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Atlas bíblico ilustrado que reúne mapas, ilustrações, tabelas e textos explicativos sobre a geografia política, processos históricos e contextos socioeconômicos e religiosos do Mundo Antigo e dos períodos bíblicos, com mapas didáticos e escalas.

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<p>© 2018 André Daniel Reinke</p><p>Revisão</p><p>Nome do Revisor</p><p>Capa, diagramação e ilustrações</p><p>André Daniel Reinke</p><p>Gerente editorial</p><p>Juan Carlos Martinez</p><p>2ª edição - Janeiro 2018</p><p>Coordenador de produção</p><p>Mauro W. Terrengui</p><p>Impressão e acabamento</p><p>Imprensa da Fé</p><p>Todos os direitos desta edição reservados para:</p><p>Editora Hagnos</p><p>Av. Jacinto Júlio, 27</p><p>04815-160 - São Paulo - SP</p><p>Tel/Fax: (11) 5668.5668</p><p>hagnos@hagnos.com.br</p><p>www.hagnos.com.br</p><p>Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP,</p><p>Brasil)</p><p>Reinke, André Daniel –</p><p>Atlas Bíblico Ilustrado / André Daniel Reinke. – São Paulo:</p><p>Hagnos, 2006.</p><p>ISBN 978-65-86048-14-8</p><p>1. Bíblia – Geografia – Mapas 2. Bíblia – Ilustrações I. Título</p><p>05-7018 CDD-220.90233</p><p>Índices para catálogo sistemático:</p><p>1. Atlas Bíblico Ilustrado 220.90223</p><p>2. Bíblia: Atlas Ilustrado 220.90223</p><p>mailto://hagnos@hagnos.com.br</p><p>http://www.hagnos.com.br/</p><p>SUMÁRIO</p><p>Introdução</p><p>Geografia de Canaã nos Tempos Bíblicos</p><p>Atividades Produtivas em Canaã</p><p>Tabelas de Conversão e Medidas</p><p>As Festas Religiosas de Israel</p><p>As Estruturas de Culto em Israel</p><p>As Principais Culturas do Mundo Antigo</p><p>Os Principais Impérios do Período Bíblico</p><p>O Mundo Bíblico nos Dias Atuais</p><p>PRINCÍPIO</p><p>No Princípio Criou Deus</p><p>Mesopotâmia: a Terra Entre-Rios</p><p>Sai da tua Terra</p><p>TERRA PROMETIDA</p><p>Egito Antigo: a Terra dos Faraós</p><p>Um Povo Forjado no Deserto</p><p>O Tabernáculo</p><p>A Lei Mosaica</p><p>Um Caldo de Povos</p><p>A Entrada na Terra Prometida</p><p>A Crise do Século XII a.C.</p><p>As Tribos Instaladas em Canaã</p><p>A Teocracia do Período dos Juízes</p><p>MONARQUIA</p><p>O Período Monárquico</p><p>O Primeiro Cisma e a Monarquia Dualista</p><p>A Cidade de Davi</p><p>A Idade de Ouro de Israel</p><p>O Templo de Salomão</p><p>O Cisma Hebraico</p><p>Os Trágicos Reinos de Israel e Judá</p><p>O Movimento Profético</p><p>O Flagelo Assírio e o Reino de Israel</p><p>A Queda de Samaria, os Assírios e Judá</p><p>A Babilônia e a Queda de Jerusalém</p><p>O Exílio Babilônico</p><p>RESTAURAÇÃO</p><p>Tempo de Mudanças</p><p>O Imenso Império dos Persas</p><p>De Volta à Terra Prometida</p><p>Os Gregos e Alexandre, o Grande</p><p>O Helenismo</p><p>A Revolta dos Macabeus</p><p>O Período Interbíblico</p><p>JESUS CRISTO</p><p>A Plenitude dos Tempos</p><p>O Maior Império do Mundo Antigo</p><p>A Expansão do Império Romano</p><p>A Sociedade Romana no Tempo de Cristo</p><p>Uma Palestina Internacional</p><p>O Grande Centro Religioso dos Judeus</p><p>O Templo de Herodes</p><p>Jesus Cristo, o Filho de Deus</p><p>O Final do Ministério de Cristo</p><p>APÓSTOLOS</p><p>Os Atos do Espírito Santo</p><p>Paulo, Apóstolo aos Gentios</p><p>O Final da Era Apostólica</p><p>Boas Novas para Todos os Povos</p><p>ANEXOS</p><p>Referências</p><p>Índice</p><p>Índice Remissivo</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Este Atlas é uma significativa ampliação da primeira edição, publicada</p><p>em 2006. Foram incluídos, além de diversos novos mapas, textos</p><p>explicativos dos processos históricos que modificaram sensivelmente a</p><p>geografia política das terras em que se desenrolaram os eventos registrados</p><p>na Bíblia Sagrada. Os próprios mapas foram aperfeiçoados, mantendo seu</p><p>caráter ilustrativo, mas incluindo escalas para melhor compreensão das</p><p>dimensões geográficas às quais eles se referem. Este acréscimo técnico se</p><p>deu sem perda de sua beleza ilustrativa.</p><p>A experiência em sala de aula, ensinando Panorama Bíblico para alunos</p><p>de escola dominical e para estudantes de teologia em cursos especializados,</p><p>levou à elaboração de mapas que, normalmente, não costumam aparecer nas</p><p>publicações em geral. Por exemplo, um mapa que mostre Judá e Israel</p><p>separados durante os reinados de Davi e Is-Baal muito antes do cisma</p><p>hebraico ocorrido após a morte de Salomão. O problema gerado pela</p><p>inexistência de tais referências visuais é simples: o que não se vê não existe</p><p>no imaginário coletivo. É por essa razão que resolvemos incluir mapas</p><p>pouco usuais, mas que refletem realidades expostas na Palavra de Deus e que</p><p>são geralmente esquecidas.</p><p>Pelo mesmo motivo, buscou-se um reforço bastante significativo na</p><p>explicação dos contextos que participaram diretamente da história da</p><p>salvação. A questão aqui não é informar apenas qual o nome e tempo dos</p><p>governantes, mas sim tentar entender um pouco como determinado povo</p><p>vivia e pensava seus sistemas de crenças, com o objetivo de compreender o</p><p>pano de fundo dos acontecimentos bíblicos. Por exemplo: o que significava</p><p>o cargo do faraó para o egípcio, tão seriamente confrontado no Êxodo? A</p><p>mudança histórica dos grandes impérios e os intercâmbios mútuos de</p><p>pensamento e religiosidade tiveram uma influência marcante na história</p><p>bíblica. São informações desse tipo que se pretendeu, de forma resumida,</p><p>apresentar neste Atlas.</p><p>Portanto, trata-se de um Atlas que apresenta mapas, ilustrações e tabelas</p><p>a respeito da mudança da geografia política e histórica do Mundo Antigo,</p><p>acrescentando a eles informações político-econômicas e sócio-religiosas que</p><p>dão base para o entendimento dos contextos. Tudo para auxiliar o estudante</p><p>da Bíblia a compreender e extrair as verdades transmitidas na Palavra de</p><p>Deus.</p><p>A historicidade dos mapas deste Atlas</p><p>A historicidade dos relatos bíblicos têm sido questionados há pelo</p><p>menos um século, especialmente pela interpretação que utiliza o método</p><p>histórico-crítico. Ademais, a historiografia recente não confirma a maneira</p><p>como tradicionalmente é apresentada a história de Israel na Antiguidade,</p><p>baseada na narrativa bíblica. Por outro lado, algumas linhas conservadoras se</p><p>mantém restritas a padrões repetidos sem muito questionamento. Este</p><p>tensionamento é mais evidente no que se refere ao Antigo Testamento.</p><p>Como solucionamos esse problema? Pela própria proposta deste livro.</p><p>Trata-se de um Atlas Bíblico. Seu objetivo é mostrar, da maneira mais</p><p>honesta possível, o que o relato bíblico apresenta a respeito da formação de</p><p>Israel e de seu ocaso ainda na Antiguidade, fundamentalmente no seu</p><p>objetivo teológico: o uso daquele povo na ação divina dentro da história</p><p>humana. Entretanto, apesar de se basear no texto bíblico, os mapas não são</p><p>apresentados sem menção aos problemas que eventualmente possam surgir</p><p>ao leitor frente à ciência histórica. Apenas para tomar um exemplo: a</p><p>localização das tribos de Israel. Neste caso, foi apresentada a delimitação</p><p>que está no registro bíblico de Josué, mas não sem deixar de mencionar que</p><p>trata-se de uma promessa de posse condicionada à ação humana que jamais</p><p>foi realizada, conforme o que encontramos no relato do livro de Juízes.</p><p>Portanto, procuraremos apresentar uma representação fiel ao texto bíblico,</p><p>mas sempre citando as discussões mais importantes a respeito de cada</p><p>acontecimento ou localidade em questão.</p><p>O que não há dúvida em relação à Bíblia, em todas estas discussões, é</p><p>que ela é um produto da Antiguidade. Embora se questione a autoria de</p><p>determinados textos, está fora de questão situar sua escrita fora dos séculos</p><p>que remontam ao Mundo Antigo. Por exemplo: o método histórico-crítico</p><p>afirma que não foi Moisés quem escreveu o Pentateuco, mas provavelmente</p><p>redatores judeus que compilaram antigas tradições e textos no reinado de</p><p>Josias ou no tempo pós-exílico. O ambiente global, portanto, é o mesmo: a</p><p>Antiguidade do Oriente Próximo.</p><p>Quanto aos mapas e registros históricos do que poderíamos chamar de</p><p>um conhecimento secular (como os impérios), estão baseados nas principais</p><p>autoridades de cada área da História Antiga. É por isso que casamos o</p><p>material histórico universalmente aceito com o que os historiadores</p><p>chamariam de mitologia bíblica: os redatores, seja quais forem, tiveram os</p><p>mesmos contextos à sua disposição, e construíram suas narrativas baseadas</p><p>neles. Logo, o Atlas será útil tanto para o leitor que crê na inerrância</p><p>bíblica, como o que relativiza o texto sagrado.</p><p>Acreditamos, assim, entregar ao estudioso bíblico um bom manual para</p><p>compreender os contextos históricos e geográficos que foram palco da</p><p>composição do texto da Bíblia Sagrada.</p><p>O problema cronológico</p><p>Embora existam cronologias construídas a partir de somas das idades e</p><p>genealogias registradas na Bíblia, preferimos não as utilizar nas tabelas deste</p><p>Atlas. Os escritores bíblicos não tinham uma intenção ou método que</p><p>chamamos modernamente de científico, e pouco estavam interessados em</p><p>fazer cronologia</p><p>As nações a partir de Noé</p><p>O redator bíblico apresenta, no capítulo 10 do Gênesis, o que costuma-</p><p>se chamar de Tábua das Nações, ou Tabela das Nações: uma lista dos</p><p>descendentes de Sem, Cão e Jafé, os filhos de Noé. Todas as nações bíblicas</p><p>estão relacionadas, de alguma maneira, com algum destes filhos. Alguns</p><p>nomes são bastante antigos, outros nem tanto, mas a maioria é bastante</p><p>difícil de identificar. Eles representam um mapa verbal do mundo do Antigo</p><p>Testamento e a maioria dos acontecimentos relatados nas escrituras estão</p><p>dentro destes limites.</p><p>De maneira geral, a Bíblia divide as nações em: descendentes de Sem</p><p>(região central das nações, que gerou os judeus, árabes, mesopotâmicos e</p><p>sírios), descendentes de Cão (região sul das nações, originou egípcios,</p><p>cananeus e povos africanos) e descendentes de Jafé (região norte das nações,</p><p>que originou europeus e asiáticos). A tábua aparece na Bíblia como uma</p><p>espécie de relato fora de lugar cronológico (pois ela seria posterior à</p><p>narrativa da torre de Babel, de onde se originaram as diversas línguas</p><p>humanas no relato bíblico). Seu objetivo provavelmente seja preparar o</p><p>início da história de Abraão, em quem seriam abençoadas todas as famílias da</p><p>terra. Tem sido levantada a hipótese dessa Tábua das Nações ter sido</p><p>elaborada com base na configuração política do século XIII e XII a.C.</p><p>A Torre de Babel</p><p>O propósito original de Deus era de que o homem cultivasse o jardim e</p><p>que enchesse a terra com múltiplas e belas culturas. Entretanto, segundo o</p><p>relato bíblico, os homens se encheram de soberba e se concentraram no</p><p>mesmo lugar, planejando manter-se unidos. O plano se materializou na</p><p>construção de uma imensa torre com a qual pretendiam atingir os céus (talvez</p><p>o autor se referisse a um zigurate). Deus interferiu no projeto humano,</p><p>confundindo suas línguas, destruindo seus sonhos de grandiosidade e</p><p>devolvendo aos homens seu propósito original: o espalhamento pela terra,</p><p>produzindo uma imensa diversidade cultural.9</p><p>Zigurates eram terraços elevados com templos no topo, na Mesopotâmia. Essa estrutura era uma espécie de</p><p>montanha artificial numa região plana, estabelecendo uma escada que unia o céu e a terra, o caminho através</p><p>do qual o deus descia para se manifestar aos homens, segundo a crença local.</p><p>Ao lado, o Etemenanki, um zigurate com mais de 90 m de altura na Babilônia de Nabucodonosor II.</p><p>MESOPOTÂMIA: a TERRA ENTRE-RIOS</p><p>“MESOPOTÂMIA” É UMA PALAVRA DE ORIGEM GREGA que significa entre-</p><p>rios, pela razão de que seu território era dominado por dois grandes rios, o</p><p>Tigre e o Eufrates. Eles nascem nas regiões montanhosas ao norte e,</p><p>conforme se dirigem ao sul, adquirem um grande volume de água até</p><p>desaguarem na planície, onde mudam de curso frequentemente. O norte</p><p>montanhoso da Mesopotâmia possuía árvores frondosas (como pinheiros,</p><p>carvalhos e nogueiras); mais para o sul, elas davam lugar às palmeiras e</p><p>juncos em um terreno dominado pela argila e a areia. A Mesopotâmia foi,</p><p>juntamente com o Egito, o berço das grandes civilizações do Mundo</p><p>Antigo ocidental justamente pela presença dos grandes rios que permitiam</p><p>a formação de aldeias em seu entorno. Entretanto, a Mesopotâmia não era</p><p>uma região isolada como o Egito; fazia parte do grande fértil crescente,</p><p>uma abrangente região cultivável que iniciava no Golfo Pérsico, seguia para</p><p>o norte e virava em direção a Canaã – uma região de intensa circulação.</p><p>Com a progressiva instalação de grupos humanos às margens dos rios,</p><p>formaram-se inúmeras aldeias e cidades, o que definiu uma das principais</p><p>características mesopotâmicas: o intenso intercâmbio de culturas e</p><p>influência mútua entre as cidades que compunham seu território. Além do</p><p>meio urbano, havia uma grande quantidade de nômades circulando nas</p><p>regiões adjacentes, o que marcou também o conflito entre eles e os povos</p><p>sedentarizados.10</p><p>As cidades mesopotâmicas</p><p>A Mesopotâmia foi colonizada inicialmente por sumérios, e depois por</p><p>grupos semitas, os quais influenciaram significativamente uns aos outros.</p><p>Destes dois principais grupos étnicos e da amálgama entre eles foram</p><p>formadas as principais cidades da região. Não existia aquilo que nós</p><p>entendemos atualmente como “reino” ou “país”, com territórios e fronteiras</p><p>claramente delimitadas. Predominavam cidades independentes, cada uma</p><p>com seu próprio rei e sistema administrativo. Um eventual reino ou império</p><p>surgia quando uma cidade dominava militarmente as outras e impunha seu</p><p>governo e tributos. As principais cidades foram:</p><p>- Eridu: considerado o lugar primordial, onde o mundo se tornou</p><p>habitável. Ali teria sido inventado o tijolo e a primeira cidade. Era</p><p>importante como símbolo da criação do mundo.</p><p>- Uruque: ali foram inventados os sinetes cilíndricos, usados para selar um</p><p>documento de barro, sendo possível que nesta cidade tenha sido criada a</p><p>burocracia e a contabilidade. Seus templos sugerem uma sociedade</p><p>igualitária por causa das muitas aberturas.</p><p>- Churupaque: antiga cidade dos sumérios, onde a escrita foi adaptada das</p><p>formas arredondadas para a cunha, originando a escrita cuneiforme, adotada</p><p>por toda a Mesopotâmia e até na Anatólia.</p><p>- Acádia: muito citada pelos escritos antigos mesopotâmicos, mas cuja</p><p>localização é desconhecida. Possivelmente tenha sido a primeira cidade</p><p>mesopotâmica a tornar-se capital de um império, sob Sargão I (2340–2284</p><p>a.C.).</p><p>- Ur: importante centro cerimonial e religioso do deus-lua Sin. Possui</p><p>registros arqueológicos de assentamentos humanos de cerca de 5000 anos.</p><p>Teve um período de ascensão e domínio sobre a Suméria e Acádia no</p><p>tempo de Ur III (2113-2029 a.C.), mas cujo poderio terminou em</p><p>devastação e produziu uma literatura de lamentações típica da</p><p>Mesopotâmia. Ali foi construído um zigurate, cujas ruínas ainda existem.</p><p>- Nipur: sempre neutra nos conflitos, possuía 22 santuários e grande</p><p>quantidade de escribas, que eram regularmente treinados.</p><p>- Sippar: centro comercial com postos aduaneiros que cobravam pedágio</p><p>na passagem de embarcações. Sempre sujeita à Babilônia.</p><p>- Assur: sagrada para os assírios, sede do deus epônimo Assur e da deusa</p><p>Ishtar. Tornou-se uma rica cidade mercantil e capital do império assírio na</p><p>expansão dos séculos XX, XII e VII a.C. Era culturalmente influenciada pela</p><p>Babilônia. Saiba mais sobre os assírios nas páginas 68 a 71.</p><p>- Nínive: cidade religiosa assíria que cultuava Ishtar e onde os reis</p><p>mantinham um palácio de verão. Tornou-se capital do império a partir do</p><p>reinado de Senaqueribe (705 a.C.).</p><p>- Babilônia: centro sagrado que conheceu uma era de domínio imperial</p><p>com Hamurabi (século XVIII a.C.). Foi uma potência regional no século</p><p>XIV, mas atingiu poder sem igual entre 626 e 539 a.C., sob o reinado de</p><p>Nabopolassar e Nabucodonosor II. Saiba mais sobre ela nas páginas 72 e</p><p>73.11</p><p>Pensamento e religiosidade dos mesopotâmicos</p><p>Para o mesopotâmico, a dimensão humana, divina e natural reúnem-se</p><p>numa única realidade. Acreditavam que os deuses criaram o mundo, mas</p><p>depois deram aos homens a tarefa de trabalhar para manter a ordem</p><p>primordial. Os deuses eram vinculados a determinadas localidades e,</p><p>principalmente, cidades. Assim, Marduk era o deus principal de Babilônia e</p><p>Assur, o da cidade de Assur.</p><p>Os deuses eram imaginados na forma humana, masculinos ou</p><p>femininos, em tamanho gigantesco e com poderes muito superiores aos dos</p><p>homens. Foram eventualmente organizados em tríades: a primeira, os</p><p>deuses primordiais com Anu, Enlil e Ea; e a segunda, de deuses astrais com</p><p>Sin (a Lua), Shamash (o Sol) e Ishtar (planeta Vênus). O culto era o serviço</p><p>do deus, cuidando do ídolo e realizando os rituais, exercido por sacerdotes</p><p>ou sacerdotisas organizados em hierarquias bastante elaboradas de acordo</p><p>com especialidades diversas.</p><p>O mesopotâmico cria no Me, uma espécie de lei divina que determinava</p><p>o futuro do mundo e dos homens. O conjunto do Me garantia a vida</p><p>civilizada, assim como fixava o destino de cada indivíduo, que já nascia com</p><p>determinados atributos e defeitos que jamais mudariam. Frente a tal</p><p>angústia – de não poder mudar seu destino, já de antemão traçado</p><p>pelos</p><p>deuses –, ao homem cabia a tentativa de adivinhar o futuro, o que gerou um</p><p>infindável número de presságios e adivinhações, como a hepatoscopia (análise</p><p>da forma do fígado dos animais sacrificados), a orinomancia (interpretação</p><p>dos sonhos), a ornitomancia (movimentos e vôo dos pássaros) ou a</p><p>empiromancia (a forma das chamas num braseiro), entre muitos outros.</p><p>Como acreditavam poder contatar o mundo espiritual, criam na</p><p>necromancia (invocação dos mortos) e no embruxamento (espécie de vodu em</p><p>estátua, esculpida com semelhança do indivíduo que se quer atingir).</p><p>Também acreditavam que toda enfermidade era castigo por algum pecado, e</p><p>a sorte eventual era uma benesse dos deuses. Não havia uma recompensa a</p><p>obter, somente um castigo a evitar, o que gerava uma visão bastante</p><p>pessimista da realidade. Nesse contexto, a morte também não tinha nada de</p><p>desejável: a vida no além era um lugar diminuído e empobrecido, com os</p><p>mortos vivendo na escuridão, cobertos de penas de aves e alimentando-se de</p><p>barro num lugar chamado Sheol. Não se trata de um lugar bom ou ruim,</p><p>nem céu ou inferno, apenas um mundo dos mortos onde não há mais nada a</p><p>realizar. Era um retorno do homem ao pó – ele que fora, na crença</p><p>mesopotâmica, feito do barro. Se nada há de se esperar da morte, ela</p><p>também tinha um ponto positivo: era a anulação de todas as diferenças,</p><p>onde tanto reis quanto pobres compartilhavam da mesma sorte. Em tal</p><p>lógica, a maior desgraça para o morto era ser deixado insepulto: não</p><p>encontraria o retorno para o barro primordial e se tornaria um espectro</p><p>errante. A destruição de seus ossos representaria a aniquilação total no pós-</p><p>morte.12</p><p>Principais deuses mesopotâmicos</p><p>Anu O céu, todo-poderoso.</p><p>Enlil Legislador, senhor do ar, reside no alto da montanha e comanda os</p><p>destinos do mundo.</p><p>Enki ou</p><p>Ea</p><p>Ligado à terra e à água, associado à magia e aos encantamentos,</p><p>formou o homem do barro.</p><p>Nanna ou</p><p>Sin</p><p>A lua, senhor do conhecimento e da luta contra o caos (as eclipses</p><p>eram consideradas ataques de demônios).</p><p>Utu ou</p><p>Shamash</p><p>O sol, força que permite a vida e guardião da justiça e verdade.</p><p>Innana</p><p>ou Ishtar</p><p>Deusa do sexo e do amor, a personalidade guerreira.</p><p>Nergal Comanda o reino dos mortos com mansidão e justiça, assistido por</p><p>Ereshkigal, sua esposa.</p><p>Ninurta Deus da guerra.</p><p>Assur Deus de Assur, conquistador e batalhador, o senhor do mundo.</p><p>Marduk Deus de Babilônia, o criador da humanidade para os babilônios.</p><p>A história da Mesopotâmia é muito complexa, e não deve ser reduzida aos períodos aqui listados. Abaixo</p><p>segue uma lista de alguns dos principais reinos que se levantaram neste território:</p><p>- Período Dinástico Antigo (2900–2350 a.C.)</p><p>Começa a supremacia regional de algumas cidades, iniciando com Kish, depois Uruque e, por volta de 2600,</p><p>Ur. Invasões de povos elamitas desestabilizaram os poderios locais. Foi um tempo de desenvolvimento da</p><p>escrita cuneiforme, construção de zigurates e formação da tradição literária.</p><p>- Império Acadiano (2350–2160 a.C)</p><p>Uma dinastia de origem semítica passou a dominar a região dos sumérios sob o cetro de Sargão, o primeiro</p><p>imperador mesopotâmico.</p><p>- Período dos Gutis (2150–2100 a.C.)</p><p>Invasões de povos dos Zagros desestruturaram o império acadiano.</p><p>- Terceira Dinastia de Ur (2110–2000 a.C.)</p><p>Última dinastia suméria a governar a Mesopotâmia. Neste período foi construído o grande zigurate de Ur. A</p><p>partir de 2000 e até 1800 a.C. ocorreu a desagregação política sob invasões dos amoritas (povos semitas) e</p><p>incursões de elamitas.</p><p>- Império Babilônico Antigo (1800–1590 a.C.)</p><p>Os amoritas fundaram uma dinastia em Babilônia, antiga cidade sumério-acadiana. O rei amorita</p><p>Hamurabi conseguiu reunir a Mesopotâmia desde o Golfo Pérsico até o deserto da Síria sob um mesmo reino.</p><p>Ele criou o código de leis que leva seu nome (não foi o mais antigo, mas uma das principais tentativas de</p><p>unificar a legislação). Depois dele, o império decaiu bastante. Deste tempo pode ter sido a composição do</p><p>Enuma Elish, a história da criação segundo os babilônicos.</p><p>- Período de desagregação (1590–1000 a.C.)</p><p>Invasões de diversos povos (cassitas, hurritas e hititas) estabeleceram novas dinastias nas antigas cidades,</p><p>fragmentando os reinos e diminuindo sua influência fora da Mesopotâmia.</p><p>- Período Neo-Assírio (1000–612 a.C.)</p><p>Os assírios, ao norte, tiveram períodos de poderio nos séculos XX, XVIII e XII a.C. Depois, o vigor conquistador</p><p>se intensificou a partir de 900 a.C. até o ápice no tempo de Sargão II a Assurbanipal (721–627 a.C.). Sob o</p><p>reino de Sargão II ocorreu a queda de Samaria.</p><p>- Império Neo-Babilônico (612–539 a.C.)</p><p>Grupos de caldeus passaram a dominar a Babilônia no último milênio a.C., dos quais emergiu Nabopolassar e</p><p>seu filho Nabucodonosor II, mencionado no texto bíblico, que tornou a cidade a mais poderosa de toda a</p><p>Mesopotâmia. Depois de Nabucodonosor II ocorreu a decadência, até a invasão do Império Persa, vindo da</p><p>planícia iraniana.</p><p>SAI da TUA TERRA</p><p>A MESOPOTÂMIA vivia uma grande confusão política entre os séculos de</p><p>2000 e 1800 a.C. em consequência das constantes invasões de amoritas (ou</p><p>amorreus), que já vinham ocorrendo há alguns séculos, mas se</p><p>intensificaram no período. Após a queda do reino da cidade de Ur –</p><p>possivelmente destruído pelos elamitas por volta de 1950 a.C. – iniciou um</p><p>período de crise até o surgimento do poderoso reino babilônico de</p><p>Hamurabi. É provavelmente a este período que se refere a Bíblia quando</p><p>da saída de Terá e seus filhos da cidade de Ur: entre o tempo de crise de</p><p>domínio e sua queda definitiva. Terá deixou aquele centro mesopotâmico e</p><p>dirigiu-se para o norte, estabelecendo moradia em Harã (Gn 11.31).</p><p>Abraão talvez tenha vivido um século antes de Hamurabi, o grande imperador babilônico, criador de um</p><p>código de leis que leva seu nome. Este desenho é da estela na qual o código está gravado.</p><p>Abraão, filho de Terá, ouviu em Harã a chamada de Deus e seguiu a</p><p>jornada para Canaã. É a partir de Gênesis 12 que começa a aparecer a</p><p>revelação de como seria resolvida a questão do pecado que separou o</p><p>homem de Deus – e os patriarcas teriam uma participação decisiva. Eles</p><p>serviriam de canal pelo qual Deus estenderia sua palavra de bênção para</p><p>toda a humanidade.</p><p>A ação de Deus com os patriarcas pode ser resumida em uma palavra:</p><p>PROMESSA. Abraão foi o primeiro a receber a tríplice promessa (Gn 12.1-3):</p><p>haveria um descendente, uma terra e uma bênção para todas as nações do mundo.</p><p>Essa promessa seria ainda repetida aos próximos da genealogia: Isaque (Gn</p><p>26) e Jacó (Gn 28). A narrativa de José, neste sentido, também se tornou</p><p>emblemática: pela ação divina por meio dele, não somente sua família, mas</p><p>egípcios e outros povos também foram abençoados.13</p><p>Abraão</p><p>Seu nome original, Abrão, significa algo como pai das alturas, e Abraão</p><p>indica um reforço na exaltação, pai de uma multidão. Sua narrativa de fé</p><p>tornou-se tal exemplo que ele é considerado o patriarca das três grandes</p><p>religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo), e chamado de</p><p>pai da fé pelo apóstolo Paulo (Rm 4.16).</p><p>Abraão partiu de Harã com família, empregados e bens como um rico</p><p>nômade, que contava com um exército particular composto pelos seus</p><p>servos. Era casado com sua meia-irmã Sara (Gn 20.12), estéril, que também</p><p>recebera de Deus a promessa de um filho. Abraão teve um filho antes</p><p>(Ismael, da serva Hagar), numa tentativa de realizar a promessa divina por</p><p>meios próprios, até Sara finalmente conceber a Isaque. Segundo a Bíblia,</p><p>depois da morte da esposa, ainda desposou Quetura, que lhe deu outros seis</p><p>filhos (Gn 25.1-4).</p><p>Isaque</p><p>Isaque significa riso, uma lembrança de alguns episódios relacionados ao</p><p>cumprimento do que fora prometido: primeiro Abraão riu da promessa de</p><p>Deus (Gn 17); depois, Sara também riu, incrédula (Gn 18); finalmente,</p><p>quando o menino nasceu, todos riram de felicidade (Gn 21). A história de</p><p>Isaque nos é famosa mais pela sua juventude, uma vez que ele foi alvo da</p><p>grande prova de fé de Abraão, quando Deus lhe pediu o sacrifício do</p><p>próprio filho, impedindo-o</p><p>no último momento (Gn 22). Isaque casou-se</p><p>com Rebeca, sua segunda-prima, que lhe deu dois filhos: Esaú e Jacó,</p><p>gêmeos.</p><p>Jacó</p><p>Seu nome pode vir de um trocadilho entre ‘aqeb (calcanhar) e ‘aqab</p><p>(suplantar). Este suplantador não seria necessariamente pejorativo: tem a ver</p><p>com esforço e determinação. Assim como Abraão, Jacó é conhecido por</p><p>diversas aventuras. A primeira delas foi a rixa com seu irmão Esaú, a quem</p><p>enganou ao pedir a bênção paterna, contando com o auxílio da mãe para</p><p>ludibriar o pai, o que provocou sua fuga para Harã, terra em que ainda</p><p>viviam os parentes de seu pai e de sua mãe. Foi em Harã que ele casou-se</p><p>com duas irmãs, suas primas (filhas de seu tio Labão), as quais lhe deram</p><p>onze filhos (veja a tabela genealógica na página ao lado).</p><p>Jacó possui uma história de negociação com Deus e suas promessas,</p><p>sempre invocando o Deus de Abraão e de Isaque. Ao final da vida, já</p><p>retornando a Canaã, ocorreu o episódio da misteriosa luta no vau de</p><p>Jaboque (Gn 32), de cujo encontro saiu manco e com um novo nome: Israel.</p><p>Já em Canaã, um último filho lhe nasceu: Benjamim. Estabeleceu-se</p><p>definitivamente em Siquém, local onde Abraão construíra um altar e</p><p>recebera as promessas de Deus. Sua narrativa ainda se estenderia até o final</p><p>de Gênesis, na conclusão da aventura de José.</p><p>José e a migração para o Egito</p><p>A narrativa de José (por vezes considerada uma novela ficcional) conta</p><p>sua escravização pelos próprios irmãos, bem como os infortúnios até chegar</p><p>ao cargo máximo do Egito – o de grão-vizir do faraó (que o texto bíblico</p><p>denomina governador). A conclusão do livro de Gênesis aparece na boca de</p><p>José: era Deus quem estava no comando. José sentiu-se apenas como um</p><p>instrumento nas mãos divinas para preservação da vida de sua família e de</p><p>muitos outros.</p><p>Segundo o autor de Gênesis, foi por meio de José que ocorreu a entrada</p><p>dos patriarcas no Egito: ele convidou toda a família para habitar dentro do</p><p>reino, na terra de Gósen. Acredita-se que o período que melhor explicaria</p><p>esta peregrinação de semitas para o Egito seria o da dominação dos hicsos</p><p>(1640-1550 a.C.), estes também pastores nômades que haviam invadido e se</p><p>apossado do império (saiba mais nas páginas 30 a 33). Os filhos de José,</p><p>Efraim e Manassés, tornaram-se duas das mais fortes tribos de Israel.</p><p>Não se sabe onde fica exatamente a terra egípcia que a Bíblia chama de Gósen. Tradicionalmente, é situada</p><p>a leste do delta do Nilo, no Baixo Egito (região norte do reino).</p><p>Os patriarcas não eram os únicos a peregrinar em Canaã: muitos outros</p><p>grupos nômades viviam daquela forma, tanto que existia no Mundo Antigo</p><p>constante conflito entre os nômades que circulavam entre as cidades e os</p><p>grupos sedentários estabelecidos no meio urbano ou nos campos de seu</p><p>entorno. Um exemplo bíblico deste conflito foi a guerra de quatro reis</p><p>contra cinco, narrada em Gênesis 14, na qual o nômade Abraão tomou</p><p>parte com seu exército pessoal. Os patriarcas bíblicos provavelmente eram</p><p>seminômades: criadores de gado miúdo e com agricultura ocasional.</p><p>Esta tabela genealógica apresenta uma esquematização gráfica das descendências apresentadas no Gênesis.</p><p>Segundo a Bíblia, os seguintes povos são aparentados a partir de Terá: israelitas, edomitas, moabitas,</p><p>amonitas, ismaelitas e midianitas.</p><p>No mapa acima temos um esquema básico das principais rotas</p><p>migratórias dos três patriarcas fundamentais de Israel, conforme</p><p>mencionadas pela Bíblia:</p><p>– Peregrinações de Abraão: foi com seu pai Terá de Ur (1) até Harã. De</p><p>lá (2), foi chamado por Deus para ir a uma terra que lhe mostraria. Em</p><p>Canaã, armou suas tendas em Siquém, depois Betel. Peregrinou pelo sul e</p><p>foi até o Egito (3) para fugir de uma seca. Regressando, estabeleceu-se em</p><p>Betel na época da separação de seu sobrinho Ló. Mais tarde, fixou</p><p>residência nos carvalhais de Manre, próximo a Hebrom. Foi no sul de</p><p>Canaã que nasceram Ismael e Isaque.</p><p>– Peregrinações de Isaque: não saiu de Canaã, peregrinando dentro do</p><p>território (4) e permanecendo geralmente mais ao sul, próximo a Bersabeia.</p><p>É</p><p>É o patriarca a respeito de quem menos informações possuímos na Bíblia, e</p><p>as que temos geralmente estão vinculadas ao pai ou a seus filhos.</p><p>– Peregrinações de Jacó: viveu em Canaã até o conflito com o irmão, que</p><p>o levou a fugir para Harã (5). Permaneceu em Harã durante duas décadas.</p><p>Retornou e se estabeleceu em Siquém, local de antiga morada de Abraão.</p><p>Ao final da vida, migrou com toda a família para o Egito (6), a convite de</p><p>seu filho José, o bem-sucedido grão-vizir daquele reino.</p><p>O texto bíblico não parece pretender exaurir todos os eventos da vida</p><p>dos patriarcas, mas apresenta um padrão de vida nômade ou seminômade</p><p>que eles levavam. É possível que Abraão, Isaque e Jacó tenham estado em</p><p>vários outros lugares de Canaã ou fora dela. Mas fica o registro de que eles</p><p>viviam sobre uma terra que lhes fora prometida, da qual jamais tiveram</p><p>posse, vivendo pela fé (Hb 11.8,9).</p><p>Os altares dos patriarcas</p><p>Os patriarcas construíram altares por onde passaram, conforme registrado na Bíblia. Quatro deles</p><p>ganharam importância ao longo do tempo, principalmente pelo nome de Deus utilizado em todos eles: El.</p><p>Foram construídos após encontros com Deus (teofanias) e marcaram também o culto de seus familiares e</p><p>descendentes. Os principais altares do tempo patriarcal eram:</p><p>1. Siquém: local onde Abraão fez a primeira parada em Canaã e ergueu o primeiro altar. Jacó também se</p><p>estabeleceu neste lugar. Foi ainda o importante local em que Josué erigiu um monumento firmando o pacto de</p><p>Deus com o povo após as guerras de entrada na terra ( Js 8). Siquém ficava entre os montes Ebal e Gerizim,</p><p>locais da proclamação de bênçãos e maldições do Deuteronômio no ritual ordenado por Moisés (Dt 27).</p><p>Também foi o local onde, 2000 anos depois, Jesus encontrou a samaritana ( Jo 4).</p><p>2. Betel: Jacó sonhou neste local com a escada que subia ao céu. Levantou ali um altar e uma estela. Foi</p><p>também o local em que Jeroboão estabeleceu um dos templos de seu culto sincrético após o cisma hebraico (1Re</p><p>12).</p><p>3. Manre: próximo a Hebrom, local de residência de Abraão por muito tempo; também de Isaque e de Jacó.</p><p>Foi ali que Abraão recebeu a visita dos três personagens misteriosos (Gn 18).</p><p>4. Bersabeia: na fronteira sul de Canaã, foi morada de Isaque, mas que já tivera um altar construído por</p><p>Abraão. Também Samuel estabeleceu seus filhos como juízes nesta localidade (1Sm 8).</p><p>Provavelmente, os locais em que os patriarcas erigiram altares se tornaram alvo de peregrinação sagrada.</p><p>Seriam provavelmente os lugares altos, criticados pelo culto levítico. Eles foram combatidos pelo sacerdócio</p><p>centralizado de Jerusalém, séculos depois.</p><p>TERRA PROMETIDA</p><p>O reino da Babilônia entrou em decadência na Mesopotâmia enquanto o</p><p>império dos hititas, na Anatólia, iniciava sua expansão. O Egito foi</p><p>invadido pelos hicsos, que governaram o norte da terra dos faraós até</p><p>meados do século XVI – o tempo em que pode ser situada a migração da</p><p>família de Jacó para aquela região. No século XIII a.C., após a expulsão dos</p><p>hicsos, o Egito avançou em direção a Canaã, no auge do Novo Império,</p><p>levando ao confronto com os poderosos hititas. Ainda nesse tempo</p><p>começou a erguer-se outro reino belicoso ao norte da Mesopotâmia: o</p><p>Império Assírio. No entorno do mar Egeu, nasceram as civilizações</p><p>minóica e micênica, enquanto grupos de nômades arameus começaram a</p><p>invadir pacificamente Canaã e a Mesopotâmia. Ocorreram algumas</p><p>transformações importantes no período: a escrita ganhou um padrão</p><p>alfabético consonantal entre os cananeus e arameus. O êxodo hebraico</p><p>ocorreu poucas décadas antes das grandes movimentações humanas</p><p>oriundas da Europa, que ocorreram no início do século XII a.C., cujos</p><p>povos fugiam da fome e da guerra e invadiram de maneira catastrófica a</p><p>costa do Oriente Próximo. Eram os Povos do Mar, que traziam consigo</p><p>também os filisteus. Essas invasões, junto com crises econômicas locais,</p><p>causaram a desestabilização dos grandes impérios, produzindo um longo</p><p>tempo de ausência de supremacia internacional. Foi</p><p>nesse vácuo de poder</p><p>que pode ser situado o período dos juízes em Israel.</p><p>EGITO ANTIGO: a TERRA dos FARAÓS</p><p>O EGITO ANTIGO NASCEU EM FUNÇÃO DE UM RIO – um gigantesco rio. O</p><p>Nilo, correndo mais de mil quilômetros desde as cataratas do sul até o</p><p>delta ao norte, proporcionava uma terra negra e fértil por meio de suas</p><p>inundações anuais. Tal característica provocou a aglomeração de diversas</p><p>povoações ao longo do seu leito, fazendo do Egito um dos formigueiros</p><p>humanos da Antiguidade. A vida econômica, baseada na agricultura, tinha</p><p>um ciclo dependente do Nilo: a inundação ocorria entre julho e outubro; a</p><p>terra reaparecia fertilizada entre novembro e fevereiro, época da</p><p>semeadura; e, finalmente, a colheita entre março e junho. Tal dependência</p><p>também tinha seus inconvenientes: se a enchente falhasse, não haveria</p><p>agricultura e a fome provocava grandes distúrbios sociais.</p><p>O Nilo também era aproveitado construindo-se canais de irrigação –</p><p>primeiramente locais, em cada um dos nomos (como os gregos chamavam as</p><p>vilas egípcias), depois em grandes obras estatais a partir do Médio Império.</p><p>Tais obras permitiam cultivos intensivos de hortifruticultura (alhos, cebolas,</p><p>pepinos, frutas). Ainda fabricavam cerveja de cereais e vinhos a partir de</p><p>uvas e tâmaras. A indústria contava com tecelagem do linho, artefatos de</p><p>couro e artesanato de alta qualidade (vejam-se as jóias ostentadas pelos</p><p>faraós).</p><p>A terra do Egito, entretanto, não possuía pedreiras nem árvores de</p><p>grande porte em seu território, o que dificultava a construção civil. Esses</p><p>materiais precisavam ser importados, sendo que a madeira (especialmente o</p><p>cedro, excelente para vigas de construções e quilhas de navios) era comprada</p><p>de Biblos, fornecedor dos grandes cedros do Líbano, e as grandes rochas</p><p>eram trazidas via transporte fluvial da Núbia, no extremo sul. Para erguer as</p><p>casas e outros prédios, era bastante usado o adobe – tijolo que utiliza o barro</p><p>abundante no rio, misturado com palha, dando mais leveza e resistência ao</p><p>material.</p><p>A centralização estatal</p><p>O Egito Antigo causa admiração por dois fatores históricos muito</p><p>peculiares: primeiro, porque existiu como uma mesma entidade política</p><p>durante cerca de 2700 anos – de 3000 até 332 a.C.; segundo, porque muito</p><p>cedo foi unificado sob a mesma coroa. Foi o resultado de uma reunião de</p><p>pelo menos duas confederações, o reino do Vale (ao sul, cujo deus era Seth)</p><p>e o reino do Delta (ao norte, que cultuava o deus Hórus). O palácio do rei</p><p>era chamado pelos egípcios de Per-âa, que significa Casa Grande, cuja</p><p>expressão passou, com o tempo, a designar o próprio governante. Dessa</p><p>nomenclatura derivou o título faraó, consagrado pelos textos bíblicos.</p><p>Já unificado no III milênio a.C., o Egito desenvolveu-se sob um intenso</p><p>estatismo faraônico, o que significa que toda a vida econômica passava pelo</p><p>rei e seus funcionários: qualquer comércio exterior era realizado somente</p><p>pelo estado egípcio; e o excedente produtivo era concentrado nos templos,</p><p>todos eles controlados pelo faraó. Ele era o topo social do reino e sua palavra</p><p>era considerada a palavra de um deus.14</p><p>Pensamento e religiosidade dos egípcios</p><p>O faraó era considerado um rei divino, o herdeiro do cosmo encarregado</p><p>de sustentar a Verdade-Justiça-Equilíbrio (a deusa Maat) e impedir que o</p><p>caos invadisse o mundo. Por meio dos rituais religiosos, sendo o próprio</p><p>deus Hórus encarnado, o faraó manteria a ordem cósmica. Como ele faria</p><p>isso? Apoiando os deuses por meio do culto. Assim, o egípcio era um</p><p>indivíduo engajado em preservar a estrutura político-social vigente, uma vez</p><p>que acreditava ser preciso conservar o estado de coisas e, principalmente,</p><p>sujeitar-se ao faraó, a autoridade e sucessor dos deuses reinantes desde o</p><p>princípio do mundo. Esta era uma das razões para a sociedade egípcia sofrer</p><p>poucas mudanças.</p><p>O ritual religioso, presidido pelos sacerdotes, era essencialmente o</p><p>serviço da estátua representativa da divindade: ela era despertada, lavada,</p><p>alimentada, trocada de roupa e, especialmente, adorada. Podia ser levada em</p><p>procissão para visitar o faraó e também deuses de outras localidades nas</p><p>festas religiosas.</p><p>Quanto às hierarquias divinas, elas mudavam com frequência e eram</p><p>influenciadas pela religião associada ao faraó vigente. A doutrina religiosa</p><p>nunca foi unificada: em cada santuário de cada um dos nomos, o deus local</p><p>tinha primazia. Ocorreram tentativas, por parte dos sacerdotes, de sintetizar</p><p>uma teologia, mas elas nunca foram compreendidas pelas massas populares,</p><p>que veneravam Amon, Ptah e outros deuses, e ainda cultuavam animais</p><p>sagrados como os touros Ápis e Mnevis. Como a própria crença na</p><p>sustentação do universo pelo faraó era baseada no rito, e havia a crença de</p><p>que as palavras e as imagens teriam poder criador, o egípcio acreditava que,</p><p>por meio de gestos e símbolos, podia coagir os deuses. Para eles, sacrificar</p><p>um hipopótamo ou uma imagem magicamente consagrada surtiria o mesmo</p><p>efeito. Portanto, faziam uso contínuo de amuletos e rituais mágicos os mais</p><p>variados.</p><p>Tal característica manifestava-se sobretudo na crença da vida pós-</p><p>túmulo. Eles entendiam o ser humano como possuidor de diversos</p><p>elementos: o corpo, o Ka (força vital), o Ba (princípio de mobilidade do</p><p>Ka), Shut (a parte que contém o poder), o Ren (que é o próprio nome do</p><p>indivíduo) e o Ib (o coração, que é a sede do intelecto). Para que esses</p><p>elementos não se extraviassem após a morte, era imprescindível seguir todos</p><p>os ritos corretos. Assim, seguiam o procedimento orientado no Livro dos</p><p>Mortos, originalmente chamado Livro de Sair para a Luz, do período do</p><p>Novo Império. Cumprindo este rito, o falecido se tornava um Akh, ou seja, a</p><p>união de todos os elementos, principalmente o Ka e o Ba. Se não os</p><p>seguisse, poderia se tornar um Mut, o morto – que seria uma espécie de</p><p>morte dentro da morte, o maior terror do egípcio. A mumificação fazia</p><p>parte deste conceito de vida após a morte: é necessário um receptáculo para</p><p>os elementos do indivíduo, que poderia ser o próprio corpo preservado, ou</p><p>até mesmo uma estátua enterrada junto.</p><p>Também desenvolveram-se, ao longo dos milênios, algumas ideias sobre</p><p>a vida após a morte, o que os tornou particularmente distintos dos</p><p>mesopotâmicos, pessimistas neste assunto. As principais doutrinas sobre a</p><p>morte seriam: a ressurreição da múmia na tumba (na sua casa da eternidade),</p><p>um destino celeste mais etéreo (tornando-se parte do universo) ou a vida no</p><p>mundo subterrâneo de Osíris, deus dos mortos, que os governa em um reino</p><p>muito semelhante ao próprio Egito.15</p><p>As pirâmides eram entendidas como horizontes, ou seja, locais de comunicação com os deuses, podendo ser</p><p>uma rampa para o céu, ou a forma geométrica gerada pelos raios solares partindo de um ponto central. Cada</p><p>templo também seria um horizonte, o local onde o sol nasce e o deus aparece aos homens.</p><p>Os deuses egípcios tinham formas variadas. Nas fases mais antigas, eram ilustrados como animais (como o</p><p>touro Ápis); depois, foram caracterizados de maneira antropomorfizada, seja inteiramente humano, seja com</p><p>cabeça de animal. Era comum que os mitos egípcios unissem deuses em tríades, como Osíris, Ísis e Hórus (filho</p><p>de ambos), ou Amon, Rá e Aton (deuses cósmicos, relacionados ao sol). Também é característico o dualismo na</p><p>cosmovisão egípcia, no qual ocorre o conflito entre dois opostos para uma síntese final – caso da luta de Hórus e</p><p>Set, deuses do norte e do sul do Egito, que terminam unidos sob a coroa do faraó.</p><p>Abaixo está a representaçao de Aton, o disco solar, uma espécie de ensaio egípcio para o monoteísmo – muito</p><p>provavelmente um henoteísmo, a adoração de um único deus dentro da crença na existência de várias</p><p>divindades.</p><p>Principais deuses do panteão egípcio</p><p>Amon Rei dos reis. Incorporado a Rá, tornou-se Amon-Rá. O centro do seu</p><p>culto era em Tebas.</p><p>Anúbis Com cabeça de chacal, presidia os embalsamentos e acompanhava os</p><p>mortos na jornada pós-túmulo.</p><p>Aton Disco solar, a divindade que se tornou o culto henoteísta no reinado de</p><p>Amenhotep.</p><p>Hórus Com cabeça de falcão, deus do céu</p><p>e protetor do faraó, com quem se</p><p>identificava.</p><p>Ísis Deusa esposa e irmã de Osíris e mãe de Hórus.</p><p>Maat Deusa que personifica a ordem cósmica, ou a Verdade-Justiça-</p><p>Equilíbrio, pela qual o faraó era responsável.</p><p>Nut Personificação da abóboda celeste.</p><p>Osíris Soberano do mundo dos mortos, esposo de Ísis e pai de Hórus.</p><p>Rá Divindade muito antiga que representava o Sol. O faraó era chamado</p><p>filho de Rá.</p><p>Set Deus das forças do caos, irmão e assassino de Osíris, rival de Hórus,</p><p>era o deus principal do sul do Egito.</p><p>Tot Deus inventor da escrita e das ciências, protetor dos escribas.</p><p>Resumo histórico do Egito</p><p>A longa história egípcia pode ser resumida nos seguintes tópicos:</p><p>– Pré-Dinástico (3300 – 2920 a.C.): diversas aldeias foram se formando</p><p>em torno do Nilo no Baixo Egito (ao norte, no delta do rio) e do Alto Egito</p><p>(ao sul, em Hieracômpolis). Ao final do período, o rei Narmer conquistou o</p><p>norte e unificou o Egito sob um único governo de duas coroas.</p><p>- Dinástico Primitivo (2920 – 2575 a.C.): Menés fundou a Primeira</p><p>Dinastia, mas a unificação ainda era bastante precária.</p><p>- Antigo Império (2575 – 2134 a.C.): a capital foi mudada para Mênfis.</p><p>Este período foi marcado pela construção das pirâmides, entre elas as de</p><p>Guiza, pelos faraós Khufu, Khafra e Menkaura (chamados Quéops,</p><p>Quéfren e Miquerinos pelos gregos). O faraó era considerado um rei-deus,</p><p>a encarnação de Hórus.</p><p>- 1º Intermediário (2134 – 2040 a.C.): inundações deficientes trouxeram</p><p>fome e a desorganização ao reino, resultando na descentralização do Egito e</p><p>na ascensão de monarcas locais.</p><p>- Médio Império (2040 – 1640 a.C.): período de grande prosperidade</p><p>com as dinastias dos reis tebanos. Último período de construção de</p><p>pirâmides. O faraó ainda era um deus, inacessível, encarregado de fazer</p><p>respeitar a Verdade-Justiça-Equilíbrio. Época de intensa chegada de</p><p>asiáticos no delta.</p><p>- 2º Intermediário (1640 – 1550 a.C.): soberanos estrangeiros tomaram o</p><p>poder (chamados de hicsos pelos gregos). Estes reis se egipcianizaram e</p><p>adotaram Seth como seu deus dinástico. Dominaram apenas o Delta, sendo</p><p>a capital em Avaris. Foram expulsos pelo faraó tebano Amósis. A partir</p><p>deste período, os egípcios aprenderam a utilizar as carruagens puxadas por</p><p>cavalos.</p><p>- Novo Império (1550 – 1070 a.C.): com a expulsão dos hicsos, terminou</p><p>o relativo isolamento do Egito. Amon-Ra (do clero de Tebas) passou a</p><p>dominar o panteão oficial. Foi o período de auge da riqueza e refinamento</p><p>da civilização: a administração provincial foi centralizada, criado um</p><p>exército permanente e foi consolidado o poder na Ásia – o que gerou os</p><p>conflitos de Ramsés II com os hititas por volta de 1278 a.C. Ramsés III</p><p>repeliu três ataques dos Povos do Mar – dos quais faziam parte os filisteus –</p><p>por volta de 1180 a.C.</p><p>- 3º Intermediário (1070 – 712 a.C.): período de divisão e dinastias</p><p>paralelas. Núbia e Palestina escaparam do jugo egípcio.</p><p>- Época Tardia (712 – 332 a.C.): rei núbio Shabaka conseguiu reunificar</p><p>o Egito e a Núbia, tornando Mênfis a capital. Nesse período, o Egito sofreu</p><p>domínio estrangeiro duas vezes: em 671 a.C. com os assírios (expulsos em</p><p>653 a.C.) e a partir de 525 a.C. sob o Império Persa.</p><p>- Greco-Romano (332 a.C. – 395 d.C.): domínio dos gregos sob os</p><p>Ptolomeus. A partir de 163 a.C., caiu sob o domínio romano. Em 395 d.C.,</p><p>tornou-se parte do Império Romano do Oriente.</p><p>Este é o mapa do Império Egípcio na sua maior extensão territorial, sob Ramsés II: domínio sobre a Núbia,</p><p>ao sul, sobre a península do Sinai e extendendo-se sobre Canaã. As pequenas cidades cananeias estavam</p><p>submetidas em vassalagem ao monarca egípcio. Essa expansão colocou o Egito em confronto com o poderoso</p><p>Império Hitita, da Anatólia, redundando na famosa Batalha de Kadesh por volta de 1274 a.C.O resultado</p><p>do confronto foi inconclusivo: ambos os lados proclamaram vitória. Anos depois, os dois impérios deram</p><p>origem ao primeiro tratado de paz conhecido na história.</p><p>UM POVO FORJADO no DESERTO</p><p>NÃO HÁ REGISTRO EXTRABÍBLICO da estadia hebraica no Egito, seja em</p><p>documentos escritos ou em arqueologia. Uma das possibilidades aventadas</p><p>é de que os descendentes de Jacó estiveram na terra dos faraós durante o</p><p>tempo de dominação estrangeira dos hicsos (no 2º Período Intermediário,</p><p>de 1640 a 1550 a.C.), pois estes também eram asiáticos de atividades</p><p>pastoris. Tal hipótese tem a vantagem de explicar o benefício que clãs de</p><p>pastores (como os israelitas) receberam naquele momento.</p><p>Os hicsos foram expulsos do Egito, mas deixaram importantes contribuições: a metalurgia do bronze e o uso do</p><p>cavalo e do carro de guerra, que até então não eram dominados pelos egípcios.</p><p>A recepção positiva por parte do Egito a tais migrações mudou quando</p><p>uma dinastia verdadeiramente egípcia expulsou os hicsos e deu início ao</p><p>Novo Império, cujo ápice se deu com o faraó Ramsés II, tido por alguns</p><p>como o faraó do êxodo. Os hebreus estariam então vivendo na região do</p><p>delta do Nilo na forma de clãs familiares de caráter seminômade, como</p><p>criadores de animais. Israel não tinha um estado organizado, pois não</p><p>possuía qualquer liderança ou sistema governamental. Foi nesse contexto em</p><p>que os israelitas foram, segundo o relato bíblico, submetidos pelo faraó ao</p><p>sistema de corveia, ou seja, a trabalhos forçados sem remuneração por um</p><p>determinado período do ano. Esse tipo de participação nas obras estatais era</p><p>exigida dos egípcios no período em que não havia atividade agrícola por</p><p>causa dos meses secos e de rio baixo, e passou também a ser imposto aos</p><p>israelitas.</p><p>Ramsés II expandiu o reino até a Núbia, ao sul, e também Canaã, tentando chegar à Anatólia. Entre</p><p>diversas obras monumentais deste faraó está o templo de Abu Simbel, na Núbia, escavado na rocha e com</p><p>estátuas colossais na sua entrada.</p><p>Moisés, o libertador</p><p>Moisés foi o homem escolhido por Deus para libertar o povo de Israel</p><p>da servidão no Egito. Segundo Estêvão (no seu discurso em Atos 7), a vida</p><p>de Moisés pode ser dividida em três fases distintas. Os primeiros quarenta</p><p>anos foram vividos no palácio real, quando ele aprendeu a ciência egípcia</p><p>(matemática, artes, religião, escrita hieroglífica, por exemplo) e pode ter sido</p><p>até um comandante do exército (segundo Josefo, Moisés teria sido general</p><p>do exército egípcio contra a Etiópia). Nesse tempo, Moisés acreditava ser</p><p>um homem apto a libertar seu povo. Mas veio a decepção quando não foi</p><p>aceito como líder após assassinar o feitor que surrava um hebreu (Ex 2),</p><p>fugindo para o deserto de Midiã, onde viveu outros quarenta anos. Esse</p><p>segundo período foi um tempo de fracasso, vivendo com humildade e</p><p>dependência divina até a chegada da velhice – o que o levou a escrever o</p><p>salmo 90, o reconhecimento humilde de um homem quebrantado. Foi então</p><p>que Deus o chamou do meio da sarça ardente – um fenômeno comum de</p><p>combustão instantânea no deserto, mas com a peculiaridade milagrosa de</p><p>que a planta seca não se consumia diante do fogo. Moisés, um homem</p><p>alquebrado, que não tinha mais confiança em si mesmo, estava pronto para</p><p>depender totalmente de Deus para agir. Foi quando iniciou o terceiro</p><p>período de quarenta anos, atuando para libertar o povo israelita e conduzi-lo</p><p>até a terra prometida.</p><p>O Pentateuco</p><p>O Pentateuco, o conjunto dos cinco livros iniciais da Bíblia, tem sua</p><p>autoria atribuída a Moisés pela tradição judaica e cristã, ou como uma</p><p>escrita tardia do século VI a.C. que teria sido composta a partir de textos e</p><p>tradições mais antigas. Podemos resumir os livros do Pentateuco da seguinte</p><p>maneira:</p><p>1. Gênesis: conta o princípio do mundo, da humanidade, do pecado, do</p><p>plano divino para resgatar o homem, das nações e dos patriarcas que dariam</p><p>origem ao povo de Israel.</p><p>2. Êxodo: conta a história de Moisés sendo chamado por Deus e sua luta</p><p>com o faraó até a saída do Egito; depois, a peregrinação no deserto até o</p><p>monte Sinai, a instituição da Lei e a construção do Tabernáculo.</p><p>3. Levítico: trata da instituição das leis e dos regulamentos para as</p><p>atividades dos levitas, a tribo sacerdotal.</p><p>4. Números: neste livro se relatam os censos que</p><p>foram realizados ainda</p><p>aos pés do monte Sinai antes de retomar o caminho em direção à terra</p><p>prometida, razão do nome do livro. Ainda são descritas as batalhas de</p><p>conquista da Transjordânia.</p><p>5. Deuteronômio: resume a história do Êxodo e a Lei em discursos que</p><p>Moisés proferiu antes do povo entrar em Canaã. Ao final do livro, é relatada</p><p>a morte de Moisés.</p><p>As pragas do Egito</p><p>O fator de pressão utilizado por Deus para levar o faraó a permitir a</p><p>saída dos hebreus foram as pragas naturais. A lista dos acontecimentos</p><p>catastróficos do início do livro do Êxodo consiste de problemas comuns aos</p><p>egípcios, mas que se apresentaram de forma sequencial (Ex 7 a 12). É</p><p>possível que as pragas tenham começado com uma inundação anormal do</p><p>grande rio, que trouxe quantidades enormes de terra vermelha do planalto</p><p>etíope e desencadearam uma série de consequências nefastas para a</p><p>população. As pragas16 podem ser agrupadas em conjuntos de três:</p><p>1. Água foi transformada em sangue, as rãs deixaram as águas e</p><p>encheram a terra, depois os piolhos ou mosquitos (dependendo da tradução)</p><p>tomaram conta do território.</p><p>2. A terra foi infestada de moscas, o gado morreu de peste e feridas</p><p>cobriram homens e animais.</p><p>3. O granizo destruiu as plantações, os gafanhotos devoraram o resto, e</p><p>enfim a escuridão. Esta nona praga atingiu diretamente a crença em Atom</p><p>(o disco solar) e Rá (o próprio sol).</p><p>O aspecto milagroso das pragas não teria consistido tanto na severidade</p><p>dos acontecimentos, até comuns em determinadas crises egípcias, mas na</p><p>sincronia catastrófica de tais fatos. A décima praga, a morte dos</p><p>primogênitos, não tem explicação natural: ela representou uma intervenção</p><p>sobrenatural de Deus. Além disso, as pragas podem ser entendidas como</p><p>um ataque direto do Deus hebreu às divindades egípcias, especialmente ao</p><p>rio Nilo, fonte da sobrevivência do Egito, e à Maat, a crença na ordem do</p><p>mundo que seria mantida pelo poder do faraó. As trevas deram um golpe</p><p>nos deuses cósmicos Rá, Aton e Amon, e a morte dos primogênitos</p><p>afetaram a coroa (o sucessor de faraó), encarnação do deus Hórus. Depois</p><p>da última praga, segundo o Êxodo, foi celebrada a primeira Páscoa e os</p><p>israelitas deixaram o Egito.</p><p>A rota no deserto</p><p>O êxodo teve sequência com a migração dos israelitas costeando o mar e</p><p>chegando até a ponta sul da península. Essa rota faz sentido na medida em</p><p>que o caminho do norte, próximo ao mar Mediterrâneo, era controlado por</p><p>postos militares egípcios, além de ser um deserto escaldante e de complicada</p><p>travessia. Sem poder contar com o abastecimento das cisternas egípcias</p><p>naquele caminho, a tomada pelo sul ganha mais significado.</p><p>A rota apresentada no mapa da página ao lado é a tradicionalmente a</p><p>mais aceita pela interpretação conservadora, mas outras possibilidades são</p><p>aventadas, principalmente porque não foram encontrados até hoje resquícios</p><p>arqueológicos do acontecimento narrado pela Bíblia. Outro detalhe que é</p><p>alvo de controvérsia é a respeito do local da travessia para a península do</p><p>Sinai, que era entendido até pouco tempo atrás como sendo em algum</p><p>ponto do mar Vermelho. Isso trata-se de um erro de tradução do hebraico,</p><p>que define na realide um certo Mar dos Juncos como o local em que o mar se</p><p>dividiu, o que coloca o evento mais ao norte do mar Vermelho que hoje</p><p>conhecemos.</p><p>O pacto do Sinai</p><p>O povo hebreu tomou o caminho do sul, paralelo ao mar Vermelho, até</p><p>chegar ao monte Sinai (ou Horebe). Naquele local foi feita a aliança que</p><p>estabelecia um relacionamento especial entre Israel e YHWH (Ex 19),</p><p>tornando-o uma propriedade de Deus, como uma nação santa e reino de</p><p>sacerdotes. O propósito da aliança: cumprir as promessas feitas a Abraão de</p><p>que dele sairia uma grande nação e de que, por meio dela, todos os povos da</p><p>terra seriam abençoados. A aliança oferecia a Israel uma grande bênção pela</p><p>obediência aos preceitos divinos, mas também maldições - ou consequências</p><p>do pecado – pela provável desobediência (Dt 28). Os preceitos estabeleciam</p><p>um comportamento que era exigido do povo que se dispunha a caminhar</p><p>com Deus em Sua santidade.17</p><p>Para o caso do rompimento de algum dos preceitos da Lei, foi</p><p>estabelecido um sistema sacrificial como um meio pelo qual o Deus</p><p>transcendente poderia estar presente com seu povo, o recurso pelo qual os</p><p>pecadores podiam continuar a manter comunhão com Ele. A congregação</p><p>de Israel recebeu, ali no Sinai, uma série de procedimentos sacrificiais e</p><p>cerimônias solenes para serem lembradas durante todo o ano. O local</p><p>construído para a celebração dos ritos sacrificiais foi o Tabernáculo; e a tribo</p><p>escolhida para o serviço sacerdotal foi a de Levi.</p><p>Segundo o relato bíblico, até aquele momento os israelitas nada mais</p><p>eram do que um agrupamento de clãs e famílias. A partir de então,</p><p>passaram a organizar-se como tribos em torno do Tabernáculo, sem uma</p><p>centralização política, mas como uma espécie de confederação que tinha</p><p>como único vínculo a fé em Deus. Uma das determinações divinas no Sinai</p><p>foi a distribuição das tribos em torno do Tabernáculo, a qual funcionaria</p><p>durante o tempo de nomadismo no deserto até que se estabelecessem em</p><p>Canaã (Nm 2).</p><p>Saiba mais sobre o sistema levítico e sacerdotal nas próximas páginas.</p><p>A Jornada do Êxodo</p><p>O mapa da página ao lado apresenta uma das rotas mais defendidas para</p><p>o êxodo hebraico, sendo tradicionalmente a mais aceita – embora não haja</p><p>comprovação arqueológica dessa massa humana em movimento, nem</p><p>certeza da localização dos acidentes geográficos narrados na Bíblia. Abaixo</p><p>listamos os principais acontecimentos desta jornada sob comando de</p><p>Moisés, que foram:</p><p>A. No Egito, Moisés enfrentou o faraó, ocasião em que ocorreram os</p><p>eventos das nove pragas (Ex 4 a 11). Depois, foi celebrada a primeira</p><p>Páscoa e a décima praga caiu sobre o Egito, com a consequente saída de</p><p>Israel e a perseguição do exército egípcio até as margens do mar (Ex 12 e</p><p>13).</p><p>B. No mar dos Juncos ocorreu a travessia milagrosa (Ex 14).</p><p>C. Os israelitas peregrinaram até o monte Sinai (ou Horebe), onde</p><p>permaneceram durante aproximadamente dois anos, enquanto a Lei era</p><p>recebida e o Tabernáculo construído (Ex 20 a 40). O detalhamento da Lei</p><p>aparece registrado ao longo dos livros de Êxodo, Levítico, Números e</p><p>Deuteronômio.</p><p>D. Os israelitas celebraram a Páscoa, levantaram acampamento e seguiram</p><p>para Cades, tomando caminho para invadir Canaã.</p><p>E. Enviaram antes doze espias para um primeiro reconhecimento, os quais</p><p>retornaram e deram um relatório desanimador, à exceção de Josué e Calebe</p><p>(Nm 9 a 13).</p><p>F. O povo se revoltou e foi castigado por Deus, não sendo permitida àquela</p><p>geração entrar na terra prometida. Tentaram uma invasão mesmo com a</p><p>proibição divina, mas foram rechaçados em Horma (Nm 14).</p><p>G. Permaneceram 38 anos como nômades no deserto, provavelmente</p><p>naquela mesma região.</p><p>H. Uma nova nação, apenas daqueles que que saíram do Egito ainda</p><p>crianças e dos que nasceram no deserto, retomou o caminho a Canaã, mas</p><p>desta vez seguindo pelo caminho da Transjordânia.</p><p>I. Como Edom recusara passagem, contornaram pelo caminho do sul, uma</p><p>vez que eram aparentados e Deus proibiu que guerreassem contra os</p><p>edomitas naquele momento (Nm 20).</p><p>J. Chegaram nas campinas de Moabe, às portas da terra prometida, de</p><p>onde partiram para as primeiras batalhas para a conquista de cidades na</p><p>Transjordânia (sobre elas, veja nas páginas 42 e 43). Chegava o fim do</p><p>tempo do êxodo e o início da saga da entrada em Canaã.</p><p>Não há consenso a respeito da rota do Êxodo, pois os locais descritos na Bíblia não foram identificados pela</p><p>arqueologia. Mesmo o monte Sinai não tem sua localização assegurada, embora o local marcado no mapa ao</p><p>lado seja turisticamente visitado. Acima estão marcadas três rotas alternativas imaginadas: (A) caminho pela</p><p>terra dos filisteus; (B) caminho para o deserto de Sur; (C) caminho para Midiã (neste caso, o Sinai estaria</p><p>localizado em Midiã, e não na península que leva seu nome).</p><p>O monte Sinai também é chamado, na Bíblia, de monte Horebe.</p><p>O TABERNÁCULO</p><p>O TABERNÁCULO DESCRITO NO PENTATEUCO era uma tenda desmontável,</p><p>onde</p><p>deveriam ser realizados os sacrifícios que a Lei mosaica prescrevia.</p><p>Era uma estrutura perfeitamente adaptada ao modo de vida nômade em</p><p>que os israelitas se encontravam, uma vez que ainda estavam a caminho de</p><p>Canaã. Também funcionaria dentro de uma concepção de itinerância entre</p><p>as tribos, mesmo depois da fixação. O santuário móvel era uma tecnologia</p><p>desenvolvida e bastante usada pelos egípcios pelo menos desde 2600 a.C. e</p><p>que serviria aos israelitas por cerca de quatro séculos.</p><p>A estrutura do Tabernáculo era construída em tábuas de acácia cobertas</p><p>de ouro, que eram unidas por cinco varas (também de madeira revestida de</p><p>ouro), formando uma parede. Pés de prata foram feitos para dar base a essas</p><p>paredes que, levantadas, formavam a estrutura básica de construção do</p><p>Tabernáculo. Na entrada da tenda foram colocadas cinco colunas de</p><p>madeira revestidas de ouro, com os capitéis também de ouro e as bases de</p><p>bronze. Sobre essas colunas era pendurado o véu da entrada, bordado com</p><p>estofo azul, púrpura, carmesim e linho fino. Outras quatro colunas com um</p><p>véu – este com bordados de figuras de querubins – foram colocadas no</p><p>interior para separar o Santo Lugar do Santo dos Santos.</p><p>Sobre a estrutura montada eram colocadas quatro coberturas. A</p><p>primeira, composta por 10 cortinas com imagens e confecção semelhante às</p><p>dos véus; a segunda, com 11 cortinas feitas de tecido de peles de cabra; a</p><p>terceira, bastante resistente, era feita de peles de carneiro tingidas de</p><p>vermelho e fixada ao chão por meio de estacas; e a quarta e última, uma</p><p>cobertura mais fina e mais resistente, de peles de animais marinhos</p><p>(desconhecidos), que também era fixa no chão com estacas.</p><p>No interior do Tabernáculo eram guardados os seguintes móveis, todos</p><p>revestidos de ouro: a Arca da Aliança, peça mais importante e sagrada, que</p><p>ficava no cômodo mais interno, o Santo dos Santos (veja o número 1 na</p><p>página ao lado); e a Mesa dos Pães (2), o Candelabro (3) e o Altar do</p><p>Incenso (4) ficavam no Santuário.</p><p>O pátio ao redor do Tabernáculo era cercado por cortinas de 2,5 metros</p><p>de altura, limitando uma área de aproximadamente 50 x 25 metros. Essa</p><p>“cerca” era sustentada por 20 colunas de cada lado, mais 10 colunas nos</p><p>fundos e outras 10 na frente. Na entrada, uma tapeçaria semelhante aos</p><p>véus funcionava como porta. Neste pátio ficavam duas peças de bronze: o</p><p>Altar do Holocausto (na página ao lado, letra A) e a Bacia de Bronze (B),</p><p>ou Mar de Bronze.18</p><p>O Altar do Holocausto era uma peça de madeira revestida de bronze,</p><p>tinha 2,5 x 2,5 metros de largura por 1,5 de altura, com “chifres” nos cantos</p><p>e uma grelha no centro, para sustentar a oferta que seria queimada ali. Esta</p><p>peça tinha argolas nos cantos onde passavam as varas para seu transporte.</p><p>A Bacia de Bronze, também chamada Mar de Bronze, era uma bacia</p><p>bastante grande onde havia água para os sacerdotes se lavarem e aos</p><p>utensílios que utilizavam.</p><p>Acima, processo de montagem do Tabernáculo. Os levitas eram os responsáveis pela desmontagem, transporte e</p><p>nova montagem da estrutura, além de auxiliarem providenciando madeira, lavando os utensílios,</p><p>transportando água. Embora o animal fosse imolado pelo próprio ofertante, somente o sacerdote podia</p><p>executar os rituais junto ao altar e aos móveis sagrados.</p><p>O Tabernáculo tinha diversas restrições de acesso conforme se dirigia ao seu interior, o Santo dos Santos, que</p><p>representava a presença de Deus no meio de Israel. O povo ficava do lado de fora do pátio. Somente passava</p><p>pela porta o ofertante com o seu sacrifício, chegando apenas até o Altar do Holocausto. Ali, o animal era</p><p>imolado e seu sangue conduzido apenas pelo sacerdote até o interior do Tabernáculo, no Lugar Santo. Já na</p><p>parte mais sagrada, o Santo dos Santos, somente poderia entrar o sumo sacerdote uma vez ao ano, no Dia da</p><p>Expiação.</p><p>O interior do Tabernáculo</p><p>O interior do Tabernáculo era dividido em duas partes: o Santo Lugar (ou Santuário) e o Santo dos</p><p>Santos. Esta seria uma descrição básica de seus móveis:</p><p>1. Arca da Aliança: a mais importante peça do Tabernáculo, representava a presença de Deus no meio do</p><p>Seu povo, e ficava também no local mais importante, o Santo dos Santos. Era uma caixa de madeira revestida</p><p>de ouro, com formato de 125 cm por 75 cm, tendo a altura de 75 cm. A tampa era chamada Propiciatório e</p><p>continha dois querubins esculpidos. Dentro dela eram guardadas as pedras dos 10 mandamentos, uma porção</p><p>do maná e a vara florescida de Arão.</p><p>2. Mesa dos Pães: ou Mesa da Proposição. Sobre ela eram postos 12 pães representando as 12 tribos.</p><p>Significava a provisão de Deus para o Seu povo.</p><p>3. Candelabro: era um castiçal de ouro com 7 hastes, onde havia lâmpadas queimando azeite todos os dias.</p><p>Simbolizava a presença de Deus, representado simbolicamente no Antigo Testamento como tendo “sete</p><p>espíritos”.</p><p>4. Altar do Incenso: pequeno altar com base quadrada, usado para a queima do incenso perfumado</p><p>(líquido), que era constantemente renovado.</p><p>A LEI MOSAICA</p><p>A LEI FOI RECEBIDA POR MOISÉS NO MONTE SINAI juntamente com a</p><p>instrução para a montagem do Tabernáculo. A Lei se apresenta de maneira</p><p>dispersa ao longo dos livros do Pentateuco, mas, para fins didáticos,</p><p>costuma-se dividi-la em dois grandes blocos: moral e cerimonial. A Lei</p><p>moral regulava a vida ética do povo; a Lei cerimonial tratava dos sacrifícios</p><p>para quando se quebrasse a Lei moral, além do manual para celebração do</p><p>culto a Deus. As classificações moral e cerimonial são modernas – não</p><p>aparecem nos textos antigos, e a utilizamos para fins de compreensão. Há</p><p>ainda quem inclua uma terceira categoria, a lei civil, uma vez que também</p><p>regulamentava uma espécie de estatuto jurídico.</p><p>A Lei moral era baseada nos Dez Mandamentos, desmembrados em 613</p><p>preceitos e regras que governavam desde a alimentação do povo até a</p><p>maneira de tratar os autores dos crimes mais diversos. A Lei cerimonial</p><p>regia o culto em todos os detalhes: a indumentária do sacerdócio, o</p><p>Tabernáculo, os sacrifícios e as festas religiosas. Os sacrifícios eram sempre</p><p>de produtos agrícolas e animais domésticos. Isso se devia pelo fato de que</p><p>uma oferta deveria ter um custo pessoal para o ofertante (a não ser para</p><p>quem era muito pobre).</p><p>Podemos dividir os sacrifícios, também para fins didáticos, em regulares</p><p>e voluntários. Os sacrifícios regulares eram aqueles que acompanhavam as</p><p>festas nacionais de Israel (veja na página 14) e estavam regulamentados para</p><p>serem executados periodicamente, de caráter nacional. Já os sacrifícios</p><p>voluntários eram de caráter estritamente pessoal, que cabia a cada israelita</p><p>oferecer individualmente. Nos sacrifícios regulares, em que o ofertante era a</p><p>comunidade como um todo, o responsável pelo abate do animal era o</p><p>próprio sacerdote, ao contrário das ofertas voluntárias, nas quais quem trazia</p><p>a oferta imolava a vítima.</p><p>SACRIFÍCIOS REGULARES:</p><p>Nome Frequência O que é Procedimento</p><p>oferecido</p><p>Incenso</p><p>Ex 30.1-10</p><p>todos os</p><p>dias</p><p>duas porções</p><p>de incenso</p><p>incenso abastecido no altar dentro</p><p>do Santuário, todas as manhãs e</p><p>todas as tardes, para queimar</p><p>continuamente</p><p>Holocausto</p><p>Perpétuo</p><p>Ex 29.38-46;</p><p>Nm 28.3-8</p><p>todos os</p><p>dias</p><p>dois cordeiros</p><p>de um ano</p><p>um holocausto de um cordeiro pela</p><p>manhã e outro no crepúsculo,</p><p>ambos acompanhados de porção</p><p>de farinha e libação de vinho</p><p>(derramar a bebida sobre o altar)</p><p>Holocausto</p><p>do Sábado</p><p>Nm 28.9-10</p><p>todos os</p><p>sábados</p><p>dois cordeiros</p><p>de um ano</p><p>holocaustos dos dois cordeiros</p><p>acompanhados de porção de</p><p>farinha e libação de vinho</p><p>Holocausto</p><p>da Lua Nova</p><p>Nm 28.11-15</p><p>no início de</p><p>cada mês</p><p>(lua nova)</p><p>dois</p><p>novilhos, um</p><p>carneiro e</p><p>sete cordeiros</p><p>de um ano</p><p>holocaustos dos novilhos, do</p><p>carneiro e dos cordeiros</p><p>acompanhados de porção de</p><p>farinha e libação de vinho</p><p>Sacrifícios</p><p>dos Ázimos</p><p>Nm 28.16-25</p><p>do dia 15</p><p>ao 21 de</p><p>Nisã (ou</p><p>Abibe),</p><p>depois da</p><p>Páscoa</p><p>14 novilhos,</p><p>7 carneiros e</p><p>49 cordeiros</p><p>de um ano</p><p>holocaustos de 2 novilhos, um</p><p>carneiro e 7 cordeiros</p><p>acompanhados de porção de</p><p>farinha e libação de vinho todos</p><p>os dias, até concluir a festa dos</p><p>ázimos no sétimo dia</p><p>Holocausto</p><p>das Primícias</p><p>Lv</p><p>23. 10-14;</p><p>Nm 28.26-31</p><p>dia</p><p>posterior ao</p><p>sábado, no</p><p>início da</p><p>colheita</p><p>oferta de</p><p>frutos, dois</p><p>novilhos, um</p><p>carneiro, sete</p><p>cordeiros de</p><p>um ano e um</p><p>bode para</p><p>expiação</p><p>entrega das primícias (primeiros</p><p>produtos colhidos), holocaustos dos</p><p>novilhos, do carneiro e dos</p><p>cordeiros acompanhados de porção</p><p>de farinha e libação de vinho; o</p><p>bode em sacrifício de expiação</p><p>Sacrifícios</p><p>das</p><p>Trombetas</p><p>Nm 29.1-6</p><p>primeiro</p><p>dia de</p><p>Etanin (ou</p><p>Tisri)</p><p>um novilho,</p><p>um carneiro,</p><p>sete cordeiros</p><p>de um ano e</p><p>um bode</p><p>para</p><p>expiação</p><p>holocaustos do novilho, do</p><p>carneiro e dos cordeiros</p><p>acompanhados de porção de</p><p>farinha e libação de vinho; o bode</p><p>em sacrifício de expiação</p><p>O Dia da</p><p>Expiação</p><p>Lv 16; Nm</p><p>29.7-11</p><p>dia 10 de</p><p>Etanim (ou</p><p>Tisri)</p><p>um novilho e</p><p>um carneiro</p><p>pelos</p><p>sacerdotes;</p><p>dois bodes e</p><p>um carneiro</p><p>pelo povo</p><p>(um bode</p><p>expiatório,</p><p>um</p><p>emissário);</p><p>mais um</p><p>novilho, sete</p><p>cordeiros e</p><p>um bode</p><p>para</p><p>expiação</p><p>Rito da expiação: sacrificado o</p><p>novilho (pelo pecado do</p><p>sacerdote); leva o incenso, depois</p><p>asperge o sangue do novilho no</p><p>Santo dos Santos; então sacrifica</p><p>o bode (pelo pecado do povo),</p><p>aspergindo seu sangue no Santo</p><p>dos Santos; o sangue de ambos é</p><p>derramado no altar; impõe as</p><p>mãos sobre o bode vivo e o</p><p>expulsa para o deserto. Por fim,</p><p>banha-se no Santuário para</p><p>purificar-se.</p><p>Holocaustos: os demais animais</p><p>são oferecidos em holocausto</p><p>(difícil aferir se antes ou depois</p><p>do rito da expiação)</p><p>O Dia da Expiação era o dia</p><p>mais importante do ano, pois</p><p>representava o perdão nacional de</p><p>pecados. Todos os ritos deste dia</p><p>eram realizados pelo sumo</p><p>sacerdote e somente ele podia</p><p>entrar – e apenas naquele dia –</p><p>no Santo dos Santos.</p><p>Sacrifícios do dia 15 71 novilhos, No primeiro dia, 13 novilhos, 2</p><p>dos</p><p>Tabernáculos</p><p>Nm 29.12-39</p><p>ao 22 de</p><p>Etanin (ou</p><p>Tisri)</p><p>15 carneiros,</p><p>105 cordeiros</p><p>de um ano e</p><p>8 bodes</p><p>carneiros, 14 cordeiros de um ano</p><p>e um bode pelo pecado, com porção</p><p>de farinha e libação de vinho.</p><p>Repete o mesmo sacrifício até o</p><p>sétimo dia, apenas diminuindo</p><p>um novilho em relação ao</p><p>anterior (no sétimo dia, 7</p><p>novilhos, 2 carneiros, 14</p><p>cordeiros e um bode). No oitavo</p><p>dia, holocausto de um novilho,</p><p>um carneiro e 7 cordeiros de um</p><p>ano e um bode para expiação.</p><p>Um sacrifício não substituía ou interrompia o outro. Ou seja, no sábado ocorria tanto o perpétuo quanto o do</p><p>sábado. Se outras festas ocorressem num dia de sábado, também eram mantidas as ofertas regulares, acrescidas</p><p>dos respectivos sacrifícios das festas.</p><p>SACRIFÍCIOS VOLUNTÁRIOS (Lv 1 a 7):</p><p>Nome O que é</p><p>oferecido</p><p>Procedimento Finalidade</p><p>Holocausto novilhos,</p><p>carneiros,</p><p>cabras ou</p><p>pombas,</p><p>machos e sem</p><p>defeito, (o tipo</p><p>de animal</p><p>dependia da</p><p>condição social</p><p>do ofertante)</p><p>animal totalmente queimado</p><p>no altar</p><p>sacrifício</p><p>voluntário de</p><p>dedicação</p><p>pessoal a</p><p>Deus,</p><p>significando</p><p>compromisso e</p><p>submissão à</p><p>sua vontade</p><p>Oferta de</p><p>Manjares</p><p>(ou</p><p>Oblação)</p><p>cereais,</p><p>farinha, azeite</p><p>de oliva, pães e</p><p>bolos salgados,</p><p>parte queimada no altar, o</p><p>restante ficava para os</p><p>sacerdotes</p><p>sacrifício</p><p>voluntário de</p><p>dedicação do</p><p>dia-a-dia</p><p>mas sem</p><p>fermento</p><p>Oferta</p><p>Pacífica</p><p>(ou de</p><p>Comunhão)</p><p>gado ou</p><p>novilhos</p><p>(machos e</p><p>fêmeas),</p><p>carneiros e</p><p>cabras sem</p><p>defeito</p><p>somente a gordura queimada</p><p>no altar; o animal, assado e</p><p>comido pelo sacerdote</p><p>juntamente com a família do</p><p>ofertante</p><p>sacrifício</p><p>voluntário de</p><p>ação de graças</p><p>por alguma</p><p>bênção</p><p>recebida</p><p>Oferta pelo</p><p>Pecado</p><p>do sacerdote:</p><p>novilho sem</p><p>defeito</p><p>da</p><p>comunidade:</p><p>novilho sem</p><p>defeito</p><p>de um chefe:</p><p>bode sem</p><p>defeito</p><p>do homem</p><p>comum: ovelha</p><p>ou cabrita, ou</p><p>duas rolas e</p><p>dois</p><p>pombinhos; se</p><p>era muito</p><p>pobre, farinha</p><p>no caso do sacerdote e da</p><p>comunidade, somente a</p><p>gordura queimada no altar, e</p><p>todo o animal queimado fora</p><p>do arraial, bem longe; nos</p><p>outros, somente a gordura</p><p>queimada no altar, ficando o</p><p>restante do animal para o</p><p>sacerdote</p><p>sacrifício</p><p>gerado pela</p><p>convicção de</p><p>um pecado</p><p>cometido, do</p><p>qual o</p><p>ofertante se</p><p>arrependia</p><p>Oferta pela</p><p>Culpa</p><p>(ou de</p><p>Reparação)</p><p>cordeiro sem</p><p>defeito</p><p>mesmo procedimento da</p><p>Oferta pelo Pecado, mas</p><p>incluindo uma multa ou</p><p>reparação ao lesado</p><p>sacrifício</p><p>gerado pela</p><p>convicção de</p><p>um pecado</p><p>cometido, com</p><p>ênfase na</p><p>restituição do</p><p>prejuízo ao</p><p>que fora lesado</p><p>É comum pensar que todo o culto dos israelitas se resumia ao sacrifício,</p><p>e que quase sempre ele vinha carregado de uma aura negativa por causa do</p><p>pecado. É um engano. Na realidade, das cinco ofertas voluntárias – aquelas</p><p>que o povo comum oferecia –, apenas duas tinham relação com o pecado; as</p><p>demais, eram de louvor (que a Bíblia descreve como de aroma agradável ao</p><p>Senhor). Possivelmente o sacrifício mais praticado era o Pacífico (ou da</p><p>Comunhão) que, a rigor, era uma uma espécie de churrasco comunitário em</p><p>clima de festa, pois seu objetivo era exatamente este: promover a comunhão</p><p>do povo entre si e com Deus.</p><p>O procedimento básico das ofertas voluntárias era o seguinte: o</p><p>ofertante trazia sua oferta – que variava dependendo da sua condição social</p><p>(se rico, devia ser um novilho, se muito pobre, duas pombas bastavam) – e a</p><p>apresentava ao sacerdote. Ao lado do altar, o ofertante impunha suas mãos</p><p>no animal e, em seguida, o matava. O sacerdote prosseguia com o ritual, que</p><p>essencialmente era o de lidar com o sangue da vítima, geralmente aspergida</p><p>em torno do altar, e preparar as carnes para seu destino final, que variava de</p><p>acordo com a oferta. Se fosse o holocausto, toda a carne era queimada no</p><p>altar; no caso da oferta de comunhão, eram repartidas entre sacerdotes e o</p><p>próprio ofertante, que o comia com amigos e familiares; e no caso dos</p><p>sacrifícios expiatórios (pelo pecado e pela culpa), a carne ficava com os</p><p>sacerdotes. No caso de culpa da comunidade ou do próprio sacerdote, tudo</p><p>devia ser queimado fora do acampamento.19</p><p>O ofertante imolava a vítima; o sacerdote levava o sangue ao altar e queimava a oferta. Parece que o</p><p>procedimento se alterou na época pós-exílica: o levita passou a imolar o animal (Ez 44.11).</p><p>A tribo sacerdotal</p><p>Segundo o relato bíblico, na décima praga (morte dos primogênitos)</p><p>foram poupadas todas as famílias que aspergiram com sangue do cordeiro</p><p>pascal os umbrais das portas. É por esta razão que a Bíblia afirma que todo</p><p>primogênito pertence ao Senhor (Êx 13). Logo, seriam os primogênitos a</p><p>ministrar na presença de Deus, simbolizando o culto de toda a sua família.</p><p>Entretanto, para facilitar a organização do culto, foi escolhida uma tribo e</p><p>separada para substituí-los no ofício: a de Levi (Nm 3). Segundo a Bíblia, a</p><p>escolha não foi por acaso: os levitas se posicionaram ao lado de Moisés no</p><p>episódio do bezerro de ouro, promovido pelo sacerdote Arão (Êx 32).</p><p>Dentre os levitas foram escolhidos os descendentes de Arão para</p><p>servirem como sacerdotes, que eram os principais oficiantes e os únicos que</p><p>tinham acesso ao interior do Tabernáculo e ao altar. Já ao restante da tribo</p><p>caberiam as atividades de transportar, montar e desmontar o Tabernáculo e</p><p>auxiliar os sacerdotes nas funções do culto (limpeza, coleta de madeira,</p><p>transporte de água, etc).</p><p>Os 10 mandamentos</p><p>O decálogo não fazia parte da lei cerimonial, mas da moral. Quem quebrasse seus preceitos, estava sujeito aos</p><p>rituais de sacrifício pelo pecado, ou até mesmo à pena capital, no caso de assassinato ou adultério. Abaixo, os</p><p>mandamentos, em paráfrase, de Êxodo 20:</p><p>1. Não ter outros deuses.</p><p>2. Não fazer ídolos.</p><p>3. Não tomar o Nome em vão.</p><p>4. Santificar o sábado.</p><p>5. Honrar pai e mãe.</p><p>6. Não matar.</p><p>7. Não adulterar.</p><p>8. Não furtar.</p><p>9. Não mentir.</p><p>10. Não cobiçar.</p><p>Os sacerdotes vestiam roupas especiais, em linho branco, com um cinto bordado em linho, ouro, azul, púrpura</p><p>e vermelho, tendo na cabeça uma mitra (turbante de linho). O sumo sacerdote, o principal entre eles e eleito</p><p>anualmente, vestia sobre a mesma túnica algumas camadas que o diferenciava: uma sobrepeliz azul, um</p><p>manto sacerdotal bordado e um peitoral contendo doze pedras preciosas.</p><p>UM CALDO de POVOS</p><p>CANAà ERA UMA REGIÃO relativamente fértil situada entre os dois grandes</p><p>centros produtivos do Mundo Antigo – a Mesopotâmia e o Egito. Como</p><p>era uma região de intenso trânsito, era caracterizada pela fragmentação em</p><p>diversos</p><p>pequenos reinos autônomos e rivais, geralmente sediados em</p><p>cidades-estado independentes, centralizados em edifícios públicos (palácios</p><p>e templos) localizados dentro de pequenas cidades amuralhadas.</p><p>De uma maneira geral, o período do século XII a.C. foi marcado pela</p><p>presença de cidades mais fortes no litoral – dominado pelos fenícios ao</p><p>norte e pelos recém chegados filisteus ao sul – e cidades bem mais fracas no</p><p>interior, onde pastores nômades competiam pelo espaço com os agricultores</p><p>sedentários. A economia, se comparada com a Mesopotâmia ou o Egito, era</p><p>bastante fracaa, à exceção do litoral, onde havia boa produção artesanal e</p><p>comércio marítimo. Agravava a situação a instabilidade política que</p><p>degenerava em lutas intra-cananeias com muita frequência.</p><p>A fragmentação social pode ser entendida como causa da proliferação de</p><p>vocabulários bilíngues e plurilíngues, principalmente pela mistura de línguas</p><p>cultas mesopotâmicas (o acádio e o sumério) com as faladas na região (o</p><p>hurrita e o cananeu). A coexistência de muitas línguas estimulou, além do</p><p>surgimento do protocananeu e suas derivações (fenício, aramaico e</p><p>hebraico), a experimentação de novos sistemas de escrita, resultando no</p><p>surgimento do alfabeto.</p><p>Pensamento e religiosidade dos cananeus</p><p>A fragmentação social e econômica também se verificava na</p><p>religiosidade. O costume de sepultar mortos debaixo das casas levou a</p><p>muitas práticas rituais familiares, além da presença de diversas deidades</p><p>derivadas. Entretanto, elas podem ser resumidas essencialmente em duas</p><p>figuras predominantes: Baal (que significa senhor em cananeu) e sua</p><p>consorte Baalat (senhora, também chamada Astarte, Astorete ou Aserá,</p><p>embora eventualmente estas deusas tenham identidades distintas em alguns</p><p>panteões). Baal era o deus da tempestade, que devia manter os inimigos</p><p>distantes e proteger a terra, garantindo ainda a fertilidade e os dias de</p><p>chuva. Seu culto era acompanhado de sacrifícios diversos, que podia ser de</p><p>alimentos e animais, e até sacrifícios humanos – como o caso do sacrifício</p><p>infantil chamado molk e que no texto bíblico aparece com o nome de uma</p><p>divindade, Moloque. Já Astarte estava mais fortemente ligada à fertilidade da</p><p>terra, cujo culto era caracterizado pelas práticas envolvendo a prostituição</p><p>ritual (tanto feminina quanto masculina). Se a religiosidade oficial dos</p><p>templos era mais voltada ao deus, a popular prestava mais atenção à deusa,</p><p>algo bastante comum em se tratando de cultos agrários. Os locais de culto</p><p>podiam ser tanto em templos de pedra calcária com duas colunas</p><p>ornamentais à frente (caso fenício) como em diversos lugares altos – espaços</p><p>cultuais no topo de montanhas, em torno de alguma árvore ou pedra</p><p>sagrada.</p><p>Curiosamente, havia um elemento na religiosidade cananeia que veio a</p><p>ser reconhecido como legítimo pelos patriarcas hebreus: um velho deus</p><p>ausente, que ostentava o nome genérico de El (termo cananeu para deus)</p><p>mas que, segundo os próprios cananeus, criou o mundo em sua forma atual,</p><p>mas depois deixou de ter proeminência. Também é descrito como pai de</p><p>Baal. El não aparecia na iconografia e fazia parte de uma religiosidade</p><p>abstrata, não vinculada a rituais nem a qualquer produção de imagens.20</p><p>Os Fenícios</p><p>Os fenícios provavelmente eram semitas misturados com os originais</p><p>habitantes cananeus de Biblos. A costa era chamada de Levante pelos</p><p>antigos, sendo constituída de pequenas baías flanqueadas por montes</p><p>avançando sobre o mar, onde surgiram cidades que tinham boas posições de</p><p>defesa e excelentes ancoradouros. Com os montes do Líbano às costas e</p><p>pouca terra cultivável, o destino daqueles habitantes foi o mar. Formaram-</p><p>se, assim, diversas cidades independentes, sem qualquer federação,</p><p>governadas por um rei hereditário e apoiado por um corpo de anciãos</p><p>influentes, representantes da classe rica. As principais cidades foram</p><p>Arvade, Biblos, Sidom e Tiro, havendo certa hegemonia das duas últimas.</p><p>Outras de menor importância eram Siannu, Usnu, Sumura, Arca, Beirute,</p><p>Serepta, Ushu e Aco. Os fenícios transformaram as escalas de viagem ao</p><p>longo do Mediterrâneo em feitorias permanentes que se tornaram cidades</p><p>importantes (caso de Cartago, Útica e Malta). Entre seus artigos de</p><p>exportação estavam: a madeira do Líbano (com a qual fabricavam seus</p><p>navios, os melhores da Antiguidade), móveis de cedro, produtos têxteis</p><p>(especialmente por causa do tecido púrpura, cor extraída do Murex, um</p><p>caramujo) e vidro. Suas caravanas traziam ouro, marfim, escravos, cereais,</p><p>gado, metais e têxteis. Focados nas alianças comerciais, eventualmente</p><p>apoiaram impérios do Oriente Próximo, chegando a armada fenícia a ser a</p><p>base da marinha do Império Persa.21</p><p>Os Arameus</p><p>Os arameus eram nômades organizados em tribos que invadiram a</p><p>Mesopotâmia de forma imperceptível, mas contínua. A partir do século XIV</p><p>a.C. formaram grupos sedentários, estabelecidos especialmente na região de</p><p>Harã, onde inauguraram uma pluralidade de reinos. O mais importante</p><p>deles foi Damasco, que viveu seu apogeu entre os séculos XI e X a.C. Sua</p><p>posição geográfica na importante rota comercial que unia a costa fenícia</p><p>com o Eufrates levou-os a se tornarem intermediários de uma intensa</p><p>atividade comercial. Com o afluxo constante de caravanas, as deportações</p><p>dos reis assírios e a emigração voluntária de seus mercadores, a língua</p><p>aramaica acabou sendo disseminada por todo o Oriente Próximo. A</p><p>facilidade de uso do alfabeto – sistema de escrita consonantal por eles</p><p>adotado – deixou a língua ainda mais acessível, tornando-a idioma</p><p>administrativo do Império Persa e língua popular em toda a Palestina no</p><p>tempo de Jesus (substituindo até mesmo o hebraico, língua praticamente</p><p>morta no Novo Testamento).22</p><p>Principais deuses cananeus</p><p>El Deus muito antigo na cultura cananeia, sem iconografia nem</p><p>rituais, criador do mundo.</p><p>Baal Nome genérico do deus das montanhas, tempestades e chuvas.</p><p>Localmente, era acrescido um segundo nome, como Baal Melcart</p><p>(no caso de Tiro), ou Baal Ugarit (em Ugarit).</p><p>Baalat Também chamada Astarte, Astorete ou Aserá. Era a consorte de</p><p>Baal, a deusa do princípio reprodutivo da natureza.</p><p>Eshmun Deus da fertilidade, das colheitas, da saúde e da medicina.</p><p>Reshef Deus dos relâmpagos e da luz.</p><p>Dagon Deus filisteu dos cereais.</p><p>Moloque Deus de Amon, fogo consumidor.</p><p>Mamom Deus arameu da riqueza.</p><p>Camos Deus de Moabe, representado por uma estrela negra.</p><p>Praticamente todos os cultos aos deuses cananeus envolvem sacrifícios humanos – o que é uma característica</p><p>peculiar. A única deidade que não possuía culto ritual nem sacrifícios era a crença em El, precisamente aquele</p><p>que Abraão identificou como sendo igual ao seu Deus e cujo nome foi agregado ao hebraico em El Shaddai, El</p><p>Elyon (nome que Melquisedeque dava a Deus) e outros.</p><p>Outros povos de Canaã</p><p>Além de fenícios, arameus e filisteus (os povos mais fortes de Canaã), ainda havia diversas outras etnias</p><p>habitando o território:</p><p>– Amalequitas: Pouco se sabe sobre estes grupos. Eram nômades que vagavam desde o deserto do Sinai até</p><p>o mar Morto, vivendo em tendas e dedicando-se à pilhagem.</p><p>– Midianitas: Segundo a Bíblia, descendentes de Midiã, filho de Abraão com Quetura (Gn 25.1).</p><p>Habitavam o deserto da Arábia e eram em parte nômades, o que os levou até as fronteiras de Moabe. Os que</p><p>se sedentarizaram passaram a explorar o cobre.</p><p>– Moabitas: Descendentes de Moabe, filho de Ló com sua filha mais velha (Gn 19.37), fundaram grandes</p><p>cidades como Mispá de Moabe, Kir, Dibom e Bete-Peor.</p><p>– Amonitas: Descendentes de Amom, filho de Ló com a filha mais nova. Eram principalmente nômades e</p><p>possuíam poucas cidades. Eram mais belicosos e violentos que os moabitas.</p><p>– Edomitas: Descendentes de Esaú (também chamado Edom, vermelho), irmão de Jacó. Estabeleceram-se</p><p>no sul, em um vasto território em torno do monte Seir. Pouco se sabe deles, mas parecem ter sido guerreiros</p><p>inquietos. O livro de Jó teve por cenário esse povo, que era famoso também pelos seus sábios.</p><p>Ainda havia outros grupos citados na Bíblia, como os amorreus e heteus, e outros de difícil</p><p>identificação,</p><p>como ferezeus. Os amorreus eram chamados pelos babilônios de amurru, de origem caldaica, que dominaram a</p><p>Babilônia sob o rei Hamurabi. Depois entraram em declínio e habitaram regiões esparsas. Os heteus eram os</p><p>hititas, povo da Anatólia que foi destruído e espalhado após as invasões dos Povos do Mar (século XII). Os</p><p>ferezeus provavelmente não sejam um povo, mas uma categoria social, pois a expressão significa camponês. Os</p><p>heveus eram um pequeno grupo da parte central de Canaã e os jebuseus, moradores de Jebus (que viria a ser</p><p>Jerusalém após Davi). Dos girgaseus, nada se sabe.</p><p>Ao lado, representações de Baal, o deus cananeu das tempestades, e Baalat (ou Astarte, ou Asera), esposa de</p><p>Baal e deusa da fertilidade, cultos muito combatidos pelos profetas Elias e Eliseu.</p><p>A ENTRADA na TERRA PROMETIDA</p><p>MOISÉS FOI O HOMEM QUE DEUS INCUMBIU da responsabilidade de tirar os</p><p>israelitas do Egito e conduzi-los até a entrada da terra prometida,</p><p>conquistando parte da terra antes do Jordão. A partir de então, o bastão da</p><p>liderança na tarefa foi passada a Josué, responsável pela introdução do povo</p><p>na terra que mana leite e mel.</p><p>A morte de Moisés</p><p>Deus não permitiu que Moisés entrasse na terra que fora prometida aos</p><p>patriarcas, antepassados dele e do povo de Israel; foi o castigo pela sua</p><p>desobediência em Cades-Barneia. Depois de ver a mão poderosa de Deus</p><p>agindo contra os inimigos antes de cruzar o Jordão, nas batalhas contra</p><p>Siom e Ogue (Nm 21), o profeta teve ainda a oportunidade de proferir os</p><p>discursos relatados no livro do Deuteronômio, nos quais relembrou tudo o</p><p>que Deus fizera por eles. Concluída sua obra, subiu no alto monte Nebo e</p><p>contemplou o horizonte estendido do sul do Mar Morto até a cadeia de</p><p>montanhas do Hermom ao norte – a terra prometida. Morreu ali, e</p><p>ninguém soube o lugar de sua sepultura (Dt 34.6).</p><p>Josué e a guerra santa</p><p>Josué conhecia a difícil missão, pois já acompanhava Moisés de perto</p><p>havia muito tempo e aguardou todos os quarenta anos do deserto até que</p><p>Deus também falasse com ele (Ex 33.11). Foi chamado por Deus para ser</p><p>corajoso, pois era um trabalho que exigia atitude e busca de santidade por</p><p>ele e pelo povo de Israel, pois o Santo marcharia junto deles ( Js 1). Com</p><p>estas duas características o povo encontraria o sucesso, pois Deus</p><p>completaria a missão. É neste sentido que a entrada em Canaã deve ser</p><p>entendida como uma guerra santa, ou seja, uma guerra que não seria lutada</p><p>por homens, mas pelo próprio Deus.</p><p>A entrada em Canaã</p><p>O caráter de milagre divino deve ser ressaltado nesta guerra contada</p><p>pelo autor do livro de Josué. É preciso lembrar que o exército invasor dos</p><p>israelitas não passava de um bando nômade que vivera mais de uma geração</p><p>em um deserto inóspito, armado com lanças, paus, flechas, fundas que</p><p>lançavam pedras, escudos de vime trançado ou de madeira e, talvez, algumas</p><p>espadas sem fio. Não possuíam cavalos de batalha e muito menos carros de</p><p>guerra – utilizados pelos guerreiros das cidades que povoavam Canaã. A</p><p>impossibilidade de lutar em campo aberto contra as carrarias foi,</p><p>possivelmente, uma das razões para os israelitas preferirem as regiões</p><p>montanhosas para se estabelecer durante o assentamento que encontramos</p><p>descritos no livro de Juízes.</p><p>O livro de Josué descreve em detalhes poucas batalhas: a principal e</p><p>primeira delas foi travada em Jericó, a fortaleza localizada logo na entrada</p><p>após a passagem do rio Jordão; então, a conquista de Ai, que quase acabou</p><p>em fracasso. Depois, é apresentado o estratagema dos habitantes de Gibeão,</p><p>a quem os israelitas acabaram se ligando em acordo de paz. A guerra</p><p>seguinte a ser narrada foi contra uma coalizão de reis chefiados por Adoni-</p><p>Zedeque, rei de Jerusalém, que atacou a região dos gibeonitas, socorrida</p><p>pelos israelitas. Com a vitória sobre os coligados do sul, Josué conquistou</p><p>algum território da parte meridional de Canaã. Depois foi tomado o</p><p>caminho do norte, numa campanha contra a coalizão liderada por Jabim, rei</p><p>de Hazor.</p><p>De maneira geral, pode-se afirmar que a narrativa bíblica trata da</p><p>conquista de alguns pontos estratégicos de Canaã, objetivando estabelecer as</p><p>tribos em suas possessões prometidas para uma posterior conquista</p><p>individual por parte de cada uma delas. Não se tratou, efetivamente, de uma</p><p>invasão em massa e avassaladora, como pode parecer e costumeiramente a</p><p>história é contada. Tanto que a convivência permanente de israelitas com</p><p>diversos grupos cananeus da vizinhança aparece como uma realidade</p><p>durante todo o livro de Juízes, e não somente nele, mas também no</p><p>posterior período monárquico.23 Por isso, o livro de Josué deve ser</p><p>interpretado com as informações encontradas em Juízes para não gerar uma</p><p>ideia gloriosa de conquista: trata-se de uma luta humilde e que teria de ser</p><p>completada nos séculos seguintes.</p><p>As guerras pela terra prometida</p><p>A segunda etapa do êxodo foi a entrada e conquista dos pontos</p><p>estratégicos de Canaã. Moisés estava ainda na liderança de Israel quando</p><p>houve a conquista da Transjordânia; depois da travessia do rio Jordão, Josué</p><p>assumiu o comando, já que Moisés faleceu pouco antes da entrada na terra.</p><p>Os principais acontecimentos foram (as letras correspondem ao mapa da</p><p>página ao lado):</p><p>A. Chegaram em Hesbom; enviaram mensageiros a Siom pedindo</p><p>passagem, a qual foi negada; guerrearam contra Siom e conquistaram as</p><p>terras dos amorreus (Nm 21.25-31).</p><p>B. Acampados em Hesbom, conquistaram Jazer (Nm 21.32).</p><p>C. Ainda acampados em Hesbom, marcharam rumo ao norte do</p><p>território além do Jordão e guerrearam contra Ogue, conquistando Basã</p><p>(Nm 21.33-35).</p><p>D. Acampados em frente ao Jordão, ocorreram os episódios com Balaão</p><p>– profeta contatado pelo rei Balaque para amaldiçoar a Israel – e a</p><p>prostituição ritual com as moabitas (Nm 22-25). Depois, foi feito um novo</p><p>censo do povo (Nm 26) e Josué foi escolhido chefe da comunidade (Nm</p><p>27). Ainda ocorreu uma guerra contra os midianitas (Nm 31). Do mesmo</p><p>local, Moisés fez a divisão da Transjordânia (já conquistada) entre as tribos</p><p>de Gade, Rúbem e à meia tribo de Manassés (Nm 32). Depois, Moisés fez</p><p>seus últimos discursos (registrados no livro de Deuteronômio) e morreu.</p><p>E. Josué, então comandante de Israel, enviou espiões a Jericó, que foram</p><p>escondidos por Raabe. Depois do retorno deles e de seu relatório, ocorreu a</p><p>travessia milagrosa do rio Jordão, em uma demonstração da continuidade da</p><p>presença divina com Josué como fora com Moisés por ocasião da abertura</p><p>do mar na saída do Egito. Após a travessia, foi levantado um monumento</p><p>com pedras retiradas do fundo do rio, circuncisão dos israelitas e celebração</p><p>da Páscoa. Finalmente, ocorreu o ataque à cidade de Jericó, conquistada pela</p><p>poderosa mão de Deus – uma demonstração do caráter de guerra santa do</p><p>evento ( Js 1-6).</p><p>F. Após a violação de uma ordem divina, atacaram a cidade de Ai e</p><p>foram derrotados; depois, realizada a reparação, atacaram novamente e</p><p>saíram vitoriosos ( Js 7-8).</p><p>G. No centro de Canaã, sobre os montes Ebal e Gerizim (ao lado da</p><p>cidade de Siquém), foi construído um memorial e executada a leitura da</p><p>Lei, reafirmando a aliança com Deus e cumprindo a ordenança de Moisés</p><p>ainda no êxodo ( Js 8.30-35, conforme Dt 27).</p><p>H. Estratagema dos gibeonitas, enganando os israelitas, redundou na</p><p>aliança entre Gibeão Israel ( Js 9).</p><p>I. Cinco reis do sul de Canaã se coligaram contra Gibeão por ter</p><p>estabelecido aliança com Israel, os quais buscaram auxílio de Josué. Os</p><p>israelitas venceram os cinco reis, conquistando em seguida algumas cidades</p><p>do sul de Canaã ( Js 10).</p><p>J. Uma nova coalização foi formada, desta vez pelos reis do norte de</p><p>Canaã. Os israelitas guerrearam contra eles e tomaram cidades daquele</p><p>território ( Js 11).</p><p>Uma vez conquistados alguns pontos estratégicos dentro de Canaã, foi</p><p>feita a divisão das terras entre as tribos, bem como a definição das cidades</p><p>de refúgio e dos levitas ( Js 12-21). Sobre esta divisão, trataremos nas</p><p>páginas 46 e 47.</p><p>A CRISE do SÉCULO XII a.C.</p><p>O SÉCULO DO ÊXODO HEBRAICO foi marcado pela intensa movimentação</p><p>de diversos povos no</p><p>no sentido iluminista do nosso tempo. Além disso, as</p><p>tentativas de datação para os primeiros 11 capítulos de Gênesis carecem de</p><p>confirmações extrabíblicas, razão pela qual decidimos iniciar a contagem</p><p>somente a partir de 1900 a.C., uma das datas estimadas para a narrativa de</p><p>Abraão (há outras possibilidades que o colocam em 2000 ou até 2200 a.C.).</p><p>Antes daquele século houve um espaço de tempo até as narrativas dos</p><p>começos (Gênesis, Dilúvio e Torre de Babel) que são complicadas de</p><p>mensurar.</p><p>As datas definidas para os acontecimentos bíblicos mais antigos são</p><p>geralmente estimativas. Isso se dá por uma questão arqueológica: o primeiro</p><p>evento da Bíblia que temos registro extra-bíblico e, portanto, alguma</p><p>precisão histórica, é a queda de Samaria, que ocorreu em 722-721 a.C.</p><p>Fatos anteriores a este são todos aproximados; os posteriores possuem maior</p><p>exatidão, embora nem todos sejam comprovados.</p><p>Um terceiro problema cronológico ocorre por comparação. Os</p><p>calendários dos assírios, que nos forneceram dados bastante confiáveis (pois</p><p>usavam o ano solar correspondente ao que utilizamos modernamente),</p><p>serviram de base para a definição cronológica do período dos reinos</p><p>divididos de Israel e Judá. Entretanto, não sabemos como os antigos,</p><p>especialmente os hebreus, faziam os registros de reinados. O ano de</p><p>ascensão do rei ao trono era contado junto ao tempo total de seu reinado, ou</p><p>não? Contavam as co-regências no reinado, ou só a partir do momento em</p><p>que o rei estava só no trono? Todos os escribas faziam os registros de</p><p>maneira padronizada? São questões sem resposta. Além disso, é possível que</p><p>no reino de Israel fosse seguida a prática egípcia de contar o primeiro ano</p><p>como o da entronização do rei, enquanto Judá utilizaria o sistema assírio,</p><p>que contava somente a partir do ano novo após a entronização. Não é</p><p>possível saber. Questões como essas acabam por produzir diferentes</p><p>cronologias, às vezes com pouca diferença (de um ano), ou com desavenças</p><p>mais radicais.</p><p>Então, as cronologias apresentadas neste livro procuram seguir os</p><p>padrões normalmente mais aceitos, mas que não podem ser tomados por</p><p>absolutos.</p><p>Questões técnicas</p><p>Algumas questões técnicas a respeito desse Atlas precisam ser</p><p>informadas a respeito das nomenclaturas da Terra Santa, do nome de Deus</p><p>e das relações de fronteiras.</p><p>Canaã x Palestina: os judeus, de uma maneira geral, não gostam que o</p><p>território de seu país seja denominado de Palestina. Essa é uma questão que</p><p>envolve mais uma discussão política contemporânea do que a historicidade</p><p>do termo. Neste Atlas, utilizamos a nomenclatura Canaã para o Antigo</p><p>Testamento e Palestina para o Novo Testamento, uma vez que os romanos</p><p>cunharam a região com o nome de Síria Palestina.</p><p>O nome de Deus: a Bíblia apresenta diversas expressões para o nome de</p><p>Deus: El, El Elyon, El Shaddai, Eu Sou, o tetragrama YHWH, Deus, Adonai,</p><p>Senhor, etc. Neste Atlas, utilizaremos apenas três formas: Deus, Senhor e</p><p>eventualmente YHWH, sem o acréscimo das vogais (como se costuma fazer,</p><p>utilizando Jeová, Javé ou Yahweh). Não se sabe qual o real complemento,</p><p>então será mantido o tetragrama original.</p><p>Fronteiras antigas: existem muitas diferenças entre mapas do Mundo</p><p>Antigo. Isso se dá porque eles são todos fictícios – ou seja, são invenções da</p><p>modernidade, não existiam naquela época. Além disso, não havia na</p><p>Antiguidade a ideia de país, nação ou nacionalidade como as entendemos</p><p>hoje. Tais conceitos são frutos de mudanças históricas que ocorreram a</p><p>partir do século XVIII da nossa era. Antes desse século, é complicado falar</p><p>em fronteiras definidas que delimitam o fim de um reino e início de outro.</p><p>Existiam as regiões de influência ou controle, mas não uma linha imaginária</p><p>que delimitasse espaços nacionais. Assim, quando se desenha a extensão de</p><p>uma tribo, reino ou império, não se trata de uma dimensão geográfica</p><p>claramente delimitada, e sim de áreas de influência ou relativo controle. Isso</p><p>vale para este Atlas e para qualquer outro que trate da História Antiga.</p><p>As partes deste livro</p><p>Nas próximas páginas desta parte introdutória estão apresentados alguns</p><p>dados básicos para o estudo bíblico: uma tabela cronológica geral, mapas</p><p>com a geografia e produção agropecuária de Canaã, tabelas de conversão e</p><p>medidas, listas das festas religiosas e comparativos das estruturas de culto,</p><p>quadro das principais culturas, mapas dos impérios do Mundo Antigo e,</p><p>finalmente, três mapas comparando as terras bíblicas com as nações da</p><p>atualidade.</p><p>Os capítulos deste Atlas estão organizados cronologicamente, conforme</p><p>o desenrolar da narrativa bíblica. O capítulo inicial, denominado Princípio,</p><p>começa com uma descrição do texto do Gênesis e o mapa dos descendentes</p><p>de Noé (também chamado Tabela das Nações); os demais mapas desta parte</p><p>preenchem o período correspondente à época dos patriarcas – incluindo aí a</p><p>formação da civilização mesopotâmica. Terra Prometida apresenta o Egito</p><p>Antigo e o período que compreende o Êxodo até a fixação dos israelitas em</p><p>Canaã, no tempo dos juízes, bem como o contexto dos povos que</p><p>envolveram aquele território. O terceiro capítulo, Monarquia, apresenta a</p><p>mudança ocorrida em Israel entre o primeiro rei (Saul) e o último</p><p>(Zedequias), com o consequente exílio na Babilônia – tratando também dos</p><p>grandes impérios Assírio e Babilônico, e a tragédia envolvendo a queda de</p><p>Samaria e de Jerusalém. Neste capítulo estão incluídas pequenas biografias</p><p>da maioria dos profetas. Restauração é o capítulo que apresenta o tempo do</p><p>exílio, o retorno a Canaã e a história que ocorreu durante o chamado</p><p>período interbíblico até o nascimento de Cristo; esse capítulo narra uma</p><p>transformação histórica bastante significativa, uma vez que trata da ascensão</p><p>do poderio persa e sua queda diante dos gregos (macedônios), depois</p><p>fragmentado entre os generais de Alexandre, e a disseminação do helenismo</p><p>em todo o Oriente.</p><p>O capítulo a respeito de Jesus Cristo apresenta o contexto que envolveu</p><p>o seu ministério, o que corresponde às três primeiras décadas do regime</p><p>imperial de Roma, cuja história é resumidamente apresentada. O último</p><p>capítulo, Atos dos Apóstolos, trata essencialmente dos acontecimentos</p><p>narrados no livro de Atos e o fim da chamada era apostólica, ambos ainda</p><p>dentro do período histórico do Império Romano.</p><p>Para maior detalhamento, consulte as seguintes tabelas cronológicas: Reis e Profetas (página 66) e Novo</p><p>Testamento (página 111).</p><p>GEOGRAFIA de CANAà nos TEMPOS BÍBLICOS</p><p>A TERRA PROMETIDA AOS HEBREUS, chamada Canaã no Antigo</p><p>Testamento e denominada Síria Palestina pelos romanos, não é muito</p><p>grande para os padrões continentais brasileiros. A área que compreende</p><p>Canaã, que seria o território que os textos bíblicos delimitam entre Dã e</p><p>Berseba (desde o norte, no Lago de Genesaré, até o sul, próximo ao</p><p>Neguebe), não passa de 250 km de comprimento. Na distância entre o Rio</p><p>de Janeiro e São Paulo, por exemplo, cabe uma Canaã e meia.</p><p>Sendo uma área fértil, espremida entre o Mar Mediterrâneo e os</p><p>desertos que se estendem da Síria até a Arábia, Canaã tornou-se um</p><p>corredor de passagem entre as grandes áreas produtivas da Mesopotâmia e</p><p>do Egito, sedes dos maiores impérios antigos.</p><p>A topografia de Canaã1 pode ser caracterizada por duas cadeias de</p><p>montanhas que correm paralelas à costa do Mediterrâneo, separadas pelo</p><p>vale do Jordão, sendo este a região mais profunda do planeta. Canaã pode</p><p>ser dividida em quatro partes características:</p><p>1. Planície Costeira: bastante entrecortada, com poucos portos naturais.</p><p>Os principais portos estão mais ao norte, na Fenícia.</p><p>2. Planalto Central: composto pela cadeia de montanhas do Líbano,</p><p>corre de norte para o sul entre a planície costeira e a depressão do vale do</p><p>Jordão, tendo montes que se elevam até 1200 metros de altitude ao norte da</p><p>Galileia. É recoberto ao norte por florestas de cedros e ciprestes, e suas</p><p>terras são bastante férteis.</p><p>3. Vale do Jordão: depressão mais profunda do planeta, inicia pouco</p><p>acima do nível do mar na Galileia e, conforme se estende na direção sul, vai</p><p>ganhando profundidade até chegar</p><p>Mediterrâneo. Essa migração foi provocada por</p><p>guerras, desterros e crises naturais de secas e terremotos que trouxeram</p><p>fome e peste ao mundo Mediterrâneo Oriental, especialmente na parte sul</p><p>da Europa, entrando na Anatólia e atingindo até o Egito e Mesopotâmia.</p><p>Essa tragédia natural e também social levou muitas tribos a buscarem</p><p>novos locais em que pudessem viver.</p><p>Antes da crise vinha se desenvolvendo uma nestas regiões uma</p><p>economia centralizada no palácio real, fechada num poder citadino e que</p><p>explorava profundamente as comunidades aldeãs, que acabou com qualquer</p><p>traço de solidariedade entre o campo e a cidade. Um exemplo dessa</p><p>sociedade foi a civilização micênica, surgida no sul da Grécia. Com isso,</p><p>quando vieram as crises econômicas e as invasões de povos fugindo da fome,</p><p>os palácios não obtiveram auxílio de seus camponeses – pelo contrário,</p><p>foram até mesmo saqueados por eles. Essa imensa migração e colapso social</p><p>colocou abaixo todo o sistema político do Oriente Próximo de maneira</p><p>brusca pouco depois de 1200 a.C. Com as invasões, áreas como a Anatólia,</p><p>Canaã e a Síria sofreram radicais transformações.</p><p>Os invasores: os Povos do Mar</p><p>Os invasores que compunham os povos migratórios não eram muito</p><p>numerosos, mas sua força militar, coesão social e determinação, provocada</p><p>pela imensa necessidade, permitiram que eles vencessem cidades</p><p>amuralhadas e colocassem em ruínas reinos poderosos. O avanço deve ter</p><p>sido assustador: milhares de famílias com suas carroças se deslocando pelos</p><p>campos, próximos à costa, acompanhados de embarcações pelo mar e caindo</p><p>sobre as cidades costeiras para pilhar alimentos e riquezas. Deixavam atrás</p><p>de si campos vazios e ruínas fumegantes. Depois do litoral, avançaram para</p><p>dentro do continente, especialmente na Anatólia, onde fizeram ruir o mais</p><p>poderoso reino de então: o império dos hititas. A belicosidade dos que</p><p>foram chamados genericamente de Povos do Mar ficou famosa entre os</p><p>povos da Antiguidade – principalmente no Egito, que sobreviveu ao ataque,</p><p>mas saiu enfraquecido.</p><p>Fim da hegemonia imperial</p><p>A crise migratória, econômica e social do século XII foi a ruína direta de</p><p>muitos grandes reinos (como o micênico, cretense e hitita) e também</p><p>provocou o recuo de outros poderes ascendentes, principalmente os da</p><p>Mesopotâmia (assírios, mitânios e babilônios). Com isso, houve um longo</p><p>período sem hegemonia imperial: a Assíria ficou circunscrita à região</p><p>originária no norte da Mesopotâmia; Babilônia estava enfraquecida demais;</p><p>e o Egito não tinha forças para avançar seu reino. Em Canaã, os filisteus</p><p>controlaram a costa sul, mas na costa norte floresciam as cidades-estado</p><p>fenícias e os diversos povos da região siro-palestina entraram em fase de</p><p>independência. Nenhum grande reino tinha forças para preencher o vazio</p><p>de poder, o que deu oportunidade para que se produzisse o fracionamento</p><p>de pequenos povos sem hierarquias nem relações entre estados fortes</p><p>organizados.</p><p>Ainda seriam necessários aproximadamente quatro séculos até que um</p><p>império conseguisse se sobrepor. O enfraquecimento generalizado facilitou</p><p>a retomada das invasões de outros nômades: os arameus. Estes povos, que já</p><p>vinham penetrando na Mesopotâmia e Canaã desde o século XIV,</p><p>intensificaram mais ainda as migrações, divulgando sua língua aramaica por</p><p>todas as terras por onde passavam. Acabaram mesclando-se aos nativos,</p><p>formando culturas de feições tribais, com mistura de nomadismo e</p><p>sedentarismo, desvinculados de centros de poder organizados.24</p><p>Os filisteus</p><p>Os filisteus permaneceram autênticos estrangeiros em Canaã, pois se</p><p>mantiveram sempre isolados política e linguisticamente.25 Sua presença na</p><p>região não foi unicamente após a tentativa de invasão do Egito: havia</p><p>elementos de cultura filisteia em Canaã em tempos precedentes à invasão,</p><p>provavelmente oriundos de grupos de mercadores e alguns colonizadores</p><p>pacíficos. Formaram pequenos principados confederados nas cidades</p><p>fortificadas de Gaza, Ascalon, Eglom, Asdode e Gate, e tinham tutela sobre</p><p>Moresete-Gate, Ziclague e Gibetom. Eram tecnologicamente superiores</p><p>aos cananeus, sendo os primeiros a dominarem a metalurgia do ferro em</p><p>Canaã, metal do qual detinham o monopólio. A Bíblia menciona sua</p><p>origem em Cáftor (Am 9.7), o que pode ser associado a Creta, possível local</p><p>de passagem deste povo. Não se sabe exatamente quem eram, mas é possível</p><p>que tenham sido originalmente aqueus que escaparam das invasões dóricas.</p><p>Essa possibilidade é viável pela insistência dos egípcios sobre o poderio</p><p>naval dos invasores e pela semelhança de sua cerâmica com a micênica. Tais</p><p>características colocam os filisteus em equiparação cultural com as</p><p>importantes civilizações micênica e cretense, que floresceram no</p><p>Mediterrâneo entre os séculos XIV e XII. Eles se tornaram os inimigos</p><p>naturais dos israelitas durante toda a sua história. O nome Palestina, dado</p><p>pelos romanos, provavelmente significa terra dos filisteus.</p><p>A situação dos israelitas em Canaã</p><p>Para os israelitas, a crise do século XII possivelmente tenha sido bastante</p><p>positiva. Primeiro, porque eles viviam como comunidades de clãs familiares,</p><p>tendo no máximo uma identificação tribal e unidos uns aos outros somente</p><p>pelos laços religiosos. Como não eram organizados, dificilmente poderiam</p><p>resistir ao avanço de reinos superiores militar e administrativamente. A crise</p><p>afetou justamente os dois impérios que, naquela época, avançavam sobre</p><p>Canaã: o Egito e Hatti (os hititas). Os hititas foram totalmente destruídos e</p><p>nunca mais voltaram a ser um império; seus sobreviventes foram espalhados</p><p>pelo Oriente Próximo e apareceram algumas vezes como pequenos núcleos</p><p>familiares dentro de Israel, chamados na Bíblia de heteus (como Urias, o</p><p>heteu, mercenário do exército de Davi). Já o Egito permaneceu como um</p><p>reino ainda poderoso, mas enfraquecido demais para que pudesse retomar as</p><p>pretensões imperialistas sobre Canaã, ficando circunscrito à África. Com</p><p>isso, não somente os hebreus, mas também os cananeus, fenícios, filisteus e</p><p>arameus (do reino de Damasco, especificamente) puderam ter seu</p><p>desenvolvimento independente, focando-se nos conflitos locais entre seus</p><p>pequenos poderes. Tal característica não-hegemônica dos impérios</p><p>permaneceu até o tempo da monarquia em Israel, o que pode ter permitido</p><p>o momento imperialista de Davi e Salomão – que foi bastante restrito, se</p><p>comparado aos grandes impérios antigos, mas que teve sua pequena glória</p><p>local (segundo o relato bíblico, não confirmado na arqueologia).</p><p>Os ciclos das invasões</p><p>Houve pelo menos três ciclos invasores no sentido dos Balcãs para a</p><p>Grécia, tomando a direção do Oriente Próximo. Em 1230 a.C., uma</p><p>coalizão de aqueus, lícios e três povos do mar tentaram invadir o Egito, sem</p><p>sucesso. Povos do Mar era como os egípcios os chamavam, sendo difícil</p><p>definir quem são exatamente. Por volta de 1200 a.C., novas migrações</p><p>levaram povos dórios e frígios a uma intensa invasão na Grécia, a qual</p><p>colocou abaixo os reinos aqueus. Os dórios invadiram a península grega e</p><p>saquearam as cidades dos aqueus, destruíram o reino de Micenas, depois</p><p>atravessaram o mar e afligiram Creta e Rodes. Já os frígios penetraram a</p><p>Anatólia com os lúvios e derrotaram o poderoso Império Hitita, destruindo</p><p>sua capital Hattusa. Outras localidades importantes foram varridas pela</p><p>onda de pilhagens: Carquemis, Ugarit e a ilha de Chipre, entre outras.</p><p>Já a terceira onda ocorreu por volta de 1180 a.C.: uma horda de povos</p><p>do mar invadiu o Egito e foi expulsa por Ramsés III com muita dificuldade.</p><p>Esses povos foram vencidos, mas não aniquilados, e acabaram por se</p><p>estabelecer na costa de Canaã, dando origem aos filisteus.</p><p>As inovações do século obscuro</p><p>Embora tenha havido sensível recuo na organização estatal de diversos</p><p>reinos e uma profunda desorganização de grandes impérios, o século XII foi</p><p>produtivo em outros sentidos. Foi durante esse período que se desenvolveu a</p><p>metalurgia do ferro, iniciada nos reinos de Mittani e Síria (embora o bronze</p><p>continuasse predominando). Como o ferro era encontrado em pequenos</p><p>centros espalhados e</p><p>não em grandes concentrações, promoveu-se uma</p><p>extração muito estendida, sem as concentrações econômicas comuns aos</p><p>impérios.</p><p>Outro fator que a quebra dos grandes centros urbanos trouxe foi a</p><p>popularização da escrita. Antes da crise, os escribas permaneciam nas</p><p>escolas dos templos nas cidades, impedindo o uso da técnica fora desse</p><p>meio. Com o desaparecimento dos palácios, esses profissionais foram</p><p>dispersos e o uso da escrita passou a ser espalhado, entrando em contato</p><p>com outras línguas e sofrendo adaptações que acabaram levando ao</p><p>surgimento, em Canaã, do alfabeto consonantal (bem mais simples, baseado</p><p>nos fonemas), cujo sistema utilizamos até hoje.</p><p>O comércio também ganhou novo impulso: antes bastante restrito às</p><p>trocas entre grandes centros estatais, naquele momento passou também ao</p><p>controle de diversas iniciativas privadas.</p><p>Acima, alguns exemplos da escrita alfabética, surgida em Canaã. Os fenícios criaram um alfabeto muito mais</p><p>simples do que o utilizado até então, baseandose nos fonemas da linguagem. O alfabeto fenício serviu de base</p><p>para o alfabeto hebraico, já que as línguas eram muito parecidas, e também inspirou os gregos a adaptarem os</p><p>símbolos à sua língua, acrescentando as vogais e formando o que temos como a base para o alfabeto moderno</p><p>ocidental.</p><p>AS TRIBOS INSTALADAS em CANAÃ</p><p>OS LIVROS DE JOSUÉ E DE JUÍZES parecem tratar de situações diferentes em</p><p>uma análise superficial. Enquanto o primeiro aparenta narrar uma invasão</p><p>em massa, o segundo mostra diversas dificuldades de um povo dividido em</p><p>tribos, sem domínio da terra, e que precisava ser libertado de seus</p><p>inimigos. Entretanto, não é necessário considerar os livros contraditórios.</p><p>Analisando seus textos, ambos parecem apontar para uma situação pouco</p><p>heróica: uma entrada na terra com vitórias, mas não uma conquista</p><p>avassaladora, e uma vida posterior de muita dificuldade e lenta transição</p><p>para a organização civil e estatal.</p><p>Os israelitas instalaram-se principalmente nas regiões montanhosas. Nas</p><p>regiões planas, onde havia mais facilidade para o plantio, estavam as maiores</p><p>cidades, que eram fortes militarmente e não seriam facilmente conquistadas</p><p>(segundo Juízes 1). Essa pendência ficou para ser solucionada em um tempo</p><p>bem posterior, que nem sequer corresponde ao período dos juízes; na</p><p>verdade, a efetiva dominação territorial só se iniciou a partir do reinado de</p><p>Saul e foi concluída por Davi, segundo o que parece nos apontar o texto</p><p>bíblico.</p><p>O modo de estabelecimento dos israelitas em Canaã não foi na forma de</p><p>centros urbanos, à moda de muitos grupos cananeus. Estes, que</p><p>organizavam-se em pequenas cidades-estado, eram regidos por reis locais e</p><p>submetidos em vassalagem ao Império Egípcio. Os israelitas não</p><p>procederam desta forma: depois da morte de Josué, permaneceram nas</p><p>montanhas, vivendo em sociedade de clãs, numa espécie de confederação de</p><p>tribos unidas apenas pela religião e pela fé única em YHWH, mas sem</p><p>nenhum tipo de vínculo político ou liderança nacional. O único elemento</p><p>simbólico de qualquer centralização era o Tabernáculo, que abrigava a Arca</p><p>da Aliança, móvel venerado por todos os hebreus. Não havia sequer um</p><p>embrião de Estado, pois não tinham governo e o clero era destituído de</p><p>poder civil. Pode-se dizer que a relação do israelita era livre e direta com</p><p>Deus (que seria chamada teocracia), mas que mantinha, entre os homens,</p><p>uma relação anárquica (ou seja, sem domínio centralizado). Trataremos</p><p>desta característica nas próximas páginas.</p><p>Deve-se também levar em consideração que Israel não tinha uma</p><p>bagagem cultural distinta: possivelmente era uma sociedade com muitas</p><p>assimilações do modo de vida egípcio – uma vez que conviveram naquele</p><p>reino durante diversas gerações – misturadas com tradições oriundas do</p><p>nomadismo de seus antepassados e da própria vida seminômade que teriam</p><p>experimentado em Gósen. Além disso, com o fato de não ter ocorrido uma</p><p>guerra de extermínio na invasão, permaneceu em contato direto com os</p><p>cananeus, recebendo destes as mais diversas influências, sejam sociais ou</p><p>religiosas. Daí que o registro material encontrado pela arqueologia para</p><p>aquele período é difícil de discernir, pois não aparecem sinais de quaisquer</p><p>rupturas muito sérias provocadas por algum tipo de invasão de um povo de</p><p>cultura distinta.</p><p>As tribos de Israel</p><p>O mapa na página ao lado é a divisão que aparece no livro de Josué e</p><p>que trata, essencialmente, do território que foi prometido a cada tribo. Este</p><p>mapa não pode ser caracterizado como real no sentido de terem existido</p><p>tribos que funcionavam com fronteiras e territórios soberanos (semelhantes</p><p>aos estados da federação brasileira, por exemplo). É um mapa construído a</p><p>partir da divisão do território que retrata uma expectativa futura que se</p><p>cumpriria a partir de conquistas posteriores de cada tribo – as quais nunca</p><p>se concretizaram, conforme registrado no primeiro capítulo de Juízes. A</p><p>maior parte dos israelitas permaneceu nas montanhas, expulsos pelos</p><p>cananeus, distantes dos vales férteis.</p><p>Os territórios prometidos por Deus a cada tribo, segundo o livro de</p><p>Josué, foram os seguintes:</p><p>– Rúbem: a leste do rio Jordão, na Transjordânia, uma região de boas</p><p>pastagens, motivo pelo qual a tribo decidiu ficar daquele lado do rio. Nunca</p><p>se destacou por força militar, e a posição fronteiriça com os inimigos</p><p>amonitas e moabitas expôs a tribo a frequentes invasões.</p><p>– Gade: ao norte de Rúbem, também região de pastagens. Nesta tribo</p><p>ficava a importante região montanhosa de Gileade.</p><p>– Manassés: recebeu uma extensa herança, com metade da tribo ficando</p><p>a leste do Jordão, aproveitando as pastagens e as partes férteis da cadeia do</p><p>Antilíbano, nas regiões de parte de Gileade e de Basã. O restante da tribo</p><p>estabeleceu-se no centro de Canaã.</p><p>– Naftali: ficou numa faixa estreita ao norte, em região montanhosa na</p><p>fronteira com os fenícios, tradicionais habitantes do litoral. Tinha cidades</p><p>fortificadas em seu território, as quais a tribo não conquistou, e a distância</p><p>do centro religioso aumentou as dificuldades de integração com o restante</p><p>de Israel.</p><p>– Aser: a oeste de Naftali, em montanhas em que se cultivavam oliveiras.</p><p>Os vales do litoral eram férteis, mas a tribo não chegou a ocupá-los, pois a</p><p>região era dominada pelos poderosos fenícios – com quem acabaram</p><p>estabelecendo relações amistosas.</p><p>– Zebulom: ao sul de Aser e Naftali, uma região muito fértil e produtiva,</p><p>o que tornou esta tribo uma das mais prósperas de Israel. Também foram</p><p>muito influenciados pelo contato com fenícios.</p><p>– Issacar: região plana e fértil a sudoeste do lago de Genezaré, mas que</p><p>facilitava o controle das cidades cananeias com seus exércitos e carros de</p><p>guerra, o que obrigou esta tribo a se estabelecer apenas nas montanhas.</p><p>– Efraim: ao sul de Manassés, numa região montanhosa e fértil, a mais</p><p>produtiva de Canaã. Nela ficava Siquém, local em que Josué renovou a</p><p>aliança com Deus, uma vez estabelecido na terra. Foi uma tribo que logo se</p><p>destacou e ganhou notoriedade econômica dentre as demais, e seu nome</p><p>chegou a predominar como representante do próprio reino de Israel (o reino</p><p>do Norte por vezes é chamado pelos autores bíblicos de casa de José, ou casa</p><p>de Efraim, dada a proeminência da tribo).</p><p>– Benjamim: região central, pequena mas muito fértil e com cidades</p><p>importantes, como Jerusalém e Jericó. Estava em fronteira com a poderosa</p><p>Efraim ao norte, e Judá ao sul, à qual acabou sendo assimilada depois da</p><p>divisão dos reinos.</p><p>– Dã: região estreita em direção ao litoral, mas que se viu com muitas</p><p>dificuldades para se fixar contra os amorreus. Os danitas foram impedidos</p><p>de descer para os campos e habitaram as montanhas. A chegada dos filisteus</p><p>somente iria piorar a situação, e metade da tribo acabou se mudando para o</p><p>extremo norte, onde tomaram a cidade de Laís para se estabelecer ( Jz 18).</p><p>– Judá: parte sul, formada principalmente por rochas estéreis, bastante</p><p>montanhosa, mas com partes boas para o cultivo de vinhas e oliveiras, bem</p><p>como a criação de gado. Possui regiões desérticas mais ao sul e em direção</p><p>ao mar</p><p>Morto. Era uma região populosa, embora não fosse das mais ricas de</p><p>Canaã.</p><p>– Simeão: tribo que ficou com um território um tanto indefinido,</p><p>fronteiriço, e acabou mesclada à tribo de Judá bastante cedo,</p><p>compartilhando o mesmo território.</p><p>– Levi: não recebeu terra, pois ficaram responsáveis pelo serviço</p><p>sacerdotal. Levi recebeu 48 cidades entre as demais tribos, cada uma com os</p><p>campos correspondentes. Seis estas cidades levíticas foram destinadas como</p><p>cidades de refúgio, local sagrado para onde o assassino poderia fugir e</p><p>aguardar julgamento, evitando ser morto pelo vingador do sangue ( Js 20,</p><p>conforme Nm 35).</p><p>Na página ao lado, mapa com a divisão das tribos de Israel segundo a promessa no livro de Josué. Entretanto,</p><p>deve-se ter em conta que este mapa é fictício, pois trata de uma expectativa de conquista que jamais foi</p><p>completada. Os diversos povos cananeus permaneceram na maioria das cidades de Canaã até o reino de Davi,</p><p>a partir do qual acabaram, possivelmente, sendo assimilados ao povo israelita. Exemplo dessa assimilação é o</p><p>fato de Davi comprar um terreno de um jebuseu na cidade que ele mesmo conquistara para tornar sua capital</p><p>(2Sm 24.18-24). Neste mapa constam também as cidades refúgio dos levitas.</p><p>A TEOCRACIA do PERÍODO dos JUÍZES</p><p>O LIVRO DE JUÍZES RELATA o modo como as tribos estavam vivendo em</p><p>Canaã. Funcionavam como clãs familiares unidos apenas por vínculo</p><p>religioso, sem unidade política. A ideia monárquica, inclusive, era um</p><p>pensamento muito distante e, por muito tempo, indesejado pelos israelitas.</p><p>Não havia capital nem centralidade administrativa comum aos estados</p><p>organizados. O ponto focal era apenas a Arca da Aliança, guardada no</p><p>Tabernáculo. Tal aparente desorganização revelava um pouco do propósito</p><p>divino na condução de Seu povo.</p><p>Liberdade, anarquia, teocracia</p><p>O período descrito nos livro de Juízes é visto como caótico. O fato de</p><p>que cada um fazia o que achava correto ( Jz 17.6) é comumente interpretado</p><p>como sinal de problema e necessidade de uma liderança que colocasse</p><p>ordem nas coisas. Entretanto, é preciso entender esse contexto dentro da</p><p>perspectiva da liberdade que Deus concedia ao Seu povo para viver na terra.</p><p>Essa liberdade, e o prometido descanso na terra (ou seja, a qualidade de</p><p>vida) se daria de acordo com a obediência do povo aos mandamentos de</p><p>Deus.</p><p>Não há qualquer tipo de modelo administrativo civil na Lei; Deus não</p><p>ordenara diretamente a organização estatal – apenas avisou as implicações</p><p>de uma monarquia caso queiram seguir o modelo (Dt 17). O resultado, na</p><p>configuração de tribos, era uma espécie de anarquia (considerando anarquia</p><p>não o caos, mas a ausência de domínio de homem sobre homem). A</p><p>configuração de tribos, que se organizava em clãs baseados em laços</p><p>familiares, se prestava a esse princípio. Mas o propósito final era a teocracia,</p><p>ou seja, o governo de Deus.</p><p>Como Deus governaria o povo? O livro de Juízes mostra isso.</p><p>Simplesmente fazendo cumprir as bênçãos e maldições, anunciadas em</p><p>Deuteronômio 30, para quem obedecesse ou desobedecesse a Lei divina. A</p><p>tribo estava em descanso na terra, mas acabava caindo em idolatria – a</p><p>apostasia da fé. Como resultado, Deus retirava sua proteção e permitia o</p><p>ataque dos inimigos, que passavam a oprimir o povo, trazendo a punição</p><p>pelos seus pecados. O povo então se arrependia e clamava a Deus, que tinha</p><p>compaixão, perdoava e enviava um libertador – o juiz, o qual organizava a</p><p>resistência contra os inimigos. Fechando o ciclo, o povo entrava novamente</p><p>no descanso, para tudo se repetir. Veja-se exemplo deste roteiro em Juízes</p><p>3.7-11, e ilustrado na figura abaixo.</p><p>Esta era a forma como Deus conduzia o povo, como o governava. Pela</p><p>experiência da vida, pelo cumprimento de sua promessa, pela prática</p><p>constante da confissão e do arrependimento, buscando a conversão do</p><p>coração em cada geração do Seu povo. Afinal, o que Deus mais gosta de</p><p>fazer é salvar.</p><p>Os libertadores de Israel</p><p>As opressões e dificuldades de Israel aconteciam no contexto das tribos.</p><p>As lutas narradas em Juízes tratam de eventos locais, não de Israel como um</p><p>todo. Assim, para cada opressão que surgia, Deus levantava um libertador –</p><p>um líder carismático que liderava uma tribo ou mais na luta contra os</p><p>inimigos. Podem ter existido vários juízes além dos citados na Bíblia, pois os</p><p>relatos não são necessariamente em ordem cronológica e subsequentes.</p><p>Estes são citados no livro de Juízes:</p><p>– Otniel, Eúde e Sangar: há poucas informações sobre eles.</p><p>– Débora e Baraque: ela, uma juíza, profetiza e poetisa; ele, o general por</p><p>ela convocado para comandar o exército.</p><p>– Gideão: livrou de opressão midianita. Foi-lhe oferecida a coroa para</p><p>reinar sobre Israel, à qual ele rejeitou. Mas se fez sacerdote.</p><p>– Abimeleque: filho de Gideão que se tornou rei de Siquém por três</p><p>anos. Foi um usurpador do ofício de juiz e pretenso rei.</p><p>– Tola e Jair: pouco se sabe sobre eles.</p><p>– Jefté: de Gileade, lutou contra amonitas. Ficou famoso por prometer a</p><p>filha em sacrifício de fogo caso vencesse, ato contrário à própria Lei que</p><p>Deus havia instituído.</p><p>– Ibsã, Elon e Abdom: também pouco se sabe deles.</p><p>– Sansão: da tribo de Dã, lutou contra a opressão dos filisteus. Foi</p><p>famoso pela extrema força e de seu voto de nazireado, mas seu péssimo</p><p>comportamento leva alguns a não classificá-lo como juiz.</p><p>Ainda aparecem no livro de 1Samuel: Eli, sacerdote do santuário de</p><p>Siló, e Samuel, o profeta responsável pela transição para a monarquia.</p><p>Os santuários de culto de Israel</p><p>Nos textos de Josué e Juízes são mencionados diversos lugares altos, que</p><p>eram colinas consideradas sagradas eonde se erigiam altares para sacrifícios,</p><p>primeiro utilizados pelos cananeus, depois pelos israelitas. Tais locais foram</p><p>possivelmente considerados sagrados pelos israelitas antes da construção do</p><p>templo em Jerusalém e da centralização religiosa naquela cidade. Eram estes</p><p>os santuários (veja o mapa na página 50):</p><p>1. Gilgal: em algum local entre Jericó e o Jordão, marcado com um</p><p>círculo de pedras montado como memorial após a travessia do rio no tempo</p><p>de Josué ( Js 4). Ali se fez a circuncisão do povo e a celebração da primeira</p><p>Páscoa na terra prometida ( Js 5). Também foi o local em que Samuel</p><p>julgava o povo e onde Saul foi proclamado rei (1Sm 11).</p><p>2. Siló: eclipsou Gilgal por ser o local em que o Tabernáculo foi</p><p>estabelecido, possivelmente com uma adaptação: parece ter sido levantada</p><p>alguma estrutura fixa na qual a tenda possivelmente tenha sido estendida ( Js</p><p>18 e 1Sm 1).</p><p>3. Mispá: local de importantes reuniões, além de ter sido um dos locais</p><p>do ciclo de viagens do profeta Samuel para julgar (1Sm 7). No tempo dos</p><p>Macabeus, era um local de jejum e oração.</p><p>4. Gibeá: local onde Saul encontrou os profetas, pouco antes de ser</p><p>designado rei por sorteio (1Sm 10). Pode ter sido o mesmo local em que</p><p>Salomão sacrificou e teve a primeira visão de Deus, na qual pediu sabedoria</p><p>(1Re 3).</p><p>5. Ofra: local em que o anjo de Deus apareceu a Gideão. Neste lugar</p><p>havia um centro de culto de Baal, cultuado pelo próprio pai de Gideão, que</p><p>acabou sendo destruído por este ( Jz 6).</p><p>6. Dã: ao norte, em Laís, no local em que a tribo se estabeleceu quando</p><p>fugiu do seu território original. Na ocasião, levaram consigo um levita e um</p><p>ídolo – possivelmente, uma estátua representativa de YHWH, fato proibido</p><p>pelo segundo mandamento ( Jz 18). Séculos mais tarde, foi neste local que</p><p>Jeroboão erigiu um dos santuários de seu culto sincrético (1Re 12).</p><p>Estes santuários eram uma demonstração do modo descentralizado</p><p>como o povo vivia. Embora o Tabernáculo fosse uma forma de unificação,</p><p>ele não era o único, demonstrando uma fé e compreensão de YHWH que</p><p>ainda estava em plena construção.</p><p>Os juízes não eram “nacionais”, ou seja, liderando todo o Israel. Eles atuavam apenas a nível local, libertando</p><p>a tribo e os membros mais próximos de seus clãs.</p><p>Esses santuários foram frequentados pelos israelitas até o final da monarquia. Acabaram tornando-se centros</p><p>de cultos sincréticos, colocando ao lado do altar de YHWH uma estela de Baal e</p><p>o poste sagrado de Asera, além</p><p>de introduzir no culto as práticas da prostituição ritual e ritos sangrentos dos ídolos. Com os abusos que foram</p><p>se perpetuando, tais santuários foram considerados centros pagãos ilegítimos, e foco das tentativas de reforma</p><p>de reis como Ezequias e Josias.</p><p>MONARQUIA</p><p>A queda dos impérios – especialmente dos hititas e dos assírios – permitiu</p><p>o surgimento dos reinos lídio e frígio na Anatólia e a estabilização dos</p><p>grupos arameus, especialmente os sírios de Damasco. O Egito foi marcado</p><p>por um tempo de declínio constante e não teve mais supremacia para além</p><p>de suas fronteiras. Durante o século X a.C. ocorreu a ascensão do império</p><p>regional de Davi e Salomão, mas que foi efêmero, dividindo-se logo em</p><p>dois reinos mais fracos, Israel e Judá. A intensificação comercial por terra e</p><p>por mar fez de Canaã um corredor de passagem valorizado entre Egito e</p><p>Mesopotâmia, fato muito aproveitado pelos fenícios do litoral. A partir do</p><p>século IX a.C., voltaram a se reerguer os grandes impérios expansionistas,</p><p>especialmente o Neoassírio – que veio a se tornar a grande potência</p><p>imperial até sua queda no início do século VII a.C. Esses séculos foram</p><p>marcados pela lenta substituição do bronze pelo ferro e o aumento</p><p>significativo no uso de carros de guerra puxados por cavalos. Usando esta</p><p>tecnologia, os assírios foram os responsáveis pela destruição e</p><p>espalhamento do reino de Israel, e quase fizeram o mesmo com Judá. Os</p><p>assírios foram destruídos por um império que ascendeu muito</p><p>rapidamente: a Babilônia de Nabucodonosor II, coligada com os medos.</p><p>Neste contexto histórico ocorreu a destruição de Samaria, depois de</p><p>Jerusalém e o início do exílio dos judeus.</p><p>O PERÍODO MONÁRQUICO</p><p>O POVO DE ISRAEL HABITAVA CANAà sem qualquer tipo de organização</p><p>estatal e livre de opressão das nobrezas, como ocorria com muitos povos da</p><p>Antiguidade e para além dela. Alguns problemas também ocorreram em</p><p>função dessa liberdade, envolvendo principalmente a idolatria: vinha a crise</p><p>e o ataque de vizinhos mais poderosos, o clamor do povo e a final</p><p>libertação por meio de um juiz. A única centralidade existente era,</p><p>aparentemente, religiosa: o Tabernáculo e o sacerdócio.</p><p>Ao final do período dos juízes, um homem teve destaque e acabou por</p><p>tornar-se uma figura paterna para quase todo Israel: Samuel. Ele foi um</p><p>profeta chamado por Deus desde criança, criado pelo sacerdócio em Siló e</p><p>alçado à condição de juiz-libertador pela opressão sofrida frente aos filisteus.</p><p>O conjunto de circunstâncias envolvendo sua pessoa tornou-o líder de</p><p>qualidades múltiplas, um profeta-sacerdote-juiz, que fora canal da poderosa</p><p>ação de Deus e o equiparara a grandes líderes do passado, como Moisés e</p><p>Josué. No seu tempo, dada a miraculosa ação divina na defesa contra os</p><p>inimigos, os filisteus não mais tiveram ousadia de penetrar no território</p><p>habitado pelos israelitas, segundo o relato do texto bíblico (1Sm 7.13).</p><p>A facilidade que o povo tinha em recorrer a um único homem que lhes</p><p>solucionava os problemas trouxe aos israelitas a ideia de uma nova</p><p>configuração política: por que não centralizar as decisões em uma só figura</p><p>política? Mas havia um problema: entre os filhos de Samuel, nenhum se</p><p>mostrou confiável para o ofício, pois eles estavam profundamente envolvidos</p><p>em corrupção (1Sm 8). Além disso, havia o permanente perigo de um</p><p>ataque dos filisteus. A conjunção destes fatores ajudou a precipitar a</p><p>formação da monarquia israelita. Dessa forma, os israelitas pediram um rei a</p><p>Samuel para serem como os outros povos (1Sm 8). Entretanto, embora não</p><p>tivessem Estado, existia uma governança informal baseada nas assembleias</p><p>de anciãos (representantes dos clãs), a qual era muito forte e não foi</p><p>abandonada naquela transição. Israel não imitou nem os cananeus, que</p><p>funcionavam como cidades-estado independentes entre si, nem os egípcios,</p><p>que eram um reino imperial profundamente centralizado na figura do faraó.</p><p>O Estado israelita se aproximou muito mais do modo aramaico da Síria: um</p><p>reino de clãs, cuja unidade estava relacionada à sua etnicidade (ou seja,</p><p>parentesco de um antepassado comum), e com pouco vínculo dinástico,</p><p>admitindo a autoridade real mais por carisma pessoal do líder do que pela</p><p>hereditariedade vinculada a uma família da nobreza.26</p><p>A transição para a monarquia não foi nada fácil: pedir um rei foi o</p><p>equivalente a duvidar da proteção de Deus, o verdadeiro Rei de Israel (1Sm</p><p>8 a 12). A indisposição da ideia monárquica, para o profeta Samuel, foi a</p><p>primeira de uma longa linhagem de diferenças inconciliáveis: o confronto</p><p>entre monarquia e profecia somente podia ser resolvido se a primeira se</p><p>sujeitasse à segunda – fato que praticamente só se deu com o rei Davi.</p><p>Monarquia como concessão</p><p>Não devemos nos enganar: a monarquia israelita foi uma concessão</p><p>divina. Deus é o rei de Israel: os homens que sentam nos tronos dinásticos</p><p>deveriam ser apenas executores da vontade divina (como atestam os textos</p><p>de 1Cr 17 e os Salmos 96 a 99). Davi foi um homem sujeito a Deus, razão</p><p>de seu sucesso como governante; mas, como ele, foram poucos. Além disso,</p><p>nunca houve um apoio muito forte dos israelitas à concepção monárquica,</p><p>embora eles tivessem solicitado um rei. Logo após a queda de Jerusalém e o</p><p>fim da monarquia, a comunidade pós-exílica voltou ao estilo de vida do</p><p>tempo dos juízes, embora houvesse um poder imperial central, o que torna</p><p>evidente que a liderança dos anciãos nos clãs se manteve mesmo durante o</p><p>tempo dos reinados. O que sustentava a coesão do povo foi, de fato, a fé</p><p>num mesmo Deus e a crença de que não havia outro Senhor além dEle, o</p><p>único rei de Israel.27</p><p>O reinado de Saul</p><p>Saul foi sorteado entre as tribos e ungido por Samuel. Com esse</p><p>primeiro rei ocorreu a transição de um sistema que funcionava baseado num</p><p>líder carismático e temporário para a fixação em uma personalidade</p><p>centralizadora permanente, o monarca. Com a criação de uma casa real,</p><p>também veio a estrutura estatal, consequência desagradável avisada por</p><p>Deus e que seria pesada para o povo sustentar (1Sm 8). De qualquer</p><p>maneira, esse grande e custoso aparato administrativo não surgiria tanto</p><p>com Saul, que atuou muito mais como um chefe militar frente aos</p><p>problemas de opressão estrangeira do que como organizador de uma Estado</p><p>burocrático. Durante o seu reino, os clãs mantiveram autonomia</p><p>administrativa dentro de cada tribo.28</p><p>Saul vivia em Gibeá, na tribo de Benjamim, cidade que transformou em</p><p>quartel-general do seu reino, e não exatamente uma capital no sentido</p><p>político do termo (1Sm 10 e 15). Ele mantinha consigo um exército</p><p>permanente de três mil homens, além dos contingentes que convocava para</p><p>as batalhas contra os invasores do território. Seu reino foi uma verdadeira</p><p>transição entre o antigo sistema de juízes para uma monarquia efetiva, já</p><p>que ele atuava como um juiz-libertador à moda antiga e não constituiu uma</p><p>nobreza centralizadora. Somando esse fator à desconfiança que nutria pelo</p><p>seu principal comandante – Davi –, acabou por não desenvolver o reino da</p><p>melhor maneira, investindo muito do seu tempo nas conspirações</p><p>palacianas. Por isso, boa parte da narrativa do reinado de Saul trata da</p><p>perseguição a Davi, que preferiu a fuga a lutar contra o ungido de Deus.</p><p>Na fuga e peregrinação de Davi pelos desertos da Judeia e para além</p><p>dela, uniram-se a ele diversos indivíduos de má reputação (endividados,</p><p>criminosos, marginalizados e descontentes com a situação do desgoverno de</p><p>Saul), formando uma milícia de cerca de 400 homens que atuaram como</p><p>tropa mercenária – primeiramente de forma autônoma (1Sm 22), depois a</p><p>serviço dos filisteus (1Sm 27). Houve momentos em que Davi esteve muito</p><p>próximo de lutar contra Saul, mas sempre evitou o confronto. Refugiou-se</p><p>algumas vezes fora do território israelita, especialmente entre os filisteus e os</p><p>moabitas, com quem estabeleceu relações amistosas.</p><p>Por tudo isso, e mais ainda, Saul acabou por se tornar indesejável ao</p><p>propósito divino no comando de Israel. Havia nele pouca disposição a se</p><p>sujeitar aos desígnios de Deus, que se manifestaram</p><p>em dois fatos</p><p>específicos: o primeiro, quando Saul arrogou a si mesmo o direito sacerdotal</p><p>exculsivo de sacrificar a Deus antes da batalha (1Sm 13); o segundo, quando</p><p>descumpriu a ordem divina de realizar um anátema (extermínio completo)</p><p>dos amalequitas (1Sm 15). Dada a impossibilidade dele se sujeitar à vontade</p><p>de Deus, foi rejeitado e seu trono foi prometido a Davi. Após muitos anos</p><p>de um reinado catastrófico, mais envolvido em perseguir a Davi do que a</p><p>firmar um reino estável, Saul acabou derrotado pelos filisteus, ocasião em</p><p>que se suicidou, sendo mortos também os sucessores naturais ao trono: seus</p><p>filhos Jônatas, Abinadabe e Malquisua (1Sm 31). Sobrou o inseguro Is-Baal</p><p>como rei, abrindo um período de instabilidade política no governo de Israel,</p><p>já na primeira sucessão da recém fundada monarquia.</p><p>Na página ao lado, o mapa do que seriam as tribos de Israel unificadas sob o comando de um único rei, Saul.</p><p>Também trata-se de um mapa idealizado, uma vez que não há conhecimento do real domínio israelita sobre o</p><p>território cananeu. Os locais de refúgio de Davi estão marcados no mapa. Dentro do território de Saul,</p><p>ocultou-se principalmente no deserto da Judeia; mas os locais mais seguros foram entre os filisteus e moabitas.</p><p>O PRIMEIRO CISMA e a MONARQUIA DUALISTA</p><p>A cisão ocorrida da tribo de Judá em relação ao resto de Israel, depois da</p><p>morte de Saul, foi a primeira demonstração da fragilidade do Estado</p><p>israelita. A monarquia não parecia ser um consenso entre as tribos, muito</p><p>menos sobre qual casa deveria governar o reino. Essa cisão durou sete anos e</p><p>meio, enquanto duas administrações distintas provavelmente foram se</p><p>firmando. O filho sobrevivente de Saul foi colocado no trono de Israel pelo</p><p>general Abner (2Sm 2.8-11). Seu nome era Is-Baal (homem do senhor), mas</p><p>foi apelidado, provavelmente pelos próprios servos do palácio, de Is-Bosete</p><p>(homem da vergonha), uma demonstração do desprezo que sofria. A tribo de</p><p>Judá, por sua vez, não apoiou a entronização e decidiu coroar a Davi como</p><p>seu rei – um candidato natural, pois era herói popular desde o duelo com</p><p>Golias e as vitórias militares como comandante do exército, além de ser</p><p>judeu nascido em Belém. Is-Baal governava sobre Israel, tendo por capital</p><p>Maanaim; e Davi governava sobre Judá, tendo por capital Hebrom. Veja o</p><p>mapa das duas monarquias e suas capitais nesta página.</p><p>O Reino de Israel: Is-Baal</p><p>Is-Baal (ou Is-Bosete) não estava presente na batalha fatídica em que</p><p>seus irmãos morreram. Tentou atacar Judá e reunificar o reino que se</p><p>separou de seu pai, mas foi derrotado. Escolheu como capital a cidade de</p><p>Maanaim, do outro lado do Jordão, possivelmente por temer algum avanço</p><p>do sul. Fez um governo titubeante, ao final do qual Abner, o mesmo general</p><p>que o colocara no poder, acabou por desertar em favor de Davi. Abner foi</p><p>assassinado à traição por Joabe, o que entristeceu muito o rei de Judá (2Sm</p><p>2 e 3).</p><p>O Reino de Judá: Davi</p><p>Davi foi convidado pelos judeus para assumir o trono da tribo natal. A</p><p>capital foi Hebrom, uma cidade muito antiga, talvez fundada por volta de</p><p>1750 a.C. e conquistada por Judá, além de ter sido definida como uma das</p><p>cidades refúgio pela Lei mosaica (veja página 47). A promoção desta cidade</p><p>a capital a tornava um centro estratégico importante, já que estava encravada</p><p>na parte mais alta das montanhas da Judeia, a cerca de 1000 metros de</p><p>altitude, e ficava próxima do local de morada dos patriarcas Abraão e</p><p>Isaque, além de sede do túmulo de Sara. Em Hebrom, durante o reinado de</p><p>Judá, Davi teve seus seis primeiros filhos.</p><p>A reunificação de Israel sob a coroa de Davi</p><p>A divisão dos reinos somente foi resolvida no assassinato de Is-Baal no</p><p>próprio palácio, deixando o trono sem sucessão. O lugar vago levou os</p><p>israelitas a virem a Hebrom e convidarem Davi a assumir as duas coroas</p><p>(2Sm 3-5). Assim, ocorreu novamente a união entre as tribos debaixo de um</p><p>único governante, mas que durou apenas duas gerações: no reinado de Davi</p><p>e no de Salomão. A partir do controle de Davi sobre todo Israel começou o</p><p>trabalho de formação de uma estrutura realmente centralizada de poder. A</p><p>primeira atitude do novo governo foi estabelecer uma capital neutra para o</p><p>reino. A escolha recaiu sobre uma fortaleza localizada no enclave entre os</p><p>Judá e Israel, pertencente aos jebuseus. Com a conquista de Jebus, Israel</p><p>ganhou uma capital que se tornou o mais importante centro religioso do</p><p>mundo até hoje: Jerusalém (veja mais sobre a cidade nas próximas páginas).</p><p>Davi inaugurou um novo tempo em Israel: abandonou o princípio</p><p>defensivista do tempo dos juízes e de Saul, partindo para uma estratégia</p><p>agressiva contra os vizinhos – embora às vezes tenha sido atacado primeiro.</p><p>Conseguiu submeter os amonitas (que haviam humilhado seus mensageiros</p><p>de paz), depois venceu os arameus e também os amonitas. Segundo o texto</p><p>bíblico, passou a controlar um reino considerável, estendendo seus domínios</p><p>desde as fronteiras com a península do Sinai (no ribeiro do Egito) até</p><p>próximo ao grande rio Eufrates, no extremo norte, abrangendo todo o</p><p>território de Canaã, da Transjordânia e da Síria (1Sm 8). Como a expansão</p><p>se deu em um tempo de retração econômica e social da sociedade do</p><p>Oriente Próximo, não houve reinos imperialistas da Mesopotâmia ou do</p><p>Egito que interferissem.</p><p>Monarquia dualista</p><p>A tribo de Judá provavelmente teve uma história à parte no tempo dos</p><p>juízes: ficava isolada ao sul, separada das tribos do norte por diversos</p><p>enclaves cananeus (cidades fortes como Jebus, Gibeão, Gezer e Aijalom),</p><p>que formavam uma barreira e separavam os judeus dos demais israelitas.</p><p>Como mencionamos, a divisão voltou a surgir após a morte de Saul, quando</p><p>os judeus convidaram Davi para reinar sobre eles (2Sm 5). Tal diferença</p><p>entre as coroas não foi diminuída, pois o texto bíblico especifica que Davi</p><p>reinou 33 anos sobre todo o Israel e Judá. Mais tarde, Salomão também foi</p><p>coroado rei sobre Israel e Judá (1Re 1.35). Todos os textos bíblicos</p><p>mencionam claramente esta distinção, destacando os nomes dos dois reinos,</p><p>e enumerando sempre censos separados. Ou seja, a concepção que os</p><p>israelitas faziam do Estado a que estavam sujeitos era de um reino unido de</p><p>duas coroas distintas, talvez semelhante (de maneira simplificada, a grosso</p><p>modo) ao caso do Reino Unido (Grã-Bretanha e Irlanda do Norte) nos dias</p><p>atuais.</p><p>A CIDADE de DAVI</p><p>DAVI CONQUISTOU A CIDADE DOS JEBUSEUS possivelmente por motivos</p><p>políticos, buscando a unificação de dois reinos, os quais teriam grandes</p><p>dificuldades em caminhar juntos. Alguns fatos parecem sinalizar isto. O</p><p>primeiro é que a cidade de Jebus era uma fortaleza situada no enclave</p><p>cananeu que separava os dois reinos de Judá e Israel, dentro do território</p><p>de Benjamim – ou seja, uma cidade neutra em termos dos dois reinos.</p><p>Além disso, era uma das muitas cidades cananeias que não foram</p><p>conquistadas pelos hebreus e que ainda deviam ser assimiladas. O segundo</p><p>fato é que Davi provavelmente utilizou somente suas tropas pessoais (as</p><p>que lutavam com ele no tempo de sua fuga de Saul), descartando também</p><p>o uso dos exércitos, seja judeu, seja israelita. Tanto que, depois da</p><p>conquista, a cidade de Jerusalém foi recorrentemente chamada de Cidade</p><p>de Davi. Finalmente, transferiu para lá toda a administração e o centro</p><p>religioso, levantando ao lado de seu palácio o que veio a ser chamado de</p><p>Tabernáculo de Davi, possivelmente uma versão fixa do Tabernáculo antigo</p><p>e que continha ao mais importante objeto litúrgico dos israelitas: a Arca da</p><p>Aliança (2Sm 6). Evidentemente, não é possível saber as intenções de</p><p>alguém apenas por fatos históricos, mas podemos concluir que, se de fato</p><p>Davi planejou algo neste sentido, foi uma estratégia brilhante.</p><p>O monte Moriá, ao lado da cidade, seria escolhido por Davi para a</p><p>construção posterior do templo justamente pela visão que o rei teve de um</p><p>anjo, mesmo local onde ele ofereceu sacrifício logo após comprar o terreno</p><p>de Araúna, o jebuseu (2Sm 24). Marcantes foram as palavras do rei no</p><p>episódio: não oferecerei a Deus um sacrifício que não me</p><p>custe nada (2Sm</p><p>24.24).</p><p>Não se sabe quando o nome Jerusalém passou a ser usado. Este é um</p><p>nome resultante da união de duas palavras: fundamento e paz. Talvez</p><p>signifique alicerce da paz dupla, ou apenas cidade da paz. Está edificada sobre</p><p>os montes Sião (a parte mais antiga, originária dos jebuseus) e Moriá, sobre</p><p>o qual foi construído o templo. A cidade ainda cresceria agregando os</p><p>montes Acra, Bezeta e Ofel.</p><p>A primeira muralha da cidade era a original de Jebus, possivelmente</p><p>ampliada por Davi. Depois, Salomão aumentou as muralhas no sentido de</p><p>absorver dentro da cidade o monte Ofel e o Moriá, junto com a estrutura do</p><p>templo. A segunda muralha foi construída por Jotão, Ezequias e Manassés</p><p>no tempo do reino dividido. A fortaleza foi destruída por Nabucodonosor II</p><p>em 586 a.C. Até hoje é difícil identificar a muralha reconstruída por</p><p>Neemias. Houve ainda uma ampliação no período da revolta dos Macabeus</p><p>(saiba mais nas páginas 86 e 87).</p><p>A IDADE de OURO de ISRAEL</p><p>A IDADE DE OURO DA MONARQUIA ISRAELITA corresponde ao tempo dos</p><p>quatro séculos de vácuo de poder no Oriente Próximo após as crises do</p><p>século XII. Essa época de prosperidade começou com Davi, que acumulou</p><p>riquezas com suas importantes conquistas militares. Além disso, ele</p><p>estabeleciu alianças estrategicamente muito proveitosas, sendo a principal</p><p>delas com Hirão, rei fenício de Tiro. Esta cidade era um importante centro</p><p>comercial do Mundo Antigo, ligando as rotas do norte da África e da</p><p>Mesopotâmia com as terras banhadas por todo o Mediterrâneo. Foram os</p><p>fenícios que forneceram a Davi, e depois também a Salomão, os</p><p>engenheiros que transmitiram as técnicas construtivas para as obras que o</p><p>reino necessitava: palácios, cidades fortificadas e o templo em Jerusalém</p><p>(veja nas próximas páginas).</p><p>O reino original de Israel já não era puramente étnico a partir da política</p><p>de dominação dos enclaves cananeus, muitos dos quais foram assimilados à</p><p>nação. Além disso, as guerras exteriores submeteram e anexaram populações</p><p>não-israelitas de edomitas, amonitas, moabitas e arameus (2Sm 8), sobre os</p><p>quais Davi impôs governadores ou reis vassalos. Destes povos também</p><p>saíram muitos administradores que atuaram na estrutura burocrática do</p><p>estado israelita emergente – o que pode ser verificado pela grande</p><p>quantidade de nomes estrangeiros citados entre os funcionários de Davi nas</p><p>crônicas reais (1Cr 27). Portanto, a evolução de um Estado administrativo</p><p>propriamente dito iniciou com Davi, e atingiu seu auge com Salomão.29</p><p>A riqueza de Salomão</p><p>Salomão fez justiça ao seu nome, que significa pacífico: não se envolveu</p><p>em guerras de conquista. Teve problemas militares ao final de sua vida, mas,</p><p>segundo o relato bíblico, essa não foi a tônica de seu reinado. Agiu com</p><p>severidade no início, seguindo o conselho de seu pai, não poupando</p><p>qualquer um que pudesse colocar em risco a legitimidade de seu poder (1Re</p><p>1 e 2). Dali em diante, não sofreu mais oposição até seus últimos anos.</p><p>Administrativamente, Salomão introduziu diversos cargos que são</p><p>genericamente chamados pelo redator bíblico de servos do rei, os quais</p><p>autenticavam seus atos oficiais. A estrutura palaciana exigia controles os</p><p>mais diversos, principalmente os contábeis – a principal função da classe de</p><p>escribas, por exemplo. Como os israelitas não possuíam uma tradição</p><p>burocrática, arquitetônica ou militar avançada (como os egípcios e</p><p>mesopotâmios), necessitavam de especialistas vindos do estrangeiro,</p><p>principalmente fenícios, egípcios e hurritas.30</p><p>O maior destaque no reinado de Salomão foi sua imensa habilidade</p><p>como intermediário comercial. Davi já havia preparado o caminho:</p><p>conquistara as saídas para o mar ( Jope no litoral mediterrâneo, e Eziom-</p><p>Geber na ponta do mar Vermelho, que deságua no Oceano Índico). Além</p><p>disso, estabelecera aliança com os maiores comerciantes da antiguidade, os</p><p>fenícios. Foi deles que Salomão adquiriu a frota naval que instalou em</p><p>Eziom-Geber, fazendo da localidade um porto de ligação comercial com</p><p>Ofir (local desconhecido, citado apenas na Bíblia, e que se supõe ser</p><p>localizado na costa oriental da África ou em alguma localidade da Índia, de</p><p>onde ele trouxe muito ouro). De qualquer maneira, a parceria com os</p><p>fenícios continuou nos negócios em que Salomão atuava como</p><p>intermediário entre as mercadorias que circulavam na Mesopotâmia para o</p><p>Egito e vice-versa, além de estabelecer contatos com diversos outros povos</p><p>(1Re 10).31</p><p>Com a afluência de tantas riquezas, Salomão investiu na construção</p><p>civil. As obras mais famosas foram o templo em Jerusalém, seu palácio real e</p><p>os estábulos para os carros e cavalos que adquirira para o exército.</p><p>Também construiu diversas cidades fortificadas, geralmente erguidas</p><p>sobre um monte e cercadas com muralhas para proteção das invasões</p><p>inimigas e de animais selvagens. As maiores cidades teriam média de doze</p><p>mil habitantes, e as menores, cerca de mil a cinco mil moradores.</p><p>Outra organização que recebeu atenção especial foi o exército</p><p>especializado: Salomão investiu em carros de guerra e em uma forte</p><p>cavalaria – novidade para os israelitas, que costumavam lutar a pé ou</p><p>montados em jumentos. Com a introdução dos carros, criava também uma</p><p>espécie de elite guerreira composta de nobres, condutores e escudeiros.</p><p>Além do exército do Estado, também tinha uma guarda real composta de</p><p>mercenários estrangeiros, que já faziam parte do exército pessoal de Davi (os</p><p>quereteus e peleteus, recrutados na Filístia) e que tinham um comando</p><p>especial à parte dos militares israelitas (conforme 2Sm 8.18 e 20.23).</p><p>Os tributos de Salomão</p><p>A afluência de riquezas e o impulso construtor de Salomão gerou</p><p>também a necessidade de ampliar as receitas do reino. Com os custos da</p><p>estrutura aumentando, cresciam junto os impostos. Ele dividiu Israel em</p><p>doze prefeituras, sendo que cada uma delas deveria suprir as provisões</p><p>necessárias do palácio no período de um mês (1Re 4), o que era uma carga</p><p>tributária nada desprezível. Além disso, há indícios de que havia um</p><p>imposto anual que deveria ser pago ao rei (1Sm 8.15-17 e 2Cr 17.5). A</p><p>partir de Salomão também instituiu-se em Israel a corveia, um trabalho</p><p>compulsório obrigado pelo Estado ao povo e utilizado nas construções civis</p><p>(1Re 9).32 Foi esse trabalho pesado que provocou a revolta popular quando</p><p>seu filho, Roboão, ascendeu ao trono.</p><p>As esposas de Salomão</p><p>O relato das esposas e concubinas de Salomão causa algum</p><p>constrangimento. Mas o assunto não deve ser entendido no aspecto sexual,</p><p>mas comercial. Aquela era uma sociedade em que a poligamia era admitida.</p><p>Porém, o principal fator para manter um harém numeroso era sinal de</p><p>riqueza – uma extravagância que poucos podiam manter. Finalmente, o que</p><p>deve ser entendido é que, nas sociedades da Antiguidade, não existiam as</p><p>noções de nacionalidade e de fronteiras do mundo moderno, e as relações</p><p>entre monarquias se davam entre as nobrezas dirigentes dos diferentes</p><p>reinos. Ou seja, tratavam-se, em última instância, de relações familiares.</p><p>Assim, existiam apenas duas formas de “relações exteriores”: ou pela guerra</p><p>e conquista, ou pela paz diplomática – e esta paz era selada criando um</p><p>relacionamento com aquela outra monarquia, tornando-se aparentado a ela.</p><p>Por isso, as alianças entre povos antigos eram consumados com o casamento</p><p>de um rei ou príncipe com uma princesa da outra casa dinástica. Quando se</p><p>informa que Salomão tinha 700 esposas, deve-se entender que foram</p><p>casamentos selando 700 acordos comerciais com os mais diversos povos.</p><p>Estas uniões não eram unicamente para o prazer real: tratavam-se de laços</p><p>políticos e comerciais que estavam sendo estabelecidos. Neste sentido, um</p><p>grande harém também sinalizava aos possíveis inimigos que aquele reino</p><p>tinha muitos aliados e que seria imprudente atacá-lo. O autor do texto</p><p>sagrado não acusa Salomão por ter casado tantas vezes, mas pelo fato destas</p><p>mulheres terem trazido a idolatria para dentro de Jerusalém, e ele ter</p><p>permitido isso – provavelmente para manter suas alianças e os lucros</p><p>comerciais derivados delas. É por isso que o pecado original</p><p>de Salomão</p><p>talvez tenha sido a cobiça gerada por alguém que quis acumular cada vez</p><p>mais.</p><p>O TEMPLO de SALOMÃO</p><p>O TEMPLO EM JERUSALÉM foi projetado por Davi e levado à execução por</p><p>seu filho Salomão. O local definido foi o monte Moriá, ao norte da então</p><p>Cidade de Davi, no terreno adquirido do jebuseu Araúna (2Sm 24). O</p><p>Templo seguiu o traçado original do Tabernáculo, com a mesma divisão</p><p>básica, porém com o dobro do tamanho: a nave principal (composta do</p><p>Santuário e do Santo dos Santos) media 30 metros de comprimento, com</p><p>10 metros de largura e 15 metros de altura. A essa estrutura básica foram</p><p>acrescentados um pórtico de 5 metros de vão e uma série de câmaras</p><p>laterais divididas em três andares de salas.33</p><p>Não se sabe com precisão qual a dimensão do pátio, mas acredita-se que</p><p>ele teria por volta de 50 metros x 100 metros, talvez com um muro ou</p><p>elevação delimitando sua área. No pátio, a exemplo do Tabernáculo, ficavam</p><p>o altar do holocausto, o mar de bronze e 10 carretas para transporte de água.</p><p>As grandes peças de bronze que ficavam no pátio foram confeccionadas por</p><p>um fenício, filho de uma hebreia do norte de Israel. Ele produziu as colunas</p><p>do pórtico (que seguem características claramente fenícias), o mar, a parte</p><p>metálica do altar do holocausto e as carretas. O mar de bronze era um</p><p>depósito de água com 5 metros de diâmetro, apoiado em 12 touros</p><p>agrupados em trios e que apontavam para os pontos cardeais. As peças mais</p><p>imponentes foram as colunas de bronze, com 11,5 metros de altura e</p><p>contendo capitéis que imitavam lírios cobertos por uma rede com pequenas</p><p>romãs entalhadas.</p><p>Ter um templo em Jerusalém no lugar do Tabernáculo itinerante deu</p><p>um novo significado espiritual para além da definição de um local de culto</p><p>para os israelitas. Este local de encontro com Deus em Jerusalém – a capital</p><p>escolhida e conquistada por Davi – traria maior unidade em torno da</p><p>dinastia davídica, mas também provocaria forte centralização religiosa em</p><p>Judá, consolidando sua supremacia em Israel.</p><p>O monte Moriá, ao norte de Jerusalém, onde estava o Templo, não deve ser confundido com o monte Moriá</p><p>em que Abraão tivera sua experiência de fé com Isaque. O nome é o mesmo, mas a experiência do patriarca</p><p>provavelmente se deu nas proximidades de Siquém.</p><p>Havia 10 carretas de bronze que serviam de auxílio para o mar de bronze, utilizadas para o transporte de</p><p>água para a limpeza.</p><p>Um novo grupo foi criado por Davi a partir dos levitas, que ficaram sem maiores responsabilidades com a</p><p>extinção do Tabernáculo como local de culto. Trata-se dos músicos, que tocavam diariamente no templo.</p><p>A planta do templo</p><p>Veja na página ao lado a planta baixa do Templo de Salomão, que seguia</p><p>a orientação oeste-leste, ou seja, a entrada estava voltada para o nascer do</p><p>sol. O pórtico (chamado Ulam) formava um átrio de 5 metros de vão que</p><p>antecedia o Santuário (Hekal), uma sala de 20 metros de comprimento onde</p><p>estavam 10 candelabros e 10 mesas da proposição (número 1 na planta e na</p><p>ilustração), e o altar de incenso (número 2), onde queimava-se incenso</p><p>permanentemente. O Santuário tinha acesso restrito aos sacerdotes para</p><p>dedicar a oferta diante do altar de incenso.</p><p>O Santo dos Santos (chamado Debir), a exemplo do Tabernáculo, era o</p><p>local mais sagrado do Templo, onde o sumo sacerdote podia entrar apenas</p><p>uma vez ao ano, no Dia da Expiação. Formava um cubo perfeito de 10</p><p>metros de lado (ou seja, deveria ser elevado, tendo uma escada de acesso, ou</p><p>o teto rebaixado). Nele ficava guardada a Arca da Aliança (número 4 da</p><p>ilustração), sob os olhares protetores de dois gigantescos querubins de</p><p>madeira de oliveira e revestidos de ouro (número 3).</p><p>As paredes internas do Templo eram cobertas de painéis de cedro com</p><p>relevos de querubins, palmeiras e flores abertas, tudo revestido de ouro.</p><p>Também o teto e o piso eram cobertos de ouro, formando uma</p><p>impressionante casa dourada que certamente brilhava intensamente quando</p><p>o sol batia através das altas janelas. Nas laterais foram construídos três</p><p>andares de câmaras que serviram para depósito do antigo Tabernáculo e dos</p><p>tesouros da oferta de Samuel, Saul, Abner, Joabe, Davi e seus príncipes, e</p><p>também dos despojos de guerra. Aliás, os templos da Antiguidade eram</p><p>também depósitos de tesouros, além de conterem objetos sagrados</p><p>ricamente adornados, razão pelas quais eles eram um dos principais focos de</p><p>pilhagem dos exércitos invasores.</p><p>O CISMA HEBRAICO</p><p>A MAIOR GLÓRIA E PROSPERIDADE do Estado unificado sob o reinado de</p><p>Salomão também plantou sua ruína: foi a busca incondicional da riqueza</p><p>que deu início ao processo idolátrico e à opressão econômico-social do</p><p>povo israelita.</p><p>Salomão caiu na idolatria em algum momento do seu reinado (1Re 11)</p><p>ao permitir que se construíssem altares e templos aos deuses das esposas</p><p>estrangeiras em plena Jerusalém, a cidade de Davi. Não há acordo comercial</p><p>que o justificasse, e Salomão desdenhou de suas consequências. Com a</p><p>infidelidade do rei trouxe o castigo: o reino seria tirado de Salomão e</p><p>passado a Jeroboão, um dos superintendentes de suas obras. Apenas uma</p><p>parte ficaria com os descendentes de sua dinastia em memória de Davi e</p><p>para que Deus cumprisse sua promessa.</p><p>Outro aspecto que deve ser considerado foi a modificação do sistema</p><p>que unia as tribos, operada no tempo de Salomão. Não havia mais uma</p><p>igualdade entre clãs e tribos unidas apenas pela fé em Deus: a lealdade</p><p>passou do aspecto religioso para o estatal, centralizado na capital Jerusalém</p><p>e na dinastia de Davi, o que fragilizou a unidade israelita. Acrescente-se a</p><p>isso a carga administrativa organizacional que criou diversas classes sociais,</p><p>desde os trabalhadores braçais nas funções mais baixas até uma aristocracia</p><p>militar e burocrática, chegando-se a uma profunda cisão dentro da própria</p><p>sociedade. O pior, entretanto, foi a imensa conta do luxo do palácio de</p><p>Salomão, cujos gastos elevados recaíram sobre o povo, que, além da carga de</p><p>impostos, ainda tinha que prestar serviços nas construções reais por meio da</p><p>corveia, trabalhos forçados que certamente lembraram-lhes o tempo de</p><p>escravidão no Egito. Eles não estavam mais sob o chicote do faraó, mas de</p><p>seu próprio rei.34</p><p>Foi exatamente essa a causa do conflito entre o povo israelita e o</p><p>herdeiro de Salomão, Roboão: o excesso de trabalhos forçados e de carga</p><p>tributária. Com o surgimento de uma liderança natural na figura de</p><p>Jeroboão, o jovem rei teve que enfrentar a inesperada oposição ao modo de</p><p>governar que seu pai impusera. Despreparado, sem saber ceder no momento</p><p>necessário, provocou a separação definitiva do reino de Israel e de Judá (1Re</p><p>12).</p><p>A divisão do território</p><p>A monarquia dualista de Davi e a tentativa de um grande império durou</p><p>apenas duas gerações. Após a morte de Salomão, o cisma hebraico separou</p><p>definitivamente os dois Estados, que entraram num processo de colapso,</p><p>com províncias externas se revoltando e reduzindo a dimensão do território.</p><p>A partir de então, israelitas e judeus seriam dois reinos separados, ora</p><p>inimigos, ora aliados, mas sempre independentes um do outro.</p><p>O reino de Jeroboão ficou com a maior parte das tribos, por isso</p><p>manteve o nome de Israel. Também foi chamado eventualmente de Efraim</p><p>(nome da tribo do rei e, de todas, a mais poderosa economicamente) ou casa</p><p>de José, numa alusão aos filhos deste, Efraim e Manassés. A maior força</p><p>econômica permaneceu com Israel, local das melhores produções</p><p>agropecuárias e situado na vizinhança pacífica dos parceiros comerciais da</p><p>Fenícia. O mais poderoso vizinho era o reino arameu de Damasco, com o</p><p>qual se intercalavam relações de parceria e conflito. A denominação Reino do</p><p>Norte não existe na Bíblia, é apenas uma nomenclatura criada pelos</p><p>comentadores para diferenciar os reinos.</p><p>O reino de Judá manteve o nome originário da tribo, embora ela não</p><p>estivesse só. A tribo de Benjamim gregou-se a Judá, pois ali estava situada a</p><p>capital Jerusalém. Além das duas tribos, havia ainda Simeão, já mesclada à</p><p>população judaica desde os tempos dos juízes, e a tribo de Levi. Aos levitas</p><p>que já estavam no território</p><p>(principalmente em torno do templo)</p><p>somaram-se os que migraram de Israel, insatisfeitos com a nova política</p><p>religiosa de Jeroboão. Judá tinha um território mais pobre, além de ter na</p><p>vizinhança inimigos como os filisteus, edomitas, coabitas e tribos do</p><p>deserto, sempre dispostos a invadir o território. Assim, ficou como o “irmão</p><p>pobre” do antigo reino de Salomão. Também pela posição geográfica,</p><p>costuma-se denominar Judá como Reino do Sul.</p><p>Contraste político entre os dois reinos</p><p>Os dois reinos tiveram destinos políticos bastante diversos. Em Judá</p><p>admitiu-se o princípio dinástico desde o princípio: a legitimidade do rei</p><p>sempre existiu em função da sucessão de Davi, embora as regras seriam, a</p><p>partir de então, essencialmente humanas, pois não haveria mais a unção de</p><p>um rei por parte do profeta, mas o governo legitimado unicamente pelo</p><p>direito de nascimento. Note-se que isso já aconteceu quando Davi escolheu</p><p>a Salomão como seu sucessor (1Re 1). Em Israel, sem uma dinastia forte</p><p>como a de Davi, a sucessão foi sempre problemática, gerando muitos</p><p>conflitos e golpes de estado. Foram 9 dinastias em 19 reinados, números que</p><p>demonstram a impressionante instabilidade política daquele governo. A</p><p>sucessão por hereditariedade somente foi reconhecida a partir de Onri, mas</p><p>também com percalços depois de poucas gerações.</p><p>Mesmo com dois reinos separados, o dualismo político não impediu que</p><p>ambos os súditos se considerassem um único povo: os cronistas reais</p><p>apresentaram as histórias sincronizadas e os profetas, embora radicados em</p><p>localidades geográficas e em contextos específicos, falaram a ambos os</p><p>reinos.35</p><p>O culto sincrético de Israel</p><p>Embora tenha caído na idolatria a maior parte das vezes, Judá</p><p>permaneceu no culto oficial de Jerusalém e no sacerdócio originalmente</p><p>instituído na Lei mosaica, além de manter todos os ritos e festas sacrificiais</p><p>levíticas. Em Israel aconteceu algo diferente. Jeroboão viu-se num dilema:</p><p>tinha um reino separado, mas seus súditos continuariam com a mesma</p><p>religião, tendo que se deslocar regularmente para Jerusalém a fim de</p><p>cumprir com todos os festejos e sacrifícios que envolviam o culto divino</p><p>(Páscoa, Dia da Expiação, sacrifícios regulares e voluntários, etc). Na lógica</p><p>política que Jeroboão estabeleceu, em pouco tempo seu povo retornaria para</p><p>a dinastia de Davi (1Re 12). Portanto, decidiu mudar a religião oficial de</p><p>Israel: continuava adorando ao mesmo Deus, mas adaptou o culto,</p><p>tornando-o numa espécie de sincretismo cananeizado. É importante notar</p><p>que não se tratou de uma ruptura, pois Jeroboão buscou referenciais</p><p>históricos concretos para justificar a adaptação: o primeiro deles foi o</p><p>bezerro, símbolo cananeu da divindade e que fora utilizado anteriormente</p><p>por Arão para fazer um ídolo (Ex 32). Este bezerro foi resgatado e</p><p>substituiu os querubins utilizados em Jerusalém. O rei do norte construiu</p><p>também dois santuários em locais sagrados para os israelitas: um em Betel</p><p>(local onde Jacó viu a escada de anjos subindo e descendo aos céus), e outro</p><p>em Dã (no local em que um levita estabelecera um santuário no tempo dos</p><p>juízes), ambos lugares altos importantes de Israel (veja mapas nas páginas 28</p><p>e 50). Além disso, destituiu os levitas do trabalho sacerdotal, criando um</p><p>novo sacerdócio que foi oferecido a quem se disponibilizasse. Enfim, o que</p><p>Jeroboão fez, em última instância, foi se utilizar dda fé popular para seus</p><p>fins políticos, solidificando a posição no trono. O seu ato foi mantido pelos</p><p>sucessores, o que foi chamado pelos autores bíblicos de pecados de Jeroboão.36</p><p>Capitais de Israel</p><p>A capital de Judá foi óbvia e jamais contestada: Jerusalém. Em Israel foram quatro:</p><p>1. Siquém: no local em que Abraão habitara e o local da aliança feita por Josué.</p><p>2. Penuel: construída por Jeroboão, próxima ao local em que Jacó lutara com Deus.</p><p>3. Tirza: também construída no governo de Jeroboão. Foi centro do reino até Onri.</p><p>4. Samaria: foi construída sobre um monte e tornada capital do Reino do Norte por volta de 880 a.C., no</p><p>reinado de Onri. O seu filho Acabe foi o responsável pela maior parte de sua construção. Foi tomada e</p><p>destruída pelos assírios em 722-721 a.C. No Novo Testamento, foi reconstruída e por Herodes, o Grande, e</p><p>chamada Sebaste.</p><p>OS TRÁGICOS REINOS de ISRAEL e JUDÁ</p><p>OS REINADOS TANTO DO NORTE (ISRAEL) QUANTO DO SUL (JUDÁ) foram</p><p>trágicos. O reino do Norte (Israel) foi marcado pela extrema instabilidade</p><p>política, sendo a troca de poder de dinastias sempre sangrenta: assassinato</p><p>do rei e de toda a casa real para manutenção do novo governo que emergia.</p><p>Outro fator marcante era a permanência do culto sincrético de Jeroboão –</p><p>exceto quando foi inserido o Baalismo na dinastia de Onri. O reino do Sul</p><p>( Judá) era politicamente mais estável, permanecendo sempre na dinastia</p><p>de Davi. Mas houve um momento de interferência da casa de Onri, por</p><p>meio de Atalia, que quase exterminou a descendência davídica. Outra</p><p>característica foi a intensa infidelidade religiosa, apesar de ter permanecido</p><p>no culto original estabelecido por Moisés. Foram muitos os reis que se</p><p>dedicaram à idolatria, e nem tantos os reformadores. Ambas as monarquias</p><p>acabaram em finais trágicos. Segue nesta e na próxima página a lista dos</p><p>reis após o cisma (os anos entre parênteses correspondem ao reinado).37</p><p>Reis de Israel (Norte)</p><p>1. Jeroboão (931–910 a.C.): foi superintendente de obras de Salomão e</p><p>primeiro rei de Israel. Recebeu de Deus a promessa de que teria um reino</p><p>estável e permanente, desde que fosse fiel à aliança. Mas tomou uma decisão</p><p>política de criar um novo culto sincrético para impedir as peregrinações do</p><p>povo a Jerusalém por ocasião das festas e sacrifícios religiosos. Seus</p><p>sucessores permaneceram neste erro, que o autor bíblico chama de pecado de</p><p>Jeroboão.</p><p>2. Nadabe (910–909 a.C.): filho de Jeroboão, reinou apenas dois anos e</p><p>foi assassinado, dando fim à dinastia.</p><p>3. Baasa (909–886 a.C.): autor do primeiro golpe de estado em Israel,</p><p>assassinou todos os descendentes de Jeroboão. Mas deu sequência ao culto</p><p>sincrético criado por ele.</p><p>4. Elá (886–885 a.C.): filho de Baasa, estava embriagado quando foi</p><p>assassinado pelo comandante dos carros do exército no segundo golpe da</p><p>jovem monarquia israelita.</p><p>5. Zinri (885 a.C.): o golpista conseguiu exterminar a descendência de</p><p>Baasa em uma semana; mas, em apenas sete dias de governo, foi atacado por</p><p>outro comandante, Onri, e suicidou-se, queimando o palácio.</p><p>6. Onri (885–874 a.C.): um dos principais reis de Israel. Construiu a</p><p>capital Samaria e fez importantes alianças internacionais, principalmente</p><p>com a Fenícia. Venceu Moabe e manteve a paz com Judá. Foi um tempo de</p><p>grande prosperidade material. Nos registros assírios, Israel é chamado de</p><p>casa de Onri.</p><p>7. Acabe (874–853 a.C.): filho de Onri, casou-se com Jezabel (filha do</p><p>rei de Sidom), provavelmente no acordo diplomático de seu pai com os</p><p>fenícios. Sofreu a influência da esposa, que trouxe para Israel o culto de Baal</p><p>Melcart e atacou severamente os profetas de Deus. Nesse tempo,</p><p>levantaram-se os profetas Elias e Eliseu.</p><p>8. Acazias (853–852 a.C.): filho de Acabe, manteve o Baalismo. Teve</p><p>que enfrentar uma rebelião de Moabe. Morreu de ferimentos ao cair de uma</p><p>janela em Samaria.</p><p>9. Jorão (852–841 a.C.): sucessor de Acazias, seu irmão, tamb��m era</p><p>filho de Acabe e Jezabel. Foi assassinado por Jeú, homem ungido por Eliseu</p><p>para exterminar a casa de Acabe.</p><p>10. Jeú (841–814 a.C.): fundador da mais duradoura dinastia de Israel,</p><p>promoveu um massacre de toda a casa de Acabe e dos sacerdotes de Baal, e</p><p>também mandou matar Jezabel. Mas não retornou ao culto levítico,</p><p>preferindo manter o reino no modelo sincrético que Jeroboão havia criado.</p><p>11. Jeoacaz (814–798 a.C.): filho de Jeú, administrou o reino com</p><p>dificuldade, com grande opressão dos sírios de Damasco.</p><p>12. Jeoás (797–782 a.C.): filho de Jeoacaz, estabilizou o governo e a</p><p>admiministração. Teve uma importante vitória contra Judá, tendo inclusive</p><p>saqueado Jerusalém e os tesouros do templo.</p><p>13. Jeroboão II (781–753 a.C.): mais importante rei</p><p>de Israel, levou o</p><p>reino a uma prosperidade sem precedentes desde o tempo de Salomão. De</p><p>seu tempo é a história de Jonas, que lhe ajudara nas conquistas militares. A</p><p>riqueza trouxe junto uma intensa injustiça social, fazendo com que se</p><p>levantassem os profetas Amós e Oseias.</p><p>14. Zacarias (753–752 a.C.): filho de Jeroboão II, foi assassinado após</p><p>apenas seis meses de reinado em novo golpe de estado.</p><p>15. Salum (752 a.C.): assassinou Zacarias, mas também foi morto após</p><p>apenas um mês em outro golpe.</p><p>16. Menaém (752–742 a.C.): matou Salum; acabou se tornando</p><p>tributário da Assíria, que já assolava a região.</p><p>17. Pecaías (741–740 a.C.): filho de Menaém, foi assassinado no</p><p>segundo ano de governo pelo comandante do exército, Peca.</p><p>18. Peca (739–732 a.C.): matou Pecaías em novo golpe de estado.</p><p>Depois fez aliança com a Síria contra os assírios, tentando forçar Judá a</p><p>fazer parte do levante. Teve o país invadido pela Assíria, perdendo metade</p><p>de seu território. Acabou assassinado também.</p><p>19. Oseias (731–723 a.C.): assassino de Peca, foi o último rei. Estava sob</p><p>vassalagem da Assíria, mas tentou uma revolta em aliança com o Egito. A</p><p>Assíria veio a Samaria e destruiu o reino de Israel.</p><p>Reis de Judá (Sul)</p><p>1. Roboão (931–915 a.C.): filho de Salomão com uma princesa amonita,</p><p>foi o responsável político pela divisão do reino, dada sua intransigência.</p><p>Caiu na idolatria, como o pai já havia caído.</p><p>2. Abias (914–912 a.C.): ou Abião, filho de Roboão, atacou Israel e lhe</p><p>tomou algumas cidades. Também permaneceu na idolatria.</p><p>3. Asa (911–871 a.C.): filho de Abias, foi o primeiro rei fiel a Deus,</p><p>promovendo a primeira grande reforma religiosa. Aliou-se ao rei da Síria</p><p>contra Baasa de Israel.</p><p>4. Josafá (870–849 a.C.): filho de Asa, foi grande administrador,</p><p>construtor de fortalezas e armazéns. Manteve as reformas religiosas do pai e</p><p>procurou ensinar a Lei ao povo. Seu grande erro: aliou-se com Acabe,</p><p>casando seu filho com a princesa Atalia, da casa do rei de Israel.</p><p>5. Jorão (848–842 a.C.): filho de Josafá, casou-se com Atalia, da casa de</p><p>Acabe, que trouxe o Baalismo para dentro de Judá. Jorão assassinou todos os</p><p>seus irmãos, temendo eventual oposição. Deixou o governo em situação</p><p>caótica e morreu de doença intestinal.</p><p>6. Acazias (841 a.C.): filho de Jorão e Atalia, deu continuidade ao</p><p>Baalismo em Judá. Foi morto por Jeú, o golpista do reino do Norte, quando</p><p>foi à guerra em auxílio a Jorão de Israel (evite confusão: este rei tinha o</p><p>mesmo nome que o rei anterior de Judá).</p><p>7. Atalia (841–835 a.C.): os outros irmãos de Acazias já haviam morrido</p><p>pelas mãos de inimigos estrangeiros; então Atalia promoveu um golpe de</p><p>estado assassinando todos os outros membros da casa real, incluindo seus</p><p>netos. Escapou somente o bebê Joás.</p><p>8. Joás (835–796 a.C.): salvo da morte pela tia Josaba, foi criado</p><p>escondido pelo sacerdote Joiada, no templo. Quando Joás tinha 7 anos de</p><p>idade, Joiada mandou matar Atalia e colocou o menino no trono. O</p><p>sacerdote atuou como regente, promovendo a reforma religiosa da nação.</p><p>Depois de sua morte, Joás apostatou. O rei acabou assassinado pelos</p><p>próprios servos.</p><p>9. Amazias (795–767 a.C.): filho de Joás, matou os conspiradores do</p><p>palácio. Inventou uma guerra contra Israel, da qual saiu derrotado. Foi</p><p>morto por conspiradores.</p><p>10. Uzias (766–739 a.C.): também chamado Azarias, era filho de</p><p>Amazias. Foi bom administrador, levando Judá à prosperidade. Com o</p><p>declínio temporário da Assíria, conseguiu expandir o território. Foi também</p><p>reformador religioso. Ficou leproso quando o orgulho o levou a oferecer</p><p>incenso no altar exclusivo aos sacerdotes.</p><p>11. Jotão (739–735 a.C.): tão correto quanto o Uzias, mas sem cair no</p><p>orgulho. Foi co-regente no período de lepra do pai.</p><p>12. Acaz (735–716 a.C.): filho de Jotão, foi atacado pela coalizão Israel-</p><p>Síria, que tentava uma revolta contra os assírios. Pediu auxílio ao rei da</p><p>Assíria, que atacou o reino do Norte. Caiu na idolatria de forma extrema,</p><p>sacrificando alguns de seus filhos a Moloque (o sacrifício cananeu chamado</p><p>molk, como visto na página 40).</p><p>13. Ezequias (716–686 a.C.): filho de Acaz, foi um dos grandes</p><p>reformadores religiosos, purificando o templo e tentando limpar os altares</p><p>idólatras de Judá. Teve o profeta Isaías como conselheiro. No seu reinado</p><p>ocorreu a queda de Samaria e o fim do reino do Norte, bem como a invasão</p><p>de seu território pelos assírios. Mas Jerusalém foi salva milagrosamente.</p><p>14. Manassés (696–642 a.C.): filho de Ezequias, foi o pior dos idólatras</p><p>de todos os reis de Judá. Promoveu todo tipo de culto, desde a feitiçaria e</p><p>astrologia até as abominações dos sacrifícios infantis. Acabou sendo atacado</p><p>e preso pela Assíria, quando se arrependeu e teve o reino restaurado. Tentou</p><p>fazer uma reforma religiosa ao final do governo, sem sucesso.</p><p>15. Amom (642–640 a.C.): filho de Manassés, manteve os cultos</p><p>idólatras, mas sem se arrepender. Foi assassinado pelos servos.</p><p>16. Josias (640–609 a.C.): filho de Amom, foi levado ao trono com</p><p>apenas oito anos de idade. Foi o mais piedoso rei de Judá desde Davi. Aos</p><p>16 anos de idade começou a buscar o Deus de Davi; aos 20, iniciou a</p><p>reforma do templo, quando descobriu o livro da Lei. Tentou acabar com a</p><p>idolatria em todo o território, tendo auxílio dos profetas Sofonias e</p><p>Jeremias. Morreu em batalha contra o Egito, contra quem lutou</p><p>imprudentemente.</p><p>17. Jeoacaz (609 a.C.): também chamado Salum ( Jr 22.11), filho de</p><p>Josias, foi vassalo do Egito após a morte do pai. Ficou no governo apenas</p><p>três meses e foi deportado para o Egito.</p><p>18. Jeoiaquim (609–598 a.C.): também chamado Eliaquim, era irmão de</p><p>Jeoacaz e foi colocado no trono pelo faraó. De vassalo do Egito passou a</p><p>vassalo da Babilônia, quando foi atacado por Nabucodonosor II em 605 a.C.</p><p>(quando teve início o exílio babilônico, com a deportação da nobreza</p><p>judaica). Mais tarde, tentou uma nova revolta e possivelmente morreu na</p><p>batalha durante o cerco babilônico a Jerusalém.</p><p>19. Joaquim (597 a.C.): ou Jeconias, era filho de Jeoiaquim. Reinou</p><p>apenas três meses, talvez durante o cerco de Jerusalém, ao final do qual foi</p><p>levado preso para a Babilônia junto com 10 mil cativos.</p><p>20. Zedequias (597–586 a.C.): ou Matanias, era tio de Joaquim. Último</p><p>rei de Judá, foi vassalo da Babilônia até que se rebelou com apoio do Egito.</p><p>Nabucodonosor II sitiou a cidade e a destruiu totalmente – inclusive o</p><p>templo. Zedequias viu os filhos assassinados, depois teve os olhos</p><p>arrancados e foi levado à Babilônia. Foi o fim do reino de Judá.</p><p>Observe-se nestas tabelas as diferenças entre os dois reinos: um, marcado pela manutenção da mesma dinastia</p><p>(Davi), enquanto o outro sofreu contínuos golpes e trocas de família no poder.</p><p>Se houve estabilidade política na questão sucessória, na fidelidade a Deus a situação dos reis de Judá foi</p><p>trágica. Abaixo, a tabela demonstra graficamente a constante oscilação entre idolatria e fidelidade que ocorreu</p><p>entre os monarcas judeus. Importante ressaltar que o gráfico segue a opinião dos escritores bíblicos a respeito do</p><p>rei ter feito o que “era mau” ou o que “era bom”, sempre relacionado à fidelidade aos mandamentos levíticos –</p><p>não necessariamente à habilidade administrativa.</p><p>O MOVIMENTO PROFÉTICO</p><p>OS PROFETAS ACOMPANHARAM A HISTÓRIA HEBRAICA desde seus</p><p>primórdios. Moisés foi chamado profeta, bem como Samuel e tantos</p><p>outros. Nos séculos X e IX a.C., muitos deles atuavam como conselheiros</p><p>do rei. Entretanto, a partir do século VIII, nos momentos de intensa crise</p><p>institucional e religiosa, voltaram a atenção para o comportamento</p><p>espiritual do povo e também para as nações estrangeiras. Um dos</p><p>primeiros, e talvez o mais marcante deles, foi o profeta Amós, no reino de</p><p>Israel. Juntamente com a mudança de foco profético, veio também a</p><p>introdução das profecias escritas. Essa nova geração de profetas tinha um</p><p>senso urgente do julgamento de Deus e apelava intensamente ao</p><p>arrependimento do povo e de seus governantes.</p><p>Características da profecia</p><p>As profecias podem falar do futuro, mas essa não é a única característica.</p><p>Elas preveniam o</p><p>povo de um juízo divino por causa de seus pecados,</p><p>condicionando a execução de tais castigos ao arrependimento ou não do</p><p>povo. Neste sentido, também podiam prometer a restauração depois de um</p><p>período de sofrimento, além da esperança de um tempo de justiça numa</p><p>nova terra e novo céu.</p><p>Os profetas eram inspirados divinamente, recebendo de Deus as</p><p>qualidades necessárias – mas sem violentar suas características pessoais,</p><p>principalmente no que tange ao estilo literário de cada um. Deus operava</p><p>nesses homens de diversas maneiras: por meio de uma voz audível, de um</p><p>anjo, por sonhos e visões ou outras manifestações peculiares. Eles não</p><p>tinham o Espírito Santo permanentemente, mas apenas quando a Palavra</p><p>do Senhor vinha sobre eles.</p><p>Não existiam profetas somente em Israel ou Judá. Todos os povos</p><p>antigos, exceto os egípcios, mencionam atividades destes homens. Entre os</p><p>hebreus havia grande número de profetas profissionais ligados ao culto e à</p><p>monarquia, trazendo previsões a serviço dos reis. Entretanto, existiram</p><p>outros que exerciam suas atividades à margem dessas escolas proféticas</p><p>(muitas vezes falsas e corruptas), que foram reconhecidos como</p><p>verdadeiramente autênticos.</p><p>Os profetas e o Reino de Deus</p><p>Os profetas bíblicos focalizaram sua atenção no plano do Reino de Deus</p><p>sobre o mundo inteiro – não somente para o povo separado da antiga</p><p>aliança. Suas mensagens trouxeram intensas profecias de juízo e</p><p>condenação, mas sempre com a perspectiva da promessa de um reino eterno</p><p>que um dia se estabeleceria. Os profetas, dessa maneira, uniram as</p><p>promessas nacionais feitas a Israel com uma salvação estendida a todas as</p><p>nações, resultando em um único programa de fé, o que cumpriria as bênçãos</p><p>prometidas a Abraão de que por meio dele todas as famílias da terra seriam</p><p>beneficiadas (Gn 12.3).</p><p>A divisão dos reinos e as constantes crises de pecado, tanto de Judá</p><p>quanto de Israel, levaram ao julgamento das formas históricas presentes</p><p>naquele momento – a monarquia e o povo –, mas sempre retornando à</p><p>promessa de um novo dia de bênçãos a um resto fiel a Deus. A profecia,</p><p>assim, era uma mensagem que revelava as situações específicas e os castigos</p><p>para os pecados de Judá e Israel, mas apontava sempre para um plano maior</p><p>que Deus tinha em andamento e que era independente da ação concreta do</p><p>povo escolhido, o povo hebreu.38</p><p>Para entender melhor a ideia de uma progressão de revelação em torno</p><p>da vinda de um Reino eterno, segue a lista dos profetas do Antigo</p><p>Testamento, em ordem cronológica e separados de acordo com o reino de</p><p>Israel e de Judá.39</p><p>Profetas de Israel (Norte)</p><p>1. Elias (1Re 17–21 e 2Re 1–2): seu nome significa Meu Deus é YHWH.</p><p>Levantou-se no tempo de Acabe e Acazias para combater o culto de Baal,</p><p>introduzido no reino por Jezabel. Elias estava ligado ao movimento de</p><p>escolas de profetas orais desde a época de Samuel (ele mesmo tinha diversos</p><p>discípulos). Tratou o problema com bastante violência numa luta sem igual</p><p>contra a religião que se instalou em Israel, invocando um confronto público</p><p>entre Baal e YHWH (1Re 18). O texto bíblico nos informa que ele foi</p><p>transladado ao céu em uma carruagem de fogo.</p><p>2. Eliseu (2Re 2–9): seu nome significa Meu Deus é salvação. Foi</p><p>discípulo e sucessor de Elias. Eliseu era de família abastada e parece ter</p><p>dado continuidade à tradição das escolas proféticas. Seu ministério foi</p><p>marcado por sinais e maravilhas. A propósito disso, as curas e ressurreições</p><p>aconteceram, no Antigo Testamento, somente com Elias e Eliseu.</p><p>Diferentemente de seu mestre, Eliseu teve uma atitude bem mais cordial</p><p>com os reis e trabalhou na educação religiosa do povo, estabelecendo um</p><p>circuito e atendendo em cidades diferentes em épocas específicas do ano.</p><p>3. Jonas (2Re 14.25): profetizou a respeito dos movimentos que o rei</p><p>Jeroboão II deveria fazer para assegurar vitórias militares. Sobre este profeta</p><p>há o livro com seu nome, cuja autoria é motivo de debate. Também se</p><p>questiona se o famoso profeta de Nínive é o próprio Jonas, citado em Reis,</p><p>ou se o livro seria uma parábola que tomou o profeta por protagonista. Na</p><p>história apresentada em Jonas, a graça aparece estendida ao mais hostil dos</p><p>gentios: os assírios. Jonas foi um anti-herói: um profeta nacionalista</p><p>(contrário à crítica de Amós, por exemplo), que não percebeu que Deus ama</p><p>os pecadores de qualquer povo e quer que todos se salvem.</p><p>4. Amós: não era natural de Israel, mas de Judá, onde criava gado e</p><p>cultivava sicômoros. Pregou na época de muita prosperidade do reinado de</p><p>Jeroboão II, por volta de 760 a 750 a.C., criticando o culto desvinculado das</p><p>ordenanças dadas a Moisés e reprovando especialmente a injustiça social</p><p>praticada pelas elites dominadoras. No seu tempo, os pobres eram</p><p>negligenciados e perseguidos, e a religião se tornara numa rotina sem a real</p><p>presença de Deus. Amós ressaltou a posição especial de Israel, que foi a</p><p>razão principal do julgamento mais severo (Am 3.2). Entretanto, o Deus</p><p>que traz julgamento também traz salvação: o profeta viu Deus como Senhor</p><p>de toda a terra, e por isso Ele restauraria a casa de Davi para beneficiar todas</p><p>as nações.</p><p>5. Oseias: começou a profetizar em condições semelhantes às de Amós,</p><p>prosseguindo até a queda de Samaria em 722 a.C. Oseias foi chamado para</p><p>experimentar o mesmo sofrimento que Deus sentia em relação ao seu povo:</p><p>sua profecia foi vivenciada em um casamento trágico com uma mulher que</p><p>ele amava profundamente, mas que lhe traía. Com seu exemplo, Oseias</p><p>ilustrou o amor de Deus e a prostituição espiritual em que o povo israelita se</p><p>encontrava. Se em Amós o pecado foi o rompimento da aliança, em Oseias</p><p>ele foi representado pela rejeição ao amor de Deus.</p><p>Além dos profetas mais conhecidos e cujos registros são abundantes, há</p><p>outros cuja menção bíblica é breve. Foram eles:</p><p>– Aías (1Re 11.26-40 e 14.1-19): da região de Siló, profetizou a divisão</p><p>do reino depois da morte de Salomão; depois, anunciou a Jeroboão a</p><p>destruição da sua dinastia e de Israel.</p><p>– Micaías (1Re 22.5-28): profetizou a morte de Acabe, contrariando</p><p>várias previsões de outros profetas profissionais coadunados com a</p><p>monarquia israelita.</p><p>– Obede (2Cr 28.1-15): repreendeu o rei Peca por levar prisioneiros de</p><p>Judá para Samaria.</p><p>Profetas de Judá (Sul)</p><p>1. Obadias: pouco se sabe a respeito dele, bem como da época exata de</p><p>seu ministério, sendo propostas diversas datas entre o século X e VI a.C.</p><p>Entretanto, há indícios que apontariam uma data mais antiga, colocando-o</p><p>entre os primeiros profetas escritores. Obadias profetizou contra Edom,</p><p>trazendo uma nova noção de que Deus julgaria não somente seu povo, mas</p><p>toda a terra. Foi o primeiro a mencionar o Dia do Senhor, um dia que</p><p>percorre toda a história do reino de Deus em julgamentos específicos, mas</p><p>que terá um cumprimento completo e derradeiro no final dos tempos (que a</p><p>teologia chama de escatológico).</p><p>2. Joel: também um personagem desconhecido, bem como a data em que</p><p>teria atuado. Se considerada a data mais antiga proposta, Joel aparece junto</p><p>com Obadias como um dos primeiros profetas escritores. O Dia do Senhor</p><p>também é mencionado em Joel, com característica dupla: seria um dia</p><p>terrível de julgamento, mas também de libertação para os que invocarem ao</p><p>Senhor. Joel também mencionou que o Espírito de Deus seria derramado</p><p>sobre toda a raça humana.</p><p>3. Isaías: um dos principais profetas, chamado de teólogo do Antigo</p><p>Testamento. Seu ministério iniciou no tempo do rei Uzias e foi até o final de</p><p>Ezequias, de quem foi conselheiro, atuando diretamente com a nobreza</p><p>judaica, da qual aparentemente fazia parte. A mensagem de Isaías combinou</p><p>julgamento e libertação, desespero e esperança, avisando que Judá deveria</p><p>confiar em Deus para ser liberta de seus poderosos inimigos, especialmente</p><p>a Assíria. Mas o livramento era condicionado ao arrependimento dos</p><p>pecados. Como o povo confiava de maneira irresponsável nas promessas de</p><p>Deus (achando que, por mais que pecasse, Deus jamais os castigaria), Isaías</p><p>os advertiu de que o Senhor não deixaria de destruir Judá por causa do</p><p>pecado. Foi uma mensagem</p><p>ao Mar Morto, a 400 metros negativos.</p><p>Essa grande depressão é chamada Arabá, e continua até a entrada do Mar</p><p>Vermelho. No vale do Jordão estão os lagos Hula, o de Genesaré e o Mar</p><p>Morto, correndo entre eles o rio Jordão. Nos tempos bíblicos, a maior parte</p><p>da região era coberta de bosques e animais selvagens; hoje, é completamente</p><p>árida.</p><p>4. Transjordânia: composta pela cadeia de montanhas do Antilíbano,</p><p>que corre paralela à depressão do vale do Jordão no lado Oriental. Inicia no</p><p>norte, nas montanhas do Hermom (com 2814 metros de altitude máxima) e</p><p>se estende até o sul, no altiplano de Moabe. Não são regiões tão férteis</p><p>quanto as montanhas do Líbano, mas boas para plantação de oliveiras,</p><p>vinhas, figueiras, laranjeiras e macieiras.</p><p>Os desertos de Canaã não são arenosos, como se costuma imaginar, mas</p><p>bastante inóspitos. Os principais estão agrupados no sul, conforme se</p><p>avança para a península do Sinai.</p><p>Montes de Canaã</p><p>Nas duas cadeias de montanhas (os Líbanos e Antilíbanos) estão os</p><p>famosos montes citados nos textos bíblicos. Os principais grupos de montes</p><p>do Líbano são:</p><p>1. Montes de Neftali: é o aglomerado da região norte, cujos principais</p><p>picos são o Tabor (bastante citado em Juízes, de cujo topo se avista o Lago</p><p>da Galileia e até mesmo o Hermom), o Gilboa (monte desnudo que recebe</p><p>algumas plantações de oliveiras e figueiras, onde morreram Saul e seus</p><p>filhos) e o Carmelo (este, uma cadeia de montanhas com diversas cavernas</p><p>naturais, onde atuaram Elias e Eliseu).</p><p>2. Montes de Efraim: aglomerado central, cujos principais montes eram</p><p>o Ebal e o Gerizim (de frente ao Ebal). Entre os montes ficava um pequeno</p><p>vale e a cidade de Siquém, onde Abraão e Jacó residiram. Sobre esses dois</p><p>montes foi celebrada a renovação da aliança com Deus após a conquista da</p><p>terra ( Js 8). Mais tarde, foi construído um templo pelos samaritanos no</p><p>monte Gerizim. Foi ali que Jesus conversou com a mulher samaritana ( Jo</p><p>4).</p><p>3. Montes da Judeia: grupo do sul, cujos principais montes eram o Sião</p><p>(onde estava a antiga fortaleza dos jebuseus conquistada por Davi e sobre a</p><p>qual ele construiu sua capital, Jerusalém), o Moriá (logo ao norte de Sião,</p><p>sobre o qual foi construído o Templo de Salomão) e o Monte das Oliveiras</p><p>(bem à frente da cidade, na face oriental, separado pelo vale do Cedrom; o</p><p>jardim do Getsêmane ficava na parte mais baixa do monte).</p><p>Os principais grupos do Antilíbano são:</p><p>1. Montes do Hermom: o principal grupo. Possui três picos, sendo o mais</p><p>alto de 2814 metros. É uma cadeia de grande fertilidade, sendo um dos</p><p>possíveis locais da transfiguração de Cristo.</p><p>Abaixo, vista da Palestina em corte de perfil, no sentido Leste-Oeste e Norte-Sul, para visualização das</p><p>altitudes de seu território.</p><p>2. Montes de Gileade: agrupamento central, possui boa vegetação. Nele</p><p>corre o vau de Jaboque, local da luta de Jacó quando retornou a Canaã. Faz</p><p>parte da Pereia do Novo Testamento.</p><p>3. Montes de Moabe: grupo do sul, mais seco e estéril, com uma faixa</p><p>fértil no centro. Seu mais famoso monte é o Nebo, onde Moisés avistou a</p><p>terra prometida e morreu.</p><p>Há três climas distintos em Canaã: nas montanhas é fresco e ventilado, podendo chegar a zero graus no</p><p>inverno, inclusive com neve; no litoral, a brisa marinha é constante e, portanto, não faz muito calor; e no no</p><p>vale do Jordão, onde quase não há vento (pela presença das cordilheiras em ambos os lados), o calor é</p><p>insuportável.3</p><p>Hidrografia</p><p>O sistema hidrográfico de Canaã2 é um dos mais pobres do mundo.</p><p>Possui um único e pequeno rio, o Jordão, que corre numa extensão total de</p><p>200 km, nascendo no Hermom e correndo com seu leito sempre abaixo do</p><p>nível do mar, desaguando no Mar Morto. O rio possui 107 corredeiras em</p><p>toda sua extensão, tornando impraticável a navegação. Varia entre 11 e 60</p><p>metros de largura, com uma profundidade entre 1 e 5 metros. O clima</p><p>sufocante de seu entorno não atraía moradores. Há três lagos neste conjunto</p><p>hidrográfico: o Lago Hula, o Lago de Genesaré e o Mar Morto.</p><p>O Lago Hula (ou Lago de Merom), no extremo norte, possui 8 por 6</p><p>km. Usado bastante para irrigação no seu entorno.</p><p>O Lago de Genesaré, também chamado Mar da Galileia ou de</p><p>Tiberíades, possui 20 km de comprimento por 13 km de largura, com</p><p>profundidade máxima de 48 metros, cercado de montanhas de até 700</p><p>metros de altitude. Sua água é potável, com muita vegetação nas margens e</p><p>grande quantidade de peixes de mais de duas dezenas de espécies diferentes</p><p>(a mais famosa delas é o Chromis simonis, ou peixe-de-são-pedro, ilustrado na</p><p>página 11). Ventos que sopram do norte, especialmente à noite, provocam</p><p>tempestades inesperadas e ondas de até 5 metros.</p><p>Quanto ao Mar Morto, é chamado de Mar Arabá, Mar Salgado ou Mar</p><p>da Planície na Bíblia. Está a 400 metros abaixo do nível do mar e sua</p><p>profundidade oscila entre 10 e 430 metros. Possui 78 km de comprimento</p><p>por 18 km de largura, com uma concentração de sal de 25% (para se ter uma</p><p>comparação, a salinidade do Oceano Atlântico é de 6%). Além do cloreto de</p><p>sódio, o Mar Morto concentra grandes quantidades de cloreto de magnésio,</p><p>cálcio, potássio e brometo de magnésio. Os peixes que chegam em suas</p><p>águas pelo Jordão morrem em questão de minutos. Não há saída para</p><p>qualquer lugar e suas águas acabam evaporando muito rapidamente, razão</p><p>principal da impressionante densidade de suas águas. A temperatura pode</p><p>chegar aos 50º C.</p><p>A oeste, Canaã é banhada pelo Mar Mediterrâneo, que era chamado na</p><p>Antiguidade por outros nomes: os gregos o denominavam Grande Mar; os</p><p>romanos, de Internum Mare (Mar Interno) ou Mare Nostrum (Nosso Mar).</p><p>Na Bíblia, aparece como Mar Grande ( Js 1.4), Mar Ocidental (Dt 11.24) ou</p><p>Mar dos Filisteus (Ex 23.31).</p><p>ATIVIDADES PRODUTIVAS em CANAÃ</p><p>TODOS OS POVOS DO MUNDO ANTIGO subsistiam essencialmente do</p><p>campo. Embora tenham se desenvolvido grandes civilizações com</p><p>importantes centros urbanos, toda a riqueza da antiguidade era extraída do</p><p>meio rural. Canaã não era diferente.</p><p>A produção agropecuária dependia bastante das estações do ano e das</p><p>chuvas. Como Canaã praticamente não possui rios – exceto o Jordão, quase</p><p>insignificante –, toda sua agricultura dependia exclusivamente das chuvas</p><p>periódicas.4</p><p>As chuvas temporãs ocorriam em outubro, com um significativo</p><p>aguaceiro, quando eram semeadas as primeiras culturas. Durante todo o</p><p>inverno ocorriam precipitações regulares, sendo as principais delas em</p><p>janeiro. Finalmente, as chuvas serôdias chegavam em abril, no final do</p><p>inverno, e provocavam o amadurecimento final dos cereais, inchando suas</p><p>sementes. Este ciclo natural podia se interromper, o que gerava uma grave</p><p>seca sem solução imediata, provocando necessidade e até fome na</p><p>população.</p><p>O índice pluviométrico em Jerusalém era cerca de 600 mm por ano, mas</p><p>essa quantidade cai drasticamente em direção ao Mar Morto ( Jericó, por</p><p>exemplo, tem índice de 160 mm). Mais para o sul, a agricultura era quase</p><p>impraticável, pois havia ali poucos 300 mm de chuvas. Já em direção ao</p><p>norte, a quantidade de precipitação aumenta até chegar a cerca de 1.000</p><p>mm por ano na Galileia. Entre a segunda metade de maio e a primeira</p><p>metade de outubro não ocorriam chuvas, período em que a vegetação secava</p><p>com o abafado calor do verão. As temperaturas podiam chegar até 50ºC no</p><p>sul do mar Morto.</p><p>Flora</p><p>Não é possível identificar botanicamente a flora de Canaã dos tempos</p><p>antigos, pois as palavras originais apresentadas na Bíblia são genéricas e não</p><p>permitem uma classificação precisa. Além disso, a região foi palco de</p><p>intensa atividade humana ao longo de milênios, que transformaram</p><p>significativamente a paisagem e extinguiram praticamente todas as espécies</p><p>originais. Portanto, podemos elaborar apenas uma aproximação daquelas</p><p>espécies com as que conhecemos hoje.</p><p>A principal produção era a de cereais leguminosos: trigo e cevada. O</p><p>trigo era a base da alimentação, cuja farinha era usada também nos</p><p>sacrifícios de alimentos. Uma das espécies de trigo cultivado era a espelta,</p><p>um tipo avermelhado. A cevada era menos valorizada, mas bastante</p><p>resistente e produtiva em solos</p><p>angustiante: o julgamento seria real e</p><p>avassalador, deixando apenas um remanescente fiel. Assim, o profeta viu a</p><p>promessa de um Renovo, um Ungido que brotaria do toco cortado de Judá e</p><p>que reinaria sobre todos os povos da terra, trazendo um tempo de paz e</p><p>justiça e atraindo todos para adorarem a Deus em Sião. É a concretização de</p><p>uma ideia de Messias. Em Isaías, YHWH é Deus de todo o mundo. Ao</p><p>mesmo tempo que ele falou de um reino eterno, trouxe uma surpresa</p><p>enigmática: o Servo do Senhor seria alguém que sofreria pela humanidade</p><p>inteira.</p><p>4. Miqueias: foi contemporâneo de Isaías, mas distante do centro do</p><p>poder e pregando entre o povo do interior. Miqueias falou especialmente</p><p>contra os pecados de injustiça social tanto de Judá quanto de Israel,</p><p>ressaltando a incompatibilidade de Deus com o procedimento deles.</p><p>Miqueias condenou a violência, o engano, as fraudes nos negócios e a</p><p>exploração dos pobres, tudo isso associado a um culto hipócrita e vazio.</p><p>Entretanto, com cada palavra de julgamento, intercalou promessas de</p><p>bênçãos. Nele também foi profetizada a destruição de Judá e a reunião de</p><p>um restante fiel.</p><p>5. Naum: profeta provavelmente do tempo de Manassés (um dos mais</p><p>desastrosos governos para a vida espiritual de Judá), falou contra os assírios</p><p>e sua então poderosa capital, Nínive. A profecia de Naum foi complementar</p><p>à de Jonas: Deus age com misericórdia, dando oportunidade de</p><p>arrependimento; mas enfim virá com justiça para castigar quem não se</p><p>arrepende. Assim, Naum apresentou a marcha divina para julgar com</p><p>severidade os pecados da Assíria.</p><p>6. Sofonias: pouco conhecido, e há controvérsias sobre sua origem,</p><p>podendo ter sido tanto um homem humilde como um membro da nobreza</p><p>judaica. Sofonias profetizou no tempo de Josias, possivelmente um pouco</p><p>antes do início da reforma religiosa promovida pelo monarca, pregando</p><p>sobre a universalidade do julgamento divino, ao mesmo tempo em que</p><p>predisse a conversão das nações. Sofonias ressaltou que Deus triunfaria de</p><p>maneira avassaladora, destruiria Judá, mas agiria com misericórdia, fazendo</p><p>restar na terra um grupo pequeno e humilde, apegado somente a Ele.</p><p>7. Jeremias: dos profetas mais importantes, atuou no tempo da reforma</p><p>do rei Josias, indo até o início do exílio. Era de família sacerdotal da</p><p>linhagem de Abiatar, exilado em Anatote pelo rei Salomão. Jeremias teve</p><p>um ministério muito difícil, pois sua mensagem foi rejeitada por todos – era</p><p>uma palavra marcada pelo julgamento de Deus no caso de não haver</p><p>verdadeiro arrependimento. As punições mais graves de suas profecias foram</p><p>destinadas aos seus oponentes mais ferrenhos, os monarcas e o clero de</p><p>Jerusalém, fato que lhe rendeu perseguições as mais diversas. Jeremias</p><p>profetizou sobre uma renovação da aliança que Deus estava para promover,</p><p>uma aliança que não necessitaria mais de símbolos como a Arca ou o</p><p>templo, ou de rituais religiosos, e que reuniria todas as nações ao seu povo</p><p>santo. Nessa aliança, o contrato seria pessoal, inscrito nos corações e</p><p>resultando no verdadeiro conhecimento de Deus entre os homens.</p><p>8. Habacuque: nada se sabe sobre ele; algumas hipóteses o colocam</p><p>como um cantor do templo. Sua palavra profética acompanhou o período</p><p>mais crítico da história de Judá, pouco antes da queda de Jerusalém.</p><p>Curiosamente, Habacuque não trouxe mensagem ao povo: ele travou um</p><p>diálogo com Deus a respeito de seus atos de justiça. Alarmado com a</p><p>iniquidade, injustiça social, ilegalidade e imoralidade do próprio povo,</p><p>indagou a Deus a razão pela qual Ele não castigava os maus. A solução o</p><p>perturbou: os babilônios, mais perversos ainda que seu povo, trariam o</p><p>castigo. Em meio ao turbilhão do caos, percebeu o que cabia ao justo: crer</p><p>em Deus e manter-se fiel à Sua palavra. O profeta demonstrou que uma</p><p>dúvida honesta diante de Deus era uma atitude muito mais aceitável do que</p><p>uma confiança superficial e falsa.</p><p>9. Daniel: membro da nobreza, foi levado cativo à Babilônia na primeira</p><p>leva de Nabucodonosor II (em 605 a.C.). Daniel foi o profeta que trouxe a</p><p>mensagem apocalíptica por essência do Antigo Testamento. Nas suas visões,</p><p>demonstrou a antítese entre os reinos dos homens e o reino de Deus,</p><p>presente ao longo da história e triunfante no seu final. O autor do livro de</p><p>Daniel não pretendeu registrar uma história universal detalhada, mas</p><p>empregar diversos símbolos para demonstrar o controle divino sobre os</p><p>destinos dos homens. Seu recorte foi o futuro, relacionado ao tempo do fim,</p><p>apresentando a visão do Filho do Homem, um mediador que viria da parte de</p><p>Deus e que derrotaria todos os reinos do mundo.</p><p>10. Ezequiel: membro da classe sacerdotal, também foi levado cativo à</p><p>Babilônia, possivelmente na segunda leva (de 597 a.C.). Ezequiel pregou na</p><p>Babilônia o mesmo que Jeremias pregava antes em Jerusalém: que o exílio</p><p>era resultado do pecado do povo e que a esperança de restauração dos</p><p>exilados estava relacionada ao verdadeiro arrependimento daquela geração.</p><p>Trouxe a mensagem de que um dia seria estabelecida uma fé pessoal, não</p><p>mais baseada na simples descendência de Abraão, época em que Deus seria</p><p>o verdadeiro templo e o trono dos verdadeiros crentes. Apesar do fracasso</p><p>do povo de Israel, Deus triunfaria e sua promessa continuaria firme, pois um</p><p>novo soberano viria e seria um pastor para as ovelhas, reunidas de todas as</p><p>partes do mundo no aprisco divino.</p><p>Além dos profetas de Judá mais conhecidos tradicionalmente, outros</p><p>aparecem mencionados no texto bíblico:</p><p>– Semaías (1Re 12.21-24, 2Cr 11.1-4 e 12.1-15): primeiro profeta a</p><p>atuar na Judá separada, falou a Roboão para impedir a guerra com Israel.</p><p>Também anunciou a vitória do Egito sobre Judá.</p><p>– Ido (2Cr 12.15 e 13.22): apareceu como profeta e vidente, autor das</p><p>crônicas dos reis Roboão e Abias.</p><p>– Azarias (2Cr 15): foi incentivador da reforma do rei Asa.</p><p>– Hanani (2Cr 16.1-10): repreendeu o rei Asa por ter feito aliança com</p><p>o rei da Síria e foi aprisionado por ele.</p><p>– Jeú (2Cr 19.1-3 e 20.34): repreendeu Josafá por se aliar a Acabe, de</p><p>Israel. Também apareceu como cronista real.</p><p>– Jaaziel (2Cr 20.1-30): encorajou o povo e o rei Josafá contra o ataque</p><p>de moabitas e amonitas.</p><p>– Eliezer (2Cr 20.35-37): profetizou o naufrágio da frota naval de</p><p>Josafá por causa da aliança com Acabe.</p><p>– Zacarias (2Cr 24.17-22): era filho do sacerdote Joiada (promotor do</p><p>golpe de estado que destituiu Atalia). Falou contra o rei Joás pela sua</p><p>idolatria e foi morto por ele.</p><p>– Hulda (2Re 22.14-20, 2Cr 34.22-28): profetiza de Jerusalém, foi</p><p>consultada num tempo em que atuavam Jeremias e Sofonias, o que</p><p>demonstra sua importância naquele período.</p><p>Sobre os profetas pós-exílicos Ageu, Zacarias e Malaquias, consulte a</p><p>página 80.</p><p>Neste mapa estão marcados os principais locais em que atuaram os profetas até a queda de Jerusalém.</p><p>O FLAGELO ASSÍRIO e o REINO de ISRAEL</p><p>O REINO DOS ASSÍRIOS, localizado na parte montanhosa do norte da</p><p>Mesopotâmia, manteve suas principais características desde a fase inicial:</p><p>Assur era o centro comercial, a cidade de Nínive e arredores funcionando</p><p>como uma unidade agrícola produtiva de alto rendimento, e a posição</p><p>junto aos montes Zagros como fonte das matérias primas necessárias à</p><p>construção de uma sólida economia. O fato de estarem à margem de dois</p><p>rios navegáveis (Tigre e Eufrates) ampliou ainda mais a vocação comercial</p><p>deste povo, fixado na rota comercial entre a Anatólia, Egito, Canaã e</p><p>Mesopotâmia.</p><p>O poder do governo assírio era tripartido: o rei estava no topo como o</p><p>governador de Assur, ou seja, era o representante do deus Assur entre os</p><p>homens; depois dele vinha a assembleia dos cidadãos, composta pelos ricos</p><p>comerciantes e os chefes das famílias; e em terceiro lugar, os funcionários da</p><p>administração palaciana. Havia poderosa influência dos comerciantes nas</p><p>decisões políticas e administrativas do império, o que acabou gerando uma</p><p>nobreza de função que dividia os cargos administrativos dentro do palácio e</p><p>era bastante próxima ao rei. Pela indefinição de uma política sucessória</p><p>clara, houve grande crise de poder a cada vez que falecia um governante,</p><p>seguindo-se assassinatos de pretendentes ao trono pelos próprios súditos em</p><p>vários golpes de estado.40</p><p>O exército assírio</p><p>O Império Assírio estava em constante expansão na busca de novas</p><p>terras, impostos e produtos para sua economia, razão pela qual a atividade</p><p>militar ganhou prioridade. O soldado básico usava espada e cota de malha,</p><p>compondo a infantaria. O exército se dividia em infantaria, cavalaria e</p><p>carraria. Esta última foi por muito tempo a força principal de combate,</p><p>formada por carros de ferro puxados por dois cavalos e dirigidos por um</p><p>condutor, que levava um combatente armado de lança e arco, protegido por</p><p>dois escudeiros. O carro de combate era uma poderosa arma de atropelo e</p><p>desagregação das infantarias inimigas, utilizada essencialmente em planícies</p><p>que permitiam sua velocidade.</p><p>A Assíria também possuía marinha, já que estava à margem de rios</p><p>profundos e navegáveis. Para combates navais no Mediterrâneo, empregava</p><p>mercenários fenícios. Também era comum os soldados assírios inflarem</p><p>odres para boiarem e atravessarem rios.</p><p>No auge do império, a partir do século X a.C., a cavalaria ganhou</p><p>bastante destaque. Surgiu nessa época uma nova divisão no exército: o corpo</p><p>de engenheiros, uma equipe especializada na construção de máquinas de</p><p>assalto e de rampas de acesso para sobrepujar as muralhas de cidades</p><p>sitiadas. Este equipamento era muito utilizado nos longos cercos, onde</p><p>moradores definhavam com a falta de alimentos até serem finalmente</p><p>mortos ou submetidos na invasão.</p><p>A chegada do exército assírio despertava o horror das populações.</p><p>Principalmente porque, como estratégia de conquista e dominação, diversos</p><p>reis assírios adotaram a política do terror, massacrando impiedosamente os</p><p>vencidos e castigando os sobreviventes com toda sorte de torturas:</p><p>empalamento, esfolamento, queima de populações vivas, amontoamento de</p><p>cabeças, etc.41</p><p>A administração assíria</p><p>Com o auge do império (no período Neoassírio, de 934 a 627 a.C.) veio</p><p>o ápice do aparato administrativo. O reino possuía grandes cidades com</p><p>densa população, cercadas de zonas agrícolas bastante produtivas. Seu</p><p>aparato burocrático tinha um imenso poder unificador, utilizando</p><p>estratégicas de aculturação das populações pelo expediente de deportação</p><p>em massa dos povos vencidos e repovoamento de campos e cidades com</p><p>assírios e indivíduos das diversas províncias do império. O objetivo dessa</p><p>política era destruir as identidades étnicas dos conquistados e estabelecer,</p><p>nos territórios anexados ao império, uma administração centrada na figura</p><p>do burocrata assírio e seus comerciantes. A produção agrícola local era</p><p>reorganizada, investindo em aquedutos, canais e estradas, e a colheita</p><p>recolhida nos grandes centros de depósito e distribuição.42</p><p>O Império Assírio teve diferentes capitais ao longo de sua história. A</p><p>primeira foi Assur, cidade do deus epônimo dos assírios. A segunda foi</p><p>Kalhu (Nimrud), escolhida por volta de 864 a.C. por Assurnasirpal II para</p><p>ser sede do reino. A terceira foi Dur-Sharrukin, estabelecida em 707 a.C.</p><p>por Sargão II (que morreu em batalha em 705 a.C.). Senaqueribe, seu</p><p>supersticioso filho, considerando a morte do pai um mau agouro, transferiu</p><p>a capital para Nínive logo que ascendeu ao trono (704 a.C.). As capitais</p><p>estão representadas por estrelas no mapa da página ao lado.</p><p>Os assírios e o reino de Israel</p><p>Os assírios iniciaram o avanço sobre Canaã e o Egito no tempo do</p><p>Império Neoassírio, o período de maior expansão imperialista. Foi</p><p>especialmente neste tempo que a política do terror por meio de massacre e</p><p>tortura de vencidos foi mais utilizada. Os registros de Salmaneser III (859–</p><p>824 a.C.) dão conta de que esse rei enfrentou uma coalizão de povos</p><p>cananeus da qual o rei Acabe fazia parte. Outro israelita que o enfrentou e</p><p>foi derrotado, o rei Jeú de Israel, também teria pago tributo aos assírios. O</p><p>destino de Canaã parecia selado, mas a expansão assíria sofreu um abalo</p><p>após a morte de Salmaneser, quando uma crise interna provocou a retração</p><p>do império. Isso aconteceu justamente no tempo do rei Jeroboão II, de</p><p>Israel. Com isso, as monarquias independentes de Canaã tiveram a</p><p>oportunidade de se recuperar, entre elas o reino de Israel, que viveu seu</p><p>tempo de maior prosperidade, inclusive anexando algumas províncias dentre</p><p>seus vizinhos.</p><p>O império Neoassírio voltou a ganhar força com Tiglate-Pileser III</p><p>(744-727 a.C.), que voltou com força sobre a região e obrigou o rei</p><p>Menaém (de Israel) a lhe pagar tributo em 744 a.C. Dez anos mais tarde</p><p>houve uma coalisão entre a Síria e Israel, no reinado de Peca, que tentou</p><p>forçar Acaz (rei de Judá) a fazer parte da frente que estava sendo montada</p><p>contra os assírios. Sírios e israelitas invadiram Judá para tentar destituir</p><p>Acaz do trono e colocar no seu lugar um rei mais maleável aos seus</p><p>propósitos, mas ele reagiu: retirou toda a riqueza do templo e do palácio e o</p><p>enviou para Tiglate-Pileser, pedindo socorro aos assírios (2Re 16). Com</p><p>isso, a Assíria invadiu o território dos sírios, vencendo Damasco em 732</p><p>a.C. e tomando depois o caminho do sul, quando venceu os israelitas e</p><p>iniciou a deportação de suas populações. Entretanto, o reino de Israel ainda</p><p>não fora exterminado: os assírios permitiram a continuidade da monarquia</p><p>sob o governo de Oseias, que iniciou seu reinado como tributário e</p><p>dependente de Nínive. Seriam os reis assírios subsequentes – Salmaneser V e</p><p>Sargão II – que viriam a conquistar Samaria e exilar o restante dos israelitas.</p><p>Ao lado, touro alado de Nínive, uma das imensas esculturas que eram colocadas junto às portas dos palácios e</p><p>simbolizavam os querubins e a proteção dos deuses.</p><p>Resumo dos principais períodos imperiais da Assíria:</p><p>A Assíria tem uma história longa e bastante complexa, intercalando</p><p>períodos de expansão conquistadora e retração. Apresentamos</p><p>resumidamente os principais momentos históricos:</p><p>– Reino Médio Assírio (século XIII a.C.):</p><p>Tempo de amálgama entre a tradição local com influência mitânica e</p><p>babilônica. Carros e cavalos foram convertidos no núcleo principal do</p><p>exército como um corpo organizado e disciplinado, uma arma mortífera na</p><p>guerra de conquista. Os nobres que conduziam os carros tornaram-se uma</p><p>aristocracia militar e administrativa, base da expansão militar. Os vencidos</p><p>eram tratados de maneira sádica – envolvendo castigos cruéis com</p><p>mutilações, frequentes penas capitais e trabalhos forçados – como exemplo</p><p>para intimidar futuros povos ao invadir suas terras. Os reis assírios</p><p>desenvolveram uma cultura cuja ideologia estava voltada para a guerra, sem</p><p>deixar nunca a mobilização nacional em prol do imperialismo. Este império</p><p>decaiu juntamente com os outros do Oriente Próximo por volta do ano</p><p>1200 a.C., em função da crise econômica e demográfica (muito em função</p><p>da desagregação social provocada pelo enriquecimento desproporcional da</p><p>aristocracia palaciana), agravada pelas migrações de povos oriundos do</p><p>Mediterrâneo (especialmente os Povos do Mar, descritos nas páginas 44 e</p><p>45), às quais não tiveram forças nem apoio populacional para resistir.</p><p>– Império Neoassírio (934 a 627 a.C.):</p><p>A ação imperialista reinciou pela reconquista das fronteiras originais</p><p>perdidas. Assurnasirpal II (883-859) utilizou da política do terror por meio</p><p>de violência extrema contra vencidos para evitar revoltas (como</p><p>empalamentos, populações queimadas vivas, peles de soldados arrancadas e</p><p>estendidas sobre as muralhas). Crises internas entre 827 e 745 provocaram</p><p>retração, mas o reino de Tiglate-Pileser III (744-727) retomou a expansão.</p><p>Este mudou a estratégia: ao invés de aniquilar populações e recolher</p><p>despojos, passou a incorporar os vencidos como províncias, promovendo a</p><p>deportação de boa parte das populações para separá-las de seu meio natural.</p><p>O apogeu do império se deu entre 721 e 630 a.C, com os reis Salmanasar V,</p><p>Sargão II, Senaqueribe, Asarhadon e Assurbanipal. Nesse período ocorreu a</p><p>expansão para Canaã (Sargão completou a destruição de Samaria) e a</p><p>conquista da Babilônia (Senaqueribe a destruiu e seu filho Asarhadon a</p><p>reconstruiu). O auge</p><p>do império se deu com Assurbanipal. Dado às letras,</p><p>esse rei investiu na biblioteca de Nínive, a principal do Oriente Próximo</p><p>antigo e fonte de inúmeros documentos históricos sobre a Mesopotâmia</p><p>para os pesquisadores atuais.</p><p>– Fim do Império (627 a 612 a.C.):</p><p>Após a morte de Assurbanipal em 627 a.C., diversas revoltas internas e</p><p>externas, guerras ininterruptas em todas as frentes, acompanhadas de</p><p>invasões citas do norte, enfraqueceram o reino. Aproveitando a fragilidade</p><p>do império, babilônios atacaram do sul, enquanto medos o fizeram do</p><p>Oriente. Após a queda de Assur, os invasores associaram-se para atacar a</p><p>capital Nínive, que caiu em 612 a.C. Mais detalhes estão descritos na</p><p>próxima página.</p><p>O último grande monarca assírio, Assurbanipal, investiu em bibliotecas. É de seus registros que temos as</p><p>principais versões da famosa Epopeia de Gilgamesh, uma lenda sobre a precariedade da condição humana e</p><p>a impossibilidade de adquirir a imortalidade. Na busca pela vida eterna, o rei Gilgamesh (representado ao</p><p>lado) perde seu amigo Enkidu (que morre na aventura) e encontra Utnapishtim, o sobrevivente do dilúvio e</p><p>único a atingir a vida eterna. Gilgamesh retorna a Uruque sem conseguir seu intento.</p><p>A QUEDA de SAMARIA, os ASSÍRIOS e JUDÁ</p><p>O ÚLTIMO REINADO EM ISRAEL FOI O DE OSEIAS, que desde o início atuou</p><p>como um títere dos assírios. Seu reinado durou quase uma década, ao final</p><p>da qual tentou uma revolta, contando com a ajuda do Egito. Com a</p><p>rebelião, os assírios fizeram valer sua fama de violência: assaltaram Israel e</p><p>sitiaram Samaria durante três anos. A capital finalmente tombou no</p><p>outono de 722 (ou 721) a.C. O rei assírio Salmaneser, que conquistara a</p><p>cidade, retornou para Nínive, mas morreu em dezembro do mesmo ano. O</p><p>sucessor, Sargão II, declarou ter capturado a cidade de Samaria, mas</p><p>provavelmente tenha sido apenas o que deportou os israelitas restantes e</p><p>deu fim definitivo ao reino de Israel.</p><p>A deportação dos israelitas</p><p>Boa parte dos israelitas foram deportados para as regiões de Hala</p><p>(cidade próxima a Nínive), Gozã (uma região localizada ao oeste da Assíria,</p><p>já bem próximo à Síria) e diversas cidades dos medos (cuja capital era</p><p>Ecbátana), naquele momento um reino sem muita projeção no Oriente</p><p>Próximo.43 A política assíria procurava impossibilitar as revoltas pela</p><p>mistura de povos – que desta maneira não teriam afinidades suficientes para</p><p>promover rebeliões –, razão pela qual trouxe para o território de Israel</p><p>exilados das regiões da Babilônia e da Síria, a fim de repovoar as cidades e</p><p>campos da região. O antigo território de Israel se tornou moradia de</p><p>diversos povos: os sobreviventes israelitas que permaneceram, somados às</p><p>outras etnias trazidas pelos assírios para ocuparem as terras. Estava</p><p>constituído de muitas cidades destruídas e campos desolados que precisavam</p><p>ser reconstruídos pelos moradores que, além da dificuldade de tal situação,</p><p>ainda precisavam se submeter à pesada e centralizadora administração</p><p>assíria.</p><p>As consequências religiosas foram profundas. O reino de Israel já vivia</p><p>no sincretismo a partir de seu primeiro rei ( Jeroboão), misturando o culto</p><p>de YHWH com práticas cananeias. A essa mistura original, possivelmente</p><p>ainda praticada pelos israelitas que restaram na terra, foi acrescentada a</p><p>religiosidade dos povos que foram deslocados para Israel, multiplicando</p><p>ainda mais a crença sincrética. Dessa amálgama surgiriam, ao longo dos</p><p>séculos seguintes, o povo do tempo de Jesus chamado de samaritano.</p><p>O imperialismo assírio e os judeus</p><p>Com a queda de Samaria, a fronteira assíria se estendeu até os limites de</p><p>Judá. A estratégia de Acaz de invocar o poder assírio para protegê-lo dos</p><p>inimigos próximos surtiu efeito para conter o avanço dos inimigos sírios e</p><p>israelitas, mas trouxe o perigo imperialista para suas portas. A partir de</p><p>então, o reino de Judá estava ilhado entre a feroz Assíria e o ambicioso</p><p>Egito, que mantinha viva sua pretensão sobre Canaã. Após a morte de</p><p>Sargão II, que foi um dos maiores conquistadores do império, explodiram</p><p>muitas revoltas nas províncias, as quais precisaram ser imediatamente</p><p>esmagadas por Senaqueribe (705-681 a.C.). Entre os revoltosos, estava o</p><p>sucessor de Acaz, o rei Ezequias de Judá.</p><p>Em 701 a.C., Senaqueribe invadiu Judá com um poderoso exército,</p><p>tomando e destruindo todas as cidades fortificadas dos judeus (46 cidades ao</p><p>todo, segundo registros assírios). Essa invasão produziu um número de cerca</p><p>de 200 mil cativos que foram espalhados no Império Assírio da mesma</p><p>maneira que fora feito com os israelitas.44 Conquistadas as cidades</p><p>fortificadas (fato mencionado também na narrativa bíblica), Senaqueribe</p><p>dirigiu-se para Jerusalém, onde o rei Ezequias estava isolado.</p><p>O imperador exigiu a rendição de Ezequias, zombando de YHWH em</p><p>carta enviada pelos seus embaixadores, segundo o relato bíblico. No</p><p>episódio, o profeta Isaías recomendou ao rei que confiasse em Deus, não</p><p>aceitando os termos de rendição. Jerusalém não caiu na mão dos assírios,</p><p>que foram destruídos milagrosamente pela mão divina, segundo o autor de</p><p>Reis (2Re 19). Os registros assírios não mencionam o episódio, mas os</p><p>afrescos do palácio de Senaqueribe daquela invasão representam apenas a</p><p>tomada de Laquis em Judá, sem qualquer referência a Jerusalém, capital do</p><p>reino. O rei Senaqueribe, por sua vez, retornou para Nínive, vindo a ser</p><p>assassinado pelos próprios filhos em 681 a.C.</p><p>O reino de Judá sobreviveu após Ezequias, mas de maneira bastante</p><p>precária. O interior estava em boa parte destruído e uma parcela da</p><p>população, deportada. A capital Jerusalém recebeu novas muralhas</p><p>(ampliadas por Acaz, tendo continuidade com Ezequias e Manassés) para se</p><p>precaver da assolação imperialista. O templo de Salomão não guardava a</p><p>glória de outrora: teve suas portas fechadas e o altar de bronze removido por</p><p>Acaz (2Re 16.10-18); depois, foi reaberto por Ezequias, mas severamente</p><p>alterado por Manassés, que colocou diversos ídolos no seu pátio e até</p><p>mesmo dentro do Santo dos Santos (2Re 21.4-5). Manassés também foi</p><p>atacado pela Assíria, possivelmente por Esar-Hadom e Assurbanipal (668–</p><p>627 a.C.), a quem o rei judeu teve que pagar pesados tributos. Em dado</p><p>momento, ele foi preso e deportado para a Babilônia (segundo o texto</p><p>bíblico, como castigo pela profunda idolatria a que submetera seu reino),</p><p>mas pós algum tempo foi restaurado no trono. O filho de Manassés, Amom,</p><p>também permaneceu como vassalo da Assíria, situação que perdurou até o</p><p>início do reinado de Josias, o reformador. Foi neste reinado que ocorreu a</p><p>impressionante queda da Assíria, livrando Judá da opressão e inaugurando</p><p>um tempo em que as esperanças de liberdade se renovaram.</p><p>A queda do Império Assírio: um escândalo histórico</p><p>Alguns estudiosos consideram a queda do Império Assírio um escândalo</p><p>histórico, dada a rapidez com que isso se deu e a dimensão surpreendente da</p><p>derrota.45 Após a morte de Assurbanipal houve um período de anos</p><p>obscuros (626 a 623 a.C.), dos quais pouco se sabe. O fato é que ocorreu</p><p>uma crise sucessória que provocou a guerra interna pelo trono, contexto</p><p>aproveitado pelas diversas províncias para se revoltarem. As rebeliões</p><p>explodiram em todo o império, configurando um estado permanente de</p><p>guerra interna e externa. As incursões dos assírios para conter os revoltosos</p><p>na Babilônia resultaram em derrota, seguindo-se o contra-ataque babilônico</p><p>para dentro do território assírio. Ao mesmo tempo, invasores citas e</p><p>cimérios, oriundos das estepes mais ao norte, além dos medos, atacaram o</p><p>reino debilitado. Diversas cidades assírias foram caindo diante de medos e</p><p>babilônios, entre elas Assur, destruída em 614 a.C. Babilônios e medos se</p><p>uniram ao final para a destruição de Nínive em 612 a.C. Finalmente, em</p><p>609 a.C., as últimas resistências assírias foram exterminadas. Assim, caiu o</p><p>mais temido império do Oriente Próximo antigo para nunca mais se</p><p>levantar como unidade política independente. O profeta judeu Naum</p><p>expressou muito bem o alívio que os povos do mundo inteiro sentiram:</p><p>Todos os que ouvirem a tua fama baterão palmas</p><p>sobre ti; porque, sobre quem não</p><p>passou continuamente a tua maldade? (Na 3.19).</p><p>Amom, Moab e Edom foram vencidos pelo assírio Asarhadon em 680 a.c., mas não foram mantidos tempo</p><p>suficiente para se tornarem províncias do império. Senaqueribe conquistou a Fenícia (exceto Tiro) em 701</p><p>a.C. No mesmo ano, tomou 46 cidades de Judá em seu avanço contra os Egípcios. Em 721, Samaria foi</p><p>conquistada, dando fim ao reino de Israel. Judá permaneceu independente, embora pagando tributo e</p><p>homenagem à Assíria. Judá não experimentou a destruição completa e deportação porque o império ruiu antes</p><p>que pudesse realizar com os judeus o que fizera com Israel. É bastante possível que Judá tenha pensado ser este</p><p>um livramento divino; o fato é que, segundo os profetas, Deus enviaria outro povo mesopotâmico para os</p><p>castigar: os babilônios.</p><p>A BABILÔNIA e a QUEDA de JERUSALÉM</p><p>A BABILÔNIA ERA UMA CIDADE CONSIDERADA SAGRADA pelos</p><p>mesopotâmios desde tempos muito antigos. O significado do nome da</p><p>cidade é porta dos deuses. Teve seus momentos imperiais, como no tempo</p><p>de Hamurabi (século XVIII a.C.) e na dinastia cassita (século XV), mas o</p><p>auge se deu no Império Neobabilônico (626 a 539 a.C.) dos reis</p><p>Nabopolassar e Nabucodonosor II (Nabucodonosor é Nabu-Kudurri-usur</p><p>em babilônico).</p><p>A economia babilônica era essencialmente agrária, aproveitando a alta</p><p>produtividade de cereais das terras próximas aos rios, os palmares das orlas</p><p>dos canais e as terras de pastagens das colinas para criação de gado. No auge</p><p>imperial de Nabucodonosor II, as cidades do sul da Mesopotâmia se</p><p>recuperaram das intensas crises que passaram ao longo dos séculos</p><p>anteriores (especialmente no XII), mas muito mais em função da entrada de</p><p>riqueza dos saques de guerra e dos impostos cobrados dos conquistados do</p><p>que pela própria estrutura interna. Predominaram na Babilônia os grandes</p><p>latifúndios dos templos e dos palácios reais localizados nas cidades, com</p><p>intensa produção no seu entorno. Mas os espaços entre aquelas metrópoles</p><p>ficaram reduzidos a desertos, sendo a propriedade do pequeno camponês</p><p>praticamente extinta.</p><p>A rápida ascensão do império</p><p>Com a crise interna do Império Assírio (veja nas páginas anteriores), a</p><p>Babilônia governada por Nabopolassar revoltou-se e conseguiu retomar os</p><p>territórios da Baixa Mesopotâmia. Partiu então para o norte, onde expulsou</p><p>os assírios e invadiu seu território. Ao mesmo tempo, os medos de Ciaxares</p><p>já avançavam pela fronteira Oriental e destruíram Assur. Medos e</p><p>babilônios uniram-se no final para sitiar e destruir Nínive (612 a.C.).</p><p>Com a queda da Assíria, os medos conquistaram as terras altas do</p><p>Oriente e da Anatólia, enquanto os babilônios (então governados pelo filho</p><p>de Nabopolassar, Nabucodonosor II) estenderam seus domínios por toda a</p><p>Mesopotâmia, Síria e Palestina. Seguiram-se algumas décadas de</p><p>estabilização internacional: o Egito encerrado nas suas fronteiras africanas,</p><p>enquanto Média e Babilônia permaneceram em paz e sem se agredir</p><p>mutuamente, e os demais reinos fracos demais para tentar qualquer tipo de</p><p>reação.46 Tal condição de paz imposta pelas armas justifica a postura menos</p><p>bélica dos caldeus em relação aos assírios: ao invés de investir em uma</p><p>progressiva ampliação militar, o imperador teve seu foco na urbanização de</p><p>suas cidades (especialmente Babilônia), restauração dos templos e na</p><p>magnitude das festas religiosas. As guerras eram principalmente realizadas</p><p>para sufocar revoltas, não para ampliar territórios. Nabucodonosor II</p><p>empreendeu intensas obras em Babilônia, entre elas a construção do</p><p>Etemenanki (um imenso zigurate de 90 metros de lado e 90 metros de</p><p>altura, ilustrado na página 23) e o Esagila (templo de Marduk),</p><p>transformando-a na maior cidade do mundo de então.</p><p>Acima, Porta de Ischtar, via de entrada das maiores procissões religiosas da cidade, inclusive a do Ano Novo</p><p>Mesopotâmico.</p><p>A religiosidade neobabilônica</p><p>A especulação teológica mesopotâmica nunca tinha sido unificada. Com</p><p>a ascensão do Império Neobabilônico, as tradições foram reunidas e</p><p>reinterpretadas, colocando Marduk, deus principal de Babilônia, no topo do</p><p>panteão. A grande quantidade de deuses se refletia no urbanismo da grande</p><p>cidade: no auge, Babilônia possuía mais de 100 templos, 900 capelas de</p><p>deuses diversos e 180 altares específicos à deusa Ishtar.</p><p>Na crença babilônica, a ordem cósmica era continuamente perturbada</p><p>pelos pecados dos homens, razão pela qual devia ser regenerada anualmente.</p><p>Para manter essa ordem, o mundo era simbolicamente recriado na festa do</p><p>Akitu (o Ano Novo babilônico), comemorado durante 12 dias no início do</p><p>mês de Nisã. Na cerimônia, lamentava-se a morte da vegetação e a</p><p>felicidade pela volta da primavera, recitando-se o Enuma Elish (o poema da</p><p>criação, que significa Quando do alto). Ocorria ainda uma procissão das</p><p>estátuas dos deuses pela cidade e a encenação da luta de Marduk contra</p><p>Tiamat, a partir do corpo da qual ele criou a terra e assegurou a si mesmo a</p><p>primazia entre os deuses. Havia um episódio interessante no ritual: o rei se</p><p>apresentava no templo de Marduk, onde era despojado de seu cetro e</p><p>insígnias reais. Então era esbofeteado pelo sacerdote, que o fazia se prostrar</p><p>diante da estátua, garantindo ao deus que tinha governado com justiça. Se o</p><p>rei chorasse com a bofetada, era considerado um bom presságio. Ao final da</p><p>festa, Marduk e os demais deuses retornavam para seus templos.47</p><p>Os babilônios e os judeus</p><p>O império da Babilônia surgiu a partir da derrocada da Assíria durante o</p><p>reinado de Josias, em Judá. Foi uma ascensão tão repentina que o povo</p><p>judeu não deu ouvidos às profecias de Jeremias, que anunciava a vinda dos</p><p>caldeus (babilônios) para julgar seus pecados. Talvez achassem impossível</p><p>que um povo tão longínquo pudesse submeter suas terras. Na verdade, Judá</p><p>era um pequeno reino sobrevivente no meio de dois gigantes que voltariam</p><p>a lutar pela supremacia: a Babilônia e o Egito. Foi o que ocorreu com Josias.</p><p>O jovem rei executava uma tentativa de reforma religiosa (a mais</p><p>importante já realizada pelos reis de Judá) quando o faraó passou pelo seu</p><p>território para enfrentar os babilônios. Josias enfrentou os egípcios numa</p><p>batalha que não era sua, vindo a morrer em combate no ano de 609 a.C.</p><p>(2Cr 35.19-27) e colocando o reino de Judá na condição de vassalo do</p><p>Egito.</p><p>Os reis judeus subsequentes foram muito fracos e não tiveram como</p><p>lidar com a situação caótica. O reino de Jeoiaquim (609-598 a.C.) foi</p><p>invadido por Nabucodonosor em 605 a.C. (logo depois da batalha de</p><p>Carquemis, da qual saiu vitorioso), levando os primeiros cativos de Judá – a</p><p>descendência real, entre ela, Daniel e seus amigos. Depois disso, o rei tentou</p><p>outra revolta, o que trouxe novamente os exércitos babilônicos para</p><p>Jerusalém. Jeoiaquim possivelmente tenha morrido durante o cerco à cidade,</p><p>assumindo em seu lugar seu filho Joaquim. Este reinou apenas três meses,</p><p>quando os babilônios conseguiram invadir e tomar Jerusalém (em 597 a.C.),</p><p>levando dessa vez 10 mil deportados. Nabucodonosor colocou em Judá o rei</p><p>Zedequias, que reinou 11 anos, mas o qual também acabou se unindo ao</p><p>Egito e se revoltando. Foi nesse ano (586 a.C.) que o imperador da</p><p>Babilônia veio e destruiu completamente Jerusalém e o templo. Era o fim do</p><p>reino de Judá.</p><p>O que restou de Judá foram escombros. As cidades estavam destruídas,</p><p>campos abandonados pela administração das cidades, os pobres camponeses</p><p>espalhados pelo território tentando sobreviver da maneira que podiam. A</p><p>nobreza inteira fora levada cativa para a Babilônia, assim como a classe</p><p>sacerdotal e todos os letrados (os escribas) para trabalharem na</p><p>administração do império babilônico. Muitos judeus com algum recurso</p><p>financeiro, que não foram levados cativos à Babilônia, se refugiaram no</p><p>Egito, inclusive levando Jeremias com eles. A partir de então, diversas</p><p>comunidades judaicas se desenvolveram naquelas terras africanas,</p><p>principalmente em cidades como Heliópolis e Elefantina. Tinha início a</p><p>diáspora judaica.</p><p>Principais períodos da Babilônia</p><p>A Babilônia era uma cidade muito antiga,</p><p>considerada sagrada e com</p><p>uma história longa, mas com poucos períodos de cunho expansionista,</p><p>especialmente no tempo de Hamurabi e Nabucodonosor II. São estes os</p><p>principais períodos:</p><p>– Império de Hamurabi (1792-1759 a.C.)</p><p>Hamurabi era amorreu e foi o primeiro a empreender um processo de</p><p>concentração regional na Babilônia e dar a ela a designação de país,</p><p>tornando a cidade herdeira do antigo reino de Suméria e Acádia e se</p><p>contrapondo ao poderio assírio do norte. Ocorreu uma centralização do</p><p>palácio em prejuízo da pequena agricultura familiar dos camponeses, bem</p><p>como diminuição do poder do templo. Foi deste tempo o início do processo</p><p>de centralização de Marduk, o deus de Babilônia, no panteão</p><p>mesopotâmico, bem como a elaboração do Enuma Elish (o hino da criação</p><p>do mundo, veja descrição na página ao lado). Hamurabi também ficou</p><p>famoso pelo código de leis que leva seu nome (baseado no olho por olho, dente</p><p>por dente), uma das mais antigas tentativas de unificar a legislação junto aos</p><p>súditos de todo o reino. Apesar da pujança do primeiro império de</p><p>Babilônia, sua predominância foi curta: o sucessor de Hamurabi enfrentou</p><p>rebeliões e o poder da dinastia decaiu até a invasão dos hititas por volta de</p><p>1600 a.C.</p><p>– Babilônia Cassita (século XV ao XII)</p><p>Invasores cassitas (não se sabe se com violência ou pacificamente) se</p><p>apoderaram do reino em tempo de queda econômica. Foi um período que</p><p>representou a continuidade da cultura local, pois os reis cassitas adotaram o</p><p>modo de vida dos babilônios e restauraram antigos templos destruídos –</p><p>embora tivessem também seus próprios deuses. Naqueles séculos surgiram</p><p>as técnicas de combate com carros e cavalos, gerando uma casta de</p><p>guerreiros. As cidades eram habitadas por funcionários dos templos e os</p><p>campos estavam submetidos às organizações do templo e do palácio.</p><p>– Império Neobabilônico (609-539 a.C.)</p><p>O império que se ergueu no tempo de apenas dois reis – Nabopolassar e</p><p>Nabucodonosor II – viu um tempo de extrema prosperidade. Mas foi</p><p>efêmero, durando apenas 70 anos. A capital Babilônia tornou-se uma</p><p>imensa metrópole, ostentando toda a riqueza pilhada em toda a</p><p>Mesopotâmia, Síria e Canaã. Após a queda do império em 539 a.C.,</p><p>quando Ciro apoderou-se do reino praticamente sem encontrar resistência,</p><p>Babilônia permaneceu com o status de cidade imperial. Quase dois séculos</p><p>depois, em 330 a.C., Alexandre, o Grande, conquistou os persas e</p><p>transformou a cidade na sua capital imperial. No tempo do Império</p><p>Romano, toda a região perdeu importância com a queda do comércio fluvial,</p><p>perdendo população até ser abandonada.</p><p>O EXÍLIO BABILÔNICO</p><p>O EXÍLIO DOS JUDEUS NA BABILÔNIA não ocorreu de uma única vez, nem</p><p>foi deportação de grande massa populacional (como ocorreu no caso de</p><p>Israel). Foram três levas de nobres e elite intelectual conduzidas à</p><p>Babilônia nas guerras de conquista, e uma quarta em tempo posterior:</p><p>1. Em 605 a.C.: durante o reinado de Jeoiaquim, quando</p><p>Nabucodonosor II invadiu Judá e levou cativa a descendência real. Entre</p><p>eles, estava um jovem nobre, o profeta Daniel e seus amigos (2Cr 36.6-7 e</p><p>Dn 1.1-4). Nesta ocasião, a monarquia de Judá manteve ainda sua</p><p>soberania, mas tornou-se vassala e tributária à Babilônia.</p><p>2. Em 597 a.C.: ao final do reinado de Jeoiaquim e início do de Joaquim,</p><p>quando os judeus se revoltaram com apoio do Egito e Nabucodonosor</p><p>atacou Jerusalém, levando 10 mil cativos e todos os tesouros do templo.</p><p>Nessa leva, possivelmente tenha sido deportado o sacerdote Ezequiel (2Re</p><p>24.14-16). A monarquia ainda permaneceria: Nabucodonosor colocou no</p><p>trono Matanias, tio de Joaquim, a quem deu o nome de Zedequias.</p><p>3. Em 586 a.C.: ocasião da última revolta de Judá, sob o reinado de</p><p>Zedequias. Desta vez, Nabucodonosor veio a Jerusalém e a destruiu</p><p>totalmente, inclusive as muralhas e o templo; foram levados 832 cativos</p><p>(2Re 25.1-22 e Jr 52.29).</p><p>4. Em 581 a.C.: foi levada mais uma leva de cativos, um grupo de</p><p>sobreviventes que perambulava pelos destroços de</p><p>Jerusalém.Nabucodonosor levou 745 presos quando passava pela cidade,</p><p>voltando de uma incursão contra o Egito ( Jr 52.30).</p><p>Os profetas no exílio</p><p>No exílio da Babilônia profetizaram dois dos principais profetas de Judá:</p><p>Daniel e Ezequiel. Não por acaso, ambos são considerados autores</p><p>escatológicos, tratando sobre o fim de todas as coisas e a vitória final do</p><p>reino de Deus sobre os reinos dos homens. O livro de Daniel pode ser,</p><p>inclusive, considerado uma espécie de Apocalipse do Antigo Testamento.</p><p>Saiba mais sobre eles na página 65.</p><p>RESTAURAÇÃO</p><p>O tempo da restauração de Judá na sua terra foi marcado por intensas</p><p>transformações internacionais. Babilônia foi o centro do mundo próximo</p><p>oriental por apenas 70 anos, ao final dos quais os judeus foram repatriados,</p><p>quando ergueu-se o Império Persa, que avançou sobre todo o Oriente</p><p>Próximo. O retorno dos judeus a Jerusalém assinala o final histórico do</p><p>Antigo Testamento e o início do tempo que os teólogos costumam chamar</p><p>Período Interbíblico – os 400 anos entre os dois testamentos da Bíblia</p><p>cristã. Enquanto isso, florescia no Egeu a cultura grega, que atingiu o ápice</p><p>nos séculos V e IV a.C. (o período clássico), pouco depois de resistirem à</p><p>tentativa de invasão dos persas. Mas o que poderia significar a ascensão das</p><p>cidades da Hélade acabou em guerras pela supremacia regional, o que as</p><p>enfraqueceu e permitiu a ascensão dos macedônicos de Felipe II. Seu filho,</p><p>Alexandre, conquistou a Pérsia, mas o reino se dividiu após sua morte</p><p>prematura. Os frágeis reinos de Canaã ficaram à mercê dos invasores,</p><p>pertencendo inicialmente ao império grego dos Ptolomeus (sediados no</p><p>Egito), mas depois caindo nas mãos dos Selêucidas (oriundos da Síria).</p><p>Durante esses séculos, outro império começou a se levantar na Europa: o</p><p>dos romanos, que tiveram no século III o início de sua rápida ascensão. Foi</p><p>na primeira metade do século II que ocorreu a revolta dos Macabeus em</p><p>Judá e o último tempo de independência dos judeus. Estes caíram ante os</p><p>romanos que, no final do século I a.C., já dominavam todo o entorno do</p><p>Mediterrâneo.</p><p>TEMPO de MUDANÇAS</p><p>MUITAS MUDANÇAS ocorreram no contexto do Oriente Próximo enquanto</p><p>os judeus estavam na Babilônia. Desde a queda da Assíria (em 612 a.C.), o</p><p>poder oriental fora partilhado de forma relativamente estável entre</p><p>babilônios, lídios, egípcios e medos.</p><p>A Babilônia vivera seu auge durante o reinado de Nabucodonosor II, o</p><p>que durou até sua morte em 562 a.C. O processo sucessório do grande</p><p>conquistador foi problemático: diversos governadores fracos e incapazes</p><p>oscilaram no trono, abalando seriamente as estruturas administrativas do</p><p>império. Os problemas perduraram até Nabonido (555 a 539 a.C.) ascender</p><p>ao poder, um nobre do corpo de funcionários de Nabucodonosor. Mas</p><p>Nabonido desagradou profundamente o clero de Babilônia ao abandonar o</p><p>culto de Marduk e dedicar-se a Sin, deus-lua de Sippar. Depois, decidiu</p><p>deixar a capital pra viver dez anos em Taima, nordeste da Arábia,</p><p>abandonando as festividades de Ano Novo tão importantes para os</p><p>babilônios, e deixando no governo da capital o seu filho Bel-shar-usur (o</p><p>Belsazar da Bíblia).</p><p>A Lídia foi um reino que ocupou gradativamente quase metade da</p><p>Anatólia após a queda do Império Hitita, ainda no século XII a.C. Houve</p><p>tentativas por parte dos medos de dominá-los, mas as batalhas terminaram</p><p>num impasse, vindo ambos os povos a selarem a paz por volta de 585 a.C. A</p><p>Lídia atingiu o auge de seu poder durante o reinado de Creso (560–546</p><p>a.C.), em Sardes, uma poderosa cidade comercial, quando estendeu seu</p><p>domínio sobre todas as cidades jônicas da costa do Egeu.</p><p>O Egito permaneceu cerrado em suas fronteiras africanas, embora</p><p>tentasse sempre avançar sua influência em direção à Ásia, especialmente</p><p>sobre Canaã.</p><p>A Média era a região habitada por um povo oriundo de tribos indo-</p><p>iranianas que falava uma língua aparentada com os persas. Ambas as etnias</p><p>eram formadas por criadores de animais e cavaleiros, mas havia</p><p>predominância política dos medos sobre os persas. Após o saque de Nínive</p><p>em 612 a.C., o rei Ciaxares,</p><p>da Média, reinou durante 35 anos,</p><p>conquistando as extensas terras do planalto iraniano até a fronteira com a</p><p>Índia, estabelecendo um império extraordinário.48</p><p>A invenção da moeda</p><p>Até o século VII a.C. não existiam moedas. Toda a troca comercial era feita diretamente em produtos ou em</p><p>lingotes de prata. A invenção da moeda é atribuída aos lídios, durante o século VII, embora também se credite</p><p>o feito ao rei Creso, de Sardes. As primeiras moedas foram produzidas de eléctron (liga natural de ouro e</p><p>prata). O imperador persa Dario I cunhou moedas de ouro, que foram denominadas dáricos (ao lado, no</p><p>alto). Mais tarde, os gregos passariam a cunhá-las em prata, como a ilustrada ao lado, com a efígie de</p><p>Alexandre, o Grande.</p><p>Os judeus no cativeiro da Babilônia</p><p>O antigo reino de Israel, que foi levado cativo pela Assíria, acabou</p><p>deixando de existir como nação e descendência, diluindo-se entre outros</p><p>povos. Com Judá, isso não ocorreu. Embora tenha continuado a ocorrer o</p><p>casamento com outras etnias, as colônias de judeus mantiveram as tradições</p><p>religiosas, inclusive com proselitismo religioso e incorporação de</p><p>convertidos ao povo judaico. As primeiras comunidades fora do território da</p><p>Judeia foram criadas no Egito, onde foram bem recebidas e mantiveram</p><p>vida próspera – especialmente em Elefantina, Heliópolis e Leontópolis.</p><p>Também migraram judeus para Moabe, Edom e Amom, numa tendência de</p><p>formação de uma comunidade de fé entre as nações que já se mostrava</p><p>irreversível.</p><p>No cativeiro babilônico, os judeus também tiveram oportunidade de</p><p>levar uma vida tranquila. Diferente do que se costuma imaginar, o exílio</p><p>babilônico não foi de grandes contingentes populacionais, mas apenas de</p><p>um grupo seleto retirado dentre a elite política e intelectual de Jerusalém,</p><p>que foi transferido para Babilônia a fim de trabalhar na estrutura burocrática</p><p>do império. Não se deve imaginar judeus trabalhando como escravos em</p><p>obras monumentais, como fora no Egito antes do êxodo, por exemplo; eles</p><p>devem ser vistos mais como presos políticos a serviço de um rei estrangeiro.</p><p>Podiam viajar, ter propriedades e negócios lucrativos, e mesmo enriquecer</p><p>em solo mesopotâmico. A aflição dos exilados se dava muito mais pelas</p><p>saudades da pátria e pelo orgulho ferido do que no sofrimento físico ou</p><p>econômico.49</p><p>Politicamente, Judá nunca mais seria a mesma. Não tinha mais um</p><p>governo, estava sujeita a outras autoridades seculares e comportava-se como</p><p>uma comunidade religiosa vivendo dentro de outras sociedades. A própria</p><p>língua mudou: no convívio com diversos povos do império, passaram a falar</p><p>o aramaico, a língua internacional utilizada na diplomacia. Nas outras</p><p>localidades mundo a fora, outras línguas locais foram sendo assimiladas.</p><p>Religiosamente, é possível que os judeus tivessem a impressão de que</p><p>YHWH era mais fraco que os deuses estrangeiros. Na mente de muitos,</p><p>atuava em Judá e não podia ser cultuado onde estavam. Por isso, a palavra de</p><p>um profeta como Ezequiel foi muito importante, pois na sua profecia uma</p><p>nova realidade se revelava: Deus não estava limitado a uma cidade ou</p><p>templo. Tal concepção pode ter levado, de certa maneira, ao surgimento das</p><p>primeiras sinagogas como lugar de oração.50 Também não existia mais um</p><p>templo nem a possibilidade de realizar sacrifícios, então o cuidado com a</p><p>Lei, especialmente na guarda do sábado e da circuncisão, ganhou</p><p>proporções significativas, já que eram esses elementos davam a identidade</p><p>cultural aos judeus, uma vez que a diferenciação de outros povos já não se</p><p>daria mais no nível étnico.</p><p>O fim do equilíbrio</p><p>O poder internacional estava relativamente equilibrado entre as quatro</p><p>grandes potências quando Ciro II tornou-se rei dos persas em 559 a.C. Sua</p><p>primeira atitude foi sublevar-se contra o domínio dos medos, avançando</p><p>sobre Ectátana e tomando o reino de Astiages, filho de Ciaxares. A partir de</p><p>então, foi rompida a estabilidade: Ciro avançou sobre a Lídia e venceu</p><p>Creso em 547 a.C., conquistando todas as cidades costeiras da Anatólia;</p><p>avançou em 539 a.C. contra os babilônios, derrotando suas forças em Ópis e</p><p>seguindo sem oposição até ser recebido como libertador na Babilônia –</p><p>tamanha era a oposição sofrida pelo rei Nabonido.51 Naquela cidade, o rei</p><p>persa identificou-se como servo de Marduk e restituiu o seu culto,</p><p>conquistandoa simpatia dos babilônios. Da mesma maneira, tratou com</p><p>magnanimidade os judeus, dizendo-se também enviado de YHWH (Ed 1.2)</p><p>para restaurar seu povo na terra original e seu culto em Jerusalém.</p><p>Este é o mausoléu de Ciro II, suposto túmulo do grande imperador, nas ruínas de Pasárgada, no Irã.</p><p>Principais reinos do Oriente Próximo</p><p>Estes foram os principais reinos do Oriente Próximo no tempo da</p><p>ascensão de Ciro II, o Grande (em 559 a.C.):</p><p>– Egito: vivia a Época Tardia, último período com algum fulgor, mas</p><p>decadente em relação a outras épocas mais gloriosas. A capital era Mênfis.</p><p>O Egito tentava expandir seus domínios para Canaã, colocando alguns</p><p>reinos em vassalagem.</p><p>– Babilônia: capital era Babilônia, mas sofria com a incapacidade</p><p>administrativa de reis desastrosos após Nabucodonosor II. O último rei do</p><p>império, Nabonido, atribuiu ao deus Sin um protagonismo que foi</p><p>inaceitável para o clero mesopotâmico de Marduk. Este rei acabou</p><p>mudando-se para a Arábia durante muito tempo, deixando seu filho Bel-</p><p>shar-usur (o Belsazar da Bíblia) em Babilônia, o qual sofreu a invasão persa.</p><p>– Cilícia: região que conseguiu manter sua independência dos persas</p><p>durante muito tempo, cuja capital era Tarso, um importante e antigo centro</p><p>comercial. Provavelmente o povo da Cilícia estava pagando tributos aos</p><p>persas, mas sem ser incorporado à estrutura administrativa por algum</p><p>tempo.</p><p>– Lídia: reino que se formou depois da derrocada dos frígios (povo da</p><p>lenda do rei Midas), a potência herdeira dos antigos hititas na Anatólia. Os</p><p>lídios tiveram como capital a cidade de Sardes, poderoso centro comercial,</p><p>famoso pela riqueza do rei Creso (a este rei é por vezes creditada a invenção</p><p>da moeda). O rei Creso foi o conquistador de boa parte da Anatólia e</p><p>mandou construir em Éfeso o templo dedicado a Ártemis (Diana para os</p><p>romanos), considerado uma das sete maravilhas do mundo pelo poeta grego</p><p>Antípatro. Foram os artesãos de Éfeso que se rebelaram contra a pregação</p><p>de Paulo, descrita em Atos 19. O reino da Lídia acabou inteiramente</p><p>conquistado por Ciro II.</p><p>– Média: reino dos medos, indo-iranianos que migraram da Ásia</p><p>Central para o planalto iraniano e levantaram um poderoso império em</p><p>meados do século VII a.C. Eram criadores de gado e cavalos, organizados</p><p>em pequenas aldeias, incluindo muitos grupos nômades. Foram unificados</p><p>sob a coroa de Ciaxares II (645–585 a.C.), que reformou o exército,</p><p>seguindo o modelo dos assírios e babilônios. Os assírios fizeram incursões</p><p>frequentes sobre o território dos medos, conquistaram algumas tribos, mas</p><p>não conseguiram estabelecer governos permanentes sobre este povo, o qual</p><p>consideravam insubmisso. A capital Ecbátana era uma fortificação imensa</p><p>que foi utilizada posteriormente como morada de veraneio dos imperadores</p><p>persas. Como não desenvolveram escrita, não deixaram documentos para</p><p>conhecimento de sua história.</p><p>– Pérsia: reino também de cavaleiros indo-iranianos, mas submetidos</p><p>aos medos ao longo de muito tempo, até que Ciro II tomou o poder. A</p><p>capital dos persas era Passárgada, construída por Ciro quando iniciou suas</p><p>conquistas. Esta cidade permaneceu o centro do império até Dario I, que</p><p>escolheu Susã como centro administrativo e construiu Persépolis para ser</p><p>uma terceira capital. Veja mais sobre os persas na próxima página.</p><p>Medos e persas na ótica dos gregos</p><p>Os gregos confundiam medos com persas, dada a semelhança cultural e</p><p>mescla política entre ambos. Quando o Império Persa tentou invadir a</p><p>Europa, conduzido por Dario I e depois Xerxes I, os embates foram</p><p>denominados pelos gregos de Guerras Médicas.</p><p>O IMENSO IMPÉRIO dos PERSAS</p><p>OS POVOS INDO-ARIANOS – MEDOS E PERSAS – pertenciam à família indo-</p><p>européia e eram aparentados dos guerreiros citas</p><p>e hititas. Essencialmente</p><p>nômades, dominavam com habilidade a montaria a cavalo. Vários destes</p><p>grupos foram se fixando ao Oriente da Mesopotâmia entre os séculos XIII e</p><p>XI a.C.: persas, medos, hircanos, bactrianos, sogdianos, ários, dragnianos e</p><p>outros. Eram criadores de gado vacum, equino e de camelos bactrianos. O</p><p>domínio de cavalos e de camelos trouxe seu poderio militar e comercial.</p><p>A sociedade persa mantinha a estrutura tripartida: sacerdotes (os magos,</p><p>oficiantes do culto e intérpretes dos sinais dos deuses), guerreiros (cavaleiros</p><p>e nobres) e campesinos. O uso do cavalo proporcionou superioridade na</p><p>batalha justamente pela mobilidade, força de choque e agilidade. Os medos</p><p>e persas dominavam a arte de combate atirando com o arco durante a</p><p>cavalgada, o que significou importante diferencial para seus exércitos. A</p><p>organização estatal surgiu em função das pressões externas de outros reinos,</p><p>especialmente pelo imperialismo assírio, que constantemente os ameaçava</p><p>com invasões e tentativas de incorporação, ao que era necessário responder</p><p>com maior organização.52</p><p>A organização de um imenso império</p><p>Quando o persa Ciro II se rebelou contra os medos e passou a dominar o</p><p>império, foi rompida a temporária estabilidade do Oriente Próximo, e os</p><p>persas rapidamente expandiram seus domínios da Mesopotâmia e Anatólia</p><p>até as portas da Índia. Ciro ficou conhecido pela atitude magnânima para</p><p>com os vencidos – uma vez que proibiu a pilhagem por parte de seu exército</p><p>–, e pelo espírito de tolerância religiosa – permitindo e apoiando os cultos</p><p>locais. Evidentemente, tal atitude fazia parte de uma estratégia de</p><p>dominação para evitar revoltas e cooptar os cleros locais. Neste sentido, Ciro</p><p>se apresentava como adorador de Marduk aos babilônios e como enviado de</p><p>YHWH aos judeus.53</p><p>O império era organizado em satrapias, que eram estruturas</p><p>administrativas persas compostas por representantes do rei (chamados de</p><p>olhos e ouvidos do rei) para atuarem junto aos governos locais, que</p><p>mantinham seu poder e vida particular. Para facilitar a comunicação entre o</p><p>poder central e os locais, os persas construíram muitas estradas, nas quais</p><p>estabeleceram um eficiente sistema de correios, tendo em suas extensões</p><p>diversas paradas com cavaleiros e cavalos descansados a fim de prosseguir</p><p>com a mensagem. A mais famosa delas era a Estrada Real, com mais de</p><p>2400 km de extensão. Com o sistema administrativo centralizado, o império</p><p>veio a unificar regiões que viveram isoladas durante milênios, suavizando</p><p>contrastes culturais dentro de uma mesma estrutura política.</p><p>Um dos fatores para a uniformidade imperial foi a língua aramaica,</p><p>oficializada por Dario como língua internacional para comunicação entre as</p><p>satrapias – apesar dos persas manterem sua língua original. Com isso, criou-</p><p>se nas províncias uma classe profissional de escribas e administradores</p><p>bilíngues, que recebiam o documento oficial em aramaico e o traduziam</p><p>para a língua local.</p><p>O império persa tornou-se assim um aglomerado pluriétnico,</p><p>incorporando reinos tradicionais que forneciam, além das riquezas em</p><p>impostos, soldados para o exército – por isso a força militar era composta</p><p>por batalhões bastante heterogêneos. Além do grosso das tropas regulares,</p><p>possuía um corpo pessoal do imperador, composto pelos 10 mil imortais, a</p><p>elite formada por persas. Eram chamados imortais porque o guerreiro morto</p><p>era imediatamente substituído por outro. A contrapartida da sujeição ao</p><p>império era contar com a proteção aos cultos (era proibida qualquer</p><p>repressão religiosa), além da manutenção das elites locais no governo e nas</p><p>estruturas de poder.54</p><p>A vastidão do império também exigiu estruturas administrativas</p><p>complexas. Três foram as capitais: Susã, antiga capital com longa</p><p>experiência burocrática de influência mesopotâmica, foi o centro</p><p>administrativo; Passárgada foi construída por Ciro II com muitos jardins,</p><p>fontes, edifícios reais e um parque de caça, onde se ostentava a grande</p><p>variedade de animais das terras dominadas; Persépolis foi construída por</p><p>Dario I, a jóia imperial para a qual afluíram artistas de todo o mundo</p><p>conquistado. Com tanta riqueza, seria de se esperar que a economia</p><p>prosperasse muito. Entretanto, os governantes locais tinham o hábito de</p><p>armazenar metais preciosos, o que manteve a enorme suntuosidade dos</p><p>palácios, mas condenou a economia à esterilidade.</p><p>Pensamento e religiosidade dos persas</p><p>Originalmente, os persas criam em vários deuses: Ahura Mazda, Mithra,</p><p>Vartrhaghan, Vayu e Rudra, entre outros. Os deuses se enquadravam em</p><p>duas categorias: os Ahuras (que encarnavam a boa conduta) e os Devas (que</p><p>transgrediam a ordem). Baseado nisso, a crença persa elaborou um dualismo</p><p>que opôs a verdade à mentira (ou o bem contra o mal). A cada homem cabia</p><p>colocar-se ao lado do bem (a verdade) na luta cósmica contra o mal (a</p><p>mentira).</p><p>A ética ariana exigia que cada persa tivesse três atributos essenciais: ser</p><p>bom cavaleiro, mestre no arco e dizer sempre a verdade. Esse era o ensino</p><p>básico para o jovem nobre, que se tornaria depois membro de uma elite</p><p>guerreira. O menino era colocado na escola com 7 anos de idade, onde lhe</p><p>exigiam exercícios físicos e alimentação frugal (agrião, pão e água). Tal</p><p>formação construía entre os nobres a ideologia típica persa: um guerreiro</p><p>heróico, orgulhoso de fazer parte de uma linhagem superior e com ética</p><p>arraigada na ideia de que representava o bem na luta contra o mal.</p><p>A influência do Zoroastrismo na religiosidade persa</p><p>Nascido provavelmente no século VII a.C., Zoroastro (ou Zaratrusta,</p><p>para os gregos) pregava Ahura Mazda como o deus supremo e único. Sete</p><p>entidades abstratas refletiriam aspectos do deus supremo, que eram os</p><p>Amesha Spentas, os imortais benevolentes: Spenta Mainyu (espírito santo),</p><p>Arta (ordem), Vohu Manah (bom pensamento), Kshatra (império e poder),</p><p>Savatat (integridade e saúde), Amritat (imortalidade e não-morte) e Armaiti</p><p>(pensamento devoto). Assim, Zoroastro não suprimiu o panteão antigo, mas</p><p>apenas o adaptou. Baniu todos os sacrifícios sangrentos e os substituiu pela</p><p>adoração de Ahura, utilizando o fogo como o símbolo da fé. Além disso,</p><p>não permitia estátuas divinas nem templos. Na fé zoroastriana (também</p><p>chamada mazdeísta) se mantinha a ideia de luta entre o bem e o mal,</p><p>representados na verdade e na mentira, na qual deveria haver a escolha do</p><p>crente pelo bem ao longo de sua vida. No final do ciclo cósmico, o deus</p><p>Ahura Mazda faria o julgamento e promoveria a vitória da verdade, dando a</p><p>felicidade eterna aos homens que lutaram pelo bem.55 Surgiu também nesta</p><p>religião a crença no Saoshyant (Salvador), que auxiliaria na vitória de Ahura,</p><p>quando os mortos ressuscitariam e seriam purificados.</p><p>Alguns historiadores afirmam que os aquemênidas (reis persas da</p><p>dinastia de Ciro II) eram zoroastrianos, mas isto não está claro. É possível</p><p>que Ahura Mazda aparecesse como o deus supremo, mas cercado de uma</p><p>multidão de divindades. Outra possibilidade é que o imperador entendesse</p><p>as outras divindades locais como emanações de Ahura. Quanto ao povo,</p><p>estava um tanto distante de tais raciocínios teológicos: eles imaginavam um</p><p>mundo de trevas e demônios contra os quais deviam lutar com amuletos e</p><p>magia.</p><p>Principais imperadores persas</p><p>O império persa da dinastia aquemênida iniciou com Ciro II (em 559</p><p>a.C.) e caiu com Dario III (em 330 a.C.). Abaixo, citaremos apenas os</p><p>principais imperadores deste longo período:</p><p>– Ciro II (559-540 a.C.)</p><p>O persa Ciro II (conhecido como Ciro, o Grande) foi rei da Pérsia</p><p>quando esta ainda era submissa aos medos. Se rebelou contra os</p><p>dominadores, prendeu seu avô Astiages e conquistou Ecbátana, a capital da</p><p>Média, dando início ao domínio dos persas no império. Conquistou a Lídia</p><p>em 546 a.C. e anexou territórios no Oriente até a Índia. Em 539, Ciro</p><p>dirigiu-se para a Babilônia, dividida internamente no governo de Nabonido.</p><p>Ciro apresentou-se como enviado de Marduk para obter apoio das classes</p><p>sacerdotais. Sua morte possivelmente tenha ocorrido em 530 a.C., em</p><p>campanha contra os masagetas, povo que vivia próximo</p><p>ao mar Cáspio.</p><p>– Cambises (529-522 a.C.)</p><p>O filho de Ciro, tido por tirano, conquistou o Egito contratando</p><p>beduínos para abastecer seu exército com água na difícil travessia do deserto</p><p>do Sinai. Tentou conquistar a Núbia, dirigindo-se para o sul do Egito, mas</p><p>fracassou. Morreu misteriosamente no regresso.</p><p>– Dario I (521-486 a.C.)</p><p>Derrubou um usurpador, possivelmente um mago que se fez passar por</p><p>Bardiya, irmão de Ciro. Dario reorganizou o império após o período</p><p>turbulento de Cambises, mantendo as bases administrativas lançadas por</p><p>Ciro, mas colocando um comandante de tropas e um secretário junto a cada</p><p>sátrapa. Estava cercado de conselheiros e possuía um grande número de</p><p>enviados do rei, funcionários que viajavam para inspecionar as</p><p>administrações locais. Cunhou as primeiras moedas persas (os dáricos de</p><p>ouro). Conquistou a Trácia e tentou invadir a Grécia em 490 a.C., mas foi</p><p>derrotado em Maratona. Fundou Persépolis como terceira capital para</p><p>exaltar a ideologia imperial persa, trazendo artistas e arquitetos de todo o</p><p>mundo conquistado e tornando a cidade uma expressão do reino</p><p>pluricultural que se expandia cada vez mais.</p><p>– Xerxes I (486-465 a.C.)</p><p>Xerxes era filho de Dario I. O nome Xerxes era a forma grega do nome</p><p>persa Khchayarcha. Este rei abandonou a clemência de Ciro e abafou</p><p>agitações em Babilônia durante seus dois primeiros anos de governo. Juntou</p><p>o maior exército já visto (oriundo dos 46 povos conquistados) para invadir a</p><p>Grécia, mas também fracassou: venceu em 480 a.C. nas Termópilas (onde</p><p>ocorreu o episódio de resistência grega comandada por Leônidas, 300</p><p>espartanos e tropas de aliados), mas foi derrotado na batalha naval de</p><p>Salamina. No ano seguinte foi expulso pelos gregos coligados do</p><p>Peloponeso. A história bíblica de Ester é associada a este imperador, apesar</p><p>de ser chamado Assuero na Bíblia e dúvidas sejam levantadas a respeito da</p><p>historicidade do evento. Xerxes foi assassinado em 465 a.C.</p><p>– Artaxerxes I (465-424 a.C.)</p><p>Filho mais novo de Xerxes que sobreviveu ao massacre da família real,</p><p>governou por 41 anos. Foi o último rei do período glorioso do império. Ele</p><p>perdeu os territórios na Ásia Menor, exigidos pelos gregos que haviam</p><p>expulsado seu pai da Europa. Depois de Artaxerxes, começou um declínio</p><p>rápido com uma série de usurpações e revoltas nas satrapias. O império ruiu</p><p>definitivamente com a chegada de Alexandre, o Grande, pouco menos de</p><p>um século depois da morte de Artaxerxes I.</p><p>Esta figura é um Faravahar, um anjo da guarda (elemento divino de proteção), crença do Zoroastrismo,</p><p>religião dos persas.</p><p>DE VOLTA à TERRA PROMETIDA</p><p>O IMPÉRIO PERSA tinha uma política muito diversa dos babilônios e</p><p>assírios no que tange aos povos vencidos: não fazia uso de deportações,</p><p>razão pela qual permitiu o retorno de todos aqueles que foram retirados de</p><p>suas terras para suas comunidades originais – entre eles, os judeus. Por isso,</p><p>Ciro II foi recebido na Babilônia como libertador, tanto dos babilônios</p><p>como dos expatriados; aqueles, viam nele a restauração do culto de seus</p><p>deuses tradicionais; estes, viram nele um enviado de Deus. Pudera: em 538</p><p>a.C., Ciro proclamou um decreto permitindo o retorno dos judeus e a</p><p>reconstrução de seu templo e retomada da vida religiosa tradicional.</p><p>O retorno dos judeus à sua pátria não significou a retomada de um</p><p>Estado judaico, mas a permissão para viverem como súditos em uma</p><p>província dos persas. Qualquer organização política pertencia</p><p>exclusivamente à estrutura administrativa dos dominadores. Antigos</p><p>costumes dos tempos pré-monárquicos voltaram: os anciãos dos clãs, que</p><p>representavam o povo junto às autoridades (Ed 5.9), e a orientação religiosa</p><p>dos sacerdotes centrados no templo, funcionando quase como uma</p><p>comunidade teocrática – a ideia de um povo que tem apenas a Deus como</p><p>rei. Pelo menos, na teoria.</p><p>Dada a quantidade de judeus que estavam espalhados, foram</p><p>relativamente poucos os que retornaram a Judá. A maioria dos que voltaram</p><p>foi de pessoas que valorizavam Jerusalém como cidade santa, ou aqueles que</p><p>tiveram pouco sucesso nos negócios em Babilônia, não tendo nada que os</p><p>prendesse naquele local. Socialmente, velhas feridas permaneceram abertas,</p><p>principalmente o abismo entre ricos e pobres, somado à opressão das elites,</p><p>que se aproveitaram da situação dos fracos para fazer fortuna (conforme</p><p>descrito em Ne 5).56</p><p>Os retornos de Babilônia e Susã</p><p>O retorno do exílio na Babilônia foi iniciado no edito de Ciro – e foi o</p><p>principal –, mas também ocorreram outras voltas importantes:</p><p>1. Em 538 a.C.: ano em que o imperador Ciro II proclamou um decreto</p><p>ordenando que Judá e o culto em Jerusalém fossem restabelecidos,</p><p>permitindo que os judeus que assim desejassem pudessem voltar para sua</p><p>cidade. Naquele ano, Zorobabel guiou a volta de cerca de 50 mil pessoas.</p><p>Este foi o principal retorno (Ed 2).</p><p>2. Em 457 a.C.: cerca de 80 anos depois do primeiro retorno, outro</p><p>grupo partiu, desta vez com permissão do imperador persa Artaxerxes I. O</p><p>líder deste grupo foi o sacerdote Esdras, guiando cerca de 1800 pessoas (Ed</p><p>7–8).</p><p>3. Em 444 a.C.: pouco mais de uma década depois de Esdras, foi a vez</p><p>de Neemias voltar como administrador do império, também enviado por</p><p>Artaxerxes I, com o objetivo de reconstruir as muralhas de Jerusalém. Partiu</p><p>de Susã, acompanhado de uma escolta militar (Ne 2).</p><p>Aramaico como língua popular e descentralização religiosa</p><p>O hebraico foi quase totalmente abandonado durante o exílio. Como o</p><p>aramaico era a língua franca dos impérios babilônico e persa, acabou sendo</p><p>incorporado pelos judeus – até pela semelhança da escrita. O hebraico foi de</p><p>tal maneira esquecido que Esdras, ao fazer a leitura da Lei em Jerusalém</p><p>(Ne 8), precisou traduzir simultaneamente para que o povo entendesse o</p><p>que dizia o texto. Assim, o hebraico permaneceu como uma língua litúrgica,</p><p>falada pelos líderes religiosos e usada nas celebrações das sinagogas,</p><p>enquanto o povo falava cotidianamente o aramaico. Esta característica</p><p>permaneceu até o tempo de Jesus, quando o povo falava aramaico e tinha</p><p>como segunda língua o grego.</p><p>No exílio, com a ausência de um templo para centralizar as ações da</p><p>religião e da fé, ganhou destaque o estudo da Lei e a guarda dos principais</p><p>sinais judaicos: o sábado e a circuncisão. Mais tarde, a estrutura em</p><p>Jerusalém foi reconstruída, mas a presença dos especialistas nas escrituras –</p><p>os escribas, que viriam a ser conhecidos como os doutores da Lei – continuou</p><p>tendo muito destaque. Como no último século antes de Cristo o cargo de</p><p>sumo sacerdote acabou se tornando uma poderosa arma de controle,</p><p>reservado aos protegidos dos dominadores da nação, a imagem da classe</p><p>sacerdotal caiu muito ante a nação, e o escribismo ganhou proeminência</p><p>como força espiritual popular.</p><p>O humilde recomeço</p><p>Se Sofonias profetizou que Deus deixaria um povo humilde e pobre na</p><p>terra (Sf 3), a situação de Judá no seu recomeço parece condizer com aquela</p><p>palavra. Quando Ciro proclamou o decreto permitindo o retorno dos</p><p>judeus, eles encontraram Jerusalém em ruínas, sem muralhas, o templo em</p><p>monturos e o território reduzido à antiga cidade de Davi com algumas vilas</p><p>insignificantes ao seu redor. Muito havia a ser feito, e eles tentaram</p><p>recomeçar pelo templo. Entretanto, as dificuldades e preocupações com a</p><p>própria sobrevivência fizeram com que abandonassem a obra durante 16</p><p>anos, razão pela qual levantaram-se os profetas Ageu e Zacarias.</p><p>O templo foi finalmente reconstruído por Zorobabel, possivelmente por</p><p>volta de 520 a.C., dando reinício aos sacrifícios e ritos sacerdotais. Mas a</p><p>cidade continuava vivendo de maneira bastante precária, com poucas</p><p>possibilidades de desenvolvimento. Assim permaneceu durante cerca de oito</p><p>décadas, quando Esdras retornou para promover um reavivamento espiritual</p><p>entre o povo. Mas a verdadeira retomada econômica viria somente em 444</p><p>a.C., com Neemias, que foi a Jerusalém para reconstruir suas muralhas e</p><p>torná-la novamente uma cidade importante no contexto da região. Foi</p><p>depois de Neemias que pregou Malaquias, encerrando o tempo profético do</p><p>Antigo</p><p>Testamento.</p><p>Os profetas pós-exílicos</p><p>Os profetas depois do exílio57 responderam a um problema teológico:</p><p>onde estava a atividade de Deus no meio daquela tragédia? Eles trouxeram</p><p>uma mensagem que alargava o modo de pensar a respeito das promessas de</p><p>Deus quando as circunstâncias externas pareciam demonstrar a derrota da</p><p>esperança. Essencialmente, os profetas pregavam que era a própria mão de</p><p>Deus que estava contra o povo, ao qual cabia arrependimento e voltar-se</p><p>para Ele. Apesar de tudo, Deus cumpriria a promessa e traria Seu Reino à</p><p>terra, mesmo que muitas gerações não colaborassem para tanto. Foram estes</p><p>os últimos profetas de Judá:</p><p>1. Ageu: possivelmente um profeta idoso, pregou em Jerusalém sobre a</p><p>reconstrução do templo, símbolo da fé em meio àquela situação</p><p>desestimulante. Com ajuda de Zacarias (Ed 5.1), pregou que aquele</p><p>humilde começo estava vinculado com o destino de glória do futuro Reino</p><p>de Deus. Também profetizou que, do descendente de Davi, Deus traria</p><p>julgamento e faria tremer céus e terra.</p><p>2. Zacarias: contemporâneo de Ageu, mas bem mais jovem que ele,</p><p>Zacarias recebeu uma visão para todos aqueles que questionavam a validade</p><p>das promessas de Deus. Para ele, o mesmo Senhor que ajudou na edificação</p><p>do segundo templo reinaria como rei e sacerdote, trazendo paz sobre toda a</p><p>terra. Também em Zacarias apareceu a figura do bom pastor, mártir em prol</p><p>de seu rebanho. Finalmente, trouxe também o conceito do Dia do Senhor,</p><p>quando Deus trará julgamento e salvação.</p><p>3. Malaquias: o último profeta do Antigo Testamento, Malaquias</p><p>profetizou mais de meio século depois de Ageu e Zacarias. Ele talvez tenha</p><p>sido contemporâneo de Esdras e Neemias. Malaquias respondeu à zombaria</p><p>do povo, que questionava onde estava o amor de Deus. Acusou severamente</p><p>os sacerdotes e a desconsideração popular para com a Lei divina,</p><p>anunciando que o Messias que eles esperavam viria, mas para trazer severo</p><p>julgamento. Por isso, seria necessária a vinda de um precursor que</p><p>preparasse seu caminho, convertendo os corações dos homens para a</p><p>chegada de tamanha santidade.</p><p>OS GREGOS e ALEXANDRE, o GRANDE</p><p>OS HELENOS – HABITANTES DA HÉLADE, que os romanos chamavam de</p><p>Grécia – eram povos oriundos dos Balcãs e que invadiram o território no</p><p>entorno do Mar Egeu a partir do segundo milênio a.C. Eram formados por</p><p>grupos étnicos chamados aqueus, jônicos, eólios e dóricos. O terreno um</p><p>tanto acidentado da Grécia e do entrono do mar Egeu privilegiou a</p><p>separação desses povos em diversas cidades-estado independentes (embora a</p><p>geografia não fosse fator determinante).</p><p>Ao longo de sua história, os gregos desenvolveram algumas notáveis</p><p>civilizações, como a micênica e a cretense, mas atingiram seu apogeu</p><p>cultural, artístico e político no Período Clássico.</p><p>A invenção da democracia e as guerras entre as cidades</p><p>Entre as diversas contribuições dos gregos para a configuração do nosso</p><p>mundo contemporâneo, talvez a principal tenha sido o conceito de</p><p>democracia. Por incrível que pareça, as origens de tal concepção remontam</p><p>às técnicas militares. No século VII a.C., os gregos passaram por uma</p><p>revolução na forma de combater: criaram a falange hoplítica, que consistia</p><p>de uma muralha de soldados que avançava como um corpo coletivo,</p><p>atacando ao mesmo passo. Tal técnica abandonava a luta individual e nascia,</p><p>assim, a confraria de soldados iguais, que buscavam a força no conjunto.</p><p>Nisso reside o valor essencial da técnica: dela emergiu o paralelo conceitual</p><p>entre o guerreiro e o cidadão, pois a falange exigia um ideal igualitário,</p><p>abrindo as portas à sociedade democrática.58 Noções de justiça e lei comum</p><p>a todos se manifestaram, com o tempo, na instauração das leis que passaram</p><p>a reger as cidades-estado (como as leis de Licurgo em Esparta, e as de</p><p>Drácon e Sólon em Atenas).</p><p>Entretanto, se as noções de igualdade entre cidadãos existia dentro de</p><p>cada cidade, também prevalecia a independência total de uma polis (cidade-</p><p>estado) para outra. Eram unidas cultural e religiosamente, mas</p><p>politicamente permaneciam separadas e, frequentemente, em conflito. O</p><p>maior desses conflitos foi a Guerra do Peloponeso (entre 431 e 404 a.C.),</p><p>um estado de guerra permanente entre gregos, especialmente Atenas e</p><p>Esparta, curiosamente logo após as gloriosas vitórias contra os invasores</p><p>persas. Com a situação confusa e a miséria decorrente do conflito bélico,</p><p>abriu-se a oportunidade para o domínio dos vizinhos e aparentados do</p><p>norte, os macedônicos.</p><p>O domínio macedônico na Grécia</p><p>A Macedônia era uma grande região montanhosa, povoada por uma</p><p>etnia de origem dórica que se manteve à margem do desenvolvimento grego</p><p>– falavam um dialeto pouco apreciado pelos helenos do sul. Ao longo do</p><p>século IV, os macedônicos desenvolveram seu aparato militar baseado</p><p>também na falange, mas com adaptações que incluíam a forte utilização da</p><p>cavalaria, o que definiu certa vantagem em combate que viria a ser decisiva</p><p>mais tarde.</p><p>Uma diferença fundamental em relação aos gregos foi política: ao invés</p><p>de cidades independentes, desenvolveu-se na Macedônia uma monarquia</p><p>centralizada, com poderosas famílias nobres que subsistiam em torno do</p><p>soberano.59 A unidade do reino macedônico começou, a partir do século V,</p><p>a ameaçar a Grécia e a interferir nas disputas helênicas, hora apoiando</p><p>Atenas, hora Esparta. O rei que ascendeu ao trono e deu o passo</p><p>fundamental para a unificação definitiva da Macedônia foi Filipe II (359–</p><p>336 a.C.). A partir da base política montada, conquistou a Grécia na</p><p>Batalha da Queroneia (338 a.C.) e obrigou os gregos a participarem da liga</p><p>pan-helênica, impondo-lhes a paz, mas permitindo a autonomia de suas</p><p>cidades, atraindo intelectuais e técnicos gregos (como Aristóteles),</p><p>civilizando seu próprio povo e ganhando o favor dos intelectuais. Essa</p><p>atitude levaria seu filho Alexandre a se apaixonar pela civilização grega e</p><p>desejar levá-la todo o mundo. Filipe planejou a ofensiva para libertar os</p><p>gregos da Ásia Menor (então sob domínio do Império Persa), mas foi</p><p>assassinado às vésperas da expedição.</p><p>Alexandre, o maior general da história</p><p>Com a morte de Filipe II, seu jovem filho Alexandre III ascendeu ao</p><p>trono, com apenas 18 anos de idade. O jovem transformou a luta de</p><p>libertação dos gregos numa devastadora ação militar que submeteu o imenso</p><p>Império Persa entre 334 e 329 a.C.</p><p>A impressionante vitória em direção ao Oriente trazia em seu bojo o</p><p>desejo de estabelecer uma monarquia universal a partir da civilização grega,</p><p>que forneceria a base conceitual para unir todas as etnias do mundo. Seu</p><p>sonho era reunir a humanidade sob uma única bandeira, com uma única e</p><p>articulada cultura – a civilização que nasceu na Grécia. Seu intento</p><p>produziria, ao longo dos séculos, a fusão grega com as diferentes culturas</p><p>orientais que viria a ser conhecida como o fenômeno do helenismo (veja nas</p><p>próximas páginas).</p><p>O principal sustentáculo do seu império foi o exército, transformado</p><p>pela inclusão de novas forças dos povos conquistados, convocados no</p><p>caminho do seu avanço. Sua intenção não era submeter o bárbaro, mas</p><p>fundi-lo com o grego num conjunto harmonioso, fiel ao helenismo. Na</p><p>prática, isso significou construir novas cidades, onde estabelecia filósofos,</p><p>artistas, arquitetos, matemáticos, enfim, profissionais aos quais cabia a</p><p>difusão de seu ideal. Foram erigidas 34 Alexandrias em diversas partes do</p><p>Oriente, utilizando para tanto os tesouros acumulados nos palácios persas</p><p>que conquistou. Celebrou as divindades gregas, mas admitiu as demais</p><p>crenças no seu sincretismo. A única grande unificação foi a moeda</p><p>macedônica com sua efígie, imposta em todo o império.</p><p>Mas Alexandre também sofreu influências orientais. O autoritarismo da</p><p>monarquia macedônica reforçou-se, introduzindo o típico cerimonial de</p><p>corte dos persas, dando início ao culto do soberano, o “deus vivo” e</p><p>catalisador da unidade do império, o que gerou desconforto entre os seus</p><p>generais.60</p><p>Após sua vitória em direção ao Oriente, Alexandre planejava tomar o</p><p>rumo da Europa, mas morreu prematuramente em 323 a.C., na cidade de</p><p>Babilônia,</p><p>de forma misteriosa e desconhecida até hoje, pouco antes de</p><p>completar 33 anos. Os seus feitos o fizeram entrar para a história como</p><p>Alexandre, o Grande.</p><p>Resumo histórico da Grécia</p><p>A história da Grécia é longa e complexa, mas resumiremos abaixo os</p><p>principais períodos, como são normalmente divididos:</p><p>– Proto-história (2800–1220 a.C.): Apareceram as afinidades culturais</p><p>entre a Grécia continental, ilhas do Egeu e costa da Anatólia (o entorno do</p><p>mar Egeu). Por volta de 1900 a.C., Creta desenvolveu o primeiro estado</p><p>ocidental. Por volta de 1700 se desenvolveu a civilização micênica.</p><p>– Medievo Helênico (1220–900 a.C.): Os Povos do Mar devastaram o</p><p>Egeu e Mediterrâneo Ocidental e a invasão dos dórios pôs fim ao reino dos</p><p>micênicos no final do século XII a.C., iniciando um período de longa crise</p><p>política, social e econômica. Dórios, jônios e eólios formaram os dialetos</p><p>gregos. No século X ocorreu a recuperação econômica e o nascimento dos</p><p>centros urbanos.</p><p>– Período Alto-Arcaico (900–725 a.C.): Nasceram as cidades de Atenas,</p><p>Argos, Tebas, Esparta, Corinto, Mileto, Esmirna e outras, sob governo da</p><p>aristocracia, que revogou a monarquia em prol de um governo oligárquico.</p><p>Adaptou-se o alfabeto fenício ao grego, que deu base a obras como a Ilíada e</p><p>a Odisseia.</p><p>– Período Médio-Arcaico (725–610 a.C.): Houve notável crescimento</p><p>comercial no Mediterrâneo, com a colonização do entorno do Egeu,</p><p>acompanhado de florescimento cultural: literatura, filosofia e artes</p><p>influenciadas pelos orientais. Tensões sociais entre nobres e populares</p><p>resultaram na ascensão dos tiranos em algumas cidades como Corinto.</p><p>– Período Baixo-Arcaico (610–510 a.C.): Esparta era hegemônica no</p><p>Peloponeso; em Atenas, houve tentativas de reformas políticas de Sólon, no</p><p>que seria o embrião da ideia de democracia ateniense. O fracasso destas</p><p>tentativas aumentou os regimes dos tiranos, que varreram as aristocracias</p><p>dominantes da Grécia.</p><p>– Era das Guerras Persas (510–449 a.C.): Foi instaurada a democracia</p><p>em Atenas. O rei persa Dario I atacou a Jônia. Em 490 a.C., a Primeira</p><p>Guerra Médica teve a vitória de Atenas em Maratona; em 480, a segunda</p><p>tentativa persa com Xerxes I também fracassou. O período marcou a</p><p>ascensão do poder ateniense, sempre em conflito com as outras cidades.</p><p>– Período Clássico (449–338 a.C.): Tempo de maior brilho das artes e</p><p>ciência grega. Atenas chegou ao ápice do esplendor econômico, cultural e</p><p>artístico com o governo democrático de Péricles. A cidade de Atenas foi</p><p>embelezada pelo projeto do arquiteto, urbanista e artista Fídias. As</p><p>expressões artísticas regionais da Grécia se unificaram na busca da perfeição</p><p>por arquitetos, escultores, pintores e ceramistas. O desenvolvimento deste</p><p>período foi chamado clássico e influenciou até o humanismo do século XV e o</p><p>Renascimento do XVI. A rivalidade entre Atenas, Esparta, Corinto e Tebas</p><p>provocou a Guerra do Peloponeso, que devastou e enfraqueceu toda a</p><p>Grécia, permitindo a invasão macedônica.</p><p>– Período Macedônico (338–323 a.C.): Aproveitando a fragilidade grega,</p><p>os macedônicos de Felipe II invadiram a Grécia e impuseram a Pax</p><p>Macedônica a todos os gregos. Seu filho, Alexandre III, empreendeu uma</p><p>imensa luta contra os persas, conquistando reinos até as portas da Índia.</p><p>Alexandre morreu prematuramente em 323 a.C., seguindo-se a</p><p>fragmentação do império entre os generais.</p><p>As conquistas de Alexandre o Grande</p><p>Em 334 a.C. Alexandre partiu para a primeira campanha contra os</p><p>persas, atacando a região por eles dominada na Ásia Menor e vencendo-os</p><p>na Batalha de Granico. No ano seguinte, penetrou a Síria, onde venceu o rei</p><p>Dario III na Batalha de Issos. Seguiu em direção ao sul para conquistar</p><p>Canaã, tendo obtido resistência apenas em Tiro – cidade que foi tomada</p><p>depois de um cerco de sete meses. Alexandre apoderou-se de Gaza, foi bem</p><p>recebido em Jerusalém e entrou como libertador no Egito. Em 331 a.C.,</p><p>Alexandre partiu para encontrar novamente o imperador persa na Batalha</p><p>de Gaugamela, nas proximidades do rio Tigre, tendo sua vitória definitiva.</p><p>As grandes cidades caíram uma após outra: Babilônia, Susã, Persépolis e,</p><p>finalmente, Ecbátana. Desbaratado o Império Persa, Alexandre empenhou-</p><p>se em seguir para o Oriente, tomando todas as antigas províncias persas e</p><p>chegando em 327 a.C. até a Índia. Entretanto, seus soldados, fatigados,</p><p>recusaram-se a segui-lo. Erigiu doze altares em torno de uma coluna de</p><p>bronze com a inscrição: Aqui parou Alexandre. O retorno foi dramático:</p><p>Alexandre dividiu o exército, colocando Nearco no comando da metade que</p><p>seguiu por mar até o Eufrates, ficando ele mesmo na direção do restante que</p><p>seguiu por terra. Foram dois caminhos penosos: por mar, tempestades</p><p>atormentaram os soldados; por terra, era preciso vencer o deserto de</p><p>Gedrósia, desconhecido dos gregos. Por fim, depois de perder muitos</p><p>guerreiros para o deserto, chegou em Susã em 324 a.C., onde celebrou uma</p><p>imensa festa em que realizou o casamento de 10 mil soldados gregos com</p><p>mulheres persas. Alexandre também tomou duas esposas persas, uma delas a</p><p>filha do falecido imperador Dario. Pretendia, assim, unir as tradições grega</p><p>e oriental, o que de fato conseguiu, produzindo a cultura que viria a ser</p><p>conhecida como helenismo. Na Babilônia, começou a planejar uma incursão</p><p>para a Europa, mas morreu misteriosamente após uma festa com seus</p><p>generais em 323 a.C., aos 32 anos.</p><p>O HELENISMO</p><p>A CIVILIZAÇÃO que nasceu da união entre Oriente e Grécia depois da</p><p>morte de Alexandre penetrou em todo o Ocidente, influenciando Cartago,</p><p>Roma e até a Gália. Graças ao compartilhamento cultural e o uso</p><p>generalizado do grego, à uniformização das legislações, aos modelos de</p><p>urbanismo onde eram construídos templos, ginásios e teatros, o helenismo</p><p>foi transformando o mundo ocidental antigo.61 O dialeto ático, falado em</p><p>Atenas, ganhou primazia e se constituiu na base da koiné, língua comum</p><p>que se expandiu, primeiro nas chancelarias, e depois nas relações</p><p>comerciais, simplificando-se no contato com outras línguas e ganhando</p><p>popularidade. Soberanos esclarecidos dos novos reinos após Alexandre</p><p>construíram bibliotecas e institutos onde armazenavam e aumentavam o</p><p>saber humano – como os primeiros Ptolomeus, que dotaram sua capital</p><p>Alexandria de um museu (palavra que significa santuário das musas,</p><p>divindades inspiradoras das artes gregas) e de uma esplendorosa biblioteca.</p><p>A base cultural dos novos reinos procedia da civilização grega clássica,</p><p>mas seu produto, o helenismo, era cosmopolita. As grandes cidades</p><p>acolhiam todo tipo de troca, seja comercial, intelectual ou religiosa, numa</p><p>imensa diversidade de raças e línguas. Mas, apesar das características</p><p>tipicamente urbanas, o meio rural permanecia ainda bastante vinculado às</p><p>antigas tradições locais.</p><p>As cidades helênicas não possuíam qualquer autonomia, como na Grécia</p><p>Clássica em que se inspiravam. O poder total era do rei (em grego, basileu),</p><p>resultado da introdução política do império de Alexandre – a instituição</p><p>monárquica. Pequenas ou grandes, as realezas instauraram-se por toda a</p><p>parte. O monarca representava a lei viva e encarnada, justificado pelo caráter</p><p>divino e cabendo aos seus funcionários seguir seu exemplo. Por isso, ele</p><p>tinha obrigações morais: devia ser zeloso, benevolente e piedoso. O cargo</p><p>passou a ser hereditário e foi introduzida a etiqueta que diferenciava o rei</p><p>dos demais mortais. A monarquia foi imposta à força em todos os lugares,</p><p>submetendo os moradores locais como uma solução para a unidade do</p><p>império, mas que dependia exclusivamente da atuação pessoal do monarca,</p><p>pois não existia um Estado burocraticamente organizado. Em torno do rei</p><p>formou-se uma elite urbana muito favorecida, especialmente no reino dos</p><p>Selêucidas, excluindo os povos locais de todas as vantagens.</p><p>Pensamento e religiosidade dos gregos</p><p>A religião grega apresentava dois aspectos coletivos: as anfictionias, que</p><p>reuniam as cidades em rituais em torno de santuários para celebrar festas</p><p>comuns a todos os gregos; e os oráculos, onde se consultavam os deuses para</p><p>tomar as mais diversas decisões,</p><p>pouco férteis, além de ser colhida mais cedo.</p><p>Com essas facilidades, a cevada foi muito usada como ração para os animais,</p><p>além de tornar-se o alimento básico dos pobres (que a usavam para fazer</p><p>pão). As lentilhas eram abundantes e usadas como um cozido. O linho era</p><p>produzido para a confecção de roupas.</p><p>A Bíblia menciona mais de vinte espécies de árvores, desde as palmeiras</p><p>da região em torno de Jericó até os cedros e coníferas do Líbano. Os frutos</p><p>colhidos dessas árvores podiam ser bastante doces, em função do clima seco</p><p>de muitas regiões. Os figos e sicômoros – espécies de figos selvagens – eram</p><p>muito apreciados, tanto frescos como em pasta. As romãs eram abundantes</p><p>e se tornaram inclusive referência estética para a construção de peças no</p><p>templo de Salomão. A videira, além das uvas e suas passas, propiciava a</p><p>fabricação do vinho, especialmente nas regiões mais secas da Judeia. Outro</p><p>produto requintado era feito à base da prensagem do fruto da oliveira: o</p><p>azeite de oliva, utilizado para fins medicinais, alimentícios e para iluminação</p><p>(era o combustível das lâmpadas). As palmeiras forneciam diversos frutos,</p><p>entre eles as tâmaras, consumidas principalmente em passas. Havia ainda</p><p>amendoeiras, das quais se extraíam óleos, e nogueiras, que forneciam nozes.</p><p>Além dos cereais e frutos, também se produziam hortaliças</p><p>(principalmente cebolas, alhos, melões e pepinos) e verduras amargas,</p><p>alcaparras e mandrágoras como saladas. Ervas como hortelã, endro e</p><p>cominho eram usados para temperar.</p><p>Fauna</p><p>Da mesma maneira que a flora, a fauna também modificou-se</p><p>substancialmente ao longo do tempo. É bastante difícil traduzir o sentido do</p><p>nome dado a cada animal citado na Bíblia, não havendo precisão científica</p><p>na sua identificação.</p><p>O gado vacum era usado como alimento – inclusive nos sacrifícios de</p><p>novilhos – e como animal de tração na agricultura. Os cavalos podiam ser</p><p>usados na guerra, mas tinham pouca serventia na vida diária, pois as mulas e</p><p>jumentos eram muito mais resistentes para o transporte na terra</p><p>montanhosa de Canaã. Os caprinos (ovelhas, cabras e cordeiros) eram</p><p>abundantes e a base da produção pecuária dos israelitas, muito usados para a</p><p>confecção de roupas de lã, no consumo de leite, na produção de queijo e de</p><p>carne. Também eram os animais principais no sistema sacrificial. O camelo</p><p>– precioso animal de carga e transporte nas regiões áridas – não era</p><p>originário do território, mas foi importado do Irã.</p><p>Outros animais, como o cão selvagem, foram domesticados. Aves como</p><p>a galinha parecem ter sido corriqueiras, e as pombas eram frequentemente</p><p>usadas nos sacrifícios dos pobres. Répteis como o camaleão, lagarto e</p><p>lagartixas, além de aranhas e escorpiões, eram comuns na região. Muitos</p><p>insetos eram úteis para as comunidades humanas, como as abelhas –</p><p>obviamente pelo mel – e os gafanhotos, diversos deles considerados puros</p><p>(ou seja, comestíveis, especialmente tostados) pela lei mosaica.</p><p>A mula e o jumento eram os animais preferidos para o transporte. Resistentes em longas distâncias, eram</p><p>adequadas para o terreno acidentado de Canaã.</p><p>Muitos animais eram considerados impuros e tinham o consumo</p><p>proibido pela lei. Entre eles estão cavalos, camelos, porcos, diversos tipos de</p><p>frutos do mar e coelhos.</p><p>Minerais</p><p>Os principais minerais extraídos em Canaã eram o enxofre e o betume,</p><p>abundantes nas proximidades do mar Morto. Ali também estavam grandes</p><p>centros de extração de sal. Próximo dali, na depressão do Arabá, era extraído</p><p>cobre, que depois era fundido com o estanho para produzir bronze. O</p><p>planalto central e a Galileia eram ricos em calcário, fornecendo boas pedras</p><p>para a construção civil.5</p><p>Vestuário</p><p>A roupa em Canaã era feita de linho de fibra doméstica, de baixa</p><p>qualidade. Roupas de lã eram produzidas pelos criadores de animais,</p><p>também de maneira rústica. Tecidos de maior qualidade, de linho fino e</p><p>algodão, precisavam ser importados, principalmente do Egito; os mais</p><p>sofisticados, como a seda, eram trazidos da Índia; os de cores muito</p><p>intensas, como a púrpura, vinham da Fenícia – mas eram peças caríssimas,</p><p>usadas apenas por reis, ricos comerciantes e sacerdotes. Normalmente, as</p><p>roupas eram da cor natural da matéria-prima, mas outras cores podiam ser</p><p>tingidas a partir de fontes vegetais ou animais (insetos, flores, açafrão, etc).</p><p>O estilo da maioria da população era simples: uma tanga com duas peças</p><p>sobrepostas. A primeira peça, de lã ou linho, podia ter mangas curtas ou</p><p>longas. A externa era um manto, geralmente feito de um tecido ou pele mais</p><p>grosso, de formato retangular, com abertura para a cabeça, usada com</p><p>dobras sobre um ou ambos os ombros. Essa peça era usada como cobertor à</p><p>noite. A roupa da mulher era igual à do homem, mas alta no pescoço e mais</p><p>comprida nos tornozelos, além de incluir uma espécie de xale sobre a</p><p>cabeça. Os calçados eram sandálias abertas de couro.</p><p>Alimentação</p><p>A alimentação dos antigos hebreus, se compararmos com a que nós dispomos hoje, pode ser considerada</p><p>bastante frugal. Aqueles que trabalhavam nos campos provavelmente levavam consigo alguns pães,</p><p>azeitonas, frutas secas e queijos de leite de cabra. Não podemos imaginar uma parada regular para almoço,</p><p>por exemplo. A mais importante refeição diária acontecia no início da noite, quando o trabalho do campo</p><p>estava finalizado. O alimento, então, seria mais reforçado: pães e bolos feitos com o cereal produzido pela</p><p>própria família (cevada ou trigo), coalhada, queijos, pratos com lentilhas e alguns vegetais, temperados com</p><p>sal, vinagre e algumas ervas (como hortelã e cominho, por exemplo). A carne de gado ou caprinos era rara,</p><p>geralmente consumida nos sacrifícios da comunhão realizados nas festas especiais. Outras carnes podiam ser</p><p>consumidas, como codornizes, pombos e perdizes. Nas regiões próximas ao Lago de Genesaré, o consumo de</p><p>peixes era bem mais regular.</p><p>Algumas frutas que faziam parte da alimentação dos antigos israelitas: uvas, romãs, tâmaras e figos.</p><p>Acima, um ramo de azeitonas. A oliveira gerava o produto mais sofisticado de Canaã: o azeite. Produto</p><p>extremamente saudável, era usado na alimentação, na medicina (aplicado em ferimentos diversos), para</p><p>ungir reis e sacerdotes, e como combustível das lâmpadas.</p><p>Acima, o Chromis simonis, ou peixe-de-sãopedro, peixe abundante no Lago de Genesaré.</p><p>TABELAS DE CONVERSÃO e MEDIDAS</p><p>AS MEDIDAS DO MUNDO ANTIGO eram bastante imprecisas se as</p><p>compararmos com os sistemas métricos modernos. Não existia uma</p><p>referência matemática universal, nem instrumentos de alta precisão</p><p>tecnológica. O padrão estabelecido geralmente englobava os elementos do</p><p>cotidiano: o corpo humano, vasilhas utilizadas no comércio, distâncias em</p><p>que se caminhava ou se lançava um dardo, e assim por diante.</p><p>No caso das medidas lineares, o padrão utilizado eram as partes do</p><p>corpo humano. O côvado, medida mais mencionada no Antigo Testamento,</p><p>era a distância entre o cotovelo e a ponta do dedo médio. O palmo era a</p><p>medida da mão aberta de um homem, desde a ponta do polegar até o dedo</p><p>mínimo. A mão (ou palma) era a largura da mão com os dedos fechados. A</p><p>menor medida era o dedo ou polegar, ou seja, a largura de um dos dedos.</p><p>Como as próprias dimensões entre cada grupo humano variam, é muito</p><p>natural que elas fossem diferentes entre os povos. Por exemplo: o côvado</p><p>mesopotâmico era diferente do hebreu e do egípcio. Como não existiam</p><p>tabelas oficiais, na prática os arquitetos e engenheiros tomavam medidas a</p><p>partir de seu próprio braço para definir as proporções de suas obras.</p><p>Com as medidas de capacidade ocorria o mesmo. Os nomes eram os</p><p>mesmos dos recipientes que continham as mercadorias (por exemplo, o</p><p>ômer era a carga de um asno). Neste caso, as medidas eram ainda mais</p><p>variáveis do que as lineares, pois havia uma quantidade muito grande de</p><p>recipientes que, muitas vezes, não aparecem descritos com muita clareza no</p><p>texto antigo. Logo, as tabelas comparativas que podemos construir são</p><p>apenas aproximadas e prováveis, e não podem ser tomadas como exatas. O</p><p>mesmo ocorre com as unidades de peso, bastante</p><p>de questões legais como a guerra até o envio</p><p>de colonizadores a novas terras. Se não havia unidade política, a religião</p><p>emprestava o cimento que unia os gregos como cultura. Os oráculos tinham</p><p>como principais centros as localidades de Delfos (templo de Apolo) e de</p><p>Olímpia (santuário com diversos altares entre árvores e um grande altar</p><p>dedicado a Zeus). Diversas festas eram realizadas nestes santuários, entre</p><p>elas os Jogos Olímpicos, uma competição atlética celebrada a cada quatro</p><p>anos em louvor a Zeus.</p><p>O politeísmo helênico era relativamente reduzido às divindades</p><p>olímpicas, às quais se somavam diversas divindades menores e heróis</p><p>divinizados ou semi-deuses. Os olímpicos eram doze, mas nem sempre</p><p>eram os mesmos, dependendo da localidade. Além disso, cada cidade tinha</p><p>o seu patrono, como Atena em Atenas ou Héracles em Esparta. Os ofícios</p><p>também contavam com seus protetores, aos quais se faziam oferendas – caso</p><p>dos agricultores, que cultuavam Deméter, e dos marinheiros, relacionados a</p><p>Posídon.</p><p>A religiosidade grega não contava com textos sagrados, mas foi</p><p>imensamente comentada por literatos, filósofos e poetas, que interpretavam</p><p>livremente. Dois deles criaram as percepções que permanecem até hoje:</p><p>Homero e Hesíodo. Homero criou o mundo divino à imagem do humano,</p><p>com as mesmas questiúnculas, conflitos e falsidades (Zeus, por exemplo, era</p><p>retratado como um marido extremamente infiel à sua esposa, Hera).</p><p>Hesíodo concebeu a Teogonia (a origem dos deuses) e lançou o problema</p><p>das forças do destino, tanto na vida dos homens, como das divindades. Os</p><p>gregos tinham poucos rituais; davam-se mais pelo respeito para com a</p><p>divindade e conformação perante o destino, prescindindo de uma</p><p>consciência individual que levasse a um procedimento ético.</p><p>Não se pode esquecer da filosofia, que teve seu berço na Grécia. Embora</p><p>bastante conhecida em nossos dias, naquele tempo ela teve como auditório</p><p>somente as elites: o povo desconfiava muito dos pensadores. O século IV</p><p>a.C. viu o ápice do pensamento grego antigo em Sócrates, bem como os</p><p>desdobramentos na fundação da Academia (escola filosófica de Platão) e do</p><p>Liceu (famosa escola de Aristóteles).</p><p>Principais deuses do panteão grego</p><p>Zeus Pai e irmão de todos os deuses, deus do céu e da luz, ordenador do</p><p>cosmos, venerado por todos os gregos. É o deus da tempestade e dos</p><p>raios, monarca do Olimpo (a morada dos deuses).</p><p>Hera Era irmã e infeliz esposa de Zeus, pois ele lhe era infiel. Hera</p><p>protegia o matrimônio e a vida conjugal.</p><p>Posídon Irmão de Zeus, senhor das riquezas primordiais da água e da terra,</p><p>é o deus dos mares, provocador de tormentas e terremotos.</p><p>Hades Irmão de Zeus e de Posídon (filhos de Cronos), era senhor do Mundo</p><p>Inferior e dos mortos.</p><p>Atena Virgem guerreira, presidia as atividades artesanais e favorecia a</p><p>civilização contra a barbárie.</p><p>Apolo Belo e ambíguo deus da saúde e das epidemias, patrono da música e</p><p>das letras. Se dava a conhecer pelos oráculos.</p><p>Ártemis Irmã de Apolo, deusa caçadora, protegia a natureza selvagem.</p><p>Afrodite Deusa do amor, da beleza e da sexualidade, remonta às orientais</p><p>Astarte e Ishtar.</p><p>Hefesto Deus disforme (era manco), forjador, casado com Afrodite. Cultuado</p><p>pelos ferreiros, artesãos e escultores.</p><p>Hermes Deus mensageiro, protetor dos comerciantes, arautos e ladrões, guia</p><p>das almas ao Hades. Era o deus dos pastores de rebanhos.</p><p>Deméter Protetora da terra e da agricultura, objeto de culto de mistérios.</p><p>Dionísio Deus da embriaguez e do prazer desenfreado.</p><p>Ares Misterioso e belicoso deus protetor do espírito guerreiro.</p><p>Asclépio Deus da medicina. Seus templos eram procurados pelas curas.</p><p>Pensamento e religiosidade helenista</p><p>Na religiosidade helenista surgiu um certo hibridismo entre os deuses</p><p>gregos e os dos povos conquistados. A antiga corrente dionisíaca – de culto</p><p>popular exacerbado e desenfreado – ganhou força, associado a divindades</p><p>locais. Era promovido pelos basileus (reis gregos) em seus desfiles com</p><p>figurantes vestidos de sátiros, videiras e guirlandas, de grande atrativo</p><p>popular. Zeus passou por transformações, sendo associado a Baal na Fenícia,</p><p>a Bel na Mesopotâmia ou a Hadad em Damasco. Como o mundo novo</p><p>criado pelos basileus e suas monarquias era favorável aos fortes e</p><p>oportunistas, os pobres e desfavorecidos deixavam suas terras em busca de</p><p>oportunidades, muitas vezes em locais distantes. Na sua busca pelo sucesso,</p><p>muitos deles agradeciam à Fortuna, padroeira das novas cidades que foram</p><p>surgindo. Outro deus bastante destacado entre as camadas populares era</p><p>Asclépio, o deus curador e relacionado às escolas de medicina. Seus</p><p>santuários eram casas onde os fiéis buscavam curas para suas enfermidades.</p><p>Do sincretismo entre deuses olímpicos e culturas locais, ganharam muito</p><p>prestígio, no Egito, os deuses Serápis e Ísis. Serápis foi criado por Ptolomeu</p><p>Sóter a partir da junção de Osíris e Zeus-Posídon, tornando-o patrono de</p><p>Alexandria. Na liturgia, ele aparecia ao lado de Ísis, tradicional deidade</p><p>egípcia, chamada Senhora de tudo, que reunia em seu conceito diversas</p><p>divindades gregas, asiáticas e anatolianas. Em muitos locais, o sincretismo</p><p>helenístico foi bem aceito. Em outros, gerou grandes conflitos, como foi o</p><p>caso de Judá, na conhecida revolta dos Macabeus.62</p><p>A divisão do império de Alexandre</p><p>Com a morte de Alexandre, o império desmoronou. Não havia um</p><p>herdeiro direto nem uma estrutura burocrática que sustentasse o reino. Após</p><p>duas décadas e uma série de guerras entre seus generais, o panorama político</p><p>ficou estabilizado por volta de 301 a.C.:</p><p>– Cassandro: assassinou a mãe e o filho de Alexandre; reinou sobre a</p><p>Grécia e a Macedônia.</p><p>– Ptolomeu: era chamado de Sóter (rei-salvador), seguindo a tradição</p><p>dinástica dos faraós; dominou o Egito e a Palestina. Seus descendentes</p><p>foram os reis gregos do Egito chamados Ptolomeus.</p><p>– Seleuco: em conflito constante com Ptolomeu, transferiu a capital para</p><p>Antioquia. Ficou com o Oriente, Síria, Armênia e Capadócia e deu origem</p><p>à dinastia dos Selêucidas.</p><p>– Lisímaco: reinou sobre a Trácia e Ásia Menor.</p><p>Principais cidades helenísticas</p><p>As cidades helenísticas foram ostentosos teatros da arquitetura, com</p><p>grandes espaços públicos e imensos complexos monumentais, dentre os</p><p>quais alguns foram considerados maravilhas do mundo antigo, segundo o</p><p>poeta Antípatro: o Farol de Alexandria e o Templo de Ártemis em Éfeso.</p><p>Estas podem ser consideradas as principais cidades helênicas:</p><p>– Antioquia da Síria: centro do reino selêucida, maior cidade helenística</p><p>depois de Alexandria. Tinha uma população grega, síria e judaica muito</p><p>significativa.</p><p>– Pérgamo: importante cidade com forte indústria organizada com</p><p>monopólios reais (produziam pergaminhos, têxteis e perfumes). Também</p><p>tinha uma bela biblioteca, com 400 mil volumes.</p><p>– Atenas: cidade que vivia do passado, exceto pela filosofia. Tornou-se a</p><p>cidade universitária por excelência, uma espécie de conservatório do</p><p>helenismo. Ainda haviam nela as escolas criadas por Platão e Aristóteles (a</p><p>Academia e o Liceu). As doutrinas divulgadas eram as de Zenão</p><p>(estoicismo) e de Epicuro (o epicurismo).</p><p>– Alexandria (no Egito): no século III a.C. tornou-se a principal ci-dade</p><p>do Mediterrâneo. Era o centro onde se produziam papiros, linho, perfumes,</p><p>pedras preciosas e se exportava trigo do Egito. Sua população ultrapassou os</p><p>500 mil habitantes, entre greco-macedônicos, judeus e egípcios</p><p>relativamente helenizados. Os primeiros Ptolomeus (Sóter e Filadelfo)</p><p>pretenderam fazer da cidade o centro científico e literário do mundo,</p><p>construindo um museu que abrigava inúmeros sábios, físicos, médicos e</p><p>naturalistas, mantidos como pesquisadores do império. A Biblioteca abrigou</p><p>até 700 mil volumes, entre eles uma tradução grega da Bíblia Hebraica (a</p><p>Septuaginta).</p><p>Ao lado, o farol de Alexandria, imponente torre que iluminava as águas para os navios que chegavam ao</p><p>grande porto da cidade.</p><p>A REVOLTA dos MACABEUS</p><p>O IMPÉRIO PERSA ENTROU EM DECLÍNIO a partir de 400 a.C., e as</p><p>províncias começaram a se rebelar. A decadência continuou até a chegada</p><p>de Alexandre</p><p>no cenário oriental (veja nas páginas anteriores). Em 331</p><p>a.C., Alexandre foi recebido sem oposição em Jerusalém, iniciando uma</p><p>relação pacífica com os judeus, aos quais permitiu a liberdade religiosa e a</p><p>manutenção do sumo sacerdote como autoridade máxima sobre o povo,</p><p>juntamente com o conselho de anciãos. Depois da morte prematura de</p><p>Alexandre e a consequente divisão do império a partir de 320 a.C., a região</p><p>da Judeia ficou sob domínio dos descendentes de Ptolomeu I (Sóter),</p><p>inaugurador da dinastia grega do Egito. Sob os Ptolomeus, os judeus</p><p>viveram também relativa liberdade, podendo manter seu culto e tradições</p><p>sem maiores problemas. Muitos foram viver também no Egito, formando</p><p>uma comunidade muito forte especialmente em Alexandria. Foi nesta</p><p>cidade que foi feita, possivelmente por volta do ano 250 a.C., a primeira</p><p>tradução das Escrituras hebraicas para outra língua: a versão grega</p><p>chamada Septuaginta (LXX). Era da comunidade judaica de Alexandria um</p><p>importante personagem do Novo Testamento, o pregador erudito Apolo.</p><p>O domínio de Jerusalém passou do Egito para o Império Selêucida</p><p>(dinastia grega descendente do general Seleuco, sediada em Antioquia da</p><p>Síria) em 198 a.C., quando Antíoco III venceu os Ptolomeus e tornou-se</p><p>senhor da Judeia e Samaria. Com ele, ainda houve boa relação com os</p><p>judeus e sua fé. Mas a situação mudou muito a partir de Antíoco IV</p><p>(Epifânio), que planejava helenizar à força todos os povos que lhe estavam</p><p>submetidos. O novo rei quis transformar Jerusalém numa cidade grega e</p><p>tratou o cargo de sumo sacerdote como meio de manipulação para atingir</p><p>seus objetivos. Com a resistência que encontrava na Judeia, começou a</p><p>tomar medidas mais drásticas: em 168 a.C., Epifânio enviou o exército para</p><p>Jerusalém com uma missão de coletar impostos, declarar ilegal o culto</p><p>judaico e estabelecer a religião helênica. Ocorreram muitos saques,</p><p>escravização e assassinatos, além de profanações as mais diversas: colocação</p><p>de um altar de Zeus e de ídolos no templo, sacrifício de uma porca no altar,</p><p>proibição das práticas religiosas judaicas sob pena de morte e destruição de</p><p>todas as cópias das Escrituras que se encontrassem. Com tamanha opressão,</p><p>foi desencadeada a revolta dos Macabeus, descrita no livro apócrifo de</p><p>1Macabeus.63</p><p>A revolta dos Macabeus</p><p>Antíoco Epifânio, percebendo que muitos judeus se mantinham fiéis à</p><p>sua religião, tentou destruir sua fé instituindo a pena de morte para quem a</p><p>praticasse e espalhando altares no território para obrigar a população a</p><p>sacrificar aos deuses gregos. Oficiais selêucidas tentaram obrigar um velho</p><p>sacerdote chamado Matatias a realizar um sacrifício pagão em 167 a.C., sem</p><p>obter sucesso. Enquanto ele se negava a fazê-lo, outro judeu saiu das fileiras</p><p>para fazer a oferta, gerando a indignação do sacerdote e de seus filhos ( João,</p><p>Simão, Judas, Eleazar e Jônatas), que se precipitaram sobre o traidor e o</p><p>mataram. Na confusão, eles e os demais judeus presentes mataram também</p><p>os oficiais do rei e fugiram para as regiões montanhosas na companhia de</p><p>outros simpatizantes. Com esse grupo, iniciou-se um conflito de guerrilha</p><p>contra os exércitos dominadores, composto pela família de Matatias e</p><p>diversos hassidim (do hegraico piedosos), judeus que dedicavam-se à</p><p>manutenção da Lei e que pegaram em armas para defender sua fé. O líder</p><p>inicial da revolta adoeceu e morreu, passando o comando para seu filho</p><p>Judas – este ficou conhecido como Macabeu (nome que possivelmente</p><p>venha do aramaico maqqaba, que significa martelo, por causa das derrotas</p><p>que Judas infligiu aos inimigos; o nome da família era Hasmon). Uma</p><p>primeira vitória contra as forças enviadas por Antíoco, e comandadas pelo</p><p>general Apolônio, deram aos rebeldes os armamentos necessários para a</p><p>guerrilha contra o poderoso império selêucida.</p><p>Importante para compreender a vitória dessa luta desigual foi o fato de</p><p>que, naquele momento, Antíoco estava em guerra contra os partas, razão</p><p>pela qual não podia enviar seu exército principal para conter a revolta. Com</p><p>ousadia, Judas Macabeu tomou a iniciativa e marchou contra Jerusalém,</p><p>conseguindo retomar a cidade em dezembro de 165 a.C. A purificação do</p><p>templo e a retomada dos sacrifícios naquele momento é relembrado até hoje</p><p>na festa judaica do Hannukah (que significa dedicação, veja na página 14).</p><p>Epifânio morreu em 163 a.C., deixando em seu lugar um rei menor de</p><p>idade e um governo enfraquecido. Judas continuou lutando para garantir a</p><p>independência judaica até morrer em combate em 160 a.C., sendo sucedido</p><p>pelo irmão Jônatas, que continuou expandindo as conquistas até 143 a.C.</p><p>Simão, o último irmão vivo dos Macabeus, assumiu a liderança em 142</p><p>a.C., ocasião em que conseguiu a isenção de impostos e o reconhecimento</p><p>dos selêucidas, envolvidos em guerras sucessórias internas. Simão foi eleito</p><p>pelo povo como sumo sacerdote e coroado como príncipe. Depois,</p><p>conquistou o apoio dos romanos (que já expandiam seu império por todo o</p><p>Mediterrâneo) e conseguiu estabelecer um reino independente de Judá.</p><p>A decadência dos Hasmoneus</p><p>A bela história de fé original dos Macabeus se perdeu na política de</p><p>Judá. As lutas internas pelo poder derrubaram a estabilidade do governo</p><p>quando, em 135 a.C., Simão foi assassinado pelo seu genro. Com sua morte</p><p>acabou a história dos Macabeus propriamente dita e iniciou a da Dinastia</p><p>Hasmoniana, ou seja, dos netos e descendentes de Matatias. Um filho de</p><p>Simão, João Hircano, se apoderou rapidamente do governo e tomou o título</p><p>de príncipe, dando início à profunda cisão política entre diversos grupos</p><p>dentro da comunidade – os hassidim de um lado (que haviam lutado ao lado</p><p>da primeira geração dos Macabeus), e os partidários dos sacerdotes (que</p><p>eram a favor de qualquer um, menos Hircano). As lutas internas pelo poder</p><p>tomaram conta dos Hasmoneus, sempre lutando pela manutenção de seu</p><p>privilégio nas seis décadas seguintes e atingindo o ápice na guerra civil entre</p><p>Aristóbulo II e Hircano II a partir de 69 a.C. A guerra civil de Judá</p><p>perdurou até chamar a atenção dos romanos, que subiram a Jerusalém</p><p>comandados por Pompeu em 63 a.C. A partir de então, Roma tomou o</p><p>partido de Hircano, e promoveu a carnificina dos 12 mil refugiados de</p><p>Aristóbulo que se encontravam no templo, anexando a Judeia ao Império</p><p>Romano.64</p><p>Governantes de Judá independente:</p><p>Na página ao lado, o mapa de Judá retomada pelos judeus do início da revolta até o tempo da máxima</p><p>expansão com Alexandre Janeu. Foram governantes neste período:</p><p>– Judas Macabeu (164–160 a.C.): liderou os rebeldes e conquistou os primeiros resultados de vitória em oito</p><p>guerras contra os selêucidas.</p><p>– Jônatas Macabeu (160-143 a.C.): irmão de Judas, continuou governando como sacerdote e ampliando as</p><p>conquistas anteriores.</p><p>– Simão Macabeu (142–134 a.C.): último irmão dos Macabeus, também governou como sacerdote e foi</p><p>eleito príncipe pelo povo, unindo poder civil ao religioso. Conquistou a independência e o apoio dos romanos,</p><p>garantindo a autonomia de Judá.</p><p>– João Hircano I (134–104 a.C.): sumo sacerdote e príncipe de Judá, expandiu as conquistas para Samaria e</p><p>Idumeia, onde impôs o judaísmo a todos os edomitas. Destruiu o templo samaritano em Gerizim em 130</p><p>a.C., provocando o ódio dos samaritanos.</p><p>– Aristóbulo I (104–103 a.C.): filho de João Hircano, faleceu no ano seguinte à sua ascensão ao governo, após</p><p>conquistar a Galileia.</p><p>– Alexandre Janeu (103–76 a.C.): além de sacerdote, foi o primeiro Hasmoneu a proclamar-se rei. Também</p><p>filho de João Hircano, casou-se com a viúva de seu irmão, Salomé Alexandra, e expandiu o reino</p><p>conquistando Moabe e Gileade. Enfrentou crise ao chacinar cerca de 6 mil do seu próprio povo que</p><p>protestavam em Jerusalém.</p><p>– Salomé Alexandra (76–66 a.C.): esposa de Alexandre, aliou-se aos fariseus para conseguir se sustentar no</p><p>poder.</p><p>– Aristóbulo II e Hircano II (66–63 a.C.): filhos de Salomé, entraram em guerra civil que só encontrou termo</p><p>quando os romanos intervieram, confirmando Hircano como sumo sacerdote e exilando Aristóbulo em Roma.</p><p>O PERÍODO INTERBÍBLICO</p><p>NOS ANOS</p><p>DE SILÊNCIO PROFÉTICO entre Malaquias (por volta de 400</p><p>a.C.) e o surgimento de João Batista (algo em torno de 27 d.C), a Judeia</p><p>passou por diversas transformações. Nas páginas anteriores, foi visto que o</p><p>território da Palestina passou por diferentes influências: persa, grega, um</p><p>tempo de independência com os Macabeus, e finalmente o domínio</p><p>romano.</p><p>Durante o domínio persa, que se estendeu de 536 a 332 a.C., os judeus</p><p>gozaram de certa liberdade, principalmente no que diz respeito à prática de</p><p>sua fé. No período helenista, da conquista de Alexandre em 331 a.C. até a</p><p>revolta dos Macabeus em 167 a.C., houve dois momentos distintos: um</p><p>tempo pacífico e tolerante sob os reis Ptolomeus, quando da dominação do</p><p>Egito sobre a Palestina; e o segundo, a partir de 198 a.C., quando os</p><p>Selêucidas (reis helenistas da Síria) conquistaram todo o território ao Egito.</p><p>A nova política era de helenização, mas pouco incisiva até que Antíoco</p><p>Epifânio, a partir de 168 a.C., usou de extrema violência para forçar os</p><p>judeus a abdicarem de sua fé. Com isso, explodiu a revolta do sacerdote</p><p>Matatias e seus filhos, e ascensão da dinastia hasmoniana registrada nas</p><p>páginas anteriores. Em 63 a.C., a Palestina foi conquistada pelos romanos,</p><p>que tiveram inicialmente uma política de manutenção da dinastia dos</p><p>hasmoneus, mas posterior-mente acabaram por designar como governador</p><p>da Judéia o edomita Antipator, sucedido por seu filho Herodes (que viria a</p><p>ser conhecido como o Grande).</p><p>A diáspora judaica</p><p>Embora os judeus mantivessem sempre o sonho do reino davídico, já</p><p>estava em andamento o processo que viria a ser chamado de diáspora judaica</p><p>(diáspora é palavra grega que significa dispersão). O espalhamento dos judeus</p><p>pelo mundo iniciou com a primeira deportação para a Babilônia (ocorrida</p><p>em 605 a.C). Com o fim do exílio, embora um grupo significativo tenha</p><p>retornado para Jerusalém, muitos outros resolveram permanecer na</p><p>Babilônia, onde formou-se uma importante comunidade judaica que,</p><p>inclusive, elaborou o Talmude Babilônico, um comentário a respeito da Lei</p><p>Mosaica (tratamos da diáspora nas páginas 72 e 80). Com o tempo, os</p><p>judeus se espalharam para muitos outros lugares, como o Marrocos (onde</p><p>havia comunidades já em 200 a.C.) e Mumbai, na Índia (há registros por</p><p>volta de 175 a.C.). Mas a principal concentração estava no Egito.</p><p>Na terra dos antigos faraós criaram-se diversas colônias judaicas. Em</p><p>Elefantina formou-se uma comunidade bastante forte que chegou, inclusive,</p><p>a construir um templo próprio com um altar onde se ofereciam holocaustos</p><p>e sacrifícios – embora não autorizados pelo centro de Jerusalém. Outra</p><p>comunidade semelhante levantou-se em Leontópolis, que também</p><p>construiu um templo em 162 a.C. e cujo ritual (muito semelhante ao de</p><p>Jerusalém) foi destruído pelos romanos em 73 d.C. A cidade com o mais</p><p>importante agrupamento judaico foi Alexandria. Fundada em 332 a.C. por</p><p>Alexandre na foz do Nilo, a cidade tornou-se capital do Egito durante o</p><p>reinado helenista dos Ptolomeus. Ficou famosa pelo farol de 110 metros de</p><p>altura que ali foi construído (e que foi considerada uma das sete maravilhas</p><p>do Mundo Antigo), e pela biblioteca que guardava cerca de 700 mil rolos.</p><p>Foi essa biblioteca a provável responsável pela primeira tradução do Antigo</p><p>Testamento, a Septuaginta. Acredita-se que o rei Ptolomeu II Filadelfo</p><p>(281-246 a.C.) tenha pedido aos judeus uma tradução de suas escrituras</p><p>para o grego, a fim de incluir a obra no acervo da grandiosa biblioteca que</p><p>mandara construir. Segundo a lenda, tradução leva esse nome porque teria</p><p>sido executada por 70 ou 72 sábios judeus e entregue ao imperador. A</p><p>Septuaginta continuou tendo alguns acréscimos e sendo fixada ao longo dos</p><p>séculos, enquanto as cópias hebraicas em Jerusalém também passava pelo</p><p>processo de uso e reconhecimento. Em Alexandria, acabaram sendo</p><p>incluídos alguns livros posteriores, chamados de apócrifos pelos protestantes,</p><p>e de deuterocanônicos pelos católicos, que não foram aceitos pela comunidade</p><p>judaica quando da fixação do Cânon Sagrado hebreu (talvez por volta do</p><p>primeiro século d.C.). Desta diferença – entre a Septuaginta e a Escritura</p><p>hebraica – nasceu a diferença entre as Bíblias católica e protestante, que se</p><p>resume a estes livros a mais no Antigo Testamento católico: Judite, Tobias,</p><p>acréscimos de Ester, Sabedoria, Eclesiástico, Baruque, acréscimos de</p><p>Daniel, 1Macabeus e 2Macabeus. A Septuaginta teve grande importância</p><p>na comunidade cristã primitiva, que podia ler as Escrituras do Antigo</p><p>Testamento em grego, a língua universal entre os gentios, especialmente da</p><p>Europa.65</p><p>Além dos apócrifos, houve ainda os escritos extrabíblicos como Enoque,</p><p>Os Doze Patriarcas, Moisés e muitos outros chamados Pseudo-epigráficos.</p><p>Foram escritos entre 200 a.C. e 200 d.C., sempre sob um pseudônimo. São</p><p>obras importantes para o entendimento das crenças e atitudes dos judeus na</p><p>época de Jesus e um pouco anterior a ela, mas nunca foram incluídos nos</p><p>cânons judaico ou cristão.</p><p>As sinagogas</p><p>A expressão sinagoga é grega: sinagogê, correspondente ao hebraico</p><p>keneseth, traduzido por congregação e que acabou designando o lugar de</p><p>reunião do judaísmo. As sinagogas surgiram, provavelmente, durante o</p><p>exílio babilônico. Desde então continuaram ganhando destaque em todos os</p><p>locais onde os judeus viveram na diáspora. Eles se reuniam aos sábados para</p><p>ler as escrituras, orar, cantar salmos e ouvir comentários sobre a Lei.</p><p>Inicialmente, as reuniões devem ter ocorridas nas casas; com o tempo, foram</p><p>construídas estruturas para abrigar tais encontros. O ambiente era simples: à</p><p>frente havia uma arca portátil onde eram guardados os rolos da Lei e dos</p><p>Profetas, além de uma menorah (o castiçal de sete hastes). Em um estrado</p><p>era colocado o livro para a leitura e os assentos mais próximos tinham maior</p><p>honra. Homens e mulheres sentavam separados. Para inaugurar uma</p><p>sinagoga, eram necessários no mínimo dez homens, que elegiam um oficial</p><p>para dirigir as orações e organizar a leitura da lei. Eventualmente, este</p><p>oficial pregava; ele era chamado o anjo da congregação. A ordem de culto da</p><p>sinagoga seguia, provavelmente, a seguinte sequência: recitação da confissão</p><p>de Israel (Dt 6.4-9, 11.15-21 e Nm 15.37-41); oração de arrependimento;</p><p>leitura da Lei, seguida de interpretação; exortação do chefe da sinagoga; e</p><p>oração final.66</p><p>A esperança messiânica</p><p>Com as imensas crises pelas quais os judeus passaram, a esperança</p><p>messiânica rejuvenescia, justamente por causa dos momentos de derrota. A</p><p>palavra Messias (Mashiah em hebraico, Christos em grego, que significa</p><p>ungido) não aparece no Antigo Testamento como um termo isolado, ou</p><p>título: está sempre associado como genitivo ou sufixo qualificativo, como o</p><p>ungido de YHWH, ou meu ungido. Mas foi especialmente durante o período</p><p>interbíblico que a esperança messiânica em um indivíduo, que seria um rei</p><p>descendente de Davi, tomou forma definitiva. Por isso, os judeus não</p><p>esperavam um salvador que os redimisse dos pecados, mas um guerreiro</p><p>conquistador que os libertaria do domínio de Roma, instaurando um reino</p><p>eterno sob a égide de Israel.67</p><p>JESUS CRISTO</p><p>Os romanos conquistaram todo o sul da Europa e norte da África sob o</p><p>regime de governo republicano. As crises econômicas e sociais do último</p><p>século a.C. provocaram a mudança para o sistema imperial a partir de</p><p>César Augusto. Jesus Cristo nasceu durante o seu governo, quando o</p><p>Império Romano dominava todo o mundo mediterrânico e vivia seu auge</p><p>econômico e cultural. A Palestina estava sob controle dos romanos, mas a</p><p>proximidade da região com os partas da Mesopotâmia, os sucessores dos</p><p>persas, não permitiu a expansão em direção ao Oriente Próximo. Roma</p><p>não sofria nesse tempo pressão de nenhum inimigo externo que tentasse</p><p>invadir ou questionar sua supremacia, mas a Judeia era parte de uma região</p><p>bastante turbulenta pela expectativa messiânica de suas comunidades e</p><p>proximidade de povos livres do imperialismo romano.</p><p>A PLENITUDE dos TEMPOS</p><p>QUANDO CHEGOU A PLENITUDE DO TEMPO, enviou Deus o seu Filho (Gl</p><p>4.4). O silêncio profético</p><p>nos 400 anos entre Malaquias e João Batista não</p><p>significou inoperância: Deus esteve agindo. Cristo invadiu a história</p><p>quando séculos de preparação chegaram ao seu ápice, consumando um</p><p>plano que Deus traçara desde a aurora dos tempos. Vinha cumprir a</p><p>promessa dada a Abraão de abençoar todas as famílias da terra.</p><p>O mundo estava pronto. Nessa preparação, Deus não usou somente o</p><p>povo de Israel, portador da promessa: também os pagãos deram sua</p><p>contribuição, mesmo sem o saber. Gregos e romanos, além dos judeus,</p><p>prepararam os caminhos do Senhor.68</p><p>Contribuição dos povos do Antigo Testamento</p><p>A preparação divina para o advento de Cristo já aparece no princípio da</p><p>Bíblia. A Mesopotâmia foi o berço da história de Abraão, de onde ele partiu</p><p>para a terra que Deus ainda iria mostrar e por meio de quem todos os povos da</p><p>terra seriam abençoados (Gn 12.1-3). Foi este também o local em que o povo</p><p>de Judá foi preservado, mesmo em exílio, e onde as sinagogas surgiram</p><p>juntamente com o entendimento monoteísta de Deus e as implicações disto</p><p>para a fé cotidiana. O Egito forneceu a primeira história de salvação da</p><p>Bíblia, modelo e arquétipo para a Páscoa, que seria uma expressão da</p><p>salvação da humanidade e sua transição para a terra prometida do Reino de</p><p>Deus. Foi também no Egito que o nome de Deus (YHWH e Eu Sou) foi</p><p>revelado aos hebreus. Mesmo entre os cananeus, tão criticados no texto</p><p>bíblico por seu culto sanguinário, trouxeram um nome e uma noção de Deus</p><p>no antigo e esquecido culto de El – nome e substantivo que foi incorporado</p><p>ao hebraico como perfeita expressão de Deus. Os cananeus também</p><p>forneceram ao povo de Judá uma língua para se comunicar com todo o</p><p>Oriente, o aramaico, a língua que seria falada por Jesus. Finalmente, os</p><p>persas permitiram, com sua tolerância, o retorno das lideranças judaicas para</p><p>Jerusalém, contribuindo para a reconstrução do templo – o palco de grandes</p><p>histórias dos evangelhos –, além de terem noções religiosas muito próximas</p><p>à ideia de um Salvador da humanidade.</p><p>A contribuição dos gregos</p><p>O mundo ocidental – do rio Indo até o estreito de Gibraltar, conhecido</p><p>no Mundo Antigo como Colunas de Hércules – foi helenizado de alguma</p><p>maneira, embora com intensidades diferentes. Esse processo de helenização</p><p>criou uma cultura comum, manifestada em diversos elementos</p><p>originalmente gregos, mas que ganharam internacionalidade pela simbiose</p><p>com as culturas orientais. A principal contribuição dos gregos foi a língua: o</p><p>koiné, dialeto de Atenas, tornou-se a língua franca utilizada em todo o</p><p>mundo ocidental para a comunicação oficial e comercial. Assim como o</p><p>inglês dos dias atuais, o grego se tornou a segunda língua daqueles povos. É</p><p>preciso lembrar que a Igreja Primitiva, tão logo se abriu para os gentios,</p><p>adotou o grego na escrita de pelo menos três dos quatro evangelhos (Mateus</p><p>provavelmente foi escrito originalmente em aramaico, mas logo foi</p><p>traduzido) e em todas as cartas que se tornaram, séculos depois, o cânon</p><p>sagrado do Novo Testamento.</p><p>Outra participação grega foi a própria noção de democracia, que</p><p>permitiu um clima bem mais ameno para as ideias igualitárias da pregação</p><p>cristã. Ainda no campo das ideias, a filosofia também deu sua contribuição.</p><p>Embora dela também tenham nascido diversas heresias a partir do século II</p><p>d.C. (como o gnosticismo, por exemplo), antigas escolas do estoicismo</p><p>deram à filosofia uma feição prática, além de levar o homem à introspecção</p><p>a respeito da existência de um Deus único, transcendente, metafísico e</p><p>eterno.</p><p>Por fim, devemos aos gregos a educação que elevou o nível intelectual do</p><p>povo e produziu excelentes escribas e copistas para as Escrituras. O uso de</p><p>cartas, por exemplo – um hábito notadamente grego, logo assimilado pelos</p><p>romanos – se tornou muito comum e foi adotado como meio de</p><p>comunicação à distância em uma igreja que cobria cada vez maiores</p><p>distâncias. Observe-se que, no Antigo Testamento, não há cartas, a não ser</p><p>as mensagens oficiais trocadas entre monarquias; já no Novo Testamento,</p><p>elas aparecem como uma prática comum entre indivíduos e comunidades.</p><p>A contribuição dos romanos</p><p>A sociedade que foi produto das conquistas romanas era ainda mais</p><p>dividida do que fora até então. Todas as províncias apresentavam um fosso</p><p>entre classes dominantes e dominadas, reproduzindo a profunda injustiça da</p><p>capital imperial. A aflição com a situação social, bem como a desilusão com</p><p>as religiões tradicionais, permitiu a abertura a novas explicações, entre elas o</p><p>cristianismo, oriundo das fronteiras orientais do império. A pregação dos</p><p>cristãos a respeito da possibilidade de um relacionamento direto com Deus</p><p>– que andara entre os homens, vivendo e sofrendo com Suas criaturas – foi</p><p>um grande alento. A comunidade cristã era atraente aos sofredores, pois ali</p><p>não podia haver escravo ou livre, homem ou mulher, mas todos eram iguais</p><p>perante Deus.</p><p>O mesmo Estado romano trouxe também a noção de um império</p><p>universal, sob o qual todos os homens estavam subjugados, e de uma lei à</p><p>qual todos os súditos deviam obedecer. Tal ideia também foi reforçada na</p><p>pregação cristã, mas lançada para a Era Vindoura: haveria um reino</p><p>espiritual e eterno ao qual todos os homens estariam subordinados, de</p><p>acordo com uma lei universal a qual todos deveriam responder.</p><p>Em um sentido mais prático, o Império Romano trouxe uma situação</p><p>rara nas sociedades antigas: impôs a paz pelas armas (a Pax romana). O</p><p>patrulhamento constante de forças militares e a destruição dos piratas que</p><p>assolavam o mar Mediterrâneo tornou as viagens muito mais seguras para</p><p>indivíduos e grupos pequenos do que nos séculos anteriores, quando se</p><p>faziam necessárias grandes e bem armadas caravanas. Era possível tomar as</p><p>estradas romanas (vias excelentes construídas pelos legionários quando não</p><p>lutavam) e navios de carga com muito menos medo de um assalto por parte</p><p>de bandoleiros.</p><p>Contribuição dos judeus</p><p>A mais óbvia contribuição é o próprio Jesus Cristo. Ele nasceu judeu,</p><p>como cumprimento da promessa de Deus que veio aos homens, em um</p><p>desenvolvimento de substituição redutiva e progressiva: da humanidade,</p><p>Deus separou o povo de Israel; do povo de Israel, deixou um remanescente</p><p>fiel; e do remanescente, veio um único homem: Cristo Jesus. Os judeus</p><p>foram o canal para que Deus abençoasse o mundo inteiro, como prometera</p><p>a Abraão, aos demais patriarcas e aos profetas. Mas há ainda outras</p><p>contribuições. A terra prometida ficava em uma posição geográfica</p><p>invejável: no entroncamento de três grandes continentes, uma posição</p><p>estratégica interessante para a expansão da igreja. Dos judeus veio ainda o</p><p>movimento do escribismo, os doutores da Lei conservadores que</p><p>preservaram as Escrituras, a teologia judaica e o foco na Torá. As sinagogas,</p><p>espalhadas pelos mais diversos lugares, foram os primeiros locais de</p><p>pregação do Evangelho no Império Romano e a base das primeiras igrejas</p><p>cristãs. Por último, os judeus deixaram o legado da Septuaginta – a tradução</p><p>das Escrituras para o grego, tornando-se ela a primeira Bíblia do nascente</p><p>Cristianismo.</p><p>O MAIOR IMPÉRIO do MUNDO ANTIGO</p><p>O IMPÉRIO ROMANO possui uma história longa e complexa.69 Seu império</p><p>controlou todas as terras no entorno do Mar Mediterrâneo, ao ponto dos</p><p>romanos o denominarem Mare Nostrum (Nosso Mar). Para chegar a</p><p>tamanha dimensão, muitas guerras tiveram que ser travadas. Na verdade,</p><p>Roma precisou de mais ou menos seis séculos para controlar apenas a</p><p>Península Itálica; dominado seu quintal, bastou um século para conquistar</p><p>quase todo o Ocidente antigo. O segredo do seu sucesso imperialista estava</p><p>em duas características essenciais: a força disciplinada do exército, que</p><p>marcou sua superioridade bélica, e a capacidade de estabelecer alianças e</p><p>vantagens a determinados segmentos dos povos conquistados. Os romanos</p><p>souberam, como poucos, unir força e política para estabelecer dominação.</p><p>A época arcaica</p><p>Rezam as lendas que a cidade-estado de Roma foi fundada em 753 a.C.</p><p>por Rômulo, descendente de Eneias, príncipe sobrevivente da queda de</p><p>Tróia. Mitologia à parte, há resquícios arqueológicos</p><p>de povoação na cidade</p><p>já no século X a.C. Naquela sociedade, a família era a base econômica: o</p><p>chefe tinha autoridade ilimitada sobre a esposa, filhos e escravos (detinha o</p><p>pater potestas, o poder paterno). As famílias eram agrupadas em clãs</p><p>chamados gens, que por sua vez se agrupavam na curiae, base da organização</p><p>das assembleias e do exército. A camada superior da monarquia era o</p><p>patriciado, uma nobreza de sangue e proprietária de terras, base do Senado.</p><p>Era uma sociedade que mantinha escravos como reforço do trabalho,</p><p>oriundos de famílias empobrecidas (que vendiam seus filhos para saldar</p><p>dívidas) e presos de guerra.</p><p>A República romana</p><p>Os conflitos entre as elites acabou por levar à deposição dos reis e à</p><p>instauração da República, um governo compartilhado entre os anciãos</p><p>aristocratas do Senado, regido por cônsules eleitos anualmente dentre eles.</p><p>A vida política de Roma era exclusividade dos cidadãos, seja os que tinham</p><p>tal direito por nascimento, seja adquirido por algum serviço prestado (ou até</p><p>mesmo comprado em dinheiro). Somente eram considerados cidadãos com</p><p>direitos políticos aqueles que possuíam propriedades rurais. A imagem</p><p>democrática das assembleias populares não deve nos enganar: a República</p><p>romana era um regime comandado pelo Senado, exclusivo dos ricos</p><p>proprietários das famílias tradicionais.</p><p>Conforme eram conquistados novos territórios, os romanos concediam</p><p>vantagens progressivas aos nativos, garantindo a fidelidade de seus aliados</p><p>nas províncias. O primeiro benefício foi dado aos italianos, que foram</p><p>contemplados com o direito latino. Era inferior ao direito do cidadão</p><p>romano, mas dava benefícios superiores como importantes aliados da</p><p>península.</p><p>Com as conquistas do século II a.C. e a imensa afluência de riquezas</p><p>para Roma, floresceu a latifundia – concentração de terras nas mãos de</p><p>poucos proprietários – em detrimento dos pequenos produtores. Novas</p><p>famílias muito ricas, oriundas das classes de militares chamadas equestres (ou</p><p>cavaleiros), passaram a disputar o poder junto às famílias tradicionais. No</p><p>último século da República, as classes estavam divididas em senadores (a</p><p>nobreza tradicional), equestres (os cavaleiros que adquiriram fortunas nas</p><p>conquistas militares) e plebes (uma complexa gama de cidadãos pobres do</p><p>meio rural e urbano de Roma). O conflito intra-elite (dentro do Senado e,</p><p>principalmente, com a classe equestre) terminou em uma sangrenta guerra</p><p>civil envolvendo Pompeu e Júlio César. O último venceu e tornou-se ditador</p><p>perpétuo, mas foi assassinado em pleno Senado. O acordo aristocrático que</p><p>sustentava a República ruiu e se fez necessária a ascensão de um líder que</p><p>vencesse opositores e acomodasse os interesses de aliados. Tal personagem</p><p>foi Caio Otávio, filho adotivo de Júlio César, que conseguiu articular uma</p><p>nova forma de governo: o Estado Imperial.</p><p>O Império romano</p><p>Em 27 a.C., o Senado deu a Caio Otávio (ou Otaviano) o título</p><p>honorífico de Augusto. Ele reformou as estruturas do Estado, concentrou</p><p>gradativamente o poder em suas mãos, limitou o papel do Senado – que</p><p>passou a servir não mais ao governo como um todo, mas a Augusto – e</p><p>reorganizou todo o sistema provincial. Em homenagem ao pai adotivo,</p><p>adotou o nome de César Augusto e deu origem ao período imperial. O</p><p>nome próprio César passou a designar, a partir dele, o título de imperador</p><p>romano. Reorganizado o governo e o acordo com as elites, foram retomadas</p><p>as conquistas, que continuaram até sua máxima expansão com Trajano. O</p><p>império tornou-se um gigante que não foi seriamente pressionado até</p><p>meados do século II d.C.</p><p>O crescimento cessou somente com Adriano (imperador entre 117 a 138</p><p>d.C.), que instituiu a fronteira e determinou o fim da expansão territorial</p><p>romana. O fim das conquistas significariam também a falência dos romanos</p><p>ao longo dos séculos seguintes: cessando a afluência artificial de riquezas e</p><p>escravos para os latifúndios, a economia ruiu sobre si mesma.</p><p>A exploração romana</p><p>Os territórios conquistados eram transformados em províncias do</p><p>império, passando a ser explorados sistematicamente. As riquezas de cada</p><p>território eram confiscadas de três maneiras básicas: pilhagem, tributos e</p><p>comércio. A pilhagem era praticada como espólio de guerra no momento da</p><p>conquista militar: cessado o combate e rendido o inimigo, suas terras e</p><p>cidades eram devastadas, roubando-lhes toda riqueza e tomando dentre o</p><p>povo inúmeros escravos. A segunda forma de exploração era na forma de</p><p>tributos, que deviam ser pagos anualmente ao império, funcionando sem</p><p>remuneração, mas com um sistema terceirizado de comissão sobre valores</p><p>arrecadados ao império – o que acabou criando a figura do publicani, palavra</p><p>latina que designava o burocrata que fazia a cobrança de impostos. O</p><p>publicano tornou-se em uma das figuras mais odiadas nas províncias, pois</p><p>ele era um nativo arregimentado pelo império para arrecadar tributos e</p><p>lucrava com a ruína de seus patrícios por meio das comissões recebidas. A</p><p>terceira forma era a própria presença de comerciantes e latifundiários</p><p>romanos, o que acabava se tornando a mais perniciosa e prejudicial forma de</p><p>exploração, porque permanente e individualizada, muitas vezes</p><p>acompanhada de monopólios sobre as principais atividades econômicas</p><p>locais. Tudo isso contava sempre com a proteção do poderoso Estado</p><p>romano contra rebeliões.70</p><p>Entretanto, não apenas de exploração o império se mantinha. Também</p><p>era preciso trazer algum tipo de benefício para que as revoltas fossem menos</p><p>frequentes e houvesse alguma governabilidade para os administradores</p><p>locais, mesmo os que foram cooptados. O Império Romano construiu</p><p>muitas estradas em todos os seus domínios, muito bem pavimentadas com</p><p>pedras e concreto (algumas existentes até hoje). No caminho, o viajante</p><p>podia encontrar postos e hospedarias, além de ter a segurança da patrulha</p><p>do exército. A maioria das viagens eram feitas a pé, mas os mais abastados</p><p>usavam carruagens. Cavalos eram usados somente por mensageiros. No mar</p><p>Mediterrâneo, os romanos limparam a pirataria com suas naus de guerra,</p><p>responsáveis pelo patrulhamento marítimo. No tempo de Paulo, por</p><p>exemplo, se tornou uma ótima opção, pois uma longa distância, como entre</p><p>Corinto e Puteóli (na Itália), podia ser coberta em apenas cinco dias.</p><p>A EXPANSÃO do IMPÉRIO ROMANO</p><p>A HISTÓRIA DE ROMA é milenar. Para compreendermos um pouco deste</p><p>longo processo, ela pode ser resumida em alguns períodos:71</p><p>Fundação de Roma e Monarquia (753-509 a.C.)</p><p>A lenda coloca a fundação da cidade de Roma em 21 de abril de 753</p><p>a.C. Mas escavações arqueológicas revelam um núcleo urbano já no século X</p><p>a.C., tornando a cidade ainda mais antiga. O sistema de governo adotado</p><p>teria sido a monarquia. Nesse período ocorreu a primeira vitória contra a</p><p>cidade rival, Alba Longa, e a primeira expansão com a fundação da colônia</p><p>de Óstia, na foz do rio Tibre. A sociedade era dividida entre patrícios e</p><p>plebeus, mas a monarquia foi extinta com a expulsão dos etruscos, etnia</p><p>diversa dos romanos que governava a cidade. Desde então, a ideia de estar</p><p>submisso a um rei era estranha e desprezada pelos romanos.</p><p>A República e as lutas entre patrícios e plebeus (509-343 a.C.)</p><p>Com o fim da monarquia, foi criada a República, baseada no governo do</p><p>Senado, com a eleição dos primeiros cônsules. Os romanos venceram os</p><p>latinos – vizinhos da Itália – em 496 e ingressaram na Liga Latina em 493</p><p>a.C. Nesse período começaram sérios conflitos sociais entre patrícios e</p><p>plebeus, ocorrendo então a criação de cargos de tribuno da plebe para</p><p>defender os direitos das classes menos favorecidas (em 494), a promulgação</p><p>das Leis das XII Tábuas (em 451) e a permissão de casamentos entre</p><p>patrícios e plebeus (em 445). Outra cidade rival, Veios, foi destruída em 396</p><p>a.C. A cidade de Roma foi invadida e saqueada pelos gauleses em 390 a.C.,</p><p>o que provocou uma grave crise, da qual os romanos se recuperaram depois</p><p>de pouco tempo. Em termos de técnicas militares, foi deste período a</p><p>organização do exército em centúrias.</p><p>Conquista da Itália e Guerras Púnicas (343-146 a.C.)</p><p>Roma determinou a dissolução da Liga Latina em 338 a.C. Nas quatro</p><p>décadas seguintes empreendeu guerras contra os samnitas do sul da Itália,</p><p>conquistando a região. Deu-se início a efetiva expansão, o que colocou</p><p>Roma em conflito com a importante cidade de Cartago, do norte da África</p><p>(os cartagineses eram chamados de púnicos pelos romanos, pois significa</p><p>fenícios). Após a 2ª Guerra Púnica (201 a.C.), os romanos já controlavam o</p><p>Mediterrâneo. A 3ª Guerra Púnica foi apenas um pretexto para destruir</p><p>Cartago, o que aconteceu em 146 a.C. A partir de então, os romanos</p><p>ampliaram suas conquistas, anexando a Grécia e a Macedônia logo na</p><p>sequência.</p><p>Crise da República (146-78 a.C.)</p><p>Foi criada a província da Ásia com a conquista da Anatólia na</p><p>continuidade do expansionismo da República. Entretanto, explodiram novas</p><p>tensões sociais, encabeçadas pela luta dos irmãos Graco por reforma agrária</p><p>– mas eles acabaram assassinados. Mesmo com a crise interna, prosseguiram</p><p>as conquistas, anexando o sul da Gália em 121 a.C. Entre 98 e 88 a.C.</p><p>explodiu outro problema social na Itália, ocorrendo a guerra contra os</p><p>latinos. Os romanos venceram com muitas dificuldades, mas terminaram</p><p>por conceder os direitos de cidadania para os latinos e apaziguaram a</p><p>península.</p><p>Época de Júlio César no fim da República (78-44 a.C.)</p><p>Com a convulsão social e o enfraquecimento da oligarquia do Senado,</p><p>abriram-se as portas para a ascensão econômica e social da classe equestre (os</p><p>cavaleiros), importante elemento militar do exército romano, que</p><p>enriquecera com as conquistas. O cônsul Pompeu dominou em 64 a.C. as</p><p>regiões do Ponto e Bitínia; a Palestina foi pacificada e conquistada por ele</p><p>em 63 a.C. Em 60 a.C., César, Pompeu e Crasso formaram o primeiro</p><p>triunvirato, um acordo de equestres contra o poder do Senado. Mas a</p><p>aliança era frágil: explodiu a guerra civil entre os exércitos de Pompeu e</p><p>Júlio César, com a vitória deste e a morte daquele em 45 a.C. Júlio César</p><p>triunfou e conseguiu a nomeação de ditador vitalício, o que lhe garantia</p><p>praticamente uma posição de imperador – mas foi assassinado pelos</p><p>senadores em março de 44 a.C.</p><p>Augusto e a dinastia Júlio-Claudina (44 a.C.-68 d.C.)</p><p>A luta pela sucessão de César teve como vencedor o jovem Otaviano,</p><p>seu filho adotivo. Em 27 a.C, ele recebeu do Senado o título de Augusto,</p><p>que usou para levar adiante as reformas do Estado romano: concentrou em</p><p>suas mãos o poder absoluto e deu origem ao Império. Depois dele, Tibério</p><p>foi um ótimo administrador, Cláudio se dedicou às reformas burocráticas e</p><p>financeiras do estado, mas Nero se destacou pelas extravagâncias.</p><p>Dinastia Flaviana e imperadores adotivos (68-192 d.C.)</p><p>O assassinato de Nero marcou o início de uma anarquia militar até que</p><p>Vespasiano, pacificador da Judeia, tomou o poder e reorganizou o Estado.</p><p>Domiciano consolidou as conquistas na Bretanha e Germânia. Com a</p><p>adoção de Trajano, Nerva deu início à série de imperadores adotivos. O</p><p>imperador Adriano encerrou a política expansionista. Marco Aurélio</p><p>precisou apaziguar diversas rebeliões e com Cômodo iniciou uma grave crise</p><p>política.</p><p>Os Severos e a anarquia (193-284 d.C.)</p><p>Sétimo Severo reforçou a política de inserção dos provincianos</p><p>romanizados no Estado, mas seu sucessor Caracala ampliou a política,</p><p>concedendo a cidadania romana a todos os habitantes do Império. A crise</p><p>financeira se instalou quando ele teve que usar todos os recursos dos cofres</p><p>públicos para comprar a confiança do exército. Em 243 d.C. começou o</p><p>hiato de anarquia militar, quando o título de imperador era desprezado</p><p>pelos generais. Os bárbaros começaram a ameaçar as fronteiras.</p><p>Baixo Império e a divisão do poder (284-337 d.C.)</p><p>Diocleciano implementou reformas que culminaram com a divisão do</p><p>Império e a instituição da Tetrarquia (dois imperadores, um no Oriente e</p><p>outro no Ocidente, com dois sucessores pré-determinados). A luta pelo</p><p>poder acabou com Constantino detentor do título de Augusto exclusivo.</p><p>Em 330 d.C., ele fundou Constantinopla na antiga colônia de Bizâncio e a</p><p>tornou a capital do império. Com sua morte, o território foi dividido entre</p><p>seus filhos.</p><p>Decadência e queda do Império do Ocidente (337-476 d.C.)</p><p>Ocorreram diversas lutas contra persas e bárbaros, levando à divisão do</p><p>território. Em 402 d.C., a capital do Ocidente (Roma) foi transferida para</p><p>Ravena. Em 410, os godos saquearam Roma, e em 452 os hunos invadiram</p><p>a Itália. A queda do império se deu definitivamente em 476, com a</p><p>derrubada de Rômulo Augústulo, último dos imperadores romanos do</p><p>Ocidente. Mas o Império Romano do Oriente, com sede em</p><p>Constantinopla, durou até 1453.</p><p>No reinado de Tibério (14-37 d.C.), foi introduzida a armadura de placas articuladas (ilustrada ao lado).</p><p>Esta possivelmente seja a armadura descrita por Paulo na sua carta aos efésios.</p><p>O exército romano</p><p>O exército romano era a base do poderio e da expansão do Império. No</p><p>tempo da República, a legião, unidade básica do exército, era composta de</p><p>4200 a 5000 homens, divididos em 60 centúrias, que eram agrupadas de</p><p>duas a duas para a formação dos manípulos. Cada manípulo era comandado</p><p>por um centurião, que designava um auxiliar. Cada legião possuía ainda uma</p><p>unidade de 300 cavaleiros. A base do confronto era o assalto em formação</p><p>cerrada, utilizando escudo e espada curta (a gladius hispaniensis). O sistema</p><p>era muito versátil e baseado na extrema disciplina do treinamento dos</p><p>legionários (uma vez que a estratégia não era o forte dos romanos), além da</p><p>constante incorporação de novas armas e especialidades militares dos povos</p><p>conquistados.</p><p>Até o final do século II a.C., apenas cidadãos romanos proprietários de</p><p>terras faziam parte do exército, já que deviam providenciar o próprio</p><p>armamento e lucravam com as pilhagens. Com a expansão e necessidade de</p><p>reforços, a possibilidade de alistamento foi aberta aos pobres, aos quais foi</p><p>criado o pagamento de salários e a aposentadoria, com o benefício de</p><p>alguma terra doada, ao final de 25 anos de serviço.</p><p>No Império, a legião foi aumentada para 5500 homens e passou a operar</p><p>estritamente como unidade ofensiva; a defesa passou a ser realizada por</p><p>unidades auxiliares. Augusto César criou a Guarda Pretoriana, um corpo de</p><p>defesa pessoal do imperador e que fazia o papel de força policial nas cidades</p><p>em que havia aparato governamental (como Roma, Antioquia, Éfeso,</p><p>Cesareia e outras). Criou ainda os Vigiles em Roma, uma força de mil</p><p>homens que trabalhavam na vigilância noturna e na extinção de incêndios,</p><p>muito frequentes nos bairros populares.</p><p>O império e o Cristianismo</p><p>De início, o Cristianismo não foi notado pelo império, a não ser como</p><p>uma seita galileia do judaísmo. É apenas no final do primeiro século que os</p><p>cristãos passaram a ser percebidos como uma entidade religiosa distinta de</p><p>sua origem judaica. Os principais imperadores romanos, relacionados ao</p><p>Cristianismo, foram:</p><p>– César Augusto (27 a.C.-14 d.C.): reorganizador de Roma e criador do</p><p>Império. Em sua homenagem, os demais imperadores adotaram o título de</p><p>César ou Augusto. Jesus Cristo nasceu no seu governo.</p><p>– Tibério (14-37 d.C.): fez um governo competente, mas era pouco</p><p>popular. Cristo foi crucificado no seu tempo.</p><p>– Nero (54-68 d.C.): arbitrário, pesa sobre ele a suspeita de ter mandado</p><p>incendiar uma região de Roma para encetar reformas. Acusou os cristãos,</p><p>dando início à primeira perseguição do Império – mas foi restrita a Roma.</p><p>É do seu tempo a execução dos apóstolos Pedro e Paulo.</p><p>– Cláudio (41-54 d.C.): contrariando expectativas, pois era gago e</p><p>tímido, fez grande governo e anexou províncias. Expulsou os judeus (e</p><p>cristãos judeus) de Roma em 48 d.C. por conflitos entre si.</p><p>– Domiciano (81-96 d.C.): sanguinário e cruel, perseguiu violentamente</p><p>os cristãos na Ásia Menor (região de Éfeso). Também expulsou os filósofos</p><p>de Roma.</p><p>– Adriano (117-138 d.C.): a conquista da Pártia (que dominavam a</p><p>Mesopotâmia) por Trajano, seu predecessor, era frágil, e Adriano devolveu o</p><p>território. Determinou o fim da expansão romana e instituiu suas fronteiras.</p><p>Após uma rebelião de judeus, proibiu</p><p>sua entrada em Jerusalém a partir de</p><p>135 d.C. e rebatizou a Judeia para Síria Palestina.</p><p>– Décio (249-251 d.C.): empreendeu uma das mais sangrentas</p><p>perseguições aos cristãos em todo o império, reforçando a religião antiga e</p><p>reconstruindo antigos templos e cultos pagãos.</p><p>– Diocleciano (284-305 d.C.): empreendeu a última perseguição.</p><p>– Constantino I (307-337 d.C.): fundou uma nova capital em Bizâncio,</p><p>no Oriente, rebatizando-a de Constantinopla. Permitiu a liberdade de culto</p><p>no império, incluindo aí os cristãos. Convocou o 1º Concílio de Niceia para</p><p>que os cristãos resolvessem pendências teológicas. Foi batizado no leito de</p><p>morte por um bispo ariano.</p><p>– Teodósio I (379-395 d.C.): Último governante de um Império Romano</p><p>unido. Proibiu o paganismo e tornou o Cristianismo a religião oficial do</p><p>império, tornando forçosamente cristãos todos os súditos.</p><p>A SOCIEDADE ROMANA no TEMPO DE CRISTO</p><p>A SOCIEDADE IMPERIAL ROMANA DO TEMPO DE JESUS era repleta das mais</p><p>diversas divisões: uma multidão de escravos oprimidos, povos dominados,</p><p>elites locais subordinadas aos interesses de Roma, e cidadãos romanos</p><p>também com divisões hierárquicas.</p><p>A pirâmide social romana funcionava da seguinte maneira: a base era</p><p>formada por escravos; acima deles, os cidadãos romanos chamados</p><p>humiliores – uma plebe sem bens e com poucos direitos, sujeitos a severas</p><p>punições da lei. Distintos e acima deles, estavam os cidadãos denominados</p><p>honestiores –proprietários com bens no valor mínimo de 5 mil sestérios e que</p><p>tinham privilégios legais, como punições bem mais brandas em caso de</p><p>quebra da lei. Entre as classes ricas de honestiores, destacava-se a ordem</p><p>equestre, com fortunas de mais de 400 mil sestérios e a quem eram</p><p>reservados os cargos de oficiais do exército; e a mais alta classe, a senatorial,</p><p>com posses de no mínimo 1 milhão de sestérios. Mas o topo mesmo era o</p><p>imperador, o mais rico de todos os homens do Império.72 Os critérios para</p><p>ascender às classes superiores eram a riqueza, o desempenho em cargos</p><p>públicos, o prestígio social junto a personalidades políticas importantes</p><p>(principalmente das famílias mais tradicionais) e a membresia numa ordem</p><p>dirigente.</p><p>O direito civil também era progressivo: os cives Romani tinham o pleno</p><p>direito da cidadania na capital imperial; os ius Latii eram os semicidadãos</p><p>com direito latino. Ambos diferenciavam-se dos peregrinus, que não tinham</p><p>qualquer cidadania, os estrangeiros e fortes candidatos a escravidão.</p><p>Entretanto, o maior de todos os rasgos sociais era entre livres e escravos.</p><p>Embora estes pudessem até enriquecer e conquistar sua liberdade, quase</p><p>nunca teriam um estatuto idêntico ao dos livres: seriam apenas libertos (pois</p><p>não tinham a liberdade como direito de nascimento). Apenas seus filhos</p><p>seriam legitimamente livres.</p><p>Os novos ricos, que poucas décadas antes tinham feito suas fortunas,</p><p>eram os da classe equestre, que conseguiram chegar inclusive aos cargos do</p><p>Senado. Seus membros representavam o principal caminho de ascensão</p><p>social dentro do universo romano: o exército. Enquanto os cavaleiros</p><p>chegaram ao cargo de senador, um centurião poderia conquistar a classe</p><p>equestre – embora fosse caso raro. Outra possibilidade de trocar de classe</p><p>era ser adotado por um homem rico.73</p><p>Pensamento e religiosidade dos romanos na era republicana</p><p>A antiga religião tradicional romana era uma religião familiar de</p><p>lavradores. Havia uma devoção privada que compreendia o culto da Vesta (o</p><p>lar), com o altar montado sobre a lareira doméstica. Ali o chefe da família</p><p>fazia os votos ao Gênio da família – o espírito dos ancestrais e protetor do</p><p>pai –, representado por uma serpente pintada e ao qual se apresentava uma</p><p>nova esposa ou uma criança recém nascida. A este culto também estava</p><p>associada a reverência aos antepassados do pai da família. Já a protetora da</p><p>mãe era a deusa Juno.</p><p>Como agricultores, os romanos acompanhavam a vida agrícola com</p><p>rituais religiosos, procurando apaziguar os deuses (oferecendo vinho e</p><p>intestinos de uma porca a Ceres, por exemplo), conquistando a pax deorum –</p><p>paz com os deuses. Havia sacerdotes, mas que não eram profissionais, pois</p><p>tratavam-se de aristocratas que ocupavam cargos de magistratura e de</p><p>oficiais do exército. Os diversos sacerdotes dos mais variados cultos – como</p><p>Flâmines, irmãos Arval, Fetales, Salii, Rex Sacrorum e as virgens vestais –</p><p>estavam sujeitos ao Pontifex Maximus, o cabeça da religião estatal. A</p><p>atribuição principal desse pontífice era manter a ponte Sublícia (sobre o rio</p><p>Tibre), o que lhe conferiu o status de guarda da tradição e intérprete dos</p><p>regulamentos da religião. As sacerdotisas eram organizadas em colégios</p><p>como as Vestais, compostas por meninas virgens tiradas das grandes famílias</p><p>para morar no templo, as quais faziam voto de castidade. As vestais não</p><p>podiam deixar apagar o fogo sagrado do altar da Vesta.</p><p>Os romanos tinham grande receptividade aos deuses estrangeiros,</p><p>frequentemente interpretando-os e adaptando-os às suas divindades</p><p>tradicionais. Assim, muitos deuses dos gregos foram associados logo no</p><p>período arcaico ao mundo romano: Apolo já era adorado pelos etruscos,</p><p>Ceres se adequou a Deméter, Júpiter era Zeus, Netuno identificou-se com</p><p>Posídon, Vênus com Afrodite, Diana com Ártemis, etc. Também os</p><p>mistérios de Dionísio (Baco para os romanos) penetraram em toda a Itália,</p><p>mas não foram bem recebidos pelas autoridades: houve grande perseguição e</p><p>repressão aos seus seguidores no século II a.C. (cerca de 7.000 pessoas foram</p><p>presas, a maioria condenada à morte). Outro culto visto com maus olhos</p><p>pela República foi o culto de Ísis, sendo muitas capelas destruídas</p><p>seguidamente no século I a.C., bem como a ação dos astrólogos, expulsos de</p><p>Roma em 138 a.C.74</p><p>Principais deuses do panteão grego e suas versões romanas</p><p>Grécia Roma Atributos</p><p>Zeus Júpiter Rei dos deuses e vitorioso nas batalhas.</p><p>Hera Juno Protegia as mulheres e a vida conjugal.</p><p>Posídon Netuno Deus dos mares.</p><p>Hades Plutão Senhor do Mundo Inferior e dos mortos.</p><p>Atena Minerva Deusa das atividades artesanais da civilização.</p><p>Apolo Febo Deus da música, das letras e da beleza masculina.</p><p>Ártemis Diana Deusa da castidade e protetora da natureza.</p><p>Afrodite Vênus Deusa do amor, da beleza e da sexualidade.</p><p>Hermes Mercúrio Deus mensageiro e protetor do comércio.</p><p>Deméter Ceres Deusa da terra e da agricultura.</p><p>Dionísio Baco Deus do vinho e do prazer desenfreado.</p><p>Hefesto Vulcano Deus dos metais e da metalurgia.</p><p>Ares Marte Deus belicoso da guerra.</p><p>Asclépio Esculápio Deus da medicina.</p><p>Pensamento e religiosidade dos romanos na era imperial</p><p>Após as conquistas romanas, as religiões orientais se difundiram muito</p><p>na capital – embora a contragosto das autoridades. Os cultos tradicionais da</p><p>sociedade rural foram desaparecendo com o desenvolvimento da sociedade</p><p>cosmopolita de Roma, que começou a assimilar as crenças dos mercadores e</p><p>escravos vindos do Oriente. As religiões orientais diferiam do paganismo</p><p>tradicional por oferecerem uma relação pessoal com os poderes divinos,</p><p>garantindo acesso exclusivo aos mistérios do culto, os quais eram conhecidos</p><p>somente por eles e guardados em segredo. Parte da promessa dessas religiões</p><p>era a igualdade concedida ao devoto e seus companheiros de crenças, algo</p><p>impensável aos romanos. Entre esses cultos, estava a crença frígia de Cibele,</p><p>que possuía um ritual de purificação chamado taurobolium: o devoto era</p><p>colocado em um buraco e banhado com o sangue de um touro sacrificado</p><p>sobre ele. O Cristianismo também se enquadrava dentro destas religiões</p><p>orientais, e teve boa recepção em algumas famílias tradicionais de Roma</p><p>pela restauração de antigas virtudes perdidas, como a coesão das famílias.</p><p>Mas era mesmo religião de pobres.75</p><p>Vida de ricos e pobres na capital do império</p><p>Roma, no tempo de Augusto César, pode ter chegado a uma população</p><p>de mais de um milhão de habitantes. Sua rede viária era um labirinto de</p><p>ruas onde um formigueiro humano se deslocava dia e noite. Como a</p><p>circulação de animais e carroças durante o dia foi proibida pelo imperador</p><p>Augusto,</p><p>os empreiteiros e distribuidores faziam suas entregas durante a</p><p>noite, o que produzia muito barulho e dava pouco sossego para o descanso</p><p>dos trabalhadores.</p><p>Os pobres viviam em prédios chamados Insulae – casa popular onde</p><p>diversas habitações se aglomeravam em até quatro andares. O térreo</p><p>pertencia ao proprietário, onde geralmente ele mantinha um pequeno</p><p>comércio, e os demais andares, com acesso por precárias escadas de madeira,</p><p>eram alugados para os mais diversos profissionais e suas famílias. Este</p><p>prédio era uma construção frágil, com muita madeira e adobe, onde se</p><p>faziam fogueiras para cozinhar ou aquecer (mesmo sem estruturas para</p><p>chaminé), o que provocava incêndios e desmoronamentos com muita</p><p>frequência. Provavelmente, foi esse tipo de casa que Paulo alugou em Roma.</p><p>Já os ricos viviam na Domus, uma casa imponente, fechada para a rua</p><p>por uma muralha sem janelas. Todos os quartos e ambientes voltavam-se</p><p>para o interior, onde geralmente havia um amplo espaço aberto com piscina</p><p>ou cisterna, na qual era recolhida a água da chuva. Eram casas</p><p>extremamente requintadas, decoradas com esculturas e afrescos, o chão</p><p>forrado de mosaicos e mármore. Nessas residências não haviam cômodos</p><p>para escravos: eles circulavam pela casa e dormiam no chão, à porta do</p><p>quarto de seu senhor, como um animal de estimação.</p><p>O trabalho não era bem visto pelos ricos romanos: ter que trabalhar para</p><p>alguém a fim de prover o próprio sustento era considerada atitude do nível</p><p>de um escravo – era necessidade de pobres indignos e não cabia a um</p><p>proprietário. A escravidão do Mundo Antigo era uma questão de</p><p>propriedade: o dono de um escravo era dono dele e de sua vida, podendo</p><p>fazer o que bem entendesse com seu corpo. O escravo não era considerado</p><p>um ser humano.</p><p>A maior parte dos trabalhos braçais eram desempenhados por escravos,</p><p>geralmente trazidos das conquistas militares. No meio rural, trabalhando</p><p>nos latifúndios, a crueldade era extrema, e a sobrevivência, praticamente</p><p>impossível. Já nas cidades havia a possibilidade do escravo se tornar um</p><p>gestor sob ordens diretas do senhor, ou até mesmo assumir o comando de</p><p>lojas ou oficinas de seu proprietário, recebendo algum rendimento. A</p><p>violência era uma constante naquela sociedade, mas havia uma válvula de</p><p>escape para que rebeliões fossem evitadas: o escravo urbano podia, se</p><p>recebesse comissões, acabar por adquirir a liberdade e até mesmo fazer</p><p>pequenas fortunas. Eram poucos os casos, mas possíveis; a esperança se</p><p>transformava, assim, em recurso de controle. O escravo que eventualmente</p><p>conseguisse a liberdade podia até mesmo chegar ao corpo de cidadãos, mas</p><p>sempre seria visto de maneira pejorativa. Até mesmo um filho de liberto, já</p><p>juridicamente livre, continuava com a imagem de um berço sem dignidade.</p><p>A escravidão era um princípio estabelecido na sociedade, e nunca foi</p><p>moralmente questionado por ela. Estava no próprio modo de compreender</p><p>o mundo e as relações entre os homens: alguns eram superiores pelo direito</p><p>de nascimento.</p><p>UMA PALESTINA INTERNACIONAL</p><p>O TERRITÓRIO DA JUDEIA ficou reduzido depois da intervenção romana de</p><p>63 a.C. Pompeu diminuiu sensivelmente a abrangência do domínio sob</p><p>Jerusalém e manteve Hircano II como sumo sacerdote, vinculado</p><p>administrativamente à Síria. Em 47 a.C., Júlio César nomeou Hircano</p><p>etnarca da Judeia, mas o verdadeiro poder ficou nas mãos do general</p><p>Antípater, um membro das últimas famílias sobreviventes dos edomitas</p><p>(descendentes de Esaú). Foi um período de lutas pela legitimação do</p><p>governo, provocadas por Aristóbulo II, que tentava recuperar o trono. Em</p><p>40 a.C., os partas invadiram a Síria e a tomaram dos romanos, colocando</p><p>Antígono, filho de Aristóbulo, como rei em Jerusalém. Enquanto isso,</p><p>Herodes, filho de Antípater, estava em Roma negociando seu retorno à</p><p>Palestina. Em 37 a.C., comandando o exército imperial romano, Herodes</p><p>expulsou os partas e reconquistou o território para Roma, sendo então</p><p>nomeado rei de toda a Judeia.76</p><p>Herodes foi um grande administrador, construtor de obras</p><p>monumentais e de inquestionável apoio aos romanos. Levantou cidades,</p><p>palácios, fortalezas e templos, sempre utilizando o que havia de melhor na</p><p>arquitetura. Mandou construir o maior porto artificial do Mediterrâneo e o</p><p>chamou Cesareia (em homenagem a César Augusto). Remodelou a antiga</p><p>cidade de Samaria e a renomeou para Sebaste (tradução grega de Augusta).</p><p>Construiu uma fortaleza inexpugnável e um palácio no topo de uma</p><p>montanha em Massada, outro palácio de inverno em Jericó, um monumento</p><p>aos patriarcas em Hebrom e fortalezas em Hircânia, Maqueronte e</p><p>Herodium. Como Herodes era edomita e não contava com a simpatia do</p><p>povo, tentou conquistá-lo remodelando o templo em Jerusalém (veja nas</p><p>próximas páginas). Mas ele não deve ser tomado como um devoto: também</p><p>construiu templos pagãos em Cesareia de Filipe e Sebaste. Ele foi o</p><p>Herodes dos primeiros anos de Jesus. Morreu em 4 a.C. É conhecido hoje</p><p>como Herodes, o Grande.77</p><p>A divisão da Palestina</p><p>O Império Romano possuía dois tipos de províncias: as senatoriais e as</p><p>imperiais. As senatoriais eram mantidas pelo Senado, que nomeava seus</p><p>procônsules para governá-las. As imperiais eram governadas pelos</p><p>procuradores nomeados pelo imperador, que escolhia ex-senadores para as</p><p>mais importantes e membros da classe equestre para as menores. A Judeia</p><p>era província menor, governada por um equestre, procurador sujeito à</p><p>administração da Síria. Tetrarca era o nome que os romanos davam ao</p><p>administrador de um quarto do território, embora utilizassem a mesma</p><p>expressão quando a província tinha outras divisões. A nomenclatura</p><p>procurador aparece na Judeia após o imperador Cláudio (41 d.C.); até então,</p><p>eram denominados prefeitos. Apesar dos variados títulos, popularmente</p><p>eram todos chamados governadores.</p><p>Estes foram os procuradores da Judeia até a Guerra dos Judeus:</p><p>Copônio: 6-8 d.C. Cúspio Fado: 44-46 d.C.</p><p>Marcos Ambívio: 8-12 d.C. (?) Tibério Alexandre: 46-48 d.C.</p><p>Ânio Rufo: 12-15 d.C. (?) Ventídio Cumano: 48-52 d.C.</p><p>Valério Grato: 15-26 d.C. Antônio Félix: 52-60 d.C.</p><p>Pôncio Pilatos: 26-36 d.C. Pórcio Festo: 60-62 d.C.</p><p>Marcelo: 36-37 d.C. Lucéio Albino: 62-64 d.C.</p><p>Marulo: 37-41 d.C. (?) Géssio Floro: 64-66 d.C.</p><p>Depois da morte de Herodes, César Augusto considerou que havia</p><p>muito poder na mão de um único homem na Palestina e decidiu dividir o</p><p>reino entre seus filhos Filipe, Herodes Antipas e Arquelau78. Assim estava o</p><p>território no tempo de Jesus:</p><p>1. Itureia, Traconítide, Gaulanítide, Auranítide e Bataneia: território</p><p>para o qual Filipe, filho de Herodes, foi nomeado tetrarca. Governou de 4</p><p>a.C. até morrer em 34 d.C. Filipe transformou a aldeia de Betsaida em</p><p>capital e lhe deu o nome de Julias (em homenagem à filha de Júlio César). É</p><p>possível que fosse casado com Salomé III, a jovem que, dançando para</p><p>Herodes, pediu a cabeça de João Batista numa bandeja. Também construiu</p><p>uma cidade que ficou conhecida como Cesareia de Filipe. Possivelmente</p><p>Betsaida, capital da procuradoria, seja a cidade de origem dos discípulos</p><p>Filipe, Pedro e André, pois ficava às margens do rio Jordão, com uma parte</p><p>dela na Galileia. Nesta região fica o monte Hermon.</p><p>2. Galileia e Pereia: parcela que coube a Herodes Antipas, nomeado</p><p>tetrarca. Ele governou também num período semelhante ao de Filipe: de 4</p><p>a.C. a 39 d.C. Construiu a cidade de Tiberíades às margens do Lago de</p><p>Genezaré em 17 d.C. (o nome foi dado em homenagem ao imperador</p><p>Tibério), e fez da cidade a capital de sua tetrarquia. A região da Galileia era</p><p>densamente habitada, com maioria judaica (com sotaque diferente da</p><p>Judeia), mas também com muitos estrangeiros. Não consta nenhum profeta</p><p>saído da Galileia no Antigo Testamento, mas ali foi o local principal do</p><p>ministério de Jesus, palco da maioria de suas pregações e milagres. Jesus</p><p>cresceu em Nazaré e depois estabeleceu o centro de seu ministério em</p><p>Cafarnaum, um pequeno centro comercial e tributário romano ao lado de</p><p>Betsaida. Todos os discípulos (exceto Judas Iscariotes) eram da Galileia. De</p><p>um barquinho às margens do Lago de Genezaré Jesus pregou</p><p>muitas vezes;</p><p>nas encostas das montanhas, falou às multidões; foi ali que caminhou sobre</p><p>as águas e acalmou a tempestade. A Pereia, por sua vez, era o local de</p><p>pregações e batismos de João Batista e o local de evangelizações de Jesus no</p><p>final do seu último ano de ministério. Este Herodes foi o que mandou</p><p>decapitar João Batista e participou do julgamento de Jesus.</p><p>3. Decápolis: o nome significa dez cidades em grego. Era formada por</p><p>uma coligação de cidades gregas, livres de procuradoria, mas subordinadas</p><p>diretamente à província da Síria. Sua população era essencialmente grega e a</p><p>religiosidade, helenista. O Lago de Genezaré foi atravessado diversas vezes</p><p>por Jesus para evangelizações em Decápolis. Ali ele curou doentes, expulsou</p><p>demônios e multiplicou alimentos.</p><p>4. Judeia, Samaria e Itureia: este tradicional território ficou com</p><p>Arquelau, nomeado etnarca, mas que teve um governo curto: durou</p><p>somente de 4 a.C. até 6 d.C. Arquelau era um homem perverso e cometia</p><p>diversas arbitrariedades (entre elas a troca constante do cargo de sumo</p><p>sacerdote), que desgostaram a administração romana, levando Augusto a</p><p>removê-lo do cargo. Desde então, seu território passou a ser governado por</p><p>procuradores romanos, escolhidos diretamente pelo imperador. A capital foi</p><p>transferida para Cesareia, cidade litorânea construída por Herodes, o</p><p>Grande. Quem mais tempo governou a Judeia foi um romano chamado</p><p>Pôncio Pilatos (26–36 d.C.), durante o período do ministério de Jesus.</p><p>Pilatos costumava desrespeitar frequentemente as tradições judaicas,</p><p>irritando o povo e seus anciãos e provocando rebeliões, o que levou à sua</p><p>destituição anos mais tarde. Outro motivo de irritação para os judeus era o</p><p>fato dos samaritanos – inimigos históricos – estarem sob a mesma juridição</p><p>que eles. Era a região de maior conflito para Cristo porque também era a de</p><p>maior legalismo. Foi na Judeia que Jesus conversou com Nicodemos e</p><p>ressuscitou Lázaro. O mais importante: neste local, Jesus foi crucificado,</p><p>morreu e ressuscitou.</p><p>Os samaritanos</p><p>Era a etnia mais odiada pelos judeus, composta por descendentes do antigo Reino do Norte. No tempo do</p><p>primeiro rei de Israel, Jeroboão I (930 a.C.), foi instituído um culto de YHWH misturado com cultos cananeus</p><p>(com o uso da imagem de bezerros); depois da queda de Samaria (em 721 a.C.), ocorreu a mistura dos</p><p>israelitas restantes com outros povos trazidos pelos assírios, gerando a população que veio a ser chamada de</p><p>samaritana. No tempo de Esdras, eles construíram outro templo no monte Gerizim como um contraponto ao</p><p>culto de Jerusalém. Os samaritanos aceitavam somente a Torá.</p><p>O GRANDE CENTRO RELIGIOSO dos JUDEUS</p><p>JERUSALÉM ERA O GRANDE CENTRO RELIGIOSO DOS JUDEUS no tempo de</p><p>Cristo. Embora não fosse a capital administrativa – que ficava em Cesareia</p><p>–, recebia regularmente as visitas dos governadores para resolver questões</p><p>burocráticas e realizar julgamentos, principalmente pela existência da</p><p>fortaleza Antônia e do palácio construído por Herodes.</p><p>Os recursos naturais no entorno de Jerusalém eram muito limitados,</p><p>pois o terreno era pedregoso e pouco cultivável, fazendo com que os</p><p>alimentos precisassem ser trazidos de fora – o que tornava o custo de vida ali</p><p>muito elevado. A principal fonte econômica da cidade era a religião:</p><p>milhares de peregrinos eram atraídos pelo templo que Herodes ampliara.</p><p>Com os visitantes vinham os recursos dos gastos em hospedagem e,</p><p>principalmente, os elementos para os sacrifícios. Não eram poucas as</p><p>festividades a frequentar: Páscoa, Tabernáculos, Pentecostes, além dos</p><p>sacrifícios voluntários que só podiam ser realizados no altar do templo e</p><p>para os quais afluíam muitos judeus e prosélitos vindos de todos os cantos</p><p>do mundo. Essa comercialização intensa em torno da fé foi objeto da</p><p>indignação de Jesus.</p><p>Jerusalém era o baluarte da ortodoxia em termos da tradição mosaica.</p><p>Era lá que se reunia o Sinédrio, o conselho dos anciãos e dos principais</p><p>líderes religiosos, que tomava decisões de âmbito jurídico antes de</p><p>encaminhar questões graves aos romanos. Também haviam muitas</p><p>sinagogas na cidade (talvez aproximadamente 400 no tempo de Jesus), o que</p><p>a tornava um centro teológico efervescente, onde grupos religiosos debatiam</p><p>com frequência assuntos como livre-arbítrio do homem, soberania divina,</p><p>ressurreição do corpo, prática da Lei, entre outros. O povo simples assistia</p><p>esses debates com admiração. Abaixo está uma tabela que procura</p><p>demonstrar, de maneira sintética e generalizada, as características dos</p><p>principais grupos político-religiosos de Judá.79</p><p>O Sinédrio</p><p>Antes e depois de Cristo, o Sinédrio (do grego sinedrion, concílio), era o</p><p>mais alto tribunal de justiça dos judeus, reunido em Jerusalém. Era um</p><p>corpo composto de anciãos que representavam Judá, escolhidos</p><p>principalmente entre a aristocracia. Nos tempos do Novo Testamento, o</p><p>Sinédrio era constituído do sumo sacerdote em exercício e dos anteriores a</p><p>ocuparem o cargo, os anciãos (os eminentes da sociedade), alguns sacerdotes</p><p>(lembrando que os sacerdotes são os saduceus), escribas e alguns fariseus. O</p><p>Sinédrio reunia-se geralmente no templo, mas poderia fazer sessões em</p><p>outros locais, como a casa do sumo sacerdote. Tinha autonomia para</p><p>diversos julgamentos, mas a pena capital era reservada somente ao</p><p>representante do governo romano.</p><p>OS GRUPOS POLÍTICO-RELIGIOSOS de JUDÁ</p><p>Nome Origem</p><p>histórica</p><p>Comportamento Crenças</p><p>básicas</p><p>Fariseus Em hebraico,</p><p>P’rushim</p><p>(separado).</p><p>Definiam-se</p><p>como os</p><p>herdeiros</p><p>ideológicos do</p><p>sacerdote Esdras.</p><p>Surgiram a</p><p>partir do grupo</p><p>dos hassidim (os</p><p>piedosos que</p><p>apoiaram os</p><p>Macabeus na</p><p>resistência</p><p>contra o</p><p>helenismo).</p><p>Tinham grande preocupação</p><p>em seguir a Lei divina.</p><p>Integravam a espiritualidade</p><p>ao cotidiano, entendendo que a</p><p>santificação deveria levá-los a</p><p>fazer a diferença no mundo.</p><p>Aceitavam o debate em torno</p><p>da interpretação das</p><p>Escrituras. Eram divididos em</p><p>dois grandes grupos: os</p><p>seguidores do rabino Hillel</p><p>(em que a compaixão era mais</p><p>favorecida) e os seguidores de</p><p>Shammai (que interpretava a</p><p>Lei de maneira rigorosa).</p><p>Livre-</p><p>arbítrio do</p><p>homem</p><p>Imortalidade</p><p>da alma</p><p>Ressurreição</p><p>do corpo</p><p>Existência</p><p>de anjos e</p><p>demônios</p><p>Vida eterna</p><p>e castigo</p><p>eterno</p><p>Seguem a</p><p>tradição oral</p><p>da Lei</p><p>Todas as</p><p>coisas são</p><p>dirigidas por</p><p>Deus</p><p>Saduceus Em hebraico,</p><p>Tz’dukim, era</p><p>como se</p><p>chamavam os</p><p>sacerdotes do</p><p>Templo desde o</p><p>século I a.C.</p><p>Definiam-se</p><p>como</p><p>descendentes do</p><p>sumo sacerdote</p><p>Zadok, do tempo</p><p>de Davi e</p><p>Salomão.</p><p>Controlavam os sacrifícios e</p><p>não permitiam que nenhum</p><p>tipo de ritual pagão entrasse</p><p>no Templo. Entretanto, para</p><p>evitar distúrbios sociais,</p><p>cooperavam com os romanos.</p><p>Tinham sérias desavenças</p><p>doutrinárias com os fariseus.</p><p>O homem é</p><p>responsável</p><p>por seu</p><p>destino</p><p>Com a morte</p><p>do corpo</p><p>extingue-se</p><p>a alma</p><p>Não há</p><p>ressurreição</p><p>do corpo</p><p>Não existem</p><p>anjos ou</p><p>demônios</p><p>Não há vida</p><p>eterna nem</p><p>castigo</p><p>eterno</p><p>Aceitam</p><p>somente a</p><p>Lei escrita</p><p>Essênios Esse grupo não é</p><p>mencionado na</p><p>Bíblia, mas</p><p>existiu no</p><p>mesmo período.</p><p>Os essênios eram</p><p>do mesmo círculo</p><p>original que os</p><p>fariseus, os</p><p>hassidim, mas</p><p>muito mais</p><p>Eram extremamente mais</p><p>rígidos do que os fariseus na</p><p>observância da Lei. Podiam</p><p>ser casados ou monásticos; no</p><p>segundo caso, levavam uma</p><p>vida celibatária em</p><p>comunidades fora das cidades,</p><p>onde dedicavam-se ao</p><p>trabalho, aos manuscritos e à</p><p>oração enquanto aguardavam</p><p>Seguem as</p><p>mesmas</p><p>doutrinas</p><p>dos fariseus</p><p>Bens eram</p><p>comuns a</p><p>todos da</p><p>comunidade</p><p>Ênfase na</p><p>prática</p><p>elevada da</p><p>radicais e dados</p><p>à vida</p><p>monástica.</p><p>a restauração do verdadeiro</p><p>templo.</p><p>moral</p><p>Necessidade</p><p>de amar a</p><p>todos os</p><p>homens</p><p>Reconheciam</p><p>as limitações</p><p>do homem</p><p>para</p><p>praticar o</p><p>bem</p><p>Zelotes Eram seguidores</p><p>de Judas e</p><p>Zadok, judeus</p><p>que se</p><p>revoltaram</p><p>contra os</p><p>romanos em 6</p><p>a.C.</p><p>Possivelmente</p><p>admiradores dos</p><p>antigos</p><p>hassidim.</p><p>Eram devotos radicais que não</p><p>aceitavam o domínio</p><p>estrangeiro e faziam uso da</p><p>violência para buscar a</p><p>independência de Judá, crendo</p><p>que Deus interviria para</p><p>salvá-los.</p><p>Seguem as</p><p>mesmas</p><p>doutrinas</p><p>dos fariseus</p><p>Herodianos Eram os judeus</p><p>que se</p><p>helenizaram</p><p>durante o</p><p>período dos</p><p>Macabeus.</p><p>Depois</p><p>apoiaram a</p><p>dinastia</p><p>herodiana,</p><p>acomodando-se</p><p>Faziam muitas concessões</p><p>culturais, sendo os judeus mais</p><p>helenizados. Eles eram</p><p>bastante propícios a se</p><p>tornarem coletores de impostos</p><p>(os publicanos).</p><p>Não há corpo</p><p>de doutrinas</p><p>específicas</p><p>Alinhavam-</p><p>se às crenças</p><p>dos saduceus</p><p>ao governo</p><p>romano.</p><p>Qual foi o problema de Jesus com os fariseus, já que eram observadores da Lei que buscavam a Deus?</p><p>Jesus não teve controvérsias com os fariseus como um todo, mas com alguns de seus grupos. Cristo advertia</p><p>acerca do fato deles criarem “cercas” legalistas para o cumprimento da lei. Essas cercas acabavam deturpando o</p><p>propósito original dos mandamentos, o benefício do homem. Outro problema era com relação à sua motivação</p><p>interior: a indulgência para consigo mesmo, que levava muitos desses religiosos à hipocrisia, ciúmes,</p><p>amargura, orgulho e sentimento de justiça própria – o que separa o homem de Deus.</p><p>A cidade de Jerusalém</p><p>A cidade de Jerusalém no tempo de Jesus era uma fortaleza embelezada por Herodes, o Grande. Seu furor</p><p>construtivo transformou até mesmo sua topografia, uma vez que ele expandiu significativamente a esplanada</p><p>onde estava o templo. Para se ter uma ideia das dimensões de suas obras, a área do pátio dos gentios, cercada</p><p>por uma imensa muralha, é quatro vezes maior que a do Partenon em Atenas. Os locais mais significativos da</p><p>cidade, para o estudo da vida de Jesus, foram:</p><p>– Colina do templo: área amuralhada onde estava situado o templo, local de muitas controvérsias de Jesus</p><p>com os religiosos e, depois, de pregação dos apóstolos (veja nas próximas páginas).</p><p>– Fortaleza Antônia: situada no ângulo noroeste do templo, tinha um muro colossal e torres que</p><p>permitiam aos romanos acompanhar os movimentos sem precisar entrar nas áreas sagradas e exclusivas aos</p><p>judeus. Era provavelmente este o local em que o procurador romano fazia os julgamentos quando vinha a</p><p>Jerusalém.</p><p>– Tanque de Siloé: fonte que nasce no vale de Cedron, mas que foi canalizada para dentro de Jerusalém</p><p>por Ezequias na ocasião do cerco dos assírios. Este tanque era a única fonte de água natural em Jerusalém: a</p><p>outra veio de um aqueduto construído pelos romanos. No tanque de Siloé o cego curado por Jesus lavou os</p><p>olhos.</p><p>– Tanque de Betesda: grande tanque reservatório de água com cinco pavimentos, com 120 x 60 metros,</p><p>construído a nordeste da cidade. Ali muitos enfermos esperavam as águas se moverem para, lançando-se nelas,</p><p>ficarem curados.</p><p>– Casa de Caifás: no pátio dessa casa (uma casa rica) Jesus foi julgado durante a noite, ilegalmente, por</p><p>uma parte do Sinédrio, e onde Pedro negou a Jesus. Não se sabe a localização exata desta residência.</p><p>– Palácio de Herodes: construído por Herodes o Grande, era a sua residência quando governava a Judeia.</p><p>Ali havia um pretório para reuniões públicas. Há dúvidas se Jesus foi julgado na Fortaleza Antônia ou nesse</p><p>palácio. É possível que ali tenha ocorrido o julgamento perante Herodes Antipas.</p><p>– Calvário: colina fora das muralhas da cidade, que se parece com uma caveira – daí seu nome (do latim</p><p>calvarium, grego kranion, e aramaico gulgotah). Não se sabe sua localização exata.</p><p>O TEMPLO de HERODES</p><p>O TEMPLO EM JERUSALÉM FOI RECONSTRUÍDO no final do exílio, quando</p><p>Zorobabel retornou para Judá. Era modesto, mas posteriormente foi</p><p>ampliado e renovado por Herodes, o Grande, na tentativa de conquistar o</p><p>povo judeu, que lhe era hostil. Em respeito à liturgia, Herodes ordenou a</p><p>ampliação sem que a antiga estrutura fosse destruída e sem que as ofertas</p><p>fossem interrompidas. A construção da nave principal foi iniciada em 20</p><p>a.C. e concluída em um ano e meio. Mas a obra da plataforma</p><p>monumental, sobre a qual estava o pátio e seus prédios, continuou até 64</p><p>d.C.</p><p>O templo era uma brilhante e dourada estrutura que resplandecia ao sol.</p><p>Era construído com imensos blocos de pedra de 12 metros de comprimento.</p><p>O pórtico tinha aproximadamente 45 metros de altura e 45 metros de</p><p>largura. Dentro da nave, que guardava as mesmas divisões do templo de</p><p>Salomão (Pórtico, Santuário e Santo dos Santos), ficavam a Mesa da</p><p>Proposição, o Candelabro (ou Menorah) e o Altar do Incenso. O Santo dos</p><p>Santos era vazio, uma vez que a Arca da Aliança fora perdida desde o exílio</p><p>babilônico. Um véu de tapeçaria mesopotâmica pendia na abertura da nave,</p><p>e outro fazia separação entre o Santuário e o Santo dos Santos.</p><p>A exemplo do templo de Salomão, o de Herodes também possuía áreas</p><p>de acesso universal e áreas restritas, conforme se dirige em direção ao Santo</p><p>dos Santos. No pátio dos gentios (número 1 verde, na página ao lado) era</p><p>permitida a entrada de qualquer um; no pátio das mulheres (2), apenas</p><p>judeus podiam entrar. Ali é que aconteceu a maior parte dos eventos</p><p>envolvendo Jesus e os discípulos. O pátio de Israel (3) era onde os homens</p><p>judeus podiam entrar, a parte que rodeava o pátio dos sacerdotes (4). Este</p><p>último era onde se realizavam os sacrifícios e de acesso unicamente ao</p><p>ofertante. Já no interior do templo (5), somente sacerdotes podiam chegar</p><p>para a liturgia no Santuário; o Santo dos Santos, por sua vez, guardava os</p><p>ritos antigos, com o sumo sacerdote entrando apenas uma vez ao ano, por</p><p>ocasião do Dia da Expiação.</p><p>O templo durou até a Guerra dos Judeus – um levante que ocorreu no</p><p>governo de Géssio Floro, descrito pelo historiador judeu Flávio Josefo. A</p><p>revolta, promovida especialmente pelos radicais zelotes, foi debelada pelo</p><p>exército romano, comandado primeiro por Vespasiano (que viria a ser</p><p>aclamado imperador) e depois por Tito, seu filho. Os romanos devastaram a</p><p>província, e a derrota final de Jerusalém ocorreu em 70 d.C., ocasião em que</p><p>a cidade foi incendiada, suas muralhas derrubadas, e o templo,</p><p>completamente destruído. Seus objetos sagrados foram saqueados e</p><p>enviados a Roma, como demonstra o arco de Tito, um monumento de</p><p>mármore construído em 81 d.C. em Roma e que possui, em suas esculturas</p><p>em relevo, a única imagem de um menorah da Antiguidade. Desde então,</p><p>nunca mais o judaísmo teve um templo para realização dos rituais mosaicos</p><p>ou qualquer tipo de sacrifício.80</p><p>Ao lado, vista do Templo de Herodes em corte, revelando o pórtico e as divisórias do Santuário e Santo dos</p><p>Santos em tapeçaria.</p><p>O Templo em Jerusalém foi palco de muitos acontecimentos da vida de Jesus e dos discípulos (veja na página</p><p>ao lado). Circundando a área mais restrita aos judeus, havia diversos cartazes com avisos em grego e latim</p><p>que proibiam a entrada de qualquer estrangeiro, sob pena de morte.</p><p>A porta Formosa era a mais à frente da muralha, onde Pedro e João curaram um paralítico (At 3).</p><p>Nove portas revestidas de ouro davam acesso ao interior do complexo. O pátio que circundava estas muralhas</p><p>era chamado “dos gentios”, o local onde eles podiam chegar para fazer suas orações. Foi neste pátio que Jesus</p><p>expulsou os cambistas e comerciantes (Mt 21).</p><p>Nesta página, planta baixa da área completa do templo (pátio, estruturas de culto e reuniões). Veja nas tabelas</p><p>os elementos principais da estrutura e os locais em que Jesus e os apóstolos interagiram durante seus</p><p>ministérios.</p><p>JESUS CRISTO, o FILHO de DEUS</p><p>NO PRINCÍPIO ERA O VERBO, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era</p><p>Deus. Essa foi a maneira como João começou seu emocionante evangelho.</p><p>Quando Cristo veio ao mundo, trouxe consigo não uma nova teologia, ou</p><p>um padrão ético: com sua presença, trouxe o Reino de Deus – um reino</p><p>misterioso que iniciou na sua vinda, mas que terá uma consumação</p><p>escatológica no dia de sua volta. Um reino que é como uma minúscula</p><p>semente de mostarda, mas que vai crescendo discretamente até se tornar</p><p>numa frondosa hortaliça. Foi sobre esse reino que Cristo pregou, foi</p><p>dentro dessa esfera que ele cumpriu plenamente todas as promessas que</p><p>Deus fizera, trazendo salvação a quem nele crer.81</p><p>Os quatro evangelhos apresentam óticas diferentes da vida e obra de</p><p>Jesus Cristo. Narram o que ele pregou e ensinou. Contam seus milagres, que</p><p>são sinais messiânicos confirmadores de que ele era o Filho de Deus.</p><p>Mostram como ele cumpriu o propósito primeiro de sua vinda: entregar-se</p><p>variáveis e sem metrologia</p><p>precisa.</p><p>Quanto às unidades de valor, elas eram baseadas em lingotes de metal na</p><p>maior parte do Antigo Testamento. Utilizavam-se peças de ouro, cobre e</p><p>principalmente prata como unidade para dimensionar o valor nas trocas</p><p>comerciais, baseado no peso em metal. É importante lembrar que a moeda</p><p>somente foi inventada na Ásia Menor no século VII a.C. e seu uso foi</p><p>propagado pelo Império Persa (sobretudo por Dario I, que cunhou os dáricos</p><p>de ouro). Essa é a razão para as moedas serem mencionadas na Bíblia</p><p>somente em textos pós-exílicos e do Novo Testamento. A cunhagem de</p><p>moedas em Israel somente se deu a partir do tempo dos Macabeus, por volta</p><p>do ano 110 a.C.</p><p>MEDIDAS LINEARES:</p><p>Côvado Palmo Mão Dedo Métrico</p><p>Côvado 1       48 cm</p><p>Palmo 2 1     24 cm</p><p>Mão 6 3 1   8 cm</p><p>Dedo 24 12 4 1 2 cm</p><p>A. Côvado</p><p>B. Palmo</p><p>C. Mão</p><p>D. Dedo</p><p>Acima, a representação gráfica de um braço com as indicações das distâncias utilizadas como padrão no</p><p>Oriente Próximo antigo.</p><p>DISTÂNCIAS GEOGRÁFICAS:</p><p>Estádio 185 metros</p><p>Milha Oriental 1,47 km</p><p>Caminho de um sábado 1,11 km</p><p>Esqueno 6 km</p><p>MEDIDAS DE SECOS:</p><p>Equivalência Métrico</p><p>Ômer 10 efas 220 litros</p><p>Efa 3 seás 22 litros</p><p>Seá 6 cabs 7,3 litros</p><p>Cab 4 logues 1,2 litros</p><p>Logue   0,33 litros</p><p>DIVISÕES DO DIA:</p><p>Antigo Testamento</p><p>Manhã 6 horas às 10 horas</p><p>Meio-Dia 10 horas às 14 horas</p><p>Tarde 14 horas às 18 horas</p><p>Primeira Vigília 18 horas às 24 horas</p><p>Vigília do Meio 24 horas às 3 horas</p><p>Vigília Tércia (ou da manhã) 24 horas às 6 horas</p><p>Novo Testamento</p><p>1ª Hora (prima) 6 horas</p><p>3ª Hora (tércia) 9 horas</p><p>6ª Hora (sexta) 12 horas</p><p>9ª Hora (nona) 15 horas</p><p>12ª Hora (duodécima) 18 horas</p><p>1ª Vigília (ou da tarde) 18 horas às 21 horas</p><p>2ª Vigília (ou da meia-noite) 21 horas às 24 horas</p><p>3ª Vigília (ou do cantar do galo) 24 horas às 3 horas</p><p>4ª Vigília (ou da manhã) 3 horas às 6 horas</p><p>MEDIDAS DE PESO:</p><p>Equivalência Métrico</p><p>Talento 60 minas 30 kg</p><p>Mina 50 siclos 500 g</p><p>Siclo 2 becas 10 g</p><p>Beca 10 geras 5 g</p><p>Gera   0,5 g</p><p>MEDIDAS DE LÍQUIDOS:</p><p>Equivalência Métrico</p><p>Ômer 10 batos 220 litros</p><p>Bato 3 seás 22 litros</p><p>Seá 2 hims 7,33 litros</p><p>Him 3 cabs 3,67 litros</p><p>Cab 4 logues 1,3 litros</p><p>Logue   0,33 litros</p><p>O ano e suas divisões</p><p>A divisão do tempo na Bíblia era organizada, como em todo o Mundo</p><p>Antigo, pelas relações com a natureza. Assim, os ciclos lunares e solares,</p><p>bem como as estações do ano, regiam as divisões do ano nas mais diversas</p><p>formas.</p><p>– Dia: no mundo semítico, começava ao pôr-do-sol, ou ainda com o</p><p>aparecimento da primeira estrela no horizonte.</p><p>– Mês: a lua determinava o mês. Mas como seu ciclo dura 29,5 dias, os</p><p>meses tinham alternadamente 29 e 30 dias.</p><p>– Ano: era contado conforme a mudança das estações. Neste caso, havia</p><p>um problema técnico a ser resolvido pelos antigos: um ano de 12 meses é</p><p>um ano lunar; já um ano de 365 dias é um ano solar. O ano lunar</p><p>funcionava para os nômades, mas os lavradores precisavam do ano solar em</p><p>função das mudanças de estações. Para equacionar as diferenças entre os</p><p>dois princípios, os babilônios acrescentaram um mês intercalado quando</p><p>necessário. Acredita-se que os hebreus padronizaram seu ano com o</p><p>babilônico durante o exílio (século VI a.C.), acrescentando esporadicamente</p><p>– conforme a necessidade – o mês Veadar logo após o Adar.</p><p>Não há clareza no Antigo Testamento a respeito de quando se contava o</p><p>começo do ano. Apesar das variações, parece ter havido um ano-novo para</p><p>reis e festas em Nisã; um ano-novo para o dízimo do gado em Elul; e outro</p><p>para os anos sabáticos em Tisri.</p><p>– Estações do ano: havia essencialmente duas estações em Canaã: o</p><p>inverno e o verão. No verão, que ia de abril até setembro, permanecia um</p><p>clima bastante seco e quente; no inverno, de outubro até março, ocorriam as</p><p>chuvas, que começavam com fortes aguaceiros, torrenciais no litoral, mas</p><p>finas e contínuas nas montanhas. Não haviam estações intermediárias,</p><p>comuns aos países temperados (veja mais nas páginas anteriores).</p><p>AS FESTAS RELIGIOSAS de ISRAEL</p><p>HAVIA UMA SÉRIE DE FESTAS RELIGIOSAS EM ISRAEL que aparecem</p><p>compiladas em Levítico e que serviam para dois grandes propósitos</p><p>espirituais e sociais: o primeiro deles, para lembrar de todas as coisas que</p><p>Deus fez pelo seu povo; o segundo, para impedir que os homens fossem</p><p>escravizados pelo trabalho e se perdessem na cobiça da busca pelas</p><p>riquezas. Estas festas serão chamadas aqui de festas antigas. Depois,</p><p>surgiram duas outras festas já no final do tempo histórico de formação do</p><p>Antigo Testamento, as quais serão denominadas de festas recentes.</p><p>As festas que chamamos aqui de antigas são as que aparecem</p><p>estabelecidas no livro de Levítico, relacionadas com a Lei mosaica e dadas</p><p>quando da saída do Egito. A mais frequente delas era o Sábado, que ocorre</p><p>todo sétimo dia; era um dia santo em que os homens deveriam descansar e</p><p>relembrar do que Deus fez por eles. Outra festa hebraica bastante conhecida</p><p>no mundo ocidental é a Páscoa, seguida da festa dos Ázimos, celebrando a</p><p>saída do Egito e a libertação de Israel da escravidão, quando tomou rumo à</p><p>terra prometida. Nas demais festas ficava bastante caracterizado o aspecto</p><p>agrário da comunidade israelita e a relação que o povo deveria ter com a</p><p>terra que Deus lhes dava: Pentecoste (que incluía Primícias e Semanas) era</p><p>relacionada às colheitas; Ano Sabático e Ano do Jubileu eram para descanso e</p><p>manutenção da distribuição da terra entre os clãs. Todas as festas antigas,</p><p>por estarem relacionadas às lei rituais, eram acompanhadas de sacrifícios no</p><p>Tabernáculo, em tempos mais antigos, e depois no templo em Jerusalém no</p><p>período monárquico (veja a lista dos sacrifícios na página 38).</p><p>As festas chamadas recentes foram aquelas que surgiram em função de</p><p>livramentos de Deus ao povo judeu, e que não constam do Pentateuco, mas</p><p>são celebradas até hoje. A primeira delas é o Purim, como resultado do</p><p>livramento narrado no livro de Ester; a segunda, a Dedicação (Hannukah),</p><p>celebrando a consagração do templo após a vitória dos Macabeus na</p><p>reconquista de Jerusalém do domínio dos selêucidas no período interbíblico</p><p>(165 a.C.). Estas festas adquiriram, com o tempo, características muito</p><p>menos religiosas, mais seculares, tornando-se elemento cultural marcante no</p><p>meio judaico contemporâneo.</p><p>AS FESTAS ANTIGAS (Lv 23 e 25):</p><p>Nome Frequência Procedimento Finalidade</p><p>Sábado todo sétimo</p><p>dia</p><p>proibido qualquer tipo de</p><p>trabalho</p><p>descanso e</p><p>dedicação a</p><p>Deus</p><p>Páscoa e</p><p>Ázimos</p><p>Páscoa no</p><p>dia 14 de</p><p>Nisã (ou</p><p>Abibe)</p><p>Ázimos do</p><p>dia 15 a 21</p><p>de Nisã</p><p>duas festas unidas em uma só;</p><p>proibido qualquer tipo de</p><p>trabalho; na Páscoa, comem</p><p>cordeiro com ervas amargas em</p><p>refeição comunitária; nos dias</p><p>restantes, alimentam-se de</p><p>pães ázimos (sem fermento); a</p><p>festa é acompanhada de</p><p>sacrifícios</p><p>comemoração</p><p>da libertação de</p><p>Israel da</p><p>escravidão, a</p><p>saída do Egito</p><p>Pentecoste</p><p>(inclui</p><p>Primícias e</p><p>Semanas)</p><p>Primícias</p><p>no primeiro</p><p>sábado após</p><p>as</p><p>primeiras</p><p>colheitas;</p><p>Semanas</p><p>após 50</p><p>dias</p><p>nas Primícias, traziam os</p><p>primeiros frutos e feixes (que</p><p>seria por volta do final de</p><p>Nisã); contava-se 50 dias para</p><p>a conclusão da festa chamada</p><p>“das Semanas” (que seria em</p><p>Zive), quando se traziam pães</p><p>e se faziam ofertas de</p><p>comunhão</p><p>comemoração</p><p>das colheitas</p><p>Trombetas primeiro</p><p>dia de</p><p>Etanin (ou</p><p>Tisri)</p><p>toque de trombetas com</p><p>descanso e sacrifícios</p><p>comemoração</p><p>do novo ano</p><p>civil</p><p>Dia da dia 10 de dia mais importante do ano; arrependimento</p><p>Expiação Etanin (ou</p><p>Tisri)</p><p>proibido todo trabalho; jejum e</p><p>arrependimento nacional; o</p><p>único momento em que o sumo</p><p>sacerdote entra no Santo dos</p><p>Santos</p><p>nacional, em</p><p>que são</p><p>oferecidos</p><p>sacrifícios</p><p>expiatórios</p><p>Tabernáculos do dia 15</p><p>ao 21 de</p><p>Etanin (ou</p><p>Tisri)</p><p>proibido qualquer trabalho no</p><p>primeiro e no último dia;</p><p>montavam cabanas de ramos e</p><p>moravam nelas durante a festa</p><p>relembrar o</p><p>tempo em que</p><p>habitavam em</p><p>tendas no</p><p>deserto</p><p>Ano Sabático todo sétimo</p><p>ano</p><p>proibido qualquer trabalho</p><p>durante o ano inteiro; proibido</p><p>cultivar a terra durante o ano</p><p>inteiro</p><p>descanso do</p><p>povo e</p><p>recuperação da</p><p>terra</p><p>Ano do</p><p>Jubileu</p><p>a cada</p><p>cinquenta</p><p>anos</p><p>na sequência de um ano</p><p>como sacrifício, morrer numa cruz e ressuscitar no terceiro dia para</p><p>assentar-se à direita de Deus. Os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas</p><p>são evidentemente paralelos – por isso são chamados de Sinóticos (do grego</p><p>synopsis, ver em conjunto). Mateus contém 90% de Marcos, enquanto Lucas,</p><p>cerca de 50%, o que evidencia o uso de fontes comuns. João é uma escrita</p><p>posterior, complementar ao que os outros haviam escrito. Enquanto os</p><p>sinóticos são livros de ação intensa, João é bem mais contemplativo. Mateus</p><p>e João foram testemunhas oculares de alguns dos fatos que eles narraram,</p><p>mas não de outros. Já no caso de Marcos e Lucas, os relatos foram baseados</p><p>apenas em testemunhos, tradições e fontes escritas, uma vez que eles não</p><p>eram do círculo de relações de Jesus. Os quatro evangelhos dão uma visão</p><p>diferenciada de Jesus, mais complexa, sem permitir que se reduza o Senhor</p><p>a apenas uma ótica. Com isso ocorrem complicações, mas ao mesmo tempo,</p><p>somos libertos de interpretações limitadas e cerceadas.</p><p>A narrativa dos evangelhos apresenta poucas referências sobre a infância</p><p>de Jesus, o que é motivo de especulações as mais diversas. Quanto ao tempo</p><p>de ministério, normalmente é definido como tendo durado por volta de três</p><p>anos, uma vez que o evangelista João descreve quatro Páscoas ao longo de</p><p>seu livro. É difícil harmonizar plenamente as narrativas de Mateus, Marcos,</p><p>Lucas e João, mas há uma cronologia básica que se tenta apresentar nestas</p><p>páginas. Costuma-se definir o primeiro ano do ministério de Jesus como o</p><p>de apresentação; o segundo, de intensa popularidade; e o terceiro, de</p><p>oposição das autoridades.82</p><p>A infância de Jesus</p><p>Há poucas informações a respeito da infância e juventude de Jesus. Os</p><p>evangelhos somente nos dão alguns eventos do nascimento e depois</p><p>apresentam um adolescente. Jesus nasceu em Belém, onde recebeu a visita</p><p>dos pastores. Oito dias depois, foi apresentado no templo em Jerusalém,</p><p>retornando para Belém, onde viveu cerca de dois anos. A visita dos magos</p><p>do Oriente (que não é evento de seu nascimento) provocou uma reviravolta:</p><p>foi despertada a desconfiança de Herodes, o Grande, levando José, Maria e</p><p>o menino a fugirem para o Egito. Depois da morte de Herodes (4 a.C.), a</p><p>família retornou para se estabelecer em Nazaré, na Galileia. A nova aparição</p><p>de Jesus seria somente aos 12 anos de idade, quando ele e seus pais</p><p>visitavam o templo em Jerusalém. O último detalhe que os evangelhos nos</p><p>apresentam é que Jesus trabalhava com José como carpinteiro.</p><p>O primeiro ano do ministério</p><p>O início do ministério se deu quando Cristo apresentou-se a João</p><p>Batista às margens do rio Jordão, na Pereia, para ser batizado. Dali ele</p><p>seguiu para o deserto da Judéia, onde foi tentado por Satanás. Retornando</p><p>do deserto, Jesus recebeu alguns discípulos encaminhados por João Batista.</p><p>Seus discípulos, neste primeiro ano, ainda não eram fixos. Os primeiros atos</p><p>mais significativos ocorreram numa visita a Jerusalém, quando realizou a</p><p>purificação do templo, derrubando as mesas de cambistas e vendedores de</p><p>animais, indignado com o comércio que se formara em torno da fé do povo</p><p>comum. Logo depois dessa ação incisiva, Jesus teve uma longa conversa</p><p>pessoal a respeito da vida eterna e do novo nascimento com um fariseu</p><p>chamado Nicodemos, na qual recebemos a dádiva de João 3.16: Porque Deus</p><p>amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito para que todo aquele</p><p>que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Seu primeiro ciclo de</p><p>evangelização na Judeia foi abreviado pela prisão de João Batista. Com isso,</p><p>Jesus voltou para a Galileia, mas acabou sendo rejeitado pelo seus</p><p>conterrâneos em Nazaré. Mudou-se então para Cafarnaum, onde seu</p><p>ministério foi muito mais produtivo e bem recebido.</p><p>Há bem menos informações a respeito do primeiro ano do ministério do</p><p>que dos outros. Jesus atuava de formas muito diversas: pregava em</p><p>sinagogas, curava nas ruas e em casas, ensinava pessoalmente aproveitando</p><p>situações corriqueiras. Era mestre do cotidiano, não de grandes eventos, que</p><p>trazia consigo a simplicidade do evangelho.</p><p>O segundo ano do ministério</p><p>As multidões seguiam Jesus no segundo ano do ministério. Foi quando</p><p>escolheu os 12 discípulos que andariam mais próximos a ele, a quem passou</p><p>a ensinar de maneira mais específica a respeito do Reino de Deus e de seu</p><p>código de conduta – resumido nos discursos que ficaram conhecidos como o</p><p>Sermão do Monte. O padrão do Reino é absolutamente diverso da conduta</p><p>do mundo: para Cristo, as coisas vão bem se houver humildade, choro, fome</p><p>de justiça, misericórdia, pureza, paz e sofrimento por causa da ética. O</p><p>procedimento do discípulo deve ser como o sal e a luz, misturado na</p><p>sociedade, mas fazendo a diferença, amando ao ponto de incluir os inimigos</p><p>nessa esfera de graça. Acima de tudo, o discípulo é humilde e dependente de</p><p>Deus – por isso, um caminho de poucos. Os milagres acompanhavam Jesus,</p><p>e por isso foi um ano de muita popularidade. Seu ministério era sustentado</p><p>por mulheres abastadas que o acompanhavam. Seus ensinamentos eram</p><p>transmitidos especialmente por meio de parábolas, histórias simples e</p><p>ilustrativas de verdades espirituais. O povo via nele a expectativa do</p><p>Messias; mas esperavam um salvador político, nacionalista, que os libertasse</p><p>do jugo romano. Estavam enganados. O Reino de Deus é muito maior do</p><p>que momentos históricos específicos; traz o julgamento da eternidade.</p><p>O terceiro ano do ministério</p><p>Quando Jesus fazia o bem às pessoas, não importava que dia era: podia</p><p>ser num sábado ou em dia da semana. O que o Mestre trouxe foi a</p><p>compreensão da necessidade de cumprir os mandamentos na sua essência: o</p><p>amor incondicional, resultado de um coração transformado. Suas posições</p><p>acabaram levantando crescente oposição da parte dos legalistas de Judá.</p><p>Com isso, o terceiro ano foi marcado pelos conflitos com os religiosos e as</p><p>retiradas de Jesus para um âmbito mais receptivo: as regiões gentílicas (Siro-</p><p>Fenícia, Itureia e Decápolis). A Transfiguração, um consolo para Jesus ante</p><p>o sofrimento que estava por vir, foi neste ano, um tempo que também foi</p><p>marcado pelo endurecimento do discurso: seguir a Cristo significa renúncia</p><p>e tomar a cruz da morte da própria vontade. No final daquele ano, Jesus</p><p>evangelizou novamente a Judeia e a Pereia. Poucas semanas antes de seu</p><p>sacrifício, curou um cego de nascença e ressuscitou Lázaro, os ápices de seus</p><p>sinais.</p><p>Quando chegou o tempo certo, Jesus subiu para Jerusalém e se</p><p>apresentou sem reservas: purificou novamente o templo e acusou</p><p>severamente seus opositores. Foi para a cruz, cumprindo a missão que o Pai</p><p>lhe destinara. E ressuscitou como o primeiro do Reino Eterno, predecessor</p><p>de todos os que nele crerem.</p><p>Data do nascimento de Cristo</p><p>Pode parecer estranho, mas Jesus nasceu antes de Cristo. Em 531 d.C., foi proposto um novo calendário por</p><p>Dionísio Exíguo, marcando os anos a partir do nascimento de Jesus. Pelos cálculos de Dionísio, o ano 1 da</p><p>nossa era seria o ano 753 da fundação de Roma. O problema é que ele errou o cálculo. Como o governador da</p><p>Síria, Quirino, governou entre 6 e 4 a.C., Jesus provavelmentenasceu entre estes anos.</p><p>O FINAL do MINISTÉRIO de CRISTO</p><p>A ÚLTIMA SEMANA DE CRISTO foi iniciada com a entrada triunfal em</p><p>Jerusalém. Logo após essa chegada pública e anunciada, realizou a segunda</p><p>purificação do templo. No dia seguinte, esteve novamente no templo, onde</p><p>respondeu a interrogatórios dos legalistas, ocasião em que fez acusações</p><p>severas contra eles diante de todo o povo. Enquanto Jesus preparava a</p><p>Páscoa, Judas combinava a traição com os religiosos. Instituiu a ceia</p><p>memorial na celebração da Páscoa na última noite. Tomando o caminho</p><p>do monte das Oliveiras, durante a noite, deu diversas orientações aos</p><p>discípulos e fez a oração intercessória. Já no monte das Oliveiras, em um</p><p>dos jardins chamado Getsêmane, Jesus sofreu a agonia. Ali o prenderam.</p><p>Jesus passou a noite sendo julgado por parte do Sinédrio na casa do sumo</p><p>sacerdote Caifás, ocasião em que Pedro, assistindo escondido no mesmo</p><p>pátio, negou conhecê-lo. Pela manhã,</p><p>sabático, repete seu</p><p>procedimento (proibido</p><p>trabalho e cultivo);</p><p>cancelamento de dívidas;</p><p>libertação de escravos;</p><p>restituição das terras aos</p><p>antigos proprietários (terras</p><p>não podiam ser vendidas, só</p><p>arrendadas)</p><p>manter a</p><p>distribuição</p><p>original das</p><p>terras entre os</p><p>clâs e as tribos e</p><p>impedir a</p><p>injustiça social</p><p>da concentração</p><p>de patrimônio</p><p>Trombetas era uma festa que aparece somente no Levítico, mas não sabemos o quanto era praticada, já que</p><p>não há menção dela em outra parte da Bíblia. A festa dos Tabernáculos era vista pelos estrangeiros como a</p><p>mais importante de Israel pela grande movimentação que produzia – todos montavam cabanas fora da cidade</p><p>para lembrar o tempo de nomadismo no deserto. A Páscoa tinha uma conotação especial, mas era mais</p><p>valorizada durante o período monárquico. Já o Dia da Expiação era, liturgicamente, a mais importante: era</p><p>o dia em que o sumo sacerdote oferecia sacrifício por todo o povo e entrava no Santo dos Santos.</p><p>AS FESTAS MAIS RECENTES:</p><p>Nome Frequência Procedimento Finalidade</p><p>Purim</p><p>(Est 9.20-</p><p>28)</p><p>dias 14 e</p><p>15 de Adar</p><p>desconhecido na Antiguidade;</p><p>promoção de festas, ganhou os</p><p>contornos de uma espécie de</p><p>Carnaval dos nossos dias</p><p>relembrar a</p><p>libertação do</p><p>extermínio no</p><p>tempo do Império</p><p>Persa</p><p>Festa da</p><p>Dedicação</p><p>(Hannukah)</p><p>(1Mac</p><p>4.56-59)</p><p>dia 25 de</p><p>Quisleu,</p><p>seguindo 8</p><p>dias</p><p>celebrada enfeitando a cidade</p><p>com ramos e guirlandas; com o</p><p>tempo, incluiu-se acender</p><p>lâmpadas na frente das casas</p><p>(por isso é chamada também de</p><p>“Festa das Luzes”)</p><p>relembrar a</p><p>reconquista de</p><p>Jerusalém por</p><p>parte dos</p><p>Macabeus e a</p><p>purificação do</p><p>Templo na</p><p>ocasião</p><p>AS ESTRUTURAS de CULTO em ISRAEL</p><p>HOUVE DIFERENTES ESTRUTURAS OFICIAIS DE CULTO ao longo da história</p><p>de Israel. No período patriarcal não havia um templo ao qual se dirigir – ao</p><p>menos, não de YHWH. Os pais dos hebreus construíram seus próprios</p><p>altares, onde sacrificavam.</p><p>A primeira estrutura oficial foi o Tabernáculo, construído durante o</p><p>êxodo do Egito, em pleno deserto do Sinai. Era uma tenda desmontável,</p><p>perfeitamente adequada à situação de nomadismo em que o povo ainda</p><p>vivia. Esse local para celebração das festas e dos sacrifícios permaneceu</p><p>montado em alguns diferentes locais de Canaã durante todo o tempo dos</p><p>juízes. É possível que tenha havido outro tabernáculo montado por Davi a</p><p>partir da tenda anterior, usado provisoriamente como centro religioso em</p><p>Jerusalém. Como não temos maiores informações sobre esta tenda montada</p><p>por Davi, não tentaremos detalhá-la nesta obra.</p><p>A segunda estrutura oficial foi o Templo de Jerusalém, construído no</p><p>auge da monarquia hebraica logo no início do reinado de Salomão. A obra</p><p>foi feita segundo o projeto elaborado por Davi e passado para seu filho antes</p><p>de morrer. Foi esse o palco de toda a história monárquica do reino do sul,</p><p>Judá.</p><p>A terceira obra foi o Templo de Zorobabel, construído sobre as ruínas do</p><p>anterior. Este templo, bastante modesto, foi usado pelos judeus até o tempo</p><p>de domínio romano, quando Herodes, o Grande, reformou-o, ampliou</p><p>bastante suas estruturas e tornou-o na estrutura magnífica do tempo de</p><p>Jesus.6</p><p>TABERNÁCULO:</p><p>Fachada: 5 m de largura, 5 m de altura</p><p>Planta principal: 15 m de comprimento, 5 m de largura</p><p>TEMPLO DE SALOMÃO:</p><p>Fachada: 10 m de largura, 15 m de altura</p><p>Planta principal: 30 m de comprimento, 10 m de largura</p><p>TEMPLO DE HERODES:</p><p>Fachada: 45 m de largura, 45 m de altura</p><p>Planta principal: 50 m de comprimento, 45 m de largura.</p><p>O Tabernáculo foi construído com padrões de construção egípcia, cujas características foram adaptadas ao</p><p>nomadismo (por ser desmontável).</p><p>O Templo de Salomão era de arquitetura tipicamente fenícia (que misturava elementos mesopotâmicos e</p><p>egípcios na sua concepção).</p><p>O Templo remodelado por Herodes ganhou arquitetura de forte influência helenística – a fusão da cultura</p><p>grega e oriental.</p><p>Saiba mais nas seguintes páginas: Tabernáculo: pg 36 e 37; Templo de Salomão: pg 58 e 59; Templo de</p><p>Herodes: pg 100 e 101.</p><p>Qual foi o destino de cada construção?</p><p>O Tabernáculo perdeu sua função quando Salomão construiu o Templo em Jerusalém. Ao que parece, já</p><p>havia antes uma espécie de tenda de culto construída por Davi, mas não oficializada. As peças desmontáveis</p><p>do Tabernáculo foram guardadas nas salas do novo Templo, e a Arca – o objeto mais sagrado – ganhou o novo</p><p>Santo dos Santos para habitar.</p><p>O Templo de Salomão teve uma vida relativamente longa: construído por volta de 960 a.C., sofreu algumas</p><p>depredações ao longo de sua história. O rei Acaz, 240 anos depois da inauguração, fechou suas portas e</p><p>removeu o Altar de Bronze, mas seu filho Ezequias restaurou os sacrifícios. Depois, o rei Manassés, filho de</p><p>Ezequias, colocou ídolos dentro do Templo, tanto no Santuário quanto no Santo dos Santos (2Re 21). O</p><p>grande reformador das suas estruturas foi Josias, por volta de 620 a.C. Quando o rei da Babilônia</p><p>Nabucodonosor II tomou Jerusalém (em 605 a.C.), saqueou todos os utensílios do Templo, que viria a ser</p><p>destruído definitivamente em 586 a.C., após a revolta dos judeus. Objetos como a Arca da Aliança foram</p><p>perdidos e nunca mais encontrados.</p><p>O Templo de Zorobabel, remodelado por Herodes, foi destruído pelos romanos em 70 d.C., após a revolta</p><p>dos judeus descrita por Josefo. Nada ficou de suas estruturas além do hoje chamado Muro das Lamentações,</p><p>resquício ocidental das muralhas que encerravam o pátio do Templo.</p><p>AS PRINCIPAIS CULTURAS do MUNDO ANTIGO</p><p>É COMUM SE IMAGINAR QUE, NO MUNDO ANTIGO, todas as culturas eram praticamente iguais ou com os</p><p>mesmos princípios e crenças. Isso não é verdade, pois há diferenças bastante significativas entre cada uma delas.</p><p>Nesta página, enumeramos as principais características das culturas de maior influência sobre Israel no período</p><p>bíblico. Cada uma delas será desenvolvida ao longo deste atlas, conforme sua história se apresentar dentro da</p><p>cronologia proposta.</p><p>Os comportamentos individuais ou de grupos dentro das culturas não são homogêneos, embora se</p><p>influenciem mutuamente. O recorte de tempo também relativiza o que poderia ser classificado como uma</p><p>cosmovisão de determinada cultura, pois elas mudam ao longo da história. Por isso, os dados da tabela abaixo são</p><p>básicos e globais, com o objetivo de demonstrar as principais diferenças entre as grandes culturas com as quais os</p><p>hebreus tiveram contato.</p><p>As principais culturas listadas são a Mesopotâmia (de onde procede Abraão e responsável pela conquista de</p><p>Israel e Judá), o Egito (período de gestação do povo), Canaã (cultura cananeia antes do desenvolvimento da fé</p><p>hebraica), a Pérsia (império responsável pela repatriação judaica), Grécia (cultura predominante entre os</p><p>testamentos) e Roma Imperial (dominadores da Palestina do Novo Testamento).</p><p>QUADRO COMPARATIVO: CULTURAS DO MUNDO ANTIGO</p><p>Mesopotâmia Egito Canaã Pérsia Grécia Roma Imperial</p><p>Geografia Crescente fértil</p><p>banhado por</p><p>dois rios</p><p>instáveis</p><p>(Tigre e</p><p>Eufrates), com</p><p>regiões</p><p>pantanosas ao</p><p>sul, secas ao</p><p>centro e</p><p>montanhosas ao</p><p>norte. Poucas</p><p>árvores, apenas</p><p>juncos e</p><p>palmeiras.</p><p>Estreita faixa</p><p>fértil ao longo</p><p>do rio Nilo,</p><p>dependente de</p><p>suas cheias</p><p>anuais para</p><p>plantio.</p><p>Montanhas ao</p><p>sul, planície ao</p><p>norte. Chuvas</p><p>escassas. Poucas</p><p>árvores, apenas</p><p>juncos e</p><p>palmeiras.</p><p>Corredor fértil</p><p>próximo ao</p><p>litoral,</p><p>delimitado</p><p>pelos desertos</p><p>do leste e sul.</p><p>Apenas um rio</p><p>frágil. Árvores</p><p>frondosas no</p><p>norte,</p><p>vegetação</p><p>pequena no</p><p>sul. Secas</p><p>longas, chuvas</p><p>sazonais.</p><p>Grande</p><p>planalto</p><p>iraniano que</p><p>inicia com os</p><p>montes Zagros</p><p>a leste, em uma</p><p>vasta região</p><p>árida e</p><p>semiárida, apta</p><p>ao pastoreio nos</p><p>altos e algum</p><p>cultivo nos</p><p>vales férteis.</p><p>Região</p><p>montanhosa com</p><p>poucas planícies</p><p>agrícolas.</p><p>Produção de</p><p>videiras,</p><p>oliveiras e</p><p>sequeiros.</p><p>Criação de cabras</p><p>e ovelhas.</p><p>Grande</p><p>desenvolvimento</p><p>naval e</p><p>colonização do</p><p>litoral Egeu.</p><p>Roma fica no</p><p>centro da</p><p>península</p><p>itálica. Ela é</p><p>delimitada ao</p><p>norte pelos</p><p>Alpes, possui</p><p>muitos vales e</p><p>montanhas</p><p>férteis. Mar</p><p>Mediterrâneo e</p><p>ilhas dos dois</p><p>lados da</p><p>península.</p><p>Política Cidades</p><p>independentes,</p><p>grandes e com</p><p>muralhas. Rei</p><p>de cada cidade</p><p>está no topo da</p><p>hierarquia,</p><p>como</p><p>representante</p><p>da</p><p>divindade</p><p>protetora local.</p><p>Problema</p><p>sucessório pelas</p><p>Diversas vilas</p><p>centralizadas</p><p>muito cedo em</p><p>um reino</p><p>unificado.</p><p>Faraó é o</p><p>mandatário</p><p>pleno, a própria</p><p>encarnação da</p><p>divindade.</p><p>Razoável</p><p>estabilidade</p><p>sucessória com</p><p>Cidades</p><p>independentes</p><p>pequenas e com</p><p>muralhas. Rei</p><p>de cada cidade</p><p>com poderes</p><p>partilhados</p><p>com chefes de</p><p>clãs. O rei pode</p><p>ser também o</p><p>sacerdote da</p><p>religião oficial.</p><p>Grupos</p><p>Depois da</p><p>unificação das</p><p>tribos, rei é</p><p>escolhido entre</p><p>os cavaleiros da</p><p>nobreza. Uma</p><p>vez no poder, se</p><p>torna</p><p>autoridade</p><p>máxima e</p><p>inquestionável</p><p>por representar</p><p>Cidades</p><p>independentes,</p><p>com organizações</p><p>políticas e sociais</p><p>próprias.</p><p>Desenvolvimento</p><p>da assembleia dos</p><p>cidadãos para</p><p>decisão dos rumos</p><p>políticos da</p><p>cidade. No</p><p>domínio</p><p>macedônico,</p><p>Imperador é o</p><p>princeps</p><p>máximo,</p><p>representante</p><p>do Senado</p><p>(aristocracia</p><p>tradicional) e</p><p>do povo para</p><p>governar o</p><p>Estado.</p><p>Defensor das</p><p>tradições e</p><p>interesses das</p><p>disputas</p><p>dinásticas entre</p><p>as nobrezas.</p><p>longas</p><p>dinastias.</p><p>nômades</p><p>circulando no</p><p>interior.</p><p>a vontade da</p><p>divindade.</p><p>centralização</p><p>monárquica.</p><p>elites. Problema</p><p>sucessório</p><p>permanente.</p><p>Relações</p><p>Exteriores</p><p>Ascensão de</p><p>cidades</p><p>poderosas na</p><p>luta pelo poder.</p><p>Imperialismo</p><p>ocorre quando</p><p>uma cidade</p><p>domina sobre</p><p>toda a região.</p><p>Políticas de</p><p>expatriação</p><p>parcial dos</p><p>povos ou das</p><p>elites</p><p>dominadas,</p><p>imposição de</p><p>administração</p><p>própria ou</p><p>saque sazonal.</p><p>Expansão</p><p>imperial egípcia</p><p>em direção ao</p><p>sul, na Núbia.</p><p>Tentativa de</p><p>influência em</p><p>Canaã ao longo</p><p>dos séculos, mas</p><p>com sucessos</p><p>esparsos.</p><p>Política de</p><p>manutenção das</p><p>realezas locais,</p><p>com</p><p>interferência na</p><p>escolha das</p><p>mesmas.</p><p>Constantes</p><p>lutas internas</p><p>pelo controle</p><p>regional, sem</p><p>sucesso</p><p>duradouro.</p><p>Nunca</p><p>organizaram</p><p>confederações</p><p>significativas</p><p>contra</p><p>invasores</p><p>imperialistas,</p><p>seja da</p><p>Mesopotâmia</p><p>ou do Egito.</p><p>Império em</p><p>constante</p><p>expansão com os</p><p>primeiros reis.</p><p>Depois,</p><p>tentativas de</p><p>expandir para a</p><p>Europa, mas</p><p>com pouco</p><p>sucesso.</p><p>Manutenção</p><p>dos poderes</p><p>locais,</p><p>acrescentando</p><p>um funcionário</p><p>do império</p><p>como</p><p>observador.</p><p>Lutas entre as</p><p>cidades gregas,</p><p>especialmente as</p><p>poderosas Atenas</p><p>e Esparta no</p><p>período Clássico.</p><p>Com a</p><p>dominação dos</p><p>macedônicos do</p><p>norte, expansão</p><p>imperial por</p><p>meio de conquista</p><p>territorial e</p><p>divulgação da</p><p>cultura clássica</p><p>grega.</p><p>Dominação</p><p>pela conquista</p><p>territorial no</p><p>entorno do</p><p>Mediterrâneo.</p><p>Tentativa de</p><p>avanço para o</p><p>Oriente, mas</p><p>sem sucesso.</p><p>Manutenção de</p><p>elites locais</p><p>quando</p><p>cooptadas;</p><p>geralmente,</p><p>imposição de</p><p>governo</p><p>romano por</p><p>procuração.</p><p>Economia Essencialmente</p><p>agrária.</p><p>Palácios e</p><p>templos formam</p><p>grandes</p><p>latifúndios de</p><p>terras</p><p>produtivas e</p><p>algum</p><p>campesinato</p><p>livre. Comércio</p><p>regido pelo</p><p>palácio e algo</p><p>privado.</p><p>Grandes</p><p>impérios fazem</p><p>pilhagem de</p><p>guerra e</p><p>cobrança de</p><p>tributos de</p><p>povos vencidos.</p><p>Essencialmente</p><p>agrária.</p><p>Diversas vilas</p><p>produzem e</p><p>recolhem em</p><p>celeiros estatais,</p><p>controlados pelo</p><p>palácio do</p><p>Faraó.</p><p>Comércio</p><p>também regido</p><p>pelo palácio.</p><p>Era considerado</p><p>o celeiro do</p><p>mundo antigo e</p><p>grande</p><p>exportador de</p><p>cereais, papiro e</p><p>joalheria.</p><p>Essencialmente</p><p>agrária e</p><p>pastoril, mas</p><p>de produção</p><p>limitada na</p><p>subsistência</p><p>local. Comércio</p><p>privado e</p><p>estatal por mar</p><p>pelos fenícios,</p><p>que produzem</p><p>vidro, têxteis e</p><p>a valorizada</p><p>púrpura.</p><p>Passagem</p><p>comercial por</p><p>terra, ligando</p><p>Mesopotâmia e</p><p>Egito.</p><p>Essencialmente</p><p>agrária e</p><p>pastoril.</p><p>Império agrega</p><p>pilhagem de</p><p>guerra e</p><p>cobranças de</p><p>tributos dos</p><p>vencidos.</p><p>Tendência</p><p>econômica ao</p><p>entesouramento</p><p>de metais, sem</p><p>fazê-los circular</p><p>e gerar mais</p><p>riquezas.</p><p>Essencialmente</p><p>agrária e</p><p>pastoril, centrada</p><p>nas propriedades</p><p>privadas da</p><p>oligarquia.</p><p>Expansão</p><p>colonizadora pelo</p><p>Egeu e avanço</p><p>comercial pelo</p><p>Mediterrâneo.</p><p>No período</p><p>imperial,</p><p>florescimento de</p><p>uma sociedade</p><p>urbana no</p><p>entorno da</p><p>nobreza real.</p><p>Essencialmente</p><p>agrária.</p><p>Grandes</p><p>latifúndios</p><p>pertencem às</p><p>altas classes</p><p>romanas, que</p><p>exploram as</p><p>terras de</p><p>maneira</p><p>privada.</p><p>Império agrega</p><p>pilhagem de</p><p>guerra, tributos</p><p>dos vencidos e</p><p>monopólios</p><p>produtivos.</p><p>Comércio</p><p>privado</p><p>intenso.</p><p>Sociedade Línguas:</p><p>sumério,</p><p>acádio, assírio,</p><p>babilônio, que</p><p>desenvolveram</p><p>a escrita</p><p>cuneiforme.</p><p>Topo da</p><p>Língua:</p><p>egípcio antigo</p><p>que desenvolveu</p><p>a escrita</p><p>hieróglifa</p><p>(depois</p><p>hierática e</p><p>demótica). Topo</p><p>Línguas:</p><p>protocananeu,</p><p>aramaico,</p><p>fenício e</p><p>hebraico, que</p><p>desenvolveram</p><p>a escrita</p><p>alfabética.</p><p>Língua: persa,</p><p>mas com uso do</p><p>aramaico como</p><p>língua</p><p>administrativa.</p><p>Sociedade</p><p>tripartida:</p><p>função soberana</p><p>Língua: dialetos</p><p>gregos oriundos</p><p>dos povos aqueus,</p><p>jônios, eólios e</p><p>dórios.</p><p>Predominância</p><p>posterior do grego</p><p>comum falado em</p><p>Língua: latim é</p><p>língua</p><p>administrativa;</p><p>grego é língua</p><p>franca. Ambas</p><p>com escrita</p><p>alfabética.</p><p>Principal é o</p><p>sociedade é o</p><p>rei; depois, os</p><p>nobres e</p><p>administradores</p><p>palacianos.</p><p>Família</p><p>patriarcal;</p><p>poligamia</p><p>permitida, mas</p><p>padrão é</p><p>monogâmico.</p><p>da sociedade é o</p><p>faraó; depois, os</p><p>nobres e</p><p>administradores</p><p>palacianos.</p><p>Família</p><p>relativamente</p><p>igualitária e</p><p>monogâmica.</p><p>Topo da</p><p>sociedade é o</p><p>rei; depois, os</p><p>chefes dos clãs e</p><p>o sacerdócio.</p><p>Família</p><p>patriarcal;</p><p>poligamia e</p><p>monogamia</p><p>praticados.</p><p>(realeza e</p><p>sacerdócio),</p><p>guerreira</p><p>(nobreza</p><p>militar) e</p><p>nutriente</p><p>(trabalhadores</p><p>da terra).</p><p>Família</p><p>patriarcal.</p><p>Atenas, o koine.</p><p>Escrita</p><p>alfabética,</p><p>copiada dos</p><p>fenícios. Família</p><p>patriarcal e</p><p>monogâmica.</p><p>imperador; o</p><p>senado</p><p>(aristocracia) é</p><p>o topo social;</p><p>depois os</p><p>cavaleiros</p><p>militares.</p><p>Família</p><p>patriarcal e</p><p>monogâmica.</p><p>Religião Eridu (cidade</p><p>mesopotâmica)</p><p>é a origem do</p><p>mundo.</p><p>Pessimistas; os</p><p>homens foram</p><p>criados para o</p><p>trabalho. Não</p><p>há céu nem</p><p>inferno, só o</p><p>Sheol.</p><p>Adivinhação</p><p>por diversos</p><p>meios;</p><p>astrologia;</p><p>deuses</p><p>mútliplos,</p><p>humanizados.</p><p>Sacrifícios</p><p>sangrentos (de</p><p>animais) e de</p><p>cereais.</p><p>Egito é o centro</p><p>do universo.</p><p>Múltiplos</p><p>deuses locais,</p><p>com corpo de</p><p>homem e cabeça</p><p>de animal.</p><p>Crêem na vida</p><p>após a morte</p><p>(reino de</p><p>Osíris), cujo</p><p>destino podem</p><p>controlar pela</p><p>magia. Rituais</p><p>com poucos</p><p>sacrifícos</p><p>sangrentos e</p><p>muitos símbolos</p><p>substitutivos.</p><p>Divindades</p><p>locais,</p><p>geralmente</p><p>chamadas</p><p>Baal, cuja</p><p>consorte é</p><p>Astorete ou</p><p>Asera. Antiga</p><p>crença no deus</p><p>supremo El.</p><p>Sacrifícios</p><p>sangrentos de</p><p>animais e</p><p>humanos</p><p>(crianças e</p><p>recém-</p><p>nascidos), e de</p><p>cereais.</p><p>Influências do</p><p>Egito e da</p><p>Mesopotâmia.</p><p>Ahura Mazda,</p><p>deus único</p><p>criador do</p><p>Universo.</p><p>Origem de onde</p><p>emanam os</p><p>Amesha</p><p>Spentas (sete</p><p>imortais</p><p>benevolentes).</p><p>Convocou os</p><p>persas para</p><p>lutarem pela</p><p>verdade contra</p><p>a mentira. Não</p><p>há templos,</p><p>nem ídolos,</p><p>nem sacrifícios,</p><p>apenas o ritual</p><p>do culto do fogo.</p><p>Múltiplos deuses</p><p>são identificados</p><p>pela</p><p>imortalidade,</p><p>não pela bondade</p><p>ou onipotência.</p><p>Não há profeta,</p><p>messias ou livro:</p><p>raízes na</p><p>tradição oral. Os</p><p>deuses são cívicos,</p><p>vinculados a</p><p>cidades que os</p><p>adotam. No</p><p>período imperial</p><p>macedônico, são</p><p>identificados com</p><p>outras</p><p>divindades locais.</p><p>Roma é o centro</p><p>difusor da</p><p>civilização</p><p>contra a</p><p>barbárie.</p><p>Múltiplos</p><p>deuses,</p><p>resumidos no</p><p>panteão de doze</p><p>divindades</p><p>principais de</p><p>influência</p><p>grega. Há</p><p>sacrifícios</p><p>sangrentos de</p><p>animais e</p><p>cereais em</p><p>vários cultos.</p><p>No império,</p><p>muitas religiões</p><p>orientais são</p><p>praticadas em</p><p>Roma.</p><p>OS PRINCIPAIS IMPÉRIOS do PERÍODO BÍBLICO</p><p>DURANTE O PERÍODO BÍBLICO – que delimitaremos aqui entre o ano 2000</p><p>a.C. e 100 d.C. – ascenderam muitos reinos. A Mesopotâmia, por</p><p>exemplo, foi palco de diversos impérios e dinastias ao longo de cerca de</p><p>3000 anos. Estes foram os mais influentes impérios na Bíblia:</p><p>- Império Egípcio: esse grande reino africano foi o mais duradouro</p><p>estado que o Mundo Antigo conheceu (durou mais de três milênios).</p><p>Conheceu longos períodos de estável dominação territorial, entremeados</p><p>por tempos de declínio e desorganização. Teve uma cultura única que veio</p><p>se mantendo e reinventando ao longo do tempo, influenciando inclusive</p><p>povos invasores mais poderosos militarmente. Seu ápice territorial se deu</p><p>por volta de 1230 a.C., sob o reinado do faraó Ramsés II, no Novo Império.</p><p>Os patriarcas se relacionaram bastante com o Egito; ali é relatada a maior</p><p>história de salvação do Antigo Testamento, o êxodo; e foi um reino presente</p><p>como aliado ou inimigo durante toda a história monárquica de Israel e Judá.</p><p>Saiba mais nas páginas 30 a 32.</p><p>- Império Assírio: esse belicoso reino da Mesopotâmia teve grandes</p><p>momentos de expansão durante mais de mil anos, mas seu ápice se deu por</p><p>volta de 626 a.C., sob reinado de Assurbanipal. Curiosamente, o império</p><p>ruiu</p><p>imediatamente após a sua morte. Este império foi o responsável pela</p><p>destruição do reino do Norte (Israel), além de ter atacado e enfraquecido</p><p>Judá diversas vezes. Saiba mais sobre os assírios nas páginas 68 a 71.</p><p>- Império Neobabilônico: surgido da expansão imperialista da cidade de</p><p>Babilônia, que já tivera um tempo de expansão com Hamurabi (c. 1800</p><p>a.C.), atingiu seu máximo esplendor no reinado de Nabucodonosor II.</p><p>Alguns governos decadentes depois, o reino foi tomado pelos persas. Foi o</p><p>império responsável pela destruição de Jerusalém e exílio de Judá. Saiba</p><p>mais nas páginas 72 e 73.</p><p>- Império Persa: reino de cavaleiros arianos estabelecidos no planalto do</p><p>Irã que cresceu rapidamente com o imperador Ciro II (a partir de 559 a.C.),</p><p>criador de um imenso império que se estendeu da Índia até a Mesopotâmia,</p><p>unindo os mundos assírio-babilônio com o iraniano. A Pérsia atingiu sua</p><p>maior extensão com o rei Xerxes I, famoso pelo confronto com os gregos</p><p>nas suas tentativas de invasão da Grécia, que ficaram conhecidas como</p><p>Guerras Médicas. O império persa foi o responsável pela repatriação dos</p><p>judeus e é ao seu contexto que se refere a narrativa de Ester. Saiba mais</p><p>sobre os persas nas páginas 78 e 79.</p><p>- Império Grego: o mais correto seria falar em Império Macedônico, pois</p><p>foi a expansão deste povo da Macedônia, que conquistara anteriormente os</p><p>gregos e assimilara sua poderosa cultura. Este império se levantou a partir</p><p>das conquistas lideradas por um único homem, Alexandre, o Grande. Suas</p><p>conquistas foram impressionantes, mas sua morte prematura selou a divisão</p><p>do reino em unidades menores. Os impérios que dele surgiram estiveram</p><p>em contato com Judá no período interbíblico – por meio do relacionamento</p><p>pacífico dos ptolomeus (reis gregos do Egito), ou pela opressão dos</p><p>selêucidas (reis gregos da Síria). Saiba mais sobre os gregos nas páginas 82 a</p><p>85.</p><p>- Império Romano: o mais impressionante dos impérios pela força e</p><p>permanência de sua dominação. Os romanos conquistaram gradativamente</p><p>as cidades próximas a Roma (primeiro, a Península Itálica), e foram</p><p>crescendo até dominar todo o entorno do Mediterrâneo. Atingiram a maior</p><p>extensão do império com Trajano, ao conquistar a Mesopotâmia, mas</p><p>Adriano teve que devolver o território aos partas. Foi o império dominante</p><p>na Palestina em toda a história do Novo Testamento e até pelo menos</p><p>quatro séculos depois. Saiba mais sobre os romanos nas páginas 91 a 95.</p><p>O MUNDO BÍBLICO nos DIAS ATUAIS</p><p>É COSTUME ASSOCIAR POVOS DO MUNDO ANTIGO a populações</p><p>contemporâneas. Mas trata-se de um um equívoco. Ao longo dos milênios</p><p>de história humana ocorreram muitos intercâmbios e miscigenações:</p><p>culturas foram se imiscuindo, relações de dominação estabeleceram novas</p><p>configurações políticas e sociais, terras conquistadas tiveram a população</p><p>local misturada com grupos que chegavam e ali se estabeleciam. As ideias</p><p>de nacionalidade que temos hoje são criações de poucos séculos e não</p><p>podem ser aplicadas na Antiguidade. Assim, não devemos imaginar que</p><p>determinado povo seja um descendente genético puro de outro da</p><p>Antiguidade, e isso se aplica inclusive aos judeus. Os egípcios de hoje não</p><p>são os mesmos do tempo de Moisés, nem na língua, nem na cultura</p><p>(sofreram influência grega e, especialmente, árabe); os sírios de hoje não</p><p>são iguais aos que lutaram com o reino de Israel da Bíblia; os palestinos</p><p>não são os cananeus de outrora, tampouco os filisteus que tanto contato</p><p>tiveram com Davi. Logo, o que será feito nestas páginas não é uma espécie</p><p>de genealogia cultural, dizendo quem seria hoje correspondente ao povo</p><p>bíblico, mas a demonstração geográfica de localização contemporânea dos</p><p>eventos narrados na Bíblia.</p><p>Nomenclaturas do Oriente Próximo</p><p>O Oriente Próximo – a faixa que vai do Egito até o Irã – foi o palco de</p><p>todo o Antigo Testamento. Antes mesmo dos tempos bíblicos, foi berço de</p><p>duas das maiores civilizações da Antiguidade Ocidental, a egípcia e a</p><p>mesopotâmia.</p><p>O antigo Egito surgiu às margens do rio Nilo; o Baixo Nilo, ao norte,</p><p>corresponde geograficamente ao Egito contemporâneo, e o Alto Nilo, ao sul,</p><p>corresponde ao Sudão, país onde estão os restos arqueológicos da antiga</p><p>Núbia, que era dominada pelos egípcios de outrora.</p><p>A Mesopotâmia, que foi palco de muitos reinos, desde pequenas cidades</p><p>independentes até impérios de longas extensões territoriais, floresceu ao</p><p>longo dos rios Tigre e Eufrates, que possuem suas nascentes dentro da atual</p><p>Turquia, correm passando pela Síria e possuem sua maior extensão dentro</p><p>do território do atual Iraque. A antiga Nínive fica próxima à cidade</p><p>contemporânea de Mossul, e Babilônia, relativamente próxima a Bagdá. A</p><p>Média, Elão e Pérsia ficam no atual Irã.</p><p>Canaã ficava no caminho entre essas potências antigas, sendo</p><p>denominada pelos romanos antigos de Síria-Palestina – hoje chamada</p><p>internacionalmente de Palestina. O território esteve sob domínios diversos,</p><p>especialmente muçulmano, ao longo de mais de mil anos, e hoje existem ali</p><p>os estados do Líbano (território onde viviam os fenícios), Israel e Jordânia.</p><p>Como citamos antes, os palestinos não podem ser entendidos como</p><p>cananeus ou filisteus; são o resultado de milênios de intercâmbios de povos e</p><p>culturas que podem envolver inclusive hebreus remanescentes da</p><p>Antiguidade. Da mesma maneira, os israelenses de hoje não deveriam ser</p><p>entendidos como uma linhagem direta da Judá bíblica, mas o resultado</p><p>religioso e cultural de uma amálgama de judeus com povos das mais diversas</p><p>etnias de três continentes.</p><p>Nomenclaturas do Mediterrâneo</p><p>Se o Oriente Próximo foi o palco do Antigo Testamento, os países do</p><p>Mediterrâneo foram do Novo Testamento. São regiões que sofreram</p><p>grandes mudanças ao longo dos últimos dois mil anos, fazendo com que</p><p>antigas denominações ganhassem novos significados. O que Paulo chamava</p><p>nas suas cartas de Ásia era o que os antigos denominavam de Ásia Menor,</p><p>não o continente asiático atual, mas a região que corresponde à atual</p><p>Turquia. Isso acontecia porque é uma região de tão intensas variações</p><p>geográficas que os gregos e romanos diziam tratar-se de um resumo de toda</p><p>a Ásia; por isso, Ásia Menor. No tempo do Antigo Testamento era</p><p>conhecida como Anatólia. Os nomes regionais da Ásia Menor – como</p><p>Frígia, Bitínia, Galácia, Ponto, etc – foram as nomenclaturas dadas pelos</p><p>romanos a partir dos reinos que ali existiam quando os conquistaram. Na</p><p>costa ocidental da Turquia ficava Éfeso e as cidades das cartas do</p><p>Apocalipse; era uma região de colonização grega jônica, daí a peculiariedade</p><p>helenista na sua formação. Outro detalhe que não deve nos enganar: a</p><p>cidade de Antioquia da Síria, primeira grande igreja fora de Jerusalém, não</p><p>está na Síria, mas dentro do território turco – embora muito próximo à</p><p>fronteira. Na Grécia (chamada de Hélade pelos nativos), houve momentos</p><p>distintos: antes da conquista romana, a parte sul, no entorno de Esparta, era</p><p>o Peloponeso; ao norte, às margens do istmo, ficava a Acaia; e o entorno de</p><p>Atenas era a Ática. Após a conquista romana, toda a região peninsular ficou</p><p>chamada de Acaia, com a capital em Corinto. A Macedônia do tempo de</p><p>Paulo está no norte da atual Grécia – mas não corresponde ao país hoje</p><p>chamado Macedônia, é preciso alertar. A Itália atual guarda o nome que se</p><p>davam aos povos no entorno da cidade de Roma – os itálicos. O que</p><p>aconteceu foi a expansão para toda a península de termos originalmente</p><p>mais restritos.</p><p>Em resumo, podemos concluir que as viagens de Paulo, registradas em</p><p>Atos, ocorreram essencialmente nestes países contemporâneos: Israel, Síria,</p><p>Turquia, Grécia e Itália.</p><p>Nomenclaturas da Palestina</p><p>A Palestina (o mapa está na próxima página) foi um território que</p><p>também sofreu muitas mudanças. A nomenclatura mais antiga se refere a</p><p>Canaã. Durante o império persa, a região já era chamada Judeia, nome que</p><p>permaneceu durante certo tempo no Império Romano. Após as revoltas dos</p><p>judeus de 70 d.C., e principalmente de 132 d.C., o imperador Adriano</p><p>expulsou em definitivo os judeus de Jerusalém e renomeou a Judeia para</p><p>Palestina – ou seja, terra dos</p><p>filisteus. Como não houve estado judaico</p><p>naquela região durante quase dois mil anos, o território foi alvo de todo tipo</p><p>de imperialismo: romano, bizantino, muçulmano, otomano e britânico, o</p><p>que modificou definitivamente o ambiente cultural e até mesmo geográfico.</p><p>O retorno de judeus da diáspora ganhou força no início do século XX, por</p><p>meio do movimento sionista, que culminou com a Independência do Estado</p><p>de Israel em 1948.</p><p>Os antigos povos edomitas, moabitas e amonitas, bem como a parte oriental de Israel (tribos de Manassés</p><p>Gade e Rúbem) corresponderiam a parte do território que é hoje a Jordânia. Ao norte, os fenícios habitavam o</p><p>atual Líbano, e os arameus, a atual Síria.</p><p>O Estado contemporâneo de Israel compreende o que seria parte do antigo território dos filisteus, a parte sul da</p><p>Judeia, e uma faixa estreita indo até Jerusalém e a antiga Galileia. .Os territórios que compreendem as</p><p>Colinas de Golã (região da antiga tribo de Dã), a Cisjordânia (antiga Samaria e parte da Judeia do tempo</p><p>de Jesus, ou Manassés, Efraim e Judá do Antigo Testamento) e a Faixa de Gaza (antiga Filístia) são</p><p>territórios palestinos que foram ocupados militarmente por Israel (a questão permanece indefinida).</p><p>PRINCÍPIO</p><p>O tempo cronológico definido como Princípio não pode ser dimensionado.</p><p>Dependendo da interpretação adotada, pode ser de 4000 anos ou de</p><p>milhões de anos. A escrita foi inventada por volta de 3000 a.C., quando</p><p>estavam em andamento as duas grandes civilizações que influenciaram</p><p>diretamente a história bíblica: a egípcia e a mesopotâmica. Uma grande</p><p>concentração populacional se formou nos centros urbanos em torno dos</p><p>rios Tigre e Eufrates, na Mesopotâmia, e na forma de diversas vilas ao</p><p>longo do rio Nilo, na África. A história da salvação teve início com o</p><p>patriarca Abraão, talvez por volta de 1900 a.C., quando este partiu da</p><p>capital do reino decadente de Ur (no sul da Mesopotâmia), muito próximo</p><p>do tempo da ascensão regional do Primeiro Império da Babilônia – que</p><p>atingiu seu ápice com Hamurabi, uma centena de anos depois. Abraão</p><p>encontrou a região de Canaã habitada principalmente por grupos nômades</p><p>e cidades pequenas.</p><p>NO PRINCÍPIO CRIOU DEUS</p><p>NO PRINCÍPIO CRIOU DEUS OS CÉUS E A TERRA. Assim inicia a história que</p><p>a Palavra de Deus nos apresenta. O tema central da Bíblia é a salvação:</p><p>contar o que Deus fez para resgatar o homem caído. É sob esse aspecto</p><p>que devemos analisar aquilo que nos é apresentado no início de Gênesis.</p><p>Os primeiros 11 capítulos da Bíblia nos contam como a humanidade</p><p>chegou nesse estadp de coisas; do capítulo 12 e todo o restante do texto</p><p>sagrado apresenta o que Deus fez para resolver o problema da separação</p><p>provocada pelo pecado. É em Abraão que inicia a história da salvação,</p><p>quando Deus prometeu: em ti serão benditas todas as famílias da terra.</p><p>Criação</p><p>A Bíblia afirma que Deus criou o céu e a terra, mas não explica como o</p><p>fez. Há muita discussão em torno deste “como” que provavelmente nunca</p><p>será adequadamente resolvido. Gênesis não foi escrito de acordo com uma</p><p>visão científica moderna, com as peculiaridades e objetividade características</p><p>de nosso tempo. A ênfase do seu relato está na terra, não no universo; ou</p><p>seja, o narrador observa de dentro do processo, não de fora. Da mesma</p><p>maneira, a linguagem de sua narrativa é poética, o que permite inúmeras</p><p>interpretações que vão do criacionismo da terra jovem até o evolucionismo</p><p>cristão. Assim, nos é relatado que o mundo foi criado em uma semana, a</p><p>saber:</p><p>1º dia: luz;</p><p>2º dia: firmamento (ou seja, atmosfera);</p><p>3º dia: terra e vegetação;</p><p>4º dia: sol, lua e estrelas;</p><p>5º dia: animais marinhos e aves;</p><p>6º dia: animais terrestres, homem e mulher;</p><p>7º dia: descanso.</p><p>A Bíblia não é a única literatura antiga a apresentar uma criação do</p><p>mundo. Os antigos épicos mesopotâmicos – alguns, séculos mais antigos</p><p>que a narrativa bíblica – contam histórias semelhantes. O Atrahasis é um</p><p>poema sumério que conta como a deusa-mãe Nintu, com a ajuda de Ea,</p><p>criou os seres humanos com a mistura de barro com o sangue do deus</p><p>assassinado Awilu. Outro relato está no Enuma elish (Quando do alto, em</p><p>babilônico), que conta como o deus Marduk criou a humanidade para ficar a</p><p>serviço dos deuses. As semelhanças dessas narrativas com as do Gênesis</p><p>estão na presença do abismo (separação entre céu e terra), no descanso</p><p>divino depois da criação e na imposição do trabalho de lavrar a terra aos</p><p>homens.7</p><p>Tais relatos também aparecem em todas as religiões ao redor do mundo,</p><p>seja na África, Ásia, Oceania, Europa ou América. São concepções</p><p>geralmente politeístas, mas que possuem em comum um detalhe: houve</p><p>uma ação divina de criar.</p><p>O jardim do Éden e a queda do homem</p><p>A tentativa de localizar o Éden é infrutífera. Quatro rios são citados no</p><p>texto bíblico como delimitadores do jardim: Pisom, Giom, Tigre e Eufrates.</p><p>Os dois últimos são conhecidos e existentes até os dias atuais: correm</p><p>paralelos pela Mesopotâmia e desaguam no Golfo Pérsico. Curiosamente,</p><p>na mitologia dos babilônicos, Eridu foi a cidade primordial e construída às</p><p>margens do Eufrates, próximo a Ur (cidade de onde Terá e Abraão</p><p>partiram). Os outros dois rios citados – Pisom e Giom – não são</p><p>conhecidos. Alguns imaginam que sejam o rio Indo (na Índia) e o Nilo (no</p><p>Egito), e a distância entre eles leva à conclusão de que não se trata de um</p><p>local específico, mas uma situação geral do planeta que se perdeu com a</p><p>queda.</p><p>No jardim havia duas árvores: a árvore da Vida e a árvore do</p><p>Conhecimento do Bem e do Mal. A primeira representaria a doação de vida</p><p>de Deus ao homem e que reaparece no Apocalipse (Ap 2.7); a segunda,</p><p>delimita a ação humana. A decisão sobre o que é certo e errado é uma</p><p>atribuição divina – ou seja, cabe somente a Deus definir. Ao comer da</p><p>árvore do Conhecimento, o homem invocou o direito de distinguir o bem e</p><p>o mal, decidindo estabelecer as próprias normas e arrogando a si a</p><p>autonomia moral. Por isso, seu pecado foi a desobediência: considerou-se</p><p>auto-suficiente diante de Deus, não necessitando dEle para reger sua vida e</p><p>ações e fazendo-se deus de si mesmo. Resultado: relacionamento rompido, e</p><p>a humanidade expulsa do paraíso.</p><p>Longevidade dos primórdios</p><p>As listas dos homens e suas idades extremamente avançadas causam</p><p>espanto – como Matusalém, o mais velho da Bíblia, com seus 969 anos.</p><p>Entretanto, as antigas listas dos reis sumérios são ainda mais</p><p>impressionantes: falam em dezenas de milhares de anos de vida. Segundo</p><p>estas listas, o mais velho dos reis sumérios foi Enmenluanna, que viveu</p><p>43.000 anos.</p><p>Dilúvio</p><p>A narrativa do dilúvio é famosa. O relato bíblico nos apresenta um</p><p>último homem justo sobre a Terra, poupado por Deus: Noé. Tendo tido a</p><p>revelação de que a humanidade e todos os animais seriam destruídos por</p><p>uma inundação sem precedentes, Noé construiu uma imensa arca com quase</p><p>144 metros de comprimento, por 24 de largura e 15 de altura. Nesta arca,</p><p>Noé abrigou a esposa, filhos com suas esposas, mais um casal de todas as</p><p>espécies de animais imundos (que não podem ser consumidos) e sete casais</p><p>das espécies ditas puras para alimentação. Após o dilúvio, a arca pousou no</p><p>monte Ararate, que é identificado como um pico ao norte da Anatólia.8</p><p>Além da Bíblia, há diversas outras tradições antigas a respeito de um</p><p>dilúvio universal. Entre os índios americanos existem mitos sobre uma</p><p>inundação que matou todos os homens, exceto alguns que escaparam em</p><p>uma canoa. Os persas criam que o mundo fora corrompido por Arimã e um</p><p>dilúvio pôs fim às suas criaturas. Egípcios também registravam que uma</p><p>catástrofe mundial teve como sobrevivente um homem chamado Toth. Mas</p><p>a mais famosa história é a registrada na Epopeia de Gilgamesh, que narra o</p><p>encontro do herói com o único sobrevivente do dilúvio, Utnapishtim. Este</p><p>construiu um navio em forma de cubo de 58 metros de lado, com sete</p><p>pavimentos, impermeabilizado com betume, no qual foram abrigados sua</p><p>família, parentes e artesãos diversos, além de sementes e muitos animais.</p><p>Antes de sair da arca, ele soltou três pássaros: uma pomba, uma andorinha e</p><p>um corvo.</p>