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<p>Esta coleção pretende oferecer ao leitor um conjunto de textos voltados para entendimento do mundo do trabalbo, seus dilemas, desafios e alternativas. Alguns pontos centrais inspiram nosso projeto, e os textos nele publicados estão, em alguma medida, em sintonia com seus objetivos. Mundo do Trabalho publica estudos que se contrapõem claramente à lógica RICARDO ANTUNES destrutiva que preside mundo BEYNON Assume um JOHN caráter acentuadamente contrário RICARDO RAMALHO ao capital e faz uma constante IRAM RODRIGUES das formas de NEOLIBERALISMO, (des)sociabilização presentes no capitalismo e que atingem TRABALHO intensamente a classe-que-vive-do- E SINDICATOS Realiza um persistente combate às formas "modernas" de Reestruturação produtiva no Brasil e na Inglaterra precarização, aviltamento e fetichização do ser social que processo em enorme E D T R A L 5 2.ed. expansão em todos os cantos do 0624734/IFCH</p><p>Ricardo Antunes Mundo do Trabalho (organizador) Organizador: Ricardo Antunes Huw Beynon John McIlroy José Ricardo Ramalho Iram Jácome Rodrigues TÍTULOS PUBLICADOS PARA ALÉM DO CAPITAL Rumo a uma teoria da transição Istvám Mészáros HOMENS PARTIDOS Comunistas e sindicatos no Brasil Marco Santana o EMPREGO NA GLOBALIZAÇÃO Marcio Pochmann CRÍTICA À RAZÃO INFORMAL Manoel Malaguti NEOLIBERALISMO, o NOVO (E PRECÁRIO) MUNDO DO TRABALHO Reestruturação produtiva e crise do sindicalismo Giovanni Alves TRABALHO E SINDICATOS TRANSNACIONALIZAÇÃO DO CAPITAL E FRAGMENTAÇÃO DOS TRABALHADORES Reestruturação produtiva na Inglaterra e no Brasil João Bernardo (DES)FORDIZANDO A FÁBRICA Maria da Graça Druck edição REZA E EXPLORAÇÃO DO TRABALHO NA LATINA Pierre Salama o MISTER DE FAZER DINHEIRO Automatização e subjetividade no trabalho bancário Nise Jinkings RDISMO E TOYOTISMO NA CIVILIZAÇÃO DO AUTOMÓVEL Thomas Gounet DA GRANDE NOITE À ALTERNATIVA movimento operário europeu em crise Alain Bihr A CÂMARA ESCURA Alienação e estranhamento em Marx Jesus José Ranieri DO CORPORATIVISMO AO NEOLIBERALISMO Estado e trabalhadores no Brasil e na Inglaterra Angela Araújo (org.) NOVA DIVISÃO SEXUAL DO TRABALHO? Um olhar voltado para a empresa e a sociedade Helena Hirata D T R A UNICAMP Biblioteca IFCH</p><p>Copyright desta edição 2002, Boitempo Editorial COLEÇÃO Mundo do Trabalho UNIDADE IFCH N° CHAMADA 331. Preparação de texto N35 2 Flamarion Maués FY Revisão 624734 Alice Kobayashi SUMÁRIO Editoração eletrônica e capa Flávio Valverde Garotti DATA 20/09/05 Fotolitos CPD BIB ID 30765 Village Coordenação de produção Eliane Alves de Oliveira Impressão e acabamento Apresentação 7 Assahi Gráfica e Editora Huw Beynon As práticas do trabalho em mutação 9 ISBN 85-85934-19-0 John McIlroy Todos os direitos reservados. Nenhuma parte inverno do sindicalismo 39 deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sem a expressa autorização da editoral Ricardo Antunes edição: novembro de 1997 Trabalho, reestruturação produtiva e algumas edição: novembro de 1998 repercussões no sindicalismo brasileiro 71 reimpressão da edição: agosto de 2002 José Ricardo Ramalho BOTTEMPO EDITORIAL Precarização do trabalho e impasses da organização Jinkings Editores Associados Ltda. coletiva no Brasil 85 Rua Euclides de Andrade, 27 Perdizes 05030-030 São Paulo SP Tel./Fax: (11) 3875-7250/3872-6869 Iram Jácome Rodrigues e-mail: editora@boitempo.com Sindicalismo, emprego e relações de trabalho site: www.boitempo.com na indústtria automobilística 115</p><p>APRESENTAÇÃO S textos reunidos neste livro têm ori- gens diversas que, entretanto, integram-se por um lado, são re- sultado de uma mesa-redonda organizada junto à Conferência da BRA- SA (Brazilian Studies Association), realizada em setembro de 1996, em Cambridge, na Inglaterra, com título "Reestruturação produtiva, neo- liberalismo e os desafios do sindicalismo no Brasil". Por outro, este volume é resultado do primeiro ano de realização do In- tercâmbio de Cooperação Acadêmica, envolvendo a área Trabalho e Sindi- calismo do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp e o Inter- national Centre for Labour Studies da Universidade de Manchester, em cujo contexto pudemos organizar a mesa acima referida. Este Convênio conta, para sua viabilização, com apoio financeiro da Capes, pelo lado brasileiro, e do British Council, pelo lado inglês, e contempla uma significativa interação aca- dêmica e científica entre professores, pesquisadores e pós-graduandos das respectivas instituições. A estruturação final do livro deu-se durante primeiro período de nossa atividade como Visiting Research Fellow junto à School of European Studies da Universidade de Sussex onde, com apoio da Fapesp, durante março de 1997 a março de 1998, desenvolvemos nosso projeto de pesquisa "Para Onde Vai Mundo do Trabalho?". Pudemos então coletar os artigos que faltavam, bem como fazer a revisão e organização final deste volume. Nossa atual ati- vidade, junto à Universidade de Sussex, dá continuidade ao projeto de pes- 7</p><p>quisa que vínhamos realizando no Brasil, com bolsa-pesquisa do CNPQ, du- rante período de agosto de 1993 a fevereiro de 1997. Integram livro os textos dos professores Huw Beynon (Manchester), John McIlroy (Manchester), Iram J. Rodrigues (USP), José Ricardo Ramalho (UFRJ) e Ricardo Antunes (Unicamp). Seu objetivo não é outro senão oferecer ao leitor brasileiro um quadro Huw Beynon inicial das metamorfoses em curso no mundo do trabalho, decorrentes da reestruturação produtiva do capital que vêm afetando intensamente a classe trabalhadora, tanto no Reino Unido quanto no Brasil, bem como discutir de que maneira estas mutações vêm afetando seus respectivos organismos sin- dicais e desafiando-os a buscar alternativas. Ele pretende ser um primeiro balanço, com conformação plural, dando contornos mais gerais destes paí- AS PRÁTICAS DO TRABALHO EM MUTAÇÃO* ses, de modo a que se possa, em novas publicações, avançar na análise dos elementos mais particularizadores destas duas realidades que estão sendo estudadas nos projetos de intercâmbio acadêmico referidos. Gostaria, por fim, de agradecer ao prof. José Ricardo Ramalho, pelo au- xílio na organização dos textos, à Capes, pelo apoio material fornecido, e à Ivana Jinkings, da Boitempo Editorial, pela publicação deste livro. Ricardo Antunes P assei grande parte dos últimos dez Lewes/Sussex, setembro de 1997 anos conversando com algumas pessoas sobre o seu trabalho. Mais preci- samente, sobre seus empregos e patrões. Chamou-me a atenção, nessas dis- cussões, a capacidade de identificar as expressivas mudanças ocorridas em suas rotinas de trabalho. Repetidamente, ouvi declarações de como "as coisas tinham se alterado completamente nestes últimos dez anos" ou de como "a situação agora é outra, comparada com que era há dez ou quin- ze anos". Chocados, alguns não acreditavam ser possível tal nível de trans- formações. Nisso tudo há, naturalmente, algum exagero; e houve distorção adicional quando, vez por outra, sociólogos e economistas amplificaram esses relatos. Muitas coisas mudaram apenas ligeiramente e deve-se con- siderar que há sempre uma dose de continuidade no interior do processo de mudança. Ao mesmo tempo, parece que, nesse momento, a organiza- ção social das economias ocidentais está passando por um período de gran- de turbulência. Ao refletir sobre esses problemas, comecei a me perguntar, cada vez mais, sobre como eles se manifestaram na minha vida pessoal. Na cidade em que fui criado, no sul do País de Gales, os "empregos" disponíveis eram claramente delineados e conhecidos. Havia "empregos" na siderurgia e nas Tradução de Antonio Negro, com a colaboração de Cristina Meneguello e Michael Hall. Revisão de José Ricardo Ramalho. 8 9</p><p>minas de carvão. Os garotos que saíam da escola aos 15 ou 16 anos se di- I Desindustrialização: da manufatura aos serviços rigiam para um desses dois lugares e se tornavam mineiros ou meta- Em 1979, pouco mais de 7 milhões de pessoas tinham emprego na in- lúrgicos. Os mais qualificados tornavam-se aprendizes e eram preparados dústria manufatureira do Reino Unido. Em 1995, esse total foi reduzido para para atividades como as de operários da manutenção especializada nessas 3,75 milhões (ver tabela 1). Amplia-se a escala do declínio do mercado de indústrias. Todos eles enxergavam nos seus empregos uma poderosa iden- trabalho se acrescentarmos a experiência da indústria mineradora, na qual tidade ocupacional e um "emprego para toda a vida". Naquela época, fins mais de 220 mil postos de trabalho foram eliminados desde 1979. Tal dos anos 50, a indústria siderúrgica na cidade respondia por 13 mil traba- tem sido associado a padrões gerais de mudança relacionados à e a mineração por 3 mil. Nacionalmente, essas indústrias davam implementação de novas tecnologias e ao surgimento de unidades com bai- emprego a 1,25 milhão de trabalhadores. Comparativamente, havia poucos XO custo de produção nos NICs (Newly Industrialising Countries países empregos manuais para as mulheres. As garotas que deixavam as escolas de industrialização recente) do pacífico. Uma crônica da indústria têxtil e aos 15 anos encontravam serviço como operadoras de máquinas em uma de vestuário conta uma história familiar: das fábricas de vestuários da cidade. Serviços alternativos eram encontra- Numa sexta-feira, os trabalhadores da unidade Rainhill Merseyside da dos nas lojas e, para aquelas mais escolarizadas, na prefeitura local. Havia Coates Viyella apanharam seus avisos do chão de um barração situado fora uma expectativa de que as mulheres jovens se casariam e não retornariam mais ao trabalho. da fábrica. Seus envelopes tinham sido deixados em pequenas pilhas por uma gerência ansiosa por cerrar as portas às 13 horas em ponto. Para Pat Nesse período, os que eram promovidos nos exames escolares e ingres- Donoghue e Lisa Kelly, foi uma grande humilhação. As pessoas tiveram de savam na universidade ansiavam por um posto de gerência ou por uma engatinhar no chão para pegar seus avisos. Eles não tiveram a decência de profissão liberal. O mundo deles refletia dos trabalhadores manuais em entregá-los a nós, disse um dos trabalhadores. dois aspectos principais: era encarado como um compromisso de longo A unidade produz camisas para Marks e Spencer, mas não há trabalho prazo, em geral no setor público, e era fortemente marcado pelas relações desde 10 de abril, quando plantel de funcionários ouviu do diretor exe- de gênero. Para os homens, esses eram empregos para toda uma vida, com cutivo que a fábrica estava para fechar. Todas as atividades seriam uma forte identidade ocupacional e a segurança da aposentadoria. Nas pro- transferidas para as unidades Coates Viyella das Ilhas Maurício e Indonésia, fissões liberais, como também no trabalho manual, as mulheres eram pre- onde os trabalhadores locais iriam produzir as mesmas camisas por menos ferencialmente segregadas em atividades particulares (como magistério) da metade dos salários pagos em Rainhill (The Times, 6 de maio de 1996). e vivenciavam casamento e a educação dos filhos como obstáculos prin- cipais para desenvolvimento da carreira. Tabela 1 Embora a cidade em que cresci seja diferente em alguns aspectos de outras tantas (nos têxteis, por exemplo, as mulheres tinham em- Mudanças nos padrões de emprego no Reino Unido prego nas fábricas por toda a vida), ela ajuda a ressaltar certas caracterís- (em milhões) ticas de um conjunto de arranjos sociais variadamente identificados como Manufatura Serviços Total* Estado de bem-estar social, fordismo e industrialismo "fumacento" ('smoke industrialism). [Esses termos foram desenvolvidos em resposta às 1979 7,013 13,68 22,97 mudanças encaradas como responsáveis pelo surgimento de seu oposto no 1985 5,307 13,86 21,073 thatcherismo ou antiestatismo, pós-fordismo ou pós-industrialismo (ver, por 1995 3,789 15,912 21,103 exemplo, Piore & Sabel, 1984; Massey & Allen, E refletem as enor- Fonte: Employment Gazette, vários anos. mes mudanças ocorridas na composição e organização do trabalho e do (*) Inclui "outras atividades". mercado de trabalho por todo Reino Unido, que podem ser percebidas de forma mais dramática nas transformações das indústrias carbonífera e Desse modo, emprego nas indústrias têxtil e do couro, que atingia a siderúrgica. Antes centro de uma economia estatal "fumacenta", essas indús- casa dos 723 mil em 1979, diminuiu para 366,2 mil em 1995. O processo trias foram privatizadas e atualmente apresentam um total de 40 mil postos de fechamento de fábricas e realocação de mão-de-obra afetou também os de trabalho, uma redução a míseros 3% da sua força no pós-guerra. Hoje, ramos industriais manufatureiros de diferentes maneiras. Em setores em minha cidade, as minas de carvão estão fechadas e menos de mil pes- díspares como vestuário, automotivo e químico, a perda de postos de tra- soas encontram ocupação nas siderúrgicas. balho esteve associada à realocação geográfica de unidades produtivas. Isso 10 11</p><p>foi dramaticamente sentido no caso das operações de megacorporações presa de carros, não de limpeza". Muitas fábricas fizeram mesmo, redu- fabris como a ICI, que no início dos anos 80 modificou equilíbrio da sua zindo a força de trabalho ao seu núcleo produtivo, contratando auxílio produção, deixando de ser dominada por fábricas britânicas para operar in- adicional quando necessário e subcontratando muitas operações acessórias ternacionalmente de forma diversificada. emprego de mão-de-obra so- (ver Wood, 1989). freu alterações semelhantes, provocando perda de postos em suas unida- Como resultado de todas essas transformações, é cada vez mais raro des britânicas mais importantes, como as de Teesside e Merseyside (ver encontrar um operário fabril ou um gerente. As pessoas com quem dividi- Beynon, Hudson & Sadler, 1994). Paradoxalmente, o Reino Unido tem ofe- mos os assentos nos trens (muitas delas munidas de telefones celulares) recido ótimas condições para a instalação de unidades fabris de corpo- trabalham em bancos, em companhias de seguro ou no comércio varejis- rações norte-americanas e assim como as oriundas do Japão, Coréia ta. Pertencem mais ao mundo dos escritórios, hotéis e lojas do que ao das do Sul e Taiwan. Essas companhias formaram a base da indústria eletrônica fábricas ou minas de carvão. entretanto, passado está e de computadores do Reino Unido. A ênfase no "investimento interno" apenas um palmo abaixo da superfície. Muitos motoristas de táxi com como base para políticas de emprego na maioria das cidades e regiões do quem conversei afirmaram ter tido experiência anterior em fábricas. país é um fenômeno interessante em si mesmo. No entanto, êxito des- mesmo disseram os que recolhem carrinhos de compras nos estacionamen- sas operações está longe de repor os postos de trabalho perdidos no se- tos dos supermercados Tesco e Sainsbury. Na maioria das vezes, as pessoas tor industrial, e que continuam a ser transferidos para O exterior. mostram-se resignadas diante do modo como seu mundo mudou. Só As unidades fabris que vieram e as que permanecem abertas têm sido ocasionalmente você encontra alguém mais contrariado, especialmente gerenciadas com propósito de reduzir drasticamente seu quadro de em- testemunho próprio nas cidades do aço. Certa vez, quando estava ao sul pregados. Nos Estados Unidos esse processo foi chamado de enxugamento do País de Gales, me falaram, causticamente: (downsizing) ou, ocasionalmente, ajuste da máquina (righsizing). Isso foi É culpa de vocês, garotos de universidade, que fizeram tudo isso acontecer. visto como uma solução para a intensidade da competição internacional ao Todas essas suas idéias novas se confundindo com coisas que vocês não en- remover a esclerose das indústrias dominadas por práticas de "emprego tendem. Vocês nos venderam aos malditos japoneses. Poderíamos produzir aço para toda a vida" e por suporte estatal (mantido por meio de subsídios e tão bem quanto eles. Não há dúvidas quanto a isso, dúvida alguma. E onde contratos garantidos). A introdução de máquinas (robôs e computadores) estamos agora? Sobre um monte de sucata! tem substituído profissões em um tal ritmo que levou alguns observadores a prever fim do trabalho (ver Rifkin, 1996). Nessas cidades, homens (sem qualificação formal e treinamento) construíram suas vidas em torno das fornalhas e do aço quente ambulan- Em ambos os lados do Atlântico essas mudanças se vinculam a um con- te. Foram eles que me falaram sobre seus "corações partidos" como resul- siderável trauma aos trabalhadores. Mais comumente, elas têm sido alcan- tado de "enxugamentos". çadas por meio da introdução de diversas formas de cortes de pessoal com- binadas com procedimentos e técnicas cujo objetivo é aumento da pro- Com declínio do mercado de trabalho no setor industrial, novas dutividade por parte dos remanescentes. Os níveis de emprego também fo- oportunidades de emprego surgiram em outros ramos da economia. Nos ram reduzidos recorrendo-se a técnicas de "terceirização", que recomendam anos 80, mais dinâmico deles foi de serviços, destacando-se na pai- subcontratar atividades específicas de outras empresas mais especializadas. sagem das high streets nas quais eram erguidos escritórios de companhias Essa "terceirização" toma a forma de um subcontrato que de seguro e bancos para financiamento de construção. crescimento tem lugar dentro da Já é que funcionários de uma desses serviços financeiros, associados ao empréstimo e investimento de unidade produtiva específica (uma fábrica de carros ou uma usina siderúr- dinheiro, constituiu um fenômeno digno de nota. Alcançou tal magnitu- gica) sejam empregados por um número variado de companhias. Na indús- de que, em 1995, mais da metade das regiões da (incluin- tria automobilística, por exemplo, era comum que os operários da linha de do a renomada economia industrial escocesa) auferiam melhores resulta- montagem, uma vez atingida uma certa idade, mudassem para atividades dos no setor financeiro do que no industrial (HMSO, 1996). A isto pode- mais leves, entre elas trabalho de "faxineiro", que implicava responsabi- se ainda adicionar as mudanças revolucionárias que acometeram turis- lidades quanto à limpeza da fábrica. Quando visitei a fábrica da Nissan no mo e O comércio varejista. Em 1995, 1,25 milhão de pessoas estavam em- nordeste da Inglaterra, notei que a limpeza estava a cargo de pessoas ves- pregadas em hotéis e indústrias de entretenimento, mais do que total tindo macações de cores diferentes, ou seja, homens a serviço de uma outra da força de trabalho de quase todas as indústrias ligadas à manufatura companhia. Quando indaguei sobre isso, fui informado: "Somos uma em- tradicional. O comércio varejista é outro ramo em destaque. Nele, a dis- 12 13</p><p>seminação das lojas de departamento, situadas fora dos centros das cida- As continuidades claramente existem nas vidas que as pessoas levam des, contribuiu decisivamente para redefinir os hábitos de compra e lazer sob essa nova economia voltada para os serviços. No entanto, reconhecê- de grande parte da população. las não significa obscurecer-lhes as diferenças (entre uma linha de monta- Essas mudanças são consideráveis e se combinam de tal modo a ponto gem e uma sala de jantar) assim como as extraordinárias e fundamentais de causar uma transformação significativa no padrão do trabalho e do mer- mudanças em curso tanto nas percepções das pessoas quanto no modo cado de trabalho. Além disso, elas afetam extensa e profundamente as sen- como as organizações econômicas se estruturam. É muito mais clara a ma- sibilidades de nossa sociedade, tornando-se objeto de análises dos cientistas neira pela qual as organizações do setor de serviços são pautadas por uma sociais. Fica claro com a tabela 2 que O refluxo da manufatura se faz acom- concepção particular de consumidor e que muitos empregos no setor de panhar da afluência do emprego de mão-de-obra feminina. Muitas das in- serviços supõem trabalhadores em relações (sociais) diretas com públi- dústrias de serviço em expansão (notadamente as mencionadas acima) em- CO (du Gay, 1995). Como consumidor" tem assumido uma pregam mais mulheres do que homens, e isso intensifica o sentido da trans- posição de proeminência para se entender trabalho, e isso repercute na formação e da mudança. Entretanto, muitos desses serviços e empregos indústria. Na Nissan, aos operários da linha de montagem é requisitado têm características que não deixam de ser familiares àquelas da manufatura. "produzir um carro para ser comprado por seu companheiro. de trabalho". Em grandes hotéis, arrumadeiras são responsáveis por preparar a mesa para Além disso, essas alterações produziram novos tipos de ocupações e ativi- café da manhã, almoço e jantar. Elas fazem segundo uma rotina dada: dades que tiveram impacto significativo na estrutura social e no modo uma posiciona a colher de sopa, a outra a colher e garfo de sobremesa como as pessoas se pensam no seu interior. A sociedade agora é muito mais "visual" (ver Jenks, 1996). Somos rodeados por formas cada vez mais e assim por diante. Nas lanchonetes da rede McDonald's nos é informado complexas de comunicação visual na televisão e nas ruas. Mais e mais es- que tudantes faculdades e universidades, uma vez que grau de Um "quarteirão com queijo" fica pronto em exatos 107 segundos. Nossas fri- escolaridade, os estágios e as habilidades de comunicação se tornam atri- tas, quando servidas, nunca superam a barreira dos sete minutos. Em qualquer butos cruciais do mercado de trabalho. Tudo isso reforça ponto de vis- lanchonete objetivo é atender qualquer pedido em um espaço de tempo nunca maior do que 60 segundos. Na hora do almoço, loja lotada, servimos ta dos que vêem a sociedade em sua transformação cultural, da existên- duas mil refeições por hora (ver Beynon, 1992). cia de uma sociedade pós-industrial, que seria ao mesmo tempo democrá- tica e liberadora, tanto dentro como fora do trabalho. Na visão de Ritzer sobre esses acontecimentos, fala-se de uma nova Os novos trabalhadores do setor de serviços compõem um misto bem sociedade, "mcdonaldizada": emaranhado, todavia. Incluem os muito ricos (como Elton John) e os muito mcdonaldismo compartilha muitas características com fordismo: produtos pobres (como os milhares de faxineiros de escritórios). Nos Estados Uni- notavelmente homogêneos, tecnologias rígidas, rotinas de trabalho padroniza- dos, Reich calculou que apenas 20% dos empregos na nova economia são das, desqualificação, homogeneização do trabalhador (e do consumidor), do tipo intrinsecamente satisfatórios e economicamente recompensadores. operário massa e a homogeneização do consumo... nestes e noutros dias, Ele se refere aos dos analistas simbólicos (jornalistas, designers, arquitetos, fordismo está vivo e passa bem no mundo moderno (Ritzer, 1993). professores universitários seniores), cujas atividades se baseiam no uso de criatividade na comunicação de idéias complexas para uma audiência mais Tabela 2 ampla (clientes, consumidores, grupos de usuários). Tais analistas represen- Mudanças nos padrões de emprego por gênero (em milhões) tam a "quinta parte privilegiada" (Reich, 1991) e se encaixam entre os 30% identificados por Will Hutton na sociedade dos 30-30-40 (Hutton, 1995). Contrastam com outros 25% que regularmente desempenham tarefas coti- Manufatura Serviços dianas e com os 30% responsáveis pela expedição diária de uma varieda- Masculino Feminino Masculino Feminino Total de de serviços rotineiros. Naturalmente, as visões desse novo mundo va- riam de acordo com a posição em seu interior. Ironicamente, claro, parte 1979 4,964 2,05 6,674 7,006 20,692 da função dos analistas simbólicos é a de representar O papel de 1985 3,738 1,57 6,373 7,488 19,166 "marketeiros" ou a de especialistas em relações públicas. Vivemos um 1995 2,659 1,131 6,861 9,052 19,702 tanto quanto esquisitamente no mundo interpretado por eles. O fato de Fonte: Employment Gazette, vários anos. ser, outrossim, um mundo desigual fica mais claro na tabela 3. 14 15</p><p>Tabela 3 Quando as decisões chegam, a maior parte do pessoal no meu departamento fica Mudanças nos vencimentos semanais 1979-1995* quieta... às experiências dos trabalhadores, ninguém jamais dá ouvidos... então, não falamos muita coisa agora (Jones, 1993). (em preços, libras esterlinas, de 1995) Apesar de comentários como estes, as companhias "enxutas" e suas gerên- Tempo integral Tempo parcial cias mais e mais ênfase sobre a necessidade de envolver seu quadro de de desenvolver "trabalho de equipe" e de incrementar a educa- Manual Não-manual Manual Não-manual e as oportunidades de treinamento disponíveis para os empregados, consi- Masculino Feminino Masculino Feminino Feminino Feminino lerados como um dos recursos mais valiosos de qualquer corporação. Nas li- 1979 278 165,01 337,7 197,29 75,3 89,6 vrarias, as prateleiras das seções de administração de empresas estão abarrota- 1995 291,3 188,1 443,3 288,1 76,6 114,2 das de livros sobre qualidade total, assunto comum nas cadeiras oferecidas pe- Ganho real 4,8% 14% 31,2% 46% 1,7% 27,3% las faculdades hoje em dia. Este é "zunzunzum" da década. Na indústria edito- rial britânica, casas como Harper-Collins introduziram seu próprio programa Fonte: New Earnings Survey. "Visions and Values" visando a construção de um espírito de equipe e aos vá- (*) Exclui pagamento de horas extras. rios itens requisitados pela gerência dos recursos humanos. Os funcionários são induzidos a medir seu próprio desempenho por meio do OFPR (Objetivos, Fun- Desde 1979, salário real dos trabalhadores manuais foi inferior ao dos ções, Processos e Relações Interpessoais). Contudo, muitos não se convence- empregados não-manuais. As trabalhadoras manuais de tempo parcial foram ram de sua aplicabilidade em um contexto de trabalho em que não prospera a as que mais sofreram, percebendo um aumento real de Entre os não-ma- criatividade ou a imaginação. Um desses empregados relatou que "parecia não nuais, contudo, e especialmente entre os profissionais seniores ou em meio de haver nenhuma aplicabilidade prática para Me deixava muito irritado e me carreira, salários tiveram um crescimento expressivo, ocasionando alterações deixava da vida" (The Observer, 21 de abril de 1996). no padrão de demarcação entre homens e mulheres. Neste contexto, salá- Há muita e tensão nesses desdobramentos. No contexto de rio das mulheres cresceu numa taxa mais alta que a dos homens. Conforme uma economia competitiva, que deslocou produtor de seu centro, as empre- relatório de Susan Harkness para Institute of Fiscal Studies: sas têm de lidar com imperativo de vender e satisfazer seus consumidores. Mulheres que trabalham em tempo parcial não se saíram tão bem como as de tem- mercado assumiu proeminência, que relega as atividades dos escritórios po integral... hiato entre pagamento mais alto e mais baixo cresceu tanto en- e do chão de fábrica um status subordinado. Aqui, Anthony apontou arguta- tre homens como entre mulheres, que faz reais vencedoras as mulheres muito mente, as gerências clamam pelo direito não só de regular como também de bem pagas, que viram seus salários quase dobrar desde 1973. Aquelas cujos resulta- "regular o significado dos acontecimentos". São elas que formam elo entre dos foram piores mas que, não obstante, estreitaram hiato com os homens produtor e consumidor, mas são inadequadas para a ta- são trabalhadoras com baixa qualificação e de tempo parcial (Harkness, 1996). refa, Em suas pesquisas, Anthony (1994) detectou uma "esquizofrenia" entre O efeito abrangente dessas mudanças no mundo do trabalho não está cla- as gerências britânicas: por um lado, ênfase no "trabalho de equipe" e ro. Elas servem para direcionar nossa atenção para a natureza das gerências na coletividade, ao mesmo tempo em que se vêem atoladas pela investida de comercial e industrial e seu papel organizador da atividade econômica sob es- um novo "enxugamento" quando soa a hora do mercado. Simpatizante da sas novas condições (ver, por exemplo, Scase & Goffee, 1989; Streeck, 1987; causa, em suas investigações sobre "trabalho de equipe", Willmot distinguiu Webb, 1992). As novas teorias do "pós-fordismo" e da "flexibilidade" um nível considerável de "confusão e vazio" entre os trabalhadores com quem enfatizaram a importância do trabalho e a necessidade gerencial que implica conversou (Wilmott, 1993). um envolvimento de pessoal nas tomadas de decisão, já que as empresas en- Isto levanta, é claro, questões muito interessantes sobre a mudança de frentam um mundo cada vez mais complexo e imprevisível. Os insucessos do posição das mulheres no interior da estrutura hierárquica da nova economia. gerenciamento britânico nesse aspecto foram trazidos à tona por Nichols (1987) Cary Cooper e Marilyn Davidson, que escreveram Shattering the Glass Ceiling, de modo persuasivo; suas conclusões foram reforçadas por dois estudos de vêem os anos 90 como um ponto de inflexão de primeira grandeza. Na visão casos recentes. Em uma fábrica no norte do País de Gales, "os trabalhadores de Davidson: argumentam que a gerência não sabe como tocar trabalho mas insiste em A literatura da administração de empresas nos anos 70 e 80 era toda ela acer- dizer-lhes que sabem". Aqui, uma reação comum foi expressa desse modo: ca de como adaptar, enfrentar e enquadrar-se dentro da cultura masculina... De- 16 17</p><p>pois da empresa enxuta, ao querer lançar mão do que ficou, é aí que as barrei- Conversei com um sujeito que tinha trabalhado em uma grande com- ras de raça e sexo não fazem mais nenhum sentido econômico (The Guardian, panhia de arquitetura. A empresa lhe havia cedido um carro e, pelo seu 10 de junho de 1996). relato, seu ambiente de trabalho era livre de estresse e fácil de levar. A Parece que muitos dos gerentes do futuro (os coordenadores de tempo, empresa tinha crescido com base em contratos fechados com setor pú- os trabalhadores flexíveis, trabalhadores de equipe) serão mulheres, e na blico, projetando planos de habitação, piscinas municipais, centros de lazer reputada opinião de Cooper: "Quanto mais rápido tivermos as mulheres lá em e afins. Em 1989, a companhia, como tantas outras no país, sofreu uma cima e desfizermo-nos dos homens, melhor". importante crise financeira e ele foi demitido. Era uma grande empresa e, olhando para trás, era muito mal organizada. Eles II A ascensão do "trabalhador hifenizado" realmente não precisavam ser eficientes com tipo de contrato que negocia- Se tentarmos relacionar essas alterações com as mudanças nas relações de vam; cobrávamos 120 libras por hora naqueles grandes contratos com autori- trabalho e emprego, um sem-número de processos complexos ficará eviden- dades locais e secretarias de governo. Tudo era grande, inclusive um grande te. Está claro que a antiquada força de trabalho característica dos anos 50 foi computador central que contribuía em quase nada. Hoje, a indústria é comple- severamente atingida. A dos 90 é composta de diferentes tipos de emprega- tamente outra. De fato, chega a ser irreconhecível se comparada com que dos: trabalhadores em tempo parcial (part-time-workers), temporários era dez anos atrás. (temporary-workers), em emprego casual (casual-workers) ou mesmo por con- John vivenciou a demissão e a transformação do mercado de trabalho ta própria (self-employed-worker). Ao adentrarmos no século XXI, esses traba- traumaticamente. Todavia, com apoio de um Apple Mac ele se habituou ao bifenizados estarão se tornando parte cada vez mais significativa da economia. Computer Aided Design (CAD). Em um espaço de três anos, instalou-se na sua garagem com dois monitores coloridos trabalhando com Microstation A tabela 4 documenta alguns dos padrões básicos de mudança no interior com os quais negociava, nas imediações, contratos grandes e pequenos. Ele da força de trabalho ocorrida desde 1979. Ilustra a maneira pela qual número descreveu a satisfação que sente ao operar com seu de empregados declinou tanto de modo absoluto quanto como uma porcen- tagem da força de trabalho economicamente ativa. Em 1979, os empregados É incrível pensar que não muito tempo atrás eu tinha de desenhar tudo isso constituíam 88% da força de trabalho. Em 1996, essa cifra para A di- em uma prancha; é realmente sensacional que posso fazer com um Apple ferença é explicada pelo crescente número de desempregados e pelo rápido Mac; como posso alterar em dez minutos coisas que antes me tomariam todo crescimento dos registrados por conta própria. Os totais dessas duas catego- o dia! rias quase duplicaram, e nas suas singularidades têm sido constantemente uti- Uma clara "história de sucesso", portanto, mas que fica mais complica- lizados como índice do progressivo dinamismo da economia e de sua relação da se a levamos adiante e John descreve com mais detalhe como ele se in- cambiante com a sociedade. Desemprego e trabalho por conta própria são sere nessa nova indústria: vistos como dois lados de uma mesma moeda, tendo deslo- cado pessoal de indústrias ineficientes e declinantes (sempre vistas como Como eu disse, é irreconhecível diante do que costumava ser. Todas as grandes corporativamente distinguidas por subsídios estatais) que passa por perío- empresas se viram livres de seus funcionários em 1989; elas retiveram apenas dos temporários de desemprego e requalificação para contextos novos, nos os empregados centrais, que são agora usados para estabelecer novos projetos. quais se arrisca mais e também se exige mais do trabalhador. Todo resto faz um registro em uma agência; é onde arranjo a maior parte do meu trabalho. Registramo-nos na agência e então recrutados assim que as empresas precisam de arquitetos, na base de um contrato temporário. Tabela 4 Alterações na força de trabalho: 1979-1995 (em milhões) Trabalhando para si mesmo, John não emprega ninguém e obtém gros- de sua renda de grandes companhias de arquitetura. No entanto, constan- Empregados Por conta própria Estagiários Desempregados Total temente, trabalha nos escritórios deles com (suas novas qualificações) e viaja 1979 22,432 1,778 - 1,428 25,638 muito mais longe em busca de trabalho do que antes. Ele tem sido bastan- 1985 20,746 2,713 0,39 2,99 26,84 te arrojado, mas não é um empreendedor clássico. 1995 21,675 3,269 0,273 2,376 27,726 Essa história é muito comum. De um modo ou de outro se aplica à Fonte: Labour Force Survey, vários anos. maioria das pessoas que figura na categoria "por conta própria", que 18 19</p><p>lança dúvidas sobre a utilidade dessa categoria como evidência de uma Tabela 5 mudança radical no sentido de uma iniciativa empreendedora por parte dos desempregados. Um exame mais cuidadoso sobre os dados referentes Mudanças nos contratos de trabalho (em milhões) ao trabalho "por conta própria" revela que está concentrado em relativa- Homens Mulheres mente poucos setores industriais. O transporte, as comunicações e gru- po das indústrias associadas a bancos e serviços financeiros respondem Tempo integral Tempo parcial Tempo integral Tempo parcial Total por 13% da força de trabalho; hotéis e vestuário, 14%; e a construção ci- 1979 13,032 0,605 5,56 3,781 22,978 vil, Em seu detalhado estudo sobre fenômeno, Harvey (1995) ar- 1985 10,922 0,808 5,408 3,937 21,171 gumentou que esse último caso é revelador e muito mais representativo 1995 9,536 1,106 5,65 4,812 21,101 que da arquitetura. Na construção civil, trabalho "por conta própria" está cada vez mais vinculado aos trabalhadores manuais da produção e Fonte: Employment Gazette, vários anos. não a profissionais liberais ou empregados de colarinho branco. Em 1992, 58% dos trabalhadores da construção civil eram "por conta própria". De Os tipos de alterações indicados aqui podem ser encarados como uma acordo com Harvey, abertura de grandes oportunidades aos empregadores. Alguns autores enfatizaram as vantagens também para os trabalhadores, frisando as manei- É legítimo falar de trabalho por conta própria em massa... além do mais, sua ras pelas quais mercados de trabalho desregulamentados facilitam a inser- expansão não se deu à custa dos grandes contratadores.. agora encar- ção e a troca de determinados empregos, carreiras e mercados. A prática regam-se dos contratos de primeira linha usando, predominantemente, traba- de possuir mais de uma ocupação se estendeu para além dos diretores de lhadores por conta própria. Esses são, na verdade, núcleo central da força empresa e membros do Parlamento. Seus defensores desenvolveram a idéia de trabalho (Harvey, 1995: 3). de um portfolio de serviços, ainda que para a maioria das pessoas isso não Esse é o pessoal que trabalha como pedreiro, serralheiro ou servente seja tão lucrativo quanto para aqueles que possuem capitais e ações. No nos amplos canteiros de obra de empresas como Costain e Tarmac. São por entanto, Hakim et alii apontaram para os benefícios trazidos às mulheres, elas pagos e para todos os fins e propósitos são empregados, mas as mes- na sua reintegração ao mercado de trabalho, pelas atividades "por conta mas não reconhecem essa relação. Como John, eles trabalham "por conta própria" ou pelos contratos de trabalho não-padronizados. Tais autores própria" e estão registrados em agências. defendem uma maior flexibilidade para acordos contratuais que permitem Os dados da tabela 5 deixam claro que, acompanhando trabalho "por um conjunto de possíveis opções de vida e trabalho. Patricia Hewitt (1993) conta própria", trabalho em tempo parcial aparece como principal fon- foi hábil em mostrar inflexibilidades desnecessárias em contratos de traba- te do crescimento dos empregos nos anos 80 e 90. Em 1995, havia menos lho e as vantagens potenciais que poderiam fluir com modificações do 3,75 milhões de empregos em tempo integral do que há 15 A nosso uso e compreensão do tempo. De fato, muitas mulheres desenvol- mica no mercado de trabalho tem estado do lado do emprego em tempo veram suas carreiras por meio de um complexo processo de malabarismos. parcial, normalmente para as mulheres. Este "filtro de gênero" está sendo Uma garçonete de um hotel em Yorkshire explica como: ligeiramente modificado à medida que proporções crescentes de homens Craig, meu filho mais velho, tinha 5 anos quando comecei a trabalhar aqui. E somente encontram serviço nessa base. Na indústria hoteleira, por exem- era somente à noite então. Comecei esporadicamente à noite quando as crian- plo, a mão-de-obra empregada em tempo parcial respondia por 26% dos ças eram muito pequenas e meu marido tomava conta delas. Eu só fazia ban- serviços em 1971 (sendo 21% das mulheres e 5% dos homens). Em 1991, quetes... Daí, pouco a pouco, comecei a pegar cafés da manhã aos fins de semana e um almoço aqui e outro ali. Aí, peguei cafés da manhã nos dias as proporções já haviam quase duplicado: 33% eram das mulheres e 11%, úteis. Caiu muito bem, já que meu marido estava trabalhando por perto e dos homens, constituindo quase a metade dos empregos disponíveis. Essa podia acompanhar as crianças pela manhã para mim. Então, as crianças cres- prática tem sido encorajada por iniciativas governamentais que enfatizam ceram e chegaram a uma idade em que podiam ser deixadas em casa sozinhas a atração desse tipo de emprego, vendo-o como indicativo de um merca- (Charles, 1994: 146; ver também Crompton & Sanderson, 1990). do de trabalho progressivamente flexível. A esses trabalhadores em tempo parcial e "por conta própria", pode ser somado número de empregados Esses argumentos fazem eco com a discussão da trans- que (embora não "por conta própria") trabalha mediante sucessivos con- formação industrial, empresas inovadoras, e com outras mudanças radicais tratos temporários. no local de trabalho. Aqui também, entretanto, os dados são ao mesmo tempo irregulares e contraditórios. Surveys de atitudes indicaram que apraz 20 21</p><p>às mulheres combinar serviço pago com as demandas familiares e de cui- Um outro gerente reflete sobre a natureza do "tempo integral": dados com filhos de casa, encontrar pessoas, etc.). Demonstram, ain- Temos dois tipos diferentes de full-timers. Alguns constam da lista dos "incluí- da, a importância da necessidade de dinheiro (garantindo independência dos", que quer dizer que têm uma jornada semanal de 39 horas. Se perfa- e uma renda doméstica indispensável). Mas para as mulheres (de resto, zem menos que isso, ainda recebem pelas 39, mas ficam nos devendo a dife- para os homens), a experiência de um trabalho pago pode ser fonte tan- rença em horas. Os outros figuram na lista dos "máximo 39" e só recebem pelo to de tensão quanto de satisfação. Além disso, a ênfase sobre caráter de tempo trabalhado, e isso pode variar entre 16 e 39 horas (Charles, 1994: 107). escolha normalmente obscurece O fato de que, em muitas circunstâncias, Esse padrão foi nacionalmente observado já que pesquisadores do De- as relações de mercado e poder favorecem os empregadores. Além disso, partamento de Emprego estimaram que aproximadamente metade do pes- essas mudanças todas prendem as mulheres a um emprego mal-remunera- soal empregado com contratos em "tempo integral" estavam, na verdade, do no lugar de liberá-las. Ted Johns, consultor do Minitruth Management, envolvidos em acordos de trabalho menos estáveis do que sugerido pelo abraça esse ponto de vista alegando que: termo. Isso indica ritmo com que contratos casuais e "não-padronizados" Apenas 57% da força de trabalho são permanentes e de tempo integral. Os ou- se tornaram um aspecto generalizado da vida operária, seja para os ho- tros 43% trabalham em tempo parcial ou em contratos por tempo determina- mens, seja para as mulheres. do, ou têm uma carreira do tipo portfolio. Esse tipo de contrato de trabalho dá Eis aí os trabalbadores em uma economia hifenizada. A ve- às organizações muito mais poder sobre empregado. Aumenta a pressão lha economia industrial britânica era altamente regulada, empregava muitos pelo conformismo junto àqueles que querem ficar no serviço (The Observer, 21 trabalhadores fortemente sindicalizados em regimes de contratos de tempo de abril de 1996). integral. Como vimos, a maior parte era de homens e eles eram pagos com Certamente, essa perspectiva seria apoiada por propagandas colocadas um salário reconhecidamente de tamanho "família", uma forma de pagamen- em lugares como Consett: to que sustentava a idéia de homem ser provedor do pão e do leite das Estamos procurando pessoas preparadas para trabalhar em regime casual, com crianças. Esse "salário-família", tal como a produção do aço e do carvão, é horas extremamente flexíveis. Podemos fornecer de três até dez horas de de- coisa do passado. Em geral, padrão de vida para famílias do Reino Unido manda quando há trabalho. Candidatos devem ter dedos ágeis, saber lidar com é sustentado por mais de uma fonte de renda. Os salários das mulheres (ou- serviço e estarem prontos para trabalhar com uma antecedência de 24 horas. trora difamados como "mixaria") tornaram-se uma parte essencial do orça- mento doméstico. Estranhamente, em um tempo no qual trabalho está Além disso, "contratos de trabalho não-padronizado" podem ser impos- ficando escasso", mais e mais pessoas estão perfazendo jornadas mais e mais tos em vez de livremente negociados. Esse tem sido caso do setor vare- longas. Em minhas viagens pelo Reino Unido, falei com muitas pessoas que jista, no qual muitos empregados viram seus contratos de tempo integral se- fizeram que Shor (1992) nomeou de "o contrato faustiano": trocar tempo rem revogados em favor dos parciais. Uma recente pesquisa MORI de opi- por dinheiro e passar muito tempo ganhando mas sem viver a vida plena- nião com gerentes de pessoal seniores concluiu que: mente. Na Grä-Bretanha, a jornada é a maior da Europa 20% de nós tra- Mais da metade dos gerentes acreditava que desejo de cortar despesas ge- balham aos domingos e 15% são rotineiramente pagos por jornadas acima de rais, evitando-se condições e termos legais devidos a trabalhadores de tempo 46 horas semanais. Baixos salários concorrem para isso, é certo, e antes de integral, podia levar as direções à introdução de padrões de trabalho flexível se aceitar benefício global dessas mutações vale a pena prestar atenção às (Financial Times, 31 de novembro de 1993). palavras de alerta proferidas pelo diretor geral do Institute of Personnel A situação se torna mais complexa em indústrias como a hoteleira, em Management. Na sua visão, a "flexibilidade" havia sido conduzida ao abuso que uso da divisão dos turnos e da oferta de emprego casual alcança tal por vários empregadores, com trabalhadores sendo dispensados e admitidos monta que a diferença entre tempos "integral", "parcial" e ocupação "ca- em termos determinados mais pela legislação do emprego do que pelas ne- sual" tornou-se assaz indistinta. Um gerente explica as dificuldades de se cessidades individuais ou pelos ditames do processo produtivo. Tais políti- definir "casual": cas estavam levando à "criação de uma rústica massa industrial (industrial peasantry) com trabalho permanentemente casual, com pouca proteção e Temos muito poucos funcionários do tipo casual a quem você chama pelo te- sem participação alguma no futuro". lefone e diz: "Você pode trabalhar De certa maneira, eles estão mais para casuais permanentes, mas isso se deve ao número de horas trabalhadas por Nessa perspectiva, essa situação "não pode ser do interesse das orga- semana; é por isso que, numa comparação ao tempo parcial, eles são casuais. nizações ou da sociedade" (Financial Times, 31 de novembro de 1993). 22 23</p><p>Essa opinião é reforçada por uma pesquisa acerca do trabalho em domi- dessas empresas viram seus dias de trabalho crescentemente submetidos à cílio que indica que a experiência dos trabalhadores desqualificados e monitoração e regulamentação. Conversas com mecânicos ajustadores e en- menos privilegiados apresenta mais a marca da exploração do que da re- genheiros da British Gas revelam respostas comuns: compensa (Mitter & Rowbotham, 1994; Phizacklea, 1990). É mudança atrás de mudança. Mas eu não diria que essas mudanças foram rea- Tomados em conjunto, esses resultados da pesquisa levantam impor- lizadas tendo em mente nosso benefício. Por exemplo, acabaram de insta- tantes questões sobre direito ao trabalho e, adicionalmente, sobre efi- lar essa nova máquina que, se a conectarmos ao tubo da caldeira, mede a ciência. Esses novos arranjos (ou, mais corretamente, retorno a velhos emissão e nos permite saber se é necessário desmontá-la. Antes, em serviço, arranjos do século passado) podem muito bem conflitar com a demanda nós desmontaríamos cada caldeira. Agora, isso não é mais necessário. Mas não feita aos funcionários para serem mais devotados ao trabalho e à compa- é uma coisa feita para facilitar nosso trabalho. Agora temos de fazer mais coi- nhia que os emprega. Fukuyama (1995) fez ressuscitar a idéia da "con- sas em um dia e há menos de nós por aqui. fiança" como parte crucial da relação empregatícia. Esse foi pano de fundo da decisão da Yorkshire Tyne Tess Television de oferecer status Tabela 6 pleno de quadro permanente ao pessoal contratado. Nos três anos ante- Emprego no setor estatal, 1982-1992 (em milhões) riores, os níveis de emprego da empresa tinham caído de 2.400 para 650 funcionários, não computando os outros 250 contratados por um curto Corporações públicas e período de tempo. Em sua avaliação sobre assunto, senhor Ward indústrias nacionalizadas Serviços públicos Total Thomas, chairman da empresa, reconheceu a autodecepção contida na 1982 1,756 5,265 7,021 definição "trabalhador de curto prazo", dada a muitos empregados. Em- 1992 0,588 5,21 5,798 bora os contratos fossem por prazo determinado (sem acarretar vínculo empregatício), eles estavam sendo sistematicamente renovados. Thomas declínio de 1,168 0,055 1,223 acrescentou que "eles deveriam se sentir seguros em relação aos seus Fonte: Economic Trends, 1995. postos". Acolhida com simpatia pelo sindicato, Tony Lennon, seu dirigen- te, declarou: "O plantel temporário tem menor lealdade ao patrão e há Tendo sido derrotados os planos de sua privatização, a única grande escasso incentivo no sentido de uma melhor qualificação" (Financial Ti- corporação estatal remanescente são os correios. Embora esse adiamento mes, 21 de novembro de 1995). tenha significado não fechamento de muitas pequenas agências locais, não freou ritmo da mudança organizacional no interior do próprio ser- IV Privatização e arrocho do setor público viço postal. Foi essa a introdução de novos revezamentos e trabalho em Durante pós-guerra, os mercados de trabalho de muitas regiões indus- equipe - a origem do escrutínio pró-greve e de uma série de paralisações triais britânicas eram dominados pelo setor empregatício estatal. As pessoas de um dia em 1996. maior temor desses trabalhadores era a redução das trabalhavam para uma indústria nacionalizada ou para uma empresa de uti- tarefas de trabalho às entregas matutinas pelo trabalho em equipe (por que lidade pública, ou seja, tanto para governo local quanto para O central. Tra- você precisa de uma equipe para entregar facilitando a balhavam nas escolas e hospitais, no corpo de bombeiros ou na força poli- imposição de contratos em tempo parcial. cial. Entre 1982 e 1992, emprego nesse setor declinou em mais de 1 mi- A experiência dos funcionários dos correios é partilhada por outros ser- lhão (ver tabela 6). Isso se deveu, quase inteiramente, ao processo de pri- vidores públicos. Apesar de seu número ter permanecido em torno dos 5,2 vatização, que transferiu empresas estatais, como a aeroespacial e a milhões durante os anos 80, viram seus empregos e acordos de trabalho se- gica, para setor privado, mesmo destino de importantes empresas de rem dramaticamente alterados. A introdução de pressões orçamentárias, no- utilidade pública. Uma vez vendidas, essas corporações experimentaram ra- vos critérios de medição de desempenho e a introdução generalizada de dical reestruturação. As transformações foram mais evidentes em serviços pú- "agências" com estruturas gerenciais responsáveis pelo monitoramento e or- blicos voltados para fornecimento de água, gás e eletricidade, desfazendo- ganização do trabalho implicaram uma semi-revolução em muitos desses se, cada uma, de mais de 25% da sua força de trabalho. Enquanto isso, ge- lugares. Por exemplo, em sua avaliação acerca do modo como emprego ravam dividendos e altos salários para seus executivos seniores, os chama- público foi modificado, Fairbrother chama a atenção para a maneira pela dos "gatos gordos" (ver Should et alii, 1996). De sua parte, os funcionários qual a Benefits Agency transformou a organização do Department of Social 24 25</p><p>Security, que agora está "estruturado na base de três territórios em vez de quem pagou a conta dessa dramática modificação e é sobre ele que recai sete regiões, e 500 escritórios foram agrupados em 159 unidades de gerên- maciço aumento da carga de trabalho (AUT, 1996: 6). cia distrital". Outros, ainda, comentaram acerca das exigências crescentes quanto ao Nessa nova arrumação, "funcionários lidam com os requerentes via um tempo de trabalho e quanto ao ensino e às pesquisas e modo como estão sistema de computador integrado" e "tem-se verificado não só intensifica- sendo progressivamente resolvidas com base em critérios externos estabe- ção do trabalho gerencial como também remoção física da responsabilidade lecidos pelas agências de fomento. Muitos questionaram o impacto dessas administrativa da maioria dos escritórios locais" (Fairbrother, 1995: 141). mudanças junto a uma ética profissional previamente estabelecida (ver, por Mudanças similares influenciaram fortemente funcionamento de es- exemplo, Harley & Lee, 1995; Minkin, 1997). A British Sociological colas, universidades, hospitais, administrações locais, da BBC e dos serviços Association organizou seu próprio survey e descobriu que: de emergência (incêndios, ambulâncias, polícia). Em cada uma dessas áreas Ninguém acusou qualquer efeito positivo no programa Prática de Avaliação da verificam-se respostas semelhantes de protesto e reclamações contra au- Pesquisa (PAP). A maioria viu como prejudicial à qualidade, tanto do ensi- mento do ritmo de trabalho. Como resultado, a partir dos anos 80, as dis- no como da pesquisa... embora um entrevistado tenha notado que a deterio- putas industriais no Reino Unido estão se tornando cada vez mais concen- ração no desempenho não devia ser afixada na porta da PAP, restante con- tradas no setor público, com sindicalismo desse mesmo setor progressi- cordou com sua responsabilidade por uma série de descritas vamente predominando na política do TUC (Trades Union Re- como "aterradoras", "obscenas", "altamente prejudiciais" e dai por diante gularmente esses trabalhadores e seus representantes apontam para ques- (Ward, 1996: 2). tões referentes à intensidade do trabalho e ao estresse associado às mudan- Esse desencanto com a imposição de normas de trabalho foi demons- ças organizacionais. trado por uma delegada da Nation Union of Teacher's Conference em 1993, A uma certa altura, era como se esses grupos profissionais fossem re- que se dirigiu à tribuna levando consigo, em um carrinho, a documenta- vigorar a ética do trabalho. Professores diziam estar "face a face com giz", ção relativa ao National Curriculum. cheios de giz na cara, e ser "viciado em trabalho" tornou-se uma doença No interior do National Health Service, a influência do apoio privado e legítima, uma vez que as pessoas apareciam no emprego mais e mais cedo e, freqüentemente, jactavam-se disso. Todavia, há sinais de que essa fase a introdução de sistemas gerenciais com base no mercado interno provoca- passou. Por todo serviço público, os empregados têm reclamado do au- ram fricção considerável. Aqui, os paralelos com alguns dos mais rígidos sis- mento e da reestruturação do dia de trabalho. temas gerenciais implantados na indústria privada são bastante visíveis. Uma secretária da área médica descreveu as normas de um dos departamentos do Um survey nacional recente, feito em 1994 pela AUT (Association seu hospital que me fez recordar sistema fordista do passado (ver Beynon, University Teachers) indicou que "o staff acadêmico está trabalhando uma 1985). Lá, declarou ela, "rir é proibido; mesmo sorrir causa problemas". Per- média de 55 horas semanais, e um certo grupo, das professoras, traba- guntar aos funcionários se o seriado de TV Cardiac Arrest se parece com a lha incríveis 65 horas por semana". Em resposta, um acadêmico sênior dis- vida do seu hospital é provocar uma réplica imediata: se-me seguinte: Tudo o que acontece na TV aconteceu em nosso hospital. Com exceção de uma Estou trabalhando na universidade há mais de 30 anos e sempre compare- ocasião quando o administrador ajudou alguém que estava numa maca. O nosso ci para minhas aulas e seminários. Este semestre, pela primeira vez, liguei não o faria. Ele teria preenchido um de seus formulários e ido embora. para cancelar aulas alegando que não estava bem. Havia tanto trabalho para fazer que tive de passar dois dias em casa "no estaleiro" para pôr as Regularmente, as enfermeiras declaram "amar trabalho mas detestar o coisas em dia. emprego". Relatos de intensificação da carga de trabalho e de irracionalidades Em resposta a essa situação, a AUT lançou em 1996 a campanha "Di- evidentes são repetidos no setor estatal de ponta a ponta. Em um dos Social minua a Carga", que visava chamar a atenção para fato de que: Services Departments que visitei me informaram o seguinte: Desde 1983-4, número de estudantes cresceu aproximadamente dois terços, Ultimamente, a pressão do trabalho é tamanha que as pessoas estão repetida- enquanto o corpo de funcionários cresceu meros Foi funcionário mente tirando dias de licença como único modo de lidar com problema. Logo que surge um novo vírus, todo mundo desenvolve os sintomas, um depois do outro. E eu comecei a fazer piada. Vou aos escritórios e pergunto "alguém pe- Central sindical inglesa (NT). gou alguma coisa que eu possa pegar? Preciso de alguns dias em casa". 26 27</p><p>Tudo isso é indício de importantes mudanças verificáveis no setor es- Tabela 7 tatal, as quais se relacionam com alterações na política do Estado e com im- Porcentagem da taxa dos economicamente ativos posições externas, orçamentárias, sobre atividades que antes eram previa- mente distribuídas com base em "serviço" e "necessidade". Formam uma Atividade econômica dos dos economicamente ativos por idade arena onde conflito é travado em torno do propósito e da avaliação do ano 1975 1981 1985 1991 1993 idade trabalho. Que conflito sobre valores pareça ser tão agudo no setor estatal, 16-17 55 47 65 68 63 isso ilustra a extensão pela qual esses trabalhadores e profissionais cons- 18-24 89 89 91 89 83 truíram idéias sobre serviço público como meio de estabelecimento de 25-34 98 97 97 97 94 suas identidades coletivas e desenvolvimento de seus interesses complexos 35-44 98 98 98 95 93 no interior da sociedade. Foram esses os códigos contestados e subjugados 45-54 98 95 93 92 92 55-59 94 90 82 79 76 pelo gerencialismo dos anos 80 e 90. 60-64 84 73 53 52 51 Em contrapartida, muitos profissionais ressentem-se do aumento da de- 65 ou mais 16 11 8 8 7 manda colocado em um mundo onde seu "serviço" não é valorizado. É 16-64 93 90 89 88 86 como explicou-me um professor: total 81 77 76 75 72 Entrei nesse emprego porque estava interessado nele, interessado em lecionar Atividade econômica das mulheres casadas para crianças. Mas isso não tem mais valor. Não por parte do governo, nem Porcentagem das economicamente ativas por idade pelos pais, É "dinheiro" que conta hoje. Há uma série de outras coisas ano extracurriculares - que simplesmente não vou fazer mais. 1975 1981 1985 1991 1993 16-17 52 40 66 74 58 18-24 82 83 81 79 75 V - Insegurança e estresse 25-34 76 76 74 70 69 Na as mudanças mais dramáticas dos últimos 15 anos es- 35-44 75 75 78 78 70 tiveram vinculadas à taxa de desemprego e à ascendente sensação de in- 45-54 77 74 73 76 70 segurança (e "medo") expressa por empregados e, de modo similar, por tra- 55-59 62 61 51 55 53 balhadores "por conta própria". Como vimos (tabela 2), desemprego au- 60-64 34 23 16 23 19 65 ou mais 6 4 2 2 2 mentou no início dos anos 80 e desde então estabilizou-se pelo alto. En- 16-59 72 70 74 74 69 tretanto, dados sobre desemprego, isoladamente, subestimam número de total 42 44 45 46 43 pessoas que, por uma razão ou outra, estão sem trabalho. número dos que estão "fora do trabalho" é melhor apreendido através da idéia de "ina- Atividade econômica das mulheres não-casadas tividade econômica". Contidos na tabela 7, os dados de tal idéia indicam Porcentagem das economicamente ativas por idade a extensão da distância existente entre ela e os dados sobre desemprego. ano 1975 1981 1985 1991 1993 Demonstram um declínio de longo prazo na porcentagem de homens com 16-17 ocupação e um incremento correspondente na porcentagem de mulheres, 18-24 54 57 62 71 74 especialmente as casadas. Demonstram, igualmente, como a força de tra- 25-34 52 51 57 71 72 balho, além de estar cada vez mais equilibrada entre homens e mulheres, 35-44 66 69 69 77 79 também deixa de ter representatividade entre pessoas com menos de 18 e 45-54 67 69 67 75 74 mais de 54 anos. Na opinião de Schmitt e Wadsworth (cujos dados mais re- 55-59 49 54 50 55 56 finados sugerem que as taxas de inatividade são de fato maiores do insi- 60-64 26 21 20 25 22 nuado aqui): 65 ou mais 6 5 4 5 4 16-59 59 61 62 72 73 Os dados sugerem que uma mudança na demanda pela não-preferência por total 51 51 51 59 59 trabalho com baixa qualificação (em vez de uma redução voluntária qualquer todas as mulheres 62 64 66 73 72 na oferta de trabalho) foi a responsável pelo aumento da inatividade econô- (16-59) mica (Schmitt & Wadsworth, 1994: 115). Fonte: General Household Survey, vários anos. 28 29</p><p>Acrescentam também que estado de depreciação dos salários e as pre- número de trabalhadores que teme perder seus empregos nos próximos 12 ferências dos empregadores por trabalho em tempo parcial igualmente toma- meses aumentou mais de 50% em dezembro a despeito da abrupta queda do ram parte no processo. Isto é corroborado por pesquisa encomendada pelo desemprego (Financial Times, 20 de dezembro de 1993). Rowntree Trust, a qual afirmou que crescimento econômico não iria, nos Esse survey revelou algumas variações interessantes no padrão das mudan- anos 90, ter um efeito significativo sobre as taxas de desemprego. Tal como ças. Referindo-se a um "surto" oriundo do intenso medo de cortes e dispen- Schmitt & Wadsworth, a organizadora dos resultados das investigações, Pamela sas, certos grupos foram evidenciados: Meadows, do Policy Studies Institute, escreveu: Mulheres em tempo parcial estão se empregando na maior parte das oportunida- Desemprego na casa dos 2 milhões é simplesmente a ponta do iceberg. Nos di- des criadas mas este grupo assistiu à elevação maior nos temores do emprego... rigimos para século XXI com 7 milhões de pessoas com idade para trabalhar A taxa de ansiedade também cresceu entre os trabalhadores de colarinho branco mas que não encontram serviço (Meadows, 1996: 6). e no efetivo da baixa gerência... possivelmente refletindo a probabilidade de mais Este relatório indicou que empregadores cada vez mais favorecem as cortes no setor público. mulheres e os contratos em tempo parcial. Também indicou que as compa- Em uma releitura da Labour Force Data, Philip Bassett e Patricia Tehan nhias repetidamente dispensam os efetivos mais velhos para contratar substi- estimaram que, entre 1990 e 1993, aproximadamente 28% da força de traba- tutos mais jovens e mais baratos, resultando numa parcela de menos de 50% lho (isto é, 7 milhões de pessoas) vivenciaram períodos de desemprego (Ti- para os grupos com idade mais avançada. Novos pontos de apoio para esse mes, 11 de janeiro de 1994). A British Social Attitudes Survey para 1994 regis- raciocínio vêm de uma pesquisa encomendada pelo Carnegie UK Trust, que trou um aumento significativo na proporção de empregados que viam a pro- levantou uma preocupação sobre o modo como teção do trabalho como sua mais importante preocupação. Da amostra, 14% dos empregados tinham se tornado supérfluos aos olhos das empresas nos cin- o no número de empregos de tempo integral amparados pela seguridade social em favor da subcontratação, do trabalho em tempo parcial e CO anos anteriores, 52% haviam trabalhado em lugares onde tinha se verificado dos contratos de curto prazo traz sérias tanto para as pessoas ociosidade e enxugamento de mão-de-obra e 80% conheciam alguém que pas- mais novas como para as mais velhas, especialmente quando combinado com sara por tal situação. Esses dados são ratificados por um survey realizado pela discriminação entre jovens e velhos. Universidade de Warwick por Whitstone & Waddington. Focalizando questões relativas ao sindicalismo, registraram que apenas 6% dos entrevistados alega- E acrescenta: ram sentir-se seguros em seus empregos. Delegados e dirigentes sindicais in- Nos anos 80, durante o período de retomada que se seguiu à recessão do início sistiram nas atitudes das gerências e no abuso da autoridade como fonte das da década, os níveis de emprego inicialmente recuperaram seu patamar pré- maiores apreensões dos sindicalizados. E estes sentimentos estão mais forte- recessivo e, então, começaram a crescer a ponto de, no fim da década, estarem mente presentes no serviço público. 2 milhões acima do pico pré-recessivo. Nos anos 90, mesmo a restauração do Enquanto a incerteza do período anterior afetou os trabalhadores ma- nível pré-recessivo não é líquida e certa (Trinder & Worsley, 1996). nuais das indústrias de manufatura e extração, nos anos 90 a instabilidade Se a recessão do início dos 80 afetou a indústria e as antigas regiões in- propagou-se para outros setores. Por exemplo, em 3 de março de 1994, dustriais, a mais recente atingiu a nova economia pós-industrial, a de serviços The Times anotava: e seu coração, South East. Um exame feito pelo World in Action (de 10 Mais de mil jovens executivos de agências de viagens estarão procurando empre- de novembro de 1992) da economia local de Slough (a cidade em go nas gerências das corporações este ano depois da graduação em novos planos dos anos 80) documentou medo que aflige todo escritório e oficina na de qualificação. Bretanha". Em uma amostra de mil questionários, descobriram que 9% haviam sido demitidos, 43% estavam preocupados com a perspectiva de vir a sê-lo e E acrescentava: 60% temiam uma possível dispensa fora de hora na família. Um representan- Um estudo recente afirmou que mais de 700 estudantes dos novos cursos de tu- te da administração local assinalou que "todo mundo está deprimido no Con- rismo poderiam ser malsucedidos na sua busca junto à indústria de turismo por selho de bairro... este país parece direcionado para uma coisa: desemprego. causa da recessão. Você não pode planejar seu futuro". Passados dezoito meses, The Financial Times anunciava Um ano antes, um survey de MORI/RS, encomendado por Financial Ti- mes, descobriu: ter havido um grande aumento no número de agências de viagem que entraram 30 31</p><p>em colapso. Entre julho e setembro, número de falências aumentou 46% com- tunidades abertas pela carreira de consultoria... é comum, então, declínio de parado com mesmo dado do ano anterior. produtividade. Na opinião do jornal, Mais recentemente ainda, um survey com 1.300 gerentes, realizado pelo a indústria está se preparando para um novo ano difícil, haja vista comporta- Institute of Management, identificou a "estratégia de sobrevivência à recessão" mento errático do consumidor em um mercado por muitos descrito como "não flo- como fonte de altos níveis de estresse. rescente" (The Financial Times, 28 de outubro de 1995). Quatro em cada cinco gerentes da amostra apontaram para aumento de seu rit- Possivelmente, survey mais interessante foi conduzido recentemente mo de trabalho nos últimos dois anos e a mesma proporção estava preocupada por Mintel, Marketing to the 45-64s (Mintel, 1995). Até aqui, esse grupo etário com futuro de sua posição financeira. Mais da metade deles admitiu apreensões tem sido fonte de considerável poder de compra pois não tem hipotecas para quanto às futuras oportunidades de carreira. pagar, e os filhos que já terminaram seus estudos estão empregados ou casa- Uma vez que emergem da recessão, as novas estruturas do emprego de gerência dos. O survey espantosa mudança nas condições dessa faixa etária, não representavam melhorias na estabilidade no emprego, na redução de níveis de estresse ou na amenização do ritmo de trabalho (IM, 1995). que é descrita como "a geração sanduíche", imobilizada entre as modificações da demanda e as condições das gerações de seus pais e filhos. Imobilizada, As respostas combinam com os resultados alcançados pelas pesquisas de também, pelas transformações ocorridas em seus próprios empregos. O estudo Cary Cooper acerca dos hábitos de trabalho dos gerentes industriais, que con- realça "um novo ar de desencanto com mundo do trabalho", com um sig- firmam a rejeição, por parte de muitos gerentes, às exigências do emprego em nificativo na proporção dos propensos a continuar a trabalhar mes- favor de um tempo vivido em relações mais recompensadoras fora do local de mo não dependendo do salário. Segundo a pesquisa, trabalho. é certamente verdade que as mudanças generalizadas nas práticas do trabalho du- Durante anos 70, problemas das relações de trabalho britânicas eram rante toda a década (incluindo maior recorrência às novas tecnologias e uma abor- identificados com as horas perdidas nos movimentos grevistas. Nos 90, pare- dagem mais "orientada para resultados" em muitas ocupações) devem ter prova- ce que estresse do trabalho responsável pela perda de algo em torno de velmente sido perturbadoras para membros estabelecidos da força de trabalho. 90 milhões de horas de trabalho por ano - substituiu. Isso contribui para se entender como as modificações mais significativas nas relações de trabalho Providencialmente, a pesquisa chama a atenção para modo como temo- implicam uma influência mútua entre processo de trabalho e conteúdo do res e'ansiedades relativos à estabilidade no emprego conformam estresse emprego, por um lado, e fatores institucionais e externos, por outro. Dentre relacionado com a própria intensificação do trabalho. Entre março de 1992 e esses últimos, a combalida natureza do mercado de trabalho, a reorganização 1993, as mil maiores companhias britânicas se desfizeram de 1,5 milhão de dos contratos e as mudanças correlatas na composição da força de trabalho e trabalhadores (The Director, março de 1993), cortando custos e reestruturando a natureza cambiante do emprego no setor público são de importância con- suas operações. Segundo Alistair Anderson, diretor-executivo do Personal siderável. Nesse contexto, a decisão do Department of Health de distribuir Performance Consultants UK: "Enxugar empresas significou, amiúde, que cópias impressas de uma publicação encomendada, a Mental Health and Stress pessoal tinha sido malpreparado e mal-equipado para a atividade que se es- in the Workplace: A Guide for Employers, é de algum interesse. De acordo com perava dela. Isso por si só dá origem a muito estresse". Ainda segundo ele: "As Cary Cooper, um dos autores, alguma coisa "obviamente pinçou um nervo em demandas feitas à força de trabalho são maiores do que nunca" (The Financial algum lugar... (mas) é claro que longas horas não representam boa saúde" (The Times, 8 de dezembro de 1993). Times, 6 de outubro de 1995). Aqui, como em todo lugar, existem ironias. Tão agudo é O estresse sofri- Avaliando a conjuntura vigente no mercado de trabalho do Reino Unido, do pelos "sobreviventes" às comoções das corporações que muitos deles de- a coluna Pennington do The Times formulou problema mais sucintamente. sejariam ter tido a possibilidade de "ir embora". Em um survey recente, reali- Retrucando embaraço do Bank of England em explicar não crescimento zado com 40 organizações do Reino Unido nos setores privado e público, dos salários no período de recuperação da economia, argumentou: verifica-se que cada uma delas tinha passado pelo menos por um exercício de eliminação da mão-de-obra ociosa. A esse respeito, Drake Bean Morin (1995), Pergunte a qualquer um que trabalhe no mundo real por que salários não cres- da consultoria administrativa, afirmou: ceram na fase de retomada como ocorreu em outras recessões passadas e encon- trarão uma resposta muito mais sensata: terror cego. Os sobreviventes invariavelmente se sentem confusos e inseguros sobre seu fu- As reformas industriais dos anos 80 tornaram mercado de trabalho permanen- turo e invejam a indenização recebida por seus antigos colegas, além das opor- temente mais inseguro para amplas parcelas da força de trabalho. Muito mais 32 33</p><p>gente trabalha em tempo parcial e com contratos temporários, e uso do traba- de se comportar como (supostas e imperfeitas) organizações de classe e que, lho casual é generalizado. antes, deveriam enfatizar seu papel como organizações de serviços, capazes O mercado de trabalho foi dramaticamente armado em favor do empregador ao de fornecer atendimento individual para seus membros. Muitos sindicatos já invés de sê-lo para trabalhador. Não olhe para além do medo do desempre- seguiram esse caminho e há alguma evidência, por parte de seus sócios, quan- go para ver a razão dos baixos vencimentos de agora (The Times, 9 de novem- to à boa apreciação dessas novas vantagens da sindicalização. bro de 1995). Entretanto, importante e recente survey realizado pela Universidade de Isso foi corroborado por uma investigação do The Observer onde Neasa Warwick questiona centralmente essa interpretação e a relevância dos bene- MacErlean entrevistou uma série de diferentes consultores de emprego a fim fícios individuais nos desejos dos sócios de sindicatos. Os autores concluíram de determinar "Como ter certeza que você não rodará no próximo corte". Al- que seus dados guns de seus achados foram os seguintes: frisavam a relevante continuidade, para trabalhadores de todas as ocupações, Jo Bonds, dos Coutts Career Consultants, declarou: "Mantenha-se em forma e das motivações tradicionais associadas à organização e à filiação sindicais sua saudável. Quanto mais velho for, mais importante é projetar um visual sa- necessidade de meios coletivos autônomos de defesa e promoção de seus inte- dio e em dia com a ginástica; isto é altamente recomendável para pessoas com resses (Whitstone & Waddington, 1994). mais de 40". Elaine Aarons, recrutadora de emprego da Eversheds, aconselha: "Mantenha-se distante da política. Não faz bem a ninguém comparecer a reuniões do sindica- VI Conclusões to, oficiais ou não. Essa gente nunca se dá bem quando ocorrem cortes na gor- As coisas estão mudando na nossa sociedade diante de nossos próprios dura de mão-de-obra. Lamentavelmente, é como se estivéssemos de volta para as olhos. Por vezes, imperceptivelmente. Por vezes, de maneira dramática. Boa Eras da Escuridão, quando os empregados tinham de levar sempre o pior" (The parte dessas transformações está vinculada ao trabalho e ao emprego. Os pro- Observer, 26 de maio de 1996). cessos pelos quais novos contingentes operários são reproduzidos (muitos Isto dado, talvez não seja surpreendente notar a queda na taxa de deles permaneceram inalterados por duas ou três gerações) foram profunda- sindicalização no Reino Unido que desde 1975 gira em torno de 5 milhões mente modificados. Como resultado, portuários em Liverpool sustentam uma de membros. Desemprego e fechamento de empresas, cujos funcionários ti- greve durante meses buscando impedir a imposição de um contrato que, no nham direito à sindicalização somados às dificuldades em conquistar di- entendimento deles, iria reintroduzir trabalho casual do século XIX. Em reito de representação sindical nos novos locais de trabalho e à ampliada ten- Manchester, milhares de pessoas fazem fila por uma chance de trabalho no dência dos empresários em dessindicalizar companhias e estabelecimentos parque Euro-Disney de Paris. Um homem mata seu amigo em um conflito por fornecem a principal explicação para tal decréscimo. Um survey condu- um serviço em tempo parcial desejado por ambos em Bristol. Gerentes zido pelos Industrial Relations Services, feito em 98 empresas em 1993, re- estagiando em empresas do comércio varejista como "Toys'R'Us" in- velou que 25 haviam deixado de reconhecer sindicato como interlocutor formados da demanda de "dedicação total" e de uma jornada de, pelo menos, no espaço de um ano. Os dados do Workplace Industrial Relations Survey 100 horas semanais. sugerem que tal recusa, e a suspensão dos direitos de negociação coletiva, Indubitavelmente, a vida de muita gente prosperou imensamente nos úl- levaram a uma queda substancial na taxa de sindicalização. Os dados mos- timos 20 anos em termos tanto de salário real quanto das oportunidades aber- tram que índices desabam de 54% para 15% depois do não reconhecimen- tas como decorrência de rápida transformação social e econômica. Todavia, em to dos sindicatos pelas empresas. sua forma mais recente, organizado em torno de uma nova tecnologia De acordo com a interpretação de Millward: mica, sistema econômico produz altos níveis de insegurança e inatividade econômica involuntária. No Reino Unido isso coincidiu com fim tácito do A está se aproximando da posição em que poucos empregados te- "salário-família". Como resultado, cada vez mais gente necessita de emprego rão algum mecanismo pelo qual poderão contribuir com o funcionamento do seu local de trabalho para além do seu próprio emprego (Millward, 1993). a fim de manter mesmo padrão de vida, precisamente em um tempo quando empregos escasseiam. Hoje em dia, cada vez mais gente está sendo empurrada Seria possível interpretar esse declínio da sindicalização e essa reação à para as fronteiras do mercado de trabalho, tendo de lutar para voltar (e, caso dessindicalização como evidência da ascensão do individualismo e da queda consiga, com poucas garantias de estabilidade). da ética coletiva. Há indícios de que a liderança do Partido Trabalhista está Essa "desregulamentação" das relações de trabalho no sistema britânico abraçando este ponto de vista, reafirmando que os sindicatos deveriam cessar alinhou-o com norte-americano. Contudo, não logrou gerar empregos em 34 35</p><p>alguma medida similar à taxa estadunidense. Ao mesmo tempo, há motivos Crompton, R. & Sanderson, K. (1990) Gendered Jobs and Social Change. Unwin para se pensar que danificou a ligação dos funcionários com suas ocupa- Hyman. ções e com seus patrões específicos. Historicamente, a regulação das rela- Du Gay, P. (1995) Consumption and Identity at Work. Sage. ções de trabalho tem estado fortemente ancorada no Estado. Por essa razão, Morin, D. B. (1995) The Positive Management of Redundancy Survivors. DBN, Londres. sua retirada do mercado de trabalho suscitou uma situação de turbulência Elger, T. (1990) "Technical Innovation and Work Reorganisation in British moral. Ao refletir sobre a questão, Edward Luttwack escreveu que a política Manufacturing in the 1980s". Work, Employment and Society, número especial. convencional da direita e da esquerda não dá mais conta do "problema cen- Fairbrother, P. (1995) "The Management of Benefits". In: Butler & Savage (org.). The tral de nossos dias: a insegurança econômica sem precedentes da classe tra- Remaking of the State Middle Class. Routledge. balhadora, dos operários industriais e dos funcionários de colarinho branco Froud, J.; Johal, S.; Haslam, C.; Shaoul, J. & Williams, K. (1996) "The Right até da média-alta gerência". Agourento, acrescenta que "não é necessário Arguments: Refocusing the Debate of Privatisation". Working Paper, n° 12. saber soletrar gemeinschaft (comunidade) e gesellschaft (sociedade) para re- Manchester, International Centre of Labour Studies. conhecer disponibilidades fascistas no atual capitalismo de mudanças Fukuyama, F. (1995) Trust: The Social Virtues and the Creation of Prosperity. Hamish turbinadas" (Luttwack, 1994). Hamilton. Nesse contexto, há algo de mortificante em ler-se que Stephen Roach, eco- Gabriel, Y. (1988) Working Lives in Catering. Routledge. nomista chefe em Morgan Stanley (Nova York) e defensor-chave do Garrahan, P. & Stewart, P. (1992) The Nissan Enigma: Flexibility at Work in a Local "enxugamento", mudou seu coração. Em suas palavras: "Eu agora estou pen- Economy. Londres. sando duas vezes sobre se realmente chegamos à terra prometida". Aumento Gorz, A. The End of the Working Pluto Press. de produtividade e lucros foram alcançados, mas a que custo? HMSO. (1996) Regional Trends. Londres. Em face da competição intensa, os gerentes podem ter simplesmente cortado as Handy, C. (1995) The Empty Raincoat: Making Sense of the Future. Arrow. maiores fatias de inchaço nos custos - salários mais encargos sociais Caso seja assim, o chamado ressurgimento da produtividade foi elaborado na base de es- Harkness, S. (1996) The Gender Earnings Gap. Institute of Fiscal Studies, Londres. tratégias de reestruturação do tipo debasta-e-queima, que trouxeram pressões Harley, S. & Lee, F. (1995) "The Academic Labour Process and the Research extraordinárias sobre a força de trabalho. Esse approach não é uma solução per- Assesment Academic Diversity and the Future of Non-Mainstream manente. Táticas de enxugamento e compressão do salário real por tempo Economics". Occasional Paper, n° 24, Leicester Business School. indeterminado são, em última análise, receitas para a extinção industrial (The Harvey, M. (1995) Towards the Insecure Society: The Tax of Self Employment. Institute Financial Times, 14 de maio de 1996). of Employment Rights. Londres. Muitos operários de usinas siderúrgicas que passaram pela experiência de Hewitt, P. (1993) About Time: The Revolution in Work and Family Life. Rivers Oram Press. se sentir como uma gordura a ser queimada pelas empresas diriam "amém" (ou algo mais contundente) a isso. Hutton, W. (1995) The State We're In. Londres, Vintage Books. Institute of (1995) Survival of the Fittest. Burston Distribution Services, Bibliografia Bristol. Anthony, P. D. (1990) "The Paradox of the Management of Culture or 'He Who Leads Jencks, C. 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Londres. nas 10% da força de trabalho, "inverno quente" de 1995 - maior Trotman, C. (1993) "Attitudinal and Behavioural Responses to Changing Patterns of movimento de massas desde 1968 - foi acompanhado de lutas em todos os Technological and Organisational Innovation". PhD Thesis, Universidade de setores da economia, isso ocorreu, mais notadamente, durante os bloqueios de Wales. estrada por caminhoneiros e no "Dia da Ação", em outubro do mesmo ano, Ward, A. (1996) "The Effects of the 1992 Research Assessment Exercise". Network, n° 64. quando, com O apoio de todas as federações sindicais, houve manifestações Webb, J. (1992) "The MisManagement of Innovation". Sociology, vol. 26, n° 3. contra as cortes governamentais. Na Alemanha houve grandes paralisações de- Whitstone, C. & Waddington, J. (1994) "Why Join a Union" New Statesman and vido às reduções do e, na Grécia e na Espanha, ocorreram Society, 19. greves gerais contra medidas de austeridade. As greves dos mineiros na Rússia Wilmott, H. (1993) "Strength Is Ignorance: Slavery Is Freedom: Managing Culture in foram as primeiras em muito tempo. O Canadá teve as maiores paralisações da Modern Organisations". Journal of Management Studies, vol. 30, n° 4. década, conduzidas por servidores públicos em Ontário e por trabalhadores Wilson, T. (1996) "Lessen the Load". AUT da General Motors. A Confederação Australiana de Sindicatos preparou uma Wood, S. (org.). (1989) The Transformation of Work? Skill, Flexibility and the Labour grande manifestação do lado de fora do parlamento de Canberra para protestar Process. Londres. contra leis anti-sindicais. A Coréia do Sul, "prato da moda" da economia Wray, D. (1993) "Changing Employment Relations in a Local Labour Market: Consent globalizada, presenciou uma greve geral contra a nova legislação do trabalho. after the Closure". M. A. Thesis, Universidade de Durham. Houve ações na Bolívia contra a privatização e greves gerais na Argentina contra as políticas do governo Menem. Até mesmo nos Estados Unidos os sin- dicalistas se uniram para fundar um Partido Trabalhista. Tradução de Cristina Meneguello. 38 39</p><p>No Reino Unido, os desdobramentos do movimento operário ilustraram os tação interna garantiu padrões complexos de organização e um plurissindi- limites da generalização global e poder contínuo do neoliberalismo. Esgota- calismo com variedades de sindicatos de ofícios, industriais, ocupacionais e do e mesmo desmoralizado, após 16 anos de governo do Partido Conservador gerais, competindo pela adesão. Na década de 1960, mais de 20 sindicatos re- e de retrocessos acumulados, estado de ânimo reinante era de cautela: a pro- presentavam os trabalhadores em uma fábrica da Ford. Havia 651 sindicatos funda e constante impopularidade da administração de John Major tornou viá- na Inglaterra, com 183 deles organizando 80% de todos os membros afiliados vel em 1997 a eleição do primeiro governo trabalhista desde 1979. Houve um ao TUC. Na década de 1970, um número crescente de fusões estimulou a ten- certo ressurgimento da ação industrial com greves dos trabalhadores das ferro- dência por um sindicalismo vias e dos correios e uma série de disputas militantes em pequena escala, como A forte tradição de realizar atividades no local de trabalho, a independên- a luta, durante dois anos, dos portuários de Liverpool contra demissões e traba- cia em relação aos patrões e uma complexa mistura de cooperação e de opo- lho temporário. Em termos gerais, a palavra de ordem foi "não balance O bar- sição em relação à empresa datam do século XIX. A organização sindical quase na crença de que um governo trabalhista traria novas oportunidades. En- autônoma no local de trabalho surgiu no início dos anos 1900, floresceu an- quanto seu correlato israelita Schlomo Shani era encarcerado por desafiar a tes de 1920, cambaleou nos anos do entreguerras e se reafirmou a partir do fim legislação trabalhista, líder dos mineiros ingleses, Arthur Scargill, fazia eco a dos anos 30. No fim da década de 1950 havia mais de 90 mil seus apelos por manifestações de massa acatando uma ordem legal de restrin- legados sindicais de base] e nos anos 70 cerca de 350 mil, incluindo cerca de gir uma greve nas minas. O líder do Sindicato dos Trabalhadores de Transpor- 4.000 trabalhando em tempo integral. crescimento independente da organi- tes, Bill Morris, foi mais além ao recusar apoio à luta dos portuários: seu porta- zação no local de trabalho acompanhou aumento do poder de negociação, informou aos repórteres que ele não estava sequer disposto a falar sobre a geralmente fragmentado e informal, e declínio do poder regulador dos acor- greve por temer uma represália legal (Pilger, 1996). dos com empregadores. Na década de 1970, outros acontecimentos influen- capítulo a seguir delineará os desdobramentos do sindicalismo inglês ciaram a crescente hierarquização e a profissionalização da organização sindi- nas décadas de 1980 e 1990. Começarei com um breve esboço das caracterís- cal do local de trabalho. ticas do movimento anterior a 1979, antes de analisar ambiente político e A dependência de esforços de militantes leigos explicava-se pela fragilida- econômico no qual operou o sindicalismo nas décadas mais recentes. A ter- de financeira: sindicatos eram geralmente dirigidos sem recursos. A contribui- ceira parte examina rapidamente impacto das políticas de Estado, dos acon- ção sindical era tradicionalmente baixa - cerca de 0,4% da média dos ganhos tecimentos no mercado de trabalho e das iniciativas dos empregadores; a quar- anuais se comparada à contribuição de 1% da Alemanha e da França. O cres- ta seção discute a resposta dos sindicalistas a estas mudanças. Concluo com al- cimento do nível de sindicalização nos anos 60 e 70 trouxe deterioração, em vez gumas breves observações sobre futuro. de melhora, às finanças dos sindicatos. número total de delegados sindicais em tempo integral era estimado, em 1968, em cerca de 3.000, número que O movimento trabalhista antes do thatcherismo pouco mudara e que explicava a debilidade em termos de serviços, pesquisa e educação sindical. A organização. local de trabalho era a base para a expan- Nos primeiros 75 anos deste século, O sindicalismo inglês foi a imagem da são da democracia sindical. Por volta dos anos 60, ela andou lado a lado com força e da estabilidade. O nível de sindicalização era amplo e extensivo. Em aumento do ethos democrático existente nos primeiros sindicatos de ofício até 1920, 8 milhões de trabalhadores representando 45% da força de trabalho a autocracia dos sindicatos multiprofissionais, com envolvimento crescente de eram sindicalizados. Se estes números caíram pela metade durante a depres- delegados de base nos processos internos aos sindicatos. são do entreguerras, crescimento a partir da segunda metade dos anos 1930 trouxe a expansão da taxa de sindicalização para 9 milhões nos anos 40 e 13,5 A partir da segunda metade do século XIX, a classe trabalhadora inglesa de- senvolveu uma cultura de associação densa, voltada para si, e uma consciência milhões - mais de 55% da força de trabalho em 1979. de classe aguçada mas defensiva, que buscava criar espaço dentro da socieda- O movimento caracterizava-se pela unidade institucional, relativa ausên- de capitalista em vez de transformá-la. Com sindicalismo enraizado numa cia de fragmentação política e partidária e pela descentralização. A Central economia forte e predatória, seus líderes se viram diante de um Estado cada vez Sindical Nacional, O TUC (Trade Union Congress), foi fundada em 1868 por mais minimalista com qual mantinham relações por meio de partidos estabe- entidades sindicais: elas estabeleceram limites rígidos sobre seus poderes de lecidos, sendo seu maior inimigo um Judiciário inundado em concepções indi- coordenação e regulação, concedendo de má vontade a autonomia. TUC não encontrou nenhum rival importante e, através deste século, a maioria dos ser breve, omiti as referências desta seção do artigo. Baseia-se em COATES, 1989; sindicalistas tornou-se membro de suas entidades filiadas. A ausência de agi- 1995; Middlemas, 1979; Savage and Miles, 1994. 40 41</p><p>vidualistas e em laissez-faire sobre a lei. Os sindicatos foram legalizados já nos Em 1979, o Reino Unido havia conhecido duas décadas de atenção cres- anos 1870, e, desde esse momento procurou-se tirar partido de uma crescente cente à "questão dos sindicatos": as inflacionárias da negocia- "tendência corporativa" do Estado inglês e de empregadores geralmente fracos ção coletiva não regulamentada e descentralizada eram mais e mais estereo- e divididos. As ofensivas contra sindicatos a partir dos anos 1890 não dura- tipadas como um fator chave do declínio econômico. A partir dos anos 60, ram. Mesmo durante medo pós-1917 de um sindicalismo confiante e insurgen- governo trabalhista apoiou tentativas voluntárias de reformar as relações indus- te, que culminou na derrota da Greve Geral de 1926, houve poucas tentativas triais, e as administrações trabalhista e conservadora introduziram controle de erradicar sindicalismo e de restringir seu poder e ambição. dos salários e buscaram introduzir restrições legais às atividades sindicais. A Por grande parte do século, assim, a empresa, os sindicatos e Estado "tendência corporativa" do Estado foi intensificada, culminando no "contrato apoiaram uma regulamentação voluntária das relações de trabalho. Havia a social" do governo do Partido Trabalhista de 1974-79, que tinha como objetivo ausência de uma legislação detalhada notável se comparada a qualquer substituir envolvimento dos líderes sindicais nos processos estatais, a legis- outro sistema nacional e a prioridade foi dada à negociação coletiva autô- lação favorável, as tentativas de proteger pleno emprego e os benefícios noma. Até anos 70, e em alguns casos mesmo depois, não existia nenhum sociais pela aquiescência no controle dos salários. direito legal de sindicalização ou de reconhecimento do sindicato, nenhuma Estas políticas tiveram um sucesso limitado porque, de certa forma exacer- obrigação por parte dos patrões de negociar, nenhuma garantia do cumpri- baram os problemas que buscavam resolver. sindicalismo estava mais difuso mento de acordos coletivos por parte das cortes de Justiça, nenhum direito à e entranhado do que em qualquer outro momento da história inglesa, perma- greve. Particularmente após 1926 os sindicatos sentiam-se inferiorizados em necendo fechado ao Estado. O papel organizador do TUC aumentou, mas a relação ao Estado uma aproximação que seria selada pela experiência da tentativa de formular políticas por meio do comitê conjunto TUC-Partido Tra- Segunda Guerra Mundial e do e superiores em relação ao local balhista ficou limitada pela falta de habilidade do governo trabalhista de 1974 de trabalho e ao "poder de livre negociação coletiva". Estas duas vias políticas de implementárias. De certo modo, sindicalismo teve mais sucesso que nun- iriam provar-se cada vez mais antagônicas. ca. Atacando efetivamente as mudanças hostis sobre a força de trabalho, os arraigado reformismo do sindicalismo inglês ganhou um aspecto orga- sindicatos avançaram, recrutando um número crescente de trabalhadores de nizado independente com a criação do Partido Trabalhista entre 1900 e 1918. colarinho branco, cujo volume aumentou de 32% em 1968 para 44% em 1979. Novamente, de forma diferente de outros países, a organização política ope- O crescimento da força de trabalho feminino fez este setor sindical aumentar rária cresceu a partir dos sindicatos, em vez de os sindicatos serem promovidos de 26% em 1965 para quase 40% em 1979. Mais de 70% da força de trabalho pelo partido. A criação desse partido foi marcada pelo domínio constitucional foi amparada por acordos coletivos. Na indústria e no setor público, 90% dos do processo decisório, embora fora de períodos de crise a precedência dada locais de trabalho possuíam representantes de base. aos líderes políticos tenha sido total, exceto sobre questões cruciais das indús- número de greves aumentou durante os anos 60 e atingiu seu ápice no trias. O partido, que conseguiu seu primeiro governo de minoria em 1924 e início dos anos 70 com uma média de quase 3.000 paralisações envolvendo primeiro de maioria em 1945, encarnou em suas relações com os sindicatos, 12,5 milhões de trabalhadores por ano entre 1969 e 1974. As breves paralisa- embora de modo imperfeito, a concepção de um movimento operário com ções ocorridas nos anos 60 foram encobertas pela reemergência da greve na- braços industriais e políticos dotado de uma missão social. A retórica socialista cional em larga escala, pelo aumento da ação industrial atingindo setor pú- do Partido Trabalhista estava divorciada da prática, que apenas adquiriu uma blico e pelo ressurgimento da greve política. movimento lançava-se além do coerência reformista com a adoção do keynesianismo e do estatismo na déca- "economicismo" com a ação sindical organizada contra as propostas do gover- da de 1940. Entretanto, esta prática monopolizou a lealdade dos eleitores no por uma legislação sindical restritiva em 1969, com as greves contra a prisão oriundos da classe trabalhadora. Partido Comunista e outras organizações dos portuários que desafiaram a legislação conservadora de 1972 e com a de esquerda tinham pouco crescimento: exerciam influência nas fábricas, mas greve dos mineiros de 1974, que contribuiu para a queda do ministro conser- sua importância política era marginal. Os horizontes da maioria dos trabalha- vador Edward Heath. Estes anos viram um crescimento significativo das ocu- dores eram dados pelo Partido Trabalhista, sustentado por reformas vindas do pações do local de trabalho, dos e dos piquetes. Mas com a eleição Estado e pela percepção do sucesso da negociação coletiva. Até 1979, Par- do Partido Trabalhista, cuja situação econômica em 1974 era decadente, os tido Trabalhista tinha estado no governo durante 11 dos 15 anos precedentes, problemas da direção do sindicalismo se intensificaram. O que garantia uma importante, embora muito exagerada, influência dos sin- dicatos nos assuntos de Estado, apoiada por um consenso pós-guerra quanto 2 Forma de protesto na qual os trabalhadores de uma fábrica ou qualquer outra empresa que vai ao pleno emprego e ao Estado de bem-estar social. ser fechada ocupam local de trabalho e assumem a direção dos negócios. (N.T.) 42 43</p><p>A subseqüente quebra do "contrato social" trabalhista culminou na atua- Um Estado anticoletivista ção do setor público no "inverno dos descontentes" (1978-9) e no advento do A conversão do Partido Conservador ao laissez-faire sua capacidade de primeiro governo Thatcher. O corporativismo inglês fora um vacilante exercí- mobilizar apoio suficiente para vencer quatro eleições gerais consecutivas e a cio. As mudanças na economia mundial tiveram influência em seu fracasso, vontade política com a qual ele se empenhou por uma agenda de livre mer- como também a fragilidade do Estado inglês e a fragmentação estrutural do cado e anticoletivista constituíram fatores primordiais no do sin- capital e do trabalho. Mas seu colapso também levantou questões cruciais dicalismo. A política de Estado evoluiu progressiva e cautelosamente ao incen- sobre a política e a cultura do sindicalismo inglês: preso a um ethos de opo- tivar desequilíbrio de poder entre sindicatos e patrões e enquadrar a influên- sição economicista, ele falhara em ir na direção tanto da consciência de um cia do sindicalismo como restrição ao mesmo ocorre quanto às in- corporativismo social-democrata (como na Escandinávia), quanto na direção fluências ilegítimas sobre a política para uma defesa do individualismo preo- de ideologias mais radicais. O estado de espírito insurgente daqueles anos cupado em excluir os sindicatos das relações industriais e políticas. A exclu- trouxe poucos ganhos significativos para a esquerda. A falta de habilidade dos são dos líderes sindicais das discussões com os ministros sobre a política sindicatos em organizar uma resposta conjunta a iniciativas como Relatório econômica foi imediata; a exclusão dos debates sobre desemprego ocorreu Bullock3 de 1978, que propunha aos trabalhadores que fizessem parte do qua- mais lentamente. Órgãos tripartites foram gradualmente abolidos ou tiveram dro de diretores das companhias, assim como a eleição de um governo con- seu papel reduzido. O National Enterprise Board, um marco da intervenção do servador indicam os limites da militância industrial. Estado, foi cortado imediatamente, a Comissão de Assistência ao Potencial Hu- Já, em 1978, alguns afirmavam que movimento trabalhista estava em re- mano (Manpower Services Comission), um agente da política de mercado de cuo, mas, na verdade, seu progresso estava paralisado desde 1950. exército trabalho e treinamento, durou até 1987; Comitê de Desenvolvimento Econô- de mão-de-obra, homogêneo até então, foi fragmentado em face da mudan- mico Nacional (National Economic Development Committe), marco inicial ça na estrutura de classe, do declínio dos trabalhadores manuais e de uma ex- das tendências corporativistas nos anos 60, foi reduzido em 1987, mas aboli- plosão do setorialismo e do economicismo (Hobsbawm, 1981). Eram imagens do apenas em 1992. Foi revogada a prática há muito existente de nomear re- ruins e uma história má. O progresso do movimento operário sempre fora par- presentantes sindicais para uma série de órgãos econômicos e sociais, locais cial e desigual, caracterizado por um misto de avanços e recuos: a unidade fora e nacionais. Nos anos 90 não foi dada aos sindicatos a representação especí- sempre problemática e temporária e a classe trabalhadora nunca fora estrutural fica nos novos Conselhos de Iniciativa e Treinamento e governo removeu até ou politicamente homogênea. Entre 1945 e 1979, O movimento operário esteve mesmo líder de direita do Sindicato dos Engenheiros do Corpo Administra- à frente de uma série de fronts, mesmo nunca tendo conseguido consolidar tivo do Bank of England (McIlroy, 1995: 199-208). suas vitórias. O Partido Trabalhista recebeu tantos votos nas eleições de 1966 Estas mudanças foram acompanhadas por uma retórica que visava anular a quanto na de 1945. Apesar do setorialismo, avanço da organização no local legitimidade dos sindicatos como instituições sociais. No pior dos casos, eles de trabalho chegou a um novo pico numérico e a novas áreas; a expansão do eram "o inimigo entre nós". No melhor, seu papel deveria estar restrito às ques- sindicalismo diante de tendências contrárias e a rápida transcendência do tões industriais e os excessos deveriam ser punidos. Thatcher interveio para economicismo percebida por eis aqui exemplos não de recuos apoiar as "vítimas" dos closed shops elogiou os patrões anti-sindicatos como mas de avanços. Como a história havia mostrado e agora mostraria novamente, Eddy Shah e apoiou um veto aos associados do sindicato da Agência Governa- progresso era limitado, contingente e frágil. mental de Informações (GCHQ) (Young, 1991: 371-2). A ênfase dada à cultura empreendedora e individualista tornou-se cada vez mais difundida. Nos anos 90, novo contexto do sindicalismo as declarações oficiais do governo descartavam abertamente sindicalismo, ta- A partir de 1979, os sindicatos enfrentaram mudanças qualitativas no con- chavam a negociação coletiva de "ultrapassada e inadequada à indústria contem- texto em que se organizavam. controle do Estado por forças políticas anta- porânea" e davam sua bênção à Gerência de Recursos Humanos (Human gônicas minou sua resposta aos desdobramentos potencialmente corrosivos da Resource Management), aos contratos de emprego individuais e ao pagamen- economia e do mercado de trabalho, ao mesmo tempo municiando a oposi- to de acordo com a produtividade (Department of Employment, 1992). ção dos patrões na negociação coletiva. A foi o ambiente me- thatcherismo era, de maneira concisa: "Livre mercado Estado forte" nos receptivo ao sindicalismo desde 1945. (Gamble, 1988). Os conservadores dissociaram o Estado de sua prática polí- 3 Bullock Report of a Royal Comission on Industrial Democracy (Comissão presidida pelo lord Closed shop: fábrica ou empresa em que todos os trabalhadores devem ser filiados a um sindi- Bullock para investigar e fomentar a democracia industrial). (N.T.) cato em particular. (N.T.) 44 45</p><p>tica do período pós-guerra. A economia neoliberal produziu, diferentemente e representação dos sindicatos, a obrigação dos patrões de negociar perma- das quatro décadas anteriores, uma maior ausência da intervenção estatal em necem, na Inglaterra, como uma questão de autonomia, geralmente decidida face das tendências nacionais de mercado e à mudança na economia global. pela prerrogativa do empregador. foco da legislação é distorcido e seu equi- Os acontecimentos que se seguiram, em especial alto grau de desemprego, líbrio, mesmo em termos formais, é desigual. Os grevistas devem lidar com não tiveram a intervenção protetora do Estado. Foram, de fato, deteriorados uma intrincada rede de restrições para que a ação industrial seja legal sem pelas políticas estatais de severidade fiscal e desregulamentação financeira. Es- receber nenhuma proteção contra a demissão. Os sindicatos atravessam um tas inovações econômicas e industriais foram centrais no enfraquecimento do campo minado de exigências nas votações para estarem protegidos no caso de poder dos sindicatos. "Estado forte", por sua vez, é prova do desenvolvimen- seus membros fazerem greves: tornaram-se ilegais ações disciplinares movidas to estratégico do poder do Estado na arena da sociedade civil. Evitando habil- contra trabalhadores que violavam greves decididas por voto. No processo mente confronto com os mineiros em 1981, governo preparou-se para um para construir este aparato legal, os governos conservadores denunciaram longo confronto, manipulou mercado contra carvão e enfraqueceu con- quatro Convenções Internacionais da OIT (Organização Internacional do Tra- trole que Sindicato Nacional dos Mineiros tinha sobre a geração de energia balho) e foram submetidos a nove julgamentos por quebra de acordos elétrica. A mobilização dos recursos ideológicos e coercitivos do Estado para (McIlroy, 1991). derrotar a greve dos mineiros de 1984-1985, de modo não visto desde a década Sete pontos principais da legislação entre 1980 e 1993 buscaram "des- de 1920, foi caracterizada pelo então ministro das Finanças como "um inves- regulamentar" mercado de trabalho, "retirar os encargos das empresas", di- timento rentável" (Beynon, 1985; Adeney e Lloyd, 1986: 121). Uma estratégia minuir a proteção ao emprego e debilitar a organização dos sindicatos. Apoios semelhante foi apresentada em uma série de disputas, particularmente na abo- legais pelo reconhecimento, acordos de adesão ao sindicato e a extensão da lição do Plano Nacional do Trabalho nas Docas em 1989 (Turnbull et al., 1992). negociação coletiva, em vigor nos anos 70, foram retirados. greves papel de apoio que governo sempre assumira perante sindicalismo do de solidariedade, piquetes de apoio e ações não-oficiais, e os sindicatos foram setor público foi revertido: a obrigatoriedade das corporações públicas de con- indiretamente responsabilizados por infrações à lei por parte de seus associa- sultarem os sindicatos foi retirada e exigiu-se que as empresas tomassem uma dos. A autonomia dos sindicatos estava seriamente comprometida: votações posição mais firme, descentralizassem a negociação e introduzissem salário obrigatórias com requerimentos complexos e detalhados cobriam a ação indus- de acordo com a produtividade. O extenso programa de privatização teve trial, as eleições internas e as decisões sobre as atividades políticas dos sindi- objetivo adicional de fragmentar sindicalismo e minar seu poder de nego- catos. Quase todos os aspectos da atividade sindical, das finanças à organiza- ciação; mesmo fizeram as tentativas de acompanhar mercado em relação ção para conseguir a adesão dos membros, até Acordo Bridlington do aos serviços públicos e ao governo local por meio do Orçamento Competiti- regulamentando as disputas entre sindicatos, foram objeto de intervenção le- VO Obrigatório para serviços, da análise de mercado e da criação de fundações gal. Embora contrários à intervenção do Estado, os conservadores estabelece- autogerenciadas no Sistema Nacional de Saúde (NHS) (Colling e Ferner, 1995). ram duas novas comissões estatais para financiar indivíduos que acionassem Tanto a rejeição da restrição aos salários como a recusa de intervir para limi- seus sindicatos em defesa de seus direitos. Simultaneamente, a proteção contra tar impacto do desemprego crescente, de modo que a negociação aconte- os padrões e a demissão e direito à licença-maternidade foram gradualmente cesse em condições bem diferentes daquelas das décadas anteriores, foram reduzidos. centrais nestas políticas, embora sucesso limitado das políticas do Partido Trazendo as marcas do individualismo, da flexibilidade e da insegurança, Conservador significasse que no início dos anos 90 eles dirigiam a política de as políticas foram contra a maré da legislação social de mercado vinda da salários do setor público sem dizê-lo às claras. União Européia. Os governos conservadores optaram por ficar fora da Carta No cerne da agenda dos conservadores havia um ambíguo programa de Social6 da Europa Unida, lutaram nos órgãos da Comunidade Européia para legislação do trabalho, Apoiando-se na ideologia da Nova Direita, no cálculo limitar as diretrizes vindas de Bruxelas, exigindo uma legislação do Reino político e nas lições aprendidas em cada luta contra os sindicatos, esse progra- Unido para áreas como a da igualdade de direitos e do bem-estar social e pro- ma foi introduzido de maneira progressiva e sincronizada com as políticas eco- nômicas e enfraquecimento dos sindicatos graças ao crescente desemprego. Reino Unido mudou do sistema de regulamentação legal mínima do sin- 5 Bridlington Agreement: Acordo realizado na Convenção do TUC em 1939 na cidade de (N.T.) dicalismo para um sistema de máxima regulamentação. Apesar disso, aspec- 6 tos centrais das relações industriais regulamentadas por lei em quase todos os "Social Chapter" (Carta Social), que apenas Reino Unido não assinou, é uma declaração de princípios estabelecendo que os países da Comunidade Européia devem se dedicar ao bem- outros países - status da negociação coletiva, os direitos ao reconhecimento estar social e à proteção ao emprego. (N.T.) 46 47</p><p>teção ao emprego; quando tudo mais falhou, desafiaram as diretrizes nas cor- ganhos médios de trabalhadores homens cresceram 192% e 220% para mulhe- tes ou as implementaram de maneira mínima (Ewing, 1993). res; um aumento médio real de 26% para homens e 39% para mulheres (Kessler e Bayliss, 1992: 46-7). Os diferenciais cresceram: por exemplo, entre trabalha- Um mercado de trabalho hostil dores de colarinho branco e os trabalhadores manuais diferencial cresceu de As explicações convencionais sobre crescimento e declínio dos sindica- 93%, em 1979, para 117%, em 1991, assim revertendo o achatamento das déca- tos no Reino Unido enfatizam ciclo dos negócios, as alterações na composi- das anteriores (Waddington e Whitston, 1995: 170). ção da classe trabalhadora, a política de Estado e esforços de organização dos emprego na indústria, onde a densidade sindical era alta, diminuiu em sindicatos. Destacou-se a relação entre salários, preços e emprego (Bain e 2 milhões entre 1981 e 1992, enquanto emprego em serviços, onde a taxa de Elsheikh, 1976). O período de maior crescimento 1968-79 é visto como sindicalização era pequena, aumentou de maneira similar. Entre 1979 e 1987, movido pelo "efeito ameaça" contra os trabalhadores porque os preços aumen- emprego nos dez grupos industriais com maior participação sindical caiu, tavam mais rapidamente que os salários e especificamente porque achatavam enquanto emprego nos quatro grupos onde a densidade era menor cresceu diferencial entre os ganhos dos trabalhadores de colarinho branco e os traba- em 8% (Millward et al., 1992: 107). A parcela feminina da força de trabalho lhadores manuais. crescimento da taxa de sindicalização e do salário, promo- aumentou até atingir O número de trabalhadores de meio período, tem- vidos pelos sindicatos, eram entendidos como uma resposta para uma situação porários ou autônomos aumentou, e número de trabalhadores nas áreas em que desemprego visto como redutor da sindicalização e fortalecedor do administrativas, de profissionais liberais e de escritório também. O número nas poder dos patrões era inferior a 4% (Bain e Price, 1983). A partir de 1979 esta categorias de artesanais e manuais declinou representando um deslocamen- interação positiva foi revertida, enquanto a transferência do apoio do Estado ao to de "áreas de sindicatos fortes" para "áreas de sindicatos fracos". A keynesianismo e seu novo papel hostil como patrão, como modelo educador e burocratização compreendida em grandes unidades de trabalho é geralmen- legislador, minaram a capacidade do sindicato de minimizar impacto deste te vista como favorável para a organização coletiva mas tamanho médio dos novo contexto (Carruth e Disney, 1988). Outros relatos demonstraram a impor- locais de trabalho na década de 1980 de 118 para 102 trabalhadores tância das mudanças na composição e no movimento interno à força de traba- (Millward et al., 1992:16). Mais amplamente, as tendências à globalização e lho, de setores nos quais sindicatos apresentavam grande adesão para setores compromisso da Comunidade Européia de limitar regimes deflacionários as- onde a base sindical era pequena e a organização mais difícil (Green, 1992). sociados a altos níveis de desemprego foram vistos como contrários a qualquer Ainda nos falta compreender melhor declínio dos sindicatos e da pro- mudança no contexto econômico do sindicalismo e de seu reaparecimento. pensão dos trabalhadores a se Por exemplo, vimos que os sin- dicatos cresceram na década de 1970, apesar das mudanças adversas à classe Empresa e trabalho trabalhadora. Mais recentemente, declínio continuou, enquanto desempre- Em termos de um paradigma único, indo do fordismo ao pós-fordismo, go diminuiu. Explicações comuns relacionam de maneira inadequada tendên- tentativas de analisar as mudanças no processo de trabalho, da produção em cias econômicas e industriais às percepções dos trabalhadores e diferentes massa para a especialização flexível, definiram as estratégias de administração políticas dos sindicatos. Sabemos que os trabalhadores entram nos sindicatos baseadas no "modelo japonês" ou em relações industriais pluralistas que se por uma série de razões que vão além de aumentos no salário e que a dispo- transformaram em GRH Gerenciamento de Recursos Humanos. Do conflito sição de grupos privados a entrar nos sindicatos não está dada de modo de- à cooperação, todas exageram as relações industriais existentes no Reino finitivo (Hyman e Price, 1983; Undy et al., 1981). Mesmo assim, é plausível Unido (Ackers et al., 1995:6-17). Em particular, as empresas japonesas que se afirmar que as mudanças no ciclo dos negócios e na força de trabalho tiveram estabeleceram introduzindo novos sistemas de produção e promoveram novas impacto significativo sobre sindicalismo desde 1979. culturas de organização (Oliver e Wilkinson, 1992) com uma Na recessão de 1979-81 o desemprego dobrou para mais de 2 milhões, marginalização dos sindicatos (Garrahan e Stewart, 1992). É questionável o chegando a 3 milhões em 1986, caindo para 2 milhões e crescendo novamen- quanto essas abordagens foram seguidas: grandes pesquisas raramente men- te no início dos anos 90. aumento no desemprego foi repentino cionam técnicas novas (Waddington e Whiston, 1995b). Dados sobre a empre- tivo: de 5% em 1979 alcançou 12% em 1983. Foi mais agudo em áreas de poder sa que usam estratégias de "empresa flexível" são limitados (Pollert, 1991). A sindical, particularmente sobre a indústria, e altos níveis de desemprego se man- afirmação de que "enxugamento da produção" é a base das novas relações tiveram durante duas décadas. É claro que as estatísticas governamentais subes- cooperativas entre empresa e sindicatos (Wickens, 1993) é destruída por estu- timaram a proporção do desemprego (EPI, 1993). Mas, apesar da pressão do go- dos sobre os sistemas de just in time nas fábricas de carro japonesas, que mais verno, os ganhos estiveram à frente dos aumentos de preço ao longo deste pe- lembram uma nova era de escravidão (Delbridge e Turnbull, 1992). A exten- ríodo. O Índice de Preços aumentou em 123% entre 1979 e 1990, enquanto os são da inovação, mesmo em empresas provenientes do exterior, é incerta; 48 49</p><p>mesmo ocorre com a prevalescência de um modelo e de uma resposta por custos e à intensificação do trabalho do que ao fortalecimento do trabalhador parte dos trabalhadores nas empresas japonesas (Stephenson, 1995). A afirma- (Storey, 1995; Sisson, 1994; Keenoy e Anthony, 1992). Apesar das contradições ção de que a empresa britânica tornou-se mais estratégica é questionável: existentes entre os imperativos do mercado e a segurança do emprego, entre que se percebe é uma alteração rumo a uma inovação na qual vige qualidade e flexibilização, entre trabalho em equipe e individualismo, e do en- uma maior hostilidade contra sindicalismo e a negociação coletiva. fraquecimento do trabalhador, ainda há acadêmicos incentivando sindica- No início dos anos 80, a abordagem ácida de figuras públicas como tos a adotarem GRH como um antídoto para as dificuldades atuais (Guest, Michael Edwards da Leyland britânica, Ian McGregor das indústrias de carvão 1994; Bacon e Storey, 1995). Mas, gerências das empresas não parecem estar e aço e Eddy Shah e Rupert Murdoch da indústria gráfica e editorial sugeriu se transformando em "agentes estratégicos" (Kochan et al., 1986). E, de fato, que as empresas aproveitavam as oportunidades criadas pelo thatcherismo há uma crescente consciência de que as estruturas institucionais nas quais elas para marginalizar sindicatos. Estudos mais detalhados concluíram que a em- operam, a cultura do "curto prazo" e a contínua fraqueza da educação empre- presa "linha dura" permanecia como tendência minoritária, enquanto tolerân- sarial militam contra investimento estratégico dos "Recursos Humanos" cia e cooperação com os sindicatos eram comuns (Edwards e Marginson, (Whipp, 1992; Storey e Sisson, 1993; Hutton, 1996). 1988). Os patrões se prontificaram, ou melhor, ameaçaram utilizar a nova le- gislação e descentralizar a negociação; ataque frontal aos sindicatos foi uma impacto da mudança nos sindicatos exceção (Evans, 1985 e 1987; Claydon, 1989). O não-reconhecimento dos sin- impacto foi substancial. A taxa de sindicalização em todos os sindicatos dicatos pelos patrões foi desigual nos anos 80 e limitado a um grupo de áreas de 13,5 milhões em 1979 para 8,2 milhões em 1994. Nos sindicatos afilia- como as dos jornais, da marinha mercante, dos portos e de algumas indústrias dos ao TUC, caiu de 12,2 milhões em 1979 para 6,9 milhões em 1994. Os privatizadas (Smith e Morton, 1993). Nas décadas seguintes, casos de não-re- conhecimento triplicaram, atingindo as áreas das telecomunicações e da indús- ganhos dos anos 1960 e 1970 foram revertidos com uma vingança adicional: existiam 1 milhão de sindicalizados a mais em 1948 do que em 1994. Os sin- tria do petróleo, afetando, assim, quase todo grande sindicato (Gall e McKay, 1994). Os líderes da Federação Britânica de Indústrias (Confederation of British dicatos de hoje organizam apenas um terço da força de trabalho e os sindicatos do TUC menos que isso. O declínio foi diferente para cada sindicato. Os mais Industry), então, faziam eco às declarações do governo de que a negociação coletiva era um anacronismo (Gilbert, 1993). atingidos foram aqueles que recrutavam trabalhadores manuais no setor pri- vado. TGWU (Transport an General Worker's Union) viu sua taxa de O GRH era a única alternativa saudada por todos, cujos modelos assépticos sindicalização cair pela metade, ou seja, de mais de 2 milhões em 1979 para das práticas japonesas e americanas eram vistos como a base para a legitimidade 914 mil em 1994. A UNISON operando no setor público e resultante da fusão, da nova empresa estratégica, enraizada no individualismo e não no coletivismo. nos anos 1990, de três sindicatos fortemente baseados no serviço de saúde e A ênfase retórica foi dada à disposição estratégica de utilizar técnicas tais como nos poderes locais, sofreu menor declínio entre seus 1,3 milhão de membros, os testes de recrutamento, avaliações, "envolvimento do empregado com a em- tornando-se maior sindicato do Reino Os sindicatos do TUC sofre- presa", trabalho em equipe e controle de qualidade, integradas em culturas de ram mais e aqueles não afiliados a ele, como a Escola Real de Enfermaria, au- organização que incluíam todos os níveis da empresa até mesmo a sala dos di- mentaram sua taxa de sindicalização na década de 1980. A face do sindicalis- retores, fortalecendo e envolvendo todos os mo se transfigurava. Sindicato Nacional dos Trabalhadores das Minas tinha Dados mostram uma limitada implementação das regras do GRH. Mais 257 mil membros em 1979, enquanto nos anos 90, com cerca de 8 mil mem- mum, e ainda longe de ser a regra, é a adoção fragmentária de técnicas espe- bros, ele foi superado pelo Sindicato dos Atores (Actors Equity). Hoje cíficas (Millward et al., 1992). O GRH não substituiu as relações industriais sindicalismo britânico é um fenômeno minoritário, ligado ao setor público e plurais (Millward, 1994: 127). Ficou confinado de maneira geral ao campo dos aos trabalhadores de colarinho branco9. estrangeiros que ingressaram e ao grande local de trabalho sindicalizado. É Certamente algo similar havia acontecido antes: entre 1920 e 1933, a taxa menos comum do que a abordagem "Bleak em que a reafirmação da de sindicalização caiu pela metade e a densidade chegou a 22% da força de empresa recusa tanto sindicalismo quanto GRH. As relações industriais permanecem subordinadas à estratégia das empresas em vez de integradas a elas (Sisson, 1994). Estudos retratam que as iniciativas do GRH, implementadas 8 UNISON: fusão do NALGO (National Association of Local Government), de trabalhadores de forma pouco integrada e fragmentária, relacionavam-se mais à redução de de colarinho branco; NUPE (National Union of Public Employees), de trabalhadores do setor público e COHSE (Confederation of Wealth Service Employees), de trabalhadores da saúde. (N.T.) autor utiliza uma imagem de Charles Dickens para se referir à produção em péssimas 9 Os dados referentes à taxa de sindicalização foram retirados do relatório anual do TUC, do Certi- condições de trabalho (sweat-shops). (N.T.) fication Officer (que registros dos sindicatos no exterior) e do Labour Force Survey. 50 51</p><p>trabalho. Após isso houve uma recuperação qualitativa, mas tal restauração pa- reconheciam sindicatos, 23% deles no setor privado (Millward et al., 1992: rece improvável na década de 1990. As condições que estimularam e susten- 70-73). O alcance da negociação coletiva diminuiu significativamente: atingia taram aquela suave recuperação, tais como a expansão do período da guerra 71% dos empregados em 1984 e 54% em 1990; "a queda foi aguda, substan- e pós-guerra e a intervenção do Estado na economia são improváveis hoje. O cial e irreversível" (ibid: 352). Os locais de trabalho com delegados sindicais que há de singular neste contemporâneo é modo como ele vem se diminuíram de 54% em 1984 para 38% em 1990: assim, sindicalismo possuía mantendo por quase duas décadas, mais forte durante as duas recessões, presença ativa somente em uma minoria de locais de trabalho. A organização porém constante em períodos de ascensão econômica. Nos anos de expansão destes esteve de maneira geral mais vulnerável e geralmente marginalizada: 1988 e 1989 - a taxa de adesão aos sindicatos do TUC em 5% e 2,7%, menos questões foram apresentadas às comissões em 1990 do que em 1980 respectivamente, antes de declinar mais fortemente, quando a economia en- (ibid: 353; Terry, 1995). A presença e a militância diminuídas dos sindicatos trou em recessão, em 5% em 1991 e 6% em 1992. Mais uma vez, a economia podem ter tornado a adesão menos atraente a membros potenciais. sai da recessão, mas O declínio continua: a sindicalização caiu em 5% em 1994. Entre 1990 e 1993, O número de associados menores de 25 anos caiu em 40% O estereótipo de greves longas e geralmente derrotadas se transformou no estereótipo da "morte da greve". O impacto da derrota de grupos como dos e número de associados menores de 20 anos em Tem-se a impressão mineiros em 1985, dos trabalhadores gráficos em 1983-84 e 1986-87 e dos por- de que sindicalismo se dissolve, que declínio já assumiu uma dinâmica tuários em 1989 sobre a psique da classe trabalhadora foi potente, de efeito du- própria e que a taxa de sindicalização está em queda livre. radouro e mesmo desmoralizador. Houve em média apenas 893 greves por ano Explicando este alguns sugeriram como seu fator mais significa- entre 1986 e 1989, quantidade esta bastante reduzida se comparada com a média tivo tal impacto da legislação no início dos anos 80 (Freeman e Pelletier, 1990). anual de 2.412 na segunda metade dos anos 1970 e 1.276 na primeira metade Esta idéia desconsidera que tal impacto não é instantâneo; que um declínio dos anos 1980. O número de greves para 369 em 1991, 253 em 1992, 211 substancial precedeu a legislação, que O declínio coincide com crescimen- em 1993 e 205 em 1994, menor número computado desde que registros to da legislação e que as pesquisas sugerem que impacto da mudança legis- meçaram a ser feitos em 1891. De maneira similar, dias perdidos em paralisações lativa sobre a sindicalização esteve subordinado a alterações na composição declinaram de 11 milhões em média anual em 1974-79 para 6 milhões durante da força de trabalho (Millward e Stevens, 1986: 306). O impacto da legislação 1980-85 e 3 milhões entre 1986-89. Assim, os números chegaram a 520 mil em conservadora, assim, seria secundário, atuando combinado com outros fatores 1992, 649 mil em 1993 e 280 mil em 1994, novamente O número mais baixo em (e não de maneira autônoma) para impossibilitar a reação dos sindicatos a in- mais de um século (McIlroy, 1995; 120-1: Employment Gazette, Jul. 1995). fluências externas. Do mesmo modo, as novas políticas dos empregadores A força do é demonstrada pelo sucesso da legislação sobre quanto ao reconhecimento sindical se desenvolveram lentamente e seguiram declínio em vez de causá-lo (Millward et al., 1992: 74). emprego. Entre 1969 e 1974, sindicatos obtiveram sucesso ao desmobilizar duas tentativas de introduzir a legislação restritiva. Nos anos 80, fracasso O declínio é melhor explicado pelo conjunto de tendências apresentado do TUC, ao orquestrar um projeto de oposição, evidenciou crescente en- anteriormente: O alto desemprego em áreas importantes para os sindicatos fraquecimento do sindicalismo, sobrecarregando movimento com um qua- combinado com um aumento real nos salários no início dos anos 80, isso no dro legal restritivo que, de maneira dramática e onerosa, desbancou O velho contexto de um Estado hostil que acelerou esses acontecimentos; essas seriam voluntarismo de um século. Encrustradas num contexto político e econômico as maiores influências sobre O declínio na primeira parte deste período (Kelly, em mudança, novas leis passaram a controlar sindicalismo, aumentando a 1989). Ora, os aumentos na taxa de emprego ocorreram em áreas nas quais insegurança no emprego, introduzindo um elemento forte de cautela e cál- recrutamento emperrava nas dificuldades enfrentadas por sindicatos desprepa- culo em decisões referentes à ação industrial e limitando a democracia sin- rados para a nova situação: com poucos recursos, dirigidos sem imaginação, dical (McIlroy, 1991; Martin et al., 1995). com pequena tradição de militância ativa, eles não estavam capacitados a re- Seria incorreto minimizar fato de que a diferença e a divisão sempre exis- verter uma lenta espiral descendente antes que a recessão do início dos anos tiram, e que a unidade foi sempre uma frágil conquista. Não obstante, a última 1990 causasse uma deterioração ainda maior 1995: 400-408). década presenciou tendências à desagregação e perda de coesão do movimento Um outro fator que explica declínio contínuo pode ser a mudança operário. Os limites da capacidade do TUC de atuar como um centro coordena- verificada no local de trabalho. A pesquisa mais confiável revelou que, entre dor nos anos 60 e 70 não deveria nos levar a minimizar um consenso fragmen- 1984 e 1990, a proporção de locais de trabalho que reconheciam os sindica- tado e diminuído ou a subestimar declínio do papel do TUC como fizeram tos de 66% para 53%, com direitos de negociação "desaparecendo pela alguns (ver, por exemplo, Whitson e Waddington, 1995a). A exclusão do TUC falta de apoio dos trabalhadores". Apenas 30% dos novos estabelecimentos dos negócios do Estado, a erosão de seu papel regulador entre sindicatos, sua 52 53</p><p>incapacidade de encontrar um novo espaço como coordenador do recrutamento política adicional quando o Partido Trabalhista, derrotado em quatro eleições sindical e sua redesignação como um grupo de pressão convencional, em vez gerais, aceitou muitas das regras do thatcherismo e tem cada vez mais encara- de um representante de classe, mostram a verdadeira mudança ocorrida. Se do sindicatos como uma obrigação em termos eleitorais, de opinião pública TUC permanece inquestionavelmente como centro dos sindicatos, sua repre- e de política para um futuro governo. sentação se dá com base em um eleitorado menor do que em 1979, assim como Depois da derrota na eleição de 1979, Partido Trabalhista adotou políticas seu discurso é menos ambicioso e de autoridade menor. Se, nos anos 70, sua mais radicais de ampla intervenção do Estado na economia, protecionismo e influência no Estado foi exagerada, ela era maior do que passou a ser em 1979, hostilidade em relação à Comunidade Européia. Isso gerou oposição por parte e maior em todos os aspectos do que seria com um futuro governo do Partido da direita, um racha na liderança que formou O Partido Social-Democrata e uma Trabalhista. O TUC hoje, de acordo com sua estatura menor, procura parceria imagem de desunião contribuiu para a desastrosa derrota nas eleições de 1983. com a Federação Britânica de Indústria (CBI) e não com Estado. Ele prefere A nova liderança de Neil Kinnock começou a se distanciar da esquerda e dos "fazer lobby" com líderes do Partido Trabalhista do que, como antes, de fato sindicatos. Comitê Conjunto TUC-Partido Trabalhista foi abandonado e come- participar de suas políticas. çou um processo de acomodação à mudança conservadora. Entre 1979 e 1987, Não surpreende que neste contexto trabalhadores não tenham achado OS sindicatos ainda viam a volta do governo trabalhista como restauradora de sindicatos atraentes ou tenham dado a eles crédito sobre aumento real dos sua legitimidade, lhes dando um papel político rumo ao pleno emprego e con- salários. O único consolo para os sindicatos está no fato de que declínio apa- trária à essência da legislação do trabalho. rece enraizado em fatores externos e em respostas inadequadas para eles. São A terceira derrota eleitoral do Partido Trabalhista funcionou como poucos dados sobre a transformação dos valores dos trabalhadores e a subs- catalisadora: a expropriação política do sindicalismo do Partido Trabalhista co- tituição do coletivo pelo individual (Gallie, 1989; Kelly e Kelly, 1991). Associa- meçara. O papel formal dos sindicatos na seleção de candidatos ao Parlamen- dos e membros em potencial dos sindicatos não rejeitaram atitudes do tipo "eles to e a líder do partido, e de atuação no processo decisório- foi reduzido. A de- e nós", nem mudaram suas opiniões quanto à vantagem da organização coletiva mocracia militante foi substituída pelo voto individualizado por correio. O (Whitson e Waddington, 1992). A cultura da empresa e valores do thatcheris- keynesianismo e compromisso com pleno emprego foram desvalorizados. mo tiveram penetração menor do que geralmente se pensa. Não ocorreu, além Houve uma conversão para as virtudes do mercado e da Comunidade Européia. disso, nenhuma transformação geral nas instituições e práticas das relações in- Os sindicatos foram informados de que não receberiam favores sob um governo dustriais (Millward, 1994). A prerrogativa da empresa foi aumentada, as comis- do partido trabalhista e compromisso de reverter as privatizações e a legisla- sões diminuídas. As estruturas pluralistas foram despedaçadas e ultrapassadas. ção trabalhista dos conservadores desapareceu progressivamente da agenda do Mas a transformação foi promovida mais por mudanças no poder do que pelo desabrochar de uma nova legitimidade da empresa sobre corações e mentes.dos partido. Nos anos 90, caminho para rejuvenescimento do sindicalismo por trabalhadores. A busca de uma empresa integrada se mostra tão ilusória para meio do apoio do Estado estaria cheio de obstáculos. praticantes do GRH hoje quanto foi para Elton Os limites do alcance ideológico e domínio de muitas das condições ne- A resposta do movimento operário cessárias para a organização dos sindicatos - as disparidades crescentes entre Muitos afirmaram que a análise da situação a partir de 1979 não conside- riqueza e salário, a intensificação e a reestruturação do trabalho, a insegurança, rou a resposta dos próprios sindicatos e que processo de estabelecimento de trabalho temporário e a "desregulamentação" - dão lugar ao otimismo. Em uma nova pauta e de incentivo à coesão "apenas começara" (Waddington e si mesmos estes fatores são insuficientes: sindicatos tendem a continuar a en- Whitston, 1995a: 151). Na verdade, sindicalistas têm, desde início dos anos frentar um ambiente econômico hostil e um mercado de trabalho desfavorável. 80, lutado para superar suas dificuldades e estabelecer novas pautas. O que Essas mudanças não podem ser revertidas, mas a hostilidade do Estado pode. está em questão não é a atuação humana mas sua qualidade, sua habilidade Criar um ambiente político de maior apoio possibilitaria aos sindicatos partici- em controlar com sucesso as mudanças econômica e política. A partir de 1980, parem de maneira mais efetiva dessas mudanças. Mas a dimensão do recuo do por exemplo, TUC montou um programa de oposição à legislação trabalhis- movimento operário na Inglaterra está representado pela mudança política ta, baseada no boicote a aspectos das novas leis e na ação solidária de apoio contrária às aspirações dos sindicatos. Os sindicatos sofreram uma exclusão a sindicatos penalizados que culminou nas medidas adotadas em 1982 na conferência de Wembley. A oposição do TUC, confiante na volta do governo 10 Sociólogo americano que desenvolveu a idéia de que na fábrica interesses do empregado trabalhista, despedaçou-se depois da eleição de 1983. Apesar dos erros de e do empregador são coincidentes, mas conturbados por agitadores. (N.T.) coordenação, as entidades sindicais desafiaram a legislação em disputas-chave 54 55</p><p>entre 1983 e 1987; enquanto isso, TUC tentava sem sucesso estabelecer uma dissociada do processo decisório. Um secretário geral saudou um futuro em aproximação com os conservadores por meio de uma postura mais acomoda- que "os associados não vão aos encontros nos sindicatos mas apenas carregam da chamada de "novo realismo". um cartão eletrônico com toda a informação de que precisam para saber tudo insucesso e custo a que foram submetidas as entidades sindicais por que tenha a ver com sua profissão, com acesso também a uma Linha Dire- desafiarem os cortes e as pressões de dentro do TUC para abandonar a polí- ta" (Leadbeater, 1996: 6). tica do boicote, foram combinados a pressões do Partido Trabalhista para ga- As estratégias de recrutamento em resposta às perdas na sindicalização rantir que depois da eleição de 1987 confronto se transformasse em aquies- também foram conduzidas a partir do alto. Uma delas foi a tentativa de tornar cência. Não obstante houve histórias de sucesso, como a capacidade dos sin- sindicatos mais atraentes para grupos particulares, tendo trabalhadores dicatos de vencer votações sobre a manutenção dos fundos políticos. O desa- negros e mulheres como alvos. Menos de um terço das trabalhadoras pertence fio à legislação por grupos, como dos marinheiros, continuou até fim da a sindicatos, nos quais são sub-representadas. Nenhum dentre dez maiores década e os sindicalistas puderam, de várias maneiras, usar alguns pontos da sindicatos tem representação nos comitês de liderança proporcional à legislação em seu próprio benefício 1991; Martin et al., 1995). sindicalização feminina, e no maior e nesta área sindicato mais progres- Os sindicatos buscaram minimizar as novas pressões com uma série de sista UNISON, apenas 20% dos funcionários em tempo integral é com- respostas. Eles procuraram por meio de fusões tornar a organização mais posto de mulheres se comparado aos 68% dos associados. Desde final dos ágil, a fim de garantir a posição financeira dos sindicatos, os serviços a seus anos 80, vários sindicatos seguiram UNISON e Sindicato dos Trabalhadores membros e possibilitar que novas organizações estendessem sua influência Gerais e Municipais, reservando lugares para mulheres nos comitês executivos, aumentando assim a "competência da organização sindical" (TUC, 1993). Em visavam uma representação proporcional em todos os aspectos do processo 1994, as fusões haviam reduzido os 112 sindicatos afiliados ao TUC em 1979 decisório (Labour Research, 1994). para 69 sindicatos. O aumento das fusões foi estimulado pela queda no ní- Assim como no caso das trabalhadoras, há concentrações de trabalhado- vel de sindicalização e por problemas financeiros, mas também por conside- res negros em áreas de emprego não-regulamentado, mal remunerado, em rações relativas à política, à organização e à competição. As maiores fusões, tempo parcial ou temporário. Dentre os maiores sindicatos apenas UNISON como as ocorridas entre os sindicatos dos Engenheiros e Eletricistas em 1992 estabeleceu formalmente a representação de trabalhadores negros em corpos e entre NALGO, NUPE e COHSE em 1993 animaram mais debates sobre fu- decisórios principais, e apenas 16 afiliados ao TUC compuseram quadros com sões entre grandes sindicatos tais como os dos Trabalhadores do Transpor- algum nível. Por volta de 60% dos sindicatos não possuem funcionários ne- te e do Trabalhadores Gerais e Municipais. gros. Nos anos 80, TUC estabeleceu um Congresso de Trabalhadores Negros A fim de facilitar processo das fusões, tal tendência vem sendo acompa- e, em 1994, reservou para eles três lugares em seu Conselho Geral. Um rela- nhada por uma reorganização financeira e por uma maior centralização do tório recente da Comissão pela Igualdade Racial revelou pouca evidência de processo decisório; isso ocorre apesar da descentralização da negociação que os sindicatos estejam dando prioridade a questões importantes para seus coletiva e do estímulo à representação por diferentes grupos ocupacionais. associados negros, e a preocupação com a discriminação foi geralmente mais Uma dependência da renda advinda da taxa de adesão e da redução da com- retórica que real (CRE, 1993). Estudos sobre as tentativas dos sindicatos dos petição entre os sindicatos estava na origem da má situação financeira de mui- Trabalhadores do Transporte e dos Trabalhadores Gerais e Municipais em tos deles. Mas, nos anos 80, a situação melhorou quando a contribuição sin- organizar e representar trabalhadores negros demonstram contínuo desca- dical foi atrelada aos salários, assim como foram introduzidos programas de re- de funcionários em tempo integral, de modo que sindicatos são ainda ge- dução de custos. A administração financeira tornou-se mais eficiente e despo- ralmente vistos como "organizações de brancos" (Wrench e Virdee, 1995). litizada. A autonomia das filiais dos sindicatos em distritos e regiões foi limi- Os sindicatos montaram campanhas públicas em escolas, estabeleceram um tada e eles se tornaram mais dependentes do núcleo central (Willman et al., escritório para jovens associados e publicaram um manifesto do TUC para tra- 1993). As fusões e a resposta à legislação também estimularam a centralização. balhadores jovens. Apesar disso, há evidências contrárias reveladas por uma Devido às falhas dos sindicatos em cumprir exigências legislativas, proces- pesquisa do TUC que relatou que apenas 7% dos jovens trabalhadores entre 16 SO decisório antes e durante as greves ficou sob controle da liderança nacio- e 24 anos pertenciam ao sindicato e que apenas 36% afirmaram que se sindica- nal, que fortaleceu a burocratização e a "autocracia popular dos sindicatos" lizariam se convidados. Mais de 40% disseram que não nada sabiam sobre sin- (Martin et al., 1995). declínio da democracia está relacionado à redefinição dicatos e outros 40% que sabiam muito pouco (Financial Times, 30 Ago. 1996). dos sindicatos como organizações assistenciais dirigidas por administradores Apesar de destinar recursos para associados desempregados, sindicatos não profissionais. A militância leiga hoje é menos privilegiada e cada vez mais tiveram sucesso em mantê-los como membros. Eles procuraram compensar esta 56 57</p><p>evasão de associados criando campanhas públicas de recrutamento idealizadas Em 1996, houve sinais de uma abordagem mais séria baseada na designa- por especialistas e dirigidas a trabalhadores temporários e mal remunerados. De ção local dos diretores do sindicato. O TUC estabeleceu um projeto, designado 1986 em diante Sindicato dos Trabalhadores em Geral e do Transporte orga- "Novo Sindicalismo", com uma escola para treinar os funcionários da organi- nizou iniciativas de recrutamento sucessivas como Link-Up (Una-se) e TGWU zação. Sindicato dos Trabalhadores do Transporte decidiu designar dez Forward (avante TGWU); Sindicato de Trabalhadores Municipais e Gerais organizadores de recrutamento para cada uma de suas 8 regiões, Sindicato promoveu a campanha Flare (Chama) e a Campanha por Leis Justas e Direitos dos Trabalhadores Gerais e Municipais anunciou que iria gastar 1,5 milhão de no Trabalho. Estas iniciativas tiveram algum sucesso: entre 1986-9, Sindicato libras com os recrutadores nos próximos dois anos e UNISON apresentou dos Trabalhadores em Geral e do Transporte recrutou por volta de 250 mil tra- um programa similar para recrutamento como parte das atividades do sindica- balhadores por ano. Mas a taxa de sindicalização continuou a cair e a perda de to. Se a promessa dessas iniciativas vai se concretizar, isso permanece uma membros excedeur recrutamento. questão em aberto. O debate no TUC sobre as iniciativas imaginativas da AFL- Houve problemas em áreas de profissões em expansão e de pouca tradi- CIO e dramático crescimento do Novo Sindicalismo nos anos 1880 dedicou ção sindical. Os funcionários em tempo integral dedicaram pouco tempo à am- pouca atenção ao declínio dos sindicatos americanos durante meio século e ao pliação da sindicalização nestas áreas de modo que a disputa pela adesão em valor restrito das comparações com século XIX. território já familiar lutou apenas para aumentar sua parcela em um mercado O insucesso deve estar relacionado ao conteúdo das iniciativas. A par- decadente (Kelly e Heery, 1989). Os sindicatos estavam organizados para tir do final da década de 1980, TUC passou a declarar (e muitos sindicatos crescimento passivo no período de 1945-1979, quando membros tendiam decidiram aceitar) que coletivismo seria substituído pelo individualismo e a procurá-los ou eram recrutados por representantes leigos. Merece investiga- produtivismo pelo consumismo, e que um modo de atrair novos membros ção quanto recrutamento ativo das máquinas sindicais funcionou em con- seria fornecer serviços financeiros e de aconselhamento na forma individual. dições adversas. Na primeira metade dos anos 80 houve recrutamento em Os sindicatos conseguiriam novos associados lhes oferecendo cartões de cré- apenas 15% dos locais de trabalho. Grupos importantes permaneceram não- dito, ajuda legal e financeira, seguros a preço menor e esquemas de descon- organizados, talvez porque ninguém tenha procurado organizá-los (Millward tos. Acadêmicos e outros estudiosos continuaram a argumentar que os sin- e Stevens, 1986: 70; Beaumont e Harris, 1990). Em 1986, apenas 23 sindicatos dicatos deveriam dar peso igual ou mesmo maior a esses serviços e não à ne- tinham responsáveis por recrutamento, que era geralmente entendido como gociação coletiva nos anos 90 (Basset e Cave, 1993: Willman et al., 1993). uma função de coordenação nacional e não como uma prática dos sindicatos Mas estava claro que os filiados em potencial priorizavam a proteção ao em nível local por meio da indicação de um grupo de funcionários. trabalho, melhores salários e condições de trabalho. Os serviços financeiros No final da década, parecia claro que a resposta dos sindicatos tinha sido podem ter sido uma adição útil às funções tradicionais dos sindicatos, mas mecânica e ad doc em vez de orgânica e hábil. A contínua inadequação da não poderiam Pesquisas recentes mostram que 72% dos traba- ação de recrutamento sindical nos anos 90 foi ressaltada por estudos que mos- lhadores foram ao sindicato com problemas no trabalho, e 36% para melho- travam que 30% dos trabalhadores ainda se aproximavam dos sindicatos por rar seu salário e suas condições. Independentemente de suas profissões, ape- iniciativa própria. Apenas 3% eram inscritos por funcionários em tempo inte- nas 4% deram como razão os benefícios e 3,5% mencionou os serviços finan- gral enquanto os restantes 30% haviam sido recrutados por representantes no ceiros oferecidos pelos sindicatos (Whitston e Waddingtom, 1992; local de trabalho (Waddington, 1996). No início dos anos 90, Sindicato dos Waddingtom, 1996). Trabalhadores em Geral e do Transporte foi aconselhado a dedicar 5% de sua A abordagem individual geralmente caminhou lado a lado com a opinião renda anual para recrutamento (naquele momento dedicava menos de 1%). de que a melhor chance dos sindicatos para reverter seu declínio seria supe- Mas, entre 1990 e 1992, eles reduziram sua força de funcionários em tempo in- patrões na iniciativa de oferecer seus serviços como parceiros da empre- tegral de maneira significativa, um processo que acontecia também numa série sa. Este tema foi corrente nos anos 80, focalizando inicialmente "simples acor- de outros grandes sindicatos. Com a pressão sobre os recursos financeiros e dos sindicais" em que os sindicatos competiam uns contra os outros para con- sobre os funcionários em tempo integral, parecia aos membros que recru- vencer aos empregadores que eram os melhores e mais eficientes para repre- tamento era objeto de uma retórica bem-intencionada de relações públicas e sentar a força de trabalho. A competição incluía restrições à ação industrial e de um envolvimento forte mas episódico, contrária à preocupação cotidiana a cooperação com novas iniciativas administrativas em troca de direitos de or- dos funcionários do sindicato e de seus militantes. Tentativas similares feitas ganização, um status único para todos os empregados e "envolvimento do pelo TUC para coordenar recrutamento tiveram sucesso limitado (McIlroy, empregado" (Bassett, 1986). Isso ressurgiu no início dos anos 90, com TUC 1995: 406-7). e os acadêmicos dizendo que a salvação dos sindicatos estava na adoção do 58 59</p><p>GRH. Inicialmente, a sua resposta ao GRH foi mista: sindicatos como o dos En- gócios", as empresas começaram a endurecer sua atitude quanto ao sindica- genheiros e Eletricistas enfatizaram os benefícios de uma colaboração mais ex- lismo. Os dados mencionados anteriormente demonstram a crescente hostili- plícita e íntima com a empresa a partir da metade dos anos 80. TUC e sin- dade ao sindicalismo demonstrada pelos patrões nos anos 90. Eles não vêem dicatos como dos Trabalhadores Gerais e Municipais apontaram as vantagens os sindicatos como importantes para aumentar sua vantagem competitiva e do envolvimento com GRH em questões como treinamento, "envolvimento atual equilíbrio de poder demonstra a falta de recursos dos sindicatos para do empregado" e estabilidade de emprego para ampliar a agenda de negocia- convencê-los do contrário (Dunn, 1993). Há poucos dados da vontade ção. Sindicato dos Trabalhadores em Geral e do Transporte fez inicialmente das empresas de envolver os sindicatos nas iniciativas do GRH: a forte tendên- forte oposição às novas técnicas (Martinez Lucio e Weston, 1992). cia é utilizar e não sindicalismo como alternativa. "mau GRH" Na metade dos anos 90, TUC clamava por apoio ativo à parceria sindica- do TUC é grande parte do GRH disponível (Legge, 1995). A crença do TUC na tos-empresa, baseada no GRH. Grande parte do GRH existente era caracterizada neutralidade e na maleabilidade das filosofias e técnicas do GRH subestima como "mau GRH", aquele que implicava demissões, trabalho temporário, inten- contexto econômico, as condições de mercado e os métodos de produção em sificação do trabalho e uma prerrogativa da empresa mais forte. Os alquimistas que estão incluídos. Pelo contrário, ela se dirige a um GRH abstrato e ideali- dos sindicatos podiam, por meio da participação, transformá-lo em um "GRH zado que se dá apenas num pequeno número de empresas, ligado a condições verdadeiro", um sistema "voltado para as pessoas", representando desenvolvi- de mercado favoráveis e por vezes temporárias (Blyton e Turnbull, 1992). A mento de capacidades, estabilidade de emprego, maior autonomia e oportuni- certeza do TUC de que treinamento, a saúde, a segurança e a estabilidade dades iguais em um local de trabalho mais civilizado (TUC, 1994). Os líderes do de emprego são temas de interesse comum é uma certeza simplista e evasiva: Sindicato dos Engenheiros e Eletricistas elogiaram as vantagens do "enxu- cada um destes temas pode ser campo para um importante conflito entre gamento da produção", Sindicato dos Trabalhadores Gerais e Municipais afir- capital e trabalho (Kelly, 1995: 97-8). Fundamentalmente, tais abordagens mou que afastamento da empresa do humanismo desenvolvimentista próprio podem comprometer a independência do sindicalismo. Se os sindicatos se ao "verdadeiro GRH" poderia ser revertido se os sindicatos falassem a língua do transformam em parceiros mirins do gerenciamento da força de trabalho, de GRH, e Sindicato dos Trabalhadores em Geral e do Transporte moderou sua acordo com a lógica da eficiência das empresas, a sindicalização, a lealdade atitude belicosa. No contexto de uma crescente descentralização da negociação, e a capacidade de mobilização dos sindicatos ficam prejudicadas. Pode se abismo entre a retórica grandiosa e a realidade confusa e prática dos delega- tornar cada vez mais obscuro que sindicato tem a oferecer à empresa ou dos sindicais de base de diferentes sindicatos no local de trabalho diferia fun- a seus associados - testemunha disso é o baixo grau de sindicalização na damentalmente (Ackers et al., 1995: 26-7). Nissan (Garrahan e Stewart, 1992). deslocamento rumo a uma agenda de parceria social foi representado O declínio em direção a um sindicalismo de resultados pode ser impedi- pelo fato de diretor geral do CBI dirigir-se ao TUC pela primeira vez em 1995 do por um apoio político dado a ele. Com certeza, papel do Estado perma- e John Monks, secretário geral do TUC, responder no ano seguinte. tema era nece vital para qualquer recuperação do sindicato. Mas quando os patrões to- o apoio entusiástico às políticas de mercado da Comunidade Européia e a maram distância dos sindicatos nos anos 90, Partido Trabalhista fez mes- maior integração econômica da União Européia. Líderes do TUC buscavam mo. Os últimos anos viram a intensificação da mudança programática e cons- uma ala democrata-crista do Partido Conservador com a qual pudessem nego- titucional, antagônica ao sindicalismo forte. Além disso, foi sem precedentes ciar, mas foi em vão. Porém, Monks insistiu que a única possibilidade para a aceitação da mudança por parte dos líderes sindicais que se viu em 1990. sindicatos era aquela apresentada por Michael Albert entre "capitalismo do Tradicionalmente, eles haviam restringido uso dos votos do sindicato para Reno" e "capitalismo anglo-saxão" - e ele não hesitou em apoiar primeiro determinar a política fora da esfera industrial. Na corrida eleitoral de 1992, eles (Webb, 1995). Um governo do Partido Trabalhista era visto como promotor de concederam um novo poder à liderança de Kinnock de determinar a política uma visão social do mercado e fornecedor, para os sindicatos, dos frutos da nas relações industriais e voltaram atrás em promessas passadas de revogar a legislação da Comunidade Européia, como a legitimidade que esta daria aos legislação conservadora (Minkin, 1991: 624). Uma parceria entre patrões e sindicatos no local de trabalho era vis- Depois de um breve intervalo da liderança de John Smith, que trouxe ta como central para a abordagem social do mercado que seria auxiliada por uma redução do poder de voto dos sindicatos no Partido Trabalhista, Tony uma reafirmação dos sindicatos sob um governo trabalhista (McIlroy, 1995: Blair começou, a partir de 1994, a remodelação em um Novo Trabalhismo 317-342). (New Labour). A Cláusula Quatro da constituição partidária que garantia a Hoje, mal a estratégia se estabelece, suas bases começam a se desfazer. Ao "propriedade coletiva dos meios de produção" foi substituída por uma afirma- mesmo tempo em que TUC afirmava que "sindicatos são bons para ne- tiva que enfatizava "o funcionamento do mercado e rigor da competição". 60 61</p><p>O processo de concentração de poder nas altas esferas do partido continuou anteriores de revogar "contratos de hora zero" (zero hours contracts) e fal- com uma mudança na elaboração de políticas do Congresso Anual e na Exe- SO emprego autônomo, ou de dar a todos os trabalhadores proteção contra cutiva Nacional para um Fórum Nacional de Políticas consultivo, um código demissão injusta. Novo Trabalhismo está de acordo com grande parte da mais severo de disciplina para os parlamentares e um controle mais centra- política dos conservadores. Como disseram os conselheiros de Blair, "as rela- lizado quanto à aceitação e seleção de candidatos ao Parlamento. O sistema ções industriais inglesas mudaram para melhor, e a estrutura legal básica que pelo qual os sindicatos apoiavam os parlamentares foi reformado. Vital para conservadores estabeleceram vai permanecer" (Mandelson e Liddle, 1996: a construção do Novo Trabalhismo foi a extensão da democracia plebiscitária 12-13). Enquanto os líderes sindicais evitavam confronto, TUC, em 1995, da eleição de representantes para a conformação de políticas. Ela atingiu seu votou pela revogação de toda a legislação conservadora e encontro de 1996, auge quando Blair apresentou programa Road to the Manifesto para os contrariando a vontade do Novo Trabalhismo, votou a favor de um salário membros dizerem "sim" ou "não" em um voto postal para evitar um debate mínimo de 4 libras e 26 pences por hora. As tensões aumentaram quando foi "divisório". Apesar da intolerância com a dissensão e da abertura aos liberais- anunciado que Partido poderia recomendar uma ampliação dos aspectos da democratas, controle do partido feito por Blair era político: com uma eleição legislação conservadora, por exemplo, exigindo mais votações compulsórias pendente, a oposição foi limitada e recrutamento cresceu, passando da em longas disputas industriais (Financial Times, 10, 12 set. 1996). marca dos 400 mil em 1996. A maioria dos membros do Parlamento do Novo A política dos modernizadores do Partido Trabalhista visa assegurar apoio Trabalhismo que esperava retorno na próxima eleição se pronunciara como de empresários contrários ao sindicalismo e atrair apoio conservador de tal "blairitas" (Financial Times, 3 Jan., 1997). modo que é improvável que ocorra alguma mudança substancial. A retórica Dizia-se que Blair tinha uma "aversão visceral em relação aos sindicalistas radical do Novo Trabalhismo utilizava uma visão de mercado regulada pelo e uma declarada hostilidade em relação aos líderes de sindicato que nenhum modelo alemão de um Estado assistencialista e de uma coesão social pela par- cálculo eleitoral pode explicar" (Observer, 28 Jul. 1996). Novo Trabalhismo ceria entre capital e trabalho, sindicatos fortes, maior igualdade num Estado reafirmou a importância das empresas na política, procurando conseguir seu modernizado e reformas no sistema financeiro que cortassem desastroso apoio financeiro enquanto considerava como dados os votos dos eleitores dos "imediatismo" e a especulação do capitalismo laissez-faire (Miliband, 1994; sindicatos e da classe trabalhadora. As afirmações do porta-voz Stephen Byers, Hutton, 1995). Mais recentemente houve um recuo do "capitalismo investidor", de que se governo trabalhista enfrentasse greves ele convidaria todos os dando-se ênfase à importância do controle da inflação e dos gastos públicos, membros individuais a votarem para quebrar todos os elos com sindicatos, assim como dos baixos impostos. A intervenção do Estado e pacto social fo- estremeceram as relações e alimentaram O debate sobre um governo Blair que ram desprezados. A fraqueza do Estado nacional numa economia global foi estaria superando sua dependência financeira em relação aos sindicatos ao in- justificada. De maneira explícita, os líderes do Partido Trabalhista se distancia- troduzir O financiamento do Estado para partidos políticos (Financial Times, ram dos expoentes radicais da economia investidora como David Marquand e 12 Set. 1996). Will Hutton (Thompson, 1996). Quando líderes sindicais, como John Monks, su- Em 1996, compromissos com um novo quadro legislativo foram abando- geriram que OS sindicatos deveriam ter um papel vigoroso, foram violentamente nados e substituídos por afirmações inequívocas de Blair, cuja direção era clara: rejeitados. A sugestão de John Edmonds, líder do Sindicato dos Trabalhadores Não estamos voltando para velhas Digo agora que não haverá revogação Gerais e Municipais, de que governo trabalhista deveria estabelecer um "fórum de todas as leis sindicais dos Tory. Isso não é que país ou seus membros que- por um pacto social nacional" com patrões e sindicatos discutindo a Carta So- rem. As votações sobre as greves vieram para ficar. Nada de piquetes. Todos os cial, baixo salário e treinamento, foi "cortada" e "rejeitada na hora" por "que- fantasmas do passado foram exorcizados. Deixem-nos onde estão. (Financial Ti- rer fazer relógio andar para trás" (The Guardian, 2 jan. 1997). mes, 13 set. 1995). O que se oferece é um "thatcherismo com face humana": a promessa de O pronunciamento recente mais completo sobre a política do Partido Tra- que um governo Blair iria administrar a economia do laissez-faire de manei- balhista contém apenas três compromissos: um governo trabalhista assinaria ra mais civilizada e competente do que fizeram os conservadores. O Novo a Carta Social da Europa, asseguraria a todos os trabalhadores direito de as- Trabalhismo se distingue da democracia de direita anterior na Inglaterra por sociação a um sindicato e de tê-lo reconhecido se houver apoio da maioria, e diminuir a intervenção do Estado, por sua falta de compromisso com introduziria salário mínimo de forma não específica após um debate com os patrões e os sindicatos (Labour Party, 1996a). Isso deixaria a posição legal 11 Tony Blair questionou desenvolvimento histórico do movimento operário no século XX quanto à ação de greves e a regulamentação das questões internas dos sindi- lamentando a "divisão da política radical, no final do século passado e início deste, entre catos da forma como estão hoje, não havendo menção de compromissos Partido Trabalhista e Partido Liberal" (The Observer, 24 set. 1996). 62 63</p><p>igualitarismo, com a redistribuição de renda e com interesse social, por pri- De modo mais otimista, os sindicatos ainda organizam um terço da força vilegiar individualismo sobre coletivismo e por sua falta de respeito pelo de trabalho, os patrões não transformaram O local de trabalho e geralmente de- (e falta de raízes no) movimento Está claro que Blair deseja criar um pendem da cooperação dos sindicatos. governo trabalhista ainda apresenta partido independente dos sindicatos e dissolver fragilizado movimento ope- oportunidades. O desemprego já está em queda. John Edmonds, promotor do rário. O Novo Trabalhismo declara: "Houve uma reconstrução fundamental do Full Employment Forum (fórum pelo Pleno Emprego) acredita que, armado Partido - sua ideologia, sua organização e sua política" (Labour Party, 1996b). com os direitos de reconhecimento, os sindicatos rapidamente ganhariam Na verdade, a transição está incompleta: os sindicatos ainda possuem 50% dos novos 2,5 milhões de membros. Eles serão sem dúvida fortalecidos pelo apoio votos na convenção do partido e ainda lhe fornece 54% dos fundos. Em 1995, do Novo Trabalhismo à Carta Social, aos comitês de trabalho e à diretriz pela 26 sindicatos trouxeram uma adesão de 3,5 milhões ao Partido Trabalhista e semana de trabalho de 48 horas. Existirão novas possibilidades para regene- geraram uma renda de 6,6 milhões de libras de arrecadação política, a maio- rar a organização no local de trabalho, de reconstruir verdadeiros elos entre as ria passada para Fundo Nacional dos Sindicatos do Partido Trabalhista. Ao profissões através da Europa e encorajar a ação para assegurar um novo qua- priorizar uma volta do governo trabalhista, os sindicalistas concordaram com dro de direitos sindicais. esta nova ordem. A opinião de que o sindicato vai se reafirmar quando Os sindicatos mais fortes estarão mais confiantes e serão mais afirmati- trabalhismo estiver no poder traz problemas - sacrifício para manter um vos. Há potencial para conflito no compromisso do Novo Trabalhismo com governo trabalhista pode provar ser um slogan tão poderoso quanto O sacri- os critérios deflacionários do Tratado de Maastricht e com os baixos impostos fício para instalar a administração de Blair na rua A fidelidade da que farão pressão sobre os gastos públicos. Não existe, porém, no Partido maioria dos sindicalistas ao Partido Trabalhista continua, perturbada apenas Trabalhista e nos sindicatos nenhuma esquerda importante ou oposição or- pelo estabelecimento, em 1996, do Partido Socialista Trabalhista (SLP-Socialist ganizada. A esquerda está mais fraca do que nunca. A grande maioria dos Labour Party), dirigido pelo presidente do Sindicato dos Trabalhadores das líderes sindicais é séria em suas declarações de apoio ao governo Blair, mes- Minas, Arthur Scargill. O SLP é pequeno com, no máximo, 4.000 membros. Ele mo aqueles como Bill Morris, do Sindicato dos Trabalhadores em Geral e de atraiu uma parte superficial de militantes sindicais mas, seu fracasso em ganhar Transportes, que acreditam merecer algo melhor. Mas eles terão que ouvir mais que 5% dos votos nas eleições suplementares de 1996, e isso em circuns- membros dos sindicatos. E estes podem estar menos pacientes. Disputas so- tâncias favoráveis, coloca em dúvida seu futuro como partido. bre salário do setor público, a legislação do trabalho e salário mínimo poderiam estar na agenda. O próximo período testará as revoluções de Conclusões Margaret Thatcher e de Tony Blair e será crucial para O futuro do sindicalis- Os anos 80 e 90 demonstraram a natureza reativa, frágil e contingente do mo na Inglaterra. poder sindical: ele teve um refluxo em todos níveis, do local de trabalho ao Estado-nação. O declínio da taxa de sindicalização não apenas corrigiu au- Bibliografia mento dos anos 1960 e 1970 como trouxe os sindicatos de volta aos anos 1930. Ackers, P.; Smith, C. e Smith, P. 1995. "Against All Odds: British Trade Unions in the A organização no local de trabalho retrocedeu. O padrão benevolente da re- New Workplace." In: P. Ackers et alii, 1995. gulamentação autônoma do trabalho, dos sindicatos livres, da livre negociação, Ackers, P.; Smith, C. e Smith, P. (eds.). 1995. The New Workplace and Trade do pleno emprego e de um Estado que apóia os sindicatos foram dissolvidos, Unionism. Routledge. talvez para sempre. A influência dos sindicatos em seu partido foi diminuída Adeney, M. e Lloyd, J. 1986. The Miners' Strike 1984-85: Loss Without Limit. sensivelmente. Seu líder elogia a Sra. Thatcher, a arquiteta das desgraças dos Routledge. sindicatos, enquanto remodela Novo Trabalhismo para ser uma versão do Bacon, N. e Storey, J. 1995. 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Foram tão intensas as modificações que se sucederam no processo de trabalho e de produção capitalistas, que se pode mesmo afirmar que a classe-que-vive-do-trabalho presenciou a mais aguda crise deste século, que atingiu não só sua materialidade, mas teve profundas reper- cussões na sua subjetividade e, no íntimo inter-relacionamento destes níveis, afetou a sua forma de ser. Comecemos enumerando algumas das mudanças e transformações ocor- ridas nos anos 80. Década de grande salto tecnológico, a automação e a robótica invadiram o universo fabril, inserindo-se e desenvolvendo-se nas re- lações de trabalho e de produção do capital (Antunes, 1995). Vive-se, no mun- do da produção, um conjunto de experimentos, mais ou menos intensos, mais ou menos consolidados, mais ou menos presentes, mais ou menos tendenciais, mais ou menos embrionários. O fordismo e o taylorismo já não são únicos e 71</p><p>mesclam-se com outros processos produtivos (neofordismo e neotaylorismo), bém os partidos operaram um intenso caminho de institucionalização e de sendo em alguns casos até substituídos, como a experiência japonesa permi- crescente distanciamento dos movimentos autônomos de classe. Esquecem a te constatar. Novos processos de trabalho emergem, nos quais cronômetro luta pelo controle social da produção, tão intensa nos anos 60/70, e subordi- e a produção em série são substituídos pela flexibilização da produção, por nam-se à ação pela participação dentro da ordem. Tramam sua ação dentro dos novos padrões de busca de produtividade, por novas formas de adequação da valores fornecidos pela sociabilidade do mercado e do capital. O mundo do produção à lógica do mercado. Ensaiam-se modalidades de desconcentração trabalho não encontra enquanto tendência dominante nos seus órgãos industrial, buscam-se novos padrões de gestão da força de trabalho, dos quais de representação sindicais e partidários, disposição de luta anticapitalista. As CCQs (círculos de controle de qualidade) são expressão visível não só no diversas formas de resistência de classe encontram barreiras na ausência de mundo japonês mas em vários países de capitalismo avançado e do Terceiro direções dotadas de uma consciência para além do capital. Enfim, foi uma dé- Mundo industrializado. O "toyotismo" penetra, mescla-se ou mesmo-substitui, cada crítica, repetimos, em que se vivenciou a mais aguda crise do mundo do em várias partes, padrão taylorismo-fordismo. (Murray, 1983; Sabel e Piore, trabalho neste século que está prestes a terminar de maneira mais que som- 1984; Clarke, 1991; Annunziato, 1989; Coriat, 1992a e 1992b; Gounet, 1991). Vi- bria, para aqueles que são críticos do capital. Esta contextualidade, cujos pro- vem-se formas transitórias de produção, cujos desdobramentos são também blemas mais agudos aqui somente enumeramos, repercute criticamente no agudos, no que diz respeito aos direitos do trabalho. Estes são desre- mundo do trabalho e, mais particularmente, no universo operário. Quais foram gulamentados, são flexibilizados, de modo a dotar capital do instrumental as conseqüências mais evidentes e que merecem maior reflexão? A classe que necessário para adequar-se à sua nova fase. Direitos e conquistas históricas do vive do trabalho estaria desaparecendo? (Gorz, 1982). mundo do trabalho são substituídos e eliminados do mundo da produção. Subs- As respostas são mais complexas. Neste texto pretendemos tão-somente titui-se (ou mescla-se, dependendo da intensidade) despotismo taylorista pelo indicar algumas tendências que estão presentes na contemporaneidade do estranhamento do trabalho levado ao limite, por meio da apropriação, pelo mundo do trabalho. capital, do saber e do fazer operário. Este pensa e faz pelo e para capital. É Começamos inicialmente afirmando que se pode presenciar uma múltipla a manipulação da fábrica levada ao extremo. de um lado, verificou-se uma desproletarização do trabalho Estas transformações, presentes ou em curso, em maior ou menor escala, industrial, fabril, manual, especialmente nos países de capitalismo avançado. dependendo de inúmeras condições econômicas, sociais, políticas, culturais etc. Em outras palavras, houve uma diminuição da classe operária industrial tradi- dos diversos países onde são vivenciadas, penetram fundo no operariado in- cional. Mas, paralelamente, efetivou-se uma expressiva terceirização do traba- dustrial tradicional, acarretando metamorfoses na forma de do trabalho. A lho, a partir da enorme ampliação do assalariamento no setor de serviços; ve- crise atinge também intensamente, como se evidencia, universo da consciên- rificou-se uma significativa heterogeneização do trabalho, expressa por meio cia, da subjetividade do trabalho, das suas formas de representação. Os sindi- da crescente incorporação do contingente feminino no mundo operário. Pode- catos estão aturdidos e exercitando uma prática que raramente foi tão defen- se presenciar, também, um significativo processo de subproletarização inten- Abandonam sindicalismo de classe dos anos 60/70, aderindo ao acrítico sificada, presente na expansão do trabalho parcial, precário, que- marca a so- sindicalismo de participação e de negociação, que em geral aceita a ordem do ciedade dual no capitalismo avançado, da qual são exemplos os gastarbeiters capital e do mercado, SÓ questionando aspectos fenomênicos desta mesma or- na Alemanha e lavoro nero na Itália, com seu enorme contigente de sobre- dem. Abandonam as perspectivas emancipatórias, da luta pelo socialismo e pela trabalho imigrante que supre as lacunas existentes no welfare state. Em sínte- emancipação do gênero humano, operando uma aceitação também acrítica da se: desproletarização do-trabalho manual, industrial e fabril; terceirização, ou que é ainda mais perverso, debatendo no uni- heterogeneização e subproletarização do trabalho. Diminuição do operariado verso da agenda e do ideário neoliberal. A postura brutalmente defensiva dos industrial tradicional e aumento da classe-que-vive-do-seu-trabalho sindicatos diante da onda privatista é expressão do que estamos nos referin- Vamos exemplificar estas tendências, este múltiplo processo presente no do. A derrocada do Leste europeu, do stalinismo e da esquerda tradicional mundo do trabalho, por meio da exposição de alguns dados somente, com que a mídia da ordem chamou de "fim do socialismo" ainda não foi suficien- intuito de ilustrar estas tendências. Comecemos pela questão da desprole- temente assimilada e analiticamente enfrentada pela esquerda, que se vê tam- tarização do trabalho manual, fabril, industrial. Na França, em 1962, contin- bém na defensiva. Tem sido incapaz, até presente, de mostrar que fim do gente operário era de 7.488.000. Em 1975, esse número chegou a 8.118.000 e Leste europeu não é fim do socialismo, mas sim fim de uma tentativa em 1989 reduziu-se para 7.121.000. Enquanto em 1962 ele representava 39% inglória de construção de uma sociedade que não conseguiu ir além do capi- da população ativa, em 1989 esse índice baixou para 29,6% (Bihr, 1990; 1991). tal (para usar a expressão de Istvan Mészáros, 1982). Os sindicatos e tam- Pode-se dizer que "nos principais países industrializados da Europa Oci- 72 73</p><p>dental, os efetivos de trabalhadores ocupados na indústria representavam cerca Do mesmo modo, tem-se um intenso processo de terceirização do traba- de 40% da população ativa no começo dos anos 40. Hoje, sua proporção se lho, a partir da expansão do setor de serviços. "Nas pesquisas sobre a estru- situa próxima dos Se prevê que baixará a 20% ou 25% no começo do tura e as tendências de desenvolvimento das sociedades ocidentais altamente próximo século" (Gorz, 1990b). Adam Schaff acentua estas tendências, ao afir- industrializadas encontramos, de modo cada vez mais sua caracte- mar que projeções do empresariado japonês apontam como objetivo "eliminar rização como 'sociedade de Isso se refere ao crescimento absoluto completamente trabalho manual da indústria japonesa até final do sécu- e relativo do 'setor terciário', isto é, do de (Offe, Berger, 1991). lo". E acrescenta: "Ainda que possa haver nisto certo ufanismo, a exposição deste objetivo deve ser levada a sério" (Schaff, 1990). II Em relação ao Canadá, transcrevendo informações do Science Council of Há, entretanto, outras importantes que advêm da introdu- Canada Report "prevê a moderada taxa de 25% de trabalhadores ção da automação, da robótica, da flexibilização e deste complexo de mudanças que perderão seu emprego até final do século em da no processo de produção e de trabalho: paralelamente à redução quantitativa automação". E, referindo-se às previsões norte-americanas, alerta para fato do operariado tradicional, dá-se uma alteração qualitativa da forma de ser do de que "serão eliminados 35 milhões de empregos até final do século em trabalho. A redução da dimensão variável do capital, em decorrência do cres- da automação" (Schaff, 1990). Estes dados e estas tendências cimento da sua dimensão constante ou, em outras palavras, a substituição evidenciam uma nítida redução do proletariado fabril, industrial, manual, nos do trabalho vivo pelo trabalho morto oferece, como tendência, a possibili- países de capitalismo avançado, quer em decorrência do quadro recessivo, dade da conversão do trabalhador em supervisor e regulador do processo de quer, especialmente, em função da automação, da robótica e dos múltiplos produção, conforme a formulação marxiana presente nos Grundrisse (Marx processos de flexibilização. 1972). Porém, O mesmo Marx apontava para a impossibilidade de ser plena- Paralelamente a esta tendência, há uma significativa heterogeneização e mente efetivada sob capitalismo. complexificação da classe que vive do trabalho, dada pela subproletarização É elucidativa longa citação: do trabalho, presente nas formas de trabalho precário, parcial etc. A título de intercâmbio de trabalho vivo por trabalho objetivado, quer dizer, converter tra- ilustração: tomando-se período de 1982 a 1988, enquanto deu-se na França balho social sob a forma da antitese entre capital e trabalho, é último desenvol- uma redução de 501 mil empregos por tempo completo, houve aumento de vimento da relação de valor e da produção fundada no valor. suposto desta pro- 111 mil empregos em tempo parcial (Bihr, 1990; 1991). Ou seja, enquanto vários dução é, e segue sendo, a magnitude de tempo imediato de trabalho, a quantida- países de capitalismo ocidental avançado viram decrescer os empregos em tem- de de trabalho empregado como fator decisivo na produção da riqueza. Na me- po completo, paralelamente assistiram a um aumento das formas de dida, entretanto, em que a grande indústria se desenvolve, a criação da riqueza subproletarização, por meio da expansão dos trabalhadores parciais, precários, efetiva torna-se menos dependente do tempo de trabalho e da quantidade de tra- temporários. Segundo Helena Hirata, 20% das mulheres no Japão, em 1980, balho empregados, do que frente aos agentes postos em movimento durante tem- trabalhavam em tempo parcial, em condições precárias. "Se as estatísticas ofi- po de trabalho, que por sua vez su powerful effectiveness não guarda rela- ciais contavam 2.560.000 assalariadas em tempo parcial em 1980, três anos ção alguma com tempo de trabalho imediato que custa sua produção, senão que depois a Revista Economisto de Tóquio estimava em 5 milhões conjunto das depende mais do estado geral da ciência e do progresso da tecnologia, ou da apli- assalariadas trabalhando em tempo parcial" (Hirata, 1986 e 1993). cação desta ciência à produção. (...) A riqueza efetiva se manifesta melhor e isto revela a grande indústria na enorme desproporção entre tempo de traba- Gorz acrescenta que aproximadamente 35% a 50% da população ativa bri- lho empregado e seu produto, assim como na desproporção qualitativa entre tra- tânica, francesa, alemã e americana encontra-se desempregada ou desenvolven- balho, reduzido a uma pura abstração, e poderio do progresso de produção vi- do trabalhos precários, parciais, dando a dimensão daquilo que correntemen- giado por aquele. trabalho já não aparece tanto como encerrado no processo te se chama de sociedade dual (Gorz, 1990a). de produção, senão que, melhor, homem se comporta como supervisor e regu- Do incremento da força de trabalho que se subproletariza, um segmento lador em relação ao processo de produção mesmo. trabalhador já não introduz expressivo é composto por mulheres. Dos 111 mil empregos parciais gerados objeto natural modificado, como um anel intermediário entre a coisa e ele, mas na França entre 1982-1988, 83% foram preenchidos pela força de trabalho fe- insere processo natural que transforma em industrial, como meio entre si mes- minina (Bihr, 1990). Pode-se dizer que este contingente "tem aumentado em mo e a natureza inorgânica, a qual domina. Apresenta-se ao lado do processo de praticamente todos os países e, apesar das marcantes diferenças entre vá- produção, em lugar de ser seu agente principal. Nessa transformação, que apa- rios países, a força de trabalho feminina representa 40% do total em muitas rece como pilar fundamental da produção e da riqueza não é nem trabalho economias" (Freeman, 1986). diato executado pelo homem nem tempo que este trabalha, senão a apropria- 74 75</p><p>ção de sua própria força produtiva geral, sua compreensão da natureza e seu do- cooperam e formam a máquina produtiva total participam de maneira muito dife- mínio da mesma graças à sua existência como corpo social; em uma palavra, rente no processo imediato da formação de mercadorias, ou melhor, dos produ- desenvolvimento do indivíduo social. O roubo do tempo de sobre tos este trabalha mais com as mãos, aquele trabalha mais com a cabeça, um o qual se funda a riqueza atual, aparece como uma base miserável comparado com como diretor (manager), engenheiro (engineer), técnico etc., outro, como capataz este fundamento, recém-desenvolvido, criado pela grande indústria. Logo que tra- (overloocker), um outro como operário manual direto, ou inclusive como simples balho, em sua forma imediata, tiver deixado de ser a grande fonte de riqueza, ajudante temos que mais e mais funções da capacidade de trabalho se incluem tempo de trabalho deixa, e tem de deixar, de ser sua medida e, portanto, valor no conceito imediato de trabalho produtivo, e seus agentes no conceito de traba- de troca (deixa de ser a medida) do valor de uso. O sobretrabalho da massa dei- produtivos, diretamente explorados pelo capital e subordinados em ge- de ser condição para desenvolvimento da riqueza social, assim como não- ral a seu processo de valorização e produção. Se se considera trabalhador cole- trabalho de uns poucos deixa de ser a condição para desenvolvimento dos po- tivo, de que a oficina consiste, sua atividade combinada se realiza materialmente deres gerais do intelecto humano. Com isso se desmorona a produção fundada no (materialiter) e de maneira direta num produto total que, ao mesmo tempo, é um valor de troca. Desenvolvimento livre das individualidades e, por conseguinte, tem- volume total de mercadorias; é absolutamente indiferente que a função de tal ou se a não redução do tempo de trabalho necessário com vistas a criar sobretrabalho, qual trabalhador simples elo desse trabalho coletivo esteja mais próxima ou mas, em geral, redução do trabalho necessário da sociedade a um mínimo, ao qual mais distante do trabalho manual (Marx, 1978: 71/72) corresponde então à formação artística, científica etc. dos indivíduos graças ao tem- po que se torna livre e aos meios criados para todos (Marx, 1972: 227/229). Isso evidencia que, mesmo na contemporaneidade, Evidencia-se, entretanto, que tal abstração era para Marx uma impossibi- A compreensão do desenvolvimento e da auto-reprodução do modo de produção lidade na sociedade capitalista. Como ele próprio acrescenta: capitalista é completamente impossível sem O conceito de capital social total. (...) Do mesmo modo é completamente impossível compreender os múltiplos e agu- capital mesmo é a contradição em processo, (pelo fato de) que tende a redu- dos problemas do trabalho, tanto nacionalmente diferenciado como socialmente zir a um mínimo de tempo de trabalho, enquanto, por outro lado, converte tempo estratificado, sem que se tenha sempre presente necessário quadro analítico apro- de trabalho em única medida e fonte de riqueza. Diminui, pois, tempo de tra- priado: a saber, antagonismo entre capital social total e a totalidade balho na forma de tempo de trabalho necessário, para aumentá-lo na forma de tra- do trabalho. (Mészáros, 1989 e 1995). balho excedente; portanto, em medida crescente, trabalho excedente como condição question de vie et de mort do (trabalho) necessário. Por um lado Claro que este antagonismo é particularizado em função das circunstân- desperta para a vida todos os poderes da ciência e da natureza, assim como da cias socioeconômicas locais, da inserção de cada país na estrutura global da peração e do intercâmbio social, para fazer com que a criação da riqueza seja (re- produção de capital e da maturidade relativa do desenvolvimento sociohistórico lativamente) independente do tempo de trabalho empregado por ela. Por outro global (Idem, 1989 e 1995). lado, mensura com tempo' de trabalho estas gigantescas forças sociais criadas Por tudo isso, falar em supressão do trabalho sob capitalismo mostra-se desse modo e as reduz aos limites requeridos para que valor já criado se con- carente de qualquer fundamento, despropósito que se acentua quando se cons- serve como valor. As forças produtivas e as relações sociais umas e outras, as- tata que dois terços da força de trabalho se encontra no Terceiro Mundo (in- pectos diversos do desenvolvimento do indivíduo social aparecem frente ao cluída a China), onde as tendências apontadas tem um ritmo particularizado. capital unicamente como meios para produzir, fundando-se em sua mesquinha base. De fato, todavia, constituem as condições materiais para fazer saltar esta base A fábrica automatizada japonesa Fujitsu Fanuc, um dos exemplos de avanço pelos ares. (Idem, 229). tecnológico, é elucidativo. Mais de 400 robôs fabricam, durante as 24 horas do dia, outros robôs. Os operários, cerca de 400, trabalham durante dia. Com Portanto, a tendência apontada por Marx, cuja efetivação plena supõe a métodos tradicionais seriam necessários cerca de 4.000 operários para se ob- ruptura em relação à lógica do capital, deixa evidenciado que, sob capita- ter a mesma produção. Em média, a cada mês, oito robôs são quebrados, e a lismo, mesmo sob impacto tecnológico, não se constata fim do trabalho tarefa dos operários consiste basicamente em tomar precauções para evitar as como medida de valor, mas uma mudança qualitativa, dada pelo peso crescente quebras e reparar aqueles que foram danificados. Existem ainda 1.700 pessoas da dimensão mais qualificada do trabalho, pela intelectualização do trabalho. nos trabalhos de pesquisa, administração e comercialização da empresa (Gorz, Tendência esta que permitiu a Marx ampliar a dimensão do trabalho social: 1990b, 28). Embora seja um exemplo de um país singular, permite constatar que Com desenvolvimento da subsunção real do trabalbo ao capital ou do modo de nem mesmo neste caso não houve a eliminação do trabalho. Portanto, supor produção especificamente capitalista, não é operário industrial, mas uma cres- a generalização absoluta desta tendência sob capitalismo contemporâneo cente capacidade de socialmente combinada que se converte no agente nele incluído enorme contingente de trabalhadores do Terceiro Mundo real do processo de trabalho total, e como as diversas capacidades de trabalho que suporia a própria destruição da economia de mercado, pela incapacidade de 76 77</p><p>integralização do processo de acumulação de capital. Não sendo nem consu- mudanças podemos destacar: diminuíram as taxas de sindicalização, na(s) midores, nem assalariados, os robôs não poderiam participar do mercado. A última(s) década(s), nos EUA, Japão, França, Itália, Alemanha, Holanda, Suíça, simples sobrevivência da economia capitalista estaria comprometida (Mandel, Reino Unido, entre outros países (Visser, 1993; Antunes, 1995; e Freeman, 1986). 1986, 16/17). Com aumento do fosso entre operários estáveis e precários, parciais, reduz- que de fato parece ocorrer é uma mudança quantitativa (redução do se fortemente poder dos sindicatos, bistoricamente vinculados aos primeiros e número de operários tradicionais), uma alteração qualitativa (o trabalhador incapazes, até o presente, de incorporar os segmentos não da força de tornar-se, em alguns ramos, mais qualificado, "supervisor e vigia do proces- trabalbo. Houve, na década de 1980, redução do número de greves em vários SO de produção"). Torna-se operador vigilante, técnico de manutenção, pro- países do centro. Aumentam os casos de corporativismo, xenofobia, racismo, gramador, controlador de qualidade, pesquisador, engenheiro etc., tendência no seio da própria classe trabalhadora (Bihr, 1991). Tudo isso permite consta- presente nas indústrias mais automatizadas (Lojkine, 1990). Há, portanto, uma tar que movimento sindical também encontra-se numa crise de proporções metamorfose no universo do trabalho, que varia de ramo para ramo, de se- acentuadas. Que atingiu com intensidade, nos anos 80, sindicalismo nos paí- tor para setor etc. Desqualificou-se em alguns ramos, diminuiu em outros, ses avançados e que, na viragem dos 80 para os 90, atingiu diretamente os como no mineiro e no metalúrgico, e requalificou-se em outros, como na si- países subordinados, do Terceiro Mundo, especialmente aqueles dotados de um derurgia, onde presenciou-se parque produtivo relevante, como é caso do Brasil. a formação de um segmento particular de operários-técnicos de alta responsabili- Quando se reflete sobre as transformações vivenciadas no mundo do tra- dade, portadores de características profissionais e referências culturais sensivelmente balho e no sindicalismo nos países centrais e suas repercussões e paralelos diversas do restante do pessoal operário. Eles se encontram, por exemplo, nos com aquele praticado no Brasil, é preciso fazer as devidas mediações. Parti- postos de coordenação nas cabines de operação a nível de altos-fornos, aciaria, cipamos de um contexto econômico, social, político e cultural que tem tra- vaza contínua. Observa-se fenômeno similar na indústria automobilística, com a COS universais do capitalismo globalizado e mundializado, mas que tem sin- criação dos encarregados de assegurar os reparos e a ma- gularidades que, uma vez apreendidas, possibilitam resgatar aquilo que é ti- nutenção de instalações altamente automatizadas, assistidos por profissionais de pico desta parte do mundo e deste modo reter a sua particularidade. Trata- nível inferior e de especialidades diferentes (Lojkine, 1990; 1995). se, portanto, de uma globalidade desigualmente combinada, que não deve Portanto, complexificou-se e heterogeneizou-se ainda mais mundo do permitir uma identificação acrítica ou epifenomênica entre que ocorre no trabalho. Tudo isso permite acrescentar que não há nem mesmo uma única centro e nos países subordinados. tendência generalizante e de qualificação da força de trabalho, uma A nossa década de 1980 caminhou, ora no fluxo, ora no contrafluxo des- vez que, paralelamente a esta tendência, se acrescenta outro processo, dado tas tendências. Presenciou algumas mutações tecnológicas e no processo pro- pela desqualificação de setores operários, que configuraria um processo dutivo, ainda que evidentemente num ritmo muito mais lento que aqueles ex- contraditório que superqualifica em alguns ramos e desqualifica em outros perimentado pelos países centrais (ver Jinkings, 1995; Castro, 1995; Teixeira e (Freyssenet, 1989). Oliveira, 1996 e Ramalho e Martins, 1994). A partir de 1990, com a ascensão Pode-se constatar, portanto, de um lado, um efetivo processo de de Collor, é sabido que esse processo intensificou-se sobremaneira, que per- intelectualização do trabalho manual. De outro, e em sentido inverso, uma mite supor que estágio atual é mais expressivo, de modo que os impactos desqualificação e mesmo subproletarização, expressa no trabalho precário, in- mais recentes são significativos. Combinam-se processos de enorme formal, temporário etc. Se é possível dizer que a primeira tendência é mais enxugamento da força de trabalho, com mutações no processo produtivo. A coerente e compatível com enorme avanço tecnológico, a segunda tem sido flexibilização, a desregulamentação e as novas formas de gestão da força de uma constante no capitalismo dos nossos dias, que mostra que nem O ope- trabalho estão presentes em grande intensidade, indicando que fordismo ain- rariado desaparecerá tão rapidamente e que é fundamental é possível da dominante também aqui mescla-se com novos processos produtivos. Se é perspectivar, mesmo num universo distante, nenhuma possibilidade de elimi- verdade que a baixa remuneração da força de trabalho que sempre se ca- nação da classe-que-vive-do-trabalho (Antunes, 1995). racterizou como elemento de atração para fluxo de capital externo produti- VO em nosso país pode se constituir, em alguns ramos produtivos, como elemento com potencial para obstaculizar em parte avanço tecnológico ca- III pitalista, do mesmo modo a combinação obtida da superexploração da força Num quadro abrangente e complexo de tantas mudanças, sindicalismo de trabalho, com alguns padrões produtivos mais avançados, constitui-se em não poderia permanecer imune a estas tendências. Dentre as suas principais elemento central para essa inversão de capitais. Em verdade, para os capitais 78 79</p><p>produtivos interessa a confluência de força de 'qualificada' e prepa- cessária a articulação de uma análise aguda da realidade brasileira com uma rada para operar com os equipamentos microeletrônicos, sub-remuneração in- perspectiva crítica e anticapitalista, de nítidos contornos socialistas (existente tensificada, e condições plenas de precarização da força de trabalbo. Os paí- nos anos iniciais da CUT e que vem se diluindo crescentemente). De modo a ses asiáticos de industrialização recente são exemplares. Este quadro faz com dotar novo sindicalismo dos elementos necessários para resistir aos influxos que países como Brasil vivam momentos de redefinição em relação à divisão externos, à avalanche do capital, ao ideário neoliberal, no lado mais nefasto internacional do trabalho. E, por certo, vivenciem fortes em seu e, de outro, à acomodação social-democrática, que apesar de sua crise no cen- movimento sindical. tro, vem aumentando fortemente seus laços políticos e ideológicos com nosso sindicalismo brasileiro viveu na década de 1980 um momento particu- movimento sindical, procurando apresentar-se cada vez mais como a única larmente positivo (Antunes, 1995a). Houve um enorme movimento grevista; alternativa possível para se fazer combate ao neoliberalismo. ocorreu uma expressiva expansão do sindicalismo dos assalariados médios Não é preciso dizer que quadro hoje é bastante crítico. sindicalismo e do setor de serviços; deu-se continuidade ao avanço do sindicalismo rural, da Força Sindical, com forte dimensão política e ideológica, preenche cam- em ascensão desde os anos 70; houve nascimento das centrais sindicais, po sindical da nova direita, da preservação da ordem, da sintonia com de- como a Central Única dos Trabalhadores (CUT), fundada em 1983; procurou- senho do capital globalizado, que nos reserva papel de país montador, sem se, ainda que de maneira muito insuficiente, avançar nas tentativas de orga- tecnologia própria, sem capacitação científica, dependente totalmente dos re- nização nos locais de trabalho, debilidade crônica do nosso movimento sin- cursos forâneos. dical; efetivou-se um avanço na luta pela autonomia e liberdade dos sindi- Na Central Única dos Trabalhadores (CUT) quadro é também de gran- catos em relação ao Estado; verificou-se um aumento do número de sindi- de apreensão. Começa a ganhar cada vez mais força, em algumas de suas prin- catos, em que sobressai a presença organizacional dos funcionários públicos; cipais lideranças, uma postura de abandono de concepções socialistas e anti- houve aumento nos níveis de sindicalização, configurando-se um quadro ni- capitalistas, em nome de uma acomodação dentro da ordem. O culto da ne- tidamente favorável para novo sindicalismo ao longo da última década gociação, das câmaras setoriais, do programa econômico para gerir pelo capital (Antunes; 1991; Boito, 1991 e J. Rodrigues, 1991). a sua crise, tudo isso está inserido num projeto de maior fôlego, cujo oxigê- Porém, paralelamente a este processo, nos últimos anos da década de 1980, nio é dado pelo ideário e pela prática social-democráticas, que pouco a pou- acentuavam-se as tendências econômicas, políticas e ideológicas que inseriam CO vai se adaptando à estrutura sindical cupulista, institucionalizada e burocra- nosso sindicalismo na onda As mutações no processo produtivo tizada, que caracterizou nosso sindicalismo no pós-30. e na reestruturação das empresas, desenvolvidas dentro de um quadro muitas No campo que se reconhece como socialista e anticapitalista no interior vezes recessivo, deslanchavam um processo de desproletarização de importantes da Central Única dos Trabalhadores, as dificuldades também são enormes. contingentes operários, e particularmente de precarização ainda mais intensi- Como é possível resistir a uma onda tão intensa? Como é possível elaborar ficada da força de trabalho, de que a indústria automobilística é um exemplo um programa econômico alternativo que incorpore os milhões de trabalha- forte. As propostas de desregulamentação, de flexibilização, de privatização dores que não participam do mercado e que vivem da miséria da economia acelerada, de desindustrialização, tiveram nos últimos anos, forte impulso. Pa- informal? Como é possível gestar um novo modelo econômico que elimine ralelamente à retração da força de trabalho industrial, ampliou-se, também, a superexploração do trabalho, que particulariza capitalismo industrial bra- subproletariado do mercado informal. sileiro, cujo salário mínimo tem níveis degradantes? Quais são os contornos Esta nova realidade e tornou mais defensivo o novo sindicalismo básicos desse modelo econômico alternativo, cuja lógica deverá iniciar a que se encontrava, de um lado, diante da emergência de um sindicalismo desmontagem do padrão de acumulação capitalista vigente no país? Como é neoliberal, expressão da nova direita, sintonizada com a onda mundial con- possível pensar numa ação que não impeça avanço tecnológico, mas faça servadora, de que a Força Sindical (central sindical criada em 1991) é me- em bases reais, com ciência e tecnologia de ponta desenvolvidas em nosso lhor exemplo; e, de outro, diante da inflexão que vem ocorrendo no interior país? Como é possível um caminho alternativo que recupere valores socia- da CUT que lhe dificultava enormemente avanço qualitativo, capaz de tran- listas originais, verdadeiramente emancipadores? Que não aceite uma glo- sitar de um período de resistência, como nos anos iniciais do novo sindicalismo, balização e uma integração impostas pela lógica do capital, integradora para para um momento superior, de elaboração de propostas econômicas alterna- fora e desintegradora para dentro? Como é possível hoje articular valores ins- tivas, contrárias ao padrão de desenvolvimento capitalista aqui existente, que pirados num projeto que olha para uma sociedade para além do capital, mas pudessem contemplar prioritariamente amplo conjunto que compreende que tem que dar respostas imediatas para a barbárie que assola cotidiano nossa classe trabalhadora. Neste caso, além da combatividade anterior, era ne- do ser que vive do trabalho? Em outras palavras, como buscar a difícil e im- 80 81</p><p>prescindível articulação entre os interesses imediatos e uma ação estratégi- Serão capazes de romper a barreira, imposta pelo capital, entre luta sin- ca, de longo prazo, de clara conformação anticapitalista? São, como se pode dical e luta parlamentar, entre luta econômica e luta política, articulan- perceber, alguns desafios enormes. do e fundindo as lutas sociais, extraparlamentares, que dão vida às ações Qual caminho que novo sindicalismo brasileiro, nascido no final dos de classe, com as suas ações no âmbito da institucionalidade, que são anos 70 e início dos 80, vai adotar: irá negociar dentro da ordem ou contra importantes mas claramente secundárias em relação às primeiras? a ordem? Procurará elaborar um programa de emergência para simplesmen- A estas interrogações podemos acrescentar tantas outras, que são especí- te gerir a crise do capital ou tentará avançar na elaboração de um programa ficas de países industrializados e intermediários, como Brasil. Mas este elenco econômico alternativo, formulado sob a ótica dos trabalhadores, capaz de res- já se constitui, como se pode ver, em um significativo conjunto de desafios que, ponder às reivindicações imediatas do mundo do trabalho, mas tendo como por certo, definirão futuro dos sindicatos neste final do século XX. horizonte uma organização societária fundada nos valores socialistas e efe- tivamente emancipadores? Bibliografia Enquanto na década de 1980 nosso sindicalismo caminhou em boa me- ANNUNZIATO, Frank. (1989). 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Siglo XXI, Mexico/Espanha. classistas? Não falamos aqui de um corporativismo estatal mas sim de um (1992 b). Pensar al (Trabajo y Organización en la Empresa Japonesa). Siglo Mexico/Espanha. neocorporativismo societal, excludente, parcializador e que preserva e acentua caráter fragmentado da classe-que-vive-do-trabalho Do mes- FREEMAN, Richard. (1986). "Pueden Sobrevivir los Sindicatos en la Sociedade Post- Industrial", mimeo. mo modo, serão capazes de romper com os movimentos xenófobos, FREYSSENET, Michel. (1989). "A divisão capitalista do trabalho." Tempo social, USP, ultranacionalistas, com apelo ao racismo e às ações contra trabalha- vol. I, 2, São Paulo. dores oriundos dos países subordinados? GORZ, Andre. (1982). Adeus ao proletariado. Forense, Rio de Janeiro. Serão capazes de romper com a tendência crescente da excessiva institu- (1990 a "Pourquoi La Societé Salariale a Besoin de Nouveaux Valets". 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In: Syndicats D'Europe, sindicalismo, diante das novas formas de gestão da produção, da "terceirização" Freyssenet, J. Le Mouviment Social, n° 162, jan./mar. 1993. France. e da precarização do trabalho não são muito diferentes daqueles que se colo- cam para os sindicatos em outros No entanto, movimento sindical brasileiro conseguiu um lugar de proeminência no cenário político e econômico dos últimos anos. De modo paradoxal, enfrenta a crise trazida pela reestrutura- ção com um certo poder de barganha obtido por meio das lutas e greves de um passado recente e com um ainda surpreendente poder de pressão para negociar Para Leôncio Martins Rodrigues (1992), as dificuldades do sindicalismo em países nos quais as organizações dos trabalhadores pareciam definitivamente consolidadas estariam associadas com a globalização da economia, com acirramento da competição internacional, com as pressões por maior rapidez nas tomadas de decisão e por uma maior flexibilidade nas formas de organiza- ção do trabalho, estimulando as de empregados que não passem pelo sindicato. autor acrescenta a esses fatores a "terceirização", aumento da proporção de empregos de tempo parcial, ingresso cada vez maior de mulheres na força de trabalho e de jovens que não têm perspectivas de continuidade na empresa ou no setor de atividade. 84 85</p><p>alternativas às atuais formas de desenvolvimento econômico e apoiar projetos até a eficácia da aplicação das novas formas de gestão da força de trabalho na políticos que tratem dos problemas estruturais de desigualdade social no país. indústria e seus desdobramentos em termos de precarização do trabalho e Nas diversas áreas de investigação sobre a reestruturação no Brasil, os da- desmobilização dos sindicatos. dos e análises nos vários segmentos da indústria variam. Setores mais modernos A difusão do novo paradigma no Brasil ocorre ao mesmo tempo que se enfrentam uma ação sindical efetiva cuja eficácia os obriga ao encaminhamento dá abandono gradativo do modelo de desenvolvimento baseado em de novas formas de gestão por meio da negociação. Na maioria dos outros seto- cas de substituição de importações. Ao longo dos anos 80, políticas de "ajus- res, no entanto, a situação atual aponta para um processo gradativo de te" associadas à abertura dos mercados e ao estímulo das exportações foram precarização do trabalho e fragilização da organização coletiva dos trabalhado- implementadas, num contexto marcado pela crise e recessão econômica. res. O movimento sindical passa pelas dificuldades de lidar com uma situação Isso significou agravamento de problemas já tradicionais como desem- fabril à qual políticas e estratégias de ação sindical parecem impotentes para de- prego estrutural, a concentração de renda, e a deficiência dos sistemas edu- ter a destruição de direitos e se relacionar com uma força de trabalho de carac- cacionais (Gitahy, 1994: 10). Por outro lado, no que diz respeito à terísticas diversas daquelas encontradas no pátio das grandes reestruturação entre setores é grande até entre objetivo desse trabalho é pensar a especificidade da situação brasileira e empresas de um mesmo setor, e a competição no mercado internacional, discutir alguns dos impasses colocados para os trabalhadores organizados, a principalmente no que se refere às empresas exportadoras, não atinge todo partir dessas mudanças, considerando as dificuldades de atuação em determina- parque industrial e a modernização da produção acaba sendo resultado dos contextos, como, por exemplo, dos trabalhadores em domicílio e dos tra- de ações isoladas (Castro & Guimarães, 1990: 211). balhadores de pequenas empresas, marcados por formas de controle que, no A introdução de novas formas de gestão revela também as especificidades primeiro caso, misturam relações familiares com relações de trabalho, e no se- próprias da opção por uma "modernização conservadora" (Leite, 1994, entre gundo caso reproduzem a situação clássica de exercício de controle direto outros) por parte do empresariado brasileiro. Isto significa que mesmo com a bre os trabalhadores no local de trabalho. Com exemplos de outros países, vai- implementação de técnicas e métodos japoneses no processo de moderniza- se discutir como essas formas de trabalho, freqüentemente não levadas em con- ção tecnológica, em especial no setor mais internacionalizado da indústria, a sideração pelos sindicatos, estão integradas no contexto da reestruturação pro- postura avessa à negociação com trabalhadores e sindicatos permanece práti- dutiva e incluem um contingente significativo de trabalhadores, que acabam ca corrente. Segundo Leite (1994: 119), essa postura varia desde a tentativa de criando outras formas de organização ignorar a entidade e suas reivindicações até uma atitude mais propriamente anti-sindical, marcada por medidas destinadas a inibir a organização coletiva, A reestruturação produtiva no Brasil por meio de demissões de ativistas, proibição de acesso às fábricas e até de A implantação de novas estratégias de gestão no processo de rees- não-admissão de sindicalizados. truturação produtiva dos últimos anos tem mostrado a necessidade de enten- Pesquisas sobre processo de implantação de métodos japoneses sugerem, der caso brasileiro a partir de suas especificidades na articulação com a eco- da mesma forma, que vem ocorrendo, na verdade, uma versão "abrasileirada" nomia internacional. Isto significa considerar na análise desde a imposição dessas técnicas. Salerno (1990), por exemplo, revela como, nas empresas que ideológica do chamado "modelo japonês" como caminho inexorável para a estavam implantando sistemas de manufatura celular e/ou just-in-time, ocorre "modernidade", associado a um discurso "civilizador" sobre os trabalhadores, uma rígida divisão do trabalho, a prescrição individual das tarefas, e a não auto- nomia dos operários na definição dos métodos de trabalho e na alocação das 2 Ver Antunes (1995), Jácome Rodrigues (1995), Salerno (1993), Bresciani (1994) entre outros, atividades ao longo da jornada de trabalho. Humphrey (1990) propõe chamar sobre reestruturação industrial e ação sindical. Ricardo Antunes (1995: 62), referindo-se à crise processo de reestruturação das empresas no Brasil de "just-in-time taylorizado", sindical nos países industrializados, ressalta abismo social no interior da própria classe traba- em que a gerência tenderia a controlar a fábrica como uma máquina, numa es- que reduz "fortemente poder sindical, historicamente vinculado aos trabalhadores tratégia que não exigiria envolvimento e compromisso, mas que resultaria em e, até agora, tem sido incapaz de aglutinar os trabalhadores parciais, temporários, precários, da economia informal etc. Com isso, começa a desmoronar sindicalismo vertical, mais coerção e pressão sobre trabalhadores. herança do fordismo e mais vinculado à categoria profissional, mais corporativo. Este tem se Embora novas formas de gestão estejam sendo aplicadas em firmas brasilei- mostrado impossibilitado de atuar como um sindicalismo mais borizontalizado, dotado de ras, resultados da reestruturação produtiva até aqui tem significado, como uma abrangência maior e que privilegie as esferas intercategoriais, interprofissionais, por certo afirma Ruas (1994: 98), grande mobilidade de mão-de-obra, crescimento da par- um tipo de sindicalismo mais capacitado para aglutinar conjunto dos trabalhadores, desde os mais até os precários, vinculados à economia informal etc.". ticipação do trabalho informal, redução dos salários reais na maioria dos setores, aumento do recurso à subcontratação do trabalho, com participação do trabalho 86 87</p><p>em domicílio; e uma maior seletividade das empresas na contratação dos traba- subcontratação. Reconhecem-se em um mesmo espaço produtivo: processos em função da grande disponibilidade de mão-de-obra no de subcontratação que envolvem uma da produção, em que as Para Ruas, a tendência brasileira seria de um tipo de adaptação à reestruturação inovações tecnológicas e de gestão, obtidas ao nível da empresa sub- em que predominaria a "realidade do mercado", com os trabalhadores assumin- contratante, são transferidas para as empresas subcontratadas; e uma outra do ônus maior da crise. O único obstáculo à flexibilização total do mercado modalidade, que Abreu & Sorj (1994) chamam de "terceirização por contin- de trabalho seriam as normas que regulam as relações salariais (as normas de gência", quando custos de energia, espaço são transferidos contratação e demissão e as legislações acerca da representatividade dos sindi- para trabalhador, e a força de trabalho é usada sem ônus da legislação tra- catos, do direito de greve, e das negociações balhista. A relação de dependência que se estabelece entre a parte contratada Embora tenha produzido altíssimos ganhos de produtividade para a indústria e a contratante "transforma trabalho subcontratado num tipo fortemente am- como um todo, e para alguns segmentos em particular (automotivo e autopeças, bíguo de ocupação, reunindo ao mesmo tempo certas marcas características por exemplo), a reestruturação industrial no Brasil vem causando uma redução da relação assalariada, como a imposição do que e quanto produzir, e outras do nível de emprego (Bresciani, 1994: 201, 02). Nesse contexto, um dos aspectos típicas do trabalho autônomo, como negociação de preços, realização do tra- mais decisivos do processo de reestruturação se refere à precarização das rela- balho fora do controle direto do subcontratante, escolha do lugar onde a pro- ções de trabalho. A utilização extensiva da conduz dução será executada e a livre distribuição do tempo na confecção dos produ- a um agravamento das condições de trabalho e a um aumento do grau de tos (idem: 64, 5)". informalidade do mercado de trabalho. Em nome da produtividade e da Na conjuntura de reestruturação a participação das mulheres na força de competitividade atribui-se a firmas "terceiras" tarefas anteriormente realizadas pe- trabalho e incremento do trabalho em domicílio são também elementos im- las empresas principais. No entanto, diante de um mercado de trabalho pouco portantes. Dados sobre emprego feminino nesse tipo de trabalho revelam sua qualificado e com grande disponibilidade de mão-de-obra, a economia de custos estreita ligação com um mercado local marcado por relações de vizinhança e tem efeitos devastadores sobre a oferta de empregos. de sociabilidade doméstica. O trabalho se confunde com a dinâmica familiar. Para Telles (1994: 98-9): Terceirização e a precariedade do trabalho a ausência de direitos e a natureza pouco definida do vínculo de trabalho parecem Alguns estudos já existentes sobre uso da "terceirização" (cf. Ramalho & configurar uma situação em que se dissolvem as diferenças entre o trabalho e Martins, 1994; Abreu, Ramalho & Sorj, 1995 e 1996; Gitahy, 1994) revelam a im- não-trabalho (...) e trabalho precário se naturaliza como uma espécie de extensão plantação de tecnologias de qualidade com a proposta de parceria das funções domésticas, de ajuda e complementação da renda familiar. em todo produtivo, ou seja, nas relações com mercado, com os Abreu & Sorj (1993: 61) consideram que essa situação reforça a "ideologia cedores e com os empregados. No entanto, ainda prevalece a modalidade de da domesticidade", pois fato de trabalhar isoladamente, sem possibilidades dé que mantém um antagonismo com os empregados e com mo- carreira ou promoção, ignoradas pelos sindicatos e sem benefícios sociais, faz vimento sindical (Faria, 1994: 43). Objetiva-se obter lucros no curto prazo a com que as mulheres trabalhadoras tenham grandes dificuldades para diferen- redução de custos faz-se com a crescente redução da mão-de-obra. ciar a sua atividade profissional daquela de mãe e esposa. processo de "terceirização" tem relação direta com a questão da As situações de trabalho em domicílio estão presentes em vários setores produtivos, mas podem ser exemplificadas com que ocorre no setor 3 Ruas (1994: 99-103) faz uma interessante classificação das estratégias de adaptação das empre- (em especial no sul do país) e na indústria de confecção do Rio de Janeiro. No sas diante da a) a estratégia de adaptação restritiva baseada em iniciativas de primeiro caso, as empresas fazem uso intensivo desse tipo de trabalho, as for- ajuste imediato dos recursos internos das empresas às variações de mercado. A tônica é a racionalização intensiva, visando principalmente uma redução substancial dos custos de mão- mas de emprego da mão-de-obra são em geral precárias, predominando a ativi- de-obra; b) a estratégia de adaptação-limitada melhorias localizadas ou parciais, em geral dade de baixa qualificação, com uma base tecnológica rudimentar (Ruas, 1993: desenvolvidas fora do contexto de programas globais de melhoria. Atinge aqueles setores 40). No segundo caso, trabalho em domicílio é mantido por uma mão-de-obra tradicionais para os quais a predominância do modelo de adaptação restritiva já não é mais essencialmente feminina. fato de a trabalhadora em domicílio não ter carteira adequado, tendo em vista exigências de clientes ou de novas estratégias de produção e compe- assinada, e de-s exigir dela carteira de permite às empresas trans- tição orientadas para ajustamento ao mercado externo; c) de compreende ações voltadas para a busca de novos padrões de produtividade e competência, ferência dos custos sociais do emprego para as costureiras, e transforma a rela- sustentadas numa estratégia abrangente de adequação dos recursos internos às condições im- ção entre as partes em uma compra e venda de serviços entre produtores inde- postas pela crise. pendentes (Abreu & Sorj, 1993: 45, 6). 88 89</p><p>A reestruturação produtiva afeta também mercado de trabalho, agravan- lariamento disfarçado pela contratação do trabalho autônomo (Troyano, do de certa forma as características de informalidade presentes em toda eco- 1991). A chamada flexibilização do trabalho, parte integrante do discurso da nomia Identificam-se três mudanças importantes nesse mercado reestruturação, tem significado, para a maioria dos trabalhadores, uma traje- nos últimos anos: a entrada de um grande contingente de mulheres; a inver- tória regida pela insegurança, pela instabilidade e pela precariedade dos vín- são na composição setorial da mão-de-obra entre a agricultura e setor culos com O trabalho (Telles, 1994: 94, 95). terciário com a elevação deste último em aproximadamente dez pontos percentuais em dez anos; e uma nítida tendência de crescimento dos trabalha- Ação sindical e terceirização: um estudo de dores por conta própria e dos empregados sem carteira assinada (Sabóia: Resultados parciais de pesquisa em andamento sobre os impactos da 1994: 26). Outros dados sobre grau de informalidade servem como bom "terceirização" em empresas do setor eletro-eletrônico do Rio de Janeiro exemplo. Os índices referentes a carteira assinada, segundo IBGE (Indicado- (ver Abreu, Ramalho & Sorj, 1996 e 1995) trazem claras indicações de que res Desep 94), mostram que dos cerca de 47 milhões de empregados nos a implantação dessa prática altera as relações de trabalho e desafia de anos 80, só 58,8% tinham carteira de trabalho assinada, contra 41,2% que não modo significativo a ação sindical. Esses dados, naturalmente, carregam as tinham. Para Abreu Filgueiros & Sorj (1994: 155), analisando O PNAD/1990 características particulares da conjuntura econômica e política e da história Suplemento Trabalho: da indústria e do sindicalismo no estado do Rio de Janeiro (Abreu, a economia informal é responsável pela absorção de mais de 40% dos trabalhadores Ramalho & Sorj, 1994). em atividades não-agrícolas no Brasil. Nos Serviços Domésticos Remune- Depoimentos obtidos com os dirigentes das empresas subcontratadas rados, trabalham 7,8% do total de pessoas ocupadas em atividades não-agrícolas e descrevem um relacionamento bastante cordial entre capital e trabalho. Fala- 34,5% trabalham em pequenas unidades produtivas com características de organiza- se em "harmonia", "cordialidade", "nível quase familiar", "abertura ao diálo- familiar ou de trabalho independente. A importância das mulheres no setor in- formal é bem maior do que a dos homens, em principalmente, do go", que revela somente uma retórica empresarial? Talvez não: fato de peso da prestação de serviços domésticos sobre as primeiras (18,1%). as empresas pesquisadas serem de pequeno e médio porte pode sugerir que as relações cotidianas entre empregados e gerência apresentem característi- Dados de 1989 e 1990 sobre a região metropolitana de São Paulo, tam- cas mais marcadas pela proximidade física e a vigilância direta por parte dos bém mostram que desemprego está cada vez mais ligado ao uso de uma "terceirização" fez retornar às mãos destes um poder de força de trabalho fora do contrato formal de trabalho, seja pelo emprego controle e dominação sobre os trabalhadores que parecia de certa forma sem vínculo legal, seja pela prática da subcontratação, seja pelo uso do assa- atenuado nas grandes empresas pela intervenção sindical nos conflitos no local de No caso estudado, enquanto a empresa principal da ca- deia de subcontratação tem sua própria história associada à participação da 4 Em artigo recente, Machado da Silva (1993: 32) elabora uma esclarecedora classificação acerca comissão de fábrica na gestão e, mais recentemente, na negociação sobre das concepções de formal/informal. Segundo ele, a partir da década de 1960, quando as con- cepções sobre trabalho informal tinham como objetivo descrever a existência de relações de processo de "terceirização", nas empresas subcontratadas poder do coleti- trabalho instáveis, com baixo nível de produtividade e remuneração irrisória, trabalho infor- VO organizado dos trabalhadores parece frágil, quando não totalmente mal era apresentado como efeito ou expressão do Na década de 1970, inexistente. "passou-se a sugerir que os trabalhadores ligados ao emprego informal jamais teriam oportuni- Embora as gerências sugiram a manutenção de alguns benefícios sociais dade de se incorporarem às relações capitalistas. Tratava-se de um excedente populacional que nem sequer desempenhava a clássica função de reserva de mercado, pois a modernização para os empregados transferidos para as empresas subcontratadas, na maioria baseava-se em técnicas poupadoras de mão-de-obra". Nos 80, segundo Machado da Silva das vezes isso se deveu às pressões para uma "terceirização" negociada por par- (1993: 34) a noção de informalidade aparece com um conteúdo inteiramente Ela não se te da comissão de fábrica da empresa principal. No entanto, relatos recentes, define mais por contraposição ao assalariamento, mas sim à iniciativa econômica que escapa à tanto de empregadores como de empregados, já apontam para uma clara queda regulação estatal. "A análise econômica produzida nos anos 60 e conservada como recorte no padrão dos benefícios oferecidos, como se verá adiante. empírico para outra explicação nos anos 70 substituída pela crítica veemente das condições da atividade produtiva. A nova matriz interpretativa, apoiada para o modelo Apesar da diversidade do processo de "terceirização", pode-se detectar clássico que opõe Estado ao mercado auto-regulado, questiona diretamente e em todos os traços comuns de aumento do controle patronal sobre empregados, não só seus aspectos a legitimidade da regulação estatal do processo produtivo. Por este caminho, altera-se profundamente a problemática do trabalho informal, pois as matrizes interpretativas 5 Esta seção é baseada na pesquisa "A flexibilização do trabalho no Rio de Janeiro: os impactos anteriores não discutiram os conflitos sociais relacionados à capacidade do Estado como instân- sociais da terceirização industrial" realizada por Alice Rangel de Paiva cia política responsável pelos requisitos institucionais da atividade econômica." Abreu, Bila Sorj e José Ricardo Ramalho. 90 91</p><p>devido à proximidade do controle gerencial, mas também pela instabilidade ção às pequenas empresas6 fica muito restrita e a presença nos locais de traba- permanente do emprego, característica na trajetória dos trabalhado- lho se transforma em uma tarefa difícil. Por outro lado, a considerável presença res transferidos da empresa principal para as subcontratadas e daqueles que já de empregados do sexo feminino tem agravado OS problemas do sindicato, pois trabalhavam nestas últimas. Percebe-se, por outro lado, uma considerável que- sua familiaridade com questões de gênero no trabalho parece nula. da na capacidade de intervenção sindical dentro das fábricas. E, no entanto, Essas dificuldades aparecem em vários relatos recolhidos entre sindicalis- fato é que as respostas sobre relacionamento com sindicato são sempre tas e militantes, embora com ênfases diferentes. Um dirigente do sindicato dos de que "não há problemas". O sindicato parece não conseguir penetrar nesse metalúrgicos do Rio reconhece no sindicato atual um perfil mais associado à espaço ou não estar preparado para lidar com essa nova realidade. ação coletiva em grandes empresas e despreparado para lidar com situações A influência das empresas sobre comportamento coletivo dos seus em- de precarização do trabalho que tem se tornado comuns em pequenas empre- pregados é também bastante grande e os empresários mostram que ao sindicato sas no Rio de Janeiro: é permitido discutir com a empresa mas não atuar no local de trabalho. problema é que sindicato é feito para as grandes empresas. Esse que é gran- O Sr. não tem nenhum problema com Sindicato? de problema, antigo e atual. Agora, se você for ver a precarização do trabalho na Nenhum. (...) Há coisa de um ano atrás, aqui na porta, (o sindicato veio:) "quere- pequena empresa e na grande é (...) pior a situação do metalúrgico na pequena em- mos falar com Sentou a Diretoria toda. Eu falei: "Olha, vocês vejam presa, na retífica, na serralheria. Esse problema existe. (1995) que estão fazendo. Porque se houver greve, conforme for a greve, vou demitir. Esse mesmo dirigente ressalta a questão da dispersão causada pela frag- Quem fizer greve eu vou demitir. (...) mentação do processo produtivo e revela os problemas para uma ação sindical Não bá representante sindical dentro da efetiva, apelando para mudanças na legislação Não. Se não conseguirmos mudar a legislação trabalhista para que haja a representação Mas os operários são sindicalizados? sindical, delegado sindical, nós não temos condição. Hoje somos 30 ou 40 direto- São. Eles vêm aqui na porta, respeito, cumprimento. (...) Gozadíssimo, porque res, com a metade ali dentro de 15 fábricas e a outra metade para fazer incursões. quando eles não sabem que eu sou dono da fábrica eles (...) isso mesmo. Todo nosso sindicato é feito de incursões. Não é guerrilha direta, mas é guerrilha de pa- patrão é (...) isso ou aquilo. Eu converso com eles. Aí não tem essa! É muito ho- pel. Então fazemos incursões de seis horas até às sete horas, sete e meia, certo? Ho- nesto meu relacionamento. (Dirigente de empresa subcontratada.) rário de entrada, entendeu? O que significa que atingimos uma parte do setor Esse mesmo dirigente de empresa subcontratada fala também de um rela- metalúrgico do Rio; só onde tem concentração, no setor Naval. O resto é tudo dis- cionamento "respeitoso" com um sindicato, na verdade, inexistente dentro da perso. Então, tem fábrica que nunca se vai, entende? (1995) fábrica. A explicação confirma uma atuação gerencial que não se sente No caso em pauta, a horizontalização da produção na cadeia da "ter- ameaçada no seu poder de impor sua estratégia aos funcionários. ceirização" desmantelou efetivamente a ação coletiva dos empregados, no que Aqui não temos greves. Nunca tivemos uma parada aqui de greve. Nosso relacio- se refere às formas organizadas de ação dentro da fábrica (comissão de fábri- namento com sindicato é altamente respeitoso. Mas nossos funcionários sabem ca) e também na ação do sindicato como órgão de defesa da categoria. Embo- que aqui não se sacaneia (...) um funcionário, aqui não se sacaneia um operário. ra a comissão de fábrica da empresa principal tenha conseguido negociar a Agora, ele tem que me respeitar tanto quanto eu respeito. Aqui, nós temos um manutenção de vários benefícios para os trabalhadores deslocados para as uniforme. (...) nosso uniforme é igual ao uniforme da servente, que é igual ao uniforme do motorista. Por quê? Porque aqui tudo é igual. Nós nos diferenciamos 6 Ver Martins (1994) sobre "terceirização" e pequenas e microempresas. pela capacidade, pela capacidade gerencial, mas não por estrelas, assim no om- 7 Segundo Oliveira (1994: 504), um dos sintomas da fragilidade dos sindicatos brasileiros nos bro. Então, com isso há um clima, um ambiente de respeito mútuo. (Dirigente de anos 90 no plano organizativo "é a relação ainda débil das cúpulas sindicais com suas bases. empresa subcontratada.) Além do surgimento de novos 'sindicatos de carimbo', criados apenas em função do imposto sindical, continuam a predominar os 'sindicatos de porta de fábrica', ou seja, sem qualquer Quanto à ação sindical no contexto da "terceirização" percebe-se que acesso aos locais de trabalho e contando tão-somente com as campanhas salariais, os serviços declínio do número de empregos na categoria metalúrgica tem fragilizado a res- assistenciais e as homologações para atrair os trabalhadores que pretendem representar. Mes- posta organizada dos trabalhadores e que movimento sindical vem enfrentan- mo no caso dos sindicatos mais poderosos, a representação nos locais de trabalho continua a ser um problema. (...) Até hoje não existem garantias legais e há forte resistência do empresariado do grandes dificuldades para reagir e procurar estancar, pelo menos parcialmen- à representação nos locais de trabalho, mas as direções sindicais já consolidadas quase sempre te, a perda de postos de trabalho. Ao mesmo tempo, numa realidade fabril vêem com desconfiança essa forma de representação, seja pelo receio de que ela venha a ser marcada por relações de controle direto sobre empregados, a ação com rela- alvo da manipulação patronal contra sindicatos, seja pelo temor de que ela acabe colocando em xeque a sua representatividade e a de seus dirigentes". 92 93</p><p>empresas subcontratadas, pode-se constatar, nos anos seguintes, que pela pró- empresa iria garantir o tratamento. (...) A gente conseguiu também para aqueles que pria dinâmica do processo de subcontratação, a força de barganha coletiva não quisessem (...) a Golden Cross por três meses, conseguimos vale-transporte por conquistada no passado pela comissão não se transferiu para as empresas três meses, conseguimos um seguro na apólice, válido por três meses também. "terceirizadas" e num certo sentido pode-se dizer que houve um retrocesso. A Conseguimos mais algumas coisas. (Diretor da Comissão de Fábrica da empresa ação do sindicato, por outro lado, tem se restringido a negociações com a re- subcontratante, 1994) presentação patronal como um todo. Contudo, como anteriormente anunciado, os relatos dos dirigentes do sin- Formas de recrutamento para trabalho oriundas do processo de dicato e da comissão de fábrica revelam problemas atuais de ação política ao "terceirização" também são problemáticas para a ação dos sindicatos. Casos lidar com uma base de trabalhadores dispersa e sujeita a formas de controle encontrados da chamada "parceria familiar" trazem à baila a questão do traba- direto no local de trabalho. Mesmo os dirigentes sindicais mais sensíveis às rá- lho em domicílio e também nesse caso sindicato tem encontrado uma gran- pidas mudanças no perfil do trabalho e à diminuição do emprego industrial, de dificuldade para atuar: que entendem que a ação sindical deve existir para além da categoria Quando trabalhador sai da fábrica, (o sindicato) perde elo com ele. (...) Quem profissional que formalmente O sindicato deve representar, tem enfrentado não está organizado, não existe para sindicato, é "não organizado". Então a barreiras na busca de alternativas a uma política generalizada de ênfase na quarterização é um negócio tão longe, quer dizer, domiciliar, que não tem nem qualidade e eficiência, diante de uma mão-de-obra pressionada pelo desem- como sindicato bater na porta da pessoa e dizer: Olha, não apanha esse trabalho prego, disposta a sacrifícios por um salário melhor e impossibilitada de usar não porque isso está errado, você não tem vínculo trabalhista. (Dirigente da Federa- mecanismos coletivos de defesa do trabalho. ção dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, 1995.) No trecho abaixo, dirigente da CUT reafirma O espírito de luta e defesa da A comissão de fábrica da empresa principal negociou a "terceirização" a categoria, ao mesmo tempo em que indica a importância de uma política partir do acúmulo de forças nas ações coletivas do passado. Na verdade, na dé- propositiva no que diz respeito a mudanças nos salários, no emprego e nos di- cada de 1980, por causa de uma conjuntura interna de crise econômica, os tra- reitos dos trabalhadores: balhadores chegaram a gerir a fábrica (cf. Abreu, Ramalho & Sorj, 1994). No fi- Nós queremos um sindicalismo que não negue conflito, ao contrário. conflito nal dos anos 80, com a empresa passando para as mãos de uma multinacional no local de trabalho, na categoria, é resultante das políticas econômicas e sociais de das telecomunicações, processo de negociação que antecedeu a "tercei- emprego aplicadas no país. Na existência do conflito nós temos que apresentar para rização" respeitou poder acumulado pela comissão, embora todo processo os trabalhadores e para a população alternativas aos problemas colocados, além de tenha significado um aprendizado para a comissão sobre como lidar com esse soluções e propostas. Não basta apenas dizermos que somos contra desemprego, novo tipo de estratégia empresarial. a privatização, a "terceirização". Somos contra porque se percebe e se sente efeito imediato. Na "terceirização" efeito imediato percebido é a precarização do salário Fizemos a primeira negociação, louca, porque eu não sabia que estava falando, só e das condições de trabalho. É (Dirigente da CUT nacional, 1995) achava injusto 134 trabalhadores perderem emprego. Começamos a colocar isso como premissa básica. Se vai tem que ir os postos de trabalho. Foi Os que percebem a necessidade de sindicato ter uma política efetiva para isso que eu fiquei batendo na mesa tempo inteiro. E a gente conseguiu abrir uma enfrentar essas questões parecem dispostos a aceitar mudanças, embora estejam brecha (...). As pessoas que estivessem interessadas em ir para a (empresa), iriam. apenas confirmando a função básica do sindicato de se articular para defender Não falamos sobre patamar de salário ou benefícios, apenas em emprego, aprovei- interesses dos trabalhadores: tar aquelas pessoas. (Diretor da Comissão de Fábrica da empresa principal, 1995.) Nós, trabalhadores, temos que nos preparar para entrar nessa discussão, para defen- A comissão de fábrica conseguiu também a manutenção de outras vanta- der a nossa fatia, nosso espaço dentro disso. Porque se a gente não defender o gens. Esse caso, enquanto tal, já evidencia diferenças significativas no poder de nosso espaço, a empresa vai se adaptar da melhor forma para ela, esquecendo interferência coletiva dos trabalhadores em empresas de maior porte e empresas lado dos trabalhadores. (...) Nós não somos contra a automação, as novas tecnolo- subcontratadas, de pequeno e médio porte: gias. Agora, nós queremos discutir com as empresas, com o capital, a produção, tipo de produção. Para que lado (...) vai ser direcionada essa produção. (...) Para Na segunda negociação, a gente conseguiu que pagassem todos direitos (...). Ti- nós interessa discutir a redução da jornada de trabalho e com isso a gente vai criar nha que pagar todos os direitos. O trabalhador vai com mesmo salário. (...) Está empregos. Porque a empresa, para manter a produção, vai precisar contratar mais demitido num dia, admitido no outro com mesmo salário. A gente conseguiu para gente. (Diretor do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, 1994) esse trabalhador, (...) um plano da Golden Cross de três meses. Se tivesse algum problema, porque plano é familiar, ele teria que apresentar laudos médicos e a Em termos de estratégias para enfrentar essa nova realidade, um dos pontos enfatizados pelos dirigentes sindicais foi a questão da representação por local 94 95</p><p>de Nota-se, nesse ponto, a possibilidade de, pelo menos em parte, empresas subcontratadas por muito tempo. Isso também aumentou as dificulda- contrabalançar a autoridade quase absoluta dos gerentes/donos das empresas des para a manutenção das lideranças constituídas na empresa principal. A pul- subcontratadas na cadeia da "terceirização": verização oriunda da "terceirização" faz cessar poder conquistado pela organi- A única saída para nós é a organização no próprio local de trabalho. Tem que ter zação coletiva anterior: uma representação sindical naquelas pequenas fábricas "terceirizadas" para impedir Como uma forma de quebrar a liderança do trabalhador, a terceirização tem uma que elas precarizem as condições de trabalho (...) salário, horário de trabalho, série de coisas que a gente não gosta (...). Eu era líder numa fábrica que tinha etc. Para isso, sindicato como nós temos no Brasil não serve. nosso sindicato quase 4.000 empregados, a hora que ela pulverizou em quase 24 empresas, eu tem 30 ou 40 diretores eleitos, que ficam ali ou fazem incursões em fábricas, pela continuei (...). As outras 24, não tem como percorrer (...) e nem cara lá vai dei- manhã ou à tarde na porta da fábrica, mas não podem entrar! Porque não estão na xar eu entrar na fábrica. Eu não sou empregado dele, eu não sou nada, como é não são da fábrica. Então, para garantir que a terceirização não tenha efeitos que eu entrar na fábrica dele. E você não tem mais a relação direta com as nefastos, o sindicato tem que estar dentro da fábrica, e isso é uma batalha nossa. pessoas, você acaba caindo no esquecimento. Você acaba pulverizando qualquer Outra questão é ter mesmos benefícios da empresa grande na pequena. Salário é liderança. Isso é um negócio muito complicado. (Diretor da Comissão de Fábrica difícil; salário não é muito fácil quando a empresa é menor. que a gente tem re- da empresa principal, 1995) parado é que salário até é igual, que cai são os outros benefícios, que são salá- rio indireto. Para materializar essas conquistas, só através dessas organizações no lo- Por fim, esse diretor da comissão e também da diretoria da Federação dos cal de trabalho. (Dirigente da CUT nacional, 1995) Metalúrgicos do Rio de Janeiro interpreta as mudanças, admite uma certa falta de consenso e sugere alternativas de "interferência" para sindicato enfrentar Outro aspecto que processo de "terceirização" reativa diz respeito a um essa situação de fragilização. velho e quase sempre difícil problema de relacionamento entre a entidade sindi- cal e as organizações de trabalhadores dentro dos espaços No caso estu- Qual papel do sindicato nesse processo? dado, a comissão de fábrica teve um papel fundamental na negociação do pro- Nós estamos saindo de um sindicalismo de porta de fábrica, de carro de som, com cesso de "terceirização", mas reconhecimento desse esforço coletivo não ocor- uma série de chavões, (...) estamos saindo de uma fase em que cara ficava na reu sem restrições por parte do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, porta da fábrica, falando só as notícias dos jornais, para um sindicalismo mais pre- que divergia com relação às estratégias a serem implementadas: parado, que vai sentar numa mesa e vai discutir. Discutir política, discutir terceirização, discutir problemas. Se a fábrica vai ser remodelada, vamos interferir. Se todos trabalhadores estivessem organizados no seu de trabalho, muita Vamos tentar interferir enquanto trabalhador. Algumas correntes políticas e alguns coisa não precisava acontecer. Então nós tivemos muito embate nesse encaminha- sindicatos entendem dessa forma e estão preparando seus diretores. Outros sindi- mento com sindicato. Tivemos assembléias em que sindicato defendia uma catos e correntes políticas não entendem dessa forma. Então, (...) se vai know coisa e a gente outra. A gente conseguiu colocar no texto do acordo aproveita- bow, tem que ir posto de trabalho. Tem que garantir isso, de alguma forma, na mento do trabalhador no processo de "terceirização". No primeiro momento a discussão. Porque depois a empresa menor não dá benefícios iguais à empresa gente não entendia nada disso, a gente conseguiu aproveitar os caras e fomos maior. salário normalmente diminui, mas pelo menos cara não fica desempre- aprendendo um pouco sobre isso, agregando valores a essa negociação. Agora, gado. (Dirigente da Comissão de Fábrica e da Federação dos Metalúrgicos do Rio em nível sindical é Tudo foi acordado em assembléia de trabalhadores e nem de Janeiro, 1995) sempre a posição era unitária porque uma OLT tem Pode ter uma Os problemas colocados para movimento sindical brasileiro, a partir do missão de fábrica, uma CIPA, uma associação de trabalhadores, uma fundação dentro da empresa (...). Ela tem autonomía em relação ao sindicato, embora de- processo de reestruturação produtiva, podem, na verdade, ser entendidos de vam caminhar um pouco juntos. (Diretor da Comissão de Fábrica da empresa modo diferenciado e com ênfases distintas: por um lado, a de reagir principal e subcontratatante, 1995) a novas tecnologias e novas formas de gestão, princi- palmente no setor moderno e internacionalizado da indústria e nas grandes em- Apesar de terem conseguido acordos bastante satisfatórios no processo de presas. Essa posição, embora problemática e nem sempre bem-sucedida, admite transição dos trabalhadores para outras empresas, a redução das atividades da no sindicalismo organizado um certo poder de barganha. Isto de certa forma empresa principal fez com que a comissão de fábrica perdesse contato com tem atenuado os impactos das mudanças sobre a força de trabalho. Mesmo as- os trabalhadores transferidos e se visse incapacitada de atuar nos novos espaços índices mais recentes de desemprego, especialmente em São Paulo, re- de trabalho. A pesquisa mostra que uma boa parte destes não permaneceu nas velam uma batalha desigual e uma estratégia necessariamente defensiva por parte das organizações sindicais/Por outro lado, há a dificuldade histórica dos Sobre a questão da organização no local de trabalho, ver Jácome Rodrigues (1994). sindicatos, renovada e potencializada pelas dimensões do processo de 96 97</p><p>"terceirização", de lidar com trabalho precarizado, parcelizado e informal, ins- fracasso dos sucessivos planos econômicos. Isso se deveu ao seu comporta- talado na maioria das vezes nas pequenas e médias empresas e nos domicílios. mento de oposição sistemática e desvinculada do governo; e, principalmente pelo fato de a CUT ter tido como base de apoio nas campanhas por reposição Características recentes do movimento sindical salarial um grande número de sindicatos de categorias profissionais importantes O movimento sindical brasileiro apresenta uma certa especificidade se com- (metalúrgicos, bancários, petroleiros, químicos e funcionários públicos). Por ou- parado com outras experiências de enfrentamento da reestruturação industrial. tro lado, esse sindicalismo pode ser considerado "novo", porque não aceitou A força acumulada nos anos 70 e 80 proporcionou, na década de 1990, reco- pacificamente a estrutura sindical autoritária nem se limitou às reivindicações es- do seu papel de ator político importante. Essa legitimidade foi pecíficas, lutando pela democratização política da sociedade, e por uma política construída nas lutas sindicais contra O governo militar pós-64, nas greves regio- de desenvolvimento que garantisse melhores condições de vida e trabalho nais e nacionais, e serviu de base para os diversos processos de negociação es- (Mattoso, 1995: 133-4). tabelecidos com empresariado em anos recentes. Mas se fortalecimento do movimento sindical conseguiu de certa forma "A luta agora é pelo novo", sugere título da entrevista do presidente da evitar prejuízos maiores para os trabalhadores assalariados, não foi suficiente CUT, Vicente Paulo da Silva do Brasil, 7/2/1993), expressando sua preo- para melhorar a distribuição de renda e estender alcance da autonomia e da cupação com "o desafio de buscar novo (...). O novo é a reestruturação da liberdade sindical. Pode-se considerar que a estrutura sindical foi produção (...), a questão da tecnologia, qualidade, produtividade, participação abalada pelas modificações introduzidas na Constituição de 1988, no entanto, dos trabalhadores nos lucros". E explica que esta posição decorre do amadure- permanece hibridismo que gerou uma situação oposta à ocorrida nos países cimento que vem das lutas do passado e permitem compreender que "nós con- que romperam com as estruturas sindicais corporativas, ou seja, a não-consagra- tinuamos capazes de fazer greve, mas de maneira mais inteligente. Seria impos- ção da efetiva liberdade sindical, a ausência de mecanismos eficientes de repa- sível ter essa visão hoje sem ter experimentado os sabores e dissabores das lu- ração de atos anti-sindicais e a ausência de representação por local de trabalho tas, os erros e acertos cometidos ao longo dos últimos 15 anos". (Mattoso et alii, 1994: 12). Algumas análises retrospectivas da singularidade do movimento sindical brasileiro (principalmente, Jácome Rodrigues, 1993 e 1995) mostram como A experiência das câmaras setoriais surgiu esse perfil de ator social e político. Além da CUT, criada no bojo desse termo "câmaras setoriais" vem sendo utilizado desde os anos 80 para movimento nos anos 80, também Partido dos Trabalhadores teve como base definir um mecanismo de negociação tripartite entre trabalhadores, empresá- esse "novo sindicalismo", estruturado a partir da organização dos trabalhado- rios e governo. Embora várias tentativas de instalação de câmaras não tenham res do ABC paulista. As principais características desse sindicalismo são a críti- sido bem-sucedidas, em 1992 obteve-se primeiro resultado concreto com ca à estrutura sindical e a defesa da livre negociação entre patrões e emprega- acordo na câmara setorial do setor automobilístico. O acordo teria viabilizado dos, sem a ingerência do Estado; afastamento do poder público da esfera as câmaras setoriais como um mecanismo de negociação 1994: das relações de trabalho; e, ao nível da organização, uma prática militante de 459), de certa forma rompendo com formas tradicionais de relacionamento base, buscando fortalecer sindicato a partir das fábricas. A direção era de entre Estado e trabalhadores. Segundo Arbix (1995: 11), a busca do con- trabalhadores jovens, a maioria vinda de regiões pobres do Nordeste, operá- senso no interior da câmara sinalizava alterações de qualidade no comporta- rios industriais de primeira geração, sem relações com a esquerda tradicional e mento de empresários, trabalhadores e das agências estatais envolvidas. No sem uma visão ideológica do sindicalismo nacional-populista do período pré- caso da indústria automobilística, 64 (Jácome Rodrigues, 1995: 5). não se tratava de mais uma comissão ad boc, muito menos de um pacto social de As transformações ocorridas no sindicalismo nos anos 80 podem também "unidade das forças vivas da nação", como era hábito se anunciar em tempos ser identificadas com a retomada das ações grevistas, a explosão do ceis. Mas de uma negociação intermediária, que se desenvolvia no interior de uma sindicalismo dos assalariados médios e do setor de serviços, avanço do estrutura legalmente constituída e que se definia pela busca de uma política setorial sindicalismo rural, nascimento das centrais sindicais e aumento dos índices de curto, médio e longo prazo. de sindicalização (Antunes, 1995: 11). Comin (1994: 369) acrescenta que Apesar da controvérsia causada pela experiência, pode-se dizer que os sindicalismo desse período ofereceu resistência às políticas governamentais e re- acordos assinados confirmaram a existência de um considerável poder de bar- duziu as perdas dos assalariados. E a CUT, em particular, conseguiu representar eficazmente a insatisfação dos setores mais organizados dos trabalhadores com 9 Para uma análise crítica da estrutura sindical, ver Boito Jr. (1991). 98 99</p>