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<p>EAD UNISANTA HISTÓRIA DO BRASIL IMPÉRIO Prof. Me. Tássio Acosta GUIA DA DISCIPLINA</p><p>1883 1847 Uma série de Império instituído no país conflitos entre governo imperial às em Exército Questão Veja os principais eventos que imperador Militar abala ainda do indicação período, de Os páginas fatos são com permanece com mais monarquia. os grande poder: é 1872 Pág. 106 mais cobrados no vestibular. 1831 1836 1845 ele quem nomeia AQuestão Religiosa, Parlamento o gabinete pode Isolado no poder, em Gonçalves de choque entre Igreja britânico aprova dissolver Executivo abril dom Pedro I Magalhães lança Católica governo Suspiros Poéticos e Bill Pág. 105 abdica do trono em leva nome de seu filho, Saudades, marco lei que dá à clero brasileiro a Pedro então uma do romantismo no Marinha inglesa o apoiar criança. Pág. 102 Brasil. o movimento direito de prender enfraquecendo o 1888 desenvolve uma navios negreiros regime imperial. 1831 linguagem própria no Em 13 de maio, princesa Isabel assina a Pág. 106 Lei Áurea (pág. 93). que extingue a escravidão Após abdicação nacional temas ligados tráfico de escravos no Brasil A abolição desagrada aos de dom Pedro um grupo de lideres à natureza às para Brasil cai fazendeiros, que exigem indenização pela significativamente. perda de propriedade. Sem conseguir, aderem políticos assume questões político- 1848 1864 ao movimento republicano como forma de com 1822 interinamente sociais. Pág. 93 Em Pernambuco, Pretensões territoriais e interesses econômicos pressão. o Império perde sua última base de Após proclamar independência do Brasil, governo do país. teminicio Revolta levam Guerra do Paraguai, maior conflito sustentação Pág. 107 dom Pedro é coroado imperador, dando início das Pág. 105 da história da America do Sul. Pág. 105 ao Primeiro Reinado Pág. 102 Regências. Pág. 103 1880 1870 1860 1850 1840 1830 1885 Écriada Lei dos 1825 1870 1871 Sexagenários, que Começa Guerra 1835 1837 liberta os escravos 1824 No Rio de Janeiro, promulgada da Cisplatina, que Omédico Francisco lei 1880 com mais de 60 acaba em 1828, com Um ano depois de Ato Adicional de 1834 fazendeiros, As do a independência do substituir Regência Trina pela Regência Una, jornalistas abolicionista, Políticos e intelectuais como Joaquim Nabuco anos mediante Sabino lidera Nordeste revoltam- ex-ministro da Justica Diogo assume uma revolta Lei do Ventre (no foto) José do Patrocínio Rio compensações aos Uruguai, que fora e intelectuais se contra poder separatista na de Janeiro Sociedade Brasileira contra imperial, formando anexado pelo Brasil como regente. Pág. 104 lançam Manifesto Livre. Ela a Pág. 104 liberdade aos filhos a que estimula a formação de Pág. 93 a Confederação do como provincia Republicano, defendendo de escravos nascidos dezenas de agremia similares pelo Equador. Pág. 102 Cisplatina em 1840 1835 Pág. 102 um regime a partir da data da Pág. 93 Aos 14 anos, dom No Sul, tem início maior rebelião ocorrida Pedro declarado presidencialista, assinatura, mas os durante regencial, Revolta dos representativo mantém sob tutela maior de idade 1889 1824 1831 Farrapos. Pág. 104 federativo. de seus senhores até comeca proclamada a Dom Pedro Cumprindo acordos Tem início o Pág. 93 pelo outorga primeira firmados com a 1838 Segundo marechal Manuel Inglaterra, governo 1835 Constituição Pág. 105 Deodoro da Fonseca. brasileiro declara Um levante popular contra governo regencial No Maranhão, suspenso tráfico no Pará fica conhecido como Cabanagem. irrompe 1854 1870 Pág. 107 negreiro Mas a Pág. 104 Pág. 104 o maestro paulista entrada de escravos Irineu Evangelista de Carlos Gomes africanos permanece Souza visconde em grande escala. É 1835 de inaugura internacional ao o trabalho forçado Um grupo de malês nome pelo qual eram a primeira ferrovia apresentar no Teatro que garante os bons conhecidos os negros muculmanos rebela- entre Scala de na preços no mercado sua ópera se em Salvador. É Revolta dos Malês externo do café Guarani. 1881 Ex-escravos que conseguiram comprar 1850 eo Rio de Janeiro. principal produto da Pág. 107 Um dos maiores a os revoltosos reclamam que de escravos na época. escritores brasileiros continuam marginalizados sofrem opressão é definitivamente de todos os tempos, tanto pela quanto pela religião. o levante é extinto no com Machado de Assis violentamente reprimido. a Lei de lança Aos poucos, de Brás trabalhadores Cubas, marco no assalariados país do passam substituir movimento que se os caracteriza por uma principalmente nas abordagem objetiva fazendas de da SALLES</p><p>Universidade Santa Cecília - Educação a Distância EAD UNISANTA 1. O PRIMEIRO REINADO Objetivo Retomar os principais movimentos do Brasil Colônia para pontuar como se deu a transição de regimes; Destacar as diferenças entre os movimentos de independência na América Espanhola perante a América Portuguesa; Contextualizar os movimentos emancipatórios e as revoluções que ocorriam na Europa; Marcar os privilégios e interesses presentes por trás do movimento de Independência brasileiro. Introdução Antes de nos debruçarmos no Primero Reinado, devemos retomar, ainda que suscintamente, alguns pontos principais do período colonial para que consolidasse esta 'mudança de Como vimos, próximo ao final da disciplina de Brasil Colônia, tivemos alguns significativos episódios de crises e resistências, quais sejam, a crise em si do sistema e os movimentos de resistências como a Inconfidência Mineira, a Conjuração dos e a Revolução dos Padres. A estes movimentos, acredito ser importante pontuarmos que podem ser lidos numa perspectiva de mudanças do olhar sobre o próprio país; seja numa perspectiva capitalista de interesses na manutenção dos privilégios e controle das riquezas naturais, seja pelo problema em um país que se desenvolvia a partir do derramamento de sangue de negros escravizados, conforme bastante pontuado tanto na disciplina de Brasil Colonial como na de História da Afinal de contas, por mais que o embranquecimento do país tenha tentado maquiar o racismo brasileiro e diminuir o peso do processo de escravização existente no país, há de se ressaltar que a História do Brasil colonial e imperial estão entrecruzadas e fortemente marcada com a presença de negros escravizados. Acredito que quanto a isso, não temos quaisquer dúvidas após este amplo debate realizado ao longo da disciplina de Brasil Colônia e que também se realizará nesta. Portanto, partimos sempre da explicitação do marcador étnico-racial como uma forma de desnudar a racialização da sociedade brasileira ao longo de toda sua história. 1 Para saber mais, ler Brasil, Portugal e a crise do antigo sistema colonial: elementos para a compreensão do conceito moderno de Constituição do Prof. Dr. David F. L. Gomes. Disponível em https://periodicos.ufop.br/pp/index.php/libertas/article/view/416 História do Brasil Império 2</p><p>Universidade Santa Cecília Educação a Distância EAD UNISANTA Pois bem, pensar a História do Brasil imperial é reconhecer que mais uma vez o racismo estrutural se fez presente em solo brasileiro e que o poder, a cidade e o capital ficaram circunscritos nas mãos de poucos, ao passo que a exclusão para a maioria. 1.1. Retomando pontos principais Ainda que muitos acreditem que a independência se deu de forma extremamente rápida e sem dificuldades, sem disputas, há de se ressaltar que muitos brasileiros se dedicavam a combater as tropas portuguesas que aqui se alocaram com a vinda da família real, em 1808. Entretanto, havia um notório problema: os brasileiros que aqui estavam não tinham o mesmo treinamento militar das tropas portuguesas. Afinal de contas, ainda no séc. XVIII, em 1755 ocorreu terremoto que abalou toda Lisboa, em 1776 consolidou-se a independência das treze colônias da América do Norte da em 1789 ocorreu a queda da Bastilha e início da Revolução Francesa, ou seja, estes movimentos 'progressistas' influenciaram diversas nações, uma vez que o contexto mundial era de mudanças políticas. Por aqui, no Brasil, em 1789, a Inconfidência Mineira ganhou corpo em oposição aos abusos perpetrados por Portugal em sua Colônia, reverberando aqui o que os movimentos mundiais já anunciavam. Para tanto, os movimentos de resistência ao poder português se deram com lideranças europeias, como no caso de Pedro Labatut e Lorde Cochrane, estes já com treinamento de guerra e preparados para levantes de resistências. Dentre os diversos movimentos, citemos aqui, inicialmente, os ocorridos no Sul do país e na Enquanto no atual Uruguai, conhecido à época como Província Cisplatina, as tropas portuguesas que resistiram até novembro de 1823, completou-se sua total retirada após a perda, possibilitando a independência do Uruguai. Já na Bahia, o coronel Madeira de Melo, então governador militar, reuniu tropas do Rio de Janeiro e de Lisboa num intento de conquistar Salvador, efetivando-a em 2 de julho de 1823 - data essa considerada por muitos tão importante como o 7 de setembro de 1822. Entretanto, não devemos olhar para esses movimentos revolucionários enquanto uma tentativa de construção de movimentos igualitários, uma vez que eles eram apoiados por senhores de Engenhos do por exemplo. Neste mesmo contexto, em 1824, 2 Para saber mais sobre a Independência dos EUA, ler História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI, de Leandro Karnal (et al) História do Brasil Império 3</p><p>Universidade Santa Cecília - Educação a Distância EAD UNISANTA os Estados Unidos reconhecem a independência do Brasil e apenas em 1825 pela Inglaterra, já que ela ordenava o fim do tráfico atlântico. INGLATERRA Vale destacar que o Brasil ainda teve que pagar à E QUE INGLATERRA AMIGAS INGLATERRA! ESSAS ? Metrópole 2 milhões de libras pela perda do controle da colônia e também não poderia permitir a união à qualquer outra colônia como o Brasil não tinha esse montante, já que as finanças estavam nas mãos portuguesas, houve a necessidade de pedir um empréstimo para a Inglaterra 1.2. A transição de regimes Ao contrário da América Espanhola, onde diversas guerras foram travadas e territórios divididos em países, no Brasil o processo de transição conquistado com a independência não gerou tantas rupturas, mas ainda assim revoltas e insurêências ocorreram. Podemos inclusive pensar que o Brasil ficou sendo uma monarquia entre repúblicas. Com a chegada de dom João VI no Rio de Janeiro e a abertura dos período chamado de Joanino (1808 - 1821), uma série de facilitações de trocas de mercadoria e administração ocorreu, sobretudo para as cidades litorâneas que dependiam deste rápido meio de locomoção (em comparação com outros de tração animal). Como o Nordeste estava mais distante do Rio de Janeiro e costumava receber notícias vindo da América do Norte, Central e Europa, eclodiram-se movimentos de resistências à Colônia e em prol das ideias de república, em voga na Europa. Mas a forma de independência que pensavam era uma que não impusesse fortes rupturas institucionais, ou seja, que os senhores de engenho não deixassem de manter seus privilégios e o negros, até então visto como coisas, não tivessem seus direitos humanos reconhecidos. Buscava-se, assim, um movimento de independência para poucos. O fato deste não ser demasiadamente sangrento não nos serve para pensar que foi brando, mas sim que buscou-se inserir o Brasil no sistema capitalista internacional e na construção da noção de 3 Para saber mais, recomendo leitura do artigo Política exterior de D. João VI no Brasil, de Antonio Pedro Vicente. História do Brasil Império 4</p><p>Universidade Santa Cecília Educação a Distância EAD UNISANTA estado moderno, de estado nacional, de nação. Mas não para todos. Mesmo com José Bonifácio4 à frente, uma série de rebeliões ocorreu na construção dessa 'nova de organização política, entre 1822 e 1840. O que vale destacarmos aqui enquanto leitmotiv dá-se ao fato da impossibilidade de pensarmos num movimento de ruptura institucional, de mudanças profundas sociais, ao mesmo tempo em que se buscava uma manutenção dos privilégios sociais e da coisificação das negritudes, sem dar-lhes os direitos que teoricamente deveriam pertencê-los e que, em virtude do processo de sequestro e escravização, impossibilitaram de tê-los. Devemos, portanto, reconhecer que esta mudança não foi pensada para todos, mas sim para poucos, sobretudo os senhores de engenho e burocratas que queriam ser inseridos no novo capitalismo que estava fortalecendo a nível mundial e que excluiriam o Brasil se o mesmo mantivesse o sistema escravista vigente. 1.3. A independência Com a consolidação de uma independência, houve a necessidade de se promover um debate sobre uma constituição. As eleições para uma Assembleia Constituinte, para a elaboração da Constituição, já estavam previstas para ocorrer antes mesmo da independência do Brasil. No primeiro encontro pós-independência, e onde debateriam a construção da Constituição, dom Pedro proferiu uma frase que remetia ao rei Luís XVIII ao afirmar que ele jurava defender a Constituição "se fosse digna do Brasil e dele próprio". Logo, ao criar uma condicional da importância de ele avalizar quaisquer mudanças, explicitava-se que teríamos uma república calcada na monarquia. Grande parte dos participantes desta discussão eram liberais moderados, ou seja, favoráveis à uma monarquia constitucional para a manutenção da figura do rei ao mesmo tempo em que se garantisse os direitos individuais e limites ao monarca. Entretanto, uma disputa se fez presente entre os constituintes e o imperador. Os primeiros não aceitavam que o imperador tivesse poder de dissolver a futura Câmara dos Deputados e nem um poder de veto absoluto, devendo respeitar aquilo debatido pela maioria. Destaca-se aqui o problema central: pessoas próximas ao círculo do imperador tinham medo de que este poder na mão da Câmara enfraqueceria sua influência nas tomadas de decisões. 4 Para saber mais, ler José Bonifácio, escrito por Miriam Dolhnikoff e publicado pela Companhia das Letras. História do Brasil Império 5</p><p>Universidade Santa Cecília - Educação a Distância EAD UNISANTA Para se ter noção das instabilidades políticas à época, menos de um ano após a Independência, José conhecido como o patriarca da Independência, foi afastado do cargo em virtude de ter concentrado em suas mãos o acesso ao trono. Vale destaque aqui a imagem retratando o dia de 7 de setembro de 1822: homens brancos, bem vestidos, em cavalos esbeltos e todos saudando a figura-mor de dom Pedro e cercado pela guarda imperial. A historiografia há tempos já desmistificou esta imagem e hoje ela nos serve para analisarmos como foi, sobre quem foi e como se construiu essa figura histórica. Neste sentido, os estudos da Profa. Dra. Mary Del Priore têm grande importância por sua dedicação ao Brasil imperial, também conhecido na historiografia brasileira como Brasil Independente. 5 Para saber mais, ler As vidas de José Bonifácio, de Mary Del Priore e publicado pela editora Estação Brasil. História do Brasil Império 6</p><p>Universidade Santa Cecília Educação a Distância EAD UNISANTA 2. A CONSTITUINTE Objetivo Analisar a conjuntura para a consolidação de uma constituinte. Reconhecer o golpe de estado promovido pelo imperador. Pontuar o elitismo acerca de quem poderia participar e votar. Situar os movimentos de resistências e suas consequências. Introdução Já ouvimos em diversos governos recentes no Brasil sobre a importância de se realizar uma Assembleia Constituinte e também assistimos ao recente movimento chileno que, em plebiscito, 78,28% da população votou pela criação de uma nova constituinte6, uma vez que a sua Carta Magna ainda era da época do ditador Pinochet e as mudanças ultraliberais em seu plano econômico, favorável à privatização e ao livre mercado sem controle por parte do Estado, dificultaram em diversos níveis a Agora você deve estar perguntando: o que o Brasil e o Chile recentes têm a ver com Brasil Império? Esta contextualização atual serviu apenas para que possamos nos aproximar da importância de uma Constituição Federal e do quanto devemos ansiar por uma que represente toda a população, e não uma diminuta parcela. Será que o mesmo ocorreu à época na discussão de nossa primeira Constituição Federal? Não. A nossa foi outorgada, ou seja, imposta. Outro fato que vale destaque se dá em virtude de estarmos num mesmo contexto histórico de outras nações que produziam as suas Constituições, tais quais, Estados Unidos (1787), Suécia (1809), Espanha (1812), Chile (1812), Paraguai e Argentina (1813), Portugal (1822), dentre muitos outros países que conquistavam suas Independências, às suas maneiras e especificidades, e constituíam suas legislações de acordo com aquilo que entendiam como nação. Peço, portanto, atenção nesta conjuntura internacional, de formação do Estado Moderno, de países conquistando suas Independências e dos movimentos internacionais contrários às manutenções de Colônias e de regimes escravistas. Pois esta conjuntura é de grande importância para a melhor compreensão sobre o que ocorria por aqui no Brasil, 6 Disponível em atualizar-democracia/ 7 Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/internacional-50214126 História do Brasil Império 7</p><p>Universidade Santa Cecília Educação a Distância EAD UNISANTA como isso se desenvolvia e como se relacionava com outros países dada as suas próprias características, evidentemente. 2.1. Constituição de 1824 Com a disputa do poder envolvendo diversos setores sociais e com a iminente perda de controle, de mando e de veto por parte do imperador, determinou-se a dissolução da Assembleia por ordem de dom Pedro, com o apoio de militares, levando vários deputados presos, como os irmãos Andradas. Portanto, a Constituição promulgada em 25 de março de partiu de cima para baixo, imposta pelo rei. Vale destacar que os "de baixo" eram brancos, europeus e mestiços; no máximo, negros livres que, conforme veremos nesta disciplina, não gozavam do mesmo entendimento de liberdade que temos Nela, o governo foi definido como hereditário e constitucional [...] teria uma nobreza, mas não uma aristocracia, ou seja, existiriam nobres por títulos concedidos pelo imperador, porém os títulos não seriam hereditários" (FAUSTO, 2019, p. 129-130) além do mais, "a religião católica romana continuava a ser a religião oficial, permitindo-se apenas o culto particular de outras religiões, "sem forma alguma exterior de templo" (id. lbd. p. 130). Três características são muito importantes de nos atermos nesta i) o poder legislativo; ii) o voto indireto e censitário e iii) eleição para a Câmara dos Deputados. Quanto ao primeiro, o poder legislativo foi dividido em Câmara com eleição temporária e em Senado com eleição vitalícia; Elegiam uma lista tríplice para o Senado e era o imperador que determinava quem deveria ser o representante de cada província, vitaliciamente. O segundo item, voto indireto e censitário, consistia em os eleitores votarem num corpo eleitoral e este último eleger quais deputados queriam, e censitário porque apenas uma parcela populacional tinha direito ao voto de acordo com o censo. Em último, na eleição para a Câmara dos Deputados, votavam os cidadãos brasileiros e negros libertos, com exceção de menores de 25 anos, os que não tivessem renda anual de pelo menos 100 mil- réis em imóveis, indústria, comércio ou emprego - ou seja, quase toda a população. Já os candidatos deveriam ser católicos e ter uma renda mínima anual de 400 mil-réis. Outrossim, 8 Para saber mais, ler O modelo política na Constituição do Império, do Prof. Dr. Manoel Conçalves Ferreira Filho. Disponível em http://www.periodicos.usp.br/rfdusp/article/download/66767/69377 História do Brasil Império 8</p><p>Universidade Santa Cecília - Educação a Distância EAD UNISANTA afunilava-se cada vez mais quem gozaria deste direito e assim manter-se-ia uma estrutura político-social fechada e elitista. Manter Romana; Integridade Observar Faxer litica presente Projecto de a mesma) w logo jurado, como do Imperio Guardar guar dar todas as do Imperio Prover as do em Him Rio vinte since de Marco de mil evin Para melhor administração desta imensidão territorial, dividiu-se o país em províncias cujo presidentes eram escolhidos pelo imperador. Instituíram-se o Conselho de Estado e o Poder Moderador9: o "Conselho de Estado era um órgão composto por conselheiros vitalícios nomeados pelo imperador", com idade mínima de 40 anos e renda não inferior a 800 mil-réis, tinha-se como objetivo colocar-se na resolução de conflitos, de declaração de guerra à ajustes de pagamento. Já o Poder Moderador, foi influenciado pelas ideias de Benjamin Constant que defendia a "separação entre o Poder Executivo, cuja 9 Para saber mais, ler A velha arte de governar: o Conselho de Estado no Brasil Imperial da Dra. Maria Fernanda Vieira Martins. Disponível em História do Brasil Império 9</p><p>Universidade Santa Cecília Educação a Distância EAD UNISANTA atribuições caberiam aos ministros do rei, e o poder propriamente imperial, chamado de neutro ou moderado" (p. 131). Entretanto, aqui no Brasil, à época, este Poder Moderado foi cooptado pelo imperador e assim controlou o poder ainda mais em suas mãos. 2.2. Privilégios e interesses Como podemos perceber, a política no Brasil Império centralizava cada vez mais o poder na mão do em nada permitia a ascensão social e o entendimento sobre cidadão e cidadania era extremamente elitista e excludente, impossibilitando que negros escravizados participassem de quaisquer tomadas de decisão como também as mulheres ocupassem os espaços. Afinal de contas, como é de se imaginar, se as tomadas de decisão estão nas mãos da elite local, evidentemente ela protegera seus próprios interesses. Lilian Schwarcz (2019) pontua que "a nova Trindade ministerial, de tão ineficiente aos olhos da população local, foi logo ironizada e comparada a 3 diferentes relógios: um atrasado (dom Fernando de Portugal), outro parado (visconde de Anadia), e o terceiro sempre adiantado (dom Rodrigo) todos girando na direção do monarca" (2019, p. 71). Quanto mais se consolidava este patrimonialismo do Estado, mais as despesas com a máquina estatal aumentavam e mais recursos havia de ser necessário para a sua Logo, D. João concedeu, até seu retorno à Portugal em 1821, "onze títulos de duque, 38 de marqueses, 64 condes, 91 viscondes e 31 barões. Além de 2630 cavaleiros, comendadores e da Ordem de Cristo; 1422 da Ordem de São Bento de Avis e 590 da de Santiago" (SCHWARCZ, 2019, p. 73). Estes títulos serviam como moedas de troca, como apoio políticos e compra/venda de influências. Como se pode ver, os privilégios estavam centrados nas mãos de homens brancos, nascidos aqui no Brasil ou oriundos da Europa, sobretudo Portugal, com substancial posse financeira enquanto uma manutenção da sociedade patriarcal. Algo presente até os dias atuais em nossa estrutura social. 10 Para saber mais, ler A idéia de Império e a fundação da Monarquia Constitucional no Brasil do Prof. Dr. Eduardo Romero de Oliveira. Disponível emhttps://www.scielo.br/pdf/tem/v9n18/v9n18a03.pdf 11 Recomendo assistir aos 12 episódios da animação produzida pelo canal Futura a partir dos estudos de Lilian Schwarcz, disponível emhttps://www.youtube.com/playlist?list=PL5837763F26AB1B87 História do Brasil Império 10</p><p>Universidade Santa Cecília - Educação a Distância EAD UNISANTA O mesmo ocorre com relação ao racismo estrutural tão presente até os dias de hoje no Brasil. Ao coisificarem as negritudes e não lhes permitirem o direito de gozarem da cidadania, impondo-os ao regime escravista à base da tortura, percebemos, assim, até os tempos atuais, uma notória desigualdade social marcada na pele, conforme destacado em matéria no Portal UOL, a partir dos dados do IBGE: Negros são 75% entre os mais pobres; brancos, 70% entre os mais 2.3. Confederação do Equador O ato unilateral de dissolução da Assembleia e a imposição de uma Constituição gerou forte reação, sobretudo no Nordeste, local onde as ideias republicanas, anti- portuguesas e federativas já circulavam com maior intensidade na elite local. Estas oposições circulavam em importantes jornais à época, como no caso de O Tamoyo, a Sentinela da liberdade e o Tífis Pernambucano. Figuras centrais e lideranças locais logo foram presas e algumas executadas após a dissolução da Constituinte. Estes fatos, somados à nomeação de um governador não desejado, geraram o levante conhecido como Confederação do Ao contrário da Revolução Pernambucana de 1817, que CONFEDERAÇÃO era rural e oligárquica, a Confederação do Equador buscou reunir Pernambuco, as províncias da Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e o Pará, majoritariamente urbanas, chegando ao limite de ocuparem o palácio governamental num INDEPENDENCIA movimento nacionalista e anti-lusitano. Em virtude de sua escassez de recursos e armamentos, não logrou sucesso e foi derrotada nas várias províncias do Nordeste, findando em novembro de 1824. Como forma de explicitar o poder, seus opositores foram condenados à morte por enforcamento ou fuzilados. 12 13 Para saber mais sobre a Confederação do Equador, ler a dissertação de Mestrado de Janine Pereira de Sousa Alarção, intitulada de "O saber e o fazer: República, Federalismo e Separatismo na Confederação do Equador. Disponível em Alarcao.pdf História do Brasil Império 11</p><p>iversidade Santa Cecília - Educação a Distância EAD UNISANTA O Nordeste foi um notório centro de oposição aos interesses imperiais, realizando revoltas significativas no período entre 1817 e A isso, para além das questões internas, há o fato de geograficamente estar mais próximo à América Central, do Norte e Europa, recebendo com maior facilidade os ares republicanos que sopravam nestas regiões numa constante batalha para a consolidação do estado moderno. Muitos membros da elite que iam estudar em países europeus também retornavam sob a influência destes novos olhares e passavam a se opor ao regime escravista em voga. 14 Para saber mais, ler Carvalho, Marcus J.M. de. "Os negros armados pelos brancos e suas independências no Nordeste (1817-1848)". Independência: história e Ed. István Jancsó. São Paulo: Hucitec. Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo -FAPESP-, 2005. 881-914</p><p>Universidade Santa Cecília - Educação a Distância EAD UNISANTA 3. ABDICAÇÃO DE DOM PEDRO Objetivo Valorizar os ventos que sopravam favoráveis ao republicanismo. Reconhecer a importância da Revolução Francesa para a mudança de olhar no Brasil. Destacar as elites políticas e a diferença entre liberais e absolutistas. Analisar o papel da imprensa alternativa na disseminação de novas ideias. 3.1. Conjuntura externa Conforme estamos construindo ao longo desta primeira semana, o Brasil não estava sozinho no mundo e diversos países conquistavam suas independências (ver a introdução do capítulo anterior) naquele mesmo período e, justamente por isso, há de compreendermos a importância da formação dos estados modernos ao longo do mundo, assim como o fortalecimento do republicanismo e a consolidação do capitalismo. Isso, o que chamamos de conjuntura externa, mostra-nos que, embora os movimentos de independência se fortaleciam no Brasil, a cobrança era muito maior advinda do outro lado do oceano, sobretudo da Inglaterra. Em 1789, eclodia a Revolução um movimento patrocinado pela burguesia local com o apoio dos camponeses e das classes urbanas que, em contraste com os monarcas, viviam em situação de miséria. Em 14 de julho de 1789, os parisienses tomam a Bastilha e novas ideias começaram a circular pela região, como no caso daquelas advindas de iluministas como Voltaire, Montesquieu, Rousseau, Diderot e Adam Smith, este último conhecido como o pai do liberalismo econômico. 15 Para saber mais, ler A Revolução Francesa e seu eco,de Michel Vovelle. Disponível em https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40141989000200003&script=sci_arttext História do Brasil Império 13</p><p>Universidade Santa Cecília Educação a Distância EAD UNISANTA Em 1803, Napoleão Bonaparte passa a desenvolver uma série de conflitos contra as monarquias europeias. Exímio conhecedor da arte da tática de guerra, empreendeu sistemáticas batalhas ao ponto de Portugal trazer sua corte real ao Brasil, num intento de salvaguardar sua vida e manter o controle político da Metrópole a partir da Colônia. Como, entre o final do século XVIII e início do século XIX, diversas nações começam a desenvolver seus processos de o mesmo ocorre no Brasil e o recém- império brasileiro herda diversos problemas decorrentes da "ocupação da Banda Oriental, sob a forma artificiosa de Província Cisplatina" (FAUSTO, 2019, p. 133) e, em 1825, rebeliões eclodem reivindicando a separação do Brasil e a incorporação às Províncias Unidas do Rio da Prata (hoje conhecida como Argentina). A paz só foi alcançada com mediação inglesa, em virtude de a guerra ter sido prejudicial para os seus negócios ultramarinos. Como o Brasil ainda não dispunha de um forte poderio militar, recrutaram-se brasileiros (significativa parcela negra), à força, e viu-se a necessidade da contratação de reforço exterior. Entretanto, estes estrangeiros, em sua maioria, eram formados por pobres e sem quaisquer instruções militares, pois buscavam apenas um gratuito deslocamento para o Brasil num intento de se tornarem pequenos proprietários de terra. Logo, em nada (ou pouco, mais precisamente) ajudaram o Império brasileiro na batalha. Cito, como exemplo, o fato de muitos destes se amotinarem no Rio de Janeiro, em 1828, forçando o governo a pedir auxílio de tropas inglesas e francesas para a sua manutenção. historiador Boris Fausto (2019) nos lembra ainda que "o Banco do Brasil, criado por dom João VI, em 1808, entrou em dificuldades desde 1821, quando o rei, pouco antes de partir para Portugal, retirou o ouro nele depositado" (id ibd, p. 134), forçando dom Pedro a produzir e emitir moedas de cobre, estas mais fáceis de serem falsificadas. Mesmo com a emissão de papel moeda a economia brasileira estava bastante prejudicada, "em 1829, por exemplo, o papel-moeda circulava em São Paulo por 57% do seu valor nominal" (id idb, p. 134). Esta conjuntura, como é de se imaginar, gerou intensos atritos entre brasileiros e portugueses que aqui estavam e comandavam as esferas políticas e administrativas. 16 Para saber mais sobre a conjuntura internacional, ler A era das revoluções: 1789-1848, de Eric Hobsbawn. História do Brasil Império 14</p><p>Universidade Santa Cecília Educação a Distância EAD UNISANTA 3.2. Elite política À época, a elite política ou seja, do período de 1800-1899 - era dividida entre liberais e absolutistas. Os liberais "se alinhavam na defesa da ordem e da propriedade, como os absolutistas, mas defendiam a liberdade constitucional para garanti- las, eram partidários das 'novidades', especialmente da grande novidade de estar em oposição ao governo e ao próprio monarca" (FAUSTO, 2019, p. 134). Os absolutistas eram "defensores da ordem e da propriedade, garantida por seu imperador forte e respeitado. Temiam que a 'liberdade excessiva" pusesse em risco seus privilégios e aceitavam, em nome da ordem, os atos imperiais contrários à legalidade (id. p. 134). Em virtude do medo de perderem seus poderes e influências, "muitos membros da elite brasileira se colocaram ao lado de Dom Pedro, por desconfiarem do liberalismo e por terem assumido os cargos na administração e recebido títulos honoríficos fartamente concedidos pelo imperador. É certo, porém, que no correr dos acontecimentos os brasileiros foram cada vez mais engrossando as fileiras liberais, enquanto os portugueses se apegavam a figura do imperador" (id. p. 134). O mesmo ocorreu com o Cada vez mais se afastavam do imperador. Quanto a isso, vale destacar que "sua base era recrutada entre a população mais pobre dos centros urbanos; a maioria dos soldados era formada por mulatos que sofriam as más condições de vida, o atraso no pagamento do soldo, a rígida disciplina." (id. lbd. p. 136). Outro fator de impacto se dava em virtude de os postos de comando serem ocupados por portugueses e as diversas derrotas vividas nas batalhas internas e externas. 17 Para saber mais, ler O Império do Brasil no contexto do século XIX. Escravidão nacional, classe senhorial e intelectuais na formação do Estado, do Prof. Dr. Ricardo Henrique Salles. Disponível em https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S2236- 46332012000200005&script=sci abstract&ting=pt 18 Para saber mais, ler História Militar do Brasil, de Gustavo Disponível em História do Brasil Império 15</p><p>Universidade Santa Cecília - Educação a Distância EAD UNISANTA ALFERES CORONEL (Exército Brasileiro: infantaria ligeira e caçadores. 1866-1870) ápice da exteriorização do descontentamento se deu quando "o imperador regressava [ao Rio de Janeiro] de uma viagem a Minas, onde fora recebido com a maior Os portugueses decidiram realizar festejos [...] para demonstrar seu apoio a ele. Houve reação dos brasileiros, daí nascendo os primeiros tumultos, que se prolongaram por 5 dias" (id. lbd. p. 136), de um lado os portugueses favoráveis ao imperador, do outro brasileiros descontentes com a centralização do poder lusitano. Este tumulto durou cinco dias no Rio de Janeiro e ficou conhecido como noite das garrafadas, em virtude de os portugueses jogarem garrafas e cacos de vidro contra os brasileiros bradando contra os um forte jornal que se opunha ao império. Das ruas e calçadas, os brasileiros jogavam nos portugueses o que tinham em mãos. 3.3. Imprensa alternativa Como uma forma de produzir uma oposição ao governo português no Brasil, criaram- se três jornais de significativa importância. Uns de grande circulação e outros não, mais efêmeros e pontuais. Dentre eles, citamos três Tamayo, Sentinela da liberdade e o Tífis Pernambucano. Debruçaremos rapidamente em cada um, mais enquanto um registro histórico do que um estudo aprofundado. História do Brasil Império 16</p><p>Universidade Santa Cecília Educação a Distância EAD UNISANTA Tamoyo Conforme destacado em o "periódico [foi] fundado e dirigido por Antônio Menezes Vasconcelos de Drummond, com a ajuda do desembargador Francisco da França Miranda, e considerado porta-voz dos irmãos Andrada. Seu primeiro número sai em 12 de agosto de 1823. É um jornal de feições modernas, linha liberal e serve para difundir as ideias do grupo andradino para a sociedade. Fundado depois da demissão de José Bonifácio do Ministério do Reino e Negócios Estrangeiros, e de seu irmão Martim Francisco, do Ministério da Fazenda, tem forte teor oposicionista em relação ao governo de d. Pedro I. O nome do periódico tem como referência a tribo indígena que mais lutou contra a dominação portuguesa. Seu último número sai em 11 de novembro do mesmo ano, por ocasião do fechamento da Constituinte, quando os seus redatores são obrigados a fugir, indo ao encontro de José Bonifácio no exílio." A Sentinela da liberdade De acordo com o portal "as ideias liberais ganharam ímpeto a partir da presença e da atuação, no Recife, do político e jornalista Cipriano José Barata de Almeida que retornava da Europa. Apesar de formado em medicina, pela Universidade de Coimbra, passou a maior parte de sua vida dedicado às atividades políticas. Cipriano Barata era, segundo o historiador Amaro Quintas, (...) "irrequieto e combativo". Constava inclusive que, por repudiar traços de qualquer outra Metrópole, usava roupas feitas apenas com tecidos do Brasil. Era também conhecido como "homem de todas as revoluções" pois estivera na Conjuração Baiana de 1798 e na Revolução Pernambucana de 1817. A partir de 1823 começara a publicar um periódico chamado Sentinela da Por meio da nascente imprensa alternativa - que veiculava críticas e propostas políticas incentivando e envaidecendo uns, preocupando e descontentando outros Cipriano Barata hostilizava o Governo imperial. Utilizando um texto combativo e agressivo, posicionava-se a favor das ideias republicanas e da autonomia das províncias. Por essa razão foi detido na fortaleza de Brum, em Pernambuco, em 17 de novembro de 1823. Preso, desagradando e inquietando a muitos, continuou opondo-se ao Governo e escrevendo outro jornal, dando- lhe o nome de: "Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco, atacada e presa na fortaleza de Brum por ordem da força armada reunida." Transferido, posteriormente, para 19 Disponível em 20 Disponível em barata.html História do Brasil Império 17</p><p>Universidade Santa Cecília Educação a Distância EAD UNISANTA o Rio de Janeiro acabaria passando por inúmeras fortalezas permanecendo detido até 1830." Tífis Pernambucano. Ainda de acordo com o portal "em sintonia com a mesma pregação do político e jornalista Cipriano Barata estava o frei carmelita Joaquim do Amor Divino De origem humilde conhecido como Frei Caneca por ter sido vendedor de canecas quando garoto em Recife foi educado no Seminário de Olinda onde absorveu os ideais liberais. Erudito, distinguia-se na luta pelas ideias em que acreditava e pela vastidão dos seus conhecimentos, o que resultava em críticas profundas à Carta outorgada de 1824. Em alguns momentos tomava atitudes interessantes como, por exemplo, quando esteve detido em prisões na Bahia, usando o seu tempo a ensinar Matemática aos outros prisioneiros, chamados por ele "seus companheiros de desdita". Dirigindo o jornal Tifis Pernambucano, Frei Caneca fazia sua pregação republicana denunciando o autoritarismo imperial e conclamando a população à luta. Em seu primeiro número, lançado a 25 de dezembro de 1823, o Tifis anunciava que o país parecia (...) "uma nau destroçada pela fúria oceânica, ameaçando carecendo da ajuda decidida e abnegada de todos os seus filhos." Nas páginas de seu jornal, Frei Caneca, que tivera participação ativa na Revolução Pernambucana de 1817 e que, segundo o Conde dos Arcos, fora um dos que havia transformado Pernambuco num "covil de monstros infiéis" considerava a Constituição outorgada (...) "iliberal e contrária à liberdade, à Independência e direitos do Brasil." Entendia ser o Poder Moderador "a chave mestra da opressão da nação brasileira." Suas claras posições políticas também chamaram a atenção de Maria Graham que, passando por Recife e observando o espírito de rebeldia que contagiava os pernambucanos, comentou sobre "um padre" lá existente, Frei Caneca, nele identificando, como todo pernambucano, um sentido de independência." 21 Disponível em caneca.html História do Brasil Império 18</p><p>Universidade Santa Cecília - Educação a Distância EAD UNISANTA 4. PERÍODO REGENCIAL Objetivo Destacar as causas e consequências da abdicação de dom Pedro I. Reconhecer a influência do liberalismo na mudança de mentalidade da época. Evidenciar as reformas administrativas enquanto tentativa de suprimir a influência lusitana no governo central e nas tropas militares. Salientar os movimentos de insurêências realizados em diversas provinciais brasileiras, ora se opondo a centralização do governo, ora apoiando-o. Introdução Período Regencial é aquele posterior à abdicação de dom Pedro em virtude de ser uma época em que o país era regido por figuras políticas em nome do imperador até a sua maioridade, em 1840. Inicialmente tivemos três regentes e, a partir de 1834, apenas um. A importância deste período está por conta das discussões políticas sobre centralização e descentralização da unidade territorial e do poder, o quanto de autonomia cada província gozaria e como se organizaria e estruturaria as Forças Armadas do Brasil. Como podemos imaginar, foi um período extremamente conturbado e de intensas disputas políticas internas. Enquanto o liberalismo ganhava corpo preconizando as liberdades individuais em diversas partes do mundo, ocorriam choques diversos para com o poder absolutista em voga. "Nas condições brasileiras da época, muitas medidas destinadas a dar alguma flexibilidade ao sistema política e a garantir as liberdades individuais acabaram resultando em violentos choques entre as elites e no predomínio do interesse de grupos locais." (FAUSTO, 2019, p.139). 22 Para saber mais, ler O que é liberalismo, de Donald Stewart Jr. Disponível em http://dagobah.com.br/wp- História do Brasil Império 19</p><p>Universidade Santa Cecília - Educação a Distância EAD UNISANTA Ao mesmo tempo, vale destacar que sequer havia consenso entre as classes e grupos dominantes sobre qual estrutura político-administrativa seria mais interessante para eles. Com a abdicação de dom Pedro I, em 7 de abril de 1831, os liberais moderados aumentaram as suas influências no Brasil. Na oposição, tinham os e os Enquanto os exaltados defendiam a federação (autonomia das províncias) conjuntamente com as liberdades individuais, os absolutistas (chamados de caramurus) ansiavam pelo retorno de dom Pedro ao trono e assim manterem suas influências no governo, uma vez que em sua maioria era formada por lusitanos e oligarcas. Seus sonhos foram logo interrompidos com a morte do imperador em 1834, em Portugal. 4.1. Reformas institucionais Com a perda da influência da monarquia nas decisões políticas internas no Brasil, "as reformas do período regencial, entre outros pontos, trataram de suprimir ou diminuir as atribuições de órgãos da Monarquia e criar uma nova forma de organização militar, que reduzisse o papel do Exército" (FAUSTO, 2019, p. 140). Com a já existência do Código Criminal de dois anos mais tarde entrou em vigor o Código de Processo Criminal, responsável por fixar as normas para a aplicação do Código Criminal. Esta ação deu maiores poderes aos juízes locais que agora poderiam julgar e prender pessoas acusadas do cometimento de pequenas infrações. Acredito ser de grande importância nos atermos à reforma jurídica produzida ali, naquele momento e contexto histórico: o Código de Processo foi fortemente influenciado pela estrutura jurídica estadunidense e inglesa, instituiu o júri para julgar os maiores problemas e o habeas corpus para aqueles presos ilegalmente ou àqueles que tinham suas liberdades ameaçadas em decorrências de perseguições Quanto a questão da escravidão, esta mesma estrutura jurídica favoreceu traficantes e assassinos de negros escravizados. 23 Disponível 24 Para saber mais, ler código do processo criminal de 1832 e as críticas dos ministros da Justiça, de Patrícia Figueiredo Aguiar. Disponível emhttps://www.revista.ueg.br/index.php/sapiencia/article/view/8199/5741 História do Brasil Império 20</p><p>Universidade Santa Cecília - Educação a Distância EAD UNISANTA Em agosto de 1834, criou-se um ato adicional à Constituição de 1824 e extinguiu a presença do Poder Moderador e do Conselho de Estado durante o período regencial, diminuindo ainda mais a influência da monarquia no Estado que ali se formava. Quase o mesmo ocorreu com os presidentes de províncias. Estes, continuavam a ser indicados pelo poder central, entretanto, criaram-se Assembleias Provinciais com maiores poderes, substituindo, assim, os antigos Conselho Gerais. As Assembleias Provinciais passaram a legislar sobre as despesas e impostos para a manutenção da máquina administrativa local com o intuito de melhor adequar às necessidades, enfraquecendo ainda mais a influência do Governo Central. As Assembleias Provinciais passaram a nomear e demitir funcionários públicos, permitindo, aos políticos locais, uma importante arma administrativa para aumentar suas influências locais - algo ainda presente em tempos atuais. Ainda no início do Período Regencial, o exército era visto por muitos com deveras desconfianças em virtude de seu grande número de oficiais portugueses e por conta da baixa remuneração aos oficiais da base, insatisfeitos com os rumos políticos, gerando, assim, um iminente risco destes se aliarem às revoltas urbanas. Frente a tais riscos, criou-se, em 1831, a Guarda Nacional num intento de substituir as antigas milícias e armar uma parte da população para servir como fiscais de possíveis excessos do governo centralizado e por conta das 'classes (FAUSTO, 2019, p. 141) ASSEMBLEA PROVINCIAL CIRCULAR DG MINISTERIO História do Brasil Império 21</p><p>Universidade Santa Cecília - Educação a Distância EAD UNISANTA 4.2. Revoltas provinciais Antes de nos determos nas no Norte, Nordeste e na Guerra dos Farrapos, mais especificamente, acredito ser importante explicitar que elas não tinham as mesmas características - embora tivessem suas similaridades no motivo inicial: incertezas na organização política - e ocorreram em várias regiões do Brasil. Só no Rio de Janeiro, por exemplo, houve cinco levantes entre 1831 e 1832. Portanto, por mais que nos debrucemos, a seguir, nas revoltas existentes no Norte, Nordeste e na Guerra dos Farrapos, tenha em mente que as realidades locais e as dinâmicas regionais tiveram um peso extremamente forte em suas eclosões. Portanto, há de analisarmos suas individualidades também. Cabanagem (1835-1840) (1838-1841) AMAZONAS MARANHAO CEARA GRANDE DO NORTE PERNAMBUCO BAHIA MATO Sabinada (1837-1838) GROSSO MINAS GERAIS PAULO SANTA CATARINA PEDRO dos Movimentos sociais no período 4.2.1. Revoltas no Norte e Nordeste Entre 1832 e 1835, um movimento marcadamente rural eclodiu uma significativa revolta chamada de Revolta dos Cabanos, ou Cabanada, em Pernambuco, Alagoas e Pará, 25 Para saber mais, ler A independência do Brasil como uma revolução: história e atualidade de um tema clássico, de João Paulo G. Pimenta. Disponível emhttps://www.historiadahistoriografia.com.br/revista/article/download/69/34 História do Brasil Império 22</p><p>Universidade Santa Cecília Educação a Distância EAD UNISANTA que contava com a presença de todos as classes sociais de negros escravizados aos senhores de engenho e objetivava-se lutar pelo cristianismo e pela retomada do Imperador, uma vez que estes eram contra os jacobinos', ou seja, setores da sociedade que flertavam com as ideias da revolução francesa e do liberalismo presente nas sociedades secretas. Aqui, neste ponto, você deve estar se perguntando 'mas Tássio, como que os negros escravizados estavam do mesmo lado na guerra dos senhores de engenho?' Esse pensamento é interessante e justamente por isso necessitamos de criticidade ao olhar a história e não cair na tentação do anacronismo. À época, as informações não circulavam com facilidade em todos os meios sociais e as manipulações eram facilmente difundidas - algo semelhante às fake news de hoje em dia. Boris Fausto (2019) nos lembra que "camadas pobres da população rural expressavam suas queixas contra mudanças que não entendiam e eram distantes de seu mundo. [Portanto,] Os cabanos contaram com o apoio de comerciantes portugueses do Recife e de políticos restauracionistas na capital do Império" (2019, p. 142). O levante foi findado após batalhas e os cabanos assumirem a perda da guerra. Outra rebelião ocorreu entre 1835 e 1840, esta no Pará e ficou conhecida como cabanagem. A sua se deu por conta da discordância da elite local perante a nomeação para presidente da província e, obtendo êxito inicial no levante, uma tropa de insurgentes se dirigiu a Belém para também a conquistar. Após dias de batalha, proclamaram a independência do Seus ataques eram direcionados contra estrangeiros e maçons e suas defesas eram direcionadas à religião, aos brasileiros, dom Pedro II, ao próprio Pará e à liberdade. Entretanto, vale destacar que embora muitos negros escravizados estivessem nas linhas de frente do levante, quando se organizaram para estender a liberdade para todos os outros ainda escravizados, logo foram reprimidos por Eduardo Angelim, líder do levante. 26 Para saber mais, ler Cabanagem, cidadania e identidade revolucionária: o problema do patriotismo na Amazônia entre 1835 e 1840, de Magda Ricci. Disponível em https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413- 77042007000100002&script=sci abstract&ting=pt História do Brasil Império 23</p><p>Universidade Santa Cecília Educação a Distância EAD UNISANTA Vale destacar também que Eduardo Angelim, uma grande liderança do movimento rebelde, logo tentou organizar ali um governo e colocou um padre na função de secretário por ser uma das poucas pessoas que sabia ler e escrever fluentemente. Após uma série de longos confrontos com o Império, Belém foi praticamente destruída e sua economia devastada. Estima-se que 20% da população local foi assassinada ao longo das batalhas. Outro levante muito conhecido e que vale destaque é o da Sabinada, ocorrida entre 1837 e 1838. Liderado por Sabino Barroso, jornalista e professor da Escola de Medicina de Salvador, ocorreu na Bahia e contou com uma ampla base de apoio favoráveis às ideias federalistas e republicanas. Contou com a participação e apoio de negros escravizados interessados em suas liberdades, uma vez que havia a promessa de que aqueles nascidos no Brasil seriam libertos ao seu fim, embora aqueles nascidos na África, sequestrados e trazidos para cá continuariam sendo escravizados. Entretanto, apenas aqueles que pegassem em armas e lutassem na Sabinada teriam direito à libertação. Não contaram com o apoio dos senhores de engenho do Recôncavo e, após cerco, a guerra findou com mais de 1800 mortos. A é um levante que aqui também merece ser destacado. Ocorrida no Maranhão, entre 1838 e 1841, em virtude das disputas entre grupos da elite local, concentrou-se ao Sul do estado, numa área de pequenos produtores de algodão e gado. Liderados por Raimundo Gomes, um proeminente envolvido com a política local, e por Francisco dos Anjos Ferreira, um artesão que fazia balaios (cestos), envolveu-se no 27 Para saber mais, ler Balajada: construção da memória histórica., de Maria de Lourdes Janotti. Disponível em História do Brasil Império 24</p><p>Universidade Santa Cecília - Educação a Distância EAD UNISANTA levante em virtude de sua filha ter sido violentada por um capitão da polícia. BALATADA Guerra d'o Junto a eles, somou-se à liderança Cosme Bento das Chagas, negro que liderava mais de três mil negros escravizados que, interessados em promover mudanças ainda mais significativa do que a construção de quilombos de resistências, entraram no levante para a conquista da liberdade aos pares. Com a existência de pessoas das mais variadas classes sociais, de comerciantes a negros escravizados, suas visões distintas de mundo logo se explicitaram e coadunaram para que divergências aparecessem, favorecendo para que a tropa do governo central lograsse o objetivo de suprimir o levante. 'Anistiaram-se' os sobreviventes, desde que fossem postos novamente na condição de escravos, e seu líder, Cosme Bento (conhecido como Negro Cosme), foi enforcado dois anos após o fim do levante, em 1842. 4.2.2. Guerra dos Farrapos Do outro lado do país, no Rio Grande do Sul, a Guerra dos Farrapos eclodiu em 1835 e também ficou conhecida por Farroupilhas. O nome do levante deriva de farrapos ou farroupilhas significar maltrapilhos, pessoas vestidas com farrapos. Entretanto, seus líderes de nada tinham de farrapos, pois eram representantes da elite de estancieiros, ou seja, criadores de gado local militarizados que tinham intenso contato com os uruguaios, contando inclusive com terras do outro lado da fronteira. O descontentamento se dava em virtude das cargas tributárias impostas pelo governo central aos gaúchos que, apesar de suas contribuições com a criação de gado e carne de charque, eram obrigados a pagar. Passaram a reivindicar a autonomia e a separação do estado do resto do Brasil. Com a Regência, o Ato e as mudanças 28 Para saber mais, ler a dissertação de Mestrado de Andre Paulo Castanha, intitulada Ato Adicional de 1834 e a instrução elementar no império: descentralização ou centralização? e em História do Brasil Império 25</p><p>Universidade Santa Cecília - Educação a Distância EAD UNISANTA administrativas, as províncias com maiores recursos enviavam uma parte destes para o governo central e este direcionada para outras províncias sem o mesmo sucesso financeiro, no caso, mais especificamente, enviavam para Santa Catarina e outras regiões. Como a elite local era predominantemente formada por criadores de gado e de carne de charque, logo se explicitou as diferenças perante o movimento. Enquanto os primeiros tinham interesse na autonomia para que não pagarem taxação de gado na fronteira com o Uruguai, os produtores de carne de charque se opunham ao levante, já que vendiam seus produtos de origem animal para o governo central. Liderados por Garibaldi e Bento Gonçalves, um filho de um rico estancieiro, lograram êxito ao controlarem o Norte de Santa Catarina. Para tanto, fizeram uso do serviço postal maçônico para transmitirem suas mensagens secretas e aumentarem a participação da população no levante. O êxito à época foi tamanho que na cidade de Piratini, no Rio Grande do Sul, foi proclamada a República de Piratini, logrando êxito do movimento separatista, incluindo estímulos para a criação de gado e carne de charque e do couro bovino. Como a região tinha uma grande importância para o Império, além do movimento ser fortemente organizado e liderado pela elite de criadores de gado local, "a posição do governo central foi entremeada de combate e concessões aos rebeldes [...] Em princípio de História do Brasil Império 26</p><p>Universidade Santa Cecília - Educação a Distância EAD UNISANTA 1840, o governo central cedeu uma das principais exigências econômicas dos farrapos , decretando uma taxa de importação de 25% sobre a carne salgada vinda do prata e que concorria com a nacional " (FAUSTO, 2019, p. 146). Seu fim só ocorreu com a nomeação de Caxias para presidente e comandante de armas da província. Como era um exímio articulador político, logo buscou contato individualmente com as lideranças do movimento para propor acordos bilaterais e conseguir as assinaturas para o tratado de paz. Entretanto, tanto a guerra como o tratado de paz (conhecido como Tratado de Poncho tiveram um custo, e não foi para os farroupilhas, mas sim para o Império que teve que conceder "anistia geral aos revoltosos, os oficiais farroupilhas integraram-se de acordo com suas patentes ao exército brasileiro e o governo imperial assumiu as dívidas da República de Piratini" (FAUSTO, 2019, p. 146). Como a Argentina controlava as duas margens do rio da Prata e Juan Manuel de Rosas, um líder local, tentava se consolidar no poder, Brasil e Uruguai se uniram numa guerra antirrosista conjuntamente com as províncias argentinas de Corrientes e Entre Ríos para combatê-lo, sendo vencedores um ano depois, em 1852. 29 Para saber mais, ler Guerra Farroupilha: considerações acerca das tensões internas, reivindicações e ganhos reais do decênio revoltoso, de Laura de Leão Dornelles. Disponível em https://core.ac.uk/download/pdf/287198321.pd História do Brasil Império 27</p><p>Universidade Santa Cecília - Educação a Distância EAD UNISANTA 5. SEGUNDO REINADO Objetivo Analisar como se deu o regresso da corte e a ascensão de dom Pedro II, aos 14 anos de idade, ao trono brasileiro. Destacar a influência da Guarda Nacional e do exército para a manutenção do governo imperial. Compreender a importância da Revolução Praieira sem deixar de destacar setores da elite interessados no movimento de insurêência ao Império. Pontuar o início do movimento de sufrágio universal e como as ideias de Victor Cousin e Proudhon, principalmente, influenciaram mudanças da mentalidade oitocentistas. 5.1. O fato do interesse pelo regresso originar não apenas de conservadores mas também dos liberais, por meio do apressamento à ascensão de dom Pedro ao trono, é muito peculiar e mostra a dificuldade para compreendermos ipsis litteris as ocorrências à Afinal de contas, Pedro II, ainda adolescente, com catorze anos de idade, assumiria o trono em 1840 e o interesse pelo regresso originava-se também pelo reforço da figura do imperador. Neste mesmo contexto, Conselho de Estado foi restabelecido e o Código de Processo Criminal modificado, em 1841. DESEMBARQUE DOM VI. POR UMA DAS do Terreiro do Paco em regressando 30 Para saber mais, ler Política exterior de D. João VI no Brasil, de António Pedro Vicente. Disponível em https://www.revistas.usp.br/eav/article/view/9634 História do Brasil Império 28</p><p>Universidade Santa Cecília - Educação a Distância EAD UNISANTA Tanto o aparato administrativo como judiciário voltaram às mãos do governo central, com exceção dos juízes de paz embora tenham perdido sua importância em virtude da polícia que, neste momento, vivenciava-se uma militarização do estado brasileiro. Para se mensurar o tamanho desta movimentação, em cada província o ministro da justiça nomeava um chefe de polícia. Criaram-se cargos de delegado e subdelegado nas paróquias e municípios, assumindo funções antes centradas nas mãos dos juízes de paz. Em alguns casos, estes não apenas investigavam como também processavam e aplicavam penas. Logo, tal nomeação tinha um grande caráter de centralização das tomadas de decisões. Vale destacar também que "os oficiais passaram a ser escolhidos pelo governo central ou pelos presidentes de província, aumentando-se as exigências de renda para assumir os postos. A hierarquia ficava reforçada e se garantia o recrutamento dos oficiais em círculos mais restritos." (FAUSTO, 2019, p. 152) justificando a necessidade da reforma da Guarda Nacional. Com o intuito de não gerar atritos entre a Guarda Nacional e o exército, destacou-se a função de cada uma das instituições. À primeira, ficava incumbida a atenção da ordem e a defesa dos grupos dominantes, em nível local, já à segunda, o exército, encarregou-se de arbitrar as disputas, assegurar as fronteiras e a manutenção geral do Ou seja, enquanto a Guarda Nacional se dedicava mais aos problemas pontuais e locais, o exército se incumbiu de algo mais amplo, a nível nacional, de segurança institucional. 5.2. Descentralização do Império Nos primeiros anos da década de 1840, o império não dispunha de uma sólida base de apoio social e como a sociedade em geral não tinha tanta crença no governo, houve a necessidade de buscar apoio em setores específicos, quais sejam, os grandes comerciantes e agricultores. Entretanto, para os proprietários rurais, não havia unanimidade para com o governo e encontravam-se divididos entre apoio e negação. Destes, destaca- se Joaquim de Sousa um fazendeiro de café mais rico de sua província e que buscava combater a sonegação de impostos sobre o café e buscou tomar medidas contrárias ao tráfico de negros escravizados. 31 Para saber mais, ler a dissertação de mestrado de Thiago Campos Pessoa Lourenço, intitulada império dos Souza Breves nos Oitocentos: Política e escravidão nas trajetórias dos Comendadores José e Joaquim de Souza Breves.. Disponível em https://www.historia.uff.br/stricto/td/1367.pdf História do Brasil Império 29</p><p>Universidade Santa Cecília - Educação a Distância EAD UNISANTA Anos mais tarde, em 1848, surge em Pernambuco a Revolução Praieira, com duração de dois anos. À época, a província de Pernambuco vivenciava diversas tensões sociais por conta das dificuldades impostas à população mais carente, sobretudo por conta da disputa por mão de obra. Vale lembrar que por conta do Bill Aberdeen (que veremos mais adiante) a região passou a sofrer com a ausência de negros escravizados e assim a elite local passou a disputar entre si, a partir de suas vantagens econômicas, quem teria acesso a tais compras - lembrando ainda a coisificação das negritudes naquele período. Neste cenário, destaca-se Antônio Pedro de Figueiredo, conhecido por seus adversários como Cousin (por ser miscigenado, fusco) e por ser responsável pela tradução da obra História da Filosofia, de Victor Cousin. Mais próximo das ideias progressistas, criticava a estrutura agrária brasileira, os latifúndios nas mãos de poucos e o monopólio do comércio internacional nas mãos de estrangeiros. À época, as ideias da Revolução Praieira eram interpretadas como socialistas e por isso deveriam ser fortemente combatidas pois visavam ampliar os direitos à cidadania. Não só ele como outros agentes expoentes no oitocentismo eram influenciados por ideias de Proudhon, Charles Fourier e Robert Owen. Entretanto, a Revolução em nada teve de socialista, ela foi sustentada por senhores de engenho ligados ao Partido Liberal. Ainda assim, ali, naquele contexto, começou-se a debater o sufrágio universal. Por fim, destaca-se a importância da Praieira por ter sido a última das insurêências provinciais, marcando o fim dos levantes contrários ao Império. 5.3. Entendimentos diferentes sobre a sociedade Como estamos construindo ao longo deste curso, o Brasil não estava isolado no mundo e todos aqueles ventos liberais e que sopravam na Europa e nos Estados Unidos chegavam aqui, em menor ou maior grau, e influenciavam as tomadas de 32 Para saber mais, ler o artigo Antôno Pedro de Figueiredo, o Cousin Fusco. Disponível em https://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/106730/105357 33 Para saber mais, ler O abolicionismo como Movimento Social, de Angela Alonso. Disponível em História do Brasil Império 30</p><p>Universidade Santa Cecília Educação a Distância EAD UNISANTA decisões e olhares para o cenário político local. Temos aqui, portanto, um interesse ponto de inflexão perante as especificidades oitocentistas: uma sociedade fortemente agrária, marcada pela exploração e com poucas pessoas letradas e com grau de instrução superior. Tais características nos são importantes por conta de mostrar como a nossa história do Brasil Colônia e Império ainda se faz presente no Brasil República e, mais precisamente, no Brasil do tempo presente quando analisamos as desigualdades sociais, o acesso ao ensino superior, as oligarquias e os sobrenomes que perduram na política desde o século retrasado e ainda se perpetuam em diversas regiões do país. Sendo o Brasil oitocentista um país demasiadamente desigual, qualquer movimento de resistência, qualquer movimento de necessita ser olhado em suas raízes, em suas entrelinhas para mapearmos o que de fato havia ali, por trás, e que à época não era facilmente perceptível. Este exercício de reflexão que estou propondo ao longo do curso nos é interessante enquanto um deslocamento sobretudo para que possamos, no curso seguinte, sobre o Brasil República, no semestre que vem, atentarmo-nos aos processos de construção da democracia e da constituição do republicanismo enquanto sistema político vigente. Ao que nos interessa, neste momento, acredito ser de grande importância uma atenção aos movimentos contrários e favoráveis ao Império no Brasil, quem ganhava com a sua manutenção e quem perdia com a sua existência, assim como quem ganhava com a sua interrupção e quem perdia com a sua saída. Este processo é sempre, literalmente falando, processual. Nunca sozinho, isolado. Logo, todos os movimentos que ocorriam aqui faziam-se presente dentro de uma lógica internacional, de mudança de mentalidade. Sergio Buarque de Holanda (1995) destacou a existência de "uma aristocracia rural e semifeudal [que] importou-a e tratou de acomodá-la, onde fosse possível, aos seus direitos ou privilégios, os mesmos privilégios que tinham sido, no Velho Mundo, o alvo da luta da burguesia contra os aristocratas. E assim puderam incorporar à situação tradicional, ao menos como fachada ou decoração externa, alguns lemas que pareciam os mais acertados para a época e eram exaltados nos livros e discursos." (HOLANDA, 1995, p. 34 Para saber mais, ler Abolicionismo de Joaquim Nabuco. Disponível em http://objdigital.bn.br/Acervo Digital/Livros eletronicos/abolicionismo.pdf 35 Neste sentido, recomendo fortemente a leitura do livro A História da educação dos negros no Brasil, organizado por Marcus Vinicius Fonseca e Surya Aaronovich de Barros. História do Brasil Império 31</p><p>dade Santa Cecília - Educação a Distância EAD UNISANTA 0). Logo, ambos setores sociais buscavam, em dada medida, articular seus interesses a com o governo central.</p><p>Universidade Santa Cecília Educação a Distância EAD UNISANTA 6. EMERGÊNCIA PARTIDÁRIA Objetivo Entender como se deu a constituição de dois partidos e seus pragmatismos. Compreender o sistema parlamentar brasileiro e o como impactavam a sociedade. Destacar os interesses privados da elite local na discussão das questões políticas e como buscavam ficar no entorno do governo. Analisar como se realizavam as eleições a partir do caso da 'eleição do cacete'. Pensar, a partir do recenseamento de 1872 quem tinha acesso à escolarização. 6.1. Introdução ao Sistema Parlamentar As rebeliões de grande magnitude que eclodiram no Nordeste brasileiro findaram-se com a Praieira em Pernambuco, os ciclos revolucionários perderam suas forças e consequentemente, todos os embates que ocorreram contra senhores de engenho e contra holandeses invasores foram controlados com a integração à ordem imperial. As elites buscavam construir outras possibilidades Para tanto, "o grande acordo, afinal alcançado, tinha como pontos básicos o reforço da figura do imperador, com restauração do poder moderador e do conselho de estado, e um conjunto de normas escritas e não escritas" (FAUSTO, 2019, p. 154). Criamos um sistema político sui generis, qual seja, uma instituição governamental semelhante ao parlamentar, mas que em nada tinha a ver com o parlamentarismo, tal qual o conhecemos. Vale destacar que a própria constituição de 1824 não permitia um parlamentarismo. Nela, "o poder executivo era chefiado pelo imperador e exercido por ministros de estado livremente nomeados por ele" (FAUSTO, 2019, p. 155), mantendo a influência do imperador nas tomadas de decisões nacionais. Num intuito de prover uma detalhada narrativa de como se deu este sistema político, transcreveremos, nas linhas a seguir, destacadas em itálico, as impressões do historiador Boris Fausto (2019, p. 155): 36 Para saber mais, ler a dissertação de Mestrado intitulada A trama que sustentava o Império : mediação entre as elites locais e o Estado Imperial Brasileiro (Jaguarão, segunda metade do século XIX), de Luciano Aronne de Abreu. Disponível em http://tede2.pucrs.br/tede2/handle/tede/6608 História do Brasil Império 33</p><p>Universidade Santa Cecília - Educação a Distância EAD UNISANTA Durante o Primeiro Reinado é a Regência não houve prática parlamentarista. Ela foi se desenhando e, mesmo assim, de forma peculiar e restrita, a partir de 1847. Naquele ano, um decreto criou o cargo de presidente do Conselho de Ministros, indicado pelo imperador. Essa personagem política passou a formar o ministério cujo conjunto constituía o Conselho de Ministros, ou gabinete, encarregado do Poder Executivo. O funcionamento do sistema presumia que, para manter-se no governo, o gabinete devia merecer a confiança, tanto da Câmara como do imperador. Houve casos em que a Câmara forçou a mudança de composição do Conselho de Ministros, mas o imperador detinha uma considerável soma de atribuições através do Poder Moderador e isso distingue o sistema político imperial do parlamentarismo. O imperador usava as prerrogativas do Poder Moderador, quando a Câmara não apoiava o gabinete de sua preferência. Nesse caso, com base no Poder Moderador, dissolvia a Câmara, após ouvir Conselho de Estado, e convocava novas eleições. Como nas eleições o peso do governo era muito grande, o imperador conseguia eleger uma Câmara que se harmonizava com o gabinete por ele preferido. Como resultado desse mecanismo, houve, em um governo de cinquenta anos, a sucessão de 36 gabinetes, com a média de um ano e três meses d duração cada um. Aparentemente, havia uma grande instabilidade, mas, de fato, não era bem isso o que ocorria. Na verdade, tratava-se de um sistema flexível que permitia o rodízio dos dois principais partidos do governo, sem maiores traumas. Para quem estivesse na oposição, havia sempre a esperança de ser chamado a governar. Assim, o recurso às armas se tornou desnecessário. 6.2. Partidos políticos A distinção entre duas correntes partidárias, os liberais e os conservadores, não pode ser lida a partir de nosso entendimento contemporâneo a respeito. À época, não havia muita diferença entre ambas e era comum a troca de partido por membros Uma frase célebre atribuída a Holanda Cavalcanti, um político pernambucano, resume bem a situação político-ideológica 'nada se assemelha mais a um saquarema do que um luzia no poder'. Saquarema era como os conservadores eram conhecidos, em virtude de serem oriundos da região de Saquarema, no Rio de Janeiro, e ficarem conhecido pelas grandes 37 Para saber mais, ler a dissertação de Mestrado intitulada Império das incertezas: política e partidos nas décadas finais da monarquia brasileira (1868-1889), de Filipe Nicoletti Ribeiro. Disponível em VOrig.pdf História do Brasil Império 34</p><p>Universidade Santa Cecília - Educação a Distância EAD UNISANTA posses de terras e desmandos políticos. Já Luzia, era como os liberais eram conhecidos em alusão à Vila de Santa Luzia, em Minas Gerais, onde ocorreram suas maiores derrotas, na Revolução de 1842. O debate das ideias políticas estava mais centrado na burguesia no social. Entretanto, pode-se dizer a existência de duas burguesias, a reacionária e a progressista. Enquanto a primeira era representada pelos latifundiários e donos de negros escravizados, a segunda era formada por comerciantes e financistas. O que nos é bastante interessante aqui é que estas elites não estavam em partidos distintos (um mais progressista e outro mais reacionário), mas sim ao fato de que dentro de um mesmo partido poderia ter quadros reacionários e progressistas tal qual no outro partido também. Ainda assim, enquanto o Partido Conservador costumava representar mais a burocracia, o Partido Liberal os interesses agrários. Ou seja, o debate ainda estava circunscrito à elite nacional. Antes de pensarmos na eleição, vale JA SABEM EM lembrar que a democracia ali não se fazia QUEM VÃO VOTAR, NAO presente, e até mesmo o uso da força era É MESMO? autorizado (!!!) para que as pessoas votassem, chegando ao limite de, em 1840, uma delas ficar conhecida como eleição do cacete, explicitando uma clara manipulação no processo eleitoral do Brasil O mesmo ocorria com relação ao imperador com os partidos aderindo às suas ideias centralizadas - embora os liberais afirmassem ser contra tal centralização do poder. Com a modificação das ideias até então propostas, em 1870 o Partido Liberal apresentou-se como Novo Partido Liberal, contando com a adesão dos conservadores Nabuco de Araújo e Zacarias de Góis e com atualizações de suas pautas, quais sejam, "defendia em seu programa a eleição direta nas cidades maiores; o Senado temporário; a redução das atribuições do Conselho de Estado; a garantia das liberdades de consciência, de educação, de comércio da indústria; e a abolição gradual da escravatura" (FAUSTO, História do Brasil Império 35</p><p>Universidade Santa Cecília Educação a Distância EAD UNISANTA 2019, p. 157). Por serem influenciados pelas ideias do liberalismo, em voga em grande da Europa, defendiam ainda que "as reformas deveriam originar-se da opinião pública - da sociedade civil na linguagem de nossos dias - e não do governo como sempre acontecerá no país" (id. p. 157). Um fato interessante é que "enquanto os conservadores extraíam sua maior força da Bahia e Pernambuco, os liberais eram mais fortes em São Paulo Minas Gerais e Rio Grande do Sul. A reunião entre burocratas, com destaque para os magistrados, e os grandes proprietários rurais fluminenses representou o coração da política centralizadora sustentada pelos conservadores" (FAUSTO, id. p. 157). A isso se dava em virtude de que o Nordeste vivenciou diversos movimentos insurgentes, gerando instabilidade econômica para os latifundiários e, assim, viam na centralização política uma forma de terem suas propriedades e riquezas protegidas. A pauta social de direitos humanos não perpassava pelos debates políticos, partidários e ideológicos à época. As ideias de descentralização partiam de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, economias fortes e que tinham relações comerciais ultramarinas. Já as ideias de participação política só ganharam maior visibilidade a partir de 1860, com o desenvolvimento urbano das cidades e aumento da escolaridade de ensino superior. Ainda assim, direito exclusivo de uma diminuta parcela populacional, quase que exclusivamente branca, conforme podemos ver no levantamento censitário a seguir. Outro fato que merece destaque para o interesse de São Paulo e Minas Gerais serem favoráveis às descentralizações do poder se dá em virtude de seus negócios cafeeiros estarem em expansão e, quanto menos interferência do governo houvesse, mais lucrariam e mais explorariam negros escravizados. Como podemos ver, a influência do liberalismo perpassava mais nas questões econômicas do que das sociais, propriamente dita. O incentivo aos estudos, a possibilidade de abertura de escolas e instituições de nível superior estavam asseguradas para a elite local. Não obstante, ainda em tempos atuais, podemos ver um notório marcador étnico- racial em profissões tidas de alta classe, como a medicina, por exemplo. Apenas contemporaneamente a questão se tornou central no debate do Brasil a partir da implementação da reparação histórica por meio dos sistemas de cotas política pública essa comprovadamente positiva, conforme estudos produzidos por Guarnieri e Melo-Silva (2017). História do Brasil Império 36</p><p>Universidade Santa Cecília Educação a Distância EAD UNISANTA INSTRUCÇÃO RAÇAS escolar de 6 15 annos Mullieres Provincias dos Homens das Mulheres E Neutro e Amazonas 4210 713 4300 3040 625 17677 172 6160 24823 1453 24195 5056 5880 871 2 49663 9200 22827 42971 46828 7029 21762 008 39718 88871 98513 5768 31521 3441 25020 71662 12504 5509 72009 12780 5434 #375 97567 117083 28143 30881 4844 29567 344117 4 53474 7505 7135 21239 53191 6318 518 17677 10003 1777 15960 17737 1024 10968 172841 14424 26701 131896 14510 1450 58657 292249 20903 10021 Grande do Norte 52835 42213 12202 5471 49630 41877 11103 558 39119 92018 21305 2058 7 73475 11155 4889 71246 88675 4685 29224 11988 163279 0630 44061 50691 8894 45830 497241 Pernambuco 194897 192054 5802 1924 92664 14069 9301 80960 98916 8220 3105 43455 101283 8087 3259 1010 26046 15814 4028 34720 38754 0 Sergipe 24358 89524 9321 1536 25420 9851 1551 334 18087 10447 68434 18336 1832 17333 19165 137574 27043 152874 278573 127,153 22839 3108 161987 468416 87135 119426 141086 81743 113313 Espirito Santo 3395 3009 13027 10881 2520 117 7229 2503 27368 1564 729 Neutro 14198 55544 22083 258 790 65164 68714 33992 58101 5788 10440 15019 Rio Janeiro 4159 142080 28198 3700 1671 69997 185809 189078 12622 44641 8104 33089 41283 9. 221200 29512 2124 212172 75018 27027 18221 92977 255327 48090 86340 8544 73915 82458 16 35930 15358 3292 4718 15278 3449 4369 352 40299 12803 44056 2558 9666 12224 10762 12628 17 Santa 03509 5941 2199 62440 5706 2048 1446 4196 12927 59161 7099 63731 3100 15676 18776 2114 15473 17587 18 Grande do 24487 17828 122273 24179 16444 18104 36222 7947 33292 41239 17270 145297 743413 19968 66083 125012 11940 112824 124764 21159 9088 2246 20777 43907 SOST 2004 4310 15699 2566 16804 19430 1240 Matto 9027 10827 3861 4270 8210 10087 3214 4248 1453 7114 20877 5401 0282 6187 Total 472008 200948 1815517 449142 155651 941782 (Fonte: BRASIL, 1872) 6.3. Por uma unidade territorial fato de que, mesmo com todas essas turbulências insurgenciais o Brasil se manter numa única político-administrativo-territorial nos é de grande importância para compreendermos as questões conjunturais. Todo fim de conflito não se dava a partir de uma articulação para a autonomia, para a liberdade, para os direitos iguais, mas sim a partir da ação sangrenta para a centralização política na mão do imperador e da elite local. Estes, quando necessário e interessante para ambos, uniam-se para combater os movimentos de impondo aos derrotados a morte, o fuzilamento, esquartejamento e retorno às suas condições subalternas. Portanto, não se sustenta a narrativa de que o processo de independência do país foi pacífico, sem batalhas e 'por isso somos assim', conforme costumamos ouvir. Este controle centralizado da política e uma diminuta, mas extremamente poderosa, elite local propiciaram que o país não se fragmentasse ao longo das revoltas e das instabilidades políticas, mas sim, que se mantivessem centrados na figura do imperador, sobretudo com a manutenção de suas posições de privilégio. Para José Murilo de Carvalho, dois elementos são centrais na constituição desse estado brasileiro: em primeiro lugar, se História do Brasil Império 37</p><p>Universidade Santa Cecília - Educação a Distância EAD UNISANTA devia à apenas a elite local ser letrada, num país de pessoas não alfabetizadas; em segundo lugar, o ensino superior era direcionado aos estudos jurídicos e assim, quando formados, trabalhavam nas instâncias do governo representando seus interesses (familiares, elitistas, dominantes). Temos aqui um importante ponto de inflexão: a elite que deteve o poder no Brasil Colônia e Império foi a mesma elite responsável pela Independência. Ou seja, "possuía características básicas de unidade ideológica e de treinamento que não estavam presentes nas elites de outros países. Apesar de não ser nada representativa do conjunto da população, teve condições de realizar uma política de construção de um Estado centralizado e conservador, que acabou por assegurar a unidade do país" (FAUSTO, 2019, p. 159) influenciando o Brasil contemporâneo (o de hoje!) a vivenciar uma série de desigualdades sociais, sobretudo no marcador étnico-racial. Afinal de contas, vale ressaltar que a elite brasileira se construiu a partir do sistema escravista, a partir de negros The Plumb pudding taking Mesmo com o reconhecimento da such Inglaterra perante a independência do Brasil, em 1822, continuou-se a fazer uso de negros escravizados em larga escala no país. Estamos de frente a um país o qual seus governantes, seus partidos políticos que estavam surgindo e suas elites não eram nem liberais de fato, nem republicanos de fato e nem antiescravistas de fato. Eram sim elitistas, reacionários e escravistas. Um país marcadamente racializado, conforme destacado em realizada pelos professores Sidney Aguilar Filho e Tales 38 Para saber mais, ler do território e a criação de municípios no período imperial brasileiro', de Adilar Antonio Cigolini. Disponível 39 Para saber mais a respeito, ler A dinâmica da escravidão no Brasil: tráfico negreiro e alforrias, séculos XVII a XIX, do Prof. Dr. Rafael de Bivar 40 Para assistir, clicar no link a seguir: Q História do Brasil Império 38</p><p>Universidade Santa Cecília - Educação a Distância EAD UNISANTA 7. A ESCRAVIDÃO Objetivo Valorizar a importância do café para o desenvolvimento econômico do país, destacando como se manteve a exploração de negros escravizados. Diferenciar as leis Bill Aberdeen e Eusébio de Queirós. Analisar as 'leis e seus impactos na população negra brasileira, tanto do Brasil independente como contemporâneo. 7.1. A economia cafeeira Embora até os tempos atuais o Brasil seja um grande exportador de café, ele foi introduzido no país apenas em 1727, quando Francisco de Melo Palheta trouxe para o Pará e ali plantou. Indubitavelmente, o café foi uma grande novidade para a exportação, passando-o a ser produzido em larga escala ao longo do Graças ao clima favorável e grande extensões de terras, o vale do Paraíba tornou-se um polo produtor e exportador de café, onde suas fazendas usavam do sistema plantation e trabalho escravo. Vale destacar, de antemão, que muitas dessas fazendas eram irregulares e a prática de grilagem se fazia presente, fosse por meio da força ou por influência de lideranças políticas No caso de disputas por terras "prevaleceu a lei do mais forte. O mais forte era que reunia condições para manter se na Terra, desalojar posseiros destituídos de recursos , contratar bons advogados, influenciar juízes e legalizar assim a posse de terras" (FAUSTO, 2019, p. 161), uma vez que para a produção do café havia de se ter um grande investimento na terra e na compra de negros escravizados. Não havia uma preocupação em enriquecimento do solo para novos plantios. Plantavam à exaustão do solo e, após seu esgotamento, mudavam-se para outras áreas, ao passo que a área anterior era abandonada ou dedicada a plantação de alimentos para consumo e comercialização local. Inicialmente, seguiu-se a forma como o café era plantado nas Antilhas: intercalado com gênero alimentícios para que pudesse crescer às sombras e sem risco de erva daninha. A colheita era realizada por negros escravizados, de forma manual e anualmente, 41 Para saber mais, ler A formação da economia cafeeira do vale do Paraíba, de Marco Aurélio dos Santos e Breno Aparecido Servidone Moreno. Disponível em https://www.scielo.br/pdf/topoi/v18n34/2237-101X-topoi-18-34-00196.pdf História do Brasil Império 39</p><p>Universidade Santa Cecília - Educação a Distância EAD UNISANTA para se ter uma ideia da dimensão da escravidão, "nas lavouras fluminenses um escravo tratava de 4 mil até 7 mil pés de café" (FAUSTO, 2019, p. 162). Uma dinastia da aristocracia cafeeira fluminense. A população escrava (Fonte: Quando se investiu em maiores plantações, houve a necessidade de se fazer uso do monjolo para que se acelerasse o processo de pilar o café. Normalmente, o seu transporte era feito sob mulas e burros, conjuntamente com um guia (chamado de arreador) e de tropeiros escravizados. lam das fazendas do Vale do Paraíba até o Rio de Janeiro. Levavam consigo cafés e retornavam com ferramentas, mantimentos como bacalhau, carne-seca e toucinho, além de móveis, cristais e porcelanas importados para os donos das fazendas. Se tamanha distância entre o Vale do Paraíba e o porto do Rio de Janeiro lhe causou impacto, vale lembrar que à época não se tinha urbanismo e vias asfaltadas como em tempos atuais. Esse cenário só foi se consolidando ao passo que o café se tornava um atrativo maior para o mercado tornando-os grandes investidores de infraestrutura para maior escoamento do produto. Aumentava-se também o poder de influência dos donos de fazendas cafeeiras, inserindo-os na e apoiando o governo imperial para aumentarem ainda mais seus lucros. 42 Disponível em 43 Para saber mais, ler Império do Brasil (1844-1864): Os reflexos do café na formação econômica do Brasil de Rodolfo Raja Gabaglia Artiaga. Disponível em 44 Para saber mais, ler segundo reinado: a construção da ordem política, de Augusto Leal Disponível em História do Brasil Império 40</p><p>Universidade Santa Cecília - Educação a Distância EAD UNISANTA Tabela 3. Brasil Exportação de mercadorias (% do valor dos oito produtos prin- A economia brasileira, fortemente marcada pela cipais sobre valor total da exportação) Couros Decênio Total Açúcar Cacau Erva-mate Fumo Algodão Borracha agricultura e pecuária, até os tempos atuais, Peles 1821-1830 85.8 30.1 - 2.5 13.6 mostra-nos como o Brasil ainda é um país em 1831-1840 89.8 0.6 7.9 1841-1850 41,4 26,7 1.0 0,9 8.5 Destaca-se ainda que as 1851-1860 90,9 21.2 1.6 2.6 1861-1870 90.3 45.5 12.3 0,9 1.2 3,0 18.3 3.1 1871-1880 56.6 11.8 grandes propriedades de terras, centradas nas 1881-1890 92.3 1,6 4.2 8.0 1891-1900 1.3 2,2 2,4 mãos de poucas famílias, estão localizadas neste Comércio Exterior do 12-A. do Serviço de Estatística Econômica Financeira do Ministério da Schlittler e Características Gerais do Exterior no Século XIX Revista de Historia da Economia ano jun. contexto histórico. 7.2. tráfico de negros escravizados Tanto grandes proprietários como traficantes e a população livre em geral eram contra o fim do tráfico de escravos. As justificativas variavam entre um colapso na sociedade e/ou na economia em virtude de coisificarem as negritudes. Logo, mesmo após a independência, em 1822, o tráfico de negros escravizados continuou a crescer, sobretudo para as plantações cafeeiras no Vale do Paraíba e Rio de Janeiro. Para que houvesse apoio da Inglaterra ao processo de independência do Brasil, houve a necessidade de realizarem um acordo declarando a ilegalidade no tráfico de negros escravizados, dando à Inglaterra o direito de inspecionar navios em alto-mar. Este acordo foi realizado em 1827 para vigorar a partir de 1830 e, evidentemente, não posto em prática como deveria, cunhando até os tempos atuais a expressão de para inglês Ou seja, algo que não se aplica, que apenas existe no papel. Vale aqui um exercício de tensionamento epistemológico, ou seja, de pensar a situação à época: tínhamos uma imensa população formada por negros, no Nordeste destacou-se levantes oposicionistas ao governo central, "a revolta mais significativa ocorreu em 1835, Quando centenas de negros africanos, escravos e libertos, adeptos da religião se levantaram em Salvador. Os negros muçulmanos eram conhecidos como malês e vem daí o nome dado à O levante dos malês foi reprimido com violência, ocasionando a morte de cerca de 70 participantes. Mais de 500 africanos foram vítimas da 45 Para saber mais, ler Não só "para inglês ver": justiça, escravidão e abolicionismo em Minas Gerais, de Luiz Gustavo Santos Cota. Disponível em 46 Para saber ler A revolta dos de Etienne Ignace. Disponível em https://portalseer.ufba.br/index.php/afroasia/article/download/20764/13367 História do Brasil Império 41</p><p>Universidade Santa Cecília Educação a Distância EAD UNISANTA repressão, que incluiu a pena de morte em alguns casos, prisão, açoites e deportação" (FAUSTO, 2019, p. 167). Às vésperas de terminar o acordo com a Inglaterra, em 1848, o Parlamento Inglês aprovou um ato que no Brasil ficou conhecido como Bill ou seja, qualquer navio com negros sequestrados e escravizados eram tidos como navios piratas e a marinha inglesa poderia apreendendo-os, repatriando-os e julgando os responsáveis pelo transporte. A Inglaterra, neste período, foi tida como a moral do mundo49 embora também lucrasse com a questão e investisse tais lucros em sua expansão da revolução industrial. No mesmo ano, ascendeu ao poder no Brasil um gabinete bastante conservador representando burocratas, magistrados e grandes proprietários de terra, sobretudo fazendeiros de cafezais. Para ministro da Justiça foi indicado Eusébio de Queirós e, após dois anos, instituiu-se a lei que "reconheceria que o tráfico equivalia a pirataria e tribunais especiais jogariam os infratores [...]. Dessa vez, a lei pegou. A entrada de escravos no país caiu de cerca de 50.000 cativos, em 1849, para menos de 23.000, em 1850, e em torno de 3.300, em 1851, desaparecendo praticamente a partir daí" (FAUSTO, 2019, p. 168). Entretanto, alguns pontos valem destaque: 1) A esquadra inglesa era muito mais forte que a brasileira, inclusive chegou a trocar tiros de canhão com o forte de Paranaguá, no Paraná; 2) Após um longuíssimo período de tráfico de negros escravizados, o Brasil já contava com uma abundante mão de obra disponível; 3) O país passou a empreender um embranquecimento social, incentivando a vinda de brancos europeus para trabalharem nas plantações. 4) Criou-se a Lei de Terras, valorizando-as financeiramente para serem vendidas aos estrangeiros europeus que estavam por vir. 47 Para saber mais, ler A abolição do tráfico de escravos no Atlântico Sul: Portugal, o Brasil e a questão do contrabando de africanos, de Gilberto da Silva Guizelin. Disponível emhttps://www.scielo.br/pdf/alm/n5/2236-4633-alm-05-00123.pdf 48 Para saber mais, ler A repressão do tráfico atlântico de escravos e a disputa partidária nas províncias: os ataques aos desembarques em Pernambuco durante o governo praieiro, 1845-1848, de Marcus J. M. de Carvalho. Disponível em 49 Para saber mais sobre a conjuntura da época, ler o artigo A revogação do Bill Aberdeen e a lei do Ventre Livre: um acordo antiescravista internacional 1864-1872. Disponível em https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0034- 83092019000100305&script=sci 50 Para saber mais, ler a dissertação de mestrado em Felipe Passanha de Almeida, intitulada Eusébio de Queirós e a chefia de polícia da corte: um laboratório saquarema (C. 1830-C.1840). Disponível em https://www.historia.uff.br/stricto/td/2126.pdf História do Brasil Império 42</p><p>Universidade Santa Cecília - Educação a Distância EAD UNISANTA Na prática, visava-se, na verdade, a substituição da mão de obra de negros escravizados por brancos europeus. Por isso, à época, era muito comum ouvir a frase "O Brasil é o café e o café é negro". 7.3. Conjuntura internacional e legislações nacionais Fortemente influenciados pelo Bill Aberdeen, em 1845, e a Lei Eusébio de Queirós, em 1850, o Brasil passou a vivenciar algumas disputas e mudanças acerca do olhar à questão escrava. Entretanto, pontuaremos aqui, criticamente, como estas não tinham como objetivo real a sua libertação e reparação histórica que, por sinal, até hoje não foi realizada qualquer tipo de reparação às negras e negros escravizados. Lei do Ventre livre: aprovada em setembro de decretava que todos os filhos de negros escravizados que nascessem no Brasil a partir do corrente ano seria considerado livres. Entretanto, o dos negros escravizados decidiam quando dariam a liberdade para eles, podendo permanecer como 'tutores' dos filhos de negros escravizados até completarem 21 anos. Daí em diante, seriam obrigados a libertá-los. Caso libertassem até os 8 anos e idade, os recebiam uma indenização de 600 mil-réis. Entretanto, de acordo com Stuart Schwartz (1988), a expectativa de vida de um escravo era de 19 anos, enquanto de um brasileiro não escravo era de 27 anos. Ou seja, poucos conseguiram conquistar suas liberdades que, ainda assim, que conseguiram, tinham em suas peles marcadas a discriminação, a baixa escolarização (já que eram escravizados) e o histórico estigma lhes acompanhavam. Lei dos sexagenários: aprovada em setembro de concedia a libertação que tivessem mais de 60 anos mas, ainda assim, eles deveriam indenizar seus com mais três anos de trabalho e não poderiam mudar de cidade, durante cinco anos posteriores à liberdade. Evidentemente que ela foi considerada um grande retrocesso por todos que lutavam pelo abolicionismos, já que raros aqueles que chegavam aos 60 anos e retardavam ainda mais o avanço da abolição da escravatura. 51 Para saber mais, ler A Lei do Ventre Livre: interesses e disputas em torno do projeto de "abolição gradual", de Christiane Laidler. Disponível em www.casaruibarbosa.gov.br/escritos/numero05/FCRB Escritos 5 9 Christiane Laidler.pdf 52 Para saber mais, ler História e crônica: a Lei dos Sexagenários e as Balas de Estalo de Machado de Assis (1884-1885) Ana Flávia Cernic Ramos. Disponível História do Brasil Império 43</p><p>Universidade Santa Cecília - Educação a Distância EAD UNISANTA Lei Áurea: decretada em maio de em torno de 700 mil negros escravizados conquistaram a liberdade institucional. Ou seja, passaram a viver como livres. Entretanto, terminarei este capítulo com oito perguntas para que você reflita a respeito: 1) Com uma sociedade altamente racializada e racista, como a brasileira à época, em que se normalizava a coisificação das negritudes, esta liberdade de fato os colocou em liberdade? 2) Sendo obrigados a trabalhar sob a tortura do açoite perpetrada por seus 'donos', vivenciando precarizações e vulnerabilidades diversas com o aval do Estado, quando postos em liberdade puderam gozar de fato desta liberdade? 3) Houve alguma política pública de inserção escolar e valorização cultural ao longo das últimas décadas em que se aumentavam as pressões favoráveis ao abolicionismo? 4) Por que o estado brasileiro não aproveitou esta grande quantidade populacional e permitiu que usassem as terras existentes, ociosas ou não, e lhes permitissem trabalhar naquilo que já foram forçadamente habituados? 5) Por que o Estado brasileiro valorizou e incentivou a vinda de imigrantes europeus brancos, sem conhecimento da terra e do clima local, em detrimento de valorizar os negros libertos que já detinham deste capital cultural? 6) Como que os grandes museus mundiais constituíram seus acervos históricos e as economias destes mesmos países foram estruturadas ao longo do período de expansão marítima e de consolidação de colônias? 7) Qual a origem do ouro e pedras preciosas que financiaram revoluções, como a industrial, por exemplo? 8) Quais políticas públicas de reparação, nacional e internacional, foram produzidas e consolidadas na História contemporânea? 53 Para saber mais, ler Discussão acerca da eficácia da Lei Áurea, de Patrícia Fontes Cavalieri Monteiro. Disponível em http://www.fumec.br/revistas/meritum/article/download/1208/829 História do Brasil Império 44</p><p>Universidade Santa Cecília - Educação a Distância EAI UNISAN Anno XIV Rio de Janetro - 14 1888 GAZETA DE NOTICIAS RTA exemplares BRAZIL LIVRE 1888 TREZE DE MAIO 1888 EXTINCÇÃO DA ESCRAVIDÃO LEI 3353 DE 13 DE MAIO DE 1888 DECLARA EXTINCTA A ESCRAVIDÃO NO BRAZIL A Princeza Imperial Regente em nome de Sua Magestade Imperador Sr. D. Pedro II Faz saber a todos os subditos do Imperio, quea Assembléa Geral decretou e Ella a leiseguinte: Art. 1.° E' declarada extincta desde a data d'esta lei a escravidão no Art. 2.° Revogam-se as disposições em contrario. Manda portanto a todas as auctoridades a quem o conhecimento e execução da referida lei que a cumpram e façam cumprir e guardar tão inteiramente como n'ella se contém. o secretario de Estado dos Negocios da Agricultura e interino dos Negocios Estrangeiros, bacharel Rodrigo Augusto da Silva a faça imprimir. publicar e correr. Dada no Palacio do Rio de Janeiro, em 13 de Maio de 1888, sexagesimo setimo da Independencia e do Imperio. PRINCEZA IMPERIAL REGENTE. RODRIGO AUGUSTO DA SILVA Carta de lei pela Alteza Imperial manda executar decreto da Assembléa Geral, que houve por bem sanccionar, declarando extincta a escravidão no Brazil como n'ella se declara, para Vossa Alteza Imperial ver. Chancellaria-mor do Imperio. Transitou em 13 de Maio de Antonio Jalio do Barros. História do Brasil Império</p><p>Universidade Santa Cecília Educação a Distância EAD UNISANTA 8. A GUERRA DO Objetivo Analisar todas as características e ocorrências na Guerra do Paraguai. A Guerra, decorrências e ocorrências Ao passo que o café ia expandindo para o Oeste Paulista, o Brasil foi surpreendido com uma Guerra travada ao longo de seis anos, a Guerra do Paraguai, entre 1864 e 1870, conhecida também como Guerra da Tríplice Aliança. De acordo com o historiador Boris Fausto, conforme transcrito nas páginas a O Vice-reinado do Rio da Prata não sobreviveu como unidade política ao fim do colonialismo espanhol, nas primeiras décadas do século XIX. Naquele espaço territorial, após longos conflitos, nasceram a Argentina, o Uruguai, O Paraguai e a Bolívia. O nascimento da República ocorreu depois de muitos vaivéns e guerras, em que se opunham as correntes unitárias e federalistas. Os unitários representavam principalmente os comerciantes de Buenos Aires, defendendo um modelo de Estado centralizado sob o comando da capital do antigo Vice- reinado. Os setores comerciais, através do porto de Buenos Aires, poderiam assegurar assim o controle do comércio exterior argentino e apropriar-se das rendas provenientes dos impostos alfandegários sobre as importações. Os federalistas reuniam as elites regionais, os grandes proprietários, pequenas industriais e comerciantes mais voltados para o mercado interno. Defendiam o Estado descentralizado par que sua rendas fossem garantidas e não se submetessem a impostos estabelecidos pela burguesia comercial de Buenos Aires. O Uruguai nasceu em 1828, após três anos de luta entre argentinos, brasileiros e partidários da independência. A Inglaterra viu com bons olhos a criação do país, que deveria servir para estabilizar a área do estuário do rio da Prata, onde os ingleses tinham interesses financeiros e comerciais. Mas a história uruguaia no século XIX não teve nada de pacífica. 54 Como de costume, inseri uma série de indicações de leituras complementares acerca da temática ao longo do texto. 55 Para saber mais, ler História social da Argentina contemporânea. Disponível em 05 v.10.pdf História do Brasil Império 46</p><p>Universidade Santa Cecília Educação a Distância EAD UNISANTA As facções dos blancos e colorados disputaram o poder a ferro e fogo. Os colorados ligavam-se aos comerciantes e às potências europeias, simpatizando com as ideias liberais Os blancos, compostos principalmente de proprietários rurais, herdaram a velha tradição autoritária espanhola e viam com suspeita os avanços das novas potência europeias no país. A antiga Província do Paraguai tem também uma BOLÍVIA história Seus habitantes, descendentes em grande BRASIL numero de índios guaranis, não aceitaram submeter-se à burguesia portenha - isto é, do porto de Buenos Aires - e PARAGUAI passaram a agir de forma autônoma, desde a década de 1810. Cerro O Estado expropriou terras pertencentes à Igreja e a um setor Corá da elite favorável ao entendimentos com Buenos Aires, Assunção tornando-se o principal agente da produção e do ARGENTINA Nas terras confiscadas, o governo organizou as Estâncias da Pátria, exploradas por ele ou por pequenos arrendatários. Nas estâncias do governo, utilizavam-se mão de obra escrava ou perdidas após a prisioneiros. A economia deixou de ser monetária: tanto a guerra renda da terra como os impostos eram pagos em produtos, URUGUAI não se utilizando a moeda. Francisco Solano López foi enviado à Inglaterra, onde comprou material de guerra e recrutou técnicos europeus para modernizar o país. Gradativamente, o Paraguai buscou crescer, vinculando-se ao mercado externo. Aumento então seu interesse pelo controle da navegação fluvial dos rios do Paraguai e Paraná e pelo livre trânsito através do porto de Buenos Aires. A maior preocupação do governo imperial se concentrava na Argentina. Temia-se a unificação do país, que poderia se transformar em uma República forte, capaz de neutralizar a hegemonia brasileira e a inquieta província do Rio Grande do Sul. No que diz respeito ao Uruguai, houve sempre uma política de influência brasileira no país. Os gaúchos tinham interesses econômicos no Uruguai, como criadores de gado, e viam com maus olhos medidas de repressão ao contrabando na fronteira. O Brasil 56 Para saber mais, ler História de um silêncio: a guerra contra o Paraguai (1864-1870) 130 anos depois de Carlos Guilherme Mota. Disponível em https://www.scielo.br/pdf/ea/v9n24/v9n24a12.pdf História do Brasil Império 47</p><p>Universidade Santa Cecília Educação a Distância EAD UNISANTA colocou-se ao lado dos cuja linha política se aproximava de seus interesses. O governo imperial chegou mesmo a um acordo secreto com os colorados, adversários de Rosas, pelo qual se comprometeu a lhes fornecer uma contribuição mensal em dinheiro. O barão de Mauá, que era gaúcho e tinha um banco no Uruguai, foi o intermediário do acerto As relações do Brasil com o Paraguai, na primeira metade do século XIX, dependeram do estado das relações entre Brasil e a Argentina. Quando as rivalidades entre os dois países aumentavam, o governo imperial tendia a aproximar-se do Paraguai. Quando as coisas se acomodavam, vinham à tona as diferenças entre o Brasil e o Paraguai. Aparentemente, as possibilidades de uma aliança Brasil-Argentina-Uruguai contra o Paraguai, e mais ainda de uma guerra com essa configuração, pareciam remotas. Mas foi exatamente isso o que aconteceu. A aproximação entre os futuros aliados teve início em 1862, quando Bartolomé Mitre chegou ao poder na Argentina, sendo Mitre eleito presidente. Ele começou a realização uma política bem-vista pelos liberais brasileiros, que haviam assumido o governo naquele mesmo ano. Aproximou-se dos colorados uruguaios e se tornou um defensor da livre negociação dos rios. Esses acertos deram espaços às rivalidades entre Brasil e Paraguai. Embora houvesse competição entre os dois países pelos mercados de erva-mate, as disputas, sob o ângulo do governo brasileiro, tinham um conteúdo predominantemente geopolítico (fronteiras, livre navegação dos rios). Buscando romper de vez o isolamento do Paraguai e ter uma presença na região, Solano Lópes aliou-se aos blancos, então no poder no Uruguai, e aos adversários de Mitre, líderes das províncias argentinas de Entre Ríos e Corrientes. 57 Para saber mais, ler Brasil no Rio da Prata, de Francisco Disponível em no Rio da Prata.pdf História do Brasil Império 48</p><p>Universidade Santa Cecília - Educação a Distância EAD UNISANTA Provavelmente, López considerou que o expansionismo brasileiro e argentino estava em marcha e acabaria por sufocar o Paraguai. Decidiu então tomar a inciativa. Em 11 de novembro de 1864, uma canhoneira paraguaia aprisionou no rio Paraguai o navio brasileiro Marquês de Olinda, seguindo-se a esse ato o rompimento das relações diplomáticas entre os dois países. As operações de guerra começaram efetivamente em 23 de dezembro de 1864 quando López lançou um ofensiva contra Mato Grosso. Logo depois, pediu autorização à Argentina para passar com tropas pela Província de visando atacar as forças brasileiras do Rio Grande do Sul e no Uruguai. O pedido foi negado. O suporte das províncias falhou; no Uruguai, o governo brasileiro forçou o ascenso ao poder do colorado Venancio Flores. Em março de 1865, o Paraguai declarou guerra à Argentina e em 1° de maio desse ano os governos argentino, brasileiro e uruguaio assinaram o Tratado da Tríplice O presidente argentino Mitre assumiu o comando das forças aliadas. O peso econômico e demográfico dos três países da aliança era muito superior ao do Paraguai. No Brasil e na Argentina, acreditava-se - como é comum no início de muitos conflitos que a guerra seria um passeio. Mas isso não ocorreu. López, ao contrário de seus adversários, estava bem preparado militarmente. Ao que parece, pois não há números seguros, no início da guerra os efetivos dos exércitos eram de 18 mil homens no Brasil, 8 mil na Argentina e 1 mil no Uruguai, enquanto no Paraguai chegavam a 64 mil, afora uma reserva de veteranos, calculada em 28 mil homens. O Brasil tinha porem ampla superioridade naval para o combate nos rios. No correr dos anos, as forças da Tríplice Aliança cresceram, com predominância dos brasileiros, que representavam pelo menos dois terços do total. Calcula-se entre 135 mil e 58 Para saber mais, ler na Guerra da Tríplice Aliança, de Cesar Augusto Barcellos Guazzelli. Disponível emhttps://www.scielo.br/pdf/topoi/v10n19/2237-101X-topoi-10-19-00070.pdf 59 Para saber mais, ler o documento Limites Brasil-Paraguai. Disponível em https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/180794/000349586.pdf?sequence= História do Brasil Império 49</p>