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Breve panorama da jurisprudência brasileira a respeito da boa-fé objetiva no seu desdobramento da supressio

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<p>DOUTRINA NACIONAL 29 2 1. Introdução 2. Delineamentos doutrinários 3. A juris- prudência brasileira recente sobre a supressio: 3.1 Requisitos e pres- Breve panorama da jurisprudência supostos gerais; 3.2 Princípios correlatos; 3.3 Algumas das principais hipóteses de aplicação da supressio: 3.3.1 Cobrança de valores pa- brasileira a respeito da boa-fé objetiva gos de forma atrasada ou distinta do convencionado sem a oposição do 3.3.2 Interrupção do serviço ou aplicação de penalidades no seu desdobramento da supressio em hipóteses de tolerância à inadimplência ou ao descumprimento contratual da outra parte; 3.3.3 Possibilidade de requerer a resolução do contrato por descumprimentos contratuais tolerados ao longo do tempo; 3.3.4 Situações de fato consolidadas entre condôminos mes- mo contrariamente à convenção do condomínio; 3.3.5 Omissão no ANA DE OLIVEIRA FRAZÃO exercício do direito de pleitear ou executar alimentos; 3.3.6 Outras hipóteses 4. Considerações finais. Doutora em Direito pela PUC-SP. Professora-adjunta de Direito Civil e Comercial da UnB. Diretora da Faculdade de Direito da UnB. 1. INTRODUÇÃO ÁREA DO Civil RESUMO: O presente artigo oferece uma ABSTRACT The present article offers a É que a boa-fé objetiva é hoje um dos princípios basilares análise panorâmica da jurisprudência panoramic analysis of the Brazilian case das relações contratuais, apresentando, dentre suas relevantes funções, brasileira a respeito da boa-fé objetiva no law about good-faith and supressio. On a de limitação ao exercício dos direitos subjetivos. Sob essa perspectiva, seu desdobramento da supressio. Partin- the premise that the densification of the do da premissa de que densificação da supressio depends essencially on the supressio depende essencialmente das circunstances of real cases, it is cardinal circunstâncias do caso concreto, é pri- to check the meaning the Brazilian courts 1. De acordo com Reinhard Zimmermann e Simon Whittaker (Good Faith in mordial que se verifique sentido que os are giving to it in the fields of Private European Contract Law. New York: Cambridge University Press, p. tribunais brasileiros estão atribuindo Law. For this purpose, the article brings, 678), da em seu sentido mais geral, é potencialmente no âmbito das relações de Direito Pri- initially, a theoretical explanation for relacionado com todas ou pelo menos com a maioria das doutrinas do atual vado. Para tal intento, artigo traz, ini- the principle and, afterwards, it explores direito dos contratos. No que se refere as principais funções do cialmente, uma explicação teórica sobre the most representative decisions of the destacam os autores (op. cit., p. 24) a de limitação ao exercício de direitos princípio para, em seguida, explorar Superior Court of Justice and the State acórdãos representativos da jurisprudên- subjetivos. No direito é na doutrina, a referência a tal Courts that can clarify the requirements cia mais recente do e dos Tribunais de for the application of the supressio, função dentre as três mais importantes do princípio, como se observa pela Justiça estaduais que possam esclarecer its conexion with other consequences descrição de Gustavo Tepedino e outros Civil interpretado conforme os requisitos de aplicação da supressio, of good-faith and the most regular a Constituição da Republica, Rio de Janeiro: Renovar, 2006. vol. 2. p. 17): "A sua conexão com os demais desdobra- hipotheses of its use. fim de contornar a excessiva amplitude do princípio, a doutrina procura dar mentos da boa-fé e as hipóteses mais conteúdo mais preciso à boa-fé objetiva por meio da identificação de três muns da sua utilização. funções essenciais: i) cânon ii) norma de criação Boa-fé objetiva Supres- KEYWORDS: Good-faith-Supressio-Requi de deveres jurídicos; e iii) norma de limitação ao exercício dos direitos sio Requisitos e principais hipóteses de rements for the application and hipotheses Essa função da boa-fé objetiva é também aceita pela aplicação Jurisprudência brasileira. of use Brazilian courts' jurisprudência do aqui exemplificada pela ementa do REsp 953389 (rel. Min. Nancy Andrighi, DJe 15.03.2010): "O princípio da boa-fé objetiva exerce três funções: (i) a de regra de (ii) a de fonte de direitos e de deveres e (iii) a de limite ao exercício de direitos Pertencem a este terceiro grupo a teoria do adimplemento substancial das obrigações e a teoria dos atos próprios ('tu vedação ao compor- tamento contraditório;</p><p>30 REVISTA DE DIREITO PRIVADO 2010 RDPRIV 44 DOUTRINA NACIONAL 31 estaca-se a importância da que está relacionada à impossibili- consequência da boa-fé precisa ser utilizada com cautela e dade do exercício de direitos ou prerrogativas contratuais em decorrência É no contexto dessas preocupações que se situa o presente artigo, do transcurso do tempo associado à cujo objetivo é fazer uma breve análise da jurisprudência Se a objetiva já é assunto que desperta muitas brasileira a respeito do assunto, para o fim de concluir se a supressio vem a supressio é um dos seus desdobramentos mais polêmicos, pois, além da sendo aplicada adequadamente. Partindo da premissa de que densifi- impossibilidade de uma precisa delimitação teórica dos seus requisitos cação da supressio depende essencialmente das circunstâncias do caso de aplicação,5 há o receio de que uma utilização excessivamente flexível é primordial que se verifique o sentido que os tribunais brasi- do princípio possa gerar resultados indesejáveis do ponto de vista da leiros estão lhe atribuindo no âmbito das relações de Direito autonomia privada, da segurança jurídica e do equilíbrio Para tal intento, buscar-se-a oferecer, inicialmente, uma explicação Não é sem razão que a supressio é vista com ressalvas pelo direito teórica sobre o princípio para, em seguida, explorar represen- no qual se encontram advertências no sentido de que tal tativos da jurisprudência mais recente do STJ e dos Tribunais de Justiça que possam esclarecer os requisitos de aplicação da supressio, sua conexão com os demais desdobramentos da boa-fé e as 2. A importância da supressio é salientada por Reinhard Zimmermann e Simon mais comuns da sua utilização. Whittaker (op. cit., p. 31-32 e 676), ao afirmarem que, assim como ocorreu com alguns outros subprincípios da boa-fé objetiva, a supressio (Verwirkung) ganhou "vida independente", sendo hoje considerada doutrina 3. A perda de direitos está mais relacionada à compreensão da supressio a partir decorrência do lapso temporal, como é o caso da Grécia e Espanha, mas do instituto alemão da Verwirkung. Outras definições da supressio, que serão de forma mais restritiva, até mesmo em razão do receio de que o princípio abordadas posteriormente, não são tão drásticas, mencionando apenas a acabe por comprometer os prazos prescricionais. Na Áustria, a questão é paralisação do exercício do direito ou a preclusão. analisada como forma de renuncia tácita por parte do credor. A França tem 4. Trias e Morales Diez-Picazo (Los principios del derecho europeo de a abordagem mais de forma que apenas evidências de renúncia Madri: Civitas, 2002. p. 157) concluem que O da boa-fé é um dos por parte do credor poderiam levar à perda de direitos, exigindo as cortes pontos que mais desperta divergência entre os direitos europeus continentais que o credor expresse seu inequívoco desejo nesse sentido. A Itália também e os direitos do common law. Já Reinhard Zimmermann e Simon Whittaker teria resistência à supressio, sob o argumento de que a mera omissão do (op. cit., 30) emitem seguinte diagnóstico: "Nothing has, far, been credor não levaria necessariamente à conclusão de que ele teria desistido do said about what good faith actually The reason for this is that not seu direito. much can be and what can be said is not very helpful for deciding 8. Antonio Menezes Cordeiro (op. cit., p. 818-819) afirma que a concrete cases." faz uma aplicação parcimoniosa do remédio, o que faz com 5. Em uma das mais clássicas obras sobre o tema, Antonio Menezes Cordeiro que seja visto como extraordinário ou excepcional. (Da boa-fé no direito civil, Coimbra: Almedina, p. 824) adverte que, 9. Reinhard Zimmermann e Simon Whittaker (op. cit., 516) insistem que por mais que a doutrina se esforce para a enunciação dos requisitos de tempo necessário para a supressio (Verwirkung) precisa ser relativamente aplicação da supressio, "algum ou alguns destes requisitos podem longo, mas que tal requisito deve ser determinado de acordo com as circuns- desde que os restantes assumam uma intensidade tal que supram a sua tâncias do caso concreto, levando em consideração se a parte beneficiada ausência: integram um sistema merece a referida proteção. concluírem (op. cit., p. 530) que tempo 6. Segundo Reinhard Zimmermann e Simon Whittaker (op. cit., p. a de inação do credor é um fator importante a ser considerado, mas não é utilização da boa-fé objetiva insere-se no contexto de encontrar um balance- decisivo em si mesmo. amento entre a autonomia das partes e considerações mais amplas de justiça 10. Faz-se tal ressalva, pois a supressio vem sendo utilizada igualmente em outras e segurança jurídica. searas, tais como Processo Civil e Direito Administrativo, preocupando- 7. Reinhard Zimmermann e Simon Whittaker (op. cit., p. 517-531) fazem se a presente análise apenas com Direito Privado. um interessante balanço do direito europeu sobre a questão, mostrando 11. A pesquisa jurisprudencial foi realizada em outubro de 2010, utilizando que, além da Alemanha, alguns países aceitam a perda de direitos em banco de dados do STJ e de todos os Tribunais de Justiça dos</p><p>32 REVISTA DE DIREITO PRIVADO 2010 RDPRIV 44 DOUTRINA NACIONAL 33 2. DOUTRINÁRIOS Característica fundamental da supressio é decurso do tempo, visto Do ponto de vista doutrinário, a supressio é vista como forma de aqui como fator de estabilização de expectativas de comportamentos e de geração de situações legítimas de confiança que devem ser perda de direitos ou ao menos como causa de impedimento do exercício de direitos e faculdades contratuais ou de preclusão em razão da boa- É a proeminência do tempo que diferencia a de outros subprin- estando usualmente associada ao instituto alemão da e cípios decorrentes da boa-fé, tais como o venire contra factum proprium. à inatividade injustificada (sitting on one's A esse respeito, não se pode negar que a supressio está também A doutrina costuma à surrectio, que diz respeito ao surgi- relacionada, assim como o venire, à proibição de comportamentos mento de direitos ou faculdades, na medida em que a supressio experi- a essência deste último é exatamente a ideia de que mentada por uma das partes da relação obrigacional pode ser vista como ninguém pode agir contrariamente ao seu comportamento anterior, pois uma consequência da invocada em favor da se exige das partes padrões mínimos de coerência entre suas A principal diferença é que, no caso da supressio, o tempo é que constitui o fato próprio a ensejar a extinção de direitos ou a impossibi- lidade de seu A existência de lapso temporal significativo é, 12. Antonio Menezes Cordeiro (op. cit., p. 797) define a supressio como "a pois, fundamental para a enquanto que venire se concentra situação do direito que, não tendo sido, em certas exercido durante um determinado lapso de tempo, não possa mais por, de essencialmente na sucessão de condutas, ainda que entre elas não haja outra forma, contrariar a boa-fé." De acordo com Emilio Betti (Teoria geral um tempo longo ou considerado das obrigações. Trad. Francisco José Galvão Bruno, Campinas: De qualquer eventuais distinções entre os princípios não p. "a é contemplada como forma de evitar um abuso podem ser ultravalorizadas. Tanto é assim que muitos consideram a de direito ou como forma de prevenir uma atuação contrária aos fatos realizados, criando preclusões segundo uma exigência de coerência entre o comportamento antecedente e o subsequente." Na doutrina 15. Reinhard Zimmermann e Simon Whittaker (op. cit., p 516) ensinam que Judith Martins-Costa (A ilicitude derivada do exercício contraditório de um o tempo necessário para a Verwirkung precisa ser relativamente longo, mas direito: renascer do venire contra factum proprium, RF que tal requisito não é devendo ser compreendido no contexto das 2004) refere-se à "paralisação do exercício do direito" demais circunstâncias do caso concreto, incluindo a consideração sobre se 13. É que se observa pela lição de Reinhard Zimmermann e Simon Whittaker a parte beneficiada merece a referida proteção. Dai a conclusão dos autores (op. cit., p. 25): "Lapse of time may also lead to a loss of right even before cit. p. 530), a partir do exame das peculiaridades dos diferentes direitos the relevant period of prescription has expired (Verwirkung)." de que a mera inatividade do credor não leva, por si só, à perda 14. Antonio Menezes Cordeiro (op. cit, p. 821) mostra as evidentes conexões dos Antonio Menezes Cordeiro cit., p. 810-811) chega a entre ambos os principios na medida em que a supressio ou possibilita o mencionar, dentre os requisitos da fator relativo aos surgimento de direitos novos em sentido estrito) ou a recuperação objetivos de que não haverá mais embora reconheça que se trate de uma liberdade antes perdida (surrection em sentido amplo). Dai a lição de pouco explicitado." do autor (op. cit., p. 823) de que "a supressio desenha-se como uma 16. De acordo com Anderson Schreiber (A de comportamento contra- consequência da por ampla, de situação incompatível Tutela da confiança e venire contra factum proprium, Rio de Janeiro: com a por outro lado, apaga-se em definitivo, o tempo, como Renovar, 2007. p. os pressupostos para aplicação do venire são: (a) requisito Logo depois, afirma (idem), a partir da lição de uma conduta inicial (o factum (b) a legítima confiança da outra que "na supressio, não está em jogo a extinção gratuita do direito do parte na conservação do sentido objetivo desta primeira conduta; (c) um titular não exercente, mas beneficio concedido à Dai comportamento contraditório e violador da confiança e (d) um dano ou um porque (op. cit., p. 824). "a supressio é, apenas, subproduto da potencial de dano dai na esfera do beneficiário, seja de um espaço de liberdade onde antes havia 17. A respeito do esclarece Anderson Schreiber (op. p. 150) que seja de um direito incompatível com o do titular que "a extensão do lapso temporal que separa dos dois comportamentos é leva à conclusão de que verdadeiro em jogo é o da tida como desde que o comportamento contraditório venha entendida em sentido amplo." posteriormente ao comportamento inicial."</p><p>34 REVISTA DE DIREITO PRIVADO 2010 RDPRIV 44 DOUTRINA NACIONAL 35 supressio como uma modalidade de venire contra factum proprium, ainda Por essa razão, uma discussão subjacente à supressio é a de saber o que este fato próprio consista em um comportamento omissivo desta- grau em que estaria vinculada à finalidade de recomposição do equilíbrio cado pelo transcurso do tempo. 18 contratual entre as partes. Sob essa dimensão, a sua aplicação estaria Até por isso, a supressio não pode ser vista como uma mera conse- conectada a outros importantes, tais como o da proporciona- quência do tempo; é, sobretudo, uma resposta do ordenamento jurídico lidade e do entre as prestações para a deslealdade ou a inatividade abusiva do credor, 19 funcionando ao Todavia, apesar de todas essas considerações, não se pode subes- mesmo tempo como forma de proteção daquele que adquiriu a situação timar a importância do fator tempo na matéria, o que faz com que a de confiança e, consequentemente, como verdadeiro mecanismo de supressio deva ser interpretada em conformidade com as regras da pres- implementação de justiça do caso crição e decadência, seja para afastar a sua aplicação quando verificadas as causas voluntárias interruptivas da prescrição, seja para realçar a vocação do instituto especialmente para os casos de longos prazos pres- 18. Reinhard Zimmermann e Simon Whittaker (op. cit., p. 516) referem-se à cricionais. perda do direito decorrente da Verwirkung como decorrente de um abuso de direito na específica forma de venire contra factum proprium. Na doutrina brasileira, Anderson Schreiber (op. cit., p. 188-191) reconhece a conexão entre a Verwirkung e considerando a primeira como uma subespécie da segunda, em que factum proprium decorre de um compor- tamento inicial 21. Antonio Menezes Cordeiro (op. cit., p. ao explicar a origem da 19. Por essa razão, Judith Martins-Costa (op. cit., p. 109-129) refere-se à aplicação jurisprudencial da supressio, como forma de "contrapeso" ao "paralisação do exercício do mostra a associação entre a supressio e reconhecimento do direito à correção monetária, mostra a preocupação dos instituto alemão da Verwirkung, "criação jurisprudencial que abrange várias juízes em sopesar os interesses das partes, a fim de manter o equilíbrio hipóteses, mas cujo efeito geral consiste na paralisação do exercício de um contratual ao longo do tempo. direito como meio sancionatório da deslealdade e da torpeza." Markesinis, 22. Reinhard Zimmermann e Simon Whittaker (op. cit., p. 653 e 659 e 676) Unberath e Johnston (The German Law of A Comparative mostram, inclusive, que é muito comum, no direito europeu, que a boa- Portland: Hart Publishing, 2006. p. 123) dão a seguinte definição de fé objetiva seja utilizada de forma combinada com outros principios de Verwirkung, que bem demonstra a associação entre a perda do direito e a interpretação, assim como os relacionados a abuso de direito, razoabilidade, negligência do credor: "A similar argument applies in a related category of culpa in contrahendo, obrigações de informação, lesão, Verwirkung, força cases, where the lapse of time accompanied by the creation of an impression maior, exception venire, dentre outros. Seria essa multiplicidade de that the creditor waives his right actually leads to the premature extinction abordagens que permitiria haver um grau considerável de harmonia entre of the right through laches (Verwirkung)." os resultados da aplicação do princípio entre os diversos países, apesar de 20. Para Antonio Menezes Cordeiro (op. cit., p. 815), uma das discussões todas as diferenças. importantes sobre a supressio é precisamente a de saber se o seu foco é 23. Mais uma vez, recorre-se à lição de Antonio Menezes Cordeiro (op. cit., p. na conduta daquele que perde seus direitos, com uma pretensão genera- 812): "A supressio é prejudicada pela ocorrência dos factores voluntários lizante e normativa, ou na situação do com uma pretensão de que interrompem ou suspendem o decurso dos prazos de prescrição ou de justiça individualizadora, sendo que a maleabilidade dos prazos apontaria caducidade, uma vez que eles destroem a figuração, por parte do interessado, na segunda Assim esclarece autor (op. cit., p. 820): "Elas devem de que direito não mais seria exercido. No que toca ao seu relacionamento informar uma situação tal que o exercício retardado do direito surja, para a com outros remédios jurídicos, a supressio por fim, apontada como saída contraparte, como injustiça, seja, em sentido distributivo, por lhe infringir extraordinária, insusceptivel de aplicação sempre que a ordem jurídica uma desvantagem desconexa na geral do espaço seja, prescreva qualquer outra solução. Tem, pois, natureza em sentido comutativo, por lhe acarretar um não proporcional ao 24. Segundo Reinhard Zimmermann e Simon Whittaker (op. cit., p. a benefício arrecadado pelo exercente, tendo em conta a distribuição normal perda de direitos em razão do lapso temporal tem significado prático princi- a operar pelo direito implicado. A chave da supressio está, pois, na alteração palmente nas hipóteses de pretensões submetidas a prazos prescricionais registrada na esfera da contraparte, perante o não muito longos.</p><p>36 REVISTA DE DIREITO PRIVADO 2010 RDPRIV 44 DOUTRINA NACIONAL 37 3. A BRASILEIRA RECENTE SOBRE A SUPRESSIO Dai entendimento do TJRS de que "a supressio, como decorrência da somente se caracteriza quando o titular do direito, em razão de 3.1 Requisitos e pressupostos gerais inércia, abstém-se de seu não mais podendo porque Do ponto de vista conceitual, observa-se certa oscilação na juris- gerada a crença na outra parte de que tal direito não será brasileira a respeito da conceituação da supressio. próprio o por sua afastou a supressio em na qual a STJ já a definiu como a supressão da obrigação contratual ou como a inércia do credor não se mostrou assim como exigiu mera perda de desta As mesmas divergências podem ser como pressuposto da sua aplicação a inaceitabilidade da inércia do observadas na jurisprudência dos tribunais de segundo embora TJRJ chegou a exigir, em certo caso, a má-fé do titular do não traga maiores consequências práticas, já que, tanto num caso como direito como requisito da no outro, a supressio impedirá exercício do direito ou o considerará De qualquer forma, os tribunais normalmente analisam com abusivo. cuidado o contexto das Exemplo disso é a aplicação da supressio lapso temporal, como requisito fundamental para a ocorrência em relação a Diante dos aspectos envolvidos, o TJRJ já da supressio, é visto com cautela pela que normalmente considerou que apenas poderia haver supressio, nessa situação, caso faz referência ao tempo longo ou considerado suficiente para que haja houvesse ato do credor que implicasse ao seu assim a limitação ao exercício do Muitos dos casos que serão apre- sentados em seguida dizem respeito a situações que perduraram por de tempo expressivos, superiores a 15 27. TJRS (ApCiv j. 29.07.2009, rel. José Aquino Flores de Apesar da grande variedade de casos e da impossibilidade de Camargo). definições apriorísticas, o exame do fator temporal está normalmente 28. TJDFT (ApCiv 2006.07.1.000538-3, rel. Waldir C. Lopes associado à criação de situação de confiança para a parte contrária ou à falta de razoabilidade da inércia do titular do direito. 29. TJDFT (ApCiv rel. Humberto Adjuto Ulhoa, DJ 10.04.2007). 30. A ementa da TJR] (ApCiv 2008.001.33165 rel. Ronaldo Álvaro Martins, j. 16.12.2009) mostra isso: "(...) Pretensão de aplicação da teoria da supressio. 25. Nesse sentido, o ST] já definiu que "a supressio, regra que se desdobra do Impossibilidade por não comprovada a do A suppressio princípio da boa-fé objetiva, reconhece a perda da de um direito indica situação de não exercício de uma posição jurídica durante um quando este longamente não é exercido ou observado" (REsp certo resultando em que não possa exercer tal situação por atentar rel. Min. Nancy Andrigui, DJe 12.02.2009). no julgamento do contra a Trata-se, assim, da influência do tempo no exercício de um REsp rel. Min. Nancy Andrighi, DJe 15.03.2010), entendeu direito embora diferenciado da prescrição e da em razão do plus Tribunal que "o instituto da supressio indica a possibilidade de se considerar representado pela consideração da boa-fé ou má-fé para a configuração do suprimida uma obrigação contratual, na em que o não exercício do instituto. Não se pode, assim, falar na aplicação da teoria da supressio se não direito pelo gere no devedor a justa expectativa de restou demonstrado nos autos que comportamento da parte tenha sido que esse não exercício se prorrogará no tempo." inadmissível, segundo o princípio da 26. TJSC (ApCiv j. rel. Maria do Rocio Luz 31. Vale ressaltar a ementa da ApCiv rel. Santa já definiu a supressio como a limitação da validade da aplicação Agostinho Teixeira de Almeida Filho, j. 22.09.2010): "Apelação ulterior de um direito, TJRJ (ApCiv 2009.001.17109, j. Ação de cobrança de despesas com Casal separado judicialmente. Carlos Santos de Oliveira) como a "limitação ao exercício de um direito Imóveis que permanecem em Ré que, na contestação, alega subjetivo pelo decurso de prazo sem que mesmo tenha sido exercitado" pequena utilização das salas. de Ofensa ao art. 517 do CPC e TJRS (ApCiv j. rel. Maria Isabel de Azevedo não Preliminar de não conhecimento do recurso rejeitada. como algo que paralisa a pretensão. Já o TJPR (AgIn 0557362-8 Na qualidade de a ré deve arcar com a metade das despesas j. rel. Jurandyr Souza Junior,) já a definiu como o das quotas condominiais e A simples inércia do credor antes de cimento do próprio direito. esgotar-se o prazo prescricional, sem que haja inequivoca demonstração</p><p>38 REVISTA DE DIREITO PRIVADO 2010 RDPRIV 44 DOUTRINA NACIONAL 39 como o TJSP teve a oportunidade de considerar justificada a demora na 3.2 Princípios correlatos cobrança, em razão dos fatores familiares exame da também revela a conexão da supressio Embora nem sempre os tribunais abordem, de forma a com a surrectio, o abuso de e outros desdobramentos da boa-fé questão do equilíbrio contratual como requisito da supressio, a pesquisa objetiva, como é o caso do venire contra factum proprium, em relação ao identificou vários julgados que apresentam a referida preocupação. qual a supressio é comumente vista como ou TJRJ, por exemplo, já teve a oportunidade de afirmar que a nem sempre os tribunais se atentam para o fato de que a supressio é carac- supressio consiste na "limitação ao exercício de um direito subjetivo pelo terizada essencialmente pelo comportamento omissivo que se prolonga decurso de prazo sem que o mesmo tenha sido exercitado, tendo como no tempo, utilizando o princípio mesmo em casos de comportamentos requisitos, do lapso temporal, o desequilíbrio entre benefício comissivos, que melhor se ajustariam ao venire. haurido pelo credor e aquele impingido ao devedor."33 Um exemplo desta afirmação é acórdão do Tribunal de Justiça Em sentido semelhante, TJRS entende que, para a configuração do Rio de Janeiro que utilizou a supressio para afirmar, em de da supressio, "exige-se (a) decurso de prazo sem exercício do direito com empréstimo descontado em folha com valor a menor ao longo de três indícios objetivos de que o direito não mais seria exercido e (b) desequi- anos, que credor não teria direito ao valor repactuado, superior ao pela ação do tempo, entre benefício do credor e o prejuízo do efetivamente Ocorre que, tendo havido ato comissivo do devedor". Dai ter concluído que "não caracteriza conduta contraria à boa-fé o exercício do direito de exigir a restituição de quantia emprestada depois de transcorridos mais de 15 anos se tal não gera desvantagem 36. reconheceu essa associação no REsp 1096639 (STJ, rel. Min. Nancy desproporcional ao devedor em relação ao beneficio do credor". Andrighi, DJe como se observa pelo voto da Relatora: "O art. 187 do CC/2002, ao tratar da definição de ato ilicito, reconhece que a Tambem o TJDF reconhece que "não se aplica à teoria da supressio, violação da boa-fé objetiva pode corresponder ao exercício inadmissível ou que impossibilita o exercício de determinados direitos pelo decurso do abusivo de posições jurídicas. Isto é, a figura do abuso de direito é associada tempo, quando não demonstrados ausência de boa-fé por parte do credor à violação do princípio da boa-fé objetiva nessa função, ao invés de criar e desequilíbrio entre o beneficio e prejuízo suportados pelas partes, em deveres laterais, a boa-fé restringe o exercício de direitos, para que não se razão do lapso temporal decorrido". 35 configure a TJDF reconhece que a teoria do abuso de direito é pilar da supressio ApCiv rel. Romeu Gonzaga Neiva, DJe enquanto que Tribunal de Justiça do Maranhão (TJMA, ApCiv 12812008, rel. Paulo Sérgio Velten Pereira, j. 21.12.2009) considera a supressio como "forma de concretização do venire contra factum proprium, como categoria de abuso de Destaca-se que tal conexão é muito marcante no direito alemão, no qual a Verwirkung da prática de qualquer ato de ao crédito, não tem o condão de é vista dentre as manifestações do abuso de direito (Markesinis, Unberath e caracterizar a supressio. Clima de entre os litigantes que não Johnston, op. cit., p. se concilia com surgimento da expectativa razoável de perdão da Isenção que só poderia ocorrer se a condômina houvesse renunciado à sua 37. É o que entendeu o TJSP no julgamento do Agln 994090454510 (rel. Enio quota parte, conforme lhe autoriza art. 1.316, do CC/2002 Zuliani, j. 30.07.2009) 32. ApCiv 994070361822 (TJSP, rel. Vito Guglielmi, j. 38. É esta a orientação adotada no Recurso 2009.09.1.023225-3 (TJDFT, rel. Arilson Ramos de Araujo, DJe 33. ApCiv 2009.001.17109 rel. Carlos Santos de Oliveira, j. 39. Vale reproduzir o trecho principal da ementa da ApCiv 2009.001.17109 rel. Carlos Santos de Oliveira, j. 19.05.2009): "Ação declaratória 34. ApCiv 70001911684 (TJRS, rel. Maria Isabel de Azevedo Souza, j. cumulada com indenizatória por danos empréstimo com desconto 04.12.2000). em folha. descontos realizados a menor, após repactuação do contrato. (...) 35. ApCiv rel. Nídia Correa Lima, Dje 2 Descontos realizados conforme parcela originalmente contratada ao longo de quase três anos, não comprovando a parte ré ter buscado a autora</p><p>40 REVISTA DE DIREITO PRIVADO 2010 RDPRIV 44 DOUTRINA NACIONAL 41 credor, que efetivamente procedeu ao desconto em valor inferior, trata- do direito do credor de cobrar o preço de que reforça a se de caso de aplicação do venire e não propriamente da supressio. aproximação entre os dois Todavia, apesar das distinções, é inequivoco que a supressio se apro- xima do venire, havendo casos que ensejam a aplicação conjunta dos 3.3 Algumas das principais de aplicação da supressio dois Um exemplo é o acórdão do STJ que tratou de hipótese 3.3.1 Cobrança de valores pagos de forma atrasada ou distinta do de locação de veículos na qual a locatária, embora tenha notificado a convencionado sem a oposição do credor locadora meses antes do término do contrato de que não teria interesse em prorrogá-lo, manteve a utilização de alguns veículos após o término Um terreno para a supressio são os contratos de longa duração do prazo inicialmente acordado. A discussão era a de saber se preço que envolvem pagamentos periodicos, tais como locação, seguros e dos veículos seria contratualmente fixado ou a "tarifa de planos de Paulatinamente, os tribunais brasileiros estão cons- evidentemente superior. truindo entendimento de que o recebimento reiterado e sem oposição, Diante de tais circunstâncias, STJ considerou que haveria, pelo pelo credor, do pagamento de forma distinta do previsto faz surgir no menos em tese, o direito da locadora à cobrança da diferença. Entre- devedor a de que está adimplindo satisfatoriamente a sua tanto, diante do comportamento desta, que não apenas se omitiu de obrigação. manifestar sua intenção nesse propósito, como continuou a emitir São muitos os julgados que confirmam a validade de pagamentos faturas pelo valor originalmente contratado, foi reconhecida a geração feitos de forma distinta à convencionada, desde que sejam realizados da situação de confiança no devedor de que o preço do primeiro contrato por tempo razoável e sem ressalva do Se a mora do devedor seria mantido. foi aceita, reiterada e tacitamente pelo credor durante de tempo Para isso, o STJ aplicou conjuntamente a supressio - omissão do poderá haver a supressio do direito do credor de inscrever credor de cobrar o valor de balcão - e o venire - emissão pelo credor de nome do devedor nos cadastros e mesmo de cobrar juros faturas pelo valor originalmente contratado - para concluir pela perda 41. A ementa salienta os seguintes aspectos principais para o deslinde da questão: "Se o acórdão recorrido contudo, que não houve qualquer manifestação do credor no sentido da sua intenção de exercer tal direito mais do que isso, o credor comporta-se de maneira contraditória, emitindo faturas no valor para devedor, a expectativa da para solução da questão, induzindo a mesma a crer no exaurimento do manutenção do preço contratualmente estabelecido." contrato de empréstimo. Legitima expectativa na manutenção das condições 42. Como exemplos, podem ser citados a ApCiv 70036846012 rel. inicialmente Boa-fé objetiva. Teorias da Supressio e da Dorval Marques, j. a ApCiv 2009.001.65801 que se aplicam ao A primeira, consistente na limitação ao exercício de Miguel j. a ApCiv 2008.001.56381 Marco um direito subjetivo pelo decurso de prazo sem que mesmo tenha sido Aurelio Fores, j. 10.03.2009), a ApCiv 994060176798 (TJSP, rel. Francisco exercitado, tendo como requisitos, além do lapso temporal, o desequilíbrio Loureiro, registro de 07.02.2007) e a ApCiv 994000723563 (TJSP, rel. Luis entre o benefício haurido pelo credor e aquele impingido ao devedor. Eduardo registro de 21.10.2005). segundo, consistente no exercício continuado de uma situação jurídica 43. Aementa da ApCiv 2009.001.61241 rel. Azevedo Pinto, 02.12.2009) mantida ao arrepio do convencionado ou do ordenamento criando assim afirma: "Conforme se observa dos documentos de 14 e nova fonte de direito subjetivo, estabilizada para futuro. Declaração de tais parcelas foram pagas com atraso e com juros, sem que o Banco fizesse inexistência da dívida referente aos contratos entabulados Não se qualquer a esse respeito. Procedendo dessa forma, fez surgir ignora que voto do relator faz menção a inércia do credor em consignar o fenômeno da (que é modalidade aquisitiva de direito subjetivo, corretamente em folha salarial as parcelas do Todavia, no caso formado em razão de comportamento continuado) a garantir a manutenção concreto, houve o ato comissivo de consignar valor inferior. de ajuste tacitamente convencionado, na medida em que a situação criada 40. REsp 953389 rel. Min. Nancy Andrighi, DJe 15.03.2010). ao arrepio da cláusula contratual foi aceita pela consumidora, e gerou</p><p>42 REVISTA DE DIREITO PRIVADO 2010 - RDPRIV 44 DOUTRINA NACIONAL 43 ou cláusulas Tal entendimento se aplica inclusive ação é considerada um exemplo clássico de supressio também no direito aos contratos de Ainda sobre locação, intessante de supressio é a relativa a mesmo raciocinio pode ser aplicado a outros tipos de contrato, alugueis pagos em valor inferior ao convencionado. TJRJ já entendeu como é o caso de alienação fiduciária de TJRS apresenta que a aceitação, sem oposição do locador, de valor de aluguel inferior ao julgado segundo o qual os pagamentos periódicos realizados durante 36 ajustado implica a supressio do direito de exigir as diferenças, bem como meses, ainda que a menor, implicam a quitação do devedor e a supressio de requerer o despejo do locatário que, em face da correspon- do direito da administradora de cobrar diferenças ou de não liberar o dente, passa a ter o direito de continuar pagando os alugueis no valor veículo. tacitamente Em sentido o TJSP decidiu que não cabe o despejo por 3.3.2 Interrupção do serviço ou aplicação de penalidades em falta de pagamento sob a alegação de que os alugueis não foram reajus- de tolerância à inadimplência ou ao descumprimento tados de acordo com índice previsto se o locador aceitou, por nove contratual da outra parte anos, pagamento em valor É interessante notar que tal situ- Pelo mesmo já exposto no item anterior, caso os paga- mentos atrasados tenham sido recebidos de forma reiterada e sem oposição pelo credor, não pode ele se recusar a prestar o serviço ou nela a certeza de que poderia pagar alguns dias após vencimento valor pretender rescindir o contrato sob argumento da inadimplência do avençado com os juros." 44. É que foi decidido na ApCiv 70033659590 (TJRS, Pedro Celso Dal Pra, 25.02.2010). 45. No julgamento do AgIn 991080588358 (TJSP, rel. Moura Ribeiro, j. utilizado durante nove anos. Inadmissibilidade. Principio da supressio, o tribunal entendeu que pequenos atrasos aceitos reitera- fundada na boa-fé objetiva. Proibição de venire contra factum proprium. damente pelo credor não configuram inadimplemento apto a fazer incidir Decisão reformada. Recurso provido. "Ainda que a avença escrita contenha a cláusula penal. Por esse mesmo motivo, foi afastada a multa na ApCiv previsão de uma determinada obrigação, se as partes cumprem o ajuste ao 1109661009 (TJSP, rel. Hamid Charaf Bdine j. 25.02.2008). longo dos anos de modo diverso daquele estabelecido originariamente, 46. Destaca-se a ementa da ApCiv 2009.001.50478 rel. Alexandre caracteriza-se o instituto da supressio, sendo vedado a um dos contratantes Câmara, j. 12.01.2010): "Direito Demanda de consignação em alterar seu comportamento repentinamente, sob pena de restar configurado pagamento. Contrato de locação. Aluguel que, durante 24 meses, foi pago Venire contra factum com atraso sem cobrança de acréscimo em razão da mora. 49. É que ensinam Reinhard Zimmermann e Simon Whittaker (op. cit., p. 515- objetiva. Legítima confiança do locatário de que poderia continuar a pagar 531), mostrando que vários países europeus tenderiam a acolher a solução com atraso sem qualquer tipo de multa, juros ou Supressio em favor da perda do direito do locador de exigir o valor inicialmente e surrectio. Recusa injustificada em receber aluguel atrasado sem os contratado, ainda que, em muitos casos, utilizando-se de princípios acréscimos da mora. Direito do locatário de pagar sem tais acréscimos." correlatos à boa-fé objetiva. 47. A ementa da ApCiv 2009.001.17714 rel. Ronaldo Álvaro 50. Vale reproduzir trecho da ementa do Recurso Civel 71001586668 (TJRS, j. 04.09.2009) é clara no sentido de que "a situação criada ao arrepio de rel. Ricardo Torres Hermann, j. 15.05.2008): "Tendo o autor pago rigoro- cláusula contratual livremente convencionada - pela qual a locadora aceita, samente as parcelas do consórcio durante os 36 meses do grupo, não pode por certo lapso de tempo, aluguel a preço inferior expressamente a administradora, ao final, negar-lhe a liberação da alienação fiduciária ajustado cria, luz do Direito Civil moderno, novo direito subjetivo, a que recaía sobre veículo adquirido com a carta de crédito. Isso estabilizar situação de fato já consolidada, em prestígio ao princípio da boa- com os pagamentos realizados, criou-se ao autor a legítima expectativa de contratual." estar adquirindo parceladamente veículo e quitando sua obrigação com 48. Destaca-se a ementa do Agln 990100319868 rel. Andreatta Rizzo, pagamento da parcela. Ao mesmo tempo, em contrapartida, a inércia j. 12.05.2010): "Locação de Despejo por falta de da ré fez desaparecer seu direito de cobrar valor pago a menor. Aplicação Aplicação do de reajuste de aluguéis previsto no mas não do princípio da boa-fé objetiva e das teorias da surrection e supressio"</p><p>44 REVISTA DE DIREITO PRIVADO 2010 - RDPRIV 44 DOUTRINA NACIONAL 45 Tal solução impõe-se, com maior razão, em contratos prote- TJSP tem orientação segundo a qual o prestador não gidos pelo Código de Defesa do Consumidor, como é caso dos planos pode interromper o serviço sob alegação de descumprimento contratual de que já foi salientado pelo da outra parte, que vinha sendo tolerado por tempo No que diz respeito à supressio do direito de interromper forneci- Já no que diz respeito à supressio da utilização das faculdades mento do serviço, depois de grande tolerância do prestador em relação sancionatórias, o TJRS tem julgado referente à situação de estudante à inadimplência do devedor, há acordão do TJR] que considerou que a que, embora estivesse devendo 30 mensalidades, assistiu regularmente interrupção do serviço apenas seria adequada em relação a débito recente, às aulas e fez todas as provas durante curso, caso em que se entendeu cujo pagamento estivesse ao alcance do devedor, mas não poderia ser que a escola não poderia impedir que ele realizasse o exame A utilizada para a cobrança de valores omissão em tomar providências diante das reiteradas inadimplências acabou por levar à supressio da penalidade maior, que seria o impedi- mento à conclusão do curso. 51. A necessidade da prestação do serviço de plano de assistência nessa hipótese foi prestigiada na ApCiv 70024338758 rel. Odone Por fundamentos semelhantes, o TJSP considerou que a tolerância Sanguiné, j. 29.10.2008). Outro acórdão interessante sobre o tema é o da de uma das partes ao descumprimento contratual da outra não pode ApCiv 2009.001.63963 (TJRJ, rel. Edson Vasconcelos, j. 11.11.2009), em ensejar a cobrança de penalidades apenas no momento da resolução do que o tribunal entendeu que, em se tratando de contrato de seguro, "os pagamentos em atraso de diversas parcelas não podem ser considerados aptos a provocar a extinção do contrato, pois a seguradora anuiu com a conduta da autora ao receber as parcelas, típico exemplo de ocorrência do da que seria, no caso, a continuação de situações impagas - se e na medida em que débito seja recente, e seu pagamento jurídicas contrárias ao acordado geradoras de direitos subjetivos. E nem esteja ao alcance das possibilidades do devedor. Extremo oposto é caso dos se considere que não pagamento de três parcelas seja inadimplemento autos, em que a empresa distribuidora de águas, ainda que talvez cobrando motivador da extinção do mas sim mero atraso no cumprimento valores deixou que total consolidado do débito atingisse da obrigação, sendo indispensável a interpelação do segurado para caracte- soma pelo devedor (acima de R$ de modo que a rização da mora, não se admitindo a automática desconstituição da relação suspensão do no caso, não repercute em nenhum efeito ao negocial." contrário, distorce a inteligência do instituto. A conduta da agravante nestas 52. Cita-se a ementa do 2008.015499-8 rel. Maria do Rocio Luz circunstancias transmite ao devedor a confiança de que a outra parte não Santa Ritta, j. 22.04.2010): "(...) Deve-se, por outro lado, temperar a norma mais exercerá a opção que teria de coagir a pagamento mediante ameaça ao caso concreto, sendo questionável a ruptura, proposta a seu termo, de corte face à sua inércia por longo sem exercício oportuno de quando se nota que a Unimed aceitava reiteradamente pagamentos em referida opção, no que doutrina conhece como supressio. mesmo quando já notificado o consumidor e o prazo para 54. Destaca-se a ementa da ApCiv 992090687972 rel. Carlos Alberto a quitação. Caracterizada, em situação tal, a figura da traduzida Garbi, j. 01.09.2009): "Ação de cobrança. Prestação de serviço de segurança na ideia de que o não exercício de um direito, quando deveria limita e vigilancia em Cláusula contratual que permitia a exigência, a validade da sua aplicação viável somente na estrita condição pelo do comprovante de recolhimento de tributos incidentes sobre a de Noutras palavras, o comportamento criou prerrogativa que se atividade da prestadora de serviços. Durante toda a execução do contrato traduz na impossibilidade de findar a avença de maneira abrupta, revendo a réu não exigiu tais documentos, aceitando a prestação dos serviços e perspectiva até então vigente, diante de situação de mora parecida, sobretudo realizando os pagamentos. Não pode depois de mais de um ano de quando O motivo, ferindo a lisura, é de essa ocorrer próxima da execução regular do contrato, suspender pagamento da contraprestação renovação automática, situação que deixa transparecer o real objetivo da pelos serviços prestados e dos quais se sob argumento de empresa de planos de qual seja, celebrar novo contrato a termos mais descumprimento Aplicação dias regras do venire contra factum vantajosos." proprium e da supressio para solucionar a questão. Proteção da e 53. Reproduz-se trecho da ementa do AgIn 2008.002.02815 rel. Marcos confiança." Alcino Torres, j. 23.09.2008): "A Interrupção do serviço que faz sentido 55. É que foi decidido pelo TJRS na ApCiv 70034079376 (rel. Ney Wiedemann enquanto meio coercivo para que o devedor proceda à quitação das taxas j.</p><p>46 REVISTA DE DIREITO PRIVADO 2010 RDPRIV 44 DOUTRINA NACIONAL 47 contrato, ainda mais quando o valor somado da multa seria 3.3.3 Possibilidade de requerer a resolução do contrato por Já havia precedente do Tribunal no mesmo sentido, no qual houve a apli- descumprimentos contratuais tolerados ao longo do tempo cação da supressio em conjunto com o princípio da fundamento para a aplicação da supressio em relação à faculdade Por fim, destaca-se julgado do TJGO segundo o qual o credor que de por fim ao contrato é que esta deve ser exercida ao tempo e modo opor- admite, sem oposição, o fracionamento do pagamento que deveria ter tunos, não podendo tornar-se uma sanção ou um meio de surpreender sido feito em parcela única não pode posteriormente alegar descum- abusivamente a outra parte. Nesse ponto, a objetiva é comumente primento do contrato para o fim de inscrever o nome do devedor em aplicada em conjunto com outros importantes princípios, tais como do cadastros de proteção ao adimplemento substancial do contrato ou da proporcionalidade. É interessante notar que a ideia comum que permeia todos esses Um exemplo disso é acórdão do TJSC que reconhece a supressio julgados é a de que as faculdades sancionatórias, inclusive no que diz do direito de requerer a resolução do contrato em hipótese na qual o respeito à interrupção do serviço, precisam ser utilizadas em tempo credor deixou de duas vezes, mesmo diante da inadimplência razoável, sob pena de gerarem na parte contrária a expectativa de que do devedor, mas posteriormente resolveu exercer tal prerrogativa com tais inadimplementos serão tolerados pelo credor. a intenção de repactuar o contrato de forma Nesse caso, a intenção abusiva do credor foi determinante para o reconhecimento da supressio. Outro acórdão do TJSC reconheceu a supressio do direito de requerer a resolução de contrato de financiamento de imóvel perante 56. trecho principal da ementa da ApCiv 990092622447 rel. Adilson a CEF sob argumento do descumprimento da obrigação da formali- Araújo, j. 24.08.2010) mostra isso: "(...) 1. A comercialização dos produtos zação da transferência. Neste caso, os primeiros compradores venderam de outras distribuidoras, em desatendimento à de exclusividade "bandeira" ocorreu com base em liminar judicial decorrente de situação o imóvel para um casal que, por sua vez, transferiu para um terceiro que exigia tal Ademais, tudo ocorreu após a extinção sem a devida formalização da transferência, embora isso fosse do conhe- do contrato, ressaltando-se que a rescisão contratual de fato já ocorreu há cimento dos primeiros compradores, que se mantiveram inertes por muitos anos, haja vista a deterioração do relacionamento entre as partes tempo Embora a ementa mencione o o voto do relator 2 Reconhecida na doutrina, com reflexos na jurisprudência, a teoria da supressio deve ser aplicada como instrumento adequado de viabilização da boa-fé objetiva e função social do contrato em busca da 59. Cita-se trecho da ementa da ApCiv 2008.050547-0 (TJSC, rel. Maria do efetividade social. Caracteriza-se pela tolerância, a longo prazo, contrária Rocio Luz Santa Ritta, j. 25.05.2010): "(...) Inadimplentes os compradores ao que restou pactuado entre as partes, é lenitivo a impedir que a parte em duas ocasiões distintas, mas deixando a vendedora de aplicar a faculdade que tolera venha exigir da outra o cumprimento e até mesmo eventuais resolutiva ao tempo e modo oportunos, há margem para aplicação do penalidades por conta da forma adversa que sempre foi a prática aceita. 3 instituto da supressio, enunciativo de que um dado direito, se não foi exercido Firmado contrato de comodato de bens, fornecimento de combustíveis quando havia expectativa de somente pode ser invocado, a e de outros produtos, a parcial do autoposto de serviços mediante demonstrativo de inequívoca e patente Reforçada tal automotivos, um dos motivos geradores da não foi questionada percepção, substancialmente, quando a mora é reiteradamente manipulada ou exigida pela distribuidora durante Passados alguns anos, ao em proveito próprio pela servindo para majorar sobremaneira o pedir rescisão contratual, postulou a cobrança da multa de todo período proveito obtido com (...) Não exercício dos direitos de resolver pretérito, embora também tivesse tido vantagens nesse tempo, o qual gerou contrato mesmo diante de duas de mora. Aproveitamento ainda da débito de valor exorbitante." situação para repactuar contrato de forma abusiva em favor do credor." 57. como exemplo, o decidido na AgRg 992090490362 rel. 60. trecho principal da ementa da ApCiv 2001.003297-0 (TJSC, rel. Mazoni Adilson de Araújo, j. Ferreira, 26.09.2007) contém as seguintes informações: "1. Apelação civel. 58. ApCiv 200902138485 (TJGO, rel. Geraldo da Costa, j. Ação de resolução de contrato de compra e venda de imóvel por inadim- 15.09.2009). plemento do comprador. Obrigação de transferência do financiamento</p><p>48 REVISTA DE DIREITO PRIVADO 2010 RDPRIV 44 DOUTRINA NACIONAL 49 trata expressamente da supressio do direito de requerer a resolução do fio condutor desses diversos julgados é a noção de que a facul- contrato, equiparando-a a uma renuncia dade de por fim ao contrato deve ser exercida de forma razoável e atenta TJSP já julgou caso em que os vendedores de determinado imóvel aos seus propósitos, não podendo se transformar em meio de sancionar, ajuizaram ação pleiteando a rescisão contratual, a reintegração de posse de forma abusiva, o devedor em razão de descumprimentos contratuais e perdas e danos sob a alegação de que os compradores não pagaram que foram tolerados por tempo saldo residual com base em indices contratualmente previstos. Diante dos fatos específicos, tribunal reconheceu a supressio, seja em razão da 3.3.4 Situações de fato consolidadas entre condôminos mesmo contrariamente à convenção do condominio inexistência de qualquer ressalva, pelo em relação aos paga- mentos feitos pelos compradores, seja em razão do transcurso do prazo As relações entre moradores de condomínios edilícios, por serem de 10 anos desde o pagamento da última normalmente de longa igualmente dão margem a importantes aplicações da supressio, já que inúmeras situações de fato acabam se consolidando no tempo de forma contrária à convenção de condo- mínio. habitacional. do pedido do requerido. (...) Nesse sentido, um dos assuntos mais debatidos na jurisprudência 3. Imóvel financiado pela caixa econômica Alienação do bem sem a diz respeito à utilização de áreas comuns em condomínios anuência do agente Prática que configura hipótese de vencimento antecipado da Ciência dos vendedores a esse respeito. STJ já teve a oportunidade de afirmar que os condôminos não poderiam que afasta, na a exigibilidade da transferência do financiamento em reivindicar direito ao uso de determinado corredor da área comum, face dos 4. dos vendedores por considerável período tendo em vista que ele vinha sendo utilizado com exclusividade por de tempo sem exigir o cumprimento da obrigação. Atitude contrária à alguns condôminos por mais de vinte entendimento que foi alegação de essencialidade da Prevalência do principio da boa-fé mantido em acórdãos posteriores, nos quais também o uso exclusivo de Vedação ao venire contra factum comum por determinado condômino ocorrera por grandes lapsos 61. Destaca-se trecho culminante do voto: "Como tem-se ainda instituto da supressio, segundo qual direito que não tenha sido exercido pela parte por determinado lapso de tempo não poderá mais Vale ressaltar que este entendimento encontra repercussão em se contrariar a Com base nessa Ruy Rosado de Aguiar outros tribunais, como é caso do TJRJ, que também já considerou que discorrendo acerca do direito de resolução dos ensina que o uso exclusivo de área comum por determinado condômino por mais comportamento do credor que aceita descumprimento de determinada de dez anos, tolerado por todos os moradores, implica a supressio do obrigação contratual pode configurar uma tácita ao direito de direito de acesso à referida área pelos demais Também resolução do contrato com base no descumprimento dessa mesma obrigação: (...)" 62. Destaca-se principal trecho da ementa da ApCiv 994080261970 63. REsp 214680, rel. Min. Ruy Rosado de Aguiar, DJ Enio Zuliani, j. "(...) Compradores que pagaram, em dia, todas as parcelas contratuais que lhe foram cobradas, sem que as vendedoras 64. A orientação foi mantida no julgamento do REsp 325870 rel. Min. fizessem ressalvas ou indicassem, com transparência, a existência de saldo Humberto Gomes de Barros, 20.09.2004) e no REsp 356821 rel. Min. devedor acumulado, tampouco promovendo a prorrogação do Nancy Andrighi, DJ 05.08.2002). Em ambos se tratava de utilização de área como facultado, e que, depois de dez anos do recebimento da última comum do condomínio de forma exclusiva por determinado condômino por exige o pagamento do saldo residual ou a Compor- longos, superiores a trinta anos. Tal entendimento foi reiterado no tamento que contradiz a anterior omissão que gerou nos compradores a recente julgamento do REsp 281290 rel. Min. Luis Felipe Salomão, DJe confiança de que o contrato já estava objetiva impedindo em que determinados condôminos questionavam a convenção a exigibilidade de um direito quando seu titular permaneceu inerte por que atribuira uso exclusivo e individual de partes comuns aos condôminos, longo tempo e criou na outra parte a expectativa de que ele não situação de fato que perdurava há mais de 15 mais seria exercido 65. ApCiv 2008.001.25507 rel. Luisa Bottrel Souza, j. 06.08.2008).</p><p>50 REVISTA DE DIREITO PRIVADO 2010 - RDPRIV 44 DOUTRINA NACIONAL 51 TJMG apresenta nesse sentido, reconhecendo a Tal entendimento já havia sido acolhido pelo tribunal em julgamento inclusive para fim de impedir a demolição de construção realizada em anterior. área comum utilizada com exclusividade por determinado condômino Também já entendeu TJSP que haveria a supressio do direito de por muito questionar decisão do condomínio que determinou que as vagas de Outra hipótese que margem a supressio diz respeito à destinação garagem fossem utilizadas de forma indeterminada, tendo condômino do condomínio de forma contrária ao previsto na convenção respectiva. se mantido inerte por mais de 10 anos. 70 STJ já decidiu, sobre o assunto, que "não age no exercício regular de direito a sociedade empresária que se estabelece em edifício cuja desti- nação mista é aceita, de fato, pela coletividade dos condôminos e pelo ao Sindicato dos Técnicos e Auxiliares de Radiologia do Estado do Rio de próprio Condomínio, pretendendo justificar o excesso de ruído por si Janeiro, a quem demandado afirma haver alienado o imóvel. Ademais, causado com a imposição de regra constante da convenção condominial, o oficial de justiça que esteve no imóvel no intuito de citar demandado, que impõe o uso exclusivamente comercial, mas que é letra morta desde informa haver sido atendido por uma funcionária do sindicato que sua origem" 67 Nesse julgado, voto da relatora Nancy Andrigui afirmou esclareceu que este funciona naquele endereço desde sendo de sua propriedade o imóvel, além de ser demandado desconhecido no local. que "constata-se aqui a figura da supressio, regra que se desdobra do inegável que não exercício do direito por certo lapso temporal pode gerar princípio maior da boa-fé objetiva e segundo a qual não exercício de expectativa na contraparte de que tal direito não mais venha a ser direito por certo prazo pode retirar-lhe a In a inércia do condomínio em promover a cobrança das Também pode ocorrer a supressio no que diz respeito à cobrança cotas em face do demandado, deu de que o direito não mais seria das mensalidades para a manutenção do condomínio, mesmo consi- exercido, de modo que a cobrança de forma retardada acaba por lesar a confiança do apelante na inatividade do credor. Urge fazer prevalecer derando que se trata de obrigação propter rem. Há do TJRJ na presente demanda o valor confiança, com base no instituto da suppressio, que considerou ter havido a supressio do direito de cobrar as referidas que consiste exatamente na supressão do exercício de um direito por mensalidades de condômino que, embora tivesse vendido o imóvel deixar o seu titular de exercê-lo durante certo lapso temporal, quebrando a há mais de 40 anos, o fez por instrumento particular, de forma que expectativa que havia surgido no outro sujeito quanto ao seu não exercício. continuava figurando como proprietário, embora o imóvel estivesse Trata-se de reflexo do princípio da boa-fé objetiva, no que diz respeito a sua ocupado por outrem. A peculiaridade do caso concreto é a inércia do função limitativa do exercício de direitos subjetivos advindos do Ao direito subjetivo do réu decorrente da tutela conferida a esta expectativa condomínio em cobrar do efetivo proprietário por todo esse legítima de não ser acionado por débito condominial que nunca lhe foi que foi considerado determinante para a aplicação da cobrado dá-se o nome de surrectio, que equivale à outra face da aquela relativa à parte cuja confiança se pretende proteger (...)". 66. ApCiv 1.0079.04.119916-1/001 (TJMG, rel. Marcelo Rodrigues, j. 69. A ementa da ApCiv 2008.001.15578 rel. Edson Vasconcelos, j. 16.04.2008): "(...) A documentação acostada aos autos demonstra ter réu adquirido a propriedade do imóvel devedor de cota condominial 67. REsp 1096639 (STJ, rel. Min. Nancy DJe 12.02.2009). em 24.03.1995, ocorrendo sucessivas alienações por escritura pública 68. Reproduz-se trecho culminante da ementa da ApCiv 2009.001.10795 do referido bem nos anos de 1997, 1998 e 2001, não sendo efetuados os rel. Carlos Santos de Oliveira, j. 07.04.2009): "(...) Em que pese haver registros no cartório competente, capaz assim de transferir sua propriedade. condomínio demonstrando que o nome do consta no Registro Geral Demonstrado conhecimento pelo condomínio da realização da cessão de Imóveis como um dos proprietários da fração ideal correspondente ao de direitos sobre imóvel devedor de condomínio, não pode o apelante imóvel em cobrança, há notícia nos autos de que imóvel em questão foi ser responsabilizado pelo pagamento do débito em razão da ausência de vendido há mais de 40 anos por meio de instrumento particular. requisitos formais, qual seja, registro da escritura pública no cartório de Apesar de não ter o apresentado documento que demonstrasse a imóveis. exercício retardado do direito pelo apelado, diante das circuns- realização do referido negócio, mostram-se verossímeis as alegações do tâncias do caso concreto, gerou para o apelante situação de insegurança em mesmo no sentido de nunca haver recebido qualquer cobrança por parte razão do longo período em que condomínio se manteve inerte." do condomínio, uma vez que todos os boletos acostados à inicial se dirigem 70. 994031049155 (TJSP, rel. Francisco Loureiro, registro em 24.01.2006).</p><p>52 REVISTA DE DIREITO PRIVADO 2010 RDPRIV 44 DOUTRINA NACIONAL 53 Ainda merece ser lembrado precedente do TJSP que entendeu mesmo raciocínio foi aplicado para alimentos que haviam sido haver a supressio do direito de requerer a demolição de obra realizada em fixados em acordo de separação de casal. Não obstante as circunstâncias unidade autônoma do condomínio que implicou alteração da fachada do específicas do caso concreto, como o fato de que a de alimentos prédio e que fora feita de boa-fé há muitos anos sem constava do acordo de separação, mas não do TJRS consi- Aqui se entendeu pela prevalência da situação de fato consolidada, derou que a inação da autora por mais de quinze anos teria acarretado destacando o tribunal que não houve prejuízo da harmonia estética da a supressio do seu direito de pedir Vale ressaltar que houve fachada, havendo inclusive outras unidades que seguiram a mesma alte- votos vencidos, inclusive do relator que defendia a tese de ração. que "a tolerância ou inércia temporal não tem o condão de anular a Este último caso é interessante por mostrar como a supressio é obrigação contraída pelo separando na época da separação judicial" muitas vezes utilizada de forma combinada com outros Outra importante aplicação da supressio pelo TJRS tem sido para deixando claro que não é apenas transcurso do lapso temporal a ser obstar a pretensão de obtenção de alimentos por ex-companheira ou ex- considerado em hipóteses como esta, mas também a conciliação dos esposa que, por longo após a separação, nada requereu a título demais interesses envolvidos na questão. de 3.3.5 Omissão no exercício do direito de pleitear ou executar alimentos do seu falecido pai e sequer buscou cobrar o Caso em que deve ser mantida a sentença que extinguiu a execução, em razão da perda da eficácia A importância da obrigação alimentar e o seu caráter não contratual do título de alimentos executado". não afasta a ocorrência da supressio desde que presentes os requisitos 73. A ementa dos El 70029964228 (TJRS, rel. Rui Portanova, j. 14.08.2009) específicos desta última. Nesse sentido, TJRS tem curiosos julgados assim preceitua: "(...) A cláusula do acordo de separação do casal, que sobre tema. ampara a pretensão de cobrança se liga indelevelmente à existência de uma empresa que faliu. Mesmo depois da veio o divórcio e a Um deles diz respeito a alimentos fixados por sentença em favor da cláusula da separação não apareceu no acordo do E isso reforçou filha e que não eram cobrados há vinte e quatro anos. Após a morte do o esvaziamento do que antes foi Logo, nada - a não ser uma pai, ela ingressou com ação de execução cobrando os atrasados inde- indevida interpretação extensiva justifica, agora, buscar-se depois pendentemente das verbas cobertas pela prescrição, o Tribunal entendeu de mais de quinze anos a cobrança de um valor mensal, consecutivo e Mesmo assim, se algum de obrigação pudesse, de alguma ter havido a supressio do seu direito de exigir forma, sugerir algum indício de legitimidade para tal cobrança; ainda assim, uma indeclinável aplicação do princípio da supressio deve incidir ao 71. ApCiv 994080241501 (TJSP, rel. Francisco Loureiro, j. 21.05.2009). 74. Reproduz-se a ementa da ApCiv 70026907352 (TJRS, rel. Rui Portanova, j. 04.12.2008): "Os atos e negócios jurídicos devem ser efetivados e 72. A ementa da ApCiv 70033073628 (TJRS, rel. Rui Portanova, j. 03.12.2009) interpretados conforme a boa-fé objetiva, e também encontram limitação é esclarecedora: "Os atos e negócios jurídicos devem ser efetivados e nela, se a Inteligência dos arts. 113, 187 e 422 do CC/2002. interpretados conforme a boa-fé objetiva, e também encontram limitação Em atenção à boa-fé objetiva, credor de alimentos que não recebeu nada do nela, se a Inteligência dos arts. 113, 187 e 422 do devedor por mais de oito anos permitiu com sua conduta a criação de uma Em atenção à boa-fé o credor de alimentos que não recebeu nada legítima expectativa no devedor e na efetividade social de que não haveria do devedor por mais de 20 anos permitiu com sua conduta a criação de mais pagamento e cobrança. A inércia do credor em exercer seu direito uma legítima expectativa no devedor e na efetividade social de que subjetivo de crédito por tão longo tempo, e a consequente expectativa que não haveria mais pagamento e cobrança. A inércia do credor em exercer esse comportamento gera no devedor, em interpretação conforme a boa- seu direito subjetivo de crédito por tão longo e a consequente fé objetiva, leva ao desaparecimento do direito, com base no instituto da expectativa que esse comportamento gera no em interpretação Já a ementa da ApCiv 70024263758 rel. Rui Portanova, j. conforme a boa-fé objetiva, leva ao desaparecimento do direito, com base 25.09.2008) tem a seguinte redação: "Em atenção a boa-fé objetiva, o credor no instituto da supressio. Precedentes doutrinários e jurisprudenciais. No de alimentos que não recebeu nada do devedor por mais de 12 anos permitiu caso, a exequente/embargada por longos 24 anos não recebeu alimentos com sua conduta a criação de uma expectativa no devedor e na</p><p>54 REVISTA DE DIREITO PRIVADO 2010 RDPRIV 44 DOUTRINA NACIONAL 55 3.3.6 Outras e) supressio do direito da operadora de plano de saúde de reen- Além dos temas já analisados, foram identificadas na pesquisa quadrar os beneficiários de forma abrupta, com aumento substancial do diversas outras hipóteses de aplicação do dentre as quais se valor da mensalidade, depois de três anos sem destacam as seguintes: f) supressio do direito de obter reajustes previstos no contrato somente três anos depois da sua não tendo sido cobrados em a) supressio do direito de exigir o cumprimento de cláusula de não tempo concorrência constante de contrato cujo cumprimento jamais foi obser- vado;75 g) supressio do direito de proprietário de imóvel de obter indeni- zação pela ocupação irregular deste pois, mesmo tendo sido vencedor b) supressio do direito de pleitear revisão de parcelas contratuais em ação de reivindicação, omitiu-se de requerer a imissão na posse por após três anos da rescisão do contrato;76 quase cinco c) supressio de prerrogativas contratuais não exercidas por muito h) supressio do direito do locatário de usar o armário da garagem tempo;77 após cinco anos em que o locador continuou com seu d) supressio do direito de requerer a demolição de obra construída i) supressio do direito do locador de cobrar IPTU do locatário sem a necessária anuência do condômino, mas por ele tolerada por após tempo considerável sem a referida tempo j) supressio do direito do proprietário de terreno de cobrar alugueis atrasados por terreno cuja utilização foi permitida por mais de vinte anos efetividade social de que não haveria mais pagamento e cobrança. A inércia de forma do credor em exercer seu direito subjetivo de crédito por tão longo tempo, e a consequente expectativa que esse comportamento gera no em 'tanque de roupa e varal' sobre dita Desta forma, não se pode interpretação conforme a boa-fé objetiva, leva ao desaparecimento do direito, permitir que as cláusulas contratuais sejam aplicadas de forma ao com base no instituto da Precedentes doutrinários e jurispru- deve-se prestigiar a boa-fé objetiva, a qual agora vem expressamente No caso, as partes se separaram 12 anos antes do ajuizamento da prevista no art. 422 do 2. Da ideia de boa-fé objetiva nasceram os ação de alimentos, admitindo a autora que era auxiliada, nesse por institutos da supressio e da A (ou Verwinkung, na doutrina sua e seu Considerando que a extinção do vínculo matrimonial consiste na redução do conteúdo obrigacional pela inércia de uma pode ocorrer somente após dois anos da separação de fato por meio do das partes em exercer direitos ou faculdades, gerando na outra legitima direto (art. 1.580, § do CC/2002), a partir de uma interpretação expectativa. A faculdade ou direito consta efetivamente do pacto, todavia, é de se reconhecer que após 12 anos de separação, do ponto de a inércia qualificada de uma das partes gera na outra a expectativa legítima vista prático, o dever de mútua assistência não existe (diante das de que a faculdade ou direito não será exercido. 75. ApCiv 70021236294 (TJRS, rel. Nara Leonor Castro Garcia, j. Esta legítima expectativa traduz-se pela 2009). 79. ApCiv rel. Roberto de Abreu e Silva, j. 76. ApCiv 70021802020 (TJRS, rel. Marilene Bonzanini Bernardi, j. 13.11. 2008). 80. ApCiv 990100509047 (TJSP, Relator Carlos Alberto Garbi, julgado em 77. ApCiv 2009.051870-0 rel. Maria do Rocio Luz Santa Ritta, j. 26.10. 2010). 81. ApCiv 2009 08 1 008588-8 rel. Romeu Gonzaga Neiva, DJe 01.10. 78. Destaca-se trecho da ementa da ApCiv 545.377-8 (TJPR, rel. Lauri Caetano 2009) da Silva, DJ "A leitura do acordo de vontades materializado 82. ApCiv 2006 01 1 059656-3 (TJDFT, rel. Maria Beatriz Parrilha, DJe 14.07. na escritura pública anexa aos autos revela que, com efeito, existia 2008) dispondo sobre a 'necessidade de de ambos os condôminos para que fosse promovida alteração na fachada do prédio. Ocorre que a apelada ApCiv 48060174082 (TJES, rel. Arnaldo Santos Souza, j. 10.11.2009). somente veio a questionar a construção da marquise quando foi instada pela 84. A ementa da ApCiv 70036067015 (TJRS, rel. Angelo Maraninchi Giannakos, apelante em ação Antes disso, sua conduta fora de j. 06.10.2010) afirma que "a inércia da parte autora impede-a de exigir a revelando a plena aceitação da obra; tanto que chegou até mesmo a instalar cobrança de locativos, sem nenhuma previsão contratual, pois tempo</p><p>56 REVISTA DE DIREITO PRIVADO 2010 RDPRIV 44 DOUTRINA NACIONAL 57 k) supressio do direito do acionista de cobrar dividendos e juros No que diz respeito questão do equilíbrio contratual, embora em decorrência de descumprimento de acordo de acionistas após quase vários tribunais expressamente condicionem a supressio à existência de vinte anos de desequilíbrio entre as partes, não se pode afirmar que este pressuposto Todos esses julgados mostram como, no caso a caso, os tribunais seja aceito como regra, até porque muitos julgados não enfrentam direta- vêm utilizando a supressio diante de distintas situações, mas sempre com mente a questão. Todavia, como a maior parte das aplicações da supressio o objetivo de tutelar posições de confiança que surgiram na dinâmica das acaba envolvendo um juízo de proporcionalidade, pode-se afirmar que relações privadas. tal acaba sendo feito pelos ainda que de forma ao avaliarem as circunstâncias do caso concreto. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Por fim, exame da jurisprudência revelou alguns temas que Longe de pretender realizar uma análise minuciosa e exaustiva da ensejam naturalmente a maior utilização da supressio, tais como os brasileira a respeito da supressio, presente artigo buscou contratos que envolvem pagamentos e as relações entre os desenhar, como está claro em seu próprio título, um breve panorama a condôminos, que não afasta a utilização do princípio em hipóteses respeito do assunto. mais específicas. A referida visão geral possibilitou a conclusão de que a supressio é Dessa maneira, conclui-se, pelos analisados, que a juris- hoje uma realidade, que vem sendo aplicada com considerável largueza prudência brasileira vem, dentro do aplicando a supressio e por vários tribunais nacionais, especialmente STJ e os de forma adequada, valorizando as circunstâncias do caso concreto e Tribunais do Rio Grande do Sul, do Rio de Janeiro e de São Paulo. concentrando-se não apenas no lapso temporal relevante, mas, sobre- na falta de justificativa para a inércia do titular do direito, à qual Embora ainda exista na jurisprudência certa oscilação quanto à se contrapõem a criação da situação de confiança e a em favor definição de supressio especialmente para o fim de se saber se impli- do caria a extinção do direito ou apenas a limitação ao seu exercício tal discussão não tem maiores consequências práticas, pois a supressio Com essa postura, a objetiva vem sendo valorizada na sua sempre levará ao impedimento do exercício do direito ou ao reconheci- dimensão de limitação do exercício dos direitos subjetivos, sem que haja mento da sua tantos riscos para a autonomia privada e para a segurança jurídica. Não obstante a importância do fator temporal, foi igualmente visto que os tribunais costumam se atentar para as circunstâncias específicas das partes, a fim de avaliarem o contexto da inércia do credor e a criação de uma situação legítima de confiança por parte do devedor. Também se pode observar que é reiterada a utilização da supressio de forma combinada com outros princípios, tais como o do abuso de direito e do venire, sendo que muitas vezes ocorre até mesmo certa confusão entre este último e a supressio, o que não traz maiores consequências práticas, já que a aplicação de ambos leva a resultados mais de 20 (vinte) anos - consolidou direito da requerida de uso livre do terreno". 85. ApCiv 994090414276 (TJSP, rel. Vito Guglielmi, j.</p>

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