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<p>1</p><p>UNIP-UNIVERSIDADE PAULISTA</p><p>GESTÃO DE RECURSOS HUMANOS</p><p>A ADMINSTRAÇÃO COMO CAMPO DE CONHECIMENTO</p><p>Macapá-AP</p><p>2018</p><p>2</p><p>PAULO FERREIRANETO</p><p>A ADMINSTRAÇÃO COMO CAMPO DE CONHECIMENTO</p><p>Macapá-AP</p><p>2018</p><p>Trabalho apresentado no curso de graduação de</p><p>Gestão de Recursos Humanos da Universidade</p><p>Paulista-UNIP, na matéria Fundamentos da</p><p>administração, sobe a orientação do Docente</p><p>Antônio Benedito Pissuto para obtenção de nota.</p><p>3</p><p>DEDICATÓRIA</p><p>Dedicamos este trabalho ao criador de todas as coisas e as nossas famílias, nosso</p><p>segundo maior bem; e ao docente Antônio Pissuto, pelas orientações</p><p>dadas ao grupo.</p><p>4</p><p>RESUMO</p><p>O objetivo deste trabalho é o de apresentar um entendimento teórico em</p><p>torno do campo científico. Mais especificamente como funciona o campo científico e</p><p>o quanto seus pesquisadores são influenciados pelo contexto em que estão</p><p>inseridos. Assim, inicialmente são apresentados os conceitos e abordagens de</p><p>campo científico segundo a concepção de Merton (1979) e Bourdieu (1994), cujas</p><p>características são discutidas por Martin (2001). Na sequência é discutida a atuação</p><p>do pesquisador no campo científico, tomando por base as contribuições de Dortier</p><p>(2005), que discute de forma crítica a atuação daqueles que denomina “profissionais</p><p>do saber”; Berry (1995), que relacionam o pesquisador ao homem de negócios.</p><p>Levando-se em consideração os aspectos tratados pelos autores supracitados.</p><p>Assim, são discutidas essas distorções com base em cada um dos quatro passos ou</p><p>normas desse ethos, quais sejam: o universalismo, o comunismo, a falta de</p><p>desinteresse e o ceticismo organizado. Essa reflexão abrange também a relação</p><p>entre o campo científico e o mercado, destacando-se o quanto aquele parece</p><p>reproduzir as desigualdades deste. Por fim, destaca-se o quanto a atuação dos</p><p>pesquisadores no campo administrativo brasileiro tem se submetido às práticas do</p><p>chamado mainstream anglo-saxão, as quais são tomadas como modelos. Conclui-se</p><p>que há no campo científico – especialmente da Administração – uma longa jornada a</p><p>se percorrer em busca de uma ciência de fato: com a consciência de que a verdade</p><p>será sempre uma busca infinita. Porque quando a verdade existir, não existirá mais</p><p>ciência.</p><p>Palavras chaves: o universalismo, o comunismo, a falta de desinteresse e o</p><p>ceticismo organizado.</p><p>5</p><p>ABSTRACT</p><p>The objective of this work is to present a theoretical discussion about the</p><p>scientific field and the researcher 's performance in this field. More specifically how</p><p>the scientific field works and how much its researchers are influenced by the context</p><p>in which they are inserted. Thus, initially the concepts and approaches of scientific</p><p>field are presented according to the conception of Merton (1979) and Bourdieu</p><p>(1994), whose characteristics are discussed by Martin (2001). In the sequence, the</p><p>researcher's performance in the scientific field is discussed, based on the</p><p>contributions of Dortier (2005), who critically discusses the work of those he calls</p><p>"professionals of knowledge"; Berry (1995) and Gingras et al. (2001) that relate the</p><p>researcher to the businessman. Taking into account the aspects dealt with by the</p><p>aforementioned authors. Thus, these distortions are discussed on the basis of each</p><p>of the four steps or norms of this ethos: universalism, communism, lack of interest,</p><p>and organized skepticism. This reflection also covers the relationship between the</p><p>scientific field and the market, highlighting how much it seems to reproduce its</p><p>inequalities. Finally, it is important to note that the performance of researchers in the</p><p>Brazilian administrative field has been subject to the practices of the so-called</p><p>mainstream Anglo-Saxon, which are taken as models. It is concluded that there is in</p><p>the scientific field - especially the Administration - a long journey to search for a</p><p>science of fact: with the awareness that truth will always be an infinite search.</p><p>Because when the truth exists, there will be no more science.</p><p>Key words: universalism, communism, lack of interest and organized skepticism.</p><p>6</p><p>SUMÁRIO</p><p>1. INTRODUÇÃO....................................................................................................PG 06</p><p>2. DESENVOLVIMENTO........................................................................................PG 07</p><p>2.1 Origem e Evolução da Administração...........................................................PG 08</p><p>2.2 A Administração Científica............................................................................PG 09</p><p>2.3 Origem e Evolução dos Estudos Ortodoxos da Administração (EOA...........PG 11</p><p>2.4 O Campo Científico......................................................................................PG 17</p><p>2.5 A Atuação do Pesquisador no Campo Científico..........................................PG 18</p><p>2.6 A Reprodução e a Difusão do Conhecimento no Campo Científico da</p><p>Administração................................................................................................PG 19</p><p>2.7 Campo Científico Da Administração No Brasil.............................................PG 21</p><p>2.8 A administração na última década..............................................................PG 25</p><p>3. CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................PG 26</p><p>4. REFERÊNCIAS BIBIOGRAFICAS...................................................................PG 27</p><p>7</p><p>1. INTRODUÇÃO</p><p>Neste trabalho, a palavra “administração” é utilizada com o sentido de campo</p><p>científico do conhecimento, na perspectiva de Pierre Bourdieu (2002). Este autor</p><p>considera que o espaço de produção da ciência, o campo científico, é um campo</p><p>social como outro qualquer, cheio de relações de força, disputas e estratégias para</p><p>beneficiar interesses específicos dos participantes deste campo. Por assim dizer, a</p><p>administração é colocada como um campo de conhecimento com comunidade</p><p>científica e habitus próprios, com certo grau de autonomia e com programa de</p><p>investigação para cumprir. Esclarecemos também que o sentido concedido, neste</p><p>trabalho, ao termo “administração” pode ser encontrado na literatura norte-</p><p>americana para a expressão management e não administration, bem como o termo</p><p>“gestão” na literatura europeia. Os dicionários de língua portuguesa trazem as duas</p><p>palavras – administração e gestão – como sinônimas entre si. Mostram que, mesmo</p><p>possuindo estruturas diferentes, são traduzidas de forma semelhante, com</p><p>significado de ação (ato de gerir, gerência). A ideia de introduzir nas organizações</p><p>produtivas conhecimentos de planejamento, especialização, controle e execução</p><p>possibilitou o surgimento de um pensamento administrativo moderno, cujas origens</p><p>estão no desenvolvimento do sistema capitalista de produção, no processo de</p><p>industrialização e no movimento doutrinário do management (VIZEU, 2010).</p><p>Posto isso, o objetivo deste trabalho é analisar a trajetória da administração,</p><p>na condição de campo de conhecimento científico, refletindo sobre seus percursos e</p><p>percalços, principalmente sobre a problemática epistemológica de estarmos diante</p><p>de um campo que sequer tem claramente definido o seu objeto de estudo. Para</p><p>tanto, estruturamos o trabalho em três seções, além desta introdução: a primeira faz</p><p>uma análise histórica sobre o desenvolvimento teórico do campo, considerando o</p><p>aparecimento, na literatura, de três subcampos: Estudos Ortodoxos da</p><p>Administração (EOA), Estudos Organizacionais (EOs) e Estudos Críticos em</p><p>Administração (ECA); por fim, são</p><p>feitas algumas considerações finais sobre as</p><p>problemáticas destacas ao longo do texto, com a finalidade de contribuir para o</p><p>reposicionamento do campo da administração.</p><p>8</p><p>2. DESENVOLVIMENTO</p><p>2.1 Origem e Evolução da Administração:</p><p>A história da Administração iniciou-se num tempo muito remoto, mais</p><p>precisamente no ano 5.000 a .C, na Suméria, quando os antigos sumerianos</p><p>procuravam melhorar a maneira de resolver seus problemas práticos, exercitando</p><p>assim a arte de administrar.</p><p>Depois no Egito, Ptolomeu dimensionou um sistema econômico planejado</p><p>que não poderia ter-se operacionalizado sem uma administração pública sistemática</p><p>e organizada. Em seguida, na China de 500 a.C, Apontam-se, ainda, outras raízes</p><p>históricas. As instituições otomanas, pela forma como eram administrados seus</p><p>grandes feudos. Os prelados católicos, já na Idade Média, destacando-se como</p><p>administradores natos. A Alemanha e a Áustria, de 1550 a 1700, através do</p><p>aparecimento de um grupo de professores e administradores públicos chamados os</p><p>fiscalistas ou cameralistas. Os mercantilistas ou fisiocratas franceses e na evolução</p><p>histórica da administração, duas instituições se destacaram: a Igreja Católica</p><p>Romana e as Organizações Militares.</p><p>O fenômeno que provocou o aparecimento da empresa e da moderna</p><p>administração ocorreu no final do século XVIII e se estendeu ao longo do século</p><p>XIX, chegando ao limiar do século XX. Esse fenômeno, que trouxe rápidas e</p><p>profundas mudanças econômicas, sociais e políticas, chamou-se Revolução</p><p>Industrial.</p><p>Já no século XX, surge Frederick W. Taylor, engenheiro americano,</p><p>apresentando os princípios da Administração Cientifica e o estudo da Administração</p><p>como Ciência.</p><p>Conhecido como o precursor da TEORIA DA ADMINISTRAÇÃO CIENTÍFICA,</p><p>Taylor preconizava a prática da divisão do trabalho, enfatizando tempos e métodos a</p><p>fim de assegurar seus objetivos “de máxima produção a mínimo custo”, seguindo os</p><p>9</p><p>princípios da seleção científica do trabalhador, do tempo padrão, do trabalho em</p><p>conjunto, da supervisão e da ênfase na eficiência.</p><p>Nas considerações da Administração Científica de Taylor, a organização é</p><p>comparada com uma máquina, que segue um projeto pré-definido; o salário é</p><p>importante, mas não é fundamental para a satisfação dos funcionários; a</p><p>organização é vista de forma fechada, desvinculada de seu mercado; a qualificação</p><p>do funcionário passa a ser supérflua em consequência da divisão de tarefas que são</p><p>executadas de maneira repetitiva e monótona e finalmente, a administração</p><p>científica, faz uso da exploração dos funcionários em prol dos interesses particulares</p><p>das empresas.</p><p>2.2 A Administração Científica</p><p>Em 1911, Taylor publicou o livro considerado como a “bíblia” dos</p><p>organizadores do trabalho: Princípios da Administração Científica, que tornou-se um</p><p>best-seller no mundo inteiro.</p><p>Reconhece-se hoje que as propostas pioneiras de Taylor deflagaram uma</p><p>“febre” de racionalização, que prepararam o terreno para o advento do TQC (Total</p><p>Quality Control), ocorrido ao longo do pós-guerra. As propostas básicas de Taylor:</p><p>planejamento, padronização, especialização, controle e remuneração.</p><p>Trouxeram decorrências sociais e culturais da sua aplicação, pois</p><p>representaram a total alienação das equipes de trabalho e da solidariedade grupal,</p><p>fortes e vivazes no tempo da produção artesanal. Paralelamente aos estudos de</p><p>Taylor, Henri Fayol, que era francês, defendia princípios semelhantes na Europa,</p><p>baseado em sua experiência na alta administração. Enquanto os métodos de Taylor</p><p>eram estudados por executivos europeus, os seguidores da Administração Científica</p><p>só deixaram de ignorar a obra de Fayol quando a mesma foi publicada nos Estados</p><p>Unidos. O atraso na difusão generalizada das ideais de Fayol fez com que grandes</p><p>contribuintes do pensamento administrativo desconhecessem seus princípios. Fayol</p><p>relacionou 14 (quatorze) princípios básicos que podem ser estudados de forma</p><p>complementar aos de Taylor.</p><p>10</p><p>As 05 (cinco) funções precípuas da gerência administrativa como: planejar,</p><p>comandar, organizar, controlar e coordenar, o já conhecido e exaustivamente</p><p>estudado nas escolas de administração – PCOCC – são os fundamentos da Teoria</p><p>Clássica defendida por Fayol. Esta Teoria considera: a obsessão pelo comando, a</p><p>empresa como sistema fechado e a manipulação dos trabalhadores, que,</p><p>semelhante à Administração Científica, desenvolvia princípios que buscavam</p><p>explorar os trabalhadores.</p><p>A administração, na condição de campo científico, se expressa como um</p><p>saber interdisciplinar que ainda necessita de reconhecimento e legitimação da</p><p>comunidade científica. Sendo um campo de conhecimento até então em fase de</p><p>consolidação, constata-se um esforço, por parte da sua comunidade acadêmica,</p><p>para conceder-lhe status de ciência. Em função disso, verificam-se na literatura da</p><p>área três importantes abordagens teóricas, cuja produção científica vem contribuindo</p><p>para essa finalidade:</p><p>1. Os estudos ortodoxos da administração (EOA);</p><p>2. Os estudos organizacionais (EOs);</p><p>3. Os estudos críticos em administração (ECA).</p><p>De modo geral, podemos, então, considerar que o campo da administração,</p><p>hoje, é estruturado com base na produção teórica desses três subcampos de</p><p>conhecimento. Uma análise descritiva sobre as origens e evoluções desses</p><p>subcampos nos proporcionará elementos para compreendermos melhor os</p><p>percursos e os percalços da administração, como campo científico.</p><p>Na história da evolução da Administração não se pode esquecer a valiosa</p><p>contribuição de Elton George Mayo, o criador da Teoria das Relações Humanas,</p><p>desenvolvida a partir de 1940, nos Estados Unidos e mais recentemente, com novas</p><p>ideais, com o nome de Teoria do Comportamento Organizacional. Ela foi,</p><p>basicamente, o movimento de reação e de oposição à Teoria Clássica da</p><p>Administração, com ênfase centrada nas pessoas. Teve como origem: a</p><p>necessidade de humanizar e democratizar a administração, o desenvolvimento das</p><p>chamadas ciências humanas (psicologia e sociologia), as ideais da filosofia</p><p>pragmática de John Dewey e da Psicologia Dinâmica de Kurt Lewin e as conclusões</p><p>11</p><p>do Experimento de Hawthorne, já bastante estudado e discutido nas escolas de</p><p>administração. Em 1932, quando a experiência foi suspensa, estavam delineados os</p><p>princípios básicos da Escola de Relações Humanas, tais como: o nível de produção</p><p>como resultante da integração social, o comportamento social do empregado, a</p><p>formação de grupos informais, as relações interpessoais, a importância do conteúdo</p><p>do cargo e a ênfase nos aspectos emocionais.</p><p>Convém citar ainda, a Teoria de Sistemas desenvolvida a partir de 1970, que</p><p>passou a abordar a empresa como um sistema aberto em contínua interação com o</p><p>meio ambiente que o envolve e a Teoria da Contingência, desenvolvida no final da</p><p>década de 1970. Para essa teoria a empresa e sua administração sãs variáveis</p><p>dependentes do que ocorre no ambiente externo, isto é, a medida que o meio</p><p>ambiente muda, também ocorrem mudanças na empresa e na sua administração</p><p>como consequência.</p><p>Assim sendo, os princípios fundamentais das Teorias de Taylor, Fayol, Mayo</p><p>e Weber foram e serão sempre os pilares da evolução e do desenvolvimento da</p><p>ciência da Administração e que têm motivado e impulsionado os estudos, pesquisas,</p><p>trabalhos e obras dos seus seguidores até os nossos dias.</p><p>2.3 Origem e Evolução dos Estudos Ortodoxos da Administração (EOA):</p><p>Entende-se por estudos ortodoxos da administração toda produção científica</p><p>aplicada às organizações produtivas mercantis, concebida nos moldes da ciência</p><p>positivista, do método empirista, do liberalismo econômico, dos princípios de</p><p>engenharia, tendo por fim elevar a eficiência produtiva do capital e do trabalho.</p><p>Nessa esfera, há uma coletânea de teorias gerenciais conhecida na literatura</p><p>especializada por Teoria Geral da Administração</p><p>(TGA).</p><p>O surgimento da ortodoxia da administração teve seu marco com a</p><p>publicação dos Princípios da administração científica, com ele, propaga-se a crença</p><p>de que era possível, mediante princípios gerenciais, obter ganhos de produtividade e</p><p>lucratividade em qualquer organização. As ideias de organização do trabalho</p><p>contidas na obra do norte-americano Frederick Taylor percorreram o mundo. Vizeu</p><p>(2010, p. 789) relata que: “já no período entre as guerras mundiais, praticamente em</p><p>todos os tipos de organizações – econômicas e não econômicas – se observam a</p><p>12</p><p>aplicação dos princípios sintetizados por Taylor”. O fenômeno taylorismo se expande</p><p>por todos os países industrializados da Europa (KIPPING, 1997), pelo Japão</p><p>(SASAKI, 1992) e até pela Rússia comunista (BRAVERMAN, 1974).</p><p>Cronologia</p><p>Século XIX Revolução Industrial (Adam Smith)</p><p>1900-1930 Escola Clássica: Revolução Industrial (Adam Smith);</p><p>Administração Científica (Frederick Taylor); Teoria Geral da Administração (Henri</p><p>Fayol) e Teoria Burocrática das Organizações (Max Weber).</p><p>1940 Escola Comportamental: Movimento das Relações Humanas</p><p>(Abraham Maslow, Douglas McGregor); Estudos de Hawthorne (Elton Mayo) e</p><p>Primeiras Teorias de Motivação e Liderança</p><p>1940-1950 Escola Quantitativa: Teoria da Matemática (Patrick Blackett);</p><p>Pesquisa Operacional e Teoria dos Jogos (John Von Neumann, Oskar Morgenstern)</p><p>1960 Escola Pragmática: Teorias Neoclássicas (Harold Kootz, Cyril</p><p>O´Donnel) e Administração por Objetivo (Peter Drucker).</p><p>1960-1990 Escola Moderna: Abordagem Sistêmica; Abordagem</p><p>Contigencial, (Joan Woodward, Afred Chandler Jr., Igor Ansoff, M. Porter, H.</p><p>Mintzberg); Administração por Processos (William Edwards Deming) e Excelência</p><p>Administrativa (Robert Monks).</p><p>Século XXI</p><p>Perspectivas Contemporâneas: Teoria do Caos (Edward Lorenz); Teoria</p><p>da Agência (Kathleen Eisenhardt); Teoria dos Custos de Transação (Oliver</p><p>Williamson); Teoria da Dependência de Recursos (Jeffrey Pfeffer e Gerald Salancik)</p><p>É importante ressaltar que não é nosso propósito descrever e/ou analisar as</p><p>especificidades dessas teorias, mas apenas citá-las, de modo a proporcionar uma</p><p>visão de evolução do campo da administração em sua totalidade. Uma vez</p><p>esclarecida essa questão, buscaremos evidenciar os fundamentos gerais da ciência</p><p>da administração por meio das suas abordagens teóricas e metodológicas.</p><p>13</p><p>Para Vizeu (2010), três importantes fatos históricos explicam a origem do</p><p>pensamento ortodoxo da administração. Primeiro, o surgimento do sistema</p><p>capitalista de produção, inicialmente conduzido pelo capital mercantil, mediante</p><p>compra e venda de mercadorias, posteriormente pelo capital industrial e financeiro.</p><p>Nessa fase, o capital industrial se funde com o capital financeiro, criando, com isso,</p><p>novos loci de reprodução capitalista constituídos nas grandes empresas. É nesse</p><p>contexto econômico e social que a ciência da administração dá seus primeiros</p><p>passos em busca de um objeto de investigação científica.</p><p>A Revolução Industrial, liderada pela a Inglaterra do século XVIII, é vista por</p><p>Vizeu (2010) como o segundo fato histórico para explicar a origem do pensamento</p><p>ortodoxo da administração, uma vez que criou um ambiente propício ao surgimento</p><p>de novos negócios e novas organizações, a exemplo da fábrica. Com isso,</p><p>intensificam-se os problemas gerenciais – nível de produtividade, padronização,</p><p>controle de estoque, controle de qualidade – e, concomitantemente, aumenta a</p><p>necessidade de criação de métodos de mensuração adequados para determinar o</p><p>ponto ótimo de maximização da produção e da receita e de minimização dos custos.</p><p>É nesse cenário de industrialização do sistema econômico capitalista que</p><p>surgiram os primeiros problemas gerenciais da administração moderna. De início, as</p><p>questões foram analisadas dentro do campo da economia, de forma precisa, com o</p><p>pensamento neoclássico. Posteriormente, as questões de ordem operacional</p><p>passaram a ser explicadas pelo movimento da administração científica, porém, sob</p><p>os pressupostos do pensamento neoclássico – necessidades ilimitadas e escassez</p><p>de recursos. Esses pressupostos, de alguma forma, orientam até hoje a tomada de</p><p>decisão dos agentes administrativos (indivíduos, empresas e governos), uma vez</p><p>que praticamente todas as decisões administrativas de alocação de recursos são</p><p>tomadas com base na relação custo/benefício.</p><p>O terceiro fato histórico deu-se com o aparecimento do movimento</p><p>doutrinário do management, liderado por profissionais da área de engenharia. O</p><p>movimento nasce nos Estados Unidos da América com denominação de works</p><p>management, porém, expande-se para outros países da Europa, da Ásia e da</p><p>América Latina, com o propósito de desenvolver métodos de racionalização do</p><p>trabalho e da produção. Para Vizeu (2010), o movimento é marcado por três</p><p>14</p><p>diferentes etapas: etapa ad hoc da gestão, etapa de experimentação da gestão e</p><p>etapa da sistematização prática da gestão.</p><p>França Filho (2004), em análise aos fundamentos epistemológicos da</p><p>administração, classifica-o em três grandes subcampos do conhecimento: técnicas</p><p>gerenciais, áreas funcionais e teorias organizacionais. Vejamos sua interpretação</p><p>por França Filho (2004, p. 122-130):</p><p>• As técnicas gerenciais são metodologias de trabalho utilizadas no cotidiano</p><p>da gestão empresarial. [...] Porém, sempre com a pretensão de validade universal,</p><p>ou seja, transpostas para o âmbito de instituições públicas, governamentais e</p><p>sociais, como modelos a serem seguidos para “a boa eficiência” administrativa. [...]</p><p>Elaboradas sob a forma de modelos gerenciais, essas metodologias incorporam, em</p><p>geral, um conhecimento muito técnico sobre gestão, em mescla com algumas ideias</p><p>sobre temáticas ligadas ao campo das relações humanas, como motivação,</p><p>liderança ou comunicação. Como exemplos são citados: Organização Racional do</p><p>Trabalho (ORT) proposta por Taylor, Administração por Objetivo (APO) de Drucker,</p><p>nos anos de 1950, e, mais recentemente, nos anos de 1980 e 1990, as ondas da</p><p>qualidade total, reengenharia e dos sistemas ISO.</p><p>• As áreas funcionais comungam com as técnicas gerenciais o sentimento</p><p>pragmático das ideias desenvolvidas e a natureza prescritiva do campo. São</p><p>subáreas de especialização da prática administrativa: o marketing, as finanças, a</p><p>gestão da produção e a gestão de recursos humanos. [...] Sua origem remonta à</p><p>noção de divisão do trabalho proposta por Fayol, no início do século XX, como</p><p>princípio universal da administração.</p><p>• As teorias organizacionais, por sua vez, buscam explicar: o que é uma</p><p>organização? Quais dimensões a constituem? Quais fatores influenciam a dinâmica</p><p>das organizações? [...] Os dois pilares fundamentais de uma teoria das organizações</p><p>encontram-se, portanto, em duas orientações principais: os estudos ditos do</p><p>“comportamento organizacional” e a chamada sociologia das organizações. [...] A</p><p>primeira é herdeira da tradição da psicologia dominante nos EUA e privilegia o</p><p>tratamento de temas como motivação, liderança e tomada de decisão no universo</p><p>organizacional. A segunda é influenciada, sobretudo, por sociólogos americanos de</p><p>15</p><p>inspiração funcionalista, que desenvolvem estudos sobre a burocracia e os sistemas</p><p>sociais, na esteira da interpretação feita por Talcott Parsons edos trabalhos deixados</p><p>por Max Weber. [...] Por outro lado, desenvolve-se também uma série de outras</p><p>abordagens, que têm sido chamadas por alguns “estudos críticos” das organizações,</p><p>cuja preocupação fundamental é revelar algumas dimensões importantes da análise</p><p>organizacional não percebida pela perspectiva funcionalista.</p><p>A sistematização do campo da administração sugerida por de França Filho</p><p>(2004) coincide, em partes, com a nossa percepção de ciência da administração.</p><p>Nossa ressalva aplica-se na nomenclatura concedida ao subcampo técnicas</p><p>gerenciais, o qual classificamos como estudos ortodoxos</p><p>da administração, incluindo</p><p>as divisões das áreas funcionais idealizadas por Fayol, legítimo representante do</p><p>pensamento ortodoxo, como também os estudos críticos da administração, dentro</p><p>do subcampo dos estudos organizacionais.</p><p>Os estudos críticos em administração, a nosso ver, tem suas especificidades</p><p>epistemológicas e metodológicas, portanto, não devem ser considerados como</p><p>continuidade dos estudos organizacionais. Em função disso, entendemos que o</p><p>campo da administração é constituído por três perspectivas teóricas que aqui</p><p>denominamos de estudos ortodoxos, estudos organizacionais e estudos críticos em</p><p>administração. Além disso, discordamos de França Filho (2004), quando ele nos</p><p>permite compreender que o objeto científico da administração tende a ser as</p><p>organizações, mas, sem destacar a possibilidade de também ser a gestão. Essa</p><p>indefinição, ao nosso olhar, encontra-se na dificuldade do autor para delimitar</p><p>epistemologicamenteos dois campos: estudos administrativos e estudos</p><p>organizacionais.</p><p>Neste ponto, entendemos que o objeto científico da administração seja a</p><p>gestão das relações sociais de produção, distribuição e consumo, tal como defende</p><p>Santos (2004, p.37) e não a organização como aponta França Filho (2004). A</p><p>organização é o objeto científico dos Estudos Organizacionais, na condição de</p><p>disciplina autônoma, e não dos Estudos Administrativos. Porém, concordamos com</p><p>França Filho quando classifica o pensamento ortodoxo da administração como</p><p>pragmático, prescritivo e fortemente fundamentado no paradigma funcionalista, visão</p><p>16</p><p>que também é compartilhada por autores como Morgan (1979; 1999; 2005), Ramos</p><p>(1989), Chalat (2000), Aktouf (2001, 2004, 2005), entre outros.</p><p>Há, historicamente, um apego ao funcionalismo como fonte hegemônica da</p><p>ciência administrativa em geral, tanto no campo da ortodoxia, como também em</p><p>parte dos estudos organizacionais, mas, por outro lado, há também um foco de</p><p>resistência a essa tendência, que se amparam nos fundamentos do</p><p>interpretativismo, da teoria crítica e do pensamento pós-moderno. Nesse foco de</p><p>resistência estão parte dos estudos organizacionais e dos estudos críticos em</p><p>administração, com destaque os trabalhos de Chalat, Aktouf, Ramos, Fournier e</p><p>Grey (2000), Santos (2004).</p><p>Os estudos ortodoxos da administração são, para esses teóricos, uma</p><p>aplicação dos pressupostos da economia neoclássica na esfera das organizações</p><p>industriais. A ortodoxia tem por objetivo implantar uma ciência econômica</p><p>equivalente à ciência física, mediante a introdução da lei da oferta e da demanda e</p><p>do conceito de equilíbrio parcial de mercado. A orientação prática para isso é a</p><p>maximização dos ganhos e minimização das perdas, fortemente presente no método</p><p>de organização racional do trabalho (ORT) de Taylor e na administração geral de</p><p>Fayol, na administração por objetivo (APO) de Drucker e/ou na excelência</p><p>administrativa de Robert Monks. Santos declara (2004) que:</p><p>[...] a ciência administrativa nasce com o advento da Escola Neoclássica da</p><p>Economia, que surge com a crise do capitalismo do último quartel do século</p><p>XIX e início do século XX, através do pensamento e obra de autores como</p><p>William Petty, Leon Walras, Alfred Marshall, Artur Cecil Pigou, entre outros</p><p>que constituíram os fundamentos da microeconomia. Com as mudanças na</p><p>organização do capitalismo ocorridas ao longo do século XIX, com o</p><p>aparecimento de mercados imperfeitos, mediante estruturas oligopólicas e</p><p>monopólicas, a tradição clássica, mais voltada para o estudo da economia</p><p>política do desenvolvimento, praticamente dá lugar ao estudo do</p><p>comportamento das unidades de produção e consumo, representadas pelos</p><p>indivíduos, famílias e empresas. Então surge a economia pura baseada no</p><p>método dedutivo e do positivismo científico, abandonando-se, assim, toda e</p><p>qualquer subjetividade na análise dos aspectos econômicos, ou seja, de</p><p>qualquer juízo de valor ou conotação ética (SANTOS, 2004, p. 23, 24).</p><p>17</p><p>A forte predominância do pensamento neoclássico da economia no</p><p>nascedouro da ciência da administração explica o fato dos pioneiros pensarem a</p><p>administração estritamente em torno do ato de gerir empresas industriais, por meio</p><p>do planejamento racional, previsibilidade e controle, tendo como base os</p><p>fundamentos da ciência positivista, bastante em vigor na época. Nessa ocasião, o</p><p>objeto de investigação da ciência administrativa centrava-se nas análises dos</p><p>problemas gerenciais da organização do trabalho e da produção.</p><p>2.4 O Campo Científico</p><p>De acordo com Martin (2001) a ciência passou longo período ao largo do</p><p>campo dos trabalhos sociológicos. A partir dos trabalhos de Robert K. Merton, a</p><p>sociologia das ciências passou a se esforçar em responder a dois tipos de questões:</p><p>(1) os modos de funcionamento e de organização do espaço científico e (2) a</p><p>influência do contexto de produção sobre os conhecimentos científicos.</p><p>Assim, Merton (1979) busca examinar os costumes que circundam os</p><p>métodos da ciência e não os métodos em si. É o que este autor vai chamar de ethos</p><p>da ciência moderna que compreende quatro passos ou normas: o universalismo, o</p><p>comunismo, o desinteresse e o ceticismo organizado.</p><p>O universalismo: está ligado a critérios impessoais, internacionais e</p><p>virtualmente anônimos da ciência. O comunismo tem haver com o caráter</p><p>socialmente colaborativo da ciência, ou seja, com a obrigação moral do</p><p>compartilhamento da ciência. O desinteresse está relacionado à paixão do cientista</p><p>pelo saber, desprovidos de interesses privados. O ceticismo organizado, por fim, tem</p><p>haver com a “suspensão do julgamento, até que „os fatos estejam à mão‟, e o</p><p>exame imparcial das crenças, de acordo com critérios empíricos e lógicos”</p><p>(MERTON, 1979, p. 51).</p><p>Martin (2001) mostra que as descrições de comunidade científica</p><p>supracitadas têm traços que a aproximam do resto da sociedade: ela é desigual,</p><p>estratificada e apresenta casos de sexismo e racismo. Estas características geram</p><p>uma concentração de poderes que tendem a negligenciar as trocas com outros</p><p>pesquisadores.</p><p>18</p><p>Partindo para uma análise de um estudo sociológico das ciências Martin</p><p>(2001) traz as contribuições de autores como Comte, Durkheim, Marx, Khun, Barnes,</p><p>Bloor, Collins, Bath até chegar à ciência como prática, ou à antropologia das</p><p>ciências, para quem estudar a ciência é estudar os processos práticos que permitem</p><p>aos pesquisadores encontrar um resultado, de decidir qual a experiência é aceitável,</p><p>ou qual outro resultado deve ser rejeitado. Assim, são os pesquisadores e as</p><p>realidades que estudam os verdadeiros elementos constitutivos da ciência.</p><p>2.5 A Atuação do Pesquisador no Campo Científico</p><p>Dortier (2005) em artigo denominado Les profissionnels de l’intelligence:</p><p>portrait de groupe discute de forma crítica aquilo que se tem chamado de sociedade</p><p>do saber, especificamente quem são os “trabalhadores do saber” ou como são</p><p>denominados aqueles que têm como missão criar, difundir e vender os</p><p>conhecimentos.</p><p>Em sua crítica este autor deixa claro que o termo “trabalhadores do saber” é</p><p>impregnada de carga ideológica, pois na teoria são colocados como pertencentes a</p><p>uma nova maneira de trabalho muito liberal, onde autonomia, interatividade e</p><p>flexibilidade andam juntas. Porém, esta descrição é colocada como mito, na medida</p><p>em que a realidade indica, por exemplo, novas relações de trabalho com formas de</p><p>subordinação inéditas (ruptura do tempo de trabalho e trabalho entrelaçado, por</p><p>exemplo), além de uma autonomia que esconde um autocontrole permanente.</p><p>Outros que relacionam o pesquisador ao homem de negócios são Gingras et</p><p>al (2001) quando apresentam a ligação que vem sendo feita desde o século passado</p><p>entre pesquisa e aplicação, fazendo aparecer a figura do pesquisador</p><p>empreendedor.</p><p>Mas de fato, Qu’est-ce qu’un chercheur? (o que é um pesquisador?). Para</p><p>responder a esta pergunta que</p><p>intitula seu artigo, Dortier (2001) chama a atenção</p><p>para as facetas da atividade científica, a observação dos pesquisadores em seu</p><p>ambiente de trabalho. Com relatos de pesquisadores de áreas distintas o autor</p><p>mostra que a vida de pesquisador não se resume ao trabalho de campo, sendo</p><p>necessária a participação em colóquios, a realização de publicações, a busca por</p><p>financiamento para pesquisas, a preparação de viagens ao campo, a organização</p><p>19</p><p>dos aspectos técnicos do trabalho, a relação com os colegas de trabalho e com</p><p>outras pessoas, etc.</p><p>Leclerc (2005) destaca a importância desse relacionamento com as pessoas</p><p>e mais precisamente com os pares quando fala do intelectual contemporâneo – os</p><p>universitários - , na medida em que a universidade é o lugar de seu exercício. Nesse</p><p>sentido, o autor destaca que o intelectual isolado não existe, pois a notoriedade e a</p><p>visibilidade por ele almejada só se darão na medida em que este se comunicar com</p><p>seus colegas, na medida em que estiver enraizado no grupo de seus pares.</p><p>Louvel (2005) complementa Leclerc (2005) ao ressaltar que a atividade</p><p>científica consiste essencialmente em adquirir a credibilidade a qual é dada pelos</p><p>pares. Este autor destaca, no entanto, que não há uma homogeneidade entre os</p><p>intelectuais enquanto grupos: há uma hierarquização simbólica que será tanto mais</p><p>alta quanto mais alto o prestígio dos intelectuais. Este prestígio pode ser medido</p><p>pelo prestígio da instituição de origem; pela produção de uma obra reconhecida;</p><p>pela influência na edição e publicação; e por ser um diretor de laboratório de</p><p>pesquisa.</p><p>Esta busca exacerbada pelo prestígio – mais precisamente por meio da</p><p>produção científica, no caso brasileiro – é fortemente criticado por Evangelista</p><p>(2006) a qual reinventa a expressão “publicar ou morrer” sugerindo “publicar pero sin</p><p>morir”. Na seção seguinte, aborda-se as peculiaridade do campo científico da</p><p>Administração enfatizando a atuação dos pesquisadores deste campo.</p><p>2.6 A Reprodução e a Difusão do Conhecimento no Campo Científico da</p><p>Administração</p><p>Ao discutir a produção e difusão dos trabalhos dos pesquisadores bem como</p><p>o reconhecimento entre seus pares bem como a notoriedade pública Charle (1998)</p><p>afirma que, para tal, é necessário um jogo de estratégias que tem seus ganhadores</p><p>e perdedores.</p><p>O autor faz um retrospecto histórico daquilo que chama de “lugares de</p><p>formação” e das “revistas cultas” concluindo que a dissociação entre os lugares do</p><p>saber e de transmissão das inovações difundiu uma diferenciação social paralela</p><p>20</p><p>dos produtores de ideias e uma separação crescente entre esses dois circuitos</p><p>institucionais. Ou seja, à medida que se institucionalizam os lugares de formação, de</p><p>transmissão e de difusão de ideias, a concorrência entre grupos de intelectuais</p><p>transformou-se numa luta pelo poder e pela legitimidade, únicos meios de acesso a</p><p>essas instituições, sem as quais a produção de ideias fica um cemitério utópico.</p><p>Este fenômeno, continua Charle (1998), explica a emergência do poder,</p><p>desde o fim do século XIX, dos diretores de coleções, revistas críticas e detentores</p><p>de um poder universitário os chamados “homens duplos”. O autor sugere que se</p><p>façam alianças com eles, embora reconhecendo que pode não ser possível, pois</p><p>suas ideias se chocam ou aqueles criam suas próprias conexões e acumulam um</p><p>capital simbólico ou material, com sua própria estrutura de edição.</p><p>Para Dortier (1998) somente o interesse e a qualidade de uma pesquisa bem</p><p>como o renome do autor permitem explicar que o trabalho alcance uma difusão mais</p><p>importante próximo a um público maior. Citando Desjeux o autor afirma que a</p><p>produção de um livro bem como sua aceitação pelos leitores são dependentes de</p><p>um jogo social já estruturado, dentro de cinco grandes “mercados” ou “campos” de</p><p>propagação: o científico, o do debate intelectual, o da vulgarização, o do ensino e</p><p>por fim o campo das “aplicações e utilizações” das ciências humanas.</p><p>Ao propor um quadro conceitual para o desenvolvimento de uma</p><p>epistemologia da administração Audet (1986) inicia elaborando uma conceituação de</p><p>campo. Para ele, campo é o lugar das relações entre atores humanos que</p><p>pretendem produzir conhecimentos definidos ou que são reconhecidos como tal, e</p><p>que estão em concorrência para obter o controle da definição das condições de</p><p>produção e validação desses conhecimentos. Essas relações engendram a dinâmica</p><p>do seu conteúdo (corpus), na medida em que produzir conhecimentos constitui a</p><p>principal forma de ação pela qual os produtores tentam controlar as regras de</p><p>produção e de validade do conhecimento.</p><p>Assim, Audet (1986) identifica dois grupos no campo dos conhecimentos da</p><p>administração: o dos praticantes (participação direta nas ações administrativas) e o</p><p>dos não-praticantes (concentração das tarefas na produção de conhecimento e não</p><p>participação direta nas ações administrativas, como os universitários). Este autor</p><p>21</p><p>finaliza seu quadro conceitual abordando as duas possibilidades de estudos</p><p>concretos no campo da administração: os temáticos (tratam da racionalidade</p><p>instrumental, pragmático, a-histórico) e os morfológicos (tratam de uma fração do</p><p>campo, em lugares específicos, durante um período dado).</p><p>Em seu artigo Contribuições para uma teoria organizacional brasileira, Serva</p><p>(1990) faz uma crítica ao suporte teórico fornecido pelas escolas em face do campo</p><p>de atuação do administrador no Brasil caracterizado como: voltado ao sistema</p><p>oligopolizado de produção, segundo a concepção de Guerreiro Ramos; tecnicista, de</p><p>cunho normativo e baseado em prescrições antigas para problemas atuais; e voltado</p><p>à reprodução ideológica das experiências já consolidadas no contexto americano</p><p>(como destaca também Bertero, 2006). Para tanto, Serva (1990) sugere que o</p><p>fenômeno organizacional brasileiro seja reconstituído historicamente e analisado à</p><p>luz das especificidades culturais brasileiras. A crítica de Serva se faz ainda mais</p><p>contundente em outro trabalho A importação de metodologias administrativas no</p><p>Brasil – uma análise semiológica, publicado em 1992 na Revista de Administração</p><p>Pública.</p><p>2.7 Campo Científico Da Administração No Brasil</p><p>Em um trabalho sobre o processo do conhecimento na administração, Audet</p><p>e Malouin (1986) conceituam campo como o lugar das relações entre atores</p><p>humanos que pretendem produzir conhecimentos definidos ou que são reconhecidos</p><p>como tal, e que estão em concorrência para obter o controle da definição das</p><p>condições de produção e validação desses conhecimentos. Essas relações</p><p>engendram a dinâmica do seu conteúdo (corpus), na medida em que produzir</p><p>conhecimentos constitui a principal forma de ação pela qual os produtores tentam</p><p>controlar as regras de produção e de validade do conhecimento (AUDET; MALOUIN,</p><p>1986).</p><p>Dentre esses trabalhos, o de Bertero, Caldas e Jr. (1999) pode ser</p><p>destacado por deixar emergir, ainda que não tenha sido este o objetivo do trabalho,</p><p>alguns dos agentes que compõem o campo científico da administração universitária</p><p>no Brasil. Neste trabalho, os autores debatem especificamente sobre a produção</p><p>científica em administração no Brasil até o final da década de 1990, afirmando que</p><p>22</p><p>embora recente enquanto campo científico, a pesquisa em administração vinha</p><p>crescendo, ainda que carente de qualidade. Dentre os principais aspectos de que</p><p>decorre a falta de qualidade apontada pelos autores estão: falhas epistemológicas</p><p>dos trabalhos, deficiências metodológicas, falta de originalidade e prática, podendo</p><p>ser caracterizada como mimetismo mal informado. Tais falhas foram verificadas;</p><p>A partir da análise da produção brasileira, como veiculada em revistas</p><p>acadêmicas, teses de mestrado e doutorado e anais do Encontro Anual da</p><p>Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Administração</p><p>(ENANPAD), onde se registra parte substancial da produção</p><p>científica de</p><p>docentes e discentes de cursos de pós-graduação stricto sensu (BERTERO,</p><p>CALDAS, JR., 1999, p. 150).</p><p>Esses autores partem então para uma análise das possíveis causas desta</p><p>falta de qualidade da produção científica. Iniciam situando a administração na</p><p>expansão acelerada dos programas de pós-graduação no Brasil e o papel da</p><p>Coordenação do Aperfeiçoamento do Pessoal de Ensino Superior (CAPES) como</p><p>balizadora da qualidade em detrimento da quantidade. Como resultado mostram que</p><p>a administração como campo científico esteve presente desde o início da pós-</p><p>graduação no país no final da década de 1960 e início da década seguinte e que</p><p>rapidamente se expandiu nos anos posteriores. Além disso, apontam que na última</p><p>avaliação realizada pela CAPES naquele momento, considerando a produção</p><p>científica, por meio do grau de inserção que conseguem junto à comunidade</p><p>acadêmica mundial, medida através de publicações em periódicos acadêmicos de</p><p>nível internacional e apresentação de trabalhos e resultados em congressos e</p><p>encontros internacionais de primeiro nível, nenhum programa na área de</p><p>administração atingiu o conceito máximo (BERTERO, CALDAS, JR., 1999). No</p><p>restante do trabalho os autores discutem os critérios até então utilizados para avaliar</p><p>as produções científicas em periódicos e apresentam uma proposta de modelo de</p><p>avaliação da produção brasileira e por fim tecem considerações finais.</p><p>Assim, ao apresentarem um panorama sobre a produção científica em</p><p>administração no Brasil, acabam vindo à tona instituições como a ANPAD, a CAPES</p><p>e os programas de pós-graduação stricto sensu em administração, e</p><p>consequentemente as próprias instituições de ensino da qual fazem parte, como</p><p>23</p><p>agentes fundamentais para que o campo científico da administração se efetivasse</p><p>no Brasil.</p><p>O principal objetivo de até o presente momento ter-se discutido o campo</p><p>científico da administração no Brasil foi justamente o de ter um caminho para</p><p>responder à questão suscitada no título desta seção. Entende-se que a produção de</p><p>conhecimento em administração universitária pode ser conhecida a partir do</p><p>entendimento de quem são aqueles que a produzem. E em existindo os produtores,</p><p>e foram constatados indicativos de que eles existem ora, há um curso de pós-</p><p>graduação em administração universitária e produção sobre o tema então se</p><p>defende a ideia de que tais produtores podem constituir um campo científico.</p><p>Defende-se assim, que um ponto de partida para que este campo científico</p><p>seja desvendado pode ser estabelecido a partir do entendimento deste como um</p><p>subcampo da administração, que enquanto ciência tem entre seus principais objetos</p><p>de estudo as organizações, que contemplam, portanto, as organizações de</p><p>educação superior. Nesse sentido, parte-se da ideia de que inicialmente os agentes</p><p>desse campo são comuns: a ANPAD enquanto um dos principais locais de produção</p><p>de conhecimentos do campo (e este é um pressuposto, não necessariamente uma</p><p>conclusão), a CAPES como agente regulador avaliador e os cursos de pós-</p><p>graduação, programas e instituições de ensino correlatos como locais onde os</p><p>agentes-pesquisadores atuam e produzem o conhecimento na área.</p><p>É importante conhecer a história da Administração no Brasil e os</p><p>precursores da luta de torná-la reconhecida. A história da Administração iniciou-se</p><p>em 1931, com a fundação do Instituto da Organização Racional do Trabalho –</p><p>IDORT, que contava com o Professor Roberto Mange, suíço naturalizado, na sua</p><p>direção técnica.</p><p>Em meados do mesmo ano o Departamento Administrativo do Serviço</p><p>Público, até hoje conhecido pela sigla DASP, foi fundado pelo Dr. Luiz Simões</p><p>Lopes. Por este órgão foi criada a Escola de Serviço Público que enviava técnicos</p><p>de administração aos Estados Unidos para a realização de cursos de</p><p>aperfeiçoamento, com defesa de tese. Os conhecimentos e as ações desenvolvidas</p><p>por estes especialistas, no seu retorno ao país, fez deles pioneiros da Administração</p><p>24</p><p>no Brasil, como profissão. Novamente sob orientação do Dr. Luiz Simões Lopes, em</p><p>1944, foi criada a Fundação Getúlio Vargas, mantenedora da EASP – Escola de</p><p>Administração de Empresas de São Paulo.</p><p>Junto com o DASP, foi criado um cargo exclusivo de Técnico em</p><p>Administração (hoje Administrador). Sentia-se então a necessidade de</p><p>institucionalização urgente da profissão do Administrador, como forma de preservar</p><p>o mercado de trabalho para os que já atuavam na Administração Pública e para os</p><p>egressos daquelas escolas, bem como, defender a sociedade de pessoas</p><p>inabilitadas e na maioria despreparadas.</p><p>No entanto, institucionalizar uma profissão não é tarefa fácil e a estratégia</p><p>adotada deveria consistir na fundação da ABTA – Associação Brasileira de Técnicos</p><p>de Administração, em 19 de Novembro de 1960, que tinha como símbolo o</p><p>hexágono.</p><p>A entidade recém-criada começou a desenvolver esforços com vistas a</p><p>preparação de um projeto de lei que institucionalizasse a administração. É de inteira</p><p>justiça salientar aqui a inestimável colaboração do Professor Alberto Guerreiro</p><p>Ramos, Técnico de Administração do DASP, na época Deputado Federal, para a</p><p>aprovação do projeto. Guerreiro Ramos foi decisivamente apoiado pela ABTA na</p><p>luta pela sanção presidencial, já que a reação de poderosas forças contrárias</p><p>pugnava pelo veto.</p><p>Afinal, com o importante apoio do Diretor Geral do DASP, a Lei nº 4769, foi</p><p>sancionada em 09 de Setembro de 1965, pelo então Presidente da República,</p><p>Humberto de Alencar Castelo Branco. Para implantação da citada Lei, o Ministério</p><p>do Trabalho nomeou uma Junta Federal presidida por Ibany da Cunha Ribeir, aliada</p><p>à ABTA, presidida por A. Nogueira de Faria, que forneceu sua estrutura e seus</p><p>recursos materiais e humanos, implantando assim os Conselhos Regionais de</p><p>Minas Gerais, Ceará, Pernambuco e Bahia.</p><p>Entre os que exerceram o cargo de Técnico de Administração no DASP,</p><p>além dos acima mencionados, podemos citar Celso Furtado e Belmiro Siqueira. Este</p><p>último ocupou vários cargos naquela repartição pública, dentre eles o de Diretor</p><p>Geral, em 1967 e 1968.</p><p>25</p><p>2.8 A administração na última década</p><p>Inicia-se, assim, um novo tempo de desenvolvimento e aperfeiçoamento da</p><p>Administração, como Ciência e como Profissão. A tecnologia moderna aliada aos</p><p>cientistas, pesquisadores e professores, com seus mecanismos, estudos e trabalhos</p><p>vêm provando que Administrar é necessário, proveitoso e imprescindível em</p><p>qualquer segmento, contexto ou situação na vida das pessoas, das empresas e das</p><p>entidades.</p><p>Neste ano de 2005 a profissão de Administrador completa, oficialmente, 40</p><p>anos de sua criação no Brasil e no decorrer dessas quatro décadas é inegável o</p><p>crescimento e o aperfeiçoamento das pessoas e instituições que estudam, ensinam,</p><p>trabalham, dirigem ou fiscalizam a profissão do Administrador, sejam eles pessoas</p><p>físicas ou jurídicas.</p><p>26</p><p>3. CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Com este trabalho buscamos apresentar uma discussão em torno da</p><p>Administração Como Campo de Conhecimento. Em termos mais específicos como</p><p>este campo está organizado e a influência do contexto na atuação dos seus</p><p>pesquisadores. Discutiram-se alguns conceitos e abordagens sobre o campo</p><p>científico em geral e o campo científico da Administração. A partir dessa discussão</p><p>algumas reflexões se fazem pertinentes. O conhecimento científico, em sua versão</p><p>contemporânea, fundamenta-se em princípios que prezam pela totalidade universal</p><p>dos saberes, independente das suas categorias e especializações. O fazer ciência</p><p>significa estabelecer diálogos que vão da filosofia à estética, do local ao global e do</p><p>micro ao macro, além de considerar que o processo de investigação não se restringe</p><p>apenas a observar, descrever e explicar é preciso propor e orientar. Nessa</p><p>perspectiva, detectou-se que a administração para se consolidar como campo</p><p>científico</p><p>necessita libertar-se de algumas amarras do pensamento epistemológico</p><p>moderno.</p><p>Em função disso, verifica-se a predominância na produção científica da</p><p>administração de um pensamento positivista/funcionalista, limitando-se a analisar</p><p>apenas as organizações modernas, desconsiderando, portanto, o universo das</p><p>organizações não mercantis e pós-modernas. É preciso que tenhamos mais clareza</p><p>sobre os propósitos epistemológicos desse campo de conhecimento, considerando</p><p>que uma ciência que sequer apresenta com precisão seu objeto de estudo está,</p><p>grosso modo, a navegar sem direção. Ou uma Teoria Geral da Administração (TGA)</p><p>que só contempla o pensamento ortodoxo e desconsidera outras possibilidades</p><p>teóricas</p><p>Enfim, torna-se evidente que os estudos no campo da administração têm de</p><p>contemplar as diversas formas de gestão das relações sociais, independente do</p><p>sistema econômico de produção ou do seu tempo histórico. Só assim acreditamos</p><p>que seja possível desenvolver um conhecimento que integra e engloba e não que</p><p>exclui e fragmenta, evitando, com isso, uma visão desatualizada, doutrinária e</p><p>acrítica da administração.</p><p>27</p><p>4. REFERÊNCIAS BIBLOGRÁFICAS</p><p>AUDET, M. e MALOUIN, J.-L. (orgs.) La production des connaissances</p><p>scientifiques de l’administration. Quebec : Les Presses de l‟Université Laval,</p><p>1986.</p><p>BERTERO, Carlos Osmar. Prefácio. In: FACHIN, Roberto Costa. Construindo uma</p><p>Associação Científica: trinta anos da ANPAD – memórias, registros, desafios.</p><p>Porto Alegre: [s.n], 2006. (p. 11-21).</p><p>BOURDIEU, P. Os usos sociais da ciência: por uma sociologia clínica do campo</p><p>científico. São Paulo: Editora UNESP. 2002.</p><p>CHARLE, C. Produire et diffuser : les arcanes de la reconnaissance. Sciences</p><p>Humaines, hors-série nº 21, juin/juillet 1998.</p><p>DORTIER, Jean-François. Les profissionnels de l‟intelligence: portrait de groupe.</p><p>Sciences Humaines. nº. 157. Fev. 2005. (p.28-33).</p><p>EVANGELISTA, Olinda. Publicar ou morrer. In: BIANCHETTI, Lucídio; MACHADO,</p><p>Ana Maria Neto (Orgs.). A bússola do escrever. 2. ed. São Paulo/Florianópolis:</p><p>Cortez/UFSC, 2006, p. 297-300.</p><p>FRANÇA FILHO, G. C. Para um olhar epistemológico da administração:</p><p>problematizando o seu objeto. In: SANTOS, R. S. A Administração Política Como</p><p>Campo do Conhecimento. São Paulo- Salvador: Mandacaru-Hucitec, pp. 119-143.</p><p>2004.</p><p>GINGRAS, Yves. KEATING, Peter. LIMOGES, Camille. Du savant au chercheur</p><p>entrepreneur. Histoire philosophie des sciences. nº. 31. Dez. 2000, Jan./Fev.</p><p>2001. (p.32-35).</p><p>LECLERC, Gérard. Qui sont lês intellectuels? Le cãs dês universitaires. Sciences</p><p>Humaines. nº. 157. Fev. 2005. (p. 34-37).</p><p>28</p><p>LOUVEL, Séverine. Le monde des chercheurs. Sciences Humaines. nº. 157. Fev.</p><p>2005. (p.38-41).</p><p>MARTIN, Olivier. La construction sociale des sciences. In: Sciences Humaines –</p><p>hors-série, nº31, dez./jan-fev, 2001.</p><p>MERTON, R.K. Os imperativos institucionais da ciência. In: DEUS, Jorge Dias de</p><p>(org.). A crítica da ciência: sociologia e ideologia da ciência. 2.ed. Rio de</p><p>Janeiro: Zahar, 1979.</p><p>MORGAN, G. Paradigmas, Metáforas e Resolução de Quebra-Cabeça na Teoria das</p><p>Organizações. Revista de Administração de Empresas. V45, n1, jan-mar, pp. 58-</p><p>69. 2005.</p><p>SANTOS, R. S.A administração política como campo do conhecimento. São</p><p>Paulo-Salvador: Mandacaru-Hucitec. 2004.</p><p>SERVA, Maurício. A importação de metodologias administrativas no Brasil – uma</p><p>análise semiológica. Revista de Administração Pública, 26(4):128-44, out/dez</p><p>1992.</p><p>Texto extraído do original da autora: Adm. Lucinda Pimental Gomes/ Texto</p><p>publicado no Informativo Mensal do CRA/CE, CRA em Ação, Ano 1 Nº</p><p>07Agosto/Setembro de 2005</p><p>VIZEU, F. (Re)contando a Velha História: Reflexões sobre a Gênese do Mangement.</p><p>Revista de Administração Contemporânea. Curitiba: v14, n.5, Set/Out, pp.780-</p><p>797.2010.</p><p>http://www.sobreadministracao.com/historia-e-evolucao-da-administracao/> Acesso</p><p>em 15 de abril de 2018.</p>