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<p>NO ESCRITÓRIO EU JÁ PERCEBIA NA JULIANA UMA PROFISSIONAL DEDICADA, COM GANA DE DAR CERTO E DONA DE UMA ENERGIA MUITO GRANDE DE FAZER. ELA SEMPRE TRANSFORMAVA TUDO EM APRENDIZADO ARQUI E USAVA A CURIOSIDADE A SEU FAVOR. ERA ÓTIMA E FICO FELIZ QUE TENHA SE DESCOBERTO UMA CRIADORA TÃO INSPIRADA - E PARA TODOS os SENTIDOS." TETUR BEL LOBO A ARTE DE SEN PROJETAR PARA TODOS ISBN 978-85-7478-921-7 SENTIDOS Juliana Duarte N</p><p>COORDENAÇÃO EDITORIAL CIP-BRASIL CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e Secretaria Municipal de Cultura apresentam Marcela Bronstein N424a TEXTO Neves, Juliana 1980- Juliana Duarte Neves Arquitetura sensorial a arte de projetar para os sentidos / Juliana Duarte PREFÁCIO 1. ed. Rio de Janeiro Mauad 2017. Vera Damazio 188 p. il 21 cm. PESQUISA ICONOGRÁFICA Inclui bibliografia e índice Patrícia Pamplona Ficheiro Pesquisa ISBN 9788574789217 1. Arquitetura. I. EDIÇÃO DE IMAGENS 17-45638 Fabiana Takeda CDD: 720.981 Marcela Bronstein CDU: 72.036(81) Patrícia Pamplona ARQUI PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO Juliana Duarte Neves, 2017 Dupla Design Direitos desta edição reservados à: FOTOGRAFIAS Mauad Editora Ltda. Felipe Cohen Rua Joaquim Silva, 98, 5° andar REPRODUÇÃO DE IMAGENS Lapa Rio de Janeiro - RJ Pepe Schettino CEP: 20241-110 Tel.: 3479-7422 PREPARAÇÃO DE ORIGINAIS www.mauad.com.br Michelle Strzoda TETURA mauad@mauad.com.br COPIDESQUE Laura Folgueira REVISÃO A ARTE DE Mauad Editora ADMINISTRAÇÃO DE PROJETO Gustavo Lacerda Anima SEN PROJETAR IMPRESSÃO PARA TODOS Gráfica Ipsis SENTIDOS SORIAL Juliana Duarte Neves COEDIÇÃO E REALIZAÇÃO PATROCÍNIO MARCELA CULTURA+ NASAJON RIO BRONSTEIN PETROSERV S.A. PREFEITURA PRODUÇÕES Mauad X</p><p>SUMÁRIO 7 COISAS, ESPAÇOS E CONEXÕES EMOCIONAIS - Vera Damazio 10 UM PERCURSO PELOS SENTIDOS 19 0 PERCURSO: DAS EXPERIÊNCIAS AOS SENTIDOS 21 Produto ou experiência? 24 Construir o efêmero 28 Do corpo da arquitetura para a arquitetura do corpo 35 SOBRE SENTIDOS: UMA ABORDAGEM PROJETUAL 37 Uma história de prazer e desconfiança 44 Os sentidos como filtro 46 Os sistemas perceptivos: redefinindo os sentidos 47 O sistema paladar-olfato 57 O sistema háptico 73 O sistema básico de orientação 82 O sistema auditivo 87 sistema visual 93 CONSTRUÇÕES PARA TODOS SENTIDOS 94 Thermal Baths 114 Blur Building 130 Museu dos Judeus de Berlim 159 os SENTIDOS NA PRÁTICA 181 SOBRE A AUTORA 182 BIBLIOGRAFIA 186 CRÉDITOS DAS IMAGENS 187 AGRADECIMENTOS</p><p>COISAS, CONEXOES EMOCIONAIS Cavernas, pedras lascadas, flautas, faróis, anzóis, arpões, brasões, castelos, bússolas, espadas, me- dalhas, moinhos, vinhos, sinos, catedrais, perfumes, pratos, praças, espectrômetros, elevadores, defumado- res, cobertores, computadores, abajures, restaurantes, relógios, lojas, livros, jardins... Nossas invenções nos acompanham desde o berço de nossa existência e ilustram nossa admirável capacidade de fazer, usar e atribuir significados às coisas. Vivemos atrelados às coisas e aos espaços que inventamos para atender as nossas necessidades, das mais simples e bási- cas às mais complexas e transcendentais. Muito mais do que possibilitar nossa sobrevivência ou torná-la mais confortável, as coisas e os espaços que inventamos participam ativamente da vida cotidiana. Quanto mais vivemos, mais coisas e espaços passam a fazer parte de nossas histórias. É difícil imaginar objetos, lugares, serviços ou qualquer um de nossos inventos como "emocionalmente neutros", pois, lá pelas tantas, quase tudo à nossa volta guarda relação com passagens de nossas vidas. Nossas experiências diárias são mediadas pelo entorno material e suas formas, sons, odores, cores, sabores, textu- ras, temperaturas. As coisas e os espaços que nos rodeiam são espectadores, coadjuvantes e muitas vezes personagens principais de nossas ações diárias. Eles se fazem perceber por todos os nossos sentidos e acabam tornando-se, tam- bém, marcas daqueles que os escolhem e códigos culturais através dos quais nos apresentamos, nos identificamos, nos singularizamos e nos relacionamos com o outro. Os espaços e as coisas que nos cercam estabelecem significados sobre nós mesmos. ARQUITETURA SENSORIAL COISAS, ESPAÇOS E CONEXÕES EMOCIONAIS 7</p><p>Às vezes, a camisa combina com a calça, mas não combina ressalta nossas qualidades e fortalece nossa identidade em com o restaurante em que estamos e nem com nosso estado todas as suas dimensões. Estabelecemos conexões emocio- de espírito. O sofá combina com as cortinas, mas destoa do nais com o que fortalece nossos vínculos conosco, com a socie- piso, das cores da parede e do nosso jeito de ser. O carro com- dade e com universo; com que nos faz sentir necessários, bina com o sapato, mas não condiz com relógio, o perfume importantes, únicos e parte de um todo; e com o que promove e nossa posição social. vivências de toda natureza. Além de antiga e vital, nossa relação com os espaços, O que nos conecta emocionalmente com meio cons- as coisas e seus significados é reveladora e, não à toa, vem truído é, acima de tudo, a qualidade das experiências por ele ganhando cada vez mais relevância na investigação de fenô- promovidas. menos sociais em diversas áreas do saber. Os espaços e as É por isso que tempos de criança têm gosto de mingau e coisas que nos rodeiam são inseparáveis daquilo que somos, textura de pijama de flanela. As férias na fazenda têm o som e incorporam metas, manifestam habilidades e dão forma, do canto matinal do galo e o frescor da brisa na varanda. O cores, cheiros, sons e sabores à nossa identidade. primeiro beijo no banco da praça fica com sabor de flores de É fácil concordar com a importância dos estudos sobre a jasmim. O passeio na beira da praia tem cheiro de maresia e relação afetiva das pessoas com seu entorno físico. Difícil gosto de sorvete. é encontrar alguém que não tenha conexão emocional com E é assim que a experiência de ler Arquitetura sensorial: algum espaço ou coisa e não guarde em sua memória formas, a arte de projetar para todos os sentidos da vibrante e colo- sons, odores, cores, sabores, texturas, temperaturas. rida Juliana vai ganhar a forma, os sons, os odores, as cores, Mas com quais espaços estabelecemos conexões emocio- os sabores, as texturas e as temperaturas do espaço no qual nais? Com aqueles que testemunharam a nossa infância, a quem agora nos lê estiver. nossa adolescência ou o nosso amadurecimento? Com aqueles onde convivemos com os nossos amigos e a família ou em que ficamos a sós com a nossa cara-metade? Com aqueles onde comemoramos acontecimentos especiais como aniversários, casamentos, nascimentos, viagens e férias, ou nos quais vivenciamos ações rotineiras como ler, dormir, acordar, traba- lhar, estudar, almoçar, descansar, namorar, comprar legumes, cadeiras, remédios, empanadas, óculos escuros? Vera Damazio Nossa conexão emocional é mais intensa com espaços que Formada em Desenho Industrial e Comunicação Visual pela Pontifícia nos abrigam habitualmente, eventualmente ou raramente? Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), mestre em Design Gráfico Com espaços para conversar, meditar, se divertir, aprender, pela Boston University (EUA) e doutora em Ciências Sociais pela Universidade dançar ou comer? Com espaços que nos conectam com nós Estadual do Rio de Janeiro onde defendeu a tese Artefatos de memória mesmos, com o outro ou com que nos transcende? Com es- da vida cotidiana: um olhar interdisciplinar sobre as coisas que fazem bem paços práticos e funcionais ou mágicos e envolventes? lembrar. É professora da PUC-Rio, nos Programas de Graduação e Pós- A resposta é: todas as alternativas citadas. Estabelecemos graduação em Design. Coordena 0 Laboratório Design, Memória e Emoção conexões emocionais com o que reflete nossas singularidades, (LABMEMO) e também 0 Programa PUC-Rio Mais de 50, para 0 público com mais de 50 anos. Autora de diversos textos e palestras sobre design social, 8 ARQUITETURA SENSORIAL COISAS, ESPAÇOS E CONEXÕES EMOCIONAIS design emocional, memória afetiva e longevidade com qualidade.</p><p>UM PERCURSO Mas deve haver unidade e coerência na utilização dos mate- riais e na construção dos ambientes, para que o cliente receba PELOS SENTIDOS as impressões sensoriais de acordo com que seja relevante para o conceito do projeto. Queremos trabalhar os materiais e suas propriedades como eles são. De que adianta, por exem- plo, utilizar um piso de porcelanato que imita madeira, mas Quando digo que minha empresa é especializada em arquite- que, ao toque dos pés seja frio e transmita uma tura sensorial, as pessoas supõem que nós ajudamos a escolher mensagem ambígua? o cheiro que será característico da marca, a trilha sonora para No nosso dia a dia, vários exemplos ilustram a importância cada coleção, o bombom que será servido com cafezinho... de uma arquitetura sensorial, como é caso dos provadores Há certa confusão entre o chamado marketing sensorial, que de lojas de roupas. Se lá é onde ocorre o contato mais íntimo cuida, entre outras coisas, dos símbolos que transmitem a per- de um cliente com a marca onde se dá, consequentemen- sonalidade da marca (músicas, tom de imagens e outros te, a decisão da compra devemos ter atenção especial às e o trabalho do arquiteto, que consiste na criação cabines e avaliar todos os elementos para que a experiência de um ambiente que transporte sensorialmente visitante ao seja a melhor possível. mundo da marca e conecte aos seus valores. Os efeitos que Temos que avaliar o piso no qual cliente fica espaço físico exerce sobre uma pessoa aquela primeira o local onde acomoda seus pertences enquanto experimenta impressão que temos ao entrarmos em um ambiente e a emo- as roupas; onde pendura as peças, separando aquelas de que ção que sentimos naquele lugar fazem parte da arquitetura gostou das que não pretende levar; o modo como a porta ou a sensorial, escopo profissional do arquiteto. cortina se fecha, preservando a sua intimidade; o espelho e a Por isso, nosso desafio é o de criar um ambiente ao qual iluminação, que achatam ou alongam seu corpo, revelando ou visitante se conecte emocionalmente por meio dos sistemas mascarando as imperfeições; a temperatura do ar-condicionado; sensoriais, tendo uma experiência positiva O obje- e outros vários elementos que participam de forma positiva tivo é que a pessoa se sinta bem naquele lugar e queira voltar. ou negativa desse momento. Tudo tem que ser pensado para Embora nem sempre seja possível perceber, o que nos envolve melhorar a experiência do visitante e facilitar (ou ao menos ao entrarmos em um ambiente não é somente o que vemos não atrapalhar) sua decisão de compra. dele, mas também os sentimentos que desperta, as emoções Numa loja de biquínis ou lingeries, por exemplo, onde que traz e o grau de conexão que experimentamos naquele cliente fica completamente despido para experimentar o pro- espaço físico. A primeira impressão que fica não é um impacto duto, a privacidade deve ser uma preocupação fundamental meramente visual, e sim sensorial: a temperatura, o aroma, a ao se projetar a porta do provador. O cliente precisa se sentir umidade do ar, a intensidade da luz, os sons do ambiente, a seguro e protegido. Da mesma forma, a temperatura das ca- resposta do piso aos nossos passos todos esses elementos, e bines tem que ser controlada para permitir certo conforto: uma infinidade de situações influenciam o modo como nos se for desagradável a experiência tenderá a ser a mais breve sentimos em determinado lugar. Lojas que comercializam ternos ou roupas de frio, Do ponto de vista da execução, são muitas as escolhas a por sua vez, poderão encontrar dificuldades caso faça muito fazer. Se vamos utilizar madeira, por exemplo, podemos lixá-la calor nos provadores. para que fique lisa, deixá-la crua, cortá-la em micropedacinhos SENSORIAL para formar um mosaico ou, ainda, manter os troncos intactos. UM PERCURSO PELOS SENTIDOS 11</p><p>O ideal seria que cada cabine tivesse seu próprio con- aos poucos, comecei a não mais me reconhecer como uma trole de temperatura, já que o conforto, nesses casos, é uma profissional de criação. questão individual. Infelizmente, ainda esbarramos em li- As respostas emocionais, a potencialização dos sentimen- mitações pois a maior parte dos lojistas e fornecedores de tos e as experiências proporcionadas aos clientes, apesar de ar-condicionado não se interessa em executar projetos não tão importantes na construção e no engajamento emocional convencionais e entrega o mesmo serviço aos seus clientes com as marcas, eram pontos cada vez mais distantes de meu sem diferenciação ou seja, a mesma temperatura para todos horizonte, e assim, na correria cotidiana, fui deixando de lado os ambientes. Além disso, alguns shoppings possuem siste- as questões menos tangíveis e mensuráveis dos projetos. mas de refrigeração com tubulações antigas, inviabilizando Até que um dia, uma importante marca carioca de vestuá- projetos mais ousados. Os entraves práticos precisarão ser rio feminino nos fez uma curiosa e desafiadora encomenda. pouco a pouco superados. A empresa queria que sua traduzisse os valores da Há tantos exemplos da importância desses elementos no marca e que a experiência do cliente fosse única e significa- nosso dia a dia que não nos damos conta a não ser que nossa tiva, conectando-o emocionalmente à loja. Para alcançar tal percepção e nossos sentidos estejam alinhados com a razão, o objetivo, pediu-nos que sua arquitetura fosse projetada para que nem sempre Quando comecei a me dar conta disso, todos os sentidos. iniciei minha pesquisa sobre arquitetura sensorial. Mas como projetar um ambiente comercial que conseguisse Sou fascinada por arquitetura desde que comecei a traba- criar essa conexão emocional com o visitante, propiciando-lhe lhar com ela, aos 16 anos, ainda na escola, e não parei mais. uma experiência única e marcante? E o espaço como projetá-lo Inicialmente voltei-me para projetos residenciais, mas a par- para todos os sentidos? Percebi que eu não tinha repertório tir de 2003, já formada, migrei para o segmento do varejo e para a grandeza do desafio e senti necessidade de retornar estabeleci uma intensa relação com projetos de lojas, bares e ao mundo acadêmico. restaurantes e posicionamento de marcas. Decidi desenvolver uma pesquisa de Mestrado o que, por Durante os quatro primeiros anos de minha vida profissio- se tratar de um tema tão pouco explorado, especialmente no nal, trabalhei em um escritório de arquitetura comercial de Brasil, revelou-se uma missão quase impossível. Por esse mo- grande porte no Rio de Janeiro, com uma coleção de clientes tivo, em 2009 inscrevi-me no processo seletivo para uma bolsa muito especiais. O malabarismo diário imposto pela rotina de de pesquisa na Universidade de Brown, nos Estados Unidos. desafios consistia em que eu fosse criativa, projetasse lojas Felizmente, fui selecionada e mudei-me para Providence, no ao mesmo tempo funcionais e com personalidade, atendesse estado de Rhode Island, em 2010. bem aos clientes e, principalmente, cumprisse os rigorosos A experiência na Universidade de Brown foi transforma- prazos dos projetos comerciais. dora. Tive acesso a importantes fontes para as respostas que No dia em que assumi a coordenação do escritório, deixei buscava e em 2012, com a ajuda e a orientação preciosa de título de "arquiteta" de lado para me dedicar mais e mais à Vera Damazio, concluí, na Pontifícia Universidade Católica resolução de problemas de todo tipo o que se, por um lado, 1 No caso do varejo, esse do Rio de Janeiro (PUC-Rio), a dissertação Sobre projetos termo, tomado do me permitiu compreender as diversas facetas do trabalho, designa a loja projetada para todos os sentidos: contribuições da arquitetura para por outro, limitou minha criatividade. Às voltas com ques- especialmente para 0 desenvolvimento de projetos dirigidos aos demais sentidos fortalecimento da marca tões pontuais de projeto e obras, eu quase não projetava, e, por meio de um conceito além da visão, que é a base deste livro. inovador e impactante, Cabe acrescentar que projetos de arquitetura dirigidos a 12 ARQUITETURA SENSORIAL objetivando a exposição UM PERCURSO PELOS SENTIDOS de um estilo de vida. outros sentidos que não o da visão são, muitas vezes, foco de</p><p>projetos voltados para os deficientes visuais e, embora este e a atmosfera criada por ela deve contemplar todos os livro possa de algum modo servir a tal finalidade, esse não foi sentidos, esses dois autores levam a pensar sobre projetos um dos meus objetivos na pesquisa. para todos os sentidos. A análise dos sentidos sob o ponto de vista projetual me Mas por que não projetamos para todos os sentidos? Ao instigava, então quis investigar os atributos que contribuem longo da trajetória deste estudo, foi importante descobrir, para que os visitantes de um espaço vivam uma experiência também, por que costumamos dar mais importância à visão marcante.0 objetivo era entender a capacidade da arquitetu- do que aos demais sentidos. A base para isso foi o trabalho ra em promover e mediar essa vivência. Para tanto, comecei do professor Anthony Synnott, que defende a ideia de que minha investigação buscando compreender o termo "design fomos culturalmente moldados com base no sentido da visão. de experiências". Diante da hipótese de que não projetamos para todos O ponto de partida do estudo foi o livro The Experience os sentidos porque nossa formação tem o sentido da visão Economy: Work Is Theater and Every Business Is a Stage [A como principal foco, precisei entender o papel dos demais economia da experiência: o trabalho é teatro e cada negócio sentidos na percepção do meio construído. Para isso, me é um palco], dos professores Joseph Pine II e James Gilmore. baseei principalmente nos ensinamentos do psicólogo norte- Lançada em 1999, a obra inaugura uma nova área de pesquisa, -americano James Jerome Gibson. Em The Senses Considered a da economia da experiência, e relembra o clássico choque as Perceptual Systems [Os sentidos considerados como siste- do futuro, do também professor Alvin Toffler, escrito quase mas de (1966), o autor considera os sentidos como três décadas antes, em 1972. Os dois trabalhos, além de ex- sistemas responsáveis pela percepção do meio construído, plicarem por que as experiências num espaço físico são muito agrupando-os de acordo com sua necessidade e papel. Sua influenciadas pela atmosfera do local, discutem a importância abordagem, direcionada para a percepção do ambiente, é da orquestração dessa experiência. adotada pelos autores que discutem projetos arquitetônicos A partir dessas definições e para seguir investigando sob o ponto de vista dos sentidos, como Lisa Heschong, Upali como a arquitetura pode contribuir para o delineamento de Nanda, Joy Malnar e Frank Vodvarka, além de Pallasmaa. uma experiência e para a criação da conexão emocional en- Mas o levantamento bibliográfico não bastava para dar tre o visitante e o meio projetado meu foco na arquitetura conta dessa importante discussão. Por isso, busquei em comercial teve que ser ampliado. Nesse sentido, a pesquisa exemplos reais de edifícios construídos a possibilidade de entrou no campo mais abrangente da arquitetura de atmos- discutir como um projeto pode estar orientado para todos feras, a partir, especialmente, do trabalho de Peter Zumthor, os sentidos. Neste livro apresento três construções que con- teórico da área e um dos maiores arquitetos contemporâneos, sideram a experiência do visitante para além da visão: o ganhador do Pritzker Prize (maior premiação de arquitetura no Thermal Baths, em na de Zumthor, cuja finali- mundo). Seu livro Atmospheres: Architectural Environments dade é o bem-estar de seus visitantes; o Blur Building, dos Surrounding Objects [Atmosferas: ambientes arquitetônicos arquitetos Elizabeth Diller e Ricardo Scofidio, um pavilhão ao redor de objetos] ajuda a compreender, pela perspectiva de exposições temporário em formato de nuvem, construído do projeto, a conexão emocional que se estabelece entre a para a Expo 2002, também na e que se destaca pelos atmosfera do espaço físico e o visitante. mecanismos projetados para a socialização dos visitantes; e o Além de Zumthor, Juhani Pallasmaa, arquiteto finlandês e Museu dos Judeus de Berlim, do arquiteto Daniel Libeskind, professor, foi importante para fundamentar a discussão sobre ARQUITETURA SENSORIAL as atmosferas construídas. Ao sugerirem que a arquitetura UM PERCURSO PELOS SENTIDOS 15</p><p>cujo objetivo é o de evocar sentimento de solidariedade às sentidos. Na sequência, apresenta os grupos sensoriais confor- vítimas do Holocausto. Esta última obra merece algumas me o modelo de Gibson, que os classifica da seguinte maneira: a mais. sistema paladar-olfato, sistema háptico, sistema básico de Diferentemente das duas outras construções aqui apresen- orientação, sistema auditivo e sistema visual. tadas, que conheci apenas pelas referências em livros e por O terceiro capítulo, "Construções para todos os sentidos", fotografias, tive a oportunidade de visitar Museu dos Judeus convoca esses referenciais para mostrar como o Thermal de Berlim durante o curso de minha investigação. Assim, a Baths, o Blur Building e o Museu dos Judeus de Berlim foram descrição do Museu conta também com minha vivência pes- projetados com foco em todos os sentidos, buscando proporcio- soal, que me permitiu explorar, em primeira pessoa, a força de nar aos frequentadores experiências complexas e memoráveis. sua construção. Além disso, por ocasião de minha visita, tive Por fim, em Os sentidos na prática", demonstrei como acesso aos livros nos quais os visitantes registraram relatos procurei incorporar aos projetos que executo os valores e sobre o impacto que receberam a partir da arquitetura do saberes aprendidos. museu. Esses depoimentos são aqui evocados na medida em Somos, enfim, vários sentidos além da visão. Somos emo- que ajudam a constatar a experiência sensorial proporcionada ção. E é por isso que tanto me fascina a arte de projetar para pela visita. todos os sentidos. Como ainda há pouca bibliografia sobre o tema no Brasil, Escolha um ambiente em que a iluminação, os sons e a fui muito estimulada a transformar a pesquisa em livro. Espero atmosfera sejam agradáveis, acomode-se bem e me acompa- assim contribuir para o conhecimento do campo do design nhe nesta visita à dimensão mais sensível da arquitetura. emocional, área de investigação recente e que se estende para Boa leitura! além da forma, da função, do desempenho e da usabilidade, incluindo também as respostas emocionais e as experiências que as ações de design podem estimular entre os visitantes Juliana Duarte Neves de um meio construído. #arquiteturasensorial O primeiro capítulo, intitulado "O percurso: das #arquiteturadeatmosferas #designeemocao cias aos sentidos", apresenta o percurso desta investigação, #thermalbaths partindo do design de experiências e chegando à arquitetura #blurbuilding de atmosferas. Seu objetivo é mostrar que toda a esfera senso- #jewishmuseumberlin rial deve ser considerada em projetos que desejem estabelecer uma conexão emocional com o visitante. O capítulo seguinte, "Sobre sentidos: uma abordagem projetual", dedica-se a apresentar a importância de cada sen- tido, discutindo também historicamente a importância dos recursos com os quais respondemos tão imediatamente ao ambiente. Além de abordar conceitos, definições e exemplos sobre sentidos relevantes para o ato de projetar, investiga por que temos dado mais importância à visão do que aos demais 16 ARQUITETURA SENSORIAL UM PERCURSO PELOS SENTIDOS</p><p>01 0 PERCURSO: DAS EXPERIÊNCIAS AOS SENTIDOS</p><p>PRODUTO OU EXPERIÊNCIA? Apesar de ser polêmica e imprecisa a ideia de que é possível projetar experiências, a expressão "design de experiências" vem se firmando como tendência em diversas áreas de conhecimento. Em The Experience Economy: Work Is Theater and Every Business Is a Stage [A economia da expe- riência: trabalho é teatro e cada empresa é um palco] (1999), Joseph Pine II e James H. Gilmore usam pen- samento do clássico choque do futuro (1972), de Alvin Toffler, para defender a importância de as em- presas proporcionarem experiências marcantes aos clientes. Os autores acreditam na progressão do valor econômico dos bens, serviços e experiências; ou seja, no fato de o valor material e simbólico de uma experiência ser maior do que o de um serviço, e este maior do que o de um bem por si só. Eles ex- plicam que, embora nesta nova fase econômica um bom produto ou um excelente serviço sejam funda- mentais, tais qualidades não são mais suficientes para atender o que eles entendem por incessante insatisfação e descartabilidade, fatores que caracte- rizam a mentalidade do consumidor Toffler afirma que a constante transitoriedade vivida pela sociedade contemporânea é a maior sensação de que nada é permanente. Isso faria com que tudo fosse descartável: de produtos, roupas e estruturas a amizades e relacionamentos. Os re- lacionamentos do homem com as coisas estariam, inclusive, tornando-se cada vez mais temporários, ARQUITETURA SENSORIAL 0 PERCURSO: DAS EXPERIÊNCIAS AOS SENTIDOS 21</p><p>efêmeros. Há algumas gerações, ele explica, os va- são design de um produto e seu processo. Não ha- lores os princípios morais das pessoas vêm se veria, portanto, regras rígidas a seguir num ambien- modificando, e nossas atitudes para com as coisas Future te trabalhado como palco de uma experiência esta, refletem julgamentos básicos de valor. se bem projetada, pode ser já que as Nesse sentido, a nova geração de meninas tro- pessoas querem é ser afetadas: "As experiências que ca suas Barbies facilmente por um modelo novo da vivemos afetam quem somos, que alcançamos, e boneca, mais moderno, ao passo que suas avós se para onde estamos indo, e nós vamos cada vez mais prendiam nostálgica e amorosamente às bonecas de by pedir às empresas que promovam experiências que pano, até que estas se desintegrassem de tão velhas. nos modifiquem". Toffler também afirma que os comportamentos atuais refletem uma nova sociedade, baseada na transitorie- Toffler O designer Jorge Frascara defende que devemos mudar foco do design de objetos para do design de dade, e que as experiências vividas por uma pessoa situações capazes de proporcionar experiências signi- são um dos poucos bens que não podem ser descar- ficativas, tais como as focadas em socialização, bem- tados: "Pode ser que as experiências sejam os únicos Capa original do Choque do Futuro, -estar e solidariedade. Mais uma vez, esse pensamento clássico de Alvin Toffler lançado em janeiro produtos que, uma vez adquiridos pelo consumidor, vai ao encontro da ideia de que o design diz respeito ao de 1970 pela editora Random House. não possam mais ser tomados dele, não possam ser impacto que os objetos exercem nas pessoas. utilizados como se fossem garrafas de soda ou lâmi- Louvre Abu Dhabi (Emirados Tendo em conta esse universo, qual seria papel museu planejado pelo arquiteto Jean nas de barbear". Toffler acrescenta ainda que nossos da arquitetura na orquestração de uma experiência? Nouvel e inaugurado em Uma laços com espaço físico também se modificaram, cúpula dupla de 180 metros de diâmetro, Em um projeto, quais elementos de um espaço físico perfurada de forma aleatória, cria um sendo hoje menos duráveis. criam um ambiente capaz de propiciar a vivência de efeito de de luz, com sombras Por sua vez, Pine II e Gilmore comentam que, pontuais e rajadas de numa atmos- situações, atividades e experiências significativas? fera intencionalmente projetada como hoje em dia, adquirir um produto ou serviço não é Esse é foco do recente campo de estudos denomi- boas-vindas aos visitantes, combinando mais tão importante do ponto de vista simbólico e luz e sombra, reflexão e calma. nado "arquitetura de atmosferas". afetivo quanto viver uma experiência. Em relação à emergente "economia da experiência", afirmam que as empresas devem atentar para fato de que produzem memórias, não bens; criam o palco ca- paz de gerar maior valor econômico, não entregam serviços. Seria então hora de arrumar a casa, já que bens e serviços não seriam mais suficientes: que 1 Alvin Toffler, 0 choque do futuro, os clientes querem são experiências. p. 196. Para esses autores, enquanto commodities são 2 Segundo 0 Dicionário Houaiss, "fungível" é uma coisa passível de ser bens são tangíveis; enquanto serviços por outra coisa de mesma espécie, são intangíveis, as experiências são memoráveis. A qualidade, quantidade e 3 Joseph Pine James H Gilmore, The orquestração de uma experiência seria então uma experience economy: work is theatre and parte tão fundamental de um negócio quanto hoje every business a stage, 1999, p. 163. 22 ARQUITETURA SENSORIAL 0 PERCURSO: DAS EXPERIENCIAS AOS SENTIDOS</p><p>CONSTRUIR lação ao momento experienciado e por seu estado de espírito naquele dia. 0 EFÊMERO Embora não seja possível projetar como se darão a vivência da experiência e o envolvimento das pes- soas com o meio projetado, é possível projetar atmos- feras. Assim, intangíveis, imensuráveis, etéreas, Em 1998, a revista de arte, arquitetura e design efêmeras, sutis, voláteis, incontroláveis, porém pro- Daidalos publicou um número especial intitulado jetáveis e impactantes, as atmosferas criadas em Constructed Atmospheres [Atmosferas espaços físicos proporcionam experiências marcan- A edição reúne uma série de artigos e ensaios sobre tes e variadas aos seus visitantes. a criação de atmosferas, como "The Architecture Mas como a atmosfera é construída? Segundo of Atmospheres" [A arquitetura de de Wigley, a "atmosfera parece começar precisamente Mark Wigley. Professor e diretor da Pós-graduação onde a construção para. Ela cerca um edifício e é de- em Arquitetura das universidades de Princeton e pendente do objeto material. De fato, parece emanar Columbia, Wigley observa a relação entre a arqui- do Ele explica, ainda, que a atmosfera ocupa tetura e o espaço projetado, comparando a constru- e permeia um espaço, criando suas próprias áreas, ção de um edifício à construção de uma atmosfera: Obra de Lygia Pape (1927-2004) na Bienal delimitando fronteiras e estabelecendo pontos de Artes de Veneza de 2009 cujo tema foi "é esse clima de efeitos efêmeros que envelopa o "Fazer Fios de ouro iluminados Produzida pela forma física, a atmosfera de um habitante, não o edifício. Entrar em um projeto é por spots presos ao teto formam diagonais edifício seria um tipo de emissão sensorial de som, e quadrados que atravessam 0 espaço entrar em uma atmosfera. O que é experienciado é como feixes de luz. luz, calor, cheiro e umidade; "um clima serpenteado a atmosfera, não o objeto como As atmosferas podem ser muito sutis, voláteis e Wigley explica que a arquitetura se en- contra na suave relação entre elas, no jogo entre os diferentes microclimas projetados. Ele afirma, ainda, que o encontro de atmosferas aparentemente efêmeras pode ser tão sólido quanto um edifício. "Atmosferas são etéreas, um tipo de fluido ou gás; não são suscetíveis à apreensão. Corpos e coisas estão imersos e algumas vezes permeados por elas. Uma atmosfera pode ser sentida sem ser percebida. Notavelmente, ninguém é sensível a elas a todo momento ou do mesmo jeito". Assim, as atmosferas proporcionam cias muito pessoais ao visitante, pois a forma como cada indivíduo passa por determinada situação é 4 Mark Wigley, "The architecture of influenciada por suas vivências anteriores, seus atmospheres", 1998, p. 5 Id. p. 28. ARQUITETURA SENSORIAL preconceitos (determinadas culturalmente) em re- 6 Id. p. 18. 0 PERCURSO: DAS EXPERIENCIAS AOS SENTIDOS 25</p><p>de efeitos intangíveis gerados por um objeto Assim, uma construção sólida, tangível e mensu- rável teria capacidade de produzir algo tão sutil e intangível quanto uma atmosfera, composta de elementos que envolvem nossos sentidos. Um bom exemplo de orquestração de cias por meio da arquitetura de atmosferas são os parques temáticos de Walt Disney, onde cada atração ou brinquedo tem seu próprio elenco (cast members), e os visitantes são chamados de convidados (guests), não de clientes. Mais do que as qualificações dadas aos funcionários, os aspectos visuais, os aromas, o sabores, os sons e as texturas são projetados e com- binados para possibilitar uma experiência única, emocionante e engajadora. Não por acaso, essa pre- ocupação à exaustão com todas as interseções pos- síveis entre o parque e seus visitantes faz com que Walt Disney seja considerado por Pine II e Gilmore precursor da arquitetura de atmosferas. Outro bom exemplo citado pelos autores é o Rainforest Café, criado em 1994, também nos Estados Unidos: "Para intensificar seu tema, o Rainforest Café apela seriamente para os cinco sen- tidos. Primeiro ouve-se um som: Sss-sss-zzz. Depois, vê-se a neblina subindo das pedras e sente-se a bruma suave e fria na pele. Então se sente o cheiro da floresta e os seus gostos, seu frescor. É impos- sível não ser afetado por essas pistas repletas de estímulos descrevem Pine II e Gilmore. França, da rede Estados ) para recriar e outros, 7 Mark Wigley, "The architecture of efeitos de atmospheres", 1998, p. 18. 8 Joseph Pine II: H Gilmore, The experience economy: work is theatre and every business a stage, 1999, p. 60. os SENTIDOS</p><p>Depois olhe-a contra a luz ela será di DO CORPO DA novo. Há milhões de possibilidades dif um só ARQUITETURA Zumthor ensina que, mesmo em A vazio, cada espaço possui um som próp ele chama "som do espaço". O arquiteto e ARQUITETURA os sons dos espaços têm a ver com os for perfícies dos materiais que os espaços CO DO CORPO o modo como esses materiais foram ali Para ele, "interiores são como grandes ins colecionando sons, amplificando-os, trans O professor e renomado arquiteto suíço Peter para outro Zumthor apresenta em Atmospheres: Architectural A "temperatura do espaço" não se re: Environments Surrounding Objects [Atmosferas: ao conforto térmico de um ambiente, mas ambientes arquitetônicos em torno de objetos] temperatura aparente dos materiais utili livro editado a partir da transcrição de uma palestra Isso significa que antes mesi ministrada na Alemanha sobre a construção de at- o objeto é possível intuir mesmo que mosferas na arquitetura que considera os nove se, ao toque, tal material será quente ou principais conceitos para se projetar uma atmosfe- mo acontece com as diferentes textura ra. Cinco deles estão diretamente relacionados aos tocá-las, já conseguimos imaginar se se nossos sentidos: "corpo da arquitetura", "compatibi- ou macias. Por isso, Zumthor se lidade material", "som do espaço", "temperatura do que denomina "afinação térmica" dos ma espaço" e "luz nas coisas". Os outros quatro rela- utiliza em sua arquitetura. Peter Zumthor, ganhador do prêmio cionados a questões isoladas de projeto que não os Pritzker e um dos maiores arquitetos Para explicar a "luz nas coisas", Zumt do mundo, aborda, em sentidos Zumthor nomeia como "objetos ao redor", onde e como a luz incide nos objetos, on seu livro Atmospheres: Architectural "entre compostura e sedução", "tensões entre interior Environments Surrounding Objects sombras, se as superfícies são foscas ou [Atmosferas: ambientes arquitetônicos ao e exterior", e "níveis de intimidade". arquiteto explica que o ouro, por exemplo redor de a conexão emocional O "corpo da arquitetura" é "como uma massa cor- que se estabelece, pela perspectiva do uma capacidade de absorver até as projeto, entre a atmosfera dos espaços e poral, uma membrana, um tecido, um tipo de cobertor, dades de luz e de refleti-las na escuridão os visitantes. pano, veludo, seda [que a] como invó- como é importante atentar para "comp lucro que guarda interior do edifício, sua dos diferentes materiais perante a luz. A A "compatibilidade material" diz respeito à infi- suas ideias favoritas relacionadas ao con nidade de recursos que um só material possibilita, nas coisas é a de "planejar o prédio como como ilustra esta passagem: "Pense em uma pe- pura de sombras e aí, depois, colocar 1 dra: você pode moê-la, furá-la, dividi-la ou 9 Peter Zumthor, Atmospheres: você estivesse esvaziando a Architectural Environments poli-la será algo diferente cada vez. Depois pegue Surrounding Objects, 2006, p. 21-23. é iluminar materiais e superfícies sistema pequenas quantidades da mesma pedra, ou gran- 10 Id. p. 25. 11 Id. p. 29-31. ARQUITETURA des quantidades, e será algo diferente novamente. 12 Id. p. 59. 0 PERCURSO: DAS AOS</p><p>Capela de Mechernich 2007 de Peter de permite que do a nas penetre. "luz</p><p>Para que a arquitetura articule a experiência de se estar no mundo e reforce sentido de realidade e Interior da Capela de Campo Bruder Klaus. Nesse projeto, Zumthor pertencimento, ela deve envolver todos os sentidos aplicou seus principais conceitos ligados aos sentidos na projeção de Como afirma Juhani Pallasmaa, "é evidente que atmosferas: "corpo da arquitetura", uma arquitetura que enriquece a vida tem que ser "compatibilidade material", "som do dirigida a todos os sentidos simultaneamente".1 "temperatura do espaço" e "luz nas coisas". Um dos aspectos Esse professor e arquiteto finlandês afirma, ain- mais interessantes foi a escolha dos da, que homem contemporâneo está perdendo sua materiais, especialmente a utilização de mais de cem troncos de madeira "sensorialidade" e por isso nos convida a carbonizados sobre um piso de rializar" a arquitetura, orientando-nos a dar crescente chumbo derretido e sob as camadas de concreto que formam as paredes. atenção aos sentimentos que os materiais geram em nós, principalmente no que diz respeito ao toque observando suas reações à luz. Zumthor determina à textura, ao peso, à densidade do espaço e à luz os materiais que usará de acordo com o modo como "Cada experiência arquitetônica é multissensorial refletem a claridade. qualidades do espaço, matéria e escala são medidas Como apresentado aqui, cinco entre os nove con- igualmente por olhos, ouvidos, nariz, pele, língua ceitos que Zumthor utiliza na construção de uma esqueleto e músculos. A arquitetura reforça a expe- atmosfera são estritamente sensoriais. O "corpo da riência existencial, a sensação de estar no arquitetura" se refere à pele, à membrana que envol- Pertencentes a uma nova geração de teóricos ve os ambientes e que contém o clima e a atmosfera da arquitetura e influenciados pelos pensamentos projetados; está ligado ao sentido do tato. A "com- de Pallasmaa, a arquiteta Joy Malnar e professo patibilidade dos materiais" diz respeito à textura Frank Vodvarka argumentam, em Sensory Design desses materiais e a suas combinações, estando o [Design sensorial], que arquitetos e designers devem conceito também ligado ao tato. O "som do espaço" dispor-se a projetar para e com todos os sentidos, pois está relacionado ao que emana de um ambiente, apreciamos um lugar também pelo modo como o ouvi ainda que ele esteja vazio, e liga-se ao sentido da mos, sentimos e cheiramos. Já no prefácio os autores audição. Quanto à "temperatura do espaço", Zumthor questionam: "O que aconteceria se projetássemos alia nossos conhecimentos visuais aos aspectos para todos os nossos sentidos? Suponha, por um mo térmicos dos materiais empregados, afirmando ser mento, que som, tato e cheiro fossem tratados fundamental a afinação de todos esses elementos. da mesma maneira que a visão, e que a emoção fosse O conceito está relacionado tanto ao sentido do tato tão importante quanto a cognição. Como seria o noss por meio do qual aferimos a temperatura de algo ambiente construído se os sentidos, os sentimentos quanto à visão, intimamente ligada ao conceito de e a memória fossem fatores críticos para o projeto 13 Juhani Pallasmaa, The Eyes of The Skin: "luz nas coisas". No que diz respeito a esse conceito, Architecture and The Senses, 2005, p. 11. mais vitais ainda que a estrutura e o 14 Id., p. 41. o arquiteto lembra que, ao projetar, deve-se consi- Ora, se uma atmosfera é constituída por elemen 15 Joy Malnar e Frank Vodvarka, Sensory derar o reflexo da luz nos materiais. Design, 2004, p. ix. tos que envolvem todos os sentidos e é nela que resi de a conexão emocional entre o visitante e espaç 32 ARQUITETURA SENSORIAL 0 PERCURSO: DAS AOS SENTIDOS físico, por que não projetar para todos os</p><p>02 SOBRE SENTIDOS: UMA ABORDAGEM PROJETUAL Sempre me intrigou o foco dos arquitetos em projetar o belo. Se o produto final do nosso trabalho é um am- biente - um espaço em três dimensões no qual po- demos adentrar por que estamos tão habituados a projetar o que fica bonito na foto e negligenciamos outros tantos sentidos que nos afetam? Por que o foco no que os olhos veem e não no que sentimos? Ao longo da história fomos culturalmente mol- dados para privilegiarmos o sentido da visão, ge- ralmente associado à razão, enquanto os outros sentidos se relacionavam mais às emoções, o que explica, em parte, a hegemonia da visão ao longo dos tempos.</p><p>DAVID HUME 1711-1776 UMA HIS DE PRAZ DESCON Professor do Departan Sociologia da Universida Synnott explica que as e do Império Romano goza físicos. Para os gregos, o vistos como mais primeira filosofia do hedo DESCARTES Aristippus (cerca de 435-3 1596-1650 afirmava ser o prazer um f gido por todos. A busca p Clássica era fundamental, sobretudo os prazeres corp No Império Romano, ri lizados, assim como se a fim de saciar os desejos CRISÓSTOMO lazer diária para toda a 347-407 d.C eram os banhos públicos contro político e social, es agregavam diversos serviço ARISTÓTELES 384-322 a.C. salas de leitura e ginástica, praticar esportes, ler, relaxar - eram locais de di À época, poucos tinham a próprias residências, port públicos era pertinente e pr O primeiro banho foi em Agrippa (c. 25 a.C.). Na vatório de água só para atend PARMÊNIDES 515-460 a.C 428-348 a.C. SOBRE SENTIDOS ARISTIPPUS</p><p>tendência que se estendeu por mais de três séculos, (c. 515-460 a.C.) fazendo clara distinção entre os durante os quais foram construídos locais de banho sentidos e a razão argumentava que até os ani- cada vez mais monumentais para divertimento da mais têm sentidos, enquanto a razão e a mente são população. Todas as cidades possuíam seus banhos privilégios do homem. Assim, filósofo defendia públicos e, no início do século IV, sob o imperador que a verdade não poderia ser obtida por meio da Constantino I, Roma possuía 877 banhos percepção sensorial, na qual não se deveria confiar; Nesses locais, deleite sensorial era completo. que homem deveria compreender o mundo com os O banhista começava exercitando corpo na sala recursos de sua mente. de ginástica, conhecida como palaestra, e depois Influenciado por Parmênides, Platão (c. 428-348 se dirigia ao apodyterium, onde poderia deixar suas a.C.) acreditava que o fato de se deixar pelos roupas e pertences. De lá, já despido, normalmente ia sentidos era uma característica própria somente da para o tepidarium, a piscina de águas mornas onde população subalterna, formada pela mão de obra fazia esfoliação e se limpava com óleos de massa- básica, braçal, como a dos trabalhadores no campo. gem, preparando-se para caldarium, a piscina de Para Platão, havia três tipos de homem: o homem água quente. Quase sempre revestido em mármore de ouro, governado pela cabeça (razão); o de prata, vermelho, piso dessa piscina era construído sobre governado pelo coração (coragem); e o de bronze, pilares sob os quais os escravos queimavam carvão governado pela barriga (os sentidos). para manter a piscina aquecida. Em alguns banhos Apesar de menosprezar os sentidos, Platão se públicos havia também laconium, uma sala ainda encantava com um deles: a visão, acreditando que mais quente do que a do caldarium, porém sem pis- homem poderia conectar-se com os deuses e com a cina, muito semelhante às saunas verdade por meio dela: "A visão, em minha opinião, Por último, para fechar os poros abertos pelas altas é a fonte de maior benefício para nós, pois, se nunca temperaturas, o romano mergulhava na piscina de tivéssemos visto as estrelas, o sol e o céu, nenhuma águas frias, chamada frigidarium, construída muitas das palavras que falamos sobre o universo teriam vezes em mármore sido Os elementos de deleite empregados nos banhos Aristóteles (384-322 a.C.) era igualmente encan- romanos tais como o mármore, a pedra, o vapor, tado com o sentido da visão. Mas, diferentemente de os odores, as texturas potencializavam a busca Platão, ele discutia todos os sentidos, tendo sido pelo prazer. Naquele período, tal procura não era responsável pela divisão da esfera sensorial tal qual malvista pela sociedade: a busca pelo prazer era a conhecemos hoje: visão, olfato, paladar, audição e um hábito diário, inserido na rotina inclusive das 1 Sigrid e Peter Zumthor, Peter tato. Ele acreditava ser o tato a forma mais primitiva Zumthor Therme Vals, 2008, p. 114. pessoas mais simples. 2 Informação obtida nas aulas de de sentir, em razão de pertencer a todos os animais Mesmo com todas as atividades focadas nos Rebecca Molholt, no curso e de requerer contato direto com o objeto tocado Espetáculos e entretenimentos no prazeres sensoriais, desde a Grécia Antiga os filó- mundo romano. Universidade de Brown, assim também o paladar, igualmente um tipo de sofos demonstraram ceticismo e desconfiança com janeiro a maio de 2010. tato. Para Aristóteles, tato e paladar são sentidos 3 Anthony Synnott em "Puzzling over the relação aos sentidos exceto a visão. Parmênides senses: from Plato to 1991, p. 63. animais, e os três outros, humanos. Em sua concep- ção, a visão era o sentido mais desenvolvido de todos 38 ARQUITETURA SENSORIAL SOBRE SENTIDOS: UMA ABORDAGEM PROIETUAL e, por isso, dedicou-se mais a ela em seus estudos.</p><p>Já os primeiros cristãos tinham uma opinião am- bígua sobre os sentidos. Para eles, por meio da visão The Baths of Caracalla [As termas homem poderia tanto elevar seu olhar e reverenciar de Caracala] de Sir Lawrence a Deus quanto olhar para baixo na direção de uma 1889. 0 banho público foi construído entre 211 e 217 a.C e mulher. Segundo essa concepção, os desejos corpo- a pintura retrata os frequentadores rais condenariam o homem ao inferno, e apenas as do caldarium a piscina necessidades de comida, bebida, procriação, aque- cimento e conforto seriam legitimadas por Deus. Todo exagero para além das necessidades básicas de sobrevivência como a gula, o sexo e a luxúria é visto como vício e deve ser condenado. Assim, homem pode comer para sobreviver; comer para ter prazer, porém, esse procedimento é, sob esse ponto de vista, considerado pecado, gula Entre os primeiros cristãos, Crisóstomo (347- 407) também considerava a visão superior. Porém, ele e Santo Agostinho (354-430) ainda sofriam com a bimoralidade e a ambivalência dos sentidos, que poderiam ser usados tanto para reverenciar a Deus quanto para servir objetivos animais e carnais. "Por um lado eles são canais pelos quais a glória de Deus é experienciada. [...] Por outro lado, eles são ocasião do pecado, e perigosos", como explica sucintamente Anthony Em razão de argumentos como esses, incutidos ao longo dos séculos na sociedade 4 Anthony Synnott em "Puzzling over the muitos acreditam até os dias de hoje que a privação senses: from Plato to 1991, p. 5 teólogo Tomás de Aquino revisa dos sentidos, o sofrimento e a dor são nobres e agra- e define os sete pecados capitais: ciados. Somente no caso de a gratificação sensorial vaidade, inveja, avareza, gula e No entanto, nas ser direcionada à glória de Deus ela poderia ser en- primeiras versões da lista, eram carada como positiva e, embora necessários à vida, oito os pecados capitais, pois havia também a melancolia os sentidos poderiam também levar as pessoas à Anos mais tarde, a melancolia deixou desgraça. De acordo com a moral cristã, as pessoas de ser um pecado sendo seu "desaparecimento" da lista coerente até poderiam desfrutar deles mas com a negação da filosofia do A exemplo dos filósofos gregos, Tomás de hedonismo pregada na Antiguidade Clássica e no Império Aquino5 (1225-1274) acreditava que, pelo fato de ARQUITETURA SENSORIAL SOBRE UMA ABORDAGEM PROJETUAL 41</p><p>possuirmos intelecto, nós, humanos, somos supe- sentidos. Com isso, reiterou a associação entre visão riores aos animais. Para ele, a visão era um sentido e razão, contribuindo para a hegemonia da visão. privilegiado em relação a todos os e, por sua Ao longo de mais de 2 mil anos a visão foi con- influência, durante muito tempo ela foi associada ao siderada o mais nobre dos sentidos, consolidando- intelecto e à razão. Além disso, teólogo acreditava -se na mente ocidental como o mais confiável, o que o paladar e tato eram os sentidos humanos mais fundamental e o mais ligado ao pensamento menos importantes e os associava à comida e ao racional. A palavra grega para "ideia" vem do verbo sexo. Synnott resume da seguinte maneira o seu "ver", idein, que relaciona visão a intelecto. Alguns pensamento: "Em suas muitas discussões sobre a estudiosos mostram que esse pensamento persiste felicidade humana e o significado da vida, Aquino até hoje em várias línguas: pergunta-se: "Você está deixa bem claro que a alegria do homem não consis- vendo?", quando na realidade se quer perguntar: te em riquezas, glórias, honras e assim por diante; "Você está entendendo?". não consistindo também nos da carne', Enaltecida, a razão era contraposta aos senti- 'dos quais os principais são a comida e o sexo', nem dos dos animais e homem distinguia-se destes em 'bens do corpo' como saúde, beleza e força; nem justamente pelo privilégio de possuí-la. Com o cris- nos 'sentidos'. Os argumentos [...] estão ancorados tianismo, esse pensamento foi levado ao extremo, na superioridade do intelecto sobre os sentidos, e dos pois os sentidos corporais eram sinônimos de prazer, homens sobre os animais, que têm sentidos, porém hedonismo e, de pecado, já que não têm intelecto". podiam afastar o cristão de Deus, aproximando-o No século XVIII, o filósofo e cientista dos prazeres e pecados da carne. A ideia foi mas- Descartes (1596-1650) contribuiu para essa dis- sificada e disseminada por todo o continente euro- cussão. Como filósofo, adotou método da "dúvida peu e, mais tarde, por todo o mundo. a partir do qual concluiu que não se 6 Anthony Synnott em "Puzzling over the Somente com surgimento relativamente recente poderia confiar nos sentidos. No que diz respeito à senses: from Plato to Marx", 1991, p. 68. de filósofos como David Hume (1711-1776) é que se visão, Descartes ilustrava sua dúvida descrevendo 7 Dúvida hiperbólica (ou dúvida sistemática) é um conceito derivado começou a ponderar que homem precisa tanto que ocorre com um graveto que, ao ser colocado do pensamento de René Descartes, da razão quanto dos sentidos. Segundo Synnott, na água, parece se dobrar, e lembrando que um que diz respeito ao contínuo inquirir sobre a veracidade das coisas que nos esse pensamento culminou com Marx (1818-1883), objeto "desaparecerá" se estiver em nosso ponto são apresentadas como que acreditava que capitalismo desumanizava o cego. Quanto ao tato, argumentava que, se sua mão É dita hiperbólica por ser uma dúvida exagerada, mas filosoficamente proletariado em função da privação sensorial à qual estivesse fria, ele poderia sentir como quente um construída: sua razão de ser é examinar era submetido. copo que contivesse água Em razão dessas minuciosamente os conceitos, de modo a só admitir como verdadeiro que Ao longo da História, o homem foi levado a não constatações, o filósofo francês rejeitou os sentidos, realmente 0 é, e a declarar duvidoso confiar em seus sentidos. Por ter sido associada ao afirmando que a razão (ciência) era mais 0 que não pode afastar 0 mínimo de incerteza. intelecto, a visão é único sentido no qual confia- Por outro lado, Descartes era extremamente de- 8 Descartes cunhou a máxima "Penso, logo mos, do qual dependemos e para qual projetamos. pendente da visão quando exercia suas funções de existo" cogito ergo sum, em latim que reitera seu ponto de vista sobre a Contudo, sem nossos sentidos ficaríamos como des- cientista e afirmava ser ela o mais universal dos importância da razão para 0 homem. conectados do mundo, pois dependemos de todos eles para entender que nos cerca. Portanto, devemos 42 ARQUITETURA SENSORIAL SOBRE SENTIDOS: UMA ABORDAGEM PROJETUAL projetar com foco nos demais sentidos, além da visão.</p><p>estímulos "filtrados" aos nossos sentidos. Assim, em SENTIDOS um ambiente repleto de pessoas, não nos sentimos COMO FILTRO sobrecarregados com todas as conversas ao nosso redor mesmo que possamos ouvir todas pois as filtramos por meio da percepção. O propósito da percepção é, como explica Nanda, Os sentidos humanos não funcionam isoladamen- permitir que nos relacionemos com o ambiente de te todos influenciam nossa percepção do espaço. maneira eficiente. A percepção diz respeito ao uso E, porque não funcionam isoladamente, às vezes da informação em um mundo complexo, onde a todo alguns precisam receber "pistas" de outros para nos momento somos bombardeados por estímulos sen- ajudar a entender o ambiente. Por exemplo: se nas soriais. Uma frase do professor norte-americano instalações dos banhos romanos a piscina de águas de psicologia E. Bruce Goldestein resume tal ideia frias fosse revestida em mármore vermelho e o cal- ao afirmar que a "percepção é uma experiência darium em mármore verde, essa associação de cores sensorial consciente". Nessa mesma linha, Lisa nos proporcionaria um "estranhamento sensorial", Heschong, que escreveu sobre a sensação da tem- pois as "pistas" que nossos olhos nos dariam, basea- peratura na arquitetura, afirma que "as experiências das nas cores, não corresponderiam ao que estaría- mais poderosas e vívidas são aquelas que envolvem mos sentindo Assim, é necessário todos os sentidos ao mesmo haver uma coerência sensorial uma orquestração Projetar para todos os sentidos pode, portanto, das "pistas" sensoriais em um projeto para que a conectar o usuário ao meio projetado, propiciando- percepção do meio construído seja coerente. -lhe uma experiência A arquiteta Upali Nanda, para quem os sentidos são "portas de entrada para nossa própria percep- ção", explica: "Nós percebemos o mundo externo através de nossos olhos, nossos ouvidos, nossa pele, nosso nariz e nossas papilas gustativas. E, apesar de as emoções, pensamentos, intenções e outros fenômenos cognitivos [...] serem muito mais do que meramente sensoriais, os sentidos permanecem como os canais de comunicação através dos quais interagimos com nossos A percepção é o processo que registra e interpre- ta as informações sensoriais do ambiente, atuando como um filtro. Assim, o espaço em que estamos, 9 Upali Nanda, Sensthetics: qualquer que seja ele, nos oferece uma multipli- A Crossmodal Approach to cidade de estímulos, mas não é possível registrar Sensory Design, p. 82. e processar cada um deles É nesse 10 p. 30. 11 Lisa Heschong, Thermal Delight momento que a percepção os separa, repassando os in Architecture, p. 29.</p><p>SISTEMAS contribuir para projetos dirigidos a todos os sentidos. Ao adotarmos os sistemas perceptivos desse autor PERCEPTIVOS: para projetar, deixamos de lado a abordagem aris- totélica que nos foi amplamente ensinada desde a REDEFININDO infância e todas as demais teorias sobre os sentidos. Vale a pena, por isso, estudá-la mais sistema- OS SENTIDOS ticamente. Gibson sugere uma redistribuição dos cinco sentidos que conhecemos e os agrupa em cinco sistemas perceptivos: paladar-olfato, háptico, básico de orientação, auditivo e visual. A adoção de O psicólogo americano James Jerome Gibson (1904- sua abordagem estimula o projeto a contemplar toda 1979) é considerado um dos mais importantes estu- a nossa esfera sensorial. diosos do século XX no campo da percepção visual. Para ele, atos como respirar fundo para captar um aroma agradável, semicerrar os olhos para focalizar, 0 SISTEMA PALADAR-OLFATO inclinar a cabeça para escutar e passar os dedos em Do ponto de vista do projeto arquitetônico, uma das uma superfície para senti-la demonstram sermos maiores contribuições de James Gibson está no organismos à procura de sensações, as quais são sistema paladar-olfato. Ele não considera o paladar captadas por nossos sentidos. Ele afirma que os um sentido isolado, mas como parte de um grupo, estímulos sensoriais podem ser obtidos como resul- juntamente com olfato. Esse agrupamento ocorre tado de nossas próprias ações no ambiente ou, ao porque, em relação à percepção do ambiente proje- contrário, impostos a nós pelo tado, o paladar é sempre dependente do olfato. Gibson entende os sentidos como "sistemas per- Se entendermos paladar e olfato como um só siste- ceptivos", e não como "canais de sensação", e os ma sensorial, perceberemos que eles têm uma relação agrupa de acordo com sua necessidade e seu papel muito próxima de fato, se estamos gripados, com o para a percepção do meio Ele explica: nariz entupido, não sentimos os sabores. Gibson ex- "existem dois diferentes significados para verbo plica que "o cheiro é sentido não somente por inspirar sentir. Primeiro, sentir é detectar alguma coisa, e o ar, mas também pela comida na ao passo segundo, ter uma sensação. Quando os sentidos que o gosto depende do toque do alimento na língua. são considerados sistemas perceptivos, o primeiro Apesar de paladar e olfato formarem um só sis- significado do termo está sendo tema, podemos avaliar separadamente os dois sen- Ao afirmar que usamos nossos sentidos como tidos, tecendo considerações válidas para todo o sistemas perceptivos para detectar alguma coisa sistema paladar-olfato. ao nosso redor, Gibson os atrela ao meio construído. 12 James Jerome The Senses Por esse motivo, tal abordagem é a mais pertinente Considered as Perceptual PALADAR p. 1. Grifo do autor. à percepção do meio projetado, e a que mais pode 13 p. 136. Todos os seres vivos devem se alimentar para so- breviver. Porém, apesar da necessidade biológica, os 46 ARQUITETURA SENSORIAL SOBRE UMA ABORDAGEM PROJETUAL hábitos e tipos de alimentação humana são escolhas</p><p>Preparamos o alimento para deleitar nossos sentidos, para obter o maior prazer possível ao ingerir a comida. Poucas são as ações repetidas diversas vezes todos os dias de nossas vidas das quais obtemos tanto prazer quanto comer e beber. Embora façamos milhares de refeições ao longo dos anos, somente identificamos quatro sabores através de nossas papilas gustativas: salgado, amargo e azedo. De todos os sentidos, nenhum parece ter caráter mais social do que o do paladar. A palavra latina quer dizer, literalmente, o que come pão com outro. Não é à toa que a comida está presen- te em comemorações como festas de aniversário e A designer holandesa Marije Vogelzang casamentos, em uma mesa farta ao redor da qual promoveu uma série de eventos intitulada grupo se reúne. Nesses dias, as pessoas se rendem "Experiências de Comer", que foi 0 ponto de partida para 0 Droog Dinner Delight, jantar aos prazeres da gula deixando de lado seus hábitos realizado em 2005 no qual a interação de alimentação. entre as pessoas era necessária para completar a refeição. Por ser difícil projetar para o sentido do pala- dar, alguns designers tiram partido do caráter de sociabilidade que há no ato de comer. É caso da holandesa Marije Vogelzang, que, em seu estúdio de design de alimentos, organiza jantares cujo objetivo é a interação e a socialização dos convidados. Ela chama os eventos de eating experiences ou "ex- periências de comer". Nos projetos Basic and Acessories e Droog Dinner Delight 2005, metade das pessoas que par- ticiparam dos eventos recebeu os pratos "básicos" da refeição (presunto de Parma, em um dos casos) e a outra metade, os "acompanhamentos" (melão, por exemplo), de forma que os convidados tiveram que interagir e compartilhar suas porções para 14 Devo a base dessas considerações às aulas de Everardo Rocha que desfrutarem de uma refeição completa. A interação acompanhei na Pontifícia Universidade entre as pessoas, portanto, era necessária para Católica do Rio de Janeiro, de agosto a dezembro de 2009. completar a refeição. ARQUITETURA SENSORIAL SOBRE SENTIDOS: UMA ABORDAGEM PROJETUAL 49</p><p>OLFATO Como mostra Ackerman, hoje apenas 20% da recei- Como mostra Diane Ackerman em seu livro A ta da indústria do aroma vêm de perfumes para os Natural History of The Senses [Uma história natural nossos os demais 80% vêm de recursos para dos sentidos], apesar da importância do paladar em perfumar os objetos que nos cercam. nossa vida cotidiana, o olfato ainda sobrepuja. Isso Tendo em vista essa grande fatia de mercado, porque, embora sintamos sabor de um alimento várias técnicas aromáticas são utilizadas com fins graças ao nosso paladar, na maioria dos casos é o lucrativos. Um exemplo citado por Diane Ackerman olfato o responsável pelo nosso primeiro contato com é dos vendedores de carros usados que vaporizam a comida. O nariz capta, à distância, os aromas que um spray com odor de "carro novo" nos veículos: eles estão dentro e fora da boca. Já o paladar precisa que sabem que boa parte dos clientes compra um carro alimento (ou que for) seja encostado nas papilas "zero quilômetros" porque ele tem cheiro de carro gustativas da língua para que sintamos seu gosto. novo. Agentes imobiliários orientam os proprietários O olfato é um sentido involuntário, ao passo que o a assar um bolo no horário da visita de clientes em paladar é voluntário. Isso significa que só sentimos o potencial, pois esse aroma remete a lembranças gosto do que levamos à boca, mas somos involunta- de cuidado, carinho, zelo, levando a estabelecer riamente impactados pelo olfato, o que faz dele uma uma relação emocional com aquele lugar. A autora poderosa ferramenta projetual. também relata que shoppings colocam cheiro de Além disso, o olfato é um dos sentidos mais comidas pizzas, por exemplo em seus sistemas básicos, instintivos e primitivos dos seres vivos. de ar-condicionado para estimular os visitantes a Ackerman explica que, desde que deixaram os ocea- conhecerem a praça de alimentação. Já os super- nos, os seres desenvolveram o olfato e perderam a mercados insuflam cheiro de pão quentinho na re- habilidade olfativa que possuíam debaixo d'água. frigeração, atraindo os clientes para a padaria que, Mas, com a nossa gradativa desconexão em relação não por acaso, fica no fundo do espaço. à natureza, o olfato foi perdendo a importância para Os odores influenciam nossa avaliação sobre pes- a nossa sobrevivência. Ackerman acrescenta que, soas, objetos e também sobre meio projetado. Os embora não precisemos dos cheiros para sobreviver, cheiros emprestam personalidade a objetos e lugares, sem eles nós nos sentiríamos perdidos e desconec- fazendo com que se diferenciem e fiquem mais fáceis tados do mundo que nos cerca. de ser identificados e lembrados. Podemos observar Nós, humanos, nos comunicamos principalmente que lojas e não apenas shoppings utilizam seus pelo contato visual e pela linguagem verbal. Somos sistemas de ar-condicionado para insuflar aromas tão tendenciosos em relação à comunicação visual nos ambientes. Dessa forma, esse cheiro espalhado e acústica que acabamos por esquecer que também de forma homogênea pode ser reconhecido como nos comunicamos quimicamente. Perfumamo-nos, a "identidade olfativa" daquela marca. Algumas, in- aromatizamos objetos tão diversos quanto papéis clusive, comercializam seus aromas personalizados. higiênicos e carros, e usamos os mais cheirosos Os cheiros são identificados pelo cérebro em produtos de limpeza em nossas casas, por exemplo. razão de uma combinação específica de tamanho e formato de cada molécula inalada. Assim, podemos 50 ARQUITETURA SENSORIAL SOBRE UMA ABORDAGEM PROJETUAL distinguir milhares de odores e perceber suas nuan-</p><p>ces. Apesar dessa precisa capacidade, nossos elos fisiológicos entre o olfato e a linguagem são fracos. Isso quer dizer que temos muita dificuldade em descrever os odores que sentimos. Quando esse é o nosso objetivo, geralmente narramos os "sentimen- tos" que eles nos provocam, em vez de descrevê-los. Ackerman observa que "temos tendência a descre- ver como [os nos fazem sentir. Um cheiro nos parece 'faz o coração bater mais rápido', tizante', ou Em contrapartida, e ao contrário de outros senti- dos, olfato não precisa de nossa interpretação, pois seu efeito é imediato e inconsciente. Ackerman resu- me: "Um cheiro pode ser poderosamente nostálgico, pois incita poderosas imagens e emoções antes de termos tempo de Odores podem evocar determinadas emoções e despertar sentimentos inconscientes, já que, tam- bém segundo Ackerman, não esquecemos um aroma ao qual fomos expostos, ainda que não tenhamos Capela de Santo Inácio, Universidade AROMA E SABOR DE UM PROJETO a consciência de que tivemos tal contato. A auto- de Seattle, Estados Unidos, projeto de Ao projetar, é importante considerar que a percepção Steven Holl. ra considera que os cheiros sejam capazes de nos de cada um dos sentidos depende de determinada transportar por distâncias imensas e através dos "distância" em relação que deve ser perce- anos que vivemos. bido. No caso do paladar, a ingestão do alimento é O olfato é sentido que possui a ligação mais obrigatória é necessário que o alimento toque as direta com a nossa memória; segundo estudiosos, papilas gustativas. a lembrança mais persistente de um espaço é o seu No que diz respeito ao olfato, Upali Nanda afirma cheiro. Através dos odores sentidos pelo sistema que de 0 a 1 metro de distância em relação a um ponto paladar-olfato, um lugar neutro pode ganhar vida, determinado é possível perceber odores íntimos e enfatizando determinados estados mentais ou faci- fracos, como os que emanam dos cabelos, da pele litando a lembrança de boas ou das roupas de outra pessoa. De 2 a 3 metros de O sistema paladar-olfato pode, portanto, resgatar distância, somente podemos sentir perfumes e outros memórias, promover a socialização, influenciar asso- cheiros mais fortes, como os de materiais de limpe- ciações emocionais, dar vida a um lugar neutro e nos za. A partir de 3 metros, podemos perceber apenas conectar ao mundo que nos cerca. Por todas essas odores extremamente fortes, como o de peixe podre razões, é fácil perceber que não devemos deixá-lo de 15 Diane Ackerman, A Natural History ARQUITETURA SENSORIAL lado no ato de projetar. of The Senses, 1991, SOBRE UMA ABORDAGEM PROJETUAL 53</p><p>am God's wheat ground fine by the lion's teeth to be made purest bread for Christ of Antioch Second century Um excelente exemplo de projeto para o siste- Capela de Santo Inácio, Seattle, Estados Unidos. Paredes em cera ma paladar-olfato é a Capela de Santo Inácio, na de abelha e orações inscritas em Universidade de Nela, o arquiteto Steven folha de estimulam os outros sentidos além da visão. Holl cobriu algumas paredes com cera de abelha, na qual fixou orações escritas em folhas de ouro. Tal recurso trouxe um doce perfume para ambiente, conectando a natureza - representada pela cera de abelha - ao sagrado. Uma importante característica de nossa exposição aos aromas é que somos impactados por eles ao entrar em um ambiente, mas deixamos de percebê-los após alguns minutos. Portanto, caso queiramos conduzir visitante a diferentes atmosferas com base em seu olfato, é importante projetar variações de aromas (ou de suas intensidades) para que cheiro presente no ambiente não deixe de ser percebido. Para enfatizar a diferença entre dois ambientes, podemos fazer com que cada um tenha um aroma próprio - ou, ao menos, intensidades diferentes do mesmo cheiro, a fim de que não nos acostumemos a nenhum deles. De forma análoga e a exemplo do proposto por Malnar e Vodvarka, podemos aplicar esses concei-</p><p>tos ao projeto de uma escada, inserindo uma pista olfativa para marcar seu início e fim. Para isso, seria 0 SISTEMA HÁPTICO possível liberar aromas pontuais, focados nos seus O termo "háptico"16 tem origem no grego haptikos, primeiros e últimos degraus. Podemos também ima- que vem de haptesthai ou haptein, que, por sua vez, ginar outra possibilidade: a de liberar um cheiro à significa tocar, pegar. Em inglês, o termo adquiriu medida que o visitante caminhe, por meio de um um significado mais abrangente e diz respeito ao "sensor de presença" colocado estrategicamente que é relativo ou baseado no sentido do tato. sob os degraus. Esses aromas podem ser diferentes De acordo com James Jerome Gibson, o sistema ao longo da escada, como algo equivalente a notas háptico possui subsistemas, os quais denomina complementares em uma escala musical ou como "toque cutâneo", "toque háptico", "toque dinâmi- uma escala de cores, um dégradé. À medida que o e "toque-dor". psicólogo visitante pise e atinja diferentes andares, níveis ou entende que sistema háptico seja responsável até mesmo cada patamar, os aromas complemen- por perceber a temperatura de algo que tocamos tares são liberados. Dessa forma, ele é conduzido ativamente, mas não passivamente; isto é, tocar a pelos cheiros ao longo da escada, percebendo cada maçaneta de uma porta e senti-la fria é diferente de nuance de um perfume cítrico para um doce, por sentir o an frio quando entramos em um ambiente exemplo. Tal medida estabeleceria uma conexão refrigerado. Se algo entra em contato direto com a entre as diferentes atmosferas de um lugar nossa pele, nosso sistema háptico é ativado e per- Nesse projeto de escada sensorial, é preciso lem- cebe a textura e a temperatura do objeto tocado; ao que ela é a ligação entre dois andares, dois sermos tocados passivamente, porém, não é mais ambientes distintos, que podem ser diferentes o sistema háptico que entra em ação, e sim outro entre si no que diz respeito à altura do piso ao teto mecanismo do corpo, responsável pela troca de calor (pé-direito) e à atmosfera, por Por causa com o ambiente e pela manutenção da temperatura dessas diferenças, ao percorrer a escada, o visitante corporal. O mesmo raciocínio se aplica à percepção percebe estar entrando em outro local e, ainda da umidade, na concepção do autor. Ou seja: para que sabe que deve deixar as Gibson, a temperatura e umidade de um ambiente impressões sobre o primeiro ambiente para trás e não são percebidas através do sistema háptico. prestar atenção ao novo espaço em que entra. Essa Diferentemente de Gibson, Malnar e Vodvarka percepção pode ser ressaltada por meio de uma entendem e resumem o sistema háptico como o res- "pista" olfativa, para usar a expressão de Joy Malnar ponsável pela percepção dos toques ativo e passivo e Frank Vodvarka. Além disso, as abordagens proje- (o toque por meio da pele), pela noção e aferição de tuais devem considerar o tipo da escada (em temperatura e umidade (que também se dão através helicoidal, reto, com patamares, com corrimão, 16 Em "háptico" é sinônimo da pele) e pela distinção dos movimentos conhecida de "tátil". Mantivemos aqui a o local onde está inserida (aberto ou enclausurado), literal da palavra, mesmo sendo um como cinestesia (o sentido de movimento que perce- os ambientes interligados (distintos ou semelhan- termo desconhecido para muitos, já que bemos através de nosso próprio corpo, como resposta "háptico" se refere a todos os aspectos tes) e o seu comprimento (se há poucos ou muitos do sentido do aos termorreceptores da pele e às deformações dos degraus). Cada caso requer um projeto diferente ARQUITETURA SENSORIAL SOBRE UMA ABORDAGEM 57</p><p>idos, às configurações das juntas e ao alonga- into dos Para esses autores, todas as e variações climáticas (sol, vento, umi- de, etc.) afetam o corpo humano por meio do tato. No que diz respeito ao sistema háptico, neste livro consideraremos o ponto de vista de Gibson, e sim e Malnar e Vodvarka, autores da área de projeto, o trabalho, além de mais atual, é mais abrangente a o ato de projetar no design e na arquitetura. A incredulidade de São Tomé, de Caravaggio, 1600-1601. Bildergalerie, importância do sistema háptico como um todo e Potsdam, is especificamente do tato é tamanha que alguns defendem que todos os outros órgãos e sen- seu senhor. Caravaggio retratou esse momento em os são meras extensões e especializações da pele sua pintura A incredulidade de São Tomé não por lo tato, até mesmo os olhos e a visão. acaso, capa do livro The Eyes of The Skin [Os olhos Para o antropólogo Ashley Montagu, a pele é o da pele], de Juhani Pallasmaa, que discute a relação is sensível e mais extenso órgão de qualquer es- entre a arquitetura e a nossa apreensão do mundo cie: é primeiro a ser formado no útero materno por meio dos sentidos. Expressões contemporâneas portanto, primeiro canal de comunicação com como "me belisca para eu saber se estou sonhando" ssa mãe e nosso mais eficiente protetor. "Talvez, ilustram o entendimento do toque como importante pois do cérebro, a pele seja o mais importante de elo com a realidade. dos os nossos sistemas de órgãos", afirma autor Pallasmaa acredita que o sistema háptico, por Touching: The Human Significance of The Skin meio do tato, conecta-nos com o restante do nosso oque: a importância humana da pele]. corpo, como se, por exemplo, a sola do pé medisse O tato é mais íntimo de nossos sentidos. Para peso e a força da gravidade, a densidade e textura car alguma coisa, precisamos eliminar a dos pisos. O arquiteto defende haver uma conexão a em relação ao objeto a ser tocado. "O toque tem entre homem e os materiais provenientes da natu- menor alcance e o mais íntimo reza. Para ele, buscamos experiências que reforcem Upali Nanda. essa conexão, como ficar numa rocha junto A importância do tato é tamanha que Lisa ao mar, sentindo na sola dos pés o calor da pedra eschong afirma ser necessário tocar em algo para aquecida pelo sol. Por isso, defende o emprego de 17 "Sinestesia" com S se refere à mistura ber se esse algo é real. A Bíblia relata que São materiais naturais na arquitetura. Ele aponta que, ao e ao embaralhamento sensoriais, mé precisou encostar a mão em Jesus para acredi- como, por exemplo, ouvir a nota dó e ao usar em nossas construções materiais produzidos em mesmo tempo ver a con amarela. que ele havia ressuscitado, tocando os ferimentos larga escala como alguns porcelanatos estamos 18 Upali Nanda, Sensthetics: a crossmodal totalmente curados para aceitar a Cristo como approach to sensory design, 2008, p. 59. quebrando a conexão com a natureza. Dado que os materiais industriais não envelhecem da mesma for- 58 ARQUITETURA SENSORIAL SOBRE SENTIDOS: UMA ABORDAGEM PROJETUAL ma que os elementos naturais madeira, pedra, tijolo</p><p>de barro e outros - por meio do envelhecimento dos materiais naturais fazemos com que as construções sejam também parte do ciclo da natureza, já que elas envelhecerão com passar do tempo. Materiais industriais não conseguem datar uma época, não demonstrando a passagem do tempo e não deixando transparecer a história daquele lugar. "Os edifícios dessa era tecnológica deliberadamente têm como objetivo uma perfeição que não permite que edifício envelheça e não incorporam a dimensão do tempo ou o inevitável e mentalmente importante processo de envelhecimento", resume TEMPERATURA E UMIDADE Domo sobre Utopia urbana Em favor de se projetar com foco nos demais Tanto a temperatura dos objetos e do ambiente quan- pensada por Buckminster Fuller e sentidos além da visão e, mais especificamente, Shoji Sadao, nos anos 1960, para filtrar to a umidade do an são percebidos por nossa pele. 0 an e minimizar 0 estresse com foco no sistema háptico, Heschong provoca: Assim como nos habituamos ao cheiro de um am- "Ninguém gostaria de um mundo monocromático biente, só percebemos quão quente ou fria uma então por que ter só uma temperatura em todos os sala está quando nela entramos. Se a temperatura do lugares?". A autora ressalta o elaborado projeto de cômodo estiver dentro da nossa zona de conforto tér- Buckminster Fuller para construir um domo geodé- mico (entre 22°C e 27°C), após alguns minutos nós nos sico sobre Manhattan, onde inventor também adaptaremos e tudo nos parecerá normal, mas nossa arquiteto, designer e teórico propôs cobrir cin- temperatura interna permanecerá a 37°C. No entanto, quenta quadras da ilha para protegê-las da poluição não nos adaptamos a temperaturas extremas às quais e das intempéries climáticas, minimizando o es- não estejamos acostumados, mesmo que permane- tresse O ambiente controlado teria tempe- expostos por um longo período nesse caso, ratura e umidade constantes, que, de acordo com nossa temperatura interna é afetada pela externa. Heschong, reduziria os gastos com energia elétrica Nossos corpos consomem energia para nos man- na medida em que os edifícios não precisariam de ter aquecidos e assegurar que a temperatura interna sistemas de aquecimento ou condicionamento do se mantenha estável. A arquiteta Lisa Heschong nem de remoção de neve. Com um projeto dessa argumenta que ambientes com temperaturas padro- natureza, as noções de interior e exterior seriam nizadas poupam as pessoas do esforço da adaptação. modificadas, já que estaríamos protegidos das va- Assim, na medida em que arquitetos e designers riações climáticas projetam ambientes com pouquíssima variação de No entanto, gostamos de experimentar os extre- temperatura, constróem um mundo termicamente mos térmicos, pois o contraste entre as diferentes constante, para não haver desconforto Essa 19 Juhani Pallasmaa, The Eyes of The Skin: temperaturas faz com que a experiência seja amplia- constância assume como indesejável qualquer grau Architecture and The Senses, p. 20 Lisa Heschong, Thermal Delight in ARQUITETURA SENSORIAL de estresse térmico. Architecture, p. 20. SOBRE SENTIDOS: UMA ABORDAGEM PROJETUAL 61</p><p>la. Heschong lembra que tomamos banhos quentes que a família se reúne para as refeições e q elaxantes, esquiamos no gelo por prazer e, desde membros passam o tempo de lazer Império Romano, frequentamos saunas. O gosto contando histórias. or experiências com diferentes temperaturas é tão A experiência térmica, além disso, não p natural que os arquitetos têm o hábito de, numa isolada da experiência geral, na medida em casa, projetar a sauna próxima à piscina, para que, podemos "fechar" nossa pele como fechamos com o corpo aquecido pela sauna, pulemos na água olhos. A percepção da temperatura e da umi resfriá-lo. um ambiente é sempre uma experiência p Heschong afirma que a experiência térmica é Quando nossos sensores térmicos nos diz normalmente associada à socialização, como quando um objeto é frio, esse objeto traz um efeito conversamos em frente à lareira. Desfrutamos de Em contrapartida, quando vemos que um ( grande prazer sensorial em tais momentos, como de uma determinada cor vermelho ou aquele que experimentamos durante o ato de comer e exemplo ele não apresenta um efeito em outras experiências similares. A arquiteta afirma nos faz ficar vermelhos ou amarelos. Isso poro que, se nos sentimos bem junto a uma pessoa, laço SOS sensores térmicos não são receptores di social é ainda mais reforçado quando desfrutamos como nossa visão: precisamos tocar um objet de conforto térmico: compartilhar uma experiência tocados por ele para aferir sua temperatura. térmica prazerosa pode reforçar a amizade e cons- estimar a temperatura à distância, depende truir laços sociais. Um exemplo disso são os kangs outras "pistas" sensoriais. existentes em casas do norte da China e da Coreia. Utilizados durante muito tempo na Algumas informações que se referem aos China, os kangs são plataformas ele- Kangs são plataformas elevadas esquentadas pela vadas sobre a tubulação da cozinha sentidos nos ajudam a avaliar a temperature tubulação da cozinha que aquecem as superfícies que aquecem superfícies de pedra objeto ou Uma superfície macia e utilizadas pelas famílias, oferecendo de pedra. É nesses locais que as pessoas se sentam, conforto térmico. por exemplo, pode nos remeter à imagem de ter de quente. Tons vermelhos e marron nos remetam a uma sala iluminada pela luz e gosto e o cheiro de menta são normalmen CHAMINE PISO AQUECIDO ciados a temperaturas refrescantes. Aromas SUPORTE DE PEDRA nados ao preparo de alimentos também nos r a cozinha, copa, pessoas reunidas, temperos FOGÃO LENHA a uma "calorosa" experiência social. As pis xadas pelos outros sentidos ocasionalment tituem a experiência térmica em Lisa H ilustra esse fato afirmando que, numa foto, n de construção como pedra, mármore, polidas e lisas parecem frios, independen de onde estejam e de sua posição deserto do Saara ou na Finlândia. Na reali 62 ARQUITETURA SENSORIAL SOBRE SENTIDOS: UMA ABORDAGEM PROJETUAL casas de ambas as regiões podem ter a mes</p><p>peratura se aquecidas ou resfriadas por um sistema sentimos mesmo não havendo qualquer de calefação ou por um aparelho de ar-condicionado. mudança na temperatura ambiente. Criar associações térmicas pode ser um recurso É mais importante projetar com foco nos sistemas projetual eficiente relacionado ao sistema háptico. do que saber classificar para qual sistema se está Se, antes de entrarmos em um ambiente, virmos projetando. Uma conduta pertinente para projetar um sistema de calefação aparente, imediatamente com foco no sistema háptico é a ideia de que parecer esperaremos que esteja aquecido. Era exatamente quente ou fresco é equivalente a ser quente e fresco. para potencializar a sensação térmica de calor que, Se, mesmo sem tocar em nada, já temos uma noção antes da existência de sistemas de sobre a temperatura do material, o mesmo acontece os habitantes dos castelos medievais penduravam com as diferentes texturas: ainda antes de tapetes de cores quentes nas paredes, sugerindo um já conseguimos imaginar se serão ásperas ou macias. isolamento térmico entre a parede de pedra fria e o "Eu acredito que cada construção tem uma certa ambiente interno. afirma Peter Zumthor. E completa: "Algo Alguns recursos sonoros. visuais e olfativos po- que também me vem à mente quando penso em meu dem gerar uma sensação de frescor, e há diversos trabalho é o verbo um pouco como a afinação recursos sutis voltados para sistema háptico que de pianos, talvez, à procura do humor certo, no sentido podem ser empregados em nossos Segundo de afinação instrumental e de atmosfera Heschong, por exemplo, toque dos sinos de um Então temperatura nesse sentido é física, mas presu- mensageiro dos ventos ou balançar suave de uma mivelmente psicológica Está no que eu vejo, lanterna pendurada sob o telhado da varanda nos no que sinto, no que eu toco, até com meus sugerem a presença de uma brisa refrescante, e, Nesse sentido, consideramos aconchegante um assim, sentimos um frescor na verdade provocado ambiente com muita madeira e materiais que nos por essa associação inconsciente: remetem à sensação de calor. Julgamos frio um espa- Da mesma forma, rosas e jasmins plantados no como um banheiro, ou um hospital, em que cores jardim numa posição tal que o vento possa soprar neutras como branco se somam a materiais brilhan- seus perfumes em nossa direção também insinuam tes e como o porcelanato e a cerâmica um vento fresco naquele ambiente. Mesmo que o A iluminação também influencia na avaliação do sistema háptico não seja diretamente ativado, sentir aconchego de um lugar: ambientes com luzes focadas os aromas das flores já nos sugere frescor. De acordo que permitem obter contrastes entre zonas claras e com Heschong, os sons refrescantes normalmente escuras, são notavelmente mais aconchegantes e são leves e de tons agudos. O barulho de água cain- calorosos do que ambientes com lâmpadas fluores- do ou de pingos d'água em um chafariz é também difusas, frias e indubitavelmente refrescante. A cor é outro fator fundamental para a compo- Além dos recursos já podemos sição de um ambiente e para a percepção de sua tirar partido de algumas associações inconscientes 21 Peter Atmospheres Um mesmo tipo de lâmpada, com po- do subsistema do tato que podem nos refrescar. A Architectural Environments Surrounding tência equivalente, pode ter coloração entre branco autora atenta para o fato de que, quando nossa pele é levemente tocada por uma pena, por exemplo, ARQUITETURA SENSORIAL SOBRE SENTIDOS UMA ABORDAGEM 65</p><p>frio (6.500°K) e amarelo-claro (2.700°K) a isso de- nominamos "temperatura de cor". Essa variação na con da luz impacta a atmosfera de todo o ambiente. Normalmente se julga ambiente iluminado pela lâmpada amarelada como mais caloroso do que iluminado pela branca fria (que normalmente asso- ciamos a hospitais e centros cirúrgicos). No caso do varejo, muitos lojistas utilizam a lâmpada branca na iluminação de provadores, já que ela clareia mais que a amarela; no entanto, ela causa palidez e ressalta os tons azulados como o de veias, varizes e olhei- ras. ideal é que as lojas de vestuário optem pelas lâmpadas amareladas, de 2700K a Tanto a luz quanto a posição do espelho fazem toda a diferença na forma como a pessoa se Por isso, a indicação é que espelho fique inclinado (mais afasta- do da parede em sua base, e mais perto no topo), para que alongue a silhueta. A boa iluminação é indireta, de frente e homogênea; assim, recomenda-se colocá-la atrás do espelho para que a luz rebata nas paredes do provador e ilumine a pessoa Rainforest Disney World, Orlando, de água introduzidas em determinado espaço caem Estados Unidos. Um gigantesco Uma estudante de arquitetura fez um interes- sobre a pele dos visitantes, resfriando-a e provocando, aquário na entrada do restaurante e sante experimento para demonstrar como nossa outros como cas- provavelmente, esse efeito. cata e borrifos aumentam nossa aparência pode mudar dependendo da combinação A mudança na umidade do an é um recurso de percepção de umidade e num dos elementos de um provador. Ela se fotografou com ambiente projetado para reproduzir apoio para indicar ao visitante a passagem de um uma floresta tropical a mesma roupa nos provadores de 15 lojas de um ambiente para o outro: se há variação na umidade dos shopping carioca e comprovou que a iluminação e ambientes, compreende-se que passamos de uma at- a posição do espelho podem influenciar na decisão mosfera para outra. Um ambiente externo é, de modo de compra. Esses elementos podem tanto alongar a geral, mais úmido do que um interno, por exemplo. silhueta quanto acentuar curvas indesejadas, bem Essa é exatamente a percepção que se tem ao como deixar a pele corada ou adentrar o restaurante Rainforest Café, em Chicago. Já a percepção da umidade, embora mais sutil Seus mecanismos de controle de umidade do su- para a pele do que a da temperatura, também con- gerem que se está entrando numa floresta, ambien- 22 https://oglobo.globo.com/ela/ tribui para a experiência geral do ambiente. Pode-se, moda/a-mesma-roupa-quanta- te em tudo diferente da cidade do lado de fora. As por exemplo, aumentar propositalmente a umidade do "pistas" sensoriais são percebidas logo na entrada, ambiente se o objetivo for causar arrepios. Gotículas de-15-lojas-20862670 por meio da cascata existente próxima à porta, em pé-direito duplo, do fosso de pedras que borrifa go- 66 ARQUITETURA SENSORIAL SOBRE SENTIDOS: UMA ABORDAGEM PROJETUAL tículas de no ambiente, criando uma névoa que</p><p>A cinestesia envolve três componentes princi- pais: a posição do corpo, o movimento propriamente dito e a sensação dos movimentos percebida pelo corpo. As partes do corpo responsáveis pela percep- ção da cinestesia são basicamente os músculos e as juntas (ligamentos), incluindo os tendões. Somada à visão, a sensação de nossos movimentos permite compreender o espaço e seus limites. Assim, quando subimos uma escada, os músculos de nossas pernas nos informam o quanto ela é se os degraus 0 Projeto Rio Cidade Bangu, do arquiteto Paulo Casé (2001), têm a mesma altura ou se há, em algum lugar, um requalificou a área carioca, que patamar para descanso. ganhou cobertura com microgo- tejadores para umedecer 0 an e Até certo ponto, a cinestesia também ajuda a reduzir a temperatura. percebermos a composição dos materiais com os quais entramos em contato. A sensação da contração separa o restaurante da loja, e do portal de entrada na muscular da mão quando apertamos uma bolinha de área das mesas, um gigantesco aquário. A umidade borracha é diferente daquela de quando torcemos interna do restaurante é bem maior do que a externa, uma peça de roupa após lavá-la. Da mesma forma, os da rua, e a noção de interior e exterior é modificada músculos da perna são acionados de modos distintos ao entrarmos nesse ambiente. ao caminharmos no asfalto ou na areia. Outra aplicação bem funcional da mudança de "A percepção cinestésica se refere mais espe- umidade projetada é a utilizada para gerar frescor. cificamente à informação que derivamos do movi- Em locais muito quentes no Rio de Janeiro, como mento dos músculos", explicam Joy Malnar e Frank no de Bangu, zona oeste da cidade, borri- Vodvarka. "Tal movimento pode ser produto dos mús- fadores de água automáticos acoplados a grandes culos dos olhos ao se focarem, dos músculos dos dedos ventiladores industriais são usados para espalhar enquanto apertamos alguma coisa, ou dos músculos gotículas de água no ar. À medida que as gotas caem de nossas pernas enquanto caminhamos. O aspecto sobre a pele das pessoas, vento ajuda a resfriá-las, importante da cinestesia é que a resposta muscular é permitindo a troca de calor entre as gotas e a pele. altamente informativa; comunica a qual distância os Tal troca reduz a temperatura superficial da pele e objetos estão, a composição dos materiais e a aumenta a sensação de frescor. cia que viajamos. Quando a cinestesia é adicionada ao tato, a informação é aumentada, permitindo-nos CINESTESIA ficar cientes das qualidades da superfície do caminho O terceiro subsistema do sistema háptico é a ci- em que estamos", nestesia. O vocábulo "cinestesia" vem das palavras Ao caminharmos em uma alameda de paralele- 23 Joy Malnar e Frank Vodvarka, Sensory gregas kinein (movimento) e aesthesia (sensibili- Design, 2004, p. 146. pípedos, atravessarmos uma passarela em dade). Em português (cine- + -estesia), cinestesia ARQUITETURA SENSORIAL seria, literalmente, a sensibilidade nos movimentos. SOBRE SENTIDOS: UMA ABORDAGEM PROJETUAL 69</p><p>cimento ou andarmos sobre um piso de pedras muito 0 Hotel Imperial de Tóquio, projetado mais suave e menor no lado de dentro. A partir desse irregular, as informações derivadas de nossos mús- por Frank Lloyd Wright entre 1912 e 1923, utiliza uma escala de textura ambiental recurso, visitante é sutilmente conduzido do lado culos contribuem para a percepção de um ambiente para distinguir os ambientes. a externo do hotel para o interno. Malnar e Vodvarka agradável, selvagem ou desnorteante, por exemplo. parte externa possui uma textura mais áspera e à a parte interna tem explicam que o emprego dos mesmos materiais com Do mesmo modo, ao passarmos de um local escuro textura mais variações apenas na textura evoca uma associação para outro muito iluminado, sentimos os olhos sendo inconsciente entre os Quanto mais íntimo forçados a se adaptarem. Esse recurso pode ser inter- o ambiente de uma casa, por exemplo, mais suaves pretado como um choque, para enfatizar ou suavizar são as texturas e mais aconchegantes se tornam a mudança abrupta de um ambiente para outro. os cômodos. No Hotel Imperial de Tóquio, projetado entre 1912 Aplicando o exemplo do hotel de Wright ao pro- e 1923 pelo prestigiado arquiteto americano Frank jeto da escada sensorial mencionada como um Lloyd Wright, foram usados os mesmos materiais exercício de imaginação projetual no sistema pala- interna e externamente, variando apenas suas tex- dar-olfato, os autores sugerem que um dégradé de turas. Para obter esse efeito, Wright cria uma escala texturas pode conduzir sutilmente o visitante de um de textura Ele usa uma textura maior nível a outro. O mesmo recurso pode ser emprega- e mais áspera no lado de fora, contra uma textura do no corrimão, como uma guia que normalmente tocamos ao longo de todo o percurso. Dependendo 70 ARQUITETURA SENSORIAL SOBRE SENTIDOS: UMA ABORDAGEM PROJETUAL do uso da escada (residencial, comercial, etc.) e</p><p>a facilitar a troca de temperatura, a escolha dos teriais deve também contemplar a condutivida- 0 SISTEMA BÁSICO DE ORIENTAÇÃO térmica que usuário experimentará se estiver O sistema básico de orientação se fundamenta na scalço ou tocando o relação entre plano horizontal (o chão) e a nossa De acordo com Malnar e Vodvarka, outros as- postura Ele é responsável por nosso ctos dos materiais devem ser considerados: tex- brio, pelo entendimento da escala e das proporções as (áspero versus macio), mudança na dureza do ambiente (com base em nossos corpos) e por rracha versus aço), condutividade térmica (cobre nossa percepção geral do lugar. com base na rela- sus madeira), resistência (couro versus mármore). ção entre o nosso corpo e os planos espaciais que m disso, no caso da escada sensorial, deve-se mensuramos imediatamente ambiente, aferimos também a transferência da vibração sua grandeza e definimos trajeto a ser percorrido. re degraus e corrimãos. Uma escada que vibra "O entendimento da escala arquitetônica implica ito quando é pisada transparece insegurança, medir inconscientemente um objeto ou um prédio desequilíbrio e desconforto. Caso a partir do próprio corpo e projetar-se no espaço em a necessário transparecer firmeza, a dureza e a questão. Dessa maneira, sentimos prazer e proteção istência dos materiais escolhidos contribuirão percebermos a ressonância do corpo no espaço", a essa associação tanto quanto a rigidez da como afirma Juhani rutura em Além das sensações propiciadas pelo espaço e Para projetar com foco na cinestesia, deve ser percebidas pelo sistema básico de orientação, esse siderada a proporção entre a largura do piso e a sistema é responsável também por nosso nortea- do espelho dos degraus. A escada confortável mento espacial, ou seja, por sabermos de que lado que não nos cansa quando a subimos, aquela em ficam a saída e a entrada de um local; uma espécie a proporção entre largura e altura dos degraus é de sentido de direção. Todos os animais terrestres culada de forma tal que não ofereça resistência ao mantêm uma orientação permanente em relação ao percorrida. Patamares de descanso contribuem solo; isto é, em relação à gravidade e à superfície a essa sensação. de apoio. É sistema básico de orientação que nos Uma leve borrifada de gotículas de água nos pul- comunica a direção para a qual devemos nos loco- ou um sopro de vento mais frio, pode também mover numa edificação. icar o início e o final da escada. Saídas de aque- Da mesma forma que conseguem se orientar em ento ou ar-condicionado localizadas na altura dos relação ao plano horizontal, nossos órgãos sentem as nozelos, das mãos e da cabeça também podem forças da aceleração que atuam sobre o corpo. Se for- utilizadas com a mesma finalidade. Da mesma mos empurrados para frente, nossos cabelos e pelos na, podemos pensar em utilizar as saídas de do corpo serão dobrados para Já se estivermos no um leve empurrão em direção ao fluxo princi- dentro de um carro ou avião, poderemos perceber as da escada. A mudança na velocidade desse vento curvas, acelerações e freadas que porventura sejam 24 luhani Pallasmaa, The Eyes of The Skin: tribui tanto para uma associação térmica indire- Architecture and The Senses, p. feitas. No entanto, num veículo em velocidade cons- para uma movimentação mais rápida ou ARQUITETURA SENSORIAL is vagarosa do visitante ao a escada. SOBRE SENTIDOS: UMA ABORDAGEM PROJETUAL 73</p><p>tante, se usarmos somente nosso sistema básico uma moldura diferente e cada vez mais interes de orientação, não conseguiremos avaliar se ele está aparece, o que estimula a vontade de contir parado ou não. Isso se dá porque esse sistema é sen- caminhada para que a paisagem se revele sível apenas às transições entre estados constantes. pouco, em cada curva. Juntamente com o sistema háptico, sistema De acordo com esses autores, nos jardins básico de orientação explica a nossa percepção de culo XIX a sequência das cenas era planejada lugar, compressão e expansão, subidas e descidas. modo que os observadores sempre os Os dois sistemas, em conjunto, são responsáveis por no mesmo sentido, pois assim os arquitetos nosso entendimento da tridimensionalidade base riam projetar as paisagens na ordem em que da experiência servador as veria. Tais desenhos alternavam es O sistema básico de orientação precisa priori- abertos e vegetação densa, os quais juntar tariamente da visão para funcionar. A visão literal- com o andar do visitante permitiam uma C mente nos move: tanto é assim que paramos de nos sição no tempo, com ritmos fortes e fracos, reg movimentar quando ambiente em que estamos e irregulares, pausas, diminuendos e fortíss fica escuro repentinamente. Portanto, quanto mais como em uma música. escuro local, mais lento o movimento Ao planejar jardins, os paisagistas do designer e professor Álvaro Guillermo acrescenta: XIX imaginavam o tempo que a pessoa levari "Quando, nesses ambientes, apresentarmos um foco atravessar um trecho com um piso desigual, o de luz, as pessoas se deslocarão naquela que ela permaneceria em um lugar com uma Esse é conceito fundamental de iluminação interessante, local onde ela se sentaria aplicado na loja de roupas Hollister do Soho, Nova cansar. Com isso, a atenção do visitante se York. Com um ambiente totalmente escuro e focos de um arbusto maravilhoso, visto de perto de luz somente nos produtos bastante coloridos uma árvore igualmente incrível, vista do outr a marca pretende que o cliente se movimente mais do lago. A orquestração desses elementos con devagar no interior da loja e, assim, concentre toda uma importante estratégia para entreter o vis a atenção nos detalhes de suas peças. ao engajar seu sistema básico de orientação. Um exemplo antigo e interessante de projeto recursos eram também utilizados nos jardins voltado para sistema básico de orientação está projetistas, a fim de reter a atenção dos observa em alguns jardins do século XIX. Neles, a fim de Um piso desigual força observador a m criar microambientes e surpreender visitante, os cabeça aproximadamente 30° para baixo, par projetistas planejavam minuciosamente cada deta- 25 Contudo, se porventura um dia possa ver onde está pisando, conforme exp lhe. O "mistério" era um recurso projetual dos mais viermos a ficar cegos, aos poucos Malnar e Tal inclinação leva as I usados: consistia em não revelar toda a vista de uma nos acostumaremos a usar nossos outros sentidos para nos do cérebro responsáveis pela estabilidade do só vez ao visitante que deveria, segundo Malnar 26 Alvaro Guillhermo, Percepção, a ficarem em sua posição mais De a e Vodvarka, entrar mais e mais na cena para obter sentidos e design, 2009, p. 23. 27 Joy Malnar e Frank Vodvarka, Sensory com os autores, isso sugere que os pisos mais informações. A cada passo e a cada visada, Design, 2004, p. 104. aumentam nossa percepção da superfície, p zem com que os nossos mecanismos de sensil 74 ARQUITETURA SENSORIAL SOBRE SENTIDOS: UMA ABORDAGEM PROJETUAL de fiquem em seu estado de maior estímulo.</p><p>Acima, detalhe do piso irregular que No passado, muitas vezes um piso irregular era incita 0 sistema básico de orientação usado para que observador olhasse para baixo ao dos visitantes do Museu Hundertwasser na Casa de Arte de Viena (Kunst Haus percorrer um trecho menos interessante do jardim. À a inclinação da cabeça em medida que uma bela vista se desvendava, o piso se aproximadamente 30° que ocorre quando estamos em um piso desigual; à medida tornava plano, levando o visitante a elevar seu olhar que piso fica plano, retornamos a cabeça e a se surpreender com a paisagem. à posição Projetar para esse sistema requer cuidados, pois há sempre o risco de quando abalamos nosso sistema básico de orientação. Apesar de podermos 30° utilizar os pisos irregulares como recursos proje- tuais, muitas vezes tal irregularidade também ocorre pela passagem do tempo, ou seja, por um desalinha- mento involuntário. Por outro lado, em alguns locais de qualquer cidade do mundo podemos identificar um piso propositalmente desalinhado ou torto, como em parques de O pintor e arquiteto austríaco Friedensreich de Viena (Kunst Haus Hundertwasser projetou a Casa de Arte de Viena e arquiteto austríaco (Kunst Haus Wien), cujo piso é intencionalmente undertwasser, abriga restaurante e uma irregular. Quando indagado sobre o porquê do uso Acima, a colorida desse recurso, Hundertwasser explicou que, quando icio. ARQUITETURA SENSORIAL SOBRE SENTIDOS: UMA ABORDAGEM PROJETUAL 77</p><p>Mais sobre 0 piso irregular da sala de exposições do Museu Hundertwasser na Casa de Arte de Viena (Kunst Haus de Friedensreich</p><p>as pessoas andam em superfícies planas, do jeito que são concebidas sem o pensamento necessário, com a régua nos escritórios dos projetistas, alie- nados de sua relação natural com a terra [...], uma parte crucial do homem é enfraquecida, com conse- quências catastróficas para sua psique, equilíbrio emocional, seu bem-estar e Ainda que projetar um piso irregular possa ser À direita, cadeira Spun, projetada motivo de acidentes, esse exemplo apesar de ra- por Thomas acima, a dical é importante para ilustrar as instigantes e poltrona Cone, do escritório brasileiro Nó Design, ambas projetadas com foco originais soluções a que podemos chegar se proje- no sistema básico de orientação. tarmos com a mente aberta e engajando os sentidos. PROJETANDO COM FOCO NO SISTEMA BÁSICO DE ORIENTAÇÃO A seguir, duas poltronas semelhantes que po- dem ser confundidas com foram projetadas com foco no sistema básico de orientação. A pol- trona Cone foi projetada pelo escritório brasileiro Nó Design para acompanhar o ritmo hiperativo e dinâmico dos jovens. Apesar de parecer instável, o objeto é bem firme e, embora tenha um leve balanço lateral, seu movimento depende exclusivamente da intenção do usuário. Já a cadeira Spun, projetada pelo arquiteto e designer inglês Thomas Heatherwick, convida o usuário à interação e brincadeira por ser proposi- talmente instável, incitando humor e diversão em 28 Friedensreich Hundertwasser, 1997 em Joy Malnar e Frank seus usuários. Sensory Design, 2004, p. 104. 80 ARQUITETURA SENSORIAL SOBRE UMA ABORDAGEM PROJETUAL</p><p>Heschong, a audição é normalmente associada à passagem do tempo, e os surdos se sentem desco- nectados do tempo e do espaço por não perceberem o mundo ao seu redor. Para essa autora, com a sur- dez, a vida parece congelada. "A visão é o sentido do observador solitário, en- quanto a audição cria conexão e constata Juhani Pallasmaa. O arquiteto explica que a audição é o sentido que cria a conexão entre as pessoas e mais ainda entre pessoas e ambientes: "nosso olhar vaga solitariamente nas profundezas escuras de uma catedral, mas o som do órgão nos faz imediatamente experienciar nossa afinidade com o espaço. [...] eco dos passos numa rua asfaltada tem um valor emocional, pois o som reverberando das paredes à nossa volta nos coloca em interação direta com o espaço; o som mede o espaço e faz com que sua escala seja 29 Diane Ackerman acrescenta que os "sons en- grossam o caldo sensorial de nossas vidas, e nós dependemos deles para interpretar, comunicar e expressar o mundo que nos rodeia. O espaço [sideral] 0 SISTEMA AUDITIVO é silencioso, mas na Terra quase tudo faz O sistema auditivo é responsável não só por nossa Sons, músicas e barulhos em geral nos seguem em habilidade de escutar, como pela capacidade de nos nossas rotinas sem que atentemos a isso. No en- direcionarmos através dos sons e por detectarmos a tanto, apesar de escutarmos todos eles, nem todos natureza dos barulhos no espaço. merecem nossa atenção. De acordo com Ackerman (1991), a palavra ab- Ao percebermos isso, imediatamente é possível surdo provém de surdo, pois não conseguimos nos ouvir os sons das teclas do laptop, de uma vassoura conectar ao mundo sem o som, que, assim, perde seu que varre a cozinha, dos ônibus freando e arrancan- sentido. Para a autora, um cego ainda pode compre- do no ponto de Esperamos que esses sons ender o mundo, mas, com a perda da audição, "uma "aconteçam" em razão das ações que os originam, ligação crucial é dissolvida e a lógica da vida para apesar de nem sempre os trazermos à consciência. de fazer sentido", tanto que a experiência de tapar os 29 Juhani Pallasmaa, The Eyes of Quando comemos biscoitos tipo cream-crackers, The Skin: Architecture and The ouvidos por poucos minutos pode ser angustiante, Senses, p. 51. consciente ou inconscientemente temos a expec- 30 Diane Ackerman, A Natural tamanha a estranheza provocada. History of The Senses, 1991, p. 175. tativa de que nossa mastigação faça um som de A perda da audição que ocorre à medida que ARQUITETURA SENSORIAL as pessoas envelhecem pode isolá-las do mundo, 83 SOBRE SENTIDOS: UMA ABORDAGEM PROJETUAL deixá-las sozinhas, gerar frustração. Segundo Lisa</p><p>craaaack no biscoito. Quando fazemos um brinde, audição aflora de imediato. Por exemplo, em nosso esperamos ouvir o tintim do bater dos copos. Além quarto, som ambiente nos parece mais alto quan- disso, contamos com o som do alarme, da campai- do as luzes estão apagadas. Isso acontece porque, nha, da buzina do carro, do telefone... quando a visão deixa de ser relevante, a audição se Desde o útero materno nós nos acostumamos aos torna mais significativa. sons do ambiente em que estamos. Antes mesmo A audição, a exemplo da visão, permite um dis- do nascimento, barulho produzido pelo coração da tanciamento físico entre o objeto ouvido e o indiví- mãe leva ao bebê a sensação de segurança. como duo, e, assim, pode-se ter uma sensação à distância, se mãe e filho fossem unidos por um cordão umbilical enquanto o olfato, o paladar e o tato requerem um sonoro. Aliás, é interessante ressaltar, como lembra contato mais próximo com o objeto. Há, portanto, Ackerman, que todas as civilizações do mundo pro- uma relação entre o que escutamos e as distâncias duzem máximas para detectarmos um som. Os sons, como os cheiros, podem ser irritantes ou Podemos escutar que o professor diz numa sala graciosos. Assim, se barulho da cidade é estres- de aula silenciosa ou, em um ambiente similar, esta- sante, tampouco as pessoas apreciam o silêncio total. uma sessão de perguntas e respostas. Mas a silêncio amedrontador se dá porque a ausência de partir de 35 metros de distância, a habilidade de ouvir som é inesperada para as pessoas principalmente é reduzida. Por mais que se possa escutar uma pessoa as urbanas quer dizer, não pertence ao seu dia a gritando, é difícil entender o que ela diz. A partir de dia. Especialistas afirmam que, de modo geral, os 1 quilômetro ouvimos somente barulhos muito altos, seres humanos preferem um lugar calmo, que se man- tais como um tiro de canhão ou uma tenha entre o barulho de conversas baixas e som de passos e assobios. Sirenes, britadeiras e aviões GUIAR PELO OUVIDO são impossíveis de passar despercebidos, e seus Para projetar um espaço com foco no sistema audi- sons perturbam qualquer um, em qualquer cultura. tivo, é preciso considerar não apenas a música am- Ao projetar um ambiente, é interessante consi- biente a trilha sonora de uma marca, por exemplo derar que o espaço auditivo se estende em todas as mas também os ecos, o som dos passos, o som dos direções, permitindo ao visitante ter uma percepção materiais e objetos e até o silêncio absoluto. A or- global do ambiente. Já o espaço visual é frontal e questração desses elementos ajuda a criar uma está inserido no cone visual, sendo, portanto, mais conexão maior entre visitante e o meio projetado. limitado no que tange a facilitar ao visitante a per- Assim, no projeto da escada sensorial propos- cepção de um espaço. 31 As informações e os exemplos são ta por Malnar e Vodvarka, os materiais da escada de Upali Nanda, em Sensthetics: A Assim, de acordo com Upali Nanda, de modo Crossmodal Approach to Sensory poderiam ser escolhidos a fim de ecoar (ou não) geral a audição é nosso segundo sentido mais re- Design, 2008, p. 58. 32 0 projeto The Fun Theory se baseia na os passos; corrimão poderia fazer um barulho ao levante, sobretudo quando se trata de percepção ideia de que algo simples e divertido ser tocado pelas mãos dos até mesmo espacial, ficando somente atrás da visão. Tanto é pode mudar 0 comportamento das os degraus poderiam emitir um som quando pisa- pessoas para melhor. Seja para a assim que, ao eliminarmos o sentido da visão, nossa própria pessoa, para 0 ambiente ou dos, a exemplo da escada-piano do projeto The Fun para algo completamente diferente, Theory.32 Na escada-piano montada numa saída do 84 ARQUITETURA SENSORIAL a única coisa que importa é que a SOBRE SENTIDOS: UMA ABORDAGEM mudança seja para metrô de Hangzhou, China, receptores sensíveis ao</p><p>peso de uma pessoa foram embutidos nos degraus. Com isso, a cada degrau os pedestres tocavam uma tecla de piano, compondo uma música ao subir e ao descer a escada. Diante disso, dois terços a mais das pessoas optaram por subir a escada-piano, em vez de usar a escada rolante. Esse é um típico projeto que, por meio dos senti- dos e da criação de uma atmosfera simples, promove uma experiência significativa. 0 SISTEMA VISUAL Desde a Antiguidade a visão é o sentido no qual o homem mais confia. É para ela que voltamos nossa atenção na construção do mundo que nos cerca. Muitos são os exemplos projetuais voltados para o sentido da visão, mas não cabe aqui apresentá-los, pois o foco deste livro é contribuir com subsídios para que designers e arquitetos passem a projetar com foco nos sentidos além da visão. Por isso, será Escada-piano do projeto Instituto do Mundo Árabe, em Paris, The Fun Theory, projeto do renomado arquiteto lean em Hangzhou, China Nouvel, um deleite para a uma experiência musical. ARQUITETURA SENSORIAL SOBRE SENTIDOS: UMA ABORDAGEM PROJETUAL 87</p><p>presentado apenas um recurso pouco óbvio elacionado à visão para a criação de atmosferas: o das Luz e sombra só têm sentido se pudermos enxer- Muitos projetistas se preocupam com o pro- eto luminotécnico, porém esquecem totalmente [ue sombras projetadas contribuem muito para a do local. As sombras podem ser projetadas ambientes tanto pela luz natural quanto pela artificial. No entanto, fatores devem ser considerados quando objetivo é projetar as sombras provocadas pela luz do sol. A sombra e, consequentemente, a de um ambiente se modificam de acor- do com a hora do dia e a estação do ano. Não a Acima e à direita, jogo de luzes coloridas posição e o formato da sombra são diferentes, como projetado pelo arquiteto Steven Holl na a dos raios de sol, que, ao entardecer, Capela Santo Inácio da Universidade de Estados Unidos. tornam-se mais avermelhados do que ao meio-dia. Além de auxiliar na construção de uma atmos- o uso de sombras também pode ter um valor simbólico. No Instituto do Mundo Árabe, em Paris, edifício construído pelo arquiteto Jean Nouvel, mu- com perfurações árabes foram usadas como para barrar estampando com sombras o interior do edifício e evitando a banali- para visitante: na hora da missa, perf zação da vista fixo é projetado na parede ao lado do alta Já na Capela de Santo Inácio, na Universidade de Ao projetar, temos dado mais Seattle, o arquiteto Steven Holl aproveita a entrada do que aos demais sentidos, embora os 33 0 muxarabi é um recurso criado pelos da luz ao criar rasgos na fachada e fechá-los com árabes para fechar parcialmente os nham diferentes funções na percepção d ambientes, de tal maneira que quem vidros coloridos, que permitem a entrada de uma projetado. Com as ferramentas aqui apre está dentro possa ter a visão total do luz cenográfica e a projeção de sombras no interior lado externo, sem perder, no entanto, embasadas pela teoria dos sistemas pero da capela. À noite, a iluminação interna repete a sua privacidade James Gibson, torna-se possível projetar 34 0 expressão francesa emissão de cor, porém no sentido contrário, de den- cuja tradução literal seria os sentidos. embora seja comum a utilização apenas tro para fora. da palavra brise em português é um Nessa mesma capela, Holl planeja meticulosa- dispositivo arquitetônico utilizado para impedir a incidência direta de radiação mente as sombras para que, ao serem projetadas no solar nos interiores de um de horário correto do dia, gerem um elemento surpresa forma a evitar calor excessivo. 90 ARQUITETURA SENSORIAL SOBRE UMA ABORDAGEM PROJETUAL</p><p>Para ilustrar a aplicação de recursos senso- riais em projetos dirigidos para os sentidos além da visão, vale a pena observar os exem- plos de três importantes construções. A pri- meira delas é spa Thermal Baths, em Vals, na projetado por Peter Zumthor com O objetivo de proporcionar bem-estar aos visi- tantes. A segunda, Blur Building, projetado por Elizabeth Diller e Ricardo Scofidio - um pavilhão de exposições temporário cons- truído para a Expo 2002, também na que se destaca pelos mecanismos projeta- dos para a socialização dos frequentadores. PARA TODOS OS SENTIDOS O terceiro exemplo, Museu dos Judeus de Berlim, projetado pelo arquiteto Daniel Libeskind, é mais particular Foi projetado para desorientar visitante, que implica, aqui, um modo diferente, mais detalhado, de descrevê-lo. A força com que o museu sensibiliza os visitantes exige um re- lato especial, feito aqui em primeira pessoa.</p><p>THERMAL BATHS</p><p>Thermal Baths, projeto de Peter Zumthor, spa foi construído em 1996 como um anexo a está localizado no vilarejo de Vals, metros acima do nível do mar. Acima, um hotel de luxo em Vals, na Suíça - um pequeno a fachada do complexo termal. vilarejo 1.200 metros acima do nível do mar, junto a uma fonte de águas quentes naturais utilizada para banhos terapêuticos desde o final do século XIX. Com cerca de mil habitantes e uma densidade popu- lacional de sete habitantes por quilômetro quadrado, Vals, mesmo pequeno, foi um ponto turístico no país em razão de suas águas termais. Na década de 1960, um ambicioso complexo ho- teleiro foi construído no local, com 270 quartos dis- tribuídos em cinco prédios. empreendimento levou o proprietário à falência e, em 1986, os habitantes do vilarejo - no intuito de potencializar o turismo da e preocupados com o que poderia vir a se 1 Informações oriundas do filme instalar no local - compraram o complexo hoteleiro Les thermes de Pierre, dirigido por e decidiram ali construir um spa que se utilizaria Richard Copans. A tradução do título seria 0 spa de pedra. das águas termais. ARQUITETURA SENSORIAL CONSTRUÇÕES PARA TODOS os SENTIDOS 97</p><p>A descrição do local evidencia como alguns con- ceitos apresentados por Zumthor para a criação de atmosferas se aplicam ao projeto por ele construído. Os materiais predominantes no edifício são a pedra e a água. O arquiteto utilizou materiais locais para que a forma física da edificação, o "corpo da como ele a chama, pudesse estar em total harmonia com o meio ambiente, havendo assim um pertenci- mento da construção ao sítio. A pedra que reveste não só a fachada, como boa parte do interior da cons- trução é originária do próprio local e amplamente utilizada nos telhados das casas do vale. Sua formação geológica é contemporânea à dos Alpes Suíços e re- monta a, aproximadamente, 50 milhões de anos Nos projetos de Zumthor, os detalhes são minu- ciosos e minimalistas, enfatizando o que de fato é a atmosfera. O concreto, a madeira, a pe- Pelo fato de Peter Zumthor ser natural daquele Cobertura com grama esconde a dra e vidro dão forma à construção e são mediado- edificação esculpida na país, os moradores, partindo da premissa de que ele res das interações entre os ocupantes e a edificação. conhecia as especificidades do local, contrataram-no Segundo o arquiteto, o contato do visitante que para o projeto. Zumthor então projetou uma edifica- pode estar tanto vestido como ou até mes- ção em harmonia não só com o entorno, mas também A construção vai se revelando aos mo seminu com a arquitetura e o envolvimento de poucos, conforme 0 visitante percorre com a geologia e a topografia do vale. 0 espaço. seus sistemas sensoriais pelo ambiente têm extrema Para chegar ao Thermal Baths, o visitante per- corre uma sinuosa estrada montanha acima. Ao chegar, a construção não é percebida de imediato, pois Zumthor a esculpiu na montanha, ofuscando a fronteira entre o natural e o construído. A escolha do arquiteto pelo teto verde, coberto por grama, tam- bém contribui para tal desfoque. "Esta é a primeira evidência de que Zumthor subverte a noção de que a arquitetura seja uma mídia visual um objeto 2 Scott Material para ser visto com uma abordagem multissenso- Peter Zumthor's Thermal Baths at Vals, rial, criando uma série de experiências reveladas ao 2007, p. 364. 3 indivíduo através de seu uso no espaço e no tempo", 0 arquiteto se refere ao corpo, à pele, à casca que envolve 0 interior da explica Scott Murray em artigo sobre o construção, protegendo-a do exterior. 98 ARQUITETURA SENSORIAL CONSTRUÇÕES PARA TODOS os SENTIDOS</p><p>importância para a percepção geral da atmosfera: "Experimentar concretamente a arquitetura [...] é tocar, ouvir, cheirar o seu corpo", ele afirma. Zumthor se preocupa em coreografar o emprego dos materiais na ordem e no momento corretos, para que a experiência final seja a mais agradável vel. Para isso, ele orquestra a variação de texturas, as quantidades empregadas do mesmo material e a inci- dência de luz nas diferentes formas de um elemento. O toque, o cheiro, som, a temperatura e a luz são juntamente com os acabamentos minuciosamen- te projetados em ambientes com pedras polidas ou rústicas, cobre, couro e veludo. É a isso que Zumthor dá o nome de "compatibilidade material" Além da utilização em piscinas, chuveiros e ou- tras situações óbvias, a água também cria "outras experiências de som, cheiros e gostos", para usar as palavras de Scott Murray. Tornada um dos prin- cipais materiais que compõem o projeto, totalmente integrada a ele, a água das fontes termais de Vals é canalizada e coletada para que o usuário tenha A escada de pedra que leva ao andar de ângulos retos e desenho minir contato direto com ela. "É essa combinação única de principal das piscinas, os rasgos de luz no ambiente é de pingos d'água oriund teto e seu efeito de iluminação. dois materiais extraídos das montanhas que cercam de torneiras de bronze na parede, qui sítio pedra e água que forma a arquitetura, do que bebedouros nos quais os vis que liga de maneira indissolúvel a edificação ao seu da tão especial água. Esse é o prim sítio e, de certa forma, medeia [a entre cliente com o ambiente e com as ág o visitante e a especificidade do local, sua história primeiro gosto, literalmente. Tal estra e geologia", resume Murray. raramente utilizada na arquitetura, A sequência de ambientes para entrar no Thermal do visitante a de fato provar um dos Baths começa no lobby do antigo hotel. Lá, há uma teriais usados no projeto. descida para um corredor escuro e subterrâneo, no Após o corredor, os visitantes se qual os olhos dos visitantes gradativamente acostu- tiários, que são radicalmente diferer mam-se à nova atmosfera. "As pessoas muitas vezes da construção. Os principais mater falam que entrar no Thermal Baths é como imergir zados são madeira vermelha 4 Peter Zumthor, Atmospheres: archi- em outro mundo", afirma Sigrid Hauser em Peter couro preto, o que acrescenta uma tectural environments surrounding Zumthor Therme Vals. objects, 2006, p. 54. à experiência dos visitantes. Quando 5 Scott Murray, Material Experience: Sob a terra e revestido em pedra, o hall de en- Peter Zumthor's Thermal Baths at ARQUITETU trada tem a ambiência de uma caverna moderna, Vals, 2007, p. 365. CONSTRUÇÕES PARA TODO</p>