Logo Passei Direto
Buscar

Filosofia tema 1

Material sobre o pensamento político da Grécia Clássica: analisa a democracia ateniense e as contribuições de Sócrates, Platão e Aristóteles sobre governantes, governados e ética pública. Apresenta objetivos por módulos, referências preparatórias e noções como polis/tékhnē e zoon politikon.

User badge image
B cmg

em

Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

<p>DESCRIÇÃO</p><p>O pensamento dos principais filósofos da Grécia Clássica acerca da melhor forma de se</p><p>organizar em sociedade, a partir do nascimento da democracia, em Atenas.</p><p>PROPÓSITO</p><p>Compreender, no modelo ateniense de democracia, a partir da contribuição dos filósofos</p><p>clássicos – Sócrates, Platão e Aristóteles – e seus contemporâneos, o papel dos governantes e</p><p>governados naquela sociedade.</p><p>PREPARAÇÃO</p><p>Antes de iniciar o estudo deste tema, é importante ter à mão um bom dicionário de teoria</p><p>política ou mesmo de filosofia. Sugerimos o Dicionário de Filosofia, de Abbagnano, e o</p><p>Dicionário de Política, de Bobbio, Matteucci e Pasquino.</p><p>OBJETIVOS</p><p>MÓDULO 1</p><p>Identificar a originalidade da democracia ateniense e sua influência no florescimento do</p><p>pensamento filosófico</p><p>MÓDULO 2</p><p>Descrever o investimento político das obras platônicas</p><p>MÓDULO 3</p><p>Reconhecer a preocupação de Aristóteles quanto à associação entre a ética e a melhor forma</p><p>de organização social em prol do alcance do bem viver</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Por volta dos séculos V, IV A.E.C., houve, na cidade-Estado de Atenas, na Grécia, um</p><p>fenômeno que entrou para a história da civilização ocidental: a criação da democracia. Não era</p><p>exatamente como este sistema que hoje nós chamamos pelo mesmo nome. Se por um lado</p><p>excluía parcela considerável da população das decisões políticas, por outro apresentava</p><p>aspectos até mais ousados do que a que vivemos atualmente (como a participação do cidadão</p><p>comum nas decisões estatais).</p><p>javascript:void(0)</p><p>Não deve ser coincidência, por exemplo, que três dos maiores nomes da filosofia de todos os</p><p>tempos – Sócrates, Platão e Aristóteles – tenham vivido exatamente nesse período e nesse</p><p>lugar, sem contar no florescimento do teatro e de outras escolas do pensamento, como a</p><p>sofística. Em comum, todos os três grandes filósofos pensavam em como a ética é</p><p>indispensável no trato da coisa pública, que os governantes devem ser os mais bem</p><p>qualificados para lidar com a comunidade, e que as leis podem até não ser perfeitas, pois não</p><p>conseguem lidar com as imprevisibilidades da vida, mas são propostas razoáveis para se criar</p><p>estabilidade nas sociedades. Isso nos leva a pensar que, mesmo com a enorme distância do</p><p>tempo, ainda temos muito a aprender com os antigos gregos.</p><p>A.E.C.</p><p>Ao se referir a datas históricas, muitas vezes, usamos as abreviações a.C. e A.D. (ou</p><p>d.C.) junto com o ano (por exemplo, 2012 A.D.). A.C. se refere a “Antes de Cristo” e A.D.</p><p>representa Anno Domini , que é “Ano do Senhor” em latim (equivalente a d.C. = “Depois</p><p>de Cristo”). Esse sistema foi concebido por um monge no ano 525. Um sistema mais</p><p>recente usa A.E.C., sigla para “Antes da Era Comum”, e E.C. para “Era Comum”. Esse</p><p>novo sistema é amplamente utilizado nos dias atuais como uma forma de expressar os</p><p>mesmos períodos a.C. e A.D., porém sem a referência cristã. De acordo com esse</p><p>sistema, contamos o tempo para trás Antes da Era Comum (A.E.C.) e progressivamente</p><p>na Era Comum (E.C.). Fonte: Khan Academy.</p><p>PLATÃO</p><p>Do grego platos , que significa “largura”. Esse era o apelido do filósofo de ombros largos</p><p>e porte atlético. Seu nome verdadeiro era Arístocles.</p><p>javascript:void(0)</p><p>MÓDULO 1</p><p> Identificar a originalidade da democracia ateniense e sua influência no florescimento</p><p>do pensamento filosófico</p><p>NOÇÃO DE POLÍTICA NA GRÉCIA</p><p>CLÁSSICA</p><p>Na crise econômica mundial, iniciada em 2008, a Grécia foi pressionada a pagar dívidas</p><p>adquiridas com os bancos da União Europeia. Nessa época, surgiu na internet a piada: e se</p><p>tivéssemos que pagar royalties sobre todas as palavras que importamos dos gregos – e,</p><p>consequentemente, os conceitos daí derivados? A conclusão do raciocínio era óbvia: o mundo</p><p>ocidental é muito mais devedor dos gregos que os poucos bilhões de euros que constavam</p><p>naquele deficit . Só que o valor não é cobrado na mesma moeda!</p><p>Se quisermos comprovar isso, basta começar por uma noção geral e abstrata que perpassa</p><p>todos os lugares como “política” (a junção de polis com tékhnē ). O segundo termo (tékhnē ),</p><p>“o ato de fazer ou cunhar algo”, é a origem, com algumas variações de interpretação, da</p><p>técnica como nós a conhecemos atualmente. Já o primeiro (polis ) era associado às</p><p>independentes cidades-Estados localizadas próximas à península do Peloponeso, banhadas</p><p>pelo mar Mediterrâneo, cujos habitantes falavam variações do grego antigo. Mas não apenas</p><p>isso.</p><p>Fonte: Imagem adaptada de Shutterstock.com</p><p> Mapa da Grécia Antiga e de suas regiões.</p><p>O termo também caracterizava a própria população, fazendo com que um grego dessa época</p><p>se pensasse, primeiramente, como um “animal político”, ou zoon politikon , como escreveu</p><p>Aristóteles (384 A.E.C.-322 A.E.C.), antes de ser um indivíduo. Aliás, a própria noção de</p><p>“indivíduo”, como a conhecemos – de alguém isolado do seu entorno, da sua comunidade,</p><p>vivendo uma vida “privada” –, deveria soar bastante estranha para um grego da época de</p><p>Sócrates (469 A.E.C.-399 A.E.C.) e Platão (428/427 A.E.C.-348/347 A.E.C.).</p><p>Para esses homens comunitários, todas as ações eram políticas, “públicas”, por assim dizer.</p><p>Não haveria, portanto, uma divisão tão clara entre a política, como a conhecemos hoje, e a</p><p>ética. Por isso, quando Platão, no diálogo Górgias , coloca Sócrates, seu mestre e</p><p>protagonista da maioria de suas obras, como o verdadeiro político, apesar de sua aversão às</p><p>práticas mais comumente associadas na atualidade com o fazer político – como não participar</p><p>de organizações ou associações, por exemplo –, tal afirmação não parecia um absurdo</p><p>completo para seus conterrâneos.</p><p>Mesmo que não fizesse parte das assembleias, Sócrates poderia ser visto ainda como um</p><p>bom, belo e verdadeiro exemplo de político?</p><p>ASSEMBLEIAS</p><p>A palavra “assembleia” tem origem no termo grego ekklesia , que também deu origem à</p><p>palavra “igreja”. As ekklesiai eram ocasiões em que os cidadãos atenienses se reuniam</p><p>para decidir sobre os assuntos da cidade-Estado – o que se considerava a ação política</p><p>por excelência (aqui no sentido mais restrito do vocábulo) para os contemporâneos de</p><p>Sócrates.</p><p>VEJAMOS!</p><p>CONDIÇÕES HISTÓRICAS</p><p>javascript:void(0)</p><p>Fonte: Shutterstock.com</p><p> Parthenon, na acrópole da cidade de Atenas, na Grécia.</p><p>Para explicar a importância de um Sócrates político, devemos voltar um pouco no tempo e</p><p>mostrar a excepcionalidade do lugar e do tempo em que ele viveu. Por volta do século V a.C.,</p><p>ou talvez no século seguinte – ninguém sabe ao certo a data de nascimento –, aconteceu, na</p><p>região do Peloponeso, provavelmente um fenômeno único na história: os habitantes de</p><p>determinada cidade-Estado, chamada de Atenas, decidiram que a melhor maneira de se</p><p>organizar como sociedade era distribuir os poderes de decisão sobre as questões comunitárias</p><p>por todos os cidadãos. Eles chamaram essa forma de governo de “democracia” (dêmos =</p><p>povo + kratía = poder), e criaram mais uma palavra-conceito que influenciaria todo o mundo</p><p>ao longo dos séculos e milênios.</p><p>Fonte: Kayihan Bolukbasi/Shutterstock.com</p><p> A estátua de Heródoto em sua cidade natal de Halicarnasso, a moderna Bodrum, na</p><p>Turquia.</p><p>Heródoto (485 A.E.C.-425 A.E.C.) sugere que houve, sim, um criador da democracia,</p><p>conhecido como o pai da História, por ser seu “inventor”, isto é, aquele que tentou, pela</p><p>primeira vez, escrever fatos históricos de maneira mais próxima de como ocorreram – apesar</p><p>de todas as liberdades que tomou. Heródoto credita essa façanha a Clístenes (565 A.E.C.-492</p><p>A.E.C.), membro de uma proeminente família da região.</p><p>Mas uma filha tão complexa e diversa assim não tem apenas um pai.</p><p>Outros relatos mostram como responsáveis pela criação da democracia os seguintes nomes:</p><p>Fonte: Sailko/Wikimedia commons/CC BY-SA 3.0</p><p>Sólon, legislador do início do século VI A.E.C.</p><p>Fonte: Metropolitan Museum of Art/Wikimedia commons/CC0</p><p>Efialtes, líder ateniense que supervisionou as reformas que visavam reduzir o poder do</p><p>Areópago, bastião do conservadorismo na Atenas pré-democrática.</p><p>Fonte: Shutterstock.com</p><p>Teseu,</p><p>entender as</p><p>particularidades de cada sociedade para que se encontre as respostas mais adequadas aos</p><p>problemas daquele lugar específico. Aqui, aparentemente, a crítica é direcionada a Platão, que</p><p>costumava olhar para cima e criar cidades imaginárias, e não enxergava os problemas à sua</p><p>frente.</p><p>Essa vontade de se ater à realidade justificava os estudos extensivos sobre as constituições</p><p>existentes. Para Aristóteles, mesmo um mau governo ensina algo – nem que seja o que não se</p><p>deve fazer. Para ele, o ponto que aparece tanto na Ética a Nicômaco quanto em A política é</p><p>que não podemos ser passivos ou teóricos.</p><p>Qualquer pensamento ou razão deve ser encarado como, na pior das hipóteses, etapas para a</p><p>prática, o planejamento para se ir às ruas. Elas miram a ação e não apenas o entendimento.</p><p>Deve-se fazer, agir, não esperar “cair do céu” ou aguardar que um ou outro político faça por</p><p>você.</p><p>No fim de Ética a Nicômaco , quando volta a falar sobre qual seria, afinal, a natureza da</p><p>felicidade, Aristóteles reforça que a eudaimonia não pode ser uma disposição, ou seja, não é</p><p>algo que estará conosco independentemente do que fizermos. Ele continua: “[...] se o fosse,</p><p>poderia pertencer a quem passasse a vida inteira dormindo e vivesse como um vegetal”</p><p>(ARISTÓTELES, 2017).</p><p>De volta à obra A política , é perceptível que o estagirita nos mostra o quanto não</p><p>conseguimos não ser políticos. Para fazermos bem nossa natureza política, devemos</p><p>observar, analisar e avaliar as possibilidades políticas que se nos apresentam, a fim de influir e</p><p>transformar a organização política que nos submete a algo que verdadeiramente tem como fim</p><p>o bem de todos: todos. Uma verdadeira democracia, enfim!</p><p>Chegou a hora de aprofundar um pouco mais os conceitos de Política, Ética e Felicidade no</p><p>pensamento aristotélico.</p><p>VERIFICANDO O APRENDIZADO</p><p>1. DIFERENTEMENTE DOS DIAS ATUAIS, ARISTÓTELES, COMO OS</p><p>GREGOS DE SUA ÉPOCA, ACREDITAVA EM UM ENTRELAÇAMENTO</p><p>ENTRE ÉTICA E POLÍTICA. ASSINALE A ALTERNATIVA A SEGUIR QUE</p><p>MOSTRA AS RAZÕES PELAS QUAIS AS DUAS NOÇÕES DEVERIAM</p><p>ESTAR ENTRELAÇADAS.</p><p>A) A felicidade só é atingida pelos sentimentos mais imaturos ou com prazeres momentâneos.</p><p>Logo, a relação com a comunidade é necessária.</p><p>B) A cidade onde vivemos é a única responsável por satisfazer nossos desejos.</p><p>C) Como somos animais gregários, o bem viver tem sempre relação com a forma de organizar</p><p>as pessoas.</p><p>D) A política, isto é, a necessidade de se filiar a organizações e partidos, é como conseguimos</p><p>ser verdadeiramente felizes.</p><p>E) Somos seres individualistas, egoístas, pois só pensamos em nós mesmos e fazemos</p><p>concessões para viver em sociedade.</p><p>2. EM SEU LIVRO A POLÍTICA , ARISTÓTELES FAZ UM ESTUDO</p><p>APROFUNDADO DAS MANEIRAS DE SE ORGANIZAR UM POVOAMENTO,</p><p>LISTANDO SEIS TIPOS DE CONSTITUIÇÕES. AO ELENCAR ESSES</p><p>MODOS, SEGUNDO O FILÓSOFO, QUAL É A MAIS IMPORTANTE</p><p>CARACTERÍSTICA QUE ELES PODEM APRESENTAR?</p><p>A) Ter uma preocupação constante com o bem comum.</p><p>B) Ter um rei filósofo como líder do governo para evitar a degradação moral.</p><p>C) Não ser, de forma alguma, uma democracia, que acabaria se degradando.</p><p>D) Optar por uma monarquia ou uma aristocracia – as formas mais elitizadas de mando.</p><p>E) Evitar, a todo custo, uma tirania ou uma monarquia, que é quando todo o governo fica nas</p><p>mãos de uma pessoa só.</p><p>GABARITO</p><p>1. Diferentemente dos dias atuais, Aristóteles, como os gregos de sua época, acreditava</p><p>em um entrelaçamento entre ética e política. Assinale a alternativa a seguir que mostra</p><p>as razões pelas quais as duas noções deveriam estar entrelaçadas.</p><p>A alternativa "C " está correta.</p><p>Assim como para seus contemporâneos, para Aristóteles, não haveria uma divisão dos âmbitos</p><p>privados e do que é de natureza estritamente pública. Para ser feliz, devemos lidar com todos</p><p>os aspectos de nossa vida. Isso inclui, certamente, a forma como nos organizamos na</p><p>localidade em que moramos.</p><p>2. Em seu livro A política , Aristóteles faz um estudo aprofundado das maneiras de se</p><p>organizar um povoamento, listando seis tipos de constituições. Ao elencar esses</p><p>modos, segundo o filósofo, qual é a mais importante característica que eles podem</p><p>apresentar?</p><p>A alternativa "A " está correta.</p><p>Das seis formas de governo que cita, Aristóteles sugere que as melhores são aquelas que têm</p><p>como objetivo o bem comum e não priorizam determinados grupos sociais, mesmo que esses</p><p>grupos se intitulem como a maioria.</p><p>CONCLUSÃO</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>A obra A política sai de uma proposta teórica de apenas “organizar” uma coletividade de</p><p>pessoas para algo em que todos os cidadãos se preocupam e estão sempre inseridos. Mais</p><p>que algo que você pode escolher – ou não – participar, é parte da vida, como se alimentar ou</p><p>arranjar uma ocupação.</p><p>Para entender essa importância, a construção da democracia na Atenas do período de</p><p>Sócrates, Platão e Aristóteles é um evento de relevância fundamental. É a partir dela que se</p><p>tem de enxergar a magnitude da política para os moradores. É a partir dela, com seus</p><p>problemas e suas falhas, que se pensa em formas alternativas de organização social. É a</p><p>democracia que se tenta superar.</p><p>Pode ser que Platão e Aristóteles tenham caído de diversos cadafalsos (palanques) ao propor</p><p>alternativas à democracia. Mas, em geral, havia, no meio dos pitacos filosóficos, certa</p><p>preocupação em fazer o melhor para o bem comum, como chegou a deixar claro Aristóteles:</p><p>que todos fossem representados, todos pudessem atuar em suas atividades, todos pudessem</p><p>prosperar até seu objetivo final – a felicidade. E que ninguém, absolutamente ninguém, fosse</p><p>condenado por pensar de modo diferente dos governantes!</p><p>AVALIAÇÃO DO TEMA:</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ARISTÓTELES. A política. Introdução de Ivan Lins. Tradução de Nestor Silveira Chaves. Rio</p><p>de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.</p><p>ARISTÓTELES. A constituição dos atenienses. Introdução, tradução do original grego e</p><p>notas de Delfim Ferreira Leão. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2015.</p><p>ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de António de Castro Caeiro. São Paulo:</p><p>Forense, 2017.</p><p>PLATÃO. A república. Introdução, tradução e notas de Maria Helena da Rocha Pereira.</p><p>Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.</p><p>PLATÃO. Político. Tradução de Carlota Silva. Ebook, [1930].</p><p>PRÉ-SOCRÁTICOS. Os pensadores. Seleção de textos e supervisão de José Cavalcante de</p><p>Souza. Tradução de José Cavalcante de Souza et al. São Paulo: Abril Cultural, 1985.</p><p>SÓCRATES. Os pensadores. Seleção de textos de José Américo Motta Pessanha. Traduções</p><p>de Jaime Bruna, Libero Rangel de Andrade e Gilda Maria Reale Strazynski. São Paulo: Nova</p><p>Cultural, 1972.</p><p>EXPLORE+</p><p>Leia a obra No palácio do rei Minus, do grego Nikos Kazantzákis, que apresenta a</p><p>figura de Teseu no contexto da mitologia.</p><p>Confira o artigo Platão e a questão da democracia na República, do professor Richard</p><p>Romeiro Oliveira, sobre a questão da democracia no livro A república, de Platão.</p><p>Aprofunde seu conhecimento mergulhando no clássico livro do professor Francis Wolff,</p><p>intitulado Aristóteles e a política.</p><p>Assista ao filme Sócrates , de Roberto Rossellini, que mostra os últimos momentos em</p><p>vida do filósofo.</p><p>CONTEUDISTA</p><p>Ronaldo Pelli Junior</p><p> CURRÍCULO LATTES</p><p>javascript:void(0);</p><p>herói mitológico, considerado um dos “fundadores” da Grécia.</p><p>javascript:void(0)</p><p>TESEU</p><p>Apesar de alguns relatos apontarem Teseu como um dos criadores da democracia, esse</p><p>nome não é levado exatamente em consideração pelos estudiosos mais sérios.</p><p>O provável é que, para atingir seu auge no quarto século A.E.C., exatamente quando viveu</p><p>Platão, a democracia ateniense tenha sido alimentada por todas essas vertentes e outras ainda</p><p>não catalogadas: a partir das reformas empreendidas por Sólon, como consequência das</p><p>modificações implantadas por Clístenes; após as revoltas populares da época; por conta das</p><p>transformações introduzidas por Efialtes; ou pela liderança de Péricles (495 A.E.C.-429 A.E.C.),</p><p>o famoso estadista e general, em cujo governo (entre 460 A.E.C. e 430 A.E.C.), logo após os</p><p>atenienses liderarem os gregos na guerra que derrotou os persas, Atenas teria tido seu auge.</p><p>Independentemente dos dados presentes em sua certidão de nascimento, a democracia</p><p>ateniense é um exemplo de organização social-política sem paralelos na história do mundo,</p><p>como dizem historiadores de renome incontestável. E entre os vários motivos que a fazem</p><p>única está a assembleia: um conselho de cerca de quinhentos cidadãos eleitos por sorteio,</p><p>que supervisionava o aparato administrativo, lidava com as relações exteriores, ouvia os</p><p>relatórios oficiais, deliberava a agenda, preparava as moções para as assembleias e realizava</p><p>outras atividades. Esse nível de organização acontecia cerca de meio milênio antes do</p><p>nascimento de Jesus de Nazaré! Para se ter noção de como isso era original, basta lembrar</p><p>que esses quinhentos anos equivalem ao mesmo tempo que separa os dias atuais da chegada</p><p>do navegador português Pedro Álvares Cabral nestas terras que, anos depois, viriam a se</p><p>chamar Brasil.</p><p>Havia, ainda, vários outros recursos burocráticos para assegurar o máximo de participação dos</p><p>atenienses nas coisas públicas (ou “república” – res = coisa + pública – palavra de origem</p><p>latina). Por exemplo, o Conselho dos 500, uma espécie de câmara alta, tal como um Senado</p><p>na atualidade, e os tribunais, onde os réus eram julgados.</p><p>Na ekklesia ou assembleia, especificamente, parte da comunidade ateniense (os homens</p><p>adultos e livres) tinha de se encontrar cerca de quarenta vezes ao ano para discutir sobre os</p><p>problemas e as soluções da cidade. Pode-se afirmar que cerca de um terço dos cidadãos</p><p>acima dos 18 anos e dois terços dos cidadãos acima dos 40 anos já tinham servido pelo menos</p><p>durante um ano nessa assembleia.</p><p>Embora tenha um grau de organização incomum, até para os dias atuais, a democracia</p><p>ateniense também recebeu muitas críticas a respeito de sua estrutura, a começar pela própria</p><p>noção de participação popular. Segundo estudiosos, a presença e a assiduidade no conselho</p><p>eram consideradas baixas. Uma das razões, segundo dizem, é que, geralmente, as pessoas</p><p>preferiam atender a seus próprios negócios a ter de resolver os assuntos de Estado – algo</p><p>mais distante da urgência cotidiana.</p><p>De acordo com os historiadores, ainda havia problemas de instabilidade política. Com tantas</p><p>vozes podendo apontar as direções que a cidade deveria tomar, era difícil se chegar a um</p><p>caminho único e em linha reta em pouco tempo. A morosidade, às vezes, acabava se tornando</p><p>imobilidade, o que atrapalhava em um período de constantes guerras, invasões, e governos</p><p>fortes e autoritários.</p><p>Mas, certamente, a principal crítica à democracia ateniense devia-se ao impedimento da</p><p>participação de mulheres, estrangeiros (como Aristóteles, que era de Estagira – cidade próxima</p><p>à Macedônia –, por exemplo) e escravos no conselho. As mulheres até assumiam funções</p><p>religiosas importantes – afinal, a religião era parte fundamental da sociabilidade habitual</p><p>ateniense –, porém os demais moradores da cidade, mesmo que fossem a maioria da</p><p>população, tinham pouca ou nenhuma voz ativa nesse contexto.</p><p>Fonte: Wikimedia commons/Domínio público</p><p> Busto de Aristóteles, cópia romana de um original grego em bronze por Lísipo (cerca 330</p><p>a.C.).</p><p>No total, os participantes do conselho atingiam no máximo 20% da população de Atenas. Esse</p><p>número fez com que os críticos do período dissessem que tal organização social política não</p><p>era exatamente uma democracia, mas uma forma atenuada de oligarquia.</p><p>Inegavelmente, há semelhanças com os modelos atuais de organização comunitária. Todo o</p><p>corpo burocrático ateniense é certamente o primeiro passo de uma longuíssima caminhada,</p><p>com idas e vindas, que veio a dar nos aparelhos que sustentam nossos Estados-nações</p><p>ocidentais e liberais da atualidade. Mas as equivalências ficam bem mais enfraquecidas</p><p>quando se pensa na ideia de representação direta, principalmente quando há o recorte de</p><p>gênero e classe.</p><p>OLIGARQUIA</p><p>Palavra de origem grega que significa “governo exercido por um pequeno número de</p><p>pessoas”.</p><p> ATENÇÃO</p><p>Cabe questionar se, de fato, a comparação entre a organização burocrática da sociedade</p><p>ateniense e nossos Estados-nações atuais é fraca. Basta lembrarmos de que o voto feminino,</p><p>no Brasil, apenas foi alcançado em 1934, ou, em pior situação, na França revolucionária,</p><p>apenas em 1945. Será que um país, atualmente, de população em sua maioria negra e</p><p>feminina, e, ainda assim, com baixíssimo número de políticos afrodescendentes e mulheres,</p><p>poderia criticar a Grécia Clássica?</p><p>De qualquer modo, a democracia ateniense se tornou um marco inaugural que acabou</p><p>influenciando diversas maneiras de pensar a organização comunitária ao longo dos tempos.</p><p>Mesmo que imperfeita, tornava a vida pública uma constante para todos os cidadãos e a</p><p>política, uma parte do cotidiano. Não era possível se manter totalmente alienado.</p><p>javascript:void(0)</p><p>Na atualidade, ela nos força a pensar sobre nossa própria maneira de nos estruturar como</p><p>sociedade – as distribuições de poder, a participação popular, a representação de todos os</p><p>estratos e segmentos populacionais na tomada de decisão, a partilha dos direitos e deveres</p><p>civis, a divisão dos recursos econômicos. Ao olhar para o exemplo grego, fica difícil não se</p><p>perguntar se o que vivemos nos dias atuais, apesar de sustentar um nome homônimo, seria</p><p>verdadeiramente uma democracia.</p><p>Agora, vamos aprofundar os conceitos de cidadania e política na Antiguidade, comparando-os</p><p>com as mesmas noções contemporâneas.</p><p>SOFISTAS × FILÓSOFOS</p><p>Fonte: inchiostronero.it/Domínio Público</p><p> Discurso de Sócrates , Louis J. Lebrun, 1867.</p><p>Na democracia ateniense, as capacidades da oratória e da retórica se valorizaram</p><p>extremamente. Como o debate, o diálogo público e a discussão eram as maneiras de se portar</p><p>no conselho, tornou-se comum que quem conseguisse se comunicar mais persuasivamente</p><p>alcançasse, com facilidade maior, os objetivos almejados.</p><p>Quem era eloquente e, ainda assim, bastante proativo acabava, pela lábia, exercendo cargos</p><p>políticos, mesmo sem precisar ser eleito – caso, inclusive, de Péricles, citado anteriormente.</p><p>Por conta disso, alguns jovens atenienses endinheirados recorriam a um grupo de professores</p><p>chamados de sofistas (algo como “sábios”) para que estes lhes ensinassem as manhas da fala</p><p>em público.</p><p>Diferentemente dos filósofos (philo = amigo + sophia = saber), os sofistas não se</p><p>preocupavam com o mundo supralunar, como Aristóteles chamaria o espaço sideral. Além</p><p>disso, diferentemente dos pensadores originais (também conhecidos como pré-socráticos),</p><p>eles não queriam saber da origem do mundo nem tentavam entender a physis (em uma</p><p>tradução aproximada, tudo o que é a “natureza”). Estavam mais preocupados diretamente com</p><p>as questões morais e políticas, isto é, os temas mais pragmáticos da vida pública. Em vez de</p><p>olhar para o alto e divagar, miravam o pequeno, o próximo, aquilo em que podemos influir</p><p>diretamente. Em vez de tentar explicar o mundo de uma vez só, como os pré-socráticos,</p><p>esforçavam-se para dar conta, buscavam o melhor jeito de influir na vida de sua própria</p><p>sociedade. Ou seja, em vez da abstração, pregava-se a materialidade.</p><p>A diferença entre pré-socráticos e sofistas é clara. Os pensadores originais (PRÉ-</p><p>SOCRÁTICOS, 1985) tentaram explicar a origem das coisas, buscando responder à dúvida</p><p>sobre por que as coisas existem em vez de simplesmente não haver nada. Para isso, criaram</p><p>explicações das causas de tudo, como ser a água o motivo inicial (Tales de Mileto), ou o ar</p><p>(Anaxímenes), ou o fogo (Heráclito).</p><p>Os sofistas afirmavam que “o homem é a medida de todas as coisas”, como famosamente</p><p>disse Protágoras de Abdera, um dos mais famosos sofistas. Tal frase – uma espécie de resumo</p><p>da filosofia sofista – já demostra que o diálogo sofista era mais concreto. Há, ao menos, duas</p><p>formas – uma quase antagônica à outra – de interpretá-la, e ambas reforçam esse aspecto</p><p>mais “pé no chão”. Em primeiro lugar, mostra a tentativa de se criar um conjunto de regras</p><p>pessoais (daí o homem ser a medida) para a tomada de decisões, para fazer escolhas, para,</p><p>enfim, viver.</p><p>Fonte: Musée de l'Ermitage/Wikimedia commons/Domínio público</p><p> Demócrito e Protágoras (ao centro), Salvator Rosa, meados do século XVII.</p><p>Seguindo esse raciocínio, essas normas seriam baseadas em uma visão mais próxima do</p><p>humano, sem a necessidade da descoberta de um âmbito superior ou secreto, algo que fosse</p><p>alcançável apenas por procedimentos complicadíssimos. Era uma proposta mais acessível,</p><p>portanto, e que, além do caráter mais democrático , poderia ser ensinada. Isto é, a verdade na</p><p>qual estamos apoiados não seria algo distante e imóvel no tempo e no espaço, como sugere,</p><p>por exemplo, o filósofo pré-socrático Parmênides, mas poderia ser entendida a partir de uma</p><p>leitura pessoal, imanente, “humana”.</p><p>Em contrapartida, tal afirmação reforça um pensamento baseado apenas no homem de forma</p><p>individual, no sujeito em si – um pensamento que cai facilmente em um relativismo rasteiro,</p><p>sem qualquer fundamento ou parâmetro mais fixo, para que não se ficasse à mercê das</p><p>variações de humor de quem quer que fosse.</p><p>Os valores perdem a pretensão de universalidade, a ambição de atingir o absoluto se torna</p><p>infundada, e a própria noção de totalidade parece improvável. O homem é a medida de todas</p><p>as coisas, mas que homem? Se não haveria algo “por trás” do homem para lhe garantir</p><p>qualquer estabilidade mais perene, se as verdades seriam tão passageiras assim, restaria se</p><p>tornar cada vez mais hábil em usar as palavras – e convencer os demais que você é o</p><p>“homem” que é a medida de todas as coisas. Disso resulta o sucesso dos sofistas!</p><p>Tal pensamento mais humanista – e, portanto, mais fragilizado do ponto de vista da</p><p>universalização e da estabilidade – não era uma exclusividade dos sofistas. Três dos</p><p>dramaturgos gregos do período de que temos mais material preservado atualmente – Ésquilo,</p><p>Eurípides e Sófocles – também retratam essa relativização dos valores, essa tentativa de</p><p>mostrar mais lados da verdade quando as questões morais são abordadas.</p><p>Fonte: Autor desconhecido/Wikimedia commons/Domínio público</p><p> Busto de Ésquilo, autor desconhecido. Acervo dos Museus Capitolinos, Roma.</p><p>Aliás, não é de se espantar que o teatro, com seus diálogos e suas encenações públicas, tenha</p><p>florescido na mesma época da democracia ateniense. A audácia de colocar em questão</p><p>mesmo os fundamentos mais tradicionais da própria sociedade estava incluída, mesmo que</p><p>inconscientemente, na proposta democrática. O teatro, com seus debates no meio da praça da</p><p>cidade, com várias vozes que se inter-relacionavam, era a atmosfera perfeita para a época.</p><p>Foi aproveitando essa pretensa liberdade de expressão que Sócrates, segundo os escritos</p><p>deixados por Platão – visto que ele mesmo nunca escreveu nenhuma linha –, destacou-se: ele</p><p>queria tentar criar parâmetros ideais que não dependessem apenas do homem.</p><p>SÓCRATES: O IGNORANTE MAIS SÁBIO</p><p>DOS HOMENS</p><p>Fonte: Shutterstock.com</p><p> Estátua de Sócrates na Academia de Atenas, esculpida por Leonidas Drosis, 1880.</p><p>Veterano da guerra contra Esparta, onde salvou a vida do futuro político Alcibíades (450</p><p>A.E.C.-404 A.E.C.) e de seu futuro discípulo e escritor Xenofonte (430 A.E.C.-355 A.E.C.),</p><p>defensor da lei ateniense para julgar mesmo generais antipopulares, corajoso para enfrentar</p><p>tiranos que tentaram sequestrar adversários políticos, Sócrates não era uma figura exatamente</p><p>desconhecida em Atenas, mesmo antes de se tornar mestre de uma geração. Entretanto,</p><p>apesar das glórias acumuladas, ele não considerava nenhum desses acontecimentos como o</p><p>mais importante de sua vida.</p><p>Na Apologia de Sócrates, o filósofo-mor conta que foi outro o fato que mais marcou sua vida:</p><p>a declaração do oráculo do deus Apolo, localizado na famosa cidade de Delfos, bem no centro</p><p>da Grécia, de que ele, Sócrates, seria o homem mais sábio de todos.</p><p>Vivendo junto a generais vitoriosos, políticos cativantes, criativos dramaturgos, Sócrates se</p><p>perguntava por que exatamente ele – humilde filho de uma parteira com um escultor – seria o</p><p>mais sábio entre todos. A única resposta que conseguiu encontrar foi o fato de ele ser o único</p><p>entre todos a duvidar das próprias certezas.</p><p>javascript:void(0)</p><p>Essa sua ignorância era o sinal de sua sabedoria, porque fazia com que ele, ao menos,</p><p>soubesse de algo: de que nada sabia. Daí vem a famosa frase: “Só sei que nada sei” (que não</p><p>foi dita exatamente assim, mas o sentido é esse mesmo). A partir desse momento, Sócrates</p><p>entendeu que sua tarefa era revelar a seus concidadãos a ignorância de todos. Começava,</p><p>assim, sua missão. O “mais sábio entre todos os homens” queria fazer com que as pessoas se</p><p>conhecessem, se encontrassem, fugissem de pseudoverdades, não acreditassem em falsas</p><p>ideias ou meras opiniões. O importante era se descobrir, mergulhar dentro de si, racionalmente,</p><p>e perceber o que era a verdade.</p><p>Ao contrário dos sofistas, Sócrates não cobrava por seus ensinamentos, pois se imaginava em</p><p>uma tarefa com inspiração divina, uma vez que teria sido iniciada pelo oráculo de Apolo. Isso</p><p>causou diversos problemas de relacionamento em Atenas para Sócrates.</p><p>Se os sofistas mantinham, de certo modo, o status quo (no estado em que encontravam</p><p>antes), dado que só ensinavam quem já tinha dinheiro, o filósofo ateniense chegou a conversar</p><p>sobre Matemática até mesmo com um escravo. A atitude audaciosa, ainda que não</p><p>abertamente intencional, não deixava de ser um jeito de demonstrar certo desprezo pelas</p><p>regras da democracia ateniense, que mantinha os homens não livres como o ponto mais baixo</p><p>que se poderia descer na escala social.</p><p>APOLOGIA DE SÓCRATES</p><p>Obra do filósofo ateniense Platão em que são narrados o julgamento e a condenação de</p><p>Sócrates, de quem ele era discípulo. A Apologia , assim como os demais escritos de</p><p>Platão, apresenta a forma de diálogo, o que evidencia a força do discurso oral na</p><p>sociedade ateniense dos séculos V e IV a.C.</p><p> ATENÇÃO</p><p>É importante lembrar que quando falamos de “homens não livres” (ou escravos), nesse</p><p>contexto da Antiguidade, e especialmente na cidade-Estado de Atenas, não estamos nos</p><p>referindo ao mesmo tipo de escravidão ocorrida, no continente americano, por exemplo,</p><p>durante o período colonial (séc. XVI-XIX). Na Antiguidade, a escravidão acontecia, geralmente,</p><p>sob duas condições: ou se era um prisioneiro de guerra, ou alguém que estava endividado. Em</p><p>ambos os casos, o escravo exercia a mesma função/profissão que tinha em sua nação de</p><p>origem (ou antes do endividamento). Condição inconcebível, como sabemos, no Colonialismo,</p><p>quando o escravo era considerado “ser humano de espécie inferior” em relação a seu dono.</p><p>O confronto entre a filosofia socrática e a retórica dos sofistas era uma constante. O diálogo</p><p>platônico Górgias (famoso sofista) é um exemplo disso. Na obra, contada – ressalte-se – do</p><p>ponto de vista socrático, há o choque entre a integridade moral, que seria uma característica</p><p>dos filósofos, e a busca por poder político, imputações feitas aos sofistas.</p><p>Sócrates acusa os sofistas de serem amorais, sem se importar com as necessidades de buscar</p><p>o que seria</p><p>o certo e evitar o errado, sem se interessar em distinguir o que é nobre do que é</p><p>vergonhoso.</p><p>Os sofistas, por sua vez, dizem que a filosofia seria uma retórica inferior, um brinquedo lógico.</p><p>Na melhor das hipóteses, um jeito de educar os jovens, jamais uma ferramenta decente para</p><p>os adultos.</p><p>Sócrates rebatia dizendo que a retórica, técnica oratória ensinada pelos sofistas, era, no</p><p>máximo, um truque para agradar as pessoas, e que apenas a filosofia produzia uma verdadeira</p><p>tékhnē que busca a bondade nas almas. Seu objetivo seria, por fim, produzir bons cidadãos.</p><p>O embate entre as duas escolas de pensamento no diálogo é tamanho que sobra para a</p><p>democracia ateniense, vista ali como impossível de ser boa. Mas não para por aí!</p><p>A política, continua o incansável Sócrates, deveria ser confundida com a filosofia e produzir</p><p>bons cidadãos, que “conhecem a si mesmos”, como estava escrito no oráculo de Delfos e</p><p>como o filósofo repetia sempre. Aqueles que não são comedidos, não são racionais, não se</p><p>entendem, são incapazes de ter amizades e, assim, de viver em comunidade.</p><p>Para responder à pergunta levantada no início deste módulo, Sócrates, e não os retóricos</p><p>sofistas, poderia e deveria ser visto como um bom, belo e verdadeiro exemplo de político,</p><p>porque ele era um filósofo.</p><p>VERIFICANDO O APRENDIZADO</p><p>1. A DEMOCRACIA ATENIENSE FOI UMA REVOLUÇÃO NA MANEIRA</p><p>COMO AS CIDADES-ESTADOS GREGAS SE ORGANIZARAM NA</p><p>ANTIGUIDADE. ELA INFLUENCIOU MEIO MUNDO E, ATÉ HOJE, É</p><p>IMITADA E ADAPTADA PELOS PAÍSES DO OCIDENTE LIBERAL.</p><p>ASSINALE A SEGUIR A ALTERNATIVA QUE MOSTRA UMA</p><p>CARACTERÍSTICA POSITIVA DESSA CONSTITUIÇÃO NA ÉPOCA DE</p><p>PLATÃO.</p><p>A) Ser aberta a, no máximo, 20% da população.</p><p>B) Ter mecanismos para supervisão direta do aparato administrativo.</p><p>C) Impedir que estrangeiros, como Aristóteles, debatessem nas assembleias.</p><p>D) Excluir as mulheres das discussões políticas.</p><p>E) Ter baixa participação dos atenienses, que preferiam cuidar de seus próprios negócios.</p><p>2. QUERENDO CRIAR UMA MANEIRA DE PENSAR QUE ELE APELIDOU</p><p>DE FILOSÓFICA, SÓCRATES COMBATIA DIRETAMENTE O GRUPO DOS</p><p>SOFISTAS, CONSIDERADOS ADVERSÁRIOS INTELECTUAIS. ASSINALE</p><p>A SEGUIR A ALTERNATIVA QUE MAIS BEM DEFINE A FILOSOFIA,</p><p>SEGUNDO SÓCRATES.</p><p>A) Uma retórica inferior, um brinquedo lógico.</p><p>B) Um procedimento amoral que não se importa com o certo ou o errado.</p><p>C) Um truque para agradar as pessoas.</p><p>D) Um jeito de educar apenas os jovens.</p><p>E) Uma forma de encontrar a bondade na alma das pessoas.</p><p>GABARITO</p><p>1. A democracia ateniense foi uma revolução na maneira como as cidades-Estados</p><p>gregas se organizaram na Antiguidade. Ela influenciou meio mundo e, até hoje, é imitada</p><p>e adaptada pelos países do Ocidente liberal. Assinale a seguir a alternativa que mostra</p><p>uma característica positiva dessa constituição na época de Platão.</p><p>A alternativa "B " está correta.</p><p>A democracia ateniense na Antiguidade era formada por um conjunto de processos</p><p>burocráticos, como a assembleia, que visava distribuir o poder entre os cidadãos. Entre suas</p><p>funções, estava conferir a quantas andava a administração pública. O problema é que tal</p><p>mecanismo impedia mulheres, estrangeiros e escravos – o bojo da população da época – de</p><p>participar das discussões.</p><p>2. Querendo criar uma maneira de pensar que ele apelidou de filosófica, Sócrates</p><p>combatia diretamente o grupo dos sofistas, considerados adversários intelectuais.</p><p>Assinale a seguir a alternativa que mais bem define a filosofia, segundo Sócrates.</p><p>A alternativa "E " está correta.</p><p>Enquanto acreditava que os sofistas só se preocupavam em ensinar jogos retóricos a quem</p><p>lhes pudesse pagar, Sócrates via na filosofia um caminho oposto, moral. Era por meio dela que</p><p>se podia alcançar o bem supremo.</p><p>MÓDULO 2</p><p> Descrever o investimento político das obras platônicas</p><p>A PRODUÇÃO POLÍTICO-FILOSÓFICA DE</p><p>PLATÃO</p><p>Fonte: MetMuseum/Wikimedia Commons/Domínio Público</p><p> A Morte de Sócrates , Jacques-Louis David, 1787. Acervo do Metropolitan Museum of Art.</p><p>Apesar de viver no auge do período democrático da cidade de Atenas, na Antiguidade, Platão</p><p>não estava convencido de que essa fosse a melhor forma de governo. Muito de sua má</p><p>vontade se justificava exatamente porque seu mestre Sócrates – “o homem mais sábio de</p><p>todos” – tinha sido condenado à morte por essa mesma democracia.</p><p>Todos os seus escritos foram produzidos após a morte de seu professor e depois de o filósofo</p><p>também tentar uma carreira política. Portanto, esses escritos carregaram, de um jeito ou de</p><p>outro, certo posicionamento político.</p><p>A partir dessa sua formação e observando de perto toda a sua literatura, até seria possível</p><p>dizer que toda – ou, ao menos, grande parte – de sua produção filosófica pode ser, no fundo,</p><p>lida como um pensamento político em constante amadurecimento. Isso, claro, não no sentido</p><p>mais simples e amplo do termo, de tratar diretamente de questões organizacionais do Estado,</p><p>mas conforme citado no módulo 1: a política como uma preocupação também ética com a</p><p>criação de um homem que estivesse interessado em ser correto, não corrompido pelas</p><p>idiossincrasias (peculiaridades) dos tempos, ou, nos termos platônicos, um homem livre que</p><p>buscasse as formulações eternas sobre o belo, o verdadeiro e o bem.</p><p>ATUAÇÃO POLÍTICA DE PLATÃO</p><p>javascript:void(0)</p><p>Por duas vezes Platão foi convidado a ir à Siracusa, colônia grega na ilha da Sicília, para</p><p>atuar como conselheiro dos tiranos que governavam a cidade. Primeiro, durante o</p><p>governo de Dionísio I, de cujo cunhado, Dion, Platão havia se tornado amigo, e, a seguir,</p><p>quando Siracusa passou às mãos de Dionísio II. No entanto, em ambas as tentativas,</p><p>Platão deixou a Sicília sem conseguir instituir nenhuma reforma política significativa.</p><p>A CONSTRUÇÃO DA CIDADE E SEUS</p><p>HABITANTES</p><p>Fonte: Shutterstock.com</p><p> Edifício da Academia de Atenas, construído no centro da cidade pelo Ministério da</p><p>Educação da Grécia, em 1926. Ornamentam a entrada do prédio principal estátuas de</p><p>Sócrates (à direita) e de Platão (à esquerda).</p><p>A tarefa inicial do diálogo mais famoso de Platão é criar uma polis perfeita que sirva como</p><p>ideal ou paradigma para todas as cidades. O fato de representar “apenas” um modelo é um dos</p><p>pontos mais importantes na leitura e interpretação da obra A república , pois protege Sócrates</p><p>(e Platão) de algumas – mas não todas – controvérsias que a envolvem.</p><p>A proposta socrática é formular no logos , ou seja, na teoria, no discurso, em abstrato, essa</p><p>cidade. Isso faz com que certas propostas mais extravagantes do diálogo não precisem ser</p><p>vistas como necessárias ou indispensáveis. Nem o próprio Sócrates, por exemplo, defendia</p><p>com muita veemência certas sugestões, como o fim do formato da família tradicional (com pai,</p><p>mãe e filhos, apenas), a eugenia (o controle da procriação para atingir uma raça “superior”) ou</p><p>mesmo ideias bem mais aceitáveis para os dias atuais, como a participação das mulheres na</p><p>esfera pública.</p><p>O ponto de partida da criação da cidade perfeita é a defesa da especialização. Sócrates</p><p>acreditava que especialistas em apenas uma habilidade ou um ofício são muito mais produtivos</p><p>nos seus trabalhos que um não especialista ou alguém que atue em mais de uma frente. Tal</p><p>recomendação formou a cama argumentativa de Sócrates para a defesa da justiça individual:</p><p>alguém que não está dividido, alguém em equilíbrio entre seus diferentes impulsos, em uma</p><p>espécie de harmonia psíquica.</p><p>Voltando ao tema dos pontos controversos, há um trecho famoso na obra A república</p><p>mencionado com frequência pelos comentadores. Nele, diferentemente do que seria de se</p><p>esperar do senso comum na atualidade, Sócrates fez uma censura a obras de arte e a artistas.</p><p>O argumento é de que não são “necessários”, ao contrário: criam, em princípio, “falsidades”,</p><p>reproduções, ficções, que não são, na maioria dos casos, ficções “boas”, mas impetuosas, que</p><p>desequilibram quem as escuta ou as vê.</p><p>JUSTIÇA INDIVIDUAL</p><p>Platão acreditava que, por analogia, há traços de referência entre o corpo político de</p><p>uma</p><p>cidade e o corpo humano, com todas as suas próprias contradições. Ao falar sobre justiça</p><p>individual , ele criou a argumentação para se abordar a noção de justiça em geral. E o</p><p>inverso é igualmente verdadeiro: a construção da cidade ideal é, também, uma maneira</p><p>de tentar analisar a justiça na própria alma. Esse é um mecanismo que sempre utiliza ao</p><p>longo de toda a obra A república , com maior ou menor assiduidade.</p><p>Em sua cidade bela, justa e verdadeira, é preciso garantir a maior produtividade dos indivíduos,</p><p>sem desvio de atenção para coisas “supérfluas”, como a arte narrativa, teatral ou pictórica que</p><p>mostra a história de confrontos raivosos, traições, vinganças, sentimentos que atrapalham a</p><p>harmonia e o equilíbrio. Nesse caso, sobra para os poetas, rapsodos, atores, coristas,</p><p>empresários e artífices, sobretudo os que produzem “adereços femininos” – em suma, toda</p><p>essa laia artística. Estes, ele quer fora da cidade ideal.</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>Fonte: Bernardino Mei/Wikimedia Commons/Domínio Público</p><p> Orestes massacrando Egisto e Clitemnestra , Bernardino Mei, 1654. Retrata um trecho de</p><p>uma tragédia de Ésquilo, em que um filho assassina sua própria mãe, para vingar-se por esta</p><p>ter matado seu pai, Agamêmnon, após seu retorno vitorioso da guerra de Troia.</p><p>RAPSODOS</p><p>Na Grécia Antiga, recitador profissional de poesias épicas.</p><p>Fonte: Dicionário eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa.</p><p>ARTÍFICES</p><p>Trabalhador, operário, artesão que produz algum artefato ou que professa alguma das</p><p>artes.</p><p>Fonte: Dicionário eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa.</p><p>Em vez deles, para povoar tal cidade, Sócrates sugere uma série de profissões mais “úteis”</p><p>para o bem de todos e a felicidade geral. E a mais útil de todas, de acordo com o filósofo, é a</p><p>do guardião, porque, além de proteger a cidade de ataques externos, é dessa classe que sai,</p><p>também, o legislador, que poderá produzir as melhores leis do povoado. O problema se</p><p>resume, então, a como se forma essa classe social.</p><p>QUE TIPO DE EDUCAÇÃO AS CRIANÇAS PRECISAM</p><p>RECEBER PARA SE TORNAREM BONS GUARDIÕES</p><p>DA CIDADE IDEAL?</p><p>Sócrates reflete que não cabe aplicar na infância Homero e Hesíodo, como era o costume –</p><p>esses poetas seriam nocivos para a proposta platônica. O filósofo explica que, quando</p><p>pequenos, somos facilmente influenciados. Tais literaturas, com seus mitos e suas histórias</p><p>amorais, não podem ser as mais apropriadas como forma pedagógica, exatamente pela</p><p>intemperança. Um guardião precisa aprender a evitar o ódio e as explosões de ira, tão comuns</p><p>nesses poemas clássicos. Mesmo que tais obras de arte sejam ou fossem a “verdade”, os</p><p>guardiões precisam ser poupados dessas violências para a formação de seu caráter.</p><p>Em vez disso, Sócrates sugere como pedagogia o treinamento físico e o ensino da Matemática</p><p>e da música – arte que ele salva explicitamente. O “homem mais sábio de todos” defende a</p><p>música “porque o ritmo e a harmonia penetram mais fundo na alma e afetam-na mais</p><p>fortemente, trazendo consigo a perfeição” (PLATÃO, 2001) – repetindo um argumento também</p><p>presente no diálogo Protágoras .</p><p>Sócrates até aceita que sejam contadas certas ficções, algo como mentiras nobres, na criação</p><p>das crianças que serão os futuros guardiões. Ele propõe, por exemplo, inventar que os</p><p>habitantes da cidade ideal são autóctones, isto é – na tradução da palavra grega que ele quer</p><p>usar –, nasceram literalmente de dentro da terra, sem mãe nem pai humanos. Assim, todos os</p><p>habitantes de tal cidade seriam irmãos. A sociedade inteira, por consequência, estaria unida</p><p>em uma única família, o que nos leva a entender onde se encontra sua proposta de abolir a</p><p>família nuclear – essa em que haveria uma mãe e um pai para cada pequeno grupo social</p><p>formado com os filhos.</p><p>Continuando dentro dessa nobre mentira, as diferentes classes corresponderiam apenas aos</p><p>distintos tipos de metal de que cada um dos estratos era formado. Por isso que aqueles feitos</p><p>de ferro ou bronze, aptos a ser fazendeiros ou artesãos, não poderiam ser guardiões. Todos,</p><p>contudo, nasceriam da mesma terra. O ponto principal, portanto, fica inalterado: criar um</p><p>profundo sentimento de pertencimento em todos os habitantes dessa cidade à terra em que</p><p>ou, segundo essa “versão”, de que nasceram.</p><p>A justiça, nessa localidade, aparece como uma consequência desse cuidado mútuo. Todas as</p><p>pessoas se percebem como iguais e pertencendo ao mesmo lugar. Há um sentimento de</p><p>harmonia social (a analogia social e individual aparece aqui outra vez). A justificativa para se</p><p>usar ficção nesse trecho, e não anteriormente, quando expulsam os poetas da cidade, fica para</p><p>o fato de que Sócrates não acredita que possa haver tal harmonia social sem que as pessoas</p><p>verdadeiramente creiam em seu íntimo que essa é a ordem natural das coisas. Sem moldar as</p><p>almas, diria Sócrates, não se constrói ou se muda uma sociedade.</p><p>A UNIDADE, O CONSERVADORISMO E O</p><p>REI FILÓSOFO</p><p>Desde que Platão colocou seu mestre Sócrates para imaginar uma cidade utópica, diversos</p><p>autores se incumbiram da tarefa de conceber uma organização social que fosse perfeita. A</p><p>unanimidade também atingiu a recepção crítica. Intérpretes de espectros políticos opostos e de</p><p>diferentes temporalidades, a começar por Aristóteles, aluno de Platão, enxergaram na</p><p>Politeia platônica um texto conservador. Alguns chegam a afirmar que ele fez uma obra em</p><p>que defende uma espécie de ideologia totalitária: aos guardiões era reservada apenas uma</p><p>preocupação com o bem da sociedade como um todo, pouco importando suas opiniões</p><p>pessoais.</p><p>javascript:void(0)</p><p>Fonte: sancastro/Shutterstock.com</p><p> Réplica da estátua do imperador Marco Aurélio, na Piazza del Campidoglio, em Roma.</p><p>Marco Aurélio, que governou Roma entre 161 e 180 d.C., também era filósofo, tendo recebido</p><p>forte influência do pensamento grego. Além disso, é considerado um dos mais bem-sucedidos</p><p>imperadores romanos.</p><p>POLITEIA</p><p>Termo grego com múltiplas possibilidades de leitura, que faz referência à constituição, ao</p><p>sistema político ou, ainda, ao ordenamento da estrutura política.</p><p>Era o título original do clássico platônico, rebatizado com o termo latino “República” a</p><p>partir da tentativa do pensador romano Cícero (106 A.E.C.-43 A.E.C.) de emular Platão,</p><p>escrevendo o livro De re publica . Mas o grande Cícero não foi o único a querer copiar</p><p>Platão. É o caso, por exemplo, de Utopia , do inglês Thomas Morus (1478-1535), que</p><p>usa o termo grego que quer dizer “não lugar” para reforçar essa proposta de imaginação</p><p>de outra cidade.</p><p>A relevância era dada para a felicidade da cidade inteira, não de uma classe em especial,</p><p>talvez do indivíduo. Sócrates ainda tenta contra-argumentar: dentro de uma estrutura de</p><p>pensamento como a proposta pela obra A república , os guardiões certamente seriam felizes.</p><p>Se não bastasse essa falta de liberdade, as técnicas de especialização dos cidadãos e,</p><p>principalmente, a proposta eugênica para a produção de uma raça “superior” arrancam</p><p>calafrios pela desconfortável semelhança com as propostas nazifascistas, sem falar na</p><p>propaganda política como modo de lavagem cerebral de seus cidadãos. E o que dizer de toda</p><p>a relação misógina, que era o padrão do período em que viveu Sócrates?</p><p>Mesmo que nas obras de alguns filósofos – como em A república , de Platão – haja uma</p><p>explícita proposta de equiparação de atuação de homens e mulheres na vida pública, não</p><p>podemos esquecer que a vida social de determinada época não é espelho de sua literatura.</p><p> SAIBA MAIS</p><p>Sobre isso, vale conhecer o artigo:</p><p>O papel das mulheres em A república de Platão (livro V): utopia no feminino ou tópicos para</p><p>uma reflexão propedêutica sobre Direitos Humanos , de Susana Mourato Alves-Jesus.</p><p>Mas há de se pensar que os tempos eram outros, e julgar um momento histórico com as regras</p><p>de outro é o pecado mais repudiado pelos historiadores. Tal falta grave recebe o nome de</p><p>anacronismo (aliás, outro termo que vem do grego!). No entanto, não há muita escapatória</p><p>quando se fala da crítica feita por Aristóteles – quase contemporâneo de Sócrates. Para o</p><p>estagirita, essa obsessão por unidade na polis perfeita seria a ruína, não a salvação da</p><p>cidade.</p><p>A importância da obra platônica para o pensamento político não pode ser, de maneira</p><p>nenhuma, descartável, principalmente porque o filósofo faz uma sugestão que coloca em</p><p>questão todo o pensamento de teoria política desde aquela época até os dias atuais.</p><p>Criticando Atenas por ser uma sociedade “democrática” – e que, apesar de todas as ressalvas</p><p>já levantadas, tinha muito mais participação popular que outras cidades da época –, Sócrates</p><p>propõe outra forma de organizar os agrupamentos populacionais. Em vez do poder de muitos</p><p>(democracia), portanto, de gente pouco especializada – e que podia condenar inocentes, como</p><p>no caso socrático –, ou de poucos e ricos (oligarquia); ou em vez de o poder ficar na mão de</p><p>apenas uma única pessoa – e essa pessoa querer todo o poder para si (tirania); o poder</p><p>deveria ser entregue para uma única pessoa, sim, mas alguém extremamente especializado,</p><p>como acontecia com todas as coisas em “sua” cidade.</p><p>E QUE TIPO DE PESSOA SERIA A MAIS HABILITADA</p><p>PARA REINAR POR E PARA TODOS, DE MANEIRA</p><p>DEMOCRÁTICA (SE PODEMOS CHAMAR ASSIM), POR</p><p>CONHECER OS VALORES DE BOM, JUSTO E</p><p>VERDADEIRO?</p><p>Sim, ele mesmo: o filósofo! Mas como se transformar em um filósofo? (Pois, sim, era possível</p><p>aprender a ser um.)</p><p>Segundo Platão, era necessária uma compreensão racional da eterna realidade da verdade,</p><p>que poderia ser incentivada por uma educação especial em todas as ciências matemáticas. É</p><p>nesse momento que aparece a mais famosa alegoria da história da filosofia.</p><p>O MITO DA CAVERNA</p><p>Fonte: Wikiart/Domínio Público</p><p> Figura nas rochas , Salvador Dalí, 1926.</p><p>No capítulo VII de A república , Sócrates narra para Glauco uma história:</p><p>javascript:void(0)</p><p>GLAUCO</p><p>Irmão mais velho de Platão e um de seus principais interlocutores na obra A república .</p><p></p><p>HOMENS ACORRENTADOS DENTRO DE UMA</p><p>CAVERNA, COM APENAS UMA SAÍDA, RECEBENDO</p><p>LUZ INDIRETAMENTE DO SOL. APRISIONADOS, OS</p><p>HOMENS SÓ CONSEGUEM ENXERGAR AS SOMBRAS</p><p>PROJETADAS NA PAREDE DO QUE ACONTECE</p><p>ATRÁS DELES. UM DELES, CONTUDO, SE</p><p>DESVENCILHA DOS GRILHÕES E SAI DA GRUTA EM</p><p>DIREÇÃO AO SOL. NUM PRIMEIRO MOMENTO, ELE</p><p>TEM DIFICULDADE DE ENXERGAR, MAS, AOS</p><p>POUCOS, VAI SE ACOSTUMANDO ATÉ QUE VÊ AS</p><p>COISAS COMO ELAS SÃO E, DEPOIS, O PRÓPRIO</p><p>SOL. IMPRESSIONADO COM A VISÃO DAS COISAS</p><p>VERDADEIRAS, ELE DECIDE VOLTAR E CONTAR PARA</p><p>OS DEMAIS PRISIONEIROS A VERDADE.</p><p>Assim, Sócrates narra, em um dos momentos mais metafísicos e metafóricos da obra, a</p><p>ascensão do homem comum rumo à verdade eterna e, consequentemente, sua transformação</p><p>em um filósofo.</p><p>A condição moral e intelectual da humanidade estaria representada pela condição ultrajante da</p><p>caverna. Ao conseguir escapar dessa condição para enxergar o mundo como ele é, sem</p><p>qualquer impedimento, é que seria possível ver as verdades eternas. O sol representaria o</p><p>ideal de bem – principal critério para se avaliar todas as demais coisas.</p><p>É a partir dessa passagem que Sócrates defende que a única chance de se construir uma</p><p>sociedade ideal seria fazer com que ela fosse governada por um filósofo ou tornar seus</p><p>governantes, por meio de um programa educacional apropriado, filósofos. Apenas os filósofos</p><p>escapariam da degradação moral das coisas corriqueiras.</p><p>Mesmo que eles não queiram, a princípio, assumir o cargo, posto que teriam de abdicar de</p><p>seus outros afazeres, vivendo nessa cidade ideal, eles acabariam por assumir tal função por</p><p>uma questão de justiça, para desempenhar sua função específica e apropriada nessa</p><p>sociedade “perfeita”.</p><p>Observe a explícita intenção de Platão de reforçar a importância de uma ética interna forte para</p><p>a produção de um governante ideal, que, por consequência, produziria uma cidade</p><p>politicamente estável, unida e harmônica.</p><p>Mais que um processo analógico (de comparação), o que Platão está fazendo é uma relação</p><p>de interligação e interdependência, até mesmo de interface e igualdade, entre a esfera privada</p><p>e a pública. Por isso, no fim do livro, Sócrates insiste em dizer que a harmonia psíquica, que,</p><p>como vimos, é uma das formas de felicidade para o filósofo, é a politeia da alma, ou, em</p><p>outros termos, o ordenamento político do espírito.</p><p>A cidade ideal não necessariamente é possível – talvez nem se queira que seja. Porém, como</p><p>diz Sócrates, ela pode ser “um modelo no céu, para quem quiser contemplá-la e,</p><p>contemplando-a, fundar uma para si mesmo” (PLATÃO, 2001).</p><p>POLÍTICO</p><p>Segundo a datação mais comumente utilizada, A república é uma das primeiras obras</p><p>escritas por Platão, em que o protagonismo de Sócrates, tanto como personagem quanto como</p><p>influência sobre o pensamento platônico, aparece mais realçado.</p><p>Em outro escrito, com Sócrates como personagem menor (em ambos os sentidos mencionados</p><p>anteriormente), podemos ver outra vez como Platão encara o problema da melhor maneira de</p><p>governar uma sociedade – dessa vez, com uma tentativa mais forte de conciliar os</p><p>aprendizados práticos com suas idealizações teóricas. O nome da obra, escrita, de acordo com</p><p>alguns estudiosos, após sua segunda passagem pela Sicília, é, simplesmente, Político .</p><p>Fonte: Statens Museum for Kunst/Wikimedia commons/Domínio público</p><p> Sócrates e Alcibíades , Kristian Zahrtmann, 1911. Alcibíades, sobrinho de Péricles, foi um</p><p>importante estratego e político ateniense.</p><p>O título se consolidou apesar de alguns intérpretes verem uma diferença na obra entre o</p><p>político, em si mesmo, e o estadista. Categorizar alguém como político seria uma maneira de</p><p>chamá-lo de sofista – isto é, em uma leitura mais frouxa, algo como falso, dissimulado,</p><p>hipócrita. Pode-se perceber que as disputas entre filósofos e sofistas eram violentas.</p><p>HIPÓCRITA</p><p>Outra palavra de origem grega, mas que tinha outros sentidos, como o de “ator”.</p><p>Aliás, tanto Político quanto Sofista – outros dos diálogos platônicos – se passam no mesmo</p><p>“dia”, com os mesmos personagens, como se um (Político ) fosse a continuação do outro</p><p>(Sofista ). Há informações de que Platão teria intenção de escrever um terceiro diálogo para</p><p>javascript:void(0)</p><p>fechar essa trilogia, que se chamaria, não por acaso, Filósofo , e retornaria o protagonismo de</p><p>Sócrates, mas tal obra foi abandonada.</p><p>Fonte: Ackland Museum, Chapel Hill, North Carolina, United States of America/Wikimedia</p><p>commons/Domínio público</p><p> A espada de Dâmocles , Richard Westall, 1812. Dâmocles era cortesão de Dionísio de</p><p>Siracusa, a quem bajulava e afirmava ser um homem verdadeiramente afortunado. Segundo a</p><p>anedota, popularizada por Cícero, o governante, para demonstrar como era aflitiva a situação</p><p>daqueles que detêm o poder, convidou Dâmocles a tomar o lugar principal em um banquete,</p><p>mas mandou pendurar sobre sua cabeça uma espada, sustentada por um fio de crina de</p><p>cavalo.</p><p>O certo é que, após as experiências frustradas de tentar transformar o tirano Dionísio de</p><p>Siracusa em um rei filósofo, o ideal máximo platônico de governante, tendo ficado, inclusive,</p><p>retido por Dionísio, na Sicília, e precisado fugir, Platão acreditava que era importante dar</p><p>atenção às dificuldades de governar que apareciam no cotidiano. O mundo não existe apenas</p><p>na abstração; é necessário encarar a realidade, com suas contradições e seus vetores de</p><p>forças, nem sempre “justos” ou “verdadeiros”.</p><p>Por isso, uma das principais sugestões da obra é a tecedura (ato de tecer algo): um estadista é</p><p>aquele que consegue não apenas saber o momento apropriado (em grego, a palavra usada é</p><p>kairós ) de aplicar seus conhecimentos específicos, mas também aquele com a capacidade de</p><p>entremear os diferentes elementos da sociedade para que ela se torne única.</p><p>Em Político , o Estrangeiro insiste em explicar a um jovem homônimo de Sócrates (os dois</p><p>personagens principais do texto) toda a tékhnē da tecelagem para servir de analogia à</p><p>política. A capacidade de entrelaçar as leis e os cuidados com todos os aspectos</p><p>da cidade</p><p>seria o que o Estrangeiro chamaria de política ou a capacidade do estadista.</p><p>O diálogo prossegue, e o Estrangeiro, que, nesse texto, faz o papel que, em outras obras, cabe</p><p>ao experiente Sócrates – isto é, desenvolver o raciocínio filosófico –, explica que esse político-</p><p>estadista modelo seria um personagem capaz de providenciar respostas infalíveis para todas</p><p>as perguntas sobre a legislação dessa sociedade. Mas ele seria ainda mais sábio que qualquer</p><p>conjunto de leis, adaptando-se para as questões cotidianas, que não podem ser previstas pelas</p><p>letras frias.</p><p>Apesar de a preocupação com a realidade ser claramente maior nesse escrito, tal político é</p><p>construído, mais uma vez, como um paradigma, como é comum nos escritos platônicos,</p><p>exatamente como foi o rei filósofo de A república .</p><p>Segundo Platão, devemos nos aproximar ao máximo desse ideal, mas sabendo que,</p><p>provavelmente, nunca o atingiremos. Ele teria experiência em comandar, obtida por meio dos</p><p>estudos, mas seria o mais difícil e o mais importante tipo de conhecimento a se adquirir.</p><p>Novamente crítico à tentativa de distribuir o poder de comandar a cidade-Estado entre mais de</p><p>uma pessoa, com receio de colocar pessoas pouco experientes ou com rasa capacidade de</p><p>guiar a sociedade, Platão, por meio do Estrangeiro, sugere que esse político ideal possa até</p><p>mesmo ignorar as leis principalmente porque se mostram pouco flexíveis, o que seria um</p><p>problema insolúvel em um mundo feito mais de fatos aleatórios que de qualquer previsão. Se</p><p>houvesse alguém capaz de abarcar tamanho conhecimento exigido sobre como governar uma</p><p>nação, como pede o Estrangeiro, seria um desperdício deixá-lo à mercê de qualquer</p><p>constituição.</p><p>Na ausência de um político ideal como esse (ou de um rei filósofo), Platão sugere que</p><p>fiquemos mesmo com a legislação, de maneira a conservar o ensinamento deixado no</p><p>passado, uma vez que as leis são “imitações da verdade executadas o mais perfeitamente</p><p>possível sob a inspiração daqueles que sabem” (PLATÃO, 1930), como diz o Estrangeiro.</p><p>ESTRANGEIRO</p><p>javascript:void(0)</p><p>Personagem sem nome que provém de Eleia – mesma cidade dos pensadores pré-</p><p>socráticos Parmênides e Zenão.</p><p>Ao fim de tantas críticas à democracia, fica, então, a pergunta:</p><p>VOCÊ JÁ VIU POR AÍ ALGUM POLÍTICO IDEAL</p><p>OU REI FILÓSOFO PARA GOVERNAR UMA</p><p>CIDADE, QUE SEJA?</p><p>Vamos conhecer um pouco mais sobre os diálogos Sofista e Político de Platão.</p><p>VERIFICANDO O APRENDIZADO</p><p>1. AO COMEÇAR A “POVOAR” NA IMAGINAÇÃO SUA CIDADE IDEAL,</p><p>PLATÃO, POR MEIO DE SÓCRATES, “EXPULSA” POETAS,</p><p>DRAMATURGOS E OUTROS ARTISTAS. QUAL É O ARGUMENTO PARA</p><p>SE PROIBIR ESSAS ARTES?</p><p>A) São úteis demais, criando uma dificuldade de imaginação além delas próprias.</p><p>B) Inflam nos escravos a vontade de lutar por suas liberdades, o que atrapalharia a economia</p><p>grega.</p><p>C) Demonstram como as mulheres são iguais aos homens, o que contrariaria o senso comum</p><p>da época.</p><p>D) Era uma maneira de acabar com as diferenças de classe entre cada um dos moradores</p><p>dessa cidade idealizada.</p><p>E) Produziriam sentimentos que atrapalham a harmonia e o equilíbrio.</p><p>2. SÓCRATES DEFENDIA QUE A ÚNICA FORMA DE CONSTRUIR UMA</p><p>SOCIEDADE IDEAL SERIA FAZER COM QUE FOSSE GOVERNADA POR</p><p>UM FILÓSOFO OU TORNAR SEUS GOVERNANTES FILÓSOFOS,</p><p>PORQUE:</p><p>A) Apenas os filósofos escapariam da degradação moral e enxergariam a verdade eterna.</p><p>B) Os filósofos são os únicos desocupados na cidade de questões práticas.</p><p>C) Os filósofos são os melhores na retórica e na oratória.</p><p>D) Os poetas haviam sido expulsos da cidade ideal.</p><p>E) Ele estava defendendo a própria profissão e querendo arranjar uma fonte de renda fixa, uma</p><p>vez que não recebia nada por suas aulas.</p><p>GABARITO</p><p>1. Ao começar a “povoar” na imaginação sua cidade ideal, Platão, por meio de Sócrates,</p><p>“expulsa” poetas, dramaturgos e outros artistas. Qual é o argumento para se proibir</p><p>essas artes?</p><p>A alternativa "E " está correta.</p><p>Com Homero e Hesíodo em mente, poetas famosos de sua época e muito usados para educar</p><p>as crianças, Sócrates queria evitar que houvesse perturbações emocionais entre os futuros</p><p>cidadãos de sua cidade ideal. Ele os considerava poetas que criavam histórias, mesmo que</p><p>pudessem ser verdadeiras, imorais, pois não miravam a temperança, o equilíbrio.</p><p>2. Sócrates defendia que a única forma de construir uma sociedade ideal seria fazer com</p><p>que fosse governada por um filósofo ou tornar seus governantes filósofos, porque:</p><p>A alternativa "A " está correta.</p><p>No mito da caverna, Sócrates narra a história de um homem que se desvencilhou dos grilhões</p><p>da escuridão e conseguiu chegar à luz – é o filósofo. Os demais habitantes do mundo</p><p>continuariam vendo sombras sem enxergar as verdades eternas. Portanto, apenas o filósofo</p><p>seria capaz de guiar uma cidade, por não se contaminar com as misérias do dia a dia.</p><p>MÓDULO 3</p><p> Reconhecer a preocupação de Aristóteles quanto à associação entre a ética e a</p><p>melhor forma de organização social em prol do alcance do bem viver</p><p>ARISTÓTELES × PLATÃO</p><p>Fonte: serato/Shutterstock.com</p><p> Escola de Atenas, Rafael Sanzio, início do século XVI. Afresco no Vaticano.</p><p>No início do século XVI, quando pintou a Escola de Atenas , Rafael Sanzio (1483-1520)</p><p>escolheu para colocar bem no centro do afresco os dois principais filósofos que o</p><p>Renascimento estava ajudando a consolidar como os mais importantes da Antiguidade.</p><p>Nenhum dos dois é Sócrates, que, no painel de quase sessenta figuras históricas, aparece</p><p>apenas em um canto, conversando com seus alunos, como era seu costume.</p><p>Na área com mais destaque da pintura de mais de 5 metros de altura por quase 8 metros de</p><p>largura, que fica atualmente no Vaticano, perto da Capela Sistina, estão Platão e Aristóteles.</p><p>Caracterizado como o muso da época Leonardo da Vinci, Platão segura um tomo de sua obra</p><p>Timeo , que aprofunda alguns dos temas levantados por A república e vai além: em linhas</p><p>gerais, trata de uma explicação cosmológica da origem do mundo. Para mostrar onde estão os</p><p>fundamentos em que ele se baseia, “Platão da Vinci” aponta para o céu, deixando explícito de</p><p>onde vinha sua noção de bem.</p><p>A seu lado, Aristóteles apresenta os traços do artista toscano, mestre da perspectiva Bastiano</p><p>da Sangallo, cujo apelido era exatamente Aristotile (como se escreve em italiano), por conta de</p><p>seu ar grave e meditativo, que lembraria o do estagirita. “Dizemos que as coisas sérias são</p><p>melhores do que as risíveis”, teria dito, certa vez, o filósofo.</p><p>Fonte: Imagem adaptada de serato/Shutterstock.com</p><p> Detalhe do afresco de Rafael Sanzio.</p><p>Aristóteles segura com a mão esquerda sua Ética a Nicômaco e está com a direita</p><p>espalmada, estendida à frente, como se quisesse deixar clara a sua oposição ao colega da</p><p>filosofia. Opostamente ao pensamento associado a Platão, Aristóteles sugeriria que o mundo a</p><p>se preocupar era este, aqui e agora. Em vez de tentar buscar alguma explicação no céu, temos</p><p>de nos importar em como viver – e bem – nas cidades em que nascemos, crescemos, criamos</p><p>laços e vamos morrer, não com as idealizadas.</p><p>Apesar da grande bagagem platônica que Aristóteles carregou ao longo da vida, por ter</p><p>estudado cerca de vinte anos com o mestre Platão na famosa Academia de Atenas fundada</p><p>por ele, o estagirita tentou ao longo de sua vasta produção intelectual distanciar-se do</p><p>professor.</p><p>A obra de Aristóteles, com quase duas mil páginas que chegaram até nós, pode ser</p><p>considerada um misto de continuação e variação dos textos platônicos: continuação por</p><p>revisitar os temas levantados pelo antecessor, e variação por tentar dar um caráter menos</p><p>relacionado aos idealismos platônicos e mais aos sentidos, à realidade.</p><p>O resultado dessa relação de proximidade e afastamento é o tamanho de sua influência sobre</p><p>o pensamento ocidental: a sombra aristotélica só pode ser mesmo comparada à sombra de</p><p>Platão. Em alguns períodos, como a Idade Média, foi até maior, a ponto de ser conhecido na</p><p>época como simplesmente O filósofo .</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>DIVERSIDADE</p><p>DA PRODUÇÃO INTELECTUAL</p><p>ARISTOTÉLICA</p><p>A produção de Aristóteles abarcou os mais variados assuntos: da lógica à retórica, da</p><p>física à metafísica, incluindo nesse meio a ética, a política, a estética e muitos outros</p><p>temas.</p><p>OBRA DE ARISTÓTELES</p><p>A quase totalidade dos escritos clássicos da Grécia ou de Roma foi completamente</p><p>perdida. As cópias possuem séculos de distância entre os originais. As 49 cópias das</p><p>obras de Aristóteles possuem uma distância de 1.400 anos; as únicas 7 cópias de Platão,</p><p>1.200 anos; as 10 cópias de Guerra Gália , de Júlio César (Roma), 1.000 anos. Curiosa</p><p>exceção se faz com a Ilíada , de Homero, com mais de 600 cópias e 500 anos de</p><p>distância; e os livros do chamado Novo Testamento , com mais de 5.600 cópias no</p><p>idioma original, e a maioria com apenas 30 anos de distância.</p><p>A ÉTICA DA FELICIDADE E DA FILOSOFIA</p><p>Uma das maneiras de continuar a obra platônica foi pensar na mistura que existe entre ética e</p><p>política. Tal entrelaçamento já aparecia nas obras de Platão, embora não tenha sido</p><p>exatamente o autor de A república a criar essa aproximação.</p><p>O grego comum daquela época achava que ambos os aspectos (o âmbito do que é certo e do</p><p>que é errado, e o âmbito da reflexão sobre a melhor maneira de se governar as cidades-</p><p>Estados) deveriam estar bem entrelaçados – por mais que essa sobreposição possa soar algo</p><p>estranho a certos ouvidos da atualidade.</p><p>Aristóteles escreveu livros para os mais variados assuntos específicos possíveis. Pense em um</p><p>tema. Provavelmente, ele já o abordou, ao menos de passagem. Em geral, a cada obra, ele</p><p>escolhia um tema em separado (biologia, zoologia, antropologia, psicologia etc.) e o explorava</p><p>até o fim.</p><p>Em Ética a Nicômaco , entretanto, texto que foi pensado para ser uma espécie de primeiro de</p><p>dois volumes, ele aborda em sua completude a “filosofia sobre os assuntos humanos”</p><p>(ARISTÓTELES, 2017). O segundo tomo assume exatamente a estrutura de um novo livro,</p><p>chamado de A política (ARISTÓTELES, 2011), onde dá continuidade àquela mesma reflexão.</p><p>Ambos os livros se mencionam e, certamente, complementam-se.</p><p>Não se sabe ao certo quando Aristóteles escreveu sua mais famosa ética . Ele também</p><p>compôs uma Ética a Eudemo , mas muito menos impactante. Há, ainda, outras obras que</p><p>abordam o tema, supostamente escritas por Aristóteles, mas suas autorias são contestadas.</p><p>Também não se tem certeza sobre quem seria o Nicômaco a quem a ética é “dedicada”. Pode</p><p>ser tanto o pai de Aristóteles – médico na corte da Macedônia que muito o influenciou em sua</p><p>formação – quanto o filho de Aristóteles – que também tinha o mesmo nome do avô e,</p><p>especula-se, teria sido o responsável por editar essa obra.</p><p>Fonte: Charles Laplante/Wikimedia Commons/Domínio Público</p><p> Aristóteles ensinando Alexandre, o Grande, em gravura de Charles Laplante.</p><p>O que é certo é o tema da obra: mais do que tratar de deveres e obrigações, a ética aristotélica</p><p>quer fazer com que nós encontremos nada mais, nada menos, que a felicidade. Em grego, a</p><p>palavra é eudaimonia (que traduzimos por felicidade ) e quer dizer algo como “ter um bom</p><p>daimon ”, que, por sua vez, é o nome grego com uma tradição filosófica forte, citada de Platão</p><p>a Nietzsche – antípodas (contrários) do pensamento ocidental.</p><p>A melhor forma de entender o vocábulo é, talvez, pensar naqueles seres que aparecem na</p><p>mitologia árabe como “gênios” e saem das lâmpadas nas histórias de As mil e uma noites ou</p><p>nos desenhos da Disney. É uma versão aparentada do que nós chamaríamos de “anjo da</p><p>guarda” ou “santo” particular – seres sobrenaturais que acompanham cada pessoa a todo</p><p>momento.</p><p>Mas a felicidade, para Aristóteles, não tem nada de sobrenatural nem de banal. Ele tenta</p><p>construir uma argumentação e uma profunda reflexão para tentar escapar das pegadinhas de</p><p>confundir felicidade com sentimentos mais imaturos ou com prazeres momentâneos, ou,</p><p>simplesmente, com a mera satisfação de um desejo. Felicidade, para ele, é algo que</p><p>demonstra a excelência específica humana, sua virtude (areté , em grego).</p><p>FRIEDRICH NIETZSCHE (1844-1900)</p><p>Filósofo alemão e crítico da cultura ocidental. Seu trabalho hermenêutico visa mostrar</p><p>como a racionalidade e a moralidade ocidentais são sempre o preconceito, o erro ou a</p><p>mera sublimação de impulsos vitais.</p><p>Fonte: Biografías y Vidas.</p><p>De acordo com Aristóteles, para ser feliz – esse tipo de felicidade virtuosa –, é necessário viver</p><p>bem como um ser humano. E, como sempre estamos dentro de algum tipo de comunidade,</p><p>vivendo gregariamente, o bem viver tem sempre relação com a organização desse</p><p>agrupamento de pessoas, o que reforça o argumento de que ética e política são duas partes</p><p>da mesma preocupação.</p><p>Mas, para Aristóteles, virtude não é um termo vinculado a uma aleatoriedade, algo com o que</p><p>nascemos, bastando sermos sortudos. É um traço de nossa personalidade, um meio pelo qual</p><p>conseguimos atingir algo, no sentido que ficou preservado na expressão “em virtude de”. Pode-</p><p>se dizer que somos felizes em virtude de sabermos utilizar, ao máximo possível, as</p><p>potencialidades que são características nossas. Ou seja, seremos felizes se conseguirmos</p><p>alcançar o que é o “bem” humano. Esse seria o objetivo de toda vida humana – e, se não</p><p>houvesse esse objetivo, a vida seria vazia e sem sentido.</p><p>javascript:void(0)</p><p>Todavia, dizer que ser feliz é explorar ao máximo nossas virtudes ou alcançar o que é o bem</p><p>humano não explica muito a questão.</p><p>PARA COMEÇAR, O QUE SERIA O BEM</p><p>HUMANO?</p><p>Aristóteles percebe que há um problema nesse âmbito e sabe que a solução dada por Platão</p><p>no livro VI de A república – que lida exatamente com a questão do bem, dizendo que é o</p><p>fundamento máximo que existe – é muito abstrata para ele. O filósofo se põe, portanto, a tentar</p><p>desvendá-lo.</p><p>A começar, ele explica que, muitas vezes, o “bem” é um problema social: é determinado pela</p><p>comunidade em que você está inserido. O que é bom para um grupo pode ser visto como ruim</p><p>para outro, e vice-versa. Esse, inclusive, é mais um argumento para a interconexão entre ética</p><p>e política, mas ainda não soluciona nossa questão.</p><p>Fonte: Wikiart/Domínio Público</p><p> Aristóteles , Paolo Veronese, 1560.</p><p>Para ajudar a explicar o que seria esse bem, que, por sua vez, seria a finalidade da vida,</p><p>Aristóteles passa uma boa parte do livro investigando as virtudes humanas por meio de suas</p><p>atividades características, como coragem, generosidade, justiça etc. Ele repara em quais</p><p>virtudes o bem é associado e percebe que são as pessoas corajosas, generosas e justas</p><p>aquelas chamadas de boas.</p><p>Contudo, ficamos ainda na dúvida sobre o que é exatamente o bem. O que dá para suspeitar é</p><p>que haveria uma associação virtuosa entre algo bem vivido (ou feito) e a finalidade da vida.</p><p>“Na medicina, é a saúde; na estratégia, a vitória; na arquitetura, uma casa”, escreve Aristóteles,</p><p>tentando explicar esse objetivo final ou teleológico, como se diz em filosofês . Talvez um</p><p>exemplo (que não é dado por Aristóteles) funcione para clarear as ideias.</p><p>O objetivo de “vida” de um martelo não é ter sido construído para, digamos, bater um prego –</p><p>isso qualquer objeto com alguma solidez conseguiria, mal ou bem –, mas ser capaz de bater</p><p>esse prego, salvo falhas de quem o empunha, bem . Isso significa que, além de ser capaz de</p><p>bater um prego, como qualquer pedra seria, tem de empurrar o prego para dentro da parede de</p><p>maneira a, por exemplo, não destruir a superfície em que o prego é inserido ou com o menor</p><p>esforço possível de quem está martelando, ou, ainda, impedir que não se martele o próprio</p><p>dedo.</p><p>Ao fim do primeiro tomo (são dez ao todo), Aristóteles (2017) sugere, então, que haveria três</p><p>tipos de vidas que poderiam ser consideradas bem vividas: uma vida de prazeres, uma vida</p><p>política e uma vida devotada à contemplação e ao estudo filosófico.</p><p>No décimo tomo, após tratar de justiça, amizade e outros temas, ele descarta uma vida só de</p><p>prazeres (ao menos alguns deles), considerando que deveríamos nos preocupar com assuntos</p><p>mais “importantes”,</p><p>segundo seu ponto de vista (ARISTÓTELES, 2017).</p><p>É só um pouco antes de terminar a obra que Aristóteles conclui que a razão é a “a melhor coisa</p><p>que existe em nós” e, portanto, nada mais justo que considerá-la o caminho para saber o “fim”</p><p>do homem, o que traria mais felicidade a ele. Além disso, a razão é completamente</p><p>autossuficiente, não depende de nada nem de ninguém, é pura, não poder ser contaminada e</p><p>tem uma durabilidade razoavelmente independente de fatores externos: com a devida</p><p>tranquilidade, pode se entreter com os próprios pensamentos em muitos lugares e muitas</p><p>situações (ARISTÓTELES, 2017).</p><p>Por conta disso, Aristóteles (2017) arremata, bem ao estilo do homem que foi chamado de O</p><p>filósofo pelos medievais: o objetivo último da vida humana, portanto, sua felicidade, é a</p><p>atividade intelectual mesma, porque a “sabedoria filosófica é reconhecidamente a mais</p><p>aprazível das atividades virtuosas”.</p><p>AS DIFERENTES CONSTITUIÇÕES</p><p>Fonte: Autor desconhecido/Wikimedia commons/Domínio público</p><p> Alexandre corta o nó górdio , Jean-Simon Berthélemy, 1767.</p><p>Segundo os comentadores de Aristóteles, a Ética para Nicômaco teria sido escrita para</p><p>legisladores e estadistas. Portanto, não deveria espantar a preocupação em terminar a obra</p><p>com a sugestão de se investigar os diferentes sistemas políticos que, porventura, fossem</p><p>conhecidos à época para se saber qual seria a melhor forma de governar um povo. E é</p><p>possível já dizer ainda na Ética : assim como Platão, Aristóteles também era contrário à</p><p>democracia, ao menos da maneira como era feita por Atenas.</p><p>Além de achar que a democracia era o mau governo da maioria, que beneficiaria apenas</p><p>alguns, em vez de focar em todos os cidadãos, em um bem comum, Aristóteles também tinha</p><p>uma motivação pessoal para se colocar contrariamente ao sistema ateniense. Assim como</p><p>Sócrates, antes dele, o estagirita foi igualmente perseguido na mais famosa cidade-Estado</p><p>grega, em um momento em que os atenienses estavam se revoltando contra todo macedônio</p><p>e, principalmente, contra qualquer pessoa relacionada a Alexandre Magno. Aristóteles não</p><p>somente tinha crescido na corte da Macedônia (onde seu pai atuou como médico), mas</p><p>também tinha sido um professor de Alexandre.</p><p>Diferentemente de seu “avô” intelectual, que, condenado à morte, aceitou a pena e tomou</p><p>cicuta oficialmente, Aristóteles fugiu da cidade, com o argumento de que não iria “permitir que</p><p>javascript:void(0)</p><p>os atenienses pecassem duas vezes contra a filosofia”.</p><p>Ainda de acordo com alguns estudiosos da obra aristotélica, o filósofo teria escrito um pequeno</p><p>livro sobre a história política de Atenas, ao qual deu o nome de A constituição dos atenienses .</p><p>A autoria do livro é controversa por diversas razões – por exemplo, ele se mostrar mais</p><p>favorável à democracia que em outros escritos. O que se pode considerar como mais provável</p><p>é que nesse texto, como em outros aristotélicos, o estagirita teria recebido ajuda de alunos de</p><p>seu Liceu. O livro consiste em um exame de 158 constituições diferentes da cidade.</p><p>Além da abordagem teórica das diferentes formas de governo do passado, há, também, na</p><p>segunda metade do livro, uma tentativa de interpretação de como era o governo ateniense no</p><p>período em que Aristóteles vivia lá. Ele fala desde como era feito o recenseamento até como</p><p>eram escolhidos os magistrados. Trata-se de um trabalho historiográfico exaustivo e</p><p>importantíssimo para entender como funcionava o primeiro sistema de governo no Ocidente</p><p>(ao menos o primeiro conhecido) a dividir entre seus cidadãos o poder das decisões sobre</p><p>todos (ARISTÓTELES, 2015).</p><p>Em A política , livro dedicado a teorizar sobre organizações sociais, Aristóteles criticou muito a</p><p>democracia ateniense, considerando-a demagógica e um caminho inevitável em direção à</p><p>tirania – esta, ainda, a pior forma de governo possível por concentrar em apenas uma pessoa</p><p>os benefícios de toda a sociedade.</p><p>Suas críticas à democracia, junto a seu costumeiro racismo, sua frequente xenofobia, seu</p><p>machismo e sua defesa da predominância masculina no poder e, por fim, a justificativa da</p><p>escravidão fizeram com que esse tratado político fosse malvisto até, de modo razoável,</p><p>recentemente na história da filosofia.</p><p>CICUTA</p><p>Suco extraído da cicuta-da-europa, espécie rica em conicina, um dos venenos mais letais</p><p>que existem, usado na Grécia Antiga para executar condenados.</p><p>Fonte: Dicionário eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa.</p><p>javascript:void(0)</p><p>javascript:void(0)</p><p>LICEU</p><p>Espécie de primeira universidade do mundo montada por Aristóteles, em Atenas, logo</p><p>após Alexandre conquistar a cidade.</p><p>RECENSEAMENTO</p><p>Arrolamento dos indivíduos que estão nas condições previstas por lei de fazer certos</p><p>serviços, desempenhar cargos ou exercer funções.</p><p>Fonte: Dicionário eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa.</p><p>O inglês Thomas Hobbes (1588-1679), autor de Leviatã – um dos maiores clássicos das</p><p>Ciências Políticas –, chegou a dizer que, improvavelmente, encontraríamos texto mais</p><p>repugnante que A política de Aristóteles. Assim como aconteceu com Platão, Aristóteles</p><p>também foi visto como totalitário por alguns intérpretes da atualidade – e, novamente,</p><p>precisamos nos atentar para os anacronismos!</p><p>A política – mesmo para Hobbes e liberais como John Locke (1632-1704) ou comunistas</p><p>como Karl Marx (1818-1883) – é vista até os dias atuais como uma obra incontornável na</p><p>história da teoria política, apesar de seus problemas e de ter, em certos aspectos, envelhecido</p><p>mal.</p><p>javascript:void(0)</p><p>Fonte: Autor desconhecido/Wikimedia commons/Domínio público</p><p> Gravura de Abraham Bosse que ilustra a capa da primeira edição da obra Leviatã de</p><p>Thomas Hobbes.</p><p>ANACRONISMO</p><p>Erro de cronologia que geralmente consiste em atribuir a uma época ou a um</p><p>personagem ideias e sentimentos que são de outra época, ou em representar, nas obras</p><p>de arte, costumes e objetos de uma época a que não pertencem.</p><p>Fonte: Dicionário eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa.</p><p>Também não é uma concessão a Aristóteles, por conta do tamanho de seu nome, mas uma</p><p>constatação de que há abordagens do livro que podem ainda na atualidade funcionar. Muitos</p><p>de seus principais temas permanecem atuais, e continuam a reverberar e fazer sentido, tais</p><p>como:</p><p>A justiça e a lei.</p><p>O estatuto do cidadão.</p><p>A participação política da comunidade como obrigação ou privilégio.</p><p>A educação pública.</p><p>A felicidade humana.</p><p>Na obra, Aristóteles mostra como o homem é um animal político. Ele tenta propor a melhor</p><p>maneira de organização social possível, indaga a respeito de quem poderia governar sobre os</p><p>outros e sobre que bases se apoiaria. Aristóteles faz, em geral, uma defesa de uma</p><p>constituição – ou seja, certa organização dos habitantes de um Estado – que beneficie o bem</p><p>comum, em vez de priorizar apenas algumas pessoas, como os próprios governantes. Para</p><p>tanto, o filósofo lista seis possibilidades de governo:</p><p>Monarquia e tirania – o governo de apenas um.</p><p>Aristocracia e oligarquia – o governo de poucos.</p><p>Politeia e democracia – o governo de muitos.</p><p>Vejamos a diferença entre os termos: apenas os primeiros (monarquia, aristocracia e politeia )</p><p>teriam essa preocupação com o bem comum, que Aristóteles menciona como a mais</p><p>importante característica de uma constituição. Os segundos termos (tirania, oligarquia e</p><p>democracia) mostram as degenerações, como boas ideias podem sempre descarrilar para</p><p>priorizar uma, poucas ou, no máximo, algumas pessoas.</p><p>No início do livro A política , Aristóteles afirma que a melhor forma de governo seria a</p><p>monarquia ou a aristocracia. No meio da obra, ele muda de opinião e diz que, para a maioria</p><p>das cidades-Estados, o melhor mesmo seria uma constituição mista, que fizesse um</p><p>agrupamento da aristocracia com a politeia . Por fim, ele fala de uma cidade dos sonhos, em</p><p>que todos os cidadãos governariam.</p><p>O que fica dessas reviravoltas é a tentativa de não se fazer um único receituário que possa ser</p><p>aplicado a qualquer localidade, em qualquer condição. É importante</p>

Mais conteúdos dessa disciplina