Logo Passei Direto
Buscar

CARVALHO, L G de Aporias da proteção do patrimônio cultural e natural de uma comunidade remanescente de quilombo na Amazônia

Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

<p>Luciana Gonçalves de Carvalho APORIAS DA PROTEÇÃO DO PATRIMÔNIO CULTURAL E NATURAL DE UMA COMUNIDADE REMANESCENTE DE QUILOMBO NA AMAZÔNIA INTRODUÇÃO (PA), acerca das estratégias e pertinentes para a defesa de direitos coletivos O ano de 2018 foi escolhido pelo relativos ao ambiente (florestas, rios, lagos Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico e sedes comunitárias que correspondem a Nacional Iphan para a realização de áreas de uso e moradia) onde os quilombolas uma série de ações com vistas à difusão e cultivam modos próprios de criar, fazer e valorização do patrimônio cultural da Região viver. O fato de TQ Alto Trombetas II ser, Norte do Brasil, entre as quais se destacam atualmente, objeto de processos simultâneos uma exposição, um seminário internacional de tombamento, titulação e licenciamento e esta edição da Revista do Patrimônio. ambiental, que tramitam em órgãos federais Diante da feliz oportunidade que essa distintos, assinala um contexto notoriamente autarquia concedeu para a participação de complexo, no qual afloram paradoxos da diversas frentes de pesquisa em seus arquivos preservação do patrimônio cultural e natural 211 no Brasil. institucionais, visando à seleção e elaboração de textos para integrar as referidas produções, De um lado, a Superintendência do Iphan Maria do Carmo um processo de tombamento aberto em 2010 no Pará Iphan-PA lida com um processo fazendo cerâmica aberto em 1995, relativo ao tombamento na Comunidade de e arquivado por motivo de indeferimento Moura, Território Alto em 2014 chamou atenção. Requeria ele dos Quilombos de Oriximiná, entre os quais Trombetas (PA), 2016 Alto Trombetas II. Em 2013, Iphan-PA Foto: Suellem Esquerdo "tombamento da floresta amazônica, em toda sua extensão", sob a justificativa de que se 1. A distinção entre estratégia e tática remete a Michel de trata de um ambiente imprescindível para a Certeau (1994 p. 99-100), para quem a primeira é (ou a das relações de forças que se torna possível continuidade da vida na Terra. a partir do momento em que um sujeito de querer e poder (...) O processo de tombamento da floresta pode ser isolado. A estratégia postula um lugar suscetível de ser circunscrito como algo e ser a base de onde se podem gerir inspirou novas reflexões sobre debates as relações com uma exterioridade de alvos ou ameaças (...)". À tática, reconhecida pelo autor como a arte do fraco, corresponde anteriormente travados com as comunidades "a ação calculada que é determinada pela ausência de um próprio. Então nenhuma delimitação de fora lhe fornece a condição de au- do Território Quilombola (TQ) Alto tonomia. A tática não tem por lugar senão do outro. E por isso deve jogar com terreno que lhe é imposto tal como organiza a Trombetas II, no município de lei de uma força estranha".</p><p>realizou Inventário Nacional de Referências comunidades tem restado a opção de negociar Culturais dos Quilombos de Oriximiná, formas alternativas de regularização fundiária, N doravante chamado INRC-Quilombos ou enquanto lidam com restrições impostas pela simplesmente INRC, a fim de aprofundar legislação conhecimentos sobre o sítio e as Por fim, o Instituto Brasileiro do em questão, mas até o momento não houve Meio Ambiente e dos Recursos Naturais desdobramentos desse estudo e o processo de Renováveis Ibama e a Fundação Cultural 1995 também não chegou a Palmares FCP estão envolvidos no processo O Instituto de Colonização e Reforma de licenciamento ambiental, iniciado em Agrária Incra, por intermédio da 2012, para projeto de exploração de Superintendência em Santarém (SR-30/ bauxita no interior e no entorno do TQ Alto Incra), dá andamento ao processo aberto Trombetas II, em áreas que, atualmente, pelas comunidades remanescentes de estão nos limites de uma das UCs geridas quilombos em 2004, com vistas à titulação pelo ICMBio6. Esse projeto é de interesse definitiva do TQ Alto Trombetas II. O da Mineração Rio do Norte MRN, processo, que se tornou objeto de ação que se implantou em Porto Trombetas na judicial, tem tido o desfecho postergado pelo década de 1970, simultaneamente à criação fato de estar sobreposto por duas Unidades da primeira UC na região. Desde então, de Conservação UC federais, criadas nas a mineradora está envolvida em conflitos décadas de 1970 e 19804 e geridas pelo decorrentes de impactos socioambientais Instituto Chico Mendes de Conservação da da atividade minerária que vêm afetando os Biodiversidade ICMBio. No choque entre modos de criar, fazer e viver das comunidades direitos ambientais, territoriais e culturais, às remanescentes de quilombo. No complexo contexto em que vivem 212 2. De acordo com o Manual de Aplicação do INRC, sítios e tais comunidades na região do Trombetas, localidades são delimitados conforme diferentes critérios, não necessariamente geográficos, e "correspondem à implantação de os três processos supracitados abordam, modos de vida. à percepção de fronteiras, à elaboração de regras de conduta e criação de valores" (Iphan, 2000:33). No caso em por diferentes vias, questões semelhantes tela, considerou-se como sítio o município de e, como localidades, os diversos TQs nele existentes, titulados ou não. relativas à salvaguarda do direito de manter 3. No Dicionário Iphan de Cultural disponível no o próprio modo de vida no território que portal eletrônico do Iphan, Vaz (2016) informa que dez processos dominam desde o século 19. Na medida semelhantes tramitam no órgão, tendo por objeto o tombamento dos quilombos Ambrósio, Vão do Moleque e Flexal, do quilom- em que os três processos encontram bo em Ivaporunduva, e das áreas conhecidas como Jamary dos Pretos. Riacho de Sacutiaba e Sacutiaba, Castainho, restrições e têm sua tramitação postergada, Porto Coris e Campinho da Independência, todas ocupadas por comunidades remanescentes de quilombo. Deles, apenas o nota-se que as legislações voltadas para o primeiro, relativo aos "Remanescentes do antigo Quilombo do Ambrósio". resultou em tombamento. Posteriormente ao ato, patrimônio cultural e para o patrimônio em agosto de 2014, o Ministério Público Federal em Uberaba instaurou Inquérito Civil Público para apurar irregularidades no processo de tombamento. 5. Situação similar é vivenciada pelas comunidades integrantes do TQ Alto Trombetas I. 4. Privilegiando o ponto de vista das comunidades remanescentes de quilombos, que, em tese, têm garantido pela Constituição 6. O referido processo de licenciamento ambiental além Federal o direito à propriedade definitiva da terra secularmente do Alto Trombetas II, os TQs Boa Vista e Alto Trombetas I, am- ocupada, assume-se que foram as UCs "que foram colocadas em bos vizinhos do TQ ora estudado, estando o primeiro a jusante e cima" (informação verbal), ou seja, que se superpuseram ao TQ. o segundo a montante do rio</p><p>natural apresentam, simultaneamente, discurso da requerente quanto à necessidade zonas de superposição e lacunas que, se não de preservação da floresta não difere das e levam à inação, sem dúvida contribuem assertivas amplamente difundidas desde para ações estatais contraditórias no que a década de 1990, no Brasil e no mundo, tange à proteção de direitos coletivos tanto pela ciência quanto pela imprensa, que territoriais, socioambientais e culturais das denunciam o crescente desmatamento na comunidades em questão. Nas contradições Amazônia, suas consequências e causas, entre alimentadas pela confrontação entre as as quais ações e decisões do próprio Estado práticas jurídicas e administrativas do Estado (Fearnside, 2005; 2006). da com as expectativas de direito das próprias A floresta amazônica está sendo derrubada comunidades, emergem as aporias da razão de forma acelerada porque tem pouco valor na de ambiental e patrimonial em meio às quais elas percepção da sociedade brasileira atual, apesar de devem operar tática e estrategicamente. uma parte dos formadores de opinião afirmarem de o contrário. Esta contradição entre o discurso e a DA RAZÃO PATRIMONIAL E realidade é comum no AMBIENTAL mundo e ajuda a entender muito a respeito dos problemas de degradação ambiental que estão No processo n° 1725-T-14, protocolizado minando a sustentabilidade do empreendimento no Iphan sob o n° 01450.009085/2010-36, humano (Clement & Higuchi, 2006:44). uma residente em Bragança Paulista Apesar da irrefutável realidade do (SP) requereu expressamente o que se segue: desflorestamento da região após (...) [o] tombamento da Floresta Amazônica, análise do requerimento de tombamento em toda sua extensão, incluindo-se todos os da floresta, a recomendação técnica ao Estados e Territórios da Região Norte, abrangendo Departamento de Patrimônio Material 213 as áreas de florestas nativas, as quais devem (Depam/Iphan) foi indeferimento do permanecer tal e qual se encontram atualmente, pedido e posterior envio ao Arquivo Central em fauna, flora e bio sistemas, não se podendo, do Iphan para que se proceda à abertura de doravante, derrubar nenhuma árvore dessa processo de tombamento, série 'T', seguido Floresta, tendo em vista sua importância para a preservação da vida no planeta TERRA, suas riquezas científicas e tesouros arqueológicos. 7. Vide uma série de reportagens publicadas no primeiro semestre de 2018, sob títulos alarmantes: Desmatamento na Amazônia está prestes a atingir limite irreversível, informa a Agência Fapesp, Preservando-se a redação da autora, tal em 21 de fevereiro (http://agencia.fapesp.br/desmatamento-na- Des- como se extrai do processo supracitado, "a matamento na Amazônia em março é 243% maior do que mesmo período do ano passado, anuncia o site Conexão Planeta, em 24 de justificativa para o tombamento pretendido abril é a preservação da FLORESTA, suas -passado/); Pará é estado com maior índice de desmatamento da riquezas e sua função para a continuidade Amazônia Legal, aponta Imazon, em 20 de junho (https://gl.glo- da vida no planeta Terra, pois o bio sistema Mais de 10 mil hectares de floresta já foram destruídos na Terra (sic) só continuará a existir se a floresta Karipuna, revela o site Amazônia: notícia e informação, em 27 de julho permanecer intacta". Nesse aspecto, o</p><p>Igarapé de Fogo, afluente do rio Acari na do rio Negro (AM), 2004 Foto: Margi Moss/ Coleção Moss.</p><p>de arquivamento do mesmo" (Memo n° Nacional do Meio Ambiente - Conama e o 1028/2014-Depam). Como justificativa Ibama, bem como as leis n° 9.605/1998, n° 216 para o indeferimento, considerou-se: i) que 9.795/1999 e n° 9.985/2000, a conclusão o referido bioma ocupa "mais de 61% do é de que pedido em epígrafe trata de território brasileiro, correspondente a nove tombamento de ampla área natural que já estados que englobam a Amazônia Legal"; ii) conta com proteção por órgãos e legislação que a Constituição Federal já dispõe sobre específica" (Memo n° 1028/2014-Depam) a preservação da floresta amazônica no art. Sem a recomendação de 225, parágrafo ao determinar que "sua indeferimento do pedido de tombamento utilização na forma da lei, dentro da floresta amazônica encontra respaldo de condições que assegurem a preservação na legislação, que, a partir da Constituição do meio ambiente, inclusive quanto ao uso Federal de 1988 (CF-88), se erigiu com dos recursos naturais"; e iii) que a outros vistas à proteção do patrimônio cultural e Extração de recursos institutos jurídicos e administrativos cabe a do patrimônio natural no Brasil. Outrossim, florestais, base da economia das competência de proteção de áreas naturais. embora não as assinale, a recomendação Comunidades Remanescentes de Após citar especificamente o Ministério enfrenta imprecisões científicas e Quilombos do Alto Trombetas II, 2017 Foto: Débora do Meio Ambiente - MMA, o Conselho incongruências políticas de tal pedido,</p><p>que, entre outros aspectos omissos, deixa patrimônio cultural imaterial em sua relação de reconhecer a diversidade dos modos de íntima com a conservação da biodiversidade, e vida das populações que ocupam a floresta reconhecendo a importância do legado de amazônica entendendo-se por ocupação vários povos e comunidades da Amazônia. a efetiva utilização, conforme No mesmo sentido, há considerável literatura de Acevedo & Castro (1993). Por exemplo, sobre a interconexão entre os direitos do como pretender que as florestas nativas territoriais, ambientais e culturais desses assim compreendidas a partir da concepção grupos (Benatti, 1999; 2011; Santilli, 2005; E de uma natureza intocada (Diegues, Granziera, 2009; Bensusan & Prates, 2014; da 1993), ignorando as contribuições dos Little, 2014; Alves, 2016). distintos grupos ocupantes para a presente Por outro lado, ao arrolar uma série de de conformação da floresta (Cunha et. al., institutos que, em tese, garantem a pro- 2001; Cunha, 2009; Scoles & Gribel, 2011)8 teção do patrimônio natural brasileiro, o de permaneçam "tal e qual se encontram indeferimento do pedido encobre a efetiva atualmente (...) não se podendo, doravante, incapacidade de cumprimento dessa missão derrubar nenhuma se de uma pelos ditos institutos, o que implica, em larga variedade de recursos florestais inúmeros medida, o sistemático desrespeito a direitos povos e comunidades fazem humanos que outrora se pretendeu assegurar, uso regularmente? tanto com a Declaração Universal dos Direi- O próprio Iphan, em número especial tos Humanos, de 1948, como com a Cons- da Revista do Patrimônio organizado por tituição Federal de 1988. Assim, o Memo n° Manuela Carneiro da Cunha (2005), 1028/2014-Depam, ao mesmo tempo em discute alternativas para a salvaguarda do que reitera a competência dos órgãos ambien- tais para a proteção do patrimônio natural, 8. Segundo Scoles & Gribel (2011), os castanhais na região de oblitera a indissociabilidade deste com o pa- 217 Vista panorâmica da Trombetas costumam reunir de centenas até alguns milhares de cidade de Óbidos: à trimônio cultural. indivíduos dessa espécie (de quinze a vinte indivíduos por hec- esquerda, teatro e tare) e remontam, provavelmente, ao período pré-colombiano, Praça do Bom Jesus, Essa indissociabilidade perpassa o texto à direita, Câmara tendo sua ocorrência uma profunda relação com formas seculares Municipal, ao fundo, de ocupação humana na Amazônia. Para os autores, a proximida- constitucional de 1988, destacadamente em rio Amazonas, Forte de física dos castanhais com áreas de terras pretas e sítios arqueo- de Óbidos e a Matriz lógicos atesta a influência da ação dos povos ameríndios sobre seu Título VIII (Da Ordem Social), capítulos Foto: Coleção Thereza Christina Maria/Acervo o padrão de distribuição das árvores, o qual foi essencialmente preservado pelas comunidades quilombolas, a partir dos contatos III (Da Educação, da Cultura e do Desporto) Fundação Biblioteca Nacional, Brasil. entre indígenas e negros na região.</p><p>e VI (Do Meio Ambiente). Privilegiando uma "os bens de natureza material e imaterial, representação unitária do meio ambiente, a tomados individualmente ou em conjunto, Constituição o compreende como o conjunto portadores de referência à identidade, à ação, à de bens naturais, tanto quanto de bens cultu- memória dos diferentes grupos formadores da rais, derivando dessa perspectiva a interpre- sociedade brasileira", entre os quais "os modos tação de Souza Filho (1997), que classifica os de criar, fazer e viver" (inciso II). do bens ambientais como um gênero do qual os Ora, considerando que os modos de bens culturais e naturais são espécies. vida de significativa parcela da população do Norte do Brasil têm na floresta amazônica O meio ambiente, entendido em toda a sua seu substrato material, cosmológico e plenitude e de um ponto de vista humanista, cognitivo, subentende-se que a proteção do de compreende a natureza e as modificações que nela vem introduzindo o ser humano. Assim, o patrimônio cultural que aí se engendra não de meio ambiente é composto pela terra, a água, o pode ser dissociada da proteção do solo, da ar, a flora e a fauna, as edificações, as obras de água, da fauna, da flora, do ar, do universo arte e os elementos subjetivos e evocativos, como simbólico e das populações nativas que a beleza da paisagem ou a lembrança do passado, integram e, efetivamente, contribuem para inscrições, marcos ou sinais de fatos naturais ou a reprodução da floresta (Castro & Pinton: da passagem de seres humanos. Dessa forma, para 1997). Logo, o art. 216 da CF-88 deve ser compreender o meio ambiente é tão importante lido em consonância com o art. 225, não só a montanha como a evocação mística que dela porque "todos têm direito ao meio ambiente faça o povo. Alguns destes elementos existem ecologicamente equilibrado, bem de uso independentes da ação do homem: os chamamos de meio ambiente natural; outros são frutos de comum do povo e essencial à sadia qualidade sua intervenção e os chamamos de meio ambiente de vida", mas também porque deve o próprio cultural (Souza Filho, 1997:9). Estado considerar a inseparabilidade de 218 cultura e ambiente ao usar a prerrogativa de Depreende-se, portanto, que apenas po- "definir, em todas as unidades da Federação, líticas ambientais transversais e estreitamente espaços territoriais e seus componentes a relacionadas com o campo da cultura possam serem especialmente protegidos" (inciso III). respeitar a integridade dos dispositivos cons- Porém, contrariando a indissociabilidade titucionais, tal como eles foram propostos, de do meio ambiente natural e cultural postulada forma sistêmica e integrada e ultrapassando a pela CF-88, a legislação infraconstitucional concepção de meio ambiente como conjun- opera a disjunção entre essas duas dimensões, to de condições, leis, influências e interações de fundamentando uma razão ambiental e patri- ordem física, química e biológica, que permite, monial que se expressa em normas e práticas abriga e rege a vida em todas as suas formas", jurídico-administrativas contraditórias. trazida pela Lei n° 6.938/81, que instituiu a À luz dessas reflexões provocadas Política Nacional do Meio Ambiente. Ade- pelo processo de tombamento da floresta mais, no que tange ao patrimônio cultural, o amazônica, o caso do Território Quilombola art. 216 da Carta Magna é claro ao defini-lo: Alto Trombetas II passa a requerer especial</p><p>atenção, dada a complexidade gerada pela II, remonta aos instalados simultaneidade de processos jurídico- por negros fugidos da escravidão no alto e administrativos que o atravessam e que, curso encachoeirado do rio Trombetas, no em tese, deveriam proteger seu patrimônio século 19. Amocambados acima da primeira natural e cultural, assim como garantir cachoeira do rio Trombetas, originalmente de direitos territoriais, socioambientais e batizada em nome de São Miguel Arcanjo culturais das comunidades remanescentes de pelo missionário Mazzarino, formaram os quilombo que o integram. A povoamentos Maravilha e Campiche, este E último nas margens do rio Turuna. Segundo da BREVE CARACTERIZAÇÃO DO uma moradora da atual comunidade de TERRITÓRIO QUILOMBOLA Cachoeira Porteira, com ajuda dos índios eles ALTO TROMBETAS II subiam no remo; e quem vinha na vela jamais ia conseguir subir a cachoeira (...) Lá do alto do de O Território Quilombola Alto Trombetas Turuna a gente conseguia enxergar quem subia (...) II, normalmente referido pelos próprios Justamente por isso, porque se tornou um portão, moradores como Alto II, fica na zona rural- tai a cachoeira batizada de Cachoeira Porteira ribeirinha do município de Oriximiná, (Iphan, 2014:F-11-5). situado na porção oeste do estado do Pará, Apesar de relativamente isolados na do baixo Amazonas. Nesse geograficamente, os mocambeiros mantinham que é um dos maiores municípios brasileiros relações de troca com mascates e comerciantes em extensão, com 107.603,292 vastas sediados em Óbidos, Oriximiná e extensões de terra são delimitadas por Basicamente, trocavam produtos extraídos Unidades de Conservação ou correspondem a da floresta (castanha, breu, óleos vegetais e áreas e quilombolas, demarcadas e animais) e itens produzidos nos mocambos tituladas, ou em processo de 219 (sobretudo farinha de mandioca) por A formação histórica das comunidades outros que lá não eram acessíveis. As trocas Curuçá, Jamari, Juquiri Grande, Juquirizinho, comerciais alimentavam uma espécie de Moura, Nova Esperança, Palhal e Último "cumplicidade dos contrários" (Bezerra Neto, Quilombo, onde vivem cerca de trezentas 2001:97), estimulando laços de solidariedade famílias que integram o TQ Alto Trombetas em que aqueles forneciam informações aos negros, prevenindo-os de eventuais 9. Hixkariyana, Inkarinyana, Kahyana, Tunayana, Txikiyana, Kamarayana, Karafawyana, Mawayana, Okomoyana, Pirixiyana, Txarumayana, Xerewyana, Xowyana, Katuwena, Farukoto, Zo'é são povos que vivem no território de Oriximiná (Disponível em Acessado em 11. Ao longo da história da região, o termo mocambo 9/8/2018). foi utilizado para designar os povoados ocupados predominantemente por negros nas margens do rio Trombetas 10. São sete os territórios quilombolas oriximinaenses, além do e seus afluentes. Até poucas décadas atrás, a sociedade local Alto Trombetas II: Boa Vista, Água Fria, Trombetas e Erepecuru, referia-se a seus habitantes como "pretos dos mocambos" titulados entre 1995 e 1998 (por ordem de obtenção do título); ou O termo quilombo foi incorporado no Alto Trombetas I, parcialmente titulado (na área que pertencia ao vocabulário local depois que a Constituição Federal de 1988 estado do Pará) e em processo de titulação (na área pertencente fez menção a direitos das "comunidades remanescentes de à União); Cachoeira Porteira, titulada em 2018; e Ariramba, em quilombo". Para mais informações sobre o histórico de ocupação vias de titulação (na porção de terra do estado do Pará). da área, ver Funes (2000) e Salles (2005).</p><p>expedições de recaptura e de outras medidas bravas" permaneceram sem identificação punitivas tomadas pelos governos nas vilas. e delimitação formal como comunidade, até a década de 1980: "tinha só um grupo O meu pai contava que minha avó dizia que e não era reconhecido como comunidade", eles vieram do Curuá de Alenquer. Eles vieram corridos do tempo dá escravidão, aí eles passaram como explica Sebastião Andrade, do Juquiri direto pra cachoeira, pra lá foi o pai a mãe da Grande (Iphan, 2014:F-11-7). minha mãe, avó minha, todos se esconderam A consequente organização em prol do pra lá. Eu ainda vi minha avó contar que, olha reconhecimento de sua presença na região eles iam de lá dessa paragem que eu tô dizendo, foi uma estratégia acionada pelos grupos da cachoeira, uma tal de Campiche, eles iam pra negros para enfrentamento dos prejuízos Óbidos fazer compras. Eles iam de canoa, que não imputados pela implantação praticamente existia motor. Quando eles escutavam zoada de simultânea dos projetos minerários da MRN, motor, eles se escondiam, assim eles iam. Andavam em 1976, e da Reserva Biológica (Rebio) mais de noite do que de dia. Eles iam assim, do Rio Trombetas RBRT, na sua margem voltavam assim (Iphan, 2014:F-11-7 Entrevista de Antônia Pereira). esquerda, em 1979. Esses dois eventos feriram violentamente os descendentes Com efeito, as redes de comércio dos mocambeiros. Além de promoverem a e colaboração, mais do que a vencer as expulsão de famílias que viviam na região, distâncias geográficas, ajudaram a consolidar ambos os projetos implicaram restrições de as fronteiras físicas dos mocambos, acesso e uso do território ocupado. "tornando-as mais viáveis porquanto acatadas (...) foi em 1979 que chegou o para pelos segmentos sociais com que passavam cá. A gente vivia aqui uma vida mais tranquila. a interagir" (Almeida, 2002:49). Tanto é Meu pai nasceu aqui, mas eles sempre diziam: que, para O'Dwyer & Carvalho (2002:205), "Nada é de vocês", "não pode tocar "isso é 220 o isolamento dos mocambos "converte-se, nosso". Mas a gente sempre insistiu em viver assim, em isolamento consciente, fazendo porque a gente nasceu aqui, né? Aí a gente ia deles uma comunidade de intercâmbio que sempre conversando com eles, eles não deixavam age efetivamente na defesa de interesses e de a gente muito à vontade, mas a gente insistia (...). uma vida comuns". Tratavam mal a gente aqui, aí a gente obedecia um pouco a eles para não entrar muito no conflito, Com as interações mais frequentes com mas resistimos e a gente não saiu. Foi criada a sociedade regional após a abolição da a reserva em 1979 em cima de nós aqui (...) escravatura, os mocambeiros passaram a humilharam muito a gente, oprimiram muito a se estabelecer em zonas mais baixas do rio gente, que a gente chegava assim na casa da gente Trombetas ao longo do século 20. Buscando e estava cozinhando tracajá ou uma caça, e eles nas chamadas "águas mansas" melhores pegavam a panela e jogavam a comida fora. Era meios de vida, ampliaram seu domínio territorial na região. Mesmo assim, os 12. À época da delimitação da Rebio, sua gestão era responsa- bilidade do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal novos núcleos de povoamento criados pelos IBDF, que fora criado em 1967. Quando este foi extinto, em 1989, a responsabilidade foi passada ao Ibama, até que, a partir remanescentes dos mocambos das "águas de 2007, o recém-criado ICMBio assumiu a gestão da UC.</p><p>uma pressão muito forte para a gente. Castanha, ocorreu com o lago mais piscoso do território, Extrativismo em Comunidade eles tomavam a castanha da gente, prendiam a o Erepecu, em cujo acesso foi instalado um Remanescente de castanha da gente (...). A gente se humilhava para Quilombos do Alto posto flutuante de fiscalização da Trombetas II, 2017 221 Foto: Débora eles, mas a gente não saiu. A gente se humilhava Encurralados entre os impactos para eles dizia: "dá a castanha para gente comer, a gente não tem o que comer (Cumbuca Norte, ambientais da mineração e a preservação 2017:390). praticada pelo Estado, os quilombolas viram diminuir progressivamente a disponibilidade As restrições de acesso e uso do território de recursos naturais indispensáveis a sua atingiram em cheio a economia local, sobrevivência, de tal forma que seus modos baseada em formas tradicionais de exploração de vida tradicionais seriam profundamente dos diversos hábitats que o integram, principalmente por meio de atividades 13. Não há rotas regulares de barcos de linha para o TQ Alto extrativistas, agrícolas e pesqueiras. Dentre os Trombetas II, mas grande parte dos moradores possui embarca- ção própria para deslocamento nos limites do território e entre ele recursos explorados, o mais importante para e as áreas quilombolas vizinhas. Contudo, o trânsito dos próprios moradores é fiscalizado pelo ICMBio, que mantém duas bases de a renda familiar é a castanha, mas os maiores fiscalização, a primeira na altura do Lago do Erepecu (TQ Alto Trombetas II) e a segunda no Tabuleiro, no território Alto Trom- castanhais do TQ Alto Trombetas II ficaram betas I. Logo, rio acima e rio abaixo, as embarcações devem parar nessas bases, onde estão sujeitas a revistas. O acesso de visitantes e delimitados no interior da Rebio. O mesmo convidados deve ser previamente autorizado pelo ICMBio.</p><p>alterados, aproximando-os de uma nova filho de um parente meu (...) ele estava lá perto de forma de escravidão como mão de obra na Trombetas pescando, uma linha só para sobreviver, "A mineração oferece os piores estava puxando aracu. Ele estava só com uma trabalhos que tem para essa comunidade linha e pirão, aí uma tal [agente do ICMBio] passou Levaram ele lá para feira, tomaram (...). O trabalho do povo é só lavar banheiro rabeta, tomaram a canoa dele, as linhas e ainda e mato, ficar subindo essas serras da botaram uma multa para ele pagar (...). Muitos mina... Isso é uma coisa de escravidão" funcionários do ICMBio estão mais acostumados resumiu um quilombola. A percepção da nas comunidades, a conhecerem a realidade, eles escravidão é reforçada pela obrigação de têm a visão diferente. Mas tem uns que têm a visão se apresentar nos postos de fiscalização do de onde eles vieram e querem fazer a lei do jeito ICMBio "uma vergonha para andar na que eles pensam que tem que fazer, aí, fica difícil terra que os nossos antepassados deixaram pra de ter uma relação boa com a pessoa. (Cumbuca Norte, 2017:351). gente" assim como pelas ações de revista e apreensão de pescados e apetrechos de pesca. Com a promulgação da Constituição Proíbe muito, tudo é proibido. Se você pegar Federal de 1988, especialmente com o art. n° até um peixe para você comer com a sua família, 68 do Ato das Disposições Constitucionais se estiver passando ali e agarrar você com uma Transitórias ADCT, conferindo "aos quantia de 20 peixes para você levar para sua remanescentes das comunidades dos família, o ICMBio pega, toma, ainda bota processo quilombos que estejam ocupando suas em cima de você para você pagar multa. Tem um terras" o direito à propriedade definitiva sobre elas e incumbindo o Estado da emissão 14. De modo geral, "as experiências da escravidão vividas pelos antepassados dos remanescentes de quilombos de dos respectivos títulos, os agrupamentos persistem em gestos, memórias, pesadelos e histórias passadas negros do Trombetas começariam a de pais para filhos. Conformam um material simbólico denso para a elaboração de representações de um passado comum, as mobilização em prol da identificação e quais reforçam o sentimento de pertença étnica e alimentam a continuidade das comunidades" (Carvalho, 2015:73). delimitação das terras ocupadas.</p><p>Em 1989, durante uma visita do então reservas técnicas na área da Flona, ora criada, não Campo de extração de bauxita, presidente da República José Sarney, os sofrerão solução de continuidade (...). Porto Trombetas, Oriximiná (PA), 2016 quilombolas assistiram à criação da Floresta Art. Fica excluída do presente Decreto a Foto: Alexandre Rocha. Nacional Flona de Saracá-Taquera FNST, área de 1.884 ha, denominada Almeidas, de pro- englobando uma extensa área na margem priedade da Mineração Rio do Norte, conforme direita do rio Trombetas onde a MRN já escritura pública de compra e venda e cessão de Direitos Hereditários e Meação lavrada no Car- atuava. A criação dessa UC em área ocupada tório do Ofício de Notas do Rio de Janeiro, por comunidades do Alto Trombetas II, Livro n° 2.809 fls. 72, 20, em 25-3-83. providenciada antes mesmo que o governo Art. Fica o Instituto Brasileiro do Meio procedesse à titulação do território conforme Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis o mandamento legal, acirrou a luta pela Ibama autorizado a celebrar convênio com a terra. Embora menos proibitiva que a Rebio, Mineração do Rio Norte S.A., objetivando obter a Floresta Nacional também significou apoio na implantação da Floresta Nacional Saracá- restrições de acesso e uso de recursos naturais Taquera e proteção de sua área. para a população local, mas, paradoxalmente, Art. A área da Floresta Nacional, ora assegurou a presença continuada da criada, fica declarada de interesse social, conforme mineração no próprio documento legal preconiza o art. letra "b", da Lei 4.771/65, de criação da o Decreto n° ficando as desapropriações que se façam necessárias 98.704/1989: a cargo do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Art. As atividades de pesquisa e lavra minerais autorizadas, já em curso ou consideradas Por um lado, a criação da Flona restringiu a disponibilidade de terras para agricultura 15. A legislação sobre mineração em Unidades de Conservação e o acesso a palhas, cipós e madeiras para no Brasil é, conforme mostram Lima (2006) e Ricardo & Rolla (2006), permeada por imprecisões e contradições. Uma delas é a a construção de casas, barcos e cercas, por autorização de atividades minerárias nas Flonas criadas antes da Lei n° 9.985/2000 e onde houvesse previsão de mineração. exemplo. Por outro, o desflorestamento dos</p><p>Campo de extração platôs para exploração de bauxita extinguiu, áreas ocupadas pelas famílias negras, de bauxita, Porto Trombetas, em grandes extensões da floresta, árvores que então passavam a se autodefinir Oriximiná (PA), 2016 Foto: Alexandre Rocha. das quais se extrai óleo de copaíba, segundo como "remanescentes de quilombo" e recurso em importância na composição "quilombolas". Nesse movimento, os líderes da renda monetária das famílias Ao negros contaram com o apoio essencial da mesmo tempo, afastou a caça que faz parte de Igreja católica e de organizações da sociedade sua dieta alimentar. civil para a constituição de comunidades. Em reação às perdas sofridas, líderes A grupalização era uma vertente negros de diversas localidades fundaram, fundamental de atuação da Igreja, por meio em 1989, a Associação das Comunidades da formação de Comunidades Eclesiais de Remanescentes de Quilombo do Município Base - CEB, ou seja, de grupos comunitários de Oriximiná - Arqmo. Por intermédio aos quais párocos e leigos prestavam dessa entidade, incentivariam a politização acompanhamento sistemático e assessoria e a formação de organizações locais nas para organização política (Carvalho, 2011).</p><p>Esperava-se, nesses grupos, estimular o dos 2000. Com a edição do Decreto "espírito de coletividade e da solidariedade, 4.887/2003, que instruiu sobre a execução do numa visão crítica da realidade [e] contribuir direito previsto na CF-88, elas reivindicaram na integração do homem do campo com sua perante o Estado a titulação do território comunidade, na perspectiva de transformação quilombola que ocupam, em um processo de global, a partir de sua condição concreta, aberto no Incra em 2004. cultural e histórica" (Azevedo & Apel, Desde então, a propriedade das terras 2004:18). ocupadas não lhes foi reconhecida e a A adoção de práticas associativas conduziu titulação ainda é uma perspectiva distante, da a novas formas de apropriação do espaço em função da sobreposição de interesses do em uma região ocupada por moradias Estado e da mineradora aos interesses dos dispersas que, se ampliavam o domínio quilombolas. Nesse ínterim, refletindo tal de territorial dos negros no TQ Trombetas, sobreposição de interesses, três processos de refletindo espacialmente uma ampla rede de administrativos se desenrolam em diferentes parentesco e afinidade, também dificultavam instâncias do governo federal: o mais antigo a organização coletiva. Então, para além propõe o tombamento dos quilombos; outro das moradias e das vastas áreas de uso, que requer a titulação do território quilombola; compreendem locais de trabalho e fruição, e o mais recente visa ao licenciamento foram criadas sedes comunitárias com da mineração em áreas pleiteadas pelas estruturas de uso comum: barração para comunidades quilombolas do Alto II. reuniões e festividades, capela e, em alguns Os três processos ensejaram estudos casos, escola. multidisciplinares, inclusive de natureza Essas edificações constituíram marcos antropológica, capazes de fornecer um cos da ocupação e da organização formal dos diagnóstico das comunidades. Juntos, o agrupamentos enquanto comunidades. Mas, INRC-Quilombos, o Relatório Técnico 225 em paralelo, processos de reconstituição da de Identificação e Delimitação RTID memória coletiva forneceram os marcos sim- do território e o Estudo do Componente bólicos do reconhecimento dessas comunida- Quilombola ECQ das comunidades des para além das bases territoriais, enquanto localizadas no entorno da Mineração Rio do Norte são suficientemente indicativos da (...) unidades sociopolíticas que se representam complexidade dos choques entre direitos que para si e para a sociedade abrangente, a partir elas vivenciam, não só porque conflitam seus da assunção da identidade quilombola, num direitos naturais e culturais (Benatti, 1999), movimento de superação do histórico de mas também porque o exercício de seus preconceito e negação de direitos, e de valorização direitos fundamentais enquanto grupo colide de tradições comuns (Carvalho, 2015:65). com o exercício de direitos de outros. Sem No Alto Trombetas II, as comunidades solução vislumbrada em curto e médio prazo, se organizaram formalmente entre a segunda o caso possivelmente demanda formas de metade dos anos 1980 e a primeira metade reconhecimento e proteção sui generis.</p><p>QUILOMBO E A APORIA DA Aporia é, então, o "beco sem saída" PROTEÇÃO DO PATRIMÔNIO ou a "sinuca de bico"17 que a linguagem CULTURAL E NATURAL corrente popular consagrou para se referir a situações insolúveis nas quais o sujeito A Na mitologia grega, Aporia é o se descobre "entre a cruz e a espada", pois da dificuldade, da impotência, do desamparo quaisquer tentativas de solução importarão e da falta de meios. Conta o mito que, ao em falência de objetivos. É aporética, percorrer um estreito caminho, Hércules portanto, a questão repetidamente colocada encontrou Aporia, que, embora fosse por um quilombola de Trombetas: "O que é pequena, lhe obstruía a passagem. Conforme que vale mais? O direito do quilombola, da Hércules tentava esmagá-la com os pés, mineradora ou do ICMBio?". de Aporia crescia, alcançando tamanho tal que Empunhando um exemplar da Constitui- de bloqueou o caminho. Hércules, que não ção Federal que carrega consigo dentro de um a conhecia, espantou-se e pediu socorro a saco plástico, para não molhar durante os des- Athena, que o aconselhou a não a combater, locamentos feitos em pequenas pelo seguindo seu caminho. rio, em quase todas as reuniões com represen- Na filosofia, o termo aporia é utilizado tantes de órgãos federais que atuam na região, para designar dificuldade resultante da ele reitera a pergunta até que seja respondida. incapacidade de se obter resposta a uma Invariavelmente, a interpelação desconcerta determinada questão. É famosa, por exemplo, os servidores dos órgãos. a meditação de Santo Agostinho sobre a Em regra, as respostas à questão questão aporética e perturbadora sobre a evidenciam a importância do art. n° 68 do essência do tempo: ADCT. Algumas, mais raramente, remetem ao art. 216 da CF-88, segundo o qual "ficam 226 O que é, pois, o tempo? Se ninguém mo tombados todos os documentos e os sítios pergunta, sei o que mas se quero explicá-lo a detentores de reminiscências históricas dos quem mo pergunta, não sei: no entanto, digo com segurança que sei que, se nada passasse, não antigos Porém, em comum, existiria o tempo passado, e, se nada adviesse, não existiria o tempo futuro, e, se nada existisse, não 17. Não por acaso, Lima (2006) intitula como "SiNUCa de existiria o tempo presente. De que modo existem, bico...". em referência ao Sistema Nacional de Unidades de pois, esses dois tempos, o passado e o futuro, uma Conservação o artigo em que trata das incongruências da legislação que rege atividades de mineração em UCs. vez que, por um lado, o passado já não existe, por Tipo de motor que se acopla a pequenas embarcações como outro, o futuro ainda não existe? (Santo Agostinho, canoas, por exemplo. Tem uso amplamente difundido em comu- nidades ribeirinhas, que usam o termo rabeta para se referir não 2008 [1864]:111-112). só ao motor, mas à própria embarcação por extensão. 19 Percebe-se que, na rara menção aos dispositivos constitucio- nais relativos ao patrimônio cultural, essa dimensão é ignorada ou desprezada por grande parte dos representantes dos órgãos responsáveis por lidar com questões ambientais e territoriais. Quando falam em normalmente se referem a danças, artesanato e outras expressões objetivas que 16. Os daemones são entidades que personificam qualidades apenas uma faceta da noção de patrimônio cultural adotada na da natureza humana como a a força, o vício, a verdade, a CF-1988 e nos instrumentos internacionais que dispõe sobre o humildade e a entre muitas outras. assunto (Dourado, 2013).</p><p>as respostas concluem pela impossibilidade objetivo velado de sobrepor o interesse de se proceder seja à titulação das terras nacional pela mineração sobre outros e reivindicadas, seja à proibição da mineração, interesses públicos tão ou mais relevantes". seja ao tombamento dos quilombos. Entendendo o interesse nacional como N Por um lado, há o argumento de que, interesse público, essas teses justificam de como o art. 225 da CF-88 reconhece a todos a prevalência do interesse de minerar o o direito ao meio ambiente ecologicamente subsolo sobre o direito de propriedade do equilibrado, é dever do Estado garanti-lo, solo. Já as teses ambientalistas, baseando-se da inclusive por meio da criação de Unidades na concepção das UCs como bens de uso de Conservação, que não podem ser extintas comum e de interesse social difuso, sustentam por mera decisão do órgão competente, que sobre elas se exerça "proteção jurídica senão por lei. Assim, um conflito de excepcional, indisponível, que se sobrepõe interesses é instaurado dentro do próprio a todo e qualquer interesse patrimonial, de Estado, personificado no ICMBio e no mesmo que seja interesse econômico estatal Incra, que integram o Executivo, mas a (portanto, mesmo que o interesse econômico resolução da contenda só pode advir de seja público)", conforme Lima (2006:10). uma decisão do Legislativo. De tal modo, o Enfim, mais uma vez, a legislação não ajuda a ADCT n° 68 torna-se praticamente inócuo, resolver os impasses vividos pelos quilombolas já que a regularização fundiária não pode do Trombetas. ser completada. Por último, considerando a tardia Por outro lado, considera-se que, regulamentação do ADCT n° 68, combinada pertencendo os recursos minerais, inclusive à determinação do art. 216 da CF-88 de que os do subsolo, ao patrimônio da União, "ficam tombados todos os documentos e os conforme determina o art. 20 da CF-88, sítios detentores de reminiscências históricas 227 cabe à própria União dispor dos direitos dos antigos quilombos", atores sociais ligados de pesquisa e exploração minerária; e que, ao movimento quilombola protocolizaram sendo a mineradora legalmente constituída no Iphan, em 1995, o processo n° 1353-T- detentora desses direitos, deles pode fazer 95, em que requereram o "tombamento dos uso. Porém, em se tratando de uma Flona, quilombos de Oriximiná". Ele permanece a legislação dá margem a interpretações e sem desfecho até o presente, mas deverá decisões que se contradizem. ter destino semelhante ao do processo de Segundo Lima (2006:9), lacunas e tombamento da floresta amazônica, pois, em imprecisões das leis colocam na arena de parecer técnico de 1995, o Departamento de debates sobre a mineração em UCs teses Proteção -Deprot, do Iphan, recomendou seu dos ambientalistas e dos mineradores, estas arquivamento. Um dos motivos apontados no últimas promovendo uma "deliberada parecer foi: confusão entre os conceitos de interesse nacional, utilidade pública e interesse social (...) o fato de que, nos autos do processo e na promovida pelo setor da mineração com bibliografia por nós consultada, não conseguimos</p><p>relacionar os espaços atualmente ocupados pelas dos antigos quilombos", examinamos então Comunidades Negras do Município de Oriximiná a possibilidade do interesse vir a recair na e com aquelas onde anteriormente se assentaram os preservação de bens imateriais, identificados quilombos (Vaz, 2014:84). nos modos de fazer e de viver das Comunidades A Remanescentes de Quilombos do Município de de De fato, como já exposto em relação Oriximiná, considerando-se então a possibilidade à trajetória de ocupação quilombola em de preservação de sua cultura peculiar, originada Oriximiná, após a abolição da escravatura dos povos que ali se estabeleceram no século os mocambeiros estabelecidos acima passado (Vaz, 2014:86). das cachoeiras no século 19 passaram a Conforme conclui Vaz (2016), no caso ocupar zonas mais baixas e acessíveis do de rio, em um movimento conhecido como dos quilombos de o Iphan aplicou conceito colonial com que, em regra, vem descenso. Portanto, como aduz o próprio de parecer, "diversas comunidades que hoje tratando os processos de tombamento em se autoidentificam como quilombolas comunidades remanescentes de quilombo. nessa região se formaram após a abolição", Reconhecendo esforços do órgão de refletir mas apenas em um sentido restrito de sobre a questão, a fim de subsidiar a ação comunidade enquanto base territorial institucional em relação a essa temática, comum, que não condiz com a realidade Vaz menciona trabalho do advogado histórica e socioantropológica da ocupação Guilherme Cruz Mendonça, realizado no negra no Trombetas. Também não condiz âmbito do Programa de Especialização em com toda a discussão conceitual que embasou Patrimônio, no qual sugere a proposição o ADCT n° 68 e os institutos jurídicos nele de uma lei específica para regulamentar apoiados. A propósito, sobre o conceito de o tombamento de quilombos em termos quilombo atualizado pela legislação posterior distintos do disposto pelo Decreto-lei n° 228 à CF-88, o parecer do Iphan mostra-se 25/1937. A pesquisadora menciona, também, enfaticamente crítico: a elaboração do Quilombos, em 2007, e um texto do ex-diretor do Depam/Iphan Além da questão do anacronismo, de se tentar que propunha, para o caso do tombamento uma violência conceitual, de se fazer retroagir uma de quilombos, um tratamento diverso do definição, tentando forçar um pensamento que que fora proposto no parecer em análise. não existia em um dado momento, a adoção do conceito da ABA, de ressemantização de quilombo, No entanto, continua distante um desfecho gera uma série de dificuldades operacionais que para a proteção do patrimônio cultural são, em nossa opinião, insolúveis (Vaz, 2014:38). dos quilombos entendido plenamente como os modos de fazer, criar e viver Por fim, o referido parecer sugere a das comunidades, e não como vestígios possibilidade de avaliar a pertinência de arqueológicos ou manifestações puramente preservar bens culturais de natureza imaterial: objetivas de cultura. Já que não foram encontrados "documentos Por um lado, não resta dúvida de que a e sítios detentores de reminiscências históricas regulamentação dos processos de titulação de</p><p>territórios quilombolas afastou o tombamento lado, nem as normas relativas aos direitos Criança Aikewara e sua preguiça como alternativa viável à preservação patrimoniais nem aos direitos territoriais de estimação, comunidade indígena de modos de vida das comunidades mantêm íntegros os modos de vida das no sudeste do Pará, 2009 Foto: Orlando Calheiros. remanescentes de quilombo. Com efeito, comunidades remanescentes de quilombo do quaisquer tentativas de fixar, no tempo e Alto Trombetas II. no espaço, as configurações socioculturais Em suma, encontram-se as comunidades encontradas, em determinado momento, nas quilombolas daquela região em um "beco" comunidades remanescentes de quilombo, do qual lutam para sair, acionando formas ferem a dinâmica e a autonomia de seus próprias de organização para a defesa do que membros, atingindo igualmente o princípio consideram como seu patrimônio natural constitucional de respeito à diversidade e cultural, de uma maneira que nem os étnico-cultural dos diferentes grupos institutos do patrimônio nem do direito formadores da sociedade brasileira. Por outro territorial têm alcançado fazer.</p><p>Rio de Janeiro: FGV, 2002. ALVES, Fábio. (org.) A função socioambiental do patrimônio da União na Amazônia. Brasília: Ipea, 2016. AZEVEDO, Cleidimar Ribeiro de; APEL, Marcelo. Co- gestão: um processo em construção na várzea amazônica. Manaus: Ibama/ProVárzea, 2004. BENATTI, José Héder. Unidades de conservação e as populações tradicionais: uma análise jurídica da realidade brasileira. Novos Cadernos NAEA, n. 2, V. 2, Belém, p. 107-126, dez. 1999. . "Propriedade comum na Amazônia: acesso e uso dos recursos naturais pelas populações tradicionais". In: SAUER, S.; ALMEIDA, W. (orgs.) Terras e territórios na Amazônia: demandas, desafios e perspectivas. Brasília: Ed. UnB, 2011. BENSUSAN, Nurit; PRATES, Ana Paula (orgs.). A diversidade cabe na unidade? Áreas protegidas no Brasil. Brasília: IEB-Mil Folhas, 2014. BEZERRA NETO, José Maia. Ousados e insubordinados: protesto e fugas de escravos na província do - 1840/1860. Topoi, Rio de Janeiro, p. 73-112, mar.2001. BRASIL. Constituição da Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal-Centro Gráfico, 1988. CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito constitucional. Coimbra: Almedina, 1989. CARVALHO, Luciana Gonçalves de. "Artesanato e mudança social: sobre projetos e comunidades em In: (org.). O artesanato de cuias em perspectiva - Rio de Janeiro: Iphan-CNFCP, 2011. "Histórias, memórias e representações da escravidão na comunidade quilombola do Ariramba". In: GRUPIONI, Denise Fajardo; ANDRADE, Lúcia M.M. (orgs.) Entre águas bravas e mansas, & quilombolas em Oriximiná. São Paulo: Comissão Pró-Indio de São 2015. CASTRO, Edna; PINTON, Florence (orgs.). Faces do úmido: conceitos e questões sobre desenvolvimento e meio ambiente. Belém: Cejup/UFPA- Naea, 1997. ikewara, brinca com nidade indígena no 2010 os.</p><p>CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. artes Ficha de Identificação do Território Quilombola de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994. Cachoeira Porteira. Inventário Nacional de Referências Cultu- CLEMENT, Charles R.; HIGUCHI, Niro. A floresta rais dos Quilombos de Oriximiná. Oriximiná, 2014, F-11-5. amazônica e o futuro do Brasil. Ciência e Cultura, Ficha de Identificação do Território Quilombola n. 3, V. 58, São Paulo, p. 44-49, 2006. Disponível Quilombo. Inventário Nacional de Referências Culturais dos Quilombos de Oriximiná. Oriximiná, 2014, F-11-7. m=iso. Acessado em 21/7/2018. LIMA, André. "SiNUCa de bico: mineração em Unidade CUMBUCA NORTE. Estudo do componente quilombola de Conservação". In: RICARDO, Fany; ROLLA, Alicia. das comunidades localizadas no entorno da Mineração Rio (orgs.). Mineração em Unidades de Conservação do Norte. 2017. Amazônia brasileira. São Paulo: Instituto Socioambiental, CUNHA, Manuela Carneiro da; ALMEIDA, Mauro 2006. de. "Populações tradicionais e conservação LITTLE, Paul. (org.). Os novos desafios da política In: CAPOBIANCO, João Paulo Ribeiro et al (orgs.). ambiental brasileira. Brasília: IEB, 2014. Biodiversidade na Amazônia brasileira: avaliação e O'DWYER, Eliane Cantarino; CARVALHO, José Paulo ações prioritárias para a conservação, uso sustentável e Freire de. "Jamary dos Pretos, Município de Turiaçu repartição de benefícios. São Paulo: Estação Liberdade/ (MA)". In: O'DWYER, Eliane Cantarino (org.). Instituto Socioambiental, 2001. Quilombos: identidade étnica e territorialidade. Rio de CUNHA, Manuela Carneiro da. Cultura com aspas e Janeiro: FGV, 2002. outros São Paulo: Naify, 2009. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. CUNHA. Manuela Carneiro da (org). Revista do Declaração Universal dos Direitos Humanos. Brasília, Patrimônio Histórico e Nacional Patrimônio Unesco, 1998 [1948] imaterial e biodiversidade, n. 32, Brasília, 2005. RICARDO, Fany; ROLLA, Alicia. (orgs.) Mineração DIEGUES, Antônio Carlos. "Populações tradicionais em Unidades de Conservação na Amazônia brasileira. São em unidades de conservação: o mito moderno da Paulo: Instituto Socioambiental, 2006. natureza intocada". In: VIEIRA, P. MAIMON, D. (orgs.) As ciências sociais e a questão ambiental: rumo à SALLES, Vicente. O negro no Pará sob regime da interdisciplinaridade. Rio de Janeiro/Belém: Aped/Naea- Belém: Instituto de Artes do Pará, 2005. UFPA, 1993, p. 219-249. SANTILLI, Juliana. Socioambientalisma e novos direitos: DOURADO, Sheila B. "Patrimônio e diversidade proteção jurídica à diversidade biológica e cultural. São cultural: direitos de povos e comunidades tradicionais". Paulo: Peirópolis, 2005. In: ALMEIDA, Alfredo W. de; DOURADO, Sheila B.; SANTO AGOSTINHO. Confissões. Livros VII, X e XI. 231 MARIN, Rosa Acevedo. Patrimônio cultural: identidade Universidade da Beira Interior, 2008 [1864]. coletiva e reivindicação. Manaus: UEA Edições; PPGSA/ SCOLES, Ricardo; GRIBEL, Rogério. Population PPGAS-Ufam, 2013. structure of Brazil Nut (Bertholletia excelsa, Lecythidaceae) FEARNSIDE, Philip M. Desmatamento na stands in two areas with different occupation histories Amazônia brasileira: história, índices e consequências. in the Brazilian Amazon. Human Ecology, n. 4, V. 39, p. Megadiversidade, n. 1, 1, p. 113-123, jul.2005. 455-469, 2011. Desmatamento na Amazônia: dinâmica, SOUZA FILHO, Carlos Frederico Marés de. Bens impactos e controle. Acta Amazonica, n. 3, V. 36, p. 395- culturais e proteção jurídica. Porto Alegre: Unidade 400, 2006. Editorial da Prefeitura, 1997. FUNES, Eurípedes. Comunidades remanescentes dos VAZ, Beatriz Accioly. Quilombos e patrimônio cultural: mocambos do alto Trombetas. Fortaleza:,Departamento de reflexões sobre direitos e práticas no campo do História-UFC, 2000. Disponível em: <http://www.cpisp. patrimônio. 2014. 132 f. (Dissertação de Mestrado em Acessado Preservação do Patrimônio Cultural). Rio de Janeiro: em 12/1/2017. Iphan, 2014. GRANZIERA, Maria Luiza M. Direito ambiental. São Quilombos. In: GRIECO, Bettina; TEIXEIRA, Paulo: Atlas, 2009. Luciano; THOMPSON, Analucia (orgs.). Dicionário IPHAN. Inventário Nacional de Referências Culturais: Iphan de Patrimônio Cultural. 2. ed. rev. ampl. Rio de manual de aplicação. Brasília: Iphan, 2000. Janeiro, Brasília: Iphan/DAF/Copedoc, 2016. (verbete).</p>

Mais conteúdos dessa disciplina