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MATTOS, Hebe Racialização e cidadania no Império do BR

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<p>José Murilo de Carvalho Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves (organizadores) Repensando Brasil do Oitocentos: Cidadania, política e liberdade CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA Rio de Janeiro 2009</p><p>Racialização e cidadania no Império do Hebe Mattos* Professora Titular do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense. squisadora do CNPq.</p><p>Quando pela primeira vez se definiu a cidadania brasileira e os direitos a ela vinculados, na emancipação política do país, em 1822, o Brasil comportava uma das maiores populações escravas das Américas e a maior população livre negra do Naquela ocasião, quando Brasil surgia como nação moderna no mundo ocidental, apesar da opção por uma monarquia constitucional de base liberal, a instituição da escravidão permaneceu inalterada, garantida que era pelo direito de propriedade, reconhecido na nova Constituição. Frequentemente, essa tem sido apontada como uma distorção típi- ca do processo de emancipação política do Brasil, que se teria feito sob a égide do príncipe português e sob controle dos proprietários de escravos. Nesse contexto, a manutenção da escravidão se tornaria principal limite do pensamento liberal no Brasil, na chamada geração da Independência. Em algumas interpretações mais radicais, o liberalis- mo no Brasil monárquico seria considerado mesmo como uma simples importação artificial de ideias européias, que, para além da defesa do livre comércio, pouco se adequavam à realidade Antes da experiência brasileira, entretanto, no processo de indepen- dência dos Estados Unidos, quando pela primeira vez a noção de cida- dania foi definida em termos práticos no continente americano, tam- bém ali ela se fez estreitamente relacionada com a temática da escravi- dão, na medida em que eram proprietários de escravos todos os princi- pais líderes da Revolução Americana, de George Washington a Thomas Jefferson. Com muita frequência, a questão da escravidão na Revo- lução Americana tende a ser apresentada como uma questão menor, de 351</p><p>REPENSANDO BRASIL DO OITOCENTOS caráter regional, antecipando-se para o século XVIII a divisão entre sul e norte que só se consolidaria nas primeiras décadas do século XIX (Berlin, 1998, pp. 217-358; Jordan, 1974, pp. 165-216; Blackburn, 2002, pp. 285-314). Na verdade, na Virgínia, onde se reuniam os principais líderes do processo, concentrava-se também o destacado núcleo dos interesses escravistas das 13 colônias, dedicado à produção de tabaco, tendo em George Washington proprietário e residente em uma plantation com mais de 300 escravos, um dos principais representantes. Para além disso, as colônias mais ao norte, se não se configuravam, em finais do século XVIII, como sociedades escravistas, podiam ser caracterizadas como sociedades "com escravos", mesmo que não tão dependentes dos trabalhos desses, e assim permaneceram por algumas décadas após a independência (Berlin, 1998, pp. 15-92). Apesar disso, a Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, de forma pioneira, proclamaria que todos os homens nas- ciam livres e iguais e tinham direito à vida, à liberdade e à busca da feli- cidade. Nesse contexto, mesmo sem fazer uma abolição imediata da escravidão, nos anos que se seguiram à guerra de independência, alargaram-se como nunca as possibilidades de alforria nas antigas 13 colônias e surgiram até mesmo petições de escravos, que, embasadas na Declaração de Independência, arguíam diretamente sobre suas liberda- des (Berlin, 1998, pp. 217-358; Jordan, 1974, pp. 165-216; Blackburn, 2002, pp. 285-314) processos muito semelhantes aos que ocorreram no Brasil, nas décadas que se seguiram ao "grito do Ipiranga", como veremos a seguir. É preciso, portanto, deixar claro que o conhecido dilema entre a assertiva de que os homens nasciam livres e iguais, reconhecida pelo liberalismo, e a manutenção da escravidão, sob a égide de constituições liberais, não foi específico do Brasil de 1822, mas se desenrolou em toda a América, até nas colônias escravistas inglesas e francesas, no contexto das chamadas revoluções atlânticas. 352</p><p>RACIALIZAÇÃO E CIDADANIA NO IMPÉRIO DO BRASIL Apesar da multiplicidade de processos específicos e da complexida- de dos conflitos em jogo, pode-se delinear uma tendência geral de equa- cionamento do dilema nos novos países que se formavam sob a égide das novas noções de cidadania e igualdade perante a lei, a partir de três premissas fundamentais: 1) a manutenção da escravidão com base no direito de propriedade; 2) a proibição do tráfico africano; 3) a emanci- pação progressiva, por meio de leis que libertavam os nascituros [Ventre Livre] ou de experiências de transição regulada, sempre com indenização aos proprietários. De um modo ou de outro, por tortuosos e diferentes caminhos, após 1848 a escravidão havia sido abolida em praticamente toda a América. Mantinha-se, ainda, apenas nas áreas que permaneciam sob o jugo colonial espanhol [Cuba e Porto Rico] portanto, fora da influência direta das teorias liberais e em dois paí- ses independentes: Brasil e Estados Unidos [apenas nos estados do Sul] (Blackburn, 2002). Assim, são o vigor e o dinamismo da economia escravista, no Brasil e no sul dos Estados Unidos, durante a primeira metade do século XIX, que emprestam um caráter específico ao dilema liberal nos dois países, requerendo soluções mais específicas. Ainda no século XVIII, como Governador da Virgínia, Thomas Jefferson anteciparia a solução dos Estados Unidos para problema. Propondo a abolição do cativeiro naquele estado [o que não se realiza- ria], defenderia, entretanto, que os libertos deixassem o seu território, tendo em vista o "preconceito do homem branco", "as ofensas que haviam sofrido", mas também a "diferença de raça", ou seja, as "dis- tinções reais que a própria natureza havia criado" e que fariam os negros "menos afeitos ao pensamento criativo e à Até então, as sociedades do Antigo Regime, bem como cristianismo cató- lico ou protestante, de maneira geral, com exceção de alguns grupos protestantes específicos, como os Quackers, não tinham maiores pro- blemas teóricos ou morais com a escravidão, que permitiria aos "bár- baros" africanos conhecerem a verdadeira religião. Acreditavam, entre- tanto, na igualdade de todos perante o Criador. As sociedades do Antigo Regime naturalizavam, como construções divinas, as desigual- 353</p><p>REPENSANDO BRASIL DO OITOCENTOS dades sociais e a montagem de sociedades escravistas nas Américas não chegava a destoar desse quadro. Nesse contexto, apesar das diferenças de cor e de as características físicas reforçarem as marcas hierárquicas nas sociedades escravocratas, elas não eram necessárias para justificar a existência mesma da A moderna noção de raças e da desigualdade entre elas é uma construção do pensamento científico europeu e americano, apenas, e mesmo assim ainda de forma embrionária, em meados do século XVIII (Schwarcz, 1993, cap. 2). É a partir da primeira metade do século XIX, especialmente nos Estados Unidos, que até a origem comum da espécie humana passa a ser questionada [poligenismo], num dilema que só seria superado com a adoção do chamado "darwi- nismo social", capaz de conciliar o princípio de uma origem comum com a ideia de uma diferenciação natural não apenas seletiva, mas também hierarquizada (idem, ibidem, cap. 2). Desde então, durante todo século XIX, a partir de uma argumentação biologizante, as teorias raciais permitiriam novamente naturalizar algumas das desi- gualdades sociais, as que incidiam sobre grupos considerados racial- mente inferiores, justificando a restrição dos direitos civis inerentes às novas concepções de cidadania, requeridas pelo liberalismo, bem como a nova expansão colonialista europeia sobre a África e a Ásia (Blackburn, 2002; Cooper et al., 2000). O sucesso da noção de raça e das teorias raciais nos Estados Unidos do segundo quartel do século XIX seria absoluto, permitindo a imposição de progressivas limita- ções aos direitos civis dos descendentes de africanos livres, bem como restrições legais ao acesso à alforria nos estados escravistas (Jordan, 1974; Blackburn, 2002, cap. 7). O que estou buscando demonstrar é que não apenas conceito moderno de raça é uma construção do século XIX, mas a racialização da justificativa da escravidão americana também. Ela se tornou a con- trapartida possível à generalização de uma concepção universalizante de direitos do cidadão em sociedades que não reuniam condições po- líticas efetivas para realizá-la, permitindo, em diversos contextos, 354</p><p>RACIALIZAÇÃO E CIDADANIA NO IMPÉRIO DO BRASIL estabelecimento de restrições aos direitos civis de determinados grupos considerados racialmente inferiores, bem como a legitimação da pró- pria manutenção da escravidão no sul dos Estados Unidos, associada a um progressivo fechamento das possibilidades de alforria. A moderna noção de raça é assim uma construção social, estreitamente ligada, no continente americano, às contradições entre os direitos civis e políticos inerentes à cidadania, estabelecida pelos novos estados liberais, e o longo processo de abolição do cativeiro. SOBRE HIERARQUIAS E IDENTIDADES Afirmar que a legitimação da escravidão moderna não se fez em bases raciais não implica considerar que estigmas e distinções fundamentadas na ascendência e em concepções de raça diferentes da acepção oitocen- tista deixassem de estar presentes nas sociedades do Antigo Regime e, em especial, no Império português. Os estatutos de pureza de sangue em Portugal, limitando o acesso a cargos públicos, eclesiásticos e a títulos honoríficos aos chamados cristãos velhos [famílias que já seriam católi- cas há pelo menos quatro remontam às Ordenações Afonsinas [1446-1447], atingindo os descendentes de mouros e judeus. As Ordenações Manuelinas [1514-1521] estenderiam as restrições também aos descendentes de ciganos e indígenas. As Ordenações Filipinas [1603] acrescentariam à lista os negros e os mulatos. As reformas pombalinas revogariam explicitamente as restrições aos descendentes de judeus, mouros e indígenas, em todo o Império, mas as relativas aos descenden- tes de africanos se manteriam no espaço colonial, para só serem rompi- das, no Brasil, pela Constituição de 1824 (Carneiro, 1988, p. 57). O estatuto de pureza de sangue, apesar de sua base religiosa, cons- truía uma estigmatização baseada na que, entretanto, não era usada para justificar a escravidão, mas, antes, para garantir os pri- vilégios [ou "liberdades", nos termos de época] e a honra da nobreza, formada por cristãos velhos, no mundo dos homens livres.6 355</p><p>REPENSANDO BRASIL DO OITOCENTOS A força da associação que atualmente se faz entre a diáspora afri- cana e a escravidão americana é de tal monta que obscureceu quase que totalmente o caráter não-racial da origem da instituição e a importância da escravidão indígena na América portuguesa até pelo menos século XVII (Monteiro, 1994), bem como o contínuo cresci- mento, por todo o período colonial, de uma população livre de ascen- dência africana, sobre a qual se manteve uma série de restrições legais, mesmo após as chamadas reformas pombalinas (Vianna, 2004; Kraay, 2001). Segundo Schwartz (1996, p. 10), no momento em que o Brasil declarava sua independência, em 1822, o país contava com cerca de 3.500.000 habitantes, dos quais 40% eram escravos. Dos restantes, 6% eram índios, sendo os demais divididos igualmente entre "brancos" e "livres de cor". Para se ter uma medida de comparação, pela mesma época, os descendentes de africanos livres não somavam mais de 5% da população, seja nos Estados Unidos seja no Caribe (idem, 1988, p. 373). Desde pelo menos o fim do período colonial, os próprios usos da categoria pardo sofreram uma evidente ampliação em relação à noção de mulato um termo de época diretamente ligado à mestiça- gem] ou mestiço, que, muitas vezes, lhe é associada. Na verdade, duran- te todo o período colonial e mesmo até bem avançado no século XIX, os termos negro e preto foram usados quase exclusivamente para desig- nar escravos e forros. Em muitas áreas e períodos, o termo preto foi sinônimo de africano e os índios escravizados eram chamados de negros da terra. Na América portuguesa, o termo pardo parece ter sido usado inicialmente para caracterizar a população livre de ascendência indígena (Monteiro, 1994). Segundo Bluteau [1712], em seu dicioná- rio, do início do século XVIII, além de cor, termo era usado para designar os mestiços de brancos e negros, fossem escravos ou livres, sendo sinônimo de mulato. Não resta dúvida, entretanto, de que se ampliou consideravelmente sua significação no Brasil, desde que se teve de dar conta da presença demograficamente expressiva de uma população livre, de ascendência africana, para a qual não mais era mais 356</p><p>RACIALIZAÇÃO E CIDADANIA NO IMPÉRIO DO BRASIL cabível socialmente a classificação de preto ou de crioulo [escravo ou liberto nascido no Brasil], na medida em que ela tendia a congelar socialmente a condição de escravo ou de liberto. A importância da ascendência indígena na população colonial muitas vezes silenciada, associada à emergência de uma população livre de ascendência africa- na, não necessariamente mestiça, mas necessariamente dissociada já por algumas gerações da experiência mais direta do cativeiro - conso- lidou uso de expressões como pardo livre ou de referências genéricas às "pessoas livres de cor", como condição linguística necessária para expressar a nova realidade, sem que recaísse sobre ela o estigma da escravidão, mas também sem que se perdesse a memória dela e das res- trições civis que implicava.7 Esse uso do termo pardo foi bastante comum nas áreas rurais da Capitania e, depois, na Província do Rio de Janeiro, nos séculos XVIII e XIX (Mattos, 1998, cap. 4; Faria, 1998, pp. 135-139). Esse é, sem dúvida, o uso do termo em estimativa popu- lacional de Salvador, em 1775, que incluía apenas as categorias, bran- co, pardo, preto forro e escravo (Kraay, 2001, p. 18). Mesmo que tal emprego não se confirme em fontes mais ligadas ao uso cotidiano dessa palavra na cidade de Salvador, uma noção ampla da expressão "classe das pessoas de cor", referida à população livre negra, tendeu a se gene- ralizar ali, em face das agitações populares ocorridas na cidade desde a Independência (idem, ibidem, cap. 1). Por outro lado, grande parte dessa população era ou pretendia ser possuidora de escravos. No Baiano, principal área expor- tadora do fim do período colonial, a maior parte dos escravos morava em propriedades de menos de 20 escravos e cerca de 80% dos proprie- tários de escravos tinham menos de 10 cativos. Entre esses pequenos senhores, a presença de descendentes de africanos era comum, incluin- do muitos libertos, por vezes eles próprios vindos da África (Schwartz, 1988, cap. 16; Barickman, 1999; Faria, 2001; Mattosos, 2004, 225-261). Voltando, então, ao nosso problema central: se, conforme desenvol- vido anteriormente, a moderna noção de raça foi uma construção social 357</p><p>REPENSANDO o BRASIL DO OITOCENTOS estreitamente ligada, no continente americano, às contradições entre os direitos civis e políticos, inerentes à cidadania estabelecida pelos novos Estados liberais, e o longo processo de abolição do cativeiro, essa cons- trução, no Brasil, se fez de forma especialmente problemática. Apesar de todo preconceito com base na cor e na "qualidade" dos homens livres das elites sociais e políticas do novo país - herança da coloniza- ção portuguesa - do ponto de vista dos interesses escravistas existen- tes no Brasil, em seu sentido mais amplo, em grande medida comparti- lhados por boa parte da população de pardos livres, a moderna noção de raça não se apresentava como solução, mas, antes, como problema. Nos primeiros anos do período regencial, proliferaram no Rio de Janeiro pasquins exaltados com sugestivos títulos como em O Brasileiro Pardo, O Mulato ou O Homem de Cor ou O Cabrito - todos arguindo sobre igualdade de direitos entre os cidadãos brasilei- ros, independentemente da cor, garantida na Constituição. No Brasil, diziam, "não há mais do que escravos ou cidadãos" e, portanto, "todo cidadão pode ser admitido aos cargos públicos civis e militares, sem outra diferença que não seja a de seus talentos e virtudes". De fato, a Constituição imperial de 1824 reconheceu de forma explícita os direitos civis de todos os cidadãos brasileiros [dos quais estavam excetuados os escravos], diferenciando-os, apenas, do ponto de vista dos direitos políticos, em função de suas posses. Para tanto, adotou voto censitário em três diferentes gradações: cidadão passi- VO [sem renda suficiente para ter direito a voto], o ativo votante [com renda suficiente para escolher, por meio do voto, colégio de eleitores] e ativo eleitor e elegível. Nesse terceiro nível, uma importante distin- ção não propriamente censitária se fazia, pois, além das exigências de renda, impunha-se ao eleitor que tivesse nascido "ingênuo", isto é, não tivesse nascido escravo. Em outras palavras, se os descendentes dos escravos libertos poderiam [se renda tivessem] exercer plenamente todos os direitos políticos da jovem monarquia, os escravos que fossem alforriados não entrariam imediatamente no pleno gozo dos direitos reconhecidos aos cidadãos e súditos do Império do 358</p><p>RACIALIZAÇÃO E CIDADANIA NO IMPÉRIO DO BRASIL A manutenção da escravidão, mesmo que com base apenas no direi- to de propriedade, e a restrição legal ao gozo pleno dos direitos políti- aos libertos acabaram por tornar o que hoje chamaríamos de "dis- criminação racial" uma questão crucial na vida de amplas camadas das populações urbanas e rurais do período. Apesar da igualdade de direi- tos civis entre os cidadãos, reconhecida pela Constituição, os brasileiros não-brancos continuavam a ter até mesmo o seu direito de e vir dra- maticamente dependente do reconhecimento costumeiro da condição de liberdade. Se confundidos com cativos ou libertos, estariam automa- ticamente sob suspeita de ser escravos fugidos sujeitos, então, a todo tipo de arbitrariedade, se não pudessem apresentar a carta de alforria. Antônio Pereira Rebouças informa que, ao viajar de Salvador até o Rio de Janeiro, em 1823, logo após os eventos que resultaram na inde- pendência do país, quase foi embaraçado de continuar a viagem em Porto Seguro, só tendo sido autorizado a prosseguir pelo juiz munici- pal, valendo-se do "conhecimento que já aí tinham de seu nome e a per- suasão de sua identidade pelo conhecimento pessoal que manifestou ter das mais notáveis ocorrências patrióticas e profissionalmente da legis- lação em matéria forense". 10 Nesse contexto, a igualdade de direitos entre os cidadãos brasileiros livres, para além das diferenças de cor, esteve em foco em todas as ocasiões em que a participação popular se fez presente no processo de independência política e empolgou expres- sivos líderes das elites políticas liberais, em especial entre os "exalta- dos" (Costa, 1979, cap. 1; Ribeiro, 2002; Lima, 2003). No Rio de Janeiro, em 1833, um pasquim liberal exaltado, O Mulato ou O Homem de Cor, publicava em 4 de novembro: "Não sabemos o motivo por que os brancos moderados nos hão declarado guerra, há pouco lemos uma circular em que se declara que as listas dos cidadãos brasileiros devem conter a diferença de cor, e isso entre homens livres!..."11 Desse modo, o fato de a proposta de apagamento das diferenças de cor entre os homens livres ter-se revelado questão polêmica e quase sempre explosiva, durante os primeiros anos da monarquia e por todo 359</p><p>REPENSANDO BRASIL DO OITOCENTOS o período regencial, aponta, especialmente, para as enormes dificulda- des práticas de efetivá-la. Trata-se, portanto, de uma forma específica e relativamente original de racialização das disputas em torno dos significados da cidadania na jovem monarquia brasileira. A igualdade entre os cidadãos livres, rei- vindicada pelas populações livres "de cor", implicava, contraditoria- mente, no silenciamento sobre a própria cor, que permanecia como marca de discriminação. Uma reivindicação de silenciamento que se fazia, entretanto, de forma politizada e muitas vezes ameaçadora. Dessa maneira, do ponto de vista dos interesses escravistas, a constru- ção de qualquer justificativa racializada da permanência da instituição escravista mostrava-se simplesmente explosiva. Esse foi um limite que a virada conservadora, que se seguiu à maioridade de Pedro II, não se atreveu a ultrapassar. A simples introdução da categoria "cor", nas pri- meiras experiências de recenseamento da população imperial gerou protestos generalizados. Em 1851, um primeiro regulamento para ins- tituição do registro civil de nascimento e óbito provocou revoltas arma- das em vários municípios do Nordeste, em especial na Província de Pernambuco, baseadas na crença de que o regulamento, chamado Lei do Cativeiro, teria por objetivo "escravizar a gente de Contudo, só se podem entender todas as implicações desse proces- SO de luta antidiscriminatória se percebemos que a igualdade que se rei- vindicava para os livres" não implicava seja do ponto de vista das reivindicações populares, seja como corolário lógico de sua formulação com base no pensamento liberal qualquer proposição efetiva a favor da abolição imediata da escravidão. Na verdade, esses direitos eram reivindicados e entendidos não de maneira genérica, mas referidos diretamente a situações concretas, em contraste com a condi- ção da escravidão. É assim que, nos conturbados anos 30, também os jornais liberais do denunciavam com veemência que cida- dãos livres estavam sendo tratados como escravos: 360</p><p>RACIALIZAÇÃO E CIDADANIA NO IMPÉRIO DO BRASIL Agora pergunto eu [a quem não sei] como é que em um país livre e constitucional se atreve um João Paulo a dar bofetadas e chibatadas em cidadãos livres; a castigar os cornetas de um batalhão já extinto, por faltas no serviço do seu quintal; a fazer moço de cavalhariça um companheiro d'armas em menoscabo das leis militares; e finalmente a meter em tronco homens livres. [O Pharol Maranhense, 1832, p. 1.508, apud Assunção, 1993, pp. 306-307] Subjacente à denúncia estava a constatação de que era permitido e legítimo dar "bofetadas, chibatadas e meter em tronco" aqueles que, enquanto escravos e propriedade privada, não se constituíam em "cida- dãos livres". De todo modo, é preciso lembrar, para não correr o risco do anacronismo, que - não apenas no Brasil - o combate ao tráfico negreiro e o respeito ao direito de propriedade representavam as balizas dominantes da luta antiescravista na primeira metade do século XIX. Por outro lado, o brasileiro que surgia deste processo implicava a produção concomitante de dois estrangeiros cotidianos: o e o africano. Para explorarmos todas as implicações desse ponto com mais vale a pena acompanhar bem de perto alguns casos concre- tos. Podemos começar com a sempre citada Conjuração dos Alfaiates, de 1798. Apesar da participação de alguns escravos, nascidos no Brasil em sua grande maioria, a abolição imediata da escravidão não estava entre as reivindicações presentes nos cartazes então afixados pelas ruas de Salvador (Jancsó, 1996, 1997; Mattoso, 2004, pp. 317-330). Ao analisar tais proclamações, Mattoso (ibidem) em relevo a impor- tância das camadas médias de livres e libertos de cor como base social da revolta, em especial de integrantes das corporações militares, em sua maioria soldados dos chamados corpos auxiliares, mas também das tropas de linha. Segundo a maioria dos especialistas, o Alvará de 22 de março de 1766 aboliu o recrutamento segregado por grupos de status/cor nas tropas regulares do Exército Real na colônia brasileira, ao mesmo tempo em que criou os chamados corpos auxiliares (Vaz, 1922, p. 628; 361</p><p>REPENSANDO o BRASIL DO OITOCENTOS Ribeiro, 2002, p. 257). A tendência após essa data foi que prevalecesse apenas o recrutamento de brancos ou "pardos-claros" nas tropas de linha da colônia. Pelo menos enquanto determinação oficial (Kraay, 2001, pp. 76-77). Já nos corpos auxiliares, apesar das determinações legais, permane- ceram os terços e os regimentos divididos entre brancos, pardos e pre- tos até a criação da Guarda Nacional em 1831 (Ribeiro, 2002, pp. 257 e seguintes; Kraay, 2001, cap. 4, e 2003; Silva, 2003). As reformas ilustradas da época pombalina tiveram uma incidência extremamente ambígua sobre as possibilidades de ascensão social de pretos e pardos livres. Especialmente as milícias negras tinham uma longa tradição de formar uma oficialidade própria, que tendeu a ver suas oportunidades de ascensão na carreira militar drasticamente limi- tadas com as propostas de reforma. Tais milícias, mais conhecidas como Regimento dos Henriques, mantiveram-se sempre estreitamente ligadas ao recrutamento de libertos e seus descendentes diretos e forma- vam uma oficialidade referenciada a essa identidade (Kraay, 2001, cap. 3; 2003). Dificilmente um ex-escravo teria o mesmo tipo de oportuni- dade em regimentos unificados, que levou parte da oficialidade negra, formada nas lutas da independência da Bahia, a defender a recriação dos regimentos dos Henriques nas agitações políticas dos anos 30 (idem, ibidem). Para os chamados "pardos livres", entretanto, a desse- gregação era bandeira importante, mas deveria estar associada à garan- tia do direito de almejarem oficialato, não apenas nos corpos auxilia- res, mas também nas tropas de linha. Alguns dos líderes da Revolta dos Alfaiates [quase todos pardos e militares das tropas de linha ou das milícias] citavam expressamente Alvará de 1773, que libertava os filhos de escravos, abolia a escravidão para os que fossem cristãos há pelo menos quatro gerações e proibia restrições civis aos libertados em Portugal (Lahon, 2001, cap. 2), para defender o direito de pretos e pardos livres no Brasil, não apenas de se alistar, mas de chegarem ao oficialato (idem, ibidem, p. 79). 362</p><p>RACIALIZAÇÃO E CIDADANIA NO IMPÉRIO DO BRASIL A continuidade dos regimentos segregados nos corpos auxiliares e as práticas discriminadoras no recrutamento das tropas de linha (idem, ibidem, caps. 3 e 4) não podem ser minimizadas como base das reivin- dicações dos que pertenciam ao "partido da liberdade" na revolta de 1798: [O Povo] invoca a todos aqueles que donde perante quem cada hum em particular, assim militares, homens pardos e pretos sejão constantes ao bem commum da liberdade, igualdade [...] porque cada um soldado he cidadão, mormente os homens pardos e pretos que vivem escorna- dos [tratados com desprezo] e abandonados, todos serão iguais, não haverá diferença e só haverá liberdade, igualdade e De fato, é bastante compreensível que a questão da escravidão não tivesse sido posta em xeque pelas proclamações dos sediciosos. De fato, boa parte dos livres pobres e libertos de Salvador era proprietária de escravos, até alguns dos homens pardos acusados. Na verdade, esse silêncio sobre a questão escravista não chegava a se apresentar como uma contradição no discurso dos "partidários da liberdade", tendo em vista a importância da defesa do direito de propriedade em suas procla- Nesse sentido, o fato de que os cativos envolvidos na sedição tenham sido, em sua quase totalidade, escravos nascidos no Brasil torna-se especialmente significativo (Tavares, 1991; Jancsó, 1996, 1997, pp. 431-433). Durante as lutas da Independência, no Rio de Janeiro ou em Salvador, por mais de uma vez a autoridade monárquica pediria aos senhores de escravos que cedessem alguns cativos crioulos para as tropas brasileiras. Em face da atitude titubeante quando não francamente contrária à proposição - dos proprietários, muitos escravos se antecipa- ram e fugiram para se alinhar entre as tropas brasileiras. Após as lutas, o governo imperial determinaria que fosse assegurada a alforria a esses escravos [mediante indenização aos em nome dos serviços 363</p><p>REPENSANDO BRASIL DO OITOCENTOS prestados à "causa do Brasil". O recrutamento de escravos e libertos para lutar nos batalhões patrióticos em regimentos dos Henriques foi uma prática comum em Salvador (Kraay, 2001, 2002, 2003), Recife (Silva, 2003) e no Rio de Janeiro (Ribeiro, 2002, cap. 2). Como no caso da Revolução Americana, durante as lutas da inde- pendência, ao calor das palavras de ordem a favor da "liberdade" e contra a "escravidão" do Brasil a Portugal, não faltaram os cativos que, var argumentando serem brasileiros, arguíram organizada e constitucional- bra mente sobre suas liberdades. Esse foi, pelo menos, o caso dos escravos que de Cachoeira, na Bahia, segundo carta de Dona Maria Bárbara Chaves mo Garcez Pinto, senhora de engenho baiana. Ela nos informa até da alian- ape ça desses escravos com pessoas livres com alguma influência, fazendo par suas petições chegarem até as Cortes de Lisboa, mas também deixa refl inferir que os escravos africanos estavam fora do Episódios cia como esses permitem elucidar a possibilidade de reivindicar a liberdade con de escravos crioulos, em nome dos seus direitos de brasileiros natos, da sem postular conjuntamente a abolição definitiva da escravidão. Segundo João Reis, "os crioulos ansiavam por coroar seus pequenos privilégios na escravidão" [em relação aos cativos africanos] "com a tico conquista final da liberdade e oportunamente da cidadania no Brasil bér independente" (Reis e Silva, 1989, p. 93). to Não eram poucos os que, entre as elites proprietárias ou entre os observadores estrangeiros do processo, apontavam para os riscos de tor tantas lutas em nome da liberdade em um país escravista. Um observa- de dor francês formularia com clareza o dilema em que se encontravam os brasileiros recém-inventados: Finalmente: todos os brasileiros, e sobretudo os brancos, não perce- alg bem suficientemente que é tempo de se fechar a porta dos debates polí- esc ticos às discussões constitucionais? Se se continuar a falar de direitos os dos homens, de igualdade, terminar-se-á por pronunciar a palavra de fatal: liberdade, palavra terrível e que tem muito mais força num país CO de escravos do que em qualquer outra parte. Então toda revolução m 364</p><p>RACIALIZAÇÃO E CIDADANIA NO IMPÉRIO DO BRASIL acabará no Brasil com o levante dos escravos, que, quebrando suas algemas, incendiarão as cidades, os campos, as plantações, massacran- do os brancos e fazendo deste magnífico império do Brasil uma deplo- rável réplica da brilhante colônia de São A formulação aponta, mesmo que de forma ambígua, para as duas variáveis do problema. Ela se dirige aos brasileiros, "sobretudo os brancos", mas não só a eles, ou seja, há o reconhecimento implícito de que a extensão das discussões sobre liberdade para as senzalas podia mostrar-se inconveniente para a maioria dos brasileiros livres, e não apenas para os brancos, e que é a esse consenso que se precisa recorrer para interromper perigoso processo em curso. Por outro lado, ela reflete medo de que as discussões sobre liberdade e igualdade [espe- cialmente entre as cores] fossem apropriadas pelas senzalas, num contexto de possível aliança entre as gentes de cor, propondo a abolição da escravidão e massacrando os brancos, como no Haiti. De fato, ao longo de todo Primeiro Reinado e do período regen- cial, as novas elites políticas não conseguiriam evitar "os debates polí- ticos e as discussões constitucionais". Não conseguiriam evitar, tam- bém, que esses debates chegassem, de um jeito ou de outro, ao conjun- to dos cidadãos brasileiros das cidades e do campo, que a chamada "boa sociedade" gostaria de ver fora do jogo político. Especialmente, tornar-se-iam explosivas as tentativas de manutenção das hierarquias de cor, herdadas do Império português. Apesar disso, esses debates ape- nas limitadamente incendiariam as senzalas. Em relação à questão escravista, as balizas mais gerais do liberalis- mo radical do período aparecem de modo especialmente claro em alguns dos movimentos regenciais com maior participação popular e de escravos, como na Balaiada. Em seu momento de maior radicalização, os balaios vão priorizar a reivindicação de direitos iguais para o "povo de cor", tanto "cabras" quanto "caboclos", que estará explicitamente colocada nas cartas e nas proclamações de Gomes, um dos líderes do movimento. Do mesmo modo, acontecerá nessa fase uma aproximação 365</p><p>REPENSANDO o BRASIL DO OITOCENTOS crescente dos rebeldes do sul do Maranhão com as tropas de Cosme, ex-escravo, natural do Ceará, que liderava um exército de até três mil escravos rebelados, para os quais obrigavaros senhores a assinar cartas de alforria, quando não as firmava por conta própria. Mesmo no momento mais radical, portanto, nem a atuação de Gomes [pedindo a igualdade de direito entre as cores] nem a de Cosme [exigindo alforria para os escravos que decidissem lutar ao lado dos fugiram dos quadros mais gerais de participação popular, traçados ao longo das lutas de independência e do liberalismo radical do período, pois era o não-cumprimento da Constituição que se denunciava, ao se lutar pela igualdade entre "os homens livres de todas as cores" e, do mesmo modo, era a adesão à causa rebelde que trazia direito à alforria aos escravos das tropas de Cosme, e não uma ilegitimidade genérica da pro- priedade escrava (Assunção, 1993). O mesmo fenômeno se repetiria no contexto da Sabinada (Kraay, 1992, 2003). Na verdade, por todo conturbado período do Primeiro Reinado e das regências, a metáfora da escravidão, como imagem de opressão, foi constantemente acionada seja pelo discurso "patriota" da época da independência [o Brasil escravo de Portugal], seja pelo liberal exaltado, que clamava por igualdade de direitos entre os brasileiros livres - sem que isso implicasse colocar em xeque o direito de propriedade sobre os seres humanos Muitas vozes conservadoras, a exemplo do observador francês cita- do anteriormente, denunciariam o perigo de que essas palavras se espa- lhassem como rastilho de pólvora pelas senzalas. Contudo, isso não se deu. Elas continuaram a ser usadas, espalharam-se como rastilho de pólvora entre camponeses e livres pobres das cidades, empolgaram mesmo escravos crioulos que tomaram a participação nas lutas liberais como passaporte para suas próprias liberdades. Mas, em que pese a violenta repressão que se desencadeou sobre as rebeliões regenciais, especialmente as de caráter mais marcadamente popular, os significa- dos atribuídos à liberdade e à igualdade pela qual se lutava pareciam ter, não como limite, mas como contraponto não-questionado, a legiti- 366</p><p>RACIALIZAÇÃO E CIDADANIA NO IMPÉRIO DO BRASIL midade da propriedade escrava. A igualdade de direitos entre a popula- ção livre estava contraditoriamente informada pela distinção concreta e cotidiana entre cidadãos livres e As imagens da escravidão podiam ser usadas com êxito nas lutas do liberalismo de elite ou popular, porque traziam em si uma efetividade cotidiana, que ninguém parecia questionar. O combate do libe- ralismo brasileiro das primeiras décadas da monarquia à instituição da escravidão se concentraria na luta contra o comércio negreiro e na denúncia do tráfico africano, tendo nas pressões dos escravos crioulos pelo acesso à alforria e, a partir dela, à cidadania brasileira sua contrapartida mais radical. O seu distanciamento do escravo africano, este outro estrangeiro cotidiano, pôde evitar que ambas as pontas se encontrassem, incendiando as senzalas. SOBRE ÁFRICAS E AFRICANOS Conforme nos ensina Alberto da Costa e Silva, o Obá Osemwede, do Benin, e o Obá Osinlokun, de Lagos, foram os primeiros soberanos a reconhecer a independência brasileira, em 1824. Esse reconhecimento foi também, paradoxalmente, "a última embaixada oficial, que se conhece, de um reino africano no Brasil" (Costa e Silva, 2003, p. 11). Desde então, o comprometimento brasileiro com a interrupção do tráfico atlântico de escravos, condição britânica para o reconheci- mento da independência do Brasil, jogaria as relações em crescente clandestinidade, com profundas consequências dos dois lados do Atlântico. Eram tão fortes as ligações entre Brasil e África até então, que Eusébio de Queirós Coutinho Matoso Câmara e Fernando Martins do Amaral Gurgel da Silva, eleitos por Angola para as Cortes portuguesas, conclamaram os habitantes de Angola a aderirem à causa brasileira (idem, ibidem, p. 12). Nascido em São Paulo de Luanda, em 1812, o filho homônimo de Eusébio de Queirós viria a construir promissora 367</p><p>REPENSANDO BRASIL DO OITOCENTOS carreira política no Brasil independente, emprestando seu nome à lei que terminaria definitivamente com o comércio negreiro entre o Brasil e a costa africana, em 1850. A Lei n° 581 do Império do Brasil, aprovada em 4 de setembro de 1850 e conhecida como Lei Eusébio de Queiroz, extinguiu finalmente tráfico de escravos africanos para o país, após mais de 30 anos de acor- dos não-cumpridos com a Inglaterra. Desde fins do século XVIII, o comércio negreiro, até então legal e amplamente praticado pelos países europeus envolvidos na colonização americana, começou a perder pro- gressivamente legitimidade, até tornar-se ilegal na maioria dos países que praticavam, nas primeiras décadas do século XIX. A proibição do tráfico nas possessões da Inglterra, em 1807, con- trariando antigos interesses coloniais com representação no Parlamento inglês, transformou a repressão ao tráfico em política de Estado para governo britânico. A ação britânica na África desestruturaria fortemen- te os estados tradicionais africanos existentes na costa atlântica, que, em geral, tinham no controle do tráfico negreiro uma das bases de seu poder. Nesse contexto, o próprio reconhecimento da independência do Brasil pela Inglaterra esteve condicionado ao cumprimento de antigos tratados de restrição ao tráfico, firmados por Portugal, e à realização de novo acordo, estabelecendo uma data final para a interrupção do comércio infame, como dele diziam seus críticos (Williams, 1975; Bethel, 1976; Rodrigues, 2000; Costa e Silva, 2003, pp. 11-74). Do ponto de vista brasileiro, se não havia mais vozes que defendessem a legitimidade de tal comércio entre as elites políticas da jovem monar- quia, havia relativo consenso sobre a importância econômica do tráfico africano para a lavoura de exportação, especialmente como base da expansão cafeeira em curso, além do enorme comprometimento do conjunto da população livre com a continuidade da escravidão. Em 7 de novembro de 1831, foi promulgada a primeira lei nacional, declarando livres todos os escravos africanos que, a partir de então, entrassem no país, prevendo, para isso, pesadas penas a quem vendesse, 368</p><p>RACIALIZAÇÃO E CIDADANIA NO IMPÉRIO DO BRASIL transportasse ou comprasse escravos africanos recém-chegados. Em regulamentação da lei de 1832, ficou ainda estabelecido que [...] em qualquer tempo em que o preto requerer, a qualquer juiz de paz ou criminal, que veio para o Brasil depois da extinção do tráfico, o juiz o interrogará sobre todas as circunstâncias que possam esclarecer o fato e oficialmente procederá a todas as diligências necessárias para certificar-se dele, obrigando o senhor a desfazer as dúvidas que suscita- rem a tal respeito. Havendo presunções veementes de ser o preto livre, o mandará depositar e procederá nos termos da lei.20 A partir da década de 1860, esse artigo estará na base de inúmeros processos de ação de liberdade, num contexto de renascimento das ideias liberais após a vaga conservadora dos anos 1840 e 1850 (Azevedo, 2003; Gurgel, 2004). Mas, nos também liberais anos 1830, tais esforços foram insuficientes para conter o contrabando, que era apoiado pelas populações locais e encontrava fácil mercado na conjun- tura de expansão da cafeicultura. Nos poucos carregamentos apreendi- dos, acusados eram absolvidos, dado o sistema de júri popular então adotado. Os africanos assim recolhidos, em princípio, deveriam ser mandados de volta, pelo governo, para alguma parte do território afri- cano, determinação que logo se mostrou inexequível. Aprovou-se, então, em 1834, a distribuição dos chamados africanos livres para o ser- viço público e de particulares, a princípio na Corte e depois, também para o interior do país, o que facilitava uma reescravização "de fato" (Mamigonian, 2002). Nesse contexto, Bernardo Pereira de Vasconcelos chegou a propor a revogação da lei, em 1835 (Bethel, 1976, pp. 90-91, Beiguelman, 1987, pp. 191-192) e um projeto de lei apresentado pelo Senador Caldeira Brant, Marquês de Barbacena, no mesmo sentido, foi aprovado no Senado, em 1837, sem chegar, entretanto, a ser votado na Câmara dos Deputados (Gurgel, 2004).21 De fato, desde 1830, quando se deveria extinguir o tráfico brasilei- ro em decorrência dos acordos realizados com a Inglaterra, uma série 369</p><p>REPENSANDO o BRASIL DO OITOCENTOS de medidas foi tomada também para conter a entrada de africanos como colonos livres. A lei de 31 de setembro de 1830, que regulava a admissão de estrangeiros sob serviço de contrato, proibia expressamen- te, em seu artigo que eles fossem celebrados "a qualquer pretexto que seja com os africanos bárbaros, à exceção daqueles que atualmen- te existem no Brasil". Desde então, as medidas legais autorizando a deportação de africanos livres ou libertos se sucederiam, especialmente após o Levante dos Malês, em 1835 (Albuquerque, 2004, pp. 39-42; Mamigonian, 2002). É nesse contexto, portanto, que a noção de "africano" começa a formar-se e a substituir as muitas "nações" a partir das quais era até então identificada a população escrava de origem africana no Brasil. As últimas décadas do período colonial brasileiro foram marcadas por um novo boom da produção agrícola de exportação, responsável por um recrudescimento sem precedentes do tráfico africano. Nas áreas açucareiras do Baiano, nas duas últimas décadas do século XVIII e nas primeiras do XIX, a razão de africanidade das populações dos engenhos era de 2x1, raramente somando menos de 60% do con- junto da escravaria (Schwartz, 1988, pp. 287-291). O mesmo é verda- de para a zona açucareira que, pela mesma época, se expandia ao norte da Capitania do Rio de Janeiro (Faria, 1998, cap. V). tráfico baiano com a região do Golfo do Benin se intensificara no período. Especialmente em princípios do século XIX, aquela região da costa ocidental da África se viu sacudida por revoluções políticas e religiosas. O já antigo comércio negreiro entre a Bahia e o Reino do Daomé, no Golfo do Benin, se viu repentinamente multiplicado pelos interesses dos Estados e das facções africanas em guerra, especialmen- te a expansão do Califado de Sokoto, desde o "país" Haussa, no norte da atual Nigéria, e a desestruturação do Reino de Oyó, no "país" ao sul (Schwartz, 1988, cap 17; Reis, 2003, cap. 2; Costa e Silva, 2003, pp. 189-214; Curtin, 1994). Essas guerras jogariam, sobre Salvador e o levas de escravos africanos - especial- mente haussas e [iorubás] - em sua maioria homens jovens, 370</p><p>RACIALIZAÇÃO E CIDADANIA NO IMPÉRIO DO BRASIL pertencentes a exércitos derrotados. Schwartz (1988, cap. 17) atribui a essa conjuntura específica o ciclo de insurreições escravas que toma- rá o desde o fim do século XVIII até o Levante dos Malês, em 1835. Costa e Silva (2003, pp. 189-214) e Lovejoy (2000) vão considerá-lo continuação da jihad islâmica, então em curso no outro lado do Atlântico. Reis (2003) insistirá no caráter africano e escravo e, portanto, construído na Bahia, do ciclo insurrecional, capaz de produ- zir uma surpreendente aliança entre "africanos" inimigos na África, mas incapaz de incorporar os escravos "crioulos" [nascidos no Brasil]. Se a percepção dos insurretos sobre os sentidos de sua ação se mantém alvo de polêmica, a apropriação dela pelas autoridades brasileiras enfatizará o perigo representado por esse escravo cada vez mais perce- bido como "africano" para a formação da jovem nação (Reis, 2003, parte IV). Esse africano que ameaçava na Bahia ressurgirá no Rio de Janeiro da expansão cafeeira, onde, sob a égide do tráfico já tornado ilegal, falantes de línguas banto da região Congo-Angola formarão até 90% da escravaria das fazendas de café da região, às vésperas da extinção definitiva do tráfico africano, em 1850. As lições da Bahia reforçariam medo provocado pelo surgimento dessa protonação banto, como a chamou Slenes (1995), reforçando os argumentos dos que advogavam a repressão efetiva do tráfico atlântico, conforme mais tarde destacaria Eusébio de Queiroz. De fato, a maior parte das interpretações sobre a Lei Eusébio de Queiroz e de sua eficácia na extinção do tráfico negreiro dedica-se a explicar como se construíram as condições políticas de sua aprovação e implementação, em 1850, após décadas de resistência das elites imperiais a ceder, quer às pressões inglesas, quer às campanhas dos liberais mais doutrinários. A capitulação à pressão inglesa, sobretudo após a aprova- ção do Bill Aberdeen, foi aventada, pela oposição liberal da época, como a principal razão da direção adotada pelo gabinete conservador. Em dis- curso pronunciado na Câmara, em 16 de julho de 1852, Eusébio de Queiroz respondeu à crítica liberal, admitindo que o aumento da pressão 371</p><p>REPENSANDO BRASIL DO OITOCENTOS inglesa nos anos imediatamente anteriores à lei, associado à ausência de um discurso público de defesa da posição brasileira, impunha ao gover- no uma solução para impasse, frisando, porém, que a ocasião e a forma adotadas para solucioná-lo foram exclusivamente internas. De fato, o envio da lei à Câmara foi precedido de negociações com a Inglaterra para que essa diminuísse sua ação em águas brasileiras, de modo que fosse encontrada uma solução política sem prejuízo da soberania nacional (Beiguelman, 1987; Bethel, 1976). Para explicar a aprovação da lei por uma Câmara conservadora, o ministro destacou a aliança do gabinete conservador com representantes de interesses agrários das áreas não- cafeeiras, sobretudo do Nordeste açucareiro, abarrotados de escravos e endividados com os traficantes. Afinal, a lei fora aprovada por uma Câmara francamente conservadora, mas com voto contrário das ban- cadas das províncias cafeeiras (Carvalho, 1980, cap. 8; 1988, cap. 2; Rodrigues, 2000). Por fim, segundo o ministro doublé de historiador, concorrera para a medida um temor salutar, gerado pela concentração de africanos em proporções inéditas no Brasil. Temor que também tem sido colocado em relevo por alguns pesquisadores do período (Chalhoub, 1990, parte 1; Slenes, 1995). Entre dois estrangeiros necessários, o "português" colonizador e o "africano" escravo, a construção prática do brasileiro, sob a égide dos interesses escravistas dominantes e profundamente impregnados no conjunto da sociedade brasileira, não poderia recorrer à moderna noção de "raça", que então tomava forma no mundo ocidental, como solução política para a continuidade da escravidão. Na verdade, as lutas entre "liberais" e "conservadores" das primeiras décadas da monarquia estiveram referidas, entre outros pontos, também a esse dilema político. Diziam respeito a duas opções opostas para a legitima- ção da questão da continuidade da escravidão, ambas contidas na Constituição outorgada de 1824, que recaíam, entretanto, bastante diferentemente sobre as possibilidades de alforria dos cativos e sobre a distribuição de direitos e privilégios entre a população livre. Nenhuma das duas acionava, entretanto, o moderno conceito de "raça". 372</p><p>RACIALIZAÇÃO E CIDADANIA NO IMPÉRIO DO BRASIL Uma primeira opção, conservadora, relacionava a permanência da escravidão a certos traços do Antigo Regime, remanescentes na nova ordem (o Poder moderador, a união entre Igreja e Estado, o regime de padroado). Apesar de não haver qualquer referência às rela- ções escravistas no texto constitucional, o discurso conservador tinha como premissa, para além do direito de propriedade, as hierarquias sociais tradicionais do antigo Império português e as diferentes "quali- dades" dos seus súditos. Se seguirmos a formulação de Vilhena ([1802], 1921), na carta primeira de suas "Notícias soteropolitanas e brasíli- cas", redigida no fim do período colonial, podemos considerar que aquela sociedade se organizava baseada em critérios de direitos e privi- légios, orientando sua divisão social entre os que tinhan os dois [os nobres], os que só tinham direitos [os livres em geral] e os que não tinham nem um nem outro [os escravos]. As disposições censitárias da Constituição de 1824, no que se refere aos direitos políticos, bem como à manutenção da escravidão, podiam ser lidas, portanto, como reco- nhecimento e legitimação de privilégios senhoriais e de hierarquias sociais herdadas do Império português, como bem exprimiu Mattos (1986, pp. 109-128), no clássico O tempo saquarema, ao desenvolver a ideia de "um império e três mundos". Por outro lado, num registro liberal, voto censitário [comum a países como Estados Unidos e Inglaterra] legitimava as relações entre acesso à propriedade e direitos políticos. Da mesma maneira, tendo em vista a ausência do tema na Constituição de 1824, a manutenção da escravidão estava legalmente ancorada nesse mesmo princípio, típico do liberalismo: a absolutização do direito de propriedade, que só pode- ria ser confiscada pelo Estado mediante indenização. Podem parecer puramente retóricas essas distinções, na medida em que, ao fim e ao cabo, ambas se propunham a legitimar a continuidade da escravidão. Na verdade, a historiografia, ao ressaltar apenas esse ponto, deixa de dar o devido destaque ao fato de que nenhuma das muitas lutas e rebeliões sociais e políticas das primeiras conturbadas décadas da monarquia colocavam em cheque este princípio de modo 373</p><p>REPENSANDO o BRASIL DO OITOCENTOS a ênfase na questão acaba por impedir que se percebam as contra- que dições elas, que população livre. destacando-se, efetivamente informavam os conflitos, entre a racialização das tensões entre a Para o encaminhamento dessas tensões, recorreu-se politicamente a alguns dos postulados do liberalismo que, apropriados por parte das elites políticas e também por alguns dos líderes populares envolvidos nos levantes e nas rebeliões do período, foram capazes de canalizar os ganhos políticos de determinados setores da população, com o fim das hierarquizações formais entre as diversas "qualidades" dos súditos do velho Império português. Tenderam também a organizar de forma bas- tante generalizada toda uma agenda de reivindicação contra esse tipo de discriminação, baseada num radical e original processo de desracia- lização e dessenhorialização da legitimação da continuidade da institui- ção escravista. Processo oposto, de fato, às tendências de racialização do problema, preponderante nos Estados Unidos e de predomínio do ponto de vista senhorial, que tenderia a se tornar hegemônico no Brasil, a partir do Segundo UM CERTO CONSELHEIRO REBOUÇAS Para melhor demonstrar esse ponto, proponho que tomemos contato com um pouco da vida e das ideias do Conselheiro Antônio Pereira Rebouças, que teve sua história organizada, do ponto de vista pessoal e político, pelas possibilidades desse liberalismo. Filho de uma liberta e de um alfaiate português, nascido na Bahia, em 1798, autoditada no estudo das leis, fez-se rábula, sendo depois provisionado advogado, tornando-se um dos maiores especialistas em direito civil no Brasil Além disso, foi várias vezes deputado pela Província da Bahia, conselheiro do imperador e advogado do Conselho de Estado (Grinberg, 2002; Spitzer, 1989, cap. 4; Rebouças, 1879). A vida política de Rebouças foi registrada por ele para a posterida- de em dois livros: Recordações da vida parlamentar do advogado 374</p><p>RACIALIZAÇÃO E CIDADANIA NO IMPÉRIO DO BRASIL Antônio Pereira Rebouças. Moral, jurisprudência, política e liberdade constitucional, compilação de seus discursos parlamentares, e Recordações da vida patriótica do advogado Rebouças compreendida nos acontecimentos políticos de fevereiro de 1821 a setembro de 1822; de abril a outubro de 1831; de fevereiro de 1832 e de novembro de 1837 a março de 1838, que analisaremos adiante. Quanto à sua vida parlamentar, subtítulo de suas Recordações destaca as palavras "moral", "jurisprudência", "política" e "liberdade constitucional" para definir a linha de sua atuação, que, associando "direito de propriedade" e "liberdade constitucional", aparece bem exemplificada na discussão sobre os direitos de cidadania dos libertos, que passo agora a analisar. Os dois discursos proferidos por Rebouças sobre a questão ilustram magistralmente aquela vertente de pensamento de base liberal a que me referi anteriormente. Em 1832, discutia-se uma primeira reforma da lei da Guarda Nacional, criada em 1831 e, em especial, uma emenda do Sr. Calmon, deputado pela Bahia, pela qual só o cidadão que pudesse ser eleitor poderia ser nomeado oficial. Por se tratar de milícia cidadã, que devia armar os cidadãos ativos do Império, a emenda tinha profun- das implicações do ponto de vista da polêmica questão dos direitos de cidadania dos libertos, ou seja, daqueles indivíduos que, nascendo escravos no Brasil, eram alforriados ao longo da vida. A melhor manei- ra de acompanhar essas implicações é seguindo o fio da argumentação do veemente discurso de oposição à emenda, do deputado Antônio Pereira Rebouças, proferido em 25 de agosto daquele Rebouças começava sua fala lamentando que justamente um depu- tado da Província da Bahia apresentasse tal proposição, ainda mais depois que um deputado por Minas Gerais, onde, a seu ver, os "senti- mentos de igualdade e justiça, de união e de liberdade" estavam bem menos arraigados, havia retirado proposta de igual conteúdo, conven- cido da argumentação de que se tratava de medida "injusta", "incen- diária", "impolítica" e "inconstitucional". Por que a emenda causava tanta indignação a Rebouças? Não era por conta da renda de 200 mil réis anuais que se exigia para a condição 375</p><p>REPENSANDO o BRASIL DO OITOCENTOS de eleitor, pois, nesse sentido, ele propunha que fosse essa a renda míni- ma para o recrutamento dos soldados [!] das guardas e que se exigisse uma renda ainda mais alta para os oficiais (300 mil). Nessa, como em inúmeras outras ocasiões, Rebouças mostrar-se-ia um entusiasta de res- trições censitárias elevadas para o exercício da cidadania política, no melhor estilo do que então se praticava em termos eleitorais nos Estados Unidos e na Inglaterra. Rebouças se indignava porque "uma das condições negativas da votação para eleitor é o não ter nascido ingênuo!", optando por uma frase com uma dupla negativa para evitar o uso da palavra "escravo" ou "cativo". Como já foi antes assinalado, pela Constituição imperial, quem não tivesse "nascido tendo, portanto, nascido escravo e, depois, obtido a alforria, não se poderia qualificar como eleitor, mesmo se tivesse renda suficiente para tanto. Rebouças, sempre cioso das liberdades individuais, considerava essa "exceção odiosa, contraditória e impraticável" e se opunha com veemência a que se tentasse estendê-la para além dos termos constitu- cionais. Opunha-se, primeiramente, considerando tal propósito inconstitu- cional. Alegava que "a Constituição somente excetuou os cidadãos bra- sileiros que não nasceram ingênuos de serem eleitor de paróquia, con- selheiro de província, deputado, senador, conselheiro de Estado" [...] "logo, excetuando" [...] [os casos acima] [...] "os cidadãos não ingê- nuos podem servir todos os empregos para os quais se achem habilita- dos por seus talentos e virtudes". Esse era o ponto básico do elitismo liberal de Rebouças. Para ele, renda e propriedades podiam ser adquiri- das com "talentos e virtudes", consistindo, portanto, na única medida legítima desses mesmos talentos e virtudes, necessários ao exercício das responsabilidades mais elevadas da cidadania política. Grinberg (1999, 2002), em trabalho de fôlego sobre o pensamento jurídico do conselheiro, enfatiza que o direito de propriedade e as liberdades individuais formaram a pedra de toque de suas concepções de direito civil. Baseado neles, propôs, em 1830, o reconhecimento do direito ao pecúlio do escravo e a regulamentação de seu direito à 376</p><p>RACIALIZAÇÃO E CIDADANIA NO IMPÉRIO DO BRASIL autocompra, como seriam finalmente regulados pela Lei do Ventre Livre com grande oposição dos setores senhoriais - apenas em 1871. Paralelamente, combateu tráfico negreiro e defendeu os direi- tos de cidadania dos libertos, como exemplificado na questão da Guarda Nacional. Defendia, assim, ainda na década de 1830, um pro- jeto completo de superação, ainda que gradual, da escravidão - com respeito ao direito de propriedade - que previa a inclusão imediata dos libertos na cidadania brasileira, garantido até o gozo de direitos políti- na medida de seus talentos e virtudes - medidos estes por sua capa- cidade de amealhar Quais as chances, porém, de um liberto atingir o nível de renda necessário para o exercício dos cargos constitucionais que lhe eram vedados, ou os valores ainda mais elevados, defendidos por Rebouças, para os oficiais da Guarda Nacional? Segundo o conselheiro, em seu discurso, maiores do que pareceria provável à luz da atual historiogra- fia sobre o tema. Pois é exatamente sobre esse ponto que constrói seu argumento seguinte, no discurso de 1832. Tentemos segui-lo. Esse segundo ponto de argumentação alicerça-se sobre o postulado. "não se cumprem as disposições legislativas contrárias aos costumes". Afirmado o princípio, desafiadoramente perguntava a seu opositor baiano: "Crê o ilustre orador que a exclusão dos não ingênuos para eleitores tenha sido jamais cumprida?" Pelo menos para Rebouças, a resposta era, sabidamente, não, pois, em geral, a ninguém ocorria impugnar o fato e, quando alguém o fizesse, sobre ele recaía "a ani- madversão geral" pois "quando é, meus senhores, que um liberto mere- ce os sufrágios de seus concidadãos a não ser que pela melhor índole e comportamento cívico tenha totalmente desfeito as desagradáveis impressões de sua infeliz origem?". Libertos eleitores? A afirmação do nosso personagem está a mere- cer maior atenção da pesquisa histórica, mas pode-se pensar, pelo menos, nos muitos filhos ilegítimos de senhores importantes, nascidos escravos e, depois, alforriados em escritura pública ou testamento. De todo modo, o essencial de seu raciocínio é que, constitucionalmente, no 377</p><p>REPENSANDO o BRASIL DO OITOCENTOS Império do Brasil, ou se era escravo ou se era cidadão e, com base nesse princípio, quaisquer exceções abertas eram aberrações. Pode, pois, ser membro da regência um cidadão segundo a Constituição? E não poderá ser alferes de companhia nas guardas nacionais? Pode um cidadão liberto ser ministro ou secretário de Estado? Não poderá ser oficial da guarda nacional? Pode um cidadão liberto ser arcebispo e bispo, segundo a Constituição, não poderá ser oficial das guardas nacionais? Pode um cidadão liberto ser ministro do tribunal supremo de justiça, não poderá ser oficial das guardas nacio- nais? Pode um cidadão liberto ser general, e não poderá ser alferes, tenente e daí por diante nas guardas nacionais comandadas por esse general? No discurso de Rebouças, portanto, uma vez liberto, o ex-escravo nascido no Brasil automaticamente tornava-se cidadão brasileiro, com todas as civis e políticas. E assim afirmava porque apenas o direito de propriedade legitimava a escravidão; deixando de ser propriedade, o escravo, por meio da alforria, tornava-se também plenamente cidadão. No esforço de desracializar a continuidade da instituição do cativei- ro, vai seguir desenvolvendo um terceiro argumento, os dos muitos ser- viços já prestados por cidadãos libertos à jovem nação e os dos muitos feitos de bravura de "cidadãos libertos" em outras sociedades. Começa por citar a Bahia e o papel dos "cidadãos libertos" nas lutas da Independência. Quanto a esse ponto, conclui, novamente reivindicando reconhecimento da plateia para um fato que seria do amplo conheci- mento de todos: Assim, estando nossa província, e à proporção as demais, com tantos oficiais beneméritos, clérigos e condecorados no gozo da mais ajustada estima de todos os seus quem tão mesquinho que intente adotar e fazer efetiva uma distinção a todos os respeitos reprovada? 378</p><p>RACIALIZAÇÃO E CIDADANIA NO IMPÉRIO DO BRASIL Rebouças insiste, portanto, que não se trata de uma questão mera- mente teórica ou de princípios. Trata-se de uma exceção, capaz de atin- gir diretamente inúmeros cidadãos brasileiros, "oficiais beneméritos, clérigos e condecorados". E, para provar que a distinção é mesquinha e reprovável não apenas no Brasil [e não apenas em relação a libertos descendentes de africanos], apressa-se a citar servos ou escravos eman- cipados em diferentes partes da Europa, na Rússia, na Prússia, na Áustria, além da Espanha e de Portugal, que teriam desempenhado fun- ções de prestígio e destaque em diferentes épocas naquelas sociedades. Assim, tendo bem estabelecido que a escravidão não se assentava sobre quaisquer diferenças naturais, mas apenas históricas e legais, o que, portanto, tornava odiosa qualquer tentativa de continuar a restrin- gir legalmente os direitos dos ex-escravos, uma vez emancipados, dis- curso de Rebouças tende a assumir, de forma mais clara, o seu sentido principal: um embate veemente contra o que hoje chamaríamos de dis- criminação racial, sem que isso implicasse em um combate equivalente à instituição da escravidão. É só nesse momento que ele irá citar em sua fala os casos do Haiti e dos Estados Unidos: Haiti, como ameaça que se devia esconjurar, e os Estados Unidos, como exemplo que se devia repelir. Citando Chateaubriand, "aristocrata consumado", considera que Toussaint Louverture era "mais cidadão e francês que próprio Napoleão que fizera perecer". Para ele, se se tivessem feito cumprir antigos éditos da monarquia francesa, que consideravam "franceses e capazes de todos os empregos e ocupações os libertos da colônia [...] certamente os colonos refratários e obstinados não sofreriam tanto, nem teriam lugar as cenas de horror e de atrocidade que fazem arrepiar as carnes apenas se nos afiguram à "imaginação." "Mas, enfim, todos os meios reconciliatórios foram perdidos, e os colonos na rainha das Antilhas, como clero e a nobreza na França, por nada quererem ceder, sem tudo ficaram [...]." Temos aí o moderado Antônio Rebouças, extremado defensor do direito de propriedade, entre outros direitos individuais, bem como da 379</p><p>REPENSANDO BRASIL DO OITOCENTOS ordem e das hierarquias neles fundadas, a esgrimir o fantasma do Haiti e os perigos que adviriam para o Império do Brasil se os libertos e seus descendentes não se sentissem brasileiros e, irmanados com a popula- ção escrava, se voltassem contra a ordem vigente. Sem temor, não se acanha de enfrentar o próprio caso dos Estados Unidos, onde a legitimação da continuidade da escravidão tendia rapi- damente a adotar uma perspectiva marcadamente racial. Só, como já disse, se dá uma exceção em país civilizado, e na América. Mas estaremos nós em Illinois, Indiana, Georgia, Carolina meridional, Kentuhy [sic] e outros estados, cujas constituições, a par de um pom- poso manifesto de princípios e direitos do homem, trazem exclusões as mais merecedoras, como o tem sido da contínua censura dos escritores europeus? Estaremos mesmo nos livres estados da Pensilvânia, Massachusets e New York, onde os filhos de Deus e da mesma religião não podem concorrer em comum nos templos, nas escolas, nas ofici- nas, nas salas, nos teatros etc. Escusa-se, assim, de enfrentar o encaminhamento cientificista da questão da raça, que, então, apenas começava a se estruturar, para só marcar a incoerência daquelas práticas segregacionistas em relação aos "pomposos manifestos de princípios e direitos do homem", adotados na América do Norte, e a buscar a solidariedade com a sua crítica na censura "dos escritores europeus". Por outro lado, recurso à pergun- ta "estaremos nós?" remete novamente à discrepância entre qualquer tentativa de restringir os direitos individuais dos libertos e de seus des- cendentes e as práticas efetivamente em vigor no país. Recusando a racialização do tema da escravidão e também sua con- cepção a partir da lógica do Antigo Regime, Rebouças, em seu discurso, vai enfatizar a primazia do direito de propriedade, até no que se refere ao estabelecimento de precondições para o acesso pleno à cidadania política, para justificar a tolerância com a continuidade da escravidão em uma monarquia constitucional e, ao mesmo tempo, empreender 380</p><p>RACIALIZAÇÃO E CIDADANIA NO IMPÉRIO DO BRASIL decisivo combate contra a discriminação racial entre os brasileiros livres. As hierarquias sociais deveriam ser formadas a partir de virtudes e talentos e a capacidade para adquirir propriedades era principal índice das realizações de que essas virtudes e talentos eram capazes. Por outro lado, a proposta que combatia, já implicitamente contida no dis- positivo constitucional que exigia terem nascido ingênuos [não-cativos] os que se poderiam qualificar como eleitores, inspirava-se claramente em concepções políticas e sociais de cunho tradicional e aristocrático, ainda que bastante reformadas desde as "luzes" pombalinas, herdadas do Império português. Por um voto, Rebouças foi derrotado. Depois disso, tumultuado período regencial incendiaria as províncias do Império; os liberais moderados ou radicais perderiam força e prestígio para o Regresso Conservador e o próprio Rebouças atuaria energicamente na repressão à Sabinada na Bahia. Apesar disto, quase 15 anos depois, em 1846, em pleno processo de consolidação definitiva do Segundo Reinado, quan- do uma nova reformulação das Guardas Nacionais voltou a ser discu- tida na Câmara dos Deputados, Rebouças, novamente deputado, volta- ria a discursar, defendendo os mesmos pilares básicos de sua posição de 1832. Em 26 de junho de 1846, lembraria a derrota de 1832, "por um ou dois votos", e novamente voltaria a considerar a medida "inconstitu- cional, injusta, impolítica e A medida seria inconstitucional porque "ofensiva à Constituição, que, no título dos direitos civis e políticos dos cidadãos brasileiros, esta- belece que todos são aptos para todos os cargos públicos civis, políticos ou militares, sem outra diferença que seja a dos seus talentos e virtu- des". Dessa vez, exime-se de discutir a exceção, aberta na própria Constituição, para o reconhecimento dos eleitores, bem como de depu- tados e senadores. Além de inconstitucional, a proposta era injusta, do seu ponto de vista, "porquanto, logo que algum cidadão por seu mérito sobe ao grau de consideração que o habilita a ser escolhido para oficial da Guarda 381</p><p>REPENSANDO BRASIL DO Nacional ou outro qualquer emprego de importância, ninguém há que civil e politicamente se lembre se nasceu ingênuo ou não, e se alguém se lembra e murmura adrede é repelido como excitando uma odiosida- de antissocial". Inconstitucional, injusta e impolítica, repete, porque "se se entrasse na exegética da Guarda Nacional das diferentes províncias, certo achar- se-iam muitos oficiais que não fossem ingênuos; e se me não faço gargo de individuar fatos, bem se vê que é porque seria odioso e inteiramente repugnante e contrário ao meu intuito", além de "absurda, porque muitas vezes dar-se-á que oficiais de primeira linha que não tenham nascido ingênuos, e que todavia sejam de maior patente concorrendo com oficiais da Guarda Nacional, os comandem". Desse modo, Rebouças repete, quase um a um, seus argumentos de 1832, novamente afirmando a existência de fato de ex-escravos em situação de destaque social e novamente não associando tal combate a uma deslegitimação da propriedade escrava ou a uma visão igualitaris- ta das hierarquias sociais. Ao contrário, esforça-se especialmente para dissociar seus argumentos, que hoje chamaríamos antirracistas, de qualquer ponto de vista mais radical no tocante à igualdade social. Desse modo, da mesma forma que em 1832, propunha que a exigência de renda para oficial da Guarda Nacional fosse elevada de 200 mil para 300 mil réis; em 1846 proporia igualmente que essa renda, então em 400 mil réis, fosse elevada para 600 mil, com base em uma argu- mentação que diretamente corroborava a legitimidade da propriedade escrava: Eu julgo que ou se deve estabelecer em regra geral que todo cidadão é apto para ser oficial da Guarda Nacional, uma vez que tenha habili- dade para comandar e prestar todo o serviço militar que lhe competir; ou que estabelecendo uma renda como critério de qualificação, ela o deva ser eficazmente. A de 400 não indica o que dela se pretende: isso obviamente se demonstra. É impossível que se considere idôneo para oficial da Guarda Nacional em razão de seus haveres quem não tiver 382</p><p>RACIALIZAÇÃO E CIDADANIA NO IMPÉRIO DO BRASIL empregado em seu serviço pelo menos dois escravos, um em casa, outro de casa para a rua. A partir daí, continua desenvolvendo um cálculo do custo mínimo para sustentar o estilo de vida desejável a um oficial da Guarda Nacional, para concluir que a renda mínima proposta de 400 mil réis era insuficiente e devia ser elevada. Obviamente, a citação da proprie- dade escrava no discurso de 1846, bem como a associação em ambos os discursos entre o combate à restrição aos libertos e uma defesa de ele- vação da renda mínima para os oficiais das guardas, não se fazia por acaso. Tratava-se de uma estratégia clara de desracializar a legitimida- de da escravidão para combater a discriminação racial presente na pro- posta e, obviamente, também na sociedade brasileira do período. Ao fazê-lo, não agia como representante de si mesmo, mas, antes, como a expressão talvez mais elaborada e elitista de uma leitura liberal da sociedade escravista de ampla penetração popular. Nessa leitura, o combate antiescravista concentrou-se, até 1850, contra a manutenção do tráfico de escravos. Esse foi o tema preponde- rante nos pasquins radicais da década de 30. Se a entrada de escravos africanos não foi efetivamente reprimida com a primeira lei de proibi- ção do tráfico, em 1831, tendo mesmo se intensificado, não foi uma vitória menor do liberalismo radical o simples fato de que o comércio negreiro, tornado ilegal, tenha passado a ser chamado "tráfico", bem como o responsável por ele, "traficante" - deslegitimando rapidamen- te um dos mais rentáveis ramos das atividades mercantis da jovem monarquia (Rodrigues, 2000). Em 1830, antes ainda da proibição do tráfico, uma lei que discutia a admissão de estrangeiros a serviço por contrato proibiu expressamen- te a entrada e a contratação de "africanos bárbaros" nessa condição, como estava projetado para outros estrangeiros [especialmente para o Em 1846, em plena crise com a Inglaterra em torno da con- tinuidade do tráfico ilegal para o Brasil, Rebouças discursaria, saudan- do a Inglaterra e seu papel na extinção do tráfico [30/5/1846]. No mês 383</p><p>REPENSANDO o BRASIL DO OITOCENTOS seguinte, em outro discurso, proporia à Câmara a revogação dessa proibição e a introdução dos africanos bárbaros como colonos livres no país [6/6/1846].26 A oposição à medida viria basicamente da suposição de que ela resultaria em abusos, engendrando formas disfarçadas de escravização. Rebouças respondia a essa considerando a situa- ção então vigente, em que se compactuava com o tráfico clandestino e com a escravização ilegal, muito mais grave. Se em toda a polêmica pra- ticamente não se discutia como tais "colonos livres" eram recrutados na África, não há dúvidas de que as perspectivas futuras sobre as possi- bilidades de tais "colonos" serem transformados em cidadãos brasilei- ros informavam o principal divisor de águas entre opositores e os [pou- cos] defensores da colonização africana para o O Conselheiro Rebouças foi um homem formado na primeira metade do século XIX, quando - apesar de todo o conjunto de rebe- liões e levantes populares e de escravos que marcou o período - a questão da abolição definitiva da escravidão não esteve politicamente colocada. Exatamente por causa disso, sua trajetória nos permite ilumi- nar como as lutas contra a escravidão e contra a discriminação racial se imbricaram, mas não se confundiram, no Brasil monárquico, com pro- fundas implicações para as formas como as identidades raciais se cons- truíram historicamente neste país. Notas 1. Este texto atualiza e embasa, do ponto de vista alguns argumentos desenvolvidos no livro Escravidão e cidadania no Brasil Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2000. 2. As estimativas populacionais para o fim do período colonial no Brasil são todas muito imprecisas e há poucos trabalhos quantitativos com uma perspectiva compa- rativa para o conjunto da América. Segundo Livi-Bacci, em resenha comparativa sobre a demografia brasileira, a população escrava no Brasil, em 1800, era cerca de metade do conjunto da população estimada - e se apresentava pelo menos 1/3 maior do que a dos Estados Unidos, para uma população total de grandeza seme- lhante - 3.250 mil [Brasil] e 3.330 mil [Estados Unidos] (Livi-Bacci, 2002, 384</p><p>RACIALIZAÇÃO E CIDADANIA NO IMPÉRIO DO BRASIL pp. 147 e 155). Quanto às estimativas sobre a população negra livre brasileira (cerca de 1/3 do conjunto da população livre, segundo Livi-Bacci, ou metade dela, segundo Schwartz [1996, p. 10], existe consenso entre os especialistas de que essa se apresentava em proporção superior a qualquer outra área do continente ameri- cano, mesmo se comparada aos países da América espanhola. Nesse sentido, cf. Russel-Wood (1982). 3. A interpretação clássica nesse sentido encontra-se em Schwartz (1977). Ver também Costa (1979, especialmente caps. 1 e 3). Com perspectiva diferente, cf. Bost (1992) e Franco (1976). Sobre as defasagens entre a instituição legal e a prática da cidada- nia no Brasil especialmente da perspectiva dos direitos políticos, cf. Carvalho (2003, capítulo I). 4. As citações de Jefferson são de "Notes on the State of Virginia" (1781-1782), com tradução de Larissa Moreira Viana, apud Viana (1998, pp. 13-14). Ver também Jordan (1974, parte V). 5. Sobre a justificação não-racializada do tráfico e da escravidão nas Américas ingle- sa e espanhola, nos primeiros séculos da escravidão atlântica, cf., respectivamente, Berlin (1998) e Landers (1999). 6. Para uma abordagem mais aprofundada dessa questão, cf. Parte III (Relato de si, hierarquia de cor e da condição de súdito no Brasil colonial). 7. Para uma discussão extensa sobre as múltiplas possibilidades de significação do termo pardo, cf. Vianna (2004, pp. 67-68). 8. Epígrafe do jornal O Mulato ou Homem de Cor (Biblioteca Nacional, 1833). Sobre a presença desses jornais no panorama político da Corte no período regencial, cf. Souza (1994); Vianna (1998) e Lima (2003). 9. Sobre a noção de cidadania na Constituição do Brasil de 1824, ver também Carvalho (2003, cap. 1) e Kraay (2001, cap. 1). 10. Para uma análise mais pormenorizada do episódio, cf. Grinberg (2002, p. 77). 11. Biblioteca Nacional, Sessão de Periódicos, O Mulato ou O Homem de Cor, 4 de novembro de 1833. 12. Cf. Relatório do Ministério do Império de 1851 (Rio de Janeiro, 1852, pp. 16-17), apud Lima (2003, p. 106) e Eisemberg (1977, p. 213). 13. Agradeço a Mathias Assunção a indicação dessa fonte. 14. A Constituição de 1824 naturalizou todos os nascidos em Portugal que aqui perma- neceram após a independência e que tivessem aderido à "Causa do Brasil", de modo que, durante pelo menos a primeira década após a declaração de independên- cia, brasileiros e portugueses foram identidades intercambiáveis e profundamente carregadas de conteúdos políticos (Ribeiro, 2002, cap.1). 15. Cf. Mattoso (1969, Aviso n° 10, p. 157), apud Mattoso (2004, p. 328). 16. Segundo Mattoso (2004, p. 327), o aviso 6 proclamava que "o povo (leia-se os revoltosos) se propõe a auxiliar todas as categorias das classes produtoras e comer- ciais para que 'hajão de ter todo o direito sobre suas fazendas' e tomar 'as medidas tudo e a bem do povo, principalmente aumento do comércio e 385</p><p>REPENSANDO o BRASIL DO OITOCENTOS 17. Antônio Pinto de França (org.), Cartas baianas, 1822-1824, Lisboa, Imprensa Nacional, 1984, pp. 45-48 e 73-75, apud Reis e Silva (1989, p. 92). 18. A carta do observador francês foi localizada por Luís Mott no Arquivo Histórico Ultramarino [Lisboa], na seção "Brasil-Diversos", Caixa 2 (1749-1824), número de ordem 295. Foi traduzida, comentada e publicada pelo pesquisador, em obra organizada por Carlos Guilherme Motta, (1822: Dimensões), em 1972. Cf. Motta (1972, p. 482). 19. É importante lembrar, contudo, que, pela mesma época, as vozes radicais comba- tiam com veemência a continuidade do tráfico africano. 20. Decreto de 12 de abril de 1832, que regulamentou a lei de 7 de novembro de 1831, apud Gurgel (2004, p. 21). 21. Dizia o artigo 14 desse projeto: "Nenhuma ação poderá ser tentada contra os que tiverem comprado escravos, depois de desembarcados, e fica revogada a lei de 7 de novembro de 1831 e todas as outras em contrário." Projeto do Senado do Império n° 133, de 1837 1988, p. 102). 22. Cf. Anais do Parlamento Brasileiro (1982, pp. 200-202). 23. Cf. "Projeto apresentado por Antônio Pereira Rebouças à Assembleia legislativa em 14 de maio de 1830" (Annais do Parlamento Brasileiro, sessão de 14 de maio de 1830), transcrito integralmente em Grinberg (2002, pp. 368-370). 24. Anais do Parlamento Brasileiro (1982, pp. 458-459). 25. Lei de 31 de setembro de 1830, cf. Anais do Parlamento Brasileiro (1982, pp. 295- 296). 26. Cf. Anais do Parlamento Brasileiro (1982, pp. 266-268 e 294-296). 27. Entre eles, Luís Werneck (Silva, 1984) e Dom Obá II d'África (Silva, 1993). Bibliografia ALBUQUERQUE, Wlamyra R. de. "A exaltação das diferenças. Racialização, cultura e cidadania negra (Bahia, 1880-1900)", tese de doutorado, Campinas, Unicamp, 2004. ALDEM, Dauril. "The Population of Brazil in the Late Eighteenth Century. A Preliminary Survey". Hispanic American Historical Review, V. 43, n° 2, 1963, pp. 173-205. 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