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Le Monde Diplomatique - Edição 209 (2024-12)

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2 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024
TRUMP E O VELHO CONTINENTE
O esfregão europeu
POR BENOÎT BRÉVILLE*
É 
possível estufar o peito enquanto 
pratica dança do ventre? No plano 
artístico, isso é desaconselhado: a 
rigidez do tronco prejudica a flui-
dez dos quadris, resultando em um 
movimento desajeitado, que expõe 
quem o executa ao ridículo. No plano 
diplomático, o resultado não é muito 
diferente. Os dirigentes europeus, que 
receberam a eleição de Donald Trump 
com uma mistura de fanfarronice e 
submissão, logo perceberão isso.
A vitória do candidato republicano se-
meou pânico nas chancelarias do Velho 
Continente, onde se teme que ele cum-
pra suas promessas: fim das entregas 
de armas à Ucrânia, encerramento do 
guarda-chuva de segurança dos Estados 
Unidos, questionamento das alianças 
tradicionais, protecionismo agressivo... 
Medidas que abalariam a ordem inter-
nacional estabelecida após a Segunda 
Guerra Mundial e para as quais a União 
Europeia não está preparada.
Mas não importa. De Paris a Bru-
xelas, os líderes políticos fazem pose. 
“Demonstramos que a Europa pode 
tomar o destino em suas mãos quando 
está unida”, vangloriou-se a presidenta 
da Comissão Europeia, Ursula von der 
Leyen, enquanto Emmanuel Macron 
anunciou o nascimento de “uma Euro-
pa mais unida, mais forte e mais sobe-
rana”, dotada de “autonomia estratégi-
ca”. Palavras bonitas nas quais poucos 
acreditam de fato.
Por um lado, porque a promessa já foi 
feita muitas vezes – na queda do Muro 
de Berlim, após a intervenção norte-a-
mericana no Iraque, durante a crise fi-
nanceira de 2008, no início do primeiro 
mandato de Trump... – sem que nada 
tivesse mudado na condição de vassala-
gem dos europeus. Mesmo quando um 
“amigo” está na Casa Branca, ele não 
deixa de pisoteá-los. Assim, Joe Biden 
acelerou a retirada das tropas norte-
-americanas do Afeganistão, forçando 
franceses e britânicos a realizar uma 
evacuação caótica. Ele negociou, pelas 
costas dos primeiros, um acordo militar 
com os segundos e com os australianos, 
tirando de Paris um contrato de 56 bi-
lhões de euros para a entrega de sub-
marinos a Canberra, e pouco se preocu-
pou com os impactos de seu plano de 
desenvolvimento das indústrias verdes 
na economia do Velho Continente – o 
Canadá recebeu mais atenção.
Por outro lado, porque os europeus não 
têm os meios para sustentar suas ambi-
ções. Se Washington parasse, ou mesmo 
reduzisse, sua ajuda a Kiev, eles seriam 
incapazes de substituí-la – não se supe-
ram facilmente décadas de dependência 
do complexo militar norte-americano, 
de suas patentes, seus conhecimentos, 
seus componentes, suas infraestruturas 
logísticas, seus sistemas de inteligência, 
suas capacidades de produção... A Ucrâ-
nia não teria outra escolha senão aceitar 
as condições de paz negociadas entre os 
Estados Unidos e a Rússia, o que prova-
velmente resultaria em perda territorial. 
Para os líderes europeus, que investiram 
tanto dinheiro e capital político na vi-
tória ucraniana, apresentando-a como 
a única solução possível, isso seria um 
golpe humilhante.
Assim, tentam desesperadamente dis-
suadir Trump de cumprir suas ameaças, 
oferecendo-lhe o que ele deseja. Um dia, 
Von der Leyen sugere aumentar as com-
pras de gás norte-americano; no outro, a 
ministra alemã Annalena Baerbock pro-
põe aumentar os orçamentos militares 
para alcançar 3% do PIB; no terceiro, a 
futura alta representante da União Euro-
peia para os assuntos externos, Kaja Kal-
las, chama a China de “rival sistêmica”, 
imitando a retórica norte-americana.
E não se deve contar com qualquer uni-
dade. Os europeus mostraram-se incapa-
zes de falar com uma só voz após os man-
dados de prisão emitidos pelo Tribunal 
Penal Internacional (TPI) contra o pri-
meiro-ministro israelense, Benjamin Ne-
tanyahu, por “crimes de guerra” e “crimes 
contra a humanidade”. Áustria, Hungria 
e República Tcheca rejeitaram a decisão. 
Bélgica, Irlanda e Espanha a apoiaram. 
França e Alemanha estão embaraçadas, 
declarando que tomam nota da decisão 
sem se comprometer mais. Agradar aos 
Estados Unidos ou respeitar a justiça in-
ternacional – um terrível dilema. 
*Benoît Bréville é diretor do Le Monde 
Diplomatique.
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Países da Europa sofrem juntos as consequências do resultado das eleições americanas, num cenário de dependência política
3DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil
EDITORIAL
Os militares não
estão sozinhos
POR SILVIO CACCIA BAVA
O
s militares estão na berlinda, 
sendo avaliados pela opinião 
pública diante das denúncias 
de tentativa de dar um golpe de 
Estado, derrubar o governo Lula, ma-
tar o presidente, seu vice, o Ministro 
do STF Alexandre de Moraes e rasgar 
a Constituição. 
No governo Bolsonaro, esses milita-
res tinham carta branca para praticar o 
butim do dinheiro público, ocupando 
ministérios e milhares de postos da ad-
ministração pública para os quais não 
tinham nenhuma qualificação, interfe-
rindo em licitações, pressionando por 
propinas, contratando firmas de seus 
apaniguados, desviando dinheiro públi-
co, aparelhando e destruindo os órgãos 
de Estado, perseguindo seus opositores.
O general Eduardo Pazuello, que ocu-
pou o cargo de ministro da Saúde, é um 
bom exemplo. Bacharel em Ciências 
Militares pela Academia Militar das Agu-
lhas Negras, em 1984, formou-se como 
oficial de Intendência. Fez o curso de 
Comando e Estado-Maior no Exército e 
o curso de política e estratégia aeroes-
paciais, na Força Aérea Brasileira (FAB). 
Bolsonaro justificou sua escolha para 
ministro da Saúde atribuindo-lhe a for-
mação de “especialista em logística”. Em 
sua gestão, a presença de militares sal-
tou de 2,7% para 7,3% na área da saúde, 
e foram denunciadas várias negociatas, 
entre elas com a compra de vacinas.
Segundo a BBC News Brasil, Pazuello 
foi nomeado ministro depois que dois 
ex-ministros civis se recusaram a reco-
mendar o uso da cloroquina e da hidro-
xicloroquina. A mortandade provocada 
pela epidemia de Covid-19 recai tam-
bém em suas mãos. Esse “especialista 
em logística” deixou de comprar tanto 
vacinas e até seringas para aplicá-las 
quanto respiradores.1 
Cinco generais do Exército foram 
nomeados ministros de Estado – Braga 
Netto (Casa Civil), Luiz Eduardo Ra-
mos (Secretaria de Governo), Augusto 
Heleno (Gabinete de Segurança Ins-
titucional), Fernando Azevedo e Silva 
(Defesa) e Eduardo Pazuello (Saúde). 
A Marinha também foi contemplada, 
com a nomeação do almirante Bento 
Albuquerque para o Ministério de Mi-
nas e Energia, onde ele elevou a parti-
cipação dos militares para 10,8% dos 
funcionários. Sem mencionar os ofi-
ciais em segundo escalão nos ministé-
rios e demais órgãos públicos.
Pode-se dizer que, em aliança com em-
presários e com o apoio norte-america-
no, as Forças Armadas estiveram profun-
damente envolvidas no governo anterior, 
que privatizou, favoreceu as empresas, 
isentou impostos para corporações, bai-
xou a regulação e permitiu a devastação 
ambiental, mas também operou abrindo 
espaço para a espoliação do dinheiro pú-
blico em larga escala por parte dos go-
vernantes de plantão, em especial o clã 
Bolsonaro, notoriamente vinculado às 
milícias do Rio de Janeiro.
A tentativa de golpe que acaba de 
ser denunciada pela Polícia Federal foi 
promovida pelo núcleo duro do gover-
no anterior, mas é preciso deixar claro 
que não são apenas grupos de militares 
que estão à frente dessa tentativa. Vários 
grupos econômicos do agronegócio, do 
setor financeiro, da mídia, dos transpor-
tes e do comércio estiveram envolvidos, 
muitos dos quais já identificados em in-
quéritos da Polícia Federal.
Essa situação, porém, não é de hoje. 
Em 2005, o então senador Jorge Bor-
nhausen, presidente do PFL, já dizia: 
“Estou encantado com a crise política. 
Ela vai livrar a gente dessa raça por pelo 
menos trinta anos”. Banqueiro, Bor-
nhausen se referia aos trabalhadores, 
sem-terra, pobres, excluídos, ou seja, 
todos que não pertenciam à elite.poderem escolher seu 
caminho porque todas as possibilidades 
lhes são oferecidas, estão disponíveis e 
são realmente acessíveis. Na concep-
ção do professor Sen, portanto, um país 
desenvolvido seria capaz de libertar os 
homens e as mulheres presos, hoje, às 
ordens de uns poucos ricos que em-
purram todos ao esforço de aumentar 
seu próprio lucro, não importando que 
o trabalhador se submeta apenas para 
conseguir um prato de comida repleto 
de agrotóxicos, cheio de sódio e cober-
to de gordura. Só quando vencidas a 
necessidade e a pobreza, então, a liber-
dade seria real e para todos. Sociedades 
como a brasileira, consequentemente, 
estão muito longe do desenvolvimento 
porque estão muito longe da verdadeira 
liberdade. No Brasil, fique claro, a desi-
gualdade abissal oprime, hierarquiza e 
coisifica todos os trabalhadores que são 
obrigados a vender sua mão de obra por 
preço vil ao primeiro capitalista que lhes 
oferecer as migalhas do prato. 
No entanto, há uma diferença: a gra-
vidade do dilema em 2024 é maior e 
mais urgente. Na verdade, algo que 
nunca se viu agora representa um divi-
sor de águas entre o presente e aqueles 
três períodos passados: a natureza im-
pôs seu limite. Nos dias de hoje, trata-se 
de decidir se o Brasil e seu povo sobre-
viverão à crise climática com poucos 
postos de trabalho, renda insuficiente 
e baixa produtividade, sustentando: a) 
o agronegócio, que destrói a natureza e 
contamina o ar, os rios e o solo de onde 
extrai seu lucro; b) a financeirização da 
riqueza de quem é rico; e c) a irrelevân-
cia crescente da indústria nacional. 
Isso posto, emerge a pergunta mais 
urgente de todas para o Brasil: como 
superar esse quadro e alcançar o desen-
volvimento, garantindo liberdade ver-
dadeira aos brasileiros, principalmente 
às futuras gerações, quando se arrasam 
barbaramente as chances? Atendendo 
ao agronegócio exportador e à grande 
finança em detrimento da indústria na-
cional, da valorização do trabalho e da 
geração de tecnologia que não é! Mas 
como ser desenvolvido e ter cidadãos 
livres se o povo se prende calado (por 
necessidade e engano) aos grilhões que 
os mais ricos impõem? 
“NÃO RESTA OUTRA SAÍDA”
Para já é preciso valorizar o trabalho 
e a geração de tecnologia e fomentar a 
produção fabril nacional. Mais do que 
isso. É vital saber que não há país que 
tenha chegado ao desenvolvimento sem 
planejar, e nenhum, absolutamente ne-
nhum, colocou seu futuro nas mãos do 
mitológico “deus mercado”. A comoven-
te ilusão do mercado que tudo resolve, 
se deixado livre, é uma perigosa fantasia 
que, ao redor do mundo, tem entregado 
apenas decadência.
É imperativo para 90% da população 
brasileira escolher o desenvolvimento. 
E como se escolhe o desenvolvimento e 
um futuro de liberdade? O primeiro pas-
so é perceber que o mercado obedece a 
quem tem mais poder, seja ele econô-
mico, político ou ambos. Assim, se o ob-
jetivo é realmente o desenvolvimento, 
então é ridículo apelar ao “mercado”. O 
comércio não é mágico. É feito por ho-
mens e, entre eles, os poderosos man-
dam mais, controlam os fluxos, decidem 
quem, quando e o valor de tudo. 
O segundo passo é reconhecer quem 
somos: um país imoral que mantém 
propositadamente seu povo na pobreza 
e na ignorância. 
O terceiro é adotar a firme decisão: 
queremos o desenvolvimento! 
O quarto passo é perguntar: o que fazer 
para superar a barbaridade que está aí? 
Aqui, não há uma receita. Porém, é sabi-
do que a construção do desenvolvimento 
obriga a cumprir três necessidades:
1. subalternizar o agronegócio exporta-
dor ao interesse coletivo pelo desenvol-
vimento, afinal são os latifundiários os 
maiores bastiões e beneficiários da bar-
bárie vivida;
2. reduzir o poder da grande finança, 
regulamentando, sem brechas, as re-
lações entre Banco Central e empresas 
financeiras. Mais: fiscalizando de perto 
as operações com grandes volumes de 
recursos, principalmente os transfron-
teiriços, que se querem sem lei;
3. estimular a indústria, a tecnologia 
nacional e a exportação de manufatura-
dos, atividades capazes de criar longas 
cadeias produtivas, gerar empregos de 
qualidade e multiplicar a renda nacional.
Para tanto, a política, o processo que 
funda o convívio social, é a chave. No 
caso brasileiro, uma democracia forte 
permitirá à sociedade organizada impor 
recuos às forças retrógradas do neolibe-
ralismo míope e do conservadorismo 
atrasado. Aqui, apenas a luta política 
fará os sacerdotes do “moinho satânico” 
retrocederem e, dentro da democracia, 
a forma de agir para alcançar o objetivo 
do desenvolvimento precisa ser costu-
rada entre as forças progressistas nacio-
nais, sempre com os olhos no horizonte 
de um mundo que muda em várias fren-
tes simultâneas. Será preciso, dessarte, 
concertar, dentro do possível, desejos, 
esperanças e rejeições para que o poder 
popular em prol do desenvolvimento 
supere a falsa profecia da liberdade eco-
nômica que ilude um povo roubado em 
seu direito mais simples: a própria vida. 
Haverá reação! Os bárbaros pregarão 
pelo descalabro de mentir à sociedade, 
além de atacar e até matar uns tantos. 
Seus gritos tentarão inocular em todos o 
veneno dos interesses mesquinhos dis-
farçados de orações pela “liberdade”. 
O Brasil tem, portanto, diante de si, 
uma bifurcação: ou se desenvolve e ga-
rante um futuro melhor às novas gera-
ções ou mantém a acumulação primitiva 
de capital no campo e a financeirização 
na cidade, ambas concorrendo para fun-
dar um país hiperviolento de tão pobre 
e desigual, alimentado pelo pão envene-
nado quimicamente e coberto pelo man-
to fúnebre da fumaça das queimadas. 
É uma decisão que não pode ser adia-
da, pois a natureza já mostrou que, desta 
vez, não salvará o homem de suas des-
temperanças e ilusões. Se esmagar pes-
soas no moinho do capital foi possível 
por séculos, desafiar a natureza é terra-
planismo tresloucado e a própria elite 
terminará por perder o controle sobre 
seus ativos até nada valerem. Não se tra-
ta de poder fazer, mas de que “não resta 
outra saída senão fazê-lo”.
O momento, porém, é surpreenden-
temente oportuno. O Brasil chegou ao 
limite da ordem tradicional que vitimou 
tantos homens e mulheres no altar da 
abundância vivida pelos ricos. Tais limi-
tes, porém, não são dados, hoje, apenas 
pela luta social contra o poder de pou-
quíssimos endinheirados: a natureza 
está gritando e quis dar seu basta à im-
prudente desumanidade das elites eco-
nômicas e políticas nacionais. Assim, 
transformações inevitáveis virão. Cabe 
a nós escolher quais serão. Por isso, só 
a política pode ser o caminho possível 
para reposicionar o país no concerto das 
nações e redirecionar o futuro. O mo-
mento certo de fazer do Brasil uma gran-
de nação – justa, rica, solidária, parceira 
internacional e capaz de avançar nas 
melhores possibilidades do ser humano 
– é este, quando o modelo velho já mor-
reu e o novo se esforça para nascer. 
*Ricardo L. C. Amorim é economista, se-
cretário parlamentar na Câmara dos Depu-
tados e pesquisador do grupo Repensando 
o Desenvolvimento (Labieb-IEB), da Uni-
versidade de São Paulo.
1 A Lei n. 8.212/1991, em seu artigo 1º, define: 
“A Seguridade Social compreende um con-
junto integrado de ações de iniciativa dos po-
deres públicos e da sociedade, destinado a 
assegurar o direito relativo à saúde, à previ-
dência e à assistência social”. 
2 Anfip, Análise da Seguridade Social 2023, 
24.ed., Brasília, 2024.
3 Chegou a isso, por exemplo, obrigando-se o 
governo a renunciar a grandes parcelas da Co-
fins, do PIS/Pasep e de outras contribuições.
Com FHC, após o 
vitorioso controle da 
inflação, o governo 
federal poderia ter 
escolhido desenvolver 
o Brasil, em vez de 
destruir a indústria 
nacional e abraçar 
o neoliberalismo
12 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024
Um mandato poderoso 
e sem precedentes?
A eleição de Donald Trump, desta vez com vantagem de votos sobre sua adversária, 
reflete deslocamentos eleitorais significativos das classespopulares, dos jovens e 
dos hispânicos em direção ao Partido Republicano. Apesar de a diferença entre os 
dois candidatos ser inferior a 2%, os democratas não conseguem se desvencilhar 
da imagem de partido elitista, urbano e excessivamente diplomado 
POR JEROME KARABEL*
VITÓRIA DE TRUMP E A AMÉRICA MAIS POLARIZADA DO QUE NUNCA
M
as como é que um persona-
gem assim conseguiu ser elei-
to presidente? Para começar a 
entender a vitória de Donald 
Trump, é preciso medir o que ela refle-
te: uma polarização da vida política 
norte-americana que se aprofunda há 
trinta anos. Entre 1994 e 2014, a propor-
ção de republicanos que viam os demo-
cratas como uma “ameaça ao bem-es-
tar do país” mais que dobrou, passando 
de 17% para 36%; movimento seme-
lhante ocorreu entre os democratas, 
com 16% considerando os republica-
nos uma ameaça em 1994, contra 27% 
vinte anos depois. Esse foi o pano de 
fundo da eleição de 2016, vencida por 
uma margem estreita por Trump.
Nos últimos 25 anos, o peso relativo 
dos dois grandes partidos tem sido no-
tavelmente semelhante. Ao longo das 
sete eleições presidenciais realizadas 
entre 2000 e 2024, o voto democrata e 
o voto republicano oscilaram dentro de 
uma faixa muito estreita: entre 48% e 
53% para os democratas, e entre 46% e 
51% para os republicanos. Isso significa 
que qualquer republicano que entrasse 
na disputa presidencial de 2024 poderia 
contar com um piso de cerca de 45% dos 
votos – um fator crucial para entender 
como um candidato com tantos atribu-
tos negativos quanto Trump conseguiu 
obter metade dos sufrágios.
Outra característica do cenário polí-
tico norte-americano é o aumento do 
voto por rejeição, em que a escolha elei-
toral é menos motivada pela simpatia 
por um dos partidos e mais pela aversão 
ao outro. Para medir esse fenômeno, os 
pesquisadores utilizam “termômetros 
emocionais” que permitem atribuir no-
tas de 0 (negativo) a 100 (positivo). Em 
1978, 19% dos entrevistados davam 30 
pontos ou menos à formação adversária; 
em 2012, essa proporção subiu para 56%, 
quase o triplo.1 Paralelamente, houve 
um agravamento da “polarização afeti-
va”, que se manifesta por uma profunda 
aversão aos apoiadores do outro partido.
A polarização é mais acentuada nos 
Estados Unidos do que em qualquer 
outra democracia industrializada.2 Ela 
afeta até mesmo a esfera mais íntima: 
os casamentos que transcendem linhas 
partidárias são cada vez mais raros. Em 
2020, um estudo revelou que apenas 6% 
dos entrevistados, de qualquer inclina-
ção política, tinham um cônjuge simpa-
tizante do partido adversário.3
Polarização ideológica e afetiva, au-
mento do voto por rejeição, equilíbrio 
relativo de forças entre democratas e 
republicanos: essas são as condições 
que permitiram a Trump retomar a Casa 
Branca. A generalização do voto por re-
jeição, em particular, revelou-se decisi-
va: hoje, o eleitor norte-americano não 
escolhe um candidato porque o idolatra 
ou mesmo porque gosta dele, por mais 
imperfeito que seja; ele o escolhe, acima 
de tudo, porque despreza o rival.
CINISMO, DESCONFIANÇA 
E SENTIMENTO ANTISSISTEMA
Trump pode ter iniciado sua campanha 
com um pesado passivo, mas também 
tinha muitos trunfos a seu favor. Em 
todo o mundo ocidental, populações 
exasperadas com a alta dos preços e os 
transtornos decorrentes da pandemia 
de Covid-19 recentemente tiraram do 
poder os governantes em exercício. A 
inflação, em particular, é um tema ex-
tremamente sensível para os norte-a-
mericanos, dos quais não menos de 60% 
afirmam ter dificuldade para fechar as 
contas no fim do mês.4
Integrante da administração Biden, 
Kamala Harris era vista como a candi-
data do sistema e do status quo, o que, 
no clima político atual, está longe de ser 
uma vantagem. A retórica antissistema 
exerce grande apelo nos Estados Uni-
dos, o país do G7 onde os cidadãos me-
nos confiam em suas instituições. Essa 
desconfiança faz parte de uma tendên-
cia de longo prazo: enquanto quase 80% 
dos norte-americanos confiavam em 
seu governo em meados da década de 
1960, essa taxa caiu continuamente até 
atingir o nível historicamente baixo de 
22% em abril de 2024.5 Nesse ambiente 
impregnado de cinismo e desconfiança, 
um candidato antissistema como Trump 
tinha amplas chances de sucesso.
Por mais favorável que fosse o contex-
to geral, a magnitude de sua vitória não 
pode ser ignorada. Além de ser o primei-
ro republicano a vencer o voto popular 
desde 2004, Trump não só conquistou 
os sete estados decisivos, mas também 
garantiu maioria no Senado e na Câ-
mara dos Representantes. Comparado 
a 2020, ele avançou em todo o país, es-
pecialmente entre os moradores de zo-
nas rurais (+15%), os jovens de 18 a 29 
anos (+13%), os eleitores não brancos 
sem diploma (+16%) e os latinos, tanto 
homens (+11%) como mulheres (+17%). 
Foram essas categorias que, em grande 
medida, lhe garantiram a vitória.
Pode ele, no entanto, reivindicar, como 
fez em seu discurso de vitória, ter recebi-
do dos norte-americanos “um mandato 
poderoso e sem precedentes”? Certa-
mente não. Sua vantagem, inferior a 3 
milhões de votos, é duas vezes menor que 
a de Joe Biden em 2020 (um pouco mais 
de 7 milhões). Além disso, outros pre-
sidentes no passado foram eleitos com 
margens muito mais confortáveis. Em 
1932, Franklin Delano Roosevelt superou 
Herbert Hoover por mais de 17 pontos, e, 
embora a vitória de Ronald Reagan sobre 
Jimmy Carter em 1980 tenha sido um 
pouco menos esmagadora, ele ainda as-
sim o venceu por 10 pontos. Trump, que 
obteve menos de 50% dos votos, superou 
Kamala Harris por apenas 1,7 ponto.
A alegação do clã Trump de que sua 
consagração representaria uma “re-
configuração histórica” da vida política 
norte-americana é igualmente insus-
tentável. As eleições que os especialis-
tas consideram ter verdadeiramente 
reconfigurado o cenário político – como 
as de Andrew Jackson em 1828, William 
McKinley em 1896, Franklin Roosevelt 
em 1932 e Ronald Reagan em 1980 – fo-
ram vencidas com margens muito mais 
expressivas e inauguraram longos perío-
dos de domínio do partido vencedor.
No entanto, a eleição de 2024 confir-
mou uma tendência antiga que deveria 
preocupar sobretudo os democratas: a 
erosão do voto operário a seu favor. Essa 
realidade não se restringe aos Estados 
Unidos. Em várias democracias ociden-
tais, os partidos de esquerda e de cen-
tro-esquerda têm visto a classe operá-
ria, que historicamente era seu alicerce 
social e ideológico, se afastar deles. Para 
o Partido Democrata norte-americano, 
essa erosão há muito era mais visível en-
tre a classe trabalhadora branca. O plei-
to de novembro destacou um fenômeno 
novo: o aumento do voto republicano 
entre trabalhadores não brancos.6 O 
crescimento é particularmente impres-
sionante entre os hispânicos, com 55% 
dos homens latinos, trabalhadores ou 
não, votando em Trump, contra 43% em 
Harris (em 2020, Biden superou Trump 
nesse grupo por 23 pontos).7
De fato, os democratas há muito se 
destacam por uma defesa bastante tími-
da dos trabalhadores, como ficou claro já 
nos anos 1990, quando Bill Clinton ado-
tou a agenda econômica neoliberal, e no-
vamente em 2008-2009, quando Barack 
Obama preferiu resgatar grandes insti-
tuições financeiras a proteger os milhões 
de norte-americanos que perderam suas 
casas durante a grande recessão. Como 
aponta o senador Bernie Sanders: “Não 
deveria ser nenhuma surpresa que um 
Partido Democrata que abandonou a 
classe trabalhadora descubra que a clas-
se trabalhadora o abandonou”.8
© AP pic/FTM
Em 05 de novembro, cidadãos estadunidenses elegeram Donald Trump presidente
13DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil
Sanders não está errado, mas deixa de 
mencionar que as razões para esse afasta-
mento não são apenas econômicas, mas 
também culturais. Isso é ilustrado pela 
experiência de Dan Osborn. Mecânico na 
Kellogg’s, onde liderou uma greve bem-
-sucedida em 2021, ele foi convencido por 
um colega sindicalista a concorrer como 
independente contra a senadorarepu-
blicana do Nebraska. Em 5 de novembro, 
obteve a notável marca de 46% dos votos. 
No entanto, Osborn afirmou ter sentido 
que “os democratas o tratavam com supe-
rioridade” e acredita não ser o único a ter 
essa percepção. Quando os republicanos 
prometem proteger os salários dos nor-
te-americanos, “os democratas explicam 
que querem proteger seus pronomes”, 
ele observa. “Isso definitivamente não é a 
maior preocupação de quem trabalha 80 
horas por semana em uma fábrica de pro-
cessamento de carne, em fazendas ou em 
qualquer outro lugar”.9
A questão de gênero, explorada até a 
exaustão pela campanha republicana, é 
apenas um exemplo das guerras cultu-
rais nas quais os democratas se encon-
traram do lado dos perdedores. Uma 
propaganda republicana antitransgê-
neros terminava com o slogan: “Kamala 
luta por ‘elus’. O presidente Trump luta 
por você”. Para muitos eleitores, os de-
mocratas tornaram-se especialistas em 
ingerências linguísticas inoportunas, 
sendo talvez o caso mais emblemático 
sua insistência em popularizar o termo 
neutro “latinx”, em substituição aos ter-
mos com marcação de gênero “latino” 
e “latina”. O problema desse neologis-
mo é que, ao contrário de black, criado 
pela própria comunidade afro-ameri-
cana, ele é imposto à população latina 
de fora para dentro, por pessoas que se 
consideram cultural e politicamente 
esclarecidas. Apenas 4% dos hispânicos 
o utilizam para se autodefinir, enquan-
to cerca de metade nunca ouviu falar 
dele; dos 47% que conhecem o termo, 
três quartos opinam que ele não deve-
ria ser usado.10 Para o democrata Ruben 
Gallego, eleito senador com mais de 2 
pontos de vantagem sobre seu adversá-
rio republicano no Arizona – um estado 
onde Trump superou Harris por mais 
de 5 pontos –, “os políticos latinos que 
utilizam essa palavra frequentemente o 
fazem apenas para agradar ao eleitorado 
branco, rico e progressista”.11
De forma mais geral, grande parte da 
classe trabalhadora sente que os de-
mocratas desrespeitam sua dignidade. 
O exemplo supremo dessa condescen-
dência foi a infeliz declaração de Hillary 
Clinton, durante a campanha de 2016, 
em que afirmou que metade dos apoia-
dores de Trump era um “bando de deplo-
ráveis” com opiniões “racistas, sexistas, 
homofóbicas, xenofóbicas e islamofó-
bicas”. Independentemente de os de-
mocratas mais instruídos serem ou não 
mais arrogantes que seus equivalentes 
republicanos, o partido tornou-se para 
use it” [A conscientização sobre o termo “la-
tinx” dobrou entre hispânicos dos Estados Uni-
dos desde 2019, mas apenas 4% o utilizam], 
Pew Research Center, 12 set. 2024.
11 Yael Halon, “Arizona Democrat Gallego slams 
use of ‘Latinx’ as a ‘performative’ term to appea-
se ‘White rich progressives’” [Democrata do Ari-
zona, Gallego critica uso de “latinx” como termo 
“performativo” para agradar a “progressistas 
ricos e brancos”], Fox News, 6 dez. 2021.
12 Maureen Dowd, “Democrats and the case of 
mistaken identity politics” [Democratas e o 
caso de uma política identitária equivocada], 
The New York Times, 9 nov. 2024.
13 “Why America chose Trump: Inflation, immi-
gration, and the Democratic brand” [Por que 
os Estados Unidos escolheram Trump: infla-
ção, imigração e a marca democrata], Blue-
print, 8 nov. 2024.
muitos sinônimo de “politicamente cor-
reto”, “cultura do cancelamento” e “wo-
kismo”,12 símbolos do abismo que separa 
as elites democratas da classe trabalha-
dora, com consequências eleitorais reais. 
Uma pesquisa realizada logo após o plei-
to, com mais de 3 mil eleitores, revelou 
que, entre os motivos citados para justifi-
car a rejeição a Harris, o fato de ela pare-
cer “mais preocupada com questões cul-
turais como a dos transgêneros do que 
em ajudar as classes médias” ocupava a 
terceira posição, logo após a inflação e a 
imigração. Nos estados-chave, esse fator 
foi o principal determinante do voto.13
O trumpismo não é sem precedentes 
na história dos Estados Unidos: basta 
lembrar a expropriação dos povos in-
dígenas, a instituição da escravidão, a 
Ku Klux Klan, as ligas anti-imigração do 
início do século XX, o macarthismo, as 
campanhas dos conservadores George 
Wallace e Patrick Buchanan e o surgi-
mento das milícias armadas. Porém, os 
Estados Unidos também são o país onde 
nasceram o movimento abolicionista, 
o movimento pelos direitos das mulhe-
res com a convenção de Seneca Falls, o 
movimento pelos direitos civis, o movi-
mento pelos direitos LGBTQIA+ na es-
teira das revoltas de Stonewall. São a pá-
tria dos Industrial Workers of the World 
(IWW), do socialista Eugene Debs e de 
Franklin Roosevelt, eleito quatro vezes 
para colocar em prática seu New Deal. E 
foram a primeira nação ocidental a ele-
ger (e reeleger) um presidente negro.
O período que se inicia será marcado 
pelo confronto entre essas duas tradi-
ções concorrentes. Se o trumpismo faz 
parte inegável do que são os Estados 
Unidos, eles estão muito longe de se re-
sumir a isso. 
*Jerome Karabel é professor de Sociologia 
da Universidade da Califórnia em Berkeley.
1 Alan I. Abramowitz, The Great Alignment. Race, 
Party Transformation and the Rise of Donald M. 
Trump [O grande alinhamento. Raça, transfor-
mação partidária e a ascensão de Donald M. 
Trump], Yale University Press, New Haven, 2018.
2 May Wong, “America leads other countries in 
deepening polarization” [Os Estados Unidos 
lideram outros países no aprofundamento da 
polarização], Stanford Institute for Economic 
Policy Research (SIEPR), 20 jan. 2020.
3 Colin A. Fisk e Bernard L. Fraga, “‘Til death do us 
part(isanship). Voting and polarization in opposi-
te-party marriages” [Até que a morte nos separe 
(partidarismo). Voto e polarização em casamen-
tos entre partidos opostos], The Democracy Fund 
Voter Study Group, ago. 2020. Ver também Wen-
dy Wang, “Marriages between Democrats and 
Republicans are extremely rare” [Casamentos en-
tre democratas e republicanos são extremamente 
raros], Institute for Family Studies, 3 nov. 2020.
4 Jessica Dickler, “61% of Americans say they 
are living paycheck to paycheck even as infla-
tion cools” [61 % dos norte-americanos dizem 
viver de salário em salário mesmo com o arrefe-
cimento da inflação], CNBC, 31 jul. 2023.
5 “Public trust in government: 1958-2024” [Con-
fiança pública no governo: 1958-2024], Pew 
Research Center, 24 jun. 2024.
6 Zachary B. Wolf, Curt Merrill e Way Mullery, 
“Anatomy of three Trump elections: How Ame-
ricans shifted in 2024 vs. 2020 and 2016” 
[Anatomia de três eleições de Trump: como os 
norte-americanos mudaram em 2024 em com-
paração a 2020 e 2016], CNN, 6 nov. 2024.
7 Rachel Uranga e Brittny Mejia, “Why Latino 
men voted for Trump: ‘It’s the economy, stu-
pid’” [Por que homens latinos votaram em 
Trump: “É a economia, estúpido”], Los Ange-
les Times, 8 nov. 2024.
8 Jeet Heer, “Bernie Sanders is right: Democrats 
have abandoned the working class” [Bernie 
Sanders está certo: os democratas abandona-
ram a classe trabalhadora], The Nation, Nova 
York, 11 nov. 2024.
9 Citado por Michelle Goldberg, “Republicans as-
sumed a Nebraska Senate seat was safe. Then 
this candidate came along” [Republicanos pre-
sumiram que uma vaga no Senado em Nebraska 
estava garantida. Então esse candidato surgiu], 
The New York Times, 25 out. 2024.
10 Luis Noe-Bustamante, Gracie Martinez e Mark 
Hugo Lopez, “Latinx awareness has doubled 
among U.S. Hispanics since 2019, but only 4% 
37 
89 
66 
31 
94 
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2 
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2 
3 
2 
3 
3 
3
3 
2 
3
18-29
anos 
45-64
anos 
Brancos
Negros
Hispânicos
Homens
brancos
Mulheres
negras
Homens
hispânicos
Brancos
c/ nível superior
Brancos
s/ nível superior
Não brancos
c/ nível superior
Não brancos
s/ nível superior
Menos de 
US$ 50.000
US$ 50.000
a US$ 100 000
Mais de
US$ 100.000
Zona
urbana 
Meio
rural 
Biden, em 2020
Clinton, em 2016
Trump 
Outro,
ou não
respondeu
Voto majoritário
Escolaridade
e origem
étnica
Sexo e
origem
étnica
Origem
étnica
Faixa
etária
Résidência
Renda
familiar
Harris, em 2024
PARA QUEM
ELES VOTARAM?
Fontes: Edison Research, « Exit polls », em The New York Times, 2016 e 2020, e The Washington Post, 2024.
14 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024
E Trump teve sua vingança
Donald Trump não retorna à Casa Branca como um homem isolado que chega à cena 
política sem rumo claro. Oito anos após sua primeira vitória, sua base eleitoral é mais 
ampla; sua maioria parlamentar, mais sólida. Além disso, ele se cercou de uma equipe 
de fiéis aliados que não tentarão conter seus impulsos, inclusive os diplomáticos 
POR SERGE HALIMI*
UMA NOVA DIREITA NORTE-AMERICANA
E
m 2008, a eleição de Barack Oba-
ma à Casa Branca parecia anun-
ciar o surgimento de uma nova 
América, mais diversa, mais inte-
ligente, mais justa. Na época, conside-
rou-se que essa vitória democrata não 
representava uma ruptura ideológica 
ou política – o primeiro presidente afro-
-americano da história de seu país era 
um intelectual que detestava confron-
tos –, e sim o resultado de uma meta-
morfose demográfica e sociológica. Por 
um lado, a chegada de novos migrantes 
diluía progressivamente a proporção 
de eleitores brancos, majoritariamente 
republicanos. Por outro, novas gera-
ções mais instruídas e, portanto, mais 
esclarecidas substituíam as antigas, 
apegadas a tradições ultrapassadas.
O anúncio de tamanha felicidade pa-
receu ainda mais providencial por não 
exigir quase nenhum esforço ou luta, 
já que a demografia era elevada à con-
dição de destino político. A boa nova 
encantou, então, a social-democracia 
europeia, que enfrentava dificuldades, 
e inspirou na França a “estratégia Terra 
Nova”, exposta em maio de 2011 em um 
relatório da fundação de mesmo nome, 
que buscava ajudar Dominique Straus-
s-Kahn, então diretor-geral do FMI, a 
vencer as eleições presidenciais france-
sas do ano seguinte. O ex-ministro so-
cialista da Economia já havia, em 2002, 
teorizado amplamente sobre a perda 
do eleitorado operário pela esquerda e 
se resignado a isso.1 Terra Nova sugeria, 
então, que um novo bloco, formado por 
mulheres, jovens, graduados, “minorias 
e bairros populares” – o equivalente 
francês da “coalizão Obama” –, permiti-
ria que os sociais-democratas europeus 
superassem a deserção de seu eleito-
rado popular. “A coalizão histórica da 
esquerda, centrada na classe operária, 
está em declínio”, analisava Terra Nova. 
“Uma nova coalizão está surgindo: ‘a 
França de amanhã’, mais jovem, mais 
diversa, mais feminilizada.”2
Sabemos o que aconteceu. Hoje, a de-
silusão é ainda mais profunda nos Esta-
dos Unidos. Se a eleição de novembro 
passado tivesse colocado um presidente 
em fim de mandato, idoso e enfraque-
cido, contra Donald Trump, o resultado 
teria sido menos significativo. Contudo, 
Kamala Harris não só parecia encarnar 
a “nova América” alegre e multicultu-
ral – em oposição a um rival ressentido, 
que pretendia restaurar a suposta gran-
deza do passado (“Make America Great 
Again”, slogan resumido pelo acrônimo 
Maga) –, como também havia entrado 
na disputa com o apoio de um partido 
unido, um tesouro de guerra colossal e 
uma mídia em êxtase.
Além disso, ela cometeu poucas fa-
lhas graves e superou o ex-presidente no 
único debate televisivo que os opôs. No 
entanto, Trump conquistou uma vitória 
incontestável que, desta vez, os demo-
cratas não podem atribuir às intrigas de 
Vladimir Putin. Do ponto de vista deles, 
o pior não é tanto o aumento no número 
de votos para Trump entre 2016 e 2024 – 
apesar de suas ofensas, processos, con-
denações e envolvimento na insurreição 
do Capitólio –, mas o fato de que esses 
13 milhões de votos adicionais provêm 
em grande parte da “nova América”. 
Trump deve menos sua reeleição a uma 
mobilização extra de seus redutos tradi-
cionais (rurais, evangélicos e brancos) e 
mais à mudança significativa a seu favor 
de uma fração dos jovens, hispânicos e 
negros (ver na pág. 12).
Por sua vez, Harris só melhorou as 
posições dos candidatos democra-
tas que a precederam em dois grupos: 
homens brancos e pessoas com rendi-
mentos superiores a US$ 100 mil por 
ano. Apesar de ser mulher e de ter con-
duzido uma campanha centrada no 
tema da liberação do aborto, a despei-
to da postura marcadamente “viril” de 
seu adversário, ela mobilizou menos o 
eleitorado feminino, incluindo jovens 
de 18 a 29 anos, do que Biden quatro 
anos antes. Além disso, mesmo com as 
constantes lembranças sobre o racis-
mo de Trump, ele ampliou sua votação 
entre os eleitores negros. Seu resultado 
foi ainda mais impressionante entre 
os hispânicos. Embora tenha tratado 
os imigrantes latino-americanos como 
criminosos em potencial, ele consoli-
dou suas posições na Flórida e venceu 
em doze dos catorze condados do Texas 
situados na fronteira com o México, 
incluindo Starr, onde a população é 
97% hispânica e Hillary Clinton obte-
ve 79% dos votos em 2016... Isso refuta 
tanto as apostas demográficas de Terra 
Nova como as teorias conspiratórias da 
“grande substituição” [das populações 
nativas/brancas por imigrantes].
A batalha de interpretações está em 
curso, sobretudo no Partido Democra-
ta. Alguns, como em 2017, preparam-
-se para resistir em seus estúdios de 
televisão. Muito influente na burguesia 
progressista, a apresentadora Rachel 
Maddow, da MSNBC, encerrou a noi-
te eleitoral suspirando: “Seria bom ter 
vencido esta eleição. Não foi o caso. 
Certo. Agora precisamos salvar o país”. 
Sem dúvida, ela argumentará que a 
América branca continua racista, que 
os hispânicos são machistas e que os 
norte-americanos menos instruídos 
– aqueles que se deixam enganar pe-
las fake news em vez de ler o New York 
Times – são tão imorais que aceitam, 
conscientemente, reeleger para a Casa 
Branca um mentiroso, ladrão, estupra-
dor, golpista, agente russo, fascista e 
nazista. Esses terrenos de investigação 
já foram explorados à exaustão. Contu-
do, na MSNBC, assim como em muitos 
outros meios, o objetivo há muito dei-
xou de ser informar sobre o que muda, 
mesmo correndo o risco de surpreen-
der, para fidelizar uma audiência radi-
calizada, oferecendo-lhe uma imagem 
enaltecedora de si mesma.
A análise da eleição não é necessaria-
mente mais profunda em outros con-
textos. A direita democrata acusa Harris 
de ter ido excessivamente à esquerda, 
esquecendo que ela encerrou sua cam-
panha ao lado da neoconservadora Liz 
Cheney, na esperança de atrair eleito-
res republicanos hostis a Trump. Bernie 
Sanders, por outro lado, acredita que 
o Partido Democrata, excessivamente 
dependente de “poderes econômicos 
e consultores bem pagos”, mostrou-se 
incapaz de “compreender a dor e a alie-
nação política vividas por dezenasde 
milhões de norte-americanos”. No en-
tanto, em 27 de julho, o senador de Ver-
mont lembrou na MSNBC que Biden foi 
“o primeiro presidente da história dos 
Estados Unidos a se juntar a um piquete 
de greve” e que lhe devemos “as priori-
dades e conquistas mais progressistas 
da história moderna”. De fato, o plano de 
reindustrialização de Biden, desajeita-
damente chamado de “lei de redução da 
inflação”, procurou promover o empre-
go industrial e oferecer bons salários a 
norte-americanos sem diploma.3 Porém, 
como os resultados desse projeto ainda 
não eram perceptíveis no momento da 
eleição, os discursos democratas exal-
tando seu “bom desempenho” econômi-
co foram ofuscados pela estagnação do 
nível de vida das classes populares e pela 
disparada dos preços, impulsionada pela 
crise sanitária e pela guerra na Ucrânia.
QUAIS LIÇÕES NO EXTERIOR?
Do outro lado do Atlântico, todos tam-
bém se esforçam para tirar lições da 
atualidade norte-americana que vali-
dem suas análises. Para a extrema direi-
ta, a vitória de Trump demonstra que o 
povo odeia os imigrantes e a “ideologia 
woke” e não deseja que os ricos paguem 
mais impostos. Para os socialistas, isola-
dos quando o “suserano” norte-ameri-
cano não é democrata, isso prova que é 
preciso construir a Europa. Já para os In-
soumis [membros do partido França In-
submissa, esquerda], o fracasso de Har-
ris confirma sua teoria da “abstenção 
diferencial”, ou seja, a existência de um 
eleitorado de esquerda inclinado a boi-
cotar as urnas quando não é mobilizado. 
“Trump não avançou, perdeu 2 milhões 
de votos”, afirmou o deputado Antoine 
© Gage Skidmore/Flickr
15DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil
Léaument. “Mas Kamala Harris perdeu 
14 milhões de votos em relação a Joe 
Biden.”4 A candidata, de fato, seduziu 
menos a base democrata do que Biden 
quatro anos antes. Contudo, a diferen-
ça entre eles é de cerca de 7 milhões de 
votos, não o dobro. Quanto ao vencedor, 
longe de ter perdido 2 milhões de votos, 
ele ganhou até um pouco mais que isso.5
A vitória de Trump questiona aqueles 
que acreditam que denunciar o racis-
mo, as violências policiais e a extrema 
direita é a chave para despertar os abs-
tencionistas. Esses temas, por si sós, 
não definem uma identidade política 
nem o comportamento eleitoral asso-
ciado, uma vez que Trump obteve um 
número inesperado de votos negros 
e, sobretudo, hispânicos. Há muito se 
sabe que, embora não corresponda a 
seus interesses econômicos, uma fra-
ção considerável do eleitorado popular 
vota à direita em razão de crenças reli-
giosas, história familiar, meio social etc. 
Da mesma forma, os hispânicos podem 
eleger um presidente xenófobo porque 
culpam seu adversário pelo aumento 
dos preços, temem ser arrastados para 
uma guerra ou até se opõem a uma po-
lítica liberal de imigração.
ra de redação da revista Esprit e conse-
lheira do programa Américas do Institut 
Français des Relations Internationales 
(Ifri), declarou no programa L’Esprit Pu-
blic: “Trump é de uma violência incrível, 
especialmente contra suas adversárias 
femininas. [...] Agora ele nos diz que Liz 
Cheney deveria enfrentar um pelotão 
de execução”. Essa distorção – que em 
outras circunstâncias seria chamada de 
fake news – é apenas a última de uma 
longa série. Ela reflete uma polêmica 
exacerbada que falha em atingir seu alvo.
Como alguns democratas eleitos ago-
ra reconhecem, suas prioridades estão 
excessivamente alinhadas com as dos 
veículos progressistas, em geral sedia-
dos em Nova York ou Washington, cujo 
principal combustível é a indignação.7 
Isso traz o risco de alimentar uma visão 
distorcida do país e do que representa o 
fenômeno Trump. Em política externa, 
por exemplo, o próximo presidente se 
apresentou como alguém que, tendo evi-
tado guerras em seu primeiro mandato, 
resolveria os conflitos herdados nego-
ciando “acordos” com adversários geo-
políticos. Algumas de suas nomeações 
– embora não todas – apontam nessa di-
reção, especialmente a de Tulsi Gabbard 
para chefiar as agências de inteligência. 
Ex-congressista democrata, Gabbard 
ganhou destaque por sua oposição aos 
neoconservadores dentro de seu próprio 
partido. Talvez porque estes já temam 
uma mudança na diplomacia, o fim da 
presidência de Biden coincide com uma 
escalada das tensões internacionais e 
novas remessas de armas para a Ucrânia 
– como se fosse necessário disparar, an-
tes de um armistício temido, os últimos 
cartuchos de uma guerra perdida. Como 
resultado, enquanto más notícias devem 
se acumular nos Estados Unidos em 
questões fiscais, migratórias, ambientais 
e de direitos das mulheres, os democra-
tas quase conseguiram evitar que se la-
mente por completo sua saída. 
*Serge Halimi é jornalista do Le Monde 
Diplomatique.
1 Dominique Strauss-Kahn, La Flamme et la cen-
dre [A chama e a cinza], Grasset, Paris, 2002. 
Ler “Flamme bourgeoise, cendre prolétarienne” 
[Chama burguesa, cinza proletária], Le Monde 
Diplomatique, mar. 2002.
2 Terra Nova, “Gauche: quelle majorité électorale 
pour 2012?” [Esquerda: qual maioria eleitoral 
para 2012?], 10 maio 2011.
3 Ler Rick Fantasia, “Le retour du travailleur sur la 
scène politique américaine” [O retorno do tra-
balhador à cena política norte-americana], Le 
Monde Diplomatique, nov. 2024.
4 Sud Radio, 8 nov. 2024.
5 Em 25 de novembro, os resultados, ainda in-
completos, indicavam que Harris havia obtido 
74,5 milhões de votos (contra 81,3 milhões de 
Biden em 2020) e que Trump havia passado 
de 74,2 milhões de votos em 2020 para 77 
milhões em 2024.
6 Carine Fouteau, “Et maintenant, un ‘cinglé’ fas-
cisant aux manettes du monde” [E, agora, um 
“louco” fascista no comando do mundo], 6 nov. 
2024, www.mediapart.fr.
7 Ler Serge Halimi e Pierre Rimbert, “Un journa-
lisme de guerres culturelles” [Um jornalismo 
de guerras culturais], Le Monde Diplomati-
que, mar. 2021.
Por essas razões, a atual coalizão elei-
toral do presidente Trump, que não po-
derá se candidatar novamente, parece 
tão frágil quanto a de Obama. Unindo 
evangélicos e libertários, ela foi ampla-
mente moldada por uma personalida-
de singular que simboliza, ao mesmo 
tempo, o sucesso individual e o ódio 
ao “sistema”. A resiliência, a rebeldia e 
os excessos de Trump o tornaram um 
candidato apreciado por eleitorados he-
terogêneos que, como ele, sentem que 
têm uma revanche pela frente. Em um 
país que desconfia do Estado, da mídia, 
dos advogados e dos políticos, esse bi-
lionário obstinado, incontrolável, sem 
escrúpulos, que dinamita partidos e 
coleciona acusações, odiado pelos jor-
nalistas, tinha uma vantagem conside-
rável mesmo antes de duas tentativas 
de assassinato reforçarem sua imagem 
de herói indestrutível. Apresentador do 
podcast mais popular dos Estados Uni-
dos, Joe Rogan entrevistou Trump por 
três horas poucos dias antes da votação 
(70 milhões de visualizações). Após a 
conversa, Rogan concluiu: “Apenas um 
cara completamente louco pode expor 
a corrupção do sistema”. A explicação 
não é sofisticada, tampouco garantia 
de prognóstico, mas lembra que, nessa 
eleição, o status quo e o consenso eram 
ela; a mudança e o combate, ele.
Com o apoio e os conselhos de Elon 
Musk, sua revanche contra o “Esta-
do profundo” pode se transformar em 
uma privatização do próprio Estado. 
Contudo, os norte-americanos que se 
opõem a isso não terão êxito apenas 
repetindo termos como “robôs fascis-
tas”, “novo apartheid”, “masculinidade 
tóxica”, “puritanismo fanático”, “extra-
tivismo desenfreado”, “guerras mons-
truosas”, costurados em discursos cujo 
único elemento variável é a ordem das 
palavras, todos destinados a “aniquilar 
uma das mais antigas democracias do 
mundo ocidental”.6 Esse tipo de exor-
cismo pretensioso não passa da expres-
são de uma impotência política.
FAÇAM “ACORDOS”, NÃO GUERRA
Seis dias antes da eleição, em 30 de ou-
tubro, Trump foi questionado sobre o 
apoio ativo de Liz Cheney à candidata 
democrata. Ele explicou que, se a filha 
do ex-vice-presidenterepublicano Dick 
Cheney “não conseguia mais me supor-
tar, é porque ela queria constantemen-
te iniciar novas guerras. Se dependesse 
dela, estaríamos agora em cinquenta 
países. Mas deem a ela um rifle e vejam 
como se sai contra nove canhões dispa-
rando contra ela. Todos esses são falcões 
enquanto estão sentados em um belo 
prédio de Washington dizendo: ‘Vamos 
enviar 10 mil soldados para a boca do 
inimigo’”. Essa resposta foi, sem dúvida, 
uma das mais comentadas – e distorci-
das – do fim da campanha. The New York 
Times, The Washington Post, MSNBC, 
CNN e, em seguida, vários veículos eu-
ropeus interpretaram as palavras como 
Cheney acabara de fazer. Na platafor-
ma X, ela escreveu: “É agindo assim que 
os ditadores destroem nações livres. 
Eles ameaçam de morte aqueles que se 
opõem a eles”. Hashtags #womenwill-
notbesilenced [As mulheres não serão 
silenciadas] e #VoteKamala. Assim, uma 
observação que sugeria que alguns dos 
políticos norte-americanos mais beli-
cistas seriam menos ousados se tives-
sem de enfrentar o fogo inimigo – uma 
crítica já feita em 2003 a George Bush e 
Cheney, que não combateram no Vietnã 
– foi transformada em uma “ameaça de 
morte” contra os opositores de Trump.
O comentarista neoconservador da 
CNN Jonah Goldberg afirmou: “Ele disse 
de forma absolutamente explícita e sem 
ambiguidades que Liz Cheney deveria 
ser fuzilada por um pelotão de execu-
ção. ‘Executar uma adversária política 
que, por acaso, é mulher porque eu não 
gosto dela’ não é um bom tema de fim de 
campanha”. Goldberg reconheceria seu 
erro, mas apenas após sua interpretação 
tendenciosa se tornar viral. Tarde demais 
para evitar que a France Culture também 
reproduzisse a falsa narrativa. Em 3 de 
novembro, Anne-Lorraine Bujon, direto-Apesar da polarização nos EUA, Trump retorna junto a valores conservadores
http://www.mediapart.fr/
16 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024
UMA FORÇA MULTINACIONAL SOB CONTROLE NORTE-AMERICANO
O Quênia no 
atoleiro haitiano
Em 20 de novembro, a escalada de violência perpetrada por gangues e forças 
de segurança obrigou a Médicos Sem Fronteiras (MSF) a suspender suas 
atividades em Porto Príncipe. Recém-chegada, a Missão Multinacional de 
Apoio à Segurança no Haiti, liderada pelo Quênia e apoiada por Washington, 
será substituída por uma verdadeira operação de manutenção da paz? 
POR BENJAMIN FERNANDEZ*
L
ogo após desembarcarem no aero-
porto internacional Toussaint 
Louverture, em Porto Príncipe, em 
25 de junho de 2024, os duzentos 
policiais fardados arriscaram alguns 
passos de dança. A cena apresenta to-
dos os elementos de um clássico da dra-
maturgia colonial: um exército estran-
geiro chega como salvador a um país 
tropical mergulhado no caos. Contudo, 
essas tropas têm um perfil inédito: em-
barcadas na véspera em Nairóbi, a 12 
mil quilômetros de distância, com-
põem o primeiro contingente queniano 
da Missão Multinacional de Apoio à Se-
gurança (MMAS), enviada para “com-
bater as gangues” e “restaurar a segu-
rança” no Haiti. Desde o assassinato do 
presidente Jovenel Moïse, em 7 de julho 
de 2021, as organizações criminosas, 
que controlam 80% da capital, mata-
ram 12 mil pessoas e forçaram outras 
700 mil a abandonar suas casas.1 Uma 
deliberação de 2 de outubro de 2023 do 
Conselho de Segurança da ONU criou a 
MMAS e determinou seu envio.
Os Estados Unidos, com o apoio da 
França, lançaram mão de toda sua in-
fluência para criar a missão. Eles são seu 
principal patrocinador, destinando US$ 
300 milhões em fundos, apoio logístico, 
inteligência, pessoal e equipamento mi-
litar.2 Rússia e China se abstiveram du-
rante a votação da resolução, destacando 
os perigos de qualquer forma de ingerên-
cia estrangeira no país e a necessidade 
de respeitar sua soberania. Como expli-
cou diante da Assembleia Geral das Na-
ções Unidas em 14 de outubro de 2023, 
o presidente do Quênia, William Ruto, 
vê no envio dessa força um ato “históri-
co”, um “compromisso pan-africano” e a 
expressão da necessária “solidariedade 
com o povo haitiano, que sofreu o peso 
do saque e da repressão colonial, das re-
presálias e da exploração pós-colonial”.
Na África, no Caribe e nos Estados Uni-
dos, entretanto, levantam-se vozes para 
denunciar uma “invasão militar terceiri-
zada” pela Casa Branca, “um imperialis-
mo ocidental de rosto negro”.3 Em maio 
de 2024, durante uma visita de Estado de 
Ruto a Washington, o presidente norte-a-
mericano Joe Biden elevou o Quênia ao 
status de “principal aliado não membro” 
da Organização do Tratado do Atlântico 
Norte (Otan), uma honra até então re-
servada a vinte países, nenhum deles na 
África Subsaariana. Nairóbi e Washing-
ton já cooperam na “luta contra o terro-
rismo”, especialmente contra os Shabab 
somalis. Para os norte-americanos, o Es-
tado da África Oriental – que abriga bases 
militares dos Estados Unidos e do Reino 
Unido4 – é um polo de estabilidade e di-
namismo econômico regional.
Em carta aberta, o escritor queniano 
Ngũgũ wa Thiong’o questionou seu pre-
sidente: “Enquanto você estava na Casa 
Branca, os haitianos se manifestavam 
nas ruas, chamando-o de escravo. [...] 
Quando você aceitou se tornar o capataz 
da Otan na luta que os Estados Unidos 
travam contra a Rússia e a China pelo 
acesso aos recursos do continente?”.5
INVESTIMENTOS COLOSSAIS
Durante o encontro, Biden acenou a seu 
homólogo com investimentos colossais 
no setor de novas tecnologias. Gigantes 
como Google e Microsoft já estabelece-
ram suas sedes africanas em Nairóbi – 
apelidada de “Silicon Savannah” – e pla-
nejariam injetar ali mais US$ 20 bilhões. 
Também estão sendo consideradas par-
cerias nos setores de energias renováveis 
e no combate à malária e à aids. Contu-
do, o presidente norte-americano garan-
tiu sobretudo seu apoio ao Quênia para a 
obtenção de novos empréstimos do FMI.
Por sua vez, para agradar à instituição 
financeira, Ruto adotou uma política de 
austeridade fiscal. Aumentos expressivos 
de impostos sobre combustíveis e ali-
mentos desencadearam manifestações 
maciças em todo o país. Na mesma data 
em que as forças quenianas chegaram ao 
Haiti, a polícia matou cinco manifestan-
tes e feriu mais de trinta pessoas em Nai-
róbi. No dia seguinte, uma multidão en-
furecida incendiou parte do Parlamento. 
Entre 18 de junho e 1º de julho de 2024, 
a repressão teria deixado ao menos 39 
mortos. Há anos, ONGs quenianas de-
nunciam desaparecimentos forçados e 
execuções extrajudiciais, especialmente 
contra jovens de bairros pobres.
Esse “histórico” das forças de segu-
rança quenianas levou a Anistia Inter-
nacional a alertar o Conselho de Se-
gurança da ONU em uma carta aberta 
em 18 de agosto de 2023, solicitando a 
criação de salvaguardas para o envio 
da MMAS.6 A resolução de 2 de outu-
bro de 2023, que autorizou a MMAS, foi 
adotada sob o capítulo VII da Carta das 
Nações Unidas, geralmente aplicado a 
países em guerra. O texto especifica que 
essa força está sob responsabilidade 
exclusiva dos países participantes, dife-
rentemente das operações de manuten-
ção da paz (OMP) realizadas pela ONU 
sob controle internacional. Essa esco-
lha se justifica pelo desastre da Missão 
das Nações Unidas para a Estabilização 
no Haiti (Minustah), entre 2004 e 2017, 
marcada por episódios de violência – 
exploração infantil, violência sexual, 
tráfico de drogas – pelos quais nenhum 
responsável foi punido. Os capacetes-
-azuis da Minustah também reintrodu-
ziram o cólera na ilha, provocando uma 
epidemia que fez 10 mil vítimas.
Em sua cúpula de janeiro de 2023, a 
Comunidade do Caribe (Caricom) recu-
sou aprovar o envio de forças policiais 
ao Haiti, apesar da pressão do Core 
Group – órgão designado pelo Conselho 
de Segurança da ONU para buscar solu-
ções para a crise e composto de embai-
xadores ocidentais reunidos em torno 
de Estados Unidos, Canadá e França. 
Contudo, no verão seguinte, ao final 
da conferência convocada em Trinidad 
pelo secretário de Estado, Antony Blin-
ken, os dirigentes da Caricom mudaramde posição. Assim como o Quênia, seus 
países-membros receberam promessas 
de Washington de atraentes programas 
de cooperação militar e ajuda econô-
mica. O Haiti lidera a lista de “Estados 
frágeis” considerados uma ameaça à se-
gurança dos Estados Unidos, conforme 
avaliação do Departamento de Estado.
Ainda assim, como observa Jemima 
Pierre, coordenadora para o Haiti e as 
Américas do coletivo Black Alliance for 
Peace e professora de Antropologia da 
Universidade da Califórnia em Los An-
geles (Ucla), “o principal problema do 
Haiti não é a violência das chamadas 
gangues, mas a constante interferência 
da comunidade internacional. Os haitia-
nos não pediram nada disso”.7 De fato, o 
colapso do Estado haitiano não é fruto 
do acaso, desde os milhões de euros de 
“reparação” exigidos por Paris e Washin-
gton após a independência em 1804 até 
os golpes de Estado apoiados pela Casa 
Branca e pelo Palácio do Eliseu: em 
1956, em benefício da dinastia dos di-
tadores anticomunistas François “Papa 
Doc” Duvalier e seu filho Jean-Claude 
“Baby Doc”, exilado na França após sua 
queda; e depois, em 1994 e 2004, com o 
apoio da França e de ex-policiais golpis-
tas contra o primeiro presidente demo-
craticamente eleito, o padre popular das 
favelas Jean-Bertrand Aristide.8
Após o terremoto que devastou o país 
em 2010, os Estados Unidos conduzi-
ram habilmente a ajuda humanitária 
em seu benefício. As comunicações di-
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17DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil
plomáticas divulgadas pelo WikiLeaks 
revelaram a intervenção de Washington, 
em 2011, para alterar o curso da elei-
ção presidencial a favor do novato Mi-
chel Martelly e de seu partido Tèt Kale 
(PHTK). Nessas comunicações, a em-
baixadora norte-americana em Porto 
Príncipe, Janet A. Sanderson, elogiava 
a Minustah como uma “fonte de poder 
de baixo custo para os Estados Unidos”. 
A força internacional era, segundo ela, 
uma “ferramenta indispensável para 
promover os interesses políticos funda-
mentais do governo norte-americano 
no Haiti”. A diplomata mencionava, em 
particular, o combate à “ressurgência de 
forças políticas populistas e contrárias 
à economia de mercado” e a um “êxodo 
de migrantes por via marítima”.
Em 2016, os Estados Unidos celebra-
ram novamente a eleição, muito contes-
tada, de Moïse, o sucessor de Martelly 
– apesar da manipulação de 628 mil “vo-
tos zumbis” e de seu envolvimento, ao 
lado de seu mentor, no desvio de cente-
nas de milhões de dólares do programa 
de ajuda venezuelano PetroCaribe. Ape-
lidado no Haiti de “bandido legal”, Mar-
telly está atualmente sob sanções dos 
Estados Unidos por seu envolvimento 
em uma ampla rede internacional de 
tráfico de drogas, enquanto a ONU o 
acusa de ter financiado e armado grupos 
criminosos para aterrorizar os bairros de 
favelas que não apoiavam seu partido.
Após o assassinato de Moïse em sua 
residência, em 2021, por um comando 
de mercenários, o Core Group instalou 
Ariel Henry como primeiro-ministro, 
com o apoio da Caricom. A questão das 
eleições foi relegada a segundo pla-
no, enquanto todos os mandatos dos 
políticos eleitos haitianos expiraram. 
No início de março de 2024, enquan-
to Henry retornava de Nairóbi com a 
promessa do envolvimento do Quênia, 
uma onda de ataques armados devas-
tou a capital, forçando o impopular pri-
meiro-ministro a se exilar nos Estados 
Unidos. Por fim, o Core Group e a Ca-
ricom decidiram formar um conselho 
de transição eleitoral – composto de 
oito representantes não eleitos de par-
tidos políticos e do setor privado, além 
de um pastor batista – encarregado de 
nomear um novo primeiro-ministro. A 
primeira iniciativa da nova instância 
foi escrever a Ruto solicitando o apoio 
do Quênia na constituição de uma for-
ça internacional de segurança.
“Não há solução militar para o colap-
so das instituições”, avalia Murithi Mu-
tiga, diretor do escritório africano do 
International Crisis Group. “É preciso 
começar pela construção de um con-
senso político nacional – caso contrário, 
seria injusto enviar a polícia.”9 Enquanto 
a mídia internacional divulgou ampla-
mente imagens de milicianos armados 
mantendo barricadas incendiadas nas 
portas do aeroporto poucos meses an-
tes da chegada da MMAS em março de 
2024, pouco se falou sobre os milhares 
de manifestantes que ocupavam pacifi-
camente as ruas exigindo a renúncia de 
Henry e a organização de eleições.
Jimmy “Barbecue” Chérizier, o chefe 
de gangue que semeou o caos em Porto 
Príncipe na primavera de 2024, é um ex-
-integrante das forças especiais haitia-
nas, acusado de coordenar massacres a 
mando do presidente Moïse. Órfão de 
seu protetor, o líder das Forças Revo-
lucionárias da Família G9 e Aliados se 
apresenta como libertador. Ele afirma 
querer combater a “ocupação estran-
geira” e os privilégios da oligarquia. 
“Não é possível que um pequeno grupo 
de ricos que vivem em grandes hotéis 
decida o destino dos habitantes das co-
munidades pobres”, advertia ele duran-
te o cerco ao aeroporto. “É o povo hai-
tiano que conhece suas próprias dores, 
e cabe a ele decidir quem governará.”10 
Reunindo os grupos armados – cujos 
líderes, em alguns casos, são alvo de 
sanções das Nações Unidas –, Chérizier 
promete transformar a vida das tropas 
quenianas em um inferno.
Os grupos armados intensificaram 
seus ataques nos últimos meses, am-
pliando ainda mais seu controle sobre 
a capital. Um relatório do escritório da 
ONU no Haiti (Binuh), publicado em 30 
de outubro, alerta para os “níveis recor-
de de violência” gerados pelo combate 
às gangues. Desde o início da operação 
da MMAS, 1.223 pessoas foram mortas 
e 522 ficaram feridas, sendo 45% das 
mortes atribuídas às forças de segu-
rança e 8% aos grupos paramilitares de 
autodefesa que se multiplicam na ca-
pital. O relatório menciona “execuções 
extrajudiciais sumárias ou arbitrárias” 
cometidas pelas forças de segurança, 
incluindo contra crianças.11
Diante do agravamento da situação de 
segurança, o conselho de transição de-
mitiu o primeiro-ministro Garry Conille 
e já solicitou oficialmente à ONU a subs-
tituição da MMAS por uma missão de 
manutenção da paz. A solicitação, im-
pulsionada pelos Estados Unidos, tem 
poucas chances de obter a aceitação da 
Rússia e da China no Conselho de Segu-
rança, além das dificuldades em recrutar 
capacetes-azuis voluntários em número 
suficiente. Derrotada nas ruas de Porto 
Príncipe, a força multinacional sob co-
mando queniano enfrenta problemas 
para atrair outros contingentes. A Jamai-
ca enviou timidamente, em setembro, 
24 policiais supervisores, e Belize, ape-
nas dois agentes. Um reforço de oitenta 
policiais foi anunciado pelo presidente 
de El Salvador, Nayib Bukele, também 
conhecido por conduzir com mão de 
ferro uma “guerra contra gangues” em 
seu país, marcada por profunda violên-
cia contra a população.
Enquanto 2 mil agentes devem refor-
çar a MMAS até o fim de 2024, o con-
fronto com as milícias se transforma 
em um jogo de espelhos: de ambos os 
lados, paramilitares e policiais acusados 
de execuções extrajudiciais e especiali-
zados na repressão de protestos sociais, 
equipados com o mesmo arsenal de fa-
bricação norte-americana... E, no meio, 
a população mais pobre do Haiti, presa 
em um cerco. 
*Benjamin Fernandez é jornalista.
1 “Report on the internal displacement situation in 
Haiti – Round 7 (June 2024)” [Relatório sobre 
a situação de deslocamento interno no Haiti – 
Rodada 7 (junho de 2024)], Organização Inter-
nacional para as Migrações, jun. 2024.
2 “Les relations des États-Unis avec Haïti” [As 
relações dos Estados Unidos com o Haiti], 
Departamento de Estado dos Estados Uni-
dos, 5 set. 2024.
3 Cf., respectivamente, Alexandra Sharp, “UN 
approves foreign intervention in Haiti” [ONU 
aprova intervenção estrangeira no Haiti], Fo-
reign Policy, Washington, DC, 3 out. 2023, e 
“No to blackface imperialism. Yes to Haitian 
sovereignty” [Não ao imperialismo de rosto ne-
gro. Sim à soberania haitiana],25 ago. 2023, 
https://blackallianceforpeace.com.
4 Ler Jean-Christophe Servant, “Au Kenya, la pré-
sence contestée de l’armée britannique” [No 
Quênia, a presença contestada do Exército 
britânico], Le Monde Diplomatique, out. 2022.
5 Ngũgĩ wa Thiong’o, “An open letter to William 
Ruto” [Uma carta aberta a William Ruto], 31 
maio 2024, https://ashenewsdaily.com.
6 “Haïti. Lettre ouverte à tous les membres du 
Conseil de sécurité concernant le déploiement 
d’une force internationale de sécurité en Haï-
ti” [Haiti. Carta aberta a todos os membros do 
Conselho de Segurança sobre o envio de uma 
força internacional de segurança no Haiti], 18 
ago. 2023, www.amnesty.org.
7 “Haitians resist foreign intervention as US 
pushes for unelected “Transition Council” to 
rule island” [Haitianos resistem à intervenção 
estrangeira enquanto os EUA pressionam 
por um “Conselho de Transição” não eleito 
para governar a ilha], 3 abr. 2024, www.de-
mocracynow.org.
8 Ler Jake Johnson, “La bataille d’Haïti n’est pas 
finie” [A batalha do Haiti não acabou], Le Mon-
de Diplomatique, dez. 2021.
9 Citado por Caroline Kimeu e Tom Phillips, “‘It’s 
mission impossible’: Fear grows in Kenya over 
plan to deploy police to Haiti” [“É uma missão 
impossível”: cresce o medo no Quênia sobre 
o plano de enviar policiais ao Haiti], The Guar-
dian, Londres, 28 mar. 2024.
10 “Haitian prime minister resigns as gang leader 
‘Barbecue’ steps into power vacuum” [Primei-
ro-ministro haitiano renuncia enquanto o líder 
de gangue “Barbecue” ocupa o vácuo de po-
der], 12 mar. 2024, www.itv.com.
11 Dánica Coto e Evens Sanon, “Haiti sees 
a rise in killings and police executions with 
children targeted, UN says” [ONU relata au-
mento de assassinatos e execuções policiais 
com crianças como alvo no Haiti], Associated 
Press, 30 out. 2024.
18 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024
“Profundamente chocante”, reagiu o ex-ministro do Interior francês Gérald Darmanin à inelegibilidade 
recentemente solicitada contra Marine Le Pen. “Cada um deve permanecer em seu lugar para evitar 
um ‘governo dos juízes’”, já declarava ele após o Conselho Constitucional ter censurado parcialmente 
a Lei de Imigração. Essa retórica hostil aos magistrados é recorrente na política. A que ela remete? 
POR VINCENT SIZAIRE*
A JUSTIÇA PODE LEGITIMAMENTE PROIBIR CANDIDATURAS?
C
inco anos de prisão, sendo três em 
liberdade condicional, e cinco 
anos de inelegibilidade com apli-
cação imediata: no caso conheci-
do como aquele dos assessores do Front 
National (FN) no Parlamento Europeu, o 
Ministério Público francês fez requisi-
ções rigorosas contra Marine Le Pen. Es-
sas requisições provocaram reações in-
flamadas de líderes e analistas políticos 
que, de forma uníssona e conforme a 
ocasião, repetem o mantra do “governo 
dos juízes”.1 É possível, claro, preocupar-
-se com eventuais abusos de uma autori-
dade pública sem violar a separação dos 
poderes. Contudo, nesse caso, as críticas 
veementes ao Ministério Público visam 
menos à natureza política do julgamen-
to e à insuficiência de garantias contra o 
risco de desvio do processo legal do que 
ao próprio princípio de penalizar atos 
cometidos no exercício de funções de 
eleitos; os tribunais estariam substituin-
do o povo soberano, único juiz da probi-
dade de seus representantes.
Essa é uma ladainha conhecida. Mais 
difícil de entender é por que ela não gera 
reprovação generalizada. O rumo toma-
do, mais uma vez, pelo debate leva a for-
mular essa pergunta, em vez de questio-
nar um eventual golpe judicial contra Le 
Pen e o Rassemblement National (RN, 
ex-FN): como líderes políticos podem 
querer se isentar de qualquer respon-
sabilidade por suas ilegalidades, exceto 
por uma eventual sanção eleitoral? A 
norma constitucional não determina 
que a lei “deve ser a mesma para todos, 
seja para proteger, seja para punir”?2
Aqui, trata-se, evidentemente, de uma 
violação. Ou, mais precisamente, de 
um mito: pois, na realidade, como todo 
mito, a retórica do governo dos juízes 
tem como objetivo tornar indiscutível 
uma representação do mundo social. No 
caso, trata-se de apresentar a extensão 
dos poderes jurisdicionais – a condena-
ção de líderes políticos ou a censura de 
suas decisões – como necessariamente 
abusiva, para legitimar sua contestação, 
ou seja, a contestação da emancipação 
do poder jurisdicional.
Qual é a base do mito? Duas tendên-
cias históricas, reais e interdependentes, 
prevalecem desde a Liberação na França 
[dos nazistas], como em outros lugares. 
Por um lado, a primazia da lei vem sendo 
questionada pelo desenvolvimento do 
controle de constitucionalidade – com, 
na França, a instauração em 1974 da pos-
sibilidade de parlamentares recorrerem 
ao Conselho Constitucional, seguida, em 
2010, da introdução da questão prioritá-
ria de constitucionalidade (QPC) – e pela 
afirmação da superioridade do direito 
europeu e convencional sobre a legisla-
ção nacional, consagrada pela Corte de 
Cassação desde 1975 e aceita pelo Con-
selho de Estado a partir de 1989.3
Por outro lado, nota-se um movimen-
to de emancipação relativa do Poder Ju-
diciário em relação ao Poder Executivo. 
Subordinados ao governo desde o Pri-
meiro Império, os juízes foram recupe-
rando progressivamente sua indepen-
dência a partir da segunda metade do 
século XX.4 As reformas iniciadas na Li-
beração para fortalecer as estruturas do 
Estado de direito culminaram na adoção 
de um estatuto mais protetor contra in-
gerências de outros poderes.
A criação da Escola Nacional da Ma-
gistratura (ENM) em 1958 e a consolida-
ção do sindicalismo judiciário nos anos 
1970 possibilitaram a constituição de 
um corpo profissional dotado de uma 
consciência e de uma ética específicas, 
voltado para a aplicação independente 
da lei.5 A formação contemporânea de 
um corpo de magistrados das jurisdições 
administrativas permitiu que essa outra 
justiça tomasse, gradualmente, certa dis-
tância em relação à administração cujos 
litígios ela julga. Por fim, a dinâmica de 
integração do direito francês à ordem 
jurídica europeia conferiu às jurisdições 
um poderoso mecanismo de emancipa-
ção progressiva do Poder Executivo.
A retórica do governo dos juízes é, pre-
cisamente, uma reação a esse duplo mo-
vimento. A expressão surge pela primei-
ra vez em 1921, nas palavras do publicis-
ta Édouard Lambert.6 O autor buscava 
alertar seus contemporâneos sobre os 
riscos da introdução na França do con-
trole de constitucionalidade tal como 
ele viu ser praticado pela Suprema Corte 
dos Estados Unidos. Contudo, é sobre-
tudo porque vê nesse controle um ins-
trumento de manutenção das posições 
mais conservadoras na sociedade – em 
particular, uma verdadeira obstrução à 
adoção, no fim do século XIX, de uma le-
gislação mais protetora dos direitos dos 
trabalhadores – que Lambert denuncia a 
limitação da ação do legislador.
EMANCIPAÇÃO DOS MAGISTRADOS
As sutilezas da análise não resistem à 
sua difusão e menos ainda à sua apro-
priação pelas classes dirigentes. Muito 
rapidamente, a denúncia do governo 
dos juízes passou a designar, de manei-
ra geral, a suposta usurpação da vonta-
de popular. Em 1945, o socialista André 
Philip afirmou que “a soberania per-
tence ao povo, não aos juízes”.7 Em 
1948, Charles de Gaulle ecoou: “Na 
França, a melhor Suprema Corte é o po-
vo”.8 Não é por acaso que, dez anos de-
pois, a Constituição da V República re-
baixou o Poder Judiciário ao status de 
simples “autoridade” e atribuiu o con-
trole de constitucionalidade não a uma 
corte, mas a um conselho, encarregado 
de garantir que o Parlamento não ultra-
passe as atribuições do Poder Executi-
vo.9 Enquanto, nos anos 1970, se denun-
ciavam os supostos “juízes vermelhos”, 
mais recentemente é “a brutalidade da 
autoridade judicial em relação aos líde-
res políticos” que o polemista Jean-Éric 
Schoettl critica, como outros defenso-
res do mito, em La Démocratie au péril des 
prétoires ([A democracia em risco nos 
tribunais]Gallimard, 2022).
Resumidamente, o mito recodifica a 
emancipação – real – dos magistrados 
como uma empreitada – sistemática e 
necessária – pela contestação da sobe-
rania popular. Na Turquia, Israel, Hun-
gria, Polônia e Itália, essa denúncia da 
subversão judicial caracteriza gover-
nos e movimentos políticos de inclina-
ção autoritária. Na França, a descon-
fiança em relação ao poder jurisdicional 
tem menos origem no amor pela lei e 
mais na velha tradição bonapartista 
que, em parte, fundamenta a ordem ju-
rídico-político nacional.10 Aqui, o juiz é 
concebido, no máximo, como auxiliar 
do Poder Executivo e de sua poderosa 
administração. Mais do que os direitos 
dos cidadãos, defende-se a soberania 
de um poder público livre de quaisquer 
restrições, inclusive a respeito dos di-
reitos fundamentais das pessoas.
Assim, a retórica do governo dos juí-
zes expressa, antes de tudo, uma oposi-
ção reacionária à emancipação de um 
poder jurisdicional comprometido 
com a preservação das liberdades. Para 
perceber isso, basta analisar os perigos 
que, segundo Schoettl, o governo dos 
juízes representaria para a democracia. 
É impossível, lamenta o ex-secretário-
-geral do Conselho Constitucional em 
sua obra de crítica, “suspender [...] ou 
simplesmente [...] encerrar” a partici-
pação da França na Convenção Euro-
peia dos Direitos Humanos; “colocar 
em detenção administrativa os radica-
lizados”; “retirar a nacionalidade fran-
cesa de jihadistas”; “estabelecer um li-
mite para os fluxos migratórios”...
Naturalmente, a presença da tradi-
ção bonapartista na cultura política 
francesa não basta para explicar a vita-
lidade contemporânea do mito. Por trás 
do ataque à independência efetiva dos 
juízes, há uma questão essencial: a legi-
timidade de sua intervenção em uma 
sociedade democrática. Ou seja, além 
da desqualificação prévia do controle 
jurisdicional sobre os governantes, im-
põe-se uma reflexão necessária sobre 
O governo dos juízes: 
mito e realidades
Na Turquia, Israel, 
Hungria, Polônia e 
Itália, essa denúncia 
da subversão judicial 
caracteriza governos e 
movimentos políticos de 
inclinação autoritária
19DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil
as condições e modalidades de exercí-
cio do poder dos juízes – especialmente 
o controle desse poder pelo povo, em 
nome de quem a justiça é exercida. 
Contudo, mesmo quando pretende 
abordar essa questão, a retórica do go-
verno dos juízes tem como efeito – se 
não como objetivo – impedir a formula-
ção de uma resposta clara e viável.
Ao atacar o esforço histórico de res-
ponsabilização das classes dirigentes 
perante a justiça, essa retórica acaba 
ocultando formas reais e contemporâ-
neas de invasão do poder jurisdicional 
sobre a soberania cidadã. Tais formas 
constituem um peculiar governo pelo 
juiz, ou seja, a utilização do aparato ju-
risdicional para colocar em prática po-
líticas públicas sem submetê-las pre-
viamente à deliberação democrática.
Promulgada em 1980 pelo regime fas-
cista do general Augusto Pinochet, a 
Constituição chilena confere à Supre-
ma Corte a tarefa de garantir o respeito 
a disposições que tornam quase impos-
sível a nacionalização da exploração de 
recursos minerais e energéticos ou a 
prestação de serviços públicos dignos, 
especialmente na educação.11 Mais pró-
ximo da França, os tratados comunitá-
rios deixam a aplicação e, em particu-
lar, o respeito à liberdade “fundamental” 
de circulação de bens e capitais a cargo 
do Tribunal de Justiça da União Euro-
peia (TJUE). Por iniciativa do poder po-
lítico, portanto, os juízes contribuem 
para constituir uma forma de bloqueio, 
por meio de uma jurisprudência que 
considera ilegais propostas alternativas 
nas áreas econômica e social.12
Nos últimos anos, também se obser-
varam estratégias conhecidas como la-
wfare contra forças progressistas na Es-
panha, Argentina, Brasil e Peru – a 
instrumentalização do aparato jurisdi-
cional como ferramenta de repressão 
ou vingança política.13 Além desses gol-
pes, da conivência social e profissional 
à intimidação mais ou menos explícita, 
numerosos vetores de influência do Po-
der Executivo sobre o curso da justiça 
permanecem. Eles permitem ao Execu-
tivo exercer outra forma de governo pe-
lo juiz: indireta e insidiosa, mas ainda 
assim eficaz, favorecendo decisões ali-
nhadas às suas diretrizes em detrimen-
to das garantias dos cidadãos, seja na 
validação de uma lei repressiva pelo 
Conselho Constitucional, na dissolu-
ção de uma associação pelo juiz admi-
nistrativo ou na condenação de supos-
tos manifestantes pela justiça penal.
Para que se estabeleça outra justiça, 
voltada à proteção dos direitos e das li-
berdades de todos os cidadãos, a eman-
cipação plena e integral do poder juris-
dicional continua sendo uma condição 
necessária e, de forma alguma, um 
obstáculo à soberania popular. 
*Vincent Sizaire é magistrado, professor 
associado da Universidade Paris Nanterre 
e autor de Gouverner les juges. Pour un 
pouvoir judiciaire pleinement démocrati-
que [Governar os juízes. Por um Poder Ju-
diciário plenamente democrático] , La Dis-
pute, Paris, 2024.
1 Cf., por exemplo, Robin d’Angelo, “Gérald 
Darmanin remet en cause l’État de droit et 
suscite un tollé” [Gérald Darmanin questiona 
o Estado de direito e provoca indignação], Le 
Monde, 16 nov. 2024.
2 Artigo 6º da Declaração dos Direitos do Ho-
mem e do Cidadão, de 26 de agosto de 1789.
3 Ler Anne-Cécile Robert, “Vous avez dit ‘sa-
ges’?” [Você disse “sábios”?]; Vincent Sizaire, 
“Le juge européen peut-il être un contre-pou-
voir au service de la démocratie?” [O juiz eu-
ropeu pode ser um contrapeso a serviço da 
democracia?]; Lauréline Fontaine, “Du bon 
usage de la Constitution” [Do bom uso da 
Constituição]; e Aurélien Bernier, “Faut-il dé-
sobéir à l’Union européenne?” [É necessário 
desobedecer à União Europeia?], Le Monde 
Diplomatique, respectivamente abr. 2013, jan. 
2018, abr. 2023 e maio 2024.
4 Jean-Pierre Royer, Histoire de la justice en 
France [História da justiça na França], PUF, 
Paris, 2016 (1. ed.: 2001).
5 “La justice comme arène, une tradition sub-
versive” [A justiça como arena, uma tradição 
subversiva]. In: Liora Israël (org.), L’Arme du 
droit [A arma do direito], Presses de Sciences 
Po, Paris, 2020.
6 Édouard Lambert, Le Gouvernement des juges 
et la lutte contre la législation sociale aux État-
s-Unis [O governo dos juízes e a luta contra a 
legislação social nos Estados Unidos] (1. ed.: 
Marcel Giard, 1921), Dalloz, Paris, 2005.
7 Citado em Guillaume Boudou, “De Chate-
net à de Gaulle: la perspective d’un contrô-
le a posteriori de constitutionnalité des lois 
en 1968-1969” [De Chatenet a De Gaulle: 
a perspectiva de um controle a posteriori da 
constitucionalidade das leis em 1968-1969], 
Revue Française de Droit Constitutionnel, v.3, 
n.107, Paris, 2016.
8 Coletiva de imprensa realizada na Maison de la 
Résistance Alliée em 1º de outubro de 1948.
9 Robert Badinter, “Les institutions de 1958 et 
l’État de droit” [As instituições de 1958 e o Es-
tado de direito], Espoir, n.85, Paris, 1992.
10 Sortir de l’imposture sécuritaire [Sair da impos-
tura securitária], La Dispute, Paris, 2016.
11 Ler Victor de La Fuente e Libio Pérez, “Quel-
le Constitution pour le Chili?” [Que Consti-
tuição para o Chile?], Le Monde Diplomati-
que, set. 2022.
12 Ler Dieter Grimm, “Quand le juge dissout 
l’électeur” [Quando o juiz dissolve o eleitor], Le 
Monde Diplomatique, jul. 2017.
13 Ler Perry Anderson, “Au Brésil, les arcanes d’un 
coup d’État judiciaire” [No Brasil, os bastidores 
de um golpe judicial]; Aníbal Garzón, “Au Pérou, 
le coup d’État permanent” [No Peru, o golpe de 
Estado permanente]; e Anne-Dominique Correa, 
“En Argentine, la droite rugit mais innove peu” 
[Na Argentina, a direita ruge, mas inova pou-
co], Le Monde Diplomatique, respectivamente 
set. 2019, jan. 2023 e out. 2023. Cf. também 
“Pablo Iglesias: ‘Great disasters turn neoliberals 
into neo-Keynesians’”[Pablo Iglesias: “Grandes 
desastres transformam neoliberais em neokey-
nesianos”], Tribune, 24 out. 2020.
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20 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024
DOSSIÊ ESPECIAL – MUNDO DO TRABALHO
L’Histoire de Souleymane, de Boris Lojkine, aborda a condição do entregador clandestino. Au boulot! [Ao trabalho!], de 
Gilles Perret e François Ruffin, coloca uma grande burguesa cheia de certezas frente a frente com as mulheres que 
mantêm a economia de pé por um salário mínimo (pág. 27 ). O sucesso desses longas-metragens nas salas de cinema 
francesas sugere uma nova atenção às realidades do trabalho, sua precariedade e seus perigos (pág. 24 ). Porém, 
quando o governo da França exige mais esforços para cobrir os déficits – dificuldades para acessar o seguro-
desemprego, sete horas a mais na jornada – e o setor automobilístico europeu fraqueja (pág. 25 ), o abismo se 
aprofunda entre duas relações que se estabelecem com o trabalho assalariado: entre aqueles que o evitam (pág. 28 ) 
ou questionam sua vocação (pág. 22 ) e muitos outros, que só podem viver o trabalho como uma injustiça (a seguir ) 
POR GRÉGORY RZEPSKI*
Tudo o que nos separa
F
icar sem ele é uma maldição; ter 
um é muitas vezes um suplício, es-
pecialmente quando o trabalho 
dá a sensação de um afogamento 
em um oceano de tarefas entorpecen-
tes, excessivas, extenuantes, desprovi-
das de sentido. Desde os anos 1980, os 
governantes franceses contribuem pa-
ra fazer do trabalho assalariado uma 
experiência de injustiça. E consolidam 
uma alternativa: é isso ou nada. Neste 
outono de 2024, nos setores automoti-
vo, químico e de supermercados, suce-
deram-se anúncios de redução de pes-
soal. O ministro da Indústria francês, 
Marc Ferracci, receia pela eliminação 
de dezenas de milhares de postos. A se-
cretária-geral da Confederação Geral 
do Trabalho (CGT), Sophie Binet, pro-
jeta 150 mil cortes. No entanto, apesar 
da conjuntura europeia desfavorável e 
do fracasso evidente de sua política, o 
governo acelera: a jornada de trabalho 
deverá aumentar; o número de servido-
res, diminuir em vários serviços públi-
cos – incluindo o de geração de empre-
go. No Parlamento, uma maioria muito 
relativa continua a defender os cortes 
nas contribuições sociais. Essa medida 
ineficaz – que consiste em isentar par-
cialmente os empregadores de sua 
obrigação de pagar os assalariados e 
depois transferir a fatura da isenção 
para o Estado – custou 80 bilhões de 
euros aos cofres públicos franceses em 
2023, ou seja, aos contribuintes.1
Os dirigentes franceses insistem em 
reduzir o “custo do trabalho” (salários e 
proteção social) em nome da competi-
tividade. Essa política sempre fracassa, 
seja em proteger empregos de qualidade, 
seja em impulsionar as exportações – sal-
vo raras exceções, nos setores de luxo, ae-
ronáutico etc. As empresas, por sua vez, 
colocam em prática suas próprias estra-
tégias de baixo custo: transferem plan-
tas para o exterior, terceirizam, afastam 
trabalhadores mais velhos e intensificam 
o trabalho dos que permanecem. A pres-
são também aumenta sobre os funcioná-
rios públicos – cada vez mais “avaliados” 
e desvalorizados – e sobre os desempre-
gados – mais controlados e menos in-
denizados, pois é preciso compensar as 
ajudas às empresas ou os cortes de im-
postos com economias no orçamento do 
Estado e no seguro-desemprego.
Essas medidas, renovadas ao longo de 
trinta anos, têm ainda duas consequên-
cias menos visíveis, mas que agravam a 
injustiça entre os trabalhadores assala-
riados: por um lado, uma fraca perfor-
mance da França em comparações eu-
ropeias em termos de saúde no trabalho, 
exposição a riscos físicos, intensidade, 
autonomia, formação, perspectivas de 
carreira – em prejuízo, sobretudo, das 
mulheres, dos operários e dos trabalha-
dores precários –; por outro lado, a de-
sindustrialização, as reestruturações e a 
digitalização resultam em cada vez mais 
isolamento. Aqueles situados na parte de 
baixo da hierarquia salarial têm cada vez 
menos chances de se cruzarem na canti-
na, na máquina de café ou na copiadora.2
As pessoas encarregadas das políti-
cas públicas de promoção de emprego 
e trabalho não são exceção, observa o 
sociólogo Olivier Godechot. Ministros, 
deputados, assessores, economistas, 
consultores e seus próximos ocupam 
funções em universos homogêneos em 
que, salvo os funcionários de serviços 
terceirizados, praticamente só convi-
vem com seus pares. Esse pequeno gru-
po impõe reformas – como a da previ-
dência, em 2023 – que pouco os afetam. 
E, quando valorizam o trabalho, favo-
recem os empregados mais bem posi-
cionados. Defender o poder de compra 
por meio de incentivos à participação 
nos lucros ou ao pagamento de bônus – 
como, desde 2019, as sucessivas versões 
do chamado “bônus Macron” – significa 
ignorar que esses incentivos só bene-
ficiam as empresas mais lucrativas, ou 
seja, aquelas que empregam os escalões 
mais altos da hierarquia salarial.
Entretanto, há muito tempo a queda 
na qualidade de vida poupa apenas os 
cargos superiores. A introdução da jor-
nada de 35 horas já lhes permitia sair 
para o fim de semana na quinta-feira 
ou coordenar melhor sua vida conjugal, 
enquanto a intensificação do trabalho 
tornava as ocupações físicas ou repeti-
tivas mais exaustivas; e, nos setores de 
limpeza e comércio, os horários frag-
mentados prolongavam os tempos de 
deslocamento entre casa e trabalho. A 
organização das empresas e do serviço 
público passa atualmente por evolu-
ções semelhantes. “Embora a prática do 
home office [tenha] se difundido duran-
te a crise sanitária entre populações que 
anteriormente estavam muito distantes 
disso, ela [recuou] no pós-crise”, consta-
ta um estudo recente do Ministério do 
Trabalho. Os cargos superiores repre-
sentam 65% dos 6 milhões de trabalha-
dores em regime remoto, e os diploma-
dos do ensino superior, 97%.3 Distância 
do trabalho, seja simbólica ou material, 
é mais do que nunca um luxo.
Os trabalhadores cujas funções não 
são elegíveis para esse modelo pode-
riam, certamente, obter uma compen-
sação. Entre 2020 e 2023, o número de 
acordos empresariais instaurando a 
semana de quatro dias quintuplicou, 
com frequência estabelecendo home 
office sistemático às sextas-feiras para 
uma parte do quadro – geralmente os 
cargos superiores – e, para os demais, a 
semana de segunda a quinta-feira. Para 
os primeiros, como observa a pesquisa-
dora Pauline Grimaud, que analisou os 
detalhes dos acordos, o “bem-estar no 
trabalho” prometido nos primeiros pa-
rágrafos dos preâmbulos; para os segun-
dos, semanas comprimidas ou intensi-
ficadas.4 A separação se acentua, assim, 
dentro do trabalho assalariado, favore-
cendo os mais qualificados, às vezes por 
iniciativa deles próprios.
Quando quase metade dos quadros su-
periores do setor privado afirmam estar 
dispostos a deixar suas empresas caso o 
home office seja abolido, eles sabem que 
sua relação de forças é favorável ou me-
nos arriscada, graças a um desemprego 
de 3,5% e à concentração dos postos em 
serviços de alto valor agregado – 44% –, 
que, naturalmente, permitem o trabalho 
remoto.5 As ocupações que a Organização 
Internacional do Trabalho (OIT) define 
como “essenciais” enfrentam uma situa-
ção bem diferente, justamente por não se-
rem passíveis de home office e por serem 
exercidas em setores em que a atividade 
não pode ser interrompida: profissionais 
de saúde, segurança, limpeza, comércio e 
transportes. Seus 8 milhões de trabalha-
dores – mais de um quarto dos empre-
© Tranmautritam/Pexels
Políticas de trabalho francesa estão aumentando a precariedade do trabalho
21DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil
gos na França, muitas vezes mulheres e 
frequentemente imigrantes, em setores 
como o de assistência domiciliar – rece-
bem remunerações quase 20% inferiores 
à média dos assalariados. Eles também 
enfrentam maior precariedade, trabalho 
em tempo parcial e horários atípicos.6
Desde o início da pandemia de Co-
vid-19, asDesde 
então é possível reconhecer as ofensivas 
das forças conservadoras, que se pro-
põem a alijar Lula e o PT do governo. 
Essa defesa dos interesses da elite bra-
sileira é uma constante. Na fase atual, 
ela se expressa no golpe parlamentar 
que depôs a presidenta Dilma Rousseff 
em 2016; na prisão ilegal de Lula em 
2018, para impedi-lo de participar das 
eleições desse ano; na invasão dos pré-
dios do governo, com o fim de impedir a 
posse de Lula eleito, em janeiro de 2023. 
Merece destaque a Lava Jato, processo 
de law fare, ou seja, o ataque político por 
meio da manipulação dos instrumentos 
legais, que foi de 2014 a 2021. 
Não se trata de uma quartelada de 
iniciativa de meia dúzia de aloprados. 
É um amplo movimento com bases 
na sociedade que expressa uma alian-
ça política que trabalha há anos pelo 
desgaste da imagem de Lula e do PT e 
de setores progressistas, pelo fim das 
políticas redistributivas, pelo fim da re-
gulação democrática que limita a espo-
liação das maiorias e defende a “livre” 
atuação das empresas. 
Com sólidos e majoritários blocos 
parlamentares de direita na Câmara dos 
Deputados e no Senado, temos de con-
siderar também a participação efetiva 
de parlamentares na tentativa de golpe. 
Muitos deles são identificáveis por de-
mandarem nas redes sociais e em outros 
espaços públicos o golpe e a intervenção 
militar. Muitos representam também os 
setores econômicos que se envolveram 
com o golpe e a tentativa de desestabili-
zação política do governo eleito.
Pesquisas e análises sociológicas iden-
tificam vários setores profissionais, das 
classes média e alta, ligados a esse mo-
vimento. Advogados, juízes, promotores, 
médicos, engenheiros, dentistas e admi-
nistradores são exemplos de categorias 
profissionais que se opõem ao PT e à “es-
querda”, seja lá o que se entenda por ser 
de esquerda. Sentem-se ameaçados em 
seus privilégios pelas políticas redistri-
butivas, pelo acesso dos pobres à univer-
sidade, pela presença de negros em seu 
ambiente profissional e pela afirmação 
dos direitos das empregadas domésti-
cas, por exemplo. Segundo eles, o aero-
porto não pode virar uma rodoviária...
O “Teto dos Gastos”, imposto pelo go-
verno Temer em 2026, ou o “Arcabouço 
Fiscal” são demandas das classes do-
minantes que só cortam os gastos so-
ciais. Querem o equilíbrio das contas 
nacionais sem mexer em seus privilé-
gios, onerando apenas os pobres. Como 
diziam parlamentares quando da im-
posição do Teto, “os gastos sociais não 
cabem no Orçamento Público”. 
Como aponta Eduardo Fagnani, “as 
elites financeiras nacionais e internacio-
nais jamais aceitaram que o movimento 
social capturasse uma parcela do orça-
mento do Governo Federal (cerca de 
10% do PIB), a maior parte concentrada 
na Previdência Social (8% do PIB)”.2 E 
continuam não aceitando o governo que 
se propõe enfrentar a fome e a pobreza. 
Que fique claro: a tentativa de golpe 
não foi um raio em céu azul; ela vem sen-
do gestada há décadas. É a democracia 
que foi e continua sendo atacada. Como 
interpretar essa iniciativa, presente no 
Congresso, que pretende mudar a Cons-
tituição para subordinar o Supremo Tri-
bunal Federal aos seus desígnios? Como 
interpretar a apropriação da receita pú-
blica por parlamentares para a doação 
de emendas se a atribuição da execução 
orçamentária é do Executivo? 
Se as punições aos golpistas forem efe-
tivas e envolverem financiadores, a mídia 
e parlamentares, o Brasil terá dado um 
passo importante para consolidar a de-
mocracia e afirmar que os benefícios do 
desenvolvimento não serão uma exclusi-
vidade das elites, das classes dominantes, 
mas favorecerão também as maiorias. 
1 André Shalders, “Quem é Eduardo Pazuello, o 
general que assume interinamente o Ministério 
da Saúde”, BBC News Brasil, 16 maio 2020.
2 Eduardo Fagnani, “As demandas sociais da de-
mocracia não cabem no orçamento?”, Platafor-
ma Política Social, 2020.
© Claudius
4 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024
CAPA
A crise não refluiu
Q
uando Lula ganhou em 2022, 
naquela eleição apertada, e pe-
gou um país arrasado, com 
uma extrema direita fortíssima 
no Congresso, nos governos esta-
duais, nas ruas e nas redes, ninguém 
achava que ia ser fácil. Mas está sendo 
ainda pior do que imaginado – e, che-
gando à metade do mandato, a situa-
ção continua igualmente desafiadora. 
O cenário para as eleições de 2026 é 
nebuloso, para dizer o mínimo. E, na 
eventualidade do retorno da extrema 
direita ao poder, as instituições de-
mocráticas não parecem mais fortes 
ou capazes de se proteger.
Eram muitas as tarefas para o novo 
governo. Vou me ater sobretudo a uma 
delas, que pode ser desdobrada em três 
facetas: estancar as ameaças à demo-
cracia, conter a agitação de uma direi-
ta extremada e restaurar a vigência da 
Constituição de 1988. Trata-se, portan-
to, de desfazer não apenas o bolsona-
rismo, mas também o golpe de 2016, 
que foi o momento em que se cristali-
zou a disposição de boa parte da classe 
dominante brasileira para não respeitar 
as regras mínimas do ordenamento de-
mocrático e rasgar o texto constitucio-
nal. As circunstâncias, porém, fizeram 
que esse objetivo já se iniciasse sob o 
signo da autolimitação.
Lula se elegeu pilotando uma frente 
amplíssima, que só merecia o adjetivo 
“democrática” por liberalidade. Muitos 
dos integrantes dessa frente, a começar 
pelo candidato a vice, tinham apoiado 
o golpe contra Dilma, recusado apoio 
a Fernando Haddad em 2018 e mes-
mo flertado com o bolsonarismo. Era 
difícil imaginar que todo esse pessoal 
estaria realmente engajado no proje-
to de reconstrução da democracia no 
Brasil, tanto no sentido de recompor a 
vigência da Constituição de 1988 como 
de reforçar as proteções contra novos 
golpes de força.
As tensões do fim do governo Bol-
sonaro, quando ficou claro que havia 
a disposição de desprezar o resultado 
das urnas, permitiam sonhar pelo me-
nos com um compromisso em favor 
do respeito à competição eleitoral – o 
reconhecimento de que a obtenção da 
maioria de votos era o único caminho 
aceitável para o poder e que os adversá-
rios são competidores legítimos, o que 
forma o consenso mínimo necessário 
para a vigência de uma democracia, 
segundo a Ciência Política convencio-
nal. Essa possibilidade ganhou gás com 
os atentados de 8 de janeiro de 2023, 
quando uma turba enraivecida depre-
dou as sedes dos poderes da República: 
seria a hora de dar um basta.
Essa oportunidade, no entanto, foi 
perdida. Alguns vândalos foram conde-
nados à prisão e Bolsonaro foi declarado 
inelegível, por fato anterior, mas tam-
bém vinculado à vontade de burlar o 
jogo eleitoral. A despeito disso, ele conti-
nua atuando de modo desenvolto como 
liderança política. Os formuladores, 
estrategistas e financiadores das tenta-
tivas golpistas (do 8 de janeiro e outras) 
ainda não foram levados aos tribunais. 
E as sucessivas revelações das investiga-
ções sobre a agitação antidemocrática 
dos extremistas, culminando (até agora) 
com o plano de assassinar Lula e outras 
autoridades, não mudaram o quadro.
Dois fatores principais têm levado a 
esse resultado, um civil e outro militar.
Do lado civil, as sucessivas evidên-
cias contra Bolsonaro não serviram 
para deslocar seus aliados, o que é 
indicativo poderoso da degradação 
do cenário político no país. Havia es-
perança de que políticos que haviam 
embarcado no bolsonarismo mais por 
oportunismo do que por fanatismo se 
sentiriam levados a marcar distância 
diante de uma conspiração tão óbvia 
contra as instituições democráticas. 
Entretanto, isso não ocorreu.
Falo aqui de gente como o governador 
de São Paulo, Tarcísio Freitas. Desconhe-
cido que foi guindado ao centro da polí-
tica brasileira pelas mãos de Jair, ele co-
manda o estado mais poderoso da fede-
ração e tem o incentivo – de grande parte 
da mídia e do empresariado – para vestir a 
fantasia de “direita moderada”. Ainda as-
sim, entende que se manter vinculado a 
Bolsonaro é crucial para seu futuro políti-autoridades proclamam com 
grande hipocrisia a necessidade de me-
lhor reconhecer esses trabalhadores da 
linha de frente. Entretanto, simultanea-
mente, os poderes públicos fomentam 
um modelo de emprego que degrada as 
condições de trabalho nos níveis mais 
baixos da hierarquia: promovido pela 
União Europeia por meio da Estratégia 
de Lisboa e depois do plano Europa 2020, 
centrado na inovação tecnológica, esse 
modelo melhora a qualidade do empre-
go já qualificado, mas reduz a dos traba-
lhadores e operários, assim como sua re-
muneração.7 Certamente, a inteligência 
artificial agora ameaça as competências 
de juristas, jornalistas e trabalhadores 
da informática; mas os trabalhadores da 
logística e da indústria automobilística 
já experimentam, há algum tempo, até 
mesmo no próprio corpo, os efeitos da 
automação: desqualificação, intensifica-
ção e perda de autonomia.
E, quando entram em colapso ou 
cometem falhas, os trabalhadores não 
são tratados da mesma forma. Aqueles 
com rendas mais baixas geralmente 
trabalham em pequenos estabeleci-
mentos, nos quais os sindicatos são 
fracos. Uma rescisão amigável lhes ren-
de consideravelmente menos dinheiro: 
57% dos cargos superiores recebem va-
lores ao menos 5% superiores à inde-
nização legal – contra apenas 17% dos 
operários e 19% dos empregados. Por 
fim, explica a advogada Rachel Saada, 
a instauração de um teto de indeniza-
ção nos tribunais trabalhistas em 2017 
contribuiu para “transformar o aces-
so a essa jurisdição em um privilégio 
reservado aos cargos superiores bem 
remunerados”: para os trabalhadores 
com baixos salários e pouca antigui-
dade – a maioria –, os valores máximos 
previstos em caso de demissão já não 
compensam o prejuízo sofrido.8
Assim, cada vez mais, as experiên-
cias de trabalho dividem o trabalho 
assalariado, remetendo até mesmo a 
realidades distintas. Na medida em 
que pretendem representar todos os 
trabalhadores, os sindicatos evitam 
confrontar essa desigualdade. Assim 
como os partidos políticos. Os resul-
tados das últimas eleições legislativas, 
em junho de 2024, revelam essa omis-
são? No primeiro turno, os candidatos 
da Nova Frente Popular (NFP, esquerda) 
obtiveram, segundo o Ipsos, 37% dos 
votos entre os eleitores com diploma 
universitário, contra 17% entre aqueles 
sem ensino médio completo. Essa di-
ferença também se reflete no voto por 
profissão: 34% dos cargos superiores 
escolheram um candidato de esquerda, 
mas apenas 21% dos operários fizeram 
o mesmo. “Popular”? 
*Grégory Rzepski é jornalista do Le Mon-
de Diplomatique.
1 Cf. “On n’arrête pas l’éco” [Não paramos a 
economia], France Inter, 9 nov. 2024, e 
“Nous sommes au début d’une violente saig-
née industrielle” [Estamos no início de uma 
violenta sangria industrial], La Tribune du 
Dimanche, Paris, 10 nov. 2024. Cf. também 
Simon Arambourou, “En finir avec le tabou 
des exonérations de cotisations, multipliées 
par cinq en vingt ans” [Acabar com o tabu 
das isenções de contribuições, multiplicadas 
por cinco em vinte anos], 23 out. 2024, 
www.alternatives-economiques.fr.
2 Cf. Bruno Palier, “Comment les stratégies low 
cost à la française ont intensifié et abîmé le tra-
vail” [Como as estratégias low cost à francesa 
intensificaram e prejudicaram o trabalho]; Ch-
ristine Erhel, Mathilde Guergoat-Larivière e 
Malo Mofakhami, “La qualité de l’emploi et du 
travail: une contre-performance française?” [A 
qualidade do emprego e do trabalho: um de-
sempenho inferior francês?]; e Olivier Gode-
chot, “Des lieux de travail de plus en plus sé-
grégués” [Lugares de trabalho cada vez mais 
segregados]. In: Bruno Palier (org.), Que sait-
-on du travail? [O que sabemos sobre o traba-
lho?], Presses de Sciences Po, Paris, 2023.
3 Mikael Beatriz e Louis-Alexandre Erb, “Com-
ment évolue la pratique du télétravail depuis la 
crise sanitaire?” [Como evoluiu a prática do 
home office desde a crise sanitária?], Dares 
Analyses, n.64, Paris, nov. 2024.
4 Pauline Grimaud, “La semaine de 4 jours: tra-
vailler moins tout en travaillant... plus?” [A se-
mana de 4 dias: trabalhar menos enquanto se 
trabalha... mais?], Connaissance de l’Emploi, 
n.199, Noisy-le-Grand, set. 2024.
5 “Portrait statistique des cadres du secteur 
privé. Édition 2023” [Retrato estatístico dos 
quadros do setor privado. Edição 2023], As-
sociation pour l’Emploi des Cadres (Apec), 9 
nov. 2023. Cf. também “Pour les cadres, le 
télétravail n’est plus une option” [Para os 
quadros, o home office não é mais uma op-
ção], Apec, 28 mar. 2024.
6 Thomas Amossé e Christine Erhel, “Des mé-
tiers essentiels mais une faible qualité du tra-
vail et de l’emploi” [Profissões essenciais, 
mas com baixa qualidade do trabalho e do 
emprego]. In: Bruno Palier (org.), op. cit. Cf. 
também “La valeur du travail essentiel. Emploi 
et questions sociales dans le monde” [O valor 
do trabalho essencial. Emprego e questões 
sociais no mundo], Organização Internacional 
do Trabalho (OIT), 2023.
7 Richard Duhautois et al., “Quels sont les ef-
fets des innovations sur l’emploi dans les 
entreprises françaises?” [Quais são os efei-
tos das inovações sobre o emprego nas em-
presas francesas?], Connaissance de l’Em-
ploi, n.146, mar. 2019.
8 Rachel Saada, “Vers un travail sans droit” 
[Rumo a um trabalho sem direitos]. In: Antony 
Burlaud, Allan Popelard e Grégory Rzepski, 
Le Nouveau Monde. Tableau de la France néo-
libérale [O novo mundo. Retrato da França 
neoliberal], Éditions Amsterdam, Paris, 2021. 
Cf. também Tristan Paloc, “Les ruptures con-
ventionnelles en 2021. De nouveau en hausse 
après la crise sanitaire” [As rescisões amigá-
veis em 2021. Em alta novamente após a crise 
sanitária], Dares Résultats, n.37, Paris, 2 ago. 
2022; e “Emploi, chômage, revenus du travail. 
Édition 2024” [Emprego, desemprego, renda 
do trabalho. Edição 2024], Institut National de 
la Statistique et des Études Économiques (In-
see), 22 ago. 2024.
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22 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024
NÃO SE PERDE A VIDA PARA GANHÁ-LA
Levantar-se, tomar um café, entrar apressado em um carro, no metrô 
ou no trem. Trabalhar, ganhar o dia, voltar para casa, repetir... Por quê? 
Para quem? E se o desconcerto que o trabalho provoca expressasse, 
na verdade, uma esperança? A de uma atividade humana emancipadora 
POR DANIÈLE LINHART*
Um sentido para 
o trabalho, mas qual?
S
oldados ingleses estão desanima-
dos. Então, o coronel japonês do 
campo de prisioneiros ordena 
que reconstruam uma ponte. É 
preciso permitir o transporte de refor-
ços nipônicos, enquanto uma contrao-
fensiva aliada está em preparação. Esta-
mos na Tailândia, durante a Segunda 
Guerra Mundial. Ou melhor, em A ponte 
do Rio Kwai (1957), famoso filme de Da-
vid Lean. E o coronel Nicholson aceita: 
mesmo os doentes, mesmo os feridos, o 
britânico acredita que a tarefa redento-
ra devolverá dignidade aos seus homens 
– que, de fato, graças à obra, voltam a se 
respeitar. No entanto, quando Nichol-
son descobre a tentativa de sabotagem 
de um comando norte-americano, ele 
decide alertar o coronel Saito para evi-
tar a destruição de sua obra comum. O 
sentido subjetivo do trabalho, por ve-
zes, se choca com seu sentido objetivo.
Essa questão do sentido ressurge hoje, 
em termos aparentemente diferentes. 
Por toda parte se fala da importância 
que os jovens dariam à “conciliação en-
tre vida profissional e vida pessoal”, em 
“fazer algo útil” ou “concreto”. Às vezes, 
manifesta-se até o desejo de “recusar a 
ascensão, cultivar a dignidade do pre-
sente, lutar para salvar cada grama de 
beleza e saborear a vida”.1 Assim, os se-
tores de recursos humanos das empre-
sas precisam se desdobrar. Para atrair os 
“talentos”, lê-se por aí, prometem coa-
ching e convivência: “faremos festasaté 
o amanhecer”, “vocês poderão trabalhar 
com seus animais de estimação”.
Mas será que os jovens vivem assim 
mesmo? E que sentido dar à sua busca de 
sentido? Aliás, as gerações anteriores ne-
gligenciavam isso? Durante muito tempo, 
sem dúvida, prevaleceu uma abordagem 
esquemática e abstrata do problema, pró-
pria dos economistas. Psicólogos e soció-
logos concordam agora que “um trabalho 
faz sentido se nos permite nos sentirmos 
úteis, nos reconhecermos no que faze-
mos, respeitando as regras do ofício e a 
ética comum, além de desenvolver nos-
sas habilidades e experiências”.2
Essa seria a busca. Exceto que preva-
lece o trabalho assalariado ou o estatuto 
de funcionário público, ou seja, subordi-
nação e obediência. Quando a finalida-
de de nosso trabalho nos escapa – deci-
dida em outro lugar, de qualquer modo 
por outra pessoa, às vezes contra nossas 
convicções –, por que se preocupar com 
seu sentido? Dirão que é preciso sempre 
manter a razão, distinguindo o sentido 
subjetivo do objetivo. Mas será mesmo? 
Por que consentir em sua separação? 
Por que resignar-se ao provável choque 
entre ambos, como o coronel Nicholson 
em A ponte do Rio Kwai... ou os operá-
rios das economias ocidentais ao longo 
dos Trinta Gloriosos (1945-1975)?
Nesse período, triunfaram o taylo-
rismo e o fordismo: um trabalho frag-
mentado, repetitivo nos escritórios, 
brutal nas fábricas. Élise ou a vida real 
(1967), de Claire Etcherelli, descreve a 
fábrica da Citroën, na Porte de Choisy, 
em Paris, em plena Guerra da Argélia, 
com a violência e o racismo que lá im-
peravam. O cotidiano é desgastante, 
frustrante... mas permite acesso ao con-
forto, à sociedade de consumo, em um 
período de pós-guerra e reconstrução. 
A intensificação permanente e a total 
submissão parecem aceitáveis quando 
o futuro promete e os sindicatos con-
quistam aumentos regulares.
Trabalhadores desprovidos de autono-
mia podem ser consumidores e cidadãos 
felizes? Na mesma época, por coerência – 
e, portanto, dignidade –, muitos tentaram 
reconquistar uma identidade profissional 
que os valorizasse, notadamente ao con-
traporem o trabalho real ao trabalho pres-
crito. Esses trabalhadores subverteram a 
organização ao introduzirem formas de 
fazer e rearranjos, demonstrando a im-
portância de uma contribuição que não 
deriva apenas de ordens, mas também da 
engenhosidade operária, da experiência e 
dos saberes individuais ou coletivos.
“DEDIQUEI TANTOS ANOS À 
MINHA EMPRESA E VEJAM O 
QUE ELES ME FAZEM...”
Alguns trabalhadores mais experientes 
elaboram e transmitem técnicas e até 
estratégias. Aos mais jovens, ensinam 
também a solidariedade e o gosto pela 
convivência. É preciso se reapropriar 
do tempo, tornar a vida mais suportá-
vel. Em L’Établi (1978), Robert Linhart 
revisita sua experiência como operário 
especializado (OS) dez anos antes, na 
mesma fábrica da Citroën, na Porte de 
Choisy. Ele descreve a habilidade de três 
OS iugoslavos capazes de operar três 
postos com apenas dois deles – permi-
tindo, assim, que todos pudessem, alter-
nadamente, fazer uma pausa para fumar 
ou trocar algumas palavras com as ope-
rárias da seção de assentos, próximas à 
linha de montagem.
O trabalho “reorganizado” desafia os 
engenheiros e sua pretensão de governar 
o trabalho dos outros – uma provocação 
para aqueles que veem os operários 
como peões; mas os peões fazem me-
lhor, mais rápido, às vezes até sacrifican-
do a si mesmos. “Dediquei tantos anos à 
minha empresa”, se ouvirá mais tarde. “E 
vejam o que eles me fazem...” Quando as 
fábricas fecharem, isso será cruel. Mas 
não era já desde o início, visto que todas 
essas tentativas estão fadadas a se exau-
rir por causa de sua própria eficácia? No 
fundo, essas iniciativas não salvam uma 
organização disfuncional, concebida no 
desprezo à dignidade operária?
A prova está nas greves de zelo – quan-
do os trabalhadores se restringem ao que 
está prescrito – e nos inevitáveis declínios 
de produtividade. Para recuperar algum 
sentido, os trabalhadores se desgastam 
fortalecendo uma organização que os 
maltrata. Não é de surpreender que algo 
tenha se rompido em maio de 1968. O 
advento da sociedade de consumo não 
bastava para compensar a dureza de um 
trabalho ainda dominado pela subordi-
nação objetiva do sentido ao capital. A 
revolta dos jovens inicialmente expres-
sava essa “crítica artística”.3 Depois, levou 
todos os outros a uma greve geral de três 
semanas com ocupações de fábricas. Não 
se perderia mais a vida para ganhá-la.
Procurando consenso, a gestão mudou 
de abordagem. Já no fim dos anos 1970, 
e ao longo das décadas seguintes, ela in-
vestiu na cultura e na ética: lutar “pela 
empresa”, defender os empregos, en-
quanto se encorajava cada um a “crescer 
dentro da empresa”, “sair da zona de con-
forto”, a revelar-se a si mesmo e à hierar-
quia. O gerenciamento impôs um novo 
sentido, apelando para o íntimo: a capa-
cidade de cada um de enfrentar desafios 
– imaginados pela hierarquia – e de se 
adaptar às mudanças incessantes, reno-
vando constantemente suas competên-
cias e exaltando sua resiliência. Recur-
sos humanos e exércitos de consultores 
contribuíram para fomentar o gosto pela 
autonomia e pela ousadia... para melhor 
impor procedimentos, protocolos, pro-
cessos, codificações, especificações, re-
latórios, benchmarking e “boas práticas”.
Nos corredores dos galpões, nos escri-
tórios open space, no caixa do comércio 
ou na central telefônica, inventou-se ou-
tro tipo de felicidade: não mais aquela 
derivada do consumo ou do crescimen-
to perpétuo, mas a satisfação narcisista 
do sentimento de autovalorização. Era 
o tempo dos “funcionários do mês”, dos 
bônus de desempenho, dos desafios; ou, 
em uma sociedade do ego, o tempo das 
emoções no trabalho.4 Contudo, essa 
reformulação gerencial negava tanto a 
realidade do sentido objetivo quanto a 
subjetividade do trabalhador. Por isso, 
não fazia nenhum sentido.
Quando uma ruptura como a dos con-
finamentos de 2020-2021 expôs essa 
verdade, não se presenciou uma nova 
greve geral. O que se viu foi a expressão 
de um imenso mal-estar, de sofrimentos 
psíquicos e físicos em todas as catego-
rias socioprofissionais; a revelação de 
numerosos casos de assédio, tanto no 
setor privado como em um setor públi-
co também submetido à mesma lógica. 
Da mesma forma que às vezes se infla-
ma por crimes julgados em tribunais, 
a França apaixonou-se pelo processo 
contra os dirigentes da France Télécom.5 
Em 2022, após trágicos suicídios de em-
pregados, a Corte de Apelação de Paris 
confirmou as condenações por assédio 
moral institucional.
A juventude sabe de tudo isso. Está-
gios enfadonhos e degradantes, séries 
como The Office, o filme Un autre mon-
de ([Um outro mundo] Stéphane Brizé, 
2021) ou ainda a leitura de Bullshit Jobs 
([Empregos de merda] David Graeber, 
2018) só podem ter-lhe inculcado uma 
visão sombria e trágica do mundo do 
trabalho. Contudo, como Pierre Bour-
dieu lembrava, “a ‘juventude’ é apenas 
uma palavra”6 que também pode ter vá-
rios sentidos, às vezes incertos...
O sociólogo Camille Peugny observa 
que, quando se pergunta aos trabalha-
dores europeus com menos de 30 anos 
sobre os aspectos que consideram im-
portantes em um emprego, “suas respos-
tas não diferem muito das formuladas 
pelos mais velhos”. De fato, “80% deles 
consideram importante ter a sensação 
de realizar algo no trabalho, e quase 60% 
valorizam a possibilidade de tomar ini-
ciativas. No entanto, essas proporções 
são bastante semelhantes às observadas 
23DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil
entre os de 30 a 59 anos”.7 Dentro da pró-
pria juventude, por outro lado, a relação 
com o trabalho varia, sobretudo com 
base em critérios sociais. “Provavelmen-
te é mais fácil manter certa distância em 
relação ao trabalho quando a perspecti-
va de ficar sem ele é relativamente im-
provável”, observa Peugny.
Muitos jovens procuram principal-
mente escapar das servidões do trabalho 
assalariado e de suas imposições.Não 
tentam transformar o trabalho assala-
riado – que abrange cerca de 90% dos 
ativos –, mas libertar-se dele em uma 
espécie de salve-se quem puder indivi-
dual. É a escolha da independência, do 
trabalho freelance, do microempreen-
dedorismo ou, de forma mais forçada, 
da uberização. As aparentes autonomias 
que encontram têm o custo de algumas 
proteções sociais, mas as recentes mu-
danças legislativas incentivam esse ca-
minho, desde a criação do status de mi-
croempreendedor até a possibilidade de 
resgatar o seguro-desemprego em forma 
de capital para iniciar um negócio.
Outra parte da juventude se conten-
ta com o trabalho assalariado e dirige 
suas principais críticas à “modernida-
de” gerencial. Não bastaria retornar a 
uma hierarquia baseada na expertise, no 
apoio aos subordinados, em uma gestão 
mais coletiva e racional, para limitar a 
competição, a personalização da relação 
com o trabalho e atenuar os excessivos 
incentivos emocionais ao autoaperfei-
çoamento? Esses jovens querem progre-
dir, ganhar competências, em condições 
tranquilas e necessárias para a qualida-
de do que se espera deles. Satisfazem-se 
com o vínculo de subordinação e não 
questionam a finalidade do trabalho.
“A MUDANÇA CLIMÁTICA 
É MUITO PRÁTICA PARA DAR UM 
PROPÓSITO À SUA EXISTÊNCIA”
Outros, no entanto, questionam isso 
desde o início. Eles se voltam para a eco-
nomia social e solidária (ESS). A pesqui-
sadora Émilie Veyrat mostra como esta 
representa, para uma juventude forma-
da nas grandes escolas, uma nova via de 
distinção, que combina excelência e rea-
lização pessoal. Ela cita Gabriel, 26 anos, 
executivo sênior de uma associação de 
defesa ambiental: “Estamos todos em 
busca de utilidade e sentido pelo traba-
lho; a mudança climática é muito prática 
para dar um propósito à sua existência”.8
Muitas vezes, porém, os jovens encon-
tram na ESS as mesmas condições de 
trabalho impostas pela gestão moderna 
– supostamente para ajudar o terceiro 
setor a sobreviver... Quando os voluntá-
rios se mostram dispostos a pressionar 
e intensificar o trabalho, é sempre por 
uma boa causa!9
Há ainda, em uma perspectiva um 
pouco diferente, o que a jornalista Ma-
rine Miller chama de “a revolta das eli-
tes”:10 os formados pelas melhores esco-
las que levantam a questão do sentido 
do trabalho em termos de ecologia ou 
de questões sociais. Eles não seguirão 
carreira como seus pais, em empresas 
prestigiadas que obrigam seus emprega-
dos a contribuir para a ameaça à huma-
nidade. Em vez disso, optam por profis-
sões manuais, cansativas mas úteis para 
o planeta, como permacultor ou padeiro 
de produtos orgânicos.
Desses que, às vezes, nos fazem rir. 
Desses e de todos os outros que, fre-
quentemente, nos fazem perder a pa-
ciência. Por priorizarem preservar a 
si mesmos da precariedade em vez de 
mudar o mundo do trabalho, sua fi-
nalidade e as condições que impõe à 
maioria. Em suma, por uma escolha 
apolítica. Mas são realmente escolhas? 
Nessa diversidade, essa juventude não 
compartilha a busca, o tato, a resistên-
cia em aceitar as coisas como são? E, na 
afirmação persistente de um sentido 
subjetivo, não delineia um novo sentido 
objetivo para o trabalho? Como se um 
e outro não estivessem destinados a se 
chocarem, uma e outra vez. 
*Danièle Linhart é pesquisadora emérita 
do Centro Nacional de Pesquisa Científica 
(CNRS), na França, e socióloga do trabalho.
1 Corinne Morel Darleux, Plutôt couler en beauté 
que flotter sans grâce. Réflexions sur l’effondre-
ment [Antes afundar com beleza do que flutuar 
sem graça. Reflexões sobre o colapso], Liber-
talia, Montreuil, 2019.
2 Thomas Coutrot e Coralie Perez, “Le sens du 
travail: enjeu majeur de santé publique” [O 
sentido do trabalho: questão central de saúde 
pública]. In: Que sait-on du travail [O que sabe-
mos sobre o trabalho], Le Monde – Presses de 
Sciences Po, Paris, 2023.
3 Luc Boltanski e Ève Chiapello, Le Nouvel Esprit 
du capitalisme [O novo espírito do capitalismo], 
Gallimard, Paris, 2011 (1. ed.: 1999).
4 Aurélie Jeantet, Les Émotions au travail [As emo-
ções no trabalho], CNRS Éditions, Paris, 2018.
5 Ler “‘Appelez-moi maître...’” [“Chamem-me de 
mestre...”], Le Monde Diplomatique, artigo iné-
dito, set. 2019.
6 Pierre Bourdieu, Questions de sociologie [Ques-
tões de sociologia], Minuit, 2002 (1. ed.: 1984).
7 Camille Peugny, “Les jeunes sont-ils des travail-
leuses et travailleurs comme les autres?” [Os 
jovens são trabalhadoras e trabalhadores como 
os demais?]. In: Que sait-on du travail, op. cit.
8 Émilie Veyrat, “Le consensus sur la ‘recherche 
d’alignement’: répondre à l’angoisse sans con-
flictualiser le travail” [O consenso sobre a “bus-
ca de alinhamento”: responder à angústia sem 
conflitar o trabalho], comunicação no colóquio 
“Le ‘sens du travail’: enjeux psychiques, sociaux 
et politiques de l’activité” [O “sentido do traba-
lho”: questões psíquicas, sociais e políticas da 
atividade], Paris, 3 out. 2024.
9 Simon Cottin-Marx, C’est pour la bonne cause! 
Les désillusions du travail associatif [É por uma 
boa causa! As desilusões do trabalho associa-
tivo], Éditions de l’Atelier, Ivry-sur-Seine, 2021.
10 Marine Miller, La Révolte. Enquête sur les jeu-
nes élites face au défi écologique [A revolta. 
Investigação sobre as jovens elites diante do 
desafio ecológico], Seuil, Paris, 2021.
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Sindicalismo de serviço
A filiação a um sindicato, embora não 
seja obrigatória, condiciona o acesso 
a certos direitos sociais, como o 
seguro-desemprego e o seguro-saúde.
Sistema tradicional
Os sindicatos geralmente desempenham um 
papel de negociação coletiva e luta política.
67
65
59
50
49
33
27
26 26
25
24
18
17
16
15
14
13 13
12 12
11 11 11
10 10 10
8
7
O sindicalismo em dificuldade
Taxa de sindicalização em porcentagem dos trabalhadores assalariados
O SINDICALISMO EM DIFICULDADE
Dados de 2019, exceto Canadá, Estados Unidos, Irlanda, México: 2020, 
Nova Zelândia, Austrália, Coreia do Sul, Eslováquia, República Tcheca, 
Hungria: 2018, Colômbia, Israel, Polônia: 2017, França: 2016. 
Fonte: Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), 2024.
24 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024
SETECENTAS MORTES POR ANO
Impunidade
patronal
E
m 2017, Adrien Alcodori morreu 
ao cair em um canteiro de obras 
no departamento de Hérault, no 
sul da França. O andaime onde 
trabalhava o jovem telhadista não ti-
nha guarda-corpo. Inicialmente, os po-
liciais se recusaram a registrar a queixa 
apresentada por sua mãe, Christel Ri-
card. “Disseram que meu filho estava 
errado. Felizmente, a auditora fiscal do 
trabalho apontou falhas na seguran-
ça.” Os empregadores, administrado-
res de uma empresa familiar, acaba-
ram sendo multados em 60 mil euros. 
“Talvez, se fossem um pouco mais pu-
nidos, prestariam mais atenção à vida 
humana”, afirma Ricard.
Francis D., por sua vez, espera há sete 
anos notícias da investigação aberta 
após a morte de seu irmão Sébastien, 
um funcionário da prefeitura atropelado 
durante o serviço por uma empilhadeira 
com freio defeituoso. Já Johanna Bento 
Daire, cujo marido morreu em 2020 den-
tro da secadora de uma lavanderia, re-
toma as esperanças: embora, segundo a 
polícia, o acidente não tenha sido causa-
do por falhas na máquina, o relatório da 
auditoria fiscal do trabalho, apresentado 
dois anos depois, levou o Ministério Pú-
blico a reabrir o processo. “Meu marido 
não é culpado por sua morte. Quero um 
julgamento que reconheça isso e uma 
pena de prisão para os responsáveis.”
Construção civil, pesca e logística: em 
alguns setores, afrequência de tragédias 
é especialmente alta. A exposição ao ris-
co é cinco vezes maior para operários 
do que para executivos. Na França, pelo 
menos setecentas pessoas morrem to-
dos os anos em acidentes de trabalho.1 
A mobilização de seus familiares e um 
renovado interesse da mídia por essas 
mortes invisíveis têm inspirado campa-
nhas de prevenção pelas autoridades. 
Até agora, no entanto, o tratamento pe-
nal não apresentou melhorias nesses ca-
sos nem no de infrações que alimentam 
os acidentes e as doenças ocupacionais.
EMPRESAS ESCAPAM DE 
PROCESSOS JUDICIAIS
Embora a auditoria fiscal do trabalho 
alerte há anos sobre a insuficiência das 
ações do Ministério Público em respos-
ta às suas observações, a administração 
não divulga mais estatísticas a esse res-
peito. Cabe então à Confederação Geral 
do Trabalho (CGT) constatar que, em 
Seine-Saint-Denis, entre 2014 e 2020, 
apenas um terço dos autos de infração 
elaborados por inspetores resultou em 
ações judiciais. Outro terço foi arquiva-
do, e o restante ainda está sob investiga-
ção, às vezes seis anos após os fatos.
A procuradoria de Bobigny atribui a 
proporção de casos “em atraso” à fal-
ta de recursos e à “alta rotatividade” de 
magistrados. Em relação aos arquiva-
mentos, “a maioria se deve a infrações 
insuficientemente caracterizadas”, ar-
gumenta Antoine Haushalter, substituto 
do procurador especializado em aciden-
tes de trabalho. “Na ausência de provas, 
se levássemos o caso ao tribunal, isso 
resultaria em absolvição.”
Para reduzir os riscos, o magistrado 
conta há alguns anos com o apoio de 
um assistente de justiça. Essa categoria 
de agente especializado – ainda rara nos 
tribunais – é responsável, entre outras 
funções, por coordenar as “cossupervi-
sões”, ou seja, ações em que auditores 
fiscais do trabalho e policiais realizam 
conjuntamente, e não mais de forma pa-
ralela, audiências e pedidos de perícia. 
“As delegacias ficam um pouco perdidas 
nesse tipo de caso e incapazes de di-
zer se determinado andaime estava em 
conformidade ou não. Também recebía-
mos autos em que a inspeção do traba-
lho não detalhava de maneira precisa e 
completa as circunstâncias do acidente”, 
explica Haushalter. “Agora, ganhamos 
em coerência.”
Por outro lado, os auditores fiscais 
do trabalho descrevem uma colabora-
ção que, dependendo do caso, é mais 
ou menos produtiva. “Na prática, na 
maioria das vezes, a polícia parece que-
rer encerrar os casos relacionados ao 
trabalho o mais rápido possível”, obser-
va Gilles Gourc, da Confederação Na-
cional do Trabalho (CNT). “O que eles 
chamam de ‘investigação’ é frequen-
temente uma sucessão de audiências 
sobre a personalidade dos envolvidos, 
sem uma análise real da situação geral.” 
Já os representantes da CGT-Trabalho, 
Emprego e Formação Profissional (CG-
T-TEFP) observam que o exercício, por 
seus colegas, de prerrogativas de polí-
cia judiciária não tem impacto real nas 
decisões dos magistrados sobre prosse-
guir ou não com os processos.
Mesmo quando a justiça assume os 
casos, as empresas têm grandes chan-
ces de escapar de um processo. “Ten-
tamos sair de uma alternativa entre 
levar ao tribunal – ou seja, um conflito, 
um enfrentamento – e arquivar o caso”, 
afirma Haushalter, que considera que, 
com exceção dos acidentes graves, “os 
litígios são adequados a uma justiça ne-
gociada.” Desde 2004, a audiência por 
reconhecimento prévio de culpa (CRPC) 
– uma espécie de “acordo de confissão” 
– permite que advogados e o promotor 
cheguem a um consenso sobre a pena, 
homologado por um juiz. Já a ordem pe-
nal, amplamente utilizada, baseia-se em 
um procedimento rápido e por escrito.
Essa é uma vantagem para um sis-
tema de justiça exaurido: “Temos um 
grande problema com o tempo de au-
diência, o que, sejamos francos, in-
fluencia parcialmente nossa política 
penal”, admite Haushalter. “Com os re-
cursos que temos, levar todos os casos 
ao tribunal implicaria decisões toma-
das mais de cinco anos após os fatos, o 
que é inaceitável.” Embora o substituto 
rejeite a ideia de uma “justiça de segun-
da classe”, outros criticam a tentativa de 
tratar os agentes econômicos com mais 
deferência do que os réus comuns.
A França é o segundo país europeu com o maior número de acidentes de 
trabalho fatais – números que talvez tenham relação com a indulgência que 
caracteriza o sistema judiciário quando empregadores estão no banco dos réus 
POR ALEXIA EYCHENNE*
QUANDO O TRABALHO MATA
REINO
UNIDO
BÉLGICA
LUX.
ALEMANHA
POLÔNIA
TCHECA
ESLOVÁQUIA
ÁUSTRIA HUNGRIA
CROÁCIA
ESLOVÊNIA
BULGÁRIA
GRÉCIA
MALTA
CHIPRE
IRLANDA
ISLÂNDIA
NORUEGA
SUÉCIA
FINLÂNDIA
LITUÂNIA
DINAMARCA
HOLANDA
LETÔNIA
ESTÔNIA
ROMÊNIAFRANÇA SUÍÇA
ESPANHA
PORTUGAL
ITÁLIA
0 300 600 km
1. Exceto Reino Unido: 2018.
Fonte: Eurostat, 2024.
0,3
0,8
1,5
2,3
3,0
3,5
5,3
Acidentes fatais
ocorridos em 20221
Taxa de incidência
Acidentes fatais
ocorridos em 20221
para cada 100 mil
trabalhadores
775
500
250
50
100
10
Nota: A definição exata dos acidentes de trabalho, bem como as modalidades de declaração, podem 
variar de um país para outro.
25DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil
“Na câmara de assuntos econômicos 
de Bobigny, vemos um desfile de falsos 
taxistas e traficantes de cigarros”, ob-
serva Simon Picou, da CGT-TEFP. “Por-
tanto, é possível julgar algumas infra-
ções.” Gourc lamenta “procedimentos 
negociados ‘nos bastidores’, já que o 
julgamento penal reduz o empregador 
ao nível de um simples réu, o que faz 
parte da reparação”. Advogado das víti-
mas do amianto e do assédio moral na 
France Télécom, Jean-Paul Teissonniè-
re critica a “ideologia de que um bom 
acordo vale mais do que um mau jul-
gamento”. E acrescenta: “O que torna o 
direito penal específico é sua brutali-
dade, e é justamente isso que se critica 
hoje: prefere-se se reunir, buscar solu-
ções para evitar que isso aconteça no-
vamente”, destaca. “É um discurso que 
pode parecer coerente, mas que não se 
aplica à realidade.”
Teissonnière também reconhece a 
dificuldade de submeter vítimas de ca-
sos graves a procedimentos que podem 
durar mais de dez anos, especialmente 
sem apoio de associações ou sindicatos. 
Apesar de dezenas de milhares de mor-
tes, as empresas que expuseram seus 
antigos funcionários ao amianto ainda 
não foram condenadas na França por 
homicídio culposo. “O surgimento dos 
danos décadas depois é um problema, 
pois um julgamento pressupõe unidade 
de tempo e lugar”, observa Teissonniè-
re. “A plasticidade das formas das em-
presas e o caráter fugaz das funções de 
direção também tornam difícil localizar 
os culpados.” Em 2006, o advogado con-
seguiu condenar a Alstom em um caso 
de amianto com base no crime de colo-
car outros em perigo. “Contornamos o 
problema envolvendo o juiz assim que 
a infração é cometida, mas isso pressu-
põe, no entanto, devolver à auditoria do 
trabalho uma verdadeira capacidade de 
fiscalização.” Porém, esse órgão perdeu 
16% de seu efetivo entre 2015 e 2021.2
Na maioria dos casos, os acidentes fa-
tais acabam chegando aos tribunais. A 
CRPC não se aplica aos homicídios cul-
posos. Entre 2012 e 2019, mais de 90% 
dos implicados nesse tipo de caso fo-
ram processados.3 No entanto, na maio-
ria das vezes, os juízes utilizam mode-
radamente as ferramentas repressivas 
disponíveis, que preveem até cinco 
anos de prisão e 75 mil euros de multa. 
A advogada Aurélie Salon observou que 
a pena com condicional foi aplicada em 
75% dos casos, e a prisão em regime fe-
chado, em menos de 2% das ações entre 
2012 e 2017. Já as multas alcançaram, 
em média, 4.407 euros.4
“O DIREITO PENAL DO 
TRABALHO FUNCIONA 
CONTRA O DIREITO COMUM”
O caráter não intencional dos deli-
tos limita os magistrados. “Nos casos 
de saúde e segurança no trabalho, os 
envolvidos são responsáveis por uma 
falta, mas não controlam suas conse-
quências, o que torna a avaliação da 
pena delicada”, explica Haushalter. As 
sentenças condenam mais frequente-
mente pessoas jurídicas do quefísicas 
e, “quando isso ocorre, pode-se ter a 
impressão, na audiência, de que o res-
ponsável de plantão era o último elo 
de uma cadeia de responsabilidades, o 
que provavelmente explica penas fre-
quentemente leves”.
Na prática, os magistrados aplicam 
com moderação um direito penal do 
trabalho que é, por princípio, excepcio-
nal. Teissonnière destacou aos juízes do 
caso France Télécom que uma pessoa 
que assedia moralmente seu cônjuge 
a ponto de levá-lo a uma tentativa de 
suicídio está sujeita a uma pena de dez 
anos de prisão, enquanto um emprega-
dor que comete o mesmo ato não arris-
ca mais de três anos. “O direito penal do 
trabalho funciona como um sistema de 
proteção dos empregadores contra o di-
reito comum”, afirma ele.
A aplicação dessa justiça particular 
sofre, por fim, com a existência de um 
sistema paralelo de direito à repara-
ção, construído desde a primeira lei de 
1898 sobre os acidentes de trabalho. O 
sistema de indenização automática 
das vítimas visa reparar o dano e, ao 
mesmo tempo, incentivar financeira-
mente os empregadores a adotar me-
didas de prevenção. “Ainda hoje, para 
as autoridades públicas, seria inútil se 
desgastar em procedimentos penais 
longos e incertos quando se poderia 
concentrar tudo em uma justiça repa-
radora”, observa Teissonnière. Mas es-
se sistema também banalizou os aten-
tados à saúde e à segurança dos 
trabalhadores, agora vistos como ine-
rentes à vida das empresas. “Durante 
os debates de 1898, o deputado socia-
lista Jules Guesde declarou na Assem-
bleia: ‘Ao adotar este texto, vocês vão 
autorizar um açougue operário’”, re-
lembra o advogado. “É possível que ele 
estivesse certo.” 
*Alexia Eychenne é jornalista.
1 Ceren Inan, “Quels sont les salariés les plus 
touchés par les accidents du travail en 2019?” 
[Quais são os trabalhadores mais afetados pe-
los acidentes de trabalho em 2019?], Dares 
Analyses, n.53, Paris, 2 nov. 2022. Cf. tam-
bém, sobre a contagem de mortes no traba-
lho, Matthieu Lépine, L’Hécatombe invisible. 
Enquête sur les morts au travail [A hecatombe 
invisível. Investigação sobre as mortes no tra-
balho], Seuil, Paris, 2023.
2 “La gestion des ressources humaines du minis-
tère du travail” [A gestão de recursos humanos 
do Ministério do Trabalho], Cour des comptes, 
28 fev. 2024, www.ccomptes.fr.
3 Evelyne Serverin, “Les comptes de la justice 
pénale du travail” [As contas da justiça penal 
do trabalho], Le Droit Ouvrier, n.863, Mon-
treuil, jun. 2020.
4 Aurélie Salon, “Opportunités et limites du re-
cours au droit pénal en matière de protection 
de la santé et de la sécurité au travail” [Opor-
tunidades e limites do recurso ao direito penal 
na proteção da saúde e da segurança do tra-
balho], tese de doutorado defendida em 12 de 
novembro de 2019 na Universidade Paris 1.
DESAPARECIMENTO DE 35 MIL EMPREGOS EM TURIM
O silêncio 
das fábricas
Uma fábrica fecha, os operários se manifestam, 
o Estado declara sua impotência. As lágrimas 
escorrem e, em breve, a poeira se acumula. 
“Assim é a vida”, explicam os meios de 
comunicação, sempre prontos a ocultar a natureza 
política das escolhas do poder – por exemplo, 
enfraquecer as organizações dos trabalhadores e 
destruir os bastiões operários do noroeste italiano 
POR PAOLO VALENTI*
E
la era conhecida como a “Detroit 
italiana”. Durante décadas, Turim 
foi um dos corações pulsantes da 
indústria automobilística europeia. 
Foi nessa cidade do Piemonte, no no-
roeste do país, que nasceu a Fiat, há 125 
anos, antes de se tornar a maior empresa 
italiana. Em 1967, no auge do milagre 
econômico da Bota, a fábrica de Mirafio-
ri, no sul da cidade, produzia 5 mil carros 
por dia e empregava 52 mil pessoas. Ho-
je, o silêncio reina em boa parte do local: 
com a produção em seu nível mais baixo, 
metade dos 3 milhões de metros quadra-
dos da área está abandonada, e a maioria 
dos 33 portões que antes recebiam um 
fluxo contínuo de trabalhadores e mate-
riais permanece fechada.
“É uma lenta agonia”, resume Giaco-
mo Zulianello, recepcionista na Carroz-
zeria, a oficina de montagem de carros 
dentro da fábrica. Desde seus primeiros 
dias na linha de montagem, em 1985, 
ele acompanhou o ritmo das sucessivas 
transformações da empresa: as aqui-
sições da Lancia, Abarth, Alfa Romeo 
e Maserati, a fusão com a Chrysler em 
2014 e, em 2021, o acordo com o grupo 
Peugeot-Citroën, que deu origem à Stel-
lantis. Nós nos encontramos no portão 
2, após um raro dia de trabalho: Zulia-
nello faz parte dos mais de 2 mil traba-
lhadores da Carrozzeria em regime de 
desemprego parcial desde 2008. Segun-
do a Federação Italiana dos Metalúrgi-
cos (FIM-CISL), eles puderam trabalhar 
apenas catorze dias entre julho e setem-
bro passados. Após uma breve reaber-
tura neste outono, o local pode voltar a 
fechar até o próximo ano, de acordo com 
informações que a empresa nem confir-
ma nem nega.1 “Dos quase 1.700 euros 
que eu deveria ganhar, recebo 1.150, e 
alguns de meus colegas se endividaram 
para financiar os estudos dos filhos.”
Mirafiori produz – e, ainda assim, de 
forma intermitente – apenas três mode-
los: o Fiat 500 elétrico e dois Maserati de 
luxo. Nos primeiros nove meses deste 
ano, foram montados 22.240 veículos, 
uma redução de 70% em relação ao mes-
mo período de 2023. A fábrica de Turim 
sofre com a crise enfrentada pela Stel-
lantis e pela indústria automobilística 
europeia como um todo, impactada pela 
combinação de vários fatores: a queda 
do poder de compra dos consumidores, 
o aumento dos preços da energia e das 
matérias-primas, a crescente concor-
rência chinesa e a complexa transição 
para o elétrico imposta pela União Euro-
peia, que decretou, em março de 2023, a 
proibição da produção de carros a com-
bustão a partir de 2035.
Entretanto, o abandono de Mirafio-
ri também reflete o fracasso da política 
industrial de Roma: desde outubro de 
2016, o Estado concedeu, primeiro à Fiat 
Chrysler Automobiles (FCA) e depois 
à Stellantis, 100 milhões de euros em 
subsídios para apoiar a produção e evi-
tar perdas de empregos nas instalações 
italianas do grupo, sem contar os em-
préstimos garantidos e os 900 milhões 
desembolsados para financiar o desem-
prego parcial.2 Apesar disso, a empresa 
continuou concentrando os investimen-
tos fora da Itália, enquanto a produção 
no país não parou de cair, assim como 
o número de empregados: de 71 mil há 
vinte anos, passou-se para 42 mil. Em 
Mirafiori, restam 12 mil funcionários, 
metade do efetivo de quinze anos atrás, 
dos quais 6 mil são operários.
“O que faltou e ainda falta à classe po-
lítica é visão. Isso implica fazer escolhas”, 
comenta o economista Renato Lanzetti. 
“Ao longo dos anos, vimos surgir deze-
nas de planos, sempre com nomes di-
ferentes, que apenas desperdiçaram re-
cursos sem estratégia, sem transparên-
cia e sem avaliação do impacto real. Ao 
contrário, é preciso conceber a política 
industrial como um contrato: eu lhe dou 
este dinheiro para fazer isso e verifico 
os resultados.” Para Edi Lazzi, secretário 
http://www.ccomptes.fr/
26 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024
turinês da Federação dos Trabalhadores 
Metalúrgicos (Fiom-CGIL), apenas “um 
‘plano Marshall’ para a mobilidade elé-
trica” pode revitalizar a indústria e sal-
var Mirafiori: “Estamos de acordo com 
o limite de 2035, mas é necessário que 
o Estado, em parceria com o setor pri-
vado, invista maciçamente em energias 
renováveis e infraestrutura, começando 
pelas estações de recarga”.
No entanto, as recentes decisões do 
governo de Giorgia Meloni parecem se-
guir na direção oposta. A lei orçamen-
tária apresentada no fim de outubro e 
atualmente em debate no Parlamento 
prevê uma redução de mais de 4 bi-
lhões de euros no fundo automotivo 
criado pelo governo de Mario Draghi 
em 2022, justamente para apoiar a 
transição da indústria para a energia 
elétrica. Ainda assim, os membros do 
Executivo continuam a se apresentar 
como defensores do setor, sem poupar 
críticas à direção da Stellantis.
Essesgestos não convencem os traba-
lhadores e seus sindicatos, que denun-
ciam o imobilismo do governo. Lazzi 
fala de uma “estratégia de abandono” 
e acrescenta: “Hoje, a idade média dos 
operários da fábrica é de 56 anos. Se a 
Stellantis continuar nesse ritmo, pro-
pondo apenas planos de demissão sem 
contratar, em sete ou oito anos ela se 
extinguirá sozinha, sem necessidade de 
demissões”. Zulianello concorda: “Mes-
mo que essa seja a intenção deles, nun-
ca admitirão abertamente que querem 
fechar Mirafiori, porque se preocupam 
demais com a opinião pública. Os Ag-
nelli não possuem dois dos principais 
jornais do país por acaso”. Por meio de 
sua holding Exor, os donos da Fiat con-
trolam o La Repubblica e o La Stampa 
– que estão entre os jornais mais lidos 
da Itália –, frequentemente acusados de 
tratar com complacência temas ligados 
aos interesses dos proprietários, como 
a crise da Fiat. Neste outono, após duas 
greves no La Repubblica em resposta 
às interferências repetidas dos proprie-
tários, o grupo de imprensa anunciou 
a saída do diretor de redação Maurizio 
Molinari e do presidente John Elkann.3
MESMO AS COISAS MAIS 
ELEMENTARES PRECISAM 
SER CONQUISTADAS
No dia 14 de novembro, ao final de uma 
reunião com o ministro das Empresas 
e do “Made in Italy”, Adolfo Urso, os di-
rigentes da Stellantis Itália declararam 
que a empresa “não tem intenção de 
fechar fábricas na Itália nem realizar 
demissões coletivas” e confirmaram 
os compromissos assumidos anterior-
mente sobre Mirafiori: a retomada da 
produção do Fiat 500 híbrido até 2025 
e o investimento de 240 milhões de eu-
ros para a transformação da fábrica. 
“Não há nada de novo”, denuncia Gian-
ni Mannori, responsável pelo sindicato 
Fiom-CGIL no local. “Ainda não sabe-
mos quando a produção será retoma-
da, por quanto tempo, com quais vo-
lumes, com quantos trabalhadores, em 
que será investido esse dinheiro. A pri-
meira-ministra Giorgia Meloni precisa 
convocar a Stellantis ao Palazzo Chigi 
[sede do governo italiano]”.
Em Mirafiori, até mesmo os poucos 
departamentos que funcionam regular-
mente sentem o progressivo desengaja-
mento da empresa. “Temos a sensação 
de que fazem de tudo para nos empur-
rar a sair”, preocupa-se Guido Cappello, 
operário na linha de produção das caixas 
de câmbio eletrificadas, que está a todo 
vapor. “Temos sorte de trabalhar, mas as 
condições estão cada vez mais difíceis. 
Até as coisas mais elementares precisam 
ser conquistadas: há meses pedimos 
uma cantina no prédio, mas ainda so-
mos obrigados a caminhar 10 minutos 
para ir e 10 minutos para voltar, mesmo 
sob a chuva”. Cappello é um dos mais jo-
vens da equipe, mas observa os efeitos 
da falta de contratações e da estagnação 
das carreiras em seus colegas mais ve-
lhos: “Se forçarem pessoas de certa ida-
de e cansadas a fazer tudo, inclusive os 
turnos noturnos, as destruirão. Muitos 
agora só têm uma preocupação: chegar 
à aposentadoria, se possível com saúde”.
Diante de uma situação cada vez mais 
crítica, ocorreu uma rara greve unitária 
no setor automobilístico no dia 18 de 
outubro. De acordo com os sindicatos 
organizadores, 20 mil trabalhadores se 
manifestaram nas ruas da capital nes-
se dia, e a adesão à greve nas fábricas 
foi muito alta – 85% em Mirafiori, onde 
um comício havia sido organizado na 
véspera. Lá, encontramos trabalha-
dores da fábrica Lear de Grugliasco, a 
8 quilômetros de Turim, símbolo dos 
efeitos da crise automobilística sobre 
os fornecedores e subcontratados. Ali, 
eram produzidos os bancos dos carros 
que depois eram montados em Mirafio-
ri. Hoje, o local está fechado, e os qua-
trocentos trabalhadores enfrentam o 
desemprego parcial, garantido apenas 
até 31 de dezembro de 2024.
“Eu ganho o suficiente para viver, 
mas não poder trabalhar é terrível, in-
clusive psicologicamente”, explica Sara 
D’Imperio, costureira na Lear. “Nós nos 
sentimos inúteis e isolados, todos os 
dias são iguais.” De acordo com o sin-
dicato Fiom-CGIL, quinhentas empre-
sas fornecedoras de peças automotivas 
fecharam desde 2008 na província de 
Turim, resultando no desaparecimen-
to de 35 mil empregos. D’Imperio teme 
que o mesmo aconteça com a fábri-
ca de Grugliasco se seus dirigentes e 
o governo não chegarem a um acordo 
para prolongar o desemprego parcial. A 
preocupação é ainda maior porque, em 
2023, Meloni eliminou o programa de 
transferência de renda intitulado “ren-
dimento de cidadania”.
Nos últimos anos, D’Imperio partici-
pou de treinamentos organizados pela 
empresa para facilitar as reconversões, 
mas não vê “muitas empresas dispos-
tas a contratar, e, se o fazem, oferecem 
apenas contratos precários”. Os traba-
lhadores mais velhos de Mirafiori se 
mostram ainda mais pessimistas. “Aos 
58 anos, onde eu ainda poderia encon-
trar trabalho?”, questiona Zulianello. 
Atrás dele, depois do portal 2, o silên-
cio responde. 
*Paolo Valenti é jornalista.
1 Andreas Boeris, “Stellantis, Mirafiori chiuderà 
di nuovo per tutto dicembre. Ecco perché” 
[Stellantis, Mirafiori fechará novamente durante 
dezembro todo. Veja o porquê], 7 nov. 2024, 
www.milanofinanza.it.
2 Milena Gabanelli e Rita Querzé, “Fiat-FCA-Stel-
lantis: i soldi che hanno preso dallo Stato e in 
cambio di cosa” [Fiat-FCA-Stellantis: o dinheiro 
que receberam do Estado e em troca de quê], 
Corriere della Sera, Milão, 24 jun. 2024.
3 Stefano Baudino, “La Repubblica silura Moli-
nari dopo mesi di proteste della redazione” [La 
Repubblica demite Molinari após meses de 
protestos da redação], 4 out. 2024, www.lindi-
pendente.online.
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A política industrial italiana não consegue lidar com a crise do setor automobilístico, gerando ausência de investimento e planejamento estratégico desse setor
http://www.milanofinanza.it/
http://www.lindipendente.online/
http://www.lindipendente.online/
27DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil
O CARÁTER SISTÊMICO DA DISCRIMINAÇÃO DE GÊNERO
Em 1957, o Tratado de Roma, documento fundamental da construção da União Europeia, 
estabeleceu as bases de uma concepção ampliada da igualdade salarial. Embora seja 
um mecanismo essencial para os salários femininos, esse princípio enfrenta a oposição 
do patronato. Para os sindicatos, a batalha se trava com calculadora em mãos 
POR HÉLÈNE RICHARD*
Para além da desigualdade 
entre homens e mulheres
A
tualmente, no setor privado 
francês, em condições iguais de 
cargo e tempo de trabalho, a re-
muneração das mulheres é 
“apenas” 4% inferior à dos homens. 
Contudo, a diferença média de renda 
salarial ainda é de 23,5%, uma dispa-
ridade que pouco mudou na última 
década. Em primeiro lugar, as mulhe-
res são mais frequentemente submeti-
das a trabalhos em tempo parcial. Em 
seguida, são super-representadas em 
profissões cujas qualificações e peno-
sidade são mal reconhecidas, como as 
de assistência pessoal. Por fim, há va-
riáveis difíceis de identificar em nível 
macroeconômico, que consolidam as 
desigualdades no ambiente interno 
das empresas: obstáculos à progres-
são na carreira, interrupções profis-
sionais ligadas à maternidade, barrei-
ras psicológicas para pedir aumentos 
salariais e discriminação “pura” ba-
seada no gênero.
Desde 2019, a legislação francesa 
exige que empresas com cinquenta ou 
mais funcionários atribuam a si mes-
mas, anualmente, uma nota de até 100 
pontos, conhecida como “índice de 
igualdade profissional”. O indicador 
não convence as principais organiza-
ções sindicais nem as associações fe-
ministas, que criticam suas fórmulas 
de cálculo. Por exemplo, as disparida-
des salariais entre homens e mulheres 
– que compõem grande parte da nota 
final – são avaliadas dentro de grupos 
que combinam categorias sociopro-
fissionais e faixas etárias. No entanto, 
os efetivos de algumas “caixas” são pe-
quenos demais ou insuficientemente 
diversificados para permitir compa-
rações. “Em nossa empresa, há gru-
pos inteiros excluídos do cálculo. Por 
exemplo, assistentes que estão todasna mesma categoria convencional. 
Não há homens, então não tenho com 
o que comparar”, relata a responsável 
de recursos humanos de uma empresa 
de telecomunicações.1 Não é surpreen-
dente que, em 2024, a nota média atin-
ja 88 – considerando que sanções se 
aplicam a notas abaixo de 75.
NO HOSPITAL, PARTEIRAS 
PODERIAM LEGITIMAMENTE 
SE COMPARAR A ENGENHEIROS
A empresa STMicroelectronics, de Gre-
noble, pode, por exemplo, se orgulhar de 
ter mantido este ano sua pontuação de 
93, a mesma de 2023 e 2022. No entan-
to, em 26 de outubro de 2023, a câmara 
social da Corte de Apelação de Grenob-
le condenou a multinacional francesa 
por discriminação sexista contra onze 
funcionárias de Isère, após oito anos de 
batalha jurídica. A direção terá de pagar 
um total de 815 mil euros em danos e 
juros às reclamantes, sem contar o mon-
tante salarial, que ainda não foi julgado. 
O processo baseou-se no método Clerc, 
criado por François Clerc, militante da 
Confederação Geral do Trabalho (CGT) 
nos anos 1990, para evidenciar os efei-
tos da discriminação sindical. Aplicado 
à discriminação de gênero, esse método 
possibilitou, a partir dos anos 2000, os 
primeiros reajustes salariais em favor 
das mulheres, ao comparar a trajetória 
de funcionárias com a de colegas ho-
mens em cargos semelhantes na época 
de entrada na empresa.
O caso de Grenoble se destaca pelo 
caráter coletivo da iniciativa e pelo jul-
gamento que reconhece o caráter sistê-
mico da discriminação de gênero. Essa 
luta também evidenciou a dificuldade 
de acessar informações sobre salários. 
A transposição de uma diretiva europeia 
ao direito francês, prevista até junho de 
2026, deverá permitir que “trabalhado-
res e seus representantes [...] recebam 
informações claras e completas sobre os 
níveis de remuneração individuais e mé-
O TRABALHO DOMÉSTICO SEGUE MAJORITARIAMENTE 
UMA RESPONSABILIDADE DAS MÃES
100 20 30 40 50 60 70 80 90 %
Parcela de pessoas empregadas que fazem mais
de 7 horas de trabalho doméstico por semana1
Mulheres
Homens
69 %
84 %
79 %
72 %
54 %
32 %
35 %
73 %
31 %
69 %
27 %
47 %
Emprego de
tempo integral
Emprego em 
tempo parcial
Emprego de
tempo integral
Emprego em 
tempo parcial
Casal com pelo menos uma criança com menos de 3 anos.
Casal com pelo menos uma criança de 3 a 17 anos.
Família
monoparental
Conjunto 
dos pais 
1. Tempo gasto na França realizando tarefas domésticas (preparação das refeições, compras de alimen-
tos, lavanderia etc.) fora do tempo dedicado aos filhos.
Fontes: Insee Références, « Femmes et hommes, l’égalité en question. Édition 2022 » (dados da pesqui-
sa « Conditions de travail et risques psychosociaux », 2016, Dares-DGAFP-Drees).
dios, discriminados por gênero”, indicou 
o Parlamento Europeu em comunicado.
No entanto, além das carreiras pre-
judicadas, o principal desafio continua 
sendo a valorização das profissões femi-
nizadas, ou seja, as tabelas de classifica-
ção anexadas às convenções coletivas, 
que têm origem em decisões e decretos 
ministeriais de 1945 a 1947. Os ministros 
dos Assuntos Sociais de então – Alexan-
dre Parodi e, depois, Ambroise Croizat 
– buscavam “classificar e remunerar 
empregos do mundo industrial”, expli-
ca a economista Rachel Silvera. “Eles 
basearam-se na qualificação operária. 
[Esse sistema] teve, contudo, o efeito de 
valorizar mais os empregos técnicos de 
produção – o famoso núcleo essencial 
da atividade –, beneficiando os operá-
rios em relação aos funcionários admi-
nistrativos, e os engenheiros em relação 
aos gestores das áreas de suporte.”2 Os 
regimes de compensação também her-
daram essa lógica operária: uma auxiliar 
de enfermagem em plantão noturno 
recebe uma gratificação muito inferior 
à de um motorista de limpa-neve que 
desobstrui uma estrada ao amanhecer.
Os processos baseados na compara-
ção de profissões de “valor equivalente” 
oferecem um importante instrumento, 
tanto no nível setorial como em ações 
individuais. No hospital, por exemplo, 
as parteiras poderiam legitimamente se 
comparar a engenheiros responsáveis 
pela instalação e manutenção de equi-
pamentos. Ambas as funções exigem 
diploma de nível superior. As parteiras 
assumem responsabilidades – a vida de 
mães e recém-nascidos – que podem 
ser consideradas, no mínimo, tão pe-
sadas quanto o gerenciamento de uma 
equipe técnica.3 Até 2020, no entanto, 
seus contracheques no início da carrei-
ra indicavam 200 euros a menos que os 
dos engenheiros (2.156 euros líquidos). 
Suas lutas permitiram reduzir essa dife-
rença para 40 euros no início da carreira 
(ainda em favor dos engenheiros), mas 
o desnível aumenta com o tempo de 
serviço. Com 25 anos de experiência, as 
remunerações diferem entre 420 e 900 
euros, dependendo do valor da gratifi-
cação de tecnicidade, atribuída exclusi-
vamente aos engenheiros. 
*Hélène Richard é jornalista do Le Mon-
de Diplomatique.
1 Benoît Cart, Martine Pernod-Lemattre e Marie-
-Hélène Toutin, “L’Index de l’égalité profession-
nelle: utile mais imparfait” [O índice de igual-
dade profissional: útil, mas imperfeito], Bref, 
n.428, Céreq, Marselha, dez. 2022.
2 Rachel Silvera, Un quart en moins. Des femmes 
se battent pour en finir avec les inégalités de 
salaires [Um quarto a menos. Mulheres lutam 
para acabar com as desigualdades salariais], 
La Découverte, Paris, 2014.
3 Rachel Silvera (org.), “Investir dans le secteur 
du soin et du lien aux autres. Un enjeu d’égalité 
entre les hommes et les femmes” [Investir no 
setor de cuidado e das relações interpessoais. 
Um desafio de igualdade entre homens e mu-
lheres], Institut de Recherches Economiques et 
Sociales (Ires), relatório final, jan. 2023.
28 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024
O MERCADO DE COACHES
Escapar do trabalho assalariado – que exaure, embrutece, entedia – criando a própria 
atividade? A ideia seduz, especialmente entre profissionais com ensino superior, parte 
dos quais se reconverte... na “reconversão profissional”. Um mercado promissor, mas frágil 
POR ANNE JOURDAIN*
A fé dos reconvertidos
“E
ncontre sentido no traba-
lho”, “Confira sentido à sua 
vida profissional”, “Volte-se 
para um emprego que faça 
sentido para você”... Após a pandemia 
de Covid-19, enquanto ocorria uma 
“grande renúncia” e se tornava comum 
a crítica aos bullshit jobs [empregos de 
merda], a oferta para atrair trabalhado-
res em crise de identidade se multipli-
cou. Um número crescente de empresas 
passou a oferecer serviços para acom-
panhar as transições ou reconversões 
profissionais de executivos que perde-
ram a crença no sistema, estão entedia-
dos, exaustos ou desiludidos com a ideia 
de continuar subindo na hierarquia. Pa-
ra ajudá-los a encontrar o “emprego dos 
sonhos”, a gama de serviços inclui, prin-
cipalmente, o coach – de 1.500 a 4.000 
euros por cerca de dez sessões voltadas 
ao autoconhecimento.
Embora a grande maioria dos coaches 
trabalhe por conta própria, em geral 
como autônomos, alguns oferecem ser-
viços de acompanhamento em empre-
sas maiores ou start-ups que atualmente 
tentam estruturar o mercado, como a 
Chance, Garance & Moi e a Primaveras. 
Afinal, a busca por “sentido” é tanto uma 
aspiração quanto um produto e hoje 
está amplamente mercantilizada. A re-
conversão profissional conta com suas 
próprias plataformas digitais – Je-chan-
ge-de-métier.com [Eu-troco-de-traba-
lho.com] – ou podcasts – Trouver sa voie 
[Encontrar seu caminho], J’peux pas j’ai 
business [Não posso, tenho negócios], 
Maintenant j’aime le lundi [Agora eu 
amo a segunda-feira]. Em 2014, o gru-
po AEF Info – presidido por Raymond 
Soubie, ex-conselheiro social de Nicolas 
Sarkozy no Palácio do Eliseu – criou o 
salão Nouvelle Vie Professionnelle [Nova 
vida profissional], o primeiro evento ex-
clusivamente dedicado à reconversão.
E os coaches? De onde vêm? Quem são? 
Ex-executivos – eles próprios reconverti-
dos após dificuldades profissionais – são 
a maior parte do grupo. Pautado por va-
lores de altruísmo e empatia, o coaching 
é, porvezes, associado ao care (“cuidado”, 
“atenção”). Essa concepção explica que, 
entre os especialistas em transição pro-
fissional, 82% sejam mulheres.1 Elas afir-
mam apreciar a flexibilidade vinculada 
ao status de trabalhadoras independen-
tes, destacando o fim da subordinação 
salarial. Em suas publicidades, sobre-
tudo na internet, os coaches frequente-
mente usam sua própria trajetória como 
exemplo. O sucesso de sua reconversão 
lhes daria legitimidade para orientar ou-
tros aspirantes. Muitas vezes, a projeção 
mimética funciona: diversas pessoas 
acompanhadas por eles acabam desco-
brindo uma vocação para o coaching.
Os atores do mercado de reconversão 
concordam em apresentar os serviços 
de um coach como indispensáveis para 
o sucesso de uma mudança de carreira. 
Em abril de 2023, no site do “salão da re-
conversão profissional no feminino”, o 
Profession’L, lia-se: “Uma evolução pro-
fissional é uma decisão que não se toma 
sozinha. [...] Durante sua reflexão, você 
poderá sentir medos legítimos, criar 
seus próprios bloqueios. Um acompa-
nhamento adequado pode ajudá-la a 
superá-los e a seguir em frente”. Um pré-
-requisito indispensável para o inves-
timento em uma formação, o coaching 
pode até mesmo dispensar essa etapa. 
As empresas de coaching em transição 
profissional se posicionam como inter-
mediárias de empresas de formação ou 
procuram substituí-las.2
Após a entrada em vigor da lei de 5 de 
setembro de 2018 sobre a liberdade de 
escolha do futuro profissional, para ob-
ter financiamento de seus serviços pela 
conta pessoal de formação (CPF) muitos 
coaches e todas as start-ups de reconver-
são profissional qualificaram seus acom-
panhamentos como balanços de com-
petências ou formações certificadas... 
mesmo que seus catálogos publicitários 
distingam explicitamente suas ofertas da 
formação convencional ou dos balanços 
de competências mais técnicos e me-
nos humanos. Trata-se de aproveitar os 
recursos da CPF, que somam mais de 2 
bilhões de euros por ano em gastos pú-
blicos, segundo o Tribunal de Contas.3
OS COACHES SÃO, AFINAL, 
INDEPENDENTES MUITO DEPENDENTES
Outro dispositivo público contribui in-
diretamente para o desenvolvimento 
do mesmo mercado. Em sua antiga vida 
como assalariados, os coaches muitas 
vezes acumularam direitos relativos ao 
desemprego, que ativam ao se estabe-
lecerem como autônomos, para enfren-
tar os inícios incertos de sua atividade 
econômica. Se essa fonte de recursos 
desempenha papel determinante na 
decisão de se lançar no mercado e con-
tribui para o crescimento da oferta, ela 
também garante a demanda. Um coach 
se alegrava disso durante a edição de 
2021 do salão Nouvelle Vie Profession-
nelle: “Hoje, com o Pôle Emploi [centro 
francês de apoio ao trabalhador], esta-
mos em uma sociedade que acompanha 
fortemente as transições profissionais”.
Instituições públicas como o France 
Travail – que sucedeu ao Pôle Emploi 
– ou entidades paritárias como os cen-
tros Transitions Pro – que subvencio-
nam projetos de mudança de carreira 
– contribuem também para valorizar a 
grande aventura da reconversão profis-
sional. “Dois dias para mudar de profis-
são!”, estava escrito no cartaz do salão 
Générations Reconversion, organizado 
em 2024 pelo Transitions Pro Île-de-
-France. Todo ano, em novembro, o Mi-
nistério do Trabalho organiza o Dia Na-
cional da Reconversão, na mesma data 
do salão Nouvelle Vie Professionnelle, 
do qual participa e o qual promove em 
seu site. Claro, essas instituições tentam 
primeiramente valorizar a utilização de 
seus próprios dispositivos, mas seus 
discursos e compromissos facilitam o 
desenvolvimento da oferta privada de 
acompanhamento das transições.
Até agora, no entanto, o coaching em 
reconversão profissional não é um filão 
lucrativo. Em 2022, 38% das empresas 
do setor tiveram faturamento inferior a 
20 mil euros. “Eu tinha 1.300 euros de 
desemprego e morava com meus pais, o 
que me dava o luxo de não pagar aluguel 
nem nada. Então, comecei o coaching”, 
conta Marion.4 “Foi ótimo, tive seis ou 
sete clientes. Mas estava cobrando 65 
euros a sessão, o que dava 4.000 euros 
de faturamento. Tirando 25% de encar-
gos de autônomo, em um ano esse foi o 
lucro. Enfim, é ótimo para começar um 
negócio e se apropriar dele, mas não é 
de forma alguma viável sem o seguro-
-desemprego por perto...”
Os coaches são, afinal, independen-
tes muito dependentes: suas empresas 
geralmente se mantêm apenas porque 
se sustentam com recursos econômicos 
provenientes do mercado assalariado 
(seguro-desemprego, rendimentos de 
cônjuge ou pais assalariados...). A mino-
ria que se sai bem, ou até consegue ter 
sucesso, multiplica os chapéus: consulto-
res, formadores, coaches empresariais... 
Anexado a outros mercados conectados 
por necessidade, o mercado de coaching 
em reconversão profissional não é au-
tossuficiente, daí a alta rotatividade de 
pessoal. Cansada do trabalho promocio-
nal nas redes sociais e, de maneira geral, 
da busca incessante por clientes, Marion 
decidiu voltar a ser assalariada. Seu di-
ploma inicial em recursos humanos lhe 
permitiu conquistar um posto de con-
selheira em evolução profissional. Surge 
então a questão do apoio público ao se-
tor: longe de garantir trajetórias profis-
sionais, como os discursos que o acom-
panham alegam, esse gasto contribui 
para a expansão dos novos mercados da 
independência e participa do desenvol-
vimento da precariedade do trabalho. 
*Anne Jourdain é professora titular de So-
ciologia da Universidade Paris-Dauphine.
1 Cf. pesquisa por questionário realizada em 
2023 e 2024 com oitocentos coaches que 
realizam acompanhamentos de transições 
profissionais.
2 Cf. “Comment les coachs individualisent les 
maux du travail” [Como os coaches individua-
lizam os males do trabalho], La Nouvelle Revue 
du Travail, n.25, Paris, 2024.
3 Cf. “La formation professionnelle des salariés” 
[A formação profissional dos assalariados], 
Cour des Comptes, 30 jun. 2023.
4 O nome foi alterado.
© Creative Commons/Unsplash
Após a pandemia, mercado de coaching está em alta de popularidade na França
29DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil
COMO LIVRAR UMA MONOCULTURA DAS MÃOS DO SETOR PRIVADO?
Ameaças ao arroz vietnamita
Sal, elevação do nível do mar, poluição... No Vietnã, o Delta do Rio dos Nove Dragões, por onde o Mekong deságua no 
Mar da China Meridional, pode desaparecer até 2100. Com ele, um pilar inteiro da economia do país socialista está 
ameaçado: a rizicultura, da qual também dependem muitos países africanos para abastecimento de cereais a baixo custo 
POR MAÏLYS KHIDER*, ENVIADA ESPECIAL
A 
temporada de chuvas está ape-
nas começando agora no Vietnã, 
em junho de 2024. No entanto, as 
precipitações são raras. Nos 
campos de Phương Thạnh (província 
de Trà Vinh), em pleno Delta do Rio 
Mekong, no sul do país, as árvores de 
pitaia, que lembram cactos, mantêm-
-se quietas, alinhadas em fileiras. Os 
coqueiros esguios olham de cima. Na-
da perturba o silêncio bucólico, exceto 
o balido das cabras em seus cercados 
de metal e alguns cães que latem para 
mostrar que estão de guarda. Entre as 
plantações, parcelas de relva apertada 
flutuam em alguns centímetros de 
água. Estamos nos arrozais do delta.
Com um recipiente laranja fluores-
cente cheio de fertilizante preso às 
costas, Bao1 espalha a mistura com 
um longo bastão preto. Para chegar ao 
campo, é preciso atravessar um fosso 
cheio de água por meio de uma estreita 
passarela: um tronco de árvore de ape-
nas 20 centímetros de largura, chama-
do localmente de “ponte dos macacos”. 
Descalço, com uma foice na mão e um 
chapéu cônico na cabeça, Bao trabalha 
desde as 6 horas da manhã no meio 
hectare que usufrui. Quando pergunta-
mos sobre sua colheita, ele se inclina e 
acaricia algumas folhas entre o polegar 
e o indicador: “Veja, estão amarelas. Às 
vezes, as espigas estão vazias. Ultima-
mente, chove menos e faz muito calor”. 
Tudo que o arroz detesta.
Para cultivar 1 hectare,são necessá-
rios 30 mil metros cúbicos de água doce. 
Contudo, o nível do mar está subindo 
gradualmente. Aqui, a água do solo tor-
na-se mais salgada, pois a falta de chu-
vas limita a diluição dos cristais de sal. 
O resultado é que a produção tende a 
cair. Como frequentemente acontece, a 
alternativa encontrada passa pela eleva-
ção do uso de fertilizantes químicos. “A 
natureza mudou muito por aqui”, con-
ta Bao. “Quando eu era pequeno, havia 
caranguejos e peixes na água dos arro-
zais. Hoje, com todos os produtos que 
usamos, eles não aparecem mais.” Atrás 
dele, o motor de um barco desmontado 
emite um barulho ensurdecedor. Sua 
hélice, colocada na borda da vala, gira 
a toda velocidade para levar a água do 
canal ao arrozal, inundando o ouro azul 
salobro em sua versão doce.
O delta está exaurido. O “celeiro de ar-
roz” vietnamita, um território de 40 mil 
quilômetros quadrados onde vivem 20 
milhões de habitantes (de uma popula-
ção total de mais de 99 milhões), fornece 
anualmente 24 milhões de toneladas do 
precioso cereal, ou seja, 54% da produ-
ção nacional. No Vietnã, 82% das terras 
aráveis são ocupadas por arrozais. A ex-
ploração excessiva impacta severamen-
te o delta. Seu nome vietnamita, Delta 
dos Nove Dragões – em referência aos 
nove braços que, segundo Marguerite 
Duras,2 “são porções de água que desa-
parecem nas cavidades dos oceanos” 
–, sugere um colosso inabalável. Entre-
tanto, quando se atravessa o Mekong 
de barco, sua fragilidade fica evidente. 
O gigante de proporções extraordiná-
rias tem margens de altitude tão baixas 
(cerca de 1 metro acima do nível do mar) 
que as folhas das árvores frutíferas ficam 
submersas na água. Em breve, elas po-
dem afundar completamente: enquanto 
a agricultura consome os lençóis freáti-
cos, o delta está afundando cerca de 4 
centímetros por ano. Esse fenômeno o 
torna ainda mais vulnerável ao avanço 
do mar. Nesse ritmo, metade do delta 
pode estar submersa até 2050 e comple-
tamente em 2100.3 Para Alexis Drogoul, 
diretor de pesquisa do Instituto de Pes-
quisa para o Desenvolvimento (IRD), “a 
maior ameaça é a agricultura intensiva. 
A produção destruiu os ecossistemas. 
Não podemos mais esperar”. Contudo, 
como romper com as atividades que 
sustentam as populações do delta sem 
provocar grandes impactos humanos?
O governo vietnamita procura reagir. 
Na conferência de Dien Hong, em 2017, 
foram estabelecidas cinco diretrizes 
principais na Resolução n. 120 sobre o 
“desenvolvimento sustentável e a resi-
liência climática no Delta do Mekong”. 
Além das promessas esperadas de “res-
peitar a natureza e evitar agredi-la”, o 
especialista independente em ecologia 
do delta Nguyên Huu Thiên destaca o 
compromisso de “desenvolver culturas 
adaptadas à água salgada” e, sobretudo, 
o projeto de “focar uma agricultura de 
qualidade em vez de quantidade”.
HERANÇA COLONIAL
Todavia, sair do produtivismo não é 
simples. O país está preso nesse mode-
lo desde a época colonial. “A agricultu-
ra no Vietnã é uma herança da França”, 
explica Trần Thái Nghiêm, diretor-ge-
ral adjunto do Departamento de Agri-
cultura e Desenvolvimento Rural de 
Cần Thơ, a maior cidade do Delta do 
Mekong e importante polo comercial 
do arroz. Em um mapa pendurado na 
parede de seu escritório, ele acompa-
nha o traçado do Rio Cần Thơ e do Ca-
nal Kênh Xáng Xà No, que o prolonga. 
Esse canal foi construído pelos colonos 
franceses, e os vietnamitas o chamam 
de “estrada do arroz”.
Ao chegar em 1858, a França logo re-
conheceu o potencial agrícola da Co-
chinchina (atual sul do Vietnã). Os co-
lonizadores estudaram o comércio de 
arroz, na época dominado por comer-
ciantes chineses, e o assumiram. A Fran-
ça escavou, construiu diques, investiu 
em irrigação e drenou as áreas alagadas. 
Criou 2 milhões de hectares de arrozais 
e transformou a estrutura do setor: fun-
dou serviços de estudos a partir de 1927, 
câmaras de agricultura, organismos de 
crédito e o Escritório Indochinês do Ar-
roz em 1930.4 Fundou escolas para ensi-
nar aos vietnamitas as práticas agrícolas 
francesas. Surgiram propriedades de 
milhares de hectares, metade das quais 
concentradas em 3% dos proprietários. 
Entre 1868 e 1943, a área de arrozais 
aumentou de 250 mil para 2,3 milhões 
de hectares. E os franceses impuseram 
duas colheitas por ano, em vez de uma, 
que seguia o ciclo natural do solo.
O país saiu devastado das guerras da 
Indochina (1946-1954) e do Vietnã (1955-
1975). “Na reunificação, em 1976, todos 
estavam famintos”, relata Nguyên Huu 
Thiên. “Estávamos sob sanções dos Es-
tados Unidos, então precisávamos pro-
duzir alimentos. O Delta do Mekong era 
a área mais fértil do país.” O governo 
construiu estradas para integrar as zonas 
rurais, mecanizou as terras e drenou a 
água. Foi a implementação da política do 
© Rainer Haeßner/Wikimedia
Crise ambiental e econômica de Mekong, Vietnã, prejudica a produção de arroz
30 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024
“Arroz primeiro”. “Limpamos o terreno e 
expandimos os arrozais o máximo possí-
vel. O delta salvou todo o país da fome.”
Após uma experiência de coletivização 
– criação de cooperativas, planejamento 
e altos impostos, desde 1958 no norte e 
1976 no sul do Vietnã –, o Partido Comu-
nista tomou a decisão de “renovar os ob-
jetivos, as políticas e os métodos de ação 
relacionados à agricultura e ao campesi-
nato”.5 Em 1986, ele lançou o Đổi mới, ou 
“Renovação”. Essa onda de liberalização 
atingiu tanto as empresas estatais como 
os investimentos estrangeiros e a agri-
cultura. As áreas cultivadas foram mais 
uma vez ampliadas, e a industrialização, 
promovida: o Estado concedeu, entre ou-
tras medidas, incentivos financeiros pa-
ra a compra de fertilizantes e pesticidas. 
Desse modo, o uso desses produtos dis-
parou. Quantidades incalculáveis de 
água foram direcionadas para a rizicul-
tura e a produção de arroz passou de 16 
milhões de toneladas em 1986 para 40 
milhões no início do século XXI, com três 
colheitas anuais. Considerando apenas o 
Delta do Mekong, a quantidade de ce-
reais produzida hoje é cinco vezes maior 
do que no início do Đổi mới.
Ainda em 1989, o Vietnã começou a 
exportar arroz. Hoje, é o terceiro maior 
exportador mundial (atrás da Índia e da 
Tailândia), com vendas equivalentes a 8 
milhões de toneladas e uma receita de 
US$ 4,5 bilhões em 2023 (dentro de um 
total de exportações, majoritariamen-
te manufatureiras, de cerca de US$ 350 
bilhões em 2023). E 90% dessas exporta-
ções vêm do Delta do Mekong.
Em um barco de madeira, Thanh, 
criador de caranguejos da região, rema 
partindo de Cù Lao Dung, uma ilha lo-
calizada entre dois afluentes do rio. Um 
cheiro úmido de peixe invade as narinas. 
Em ambos os lados da margem, maca-
cos e nuvens de mosquitos. E, por toda 
parte, o mangue. “O que você vê são ár-
vores que naturalmente retardam desli-
zamentos de terra. Elas ajudam a evitar 
danos durante as repentinas subidas das 
águas do mar”, explica Thanh. Após cer-
ca de 20 minutos de esforço, ele solta o 
remo com um suspiro de alívio. O hori-
zonte se abre de repente: à esquerda, a 
extremidade do Mekong; à direita, o Mar 
do Sul da China. No meio, as águas se 
misturam. “Aqui, você entende melhor 
por que somos tão vulneráveis à água do 
mar. Veja como a terra é baixa. É daqui 
que o sal sobe. Em princípio, temos seis 
meses de água doce durante a estação 
chuvosa e seis meses de água salgada 
durante a estação seca. Não é mais as-
sim. E esta área, que antes era dedicada 
ao arroz, tornou-se incultivável.”
Nos arredores dos manguezais, so-
bre uma ilha, a terra rachada em al-
guns pontos parece mais seca do que 
nas localidades mais distantes do mar. 
Riachos poluídos e repletos de resíduos 
provenientes da atividade humana (sa-
cos plásticos, despejos industriais etc.) 
cortam os campos. Ao redor, por toda 
parte, há intrigantes tanques retangu-
lares cobertos por lonas. Turbinas gi-
ram a toda velocidade para oxigenar a 
água. “Como tivemos de parar de plan-
tar arroz, agoracriamos camarões em 
sistema industrial. Eles vivem na água 
salgada. Outros cultivam frutas. Esta-
mos tentando nos adaptar”, conta Hoa, 
ex-rizicultora que mudou de atividade. 
A 20 minutos de balsa, na outra mar-
gem do Mekong, em Trần Đề – um dos 
grandes centros de produção de arroz 
do delta –, embora jovens brotos de ar-
roz ainda se espalhem a perder de vis-
ta, os tanques de camarão se multipli-
cam. “Cultivo este campo há quarenta 
anos. Mas sei que, em breve, talvez ele 
não possa mais produzir arroz”, admi-
te Giang Long, rizicultor de Trần Đề 
com cerca de 60 anos. Na terra de seu 
vizinho, a 10 metros, um reservatório 
está em construção.
MAIS QUALIDADE, 
MENOS EXPORTAÇÃO
A perda das terras agrícolas já começou. 
Dos 4 milhões de hectares de arrozais no 
delta em 2015, 300 mil hectares haviam 
desaparecido em 2023.6 A produção está 
irremediavelmente em declínio. O go-
verno vietnamita tenta transformar essa 
dificuldade em uma escolha. Em 26 de 
maio de 2023, foi publicada a Decisão 
n. 583, assinada pelo vice-primeiro-mi-
nistro Lê Minh Khái, que prevê “reduzir 
o volume de exportações [de arroz] para 
4 milhões de toneladas, com uma recei-
ta de US$ 2,62 bilhões, até 2030”.7
“Não desejamos essa redução”, expli-
ca Trần Thái Nghiêm, do Departamen-
to de Agricultura e Desenvolvimento 
Rural de Cần Thơ. “Porém, precisamos 
levar em conta a realidade. Não pode-
mos aumentar os rendimentos: as mu-
danças climáticas e a falta de água não 
permitem. Dada a importância do ar-
roz para nossa segurança alimentar, 
vamos priorizar o mercado interno.” 
Cada vietnamita consome cerca de 90 
quilos de arroz por ano.
Trata-se, como anunciado na confe-
rência de Dien Hong de 2017, de trocar 
quantidade por qualidade. Para isso, o 
governo vietnamita aposta em certa 
forma de adaptação. Na zona rural de 
Cần Thơ, um drone pulveriza 50 litros 
de fertilizante nas terras do Instituto de 
Pesquisa sobre o Arroz do Delta do Me-
kong. Criado em 1977, logo após a guer-
ra, o instituto conta com 150 pesquisa-
dores e 100 agricultores que buscam 
desenvolver novas variedades de arroz. 
Em seus 360 hectares de arrozais dedi-
cados à pesquisa, há placas com men-
sagens como: “Teste de campo de uma 
rizicultura de baixa emissão de carbo-
no utilizando diferentes opções de ma-
nejo da palha de arroz, da água e dos 
fertilizantes” ou “Teste de campo para 
a produção de arroz de alta produtivi-
dade e baixo teor de carbono – safras de 
quatro colheitas, 2024-2027”.
Os produtos de destaque do instituto 
são os arrozes OM2517 e ST25, os mais 
resistentes à intrusão salina. O Vietnã 
deposita grandes esperanças nessas va-
riedades, que poderiam ser produzidas 
em menor quantidade, mas vendidas por 
um preço mais elevado: arrozes de ciclo 
longo, que não podem ser cultivados tão 
rapidamente quanto os de baixa qualida-
de (em 85 a 100 dias), em conformidade 
com a Decisão n. 583, que prevê reduzir 
as quantidades exportadas e “aumentar 
o valor do arroz exportado”. Durante o 
período 2023-2025, o documento esta-
belece que a proporção de arroz branco 
de qualidade inferior e média não deve 
ultrapassar 15%, enquanto o arroz bran-
co de alta qualidade deve corresponder a 
cerca de 20%; o arroz aromático, o japo-
Na primavera de 2016, o Vietnã atra-
vessou uma seca que levou à perda 
de 160 mil hectares de cultivos, incluin-
do dezenas de milhares de hectares de 
arrozais. O Estado pediu urgentemente 
à China que abrisse o reservatório da 
central hidrelétrica de Jinghong, em 
Yunnan, para liberar água. A China acei-
tou e irrigou os cultivos durante três se-
manas, demonstrando, no processo, que 
domina o Vietnã em relação à gestão 
das águas do Mekong. O Vietnã é o últi-
mo país por onde passa o rio, que flui a 
partir do planalto tibetano do Himalaia, a 
5 mil metros de altitude. Dos 500 bi-
lhões de metros cúbicos de água que 
despejam anualmente, 480 bilhões vêm 
do alto Mekong, passando pela China, 
Mianmar, Tailândia, Laos e Camboja. 
Apenas 20 bilhões de metros cúbicos 
provêm das chuvas.
Desde os anos 1990, os países situa-
dos a montante do Vietnã se beneficiam 
dessa geografia. Constroem barragens 
hidrelétricas que retêm a água para pro-
duzir eletricidade barata. A China ergueu 
uma dezena de barragens (Wunonglong, 
Lidi, Miaowei, Manwan, entre outras). O 
Laos colocou em operação a barragem 
Don Sahong em 2020 (a menos de 2 
quilômetros de sua fronteira com o Cam-
boja) e vende, graças à barragem Xaya-
buri (que custou US$ 3,8 bilhões), 95% 
da energia produzida para a Tailândia. A 
barragem Lower Sesan 2, inaugurada em 
2018, é o maior projeto hidrelétrico do 
Camboja. No total, centenas de barra-
gens foram construídas nos afluentes do 
rio, a maioria por investidores privados. O 
Camboja inaugurou, em agosto de 2024, 
o Canal de Funan Techo, com três barra-
gens, financiado pela China. A obra des-
via de 100 bilhões a 120 bilhões de me-
tros cúbicos de água.
Para o Vietnã, que está a jusante do 
rio, essas construções têm um efeito 
catastrófico, agravando os problemas 
enfrentados pelos rizicultores. “Durante 
a estação seca, as intrusões salinas 
pioram. As barragens bloqueiam a água 
doce, que deveria empurrar a água sal-
gada”, resume Nguyên Huu Thiên, es-
pecialista independente em ecologia do 
delta. Além disso, as barragens “pertur-
bam os ecossistemas. O rio transporta 
areia e sedimentos que não conseguem 
mais chegar ao delta, pois são bloquea-
dos pelas barragens, apesar de serem 
esses materiais que moldaram o delta. 
Também são fertilizantes naturais”. Sem 
esses materiais, o delta afunda e sofre 
erosão. “Tudo o que acontece a mon-
tante do rio nos afeta aqui no Vietnã”, 
acrescenta o pesquisador. “Dentro de 
dois anos, as reservas de sedimentos 
no solo estarão esgotadas. Isso signifi-
caria o fim da agricultura no delta.” Para 
piorar, o Vietnã explorou areia por muito 
tempo, principalmente para exportá-la e 
transformá-la em concreto (areia que 
contribuiu enormemente para a urbani-
zação de Cingapura).
As barragens também impedem os 
peixes de migrar. “Temos peixes ne-
gros e peixes brancos. Estes últimos 
precisam subir o rio sazonalmente, se-
guindo os sinais dos rios. Com as bar-
ragens, eles não conseguem mais en-
contrar hábitats”, explica Nguyên Huu 
Thiên. Sem esses peixes, o ecossiste-
ma do delta está em perigo. Cobras, 
aves, tartarugas: todos dependem e 
vivem desses peixes. Os humanos 
também, que “dependem da pesca de 
peixes brancos para suas necessida-
des de proteínas e cálcio”.
A Comissão do Rio Mekong (MRC) 
reúne Vietnã, Camboja, Laos e Tailândia 
para dialogar e, teoricamente, estabele-
cer uma gestão comum dos recursos do 
rio. Em 1995, esses países assinaram 
um acordo de cooperação para o desen-
volvimento sustentável da bacia. A partir 
de 1996, China e Mianmar integraram a 
comissão como observadores. O diretor-
-geral adjunto do departamento de agri-
cultura e desenvolvimento rural de Cần 
Thơ, Trần Thái Nghiêm, relativiza, no en-
tanto, a utilidade dessa instância. “Cada 
país tem sua própria estratégia de de-
senvolvimento econômico. A meu ver, 
um país do baixo Mekong, como o Viet-
nã, não tem muito peso nas decisões 
dos outros Estados. Em relação às bar-
ragens e ao canal de Funan Techo, ex-
pressamos nossa opinião. Mas os proje-
tos foram concluídos sem levá-la em 
consideração.” (M.K.) 
INTERESSES PRIVADOS INSACIÁVEIS
31DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil
nês e os arrozes especiais (basmati, jas-
mim, negro etc.), juntos, a cerca de 40%; 
e o arroz glutinoso, a cerca de 20%.
DEPOIS DO SAL, O CONCRETO
No entanto, vários obstáculos se apre-
sentam. Em primeiro lugar, o poder pú-
blico não controla mais sozinho as ex-
portações, e os atores privados pouco se 
preocupam com suas preferências. Des-
de 2007, o Vietnã faz parte da Organiza-
ção Mundial do Comércio (OMC), que 
proíbe o Estado de impor cotas de expor-
tação. Hanói, portanto, fixa objetivos na-
cionais e limita-se a pedir às empresas 
que os cumpram. Por ora, issoco, o que faz seja reforçando seu compro-
misso com pautas caras à extrema direita 
(como a brutalidade policial), seja com 
demonstrações públicas de vassalagem.
Contudo, falo também de expoentes 
do velho Centrão fisiológico, de Arthur 
Lira a Gilberto Kassab – que estão den-
tro do governo federal, mas mantêm um 
pé na canoa da extrema direita. Nas elei-
ções municipais, entre os partidos que 
têm assento no ministério de Lula foi 
frequente o apoio a candidatos bolsona-
ristas ou a verbalização do discurso bol-
sonarista por seus próprios candidatos.
E, em relação aos inquéritos que 
atingem Bolsonaro e seu círculo, osci-
la-se entre negar os fatos ou ficar em 
silêncio. Se Tarcísio, que se movimenta 
para garantir a bênção do líder na su-
cessão de Lula, deu um passo a mais ao 
condenar com veemência o indicia-
mento do ex-presidente e 36 cúmpli-
ces, muitos outros simplesmente evi-
tam se pronunciar. Assim, deixam 
aberta a porta para uma composição 
no futuro próximo – e, no mesmo pas-
so, boicotam o esforço de responsabi-
lização dos golpistas, que é absoluta-
mente necessário para uma retomada 
democrática no Brasil.
Isso significa que o esforço de punir e 
erradicar o golpismo enfrenta a resistên-
cia não apenas da extrema direita, nem 
mesmo da oposição, mas também de 
setores que pretensamente compõem 
a base de Lula. Em suma, no governo a 
frente tão ampla se mostra, aqui como 
em outras questões, muito mais um pro-
blema do que uma solução.
Um desdobramento desse cenário é 
a incapacidade de dar qualquer passo 
significativo na recomposição de um 
ambiente de debate público menos po-
luído. A base da direita radicalizada é 
alimentada por uma combinação explo-
siva de ressentimentos e desinformação, 
que se reforçam entre si. No Brasil, como 
no resto do mundo, a nova economia da 
desinformação aberta pelas plataformas 
sociodigitais é componente importante 
do sucesso da extrema direita.
A velha mídia corporativa era criti-
cada, com razão, por seus muitos vie-
ses. Mas estabelecia um terreno que 
era disputado por meio da apresen-
tação de dados e evidências que sus-
tentavam agendas e enquadramentos 
diversos. No novo cenário, por vezes 
definido pela expressão “pós-verdade”, 
fica erodida qualquer referência a um 
mundo objetivo comum. Nas câmeras 
de eco das mídias sociais, as fantasias 
alimentadas pelos extremistas são vir-
tualmente indestrutíveis.
O governo tentou levar adiante essa 
batalha, em circunstâncias que pare-
ciam propícias – pelos ataques à de-
mocracia e pelo evidenciamento da re-
lação entre a ausência de regulação dos 
espaços virtuais e a onda de violência 
contra crianças e jovens. No entanto, 
uma ofensiva de informações falsas le-
Mesmo com o desvelamento inequívoco da conspiração antidemocrática, que em tese deveria dar margem para colocar 
a extrema direita em apuros, quem permanece na defensiva é o governo. As dificuldades de enfrentamento do golpismo 
e da questão militar não são estranhas ao outro eixo em que o governo patina para tomar rumo: as políticas sociais 
POR LUIS FELIPE MIGUEL*
5DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil
aumento do dólar ou queda nas Bolsas de 
Valores. O começo do mandato foi marca-
do ainda pelo embate com o Banco Cen-
tral, que, nas mãos de um bolsonarista 
convicto e militante, mantém as taxas de 
juros em um patamar muito elevado, pre-
judicando qualquer política de ampliação 
do investimento produtivo e do consumo 
interno. Embora essa questão seja fun-
damental, sobretudo se o projeto de Lula 
é uma reedição da fórmula de seus pri-
meiros mandatos, o enfrentamento tem 
algo de encenação, já que, quando pôde 
nomear o sucessor de Campos Neto, a op-
ção do governo foi por alguém que, na di-
retoria do BC, se alinha à política que vem 
sendo praticada até agora.
Da parte do Ministério da Fazenda, o 
que se vê é o mesmo de sempre: cortes 
de gastos, arrocho no funcionalismo 
público, indicação de trabalhadores e 
pensionistas como vilões das contas 
públicas. Mesmo a política de reajuste 
real do salário mínimo, que, ao lado do 
Bolsa Família, foi a grande vitrine dos 
governos petistas, é ameaçada diante da 
pressão do rentismo.
É bem verdade que, mesmo assim, o 
governo tem obtido avanços, em par-
ticular a redução do desemprego e um 
sutil aumento do poder de compra dos 
salários. Ao contrário do esperado, po-
rém, isso não se refletiu em melhoria 
dos índices de popularidade do novo 
presidente ou na desidratação da base 
da extrema direita. Algo semelhante, 
aliás, foi detectado nos Estados Unidos, 
com a presidência de Joe Biden, enfim 
derrotado na tentativa de fazer uma su-
cessora. Um paradoxo se manifesta: a 
decadência dos resultados materiais ob-
tidos pelos regimes democráticos está 
entre as causas da crise da democracia, 
mas a melhoria desses resultados parece 
impotente para estabelecer uma reação.
Ao não ser capaz de mobilizar a classe 
trabalhadora e os pobres em geral, prefe-
rindo sacrificá-los no altar da conciliação 
com o rentismo, o governo Lula enfra-
quece a si mesmo. E enfraquece o pro-
jeto de reconstrução democrática; afi-
nal, a força de uma democracia sempre 
reside, em última análise, na capacidade 
de resistência dos dominados, aqueles 
que mais interesse têm em sua existên-
cia. Paralisado por alianças que cerceiam 
muito seu horizonte de ação, mas pouco 
devolvem em termos de apoio, e pela 
insistência em reeditar a política de não 
enfrentamento a todo custo, ainda que as 
circunstâncias tenham mudado radical-
mente, o governo segue incapaz de cum-
prir o que prometeu. 
*Luis Felipe Miguel é professor titular 
livre do Instituto de Ciência Política da 
Universidade de Brasí lia, onde coordena 
o Grupo de Pesquisa sobre Democracia 
e Desigualdades (Demodê), e autor, en-
tre outros livros, de Democracia na peri-
feria capitalista: impasses do Brasil (Au-
têntica, 2022).
A elite política parece ter interiorizado 
a ideia de que é impossível enfrentar o 
golpismo militar. A experiência anterior 
do PT no governo pôs em prática o plano 
de combater o “desemprego estrutural” – 
a ideia de que a intervenção na política 
nacional seria uma tentação muito gran-
de para militares que têm pouco o que fa-
zer em relação às suas tarefas específicas 
de proteção da integridade do território 
nacional. Assim, foi feito um esforço que 
levou seja à participação em missões de 
paz das Nações Unidas, como no Haiti, 
seja ao auxílio em missões de segurança 
pública sobre determinação da autorida-
de civil, como no Rio de Janeiro. O resul-
tado, já se sabe, foi o oposto do esperado. 
De Augusto Heleno a Braga Netto, os che-
fes dessas missões tornaram-se depois 
líderes do retrocesso democrático no 
Brasil. Ao que parece, em vez de estabe-
lecerem um novo profissionalismo, elas 
reforçaram a tendência salvacionista tão 
presente no espírito militar brasileiro.
Falas como a de Siqueira, que são 
bastante comuns, revelam exatamente 
essa impotência. É como se, na ausên-
cia de qualquer capacidade de impor à 
cúpula militar a obediência às regras 
democráticas, a elite civil procurasse 
iludir a si mesma julgando que uma 
pedagogia de “reforço positivo” faria 
os generais se aquietarem. 
O resultado é bloquear iniciativas 
para reorganizar as Forças Armadas, 
passando pela formação e pela pro-
moção dos oficiais, de maneira a tor-
ná-las compatíveis com o princípio do 
primado do poder civil. O ministro da 
Defesa indicado por Lula (e mantido 
no cargo apesar de tudo), José Múcio, 
age como lobista dos interesses cor-
porativos das Forças Armadas e advo-
gado de militares golpistas dentro do 
primeiro escalão do governo.
O indiciamento de dezenas de oficiais, 
incluindo figurões como Braga Netto, 
Heleno e o almirante Almir Garnier, no 
inquérito da conspiração golpista pode 
representar uma esperança de mudança 
nesse cenário, mas é preciso ver ainda se 
o governo vai agir no sentido de aprovei-
tar a oportunidade para apertar a pres-
são sobre o golpismo castrense ou se, 
uma vezraramente 
acontece. Além disso, os importadores de 
arroz vietnamita podem enfrentar escas-
sez. Os países asiáticos, que compram 
“mais de 6 milhões de toneladas, repre-
sentam 75% do total das exportações; em 
seguida vem a África, com cerca de 1,34 
milhão de toneladas, ou 16,5%”, detalha 
Trần Quốc Toản, vice-diretor do Depar-
tamento de Importação e Exportação do 
Ministério da Indústria e Comércio. Na 
Costa do Marfim, explica Nguyễn Văn 
Nhựt, da empresa Hoàng Minh Nhật, 
83% das importações provenientes do 
Sudeste Asiático vêm do Vietnã. Em Ga-
na, essa proporção chega a 90%. Se o 
Vietnã reduzisse suas exportações, os 
preços do cereal poderiam disparar.
Por enquanto, o comércio mantém-
-se sólido, comemora Trần Quốc Toản: 
em 2023, as vendas ao exterior registra-
ram “aumento de 14,4% em volume em 
relação ao mesmo período de 2022 e de 
33,1% em relação a 2018”. Porém, as di-
ficuldades para trabalhar nos campos e 
a perspectiva do desaparecimento do 
delta levam muitos agricultores a mi-
grar para as cidades, como Cần Thơ 
(que passou de 200 mil-300 mil habi-
tantes nos anos 1990 para 1,2 milhão 
hoje), a província industrial de Bình 
Dương ou a cidade de Ho Chi Minh. As 
consequências desse êxodo rural já são 
perceptíveis na vida e na agricultura 
vietnamitas: “Agora, agricultores pe-
dem permissão para transformar os so-
los para, por exemplo, urbanizar ou in-
dustrializar. E muitas localidades 
aprovam, incluindo Cần Thơ”, reco-
nhece Trần Thái Nghiêm. A agricultura 
representa 12% de um PIB que as auto-
ridades ainda esperam ver crescer 7% 
em 2024.8 Assim, será que o Vietnã con-
seguirá reverter essa tendência? Conti-
nuará a exigir tanto da natureza ou a 
cobri-la de concreto?
Filha de agricultores do delta, Linh 
estuda arquitetura em Ho Chi Minh. 
Sentada em um banco do caótico Bou-
levard Nguyễn Huệ, ela conta: “Depois 
de uma colheita muito ruim, meus pais 
me disseram para partir. Quanto mais 
eu entendia os riscos que ameaçam o 
delta, mais eu pensava que não tinha 
mais nada a fazer no campo. É triste 
pensar que destruímos nossa natureza 
chamando isso de ‘segurança alimen-
tar’...”. Acima de sua cabeça, enormes 
telas publicitárias brilhantes convidam 
ao consumo de sorvetes, refrigerantes e 
cremes. Ao pé dos arranha-céus, pe-
destres acariciam uma cobra amarela e 
branca. Grupos de amigos jogam bas-
quete em uma quadra patrocinada por 
uma marca de cerveja. No pátio, um 
homem fantasiado de Mickey Mouse 
cobra alguns dongs para tirar fotos 
com crianças. Um espetáculo que dei-
xa Linh perplexa: “Vocês imaginam o 
país inteiro assim?” .
*Maïlys Khider é jornalista.
1 Os nomes foram alterados a pedido das pes-
soas entrevistadas.
2 Marguerite Duras, L’Amant [O Amante], Éditions 
de Minuit, Paris, 1984.
3 Johann Grémont, “Environnement et sécurité 
alimentaire: le cas de la riziculture vietnamien-
ne” [Meio ambiente e segurança alimentar: o 
caso da rizicultura vietnamita], Analyse, n.193, 
Ministério da Agricultura e da Soberania Ali-
mentar, Centro de Estudos e de Prospectiva, 
Paris, 23 ago. 2023.
4 A Indochina Francesa integrou a Cochinchina 
em 1887.
5 Christian Klebert e Kamala Marius-Gnanou, 
“Révolution verte et collectivisation des terres 
dans le delta du Mékong. L’exemple de la plaine 
de Rach Noch” [Revolução verde e coletiviza-
ção das terras no Delta do Mekong. O exemplo 
da planície de Rach Noch], Les Cahiers d’ou-
tre-mer, n.196, Bordeaux, out.-nov. 1996.
6 Segundo o International Food Policy Research 
Institute (Ifpri), o Vietnã pode ter sua produ-
ção agrícola diminuída entre 5,6% e 6,2% até 
2030, em comparação com 2022.
7 “Decision 583/QD-TTg 2023. Strategy for 
development of Vietnam’s rice export market 
through 2030” [Decisão 583/QD-TTg 2023. 
Estratégia para o desenvolvimento do mercado 
de exportação de arroz do Vietnã até 2030], 26 
maio 2023, https://english.luatvietnam.vn.
8 “Le Vietnam, un ‘acteur clé’ de l’agriculture mon-
diale” [O Vietnã, um “ator-chave” da agricultura 
mundial], 22 mar. 2024, https://fr.vietnamplus.vn.
Índia
196
China
209
Bangladesh
57
Birmânia
25
Tailândia
34
Indonésia
55
Vietnã
43
0
10
50
100
40
30
20
Produção de arroz em 2022
em milhões de toneladas
0
1
5
10
4
3
2
Comércio de arroz em 2022
(países cujo comércio
ultrapassa 500 mil toneladass)
(países cuja produção
ultrapassa 1 mi de toneladas)
 Exportações Importações
em milhões de toneladas
Índia
22,2
Tailândia
7,7
Birmânia
2,2
Vietnã
4,4 ⁄ 0,9
Brasil 
1,7 ⁄ 0,9
Filipinas
3,9
Malásia
1,2
Iraque
2,1
Níger
1,0
Irã
 1,8
Costa do Marfim
1,6
Senegal
1,5
Benin
1,5
África do Sul1,0
China
2,2 ⁄ 6,4
Estados Unidos
2,5 ⁄ 1,3
Paquistão
4,6
Arábia S.
1,3
Long Xuyen
S’ang
CAMBOJA
Rach Gia
Bac Lieu
Ca Mau
Can Tho
Tra Vinh
Phuong Thanh 
Tran De
Ho Chi Minh
 Cù Lao
Dung
Vung Tau
Golfo da
Tailândia
Mekong
Canal K
enh
Xang Xa No
Phnom Penh
0 100 km
Área urbanizada
em 2020
previsão 2040
Arroz
Intrusão salina
Frutas
Duas colheitas
Três colheitas
Culturas
comerciais
Outras culturas
Aquicultura
Floresta
Wunonglong
Lidi
Tuaba
Huangdeng
Miaowei
Gongguoqiao
Xiaowan Manwan
Dachaoshan
Nuozhadu
Jinghong
Ganlanba Mengsong
Pak Beng
Pak Lay
Pak Chom
Ban Koum
Phu Ngoy
Don Sahong
Stung Treng
Sambor
Lower Sesan 2
Canal
Funan Techo
Sanakham
Xayaburi
Dahuaqiao
Luang Prabang
Bangkok
Battambang
Chiang Mai
Luang Prabang
Vinh
Paksé
Ubon Ratchathani
Savannakhet
Boten
Jinghong
Kunming
Houay Xay
Khon Kaen
Hanoi
Vientiane
LAOS
CHINA
TAILÂNDIA
BIRMÂNIA
CAMBOJA
VIETNÃPhnom Penh
Ho Chi Minh
Golfo
de
Tonkin
Rio Vermelho
Ping
Sa
lw
ee
n
Tonlé
 Sap
Mekong
(M
ekong)
Lancang
Chao Praya
200 km
Lorem
 ipsum dolor sit 
Lo
re
m
 
ÍNDIA
CHINA
BIRMÂNIA
Salween
Lancang 
(M
ekong)
200 km
Grande barragem
no Mekong
Em operação
Em projeto
Projeto suspenso
País membro
da Comissão
do Mekong (MRC)
Bacia do Mekong
Cultura do arroz
SEIS PAÍSES, UM RIO QUEM CULTIVA, QUEM CONSOME?
©
 C
éc
ile
 M
ar
in
Fontes: Faostat, 2024; Stimson, Mekong Dam Monitor; Le Monde, 10 nov. 2024; Interna-
tional Rivers, “Sites of struggle and sacrifice: Mapping destructive dam projects along the 
Mekong River”, 25 jun. 2024; “Projections of salt intrusion in a mega-delta under climatic 
and anthropogenic stressors”, Communications Earth & Environment, 2021; “Effect of 
planning policies on land use dynamics and livelihood opportunities under global environ-
mental change: Evidence from the Mekong Delta”, Land Use Policy, 2023.
https://english.luatvietnam.vn/
https://fr.vietnamplus.vn/
32 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024
No México, o balanço 
contraditório de um 
presidente popular
Em 1º de outubro de 2024, Andrés Manuel López Obrador deixou o poder. 
O idealizador da “quarta transformação” transformou-se em uma das figuras 
mais populares da história do México. Algumas de suas políticas, contudo, 
desapontaram e fazem parte do legado transmitido à nova presidenta, Claudia 
Sheinbaum, cuja agenda – mudança na continuidade – se mostra delicada 
POR ANNE VIGNA*
DIPLOMACIA, SOBERANIA E ORÇAMENTO REFORÇADOS, MAS INSEGURANÇA GALOPANTE
A
ndrés Manuel López Obrador – 
conhecido como AMLO – encer-
rou seu mandato de seis anos 
(2018-2024) com mais de 70% de 
aprovação. Sua popularidade explica 
em grande parte a ampla vitória de seu 
grupo nas eleições gerais de 2 de junho 
de 2024 (ler na pág. 34). Aliado ao Parti-
do do Trabalho (PT) – social-democrata 
– e ao Partido Verde Ecologista do Méxi-
co (PVEM), o Movimento de Regenera-
ção Nacional (Morena) manteve a presi-
dência e conquistou também a maioria 
no Congresso. A coalizão presidencial 
obteve inclusive a maioria qualificada 
– que permite reformar a Constituição 
–, com 364 deputados de um total de 
500, 86 senadores de 128 e os governos 
de 24 dos 32 estados da federação.
A sucessora de AMLO, Claudia Shein-
baum, recebeu 59,3% dos votos, ou seja, 
35,9 milhões de sufrágios, 6 milhões amais que seu antecessor em 2018. A ex-
-prefeita da Cidade do México torna-se, 
assim, a primeira mulher a governar o 
México. Ela também é a primeira chefe 
de Estado a dispor de uma margem de 
manobra institucional tão ampla desde o 
início do mandato, após a primeira alter-
nância política ocorrida em 2000, depois 
de décadas de hegemonia do Partido Re-
volucionário Institucional (PRI, 1929-
2000). Diferentemente de vários de seus 
colegas de esquerda – no Brasil, no Chile 
e na Colômbia –, que não contam com 
maioria parlamentar, Sheinbaum contro-
la a maioria dos instrumentos de poder.
A “quarta transformação” do México, 
iniciada por López Obrador – após a in-
dependência em 1821, o período da Re-
forma (1855-1863), que levou à separa-
ção entre Igreja e Estado, e a Revolução 
(1910-1920) –, continuará. Para aprofun-
dá-la, ele submeteu ao Congresso vários 
projetos de reformas constitucionais 
poucos meses antes de deixar o cargo. 
A maioria busca garantir a permanên-
cia dos programas sociais que lançou; 
elogiando, de forma geral, sua política 
social. Por outro lado, a segurança é o 
tema que mais decepcionou.
“ABRAZOS, NO BALAZOS”
Antes de assumir o poder, López Obra-
dor se apresentava como o mais deci-
dido opositor da política de seguran-
ça do ex-presidente Felipe Calderón. 
A “guerra contra os narcotraficantes”, 
conduzida pelos militares, desenca-
deou uma espiral de violência sem fim, 
levando a um aumento constante no 
número de vítimas. Contudo, a pro-
messa de desmilitarizar o país não foi 
cumprida. Adotando um princípio de 
eficácia diante da intensidade do crime 
organizado, AMLO ampliou o poder das 
Forças Armadas – “a instituição mais 
eficaz” – ao colocá-las no comando da 
outras visam incluir certos direitos na 
Constituição – como aumentos salariais 
acima da inflação, o reconhecimento 
dos povos indígenas e a proibição do 
milho transgênico e da fratura hidráuli-
ca (fracking) para extração de petróleo e 
gás natural –;1 e outras ainda pretendem 
melhorar o funcionamento das institui-
ções. A reforma do Judiciário, por exem-
plo, prevê a eleição popular de 1.500 
juízes federais, bem como dos nove ma-
gistrados da Suprema Corte. A oposição 
e os Estados Unidos denunciaram um 
risco de instabilidade jurídica que po-
deria preocupar investidores estrangei-
ros; para AMLO, trata-se de combater a 
cooptação e a corrupção.
Em ¡Gracias!, obra publicada antes 
das eleições (Planeta, 2024), o ex-presi-
dente expõe o que considera a principal 
razão de seu sucesso: “Se não fôssemos 
apoiados pela maioria, e em particular 
pelos pobres, os conservadores já teriam 
nos derrotado ou teríamos de modifi-
car nossas políticas e nos submeter aos 
seus caprichos e interesses”. A mañanera 
[matinal] foi um dos instrumentos dessa 
estratégia. Durante quase seis anos, de 
segunda a sexta, às 7h, o presidente con-
cedeu coletivas de imprensa televisiona-
das, com duração média de duas horas, 
para manter comunicação direta com os 
cidadãos. Seu governo também deu mais 
espaço à consulta popular, especialmen-
te por meio de referendos. “Os mexica-
nos estão hoje muito mais politizados e 
conscientes das questões em jogo”, ava-
lia John Mill Ackerman, professor de Di-
reito da Universidade Nacional Autôno-
ma do México (Unam). “Ainda assim, é 
discutível teorizar uma verdadeira ‘alian-
ça’ com o povo, embora a política social 
de AMLO tenha reforçado essa relação.”
Seu governo, de fato, melhorou a con-
dição de milhões de trabalhadores as-
salariados, aumentando sua renda em 
um país onde o trabalho informal ainda 
é predominante (54,3% da população 
economicamente ativa).2 O salário míni-
mo nacional dobrou durante seu man-
dato, alcançando cerca de 250 pesos por 
dia em 2024 (R$ 70). Já na zona franca da 
fronteira norte – que abrange 43 cidades 
distribuídas pelos seis estados frontei-
riços aos Estados Unidos, a região mais 
industrializada do país –, o salário mí-
nimo triplicou, chegando a cerca de 375 
pesos por dia (R$ 105).3 “Essas medidas 
voluntaristas tiveram impacto em 80% 
da população”, avalia a cientista política 
Viri Ríos. “Elas transformaram a situa-
ção dos trabalhadores.”
Os trabalhadores formais agora têm 
direito a doze dias de descanso por ano, 
em vez de seis. Após trinta anos de tra-
balho, as férias anuais chegam a um 
mês completo. Os empregadores foram 
obrigados a aumentar sua contribuição 
para as aposentadorias. Para acabar 
com a cooptação e a corrupção favore-
cidas pelo sistema anterior, foi colocado 
em prática um novo modelo de eleição 
dos líderes sindicais. Uma reforma vol-
tada para regulamentar a terceirização 
obrigou muitas empresas a contratar di-
retamente seus trabalhadores.4 “A renda 
dos pequenos comerciantes aumentou 
17%”, acrescenta Ríos. “O aumento dos 
salários estimulou o consumo popu-
lar de forma geral. Essa é uma situação 
nova. Até então, apenas os rendimentos 
das grandes empresas cresciam.” A po-
breza diminuiu, passando de 28,6% da 
população em 2018 para 20,2% em 2024, 
o que significa que 9,5 milhões de pes-
soas deixaram de estar nessa condição.5
No entanto, a organização internacio-
nal Oxfam aponta que “a riqueza total 
dos catorze ultrarricos mexicanos quase 
dobrou desde o início da pandemia de 
Covid-19. A de Carlos Slim agora equivale 
à de 63,8 milhões de mexicanos”.6 Ainda 
assim, o ex-presidente sempre se recusou 
a aumentar impostos sobre os capitais e 
os mais ricos. Apesar disso, o povo parece 
não ter guardado grande ressentimento, 
33DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil
polícia e da nova Guarda Nacional. O 
Exército também assumiu a construção 
e a gestão de infraestruturas estratégi-
cas (aeroportos, portos, ferrovias), além 
da administração das alfândegas. Em 
2023, o orçamento militar aumentou 
55% em comparação com 2014.7
Entretanto, isso não reduziu a violên-
cia. Nos últimos seis anos, o número de 
desaparecimentos explodiu – mais de 
50 mil dos 115 mil registrados desde 
20068 –, assim como os casos de extor-
são e homicídios, que atingiram um ní-
vel recorde: quase 200 mil (94 por dia), 
incluindo mais de 5 mil feminicídios.9 
O ex-presidente também reforçou a im-
punidade das Forças Armadas. A inves-
tigação sobre o destino dos 43 estudan-
tes de Ayotzinapa, assassinados no 
estado de Guerrero em 2014, esbarrou 
nos portões dos quartéis.10 O compro-
misso de abrir os arquivos da “guerra 
suja”, entre 1965 e 1990 – um período de 
intensa repressão –, desapareceu quan-
do os militares tiveram de fornecer 
seus próprios documentos. AMLO ig-
norou os coletivos de apoio aos desapa-
recidos e outras vítimas da violência, 
que, no entanto, protestaram inúmeras 
vezes em frente ao seu palácio. Sua po-
lítica para jovens delinquentes – “abra-
zos, no balazos” [abraços, não tiros] – 
deixou de lado as vítimas e seus 
familiares. Aquele que se apresentava 
como o “pai da nação” não acolheu as 
mães que choravam por seus filhos, 
deixando na população um amargo 
sentimento de indiferença.
Outro motivo de decepção para parte 
da esquerda mexicana foram os proje-
tos de grandes obras.11 Ambientalistas e 
povos indígenas se uniram ao campo 
dos opositores da “quarta transforma-
ção”, ao lado dos zapatistas de Chiapas, 
com quem o diálogo está irremediavel-
mente rompido. Segundo o ex-presiden-
te, o plano de modernização e desenvol-
vimento de infraestruturas atende a 
dois objetivos superiores de longo pra-
zo: devolver ao Estado um papel diretor 
na economia após anos de neoliberalis-
mo e reafirmar a soberania nacional.
No plano internacional, López Obra-
dor procurou basear sua atuação na 
doutrina Estrada – nome do ministro 
das Relações Exteriores entre 1930 e 
1932, Genaro Estrada –, que prioriza o 
respeito à soberania e o não interven-
cionismo. Embora tenha seguido essa 
doutrina à risca em relação aos Estados 
Unidos, aceitando sua política migrató-
ria e a construção do muro na fronteira, 
“ele defendeu os interesses mexicanos 
na renegociação do Acordo Canadá-Es-
tados Unidos-México(Aceum, que 
substituiu o Acordo de Livre Comércio 
da América do Norte, Nafta)”, ressalta 
Carlos Pérez Ricart. No entanto, o pro-
fessor de Relações Internacionais ob-
serva que AMLO “se envolveu na políti-
ca interna de vários países andinos, de 
maneira direta. Ele ofereceu apoio aos 
ex-presidentes Evo Morales, na Bolívia, 
Pedro Castillo, no Peru, e ao ex-vice-
-presidente Jorge Glas, no Equador”. 
Desde 2019, o México também partici-
pou de todas as tentativas de negocia-
ção entre o governo venezuelano e sua 
oposição em busca de uma solução po-
lítica para a crise no país caribenho, até 
a controversa reeleição de Nicolás Ma-
duro em 28 de julho de 2024.
O “presidente mais popular do Méxi-
co”, como gostam de chamá-lo seus 
apoiadores, retirou-se para seu rancho 
familiar em Chiapas. Muitos acreditam 
que ele não ficará lá por muito tempo. 
Todavia, ele já repetiu diversas vezes: 
“O país está em boas mãos, minha mis-
são está cumprida.” 
*Anne Vigna é jornalista no México.
1 Cf. John Mill Ackerman, “Le Mexique privatise 
son pétrole” [O México privatiza seu petró-
leo], Le Monde Diplomatique, mar. 2014.
2 Gerardo Hernández, “Tasa de informalidad 
desciende a mínimo histórico en el arranque 
del 2024” [Taxa de informalidade cai para mí-
nimo histórico no início de 2024], 27 maio 
2024, www.eleconomista.com.mx.
3 Segundo a Comissão Nacional sobre os Sa-
lários Mínimos do governo, “Incremento a 
los salarios mínimos para 2024” [Aumento 
nos salários mínimos para 2024], 1º dez. 
2023, www.gob.mx.
4 María Eugenia Cosio Zavala e Ilán Bizberg, 
“Introduction – Le sexennat d’Andrés Manuel 
López Obrador: bilan et défis” [Introdução – 
O sexênio de Andrés Manuel López Obrador: 
balanço e desafios], Cahiers des Amériques 
Latines, n.104, Aubervilliers, 2024.
5 Jessika Becerra, “Valida Banco Mundial: 9,5 
millones, fuera de la pobreza en México” [Vali-
da Banco Mundial: 9,5 milhões saem da pobre-
za no México], La Jornada, México, 5 set. 2024.
6 “El monopolio de la desigualdad. Cómo la 
concentración del poder corporativo lleva a un 
México más desigual” [O monopólio da desi-
gualdade. Como a concentração do poder 
corporativo leva a um México mais desigual], 
23 jan. 2024, www.oxfammexico.org.
7 “Les dépenses militaires mondiales augmen-
tent dans un contexte de guerre, d’escalade 
des tensions et d’insécurité” [Os gastos mili-
tares globais aumentam em um contexto de 
guerra, escalada das tensões e insegurança], 
Stockholm International Peace Research Ins-
titute (Sipri), 22 abr. 2024.
8 Segundo o site investigativo A Dónde Van los 
Desaparecidos, 28 maio 2024, https://adon-
devanlosdesaparecidos.org.
9 David Saúl Vela, “Termina el sexenio de AMLO 
con 199 mil 619 asesinatos, la cifra más alta 
en la historia reciente” [Termina o sexênio de 
AMLO com 199.619 assassinatos, o número 
mais alto da história recente], El Financiero, 
México, 2 out. 2024.
10 Cf. Benjamin Fernandez, “Au Mexique, où 
sont les ‘quarante-trois’?” [No México, onde 
estão os “quarenta e três”?], Le Monde Di-
plomatique, mar. 2020.
11 Cf. Luis Alberto Reygada, “Un train nommé 
‘Maya’” [Um trem chamado “Maya”], Le Mon-
de Diplomatique, jan. 2024.
© Suzane Lopes
http://www.eleconomista.com.mx/
http://www.gob.mx/
http://www.oxfammexico.org/
https://adondevanlosdesaparecidos.org/
https://adondevanlosdesaparecidos.org/
34 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024
TRINTA ANOS DE TRABALHO DE BASE
A nova presidenta do México não deve sua eleição apenas à 
popularidade histórica de seu antecessor. Seu sucesso também se 
explica pelo longo trabalho de proximidade realizado pela esquerda na 
Cidade do México, junto ou dentro de associações da sociedade civil 
POR HÉLÈNE COMBES*
Claudia Sheinbaum, 
construir uma vitória
A 
princípio, é difícil distinguir o 
amarelo da fachada no meio das 
outras casas do bairro. Depois, 
um detalhe indica que se está no 
lugar certo: uma pequena multidão de 
mulheres se aglomera diante da porta. 
Naquela manhã de primavera de 1999, 
estávamos no local da associação 
Asamblea de Barrios (AB), no distrito 
de Venustiano Carranza, no nordeste 
da Cidade do México. Criada doze anos 
antes por militantes de esquerda, al-
guns dos quais participantes da guerri-
lha, a Asamblea de Barrios defendia na 
época o direito ao reassentamento das 
vítimas do terremoto de 19 de setembro 
de 1985, que causou mais de 10 mil 
mortes. Esquecidas pelos planos de re-
construção do governo, essas pessoas 
aprenderam, aos poucos, que podiam 
encontrar na AB o apoio que o poder 
público não lhes oferecia.
Naquele dia, a reunião tinha como 
objetivo informar os presentes, em sua 
maioria mães de família, sobre o anda-
mento do calendário de entrega das ha-
bitações sociais. Juntamente com outras 
estruturas associativas, a Asamblea de 
Barrios geria parte do parque habitacio-
nal social da capital. O Estado delegava a 
ela a coordenação e gestão dos projetos, 
às vezes até a construção das moradias, 
bem como a organização e o acompa-
nhamento dos pedidos junto às admi-
nistrações competentes. Os militantes 
da organização também aproveitavam 
esses encontros para recolher as reivin-
dicações dos moradores. Visivelmente 
experiente, uma militante elaborava a 
lista das oficinas oferecidas às crianças 
durante o verão, antes de relembrar os 
serviços disponibilizados pela associa-
ção: assistência jurídica para mulheres 
vítimas de violência doméstica ou em 
processo de divórcio, cuidados médi-
cos gratuitos, entre outros. Entretanto, 
rapidamente o discurso se distanciava 
das preocupações imediatas dos mora-
dores do bairro para abordar outro tipo 
de tema: a greve estudantil na Univer-
sidade Nacional Autônoma do México 
(Unam), as mobilizações que agitavam 
o país... Em resumo, a política.
Aparentemente trivial, essa reunião 
pública ocorrida há 25 anos faz parte, na 
verdade, de um longo trabalho político 
de base realizado pela esquerda na Cida-
de do México, com base no qual ela foi 
traçando, gradualmente, o caminho para 
sua vitória em nível nacional. Primeiro 
com a de Andrés Manuel López Obrador, 
conhecido como AMLO, presidente de 
2018 a 2024 (ver artigo na pág. 32), e de-
pois com a de Claudia Sheinbaum, eleita 
em junho passado. Esses sucessos só fo-
ram possíveis porque, ao longo dos anos, 
milhares de encontros como esse permi-
tiram tecer laços entre os movimentos 
sociais e a esquerda política representa-
da por Sheinbaum e López Obrador.
QUANDO AS “ADELITAS” 
SE MOBILIZAM
Compreender essa dinâmica exige vol-
tar à situação do México no fim dos anos 
1990. Na época, o vento da história não 
soprava a favor dos progressistas. Des-
de 1929, um mesmo partido estava no 
comando, carregando como nome um 
oximoro: o Partido Revolucionário Ins-
titucional (PRI). Na eleição presidencial 
de 1988, o candidato Cuauhtémoc Cár-
denas – dissidente do PRI, que rejeitava 
sua guinada à direita – liderava a dispu-
ta... até que o sistema de apuração dos 
votos sofreu uma pane. Quando a con-
tagem foi retomada, o candidato do PRI, 
Carlos Salinas de Gortari, subitamente 
despontou na liderança. Seis anos de-
pois, outro candidato que questionava a 
linha do partido no poder foi assassina-
do em 23 de março de 1994.
Poucas semanas antes, em 1º de ja-
neiro, o país foi abalado por uma dupla 
convulsão. A primeira vinha do norte, 
com a assinatura do Acordo de Livre 
Comércio da América do Norte (Nafta), 
que subordinava a economia mexicana 
à dos Estados Unidos. A segunda surgiu 
do sul, quando o Exército Zapatista de 
Libertação Nacional (EZLN) proclamou 
o levante em Chiapas.1
Nesse contexto, um setor da esquerda 
mexicana optou por ancorar seu ativis-
mo no “território”, por meio de asso-
ciações como a Asamblea de Barrios, 
fundada, entre outros, pelo arquiteto 
Javier Hidalgo Ponce, hoje próximo de 
Claudia Sheinbaum. À medida que o 
Estado neoliberal avançava, estruturas 
desse tipo assumiam uma função social 
cada vez mais crucial para a população, 
especialmentena Cidade do México. Em 
contrapartida, essas “antenas de bairro” 
ofereciam aos moradores acesso a ser-
viços básicos e se tornavam o berço de 
uma nova forma de militância – frequen-
temente feminista, sempre popular –, 
profundamente enraizada no cotidiano 
da capital. Esse vasto tecido associativo, 
consolidado dia após dia por experiên-
cias compartilhadas entre militantes, 
líderes locais, funcionários públicos e 
“simples moradores”, lançava as bases 
de uma rede político-territorial sobre a 
qual a esquerda poderia se apoiar.
Em um primeiro momento, esse ter-
reno fértil beneficiou o Partido da Re-
volução Democrática (PRD), fundado 
por Cárdenas em 1989 após seu “fracas-
so” na eleição presidencial de 1988. No 
início, o partido conquistou a prefeitu-
ra da Cidade do México, em 1997: na 
época, muitos militantes associativos 
foram eleitos deputados locais ou in-
tegraram a administração municipal. 
Depois, na eleição presidencial de 2006: 
uma fraude maciça impediu a vitória de 
López Obrador, que optou por estabe-
lecer um “governo legítimo” na capital. 
Isso permitiu que as organizações de 
bairro dessem um salto: deixaram de 
apenas fornecer – de forma heterogê-
nea – serviços às populações locais para 
se tornarem motores de um processo 
coordenado de contestação política.
Graças às relações construídas com 
associações que animavam a militân-
cia local durante seu mandato à frente 
da prefeitura da Cidade do México pelo 
PRD (2000-2005), López Obrador pôde 
orquestrar mobilizações que acabaram 
ganhando dimensão nacional, como a 
que se opôs à privatização da compa-
nhia petrolífera Petróleos Mexicanos 
(Pemex). Foi nesse contexto que as “Ade-
litas” se mobilizaram em abril de 2008. 
Vinte brigadas de quinhentas mulheres 
(cerca de 10 mil pessoas) – cujo nome 
faz referência às soldadas da Revolução 
Mexicana (1910-1920) – bloquearam o 
Senado durante vinte dias, impedindo 
a aprovação de um projeto de privatiza-
ção da Pemex (símbolo da independên-
cia nacional e do Estado de bem-estar 
desde sua nacionalização, em 1938, sob 
a presidência de Lázaro Cárdenas). A 
maioria dessas militantes vinha de asso-
ciações comprometidas com o direito à 
moradia. O episódio, coroado por uma 
vitória, tornou-se a peça-chave do dis-
positivo organizacional de AMLO, que 
culminou na criação do Movimento de 
Regeneração Nacional (Morena), em 
2014. À época, o rico solo do ativismo 
associativo forneceu ao Morena estrutu-
ras materiais, elementos programáticos 
e quadros políticos. Também permitiu 
que Claudia Sheinbaum, coordenado-
ra-geral das Adelitas – que havia se jun-
tado a AMLO em 2000, integrando sua 
equipe municipal –, conquistasse proje-
ção pública nacional antes de suceder a 
López Obrador à frente da prefeitura da 
Cidade do México, em 2018.
No cargo, Sheinbaum também se de-
dicou a fortalecer os laços entre organi-
zações locais autônomas e políticas pú-
blicas progressistas. Um exemplo foi o 
programa Pilares (Pontos de Inovação, 
Liberdade, Arte, Educação e Saberes), 
lançado pela prefeitura em 2019, que 
possibilitou a criação de trezentos cen-
tros comunitários pela cidade. Jovens 
e idosos participam de oficinas gratui-
tas: alfabetização digital, agricultura 
urbana, cobertura verde em telhados 
de bairros populares para mitigar os 
efeitos das mudanças climáticas, entre 
outras. À frente da capital, Sheinbaum 
visitava os centros Pilares todas as 
quintas-feiras. “As pessoas não iam ou-
vi-la: era ela quem ia ouvir as pessoas”, 
explicou Hidalgo, como uma forma de 
elucidar sua recente vitória na eleição 
presidencial mexicana. Um triunfo 
construído passo a passo, ao longo de 
quase trinta anos... 
*Hélène Combes é socióloga, diretora 
de pesquisa do Centro Nacional de Pes-
quisa Científica (CNRS) e autora de De la 
rue à la présidence. Foyers contestataires 
à Mexico [Da rua à presidência. Lares 
contestadores na Cidade do México] , CN-
RS Éditions, Paris, 2024.
1 Ler Subcomandante Marcos, “La quatrième 
guerre mondiale a commencé” [A quarta 
guerra mundial começou], Le Monde Diplo-
matique, ago. 1997.
Esse vasto tecido 
associativo lançava 
as bases de uma rede 
político-territorial 
sobre a qual a esquerda 
poderia se apoiar
35DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil
Evangélicos na França, crônica 
de uma ascensão política
Por muito tempo marginal, o evangelismo está hoje bem mais presente na França. Alimentado por 
várias lideranças, notadamente a dos missionários anglo-saxões, mas também a de fiéis originários da 
África Subsaariana, esse ramo do protestantismo está se estruturando pouco a pouco. Vários de seus 
membros desejam agora influenciar o debate nacional por meio da defesa de ideias conservadoras 
POR EVA THIÉBAUD*
“C
reia como uma criança pe-
quena.” Nesse domingo de 
fevereiro de 2024, a pastora 
Anne Battista, da igreja Mar-
tin Luther King (MLK) de Créteil, na re-
gião de Paris, incentiva os fiéis a esque-
cer o ego, confiar em Deus e converter 
as crianças – uma mistura de desenvol-
vimento pessoal, apelo à submissão e 
proselitismo, intercalada pelas canções 
ao vivo do grupo MLK Music, acompa-
nhadas por jogos de luz. “Podemos fazer 
um pouco mais de barulho? Aleluia!”, 
incentiva a pastora Battista. À sua fren-
te, 1.500 pessoas, em sua maioria jo-
vens, cosmopolitas e elegantes, entre as 
quais as mais próximas ao palco termi-
narão o culto pulando e dançando.
Mais ao sul, em uma sala um tanto 
desgastada no bairro Saint-Lazare, em 
Marselha, cerca de cem pessoas de to-
das as idades, principalmente europeias 
– em contraste com a população majori-
tariamente imigrante do bairro –, estão 
reunidas para um culto das Assembleias 
de Deus. O sermão do pastor Mathieu 
Burles aborda a sobrecarga de trabalho e 
a gestão do estresse. De forma mais mo-
desta do que em Créteil, as canções são 
interpretadas por uma jovem ao piano, 
acompanhada por um baterista. Como 
em um karaokê, as letras são projetadas 
em uma tela à frente do público.
Algumas ruas adiante, o pastor Karoly 
Jolan Ciurcui e seus fiéis alternam pre-
gações e canções populares. A igreja, 
que adota a denominação “Elim” – re-
ferência a um dos acampamentos dos 
hebreus na saída do Egito –, reúne cerca 
de trinta ciganos de origem romena, e o 
culto é realizado em romeno. Durante as 
súplicas coletivas, alguns se ajoelham, e 
mulheres chegam às lágrimas.
Embora diferentes entre si, esses cul-
tos fazem parte do evangelismo,1 um 
ramo do protestantismo que, em 2020, 
reunia entre 13,4% e 26,5% dos norte-a-
mericanos, 9,1% e 17,8% dos sul-ame-
ricanos, 11,3% e 18,6% dos africanos e 
12,8% e 18% dos habitantes da Oceania.2 
Os números mais baixos consideram 
apenas membros de igrejas que se de-
finem como evangélicas, enquanto os 
mais altos incluem correntes com ca-
racterísticas evangelistas, mesmo sem 
se identificarem como tal. Na Europa, os 
evangélicos representam cerca de 3% da 
população e são ainda menos numero-
sos na França, onde não há estatísticas 
oficiais sobre essa confissão por causa 
da legislação restritiva em relação a da-
dos religiosos. Na realidade, nos países 
ocidentais, dos Estados Unidos à Aus-
trália, passando pela Europa Ocidental, 
a religiosidade tende a diminuir.3 Na 
França, entre 2009 e 2020, a proporção 
de católicos entre os jovens de 18 a 49 
anos caiu de 43% para 25%, enquanto o 
percentual de pessoas sem religião au-
mentou de 45% para 53%.4
“Talvez haja uma redução na capaci-
dade do catolicismo de normatizar com-
portamentos”, comenta David Koussens, 
sociólogo do direito da Universidade de 
Sherbrooke, em Quebec. “No entanto, os 
sistemas de crença estão longe de desa-
parecer. Hoje, são os indivíduos que de-
terminam a oferta religiosa que conside-
ram legítima.” O evangelismo apresenta 
várias vantagens comparativas: sua men-
sagem é simples, assertivamente prose-
litista (ainda que muitos evangélicos ne-
guem isso) e pragmática. Assim, para os 
jovens, ele oferece redes sociais e música 
pop; para as populações migrantes, apoiocomunitário no sentido coletivo que ca-
racteriza, de modo geral, os evangélicos; 
para as pessoas racializadas, a proposta 
de um horizonte mais igualitário fun-
damentado na leitura da Bíblia – texto 
sagrado que os evangélicos consideram 
infalível –; às pessoas economicamente 
precárias, a promessa de enriquecimen-
to; e, por fim, para a saúde de todos, as 
orações de cura. Os evangélicos compar-
tilham também a escolha consciente da 
conversão na vida adulta, marcada pelo 
batismo, considerado um renascimento.
Podem ocorrer desvios sectários; as 
denúncias à Missão Interministerial de 
Vigilância e Combate a Desvios Sectários 
(Miviludes) são proporcionalmente mais 
frequentes do que em outras confissões.5 
O chefe da missão, Donatien Le Vaillant, 
menciona casos de abuso de vulneráveis, 
trabalho dissimulado e práticas que bus-
cam “converter” homossexuais à hete-
rossexualidade,6 além de discursos sexis-
tas e risco de abandono de tratamentos 
médicos. Esse risco é ainda maior consi-
derando que 70% dos evangélicos acredi-
tam em curas milagrosas, com pastores 
como Jean-Luc Trachsel e o falecido Car-
los Payan promovendo grandes encon-
tros focados em milagres e curas.
DIPLOMACIA DA FÉ
Mas de onde vem essa religião? Se o 
protestantismo tem suas raízes na Re-
forma do século XVI, as perseguições 
subsequentes impediram qualquer de-
senvolvimento significativo do evange-
lismo (ou protestantismo evangélico) 
na França. Foi principalmente a partir 
do século XIX que missionários suíços e 
britânicos difundiram várias mensagens 
evangélicas, incluindo o “batismo” – que 
pode ser fundamentalista ou moderado 
e liberal. O fervor proselitista em direção 
à França se intensificou especialmen-
te após a Segunda Guerra Mundial. “O 
Plano Marshall, lançado pelo presiden-
te Harry Truman, foi acompanhado por 
uma diplomacia da fé, particularmente 
direcionada a uma França considerada 
uma terra pagã a ser reconquistada”, ex-
plica o pesquisador Jean-Marie Autran, 
autor de um livro que explora a aven-
tura desses missionários na década de 
1950 (La France, terre de mission amé-
ricaine [A França, terra da missão nor-
te-americana], Vendémiaire, 2017). Foi 
também nessa época que começaram 
as primeiras pregações em massa, con-
duzidas pelo pastor batista Billy Grah-
am, que saiu em “cruzada” para pregar 
pelo mundo um amálgama tipicamente 
norte-americano de capitalismo, de-
mocracia e evangelismo. “Um episódio 
macarthista”, critica Roland Barthes em 
Mythologies (Éditions du Seuil, 1957), 
referindo-se ao espetáculo do pastor em 
1955 no Vélodrome d’Hiver. “O ateísmo 
da França interessa à América apenas 
TEMPLOS, PASTORES, MISSIONÁRIOS E O DINHEIRO DO DÍZIMO
© Yann Caradec/Wikipedia
Ocorreu um grande crescimento do evangelismo na França em diferentes grupos
36 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024
porque, para ela, essa é a face prelimi-
nar do comunismo”, escreveu então 
o filósofo. Na prática, os missionários 
norte-americanos tiveram apenas um 
sucesso muito limitado. “Os franceses 
eram crentes medíocres, com uma for-
te desconfiança em relação aos norte-
-americanos. A França revelou-se um 
cemitério para as missões”, comenta Au-
tran. Em contrapartida, esse missiona-
rismo, segundo ele, insuflou certo dina-
mismo nas igrejas; além disso, “atenuou 
os complexos de inferioridade sentidos 
pelos evangélicos franceses [...] e contri-
buiu para uma articulação em rede mais 
ambiciosa”, escreve o historiador e so-
ciólogo Sébastien Fath.7
Paralelamente, surgiu no início do sé-
culo XX um novo movimento evangélico 
entre os afro-americanos em Los Ange-
les. O pentecostalismo enfatiza a eficácia 
da ação divina por meio dos “carismas”, 
os dons espirituais do Espírito Santo: 
cura, milagres e glossolalia – um estado 
de transe no qual a pessoa se expressa 
em uma língua desconhecida, inspirada 
por Deus. Com seus cultos extremamen-
te emocionais, o pentecostalismo rapi-
damente alcançou sucesso, consolidan-
do-se entre os brancos que fundaram as 
Assembleias de Deus (ADD), as quais se 
expandiram globalmente. “Ao reabrir a 
possibilidade de milagres, o pentecosta-
lismo ofereceu um reencantamento do 
religioso”, explica o historiador Alexan-
dre Antoine, especialista no estudo des-
sa corrente. Funcionário de uma agên-
cia marítima, músico em bares e jogador 
de futebol, o londrino Douglas Scott se 
converteu após contrair tétano e, em 
1930, partiu para evangelizar a França. 
“As Assembleias de Deus se propagaram 
de maneira endógena, adaptando-se 
culturalmente”, continua Antoine, “tor-
nando-se, por fim, uma das principais 
denominações francesas, com 40 mil 
membros atualmente.”
Scott depois formou um pastor bre-
tão, Clément Le Cossec, que buscou se 
aproximar dos ciganos. “Foi necessário 
um ano após a assinatura da capitula-
ção de 1945 para que todos aqueles que 
também são chamados de nômades ou 
manouches finalmente deixassem os 
campos de internação onde foram pre-
sos pelo governo de Vichy”, lembra o 
especialista em pentecostalismo cigano 
Régis Laurent. O pesquisador menciona 
um contexto traumático, de grande de-
samparo e total desinteresse das autori-
dades públicas, que nem consideraram 
a hipótese de reparações financeiras ou 
simbólicas após a guerra. O pentecosta-
lismo prosperou rapidamente, e Le Cos-
sec fundou a Missão Evangélica Cigana, 
rapidamente renomeada como Vida 
e Luz, que hoje reúne mais de 100 mil 
membros. Para Laurent, o sucesso do 
pentecostalismo seria, em parte, resul-
tado da semelhança entre as cerimônias 
de cura e certas tradições ciganas, mas, 
sobretudo, porque, “pela primeira vez, 
propuseram que eles administrassem 
algo; no caso, sua própria igreja”.
Paralelamente, no século XX, missio-
nários anglo-saxões também propa-
garam o pentecostalismo em diversos 
países africanos. De lá, acompanhando 
as migrações, algumas dessas igrejas 
chegaram à França. “Muitas iniciativas 
foram realizadas a partir das décadas 
de 1980 e 1990 por pastores congoleses”, 
relata o antropólogo Damien Mottier. 
Recém-chegados, eles criaram peque-
nas igrejas onde o culto era ministrado 
em línguas vernaculares e frequente-
mente ofereciam serviços de apoio para 
obtenção de documentos, emprego e 
moradia. “Questões sociais e relacio-
nadas às migrações são centrais nessas 
igrejas”, confirma Mottier.
Embora algumas dessas igrejas te-
nham desaparecido em razão da pre-
cariedade, outras prosperaram e se di-
versificaram, chegando, por vezes, a se 
tornar “igrejas cosmopolitas”, em que 
convivem pessoas de diferentes ori-
gens e nacionalidades, principalmente 
africanas e antilhanas. “São igrejas que 
podem ser qualificadas como afro-eu-
ropeias e incluem jovens franceses de 
segunda e terceira gerações”, explica 
Victoria Kamondji-Johnston, presiden-
te da Comunidade das Igrejas Africanas 
(Ceaf), que reúne parte dessas igrejas – 
cerca de 20 mil a 25 mil pessoas, segun-
do ela. “Parte significativa dos fiéis que 
frequentam essas igrejas tem formação 
superior realizada na Europa e uma si-
tuação profissional estável. [Seus cultos] 
dispõem, portanto, de recursos finan-
ceiros que frequentemente lhes permi-
tem adquirir seus próprios espaços”, de-
talha a pesquisadora Jeanne Rey.8
Entre essas igrejas estão o Impact Cen-
tre Chrétien (ICC), em Croissy-Beau-
bourg, a Charisma, em Blanc-Mesnil, e a 
Associação Cristã para a Evangelização e 
o Despertar (Acer), cuja igreja-mãe está 
em Montreuil. Entre as pequenas igrejas 
de recém-chegados e as grandes igrejas 
cosmopolitas, “a maioria das igrejas que 
acolhem a diáspora africana se situa em 
um meio-termo”, escreve Rey. Essas igre-
jas, em geral pentecostais ou carismáti-
cas, são dinâmicas, com cultos que en-
fatizam a emoção e, às vezes, estão asso-
ciadas à teologia da prosperidade, uma 
teoria religiosa originária dos Estados 
Unidos segundo a qual a prosperidade 
financeira seria um sinal de bênção di-
vina. Os fiéis são incentivados a ofere-
cer dízimos generosos, parte dos quais, 
ocasionalmente,é apropriada pela lide-
rança. Foi o caso de um pastor da igreja 
Bonne Semence Transmise (Seine-Sain-
t-Denis), que desviou mais de 2 milhões 
de euros em doações entre 2019 e 2022.9
Seja nas igrejas oriundas do missio-
narismo do século XIX, nas Assembleias 
de Deus ou naquelas voltadas a ciganos 
e afro-europeus, as igrejas evangélicas 
apresentam naturezas contrastantes. 
Politicamente, seus membros mostram-
-se geralmente sensíveis a questões so-
ciais, mas permanecem bastante con-
servadores em termos morais. Em 2017, 
por exemplo, 39% apoiavam a abertura 
do casamento para casais do mesmo 
sexo – em comparação com 64% entre 
outros protestantes e 67% na popula-
ção geral francesa. Além disso, 54% dos 
evangélicos acreditavam que, em certas 
circunstâncias, cada pessoa deveria po-
der escolher o momento de sua morte 
– contra 79% entre outros protestantes e 
83% na população geral.
Quanto à organização e representa-
ção, parte das igrejas evangélicas está 
reunida na coordenação evangélica da 
Federação Protestante da França (FPF). 
Apesar das diferenças em termos da 
“relação com a ética”, o presidente da 
organização, Christian Krieger, chama 
a atenção para uma dinâmica de inte-
gração. “Somos uma família em que não 
concordamos em tudo, mas cada um se 
compromete a viver um diálogo respei-
toso com o outro”, afirma.
Algumas igrejas, no entanto, preferi-
ram se organizar separadamente. Desde 
2010, o Conselho Nacional dos Evangé-
licos Franceses (Cnef) reúne denomi-
nações fundamentalistas, “clássicas” e 
pentecostais com predominância euro-
peia das Assembleias de Deus – mas ex-
clui ciganos e a maioria das igrejas afro-
-europeias. Esse conselho destacou-se, 
particularmente, da federação protes-
tante em janeiro de 2013 ao convocar 
seus fiéis a participar da Manif pour 
Tous, mobilização contra o casamento 
para todos. Enquanto as resoluções da 
federação protestante, mais moderadas, 
abordam temas variados, o Cnef adota 
uma linha mais centrada nos costumes 
e na bioética, referindo-se à “doutrina 
cristã do pecado, do casal e da família”. 
No contexto do projeto de lei sobre o 
fim da vida, o conselho assumiu uma 
postura clara, condenando “qualquer 
ato que resulte em morte”.
Para sustentar esse discurso minori-
tário no espaço público, o Cnef não he-
sita em afirmar que representa a grande 
maioria do evangelismo – optando por 
contabilizar uniões de igrejas evangé-
licas em vez de estimar o número de 
membros. O conselho também alardeia 
um suposto crescimento “exponencial”, 
alegando uma multiplicação por quinze 
no número de fiéis entre 1950 e 2023 – 
embora sem fornecer comprovações. Na 
realidade, apesar de o crescimento dos 
evangélicos ser inegável, ele é marginal-
mente sustentado pelas igrejas associa-
das ao Cnef, sendo mais impulsionado 
pelas igrejas pentecostais e carismáticas 
da diáspora. Na Suíça, onde o Escritório 
Federal de Estatística compila precisa-
mente a confissão religiosa dos habitan-
tes – e onde a trajetória de secularização 
é similar à da França –, as denominações 
fundamentalistas e “clássicas”, como as 
batistas, diminuem ou, no máximo, es-
tagnam, enquanto apenas os pentecos-
tais e carismáticos apresentam um ligei-
ro crescimento. Contudo, o triunfalismo 
do Cnef sugere que suas reivindicações 
políticas são legítimas, pois coincidem 
com as ideias conservadoras de um 
grande número de eleitores.
Para ampliar sua influência, o Cnef 
criou um “serviço pastoral junto aos 
parlamentares”. Encarregado dessa 
área, o pastor das Assembleias de Deus, 
Thierry Le Gall, frequentemente se 
apresenta como um “capelão”, termo 
que utiliza em sua obra Un avenir, une 
espérance. Chronique d’une aumônerie 
parlementaire protestante évangélique 
([Um futuro, uma esperança. Crônica de 
uma capelania parlamentar protestante 
evangélica] Les Éditions du Cerf, 2022). 
No passado, ele trabalhou como diretor 
de comunicação na fabricante de cho-
colates Ferrero, onde diz ter praticado 
“marketing e estratégias de influência”. 
Quando o encontramos em novem-
bro de 2023, ele advertiu de imediato: 
“Não escrevam que sou um lobista”. 
Em seguida, explicou “trabalhar sobre 
as questões de fim da vida”, em cone-
xão com o projeto de lei que deveria ser 
examinado em 2024, enumerando os 
inúmeros parlamentares que conseguiu 
encontrar. Le Gall ou o Cnef considera-
ram inscrever-se entre os representan-
tes de interesses da Haute Autorité pour 
la Transparence de la Vie Publique, uma 
ferramenta pública que permite obser-
var atividades de lobby? “Nosso serviço 
jurídico analisou o tema. Como orga-
nização confessional, não estamos im-
plicados”, respondeu Romain Choisnet, 
diretor de comunicação do Cnef.
CONQUISTAR O MUNDO
Le Gall não é o único líder eclesiástico 
ligado ao Cnef a se envolver na política 
– seguindo as recomendações da De-
claração de Lausanne, que desde 1974 
encoraja os fiéis a “proclamar o Evange-
lho a toda a humanidade e fazer discí-
pulos de todas as nações”. Conquistar o 
mundo, um programa que, pelo menos, 
é direto. “Mostraram-me a importân-
cia desse envolvimento, a necessidade 
de que cristãos expressem suas vozes 
no debate político”, relata Denis Biava, 
pastor das Assembleias de Deus e vice-
-prefeito de uma pequena cidade em 
Côtes-d’Armor.11 Na revista Christianis-
me Aujourd’hui,12 Le Gall menciona a 
criação de uma “rede fraterna de quase 
uma centena de políticos eleitos cris-
tãos evangélicos [...] que gostam de se 
reunir”, assegurando, contudo, que “essa 
rede não tem nenhum projeto político”.
Como as igrejas evangélicas se finan-
ciam? Geralmente, afirmam ser indepen-
dentes: o “dízimo” dos fiéis, entre 4% e 
10% de seus rendimentos, cobre os prin-
cipais custos da igreja, como o aluguel do 
espaço e o salário do pastor – cerca de 2 
mil euros líquidos por mês. Além disso, 
essas organizações recebem dinheiro do 
exterior. “O protestantismo – penso es-
37DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil
pecialmente nas igrejas evangélicas – é a 
religião que mais recebe financiamentos 
externos, vindos dos Estados Unidos, do 
Brasil e de países da África”, declarou a 
senadora Dominique Vérien durante a 
análise do relatório de informações de 
março de 2024 sobre a aplicação da lei de 
24 de agosto de 2021, que reforça o res-
peito aos princípios da República.
Esses financiamentos incluem, por 
exemplo, a contribuição da fundação 
norte-americana Impact France, que 
transfere anualmente cerca de 2 milhões 
de euros para a França, sobretudo para 
a “implantação de igrejas” e a “evange-
lização”, conforme suas declarações ao 
Internal Revenue Service (IRS), a Recei-
ta Federal norte-americana. Entre os 
projetos financiados por doadores dos 
Estados Unidos, consta o serviço pas-
toral junto aos parlamentares realizado 
por Thierry Le Gall. Questionado sobre 
isso, o Cnef minimiza, alegando tratar-
-se de doações “irrisórias”.
“O site de notícias Top Chrétien re-
cebe um pouco de dinheiro”, afirmou 
também o presidente do Cnef, Erwan 
Cloarec. Vale destacar que o conselho 
administrativo desse meio de comuni-
cação evangélico (que alega alcançar 
350 mil pessoas diariamente) inclui o 
norte-americano David Broussard, fun-
dador da Impact France.
De forma geral, a influência evangé-
lica dos Estados Unidos é bastante per-
ceptível na França. A liturgia segue o 
modelo norte-americano, que também 
inspira os católicos da “renovação ca-
rismática”, como as comunidades Che-
min Neuf e Emmanuel. 
Essa influência se manifesta ainda no 
campo das ideias. O movimento cristão 
da Moral Majority [maioria moral] sur-
giu nos Estados Unidos no fim dos anos 
1970, em reação aos avanços sociais e 
culturais da época. Dominada por batis-
tas, a Moral Majority combate ativamen-
te os direitos dos homossexuais, o abor-
to e a educação sexual. “Ela estabeleceu 
uma nova linha de ruptura na sociedade 
norte-americana, não entre religiões, 
mas entre progressistas e conservadores 
morais – inclusive dentro das próprias 
religiões”, analisa osociólogo Philippe 
Gonzalez. “Sua atuação contribuiu para 
deslocar os debates políticos – e tam-
bém o centro de gravidade do Partido 
Republicano – para a extrema direita.”
Essa linha de ruptura se espalhou. “A 
direita cristã na Europa encontra suas raí-
zes em um processo geralmente definido 
como a globalização das guerras cultu-
rais norte-americanas”, explica Kristina 
Stoeckl, socióloga e coautora de um livro 
sobre essa nova direita cristã europeia 
(The Christian Right in Europe. Move-
ments, Networks, and Denominations [A 
direita cristã na Europa. Movimentos, re-
des e denominações], Gionathan Lo Mas-
colo, 2023), alimentada pelo evangelismo 
norte-americano e pela Igreja Ortodoxa 
Russa. “A direita cristã europeia é um 
movimento transnacional e interconfes-
sional, unido por dois temas dominantes: 
ideias antigênero e angústias relaciona-
das à imigração. Em certa medida, esses 
dois temas podem ser vinculados a uma 
única ideia: o nacionalismo cristão bran-
co”, acrescenta a pesquisadora.
Alguns atores norte-americanos con-
tribuem ativamente para essa transfe-
rência em relação à Europa. É o caso da 
Alliance Defending Freedom (ADF), um 
influente grupo de lobby fundado por 
evangélicos conservadores, cujos ad-
vogados participaram do processo que 
revogou o direito federal ao aborto.13 Re-
produzindo sua estratégia, a ADF atua 
hoje nos tribunais europeus, principal-
mente na Corte Europeia de Direitos Hu-
manos.14 De acordo com suas declara-
ções fiscais, a organização destinou en-
tre 4 milhões e 6 milhões de euros anuais 
à sua atividade europeia nos últimos 
três anos. O American Center for Law 
and Justice, organização também muito 
poderosa nos Estados Unidos – cujo ad-
vogado principal, Jay Alan Sekulow, de-
fendeu Donald Trump –, criou uma filial 
europeia, o European Center for Law and 
Justice, sediado em Estrasburgo. Este 
último se envolveu em numerosos de-
bates políticos nas instâncias europeias, 
focando dois pilares: a “defesa da vida 
inocente e da família” e a “proteção das 
liberdades contra o islamismo”.
Essas ideias permeiam algumas orga-
nizações europeias. As ações do Euro-
pean Center for Law and Justice foram, 
por exemplo, amplamente divulgadas 
pelo Comitê Protestante Evangélico 
pela Dignidade Humana (CPDH), uma 
associação evangélica francesa de ad-
vocacia política. Seu atual presidente, 
Franck Meyer, prefeito de uma pequena 
cidade na Normandia e muito ativo ao 
lado de Le Gall na promoção do engaja-
mento político dos evangélicos, foi um 
dos porta-vozes da Manif pour Tous. Na 
França, essa convergência entre conser-
vadores se manifestou durante tal mo-
vimento. “Esses eventos despertaram 
a consciência política de milhares de 
cristãos franceses”, comemora retros-
pectivamente o “capelão” parlamentar 
do Cnef, agora reconhecendo isso como 
um “verdadeiro marcador social” para 
cristãos católicos e evangélicos.15
Além disso, essa nova conexão revela-
-se eficaz no campo midiático. “Há qua-
renta anos, havia pouquíssimos cristãos 
[na mídia], e percebemos que era uma 
esfera em que precisávamos investir”, 
confidenciou Chantal Barry ao canal de 
vídeo Regards Protestants. Essa produ-
tora evangélica cofundou em 2016, com 
Eric Célérier, criador do site evangélico 
Top Chrétien, uma nova estrutura para 
produção e distribuição de filmes, a Ze-
Watchers. Entre suas produções estão o 
reality show Bienvenue au monastère16 
e a série sobre Jesus The Chosen. Barry 
é conhecida por sua proximidade com 
Vincent Bolloré, fervoroso católico e 
acionista majoritário do grupo Bolloré, 
ao qual pertence o canal de televisão C8; 
não surpreende, portanto, que as produ-
ções da ZeWatchers tenham espaço na 
programação do canal, ao lado de outros 
conteúdos cristãos em crescimento.17
Também encontramos Barry e Célé-
rier, respectivamente, no conselho de 
administração da sociedade MLK e co-
mo pastor ocasional da igreja. Em um 
encontro em 2022, durante as eleições 
presidenciais francesas, o pastor prin-
cipal, Ivan Carluer, recebeu no palco da 
igreja a apresentadora Christine Kelly, 
da CNews (outra emissora afiliada ao 
grupo Bolloré), para uma revelação pú-
blica de sua fé. Vale lembrar que a apre-
sentadora trabalhou ao lado de Éric 
Zemmour, polemista de extrema direi-
ta e candidato nas eleições presiden-
ciais de 2022, com um programa políti-
co voltado para a defesa de uma Europa 
cristã, muito alinhado com a chamada 
“direita cristã europeia”. Ainda na MLK, 
desta vez com transmissão pela C8, 
Ivan Carluer e Dominique Rey prega-
ram juntos na Páscoa de 2024. Sacerdo-
te da Comunidade Emanuel, o bispo de 
Fréjus-Toulon é conhecido por ter con-
vidado Marion Maréchal Le Pen, então 
deputada do Front National, para suas 
universidades de verão em 2015. Domi-
nique Rey expressa preocupação com o 
islã, que considera “um perigo para 
nossa sociedade”, e exorta a um desper-
tar para “[nossa] identidade cristã”. 
Questionado sobre essas conexões, 
Carluer explica que convida personali-
dades de todos os espectros e rejeita a 
ideia de “ser instrumentalizado”.
Ainda assim, ao seu redor, agita-se 
um microcosmo cristão que o sociólogo 
Philippe Gonzalez descreve como “ori-
ginário de comunidades religiosas mi-
noritárias, mas com um viés conquista-
dor, aspirando a uma retomada 
civilizatória do controle”. “As franjas 
conservadoras cristãs são minoritárias, 
mas muito barulhentas. Na Europa, a 
solução geralmente encontrada para li-
dar com elas consiste, por meio de ferra-
mentas tradicionais de manutenção da 
ordem pública, em permitir que as li-
berdades de expressão e de religião se 
manifestem, sem que saiam do contro-
le”, observa a especialista em religiões 
contemporâneas Anne-Laure Zwilling. 
Isso será suficiente? Afinal, esses gru-
pos utilizam ferramentas de influência 
perfeitamente legais para disseminar 
sua mensagem. Nos Estados Unidos, e 
agora na Europa, eles se apresentam co-
mo defensores da liberdade de expres-
são e de religião, e até mesmo dos direi-
tos humanos – uma retórica que lhes 
permite promover um discurso social-
mente mais aceitável do que a luta, em 
nome de Deus, contra o aborto ou os di-
reitos das pessoas homossexuais.
“A democratização e a laicização fa-
vorecem o desenvolvimento desses 
grupos, permitindo-lhes engajar-se po-
liticamente, o que, por vezes, tem o 
efeito paradoxal de contribuir para a 
reintrodução, no direito, de normativi-
dades religiosas que contradizem os 
avanços democráticos e laicos”, obser-
va o pesquisador David Koussens. Uma 
confusão entre normatividades religio-
sas e civis muito evidente nos Estados 
Unidos e no Brasil, e que a França ten-
tou evitar em março de 2024 ao consti-
tucionalizar o direito ao aborto. 
*Eva Thiébaud é jornalista.
1 Ler o dossiê “Expansion de l’évangélisme, l’in-
ternationale réactionnaire” [A expansão do 
evangelismo, a internacional reacionária], Le 
Monde Diplomatique, set. 2020.
2 Cf. “Christianity in its Global Context, 1970-
2020 – Society, Religion, and Mission” [O 
cristianismo em seu contexto global, 1970-
2020 – Sociedade, religião e missão], Center 
for the Study of Global Christianity, jun. 2013.
3 Cf. “Key Findings From the Global Religious 
Futures Project” [Principais conclusões do 
projeto Futuro Religioso Global], Pew Resear-
ch Center, 21 dez. 2022.
4 Ler Lucas Drouhot, Patrick Simon e Vincent 
Tiberj, “La diversité religieuse en France: 
transmissions intergénérationnelles et prati-
ques selon les origines” [A diversidade reli-
giosa na França: transmissões intergeracio-
nais e práticas segundo as origens], Insee 
Référence, edição 2023.
5 Rapport d’activité 2021 [Relatório de ativida-
de 2021], Miviludes, 27 abr. 2023.
6 Cf. Jean-Loup Adénor e Timothée de Rauglau-
dre, Dieu est amour [Deus é amor], Flamma-
rion, Paris, 2019.
7 Cf. Sébastien Fath, Du ghetto au réseau. Le 
protestantisme évangélique en France, 1800-
2005 [Do gueto à rede. O protestantismo 
evangélico na França, 1800-2005], Labor et 
Fides,Genebra, 2005.
8 Jeanne Rey, “Reconfigurations diasporiques 
des réseaux pentecôtistes franco-suisses. En-
jeux éducatifs, économiques et sociaux” [Re-
configurações diaspóricas das redes pente-
costais franco-suíças. Desafios educacionais, 
econômicos e sociais], Les études de la Chai-
re Diasporas Africaines, n.4, 2021, https://
diaspafrique.hypotheses.org.
9 “Un pasteur évangélique condamné pour le 
détournement de plus de deux millions d’eu-
ros” [Pastor evangélico condenado pelo des-
vio de mais de 2 milhões de euros], Francein-
fo, 19 jan. 2024.
10 Stéphane Zumsteeg e Mathieu Gallard, “En-
quête auprès des protestants” [Pesquisa entre 
protestantes], Ipsos Public Affairs, out. 2017.
11 Denis Biava, “Que des chrétiens portent leurs 
voix dans le débat politique” [Que os cristãos 
expressem suas vozes no debate político], 
Cnef, 8 abr. 2023.
12 David Nadaud, “La foi donne du sens à l’en-
gagement politique” [A fé dá sentido ao en-
gajamento político], Christianisme Au-
jourd’hui, jun. 2023.
13 Alliance Defending Freedom, “What You May 
Not Know: How ADF Helped Overturn Roe v. 
Wade” [O que você pode não saber: como a 
ADF ajudou a reverter Roe v. Wade], 3 maio 
2023, https://adflegal.org.
14 Ler Pierre Jova, “Euthanasie: la CEDH con-
damne la Belgique et désavoue la commis-
sion de controle” [Eutanásia: a CEDH con-
dena a Bélgica e reprova a comissão de 
controle], La Vie, 4 out. 2022.
15 Thierry Le Gall, Un avenir, une espérance. Chro-
nique d’une aumônerie parlementaire protestan-
te évangélique [Um futuro, uma esperança. Crô-
nica de uma capelania parlamentar protestante 
evangélica], Les Éditions du Cerf, 2022.
16 Ler Bernadette Sauvaget e Adrien Franque, 
“Bienvenue au monastère sur C8, des dérives 
à la chaîne” [Bem-vindo ao mosteiro na C8, 
desvios em série], Libération, 11 jan. 2024.
17 Ler Élise Racque, “Sur CNews et C8, l’évangi-
le selon saint Vincent Bolloré” [Na CNews e 
na C8, o evangelho segundo são Vincent Bol-
loré], Télérama, 9 abr. 2024.
https://diaspafrique.hypotheses.org/
https://diaspafrique.hypotheses.org/
https://adflegal.org/
38 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024
livros
P edagogia de massas do neoconservadoris-
mo é um livro que traz três interpretações 
da racionalidade. Nessa medida, o referencial te-
órico está sob as luzes de Wilhelm Reich, Lucien 
Goldman e Paulo Freire.
A trajetória profissional e de vida de José 
Eustáquio Romão, autor do livro em questão, 
MISCELÂNEA
PEDAGOGIA 
DE MASSAS DO 
NEOCONSERVADORISMO
José Eustáquio Romão,
Caminhar
lhe dá, em grande parte, autoridade para tra-
tar, por exemplo, das epistemologias propostas 
por Paulo Freire e de tantos outros pensadores 
colocados por ele nessa obra que atualiza, de 
forma fundamentada, as raízes mais profundas 
e muitas vezes encobertas que sustentam ten-
dências neofascistas, a exploração sem prece-
dentes do capitalismo e as ameaças que reco-
brem a democracia.
Ao colocar Paulo Freire em discussão, ele es-
clarece, por exemplo, quais seriam as reais con-
tribuições do grande pensador brasileiro que, na 
maioria das vezes, são deturpadas, não somente 
em aspectos conceituais. Também faz reflexões 
com base no pensamento de Goldman e Reich à 
luz da contemporaneidade. 
O autor chama a atenção, inclusive, para a ma-
nipulação das mídias e das redes sociais sob o 
comando silencioso dos poderes estabelecidos, 
e para o quanto elas têm contribuído para obs-
curecer e confundir as informações e os conteú-
dos de maneira a exercer com mais plenitude 
suas reais intenções, ou seja, convencer sutil-
mente de que servidão, submissão e aceitação 
passivo-massiva são processos naturais com os 
quais devemos conviver. 
[Ana Maria Haddad Baptista] Tem pós-dou-
toramento em História da Ciência pela Uni-
versidade de Lisboa e pela PUC-SP, onde se 
aposentou, além de mestrado e doutorado em 
Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Tem 
vasta experiência no magistério do ensino su-
perior e diversas publicações no Brasil e no ex-
terior. Atualmente trabalha como pesquisadora 
e professora nos programas de pós-graduação 
stricto sensu em Educação da Universidade 
Nove de Julho.
Penso que toda escrita ficcional carrega al-
gum elemento que denuncia o ponto de vista 
do autor. Sua forma de enxergar o mundo, suas 
relações interpessoais e a maneira como desem-
penha seu papel na sociedade. Mesmo que o per-
sonagem seja um componente totalmente diver-
gente do autor, para sua construção é necessário 
A FINITUDE 
DAS COISAS
Nélio Silzantov,
Patuá
que este o crie de acordo com sua compreensão 
das diversas nuances inerentes ao indivíduo e à 
dinâmica social em que ele vive.
Em A finitude das coisas, o escritor Nélio 
Silzantov esbanja habilidade na construção de 
personagens que atuam em determinado tem-
po/espaço (neste caso, na Vitória da Conquista 
dos anos 1990). 
Guiados por uma narradora feminina, os leitores 
conhecerão a vida de um grupo de amigos que 
testam todos os limites de sua juventude, embala-
dos por sexo, drogas e rock and roll e o ímpeto de 
uma geração que ainda vivenciava os conceitos 
de liberdade e rebeldia, atrelados às suas condi-
ções sociais e familiares. 
Mais do que a história de um grupo de jovens, 
Nélio vasculha o mais profundo sentimento de 
cada personagem. Reflete sobre a condição hu-
mana e seus fenômenos mentais e psicológicos. 
Ciente de suas histórias, o leitor não sairá 
imune às observações filosóficas e sociais tão 
bem elaboradas pelo autor, que utiliza seu co-
nhecimento em filosofia e sua expertise para 
destrinchar todas as peças que constituem o 
ser humano físico e anímico. 
[Rosana Vinguenbah] Paulista radicada em 
Minas Gerais desde a infância, é bióloga e atua 
como funcionária pública administrativa. Autora 
do romance Sopa de pedras (Penalux, 2018) e 
da coletânea de contos Relatos insignificantes de 
vidas anônimas (Caos e Letras, 2021), participou 
da coletânea de contos Retratos de uma vida em 
quarentena (Dublinense/Elefante, 2020) e ven-
ceu o Concurso Literário Pintura das Palavras 
com o conto “Baixo Augusta”. Mantém o perfil @
rosana_vinguenbah no Instagram, onde fala sobre 
literatura nacional contemporânea.
No romance, embora a voz narrativa pertença 
a Catarina, a maior protagonista da história é 
a ausência. É a partir dela que o romance se des-
dobra e nos convida para acompanhar a evolução 
da narradora. Enquanto lia, fui arremessada para 
os Fragmentos de um discurso amoroso, de Bar-
thes. Ao escrever sobre a ausência, ele concluiu 
TODO MUNDO TEM 
MÃE, CATARINA
Carla Guerson,
Reformatório
ser esta uma via de mão única, já que só pode ser 
dita por aquele que foi abandonado. Na história, 
a protagonista, aos 5 anos, sofre a epifania de 
não ter mãe e, a partir desse evento, a busca pela 
genitora se torna sua força motriz. No entanto, 
em vários momentos, Catarina suporta bem o 
abandono, até para não sucumbir à tristeza ou 
à loucura. A menina se afasta de suas perturba-
ções e experimenta dias de gerúndio: estudando, 
conversando, namorando, descobrindo-se... Ou 
seja, como na teoria winnicottiana, a narradora 
age feito um sujeito bem desmamado, sabendo 
se nutrir de outras realidades.
Assim, Susana, a mãe-genitora de Catarina, 
vai se transformando em personagem alocutária, 
um eu duplo da filha, uma manobra perspicaz da 
garota para sustentar sua angústia de separação, 
a qual triunfa por recuperar a presença da mãe 
duas vezes: ao se queixar de sua partida e quan-
do se dirige a ela, numa cristalina manipulação 
de sentimentos que deságua em movimentos de 
vaivém de memórias. Com essa estratégia, Car-
la Guerson surge abrindo “o palco da linguagem”, 
pois, como bem descreve Barthes sobre o aban-
dono, “a linguagem nasce da ausência: a criança 
faz um carretel, que ela lança e retoma, simulando 
a partida e a volta da mãe, criando um paradigma”.
Por tudo isso, penso ser esse romance re-
volucionário ao nos oferecer uma história cuja 
protagonista não está em busca de abrigo na 
figuramasculina, mas em suas ancestrais e, 
sobretudo, em si mesma. É revolucionário es-
pecialmente por enxergar seu homem apenas 
como objeto de desejo e nunca como salvação. 
Catarina, assim, converte-se na prova de que, 
na contemporaneidade, não há mais espaço 
para personagens submissas. 
[Myriam Scotti] Escritora, crítica literária e 
mestre em Literatura pela PUC-SP. Seu roman-
ce Terra úmida foi vencedor do Prêmio Literário 
de Manaus 2020.
39DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil
SUMÁRIO
Capa: © Rômolo D’Hipólito
CANAL DIRETO
Capa 
Que capa lindaaaaaaaaaa!
Mayara Gomes, via Instagram
Fabuloso!
Daniel Angelim, via Instagram 
EUA financiam todas as guerras do mundo. 
É o poder colonizador.
Camila de Souza, via Instagram 
“Bloqueia meu marido, isso 
está acabando com nossa vida”
Eu repostei essa matéria e vieram conhecidos de 
longa data (aqueles que me seguem só para ver 
como que anda o amigo das antigas) falando que 
é pior que usar droga, que é realmente algo que 
precisa de muito cuidado. Eu não fazia ideia. 
Lukão, via Instagram 
Resquícios do governo Temer.
Simone Valente, via Instagram 
Falta senso crítico e sobra 
subserviência na cobertura de Gaza
Quase duzentos jornalistas assassinados por Israel.
Fátima, via Instagram
Falta mesmo é vergonha na cara de 
imprensa defensora de genocídio.
Fagner, via Instagram 
O continente branco, um laboratório para a paz 
A Antártida pode ser, de fato, um laboratório para 
a paz. Sobretudo na medida em que não apresenta 
o único e principal fator da guerra: gente.
Romulo Cristaldo, via Instagram
02 O esfregão europeu 
Por Benoît Bréville
03 Editorial 
Os militares não estão sozinhos 
Por Silvio Caccia Bava
04 Capa 
A crise não refluiu 
Por Luis Felipe Miguel
A impossível democracia de mercado 
Por Nancy Fraser
A luta do igualitarismo por um lugar no futuro 
Por Sávio Cavalcante
Desenvolvimento ou barbárie 
Por Ricardo L. C. Amorim
12 Eleições nos Estados Unidos 
Um mandato poderoso e sem precedentes? 
Por Jerome Karabel
E Trump teve sua vingança 
Por Serge Halimi
16 Uma força multinacional sob 
controle norte-americano 
O Quênia no atoleiro haitiano 
Por Benjamin Fernandez
18 A justiça pode legitimamente proibir candidaturas? 
O governo dos juízes: mito e realidades 
Por Vincent Sizaire
20 Dossiê especial – mundo do trabalho 
Tudo o que nos separa 
Por Grégory Rzepski
Um sentido para o trabalho, mas qual? 
Por Danièle Linhart
Impunidade patronal 
Por Alexia Eychenne
O silêncio das fábricas 
Por Paolo Valenti
Para além da desigualdade entre homens e mulheres 
Por Hélène Richard
Coaches e a fé dos reconvertidos 
Por Anne Jourdain
29 Como livrar uma monocultura 
das mãos do setor privado? 
Ameaças ao arroz vietnamita 
Por Maïlys Khider, enviada especial
32 México 
O balanço contraditório de 
um presidente popular 
Por Anne Vigna
Claudia Sheinbaum, construir uma vitória 
Por Hélène Combes
35 Templos, pastores, missionários 
e o dinheiro do dízimo 
Evangélicos na França, crônica 
de uma ascensão política 
Por Eva Thiébaud
38 Miscelânea
DIRETORIA
Diretor da edição brasileira e editor-chefe
Silvio Caccia Bava 
Conselho dos Amigos do Diplô
Fabiano Machado Rosa, Marcos Perez, Pedro Serrano, 
Rafael Valim, Rubens Naves e Walfrido Warde
Diretores
Anna Luiza Salles Souto, Jorge Romano, Maria Eliza-
beth Grimberg e Rubens Naves e Vera da Silva Telles
Editor
Luís Brasilino
Editor de Arte
Cesar Habert Paciornik
Editora web 
Carolina Azevedo
Estágio em Jornalismo 
Maíra Oliveira Graça
Estágio em Design 
Nanna Tariki
 
Revisão
Lara Milani e Maitê Ribeiro
Gestão Administrativa e Financeira
Lúcia Benito da Silva Ricco
Conselho Editorial
Adauto Novaes, Amâncio Friaça, Anna Luiza Salles 
Souto, Ariovaldo Ramos, Betty Mindlin, Claudius 
Ceccon, Eduardo Fagnani, Heródoto Barbeiro,
Igor Fuser, Ivan Giannini, Jacques Pena,
Jorge Eduardo S. Durão, Jorge Romano,
José Luis Goldfarb, Ladislau Dowbor,
Maria Elizabeth Grimberg, Nabil Bonduki, 
Raquel Rolnik, Ricardo Musse, Rubens Naves, 
Sebastião Salgado, Tania Bacelar de Araújo 
e Vera da Silva Telles.
Assessoria Jurídica 
Rubens Naves, Santos Jr. Advogados
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da associação Palavra Livre.
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Tietê - SP, CEP. 18.539-000
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Redator-Chefe
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com 31 edições internacionais em 22 línguas: 
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LE MONDE
BRASIL
Ano 17 – Número 209 – Dezembro 2024
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ISSN: 1981-7525
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Futuros
	Capa
	O esfregão europeu
	Economia e política
	Impunidade patronal
	Diplomacia
	MISCELÂNEA
	SUMÁRIOmais, vai trabalhar para colocar 
panos quentes.
“RECOLOCAR O POVO 
NO ORÇAMENTO”
O fato é que, mesmo com o desvelamen-
to inequívoco da conspiração antide-
mocrática, que em tese deveria dar mar-
gem para colocar a extrema direita em 
apuros, quem permanece na defensiva 
é o governo. E essas dificuldades de en-
frentamento do golpismo e da questão 
militar não são estranhas ao outro eixo 
em que o governo patina para tomar 
rumo: as políticas sociais.
Lula foi eleito com base na memória 
dos ganhos dos mandatos anteriores e 
na promessa de “recolocar o povo no or-
çamento”, como dizia sua propaganda. 
Ainda que, por vezes, o cálculo político 
tenha impedido a implementação a fer-
ro e fogo das políticas de Paulo Guedes, o 
resultado do quadriênio de Jair Bolsona-
ro foi claramente desastroso para a gran-
de maioria da população, revelando o 
saldo de um governo que agia de manei-
ra quase indisfarçada em favor dos mais 
ricos. A tarefa de Lula era tanto recompor 
a capacidade de ação do Estado, delibe-
radamente sucateada por seu antecessor, 
como retomar as políticas sociais.
No entanto, apesar de inegáveis ganhos 
pontuais, o governo parece emparedado, 
por um lado, pelo capital, por outro, pela 
elite política predatória, que se assenhora 
de uma parcela cada vez maior do orça-
mento público federal. Entre os reclamos 
por “austeridade” e “equilíbrio fiscal”, por 
um lado, e a primazia das emendas parla-
mentares, por outro, sobra pouco espaço 
para o investimento necessário.
De maneira pouco surpreendente, 
mas nem por isso menos nociva, Lula 
optou por colocar a economia nas 
mãos de alguém disposto a se dobrar 
à ortodoxia do “mercado”, ainda que à 
custa do sacrifício de trabalhadores e 
pensionistas.
Ao presidente da República, parece ca-
ber apenas a tarefa de verbalizar compro-
missos com sua base social, na forma de 
frases de efeito sobre prioridades no com-
bate à pobreza e na promoção de “opor-
tunidades” para todos – declarações logo 
desmentidas por sua equipe econômica, 
assim que o “mercado” se faz ouvir pelo 
Governo parece empare-
dado, por um lado, pelo 
capital e, por outro, pela 
elite política predatória
vada a cabo pela parceria entre as big 
techs e a extrema direita, com destaque 
para os religiosos fundamentalistas as-
sociados ao bolsonarismo, encerrou a 
iniciativa.
A derrota é grave porque obriga o 
campo democrático a lutar em um ter-
reno eivado de irracionalidade, deba-
tendo-se com pautas estapafúrdias que 
bloqueiam a discussão das temáticas re-
levantes. E a alternativa de mimetizar as 
táticas da extrema direita, defendida por 
alguns em nome do pragmatismo, não 
apenas é pouco promissora (já que a di-
reita tem mais facilidade para mobilizar 
os preconceitos e ativar o pânico moral), 
como também significa abandonar de 
vez qualquer esperança de construção 
de uma ordem democrática.
“COMPROMETIDOS 
COM A DEMOCRACIA”
O segundo obstáculo diz respeito à 
questão militar, em relação à qual Lula 
adotou, novamente, uma posição de ex-
trema prudência (ou pusilanimidade, se 
for para adotar uma terminologia mais 
crítica). A despeito de todas as evidên-
cias em contrário, o discurso oficial é 
de que os militares são “comprometidos 
com a democracia” – com uma ou outra 
exceção, vá lá, mas que seriam no máxi-
mo as proverbiais maçãs podres.
Serve de exemplo uma declaração 
de Carlos Siqueira, presidente do PSB 
(o partido do vice-presidente da Repú-
blica), após a divulgação da listagem 
dos indiciados pela Polícia Federal. A 
participação de generais na trama gol-
pista, disse ele, “não condiz com a tra-
dição de nossas Forças Armadas, que 
certamente, suponho, não estavam 
de acordo com atos criminosos dessa 
natureza”. Seria cômico, se não fosse a 
gravidade da situação.
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6 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024
A democracia vai mal. A culpa seria das instituições, das redes sociais, do individualismo. Da “radicalidade dos extremos” 
ou, ainda, da impotência diante da violência econômica, que precisaria ser amenizada. No entanto, o capitalismo só é 
possível graças à separação entre o econômico e o político, o que o torna fundamentalmente antidemocrático 
POR NANCY FRASER*
QUANDO O DISCURSO SOBRE AS CRISES OCULTA AS FALHAS DO SISTEMA
A 
crise de hoje não se origina exclu-
sivamente na esfera política. Não 
será superada por meio da reno-
vação do sentimento cívico, do 
cultivo ao bipartidarismo, do fortaleci-
mento do “éthos democrático”, da revi-
talização do “poder constituinte” ou da 
libertação do poder do “agonismo” 
[transformação de relações antagôni-
cas em agônicas, substituindo a ideia 
de inimigos pela de adversários]. Nem 
autônomos nem meramente setoriais, 
os males democráticos atuais represen-
tam o aspecto especificamente político 
da crise generalizada que devora todo o 
nosso ordenamento social. Sua origem 
reside nos próprios fundamentos dessa 
ordem – em suas estruturas institucio-
nais e dinâmicas constitutivas. Só po-
dem ser compreendidos dentro de uma 
visão crítica da totalidade social, fre-
quentemente identificada como neoli-
beralismo, não sem razão. Contudo, é 
essencial situar o neoliberalismo como 
uma variante do capitalismo: e toda 
forma de capitalismo está sujeita a cri-
ses políticas e é hostil à democracia, da-
do que contém uma contradição intrín-
seca que a predispõe a isso.
Longe de ser uma anomalia, a crise 
atual é a forma que essa contradição 
assumiu. Reduzir o capitalismo a um 
sistema econômico, e a crise capitalista 
a disfunções econômicas, significa igno-
rar outras contradições e as crises que 
delas resultam: quando os imperativos 
econômicos entram em conflito com 
as condições não econômicas estrutu-
rais, cuja manutenção é essencial para 
a continuidade da acumulação. Essas 
condições são diversas. No entanto, a 
contradição que pode ser considerada a 
origem da crise democrática atual – es-
treitamente ligada a outros impasses do 
sistema – envolve os poderes públicos. 
Sua manutenção é uma condição para a 
acumulação contínua do capital; contu-
do, o capital tende a desestabilizar esses 
mesmos poderes dos quais depende.
A acumulação é inconcebível sem um 
marco jurídico que proteja a proprie-
dade privada e as transações de mer-
cado. Ela depende, em grande medida, 
dos poderes públicos para assegurar 
os direitos de propriedade, fazer valer 
os contratos e resolver disputas; para 
reprimir rebeliões, manter a ordem e 
gerir conflitos; para sustentar os regi-
mes monetários; para adotar medidas 
que previnam ou administrem crises; e, 
finalmente, para codificar e aplicar hie-
rarquias de status, como as que distin-
guem cidadãos de “estrangeiros”.
São os sistemas jurídicos que criaram 
espaços aparentemente despolitiza-
dos, nos quais atores privados podem 
perseguir seus interesses “econômicos” 
sem interferência “política”. Da mesma 
forma, são os Estados territoriais que 
mobilizaram a “força legítima” para re-
primir a resistência às expropriações 
(notadamente coloniais), por meio das 
quais as relações de propriedade capita-
listas foram estabelecidas e preservadas. 
Depois de constituírem a economia ca-
pitalista, esses poderes políticos toma-
ram medidas para ampliar a capacidade 
do capital de acumular lucros. Cons-
truíram e mantiveram infraestruturas, 
corrigiram “falhas de mercado”, orienta-
ram o desenvolvimento, impulsionaram 
a reprodução social, atenuaram crises 
econômicas e administraram os impac-
tos políticos decorrentes.
O espaço mais amplo no qual esses 
Estados se inserem foi organizado para 
facilitar a circulação do capital: não 
apenas com o apoio do poderio militar, 
mas também por meio de dispositivos 
políticos transnacionais como o direito 
internacional, regimes supranacionais 
e acordos negociados entre grandes 
potências, que pacificam, em maior ou 
menor grau (mas sempre em favor do 
capital), um espaço mundial por vezes 
percebido como em estado de natureza. 
Essencial ao seu funcionamento, o po-
der político é parte integrante daordem 
social institucionalizada que é o capita-
lismo. Contudo, sua manutenção está 
em constante tensão com o imperativo 
de acumulação do capital.
É preciso buscar a causa disso na to-
pografia institucional própria do capi-
talismo, que separa o “econômico” do 
“político”. Cada um é atribuído a uma 
esfera distinta, com seu aparato e mo-
dus operandi específicos. O poder de 
organizar a produção é privatizado e 
confiado ao capital. A tarefa de governar 
as ordens “não econômicas” – incluindo 
aquelas que fornecem as condições ex-
ternas para a acumulação – recai sobre 
o poder público, que deve utilizar os 
meios “políticos” da lei. No capitalismo, 
o econômico é, portanto, não político, e 
o político, não econômico.
A GOVERNANÇA SEM GOVERNO
Essa separação, ao submeter vastos as-
pectos da vida social à “lei do mercado” 
(isto é, às grandes empresas), nos priva 
da capacidade de decidir coletivamen-
te o que queremos produzir e em que 
quantidade, com base em qual princí-
pio energético e segundo quais modos 
de relações sociais. Também nos priva 
dos meios para decidir o destino do ex-
cedente social produzido coletivamen-
te, a relação que desejamos estabelecer 
com a natureza e as gerações futuras, a 
organização do trabalho de reprodu-
ção social e sua relação com a produ-
ção. Em razão de sua própria estrutura, 
o capitalismo é, portanto, fundamen-
talmente antidemocrático.
Ora, o capital, por natureza, tenta 
atuar em duas frentes. Por um lado, de-
pende dos poderes públicos, aprovei-
tando-se dos regimes jurídicos, das for-
ças repressivas, das infraestruturas e 
dos órgãos reguladores. Por outro, a 
busca pelo lucro frequentemente leva 
certos segmentos da classe capitalista a 
se rebelarem contra o Estado, acusados 
de serem inferiores em relação aos 
mercados, e a tentarem enfraquecê-lo. 
Nesses casos, quando os interesses de 
curto prazo prevalecem sobre a sobre-
vivência a longo prazo, o capital amea-
ça destruir as próprias condições polí-
ticas de sua existência.
Essa contradição constitui uma ten-
dência às crises que não está “dentro” 
da economia, mas na fronteira que si-
multaneamente separa e conecta a 
economia e a governança. Inerente ao 
capitalismo em si, essa contradição de 
“interregnos” leva todas as formas de 
sociedade capitalista a crises políticas. 
Convém esclarecer: não existe socieda-
de capitalista “em si”; o capitalismo só 
existiu em modos ou regimes de acu-
mulação historicamente situados. E, 
longe de ser fixa, a divisão constitutiva 
entre o “econômico” e o “político” pode 
sempre ser contestada e modificada. É 
sobretudo em tempos de crise que essa 
fronteira cristaliza os conflitos entre 
atores sociais – os quais às vezes conse-
guem alterar seus contornos.
Assim, ao longo do século XX, o capi-
talismo gerido pelo Estado, que sucedeu 
ao regime de laissez-faire, utilizou o po-
der público para conter ou desacelerar a 
crise. Com base no sistema de controle 
de capitais instituído em 1945 sob hege-
monia norte-americana pelos Acordos 
de Bretton Woods, os Estados, em geral, 
disciplinaram o capital para seu pró-
prio bem e ampliaram o escopo da ação 
política, domesticando-a com medidas 
que integraram camadas potencial-
mente revolucionárias, revalorizando 
sua cidadania e envolvendo-as no siste-
ma. A estabilidade foi assim restaurada 
por várias décadas, mas o aumento dos 
salários e a generalização dos ganhos de 
produtividade na indústria manufatu-
reira dos países centrais levaram o capi-
tal a redobrar os esforços para libertar o 
mercado da regulação política.
Ao mesmo tempo, uma nova esquer-
da denunciava, em escala mundial, as 
opressões, exclusões e predações sobre 
as quais todo o edifício se sustentava. 
Seguiu-se uma longa crise, durante a 
qual esse dispositivo foi gradualmente 
substituído pelo regime atual do capi-
talismo financeirizado.
Esse regime remodelou a relação no-
vamente. Os bancos centrais e as insti-
tuições financeiras mundiais substituí-
ram os Estados no papel de árbitros de 
uma economia cada vez mais globaliza-
da. São eles que agora ditam a maior 
parte das principais regras que regulam 
as relações entre trabalho e capital, ci-
dadãos e Estados, centro e periferia e – 
ponto crucial – entre devedores e credo-
res. O regime anterior permitia aos 
Estados subordinar os interesses de cur-
A impossível democracia 
de mercado
7DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil
to prazo das empresas privadas ao obje-
tivo de longo prazo de uma acumulação 
sustentada. Em contrapartida, o regime 
atual permite que o capital financeiro 
imponha restrições aos Estados e aos ci-
dadãos em benefício imediato dos in-
vestidores privados. Um duplo golpe: de 
um lado, as instituições estatais que (em 
certa medida) atendiam aos cidadãos 
estão cada vez menos aptas a responder 
às suas necessidades; de outro, os ban-
cos centrais e as instituições financeiras 
mundiais são “politicamente indepen-
dentes” – livres para agir em benefício 
dos investidores e credores. O capitalis-
mo financeirizado é a era da “governan-
ça sem governo” – a era da dominação 
sem a fachada do consentimento.
Isso teve como principal efeito es-
vaziar, em todos os níveis, o poder do 
Estado de sua substância. Questões an-
tes consideradas como pertencentes à 
ação política democrática tornaram-se 
agora “áreas reservadas” confiadas aos 
“mercados”. Os auxiliares do capital não 
hesitam em atacar o poder dos Estados 
ou as forças políticas que possam desa-
fiá-lo, anulando, por exemplo, eleições 
ou referendos que rejeitem a austerida-
de, como ocorreu na Grécia em 2015. O 
famoso “déficit democrático” é, na ver-
dade, parte integrante da crise genera-
lizada do capitalismo financeirizado. E, 
como toda crise generalizada, ela tem 
uma dimensão hegemônica. Nenhum 
bloqueio nos circuitos de acumulação 
ou no sistema de governança merece o 
termo “crise” em seu sentido pleno. Ape-
nas quando membros da sociedade per-
cebem que as graves dificuldades que 
enfrentam ocorrem não apesar, mas por 
causa da ordem estabelecida; apenas 
quando uma massa crítica decide que 
essa ordem pode e deve ser transfor-
mada pela ação coletiva; apenas quan-
do um impasse objetivo ganha uma voz 
subjetiva; só então se pode falar de “cri-
se” no sentido de um “grande ponto de 
virada histórica” que exige decisão.
Essa é a situação atual. As disfunções 
políticas do capitalismo financeirizado 
não são mais “simplesmente” objetivas; 
elas encontraram um correlato subjetivo. 
Em muitas partes do mundo, populistas 
de direita conseguiram atrair eleitores 
da classe trabalhadora pertencentes à 
maioria ao prometerem “retomar” seus 
países do capital global, dos imigrantes 
“invasores” e das minorias étnicas ou 
religiosas. Sua contraparte de esquerda 
obteve avanços significativos na socie-
dade civil ao lutar pelos “99%” e contra 
um sistema “manipulado” que favorece 
a “classe dos bilionários”. O surgimento 
dessa dupla onda populista marcou uma 
transformação importante. Com o senso 
comum neoliberal colocado em xeque, 
o campo da reflexão política se expan-
diu. Entramos em uma nova fase: de um 
“simples” agregado de impasses sistêmi-
cos passamos a uma verdadeira crise de 
hegemonia, caracterizada por um con-
flito aberto sobre a fronteira atual entre 
economia e governança. Assim, a ideia 
de que o planejamento é muito inferior 
aos mercados competitivos já não é mais 
uma certeza. Esse movimento ganhou 
força com a pandemia de Covid-19, que 
demonstrou a necessidade do poder pú-
blico. Se vivêssemos em um mundo ra-
cional, o neoliberalismo já seria apenas 
uma lembrança.
UM VERNIZ DE EMANCIPAÇÃO
Todavia, vivemos em um mundo capita-
lista, por definição corroído pelo irracio-
nal. Não se pode, portanto, esperar que 
a crise atual seja resolvida rapidamente 
ou sem turbulências. Os populistas de 
direita não têm soluções a oferecer aos 
problemas de seus apoiadores; coloca-
dos em evidência, são meros fantoches 
daqueles que criaram esses problemas 
e que permanecemnos bastidores. Isso 
pode durar enquanto ninguém puxa as 
cortinas para revelar a farsa. E é precisa-
mente isso que a oposição progressista 
não conseguiu fazer. Longe de desmas-
carar as forças por trás das cortinas, os 
setores dominantes da “resistência” es-
tão comprometidos com elas há muito 
tempo. Nos Estados Unidos, por exem-
plo, isso se aplica às alas liberal-meri-
tocráticas de movimentos sociais que 
defendem o feminismo, o antirracismo, 
os direitos da comunidade LGBTQ (lés-
bicas, gays, bissexuais, trans e queer) e a 
ecologia. Sob a hegemonia liberal, esses 
movimentos foram, durante anos, ato-
res secundários em um bloco neoliberal 
progressista que incluía também ramos 
“visionários” do capital global (tecnolo-
gia, finanças, mídia, entretenimento).
Os progressistas também serviram 
como fantoches, mas de outra maneira: 
aplicando um verniz de emancipação à 
economia política predatória do neoli-
beralismo. Essa aliança artificial associou 
tão profundamente o feminismo, o antir-
racismo e outros movimentos ao neolibe-
ralismo que muitas pessoas acabaram re-
jeitando os primeiros junto com o segun-
do. É por isso que o principal beneficiário 
dessa conjuntura, pelo menos até agora, 
tem sido o populismo reacionário de di-
reita. Uma disputa simulada entre dois 
grupos de marionetes – um retrógrado, 
outro progressista – enquanto, por trás 
das cortinas, os poderosos prosperam.
Ainda assim, crises como esta repre-
sentam momentos decisivos em que a 
possibilidade de agir sobre a própria for-
ma da vida social está ao nosso alcance. 
Surge, então, uma questão: quem guiará 
o processo de transformação social, em 
benefício de quem e com quais obje-
tivos? Esse processo foi iniciado várias 
vezes no passado – e beneficiou princi-
palmente o capital. Isso vai se repetir? Se 
nos limitarmos às lições de moral, igno-
rando alegremente as preocupações dos 
“deploráveis” – como Hillary Clinton os 
chamou em 2016 –, sem reconhecer suas 
queixas legítimas (por mais equivoca-
das que sejam), perderemos a luta pela 
construção de uma contra-hegemonia. 
Devemos nos colocar o desafio de apon-
tar o verdadeiro culpado e desmantelar 
a ordem disfuncional e antidemocrática 
que é o capitalismo. 
*Nancy Fraser é filósofa, autora da obra Le 
capitalisme est un cannibalisme, que será 
publicada na França pelas edições Agone 
(Marselha) em 15 de janeiro de 2025 e com 
base na qual este artigo foi composto.
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A crise democrática atual está intrinsecamente ligada à natureza antidemocrática do capitalismo. E o neoliberalismo é visto como uma faceta desse sistema econômico
8 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024
A luta do igualitarismo 
por um lugar no futuro
As análises no campo das esquerdas têm se dividido entre duas grandes: a primeira prioriza a 
correlação de forças negativa; a segunda enfatiza a ausência de um programa econômico 
antineoliberal. É cômodo dizer que a verdade está em um meio-termo. Contudo, deve-se ir além 
e recusar a simplificação apriorística de uma oposição entre “fazer concessões” e “radicalizar” 
POR SÁVIO CAVALCANTE*
POLITIZAR O DEBATE SOBRE AS CONDIÇÕES MATERIAIS DE VIDA
E
m artigo publicado há pouco mais 
de um ano,1 argumentei que a 
ideologia neoliberal atualizou, 
com êxito inegável, as três inva-
riáveis da retórica da reação, tal como 
exposto por A. O. Hirschman. Em resu-
mo: qualquer ideia de mudança basea-
da em valores igualitaristas é ineficaz 
ou pior à vida material da maioria da 
sociedade. Dito de outro modo, tudo o 
que atende prioritariamente aos inte-
resses das classes e grupos dominantes 
seria, com o tempo, melhor para os do-
minados e oprimidos. 
O texto terminava assim: “o novo go-
verno petista tem, à sua frente, o desa-
fio histórico, e decisivo, de renovar a 
esquerda igualitarista, interditando não 
apenas a resposta neofascista, mas tam-
bém a versão neoliberal [do anti-igua-
litarismo] que impede, em seu interior, 
a superação desse impasse”. Prestes a 
chegarmos à metade do Lula-3 e após 
os resultados das urnas nas eleições mu-
nicipais, a avaliação geral até aqui está 
longe de ser otimista.
As análises no campo das esquerdas 
têm, no geral, se dividido entre duas 
grandes linhas: a primeira prioriza a cor-
relação de forças negativa (governo de 
frente ampla, Congresso hostil, antipe-
tismo ainda forte no eleitor médio etc.); 
a segunda enfatiza a ausência de um 
programa econômico antineoliberal, 
de uma ideologia igualitarista renovada 
e de uma identidade político-eleitoral 
própria. É tentador, porquanto cômodo, 
dizer que a verdade está em um meio-
-termo e todos têm razão em alguma 
medida. Repisar os termos desse impas-
se, contudo, ajuda pouco.
Vejamos, por exemplo, as controvér-
sias sobre o arcabouço fiscal e as medi-
das de austeridade. Por um lado, embo-
ra explicite em suas entrevistas a crise 
global do neoliberalismo e os perigos da 
distopia da extrema direita neofascista, 
Fernando Haddad e seus planos não 
escapam da lógica de que é preciso ga-
rantir austeridade e sinalizar confiança 
aos mercados para gerar crescimento e 
estabilidade. Os críticos à esquerda, por 
outro lado, embora apresentem boas 
ideias para o combate do modelo neo-
liberal, não podem assegurar que, no 
atual contexto, uma inflexão profunda 
na economia possa gerar efeitos positi-
vos a curto prazo ou, mais importante 
ainda, se ela teria uma base social de 
apoio coesa, nas classes dominante e 
dominada, para sustentar politicamente 
um modelo alternativo.
Do mesmo modo, embora exista con-
senso sobre as eleições de 2024 no sen-
tido de que há uma preservação da for-
ça da extrema direita e, mais ainda, da 
direita tradicional, não há, a rigor, como 
decretar taxativamente que os resulta-
dos seriam melhores para a esquerda se 
suas candidaturas tivessem um progra-
ma mais coerente ou se disputassem a 
revolta antissistêmica; um sentimento, 
até aqui, confiscado pelo bolsonarismo. 
O contexto recoloca, o que é com-
preensível, debates longos no campo 
das esquerdas sobre partido, estratégia 
e programa. É preciso, contudo, ir além 
e recusar a simplificação apriorística de 
uma oposição entre “fazer concessões” 
e “radicalizar”. Problemas de fundo e 
desafios urgentes do presente deixam 
de ser pensados.
***
Há dez anos tenho como objeto de 
pesquisa os agentes que fizeram circular 
ideias anti-igualitárias, como as classes 
médias desempenharam um papel po-
lítico decisivo para a ascensão de novas 
direitas e como, a partir de Bolsonaro, o 
campo das direitas na cena política na-
cional foi hegemonizado por uma extre-
ma direita com ideias e movimentos de 
massa de tipo neofascista.
Sem ignorar que é grande a lista de 
políticas e escolhas feitas pelos gover-
nos do PT às quais podem ser atribuí-
das responsabilidades, diretas ou indi-
retas, pela guinada à direita, entendo 
que, para os desafios do presente, há 
uma dimensão incontornável desse 
processo, independentemente, até cer-
to ponto, das causas: 1) depois da crise 
de 2014-2016, apenas a extrema direita 
logrou formar um movimento de mas-
sa ideologicamente coeso, mobilizado 
de modo permanente (não apenas em 
contextos eleitorais) nas redes e nas 
ruas, e com ideias aparentemente imu-
nes a choques de realidade; e 2) Lula, 
mais até do que o PT, foi a único agente 
no campo das esquerdas que se mos-
trou capaz de sobreviver à reação anti-
-igualitarista das direitas, manter bases 
sociais orgânicas de apoio e preservar a 
relevância eleitoral nacional, especial-
mente entre os mais pobres. 
Constatar esses fatos da cena política 
não pode ser tomado, como muitos o 
fazem, como salvo-conduto a Lula e seu 
governo. Se no passado, quando a extre-
ma direita ainda não havia hegemoniza-
do a direita na cena política, o reformis-
mo fraco lulista teve um desfecho nega-
tivo, esperar um resultado muito dife-
rente ao insistir em dar um verniz social 
ao modelo neoliberal, em um contexto 
em que o neofascismo tem enraizamen-to social muito maior, é uma aposta ar-
riscada e pouco promissora, para dizer 
o mínimo. Contudo, a preservação ou a 
renovação da esquerda, para não dizer a 
própria manutenção do regime demo-
crático, ainda dependem de Lula e do 
sucesso de seu terceiro mandato. 
Esse impasse talvez explique os traços 
mais polarizados da disputa interna às 
esquerdas: de um lado, o fatalismo ex-
presso na ideia de “morte da esquerda” 
ou o pessimismo resignado de intelec-
tuais ante o horizonte catastrófico; de 
outro, uma confiança, em alguns quase 
messiânica, na capacidade política de 
Lula e sua equipe em encontrar uma 
saída. Sem nenhuma pretensão de su-
gerir uma solução, penso ser importan-
te, pelo menos, pensar em caminhos 
que possam, ao mesmo tempo, renovar 
ideias igualitaristas e ser eleitoralmente 
viáveis na cena política. Discuto, nesse 
sentido, uma lição importante vinda das 
eleições municipais em São Paulo.
***
Muitas análises sobre os resultados 
eleitorais recentes os tomam como pro-
© Lucas Brandon/Wikimedia
A ascensão da extrema direita no Brasil traz grandes desafios para a esquerda
9DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil
va do fracasso de candidaturas de es-
querda em promover uma guinada ao 
centro em termos de ideias, discurso e 
alianças. A derrota de Guilherme Boulos 
para Ricardo Nunes em São Paulo é vista 
como o maior exemplo do equívoco es-
tratégico em se afastar de um discurso 
mais radical e de programas próprios da 
identidade de esquerda. O êxito inespe-
rado de Pablo Marçal em se valer do ra-
dicalismo é tomado como prova da ne-
cessidade, à esquerda, de oferecer uma 
saída antissistêmica. Nessa linha de 
análise, outro sintoma ressaltado é que, 
sem um discurso e um programa mais 
radicais, há uma perda de engajamento 
da militância de esquerda, cujo efeito é a 
falta de mobilização na disputa eleitoral. 
O problema maior dessas análises 
para a campanha de Boulos – e, por ex-
tensão, para o governo Lula – não é a 
crítica, necessária, à resignação quanto 
à correlação de forças, e sim o fato de 
ignorarem o efeito real da vitória ideoló-
gica das direitas anti-igualitárias desde, 
pelo menos, 2016. Tudo se passa como 
se “ser radical” fosse uma escolha, à 
direita ou à esquerda, com efeitos po-
líticos iguais desde então. Marçal pode 
ser quem é porque seu comportamen-
to radicaliza as estruturas de poder e 
dominação que, além de serem histori-
camente arraigadas na sociedade bra-
sileira como um todo, revigoraram, no 
contexto atual, suas expressões mais 
violentas e autoritárias – um efeito de 
normalização da violência anti-igualitá-
ria produzido pela força do neofascismo 
no campo das direitas. 
Dito de outro modo, se Boulos, nessa 
conjuntura, radicalizasse à esquerda o 
discurso e o programa, talvez fosse pos-
sível ver um aumento de engajamento 
da classe média progressista de Santa 
Cecília e adjacências, mas pouco, ou pro-
vavelmente quase nenhum, impacto prá-
tico nas periferias. Sem mediadores orgâ-
nicos e movimentos sociais enraizados 
com legitimidade nessas regiões para fa-
zer que o discurso radical seja interpreta-
do como defesa dos interesses da maioria 
da população, é pouco crível considerar 
que a derrota eleitoral de Boulos se deu 
pela ausência de radicalidade.
Um exemplo ainda mais expressivo, 
para não dizer desesperador, é perce-
ber a gritante, profunda e vergonhosa 
diferença entre o poder das instituições 
contra Bolsonaro e aquele existente, 
em 2016 e 2018, para legitimar o gol-
pe do impeachment e a prisão de Lula. 
Mesmo com farto conjunto de provas, 
Bolsonaro até hoje não foi preso pelos 
crimes na pandemia e por tentativas 
de golpe de Estado. Antes, apenas com 
a convicção, em um tribunal de primei-
ra instância em Curitiba, Lula foi preso 
por supostamente possuir, como fruto 
de corrupção, um sítio em Atibaia e um 
apartamento no Guarujá.
O recente indiciamento, pela Polícia 
Federal, de Bolsonaro e militares é mo-
tivo de otimismo, pois ao menos mostra 
que parte das instituições de Estado foi 
preservada e há agentes públicos que 
seguem a ordem vigente. Isso não sig-
nifica, contudo, que haja uma reversão 
ideológica na sociedade como um todo. 
Dois fatores atestam esse diagnóstico: 
a força eleitoral de lideranças regionais 
bolsonaristas nas eleições de 2024 e no 
Congresso; e a tenaz e persistente nor-
malização da direita tradicional aliada, 
de um modo ou de outro, à extrema di-
reita bolsonarista; o que é feito sempre 
com base na tese de que a polarização 
política no Brasil é uma oposição entre 
radicais “bolsonaristas” e “petistas”.
***
Voltando à disputa eleitoral em São 
Paulo. Uma das lições mais importantes 
é perceber que, para a maior parte da 
população pobre e trabalhadora, assu-
mir a identidade política que reivindica 
a defesa da democracia, da legalidade, 
do combate à desigualdade e dos direi-
tos – identidade oposta à do “bolsona-
rista” (Marçal) ou do “normalizador do 
bolsonarismo” (Nunes) – não gera um 
efeito equivalente, em votos, naqueles 
que mais seriam beneficiados pelo igua-
litarismo. O fato de ser um pleito muni-
cipal, que favorece quem busca reelei-
ção e se vale dos arranjos locais do favor, 
conta bastante para a vitória da direita 
tradicional já no poder, mas há aí um 
fator mais estrutural, algo que, mesmo 
para Lula, agora ou em 2026, se apresen-
ta como desafio de fundo. 
A maioria da população, pobre e tra-
balhadora, que desde sempre enfrenta 
os desafios cotidianos de ocupar os lu-
gares mais submetidos à exploração e 
à opressão, é submetida cada vez mais 
a ideias anti-igualitaristas que a inter-
pelam constantemente como sujeitos e 
famílias que deveriam defender valores 
e políticas que interessam, material-
mente, às classes e aos grupos que exer-
cem a dominação. Dizer que a direita 
está vencendo porque há “agência” dos 
dominados, especialmente via discurso 
religioso e estratégias comunitárias nas 
periferias, ajuda a entender as formas de 
resistência e manutenção da dignidade 
mesmo na estrutura conservadora, mas 
pouco diz sobre a raiz do problema.
Quando se chama a atenção para esse 
descompasso mais profundo entre ideo-
logia e realidade material, não se trata 
de dizer que os mais pobres não se in-
teressem e não busquem aumentar sua 
renda, ter atividades de trabalho mais 
interessantes, ter acesso a educação e 
saúde e viver em uma sociedade me-
nos desigual. Trata-se, em vez disso, de 
identificar a perda simbólica de valores e 
formas de luta que, histórica e estrutural-
mente, deram uma identidade própria 
ao igualitarismo no campo das esquer-
das, como justiça social, solidariedade, 
ação coletiva, sindicatos, direitos sociais 
e políticas de Estado.
A situação, aliás, produz eventos em-
blemáticos. Nada talvez supere os cria-
dos por Pablo Marçal. Ao defender, por 
exemplo, o anticomunismo e lutar con-
tra o peso do Estado contra os empreen-
dedores, Marçal precisou lançar em um 
debate – de forma paradoxal, mas reve-
ladora – uma carteira de trabalho contra 
Boulos. Na cena, Marçal representa a 
prosperidade que recompensa o traba-
lho duro, enquanto Boulos (e Lula, o PT, 
a esquerda etc.) representa a pobreza e 
quem é recompensado pela desocupa-
ção ou a vagabundagem.
Como apontou Louis Althusser, as 
ideologias, mesmo as mais carregadas 
de ilusão, precisam sempre fazer uma 
alusão à realidade concreta. Marçal le-
vanta, como se crucifixo ou Bíblia o fos-
se, uma CLT contra Boulos, e não uma 
ficha de inscrição como MEI ou um ce-
lular para fazer cadastro de motorista 
na Uber. Ou seja, de forma consciente 
ou não, foi de um símbolo da esquerda, 
sobretudo no debate sobre empreende-
dorismo, que Marçal se valeu para re-
presentar a identidade de quem está do 
lado do esforço e do trabalho duro, algo 
tão presente na vida cotidiana das clas-
ses populares. Aliás, até mesmo quando 
confrontado por um jornalista com um 
símbolo importante da resistência da 
cultura periférica, as músicas dos Racio-
nais MC’s, Marçal, recuperandosua ori-
gem popular, não atacou diretamente o 
grupo, nem sequer mencionou a crítica 
ao encarceramento em massa da popu-
lação pobre e negra das periferias. Em 
vez disso, limitou-se a mostrar que sabe 
de cor versos de suas músicas.
***
Por que essas cenas paradoxais pro-
duzidas por Marçal são importantes?
Primeiro: Marçal é a expressão de 
uma “nova direita” radical que, de fato, 
veio de fora do sistema político, cons-
truindo uma imagem de sucesso nas 
redes sociais ao articular ideias con-
servadoras e neoliberais. O que chama 
atenção é que, até aqui, foi o único que 
ousou e conseguiu afetar o poder pes-
soal e exclusivo de Bolsonaro em defi-
nir os candidatos da direita, algo ainda 
mais surpreendente por ser feito à re-
velia de Tarcísio de Freitas, nome mais 
forte até aqui para gerar o bolsonarismo 
“normalizado” no futuro. 
Segundo: o modelo perseguido por 
Marçal na extrema direita é, sobretu-
do, aquele oferecido por Nayib Bukele 
em El Salvador, o que significa que sua 
estratégia, na falta de opção real para 
enfrentar os problemas sociais e ma-
teriais, é entregar à população um sis-
tema judicial repressivo e arbitrário de 
encarceramento em massa. Sua memó-
ria afetiva de músicas dos Racionais é, 
desnecessário dizer, seletiva e perversa. 
De todo modo, e isso Tarcísio de Freitas 
bem sabe, prometer “Rota na rua” é um 
ativo eleitoral forte.
Terceiro: mesmo de origem popular, 
Marçal é expressão da ideologia do em-
preendedorismo da classe média alta 
e burguesa. Veste-se como um “Faria 
Limer” e, além de ostentar riqueza, rei-
vindica capitais simbólicos de distinção 
intelectual (“Sou um jurista”), chegando 
a desqualificar, como inferior em termos 
de uso da norma culta, uma jornalista 
que falou “cidadões” em uma pergunta 
a ele dirigida. Mas o reconhecimento, 
ainda que inconsciente, do valor simbó-
lico da CLT por Marçal indica que ainda 
há espaço para a esquerda disputar os 
sentidos sociais da ideia de recompensa 
justa do trabalho duro. 
Nesse ponto, há um enorme desafio: 
para muitos trabalhadores pobres, acos-
tumados à precariedade e à “viração” e 
sem a experiência digna do emprego 
formal, a promessa de direitos via CLT 
não tem o mesmo apelo de antes. Mui-
tos criticam o fato de parte da esquerda 
ter, por conta disso, cedido à ideolo-
gia do empreendedorismo. O recente e 
inesperado engajamento de massa nas 
redes contra a jornada 6 × 1 parece sina-
lizar que o problema de fundo é outro. 
Ou seja, com ou sem CLT, a maior parte 
da classe trabalhadora não tem tempo 
de vida para além do trabalho. 
Parece haver, aqui, um caminho 
real para a renovação de uma esquer-
da igualitarista e politicamente viável: 
politizar – aqui a radicalidade conta 
muito – o debate sobre as condições 
materiais de vida da classe trabalha-
dora em toda sua heterogeneidade de 
raça, gênero e sexualidade. Por exem-
plo, apostar nos programas de ren-
da básica e nos direitos trabalhistas é 
uma forma de diminuir a coerção eco-
nômica que faz que muitos “optem” 
pelo empreendedorismo. O problema, 
enfim, não é a esquerda aderir ao dis-
curso do empreendedorismo, mas dei-
xar de politizar, narrar, se comunicar 
e oferecer soluções com base nas ex-
periências concretas de vida da classe 
trabalhadora. Para isso, todo esforço é 
imprescindível e promissor. Que Lula e 
Boulos invistam cada vez mais no ca-
minho que Rick Azevedo e Erika Hilton 
ofereceram e sinalizaram com tanta 
potência e energia no debate sobre a 
jornada de trabalho. 
*Sávio Cavalcante é professor de Socio-
logia (IFCH-Unicamp).
1 “A retórica da reação neoliberal e o futuro do 
igualitarismo”, Le Monde Diplomatique Brasil, 
ago. 2023.
Tudo se passa como se 
“ser radical” fosse uma 
escolha, à direita ou à 
esquerda, com efeitos 
políticos iguais
10 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024
Desenvolvimento ou barbárie
A política, o processo que funda o convívio social, é a chave. No caso brasileiro, 
uma democracia forte permitirá à sociedade organizada impor recuos às forças 
retrógradas do neoliberalismo míope e do conservadorismo atrasado 
POR RICARDO L. C. AMORIM*
ECONOMIA E POLÍTICA
O 
Brasil já não é o país do futuro. As 
promessas antigas desaparece-
ram aos poucos até restarem me-
nos do que fantasias. O trabalho, 
a honestidade e o conhecimento de ca-
da homem e mulher pouco importam. 
De longa data, mais prestígio tem quem 
enriquece por qualquer caminho, repu-
blicano ou não. Chegamos a isso depois 
de quatro décadas e meia sem desenvol-
vimento econômico, ocupando jovens 
em empregos sem futuro, ensinando 
em escolas sem qualidade e classifican-
do todos pelo nível pessoal de consumo. 
O país desistiu de alimentar os sonhos 
de seu povo quando passou a derrotar, 
todos os dias, quem acorda cedo em ca-
sas precárias e desvive mais da metade 
de seu dia entre trabalho e transporte. 
Pouco tempo sobra à saúde, ao amor, 
aos filhos. Predominam o medo, a an-
gústia ou mesmo a raiva. Mas isso é na 
base da pirâmide social. 
Na outra ponta, seja na fazenda ou 
no escritório envidraçado, o cotidiano 
é outro. Nos latifúndios de áreas devas-
tadas pela monocultura não se ganha 
tanto dinheiro desde os tempos do café, 
exportando-se coisas retiradas da terra e 
vendidas a intermediários estrangeiros. 
No lado urbano do país, a vida dos ricos 
nas cidades está ótima. Apesar de a in-
dústria atrofiar, seus donos apenas res-
mungam, pois nunca foi tão fácil ganhar 
dinheiro por meio da financeirização do 
patrimônio pessoal. Para eles, os bancos 
movem para cá e para lá montanhas de 
ativos por meio do computador, garan-
tindo sempre bons retornos ao capital 
que nada produziu. Ou seja, aos donos 
do capital, agrário ou urbano, o mundo 
se parece com o sonho liberal: os tra-
balhadores estão acuados, com medo e 
desorganizados, vestindo como seus os 
interesses do patrão; domina o indivi-
dualismo conservador; e, como no sécu-
lo XIX, há “libertinagem” para permitir 
quase qualquer negócio em quase todo 
lugar. Em outras palavras, o poder e o di-
nheiro atuam tão desembaraçadamente 
como um século atrás.
O Brasil como um todo nacional, por 
sua vez, por mais de quarenta anos vi-
veu poucos anos de crescimento e oti-
mismo, restritos à primeira década do 
século XXI. Naquele momento, o Estado 
brasileiro parecia recuperar o elã que, 
na metade do século XX, o fez transfor-
cúmplices da acumulação primitiva de 
capital e ignoram as consequências do 
que está longe de suas salas acarpeta-
das e com ar-condicionado.
Em poucas palavras, o capitalismo no 
Brasil, desde a década de 1980, subs-
tituiu o desenvolvimento econômico, 
isto é, a transformação progressiva da 
economia por meio da incorporação de 
tecnologias modernas, da ampliação e 
diversificação da capacidade produti-
va e da geração de empregos de quali-
dade por: a) corte simples de custo na 
produção industrial; b) financeirização 
da riqueza; e c) aumento, a qualquer 
preço, da produção agrícola voltada à 
exportação. Isso excluiu a maioria do 
povo brasileiro dos planos para o futu-
ro. Tratou-se apenas de extrair riqueza 
da terra e acumular fortunas na parte 
de cima da pirâmide social, explorando 
sem meias medidas: o tesouro natural 
(que pertence a todos), a mão de obra 
abundante e as brechas legais para lu-
crar em todas as pontas. Naturalmente, 
no Brasil afundado na pobreza de seu 
povo, o tecido social da nação esgar-
çou-se ao limite com o agravamento 
imoral da desigualdade. 
O resultado é visível aos brasileiros: 
a violência urbana, seja do Estado ou 
de criminosos, atingiu níveis nunca 
vistos; parte significativa da população 
ainda vive sem endereço ou serviços 
públicos regulares de água e luz; 29% 
dos brasileiros sofrem com analfabe-
tismo funcional; a indústria continua 
a perder espaço no PIB, representan-
do 10,8% da riqueza gerada no país; 
o salário mínimo alcançou pífios R$ 
1.412 e, mesmo assim, 60% dos brasi-
leiros vivem com esse valor ou menos 
por mês; e a produtividade do traba-
lho cresceu 0,8%ao ano entre 1995 e 
2023, um número abaixo da média da 
OCDE. Ao mesmo tempo, os 5% mais 
ricos concentram quase 40% da renda 
nacional; a elisão fiscal reduz, neste 
momento, a tributação do lucro das 
empresas em 50%; os bancos alcança-
ram lucro líquido de R$ 145 bilhões em 
2023; as exportações do agronegócio 
chegaram a US$ 166,55 bilhões no ano 
passado; e, por fim, as queimadas se 
multiplicaram, confirmando a fragili-
dade institucional do país para conter 
abusos da expansão agropecuária em 
regiões proibidas. 
mar uma economia agrária em um país 
industrial complexo. Durou pouco. A 
grande mídia, o mercado financeiro, o 
agronegócio exportador e outros inte-
resses definiram que desenvolvimento 
é anátema e interditaram o debate. Para 
eles, o que importa é apenas o equilíbrio 
fiscal e a estabilidade de preços. Mesmo 
isso, porém, é falso. O que apregoam à 
exaustão do pensamento liberal e neo-
liberal é fingido, pois sabem que: a) 
pelo menos entre 2001 e 2023, a relação 
consumo do governo sobre PIB mostra 
tendência de queda; b) aceitam felizes a 
escalada dos juros promovida pelo Ban-
co Central, ignorando que cada ponto 
percentual a mais custa, anualmente, 
em torno de R$ 40 bilhões ao erário!; e c) 
apesar disso, aplaudem todas as mudan-
ças legais que implicam isenção fiscal 
dada ao capital, em detrimento do resto 
da sociedade. Um exemplo deve bastar. 
Tome-se a seguridade social.1 O especia-
lista em contas públicas Flávio Tonelli2 
mostrou que, entre 2005 e 2023, as re-
ceitas da seguridade social caíram de 
13,33% do PIB para 10,93%. No sentido 
contrário, as despesas aumentaram de 
10,01% para 13,42% no mesmo período. 
Ali, a gritaria contra o excesso de direitos 
no Brasil e o orçamento deficitário do 
governo, marcadamente se os recursos 
são destinados aos mais pobres, cresceu 
em vozes e volume, desenhando cená-
rios de descontrole e retorno da inflação 
nos jornais. Nenhum desses economis-
tas, capitalistas ou jornalistas, contudo, 
revelou, por ignorância ou má-fé, que 
o volume de renúncias fiscais feitas ex-
clusivamente sobre a receita da própria 
seguridade social saiu de 0,99% do PIB, 
em 2005, e alcançou incríveis 2,53%, em 
2023. Isto é, cresceu mais de 2,5 vezes, 
explicando a queda relativa das recei-
tas e o déficit observado. Fazendo uma 
conta simples, fica claro que a segurida-
de social seria superavitária se benesses 
fiscais não fossem dadas àqueles que 
todo dia vociferam contra o déficit orça-
mentário.3 Em resumo, o conflito entre 
déficit e renúncias fiscais, que se repete 
em outras partes do Orçamento Público 
Federal, retirou e retira do governo re-
cursos imprescindíveis para que ofereça 
serviços públicos de qualidade e isentou 
e isenta de impostos setores escolhidos 
em prejuízo de toda a população. Assim, 
sem dinheiro e sem poder para escalar 
a dívida pública, o governo perdeu in-
clusive sua capacidade de investimen-
to e, portanto, seu poder de induzir o 
crescimento econômico, como fazem os 
governos dos Estados Unidos, da Fran-
ça, da Alemanha, da China e de todos os 
países ricos. 
Nesse cenário e vivendo a aflição de 
todos os dias, o cidadão comum já não 
se sente pertencendo a um coletivo. 
Percebe-se, equivocamente, sozinho 
e, individualmente, se lança à sôfrega 
busca pelo status e pelo enriquecimen-
to, pois lhe sobrou apenas essa distin-
ção nos dias que correm. A única régua 
para o sucesso. O pior é que, dentro 
desse cotidiano de “cada um por si”, 
ensinamos os mais jovens a acreditar e, 
mais ainda, a confirmar a mesma lógi-
ca aplaudida pela geração que ocupa, 
hoje, a liderança empresarial e pública 
do país. Daí, atualmente, nação, povo e 
Brasil tornaram-se palavras sensabor, 
quase burlescas, em discursos sem-
pre histriônicos que refletem apenas 
a crescente distância entre cada um e 
entre todos e o país. 
Por isso, a barbárie tomou vulto. A 
busca sem peias por lucro rápido e acu-
mulação de riqueza esfumou os limites 
éticos dos operadores dos interesses do 
capital. Funcionários, do CEO ao trai-
nee, são empurrados a caçar lugares, 
gentes, brechas e transações especula-
tivas capazes de fornecer lucro instan-
tâneo que agrade acionistas ávidos por 
retorno e financistas interessados ape-
nas na valorização do valor. As ativida-
des capitalistas ganharam, diante disso, 
uma velocidade mínima exigida, um 
patamar urgente de lucros que deve ser 
atingido por aqueles que dirigem negó-
cios, mesmo que seus atos ofendam a 
ética e o bem-estar coletivo. 
No campo, por exemplo, intimida-
-se, ocupa-se, queima-se e acumula-se 
primitivamente o que nunca deve-
ria ser capital, abrindo-se fronteiras 
agroexportadoras em áreas de preser-
vação, reservas florestais e territórios 
de povos originários. É preciso dizer, 
porém, que a extinção de nascentes, o 
fim de matas nativas, a poluição com 
agrotóxicos de rios e solos não são 
culpa somente do latifundiário: seus 
financiadores urbanos e os agrointer-
mediários globais sediados em São 
Paulo, Nova York, Xangai e Londres são 
11DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil
UMA NOVA ENCRUZILHADA 
DE SUA HISTÓRIA
À vista disso, o filme a que se assiste con-
ta a história de um modelo de desenvol-
vimento econômico que se esgotou nos 
anos 1980 e que, depois, caminhou para 
a estagnação, a desregulação e, final-
mente, o descontrole, redundando em 
um insólito “individualismo” patrocina-
do por quem extrai lucros e acumula ca-
pital com o despedaçamento da socie-
dade. Esse barbarismo que cresce a cada 
dia, apesar dos esforços das forças polí-
ticas progressistas, não é um acidente: é 
a colheita do cultivo neoliberal, regado 
todos os dias – sem coincidência, des-
de os anos 1980 – pelas mãos da gran-
de mídia, pelas escolas de negócios, por 
políticos interessados em ganhos parti-
culares e empresários ávidos por lucros 
rápidos, todos completamente ineptos 
para olhar o longo prazo. Essa brutalida-
de crescente, que se quer normalizar to-
dos os dias no noticiário da TV, trouxe o 
país, em 2024, a uma nova encruzilhada 
de sua história. Um daqueles momentos 
importantes em que se decide entre de-
senvolvimento e barbárie. 
O momento atual tem poucos para-
lelos na história do Brasil. Apenas nos 
períodos Getúlio Vargas, Juscelino Ku-
bitschek e Fernando Henrique Cardoso 
viveu-se dilema semelhante. Nesses três 
governos, o Brasil poderia ter escolhido 
diferentes caminhos e certamente não 
seria o que é hoje. No primeiro, o presi-
dente poderia ter escolhido o agronegó-
cio e abandonado a rara oportunidade 
de industrializar o país. Nos anos JK, 
com a indústria já assumindo a lideran-
ça da economia brasileira, o Plano de 
Metas poderia não ter existido, investi-
mentos importantes não repercutiriam 
a longo prazo e o setor automotivo não 
teria sido instalado. Já com FHC, após o 
vitorioso controle da inflação, o governo 
federal poderia ter escolhido desenvol-
ver o Brasil, em vez de destruir a indús-
tria nacional e abraçar o neoliberalismo, 
acelerando os passos em direção à bar-
bárie que cresceu até transformar-se no 
descomunal horror moderno. 
Hoje, por um lado, há quem defen-
da permanecer na trilha de destruição 
da nação, optando pelo definitivo fim 
da indústria e da tecnologia nacional, 
da universidade, da escola e da saú-
de públicas em favor do agronegócio 
subsidiado, dono de diminuta cadeia 
produtiva e poupador de mão de obra. 
É preciso que se diga desde já que, se 
essa for a escolha, os serviços, o grande 
empregador nacional, por depender di-
retamente do desempenho econômico 
do país, também minguará na estreiteza 
da renda gerada pela exportação de uns 
poucos bens agrícolas e minerais, cujos 
preços flutuam ao sabor dos interesses 
dos países ricos. 
Do outro lado, há a escolha do de-
senvolvimento para vencer o medo. E 
há muito o que fazer por aqui. Um dos 
mais importantes economistas vivos, 
o Prêmio Nobel Amartya Sen, definiu o 
desenvolvimento como a possibilidade, 
ou melhor, a liberdade de os indivíduos 
verdadeiramente

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