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2 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024 TRUMP E O VELHO CONTINENTE O esfregão europeu POR BENOÎT BRÉVILLE* É possível estufar o peito enquanto pratica dança do ventre? No plano artístico, isso é desaconselhado: a rigidez do tronco prejudica a flui- dez dos quadris, resultando em um movimento desajeitado, que expõe quem o executa ao ridículo. No plano diplomático, o resultado não é muito diferente. Os dirigentes europeus, que receberam a eleição de Donald Trump com uma mistura de fanfarronice e submissão, logo perceberão isso. A vitória do candidato republicano se- meou pânico nas chancelarias do Velho Continente, onde se teme que ele cum- pra suas promessas: fim das entregas de armas à Ucrânia, encerramento do guarda-chuva de segurança dos Estados Unidos, questionamento das alianças tradicionais, protecionismo agressivo... Medidas que abalariam a ordem inter- nacional estabelecida após a Segunda Guerra Mundial e para as quais a União Europeia não está preparada. Mas não importa. De Paris a Bru- xelas, os líderes políticos fazem pose. “Demonstramos que a Europa pode tomar o destino em suas mãos quando está unida”, vangloriou-se a presidenta da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, enquanto Emmanuel Macron anunciou o nascimento de “uma Euro- pa mais unida, mais forte e mais sobe- rana”, dotada de “autonomia estratégi- ca”. Palavras bonitas nas quais poucos acreditam de fato. Por um lado, porque a promessa já foi feita muitas vezes – na queda do Muro de Berlim, após a intervenção norte-a- mericana no Iraque, durante a crise fi- nanceira de 2008, no início do primeiro mandato de Trump... – sem que nada tivesse mudado na condição de vassala- gem dos europeus. Mesmo quando um “amigo” está na Casa Branca, ele não deixa de pisoteá-los. Assim, Joe Biden acelerou a retirada das tropas norte- -americanas do Afeganistão, forçando franceses e britânicos a realizar uma evacuação caótica. Ele negociou, pelas costas dos primeiros, um acordo militar com os segundos e com os australianos, tirando de Paris um contrato de 56 bi- lhões de euros para a entrega de sub- marinos a Canberra, e pouco se preocu- pou com os impactos de seu plano de desenvolvimento das indústrias verdes na economia do Velho Continente – o Canadá recebeu mais atenção. Por outro lado, porque os europeus não têm os meios para sustentar suas ambi- ções. Se Washington parasse, ou mesmo reduzisse, sua ajuda a Kiev, eles seriam incapazes de substituí-la – não se supe- ram facilmente décadas de dependência do complexo militar norte-americano, de suas patentes, seus conhecimentos, seus componentes, suas infraestruturas logísticas, seus sistemas de inteligência, suas capacidades de produção... A Ucrâ- nia não teria outra escolha senão aceitar as condições de paz negociadas entre os Estados Unidos e a Rússia, o que prova- velmente resultaria em perda territorial. Para os líderes europeus, que investiram tanto dinheiro e capital político na vi- tória ucraniana, apresentando-a como a única solução possível, isso seria um golpe humilhante. Assim, tentam desesperadamente dis- suadir Trump de cumprir suas ameaças, oferecendo-lhe o que ele deseja. Um dia, Von der Leyen sugere aumentar as com- pras de gás norte-americano; no outro, a ministra alemã Annalena Baerbock pro- põe aumentar os orçamentos militares para alcançar 3% do PIB; no terceiro, a futura alta representante da União Euro- peia para os assuntos externos, Kaja Kal- las, chama a China de “rival sistêmica”, imitando a retórica norte-americana. E não se deve contar com qualquer uni- dade. Os europeus mostraram-se incapa- zes de falar com uma só voz após os man- dados de prisão emitidos pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) contra o pri- meiro-ministro israelense, Benjamin Ne- tanyahu, por “crimes de guerra” e “crimes contra a humanidade”. Áustria, Hungria e República Tcheca rejeitaram a decisão. Bélgica, Irlanda e Espanha a apoiaram. França e Alemanha estão embaraçadas, declarando que tomam nota da decisão sem se comprometer mais. Agradar aos Estados Unidos ou respeitar a justiça in- ternacional – um terrível dilema. *Benoît Bréville é diretor do Le Monde Diplomatique. © G in ta rė K ai ra ity tė /P ex el s Países da Europa sofrem juntos as consequências do resultado das eleições americanas, num cenário de dependência política 3DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil EDITORIAL Os militares não estão sozinhos POR SILVIO CACCIA BAVA O s militares estão na berlinda, sendo avaliados pela opinião pública diante das denúncias de tentativa de dar um golpe de Estado, derrubar o governo Lula, ma- tar o presidente, seu vice, o Ministro do STF Alexandre de Moraes e rasgar a Constituição. No governo Bolsonaro, esses milita- res tinham carta branca para praticar o butim do dinheiro público, ocupando ministérios e milhares de postos da ad- ministração pública para os quais não tinham nenhuma qualificação, interfe- rindo em licitações, pressionando por propinas, contratando firmas de seus apaniguados, desviando dinheiro públi- co, aparelhando e destruindo os órgãos de Estado, perseguindo seus opositores. O general Eduardo Pazuello, que ocu- pou o cargo de ministro da Saúde, é um bom exemplo. Bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agu- lhas Negras, em 1984, formou-se como oficial de Intendência. Fez o curso de Comando e Estado-Maior no Exército e o curso de política e estratégia aeroes- paciais, na Força Aérea Brasileira (FAB). Bolsonaro justificou sua escolha para ministro da Saúde atribuindo-lhe a for- mação de “especialista em logística”. Em sua gestão, a presença de militares sal- tou de 2,7% para 7,3% na área da saúde, e foram denunciadas várias negociatas, entre elas com a compra de vacinas. Segundo a BBC News Brasil, Pazuello foi nomeado ministro depois que dois ex-ministros civis se recusaram a reco- mendar o uso da cloroquina e da hidro- xicloroquina. A mortandade provocada pela epidemia de Covid-19 recai tam- bém em suas mãos. Esse “especialista em logística” deixou de comprar tanto vacinas e até seringas para aplicá-las quanto respiradores.1 Cinco generais do Exército foram nomeados ministros de Estado – Braga Netto (Casa Civil), Luiz Eduardo Ra- mos (Secretaria de Governo), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Ins- titucional), Fernando Azevedo e Silva (Defesa) e Eduardo Pazuello (Saúde). A Marinha também foi contemplada, com a nomeação do almirante Bento Albuquerque para o Ministério de Mi- nas e Energia, onde ele elevou a parti- cipação dos militares para 10,8% dos funcionários. Sem mencionar os ofi- ciais em segundo escalão nos ministé- rios e demais órgãos públicos. Pode-se dizer que, em aliança com em- presários e com o apoio norte-america- no, as Forças Armadas estiveram profun- damente envolvidas no governo anterior, que privatizou, favoreceu as empresas, isentou impostos para corporações, bai- xou a regulação e permitiu a devastação ambiental, mas também operou abrindo espaço para a espoliação do dinheiro pú- blico em larga escala por parte dos go- vernantes de plantão, em especial o clã Bolsonaro, notoriamente vinculado às milícias do Rio de Janeiro. A tentativa de golpe que acaba de ser denunciada pela Polícia Federal foi promovida pelo núcleo duro do gover- no anterior, mas é preciso deixar claro que não são apenas grupos de militares que estão à frente dessa tentativa. Vários grupos econômicos do agronegócio, do setor financeiro, da mídia, dos transpor- tes e do comércio estiveram envolvidos, muitos dos quais já identificados em in- quéritos da Polícia Federal. Essa situação, porém, não é de hoje. Em 2005, o então senador Jorge Bor- nhausen, presidente do PFL, já dizia: “Estou encantado com a crise política. Ela vai livrar a gente dessa raça por pelo menos trinta anos”. Banqueiro, Bor- nhausen se referia aos trabalhadores, sem-terra, pobres, excluídos, ou seja, todos que não pertenciam à elite.poderem escolher seu caminho porque todas as possibilidades lhes são oferecidas, estão disponíveis e são realmente acessíveis. Na concep- ção do professor Sen, portanto, um país desenvolvido seria capaz de libertar os homens e as mulheres presos, hoje, às ordens de uns poucos ricos que em- purram todos ao esforço de aumentar seu próprio lucro, não importando que o trabalhador se submeta apenas para conseguir um prato de comida repleto de agrotóxicos, cheio de sódio e cober- to de gordura. Só quando vencidas a necessidade e a pobreza, então, a liber- dade seria real e para todos. Sociedades como a brasileira, consequentemente, estão muito longe do desenvolvimento porque estão muito longe da verdadeira liberdade. No Brasil, fique claro, a desi- gualdade abissal oprime, hierarquiza e coisifica todos os trabalhadores que são obrigados a vender sua mão de obra por preço vil ao primeiro capitalista que lhes oferecer as migalhas do prato. No entanto, há uma diferença: a gra- vidade do dilema em 2024 é maior e mais urgente. Na verdade, algo que nunca se viu agora representa um divi- sor de águas entre o presente e aqueles três períodos passados: a natureza im- pôs seu limite. Nos dias de hoje, trata-se de decidir se o Brasil e seu povo sobre- viverão à crise climática com poucos postos de trabalho, renda insuficiente e baixa produtividade, sustentando: a) o agronegócio, que destrói a natureza e contamina o ar, os rios e o solo de onde extrai seu lucro; b) a financeirização da riqueza de quem é rico; e c) a irrelevân- cia crescente da indústria nacional. Isso posto, emerge a pergunta mais urgente de todas para o Brasil: como superar esse quadro e alcançar o desen- volvimento, garantindo liberdade ver- dadeira aos brasileiros, principalmente às futuras gerações, quando se arrasam barbaramente as chances? Atendendo ao agronegócio exportador e à grande finança em detrimento da indústria na- cional, da valorização do trabalho e da geração de tecnologia que não é! Mas como ser desenvolvido e ter cidadãos livres se o povo se prende calado (por necessidade e engano) aos grilhões que os mais ricos impõem? “NÃO RESTA OUTRA SAÍDA” Para já é preciso valorizar o trabalho e a geração de tecnologia e fomentar a produção fabril nacional. Mais do que isso. É vital saber que não há país que tenha chegado ao desenvolvimento sem planejar, e nenhum, absolutamente ne- nhum, colocou seu futuro nas mãos do mitológico “deus mercado”. A comoven- te ilusão do mercado que tudo resolve, se deixado livre, é uma perigosa fantasia que, ao redor do mundo, tem entregado apenas decadência. É imperativo para 90% da população brasileira escolher o desenvolvimento. E como se escolhe o desenvolvimento e um futuro de liberdade? O primeiro pas- so é perceber que o mercado obedece a quem tem mais poder, seja ele econô- mico, político ou ambos. Assim, se o ob- jetivo é realmente o desenvolvimento, então é ridículo apelar ao “mercado”. O comércio não é mágico. É feito por ho- mens e, entre eles, os poderosos man- dam mais, controlam os fluxos, decidem quem, quando e o valor de tudo. O segundo passo é reconhecer quem somos: um país imoral que mantém propositadamente seu povo na pobreza e na ignorância. O terceiro é adotar a firme decisão: queremos o desenvolvimento! O quarto passo é perguntar: o que fazer para superar a barbaridade que está aí? Aqui, não há uma receita. Porém, é sabi- do que a construção do desenvolvimento obriga a cumprir três necessidades: 1. subalternizar o agronegócio exporta- dor ao interesse coletivo pelo desenvol- vimento, afinal são os latifundiários os maiores bastiões e beneficiários da bar- bárie vivida; 2. reduzir o poder da grande finança, regulamentando, sem brechas, as re- lações entre Banco Central e empresas financeiras. Mais: fiscalizando de perto as operações com grandes volumes de recursos, principalmente os transfron- teiriços, que se querem sem lei; 3. estimular a indústria, a tecnologia nacional e a exportação de manufatura- dos, atividades capazes de criar longas cadeias produtivas, gerar empregos de qualidade e multiplicar a renda nacional. Para tanto, a política, o processo que funda o convívio social, é a chave. No caso brasileiro, uma democracia forte permitirá à sociedade organizada impor recuos às forças retrógradas do neolibe- ralismo míope e do conservadorismo atrasado. Aqui, apenas a luta política fará os sacerdotes do “moinho satânico” retrocederem e, dentro da democracia, a forma de agir para alcançar o objetivo do desenvolvimento precisa ser costu- rada entre as forças progressistas nacio- nais, sempre com os olhos no horizonte de um mundo que muda em várias fren- tes simultâneas. Será preciso, dessarte, concertar, dentro do possível, desejos, esperanças e rejeições para que o poder popular em prol do desenvolvimento supere a falsa profecia da liberdade eco- nômica que ilude um povo roubado em seu direito mais simples: a própria vida. Haverá reação! Os bárbaros pregarão pelo descalabro de mentir à sociedade, além de atacar e até matar uns tantos. Seus gritos tentarão inocular em todos o veneno dos interesses mesquinhos dis- farçados de orações pela “liberdade”. O Brasil tem, portanto, diante de si, uma bifurcação: ou se desenvolve e ga- rante um futuro melhor às novas gera- ções ou mantém a acumulação primitiva de capital no campo e a financeirização na cidade, ambas concorrendo para fun- dar um país hiperviolento de tão pobre e desigual, alimentado pelo pão envene- nado quimicamente e coberto pelo man- to fúnebre da fumaça das queimadas. É uma decisão que não pode ser adia- da, pois a natureza já mostrou que, desta vez, não salvará o homem de suas des- temperanças e ilusões. Se esmagar pes- soas no moinho do capital foi possível por séculos, desafiar a natureza é terra- planismo tresloucado e a própria elite terminará por perder o controle sobre seus ativos até nada valerem. Não se tra- ta de poder fazer, mas de que “não resta outra saída senão fazê-lo”. O momento, porém, é surpreenden- temente oportuno. O Brasil chegou ao limite da ordem tradicional que vitimou tantos homens e mulheres no altar da abundância vivida pelos ricos. Tais limi- tes, porém, não são dados, hoje, apenas pela luta social contra o poder de pou- quíssimos endinheirados: a natureza está gritando e quis dar seu basta à im- prudente desumanidade das elites eco- nômicas e políticas nacionais. Assim, transformações inevitáveis virão. Cabe a nós escolher quais serão. Por isso, só a política pode ser o caminho possível para reposicionar o país no concerto das nações e redirecionar o futuro. O mo- mento certo de fazer do Brasil uma gran- de nação – justa, rica, solidária, parceira internacional e capaz de avançar nas melhores possibilidades do ser humano – é este, quando o modelo velho já mor- reu e o novo se esforça para nascer. *Ricardo L. C. Amorim é economista, se- cretário parlamentar na Câmara dos Depu- tados e pesquisador do grupo Repensando o Desenvolvimento (Labieb-IEB), da Uni- versidade de São Paulo. 1 A Lei n. 8.212/1991, em seu artigo 1º, define: “A Seguridade Social compreende um con- junto integrado de ações de iniciativa dos po- deres públicos e da sociedade, destinado a assegurar o direito relativo à saúde, à previ- dência e à assistência social”. 2 Anfip, Análise da Seguridade Social 2023, 24.ed., Brasília, 2024. 3 Chegou a isso, por exemplo, obrigando-se o governo a renunciar a grandes parcelas da Co- fins, do PIS/Pasep e de outras contribuições. Com FHC, após o vitorioso controle da inflação, o governo federal poderia ter escolhido desenvolver o Brasil, em vez de destruir a indústria nacional e abraçar o neoliberalismo 12 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024 Um mandato poderoso e sem precedentes? A eleição de Donald Trump, desta vez com vantagem de votos sobre sua adversária, reflete deslocamentos eleitorais significativos das classespopulares, dos jovens e dos hispânicos em direção ao Partido Republicano. Apesar de a diferença entre os dois candidatos ser inferior a 2%, os democratas não conseguem se desvencilhar da imagem de partido elitista, urbano e excessivamente diplomado POR JEROME KARABEL* VITÓRIA DE TRUMP E A AMÉRICA MAIS POLARIZADA DO QUE NUNCA M as como é que um persona- gem assim conseguiu ser elei- to presidente? Para começar a entender a vitória de Donald Trump, é preciso medir o que ela refle- te: uma polarização da vida política norte-americana que se aprofunda há trinta anos. Entre 1994 e 2014, a propor- ção de republicanos que viam os demo- cratas como uma “ameaça ao bem-es- tar do país” mais que dobrou, passando de 17% para 36%; movimento seme- lhante ocorreu entre os democratas, com 16% considerando os republica- nos uma ameaça em 1994, contra 27% vinte anos depois. Esse foi o pano de fundo da eleição de 2016, vencida por uma margem estreita por Trump. Nos últimos 25 anos, o peso relativo dos dois grandes partidos tem sido no- tavelmente semelhante. Ao longo das sete eleições presidenciais realizadas entre 2000 e 2024, o voto democrata e o voto republicano oscilaram dentro de uma faixa muito estreita: entre 48% e 53% para os democratas, e entre 46% e 51% para os republicanos. Isso significa que qualquer republicano que entrasse na disputa presidencial de 2024 poderia contar com um piso de cerca de 45% dos votos – um fator crucial para entender como um candidato com tantos atribu- tos negativos quanto Trump conseguiu obter metade dos sufrágios. Outra característica do cenário polí- tico norte-americano é o aumento do voto por rejeição, em que a escolha elei- toral é menos motivada pela simpatia por um dos partidos e mais pela aversão ao outro. Para medir esse fenômeno, os pesquisadores utilizam “termômetros emocionais” que permitem atribuir no- tas de 0 (negativo) a 100 (positivo). Em 1978, 19% dos entrevistados davam 30 pontos ou menos à formação adversária; em 2012, essa proporção subiu para 56%, quase o triplo.1 Paralelamente, houve um agravamento da “polarização afeti- va”, que se manifesta por uma profunda aversão aos apoiadores do outro partido. A polarização é mais acentuada nos Estados Unidos do que em qualquer outra democracia industrializada.2 Ela afeta até mesmo a esfera mais íntima: os casamentos que transcendem linhas partidárias são cada vez mais raros. Em 2020, um estudo revelou que apenas 6% dos entrevistados, de qualquer inclina- ção política, tinham um cônjuge simpa- tizante do partido adversário.3 Polarização ideológica e afetiva, au- mento do voto por rejeição, equilíbrio relativo de forças entre democratas e republicanos: essas são as condições que permitiram a Trump retomar a Casa Branca. A generalização do voto por re- jeição, em particular, revelou-se decisi- va: hoje, o eleitor norte-americano não escolhe um candidato porque o idolatra ou mesmo porque gosta dele, por mais imperfeito que seja; ele o escolhe, acima de tudo, porque despreza o rival. CINISMO, DESCONFIANÇA E SENTIMENTO ANTISSISTEMA Trump pode ter iniciado sua campanha com um pesado passivo, mas também tinha muitos trunfos a seu favor. Em todo o mundo ocidental, populações exasperadas com a alta dos preços e os transtornos decorrentes da pandemia de Covid-19 recentemente tiraram do poder os governantes em exercício. A inflação, em particular, é um tema ex- tremamente sensível para os norte-a- mericanos, dos quais não menos de 60% afirmam ter dificuldade para fechar as contas no fim do mês.4 Integrante da administração Biden, Kamala Harris era vista como a candi- data do sistema e do status quo, o que, no clima político atual, está longe de ser uma vantagem. A retórica antissistema exerce grande apelo nos Estados Uni- dos, o país do G7 onde os cidadãos me- nos confiam em suas instituições. Essa desconfiança faz parte de uma tendên- cia de longo prazo: enquanto quase 80% dos norte-americanos confiavam em seu governo em meados da década de 1960, essa taxa caiu continuamente até atingir o nível historicamente baixo de 22% em abril de 2024.5 Nesse ambiente impregnado de cinismo e desconfiança, um candidato antissistema como Trump tinha amplas chances de sucesso. Por mais favorável que fosse o contex- to geral, a magnitude de sua vitória não pode ser ignorada. Além de ser o primei- ro republicano a vencer o voto popular desde 2004, Trump não só conquistou os sete estados decisivos, mas também garantiu maioria no Senado e na Câ- mara dos Representantes. Comparado a 2020, ele avançou em todo o país, es- pecialmente entre os moradores de zo- nas rurais (+15%), os jovens de 18 a 29 anos (+13%), os eleitores não brancos sem diploma (+16%) e os latinos, tanto homens (+11%) como mulheres (+17%). Foram essas categorias que, em grande medida, lhe garantiram a vitória. Pode ele, no entanto, reivindicar, como fez em seu discurso de vitória, ter recebi- do dos norte-americanos “um mandato poderoso e sem precedentes”? Certa- mente não. Sua vantagem, inferior a 3 milhões de votos, é duas vezes menor que a de Joe Biden em 2020 (um pouco mais de 7 milhões). Além disso, outros pre- sidentes no passado foram eleitos com margens muito mais confortáveis. Em 1932, Franklin Delano Roosevelt superou Herbert Hoover por mais de 17 pontos, e, embora a vitória de Ronald Reagan sobre Jimmy Carter em 1980 tenha sido um pouco menos esmagadora, ele ainda as- sim o venceu por 10 pontos. Trump, que obteve menos de 50% dos votos, superou Kamala Harris por apenas 1,7 ponto. A alegação do clã Trump de que sua consagração representaria uma “re- configuração histórica” da vida política norte-americana é igualmente insus- tentável. As eleições que os especialis- tas consideram ter verdadeiramente reconfigurado o cenário político – como as de Andrew Jackson em 1828, William McKinley em 1896, Franklin Roosevelt em 1932 e Ronald Reagan em 1980 – fo- ram vencidas com margens muito mais expressivas e inauguraram longos perío- dos de domínio do partido vencedor. No entanto, a eleição de 2024 confir- mou uma tendência antiga que deveria preocupar sobretudo os democratas: a erosão do voto operário a seu favor. Essa realidade não se restringe aos Estados Unidos. Em várias democracias ociden- tais, os partidos de esquerda e de cen- tro-esquerda têm visto a classe operá- ria, que historicamente era seu alicerce social e ideológico, se afastar deles. Para o Partido Democrata norte-americano, essa erosão há muito era mais visível en- tre a classe trabalhadora branca. O plei- to de novembro destacou um fenômeno novo: o aumento do voto republicano entre trabalhadores não brancos.6 O crescimento é particularmente impres- sionante entre os hispânicos, com 55% dos homens latinos, trabalhadores ou não, votando em Trump, contra 43% em Harris (em 2020, Biden superou Trump nesse grupo por 23 pontos).7 De fato, os democratas há muito se destacam por uma defesa bastante tími- da dos trabalhadores, como ficou claro já nos anos 1990, quando Bill Clinton ado- tou a agenda econômica neoliberal, e no- vamente em 2008-2009, quando Barack Obama preferiu resgatar grandes insti- tuições financeiras a proteger os milhões de norte-americanos que perderam suas casas durante a grande recessão. Como aponta o senador Bernie Sanders: “Não deveria ser nenhuma surpresa que um Partido Democrata que abandonou a classe trabalhadora descubra que a clas- se trabalhadora o abandonou”.8 © AP pic/FTM Em 05 de novembro, cidadãos estadunidenses elegeram Donald Trump presidente 13DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil Sanders não está errado, mas deixa de mencionar que as razões para esse afasta- mento não são apenas econômicas, mas também culturais. Isso é ilustrado pela experiência de Dan Osborn. Mecânico na Kellogg’s, onde liderou uma greve bem- -sucedida em 2021, ele foi convencido por um colega sindicalista a concorrer como independente contra a senadorarepu- blicana do Nebraska. Em 5 de novembro, obteve a notável marca de 46% dos votos. No entanto, Osborn afirmou ter sentido que “os democratas o tratavam com supe- rioridade” e acredita não ser o único a ter essa percepção. Quando os republicanos prometem proteger os salários dos nor- te-americanos, “os democratas explicam que querem proteger seus pronomes”, ele observa. “Isso definitivamente não é a maior preocupação de quem trabalha 80 horas por semana em uma fábrica de pro- cessamento de carne, em fazendas ou em qualquer outro lugar”.9 A questão de gênero, explorada até a exaustão pela campanha republicana, é apenas um exemplo das guerras cultu- rais nas quais os democratas se encon- traram do lado dos perdedores. Uma propaganda republicana antitransgê- neros terminava com o slogan: “Kamala luta por ‘elus’. O presidente Trump luta por você”. Para muitos eleitores, os de- mocratas tornaram-se especialistas em ingerências linguísticas inoportunas, sendo talvez o caso mais emblemático sua insistência em popularizar o termo neutro “latinx”, em substituição aos ter- mos com marcação de gênero “latino” e “latina”. O problema desse neologis- mo é que, ao contrário de black, criado pela própria comunidade afro-ameri- cana, ele é imposto à população latina de fora para dentro, por pessoas que se consideram cultural e politicamente esclarecidas. Apenas 4% dos hispânicos o utilizam para se autodefinir, enquan- to cerca de metade nunca ouviu falar dele; dos 47% que conhecem o termo, três quartos opinam que ele não deve- ria ser usado.10 Para o democrata Ruben Gallego, eleito senador com mais de 2 pontos de vantagem sobre seu adversá- rio republicano no Arizona – um estado onde Trump superou Harris por mais de 5 pontos –, “os políticos latinos que utilizam essa palavra frequentemente o fazem apenas para agradar ao eleitorado branco, rico e progressista”.11 De forma mais geral, grande parte da classe trabalhadora sente que os de- mocratas desrespeitam sua dignidade. O exemplo supremo dessa condescen- dência foi a infeliz declaração de Hillary Clinton, durante a campanha de 2016, em que afirmou que metade dos apoia- dores de Trump era um “bando de deplo- ráveis” com opiniões “racistas, sexistas, homofóbicas, xenofóbicas e islamofó- bicas”. Independentemente de os de- mocratas mais instruídos serem ou não mais arrogantes que seus equivalentes republicanos, o partido tornou-se para use it” [A conscientização sobre o termo “la- tinx” dobrou entre hispânicos dos Estados Uni- dos desde 2019, mas apenas 4% o utilizam], Pew Research Center, 12 set. 2024. 11 Yael Halon, “Arizona Democrat Gallego slams use of ‘Latinx’ as a ‘performative’ term to appea- se ‘White rich progressives’” [Democrata do Ari- zona, Gallego critica uso de “latinx” como termo “performativo” para agradar a “progressistas ricos e brancos”], Fox News, 6 dez. 2021. 12 Maureen Dowd, “Democrats and the case of mistaken identity politics” [Democratas e o caso de uma política identitária equivocada], The New York Times, 9 nov. 2024. 13 “Why America chose Trump: Inflation, immi- gration, and the Democratic brand” [Por que os Estados Unidos escolheram Trump: infla- ção, imigração e a marca democrata], Blue- print, 8 nov. 2024. muitos sinônimo de “politicamente cor- reto”, “cultura do cancelamento” e “wo- kismo”,12 símbolos do abismo que separa as elites democratas da classe trabalha- dora, com consequências eleitorais reais. Uma pesquisa realizada logo após o plei- to, com mais de 3 mil eleitores, revelou que, entre os motivos citados para justifi- car a rejeição a Harris, o fato de ela pare- cer “mais preocupada com questões cul- turais como a dos transgêneros do que em ajudar as classes médias” ocupava a terceira posição, logo após a inflação e a imigração. Nos estados-chave, esse fator foi o principal determinante do voto.13 O trumpismo não é sem precedentes na história dos Estados Unidos: basta lembrar a expropriação dos povos in- dígenas, a instituição da escravidão, a Ku Klux Klan, as ligas anti-imigração do início do século XX, o macarthismo, as campanhas dos conservadores George Wallace e Patrick Buchanan e o surgi- mento das milícias armadas. Porém, os Estados Unidos também são o país onde nasceram o movimento abolicionista, o movimento pelos direitos das mulhe- res com a convenção de Seneca Falls, o movimento pelos direitos civis, o movi- mento pelos direitos LGBTQIA+ na es- teira das revoltas de Stonewall. São a pá- tria dos Industrial Workers of the World (IWW), do socialista Eugene Debs e de Franklin Roosevelt, eleito quatro vezes para colocar em prática seu New Deal. E foram a primeira nação ocidental a ele- ger (e reeleger) um presidente negro. O período que se inicia será marcado pelo confronto entre essas duas tradi- ções concorrentes. Se o trumpismo faz parte inegável do que são os Estados Unidos, eles estão muito longe de se re- sumir a isso. *Jerome Karabel é professor de Sociologia da Universidade da Califórnia em Berkeley. 1 Alan I. Abramowitz, The Great Alignment. Race, Party Transformation and the Rise of Donald M. Trump [O grande alinhamento. Raça, transfor- mação partidária e a ascensão de Donald M. Trump], Yale University Press, New Haven, 2018. 2 May Wong, “America leads other countries in deepening polarization” [Os Estados Unidos lideram outros países no aprofundamento da polarização], Stanford Institute for Economic Policy Research (SIEPR), 20 jan. 2020. 3 Colin A. Fisk e Bernard L. Fraga, “‘Til death do us part(isanship). Voting and polarization in opposi- te-party marriages” [Até que a morte nos separe (partidarismo). Voto e polarização em casamen- tos entre partidos opostos], The Democracy Fund Voter Study Group, ago. 2020. Ver também Wen- dy Wang, “Marriages between Democrats and Republicans are extremely rare” [Casamentos en- tre democratas e republicanos são extremamente raros], Institute for Family Studies, 3 nov. 2020. 4 Jessica Dickler, “61% of Americans say they are living paycheck to paycheck even as infla- tion cools” [61 % dos norte-americanos dizem viver de salário em salário mesmo com o arrefe- cimento da inflação], CNBC, 31 jul. 2023. 5 “Public trust in government: 1958-2024” [Con- fiança pública no governo: 1958-2024], Pew Research Center, 24 jun. 2024. 6 Zachary B. Wolf, Curt Merrill e Way Mullery, “Anatomy of three Trump elections: How Ame- ricans shifted in 2024 vs. 2020 and 2016” [Anatomia de três eleições de Trump: como os norte-americanos mudaram em 2024 em com- paração a 2020 e 2016], CNN, 6 nov. 2024. 7 Rachel Uranga e Brittny Mejia, “Why Latino men voted for Trump: ‘It’s the economy, stu- pid’” [Por que homens latinos votaram em Trump: “É a economia, estúpido”], Los Ange- les Times, 8 nov. 2024. 8 Jeet Heer, “Bernie Sanders is right: Democrats have abandoned the working class” [Bernie Sanders está certo: os democratas abandona- ram a classe trabalhadora], The Nation, Nova York, 11 nov. 2024. 9 Citado por Michelle Goldberg, “Republicans as- sumed a Nebraska Senate seat was safe. Then this candidate came along” [Republicanos pre- sumiram que uma vaga no Senado em Nebraska estava garantida. Então esse candidato surgiu], The New York Times, 25 out. 2024. 10 Luis Noe-Bustamante, Gracie Martinez e Mark Hugo Lopez, “Latinx awareness has doubled among U.S. Hispanics since 2019, but only 4% 37 89 66 31 94 63 45 29 72 76 53 46 47 60 34 57 8 28 62 4 32 48 66 22 20 41 49 47 34 61 6 3 6 7 2 5 7 5 6 4 6 5 6 6 5 55 44 36 52 9 4 37 89 66 31 94 63 45 29 72 76 53 46 47 60 34 57 8 28 62 4 32 48 66 22 20 41 49 47 34 61 6 3 6 7 2 5 7 5 6 4 6 5 6 6 5 55 44 36 52 9 4 60 49 41 87 65 38 90 59 51 32 70 72 55 57 42 60 4236 50 58 12 32 61 9 36 48 67 27 26 44 42 54 38 57 1 1 1 3 1 1 5 1 1 3 2 1 1 4 2 1 4 60 49 41 87 65 38 90 59 51 32 70 72 55 57 42 60 42 36 50 58 12 32 61 9 36 48 67 27 26 44 42 54 38 57 1 1 1 3 1 1 5 1 1 3 2 1 1 4 2 1 4 54 44 41 85 52 37 91 43 52 32 65 64 47 46 51 59 34 43 54 57 13 46 60 7 55 45 66 32 34 50 51 46 38 64 2 2 2 2 3 2 2 3 2 3 2 3 3 3 3 2 354 44 41 85 52 37 91 43 52 32 65 64 47 46 51 59 34 43 54 57 13 46 60 7 55 45 66 32 34 50 51 46 38 64 2 2 2 2 3 2 2 3 2 3 2 3 3 3 3 2 3 18-29 anos 45-64 anos Brancos Negros Hispânicos Homens brancos Mulheres negras Homens hispânicos Brancos c/ nível superior Brancos s/ nível superior Não brancos c/ nível superior Não brancos s/ nível superior Menos de US$ 50.000 US$ 50.000 a US$ 100 000 Mais de US$ 100.000 Zona urbana Meio rural Biden, em 2020 Clinton, em 2016 Trump Outro, ou não respondeu Voto majoritário Escolaridade e origem étnica Sexo e origem étnica Origem étnica Faixa etária Résidência Renda familiar Harris, em 2024 PARA QUEM ELES VOTARAM? Fontes: Edison Research, « Exit polls », em The New York Times, 2016 e 2020, e The Washington Post, 2024. 14 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024 E Trump teve sua vingança Donald Trump não retorna à Casa Branca como um homem isolado que chega à cena política sem rumo claro. Oito anos após sua primeira vitória, sua base eleitoral é mais ampla; sua maioria parlamentar, mais sólida. Além disso, ele se cercou de uma equipe de fiéis aliados que não tentarão conter seus impulsos, inclusive os diplomáticos POR SERGE HALIMI* UMA NOVA DIREITA NORTE-AMERICANA E m 2008, a eleição de Barack Oba- ma à Casa Branca parecia anun- ciar o surgimento de uma nova América, mais diversa, mais inte- ligente, mais justa. Na época, conside- rou-se que essa vitória democrata não representava uma ruptura ideológica ou política – o primeiro presidente afro- -americano da história de seu país era um intelectual que detestava confron- tos –, e sim o resultado de uma meta- morfose demográfica e sociológica. Por um lado, a chegada de novos migrantes diluía progressivamente a proporção de eleitores brancos, majoritariamente republicanos. Por outro, novas gera- ções mais instruídas e, portanto, mais esclarecidas substituíam as antigas, apegadas a tradições ultrapassadas. O anúncio de tamanha felicidade pa- receu ainda mais providencial por não exigir quase nenhum esforço ou luta, já que a demografia era elevada à con- dição de destino político. A boa nova encantou, então, a social-democracia europeia, que enfrentava dificuldades, e inspirou na França a “estratégia Terra Nova”, exposta em maio de 2011 em um relatório da fundação de mesmo nome, que buscava ajudar Dominique Straus- s-Kahn, então diretor-geral do FMI, a vencer as eleições presidenciais france- sas do ano seguinte. O ex-ministro so- cialista da Economia já havia, em 2002, teorizado amplamente sobre a perda do eleitorado operário pela esquerda e se resignado a isso.1 Terra Nova sugeria, então, que um novo bloco, formado por mulheres, jovens, graduados, “minorias e bairros populares” – o equivalente francês da “coalizão Obama” –, permiti- ria que os sociais-democratas europeus superassem a deserção de seu eleito- rado popular. “A coalizão histórica da esquerda, centrada na classe operária, está em declínio”, analisava Terra Nova. “Uma nova coalizão está surgindo: ‘a França de amanhã’, mais jovem, mais diversa, mais feminilizada.”2 Sabemos o que aconteceu. Hoje, a de- silusão é ainda mais profunda nos Esta- dos Unidos. Se a eleição de novembro passado tivesse colocado um presidente em fim de mandato, idoso e enfraque- cido, contra Donald Trump, o resultado teria sido menos significativo. Contudo, Kamala Harris não só parecia encarnar a “nova América” alegre e multicultu- ral – em oposição a um rival ressentido, que pretendia restaurar a suposta gran- deza do passado (“Make America Great Again”, slogan resumido pelo acrônimo Maga) –, como também havia entrado na disputa com o apoio de um partido unido, um tesouro de guerra colossal e uma mídia em êxtase. Além disso, ela cometeu poucas fa- lhas graves e superou o ex-presidente no único debate televisivo que os opôs. No entanto, Trump conquistou uma vitória incontestável que, desta vez, os demo- cratas não podem atribuir às intrigas de Vladimir Putin. Do ponto de vista deles, o pior não é tanto o aumento no número de votos para Trump entre 2016 e 2024 – apesar de suas ofensas, processos, con- denações e envolvimento na insurreição do Capitólio –, mas o fato de que esses 13 milhões de votos adicionais provêm em grande parte da “nova América”. Trump deve menos sua reeleição a uma mobilização extra de seus redutos tradi- cionais (rurais, evangélicos e brancos) e mais à mudança significativa a seu favor de uma fração dos jovens, hispânicos e negros (ver na pág. 12). Por sua vez, Harris só melhorou as posições dos candidatos democra- tas que a precederam em dois grupos: homens brancos e pessoas com rendi- mentos superiores a US$ 100 mil por ano. Apesar de ser mulher e de ter con- duzido uma campanha centrada no tema da liberação do aborto, a despei- to da postura marcadamente “viril” de seu adversário, ela mobilizou menos o eleitorado feminino, incluindo jovens de 18 a 29 anos, do que Biden quatro anos antes. Além disso, mesmo com as constantes lembranças sobre o racis- mo de Trump, ele ampliou sua votação entre os eleitores negros. Seu resultado foi ainda mais impressionante entre os hispânicos. Embora tenha tratado os imigrantes latino-americanos como criminosos em potencial, ele consoli- dou suas posições na Flórida e venceu em doze dos catorze condados do Texas situados na fronteira com o México, incluindo Starr, onde a população é 97% hispânica e Hillary Clinton obte- ve 79% dos votos em 2016... Isso refuta tanto as apostas demográficas de Terra Nova como as teorias conspiratórias da “grande substituição” [das populações nativas/brancas por imigrantes]. A batalha de interpretações está em curso, sobretudo no Partido Democra- ta. Alguns, como em 2017, preparam- -se para resistir em seus estúdios de televisão. Muito influente na burguesia progressista, a apresentadora Rachel Maddow, da MSNBC, encerrou a noi- te eleitoral suspirando: “Seria bom ter vencido esta eleição. Não foi o caso. Certo. Agora precisamos salvar o país”. Sem dúvida, ela argumentará que a América branca continua racista, que os hispânicos são machistas e que os norte-americanos menos instruídos – aqueles que se deixam enganar pe- las fake news em vez de ler o New York Times – são tão imorais que aceitam, conscientemente, reeleger para a Casa Branca um mentiroso, ladrão, estupra- dor, golpista, agente russo, fascista e nazista. Esses terrenos de investigação já foram explorados à exaustão. Contu- do, na MSNBC, assim como em muitos outros meios, o objetivo há muito dei- xou de ser informar sobre o que muda, mesmo correndo o risco de surpreen- der, para fidelizar uma audiência radi- calizada, oferecendo-lhe uma imagem enaltecedora de si mesma. A análise da eleição não é necessaria- mente mais profunda em outros con- textos. A direita democrata acusa Harris de ter ido excessivamente à esquerda, esquecendo que ela encerrou sua cam- panha ao lado da neoconservadora Liz Cheney, na esperança de atrair eleito- res republicanos hostis a Trump. Bernie Sanders, por outro lado, acredita que o Partido Democrata, excessivamente dependente de “poderes econômicos e consultores bem pagos”, mostrou-se incapaz de “compreender a dor e a alie- nação política vividas por dezenasde milhões de norte-americanos”. No en- tanto, em 27 de julho, o senador de Ver- mont lembrou na MSNBC que Biden foi “o primeiro presidente da história dos Estados Unidos a se juntar a um piquete de greve” e que lhe devemos “as priori- dades e conquistas mais progressistas da história moderna”. De fato, o plano de reindustrialização de Biden, desajeita- damente chamado de “lei de redução da inflação”, procurou promover o empre- go industrial e oferecer bons salários a norte-americanos sem diploma.3 Porém, como os resultados desse projeto ainda não eram perceptíveis no momento da eleição, os discursos democratas exal- tando seu “bom desempenho” econômi- co foram ofuscados pela estagnação do nível de vida das classes populares e pela disparada dos preços, impulsionada pela crise sanitária e pela guerra na Ucrânia. QUAIS LIÇÕES NO EXTERIOR? Do outro lado do Atlântico, todos tam- bém se esforçam para tirar lições da atualidade norte-americana que vali- dem suas análises. Para a extrema direi- ta, a vitória de Trump demonstra que o povo odeia os imigrantes e a “ideologia woke” e não deseja que os ricos paguem mais impostos. Para os socialistas, isola- dos quando o “suserano” norte-ameri- cano não é democrata, isso prova que é preciso construir a Europa. Já para os In- soumis [membros do partido França In- submissa, esquerda], o fracasso de Har- ris confirma sua teoria da “abstenção diferencial”, ou seja, a existência de um eleitorado de esquerda inclinado a boi- cotar as urnas quando não é mobilizado. “Trump não avançou, perdeu 2 milhões de votos”, afirmou o deputado Antoine © Gage Skidmore/Flickr 15DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil Léaument. “Mas Kamala Harris perdeu 14 milhões de votos em relação a Joe Biden.”4 A candidata, de fato, seduziu menos a base democrata do que Biden quatro anos antes. Contudo, a diferen- ça entre eles é de cerca de 7 milhões de votos, não o dobro. Quanto ao vencedor, longe de ter perdido 2 milhões de votos, ele ganhou até um pouco mais que isso.5 A vitória de Trump questiona aqueles que acreditam que denunciar o racis- mo, as violências policiais e a extrema direita é a chave para despertar os abs- tencionistas. Esses temas, por si sós, não definem uma identidade política nem o comportamento eleitoral asso- ciado, uma vez que Trump obteve um número inesperado de votos negros e, sobretudo, hispânicos. Há muito se sabe que, embora não corresponda a seus interesses econômicos, uma fra- ção considerável do eleitorado popular vota à direita em razão de crenças reli- giosas, história familiar, meio social etc. Da mesma forma, os hispânicos podem eleger um presidente xenófobo porque culpam seu adversário pelo aumento dos preços, temem ser arrastados para uma guerra ou até se opõem a uma po- lítica liberal de imigração. ra de redação da revista Esprit e conse- lheira do programa Américas do Institut Français des Relations Internationales (Ifri), declarou no programa L’Esprit Pu- blic: “Trump é de uma violência incrível, especialmente contra suas adversárias femininas. [...] Agora ele nos diz que Liz Cheney deveria enfrentar um pelotão de execução”. Essa distorção – que em outras circunstâncias seria chamada de fake news – é apenas a última de uma longa série. Ela reflete uma polêmica exacerbada que falha em atingir seu alvo. Como alguns democratas eleitos ago- ra reconhecem, suas prioridades estão excessivamente alinhadas com as dos veículos progressistas, em geral sedia- dos em Nova York ou Washington, cujo principal combustível é a indignação.7 Isso traz o risco de alimentar uma visão distorcida do país e do que representa o fenômeno Trump. Em política externa, por exemplo, o próximo presidente se apresentou como alguém que, tendo evi- tado guerras em seu primeiro mandato, resolveria os conflitos herdados nego- ciando “acordos” com adversários geo- políticos. Algumas de suas nomeações – embora não todas – apontam nessa di- reção, especialmente a de Tulsi Gabbard para chefiar as agências de inteligência. Ex-congressista democrata, Gabbard ganhou destaque por sua oposição aos neoconservadores dentro de seu próprio partido. Talvez porque estes já temam uma mudança na diplomacia, o fim da presidência de Biden coincide com uma escalada das tensões internacionais e novas remessas de armas para a Ucrânia – como se fosse necessário disparar, an- tes de um armistício temido, os últimos cartuchos de uma guerra perdida. Como resultado, enquanto más notícias devem se acumular nos Estados Unidos em questões fiscais, migratórias, ambientais e de direitos das mulheres, os democra- tas quase conseguiram evitar que se la- mente por completo sua saída. *Serge Halimi é jornalista do Le Monde Diplomatique. 1 Dominique Strauss-Kahn, La Flamme et la cen- dre [A chama e a cinza], Grasset, Paris, 2002. Ler “Flamme bourgeoise, cendre prolétarienne” [Chama burguesa, cinza proletária], Le Monde Diplomatique, mar. 2002. 2 Terra Nova, “Gauche: quelle majorité électorale pour 2012?” [Esquerda: qual maioria eleitoral para 2012?], 10 maio 2011. 3 Ler Rick Fantasia, “Le retour du travailleur sur la scène politique américaine” [O retorno do tra- balhador à cena política norte-americana], Le Monde Diplomatique, nov. 2024. 4 Sud Radio, 8 nov. 2024. 5 Em 25 de novembro, os resultados, ainda in- completos, indicavam que Harris havia obtido 74,5 milhões de votos (contra 81,3 milhões de Biden em 2020) e que Trump havia passado de 74,2 milhões de votos em 2020 para 77 milhões em 2024. 6 Carine Fouteau, “Et maintenant, un ‘cinglé’ fas- cisant aux manettes du monde” [E, agora, um “louco” fascista no comando do mundo], 6 nov. 2024, www.mediapart.fr. 7 Ler Serge Halimi e Pierre Rimbert, “Un journa- lisme de guerres culturelles” [Um jornalismo de guerras culturais], Le Monde Diplomati- que, mar. 2021. Por essas razões, a atual coalizão elei- toral do presidente Trump, que não po- derá se candidatar novamente, parece tão frágil quanto a de Obama. Unindo evangélicos e libertários, ela foi ampla- mente moldada por uma personalida- de singular que simboliza, ao mesmo tempo, o sucesso individual e o ódio ao “sistema”. A resiliência, a rebeldia e os excessos de Trump o tornaram um candidato apreciado por eleitorados he- terogêneos que, como ele, sentem que têm uma revanche pela frente. Em um país que desconfia do Estado, da mídia, dos advogados e dos políticos, esse bi- lionário obstinado, incontrolável, sem escrúpulos, que dinamita partidos e coleciona acusações, odiado pelos jor- nalistas, tinha uma vantagem conside- rável mesmo antes de duas tentativas de assassinato reforçarem sua imagem de herói indestrutível. Apresentador do podcast mais popular dos Estados Uni- dos, Joe Rogan entrevistou Trump por três horas poucos dias antes da votação (70 milhões de visualizações). Após a conversa, Rogan concluiu: “Apenas um cara completamente louco pode expor a corrupção do sistema”. A explicação não é sofisticada, tampouco garantia de prognóstico, mas lembra que, nessa eleição, o status quo e o consenso eram ela; a mudança e o combate, ele. Com o apoio e os conselhos de Elon Musk, sua revanche contra o “Esta- do profundo” pode se transformar em uma privatização do próprio Estado. Contudo, os norte-americanos que se opõem a isso não terão êxito apenas repetindo termos como “robôs fascis- tas”, “novo apartheid”, “masculinidade tóxica”, “puritanismo fanático”, “extra- tivismo desenfreado”, “guerras mons- truosas”, costurados em discursos cujo único elemento variável é a ordem das palavras, todos destinados a “aniquilar uma das mais antigas democracias do mundo ocidental”.6 Esse tipo de exor- cismo pretensioso não passa da expres- são de uma impotência política. FAÇAM “ACORDOS”, NÃO GUERRA Seis dias antes da eleição, em 30 de ou- tubro, Trump foi questionado sobre o apoio ativo de Liz Cheney à candidata democrata. Ele explicou que, se a filha do ex-vice-presidenterepublicano Dick Cheney “não conseguia mais me supor- tar, é porque ela queria constantemen- te iniciar novas guerras. Se dependesse dela, estaríamos agora em cinquenta países. Mas deem a ela um rifle e vejam como se sai contra nove canhões dispa- rando contra ela. Todos esses são falcões enquanto estão sentados em um belo prédio de Washington dizendo: ‘Vamos enviar 10 mil soldados para a boca do inimigo’”. Essa resposta foi, sem dúvida, uma das mais comentadas – e distorci- das – do fim da campanha. The New York Times, The Washington Post, MSNBC, CNN e, em seguida, vários veículos eu- ropeus interpretaram as palavras como Cheney acabara de fazer. Na platafor- ma X, ela escreveu: “É agindo assim que os ditadores destroem nações livres. Eles ameaçam de morte aqueles que se opõem a eles”. Hashtags #womenwill- notbesilenced [As mulheres não serão silenciadas] e #VoteKamala. Assim, uma observação que sugeria que alguns dos políticos norte-americanos mais beli- cistas seriam menos ousados se tives- sem de enfrentar o fogo inimigo – uma crítica já feita em 2003 a George Bush e Cheney, que não combateram no Vietnã – foi transformada em uma “ameaça de morte” contra os opositores de Trump. O comentarista neoconservador da CNN Jonah Goldberg afirmou: “Ele disse de forma absolutamente explícita e sem ambiguidades que Liz Cheney deveria ser fuzilada por um pelotão de execu- ção. ‘Executar uma adversária política que, por acaso, é mulher porque eu não gosto dela’ não é um bom tema de fim de campanha”. Goldberg reconheceria seu erro, mas apenas após sua interpretação tendenciosa se tornar viral. Tarde demais para evitar que a France Culture também reproduzisse a falsa narrativa. Em 3 de novembro, Anne-Lorraine Bujon, direto-Apesar da polarização nos EUA, Trump retorna junto a valores conservadores http://www.mediapart.fr/ 16 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024 UMA FORÇA MULTINACIONAL SOB CONTROLE NORTE-AMERICANO O Quênia no atoleiro haitiano Em 20 de novembro, a escalada de violência perpetrada por gangues e forças de segurança obrigou a Médicos Sem Fronteiras (MSF) a suspender suas atividades em Porto Príncipe. Recém-chegada, a Missão Multinacional de Apoio à Segurança no Haiti, liderada pelo Quênia e apoiada por Washington, será substituída por uma verdadeira operação de manutenção da paz? POR BENJAMIN FERNANDEZ* L ogo após desembarcarem no aero- porto internacional Toussaint Louverture, em Porto Príncipe, em 25 de junho de 2024, os duzentos policiais fardados arriscaram alguns passos de dança. A cena apresenta to- dos os elementos de um clássico da dra- maturgia colonial: um exército estran- geiro chega como salvador a um país tropical mergulhado no caos. Contudo, essas tropas têm um perfil inédito: em- barcadas na véspera em Nairóbi, a 12 mil quilômetros de distância, com- põem o primeiro contingente queniano da Missão Multinacional de Apoio à Se- gurança (MMAS), enviada para “com- bater as gangues” e “restaurar a segu- rança” no Haiti. Desde o assassinato do presidente Jovenel Moïse, em 7 de julho de 2021, as organizações criminosas, que controlam 80% da capital, mata- ram 12 mil pessoas e forçaram outras 700 mil a abandonar suas casas.1 Uma deliberação de 2 de outubro de 2023 do Conselho de Segurança da ONU criou a MMAS e determinou seu envio. Os Estados Unidos, com o apoio da França, lançaram mão de toda sua in- fluência para criar a missão. Eles são seu principal patrocinador, destinando US$ 300 milhões em fundos, apoio logístico, inteligência, pessoal e equipamento mi- litar.2 Rússia e China se abstiveram du- rante a votação da resolução, destacando os perigos de qualquer forma de ingerên- cia estrangeira no país e a necessidade de respeitar sua soberania. Como expli- cou diante da Assembleia Geral das Na- ções Unidas em 14 de outubro de 2023, o presidente do Quênia, William Ruto, vê no envio dessa força um ato “históri- co”, um “compromisso pan-africano” e a expressão da necessária “solidariedade com o povo haitiano, que sofreu o peso do saque e da repressão colonial, das re- presálias e da exploração pós-colonial”. Na África, no Caribe e nos Estados Uni- dos, entretanto, levantam-se vozes para denunciar uma “invasão militar terceiri- zada” pela Casa Branca, “um imperialis- mo ocidental de rosto negro”.3 Em maio de 2024, durante uma visita de Estado de Ruto a Washington, o presidente norte-a- mericano Joe Biden elevou o Quênia ao status de “principal aliado não membro” da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), uma honra até então re- servada a vinte países, nenhum deles na África Subsaariana. Nairóbi e Washing- ton já cooperam na “luta contra o terro- rismo”, especialmente contra os Shabab somalis. Para os norte-americanos, o Es- tado da África Oriental – que abriga bases militares dos Estados Unidos e do Reino Unido4 – é um polo de estabilidade e di- namismo econômico regional. Em carta aberta, o escritor queniano Ngũgũ wa Thiong’o questionou seu pre- sidente: “Enquanto você estava na Casa Branca, os haitianos se manifestavam nas ruas, chamando-o de escravo. [...] Quando você aceitou se tornar o capataz da Otan na luta que os Estados Unidos travam contra a Rússia e a China pelo acesso aos recursos do continente?”.5 INVESTIMENTOS COLOSSAIS Durante o encontro, Biden acenou a seu homólogo com investimentos colossais no setor de novas tecnologias. Gigantes como Google e Microsoft já estabelece- ram suas sedes africanas em Nairóbi – apelidada de “Silicon Savannah” – e pla- nejariam injetar ali mais US$ 20 bilhões. Também estão sendo consideradas par- cerias nos setores de energias renováveis e no combate à malária e à aids. Contu- do, o presidente norte-americano garan- tiu sobretudo seu apoio ao Quênia para a obtenção de novos empréstimos do FMI. Por sua vez, para agradar à instituição financeira, Ruto adotou uma política de austeridade fiscal. Aumentos expressivos de impostos sobre combustíveis e ali- mentos desencadearam manifestações maciças em todo o país. Na mesma data em que as forças quenianas chegaram ao Haiti, a polícia matou cinco manifestan- tes e feriu mais de trinta pessoas em Nai- róbi. No dia seguinte, uma multidão en- furecida incendiou parte do Parlamento. Entre 18 de junho e 1º de julho de 2024, a repressão teria deixado ao menos 39 mortos. Há anos, ONGs quenianas de- nunciam desaparecimentos forçados e execuções extrajudiciais, especialmente contra jovens de bairros pobres. Esse “histórico” das forças de segu- rança quenianas levou a Anistia Inter- nacional a alertar o Conselho de Se- gurança da ONU em uma carta aberta em 18 de agosto de 2023, solicitando a criação de salvaguardas para o envio da MMAS.6 A resolução de 2 de outu- bro de 2023, que autorizou a MMAS, foi adotada sob o capítulo VII da Carta das Nações Unidas, geralmente aplicado a países em guerra. O texto especifica que essa força está sob responsabilidade exclusiva dos países participantes, dife- rentemente das operações de manuten- ção da paz (OMP) realizadas pela ONU sob controle internacional. Essa esco- lha se justifica pelo desastre da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah), entre 2004 e 2017, marcada por episódios de violência – exploração infantil, violência sexual, tráfico de drogas – pelos quais nenhum responsável foi punido. Os capacetes- -azuis da Minustah também reintrodu- ziram o cólera na ilha, provocando uma epidemia que fez 10 mil vítimas. Em sua cúpula de janeiro de 2023, a Comunidade do Caribe (Caricom) recu- sou aprovar o envio de forças policiais ao Haiti, apesar da pressão do Core Group – órgão designado pelo Conselho de Segurança da ONU para buscar solu- ções para a crise e composto de embai- xadores ocidentais reunidos em torno de Estados Unidos, Canadá e França. Contudo, no verão seguinte, ao final da conferência convocada em Trinidad pelo secretário de Estado, Antony Blin- ken, os dirigentes da Caricom mudaramde posição. Assim como o Quênia, seus países-membros receberam promessas de Washington de atraentes programas de cooperação militar e ajuda econô- mica. O Haiti lidera a lista de “Estados frágeis” considerados uma ameaça à se- gurança dos Estados Unidos, conforme avaliação do Departamento de Estado. Ainda assim, como observa Jemima Pierre, coordenadora para o Haiti e as Américas do coletivo Black Alliance for Peace e professora de Antropologia da Universidade da Califórnia em Los An- geles (Ucla), “o principal problema do Haiti não é a violência das chamadas gangues, mas a constante interferência da comunidade internacional. Os haitia- nos não pediram nada disso”.7 De fato, o colapso do Estado haitiano não é fruto do acaso, desde os milhões de euros de “reparação” exigidos por Paris e Washin- gton após a independência em 1804 até os golpes de Estado apoiados pela Casa Branca e pelo Palácio do Eliseu: em 1956, em benefício da dinastia dos di- tadores anticomunistas François “Papa Doc” Duvalier e seu filho Jean-Claude “Baby Doc”, exilado na França após sua queda; e depois, em 1994 e 2004, com o apoio da França e de ex-policiais golpis- tas contra o primeiro presidente demo- craticamente eleito, o padre popular das favelas Jean-Bertrand Aristide.8 Após o terremoto que devastou o país em 2010, os Estados Unidos conduzi- ram habilmente a ajuda humanitária em seu benefício. As comunicações di- © V al en tin B au m on t 17DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil plomáticas divulgadas pelo WikiLeaks revelaram a intervenção de Washington, em 2011, para alterar o curso da elei- ção presidencial a favor do novato Mi- chel Martelly e de seu partido Tèt Kale (PHTK). Nessas comunicações, a em- baixadora norte-americana em Porto Príncipe, Janet A. Sanderson, elogiava a Minustah como uma “fonte de poder de baixo custo para os Estados Unidos”. A força internacional era, segundo ela, uma “ferramenta indispensável para promover os interesses políticos funda- mentais do governo norte-americano no Haiti”. A diplomata mencionava, em particular, o combate à “ressurgência de forças políticas populistas e contrárias à economia de mercado” e a um “êxodo de migrantes por via marítima”. Em 2016, os Estados Unidos celebra- ram novamente a eleição, muito contes- tada, de Moïse, o sucessor de Martelly – apesar da manipulação de 628 mil “vo- tos zumbis” e de seu envolvimento, ao lado de seu mentor, no desvio de cente- nas de milhões de dólares do programa de ajuda venezuelano PetroCaribe. Ape- lidado no Haiti de “bandido legal”, Mar- telly está atualmente sob sanções dos Estados Unidos por seu envolvimento em uma ampla rede internacional de tráfico de drogas, enquanto a ONU o acusa de ter financiado e armado grupos criminosos para aterrorizar os bairros de favelas que não apoiavam seu partido. Após o assassinato de Moïse em sua residência, em 2021, por um comando de mercenários, o Core Group instalou Ariel Henry como primeiro-ministro, com o apoio da Caricom. A questão das eleições foi relegada a segundo pla- no, enquanto todos os mandatos dos políticos eleitos haitianos expiraram. No início de março de 2024, enquan- to Henry retornava de Nairóbi com a promessa do envolvimento do Quênia, uma onda de ataques armados devas- tou a capital, forçando o impopular pri- meiro-ministro a se exilar nos Estados Unidos. Por fim, o Core Group e a Ca- ricom decidiram formar um conselho de transição eleitoral – composto de oito representantes não eleitos de par- tidos políticos e do setor privado, além de um pastor batista – encarregado de nomear um novo primeiro-ministro. A primeira iniciativa da nova instância foi escrever a Ruto solicitando o apoio do Quênia na constituição de uma for- ça internacional de segurança. “Não há solução militar para o colap- so das instituições”, avalia Murithi Mu- tiga, diretor do escritório africano do International Crisis Group. “É preciso começar pela construção de um con- senso político nacional – caso contrário, seria injusto enviar a polícia.”9 Enquanto a mídia internacional divulgou ampla- mente imagens de milicianos armados mantendo barricadas incendiadas nas portas do aeroporto poucos meses an- tes da chegada da MMAS em março de 2024, pouco se falou sobre os milhares de manifestantes que ocupavam pacifi- camente as ruas exigindo a renúncia de Henry e a organização de eleições. Jimmy “Barbecue” Chérizier, o chefe de gangue que semeou o caos em Porto Príncipe na primavera de 2024, é um ex- -integrante das forças especiais haitia- nas, acusado de coordenar massacres a mando do presidente Moïse. Órfão de seu protetor, o líder das Forças Revo- lucionárias da Família G9 e Aliados se apresenta como libertador. Ele afirma querer combater a “ocupação estran- geira” e os privilégios da oligarquia. “Não é possível que um pequeno grupo de ricos que vivem em grandes hotéis decida o destino dos habitantes das co- munidades pobres”, advertia ele duran- te o cerco ao aeroporto. “É o povo hai- tiano que conhece suas próprias dores, e cabe a ele decidir quem governará.”10 Reunindo os grupos armados – cujos líderes, em alguns casos, são alvo de sanções das Nações Unidas –, Chérizier promete transformar a vida das tropas quenianas em um inferno. Os grupos armados intensificaram seus ataques nos últimos meses, am- pliando ainda mais seu controle sobre a capital. Um relatório do escritório da ONU no Haiti (Binuh), publicado em 30 de outubro, alerta para os “níveis recor- de de violência” gerados pelo combate às gangues. Desde o início da operação da MMAS, 1.223 pessoas foram mortas e 522 ficaram feridas, sendo 45% das mortes atribuídas às forças de segu- rança e 8% aos grupos paramilitares de autodefesa que se multiplicam na ca- pital. O relatório menciona “execuções extrajudiciais sumárias ou arbitrárias” cometidas pelas forças de segurança, incluindo contra crianças.11 Diante do agravamento da situação de segurança, o conselho de transição de- mitiu o primeiro-ministro Garry Conille e já solicitou oficialmente à ONU a subs- tituição da MMAS por uma missão de manutenção da paz. A solicitação, im- pulsionada pelos Estados Unidos, tem poucas chances de obter a aceitação da Rússia e da China no Conselho de Segu- rança, além das dificuldades em recrutar capacetes-azuis voluntários em número suficiente. Derrotada nas ruas de Porto Príncipe, a força multinacional sob co- mando queniano enfrenta problemas para atrair outros contingentes. A Jamai- ca enviou timidamente, em setembro, 24 policiais supervisores, e Belize, ape- nas dois agentes. Um reforço de oitenta policiais foi anunciado pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele, também conhecido por conduzir com mão de ferro uma “guerra contra gangues” em seu país, marcada por profunda violên- cia contra a população. Enquanto 2 mil agentes devem refor- çar a MMAS até o fim de 2024, o con- fronto com as milícias se transforma em um jogo de espelhos: de ambos os lados, paramilitares e policiais acusados de execuções extrajudiciais e especiali- zados na repressão de protestos sociais, equipados com o mesmo arsenal de fa- bricação norte-americana... E, no meio, a população mais pobre do Haiti, presa em um cerco. *Benjamin Fernandez é jornalista. 1 “Report on the internal displacement situation in Haiti – Round 7 (June 2024)” [Relatório sobre a situação de deslocamento interno no Haiti – Rodada 7 (junho de 2024)], Organização Inter- nacional para as Migrações, jun. 2024. 2 “Les relations des États-Unis avec Haïti” [As relações dos Estados Unidos com o Haiti], Departamento de Estado dos Estados Uni- dos, 5 set. 2024. 3 Cf., respectivamente, Alexandra Sharp, “UN approves foreign intervention in Haiti” [ONU aprova intervenção estrangeira no Haiti], Fo- reign Policy, Washington, DC, 3 out. 2023, e “No to blackface imperialism. Yes to Haitian sovereignty” [Não ao imperialismo de rosto ne- gro. Sim à soberania haitiana],25 ago. 2023, https://blackallianceforpeace.com. 4 Ler Jean-Christophe Servant, “Au Kenya, la pré- sence contestée de l’armée britannique” [No Quênia, a presença contestada do Exército britânico], Le Monde Diplomatique, out. 2022. 5 Ngũgĩ wa Thiong’o, “An open letter to William Ruto” [Uma carta aberta a William Ruto], 31 maio 2024, https://ashenewsdaily.com. 6 “Haïti. Lettre ouverte à tous les membres du Conseil de sécurité concernant le déploiement d’une force internationale de sécurité en Haï- ti” [Haiti. Carta aberta a todos os membros do Conselho de Segurança sobre o envio de uma força internacional de segurança no Haiti], 18 ago. 2023, www.amnesty.org. 7 “Haitians resist foreign intervention as US pushes for unelected “Transition Council” to rule island” [Haitianos resistem à intervenção estrangeira enquanto os EUA pressionam por um “Conselho de Transição” não eleito para governar a ilha], 3 abr. 2024, www.de- mocracynow.org. 8 Ler Jake Johnson, “La bataille d’Haïti n’est pas finie” [A batalha do Haiti não acabou], Le Mon- de Diplomatique, dez. 2021. 9 Citado por Caroline Kimeu e Tom Phillips, “‘It’s mission impossible’: Fear grows in Kenya over plan to deploy police to Haiti” [“É uma missão impossível”: cresce o medo no Quênia sobre o plano de enviar policiais ao Haiti], The Guar- dian, Londres, 28 mar. 2024. 10 “Haitian prime minister resigns as gang leader ‘Barbecue’ steps into power vacuum” [Primei- ro-ministro haitiano renuncia enquanto o líder de gangue “Barbecue” ocupa o vácuo de po- der], 12 mar. 2024, www.itv.com. 11 Dánica Coto e Evens Sanon, “Haiti sees a rise in killings and police executions with children targeted, UN says” [ONU relata au- mento de assassinatos e execuções policiais com crianças como alvo no Haiti], Associated Press, 30 out. 2024. 18 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024 “Profundamente chocante”, reagiu o ex-ministro do Interior francês Gérald Darmanin à inelegibilidade recentemente solicitada contra Marine Le Pen. “Cada um deve permanecer em seu lugar para evitar um ‘governo dos juízes’”, já declarava ele após o Conselho Constitucional ter censurado parcialmente a Lei de Imigração. Essa retórica hostil aos magistrados é recorrente na política. A que ela remete? POR VINCENT SIZAIRE* A JUSTIÇA PODE LEGITIMAMENTE PROIBIR CANDIDATURAS? C inco anos de prisão, sendo três em liberdade condicional, e cinco anos de inelegibilidade com apli- cação imediata: no caso conheci- do como aquele dos assessores do Front National (FN) no Parlamento Europeu, o Ministério Público francês fez requisi- ções rigorosas contra Marine Le Pen. Es- sas requisições provocaram reações in- flamadas de líderes e analistas políticos que, de forma uníssona e conforme a ocasião, repetem o mantra do “governo dos juízes”.1 É possível, claro, preocupar- -se com eventuais abusos de uma autori- dade pública sem violar a separação dos poderes. Contudo, nesse caso, as críticas veementes ao Ministério Público visam menos à natureza política do julgamen- to e à insuficiência de garantias contra o risco de desvio do processo legal do que ao próprio princípio de penalizar atos cometidos no exercício de funções de eleitos; os tribunais estariam substituin- do o povo soberano, único juiz da probi- dade de seus representantes. Essa é uma ladainha conhecida. Mais difícil de entender é por que ela não gera reprovação generalizada. O rumo toma- do, mais uma vez, pelo debate leva a for- mular essa pergunta, em vez de questio- nar um eventual golpe judicial contra Le Pen e o Rassemblement National (RN, ex-FN): como líderes políticos podem querer se isentar de qualquer respon- sabilidade por suas ilegalidades, exceto por uma eventual sanção eleitoral? A norma constitucional não determina que a lei “deve ser a mesma para todos, seja para proteger, seja para punir”?2 Aqui, trata-se, evidentemente, de uma violação. Ou, mais precisamente, de um mito: pois, na realidade, como todo mito, a retórica do governo dos juízes tem como objetivo tornar indiscutível uma representação do mundo social. No caso, trata-se de apresentar a extensão dos poderes jurisdicionais – a condena- ção de líderes políticos ou a censura de suas decisões – como necessariamente abusiva, para legitimar sua contestação, ou seja, a contestação da emancipação do poder jurisdicional. Qual é a base do mito? Duas tendên- cias históricas, reais e interdependentes, prevalecem desde a Liberação na França [dos nazistas], como em outros lugares. Por um lado, a primazia da lei vem sendo questionada pelo desenvolvimento do controle de constitucionalidade – com, na França, a instauração em 1974 da pos- sibilidade de parlamentares recorrerem ao Conselho Constitucional, seguida, em 2010, da introdução da questão prioritá- ria de constitucionalidade (QPC) – e pela afirmação da superioridade do direito europeu e convencional sobre a legisla- ção nacional, consagrada pela Corte de Cassação desde 1975 e aceita pelo Con- selho de Estado a partir de 1989.3 Por outro lado, nota-se um movimen- to de emancipação relativa do Poder Ju- diciário em relação ao Poder Executivo. Subordinados ao governo desde o Pri- meiro Império, os juízes foram recupe- rando progressivamente sua indepen- dência a partir da segunda metade do século XX.4 As reformas iniciadas na Li- beração para fortalecer as estruturas do Estado de direito culminaram na adoção de um estatuto mais protetor contra in- gerências de outros poderes. A criação da Escola Nacional da Ma- gistratura (ENM) em 1958 e a consolida- ção do sindicalismo judiciário nos anos 1970 possibilitaram a constituição de um corpo profissional dotado de uma consciência e de uma ética específicas, voltado para a aplicação independente da lei.5 A formação contemporânea de um corpo de magistrados das jurisdições administrativas permitiu que essa outra justiça tomasse, gradualmente, certa dis- tância em relação à administração cujos litígios ela julga. Por fim, a dinâmica de integração do direito francês à ordem jurídica europeia conferiu às jurisdições um poderoso mecanismo de emancipa- ção progressiva do Poder Executivo. A retórica do governo dos juízes é, pre- cisamente, uma reação a esse duplo mo- vimento. A expressão surge pela primei- ra vez em 1921, nas palavras do publicis- ta Édouard Lambert.6 O autor buscava alertar seus contemporâneos sobre os riscos da introdução na França do con- trole de constitucionalidade tal como ele viu ser praticado pela Suprema Corte dos Estados Unidos. Contudo, é sobre- tudo porque vê nesse controle um ins- trumento de manutenção das posições mais conservadoras na sociedade – em particular, uma verdadeira obstrução à adoção, no fim do século XIX, de uma le- gislação mais protetora dos direitos dos trabalhadores – que Lambert denuncia a limitação da ação do legislador. EMANCIPAÇÃO DOS MAGISTRADOS As sutilezas da análise não resistem à sua difusão e menos ainda à sua apro- priação pelas classes dirigentes. Muito rapidamente, a denúncia do governo dos juízes passou a designar, de manei- ra geral, a suposta usurpação da vonta- de popular. Em 1945, o socialista André Philip afirmou que “a soberania per- tence ao povo, não aos juízes”.7 Em 1948, Charles de Gaulle ecoou: “Na França, a melhor Suprema Corte é o po- vo”.8 Não é por acaso que, dez anos de- pois, a Constituição da V República re- baixou o Poder Judiciário ao status de simples “autoridade” e atribuiu o con- trole de constitucionalidade não a uma corte, mas a um conselho, encarregado de garantir que o Parlamento não ultra- passe as atribuições do Poder Executi- vo.9 Enquanto, nos anos 1970, se denun- ciavam os supostos “juízes vermelhos”, mais recentemente é “a brutalidade da autoridade judicial em relação aos líde- res políticos” que o polemista Jean-Éric Schoettl critica, como outros defenso- res do mito, em La Démocratie au péril des prétoires ([A democracia em risco nos tribunais]Gallimard, 2022). Resumidamente, o mito recodifica a emancipação – real – dos magistrados como uma empreitada – sistemática e necessária – pela contestação da sobe- rania popular. Na Turquia, Israel, Hun- gria, Polônia e Itália, essa denúncia da subversão judicial caracteriza gover- nos e movimentos políticos de inclina- ção autoritária. Na França, a descon- fiança em relação ao poder jurisdicional tem menos origem no amor pela lei e mais na velha tradição bonapartista que, em parte, fundamenta a ordem ju- rídico-político nacional.10 Aqui, o juiz é concebido, no máximo, como auxiliar do Poder Executivo e de sua poderosa administração. Mais do que os direitos dos cidadãos, defende-se a soberania de um poder público livre de quaisquer restrições, inclusive a respeito dos di- reitos fundamentais das pessoas. Assim, a retórica do governo dos juí- zes expressa, antes de tudo, uma oposi- ção reacionária à emancipação de um poder jurisdicional comprometido com a preservação das liberdades. Para perceber isso, basta analisar os perigos que, segundo Schoettl, o governo dos juízes representaria para a democracia. É impossível, lamenta o ex-secretário- -geral do Conselho Constitucional em sua obra de crítica, “suspender [...] ou simplesmente [...] encerrar” a partici- pação da França na Convenção Euro- peia dos Direitos Humanos; “colocar em detenção administrativa os radica- lizados”; “retirar a nacionalidade fran- cesa de jihadistas”; “estabelecer um li- mite para os fluxos migratórios”... Naturalmente, a presença da tradi- ção bonapartista na cultura política francesa não basta para explicar a vita- lidade contemporânea do mito. Por trás do ataque à independência efetiva dos juízes, há uma questão essencial: a legi- timidade de sua intervenção em uma sociedade democrática. Ou seja, além da desqualificação prévia do controle jurisdicional sobre os governantes, im- põe-se uma reflexão necessária sobre O governo dos juízes: mito e realidades Na Turquia, Israel, Hungria, Polônia e Itália, essa denúncia da subversão judicial caracteriza governos e movimentos políticos de inclinação autoritária 19DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil as condições e modalidades de exercí- cio do poder dos juízes – especialmente o controle desse poder pelo povo, em nome de quem a justiça é exercida. Contudo, mesmo quando pretende abordar essa questão, a retórica do go- verno dos juízes tem como efeito – se não como objetivo – impedir a formula- ção de uma resposta clara e viável. Ao atacar o esforço histórico de res- ponsabilização das classes dirigentes perante a justiça, essa retórica acaba ocultando formas reais e contemporâ- neas de invasão do poder jurisdicional sobre a soberania cidadã. Tais formas constituem um peculiar governo pelo juiz, ou seja, a utilização do aparato ju- risdicional para colocar em prática po- líticas públicas sem submetê-las pre- viamente à deliberação democrática. Promulgada em 1980 pelo regime fas- cista do general Augusto Pinochet, a Constituição chilena confere à Supre- ma Corte a tarefa de garantir o respeito a disposições que tornam quase impos- sível a nacionalização da exploração de recursos minerais e energéticos ou a prestação de serviços públicos dignos, especialmente na educação.11 Mais pró- ximo da França, os tratados comunitá- rios deixam a aplicação e, em particu- lar, o respeito à liberdade “fundamental” de circulação de bens e capitais a cargo do Tribunal de Justiça da União Euro- peia (TJUE). Por iniciativa do poder po- lítico, portanto, os juízes contribuem para constituir uma forma de bloqueio, por meio de uma jurisprudência que considera ilegais propostas alternativas nas áreas econômica e social.12 Nos últimos anos, também se obser- varam estratégias conhecidas como la- wfare contra forças progressistas na Es- panha, Argentina, Brasil e Peru – a instrumentalização do aparato jurisdi- cional como ferramenta de repressão ou vingança política.13 Além desses gol- pes, da conivência social e profissional à intimidação mais ou menos explícita, numerosos vetores de influência do Po- der Executivo sobre o curso da justiça permanecem. Eles permitem ao Execu- tivo exercer outra forma de governo pe- lo juiz: indireta e insidiosa, mas ainda assim eficaz, favorecendo decisões ali- nhadas às suas diretrizes em detrimen- to das garantias dos cidadãos, seja na validação de uma lei repressiva pelo Conselho Constitucional, na dissolu- ção de uma associação pelo juiz admi- nistrativo ou na condenação de supos- tos manifestantes pela justiça penal. Para que se estabeleça outra justiça, voltada à proteção dos direitos e das li- berdades de todos os cidadãos, a eman- cipação plena e integral do poder juris- dicional continua sendo uma condição necessária e, de forma alguma, um obstáculo à soberania popular. *Vincent Sizaire é magistrado, professor associado da Universidade Paris Nanterre e autor de Gouverner les juges. Pour un pouvoir judiciaire pleinement démocrati- que [Governar os juízes. Por um Poder Ju- diciário plenamente democrático] , La Dis- pute, Paris, 2024. 1 Cf., por exemplo, Robin d’Angelo, “Gérald Darmanin remet en cause l’État de droit et suscite un tollé” [Gérald Darmanin questiona o Estado de direito e provoca indignação], Le Monde, 16 nov. 2024. 2 Artigo 6º da Declaração dos Direitos do Ho- mem e do Cidadão, de 26 de agosto de 1789. 3 Ler Anne-Cécile Robert, “Vous avez dit ‘sa- ges’?” [Você disse “sábios”?]; Vincent Sizaire, “Le juge européen peut-il être un contre-pou- voir au service de la démocratie?” [O juiz eu- ropeu pode ser um contrapeso a serviço da democracia?]; Lauréline Fontaine, “Du bon usage de la Constitution” [Do bom uso da Constituição]; e Aurélien Bernier, “Faut-il dé- sobéir à l’Union européenne?” [É necessário desobedecer à União Europeia?], Le Monde Diplomatique, respectivamente abr. 2013, jan. 2018, abr. 2023 e maio 2024. 4 Jean-Pierre Royer, Histoire de la justice en France [História da justiça na França], PUF, Paris, 2016 (1. ed.: 2001). 5 “La justice comme arène, une tradition sub- versive” [A justiça como arena, uma tradição subversiva]. In: Liora Israël (org.), L’Arme du droit [A arma do direito], Presses de Sciences Po, Paris, 2020. 6 Édouard Lambert, Le Gouvernement des juges et la lutte contre la législation sociale aux État- s-Unis [O governo dos juízes e a luta contra a legislação social nos Estados Unidos] (1. ed.: Marcel Giard, 1921), Dalloz, Paris, 2005. 7 Citado em Guillaume Boudou, “De Chate- net à de Gaulle: la perspective d’un contrô- le a posteriori de constitutionnalité des lois en 1968-1969” [De Chatenet a De Gaulle: a perspectiva de um controle a posteriori da constitucionalidade das leis em 1968-1969], Revue Française de Droit Constitutionnel, v.3, n.107, Paris, 2016. 8 Coletiva de imprensa realizada na Maison de la Résistance Alliée em 1º de outubro de 1948. 9 Robert Badinter, “Les institutions de 1958 et l’État de droit” [As instituições de 1958 e o Es- tado de direito], Espoir, n.85, Paris, 1992. 10 Sortir de l’imposture sécuritaire [Sair da impos- tura securitária], La Dispute, Paris, 2016. 11 Ler Victor de La Fuente e Libio Pérez, “Quel- le Constitution pour le Chili?” [Que Consti- tuição para o Chile?], Le Monde Diplomati- que, set. 2022. 12 Ler Dieter Grimm, “Quand le juge dissout l’électeur” [Quando o juiz dissolve o eleitor], Le Monde Diplomatique, jul. 2017. 13 Ler Perry Anderson, “Au Brésil, les arcanes d’un coup d’État judiciaire” [No Brasil, os bastidores de um golpe judicial]; Aníbal Garzón, “Au Pérou, le coup d’État permanent” [No Peru, o golpe de Estado permanente]; e Anne-Dominique Correa, “En Argentine, la droite rugit mais innove peu” [Na Argentina, a direita ruge, mas inova pou- co], Le Monde Diplomatique, respectivamente set. 2019, jan. 2023 e out. 2023. Cf. também “Pablo Iglesias: ‘Great disasters turn neoliberals into neo-Keynesians’”[Pablo Iglesias: “Grandes desastres transformam neoliberais em neokey- nesianos”], Tribune, 24 out. 2020. © L ila C ru z 20 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024 DOSSIÊ ESPECIAL – MUNDO DO TRABALHO L’Histoire de Souleymane, de Boris Lojkine, aborda a condição do entregador clandestino. Au boulot! [Ao trabalho!], de Gilles Perret e François Ruffin, coloca uma grande burguesa cheia de certezas frente a frente com as mulheres que mantêm a economia de pé por um salário mínimo (pág. 27 ). O sucesso desses longas-metragens nas salas de cinema francesas sugere uma nova atenção às realidades do trabalho, sua precariedade e seus perigos (pág. 24 ). Porém, quando o governo da França exige mais esforços para cobrir os déficits – dificuldades para acessar o seguro- desemprego, sete horas a mais na jornada – e o setor automobilístico europeu fraqueja (pág. 25 ), o abismo se aprofunda entre duas relações que se estabelecem com o trabalho assalariado: entre aqueles que o evitam (pág. 28 ) ou questionam sua vocação (pág. 22 ) e muitos outros, que só podem viver o trabalho como uma injustiça (a seguir ) POR GRÉGORY RZEPSKI* Tudo o que nos separa F icar sem ele é uma maldição; ter um é muitas vezes um suplício, es- pecialmente quando o trabalho dá a sensação de um afogamento em um oceano de tarefas entorpecen- tes, excessivas, extenuantes, desprovi- das de sentido. Desde os anos 1980, os governantes franceses contribuem pa- ra fazer do trabalho assalariado uma experiência de injustiça. E consolidam uma alternativa: é isso ou nada. Neste outono de 2024, nos setores automoti- vo, químico e de supermercados, suce- deram-se anúncios de redução de pes- soal. O ministro da Indústria francês, Marc Ferracci, receia pela eliminação de dezenas de milhares de postos. A se- cretária-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT), Sophie Binet, pro- jeta 150 mil cortes. No entanto, apesar da conjuntura europeia desfavorável e do fracasso evidente de sua política, o governo acelera: a jornada de trabalho deverá aumentar; o número de servido- res, diminuir em vários serviços públi- cos – incluindo o de geração de empre- go. No Parlamento, uma maioria muito relativa continua a defender os cortes nas contribuições sociais. Essa medida ineficaz – que consiste em isentar par- cialmente os empregadores de sua obrigação de pagar os assalariados e depois transferir a fatura da isenção para o Estado – custou 80 bilhões de euros aos cofres públicos franceses em 2023, ou seja, aos contribuintes.1 Os dirigentes franceses insistem em reduzir o “custo do trabalho” (salários e proteção social) em nome da competi- tividade. Essa política sempre fracassa, seja em proteger empregos de qualidade, seja em impulsionar as exportações – sal- vo raras exceções, nos setores de luxo, ae- ronáutico etc. As empresas, por sua vez, colocam em prática suas próprias estra- tégias de baixo custo: transferem plan- tas para o exterior, terceirizam, afastam trabalhadores mais velhos e intensificam o trabalho dos que permanecem. A pres- são também aumenta sobre os funcioná- rios públicos – cada vez mais “avaliados” e desvalorizados – e sobre os desempre- gados – mais controlados e menos in- denizados, pois é preciso compensar as ajudas às empresas ou os cortes de im- postos com economias no orçamento do Estado e no seguro-desemprego. Essas medidas, renovadas ao longo de trinta anos, têm ainda duas consequên- cias menos visíveis, mas que agravam a injustiça entre os trabalhadores assala- riados: por um lado, uma fraca perfor- mance da França em comparações eu- ropeias em termos de saúde no trabalho, exposição a riscos físicos, intensidade, autonomia, formação, perspectivas de carreira – em prejuízo, sobretudo, das mulheres, dos operários e dos trabalha- dores precários –; por outro lado, a de- sindustrialização, as reestruturações e a digitalização resultam em cada vez mais isolamento. Aqueles situados na parte de baixo da hierarquia salarial têm cada vez menos chances de se cruzarem na canti- na, na máquina de café ou na copiadora.2 As pessoas encarregadas das políti- cas públicas de promoção de emprego e trabalho não são exceção, observa o sociólogo Olivier Godechot. Ministros, deputados, assessores, economistas, consultores e seus próximos ocupam funções em universos homogêneos em que, salvo os funcionários de serviços terceirizados, praticamente só convi- vem com seus pares. Esse pequeno gru- po impõe reformas – como a da previ- dência, em 2023 – que pouco os afetam. E, quando valorizam o trabalho, favo- recem os empregados mais bem posi- cionados. Defender o poder de compra por meio de incentivos à participação nos lucros ou ao pagamento de bônus – como, desde 2019, as sucessivas versões do chamado “bônus Macron” – significa ignorar que esses incentivos só bene- ficiam as empresas mais lucrativas, ou seja, aquelas que empregam os escalões mais altos da hierarquia salarial. Entretanto, há muito tempo a queda na qualidade de vida poupa apenas os cargos superiores. A introdução da jor- nada de 35 horas já lhes permitia sair para o fim de semana na quinta-feira ou coordenar melhor sua vida conjugal, enquanto a intensificação do trabalho tornava as ocupações físicas ou repeti- tivas mais exaustivas; e, nos setores de limpeza e comércio, os horários frag- mentados prolongavam os tempos de deslocamento entre casa e trabalho. A organização das empresas e do serviço público passa atualmente por evolu- ções semelhantes. “Embora a prática do home office [tenha] se difundido duran- te a crise sanitária entre populações que anteriormente estavam muito distantes disso, ela [recuou] no pós-crise”, consta- ta um estudo recente do Ministério do Trabalho. Os cargos superiores repre- sentam 65% dos 6 milhões de trabalha- dores em regime remoto, e os diploma- dos do ensino superior, 97%.3 Distância do trabalho, seja simbólica ou material, é mais do que nunca um luxo. Os trabalhadores cujas funções não são elegíveis para esse modelo pode- riam, certamente, obter uma compen- sação. Entre 2020 e 2023, o número de acordos empresariais instaurando a semana de quatro dias quintuplicou, com frequência estabelecendo home office sistemático às sextas-feiras para uma parte do quadro – geralmente os cargos superiores – e, para os demais, a semana de segunda a quinta-feira. Para os primeiros, como observa a pesquisa- dora Pauline Grimaud, que analisou os detalhes dos acordos, o “bem-estar no trabalho” prometido nos primeiros pa- rágrafos dos preâmbulos; para os segun- dos, semanas comprimidas ou intensi- ficadas.4 A separação se acentua, assim, dentro do trabalho assalariado, favore- cendo os mais qualificados, às vezes por iniciativa deles próprios. Quando quase metade dos quadros su- periores do setor privado afirmam estar dispostos a deixar suas empresas caso o home office seja abolido, eles sabem que sua relação de forças é favorável ou me- nos arriscada, graças a um desemprego de 3,5% e à concentração dos postos em serviços de alto valor agregado – 44% –, que, naturalmente, permitem o trabalho remoto.5 As ocupações que a Organização Internacional do Trabalho (OIT) define como “essenciais” enfrentam uma situa- ção bem diferente, justamente por não se- rem passíveis de home office e por serem exercidas em setores em que a atividade não pode ser interrompida: profissionais de saúde, segurança, limpeza, comércio e transportes. Seus 8 milhões de trabalha- dores – mais de um quarto dos empre- © Tranmautritam/Pexels Políticas de trabalho francesa estão aumentando a precariedade do trabalho 21DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil gos na França, muitas vezes mulheres e frequentemente imigrantes, em setores como o de assistência domiciliar – rece- bem remunerações quase 20% inferiores à média dos assalariados. Eles também enfrentam maior precariedade, trabalho em tempo parcial e horários atípicos.6 Desde o início da pandemia de Co- vid-19, asDesde então é possível reconhecer as ofensivas das forças conservadoras, que se pro- põem a alijar Lula e o PT do governo. Essa defesa dos interesses da elite bra- sileira é uma constante. Na fase atual, ela se expressa no golpe parlamentar que depôs a presidenta Dilma Rousseff em 2016; na prisão ilegal de Lula em 2018, para impedi-lo de participar das eleições desse ano; na invasão dos pré- dios do governo, com o fim de impedir a posse de Lula eleito, em janeiro de 2023. Merece destaque a Lava Jato, processo de law fare, ou seja, o ataque político por meio da manipulação dos instrumentos legais, que foi de 2014 a 2021. Não se trata de uma quartelada de iniciativa de meia dúzia de aloprados. É um amplo movimento com bases na sociedade que expressa uma alian- ça política que trabalha há anos pelo desgaste da imagem de Lula e do PT e de setores progressistas, pelo fim das políticas redistributivas, pelo fim da re- gulação democrática que limita a espo- liação das maiorias e defende a “livre” atuação das empresas. Com sólidos e majoritários blocos parlamentares de direita na Câmara dos Deputados e no Senado, temos de con- siderar também a participação efetiva de parlamentares na tentativa de golpe. Muitos deles são identificáveis por de- mandarem nas redes sociais e em outros espaços públicos o golpe e a intervenção militar. Muitos representam também os setores econômicos que se envolveram com o golpe e a tentativa de desestabili- zação política do governo eleito. Pesquisas e análises sociológicas iden- tificam vários setores profissionais, das classes média e alta, ligados a esse mo- vimento. Advogados, juízes, promotores, médicos, engenheiros, dentistas e admi- nistradores são exemplos de categorias profissionais que se opõem ao PT e à “es- querda”, seja lá o que se entenda por ser de esquerda. Sentem-se ameaçados em seus privilégios pelas políticas redistri- butivas, pelo acesso dos pobres à univer- sidade, pela presença de negros em seu ambiente profissional e pela afirmação dos direitos das empregadas domésti- cas, por exemplo. Segundo eles, o aero- porto não pode virar uma rodoviária... O “Teto dos Gastos”, imposto pelo go- verno Temer em 2026, ou o “Arcabouço Fiscal” são demandas das classes do- minantes que só cortam os gastos so- ciais. Querem o equilíbrio das contas nacionais sem mexer em seus privilé- gios, onerando apenas os pobres. Como diziam parlamentares quando da im- posição do Teto, “os gastos sociais não cabem no Orçamento Público”. Como aponta Eduardo Fagnani, “as elites financeiras nacionais e internacio- nais jamais aceitaram que o movimento social capturasse uma parcela do orça- mento do Governo Federal (cerca de 10% do PIB), a maior parte concentrada na Previdência Social (8% do PIB)”.2 E continuam não aceitando o governo que se propõe enfrentar a fome e a pobreza. Que fique claro: a tentativa de golpe não foi um raio em céu azul; ela vem sen- do gestada há décadas. É a democracia que foi e continua sendo atacada. Como interpretar essa iniciativa, presente no Congresso, que pretende mudar a Cons- tituição para subordinar o Supremo Tri- bunal Federal aos seus desígnios? Como interpretar a apropriação da receita pú- blica por parlamentares para a doação de emendas se a atribuição da execução orçamentária é do Executivo? Se as punições aos golpistas forem efe- tivas e envolverem financiadores, a mídia e parlamentares, o Brasil terá dado um passo importante para consolidar a de- mocracia e afirmar que os benefícios do desenvolvimento não serão uma exclusi- vidade das elites, das classes dominantes, mas favorecerão também as maiorias. 1 André Shalders, “Quem é Eduardo Pazuello, o general que assume interinamente o Ministério da Saúde”, BBC News Brasil, 16 maio 2020. 2 Eduardo Fagnani, “As demandas sociais da de- mocracia não cabem no orçamento?”, Platafor- ma Política Social, 2020. © Claudius 4 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024 CAPA A crise não refluiu Q uando Lula ganhou em 2022, naquela eleição apertada, e pe- gou um país arrasado, com uma extrema direita fortíssima no Congresso, nos governos esta- duais, nas ruas e nas redes, ninguém achava que ia ser fácil. Mas está sendo ainda pior do que imaginado – e, che- gando à metade do mandato, a situa- ção continua igualmente desafiadora. O cenário para as eleições de 2026 é nebuloso, para dizer o mínimo. E, na eventualidade do retorno da extrema direita ao poder, as instituições de- mocráticas não parecem mais fortes ou capazes de se proteger. Eram muitas as tarefas para o novo governo. Vou me ater sobretudo a uma delas, que pode ser desdobrada em três facetas: estancar as ameaças à demo- cracia, conter a agitação de uma direi- ta extremada e restaurar a vigência da Constituição de 1988. Trata-se, portan- to, de desfazer não apenas o bolsona- rismo, mas também o golpe de 2016, que foi o momento em que se cristali- zou a disposição de boa parte da classe dominante brasileira para não respeitar as regras mínimas do ordenamento de- mocrático e rasgar o texto constitucio- nal. As circunstâncias, porém, fizeram que esse objetivo já se iniciasse sob o signo da autolimitação. Lula se elegeu pilotando uma frente amplíssima, que só merecia o adjetivo “democrática” por liberalidade. Muitos dos integrantes dessa frente, a começar pelo candidato a vice, tinham apoiado o golpe contra Dilma, recusado apoio a Fernando Haddad em 2018 e mes- mo flertado com o bolsonarismo. Era difícil imaginar que todo esse pessoal estaria realmente engajado no proje- to de reconstrução da democracia no Brasil, tanto no sentido de recompor a vigência da Constituição de 1988 como de reforçar as proteções contra novos golpes de força. As tensões do fim do governo Bol- sonaro, quando ficou claro que havia a disposição de desprezar o resultado das urnas, permitiam sonhar pelo me- nos com um compromisso em favor do respeito à competição eleitoral – o reconhecimento de que a obtenção da maioria de votos era o único caminho aceitável para o poder e que os adversá- rios são competidores legítimos, o que forma o consenso mínimo necessário para a vigência de uma democracia, segundo a Ciência Política convencio- nal. Essa possibilidade ganhou gás com os atentados de 8 de janeiro de 2023, quando uma turba enraivecida depre- dou as sedes dos poderes da República: seria a hora de dar um basta. Essa oportunidade, no entanto, foi perdida. Alguns vândalos foram conde- nados à prisão e Bolsonaro foi declarado inelegível, por fato anterior, mas tam- bém vinculado à vontade de burlar o jogo eleitoral. A despeito disso, ele conti- nua atuando de modo desenvolto como liderança política. Os formuladores, estrategistas e financiadores das tenta- tivas golpistas (do 8 de janeiro e outras) ainda não foram levados aos tribunais. E as sucessivas revelações das investiga- ções sobre a agitação antidemocrática dos extremistas, culminando (até agora) com o plano de assassinar Lula e outras autoridades, não mudaram o quadro. Dois fatores principais têm levado a esse resultado, um civil e outro militar. Do lado civil, as sucessivas evidên- cias contra Bolsonaro não serviram para deslocar seus aliados, o que é indicativo poderoso da degradação do cenário político no país. Havia es- perança de que políticos que haviam embarcado no bolsonarismo mais por oportunismo do que por fanatismo se sentiriam levados a marcar distância diante de uma conspiração tão óbvia contra as instituições democráticas. Entretanto, isso não ocorreu. Falo aqui de gente como o governador de São Paulo, Tarcísio Freitas. Desconhe- cido que foi guindado ao centro da polí- tica brasileira pelas mãos de Jair, ele co- manda o estado mais poderoso da fede- ração e tem o incentivo – de grande parte da mídia e do empresariado – para vestir a fantasia de “direita moderada”. Ainda as- sim, entende que se manter vinculado a Bolsonaro é crucial para seu futuro políti-autoridades proclamam com grande hipocrisia a necessidade de me- lhor reconhecer esses trabalhadores da linha de frente. Entretanto, simultanea- mente, os poderes públicos fomentam um modelo de emprego que degrada as condições de trabalho nos níveis mais baixos da hierarquia: promovido pela União Europeia por meio da Estratégia de Lisboa e depois do plano Europa 2020, centrado na inovação tecnológica, esse modelo melhora a qualidade do empre- go já qualificado, mas reduz a dos traba- lhadores e operários, assim como sua re- muneração.7 Certamente, a inteligência artificial agora ameaça as competências de juristas, jornalistas e trabalhadores da informática; mas os trabalhadores da logística e da indústria automobilística já experimentam, há algum tempo, até mesmo no próprio corpo, os efeitos da automação: desqualificação, intensifica- ção e perda de autonomia. E, quando entram em colapso ou cometem falhas, os trabalhadores não são tratados da mesma forma. Aqueles com rendas mais baixas geralmente trabalham em pequenos estabeleci- mentos, nos quais os sindicatos são fracos. Uma rescisão amigável lhes ren- de consideravelmente menos dinheiro: 57% dos cargos superiores recebem va- lores ao menos 5% superiores à inde- nização legal – contra apenas 17% dos operários e 19% dos empregados. Por fim, explica a advogada Rachel Saada, a instauração de um teto de indeniza- ção nos tribunais trabalhistas em 2017 contribuiu para “transformar o aces- so a essa jurisdição em um privilégio reservado aos cargos superiores bem remunerados”: para os trabalhadores com baixos salários e pouca antigui- dade – a maioria –, os valores máximos previstos em caso de demissão já não compensam o prejuízo sofrido.8 Assim, cada vez mais, as experiên- cias de trabalho dividem o trabalho assalariado, remetendo até mesmo a realidades distintas. Na medida em que pretendem representar todos os trabalhadores, os sindicatos evitam confrontar essa desigualdade. Assim como os partidos políticos. Os resul- tados das últimas eleições legislativas, em junho de 2024, revelam essa omis- são? No primeiro turno, os candidatos da Nova Frente Popular (NFP, esquerda) obtiveram, segundo o Ipsos, 37% dos votos entre os eleitores com diploma universitário, contra 17% entre aqueles sem ensino médio completo. Essa di- ferença também se reflete no voto por profissão: 34% dos cargos superiores escolheram um candidato de esquerda, mas apenas 21% dos operários fizeram o mesmo. “Popular”? *Grégory Rzepski é jornalista do Le Mon- de Diplomatique. 1 Cf. “On n’arrête pas l’éco” [Não paramos a economia], France Inter, 9 nov. 2024, e “Nous sommes au début d’une violente saig- née industrielle” [Estamos no início de uma violenta sangria industrial], La Tribune du Dimanche, Paris, 10 nov. 2024. Cf. também Simon Arambourou, “En finir avec le tabou des exonérations de cotisations, multipliées par cinq en vingt ans” [Acabar com o tabu das isenções de contribuições, multiplicadas por cinco em vinte anos], 23 out. 2024, www.alternatives-economiques.fr. 2 Cf. Bruno Palier, “Comment les stratégies low cost à la française ont intensifié et abîmé le tra- vail” [Como as estratégias low cost à francesa intensificaram e prejudicaram o trabalho]; Ch- ristine Erhel, Mathilde Guergoat-Larivière e Malo Mofakhami, “La qualité de l’emploi et du travail: une contre-performance française?” [A qualidade do emprego e do trabalho: um de- sempenho inferior francês?]; e Olivier Gode- chot, “Des lieux de travail de plus en plus sé- grégués” [Lugares de trabalho cada vez mais segregados]. In: Bruno Palier (org.), Que sait- -on du travail? [O que sabemos sobre o traba- lho?], Presses de Sciences Po, Paris, 2023. 3 Mikael Beatriz e Louis-Alexandre Erb, “Com- ment évolue la pratique du télétravail depuis la crise sanitaire?” [Como evoluiu a prática do home office desde a crise sanitária?], Dares Analyses, n.64, Paris, nov. 2024. 4 Pauline Grimaud, “La semaine de 4 jours: tra- vailler moins tout en travaillant... plus?” [A se- mana de 4 dias: trabalhar menos enquanto se trabalha... mais?], Connaissance de l’Emploi, n.199, Noisy-le-Grand, set. 2024. 5 “Portrait statistique des cadres du secteur privé. Édition 2023” [Retrato estatístico dos quadros do setor privado. Edição 2023], As- sociation pour l’Emploi des Cadres (Apec), 9 nov. 2023. Cf. também “Pour les cadres, le télétravail n’est plus une option” [Para os quadros, o home office não é mais uma op- ção], Apec, 28 mar. 2024. 6 Thomas Amossé e Christine Erhel, “Des mé- tiers essentiels mais une faible qualité du tra- vail et de l’emploi” [Profissões essenciais, mas com baixa qualidade do trabalho e do emprego]. In: Bruno Palier (org.), op. cit. Cf. também “La valeur du travail essentiel. Emploi et questions sociales dans le monde” [O valor do trabalho essencial. Emprego e questões sociais no mundo], Organização Internacional do Trabalho (OIT), 2023. 7 Richard Duhautois et al., “Quels sont les ef- fets des innovations sur l’emploi dans les entreprises françaises?” [Quais são os efei- tos das inovações sobre o emprego nas em- presas francesas?], Connaissance de l’Em- ploi, n.146, mar. 2019. 8 Rachel Saada, “Vers un travail sans droit” [Rumo a um trabalho sem direitos]. In: Antony Burlaud, Allan Popelard e Grégory Rzepski, Le Nouveau Monde. Tableau de la France néo- libérale [O novo mundo. Retrato da França neoliberal], Éditions Amsterdam, Paris, 2021. Cf. também Tristan Paloc, “Les ruptures con- ventionnelles en 2021. De nouveau en hausse après la crise sanitaire” [As rescisões amigá- veis em 2021. Em alta novamente após a crise sanitária], Dares Résultats, n.37, Paris, 2 ago. 2022; e “Emploi, chômage, revenus du travail. Édition 2024” [Emprego, desemprego, renda do trabalho. Edição 2024], Institut National de la Statistique et des Études Économiques (In- see), 22 ago. 2024. 28 ANOS PRODUZINDO CONHECIMENTO E FORMAÇÃO POLÍTICA ACOMPANHE NOSSOS CANAIS E RECEBA NOSSAS PUBLICAÇÕES! www.fpabramo.org.br @fpabramo Fundação Perseu Abramo @fpabramo Visite nossa biblioteca digital e baixe livros gratuitamente! 22 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024 NÃO SE PERDE A VIDA PARA GANHÁ-LA Levantar-se, tomar um café, entrar apressado em um carro, no metrô ou no trem. Trabalhar, ganhar o dia, voltar para casa, repetir... Por quê? Para quem? E se o desconcerto que o trabalho provoca expressasse, na verdade, uma esperança? A de uma atividade humana emancipadora POR DANIÈLE LINHART* Um sentido para o trabalho, mas qual? S oldados ingleses estão desanima- dos. Então, o coronel japonês do campo de prisioneiros ordena que reconstruam uma ponte. É preciso permitir o transporte de refor- ços nipônicos, enquanto uma contrao- fensiva aliada está em preparação. Esta- mos na Tailândia, durante a Segunda Guerra Mundial. Ou melhor, em A ponte do Rio Kwai (1957), famoso filme de Da- vid Lean. E o coronel Nicholson aceita: mesmo os doentes, mesmo os feridos, o britânico acredita que a tarefa redento- ra devolverá dignidade aos seus homens – que, de fato, graças à obra, voltam a se respeitar. No entanto, quando Nichol- son descobre a tentativa de sabotagem de um comando norte-americano, ele decide alertar o coronel Saito para evi- tar a destruição de sua obra comum. O sentido subjetivo do trabalho, por ve- zes, se choca com seu sentido objetivo. Essa questão do sentido ressurge hoje, em termos aparentemente diferentes. Por toda parte se fala da importância que os jovens dariam à “conciliação en- tre vida profissional e vida pessoal”, em “fazer algo útil” ou “concreto”. Às vezes, manifesta-se até o desejo de “recusar a ascensão, cultivar a dignidade do pre- sente, lutar para salvar cada grama de beleza e saborear a vida”.1 Assim, os se- tores de recursos humanos das empre- sas precisam se desdobrar. Para atrair os “talentos”, lê-se por aí, prometem coa- ching e convivência: “faremos festasaté o amanhecer”, “vocês poderão trabalhar com seus animais de estimação”. Mas será que os jovens vivem assim mesmo? E que sentido dar à sua busca de sentido? Aliás, as gerações anteriores ne- gligenciavam isso? Durante muito tempo, sem dúvida, prevaleceu uma abordagem esquemática e abstrata do problema, pró- pria dos economistas. Psicólogos e soció- logos concordam agora que “um trabalho faz sentido se nos permite nos sentirmos úteis, nos reconhecermos no que faze- mos, respeitando as regras do ofício e a ética comum, além de desenvolver nos- sas habilidades e experiências”.2 Essa seria a busca. Exceto que preva- lece o trabalho assalariado ou o estatuto de funcionário público, ou seja, subordi- nação e obediência. Quando a finalida- de de nosso trabalho nos escapa – deci- dida em outro lugar, de qualquer modo por outra pessoa, às vezes contra nossas convicções –, por que se preocupar com seu sentido? Dirão que é preciso sempre manter a razão, distinguindo o sentido subjetivo do objetivo. Mas será mesmo? Por que consentir em sua separação? Por que resignar-se ao provável choque entre ambos, como o coronel Nicholson em A ponte do Rio Kwai... ou os operá- rios das economias ocidentais ao longo dos Trinta Gloriosos (1945-1975)? Nesse período, triunfaram o taylo- rismo e o fordismo: um trabalho frag- mentado, repetitivo nos escritórios, brutal nas fábricas. Élise ou a vida real (1967), de Claire Etcherelli, descreve a fábrica da Citroën, na Porte de Choisy, em Paris, em plena Guerra da Argélia, com a violência e o racismo que lá im- peravam. O cotidiano é desgastante, frustrante... mas permite acesso ao con- forto, à sociedade de consumo, em um período de pós-guerra e reconstrução. A intensificação permanente e a total submissão parecem aceitáveis quando o futuro promete e os sindicatos con- quistam aumentos regulares. Trabalhadores desprovidos de autono- mia podem ser consumidores e cidadãos felizes? Na mesma época, por coerência – e, portanto, dignidade –, muitos tentaram reconquistar uma identidade profissional que os valorizasse, notadamente ao con- traporem o trabalho real ao trabalho pres- crito. Esses trabalhadores subverteram a organização ao introduzirem formas de fazer e rearranjos, demonstrando a im- portância de uma contribuição que não deriva apenas de ordens, mas também da engenhosidade operária, da experiência e dos saberes individuais ou coletivos. “DEDIQUEI TANTOS ANOS À MINHA EMPRESA E VEJAM O QUE ELES ME FAZEM...” Alguns trabalhadores mais experientes elaboram e transmitem técnicas e até estratégias. Aos mais jovens, ensinam também a solidariedade e o gosto pela convivência. É preciso se reapropriar do tempo, tornar a vida mais suportá- vel. Em L’Établi (1978), Robert Linhart revisita sua experiência como operário especializado (OS) dez anos antes, na mesma fábrica da Citroën, na Porte de Choisy. Ele descreve a habilidade de três OS iugoslavos capazes de operar três postos com apenas dois deles – permi- tindo, assim, que todos pudessem, alter- nadamente, fazer uma pausa para fumar ou trocar algumas palavras com as ope- rárias da seção de assentos, próximas à linha de montagem. O trabalho “reorganizado” desafia os engenheiros e sua pretensão de governar o trabalho dos outros – uma provocação para aqueles que veem os operários como peões; mas os peões fazem me- lhor, mais rápido, às vezes até sacrifican- do a si mesmos. “Dediquei tantos anos à minha empresa”, se ouvirá mais tarde. “E vejam o que eles me fazem...” Quando as fábricas fecharem, isso será cruel. Mas não era já desde o início, visto que todas essas tentativas estão fadadas a se exau- rir por causa de sua própria eficácia? No fundo, essas iniciativas não salvam uma organização disfuncional, concebida no desprezo à dignidade operária? A prova está nas greves de zelo – quan- do os trabalhadores se restringem ao que está prescrito – e nos inevitáveis declínios de produtividade. Para recuperar algum sentido, os trabalhadores se desgastam fortalecendo uma organização que os maltrata. Não é de surpreender que algo tenha se rompido em maio de 1968. O advento da sociedade de consumo não bastava para compensar a dureza de um trabalho ainda dominado pela subordi- nação objetiva do sentido ao capital. A revolta dos jovens inicialmente expres- sava essa “crítica artística”.3 Depois, levou todos os outros a uma greve geral de três semanas com ocupações de fábricas. Não se perderia mais a vida para ganhá-la. Procurando consenso, a gestão mudou de abordagem. Já no fim dos anos 1970, e ao longo das décadas seguintes, ela in- vestiu na cultura e na ética: lutar “pela empresa”, defender os empregos, en- quanto se encorajava cada um a “crescer dentro da empresa”, “sair da zona de con- forto”, a revelar-se a si mesmo e à hierar- quia. O gerenciamento impôs um novo sentido, apelando para o íntimo: a capa- cidade de cada um de enfrentar desafios – imaginados pela hierarquia – e de se adaptar às mudanças incessantes, reno- vando constantemente suas competên- cias e exaltando sua resiliência. Recur- sos humanos e exércitos de consultores contribuíram para fomentar o gosto pela autonomia e pela ousadia... para melhor impor procedimentos, protocolos, pro- cessos, codificações, especificações, re- latórios, benchmarking e “boas práticas”. Nos corredores dos galpões, nos escri- tórios open space, no caixa do comércio ou na central telefônica, inventou-se ou- tro tipo de felicidade: não mais aquela derivada do consumo ou do crescimen- to perpétuo, mas a satisfação narcisista do sentimento de autovalorização. Era o tempo dos “funcionários do mês”, dos bônus de desempenho, dos desafios; ou, em uma sociedade do ego, o tempo das emoções no trabalho.4 Contudo, essa reformulação gerencial negava tanto a realidade do sentido objetivo quanto a subjetividade do trabalhador. Por isso, não fazia nenhum sentido. Quando uma ruptura como a dos con- finamentos de 2020-2021 expôs essa verdade, não se presenciou uma nova greve geral. O que se viu foi a expressão de um imenso mal-estar, de sofrimentos psíquicos e físicos em todas as catego- rias socioprofissionais; a revelação de numerosos casos de assédio, tanto no setor privado como em um setor públi- co também submetido à mesma lógica. Da mesma forma que às vezes se infla- ma por crimes julgados em tribunais, a França apaixonou-se pelo processo contra os dirigentes da France Télécom.5 Em 2022, após trágicos suicídios de em- pregados, a Corte de Apelação de Paris confirmou as condenações por assédio moral institucional. A juventude sabe de tudo isso. Está- gios enfadonhos e degradantes, séries como The Office, o filme Un autre mon- de ([Um outro mundo] Stéphane Brizé, 2021) ou ainda a leitura de Bullshit Jobs ([Empregos de merda] David Graeber, 2018) só podem ter-lhe inculcado uma visão sombria e trágica do mundo do trabalho. Contudo, como Pierre Bour- dieu lembrava, “a ‘juventude’ é apenas uma palavra”6 que também pode ter vá- rios sentidos, às vezes incertos... O sociólogo Camille Peugny observa que, quando se pergunta aos trabalha- dores europeus com menos de 30 anos sobre os aspectos que consideram im- portantes em um emprego, “suas respos- tas não diferem muito das formuladas pelos mais velhos”. De fato, “80% deles consideram importante ter a sensação de realizar algo no trabalho, e quase 60% valorizam a possibilidade de tomar ini- ciativas. No entanto, essas proporções são bastante semelhantes às observadas 23DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil entre os de 30 a 59 anos”.7 Dentro da pró- pria juventude, por outro lado, a relação com o trabalho varia, sobretudo com base em critérios sociais. “Provavelmen- te é mais fácil manter certa distância em relação ao trabalho quando a perspecti- va de ficar sem ele é relativamente im- provável”, observa Peugny. Muitos jovens procuram principal- mente escapar das servidões do trabalho assalariado e de suas imposições.Não tentam transformar o trabalho assala- riado – que abrange cerca de 90% dos ativos –, mas libertar-se dele em uma espécie de salve-se quem puder indivi- dual. É a escolha da independência, do trabalho freelance, do microempreen- dedorismo ou, de forma mais forçada, da uberização. As aparentes autonomias que encontram têm o custo de algumas proteções sociais, mas as recentes mu- danças legislativas incentivam esse ca- minho, desde a criação do status de mi- croempreendedor até a possibilidade de resgatar o seguro-desemprego em forma de capital para iniciar um negócio. Outra parte da juventude se conten- ta com o trabalho assalariado e dirige suas principais críticas à “modernida- de” gerencial. Não bastaria retornar a uma hierarquia baseada na expertise, no apoio aos subordinados, em uma gestão mais coletiva e racional, para limitar a competição, a personalização da relação com o trabalho e atenuar os excessivos incentivos emocionais ao autoaperfei- çoamento? Esses jovens querem progre- dir, ganhar competências, em condições tranquilas e necessárias para a qualida- de do que se espera deles. Satisfazem-se com o vínculo de subordinação e não questionam a finalidade do trabalho. “A MUDANÇA CLIMÁTICA É MUITO PRÁTICA PARA DAR UM PROPÓSITO À SUA EXISTÊNCIA” Outros, no entanto, questionam isso desde o início. Eles se voltam para a eco- nomia social e solidária (ESS). A pesqui- sadora Émilie Veyrat mostra como esta representa, para uma juventude forma- da nas grandes escolas, uma nova via de distinção, que combina excelência e rea- lização pessoal. Ela cita Gabriel, 26 anos, executivo sênior de uma associação de defesa ambiental: “Estamos todos em busca de utilidade e sentido pelo traba- lho; a mudança climática é muito prática para dar um propósito à sua existência”.8 Muitas vezes, porém, os jovens encon- tram na ESS as mesmas condições de trabalho impostas pela gestão moderna – supostamente para ajudar o terceiro setor a sobreviver... Quando os voluntá- rios se mostram dispostos a pressionar e intensificar o trabalho, é sempre por uma boa causa!9 Há ainda, em uma perspectiva um pouco diferente, o que a jornalista Ma- rine Miller chama de “a revolta das eli- tes”:10 os formados pelas melhores esco- las que levantam a questão do sentido do trabalho em termos de ecologia ou de questões sociais. Eles não seguirão carreira como seus pais, em empresas prestigiadas que obrigam seus emprega- dos a contribuir para a ameaça à huma- nidade. Em vez disso, optam por profis- sões manuais, cansativas mas úteis para o planeta, como permacultor ou padeiro de produtos orgânicos. Desses que, às vezes, nos fazem rir. Desses e de todos os outros que, fre- quentemente, nos fazem perder a pa- ciência. Por priorizarem preservar a si mesmos da precariedade em vez de mudar o mundo do trabalho, sua fi- nalidade e as condições que impõe à maioria. Em suma, por uma escolha apolítica. Mas são realmente escolhas? Nessa diversidade, essa juventude não compartilha a busca, o tato, a resistên- cia em aceitar as coisas como são? E, na afirmação persistente de um sentido subjetivo, não delineia um novo sentido objetivo para o trabalho? Como se um e outro não estivessem destinados a se chocarem, uma e outra vez. *Danièle Linhart é pesquisadora emérita do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), na França, e socióloga do trabalho. 1 Corinne Morel Darleux, Plutôt couler en beauté que flotter sans grâce. Réflexions sur l’effondre- ment [Antes afundar com beleza do que flutuar sem graça. Reflexões sobre o colapso], Liber- talia, Montreuil, 2019. 2 Thomas Coutrot e Coralie Perez, “Le sens du travail: enjeu majeur de santé publique” [O sentido do trabalho: questão central de saúde pública]. In: Que sait-on du travail [O que sabe- mos sobre o trabalho], Le Monde – Presses de Sciences Po, Paris, 2023. 3 Luc Boltanski e Ève Chiapello, Le Nouvel Esprit du capitalisme [O novo espírito do capitalismo], Gallimard, Paris, 2011 (1. ed.: 1999). 4 Aurélie Jeantet, Les Émotions au travail [As emo- ções no trabalho], CNRS Éditions, Paris, 2018. 5 Ler “‘Appelez-moi maître...’” [“Chamem-me de mestre...”], Le Monde Diplomatique, artigo iné- dito, set. 2019. 6 Pierre Bourdieu, Questions de sociologie [Ques- tões de sociologia], Minuit, 2002 (1. ed.: 1984). 7 Camille Peugny, “Les jeunes sont-ils des travail- leuses et travailleurs comme les autres?” [Os jovens são trabalhadoras e trabalhadores como os demais?]. In: Que sait-on du travail, op. cit. 8 Émilie Veyrat, “Le consensus sur la ‘recherche d’alignement’: répondre à l’angoisse sans con- flictualiser le travail” [O consenso sobre a “bus- ca de alinhamento”: responder à angústia sem conflitar o trabalho], comunicação no colóquio “Le ‘sens du travail’: enjeux psychiques, sociaux et politiques de l’activité” [O “sentido do traba- lho”: questões psíquicas, sociais e políticas da atividade], Paris, 3 out. 2024. 9 Simon Cottin-Marx, C’est pour la bonne cause! Les désillusions du travail associatif [É por uma boa causa! As desilusões do trabalho associa- tivo], Éditions de l’Atelier, Ivry-sur-Seine, 2021. 10 Marine Miller, La Révolte. Enquête sur les jeu- nes élites face au défi écologique [A revolta. Investigação sobre as jovens elites diante do desafio ecológico], Seuil, Paris, 2021. D in am ar ca Su éc ia Fi nl ân di a N or ue ga Bé lg ic a It ál ia Ca na dá Áu st ri a Ir la nd a Is ra el Re in o Un id o N ov a Ze lâ nd ia Ja pã o Al em an ha H ol an da Au st rá lia Es pa nh a Po lô ni a Co re ia d o Su l M éx ic o Fr an ça Es lo vá qu ia Re p. T ch ec a Co lô m bi a EU A Tu rq ui a H un gr ia Li tu ân ia Sindicalismo de serviço A filiação a um sindicato, embora não seja obrigatória, condiciona o acesso a certos direitos sociais, como o seguro-desemprego e o seguro-saúde. Sistema tradicional Os sindicatos geralmente desempenham um papel de negociação coletiva e luta política. 67 65 59 50 49 33 27 26 26 25 24 18 17 16 15 14 13 13 12 12 11 11 11 10 10 10 8 7 O sindicalismo em dificuldade Taxa de sindicalização em porcentagem dos trabalhadores assalariados O SINDICALISMO EM DIFICULDADE Dados de 2019, exceto Canadá, Estados Unidos, Irlanda, México: 2020, Nova Zelândia, Austrália, Coreia do Sul, Eslováquia, República Tcheca, Hungria: 2018, Colômbia, Israel, Polônia: 2017, França: 2016. Fonte: Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), 2024. 24 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024 SETECENTAS MORTES POR ANO Impunidade patronal E m 2017, Adrien Alcodori morreu ao cair em um canteiro de obras no departamento de Hérault, no sul da França. O andaime onde trabalhava o jovem telhadista não ti- nha guarda-corpo. Inicialmente, os po- liciais se recusaram a registrar a queixa apresentada por sua mãe, Christel Ri- card. “Disseram que meu filho estava errado. Felizmente, a auditora fiscal do trabalho apontou falhas na seguran- ça.” Os empregadores, administrado- res de uma empresa familiar, acaba- ram sendo multados em 60 mil euros. “Talvez, se fossem um pouco mais pu- nidos, prestariam mais atenção à vida humana”, afirma Ricard. Francis D., por sua vez, espera há sete anos notícias da investigação aberta após a morte de seu irmão Sébastien, um funcionário da prefeitura atropelado durante o serviço por uma empilhadeira com freio defeituoso. Já Johanna Bento Daire, cujo marido morreu em 2020 den- tro da secadora de uma lavanderia, re- toma as esperanças: embora, segundo a polícia, o acidente não tenha sido causa- do por falhas na máquina, o relatório da auditoria fiscal do trabalho, apresentado dois anos depois, levou o Ministério Pú- blico a reabrir o processo. “Meu marido não é culpado por sua morte. Quero um julgamento que reconheça isso e uma pena de prisão para os responsáveis.” Construção civil, pesca e logística: em alguns setores, afrequência de tragédias é especialmente alta. A exposição ao ris- co é cinco vezes maior para operários do que para executivos. Na França, pelo menos setecentas pessoas morrem to- dos os anos em acidentes de trabalho.1 A mobilização de seus familiares e um renovado interesse da mídia por essas mortes invisíveis têm inspirado campa- nhas de prevenção pelas autoridades. Até agora, no entanto, o tratamento pe- nal não apresentou melhorias nesses ca- sos nem no de infrações que alimentam os acidentes e as doenças ocupacionais. EMPRESAS ESCAPAM DE PROCESSOS JUDICIAIS Embora a auditoria fiscal do trabalho alerte há anos sobre a insuficiência das ações do Ministério Público em respos- ta às suas observações, a administração não divulga mais estatísticas a esse res- peito. Cabe então à Confederação Geral do Trabalho (CGT) constatar que, em Seine-Saint-Denis, entre 2014 e 2020, apenas um terço dos autos de infração elaborados por inspetores resultou em ações judiciais. Outro terço foi arquiva- do, e o restante ainda está sob investiga- ção, às vezes seis anos após os fatos. A procuradoria de Bobigny atribui a proporção de casos “em atraso” à fal- ta de recursos e à “alta rotatividade” de magistrados. Em relação aos arquiva- mentos, “a maioria se deve a infrações insuficientemente caracterizadas”, ar- gumenta Antoine Haushalter, substituto do procurador especializado em aciden- tes de trabalho. “Na ausência de provas, se levássemos o caso ao tribunal, isso resultaria em absolvição.” Para reduzir os riscos, o magistrado conta há alguns anos com o apoio de um assistente de justiça. Essa categoria de agente especializado – ainda rara nos tribunais – é responsável, entre outras funções, por coordenar as “cossupervi- sões”, ou seja, ações em que auditores fiscais do trabalho e policiais realizam conjuntamente, e não mais de forma pa- ralela, audiências e pedidos de perícia. “As delegacias ficam um pouco perdidas nesse tipo de caso e incapazes de di- zer se determinado andaime estava em conformidade ou não. Também recebía- mos autos em que a inspeção do traba- lho não detalhava de maneira precisa e completa as circunstâncias do acidente”, explica Haushalter. “Agora, ganhamos em coerência.” Por outro lado, os auditores fiscais do trabalho descrevem uma colabora- ção que, dependendo do caso, é mais ou menos produtiva. “Na prática, na maioria das vezes, a polícia parece que- rer encerrar os casos relacionados ao trabalho o mais rápido possível”, obser- va Gilles Gourc, da Confederação Na- cional do Trabalho (CNT). “O que eles chamam de ‘investigação’ é frequen- temente uma sucessão de audiências sobre a personalidade dos envolvidos, sem uma análise real da situação geral.” Já os representantes da CGT-Trabalho, Emprego e Formação Profissional (CG- T-TEFP) observam que o exercício, por seus colegas, de prerrogativas de polí- cia judiciária não tem impacto real nas decisões dos magistrados sobre prosse- guir ou não com os processos. Mesmo quando a justiça assume os casos, as empresas têm grandes chan- ces de escapar de um processo. “Ten- tamos sair de uma alternativa entre levar ao tribunal – ou seja, um conflito, um enfrentamento – e arquivar o caso”, afirma Haushalter, que considera que, com exceção dos acidentes graves, “os litígios são adequados a uma justiça ne- gociada.” Desde 2004, a audiência por reconhecimento prévio de culpa (CRPC) – uma espécie de “acordo de confissão” – permite que advogados e o promotor cheguem a um consenso sobre a pena, homologado por um juiz. Já a ordem pe- nal, amplamente utilizada, baseia-se em um procedimento rápido e por escrito. Essa é uma vantagem para um sis- tema de justiça exaurido: “Temos um grande problema com o tempo de au- diência, o que, sejamos francos, in- fluencia parcialmente nossa política penal”, admite Haushalter. “Com os re- cursos que temos, levar todos os casos ao tribunal implicaria decisões toma- das mais de cinco anos após os fatos, o que é inaceitável.” Embora o substituto rejeite a ideia de uma “justiça de segun- da classe”, outros criticam a tentativa de tratar os agentes econômicos com mais deferência do que os réus comuns. A França é o segundo país europeu com o maior número de acidentes de trabalho fatais – números que talvez tenham relação com a indulgência que caracteriza o sistema judiciário quando empregadores estão no banco dos réus POR ALEXIA EYCHENNE* QUANDO O TRABALHO MATA REINO UNIDO BÉLGICA LUX. ALEMANHA POLÔNIA TCHECA ESLOVÁQUIA ÁUSTRIA HUNGRIA CROÁCIA ESLOVÊNIA BULGÁRIA GRÉCIA MALTA CHIPRE IRLANDA ISLÂNDIA NORUEGA SUÉCIA FINLÂNDIA LITUÂNIA DINAMARCA HOLANDA LETÔNIA ESTÔNIA ROMÊNIAFRANÇA SUÍÇA ESPANHA PORTUGAL ITÁLIA 0 300 600 km 1. Exceto Reino Unido: 2018. Fonte: Eurostat, 2024. 0,3 0,8 1,5 2,3 3,0 3,5 5,3 Acidentes fatais ocorridos em 20221 Taxa de incidência Acidentes fatais ocorridos em 20221 para cada 100 mil trabalhadores 775 500 250 50 100 10 Nota: A definição exata dos acidentes de trabalho, bem como as modalidades de declaração, podem variar de um país para outro. 25DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil “Na câmara de assuntos econômicos de Bobigny, vemos um desfile de falsos taxistas e traficantes de cigarros”, ob- serva Simon Picou, da CGT-TEFP. “Por- tanto, é possível julgar algumas infra- ções.” Gourc lamenta “procedimentos negociados ‘nos bastidores’, já que o julgamento penal reduz o empregador ao nível de um simples réu, o que faz parte da reparação”. Advogado das víti- mas do amianto e do assédio moral na France Télécom, Jean-Paul Teissonniè- re critica a “ideologia de que um bom acordo vale mais do que um mau jul- gamento”. E acrescenta: “O que torna o direito penal específico é sua brutali- dade, e é justamente isso que se critica hoje: prefere-se se reunir, buscar solu- ções para evitar que isso aconteça no- vamente”, destaca. “É um discurso que pode parecer coerente, mas que não se aplica à realidade.” Teissonnière também reconhece a dificuldade de submeter vítimas de ca- sos graves a procedimentos que podem durar mais de dez anos, especialmente sem apoio de associações ou sindicatos. Apesar de dezenas de milhares de mor- tes, as empresas que expuseram seus antigos funcionários ao amianto ainda não foram condenadas na França por homicídio culposo. “O surgimento dos danos décadas depois é um problema, pois um julgamento pressupõe unidade de tempo e lugar”, observa Teissonniè- re. “A plasticidade das formas das em- presas e o caráter fugaz das funções de direção também tornam difícil localizar os culpados.” Em 2006, o advogado con- seguiu condenar a Alstom em um caso de amianto com base no crime de colo- car outros em perigo. “Contornamos o problema envolvendo o juiz assim que a infração é cometida, mas isso pressu- põe, no entanto, devolver à auditoria do trabalho uma verdadeira capacidade de fiscalização.” Porém, esse órgão perdeu 16% de seu efetivo entre 2015 e 2021.2 Na maioria dos casos, os acidentes fa- tais acabam chegando aos tribunais. A CRPC não se aplica aos homicídios cul- posos. Entre 2012 e 2019, mais de 90% dos implicados nesse tipo de caso fo- ram processados.3 No entanto, na maio- ria das vezes, os juízes utilizam mode- radamente as ferramentas repressivas disponíveis, que preveem até cinco anos de prisão e 75 mil euros de multa. A advogada Aurélie Salon observou que a pena com condicional foi aplicada em 75% dos casos, e a prisão em regime fe- chado, em menos de 2% das ações entre 2012 e 2017. Já as multas alcançaram, em média, 4.407 euros.4 “O DIREITO PENAL DO TRABALHO FUNCIONA CONTRA O DIREITO COMUM” O caráter não intencional dos deli- tos limita os magistrados. “Nos casos de saúde e segurança no trabalho, os envolvidos são responsáveis por uma falta, mas não controlam suas conse- quências, o que torna a avaliação da pena delicada”, explica Haushalter. As sentenças condenam mais frequente- mente pessoas jurídicas do quefísicas e, “quando isso ocorre, pode-se ter a impressão, na audiência, de que o res- ponsável de plantão era o último elo de uma cadeia de responsabilidades, o que provavelmente explica penas fre- quentemente leves”. Na prática, os magistrados aplicam com moderação um direito penal do trabalho que é, por princípio, excepcio- nal. Teissonnière destacou aos juízes do caso France Télécom que uma pessoa que assedia moralmente seu cônjuge a ponto de levá-lo a uma tentativa de suicídio está sujeita a uma pena de dez anos de prisão, enquanto um emprega- dor que comete o mesmo ato não arris- ca mais de três anos. “O direito penal do trabalho funciona como um sistema de proteção dos empregadores contra o di- reito comum”, afirma ele. A aplicação dessa justiça particular sofre, por fim, com a existência de um sistema paralelo de direito à repara- ção, construído desde a primeira lei de 1898 sobre os acidentes de trabalho. O sistema de indenização automática das vítimas visa reparar o dano e, ao mesmo tempo, incentivar financeira- mente os empregadores a adotar me- didas de prevenção. “Ainda hoje, para as autoridades públicas, seria inútil se desgastar em procedimentos penais longos e incertos quando se poderia concentrar tudo em uma justiça repa- radora”, observa Teissonnière. Mas es- se sistema também banalizou os aten- tados à saúde e à segurança dos trabalhadores, agora vistos como ine- rentes à vida das empresas. “Durante os debates de 1898, o deputado socia- lista Jules Guesde declarou na Assem- bleia: ‘Ao adotar este texto, vocês vão autorizar um açougue operário’”, re- lembra o advogado. “É possível que ele estivesse certo.” *Alexia Eychenne é jornalista. 1 Ceren Inan, “Quels sont les salariés les plus touchés par les accidents du travail en 2019?” [Quais são os trabalhadores mais afetados pe- los acidentes de trabalho em 2019?], Dares Analyses, n.53, Paris, 2 nov. 2022. Cf. tam- bém, sobre a contagem de mortes no traba- lho, Matthieu Lépine, L’Hécatombe invisible. Enquête sur les morts au travail [A hecatombe invisível. Investigação sobre as mortes no tra- balho], Seuil, Paris, 2023. 2 “La gestion des ressources humaines du minis- tère du travail” [A gestão de recursos humanos do Ministério do Trabalho], Cour des comptes, 28 fev. 2024, www.ccomptes.fr. 3 Evelyne Serverin, “Les comptes de la justice pénale du travail” [As contas da justiça penal do trabalho], Le Droit Ouvrier, n.863, Mon- treuil, jun. 2020. 4 Aurélie Salon, “Opportunités et limites du re- cours au droit pénal en matière de protection de la santé et de la sécurité au travail” [Opor- tunidades e limites do recurso ao direito penal na proteção da saúde e da segurança do tra- balho], tese de doutorado defendida em 12 de novembro de 2019 na Universidade Paris 1. DESAPARECIMENTO DE 35 MIL EMPREGOS EM TURIM O silêncio das fábricas Uma fábrica fecha, os operários se manifestam, o Estado declara sua impotência. As lágrimas escorrem e, em breve, a poeira se acumula. “Assim é a vida”, explicam os meios de comunicação, sempre prontos a ocultar a natureza política das escolhas do poder – por exemplo, enfraquecer as organizações dos trabalhadores e destruir os bastiões operários do noroeste italiano POR PAOLO VALENTI* E la era conhecida como a “Detroit italiana”. Durante décadas, Turim foi um dos corações pulsantes da indústria automobilística europeia. Foi nessa cidade do Piemonte, no no- roeste do país, que nasceu a Fiat, há 125 anos, antes de se tornar a maior empresa italiana. Em 1967, no auge do milagre econômico da Bota, a fábrica de Mirafio- ri, no sul da cidade, produzia 5 mil carros por dia e empregava 52 mil pessoas. Ho- je, o silêncio reina em boa parte do local: com a produção em seu nível mais baixo, metade dos 3 milhões de metros quadra- dos da área está abandonada, e a maioria dos 33 portões que antes recebiam um fluxo contínuo de trabalhadores e mate- riais permanece fechada. “É uma lenta agonia”, resume Giaco- mo Zulianello, recepcionista na Carroz- zeria, a oficina de montagem de carros dentro da fábrica. Desde seus primeiros dias na linha de montagem, em 1985, ele acompanhou o ritmo das sucessivas transformações da empresa: as aqui- sições da Lancia, Abarth, Alfa Romeo e Maserati, a fusão com a Chrysler em 2014 e, em 2021, o acordo com o grupo Peugeot-Citroën, que deu origem à Stel- lantis. Nós nos encontramos no portão 2, após um raro dia de trabalho: Zulia- nello faz parte dos mais de 2 mil traba- lhadores da Carrozzeria em regime de desemprego parcial desde 2008. Segun- do a Federação Italiana dos Metalúrgi- cos (FIM-CISL), eles puderam trabalhar apenas catorze dias entre julho e setem- bro passados. Após uma breve reaber- tura neste outono, o local pode voltar a fechar até o próximo ano, de acordo com informações que a empresa nem confir- ma nem nega.1 “Dos quase 1.700 euros que eu deveria ganhar, recebo 1.150, e alguns de meus colegas se endividaram para financiar os estudos dos filhos.” Mirafiori produz – e, ainda assim, de forma intermitente – apenas três mode- los: o Fiat 500 elétrico e dois Maserati de luxo. Nos primeiros nove meses deste ano, foram montados 22.240 veículos, uma redução de 70% em relação ao mes- mo período de 2023. A fábrica de Turim sofre com a crise enfrentada pela Stel- lantis e pela indústria automobilística europeia como um todo, impactada pela combinação de vários fatores: a queda do poder de compra dos consumidores, o aumento dos preços da energia e das matérias-primas, a crescente concor- rência chinesa e a complexa transição para o elétrico imposta pela União Euro- peia, que decretou, em março de 2023, a proibição da produção de carros a com- bustão a partir de 2035. Entretanto, o abandono de Mirafio- ri também reflete o fracasso da política industrial de Roma: desde outubro de 2016, o Estado concedeu, primeiro à Fiat Chrysler Automobiles (FCA) e depois à Stellantis, 100 milhões de euros em subsídios para apoiar a produção e evi- tar perdas de empregos nas instalações italianas do grupo, sem contar os em- préstimos garantidos e os 900 milhões desembolsados para financiar o desem- prego parcial.2 Apesar disso, a empresa continuou concentrando os investimen- tos fora da Itália, enquanto a produção no país não parou de cair, assim como o número de empregados: de 71 mil há vinte anos, passou-se para 42 mil. Em Mirafiori, restam 12 mil funcionários, metade do efetivo de quinze anos atrás, dos quais 6 mil são operários. “O que faltou e ainda falta à classe po- lítica é visão. Isso implica fazer escolhas”, comenta o economista Renato Lanzetti. “Ao longo dos anos, vimos surgir deze- nas de planos, sempre com nomes di- ferentes, que apenas desperdiçaram re- cursos sem estratégia, sem transparên- cia e sem avaliação do impacto real. Ao contrário, é preciso conceber a política industrial como um contrato: eu lhe dou este dinheiro para fazer isso e verifico os resultados.” Para Edi Lazzi, secretário http://www.ccomptes.fr/ 26 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024 turinês da Federação dos Trabalhadores Metalúrgicos (Fiom-CGIL), apenas “um ‘plano Marshall’ para a mobilidade elé- trica” pode revitalizar a indústria e sal- var Mirafiori: “Estamos de acordo com o limite de 2035, mas é necessário que o Estado, em parceria com o setor pri- vado, invista maciçamente em energias renováveis e infraestrutura, começando pelas estações de recarga”. No entanto, as recentes decisões do governo de Giorgia Meloni parecem se- guir na direção oposta. A lei orçamen- tária apresentada no fim de outubro e atualmente em debate no Parlamento prevê uma redução de mais de 4 bi- lhões de euros no fundo automotivo criado pelo governo de Mario Draghi em 2022, justamente para apoiar a transição da indústria para a energia elétrica. Ainda assim, os membros do Executivo continuam a se apresentar como defensores do setor, sem poupar críticas à direção da Stellantis. Essesgestos não convencem os traba- lhadores e seus sindicatos, que denun- ciam o imobilismo do governo. Lazzi fala de uma “estratégia de abandono” e acrescenta: “Hoje, a idade média dos operários da fábrica é de 56 anos. Se a Stellantis continuar nesse ritmo, pro- pondo apenas planos de demissão sem contratar, em sete ou oito anos ela se extinguirá sozinha, sem necessidade de demissões”. Zulianello concorda: “Mes- mo que essa seja a intenção deles, nun- ca admitirão abertamente que querem fechar Mirafiori, porque se preocupam demais com a opinião pública. Os Ag- nelli não possuem dois dos principais jornais do país por acaso”. Por meio de sua holding Exor, os donos da Fiat con- trolam o La Repubblica e o La Stampa – que estão entre os jornais mais lidos da Itália –, frequentemente acusados de tratar com complacência temas ligados aos interesses dos proprietários, como a crise da Fiat. Neste outono, após duas greves no La Repubblica em resposta às interferências repetidas dos proprie- tários, o grupo de imprensa anunciou a saída do diretor de redação Maurizio Molinari e do presidente John Elkann.3 MESMO AS COISAS MAIS ELEMENTARES PRECISAM SER CONQUISTADAS No dia 14 de novembro, ao final de uma reunião com o ministro das Empresas e do “Made in Italy”, Adolfo Urso, os di- rigentes da Stellantis Itália declararam que a empresa “não tem intenção de fechar fábricas na Itália nem realizar demissões coletivas” e confirmaram os compromissos assumidos anterior- mente sobre Mirafiori: a retomada da produção do Fiat 500 híbrido até 2025 e o investimento de 240 milhões de eu- ros para a transformação da fábrica. “Não há nada de novo”, denuncia Gian- ni Mannori, responsável pelo sindicato Fiom-CGIL no local. “Ainda não sabe- mos quando a produção será retoma- da, por quanto tempo, com quais vo- lumes, com quantos trabalhadores, em que será investido esse dinheiro. A pri- meira-ministra Giorgia Meloni precisa convocar a Stellantis ao Palazzo Chigi [sede do governo italiano]”. Em Mirafiori, até mesmo os poucos departamentos que funcionam regular- mente sentem o progressivo desengaja- mento da empresa. “Temos a sensação de que fazem de tudo para nos empur- rar a sair”, preocupa-se Guido Cappello, operário na linha de produção das caixas de câmbio eletrificadas, que está a todo vapor. “Temos sorte de trabalhar, mas as condições estão cada vez mais difíceis. Até as coisas mais elementares precisam ser conquistadas: há meses pedimos uma cantina no prédio, mas ainda so- mos obrigados a caminhar 10 minutos para ir e 10 minutos para voltar, mesmo sob a chuva”. Cappello é um dos mais jo- vens da equipe, mas observa os efeitos da falta de contratações e da estagnação das carreiras em seus colegas mais ve- lhos: “Se forçarem pessoas de certa ida- de e cansadas a fazer tudo, inclusive os turnos noturnos, as destruirão. Muitos agora só têm uma preocupação: chegar à aposentadoria, se possível com saúde”. Diante de uma situação cada vez mais crítica, ocorreu uma rara greve unitária no setor automobilístico no dia 18 de outubro. De acordo com os sindicatos organizadores, 20 mil trabalhadores se manifestaram nas ruas da capital nes- se dia, e a adesão à greve nas fábricas foi muito alta – 85% em Mirafiori, onde um comício havia sido organizado na véspera. Lá, encontramos trabalha- dores da fábrica Lear de Grugliasco, a 8 quilômetros de Turim, símbolo dos efeitos da crise automobilística sobre os fornecedores e subcontratados. Ali, eram produzidos os bancos dos carros que depois eram montados em Mirafio- ri. Hoje, o local está fechado, e os qua- trocentos trabalhadores enfrentam o desemprego parcial, garantido apenas até 31 de dezembro de 2024. “Eu ganho o suficiente para viver, mas não poder trabalhar é terrível, in- clusive psicologicamente”, explica Sara D’Imperio, costureira na Lear. “Nós nos sentimos inúteis e isolados, todos os dias são iguais.” De acordo com o sin- dicato Fiom-CGIL, quinhentas empre- sas fornecedoras de peças automotivas fecharam desde 2008 na província de Turim, resultando no desaparecimen- to de 35 mil empregos. D’Imperio teme que o mesmo aconteça com a fábri- ca de Grugliasco se seus dirigentes e o governo não chegarem a um acordo para prolongar o desemprego parcial. A preocupação é ainda maior porque, em 2023, Meloni eliminou o programa de transferência de renda intitulado “ren- dimento de cidadania”. Nos últimos anos, D’Imperio partici- pou de treinamentos organizados pela empresa para facilitar as reconversões, mas não vê “muitas empresas dispos- tas a contratar, e, se o fazem, oferecem apenas contratos precários”. Os traba- lhadores mais velhos de Mirafiori se mostram ainda mais pessimistas. “Aos 58 anos, onde eu ainda poderia encon- trar trabalho?”, questiona Zulianello. Atrás dele, depois do portal 2, o silên- cio responde. *Paolo Valenti é jornalista. 1 Andreas Boeris, “Stellantis, Mirafiori chiuderà di nuovo per tutto dicembre. Ecco perché” [Stellantis, Mirafiori fechará novamente durante dezembro todo. Veja o porquê], 7 nov. 2024, www.milanofinanza.it. 2 Milena Gabanelli e Rita Querzé, “Fiat-FCA-Stel- lantis: i soldi che hanno preso dallo Stato e in cambio di cosa” [Fiat-FCA-Stellantis: o dinheiro que receberam do Estado e em troca de quê], Corriere della Sera, Milão, 24 jun. 2024. 3 Stefano Baudino, “La Repubblica silura Moli- nari dopo mesi di proteste della redazione” [La Repubblica demite Molinari após meses de protestos da redação], 4 out. 2024, www.lindi- pendente.online. © C ar ol M H ig hs m ith /r aw pi xe l A política industrial italiana não consegue lidar com a crise do setor automobilístico, gerando ausência de investimento e planejamento estratégico desse setor http://www.milanofinanza.it/ http://www.lindipendente.online/ http://www.lindipendente.online/ 27DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil O CARÁTER SISTÊMICO DA DISCRIMINAÇÃO DE GÊNERO Em 1957, o Tratado de Roma, documento fundamental da construção da União Europeia, estabeleceu as bases de uma concepção ampliada da igualdade salarial. Embora seja um mecanismo essencial para os salários femininos, esse princípio enfrenta a oposição do patronato. Para os sindicatos, a batalha se trava com calculadora em mãos POR HÉLÈNE RICHARD* Para além da desigualdade entre homens e mulheres A tualmente, no setor privado francês, em condições iguais de cargo e tempo de trabalho, a re- muneração das mulheres é “apenas” 4% inferior à dos homens. Contudo, a diferença média de renda salarial ainda é de 23,5%, uma dispa- ridade que pouco mudou na última década. Em primeiro lugar, as mulhe- res são mais frequentemente submeti- das a trabalhos em tempo parcial. Em seguida, são super-representadas em profissões cujas qualificações e peno- sidade são mal reconhecidas, como as de assistência pessoal. Por fim, há va- riáveis difíceis de identificar em nível macroeconômico, que consolidam as desigualdades no ambiente interno das empresas: obstáculos à progres- são na carreira, interrupções profis- sionais ligadas à maternidade, barrei- ras psicológicas para pedir aumentos salariais e discriminação “pura” ba- seada no gênero. Desde 2019, a legislação francesa exige que empresas com cinquenta ou mais funcionários atribuam a si mes- mas, anualmente, uma nota de até 100 pontos, conhecida como “índice de igualdade profissional”. O indicador não convence as principais organiza- ções sindicais nem as associações fe- ministas, que criticam suas fórmulas de cálculo. Por exemplo, as disparida- des salariais entre homens e mulheres – que compõem grande parte da nota final – são avaliadas dentro de grupos que combinam categorias sociopro- fissionais e faixas etárias. No entanto, os efetivos de algumas “caixas” são pe- quenos demais ou insuficientemente diversificados para permitir compa- rações. “Em nossa empresa, há gru- pos inteiros excluídos do cálculo. Por exemplo, assistentes que estão todasna mesma categoria convencional. Não há homens, então não tenho com o que comparar”, relata a responsável de recursos humanos de uma empresa de telecomunicações.1 Não é surpreen- dente que, em 2024, a nota média atin- ja 88 – considerando que sanções se aplicam a notas abaixo de 75. NO HOSPITAL, PARTEIRAS PODERIAM LEGITIMAMENTE SE COMPARAR A ENGENHEIROS A empresa STMicroelectronics, de Gre- noble, pode, por exemplo, se orgulhar de ter mantido este ano sua pontuação de 93, a mesma de 2023 e 2022. No entan- to, em 26 de outubro de 2023, a câmara social da Corte de Apelação de Grenob- le condenou a multinacional francesa por discriminação sexista contra onze funcionárias de Isère, após oito anos de batalha jurídica. A direção terá de pagar um total de 815 mil euros em danos e juros às reclamantes, sem contar o mon- tante salarial, que ainda não foi julgado. O processo baseou-se no método Clerc, criado por François Clerc, militante da Confederação Geral do Trabalho (CGT) nos anos 1990, para evidenciar os efei- tos da discriminação sindical. Aplicado à discriminação de gênero, esse método possibilitou, a partir dos anos 2000, os primeiros reajustes salariais em favor das mulheres, ao comparar a trajetória de funcionárias com a de colegas ho- mens em cargos semelhantes na época de entrada na empresa. O caso de Grenoble se destaca pelo caráter coletivo da iniciativa e pelo jul- gamento que reconhece o caráter sistê- mico da discriminação de gênero. Essa luta também evidenciou a dificuldade de acessar informações sobre salários. A transposição de uma diretiva europeia ao direito francês, prevista até junho de 2026, deverá permitir que “trabalhado- res e seus representantes [...] recebam informações claras e completas sobre os níveis de remuneração individuais e mé- O TRABALHO DOMÉSTICO SEGUE MAJORITARIAMENTE UMA RESPONSABILIDADE DAS MÃES 100 20 30 40 50 60 70 80 90 % Parcela de pessoas empregadas que fazem mais de 7 horas de trabalho doméstico por semana1 Mulheres Homens 69 % 84 % 79 % 72 % 54 % 32 % 35 % 73 % 31 % 69 % 27 % 47 % Emprego de tempo integral Emprego em tempo parcial Emprego de tempo integral Emprego em tempo parcial Casal com pelo menos uma criança com menos de 3 anos. Casal com pelo menos uma criança de 3 a 17 anos. Família monoparental Conjunto dos pais 1. Tempo gasto na França realizando tarefas domésticas (preparação das refeições, compras de alimen- tos, lavanderia etc.) fora do tempo dedicado aos filhos. Fontes: Insee Références, « Femmes et hommes, l’égalité en question. Édition 2022 » (dados da pesqui- sa « Conditions de travail et risques psychosociaux », 2016, Dares-DGAFP-Drees). dios, discriminados por gênero”, indicou o Parlamento Europeu em comunicado. No entanto, além das carreiras pre- judicadas, o principal desafio continua sendo a valorização das profissões femi- nizadas, ou seja, as tabelas de classifica- ção anexadas às convenções coletivas, que têm origem em decisões e decretos ministeriais de 1945 a 1947. Os ministros dos Assuntos Sociais de então – Alexan- dre Parodi e, depois, Ambroise Croizat – buscavam “classificar e remunerar empregos do mundo industrial”, expli- ca a economista Rachel Silvera. “Eles basearam-se na qualificação operária. [Esse sistema] teve, contudo, o efeito de valorizar mais os empregos técnicos de produção – o famoso núcleo essencial da atividade –, beneficiando os operá- rios em relação aos funcionários admi- nistrativos, e os engenheiros em relação aos gestores das áreas de suporte.”2 Os regimes de compensação também her- daram essa lógica operária: uma auxiliar de enfermagem em plantão noturno recebe uma gratificação muito inferior à de um motorista de limpa-neve que desobstrui uma estrada ao amanhecer. Os processos baseados na compara- ção de profissões de “valor equivalente” oferecem um importante instrumento, tanto no nível setorial como em ações individuais. No hospital, por exemplo, as parteiras poderiam legitimamente se comparar a engenheiros responsáveis pela instalação e manutenção de equi- pamentos. Ambas as funções exigem diploma de nível superior. As parteiras assumem responsabilidades – a vida de mães e recém-nascidos – que podem ser consideradas, no mínimo, tão pe- sadas quanto o gerenciamento de uma equipe técnica.3 Até 2020, no entanto, seus contracheques no início da carrei- ra indicavam 200 euros a menos que os dos engenheiros (2.156 euros líquidos). Suas lutas permitiram reduzir essa dife- rença para 40 euros no início da carreira (ainda em favor dos engenheiros), mas o desnível aumenta com o tempo de serviço. Com 25 anos de experiência, as remunerações diferem entre 420 e 900 euros, dependendo do valor da gratifi- cação de tecnicidade, atribuída exclusi- vamente aos engenheiros. *Hélène Richard é jornalista do Le Mon- de Diplomatique. 1 Benoît Cart, Martine Pernod-Lemattre e Marie- -Hélène Toutin, “L’Index de l’égalité profession- nelle: utile mais imparfait” [O índice de igual- dade profissional: útil, mas imperfeito], Bref, n.428, Céreq, Marselha, dez. 2022. 2 Rachel Silvera, Un quart en moins. Des femmes se battent pour en finir avec les inégalités de salaires [Um quarto a menos. Mulheres lutam para acabar com as desigualdades salariais], La Découverte, Paris, 2014. 3 Rachel Silvera (org.), “Investir dans le secteur du soin et du lien aux autres. Un enjeu d’égalité entre les hommes et les femmes” [Investir no setor de cuidado e das relações interpessoais. Um desafio de igualdade entre homens e mu- lheres], Institut de Recherches Economiques et Sociales (Ires), relatório final, jan. 2023. 28 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024 O MERCADO DE COACHES Escapar do trabalho assalariado – que exaure, embrutece, entedia – criando a própria atividade? A ideia seduz, especialmente entre profissionais com ensino superior, parte dos quais se reconverte... na “reconversão profissional”. Um mercado promissor, mas frágil POR ANNE JOURDAIN* A fé dos reconvertidos “E ncontre sentido no traba- lho”, “Confira sentido à sua vida profissional”, “Volte-se para um emprego que faça sentido para você”... Após a pandemia de Covid-19, enquanto ocorria uma “grande renúncia” e se tornava comum a crítica aos bullshit jobs [empregos de merda], a oferta para atrair trabalhado- res em crise de identidade se multipli- cou. Um número crescente de empresas passou a oferecer serviços para acom- panhar as transições ou reconversões profissionais de executivos que perde- ram a crença no sistema, estão entedia- dos, exaustos ou desiludidos com a ideia de continuar subindo na hierarquia. Pa- ra ajudá-los a encontrar o “emprego dos sonhos”, a gama de serviços inclui, prin- cipalmente, o coach – de 1.500 a 4.000 euros por cerca de dez sessões voltadas ao autoconhecimento. Embora a grande maioria dos coaches trabalhe por conta própria, em geral como autônomos, alguns oferecem ser- viços de acompanhamento em empre- sas maiores ou start-ups que atualmente tentam estruturar o mercado, como a Chance, Garance & Moi e a Primaveras. Afinal, a busca por “sentido” é tanto uma aspiração quanto um produto e hoje está amplamente mercantilizada. A re- conversão profissional conta com suas próprias plataformas digitais – Je-chan- ge-de-métier.com [Eu-troco-de-traba- lho.com] – ou podcasts – Trouver sa voie [Encontrar seu caminho], J’peux pas j’ai business [Não posso, tenho negócios], Maintenant j’aime le lundi [Agora eu amo a segunda-feira]. Em 2014, o gru- po AEF Info – presidido por Raymond Soubie, ex-conselheiro social de Nicolas Sarkozy no Palácio do Eliseu – criou o salão Nouvelle Vie Professionnelle [Nova vida profissional], o primeiro evento ex- clusivamente dedicado à reconversão. E os coaches? De onde vêm? Quem são? Ex-executivos – eles próprios reconverti- dos após dificuldades profissionais – são a maior parte do grupo. Pautado por va- lores de altruísmo e empatia, o coaching é, porvezes, associado ao care (“cuidado”, “atenção”). Essa concepção explica que, entre os especialistas em transição pro- fissional, 82% sejam mulheres.1 Elas afir- mam apreciar a flexibilidade vinculada ao status de trabalhadoras independen- tes, destacando o fim da subordinação salarial. Em suas publicidades, sobre- tudo na internet, os coaches frequente- mente usam sua própria trajetória como exemplo. O sucesso de sua reconversão lhes daria legitimidade para orientar ou- tros aspirantes. Muitas vezes, a projeção mimética funciona: diversas pessoas acompanhadas por eles acabam desco- brindo uma vocação para o coaching. Os atores do mercado de reconversão concordam em apresentar os serviços de um coach como indispensáveis para o sucesso de uma mudança de carreira. Em abril de 2023, no site do “salão da re- conversão profissional no feminino”, o Profession’L, lia-se: “Uma evolução pro- fissional é uma decisão que não se toma sozinha. [...] Durante sua reflexão, você poderá sentir medos legítimos, criar seus próprios bloqueios. Um acompa- nhamento adequado pode ajudá-la a superá-los e a seguir em frente”. Um pré- -requisito indispensável para o inves- timento em uma formação, o coaching pode até mesmo dispensar essa etapa. As empresas de coaching em transição profissional se posicionam como inter- mediárias de empresas de formação ou procuram substituí-las.2 Após a entrada em vigor da lei de 5 de setembro de 2018 sobre a liberdade de escolha do futuro profissional, para ob- ter financiamento de seus serviços pela conta pessoal de formação (CPF) muitos coaches e todas as start-ups de reconver- são profissional qualificaram seus acom- panhamentos como balanços de com- petências ou formações certificadas... mesmo que seus catálogos publicitários distingam explicitamente suas ofertas da formação convencional ou dos balanços de competências mais técnicos e me- nos humanos. Trata-se de aproveitar os recursos da CPF, que somam mais de 2 bilhões de euros por ano em gastos pú- blicos, segundo o Tribunal de Contas.3 OS COACHES SÃO, AFINAL, INDEPENDENTES MUITO DEPENDENTES Outro dispositivo público contribui in- diretamente para o desenvolvimento do mesmo mercado. Em sua antiga vida como assalariados, os coaches muitas vezes acumularam direitos relativos ao desemprego, que ativam ao se estabe- lecerem como autônomos, para enfren- tar os inícios incertos de sua atividade econômica. Se essa fonte de recursos desempenha papel determinante na decisão de se lançar no mercado e con- tribui para o crescimento da oferta, ela também garante a demanda. Um coach se alegrava disso durante a edição de 2021 do salão Nouvelle Vie Profession- nelle: “Hoje, com o Pôle Emploi [centro francês de apoio ao trabalhador], esta- mos em uma sociedade que acompanha fortemente as transições profissionais”. Instituições públicas como o France Travail – que sucedeu ao Pôle Emploi – ou entidades paritárias como os cen- tros Transitions Pro – que subvencio- nam projetos de mudança de carreira – contribuem também para valorizar a grande aventura da reconversão profis- sional. “Dois dias para mudar de profis- são!”, estava escrito no cartaz do salão Générations Reconversion, organizado em 2024 pelo Transitions Pro Île-de- -France. Todo ano, em novembro, o Mi- nistério do Trabalho organiza o Dia Na- cional da Reconversão, na mesma data do salão Nouvelle Vie Professionnelle, do qual participa e o qual promove em seu site. Claro, essas instituições tentam primeiramente valorizar a utilização de seus próprios dispositivos, mas seus discursos e compromissos facilitam o desenvolvimento da oferta privada de acompanhamento das transições. Até agora, no entanto, o coaching em reconversão profissional não é um filão lucrativo. Em 2022, 38% das empresas do setor tiveram faturamento inferior a 20 mil euros. “Eu tinha 1.300 euros de desemprego e morava com meus pais, o que me dava o luxo de não pagar aluguel nem nada. Então, comecei o coaching”, conta Marion.4 “Foi ótimo, tive seis ou sete clientes. Mas estava cobrando 65 euros a sessão, o que dava 4.000 euros de faturamento. Tirando 25% de encar- gos de autônomo, em um ano esse foi o lucro. Enfim, é ótimo para começar um negócio e se apropriar dele, mas não é de forma alguma viável sem o seguro- -desemprego por perto...” Os coaches são, afinal, independen- tes muito dependentes: suas empresas geralmente se mantêm apenas porque se sustentam com recursos econômicos provenientes do mercado assalariado (seguro-desemprego, rendimentos de cônjuge ou pais assalariados...). A mino- ria que se sai bem, ou até consegue ter sucesso, multiplica os chapéus: consulto- res, formadores, coaches empresariais... Anexado a outros mercados conectados por necessidade, o mercado de coaching em reconversão profissional não é au- tossuficiente, daí a alta rotatividade de pessoal. Cansada do trabalho promocio- nal nas redes sociais e, de maneira geral, da busca incessante por clientes, Marion decidiu voltar a ser assalariada. Seu di- ploma inicial em recursos humanos lhe permitiu conquistar um posto de con- selheira em evolução profissional. Surge então a questão do apoio público ao se- tor: longe de garantir trajetórias profis- sionais, como os discursos que o acom- panham alegam, esse gasto contribui para a expansão dos novos mercados da independência e participa do desenvol- vimento da precariedade do trabalho. *Anne Jourdain é professora titular de So- ciologia da Universidade Paris-Dauphine. 1 Cf. pesquisa por questionário realizada em 2023 e 2024 com oitocentos coaches que realizam acompanhamentos de transições profissionais. 2 Cf. “Comment les coachs individualisent les maux du travail” [Como os coaches individua- lizam os males do trabalho], La Nouvelle Revue du Travail, n.25, Paris, 2024. 3 Cf. “La formation professionnelle des salariés” [A formação profissional dos assalariados], Cour des Comptes, 30 jun. 2023. 4 O nome foi alterado. © Creative Commons/Unsplash Após a pandemia, mercado de coaching está em alta de popularidade na França 29DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil COMO LIVRAR UMA MONOCULTURA DAS MÃOS DO SETOR PRIVADO? Ameaças ao arroz vietnamita Sal, elevação do nível do mar, poluição... No Vietnã, o Delta do Rio dos Nove Dragões, por onde o Mekong deságua no Mar da China Meridional, pode desaparecer até 2100. Com ele, um pilar inteiro da economia do país socialista está ameaçado: a rizicultura, da qual também dependem muitos países africanos para abastecimento de cereais a baixo custo POR MAÏLYS KHIDER*, ENVIADA ESPECIAL A temporada de chuvas está ape- nas começando agora no Vietnã, em junho de 2024. No entanto, as precipitações são raras. Nos campos de Phương Thạnh (província de Trà Vinh), em pleno Delta do Rio Mekong, no sul do país, as árvores de pitaia, que lembram cactos, mantêm- -se quietas, alinhadas em fileiras. Os coqueiros esguios olham de cima. Na- da perturba o silêncio bucólico, exceto o balido das cabras em seus cercados de metal e alguns cães que latem para mostrar que estão de guarda. Entre as plantações, parcelas de relva apertada flutuam em alguns centímetros de água. Estamos nos arrozais do delta. Com um recipiente laranja fluores- cente cheio de fertilizante preso às costas, Bao1 espalha a mistura com um longo bastão preto. Para chegar ao campo, é preciso atravessar um fosso cheio de água por meio de uma estreita passarela: um tronco de árvore de ape- nas 20 centímetros de largura, chama- do localmente de “ponte dos macacos”. Descalço, com uma foice na mão e um chapéu cônico na cabeça, Bao trabalha desde as 6 horas da manhã no meio hectare que usufrui. Quando pergunta- mos sobre sua colheita, ele se inclina e acaricia algumas folhas entre o polegar e o indicador: “Veja, estão amarelas. Às vezes, as espigas estão vazias. Ultima- mente, chove menos e faz muito calor”. Tudo que o arroz detesta. Para cultivar 1 hectare,são necessá- rios 30 mil metros cúbicos de água doce. Contudo, o nível do mar está subindo gradualmente. Aqui, a água do solo tor- na-se mais salgada, pois a falta de chu- vas limita a diluição dos cristais de sal. O resultado é que a produção tende a cair. Como frequentemente acontece, a alternativa encontrada passa pela eleva- ção do uso de fertilizantes químicos. “A natureza mudou muito por aqui”, con- ta Bao. “Quando eu era pequeno, havia caranguejos e peixes na água dos arro- zais. Hoje, com todos os produtos que usamos, eles não aparecem mais.” Atrás dele, o motor de um barco desmontado emite um barulho ensurdecedor. Sua hélice, colocada na borda da vala, gira a toda velocidade para levar a água do canal ao arrozal, inundando o ouro azul salobro em sua versão doce. O delta está exaurido. O “celeiro de ar- roz” vietnamita, um território de 40 mil quilômetros quadrados onde vivem 20 milhões de habitantes (de uma popula- ção total de mais de 99 milhões), fornece anualmente 24 milhões de toneladas do precioso cereal, ou seja, 54% da produ- ção nacional. No Vietnã, 82% das terras aráveis são ocupadas por arrozais. A ex- ploração excessiva impacta severamen- te o delta. Seu nome vietnamita, Delta dos Nove Dragões – em referência aos nove braços que, segundo Marguerite Duras,2 “são porções de água que desa- parecem nas cavidades dos oceanos” –, sugere um colosso inabalável. Entre- tanto, quando se atravessa o Mekong de barco, sua fragilidade fica evidente. O gigante de proporções extraordiná- rias tem margens de altitude tão baixas (cerca de 1 metro acima do nível do mar) que as folhas das árvores frutíferas ficam submersas na água. Em breve, elas po- dem afundar completamente: enquanto a agricultura consome os lençóis freáti- cos, o delta está afundando cerca de 4 centímetros por ano. Esse fenômeno o torna ainda mais vulnerável ao avanço do mar. Nesse ritmo, metade do delta pode estar submersa até 2050 e comple- tamente em 2100.3 Para Alexis Drogoul, diretor de pesquisa do Instituto de Pes- quisa para o Desenvolvimento (IRD), “a maior ameaça é a agricultura intensiva. A produção destruiu os ecossistemas. Não podemos mais esperar”. Contudo, como romper com as atividades que sustentam as populações do delta sem provocar grandes impactos humanos? O governo vietnamita procura reagir. Na conferência de Dien Hong, em 2017, foram estabelecidas cinco diretrizes principais na Resolução n. 120 sobre o “desenvolvimento sustentável e a resi- liência climática no Delta do Mekong”. Além das promessas esperadas de “res- peitar a natureza e evitar agredi-la”, o especialista independente em ecologia do delta Nguyên Huu Thiên destaca o compromisso de “desenvolver culturas adaptadas à água salgada” e, sobretudo, o projeto de “focar uma agricultura de qualidade em vez de quantidade”. HERANÇA COLONIAL Todavia, sair do produtivismo não é simples. O país está preso nesse mode- lo desde a época colonial. “A agricultu- ra no Vietnã é uma herança da França”, explica Trần Thái Nghiêm, diretor-ge- ral adjunto do Departamento de Agri- cultura e Desenvolvimento Rural de Cần Thơ, a maior cidade do Delta do Mekong e importante polo comercial do arroz. Em um mapa pendurado na parede de seu escritório, ele acompa- nha o traçado do Rio Cần Thơ e do Ca- nal Kênh Xáng Xà No, que o prolonga. Esse canal foi construído pelos colonos franceses, e os vietnamitas o chamam de “estrada do arroz”. Ao chegar em 1858, a França logo re- conheceu o potencial agrícola da Co- chinchina (atual sul do Vietnã). Os co- lonizadores estudaram o comércio de arroz, na época dominado por comer- ciantes chineses, e o assumiram. A Fran- ça escavou, construiu diques, investiu em irrigação e drenou as áreas alagadas. Criou 2 milhões de hectares de arrozais e transformou a estrutura do setor: fun- dou serviços de estudos a partir de 1927, câmaras de agricultura, organismos de crédito e o Escritório Indochinês do Ar- roz em 1930.4 Fundou escolas para ensi- nar aos vietnamitas as práticas agrícolas francesas. Surgiram propriedades de milhares de hectares, metade das quais concentradas em 3% dos proprietários. Entre 1868 e 1943, a área de arrozais aumentou de 250 mil para 2,3 milhões de hectares. E os franceses impuseram duas colheitas por ano, em vez de uma, que seguia o ciclo natural do solo. O país saiu devastado das guerras da Indochina (1946-1954) e do Vietnã (1955- 1975). “Na reunificação, em 1976, todos estavam famintos”, relata Nguyên Huu Thiên. “Estávamos sob sanções dos Es- tados Unidos, então precisávamos pro- duzir alimentos. O Delta do Mekong era a área mais fértil do país.” O governo construiu estradas para integrar as zonas rurais, mecanizou as terras e drenou a água. Foi a implementação da política do © Rainer Haeßner/Wikimedia Crise ambiental e econômica de Mekong, Vietnã, prejudica a produção de arroz 30 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024 “Arroz primeiro”. “Limpamos o terreno e expandimos os arrozais o máximo possí- vel. O delta salvou todo o país da fome.” Após uma experiência de coletivização – criação de cooperativas, planejamento e altos impostos, desde 1958 no norte e 1976 no sul do Vietnã –, o Partido Comu- nista tomou a decisão de “renovar os ob- jetivos, as políticas e os métodos de ação relacionados à agricultura e ao campesi- nato”.5 Em 1986, ele lançou o Đổi mới, ou “Renovação”. Essa onda de liberalização atingiu tanto as empresas estatais como os investimentos estrangeiros e a agri- cultura. As áreas cultivadas foram mais uma vez ampliadas, e a industrialização, promovida: o Estado concedeu, entre ou- tras medidas, incentivos financeiros pa- ra a compra de fertilizantes e pesticidas. Desse modo, o uso desses produtos dis- parou. Quantidades incalculáveis de água foram direcionadas para a rizicul- tura e a produção de arroz passou de 16 milhões de toneladas em 1986 para 40 milhões no início do século XXI, com três colheitas anuais. Considerando apenas o Delta do Mekong, a quantidade de ce- reais produzida hoje é cinco vezes maior do que no início do Đổi mới. Ainda em 1989, o Vietnã começou a exportar arroz. Hoje, é o terceiro maior exportador mundial (atrás da Índia e da Tailândia), com vendas equivalentes a 8 milhões de toneladas e uma receita de US$ 4,5 bilhões em 2023 (dentro de um total de exportações, majoritariamen- te manufatureiras, de cerca de US$ 350 bilhões em 2023). E 90% dessas exporta- ções vêm do Delta do Mekong. Em um barco de madeira, Thanh, criador de caranguejos da região, rema partindo de Cù Lao Dung, uma ilha lo- calizada entre dois afluentes do rio. Um cheiro úmido de peixe invade as narinas. Em ambos os lados da margem, maca- cos e nuvens de mosquitos. E, por toda parte, o mangue. “O que você vê são ár- vores que naturalmente retardam desli- zamentos de terra. Elas ajudam a evitar danos durante as repentinas subidas das águas do mar”, explica Thanh. Após cer- ca de 20 minutos de esforço, ele solta o remo com um suspiro de alívio. O hori- zonte se abre de repente: à esquerda, a extremidade do Mekong; à direita, o Mar do Sul da China. No meio, as águas se misturam. “Aqui, você entende melhor por que somos tão vulneráveis à água do mar. Veja como a terra é baixa. É daqui que o sal sobe. Em princípio, temos seis meses de água doce durante a estação chuvosa e seis meses de água salgada durante a estação seca. Não é mais as- sim. E esta área, que antes era dedicada ao arroz, tornou-se incultivável.” Nos arredores dos manguezais, so- bre uma ilha, a terra rachada em al- guns pontos parece mais seca do que nas localidades mais distantes do mar. Riachos poluídos e repletos de resíduos provenientes da atividade humana (sa- cos plásticos, despejos industriais etc.) cortam os campos. Ao redor, por toda parte, há intrigantes tanques retangu- lares cobertos por lonas. Turbinas gi- ram a toda velocidade para oxigenar a água. “Como tivemos de parar de plan- tar arroz, agoracriamos camarões em sistema industrial. Eles vivem na água salgada. Outros cultivam frutas. Esta- mos tentando nos adaptar”, conta Hoa, ex-rizicultora que mudou de atividade. A 20 minutos de balsa, na outra mar- gem do Mekong, em Trần Đề – um dos grandes centros de produção de arroz do delta –, embora jovens brotos de ar- roz ainda se espalhem a perder de vis- ta, os tanques de camarão se multipli- cam. “Cultivo este campo há quarenta anos. Mas sei que, em breve, talvez ele não possa mais produzir arroz”, admi- te Giang Long, rizicultor de Trần Đề com cerca de 60 anos. Na terra de seu vizinho, a 10 metros, um reservatório está em construção. MAIS QUALIDADE, MENOS EXPORTAÇÃO A perda das terras agrícolas já começou. Dos 4 milhões de hectares de arrozais no delta em 2015, 300 mil hectares haviam desaparecido em 2023.6 A produção está irremediavelmente em declínio. O go- verno vietnamita tenta transformar essa dificuldade em uma escolha. Em 26 de maio de 2023, foi publicada a Decisão n. 583, assinada pelo vice-primeiro-mi- nistro Lê Minh Khái, que prevê “reduzir o volume de exportações [de arroz] para 4 milhões de toneladas, com uma recei- ta de US$ 2,62 bilhões, até 2030”.7 “Não desejamos essa redução”, expli- ca Trần Thái Nghiêm, do Departamen- to de Agricultura e Desenvolvimento Rural de Cần Thơ. “Porém, precisamos levar em conta a realidade. Não pode- mos aumentar os rendimentos: as mu- danças climáticas e a falta de água não permitem. Dada a importância do ar- roz para nossa segurança alimentar, vamos priorizar o mercado interno.” Cada vietnamita consome cerca de 90 quilos de arroz por ano. Trata-se, como anunciado na confe- rência de Dien Hong de 2017, de trocar quantidade por qualidade. Para isso, o governo vietnamita aposta em certa forma de adaptação. Na zona rural de Cần Thơ, um drone pulveriza 50 litros de fertilizante nas terras do Instituto de Pesquisa sobre o Arroz do Delta do Me- kong. Criado em 1977, logo após a guer- ra, o instituto conta com 150 pesquisa- dores e 100 agricultores que buscam desenvolver novas variedades de arroz. Em seus 360 hectares de arrozais dedi- cados à pesquisa, há placas com men- sagens como: “Teste de campo de uma rizicultura de baixa emissão de carbo- no utilizando diferentes opções de ma- nejo da palha de arroz, da água e dos fertilizantes” ou “Teste de campo para a produção de arroz de alta produtivi- dade e baixo teor de carbono – safras de quatro colheitas, 2024-2027”. Os produtos de destaque do instituto são os arrozes OM2517 e ST25, os mais resistentes à intrusão salina. O Vietnã deposita grandes esperanças nessas va- riedades, que poderiam ser produzidas em menor quantidade, mas vendidas por um preço mais elevado: arrozes de ciclo longo, que não podem ser cultivados tão rapidamente quanto os de baixa qualida- de (em 85 a 100 dias), em conformidade com a Decisão n. 583, que prevê reduzir as quantidades exportadas e “aumentar o valor do arroz exportado”. Durante o período 2023-2025, o documento esta- belece que a proporção de arroz branco de qualidade inferior e média não deve ultrapassar 15%, enquanto o arroz bran- co de alta qualidade deve corresponder a cerca de 20%; o arroz aromático, o japo- Na primavera de 2016, o Vietnã atra- vessou uma seca que levou à perda de 160 mil hectares de cultivos, incluin- do dezenas de milhares de hectares de arrozais. O Estado pediu urgentemente à China que abrisse o reservatório da central hidrelétrica de Jinghong, em Yunnan, para liberar água. A China acei- tou e irrigou os cultivos durante três se- manas, demonstrando, no processo, que domina o Vietnã em relação à gestão das águas do Mekong. O Vietnã é o últi- mo país por onde passa o rio, que flui a partir do planalto tibetano do Himalaia, a 5 mil metros de altitude. Dos 500 bi- lhões de metros cúbicos de água que despejam anualmente, 480 bilhões vêm do alto Mekong, passando pela China, Mianmar, Tailândia, Laos e Camboja. Apenas 20 bilhões de metros cúbicos provêm das chuvas. Desde os anos 1990, os países situa- dos a montante do Vietnã se beneficiam dessa geografia. Constroem barragens hidrelétricas que retêm a água para pro- duzir eletricidade barata. A China ergueu uma dezena de barragens (Wunonglong, Lidi, Miaowei, Manwan, entre outras). O Laos colocou em operação a barragem Don Sahong em 2020 (a menos de 2 quilômetros de sua fronteira com o Cam- boja) e vende, graças à barragem Xaya- buri (que custou US$ 3,8 bilhões), 95% da energia produzida para a Tailândia. A barragem Lower Sesan 2, inaugurada em 2018, é o maior projeto hidrelétrico do Camboja. No total, centenas de barra- gens foram construídas nos afluentes do rio, a maioria por investidores privados. O Camboja inaugurou, em agosto de 2024, o Canal de Funan Techo, com três barra- gens, financiado pela China. A obra des- via de 100 bilhões a 120 bilhões de me- tros cúbicos de água. Para o Vietnã, que está a jusante do rio, essas construções têm um efeito catastrófico, agravando os problemas enfrentados pelos rizicultores. “Durante a estação seca, as intrusões salinas pioram. As barragens bloqueiam a água doce, que deveria empurrar a água sal- gada”, resume Nguyên Huu Thiên, es- pecialista independente em ecologia do delta. Além disso, as barragens “pertur- bam os ecossistemas. O rio transporta areia e sedimentos que não conseguem mais chegar ao delta, pois são bloquea- dos pelas barragens, apesar de serem esses materiais que moldaram o delta. Também são fertilizantes naturais”. Sem esses materiais, o delta afunda e sofre erosão. “Tudo o que acontece a mon- tante do rio nos afeta aqui no Vietnã”, acrescenta o pesquisador. “Dentro de dois anos, as reservas de sedimentos no solo estarão esgotadas. Isso signifi- caria o fim da agricultura no delta.” Para piorar, o Vietnã explorou areia por muito tempo, principalmente para exportá-la e transformá-la em concreto (areia que contribuiu enormemente para a urbani- zação de Cingapura). As barragens também impedem os peixes de migrar. “Temos peixes ne- gros e peixes brancos. Estes últimos precisam subir o rio sazonalmente, se- guindo os sinais dos rios. Com as bar- ragens, eles não conseguem mais en- contrar hábitats”, explica Nguyên Huu Thiên. Sem esses peixes, o ecossiste- ma do delta está em perigo. Cobras, aves, tartarugas: todos dependem e vivem desses peixes. Os humanos também, que “dependem da pesca de peixes brancos para suas necessida- des de proteínas e cálcio”. A Comissão do Rio Mekong (MRC) reúne Vietnã, Camboja, Laos e Tailândia para dialogar e, teoricamente, estabele- cer uma gestão comum dos recursos do rio. Em 1995, esses países assinaram um acordo de cooperação para o desen- volvimento sustentável da bacia. A partir de 1996, China e Mianmar integraram a comissão como observadores. O diretor- -geral adjunto do departamento de agri- cultura e desenvolvimento rural de Cần Thơ, Trần Thái Nghiêm, relativiza, no en- tanto, a utilidade dessa instância. “Cada país tem sua própria estratégia de de- senvolvimento econômico. A meu ver, um país do baixo Mekong, como o Viet- nã, não tem muito peso nas decisões dos outros Estados. Em relação às bar- ragens e ao canal de Funan Techo, ex- pressamos nossa opinião. Mas os proje- tos foram concluídos sem levá-la em consideração.” (M.K.) INTERESSES PRIVADOS INSACIÁVEIS 31DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil nês e os arrozes especiais (basmati, jas- mim, negro etc.), juntos, a cerca de 40%; e o arroz glutinoso, a cerca de 20%. DEPOIS DO SAL, O CONCRETO No entanto, vários obstáculos se apre- sentam. Em primeiro lugar, o poder pú- blico não controla mais sozinho as ex- portações, e os atores privados pouco se preocupam com suas preferências. Des- de 2007, o Vietnã faz parte da Organiza- ção Mundial do Comércio (OMC), que proíbe o Estado de impor cotas de expor- tação. Hanói, portanto, fixa objetivos na- cionais e limita-se a pedir às empresas que os cumpram. Por ora, issoco, o que faz seja reforçando seu compro- misso com pautas caras à extrema direita (como a brutalidade policial), seja com demonstrações públicas de vassalagem. Contudo, falo também de expoentes do velho Centrão fisiológico, de Arthur Lira a Gilberto Kassab – que estão den- tro do governo federal, mas mantêm um pé na canoa da extrema direita. Nas elei- ções municipais, entre os partidos que têm assento no ministério de Lula foi frequente o apoio a candidatos bolsona- ristas ou a verbalização do discurso bol- sonarista por seus próprios candidatos. E, em relação aos inquéritos que atingem Bolsonaro e seu círculo, osci- la-se entre negar os fatos ou ficar em silêncio. Se Tarcísio, que se movimenta para garantir a bênção do líder na su- cessão de Lula, deu um passo a mais ao condenar com veemência o indicia- mento do ex-presidente e 36 cúmpli- ces, muitos outros simplesmente evi- tam se pronunciar. Assim, deixam aberta a porta para uma composição no futuro próximo – e, no mesmo pas- so, boicotam o esforço de responsabi- lização dos golpistas, que é absoluta- mente necessário para uma retomada democrática no Brasil. Isso significa que o esforço de punir e erradicar o golpismo enfrenta a resistên- cia não apenas da extrema direita, nem mesmo da oposição, mas também de setores que pretensamente compõem a base de Lula. Em suma, no governo a frente tão ampla se mostra, aqui como em outras questões, muito mais um pro- blema do que uma solução. Um desdobramento desse cenário é a incapacidade de dar qualquer passo significativo na recomposição de um ambiente de debate público menos po- luído. A base da direita radicalizada é alimentada por uma combinação explo- siva de ressentimentos e desinformação, que se reforçam entre si. No Brasil, como no resto do mundo, a nova economia da desinformação aberta pelas plataformas sociodigitais é componente importante do sucesso da extrema direita. A velha mídia corporativa era criti- cada, com razão, por seus muitos vie- ses. Mas estabelecia um terreno que era disputado por meio da apresen- tação de dados e evidências que sus- tentavam agendas e enquadramentos diversos. No novo cenário, por vezes definido pela expressão “pós-verdade”, fica erodida qualquer referência a um mundo objetivo comum. Nas câmeras de eco das mídias sociais, as fantasias alimentadas pelos extremistas são vir- tualmente indestrutíveis. O governo tentou levar adiante essa batalha, em circunstâncias que pare- ciam propícias – pelos ataques à de- mocracia e pelo evidenciamento da re- lação entre a ausência de regulação dos espaços virtuais e a onda de violência contra crianças e jovens. No entanto, uma ofensiva de informações falsas le- Mesmo com o desvelamento inequívoco da conspiração antidemocrática, que em tese deveria dar margem para colocar a extrema direita em apuros, quem permanece na defensiva é o governo. As dificuldades de enfrentamento do golpismo e da questão militar não são estranhas ao outro eixo em que o governo patina para tomar rumo: as políticas sociais POR LUIS FELIPE MIGUEL* 5DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil aumento do dólar ou queda nas Bolsas de Valores. O começo do mandato foi marca- do ainda pelo embate com o Banco Cen- tral, que, nas mãos de um bolsonarista convicto e militante, mantém as taxas de juros em um patamar muito elevado, pre- judicando qualquer política de ampliação do investimento produtivo e do consumo interno. Embora essa questão seja fun- damental, sobretudo se o projeto de Lula é uma reedição da fórmula de seus pri- meiros mandatos, o enfrentamento tem algo de encenação, já que, quando pôde nomear o sucessor de Campos Neto, a op- ção do governo foi por alguém que, na di- retoria do BC, se alinha à política que vem sendo praticada até agora. Da parte do Ministério da Fazenda, o que se vê é o mesmo de sempre: cortes de gastos, arrocho no funcionalismo público, indicação de trabalhadores e pensionistas como vilões das contas públicas. Mesmo a política de reajuste real do salário mínimo, que, ao lado do Bolsa Família, foi a grande vitrine dos governos petistas, é ameaçada diante da pressão do rentismo. É bem verdade que, mesmo assim, o governo tem obtido avanços, em par- ticular a redução do desemprego e um sutil aumento do poder de compra dos salários. Ao contrário do esperado, po- rém, isso não se refletiu em melhoria dos índices de popularidade do novo presidente ou na desidratação da base da extrema direita. Algo semelhante, aliás, foi detectado nos Estados Unidos, com a presidência de Joe Biden, enfim derrotado na tentativa de fazer uma su- cessora. Um paradoxo se manifesta: a decadência dos resultados materiais ob- tidos pelos regimes democráticos está entre as causas da crise da democracia, mas a melhoria desses resultados parece impotente para estabelecer uma reação. Ao não ser capaz de mobilizar a classe trabalhadora e os pobres em geral, prefe- rindo sacrificá-los no altar da conciliação com o rentismo, o governo Lula enfra- quece a si mesmo. E enfraquece o pro- jeto de reconstrução democrática; afi- nal, a força de uma democracia sempre reside, em última análise, na capacidade de resistência dos dominados, aqueles que mais interesse têm em sua existên- cia. Paralisado por alianças que cerceiam muito seu horizonte de ação, mas pouco devolvem em termos de apoio, e pela insistência em reeditar a política de não enfrentamento a todo custo, ainda que as circunstâncias tenham mudado radical- mente, o governo segue incapaz de cum- prir o que prometeu. *Luis Felipe Miguel é professor titular livre do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasí lia, onde coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê), e autor, en- tre outros livros, de Democracia na peri- feria capitalista: impasses do Brasil (Au- têntica, 2022). A elite política parece ter interiorizado a ideia de que é impossível enfrentar o golpismo militar. A experiência anterior do PT no governo pôs em prática o plano de combater o “desemprego estrutural” – a ideia de que a intervenção na política nacional seria uma tentação muito gran- de para militares que têm pouco o que fa- zer em relação às suas tarefas específicas de proteção da integridade do território nacional. Assim, foi feito um esforço que levou seja à participação em missões de paz das Nações Unidas, como no Haiti, seja ao auxílio em missões de segurança pública sobre determinação da autorida- de civil, como no Rio de Janeiro. O resul- tado, já se sabe, foi o oposto do esperado. De Augusto Heleno a Braga Netto, os che- fes dessas missões tornaram-se depois líderes do retrocesso democrático no Brasil. Ao que parece, em vez de estabe- lecerem um novo profissionalismo, elas reforçaram a tendência salvacionista tão presente no espírito militar brasileiro. Falas como a de Siqueira, que são bastante comuns, revelam exatamente essa impotência. É como se, na ausên- cia de qualquer capacidade de impor à cúpula militar a obediência às regras democráticas, a elite civil procurasse iludir a si mesma julgando que uma pedagogia de “reforço positivo” faria os generais se aquietarem. O resultado é bloquear iniciativas para reorganizar as Forças Armadas, passando pela formação e pela pro- moção dos oficiais, de maneira a tor- ná-las compatíveis com o princípio do primado do poder civil. O ministro da Defesa indicado por Lula (e mantido no cargo apesar de tudo), José Múcio, age como lobista dos interesses cor- porativos das Forças Armadas e advo- gado de militares golpistas dentro do primeiro escalão do governo. O indiciamento de dezenas de oficiais, incluindo figurões como Braga Netto, Heleno e o almirante Almir Garnier, no inquérito da conspiração golpista pode representar uma esperança de mudança nesse cenário, mas é preciso ver ainda se o governo vai agir no sentido de aprovei- tar a oportunidade para apertar a pres- são sobre o golpismo castrense ou se, uma vezraramente acontece. Além disso, os importadores de arroz vietnamita podem enfrentar escas- sez. Os países asiáticos, que compram “mais de 6 milhões de toneladas, repre- sentam 75% do total das exportações; em seguida vem a África, com cerca de 1,34 milhão de toneladas, ou 16,5%”, detalha Trần Quốc Toản, vice-diretor do Depar- tamento de Importação e Exportação do Ministério da Indústria e Comércio. Na Costa do Marfim, explica Nguyễn Văn Nhựt, da empresa Hoàng Minh Nhật, 83% das importações provenientes do Sudeste Asiático vêm do Vietnã. Em Ga- na, essa proporção chega a 90%. Se o Vietnã reduzisse suas exportações, os preços do cereal poderiam disparar. Por enquanto, o comércio mantém- -se sólido, comemora Trần Quốc Toản: em 2023, as vendas ao exterior registra- ram “aumento de 14,4% em volume em relação ao mesmo período de 2022 e de 33,1% em relação a 2018”. Porém, as di- ficuldades para trabalhar nos campos e a perspectiva do desaparecimento do delta levam muitos agricultores a mi- grar para as cidades, como Cần Thơ (que passou de 200 mil-300 mil habi- tantes nos anos 1990 para 1,2 milhão hoje), a província industrial de Bình Dương ou a cidade de Ho Chi Minh. As consequências desse êxodo rural já são perceptíveis na vida e na agricultura vietnamitas: “Agora, agricultores pe- dem permissão para transformar os so- los para, por exemplo, urbanizar ou in- dustrializar. E muitas localidades aprovam, incluindo Cần Thơ”, reco- nhece Trần Thái Nghiêm. A agricultura representa 12% de um PIB que as auto- ridades ainda esperam ver crescer 7% em 2024.8 Assim, será que o Vietnã con- seguirá reverter essa tendência? Conti- nuará a exigir tanto da natureza ou a cobri-la de concreto? Filha de agricultores do delta, Linh estuda arquitetura em Ho Chi Minh. Sentada em um banco do caótico Bou- levard Nguyễn Huệ, ela conta: “Depois de uma colheita muito ruim, meus pais me disseram para partir. Quanto mais eu entendia os riscos que ameaçam o delta, mais eu pensava que não tinha mais nada a fazer no campo. É triste pensar que destruímos nossa natureza chamando isso de ‘segurança alimen- tar’...”. Acima de sua cabeça, enormes telas publicitárias brilhantes convidam ao consumo de sorvetes, refrigerantes e cremes. Ao pé dos arranha-céus, pe- destres acariciam uma cobra amarela e branca. Grupos de amigos jogam bas- quete em uma quadra patrocinada por uma marca de cerveja. No pátio, um homem fantasiado de Mickey Mouse cobra alguns dongs para tirar fotos com crianças. Um espetáculo que dei- xa Linh perplexa: “Vocês imaginam o país inteiro assim?” . *Maïlys Khider é jornalista. 1 Os nomes foram alterados a pedido das pes- soas entrevistadas. 2 Marguerite Duras, L’Amant [O Amante], Éditions de Minuit, Paris, 1984. 3 Johann Grémont, “Environnement et sécurité alimentaire: le cas de la riziculture vietnamien- ne” [Meio ambiente e segurança alimentar: o caso da rizicultura vietnamita], Analyse, n.193, Ministério da Agricultura e da Soberania Ali- mentar, Centro de Estudos e de Prospectiva, Paris, 23 ago. 2023. 4 A Indochina Francesa integrou a Cochinchina em 1887. 5 Christian Klebert e Kamala Marius-Gnanou, “Révolution verte et collectivisation des terres dans le delta du Mékong. L’exemple de la plaine de Rach Noch” [Revolução verde e coletiviza- ção das terras no Delta do Mekong. O exemplo da planície de Rach Noch], Les Cahiers d’ou- tre-mer, n.196, Bordeaux, out.-nov. 1996. 6 Segundo o International Food Policy Research Institute (Ifpri), o Vietnã pode ter sua produ- ção agrícola diminuída entre 5,6% e 6,2% até 2030, em comparação com 2022. 7 “Decision 583/QD-TTg 2023. Strategy for development of Vietnam’s rice export market through 2030” [Decisão 583/QD-TTg 2023. Estratégia para o desenvolvimento do mercado de exportação de arroz do Vietnã até 2030], 26 maio 2023, https://english.luatvietnam.vn. 8 “Le Vietnam, un ‘acteur clé’ de l’agriculture mon- diale” [O Vietnã, um “ator-chave” da agricultura mundial], 22 mar. 2024, https://fr.vietnamplus.vn. Índia 196 China 209 Bangladesh 57 Birmânia 25 Tailândia 34 Indonésia 55 Vietnã 43 0 10 50 100 40 30 20 Produção de arroz em 2022 em milhões de toneladas 0 1 5 10 4 3 2 Comércio de arroz em 2022 (países cujo comércio ultrapassa 500 mil toneladass) (países cuja produção ultrapassa 1 mi de toneladas) Exportações Importações em milhões de toneladas Índia 22,2 Tailândia 7,7 Birmânia 2,2 Vietnã 4,4 ⁄ 0,9 Brasil 1,7 ⁄ 0,9 Filipinas 3,9 Malásia 1,2 Iraque 2,1 Níger 1,0 Irã 1,8 Costa do Marfim 1,6 Senegal 1,5 Benin 1,5 África do Sul1,0 China 2,2 ⁄ 6,4 Estados Unidos 2,5 ⁄ 1,3 Paquistão 4,6 Arábia S. 1,3 Long Xuyen S’ang CAMBOJA Rach Gia Bac Lieu Ca Mau Can Tho Tra Vinh Phuong Thanh Tran De Ho Chi Minh Cù Lao Dung Vung Tau Golfo da Tailândia Mekong Canal K enh Xang Xa No Phnom Penh 0 100 km Área urbanizada em 2020 previsão 2040 Arroz Intrusão salina Frutas Duas colheitas Três colheitas Culturas comerciais Outras culturas Aquicultura Floresta Wunonglong Lidi Tuaba Huangdeng Miaowei Gongguoqiao Xiaowan Manwan Dachaoshan Nuozhadu Jinghong Ganlanba Mengsong Pak Beng Pak Lay Pak Chom Ban Koum Phu Ngoy Don Sahong Stung Treng Sambor Lower Sesan 2 Canal Funan Techo Sanakham Xayaburi Dahuaqiao Luang Prabang Bangkok Battambang Chiang Mai Luang Prabang Vinh Paksé Ubon Ratchathani Savannakhet Boten Jinghong Kunming Houay Xay Khon Kaen Hanoi Vientiane LAOS CHINA TAILÂNDIA BIRMÂNIA CAMBOJA VIETNÃPhnom Penh Ho Chi Minh Golfo de Tonkin Rio Vermelho Ping Sa lw ee n Tonlé Sap Mekong (M ekong) Lancang Chao Praya 200 km Lorem ipsum dolor sit Lo re m ÍNDIA CHINA BIRMÂNIA Salween Lancang (M ekong) 200 km Grande barragem no Mekong Em operação Em projeto Projeto suspenso País membro da Comissão do Mekong (MRC) Bacia do Mekong Cultura do arroz SEIS PAÍSES, UM RIO QUEM CULTIVA, QUEM CONSOME? © C éc ile M ar in Fontes: Faostat, 2024; Stimson, Mekong Dam Monitor; Le Monde, 10 nov. 2024; Interna- tional Rivers, “Sites of struggle and sacrifice: Mapping destructive dam projects along the Mekong River”, 25 jun. 2024; “Projections of salt intrusion in a mega-delta under climatic and anthropogenic stressors”, Communications Earth & Environment, 2021; “Effect of planning policies on land use dynamics and livelihood opportunities under global environ- mental change: Evidence from the Mekong Delta”, Land Use Policy, 2023. https://english.luatvietnam.vn/ https://fr.vietnamplus.vn/ 32 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024 No México, o balanço contraditório de um presidente popular Em 1º de outubro de 2024, Andrés Manuel López Obrador deixou o poder. O idealizador da “quarta transformação” transformou-se em uma das figuras mais populares da história do México. Algumas de suas políticas, contudo, desapontaram e fazem parte do legado transmitido à nova presidenta, Claudia Sheinbaum, cuja agenda – mudança na continuidade – se mostra delicada POR ANNE VIGNA* DIPLOMACIA, SOBERANIA E ORÇAMENTO REFORÇADOS, MAS INSEGURANÇA GALOPANTE A ndrés Manuel López Obrador – conhecido como AMLO – encer- rou seu mandato de seis anos (2018-2024) com mais de 70% de aprovação. Sua popularidade explica em grande parte a ampla vitória de seu grupo nas eleições gerais de 2 de junho de 2024 (ler na pág. 34). Aliado ao Parti- do do Trabalho (PT) – social-democrata – e ao Partido Verde Ecologista do Méxi- co (PVEM), o Movimento de Regenera- ção Nacional (Morena) manteve a presi- dência e conquistou também a maioria no Congresso. A coalizão presidencial obteve inclusive a maioria qualificada – que permite reformar a Constituição –, com 364 deputados de um total de 500, 86 senadores de 128 e os governos de 24 dos 32 estados da federação. A sucessora de AMLO, Claudia Shein- baum, recebeu 59,3% dos votos, ou seja, 35,9 milhões de sufrágios, 6 milhões amais que seu antecessor em 2018. A ex- -prefeita da Cidade do México torna-se, assim, a primeira mulher a governar o México. Ela também é a primeira chefe de Estado a dispor de uma margem de manobra institucional tão ampla desde o início do mandato, após a primeira alter- nância política ocorrida em 2000, depois de décadas de hegemonia do Partido Re- volucionário Institucional (PRI, 1929- 2000). Diferentemente de vários de seus colegas de esquerda – no Brasil, no Chile e na Colômbia –, que não contam com maioria parlamentar, Sheinbaum contro- la a maioria dos instrumentos de poder. A “quarta transformação” do México, iniciada por López Obrador – após a in- dependência em 1821, o período da Re- forma (1855-1863), que levou à separa- ção entre Igreja e Estado, e a Revolução (1910-1920) –, continuará. Para aprofun- dá-la, ele submeteu ao Congresso vários projetos de reformas constitucionais poucos meses antes de deixar o cargo. A maioria busca garantir a permanên- cia dos programas sociais que lançou; elogiando, de forma geral, sua política social. Por outro lado, a segurança é o tema que mais decepcionou. “ABRAZOS, NO BALAZOS” Antes de assumir o poder, López Obra- dor se apresentava como o mais deci- dido opositor da política de seguran- ça do ex-presidente Felipe Calderón. A “guerra contra os narcotraficantes”, conduzida pelos militares, desenca- deou uma espiral de violência sem fim, levando a um aumento constante no número de vítimas. Contudo, a pro- messa de desmilitarizar o país não foi cumprida. Adotando um princípio de eficácia diante da intensidade do crime organizado, AMLO ampliou o poder das Forças Armadas – “a instituição mais eficaz” – ao colocá-las no comando da outras visam incluir certos direitos na Constituição – como aumentos salariais acima da inflação, o reconhecimento dos povos indígenas e a proibição do milho transgênico e da fratura hidráuli- ca (fracking) para extração de petróleo e gás natural –;1 e outras ainda pretendem melhorar o funcionamento das institui- ções. A reforma do Judiciário, por exem- plo, prevê a eleição popular de 1.500 juízes federais, bem como dos nove ma- gistrados da Suprema Corte. A oposição e os Estados Unidos denunciaram um risco de instabilidade jurídica que po- deria preocupar investidores estrangei- ros; para AMLO, trata-se de combater a cooptação e a corrupção. Em ¡Gracias!, obra publicada antes das eleições (Planeta, 2024), o ex-presi- dente expõe o que considera a principal razão de seu sucesso: “Se não fôssemos apoiados pela maioria, e em particular pelos pobres, os conservadores já teriam nos derrotado ou teríamos de modifi- car nossas políticas e nos submeter aos seus caprichos e interesses”. A mañanera [matinal] foi um dos instrumentos dessa estratégia. Durante quase seis anos, de segunda a sexta, às 7h, o presidente con- cedeu coletivas de imprensa televisiona- das, com duração média de duas horas, para manter comunicação direta com os cidadãos. Seu governo também deu mais espaço à consulta popular, especialmen- te por meio de referendos. “Os mexica- nos estão hoje muito mais politizados e conscientes das questões em jogo”, ava- lia John Mill Ackerman, professor de Di- reito da Universidade Nacional Autôno- ma do México (Unam). “Ainda assim, é discutível teorizar uma verdadeira ‘alian- ça’ com o povo, embora a política social de AMLO tenha reforçado essa relação.” Seu governo, de fato, melhorou a con- dição de milhões de trabalhadores as- salariados, aumentando sua renda em um país onde o trabalho informal ainda é predominante (54,3% da população economicamente ativa).2 O salário míni- mo nacional dobrou durante seu man- dato, alcançando cerca de 250 pesos por dia em 2024 (R$ 70). Já na zona franca da fronteira norte – que abrange 43 cidades distribuídas pelos seis estados frontei- riços aos Estados Unidos, a região mais industrializada do país –, o salário mí- nimo triplicou, chegando a cerca de 375 pesos por dia (R$ 105).3 “Essas medidas voluntaristas tiveram impacto em 80% da população”, avalia a cientista política Viri Ríos. “Elas transformaram a situa- ção dos trabalhadores.” Os trabalhadores formais agora têm direito a doze dias de descanso por ano, em vez de seis. Após trinta anos de tra- balho, as férias anuais chegam a um mês completo. Os empregadores foram obrigados a aumentar sua contribuição para as aposentadorias. Para acabar com a cooptação e a corrupção favore- cidas pelo sistema anterior, foi colocado em prática um novo modelo de eleição dos líderes sindicais. Uma reforma vol- tada para regulamentar a terceirização obrigou muitas empresas a contratar di- retamente seus trabalhadores.4 “A renda dos pequenos comerciantes aumentou 17%”, acrescenta Ríos. “O aumento dos salários estimulou o consumo popu- lar de forma geral. Essa é uma situação nova. Até então, apenas os rendimentos das grandes empresas cresciam.” A po- breza diminuiu, passando de 28,6% da população em 2018 para 20,2% em 2024, o que significa que 9,5 milhões de pes- soas deixaram de estar nessa condição.5 No entanto, a organização internacio- nal Oxfam aponta que “a riqueza total dos catorze ultrarricos mexicanos quase dobrou desde o início da pandemia de Covid-19. A de Carlos Slim agora equivale à de 63,8 milhões de mexicanos”.6 Ainda assim, o ex-presidente sempre se recusou a aumentar impostos sobre os capitais e os mais ricos. Apesar disso, o povo parece não ter guardado grande ressentimento, 33DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil polícia e da nova Guarda Nacional. O Exército também assumiu a construção e a gestão de infraestruturas estratégi- cas (aeroportos, portos, ferrovias), além da administração das alfândegas. Em 2023, o orçamento militar aumentou 55% em comparação com 2014.7 Entretanto, isso não reduziu a violên- cia. Nos últimos seis anos, o número de desaparecimentos explodiu – mais de 50 mil dos 115 mil registrados desde 20068 –, assim como os casos de extor- são e homicídios, que atingiram um ní- vel recorde: quase 200 mil (94 por dia), incluindo mais de 5 mil feminicídios.9 O ex-presidente também reforçou a im- punidade das Forças Armadas. A inves- tigação sobre o destino dos 43 estudan- tes de Ayotzinapa, assassinados no estado de Guerrero em 2014, esbarrou nos portões dos quartéis.10 O compro- misso de abrir os arquivos da “guerra suja”, entre 1965 e 1990 – um período de intensa repressão –, desapareceu quan- do os militares tiveram de fornecer seus próprios documentos. AMLO ig- norou os coletivos de apoio aos desapa- recidos e outras vítimas da violência, que, no entanto, protestaram inúmeras vezes em frente ao seu palácio. Sua po- lítica para jovens delinquentes – “abra- zos, no balazos” [abraços, não tiros] – deixou de lado as vítimas e seus familiares. Aquele que se apresentava como o “pai da nação” não acolheu as mães que choravam por seus filhos, deixando na população um amargo sentimento de indiferença. Outro motivo de decepção para parte da esquerda mexicana foram os proje- tos de grandes obras.11 Ambientalistas e povos indígenas se uniram ao campo dos opositores da “quarta transforma- ção”, ao lado dos zapatistas de Chiapas, com quem o diálogo está irremediavel- mente rompido. Segundo o ex-presiden- te, o plano de modernização e desenvol- vimento de infraestruturas atende a dois objetivos superiores de longo pra- zo: devolver ao Estado um papel diretor na economia após anos de neoliberalis- mo e reafirmar a soberania nacional. No plano internacional, López Obra- dor procurou basear sua atuação na doutrina Estrada – nome do ministro das Relações Exteriores entre 1930 e 1932, Genaro Estrada –, que prioriza o respeito à soberania e o não interven- cionismo. Embora tenha seguido essa doutrina à risca em relação aos Estados Unidos, aceitando sua política migrató- ria e a construção do muro na fronteira, “ele defendeu os interesses mexicanos na renegociação do Acordo Canadá-Es- tados Unidos-México(Aceum, que substituiu o Acordo de Livre Comércio da América do Norte, Nafta)”, ressalta Carlos Pérez Ricart. No entanto, o pro- fessor de Relações Internacionais ob- serva que AMLO “se envolveu na políti- ca interna de vários países andinos, de maneira direta. Ele ofereceu apoio aos ex-presidentes Evo Morales, na Bolívia, Pedro Castillo, no Peru, e ao ex-vice- -presidente Jorge Glas, no Equador”. Desde 2019, o México também partici- pou de todas as tentativas de negocia- ção entre o governo venezuelano e sua oposição em busca de uma solução po- lítica para a crise no país caribenho, até a controversa reeleição de Nicolás Ma- duro em 28 de julho de 2024. O “presidente mais popular do Méxi- co”, como gostam de chamá-lo seus apoiadores, retirou-se para seu rancho familiar em Chiapas. Muitos acreditam que ele não ficará lá por muito tempo. Todavia, ele já repetiu diversas vezes: “O país está em boas mãos, minha mis- são está cumprida.” *Anne Vigna é jornalista no México. 1 Cf. John Mill Ackerman, “Le Mexique privatise son pétrole” [O México privatiza seu petró- leo], Le Monde Diplomatique, mar. 2014. 2 Gerardo Hernández, “Tasa de informalidad desciende a mínimo histórico en el arranque del 2024” [Taxa de informalidade cai para mí- nimo histórico no início de 2024], 27 maio 2024, www.eleconomista.com.mx. 3 Segundo a Comissão Nacional sobre os Sa- lários Mínimos do governo, “Incremento a los salarios mínimos para 2024” [Aumento nos salários mínimos para 2024], 1º dez. 2023, www.gob.mx. 4 María Eugenia Cosio Zavala e Ilán Bizberg, “Introduction – Le sexennat d’Andrés Manuel López Obrador: bilan et défis” [Introdução – O sexênio de Andrés Manuel López Obrador: balanço e desafios], Cahiers des Amériques Latines, n.104, Aubervilliers, 2024. 5 Jessika Becerra, “Valida Banco Mundial: 9,5 millones, fuera de la pobreza en México” [Vali- da Banco Mundial: 9,5 milhões saem da pobre- za no México], La Jornada, México, 5 set. 2024. 6 “El monopolio de la desigualdad. Cómo la concentración del poder corporativo lleva a un México más desigual” [O monopólio da desi- gualdade. Como a concentração do poder corporativo leva a um México mais desigual], 23 jan. 2024, www.oxfammexico.org. 7 “Les dépenses militaires mondiales augmen- tent dans un contexte de guerre, d’escalade des tensions et d’insécurité” [Os gastos mili- tares globais aumentam em um contexto de guerra, escalada das tensões e insegurança], Stockholm International Peace Research Ins- titute (Sipri), 22 abr. 2024. 8 Segundo o site investigativo A Dónde Van los Desaparecidos, 28 maio 2024, https://adon- devanlosdesaparecidos.org. 9 David Saúl Vela, “Termina el sexenio de AMLO con 199 mil 619 asesinatos, la cifra más alta en la historia reciente” [Termina o sexênio de AMLO com 199.619 assassinatos, o número mais alto da história recente], El Financiero, México, 2 out. 2024. 10 Cf. Benjamin Fernandez, “Au Mexique, où sont les ‘quarante-trois’?” [No México, onde estão os “quarenta e três”?], Le Monde Di- plomatique, mar. 2020. 11 Cf. Luis Alberto Reygada, “Un train nommé ‘Maya’” [Um trem chamado “Maya”], Le Mon- de Diplomatique, jan. 2024. © Suzane Lopes http://www.eleconomista.com.mx/ http://www.gob.mx/ http://www.oxfammexico.org/ https://adondevanlosdesaparecidos.org/ https://adondevanlosdesaparecidos.org/ 34 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024 TRINTA ANOS DE TRABALHO DE BASE A nova presidenta do México não deve sua eleição apenas à popularidade histórica de seu antecessor. Seu sucesso também se explica pelo longo trabalho de proximidade realizado pela esquerda na Cidade do México, junto ou dentro de associações da sociedade civil POR HÉLÈNE COMBES* Claudia Sheinbaum, construir uma vitória A princípio, é difícil distinguir o amarelo da fachada no meio das outras casas do bairro. Depois, um detalhe indica que se está no lugar certo: uma pequena multidão de mulheres se aglomera diante da porta. Naquela manhã de primavera de 1999, estávamos no local da associação Asamblea de Barrios (AB), no distrito de Venustiano Carranza, no nordeste da Cidade do México. Criada doze anos antes por militantes de esquerda, al- guns dos quais participantes da guerri- lha, a Asamblea de Barrios defendia na época o direito ao reassentamento das vítimas do terremoto de 19 de setembro de 1985, que causou mais de 10 mil mortes. Esquecidas pelos planos de re- construção do governo, essas pessoas aprenderam, aos poucos, que podiam encontrar na AB o apoio que o poder público não lhes oferecia. Naquele dia, a reunião tinha como objetivo informar os presentes, em sua maioria mães de família, sobre o anda- mento do calendário de entrega das ha- bitações sociais. Juntamente com outras estruturas associativas, a Asamblea de Barrios geria parte do parque habitacio- nal social da capital. O Estado delegava a ela a coordenação e gestão dos projetos, às vezes até a construção das moradias, bem como a organização e o acompa- nhamento dos pedidos junto às admi- nistrações competentes. Os militantes da organização também aproveitavam esses encontros para recolher as reivin- dicações dos moradores. Visivelmente experiente, uma militante elaborava a lista das oficinas oferecidas às crianças durante o verão, antes de relembrar os serviços disponibilizados pela associa- ção: assistência jurídica para mulheres vítimas de violência doméstica ou em processo de divórcio, cuidados médi- cos gratuitos, entre outros. Entretanto, rapidamente o discurso se distanciava das preocupações imediatas dos mora- dores do bairro para abordar outro tipo de tema: a greve estudantil na Univer- sidade Nacional Autônoma do México (Unam), as mobilizações que agitavam o país... Em resumo, a política. Aparentemente trivial, essa reunião pública ocorrida há 25 anos faz parte, na verdade, de um longo trabalho político de base realizado pela esquerda na Cida- de do México, com base no qual ela foi traçando, gradualmente, o caminho para sua vitória em nível nacional. Primeiro com a de Andrés Manuel López Obrador, conhecido como AMLO, presidente de 2018 a 2024 (ver artigo na pág. 32), e de- pois com a de Claudia Sheinbaum, eleita em junho passado. Esses sucessos só fo- ram possíveis porque, ao longo dos anos, milhares de encontros como esse permi- tiram tecer laços entre os movimentos sociais e a esquerda política representa- da por Sheinbaum e López Obrador. QUANDO AS “ADELITAS” SE MOBILIZAM Compreender essa dinâmica exige vol- tar à situação do México no fim dos anos 1990. Na época, o vento da história não soprava a favor dos progressistas. Des- de 1929, um mesmo partido estava no comando, carregando como nome um oximoro: o Partido Revolucionário Ins- titucional (PRI). Na eleição presidencial de 1988, o candidato Cuauhtémoc Cár- denas – dissidente do PRI, que rejeitava sua guinada à direita – liderava a dispu- ta... até que o sistema de apuração dos votos sofreu uma pane. Quando a con- tagem foi retomada, o candidato do PRI, Carlos Salinas de Gortari, subitamente despontou na liderança. Seis anos de- pois, outro candidato que questionava a linha do partido no poder foi assassina- do em 23 de março de 1994. Poucas semanas antes, em 1º de ja- neiro, o país foi abalado por uma dupla convulsão. A primeira vinha do norte, com a assinatura do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), que subordinava a economia mexicana à dos Estados Unidos. A segunda surgiu do sul, quando o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) proclamou o levante em Chiapas.1 Nesse contexto, um setor da esquerda mexicana optou por ancorar seu ativis- mo no “território”, por meio de asso- ciações como a Asamblea de Barrios, fundada, entre outros, pelo arquiteto Javier Hidalgo Ponce, hoje próximo de Claudia Sheinbaum. À medida que o Estado neoliberal avançava, estruturas desse tipo assumiam uma função social cada vez mais crucial para a população, especialmentena Cidade do México. Em contrapartida, essas “antenas de bairro” ofereciam aos moradores acesso a ser- viços básicos e se tornavam o berço de uma nova forma de militância – frequen- temente feminista, sempre popular –, profundamente enraizada no cotidiano da capital. Esse vasto tecido associativo, consolidado dia após dia por experiên- cias compartilhadas entre militantes, líderes locais, funcionários públicos e “simples moradores”, lançava as bases de uma rede político-territorial sobre a qual a esquerda poderia se apoiar. Em um primeiro momento, esse ter- reno fértil beneficiou o Partido da Re- volução Democrática (PRD), fundado por Cárdenas em 1989 após seu “fracas- so” na eleição presidencial de 1988. No início, o partido conquistou a prefeitu- ra da Cidade do México, em 1997: na época, muitos militantes associativos foram eleitos deputados locais ou in- tegraram a administração municipal. Depois, na eleição presidencial de 2006: uma fraude maciça impediu a vitória de López Obrador, que optou por estabe- lecer um “governo legítimo” na capital. Isso permitiu que as organizações de bairro dessem um salto: deixaram de apenas fornecer – de forma heterogê- nea – serviços às populações locais para se tornarem motores de um processo coordenado de contestação política. Graças às relações construídas com associações que animavam a militân- cia local durante seu mandato à frente da prefeitura da Cidade do México pelo PRD (2000-2005), López Obrador pôde orquestrar mobilizações que acabaram ganhando dimensão nacional, como a que se opôs à privatização da compa- nhia petrolífera Petróleos Mexicanos (Pemex). Foi nesse contexto que as “Ade- litas” se mobilizaram em abril de 2008. Vinte brigadas de quinhentas mulheres (cerca de 10 mil pessoas) – cujo nome faz referência às soldadas da Revolução Mexicana (1910-1920) – bloquearam o Senado durante vinte dias, impedindo a aprovação de um projeto de privatiza- ção da Pemex (símbolo da independên- cia nacional e do Estado de bem-estar desde sua nacionalização, em 1938, sob a presidência de Lázaro Cárdenas). A maioria dessas militantes vinha de asso- ciações comprometidas com o direito à moradia. O episódio, coroado por uma vitória, tornou-se a peça-chave do dis- positivo organizacional de AMLO, que culminou na criação do Movimento de Regeneração Nacional (Morena), em 2014. À época, o rico solo do ativismo associativo forneceu ao Morena estrutu- ras materiais, elementos programáticos e quadros políticos. Também permitiu que Claudia Sheinbaum, coordenado- ra-geral das Adelitas – que havia se jun- tado a AMLO em 2000, integrando sua equipe municipal –, conquistasse proje- ção pública nacional antes de suceder a López Obrador à frente da prefeitura da Cidade do México, em 2018. No cargo, Sheinbaum também se de- dicou a fortalecer os laços entre organi- zações locais autônomas e políticas pú- blicas progressistas. Um exemplo foi o programa Pilares (Pontos de Inovação, Liberdade, Arte, Educação e Saberes), lançado pela prefeitura em 2019, que possibilitou a criação de trezentos cen- tros comunitários pela cidade. Jovens e idosos participam de oficinas gratui- tas: alfabetização digital, agricultura urbana, cobertura verde em telhados de bairros populares para mitigar os efeitos das mudanças climáticas, entre outras. À frente da capital, Sheinbaum visitava os centros Pilares todas as quintas-feiras. “As pessoas não iam ou- vi-la: era ela quem ia ouvir as pessoas”, explicou Hidalgo, como uma forma de elucidar sua recente vitória na eleição presidencial mexicana. Um triunfo construído passo a passo, ao longo de quase trinta anos... *Hélène Combes é socióloga, diretora de pesquisa do Centro Nacional de Pes- quisa Científica (CNRS) e autora de De la rue à la présidence. Foyers contestataires à Mexico [Da rua à presidência. Lares contestadores na Cidade do México] , CN- RS Éditions, Paris, 2024. 1 Ler Subcomandante Marcos, “La quatrième guerre mondiale a commencé” [A quarta guerra mundial começou], Le Monde Diplo- matique, ago. 1997. Esse vasto tecido associativo lançava as bases de uma rede político-territorial sobre a qual a esquerda poderia se apoiar 35DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil Evangélicos na França, crônica de uma ascensão política Por muito tempo marginal, o evangelismo está hoje bem mais presente na França. Alimentado por várias lideranças, notadamente a dos missionários anglo-saxões, mas também a de fiéis originários da África Subsaariana, esse ramo do protestantismo está se estruturando pouco a pouco. Vários de seus membros desejam agora influenciar o debate nacional por meio da defesa de ideias conservadoras POR EVA THIÉBAUD* “C reia como uma criança pe- quena.” Nesse domingo de fevereiro de 2024, a pastora Anne Battista, da igreja Mar- tin Luther King (MLK) de Créteil, na re- gião de Paris, incentiva os fiéis a esque- cer o ego, confiar em Deus e converter as crianças – uma mistura de desenvol- vimento pessoal, apelo à submissão e proselitismo, intercalada pelas canções ao vivo do grupo MLK Music, acompa- nhadas por jogos de luz. “Podemos fazer um pouco mais de barulho? Aleluia!”, incentiva a pastora Battista. À sua fren- te, 1.500 pessoas, em sua maioria jo- vens, cosmopolitas e elegantes, entre as quais as mais próximas ao palco termi- narão o culto pulando e dançando. Mais ao sul, em uma sala um tanto desgastada no bairro Saint-Lazare, em Marselha, cerca de cem pessoas de to- das as idades, principalmente europeias – em contraste com a população majori- tariamente imigrante do bairro –, estão reunidas para um culto das Assembleias de Deus. O sermão do pastor Mathieu Burles aborda a sobrecarga de trabalho e a gestão do estresse. De forma mais mo- desta do que em Créteil, as canções são interpretadas por uma jovem ao piano, acompanhada por um baterista. Como em um karaokê, as letras são projetadas em uma tela à frente do público. Algumas ruas adiante, o pastor Karoly Jolan Ciurcui e seus fiéis alternam pre- gações e canções populares. A igreja, que adota a denominação “Elim” – re- ferência a um dos acampamentos dos hebreus na saída do Egito –, reúne cerca de trinta ciganos de origem romena, e o culto é realizado em romeno. Durante as súplicas coletivas, alguns se ajoelham, e mulheres chegam às lágrimas. Embora diferentes entre si, esses cul- tos fazem parte do evangelismo,1 um ramo do protestantismo que, em 2020, reunia entre 13,4% e 26,5% dos norte-a- mericanos, 9,1% e 17,8% dos sul-ame- ricanos, 11,3% e 18,6% dos africanos e 12,8% e 18% dos habitantes da Oceania.2 Os números mais baixos consideram apenas membros de igrejas que se de- finem como evangélicas, enquanto os mais altos incluem correntes com ca- racterísticas evangelistas, mesmo sem se identificarem como tal. Na Europa, os evangélicos representam cerca de 3% da população e são ainda menos numero- sos na França, onde não há estatísticas oficiais sobre essa confissão por causa da legislação restritiva em relação a da- dos religiosos. Na realidade, nos países ocidentais, dos Estados Unidos à Aus- trália, passando pela Europa Ocidental, a religiosidade tende a diminuir.3 Na França, entre 2009 e 2020, a proporção de católicos entre os jovens de 18 a 49 anos caiu de 43% para 25%, enquanto o percentual de pessoas sem religião au- mentou de 45% para 53%.4 “Talvez haja uma redução na capaci- dade do catolicismo de normatizar com- portamentos”, comenta David Koussens, sociólogo do direito da Universidade de Sherbrooke, em Quebec. “No entanto, os sistemas de crença estão longe de desa- parecer. Hoje, são os indivíduos que de- terminam a oferta religiosa que conside- ram legítima.” O evangelismo apresenta várias vantagens comparativas: sua men- sagem é simples, assertivamente prose- litista (ainda que muitos evangélicos ne- guem isso) e pragmática. Assim, para os jovens, ele oferece redes sociais e música pop; para as populações migrantes, apoiocomunitário no sentido coletivo que ca- racteriza, de modo geral, os evangélicos; para as pessoas racializadas, a proposta de um horizonte mais igualitário fun- damentado na leitura da Bíblia – texto sagrado que os evangélicos consideram infalível –; às pessoas economicamente precárias, a promessa de enriquecimen- to; e, por fim, para a saúde de todos, as orações de cura. Os evangélicos compar- tilham também a escolha consciente da conversão na vida adulta, marcada pelo batismo, considerado um renascimento. Podem ocorrer desvios sectários; as denúncias à Missão Interministerial de Vigilância e Combate a Desvios Sectários (Miviludes) são proporcionalmente mais frequentes do que em outras confissões.5 O chefe da missão, Donatien Le Vaillant, menciona casos de abuso de vulneráveis, trabalho dissimulado e práticas que bus- cam “converter” homossexuais à hete- rossexualidade,6 além de discursos sexis- tas e risco de abandono de tratamentos médicos. Esse risco é ainda maior consi- derando que 70% dos evangélicos acredi- tam em curas milagrosas, com pastores como Jean-Luc Trachsel e o falecido Car- los Payan promovendo grandes encon- tros focados em milagres e curas. DIPLOMACIA DA FÉ Mas de onde vem essa religião? Se o protestantismo tem suas raízes na Re- forma do século XVI, as perseguições subsequentes impediram qualquer de- senvolvimento significativo do evange- lismo (ou protestantismo evangélico) na França. Foi principalmente a partir do século XIX que missionários suíços e britânicos difundiram várias mensagens evangélicas, incluindo o “batismo” – que pode ser fundamentalista ou moderado e liberal. O fervor proselitista em direção à França se intensificou especialmen- te após a Segunda Guerra Mundial. “O Plano Marshall, lançado pelo presiden- te Harry Truman, foi acompanhado por uma diplomacia da fé, particularmente direcionada a uma França considerada uma terra pagã a ser reconquistada”, ex- plica o pesquisador Jean-Marie Autran, autor de um livro que explora a aven- tura desses missionários na década de 1950 (La France, terre de mission amé- ricaine [A França, terra da missão nor- te-americana], Vendémiaire, 2017). Foi também nessa época que começaram as primeiras pregações em massa, con- duzidas pelo pastor batista Billy Grah- am, que saiu em “cruzada” para pregar pelo mundo um amálgama tipicamente norte-americano de capitalismo, de- mocracia e evangelismo. “Um episódio macarthista”, critica Roland Barthes em Mythologies (Éditions du Seuil, 1957), referindo-se ao espetáculo do pastor em 1955 no Vélodrome d’Hiver. “O ateísmo da França interessa à América apenas TEMPLOS, PASTORES, MISSIONÁRIOS E O DINHEIRO DO DÍZIMO © Yann Caradec/Wikipedia Ocorreu um grande crescimento do evangelismo na França em diferentes grupos 36 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024 porque, para ela, essa é a face prelimi- nar do comunismo”, escreveu então o filósofo. Na prática, os missionários norte-americanos tiveram apenas um sucesso muito limitado. “Os franceses eram crentes medíocres, com uma for- te desconfiança em relação aos norte- -americanos. A França revelou-se um cemitério para as missões”, comenta Au- tran. Em contrapartida, esse missiona- rismo, segundo ele, insuflou certo dina- mismo nas igrejas; além disso, “atenuou os complexos de inferioridade sentidos pelos evangélicos franceses [...] e contri- buiu para uma articulação em rede mais ambiciosa”, escreve o historiador e so- ciólogo Sébastien Fath.7 Paralelamente, surgiu no início do sé- culo XX um novo movimento evangélico entre os afro-americanos em Los Ange- les. O pentecostalismo enfatiza a eficácia da ação divina por meio dos “carismas”, os dons espirituais do Espírito Santo: cura, milagres e glossolalia – um estado de transe no qual a pessoa se expressa em uma língua desconhecida, inspirada por Deus. Com seus cultos extremamen- te emocionais, o pentecostalismo rapi- damente alcançou sucesso, consolidan- do-se entre os brancos que fundaram as Assembleias de Deus (ADD), as quais se expandiram globalmente. “Ao reabrir a possibilidade de milagres, o pentecosta- lismo ofereceu um reencantamento do religioso”, explica o historiador Alexan- dre Antoine, especialista no estudo des- sa corrente. Funcionário de uma agên- cia marítima, músico em bares e jogador de futebol, o londrino Douglas Scott se converteu após contrair tétano e, em 1930, partiu para evangelizar a França. “As Assembleias de Deus se propagaram de maneira endógena, adaptando-se culturalmente”, continua Antoine, “tor- nando-se, por fim, uma das principais denominações francesas, com 40 mil membros atualmente.” Scott depois formou um pastor bre- tão, Clément Le Cossec, que buscou se aproximar dos ciganos. “Foi necessário um ano após a assinatura da capitula- ção de 1945 para que todos aqueles que também são chamados de nômades ou manouches finalmente deixassem os campos de internação onde foram pre- sos pelo governo de Vichy”, lembra o especialista em pentecostalismo cigano Régis Laurent. O pesquisador menciona um contexto traumático, de grande de- samparo e total desinteresse das autori- dades públicas, que nem consideraram a hipótese de reparações financeiras ou simbólicas após a guerra. O pentecosta- lismo prosperou rapidamente, e Le Cos- sec fundou a Missão Evangélica Cigana, rapidamente renomeada como Vida e Luz, que hoje reúne mais de 100 mil membros. Para Laurent, o sucesso do pentecostalismo seria, em parte, resul- tado da semelhança entre as cerimônias de cura e certas tradições ciganas, mas, sobretudo, porque, “pela primeira vez, propuseram que eles administrassem algo; no caso, sua própria igreja”. Paralelamente, no século XX, missio- nários anglo-saxões também propa- garam o pentecostalismo em diversos países africanos. De lá, acompanhando as migrações, algumas dessas igrejas chegaram à França. “Muitas iniciativas foram realizadas a partir das décadas de 1980 e 1990 por pastores congoleses”, relata o antropólogo Damien Mottier. Recém-chegados, eles criaram peque- nas igrejas onde o culto era ministrado em línguas vernaculares e frequente- mente ofereciam serviços de apoio para obtenção de documentos, emprego e moradia. “Questões sociais e relacio- nadas às migrações são centrais nessas igrejas”, confirma Mottier. Embora algumas dessas igrejas te- nham desaparecido em razão da pre- cariedade, outras prosperaram e se di- versificaram, chegando, por vezes, a se tornar “igrejas cosmopolitas”, em que convivem pessoas de diferentes ori- gens e nacionalidades, principalmente africanas e antilhanas. “São igrejas que podem ser qualificadas como afro-eu- ropeias e incluem jovens franceses de segunda e terceira gerações”, explica Victoria Kamondji-Johnston, presiden- te da Comunidade das Igrejas Africanas (Ceaf), que reúne parte dessas igrejas – cerca de 20 mil a 25 mil pessoas, segun- do ela. “Parte significativa dos fiéis que frequentam essas igrejas tem formação superior realizada na Europa e uma si- tuação profissional estável. [Seus cultos] dispõem, portanto, de recursos finan- ceiros que frequentemente lhes permi- tem adquirir seus próprios espaços”, de- talha a pesquisadora Jeanne Rey.8 Entre essas igrejas estão o Impact Cen- tre Chrétien (ICC), em Croissy-Beau- bourg, a Charisma, em Blanc-Mesnil, e a Associação Cristã para a Evangelização e o Despertar (Acer), cuja igreja-mãe está em Montreuil. Entre as pequenas igrejas de recém-chegados e as grandes igrejas cosmopolitas, “a maioria das igrejas que acolhem a diáspora africana se situa em um meio-termo”, escreve Rey. Essas igre- jas, em geral pentecostais ou carismáti- cas, são dinâmicas, com cultos que en- fatizam a emoção e, às vezes, estão asso- ciadas à teologia da prosperidade, uma teoria religiosa originária dos Estados Unidos segundo a qual a prosperidade financeira seria um sinal de bênção di- vina. Os fiéis são incentivados a ofere- cer dízimos generosos, parte dos quais, ocasionalmente,é apropriada pela lide- rança. Foi o caso de um pastor da igreja Bonne Semence Transmise (Seine-Sain- t-Denis), que desviou mais de 2 milhões de euros em doações entre 2019 e 2022.9 Seja nas igrejas oriundas do missio- narismo do século XIX, nas Assembleias de Deus ou naquelas voltadas a ciganos e afro-europeus, as igrejas evangélicas apresentam naturezas contrastantes. Politicamente, seus membros mostram- -se geralmente sensíveis a questões so- ciais, mas permanecem bastante con- servadores em termos morais. Em 2017, por exemplo, 39% apoiavam a abertura do casamento para casais do mesmo sexo – em comparação com 64% entre outros protestantes e 67% na popula- ção geral francesa. Além disso, 54% dos evangélicos acreditavam que, em certas circunstâncias, cada pessoa deveria po- der escolher o momento de sua morte – contra 79% entre outros protestantes e 83% na população geral. Quanto à organização e representa- ção, parte das igrejas evangélicas está reunida na coordenação evangélica da Federação Protestante da França (FPF). Apesar das diferenças em termos da “relação com a ética”, o presidente da organização, Christian Krieger, chama a atenção para uma dinâmica de inte- gração. “Somos uma família em que não concordamos em tudo, mas cada um se compromete a viver um diálogo respei- toso com o outro”, afirma. Algumas igrejas, no entanto, preferi- ram se organizar separadamente. Desde 2010, o Conselho Nacional dos Evangé- licos Franceses (Cnef) reúne denomi- nações fundamentalistas, “clássicas” e pentecostais com predominância euro- peia das Assembleias de Deus – mas ex- clui ciganos e a maioria das igrejas afro- -europeias. Esse conselho destacou-se, particularmente, da federação protes- tante em janeiro de 2013 ao convocar seus fiéis a participar da Manif pour Tous, mobilização contra o casamento para todos. Enquanto as resoluções da federação protestante, mais moderadas, abordam temas variados, o Cnef adota uma linha mais centrada nos costumes e na bioética, referindo-se à “doutrina cristã do pecado, do casal e da família”. No contexto do projeto de lei sobre o fim da vida, o conselho assumiu uma postura clara, condenando “qualquer ato que resulte em morte”. Para sustentar esse discurso minori- tário no espaço público, o Cnef não he- sita em afirmar que representa a grande maioria do evangelismo – optando por contabilizar uniões de igrejas evangé- licas em vez de estimar o número de membros. O conselho também alardeia um suposto crescimento “exponencial”, alegando uma multiplicação por quinze no número de fiéis entre 1950 e 2023 – embora sem fornecer comprovações. Na realidade, apesar de o crescimento dos evangélicos ser inegável, ele é marginal- mente sustentado pelas igrejas associa- das ao Cnef, sendo mais impulsionado pelas igrejas pentecostais e carismáticas da diáspora. Na Suíça, onde o Escritório Federal de Estatística compila precisa- mente a confissão religiosa dos habitan- tes – e onde a trajetória de secularização é similar à da França –, as denominações fundamentalistas e “clássicas”, como as batistas, diminuem ou, no máximo, es- tagnam, enquanto apenas os pentecos- tais e carismáticos apresentam um ligei- ro crescimento. Contudo, o triunfalismo do Cnef sugere que suas reivindicações políticas são legítimas, pois coincidem com as ideias conservadoras de um grande número de eleitores. Para ampliar sua influência, o Cnef criou um “serviço pastoral junto aos parlamentares”. Encarregado dessa área, o pastor das Assembleias de Deus, Thierry Le Gall, frequentemente se apresenta como um “capelão”, termo que utiliza em sua obra Un avenir, une espérance. Chronique d’une aumônerie parlementaire protestante évangélique ([Um futuro, uma esperança. Crônica de uma capelania parlamentar protestante evangélica] Les Éditions du Cerf, 2022). No passado, ele trabalhou como diretor de comunicação na fabricante de cho- colates Ferrero, onde diz ter praticado “marketing e estratégias de influência”. Quando o encontramos em novem- bro de 2023, ele advertiu de imediato: “Não escrevam que sou um lobista”. Em seguida, explicou “trabalhar sobre as questões de fim da vida”, em cone- xão com o projeto de lei que deveria ser examinado em 2024, enumerando os inúmeros parlamentares que conseguiu encontrar. Le Gall ou o Cnef considera- ram inscrever-se entre os representan- tes de interesses da Haute Autorité pour la Transparence de la Vie Publique, uma ferramenta pública que permite obser- var atividades de lobby? “Nosso serviço jurídico analisou o tema. Como orga- nização confessional, não estamos im- plicados”, respondeu Romain Choisnet, diretor de comunicação do Cnef. CONQUISTAR O MUNDO Le Gall não é o único líder eclesiástico ligado ao Cnef a se envolver na política – seguindo as recomendações da De- claração de Lausanne, que desde 1974 encoraja os fiéis a “proclamar o Evange- lho a toda a humanidade e fazer discí- pulos de todas as nações”. Conquistar o mundo, um programa que, pelo menos, é direto. “Mostraram-me a importân- cia desse envolvimento, a necessidade de que cristãos expressem suas vozes no debate político”, relata Denis Biava, pastor das Assembleias de Deus e vice- -prefeito de uma pequena cidade em Côtes-d’Armor.11 Na revista Christianis- me Aujourd’hui,12 Le Gall menciona a criação de uma “rede fraterna de quase uma centena de políticos eleitos cris- tãos evangélicos [...] que gostam de se reunir”, assegurando, contudo, que “essa rede não tem nenhum projeto político”. Como as igrejas evangélicas se finan- ciam? Geralmente, afirmam ser indepen- dentes: o “dízimo” dos fiéis, entre 4% e 10% de seus rendimentos, cobre os prin- cipais custos da igreja, como o aluguel do espaço e o salário do pastor – cerca de 2 mil euros líquidos por mês. Além disso, essas organizações recebem dinheiro do exterior. “O protestantismo – penso es- 37DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil pecialmente nas igrejas evangélicas – é a religião que mais recebe financiamentos externos, vindos dos Estados Unidos, do Brasil e de países da África”, declarou a senadora Dominique Vérien durante a análise do relatório de informações de março de 2024 sobre a aplicação da lei de 24 de agosto de 2021, que reforça o res- peito aos princípios da República. Esses financiamentos incluem, por exemplo, a contribuição da fundação norte-americana Impact France, que transfere anualmente cerca de 2 milhões de euros para a França, sobretudo para a “implantação de igrejas” e a “evange- lização”, conforme suas declarações ao Internal Revenue Service (IRS), a Recei- ta Federal norte-americana. Entre os projetos financiados por doadores dos Estados Unidos, consta o serviço pas- toral junto aos parlamentares realizado por Thierry Le Gall. Questionado sobre isso, o Cnef minimiza, alegando tratar- -se de doações “irrisórias”. “O site de notícias Top Chrétien re- cebe um pouco de dinheiro”, afirmou também o presidente do Cnef, Erwan Cloarec. Vale destacar que o conselho administrativo desse meio de comuni- cação evangélico (que alega alcançar 350 mil pessoas diariamente) inclui o norte-americano David Broussard, fun- dador da Impact France. De forma geral, a influência evangé- lica dos Estados Unidos é bastante per- ceptível na França. A liturgia segue o modelo norte-americano, que também inspira os católicos da “renovação ca- rismática”, como as comunidades Che- min Neuf e Emmanuel. Essa influência se manifesta ainda no campo das ideias. O movimento cristão da Moral Majority [maioria moral] sur- giu nos Estados Unidos no fim dos anos 1970, em reação aos avanços sociais e culturais da época. Dominada por batis- tas, a Moral Majority combate ativamen- te os direitos dos homossexuais, o abor- to e a educação sexual. “Ela estabeleceu uma nova linha de ruptura na sociedade norte-americana, não entre religiões, mas entre progressistas e conservadores morais – inclusive dentro das próprias religiões”, analisa osociólogo Philippe Gonzalez. “Sua atuação contribuiu para deslocar os debates políticos – e tam- bém o centro de gravidade do Partido Republicano – para a extrema direita.” Essa linha de ruptura se espalhou. “A direita cristã na Europa encontra suas raí- zes em um processo geralmente definido como a globalização das guerras cultu- rais norte-americanas”, explica Kristina Stoeckl, socióloga e coautora de um livro sobre essa nova direita cristã europeia (The Christian Right in Europe. Move- ments, Networks, and Denominations [A direita cristã na Europa. Movimentos, re- des e denominações], Gionathan Lo Mas- colo, 2023), alimentada pelo evangelismo norte-americano e pela Igreja Ortodoxa Russa. “A direita cristã europeia é um movimento transnacional e interconfes- sional, unido por dois temas dominantes: ideias antigênero e angústias relaciona- das à imigração. Em certa medida, esses dois temas podem ser vinculados a uma única ideia: o nacionalismo cristão bran- co”, acrescenta a pesquisadora. Alguns atores norte-americanos con- tribuem ativamente para essa transfe- rência em relação à Europa. É o caso da Alliance Defending Freedom (ADF), um influente grupo de lobby fundado por evangélicos conservadores, cujos ad- vogados participaram do processo que revogou o direito federal ao aborto.13 Re- produzindo sua estratégia, a ADF atua hoje nos tribunais europeus, principal- mente na Corte Europeia de Direitos Hu- manos.14 De acordo com suas declara- ções fiscais, a organização destinou en- tre 4 milhões e 6 milhões de euros anuais à sua atividade europeia nos últimos três anos. O American Center for Law and Justice, organização também muito poderosa nos Estados Unidos – cujo ad- vogado principal, Jay Alan Sekulow, de- fendeu Donald Trump –, criou uma filial europeia, o European Center for Law and Justice, sediado em Estrasburgo. Este último se envolveu em numerosos de- bates políticos nas instâncias europeias, focando dois pilares: a “defesa da vida inocente e da família” e a “proteção das liberdades contra o islamismo”. Essas ideias permeiam algumas orga- nizações europeias. As ações do Euro- pean Center for Law and Justice foram, por exemplo, amplamente divulgadas pelo Comitê Protestante Evangélico pela Dignidade Humana (CPDH), uma associação evangélica francesa de ad- vocacia política. Seu atual presidente, Franck Meyer, prefeito de uma pequena cidade na Normandia e muito ativo ao lado de Le Gall na promoção do engaja- mento político dos evangélicos, foi um dos porta-vozes da Manif pour Tous. Na França, essa convergência entre conser- vadores se manifestou durante tal mo- vimento. “Esses eventos despertaram a consciência política de milhares de cristãos franceses”, comemora retros- pectivamente o “capelão” parlamentar do Cnef, agora reconhecendo isso como um “verdadeiro marcador social” para cristãos católicos e evangélicos.15 Além disso, essa nova conexão revela- -se eficaz no campo midiático. “Há qua- renta anos, havia pouquíssimos cristãos [na mídia], e percebemos que era uma esfera em que precisávamos investir”, confidenciou Chantal Barry ao canal de vídeo Regards Protestants. Essa produ- tora evangélica cofundou em 2016, com Eric Célérier, criador do site evangélico Top Chrétien, uma nova estrutura para produção e distribuição de filmes, a Ze- Watchers. Entre suas produções estão o reality show Bienvenue au monastère16 e a série sobre Jesus The Chosen. Barry é conhecida por sua proximidade com Vincent Bolloré, fervoroso católico e acionista majoritário do grupo Bolloré, ao qual pertence o canal de televisão C8; não surpreende, portanto, que as produ- ções da ZeWatchers tenham espaço na programação do canal, ao lado de outros conteúdos cristãos em crescimento.17 Também encontramos Barry e Célé- rier, respectivamente, no conselho de administração da sociedade MLK e co- mo pastor ocasional da igreja. Em um encontro em 2022, durante as eleições presidenciais francesas, o pastor prin- cipal, Ivan Carluer, recebeu no palco da igreja a apresentadora Christine Kelly, da CNews (outra emissora afiliada ao grupo Bolloré), para uma revelação pú- blica de sua fé. Vale lembrar que a apre- sentadora trabalhou ao lado de Éric Zemmour, polemista de extrema direi- ta e candidato nas eleições presiden- ciais de 2022, com um programa políti- co voltado para a defesa de uma Europa cristã, muito alinhado com a chamada “direita cristã europeia”. Ainda na MLK, desta vez com transmissão pela C8, Ivan Carluer e Dominique Rey prega- ram juntos na Páscoa de 2024. Sacerdo- te da Comunidade Emanuel, o bispo de Fréjus-Toulon é conhecido por ter con- vidado Marion Maréchal Le Pen, então deputada do Front National, para suas universidades de verão em 2015. Domi- nique Rey expressa preocupação com o islã, que considera “um perigo para nossa sociedade”, e exorta a um desper- tar para “[nossa] identidade cristã”. Questionado sobre essas conexões, Carluer explica que convida personali- dades de todos os espectros e rejeita a ideia de “ser instrumentalizado”. Ainda assim, ao seu redor, agita-se um microcosmo cristão que o sociólogo Philippe Gonzalez descreve como “ori- ginário de comunidades religiosas mi- noritárias, mas com um viés conquista- dor, aspirando a uma retomada civilizatória do controle”. “As franjas conservadoras cristãs são minoritárias, mas muito barulhentas. Na Europa, a solução geralmente encontrada para li- dar com elas consiste, por meio de ferra- mentas tradicionais de manutenção da ordem pública, em permitir que as li- berdades de expressão e de religião se manifestem, sem que saiam do contro- le”, observa a especialista em religiões contemporâneas Anne-Laure Zwilling. Isso será suficiente? Afinal, esses gru- pos utilizam ferramentas de influência perfeitamente legais para disseminar sua mensagem. Nos Estados Unidos, e agora na Europa, eles se apresentam co- mo defensores da liberdade de expres- são e de religião, e até mesmo dos direi- tos humanos – uma retórica que lhes permite promover um discurso social- mente mais aceitável do que a luta, em nome de Deus, contra o aborto ou os di- reitos das pessoas homossexuais. “A democratização e a laicização fa- vorecem o desenvolvimento desses grupos, permitindo-lhes engajar-se po- liticamente, o que, por vezes, tem o efeito paradoxal de contribuir para a reintrodução, no direito, de normativi- dades religiosas que contradizem os avanços democráticos e laicos”, obser- va o pesquisador David Koussens. Uma confusão entre normatividades religio- sas e civis muito evidente nos Estados Unidos e no Brasil, e que a França ten- tou evitar em março de 2024 ao consti- tucionalizar o direito ao aborto. *Eva Thiébaud é jornalista. 1 Ler o dossiê “Expansion de l’évangélisme, l’in- ternationale réactionnaire” [A expansão do evangelismo, a internacional reacionária], Le Monde Diplomatique, set. 2020. 2 Cf. “Christianity in its Global Context, 1970- 2020 – Society, Religion, and Mission” [O cristianismo em seu contexto global, 1970- 2020 – Sociedade, religião e missão], Center for the Study of Global Christianity, jun. 2013. 3 Cf. “Key Findings From the Global Religious Futures Project” [Principais conclusões do projeto Futuro Religioso Global], Pew Resear- ch Center, 21 dez. 2022. 4 Ler Lucas Drouhot, Patrick Simon e Vincent Tiberj, “La diversité religieuse en France: transmissions intergénérationnelles et prati- ques selon les origines” [A diversidade reli- giosa na França: transmissões intergeracio- nais e práticas segundo as origens], Insee Référence, edição 2023. 5 Rapport d’activité 2021 [Relatório de ativida- de 2021], Miviludes, 27 abr. 2023. 6 Cf. Jean-Loup Adénor e Timothée de Rauglau- dre, Dieu est amour [Deus é amor], Flamma- rion, Paris, 2019. 7 Cf. Sébastien Fath, Du ghetto au réseau. Le protestantisme évangélique en France, 1800- 2005 [Do gueto à rede. O protestantismo evangélico na França, 1800-2005], Labor et Fides,Genebra, 2005. 8 Jeanne Rey, “Reconfigurations diasporiques des réseaux pentecôtistes franco-suisses. En- jeux éducatifs, économiques et sociaux” [Re- configurações diaspóricas das redes pente- costais franco-suíças. Desafios educacionais, econômicos e sociais], Les études de la Chai- re Diasporas Africaines, n.4, 2021, https:// diaspafrique.hypotheses.org. 9 “Un pasteur évangélique condamné pour le détournement de plus de deux millions d’eu- ros” [Pastor evangélico condenado pelo des- vio de mais de 2 milhões de euros], Francein- fo, 19 jan. 2024. 10 Stéphane Zumsteeg e Mathieu Gallard, “En- quête auprès des protestants” [Pesquisa entre protestantes], Ipsos Public Affairs, out. 2017. 11 Denis Biava, “Que des chrétiens portent leurs voix dans le débat politique” [Que os cristãos expressem suas vozes no debate político], Cnef, 8 abr. 2023. 12 David Nadaud, “La foi donne du sens à l’en- gagement politique” [A fé dá sentido ao en- gajamento político], Christianisme Au- jourd’hui, jun. 2023. 13 Alliance Defending Freedom, “What You May Not Know: How ADF Helped Overturn Roe v. Wade” [O que você pode não saber: como a ADF ajudou a reverter Roe v. Wade], 3 maio 2023, https://adflegal.org. 14 Ler Pierre Jova, “Euthanasie: la CEDH con- damne la Belgique et désavoue la commis- sion de controle” [Eutanásia: a CEDH con- dena a Bélgica e reprova a comissão de controle], La Vie, 4 out. 2022. 15 Thierry Le Gall, Un avenir, une espérance. Chro- nique d’une aumônerie parlementaire protestan- te évangélique [Um futuro, uma esperança. Crô- nica de uma capelania parlamentar protestante evangélica], Les Éditions du Cerf, 2022. 16 Ler Bernadette Sauvaget e Adrien Franque, “Bienvenue au monastère sur C8, des dérives à la chaîne” [Bem-vindo ao mosteiro na C8, desvios em série], Libération, 11 jan. 2024. 17 Ler Élise Racque, “Sur CNews et C8, l’évangi- le selon saint Vincent Bolloré” [Na CNews e na C8, o evangelho segundo são Vincent Bol- loré], Télérama, 9 abr. 2024. https://diaspafrique.hypotheses.org/ https://diaspafrique.hypotheses.org/ https://adflegal.org/ 38 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024 livros P edagogia de massas do neoconservadoris- mo é um livro que traz três interpretações da racionalidade. Nessa medida, o referencial te- órico está sob as luzes de Wilhelm Reich, Lucien Goldman e Paulo Freire. A trajetória profissional e de vida de José Eustáquio Romão, autor do livro em questão, MISCELÂNEA PEDAGOGIA DE MASSAS DO NEOCONSERVADORISMO José Eustáquio Romão, Caminhar lhe dá, em grande parte, autoridade para tra- tar, por exemplo, das epistemologias propostas por Paulo Freire e de tantos outros pensadores colocados por ele nessa obra que atualiza, de forma fundamentada, as raízes mais profundas e muitas vezes encobertas que sustentam ten- dências neofascistas, a exploração sem prece- dentes do capitalismo e as ameaças que reco- brem a democracia. Ao colocar Paulo Freire em discussão, ele es- clarece, por exemplo, quais seriam as reais con- tribuições do grande pensador brasileiro que, na maioria das vezes, são deturpadas, não somente em aspectos conceituais. Também faz reflexões com base no pensamento de Goldman e Reich à luz da contemporaneidade. O autor chama a atenção, inclusive, para a ma- nipulação das mídias e das redes sociais sob o comando silencioso dos poderes estabelecidos, e para o quanto elas têm contribuído para obs- curecer e confundir as informações e os conteú- dos de maneira a exercer com mais plenitude suas reais intenções, ou seja, convencer sutil- mente de que servidão, submissão e aceitação passivo-massiva são processos naturais com os quais devemos conviver. [Ana Maria Haddad Baptista] Tem pós-dou- toramento em História da Ciência pela Uni- versidade de Lisboa e pela PUC-SP, onde se aposentou, além de mestrado e doutorado em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Tem vasta experiência no magistério do ensino su- perior e diversas publicações no Brasil e no ex- terior. Atualmente trabalha como pesquisadora e professora nos programas de pós-graduação stricto sensu em Educação da Universidade Nove de Julho. Penso que toda escrita ficcional carrega al- gum elemento que denuncia o ponto de vista do autor. Sua forma de enxergar o mundo, suas relações interpessoais e a maneira como desem- penha seu papel na sociedade. Mesmo que o per- sonagem seja um componente totalmente diver- gente do autor, para sua construção é necessário A FINITUDE DAS COISAS Nélio Silzantov, Patuá que este o crie de acordo com sua compreensão das diversas nuances inerentes ao indivíduo e à dinâmica social em que ele vive. Em A finitude das coisas, o escritor Nélio Silzantov esbanja habilidade na construção de personagens que atuam em determinado tem- po/espaço (neste caso, na Vitória da Conquista dos anos 1990). Guiados por uma narradora feminina, os leitores conhecerão a vida de um grupo de amigos que testam todos os limites de sua juventude, embala- dos por sexo, drogas e rock and roll e o ímpeto de uma geração que ainda vivenciava os conceitos de liberdade e rebeldia, atrelados às suas condi- ções sociais e familiares. Mais do que a história de um grupo de jovens, Nélio vasculha o mais profundo sentimento de cada personagem. Reflete sobre a condição hu- mana e seus fenômenos mentais e psicológicos. Ciente de suas histórias, o leitor não sairá imune às observações filosóficas e sociais tão bem elaboradas pelo autor, que utiliza seu co- nhecimento em filosofia e sua expertise para destrinchar todas as peças que constituem o ser humano físico e anímico. [Rosana Vinguenbah] Paulista radicada em Minas Gerais desde a infância, é bióloga e atua como funcionária pública administrativa. Autora do romance Sopa de pedras (Penalux, 2018) e da coletânea de contos Relatos insignificantes de vidas anônimas (Caos e Letras, 2021), participou da coletânea de contos Retratos de uma vida em quarentena (Dublinense/Elefante, 2020) e ven- ceu o Concurso Literário Pintura das Palavras com o conto “Baixo Augusta”. Mantém o perfil @ rosana_vinguenbah no Instagram, onde fala sobre literatura nacional contemporânea. No romance, embora a voz narrativa pertença a Catarina, a maior protagonista da história é a ausência. É a partir dela que o romance se des- dobra e nos convida para acompanhar a evolução da narradora. Enquanto lia, fui arremessada para os Fragmentos de um discurso amoroso, de Bar- thes. Ao escrever sobre a ausência, ele concluiu TODO MUNDO TEM MÃE, CATARINA Carla Guerson, Reformatório ser esta uma via de mão única, já que só pode ser dita por aquele que foi abandonado. Na história, a protagonista, aos 5 anos, sofre a epifania de não ter mãe e, a partir desse evento, a busca pela genitora se torna sua força motriz. No entanto, em vários momentos, Catarina suporta bem o abandono, até para não sucumbir à tristeza ou à loucura. A menina se afasta de suas perturba- ções e experimenta dias de gerúndio: estudando, conversando, namorando, descobrindo-se... Ou seja, como na teoria winnicottiana, a narradora age feito um sujeito bem desmamado, sabendo se nutrir de outras realidades. Assim, Susana, a mãe-genitora de Catarina, vai se transformando em personagem alocutária, um eu duplo da filha, uma manobra perspicaz da garota para sustentar sua angústia de separação, a qual triunfa por recuperar a presença da mãe duas vezes: ao se queixar de sua partida e quan- do se dirige a ela, numa cristalina manipulação de sentimentos que deságua em movimentos de vaivém de memórias. Com essa estratégia, Car- la Guerson surge abrindo “o palco da linguagem”, pois, como bem descreve Barthes sobre o aban- dono, “a linguagem nasce da ausência: a criança faz um carretel, que ela lança e retoma, simulando a partida e a volta da mãe, criando um paradigma”. Por tudo isso, penso ser esse romance re- volucionário ao nos oferecer uma história cuja protagonista não está em busca de abrigo na figuramasculina, mas em suas ancestrais e, sobretudo, em si mesma. É revolucionário es- pecialmente por enxergar seu homem apenas como objeto de desejo e nunca como salvação. Catarina, assim, converte-se na prova de que, na contemporaneidade, não há mais espaço para personagens submissas. [Myriam Scotti] Escritora, crítica literária e mestre em Literatura pela PUC-SP. Seu roman- ce Terra úmida foi vencedor do Prêmio Literário de Manaus 2020. 39DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil SUMÁRIO Capa: © Rômolo D’Hipólito CANAL DIRETO Capa Que capa lindaaaaaaaaaa! Mayara Gomes, via Instagram Fabuloso! Daniel Angelim, via Instagram EUA financiam todas as guerras do mundo. É o poder colonizador. Camila de Souza, via Instagram “Bloqueia meu marido, isso está acabando com nossa vida” Eu repostei essa matéria e vieram conhecidos de longa data (aqueles que me seguem só para ver como que anda o amigo das antigas) falando que é pior que usar droga, que é realmente algo que precisa de muito cuidado. Eu não fazia ideia. Lukão, via Instagram Resquícios do governo Temer. Simone Valente, via Instagram Falta senso crítico e sobra subserviência na cobertura de Gaza Quase duzentos jornalistas assassinados por Israel. Fátima, via Instagram Falta mesmo é vergonha na cara de imprensa defensora de genocídio. Fagner, via Instagram O continente branco, um laboratório para a paz A Antártida pode ser, de fato, um laboratório para a paz. Sobretudo na medida em que não apresenta o único e principal fator da guerra: gente. Romulo Cristaldo, via Instagram 02 O esfregão europeu Por Benoît Bréville 03 Editorial Os militares não estão sozinhos Por Silvio Caccia Bava 04 Capa A crise não refluiu Por Luis Felipe Miguel A impossível democracia de mercado Por Nancy Fraser A luta do igualitarismo por um lugar no futuro Por Sávio Cavalcante Desenvolvimento ou barbárie Por Ricardo L. C. Amorim 12 Eleições nos Estados Unidos Um mandato poderoso e sem precedentes? Por Jerome Karabel E Trump teve sua vingança Por Serge Halimi 16 Uma força multinacional sob controle norte-americano O Quênia no atoleiro haitiano Por Benjamin Fernandez 18 A justiça pode legitimamente proibir candidaturas? O governo dos juízes: mito e realidades Por Vincent Sizaire 20 Dossiê especial – mundo do trabalho Tudo o que nos separa Por Grégory Rzepski Um sentido para o trabalho, mas qual? Por Danièle Linhart Impunidade patronal Por Alexia Eychenne O silêncio das fábricas Por Paolo Valenti Para além da desigualdade entre homens e mulheres Por Hélène Richard Coaches e a fé dos reconvertidos Por Anne Jourdain 29 Como livrar uma monocultura das mãos do setor privado? Ameaças ao arroz vietnamita Por Maïlys Khider, enviada especial 32 México O balanço contraditório de um presidente popular Por Anne Vigna Claudia Sheinbaum, construir uma vitória Por Hélène Combes 35 Templos, pastores, missionários e o dinheiro do dízimo Evangélicos na França, crônica de uma ascensão política Por Eva Thiébaud 38 Miscelânea DIRETORIA Diretor da edição brasileira e editor-chefe Silvio Caccia Bava Conselho dos Amigos do Diplô Fabiano Machado Rosa, Marcos Perez, Pedro Serrano, Rafael Valim, Rubens Naves e Walfrido Warde Diretores Anna Luiza Salles Souto, Jorge Romano, Maria Eliza- beth Grimberg e Rubens Naves e Vera da Silva Telles Editor Luís Brasilino Editor de Arte Cesar Habert Paciornik Editora web Carolina Azevedo Estágio em Jornalismo Maíra Oliveira Graça Estágio em Design Nanna Tariki Revisão Lara Milani e Maitê Ribeiro Gestão Administrativa e Financeira Lúcia Benito da Silva Ricco Conselho Editorial Adauto Novaes, Amâncio Friaça, Anna Luiza Salles Souto, Ariovaldo Ramos, Betty Mindlin, Claudius Ceccon, Eduardo Fagnani, Heródoto Barbeiro, Igor Fuser, Ivan Giannini, Jacques Pena, Jorge Eduardo S. Durão, Jorge Romano, José Luis Goldfarb, Ladislau Dowbor, Maria Elizabeth Grimberg, Nabil Bonduki, Raquel Rolnik, Ricardo Musse, Rubens Naves, Sebastião Salgado, Tania Bacelar de Araújo e Vera da Silva Telles. Assessoria Jurídica Rubens Naves, Santos Jr. Advogados Le Monde Diplomatique Brasil é uma publicação da associação Palavra Livre. Rua Araújo, 124, 2º andar – Vila Buarque São Paulo/SP – 01220-020 – Brasil Tel.: 55 11 2174-2005 diplomatique@diplomatique.org.br www.diplomatique.org.br Assinaturas: Lúcia Benito da Silva Ricco assinaturas@diplomatique.org.br Tel.: 55 11 2174-2005 Impressão GRAFICA SANTA EDWIGES, 45.938.917/0001-70 Rod. Cornelio Pires SP 127- KM 73 + 9, Bairro Ponte Alta, Tietê - SP, CEP. 18.539-000 LE MONDE DIPLOMATIQUE (FRANÇA) Fundador Hubert Beuve-Méry Presidente, Diretor da Publicação Benoit Bréville Redator-Chefe Akram Belkaïd Diretora de Relações e das Edições Internacionais Anne-Cécile Robert Le Monde diplomatique 1 avenue Stephen-Pichon, 75013 Paris, France secretariat@monde-diplomatique.fr www.monde-diplomatique.fr Em novembro de 2021, o Le Monde Diplomatique contava com 31 edições internacionais em 22 línguas: 24 edições impressas e 7 eletrônicas. LE MONDE BRASIL Ano 17 – Número 209 – Dezembro 2024 www.diplomatique.org.br ISSN: 1981-7525 diplomatique Participe de Le Monde Diplomatique Brasil: envie suas críticas e sugestões para diplomatique@diplomatique.org.br As cartas são publicadas por ordem de recebimento e, se necessário, resumidas para a publicação. Os artigos assinados refletem o ponto de vista de seus autores. E não, necessariamen- te, a opinião da coordenação do periódico. O DIPLÔ AGORA TEM UMA NEWSLETTER Inscreva-se na Déjà-vu usando o QR CODE ao lado O Diplô conta com sua solidariedade para a continuidade do nosso trabalho. Se você acha importante con- tinuarmos presentes, levando nossas aná- lises até você, faça uma contribuição! Acesse catarse.me/diplo Transformando Vidas, Construindo Futuros Capa O esfregão europeu Economia e política Impunidade patronal Diplomacia MISCELÂNEA SUMÁRIOmais, vai trabalhar para colocar panos quentes. “RECOLOCAR O POVO NO ORÇAMENTO” O fato é que, mesmo com o desvelamen- to inequívoco da conspiração antide- mocrática, que em tese deveria dar mar- gem para colocar a extrema direita em apuros, quem permanece na defensiva é o governo. E essas dificuldades de en- frentamento do golpismo e da questão militar não são estranhas ao outro eixo em que o governo patina para tomar rumo: as políticas sociais. Lula foi eleito com base na memória dos ganhos dos mandatos anteriores e na promessa de “recolocar o povo no or- çamento”, como dizia sua propaganda. Ainda que, por vezes, o cálculo político tenha impedido a implementação a fer- ro e fogo das políticas de Paulo Guedes, o resultado do quadriênio de Jair Bolsona- ro foi claramente desastroso para a gran- de maioria da população, revelando o saldo de um governo que agia de manei- ra quase indisfarçada em favor dos mais ricos. A tarefa de Lula era tanto recompor a capacidade de ação do Estado, delibe- radamente sucateada por seu antecessor, como retomar as políticas sociais. No entanto, apesar de inegáveis ganhos pontuais, o governo parece emparedado, por um lado, pelo capital, por outro, pela elite política predatória, que se assenhora de uma parcela cada vez maior do orça- mento público federal. Entre os reclamos por “austeridade” e “equilíbrio fiscal”, por um lado, e a primazia das emendas parla- mentares, por outro, sobra pouco espaço para o investimento necessário. De maneira pouco surpreendente, mas nem por isso menos nociva, Lula optou por colocar a economia nas mãos de alguém disposto a se dobrar à ortodoxia do “mercado”, ainda que à custa do sacrifício de trabalhadores e pensionistas. Ao presidente da República, parece ca- ber apenas a tarefa de verbalizar compro- missos com sua base social, na forma de frases de efeito sobre prioridades no com- bate à pobreza e na promoção de “opor- tunidades” para todos – declarações logo desmentidas por sua equipe econômica, assim que o “mercado” se faz ouvir pelo Governo parece empare- dado, por um lado, pelo capital e, por outro, pela elite política predatória vada a cabo pela parceria entre as big techs e a extrema direita, com destaque para os religiosos fundamentalistas as- sociados ao bolsonarismo, encerrou a iniciativa. A derrota é grave porque obriga o campo democrático a lutar em um ter- reno eivado de irracionalidade, deba- tendo-se com pautas estapafúrdias que bloqueiam a discussão das temáticas re- levantes. E a alternativa de mimetizar as táticas da extrema direita, defendida por alguns em nome do pragmatismo, não apenas é pouco promissora (já que a di- reita tem mais facilidade para mobilizar os preconceitos e ativar o pânico moral), como também significa abandonar de vez qualquer esperança de construção de uma ordem democrática. “COMPROMETIDOS COM A DEMOCRACIA” O segundo obstáculo diz respeito à questão militar, em relação à qual Lula adotou, novamente, uma posição de ex- trema prudência (ou pusilanimidade, se for para adotar uma terminologia mais crítica). A despeito de todas as evidên- cias em contrário, o discurso oficial é de que os militares são “comprometidos com a democracia” – com uma ou outra exceção, vá lá, mas que seriam no máxi- mo as proverbiais maçãs podres. Serve de exemplo uma declaração de Carlos Siqueira, presidente do PSB (o partido do vice-presidente da Repú- blica), após a divulgação da listagem dos indiciados pela Polícia Federal. A participação de generais na trama gol- pista, disse ele, “não condiz com a tra- dição de nossas Forças Armadas, que certamente, suponho, não estavam de acordo com atos criminosos dessa natureza”. Seria cômico, se não fosse a gravidade da situação. © P riW i 6 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024 A democracia vai mal. A culpa seria das instituições, das redes sociais, do individualismo. Da “radicalidade dos extremos” ou, ainda, da impotência diante da violência econômica, que precisaria ser amenizada. No entanto, o capitalismo só é possível graças à separação entre o econômico e o político, o que o torna fundamentalmente antidemocrático POR NANCY FRASER* QUANDO O DISCURSO SOBRE AS CRISES OCULTA AS FALHAS DO SISTEMA A crise de hoje não se origina exclu- sivamente na esfera política. Não será superada por meio da reno- vação do sentimento cívico, do cultivo ao bipartidarismo, do fortaleci- mento do “éthos democrático”, da revi- talização do “poder constituinte” ou da libertação do poder do “agonismo” [transformação de relações antagôni- cas em agônicas, substituindo a ideia de inimigos pela de adversários]. Nem autônomos nem meramente setoriais, os males democráticos atuais represen- tam o aspecto especificamente político da crise generalizada que devora todo o nosso ordenamento social. Sua origem reside nos próprios fundamentos dessa ordem – em suas estruturas institucio- nais e dinâmicas constitutivas. Só po- dem ser compreendidos dentro de uma visão crítica da totalidade social, fre- quentemente identificada como neoli- beralismo, não sem razão. Contudo, é essencial situar o neoliberalismo como uma variante do capitalismo: e toda forma de capitalismo está sujeita a cri- ses políticas e é hostil à democracia, da- do que contém uma contradição intrín- seca que a predispõe a isso. Longe de ser uma anomalia, a crise atual é a forma que essa contradição assumiu. Reduzir o capitalismo a um sistema econômico, e a crise capitalista a disfunções econômicas, significa igno- rar outras contradições e as crises que delas resultam: quando os imperativos econômicos entram em conflito com as condições não econômicas estrutu- rais, cuja manutenção é essencial para a continuidade da acumulação. Essas condições são diversas. No entanto, a contradição que pode ser considerada a origem da crise democrática atual – es- treitamente ligada a outros impasses do sistema – envolve os poderes públicos. Sua manutenção é uma condição para a acumulação contínua do capital; contu- do, o capital tende a desestabilizar esses mesmos poderes dos quais depende. A acumulação é inconcebível sem um marco jurídico que proteja a proprie- dade privada e as transações de mer- cado. Ela depende, em grande medida, dos poderes públicos para assegurar os direitos de propriedade, fazer valer os contratos e resolver disputas; para reprimir rebeliões, manter a ordem e gerir conflitos; para sustentar os regi- mes monetários; para adotar medidas que previnam ou administrem crises; e, finalmente, para codificar e aplicar hie- rarquias de status, como as que distin- guem cidadãos de “estrangeiros”. São os sistemas jurídicos que criaram espaços aparentemente despolitiza- dos, nos quais atores privados podem perseguir seus interesses “econômicos” sem interferência “política”. Da mesma forma, são os Estados territoriais que mobilizaram a “força legítima” para re- primir a resistência às expropriações (notadamente coloniais), por meio das quais as relações de propriedade capita- listas foram estabelecidas e preservadas. Depois de constituírem a economia ca- pitalista, esses poderes políticos toma- ram medidas para ampliar a capacidade do capital de acumular lucros. Cons- truíram e mantiveram infraestruturas, corrigiram “falhas de mercado”, orienta- ram o desenvolvimento, impulsionaram a reprodução social, atenuaram crises econômicas e administraram os impac- tos políticos decorrentes. O espaço mais amplo no qual esses Estados se inserem foi organizado para facilitar a circulação do capital: não apenas com o apoio do poderio militar, mas também por meio de dispositivos políticos transnacionais como o direito internacional, regimes supranacionais e acordos negociados entre grandes potências, que pacificam, em maior ou menor grau (mas sempre em favor do capital), um espaço mundial por vezes percebido como em estado de natureza. Essencial ao seu funcionamento, o po- der político é parte integrante daordem social institucionalizada que é o capita- lismo. Contudo, sua manutenção está em constante tensão com o imperativo de acumulação do capital. É preciso buscar a causa disso na to- pografia institucional própria do capi- talismo, que separa o “econômico” do “político”. Cada um é atribuído a uma esfera distinta, com seu aparato e mo- dus operandi específicos. O poder de organizar a produção é privatizado e confiado ao capital. A tarefa de governar as ordens “não econômicas” – incluindo aquelas que fornecem as condições ex- ternas para a acumulação – recai sobre o poder público, que deve utilizar os meios “políticos” da lei. No capitalismo, o econômico é, portanto, não político, e o político, não econômico. A GOVERNANÇA SEM GOVERNO Essa separação, ao submeter vastos as- pectos da vida social à “lei do mercado” (isto é, às grandes empresas), nos priva da capacidade de decidir coletivamen- te o que queremos produzir e em que quantidade, com base em qual princí- pio energético e segundo quais modos de relações sociais. Também nos priva dos meios para decidir o destino do ex- cedente social produzido coletivamen- te, a relação que desejamos estabelecer com a natureza e as gerações futuras, a organização do trabalho de reprodu- ção social e sua relação com a produ- ção. Em razão de sua própria estrutura, o capitalismo é, portanto, fundamen- talmente antidemocrático. Ora, o capital, por natureza, tenta atuar em duas frentes. Por um lado, de- pende dos poderes públicos, aprovei- tando-se dos regimes jurídicos, das for- ças repressivas, das infraestruturas e dos órgãos reguladores. Por outro, a busca pelo lucro frequentemente leva certos segmentos da classe capitalista a se rebelarem contra o Estado, acusados de serem inferiores em relação aos mercados, e a tentarem enfraquecê-lo. Nesses casos, quando os interesses de curto prazo prevalecem sobre a sobre- vivência a longo prazo, o capital amea- ça destruir as próprias condições polí- ticas de sua existência. Essa contradição constitui uma ten- dência às crises que não está “dentro” da economia, mas na fronteira que si- multaneamente separa e conecta a economia e a governança. Inerente ao capitalismo em si, essa contradição de “interregnos” leva todas as formas de sociedade capitalista a crises políticas. Convém esclarecer: não existe socieda- de capitalista “em si”; o capitalismo só existiu em modos ou regimes de acu- mulação historicamente situados. E, longe de ser fixa, a divisão constitutiva entre o “econômico” e o “político” pode sempre ser contestada e modificada. É sobretudo em tempos de crise que essa fronteira cristaliza os conflitos entre atores sociais – os quais às vezes conse- guem alterar seus contornos. Assim, ao longo do século XX, o capi- talismo gerido pelo Estado, que sucedeu ao regime de laissez-faire, utilizou o po- der público para conter ou desacelerar a crise. Com base no sistema de controle de capitais instituído em 1945 sob hege- monia norte-americana pelos Acordos de Bretton Woods, os Estados, em geral, disciplinaram o capital para seu pró- prio bem e ampliaram o escopo da ação política, domesticando-a com medidas que integraram camadas potencial- mente revolucionárias, revalorizando sua cidadania e envolvendo-as no siste- ma. A estabilidade foi assim restaurada por várias décadas, mas o aumento dos salários e a generalização dos ganhos de produtividade na indústria manufatu- reira dos países centrais levaram o capi- tal a redobrar os esforços para libertar o mercado da regulação política. Ao mesmo tempo, uma nova esquer- da denunciava, em escala mundial, as opressões, exclusões e predações sobre as quais todo o edifício se sustentava. Seguiu-se uma longa crise, durante a qual esse dispositivo foi gradualmente substituído pelo regime atual do capi- talismo financeirizado. Esse regime remodelou a relação no- vamente. Os bancos centrais e as insti- tuições financeiras mundiais substituí- ram os Estados no papel de árbitros de uma economia cada vez mais globaliza- da. São eles que agora ditam a maior parte das principais regras que regulam as relações entre trabalho e capital, ci- dadãos e Estados, centro e periferia e – ponto crucial – entre devedores e credo- res. O regime anterior permitia aos Estados subordinar os interesses de cur- A impossível democracia de mercado 7DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil to prazo das empresas privadas ao obje- tivo de longo prazo de uma acumulação sustentada. Em contrapartida, o regime atual permite que o capital financeiro imponha restrições aos Estados e aos ci- dadãos em benefício imediato dos in- vestidores privados. Um duplo golpe: de um lado, as instituições estatais que (em certa medida) atendiam aos cidadãos estão cada vez menos aptas a responder às suas necessidades; de outro, os ban- cos centrais e as instituições financeiras mundiais são “politicamente indepen- dentes” – livres para agir em benefício dos investidores e credores. O capitalis- mo financeirizado é a era da “governan- ça sem governo” – a era da dominação sem a fachada do consentimento. Isso teve como principal efeito es- vaziar, em todos os níveis, o poder do Estado de sua substância. Questões an- tes consideradas como pertencentes à ação política democrática tornaram-se agora “áreas reservadas” confiadas aos “mercados”. Os auxiliares do capital não hesitam em atacar o poder dos Estados ou as forças políticas que possam desa- fiá-lo, anulando, por exemplo, eleições ou referendos que rejeitem a austerida- de, como ocorreu na Grécia em 2015. O famoso “déficit democrático” é, na ver- dade, parte integrante da crise genera- lizada do capitalismo financeirizado. E, como toda crise generalizada, ela tem uma dimensão hegemônica. Nenhum bloqueio nos circuitos de acumulação ou no sistema de governança merece o termo “crise” em seu sentido pleno. Ape- nas quando membros da sociedade per- cebem que as graves dificuldades que enfrentam ocorrem não apesar, mas por causa da ordem estabelecida; apenas quando uma massa crítica decide que essa ordem pode e deve ser transfor- mada pela ação coletiva; apenas quan- do um impasse objetivo ganha uma voz subjetiva; só então se pode falar de “cri- se” no sentido de um “grande ponto de virada histórica” que exige decisão. Essa é a situação atual. As disfunções políticas do capitalismo financeirizado não são mais “simplesmente” objetivas; elas encontraram um correlato subjetivo. Em muitas partes do mundo, populistas de direita conseguiram atrair eleitores da classe trabalhadora pertencentes à maioria ao prometerem “retomar” seus países do capital global, dos imigrantes “invasores” e das minorias étnicas ou religiosas. Sua contraparte de esquerda obteve avanços significativos na socie- dade civil ao lutar pelos “99%” e contra um sistema “manipulado” que favorece a “classe dos bilionários”. O surgimento dessa dupla onda populista marcou uma transformação importante. Com o senso comum neoliberal colocado em xeque, o campo da reflexão política se expan- diu. Entramos em uma nova fase: de um “simples” agregado de impasses sistêmi- cos passamos a uma verdadeira crise de hegemonia, caracterizada por um con- flito aberto sobre a fronteira atual entre economia e governança. Assim, a ideia de que o planejamento é muito inferior aos mercados competitivos já não é mais uma certeza. Esse movimento ganhou força com a pandemia de Covid-19, que demonstrou a necessidade do poder pú- blico. Se vivêssemos em um mundo ra- cional, o neoliberalismo já seria apenas uma lembrança. UM VERNIZ DE EMANCIPAÇÃO Todavia, vivemos em um mundo capita- lista, por definição corroído pelo irracio- nal. Não se pode, portanto, esperar que a crise atual seja resolvida rapidamente ou sem turbulências. Os populistas de direita não têm soluções a oferecer aos problemas de seus apoiadores; coloca- dos em evidência, são meros fantoches daqueles que criaram esses problemas e que permanecemnos bastidores. Isso pode durar enquanto ninguém puxa as cortinas para revelar a farsa. E é precisa- mente isso que a oposição progressista não conseguiu fazer. Longe de desmas- carar as forças por trás das cortinas, os setores dominantes da “resistência” es- tão comprometidos com elas há muito tempo. Nos Estados Unidos, por exem- plo, isso se aplica às alas liberal-meri- tocráticas de movimentos sociais que defendem o feminismo, o antirracismo, os direitos da comunidade LGBTQ (lés- bicas, gays, bissexuais, trans e queer) e a ecologia. Sob a hegemonia liberal, esses movimentos foram, durante anos, ato- res secundários em um bloco neoliberal progressista que incluía também ramos “visionários” do capital global (tecnolo- gia, finanças, mídia, entretenimento). Os progressistas também serviram como fantoches, mas de outra maneira: aplicando um verniz de emancipação à economia política predatória do neoli- beralismo. Essa aliança artificial associou tão profundamente o feminismo, o antir- racismo e outros movimentos ao neolibe- ralismo que muitas pessoas acabaram re- jeitando os primeiros junto com o segun- do. É por isso que o principal beneficiário dessa conjuntura, pelo menos até agora, tem sido o populismo reacionário de di- reita. Uma disputa simulada entre dois grupos de marionetes – um retrógrado, outro progressista – enquanto, por trás das cortinas, os poderosos prosperam. Ainda assim, crises como esta repre- sentam momentos decisivos em que a possibilidade de agir sobre a própria for- ma da vida social está ao nosso alcance. Surge, então, uma questão: quem guiará o processo de transformação social, em benefício de quem e com quais obje- tivos? Esse processo foi iniciado várias vezes no passado – e beneficiou princi- palmente o capital. Isso vai se repetir? Se nos limitarmos às lições de moral, igno- rando alegremente as preocupações dos “deploráveis” – como Hillary Clinton os chamou em 2016 –, sem reconhecer suas queixas legítimas (por mais equivoca- das que sejam), perderemos a luta pela construção de uma contra-hegemonia. Devemos nos colocar o desafio de apon- tar o verdadeiro culpado e desmantelar a ordem disfuncional e antidemocrática que é o capitalismo. *Nancy Fraser é filósofa, autora da obra Le capitalisme est un cannibalisme, que será publicada na França pelas edições Agone (Marselha) em 15 de janeiro de 2025 e com base na qual este artigo foi composto. © C re at iv e C om m on s/ Fl ic kr A crise democrática atual está intrinsecamente ligada à natureza antidemocrática do capitalismo. E o neoliberalismo é visto como uma faceta desse sistema econômico 8 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024 A luta do igualitarismo por um lugar no futuro As análises no campo das esquerdas têm se dividido entre duas grandes: a primeira prioriza a correlação de forças negativa; a segunda enfatiza a ausência de um programa econômico antineoliberal. É cômodo dizer que a verdade está em um meio-termo. Contudo, deve-se ir além e recusar a simplificação apriorística de uma oposição entre “fazer concessões” e “radicalizar” POR SÁVIO CAVALCANTE* POLITIZAR O DEBATE SOBRE AS CONDIÇÕES MATERIAIS DE VIDA E m artigo publicado há pouco mais de um ano,1 argumentei que a ideologia neoliberal atualizou, com êxito inegável, as três inva- riáveis da retórica da reação, tal como exposto por A. O. Hirschman. Em resu- mo: qualquer ideia de mudança basea- da em valores igualitaristas é ineficaz ou pior à vida material da maioria da sociedade. Dito de outro modo, tudo o que atende prioritariamente aos inte- resses das classes e grupos dominantes seria, com o tempo, melhor para os do- minados e oprimidos. O texto terminava assim: “o novo go- verno petista tem, à sua frente, o desa- fio histórico, e decisivo, de renovar a esquerda igualitarista, interditando não apenas a resposta neofascista, mas tam- bém a versão neoliberal [do anti-igua- litarismo] que impede, em seu interior, a superação desse impasse”. Prestes a chegarmos à metade do Lula-3 e após os resultados das urnas nas eleições mu- nicipais, a avaliação geral até aqui está longe de ser otimista. As análises no campo das esquerdas têm, no geral, se dividido entre duas grandes linhas: a primeira prioriza a cor- relação de forças negativa (governo de frente ampla, Congresso hostil, antipe- tismo ainda forte no eleitor médio etc.); a segunda enfatiza a ausência de um programa econômico antineoliberal, de uma ideologia igualitarista renovada e de uma identidade político-eleitoral própria. É tentador, porquanto cômodo, dizer que a verdade está em um meio- -termo e todos têm razão em alguma medida. Repisar os termos desse impas- se, contudo, ajuda pouco. Vejamos, por exemplo, as controvér- sias sobre o arcabouço fiscal e as medi- das de austeridade. Por um lado, embo- ra explicite em suas entrevistas a crise global do neoliberalismo e os perigos da distopia da extrema direita neofascista, Fernando Haddad e seus planos não escapam da lógica de que é preciso ga- rantir austeridade e sinalizar confiança aos mercados para gerar crescimento e estabilidade. Os críticos à esquerda, por outro lado, embora apresentem boas ideias para o combate do modelo neo- liberal, não podem assegurar que, no atual contexto, uma inflexão profunda na economia possa gerar efeitos positi- vos a curto prazo ou, mais importante ainda, se ela teria uma base social de apoio coesa, nas classes dominante e dominada, para sustentar politicamente um modelo alternativo. Do mesmo modo, embora exista con- senso sobre as eleições de 2024 no sen- tido de que há uma preservação da for- ça da extrema direita e, mais ainda, da direita tradicional, não há, a rigor, como decretar taxativamente que os resulta- dos seriam melhores para a esquerda se suas candidaturas tivessem um progra- ma mais coerente ou se disputassem a revolta antissistêmica; um sentimento, até aqui, confiscado pelo bolsonarismo. O contexto recoloca, o que é com- preensível, debates longos no campo das esquerdas sobre partido, estratégia e programa. É preciso, contudo, ir além e recusar a simplificação apriorística de uma oposição entre “fazer concessões” e “radicalizar”. Problemas de fundo e desafios urgentes do presente deixam de ser pensados. *** Há dez anos tenho como objeto de pesquisa os agentes que fizeram circular ideias anti-igualitárias, como as classes médias desempenharam um papel po- lítico decisivo para a ascensão de novas direitas e como, a partir de Bolsonaro, o campo das direitas na cena política na- cional foi hegemonizado por uma extre- ma direita com ideias e movimentos de massa de tipo neofascista. Sem ignorar que é grande a lista de políticas e escolhas feitas pelos gover- nos do PT às quais podem ser atribuí- das responsabilidades, diretas ou indi- retas, pela guinada à direita, entendo que, para os desafios do presente, há uma dimensão incontornável desse processo, independentemente, até cer- to ponto, das causas: 1) depois da crise de 2014-2016, apenas a extrema direita logrou formar um movimento de mas- sa ideologicamente coeso, mobilizado de modo permanente (não apenas em contextos eleitorais) nas redes e nas ruas, e com ideias aparentemente imu- nes a choques de realidade; e 2) Lula, mais até do que o PT, foi a único agente no campo das esquerdas que se mos- trou capaz de sobreviver à reação anti- -igualitarista das direitas, manter bases sociais orgânicas de apoio e preservar a relevância eleitoral nacional, especial- mente entre os mais pobres. Constatar esses fatos da cena política não pode ser tomado, como muitos o fazem, como salvo-conduto a Lula e seu governo. Se no passado, quando a extre- ma direita ainda não havia hegemoniza- do a direita na cena política, o reformis- mo fraco lulista teve um desfecho nega- tivo, esperar um resultado muito dife- rente ao insistir em dar um verniz social ao modelo neoliberal, em um contexto em que o neofascismo tem enraizamen-to social muito maior, é uma aposta ar- riscada e pouco promissora, para dizer o mínimo. Contudo, a preservação ou a renovação da esquerda, para não dizer a própria manutenção do regime demo- crático, ainda dependem de Lula e do sucesso de seu terceiro mandato. Esse impasse talvez explique os traços mais polarizados da disputa interna às esquerdas: de um lado, o fatalismo ex- presso na ideia de “morte da esquerda” ou o pessimismo resignado de intelec- tuais ante o horizonte catastrófico; de outro, uma confiança, em alguns quase messiânica, na capacidade política de Lula e sua equipe em encontrar uma saída. Sem nenhuma pretensão de su- gerir uma solução, penso ser importan- te, pelo menos, pensar em caminhos que possam, ao mesmo tempo, renovar ideias igualitaristas e ser eleitoralmente viáveis na cena política. Discuto, nesse sentido, uma lição importante vinda das eleições municipais em São Paulo. *** Muitas análises sobre os resultados eleitorais recentes os tomam como pro- © Lucas Brandon/Wikimedia A ascensão da extrema direita no Brasil traz grandes desafios para a esquerda 9DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil va do fracasso de candidaturas de es- querda em promover uma guinada ao centro em termos de ideias, discurso e alianças. A derrota de Guilherme Boulos para Ricardo Nunes em São Paulo é vista como o maior exemplo do equívoco es- tratégico em se afastar de um discurso mais radical e de programas próprios da identidade de esquerda. O êxito inespe- rado de Pablo Marçal em se valer do ra- dicalismo é tomado como prova da ne- cessidade, à esquerda, de oferecer uma saída antissistêmica. Nessa linha de análise, outro sintoma ressaltado é que, sem um discurso e um programa mais radicais, há uma perda de engajamento da militância de esquerda, cujo efeito é a falta de mobilização na disputa eleitoral. O problema maior dessas análises para a campanha de Boulos – e, por ex- tensão, para o governo Lula – não é a crítica, necessária, à resignação quanto à correlação de forças, e sim o fato de ignorarem o efeito real da vitória ideoló- gica das direitas anti-igualitárias desde, pelo menos, 2016. Tudo se passa como se “ser radical” fosse uma escolha, à direita ou à esquerda, com efeitos po- líticos iguais desde então. Marçal pode ser quem é porque seu comportamen- to radicaliza as estruturas de poder e dominação que, além de serem histori- camente arraigadas na sociedade bra- sileira como um todo, revigoraram, no contexto atual, suas expressões mais violentas e autoritárias – um efeito de normalização da violência anti-igualitá- ria produzido pela força do neofascismo no campo das direitas. Dito de outro modo, se Boulos, nessa conjuntura, radicalizasse à esquerda o discurso e o programa, talvez fosse pos- sível ver um aumento de engajamento da classe média progressista de Santa Cecília e adjacências, mas pouco, ou pro- vavelmente quase nenhum, impacto prá- tico nas periferias. Sem mediadores orgâ- nicos e movimentos sociais enraizados com legitimidade nessas regiões para fa- zer que o discurso radical seja interpreta- do como defesa dos interesses da maioria da população, é pouco crível considerar que a derrota eleitoral de Boulos se deu pela ausência de radicalidade. Um exemplo ainda mais expressivo, para não dizer desesperador, é perce- ber a gritante, profunda e vergonhosa diferença entre o poder das instituições contra Bolsonaro e aquele existente, em 2016 e 2018, para legitimar o gol- pe do impeachment e a prisão de Lula. Mesmo com farto conjunto de provas, Bolsonaro até hoje não foi preso pelos crimes na pandemia e por tentativas de golpe de Estado. Antes, apenas com a convicção, em um tribunal de primei- ra instância em Curitiba, Lula foi preso por supostamente possuir, como fruto de corrupção, um sítio em Atibaia e um apartamento no Guarujá. O recente indiciamento, pela Polícia Federal, de Bolsonaro e militares é mo- tivo de otimismo, pois ao menos mostra que parte das instituições de Estado foi preservada e há agentes públicos que seguem a ordem vigente. Isso não sig- nifica, contudo, que haja uma reversão ideológica na sociedade como um todo. Dois fatores atestam esse diagnóstico: a força eleitoral de lideranças regionais bolsonaristas nas eleições de 2024 e no Congresso; e a tenaz e persistente nor- malização da direita tradicional aliada, de um modo ou de outro, à extrema di- reita bolsonarista; o que é feito sempre com base na tese de que a polarização política no Brasil é uma oposição entre radicais “bolsonaristas” e “petistas”. *** Voltando à disputa eleitoral em São Paulo. Uma das lições mais importantes é perceber que, para a maior parte da população pobre e trabalhadora, assu- mir a identidade política que reivindica a defesa da democracia, da legalidade, do combate à desigualdade e dos direi- tos – identidade oposta à do “bolsona- rista” (Marçal) ou do “normalizador do bolsonarismo” (Nunes) – não gera um efeito equivalente, em votos, naqueles que mais seriam beneficiados pelo igua- litarismo. O fato de ser um pleito muni- cipal, que favorece quem busca reelei- ção e se vale dos arranjos locais do favor, conta bastante para a vitória da direita tradicional já no poder, mas há aí um fator mais estrutural, algo que, mesmo para Lula, agora ou em 2026, se apresen- ta como desafio de fundo. A maioria da população, pobre e tra- balhadora, que desde sempre enfrenta os desafios cotidianos de ocupar os lu- gares mais submetidos à exploração e à opressão, é submetida cada vez mais a ideias anti-igualitaristas que a inter- pelam constantemente como sujeitos e famílias que deveriam defender valores e políticas que interessam, material- mente, às classes e aos grupos que exer- cem a dominação. Dizer que a direita está vencendo porque há “agência” dos dominados, especialmente via discurso religioso e estratégias comunitárias nas periferias, ajuda a entender as formas de resistência e manutenção da dignidade mesmo na estrutura conservadora, mas pouco diz sobre a raiz do problema. Quando se chama a atenção para esse descompasso mais profundo entre ideo- logia e realidade material, não se trata de dizer que os mais pobres não se in- teressem e não busquem aumentar sua renda, ter atividades de trabalho mais interessantes, ter acesso a educação e saúde e viver em uma sociedade me- nos desigual. Trata-se, em vez disso, de identificar a perda simbólica de valores e formas de luta que, histórica e estrutural- mente, deram uma identidade própria ao igualitarismo no campo das esquer- das, como justiça social, solidariedade, ação coletiva, sindicatos, direitos sociais e políticas de Estado. A situação, aliás, produz eventos em- blemáticos. Nada talvez supere os cria- dos por Pablo Marçal. Ao defender, por exemplo, o anticomunismo e lutar con- tra o peso do Estado contra os empreen- dedores, Marçal precisou lançar em um debate – de forma paradoxal, mas reve- ladora – uma carteira de trabalho contra Boulos. Na cena, Marçal representa a prosperidade que recompensa o traba- lho duro, enquanto Boulos (e Lula, o PT, a esquerda etc.) representa a pobreza e quem é recompensado pela desocupa- ção ou a vagabundagem. Como apontou Louis Althusser, as ideologias, mesmo as mais carregadas de ilusão, precisam sempre fazer uma alusão à realidade concreta. Marçal le- vanta, como se crucifixo ou Bíblia o fos- se, uma CLT contra Boulos, e não uma ficha de inscrição como MEI ou um ce- lular para fazer cadastro de motorista na Uber. Ou seja, de forma consciente ou não, foi de um símbolo da esquerda, sobretudo no debate sobre empreende- dorismo, que Marçal se valeu para re- presentar a identidade de quem está do lado do esforço e do trabalho duro, algo tão presente na vida cotidiana das clas- ses populares. Aliás, até mesmo quando confrontado por um jornalista com um símbolo importante da resistência da cultura periférica, as músicas dos Racio- nais MC’s, Marçal, recuperandosua ori- gem popular, não atacou diretamente o grupo, nem sequer mencionou a crítica ao encarceramento em massa da popu- lação pobre e negra das periferias. Em vez disso, limitou-se a mostrar que sabe de cor versos de suas músicas. *** Por que essas cenas paradoxais pro- duzidas por Marçal são importantes? Primeiro: Marçal é a expressão de uma “nova direita” radical que, de fato, veio de fora do sistema político, cons- truindo uma imagem de sucesso nas redes sociais ao articular ideias con- servadoras e neoliberais. O que chama atenção é que, até aqui, foi o único que ousou e conseguiu afetar o poder pes- soal e exclusivo de Bolsonaro em defi- nir os candidatos da direita, algo ainda mais surpreendente por ser feito à re- velia de Tarcísio de Freitas, nome mais forte até aqui para gerar o bolsonarismo “normalizado” no futuro. Segundo: o modelo perseguido por Marçal na extrema direita é, sobretu- do, aquele oferecido por Nayib Bukele em El Salvador, o que significa que sua estratégia, na falta de opção real para enfrentar os problemas sociais e ma- teriais, é entregar à população um sis- tema judicial repressivo e arbitrário de encarceramento em massa. Sua memó- ria afetiva de músicas dos Racionais é, desnecessário dizer, seletiva e perversa. De todo modo, e isso Tarcísio de Freitas bem sabe, prometer “Rota na rua” é um ativo eleitoral forte. Terceiro: mesmo de origem popular, Marçal é expressão da ideologia do em- preendedorismo da classe média alta e burguesa. Veste-se como um “Faria Limer” e, além de ostentar riqueza, rei- vindica capitais simbólicos de distinção intelectual (“Sou um jurista”), chegando a desqualificar, como inferior em termos de uso da norma culta, uma jornalista que falou “cidadões” em uma pergunta a ele dirigida. Mas o reconhecimento, ainda que inconsciente, do valor simbó- lico da CLT por Marçal indica que ainda há espaço para a esquerda disputar os sentidos sociais da ideia de recompensa justa do trabalho duro. Nesse ponto, há um enorme desafio: para muitos trabalhadores pobres, acos- tumados à precariedade e à “viração” e sem a experiência digna do emprego formal, a promessa de direitos via CLT não tem o mesmo apelo de antes. Mui- tos criticam o fato de parte da esquerda ter, por conta disso, cedido à ideolo- gia do empreendedorismo. O recente e inesperado engajamento de massa nas redes contra a jornada 6 × 1 parece sina- lizar que o problema de fundo é outro. Ou seja, com ou sem CLT, a maior parte da classe trabalhadora não tem tempo de vida para além do trabalho. Parece haver, aqui, um caminho real para a renovação de uma esquer- da igualitarista e politicamente viável: politizar – aqui a radicalidade conta muito – o debate sobre as condições materiais de vida da classe trabalha- dora em toda sua heterogeneidade de raça, gênero e sexualidade. Por exem- plo, apostar nos programas de ren- da básica e nos direitos trabalhistas é uma forma de diminuir a coerção eco- nômica que faz que muitos “optem” pelo empreendedorismo. O problema, enfim, não é a esquerda aderir ao dis- curso do empreendedorismo, mas dei- xar de politizar, narrar, se comunicar e oferecer soluções com base nas ex- periências concretas de vida da classe trabalhadora. Para isso, todo esforço é imprescindível e promissor. Que Lula e Boulos invistam cada vez mais no ca- minho que Rick Azevedo e Erika Hilton ofereceram e sinalizaram com tanta potência e energia no debate sobre a jornada de trabalho. *Sávio Cavalcante é professor de Socio- logia (IFCH-Unicamp). 1 “A retórica da reação neoliberal e o futuro do igualitarismo”, Le Monde Diplomatique Brasil, ago. 2023. Tudo se passa como se “ser radical” fosse uma escolha, à direita ou à esquerda, com efeitos políticos iguais 10 Le Monde Diplomatique Brasil DEZEMBRO 2024 Desenvolvimento ou barbárie A política, o processo que funda o convívio social, é a chave. No caso brasileiro, uma democracia forte permitirá à sociedade organizada impor recuos às forças retrógradas do neoliberalismo míope e do conservadorismo atrasado POR RICARDO L. C. AMORIM* ECONOMIA E POLÍTICA O Brasil já não é o país do futuro. As promessas antigas desaparece- ram aos poucos até restarem me- nos do que fantasias. O trabalho, a honestidade e o conhecimento de ca- da homem e mulher pouco importam. De longa data, mais prestígio tem quem enriquece por qualquer caminho, repu- blicano ou não. Chegamos a isso depois de quatro décadas e meia sem desenvol- vimento econômico, ocupando jovens em empregos sem futuro, ensinando em escolas sem qualidade e classifican- do todos pelo nível pessoal de consumo. O país desistiu de alimentar os sonhos de seu povo quando passou a derrotar, todos os dias, quem acorda cedo em ca- sas precárias e desvive mais da metade de seu dia entre trabalho e transporte. Pouco tempo sobra à saúde, ao amor, aos filhos. Predominam o medo, a an- gústia ou mesmo a raiva. Mas isso é na base da pirâmide social. Na outra ponta, seja na fazenda ou no escritório envidraçado, o cotidiano é outro. Nos latifúndios de áreas devas- tadas pela monocultura não se ganha tanto dinheiro desde os tempos do café, exportando-se coisas retiradas da terra e vendidas a intermediários estrangeiros. No lado urbano do país, a vida dos ricos nas cidades está ótima. Apesar de a in- dústria atrofiar, seus donos apenas res- mungam, pois nunca foi tão fácil ganhar dinheiro por meio da financeirização do patrimônio pessoal. Para eles, os bancos movem para cá e para lá montanhas de ativos por meio do computador, garan- tindo sempre bons retornos ao capital que nada produziu. Ou seja, aos donos do capital, agrário ou urbano, o mundo se parece com o sonho liberal: os tra- balhadores estão acuados, com medo e desorganizados, vestindo como seus os interesses do patrão; domina o indivi- dualismo conservador; e, como no sécu- lo XIX, há “libertinagem” para permitir quase qualquer negócio em quase todo lugar. Em outras palavras, o poder e o di- nheiro atuam tão desembaraçadamente como um século atrás. O Brasil como um todo nacional, por sua vez, por mais de quarenta anos vi- veu poucos anos de crescimento e oti- mismo, restritos à primeira década do século XXI. Naquele momento, o Estado brasileiro parecia recuperar o elã que, na metade do século XX, o fez transfor- cúmplices da acumulação primitiva de capital e ignoram as consequências do que está longe de suas salas acarpeta- das e com ar-condicionado. Em poucas palavras, o capitalismo no Brasil, desde a década de 1980, subs- tituiu o desenvolvimento econômico, isto é, a transformação progressiva da economia por meio da incorporação de tecnologias modernas, da ampliação e diversificação da capacidade produti- va e da geração de empregos de quali- dade por: a) corte simples de custo na produção industrial; b) financeirização da riqueza; e c) aumento, a qualquer preço, da produção agrícola voltada à exportação. Isso excluiu a maioria do povo brasileiro dos planos para o futu- ro. Tratou-se apenas de extrair riqueza da terra e acumular fortunas na parte de cima da pirâmide social, explorando sem meias medidas: o tesouro natural (que pertence a todos), a mão de obra abundante e as brechas legais para lu- crar em todas as pontas. Naturalmente, no Brasil afundado na pobreza de seu povo, o tecido social da nação esgar- çou-se ao limite com o agravamento imoral da desigualdade. O resultado é visível aos brasileiros: a violência urbana, seja do Estado ou de criminosos, atingiu níveis nunca vistos; parte significativa da população ainda vive sem endereço ou serviços públicos regulares de água e luz; 29% dos brasileiros sofrem com analfabe- tismo funcional; a indústria continua a perder espaço no PIB, representan- do 10,8% da riqueza gerada no país; o salário mínimo alcançou pífios R$ 1.412 e, mesmo assim, 60% dos brasi- leiros vivem com esse valor ou menos por mês; e a produtividade do traba- lho cresceu 0,8%ao ano entre 1995 e 2023, um número abaixo da média da OCDE. Ao mesmo tempo, os 5% mais ricos concentram quase 40% da renda nacional; a elisão fiscal reduz, neste momento, a tributação do lucro das empresas em 50%; os bancos alcança- ram lucro líquido de R$ 145 bilhões em 2023; as exportações do agronegócio chegaram a US$ 166,55 bilhões no ano passado; e, por fim, as queimadas se multiplicaram, confirmando a fragili- dade institucional do país para conter abusos da expansão agropecuária em regiões proibidas. mar uma economia agrária em um país industrial complexo. Durou pouco. A grande mídia, o mercado financeiro, o agronegócio exportador e outros inte- resses definiram que desenvolvimento é anátema e interditaram o debate. Para eles, o que importa é apenas o equilíbrio fiscal e a estabilidade de preços. Mesmo isso, porém, é falso. O que apregoam à exaustão do pensamento liberal e neo- liberal é fingido, pois sabem que: a) pelo menos entre 2001 e 2023, a relação consumo do governo sobre PIB mostra tendência de queda; b) aceitam felizes a escalada dos juros promovida pelo Ban- co Central, ignorando que cada ponto percentual a mais custa, anualmente, em torno de R$ 40 bilhões ao erário!; e c) apesar disso, aplaudem todas as mudan- ças legais que implicam isenção fiscal dada ao capital, em detrimento do resto da sociedade. Um exemplo deve bastar. Tome-se a seguridade social.1 O especia- lista em contas públicas Flávio Tonelli2 mostrou que, entre 2005 e 2023, as re- ceitas da seguridade social caíram de 13,33% do PIB para 10,93%. No sentido contrário, as despesas aumentaram de 10,01% para 13,42% no mesmo período. Ali, a gritaria contra o excesso de direitos no Brasil e o orçamento deficitário do governo, marcadamente se os recursos são destinados aos mais pobres, cresceu em vozes e volume, desenhando cená- rios de descontrole e retorno da inflação nos jornais. Nenhum desses economis- tas, capitalistas ou jornalistas, contudo, revelou, por ignorância ou má-fé, que o volume de renúncias fiscais feitas ex- clusivamente sobre a receita da própria seguridade social saiu de 0,99% do PIB, em 2005, e alcançou incríveis 2,53%, em 2023. Isto é, cresceu mais de 2,5 vezes, explicando a queda relativa das recei- tas e o déficit observado. Fazendo uma conta simples, fica claro que a segurida- de social seria superavitária se benesses fiscais não fossem dadas àqueles que todo dia vociferam contra o déficit orça- mentário.3 Em resumo, o conflito entre déficit e renúncias fiscais, que se repete em outras partes do Orçamento Público Federal, retirou e retira do governo re- cursos imprescindíveis para que ofereça serviços públicos de qualidade e isentou e isenta de impostos setores escolhidos em prejuízo de toda a população. Assim, sem dinheiro e sem poder para escalar a dívida pública, o governo perdeu in- clusive sua capacidade de investimen- to e, portanto, seu poder de induzir o crescimento econômico, como fazem os governos dos Estados Unidos, da Fran- ça, da Alemanha, da China e de todos os países ricos. Nesse cenário e vivendo a aflição de todos os dias, o cidadão comum já não se sente pertencendo a um coletivo. Percebe-se, equivocamente, sozinho e, individualmente, se lança à sôfrega busca pelo status e pelo enriquecimen- to, pois lhe sobrou apenas essa distin- ção nos dias que correm. A única régua para o sucesso. O pior é que, dentro desse cotidiano de “cada um por si”, ensinamos os mais jovens a acreditar e, mais ainda, a confirmar a mesma lógi- ca aplaudida pela geração que ocupa, hoje, a liderança empresarial e pública do país. Daí, atualmente, nação, povo e Brasil tornaram-se palavras sensabor, quase burlescas, em discursos sem- pre histriônicos que refletem apenas a crescente distância entre cada um e entre todos e o país. Por isso, a barbárie tomou vulto. A busca sem peias por lucro rápido e acu- mulação de riqueza esfumou os limites éticos dos operadores dos interesses do capital. Funcionários, do CEO ao trai- nee, são empurrados a caçar lugares, gentes, brechas e transações especula- tivas capazes de fornecer lucro instan- tâneo que agrade acionistas ávidos por retorno e financistas interessados ape- nas na valorização do valor. As ativida- des capitalistas ganharam, diante disso, uma velocidade mínima exigida, um patamar urgente de lucros que deve ser atingido por aqueles que dirigem negó- cios, mesmo que seus atos ofendam a ética e o bem-estar coletivo. No campo, por exemplo, intimida- -se, ocupa-se, queima-se e acumula-se primitivamente o que nunca deve- ria ser capital, abrindo-se fronteiras agroexportadoras em áreas de preser- vação, reservas florestais e territórios de povos originários. É preciso dizer, porém, que a extinção de nascentes, o fim de matas nativas, a poluição com agrotóxicos de rios e solos não são culpa somente do latifundiário: seus financiadores urbanos e os agrointer- mediários globais sediados em São Paulo, Nova York, Xangai e Londres são 11DEZEMBRO 2024 Le Monde Diplomatique Brasil UMA NOVA ENCRUZILHADA DE SUA HISTÓRIA À vista disso, o filme a que se assiste con- ta a história de um modelo de desenvol- vimento econômico que se esgotou nos anos 1980 e que, depois, caminhou para a estagnação, a desregulação e, final- mente, o descontrole, redundando em um insólito “individualismo” patrocina- do por quem extrai lucros e acumula ca- pital com o despedaçamento da socie- dade. Esse barbarismo que cresce a cada dia, apesar dos esforços das forças polí- ticas progressistas, não é um acidente: é a colheita do cultivo neoliberal, regado todos os dias – sem coincidência, des- de os anos 1980 – pelas mãos da gran- de mídia, pelas escolas de negócios, por políticos interessados em ganhos parti- culares e empresários ávidos por lucros rápidos, todos completamente ineptos para olhar o longo prazo. Essa brutalida- de crescente, que se quer normalizar to- dos os dias no noticiário da TV, trouxe o país, em 2024, a uma nova encruzilhada de sua história. Um daqueles momentos importantes em que se decide entre de- senvolvimento e barbárie. O momento atual tem poucos para- lelos na história do Brasil. Apenas nos períodos Getúlio Vargas, Juscelino Ku- bitschek e Fernando Henrique Cardoso viveu-se dilema semelhante. Nesses três governos, o Brasil poderia ter escolhido diferentes caminhos e certamente não seria o que é hoje. No primeiro, o presi- dente poderia ter escolhido o agronegó- cio e abandonado a rara oportunidade de industrializar o país. Nos anos JK, com a indústria já assumindo a lideran- ça da economia brasileira, o Plano de Metas poderia não ter existido, investi- mentos importantes não repercutiriam a longo prazo e o setor automotivo não teria sido instalado. Já com FHC, após o vitorioso controle da inflação, o governo federal poderia ter escolhido desenvol- ver o Brasil, em vez de destruir a indús- tria nacional e abraçar o neoliberalismo, acelerando os passos em direção à bar- bárie que cresceu até transformar-se no descomunal horror moderno. Hoje, por um lado, há quem defen- da permanecer na trilha de destruição da nação, optando pelo definitivo fim da indústria e da tecnologia nacional, da universidade, da escola e da saú- de públicas em favor do agronegócio subsidiado, dono de diminuta cadeia produtiva e poupador de mão de obra. É preciso que se diga desde já que, se essa for a escolha, os serviços, o grande empregador nacional, por depender di- retamente do desempenho econômico do país, também minguará na estreiteza da renda gerada pela exportação de uns poucos bens agrícolas e minerais, cujos preços flutuam ao sabor dos interesses dos países ricos. Do outro lado, há a escolha do de- senvolvimento para vencer o medo. E há muito o que fazer por aqui. Um dos mais importantes economistas vivos, o Prêmio Nobel Amartya Sen, definiu o desenvolvimento como a possibilidade, ou melhor, a liberdade de os indivíduos verdadeiramente