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<p>P A R T E I I</p><p>Brasil: catequese e início da colonização</p><p>atuais decorrentes do desenvolvimento científico e</p><p>tecnológico?</p><p>7. “Não menos que saber, duvidar me apraz” (Dante</p><p>Alighieri). Ainda que o poeta italiano tenha vivido no</p><p>século XIII, de certa forma antecipa algumas ideias do</p><p>Renascimento: relacione a citação dele com o</p><p>pensamento de Montaigne e distinga-a da proposta re-</p><p>ligiosa dos jesuítas.</p><p>Questões sobre a leitura complementar</p><p>1. Compare o comentário de Montaigne (dropes 2)</p><p>sobre a memória com a valorização que dela fazem os</p><p>jesuítas.</p><p>2. Discuta a importância da individualidade no Renas-</p><p>cimento, baseada em Montaigne. Como a ela se opõem</p><p>as Regras?</p><p>3. Como poderíamos defender a proposta do Ratio</p><p>Studiorum como documento inserido em seu contexto</p><p>histórico?</p><p>222/685</p><p>A partir desse capítulo, intercalamos na segunda parte a</p><p>história da educação no Brasil. No entanto, desde o presente</p><p>capítulo até o oitavo, só veremos os tópicos Contexto histórico e</p><p>Educação, por não podermos tratar de uma pedagogia</p><p>brasileira propriamente dita, já que estivemos todo esse tempo</p><p>atrelados ao pensamento estrangeiro. Essa situação se atenua</p><p>no final do século XIX, quando já é possível examinar ex-</p><p>pressões mais atentas sobre os temas pedagógicos. Por fim, no</p><p>século XX, dado o grande volume de informações, preferimos</p><p>estudar o Brasil em capítulo separado da história europeia.</p><p>Contexto histórico</p><p>A história do Brasil no século XVI não pode ser desvinculada</p><p>dos acontecimentos da Europa, já que a colonização resultou da</p><p>necessidade de expansão comercial da burguesia enriquecida</p><p>com a Revolução Comercial. As colônias valiam não só para</p><p>ampliação do comércio, como também por fornecer produtos</p><p>tropicais e metais preciosos para as metrópoles.</p><p>Cronologia da educação</p><p>no Brasil Colônia</p><p>• Fase heroica: de 1549 a 1570 — catequese.</p><p>• Fase de consolidação: de 1570 a 1759 — expansão</p><p>do ensino secundário nos colégios.</p><p>• Reformas pombalinas: de 1749 a 1808 — instrução</p><p>pública.</p><p>• Período joanino: de 1808 a 1822.</p><p>223/685</p><p>No caso do Brasil, a colonização assumiu aspectos que de-</p><p>penderam da forma pela qual Portugal e Espanha se situaram</p><p>no quadro do desenvolvimento econômico e cultural europeu.</p><p>Como vimos na primeira parte, enquanto França e Inglaterra in-</p><p>centivaram as manufaturas, a burguesia portuguesa permane-</p><p>ceu atrelada aos interesses do absolutismo real, que ainda refle-</p><p>tiam a consciência medieval. Por ser um país católico, que resis-</p><p>tiu ao movimento protestante com a Contrarreforma e a In-</p><p>quisição, Portugal condenava os juros, o que restringiu a acu-</p><p>mulação de capital e retardou a implantação do capitalismo. Por</p><p>outro lado, por manter seus privilégios, a nobreza onerava os</p><p>cofres públicos e dificultava a aliança do rei com a burguesia.</p><p>Além disso, enquanto a Europa renascentista se preparava para</p><p>o livre-pensar que se consolidaria no Iluminismo do século</p><p>XVIII, Portugal permanecia cioso da herança cultural clássico-</p><p>medieval, preservando o latim, a filosofia e a literatura cristãs.</p><p>Por levar mais tempo para encontrar metais no Brasil, de iní-</p><p>cio a ação dos portugueses restringiu-se à extração do pau-brasil</p><p>e a algumas expedições exploratórias. A partir de 1530 teve iní-</p><p>cio a colonização, com o sistema de capitanias hereditárias e a</p><p>monocultura da cana-de-açúcar.</p><p>Enquanto na Europa os ventos da modernidade exorcizavam</p><p>a tradição medieval, no Brasil implantavam-se formas de eco-</p><p>nomia pré-capitalistas, com grandes proprietários de terra. A</p><p>economia colonial expandiu-se em torno do engenho de açúcar,</p><p>recorrendo ao trabalho escravo, inicialmente dos índios e, de-</p><p>pois, dos negros africanos. Latifúndio, escravatura, monocul-</p><p>tura, eis as características da estrutura econômica colonial que</p><p>explicam o caráter patriarcal da sociedade, centrada no poder</p><p>do senhor de engenho.</p><p>Convém não esquecer que o Brasil era uma colônia de eco-</p><p>nomia agrícola, cujo lucro ficava com os comerciantes na metró-</p><p>pole, o que caracteriza uma economia de modelo agrário-</p><p>224/685</p><p>exportador dependente. No entanto, ainda que Portugal tivesse</p><p>o monopólio da produção de açúcar brasileiro, as refinarias não</p><p>eram construídas naquele país, mas na Holanda, Inglaterra e</p><p>França.</p><p>Nesse contexto, a educação não constituía meta prioritária, já</p><p>que o desempenho de funções na agricultura não exigia form-</p><p>ação especial. Apesar disso, as metrópoles europeias enviaram</p><p>religiosos para o trabalho missionário e pedagógico, com a final-</p><p>idade principal de converter o gentio e impedir que os colonos</p><p>se desviassem da fé católica, conforme as orientações da</p><p>Contrarreforma.</p><p>A intenção dos missionários, porém, não se reduzia simples-</p><p>mente a difundir a religião. Numa época de absolutismo, a</p><p>Igreja, submetida ao poder real, era instrumento importante</p><p>para a garantia da unidade política, já que uniformizava a fé e a</p><p>consciência. A atividade missionária facilitava sobremaneira a</p><p>dominação metropolitana e, nessas circunstâncias, a educação</p><p>assumia papel de agente colonizador.</p><p>No Brasil, segundo a historiografia tradicional, foram os je-</p><p>suítas que, em maior número e atuação efetiva, obtiveram res-</p><p>ultado mais significativo, porque se empenharam na atividade</p><p>pedagógica, para eles considerada primordial. No entanto,</p><p>estudos recentes têm mostrado que outras ordens religiosas fo-</p><p>ram importantes — mas que não deixaram o mesmo volume de</p><p>documentação da Companhia de Jesus —, tais como os francis-</p><p>canos, os carmelitas e os beneditinos.</p><p>Educação</p><p>1. A chegada dos jesuítas</p><p>Para melhor compreender a ação dos jesuítas no Brasil é con-</p><p>veniente rever a primeira parte deste capítulo, em que</p><p>225/685</p><p>analisamos a Companhia de Jesus no seu contexto histórico. Vi-</p><p>mos que, após a Reforma, o Concílio de Trento empreendeu a</p><p>Contrarreforma, destinada a impedir a propagação da dissidên-</p><p>cia religiosa representada pela religião protestante. Além dos je-</p><p>suítas, com ação mais intensa, eficaz e duradoura, outras ordens</p><p>empenharam-se nesse trabalho.</p><p>Quando o primeiro governador-geral, Tomé de Sousa, chegou</p><p>ao Brasil em 1549, veio acompanhado por diversos jesuítas en-</p><p>cabeçados por Manuel da Nóbrega. Apenas quinze dias depois,</p><p>os missionários já faziam funcionar, na recém-fundada cidade</p><p>de Salvador, uma escola “de ler e escrever”. Era o início do pro-</p><p>cesso de criação de escolas elementares, secundárias, seminári-</p><p>os e missões, espalhados pelo Brasil até o ano de 1759, ocasião</p><p>em que os jesuítas foram expulsos pelo marquês de Pombal.</p><p>Nesse período de 210 anos, os jesuítas promoveram maciça-</p><p>mente a catequese dos índios, a educação dos filhos dos colonos,</p><p>a formação de novos sacerdotes e da elite intelectual, além do</p><p>controle da fé e da moral dos habitantes da nova terra.</p><p>Era difícil a empreitada de instalar um sistema de educação</p><p>em terra estranha e de povo tribal. De um lado, os indígenas de</p><p>língua e costumes desconhecidos e, de outro, os colonizadores</p><p>portugueses, que para cá vieram sem suas mulheres e famílias,</p><p>muito rudes e aventureiros, com hábitos criticados pelos</p><p>religiosos.</p><p>Embora os jesuítas recebessem formação rigorosa e ori-</p><p>entação segura do Ratio Studiorum (rever primeira parte deste</p><p>capítulo), enfrentaram sérios desafios para se adaptar às exigên-</p><p>cias locais. É bom lembrar quanto lhes valia, nesses casos, a sua</p><p>tão conhecida flexibilidade.</p><p>Ao se deslocar da Bahia para o Sul, fundaram o Colégio de</p><p>São Vicente, no litoral, depois transferido para Piratininga, no</p><p>planalto, onde, a partir do Colégio[54], em 1554, surgiu a cidade</p><p>de São Paulo.</p><p>226/685</p><p>OEBPS/Text/../Text/notas.xhtml#footnote-226-54</p><p>Com espírito empreendedor, o padre Manuel da Nóbrega or-</p><p>ganizou as estruturas do ensino, atento às condições novíssimas</p><p>aqui encontradas. O primeiro jesuíta a aprender a língua dos ín-</p><p>dios foi Aspilcueta Navarro, também pioneiro na penetração nos</p><p>sertões em missão evangelizadora. A essas duas figuras veio se</p><p>juntar, em 1553, o noviço José de Anchieta, de apenas 19 anos,</p><p>que mais tarde se destacaria no trabalho apostólico.</p><p>Fernando de Azevedo, historiador</p><p>brasileiro da educação,</p><p>refere-se a essa “trindade esplêndida — Nóbrega, o político,</p><p>Navarro, o pioneiro, e Anchieta, o santo” — como símbolo da</p><p>“atividade extraordinária dos jesuítas no século XVI, a fase mais</p><p>bela e heróica da história da Companhia de Jesus”[55].</p><p>2. Fase heroica: a catequese</p><p>Diante das críticas e defesas da ação catequética dos jesuítas</p><p>no Novo Mundo, nunca é demais relembrar que, embora a etno-</p><p>logia contemporânea tenha uma compreensão diferente sobre o</p><p>contato de culturas tão diversas, aqui vamos enfocar essa ação a</p><p>partir do conceito que dela tinham os próprios missionários.</p><p>Desse modo, retomemos o impacto provocado nos europeus</p><p>por povos tão “rudes”, “sem lei” e “sem fé”. Muitos chegavam a</p><p>pensar na impossibilidade de conseguir algum sucesso no pro-</p><p>cesso “civilizatório” dos nativos, enquanto para outros, in-</p><p>cluindo aí os missionários, os indígenas eram como filhos</p><p>menores, uma “folha em branco” em que se poderia inculcar os</p><p>valores da civilização cristã europeia. Nesse sentido, convictos</p><p>de que o cristianismo representava uma vocação humana uni-</p><p>versal que implica integração e unidade, lançaram-se com em-</p><p>penho na incorporação territorial e espiritual dessas etnias, na</p><p>esperança de acentuar as semelhanças — todos eram seres hu-</p><p>manos — e apagar as diferenças.</p><p>227/685</p><p>OEBPS/Text/../Text/notas.xhtml#footnote-226-55</p><p>Começam então a tentar conquistar o chefe da tribo e a des-</p><p>mascarar o pajé. Logo percebem que a ação é mais eficaz sobre</p><p>os filhos dos indígenas, os curumins (também columins ou culu-</p><p>mins), alunos prediletos, porque sobre eles ainda não se sentia</p><p>de maneira arraigada a influência do pajé.</p><p>A fase heróica da missão jesuítica vai dos anos de 1549 a 1570,</p><p>data da morte do padre Nóbrega. Nesse período, os padres</p><p>aprenderam a língua tupi-guarani e elaboraram textos para a</p><p>catequese, ficando a cargo de Anchieta a organização de uma</p><p>gramática tupi.</p><p>Inicialmente os curumins aprendiam a ler e a escrever ao lado</p><p>dos filhos dos colonos. Anchieta usava diversos recursos para</p><p>atrair a atenção das crianças: teatro, música, poesia, diálogos</p><p>em verso. Pelo teatro e dança, os meninos, aos poucos, apren-</p><p>diam a moral e a religião cristã.</p><p>Logo teve início o choque entre os valores da cultura nativa e</p><p>os do colonizador. O sociólogo brasileiro contemporâneo Gil-</p><p>berto Freyre, na obra Casa-grande e senzala, diz que os</p><p>primeiros missionários substituíam as “cantigas lascivas”,</p><p>entoadas pelos índios, por hinos à Virgem e cantos devotos,</p><p>condenavam a poligamia, pregando a forma cristã de</p><p>casamento. Dessa maneira começaram a abalar o sistema</p><p>comunal primitivo.</p><p>Tornara-se tão comum falar na “língua geral” — mistura de</p><p>tupi, português e latim — que os padres a usavam até no púl-</p><p>pito. O procedimento perdurou por algum tempo, até que as</p><p>autoridades passassem a exigir exclusividade para a língua por-</p><p>tuguesa, temerosas de que a língua nativa predominasse.</p><p>O fato é que o índio se encontrava à mercê de três interesses,</p><p>que ora se complementavam, ora se chocavam: a metrópole</p><p>desejava integrá-lo ao processo colonizador; o jesuíta queria</p><p>convertê-lo ao cristianismo e aos valores europeus; e o colono</p><p>queria usá-lo como escravo para o trabalho.</p><p>228/685</p><p>3. As missões</p><p>Após um período de pregação em que permaneciam um</p><p>tempo nas tribos e realizavam batismos, os religiosos seguiam</p><p>para outro local. Mas logo descobriram que as conversões não</p><p>se consolidavam, além de se tratar de empreitada perigosa.</p><p>Para realizar a ação missionária com menos riscos e consolid-</p><p>ar as conversões, foram então criadas as missões, localizadas no</p><p>sertão, longe dos colonos ávidos de escravos. As principais</p><p>ficavam ao norte do México, na orla da floresta Amazônica e no</p><p>interior da América do Sul, em que se firmaram jesuítas por-</p><p>tugueses e espanhóis. Mas, além destas, os religiosos con-</p><p>stituíram outras no território brasileiro de norte a sul. Aqui, as</p><p>primeiras e várias delas apareceram na Bahia.</p><p>Vejamos o que os missionários se propunham mudar, para</p><p>europeizar e cristianizar os nativos. Surpreenderam-se de início</p><p>com o fato de cem a duzentas pessoas viverem na mesma oca,</p><p>sem divisões que preservassem a intimidade das famílias nem</p><p>repartição de funções e tarefas, porque ali dentro tudo se fazia.</p><p>Por isso, os jesuítas deslocaram os nativos para outras áreas,</p><p>onde criaram as aldeias reunindo várias etnias, designadas por</p><p>eles, de modo homogêneo, como o “gentio”. Ali se construíram</p><p>as casas, onde se alocava cada família, a unidade social. Assim</p><p>diz Baêta Neves: “Na aldeia cada coisa deve ter seu lugar e sua</p><p>hora. Há um local para o trabalho, outro para o descanso, outro</p><p>para o culto, outro para a família”[56]. Mudaram as práticas</p><p>nômades, consideradas bárbaras, e estabeleceram um sistema</p><p>agrícola restrito a áreas determinadas, onde se fazia a divisão de</p><p>tarefas e observavam-se os “momentos de semear, podar, colh-</p><p>er, queimar”.</p><p>Desse modo os missionários pensavam estar prestando um</p><p>serviço civilizatório, ao retirar os nativos da “ociosidade”, da</p><p>229/685</p><p>OEBPS/Text/../Text/notas.xhtml#footnote-226-56</p><p>“preguiça”, da “indisciplina” e da “desorganização”. In-</p><p>troduziram regras de higiene, maneiras de comer, condenaram</p><p>a antropofagia, a embriaguês, o adultério. Lutaram também</p><p>contra a nudez, suprimindo aos poucos os adornos considerados</p><p>“deformadores” e definindo uma “geografia do corpo” segundo a</p><p>qual havia partes que poderiam ser mostradas e outras a serem</p><p>cobertas.</p><p>Por considerarem que os nativos viviam a “infância da hu-</p><p>manidade”, os jesuítas se achavam no direito de agirem como</p><p>“pais”, devendo, portanto, corrigir e proteger. Como o uso de</p><p>sanções violentas era hábito europeu naqueles tempos, esse cos-</p><p>tume foi trazido para cá. As penalidades variavam conforme a</p><p>gravidade da culpa, usando-se o açoite, o tronco e até mutil-</p><p>ações, cuja execução devia ser pública e exemplar.</p><p>As missões prosperaram de modo significativo. Além da</p><p>atividade agrícola, conforme o lugar havia criação de gado,</p><p>artesanato, fabricação de instrumentos musicais, construção de</p><p>templos. Tudo administrado pelos jesuítas, sem intervenção ex-</p><p>terna. Porém, a segregação de tribos inteiras nas missões, esse</p><p>“ambiente de estufa”, fragilizava ainda mais os índios. O confin-</p><p>amento facilitava aos colonos capturar tribos inteiras. Durante o</p><p>século XVII, os bandeirantes realizaram diversas expedições de</p><p>apresamento e destruíram muitas povoações, inclusive as dirigi-</p><p>das por jesuítas espanhóis.</p><p>Depois da expulsão dos jesuítas (século XVIII), desmoronou-</p><p>se a estrutura criada pelos padres, e os índios aculturados não</p><p>conseguiram mais subsistir moral e economicamente.</p><p>4. Período de consolidação: a instrução da elite</p><p>Vimos que as primeiras escolas reuniam os filhos dos índios e</p><p>dos colonos, mas a tendência da educação jesuítica que se con-</p><p>firmou foi separar os “catequizados” e os “instruídos”. A ação</p><p>230/685</p><p>sobre os indígenas resumiu-se então em cristianizar e pacificar,</p><p>tornando-os dóceis para o trabalho nas aldeias. Com os filhos</p><p>dos colonos, porém, a educação podia se estender além da</p><p>escola elementar de ler e escrever, o que ocorreu a partir de</p><p>1573.</p><p>Para enfrentar o senhor da casa-grande, os jesuítas con-</p><p>quistavam seus elementos passivos: a mulher e a criança. Edu-</p><p>cando o menino, conseguiam manter viva a religiosidade da</p><p>família.</p><p>Era tradição das famílias portuguesas orientar os filhos para</p><p>diferentes carreiras. O primogênito herdava o patrimônio do pai</p><p>e continuava seu trabalho no engenho; o segundo, destinado</p><p>para as letras, frequentava o colégio, muitas vezes concluindo os</p><p>estudos na Europa; o terceiro encaminhava-se para a vida reli-</p><p>giosa. Como se vê, os jesuítas agiam sobre os dois últimos.</p><p>Mesmo quando os filhos não eram enviados aos colégios e rece-</p><p>biam educação na própria casa-grande, ficavam aos cuidados</p><p>dos capelães e tios-padres.</p><p>Outro modo de ação cumpria-se no confessionário. O padre</p><p>ouvia os pecados e assim modelava o pensar dos colonos. Em</p><p>casos extremos, negar a absolvição dos pecados revelados no</p><p>confessionário</p><p>era uma maneira de pressionar a mudança de al-</p><p>gum comportamento considerado imoral ou ímpio.</p><p>No campo da educação propriamente dita, desde o século XVI</p><p>os jesuítas montaram a estrutura dos três cursos a serem</p><p>seguidos após a aprendizagem de “ler, escrever e contar” nos</p><p>colégios: a) letras humanas; b) filosofia e ciência (ou artes); c)</p><p>teologia e ciências sagradas. Esses três cursos eram destinados</p><p>respectivamente à formação do humanista, do filósofo e do</p><p>teólogo.</p><p>No curso de humanidades, de grau médio, ensinavam latim e</p><p>gramática para os meninos brancos e mamelucos (mestiços de</p><p>branco e índio). Em alguns colégios, como o de Todos os Santos,</p><p>231/685</p><p>na Bahia, e o de São Sebastião, no Rio de Janeiro, eram ofere-</p><p>cidos também os outros dois cursos, de artes e de teologia, já de</p><p>grau superior.</p><p>Terminado o curso de artes, apresentavam-se ao jovem duas</p><p>alternativas:</p><p>• estudar teologia, opção que ajudava a manter viva a obra</p><p>dos jesuítas no tempo, formando-se padre ou mestre;</p><p>• preparar-se para as carreiras profanas das profissões lib-</p><p>erais, como direito, filosofia e medicina; neste caso,</p><p>encaminhava-se para uma das diversas faculdades europeias —</p><p>os brasileiros procuravam sobretudo a Universidade de Coim-</p><p>bra, em Portugal.</p><p>Para esse programa, os jesuítas foram apoiados oficialmente</p><p>pela Coroa, que também os auxiliou com generosas doações de</p><p>terras. O governo de Portugal sabia o quanto a educação era im-</p><p>portante como meio de domínio político e, portanto, não in-</p><p>tervinha nos planos dos jesuítas.</p><p>5. Outras ordens religiosas</p><p>Embora tenha sido costume enfatizar-se a ação dos jesuítas</p><p>na educação da colônia, outras ordens aqui estiveram com o</p><p>mesmo propósito, tais como franciscanos, carmelitas, benediti-</p><p>nos. Para alguns estudiosos que se debruçam sobre o assunto</p><p>não deixa de ser estranho o relativo silêncio sobre essas</p><p>contribuições.</p><p>O professor Luiz Fernando Conde Sangenis[57] nos esclarece</p><p>que em 1585 foi criada a Custódia de Santo Antônio do Brasil,</p><p>em Olinda, Pernambuco, onde, no ano seguinte, franciscanos</p><p>recém-chegados fundaram um internato para os curumins. Ali</p><p>era ensinado o catecismo, bem como a ler, escrever e contar.</p><p>Depois se estenderam pelo Rio Grande do Norte, Alagoas,</p><p>232/685</p><p>OEBPS/Text/../Text/notas.xhtml#footnote-226-57</p><p>Paraíba, Grão-Pará e Maranhão. Na região Sul, faziam missões-</p><p>volantes, não estabelecendo residência permanente nas aldeias.</p><p>A pouca informação que temos sobre as outras ordens deve-se</p><p>a diversos motivos. Lembramos que a Companhia de Jesus</p><p>deixou abundante documentação, porque os padres deviam pre-</p><p>star contas frequentes aos seus superiores e suas cartas per-</p><p>maneceram como registros importantes, inclusive pela impren-</p><p>sa. Acresce o fato de que os jesuítas não só atuavam nas mis-</p><p>sões, convertendo os indígenas, mas também nas cidades e</p><p>junto aos engenhos de açúcar, ocupando-se, portanto, com a</p><p>educação da elite.</p><p>Enquanto isso, as demais ordens religiosas não preservaram</p><p>da mesma forma a sua memória. Entre elas, os franciscanos</p><p>procuravam “os povoados dependentes da caridade dos filhos</p><p>de São Francisco”, com menor visibilidade de sua atuação. Além</p><p>disso, privilegiavam os cursos das primeiras letras e só voltaram</p><p>a atenção ao ensino secundário no século XVIII, após a expulsão</p><p>dos jesuítas.</p><p>Adiantando um pouco o que veremos em outros capítulos, os</p><p>franciscanos também se dedicaram ao ensino superior,</p><p>fundando no século XVII um convento de altos estudos de teo-</p><p>logia e filosofia, que antecipou a instituição dos cursos superi-</p><p>ores ocorrida no século seguinte.</p><p>Conclusão</p><p>Por mais que tenham sido admiráveis a coragem, o empenho</p><p>e a boa-fé desses missionários, hoje, à luz dos estudos de antro-</p><p>pologia, é inevitável admitir que a desintegração da cultura indí-</p><p>gena iniciou com eles.</p><p>Lembrando os versos irreverentes de Oswald de Andrade —</p><p>em que o poeta lamenta o fato de o descobrimento do Brasil não</p><p>ter sido em um dia de sol, para que os índios despissem os</p><p>233/685</p><p>portugueses — os padres vestiram literalmente os índios, para</p><p>que se envergonhassem da nudez. Também os “vestiram” sim-</p><p>bolicamente de outros valores, de cultura diferente: impuseram-</p><p>lhes outra língua, outro Deus, outra moral e até outra estética.</p><p>Convém, no entanto, considerar a advertência feita na</p><p>primeira parte deste capítulo, sobre a percepção que os</p><p>europeus tinham naquela época sobre os povos “selvagens” e o</p><p>intuito de homogeneização que comandava todo processo edu-</p><p>cacional. Para eles, civilizar os povos era fazer o possível para</p><p>igualá-los aos “melhores”, por isso desenvolveram um processo</p><p>de silenciamento das culturas “estranhas”.</p><p>Pela atuação constante até o século XVIII, não só entre os</p><p>nativos, mas sobretudo na sociedade colonial, podemos dizer</p><p>que os jesuítas imprimiram de modo marcante o ideário católico</p><p>na concepção de mundo dos brasileiros e consequentemente in-</p><p>troduziram a tradição religiosa do ensino que perdurou até a</p><p>República.</p><p>Voltaremos a analisar a influência da Companhia de Jesus no</p><p>capítulo 8, por ocasião de sua expulsão das terras brasileiras.</p><p>Dropes</p><p>1 - A lei, que lhes hão-de dar, é defender-lhes comer</p><p>carne humana e guerrear sem licença do Governador;</p><p>fazer-lhes ter uma só mulher, vestirem-se pois têm</p><p>muito algodão, ao menos depois de cristãos, tirar-lhes</p><p>os feiticeiros, mantê-los em justiça entre si e para com</p><p>os cristãos; fazê-los viver quietos sem se mudarem</p><p>para outra parte, (…) tendo terras repartidas que lhes</p><p>bastem, e com estes Padres da Companhia para os</p><p>234/685</p><p>doutrinarem. (Trecho de uma carta do padre Nóbrega,</p><p>enviada a Lisboa em 1558.)</p><p>2 - Padre Cardim, que foi reitor do Colégio da Bahia,</p><p>visitou várias missões entre os anos de 1583 e 1590.</p><p>Relata que, no comum das aldeias, “há escolas de ler e</p><p>escrever, aonde os padres ensinam os meninos índios:</p><p>e alguns, mais hábeis também ensinam a contar, can-</p><p>tar e tanger; tudo tomam bem, e há já muitos que</p><p>tangem flautas, violas, cravos e oficiam missas em</p><p>canto d’órgão, coisas que os pais estimam muito. Estes</p><p>meninos falam português, cantam à noite a doutrina</p><p>pelas ruas, e encomendam as almas do purgatório”.</p><p>(Adaptado de Darcy Ribeiro.)</p><p>3 - O colégio [dos jesuítas] estava, com efeito, situado</p><p>numa sociedade religiosa, que se concretizava em</p><p>hábitos e valores, práticas e devoções, instituições e or-</p><p>ganização. (…) Assim, toda a vida social era permeada</p><p>de simbolismos cristãos, desde o nascimento de uma</p><p>criança, com o batizado, até a morte, com o viático,</p><p>com confissão, unção dos enfermos, bênção do corpo</p><p>na Igreja, enterro acompanhado do clero, com cânticos</p><p>e orações, cemitério religioso etc. As repartições</p><p>públicas traziam o crucifixo ou imagens de santos. Às</p><p>ruas se encontravam oratórios. O calendário era baliz-</p><p>ado pela liturgia. O clero tinha destaque em qualquer</p><p>cerimônia. As festas do lugar tinham a marca religiosa,</p><p>a procissão se fazendo o ato de exibição social por ex-</p><p>celência. O público estava impregnado de sagrado e a</p><p>235/685</p><p>Leitura complementar</p><p>[A maloca indígena]</p><p>No início do século XX, o monsenhor Pedro Massa, mis-</p><p>sionário salesiano que participou da catequização dos Tukano,</p><p>descreve:</p><p>“Refiro-me à destruição que, auxiliados por um grupo de índi-</p><p>os e de rapazes, pudemos fazer da grande (20 x 40 metros) e</p><p>velha maloca taracuá (…) Sabe V. Rvma. que para o índio a ma-</p><p>loca é cozinha, dormitório, refeitório, tenda de trabalho, lugar</p><p>de reunião na estação de chuvas e sala de dança nas grandes</p><p>solenidades. É onde nasce, vive e morre o índio; é o seu</p><p>mundo… A maloca é também, como costumava dizer o zeloso</p><p>dom Bazola, a ‘casa do diabo’, pois que ali se fazem as orgias</p><p>infernais, maquinam-se as mais atrozes vinganças contra os</p><p>brancos e contra outros índios: na maloca transmitem-se os ví-</p><p>cios de pais a filhos… Ora bem: esse mundo do índio, essa casa</p><p>do diabo não existe mais em Taraucá: nós a desencantamos e</p><p>substituímos por um discreto número de casinhas, cobertas de</p><p>folhas de palmeira e com paredes de barro. Não se mostraram</p><p>descontentes os índios por causa do arrasamento da maloca:</p><p>antes ficaram satisfeitos, reconhecendo a grande utilidade de</p><p>cada família ter sua casinha, seu lar, especialmente para evitar o</p><p>contágio. Foi-se, pois, a maloca dos tucanos!”.</p><p>“Igreja” estava por toda parte presente. (José Maria de</p><p>Paiva)</p><p>236/685</p><p>Curt Nimuendaju[58], etnólogo que conviveu com diversas</p><p>tribos na mesma época, também descreve no relatório para o</p><p>SPI[59] (…):</p><p>“As malocas são em geral muito bem construídas, suas cober-</p><p>tas oferecem inteira garantia contra o mais violento aguaceiro; o</p><p>chão é enxuto e limpo e de tarde reina em sua penumbra uma</p><p>frescura agradável. As casinhas modernas, pelo contrário, são o</p><p>mais das vezes quentes e mal acabadas. Quanto ao prejuízo que</p><p>a convivência de diversas famílias na maloca dizem acarretar é</p><p>simplesmente falso. Devido à rigorosa exogamia[60] não ex-</p><p>istem relações amorosas entre os filhos de uma mesma maloca…</p><p>O principal motivo, porém, da aversão do missionário contra a</p><p>habitação coletiva é outro; vê nela, e com toda razão, o símbolo,</p><p>o verdadeiro baluarte de organização e tradição primitiva, da</p><p>cultura pagã que tanto contraria seus planos de conversão, de</p><p>domínio espiritual e social. A comunidade maloca é a unidade</p><p>da primitiva organização semicomunista dessas tribos.</p><p>Levantada pelos esforços conjugados de seus habitantes, todos</p><p>têm parte em sua posse, sujeitos, porém, à direção patriarcal do</p><p>tuxaua[61]. Devido ao parentesco de sangue e à estreita con-</p><p>vivência, o laço que une esta comunidade é muito forte. A ar-</p><p>quitetura da maloca está inteiramente de acordo com o primit-</p><p>ivo sistema familial e social. Ela se divide em cinco zonas (uma</p><p>de cada lado) pertencentes às diversas famílias que nelas fazem</p><p>seus compartimentos, duas aos trabalhos comuns e o espaço</p><p>grande do meio às cerimônias públicas religiosas e profanas. Na</p><p>maloca condensa-se a cultura própria do índio; tudo ali respira</p><p>tradição e independência e é por isso que elas têm de cair”.</p><p>Essas duas descrições da maloca dos Tukano, nação que hoje</p><p>habita o alto do rio Uapés no Amazonas, representam duas</p><p>visões contrárias. No entanto, essa tribo praticamente já aban-</p><p>donou esse tipo de construção, devido à redução de sua</p><p>237/685</p><p>OEBPS/Text/../Text/notas.xhtml#footnote-226-58</p><p>OEBPS/Text/../Text/notas.xhtml#footnote-226-59</p><p>OEBPS/Text/../Text/notas.xhtml#footnote-226-60</p><p>OEBPS/Text/../Text/notas.xhtml#footnote-226-61</p><p>população e à desorganização provocada pela invasão de garim-</p><p>peiros e mineradores, principalmente a partir da década de 70.</p><p>Katsue Hamada e Zenun e Valeria Maria Alves</p><p>Adissi, Ser índio hoje: a tensão territorial. 2. ed.</p><p>São Paulo, Loyola, 1999, p. 70 e 71.</p><p>Atividades</p><p>Questões gerais</p><p>1. Que interesses econômicos e religiosos da metró-</p><p>pole justificam a colonização? Como a ação catequética</p><p>dos jesuítas contribuiu para o alcance dessas metas?</p><p>2. Por que a educação não é assunto prioritário no</p><p>Brasil colonial?</p><p>3. Por que os religiosos resolveram desenvolver o tra-</p><p>balho de catequese em missões? Quais suas caracter-</p><p>ísticas principais e os riscos da empreitada?</p><p>4. Que influências os jesuítas exerceram sobre os</p><p>colonos? E em que medida foram importantes para a</p><p>constituição da cultura brasileira?</p><p>5. Com base no dropes 3, responda às questões a</p><p>seguir:</p><p>238/685</p><p>a) Explique qual era a relação entre a Igreja e a so-</p><p>ciedade em Portugal, no século XVI, e como essa lig-</p><p>ação se prolongou até recentemente no Brasil.</p><p>b) Discuta com seu grupo como ainda hoje se</p><p>colocam questões desse tipo mesmo nos Estados lai-</p><p>cos: por exemplo, crucifixo em sala de aula de escola</p><p>pública, a polêmica sobre a proibição, na França, de</p><p>mulheres árabes frequentarem aulas com o véu que</p><p>cobre os cabelos etc.</p><p>6. Retome a segunda leitura complementar “Américo</p><p>Vespúcio tinha razão?” do capítulo 1 e responda às</p><p>questões a seguir:</p><p>a) Explique como a avaliação de Américo Vespúcio</p><p>era opinião corrente na Europa do século XVI.</p><p>b) Como poderíamos hoje, com os conhecimentos da</p><p>etnologia contemporânea, contradizer o navegador?</p><p>7. Faça uma pesquisa para desenvolver a avaliação</p><p>crítica sobre o processo de genocídio e extermínio da</p><p>cultura indígena. São possíveis linhas de trabalho:</p><p>• pesquisa em livros de história;</p><p>• consulta de notícias recentes em jornais e revistas</p><p>sobre a política indigenista do governo;</p><p>• levantamento de estudos feitos por antropólogos</p><p>sobre o processo de aculturação;</p><p>• análise de artigos de leis de proteção de povos</p><p>indígenas.</p><p>Questões sobre a leitura complementar</p><p>239/685</p><p>1. Compare os dois relatos, produzidos na mesma</p><p>época, e indique suas discrepâncias.</p><p>2. Posicione-se pessoalmente sobre o assunto.</p><p>240/685</p>