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<p>BIOÉTICA E FORMAÇÃO EM</p><p>SAÚDE</p><p>AULA 6</p><p>Prof. Vitor Mocelin Zacarkim</p><p>2</p><p>CONVERSA INICIAL</p><p>A bioética nas relações profissionais e em diferentes cenários e</p><p>contextos da saúde</p><p>A bioética e a ética profissional na área da saúde são temas amplamente</p><p>debatidos nos mais diferentes contextos. A moral e a ética no exercício</p><p>profissional na saúde são de suma importância para estabelecer relações</p><p>interpessoais favoráveis com o paciente e familiares, contribuindo para a</p><p>promoção e manutenção da saúde. Situações que exigem decisões e reflexões</p><p>éticas em dilemas situacionais são comuns nas relações com paciente,</p><p>familiares e colegas de trabalho, e estão presentes em todos os níveis de</p><p>atenção à saúde e em diferentes cenários.</p><p>Diante do exposto, nesta aula abordaremos a ética e a atuação</p><p>profissional em relação aos seguintes tópicos:</p><p>• Início da vida e interrupção da gestação;</p><p>• Atendimento em pediatria;</p><p>• Situações de urgência e emergência;</p><p>• Âmbito cirúrgico;</p><p>• Relações profissionais no ambiente de trabalho.</p><p>TEMA 1 – BIOÉTICA, INÍCIO DA VIDA E INTERRUPÇÃO DA GESTAÇÃO</p><p>O aborto, também chamado de interrupção da gravidez, é um dos temas</p><p>mais polêmicos da atualidade e tem gerado discussões no contexto político,</p><p>religioso, jurídico, filosófico e ético. Atualmente, em nosso país, tal prática é</p><p>amplamente condenada pela sociedade brasileira, ainda que tenha sido</p><p>praticada e aceita por diferentes culturas e povos desde a antiguidade.</p><p>Hoje, em todo o mundo, estimam-se 35 abortos a cada mil mulheres entre</p><p>15 e 44 anos. Na maioria dos países da América Latina, a taxa é de cerca de 44</p><p>abortos a cada mil mulheres (Fonseca et al., 2020; Rego; Palácios; Siqueira-</p><p>Batista, 2009).</p><p>No Brasil, a prática do aborto é criminosa, exceto em casos previstos por</p><p>lei. Tal ato é enquadrado pelo Código Penal Brasileiro entre os “crimes contra a</p><p>vida”, caracterizado por “aborto provocado pela gestante ou com sua permissão</p><p>3</p><p>(art. 124), aborto provocado por terceiro sem a permissão da gestante (art. 125),</p><p>aborto provocado por terceiro com a permissão da gestante (art. 126), aborto</p><p>qualificado (art. 127) e o aborto legal (art. 128)” (Morais et al., 2018).</p><p>Presentemente, o aborto no Brasil é permitido nas gestações em que a</p><p>mulher corre risco de vida, as que decorrem de estupro e na presença de</p><p>anencefalia fetal. Além dessas situações, Fonseca et al. (2020) afirmam que</p><p>“alvarás judiciais para anencefalia (antes de 2012) e para outras malformações</p><p>têm sido liberados no Brasil, ampliando as perspectivas do aborto legal”.</p><p>Independentemente das concepções pessoais, culturais ou religiosas,</p><p>profissionais de saúde devem compreender a complexidade da temática no país.</p><p>Atualmente, o abortamento é um grave problema de saúde pública no Brasil,</p><p>pois, ainda que seja criminalizado, é executado por inúmeras mulheres. Um</p><p>abortamento inseguro, por exemplo, pode acarretar complicações severas e até</p><p>mesmo o óbito da mulher, sobretudo mulheres economicamente desfavorecidas,</p><p>que tendem a procurar clínicas clandestinas (Rocha et al., 2015).</p><p>Do ponto de vista moral e religioso, não há dúvidas de que um dos</p><p>principais questionamentos relativos à prática abortiva é a interrupção da vida</p><p>humana. Nesse sentido, podemos levantar a seguinte indagação: quando a vida</p><p>se inicia? Para alguns indivíduos, seria na fecundação. Sob essa perspectiva,</p><p>algumas crenças e religiões que se consideram em prol da vida podem ser contra</p><p>o aborto e manifestar-se contra métodos contraceptivos, “pílulas do dia seguinte”</p><p>ou quaisquer outras formas opositivas ao surgimento da vida. Por outro lado,</p><p>para outras pessoas a vida inicia-se ao primeiro batimento cardíaco, ao se</p><p>desenvolver o sistema neurológico ou ao nascimento.</p><p>Em resumo, não há critério bem estabelecido no que se refere ao início</p><p>da vida humana, fato que corrobora a amplitude de opiniões e discursos. Em</p><p>oposição a conservadores e religiosos, surge o movimento feminista,</p><p>amplamente ativo na defesa da flexibilização da legislação brasileira vigente.</p><p>Desde a década de 1960, as lutas políticas do movimento em prol da liberdade</p><p>sexual e reprodutiva das mulheres – sobretudo após o surgimento dos</p><p>anticoncepcionais – possibilitou que o sexo fosse considerado para além de sua</p><p>função reprodutiva (Rego; Palácios; Siqueira-Batista, 2009; Rocha et al., 2015).</p><p>Estudos demonstram que países em que a prática foi autorizada</p><p>dedicaram-se a adotar práticas e estratégias de planejamento familiar, o que</p><p>4</p><p>levou a uma queda do número total de abortos, contrariando o entendimento</p><p>popular de que a legalização consequentemente aumentaria sua incidência.</p><p>Outro argumento empregado na defesa da legalização do aborto é a</p><p>redução da mortalidade e de complicações decorrentes da prática clandestina.</p><p>De acordo com matéria publicada pelo Conselho Regional de Psicologia da</p><p>Bahia (CRP-03, 2017), a “cada ano são feitos 22 milhões de abortamentos em</p><p>condições inseguras, acarretando a morte de cerca de 47.000 mulheres e</p><p>disfunções físicas e mentais em outras 5 milhões de mulheres”.</p><p>Inobstante convicções pessoais, devemos compreender a emergente</p><p>necessidade de debater esse assunto em diferentes contextos, incluindo os</p><p>estabelecimentos de saúde. Como exemplo, podemos citar um caso recente,</p><p>ocorrido em 2020 no Brasil, amplamente noticiado por diversos meios de</p><p>comunicação: o caso de uma menina de 10 anos, procedente do Espírito Santo,</p><p>que engravidou de seu tio em decorrência de violência sexual. Ao optar pelo</p><p>aborto – ainda que garantido por decisão judicial –, a criança também foi vítima</p><p>de violência de manifestantes, grupos religiosos e parlamentares da bancada</p><p>evangélica que cercaram o hospital e reivindicaram sua oposição em relação ao</p><p>aborto. No episódio, manifestantes também chamaram profissionais de saúde</p><p>de “assassinos”.</p><p>O caso reflete a polarização brasileira no assunto. Por isso, profissionais</p><p>da saúde devem manter-se em constante atualização, promovendo debates em</p><p>ambientes de ensino e assistência. No cuidado de saúde frente às práticas de</p><p>aborto previstas pela legislação, cabe aos profissionais uma assistência</p><p>humanizada, livre de julgamentos, comportamentos discriminatórios ou condutas</p><p>imperativas, bem como o sigilo profissional e o respeito à autonomia e dignidade</p><p>humana.</p><p>TEMA 2 – ÉTICA NO ATENDIMENTO À CRIANÇA E AO ADOLESCENTE</p><p>O atendimento a crianças e adolescentes envolve interações</p><p>multidimensionais e complexas entre equipe profissional, pacientes, pais,</p><p>responsáveis, comunidade e sistema de saúde. Todos os indivíduos inseridos</p><p>no atendimento e na promoção da saúde infantil são indispensáveis à tomada</p><p>de decisão e ao manejo terapêutico. Esse processo é frequentemente afetado</p><p>por desigualdades sociais, avanços tecnológicos da área da saúde e questões</p><p>5</p><p>morais da sociedade, resultando em situações que comumente geram dilemas</p><p>éticos (Guedert; Grosseman, 2011).</p><p>São incontáveis as questões que inquietam a equipe de saúde em</p><p>ambientes de atendimento pediátrico e causam insuficiência profissional, o que</p><p>torna inquestionável a necessidade de estratégias eficientes de abordagem</p><p>nesses complexos e abundantes conflitos (Jorge Filho, 2017).</p><p>Numa rápida reflexão sobre essa temática, facilmente observamos que a</p><p>vulnerabilidade da criança é o ponto central no surgimento de problemas éticos,</p><p>dado que afeta de maneira significativa não só os familiares – fragilizados diante</p><p>do adoecimento ou internamento de um filho –, mas também a equipe de saúde</p><p>– sujeita a situações penosas, incluindo até mesmo violência e agressões (Jorge</p><p>Filho, 2017).</p><p>Os problemas familiares mais frequentes diante de uma criança enferma</p><p>são desarmonia, afastamento, transformação e estranhamento. Em casos de</p><p>hospitalização pediátrica, relatam-se problemas como grande distância</p><p>geográfica da moradia</p><p>familiar do ambiente hospitalar, ausência de um dos</p><p>cônjuges na divisão dos cuidados ao paciente ou desarranjos familiares como</p><p>desestruturação, separação conjugal, problemas relacionados ao álcool e às</p><p>drogas (Jorge Filho, 2017).</p><p>Controvérsias pessoais entre equipe e paciente são comuns e ocorrem</p><p>devido a problemas de confidencialidade, relações pessoais difíceis e revelações</p><p>diagnósticas. A hospitalização é uma realidade difícil e angustiante, e acarreta</p><p>mudanças drásticas na rotina familiar. Muitas vezes a subordinação da família</p><p>às regras e normas do hospital causa conflitos que, em casos mais graves,</p><p>geram agressões. Segundo uma pesquisa investigativa encomendada pelo</p><p>Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) em 2015,</p><p>cerca de 64% dos médicos entrevistados tiveram conhecimento ou vivenciaram</p><p>situações violentas por parte de pacientes e acompanhantes (Jorge Filho, 2017).</p><p>Os indicativos de problemas éticos incluem condutas de profissionais de</p><p>saúde caracterizadas por discordância de indicações terapêuticas ou de atitudes</p><p>no desempenho das funções, questões limítrofes, tomada de decisões em</p><p>situações terminais e capacidade de lidar emocionalmente com elas (Guedert;</p><p>Grosseman, 2011).</p><p>Fatores de grande destaque nos dilemas éticos se relacionam não</p><p>somente aos aspectos citados, mas também aos parâmetros socioeconômicos</p><p>6</p><p>e de políticas públicas de saúde, principalmente condições desfavoráveis, rede</p><p>de atenção à saúde inadequada e violência contra a criança (Guedert;</p><p>Grosseman, 2011).</p><p>A violência, os maus-tratos, o abuso (inclusive sexual) e a negligência</p><p>contra os infantes são mais comuns do que apontam os registros ou denúncias.</p><p>Em casos de risco, crianças são internadas para avaliar melhor os indícios ou a</p><p>gravidade das lesões. Cabe ao profissional obrigatoriamente denunciar o crime,</p><p>tendo escuta sensível e percepção apurada na identificação da violência (Jorge</p><p>Filho, 2017).</p><p>Em nosso país, há pouco conhecimento sobre condutas e dilemas éticos</p><p>no atendimento pediátrico. Destaca-se portanto a necessidade de ações que</p><p>possam ser desenvolvidas em nível acadêmico e institucional para ajudar os</p><p>profissionais a adotar uma posição eficiente em relação aos questionamentos</p><p>éticos que emergem do cotidiano conflituoso. É essencial refletir sobre a</p><p>vulnerabilidade infantil como circunstância que demanda análise abrangente e</p><p>holística (Guedert; Grosseman, 2011).</p><p>TEMA 3 – ÉTICA EM SITUAÇÕES DE URGÊNCIA E EMERGÊNCIA</p><p>Poll, Lunardi e Lunardi Filho (2008) evidenciam que no Brasil os sistemas</p><p>de saúde são organizados por serviços de diversas modalidades de atendimento</p><p>em nível primário, secundário e terciário de cuidados à saúde, encontrando-se</p><p>atividades voltadas ao atendimento em urgência e emergência, como as</p><p>unidades de pronto atendimento (UPAs), Serviço de Atendimento Móvel de</p><p>Urgência (Samu), Serviço Integrado de Atendimento ao Trauma em Emergência</p><p>(Siate), prontos-socorros, hospitais especializados, ambulâncias, entre outros.</p><p>É fundamental diferenciarmos urgência de emergência:</p><p>Emergência: constatação médica de condições de agravo a saúde que</p><p>impliquem sofrimento intenso ou risco iminente de morte, exigindo</p><p>portanto tratamento médico imediato. Urgência: ocorrência imprevista</p><p>de agravo a saúde como ou sem risco potencial a vida, cujo portador</p><p>necessita de assistência médica imediata. (Brasil, 2014)</p><p>Em ambas as modalidades, o paciente precisa ser atendido pela equipe</p><p>multiprofissional imediatamente, visando a manutenção da vida. Sendo assim,</p><p>unidades de emergência devem prestar cuidados de saúde com preparo e alto</p><p>grau de comprometimento, podendo deparar-se com situações e dilemas éticos</p><p>que precisam ser debatidos.</p><p>7</p><p>Inúmeros aspectos de ordem bioética podem ser presenciados nesse</p><p>cenário. Podemos citar como exemplo a preservação do princípio bioético da</p><p>justiça, em que os profissionais visam atender de maneira equitativa os</p><p>pacientes, a depender de seu grau de comprometimento clínico e comorbidades</p><p>associadas. Nos serviços de triagem em prontos-socorros, por exemplo,</p><p>pacientes mais graves são priorizados, assim como nas demais modalidades de</p><p>atendimento (Poll; Lunardi; Lunardi Filho, 2008).</p><p>Outro ponto ético é a não maleficência. Na área da saúde (especialmente</p><p>emergências), profissionais da saúde devem executar cuidados pautados no</p><p>princípio da “vigorosa incumbência de não permitir prejudicar e não impor riscos”.</p><p>Assim, o agir profissional deve ser sensato, cauteloso, apropriado e prudente,</p><p>prestando assistência livre de danos por imperícia, imprudência ou negligência</p><p>casada por uma má prática profissional. Não é incomum na mídia brasileira</p><p>observarmos profissionais da saúde indiciados por falhas nesse sentido, como</p><p>deixar de atender em setores de emergência ou omitir socorro, expondo</p><p>pacientes a risco de vida (Poll; Lunardi; Lunardi Filho, 2008).</p><p>Também são comuns situações clínicas que envolvem pacientes</p><p>terminais ou com quadros irreversíveis. Nesses casos, a assistência deve evitar</p><p>procedimentos de prolongamento artificial e desnecessário da vida, instituindo</p><p>medidas de conforto pautadas na ortotanásia e nos cuidados paliativos.</p><p>Outra implicação ética na área de urgência citada por Poll, Lunardi e</p><p>Lunardi Filho (2008) são os problemas estruturais e de gestão dos serviços</p><p>brasileiros de saúde. É comum observar a superlotação de UPAs, com trabalho</p><p>sobrecarregado, prejudicando o atendimento ao usuário, além da “falsa</p><p>sensação” de resolutividade.</p><p>Os autores destacam ainda que:</p><p>Nesta realidade, ainda com um modelo médico-centrado, as próprias</p><p>unidades básicas, ao excederem seus limites de capacidade, ou ao</p><p>finalizarem suas fichas de atendimento médico, direcionam pacientes</p><p>aos serviços de emergência, contribuindo para a superlotação destas</p><p>unidades que, sobrecarregadas, podem negligenciar parâmetros,</p><p>descaracterizando-se de sua real finalidade, pois todos os espaços vão</p><p>sendo ocupados, gerando dificuldades para a realização de qualquer</p><p>tipo de ação, até mesmo o atendimento às necessidades mais básicas</p><p>do ser humano. (Poll; Lunardi; Lunardi Filho, 2008 p. 512)</p><p>Diante das problemáticas apresentadas, a ética é uma qualidade</p><p>fundamental para o profissional atuante em urgência e emergência.</p><p>8</p><p>A seguir temos os dez princípios éticos publicados pelo Colégio</p><p>Americano de Médicos Emergencistas, que descrevem valores e atitudes</p><p>essenciais para quaisquer profissionais atuantes nesse cenário,</p><p>independentemente de sua formação (Acep, 2017; Torreão, 2003):</p><p>1. Prezar como principal responsabilidade o bem-estar do paciente;</p><p>2. Responder pronta e habilmente, sem preconceito ou parcialidade, à</p><p>necessidade de atendimento de emergência;</p><p>3. Respeitar os direitos e se esforçar para proteger os interesses do</p><p>paciente, especialmente os mais vulneráveis e aqueles com capacidade</p><p>de tomada de decisão prejudicada;</p><p>4. Comunicar-se honestamente com os pacientes e assegurar seu</p><p>consentimento para os cuidados propostos, a menos que a condição</p><p>deles exija uma intervenção imediata, como em situações que envolvem</p><p>risco à vida;</p><p>5. Respeitar a privacidade do paciente e divulgar informações confidenciais</p><p>apenas com o consentimento dele ou quando exigido por um dever</p><p>primordial, como o dever de proteger terceiros ou obedecer à lei;</p><p>6. Lidar de forma justa e honesta com os colegas e tomar as medidas</p><p>adequadas para proteger os pacientes de profissionais de saúde</p><p>incompetentes, antiéticos ou que se envolvam em fraude ou engano;</p><p>7. Trabalhar cooperativamente com todos os membros da equipe de</p><p>emergência;</p><p>8. Envolver-se em estudos contínuos para manter o conhecimento e as</p><p>habilidades necessárias para fornecer atendimento de alta qualidade;</p><p>9. Atuar com responsabilidade frente aos recursos para prover saúde;</p><p>10. Apoiar os esforços da sociedade para melhorar a saúde e segurança</p><p>pública,</p><p>reduzir os efeitos de doenças e garantir o acesso a serviços de</p><p>emergência e outros cuidados básicos de saúde para todos.</p><p>TEMA 4 – ASPECTOS ÉTICOS NO ÂMBITO CIRÚRGICO</p><p>O centro cirúrgico é um dos mais importantes setores hospitalares.</p><p>Formado por elementos estruturais de alta tecnologia e complexidade, faz</p><p>cirurgias que podem ser consideradas uma invasão agressiva ao paciente, talvez</p><p>uma das maiores, com o objetivo principal de curá-lo, aliviar sintomas, tratar</p><p>9</p><p>traumatismos, além de intervenções estéticas. Muitas vezes é a única opção</p><p>terapêutica disponível ao indivíduo, o que a torna não somente um procedimento</p><p>técnico, mas uma atitude baseada num comportamento profissional consciente</p><p>e ético (Antonio; Fontes, 2011).</p><p>Por ser um ambiente profissional peculiar, que lida com a fragilidade</p><p>humana, o centro cirúrgico está sujeito a acidentes e iatrogenias, o que gera</p><p>grandes polêmicas éticas. Atualmente, meios de comunicação e órgãos policiais</p><p>e judiciais têm aumentado o número de denúncias contra instituições</p><p>hospitalares sob a acusação de negligência. Assim, é necessário que não</p><p>somente o médico esteja preparado para assumir a responsabilidade numa</p><p>eventual acusação, mas toda a equipe multiprofissional envolvida também</p><p>(Oguisso; Schmidt, 2018).</p><p>O princípio ético não deve estar apenas no ato cirúrgico ou no que ocorre</p><p>na sala de operação, mas na vida e conduta dos profissionais, desde o estudo</p><p>do paciente, a investigação diagnóstica, a orientação ao paciente e a obtenção</p><p>de seu consentimento, ato cirúrgico e cuidados pós-operatórios. Na cirurgia, as</p><p>causas etiológicas (patologia cirúrgica) e os efeitos (procedimento cirúrgico)</p><p>resultam na invasão física e real no corpo do paciente, e a relação equipe-</p><p>paciente adquire dimensões de alto impacto. A equipe multiprofissional deve</p><p>aceitar de forma ética e responsável a indicação necessária de uma cirurgia</p><p>como resultado de sua capacidade técnica e de seu comportamento em relação</p><p>ao paciente e seus familiares (Antonio; Fontes, 2011).</p><p>Qualquer conduta por parte de um profissional de saúde não inserida nos</p><p>parâmetros citados se configura como antiética ou até mesmo ilegal. Dentre os</p><p>inúmeros exemplos de ocorrências, podemos citar (Oguisso; Schmidt, 2018):</p><p>• Queda de paciente da maca ou mesa cirúrgica;</p><p>• Queimaduras por bisturi elétrico;</p><p>• Exames ou cirurgias desnecessários;</p><p>• Procedimentos cirúrgicos proibidos legal ou moralmente, ou sem</p><p>consentimento do cliente, ou com consentimento obtido mediante</p><p>informação incompleta;</p><p>• Infecções pós-operatórias por contaminação de campo, do material por</p><p>causas acidentais ou por falha técnica;</p><p>• Registro de dados incompletos ou inverídicos no prontuário do paciente</p><p>ou em outros formulários.</p><p>10</p><p>Como exemplo, um cirurgião deve sempre usar a ética e indicar</p><p>procedimentos apenas se forem realmente necessários e seguros, e não para</p><p>benefícios próprios ou lucro financeiro. Um exemplo clássico seria um cirurgião</p><p>plástico indicar uma cirurgia estética apenas para benefício profissional e</p><p>pessoal.</p><p>Podemos imaginar outra situação: um instrumentador cirúrgico</p><p>presenciou um erro cirúrgico, como o esquecimento de instrumentais ou</p><p>compressas na cavidade abdominal de um paciente. O profissional pode estar</p><p>frente a um dilema ético por não saber qual conduta tomar: dialogar com o</p><p>próprio cirurgião, com a direção do hospital ou com a equipe e comunicar ou não</p><p>o paciente e a família.</p><p>Cirurgia é uma atividade intervencionista de diversas especialidades,</p><p>baseada no conhecimento e, se regida pelo raciocínio e executada com</p><p>compaixão, perfeccionismo e bioética, promove uma ampla ascensão da</p><p>plenitude humana. Por isso é imprescindível que o profissional de saúde esteja</p><p>capacitado para exercer seu trabalho dentro dos padrões éticos, morais e legais,</p><p>sempre precavido e atento para não se envolver em processos judiciais, pedidos</p><p>de indenização e implicações legais.</p><p>O zelo deve ir além, até mesmo do que se tornou banal e irrelevante</p><p>devido à repetição cotidiana. Caso contrário, o empenho, a abnegação e a</p><p>magnitude do cuidado humano no centro cirúrgico perdem sua essência.</p><p>TEMA 5 – ÉTICA NO AMBIENTE DE TRABALHO NA SAÚDE</p><p>Como em qualquer outro ambiente de trabalho, as organizações de saúde</p><p>desempenham funções técnicas, profissionais, gestoras e administrativas, e</p><p>seus trabalhadores estão sujeitos a tensões internas, decisões difíceis, desafios</p><p>e dilemas éticos. No ambiente de trabalho na saúde, a competência de</p><p>compreender os indivíduos e determinados fatos se relaciona diretamente à</p><p>capacidade de aperfeiçoar relações interpessoais, principalmente com pacientes</p><p>e com a equipe multiprofissional (Paraizo; Begin, 2020).</p><p>A atividade laboral em instituições de saúde naturalmente desenvolve um</p><p>ambiente de trabalho repleto de situações penosas associadas à fragilidade</p><p>humana que interferem negativamente no corpo, no comportamento e na mente</p><p>dos trabalhadores. O relacionamento entre os profissionais da área da saúde</p><p>pode ser problemático, com ausência de vínculos ou de trabalho em equipe, o</p><p>11</p><p>que potencialmente gera conflitos, estresse e prejudica as relações (Paraizo;</p><p>Begin, 2020).</p><p>Muitas dificuldades no trabalho se relacionam ao comprometimento e à</p><p>responsabilidade com a própria função. A falta de colaboração entre equipe de</p><p>trabalho e intimidações geralmente são mais comuns entre quem ocupa o topo</p><p>da hierarquia, como os profissionais de saúde de nível superior – especialmente</p><p>gestores – ou aqueles com mais tempo de trabalho na instituição.</p><p>Como trabalhador da saúde ou profissional em formação, é viável você</p><p>conhecer e estar apto a proteger-se do assédio moral, concretizado por atos que</p><p>atingem a dignidade e ferem seus direitos.</p><p>Três critérios básicos configuram uma situação de assédio moral</p><p>(Mesquita et al., 2017):</p><p>1. O assédio deve ter definição baseada nas consequências para o</p><p>assediado, e não pela intenção de assediar;</p><p>2. Deve provocar efeitos negativos na vítima;</p><p>3. O comportamento de assédio deve ser persistente e insistente.</p><p>As principais manifestações de assédio moral são: ataques à vítima com</p><p>medidas de organização; ataques às relações sociais do assediado (como em</p><p>casos de isolamento social); ataques à vida pessoal da vítima; violência física;</p><p>ataques às atitudes; agressões verbais; e calúnias sobre a reputação pessoal.</p><p>As fases que compõem essa prática são inicialmente definidas por conflitos,</p><p>constrangimentos seguidos de acusações e culpabilidade que</p><p>consequentemente podem gerar a demissão imperativa ou voluntária do</p><p>funcionário (Mesquita et al., 2017).</p><p>O poder hierárquico entre as equipes é um fator negativo nas relações</p><p>interpessoais, compromete a comunicação e diálogo e aumenta a insatisfação</p><p>dos trabalhadores. Essa situação é mais frequente em casos de assédio moral.</p><p>Tal prática prejudica a liderança na gestão, especialmente nos estabelecimentos</p><p>de saúde (Mesquita et al., 2017).</p><p>Ainda nesse âmbito, o desequilíbrio emocional – gerado pelo</p><p>esgotamento entre os profissionais – se associa a riscos à saúde e à</p><p>insegurança, o que também estimula os indivíduos a deixar o trabalho. As</p><p>relações interpessoais afetam fortemente as ações profissionais, considerando</p><p>que conflitos entre os membros da equipe podem gerar desmotivação e</p><p>frustrações (Dias et al., 2020).</p><p>12</p><p>Os fatores que mais geram conflitos entre as equipes de trabalho são</p><p>individualismo, ausência de comprometimento e cooperação, falta de respeito e</p><p>de reuniões de equipe – fatores que aumentam a carga de trabalho. A relação</p><p>entre os indivíduos pode se fortalecer pela afinidade, proximidade física e</p><p>convivência, o que promove uma relação de intimidade, ajuda mútua, diálogo e</p><p>vínculo (Dias et al., 2020).</p><p>Construções afetivas estabelecem relações harmônicas e um melhor</p><p>rendimento e saúde geral da equipe, o que consequentemente</p><p>melhora a</p><p>qualidade da assistência em saúde. Atividades dinâmicas e recreativas</p><p>fortalecem a socialização do grupo, e a comunicação entre os trabalhadores tem</p><p>grande importância nas instituições de saúde para alcançar a produtividade</p><p>esperada e a competência a ser incentivada (Dias et al., 2020).</p><p>Relacionamentos no trabalho podem se fortalecer com reuniões</p><p>periódicas, caracterizando-se por estratégias de gerenciamento para entender e</p><p>expor dificuldades, estabelecendo relações interpessoais saudáveis no ambiente</p><p>de trabalho num espaço para discutir ideias, incentivar o diálogo aberto, resolver</p><p>conflitos e valorizar o trabalho em equipe, com respeito e confiança entre os</p><p>colegas (Dias et al., 2020).</p><p>Diante do exposto, é importante prevenir e identificar os fatores que</p><p>impactam as relações profissionais e interpessoais do ambiente em saúde. O</p><p>conhecimento amplo dessa temática possibilita o desenvolvimento de</p><p>estratégias que melhorem o ambiente de trabalho e, consequentemente, a saúde</p><p>dos trabalhadores da área.</p><p>O objetivo principal dessa exposição é identificar os fatores que impactam</p><p>as relações interpessoais dos trabalhadores da saúde. Por isso precisamos nos</p><p>conscientizar de que, independentemente de controvérsias pessoais ou de</p><p>diferenças de opinião, o respeito e a ética profissional são indispensáveis (Dias</p><p>et al., 2020).</p><p>Reduzir os meios que geram conflitos e assédios deve ser uma prioridade</p><p>para as empresas e o governo, e a desumanização do trabalhador deve ser</p><p>combatida. Aumento de competitividade, produtividade e lucro não deve</p><p>minimizar a dignidade da pessoa, especialmente nos estabelecimentos de</p><p>saúde, pois um profissional fragilizado não é capaz de oferecer todas as suas</p><p>atribuições e conhecimentos técnicos para quem necessita de cuidado (Dias et</p><p>al., 2020).</p><p>13</p><p>NA PRÁTICA</p><p>Para refletir e integrar o conteúdo abordado, vamos ao seguinte estudo</p><p>de caso:</p><p>Você faz parte da equipe multiprofissional de uma clínica do sistema</p><p>público de saúde especializada na atenção à gestação de alto risco e</p><p>se depara com esta situação: adolescente do sexo feminino, 16 anos,</p><p>idade gestacional de 12 semanas, primigesta, gravidez não planejada.</p><p>Ao observar os exames de pré-natal, anencefalia fetal é diagnosticada.</p><p>Ao expor a situação para a adolescente e o prognóstico desfavorável</p><p>da condição do feto, ela manifesta o desejo de interromper a gestação,</p><p>conforme previsto pela legislação vigente. Entretanto, ao acompanhar</p><p>a consulta, a mãe da adolescente manifesta-se contrária ao aborto,</p><p>alegando que é evangélica e condena tal prática.</p><p>Diante do caso, qual conduta você adotaria na abordagem da família?</p><p>Acatar a vontade da mãe ou favorecer a autonomia e respeitar o desejo da</p><p>adolescente?</p><p>FINALIZANDO</p><p>Nesta aula tratamos da ética em diferentes cenários e contextos, incluindo</p><p>reflexões sobre o início da vida, prática do aborto, assistência à criança,</p><p>situações de emergência, práticas cirúrgicas e as relações profissionais no</p><p>ambiente de trabalho na área da saúde.</p><p>14</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>28 MOTIVOS para legalizar o aborto no Brasil. CRP-03, Salvador, 28 set. 2017.</p><p>Disponível em: . Acesso em: 5 jul. 2021.</p><p>ACEP – American College of Emergency Physicians. Code of ethics for</p><p>emergency physicians. Annals of Emergency Medcine, Irving, v. 70, p. e7-e15,</p><p>2017. Disponível em: . Acesso em: 5 jul. 2021.</p><p>ANTONIO, E. M. R.; FONTES, T. M. P. A ética médica sob o viés da bioética: o</p><p>exercício moral da cirurgia. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, Rio</p><p>de Janeiro, v. 38, n. 5, p. 355-360, 2011.</p><p>BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria n. 354, de 10 de março de 2014. Publica</p><p>a proposta de Projeto de Resolução “Boas Práticas para Organização e</p><p>Funcionamento de Serviços de Urgência e Emergência”. Diário Oficial da</p><p>União, Brasília, DF, 11 mar. 2014.</p><p>DIAS, J. S. et al. Saúde, comportamento e gestão: impactos nas relações</p><p>interpessoais. Texto Contexto – Enfermagem, Florianópolis , v. 29, e20190057,</p><p>2020.</p><p>FONSECA, S. C. et al. Aborto legal no Brasil: revisão sistemática da produção</p><p>científica, 2008-2018. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 36, n.</p><p>Suppl. 1, 2020.</p><p>GUEDERT, J. M.; GROSSEMAN, S. Abordagem dos problemas éticos em</p><p>pediatria: sugestões advindas da prática. Revista Brasileira de Educação</p><p>Médica, Rio de Janeiro, v. 35, n. 3, p. 359-368, 2011.</p><p>JORGE FILHO, I. Bioética: fundamentos e reflexões. Rio de Janeiro: Atheneu,</p><p>2017.</p><p>MESQUITA, A. A. et al. Assédio moral: impacto sobre a saúde mental e o</p><p>envolvimento com trabalho em agentes comunitários de saúde. Revista</p><p>Psicologia e Saúde, Campo Grande , v. 9, n. 1, p. 3-17, abr. 2017.</p><p>MORAIS, E. R. C. et al. Aborto e bioética no jornal Folha de São Paulo.</p><p>Psicologia e Pesquisa, Juiz de Fora, v. 12, n. 1, p. 23-32, abr. 2018.</p><p>15</p><p>OGUISSO, T.; SCHMIDT, M. J. O exercício da enfermagem: uma abordagem</p><p>ético-legal. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Kogan, 2018.</p><p>PARAIZO, C. B.; BÉGIN, L. Ética organizacional em ambientes de saúde.</p><p>Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 25, n. 1, p. 251-259, 2020.</p><p>POLL, M. A.; LUNARDI, V. L.; LUNARDI FILHO, W. D. Atendimento em unidade</p><p>de emergência: organização e implicações éticas. Acta Paulista de</p><p>Enfermagem, São Paulo, v. 21, n. 3, p. 509-514, 2008.</p><p>REGO, S.; PALÁCIOS, M.; SIQUEIRA-BATISTA, R. A Bioética, o início e o fim</p><p>da vida, o aborto e a eutanásia. In: _____. Bioética para profissionais da</p><p>saúde. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2009. p. 95-118. (Coleção Temas em Saúde).</p><p>ROCHA, W. B. et al. Percepção de profissionais da saúde sobre abortamento</p><p>legal. Revista Bioética, Brasília, DF, v. 23, n. 2, p. 387-399, 2015.</p><p>TORREÃO, L. A. Aspectos éticos na emergência. Revista da Associação</p><p>Médica Brasileira, São Paulo, v. 49, n. 1, p. 11, jan. 2003.</p>