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<p>T tem nas mãos um livro único, não só pela vastidão e profundidade dos V fatos que narra, como pelo tratamento inovador dado às imagens que mostra. Aqui, a fundação na Bahia do primeiro grande candomblé brasileiro é um aspecto do processo de constituição da nossa sociedade integrado a um contexto mais vasto: a expansão do espaço político europeu. Todos os antecedentes doutrinários e organizacionais do ato fundador são esmiuçados com maestria: ideologi- CANDOMBLE as colonialistas transmitidas pela Bíblia e pela filosofia greco-latina, estruturas sociais DA BARROQUINHA herdadas da evangelização da Europa e da urbanização da África, doutrinas canônicas e jurídicas utilizadas na instituição do estado de direito e na legitimação da RENATO DA SILVEIRA violência conquistadora, liturgias políticas ocidentais bem como tradições religiosas africanas ativas na diáspora; no contexto de fundação são identificadas as correntes do movimento social afro-brasileiro, é considerado papel da economia na orientação das grandes opções políticas, enfrentamento das correntes moderadas e tirânicas das elites coloniais na definição das políticas sociais escravistas, o peso das instituições oficiais e das rebeliões sociais na formação das lideranças alternativas e assim por diante. fluxo do texto vai descortinando diante do leitor um fascinante panorama abarcando o mundo atlântico e os três continentes que o margeiam, em uma linguagem ao mesmo tempo precisa, fluida e saborosa, capaz de encantar aos mais exigentes paladares. Além disso o autor, abusando da sua simultânea condição de profissional do texto e da imagem, apresenta um projeto gráfico sedutor, com diagramação elegante, ilustrações belas e originais, ágeis e expressivas vinhetas temáticas, reconstituindo até mesmo paisagens antigas e mapas históricos no grande estilo dos cartógrafos do século XIX; CANDOMBLE não só faz uma análise crítica da produção da imagem do negro na comunicação impressa européia, denunciando a propagação deliberada de estereótipos discrimina- tórios a serviço de ideologias opressoras, como propõe uma alternativa, DA BARROQUINHA onde a figura do africano deixa de ser maldita para ser benquista. Contribui assim, de Processo de constituição quebra, para uma necessária reparação histórica, com o reconhecimento do tributo do primeiro terreiro baiano de keto civilizatório da África ao desenvolvimento da humanidade, ênfase na tolerância cívica e no respeito à diversidade humana. Em uma palavra, o Candomblé da Barroquinha é RENATO DA SILVEIRA um desses livros que orgulham a produção editorial brasileira, vindo para figurar, em lugar de destaque, nas mais selecionadas bibliotecas. ISBN 85-88543-41-9</p><p>200 M o Candomblé da Barroquinha O CANDOMBLE Renato da Silveira ©Renato da Silveira e Edições Maianga para língua portuguesa DA BARROQUINHA Projeto editorial: Renato da Silveira e Sérgio Guerra Coordenação: Sérgio Guerra e Iracema Naiberg Processo de constituição Sub-editoria: Lica de Souza do primeiro terreiro baiano de keto Projeto gráfico e tratamento de imagens: Renato da Silveira Editoração eletrônica: Maianga Produções Revisão: Isabela Larangeira Revisão do Félix Ayob Omidire Fotolito e impressão: Lis Gráfica e Editora RENATO DA SILVEIRA Dezembro de 2006 texto & imagem Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) S719 Silveira, Renato da o candomblé da Barroquinha processo de constituição do primeiro terreiro de keto Renato da Silveira Salvador Edições Maianga, 2006. 648p. ISBN 1. afro-brasileiras Estudo e 3. Cultura afro-brasileira. CDD 299.67 M Ficha elaborada por Roseli S. Andrade CRB/5 1125. MAIANGA</p><p>À memória do Elemaxó Agnelo</p><p>SUMÁRIO 220-1 AGRADECIMENTOS 13 19 SOBRE A ORTOGRAFIA DOS TERMOS AFRO-BRASILEIROS 25 SOBRE A ICONOGRAFIA 31 CAPÍTULO 1 - TIRANIA E MODERAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO EUROPEU E NA CONCEPÇÃO DAS DOUTRINAS COLONIALISTAS 47 governo dos escravos africanos em Portugal e suas colônias 48 A moderação na antiguidade filosófica greco-latina 49 A Bíblia e a gênese da doutrina colonialista 59 Santo Agostinho e o Cristianismo imperial 67 A ordem monástica como destacamento avançado de combate espiritual 71 o movimento social medieval, as cruzadas e a "Reconquista" 76 Maquiavelismo e moderação na construção do estado de direito 94 Polêmica no colonialismo moderado: Las Casas versus Sepúlveda 115</p><p>CAPÍTULO 2 EXPANSÃO DO CRISTIANISMO, COLONIZAÇÃO PORTUGUESA E CAPÍTULO 5 JEJE E NAGÔ NA COSTA DA MINA 297 IRMANDADES NEGRAS 127 Integração da Costa da Mina ao comércio atlântico 301 o culto dos santos nas irmandades cristãs primitivas e medievais 128 A expansão do Reino do Daomé e do Império de Oyó 315 A primeira irmandade negra no Reino de Portugal 135 Reino de Ketu e a presença iorubana na Costa da Mina 326 Irmandades de leigos no Brasil colonial 141 A banda ocidental da Costa da Mina 329 Irmandades de pretos no Brasil colonial 146 A população da Costa da Mina e a demografia afro-baiana 335 CAPÍTULO 3 o CALUNDU, ANCESTRAL DO CANDOMBLÉ, E AS DUAS POLÍTICAS CAPÍTULO 6 - Os IRMÃOS DOS CULTO DE JORGE COLONIAIS 153 E A PROCISSÃO DE CORPUS CHRISTI 343 Primeiros contextos de redefinição das políticas sociais escravistas 154 Presença africana na procissão de Corpus Christi 343 Os jesuitas na concepção e propaganda do escravismo moderado 162 o culto de São Jorge em Portugal e na Barroquinha 350 "batuque" africano, as autoridades civis e eclesiásticas 170 CAPÍTULO 7 - PROTETORES E PROTEGIDOS NA EUROPA, ÁFRICA E BAHIA 357 o calundu colonial: raízes, trajetórias, protagonistas e coadjuvantes 177 Calundu de Luzia Pinta 206 A patronagem na Europa e na sociedade portuguesa 357 Calundus provenientes da África Ocidental 228 A relação protetor/protegido na África Negra 363 Do calundu rural ao candomblé urbano e suburbano, do culto doméstico clientelismo na Bahia colonial 368 ao comunitário 235 A população branca, a legislação imperial e as práticas semiclandestinas 241 CAPÍTULO 8 SOBRE A DATA DE FUNDAÇÃO, o LOCAL E o NOME Enfrentamento das correntes moderada e tirânica: desempenho do DO DA BARROQUINHA 373 Conde da Ponte e do Conde dos Arcos no contexto de fundação Processo de constituição, locais e datas de fundação 374 do Candomblé da Barroquinha 253 Sobre o polêmico nome do Candomblé da Barroquinha 380 CAPÍTULO 4 SENHOR JESUS DOS DA BARROQUINHA, UMA CAPÍTULO 9 IYA IYA IRMANDADE 275 E TANTOS OUTROS... 391 bairro e a Capela da Barroquinha 275 As fundadoras do Candomblé da Barroquinha 392 A Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Martírios 281 A "mão masculina" na fundação do axé da Barroquinha 403 Composição étnica das irmandades negras baianas e os de Ketu 287 8 o DA BARROQUINHA PROCESSO DE CONSTITUIÇÃO DO PRIMEIRO TERREIRO BAIANO DE KETO 9</p><p>CAPÍTULO 10 As SOCIEDADES SECRETAS OGBONI, GUELEDÉ, os CULTOS CAPÍTULO 15 o PAPEL DE KETU NO NOVO PACTO E SUA PREEMINÊNCIA NA BAHIA 515 DE EGUM E DA SENHORA DA BOA MORTE NA AFRO-BAHIA 413 A preeminência dos ketus na Bahia 515 Associacionismo negro na Bahia colonial 413 o pacto do Alafin Atiba e seus desdobramentos na Bahia 519 As sociedades secretas africanas Ogboni e Egúngún 421 o título e a Sociedade 429 CAPÍTULO 16 - Os ÚLTIMOS TEMPOS NA BARROQUINHA 523 Sociedades secretas africanas na Bahia 437 Os "quatro cantos" iorubás na Bahia 525 A expulsão do Candomblé da Barroquinha 529 CAPÍTULO 11 As TRADIÇÕES AON EFAN, 457 NOTAS 537 Os cultos anteriores à chegada dos e sua influência no candomblé de keto 458 A tradição jeje-nagô 460 CRÉDITO DAS IMAGENS 597 A tradição 465 Os cultos provenientes da bacia do Rio Oxum 467 FONTES E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 603 CAPÍTULO 12 - A GUERRA DA INDEPENDÊNCIA E AS REFORMAS I Documentos orais 603 CONSTITUCIONAIS DAS DÉCADAS DE 1820 E 1830 477 Tradições angolanas 603 Participação do negro na luta e sua decepção após a vitória 477 Tradições jejes 603 A política imperial e a degradação da condição social do afro-brasileiro 480 Tradições 603 II - Documentos manuscritos 604 CAPÍTULO 13 RADICALISMO E MODERAÇÃO NO ISLAMISMO E NA RELIGIÃO 1 Arquivo Público do Estado da Bahia 604 TRADICIONAL AFRICANA NA BAHIA 487 2 Arquivo Histórico Ultramarino 604 A aliança entre os malês e os tradicionalistas na África 488 III Mapas e plantas baixas 604 A aliança entre os malês e os partidários do culto dos orixás e voduns na Bahia 491 1 Centro de Estudos em Arquitetura na Bahia CEAB 604 IV - Documentos impressos 604 CAPÍTULO 14 - A QUEDA DO IMPÉRIO DE OYÓ E o NOVO PACTO 499 1 Jornais 604 A devastação da capital e a ascensão do Emirado de Ilórin 500 a - Soteropolitanos 604 o tráfico negreiro e a militarização da sociedade iorubana 506 b - Parisienses 605 Fundação de Ibadan, Abeokutá e da nova capital 510 2 Bibliografia consultada 605 10 o DA BARROQUINHA PROCESSO DE CONSTITUIÇÃO DO PRIMEIRO TERREIRO BAIANO DE KETO 11</p><p>AGRADECIMENTOS N o decorrer desses longos anos, várias pessoas contribuíram para que Candomblé da Barroquinba ficasse um trabalho consistente, alguns me ajudaram há mais de vinte anos, em uma fase de abertura de caminhos, nem devem se lembrar mais de mim, mas sua contribuição não foi esquecida porque foi valiosa. Outros me ajudaram bem recentemente, em uma fase de aprimora- mento de detalhes, rica contribuição muito valiosa também. Quanto ao conteúdo, três maneiras complementares de contribuição devem ser des- tacadas: uma mais historiográfica e antropológica, a ajuda de profissionais que acu- mularam massas impressionantes de informações sobre o nosso passado e as coloca- ram à minha disposição; outra mais cultural, digamos assim, a ajuda daqueles que vivem o candomblé, são portadores das tradições orais e me contaram as histórias contadas pelos mais antigos; e outra mais técnica e produtiva, a contribuição daqueles que, de várias maneiras, me emprestaram seus saberes e sua base institucional para tornar este projeto viável. No primeiro tipo, pra começar, gostaria de lembrar do meu precioso amigo João José Reis, o qual, através de uma colaboração que já pode ser medida em décadas, passou- me montanhas de informações fundamentais, indicou documentação, bibliografia se- lecionada, leu e criticou uma primeira versão deste livro, além de manter severa vi-</p><p>gilância sobre minha cabeça fantasiosa, empurrando a dúvida até as últimas conse- cumentos de arquivo selecionados, transferindo para este livro as muitas e muitas exigindo mais e mais evidências e comprovações. horas que passaram a pesquisar. Obrigado Sara, obrigado Dale! Jô Camurugy e Luciana Brito me ajudaram a recolher importantes materiais de arquivo, e Maria Bernadete o mestre Vivaldo da Costa Lima, além de abrir o caminho da história do candomblé, Capinan, ligada à Casa Branca pela fé e pela pesquisa, me deu algumas finas dicas colocou sua esplêndida biblioteca à minha disposição e, com a verdadeira intimidade sobre a vida das fundadoras do axé da Barroquinha. que tem com o mundo afro-baiano, sempre foi um auxílio inestimável para esclarecer detalhes obscuros. Durante todos esses anos, Luiz Mott foi um conselheiro competen- Intelectuais de consistentes conhecimentos, Katia M. de Queirós Mattoso, Maria Inês te nas coisas relativas à Igreja e aos calundus coloniais, indicou-me livros indispensá- Côrtes de Oliveira, Cid Teixeira, Cândido da Costa e Silva, Luis Henrique Dias Tavares veis e me apresentou a documentos de arquivo preciosos que abrilhantaram esta nar- e o insubstituível Pierre Verger me concederam entrevistas esclarecedoras, poupando- Com o antropólogo Luis Nicolau Parés mantive nos últimos anos um diálogo me um enorme trabalho. Agradeço a todos eles, e a Fernando da Rocha Peres, que, produtivo; ele também leu a versão concluída em 2000, deu várias sugestões que enquanto diretor do Centro de Estudos Baianos, possibilitou-me um acesso incondi- foram levadas em conta, além de me ter brindado com alguns documentos importan- cional ao arquivo de Carlos Ott, sob sua tutela. tíssimos para o sucesso da pesquisa. Meus mestres franceses, Marc Augé e Pierre Osmo, não poderiam deixar de ser lem- Ordep Serra foi um consultor para assuntos específicos e aleatórios, importante pela brados. Augé iniciou-me nas artimanhas da antropologia, estimulou-me a pensar a sua familiaridade com a Casa Branca, como pelo seu conhecimento, por exemplo, do sociedade como uma complexidade em movimento, a desconfiar dos esquemas teóri- grego antigo. Meu professor de iorubá, Félix Ayoh'Omidire, foi uma ajuda decisiva, muito arrumadinhos, das facilidades interpretativas, ajudou-me a pensar tanto fiscalizando minhas incursões ao sotaque iorubano, complementando e corrigindo científica quanto africanamente. Pierre foi meu professor de filosofia durante quatro vários aspectos da história da Iorubalândia, agregando a meu trabalho uma consistên- anos na Universidade de Nanterre (mas não me peçam nenhum documento cia que eu jamais poderia alcançar sozinho. comprobatório porque não o tenho, ia por prazer...). Com ele consegui superar grande vazio deixado pela crise do marxismo, aprendi a encarar elaborações Jaime Sodré é um caso à parte, deu-me um tipo especial de contribuição, simultanea- metodológicas as mais minuciosas, chegando a vislumbrar a poesia do raciocínio sutil. mente pesquisador, membro de família afro-descendente de antigas tradições e gra- Obrigado Augé, obrigado Pierre, vocês também fazem parte deste livro. duado em dois candomblés de muito fundamento, foi desde longa data um interlocutor constante, bem informado e articulador de encontros felizes. Em situação semelhante Obtive auxílio cultural entre os portadores da memória oral afro-baiana, que me con- estão Luis Cláudio Nascimento, grande conhecedor da cultura afro-brasileira da cida- fiaram seus tesouros tradicionais, sem os quais esta história sequer poderia ter sido de de Cachoeira, Cecília Moreira, Marcos Santana, Fábio Lima e Júlio Braga, pessoas esboçada. Um agradecimento especial vai para o falecido Elemaxó Antonio Agnelo que se dedicam tanto à pesquisa quanto ao culto, os quais me entregaram detalhes Pereira, da Casa Branca, a quem dedico este livro. Tio Agnelo teve uma história pesso- significativos que pouca gente conhece. al impressionante e um saber enciclopédico sobre a religião e a história afro-baiana; foi ele quem conseguiu formular uma visão de conjunto do que foi o Terreiro da Os colegas da linha de pesquisa Escravidão e invenção da liberdade, do Mestrado em Barroquinha e qual o seu papel no processo de constituição do candomblé baiano. História da UFBA, trouxeram sua contribuição construtiva ao longo desses seis últi- Obrigado Agnelo, que Oxalá o tenha! mos anos; além dos já citados, agradeço particularmente a Lucilene Reginaldo e Christianne Vasconcellos, que me presentearam com documentos inéditos e biblio- Paulo Rufino de Matos, artista plástico e candomblezeiro, porque o conheci nessa grafia rara. Sara Oliveira Farias e Dale T. Graden colocaram à minha disposição do- ordem, foi o primeiro a dedicar seu precioso tempo a me explicar o que é um can- 14 o DA BARROQUINHA PROCESSO DE CONSTITUIÇÃO DO PRIMEIRO TERREIRO BAIANO DE KETO 15</p><p>domblé, como se vive lá dentro, em que as pessoas acreditam, como se comportam, ta, que não poupou esforços para que a realização deste livro superasse projeto. Ao como preservam tradições e assimilam novidades. Logo em seguida tive a felicidade de velho amigo Getúlio Soares Santana, que trabalhou espontâneamente para ampliar a conhecer Mãe Dolores Luz de Ogodô, que me transmitiu não só uma parte do seu vasto divulgação e distribuição, a Aristides Alves pelo apoio fotográfico, a Margarita Gaudenz, conhecimento, como me abençoou com o seu axé poderoso. Obrigado Paulo, aurê pelo apoio e a meu precioso parceiro Josanildo Dias de Lacerda, pelo À Iyá Nitinha de Oxum (Aeronite Conceição Chagas), Ossi Kekerê, ao Leo (Areelson auxílio informático, sem o qual a capa de Candomblé da Barroquinba nunca teria Conceição Chagas), elemaxó, e à Ekede Sinha (Gersonice Azevedo Brandão), todos ficado tão linda. da Casa Branca, à memorável Dona Olga do Alaketo (Olga Francisca Régis), Oyá Funmi, A Eugênio de Ávila Lins, professor de arquitetura da UFBA e superintendente regional presença marcante durante mais de meio século no cenário afro-baiano, ao Babalorixá do IPHAN, a Mariely Santana, coordenadora do CEAB, pela precisa orientação Godofredo Copque Daltro de Airá, a Air José Souza de Jesus, Babalorixá do Ilê Odô cartográfica, a Flávia Garcia Rosa, diretora da Edufba, pelo apoio logístico, a Célia Ogê, que generosamente me entregaram detalhes fundamentais dos tempos antigos e Maria de Almeida Mattos, diretora da Subgerência de Obras Raras e Valiosas da Biblio- interpretaram outros tantos, à luz da mitologia e do ritual, meus sinceros agradeci- teca Pública do Estado da Bahia, bem como aos funcionários da instituição, que torna- mentos a todos. ram mais confortável minha tarefa preferida: escarafunchar livros antigos. Aos atenci- Não posso deixar de lembrar dos portadores das tradições do Congo e Angola, que me osos funcionários da biblioteca da Fundação Clemente Mariani, em Salvador, bem confiaram suas histórias: a saudosa Mameto-diá-inkisse Angelina Cassindé, do Unzó como aos da biblioteca da des Hautes Études en Sciences Sociales, da Bibliothèque Mutagueremin, e o Tata-diá-inkisse Jorge Barreto dos Santos, Mutá Imê: ao longo de des Aires Africaines da mesma escola, assim como aos da Bibliothèque Nationale de quase vinte anos, suas narrativas sacaram das trevas da história belíssimas páginas de France e da Bibliothèque du Saulchoir, todas em Paris. cooperação entre os oprimidos pela escravidão, de luta pela construção da comunidade Não poderia deixar de agradecer também ao Conselho Nacional de Pesquisa e Desen- angoleira. Valeu Mutá, obrigado Mãe Angelina, que Kaiongo a tenha no seu aconchego! volvimento (CNPq), porque uma bolsa de pós-doutoramento que me concedeu, em- Makotas Valdina Pinto e Jamille Sodré, do Terreiro Tanuri Junsara, a Esmeraldo bora visando outros fins, me foi indispensável para realizar pesquisas adicionais, úteis Santana, herdeiro do respeitado Xicarangoma Benzinho, ao Tata Tiganá Santana, do ao conteúdo deste livro, nas bibliotecas parisienses citadas. Terreiro Tumbenci, e a Kátia Alexandria, makota do estimado Bate Folha, com os quais Meus eternos agradecimentos a vocês e aos demais que, de alguma maneira, contribu- tive conversas estimulantes sobre as tradições da nossa mais antiga nação-de-candom- íram para o sucesso deste projeto: obrigado Jonga, obrigado Cacau, obrigado Bete, blé, o que me permitiu formular uma visão mais abrangente e justa da história do obrigado Gegê, obrigado Dô, obrigado Mutá, obrigado obrigado Titina, obriga- candomblé brasileiro. do Aninha, valeu Guerrinha, valeu Nildão, obrigado Lica, obrigado Xuxuca, obrigado Agradeço calorosamente a Sérgio Guerra, que apoiou sem hesitações este projeto, Xuvinha! Espero ter correspondido à confiança de todos vocês, que me entregaram não só decidindo editá-lo sem nenhum tipo de restrição, como adotando um formato seus conhecimentos, seus tesouros culturais, sua solidariedade, sua competência pro- editorial generosíssimo para um primeiro livro. Sinto-me um privilegiado por ter tido fissional, seu carinho. como auxiliares Isabela Larangeira e Maria Lutilia de Souza Sardinha. A primeira fez uma revisão excepcionalmente cuidadosa, checando cada dúvida com uma dedicação exemplar, sugerindo formulações escorreitas, substituindo o errôneo pelo certôneo e o duvidoso pelo límpido. A segunda foi uma produtora sensível e eternamente solíci- 16 o CANDOMBLÉ DA BARROQUINHA</p><p>AGÔ E ste texto é o resultado de trinta anos de pesquisas sobre a cultura afro-brasi- leira, dos quais vinte e um anos tentando reunir o maior número possível de informações sobre o antigo Candomblé da Barroquinha, antepassado do atual Axé Iyá Nassô Oká, a veneranda Casa Branca do Engenho Velho da Federação. Esse fato teve lugar na cidade da Bahia, entre os séculos XVIII e XIX, e, embora pouco conheci- do, é uma das mais belas páginas da nossa história. Várias foram as fontes de informação utilizadas neste trabalho. As fontes primárias prioritárias são naturalmente as tradições orais dos terreiros de Keto, assim chamados porque os fundadores do Candomblé da Barroquinha, matriz de todos eles, teriam vindo precisamente daquele reino, situado no território dos região oeste do país iorubá, África Ocidental. Ainda hoje muitos descendentes dos protagonistas e pessoas graduadas desses terreiros conhecem a história com detalhes, embora com algumas lacunas e variações. Essas informações foram fundamentais porque balizaram a pesquisa, forneceram pistas preciosas e um quadro geral sintético. As tradições orais das demais nações-de-candomblé baianas também vieram ao meu auxílio, preenchen- do lacunas e complementando-as com detalhes esclarecedores. Também foram utilizados documentos de arquivo, documentação policial e eclesiásti- ca, censos, estatutos de irmandades, pesquisas sistemáticas feitas em jornais antigos,</p><p>brasileiros e estrangeiros. Muitos desses documentos me foram fornecidos por pes- A literatura filosófica e teológica, antiga, medieval e moderna, esclareceu sobre as ferra- quisadores amigos que me confiaram peças preciosas, agregando mais consistência a mentas intelectuais usadas pelos portadores de ideologias conquistadoras e foi farta- esta narrativa. o maior tempo da pesquisa foi, entretanto, gasto em bibliotecas mente consultada. Os estudos da Bíblia e dos Padres da Igreja evidentemente não pode- especializadas, à cata de crônicas e tratados antigos, medievais e modernos, que escla- riam ficar de fora, pois o "Deuteronômio" e os escritos de São Paulo e Santo Agostinho, receram sobre o imenso contexto no qual esta história se desenrolou. por exemplo, foram algumas das mais poderosas influências sobre os franciscanos e beneditinos que criaram a doutrina colonialista Do mesmo modo os códigos Em termos das chamadas fontes secundárias, temos uma bibliografia selecionada e legais antigos, medievais e modernos, peças indispensáveis à compreensão das mentali- multifacetada. Em primeiro lugar os livros escritos pelos antropólogos, que registra- dades, da formação da autoridade, dos critérios da convivência política. ram a memória de pessoas importantes nos meios afro-baianos, já falecidas, e propici- aram uma compreensão mais abrangente dos fatos que aqui serão narrados. A litera- Levei também em consideração os estudos dos arquitetos sobre a presença africana na tura antropológica também contribuiu para um melhor conhecimento das sociedades evolução urbana de Salvador, consultei os viajantes, cronistas e escritores do passado africanas que estão nas nossas raízes, suas estruturas sociais e suas artes, dando uma que nos deixaram informações interessantes sobre Brasil, Portugal e a África. Os bela contribuição a uma melhor compreensão da diversidade humana. Merece desta- folcloristas, os pesquisadores de usos e costumes descreveram o lado festivo da vida que a antropologia política inglesa e francesa, que salientou a importância fundamen- social luso-brasileira e africana, e portanto complementaram e ajudaram a visualizar tal dos rituais para a estabilidade social e auxiliou na elaboração de um entendimento aqueles palpitantes acontecimentos. Enfim as debutantes ciências da informação e da mais refinado das realidades políticas através das idades da Terra; bem como a sociolo- comunicação, com as quais entrei em contato nos últimos dez anos da pesquisa, trou- gia da arte e a etnocenologia, que também concorreram com uma pitada de lucidez, xeram novos olhares, ampliando a compreensão do funcionamento político da socie- ao fazer emergir no cenário historiográfico as corporações profissionais e as tradições dade colonial e do Antigo Regime, ao salientar o fenômeno da comunicação como intelectuais engajadas na produção dos rituais e do espetáculo colonial. propulsor do movimento da sociedade. Os historiadores trouxeram uma colaboração decisiva para que o universo atlântico Este estudo foi inspirado pela problemática marxiana do processo de constituição, escravista onde nasceu Brasil fosse melhor conhecido. E, mais além, desvendaram o que aborda o movimento das instituições, sua história, os sucessivos contextos onde processo de constituição do espaço político europeu, com suas raízes na Grécia anti- elas surgiram, se desenvolveram, adaptaram-se, mudaram de forma e de função. Como ga e no Cristianismo primitivo, quando foram esboçados os primeiros projetos oci- a constituição se processa no movimento do contexto social, sua problemática exige dentais de colonização. A história das instituições, tanto européias quanto africanas, mais do que uma abordagem simultaneamente histórica e antropológica, melhor se- do nosso patrimônio artístico e cultural, a história das técnicas e dos ofícios, dos inte- ria falar de uma abordagem multifacetada, que observa o movimento de todos os lectuais e da ciência, da navegação, da religião, da economia e do comércio, da guerra, ângulos possíveis, na sincronia como na diacronia. o processo de constituição do do direito, da arte, das mentalidades, do medo e do desejo foram espreitadas, para Candomblé da Barroquinha foi uma culminação de vários outros processos de consti- que todos esses temas apaixonantes venham a dar à representação do movimento tuição, da Igreja de Roma com todas as suas variantes e especificações, das irmanda- desse gigantesco contexto aquele mínimo de vivacidade necessária, propiciando uma des populares de leigos, dos Estados nacionais europeus e dos Estados coloniais ibéri- aproximação mais imaginária e simultaneamente mais afetiva de realidades já tão dis- das religiões e dos Estados africanos, dos candomblés coloniais pré-Barroquinha. tantes. Cientistas sociais e políticos também foram consultados, contribuindo com Procurei saber como os vários grupos organizados, em conexão direta ou indireta, metodologias e sensibilidades indispensáveis ao objeto deste estudo. estavam vivendo suas experiências, em que artes, em que saberes, em que códigos de 20 o DA BARROQUINHA PROCESSO DE CONSTITUIÇÃO DO PRIMEIRO TERREIRO BAIANO DE KETO 21</p><p>ética, tecnologias, em que doutrinas formatavam suas em que polêmicas próprio já adote um rigor difícil de ser mantido, mas indispensável como critério de estavam envolvidos, quem eram seus heróis, seus líderes, seus malditos. Uma larga conduta intelectual. De qualquer maneira, a pesquisa fundamental é um processo de margem foi oferecida ao estudo das mentalidades e das doutrinas que orientavam os longa duração, com o empenho de várias gerações, cuja contribuição levará a resulta- atores deste drama, das crenças que motivavam e enquadravam suas ações, das festas dos, se não definitivos, infinitivos... que organizavam, todas aquelas instituições que tiveram algum envolvimento na fun- dação do Candomblé da Barroquinha foram rastreadas até suas origens, pois quem conhece as raízes do contexto tem menos chances de errar. Por isso, os sete primeiros capítulos deste livro são dedicados à identificação dos elementos importantes do con- texto, bem como de suas raízes, procurando, dentro do editorialmente possível, a profundidade. Na verdade, o objetivo mais amplo deste livro foi traçar um panorama da criação e desenvolvimento do espaço político europeu, africano e brasileiro, sem qual a compreensão do processo de constituição do Candomblé da Barroquinha re- sultaria muito limitada. o Candomblé da Casa Branca é o herói desta narrativa, mas, teoricamente falando, contexto é a grande estrela, a mais poderosa fonte de informações, de confirmações. É ele quem ordena uma multidão de dados empíricos, indícios e probabilidades, che- ca trajetórias, orienta a dedução, resolve a dúvida, preenche o ponto cego com uma imaginação sensível aos modos de funcionamento, às escalas de valores, aos senti- mentos estéticos. Uma postura metodológica que retoma uma orientação fundamental, no entanto negligenciada, ordenou essa massa de conhecimentos multidisciplinares: aquele que estuda a sociedade deve adaptar suas teorias aos fatos empíricos, com o ajustamento permanente de conceitos e dados concretos. Nesta narrativa várias hipóteses foram formuladas, mas identificando-se como tal, mesmo porque a hipótese é um instrumento de trabalho indispensável ao avanço do conheci- mento: o faro do pesquisador. Minha tomada de posição, evidente ao longo deste trabalho, procurou não forçar situações nem simular magnificências e heroísmos inexistentes, evitei sistematicamente "adaptar" fatos empíricos, jamais selecioná-los conforme as conveniências hipotéticas. As hipóteses formuladas aqui haverão de ser tratadas implacavelmente pelos pesquisadores do futuro, serão testadas na medida em que surjam fatos novos, confirmadas ou questionadas, por isso é melhor que eu 22 o CANDOMBLÉ DA BARROQUINHA</p><p>SOBRE A ORTOGRAFIA DOS TERMOS AFRO-BRASILEIROS A ortografia dos termos afro-brasileiros é um problema complexo, que exig estabelecimento de critérios nem sempre evidentes para o leitor. vezes nem para o autor. Neste livro alguns critérios adotados desobedecem ao Acordo Orto gráfico Brasileiro, tomando partido nessa gigantesca confusão criada em torno d nosso vocabulário de origem africana, e talvez para aumentá-la ainda mais, porén com argumentos que merecem ser levados em consideração. Yeda Pessoa de Castro propôs uma normatização ortográfica do vocabulário afro-bra sileiro como um todo, ampliando as convenções estabelecidas: "O Acordo Ortográfico vigente [...] recomenda que os nomes de origem estrangeira correntes no sejam tanto quanto possível aportuguesados segundo as normas estabelecidas, ma levando em consideração as formas já consagradas pelo uso", o que parece ser sensato. A autora rejeita uma moda que tem feito um certo sucesso entre nós, ou seja escrever nomes corriqueiros, já adotados pelos dicionários brasileiros, em em vez de Exu), argumentando que isso não só contraria nosso hábitos lingüísticos (não escrevemos Saint Patrick, e sim São Patrício), como isola vocábulo como algo exótico, "à margem do processo de integração Problema anexo é a utilização despropositada entre nós de um critério adotado literatura antropológica. A uma certa altura do desenvolvimento de sua metodologia</p><p>os antropólogos decidiram não pluralizar termos escritos em línguas estrangeiras, não é grafado desta maneira por acaso, a Casa quer manter bem próximo vínculo acrescentando um "S" no final como faz a grande maioria das línguas ocidentais, com um título prestigioso e muito importante na sua história que é, há muito tempo, justamente porque muitos critérios de pluralização são desconhecidos, donde a deci- registrado desse jeito: há toda uma carga cultural e afetiva nesse Y. vocábulo são de manter termos exóticos sempre no singular, grafando-os, entretanto, em itálicas. além do mais, não tem o mesmo peso visual, a mesma imponência de Iyá, é como se lá Por exemplo, os bausa, os e assim por diante. Ora, entre nós essa medida foi perdesse dignidade. Sem K, deveríamos completar a mutilação do nome da Casa totalmente desvirtuada, gerando expressões estranhas como "os nada justifi- Branca e do título da sua fundadora, escrevendo bizarramente lá Ocá, em vez cando que se aplique a uma palavra familiar, dicionarizada, um critério gerado para do familiar Nassô Parece-me, portanto, que Iyá Oká é a melhor opção, palavras raras ou desconhecidas. em se tratando de uma "forma consagrada pelo uso". É verdade que a marginalização sociolingüística pode reforçar uma marginalização mais Outra palavra que perde dignidade pela preocupação excessiva de aportuguesamento grave, político-social; mas, por outro lado, pode também ajudar a integrar em condições é Oió, a capital do Império na convenção iorubana, desde o século XIX). mais favoráveis, enquanto identidade especial, algo mais raro que deve ser valorizado, A substituição do Y mutila, infantiliza o Império. Oyó tem outro peso, causa uma pelo menos este é o objetivo dos que seguem esta moda. Creio que o problema mais impressão bem melhor. Na mesma linha de pela normatização proposta sério dessa veneração da convenção ortográfica iorubana é que ela leva os leitores que escrever Queto e Alaqueto, o reino e seu rei, em vez de Keto e Alaketo não têm familiaridade com a cultura afro-brasileira a pronunciar deformadamente esses e no iorubá escrito). Na pronúncia iorubana o étimo tem as duas nomes, o que termina provocando uma confusão maior ainda e traindo tradições em sílabas tônicas, mas na Bahia uma longa tradição já o sedimentou como que a sonoridade das palavras é um dado ritualmente fundamental. donde a opção mais lógica por Keto, e conseqüentemente Alaketo (que aliás é como o Seguindo o Acordo Ortográfico, Yeda Castro também suprime das expressões afro-brasi- candomblé baiano homônimo se identifica). Levando em consideração esses senões, leiras as consoantes K, Y e W. Enquanto que no primeiro caso sua crítica é, a meu ver, procurei respeitar os diferentes contextos culturais, grafando e quando plenamente justificada, a supressão dessas letras do alfabeto brasileiro e conseqüente- trato do reino e do rei africanos, e Keto e Alaketo quando trato das tradições afro- mente do afro-brasileiro cria problemas que merecem algumas considerações. As línguas africanas que adotaram essas consoantes fizeram por causa do inglês, Quanto ao registro dos numerosos topônimos e etnônimos africanos presentes nesta especificamente de missionários britânicos que empreenderam sua formalização. Te- história, como no caso de e respeitei as convenções ortográficas do lado mos, portanto, uma influência colonialista que equivale à influência do do de lá, mas tive a preocupação de anexar uma transcrição fonêmica, como dizem os português e do espanhol, que tendem a suprimir ou subutilizar essas consoantes. o especialistas, entre parênteses, para indicar a sonoridade original, principalmente nos tema parece irrelevante, uma vez que, no fundo, sempre está a influência ocidental, casos em que o iorubá escrito leva os brasileiros a pronúncias aberrantes. iorubá, um colonialismo valendo pelo outro. o problema é que essas línguas escritas africa- como várias outras línguas africanas, tem os famosos três tons, impossíveis de traduzir nas também já se tornaram tradição do lado de lá do Atlântico, e do lado de cá tornam- nas nossas convenções ortográficas. Os sinais diacríticos adotados pelos iorubanos se cada vez mais fortes referências. Tomemos por exemplo, segundo a normatização para assinalar os tons (particularmente o acento agudo, significando tom alto) são proposta por Yeda Castro, a expressão "Iá", que significa mãe, senhora, sacerdotisa, desorientadores para nós. o étimo ao contrário do que tudo indica, deve ser nas tradições afro-brasileiras. A Casa Branca escreve o seu nome oficial assim: Axé pronunciado aproximadamente Alaketú, nós não temos como assinalar que o "á" não Iyá Oká, conforme inscrição em uma placa colocada na entrada do terreiro. Iyá indica sílaba tônica e sim tom alto, e isso precisa ser, de uma maneira ou de outra, 26 o DA BARROQUINHA PROCESSO DE CONSTITUIÇÃO DO PRIMEIRO TERREIRO BAIANO DE KETO 27</p><p>sinalizado. o bom senso aconselha, portanto, deixar de lado a transcrição dos três ferreiros, com o o fechado), outros "Incoce". Não estou convencido de que haja algu- tons para concentrar a atenção naquilo que nos permita uma máxima aproximação da ma sensatez em substituir os S ou SS estrangeiros pelos C ou nacionais, parece-me sonoridade original. uma regra abstrata, arbitrária, que não leva em conta as realidades culturais dos porta- dores dessas tradições, que são os principais interessados na questão. Creio que seja Assim, outro exemplo: a palavra pode ser satisfatoriamente transcrita como dois dos EE são baixos e o terceiro é alto (o que é assinalado pelos acentos razoável substituir o K pelo Q no caso de "quimbundo", palavra já largamente utiliza- da, mas no caso de divindades pouco conhecidas do grande público, a meu ver, há graves e pelo agudo), algo impossível de se transcrever para o português, porém os pontinhos abaixo indicam que os EE são abertos, o que pode ser sinalizado entre nós uma posição intermediária mais satisfatória, que foi acatada aqui, ou seja, aportuguesar pelo acento agudo. A prioridade, neste caso, foi manter o G duro (para impedir que o esses termos, porém tentando manter uma proximidade gráfica com as convenções leitor pronuncie Jeledé) e os EE abertos: creio que é máximo que se pode fazer. adotadas do lado de Portanto "inkisse" e "Inkosse" foram as opções. Por outro lado, mesmo quando escrevi sobre contextos africanos, se as realidades Também existem dificuldades no registro de palavras originárias das línguas adjá, evê abordadas nos eram familiares, expressas em um vocabulário que já é nosso, preferi e fon, esta última a principal língua da tradição jeje baiana. Aliás os três termos usados este último. Por exemplo, a sacerdotisa suprema do culto de Xangô no para designá-las já são problemáticos: há quem prefira ajá (o termo original é aja), palácio de em vez de Naso, a sacerdotisa suprema do culto de no que tem contudo um J bem carregado, que soa, como no iorubá, DJ, exigindo uma palácio de que me parece estilisticamente inaceitável. transcrição fonêmica, que é a que adotei. Já o ewe é assim escrito porque foram os alemães seus codificadores ortográficos. Como o W alemão soa V, o som mais correto Uma decisão difícil de ser tomada diz respeito à consoante iorubana GB, inexistente é evê, que é como as tradições orais baianas pronunciam, donde a opção. Enquanto no nosso português mas submersa nas nossas tradições. o problema foi colocado que o "fom" adotado pela normatização tem sido questionado, uma vez que muita quando do registro do subgrupo étnico iorubano muito ativo na Bahia do gente continua utilizando o simpático fon, que é minha preferência. Convém lembrar século XIX. No iorubá o GB soa como uma poderosa, com licença da má palavra, também a absurda dicionarização no Brasil, durante muito tempo, do termo iorubá oclusiva bilabial sonora, um B percussivo, forte, mas a tradição oral baiana mais isenta como "ioruba" (que soa grotescamente iorúba); felizmente as edições mais recentes de influências literárias simplificou o problema, pronunciando simplesmente dos nossos melhores dicionários já estão corrigindo o erro. Após muita hesitação, decidi seguir a sugestão de Yeda Castro e adotar "egbá", por ser "consagrado pelo uso". Porém com um esclarecimento adicional sobre qual uso: a Nessas línguas da área cultural que chamamos de jeje, um caso particular é a transcri- decisão tomada levou em consideração o fato de que muito poucos portadores das ção do H fortemente aspirado. Isso tem levado a uma variedade na grafia de certas tradições orais ainda usam a expressão "ebá", enquanto que, na literatura especializa- palavras, como por exemplo o porto de Aneho, que tem sido transcrito na nossa da, ficou comum o emprego de "egbá", de modo que as próprias tradições vão pas- literatura especializada como Anêcho ou Anexô. A meu ver, todos os dois são sando pouco a pouco a adotar esta última pronúncia. insatisfatórios, uma vez que o nome decorre da junção de dois vocábulos, ane e ho, que soam anê e rô e significam "casa dos Portanto, ou se transcreve Anerrô, ou Algo semelhante pode ser dito sobre a grafia do vocabulário litúrgico congo-angolano se deixa o nome do porto como está, o que me parece mais adequado. do Brasil. A exemplo das tradições de keto, há uma tendência recente entre alguns angoleiros baianos de registrá-lo conforme as convenções ortográficas que regem o Dificuldade maior pode ser encontrada no mais familiar mabi, um subgrupo étnico quimbundo, o umbundo etc. No outro extremo temos a normatização sugerida. Por do norte da atual República do Benin, com forte presença no candomblé baiano pelo exemplo, uns escrevem nkisi (divindade), outros "inquice", uns Nkosi (patrono dos menos desde o final do século XVIII. Além de mabi, que é o termo adotado pela 28 o CANDOMBLÉ DA BARROQUINHA PROCESSO DE CONSTITUIÇÃO DO PRIMEIRO TERREIRO BAIANO DE KETO 29</p><p>nial e pela literatura histórica e antropológica européia, podemos SOBRE A ICONOGRAFIA tura brasileira especializada o termo aportuguesado e meramente como outros, preferidos pelos que procuram respeitar a sonorida- maquim, ou até mesmo maki, por causa da aspereza do H da dições orais baianas este grupo é denominado jeje-marri ou jeje- onde vai minha preferência. critérios, reconheço que a matéria é plástica, trata de realidades nem sei mesmo se seria conveniente uma formatação ex-officio. itérios denuncia um campo de interesses contraditórios, em per- os especialistas que tentam impor uma certa, e talvez necessária, estação, neste como em outros casos, é um grito N este livro a iconografia adquiriu uma maior complexidade do que a ha- bitualmente encontrada em publicações semelhantes, porque aprovei- tei da minha experiência de mais de quarenta anos como artista plástico e designer gráfico para tentar um trabalho inovador, compreendendo não só a seleção e a manipulação, como a criação de imagens. Ou talvez seja melhor falar de recria- ção, tentativa pós-moderna de recuperar formas consagradas: o mapa da Costa da Mina, e o panorama aéreo do bairro da Barroquinha por volta de 1800 (respecti- vamente figuras 26 e 44), que imitam algumas das melhores inspirações dos cartógrafos oitocentistas. A pesquisa iconográfica por si só durou vários anos, inclusive com algumas excursões a bibliotecas parisienses e ao mercado do jornal, da revista e do livro antigos, na mesma capital. A idéia norteadora foi colecionar, é claro, imagens que decorassem a página, quebrassem a monotonia visual do texto, porém trazendo também informa- ções específicas, intensificando a compreensão. Por exemplo, vendo a bela, próspera e extensa capital do Reino do Bini (figura 28), ou uma peça de museu como a ráfia aveludada produzida na região do antigo Reino do Kongo (figura 17), o leitor pode desmascarar mais completamente a imagem distorcida dos africanos como ignorantes supersticiosos que os interesses escravistas tentaram fixar nos nossos corações e men-</p><p>tes, pode lançar mão de outras áreas da percepção que convocam sentimentos mais uma vez que, plasticamente, elas foram mantidas tais quais, só que tecnicamente sutis: compreende pelo intelecto, pela imaginação e pelo afeto. melhor reproduzidas. No momento da seleção, à cata da novidade, procurei evitar imagens muito conheci- Assim também fotografias de alto interesse documental, porém publicadas em livros das no Brasil; é verdade que fica muito difícil se esquivar de Rugendas ou Debret sem qualidade gráfica, como as fotos do material litúrgico apreendido pela Polícia nos quando o tema é Brasil colonial, porém muitas das imagens selecionadas foram candomblés baianos (figuras 52 e 58), que foram ajustadas para adquirir uma encontradas em livros alienígenas raros por aqui, enquanto que outras tantas são visualidade mais adequada, sofrendo também pequenos retoques dentro do estilo, gravuras publicadas no século XIX, recolhidas em pesquisa direta na fonte, várias para que os objetos recuperassem algo do seu design original. delas nunca reeditadas desde então. As fotografias de personalidades importantes do mundo afro-baiano, já falecidas, me- trabalho propriamente gráfico teve diferentes modalidades de execução. Muitas das recem um comentário à parte. Geralmente essas obras se encontram em péssimo imagens aqui reproduzidas mantiveram, na medida do possível, seu aspecto original, estado de conservação, a restauração se impondo como uma necessidade imediata; por razões variadas. Primeiro, imagens que funcionaram como documentos foi o caso da foto de Miguel Santana (figura 68), cuja única cópia conhecida se encon- comprobatórios, como a "Negertanz", de Zacharias Wagener (figura 18), tra em condições lamentáveis. Já as fotografias de Aninha Obá Biyi, Maria Júlia da mente não poderiam sofrer qualquer manipulação, sob pena de comprometer minha Conceição Nazaré, Tia Luzia de Oxum. Mãe Sussu e Tia Massi (respectivamente figuras interpretação. Outros documentos visuais, como as aquarelas de Carybé, fotos anti- 46, 54, 55, 56 e 57) receberam um tratamento especial; também são fotos de estúdio gas, ou certas gravuras publicadas na imprensa européia do século XIX, foram preser- anônimas, antigas, gastas pelo tempo, que se tornaram objeto de um trabalho artísti- vados pelas suas qualidades não só artísticas como informativas, sofrendo apenas pe- CO de exaltação, num projeto que chamei de "Revitalização da iconografia afro-brasi- quenas limpezas em nome da qualidade gráfica. leira", do qual apresento neste livro os primeiros resultados; foram portanto Certas imagens passaram por restaurações bastante limitadas, apenas para disfarçar digitalizadas, limpas, retocadas, às vezes colorizadas, com traços enfatizados, detalhes os danos mais graves infligidos pelo tempo, como o retrato do guerreiro de Leonar- inconvenientes suprimidos, para criar imagens valorativas, à altura da celebridade do da Vinci (figura 7). Outras ainda receberam retoques para corrigir limitações dessas sacerdotisas fundadoras ou continuadoras das velhas tradições. inerentes às condições produtivas do século XIX, imperfeições devidas ao tamanho Passemos agora às manipulações que convocam a deontologia da reprodução gráfica. reduzido, colorizações manuais apressadas ou sujeiras causadas por um ambiente Algumas obras aqui reproduzidas foram remanejadas mais ou menos intensamente, com gráfico pouco asseado. o uso do computador permite ampliações gigantescas, objetivos variados. A foto dos seniores da Oxugbô, de Fagg (figura 49), tinha na parte inimagináveis para os gráficos daquela época, ensejando portanto um virtuosismo superior um telhado de zinco que interferia muito na cena e distraía a atenção do prin- técnico de que eles teriam lançado mão se esta oportunidade lhes fosse propiciada; cipal: as próprias figuras humanas; como zinco foi um acréscimo colonial inexistente é o caso das gravuras publicadas em 1825 pelo livro italiano Il costume antico e até o momento em que os acontecimentos narrados neste livro se encerraram, achei por moderno, storia del governo, della milizia, della religione, delle arti, scienze bem suprimi-lo. Na gravura original mostrando Castelo da Mina na época dos portu- ed usanze di tutti i popoli antichi e moderni, provata coi monumenti dell'Antichità gueses, a fumaça proveniente de um tiro disparado pelo veleiro do primeiro plano foi e rappresentata cogli analoghi disegni, duas das quais reproduzidas aqui (figuras estilizada de modo inábil, criando uma espécie de borrão no meio da página, a imposi- 3 e 38). Como meu objetivo específico não é cultuar antiguidades e sim disponibilizar ção anedótica prejudicando a qualidade estética; sua supressão deixou o desenho mais informação visual de alto nível, o saneamento dessas obras terminou se impondo, nítido, mais espacial, sem alterar em nada o caráter informativo (cf. figura 27). 32 o DA BARROQUINHA PROCESSO DE CONSTITUIÇÃO DO PRIMEIRO TERREIRO BAIANO DE KETO 33</p><p>Mas o fundamental das manipulações mexeu com a expressividade das figuras de estabelecimentos gráficos de grande porte, em equipes revezando-se vinte e quatro africanas e africanos. A representação da Rainha Jinga com seu aparato, feita pelo horas por dia, a serviço de jornais, revistas, empresas editoriais, servindo igualmente Padre Cavazzi (figura 19), foi submetida a algo mais do que uma limpeza, uma vez que às instituições religiosas e à administração pública. supri as deficiências do autor acrescentando alguns elementos expressionais. Cavazzi No final do século XVIII o alemão Aloys Senefelder inventou a litografia (do grego era um pintor amador que estava no lugar certo na hora certa, seu trabalho tem um lithos, pedra), cujo uso foi generalizado no início do século seguinte, para imprimir certo frescor justamente porque ele não sabia seguir regras acadêmicas, porém não papelaria administrativa, todo tipo de rótulo, imagens sagradas, científicas, mas tam- detinha muito controle sobre os meios técnicos, e, além do mais, era muito desleixado. bém para reproduzir trabalhos artísticos de qualidade, com a cromolitografia, usada Claro, o desleixo pode fazer parte do estilo: Picasso era um pintor desleixado, mas em impressos de luxo, como as imagens de Rugendas e Debret sobre Brasil. genial, Cavazzi era um pintor mediano, pra não dizer Além do mais, nun- Porém desde a segunda década do século XIX, com o desenvolvimento das técnicas de ca revelou nenhuma amizade ou respeito pelos africanos, e, pior ainda, por deforma- ção religiosa temia corpo humano como algo ameaçador, tudo isso se refletindo de impressão, o aumento das tiragens e incremento da comercialização, surgiram mui- modo nefasto na sua obra. tas publicações ilustradas que optaram pela técnica da xilogravura (do grego xylon, madeira), porque a mesma máquina tipográfica, que imprimia texto, podia utilizar Entretanto, pode-se dizer que a alteração do retrato da Rainha Jinga não mexeu subs- matrizes de madeira, imprimindo também a imagem e tornando a produção de jor- tancialmente nas coisas interessantes que Cavazzi quis nos mostrar, apenas a imagem nais, livros e revistas mais ágil (as litografias e as gravuras em metal, até então farta- ficou mais nítida e mais vibrante; mas, na verdade, mexeu, ao promover uma mudan- mente utilizadas, tinham de usar prensas especiais, tornando processo produtivo ça de qualidade na informação, porque Jinga ficou mais charmosa, perdendo, com os mais lento e mais caro; por isso a litografia foi destinada preferencialmente à produ- membros do seu séquito, as expressões debilóides com que, por deliberação ou falta ção de estampas luxuosas separadas do texto). de tirocínio, Cavazzi lhes havia caracterizado. A xilogravura fora muito utilizada na Europa desde a Idade Média, mas sua qualidade Em algumas das gravuras aqui reproduzidas, originalmente publicadas em jornais ou não podia rivalizar com o preciosismo da gravura em metal, até que uma nova técnica, livros europeus editados no século XIX, realizei alterações mais contundentes, por- inventada pelo gravador inglês Thomas Bewick por volta de 1775, mudou o panora- que elas veiculavam imagens estereotipadas do africano deliberadamente depreciati- ma, passando então os xilogravadores a ter como matéria-prima uma peça dura, corta- vas, segundo critérios estabelecidos na Europa desde o final do século XVIII por ideo- da transversalmente no tronco, chamada de standing timber ("madeira de topo" em logias e iconologias etnocêntricas, seguidas por grande parte dos ilustradores e grava- porém só introduzida na França em 1817 pelo editor Didot, onde foi dores profissionais desde então. Alterei traços fisionômicos, mudei a expressão de chamada de bois de bout. A gravura em madeira de topo permitiu que a xilogravura vários personagens e tais medidas radicais exigem, antes de mais nada, uma explica- adquirisse um alto grau de refinamento expressional. Nessas placas resistentes eram ção sobre o contexto em que essas obras foram criadas e reproduzidas em série, antes escavadas texturas de grande nitidez com ferramentas muito sutis de corte, especial- de chegar até nós. mente fabricadas com aço temperado, buris de formas variadas, ongletes ou "unhas As xilogravuras e litografias (estampas que usam respectivamente a madeira e a pedra de gato" (usadas para traçar linhas paralelas). Os mestres gravadores eram capazes de como matriz) exibidas em Candomblé da Barroquinba são obras industriais pro- criar uma grande variedade de tons de cinza, dar às suas obras um tratamento simul- duzidas segundo uma divisão de trabalho que passava por diferentes etapas. Várias taneamente gráfico e realista, enquanto que as matrizes, pela sua resistência, eram delas são o resultado da práxis de trabalhadores muitas vezes anônimos, operando em capazes de manter a qualidade ao longo de um processo de reprodução em série. 34 o CANDOMBLÉ DA BARROQUINHA PROCESSO DE CONSTITUIÇÃO DO PRIMEIRO TERREIRO DE KETO 35</p><p>Entrementes esses especialistas de alto nível que eram os litógrafos e os xilogravadores Alguns xilogravadores que obtiveram reconhecimento público assinavam suas obras, nunca criavam as obras reproduzidas, não era sua tarefa, geralmente eles partiam de seus nomes sendo acompanhados da expressão "sculp." ou (do latim sculptor, imagens já existentes, desenhos, esboços ou fotos. A fotografia foi utilizada como escultor, termo em seguida usado apenas para obras em três dimensões). Nas primei- referência nas artes gráficas desde a década de 1860, mas até 1880 sua reprodução era ras décadas do século XX os fotográficos melhoraram de qualidade e, em virtu- cara e trabalhosa; depois dessa data houve um certo avanço técnico, mas a qualidade de de sua produção mais rápida e mais barata, terminaram suplantando a xilogravura, dos de então não podia rivalizar com a excelência das matrizes xilográficas; por reservada desde então apenas para obras artísticas, de tiragem limitada. isso as fotos eram copiadas pelos gravadores, os mestres da textura precisa. Pelo final No caso da litografia industrial a intermediação dos especialistas em reprodução po- do século XIX os xilogravadores europeus produziram verdadeiras obras-primas na dia ter uma etapa a mais do que na xilogravura. o processo que viabilizou a produção arte do retrato, como o de Aechatu, a mulher do xerife El-Hadj-M'Ahmed, publicado em série, por exemplo, da Viagem pitoresca através do Brasil, de Rugendas, em um originalmente no livro Nos africains em 1894, xilogravura feita em um estabeleci- estabelecimento litográfico parisiense, partiu dos seus desenhos d'après nature (se- mento gráfico de porte industrial por um gravador assalariado anônimo, copiando gundo a terminologia francesa, feitos diante de modelos, humanos ou naturais), mas um desenho de Paule Crampel, esposa do explorador francês Paul Crampel, que por implicou a intervenção de dois mediadores especializados: primeiro, aquele que copi- sua vez copiou foto de outro explorador francês, M. Mizon (predominou a assinatura ava desenho original em papel vegetal ou assemelhado e, em seguida, o transferia de Madame Crampel, por causa do prestígio do seu marido; ver figura 71). Ou a invertido, por meio de uma espécie de papel carbono, para a pedra calcária que servia gravura abaixo, representando próprio Crampel, também publicada no livro Nos de matriz; este profissional era codificado como "del." (do latim delimitatio, ação de africains, executada pelo exímio gravador Thiriat, copiando uma fotografia de E. Otto. delimitar), no caso da Viagem pitoresca por "fig." (do latim figuratio, ação de repre- sentar algo), o qual apenas copiava os contornos. Nos grandes estabelecimentos ou- tro especialista era encarregado de pintar ou desenhar na pedra-matriz, a lápis litográ- fico ou tinta gordurosa, imitando o desenho original, mas já reproduzindo integral- mente. Caso a litografia fosse colorida, ele também era encarregado de selecionar as cores, preparando uma pedra-matriz para cada cor, porém partindo da delimitatio do outro profissional; no processo de impressão as cores seriam misturadas, reprodu zindo o original. Este profissional era codificado como "lith.", termo também utiliza- do quando ele, geralmente em estabelecimentos menores, assumia as duas funções, delimitar e copiar. Acontece que, nessa delicada mediação, tanto no caso da xilogravura quanto no caso da litografia, algumas alterações sutis mas significativas poderiam ser introduzidas no trabalho final. Na teoria, a reprodução industrial apenas espelhava uma imagem feita por alguém d'après nature, ou d'après Fulano, caso se tratasse de uma cópia (after Beltrano, em inglês). Embora desde a época do Renascimento a observação direta tenha sido crescentemente valorizada, no caso da imagem reproduzida industrialmente PROCESSO DE CONSTITUIÇÃO DO PRIMEIRO TERREIRO BAIANO DE KETO 37</p><p>a originalidade era um item pouco levado em consideração. Copiava-se mente no caso da representação do Outro, ao pretender velar dado empírico para copiava-se desde a invenção da imprensa o plágio não chocava nin- revelar uma verdade mais profunda, muitas vezes se limitaram a ilustrar doutrinas, guém, fazia parte da produção da imagem. exortativas ou Na verdade, no processo industrial de reprodução, assim como se copiava facilmente, A litografia "Danse batuca" de Rugendas representa um samba-de-roda suburbano no alterava-se facilmente também, não havia necessariamente fidelidade à imagem copia- Brasil colonial, com alguns personagens dançando com expressões simpáticas normais, da, senão uma espécie de hierarquia do plágio, com uma observância mais rigorosa mas vários outros, negros ou mestiços, imbecilizados, com olhos bizarramente arregala- da obra de artistas célebres e de temas europeus mais familiares. No caso de "tipos" dos, expressões animalescas ou apavoradas. Qualquer um que tenha familiaridade com humanos estrangeiros, paisagens exóticas e composições complexas em países distan- o samba-de-roda sabe que se trata de uma brincadeira que sempre deixa os participantes tes, embora ao longo do século XIX tenha havido uma crescente exigência de autenti- descontraídos, justamente porque é uma técnica de descontração coletiva, eficiente e cidade, a conduta do gravador era mais flexível, detalhes podiam ser alterados, perso- barata, em um departamento no qual os africanos deram um banho nas outras civiliza- nagens introduzidos ou suprimidos, tudo dependendo da orientação editorial. ções. modo africano de dançar não é mecânico, tem algo de profundamente orgânico Paulo Diener e Maria de Fátima Costa, no seu belo livro Rugendas e Brasil, mostra- que o faz funcionar como uma poderosa terapia: uma vez que todos aqueles que entram ram que os editores da casa litográfica parisiense Engelmann & contrataram uma no espírito do samba-de-roda ficam bem, como justificar essas expressões medonhas? vintena de gravadores de várias nacionalidades, trabalhando individualmente ou em Na Viagem pitoresca podem ser encontrados outros desses personagens horrendos parceria, para a produção de Viagem pitoresca através do Brasil. Muitos deles eram comemorando; por exemplo, na litografia "Danse landu" (a da divisão), ou na artistas famosos, premiados em salões importantes, retratistas, paisagistas, pintores "Fête de Sainte Rosalie" (figura 11). Visto que Rugendas, embora dotado de um especializados em cenas históricas, os quais foram encarregados de interpretar com eurocentrismo bem típico, expressou uma grande simpatia pela plebe colonial brasi- certa liberdade os desenhos originais de Rugendas, com objetivo de torná-los mais leira (em "Danse batuca" nos presenteou com uma bela coleção de sedutores tipos saborosos ao olhar do europeu populares, racial e socialmente misturados, desenhados com muita delicadeza e cari- nho), fica difícil acreditar que ele tenha representado figuras tão grotescas justamente Por outro lado o próprio artista que partia da observação direta, quando desenhava em momentos festivos. Esta suspeita é reforçada pelo exame atento do conjunto de cenas complexas, com casarios e muita gente figurando, nunca as captava como em sua obra. Nos vários esboços apresentados por Diener & Costa, feitos de próprio um instantâneo fotográfico, os esboços eram feitos aos poucos e as cenas construídas punho pelo artista, não existem desenhos de negros grotescos, os quais são entretan- em ordenadas em composições ou "motivos". Para organizar melhor uma cena to na obra gravada, onde as figuras flexíveis e insinuantes criadas pelo urbana, mesmo a posição de edifícios importantes poderia ser alterada, como foi o artista alemão são muitas vezes substituídas por figuras contraídas e fechadas em um caso da litografia de Rugendas "Castigos públicos na Praça de Sant'Ana". mundo interior sinistro. Em outras palavras, há uma quebra de estilo, o realismo Ao lado das necessidades técnicas da composição, as concepções estéticas também lírico de Rugendas sendo substituído pelo expressionismo caricatural que os gravado- exerceram sua influência. Nas primeiras décadas do século XIX o Romantismo intro- res reservaram para certos personagens duziu a teoria da arte visual como "lanterna" e não mais "espelho" do mundo. Em vez de somente refletir a realidade visível, o artista deveria "iluminá-la", com conteúdos mais elevados. As artes visuais ganharam todo um universo estimulante- Imagens estereotipadas e depreciativas do africano eram corriqueiras no imaginário mente fantasioso, mas os artistas que produziam imagens de documentação, especial- europeu pelo menos desde início da nossa era. Os registros estão nas crônicas de 38 o DA BARROQUINHA PROCESSO DE CONSTITUIÇÃO DO PRIMEIRO TERREIRO BAIANO DE KETO 39</p><p>viajantes, nos bestiários, nos romances ou mesmo na literatura erudita, assimilações enorme sucesso. Lavater criou uma versão mais profana do preconceito, ao traçar entre o negro e supostas "raças monstruosas", tais como os homens-sem-cabeça, como uma associação direta entre a beleza da alma e a do corpo, mais especificamente entre as os famosos "cinocéfalos" ou homens-cachorros; o território desses seres monstruosos virtudes e os vícios e as saliências e reentrâncias, as "bossas" do crânio. No quarto volu- podia ser localizado na China, na América, na porém, muito mais me de sua obra, à guisa de documento comprobatório, temos várias imagens de tipos na étnicos, dentre os quais um africano, cujos traços fisionômicos são considerados "sem a menor fineza e sem a menor graça" Para Lavater, o nariz pontudo do ocidental indicaria Uma outra vertente de construção da imagem distorcida do negro está na literatura uma inteligência excepcional, enquanto que o nariz achatado do africano conotaria es- moralizante, no qual encontramos uma assimilação entre as trevas, ou seja, a vida tupidez; e retomava a opinião do filósofo Kant, que encontrou uma justificativa natura- pecaminosa, e a pele escura. Na origem dessa interpolação já foi identificada a "Primeira lista para o preconceito: negro é adaptado a seu clima, ele é robusto, flexível e carnu- Epístola de São João", centrada no simbolismo da oposição entre a luz e as trevas, na do; mas, limitado nas suas necessidades torna-se preguiçoso, frouxo e imprevidente por qual "Deus é Luz e nele não há treva alguma". Porém a oposição, nesse contexto intelec- causa dos recursos abundantes de sua terra natal". tual, tinha um sentido simplesmente alegórico, valorizando a vida iluminada, isto é, comunitária no comportamento cívico e correta na conduta individual. Physiognomische Fragmente teve sucessivas reedições e traduções em toda a Europa, tornando-se um poderoso apoio para a fixação do estereótipo depreciativo do africano, Entretanto, dois séculos depois, uma derrapada na direção do racismo pode ser en- aquele que seria dotado de um máximo de sensualidade, de apetite, e um mínimo de contrada no comentário desta passagem bíblica pelo célebre padre grego Orígenes, espiritualidade, desde então também traduzida como capacidade intelectual.5 ao argumentar que, no julgamento final, os condenados por Deus seriam expulsos para as trevas exteriores e suas almas seriam então revestidas de corpos negros. Um Logo em seguida o anatomista e pintor holandês Pieter Camper criou o padrão de evo- outro passo decisivo está registrado em um rolo manuscrito de Exultet do século XII, lução do chamado "ângulo facial" na sua obra Dissertation sur les variétés naturelles na Itália Meridional, representando a alegoria da noite de Páscoa; ali um negro nu, qui caractérisent la physionomie des hommes des divers climats et des différents âges fisicamente caracterizado, aparece como símbolo das trevas da ignorância e do peca- (Dissertação sobre as variedades naturais que caracterizam a fisionomia dos homens dos diversos climas e de diferentes idades), publicada simultaneamente em holandês e fran- do, ou melhor, como a própria interiorização das trevas, em oposição a um europeu cês em 1791. Camper procurou estabelecer "traços característicos e constantes" para a com vestes iluminado pela graça divina. Salientemos de passagem que fisionomia das diversas raças humanas; Lavater já se referira ao "aspecto inclinado" do essa imagem era apenas um caso particular da representação do diabo como um ho- perfil do africano, mas a grande novidade introduzida pelo holandês foi a criação de um mem negro, muito comum na Idade Média.4 padrão graficamente quantificável, de pretensão científica. Ao eleger a mandíbula e o Com início dos chamados grandes descobrimentos as mitologias de exclusão repre- ângulo facial como causas principais da variação, Camper traçou gráficos minuciosos, sentando seres periféricos fabulosos não entraram imediatamente em mas segundo os quais o africano teria 70° de ângulo facial, o homem branco 80°, ficando o começaram pouco a pouco a dar lugar a teorias racistas estruturadas, que mesclavam oriental no meio, com de inclinação. Segundo a padronização então estabelecida, a o exuberante conteúdo fabuloso aos rigores da metodologia científica. No final do menor abertura do ângulo facial do africano demonstraria sua menor evolução, mas o século XVIII o pastor suíço Johann Kaspar Lavater escreveu uma obra intitulada interessante nesta curiosa metodologia é que os padrões criados foram retirados de Physiognomische Fragmente zur Beförderung der und pouquíssimos indivíduos negros e orientais observados e das estátuas clássicas gregas; Menschenliebe (Fragmentos fisiognômicos para o desenvolvimento do conhecimento em outras palavras: para o africano uma avaliação por demais severa com escassa com- e do amor humanos), publicada em vários volumes entre 1775 e 1778, que obteve um provação empírica, para o europeu um ideal estético prestigioso. 40 o CANDOMBLÉ DA BARROQUINHA PROCESSO DE CONSTITUIÇÃO DO PRIMEIRO TERREIRO BAIANO DE KETO 41</p><p>tos de medição precisos porém pitorescos a serviço da exaltação do homem branco das classes altas européias e a depreciação sistemática da mulher e das demais raças humanas, legitimando "cientificamente" sua pretensão de dominar todos os demais povos e empreender a conquista do mundo.6 Este ambiente ideológico tendencioso iria influenciar poderosamente artistas menos ou mais dotados e ilustradores a serviço de empresas jornalísticas e editoriais, com fortes repercussões na imagem produzida sobre negro do Brasil, mesmo na obra de Rugendas e Debret, uma vez que, quando estes artistas publicaram seus conhecidos trabalhos, a imagem do negro prognata já estava bem estabelecida nos círculos artísti- e intelectuais europeus. Porém os artistas e gravadores iriam dar sua contribuição específica ao preconceito, através de algo não quantificável: a expressividade facial humana. Para isso, recuperaram iconografias depreciativas da literatura erudita, das teatralizações populares performadas nas procissões solenes da velha Europa, nas A ilustração acima reproduz a gravura em metal que mostra uma de perfis quais o negro e o mestiço do norte da África representavam o corpo grotesco, os olhos de dois símios, um africano e um kalmuk, etnia da Ásia Central; foi realizada pelo arregalados de tipos exóticos conotavam boçalidade e credulidade, integrando-as a gravador Reinier Vinkeles sob encomenda de Camper e publicada em anexo na pri- um processo gráfico e pictórico de fixação de imagem, no qual expressões apavora- meira edição do seu livro. Temos assim a gênese do estereótipo do africano "prognata", das, animalescas ou debilóides foram acrescentadas à imagem do africano e demais de mandíbula faminta projetada para a frente, testa e occipital estúpidos projetados "raças inferiores". para trás, que influenciaria todas as teorias racistas até as primeiras décadas do século É esse contexto cultural que explica muitas imagens caricaturais do negro na iconografia XX, servindo inclusive de padrão para artistas plásticos e ilustradores. do Brasil colonial. o próprio Rugendas, segundo comentário de Slenes no artigo já No início do século XIX o médico austríaco naturalizado francês Franz Josef Gall, com citado, apesar de ter formulado opiniões favoráveis ao africano, de ter afirmado sua sua obra Anatomia e fisiologia do sistema nervoso em geral, iria reforçar a valoriza- possibilidade de se "aperfeiçoar", de ter feito dele retratos encantadores, não escapou ção da caixa craniana, a forma, o volume e as bossas do cérebro no estabelecimento das ideologias racistas predominantes na Europa de sua época. Slenes salienta que das "diferentes disposições e inclinações", inclusive psicológicas e morais, dos indiví- Rugendas era partidário de um abolicionismo conservador e bem-pensante, que não duos e grupos humanos. Segundo critérios então arbitrariamente estabelecidos, o admitia "a completa igualdade das capacidades de negros e brancos", citando uma maior volume do crânio do homem europeu, supostamente atestado pelo seu maior passagem do texto de Viagem pitoresca, no qual se pode ler que "todos os dias ocor- ângulo facial, o colocava no topo da hierarquia da evolução natural. No rastro das rem coisas que, abstração da vantagem da civilização, provam uma superioridade bases colocadas por Camper, Lavater e Gall, cientistas e ensaístas célebres como os real e física do branco sobre o negro". franceses Paul Broca e Gustave le Bon, os britânicos Sir John Lubbock e Francis Galton, Vimos que, desde a virada do século XVIII para o XIX, esta suposta superioridade o alemão Otto Ammon, os italianos Scipio Sighele e Cesare Lombroso, entre centenas física não era algo vago, mas traduzida em gráficos tecnicamente muito bem realiza- de outros de várias nacionalidades, iriam colocar metodologias suspeitas e instrumen- dos, em parâmetros "cientificamente" comprovados. As estranhas cabeças cilíndricas 42 o DA BARROQUINHA PROCESSO DE CONSTITUIÇÃO DO PRIMEIRO TERREIRO BAIANO DE KETO 43</p><p>ilustrações comparativas na página anterior, no alto temos um detalhe da "Danse batuca" editada em 1835, primeiro a gravura original, abaixo minha intervenção crítica; em seguida um detalhe do "Mariage" de Debret, acima a gravura original, abaixo sua revitalização. Pelo final do século XIX, quando a fotografia tornou-se regularmente base da produção de gravuras industriais e a informação visual passou a ser mais objetiva, novo elemento deformante entrou em cena: a imagem do africano tenso, apreensivo. Ora, a situação artificial da pose, demorada por razões técnicas, controlada pelo europeu que manipulava modelo africano, retirava deste último qualquer espontaneidade, a ima- gem resultante veiculando a idéia de que normalmente o africano era uma pessoa inse- gura, submissa, pouco à vontade diante da vida, contrastando significativamente com os habituais belos retratos de colonizadores europeus, como o de Paul Crampel mostrado anteriormente, sereno e vitorioso. Por conseguinte um trabalho sistemático de limpeza foi feito nos retratos xilogravados aqui selecionados, os africanos ficando mais descontraídos, com expressões normais, porque, se todo o mundo que posa para um deseja passar uma imagem favorável para a posteridade, que assim seja. Nas últimas décadas do século XIX a fotografia de tipos exóticos foi mais além, pois nessa época já era bastante comum o contratar modelos e organizar cenas em estú- dio ou cenário natural, segundo critérios próprios e iconografias preestabelecidas, para atender a um mercado consumidor ávido de exotismo, mas este tipo de imagem não entrou na minha seleção iconográfica, pela falta de interesse informativo. Em resumo, hoje temos uma visão mais crítica sobre a imagem do Outro criada ao longo do tempo pelo europeu, mesmo a imagem fotográfica, considerada isenta e objetiva porque exibiria a própria realidade. Os críticos oitocentistas da fotografia mais virulentos a expulsaram do augusto campo da arte porque ela seria mera indús- tria, uma desprezível "reprodução exata da natureza", a técnica que, enfim, nos daria "todas as garantias desejáveis de mas empobreceria a genialidade da litografia "Mariage de nègres d'une maison riche", de Debret (produzida no esta- Na verdade a imagem reproduzida em série, particularmente a fotográfica, podia con- belecimento Thierry Frères), "revitalizadas" na figura 43, ou os negros prognatas, de ter um valor documental pela observação meticulosa, de caráter etnográfico, porém expressões horrendas ou estúpidas, na "Danse batuca" de Rugendas, "revitalizados" era o resultado de uma produção complexa que exigia planejamento detalhado, in- na figura 13, são outras tantas demonstrações desta "superioridade real e física". Nas vestimentos de capital, tradições profissionais que criavam um produto segundo 44 CANDOMBLÉ DA BARROQUINHA PROCESSO DE CONSTITUIÇÃO DO PRIMEIRO TERREIRO BAIANO DE KETO 45</p><p>metodologias e procedimentos técnicos, mas também segundo crenças e ideologias 1 TIRANIA E MODERAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO EUROPEU E NA CONCEPÇÃO DAS DOUTRINAS COLONIALISTAS que chegavam a ser predominantes no estabelecimento de convenções figurativas, abrindo espaço para a distorção deliberada da realidade observável, para a manipula- ção do imaginário e da Ao concluir estas observações introdutórias, gostaria de lembrar que as críticas ao processo de produção da imagem do africano, aqui apresentadas de modo um tanto quanto esquemático por economia editorial, têm principalmente como objetivo justi- ficar a intervenção visual nos próprios produtos selecionados, ou seja, visam legitimar a criação de uma iconografia alternativa. Mas sejamos justos: gravadores europeus de grande talento, a serviço da xilogravura industrial, fizeram belíssimos retratos de personalidades africanas, dos quais minha seleção recupera alguns, como o da negra mina da figura 25, e o da esposa do Xerife El-Hadj-M'Ahmed (figura 71). Porém tais exemplos raros tendiam a ficar perdidos em A pós Casa-grande & senzala, a idéia de que a política colonial portuguesa teria sido mais moderada do que as demais reinou soberana, apenas eventu- meio a uma massa de outras imagens que reproduziam os estereótipos depreciativos, almente acossada pelas denúncias da barbaridade senhorial pelos pesquisadores poli- e é justamente este panorama de deformações tendenciosas, na maioria das vezes ticamente mais engajados. Mais recentemente, a acumulação de fatos novos trazidos deliberadas, que meu projeto iconográfico desejou desestabilizar. A imagem do africa- pela pesquisa revelou uma realidade bem mais complexa, exigindo uma dupla no histórico, violento e boçal, ou ignorante e derrotado, foi fixada no imaginário reconsideração. Primeiro, a moderação política não foi exclusiva dos portugueses, foi ocidental, como se essas características fossem exclusivas ou predominantemente suas, um aspecto fundamental da constituição do espaço político europeu; a política mode- embora ele, como todos os demais, também tenha sido inteligente, criativo, habilido- rada é uma herança cívica que Portugal recebeu da velha Europa, e, mais além, das so, corajoso, leal e bonito, tenha dado contribuições civilizatórias importantes para o antigas civilizações sem ela os cultos afro-brasileiros jamais poderiam ter sido cons- desenvolvimento da humanidade, o que apenas em raras foi salientado. A tituídos, muito menos com a pujança atual. Segundo, como todos os demais, o reparação dessa injustiça histórica foi considerada, ao longo deste livro, uma colonialismo português também teve sua face cruel e tirânica, porque a coação física direta é uma das condições do regime escravista. As duas políticas, a tirânica e a moderada, conviveram ou se revezaram no exercício do poder colonial português, tendo a tendência moderada estabelecido vários níveis de aliança com o mundo negro, variando segundo as personalidades no poder, as diver- sas conjunturas históricas, os diversos espaços geográficos e institucionais. Esta inter- pretação, para ser convincente, exige entretanto uma explanação sobre as etapas his- tóricas e epistemológicas de criação da doutrina moderada, não só suas formulações</p><p>conceituais como suas modalidades de encaminhamento, bem como o papel fun- Contudo, ao lado da corrente despótica, mesmo no ambiente colonial surgiu uma damental que assumiu na constituição dos Estados europeus. Culminando, é cla- corrente de opinião moderada, influenciada pelo Cristianismo, que não via com bons ro, com uma intervenção decisiva no contexto colonial brasileiro, particularmen- olhos aqueles senhores que praticavam sevícias em seus escravos e pensava ser bené- te nas conjunturas que influenciaram o processo de constituição do Candomblé fico para a paz social conceder a esses últimos uma certa liberdade de movimento e da Barroquinha. organização. Cooptá-los, em vez de marginalizá-los. Por outro lado, o Estado portugu- ês, mesmo castigando duríssimamente o questionamento da ordem, dispunha de um o GOVERNO DOS ESCRAVOS AFRICANOS EM PORTUGAL E SUAS COLÔNIAS aparato legal que funcionava razoavelmente bem e muitas vezes conseguia neutralizar os excessos mais escandalosos da brutalidade senhorial cotidiana. Assim, durante a Desde o início do tráfico, os negros em Portugal permaneceram como uma pequena era colonial, estabeleceram-se nas grandes cidades do Reino de Portugal, nas metro- minoria da população, cercados de restrições, porém relativamente adaptados às con- politanas como nas periféricas, costumes e modos de funcionamento coletivo que, dições locais. Os portugueses temiam mais os escravos que recusavam embora de modo conflituoso, integravam os africanos, chegando mesmo a adotar batismo e eram considerados mais politizados e subversivos. Os negros africanos eram certos aspectos de sua cultura. subestimados, considerados incapazes de agir politicamente, organizar grandes su- blevações, por isso não metiam medo. Neste caso, o estereótipo preconceituoso favo- A maneira branda de tratar os escravos negros por uma parte da população não foi recia-os, na medida em que lhes era reservado um tratamento menos brutal, até mes- apenas uma resposta afetiva, ou um resultado da boa índole do povo português; tam- mo paternal, pelo menos por boa parte da população branca. Em certos casos a legis- bém estava fortemente sustentada por doutrinas eruditas moderadas cujas origens se lação portuguesa considerava-os como a criança branca, enquanto que seus delitos perdem na noite dos tempos. As referências literárias mais antigas que chegaram aos eram tratados do mesmo modo que os delitos da plebe branca, com os mesmos atenu- letrados europeus, medievais e modernos, influenciando a conduta da população, e, antes e castigos a partir do Renascimento, as políticas coloniais, estão na filosofia greco-latina e no Antigo Testamento. Vamos, portanto, fazer uma primeira incursão ao passado, à pro- No Brasil, com o incremento do tráfico, a população branca foi ficando cada vez cura das raízes do contexto onde foi fundado o Candomblé da Barroquinha. mais minoritária, invertendo-se a situação em relação à A insegurança tornou-se um traço determinante da mentalidade do colono, resultando, como res- A MODERAÇÃO NA ANTIGUIDADE FILOSÓFICA GRECO-LATINA posta histórica, uma cultura política intolerante, informada por uma ideologia des- pótica, determinando um comportamento brutal. Grandes, peque- A exaltação filosófica mais remota da moderação política, bem como seu corolário, a nos e médios senhores, boa parte da população branca das cidades, autoridades do denúncia da tirania, podem ser encontradas nos livros quarto, oitavo e nono de A primeiro ao último escalão e mesmo membros do clero foram partidários da cor- de No livro oitavo, com complemento no seguinte, o Sócrates de rente despótica de opinião. Panorama, aliás, típico de todas as sociedades coloniais Platão esboça uma classificação das diversas formas de governo, traçando um paralelo constituídas pelos europeus que, tendo promovido na periferia dos seus impérios entre estas e as diversas índoles humanas (ou "espécies de alma") correspondentes. regimes fundamentalmente opressivos, condicionaram suas minorias colonizado- Entretanto, "as leis básicas do governo" configurariam um campo próprio, segundo ras a viverem em um meio hostil, levando-as a optar em seguida pela coação como determinados princípios presentes nas mais diversas formas governamentais. Assim, o modo predominante de dominação, contestando as diretrizes mais mau governo seria naturalmente integrado por homens maus, excessivamente ambi- moderadas dos governos centrais. ciosos, escravos da parte animal e feroz da alma, "que livre e desembaraçada das leis 48 o CANDOMBLÉ DA BARROQUINHA TIRANIA E MODERAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO EUROPEU 49</p><p>da sabedoria e do pudor [...] a tudo se atreve", homens dados a prazeres sensuais secre- derada, mesmo a violência estaria a serviço da razão, a menos que a alma "se tenha tos e a paixões devastadoras, que adoram acumular riquezas "e as obtêm clandestina- corrompido por uma educação viciada". mente", mas que esbanjam todo o patrimônio acumulado e conseqüentemente se vêem No livro quarto de A república podemos encontrar uma reflexão sobre a hierarquia coagidos "a roubar tudo o que estiver ao alcance das mãos". dos princípios da alma humana, com a supremacia da razão sobre a cólera e o desejo. No seu comportamento doméstico esses homens dispensariam um tratamento "duro e Desde que "há no Estado como na alma do indivíduo princípios correspondentes", brutal para com seus enquanto que, no comportamento político, tratariam seria "função natural" da cólera ser contida pela razão, como o magistrado contém o como escravos os próprios dando grande relevo "aos estratagemas e astúcias militar e pastor, o Estado é justo quando cada uma das três classes que da guerra, tendo sempre as armas na mão" e procurando "sempre manter algum simu- compõem magistrado, o militar e 'mercenário', correspondendo aos três lacro de guerra", para que os cidadãos sintam necessidade de um comando inquestionável. pios da alma, a razão, a cólera e o desejo] faz apenas a função que lhe compete" e Quanto mais odiosos esses tiranos se tornam aos olhos dos mais precisarão do "cada um de nós será justo e cumprirá seu dever quando cada seção de sua alma fizer apoio de uma guarda numerosa e brutal. Esses homens, segundo Platão, podem ser sua tarefa". encontrados em qualquer tipo de organização social, mas a forma mais acabada de go- Por conseguinte, "à razão, na qual mora a prudência e à qual deve-se a vigilância de verno promovida por eles é a tirania, a "maior enfermidade do Estado". toda a alma, cumpre mandar, ao passo que à cólera compete obedecer e secundá-la". Ao contrário, o bom governo seria integrado pelos "homens justos", regidos pela o homem prudente o é "por motivo desta pequena parte que comanda e lhe dá parte mais elevada e "divina" da alma, aquela que abriga a razão, homens acima de ordens e que só tem a ciência do que é necessário a cada uma das partes e a todas em tudo respeitadores das leis, amigos do saber, que levam "uma vida regrada e sóbria", conjunto". Assim, na política moderada platônica, a violência repressiva é considera- subjugam "os desejos que os impulsionam aos prazeres dispendiosos e são, por isso da indispensável, mas racionalmente administrada: a moderação, medida pela razão, mesmo, inimigos da ganância"; homens, enfim, bem-educados dentro da "paidéia", a seria a responsável pela harmonia (Platão, tal como os confucianos chineses seus con- boa educação da classe alta grega, que têm a liberdade como supremo bem. Porém temporâneos, toma, como grande referência para a estabilidade política, a música), não nos enganemos, esse "amante da justiça", sempre segundo Platão, não é um ino- harmonia que deve reinar no interior do indivíduo como no interior da pólis fensivo, pois, apesar de preferir corrigir o erro com brandura, também Temos assim as linhas básicas da conduta política e existencial do homem moderado, deve servir-se do monstro [interior] de várias cabeças como um prudente lavrador; o inimigo do tirano, que serão retomadas em seguida através dos séculos, até nossos valer-se da força do leão para impedir os animais ferozes de crescer; nutrir e amansar dias, e que desempenharão um papel importante no traçamento das políticas de go- cada vez mais os animais domésticos. [...] Descoberto crime e devidamente puni- verno dos escravos nos impérios coloniais modernos. do, a parte animal e feroz se aplaca e amansa, a razão retoma seus direitos e a alma Este esquema vai ser em seguida retomado e desenvolvido por Aristóteles em A inteira, restituída à excelência de sua natureza, se encontra em melhor disposição ca, introduzindo entretanto um aprofundamento da noção de enquanto com a aquisição da temperança, da justiça e da modalidade do procedimento político que poderia ser adotada mesmo pelos regimes A temperança, que vem de ser citada, é a sophrosyne grega, também traduzida por tirânicos. No livro III da Ética a Nicômacos, Aristóteles desenvolve uma teoria restrita comedimento, hoje habitualmente identificada à moderação: na teoria platônica, a da moderação segundo a qual ela seria uma disposição da alma limitada apenas aos moderação é justamente predomínio na alma humana, e conseqüentemente tanto prazeres do tato e do paladar. Aqui, a moderação seria o oposto da concupiscência, na vida particular quanto na pública, do princípio racional, superior. Na política mo- que é o livre curso dos apetites exagerados e ansiosos, os quais, "se forem numerosos 50 DA BARROQUINHA TIRANIA E MODERAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO EUROPEU 51</p><p>e violentos, aniquilarão a própria capacidade de raciocinar. Por isto eles devem ser visa apenas a salvar as aparências, outra que promove ganhos efetivos. Assim, para poucos e moderados, e não devem de forma alguma opor-se à razão", que deve estar prolongar o seu poder, o tirano deve simular "corretamente os modos de um bom sempre no posto de a "pessoa moderada deseja as assumir ares de preocupação com a coisa pública, usar moderadamente ou coisas que deve desejar, como deve desejar e quando deve Estamos portanto pelo menos manter a aparência de não correr atrás dos "prazeres sensuais", adotar, no império do em duas palavras, "a política de passar por virtuoso". Com uma recomendação especi- Entretanto, no livro VI da Ética, que trata da excelência intelectual, a concepção é al: demonstrar publicamente "muito zelo pela alargada em função da unidade dos princípios políticos e existenciais. Aqui, apelando A política moderada pode ser portanto uma "poética", a arte de obter o consentimen- para a etimologia da palavra, Aristóteles afirma que sophrosyne significa "preservar to público por uma encenação na qual o agente assume ares de autoridade legítima, discernimento" e os que disto são capazes "podem ver o que é bom para si mesmos e utilizando certos sinais e artifícios como meios de persuasão. Ao evocar o tema da para os homens em geral [...] são capazes de dirigir as suas casas e cidades". A noção mentira útil, ao insinuar, em nome da paz social, a necessidade de uma regra de de moderação aplica-se portanto ao campo da administração da pólis, o homem mo- conduta para o homem comum e outra para o homem no poder, Aristóteles coloca derado é o que age no interesse do conjunto, o melhor preparado para a liderança em xeque a homogeneidade, postulada por Sócrates, entre os princípios da alma hu- não só doméstica como mana e os princípios de direção da pólis, salientando o governo como campo relativa- Com efeito, no capítulo XIX de A política, "Máximas de Estado para as monarquias", mente autônomo, com as suas "leis básicas". nos tópicos intitulados recurso ao rigor" e "Uso da moderação", Aristóteles vai Mas o tirano, segundo Aristóteles, para manter-se no poder também precisa tomar medi- contrapor explicitamente as duas modalidades de exercício do poder, a tirânica e a das efetivas, tais como evitar a dilapidação das finanças públicas, principalmente "às moderada, explicando que até mesmo o governo do tirano pode aplicar essas duas custas dos pobres"; não tolerar que seus domésticos e suas mulheres saiam humilhando maneiras opostas. Ou seja, Aristóteles distingue o sistema político do modo de exer- e espancando indiscriminadamente; estar disponível para receber os súditos, não ser cício do poder, ou a estrutura do estilo. o modo rigoroso ou tirânico é então sinteti- "arrogante nem audacioso", honrar "as pessoas de bem", não desonrar a juventude "por zado em três pontos: primeiro, manter os súditos na ignorância, proibindo-lhes a lubricidade", procurar sempre estar em bons termos com "os mais poderosos". instrução, e na pobreza, aumentando peso dos impostos; segundo, fazer com que desconfiem uns dos outros, semeando a discórdia entre os amigos, mantendo espiões Em suma, não há esforços que não devam ser feitos pelo tirano para que seus por toda parte, rebaixando as personalidades mais eminentes, promovendo os adula- tos o encarem não como um ou um déspota [...] mas sim como um rei ou como um curador ou ecônomo unicamente ocupado com o bem público. Que ele dores e eliminando os líderes mais destacados; terceiro, suprimindo-lhes qualquer seja moderado em todas as ações; não se permita nenhum excesso; seja cortês com poder, proibindo as associações e mesmo as reuniões de lazer, e promovendo a guer- os nobres e amável com povo; com isso, tornará mais florescente a sua autoridade, ra, a fim de ocupá-los e mantê-los enquadrados na dependência de um chefe militar. e mais agradável e duradoura, não exposto ao ódio que o temor inspira, e reinando Em resumo, como para Platão, para Aristóteles o modo tirânico de governar explora, não sobre gente aviltada, mas sobre sujeitos livres, gente de coragem e de bem. discrimina, corrompe e militariza a Enfim, que regre de tal modo seus costumes e suas maneiras que, se não for bom, o Porém, do mesmo modo que uma monarquia arruína-se ao tornar-se mais tirânica, pareça pelo menos pela metade, e se for mau, só o pareça pela prossegue Aristóteles, a tirania pode prolongar-se ao tornar-se mais moderada. Aqui, Ao criticar a concepção por vezes excessivamente idealizada de Platão, Aristóteles mete sem distingui-las, Aristóteles recomenda aos tiranos dois tipos de medida, uma que os pés na lama da realidade e coloca as bases doutrinais da Realpolitik ocidental. o 52 o CANDOMBLÉ DA BARROQUINHA TIRANIA E MODERAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO EUROPEU 53</p><p>melhor modo de dominar é o moderado, parece nos dizer ele mesmo que tenha lições de Epicteto, livros que ele me emprestou da sua biblioteca"; a meu irmão Severus, algo de farsa. Apesar das críticas que Aristóteles faz a Platão, neste ponto eles não por me ter estimulado amor do belo, da verdade, do bem", por me ter auxiliado a divergem: a vantagem da política moderada sobre a tirânica é que esta baseia-se na adquirir "a clara noção de um estado democrático, com o governo fundado sobre a intimidação e aquela no consenso. No início do capítulo XIX Aristóteles lembra uma igualdade e o direito igual para todos, de um império que respeitaria acima de tudo a anedota famosa, em que o moderado Rei Teopompo de Esparta, recriminado por sua liberdade dos seus súditos; dele ainda culto constante, sem desfalecimentos, presta- esposa por deixar para o filho um reino menos poderoso do que o que recebera do do à filosofia; a beneficência, a liberalidade assídua; a fé e a confiança no afeto dos pai, respondeu-lhe que o deixava melhor porque "mais duradouro". E este é um dos amigos"; a meu pai (o Imperador Antonino, pai adotivo), que me despertou para pontos fundamentais defendidos pela filosofia política clássica a tirania gera o a indulgência, mas também a firmeza inabalável das decisões maduramente refleti- ódio, que leva inevitavelmente às conspirações e à desestabilização do regime; en- das; a indiferença à glória tirada do que se consideram amor do traba- quanto que a moderação, ao procurar o consenso entre dirigentes e cidadãos, é mais lho e a perseverança; cuidado em escutar aqueles que eram capazes de contribuir segura, porque mais estável e mais duradoura. Este princípio foi apropriado pela com alguma opinião útil ao bem público; a participação sempre inexoravelmente corrente moderada do colonialismo português e aplicado à construção do Brasil. concedida segundo mérito [...] a repressão das aclamações e de todas as lisonjas dirigidas à sua pessoa; a vigilância atenta sem cessar aos grandes interesses do rio; a administração parcimoniosa das rendas públicas [...] Com respeito aos deuses, ausência de temor supersticioso; em relação aos homens, nenhuma baixeza para Um outro momento importante na reprodução da doutrina da moderação política captar popularidade, procurar agradar e ganhar as boas graças da ocidental é a filosofia estóica, que passou da Grécia helenística a Roma, onde adaptou- Sêneca, preceptor de Nero, foi um dos estóicos romanos que mais influência exerce- se aos valores republicanos sob a denominação, atribuída pelos historiadores, de "mé- ram no pensamento político ocidental durante a Idade Média e o Renascimento, ten- dio estoicismo", tornando-se um ponto básico na formação dos jovens patrícios e até do sido inclusive citado, implícita ou explicitamente, pelos que construíram a mesmo, em certos momentos, uma verdadeira doutrina de Estado. Filósofos e doutrina moderada de governo dos escravos no Brasil. o seu Tratado sobre a estóicos construíram o Estado republicano, muitos outros foram ministros e pre- cia é um verdadeiro livro de bolso de política moderada, em um momento em que os ceptores de imperadores, sendo que um destes, Marco Aurélio, professou brilhante- valores republicanos e os padrões éticos romanos tradicionais, tais como a modera- mente a filosofia estóica, sendo mesmo considerado um dos filósofos romanos mais ção, a lealdade e a constância, estavam em franco importantes dessa doutrina, ao lado de Epicteto, Cícero e Sêneca. Seguindo a receita aristotélica evocada, Sêneca não questiona os poderes quase que Na abertura do seu belo livro Pensamentos para mim próprio, Marco Aurélio dedica- totalitários do imperador, mas sugere uma fórmula de moderação que possa conciliar o aos entes queridos, parentes e mestres que contribuíram para a sua formação: a o poder absoluto de um indivíduo com os interesses da sociedade constituída. Por meu avô Verus, escreve ele, pelo "exemplo da sua bondade e humor inalteráveis"; a isso lança mão da clemência, valor sacralizado na figura de uma deusa que teria con- minha mãe, pela "piedade, a liberdade e o hábito de se abster não só de fazer o mal, tribuído para a formação do Estado romano. Catão, no segundo século antes de Cris- mas até de se deter num mau pensamento; e ainda a simplicidade do modo de vida e to, já considerava a clemência uma atitude "de utilidade pública". Tito Lívio já a cita a aversão pelo fausto dos ricos"; a Rústicus (filósofo estóico, seu íntimo conselheiro), como vetustissimum morem, costume antiquíssimo. E Virgílio, filósofo pagão influ- por ter me ajudado a tomar consciência da "necessidade de educar meu caráter e ente na formação da própria doutrina "Tu romano, lembra-te que terás outras ocupar-me dele assiduamente", por ter-me indicado "os livros que nos conservam as habilidades: impor teu império aos demais povos, as leis da paz, poupar os vencidos e 54 DA BARROQUINHA TIRANIA E MODERAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO EUROPEU 55</p><p>submeter os soberbos". A clemência, portanto, estava fortemente representada nas A moderação no castigo, por sua vez, é para Sêneca, como para os gregos, um fator tradições políticas romanas em diversas modalidades, enquanto atitude, costume e fundamental de segurança. Se todos temem rei, este também viverá em estado de temor, observando "as mãos de cada pessoa", sentindo-se inseguro e perseguido. Nin- Mas na era imperial foi certamente Júlio César quem elegeu a clemência como virtude guém suportaria viver uma vida sem nenhum momento isento de medo: "A segurança indispensável do governante, seguido por Augusto e Marco Aurélio, alguns dos maio- deve ser pactuada através da segurança recíproca. Não há necessidade de construir res modelos de imperador moderado: elevadas cidadelas nos topos, nem de fortificar colinas escarpadas nas encostas: [...] a clemência assegurará a salvação do rei em campo aberto. o único abrigo inexpugná- Durante as guerras civis romanas, é surpreendente a generosidade que César esten- vel é o amor dos cidadãos" E continua: "Logo, a clemência conserva os não deu a seus opositores. Chegou a oferecer postos de honra a inimigos vencidos, es- só mais honrados como também mais seguros e é, ao mesmo tempo, seu ornamento quecendo as ofensas recebidas. [...] César e as guerras civis permitiram que a clementia fosse transferida do seu emprego como habilidade da política externa para a política e mais sólido meio de preservação dos poderes Os reis moderados trans- interna de mitem seu trono a filhos e netos, "ao passo que o reinado dos tiranos é abominável e efêmero". Apoiando-se nas grandes "forças do decoro e da glória", o sábio Plutarco lembra inclusive que, nessa época, por determinação do Senado, foi construído vela pela salvaguarda de todos os seus súditos, tornando-se uma "estrela luminosa e um templo para a veneração da deusa Porém a no "estoicismo benfazeja". Assim como corpo inteiro está a serviço da alma", o rei "é o vínculo, imperial" de Sêneca, é principalmente uma atitude daquele que detém o poder no cujo poder intervém na coesão das forças públicas". "Não é sem razão que povos e momento de executar um castigo, é "a temperança de espírito de quem tem o poder cidades têm um consenso como o de proteger e amar os seus reis, expondo a si e a de castigar", ou ainda "a brandura de um superior perante um inferior ao estabelecer seus bens todas as vezes que a salvaguarda do governante o requeira". bom prínci- a penalidade". Seu oposto não seria a severidade, pois uma virtude não pode ser contrária a outra, mas a crueldade, "que nada mais é do que a dureza de alma ao pe, em resumo, deve desejar dos cidadãos "a aprovação das suas ordens", assim será executar punições". "amado, defendido e respeitado pela nação Como em Aristóteles, a é uma bondade da alma racional que tem um valor Porém a clemência não deve ser confundida com a "compaixão", que seria "um defeito da alma". Assim, todo "homem de bem" será clemente e manso, mas sem em si, mas que, enquanto instrumento político, deve ser exibida: a política é uma sentimentalismos, "porque é falha de um espírito pusilânime sucumbir à vista dos "poética", uma encenação onde a autoridade imita a boa autoridade, utiliza certos infortúnios sofrimento do outro não deve obscurecer a causa do casti- sinais e artifícios como meios de persuasão, estimulando sua imitação pelos súditos. go, o homem de bem poderá ser implacável se o crime cometido assim o exigir: "A Para estimular os bons costumes afirma Sêneca o imperador deve apresentar-se clemência se aproxima da razão [...] sofrimento não abate um homem sábio. Sua com uma fisionomia que cative "sobretudo as massas". Toda vez que tiver lugar o mente é serena, nada pode suceder-lhe que não possa enfrentar. E nada convém ao julgamento de uma figura importante, cuja graça ou castigo chamará a atenção da homem tanto como a grandeza de alma; entretanto ela não pode ser, ao mesmo nação, "deve-se aproveitar a oportunidade para usar de uma clemência bem visível". tempo, grande e triste". "Os tiranos complementa Sêneca são cruéis por prazer o próprio Augusto, "quando aplicava punições, aparentava sofrê-las", mesmo quando e os reis somente por motivo e necessidade" A violência é portanto um fator indis- castigava duramente revelava-se constrangido em pôr as mãos em tão corre- pensável ao exercício do poder, mas ela deve ser praticada em nome do "interesse tivos". Lembremos de Marco Aurélio e Epicteto, que lançaram igualmente mão da público", racionalmente imagem do rei justo, que governa pelo exemplo edificante, despertando o desejo de 56 o DA BARROQUINHA TIRANIA E MODERAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO EUROPEU 57</p><p>imitação. "Procure tornar-nos imitadores ferventes de sua pessoa escreveu Epicteto a lei comum que ordenaria a conduta correta. Eis aqui alguns dos seus princípios assim como Sócrates estimulou a imitação da sua própria". básicos: todos os homens são iguais, por serem dotados de razão, todos estão natural- Registremos contudo uma nuança no seio da corrente moderada: para Epicteto e mente imbuídos do sentimento de respeito pelo outro e por conseguinte de espírito Marco Aurélio, influenciados pelo radicalismo da filosofia cínica, a conduta firme e comunitário e de cooperação. Na doutrina cínica, depois estóica, a justiça seria sóbria do rei justo funcionaria como incitação moral, exemplo para todos, porém alcançada por assimilação à ordem natural das coisas e não por artifícios jurídicos ou "sem pose teatral", ou ainda "sem fingimento ou disfarce" Ou seja, são os sentimen- convenções coletivas. Zeus e a "natureza comum" seriam os grandes inspiradores do tos efetivos, os valores íntimos que contam para essas almas nobres; enquanto que, justo. para Aristóteles e Sêneca, mais pragmáticos, mais preocupados com a autonomia das o imperador, enquanto árbitro da vida e da morte dos seus súditos, exerce na terra, "leis básicas do governo", a imagem pública do rei justo exigiria a exibição calculada segundo a doutrina política romana, o papel de deus, vice deorum. Historicamente da virtude. A mulher de César dizia um provérbio romano não deve apenas ser imperador romano era pontifex maximus, mas este atributo existe desde a realeza honesta, deve parecer honesta também. Neste sentido, desde que qualquer imagem mais antiga, na qual poder religioso, ao unir o poder temporal ao espiritual, era pública pode ser produzida, manipulada, assim como governo moderado deve ad- uma das bases de legitimação da autoridade do soberano. E, do ponto de vista ideoló- ministrar a violência, deve também administrar a aparência. gico e imaginário, a enquanto deusa, tinha naturalmente algo de divino. Assim, o estoicismo latino associava doutrinas filosóficas prestigiosas a ideologias prá- Um último tema importante na doutrina política estóica, diretamente ligado aos te- ticas tradicionais. Neste sentido, os deuses, segundo Sêneca, sendo "pacíficos e jus- mas já desenvolvidos, é a relação privilegiada dos reis com os deuses, tão cara ao tos", constituem a própria imagem da autoridade moderada, "e a aparência de um Cristianismo ocidental. estoicismo grego já havia postulado que a natureza é uma império tranqüilo e bem estruturado outra coisa não é senão a de um céu sereno e totalidade animada e racional, harmoniosa ordenação de caráter divino, constitutiva brilhante" Todo este arcabouço imaginário e intelectual será absorvido, como vere- de todos os seres, inclusive o ser humano. Foram eles os primeiros formuladores da mos em seguida, pelo processo de constituição dos Estados europeus doutrina do "direito natural", que seria a fonte mais fundamental da justiça, uma instância que não depende da opinião e tem a mesma força em toda parte. em A BÍBLIA E A GÊNESE DA DOUTRINA COLONIALISTA CRISTA um texto famoso, nos deixou a sua melhor Há certamente uma lei verdadeira, a reta razão conforme à natureza, difundida entre Outra fonte de doutrinas políticas moderadas é o Testamento, particularmente todos, constante, eterna, que, comandando, incita ao dever, e, proibindo, afasta da o "Deuteronômio", apontado pelos especialistas, ao lado do "Livro de Samuel", como fraude [...] Nessa lei não é lícito fazer alterações, nem é lícito retirar dela qualquer referência obrigatória para os pensadores ocidentais na época que estamos observan- coisa ou anulá-la como um todo [...] Ela não será diferente em Roma, em Atenas, do. A Bíblia foi a fonte da ciência política da realeza na gênese da Europa. No século hoje ou amanhã, mas como lei única, eterna e imutável, governará todos os povos e IV, quando da oficialização da Igreja, o discurso rebelde contra a perda da indepen- em todos os tempos, e uma só divindade será guia e chefe de todos: a que encon- dência de Jerusalém foi pouco a pouco sendo substituído pela exaltação do poder trou, elaborou e sancionou esta imperial romano através de uma teologia política conservadora formulada no tempo Fonte, portanto, de normatividade e legitimidade, amparo e fundamento para as ações de Constantino, primeiro imperador romano cristão. A Igreja recentemente oficializa- do homem justo, a "lei natural" identifica-se com a razão divina. Os princípios básicos da, como geralmente acontece nesses casos, renunciou a seu papel messiânico para do bom comportamento político estariam por conseguinte nessa lei divina e natural, promover a ordem estabelecida. Com a desintegração do Império do Ocidente, a par- 58 o DA BARROQUINHA TIRANIA E MODERAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO EUROPEU 59</p><p>tir do século V os bispos assumiram um papel político destacado, enquanto máxima ralmente, as revoluções eram explicadas como vingança de Deus contra a corrupção e autoridade das cidades nos territórios cristianizados. Desde então, as famílias senato- a violência dos tiranos, ou seja, de sua falta de Neste sentido, a barbaridade riais romanas, ou seja, as classes altas que controlavam o aparelho de Estado, volta- dos conquistadores espanhóis e a crueldade dos senhores portugueses de escravos ram-se para a carreira eclesiástica, trazendo para o seio da Igreja sua grande foram ameaçadas pelos dominicanos, franciscanos e jesuitas não com as penas da lei cia jurídica e administrativa, e assumindo postos de comando. ou o opróbrio público, mas com o castigo de Deus. Por outro lado, com a decadência da cultura profana, foram favorecidos nos séculos Na Idade Média o trecho citado do "Deuteronômio" foi repetido e recopiado milhares VI e VII os estudos bíblicos no único texto então disponível, a Vulgata latina, tradu- de vezes, afirmando-se assim a figura bíblica do rei justo, em oposição ao rei "orien- ção feita no final do século IV por São Jerônimo, usando o vocabulário utilizado pela tal", tirânico e patrimonialista. mandato do rei justo seria uma concessão de classe cultivada romana, o mesmo dos magistrados e administradores do Império. que exige entretanto a submissão, o temor, obriga o rei a fazer justiça. o "Deuteronômio Essas Sagradas Escrituras latinizadas desempenharam um papel decisivo na reflexão 17" foi, portanto, "matriz do discurso clerical sobre a realeza", modelo doutrinal dos política do período, funcionando como elemento instituinte no Império Carolíngeo, mais importantes "espelhos do literatura político-teológica surgida no sé- e, a partir deste, no resto da culo IX e desenvolvida nos séculos XII e XIII, destinada a educar aqueles que seriam reis dignos deste nome. Estes textos normativos iriam influenciar as práticas de várias Vejamos o que afirma o "Deuteronômio" na sua parte mais diretamente monarquias, dentre as quais a francesa, a mais importante durante os vários séculos Que ele rei] não multiplique número de suas mulheres, para que o seu coração de construção das estruturas políticas da não se desvie. E que não multiplique excessivamente sua prata e seu ouro. Quando subir ao trono real, ele deverá escrever num livro, para seu uso, uma cópia desta Lei, Ora, esta concepção entrava em choque com a doutrina política moderada da filosofia ditada pelos sacerdotes levitas. Ela ficará com ele e ele a lerá todos os dias da sua greco-latina, para quem o medo é fator de instabilidade, inimigo do consenso e pro- vida, para que aprenda a temer a lahweh seu Deus, observando todas as palavras motor de rebeliões. Em Platão, Aristóteles e Sêneca, é a racionalidade, a parte "divina" desta Lei e colocando estes estatutos em prática. Deste modo ele não se levantará da alma, que leva à moderação, enquanto que no "Deuteronômio", no "Livro de orgulhosamente sobre seus irmãos, nem se desviará deste mandamento para a direi- Samuel" e seus desdobramentos posteriores, as "Epístolas de São Paulo" e as obras ta ou para a esquerda, de modo a prolongar os dias do seu reinado, ele e seus filhos, dos padres apostólicos, o medo da autoridade é a base da boa ordem moderada. no meio de Matizes, portanto, na moderação, com a oposição entre a moderação liberal e a o "Deuteronômio" descortina um panorama no qual, mais uma vez, a classe eclesi- ração autoritária. ástica é poder moderador, ou um contrapoder que mantém o rei sob severa vigilân- Uma leitura atenta das epístolas paulinas indica que há em todas elas, autênticas ou cia, pondo o temor da divindade em uma posição de destaque que não existe na não, uma ideologia autoritária e estatizante coerente. Neste campo ideológico homo- filosofia greco-latina. A idéia de que a divindade pune o culpado é tão velha quanto a gêneo podem ser incluídos também certos textos dos discípulos de São Paulo, como a civilização, mas nunca esteve tão insistentemente presente quanto no Velho Testa- Didaqué, o "Ato dos Apóstolos" ou o "Evangelho de Lucas". Neste contexto literário, o mento. Como fundamento de doutrinas oficiais veiculadas, a relação Deus cristão aparece nos seus atributos da tradição judaica, o familiar de Pai, o entre crime e castigo divino terminou virando um fato natural para a mentalidade CO de Senhor, o genético de Criador, o filosófico de Sábio, o heróico de Salvador, o ocidental. Através dos séculos, os ideólogos da Igreja trataram as epidemias, as guer- literário de Verbo, o jurídico de Legislador, o econômico de Pastor, o mecânico de ras, os desastres naturais e outros dissabores trágicos como vingança divina. E, natu- Motor e o ótico de Luz. 60 o DA BARROQUINHA TIRANIA E MODERAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO EUROPEU 61</p><p>Porém, dependendo das circunstâncias, pode aparecer principalmente com o atributo devolves a cada um segundo suas obras". Ou ainda no "Salmo 72", dedicado a militar de Deus Vingador, o Senhor dos Na "Epístola aos efésios", considerada "Ele liberta o indigente que clama e o pobre que não tem protetor" A moderação, ao pelos exegetas uma "admirável síntese" da doutrina paulina, essa atribuição é inclusive mesmo tempo em que encoraja a luta contra a tirania, é uma doutrina da retribuição explicitada, apesar do declarado antimilitarismo cristão-primitivo, por toda uma termi- política estabelecida por Deus, segundo a qual a "gente do povo" deve subordinar-se nologia militar: "Fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder, revesti-vos da arma- obedientemente aos "homens de condição" para merecer seu "amor", isto é, sua pro- dura de Deus [para] sair firmes de todo o combate". Nesta guerra, as armas dos cristãos teção. Em outras palavras, o tradicional modelo do clientelismo patronal. Só na medi- seriam a "espada do "capacete da salvação", a "couraça da justiça" e o "escu- da em que o protetor "deixa ser" o protegido, abre espaço, diríamos hoje, para a do da fé", usados para aniquilar "os dardos inflamados do Maligno". 22 cidadania, é que a autoridade política seria um instrumento de Deus: "Sim! escreve Este destaque atribuído ao aspecto militar da divindade não é casual, como querem nos "Salmos" o poeta-político Existe um fruto para o justo! De fato! Existe um Deus alguns, pois corresponde à posição central que as noções de "força" (a substância) e que faz justiça sobre a terra!"23 "poder" (a atribuição) desfrutam na teologia paulina. o vitorioso Cristianismo paulino Ora, Paulo resgata esta doutrina moderada dos "Salmos", porém lhe atribui uma fei- pode ser entendido como um culto da força que comporta uma doutrina política da ção mais conformista, mais incondicional. Os líricos dos "Salmos", tal como os filóso- dominação, por isso o Cristianismo não teve grande dificuldade de se adaptar ao fos "cínicos", denunciaram romanticamente a dominação política como uma ilusão, Império o deus deste culto, que tem como um dos seus orikis Senhor um artifício das "pessoas de condição" ("apenas mentira dos filhos do homem"), vêem- Todo-Poderoso", é simultaneamente uma noção abstrata e uma personificação do poder, na apenas como "poética", no limite, fraude. Ao contrário, Paulo, na parte final da concretizando-se em seguida nos seus atributos inspirados nas grandes figuras da "Epístola aos romanos", enumerou em termos bem positivistas os preceitos funda- autoridade antiga: o rei, o patriarca, general, o juiz, o sacerdote, o filósofo, o mestre mentais que devem nortear o civismo cristão: e o pastor. A própria fraqueza da divindade (o Filho crucificado), nos diz São Paulo, é Todo homem se submeta às autoridades constituídas, pois não há autoridade que infinitamente mais forte que a maior força humana possível, pois Jesus foi sacrificado não venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Deus. De modo que pela força do amor divino pela humanidade. A força está portanto em toda parte, até aquele que se revolta contra a autoridade, opõe-se à ordem estabelecida por Deus. E mesmo na os que se atraem sobre si a condenação. Os que governam incutem medo Em compensação, a dominação deve ser moderada, implicando um pacto político, ou quando se pratica mal, não quando se faz bem. Queres então não ter medo da autoridade? Pratica o bem e dela receberás elogios, pois ela é instrumento de Deus estado de direito, no qual cada ator tem suas características e atribuições bem definidas, para te conduzir ao bem. porém, praticares mal, teme, porque não é à toa que a suavizando a força. A doutrina da "retribuição" ou da "reciprocidade", profes- ela traz a espada: ela é instrumento de Deus para fazer justiça e punir quem pratica sada pelos antigos sábios hebreus e recuperada por Paulo, é precisamente uma teoria mal. Por isso é necessário submeter-se não somente pelo temor do castigo, mas tam- geral da moderação, base de uma ideologia da moderação política: neste contexto inte- bém por dever de consciência. É também por isso que pagais impostos, pois os que lectual, politicamente a "imagem de Deus" é a imagem do senhor moderado. governam são servidores de Deus, que se desincumbem com zelo do seu ofício. a cada um o que lhe é devido: imposto a quem é devido; a taxa a quem é devida; a Contrariamente à tirania dos "homens sanguinários" que os "Salmos" denunciam, em reverência a quem é devida; a honra a quem é que consiste a moderação e a retribuição no exercício do poder? Exatamente em "dei- xar ser", propiciar a expansão, a prosperidade do súdito. "Não confiai na opressão Nesse contexto ideológico, por sua "caridade insondável", um senhor dotado de ple- dizem os 'Salmos' a Deus pertence a força, e a Ti, Senhor, pertence o amor, pois nos poderes protege seu servo, mas exige em troca subordinação, como é de praxe 62 o DA BARROQUINHA TIRANIA E MODERAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO EUROPEU 63</p><p>neste tipo de relação. A iniciativa é invariavelmente do poderoso, que pode abrir mão Caso os senhores sejam cristãos, "que os sirvam ainda melhor, porque são fiéis dos próprios poderes, mas por pura disposição caritativa senhorial. De acordo com as e amigos de Deus". Ou seja, poder, como atributo divino, contamina de divindade várias epístolas que nos deixou, o papel de mediador que São Paulo assumia tinha qualquer poderoso, mesmo um mero proprietário de "Deuteronômio" precisamente o objetivo de atribuir "força" aos fiéis em Cristo, ele apresenta-se como teorizou a submissão do rei a Deus, São Paulo teorizou a submissão do povo não só ao o patrono-mediador dos "gentios", aquele que, tocado pela graça que vem de cima, rei, como à autoridade em representa Deus diante dos seus e os seus diante de Deus: "Dobra os joelhos" diante Outro problema fundamental era a integração das massas ao Cristianismo. Pau- do pai-patrono da humanidade-cliente "para que ele conceda segundo a riqueza da lo também traçou, nas epístolas que nos deixou, uma política de evangelização que sua glória, que sejais fortalecidos em poder pelo seu Espírito no homem interior". colocou as bases de uma doutrina colonialista Não por acaso é intitulado Porém São Paulo, como fino estrategista, vai além das ameaças do "Deuteronômio", apóstolo dos gentios", emprestando seu nome a numerosas cidades erigidas pelo seu discurso é ao mesmo tempo de advertência (o "temor do castigo") e de con- colonialismo português: "São Paulo de Piratininga, São Paulo de Luanda, São Paulo vencimento (o "dever de consciência"). Ele quer os cristãos como santos homens, de Goa, São Paulo de Diu, São Paulo de Malaca, São Paulo de bondosos, trabalhadores, caridosos e compreensivos, mas os quer também man- o tema central da pregação paulina é a transformação do "homem velho" em "homem SOS e submissos, bem disciplinados, cada um no seu lugar. cristão está em guer- novo". Na "Justificação" da "Epístola aos romanos", tomamos conhecimento de que ra, mas seu campo de batalha é interior, seu combate é contra as pulsões interio- os homens, desde a época da criação do mundo, "tendo conhecido a Deus não res que levam aos desejos incontrolados, ao livre-arbítrio, à reivindicação de au- honraram como Deus nem lhe renderam graças; pelo contrário, eles se perderam em tonomia: nessa doutrina do controle total, como pressão exterior e convicção vãos arrazoados, e seu coração insensato ficou nas trevas. Jactando-se de possuir a íntima plasmada, a desobediência nunca é eventualmente entendida como crítica sabedoria, tornaram-se tolos e trocaram a glória do Deus incorruptível por imagens construtiva, como reparo a um possível erro do dirigente, ou luta contra a injus- do homem corruptível, de aves, quadrúpedes e répteis". Em represália, Deus os teria tiça social, mas condenada como um erro na conduta, uma brecha aberta na sub- atirado no lodo da impureza, atolado nas perversões mais imundas e repugnantes. jetividade à ação do superinimigo, o "Maligno". Com a ressurreição de Cristo, a humanidade insensata teria tido a possibilidade de Nas epístolas "pastorais", nas quais Paulo (ou um seu mandatário), quase no fim da vida, renovar-se "para o conhecimento, segundo a imagem do seu Criador. Aí não haverá instrui detalhadamente os chefes das fundações são retomados os mesmos temas mais grego e judeu, circunciso e incircunciso, bárbaro, cita, escravo, livre, mas Cristo anteriores: a postura que ele exige do cristão é de total submissão aos superiores é tudo em sociais e familiares. Dois séculos antes da cooptação do Cristianismo pelo Império, A igualdade de todos os homens perante Deus era portanto a "boa-nova", o programa a doutrina paulina já estava preparando a massa para a integração. que Cristo veio anunciar, São Paulo estava ali para torná-lo possível. Insurge-se então A respeito dos escravos, o apóstolo pretende que "todos os que estão sob o jugo da contra o clima de corrupção que reina no mundo todo, protesta contra o apego ao escravidão devem considerar os seus próprios senhores como dignos de todo o res- dinheiro, às imagens, aos valores mundanos, às paixões aviltantes, denuncia o clima peito, para que a doutrina e o nome de Deus não sejam blasfemados". Na "Epístola de relaxamento moral, a falta de solidariedade, de amor, que imperam entre os huma- aos "Servos, obedecei, com temor e tremor, em simplicidade de coração, a nos. Porém joga todas as farinhas no mesmo saco: assimila apressadamente todos os vossos senhores nesta vida como a Cristo, servindo-os não quando vigiados, para agra- tipos de riqueza, todos os tipos de prazer, cria uma confusão iconoclasta entre a decom- dar a homens, mas como servos de Cristo, que a alma em atender à vontade de posição de valores existente em um mundo onde reinam a opressão política e 64 o DA BARROQUINHA TIRANIA E MODERAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO EUROPEU 65</p><p>mercantilismo (contra os quais ele no entanto não protesta), e os tesouros artísticos, só não interferiria nos assuntos como se submeteria à Igreja em qual- simbólicos, técnicos, rituais e institucionais criados durante séculos pela humanidade. quer questão de ordem espiritual. Mesmo próprio imperador, em questões espiritu- Mas Paulo abandonou o dogmatismo farisaico que tinha caracterizado sua carreira ante- ais e ficaria sujeito ao jus sacerdotale, submetendo-se ao julgamento dos rior ao Cristianismo, desenvolvendo um outro lado, pragmático, nada Na prelados. Ou seja, a Igreja apostou no "governo do espírito e o comando da mente" sua luta contra a corrente judaizante, ele denunciou a exigência fundamentalista de que no plano individual, e no controle dos rituais fundamentais no plano institucional, os "gentios", ou os "incircuncisos", abandonassem seus costumes para assumir os tabus para consolidar definitivamente seu da lei mosaica. Insistir nisso seria um erro tático, dizia então na "Epístola aos gálatas", "nem a circuncisão é alguma coisa, nem a incircuncisão, mas a nova criatura". Na sua SANTO AGOSTINHO E o CRISTIANISMO IMPERIAL política cultural, o Cristianismo deveria respeitar simples costumes profanos, alimenta- Um outro item importante na transmutação da doutrina foi a legitimação res e identitários dos diversos povos pagãos, o gentio convertido poderia perfeitamente da violência exercida pelo aparelho repressivo do Estado romano. Durante pro- manter sua cultura cotidiana tradicional, querer coagi-lo a abandonar seu modo de viver cesso de oficialização do Cristianismo foi necessário elaborar uma doutrina do seria afugentá-lo da Igreja. "Tudo é permitido, mas nem tudo a Igreja, para ser poder cristão que justificasse e integrasse a coerção oficial, e neste departamento universal, teria de ser transcultural, rejeitando apenas alguns aspectos, a seu ver, inacei- a contribuição maior foi sem dúvida a de Santo Agostinho. Adotando a visão paulina táveis, dos costumes do outro. Esta política cultural moderada iria ser retomada e desen- da história como degenerescência, Agostinho, ao construir sua teologia política, volvida pelo papa Gregório Magno, com enormes repercussões na expansão do Cristi- fez uma releitura do Livro do Gênesis, tentando demonstrar que a dominação do anismo, como veremos homem pelo homem e a necessidade de coerção pelo Estado decorriam dos pró- Fundamental mesmo era um outro aspecto da teoria que, desde Agostinho, passou a prios pecados humanos e da desordem mundial Para numerosos ser intitulada "das duas cidades", delimitando bem o espaço de atuação do sagrado e padres apostólicos da Igreja primitiva que se sentiam "como estrangeiros" no do profano: Cristianismo deixava nas mãos do Estado a administração da existência Império Romano, desejo mais ardente era a autonomia da comunidade material, "a César que é de César", e não colocava em questão o status quo, pois a Agostinho mudou radicalmente de atitude, apagando a rigorosa separação igualdade de todos os humanos teria lugar apenas na esfera espiritual. Em compensa- estabelecida desde João Crisóstomo entre as autoridades espirituais e as secula- ção, denunciava duramente todos os rituais religiosos pagãos promovidos pelo Esta- res, ao propor uma cooperação entre os dois poderes. do, não aceitando o controle estatal e pretendendo ter o controle total sobre a vida Agostinho escreveu que o erro básico de Adão não foi comer o fruto do conhecimen- ritual dos Enquanto grande estrategista, o apóstolo distinguia com rigor o prin- to, mas a tentativa orgulhosa de estabelecer seu próprio governo autônomo, marcan- cipal do secundário, cedendo no secundário para reivindicar inflexivelmente o princi- do o início da decadência humana e exigindo a constituição de um aparelho governa- pal. Talvez tenha sido Paulo o primeiro a explicitar o princípio, depois desenvolvido mental regido pela lei de Deus e encarregado de enquadrar a massa humana. A rebel- por Maquiavel, segundo o qual quem controla a rotina e a produção dos rituais sagra- dia adâmica deixava assim de ser cultural para ser política. Ora, no contexto social de dos dispõe de enorme poder político. Agostinho essa simbólica vigilância exterior sobre o ser humano era exercida concre- Mas foi certamente Santo Ambrósio, bispo de "leal amigo dos imperadores e tamente pelo aparato repressivo do Estado romano, o que equivalia dizer que aquela devoto servidor do Império", quem deu da política das "duas cidades" a formulação força policial, até bem recentemente perseguidora de cristãos, era um instrumento de definitiva, segundo a qual a Igreja apoiaria a autoridade imperial, mas o Império não Deus. Senellart comenta que esta "surpreendente mutação do discurso teológico", 66 CANDOMBLÉ DA BARROQUINHA TIRANIA E MODERAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO EUROPEU 67</p><p>por intermédio desta "sombria leitura da história a partir do pecado original", tornou- se núcleo da tradição Acrescentemos que, com Santo Agostinho, Cristianismo como movimento perdeu sua autonomia, ao reivindicar a proteção partidária do Estado. São Paulo estabeleceu as normas do comportamento de cada cristão, considerado individualmente, perante o Estado; Agostinho, quando da luta pelo poder no interior do movimento cristão entre católicos e donatistas, chegou a apelar para a intervenção do imperador em favor dos católicos, inclinando-se para a direita e rompendo, neste ponto, não só com a tradição primitiva, bem como com as tendências mais radicais da filosofia política cínica e estóica. Estamos muito longe de Epicteto, para quem o verdadeiro rei exerce seu poder não pelo castigo e a ameaça de prisão, mas pelo exemplo; ou da mensagem dos padres apostólicos, que mandavam seus sequazes suportar com paciência o poder do con- quistador, mas manter íntegra a liberdade de crença. Agostinho, tal qual um funcioná- rio do Estado, raciocina de dentro do Império cristianizado, ou, o que vem a dar no mesmo, faz do Cristianismo uma ideologia imperial. Ele estava convencido de que, sem dominação estatal, a expansão da doutrina católica romana não seria possível. Não por acaso os oito primeiros concílios ecumênicos, destinados a homogeneizar Figura 1 Antes da universalização da figura do Cristo pregado na cruz, na transição do Cristianismo primitivo para Cristianismo oficial a imagem do fundador mudou da encantadora figura uma doutrina multifacetada e espalhada por vastos territórios, foram convoca- popular do "bom pastor" do século III, passamos ao e imperial Cristo "Dantocrator" dos séculos dos pelos imperadores romanos, preocupados em criar um credo único em um impé- seguintes. À direita, um Cristo mal-humorado e flácido do século XIII, amarrado a fardos de tecidos precio- rio único: a harmonia doutrinal, portanto, a serviço do poder político SOS e instalado em um trono suntuoso, coroa uma Imperatriz Maria de gestos estereotipados e olbar esta imagem é um subproduto da mentalidade que assimilou a divindade à quando da cooptação Mas essa ajuda decisiva exigia naturalmente retribuição: os padres da Igreja pertencen- do Cristianismo pelas monarquias européias. tes à corrente beneficiada pela opção imperial, de denunciadores passaram a justificadores da agressividade romana. Assim, como inevitável, nas lutas religiosas inter- Mas chamamos-lhes felizes se governarem com justiça; se, no meio das palavras nas ao Império Romano, os grandes líderes católicos deixaram tendencialmente o lado dos que os poem nas alturas e das homenagens dos que os saúdam com demasiada daqueles que eram perseguidos, passando para o lado daqueles que perseguiam. humildade, eles não se orgulharem, mas se lembrarem de que são homens; se submeterem seu poder à majestade de Deus a fim de dilatarem ao máximo o seu Vejamos como Agostinho, em A cidade de Deus, traça o perfil ideal dos imperadores culto; se temerem a Deus, o amarem e o adorarem; [...] se forem lentos a punir cristãos. Estes são "felizes" porque, a exemplo de Teopompo de Esparta, "reinaram e prontos a perdoar; se exercerem sua vindita pela obrigação de governarem e de por muito tempo e legaram, após uma plácida morte, o império aos filhos, ou domi- protegerem a e não para cevarem os seus ódios contra os inimigos; se naram os inimigos da República, ou conseguiram prevenir e reprimir os cidadãos que concederem o perdão não para deixarem o crime impune, mas na esperança de contra si se Agostinho assim completa seu perfil: uma emenda; se, muitas vezes constrangidos a tomarem medidas severas, as 68 o CANDOMBLÉ DA BARROQUINHA TIRANIA E MODERAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO EUROPEU 69</p><p>compensarem com a brandura da misericórdia e a largueza dos "ofereceu-lhes a ocasião de se tornarem cristãos, com caridade não os preferirem dominar as suas paixões depravadas a dominar quaisquer povos; se privou de seus bens, e cumulou-os de tudo isso não pelo ardente desejo de vanglória, mas pelo amor à felicidade eterna; se não forem negligentes em oferecer pelos seus pecados, ao seu verdadei- Registremos de passagem o caráter mítico desse texto, onde a providência divina aban- ro Deus, um sacrifício de humildade, de propiciação e de dona a sua magnífica indiferença para tomar partido nas mesquinhas lutas humanas pelo poder. Talvez a má consciência de estar estimulando a violência imperial, atitude Quem seriam estes "cidadãos rebeldes" e estes inimigos da res publica Os adver- tão pouco tenha levado Agostinho a desviar uma parte da violência para as sários donatistas não são apenas um grupo cristão a mais, lutando pela preeminência, mãos de Deus, que não tem de prestar contas a ninguém... De qualquer maneira, praticando os mesmos atos piedosos e as mesmas vilanias que os católicos para Agos- tinho, são bandos organizados para crime. Ao mesmo tempo as cerimônias até mais importante a salientar aqui é que, com Agostinho, complementa-se o modelo do recentemente respeitáveis e oficiais no contexto romano, são qualificadas de "infâmias", rei cristão, que habitualmente age com moderação, embora tenha dever de ser im- e os deuses pagãos de imundíssimos, os mais maléficos e os mais enganadores placável na destruição da religião do outro. demônios que chegaram a comprazer-se com seus crimes reais ou fictícios". Evidente- Esta parece ter sido a grande novidade a construção de um modelo de expan- mente que, com adversários assim caracterizados, não poderia haver nenhum diálogo, são imperial de novo tipo, que servirá de padrão para a escravização dos africanos e a justificando-se surgimento de uma argumentação policial na doutrina Na construção das sociedades coloniais nas Américas. A política cultural dos antigos impéri- prática, a violência repressiva estatal passará a desempenhar um papel cada vez mais os pagãos prescrevia normalmente a absorção da religião do outro como um acréscimo significativo na política mesmo na moderada, com especial ênfase nos processos do próprio poder. A violência poderia ser praticada apenas para domesticar as castas de anexação de territórios e evangelização programada de suas populações. sacerdotais conquistadas, neutralizá-las enquanto forças potencialmente organizadoras Neste sentido, ao atribuir ao imperador a tarefa de "dilatar ao máximo" o culto cris- da resistência. o Cristianismo imperial colocaria em ação uma nova política: a persegui- tão, Agostinho vai além de São Paulo, justifica as guerras de conquista e a destruição ção e massacre das elites sacerdotais conquistadas visando a destruição da própria manu militari das religiões dos povos conquistados. No seu elogio do Imperador religião que eles lideravam, e a assimilação das massas acéfalas por um Cristianis- cristão Constantino, este é descrito segundo estereótipo do rei moderado, qual mo segmentado, ortodoxo para as elites, adaptado para as massas. "teve pleno êxito na luta contra os tiranos; e morreu em idade avançada, de doença e Assim, compreende-se que a moderação manifeste-se na hora da integração do venci- velhice, deixando o império aos filhos". Do Imperador Teodósio, outro que combateu do e de seus filhos, amados "com caridade cristã" e "cumulados de honrarias", desde que os tiranos e teria tratado mesmo os inimigos com humanidade, afirmou que derrotou renunciem aos próprios valores, às próprias crenças, à própria identidade. Em outras pala- "um exército mais com a oração do que com as armas. Militares que vras, o rei moderado cristão, a essa altura dos acontecimentos, havia-se tornado um mode- estiveram nesta batalha contaram-nos que, do lado de Teodósio, levantou-se uma vio- lo de construtor de impérios coloniais, dotado ademais de motivação moral. lenta ventania que lhes arrancava os dardos das mãos para os dirigir com maior vio- lência contra os inimigos e que virava contra os inimigos os dardos que estes atira- A ORDEM MONÁSTICA COMO DESTACAMENTO AVANÇADO DE COMBATE ESPIRITUAL Vitorioso, "Teodósio derrubou as estátuas de Júpiter que contra ele tinham sido erigidas, e complementou sua obra justa e benigna ao ordenar "que por toda a parte No século VIII o Cristianismo apostólico tornou-se a religião dominante no Ocidente derrubassem os ídolos gentílicos". E, generoso, aos filhos dos derrotados, vítimas da europeu. Com a conversão de Clóvis, o rei dos francos, foi restabelecida no grande violência da guerra que se tinham refugiado nas igrejas mesmo sem serem cristãos, tabuleiro a potência organizada e organizadora da instituição eclesiástica romana. Além 70 o DA BARROQUINHA TIRANIA E MODERAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO EUROPEU 71</p><p>de provedora da ordem simbólica e produtora dos rituais políticos, a Igreja preenchia preferido salientar a "impressão de serenidade" que emana do documento, compen- várias funções sociais, econômicas, assistenciais, intelectuais e artísticas, já era uma orga- sando poder excessivo do abade com seu "conselho e assistência espiritual". Em- nização complexa, burocratizada, dinamizada pela força de vários corpos constituídos bora essas colocações captem algumas das qualidades da Regra, creio que algo de de especialistas disciplinados, dotada de eficácia administrativa, proprietária de um gi- fundamental termina sendo escamoteado, um outro aspecto muito importante que é gantesco patrimônio e controladora de uma base social sempre esquecido: Bento reuniu todo o saber antigo sobre o enquadramento discipli- Mas seu poderio militar era insignificante, e as guerras a haviam enfraquecido mais nar para criar uma diretiva para a ação ordenada de uma coletividade hierarquizada, ainda. papa, depois da retirada da corte para Constantinopla, precisava de um alia- destinada a utilizar "as gloriosas e poderosíssimas armas da obediência, para militar do militarmente poderoso para restaurar a ordem na Península Itálica, devastada pe- sob o verdadeiro Rei, Cristo Senhor". las invasões bárbaras. Roma estava saqueada, desmoralizada. No centro da Europa Naquela época as comunidades monásticas surgiam espontaneamente, sem grandes Ocidental, Reino dos Francos era a grande potência militar e territorial, mas carecia conexões com o clero oficial; viviam isoladas, cada uma com suas próprias normas, de capacidade administrativa e não dispunha de meios para a formação de pessoal. levando uma vida rotineira. Bento diminuiu muito o peso que a meditação solitária Assim a aliança do Papa Leão III com o Imperador Carlos Magno, na virada para o tinha nas regras tradicionais e canalizou as energias para o trabalho coletivo e produ- século IX, restaurou o império cristão na Europa, fornecendo aos francos a força tivo: inventou uma gestão minuciosa e eficiente, capaz de dinamizar as atividades moral e a motivação necessárias à sua expansão, e fazendo da Igreja uma potência práticas, orientada contudo pelo verticalismo assimétrico que caracterizava o colonial. Mas, muito antes desses espetaculares acordos de cúpula, um longo e capilar cio de todos os poderes instituídos, recuperando autoritarismo de São Paulo, levan- processo de preparação havia sido deflagrado. do-o às últimas capítulo V da Regra, intitulado "Da obediência", A fundação da ordem beneditina havia sido uma silenciosa demonstração de potencial merece citação: político e simbólico da Igreja romana: o jovem Benedictus, também conhecido como o primeiro grau da humildade é a obediência sem demora. É peculiar daqueles que Bento, nascido de uma nobreza romana em plena crise, havia feito seus estudos supe- estimam nada haver mais caro que Cristo, seja por causa do santo serviço que riores em Roma, mas não encontrava mais motivação nas carreiras políticas e diplomá- professaram, seja por causa do medo do inferno ou por causa da glória da vida ticas da capital decadente, por isso tornou-se monge e fundou, em 529, a abadia de eterna. Desconhecem que seja demorar na execução de alguma coisa, logo que Monte Cassino, emblematicamente sobre as ruínas de um templo de Contam ordenada pelo superior, como se por Deus ordenada fosse. Deles diz o Senhor: as lendas que Bento levou uma vida de eremita, visitou vários mosteiros e estudou as "Logo ao ouvir-me, obedeceu-me." regras antigas, antes de redigir a sua própria. E, baseado nela, fundou seu estabeleci- No "Prólogo" de sua Regra, Bento assim exorta o iniciado: "Escuta, filho, os preceitos mento. A ordem, aliás, estava destinada a uma gloriosa carreira dentro da cristandade, do Mestre, e inclina o ouvido do teu coração; recebe de boa vontade e executa eficaz- formando centenas de milhares de monges, cem mil monastérios, cinco mil bispos, mente os conselhos de um bom Porém logo explica que, em caso de insubordi- vinte e três A grande estrela da ordem beneditina não foi entretanto Bento, nação, poderia assumir a figura do "pai irado, a deserdar seus filhos", e até mesmo a foi seu texto, a Regra de São Bento, um dos documentos fundadores do Ocidente. do "senhor temível, irritado com nossas más ações", podendo ir até as vias de fato. "Discrição" e "equilíbrio", "notável pelo espírito de discernimento e clara pela lingua- capítulo II, "Como deve ser o abade", recomenda que, se as advertências verbais não gem" foram as rubricas encontradas pelo papa Gregório Magno, que pontificou entre derem resultado, "aos duros e soberbos ou desobedientes reprima com 590 e 604, para explicar as vantagens da Regra de São Bento. Os especialistas têm varadas ou outro castigo corporal" [...] "Bate no teu filho com a vara e livrarás a sua 72 o CANDOMBLÉ DA BARROQUINHA TIRANIA E MODERAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO EUROPEU 73</p><p>alma da morte". A Regra, ademais, preconiza enquadramento extremamente minu- formatado para longa duração, estava aos poucos sendo gerado para intervir em esca- cioso do monge, do seu corpo, de sua mente, com todos os detalhes da sua existência la continental, posteriormente mundial. rigorosamente regulamentados, até a maneira de dormir, tornando operacionais as A Regra contou com importantes apoios externos, entre eles, antes de mais nada, o do exortações intimidatórias de São papa. Após a destruição do mosteiro de Monte Cassino pelos longobardos, meio sécu- autoritarismo beneditino é claro, uma ideologia o culto lo depois da sua fundação, os beneditinos refugiaram-se em Roma, quando então do "Verdadeiro Rei", que também implica uma ideologia senhorial, baseada em cos- Gregório Magno tomou conhecimento do potencial da Regra, tornando-se ele pró- tumes e normas jurídicas, familiares e clericais, mas o modelo de organização mais prio um monge beneditino. o texto foi então enviado aos países do norte, padroni- inspirador da Regra foi sem dúvida o Exército Romano. Georges Duby chamou a zando o já desenvolvido movimento dos monges irlandeses, os quais foram encarre- atenção para fato de que Bento tomou grande parte do seu vocabulário aos mili- gados em seguida da evangelização do norte da Europa. tares, organizando dormitório monástico como uma caserna e o claustro como Mas a grande expansão só viria com o apoio dos imperadores carolíngeos. A aliança da uma guarita. E toda a sua moral resumia-se nesse conflito armado entre as virtudes Igreja com Estado, já teorizada por Agostinho e Ambrósio, foi negociada entre os e os vícios, que se podiam ver representados em luta corpo a corpo, couraçados, papas e os soberanos francos, e altamente vantajosa para as duas instituições. nos capitéis das abadias". Por outro lado, poder paternal como vínculo jurídico restabelecimento do poder temporal do romano só foi possível com apoio determinado pelo direito romano foi convocado para compor a figura da autorida- dos exércitos francos. Roma e papado beiravam a extinção: seus estrategistas preci- de e legitimar as sanções contra os recalcitrantes. Bento encontrou uma maneira de savam do respaldo de um imperador de todos os cristãos para domesticar os bárbaros, dinamizar o movimento coletivo, de treinar grupos de executantes céleres e motiva- acabar com a opressão do Império do Oriente e derrotar a ameaçadora heresia dos, de aumentar a produtividade do ocidental, mas também levou a limites extre- iconoclasta. Segundo Le Goff, o projeto de restabelecimento do Império no Ocidente mos a tradição autoritária do parece ter saído da própria chancelaria pontifical. E as vantagens para a Igreja termi- Três décadas depois da fundação do Mosteiro de Monte Cassino, com a organização naram sendo muito grandes: os decretos eclesiásticos voltaram a ganhar força de lei, o das missões beneditinas, a Igreja foi além, constituindo uma espécie de força expedi- pagamento do dízimo ao clero foi oficializado, a Igreja, em suma, recuperou a prospe- cionária treinada para executar a transformação das mentalidades e dos costumes em ridade perdida desde a queda do Império larga escala nas zonas rurais pagãs. Uma corporação até então fechada em si, voltada Passando novamente de perseguido a perseguidor, o Cristianismo oficial legitimou o para a auto-suficiência, passaria a ganhar novas funções. A Europa estava quase que uso da força militar imperial para combater religiões concorrentes, dispersando-as ou inteiramente povoada por bárbaros vindos de todos os quadrantes, com línguas, cos- subordinando-as. Promoveu também uma reforma interna, impondo a Regra de São tumes e deuses diferentes, vivendo misturados aos nativos. Os pagãos haviam-se esta- Bento a todos os mosteiros do Império. Uma série interminável de sínodos adaptou a belecido, estava na hora de começar a contra-ofensiva. Os beneditinos foram então Regra à nova realidade, tornando-a legislação oficial, sob o título de "Capitulário Mo- lançados em território hostil para promover o way of life cristão. A civilização ociden- o mosteiro, organizado originalmente como uma modesta caserna onde tal passou desde então a dispor de uma frente eclesiástica tão organizada quanto a todos trabalhavam, tornou-se uma mansão aristocrática, vivendo na opulência e gas- frente militar, com um extraordinário potencial para a construção de consensos, de tando boa parte de sua energia na preparação de eventos litúrgicos espetaculares. hegemonias. Um clero colonialista, formado sob uma rígida disciplina militar, admi- Nesse contexto, a Igreja, e particularmente o mosteiro, teve um papel decisivo na nistrativamente bem organizado, armado de uma poderosa ideologia de conquista, fundação de cidades, na reorganização da educação pública, da produção econômica, 74 o CANDOMBLÉ DA BARROQUINHA TIRANIA E MODERAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO EUROPEU 75</p><p>da cultura cultivada e da sociedade como um todo. Em uma palavra, Cristianismo organizando festivais sagrados, procissões e peregrinações, exibindo corpos santos e tornou-se não só a doutrina oficial, como a política social do Sagrado Império relíquias célebres, recebendo em atos solenes cauções e juramentos de cavaleiros e corporações, com objetivo de sensibilizar a maioria para erradicar a violência, não Contudo, só no século VIII a regra beneditina passou a ser seguida nos mosteiros só da nobreza guerreira como também da marginália salteadora de es- ibéricos, e em Portugal só no século XI. Toda essa experiência acumulada haveria de trada. As primeiras tomadas de posição, no Concílio de Narbonne de 989, foram pou- ser de extrema utilidade na época da montagem dos impérios coloniais de Portugal e cas e simples: os bispos assumiram alguns itens da legislação real carolíngea, na qual da Espanha, os quais não teriam sido possíveis sem apoio das novas ordens, entre o rei tinha o encargo de defender pobres, os as viúvas e as igrejas de Deus"; outras a franciscana, a dominicana, a jesuita e a beneditina, fundadas para manter as tendiam, a exemplo do que acontecera quando da desintegração do Império do Oci- populações européias sob a influência da Igreja e promover a evangelização dos po- dente, a assumir as funções dos soberanos, tentando fazer respeitar a paz que agora vos não era mais "do rei", era "de Deus". Mas o Movimento não poderia deixar de ter, principalmente para os experientes homens da Igreja, pretensões instituintes e um o MOVIMENTO SOCIAL MEDIEVAL, AS CRUZADAS A "RECONQUISTA" cunho jurídico. Portanto, se, inicialmente, as assembléias lançavam mão apenas de "Que nenhum cristão mate outro cristão", pois aquele que o faz "derrama sangue de sanções espirituais, com tempo também tentaram impor castigos mais efetivos, multas Cristo", escreveram em 1054 os bispos franceses da Província de Narbonne, reunidos e indenizações às vítimas da violência, mas naturalmente dependiam de um poderio em concílio. contexto tinha como pano de fundo a decomposição das instituições militar capaz de impor respeito. Por isso muitas associações tenderam a transformar- públicas do Império Carolíngeo que, por mais de dois séculos, asseguraram a paz se em órgãos executivos ou organizar milícias justiceiras. social e a hegemonia cristã na Europa. Os poderes centrais não tinham mais condição Na medida em que o Movimento se constituía, foram organizadas tropas paroquiais de assegurar o funcionamento normal da sociedade, o medo, não de Deus ou da integradas por camponeses e aldeões que, carregando os estandartes dos seus santos, Autoridade, mas do caos, estava no ar. Essas condições favoreceram a expansão perseguiam salteadores de estrada, incendiavam castelos de barões saqueadores, mas desordenada dos poderes locais, particularmente da nova nobreza militar, os milites que também foram massacradas por tropas senhoriais, eventualmente apoiadas por (ou miles), a classe cavaleiresca que emergia ao lado da aristocracia tradicional. Solda- outros bispos, aliados de grandes senhores feudais. Na verdade, algumas dessas milí- dos profissionais, desfrutando de uma técnica militar superior, apoderaram-se de pos- cias também se tornaram saqueadoras, queimando inclusive aldeias controladas por tos de comando, roubando e matando camponeses e mercadores, saqueando condes rivais. Porém alguns e senhores locais, em várias partes da Europa monastérios e apropriando-se das terras A Igreja já vivenciara uma crise Ocidental, por sentimento cristão ou cálculo político, também aderiram, mediocre- semelhante na época da desintegração do Império Romano do Ocidente, conhecia mente, é verdade, mas, de qualquer maneira, o Movimento ensejou, no projeto como bem os perigos de semelhante período. na prática, uma aliança complexa, um compromisso multifacetado de vários segmen- No final do século X, em algumas províncias do oeste da França, começou um movi- tos sociais heterogêneos. mento intitulado "da Paz de Deus" que iria se expandir, nos séculos seguintes, por É bom lembrar que o Movimento não atuou apenas contra a desordem que reinava na várias regiões da Europa A iniciativa havia sido dos bispos e abades, que, sociedade, combateu também a desordem que reinava na própria Igreja, cobrando o utilizando eficientemente os meios de comunicação de massa da época, começaram a desarmamento dos eclesiásticos, lutando contra o concubinato dos padres, tão gene- reunir multidões nos campos próximos às cidades, clero, nobreza e povo em geral, ralizado que até tinha nome, o e contra a "simonia", isto é, a desonrosa 76 DA BARROQUINHA TIRANIA E MODERAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO EUROPEU 77</p><p>comercialização dos altos cargos da hierarquia eclesiástica, até mesmo do cargo supre- grega, o magistrado, o militar e comerciante (incluindo os artesãos), porém com uma mo. Em resumo, a Igreja estava corrompida, perdendo identidade, dignidade, corren- novidade de peso: atributo do magistrado grego, a razão, é substituído pela oração.40 do o risco de se desintegrar e ser absorvida por uma multidão de médios e grandes Le Goff assinala que este esquema é uma visão sublimada da realidade, não reunindo feudos espalhados pela Europa. a totalidade das categorias sociais, e simplificando até mesmo as três ordens citadas, Movimento da Paz de Deus pode inclusive ter provocado a chamada "reforma muito mais heterogêneas do que aparecem nesses textos normativos. o objetivo mais gregoriana", empreendida principalmente por outro célebre papa Gregório, o séti- fundamental, no entanto, não era teorético, era didático e ao selecionar mo, que visou libertar a Igreja das intromissões da nobreza e da submissão ao poder valores sociais considerados fundamentais, o religioso, o militar e, novidade na litera- político. Movimento, associado à reforma, tendeu portanto a segregar mais nitida- tura medieval, trabalho como valor econômico, a Igreja definia os atores da mente os leigos e os eclesiásticos, definindo melhor os contornos institucionais da grande aliança que estava promovendo, empreendendo uma política de conciliação Igreja, reforçando-a diante dos poderes políticos e da sociedade civil. É esta Igreja de classes para tornar a vida em sociedade viável. Em outras palavras, Movimento institucionalmente reforçada que estará em condições de passar à ofensiva, tornando- tinha uma finalidade prática, valorizar a harmonia, a interdependência entre as classes se o poder político dominante na Europa dos séculos XII e XIII e, posteriormente, sociais, estimulando uma cultura da convivência pacífica para obter a estabilidade parceira-mor na construção dos grandes impérios coloniais do Ocidente. política, o progresso econômico e a manutenção do status quo. Este é, em última Mas é evidente que apenas uma reforma interna da Igreja não poderia, na época do análise, o objetivo mais fundamental da política moderada colocada igualmente em Movimento da Paz de Deus, dar os resultados abrangentes esperados. Com o tempo, ação na constituição das sociedades coloniais entre os letrados do clero foram feitas algumas tentativas de reforma da própria soci- Porém teria sido inútil tentar atrair a nobreza armada apenas com exortações aos bons edade leiga, geralmente dividida, nos textos normativos, em armados e desarmados. sentimentos, a legislação da Paz de Deus e a ameaça de excomunhão, era preciso Os desarmados, que a Igreja tomou sob sua ainda frágil proteção, eram os campone- la para um projeto concreto de refundação, do qual ela tirasse pelo menos as mesmas ses, os habitantes das aldeias, os peregrinos, os mercadores e as mulheres nobres. A vantagens que tirava da rapina. Neste sentido, toda uma literatura foi produzida pelos legislação da Paz de Deus, usando suas armas próprias, chegaria mesmo a excomun- letrados do Movimento, enaltecendo as armas dos milites, que lhes teriam sido atribu- gar milites assassinos, sem contudo resolver o problema. ídas pela "vontade de Deus". Aliás, não havia nenhuma originalidade nisso, pois, como Segundo a célebre fórmula do bispo Adalberon de Laon, a sociedade foi então dividi- vimos, o próprio São Paulo já havia escrito que a espada "é instrumento de Deus para da em três ordens, cada uma com suas funções próprias: a ordem eclesiástica, os fazer justiça e punir quem pratica o mal". oratores, e duas ordens laicas, os bellatores e os laboratores. Os oratores foram defi- Na prática, os milites foram solenemente convocados a fazer parte da obra de "purifi- nidos como sendo os especialistas em obter, pela oração, a proteção divina para toda cação" da sociedade, através de juramentos de paz e mortificações coletivas. Logo a sociedade, tarefa tradicionalmente atribuída apenas às ordens Os seriam convidados a renunciar ao combate em certos períodos, como os domingos e laboratores eram sobretudo os camponeses, muitos dos quais haviam perdido a pro- os dias santificados, à paz acrescentando-se a "trégua de Deus", estimada como um teção senhorial; ou a massa trabalhadora em seu conjunto, aí incluídos os artesãos das crédito para a salvação da alma daqueles cujo ofício era matar. Assim, nesses dias, em aldeias, cuja função seria produzir os meios de subsistência para todas as ordens. Os nome da memória e da paixão de Cristo, a paz deveria reinar "entre todos os cristãos, bellatores, enfim, teriam a função de defender as ordens desarmadas. Um amigos e inimigos, vizinhos ou estranhos". neste novo esquema há possivelmente algum eco das três classes da filosofia política 78 o DA BARROQUINHA TIRANIA E MODERAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO EUROPEU 79</p><p>Dois lembretes a respeito do poder do simbolismo no movimento da história: apesar de dificilmente poder influenciar uma classe a crença na existência do inferno era, naqueles tempos, uma força moral que não podia ser subestimada. Duby escreveu que uma enorme quantidade de imagens, pintadas ou esculpidas nas igrejas, "lembravam obstinadamente a presença do inferno", ao qual qualquer um poderia ser condenado. Neste lugar medonho, de castigo eterno, "labaredas e demônios ator- mentavam o corpo desses condenados com todos os tipos de instrumentos de tortura [...] Imagem obsessiva, opressiva, o inferno estava presente em todos os Talvez fosse o germe mais virulento do medo que atormentava as pessoas daquela Mormente, é natural, aqueles que tinham a consciência pesada. Segundo lembrete: a excomunhão, pronunciada pelo papa, também era uma arma pois não só podia excluir os condenados do convívio social, tirar das autori- dades sua legitimidade, como expedi-los diretamente, após a sua morte, para o fogo do inferno. Mesmo o Imperador Henrique IV, em um incidente célebre da história medieval, foi excomungado e deposto em 1077, obrigado a humilhar-se diante do Papa Gregório VII e a fazer três dias de duras penitências para recuperar a legitimida- de. Sabemos que o imperador obteve sua revanche três anos depois, ao expulsar Gregório de Roma e levá-lo a morrer no exílio; porém a moral da história é que, dependendo da conjuntura, o poder da excomunhão podia ser mais forte do que o poder de um Exército imperial.4 Em todo caso, por via das dúvidas, era necessário redirecionar a inevitável brutalidade da cavalaria para fora da comunidade, especificamente contra os inimigos da fé, tarefa que já havia sido legitimada, como vimos, pela grande autoridade de Santo Agostinho. Nascia o "soldado de Cristo", um dos construtores da Europa, posteriormente um dos construtores dos impérios coloniais europeus. Assim, a palavra de ordem fundadora do Movimento, "que nenhum cristão mate outro cristão", terminou implicando uma Figura 2 A imagem do Inferno aterrorizou as mentes cristianizadas durante séculos. Os suplícios neos mais borripilantes foram materializados pelos artistas a serviço da Igreja em imagens exibidas em lugares solenes, para controlar os desvios de conduta, adensando as trevas do medo ocidental. Até mesmo os poderosos deste mundo poderiam marchar direto para Inferno sob a bandeira da soberba, tal como no primeiro plano desta pintura do início do século XV. TIRANIA E MODERAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO EUROPEU 81</p><p>outra, segundo a qual cristão em missão poderia legitimamente matar um não- armênia de Edessa, tomando Jerusalém em julho de 1099, ali fundando um segundo cristão, perturbadora exceção a um dos mandamentos da lei de Deus, mas inevitável reino cruzado debaixo de um banho de sangue que não poupou sequer anciãos, em um Cristianismo imperial. Esta operação ideológica delimitou um espaço, o âmbi- mulheres e crianças, aterrorizando mesmo as sensibilidades mais calejadas. Estava to da Paz de Deus, em que a crueldade era tida como um pecado mortal, agressão reinaugurada, em grande estilo, a política expansionista do Ocidente. contra a misericórdia e a caridade fora deste espaço, no âmbito da guerra de No âmbito das cruzadas é que se desenvolveram as ordens militares, corporações de Deus, o aniquilamento do outro era dever e glória do cavaleiro cristão. tradicional cavaleiros formados dentro do espírito das regras ou seja, disciplinados espírito cristão de renúncia ao mundo estava, na trajetória institucional do Cristianis- sob influência da Igreja. Na origem dessas ordens estavam instituições pacíficas, fun- mo, sendo substituído pelo ideal de conquista do dadas em Jerusalém apenas para hospedar e cuidar da saúde dos peregrinos euro- o espírito agressivo da cavalaria medieval foi desviado pela Igreja para dois alvos, um peus. De algumas cisões nessas instituições iniciais surgiram outras, que privilegiaram no Ocidente outro no Oriente. A frente oriental da guerra santa foi a conquista de o serviço militar, como a Ordem dos Cavaleiros do Santo Sepulcro, fundada por Afon- Jerusalém, justificada como libertação da Terra Santa da mão dos "infiéis". Durante o I, rei de Aragão, também conhecida por Ordem dos Hospitalários de São João; ou périplo do Papa Urbano II pela França, de julho de 1095 a setembro de 1096, pregan- a Ordem dos Cavaleiros Pobres do Templo de mais conhecida como Or- do pela primeira vez em favor das cruzadas, teve lugar Concílio de Clermont, que dem dos Templários, fundada sob a proteção do próprio São Bernardo, poderoso conferiu validade jurídica universal às deliberações da "trégua de Deus", ou seja, ofici- abade da ordem monástica de Cister, uma das mais eminentes personalidades do mundo alizou o movimento, dando-lhe nova força. Tomou também uma medida católico de então. sima para o início das cruzadas, ao estender os privilégios, até então destinados ape- As "regras" dessas ordens previam recrutamento de três tipos de membros, nas aos pobres e leigos desarmados, a todos aqueles que fizessem a peregrinação à correspondendo às três funções sociais já passadas em revista, bellatores, oratores e Terra Santa. As caravanas para Jerusalém, pacíficas, empreendidas como penitência, laboratores, ou seja, os cavaleiros nobres ou combatentes propriamente ditos, os podiam desde então ser escoltadas por cavaleiros igualmente penitentes, com a fun- monges, responsáveis pelo serviço religioso, e seus auxiliares, recrutados na plebe, ção de proteger os fiéis, inclusive abrindo caminho pela força das armas, caso fosse que se encarregavam da manutenção e dos trabalhos mais necessário. Entretanto, que aconteceu na prática foi algo muito mais brutal. A frente ocidental da guerra foi a Península Ibérica, quase que totalmente controla- Nesta mesma época o célebre monge Pedro, o Eremita, ao lado de vários outros mon- da, até meados do século XI, pelo Califado de Córdoba, que ameaçava os reinos ges e bispos de grande prestígio, pregaria em favor das cruzadas, apontando os inimi- cristãos remanescentes, chegando a incendiar, no final do século X, a própria Santi- gos externos que iriam absorver a agressividade dos milites, os judeus e os muçulma- ago de Compostela. Outra ameaça vinha do sul, eram os estabelecimentos de pira- nos. E velhos temas bíblicos, a imagem do Deus dos exércitos, bem como a terminolo- tas muçulmanos, fundados na costa mediterrânea, que aterrorizavam a região e gia militar paulina, voltariam a os púlpitos e os palanques. Em 1096, o chegaram a saquear grandes cidades da Itália e da Provença. A Igreja acionou toda a próprio Pedro lideraria a primeira tropa de cruzados, massacrada entretanto pelo sua capacidade de convencimento para a cavalaria abandonar suas estúpidas guer- Exército Turco na Anatólia. No ano seguinte, partiria a segunda onda da primeira ras fratricidas, promovendo a aliança de príncipes cristãos e organizando armadas cruzada, que atravessaria o Império Bizantino, assaltaria a cidade de Nicéia na entrada multinacionais para conter a ameaça islâmica e alargar as fronteiras ocidentais da da Ásia Menor, tomando a cidade de massacrando sua população e saque- cristandade. Para assegurar a vitória, oferecia prêmios materiais para uns, prêmios ando as aldeias da região. Fundaria em seguida primeiro Estado europeu na cidade espirituais para todos. Steven Runciman escreveu que "a guerra contra os infiéis na 82 o DA BARROQUINHA TIRANIA E MODERAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO EUROPEU 83</p><p>Península adquiriu deste modo estatuto de uma guerra santa; e em breve os própri- pelo rei da França, sob acusação de apostasia, sodomia, ritos obscenos, as ordens os papas se decidiram a militares tenderam a ser nacionalizadas, colocadas sob a autoridade dos reis euro- Em Portugal, como no resto da Hispânia, a Igreja teve um papel fundamental na "Re- peus, que se apropriaram de seus gigantescos conquista". Primeiro, através dos combatentes das ordens militares, Templários, As cruzadas logo se transformaram em um grande negócio no sentido mercantil do Hospitalários, a Ordem de Calátrava, de do Sepulcro, de Avis, todas se empe- termo, uma vez que, desde a primeira, a organização comercial italiana foi colocada a nharam seriamente na expulsão dos para além do A Or- serviço da campanha militar. Sem a capacidade de produção naval, os meios financeiros dem de Santiago teve um papel decisivo na conquista do Algarves, Al Gharb e bancários, o apoio logístico dos empresários, o empreendimento dos papas e da cava- A retomada de Lisboa, em 1147, só foi possível graças à atuação de uma armada laria não teria sido sequer pensável. Os mercadores italianos, particularmente os multinacional de cruzados, significando inclusive uma mudança na natureza do com- venezianos, além de naturalmente combaterem como os demais, encarregaram-se de bate: até então existia apenas uma guerra de guerrilhas, nos dizeres do grande histo- resolver os diversos problemas de manutenção, alojamento, transporte das multidões riador português Oliveira Martins, "um sistema de rapinas mais do que uma sucessão de cruzados que seguiam para o Oriente e ficaram muitas vezes responsáveis até mesmo de campanhas". Lisboa foi cercada pelo mar, por duzentas galés de combate integra- pela arrecadação dos dízimos cobrados pelo papa para o financiamento das campanhas. das por flamengos, lotaríngios, alemães e ingleses, e pela terra, pelos destacamentos A quarta cruzada foi um empreendimento em que lucro terminou se sobrepondo a dos barões portugueses, por tropas francas e italianas, todos liderados pelo primeiro qualquer consideração de caráter idealista ou religioso. Na ocasião, os condes francos Rei de Portugal, Afonso Henriques. encomendaram aos estaleiros venezianos a construção de cem navios de carga e cin- Porém a costumeira brutalidade cruzada também se manifestou na frente ociden- qüenta galés de combate, que foram em seguida equipados e abastecidos para a via- tal. Quando da queda de Silves, a desavença entre o segundo Rei Dom gem. Segundo o comentário do historiador, a dívida contraída pelos franceses equiva- Sancho I, e os cruzados é bem ilustrativa: o rei queria evitar saque, não queria lia a duas vezes a renda anual do rei da França, realizando assim a República de Veneza ganhar um monte de escombros, propôs pagar a presa, mas os cruzados recusa- "a mais operação de sua ram. Oliveira Martins comenta: "Havia uma coisa que rei não podia pagar com objetivo da campanha, mantido em segredo até o último minuto, parecia compen- ouro: era o delírio do saque, a orgia da matança e dos estupros" Além de bruta- sar tal investimento: o saque de uma cidade nada mais nada menos que a pró- lidade, ganância: a guerra, como ambiente natural da tirania, é o melhor meio de pria Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente, realizado em seguida enriquecer rapidamente. com sucesso. Com essa agressão absurda, a pirataria empresarial passou por cima da Para saldar a ajuda, os reis de Portugal foram obrigados a doar às ordens militares autoridade do próprio Papa Inocêncio II, qual, honrando o próprio nome, desco- imensas extensões de terras, com suas cidades, aldeias, fortalezas, com privilégios e nhecia as intenções reais da iniciativa. Este incidente revela uma das lógicas do movi- direitos fiscais anexos, doações confirmadas em seguida pelos papas. Assim elas enri- mento da expansão ocidental: a autonomização crescente dos grupos econômicos queceram imensamente, não só em Portugal como em toda a Europa, renunciando dominantes que, dependendo dos interesses em jogo, e independentemente do fato rapidamente os cavaleiros cruzados aos ideais de sobriedade, vivendo uma vida luxu- de se manterem cristãos, passariam doravante por cima de qualquer consideração osa e tornando-se cada vez mais ávidos e interesseiros, disputando a riqueza e o poder religiosa ou humanitária. com reis e prelados, competindo entre si: um show de mesquinharia Com a desintegração das instituições públicas do Império Islâmico, que durante sécu- cívica! Depois do massacre dos Templários de Paris pela Santa Inquisição e los asseguraram a paz social e a hegemonia muçulmana na Hispânia, a Lusitânia viveu 84 DA BARROQUINHA TIRANIA E MODERAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO EUROPEU 85</p><p>um longo período de instabilidade social. Pior ainda do que no Reino dos Francos, As ordens militares, sediadas nas fortalezas, tinham a tarefa de abrir e proteger os cami- não só a cavalaria e as companhias de salteadores semeavam a violência, também as nhos, construir igrejas, manter a estabilidade nas regiões mais distantes. Contribuíram tropas islâmicas, próprio clero, mesmo primeiro rei, todos se comportavam como decisivamente na reconstituição econômica do território português, exercendo inclusive a tiranos. Os que questionavam o poder da monarquia, apropriavam-se das função de promover a colonização nas terras reconquistadas, redistribuindo-as a donatários suas terras, forjavam títulos, enforcavam os mordomos coletores de tributos. A alta que lhes pagavam tributos e tinham a obrigação contratual de e investir nelas. hierarquia da Igreja secular detinha grandes privilégios, isenções e direito de coletar Mantinham também a tradicional assistência social cruzada, a hospitalidade aos caminhan- impostos desde os tempos romanos, os quais foram ampliados na era visigótica; os tes e peregrinos, assegurando a defesa dos núcleos populacionais e produtivos, os quais se bispos das cidades mais importantes, Braga, Coimbra, Porto, eram homens autoritári- tornaram, por sua vez, pontos de irradiação, núcleos colonizadores, tornando viável Portu- os e arrogantes, comportavam-se como senhores feudais em suas terras, tinham exér- gal como projeto de nação. A Reconquista foi assim um primeiro exercício lusitano de citos próprios, matavam e saqueavam quando bem entendiam. colonização, entrando em cena uma série de personagens que seriam vistos em seguida, Além do mais, Portugal tornou-se reino vassalo de Roma por decisão própria, aceitan- adaptados ou ressignificados, na colonização da África, e América. do pagar tributo mas desfrutando de sua proteção direta. Nessas condições, o clero Acrescentemos também que a escravidão, que tinha se transformado em servidão na passou a disputar poder com a monarquia, considerava-se superior: segundo seu passagem da Antiguidade para a Idade Média, com a Reconquista reapareceu nos novos entendimento, perante os senhores eclesiásticos todos deveriam comportar-se como domínios, tanto nos leigos quanto nos que merece dois comentários, súditos, mesmo o rei. Além do poder político, em uma ambiência de príncipes analfa- um ideológico, outro econômico: a escravização dos prisioneiros passou a ser justificada betos clero detinha um forte trunfo, o saber erudito, burocrático e jurídico. Dom pela captura em uma "guerra justa"; em termos de business, o investimento de capital Pedro chegou a açoitar pessoalmente o Bispo de Braga, mandou enforcar padres cri- necessário à organização da guerra de rapina era generosamente recompensado pela minosos e só sob coação a Igreja secular portuguesa aceitou perder regalias. Sancho I quantidade de terras, tesouros e prisioneiros conquistados, surgindo assim, no movi- enfrentou o poder dos bispos aliando-se à burguesia e às classes produtoras da cidade mento de nossa história, uma verdadeira produção escravista com grandes perspectivas. do Porto, insatisfeitas com os laços feudais de vassalagem que prejudicavam seus ne- No núcleo mental mais íntimo deste gigantesco empreendimento multidisciplinar es- gócios, anunciando a aliança estratégica da monarquia com a classe mercantil, que tava a idéia de guerra santa, o objetivo e a motivação, a energia moral que sustentava iria permitir a colonização de outros continentes. o esforço da grande maioria. É evidente que muitos combatentes só se interessavam Contudo, essa área de despotismo também era uma área de construção. Ao lado des- por ouro, poder, glória e orgias, mas mesmo o personagem mais cruel e corrupto sas lutas destrutivas pelo poder, foi empreendido pelas ordens militares e monásticas precisava de algum fervor na hora de arriscar a vida e da absolvição na hora da morte. um trabalho mais rotineiro e mais constante de construção e reconstrução. Desde o Antes da Batalha do Salado, na qual Portugal e Castela aliaram-se para derrotar os século XI a Ordem de São Bento foi adotada por vários monastérios portugueses, muçulmanos, a mais preciosa relíquia existente na Lusitânia, a Vera Cruz do introduzindo no país a disciplina produtiva como objetivo prático e como valor. Os Marmellar, pertencente aos Hospitalários portugueses, e tida por um fragmento da monges de Cister, no século seguinte, associaram-se à obra de reconquista, investiram própria cruz de Cristo, foi exibida, para que todos os combatentes pudessem vê-la, e no povoamento, no desenvolvimento de atividades agropastoris anexas aos mostei- com isso ganhar uma disposição especial, que revela o grau de importância que a ros, na fundação de escolas e oficinas, na construção de moinhos, incentivaram o sacralidade tinha na mentalidade dos portugueses, sua relação direta com a eficácia artesanato, dinamizaram o setor têxtil, fundaram hospitais. na guerra contra os inimigos da fé.48 86 DA BARROQUINHA TIRANIA E MODERAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO EUROPEU 87</p><p>Albuquerque, aliás, um dos conquistadores mais espantosamente sanguinários que a Europa pariu, não deixou de ter seu lado intensamente devoto, pelo menos na memória nacional, pois "viu mais de uma vez os milagres do céu nas horas do combate. Em Goa viu Santiago: um cavaleiro de armas brancas, no manto, uma cruz vermelha, pelejando contra os mouros, conforme a tradição histórica portuguesa". estado de guerra, o comércio florescente e Cristianismo imperial, associados, criaram mentalidades delirantes, audaciosas e implacáveis, que podiam ser ao mes- mo tempo pragmáticas, mentalidades indispensáveis ao gigantesco empreendimen- to de conquista do o fundamento social da sacralidade é a produção e a gestão da sacralidade, ou seja, a capacidade de organização de rituais públicos, um trabalho multimidiático que só é vel com a contribuição de diferentes especialistas. A exposição da Vera Cruz do Marmellar deve ter sido concebida como um espetáculo solene, com música e cânticos, com a exibição de estandartes ricamente ajaezados, uma performance carregada de emotividade, um meio eficiente de comunicação e convencimento de massa. Era daquele Figura 3 Pitoresca representação da corte do lendário rei cristão africano Preste João. Durante séculos, os modo que se dava a legitimação dos poderes, era naquele momento que corações e mentes europeus alimentaram a esperança de organizar com ele um cerco estratégico aos atacando- eram simultaneamente atingidos, que poder político conseguia o consentimento, o fa- os pelas costas. Esta ilustração foi publicada em Florença, Itália, na década de 1810, no livro de Giulio moso consenso. A mise-en-scène da vida em sociedade foi totalmente controlada pelo clero Ferrario, Il costume antico e moderno, um verdadeiro monumento de onze volumes tratando da vestimenta de todos os povos do mundo, belamente ilustrado, com os volumes 3 4 dedicados à Il Dottore Ferrario, e seus especialistas em produção cultural e comunicação social durante vários séculos. Para que era alto funcionário da Biblioteca Municipal, contou com a colaboração de uma equipe de gravadores conquistar a autonomia, o Estado leigo emergente teve de formar seus próprios especialis- de primeira ordem, e a assessoria de Alessandro Sanquirico, cenógrafo e figurinista do Teatro alla Scala de por isso os personagens parecem-se muito mais com atores da italiana do que com cortesãos tas, aprender a fazer da política uma poética... africanos. A dinastia portuguesa de Borgonha reforçou sua autoridade ao expulsar os muçulma- nos e vencer a guerra contra o reino-irmão de Leão, que queria abocanhá-la. o clero, Uma das fortes razões que levaram os portugueses a contornar a África foi a procura as ordens militares e os barões portugueses terminaram, no fim do período, tendo do lendário reino cristão de Preste João, situado no coração da África, segundo se que se dobrar diante do Estado a força política historicamente ascenden- acreditava. A estratégia de vários conquistadores portugueses foi firmar uma aliança te. Dom Sancho I começou, com uma pitada de tirania, a combater a tirania, a implan- com Preste João para atacar o Império Muçulmano pelas costas. Afonso de Albuquerque tar um estado de direito; Dom Diniz fundou escolas, firmou o primeiro tratado co- era suficientemente pirado a ponto de planejar o desvio do Rio Nilo para matar as mercial com a Inglaterra, tornando-se Lisboa, desde o final do século XIII, um porto populações islamizadas do Egito de sede e só não tentou o golpe porque não dispu- um centro comercial e marítimo de importância crescente, candidatando- nha de recursos suficientes. Ao lado do interesse material, colado com ele, ia o fervor se a capital do reino nascente. Esboçava-se um organismo nacional, com o alinhamen- fanático, a ilusão autocomplacente de que se estava praticando um grande bem. to das forças que empreenderiam a revolução de 1383 e a colonização do mundo. 88 o CANDOMBLÉ DA BARROQUINHA TIRANIA E MODERAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO EUROPEU 89</p><p>As ordens militares foram colocadas fora do "grande jogo" em 1310, quando nacionaliza- das. Tinham perdido a importância estratégica, suas técnicas militares estavam superadas, haviam se transformado em um peso morto. E caro. Com o declínio dos Templários, os reis de Castela, Aragão e Portugal nacionalizaram suas imensas riquezas; com elas, Dom Diniz fundaria a Ordem de Cristo, contando com um gigantesco patrimônio, da qual ele próprio seria o o controle do mestrado da Ordem de Cristo e de outras ordens milita- res dava ao rei um poder adicional: a distribuição dos altos títulos reforçava a fidelidade da sua clientela. Na medida em que a cavalaria ia perdendo sua função militar, esses títulos tornaram-se honorários, destinados aos amigos do rei. Figura 5 Esta bela xilogravura mostra uma batalba entre naves cristas e muculmanas disputando a pri- mazia no Mediterrâneo Asiáticos e europeus se enfrentavam com armas análogas: de comba- te e religiões intolerantes. Os navios cristãos exibem a Cruz de Malta e os muculmanos, Quarto Crescente, do Império Turco Otomano No dia 7 de outubro de 1571, um domingo certamente ensolarado, aconteceu a famo- sa Batalha de Lepanto, considerada um dos maiores combates navais da história da humanidade, envolvendo quase quinhentos navios e cento e vinte mil homens. Para o processo de constituição do espaço político europeu este evento foi significativo sob diversos pontos de vista. Embora não tivesse conseguido quebrar a hegemonia do Império Turco Otomano no Mediterrâneo oriental, salvaguardou desde então a costa ocidental mediterrânea dos saques constantes perpetrados pelas tropas turcas. Papa Pio V, principal artesão da aliança chamada de Santa Liga, conseguiu trabalho- samente construir uma frente militar européia visando a segurança do subcontinente, Figura 4 Estandarte de Dom Manuel de Portugal no cortejo triunfal do Imperador Maximiliano I, do Sagrado Império No quadro das alianças matrimoniais dinásticas na Euro- viabilizando a manutenção de uma larga área geográfica sob dominação Mas a pa renascentista, um neto do imperador casou-se com uma filba do rei a presença do aparato quebra da hegemonia de Veneza favoreceu o deslocamento do centro de gravidade do deste último na solenidade era uma maneira de legitimar a aliança entre os dois soberanos. estandarte da esquerda mostra a infanta portuguesa empunhando a águia imperial do brasão dos Habsburgos, o da direi- comércio e da economia mundial para Atlântico, beneficiando Portugal, que já vi- ta, Dom Manuel, de coroa e cetro, ao lado da bandeira e do brasão portugueses. nha fazendo suas incursões pela costa africana. TIRANIA E MODERAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO EUROPEU 91</p><p>Lepanto foi a última grande batalha de galés da história, elas ainda seriam usadas até Figura 6 A Cruz de Malta, logomarca do empreendimento início do século XIX, mas como um recurso pouco significativo. A galé não podia se aven- colonial em uma turar longe das costas, o trabalho dos remadores dependia de tempo Além disso, estilização é osten- tada pela nau capitânea e demais eram navios principalmente mercantes, tendo as galés de combate sido adaptadas para o naves da frota de Cabral ao zar- enfrentamento militar nas proximidades da costa, não dispondo de espaço para uma arti- par de Lisboa para conquistar imponente. Desde então os veleiros redondos, dotados de progressos técnicos, mais mundo. ágeis e cada vez mais bem armados, roubaram a cena. Surgiram as marinhas de guerra, capazes de escoltar eficientemente os cargueiros, de sair do mare nostrum, inventando novas rotas transatlânticas, enfrentando oceanos e "descobrindo" continentes. A vitória em Lepanto, uma batalha em que as forças adversárias eram numericamente superiores, provocou uma explosão de alegria popular em toda a Europa Ocidental. Interrompeu também uma série de vitórias turcas desmoralizantes, com o saque até mesmo de grandes capitais ocidentais como Constantinopla e Veneza. A Europa tre- mia, estava precisando de um milagre para escapar da grande o próprio fato da batalha ter acontecido em um domingo, dia tabu para combates, segundo a legisla- ção da Paz de Deus, foi paradoxalmente interpretado como prova da intervenção divina em favor da Santa Liga. A festa de Nossa Senhora do Rosário, que na origem era apenas uma comemoração particular dos dominicanos, por causa da vitória em Lepanto foi elevada à categoria de culto público por Gregório XIII, difundindo a crença de que Em resumo, na Europa em plena formação, os valores da moderação e da tolerância apenas por sua intervenção os cristãos haviam vencido os foram, bem ou mal, absorvidos por um movimento social heterogêneo, uma frente de A partir desta data, o culto a Nossa Senhora do Rosário foi tremendamente estimulado classes, na construção da ordem interna. No início do processo de constituição das em toda a área do Império Português, sendo ela, no Brasil, considerada a principal nações européias, a Igreja, agindo contra a tirania, inclusive contra a tirania dentro de protetora dos Lembremos que a Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Mar- si, sedimentou uma corrente de opinião política moderada no seio das elites eclesiás- tírios, que acobertou a fundação do Candomblé da Barroquinha, foi inicialmente erigida ticas, aristocráticas e mesmo na plebe urbana. Embora o almejado ambiente interno na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos das Portas do Carmo, na cidade da de paz nunca tenha sido alcançado, a Igreja e seus aliados deram um passo importan- Bahia. Lembremos também que as galés da Ordem de Malta, que participaram vitori- te na construção de uma cultura política que favorecia a estabilidade, a segurança osamente da Batalha de Lepanto, perderam importância estratégica para os veleiros interna, o progresso econômico e a instituição de regimes duradouros. capazes de singrar os oceanos, mas as caravelas de Cabral herdaram o símbolo da o Movimento da Paz de Deus e o desenvolvimento de uma cultura democrática motivação, a Cruz de Malta emblema dos Hospitalários de São João, intitulados nos municípios europeus estimularam a participação das camadas plebéias na Cavaleiros de Rhodes desde 1310, e Cavaleiros de Malta desde 1530 que se tornou a ação política, preanunciando sua grande atividade no século XIV. Nesse proces- logomarca do empreendimento so, a plebe trabalhadora das cidades passaria a gozar de certos direitos e teria seus 92 o DA BARROQUINHA TIRANIA E MODERAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO EUROPEU 93</p><p>representantes nas instituições do Estado. o município promoveu a constituição de nome respeitado na história, como o grande Frederico II, Luís IX (São Dom irmandades populares de caráter democrático, que desempenhariam o seu papel, Afonso IV, Sábio, Dom Manuel, como veremos adiante, na própria fundação do Candomblé da No Por- Mesmo os tiranos, que nunca precisaram da doutrina precisavam da Igreja, por tugal do século XVI, mesmo os negros, beneficiando-se do liberalismo das Ordena- isso em muitas circunstâncias tiveram de negociar um código de comportamento e ções Manuelinas, desfrutaram de certos direitos, antes que a política tirânica da "pu- respeitá-lo. Ou não, conforme as conjunturas. Também é verdade que os piedosos reza de sangue" começasse a questionar a conquista da cidadania pela plebe. foram eventualmente tirânicos, assim como os tiranos não foram o tempo todo: Por último, visto que a plebe também aderiu entusiasticamente às cruzadas, à Recon- dessa tensa trama amadureceu o projeto do Estado moderno na Europa Ocidental. quista, as iniciativas da Igreja promoveram uma ampla coalizão de classes em torno de Maquiavel foi uma grande estrela da constelação de intelectuais laicos que estava ger- uma ideologia de conquista, Cristianismo imperial, legitimando a apropriação de minando na Europa, letrados a serviço de cortes principescas, advogados, diplomatas, imensos territórios e, posteriormente, terminando por criar um consenso em torno funcionários que, com tempo, passaram a competir com os grandes intelectuais da escravização de populações inteiras, justificada pelo tema da "guerra Este é eclesiásticos. Eram cristãos, porém sem maiores compromissos com a Igreja. Foi nesse o quadro estrutural, tanto político quanto mental, no interior do qual se deram os meio que brotou a nova interpretação da história veiculada por Maquiavel, na qual a grandes debates sobre a existência ou não de alma nos povos conquistados, sobre a religiosidade não foi mais considerada uma referência obrigatória para a conduta do legitimidade da escravização, sobre direito de explorar os escravos como animais ou homem de Estado, a teoria política desvinculada da teologia e sentimento religioso o dever de tratá-los humanitariamente, ao trazê-los para santo seio da tido apenas por um instrumento usado na arte de governar. Adversário ideológico da Igreja, Maquiavel partiu entretanto de um pressuposto se- MAQUIAVELISMO E MODERAÇÃO NA CONSTRUÇÃO DO ESTADO DE DIREITO melhante ao de São Paulo e Santo Agostinho, uma generalização apressada: os seres A conduta ética na política não serve pra nada, segundo uma corrente de pensamento humanos não prestam, são ingratos, volúveis, dissimulados, ambiciosos e covardes, que postula que o político deve trair o filósofo, que a defesa da moderação e da "há tamanha distância entre como se vive e como se deveria viver, que aquele que honestidade pode ser sublime, mas na prática a teoria é outra. Alguns exemplos clás- trocar o que se faz por aquilo que se deveria fazer aprende antes a arruinar-se que a sicos são utilizados para demonstrar a ingenuidade da postura mode- preservar-se". É justamente esta suposta natureza humana canalha que justifica, "legi- rada, sábios brilhantes conselheiros apenas decorativos de tiranos Platão tima", diz Maquiavel, a postura amoral do que não deve respeitar sequer a preceptor de Dionísio de Siracusa, Aristóteles de Alexandre Magno, Sêneca do palavra empenhada: "Se os homens fossem todos bons, este preceito não seria bom, Nero. Maquiavel teria atribuído a essa interpretação uma dignidade de ciên- mas como são maus e não mantêm sua palavra para contigo, não tens também que cia, sendo por isso considerado o fundador da teoria política. cumprir a No entanto, no movimento da nossa história, os filósofos e depois os cristãos modera- Assim, o estado de direito como fundamento social dá conceitualmente lugar ao "esta- dos, armados de suas doutrinas, mantiveram relações permanentemente tensas com do de necessidade", que justifica oportunismo sistemático como norma de conduta: os regimes truculentos (inclusive os da própria Igreja). A moderação era expres- o é um tremendo carente. Maquiavel raciocina: os homens não são bons são ética de um poderoso movimento social liderado pela Igreja que tomou como nem racionais, portanto a boa receita é uma autoridade forte. português Diogo do referência muitos "reis justos": Salomão e Davi, os romanos Cipião, Júlio César, Augusto Couto, quase seu contemporâneo, constatando as "maldades, adultérios, torpezas, e Marco Aurélio, influenciando através dos séculos outros tantos que deixaram um infâmias, malícias" dos seres humanos, apresentava a outra face da moeda, a boa re- 94 CANDOMBLÉ DA BARROQUINHA TIRANIA E MODERAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO EUROPEU 95</p><p>ceita seria uma autoridade justa: os atenienses, segundo Plutarco, "chamam aos reis Na concepção maquiaveliana, objetivo do jamais poderia ser a "utópica" anaces, como aqueles de cuja prudência e vigilância pendem muitos negócios muito instauração na Terra do Reino de Deus, ou da Justiça, mas sim, secamente, a conquista importantes; e assim são obrigados a os ministrar com tanta moderação e providência e a manutenção do poder. Os bons meios para este objetivo seriam apenas os eficazes: que os bons e virtuosos" possam conquistar um lugar ao sol. Quase dois séculos de- para conquistar e manter o poder, dependendo das circunstâncias, vale tudo. Inclusi- pois, John Locke, militante de um movimento social democrático, ilustre representan- ve, sem maiores problemas de consciência, a violência mais devastadora e a corrupção te da Escola Liberal de Cambridge, tiraria das mesmas premissas uma nova conclusão, mais cínica. já escapando dos limites estreitos do poder pessoal: a boa receita seria o estado de Mas, atenção! A violência política em Maquiavel não deve ser confundida com a "cóle- direito, ou seja, o controle dos negócios públicos pela maioria ra" dos filósofos, a ferocidade destrutiva do indivíduo poderoso, ela passa a ser enca- rada como uma técnica, uma "poética", diria Aristóteles, pura aplicação de um cálcu- lo. o é um guerreiro, não deve sensibilizar seu temperamento com refle- teoréticas, artes refinadas, conforto excessivo ou iguarias finas. Para chegar à máxima eficácia, ele não deve ter "outro objetivo, nem pensamento, nem tomar como arte sua coisa alguma que não seja a guerra, sua ordem e disciplina, porque esta é a única arte que convém a quem comanda". Ademais, o príncipe deveria alimentar uma consistente "fama de cruel, porque, sem esta fama, jamais se mantém um exército unido e disposto à A vitória militar, além do mais, lhe atribuiria tamanha reputação que todas as demais considerações seriam politicamente irrelevantes. Quando a destruição e o massacre tornam-se indis- pensáveis à conquista do poder, Maquiavel os recomenda calmamente. Isso pode ser constatado no capítulo V, quando aborda a conquista de cidades que estão acostuma- das a viver em liberdade, sob leis próprias, e não aceitam facilmente a dominação estrangeira. Apesar de apresentar duas alternativas, nomear um fantoche ou ir morar lá, Maquiavel conclui: "Na verdade, não existe modo seguro de possuí-las exceto a destruição". Com um complemento astucioso no capítulo VIII, onde encontramos uma espécie de modo de usar a São bem empregadas as crueldades (se é legítimo falar bem do mal) [sic] que se fazem de uma só vez pela necessidade de garantir-se [...] Mal empregadas são aque- las que, ainda que de início sejam poucas, crescem com o tempo, ao invés de se extinguirem [...] Daí ser preciso sublinhar que, ao tomar um Estado, conquistador Figura 7 Condottiere italiano, comandante enobrecido de milícia a serviço dos deve examinar todas as ofensas que precisa fazer, para perpetrá-las todas de uma só contemporâneos de Maquiavel, desenbado por Leonardo da Vinci, de mandíbula rígida e expressão leonina, como vez e não ter que renová-las todos os dias. Quem age de outro modo, por timidez ou TIRANIA E MODERAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO EUROPEU 97</p><p>mau conselho, precisa estar sempre com a faca na mão, não podendo jamais confiar com ânimo disposto a, quando necessário, não seres, de modo que possas e em seus súditos, como tampouco podem eles confiar no devido às suas saibas como tornar-te contrário. É preciso entender que um sobretudo contínuas e renovadas um novo, não pode observar todas aquelas coisas pelas quais os homens são considerados bons, sendo-lhe necessário, para manter poder, Tudo se passa, nessa versão da história, como se, uma vez cometidas as crueldades agir contra a fé, contra a caridade, contra a humanidade e contra a Precisa, necessárias de uma só vez, os ressentimentos deixassem rapidamente de existir. portanto, ter o espírito preparado para voltar-se para onde lhe ordenarem os ventos Maquiavel recomenda uma série de medidas de cooptação para acalmar os ânimos da fortuna e as variações das coisas e, como disse acima, não se afastar do bem, mas dos conquistados; como acredita que todos os humanos são venais e corruptos, não saber entrar no mal, se necessário. 56 vislumbra que uma parte da população, parentes e amigos dos massacrados, aqueles Com as "qualidades da raposa" Maquiavel assinala que o prudente" deve- que foram materialmente prejudicados, pessoas dotadas de sentimentos humanitári- ria não apenas dissimular sua verdadeira natureza, administrar a sua aparição pú- os, de senso de justiça, ou simplesmente acostumadas com a liberdade, possam conti- blica, mas adotar, diria eu, uma moderação real no exercício da política, para que nuar dizendo não. seu poder seja realmente duradouro. Neste sentido, podemos encontrar vários ti- Para teorizar a crueldade, a "fera interior" de Platão é retomada por Maquiavel no pos de recomendação disseminados por todo o seu livro, regras circunstanciais célebre capítulo XVIII, com o seguinte o deve saber combater bem como regras gerais, apesar da sua desconfiança quanto ao estabelecimento de pelas leis e pela força, uso das leis é recurso próprio do homem, a força, recurso dos princípios e teorias. animais; como a legalidade não basta para manter a dominação, é necessário recorrer à ferocidade. Entretanto, na natureza animal, Maquiavel estima Maquiavel adotou a metáfora arquitetônica de "firmar alicerces" para significar as que o deve recorrer ao "ferocíssimo leão" para atemorizar seus inimigos, mas medidas que o deve tomar ao consolidar seu poder, traduzidas em preceitos também à "astutíssima raposa", pois sem os dois não seria possível estabelecer um como: possuir forças amigas e dedicadas, propiciar honras, posições de comando e poder duradouro. E, contrariando o conceito anteriormente estabelecido de que a grandes pensões em dinheiro aos fidalgos aliados, não contratar tropas mercenárias, guerra, a força do leão, "é a única arte que convém a quem comanda", assinala que manter a soldadesca sob severa disciplina, assegurar por meio de leis controle dos "quem melhor se sai é quem melhor sabe valer-se das qualidades da raposa", oficiais militares para que não exorbitem de suas funções. complementando contudo que "é necessário saber disfarçar bem esta natureza e ser bem-sucedido, segundo Maquiavel, deveria desenvolver uma grande sensi- grande simulador e dissimulador". Se a força do leão, para conquistar o poder e ate- bilidade para as circunstâncias: já vimos que a violência pode não ter limites se os morizar os adversários, deve ser exibida, a astúcia da raposa, para manter o poder, "ventos da fortuna" assim o exigirem, mas deveria ser utilizada só quando fosse estri- deve ser camuflada, infiltrando-se neste raciocínio a "poética" da política. A política, tamente necessária. A legalidade e a ética deveriam ser igualmente utilizadas de modo reconhece implicitamente Maquiavel, também é a mise-en-scène da seletivo, conforme as exigências A montagem e a manutenção de uma Neste sentido, ao príncipe não seria necessário ter as qualidades exigidas pelos "espe- clientela, uma rede de aliados fiéis, nunca deveriam seguir regras fixas, e sim estruturar- lhos" tradicionais, se conforme os diversos contextos. Por exemplo, quando uma comunidade é corrup- mas é indispensável parecer tê-las. Aliás, ousarei dizer que, se as tiver e utilizar sem- ta, "seja ela o povo, os soldados e os grandes", para conservar-se no poder o pre, serão danosas, enquanto, se parecer tê-las, serão úteis. Assim, deves parecer deve "atender ao seu humor para satisfazê-la", porque neste caso a conduta ética e as clemente, fiel, humano, íntegro e religioso e sê-lo, mas com a condição de estares boas obras seriam 98 o DA BARROQUINHA TIRANIA E MODERAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO EUROPEU 99</p>

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