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<p>14 – 09 - Prática Penal</p><p>No dia 17 de junho de 2010, uma criança recém-nascida é vista boiando em</p><p>um córrego e, ao ser resgatada, não possuía mais vida. Helena, a mãe da criança, foi</p><p>localizada e negou que houvesse jogado a vítima no córrego. Sua filha teria sido,</p><p>segundo ela, sequestrada por um desconhecido. Durante a fase de inquérito,</p><p>testemunhas afirmaram que a mãe apresentava quadro de profunda depressão no</p><p>momento e logo após o parto. Além disso, foi realizado exame médico legal, o qual</p><p>constatou que Helena, quando do fato, estava sob influência de estado puerperal. À</p><p>míngua de provas que confirmassem a autoria, mas desconfiada de que a mãe da</p><p>criança pudesse estar envolvida no fato, a autoridade policial representou pela</p><p>decretação de interceptação telefônica da linha de telefone móvel usado pela mãe,</p><p>medida que foi decretada pelo juiz competente. A prova constatou que a mãe</p><p>efetivamente praticara o fato, pois, em conversa telefônica com uma conhecida, de</p><p>nome Lia, ela afirmara ter atirado a criança ao córrego, por desespero, mas que estava</p><p>arrependida. O delegado intimou Lia para ser ouvida, tendo ela confirmado, em sede</p><p>policial, que Helena de fato havia atirado a criança, logo após o parto, no córrego. Em</p><p>razão das aludidas provas, a mãe da criança foi então denunciada pela prática do</p><p>crime descrito no art. 123 do Código Penal perante a 1.ª Vara Criminal (Tribunal do</p><p>Júri). Durante a ação penal, é juntado aos autos o laudo de necropsia realizada no</p><p>corpo da criança. A prova técnica concluiu que a criança já nascera morta. Na</p><p>audiência de instrução, realizada no dia 12 de agosto de 2010, Lia é novamente</p><p>inquirida, ocasião em que confirmou ter a denunciada, em conversa telefônica,</p><p>admitido ter jogado o corpo da criança no córrego. A mesma testemunha, no entanto,</p><p>trouxe nova informação, que não mencionara quando ouvida na fase inquisitorial.</p><p>Disse que, em outras conversas que tivera com a mãe da criança, Helena contara que</p><p>tomara substância abortiva, pois não poderia, de jeito nenhum, criar o filho.</p><p>Interrogada, a denunciada negou todos os fatos. Finda a instrução, o Ministério</p><p>Público manifestou-se pela pronúncia, nos termos da denúncia, e a defesa, pela</p><p>impronúncia, com base no interrogatório da acusada, que negara todos os fatos. O</p><p>magistrado, na mesma audiência, prolatou sentença de pronúncia, não nos termos da</p><p>denúncia, e sim pela prática do crime descrito no art. 124 do Código Penal, punido</p><p>menos severamente do que aquele previsto no art. 123 do mesmo código, intimando</p><p>as partes no referido ato. Com base somente nas informações de que dispõe e nas</p><p>que podem ser inferidas pelo caso concreto acima, na condição de advogado(a) de</p><p>Helena, redija a peça cabível à impugnação da mencionada decisão, acompanhada</p><p>das razões pertinentes, as quais devem apontar os argumentos para o provimento do</p><p>recurso, mesmo que em caráter sucessivo.</p><p>ART. 386, inciso II, VII</p><p>Art. 581, inciso IV</p><p>AO JUIZO DA 01ª VARA CRIMINAL DA COMARCA ...</p><p>HELENA, já qualificada nos autos do processo criminal em</p><p>epígrafe, por intermédio de seu advogado, que esta subscreve, vem perante Vossa</p><p>Excelência, com fundamento no artigo 581, inciso IV do Código de Processo Penal,</p><p>interpor</p><p>RECURSO EM SENTIDO ESTRITO</p><p>Em face da decisão que pronunciou a ré, nos autos do</p><p>processo n° ..., pelo qual pede, primeiramente, a retratação nos termos das razões</p><p>anexadas, com fundamento no artigo 589 do Código de Processo Penal.</p><p>Assim não sendo, requerer o processamento e o</p><p>encaminhamento do presente, com as razões inclusas, ao Tribunal de Justiça do</p><p>Estado.</p><p>Termo em que,</p><p>Pede deferimento.</p><p>Cidade ..., 17 de agosto de 2010</p><p>AO JUÍZO DO ÉGREGIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE ...</p><p>Recorrente: HELENA</p><p>Processo n° ...</p><p>RAZÕES RECURSAIS</p><p>Egrégio Tribunal,</p><p>Colenda Câmara,</p><p>Ínclitos Julgadores,</p><p>I – SINTESE DOS FATOS</p><p>No dia 17 de junho de 2010, o corpo de uma criança recém-</p><p>nascida foi encontrado em um córrego. Posteriormente, constatou-se que a criança já</p><p>estava sem vida. Durante as investigações, Helena, mãe da criança, foi apontada</p><p>como possível responsável pelo fato. Embora tenha negado qualquer envolvimento,</p><p>alegando que sua filha havia sido sequestrada, uma interceptação telefônica,</p><p>devidamente autorizada, revelou uma conversa em que ela admitiu ter jogado o corpo</p><p>da criança no córrego.</p><p>Contudo, o laudo de necropsia juntado aos autos</p><p>demonstrou que a criança já nasceu morta. Testemunhas relataram que Helena</p><p>estava sob forte estado puerperal e, inclusive, mencionou a ingestão de substância</p><p>abortiva. Na audiência de instrução, a testemunha Lia reafirmou a confissão telefônica</p><p>da acusada.</p><p>O Ministério Público se manifestou pela pronúncia nos</p><p>termos da denúncia, enquanto a defesa requereu a impronúncia, diante da negativa</p><p>da ré e da falta de provas conclusivas. Todavia, o magistrado proferiu sentença de</p><p>pronúncia pelo crime do art. 124 do Código Penal, divergem da denúncia inicial.</p><p>II – DESENTRANHAMENTO DAS PROVAS ILÍCITAS</p><p>A defesa sustenta a ilicitude da interceptação telefônica,</p><p>com base no art. 2º, III, da Lei n.º 9.296/96, que só permite essa medida em crimes</p><p>punidos com reclusão. Tanto o crime de infanticídio (art. 123 do CP), quanto o crime</p><p>de aborto (art. 124 do CP), são punidos com pena de detenção, o que torna a</p><p>interceptação ilegal. Ademais, não houve esgotamento de todos os meios</p><p>investigativos disponíveis antes da decretação da medida extrema, violando o</p><p>princípio da subsidiariedade.</p><p>Assim, requer-se o desentranhamento das provas obtidas</p><p>por meio da interceptação telefônica, bem como a exclusão de todo o conjunto</p><p>probatório delas derivado, nos termos do art. 157, §1º, do Código de Processo Penal.</p><p>III - NULIDADE POR VIOLAÇÃO AO ART. 384 DO CPP</p><p>O juiz de 1º grau, ao proferir sentença de pronúncia pelo</p><p>crime de aborto (art. 124 do CP), divergiu da tipificação original da denúncia, que</p><p>apontava para o crime de infanticídio (art. 123 do CP). Todavia, conforme o art. 384</p><p>do Código de Processo Penal, em casos de modificação da tipificação penal com base</p><p>em novas provas, deve-se abrir vista ao Ministério Público para aditamento da</p><p>denúncia, o que não foi feito.</p><p>Dessa forma, houve violação às garantias processuais da</p><p>ré, razão pela qual o processo deve ser anulado.</p><p>IV – INSUFICIÊNCIA PROBATÓRIA</p><p>Não há nos autos qualquer perícia que demonstre que a</p><p>morte da criança tenha ocorrido em decorrência da ingestão de substância abortiva.</p><p>Não podendo o Estado condenar a ré, baseando-se apenas na palavra de uma</p><p>testemunha.</p><p>Ademais a materialidade do crime de aborto não está</p><p>comprovada, e o laudo de necropsia indica que a criança já nasceu morta.</p><p>Portanto, diante da ausência de provas suficientes para</p><p>confirmar a materialidade do crime de aborto, é necessário que a acusada seja</p><p>impronunciada.</p><p>V – DOS PEDIDOS</p><p>Diante do exposto, requer-se a Vossa Excelência:</p><p>a) O desentranhamento das provas ilícitas, consistentes na</p><p>interceptação telefônica e seu derivado, o depoimento da testemunha Lia, nos termos</p><p>do art. 157, § 1º, do Código de Processo Penal;</p><p>b) A impronúncia da acusada, Helena, com base na</p><p>ausência de indícios suficientes de autoria e materialidade, conforme o art. 414 do</p><p>Código de Processo Penal;</p><p>c) Subsidiariamente, caso não seja esse o entendimento,</p><p>requer-se a anulação da decisão de pronúncia, em razão da violação ao art. 384 do</p><p>Código de Processo Penal, com a devida abertura de vista ao Ministério Público para</p><p>aditamento da denúncia.</p><p>Nestes termos,</p><p>Pede deferimento.</p><p>Local..., 19 de agosto de 2024.</p><p>Advogado... / OAB/... n° ...</p><p>Assinatura do Advogado</p>

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