por diante precisaram ser tações inacabadas da modernidade". Elas são tomadas pela ordenados, calculados por meio de estatísticas e gerenciados abordagem gerencial que bloqueia e até torna impenetráveis pelos saberes da disciplina (1991: 95-103) como os processos compreensões anteriores desses conceitos e formas de prática. que, em virtude desse ordenamento mesmo, lançam uma Além disso, com a recíproca permeação da cultura e da eco- "sombra invisível sobre todas as coisas", isto é, tornou sua nomia, não somente como uma mercadoria que seria essência invisível (1977: equivalente da instrumentalidade mas um modo de A essência da tecnologia é, assim, não meramente sua cognição, de organização social e até mesmo tentativas de instrumentalidade (1977: 21), mas, Heidegger nos relata, um emancipação social, parecem retroalimentar sistema a que "apelo" que agrupa e ordena (1977: 19), um "enquadramento" resistem ou se [Ge-Stell] que "destina" uma revelação de ordenamento e que "retira outra possibilidade de revelação" (1977: 27), inclusive poiesis e arte, que, em "A origem da obra de arte", Heidegger UMA NOVA EPISTEME? caracterizou como a revelação da verdade, da "presença indisfarçada da coisa" (1971: 25). Esse bloqueio de outros tipos de revelação é um perigo: "o advir à presença da tecnologia É nessa conjuntura que eu gostaria de propor a noção da ameaça a revelação, ameaça-a com a possibilidade de que performatividade como modo, além da instrumentalidade, toda revelação será consumida no ordenamento e que pelo qual social é cada vez mais praticado. Estou introduzindo 48 49</p><p>esse tópico nesse momento para antecipar um desenvolvimento maior no Capítulo II. A conveniência da cultura sustenta a Caliban, de Roberto Fernández Retamar (1971), e How to performatividade como lógica fundamental da vida social de read Donald Duck, de Armand Mattelart e Ariel Dorfman hoje. Meu argumento é seguinte: primeiro, a globalização (1972), sejam talvez os textos clássicos dessa orientação, uma acelerou a transformação de tudo em recurso. Depois, a crítica ao imperialismo cultural já estava evidente no trabalho transformação específica da cultura em recurso representa de José Carlos Mariátegui dos anos 1920. surgimento de uma nova episteme, no sentido foucaultiano. O argumento do imperialismo cultural foi criticado por três Finalmente, essa transformação não deveria ser compreendida razões principais. Em primeiro lugar, ele desconsiderou a como uma manifestação de uma "mera política", contra a qual é subordinação das minorias internas que acontece dentro do simplesmente necessário invocar uma noção voluntarista e nacionalismo de países em desenvolvimento, quando essas politicamente conveniente de agência. Isso só aumentaria minorias questionam a agressão simbólica do poderio imperial. poder, próprio de Anteus, da conveniência desse recurso. Em segundo lugar, as migrações e movimentos diaspóricos gerados por processos globais complicaram a unidade que CULTURA E GLOBALIZAÇÃO se presumia existir na nação; pertencimento pode ser infra ou supranacional. Em terceiro lugar, e de forma conexa, a Foi comentado que sob as condições determinadas pela troca de idéias, informações, conhecimento e trabalho globalização, é a diferença e não a homogeneização que "multiplica número de permutações e, durante processo, difunde a lógica prevalecente da acumulação. A globalização, cria novos estilos de vida, novas culturas", muitas vezes um processo de expansão econômica que data da exploração baseados nos elementos de uma cultura amostrada em outra e conquista européia no século XVI e da modernização, produz (Rao, 1998: 42-43), como a música rap que a juventude negra encontro de diversas tradições como a de que "culturas não brasileira incorpora em seus próprios projetos anti-racistas podem mais ser examinadas como se fossem ilhas num (veja os Capítulos IV e V). Não é mais viável discutir que tais arquipélago" (UNESCO 1998: 16). O recentemente publicado culturas híbridas não sejam autênticas (García Canclini, 1995). World culture report 1998: culture, creativity and markets Esses argumentos sugerem que existe uma relação de [Relatório da cultura mundial 1998: cultura, criatividade e conveniência entre a globalização e a cultura no sentido de mercados] propõe delinear as coordenadas dessa complexi- que existe uma adequação ou pertinência entre A dade cultural maior e a forma com que ela poderia ser globalização comporta a disseminação (principalmente a aproveitada "criativamente" para um maior desenvolvimento comercial e a informática) dos processos simbólicos que e democracia. conduzem a economia e a política de maneira crescente. Os discursos sobre a globalização, todavia, têm precedentes Malcolm Waters baseia todo O seu estudo sobre a globalização menos otimistas. Não faz muito tempo que alcance global nesse primeiro sentido de "conveniência" [expediency, em econômico e interventivo dos Estados Unidos e da Europa Ocidental foram caracterizados como imperialismo cultural. Expoentes dessa visão se empenharam em desvendar a gana teorema que direciona argumento deste livro é este: inter- câmbios materiais intercâmbios políticos internacio- pelo poder implícita na reverência à alta arte ocidental, nalizam; e intercâmbios simbólicos globalizam. Segue daí que a ocultamento das diferenças de poder na celebração da huma- globalização da sociedade humana é contingente na medida nidade comum compartilhada por todos os povos conforme é em que acordos culturais forem eficazes no tocante aos acordos promovida por vários trabalhos antropológicos, e a lavagem econômicos e políticos. Podemos esperar que a economia e a cerebral de todo mundo por parte de Hollywood. Embora política se globalizem sempre e quando elas se culturalizarem (1995: 9). 50 51</p><p>DA CULTURA COMO RECURSO À POLÍTICA Se a representação é a relação entre palavras e coisas Como já foi comentado anteriormente. a cultura é conve- apropriadas para mundo ordenado do soberano, as novas niente enquanto recurso para se atingir um fim. A cultura técnicas de governo ou administração, baseadas no conheci- enquanto recurso é componente principal do que poderia mento disciplinar, chegam a ocupar aquele papel mediador definir-se como uma episteme pós-moderna. Em As palavras entre os processos primários e O sujeito A lei, que e as coisas, Foucault determina três modalidades diferentes e era o instrumento do soberano, fica em segundo lugar na descontínuas de relação entre pensamento e mundo, ou epis- internalização das normas através da disciplina. O governo, temes, que possibilitam a existência de vários campos de por sua vez, torna-se um meio regulamentador da vida e da conhecimento em cada época. Segundo Foucault, conheci- morte, daquilo que poderia ser calculado e gerenciado entre mento se organiza em cada era, por uma série de regras de ambas, estendendo-se ao clima, à doença, indústria, finanças, operação fundamentais. O renascimento ou a episteme do costumes e desastre. O biopoder ou a "existência biológica século XVI é baseada na semelhança, modo pelo qual a refletida na existência política", os meios com que social linguagem relaciona palavras e os traços que marcam as coisas foi produzido, "levaram vida e seus mecanismos ao reino dos (1973: 32). O conhecimento consistia em relacionar, através cálculos explícitos e fizeram do poder-conhecimento um agente da interpretação, as diferentes formas da linguagem a fim de de transformação da vida humana". Os corpos foram identifi- "restaurar a grande planície intacta das palavras e coisas" cados com a política, pois, administrá-los fazia parte do (1973: 40). A episteme clássica dos séculos XVII e XVIII governo do país. Para Foucault, "o 'umbral da consistia na representação e classificação de todas as entidades de uma sociedade foi transposto quando a vida das espécies de acordo com os princípios de ordem e medida (1973: 57). É apostou em suas próprias estratégias políticas" ("Governa- essa episteme que Borges caricatura em sua imagem da Enci- mentalidade": 97, História: 143). clopédia Chinesa, citada por Foucault como a fonte que Ainda que cético da maioria das formulações da pós- inspirou para pensar seu anverso, heteróclito (1973: modernidade particularmente aquelas que meramente Com aparecimento da episteme moderna, que Foucault reinterpretam a fragmentação modernista como algo novo ou situa na virada do século XVIII e princípios do século XIX, a que situam a nova episteme na crise da autoridade das grandes representação não é mais adequada para exame dos assuntos narrativas, como se essa crise nunca houvesse ocorrido antes da vida, do orgânico e da história. Essa inadequação, por eu gostaria de ampliar a periodização arqueológica de sua vez, implica uma profundidade ou uma "densidade Foucault e propor uma quarta episteme baseada na relação ensimesmada" na qual "o que importa não são mais as identidades, entre as palavras e mundo que resulta das epistemes ante- os personagens distintos, as tabelas permanentes com todas cedentes semelhança, representação e historicidade mas as suas possibilidades de caminhos e atalhos, mas as grandes que, no entanto, as recombina levando em consideração a forças ocultas desenvolvidas a partir de seu núcleo, origem, força constitutiva dos signos. Alguns caracterizaram essa força causalidade e história, primitivos e inacessíveis" (1973: 251). constitutiva como simulacro, ou seja, um efeito de realidade Essas forças ocultas são análogas, no relato de Foucault, ao baseada na "precessão do modelo". "Os fatos não têm mais que permanece encoberto na descrição que faz Heidegger da qualquer trajetória própria, eles surgem na interseção dos tecnologia moderna. O conhecimento moderno, portanto, modelos" (Baudrillard, 1983: 32). Eu prefiro termo perfor- consiste do desvelamento dos processos primários (a infra- matividade, que se refere aos processos pelos quais identi- estrutura, inconsciente) que espreitam nas profundezas, dades e entidades de realidade social são constituídas pelas debaixo das manifestações superficiais da ideologia, da repetidas aproximações dos modelos (ou seja, normativo), personalidade e do social. bem como por aqueles "resíduos" ("exclusões constitutivas") que são insuficientes. Como já explicitei anteriormente, à medida que a globalização se aproxima de culturas diferentes 52 53</p><p>para contato mútuo, ela aumenta questionamento das normas e, com isso, instiga a performatividade. permanecem. Lembro-me de duas metáforas para tornar mais palpável essa visão do indivíduo e do social. Uma é relato Como observou Judith Butler, poder constitui os de Bakhtin do romance como uma gama de registros discur- nios ou campos de inteligibilidade do objeto ao entender os sivos a "heteroglossia" que, no entanto, se sustentam efeitos materiais dessa constitutividade como "dados materiais como um gênero: ou determinações primárias" que parecem operar fora do discurso e do poder. Ela credita a Foucault a demonstração romance pode ser definido como uma diversidade de de que esses efeitos materiais são resultado de uma "inves- discursos sociais (às vezes até mesmo uma diversidade de tidura do discurso e do poder", mas acredita que ele não linguagens) e uma diversidade de vozes individuais, artistica- forneceu um meio de discernir que restringe domínio do mente organizadas. A estratificação interna de toda e qualquer que é materializável" (1993: 34-35). Os princípios de inteligi- língua nacional em dialetos sociais característicos do com- bilidade inscrevem não somente que é materializável, mas portamento grupal, jargões profissionais, linguagens genéricas, também zonas de ininteligibilidade que definem as já linguagens próprias de gerações ou de grupos etários, lingua- mencionadas "exclusões constitutivas". As teorias do incons- gens tendenciosas, linguagens das autoridades, dos vários círculos e de modas passageiras, linguagens que servem aos ciente (psicanalíticas ou políticas) tendem a condensar propósitos sociopolíticos específicos do dia, ou mesmo da hora múltiplos processos numa "lei" específica (o complexo de (cada dia tem seu próprio slogan, seu próprio vocabulário, sua Édipo ou "lei paterna", a "lei de classes" que está subjacente própria ênfase), em suma, essa estratificação interna presente à ideologia como falsa consciência) que coloca rédeas, por em toda língua em cada momento específico de sua existência assim dizer, aos vários desvios. Performatividade, como histórica é pré-requisito indispensável para romance elaborada por Butler, sugere que, ao invés de leis fundamentais, enquanto gênero (Bakhtin, 1984: 263). muitos princípios diferentes de inclusão e exclusão se disputam: que define romance para Bakhtin aproxima-se da "lei do gênero" de Derrida, que "é precisamente um princípio de Conferir caráter e conteúdo a uma lei que assegura os limites contaminação, uma lei da impureza, uma economia parasita" entre "dentro" e o "fora" da inteligibilidade simbólica significa apropriar-se da análise social e histórica necessária para (1980: 55). Bakhtin propõe que efeito do romance é uma combinar numa "única" lei efeito de uma convergência de "outra consciência que não se insere no quadro da consciência muitas, e frustrar a possibilidade mesma de uma futura rearticulação autoral, ele é revelado a partir da internalidade como algo dessa delimitação que é essencial ao projeto democrático que que está do lado de (...)" (1984: Para Derrida "(...) Zizek, Laclau e Mouffe promovem (1993: 206-207). traço que marca a associação inevitavelmente divide; a delimitação do conjunto chega a formar, pela invaginação, O que Butler invoca nesse trecho é a interface entre um bolso interno maior do que todo, e resultado dessa sujeito individual e a sociedade, com uma recomendação divisão e dessa abundância permanece tão singular quanto implícita para uma mudança do social democrático. O que ilimitado" (1980: 65). Uma consciência que está dentro embora conecta sujeito e sociedade são as forças performativas que esteja do lado de fora e uma invaginação singular, porém os operam, por um lado, para "arrear" ou fazer convergir as ilimitada, são modelos virtuais ou modelos de virtualidade muitas diferenças ou interpelações que constituem e singula- do que Laclau denomina social. Da mesma forma que os rizam sujeito, e, por outro lado, para rearticular um maior sujeitos são contraditórios mesmo que nivelados pelo nome, ordenamento do social. Tanto os indivíduos quanto as sociedades assim também é a "impossibilidade da sociedade", constituída são campos de força que constelam a multiplicidade. Para de uma multiplicidade de "diferenças instáveis" gerenciadas Butler, a tensão entre essas forças ou "leis" torna possível pela hegemonia. A rearticulação do ordenamento das aos mudar e não conformar-se diferenças caracteriza tanto sujeito performativo subversivo com as circunstâncias. No entanto, os contornos do social de Butler quanto a noção de Laclau de mudança social. 54 55</p><p>relações hegemônicas dependem de que significado de cada elemento num sistema social não esteja definitivamente fixo. Lash e Urry (1987) afirmam que, ao invés da ordem Se fosse fixo, seria impossível rearticulá-lo de uma forma crescente, como Marx e Weber previram, capitalismo diferente, e assim, a rearticulação somente poderia ser pensada moveu-se na direção da desconcentração do capital dentro sob categorias como falsa consciência" (Laclau, 1988: 254). dos Estados-nação; houve uma separação crescente dos bancos, Esse sistema flexível de (re)articulações que mantém a indústrias e Estado; uma redistribuição das relações produtivas aparência de uma entidade e ainda assim é uma mudança e dos padrões residenciais categorizados pelas classes. De forma constante é uma reminiscência de sistemas estocásticos semelhante, poderíamos acrescentar, existe um processo revistos por Bateson em Steps to an ecology of mind [Passos de desgovernamentalização evidente na retirada do Estado para uma ecologia da mente] (1972). Para gerar algo novo, é do bem-estar social e sua substituição por organizações hete- preciso uma fonte de aleatoriedades. Alguns sistemas (por rogêneas e mais microadministradas da sociedade civil, e exemplo, a evolução) têm um integrante no processo seletivo por seus homólogos, as organizações da sociedade incivil que reforça certas mudanças aleatórias de forma a se tornarem (máfias, guerrilhas, milícias, grupos racistas etc.). O movi- parte do sistema. Existe um "governante", por assim dizer, mento de antiglobalização, iniciado em Seattle no ano de 1999, que impede a dispersão das peças do caleidoscópio, embora pode ser a imagem contrária do espelho da "desordem" arrai- a disposição dos cristais se altere a cada giro. Similarmente, gada no próprio capitalismo, mesmo que não tenha se eviden- as sociedades mantêm sua forma de acordo com a lei do ciado ainda que ela alimente sistema. gênero, a despeito das rearticulações. Nesse modelo, a Dito isso, os capítulos que se seguem demonstram que mudança social é parecida com um giro de Lash e Urry estão equivocados ao presumir que, "num tempo Tal processo pode ser mais característico das sociedades cada vez mais acelerado de renovação, os objetos como os modernas do que das pós-modernas. artefatos culturais tornam-se dispensáveis e desprovidos de Uma premissa básica da modernidade é que a tradição significado" (1987: 10). Certamente, a compra e venda de (salvaguardada na esfera doméstica) é desgastada pelas constantes experiências que Rifkin (2000) coloca no centro da ordem mudanças da industrialização, novas divisões de trabalho e capitalista viabilizam a utilização do trabalho e desejo dos seus efeitos concomitantes, como a migração, consumismo produtores e consumidores (por exemplo, os turistas e os capitalista etc. Entretanto, as últimas teorias do capitalismo indígenas encarregados de representar a identidade), bem desorganizado consideram a possibilidade de que próprio como suas políticas que se fundem facilmente com as merca- "sistema" ganha com a erosão daquelas tradições, isto é, que dorias (veja Capítulo VI). Mas também é verdade que possa prescindir da governamentalidade. O capitalismo mesmo capitalismo "desorganizado" que cria um grande desorganizado prospera com essa erosão, assistido pelas número de redes para fins de acúmulo também possibilita a novas tecnologias que permitem, por exemplo, a redução do tessitura de redes de todos os tipos de associações afins tempo nos mercados financeiros, a internacionalização de trabalhando em solidariedade e cooperação. serviços avançados ao consumidor, a disseminação do risco, Eu devo apontar que, embora eu compartilhe ceticismo maior mobilidade de pessoas, mercadorias, sons e imagens, de Hardt e Negri no tocante às organizações não-governa- a proliferação de estilos, e aquilo que caracterizei anterior- mentais dedicadas ao bem-estar e à defesa de direitos, quando mente como uma nova divisão internacional do trabalho os Estados abandonam a transação keynesiana, sinto que é cultural. Essas mudanças e as tentativas de recuperar a tradição por demasiado absolutista relegá-las todas à categoria das alimentam sistema. Assim sendo, fracasso de se repetir a "ordens mendicantes do império" (2000: 36). Existem duas conduta normativa como característica constitutiva da performa- razões para a minha discrepância, evidente no Capítulo V, tividade subversiva pode, na verdade, aprimorar sistema e sobre as iniciativas de ação de cidadania no Brasil. Em não ameaçar. O sistema se alimenta da "desordem". primeiro lugar, a visão de Hardt e Negri pressupõe que todas 56 57</p><p>as organizações dessa categoria "lutam para identificar as necessidades universais" e que, através de sua ação elas desses territórios) é domínio nada democrático do comércio "definem inimigo como privação (...) e reconhecem internacional, legalizada pelo Banco Mundial, pelo Fundo inimigo como pecado" (2000: 36). Muitas dessas Monetário Internacional, pela Organização Mundial do Comércio que analiso adiante e com algumas das quais colaborei, e seus predecessores. Esse uso injusto da lei não só determina realmente "defendem os direitos humanos", mas não neces- as condições de investimento, da produção e do comércio sariamente fazem de uma maneira universal; e, se fazem, para os assim denominados países em desenvolvimento, mas elas podem fazê-lo estrategicamente, para angariar dinheiro ainda provocou um deslocamento importante de valor do trabalho e fugir, por assim dizer. Em segundo lugar, muitas ONGs e os produtivo para trabalho mental, que favorece os centros de "inovação", situados, em sua maioria, no hemisfério norte agentes que nelas trabalham são os únicos que trabalham A emergência de uma nova (talvez melhor caracterizada como para estabelecer a "cooperação, a existência coletiva, e as uma intensificação do mesmo velho modelo geopoliticamente redes de comunicação que se formam e reformam dentro da determinado) divisão internacional de trabalho está centrada multidão" a "cidadania global" que Hardt e nas formas mental, imaterial, afetiva e cultural do trabalho, Negri alegam ser consistente com "poder da multidão de que, pelo menos até momento, estão longe de ser a condição reapropriar-se do controle do espaço e assim desenhar a nova de um "comunismo espontâneo e elemental" (2000: cartografia" 400). Será que eles pensam que não existem Esse deslocamento é reforçado pelas leis de propriedade conexões entre as ONGs, as academias, os órgãos da mídia, intelectual que são criminosas, não só porque elas, por exemplo, grupos políticos e de solidariedade, e movimentos como determinam que os soropositivos nos assim chamados países dos Zapatistas ou Movimento dos Sem-terra, ou os assim em desenvolvimento não podem pagar a medicação devido chamados protestos antiglobalização? Há uma enorme falha aos custos exorbitantes das patentes, mas, mais amplamente, no trabalho teórico que pressupõe que as categorias que são porque elas enfraquecem a possibilidade de estabelecer um analisadas não se entrecruzam, não se contradizem nem salário vital quando a produção assume modelo da maqui- coincidem umas com as outras, como afirmam Hardt e Negri ladora, que a organização trabalhista está adotando com para comprazer com suas visões "incomensuradas, parasitas renovado vigor. A "flexibilidade" no "capitalismo flexível" e miscigenadas" do poder constituinte justifica alargamento dos lucros no hemisfério norte e O entender de Hardt e Negri de política é tão absolutista encolhimento dos salários em todos os lugares. Vários capítulos como seu desprezo pelas ONGs. Eles alegam que "a ficção deste livro examinam a exploração do trabalho "imaterial" transcendental da política não se sustenta mais e não tem (por exemplo, a "vida" que populações subalternas dão às utilidade argumentativa, pois todos existimos inteiramente classes profissionais-gerenciais e aos turistas nas cidades globais dentro do universo do social e do político" (2000: Esse de hoje) e a transformação de artistas e intelectuais em admi- ponto de vista provém de sua crença de que a globalização e nistradores daquela expropriação disfarçada de trabalho a sociedade concomitante de controle tornaram ineficaz qualquer "baseado na comunidade". No Capítulo IX examino as con- ação política originada numa base nacional. No tradições que trabalho em rede implica para projetos de presumivelmente, ativistas baseados em estruturas nacionais arte baseados na comunidade que vem fomentando valor também fazem parte dessa "multidão" que convergiu para dos bens imóveis, que incentiva investimentos, e assim por diante. Seattle, Davos, Praga, Washington, Porto Alegre e Gênova. Deslegitimar a base do regime de acúmulo próprio do capitalismo O fato de a cultura como recurso situar-se no âmago global constitui, sem dúvida, um projeto político significativo. desses processos não significa que assalto do capital aos Uma das maiores razões para a exploração de trabalhadores trabalhadores e a outros que burlam seu "império da lei" seja fora dos Estados Unidos, Europa e Japão (e também dentro meramente virtual. É por essa razão que não é provável que a política cultural, pelo menos como ela é vista dentro da 58 UNIPAMPA 59</p><p>tendência dominante dos estudos culturais nos Estados Unidos, faça uma diferença. Na verdade, discuto no próximo capítulo comunidade (Mazer, 2001). Ann Patterson (citada por que a "esquerda cultural" é instruída a desempenhar uma Kollmann [2001]), embaixadora americana na Colômbia, política cultural dessa natureza, como nas assim chamadas similarmente alegou que as "Forças Armadas Revolucionárias guerras culturais dos anos 1980 e 1990. A proteção dos recursos da Colômbia (FARC) e Bin Laden compartilham a mesma culturais que os conglomerados de entretenimento global hipocrisia moral e a mesma falta de O Taliban afegão expropriaram envolve não somente a lei, mas também uso não representa Islã e as guerrilhas colombianas não procu- de força policial e militar, por exemplo, na perseguição da ram a justiça social." O resultado final é a intensificação da pirataria e daquilo que a indústria do entretenimento chama vigilância e da militarização na América Latina. A retórica e de "tráfico da música", que, estima-se, excede volume do as alegações que corporações transnacionais geraram acerca narcotráfico (Yúdice, 1999b: 149). Da perspectiva da maioria da pirataria serviram para naturalizar e justificar uso de das formas de política cultural, pelo menos da maneira como forças policiais nacionais em nome das indústrias vinculadas aos direitos de propriedade (Yúdice, 1999b: 147). são concebidas em algumas versões dos estudos culturais americanos, a subversão dos pressupostos implícitos na mídia Após 11 de setembro, argumentos dessa natureza dão dominante como um meio de apropriá-los é considerada uma maior legitimidade à proteção corporativa ao comércio rela- opção viável. Enquanto essa opção pode certamente ser con- cionado aos direitos de propriedade intelectual (TRIPS, em siderada como uma forma de resistência, dificilmente ela é inglês), uma guinada dos acontecimentos que desferiu um eficaz frente às instituições que produzem e distribuem "con- duro golpe nas estratégias do movimento de antiglobalização teúdo". De outra perspectiva, também subversiva, podemos para quebrar controle mantido pelo Banco Mundial, pelo imaginar "tráfico da música" como um assalto mais frontal FMI e pela OMC, e outros, que definem e controlam valor. contra O capitalismo cultural global, e certamente é. Citando novamente Mazer (2001), No entanto, uma estratégia dessa natureza impulsiona a a convergência da nossa segurança econômica e da nossa indústria a melhorar seu domínio jurídico e militar sobre as segurança nacional ficou estampada no dia 11 de setembro. pessoas e espaços em que a atividade é realizada. Isso já se As assombrosas perdas econômicas das indústrias americanas evidencia no fato de a Ciudad del Este estar na mira do dos direitos autorais e das patentes alarmantes em si são agora governo dos Estados Unidos. No local, zona de fronteira tripla agravadas pelo tráfico de produtos relativos à propriedade entre Paraguai, Argentina e Brasil, alega-se, há pirataria, tráfico intelectual, destinado a financiar terrorismo e outras investidas de crime organizado. de drogas e terrorismo relacionados uns com os outros, fazendo a conexão de comerciantes locais com guerrilhas e traficantes No entanto, é necessário opor-se às desigualdades sociais de drogas colombianos e com redes terroristas do Oriente geradas pela vantagem de que G-7 se apropriou por meio Médio. Na maioria das vezes, não há provas concretas, mas dessas custódias de capital corporativo para fomentar a justiça vagas alegações, como no caso de Ali Khalil Mehri, um global e reduzir a indignação dos países que levam a pior paraguaio naturalizado, nascido no Líbano, que "estava sendo parte. Enquanto a revogação de uma ação judicial de 39 corpo- processado por vender milhões de dólares em software rações farmacêuticas contra a África do Sul (que, por lei, per- falsificado, cujo lucro foi alegadamente canalizado para mite licenciamentos compulsórios de medicamentos sem grupo islâmico militante Hezbollah, no Líbano". Em conse- consentimento do titular da patente e também as importações dos "rumores das ligações entre grupos dentro da paralelas por um preço mais baixo do que os produzidos pela comunidade árabe da cidade composta de 12 mil membros e subsidiária local do fabricante) e a decisão do governo os ataques de 11 de setembro", uma rede de vigilância trans- brasileiro de violar uma patente de Hoffman la Roche para nacional sob a liderança americana vinha espionando aquela produzir um genérico de um inibidor de enzima proteolítica 60 61</p><p>não significam fim dos TRIPS, embora "forcem uma rachadura 'MERA POLÍTICA" na represa com um pé-de- cabra" ("Health Gap", 2001). Essa afirmação, feita por um membro da Coalisão Health Gap do A palavra "expediency" nesse sentido, refere-se, conforme ACT-UP (uma organização que se opõe aos maus-tratos aos Oxford English Dictionary (1971) a "meramente político portadores da Aids), também demonstra que a ONG-ização (especialmente, com referência a interesses próprios) que da justiça social, essa última executando uma contrapolítica descuida do que é justo ou certo". Eu gostaria de modificar governamentalizada de outra maneira (uma crítica que Hardt essa acepção de conveniência, pois ela denota uma noção de e Negri fazem comigo em Imperio, assim como eu neste certo existente fora do jogo de interesses. Uma interpretação livro), todavia promove redes de solidariedade que incluem performativa da conveniência da cultura focaliza, pelo ativistas (neste caso, do Brasil, África do Sul e Estados Unidos), contrário, as estratégias implícitas em qualquer invocação de cultura, em qualquer invenção de tradição no tocante a ONGs, fundações e outras instituições do setor terciário, fun- um objetivo ou propósito. É por haver um propósito que se cionários do governo em países em desenvolvimento, e os torna possível falar de cultura como recurso. Por exemplo, dissidentes que militam no assim chamado movimento contra debate sobre alegado exagero de Rigoberta Menchú (1984), a globalização. Na verdade, a rede formou-se para se opor ao e, em alguns casos, invencionice, dos eventos narrados em avanço na direção sul do Acordo de Livre-Comércio para as seu testimonio a respeito do papel produtivo desempenhado Américas, pois ele inclui artigos que prejudicariam a lei bra- pela cultura. Aqueles que, como David Stoll (1999) argumentam sileira que estipula a autorização obrigatória de drogas que ela distorceu a verdade para seus próprios fins, para seu genéricas ("New trade agreement", 2001). interesse próprio, vêem seu testimonio como um recurso no Países desenvolvidos consideraram as conversações sentido negativo. Stoll levanta a polêmica alegando que Menchú comerciais em Doha, Quatar, em novembro de 2001, como não exemplifica os valores de sua cultura. Aqueles que a uma vitória para os países em desenvolvimento numa série defendem, como John Beverley (1999), argumentam que ela de questões, entre elas, a isenção das regras de patentes em alterou os fatos dos acontecimentos para tornar sua narrativa favor da saúde pública, uma "concessão" feita devido à mais atraente e, assim, mais persuasiva no atrair das atenções necessidade de "se angariar a adesão dos países pobres com para a situação difícil de seu povo. Em ambos os casos, vistas a um acordo, que explicaria fato de os Estados entretanto, existe um cálculo de interesses em jogo; e, em Unidos estarem dispostos a fazer concessões tão rapidamente ambos os casos, a cultura está sendo invocada como um sobre a questão das patentes" (Denny, 2001). Mas, como recurso para determinar valor de uma ação, neste caso, um explicam Walden Bello e Anuradha Mittal (2001), os países ato discursivo, um testimonio. em desenvolvimento não perderam terreno apenas nessa Alguns leitores poderiam supor que meu breve relato questão, mas em várias outras. Uma vez que não existe nada do caso de Rigoberta Menchú impõe uma visão negativa da no acordo TRIPS que impeça os países em desenvolvimento instrumentalização da cultura, como se a verdade pairasse de ignorar patentes quando a saúde pública está em jogo, a em algum lugar entre as várias interpretações, ataques e contra- redação do próprio acordo em nada foi mudada, deixando, ataques. Na minha opinião, é impossível não lançar mão da ao invés disso, a possibilidade de futuras recusas ao controle cultura como recurso. Conseqüentemente, a análise cultural das patentes. Além disso, a União Européia conseguiu manter necessariamente pressupõe uma tomada de posição, mesmo subsídios à agricultura, e os Estados Unidos conseguiram nos casos em que escritor procura objetividade ou trans- manter quotas na indústria têxtil e do vestuário. cendência. Mas essa posição não precisa ser normativa, O vocábulo expediency traduzido para português como "conveniência", embora seja intercambiável com a palavra "recurso" 62 UNIPAMPA 63 Biblioteca CCS/SR</p><p>baseada no que é certo ou errado. Foucault rejeitou esse tipo de moralismo na última fase de sua obra, postulando, ao invés disso, uma base ética fundada na prática. A ética, Foucault argumenta, não pressupunha uma fundamentação teológica, normalmente atribuída ao utilitarismo. Sua noção de cuidado de si mesmo (souci de soi) enfatizava papel ativo do sujeito em seu próprio processo de Existe uma compatibilidade entre essa noção do cuidado de si próprio e a performatividade, pois a ética de Foucault sugere uma prática reflexiva do autogerenciamento frente aos modelos (ou aquilo que Bakhtin chamou de "vozes" e "pers- pectivas") impostos por determinada sociedade ou formação cultural. A noção de autor de Bakhtin pode servir como protótipo da ética performativa de Foucault, uma vez que o autor é uma orquestração de outras "vozes", uma apropriação que consiste em "povoar essas 'vozes' com suas próprias intenções, com seu próprio sotaque" Quem pratica o cuidado de si mesmo precisa também forjar sua liberdade trabalhando os "modelos que o autor encontra em sua cultura e que lhe são propostos, sugeridos, impostos por sua cultura, sua sociedade e seu grupo social" (Foucault, 1997a: 291). O próximo capítulo, complemento deste, elabora a noção de força performativa, entendida como os condicionamentos, as e pressões exercidas pelo campo multidimen- sionado do social e pelas relações institucionais. Se neste capítulo abordei, de uma forma mais generalizada, que seria a noção de cultura como recurso, no próximo, argumento que as lutas específicas em torno desse recurso tomam formas diferentes dependendo da sociedade - ou campo de força - na qual operam. 64</p>