Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

<p>Arquitetura e a cidade na Antiguidade</p><p>Oriental</p><p>As origens da arquitetura, suas funções e papéis simbólicos no mundo antigo oriental e na África antiga.</p><p>Prof. André da Silva Bueno</p><p>1. Itens iniciais</p><p>Propósito</p><p>O surgimento e o desenvolvimento das primeiras noções arquitetônicas, seus papéis simbólicos e funcionais,</p><p>e como elas acompanharam o desenvolvimento econômico e cultural das civilizações humanas.</p><p>Objetivos</p><p>Compreender como surgiu e se desenvolveu a arquitetura.</p><p>Identificar as principais questões que permeiam a formação da arquitetura e suas expressões da África</p><p>antiga.</p><p>Comparar o desenvolvimento da arquitetura na Índia e na China antigas.</p><p>Introdução</p><p>Ao estudar o passado, enfrentamos o problema da alteridade com os nossos objetos, especialmente em</p><p>relação à Antiguidade. Isto é, muitas vezes, achamos que os antigos eram incapazes de ter boas ideias – e</p><p>escorregamos, por exemplo, para hipóteses como “influência alienígena” ou “intervenção divina”. O simples</p><p>fato de sabermos pouco sobre o passado não significa que os nossos ancestrais eram incapazes. Ao</p><p>contrário: grande parte das boas ideias e ciências que conhecemos hoje tiveram sua gênese nesses tempos</p><p>antigos, em que as pessoas tinham muito menos recursos para enfrentar as adversidades. Assim, eles tinham</p><p>que buscar soluções criativas, que foram se transformando no conhecimento de que dispomos hoje.</p><p>Ao falarmos de arquitetura ou engenharia, é fácil constatar que a maior parte das pessoas, ainda hoje, não</p><p>entende como se constrói um prédio ou uma ponte. Então, ao olharmos para o passado, precisamos ter</p><p>cuidado; não é porque sabemos pouco sobre os antigos que podemos achar ou julgar que eles não dispunham</p><p>de conhecimentos surpreendentes.</p><p>Havia especialistas em arquitetura em todas as civilizações antigas, formados sob a orientação de mestres,</p><p>antes do surgimento das grandes escolas e universidades como conhecemos atualmente. Devemos ter</p><p>cuidado também com os anacronismos. Se perguntarmos “como era um shopping na antiguidade?”, não</p><p>vamos achar um edifício específico que sirva como centro de compras – mas podemos encontrar ruas inteiras</p><p>que serviam de mercado, como os famosos “bazares”. Por outro lado, não podemos achar que a arquitetura</p><p>antiga é feita apenas de pirâmides, muralhas ou templos magníficos.</p><p>•</p><p>•</p><p>•</p><p>Sítio arqueológico de Göbekli Tepe, na Turquia, onde se</p><p>encontram as ruínas mais antigas do mundo, com 11 mil</p><p>anos de idade.</p><p>1. Arquitetura: uma invenção social</p><p>Arquitetura e demarcação de espaço</p><p>Como surgiu a arquitetura?</p><p>Definir arquitetura não parece ser uma tarefa fácil. Essa ciência abarca um amplo conjunto de técnicas e</p><p>visões, englobando a arte, a engenharia, história, religiosidade e política, entre outras. Em linhas gerais, a</p><p>arquitetura é comumente entendida como uma ação de intervenção no espaço físico, visando reorganizá-lo</p><p>materialmente de acordo com determinadas intenções funcionais.</p><p>Mas quando isso começou? Como é natural, há controvérsias.</p><p>Glancey (2001) defende que a arquitetura teve</p><p>início com a revolução agrícola, diretamente</p><p>ligada à formação das cidades e ao surgimento</p><p>das edificações. O próprio termo “pré-história”</p><p>estaria ligado à ideia de um período sem</p><p>história pela ausência da escrita e de vestígios</p><p>materiais, ou seja, a história só começaria com</p><p>a presença das cidades e de uma cultura bem</p><p>estabelecida.</p><p>Obviamente, essa ideia já está superada, pois</p><p>sabemos que muitas sociedades se</p><p>desenvolveram a partir do nomadismo e sem</p><p>um sistema de escrita definido; mas o termo</p><p>“pegou” e ainda é usado como sinônimo das</p><p>fases históricas humanas entre 500.000 e</p><p>10.000 AEC.</p><p>Por isso, Fazio (2011) e Ching (2019) propõem que as primeiras inciativas arquitetônicas tiveram origem em</p><p>períodos anteriores ao Neolítico, quando os seres humanos começaram a empreender transformações no</p><p>ambiente em que viviam, e esses registros devem ser levados em conta como expressões materiais das</p><p>culturas humanas.</p><p>As primeiras ideias arquitetônicas surgiram justamente com a construção da cultura, acompanhando</p><p>os seres humanos em seus primórdios. Estamos recuando bastante no tempo, e admitindo que a</p><p>intenção de interferir no espaço e no ambiente surgiu precocemente como uma das necessidades</p><p>dos primeiros grupos.</p><p>Sabemos que um passo decisivo para a humanidade foi o surgimento no cérebro do núcleo no córtex frontal,</p><p>área responsável pelo raciocínio, individuação e imaginação (WOOD; GRAFMAN, 2003). Ou seja: mais ou</p><p>menos em torno de um milhão de anos atrás, descobrimos que pensamos e começamos a contemplar nossas</p><p>próprias ideias, a raciocinar e a criar estratégias e símbolos para explicar a natureza.</p><p>Sítio Arqueológico de Harappa, no Paquistão (cerca de</p><p>2550 a.C.).</p><p>Esse momento foi crucial para que os humanos</p><p>começassem a fazer mais do que apenas sobreviver; eles</p><p>começaram a planejar, a imaginar e a conceber sua</p><p>percepção no espaço, o que permitiu que eles</p><p>diversificassem a alimentação com fontes variadas,</p><p>organizassem caçadas, criassem instrumentos de trabalho</p><p>e aprendessem os ciclos da natureza de forma</p><p>racionalizada.</p><p>Começaram também a interpretar as forças da natureza</p><p>como espíritos inteligentes, originando as primeiras formas</p><p>religiosas. Depois de milhares de anos sendo um dos</p><p>animais mais frágeis da natureza, os humanos viraram o</p><p>jogo e passaram a interferir diretamente na ecologia.</p><p>Sítio arqueológico de Skara Brae, com habitações do período neolítico, na Escócia</p><p>(cerca de 3000 a.C.).</p><p>Os primeiros grupos humanos formavam bandos, que perambulavam nos mais diversos ambientes em busca</p><p>de recursos para sobreviver. Na época, o nomadismo não era uma opção, era simplesmente o meio mais</p><p>eficaz de garantir a continuidade da espécie. Dois elementos fundamentais surgem a partir disso: a</p><p>construção de símbolos demarcatórios e a necessidade de abrigo, propiciando as primeiras manifestações</p><p>arquitetônicas da humanidade (CHILDE, 1975; GOWLETT, 2007).</p><p>Marcar o espaço: os megálitos</p><p>Alguns grupos foram estabelecendo rotas mais ou menos regulares, circulando por uma série de territórios</p><p>diferentes, ao longo das estações do ano. Isso foi resultado direto dos conhecimentos das estações do ano e</p><p>dos movimentos da natureza. É provável que, no intuito de demarcar esses circuitos, esses grupos</p><p>começaram a deixar vestígios espalhados pelos territórios, identificando sua presença e servindo de marcos</p><p>de orientação.</p><p>Círculo de pedra Merry Maidens, com 19 megálitos com</p><p>cerca de 2,4m de altura, localizado na Inglaterra (entre</p><p>o IV e III milênio a.C.).</p><p>Menir dos Almendres, também no Distrito de Évora, em</p><p>Portugal.</p><p>Cromeleque dos Almendres, círculo de pedras pré-histórico com 95 monólitos, no</p><p>Distrito de Évora, em Portugal (cerca de 3000 a.C.).</p><p>Para que essas marcações fossem mais efetivas, foram usados materiais mais duráveis, principalmente</p><p>pedras. Depósitos de lixo de algumas dessas comunidades, acumulados por séculos, formaram os sambaquis,</p><p>que, de certa forma, também indicavam marcações no espaço. No entanto, os monumentos em pedra foram</p><p>um sucesso duradouro.</p><p>Podemos dizer que os megálitos foram uma das primeiras manifestações efetivas das ideias</p><p>arquitetônicas entre os humanos. O trabalho de interpretar essas construções envolve ainda muita</p><p>especulação e poucas certezas. De efetivo, podemos notar que os megálitos tiveram início com</p><p>simples pedras empilhadas e, depois, com o uso de rochas maiores, muitas vezes lixadas e polidas</p><p>com ajuda de pequenas pedras e areia.</p><p>O estudo do ambiente que circunda alguns desses monumentos nos dá pistas de como foram erigidos, com a</p><p>ajuda de rústicas estruturas de madeira e cordames feitos de fibras de pele animal.</p><p>Em lugares onde a madeira era mais escassa,</p><p>era possível levantar o megálito pelo encaixe</p><p>gradual de várias pequenas pedras, até que a</p><p>rocha maior se inclinasse e se fincasse em sua</p><p>fundação; outro meio era cavar um fosso sob a</p><p>base do menir e, depois, deixá-lo escorregar</p><p>para dentro do buraco, preenchendo os vazios</p><p>com terra e pedras para fixá-lo.</p><p>Por fim, pedras maiores,</p><p>arquitetura mundial. Porto Alegre: AMGH, 2011.</p><p>GLANCEY, J. A história da Arquitetura. São Paulo: Loyola, 2001.</p><p>GOWLETT, J. Arqueologia das primeiras culturas. São Paulo: Folio, 2007.</p><p>HARARI, Y. Sapiens: uma breve história da humanidade. Porto Alegre, L&PM, 2018.</p><p>KENOYER, J. Ancient Cities of the Indus Valley Civilization. Oxford: Oxford University Press, 1998.</p><p>KENYON, K. M. Digging up Jericho: the results of the Jericho excavations, 1952-1956. Nova York: Praeger,</p><p>1957.</p><p>MAZOYER, M.; ROUDART, L. História das Agriculturas. São Paulo: UNESP, 2010.</p><p>SPENCER, A. J. Brick Architecture in Ancient Egypt. Londres: Aris e Phillips, 1979.</p><p>WOOD, J.; GRAFMAN, J. ‘Human prefrontal cortex: processing and representational perspectives’. Nature</p><p>Neuroscience, 2003.</p><p>Arquitetura e a cidade na Antiguidade Oriental</p><p>1. Itens iniciais</p><p>Propósito</p><p>Objetivos</p><p>Introdução</p><p>1. Arquitetura: uma invenção social</p><p>Arquitetura e demarcação de espaço</p><p>Como surgiu a arquitetura?</p><p>Marcar o espaço: os megálitos</p><p>O abrigo</p><p>A segunda revolução arquitetônica: o abrigo</p><p>Inventando novas formas de abrigo</p><p>A revolução agrícola e o surgimento da “casa”</p><p>O impacto do advento da agricultura</p><p>Atenção</p><p>Era de revoluções</p><p>A invenção revolucionária do tijolo</p><p>Entre pirâmides e ET: desmistificando a arquitetura antiga</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Vem que eu te explico!</p><p>O abrigo</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Revolução agrícola</p><p>Conteúdo interativo</p><p>A invenção do Tijolo</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Verificando o Aprendizado</p><p>Questão 2</p><p>2. A arquitetura egípcia: poder e religião</p><p>O nascimento das cidades</p><p>Arquitetura Urbana</p><p>Atenção</p><p>Monumentos públicos</p><p>Templo e palácio</p><p>Arquitetura egípcia e seus materiais</p><p>Contextualizando a arquitetura egípcia</p><p>Materiais e casas populares</p><p>Curiosidade</p><p>Espaços de poder</p><p>Templos, palácios e obeliscos</p><p>Espaços funerários</p><p>Mastabas, hipogeus e pirâmides</p><p>Mastabas</p><p>Hipogeus</p><p>Pirâmide de Sekhemkhet</p><p>Pirâmide de Meidum</p><p>Pirâmide Curvada</p><p>O nascimento das cidades</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Vem que eu te explico!</p><p>O nascimento das cidades</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Templo e palácio</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Verificando o Aprendizado</p><p>3. Rumo ao oriente: a experiência arquitetônica da Índia e da China antigas</p><p>História da Índia antiga pela perspectiva arquitetônica</p><p>Contextualizado a Índia antiga</p><p>Cidade Indo</p><p>Cidades planejadas</p><p>História da China antiga pela perspectiva arquitetônica</p><p>Contextualizando a China antiga</p><p>Revoluções e materiais</p><p>Traços Neolíticos</p><p>Dinastia Shang</p><p>A arquitetura Shang</p><p>Registro de detalhamento estrutural das construções Shang - Parte 1</p><p>Registro de detalhamento estrutural das construções Shang - Parte 2</p><p>Registro de detalhamento estrutural das construções Shang - Parte 3</p><p>Registro de detalhamento estrutural das construções Shang - Parte 4</p><p>Exemplificando a arquitetura antiga oriental</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Vem que eu te explico!</p><p>Cidade na Índia</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Arquitetura Shang</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Verificando o Aprendizado</p><p>4. Conclusão</p><p>Considerações finais</p><p>Podcast</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Explore +</p><p>Referências</p><p>em uma posição</p><p>privilegiada, podiam ser esculpidas com esse</p><p>propósito, sem a necessidade de movimentá-</p><p>las.</p><p>Quanto maior o megálito, mais forte parecia ser</p><p>o grupo que o havia produzido. Era uma</p><p>mensagem clara de que o território tinha dono e era protegido. Contudo, essas rochas parecem ter cumprido</p><p>igualmente funções rituais. É provável que a ereção de um megálito fosse dedicada a uma ou mais divindades</p><p>que protegiam o grupo, e marcavam um espaço sagrado.</p><p>Há megálitos mais simples, que constituem marcos</p><p>territoriais e religiosos, como é o caso dos menires (a</p><p>origem dos famosos obeliscos egípcios), usualmente</p><p>formados por uma pedra maciça (mas é possível encontrar</p><p>arranjos de pedra provavelmente com a mesma função).</p><p>Outro tipo de construção, surgida nesse mesmo período,</p><p>são os dólmens, arranjo de três pedras com duas de</p><p>suporte e um servindo de teto.</p><p>Gruta da Lapinha, em Lagoa Santa (MG), na mesma</p><p>região onde foi encontrado o crânio de Luzia, o fóssil</p><p>humano mais antigo encontrado na América do Sul.</p><p>O abrigo</p><p>A segunda revolução arquitetônica: o abrigo</p><p>Conjunto de casas neolíticas de Knap de Howar, na Escócia (ocupadas entre 3700 e</p><p>2800 a.C.).</p><p>Chega a ser fantástico pensar que muitos desses grupos humanos se preocuparam primeiro em marcar seu</p><p>território, e depois se preocuparam em onde se abrigar. Entretanto, foi a expansão – e o consequente choque</p><p>– dos grupos humanos que os levaram a migrar cada vez mais longe, em busca de novas rotas e territórios</p><p>que pudessem garantir sua sobrevivência.</p><p>Esses novos ambientes continham desafios significativos, como variações de temperatura e</p><p>escassez de recursos, que colocavam em risco a sua sobrevivência. Cada lugar novo tinha suas</p><p>particularidades, por isso, a percepção da necessidade de abrigo variava para cada comunidade.</p><p>Lembremos, ainda, que estamos no período “pré-histórico”, e a maioria dos grupos prosseguia</p><p>nômade, aprendendo lentamente a se adaptar.</p><p>Seguindo a lógica da praticidade, essas comunidades viram nas cavernas um abrigo natural, rápido e efetivo</p><p>para suas necessidades. As exigências não eram grandes: marquises de pedra, pequenos buracos,</p><p>depressões entre rochas e as cavernas em si começaram a receber famílias, grupos inteiros e mesmo</p><p>viajantes solitários. Em geral, eram abrigos temporários, nos quais se passava determinado período do ano,</p><p>partindo em seguida.</p><p>Foram nessas grutas onde as primeiras</p><p>sociedades gravaram suas experiências nas</p><p>paredes, por meio de pinturas, como</p><p>encontramos em Lascaux, Altamira e na Serra</p><p>da Capivara. Vestígios de alimentos, fogueiras e</p><p>utensílios foram encontrados nesses</p><p>ambientes, mostrando que esse foi um espaço</p><p>vital na estruturação dos circuitos nômades.</p><p>Por isso, dizer que essa época era dos “homens</p><p>das cavernas” não é exagero, é apenas</p><p>impreciso: sociedades das cavernas seria mais</p><p>adequado.</p><p>O modelo foi tão bem-sucedido que, mesmo</p><p>depois da sedentarização causada pela</p><p>revolução agrícola, alguns grupos continuaram a morar em estruturas do gênero. Na China, por exemplo, vilas</p><p>inteiras, formadas de cavernas artificiais, o que permitia as pessoas morarem perto dos terrenos cultivados.</p><p>Habitações de povos bosquímanos, tribos de</p><p>caçadores-coletores que vivem ainda hoje em vários</p><p>territórios ao sul do continente africano.</p><p>A Yaodong ou "casa de caverna" representa um tipo de arquitetura característica do</p><p>norte da China, sobretudo na província chinesa de Shanxi.</p><p>Havia alguns inconvenientes nas cavernas e depressões naturais: elas não estavam disponíveis em todos os</p><p>lugares; era perigoso fazer intervenções mais radicais nesses espaços; com locais fixos e marcados, alguns</p><p>grupos podiam topar uns com os outros, não raro causado choques violentos na disputa pelo espaço; por fim,</p><p>elas se incluíam como pontos nas rotas nômades, e seu uso não era flexível.</p><p>Inventando novas formas de abrigo</p><p>Tais necessidades se impuseram, mais uma vez, sobre o Homo sapiens, que teve que aprender a encontrar</p><p>novas soluções. E a genialidade humana concebeu, então, a inovadora ideia de fazer suas próprias “cavernas”,</p><p>imitando a natureza com seus próprios meios. As experiências foram múltiplas, variando para cada ambiente,</p><p>mas se revelaram extremamente criativas e eficazes.</p><p>Nas áreas onde a vegetação era abundante, os primeiros abrigos foram feitos com galhos, folhagens</p><p>e cipós, surgindo primeiro como coberturas descartáveis, e depois evoluindo para cabanas inteiras</p><p>com dimensões variadas. Esse tipo de construção podia servir para estações inteiras e,</p><p>gradualmente, formaram as primeiras aldeias fixas.</p><p>Grupos como os !Kung da África, que ainda vivem em um</p><p>modo de vida nômade, constroem pequenas cabanas</p><p>circulares de galhos e vegetação, compartilhando ideias e</p><p>métodos similares aos dos indígenas brasileiros. Vestígios</p><p>encontrados em Banpo, na China, revelam aldeias que</p><p>empregavam métodos muito parecidos com os das</p><p>comunidades que viviam perto de florestas em outros</p><p>lugares do mundo.</p><p>Enquanto isso, em regiões mais áridas, quando não era</p><p>possível fugir para a sombra das formações rochosas,</p><p>usaram-se retalhos de tecido animal e vegetal para</p><p>construir pequenas lonas, amparadas em espeques, que</p><p>criavam a sombra artificial necessária para fugir do sol.</p><p>Ali estava o embrião das tendas, cuja mobilidade e simplicidade marcaram seu surgimento. Além de se</p><p>consolidarem como formas práticas de abrigo, elas podiam ser desmontadas e transportadas de um lugar ou</p><p>outro, marcando uma inovação significativa.</p><p>Sítio arqueológico no topo da colina Mapungubwe, no</p><p>sul do Zimbábue.</p><p>Enquanto isso, houve ainda grupos que</p><p>aprimoraram a arte de empilhar pedras para</p><p>fazer pequenas grutas temporárias, nem</p><p>sempre estáveis e seguras, mas o suficiente</p><p>para passar o tempo em algum lugar. Um</p><p>desdobramento desse modelo foi a ideia de</p><p>copiá-lo usando terra batida e da argila (onde</p><p>ela estava disponível) para confeccionar essas</p><p>edificações. A terra batida consistia em</p><p>comprimir várias camadas de terra até</p><p>formarem paredes razoavelmente estáveis, e</p><p>depois cobri-las com algum tipo de teto. O</p><p>método era trabalhoso, mas estável – e, hoje, é</p><p>considerado uma saída ecológica na</p><p>construção de casas, evitando o uso de</p><p>argamassas e materiais artificiais.</p><p>Bosquímanos fabricam habitações e utensílios de barro, ilustração de Samuel</p><p>Daniell, pintor e naturalista inglês.</p><p>Esses primeiros abrigos seguiam a mesma lógica das cavernas, constituindo-se majoritariamente em um</p><p>espaço único, sem janelas e com uma entrada sem porta. Não havia cômodos e, dependendo da temperatura</p><p>ambiente, a fogueira podia ser feita dentro ou fora do abrigo.</p><p>Alguns grupos perceberam que a fumaça das fogueiras podia afastar insetos, mas também podia intoxicar as</p><p>pessoas, e começaram a fazer orifícios pelos quais a fumaça pudesse escapar, criando o protótipo das</p><p>chaminés. As necessidades fisiológicas eram realizadas fora do abrigo, e nem sequer imaginava-se o que</p><p>seria um banheiro.</p><p>Reconstituição de um arado neolítico.</p><p>A revolução agrícola e o surgimento da “casa”</p><p>O impacto do advento da agricultura</p><p>Nuraghe Seruci, edifício megalítico antigo encontrado na Sardenha (cerca de 2000</p><p>a.C.).</p><p>Após milhares de anos perambulando pelo mundo, alguns grupos humanos juntaram as experiências</p><p>acumuladas e decidiram tentar um novo modo de vida. O nomadismo era um jeito de viver permeado de</p><p>incertezas e insegurança, principalmente quando se era obrigado a viver em lugares desconhecidos. Porém,</p><p>depois de séculos observando a natureza, os “sapiens” empreenderam em o que seria uma verdadeira</p><p>revolução tecnológica e cultural: a agricultura e a criação de animais.</p><p>Com o arcabouço de conhecimentos sobre vários ambientes, plantas e animais, os humanos</p><p>começaram a testar formas novas de gerar sua própria subsistência. Ao invés de se deslocar no</p><p>espaço, ao sabor das estações, eles imaginaram se seria possível se estabelecer em determinado</p><p>lugar copiando os ciclos da natureza, produzindo vegetais e criando rebanhos que tornariam sua</p><p>vida mais fácil.</p><p>Esse processo foi surpreendentemente rápido, parece ter começado</p><p>em algum momento entre 20.000 -10.000</p><p>AEC, sendo usualmente classificado como “Neolítico”. Ele é marcado pela confecção de instrumentos de pedra</p><p>com funções práticas (muitas vezes simbólicas), adequadas ao uso agrícola e para a defesa.</p><p>Surge a combinação de materiais, como o</p><p>arado, o machado e o martelo – que juntavam</p><p>um cabo de madeira com a peça de pedra – ou</p><p>como o arco, que juntava uma peça de madeira,</p><p>a força elástica da corda e peças móveis</p><p>(flechas) compostas igualmente de madeira,</p><p>pedra e plumas animais. Tiveram início também</p><p>as experiências com metais, usados para a</p><p>confecção de armas e utensílios de trabalho.</p><p>As primeiras comunidades escolheram morar</p><p>pertos de rios, o que lhes garantia um</p><p>suprimento regular de água para as plantações</p><p>e animais. Por essa razão que encontramos as</p><p>civilizações mais antigas perto de curso de água, como é o caso de Egito com o rio Nilo, os povos da</p><p>Mesopotâmia entre os rios Tigre e Eufrates, a Índia com o rio Indo e Ganges e a China com o Rio Amarelo e</p><p>Azul.</p><p>Sítio arqueológico neolítico de Choirokoitia, em Chipre.</p><p>Atenção</p><p>O desenvolvimento da agricultura possibilitou os seres humanos a iniciarem projetos para o futuro,</p><p>envolvendo o planejamento familiar, o desenvolvimento de atividades de troca mais complexas</p><p>(comércio) e uma mudança gradual nas crenças religiosas, com o fortalecimento de divindades ligadas</p><p>ao novo modo de vida.</p><p>Essa mudança radical teve impacto profundo na vida desses grupos. Autores como Harari (2018) defendem</p><p>que a qualidade de vida diminuiu, em função do empobrecimento da dieta e do sedentarismo. Por outro lado,</p><p>o aprovisionamento de víveres e a produção com excedente fez com que os grupos familiares pudessem se</p><p>reproduzir mais rápido, fortalecendo sua posição de poder nos territórios em que se estabeleceram, e</p><p>pudessem igualmente realizar mais operações de troca, convertendo os alimentos produzidos em riqueza</p><p>(MAZOYER; ROUDART, 2011).</p><p>Sítio arqueológico neolítico de Choirokoitia, localizado no distrito de Larnaca, em</p><p>Chipre (entre 7000 e 4000 a.C.).</p><p>Isso teve um impacto direto sobre a estrutura habitacional. As comunidades agrícolas sentiram a necessidade</p><p>de trocar seus abrigos instáveis por habitações mais sólidas, onde poderiam descansar, supervisionar o</p><p>trabalho nos campos e organizar as tarefas diárias. Os abrigos, antes temporários, passaram a ser casas, onde</p><p>a família iria fincar sua presença.</p><p>As primeiras estruturas, obviamente, eram herdeiras diretas</p><p>dos antigos abrigos; no caso das civilizações africanas e</p><p>asiáticas, a casa de taipa transformou-se em um fenômeno</p><p>habitacional, sendo o modelo dominante nessas</p><p>comunidades.</p><p>Algumas variações foram surgindo, como a cabana de</p><p>madeira (onde esse material estava disponível em</p><p>quantidade) ou a caverna esculpida (como as desenvolvidas</p><p>próximo ao rio Amarelo, na China). É possível que as janelas</p><p>tenham surgido nesse período, permitindo uma ventilação</p><p>melhor do ambiente e uma vigilância mais ampla sobre as</p><p>terras circundantes.</p><p>Reconstituição de uma habitação neolítica em</p><p>Choirokoitia.</p><p>LEGO, os tijolos de plástico inventados por Ole.</p><p>Dominar a terra não era algo fácil; além de todo o trabalho nos campos, havia ainda a necessidade de se</p><p>defender de grupos que disputavam territórios férteis ou de nômades, que entendiam ser mais fácil saquear</p><p>essas comunidades do que migrar para lugares inóspitos.</p><p>Ao mesmo tempo em que surgem as aldeias, juntando grupos de casas para proteção e ajuda mútua, é bem</p><p>possível que tenham surgido também os muros e as portas. Inicialmente, essas proteções foram feitas de</p><p>paliçadas, de taipa ou de terra batida, e os portões – no início, apenas rústicas barreiras na brecha do muro –</p><p>surgiram para proteger de visitantes indesejáveis, fossem humanos ou animais selvagens.</p><p>Um aspecto importante no desenvolvimento</p><p>das casas foi o início da compartimentação.</p><p>Não demorou muito para nossos ancestrais</p><p>perceberem que os grãos recolhidos atraíam</p><p>bichos e insetos, que os animais produziam</p><p>gases e esterco, e que as atividades produtivas</p><p>exigiam a especialização dos espaços. A</p><p>revolução agrícola foi responsável diretamente</p><p>pela criação dos celeiros, dos silos, das oficinas</p><p>e dos cômodos. É possível que todas as</p><p>edificações fossem iguais no início, variando</p><p>apenas a sua função, mas com o tempo, os</p><p>silos de grãos tiveram que aumentar de</p><p>tamanho e ter melhor vedação, dispensando</p><p>janelas.</p><p>Os cômodos demoraram mais para aparecer e,</p><p>provavelmente, estão ligados à complexificação</p><p>das estruturas familiares e do aprimoramento das atividades de trabalho. A cozinha surgiria em torno do forno,</p><p>assim como o quarto de dormir se formaria ao redor da cama do casal que comandava a casa. Novos</p><p>cômodos ou espaços poderiam ser adicionados à construção principal quando a família aumentava ou quando</p><p>trabalhadores passaram a servi-las (BRYSON, 2011).</p><p>Era de revoluções</p><p>A invenção revolucionária do tijolo</p><p>Na década de 1930, Ole Kirk Kristiansen (1891 - 1958) fabricava brinquedos de madeira na Dinamarca,</p><p>produzindo peça de qualidade, mas de custo alto. Nas décadas seguintes, a Segunda Guerra Mundial</p><p>[1939-1945] e as crises econômicas subsequentes praticamente quebraram sua fábrica. Ole teve um insight:</p><p>por que simplesmente não reinventamos o básico? Vamos fazer tijolos de plástico!</p><p>O princípio básico do brinquedo é bem</p><p>conhecido: são pequenos tijolos que se</p><p>encaixam, e podem assim ser reconfigurados</p><p>de diversas maneiras diferentes. O brinquedo</p><p>foi considerado um sucesso em termos de</p><p>jogos educativos, pois estimulava a</p><p>criatividade, a cognição e o raciocínio das</p><p>crianças. Pedagogos construtivistas ficaram</p><p>fascinados com os princípios aplicados à</p><p>dinâmica interativa do LEGO, utilizando-o como</p><p>exemplo de como construir ou desconstruir</p><p>ideias, discursos e teorias.</p><p>No campo da arquitetura, o que se</p><p>convencionou apelidar de método ou teoria</p><p>LEGO significava repensar a estrutura de uma</p><p>edificação a partir de blocos modulares móveis</p><p>e intercambiáveis, permitindo a montagem rápida, uniformização de padrões, diminuição de custos, e</p><p>possibilidade de configurações variadas.</p><p>Ruínas de Moenjodaro, da Civilização do Vale do Indo</p><p>(entre 2800 e 1800 a.C).</p><p>Em algum momento do final do Neolítico, as comunidades agrícolas estavam desenvolvendo seus</p><p>métodos de edificação, tentando buscar modelos e materiais ideais para a construção de ambientes</p><p>diferentes, como vimos anteriormente.</p><p>Cada um dos modelos tinha suas vantagens e problemas: as cabanas de fibras e madeira não vedavam bem,</p><p>as de taipa não sustentavam muito peso, as de terra batida exigiam conhecimentos que muitas vezes a</p><p>simples experiência não podia fornecer. As casas de pedra eram duráveis, mas tinham problemas no controle</p><p>de temperatura e eram extremamente custosas (e seria mais fácil, de certa forma, voltar para caverna).</p><p>Foi quando começou a se disseminar a ideia de usar a argila</p><p>para criar uma unidade volumétrica similar a um bloco de</p><p>pedra, mas em formato uniformizado. Assim, ele poderia ser</p><p>mais facilmente encaixado, formando paredes e muros, e</p><p>resolvendo o problema de construir uma estrutura mais</p><p>durável. Não é exagero dizer que o tijolo deveria estar junto</p><p>ao fogo e à roda como uma das mais importantes</p><p>descobertas da humanidade. Os antigos habitantes do Egito</p><p>e do Oriente pensaram no tijolo e viram um instrumento</p><p>poderoso para reorganizar o espaço.</p><p>Muito cedo, os descobridores dos tijolos perceberam que</p><p>ele ficaria mais resistente se fosse seco ao sol ou cozido, o</p><p>que afastava o risco do barro em amolecer pela ação da</p><p>água e umidade. Materiais sedimentares e palha podiam ser</p><p>adicionados ao barro para ajudar na formação da liga de</p><p>argila ideal, estruturando um bloco firme e duradouro.</p><p>Além disso, eles poderiam criar moldes padronizados, o que tornava a produção fácil e rápida, além de criar</p><p>um excedente que poderia ser usado em reparos urgentes. Embora as pedras ainda fossem um recurso</p><p>apreciado, elas foram sendo deixadas para construções mais rebuscadas, enquanto o tijolo tornou-se</p><p>praticamente um sistema mundial de</p><p>construção, de habitações populares a grandes monumentos.</p><p>Ruínas da cidade de Babilônia, no Iraque.</p><p>As cidades antigas foram fundadas em tijolos: as paredes das casas, as pontes, os monumentos e mesmo as</p><p>estradas eram pavimentadas com eles. Com o tempo, eles seriam aperfeiçoados; embora o tijolo maciço fosse</p><p>o mais comum, os antigos também faziam blocos de encaixe e tijolos vazados. Um desdobramento criativo foi</p><p>o surgimento da telha para cobrir o teto, mais leve e fina, mas produzida dentro da mesma ideia de moldagem</p><p>usada no tijolo, modificando o perfil do teto das casas.</p><p>Representação de um leão rugindo numa parede da</p><p>sala do trono de Nabucodonosor II (entre 604 e 562</p><p>a.C.).</p><p>Se o tijolo não fosse encaixado, vários recursos</p><p>eram utilizados para que eles formassem uma</p><p>parede coesa: quando agrupados meio úmidos,</p><p>aderiam uns aos outros; podiam ser feitos</p><p>empilhamentos alternados para criar um</p><p>equilíbrio estático, inserção de argila e</p><p>sedimentos com palha, e a gradual descoberta</p><p>de argamassas para a colagem dos blocos.</p><p>Esse tipo de adesivo variava de região; no Egito</p><p>e na Mesopotâmia, por exemplo, eram usadas</p><p>argamassas de cinzas vulcânicas, betume, areia</p><p>misturada com argila e palha, entre outros. As</p><p>receitas tradicionais eram misturas feitas de</p><p>cal, água, areia e cinzas. Às vezes, azeite era</p><p>adicionado à fórmula.</p><p>Enquanto em outros lugares do mundo surgiam tímidas aldeias feitas de cabanas de madeira ou</p><p>taipa, o Oriente testemunhava o que seria o próximo passo no desenvolvimento histórico da</p><p>humanidade: o nascimento das cidades. Tudo isso graças a um singelo bloco de argila que modificou</p><p>definitivamente as ideias sobre construção no mundo antigo, e sem o qual a urbanização teria sido</p><p>praticamente inviável.</p><p>Entre pirâmides e ET: desmistificando a arquitetura antiga</p><p>Assista agora a um vídeo que apresenta o conhecimento de arquitetura e engenharia dos antigos egípcios,</p><p>com o professor André Bueno.</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Vem que eu te explico!</p><p>Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.</p><p>O abrigo</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Revolução agrícola</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>A invenção do Tijolo</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Verificando o Aprendizado</p><p>Questão 1</p><p>Um exame mais atual sobre o surgimento da ciência da arquitetura nos permite afirmar que:</p><p>A</p><p>Ela surgiu no mundo clássico greco-romano, pois o termo arquitetura é grego, então não haveria arquitetura</p><p>em outros lugares do mundo.</p><p>B</p><p>As ideias arquitetônicas só passaram a existir após a revolução agrícola.</p><p>C</p><p>As ideias arquitetônicas existem desde a aurora do homo sapiens, que buscou interagir e alterar o espaço e o</p><p>ambiente em função de sua sobrevivência.</p><p>D</p><p>A arquitetura é uma ciência contemporânea, e, por isso, não se aplica a outras fases da história.</p><p>E</p><p>A arquitetura não pode ser pensada na antiguidade, são primórdios, sinais que lemos de forma conceitual, pois</p><p>não tem formação efetiva.</p><p>A alternativa C está correta.</p><p>Embora o termo arquitetura tenha surgido entre os gregos antigos, ele tão somente representa a ideia de</p><p>uma arte de construir. A arquitetura foi conhecida por praticamente todas as civilizações do mundo, em</p><p>suas expressões mais básicas até as mais complexas, variando suas técnicas, ideias e materiais. A</p><p>arquitetura esteve na base das primeiras iniciativas de sobrevivência humana, acompanhando nossa</p><p>necessidade de intervir no meio ambiente em que vivemos.</p><p>Questão 2</p><p>Podemos afirmar que um dos primeiros efeitos da revolução agrícola foi o surgimento</p><p>A</p><p>da noção de abrigo.</p><p>B</p><p>da noção de casa.</p><p>C</p><p>da noção de templo e palácio.</p><p>D</p><p>da noção de caverna.</p><p>E</p><p>da noção de maravilhoso buscado pelas sociedades.</p><p>A alternativa B está correta.</p><p>Um dos efeitos diretos da revolução agrícola foi constatar a necessidade de se fixar junto às áreas de</p><p>produção, convertendo gradualmente a ideia do abrigo provisório na de uma habitação mais durável, a</p><p>casa.</p><p>A Tomada de Jericó, por Jean Fouquet (1475).</p><p>Fundações de uma residência desenterrada no Tel</p><p>Sultão, em Jericó, situada na Cisjordânia, atual</p><p>Palestina.</p><p>2. A arquitetura egípcia: poder e religião</p><p>O nascimento das cidades</p><p>Arquitetura Urbana</p><p>Um dos episódios mais famosos do Antigo Testamento é a</p><p>batalha de Jericó (ilustrada em sua forma medieval por Jean</p><p>Fouquet), quando Josué (Livro de Josué, 6, 1-27) e os</p><p>israelitas cercaram a cidade de Jericó, ameaçando invadi-la</p><p>se os cananeus não a entregassem. Diante da recusa, Josué</p><p>aguardou sete dias, até que ordenou que os sacerdotes</p><p>tocassem as trombetas uma última vez, e as muralhas da</p><p>cidade desabaram.</p><p>O que se seguiu foi uma carnificina, na qual os israelitas</p><p>assassinaram todos os habitantes da cidade, com exceção</p><p>de Raabe e sua família, que ajudaram a abrigar espiões de</p><p>Josué na cidade.</p><p>Em torno de três milênios depois, no século XIX, uma das paixões da nascente ciência da</p><p>Arqueologia era tentar comprovar que eventos como o da batalha de Jericó teriam efetivamente</p><p>ocorrido. Em 1868, Charles Warren deixou a comunidade científica em polvorosa ao identificar a</p><p>localidade de Tell El Sultan (atualmente em território palestino) como o sítio arqueológico onde</p><p>estava localizada a antiga Jericó bíblica.</p><p>Era não era só isso: vestígios de um muro derrubado pareciam tornar real tudo aquilo que a Bíblia dizia. Como</p><p>os métodos arqueológicos ainda eram muito precários, parecia que Warren conseguira trazer esse episódio do</p><p>mundo da fé para os círculos da ciência. Entre 1907 e 1909, Ernst Sellin e Carl Watzinger realizaram novas</p><p>escavações no lugar, e reforçaram todas as afirmações de Warren – e da Bíblia, obviamente.</p><p>Foi nesse momento que a história de Jericó</p><p>começou literalmente a desabar. Havia muros</p><p>sucessivamente construídos sobre outros</p><p>caídos ou reparados, além de mudanças</p><p>substanciais na planta da cidade. A datação</p><p>dos materiais achado no local indicava épocas</p><p>bastante discordantes com o relato bíblico. As</p><p>conclusões de Kenyon provocaram um novo</p><p>rebuliço, que dividiu definitivamente os</p><p>pesquisadores de Jericó.</p><p>Era simples: se houve realmente algum Josué,</p><p>e, se em torno de 1400 AEC, ele levou seu</p><p>exército até Jericó, ele não precisaria tocar</p><p>qualquer trombeta. A cidade estava em ruínas</p><p>fazia séculos.</p><p>Ela fora atacada em diversos conflitos anteriores pelos egípcios e hicsos, mas não pelos israelitas. Por fim, o</p><p>lugar seguiu ininterruptamente habitado até ser arrasado em definitivo pela invasão babilônica que ocorreu</p><p>somente no século 6 AEC.</p><p>Modelo do assentamento neolítico de Catal Huyuk, no</p><p>Museu da Pré-história, em Turíngia, na Alemanha.</p><p>Trabalhos paradigmáticos como os de Kenyon demonstraram a capacidade da ciência em revelar novos</p><p>ângulos sobre temas antigos e controversos. No caso de Jericó, as descobertas foram mais além; ao</p><p>desencavarem as estruturas desse perímetro urbano, os arqueólogos foram descobrindo camadas cada vez</p><p>mais profundas, que conectavam as origens ao final do período Neolítico. Jericó seria, portanto, uma das</p><p>primeiras cidades do mundo, e poderia nos ensinar muito sobre como elas surgiram.</p><p>Ruínas de Çatal Huyuk, na Turquia (entre 7500 a.C. e 6400 a.C.).</p><p>Outras muitas cidades foram se juntando à lista das mais antigas, como Çatal Huyuk (Turquia), Damasco</p><p>(Síria), Banpo (China), Ur e Uruk (Iraque) e Al-Faium (Egito), algumas ainda existentes, outras não, mas que</p><p>nos ajudaram a saber mais como os primeiros seres humanos começaram a construir cidades – e como isso</p><p>teve um papel crucial para o desenvolvimento da arquitetura.</p><p>Os primeiros perímetros urbanos parecem ter surgido de forma espontânea, juntando casas, pontos de troca e</p><p>oficinas. Em alguns casos, a construção de uma muralha protetora parece ter definido o primeiro perímetro</p><p>urbano; contudo, o crescimento da comunidade forçava a expansão dos seus limites, envolvendo sucessivas</p><p>obras.</p><p>Não havia também um modelo</p><p>pré-definido, embora</p><p>cidades como Jericó ou Banpo tivessem casas em formato</p><p>similar ao que conhecemos, em Çatal Huyuk, as moradias</p><p>formavam blocos compactos, e a entrada das casas eram</p><p>feitas pelo teto. Por outro lado, praticamente todas essas</p><p>sociedades construíram suas edificações com o onipresente</p><p>tijolo.</p><p>As cidades passaram a concentrar atividades diferentes do</p><p>campo, expressando nitidamente a especialização das</p><p>funções. Se no início os agricultores e criadores tinham que</p><p>fazer de tudo (plantar, colher, domesticar, alimentar os</p><p>animais, fabricar seus instrumentos, trocar produtos,</p><p>defender-se etc.), ficava evidente que seria inviável realizar e dominar tantos trabalhos em um ambiente social</p><p>mais complexo.</p><p>Atenção</p><p>A urbanização abrigava trabalhadores especializados, artesãos, comerciantes, soldados e dois grupos</p><p>que passariam a se destacar na história: os burocratas e os sacerdotes.</p><p>Monumentos públicos</p><p>Templo e palácio</p><p>Complexo de templos de Carnaque, no Egito (Entre 2000 a.C. e 1700 a.C.).</p><p>Quando olhamos para a Antiguidade oriental, notamos que algumas cidades foram crescendo ou se formando</p><p>em torno de duas grandes instituições: templo e palácio. Existem algumas teorias sobre como essas duas</p><p>importantes forças surgiram (CARDOSO, 1986), mas, aparentemente, elas já estariam presentes nas</p><p>sociedades antigas, em sua forma mais conceitual. Notemos novamente o caso dos indígenas brasileiros; em</p><p>muitos grupos, estão presentes duas figuras centrais, o cacique e o pajé.</p><p>Ambas as figuras contribuem para o funcionamento do grupo, constituindo-se ao longo da história como</p><p>personagens sociais relativamente distintos. A revolução agrícola e o processo de urbanização não diminuíram</p><p>sua importância, ao contrário; os líderes políticos transformaram-se na classe real, no grupo burocrático</p><p>responsável por administrar as finanças, a defesa, a distribuição de recursos e recolher impostos (uma das</p><p>novidades do mundo antigo) para sustentar todo esse aparato recente – além, claro, dos próprios privilégios</p><p>dessa classe dominante.</p><p>Ao mesmo tempo, a justificativa para a construção desse sistema vinha da intermediação religiosa promovida</p><p>pelos especialistas no sagrado, os sacerdotes, cuja função era manter a ligação com as divindades e orientar</p><p>as concepções ideológicas da sociedade.</p><p>Cacique</p><p>Representa a necessidade uma figura</p><p>jurídica, política e militar – em geral, o cacique</p><p>não comandava a vida cotidiana, mas liderava</p><p>o grupo em situações especiais, como</p><p>conflitos com outras tribos ou decidia se</p><p>deveriam mudar o local da aldeia, por</p><p>exemplo.</p><p>Pajé</p><p>Representa a figura que a antropologia</p><p>denominou de xamã, o especialista em</p><p>artes mágicas, que é responsável pelas</p><p>crenças, pelas práticas de cura e pela</p><p>relação com o mundo espiritual e pela</p><p>coesão cultural da comunidade.</p><p>Templo de Hatshepsut, na cidade de Luxor, no Egito.</p><p>Quanto mais as cidades cresciam, mais a influência desses grupos se ampliava. Gradualmente, as</p><p>cidades adquiriram um papel bastante específico dentro da história: tornaram-se os centros de</p><p>reprodução das ideias e da cultura, capitalizando para si o papel de poder dentro de uma região.</p><p>Essa transformação nas sociedades antigas</p><p>mudou radicalmente o panorama da</p><p>arquitetura. Os dois grupos – sacerdotes e</p><p>burocratas – precisavam materializar sua</p><p>presença dentro das cidades. A expressão</p><p>definitiva dessa iniciativa foi o surgimento dos</p><p>templos e palácios. Uma quantidade enorme de</p><p>esforço, ciência e recursos passaram a ser</p><p>destinados para construção de edificações que</p><p>representassem a religião e o poder político.</p><p>Isso fica evidente quando olhamos para o perfil</p><p>das cidades antigas, nas quais os templos, os</p><p>palácios e as necrópoles (tumbas) têm grande</p><p>destaque, e são as principais construções que</p><p>sobreviveram ao tempo.</p><p>O desenvolvimento dessas edificações forçou</p><p>um salto qualitativo no desenvolvimento arquitetônico das sociedades antigas, e se tornaria em nossa</p><p>principal fonte de estudos, como veremos a seguir em algumas das mais antigas civilizações afro-asiáticas.</p><p>Arquitetura egípcia e seus materiais</p><p>Contextualizando a arquitetura egípcia</p><p>Templo de Hatshepsut, na cidade de Luxor, no Egito.</p><p>A arquitetura antiga recebe maior destaque nas produções da civilização africana da antiguidade: o Egito. A</p><p>cultura egípcia foi uma poderosa influência dentro do continente africano e do mundo mediterrânico. O Egito</p><p>africano foi o epicentro de uma comunidade de saberes, para os qual milhares de viajantes gregos, romanos,</p><p>do oriente médio e talvez mesmo da Índia, convergiram na busca de aprendizado.</p><p>A historiografia demostra a necessidade de ressignificar nosso entendimento sobre a importância do Egito e</p><p>do Oriente em nossas vidas e história, e Margareth Bakos (2011), por exemplo, provou que ainda incorporamos</p><p>várias ideias e fantasias sobre o Egito em nosso imaginário.</p><p>Essa civilização foi uma das primeiras a se urbanizar, mas mantendo uma ligação profunda com suas raízes do</p><p>neolítico.</p><p>O rio Nilo nas proximidades da cidade de Luxor, no</p><p>Egito.</p><p>Reconstituição de moradias características do neolítico.</p><p>Não é exagero dizer que os egípcios construíram sua</p><p>cultura aprendendo a se harmonizar com o ritmo do rio Nilo.</p><p>Seguindo o padrão dos primeiros agricultores sedentários,</p><p>os egípcios foram estabelecendo suas comunidades ao</p><p>longo do rio, e do ritmo de plantio e colheita, ciclo que era</p><p>planejado com base nas cheias regulares do rio.</p><p>A presença da religião na vida egípcia era o grande</p><p>catalisador das técnicas e tradições. A arquitetura, assim</p><p>como os outros domínios da arte, era fundamentalmente</p><p>hierática, ou seja, expressava cenas e imagens do sagrado,</p><p>e possuíam funções rituais e espirituais. As edificações</p><p>egípcias evidenciariam essa relação, conjugando o longo</p><p>processo de adaptação ao ambiente com motivos e funções sagradas.</p><p>Materiais e casas populares</p><p>Os assentamentos neolíticos no Egito mostram como se descobriram os mecanismos adaptativos necessários</p><p>à convivência harmoniosa com o rio Nilo. Com muita água, argila, pedra e vegetação pantanosa, mas carente</p><p>de madeira, os egípcios logo evoluíram da taipa e do pau-a-pique para as moradas de tijolos. O adobe era a</p><p>forma mais comum do bloco de argila, misturado com palha, água e seco ao sol. A argamassa era feita com</p><p>variações na mistura da argila, usada como cimento e reboco.</p><p>Em forma de quadrado, as casas dispunham de</p><p>paredes com janelas, porta e teto com armação</p><p>de madeira, que formavam uma espécie de laje</p><p>retilínea. Como as chuvas eram escassas, não</p><p>havia necessidade de fazer tetos inclinados</p><p>para escoá-las. As casas maiores podiam</p><p>dispor de jardins, piscinas e peristilos, que</p><p>projetavam sombra e ajudavam a refrescar o</p><p>interior do ambiente.</p><p>As variações climáticas fizeram com que as</p><p>primeiras cidades fossem um amontoado de</p><p>casas, com vielas estreitas de terra batida, no</p><p>qual os prédios faziam sombra uns aos outros,</p><p>e canalizavam possíveis influxos de vento.</p><p>Curiosidade</p><p>Graças à textura e à composição, o tijolo de adobe auxiliava a controlar a temperatura interna.</p><p>Espaços de poder</p><p>Templos, palácios e obeliscos</p><p>O tijolo tornou-se peça tão importante na vida dos egípcios que A. J. Spencer (1979) dedicou um livro inteiro à</p><p>forma como esse pequeno bloco de argila estava presente em praticamente todas as estruturas e</p><p>monumentos dessa civilização, sendo usado nos arranjos mais diversos possíveis.</p><p>Colunas do hipostilo do templo de Amun, no norte do</p><p>Sudão.</p><p>Ruína da vila dos operários, no oeste da cidade de</p><p>Tebas, no Egito.</p><p>Em torno do terceiro milênio AEC – mais ou menos três milênios após os primeiros assentamentos neolíticos –,</p><p>uma nova fase de grandes construções começou a materializar as instituições templárias e palacianas,</p><p>ricamente decorados com pinturas e inscrições hieroglíficas. O surgimento dessas edificações parece</p><p>coincidir com o processo de unificação política do reino, o que permitiu a concentração de recursos e o</p><p>planejamento de obras em patamares nunca vistos.</p><p>Os complexos dos templos e palácios consumiram milhares</p><p>de</p><p>tijolos, usando as técnicas já consagradas, mas com</p><p>dimensões maiores que exigiram soluções mais ousadas.</p><p>Blocos e colunas de pedra (arenito ou calcáreo) foram</p><p>esculpidos por meio de quebra por vibração, choques</p><p>térmicos e lixa de areia para dar suporte ao teto altos,</p><p>algumas vezes com mais de vinte metros.</p><p>O hipostilo, a sala com teto sustentado por colunas, é</p><p>justamente uma invenção egípcia, mas que se tornaria</p><p>famosa pelas mãos dos arquitetos greco-romanos.</p><p>Soluções como essas foram encontradas por funcionários e</p><p>membros da elite que se especializaram em questões de</p><p>arquitetura e engenharia, e alguns desses conhecimentos estão disseminados em papiros, pinturas e murais</p><p>que nos explicam como os egípcios realizavam seus empreendimentos.</p><p>Vale ressaltar que as edificações egípcias eram decoradas com pinturas coloridas, mas somente as</p><p>dos compartimentos interiores sobreviveram; do lado de fora, a ação do clima e da luz solar</p><p>acabaram com a cromagem, criando o perfil (não original) que hoje observamos de “pedra nua”.</p><p>Os templos e os palácios formavam construções à parte, com estruturas muradas, em torno dos quais as</p><p>cidades foram se formando. É possível que algumas dessas construções fossem planejadas de forma isolada,</p><p>e as habitações populares foram se estabelecendo a redor dela depois, mas essa afirmação não é precisa.</p><p>Muitas edificações foram feitas junto a assentamentos já existentes, e é possível ainda que uma formação</p><p>urbana tenha se originado espontaneamente, de forma concomitante à construção de um templo ou palácio.</p><p>Como afirmamos antes, o Egito não conheceu</p><p>um largo uso da mão de obra escrava, e as</p><p>obras públicas eram feitas pela convocação de</p><p>trabalhadores livres. Já que todas as terras</p><p>pertenciam ao faraó, quando necessário, ele</p><p>podia convocar um membro de cada família</p><p>para trabalhar metade de um ano em uma</p><p>dessas obras (corveia real).</p><p>Eles recebiam alimentação, moradia, e foi</p><p>relatado que, diante de condições de trabalho</p><p>aviltantes, podiam realizar greves. No geral,</p><p>contudo, parecia que o sentimento era de estar</p><p>participando de uma grande obra nacional, o</p><p>que entusiasmava muitos trabalhadores. A</p><p>maioria voltava para suas terras, mas outros optavam por ficar nas instalações planejadas para as obras,</p><p>formando novas comunidades.</p><p>Obelisco do complexo de templos de Karnak, em Luxor,</p><p>no Egito.</p><p>Uma outra prova da conexão profunda do Egito</p><p>com suas raízes ancestrais foi a construção de</p><p>gigantescos obeliscos, colunas monumentais</p><p>de pedra, contendo inscrições e imagens</p><p>religiosas, muito relacionados aos megálitos. Os</p><p>obeliscos são uma forma aprimorada esculpir</p><p>diretamente em pedra e de grandes dimensões.</p><p>A peça era projetada para corte diretamente na</p><p>pedreira, transportada até seu lugar de</p><p>instalação por meio de esquis que deslizavam</p><p>sobre areia levemente molhada, e instalada por</p><p>meio de um fosso, onde o obelisco era</p><p>posicionado e depositado com ajuda de cordas</p><p>– há um debate, ainda não resolvido, se os</p><p>egípcios conheciam ou não roldanas.</p><p>Espaços funerários</p><p>Mastabas, hipogeus e pirâmides</p><p>Contudo, se há um domínio no qual os egípcios ficaram famosos foi por sua arquitetura funerária, manifestada</p><p>pelo grande número de tumbas magníficas, que são nossa principal fonte de informações sobre essa</p><p>civilização. Conforme suas tradições religiosas, os defuntos mais importantes eram mumificados. Em suas</p><p>câmaras mortuárias eram depositados milhares de objetos usados em vida, como móveis, livros, tesouros,</p><p>entre outros.</p><p>Muito antes das pirâmides, os egípcios começaram (e continuaram por milênios) a depositar seus mortos em</p><p>dois tipos de tumbas: as mastabas e os hipogeus.</p><p>Mastabas</p><p>A mastaba era uma construção de tijolos, retangular ou quadrangular,</p><p>sem janelas e com uma entrada principal, que era edificada sobre o fosso</p><p>onde o corpo fora guardado ou enterrado. Algumas vezes, o fosso era</p><p>simples, coberto com terra batida e continha um acesso ao sarcófago. A</p><p>construção da mastaba marcava o lugar do enterramento, e buscava</p><p>proteger o defunto da ação de ladrões. Era um tipo de edificação</p><p>geralmente feita para nobres, governantes, sacerdotes ou pessoas com</p><p>alguma posse.</p><p>Hipogeus</p><p>Os hipogeus consistiam em grutas escavadas na rocha, podendo ter uma</p><p>ou mais câmaras, e sua entrada recebia um pórtico. Foram igualmente</p><p>desenvolvidas para atender às classes superiores e, por vezes, formavam</p><p>verdadeiras necrópoles (quando várias tumbas e sarcófagos eram</p><p>depositados próximos uns aos outros, ou aproveitando o espaço de uma</p><p>câmara já aberta).</p><p>Até aquele momento, as técnicas e materiais já eram bem conhecidas entre os arquitetos egípcios, e não</p><p>representavam grandes dificuldades. Em torno do século 27 AEC, um dos primeiros pensadores conhecidos</p><p>A primeira pirâmide egípcia, do faraó Djoser. (cerca de</p><p>2670 a.C.).</p><p>da arquitetura mundial, Imotepe (Inhotep), resolveu empreender uma nova concepção de tumba para o faraó</p><p>Djoser, dando origem à primeira pirâmide conhecida, Sacara. Projetou uma mastaba e depois acrescentou</p><p>mais cinco novos pavimentos, igualmente de alvenaria, formando uma estrutura em degrau.</p><p>Para aumentar a durabilidade, ele escolheu fazer a pirâmide com tijolos de pedra calcárea, mas usando a</p><p>argamassa de argila tradicional. Com o aumento das dimensões da edificação, foi possível criar um labirinto de</p><p>câmaras internas, dificultando o acesso ao cômodo mortuário de Djoser, onde ficavam seu corpo e tesouros.</p><p>Essa câmara interna era sustentada por grandes blocos de granito, e ajudavam a sustentar os novos</p><p>pavimentos que foram adicionados.</p><p>Para esculpir e transportar blocos e tijolos de rocha, foram</p><p>usadas as mesmas técnicas anteriores: a quebra por</p><p>vibração, com inserção de cravos de metal em fissuras na</p><p>rocha e o choque de temperatura, com aquecimento e</p><p>rápido resfriamento, causando quebras na estrutura da</p><p>rocha; e os blocos eram transportados em esquis, que</p><p>deslizavam com facilidade pela areia úmida, ou com a ajuda</p><p>de troncos, fazendo o rolamento das peças por uma pista</p><p>pavimentada.</p><p>O desenho revolucionário e arrojado de Imotep inspirou os</p><p>arquitetos seguintes, que passaram a concorrer para</p><p>criarem projetos mais impressionantes. Contudo, isso não</p><p>significa que todos foram bem-sucedidos. Uma das</p><p>revelações mais instigantes da arqueologia é ver as</p><p>pirâmides que deram errado. A pirâmide de Sekhemkhet,</p><p>por exemplo, desabou antes de ficar completa.</p><p>Pirâmide de Sekhemkhet</p><p>Pirâmide de Meidum</p><p>Pirâmide Curvada</p><p>A pirâmide de Meidum iniciou uma transição entre a pirâmide de degraus e uma pirâmide de formas lisas, com</p><p>um revestimento de calcáreo que deveria preencher os ângulos dos degraus, mas algumas partes acabaram</p><p>desmoronando. Em Dahshur, uma pirâmide similar também ruiu e desistiram de reformá-la.</p><p>No mesmo lugar, outra pirâmide próxima mostra os primeiros ensaios em direção a uma edificação maior e de</p><p>ângulos novos, em direção ao cume em forma de ponta.</p><p>Esses projetos mostram ensaios sucessivos e o desenvolvimento de técnicas mais aprimoradas para</p><p>atingir finalmente o projeto das três maiores pirâmides conhecidas, Queops, Quefren e Miquerinos,</p><p>realizado em torno de 2300 AEC. Elas são, antes de tudo, exceções, e não a regra. É possível que</p><p>suas dimensões colossais tenham tragado os recursos do reino, causando desequilíbrio econômico</p><p>e social.</p><p>O nascimento das cidades</p><p>Assista agora a um vídeo em que é discutido o fantástico processo da criação das cidades e como esse é</p><p>capaz de promover uma transformação na perspectiva sobre a arquitetura.</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Vem que eu te explico!</p><p>Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.</p><p>O nascimento das cidades</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Templo e palácio</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Verificando o Aprendizado</p><p>Questão 1</p><p>Em relação aos materiais usados para construção no Egito, podemos afirmar "que":</p><p>A</p><p>Destaca-se a abundância de madeiras, disponíveis nas florestas</p><p>do baixo Egito.</p><p>B</p><p>Adaptados ao meio ambiente, os egípcios usavam argila, vegetação do Nilo e, em grandes obras, rochas.</p><p>C</p><p>Os egípcios destacaram-se por usar pedras e cimento, e desprezaram o uso de materiais locais como argila.</p><p>D</p><p>Cabanas de madeira conviviam em perfeita harmonia com casas de barro, graças à disponibilidade de ambos</p><p>no delta do Nilo.</p><p>E</p><p>A construção de templos feitos de forma inexplicável marca o que conhecemos de arquitetura egípcia.</p><p>A alternativa B está correta.</p><p>A desenvolvimento da arquitetura envolve a exploração e o desenvolvimento dos recursos naturais</p><p>disponíveis na região em que intervém. No caso do Egito, uma civilização que buscava estar em harmonia</p><p>com o rio Nilo, o uso da argila, do junco, da pedra e areia foram exaustivamente investigados e testados.</p><p>Madeira e outros tipos de rocha precisavam ser importados e, por isso, tinham uso mais restrito.</p><p>Questão 2</p><p>As pirâmides são muitas vezes elencadas como a maior realização dos egípcios. O seu processo de</p><p>desenvolvimento pode ser caracterizado "como":</p><p>A</p><p>Um demorado e sucessivo conjunto de experiências, adquiridas ao longo dos séculos em vários projetos</p><p>desenvolvidos a partir das mastabas.</p><p>B</p><p>Um surto de desenvolvimento científico sem razões conhecidas, a partir de conhecimentos que não tinham</p><p>paralelo.</p><p>C</p><p>O uso de tecnologia importadas de outras civilizações, não sendo originais.</p><p>D</p><p>As pirâmides já existiam desde antes do Neolítico, e o modelo já era bem conhecido, sendo apenas</p><p>desenvolvido pelos Egípcios, a partir de hipogeus.</p><p>E</p><p>As experiências arquitetônicas repetiam a natureza, olhando o céu, imitando os efeitos da natureza.</p><p>A alternativa A está correta.</p><p>As pirâmides não são os únicos monumentos magníficos do Egito, mas sempre foram objeto de</p><p>controvérsia e discussão por parte de especialistas e de pessoas fascinadas por essa cultura. A</p><p>desinformação sobre a trajetória histórica do Egito contribuiu para a criação de muito equívocos, e seus</p><p>monumentos têm sido analisados de maneira incompleta e superficial. Os egípcios souberam conjugar</p><p>técnicas e experiências de milênios para elaborar os projetos piramidais – não sem acidentes, como vimos.</p><p>Muros da antiga cidade de Harappa.</p><p>Mapa do rio Indo e das principais cidades da Civilização</p><p>do Vale do Indo ao longo de seu traçado.</p><p>3. Rumo ao oriente: a experiência arquitetônica da Índia e da China antigas</p><p>História da Índia antiga pela perspectiva arquitetônica</p><p>Contextualizado a Índia antiga</p><p>Em 1857, os engenheiros do império inglês</p><p>estavam construindo uma estrada de ferro no</p><p>noroeste da Índia (atual Paquistão), entre as</p><p>cidades de Lahore e Multan. Um dos técnicos</p><p>notou que os operários estavam assentando os</p><p>trilhos com ajuda de tijolos de excelente</p><p>qualidade, e ficou curioso de saber de onde</p><p>eles estavam tirando tantos blocos. Os</p><p>trabalhadores indicaram um pequeno morro</p><p>próximo, de onde foram extrair terra, mas</p><p>acabaram achando um enorme muro que</p><p>demoliram para aproveitar os tijolos. Quanto</p><p>mais escavavam o morro, mais ruínas achavam,</p><p>com um suprimento inesgotável de tijolos. Para</p><p>o espanto dos olhares da atualidade, os</p><p>engenheiros consideraram o achado</p><p>providencial, e ordenaram que os operários</p><p>continuassem com sua ideia de usar tijolos daquelas antigas estruturas para completar o assentamento da</p><p>ferrovia.</p><p>Uma das cidades mais antigas do mundo, Harappa, acabara de ser encontrada e vandalizada; e somente em</p><p>1922 ela receberia uma visita arqueológica científica, disposta a decifrar que estranhas construções eram</p><p>aquelas.</p><p>Aproximadamente vinte anos depois, uma cidade praticamente igual, chamada de Mohenjo Daro, foi</p><p>descoberta a 670km de distância de Harappa, revelando a existência de uma sociedade mais complexa e</p><p>extensa. Na sequência, outras cidades foram brotando do chão, e formariam o que seria conhecido como</p><p>Civilização do Vale do Indo.</p><p>A descoberta dessa civilização reescreveria a história da</p><p>Índia e do Paquistão, jogando sua cronologia para o</p><p>passado mais remoto. Contemporânea do Egito e dos</p><p>sumérios, a cultura harappeana remonta ao quarto milênio</p><p>AEC, revelando uma civilização avançada que incorporou</p><p>experiências herdadas desde o Neolítico.</p><p>Michael Wood (2007) mostrou como as mais recentes</p><p>descobertas conectam os indianos genética e culturalmente</p><p>aos mais antigos ancestrais humanos, tornando as cidades</p><p>do Indo um objeto crucial para compreender o fenômeno da</p><p>urbanização.</p><p>Isso poderia explicar algumas marcas comuns às culturas do Oriente Médio, como o uso maciço de</p><p>tijolos, mas as cidades do Indo apresentam aspectos singulares em sua construção. Em primeiro</p><p>lugar, ainda não ficou claro se elas possuíam estruturas análogas ao templo e ao palácio, o que</p><p>dificulta a compreensão dos padrões religiosos e políticos da cidade.</p><p>Uma das cidades mais antigas do mundo, Harappa, acabara de ser encontrada e vandalizada; e somente em</p><p>1922 ela receberia uma visita arqueológica científica, disposta a decifrar que estranhas construções eram</p><p>aquelas.</p><p>Selo encontrado em Mohenjo-Daro.</p><p>Plano aéreo da cidade de Mohenjo-Daro.</p><p>Aproximadamente vinte anos depois, uma cidade praticamente igual, chamada de Mohenjo Daro, foi</p><p>descoberta a 670 km de distância de Harappa, revelando a existência de uma sociedade mais complexa e</p><p>extensa. Na sequência, outras cidades foram brotando do chão, e formariam o que seria conhecido como</p><p>Civilização do Vale do Indo.</p><p>Uma série de pequenos selos de barro foi</p><p>encontrado nessas cidades, sugerindo a</p><p>existência de divindades que seriam o embrião</p><p>do sanatana dharma (hinduísmo), mas pouco</p><p>sabemos sobre seus possíveis ritos e crenças.</p><p>Há quem sugira que eram sociedades</p><p>igualitárias, com pouca diferenciação social, e</p><p>que os personagens que exerciam os papéis</p><p>políticos e religiosos poderiam ser pessoas</p><p>comuns.</p><p>Eles já haviam desenvolvido uma escrita e</p><p>concebido sistemas de pesos e metragens</p><p>padronizados, mas era na arquitetura que elas</p><p>mostrariam seu potencial criativo.</p><p>Cidade Indo</p><p>Cidades planejadas</p><p>As cidades do Indo eram planejadas, contando com traçado</p><p>retilíneo, distribuição uniforme de construções e sistema de</p><p>encanamento para água e esgoto. As avenidas e os</p><p>quarteirões tinham tamanhos uniformes e as casas já</p><p>apresentavam separação de cômodos. Além de espaços</p><p>próprios para cozinhar e dormir, a laje da casa era</p><p>aproveitada como área de trabalho e lazer, com coberturas</p><p>de tecido ou madeira que criavam sombra.</p><p>Havia enormes piscinas públicas e privadas ligadas ao</p><p>esgoto que resolviam o fundamental problema de higiene</p><p>pública das cidades.</p><p>Tudo isso foi construído com vários tipos de alvenarias de tijolos e pedras, que uniformizavam o aspecto do</p><p>espaço público.</p><p>Estrutura da piscina pública de Mohenjo-Daro; ao</p><p>fundo, a cidadela (Stupa) no plano superior da cidade.</p><p>Sítio arqueológico de Mohenjo-Daro.</p><p>Os domicílios particulares eram muito semelhantes entre si, nivelados em construções de dois ou três</p><p>andares, e não se encontrou uma estrutura palaciana ou templária mais elaborada. Havia espaços destinados</p><p>aos silos e aos mercados, e vestígios encontrados nas cidades testemunham um comércio ativo com a</p><p>Mesopotâmia.</p><p>Em Harappa, há uma cidadela (Stupa), instalada em uma colina central, que mostra que seus habitantes eram</p><p>capazes de construir grandes edificações.</p><p>As funções desse prédio são objeto de debate:</p><p>ele poderia atender a necessidade de um</p><p>espaço político-religioso (ou seja, não teríamos</p><p>um templo e um palácio, mas uma construção</p><p>única para isso), uma torre de defesa ou uma</p><p>habitação para um grupo privilegiado da</p><p>sociedade (o que mostraria que, de um jeito ou</p><p>de outro, havia diferenças de classe dentro</p><p>dessa sociedade).</p><p>A cidadela destoa ligeiramente do plano geral</p><p>da cidade por apresentar um grande dólmen ou</p><p>cúpula sobre uma estrutura de tijolos, o que</p><p>torna mais complicado definir seu papel.</p><p>Por fim, os habitantes do Indo cercavam suas cidades com muros de alvenaria de tijolos, que podiam servir</p><p>tanto para evitar inimigos quanto inundações do rio Indo.</p><p>A capacidade de planejamento estrutural, que envolvia o traçado</p><p>retilíneo em grade e a</p><p>uniformização de padrões de materiais entre as cidades, revelam uma capacidade avançada de</p><p>interferir no espaço, adaptando-o com a exploração adequada de recursos ambientais e o</p><p>desenvolvimento de plantas sofisticadas.</p><p>Ademais, essas teorias, métodos e planos eram comuns aos perímetros urbanos, mostrando uma cultura geral</p><p>e um provável corpo de especialistas capacitados a desenvolverem essas obras.</p><p>A mudança dos cursos d’água do Indo, o assoreamento e a desertificação de certas áreas fizeram com que,</p><p>ao longo do século 20 e 19 AEC, essas cidades fossem gradualmente abandonadas, com a migração das</p><p>populações em direção ao sul do subcontinente indiano. Lá, eles encontrariam um outro ambiente, repleto de</p><p>recursos diferentes, que levariam a novas transformações no pensamento arquitetônico indiano.</p><p>História da China antiga pela perspectiva arquitetônica</p><p>Contextualizando a China antiga</p><p>Torre noroeste da Cidade Proibida, em Beijing, na China.</p><p>Vasos da dinastia Qing, no Museu Calouste Gulbenkian,</p><p>em Lisboa.</p><p>Yaodong, habitação escada em cavernas, em Shaanxi,</p><p>na China.</p><p>A civilização chinesa é uma das poucas no mundo a continuar seu desenvolvimento histórico e cultural desde</p><p>os primórdios do Neolítico. Unidos por traços poderosos, como a escrita e a ritualidade. A China incorporou</p><p>continuamente diversos elementos da antiguidade em seu conjunto de ideias e tradições. Por essa razão, no</p><p>dia a dia, é difícil para os próprios chineses precisar o que é recente e o que é milenar.</p><p>Grande parte dos maiores monumentos chineses era bastante recente na história, embora soubéssemos que</p><p>desde a antiguidade eles eram capazes de produzir esse tipo de obra. O que ocorrera com as artes e o</p><p>patrimônio histórico chinês?</p><p>Em função da farta oferta de materiais perecíveis como a madeira e a argila, um relativo</p><p>desprendimento da ideia de eternizar monumentos e a formação de assentamentos populacionais</p><p>contínuos sobre sítios históricos, os chineses transferiram o problema de como conservar as</p><p>edificações para como preservar os métodos, técnicas e estilos arquitetônicos.</p><p>Isso teve um impacto profundo na arquitetura chinesa: diferentemente das controvérsias que envolveram a</p><p>edificação das pirâmides egípcias, por exemplo, os chineses elaboraram e transmitiram seus métodos de</p><p>construção desde a antiguidade remota. Ao longo de sucessivos trabalhos históricos, eles conseguiram</p><p>transmitir os principais conteúdos e teorias de suas ciências arquitetônicas.</p><p>Dois elementos fundamentais contribuíram para fortalecer essa tradição arquitetônica: a cultura da cópia e a</p><p>produção em massa. Para os chineses, copiar plantas, técnicas, obras de arte ou modelos de edificação não</p><p>era um problema, mas era considerado um meio eficaz de preservar e reproduzir a originalidade de uma</p><p>determinada ideia ou elaboração artística. O ato de copiar também era usado como forma de treino, na arte</p><p>chinesa, para o desenvolvimento de habilidades de percepção e execução.</p><p>Quanto à produção em massa, ela parece ter sido</p><p>descoberta pelos chineses em torno do século 17 ou 16 AEC</p><p>e aplicada em vários setores produtivos. Eles conceberam a</p><p>produção a partir de moldes, que foram empregados na</p><p>produção de utensílios domésticos, vasos, armas, estátuas,</p><p>entre muitos outros objetos.</p><p>A capacidade de produzir materiais e instrumentos em larga</p><p>escala impulsionou a expansão do fenômeno de</p><p>urbanização na China antiga, permitindo o surgimento de</p><p>milhares de cidades.</p><p>Revoluções e materiais</p><p>Traços Neolíticos</p><p>As primeiras comunidades agrícolas procuraram se estabelecer próximas a cursos d’água. No caso da China,</p><p>isso era ainda mais importante, pois a principal cultura, do arroz, exigia terrenos constantemente</p><p>encharcados. As primeiras aldeias a surgirem foram se estabelecendo ao longo do rio Amarelo, onde um</p><p>terreno chamado Loesse favorecia tremendamente o empreendimento. Extremamente fértil, e com uma</p><p>consistência peculiar, o Loesse permitia ser trabalhado de várias formas diferentes.</p><p>Por essa razão, os habitantes locais preferiram</p><p>escavar o terreno e construir cavernas</p><p>artificiais, imitando a mais antiga forma de</p><p>abrigo conhecida. Essas cavernas-casas,</p><p>porém, eram muito diferentes, contando com</p><p>espaço planejado e, eventualmente, com</p><p>pátios, cômodos e janelas de frente.</p><p>Curiosamente, no mesmo vale da região de</p><p>Shaanxi, encontramos a vila de Banpo, datada</p><p>do sétimo milênio AEC, que revela uma outra</p><p>direção totalmente diferente. Eram igualmente</p><p>agricultores, mas investiram na construção de</p><p>cabanas de palha, madeira ou taipa dentro de um perímetro em forma circular.</p><p>No centro da vila, uma edificação mais ampla e alta parecia ter uma função ritual e política comunitária. A</p><p>sustentação desse prédio maior era feita por traves de madeira internas, enquanto as casas menores podiam</p><p>combinar estruturas de madeira com armações de bambu.</p><p>Estrutura de arquitetura tradicional chinesa, na província de Fujian, sudeste da</p><p>China.</p><p>O bambu merece uma nota especial dentro das tecnologias chinesas. Ele serve até hoje para construir</p><p>andaimes, armações de teto, canos de água, móveis e o descarte desse material era usado na produção de</p><p>combustível; talhado, podia ser usado em utensílios, ferramentas, e sua fibra podia ser usada para fazer</p><p>cestos, roupas e calçados. Em Banpo, também eram usadas ferramentas de osso e pedra, e havia uma</p><p>avançada cultura ceramista, que produzia potes de vários tipos diferentes, cada um com funções específicas.</p><p>Dois sistemas de construção tão distintos mostram que vários grupos humanos convergiam para o</p><p>Vale do Rio Amarelo, e interpretaram o meio ambiente com perspectivas e experiências igualmente</p><p>diferentes. No entanto, esses movimentos estimularam o encontro e a síntese de aprendizados,</p><p>constituindo o cerne do que seria a civilização chinesa.</p><p>A primeira unidade cultural chinesa parece ter surgido sob a égide da dinastia Xia (2070-1600 AEC), sobre a</p><p>qual ainda sabemos muito pouco. Sua sucessora, a dinastia Shang (1600-1027 AEC), ficou melhor conhecida</p><p>graças a uma série de tumbas e ruínas escavadas, que revelaram substanciais informações sobre o período.</p><p>Dinastia Shang</p><p>A arquitetura Shang</p><p>Templo de Dakaiyuan, em Xingtai, uma das muitas capitais da Dinastia Shang (entre</p><p>1600 a.C. e 1046 a.C.).</p><p>Palácio em Anyang, na província de Honã, na China.</p><p>As tumbas Shang constituíam de grandes fossos ou cavernas, escavados na terra ou na rocha, que formavam</p><p>estruturas simples, mas recheados de objetos que acompanharam o enterrado ao longo de sua vida. Seus</p><p>animais preferidos, e alguns de seus familiares e servos, eram ritualmente sacrificados, e iam junto para o</p><p>mundo espiritual.</p><p>Os Shang parecem ter formado um conjunto de crenças politeístas, inspiradas nas forças da</p><p>natureza, que foram desenvolvidas diretamente do antigo xamanismo. As crenças em um mundo</p><p>espiritual não fizeram, porém, com que os Shang tivessem uma nítida preocupação com edificações</p><p>religiosas, como no Egito ou Mesopotâmia. Suas tumbas se aproximavam do modelo das mastabas e</p><p>hipogeus, mas não foram construídos grandes templos.</p><p>Vivendo um sistema de realeza palaciana, em que as cidades tinham uma relativa autonomia (acatando a</p><p>liderança de um rei comum, o Wang), e governadas por uma elite ativa e opulenta, a construção das casas e</p><p>palácios acompanhou a projeção do poder político sobre a sociedade, incorporando grande parte das</p><p>experiências acumuladas ao longo da história.</p><p>Durante o período Shang, observamos um desenvolvimento significativo das estruturas prediais. As casas</p><p>comuns possuíam, em geral, um chão e paredes de terra batida (eventualmente de pau-a-pique), e tetos de</p><p>palha ou madeira sustentados por armações igualmente de madeira ou bambu.</p><p>Quanto às edificações mais complexas, em Anyang, a</p><p>capital dinástica, encontramos um grande prédio</p><p>estruturado por traves e colunas de madeira esculpida e</p><p>modelada, que parece ter servido de palácio para os</p><p>governantes. O teto era duplicado, com um vão entre eles,</p><p>para entrada de luz e ar. A estrutura retilínea era o padrão</p><p>das construções, e se tornaria o modelo básico da</p><p>civilização chinesa.</p><p>Esse palácio era fechado e dispunha de várias portas e</p><p>janelas, mas casas com pátios internos iriam surgir em</p><p>breve.</p><p>As cidades parecem ter sido elaboradas com algum tipo de planejamento. Podemos notar, pelos</p><p>assentamentos, que os chineses já estavam delineando os princípios básicos da sua ciência de paisagismo e</p><p>arquitetura, conhecida como Feng Shui [água e vento].</p><p>Inicialmente, esse conjunto de teorias parecia não estar ligado a concepções místicas, mas às experiências</p><p>práticas, como não residir muito próximo à água, não se instalar em barrancos instáveis, observar o ciclo do</p><p>sol para aproveitar a luminosidade, definir culturas vegetais que influenciassem a consistência do solo etc. A</p><p>adição de ideias mágicas parece ter vindo com o tempo, cumprindo o papel das dimensões religiosas da</p><p>cultura.</p><p>Registro de detalhamento estrutural das construções Shang -</p><p>Parte 1</p><p>Registro de detalhamento estrutural das construções Shang -</p><p>Parte 2</p><p>Registro de detalhamento estrutural das construções Shang -</p><p>Parte 3</p><p>Registro de detalhamento estrutural das construções Shang -</p><p>Parte 4</p><p>Os muros, que eram feitos de terra batida ou pedras empilhadas, começaram também a ser construídos com</p><p>tijolos de argila cozida e blocos de pedra, colados com a argamassa de arroz pegajoso que, como</p><p>comentamos, ainda hoje é considerado um excelente cimento. As conhecidas técnicas de produção em massa</p><p>contribuíram para popularizar as telhas e os tijolos, que se disseminaram em todas as edificações, ensejando</p><p>o surgimento de torres e pavimentos.</p><p>Guerreiros de terracota.</p><p>Guerreiros de terracota depositados na tumba do imperador Qinshi Huangdi.</p><p>Embora esteja fora de nosso escopo, vale comentar a tumba do imperador Qinshi Huangdi (que governou</p><p>entre 221-206 AEC), e que consubstanciava exatamente todo esse conjunto de experiências. Sua tumba, em</p><p>forma de palácio (combinando estruturas de tijolo com vigas de madeira e teto de telhas), foi enterrada sob</p><p>um monturo de terra até transformar-se em uma colina. Dentro dela, milhares de figuras de terracota foram</p><p>colocadas para acompanhar o soberano na vida espiritual.</p><p>Ali estavam todos os elementos da arquitetura</p><p>tradicional chinesa, desenvolvidos mais de um</p><p>milênio antes, envolvendo a produção em</p><p>massa, a cópia, o uso de designs consagrados</p><p>e atendendo às necessidades políticas e</p><p>religiosas de seu tempo. Esse monumento é um</p><p>dos recursos que podemos utilizar para</p><p>observar a continuidade das tradições chinesas</p><p>no campo arquitetônico.</p><p>Exemplificando a arquitetura</p><p>antiga oriental</p><p>Assista agora a um vídeo em que são apresentadas as técnicas e os aspectos mais marcantes da arquitetura</p><p>indiana antiga.</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Vem que eu te explico!</p><p>Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.</p><p>Cidade na Índia</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Arquitetura Shang</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.</p><p>Verificando o Aprendizado</p><p>Questão 1</p><p>Uma das dificuldades para identificar os templos e os palácios nas cidades indianas é</p><p>A</p><p>presença de claras estruturas com fins religiosos e políticos.</p><p>B</p><p>presença de templos, mas não de palácios.</p><p>C</p><p>presença de palácios, mas não de templos.</p><p>D</p><p>ausência de estruturas claramente voltadas para fins religiosos e políticos.</p><p>E</p><p>ausência de estruturas para banhos rituais.</p><p>A alternativa D está correta.</p><p>Com certeza, as sociedades do vale do Indo tinham suas práticas religiosas, e algum tipo de organização</p><p>política que hoje conhecemos pouco. A questão é que a ausência de estruturas claramente voltadas para</p><p>ritos e/ou administração torna difícil classificar e entender como funcionaria essa civilização, fazendo-nos</p><p>supor que tais atividades (política e religião) estariam disseminadas ou diluídas na comunidade, como</p><p>ocorre ainda em muitas sociedades indígenas. Nesse caso, a análise da arquitetura é fundamental para</p><p>compreender o pensamento das sociedade do vale do Indo.</p><p>Questão 2</p><p>Marcada por forte influência das técnicas desenvolvidas pelas comunidades no neolítico, podemos afirmar</p><p>que a arquitetura Shang</p><p>A</p><p>é marcada pelo uso de madeira e barro.</p><p>B</p><p>é marcada pelo vasto uso de pedra e junco.</p><p>C</p><p>não é uma sociedade nascida próxima aos rios, isso não tem influência.</p><p>D</p><p>dedicou-se a construções piramidais grandiosas como Egito e Mesopotâmia.</p><p>E</p><p>é constituída por técnicas de uso dos metais de maneira a mostrar sua superioridade técnica.</p><p>A alternativa A está correta.</p><p>Os Shang não chegaram a produzir grandes templos ou palácios como os egípcios, sumérios ou</p><p>babilônicos, e seus perímetros urbanos eram bem diferentes das construções indianas. As cidades Shang</p><p>têm uma relação direta com seu meio e com suas tradições arquitetônicas anteriores, construindo linhas e</p><p>projetos bastante singulares.</p><p>4. Conclusão</p><p>Considerações finais</p><p>Esperamos que você tenha aproveitado essa viagem pelo passado de África e Oriente. A lista de monumentos</p><p>que poderíamos examinar é enorme, e não caberia aqui; buscamos focar nas ideias essenciais, nos princípios</p><p>que guiaram nossos ancestrais para encontrar soluções de bem viver.</p><p>Como vimos, os caminhos foram difíceis, mas a criatividade humana muitas vezes é subestimada. Os antigos</p><p>foram os criadores de grande parte das ideias, teorias e métodos que conhecemos hoje. Muitas das linhas e</p><p>concepções de intervenção do espaço nasceram ali, fosse por motivos práticos ou religiosos. Vimos também a</p><p>importância de reconhecer a ação de nossa inteligência na criação da Arquitetura, escapando de explicações</p><p>estranhas ou equivocadas.</p><p>Por isso, nosso objetivo fundamental foi tentar apresentar os caminhos do pensar arquitetônico em suas</p><p>origens, e oferecer os meios para que possamos explorá-los melhor. Nossas raízes, de uma forma ou de outra,</p><p>estão fincadas na África e no Oriente. Quando nos deslumbramos com a arte grega, por exemplo, precisamos</p><p>saber antes o quanto ela bebeu dos egípcios; ou se olhamos o muro de uma típica casa inglesa, com seus</p><p>tijolos multicolores, saudemos a sabedoria dos ancestrais sumérios.</p><p>No Brasil, encontraremos esses conhecimentos, seja pelas mãos criativas de nossos indígenas, seja pelos</p><p>migrantes que para cá vieram, trazendo os saberes africanos e orientais. Nosso país é resultado desse</p><p>mundividência, desse fértil encontro de culturas que reproduz heranças e memórias dos antepassados.</p><p>Podcast</p><p>Agora, é hora de um bate-papo com um excelente resumo do conteúdo trabalhado.</p><p>Conteúdo interativo</p><p>Acesse a versão digital para ouvir o áudio.</p><p>Explore +</p><p>Leia o livro de Francis Ching e outros autores, História Global da Arquitetura (2019), que traz uma perspectiva</p><p>comparada e cronologicamente organizada das produções arquitetônicas ao redor do mundo.</p><p>Para conhecer mais sobre as civilizações asiáticas na antiguidade, veja o sítio do Projeto Orientalismo. Lá você</p><p>encontrará fontes e bibliografias sobre a história da China, Índia e Antiguidade oriental.</p><p>A série Construindo um Império (The History Channel, 2005-2007) traz uma série de episódios que mostram o</p><p>desenvolvimento dos conhecimentos científicos, artísticos e arquitetônicos no mundo antigo, contando com</p><p>especiais sobre o Egito e sobre a China.</p><p>Procure no YouTube pelo vídeo Computer Generated City of Mohenjo daro, uma reconstituição animada da</p><p>cidade de Mohenjo-Daro, com suas estruturas, sua vida cotidiana e tecnologias.</p><p>Referências</p><p>BAKOS, M. Egiptomania: o Egito no Brasil. São Paulo: Contexto, 2011.</p><p>BRYSON, B. Em casa: Uma breve história da vida doméstica. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.</p><p>CARDOSO, C. F. Sociedades do Antigo Oriente Próximo. Rio de Janeiro: Ática, 1986.</p><p>CHILDE, V. G. A evolução cultural do homem. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.</p><p>CHING, F.; JARZOMBEK, M.; PRAKASH, V. História Global da Arquitetura. São Paulo: Bookman, 2019.</p><p>FAZIO, M.; MOFFETT, M.; WODENHOUSE, L. A história da</p>

Mais conteúdos dessa disciplina