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<p>AQUINO, Maurício de. As fontes históricas no ensinar, produzir e aprender história: apontamentos e reflexões. Revista</p><p>Eletrônica História e-História. Brasil, 2014. http://historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=artigos&id=281</p><p>As fontes históricas no ensinar, produzir e aprender história:</p><p>apontamentos e reflexões</p><p>Maurício de Aquino</p><p>1. O ofício de historiador</p><p>Marc Bloch consagrou a ideia da prática do historiador como</p><p>sendo um ofício em seu célebre livro Apologia da história ou O ofício de</p><p>historiador. Nesse texto – inconcluso por conta do assassinato de Bloch, preso</p><p>em um campo de concentração nazista – o autor apresenta suas reflexões</p><p>acerca dos elementos constituintes do trabalho do historiador: a concepção de</p><p>história, o recorte do historiador, a lida com os documentos, o método crítico e</p><p>a análise propriamente histórica. Bloch diz tratar-se de uma (sua) prestação de</p><p>contas1 de alguém envelhecido no ofício. Ofício que exige vocação e esforço</p><p>intelectual2.</p><p>Partindo das ideias de Marc Bloch e passando pelas</p><p>interpretações de Charles Wright Mills, Carlo Ginzburg, Roger Chartier e René</p><p>Rémond, considera-se a prática da história como um ofício pelas seguintes</p><p>razões:</p><p>a) a história é um conhecimento empírico, assentado no</p><p>tratamento dos vestígios do passado, ou em termos técnicos, das fontes</p><p>históricas;</p><p>b) o trabalho do historiador é mais artesanal do que mecânico,</p><p>seu trabalho se assemelha mais ao de um luthier que com os nós dos dedos</p><p>avalia a madeira dos violinos;</p><p> Professor Adjunto da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP). Licenciado em</p><p>História pela Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Jacarezinho. Doutor em</p><p>História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP/Assis). E-mail:</p><p>mauriaquino12@uenp.edu.br</p><p>1</p><p>Marc Bloch, Apologia da história ou O ofício de historiador, p. 42.</p><p>2</p><p>Ibidem, p. 44.</p><p>http://historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=artigos&id=281</p><p>mailto:mauriaquino12@uenp.edu.br</p><p>AQUINO, Maurício de. As fontes históricas no ensinar, produzir e aprender história: apontamentos e reflexões. Revista</p><p>Eletrônica História e-História. Brasil, 2014. http://historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=artigos&id=281</p><p>c) o trabalho do historiador envolve também sua vida pessoal,</p><p>não é apenas uma profissão que se exerce algumas horas do dia, é um modo</p><p>de existir no mundo, de ver o mundo e de se posicionar nele. No ofício de</p><p>historiador há grande articulação e envolvimento entre atividades profissionais</p><p>e experiências pessoais.</p><p>Na contemporaneidade o ofício de historiador passou por</p><p>expressivas transformações em razão das profundas mudanças sociopolíticas,</p><p>econômicas e culturais que marcaram o século XX. O historiador Antônio Celso</p><p>Ferreira abordou essa questão em seu texto O historiador sem tempo.</p><p>Fundamentando-se nas ideias de Michel de Certeau sobre as relações entre o</p><p>ofício de historiador e o sistema de produção mais amplo, Antônio Celso</p><p>Ferreira descreve as alterações no ofício de historiador desde três grandes</p><p>aspectos: modos de produção; sujeitos e práticas; produtos, mercado e valor.</p><p>Em síntese, tem-se:</p><p>a) Modos de produção. Do século XIX para o século XX os</p><p>historiadores passaram da arte para a indústria cultural, do vínculo duradouro</p><p>ao contrato provisório, das horas vagas ao tempo exíguo, da erudição à</p><p>versatilidade.</p><p>b) Sujeitos e práticas. Do século XIX para o século XX os</p><p>historiadores passaram da elite à massa, da maturidade à juvenilidade, de</p><p>intelectuais à operadores de teorias e metodologias.</p><p>c) Produtos, mercado, valor. No último século os produtos dos</p><p>historiadores encaminharam-se da tese ao artigo, da raridade à profusão; do</p><p>público seleto ao mercado insólito; da mega à nano história.</p><p>Desses três conjuntos de aspectos pode-se afirmar que o ofício</p><p>de historiador se tornou mais ampliado, complexo e sofisticado ao longo do</p><p>último século. O ofício se modificou por dentro e por fora. Exigências e</p><p>demandas sociais e epistemológicas fizeram com que o trabalho do historiador</p><p>rompesse antigos limites, repensando sujeitos, espaços, abordagens,</p><p>http://historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=artigos&id=281</p><p>AQUINO, Maurício de. As fontes históricas no ensinar, produzir e aprender história: apontamentos e reflexões. Revista</p><p>Eletrônica História e-História. Brasil, 2014. http://historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=artigos&id=281</p><p>problemas, fontes e relações. Em tempos de crises políticas e identitárias a</p><p>história tornou-se uma vez mais matéria-prima discursiva para tribos, grupos,</p><p>povos e nações. Diante da chamada onda pós-moderna, do relativismo</p><p>filosófico, a história foi pressionada quanto aos seus resultados, para alguns</p><p>entrou em crise. Nesse momento, olhares voltados para a prática típica do</p><p>ofício de historiador salientaram a pedra angular de todo trabalho histórico: os</p><p>documentos, as evidências de uma época, as fontes históricas.</p><p>Em texto clássico, intitulado Não basta a história de identidade,</p><p>o saudoso e brilhante historiador Eric Hobsbawm escreveu a respeito dessa</p><p>ideológica tentativa de confundir realidade e ficção histórica, bem como acerca</p><p>da responsabilidade do historiador:</p><p>Insistir na supremacia da evidência e na importância</p><p>central da distinção entre fato histórico verificável e ficção</p><p>é apenas uma das maneiras de exercer a</p><p>responsabilidade do historiador e, como a atual fabricação</p><p>histórica não é o que era antigamente, talvez não seja a</p><p>mais importante. Ler os desejos do presente no passado,</p><p>ou, em termos técnicos, anacronismo, é a técnica mais</p><p>comum e conveniente de criar uma história que satisfaça</p><p>as necessidades do que Benedict Anderson chamou</p><p>‘comunidades imaginadas’ ou coletivos, que não são, de</p><p>modo algum, apenas nacionais3.</p><p>Os historiadores em seu ofício assumem a responsabilidade de</p><p>avaliar e reconstruir as narrativas sobre as experiências humanas no tempo.</p><p>Hobsbawm aponta dois critérios centrais nesse trabalho: em termos empíricos,</p><p>as evidências; em termos interpretativos, a historicidade, isto é, uma</p><p>abordagem que evite o anacronismo. Por isso, assevera: “Se a história é uma</p><p>arte imaginativa, é uma arte que não inventa mas organiza objets trouvés</p><p>[objetos encontrados]”4.</p><p>3</p><p>Eric Hobsbawm, Sobre História, p. 288.</p><p>4</p><p>Ibidem, p. 287.</p><p>http://historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=artigos&id=281</p><p>AQUINO, Maurício de. As fontes históricas no ensinar, produzir e aprender história: apontamentos e reflexões. Revista</p><p>Eletrônica História e-História. Brasil, 2014. http://historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=artigos&id=281</p><p>2. As fontes históricas: condição do conhecimento histórico</p><p>Para Marc Bloch o núcleo do ofício de historiador consiste na</p><p>observação histórica. Contrariando o senso comum sobre a história, Bloch</p><p>demonstrou que o historiador também utiliza a observação na construção de</p><p>seu objeto. A história não é um conhecimento estritamente indireto. Observa-se</p><p>o tempo passado ao se observar os seus indícios e resquícios no presente.</p><p>Nas ruas preservadas de uma cidade do século XVIII experimentamos andar</p><p>por uma rua de então. A mesma experiência se repete ao visitarmos um</p><p>edifício. Tendo às mãos uma moeda do século XIX, podemos observá-la,</p><p>analisá-la, senti-la, pensar sobre os seus usos e trajetórias a partir de suas</p><p>marcas e coloração. Os historiadores observam o passado. Passado de</p><p>existência corroborada por seus vestígios e indícios.</p><p>É isso: a história se faz com documentos. O ofício do</p><p>historiador consiste na observação criteriosa dos testemunhos do passado.</p><p>Testemunhos muitas vezes reunidos em arquivos. O arquivo que é a condição</p><p>da história, nas palavras da psicóloga e historiadora Elisabeth Roudinesco,</p><p>visto que:</p><p>Para resumir, diremos que</p><p>a obediência cega à</p><p>positividade do arquivo, seu poder absoluto, leva tanto a</p><p>uma impossibilidade da história quanto a uma recusa do</p><p>arquivo. Em outros termos, o culto excessivo do arquivo</p><p>resulta numa contabilidade (a história quantitativa)</p><p>destituída de imaginação e que proíbe que possamos</p><p>pensar a história como uma construção capaz de suprir a</p><p>ausência de vestígios. Quanto à negação do arquivo, de</p><p>seu peso interiorizado com memória subjetiva, ou como</p><p>herança genealógica, ela corre o risco de conduzir a um</p><p>delírio que reconstruiria o espelho do arquivo à maneira</p><p>de um dogma5.</p><p>Arquivo que não é desinteressadamente constituído e</p><p>organizado, conforme já alertou Marc Bloch:</p><p>A despeito do que às vezes parecem imaginar os</p><p>iniciantes, os documentos não surgem, aqui ou ali, por</p><p>efeito [de não se sabe] qual misterioso decreto dos</p><p>deuses. Sua presença ou ausência em tais arquivos, em</p><p>tal biblioteca, em tal solo deriva de causas humanas que</p><p>5</p><p>Elisabeth Roudinesco, A análise e o arquivo, p. 09-10.</p><p>http://historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=artigos&id=281</p><p>AQUINO, Maurício de. As fontes históricas no ensinar, produzir e aprender história: apontamentos e reflexões. Revista</p><p>Eletrônica História e-História. Brasil, 2014. http://historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=artigos&id=281</p><p>não escapam de modo algum à análise, e os problemas</p><p>que sua transmissão coloca, longe de terem apenas o</p><p>alcance de exercícios de técnicos, tocam eles mesmos no</p><p>mais íntimo da vida do passado, pois o que se encontra</p><p>assim posto em jogo é nada menos do que a passagem</p><p>da lembrança através das gerações6.</p><p>Os arquivos têm uma história. Os arquivos funcionam como</p><p>filtros sociais da memória histórica, da “passagem da lembrança através das</p><p>gerações”, ao negarem ou permitirem a guarda e o acesso aos testemunhos do</p><p>passado. Todavia, na prática de seu ofício os historiadores aprenderam a</p><p>constituir seus próprios arquivos: tudo pode ser grão para o moinho do</p><p>historiador. De fato, ao longo do século XX se ampliaram expressivamente as</p><p>noções de fontes históricas e de seus tratamentos metodológicos. O próprio</p><p>Marc Bloch já havia contestado os limites da concepção oficial de fonte</p><p>histórica em seu tempo ao afirmar: “o que entendemos efetivamente por</p><p>documentos senão um ‘vestígio’, quer dizer, a marca, perceptível aos sentidos,</p><p>deixada por um fenômeno em si mesmo impossível de captar?”7</p><p>Explorando essa definição de Bloch, o historiador Júlio</p><p>Aróstegui apresentou a seguinte formulação conceitual para fonte histórica:</p><p>Fonte histórica seria, em princípio, todo aquele material,</p><p>instrumento ou ferramenta, símbolo ou discurso</p><p>intelectual, que procede da criatividade humana, através</p><p>do qual se pode inferir algo acerca de uma determinada</p><p>situação social no tempo8.</p><p>Vale lembrar que a revolução da concepção de fonte histórica</p><p>consistiu em dois importantes movimentos: primeiro, a ampliação do que seria</p><p>considerado documento; segundo, a forma de tratar, de interpretar o</p><p>documento.</p><p>Se no século XIX muitos historiadores propunham um tipo de</p><p>fidelidade às fontes históricas como sinônimo de repeti-las, atualmente os</p><p>historiadores têm clara percepção de que as fontes históricas devem ser</p><p>analisadas desde um aparato teórico-metodológico. Cada testemunho do</p><p>passado (fonte histórica) traz as marcas ideológicas de seu ambiente de</p><p>6</p><p>Marc Bloch, Apologia da história ou O ofício de historiador, p. 83.</p><p>7</p><p>Ibidem, p. 73.</p><p>8</p><p>Júlio Aróstegui, A pesquisa histórica, p. 491.</p><p>http://historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=artigos&id=281</p><p>AQUINO, Maurício de. As fontes históricas no ensinar, produzir e aprender história: apontamentos e reflexões. Revista</p><p>Eletrônica História e-História. Brasil, 2014. http://historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=artigos&id=281</p><p>produção, de sua época, de suas relações de força. Sem um criterioso aparato</p><p>teórico-metodológico o historiador corre o sério risco de tornar-se um porta-voz</p><p>de personagens do passado, reproduzindo acriticamente suas visões de</p><p>mundo. Daí a necessidade do historiador conhecer a origem e os usos sociais</p><p>das fontes. Cotejá-las com fontes de outra origem social e de outro tipo,</p><p>entendendo que os documentos são evidências do passado e não vozes de</p><p>autoridade ou espelhos límpidos de outra época.</p><p>Enfim, de modo geral, os historiadores utilizam os seguintes</p><p>procedimentos e etapas elementares no trabalho com as fontes históricas:</p><p>1. Determinar o tipo de documento (escrito ou não escrito etc.)</p><p>e atentar para as suas especificidades.</p><p>2. Definir a extensão da fonte histórica objeto de estudo</p><p>(documento integral ou parcial, série etc.).</p><p>3. Identificar a época e as circunstâncias de produção do</p><p>documento (arrolando acontecimentos que podem ter exercido</p><p>influência na sua produção).</p><p>4. Identificar o autor ou autores (caso estes sejam conhecidos)</p><p>e conhecer as circunstâncias pessoais que podem ter exercido</p><p>influência na produção do documento.</p><p>5. Determinar a ideia geral contida no documento: decompô-lo</p><p>em diferentes partes ou temas, buscando relações entre eles.</p><p>6. Relacionar essa ideia geral com as circunstâncias de</p><p>produção do documento entendendo o documento no contexto</p><p>de sua época (inclusive o significado de palavras e expressões</p><p>empregadas).</p><p>7. Identificar e discutir os critérios possivelmente adotados por</p><p>quem produziu o documento.</p><p>8. Explicitar as informações contidas no documento: verificar</p><p>datas, acontecimentos, pessoas, lugares, afirmações etc.</p><p>9. Cruzar o documento com outras fontes históricas (cotejar</p><p>informações, justapor documentos, relacionar textos e</p><p>contextos, estabelecer constantes, identificar mudanças e</p><p>permanências).</p><p>10. Reconstruir textualmente determinada situação histórica</p><p>através do (s) documento (s) analisado (s).</p><p>http://historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=artigos&id=281</p><p>AQUINO, Maurício de. As fontes históricas no ensinar, produzir e aprender história: apontamentos e reflexões. Revista</p><p>Eletrônica História e-História. Brasil, 2014. http://historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=artigos&id=281</p><p>3. As fontes históricas: condição do ensinar e aprender história</p><p>Se não há conhecimento histórico sem a lida com documentos,</p><p>também não pode haver um autêntico ensino de história sem atividades com</p><p>fontes históricas. O trabalho com documentos na sala de aula da educação</p><p>básica permite aos alunos e às alunas construir uma concepção mais complexa</p><p>e dinâmica da história. É partir da história crônica em direção à história</p><p>problema.</p><p>Nesse aspecto da importância de se conhecer as vicissitudes</p><p>do ofício de história para melhor entender intelectualmente o que é a história, já</p><p>ponderava Marc Bloch:</p><p>Todo livro de história digno desse nome deveria</p><p>comportar um capítulo ou [, caso se prefira], inserida nos</p><p>pontos de inflexão da exposição, uma série de parágrafos</p><p>que se intitulariam algo como: ‘Como posso saber o que</p><p>vou lhes dizer?’ Estou convencido de que, ao tomar</p><p>conhecimento dessas confissões, inclusive os leitores que</p><p>não são do ofício experimentariam um verdadeiro prazer</p><p>intelectual. O espetáculo da busca, com seus sucessos e</p><p>reveses, raramente entedia. É o tudo pronto que espalha</p><p>o gelo e o tédio9.</p><p>Nesse sentido, no texto Sobre a norma e o óbvio: a sala de</p><p>aula como lugar de pesquisa, Paulo Knauss questiona a aula de história como</p><p>lugar de interiorização de norma e defende a necessidade de interrogar o que</p><p>se considera como obviedade superando o uso didático do documento como</p><p>ilustração pela postura de utilizar o documento como problema fazendo dos</p><p>temas rotineiros, óbvios, objeto de crítica histórica no confronto entre as</p><p>concepções que se têm destes temas e as informações dos documentos</p><p>históricos da época em estudo.</p><p>O trabalho didático com fontes históricas dispensaria,</p><p>segundo</p><p>Paulo Knauss, o uso de livros didáticos, para ele instrumentos negativamente</p><p>normatizadores do saber, contribuindo para a autonomia do professor e dos</p><p>alunos na construção do conhecimento histórico. Além disso, para Knauss:</p><p>O trabalho com os documentos históricos desde cedo</p><p>pode ser justamente uma fórmula para não adiarmos as</p><p>tarefas que o mundo contemporâneo exige da escola –</p><p>que o aluno compreenda a lógica dos meios de</p><p>9</p><p>Marc Bloch, Apologia da história ou O ofício de historiador, p. 83.</p><p>http://historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=artigos&id=281</p><p>AQUINO, Maurício de. As fontes históricas no ensinar, produzir e aprender história: apontamentos e reflexões. Revista</p><p>Eletrônica História e-História. Brasil, 2014. http://historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=artigos&id=281</p><p>comunicação, especialmente os de massa, para não ser</p><p>agente passivo da manobra de informações,</p><p>reconhecendo outras visões de mundo, desabsolutizando-</p><p>as e demarcando a sua identidade de sujeito da própria</p><p>existência10.</p><p>A historiadora Carla Beatriz Meinerz considera, por sua vez,</p><p>desde uma perspectiva da pedagogia construtivista, que a aprendizagem</p><p>significativa da história exige envolvimento do aluno no próprio processo de</p><p>aprendizagem. No caso da disciplina escolar de história esse envolvimento</p><p>passaria pelo trabalho com fontes históricas. Além de importante</p><p>encaminhamento pedagógico, Meinerz afirma ainda que a ausência de</p><p>atividades didáticas com documentos históricos na sala de aula contradiz a</p><p>própria natureza da ciência histórica. Segundo Meinerz:</p><p>Nessa perspectiva, conhecemos a história na medida em</p><p>que interagimos com os vestígios ou com as diferentes</p><p>interpretações sobre os mesmos. O ensino de história que</p><p>não possibilite essa interação, ou que apresente uma</p><p>única leitura dos fatos, parte de um pressuposto contrário</p><p>ao da própria ciência histórica11.</p><p>A relevância pedagógica e propriamente historiográfica do uso</p><p>criterioso das fontes históricas na sala de aula não deve, entretanto, eclipsar as</p><p>especificidades de tal atividade. Diferentemente dos pesquisadores voltados</p><p>para a reconstrução de um período histórico, os professores usam os</p><p>documentos históricos como materiais didáticos. Circe Maria Fernandes</p><p>Bittencourt, uma das mais importantes especialistas em ensino de história,</p><p>considera a respeito que:</p><p>O professor traça objetivos que não visam à produção de</p><p>um texto historiográfico inédito ou a uma interpretação</p><p>renovada de antigos acontecimentos, com o uso de novas</p><p>fontes. As fontes históricas em sala de aula são utilizadas</p><p>diferentemente. Os jovens e as crianças estão</p><p>“aprendendo História” e não dominam o contexto histórico</p><p>em que o documento foi produzido, o que exige sempre a</p><p>atenção ao momento propício de introduzi-lo como</p><p>10</p><p>Paulo Knauss, Sobre a norma e o óbvio, p. 44.</p><p>11</p><p>Carla Beatriz Meinerz, História Viva, p. 34.</p><p>http://historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=artigos&id=281</p><p>AQUINO, Maurício de. As fontes históricas no ensinar, produzir e aprender história: apontamentos e reflexões. Revista</p><p>Eletrônica História e-História. Brasil, 2014. http://historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=artigos&id=281</p><p>material didático e à escolha dos tipos adequados ao nível</p><p>e às condições de escolarização dos alunos12.</p><p>De fato, não é objetivo da disciplina de história na educação</p><p>básica a transformação das crianças e dos jovens em “pequenos</p><p>historiadores”. Com efeito, não devem ser negligenciadas as diferenças e</p><p>especificidades da utilização das fontes históricas nos institutos de pesquisa e</p><p>nas escolas básicas. Todavia, a construção de uma concepção crítica de</p><p>história depende, em alguma medida, da lida com os testemunhos do passado.</p><p>Nas palavras da historiadora e educadora portuguesa Maria Cândida Proença:</p><p>Embora não seja uma novidade, o ensino de História pela</p><p>utilização de documentos ainda, por vezes, se processa</p><p>de forma inadequada devido a dificuldades</p><p>experimentadas pelos professores no comentário de</p><p>textos e documentos com os alunos. Como é evidente</p><p>não existem “receitas” ou um modelo único par ao</p><p>comentário de textos históricos, já que um mesmo</p><p>documento pode ser comentado de várias maneiras; o</p><p>importante é fazer-se um estudo exaustivo do mesmo e</p><p>evitar utilizar documentos apenas como ilustração das</p><p>afirmações do professor13.</p><p>Do uso elementar, como ilustração, ao uso crítico, como</p><p>problema, o documento histórico é peça-mestra das aulas de história ao</p><p>oportunizar a construção de uma concepção científica da história, ao</p><p>desenvolver capacidades analíticas de diferentes fontes expressas em diversas</p><p>linguagens, ao confrontar discursos, ao interrogar e problematizar temas</p><p>históricos. Enfim, o trabalho com fontes históricas permite a construção da</p><p>capacidade de pensar historicamente o que pressupõe mais do que o acúmulo</p><p>de informações sobre fatos e datas ao exigir também a habilidade de avaliar</p><p>criticamente as fontes de informação historiográfica e as interpretações</p><p>ideológicas que são realizadas acerca dessas mesmas fontes e dos</p><p>acontecimentos e processos históricos.</p><p>12</p><p>Circe Bittencourt, Ensino de História, p. 329.</p><p>13</p><p>Maria Cândida Proença, Didáctica da História, p. 126.</p><p>http://historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=artigos&id=281</p><p>AQUINO, Maurício de. As fontes históricas no ensinar, produzir e aprender história: apontamentos e reflexões. Revista</p><p>Eletrônica História e-História. Brasil, 2014. http://historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=artigos&id=281</p><p>4. Tipologia documental14</p><p>14</p><p>Ibidem, p. 127.</p><p>DOCUMENTOS</p><p>ESCRITOS</p><p>Documentos</p><p>Pontuais</p><p>Documentos</p><p>Seriais</p><p>Objetivos = fontes jurídicas e administrativas</p><p>Subjetivos = fontes literárias [correspondências, memórias,</p><p>romances, autobiografias].</p><p>Objetivos = documentos administrativos repetitivos [listas nominais,</p><p>registros paroquiais, fontes fiscais, inquirições gerais].</p><p>Subjetivos = réus confessos, testamentos, livros, imprensa.</p><p>DOCUMENTOS</p><p>NÃO ESCRITOS</p><p>Iconográficos</p><p>Orais</p><p>Sonoros</p><p>Materiais diversos</p><p> Pinturas</p><p> Gravuras</p><p> Fotografias</p><p> Filmes</p><p> Cartazes etc.</p><p> Construções</p><p> Paisagens</p><p> “Artefatos”:</p><p>utensílios,</p><p>mobiliário, armas,</p><p>moedas etc.</p><p>Testemunhos diretos</p><p>Registros musicais, registros de discursos, de</p><p>conversas etc.</p><p>http://historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=artigos&id=281</p><p>AQUINO, Maurício de. As fontes históricas no ensinar, produzir e aprender história: apontamentos e reflexões. Revista</p><p>Eletrônica História e-História. Brasil, 2014. http://historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=artigos&id=281</p><p>Referências</p><p>ARÓSTEGUI, Júlio. A Pesquisa Histórica. Tradução de Andrea Dora. Bauru,</p><p>SP: Edusc, 2006.</p><p>BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes. Ensino de História: fundamentos e</p><p>métodos. 4.ed. São Paulo: Cortez, 2011.</p><p>BLOCH, Marc. Apologia da história ou O ofício de historiador. Tradução</p><p>André Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.</p><p>BORGES, Vavy Pacheco. O que é história. 2.ed. São Paulo: Brasiliense,</p><p>1993.</p><p>BRAUDEL, Fernand. Escritos sobre a história. Tradução de J. Guinsburg e</p><p>Tereza Cristina Silveira da Mota. 2.ed. 4.reimp. São Paulo: Perspectiva, 2011.</p><p>CAIMI, Flávia Eloisa. Aprendendo a ser professor de história. Passo Fundo,</p><p>RS: Ed. UPF, 2008.</p><p>CARRETERO, Mario; CASTORINA, José A. (Ed.). 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