Logo Passei Direto
Buscar

curso para formação de lideres obreiros

Livro (curso para formação de líderes e obreiros) que reúne as principais disciplinas de teologia: doutrina da Escritura; línguas bíblicas (hebraico, aramaico, grego); hermenêutica e exegese; doutrinas de Deus (Pai, Filho, Espírito Santo); humanidade, pecado e salvação.

Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

obreiros
Pr.NIvaldo
Máquina de escrever
USO EXCLUSIVO DO CANAL GOSPEL BOOK BRASIL
PROBIDO COMPARTILHAR
Pr.NIvaldo
Máquina de escrever
NP_Ebooks Brasil
Digitalizador
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) 
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Curso para formação dc líderes e obreiros: as principais disciplinas 
de um curso de teologia reunidas em um só volume/editor David 
Horton; tradução A. G. Mendes, — 1, cd. — São Paulo: Vida 
Nova, 2013.
Titulo original: The Portable Seminary: A Masters Level 
Overview in one Volume.
ISBN 978-85-2750533-8־
1. Teologia 2. Teologia - Estudo c ensino 3. Teologia pastoral 
L Horton, David.
13-02334 CDD-230
Índices para catálogo sistemático:
1. Teologia crista : Religião 230
ים
VIDA NOVA
obreiros
As principais disciplinas de um curso 
de teologia reunidas em um só volume
David Horton
Editor Geral
A. G. Mendes
Tradução
Copyright ©2006, David Horton
Título original: The Ρίη-table Seminary: A Master’s Level Overview in one Volume
Traduzido a partir da primeira edição publicada pela Bethany House, unia divisão da Baker Publishing 
Group, Grand Rapids,
Michigan, 49516 EUA
l.‘ edição: 2013 
Reimpressão: 2014
Publicado no Brasil com a devida autorização e com todos os direitos 
reservados por Sociedade Reluíiosa Edições Vida N ova,
Caixa Postal 21266, São Paulo, SP, 04602*970 
www.vidanova.com.br | vidanova@vidanova.com.br
Proibida a reprodução por quaisquer meios (mecânicos, eletrônicos, 
xerográficos, fotográficos, gravação, estocagem em banco de 
dados etc,), a não ser em citações breves com indicação de fonte.
Crédito de uso de tabelas, ilustrações, mapas e fotos 
Tabela da página 53: Jennifer Horton.
Tabela da página 196 usada com permissão da Lion Hudson PLC, Oxford, Inglaterra.
Ilustrações das páginas 204, 397, 470: Jennifer Horton.
ilustrações das páginas 400, 410, 414, 428 usadas com permissão de North Wind Picture Archives, 
Alfred, Maine, Estados Unidos.
Ilustrações das páginas 43 1, 434, 445, 448 usadas com permissão do Billy Graham Center Museum, 
Wheaton, Illinois, Estados Unidos.
Ilustração da página 447: Dan lhomberg. Usada com permissão da Bethany House Publishers.
Mapas das páginas 211, 239, 257 usados com permissão da Lion Hudson PLC, Oxford, Inglaterra, 
Mapas das páginas 215, 225, 228, 260, 283, 287: Jennifer Horton.
Hotns das páginas 187, 237, 259, 268, 272, 276, 277280,386 ,279־ usadas com permissão de 
ErceStockPhotos.com.
Crédito dos textos: Introdução e panorama (p. 385393־) e As cruzadas (p. 408-412): FranJdin Ferreira
ISBN 978-85-275-0533-8 
Impresso no Brasil \ Printed in Brazil
SUPERVISÃO EDITORIAL 
Marisa K. A. de Siqueira Lopes
COORDENAÇÃO EDITORIAL 
Curtis A. Kregness
REVISÃO 
Rosa M. Ferreira
COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO 
Sérgio Siqueira Moura
REVISÃO DE PROVAS 
Mauro Nogueira.
Fernando Pires
D1AURAMAÇÃO 
Lueiana Di Iorio
CAPA
Wesley Mendonça
Todas as citações bíblicas, salvo indicação contrária, foram extraídas da versão 
Almeida Século 21, todos os direitos reservados por Edições Vida Nova.
http://www.vidanova.com.br
mailto:vidanova@vidanova.com.br
SUMÁRIO
Agradecimentos............................................................................................................ 9
“Professores" do Curso para formação de líderes e obreiros..................................11
Introdução........................................................................................................................ 19
1. A doutrina da Escritura......................................................................................25
Introdução · Revelação · A inspiração da Escritura · A autoridade
da Escritura · O cânon da Escritura
2. Línguas bíblicas.....................................................................................................49
Hebraico · Aramaico * Grego
3. A interpretação das Escrituras............................................................................ 67
Hermenêutica · Exegese
4. A doutrina de Deus Pai........................................................................................ 83
O conceito bíblico de Deus · Os atributos de Deus · A obra divina:
a Criação · A obra divina: providência · Os agentes de Deus
5. A doutrina de Deus F ilho.................................................................................. 117
Jesus de Nazaré · Cristologia do Novo Testamento · Expiação
6. A doutrina de Deus Espírito Santo ..................................................... ......... 137
O Espírito Santo no Antigo Testamento · O Espírito Santo no Novo 
Testamento
7. As doutrinas da humanidade e do pecado...................................................147
O que significa ser humano · Visão bíblica do pecado
8. A doutrina da salvação....................................................................................... 161
Conceito bíblico · A abrangência da salvação · A salvação no Novo 
Testamento
b j CURSO PARA FORMAÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
9. A doutrina da igreja .......................................................................................165
Definição da igreja · Marcas da igreja · A história bíblica da igreja ·
A natureza da igreja · O ministério da igreja · A missão da igreja
10. A doutrina das últimas coisas......................................................................... 175
Tópicos de escatologia · Três visões do milênio
11. Contexto do Antigo Testamento .................................................................... 181
Contexto físico · Contexto cultural · Contexto literário * Literatura 
hebraica
12. Panorama do Antigo Testamento................................................................... 201
O Pentateuco * Os livros históricos · Os livros poéticos · Os profetas
13. O período intertestamentário..........................................................................235
Introdução ao período Intertestamentário · Introdução aos apócrifos
14. Contexto do Novo Testamento ....................................................................... 253
Panorama histórico ■ Aspectos sodoeconômicos do judaísmo
da Palestina · Práticas e crenças religiosas dos judeus · Aspectos 
religiosos e sodoeconômicos do nnindo helenístico
15. Panorama do Novo Testamento.....................................................................275
Evangelhos e Atos · As epístolas de Paulo · As epístolas gerais
• Apocalipse
16. Apologétíca.......................................................................................................... 303
O que são declarações sobre a verdade · Introdução à apologétíca
• Argumentos a favor da existência de Deus · O problema do mal
• Tudo é relativo, ou não?
17. Religiões do m undo........................................................................................... 341
Zcn ■budismo * Hinduísmo vedanta · Islamismo · Judaísmo
• Religiões africanas tradicionais · O movimento da Nova Era
• Ateísmo · Novos movimentos religiosos · Qual é a situação do 
cristianismo diante de tantas religiões? · Conclusão
18. A igreja cristã: os primeiros 500 anos............................................................385
Introdução e panorama · O cristianismo no Império Romano
19. A igreja na Idade M édia....................................................................................403
A ascensão da Igreja Católica Romana e da Igreja Ortodoxa
Oriental · A ideia medieval de "império cristão"
• O declínio da igreja
20. Reforma e avivamento........................................................................................427
A Reforma · Puritanismo * Os grandes avivamentos
sumArio I 7
21. 0 cristianismo como fenômeno mundial, 1750-1950 ................................ 451
Igreja e revolução na América Latina · Ásia · A bacia do Pacífico
• África
22. A igreja depois de 1950..................................................................................... 475
Evangelicalismo · O movimento pentecostal · O movimento 
ecumênico contemporâneo
23. Introduçãom a n a 
e a in d iv id u a lid ad e d e criação . S egundo ta l co n ce ito , os 
se re s h u m a n o s são se n h o re s do seu d es tin o e in v en to res 
d os se u s ideais e valores. Eles v iv em em u m un iver- 
so su p o s tam e n te se m p ro p ó sito , q u e te ria s id o engen - 
d rad o , ao q u e parece , p o r u m a c id e n te cósm ico . P o rtan to , o s se re s h u m a n o s 
ac h am -se to ta lm e n te liv res p a ra im p o r à n a tu re z a e à h is tó ria os c rité rio s m ora is 
q u e p re fe rirem . S eg u n d o e s sa v isão , in s is tir em v erd ad es e va lo res d e o rigem 
d iv in a o u em p rin c íp io s tran sc en d e n ta is se ria o m esm o q u e rep rim ir a rea liza - 
ção p esso a l e re ta rd a r 0 d esen v o lv im en to d a cap ac id ad e p esso a l de criação . Em 
razão d isso , a p ersp ec tiv a rad ic a lm en te se c u la r vai a lém d a oposição a au to ri- 
d ad e s ex te rn a s espec íficas cu ja s re iv ind icações se jam tidas com o a rb itrá r ia s ou 
im orais. Tal p ersp ec tiv a é tre m e n d a m e n te h o s til a to d a au to rid ad e ex te rn a , po is 
a vê com o algo q u e in tr in se ca m e n te lim ita 0 e sp írito h u m a n o au tô n o m o .
Q u a lq u e r pe sso a q u e leia a Bíblia verá q u e e s sa reje ição da au to rid a d e d iv in a 
e d a rev e lação defin itiva do q u e é ce rto e b o m é u m fen ô m en o m u ito an tigo . 
N ão é ca rac te rís tica exc lusiva d o h o m em co n tem p o rân e o “em a n c ip a d o " ; já es- 
tav a lá no É den . A dão e Eva se Tevaltaram contra a v o n ta d e de D eus p o rq u e 
q u e ria m fazer v a le r su a s p re ferênc ias e se u s in te resse s p esso a is . A reb e ld ia foi 
n a q u e la o ca s iã o e n te n d id a com o p ecad o , e n ão co m o "g n o s e ” filosófica n o li- 
m ia r do p ro g re sso evo lu tivo .
Se p a rtirm o s de u m p on to de v is ta es tritam en te evo lu tivo , p a ra 0 q u a l to d a 
rea lid ad e é co n tin g en te e m u táv e l, o n d e es ta ria a b a se p a ra 0 p ap e l efe tivam en- 
te c ria tivo da h u m a n id a d e no un iverso? D e q u e m a n e ira u m co sm o sem propó - 
sito a lgum lida com a rea lização p esso a l d o ind iv íduo? S om en te a a lte rn a tiv a
36 I CURSO PARA FORMAÇÃO ΠΕ l.fOÊRES E OBREIROS
As Escrituras 
inspiradas, 
ao revelar a 
vontade divina 
transcendente 
em forma escrita 
objetiva, constituem 
a regra de fé e 
prática por meio da 
quai Cristo exerce 
sua autoridade 
divina na vida 
do cristão.
A DOUTRINA DA ESCRITURA 1 37
b íb lica do D eus C riador-R edentor, q u e c riou 0 ser h u m a n o p a ra a o b ed iên c ia 
m o ra l e p a ra u m d es tin o esp iritu a l e lev ad o , p re se rv a , de fato , a d ig n id a d e per- 
m a n e n te e u n iv e rsa l d a espéc ie h u m a n a . É isso o q u e a B íblia faz ao exigir das 
p esso as q u e to m e m u m a d ec isão p esso a l no p la n o esp iritu a l. Ela deixa c lara a 
su p e rio rid a d e do h o m em so b re 0 an im a l e explic ita su a d ig n id ad e e lev ad a (1'p o r 
u m p o u co , m e n o r do q u e D eu s" , SI 8 .5 , ara) em v ir tu d e d a im a g em rac io n a l e 
m oral q u e to d o s ca rreg am o s p o r o b ra d a criação . N o co n tex to do env o lv im en to 
u n iv e rsa l do h o m e m no p ec ad o de A dão, a B íblia faz u m a co n c la in ação m ise- 
r ico rd io sa d a p a rte de D eus à ren o v ação d a red e n ção p o r m e io da p e s so a e d a 
o b ra d e C risto . A h u m a n id a d e ca ída é co n v id ad a a ex p e rim en ta r a o b ra re n o v a ' 
d o ra do E sp írito S an to , a se co n fo rm ar à im ag em de Je su s Cristo e a a n tec ip a r 0 
d es tin o final n a p re se n ça e te rn a do D eus da ju s tiç a e da ju stificação .
A reje ição c o n tem p o rân e a aos p rin c íp io s b íb lica s n ão en c o n tra resp a ld o em 
n e n h u m a d em o n s traç ão lóg ica de q u e 0 a rg u m e n to em favor do te ísm o b íb lico 
se ria falso; pe lo co n trá rio , ta l re je ição reco rre à p re fe rên c ia su b je tiv a p o r v isões 
q u e re fo rçam a “b o a v id a ”.
A B íblia n ão é 0 ü n ico lem b re te d e q u e os se res h u m a n o s v iv em co tid iana- 
m e n te n u m a re lação de re sp o n sab ilid ad e p a ra com 0 D eus so b eran o . Ele revela 
su a a u to rid a d e n o cosm o , n a h is tó ria e no ín tim o da consc iên c ia , fazen d o com 
q u e ta l reve lação p en e tre n a m e n te d e to d as as p esso as (Rm 1.18-20; 2 .12-15). 
A su p ressão reb e ld e d a “revelação geral d e D e u s” é in cap az de e lim in a r to- 
ta lm e n te u m se n tim e n to terríve l de p res tação final d e c o n ta s d ia n te de D eus 
(Rm 1.32).
C on tu d o , é a B íblia, com o “revelação e sp ec ia l”, q u e co n fro n ta m a is cia- 
ram en te n o s sa raç a de rebe ldes esp iritu a is com a rea lid ad e e a au to rid a d e de 
D eus. N as E scritu ras , 0 c a rá te r e a v o n ta d e de D eus, 0 s ign ificado d a ex istência 
h u m a n a , a n a tu re z a do re ino esp iritu a l e os p ro p ó sito s de D eus p a ra a h u m a- 
n id a d e em to d as as ép o cas a p a rece m de fo rm a p ro p o sic io n a l e p e rfe itam e n te 
co m p reen sív e l a q u a lq u e r um . A Bíblia e s tam p a de m an e ira ob je tiv a os critérios 
po r m eio d o s q u a is D eus ju lga as p esso as e as nações , b em com o os m eios p a ra 
a recu p eração m oral e a re s ta u raçã o da c o m u n h ão p esso a l com ele.
É im presc ind íve l, p o r tan to , p a ra 0 d es tin o d a civ ilização h u m a n a , q u e se 
dê à B íblia a im p o rtâ n c ia q u e ela m erece . A reve lação d iv ina intelig ível, b ase 
da crença n a au to rid a d e so b e ra n a do D eus C riado r-R eden to r de to d a a v ida 
h u m a n a , re p o u sa sob re a co n fiab ilidade d aq u ilo q u e a E scritu ra d iz sob re D eus 
e sob re seus p rop ó sito s . O n a tu ra lism o m o d e rn o c o n te s ta a au to rid ad e b íb lica 
e in v este co n tra a a firm a tiv a de q u e a Bíblia é a P alav ra e scrita de D eus, isto é, 
a reve lação d e su a m e n te e de su a v o n ta d e d a d a de m an e ira tra n sc e n d e n ta l. O 
a ta q u e à au to rid a d e d a E scritu ra e s tá n o o lho do fu racão da p o lêm ica em to rn o 
da relig ião rev e lad a e do conflito m o d e rn o em to rn o dos valo res c iv ilízatórios.
O QUE A BÍBLIA DIZ SOBRE SI MESMA
0 p ressu p o s to de q u e a v o n ta d e de D eus se d á a co n h ece r sob a fo rm a de 
verd ad es lóg icas é fu n d am en ta l p a ra a a u to rid a d e d a Bíblia. Para a o r to d o x ia 
evangélica , a reve lação d iv ina aos p ro fe ta s e ao s ap ó s to lo s esco lh id o s so m e n te 
se rá sign ifica tiva e v e rd ad e ira se for ap re se n ta d a n ã o só p o r m eio d e conce ito s 
iso lados cap az es d e p ro d u z ir sen tid o s d iverso s , m as ta m b ém se v ie r reg is trad a 
sob a fo rm a de se n ten ças ou p roposições. U m a p ro p o sição — is to é , su je ito , 
p red icado e v erbo d e ligação (ou "ve rbo c o p u la tiv o ”) — co n s titu i a u n id a d e 
lógica m ín im a d a co m u n ica çã o in te ligen te . A fó rm u la p ro fé tica v e te ro te s tam en - 
tá ria "assim d iz o S e n h o r” g e ra lm en te se rv ia d e in tro d u ç ão à v erd ad e rev e lad a 
sob a fo rm a d e p roposições. J e su s C risto em p reg o u a fó rm u la ca rac te rís tica "eu 
po rém vos d ig o ” p a ra in tro d u z ir p e río d o s dee s tru tu ra lóg ica q u e ele ap re sen ta - 
va com o p a lav ra v e rd ad e ira ou d o u tr in a d e D eus.
A B íblia é fided igna p o rq u e s u a a u to rid a d e vem d e D eus; so b re si m esm a , 
e la dec la ra : "Toda a E scritu ra é d iv in a m e n te in sp ira d a ” (2Tm 3 .16 ). De aco rdo 
co m essa p assag em , o A ntigo T estam en to in te iro (o u q u a lq u e r p a rte dele) é 
d iv in a m e n te in sp irad o . N ão h á dec la ração exp líc ita se m e lh an te so b re 0 N ovo 
T estam en to , em b o ra ela es te ja m ais do q u e im plícita. O N ovo T estam en to apre- 
se n ta in d icaçõ es de q u e seu co n teú d o deveria se r aco lh ido d e m odo n ã o m en o s 
fided igno d o q u e o d o A ntigo T estam en to . De fa to , era 0 q u e aco n tec ia . Os 
escrito s p au lin o s e ram p o s to s em pé de ig u a ld ad e com a s "d e m a is E sc ritu ra s” 
(2Pe 3 .15 ,16). Sob a ca tego ria de E scritu ra , IT im ó teo 5.18 cita L ucas 10.7 ju n ta - 
m en te co m D eu te ro n ô m io 25.4 (cf. 1C0 9 .9). A lém d isso , 0 livro do A poca lip se 
re iv ind ica o rigem d iv in a p a ra s i (1.1-3) e em p reg a 0 te rm o profecia n o se n tid o 
em p reg ad o no A ntigo T estam en to (22 .9 ,10,18). Os ap ó s to lo s n ã o d is tin g u ia m 
en tre o en s in o falado e escrito , p o rém d ec la rav am ex p re ssam en te q u e su a pro- 
c lam ação in sp irad a e ra a P alav ra de D eus (1C0 4.1; 2C0 5.20; 1T& 2 .13 ).
A QUESTÃO DA INERRÂNCIA
A d o u trin a d a in e rrân c ia b íb lica foi su b v e rtid a em su a con fiab ilidade h is tó ric a e 
c ien tífica n o s vários a taq u es q u e so freu , os qua is , su p o stam en te , fazem seus en- 
s in a ra en to s rem o n ta r a fon tes h u m a n a s falíveis. Por o u tro lado , a d o u tr in a tem 
sido m u ita s v ezes d e sn ecessa riam en te o b scu recida p o r apo log istas ex trem am en - 
te co n se rv ad o res q u e exageram n o s p ressu p o s to s e im plicações d a a u to rid ad e 
b íb lica . A lguns es tu d io so s d e lin h a co n serv ad o ra rep u d ia ram toda crítica h istó ri- 
ca , ta ch an d o -a de in im iga da au to rid ad e b íb lica , a lém de d is tin g u ir en tre c ristão s 
“verdadeiros" e “fa lso s” co m b ase n a ace itação ou n ão d a in e rrân c ia b íb lica .
Para q u e m ace ita a in sp iração d iv ina p le n á ria d a E scritu ra — em o u tra s 
p a lav ras, q u e a B íblia to d a foi e sc rita sob a o rien tação d e D eus — , a dou- 
tr in a d a au to rid ad e b íb lica sem d ú v id a a lg u m a req u e r a in e rrân c ia do seu
38 I CURSO PARA formaçAo de lIderes e obreiros
co n teú d o . C on tu d o , a fé c ristã d ific ilm en te p o d e rá co m p ro v a r su a s re iv indi- 
caçõ es re p u d ia n d o a crítica h is tó rica . Fazê-lo im p lica ria re sp a ld a r su a posição 
em p ersp e c tiv as ac rílicas da h istó ria . A “a lta c r ític a”, q u e ta n ta s vezes reco rreu 
a p re ssu p o s to s a rb itrá rio s a fim de a fian ça r co n c lu sõ es in ju s tif icad as , 0 evan- 
gélico deve re sp o n d e r co m u m a crítica co n s is te n te a lice rçad a em su p o siçõ es 
leg ítim as q u e levam a vered ic to s defensáve is.
O cris tian ism o evangélico deve lev an ta r-se em d e fe sa da in e rrân c ia d a 
E scritu ra e fazer d isso u m com p ro m isso teo lóg ico sad io , co e ren te com 0 que 
a B íblia d iz a re sp e ito de si m esm a. Todavia, n ão é n ecessá rio rep u d ia r a in te- 
g rid ad e c ris tã d aq u e le s q u e n ão c o m p artilh a m d esse em p en h o , n em tam p o u co 
v e r n e le s ap ó s ta ta s irrem ed iáve is , a in d a q u e os q u e d izem h o n ra r a a u to rid ad e 
de Je su s C risto , e n ão a d a E scritu ra , co n tra riem o en s in a m e n to de Je su s , u m a 
v ez q u e ele tin h a em a lta co n ta a E scritu ra . E m a is , a ex p lan ação p o r in te iro 
da v id a e o b ra de Je su s d e p e n d ia de su a cm cificação , re ssu rre ição e m in isté rio 
ce lestia l e d eriv av a d a in sp iração q u e 0 E spírito d e ra ao s apósto lo s. É ilógico 
to m a r dos e n s in am en to s d e Je su s tran sm itid o s d u ra n te s e u m in is té rio te rreno 
so m e n te aq u e le s e lem en to s q u e sa tis fazem a n o sso s p ressu p o s to s . A rejeição 
da co n fiab ilid ad e p le n a d a E scritu ra po d e , p o r fim , lev a r a lguém a a tr ib u ir a 
Je su s u m p ro p ó sito de v id a d ife ren te d aq u e le q u e e s tá n a Bíblia: q u e Cristo 
m o rre u e re ssu sc ito u f is icam en te p a ra to rn a r-se 0 fu n d am e n to do p erd ão d iv ino 
aos pecad o res .
A posição ev an g é lica ao longo d a h is tó ria e s tá s in te tiz a d a n a s p a lav ras de 
Fran k E. G aebele in , ed ito r geral do The Expositors’ Bible Commentary: “Insp ira- 
ção d iv in a , co n fiab ilid ad e to ta l e au to rid a d e ab so lu ta d a B íb lia”. A E scritu ra é fi- 
d ed ig n a e m e re ce d o ra de to d a a co n fian ça p o rq u e é d iv in a m e n te in sp ira d a . Para 
o teó logo lu te ran o F rancis P ieper, a au to rid ad e da B íblia e s tá d ire tam e n te vin- 
c u lad a à in sp iração : “A au to rid a d e d iv ina da E scritu ra re p o u sa exc lu sivam en te 
em su a n a tu re z a , em su a teopneustia — isto é, em seu ca rá te r d e ob ra 1so p rad a 
po r D eu s’”. J. I. P acker afirm o u q u e todo en te n d im e n to q u e co m p ro m e ta a ve- 
rac idade da B íblia deve ser co n s id e rad o ao m esm o tem p o algo q u e com prom ete 
su a au to rid ad e : "A firm ar a in e rrân c ia da B íblia e su a in fa lib ilid ad e significa 
s im p lesm en te co n fessar a fé na (1) o rigem d iv in a d a B íblia e n a (2) verac idade 
e f ided ign idade de D e u s”. E acrescen ta : “A im p o rtâ n c ia d esses te rm o s é q u e eles 
co n serv am os p rin c íp io s b íb licos d a au to rid ad e , isso p o rq u e d ec la rações que 
n ão se jam a b so lu ta m e n te v erd ad e ira s e confiáveis n ão p o d e m se r fon tes d ignas 
de a u to r id a d e ”. P acker refo rçou esse a rg u m en to ao d e m o n s tra r q u e C risto , os 
apósto lo s e a ig reja p rim itiv a ac red itav am q u e 0 A ntigo T estam en to era, ao m es- 
m o tem po , p le n am e n te confiável e co m p e te n te com o au to rid ad e . S endo o cum - 
p rim en to do A ntigo T estam en to , 0 N ovo T estam en to n ão é m e n o s m ereced o r de 
con fiança . C risto confiou a seus d isc ípu lo s su a au to rid a d e q u a n d o en s in av am ,
A DOUTRINA DA ESCRITURA j 3 9
4 0 I CURSO PARA FORMAÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
de m odo a fa z e r co m q u e a igreja p rim itiv a ace ita sse se u s en s in am en to s . C om o 
revelação d iv in a , a E scritu ra e s tá ac im a d a s lim itações do a rg u m e n to h u m a n o .
Desafios recentes. A lguns e s tu d io so s co m p ro m ete ram a au to rid ad e da 
E scritu ra m o v id o s pela d isp o s ição em ad m itir q u e 0 en s in a m e n to b íb lico foi 
in flu en c iad o p e la cu ltu ra . C ertas co isas q u e P au lo d iz so b re as m u lh e re s ou 
so b re a reun ificação d e Israel n a P a lestin a são d e sca rta d a s p o rq u e se ria m fru to 
d o p e n sa m e n to rab ín ico d a ép o ca e, po r isso m esm o , ev id ên c ia d a p e rsp ec tiv a 
c u ltu ra lm e n te lim itad a d e Paulo . É v erd ad e q u e em a lg u n s p o n to s o en s in am en - 
10 b íb lico co incide , obv iam en te , co m a trad ição juda ica . C on tudo , se m p re que 
a trad içãoh eb ra ica foi e lev ad a a n o rm a su p e rio r o u p rincíp io q u e m od ificava 
e co n tra riav a a E scritu ra , Je su s c r itico u ta l trad ição . O fato d e q u e P au lo te n h a 
e n s in a d o p o r v ezes 0 q u e ta m b ém e ra en s in a d o p e la trad ição h is to ric am en te 
a rra ig a d a no A ntigo T estam en to n ad a prova. Em o u tro s lugares, 0 ap ó s to lo cri- 
ticou d u ra m e n te a trad ição rab ín ica.
O p o n to de v is ta ev angélico se m p re foi 0 de que os autOTes in sp ira d o s da 
Bfblia e n s in a m aq u ilo q u e e n s in a m n ão com o algo d eriv ad o d a m era trad ição , 
m as so p rad o p o r D eus. Em s u a p ro c la m aç ão , e les tin h a m a m e n te d o E sp írito 
para d is tin g u ir 0 q u e D eu s ap ro v av a e n ã o ap ro v av a na tra d iç ã o d a época . 
P o rta n to , é m u ito m a is s e n sa to falar de e lem e n to s em q u e a trad ição ju d a ic a 
refle tia a rev e lação p ro fé tic a e d e e lem e n to s em q u e a trad ição se d is tan c iav a 
d essa reve lação , U m a vez in tro d u z id o 0 p rin c ip io d a “d e p e n d ê n c ia c u l tu ra l” 
no c o n teú d o d o en s in a m e n to d a E sc ritu ra , fica difícil e s ta b e le c e r c r ité r io s ob- 
je tivos q u e d is tin g am e n tre 0 q u e se ria su p o s ta m e n te a u to r id a d e c o m p e te n te e 
n ã o c o m p e te n te n a d o u tr in a ap o s tó lic a . O q u e P au lo p e n s a v a so b re a h o m o s- 
se x u a lid ad e p o d eria e n tã o s e r c o n s id e rad o p rec o n ce ito cu ltu ra l, a s s im co m o 
su a o p in ião so b re a a u to rid a d e h ie rá rq u ica — o u a in d a , so b re a au to rid a d e 
d a E scritu ra .
O utros e s tu d io so s p ro cu ra ram a trib u ir à E scritu ra u m a au to rid a d e exclusiva- 
m e n te “fu n c io n a l" , u m a esp éc ie d e e s tim u lan te p a ra a tran sfo rm aç ão d a v ida 
in te rio r, p o n d o de lado s u a au to rid a d e b a sea d a e m p ro p o siçõ es co n ce itu a is . A 
su p o s ta a u to rid a d e d a E scritu ra é id en tificada p o r m eio de e lem e n to s rad ical- 
m e n te d ivergen tes e a té m esm o co n trad itó rio s — n e n h u m de les su p e rio r ao 
o u tro , to d o s ig u a lm e n te co n sid erad o s . As dec la rações de au to rid a d e ex te rn a 
es tão su b o rd in a d a s a u m a su p o sta au to rid ad e in te rio r q u e a lte ra de m a n e ira 
d in âm ica a v id a d a c o m u n id a d e d e fé. A p esa r de su a filosofia n ã o d isc rim ina- 
tó ria em re lação a p o n to s de v is ta d ive rgen tes , ta l teo ria deve, é c laro , exclu ir 
ex p líc ítam en te a ê n fa se evangélica trad ic io n a l d a v erd ad e o b je tiv a d a B íblia. 
Todavia, u m a v ez q u e a va lid ad e do en s in am en to b íb lico sai d e rro tad a em seu
todo e tam b ém em p a rte s , n ão resta ra z ão c o n v in ce n te a lg u m a p e la q u a l a v id a 
de a lg u ém dev a se r tran sfo rm ad a ,
A q u e s tã o da au to rid ad e b íb lica d ific ilm en te p o d e se r se p a rad a do in te resse 
n a v a lid ad e rac io n a l e n o asp ec to fac tu a l h is tó rico d as E scritu ras. C o n tu d o , p a ra 
0 evangélico a au to rid ad e d a B íblia é de o rigem d iv ina ; n em to d as a s verd ad es 
e a firm açõ es h is to ric am en te prec isas es tão n e s s a ca tego ria . A E scritu ra é nos- 
sa au to rid a d e p o rq u e é a P alav ra d e D eus. Os p ro fe ta s e ap ó s to lo s esco lh idos, 
a lg u n s de les c h a m a d o s p o r D eus a p e sa r de su a in d ife ren ça e a té h o s tilid ad e 
à v o cação — p. ex ., o p ro fe ta Je rem ia s e o ap ó s to lo P au lo — , testificam q u e 
a v erd ad e de D eus to rn o u -se a v e rd ad e d e les p o r in sp iração d iv ina . A religião 
ju d a ico -c ris tã b ase ia -se n a reve lação e n a red en ção h is tó ricas . E m v ez de se 
m o s tra r in d ife re n te em re lação ao q u e se refere à h is tó ria , a B íblia e s tab e lece 
u m a v isão lin e a r e s tra n h a à v isão das re lig iões e d as filosofias an tigas .
O poder da P alavra de D eus. A B íblia co n tin u a a se r 0 livro com m aio r 
n ú m ero de exem pla res im p resso s , 0 m ais trad u z id o e, co m freq u ên c ia , o m ais 
lido do m u n d o . S uas p a lav ras en c o n tra ram g u a rid a no co ração de in ú m eras 
p esso as com o n e n h u m o u tro . Todos os q u e a c o lh e ra m su a s dád iv as de sabe- 
do ria e as p ro m essas de v id a n o v a e d e novo p o d e r d esco n h e c ia m in ic ia lm en te 
su a m e n sag e m red e n to ra , e n ão p o u co s e ram h o stis ao seu en s in am en to e às 
su a s ex igênc ias esp iritu a is . Ao lo n g o de in ú m e ra s gerações, ficou ev id en te su a 
cap ac id a d e de d e sa fia r p esso as de todas as raças e p a íses. Os q u e a m a m a 
B íblia p o r ca u sa d a e sp e ran ça fu tu ra q u e ela en ce rra , do sign ificado e do p o d er 
q u e e la con fe re ao p rese n te e da co rre lação q u e es tab e lece e n tre u m p a s sa d o de 
erros e a g raça do p e rd ão d iv ino jam ais te riam ta is reco m p en sa s in te rn a s se a 
E scritu ra n ão fosse p a ra e les a v erd ad e fided igna e d iv in a m e n te reve lada . P ara 
0 c ristão evangélico , a E scritu ra é a P alavra de D eus d a d a sob a fo rm a ob je tiv a 
de v e rd a d es p rap o sic io n a is p o r m eio de p ro fe tas e ap ó s to lo s in sp irad o s , sen d o 
0 E sp írito S an to 0 d o ad o r d a fé p o r in te rm éd io d essa Palavra.
C arl F. H . H enry5
O CANON DA ESCRITURA
D epois do q u a rto sécu lo d .C ., a igreja c ristã tin h a 66 liv ros q u e co n s titu íam 
su a E scritu ra : 27 no N ovo T estam en to e 39 n o A ntigo T estam en to . A ssim com o 
P latão , A ristó te les e H om ero fo rm am u m cân o n de lite ra tu ra grega, os liv ros 
do N ovo T estam en to se to rn a ra m 0 c â n o n d a lite ra tu ra cris tã . Os crité rio s de
A DOUTRINA DA ESCRITURA j 41
5Adaptado de“Authority of the Bible”, in: Walter A. Elwell, org., Baker Encyclopedia o f the 
Bible, v. 1, p. 296-300. Usado com permissão.
se leção dos liv ros n o c â n o n juda ico (0 A ntigo T estam ento) n ã o são co n h ec id o s, 
m as se m d ú v id a a lg u m a es tav a m asso c iad o s ao va lo r desses escrito s n a v ida 
co tid iana e re lig io sa d a n ação . Os crité rios d e se leção dos livros tío N ovo Testa- 
m en to b a sea ra m -se em su a “ap o s to lic id ad e”, co n ío rm e a op in ião dos au to re s da 
ig reja p rim itiva . A exem plo dos liv ros do A ntigo T estam en to , os liv ros do Novo 
T estam en to fo ram reu n id o s e p rese rv ad o s pe las igrejas locais n o p rocesso con- 
tínuo d e ad o ração e n ecess id ad e de o rien taçã o fided igna p a ra o v ive r c ris tão . 
A fo rm ação do câ n o n n ão foi u m even to , e s im u m p ro cesso , q u e levou vários 
sécu los a té q u e es tivesse con so lid ad o em todo 0 im pério R om ano . Os câ n o n es 
locais fo ram a b a se de co m p aração , e a p a rtir deles em erg iu , p o r fim , 0 cân o n 
geral ad o tad o p e la c ris tan d a d e d e ho je , em b o ra a lg u m as igrejas o r ien ta is te- 
n h am u m N ovo T estam en to lig e iram en te m e n o r do q u e o ad o tad o p e la s igrejas 
ociden ta is, 0 ju d a ísm o , b em com o 0 c ris tian ism o de m odo geral, ac red ita q u e 
0 E spírito de D eus te n h a agido de m an e ira p ro v id en c ia l n a p ro d u ção e p reser-vação de su a Palavra.
42 I curso para formaçAo de líderes e oereíros
O CANON DO A N TIG O TESTAMENTO
A designação A ntigo '!e s tam en to n ão ap a rece n a lite ra tu ra ju d a ica . Os ju d eu s 
p re fe rem c h a m a r seus 39 liv ros sa g rad o s de T anak — 
u m ac rô n im o fo rm ado p e las p rim e iras le tras d a Torá 
(Lei), N av iím (profetas) e K ethub im (E scritos). Eles 
são ch am ad o s de “Lei de M oisés, [...] P rofetas e [...] 
S a lm o s” (p rim eiro livro dos E scritos n a B íblia h eb ra ica ) 
em L ucas 24.44. Os cris tão s c h a m a ra m se u s escrito s 
de N ovo T estam en to , o u a lian ça , sen d o es te ú ltim o 
te rm o u m a des ignação u s a d a a n te r io rm en te p a ra se 
refe rir ao aco rdo q u e D eus fez com A braão e com os 
p a tria rca s e q u e foi repe tido por C risto aos ap ó s to lo s 
(Mt 26 .28 ). Para os cris tão s do p rim e iro sécu lo , su a 
n ova a lian ça (1C0 11.25) em Cristo e ra a c o n tin u aç ão 
de o u tra c e leb rad a an te r io rm en te com os p a tria rca s 
(Ef 2 ,12 ), a n u n c ia d a p e lo s p ro fe ta s (Jr 31.31-34), e 
q u e p o r ca u sa d isso m esm o ficou co n h ec id a com o p rim e ira a lian ça (Hb 8.7-13; 
9 .1 ,1 5 2 2 o ,(־ u , n o s sécu lo s p o s te rio re s , com o A ntigo T estam en to .
Os te rm o s Antigo e Novo n ão ap a recem nos escrito s dos pais ap ostó lico s do 
p rim eiro e do se g u n d o sécu los, ta m p o u co n a s apo log ias do p rim e iro sécu lo e 
de m ead o s do se g u n d o sécu lo ; to d av ia , ap a rece m n a ú ltim a m e tad e do seg u n d o 
sécu lo n os escrito s de Ju s tin o M ártir (Diálogo com Trifão, 11.2), Irin eu (Contra 
as heresias, 4 .9 .1 ), C lem en te de A lexandria {Miscelânea, 1.5) e no in íc io do 
terceiro sécu lo em O rígenes [De principiis, 4 .1 .1 ). N esses au to re s , a ex p ressão
O "cânon" 
refere-se, 
geralmente, aos 
livros da Bíblia 
judaica e cristã 
tidos como Escritura 
e, portanto, 
autoridadeem 
matéria de fé e de 
doutrina.
se referia m a is à a lian ça do q u e aos livros q u e a co n tin h am , e m b o ra a transfe- 
rên c ia te n h a oco rrido p o ste rio rm en te ,
O te rm o cânon n ã o ap a rece em n e n h u m dos T estam en tos p a ra se referir 
às esc r itu ras jud a icas . A idé ia de lim itação in e ren te à p a lav ra n ão se a ju s ta v a 
à n a tu re z a d a au to rid ad e relig iosa d a relig ião ju d a ica d u ra n te os m ilh ares de 
an o s em q u e os livros do A ntigo T estam en to e s tav am sen d o escrito s . S om en te 
a Torá era im u n e à exclusão ou à ad ição d e novos liv ros (Dt 4 .2). D u ran te mil 
an o s , d e M oisés a M a laq u ias , a re lig ião ju d a ica ex istiu se m u m c â n o n fechado , 
isto é, sem u m a lis ta o ficial de liv ros. N u n ca em su a h is tó ria 0 povo do A ntigo 
T estam en to tev e à su a d isposição a lista co m p le ta dos 39 liv ros do A ntigo 
T estam en to . N ão se sab e q u an d o 0 c â n o n ju d a ico foi fechado . E m bora os rabi- 
n o s reu n id o s em Jâ m n ia v in te an o s depo is da q u e d a de Je ru sa lém , no an o 70 
d .C ., es tiv e ssem fazen d o a lg u m as p e rg u n ta s so b re au to rid ad e relig iosa, a pri- 
m e ira lis ta de 39 livros foi co m p ilad a po r M elíto d e Sardes p o r v o lta do an o 170. 
N essa lis ta n ã o ap a rece n e n h u m livro p o ste rio r à ép o ca de M alaq u ias , a m enos 
q u e se q u e ira s itu a r D an ie l no se g u n d o sécu lo d.C .
Os P ro fetas e os E scritos sem p re fo ram co n s id e rad o s se cu n d á rio s em re lação 
à Lei. Sua co m p o sição e reu n iã o foi u m p rocesso , e n ão u m ev en to n a v id a do 
povo de Israe l, e fu n c io n a ra m em g ran d e m ed id a com o u m reg istro d a re sp o s ta 
da n aç ão à Lei, q u e de tão sa g rad a foi g u a rd a d a (con fo rm e a trad ição rab ín ica : 
T alm ude B abilôn ico , B ab aB ath ra 14a; cf. tam b ém o D ocum en to de D am asco 5.2) 
na a rca d a a lian ç a , q u e ficava no luga r san tíss im o no ta b e rn ác u lo . E m D eute- 
ronôm io 31.25, p o rém , a o rd em q u e os lev itas rec eb e ram de M oisés foi sim - 
p le sm e n te q u e p u se sse m 0 livro da Lei ao lado d a arca. A inda ass im , a sim ples 
p resen ça n o luga r san tíss im o e ra s ina l de su a s in g u la r id ad e em re lação aos 
d em ais liv ros do A ntigo T estam ento .
Os 39 liv ros do A ntigo T estam en to e s tav am d iv id id o s o rig in a lm en te em 24 
ap en as , de aco rdo com 0 te s te m u n h o co n sen su a l d a trad ição h eb ra ica . Faziam 
p arte d esse a rran jo os c inco livros da Lei, os oito P ro fetas e os 11 E scritos. As 
Bíblias h eb ra icas m o d e rn a s refle tem esse a rran jo tr ip a rtid o u sa d o nas trê s pri- 
m eiras ed ições im p re ssas (final do sécu lo 15). A Lei c o n tin h a 0 P en ta teu co na 
o rd em q u e co n h ecem o s, de G ênesis a D eu te ronôm io . Os P ro fe tas e ram oito: 
Jo su é , Ju iz es , S am uel (1 e 2 ), Reis (1 e 2 ), Isa ías, Je rem ia s e E zequiel. Os pro- 
fe tas m en o re s (12) e ram co n s id e rad o s um ún ico livro e e s tav am d isposto s na 
m e sm a o rd em d a n o s sa Bíblia. Os 11 livros dos E scritos co n tin h am três livros 
d e p o es ia (Salm os, P rovérb io s , Jó ) , c inco ro los (C an tares, Rute, L am en tações, 
E clesiastes, E s te r) , q u e e ram lidos em festas im p o rtan tes e es tav am d isp o sto s 
na o rdem cro no lóg ica d e su a o b se rv ân c ia , b em com o trê s livros d e n a rra tiv as 
ou liv ros h is tó rico s (D aniel, E sd ras-N eem ias, 1 e 2CrÔ nicas).
A DOUTRINA DA ESCRITURA ( 43
À p arte da trad ição ju d a ic a au tê n tic a , h o u v e u m e m p e n h o p a ra d iv id ir o s 
liv ros em 21, co m b in a n d o Rute co m Ju iz e s e L am en tações c o m Je rem ias. T odas 
essas ten ta tiv as, p o rém , são de o rigem grega e n ão en c o n tra m resp a ld o na tra- 
d ição heb ra ica .
Os m an u sc rito s m a is an tig o s do A ntigo T estam en to h eb ra ico q u e tem o s ho je 
sâo os textos m asso ré tico s , q u e d a tam do o itavo sécu lo d .C ., n ão an te s d isso . 
Os p e rg am in h o s d e sco b e rto s n a s im ed iaçõ es do m ar M orto são a p e n a s de liv ros 
ind iv iduais . Os escrib as m a sso re ta s a p a re n te m e n te n ão tin h a m reg ras so b re a 
d isposição dos liv ros p o rq u e n ã o h á u m a o rd em u n ifo rm e nos P ro fe tas Poste- 
rio re s ou n o s E scritos d o s m a n u sc rito s h eb ra ico s an tigos. A s itu ação ta m b ém 
n ão é d ife ren te n a s tra d u ç õ e s g regas an tig a s dos tex tos h eb ra ico s. As B íblias 
p ro te s tan te s m o d e rn a s seg u em a o rd em da V ulgata la tin a e o c o n te ú d o d a B íblia 
h eb ra ica . Tanto a V ulgata q u a n to a S ep tu ag in ta ( trad u ção grega) co n tin h a m os 
apócrifo s , q u e ja m a is fo ram ace ito s pe lo s ju d eu s . A Igreja C ató lica R o m an a in- 
clu i os apócrifos em su a s tra d u ç õ es dev ido à in flu ên c ia da V ulgata n a trad ição 
ca tó lica . Esses liv ros são co n s id e rad o s d eu te ro can ô n ico s .
E m bora n ã o h a ja u m a o rd em co n sen su a l, a o rd em a lex a n d rin a , o b se rv a d a 
p e lo s m a n u sc rito s gregos, co s tu m av a d isp o r o s liv ros de aco rd o co m o a s su n to 
— n a rra tiv a , h is tó ria , p o es ia e p ro fecia , se n d o o s liv ros apócrifo s in se rid o s de 
fo rm a d isp e rsa , co n fo rm e ap ro p riad o , n essas ca teg o ria s . A d iv isão heb ra ica e ra 
co m p le tam e n te igno rada .
As B íblias h eb ra ica s an tig a s d iv id iam 0 tex to em p e q u e n o s p a rág ra fo s e se- 
ções m aio res p a rec id a s com os n o sso s parág rafo s. E stes eram in d icad o s por 
m eio de e sp aço s deixados en tre u m e o u tro — trê s le tra s e n tre as seções p eq u e - 
n a s e n ove le tras en tre as m aio res. O n ú m ero de seções n ão é 0 m esm o em to - 
dos os m a n u sc rito s . J e su s p ro v av e lm en te se referia a ta is seçõ es n o co m en tá rio 
q u e fez sob re a "p a ssa g em em q u e se fa la da sa rç a " (M c 12.26). M ais ta rd e , as 
n ecess id ad es litú rg icas levaram a o u tra s d iv isõ es do tex to , p a ra a le itu ra com - 
p le ta da Lei n a s s in ag o g as d a B abilôn ia em um a n o (54 seções) e n as s in ag o g as 
d a P alestina em trê s an o s (154 seçõ es).
O CANON DO NOVO TESTAMENTO
A fo rm ação do cân o n do N ovo T estam en to n ão é m en o s en igm ática do q u e o 
do A ntigo T estam en to , sen d o ta m b ém u m p rocesso , e n ão u m even to . A au to ri- 
d ad e era in e re n te à com issão d ad a ao s apósto lo s (Mt 28 .18], m a s n ão era aceita 
sem q u es tio n a m en to p o r todos (1C0 9 .1 3 N .(־ em to d o s o s liv ros escrito s pe- 
lo s apósto lo s e p o r o u tro s p ró x im o s a eles fo ram in c lu íd o s n o cân o n . A ca rta 
a n te r io r de Paulo aos co rín tio s (m en c io n ad a em 1C0 5.9) e sua c a r ta à igreja 
de L aodiceia (Cl 4 .16) n u n c a foram iden tificadas, em b o ra a lg u n s d ig am q u e a 
ca r ta aos corín tios te n h a s id o reed itad a e in co rp o rad a à s ep ís to la s can ô n icas. Já
4 4 I CURSO PARA FORMAÇÃO DE LÍOERESE OBREIROS
M arcião6 ac red itav a q u e a ca r ta ao s lao d icen ses era , n a verdade, a ca r ta d irig ida 
aos efésios. Po licarpo [ver cap ítu lo 18], escrevendo ao s filipenses em m ead o s do 
segundo sécu lo , m en c io n a a p lu ra lid ad e de ca rtas escritas po r Paulo à ig reja de 
F ilipos (v. Carta aos filipenses, 3 .2). É claro q u e os c ren tes p ied o so s aca tav am 
q u a lq u e r e n s in am en to de um ap ósto lo , oral ou escrito , com o au to ridade . Por 
vo lta do final do segundo sécu lo , Irineu d iz ia q u e a ap o s to lic idade era critério 
fu n d am e n ta l p a ra a au ten tic idade .
N ão se sab e q u a n d o a ide ia de re u n ir to d as as ob ras im p o rta n te s e d ignas 
de c réd ito d esses au to re s an tig o s foi co n ceb id a . E m 2Pedro 3.16, lem os q u e 
várias c a r ta s e ram de a u to ria de Paulo. P o licarpo , esc rev en d o à ig reja de F ilipos 
(m ead o s do se g u n d o sé c u lo ) , en v ia a p ed id o d aq u e le s c ren tes to d as as cartas 
de Inác io q u e es tavam com ele (op. c it., 13.2). A m o rte de Inác io , cerca de 
q u a re n ta a n o s an tes , n ão aca rre to u a d es tru içã o o u p e rd a de su a s c a rta s pelas 
v á ria s ig rejas.
A h ip ó te se de [Edgar] G o o d sp eed de q u e as ep ís to la s p a u lin a s "ca íram n a 
o b sc u rid a d e ta l com o cai a m a io ria das c a r ta s ” e de q u e fo ram reu n id a s só 
depo is q u e a p u b lic ação de A tos in sp iro u a dec isão d e reu n i-la s su sc ita m ais 
p ro b lem as do q u e re sp o stas . N ão e ra b a ra to p ro d u z ir u m a ca rta (em pergam i- 
n h o o u p a p iro ) , e as c a r ta s dos ap ó s to lo s e ram b ên ção s raras n u m te m p o em 
q u e n ão h a v ia a in d a o N ovo T estam en to e as igrejas e ram o rien tad as em g ran d e 
p a rte p o r m eio d e lid e ran ças ca rism á ticas (1C0 14). A igreja de C olossos fora 
in s tru íd a a le r p a ra a ig re ja de L aodiceia a ca r ta q u e Paulo lh e escrevera , e vice- 
-versa (Cl 4 .16 ). N ão h á d ú v id a de q u e essas c a r ta s eram co n s id e rad a s p rec iosas 
e m ereced o ra s de todo créd ito . Jam ais ca iríam "n a o b sc u rid a d e ” p o r negligên- 
cia. O fato d e os ev an g e lh o s ou 0 liv ro de A tos n ão c ita rem n e n h u m a d as ca rtas 
d e P au lo n a d a te m a v e r co m a d a ta em q u e te r ia m sido reu n id a s . As ca rtas , 
se co n h e c id a s , p o d e ría m te r s id o c itad a s se fo ssem co n s id e rad a s p e r tin e n te s à 
o b ra q u e e s tav a sen d o co n s titu íd a . C lem en te de R om a, p o r ex em p lo , referiu- 
-se d a ra m e n te a lÇ o rín tio s em ce rca de 90 d .C ., q u a n d o escreveu : "L e iam 
a ep ís to la do b em -a v e n tu ra d o P au lo , 0 A pósto lo . O q u e ele e sc rev eu in icial- 
m e n te a v o cês q u a n d o co m eço u a pregar? V erdade iram eu te in sp ira d o , ele os 
a d m o e s to u ” ( lC le m e n te 47 ,1-3). C lem en te refere-se en tão a q u es tõ es tra tad as 
em lÇ o rín tio s 1.
Por v o lta do final do segundo sécu lo , c e r tam e n te já h av ia co leções de docu- 
m en to s cris tão s p rim itivos em p ro cesso de co n so lid ação . M arcião v in h a reu n in - 
do u m a co leção lim itad a d e escrito s de Pàulo e de L ucas (ele ace itav a ap e n as
A DOUTRINA DA ESCRITURA J 45
6 Marcião, mestre do segundo século em Roma, rompeu com a igreja porque cria que 0 
Novo Testamento contradizia inteiramente 0 Antigo Testamento. Elaborou seu próprio canon, do 
qual excluía 0 Antigo Testamento.
d e z d o s escrito s p au lin o s) . Os g n ó stico s e s tav a m reu n in d o u m a b ib lio teca enor- 
m e de d o cu m en to s cris tão s apócrifos (desco b erto s em 1945 n o a lto Egito e pu- 
b licados so b 0 t í tu lo de Biblioteca de Nag Hammadi p o r Ja m es R ob in so n ). T anto 
Irin eu q u an to T ertu liano d em o n s tram te r u m en o rm e co n h ec im en to de u m a 
g am a im e n sa d e liv ros do N ovo T estam en to . Se 0 C ânon M u ra to rian o for do 
seg u n d o sécu lo , e n ão d o q u a rto , fica ev id en te q u e n a ép o c a já h a v ia u m a lis ta 
c an ô n ica (em Rom a?) q u e co n tin h a to d o s os liv ros do N ovo T estam en to e a in d a 
"v á rio s o u tro s q u e n ão p o d em se r ace ito s pe la Igreja U n iversa l”. E stab e leceu -se 
tam b ém u m a d ife ren ça e n tre os d o cu m en to s con tidos n o s liv ros ap o s tó lico s que 
p o d ia m ser lidos em ce leb rações p ú b lic as e os q u e n ão p o d iam se r lidos.
U m m a n u sc r ito em p ap iro , p ro v av e lm en te d o a n o 200 d .C ., c o n te n d o 
a lg u m as ca rta s d e P au lo , foi en c o n trad o em 1931 n o Egito e p o s te r io rm e n te 
c o m p ra d o p o r C h e s te r B eatty . E m b o ra n ão se tra te d e u m a lis ta ec le s iá s tic a 
d e liv ro s ap ro v a d o s , co n s titu i m e sm o a s s im e v id ên c ia d e u m a co leção d e fin s 
d o s e g u n d o e p r in c íp io s do te rce iro sécu lo . A p esa r do e s tad o f ra g m en tá rio do 
m a n u sc r ito , e le c o n té m p o rçõ es d e R o m an o s, H eb reu s , 1 e 2 C o rín tio s , E fésios, 
G ála ta s , F ilip en ses , C o lo ssen se s e IT essa lo n ic en se s , n e s sa o rd em . O u tro m a- 
n u sc rito , e n tre os 12 e n c o n tra d o s , co n té m os e v a n g e lh o s (n a o rd e m conheci- 
da) e A tos e te r ia s id o esc rito n a p rim e ira m e ta d e d o sé cu lo te rc e iro . (Pelo q u e 
se te m co n h e c im e n to , a in d a n ão fo ram e n c o n tra d a s lis ta s do te rce iro sécu lo 
d e liv ro s au to riz a d o s .)
E uséb io d e C esare ia [Ecclesiastica historia [H istó ria da ig reja], 6 .25) m en- 
c iona v ário s escrito s de O rígenes dote rceiro sécu lo em q u e h á d iscu ssõ es a 
resp e ito d e liv ros q u e ele c h a m a (pela p rim e ira vez en tre os a u to re s an tig o s , se 
n ão m e en g an o ) d e "c an ô n ico s”. C on tudo , O rígenes n ão ap re se n ta n e n h u m a 
lis ta o ficial co m ta is livros.
Já no q u a r to sécu lo v am o s e n c o n tra r vária s lis tas . E usébio faz u m a d iferen - 
c iação en tre v ária s ca teg o ria s d e livros. H á (1) os ace ito s , (2) os d u v id o so s , (3) 
os re je itad o s e (4) os h eré tico s . O g ru p o dos ace ito s co n tém a m a io ria dos livros 
do n o sso N ovo T estam en to a tu a l. Os livros duv id o so s são T iago, Ju d a s , 2Pedro 
e 2 e 3 João . O ún ico liv ro do N ovo T estam en to lis tad o n o g ru p o d o s re je itad o s 
é 0 A poca lipse , m a s ele v em ac o m p a n h a d o d e u m a n o ta se g u n d o a q u a l m u ito s 
0 co locam no p rim e iro g ru p o , o n d e E uséb io já 0 h av ia p o sto . O q u a r to g ru p o é 
fo rm ado p rin c ip a lm e n te p o r liv ros p seu d o ep íg ra fo s (ib id ., 3 .25 ).
Dois dos n o sso s m e lh o res e m ais an tig o s m an u sc rito s da B íblia em grego 
são do q u a rto sécu lo . T rata-se do C ódice do V aticano e do C ódice S inaítíco . O 
p rim e iro de les co n tém 0 N ovo T estam en to de M ateus a H eb reus, m a s é in te r- 
ro m p id o no cap ítu lo 9 e fa ltam v á ria s fo lhas. A o rd em dos liv ro s é a segu in te : 
o s q u a tro ev an g e lh o s (n a se q u ê n c ia co n h e c id a ) , A tos, ep ís to la s u n iv e rsa is , epfs- 
to la s p au lin as . O C ódice S inaítíco tra z os ev an g e lh o s (n a o rd em c o n h e c id a ) , as
4 6 I CURSO PARA FORMAÇÃO DE LÍDERES F OBREIROS
A DOUTRINA DA ESCRITURA 1 4 7
ca rtas de Pau lu , H eb reu s depo is de 2T essa]on icenses seg u id a de 1 e 2T im óteo , 
T ito e F ilem om e p o r fim A tos, segu ido d as ep ís to la s u n iv e rsa is , A poca lipse e 
os liv ros d e B a rn ab é e de H erm es, Os do is ú ltim o s g ru p o s de liv ros in d icam a 
ex istênc ia de u m cân o n m ais am p lo do q u e o en co n trad o em a lg u m as com uni- 
dades. O C ódice A lexand rino , do q u in to sécu lo , in c lu i ta m b é m 1 e 2C lem ente. 
E sses m a n u sc rito s p a recem rep re se n ta r a região do Egito.
A p rim e ira lis ta de fato dos liv ros c an ô n ico s em q u e ap a recem exclusiva- 
m e n te n o sso s 27 liv ros é do ano 367 d.C . e co n s ta de u m a ca rta festiva (nu % J 
d e A tan ásio de A lexandria . A o rd em , e n tre tan to , é d iferen te . Os ev an g e lh o s são 
seg u id o s pelo livro de A tos e p e las ep ís to la s u n iv e rsa is . D epois vêm as cartas 
d e P au lo co m 2T essalon icenses segu ida de H ebreus, seg u id a de 1 e 2T im óteo , 
T ito , F ilem om e A pocalipse. N o an o 380, en c o n tram o s n o sso s 27 livros, na se- 
q u ê n d a a q u e e s tam o s aco s tu m ad o s (con fo rm e a V ulgata la tin a ), nos escrito s 
de A nfilócio d e Icônio .
isso sign ifica q u e n e n h u m a lis ta co n tém ex c lu s iv am en te os n o sso s 27 livros 
na o rd em a q u e e s tam o s h a b itu a d o s a en co n trá -lo s , 0 q u e só aco n te ce rá no fi- 
n a l do q u a rto sécu lo . E ssa p arece se r a d a ta em q u e 0 p ro cesso de fo rm ação do 
cân o n e s tav a ch eg an d o ao fim no O cidente .
N ão h á u m a o rd em “c o r re ta ” de livros no N ovo Tfestamento. A o rdem q u e se- 
g u im os foi to m a d a da V ulgata la tin a , a B íblia oficial da Ig re ja C ató lica R om ana, 
q u e se rv iu de b ase p a ra as p rim e iras trad u çõ es . Os m a n u sc rito s g regos m ais 
an tigos ap re sen ta m o rd en s d iversas.
N o ssa m o d e rn a d iv isão em cap ítu lo s foi in tro d u z id a p o r S tep h en L angdon 
no N ovo T estam en to da V ulgata la tin a , e ta m b é m n o A ntigo T estam en to , no 
in ício do sécu lo xm (cerca de 1228). A d iv isão m o d e rn a em versícu lo s fo i o b ra 
de R obert S tep h an u s , q u e p u b lico u u m a edição la tin a do N ovo T estam en to em 
1551, em G enebra , co m 0 tex to dos cap ítu lo s d iv id ido em versícu los.
W alter A . Elwell7
RECURSOS PARA LEITURA E ESTUDO
B ruce, E F. O cânon d a s Escrituras.
E w ert , David, A General Introduction to the Bible.
G eísler , Norman L, Teologia sistemática (2 v.).
______ & N ix, W illiam E, Introdução bíblica: com o a Bíblia chegou até nós.
H enry , Carl F. H. God, Revelation and Authority.
M cD onald, H. D. What the Bible Teaches About the Bible.
Packer , J. I. Havendo Dens falado. 1
1Adaptado de W. A. Elwelí״ et al., “The Canon of the Bible", in: Walter A. Elwell, org,, 
Baker Encyclopedia o f the Bible, v. I, p. 300-6. Usado com permissão.
4 8 I CURSO PARA FORMAÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
W egner, Paul D. T he Jo u rn ey From T exts to T ra n sla tio n s: The Origin and Develo- 
pment of the Bible.
Ver também a última parte do cap. 10.
RECURSOS AD IC IO N A IS
B oice, James Montgomery fed.). O alicerce d a a u to r id a d e bíb lica .
B ruce, F. F. M erece co n fia n ça 0 N ovo T esta m en to ? (3. ed. rev.)
F erreira , F ranklin & M yatt, Alan. Teologia sis tem á tica : uma análise histórica, 
bíblica e apologética para o contexto atual (partes 1 e 2).
G eisler , Norman L. (org.). A in errâ n c ia d a B íb lia .
Sturz , Richard J. Teologia s is te m á tic a (parte 1).
W arfield , Benjamin B. A in sp iração e a u to r id a d e d a B íblia .
CAPÍTULO 2
LÍNGUAS BÍBLICAS
As línguas por meio das quais Deus decretou que fosse trans - 
mitida a revelação divina tinham uma personalidade que as 
tomou adequadas a tal propósito.
Os cris tão s creem q u e D eus se reve lou p o r m elo de u m livro. P o rtan to , q u em lê 
a B íblia te m m u ito a g a n h a r se so u b e r tira r 0 m áx im o p ro v e ito possível d as lín- 
g u as em q u e e la fo i escrita . As d u a s p rin c ip a is lín g u as da E scritu ra , o grego e 0 
h eb ra ico {algum as p o u ca s p assag en s fo ram esc rita s em a ram aico ) , re p re se n tam 
d u a s g ran d es fam ílias lingu ísticas: a fam ília in d o -eu ro p e ia e a sem ítica . Suas 
carac te rís ticas lingu ísticas c o n tra s ta n te s se co m b in a ram p a ra p ro d u z ir u m a re- 
ve lação d iv in a p len a , g rad u a l e p rop o sic io n a l. E ssa reve lação se ca rac te r iz a pela 
s im p lic idade , v a ried ad e e poder.
A co n ex ão en tre língua e p en sam e n to n ã o é de m odo a lg u m im p rec isa . A 
lín g u a é p ro d u to e reflexão d a a lm a h u m a n a . Ela n ão é a p e n as um tra je q u e o 
p en sam e n to p õ e e tira a se u be l-p razer, e sim 0 co rp o , do q u a l 0 p en sam e n to 
é a a lm a. As lín g u as p o r m eio d as q u a is D eus d ec re to u q u e fosse tran sm iti- 
d a a reve lação d iv in a tin h a m u m a p e rso n a lid a d e q u e as to rn o u a d e q u ad a s a 
ta l p ro p ó sito .
N e n h u m a tra d u ç ã o p o d e su b s t i tu ir as lín g u as o rig in a is d a B íblia no q u e 
d iz re sp e ito à su a im p o r tâ n c ia com o v e ícu lo tra n sm is so r e p e rp e tu a d o r d a 
rev e lação d iv in a , E ssas lín g u a s d e v e r ía m ser a p re n d id a s n ã o m e ra m e n te so b 
seu a sp ec to ex te rn o , isto é, s u a g ram á tic a e se u léx ico , m as ta m b é m sob 0 
a sp ec to in te rn o , p a ra q u e as p e c u lia r id a d e s de ca d a u m a p o ssa m se r dev id a- 
m e n te ap re c ia d as .
50 j CURSO PARA FORMAÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
HEBRAICO
0 te rm o hebreu.' n ão é ap licad o pelo A m igo T estam en to à lín g u a emq u e íoi 
escrito , em b o ra 0 N ovo T estam en to 0 faça. N o A ntigo T estam en to , kebreu refe- 
re-se ao in d iv íd u o o u ao povo q u e u sav a a língua em q u es tão . A lín g u a p rop ria - 
m en te d ita era c h a m a d a de “língua de C a n a ã ” (Is 19.18), ou "lín g u a d e Ju d á " 
(N e 13.24). [A igum as v e rsõ e s m o d e rn a s tra d u z e m o te rm o em 2Rs 18 .26 ,28 po r 
" língua d o s ju d e u s ” (a 2 1 ); o u tras p o r “h e b ra ic o ” (nvi)].
Origem e história. Na Idade M édia , e ra co m u m ac red ita r q u e 0 h eb ra ico fora a 
lín g u a p rim itiv a da h u m an id ad e . A inda n a A m érica co lon ial, 0 h eb ra ico era tido 
com o "a m ãe de todas as lín g u a s”. Os es tu d o s lingu ísticos, p o rém , m o s tra ra m 
q u e ta l teo ria era in d e fen sáv e l.
Na v e rd ad e , 0 h eb ra ico é u m dos vários d ia le to s c a n a n e u s , ju n to com 0 
fenício , o u g a rítico e 0 m o ab ita . O u tro s d ia le to s c a n a n e u s (p. ex ., o am o n ita ) 
tam b ém e ra m u sa d o s , m as n ão d e ix aram in sc rições su fic ien tes p a ra a aná lise 
acadêm ica . Tais d ia le to s e s tav am p re se n te s n a te rra de C anaã an te s de su a con- 
q u is ta p e lo s israe litas .
A té cerca de 1974, os te s te m u n h o s m ais an tig o s da lín g u a c a n a n e ia h av iam 
sido e n c o n trad o s n o s reg istro s d e U garit e de A m arna e rem o n tav am a o s déci- 
m o q u a r to e déc im o q u in to sécu lo s a n te s d e C risto . A lgum as p o u ca s p a lav ra s e 
exp ressões c a n a n e ia s h av iam ap a rec id o em reg istros eg ípcios m a is an tigos, m as 
a o rigem da língua c a n a a n ita é in c e rta . E ntre 1974 e 1976, p o rém , cerca d e 17 
m il ta b u in h a s fo ram d esen te rrad a s em Tell M ard ikh (an tiga E b la ), no n o rte da 
Síria, com escrito s em u m a lín g u a sem ítica an te r io rm e n te d esco n h e c id a . C om o 
d a tam d e 2400 a.C . (ta lv ez a té a n te s ) , m u ito s es tu d io so s ac red itam q u e essa 
lín g u a ta lv ez se ja o “c a n a n e u an tig o " q u e d eu o rigem ao heb ra ico . Por vo lta d e 
1977, q u a n d o fo ram d esen te rrad a s m ais m il ta b u in h a s , a p e n as ce rca de cem 
in scrições de Ebla h av iam sido an a lisad as ,
As línguas m u d am com o p a s sa r do tem po . O inglês usado no tem p o de 
A lfredo, 0 G rande (n o n o sécu lo d .C .), parece q u ase u m a língua es trangeira para 
0 fa lan te do ing lês co n tem p o rân eo . E m bora 0 heb ra ico n ão seja exceção a essa 
regra gera l, a exem plo d e o u tra s línguas sem íticas e le p e rm an eceu adm iravelm en- 
te estável ao longo de m uitos sécu los. P oem as com o o cân tico de D ébora (Jz 5} 
ten d em a p rese rv a r a fo rm a m ais an tiga da língua. As m u d an ças q u e v ieram 
p o ste rio rm en te no decorre r da h istó ria da língua ficam ev iden tes p e la p resen ça 
de term os arcaicos (q u ase sem p re p reservados p e la linguagem poética] e pe las
'0 português normalmente usa a designação liebreu para o povo e hebraico para o idioma, 
embora se possa usar hebreu também em referência à língua (cf. 0 Novo diciondno Aurélio). 
Seguiremos a forma mais usual. {N. do T.)
diferenças g en era lizad as d e estilo . Por exem plo, para u m es tud io so da linguística, 
0 livro d e Jó revela c laram en te um estilo m a is arcaico do q u e 0 livro de Ester.
V ários d ia le to s do h eb ra ico p ro v av e lm en te coex istiram nos tem p o s bíb licos. 
V ariações de p ro n ú n c ia , com o é 0 caso d a p a lav ra xibolete, p a recem te r se 
d esen v o lv id o d u ra n te o perío d o dos ju izes [Jz 12.4-6). A lgum as ca racterísti- 
cas da lín g u a p a recem in d ic a r d ife renças d ia le ta is en tre as reg iões n o rte e su l 
d aq u e le te rr itó r io .2
Família. O h eb ra ico p e rte n ce à fam ília se in ítica de lín g u as u sa d as em todo 
0 s u d e s te d a Á sia. As línguas sem itas e ram faladas do m a r M ed ite rrân eo 
às m o n ta n h a s ao Leste do vale do rio E ufra tes e d a A rm ên ia , ao no rte , a té a 
ex trem id ad e sul d a P en ín su la A ráb ica. As lín g u as sem íticas são c lassificadas em 
meridionais׳, á rab e e etíope; oriental: acád io , e do no raesíe: a ram aico -siríaco e 
c a n a n e u [heb ra ico , fenício , u g arítico e m o ab ita ).
Caráter. 0 h eb ra ico , assim com o o u tras lín g u as sem íticas an tig as , e ra m ais 
d ad o à o b se rv ação do q u e à reflexão. E m o u tro s te rm o s , a s co isas são geral- 
m e n te o b se rv a d as de aco rdo co m su a ap a rên c ia en q u a n to fen ô m en o , e não 
an a lisad as em re lação a s e u se r o u essên c ia in terio r. Os efe itos são observados, 
m as n ão a tre lad o s a u m a sé rie de causas.
A v iv ac id ad e do h eb ra ico e su a sim p lic id ad e to rn a m difícil trad u z i-lo p lena- 
m en te . T rata-se de u m id io m a su rp re e n d e n te m e n te conc iso e d ireto . O sa lm o 23, 
p o r exem p lo , te m cerca de 55 palav ras. A m aio r p a rte d a s tra d u ç õ e s p rec isa do 
dob ro d isso p a ra vertê -lo . As p rim e ira s d u as lin h as (as b a r ra s re p re se n tam a 
d iv isão das p a lav ras em heb ra ico ) se ap re se n ta m da seg u in te form a:
O S enho r/(é ) m eu p as to r/
Não p rec iso /d e nad a (versão A M ensagem)
P o rtan to , são n ec essá ria s n ove p a lav ras em p o rtu g u ês p a ra tra d u z ir quatro 
p alav ras em h eb ra ico . O h eb ra ico n ão u sa exp ressões se p a rad a s e d is tin ta s a 
cad a n u a n ç a de p e n sa m e n to . A lguém d isse q u e ,'o s sem ita s fo ram a p ed re ira de 
cu jos g ran d es b locos de ro ch a os gregos ap a ra ram as a re s ta s , p o liram e encaixa- 
ram u n s n o s o u tro s . Os p rim e iro s n o s d e ra m a relig ião: os seg u n d o s, a filo so fia”.
O h eb ra ico é u m a língua p ic tó rica em q u e 0 p a s sa d o n ão é m e ra m en te des- 
crito , m a s p in ta d o v erba lm en te . Ela n ã o ap re sen ta s im p lesm en te u m a paisa- 
gem , e s im u m p an o ra m a com oven te . O cu rso dos ac o n tec im en to s é rev iv ido n a
LÍNGUAS BÍBLICAS [ 5 1
2Veja a dissertação de mestrado de Daniel de Oliveira: "O hebraico ísraeliano e 0 texLo 
de G seias1’, disponível em: ,
http://www,teses.uspJbr/teses/disponiveis/8/8152/tde05042012%d6%be-104021/pt-br.php
http://www,teses.uspJbr/teses/disponiveis/8/8152/tde05042012%d6%be-104021/pt-br.php
52 I CURSO PARA FORMAÇAO DE LÍDERES E OBREIROS
m e n te do falan te. (O bserve o u so freq u en te d e eis, u m h eb ra ísm o q u e p a s so u 
p a ra 0 N ovo T estam en to .) E xpressões m u ito co m u n s com o “ele se le v an to u e 
p a r tiu ”, “ab riu os láb io s e d is s e ”, “lev an to u os o lhos e v iu ” e “e rg u eu a v o z e 
ch o ro u ” rev e lam a fo rça p ic tó rica do id iom a.
In ú m eras ex p re ssõ es teo lóg icas p ro fu n d as en c o n trad a s n o A ntigo T estam en to 
ach am -se en tre laç ad a s à lín g u a e à g ram ática heb ra ica . A té m esm o o n o m e 
san tíss im o de D eus, “o S e n h o r” (Jeová o u Ja v é ) , e s tá d ire tam e n te v in c u lad o ao 
v erb o “s e r” (ou ta lv ez "fazer q u e s e ja ”). M uitos ou tro s n o m es de p e sso as e de 
lu g a re s no A ntigo T estam en to só p o d erão se r b em co m p reen d id o s se h o u v e r u m 
b o m co n h ec im en to de heb ra ico .
Gramática. M uitas figu ras d e lin g u ag em e recu rso s de retó rica do A ntigo Tes- 
ta m en to se to rn a m m a is co m p reen sív e is se h o u v e r u m a m a io r fam ilia rid ad e 
com a e s tru tu ra do h eb ra ico .
1) Alfabeto e escrita. O a lfa b e to h eb ra ico co n s is te em 22 c o n so a n te s ; as 
vogais são re p re s e n ta d a s p o r m eio de s in a is a c re sc e n ta d o s p o s te r io rm e n te n o 
d ec o rre r d a h is tó r ia do id io m a . A o rigem do a lfab e to é d e s c o n h e c id a , em bo- 
ra a té as d e sc o b e rta s de E b la os exem p los m a is an tig o s do a lfa b e to c a n a n e u 
te n h a m sid o p re se rv a d o s n o a lfa b e to cu n e ifo rm e u g arítico do d éc im o q u a r to 
sé cu lo a.C .
A lg u n s p o u c o s v es tíg io s de u m a lfab e to l in e a r (não cu n e ifo rm e) ap a re c e m 
d e te m p o s em te m p o s n a s e sca v açõ e s de U garit (Ras S h am ra , p e r to de A ntio- 
q u ia ) , se n d o q u e os m a is an tig o s d a ta ra p o ss iv e lm e n te d a e ra e n tre A b raão 
e M oisés. Os v es tíg io s m a is an tig o s de u m a lfab e to lin e a r c a n a n e u d a tam 
ap ro x im a d a m e n te do p e río d o dos ju iz e s (sécs. xm a xi a .C .). O es tilo an tig o 
d a e s c r ita e ra g e ra lm e n te c h a m a d o de s is te m a d e e sc rita fen íc io , p re d e c e s so r 
do a lfab e to g rego e d e o u tro s a lfa b e to s o c id en ta is . A e sc rita u sa d a n a s B íb lias 
h eb ra ica s m o d e rn a s (e sc rita a ra m a ic a o u q u a d ra d a ) e n tro u em m o d a d ep o is 
do exílio (sex to sécu lo a .C ,). O es tilo an tig o a in d a e ra u sa d o e s p o ra d ic a m e n te 
no co m eço d a e ra c ris tã em m o e d a s e p a ra esc rev e r 0 n o m e de D eus (co m o se 
v ê n o s M a n u sc rito s do M ar M o rto ) . O h e b ra ico sem p re foi e sc rito d a d ire ita 
p a ra a e s q u e rd a .
2) Consoantes. O a lfab e to ca n a n e u dos id io m as fenício e m o ab ita tem 22 
co n so an te s . A lín g u a c a n a n e ia m a is an tig a q u e ap a rece n o u g arítico t in h a m e- 
n o s co n so an te s . (O á rab e m o d e rn o p re se rv a a lg u m as d as co n so a n te s do an ti- 
go c a n an e u en c o n trad a s no u g arítico , p o rém a u sen te s 00 h eb ra ico .) As le tras 
can an e ia s an tig as jam ais fo ram u sa d a s n a e scrita a ra m aic a q u a d ra d a d a B íblia 
h eb ra ica , no h eb ra ico an tig o o u n a e scrita fenícia.
LÍNGUAS BÍBLICAS I 5 3
Alfabeto hebraico
Este quadro apresenta os caracteres hebraicos seguidos do nome e do som
aproximado que representam.
א álef - (geraimente silencioso2)
ב ב, bêt b, v
ג ג, gufmel ד ד,& dálet d
ה he h
ו vav V
ז záin z (sonoro, som gutural)
רז hêt rr
ט têt t
ד iod y1,כ כ ך, caf k, rr
ל iâmed 1 (surdo, gutural)
מי ם1 mem m
ו־נ1 nun n
ס sâmeq s
ע áin -
,פ פ ף,1 pê p .f (geralmente silencioso2)
צנ ץ1 tsade ts
ק c o f qר rêsh r
,ש ש sin, shin s, ch (pronunciado com a parte posterior da
,ת ת tau t
língua próxima da úvula)
1Forma usada apenas nos fi nais das pal avras.
2Pode 5er pronun ciado de acordo com os pontos vocálieos associados.
3) Vogais. O rig ínalm en te , n a e scrita c o n so n a n ta l h eb ra ica , as vogais e ram 
s im p le sm en te su b e n te n d id a s pelo a u to r o u pelo leitor. B aseado n a trad ição e 
no con tex to , 0 le ito r ac rescen tav a as vogais co n fo rm e n ecessá rio — de m odo 
p arec id o com 0 q u e aco n tece ho je co m a lin g u a g em u sa d a n a in te rn e t, em abre- 
v iações do tipo “b lz ” p a ra beleza . D epois do in íc io d a e ra cris tã , a d ispersão 
final dos ju d e u s e a d es tru içã o de Je ru sa lém co n trib u íra m p a ra q u e o h eb ra ico 
se to rn a sse u m a “lín g u a m o r ta ” , já q u e n ão e ra m a is fa lada em m u ito s lugares. 
A p e rd a d a p ro n ú n c ia e d a co m p re en sã o trad ic io n a is q u e se tin h a do id io m a 
foi se to rn a n d o c a d a vez m a is g en e ra liz ad a , 0 q u e levou os escrib as ju d eu s a 
sen tirem a n ec e ss id ad e d e reg istra r p e rm a n e n te m e n te os sons d as vogais.
Os p rim e iro s s ina is d as vogais h eb ra ica s fo ram criados p o r v o lta do qu in - 
to sécu lo d.C. e fo ram ap erfe iço ad o s n o s sécu lo s q u e se segu iram an te s de 
se rem p e rm a n e n te m e n te ״ fixados”. Pelo m en o s trê s s is tem as d ife ren tes de si- 
n a is vo cáü co s fo ram em p reg ad o s em d ife ren tes ép o c as e lugares. O tex to usa- 
do a tu a lm e n te rep re se n ta 0 s is tem a fo rm u lad o pelos esc rib as m a sso re ta s q u e 
trab a lh av am n a c id ad e de T iberíades. As vogais p o d ia m ser longas ou b reves, 
con fo rm e es tiv essem ass in a lad a s p o r m eio de p o n to s o u traços co lo cad o s ac im a 
o u ab a ix o d as co n so an tes . As co m b in açõ es de p o n to s e traços re p re se n tav a m 
sons vocálicos ex trem am en te b rev es ou sem ivogais.
4) Ligação. O h eb ra ico ju n ta m u itas p a lav ras q u e n as lín g u as o c id en ta is se- 
riam escritas se p a rad am en te . A lgum as p rep o siçõ es (be-, “e m ”; le-, “p a ra " ; ke-, 
"co m o ”) são ad ic io n ad as com o prefixos d ire tam e n te ao su b s tan tiv o o u ao verbo 
p o r e las in tro d u z id o s , a s s im com o 0 artigo defin ido ha-, "0 ”, e a co n ju n çã o wa-, 
" e ”. Sufixos são u sa d o s com o p ro n o m es p a ra ca rac te r iza r ta n to a re lação de 
p ossessivo q u a n to de acu sa tiv o . A m e sm a p a lav ra p o d e ter, s im u lta n eam en te , 
u m prefixo e u m sufixo.
5) Substantivos. 0 h eb ra ico n ão tem gênero n eu tro . As co isas são m ascu li- 
n a s o u fem in inas. Os ob je to s in a n im a d o s p o d em se r m a scu lin o s o u fem in in o s 
d ep e n d en d o d a fo rm ação o u do c a rá te r d a pa lav ra . G era lm en te , a s id é ia s o u as 
p a lav ras ab s tra ta s q u e in d icam u m g ru p o são fem in inas. Os su b stan tiv o s deri- 
vam de ra ízes e são fo rm a d o s de d iversas m an eiras , se ja p e la m od ificação da 
vogal, se ja pelo ac résc im o de prefixos o u su fixos à ra iz . D ife ren tem en te do gre- 
go e d e m u ita s lín g u as oc id en ta is , os n o m es co m p o sto s são raro s no h eb ra ico .
O p lu ra l em h eb ra ico é fo rm ad o pe lo acrésc im o de -im aos su b s tan tiv o s 
m ascu lin o s (serafim , q u e ru b im ), e a m u d a n ç a p a ra 0 fem in in o é fe ita p o r m eio 
d a te rm in aç ão -ot.
Três te rm in aç õ es orig inais de casos in d ican d o 0 n o m in a tiv o , 0 g en itiv o e 0 
acusa tivo d e sap a re ce ra m d u ra n te a evolução do h eb ra ico . Para c o m p en sa r a 
falta d essas te rm in aç õ es , o h eb ra ico reco rre a v ário s ind icado res . Os ob je to s 
in d ire to s são in d icad o s p e la p rep o sição le-, “p a ra ”; os ob je to s d iretos, pe lo sina l 
ob je tivo et; a re lação de gen itivo é in d icad a co lo can d o -se a p a lav ra a n te s do 
gen itivo no "e s ta d o co n s tru to " , o u fo rm a ab rev iada .
6) Adjetivos. O h eb ra ico é econôm ico em ad je tivos. A ex p re ssão "duplic i- 
d ad e de c o ra ç ã o ” [teb (T radução E cu m ên ica B rasile ira)] ou ״ co ração fing ido" 
(a21) a p a rece no o rig in a l h eb ra ico da seg u in te form a: “u m co ração e u m cora- 
ç ã o ” (SI 12.2); “p eso s d ife ren tes" (a21) ou "do is p ad rõ e s p a ra 0 m esm o p e s o ” 
(nvi) equ ivale , n a v erd ad e , a “u m a p e d ra e u m a p e d ra ” (Dt 25 .13); "d escen d ên - 
cia r e a l” (a21) ou "fam ília re a l” (nvi)é “a sem en te do re in o ” (2Rs 11.1).
Os ad je tivos h eb ra ico s , is to é, os p o u co s q u e ex istem , n ão tê m os graus 
co m p ara tiv o e su p erla tiv o . E ssa re lação é in d icad a p e la p rep o sição do heb ra ico
5 4 I CURSO PARA FORMAÇÃO □E LÍDERES E OBREIROS
LÍNGUAS BÍBLICAS 155
eq u iv a le n te a “de, d e n tre M“ .״ elhor do q u e v o cê” em h eb ra ico é “b o m de v o cê” 
"A se rp e n te e ra 0 m ais a s tu to de to d o s os an im a is do cam p o q u e 0 S en h o r D eus 
h av ia fe ito ” co n s ta no orig inal h eb ra ico d a seg u in te fo rm a: “A se rp e n te era 
a s tu ta d e n tre to d o s os a n im a is” (Gn 3 .1). O su p e rla tiv o é rep re se n tad o p o r di- 
v ersas co n s tru çõ es d ife ren tes . A ide ia d e algo “m u ito p ro fu n d o " é exp ressa pela 
c o n s tru ç ão “p ro fu n d o , p ro fu n d o ” (Ec 7.24); 0 “m e lh o r c â n tic o ” é 0 "cân tico dos 
câ n tic o s” (cf. “rei d o s r e is ”); “m a is s a n to ” é expresso p e la fo rm a tríp lice "san to , 
san to , s a n to ” (Is 6 .3).
7) Verbos. Os v erb o s em h eb ra ico são fo rm ad o s p o r u m a ra iz co n s titu íd a , 
em gera l, p o r trê s le tra s (rad ica is). Com b ase n e s sa s ra íz es , as fo rm as ver- 
b a is são c o n s tru íd a s m u d a n d o -se as vogais ou ac resc en ta n d o -se p refixos e su- 
fixos. A p a r tir das co n so an te s da ra iz fo rm a-se a e sp in h a d o rsa l sem ân tica da 
língua , o q u e lh e con fere u m a es tab ilid ad e d e s ign ificado n ão v is ta nos idio- 
m as o ciden ta is. As vogais são b a s ta n te flexíveis, o q u e d á ao heb ra ico u m a 
g ran d e e lastic idade .
Os v erb o s h eb ra ico s n ão são em pregados com u m a defin ição p rec isa d e tem - 
po . Os tem p o s em h eb ra ico , so b re tu d o n a p o es ia , são d e te rm in a d o s em g ran d e 
m ed id a pe lo con tex to . As d u as fo rm ações de tem p o ex is ten tes são 0 perfe ito 
(ação conc lu íd a ) e o im perfe ito (ação n ão co n c lu íd a ). O im perfe ito é am b íguo . 
Ele re p re se n ta o m o d o ind ica tiv o (p resen te , p assad o , fu tu ro ), m as p o d e ta m b ém 
rep re se n ta r o m odo im pera tivo (o rdem , so lic itação ), o p ta tivo (dese jo , von tade) 
ou jussivo (o rd em m a is b ra n d a ) . O tem p o p erfe ito tem a in d a u m uso espec ial 
co n h ec id o com o “perfe ito p ro fé tico ” , em q u e a form a p e rfe ita re p re se n ta u m 
ev en to fu tu ro cu ja rea lização é co n s id e rad a de ta l fo rm a seg u ra q u e é exp ressa 
no p a s sa d o (p. ex ., Is 5 .13).
Estilo. O estilo do hebraico tem como característica uma qualidade pictórica.
1) Vocabulário. A m a io r p a rte das ra ízes h eb ra icas ex p re ssav a o rig in a lm en te 
a lgum a ação física o u d en o tav a a lgum ob je to n a tu ra l. O verbo decidir signifi- 
cava in ic ia lm en te " c o rta r”; ser verdadeiro era “e s ta r firm em en te f ixado”; e s ta r 
certo era “e s ta r re to " ; ser respeitável e ra “se r p e s a d o ”.
Os te rm o s a b s tra to s são e s tra n h o s ao ca rá te r do heb ra ico . Por exem plo , 0 
h eb ra ico b íb lico n ã o te m n e n h u m te rm o específico p a ra teologia, filosofia ou 
religião. Os conce ito s in te lec tu a is ou teo lóg icos são ex p resso s p o r te rm os con- 
ere tos, A id e ia ab s tra ta do p ec ad o é re p re se n tad a p o r exp ressões com o errar 
o alvo, torto, rebelião ou transgressão (“a tra v e s s a r”). C oisas com o a m en te e 
o in te lec to e ram ex p ressas p o r coração o u rins; a em oção e a com paixão , p a r 
in te stin o s (ou en tra n h as , v. Is 63 .15, arc) . O utros te rm o s co n cre to s em heb ra ico 
são chifre p a ra fo rça o u v igor; ossos p a ra 0 eu , e sem en te p a ra d escen d ên c ia . As 
q u a lid ad es m en ta is são q u ase sem p re ex p ressas p e la p a r te do co rpo tid a com o
su a m an ifes tação co n c re ta m a is ad e q u a d a . A fo rça p o d e ser re p re se n ta d a po r 
braço ou mão; a ira, p o r narina; d esag rad o , p o r semblante caído; ace itação , po r 
face radiante e p en sam e n to , p o r cabeça.
A lguns trad u to re s te n ta ram rep re se n ta r de fo rm a co e ren te u m te rm o h eb ra ico 
p e la m e sm a p a la v ra no id iom a d e cheg ad a , m as isso re su lta q u ase sem p re em 
m u ito s p ro b lem as. Às vezes, h á u m desaco rd o consideráve l en tre a n u a n ç a exa ta 
de sign ificado de u m te rm o heb ra ico em d e te rm in a d a p assag em . C om frequên- 
cia, u m a ú n ica ra iz tem in ú m e ro s sign ificados, d ep en d en d o do u so e do con- 
tex to . A p a lav ra para abençoar p o d e ta m b é m sign ificar “a m a ld iço a r”, " s a u d a r”, 
“favo recer”, " lo u v ar”. 0 te rm o p a ra juízo ta m b é m é u sad o p a ra “ju s tiç a ” , “ve- 
re d ic to ”, “p e n a lid a d e ”, “o rd e n a n ç a ”, “d ev e r” , “co s tu m e", “m a n e ira ”. O te rm o 
p a ra força ou poder tam b ém significa “exé rc ito ”, “v ir tu d e ” , “v a lo r" , “co ra g em ”.
O utras am b ig u id a d es d eco rrem ta m b ém do fa to de q u e a lg u m as c o n so an te s 
h eb ra icas p o d em re p re se n ta r d u as co n so an te s o rig ina is d ife ren tes q u e se agiu- 
tin a ra m no p ro cesso de evo lução da língua . P o rtan to , d u as ra ízes q u e p a re cem 
id ên tic a s p o d e m re m o n ta r a ra ízes d is tin ta s — n o caso d a lín g u a p o r tu g u esa , 
p o d e-se co m p ara r “le v e ” (de p o u co peso ) com "lev e” (carregue).
2) Sintaxe. A s in tax e h eb ra ica é re la tiv a m en te fácil. São p o u ca s a s co n ju n - 
ções su b o rd in a tiv a s u tilizad as (se, q u a n d o , p o rq u e etc .); a s o rações são ge- 
ra lm en te co o rd e n ad as e reco rre ra à co n ju n çã o e. As trad u ç õ es em p o rtu g u ês 
d a B íblia p ro cu ram , em g era l, m o stra r a conexão lógica en tre as su cessiv as 
o rações, m u ito em b o ra isso n ão se ja sem p re claro . Em G ênesis 1 ,2— 3.1, to d o s 
os 56 versícu lo s, co m exceção de trê s , co m eçam co m “e ”. C on tu d o , a a21, po r 
exem plo , tra d u z esse p ad rã o d e m a n e iras d is tin ta s: " e ” (1 .6 ), “e n tã o ” (1 .28), 
"a ss im ” (2 .1 ), “to d a v ia " (2.6) e “o ra ” (3.1).
Seu estilo g a n h a v id a pelo uso do d iscu rso d ireto. A n arra tiva n ão a firm a sim - 
p le sm en te q u e "ta l e ta l p esso a disse q u e ...” (d iscurso ind ire to ). E m vez d isso , as 
partes fa lam p o r si m esm as (d iscurso d ire to ), c riando u m frescor q u e p e rm an ece 
m esm o depois da le itu ra repetitiva . O heb ra ico é u m a língua q u e v alo riza a s em o- 
ções, sendo q u e 0 sen tim en to m u itas vezes so b rep u ja ou p ro je ta 0 p en sam en to .
3) Poesia. A p o e s ia h eb ra ica u s a u m a v a rie d ad e de recu rso s re tó rico s. 
A lguns deles — com o a a s so n ân c ia , a a lite ração e o ac ró stico — só p o d em 
ser d esfru tad o s n a lín g u a orig inal. O p ara le lism o , p o rém , a ca rac te r ís tica m a is 
im p o rta n te d a p o es ia h eb ra ica , fica ev id en te n a s trad u çõ es em lín g u a p o rtu - 
guesa . E ntre as m u ita s fo rm as de p a ra le lism o , h á q u a tro ca teg o ria s b ás icas; 0 
para le lism o sinonímico, u m estilo de rep e tição em q u e lin h a s p a ra le la s d izem 
a m e sm a co isa com p a lav ras d iferen tes; 0 antitético, estilo c o n tra s ta n te q u e 
exp rim e p e n sa m e n to s o posto s ; o construtivo, em q u e u m a lin h a p a ra le la com - 
p le m en ta r conc lu i 0 p en sam e n to d a p rim e ira ; e o climático, em que u m a lin h a 
p a ra le la a sc e n d e n te to m a a lg u m a co isa d a p rim e ira lin h a e a Tepete. A lite ra tu ra
5 6 I CURSO PARA FORMAÇÃO □E LÍDERES E OBREIROS
h eb ra ica a p re se n ta u m a r ica v a ried ad e de fo rm as poé ticas , e n tre e las fo rm as 
líricas, e leg ias e odes.
4) Figuras de linguagem. O h eb ra ico é rico em figu ras exp ressivas de lingua- 
gem b a se a d a s no c a rá te r do povo h eb re u e n o se u es tilo de v ida . E xpressões 
in flu en c iad as pelo es tilo h eb ra ico en tra ra m p a ra as lín g u as o ciden ta is. M en in a 
dos o lh o s (p u p ila ), p o r exem p lo , é “m a çã dos o lh o s” em h eb ra ico e em inglês 
(Dt 32.10; SI 17.8; Pv 7.2; Zc 2 .8 ), e u m a ex p ressão com o "pe le dos m eu s den- 
te s ” (Jó 19.20), a lém de o u tras , ap a rece com freq u ên c ia n a lite ra tu ra em lín g u a 
ing lesa . A lgum as d as exp ressões m ais fo rm idáve is do heb ra ico são difíceis de 
tra n sp o r ta r p a ra 0 p o rtu g u ês . É 0 ca so , p o r exem plo , d e “d esv e la r 0 o u v id o ” 
com o sen tid o de “divulgar, rev e la r”. O u tras são m a is co n h ec id as , com o “d u ra 
c e rv iz” [2Rs 17.14, ara], is to é, “se r te im o so , r e b e ld e ”; “c u rv a r o u in c lin a r 0 
o u v id o " , no sen tid o de “o u v ir a te n ta m e n te ”
LEGADO. O p o rtu g u ês e v á ria s o u tra s línguas m o d e rn a s fo ram en riq u ec id o s pelo 
h eb ra ico .
1) Palavras. O p o rtu g u ês to m o u em p restad as a lgum as p alav ras do hebra ico . 
D estas, a lgum as a lcan ça ram en o rm e in fluência , com o “am é m ”, “a le lu ia” e “jubi- 
le u ”, [núm eros su b stan tiv o s p róp rio s são u sad o s nas línguas m o d ern as p a ra de- 
s igna r p esso as e lugares: D avi, Jô n a ta s /Jo ã o , M iriam /M aria , Belém , Betei e Sião.
2) E xpressões. M u itas exp ressões h eb ra icas c o m u n s fo ram aco lh id as in co n s- 
c ie n te m e n te pe lo p o rtu g u ês e p o r o u tra s línguas e p a s sa ra m a faze r p a r te do 
seu rep e rtó r io de figuras de h n g u ag em . É o caso de “b o ca d a ca v e rn a” [Js 10.18, 
“b o ca d a c o v a ”, ara] e “face da te r ra ” [Gn 6.7], A lgum as figuras, com o “v in h as 
d a ira " e “le s te do É d e n ”, fo ram u sa d a s em títu lo s de ro m an ces e de film es.
A R A M A I C O
U m a lín g u a s e c u n d á ria no A ntigo T estam en to é o a ram aico , en co n trad o em 
p a rte s d e D an ie l (2 .4b— 7.28) e E sdras (4 .8— 6.18; 7 .12-26). F rases e expres- 
sões em aram aico ap a rece m tam b ém em G ênesis (31.47), Je rem ia s (10.11) e no 
N ovo T estam en to .
U s o no Antigo T estamento. G ênesis 31.47 refle te 0 u so do h eb ra ico e do 
aram aico p o r d u as p e sso as q u e fo ram co n tem p o rân e as : Jacó , p a i dos israe- 
litas , referiu -se a u m certo m em o ria l o u “m o n te do te s te m u n h o ” em heb ra i- 
co (Gaíeede); se u sogro , L abão , referiu -se ao m esm o m em o ria l em aram aico 
(Jegar-Saaduta) .
O aram aico é u m a lín g u a m u ito p ró x im a do h eb ra ico . Os tex tos em aram aico 
na Bíblia fo ram escrito s com a m e sm a escrita do h eb ra ico . As d u as lín g u as são 
m u ito p arec id as n a m an e ira de fo rm u la r su a s co n s tru çõ es verba is, n o m in a is e
LÍNGUAS BÍBLICAS | 5 7
p ro n o m in a is . D ife ren tem en te do h eb ra ico , p o rém , o a ram aico u tiliza u m vo- 
cabu lá rio m aior, in c lu siv e m u itas p a lav ras to m a d as de em p ré s tim o a vária s 
línguas e u m a v a rie d ad e m u ito m a is am p la de conectivos. A p re sen ta a in d a um 
s is tem a e lab o rad o de tem p o s verba is d esen v o lv id o s a trav és do u so de parti- 
cíp ios co m p ro n o m es o u com vária s fo rm as do v erb o ser. E m bora 0 a ram aico 
se ja m en o s eu fô n ico e poé tico do q u e o h eb ra ico , ele é p ro v av e lm en te u m m eio 
su p e rio r de ex p re ssão p rec isa .
O aram aico ta lv ez te n h a u m a h is tó ria c o n tín u a de v id a m ais lo n g a do q u e 
q u a lq u e r o u tra lín g u a . Ele foi u sad o d u ran te 0 p e río d o p a tria rca l n a B íblia e 
a in d a é fa lado p o r a lg u m as p esso as a tu a lm en te . O aram aico e seu co g n a to , 0 
siríaco , e n g e n d ra ram d ia le to s d iversos em lu g a res e ép o cas d iferen tes. S im ples, 
c laro e p rec iso , o a ram aico ad ap to u -se fac ilm en te a v á ria s n ecess id ad e s da v id a 
co tid ian a . Era u sa d o ig u a lm e n te p o r p ro fesso res, a lu n o s , ad v o g ad o s ou m erca- 
do res. Para a lg u n s , era 0 e q u iv a le n te sem ítico do inglês.
A o rigem do a ram aico é d esco n h ec id a , m as p arece e s ta r m u ito re lac io n ad o 
ao am o rita e, p o ss iv e lm en te , a ou tro s d ia le to s sem ítico s do n o ro es te p o u co 
co n h ec id o s dos e s tu d io so s. E m bora u m re in o a ra m eu p ro p ria m e n te d ito jam ais 
te n h a ex istido , h o u v e v ário s " e s ta d o s” a ra m eu s q u e se to rn a ra m cen tro s in- 
fluen tes. A lgum as p o u c a s in sc rições em aram aico d essa e ra (sees, x a vm a.C .j 
fo ram d esco b e rta s e são ho je ob je to de estu d o ,
No o itavo sécu lo a .C ., re p re se n tan te s do rei E zeq u ias p e d ira m ao p o rta -v o z 
d e S en aq u e rib e , re i dos assírio s, q u e fa lasse a seus se rvos "em a ram aico , po r- 
q u e en ten d e m o s essa lín g u a . N ão fales em h eb ra ico , p o is ass im o povo q u e es tá 
so b re os m u ro s 0 e n te n d e rá ” (2Rs 18.26, nvi).
N o p erío d o p e rsa , o aram aico h av ia se to rn ad o o id io m a u sad o n o com ércio 
in te rn ac io n a l. D u ran te o ca tive iro , os ju d e u s p ro v av e lm en te 0 ad o ta ra m p o r 
u m a q u es tão de co n v e n iê n c ia — ce rtam e n te n o com ércio — , ao p a s so q u e 0 
heb ra ico fica ra co n fin ad o às p esso as in s tru íd a s e à lid e ran ça relig iosa.
Aos p o u co s , so b re tu d o d ep o is do exílio , a in flu ên c ia do a ram aico esp a lh o u - 
-se p e la Palestina . N eem ias se q u e ix av a de q u e os filhos dos c a sa m en to s m is to s 
n ão co n h ec iam o h eb ra ico (Ne 13.24). Parece q u e os ju d e u s c o n tin u a ra m a 
u sa r am p lam en te 0 a ram aico n o s p eríodos p e rsa , grego e ro m an o . Por fim , as 
E scritu ras h eb ra ica s fo ram trad u z id a s em p a rá frase s a ram aicas co n h ec id as 
com o T arguns. F oram en c o n trad o s a lg u n s m a n u sc rito s desses T arguns en tre os 
ro los do m ar M orto .
Uso no Novo T estamento. P ara a m a io ria d as p esso as , 0 a ram aico era a lín g u a 
co m u m en te fa lad a n a P alestina nos tem p o s de Je su s . C on tu d o , n ão h á ce rteza 
a lg u m a d isso , e essa ide ia p ro v av e lm en te s im plifica d em ais a s itu aç ão linguísti- 
ca da época. Os n o m e s u sa d o s no N ovo T estam en to re fle tem 0 u so do aram aico
58 I CURSO PARA FORMAÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
LÍNGUAS BÍBLICAS I 59
(B arto lom eu , B arjonas, B a rn ab é), do grego (A ndré, Filipe) e dó la tim (M arcos), 
a lém do heb ra ico . N ão h á d ú v id a de q u e 0 a ram aico e ra am p lam en te u tilizado , 
assim com o o grego e 0 h eb ra ico . O la tim se c ircu n screv ia p ro v av e lm en te aos 
c írcu lo s m ilita re s e g o v ern am en ta is . A trad ição ta m b é m refle te o uso do heb ra i- 
co m ish n a ico , u m a espéc ie d e d ia leto u sad o no d ia a d ia no tem p o deà m issiologia...................................................................................491
Uma teologia bíblica de missões · História das missões
• Comunicação intercultural · Tendências e estratégias missionárias
24. Liderança cristã................................................................................................... 533
A tarefa do líder · Uma teologia do voluntariado
25. Ética cristã............................................................................................................. 551
Doutrina e ética · Um fundamento bíblico · Ética social cristã
• Ética cristã e pobreza
26. Educação cristã.................................................................................................... 577
Definição da educação cristã · Estilos de aprendizagem
• Perspectivas transculturais da educação cristã · Formação cristã
Glossário........................................................................................................................ 613
Bibliografia................................................................................................. G33
AGRADECIMENTOS
V -.G-9 -.̂ ־̂--Je su s . H á 
ta m b é m d o cu m en to s n esse id iom a en tre os m a n u sc rito s do m a r M orto.
O q u e d izer do h eb ra ico q u e ap a rece em ce rta s p assag e n s do N ovo 
T estam en to (Jo 5.2; 19 .13,17,20; 20.16; A p 9.11; 16.16)? As lín g u as u sa d as na 
c ruz de Je su s fo ram 0 h eb ra ico , 0 grego e 0 la tim (Jo 19 .19,20). P osterio rm en- 
te , em A tos, o ap ó s to lo Paulo faz su a defesa em h eb ra ico (At 22 .2 ; 26 .14). O 
d ia le to exato em q u e fa lou p o d e se r d iscu tíve l, m as , com o fa r iseu q u e fora, éle 
sem d ú v id a a lg u m a e ra cap az de ler o A ntigo T estam en to heb ra ico . Em grego, o 
te rm o u sa d a p a ra hebraico é trad u z id o a lgum as v ezes com o “aram aico ” e p o d e 
se r u m te rm o genérico p a ra sem ítico o u p a ra u m a m is tu ra de h eb ra ico com 
a ram aico (assim com o 0 iíd ich e é u m a m is tu ra de a lem ão com h eb ra ico ), Seja 
com o for, 0 a ram aico foi a p o n te q u e p e rm itiu a tran s ição do heb ra ico p a ra o 
g rego , q u e p a sso u a se r en tão a lín g u a fa lad a pelo s ju d e u s no te m p o de Je su s . 
N esse sen tid o , o a ram aico fez a ligação en tre 0 h eb ra ico do A ntigo T estam ento 
e 0 grego do N ovo T estam en to .
GREGO
A lín g u a grega é u m in s tru m e n to de com u n icação belo , rico e h a rm o n io so . É a 
fe rra m en ta a d e q u a d a p a ra o p en sam e n to v igoroso e p a ra a devoção relig iosa. 
D u ran te seu p e río d o clássico , 0 grego foi a lín g u a de u m a d a s c iv ilizações m ais 
b r ilh a n te s do m u n d o . N aque le perío d o cu ltu ra l, a língua , a lite ra tu ra e a arte 
flo resceram m a is do q n e a guerra , A m e n te grega p reo cu p av a-se com os ideais 
da b e leza . A lín g u a g rega refle tia o gên io artístico em seus d iá logos filosóficos, 
su a p o es ia e su a o ra tó ría g rand io sa .
O id io m a grego carac te rizav a-se ta m b ém p o r su a n a tu re z a fo rte e vigorosa. 
Era c a p a z de v a ried ad e e de efe itos su rp re en d e n te s . O grego era a iín g u a do 
a rg u m en to , d o tad o de u m v o cab u lá rio e de u m estilo cap az es de p e n e tra r e 
exp lic itar fen ô m e n o s , em vez de s im p lesm en te co n ta r h is tó ria s . O grego clássi- 
co d esen v o lv eu in ú m e ra s fo rm as m in u c io sa s a p a rtir d a ra iz de a lg u m as pou- 
cas pa lav ras . Sua s in tax e com plexa p e rm itia o rg an iza r as p a lav ras de m an eira 
in tricada , de m odo q u e p u d es sem ex p ressar n u a n ç a s re f in ad as de sign ificado .
História antiga. E m bora os an tec ed e n te s d a lín g u a grega se jam o b scu ro s , os 
p rim eiro s traço s do q u e se p o d ería ch a m a r de grego an tigo ap a recem em docu- 
m en to s dos p e río d o s m icên ico e m in o an o . Ali ap a recem trê s escritas d iferen tes: 
h ieroglífica m ín o a n a [m ais an tig a ), lin e a r A e lin ear B (m ais rec en te ). A escrita
lin ear B é g e ra lm en te c o n s id e rad a u m “p ré-g reg o A escrita .״ siláb ica d e lin ear 
B aparece em ta b u in h a s de b a rro d esco b e rta s em te rritó rio c o n tin en ta l grego 
(1400-1200 a .C .).
A civ ilização e a e sc r ita m icên icas fo ram in te rro m p id as a b ru p ta m e n te com 
a invasão d ó rica (1200 a.C .). A escrita p arece te r d esap a rec id o d u ra n te vários 
sécu los. M ais ta rde , p o r v o lta do o itavo sécu lo a .C ., a e sc rita g rega ap a rece u 
com grafia d ife ren te b a s e a d a n u m a lfabeto p ro v av e lm en te to m ad o d e em prés- 
tim o aos fen íc ios e d ep o is ad a p ta d o aos sons da lín g u a g rega e à d ireção d a 
escrita seg u id a p e lo s gregos, In ic ia lm en te , 0 grego era escrito d a d ire ita p a ra a 
e sq u erd a com o a s lín g u as sem íticas o c iden ta is ; dep o is , n u m es tilo em q u e ca d a 
lin h a seg u ia a d ireção c o n trá ria à d a lin h a a n te r io r e, p o r fim , d a e s q u e rd a p a ra 
a d ireita. V ários d ia le to s ap a rece ra m d u ra n te 0 p erío d o arca ico (o itavo a sex to 
sécu los a .C .): d ó rico , fôn ico , a q u e u e eólico.
D u ran te 0 p erío d o clássico (q u in to a q u a rto sécu lo s a .C .), a cu ltu ra g reg a 
chegou ao z ê n ite lite rá rio e artís tico . O grego clássico (ou á tico ) ca rac te rizav a -se 
p e la su tileza d a sin taxe , p e la flex ib ilidade e pelo uso expressivo de p a rtícu - 
las (partes b reves da lín g u a , d esp ro v id a s de flexão e, em gera l, in tra d u z ív e is ) . 
Λ m ed id a q u e 0 con tro le cu ltu ra l e p o lítico foi se d e s lo ca n d o p a ra A tenas, 0 
d ia le to ático fo i g a n h a n d o p restíg io . C om as co n q u is ta s m aced ô n ica s , o grego 
ático , ju n ta m e n te com in flu ên c ia s de o u tro s d ia le to s (p r in d p a lm e n te 0 jôn ico ), 
to rn o u -se a lín g u a in te rn ac io n a l do M ed ite rrân eo o rien ta l.
Helenismo e dialeto coiné. As co n q u is ta s de A lexandre, 0 G rande, con tribu í- 
ram p a ra a d ifu são d a língua e d a cu ltu ra gregas. Os d ia le to s reg io n a is fo ram 
em g ra n d e m e d id a su b s titu íd o s pelo grego h e len ís tico o u co iné (de to d o d ia ) . 
T rata-se d e u m a lín g u a co n h ec id a dev ido a m ilh ares d e in sc riçõ e s q u e re tra tam 
to d o s os a sp ec to s d a v id a co tid ian a . O d ia le to co iné in tro d u z iu n u m e ro sa s ex- 
p ressõ es d a lin g u ag em p o p u la r n o grego á tico , to rn an d o -o m a is co sm o p o lita . A 
sim plificação da g ram ática fac ilitou su a ad ap tação à cu ltu ra em geral. A n o v a 
lín g u a , m a is s im p les e p ró x im a d a lin g u ag em popu lar, p a s so u a se r u s a d a no 
com ércio e n a d ip lom ac ia . O grego p erd eu m u ito de su a e leg ân c ia e d as n u an - 
ças d e m a tiz es re q u in tad o s q u e tin h a em c o n seq u ê n c ia d a evo lução do clássico 
p a ra 0 co iné. C on tu d o , p rese rv o u as ca rac te rís ticas típ icas de fo rça, b e leza , 
c lareza e su a p o d ero sa re tó rica lógica.
É s in to m ático q u e Paulo te n h a escrito aos cristãos de R om a em grego , e não 
em la tim . C u ltu ra lm en te , 0 Im pério R om ano d aq u e la ép o ca e ra grego, exceto no 
que se referia às a tiv id ad es do governo .
Septuaginta. D u ran te os sécu lo s im e d ia ta m e n te an te r io res a C risto , 0 M edi- 
te rrân e o o rien ta l v in h a p a ssan d o n ão só p o r u m p ro cesso d e h e le n iz aç ão , m as
6 0 I CURSO PARA FORMAÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
LÍNGUAS BÍBLICAS I 6t
ta m b é m de se m itização . A m bas as in flu ên c ia s p o d e m se i o b se rv a d as n a tradu - 
ção g rega do A ntigo T estam en to .
A trad u ç ão das E scritu ras h eb ra ica s p a ra 0 grego foi u m even to m em orável. 
A S ep tu ag in ta (a m a is an tig a trad u ç ão em grego do A ntigo T estam en to hebra i- 
coj exe rceu p o s te rio rm en te u m a in flu ên c ia m u ito fo rte so b re o p en sam e n to 
cristão . U m a c o n seq u ê n c ia n ecessá ria da u tilização do grego pelo s au to res he- 
b reu s foi q u e o esp írito grego e as fo rm as gregas de p e n sa m e n to d eixaram 
m arcas n a cu ltu ra ju d a ica . Os ju d e u s b e m d ep re ssa se a p ro p ria ram das ricas 
exp ressões do v o cab u lá rio grego p a ra id é ias q u e e s tav am além do a lcan ce da 
te rm in o lo g ia h eb ra ica . N ão b a s ta ss e isso , an tig a s exp ressões gregas g an h a ram 
novossign ificados d eriv ad o s de conce ito s juda icos .
O A ntigo T estam en to grego foi m u ito im p o rta n te p a ra 0 d esenvo lv im en- 
to do p e n sa m e n to cristão . M uitas vezes , a u tilização de u m te rm o grego n a 
S ep tu ag in ta fo rn ece a chave do seu sign ificado no N ovo T estam en to . O d ia le to 
“ju d eu -g reg o ” v e te ro te s tam en tá rio ap a rece p o r v ezes em p assag en s do N ovo 
T estam en to tra d u z id a s de m o d o b a s ta n te literal; o u tra s v ezes , a trad u ção q u e o 
N ovo T estam en to faz do A ntigo é b a s ta n te flexível.
O GREGO DO Novo Testamento. E m bora a m a io r p a r te dos au to res do N ovo 
T estam en to fosse de o rigem ju d a ica , eles escreve ram em grego, a lín g u a un iver- 
sal d a época . A lém d isso , o ap ó s to lo Jo ão p arece q u e t in h a a lg u m co n h ec im en - 
to de filosofia grega. Ele u so u “V erbo” [logos, em grego) em re fe rên c ia a Cristo 
(Jo 1 .1], a lém de v á ria s o u tra s exp ressões ab s tra ta s . É p o ss ív e l q u e te n h a sido 
in flu en c iad o pe lo cen tro eg ípcio de A lexandria , o n d e a filosofia g rega e a erud i- 
ção h eb ra ica h av ia m se fund ido de m odo b a s ta n te pecu liar.
Paulo ta m b ém es tav a fam ilia rizado com au to re s g regos (At 17.28; 1C0 15.33; 
T t 1.12], P o rtan to , o rad o res e filósofos gregos, b e m com o p ro fe tas e es tu d io so s 
h eb reu s , in f lu en c ia ram a lin g u ag em de Paulo .
E x a tam en te q u a l d ia leto do h eb ra ico ou do a ram aico Je su s falava é ob je to de 
p o lêm ica , m as o fato é q u e o E sp írito S an to in sp iro u os tex to s g regos dos E van- 
gelhos. Os reg istros em grego dos e n s in am en to s de Je su s e de suas a tiv id ad es 
p rep a ra ra m o cam in h o p a ra q u e o evange lho se e sp a lh a sse po r to d a a cu ltu ra 
de fala grega.
A d ig n id ad e e as lim itações do grego co iné u sad o pelo s au to re s cristãos não 
0 to m a v a m tão artific ia l e p ed a n te q u an to o grego de a lg u n s escrito s clássicos 
nem tão triv ia l e v u lg a r q u an to 0 co iné falado co s tu m a v a se r às vezes. O vo- 
cabu lá rio grego g an h o u u m sign ificado m a is rico e m a is e sp iritu a l n o con tex to 
das E scritu ras sob a in flu ên c ia d a sim p lic id ad e e da rica ex p ressiv idade do estilo 
sem ítico . O N ovo T estam en to n ão foi escrito n u m a língua espec ia l d a d a pelo 
E spírito S an to (con fo rm e criam a lg u n s es tu d io so s na Idade M édia). D ezen as de
62 I CURSO PARA FORMAÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
m ilh ares de p ap iro s d esen te rrad o s n o Egito n o sécu lo xx p ro p ic ia ram para le lo s 
lexicais e g ram a tica is p a ra a lin g u ag em b íb lica e m o s tra ra m q u e e la e ra p a rte 
dos fu n d am e n to s lin g u ístico s d aq u e la era. N ão o b s ta n te isso , 0 grego do N ovo 
T estam en to e ra “ liv re” , c rian d o m u ita s vezes exp ressões p róprias. Os au to re s 
cristãos in f lu e n c ia ra m 0 p e n sa m e n to grego ao in tro d u z ir n o v as ex p ressõ es p a ra 
tran sm itir su a m en sag e m so b re Je su s Cristo.
Influência semítica. C om o 0 grego do N ovo T estam en to co m b in a a ob je tiv ida- 
de do p en sam e n to heb ra ico co m a p rec isão da ex p ressiv id ad e grega , a deli ca 
d e z a su til do id iom a n ão ra ro se rv e de in té rp re te para os co n ce ito s h eb ra ico s . 
A in flu ên c ia sem ítica é m a is fo rte n o s E vange lhos, n o A poca lip se e em T iago. 
L ucas e H ebreus ap re se n ta m u m estilo m a is tip icam en te grego. As ep ísto la s 
m is tu ra m a sa b ed o ria do heb ra ico e a filosofia d ia lé tica do grego. Os se rm õ es 
u n e m a m e n sa g e m p ro fé tica h eb ra ica com a fo rça d a o ra tó ria grega.
A lém de c itações d ire tas e de a lu sõ es à S ep tu ag in ta , já se o b se rv o u q u e h á 
u m a in flu ên c ia sem ítica d issem in a d a pe lo N ovo T estam en to grego. Sua sin taxe , 
p o r exem p lo , a p re sen ta v á ria s in s tân c ia s do estilo sem ítico .
Vocabulário. O v o cab u lá rio do N ovo T estam en to grego é a b u n d a n te e sufi- 
c ien te p a ra tran sm itir è x a ta m en te a n u a n ç a de sign ificado q u e 0 a u to r d ese ja 
tran sm itir. Por exem p lo , 0 N ovo T estam en to u s a d u a s p a lav ras d ife ren tes p a ra 
“am o r” (p ara do is tipos de a m o r) , d u as p a lav ras p a ra "u m o u tro " (um o u tro do 
m esm o tipo ou u m ou tro d e u m tipo d ife ren te ), b em com o v á ria s p a lav ra s p a ra 
tipos d iversos d e co n h ec im en to . É in te re ssa n te q u e a lg u m as p alav ras são om i- 
tid as , com o eros ( terce iro tipo de am o r), a lém de o u tras p a lav ras n o rm a lm en te 
em p reg ad as n a cu ltu ra h e len ís tic a d a época.
N ão b a s ta ss e isso , as p a lav ras g regas g e ra lm en te ad q u ire m novos signifi- 
cados no con tex to do E vangelho em d ec o rrê n c ia da co m b in ação de n o v o s en - 
s in am en to s co m u m a m o ra lid ad e exa ltada . Os au to res n ão h es ita ra m em u sa r 
te rm o s com o vida, morte, glória e ira de n o v as m a n e iras p a ra ex p re ssa r novos 
p en sam e n to s . Às vezes , o sen tid o literal de u m a p a lav ra p ra tic am en te desapa- 
rece, com o q u a n d o os au to re s u sa m ág u a , lavagem e batismo em re fe rên c ia 
ao p o d e r p u rificad o r e sp iritu a l d e C risto . O v o cab u lá rio do N ovo T estam en to 
ap re sen ta ta m b é m p a lav ras q u e só se e n c o n tra m n o A ntigo T estam en to grego. 
É 0 caso de circuncisão, idolatria, andtema, diaspora e Pentecoste. E n tre os em - 
p réstim o s, tem o s aleluia e amém (h eb ra ico ), aba, mamam e corbã (a ram aico ).
Para e n te n d e r 0 sen tid o de u m a p a lav ra do N ovo T estam en to , é essen c ia l 
q u e se te n h a u m léx ico de grego c lássico , m as só isso n ão b a s ta . É p rec iso sa- 
b e r d e q u e m o d o a p a lav ra é u s a d a n o A ntigo T estam en to grego, n o s e scrito s 
h e len ís tico s e n as in sc riçõ es e d o cu m en to s q u e re fle tem o u so d a lín g u a no
LÍNGUAS BÍBLICAS 1 6 3
co tid ian o . Os p ap iro s ap re se n ta ra in ú m e ra s ilu s tra çõ es do s ign ificado de te rm o s 
do N ovo T estam en to . Por exem plo , 0 te rm o grego p a ra " c o n tr ib u iç ão ” (“co le ta” , 
1C0 16 .1 ], q u e se ac red itav a ser u m te rm o c ircu n sc rito ao N ovo T estam en to , é 
n o rm a lm en te u tilizad o n esse m esm o sen tido nos pap iro s. N u m ero sa s p a lav ras 
g regas q u e h av iam sido d efin idas com b ase no grego clássico g an h a ram u m 
sen tid o m a is p rec iso à lu z de su a u tilização n os pap iro s.
Alfabeto grego
O quadro abaixo apresenta o nome da letra (em português e em grego), a 
transliteração para o português (em itálico), a letra escrita em sua forma 
maiúscula e minúscula, bem como sua pronúncia.
alfa άλφα a A a a, como em pai
beta βήτα b B β b, como em Bíblia
gama γάμμα 8 Γ Y g, como em gato
delta δέλτα d Δ δ d, como em Deus
epsilon ε ψιλόν e E ε é, como em aberto
zeta ζήτα z Z ς z, como em zebra
eta ήτα e H η e, como em fechado
teta θήτα th Θ θ th, no inglês th in g
iota ίωτα i I ι l, como em idade
cap a κόππα k K κ c, como em casa
lambda λάμβδα l Λ λ 1, como em lei
mu μΟ m M μ m, como em mãe
nu νΟ n N V n, como em novo
csi X Ξ ζ x, como em táxi
ômicron 6 μικρόν 0 0 0 ó, como em porta
pi τη P Π זד p, como em pêssego
rô ρω r P Ρ r, como em roda
sigma οίγμα s Σ σ/ς s, como em sala
tau ταυ tT τ t, como em !elha
ipsilon ψ ιλAntigo Testamento poliglota.
______. Novo Testamento trilingue.
6 6 I CURSO PARA FORMAÇÃO OF L ÍDERES E OBREIROS
I CAPÍTULO 3 I
..... * · a .................. 1« V r íia w ·,
A INTERPRETAÇÃO 
DAS ESCRITURAS
São três as perguntas que devem ser feitas a um texto: O que ele 
diz? 0 que ele significa? Qual seu impacto sobre mim?
Edward L . Hayes
HERMENÊUTICA
A m a io r p a r te d a s p esso as sab e q u e é difícil es tab e lece r u m a co m u n icação 
“sig n ific a tiv a” n o p la n o h u m a n o n o rm al d a ex istência . E n tre d u a s p e sso as q u e 
falam a m e sm a língua ou q u e v ivem n a m esm a casa , 0 sign ificado do q u e é 
d ito p o d e se r fac ilm en te p erd id o ou d isto rc ido . A lín g u a é algo m u ito flexível. 
U m a sim p les p a lav ra com o cedo, p o r exem plo , p o d e te r u m a sé rie de sen tid o s 
d e p e n d en d o do con tex to : ja n ta r m a is cedo p o d e sign ificar cear às 17h30 em vez 
de às 181130; já ap o sen ta r-se m ais cedo sign ifica ap o sen ta r-se aos 60 an o s , e não 
aos 65; a exp ressão "casa r-se c e d o ” sign ifica q u e a p e s so a e ra jovem q u a n d o se 
caso u , e a s s im p o r d ian te . A lín g u a n u n c a p a ra d e m udar. No ing lês dos tem pos 
de S hak esp ea re , physics t in h a 0 sen tid o d e " lax an te o u o u tro s re m é d io s”; o 
q u e ho je u m fa la n te d e ing lês en ten d e p o r physics (física) era co n h ec id o com o 
“filosofia n a tu ra l”.
INTERPRETAÇÃO:a־;s à !
In terpretar é trazer à to n a 0 verdadeiro significado de qualquer coisa escrita 
ou falada, p rincipalm en te pela reform ulação do assun to em outras palavras. 
Um sinônim o é sim plesm ente "explicar”; 0 ou tro , " traduz ir”. U m a pessoa
bilíngue que se ponha ao lado de um falante para traduzir suas palavras 
em outro idioma é chamado de intérprete. Para os cristãos evangélicos, a 
interpretação da Bíblia é tarefa sobremaneira importante porque a Bíblia é
considerada a Palavra de Deus falada e escrita. A revelação que 0 Criador fez 
de si mesmo e do seu propósito para suas criaturas é a comunicação mais 
importante que os seres humanos poderíam receber.
A. Berkeley M ickelsen
6 8 j CURSO PARA F0RM A Ç A 0 DE LÍDERES E OBREIROS
A in te rp re tação b íb lica en fren ta p ro b lem as lingu ístico s d esse tipo . N ão raro , 
são p rob lem as d e v u lto . Por su a n a tu re za , a B íblia se d e s tac a d o s d em a is tipos 
de lite ra tu ra , p o r ta n to su a in te rp re taç ão en se ja d esafio s q u e vão a lém da tra- 
d u çã o d e u m id iom a p a ra o u tro e d e um co n tex to cu ltu ra l an tigo p a ra o u tro de 
ca rá te r m o d e rn o e q u e m u d a v e lo zm en te . A B íblia n ão é um liv ro a p e n as , e 
sim u m co n ju n to d e v ário s livros e scrito s n u m perío d o de m a is de 1.500 an o s 
p o r d ife ren tes au to re s de estilo s p ró p rio s e p ro p ó s ito s im ed ia to s . C on tu d o , as 
afirm ações q u e faz e sua u n id a d e n o táve l de ixam claro p a ra os c r is tão s q u e a 
B íblia é a "Palavra d e D eus em lin g u ag em h u m a n a ”. 0 in té rp re te , se m p re u m a 
cr ia tu ra h u m a n a fin ita e falível, d ev e te n ta r v e r a s co isas do p o n to d e v is ta di- 
v ino — m esm o q u e ex p ressas so b o u tra p e rsp ec tiv a h u m a n a ,
No d eco rre r dos an o s , e s tu d io so s e sp ec ia lizad o s e tre in ad o s em u m a disci- 
p lin a co n h ec id a com o hermenêutica ( " in te rp re ta ç ã o ”, em grego) e s tab e lece ram 
cân o n es , o u regras, para a trad u ç ão e a in te rp re taç ão d a E scritu ra . Os e s tu d a n te s 
d a B íblia tê m acesso ao se u trab a lh o p o r m eio d e co m en tá rio s exegéticos — d e 
exegese (em grego , “ex p licação "), q u e é m a is u m a p a lav ra para in te rp re tação . 
O trab a lh o de in te rp re taç ão ja m a is chega ao fim , em p a r te p o rq u e n o v o s d ad o s 
a rq ueo lóg icos co n tin u am a la n ç a r nova lu z so b re p assag en s com plexas, e em 
p a rte tam b ém p o rq u e su rg em novas q u es tõ es à m ed id a q u e 0 e n ten d im en to hu- 
m an o m u d a . Os erro s de in te rp re taç ão d eco rren tes de u m a le itu ra eq u iv o cad a 
da E scritu ra (q u e vê n e la co isas q u e lá n ão e s tão , u m p ro cesso a q u e se dá 0 
n o m e d e eisegese) são a ss im d esco b e rto s e corrig idos.
Exegese é o processo de extrair de um texto 0 sentido que ele quis transmitir. 
Do grego exegeomai, a palavra é usada para se referir ao desvelamento ou à 
descrição de um documento, declaração ou incidente. No Novo Testamento, 
parece tratar-se de um termo intercambiável com hermenêutica. Em João 
1.18, a palavra explica como Deus se tomou conhecido dos seres humanos
A INTERPRETAÇÃO DAS ESCRITURAS I
po r m eio da exegese ou "declaração” do Filho de Deus. Em Lucas 24.35, os 
dois discípulos “fizeram a exegese" ou con taram o que lhes havia acontecido 
na estrada de Em aús.
A relação en tre exegese e herm enêu tica é de tipo e grau. A herm enêutica 
é 0 guarda-chuva no qual a exegese se abriga. A herm enêutica trabalha com 
princípios ou regras m ais abrangentes de in terpretação da exegese bíblica. A 
Palavra de Deus, bem en tendida em vários contextos culturais, induz tan to 
0 professor quan to 0 a luno a p rocurar pelo sen tido adequado , em pregando 
recursos h istóricos, críticos, linguísticos e culturais. Tanto na herm enêutica 
q uan to na exegese, os evangélicos recorreram ao que se conhece a tualm en te 
com o m étodo literal-gram atical-histórico. Não há ciência m ais exata do que 
a exegese para decifrar esses sentidos.
A exegese, d iferen tem ente da eisegese [ler em um texto bíblico idéias 
p reconcebidas pelo leitor}, constitui 0 cerne da teoria herm enêutica . A exe- 
gese analisa 0 texto sob três enfoques diferentes, procurando: 1) en tender a 
gram ática do texto; 2) en tender 0 significado de cada palavra das frases; 3) 
en tender a m ensagem em seu conjunto no contexto de um parágrafo, de um 
capítu lo , de um livro e do texto inteiro da Escritura. Trata-se de procedim en- 
tos q u e dependem uns dos outros.
A exegese pode acarre ta r a tradução, a paráfrase ou o com entário da 
Escritura. As regras com que trabalha são governadas peia herm enêutica e pela 
teologia bíblica. Em outras palavras, 0 sentido de um texto não pode ser apu- 
rado individualm ente, e sim no âm bito da estru tura to tal da verdade revelada.
A exegese consiste nos seguintes processos: 1) análise da texto ind iv idual״ 
m ente, identificando sua origem e avaliando sua redação; 2) critérios de tra- 
dução ; 3} identificação do contexto histórico — au to ria , am biência e data; 
4] análise do contexto literário; 5) determ inação do gênero o u tipo literário;
6] esboço e diagram ação da estru tu ra ; 7] classificação da gram ática e da 
sintaxe; 8) estudo sistem ático de determ inada verdade no contex to de toda a 
verdade revelada; 9] aplicação do texto.
Em sum a, são três as perguntas que devem os fazer a qualquer texto; 
O que ele diz? O que ele significa? Q ual seu im pacto sobre mim? É preciso 
cuidado, porém , para não om itir nenhum dos passos da exegese, para que 
0 e s tudan te não se apresse a fazer um a aplicação pessoal com pletam ente 
desau to rizada pelos dados bíbiicos.
Há duas aplicações equ ivocadas do texto q u e devem ser evitadas: inter- 
p re ta r a Palavra sob um viés m oral e sob um viés pessoal. A interpretação 
m oralista da Palavra consiste em aplicar um a estru tu ra m oral específica a 
um a verdade do pon to de v ista de um a posição privilegiada no tem po. A 
in terpretação pessoal é parecida com a moralista no sentido de que o m undo
e a v ida do indivíduo d itam o significado e a aplicação do texto. Tanto um a 
aplicação q u an to a ou tra podem ser evitadas aplicando-se um a herm enêu tica 
e um a teoria exegética sólidas.
Em prim eiro lugar, é preciso en tender que a leitura de qualquer texto bí- 
blico p arte do princípio de que seu leitor não é 0 leitor original. É preciso que 
haja um esforço no sentido de com preender de que m aneira o texto deve ter 
sido en tend ido pelo le ito r original. Em segundo lugar, a com unidade de intér- 
p retes form ada pelos cren tes (a ekklesia) constitu i o contexto da leitura. Em 
terceiro lugar, um a vez que os au tores e ouvintes originais não participam 
m ais do processo , a in teração in terpre tativa se dá en tre 0 texto e aquele que o 
estuda, Já que se tra ta de texto histórico em sua com posição e ap resen tação , 
deve-se recorrer a todo tipo de m etodologia para com preender seu sentido 
sob essa ótica antes de procurar rap idam en te u m a aplicação.
Por fim, o testem unho do Espirito Santo figura de m aneira destacada na 
com preensão evangélica da exegese bíblica. Calvino e outros reform adores re- 
jeitaram a autoridade externa com o base para 0 entendim ento da verdade e 
substituiu-a pelo testem unho do Espírito (p. ex., Jo 14.26; 16.13-15). O cristão 
não está desam parado no tocante à com preensão e ao ensino da Palavra de 
Deus. Em últim a análise, á o Espírito Santo que lança luz sobre a verdade di- 
vi na. Em bora 0 descrente possa com preender 0 texto, se não for pela obra do 
Espírito Santo que ilum ina o entendim ento ele jam ais chegará à verdade “enten- 
dida espiritualm ente”, ou assim conhecida (v. 14). O texto de lC oríntios 2.6-16 
é im portante porque aí se entende que a sabedoria essencial vem de Deus.
Edw ard L. H aves1
7 0 I CURSO PARA FORMAÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
Apesar de um grande consenso em torno do que a Bíblia significa, os es- 
tudiosos especializados na Bíblia às vezes discordam na interpretação de de- 
terminada passagem. No decorrer da longa história da igreja, os estudiosos 
já chegaram inclusive a discordar de princípios básicos de interpretação. Os 
pais da igreja primitiva em Alexandria (Egito), influenciados pelo pensamento 
filosófico grego, inauguraram toda uma escola de interpretação em que o texto 
era fartamente alegorizado — isto é, seu sentido não era buscado no significado 
objetivo ou literal das palavras. Acreditava-se que as palavras representassem 
idéias espirituais na mente divina. Os estudiosos de Alexandria procuravam 
compreender a Escritura imaginando o que Deus gostaria de comunicar. As 
interpretações imaginativas foram se acumulando uma sobre a outra até se
'Adaptado d e Hermeneutics a״ n d Exegesis in Teaching”, in : M, J. Anthony, org., Evangeli- 
cal Dictionary o f Christian Education, p. 329-30. Usado com permissão.
A INTERPRETAÇÃO d a s e s c r it u r a s ן 71 
to rn a rem b iz a rra s o u fan tá s tic as , à m ed id a q u e a in f lu ên c ia d e ssa esco la se di- 
fu n d ia pela igreja o c id en ta l n a Id ad e M édia. O utra e sco la de in te rp re taç ão , q u e 
n ão re je itava to ta lm e n te a a lego ria , m as q u e em gera l p restava m a is a ten ç ão 
às p a lav ra s de fato d a B íblia, flo resceu e n tre o s p a is d a igreja de A n tioqu ia 
(n a S íria ) , Sua in flu ên c ia foi m e n o r d o q u e a da esco la a lex an d rin a so b re os 
esco lástico s m ed ieva is , q u e d u ra n te q u ase m il an o s o b scu rece ram b o a p a rte do 
sign ificado h is tó rico e literal, su b stitu in d o -o por in te rp re taçõ es m ísticas.
A R eform a P ro te s ta n te (séc. xvi) fez com q u e a ig reja re to m asse a in terp re- 
tação d a E scritu ra co m o m ensagem d ireta e fra n ca de D eus. Os refo rm adores 
d av a m ên fa se ao e s tu d o da g ram ática h eb ra ica e g rega e à h is tó ria do O rien te 
M édio , q u e e ram p a ra e les as fe rram en tas m a is a d e q u a d a s p a ra o e n ten d im en - 
to d a B íblia. T odavia, in s is tiam ta m b ém q u e a B íblia é “p e rsp íc u a ” (do la tim , 
“tr a n s p a re n te ״ ) , isto é, 0 s ign ificado da E scritu ra é ev id en te p a ra q u a lq u e r lei- 
to r in te lig e n te q u e a le ia da fo rm a com o le ría u m d o cu m en to h u m a n o com um 
— b a s ta n d o para isso q u e e s sa p esso a se ja h u m ild e 0 su fic ien te para p ed ir ao 
E sp írito S an to q u e lh e dê 0 en ten d im en to da P alav ra in sp ira d a . E d essa m an e ira 
q u e o c ris tão de h o je d ev e e n te n d e r a ta re fa de in te rp re taç ão da Bíblia.
Sob seu aspecto hum ano , a Bíblia, assim acredito , foi p roduzida e p reservada 
por seres hum anos com petentes que eram no m ínim o in teligentes e dedi- 
cados com o nós som os atualm ente. Creio que foram capazes de in terp re tar 
com exatidão sua experiência pessoal e ap resen ta r de m aneira objetiva 0 que 
ouviram e experim entaram na linguagem de sua com unidade h istórica, o que 
ho je podem os com preender, con tan to q u e para isso haja o devido em penho.
Sob o aspecto divino, creio q u e foi desejo de D eus q u e a Bíblia, inclusive 
seu relato sobre Jesus, em ergisse e fosse preservada p o r m eios que garantis- 
sem 0 cum prim ento de seus propósitos en tre os seres h u m an o s do m undo 
todo. Q uem realm ente acredita em Deus não te rá dificuldade algum a com 
isso. Creio que ele não deixou sua m ensagem para a hum an idade , e jam ais 
0 faria, de um jeito que só pudesse ser en tend ido por uns poucos estudiosos 
profissionais de fins do século xx, que não conseguem en tra r em acordo nem 
m esm o en tre si no q u e d iz respeito a teorias que acreditam determ inar o 
caráter da m ensagem .
A Bíblia, afinal de contas, é 0 presente de Deus ao m undo, e não aos eru- 
ditos, por meio da igreja. Ela surge através da vida do povo de Deus e dá 
sustento a essa vida. Seu propósito é prático, e não acadêm ico. Uma leitura 
inteligente, cuidadosa, profunda, porém objetiva — istg é, um a leitura que não
seja governada por teorias obscuras e caprichosas ou por um a ortodoxia insen- 
sata — é 0 que se requer para que sejam os guiados à v ida no reino de Deus.
D allas W illard2
7 2 I CURSO PARA FORMAÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
H á dois p a sso s b ás ico s n a in te rp re tação . É p rec iso q u e p e rg u n tem o s: 1) O 
que a p assag em q u eria d iz e r p a ra a p esso a q u e p ro fe riu p e la p r im e ira v ez e ssas 
palav ras o u a s e sc rev eu e p a ra a s p esso as q u e as o u v iram o u le ram p e la pri- 
m eira vez? 2) Q ual se ria se u sen tid o p a ra o le ito r co n tem p o rân eo ? A p rim e ira 
ta re fa co n s is te e m e n tra r n a s c ircu n stân c ia s d a p esso a q u e esc rev e u o u o u v iu 
o rig ina lm en te a p a ssag e m e en tão te n ta r e n te n d e r seu sen tid o à lu z d a B íblia 
toda . E m se g u n d o lugar, é p rec iso te n ta r to rn a r claro 0 sen tid o da p assag e m n as 
c ircu n stân c ia s do p re se n te sécu lo . Os in té rp re te s d e to d as as ép o c as se esforça- 
ram p a ra p e rm a n e c e r fiéis a e s se s d o is passo s.
As v ez e s o s c r is tão s e s tão d e ta l m odo an s io so s p a ra d iv u lg a r o sen tid o 
de u m a p a ssag e m a se u s co n tem p o rân e o s q u e ac ab a m p e rd e n d o d e v is ta seu 
sign ificado n a s itu aç ão o rig ina l. O u tros in v es tiram ta n to te m p o n a s itu ação 
o rig ina l d o A ntigo T estam en to q u e acab a ram p e rd e n d o de v is ta as m u d a n ça s 
rad ica is in tro d u z id a s p e la v id a , m o rte e re ssu rre iç ãod e Je su s . “É n e s sa v o n ta d e 
q u e fom os sa n tif icad o s p e la o fe rta d o co rpo d e Je su s C risto , feita d e u m a vez 
p o r to d as [...] O nde h á p e rd ã o p a ra essas co isas [pecados, a tos ilíc ito s], n ã o há 
m ais o fe r ta [isto é, o ferta d e an im ais] pe lo p ecad o (Hb 10.10,18).
O ob je tivo do co n tex to b íb lico é m o s tra r a o fe rta dec is iva d e Je su s p e lo peca- 
do . Ele tro u x e à ex is tên c ia “u m novo povo d e D e u s” (is to é, ta n to ju d e u s q u an - 
to g en tio s q u e rec o n h ece m em Je su s o M essias]. V árias p ro m essa s do A ntigo 
T estam en to fe itas a Israel são , p o r tan to , in te rp re tad a s pelo N ovo T estam en to , 
q u e v ê ne las p ro m essa s fe itas ao novo povo de D eus, a igreja. Em face d e ta is 
d e sd o b ra m en to s d e n tro d a p ró p ria B íblia, é im p o rta n te a tr ib u ir p e s o s iguais 
so b re o s p a sso s u m e do is. F azer a tran s içã o a d e q u a d a d o s te m p o s b íb lico s para 
os d ia s a tu a is re q u e r e s tu d o cu id ad o so , o ração e d e p e n d ên c ia d o E spírito San to . 
Os cris tão s são re sp o n sáv e is p o r n ão ac resc en ta r n a d a ao sen tid o p re ten d id o 
por D eus e d e le ta m b é m n a d a sub trair.
INCURSIONANDO PELO PASSADO
Os 15 sécu lo s a o longo d o s q u a is a Bíblia foi e sc rita te s te m u n h a ra m g ran d es 
m u d an ças n o s cen á rio s cu ltu ra l e po lítico . Às vezes , as m u d a n ç a s v ie ram m u ito 
rap id am en te . A s itu ação de Paulo em A tenas (At 1 7 .1 5 3 4 (־ , p o r exem plo , era 1
1 The Divine Conspiracy, p. xvi. [Publicado em português com o título Λ conspiração divina 
pela editora Mundo Cristão.]
muito diferente da situação que ele enfrentou em Jerusalém poucos anos depois 
(At 21.17—23.30). É preciso prestar muita atenção aos eventos da história do 
Oriente Médio.
H istória e cultura. Os escritos históricos jamais contam tudo 0 que acon- 
teceu. Eles consistem na seleção feita por alguém de certos eventos entre os 
inúmeros que ocorreram no meio de certo grupo de pessoas ao longo de certo 
período. A seleção ajuda os que leem o registro a ver 0 que tomou diferentes 
aquelas pessoas de outras à sua volta. A história pode revelar os pontos fortes 
e fracos das nações e por que elas continuaram a existir ou por que desaparece- 
ram. A história da Bíblia, porém, não se preocupa apenas com as pessoas. Sua 
história está centrada em Deus. Para seus autores, Deus se revelou na história 
ao escolher 0 povo de Israel para trabalhar com ele de maneira especial. Ele se 
comunicou diretamente com alguns indivíduos dentre o povo, a quem designou 
como servos, e disse a eles em que se baseavam as bênçãos e os juízos que lhes 
sobreviríam. Por fim, Deus se uniu a eles na terra, na pessoa de Jesus Cristo, 
experimentando em si mesmo todas as aflições da história humana.
O ponto de vista bíblico é que há um Deus, um povo de Deus e uma história. 
Não passava pela mente dos servos de Deus escrever uma história sem ver nela 
a mão soberana de Deus. Os historiadores seculares modernos ignoram ou ne- 
gam o papel de Deus na história humana, mas para interpretar a Bíblia é preciso 
tentar ver a história da forma como a veem os autores bíblicos: um tempo, um 
lugar, um evento em que Deus se revelou à humanidade na história.
Para entender o sentido daquilo que um autor bíblico escreveu, é preciso 
entender também seus padrões culturais. A cultura compreende os hábitos, 
costumes, ferramentas, produção material, instituições, artes, música e obras 
literárias de qualquer povo — todas as coisas que ele cria e usa. A cultura de 
uma época específica é um bom termômetro daquilo que as pessoas consideram 
importante. O montante de dinheiro gasto em diversão, bebidas e armas revela 
os interesses e as prioridades de qualquer povo. Aquilo que as pessoas fazem, 
0 que de fato produzem, geralmente diz mais a respeito delas do que qualquer 
coisa que falem.
E strutura linguística. A língua é parte crucial da vida de qualquer povo. 
O Antigo Testamento foi escrito originalmente em hebraico, com exceção de 
algumas breves seções em aramaico (Gn 31.47; Ed 4.8—6.18; 7.12-26; Jr 10.11; 
Dn 2.45—7.28). O Novo Testamento foi escrito originalmente em grego. Cada 
língua tem uma estrutura particular, uma gramática que deve ser dominada 
para que se possa compreender o que está escrito e traduzir corretamente. Essas
A INTERPRETAÇÃO DAS ESCRITURAS J 73
três línguas dispõem de farto vocabulário e de nuanças de significado que po- 
dem ficar obscurecidas na tradução.
Há inúmeros períodos longos e complexos na Bíblia. Todas as traduções di- 
videm os períodos mais longos das línguas originais (sobretudo no grego) para 
torná-los mais facilmente legíveis. As paráfrases vão além nessa simplificação, 
o que acarreta a possível perda de conexão entre algumas idéias. O que numa 
paráfrase aparece como frase independente pode ter uma vínculação mais ín- 
tima com outros períodos no original, girando em torno de uma única forma 
verbal. Atualmente, quem estuda a Bíblia tem à disposição traduções excelentes 
que dão destaque ao sentido literal do texto original (é 0 caso da a21 e da ara) , 
bem como numerosas paráfrases cuidadosamente formuladas (como a Bíblia 
Viva ou a ntlh) . Além de comparações desse tipo, os comentários muitas vezes 
ajudam o interessado a entender por que há duas traduções diferentes para a 
mesma passagem.
Contexto literário. 0 contexto de uma passagem vai além das palavras ou do 
parágrafo em que está inserido. Para interpretar corretamente uma passagem, 
é preciso saber 0 que vem imediatamente antes e depois dela, mas é preciso 
pensar também no livro todo como contexto da passagem. Num livro como 0 
de Daniel, o contexto mais amplo compreende a narração de eventos, sonhos e 
visões, além de materiais tomados de várias épocas da vida de Daniel e de três 
ou quatro reis. É preciso estar familiarizado com o livro todo para entender uma 
parte específica dele. Uma frase obscura pode ser facilmente tirada de contexto 
e ganhar um significado que faz sentido atualmente, porém, se submetida a 
um exame mais minucioso à luz do restante do livro, é bem provável que essa 
"interpretação atualizada" não corresponda ao que Daniel quis de fato dizer. 
Ignorar 0 contexto aumenta a possibilidade de "descobrir" um significado que 
não está de fato ali, isto é, estaríamos incorrendo em eisegese. Estudiosos, pro- 
fessores e pastores podem ser culpados de eisegese tanto quanto qualquer leitor 
comum — isto é, se fizerem seu trabalho apressadamente ou se tiverem um in- 
teresse pessoal no assunto que os induza a utilizar um método de interpretação 
do qual não estejam dispostos a abrir mão.
D ISTIN ÇÃO ENTRE LINGUAGEM LITERAL E FIGURADA 
Embora a Bíblia recorra à linguagem comum das pessoas, seu tema principal 
não é de modo algum corriqueiro. Ela lida com a hostilidade dos seres humanos 
para com Deus e com a maneira pela qual os que se afastam dele podem voltar 
a ter comunhão com ele. A realidade de Deus, a realidade do pecado e a reali- 
dade da redenção são temas que desafiam a capacidade da linguagem humana.
74 I CURSO PARA FORMAÇAO DE LÍDERES E OBREIROS
S ignificado dos termos l it e r a l e f ig u r a d o . Diz-se que a linguagem é literal 
quando conserva seu sentido habitual e prontamente entendido por todos. Di- 
zer que os antigos desbravadores “avançavam a duras penas pelas florestas” é 
usar 0 verbo avançar literalmente. Significa que aqueles exploradores iam 
abrindo caminho com dificuldade em meio à mata.
Contudo, dizer que “um estudante avançava a duras penas em um curso di- 
fícil de física”, ou que “um executivo avançava com dificuldade pela montanha 
de papéis” é usar 0 verbo avançar de modo figurado.
Em outras palavras, 0 desbravador, 0 estudante e o exe- 
cutivo"iam abrindo espaço em confronto com um ma- 
terial resistente”. A realidade da experiência nada tem a 
ver com o fato de 0 verbo avançar estar sendo usado de 
maneira literal ou figurada, “Avançar” por uma floresta 
ou “avançar” por uma montanha de papéis são ambas 
as experiências reais. A linguagem figurada toma um 
sentido comum e corriqueiro e 0 transporta para outro 
plano. Um exemplo relacionado com a Bíblia é o uso 
que se fazia na linguagem do primeiro século das pa- 
lavras "resgate” ou “compra” de uma pessoa que era 
escrava para mostrar como Deus “resgatava” seu povo 
do pecado. O pecado é personificado: ele escraviza 0 
ser humano ou 0 mantém em estado de servidão. Deus 
resgata seu povo, isto é, liberta-0 da escravidão, quan- 
do, pela fé, as pessoas entregam a ele sua vida.
Muitas discordâncias em relação à interpretação da 
Bíblia se resumem ao grau de literalidade pretendido 
por uma passagem. Quando João se referiu ao Espírito 
Santo no batismo de Jesus e disse que ele 0 viu "descer 
do céu como pomba” (Jo 1.32), será que ele quis dizer 
simplesmente que 0 Espírito “desceu” do modo como 0 
faria uma pomba que desce do céu ou será que ele quis 
dizer que 0 Espírito tomou literalmente a forma de uma 
ave que pousou fisicamente sobre Jesus? Ou será que ele estava se referindo a 
outra coisa bem diferente? Muitas vezes, 0 contexto dá pistas suficientes para 
que 0 leitor distinga claramente do que trata aquilo que está lendo: outras ve- 
zes, faltam pistas ou elas estão abertas a diferentes interpretações.
A INTERPRETAÇÃO DAS ESCRITURAS ( 7 5
Quando leio a 
Bíblia, não 0 faço 
da mesma maneira 
pela qual me 
aproximo de outras 
formas de literatura. 
Isso não significa 
que eu ponha 
de lado minha 
capacidade crítica. 
Na verdade, meu 
gosto pela analise 
fica ainda mais 
aguçado quando 
leio a Escritura, 
porque me vejo 
motivado por um 
desejo profundo de 
compreendê-la.
R . C. SprOUL3
3 The Soul's Quest for God: Satisfying the Huttger for Spiritual Communion with God, p. 58. 
[Publicado èm português com o título A aima em busca de Deus: satisfazendo a fome espiritual 
pela comunhão com Deus pela editora Ecíesia.]
F iguras de linguagem sucintas. A maior parte dos recursos literários conhecí- 
dos como figuras de linguagem na literatura comum também são encontrados 
na Bíblia. A símile, por exemplo, é uma comparação que usa a conjunção como 
em suas construções. A metáfora é uma comparação direta: “Ele é dez"; ou (em 
relação a Jesus): "Este é 0 Cordeiro de Deus'’ (Jo 1.29). Tanto a símile quanto 
a metáfora são usadas em uma passagem conhecida de Isaías (40.6,7; v. tb. 
Tg 1.10,11; lPe 1.24,25): “Toda a carne é erva, e toda a sua glória, como a flor 
da erva; seca-se a erva, e caem as flores...” (a r a ) .
A afirmação metafórica de que “seca-se a erva, e caem as flores" mostra a 
força das figuras de linguagem. "Carne” é a maneira de 0 hebraico referir-se à 
vida humana em geral. Não importa 0 quanto alguém seja vibrante e belo (“como 
a flor"), essa pessoa acabará, por fim, exibindo os efeitos do envelhecimento e 
morrerá. Nenhuma reflexão abstrata sobre 0 envelhecimento teria a mesma qua- 
lidade penetrante e memorável dessa combinação de metáfora e símile.
Com frequência, a Bíblia diz que Deus tem membros humanos, que ele se 
movimenta fisicamente (antropomorfismo) ou que tem emoções, sentimentos e 
reações humanas (antropopatia). As metáforas aplicadas a Deus fazem referên- 
cia aos seus “dedos”, ao seu "braço”, à sua “boca” ou ao seu “ouvido” (SI 8.3; 
Is 53.1; 55.11; 59.1). A Bíblia diz que Deus “se indignou" (Dt 1.37; 4.21) e, no 
episódio dos dez mandamentos, lemos que ele é "zeloso” (Êx 20.5; Dt 5.9), ou 
,'ciumento” (b j , Bíblia de Jerusalém). Essas metáforas não querem dizer que a 
“ira” e 0 “ciúme” de Deus sejam expressos da mesma forma que a ira e 0 ciúme 
humanos. As emoções humanas são afetadas pelo pecado, pela ignorância e 
pela incapacidade do ser humano de manter 0 equilíbrio emocional.
Deus está além tanto das limitações físicas dos ouvidos, braços, boca e dedos 
humanos como das fraquezas das emoções das pessoas. Tbdavia, Deus pode 
“falar", "ouvir” e “agir". A Bíblia declara que ele ama os pecadores, mas tam- 
bém que fica irado com 0 pecado e com os pecadores. Deus fica muito magoado 
quando suas criaturas se afastam dele, trocando-o pela idolatria e pela autodes- 
truição. As metáforas antropomórficas parecem essenciais para o entendimento 
humano de Deus, mas é preciso cuidado para não tomá-las literalmente. Deus 
não respira literalmente. Quando fica irado, não perde 0 controle das emoções.
Quando Jesus se referiu a “guias cegos", que coavam um mosquito e engo- 
liam um camelo (Mt 23.24), é evidente que ele recorreu a uma hipérbole, que 
é um exagero consciente, intencional. Jesus queria mostrar que os fariseus e os 
escribas estavam atentos aos detalhes mais triviais, mas não conseguiam en- 
xergar as questões espirituais importantes. Será que Jesus estava usando uma 
hipérbole quando disse; “É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma 
agulha do que um rico entrar no reino de Deus" (Mt 19.24)? Muitos cristãos 
ricos esperam que sim! Será que Jesus estava querendo mostrar, recorrendo ao
7 6 ( CURSO PARA FORMAÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
exagero, que aqueles que têm riquezas normalmente confiam mais nos bens 
que possuem do que em Deus, para com isso enfatizar que a confiança genuína 
em Deus é imprescindível para quem quiser entrar em seu reino? Ou será que 
ele estava dizendo literalmente que é impossível a um rico entrar no reino de 
Deus? O contexto mostra que seus discípulos estavam de tal modo atônitos ante 
0 sentido literal de suas palavras que Jesus as amenizou, acrescentando: “Isso 
é impossível para os homens, mas para Deus tudo é possível” (Mt 19,23,25,26).
F iguras de linguagem am pliadas. Uma parábola, na verdade, é uma símile 
ampliada; uma alegoria é uma metáfora ampliada. Em Lc 15.1-7, Jesus contou 
uma parábola (a ovelha perdida) aos fariseus e escribas que estavam indigna- 
dos porque Jesus acolhia os pecadores e comia com eles (v. 2). O júbilo no céu 
por um único pecador que se arrepende, disse Jesus, é como 0 júbilo de um 
pastor que encontra uma ovelha que havia se perdido. A figura de linguagem 
do bom pastor também foi usada em uma alegoria cujo sentido Jesus teve de 
explicar (Jo 10.1-18). Diferentemente da parábola, que em sua íorma pura tem 
apenas um ponto principal, a alegoria tem vários pontos de comparação. Na 
alegoria do bom pastor, Jesus aponta pelo menos quatro: 1) o pastor é Cristo; 
2) a porta é Cristo; 3) as ovelhas são aqueles por quem Jesus entregou a vida; 
4) 0 rebanho representa a união de todos os crentes sob um único pastor.
A alegoria é uma história contada de tal forma que certos elementos repre- 
sentem coisas específicas. A alegoria ilegítima é aquela que toma um incidente 
histórico ou uma narrativa real e os transforma em outra coisa. Por exemplo, 
havia um candelabro de sete braços fixado a um pedestal de ouro puro no lu- 
gar santo (Êx 25.3140־), que iluminava 0 sacerdote enquanto ele realizava seu 
ofício. Nas mãos de um alegorista moderno, as sete lâmpadas que brilhavam 
seriam uma representação do Espírito Santo, e 0 pedestal representaria Jesus 
Cristo. A intenção desse intérprete ê mostrar que a obra de Cristo é a base da 
manifestação do Espírito Santo na igreja. Contudo, sem forçar demais 0 senti- 
do, poderiamos dizer simplesmente que função tinha cada peça de mobília no 
tabernáculo e, em seguida, destacar a diferença e a eficácia da obra de Cristo 
sob a nova aliança. O Novo Testamento sempre recorre às imagens do Antigo 
(inclusive ao tabernáculo), mas raramente o faz por meio de alegorias. Toda ale- 
goria que ignore os sentidos do Antigo Testamento não faz justiça à mensagem 
de Deus nele.
T ipologia. A tipologia empregada pelo Novo Testamento chama a atenção para 
um ponto de semelhança entre uma pessoa, um evento ou um objeto no An- 
tigo Testamento e uma pessoa,um evento ou um objeto no Novo Testamento. 
De vez em quando, é possível encontrar dois pontos de semelhança num
A INTERPRETAÇÃO DAS ESCRITURAS J 7 7
exemplo de tipologia. Deus disse ao rei Davi que seu filho ainda não nascí- 
do (Salomão) construiría uma casa ou templo para Deus (2Sm 7,12,13). Deus 
disse a Salomão: "Eu serei seu pai, e ele será meu filho” (v. 14). Recorrendo 
à lipologia, 0 autor de Hebreus aplicou posteriormente essas palavras a Jesus, 
salientando que Deus jamais falara tais palavras a anjos (Hb l.S). A filiação é 
0 ponto que se quer enfatizar na tipologia. Salomão foi um filho chamado por 
Deus para ocupar o trono de seu pai Davi; Jesus era Filho de Deus num sentido 
sem igual — contudo, ambos foram chamados de "filho".
A tipologia é uma espécie de linguagem figurada de comparação. Um intér- 
prete atento observará que 0 ponto de comparação tem raízes históricas tanto 
no passado quanto no tempo futuro de aplicação. No entanto, as diferenças são 
evidentes. Deus disse a respeito de Salomão: “Caso venha a cometer alguma 
transgressão, eu o castigarei” (2Sm 7.14). Já em relação a Jesus Cristo, lemos que 
“eie não cometeu pecado, nem engano algum foi achado na sua boca" (lPe 2,22).
S ímbolos, ações simbólicas, descrição apocalíptica. Os livros de Daniel e o
de Apocalipse, além de inúmeras passagens do Antigo Testamento, principal- 
mente as dos livros proféticos, são cheios de simbolismos. Um símbolo é uma 
“metáfora visual”, um objeto ou acontecimento que sugere certo sentido, mas 
não 0 explicita de fato. Daniel descreveu 0 sonho vivido que Nabucodonosor 
teve — uma imagem com cabeça, braços, barriga, coxas, pernas e pés feitos de 
diferentes melais. O símbolo fez sentido no momento em que Daniel interpre- 
tou 0 significado de cada parte (capítulo 2).
Em Apocalipse, uma besta sai do mar e outra da terra (capítulo 13). Uma 
prostituta representa a capital de um império mundial (Roma, nos dias de João; 
v. Ap 17,1-18, especialmente 0 v, 18). A besta sobre a qual ela cavalga represen- 
ta os governantes de um império mundial e esse império. Recorrer às Escrituras 
para decifrar 0 que os símbolos representam (como em Ap 17) é um processo a 
que se dá 0 nome de decodificaçâo. O simbolismo pode parecer estranho, mas 
0 fato de que os governos humanos podem tomar-se animalescos como a besta 
do Apocalipse fica evidente à luz da experiência do século xx.
Os escritos apocalípticos foram uma forma de literatura produzida pelos 
judeus e por autores cristãos entre 200 a.C. e 300 d.C. em que se descrevia sim- 
bolicamente 0 poder do mal, 0 caos tenebroso que 0 mal traz e 0 esplendor do 
poder divino que, por fim, vence 0 mal.
P rofecia. O termo profecia tem dois significados na Bíblia. Profetizar significa: 
1) chamar as pessoas para que vivam uma vida santa — para que abandonem 
os ídolos, 0 egoísmo, obedeçam a Deus e tenham comunhão com ele; e 2) predi- 
zer bênção ou juízo — bênção para aqueles que obedecem a Deus e calamidade
78 I CURSO PARA FORMAÇÃO or LÍDERES E OBREIROS
para os que lhe desobedecem. Atualmente, muitos “especialistas” em profecia 
parecem se especializar 11a previsão do futuro, negligenciando o papel profético 
igualmente importante de anunciar o chamado de Deus à justiça.
O primeiro capítulo de !saias começa com 0 profeta apelando ao povo de 
Israel para que abandone 0 pecado e se volte para Deus. A passagem prevê tam- 
bém o juízo divino e promete bênçãos. O termo “profecia” refere-se basicamente 
a esse tipo de pregação profética, com frequência valendo-se de linguagem fi- 
gurada. Em parte alguma da Bíblia a profecia é dada para a satisfação da curio- 
sidade natural das pessoas em relação ao futuro. De modo geral, a profecia não 
oferece predições detalhadas sobre o futuro. Pouco antes da ascensão de Jesus, 
os discípulos lhe fizeram uma pergunta muito simples: seria aquele 0 momento 
em que Deus restauraria o reino a Israel? Jesus respondeu: “Não vos compete 
saber os tempos ou as épocas que 0 Pai reservou por sua autoridade” (At 1.7). 
A profecia preditiva revelou 0 suficiente para mostrar que Deus está no controle 
de tudo 0 que acontece no futuro. Ele sabe perfeitamente para onde a história 
caminha, porque está no comando e na direção. O resto, porém, permanece 
oculto. O mapa do futuro pertence somente a Deus.
L inguagem da criação e clímax. O que sabemos a respeito da criação do mun- 
do consiste apenas no que Deus quis revelar. Não apenas em Gênesis 1—3, mas 
em todo 0 Antigo e Novo Testamentos, a criação divina de tudo o que existe é 
um fato que se afirma sem hesitação. Contudo, as passagens não dizem “como” 
ele criou, conforme exige 0 pensamento científico moderno. Para pensar bibli- 
camente sobre a criação ou sobre 0 clímax da história, temos de nos ater ao 
que dizem as passagens. Embora a linguagem figurada (bem como a literal) 
seja usada para descrever tanto 0 começo quanto 0 fim da história, as narrati- 
vas referem-se a eventos reais. Com tão poucos detalhes, não é possível supor 
que se tenha 0 quadro inteiro. Não devemos bancar 0 artista que interpreta 0 
quadro e diz como foi que as coisas aconteceram e como deverão acontecer; 110 
entanto, podemos perfeitamente agradecer a Deus pelo belo quadro (ainda que 
parcial) que ele nos deu na Escritura.
P o esia . Há trechos extensos do Antigo Testamento que são poesia, uma for- 
ma de literatura padronizada, rítmica e que se caracteriza pelo uso deliberado, 
figurado e, em geral, belo ou eficaz da língua. A poesia moderna se conhece, 
em geral, pelo padrão do seu som; às vezes, tem versos que rimam. A poesia 
hebraica não depende de um padrão sonoro, e sim de um padrão equilibrado 
de pensamento. Poesia é muito difícil de se traduzir de uma língua para outra, 
porque os padrões devem ser comunicados juntamente com Os sentidos das 
palavras. Segue abaixo uma estrofe hebraica (Is 1.3) traduzida em português:
A INTERPRETAÇÃO DAS ESCRITURAS j 7 9
80 1 CURSO PARA FORMAÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
O boi/ conhece/ 0 seu proprietário, 
e 0 jumento/, o cocho posto pelo dono; 
mas Israel/ não tem conhecimento, 
o meu povo/ não entende.
É fácil ver que 0 paralelismo dessas quatro linhas é a principal característica 
da poesia hebraica. Nos dois pares de linhas, a segunda tem a mesma ideia da 
primeira, a que se dá o nome de paralelismo sinonímico. Apresenta-se uma 
ideia, que depois é repetida com diferentes palavras. No primeiro par, 0 verbo 
não é repetido. Com três unidades acentuadas na primeira linha e duas na se- 
gunda, a métrica usada é de 3/2. No segundo par de Unhas, as duas unidades 
acentuadas em cada uma formam uma métrica de 2 /2. A terceira e a quarta 
linhas também apresentam paralelismo sinonímico.
Para 0 leitor desatento, esse tipo de detalhe pode parecer irrelevante para 
0 sentido do texto, mas ele é parte da postura poética do autor. A forma em si 
transmite significado e também alerta 0 leitor para que espere imagens de pala- 
vras, equilíbrio rítmico e imaginação artística. Consequentemente, é vantagem 
usar uma tradução que preserve a poesia em formato tipográfico que permita 
reconhecê-la facilmente. O formato ajuda o leitor a fazer o deslocamento neces- 
sário da prosa para a construção poética.
É bom ler poesia em voz alta, procurando sentir 0 equilíbrio das idéias e 
as unidades nas quais recai a ênfase. Com isso, o leitor terá um contato mais 
íntimo com 0 estilo do autor original — que com muito cuidado estruturou suas 
idéias em bela linguagem poética. Isso é parte do importante primeiro passo 
da interpretação: descobrir o sentido que tinha uma passagem para o autor e 0 
leitor originais.
CO N CLU SÃO
A tarefa de interpretar a Bíblia jamais acaba. 0 cristão deve se esforçar sempre para 
compreender seu significado corretamente e reformulá-lo para 0 muudo atual.
A teologia se esforça para dizer de forma condensada o que é ensinado sobre 
um assunto específico em todas as partes da Bíblia. Muitos cristãos aceitam 
ingenuamente doutrinas ensinadas porsuas igrejas. Quem começa a estudar a 
Bíblia por conta própria e aplica cuidadosamente os dois passos da interpreta- 
ção sadia entenderá melhor as doutrinas básicas do cristianismo. Se 0 estudo 
bíblico 0 levar a questionar algumas coisas que ouve a respeito da Bíblia, isso 
também é sinal de crescimento sadio. Nenhum cristão consciente deveria pa- 
rar de estudar a Palavra de Deus; novas idéias devem ser conferidas com seus 
ensinamentos. Declarações frágeis ou imprecisas a respeito do que Deus está
dizendo hoje são revistas com base em novos discernimentos do que Deus disse 
às pessoas dos tempos bíblicos.
A interpretação que o cristão faz em seu momento devocional pode sempre 
melhorar, porque as necessidades pessoais estão sempre mudando. De repente, 
é possível que se vejam coisas importantes que antes passaram despercebidas, 
até mesmo nas passagens favoritas, estudadas já muitas vezes. Os dois pas- 
sos básicos de interpretação são importantes também no estudo devocional da 
Bíblia. Suponha que você tenha dúvidas; leia então a passagem sobre Tomé e 0 
que ele vivenciou (Jo 20.24-29], O primeiro passo consiste em descobrir como 
Tomé venceu suas dúvidas; 0 segundo consiste em aplicar criativamente a nar- 
rativa à sua situação pessoal. É bom saber que houve pessoas na Bíblia que 
tiveram os mesmos problemas que nós temos.
A estratégia dos dois passos aplicados à interpretação evita também que 0 
estudo bíblico em grupo caia num mero compartilhar de opiniões sem uma base 
bíblica verdadeira. Uma pessoa hábil nesse tipo de estratégia pode ajudaT ourias 
a dar sua contribuição para que o grupo entenda uma passagem em especial.
A . Berkeley M ickelsèn4
A INTERPRETAÇÃO DAS ESCRITURAS j 81
R E C U R S O S P A R A L E I T U R A E E S T U D O
Fee, Gordon D. & Stuart, Douglas. Entendes 0 que lês? Um guia para entender a 
Bíblia com 0 auxílio da exegese e da hermenêutica (3. ed. rev. e ampl.).
Mickelsen, A. Berkeley. Interpreting the Bible,
Stein, Robert H. Guia básico para a interpretação da Bíblia: interpretando conforme 
as regras.
Stott, John R. W. Entenda a Bíblia.
R E C U R S O S A D I C I O N A I S
Carson, D. A. Os perigos da interpretação bíblica.
Dyck, Elmer (ed.). Hermenêutica: uma abordagem multidisciplinar da leitura 
bíblica.
Fee, Gordon D. & Stuart, Douglas. Como ler a Bíblia livro por Livro: um guia de 
estudo panorâmico da Bíblia.
______. Manual de exegese bíblica: Antigo e Novo Testamentos.
Osborne, Grant. Espiral hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica. 
Z uck, Roy. A interpretação bíblica: meios de descobrir a verdade da Bíblia.
4Interpretation of the Bible, in: W. A. Elwell, org., Baker E71cydopedia o f the Bible, p. 308-14. 
Usado com permissão.
t f i ''Í &J !U' i i ; Ví.־.t v ■ Δ -'s **. -·,-CT-.. .Sá ·־-־: *CAPÍTULO 4
A DOUTRINA DE 
DEUS PAI
Isaías 4 5 .2 2
Eu sou Deus, e não há outro.
O ensinamento mais fundamental da Bíblia e da teologia cristã é que Deus 
existe e que, em última análise, ele está no controle do universo. Esse é o fun- 
damento sobre 0 qual toda a teologia cristã foi edificada.
O CO N CEITO B ÍBLICO DE DEUS
A existência de Deus. As dúvidas sobre a existência de Deus não são discuti- 
das nas Escrituras; sua existência é presumida em todas elas. A passagem que 
abre a Bíblia mostra Deus como Criador e Soberano do céu e da terra e estabe- 
lece 0 padrão para todas as demais passagens, em que Deus é imprescindível 
para uma visão adequada da vida e do mundo. Portanto, a Bíblia não indaga se 
Deus existe, mas sim quem é ele e como pode ser conhecido.
As Escrituras admitem a existência do ateísmo confesso. Todavia, esse ateis- 
mo é considerado sobretudo um problema moral, e não intelectual. O tolo que 
nega a existência de Deus (SI 14.1) o faz não tanto por razões filosóficas (que 
são, em todo caso, incapazes de desacreditar 0 absoluto, a não ser afirmando-o), 
e sim por uma opção prática (às vezes tácita) de viver sem levar Deus em conta 
(SI 10.4), As Escrituras reconhecem a supressão voluntária e, portanto, conde- 
nável, do conhecimento de Deus (Rm 1.18).
C onhecimento de D eus. De acordo com as Escrituras, Deus se dá a conhecer 
tão somente por iniciativa própria, mostrando-se pela revelação. As tentativas 
humanas de refletir sobre Deus e de alcançá-lo de várias maneiras, inclusive 
pelas tais provas da existência de Deus, acham-se inevitavelmente limitadas 
pelo reino da existência criada. Embora 0 homem possa apresentar fortes eví- 
dências da provável existência de um deus, ele não pode, porém, chegar ao 
conhecimento do Deus transcendente das Escrituras (1C0 1.21). Assim como 
uma pessoa qualquer só se dá a conhecer de verdade expondo quem é. Deus, 
que só por ele mesmo é conhecido, se dá a conhecer por meio do seu Espírito 
{1C0 2.10,11). Com isso, toma-se objeto do conhecimento humano.
Um pouco da realidade e do poder de Deus está revelado na criação (princi- 
palmente nos seres humanos} e na preservação do universo (At 17.29; Rm 1.20). 
Na medida em que a razão humana produz 0 conceito de um deus, ele se acha 
sem dúvida alguma relacionado a essa revelação geral ou natural. Contudo, a 
entrada do pecado e seu efeito alienante cega as pessoas e as impede de ver 
verdadeiramente a Deus por esse meio (Rm 1.18; Ef 4.18). Sem fé, tal conhe- 
cimento natural de Deus resulta, inevitavelmente, em falsos deuses idolátricos 
(Rm 1.21-25). Além disso, a Bíblia diz que, mesmo antes da Queda, 0 conhe- 
cimento que 0 homem tinha de Deus decorria não só da revelação natural à 
sua volta materializada na criação, mas também de uma comunicação pessoal 
direta com Deus.
Portanto, embora Deus estabeleça contato com os seres humanos por meio 
de atos manifestos na criação e na história, seu meio principal de revelação 
se dá pela Palavra, já que 0 conhecimento humano é basicamente de caráter 
conceituai. Nem mesmo os atos divinos se dão por meio de obras mudas, já 
que são acompanhados pela interpretação da Palavra para que seu verdadeiro 
significado seja conhecido. A revelação de Deus atingiu seu ponto máximo na 
pessoa de Jesus Cristo, que não foi apenas portador da Palavra de revelação 
divina: ele era a Palavra divina em pessoa. Nele “habita corporalmente toda a 
plenitude da divindade" (Cl 2.9; cf. Hb 1.1-3). Portanto, em seus atos podero- 
sos de Criador e Redentor e em suas palavras reveladas, Deus, por meio do seu 
Espírito, revela-se para desse modo comunicar 0 verdadeiro conhecimento de 
si mesmo àqueles que, pela fé, se abrem à manifestação de Deus por iniciativa 
própria dele.
A revelação de Deus não esgota totalmente seu ser e sua atividade. Ele conti- 
nua a ser incompreensível, de tal modo que 0 homem não tem como imaginá-lo 
perfeitamente, tanto no que diz respeito à sua essência quanto a seus cami- 
nhos (Jó 36.26; Is 40.13,28; cf, Dt 29.29). A finitude não pode compreender 0 
que é infinito, nem tampouco os padrões humanos de pensamento, que estão
8 4 [ CURSO PARA FORMAÇAO DE LÍDERES E OBREIROS
85A DOUTRINA DE DEUS PAI
associados ao ambiente criado, podem entender completamente o reino trans- 
cendente de Deus.
Em face dessa limitação da razão humana, algumas vertentes da teologia 
mística negaram a possibilidade de conhecer a Deus ou de definido. É possível 
experimentádo, mas somente num estado de êxtase que transcende o pensa- 
mento conceituai. O racionalismo moderno defende também a impossibilidade 
de se conhecer a Deus. Essa equação que junta a incompreensihilidade de Deus 
com a impossibilidade de conhecê-lo é válida apenas tomando-se a premissa de 
que 0 conhecimento humano de Deus é derivado da razão humana. Contudo, o 
Deus incompreensível das Escrituras é 0 Deus que se aproxima das pessoas por 
meio da revelação de si mesmo. O conhecimento assim obtido, embora limitado 
em conformidade com sen desejo perfeito, nem por isso deixa de ser um conhe- 
cimento verdadeiro de seu ser e de sua obra.
Ao se dar a conhecer a nós, Deus dá à sua Palavra uma forma finita com- 
patível coma condição de criatura do ser humano. Apesar dessa acomodação 
necessária às limitações do entendimento humano, 0 conhecimento revelado 
de Deus é, ainda assim, um conhecimento autêntico. As teorias que recorrem 
à diferença entre Dens e 0 homem para negar a possibilidade de uma comuni- 
cação genuína do conhecimento verdadeiro não fazem justiça a, no mínimo, 
dois fatos bíblicos: 1) que Deus criou 0 homem à sua imagem, 0 que certa- 
mente inclui uma semelhança suficiente para a comunicação; 2) a onipotência 
divina, que implica a possibilidade de Deus fazer uma criatura a quem possa 
verdadeiramente se revelar, se essa for sua vontade. É claro que persiste um 
ocultamento no que diz respeito à compreensão total de Deus. Ele, porém, não 
fica oculto, porque nos concedeu conhecimento verdadeiro, ainda que parcial, 
de si mesmo por meio de uma revelação compreensível ao homem. E, uma vez 
que esse conhecimento consiste numa verdade comunicada por Deus, e não em 
idéias meramente humanas que brotam da experiência, ele pode incluir 0 co- 
nhecimento de Deus em sí mesmo, bem como 0 conhecimento de suas relações 
com a criação.
A natureza do nosso conhecimento de Deus tem sido objeto de muita dis- 
cussão na teologia cristã. Houve quem enfatizasse 0 caráter negativo do nosso 
conhecimento — por exemplo, Deus é infinito, atemporal, incorpóreo. Outros, 
principalmente Tomás de Aquino, defenderam um conhecimento analógico se- 
melhante ao conhecimento de Deus, porém distinto em razão de sua infinita 
grandeza. Basta dizer que mesmo 0 negativo (como 0 infinito, por exemplo) co- 
munica um conceito positivo de grandeza, e embora a analogia possa ser usada 
para conferir uma distinção em profundidade e amplitude de entendimento, há 
finalmente um sentido em que 0 conhecimento humano das coisas divinas é 
0 mesmo de Deus. A linguagem analógica ou metafórica deve ter algum ponto
unívoco de conhecimento em relação a seu referente para que possa ser con- 
siderada efetivamente análoga a ele. É interessante notar qne, para a Bíblia, o 
problema do conhecimento verdadeiro de Deus é moral, e não noético.
DEFIN IÇÃO DE DEUS
Do ponto de vista da Bíblia, acredita-se que seja impossível dar uma definição 
exata da ideia de Deus. Definir significa limitar, requer a inclusão do objeto em 
determinada classe e a indicação de suas características diferenciadoras em 
relação a outros objetos dessa mesma classe. Uma vez que 0 Deus da Bíblia é 
único e incomparável (Is 40.25], não há uma categoria abstrata universal do 
divino. Os estudos de religiões comparadas mostram que “deus” é, de fato, 
concebido das mais variadas maneiras. As tentativas de formular uma definição 
geral que englobe todos os conceitos do divino, tal como quis Anselmo com seu 
argumento sobre 0 “ser do qual não é possível pensar nada maior”, ou 0 "Ser 
supremo”, não transmitem boa parte das características do Deus das Escrituras. 
Em vez de uma definição geral de Deus, portanto, a Bíblia apresenta descrições 
dele conforme Deus se revelou. Tais descrições são comunicadas por meio de 
declarações expressas, bem como por meio dos vários nomes através dos quais 
Deus se identifica. Fundamental para a natureza de Deus, conforme a descrição 
bíblica, são as verdades de que ele é pessoal, espiritual e santo.
Deus é pessoal. Contrariamente a todo conceito abstrato, neutro e metafísico, 
0 Deus das Escrituras é, antes de mais nada, um ser pessoal. Ele se revela por 
meio de nomes, sobretudo pelo grande nome pessoal de Javé, “ e u s o u o q u e 
sou” (cf. Êx 3.13-15; 6.3; Is 42.8] e, no ápice da revelação, na pessoa de Jesus, 
que é Deus encarnado (Jo 1.14], Ele sabe e deseja de maneira consciente, de 
acordo com nosso conceito de personalidade (1C0 2.10,11; Ef 1.11]. A centrali- 
dade da personalidade divina se observa pelo fato de que, embora seja 0 Criador 
e 0 Mantenedor de toda a natureza, nós 0 encontramos na Escritura não como 
0 Deus da natureza em primeiro lugar, como nas religiões pagãs, mas como 0 
Deus da história, controlando e dirigindo os assuntos da humanidade. O lugar 
central da aliança, por meio da qual ele estabelece um vínculo pessoal com a 
humanidade, é mais uma indicação da ênfase da Escritura na natureza pessoal 
de Deus, Em parte alguma 0 caráter pessoal de Deus é mais evidente do que na 
descrição bíblica de Deus como Pai. Jesus sempre se referiu a Deus como "meu 
Pai”, “seu Pai”, e “Pai celestial”. Além da relação trinitária sem igual do Filho 
divino com 0 Pai, em que certamente há traços pessoais, a paternidade divina 
aponta para os fatos de que ele é fonte e sustento de suas criaturas, de que se 
importa com elas de maneira pessoal (Mt 5.45; 6.26-32) e de que é aquele a
8 6 j CURSO PARA FORMAÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
quem se pode apelar com confiança e fé. Sua natureza como Deus de amor, que 
se dá a si mesmo, só tem sentido se ele for pessoal.
O caráter pessoal de Deus é descrito pela Escritura tanto em termos mas- 
culinos quanto femininos (p. ex., Is 66.13], embora 0 masculino predomine, 
por exemplo, em “Pai”, “Rei”, “Senhor”, juntamente com a utilização de pro- 
nomes pessoais exclusivamente masculinos. As Escrituras ensinam claramente 
que a pessoa de Deus transcende tanto a masculinidade quanto a feminilidade. 
Todavia, como não há pronomes pessoais neutros, os pronomes masculinos, 
juntamente com os nomes e as imagens predominantemente masculinas, tam- 
bém revelam verdades bíblicas importantes sobre Deus Criador transcendente 
e Senhor soberano.
A pessoa de Deus já foi colocada em dúvida em virtude do uso que fazemos 
da palavra pessoa no que se refere aos seres humanos. A pessoa humana tem 
limitações que permitem 0 relacionamento com outra pessoa ou com o mundo. 
Ser pessoa significa ser um indivíduo entre indivíduos. Tudo isso nos serve de 
advertência para que não antropomorfizemos Deus erroneamente. Biblicamen- 
te, é mais correto ver a pessoa de Deus acima da pessoa do homem e, portanto, 
compreender a pessoa humana de maneira teomórfica, isto é, uma réplica finita 
da pessoa divina infinita (cf. Gn 1.26,27). Historicamente, 0 conceito de “pes- 
soa" deriva em grande parte da tentativa teológica de entender o significado de 
pessoa em relação aos três membros da Trindade e a pessoa una de Cristo como 
Deus e homem ao mesmo tempo. Apesar da incompreensibilidade da pessoa 
sobre-humana de Deus, as Escrituras 0 retratam como uma pessoa real que se 
dá num relacionamento recíproco conosco.
O conceito bíblico da pessoa divina refuta todas as idéias abstratas e fi- 
losóficas de Deus como mera Primeira Causa ou Primeiro Motor, bem como 
todo conceito naturalista e panteísta. As comparações modernas de Deus com 
relações pessoais imanentes (p. ex0 ״ amor) também são rejeitadas e const- 
deradas inadequadas.
Deus é espiritual. As Escrituras dizem que Deus é "espírito”, 0 que denota 
basicamente vida e poder (Jo 4,24). Sua natureza espiritual, descrita de várias 
maneiras, aponta para a realidade de Deus como Poder absoluto e Doador da 
vida. A fragilidade das forças deste mundo, inclusive dos homens e dos ani- 
mais, que são tão somente carne, é contrastada com Deus, que é espírito (cf. 
Is 31.3; 40.6,7).
Como espírito, Deus é o Deus vivo. Ele é dono de uma vida eterna em si 
mesmo (SI 36.9; Jo 5.26). A matéria é ativada pelo espírito, mas Deus é espírito 
puro. Ele é a vida em sua plenitude. Como tal, Deus é a fonte de toda forma 
de vida (Jó 33.4; SI 104.30; lTm 6.13). A natureza espiritual também impede
A DOUTRINA DE DEUS PAI J 8 7
toda e qualquer limitação de Deus derivada de uma concepção materialista. Por 
esse motivo é que as imagens de Deus são proibidas (Èx 20.4; Dt 4.12,15-18). 
Ele não pode ser circunscrito a nenhum lugar específico ou ser de algum modo 
submetido ao controle humano como se fosse um objeto físico. Ele é 0 poder 
vivo, invisível e transcendente de quem todos derivam a existência (At 17.28).
D eus é santo. Uma das características mais fundamentais do ser divino é ex-em filosofia pela Universidade de Bristol. É professor 
de Estudos Religiosos da Universidade de Calgary. É autor, entre outros livros, 
de Understanding Cults and New Age Religions (em parceria com Karla Poewe 
e J. 1. Packer).
"PROFESSORES״ DO CURSO RARA FORMAÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS | 13
Arlie J. Hoover, doutor em filosofia, é professor de História na Abilene 
Christian University. Doutorou-se pela Universidade do Texas, em Austin.
Lin Johnson, mestre, National-Louis University, é professora adjunta da Taylor 
University. Autora freelance premiada e editora de várias publicações.
Byron D. Klaus, doutor em ministério, é reitor do Seminário Teológico das 
Assembléias de Deus. Doutorou-se pelo Seminário Teológico Fuller.
Marlene D. LeFever, mestre, Wheaton College, é vice-presidente de desenvol- 
vimento educacional da Cook Communications. É palestrante, consultora e pro- 
fessora convidada de faculdades e seminários dos Estados Unidos. É autora de
Estilos de aprendizagem.
Gordon R. Lewis, doutor em filosofia, é professor sênior de Filosofia Cristã e 
Teologia do Seminário de Denver. Doutorou-se pela Universidade de Syracuse. 
É autor de Testing Christianity's Truth Claims.
Hugh Dermot McDonald, doutor em filosofia e divindade, ex-vice-reitor do 
London Bible College. Doutorou-se pela Universidade de Londres.
Alister E. McGrath, doutor em filosofia e professor de Teologia Histórica da 
Universidade de Oxford, onde fez 0 doutorado. É autor de vários livros, entre 
eles Theology: The Basics.
Donald K. McKim, doutor em filosofia, editor de livros acadêmicos e de refe- 
rência da Westminster John Knox Press. É ex-reitor acadêmico e professor de 
Teologia do Seminário Teológica de Memphis. Doutorou-se pela Universidade 
de Pittsburgh.
James E. Means, doutor em filosofia, professor de Ministérios Pastorais e de 
Homilética do Seminário de Denver. É autor de Leadership in Christian Ministry. 
Doutorou-se pela Universidade de Denver.
A. Berkeley Mickelsen, doutor em filosofia, professor emérito de Interpreta- 
çâo Bíblica do Seminário Teológico Bethel. Doutorou-se pela Universidade de 
Chicago.
A. Scott Moreau, doutor em missiologia, presidente e professor do Departa- 
mento de Missões do Wheaton College. Doutorou-se pela Trinity Evangelical 
Divinity School. É autor ou editor de vários livros, entre eles introducing World 
Missions.
Leon L. Morris, doutor em filosofia, Universidade de Cambridge. Ex-reitor do 
Ridley College, de Melbourne, Austrália, é autor de The Apostolic Preaching of 
the Cross e de vários outros livros.
14 I CURSO ΡΛΙίΑ FORMAÇÃO DE LÍDPRES E OBREIROS
Mark A. Noll, doutor em filosofia, ensina História na Universidade de Notre 
Dame depois de ter lecionado durante 28 anos no Wheaton College. Doutorou-se 
pela Universidade Vanderbilt e é autor de America’s God: From Jonathan Edwards 
to Abraham Lincoln, entre outros.
Frederick A. Norwood, doutor em filosofia, ex-professor emérito de História do 
Cristianismo no Seminário Teológico Evangélico Garrett. Doutorou-se pela Uni- 
versidade de Yale, É autor de The Development of Modem Christianity Since 1500.
Lidija Novakovic, doutora em filosofia, é professora associada de Novo 
Testamento da Baylor University. Doutorou-se pela Universidade de Princeton.
Thomas Henry Louis Parker, doutor em divindade, ex-professor emérito de 
Teologia da Universidade Durham, na Inglaterra.
Richard V. Pierard, doutor em filosofia pela Universidade de Iowa. Professor 
de história na Universidade Estadual de Indiana e coautor (em parceria com 
Thomas Askew] de The American Church Experience: A Concise History.
W. Gary Phillips, doutor em teologia, ex-professor emérito de estudos bíblicos 
do Bryan College antes de se tornar pastor da Signal Mountain Bible Church, 
Chattanooga, no Tennessee. Doutorou-se pelo Grace Theological Seminary. É 
autor, entre outros de Judges anã Rath.
Michael Redding, mestre em divindade, é autor de Great Themes: Understan- 
ding the Bible’s Core Doctrines e Times and Places: Picturing the Events of the 
Bible. Fez seu mestrado no Grace Theological Seminary.
Robert L. Saucy, doutor em teologia, Seminário Teológico de Dallas. Professor 
emérito de Teologia Sistemática da Biola University em La Mirada, Califórnia. 
É autor de The Church in God’s Program e coautor (em parceria com Neil T. 
Anderson] de Unleashing God’s Power in Yon.
Mark Shaw, doutor etn teologia, é missionário e ensina História e Teologia 
na Nairobi Evangelical Graduate School of Theology, no Quênia. É autor de 
Ten Great Ideas from Church History. Doutorou-se pelo Seminário Teológico de 
Westminster.
Bruce L. Shelley, doutor em teologia, professor sênior de História da Igreja e 
Teologia Histórica do Seminário Teológico de Denver. Doutorou-se pela Univer- 
sidade de iowa. É autor de História do cristianismo ao alcance de todos.
"PROFESSORES" DO CURSO PARA FORMAÇAO DE LfDERES E OBREIROS J 15
Donald K. Smith, doutor em filosofia, é presidente da Divisão de Estudos 
Interculturais do Western Seminary. Doutorou-se pela Universidade do Oregon.
1 6 J CURSO PARA FORMAÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
Paul R. Spickard, doutor em filosofia, é professor de História da Universidade 
da Califórnia, em Santa Bárbara. Doutorou-se pela Universidade da Califórnia, 
em Berkeley. É coautor (em parceria com Kevin M. Cragg) de A Global History 
of Christians.
James J. Stamoolis, doutor em teologia, ex-diretor executivo da Comissão 
Teológica da Word Evangelical Fellowship, é vice-presidente sênior de assuntos 
acadêmicos e reitor do Trinity College e da Trinity Graduate School. Doutorou-se 
pela Universidade de Stellenbosch, na África do Sul.
Robert H. Stein, doutor em teologia, professor sênior de Interpretação do 
Novo Testamento no Southern Baptist Theological Seminary. Doutorou-se pela 
Universidade de Princeton. É autor de A Basic Guide to Interpreting the Bible.
John R. W. Stott, doutor em divindade, pregador talentoso, mundialmente 
aclamado e profundo conhecedor da Bíblia, Doutorou-se pela Universidade de 
Cambridge. É autor de vários livros, entre eles Cristianismo básico e Entenda a 
Bíblia. Faleceu em 2011.
Vinson Synan, doutor em filosofia, reitor da School of Divinity, Regent Univer- 
sity, doutorou-se pela Universidade da Geórgia. É autor de Voices of Pentecost.
Tite Tiéuou, doutor em filosofia, reitor e professor de Teologia de Missões da 
Trinity Evangelical Divinity School, doutorou-se pelo Seminário Teológico Fuller.
Geoff ,numicliffe, mestre, Wheaton College, é diretor internacionai da Aliança 
Evangélica Mundial e presidente da Evangelical Fellowship da Global Mission 
Roundtable do Canadá. É autor de 101 Ways to Change Your World.
Howard F. Vos, doutor em teologia e filosofia, é professor de História e Arqueo- 
logia do The Kings College, Briarcliff Manor, Nova York. Doutorou-se pelo 
Seminário Teológico de Dallas e pela Northwestern University, respectivamente. 
É autor e coautor de vários livros, entre eles The AMG Concise Introduction to 
the Bible.
C. Peter Wagner, doutor em filosofia, é professor da cátedra Donald A. 
McGavran de Crescimento da Igreja na Fuller School of World Mission. Dou- 
torou-se pela University of Southern California. É autor de Your Spiritual Gifts 
Can Help Your Church Grow.
Larry Lee Walker, doutor em filosofia, é professor de Antigo Testamento e de 
línguas semiticas no Mid-America Baptist Theological Seminary. Doutorou-se 
pelo Dropsie College.
Ronald S. Wallace, doutor em filosofia, ex-professor de teologia bíblica do 
Seminário Teológico de Columbia. Doutorou-se pela Universidade de Edimburgo. 
É autor de The Message of Daniel.
Timothy P. Weber, doutor em filosofia, é reitor do Seminário Teológico de 
Memphis. Doutorou-se pela Universidade de Chicago. É autor de On the Road 
to Armageddon: How Evangelicals Became Israel’s Best Friend.
Reginald E. 0. White, mestre pela Universidade de Liverpool, ex-reitor do 
Seminário Teológico Batista de Glasgow. É autor de Apostle Extraordinary.
Dennis E.pressa pela palavra santo. Ele é 0 Deus incomparável, "0 Santo” (Is 40.25; cf. 
Hc 3.3). “Santo”, um termo que tanto em hebraico quanto em grego procede de 
uma raiz cujo significado é “separação", é usado sobretudo na Escritura para 
indicar a separação do pecado. Contudo, esse é apenas 0 sentido secundário 
do termo, derivado de sua aplicação primária para indicar a separação de Deus 
de toda a criação, isto é, sua transcendência. Ele é '1exaltado acima de todos os 
povos". Portanto, ele é “santo” (SI 99.2,3). Ele é “0 Alto e 0 Sublime [...] cujo 
nome é santo”, e que vive num “lugar alto e santo” (Is 57.15). Em sua santida- 
de, Deus é a Divindade transcendente.
A transcendência divina expressa a verdade de que Deus em si mesmo é ínfi- 
nitamente exaltado acima de toda a criação. O conceito de revelação pressupõe 
um Deus transcendente que deve se desvendar para ser conhecido. A transcen- 
dência também é entendida como a posição de Deus como Criador e Senhor 
Soberano do universo. Como Criador, ele se distingue de toda a criação (Rm 1,25) 
e, como Senhor Soberano, deixa evidente sua supremacia transcendente.
A transcendência divina é comumente expressa na Bíblia em termos de tem- 
po e espaço. Ele existe antes de toda a criação (SI 90.2), e nem a terra nem os 
céus mais elevados podem contê-lo (lRs 8.27). Nota-se certa dose de antropo- 
morfização em tais expressões para que a transcendência divina não seja con- 
cebida em termos de nosso espaço e tempo, como se ele vivesse num tempo e 
num espaço semelhante ao nosso, só que além da criação. Por outro lado, tam- 
bém é biblicamente incorreto conceber Deus em sua transcendência como se 
ele existisse num reino fora da criação onde não havería tempo nem espaço. De 
uma maneira que exerce a nossa compreensão finita, Deus existe em seu reino 
infinito como Senhor transcendente sobre o tempo e o espaço de toda a criação.
A santidade transcendente de Deus equilibra-se na Bíblia com 0 ensino de 
sua imanência. Isso significa que ele é totalmente presente em seu ser e poder 
em toda parte e momento do universo criado. Ele é “sobre todos, por todos e 
está em todos” (Ef 4.6). Não apenas tudo existe nele (At 17.28), mas também 
não há lugar em que esteja ausente (SI 139.1-10). Sua imanência é percebida 
especialmente em relação aos seres humanos. O Santo que vive em um lugar 
alto habita também com 0 “contrito e humilde de espírito” (Is 57.15). Essa dup- 
la dimensão de Deus aparece claramente na expressão “0 Santo de Israel”, bem
8 8 I CURSO PARA FORMAÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
8 9A DOUTRINA DE DEUS PAI
como no nome Javé, que descreve tanto seu poder transcendente quanto sua 
presença pessoal com seu povo e em favor dele.
O ensinamento bíblico da transcendência e imanência de Deus contraria a 
tendência humana ao longo da história que ora enfatiza uma coisa, ora outra. 
Uma transcendência sem sua contrapartida aparece no conceito de supremo 
“fundamento do ser” dos filósofos gregos e, posteriormente, dos deístas dos 
séculos xvii e xvm. As várias formas de panteísmo ao longo da história são 
testemunhas da ênfase oposta sobre a imanência. A atração que esses exageros 
exercem sobre a humanidade pecadora se explica pelo fato de que em ambos 
não há ninguém diante de Deus que se apresente como criatura responsável em 
algum sentido pTático.
A TRINDADE
A natureza trinitariana da divindade é fundamental para a doutrina de Deus. 
Embora o termo trindade não apareça na Bíblia exatamente desse modo, a 
teologia cristã o tem utilizado para se referir à tríplice manifestação do Deus 
único nas pessoas do Pai, Filho e Espírito Santo. A doutrina da Trindade assim 
formulada afirma a verdade de que Deus é um em seu ser e essência e de que 
ele existe eternamente em três "pessoas” distintas e iguais entre si. Embora 0 
termo pessoa em relação à 'Ifindade não tenha 0 mesmo sentido da individuali- 
dade limitada das pessoas humanas, ela afirma, ainda assim, 0 relacionamento 
pessoal, sobretudo no que diz respeito ao amor, no âmbito da divindade trina.
A doutrina da TVindade decorre da revelação que Deus fez de si mesmo na 
história bíblica da salvação. A medida que Deus se revela progressivamente em 
sua ação salvadora no Filho e no Espírito, cada um deles é identificado com 0 
próprio Deus, que se manifesta de maneira pessoal. Portanto, é na plenitude 
da revelação do Novo Testamento que a doutrina da Trindade se mostra com 
maior clareza. Deus é um (G13.20; Tg 2.19), porém 0 Filho (Jo 1.1; 14.9; Cl 2.9) 
e 0 Espírito (At 5.3,4; 1C0 3.16) também são Deus em toda a sua plenitude. 
Contudo, são distintos do Pai e uns dos outros; o Pai envia a Filho e 0 Espírito 
(Jo 15.26; G14.4). Essa igualdade uniforme, porém distinta, fica evidente nas re- 
ferências trinitárías às três pessoas. O batismo cristão é administrado no nome 
do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 28.19). De igual modo, os três aparecem 
juntos na bênção paulina em outra ordem, sugerindo com isso a igualdade total 
entre as pessoas (2C0 13.14; cf. Ef 4.4-6; lPe 1.2).
Embora a Trindade apareça com maior destaque no Novo Testamento, indi- 
cações de uma pluralidade plena são encontradas já na revelação veterotesta- 
mentáría de Deus. O plural do nome de Deus (Elohim), bem como a utilização 
de pronomes plurais (Gn 1.26; 11.7) apontam nessa direção. É 0 caso também 
da identificação do Anjo do Senhor com Deus (Êx 3.2-6; Jz 13.21,22) e da
hipostatização da Palavra (SI 33.6; 107,20) e do Espírito [Gn 1.2; Is 63.10). 
A Palavra não é simplesmente comunicação sobre Deus, tampouco 0 Espírito é 
meramente poder divino, Eles são, isto sim, 0 Deus que age em pessoa.
Como produto da revelação pessoal de Deus, a formulação trinitariana não 
se propõe a exaurir sua natureza incompreensível. As objeções à doutrina pro- 
cedem do racionalismo, que insiste em dissolver esse mistério, abrindo-o à 
compreensão humana. Em outros termos, 0 racionalismo quer pensar a unici- 
dade e a triunidade em termos matemáticos e de personalidade humana. Foram 
feitas tentativas no sentido de extrair da natureza e da constituição do homem 
analogias com a Trindade. A mais memorável delas é de Agostinho, que com- 
parou a ׳Trindade ao amante, ao objeto do amor e ao amor que une os dois. 
Embora tal formulação sustente com firmeza a existência de uma pluralidade 
na divindade, se Deus é eternamente um Deus de amor à parte da criação, esta, 
juntamente com todas as demais sugestões tomadas ao reino das criaturas, 
revela-se por fim inadequada para explicar 0 ente divino.
A doutrina da Trindade foi decorrência do desejo da igreja de salvaguardar 
as verdades bíblicas do Deus que é o Senhor transcendente e que está acima da 
história, mas que se dá a si mesmo em pessoa e, desse modo, age na história. 
A inclinação natural dó homem em direção a uma transcendência divitia não 
histórica ou a uma absorção do divino no processo histórico é contida pela defe- 
sa ortodoxa da Trindade.
A primeira inclinação referida é o equivoco por excelência de todas as distor- 
ções básicas de que é vítima a Trindade. O subordinacionismo, segundo o qual 
Cristo era pouco menos do que Deus, e 0 adocionismo, que via em Cristo um ser 
humano agradado por algum tempo com 0 Espírito de Deus, negavam que Deus 
houvesse entrado de fato na história e confrontado a humanidade em pessoa.
Com relação à segunda inclinação, 0 modalismo, ou sabelianismo, toma as 
pessoas de Cristo e do Espírito tão somente figuras históricas ou modificações 
do Deus único. Esse erro tende também a separar a humanidade de Deus. Ele 
não se comunica tal como é em pessoa, mas como intérprete que permanece 
oculto por trás de uma máscara.
Portanto, a doutrina trinitariana é fundamental para 0 querigma da salvação 
da Escritura, segundo a qual 0 Deus transcendente age de maneira pessoal na 
história para redimir suas criaturas e com elas compartilhar seu ser. Orígenes 
estava certo quando concluiu que 0 crente ״não alcançará a salvação se a TWn- 
dade não estiver completa".A D O U TRIN A DE DEUS NA H ISTÓ RIA
A história da pensamento cristão apresenta dificuldades persistentes no que diz 
respeito à natureza de Deus e Sua relação com 0 mundo. São problemas que se
90 I CLIRSO PARA FORMAÇÃO ΠΕ LÍDERES E OBREIROS
A DOUTRINA DE DEUS PAI I 91
acham relacionados com outros: transcendência/imanência, perspectivas pes- 
soais/não pessoais e a possibilidade de se conhecer a Deus. Os primeiros teó- 
logos cristãos, que tentaram interpretar a fé cristã de acordo com as categorias 
filosóficas gregas, costumavam enfatizar a transcendência abstrata de Deus. Ele 
era o Absoluto eterno e imutável, causa final e suficiente do universo. Pouco 
se podia atribuir a ele no que concerne a predicados, sendo seus atributos defi- 
nidos sobretudo em termos negativos. Era 0 ser não causado (tinha asseidade, 
ou existência própria), absoluto, simples, infinito, imutável e onipotente, não 
limitado pelo tempo (eterno) e espaço (onipresente).
Embora a visão de Agostinho fosse mais equilibrada, porque havia espaço 
nela para 0 Deus pessoal, imanente e condescendente na revelação de Cristo, 
essa interpretação filosófica de Deus persistiu até a Reforma, tendo chegado ao 
clímax com Tomás de Aquino e a escolástica medieval. Para Aquino, a razão 
humana era capaz de chegar ao conhecimento da existência de Deus por meio 
da filosofia. Sua ênfase, entretanto, era na transcendência divina e em quão 
pouco se podia saber sobre ela.
Com a ênfase sobre a Bíblia, e não sobre as categorias filosóficas, os reforma- 
dores deram maior destaque à imanência divina no âmbito da história humana, 
mas conservaram uma ênfase muito forte sobre sua transcendência, conforme 
se vê na definição da Confissão de Fé de Westminster.
A reação ao entendimento tradicional de Deus por parte de protestantes e 
católicos com ênfase sobre sua transcendência veio com 0 surgimento da teolo- 
gia liberal dos séculos xvm e xix. A combinação de novas filosofias (Immanuel 
Kant, G, W. F. Hegel, p. ex.), que tomava a mente a instância suprema para 0 
conhecimento verdadeiro, bem como avanços científicos que pareciam subs- 
tanciar as habilidades humanas, além de uma nova perspectiva histórica que 
tendia a relativizar toda tradição, inclusive as Escrituras, resultaram em um 
novo entendimento da realidade final. Como a razão humana, segundo Kant, 
não podia mais garantir a existência de um Deus transcendente, Deus passou 
a ser identificado cada vez mais com os ideais da experiência humana. Falar 
de dependência religiosa (Friedrich Schleiermacher) ou de valores éticos (Kant, 
Albrecht Ritschl) era 0 mesmo que falar de Deus, Havia uma ênfase praticamen- 
te exclusiva sobre a imanência de Deus acompanhada da tendência de ver uma 
afinidade essencial entre o espírito humano e 0 divino.
Os acontecimentos mundiais, entre eles duas guerras mundiais e a ascensão 
dos regimes totalitários, levaram ao colapso 0 velho liberalismo coin seu con- 
ceito imanentista de Deus e à reafirmação da transcendência divina. Sob 0 
comando de Karl Barth, a teologia procurou voltar não aos conceitos filosóficos 
anteriores acerca de Deus, mas às categorias das Escrituras judaico-cristâs. Com 
base numa separação radical entre eternidade e tempo, a transcendência divina
9 2 I CURSO PARA FORMAÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
foi objeto de um exagero tàl que a revelação direta de Deus na história humana 
foi negada. Para essa teologia neo-ortodoxa, Deus não falou diretamente nas 
Escrituras, Como resultado dessa negação de uma comunicação cognitiva direta, 
com 0 consequente ceticismo decorrente de qualquer conhecimento possível de 
Deus pòr si mesmo, perdeu-se paulatinamente a ênfase na transcendência. Um 
Deus transcendente que não se revelava de modo objetivo na história humana 
era evasivo demais. Consequentemente, a experiência religiosa do homem, nor- 
malmente interpretada em conformidade com a filosofia existencial [baseada 
na experiência], tornou-se cada vez mais imprescindível para o conhecimento 
teológico. Deus passou a ser entendido principalmente como 0 sentido que ele 
tem para as “experiências existenciais” do homem.
Pode-se dizer que tal movimento se inicia com Barth, cuja teologia preservava 
uma forte transcendência divina, passa por Rudolf Bultmann, que, embora não 
negasse a transcendência divina, detinha־se quase totalmente em Deus na expe- 
riência existencial humana e, por fim, manifesta-se com Paul Tillich, que negava 
completamente 0 Deus tradicional “lá fora” em favor de um Deus imanente que 
seria 0 "fundamento” de todo ser. Portanto, a transcendência divina desapareceu 
de boa parte do pensamento contemporâneo, que procura fazer teologia segun- 
do a estrutura filosófica existencial. A transcendência divina é simplesmente 
equiparada à autotranscendência humana oculta da existência humana.
Outros teólogos procuraram reconstruir a teologia em conformidade com 0 
entendimento que a moderna ciência evolucionista tem do universo. A teologia 
do processo, baseada na filosofia de A. N. Whitehead, entende a natureza fun- 
damental de toda a realidade como processo ou transformação, e não como algo 
que é, uma substância imutável, Embora exista uma dimensão eterna abstrata 
de Deus que dá potencial ao processo, ele também acolhería toda entidade em 
transformação em sua própria vida e, portanto, estaria igualmente em processo 
de mudança. Como 0 universo é dinâmico e mutável, atualizando suas poten- 
cialidades, 0 mesmo acontece com Deus.
A ampla variedade de formulações contemporâneas sobre Deus que tendem 
a defini-lo de tal modo que ele deixa de ser o Criador pessoal e Senhor Sobera- 
no da história humana é consequência direta da negação do conhecimento de 
Deus por meio da autorrevelação cognitiva divina nas Escrituras e da tendência 
pecaminosa do ser humano à autonomia.
Influenciados por algumas das mesmas forças que atuam por trás da teologia 
do processo, isto é, 0 entendimento moderno da realidade como algo dinâmico 
e relacionai, bem como a preocupação com a liberdade humana, alguns evan- 
gélicos dos nossos dias propõem uma “visão aberta" de Deus. Embora neguem 
explicitamente a dependência da divindade da criação (como na teologia do 
processo), a relação de Deus com suas criaturas é vista mais como a de um Pai
A DOUTRINA DE DEUS PAI 1 9 3
amoroso que trabalha em parceria com 0 ser humano. Suas principais ênfases 
são: 1) 0 conhecimento de Deus em sua relação dinâmica com 0 mundo, e não 
0 conhecimento de quem é Deus em si mesmo; e 2} a liberdade humana. Isso 
fez com que a visão aberta sobre Deus reinterpretasse os atributos divinos tradi- 
cionais associados à sua providência soberana, isto é , sua imutabilidade e onis- 
ciência, inclusive seu conhecimento do futuro. Essas mudanças esbarram em 
dificuldades, se confrontadas com alguns dados da Escritura. Além disso, não 
está claro de modo algum que essa visão seja capaz de solucionar problemas 
teológicos tradicionais — como, por exemplo, a existência do mal e a relação 
entre Deus, sua soberania e a liberdade humana — de maneira mais adequada 
do que 0 entendimento clássico sobre Deus.
Robert L. Saucy1
OS ATRIBUTOS DE DEUS
Deus é nm Espírito invisível, pessoal e vivo, distinto de outros espíritos por 
apresentar diferentes tipos de atributos: metafisicamente, Deus existe por si 
mesmo, é eterno e imutável: intelectualmente, Deus é onisciente, fiel e sábio; 
eticamente, Deus é justo, misericordioso e amoroso; emocionalmente, Deus de- 
testa o mal, é paciente e compassivo; existencialmente, Deus é livre, autêntico 
e onipotente; como ser relacionai, Deus é transcendente, imanente no plano 
universal no qne diz respeito à sua providência e imanente no que se refere ao 
seu povo no tocante à sua atividade de redenção.
A essência de qualquer coisa, em suma, é igual ao seu ser (substância] 
acrescentado dos seus atributos. Desde 0 ceticismo kantiano, que negava a 
possibilidade de conhecer qualquer coisa em si mes- 
ma ou em sua essência, muitos filósofose teólogos li- 
mitaram, de modo geral, sua maneira de falar aos 
fenômenos da experiência religiosa judaica e cristã.
Deixando de lado as categorias da essência, substân- 
da e atributo, passaram a pensar exclusivamente no 
âmbito do encontro pessoal, nos atos poderosos de 
Deus, nas funções divinas ou nos processos divinos ao longo da história. Deus 
está, de fato, ativo de todas essas maneiras e também de outras, mas não está 
calado. A revelação escriturística apresenta um pouco da verdade sobre a es- 
sência de Deus em si mesmo. A verdade conceituai revela não apenas o que 
Deus faz, mas também quem ele é.
A definição de 
água limita a força 
das Cataratas 
do Iguaçu?
Doctrine of God, in: W. A. Elwell, org., E v a n g e l ic a l D ic t i o n a r y o f T h e o lo g y , 2 s ed., p. 500-4. 
Usado com permissão.
CURSO PARA FORMAÇÃO DE LÍDERES E.OBREIROS94
A revelação bíblica ensina a realidade não só das entidades físicas, mas 
também dos seres espirituais: anjos, demônios, Satanás e 0 Deus trino. A Bíblia 
também dá informações sobre os atributos ou características das realidades ma- 
teríais e espirituais. Ao falarmos dos atributos de uma entidade, referimo-nos 
às suas qualidades essenciais ou àquelas inerentes a ela. O ser ou substância é 
o que fica por baixo e une os múltiplos e variados atributos em uma entidade 
una. Os atributos são essenciais para distinguir o Espírito divino de todos os 
outros espíritos. 0 Espírito divino é necessário para unir todos os atributos em 
um ser. Os atributos divinos, portanto, são características fundamentais do ser 
divino. Sem essas qualidades, Deus não seria quem é: Deus.
Houve quem imaginasse que, ao definir a essência de Deus, os pensadores 
humanos 0 confinariam a seus conceitos. Esse raciocínio, porém, confunde as 
palavras que transmitem conceitos com seus referentes, A definição de água 
limita a força das Cataratas do Iguaçu? A palavra D e u s tem sido usada de tantas 
maneiras que cabe ao autor ou a quem fala definir qual dos vários sentidos tem 
em mente.
DEUS É UM ESPÍRITO IN VISÍVEL, PESSOAL, V IVO E ATIVO
Jesus explicou a samaritana por que ela deveria adorar a Deus em espírito e 
em verdade. Deus é espírito (Jo 4.2.4). No grego, 0 substantivo pneuma inicia 
0 versículo citado para dar ênfase. Embora para alguns teólogos “espírito” 
seja um atributo, do ponto de vista gramatical trata-se de um substantivo na 
frase pronunciada por Jesus. No mundo pré-kantiano dos autores bíblicos do 
primeiro século, um espírito não era algo que se refutasse a priori, com um 
pressuposto cético.
Como espírito, Deus é invisível. Ninguém jamais viu a Deus ou jamais 0 verá 
(lTm 6.16). Um espírito não tem carne e ossos [Lc 24.39). Como espírito, além 
disso, Deus é pessoal. Embora alguns pensadores usem ,'espirito'’ para designar 
princípios impessoais ou um absoluto impessoal, no contexto bíblico 0 Espírito 
divino tem capacidades pessoais de inteligência, emoção e volição. Todavia, é 
importante extirpar do pessoal divino quaisquer vestígios do mal físico e moral 
associado aos seres humanos caídos.
Ao transcender os aspectos físicos da pessoa humana, Deus transcende 
também os aspectos físicos tanto da masculinidade quanto da feminilidade. 
Todavia, uma vez que macho e fêmea foram criados à imagem de Deus, isso 
nos leva a pensar em ambos como semelhantes a Deus em suas qualidades es- 
pecíficas, não físicas de macho e fêmea. Nesse contexto, 0 uso que a Bíblia faz 
dos pronomes pessoais masculinos para Deus transmite principalmente a ideia 
das qualidades pessoais vitais de Deus e, em segundo lugar, toda e qualquer 
responsabilidade funcional específica que um macho possa ter.
A ênfase característica de Cristo em relação a Deus como Pai no pai-nosso e 
em outras passagens peTde 0 sentido se Deus não for um ser pessoal. De igual 
modo, as grandes doutrinas da misericórdia, da graça, do perdão, da imputação 
e da justificação só têm sentido se Deus far genuinamente pessoal. Deus deve 
ser capaz de ouvir 0 grito do pecador por salvação, sentir-se comovido com ele 
e decidir então agir para recuperar 0 perdido. De fato, Deus é suprapessoal e tri- 
no. A doutrina clássica da Trindade sintetiza de forma coerente 0 ensinamento 
bíblico sobre Deus. Colocar o nome de Deus sobre um candidato ao batismo é 
colocar sobre ele 0 nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 28.19).
A unidade da essência e do ser divino único enfatizada no conceito neotesta- 
mentário de um espírito pessoal implica simplicidade ou indivisibilidade. Nem 
as características pessoais trinitárias específicas nem tampouco os múltiplos 
atributos rompem a unidade essencial do ser divino. Essa unicidade essencial e 
ontológica não é rompida pela encarnação e nem mesmo pela morte de Jesus. 
Relacionai ou funcíonalmente (mas não essencialmente), Jesus esteve separado 
do Pai na cruz, que imputou sobre ele a culpa e o castigo pelo nosso pecado.
Em face da indivisibilidade do Espírito divino, de que maneira então os 
atributos estão relacionados com 0 ente divino? Os atributos divinos não são 
meros nomes para uso humano sem referente algum no Espírito divino (nomi- 
nalismo). Tampouco os atributos estão separados uns dos Outros na esfera do 
ser divino, de modo que possam entrar em conflito um com 0 outro (realismo). 
Os atributos qualificam igualmente 0 ser divino por completo, bem como um ao 
outro (realismo modificado). Ao preservar a simplicidade ou indivisibilidade di- 
vina, 0 amor de Deus é sempre um amor santo, e a santidade de Deus é sempre 
santidade amorosa. Por conseguinte, é inútil defender a superioridade de um 
atributo divino sobre 0 outro. Todo atributo é essencial; um não pode ser mais 
essencial do que 0 outro num ser simples despojado de extensão.
Além disso, Deus, como espírito, é vivo e ativo. Diferentemente dos prin- 
cípios passivos das filosofias gregas, 0 Deus da Bíblia cria de modo eficaz, 
faz alianças com seu povo, preserva Tsrael e a linhagem de descendência do 
Messias, chama um profeta depois do outro, envia seu Filho ao mundo, propi- 
da o sacrifício expiatório para satisfazer sua própria justiça, levanta Cristo dos 
mortos, edifica a igreja e julga a todos retamente. Longe de ser uma entidade 
passiva como uma casa aconchegante, 0 Deus da Bíblia é um arquiteto ativo, 
construtor, defensor da liberdade, advogado dos pobres e oprimidos, justo juiz, 
conselheiro compassivo, servo sofredor e libertador triunfante.
Como espírito invisível, pessoal e vivo, Deus não é mero objeto passivo 
de investigação humana. Autores como Blaise Pascal, S0ren Kierkegaard, Karl 
Barth e Emil Brunner foram importantes porque lembraram aos cristãos que 
conhecer a Deus não é como analisar 0 solo. Contudo, eles vão longe demais ao
A DOUTRINA DE DEUS PAI | 9 5
dizer que Deus é simplesmente um sujeito que se revela num encontro pessoal 
inexprimível e que não é possível conhecer nenhuma verdade objetiva e pro- 
posicionai a seu respeito. Os membros da família de um artista criativo podem 
conhecê-lo nao só com uma subjetividade apaixonante e pessoal, mas também 
de modo objetivo por meio da análise de suas obras, da leitura cuidadosa das 
seus escritos e pela avaliação do seu currículo. Da mesma maneira, Deus pode 
ser conhecido não só através de uma entrega subjetiva apaixonada, mas tam- 
bém por meio da reflexão sobre suas obras criativas (revelação geral), sua Escri- 
tura inspirada (parte da revelação especial) e pelos currículos teológicos de sua 
natureza e atividade. O conhecimento de Deus requer tanto validade objetiva e 
conceituai quanto comunhão subjetiva e pessoal.
Já discutimos o que significa dizer que Deus é espírito: 0 ser divino é uno, 
invisível, pessoal e, portanto, capaz de pensar, de sentir e desejar. Ele é um 
ser vivo e ativo. No entanto, há muitos espíritos. A discussão subsequente dos 
atributos divinos é necessária para que se distinga 0 Espírito divino de outros 
seres espirituais.
Ao considerarmos o significado de cada atributo,é bom estar ciente da relação 
dos atributos com 0 ser de Deus. Nas Escrituras, os atributos divinos não estão 
acima de Deus, ao lado de Deus ou abaixo de Deus. Os atributos são predicados 
divinos. Deus é santo; Deus é amor. Essas características não descrevem simples- 
mente 0 que Deus faz; elas definem 0 que Deus é, Dizer que os destinatários da 
revelação podem conhecer os atributos de Deus, más não seu ser, rompe com a 
unidade dos atributos e os deixa desassociados de um sujeito. As Escrituras não 
promovem a adoração de um Deus desconhecido; elas tomam Deus conhecido. 
Os atributos são inseparáveis do ser de Deus, e 0 Espírito Santo não se relaciona 
nem age independentemente das características divinas essenciais. Conhecendo 
os atributos, portanto, conhecemos a Deus conforme ele se dá a conhecer.
Isso não significa que pela revelação podemos conhecer perfeitamente a 
Deus como ele conhece a si mesmo. Significa, isto sim, negar a ideia de que 
tudo 0 que conhecemos de Deus é impreciso, que todo esse conhecimento é 
totalmente diferente do que entendemos por meio dos conceitos de santo amor 
revelados na Escritura. Boa parte do nosso conhecimento sobre os atributos 
divinos é analógico ou figurativo, uma vez que a Escritura recorre a figuras 
de linguagem. Contudo, mesmo assim, o ponto que se deseja ilustrar pode ser 
comunicado em linguagem não figurada. Portanto, tudo 0 que compreendemos 
sobre Deus não é de natureza èxclusivamènte analógica. O conhecimento reve- 
lado, não figurativo, tem pelo menos um ponto de significado, e o mesmo vale 
para 0 pensamento divino e 0 pensamento humano informado pela revelação.
Há um conhecimento de Deus, portanto, que é chamado de unívoco, porque, 
quando dizemos que Deus é amor santo, afirmamos o que diz a Bíblia (cuja
9 6 I CURSO PARA FORMAÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
Λ DOUTRINA DE DEUS PAI 1 9 7
o rig em n ão se deve à v o n ta d e do h o m e m , e sim de D e u s ) . E stam os longe de 
c o m p re en d e r p le n a m e n te a sa n tid a d e e o am o r d iv inos; co n tu d o , n a m ed id a 
em q u e n o ssa s d ec la raçõ es sob re D eus co m u n ica m de m a n e ira co e ren te signifi- 
cad o s reve lados co n c e itu a lm en te im p o rta n te s , e las ex p re ssam a v erd ad e sobre 
D eus e se co n fo rm am em p a r te co m 0 en ten d im en to de D eus.
Os a trib u to s d iv inos fo ram classificados de m an e ira s d iferen tes p a ra que 
p u d e s se m se r referidos e le m b rad o s m ais fac ilm en te . D istingu irem os a q u i as 
ca rac te rís ticas d iv in as de o rd em m etafísica , in te le c tu a l, é tica , em ociona l, exis- 
ten c ia l e re la c io n a i.2
M ETAFISICAM ENTE, DEUS EXISTE POR SI MESMO, É ETERNO E 
IM UTÁVEL
O utros esp írito s são inv is íve is , p esso a is , u n o s, v ivos e a tivos. Em q u e 0 E spírito 
d iv in o se d ife ren c ia d o s dem ais?
Em p rim e iro lugar, D eus existe por si mesmo. Todos os o u tro s esp írito s fo ram 
criad o s e, p o r ta n to , tê m com eço . D evem su a ex istên c ia a o u tro . D eus n ão de- 
p e n d e do m u n d o ou de q u em q u e r q u e se ja p a ra existir. O m u n d o d ep e n d e 
de D eus p a ra existir. C o n tra riam en te aos teó logos p a ra os q u a is n ão p o d em o s 
saber co isa a lg u m a a respe ito de D eus, Je su s reve lou q u e D eus tem v id a em si 
m esm o (Jo 5 .26 ). O fu n d am e n to do se r d iv ino n ão e s tá em o u tro s, p o rq u e n ão 
h á n a d a m a is fu n d a m e n ta l do q u e e le m esm o . D eus n ão é c a u sad o ; e le é 0 que 
sem p re ex istiu (Êx 3 .14). P e rg u n ta r q u em ca u so u a ex is tên c ia de D eus é fazer 
u m a p e rg u n ta q u e co n tra d iz a si m e sm a se co n fro n tad a com o conceito q u e 
Je su s tin h a de D eus. O utro te rm o q u e c o m u n ica 0 con ce ito d a au to ex is tên c ia 
d iv in a é asseidade. O rig inário do la tim , a s ign ifica “d e ” (p rocedência ) e se, “si 
m e sm o ”. A ex is tê n c ia de D eus é n ão deriv ad a , n ec e ssá ria e n ão d ep e n d en te . 
E n ten d er q u e D eus é n ão co n tin g en te a ju d a a co m p re en d e r de q u e m o d o ele 
é ilim itado em re lação a tu d o , o u in fin ito , livre, au to d e te rm in ad o , e n ão deter- 
m inado , a n ão se r p o r ele m e sm o , p o r co isa a lg u m a q u e se ja co n trá r ia a seus 
p ro p ó sito s sob eran o s.
D eus é e te rn o e o n ip o te n te (ub íq u o ). A v id a d e D eus p a rte de d en tro dele 
m esm o, n ão é algo q u e te n h a tido u m com eço no m u n d o do espaço -tem po . D eus 
não tem co m eço , n ã o cresce, n ão en v e lh ece e n ão chega ao fim . O S enho r e s tá 
en tro n izad o com o rei p a ra se m p re (SI 29.10). E sse D eus é n o sso D eus p a ra sem - 
pre e sem p re (SI 48 .14 ). E m bora n ã o es te ja lim itado pelo espaço e pelo tem p o o u
2T oda c la s s if ic a ç ã o te m p o n to s fo rtes e fracos. P o d e m o s d is tin g u ir o s a tr ib u to s q u e sã o 
a b so lu to s e im a n e n te s [A . H. S tro n g ); in c o m u n ic á v e is o u c o m u n ic á v e is (L o u is B erk h o f); m e ta f í- 
s íco s o u m o ra is (J o h n G ill); a b s o lu to s , r e ia t iv o s e m o ra is (H . O rton W ile y ); o u p e s s o a is e c o n s - 
t itu c io n a is (L ew is S p erry C h afer). A s v a n ta g e n s e d e s v a n ta g e n s d e s s e s a g r u p a m en to s a p a r e ce m 
e m s u a s r e s p e c tiv a s te o lo g ia s .
p ela su cessão de ev en to s no tem p o , D eus criou 0 m u n d o do tado de espaço e de 
tem po . Ele su s te n ta esse dom ín io em co n s tan te tran sfo rm ação d e even to s q u e 
se su ced em e tem consc iênc ia de cad a m o m e n to d a h istó ria . O m u n d o obser- 
vável. e em c o n s ta n te m u ta çã o n ã o é in sign ifican te o u irre a l3 p a ra 0 o n ip resen te 
S enho r de to d as as co isas. N en h u m a tr ib o , n ação , cidade , fam ília o u v id a pes- 
soai é d e s titu íd a de valor, po r m a is b reve ou ap a ren te m en te triv ia l q n e seja. A 
n a tu re z a e te rn a de D eus n ão é to ta lm e n te a lh e ia ao te m p o o u to ta lm e n te d is tan - 
te d e tu d o 0 q u e h á n o tem p o e no espaço . O m u n d o do ésp aço -tem p o n ão lh e é 
e s tran h o ou d e sco n h e c id o . A h is tó ria é p ro d u to do seu sáb io p la n e ja m e n to eter- 
no , do se u p ro p ó sito cria tivo , de su a p rese rv ação p ro v id en c ia l e g raça com um . 
D eus e n c h e o e sp aço e o te m p o com su a p resen ça ; ele os su s te n ta e lh e s confere 
p ropósito e valor. A quele q u e é o n ip resen te e u b íq u o é S en h o r do te m p o e d a 
h is tó ria , e n ã o v ice-versa . D eus n ão n eg a o tem po; e le 0 co n su m a . N ele, seu s 
p ro p ó sito s se rea lizam .
No cris tian ism o , p o rtan to , a e te rn id ad e n ão é u m a a u sên c ia de te m p o abs- 
tra ta ; 0 e te rn o é u m a ca rac te rís tica do D eus vivo q u e es tá p re se n te em to d as 
as épocas e em to d as os lugares, c rian d o e su s te n ta n d o 0 d o m ín io do espaço- 
-tem po e rea liza n d o se u s p ro p ó sito s red en to re s n a p len itu d e dos tem p o s.
D eus é mutável em su a n a tu re za , dese jo e p ro p ó sito . D izer q u e D eus é 
im u táve l n ão sign ifica c o n tra d ize r a v erd ad e p rév ia de q u e ele é v ivo e ativo . 
S ignifica d ize r q u e to d o s os u so s do p o d er e d a v ita lid ad e de D eus são co e ren te s 
com seus a tr ib u to s , ta is com o sab ed o ria , ju s tiç a e am or. Os atos d iv inos jam ais 
são m e ra m e n te a rb itrá rio s , em b o ra a lgunsse d ev am a razõ es to ta lm e n te ínti- 
m as dele, em vez de co n d ic io n ad o s à re sp o s ta do se r h u m a n o . A cad a ju ízo im - 
posto ao ím pio e a cad a p erd ão conced ido ao a rrep en d id o su b ja z se u p ropósito 
im u táve l no q u e se refere ao p ec ad o e à conversão . D ife ren tem en te do conceito 
esto ico d e im u tab ilid ad e d iv in a , D eus n ão é in d ife ren te à a tiv id ad e e à necessi- 
dad e do se r h u m a n o . Pelo co n trá rio , p o d em o s sem p re co n ta r co m s u a a ten ção 
no to c a n te à ju s tiç a h u m a n a . D eus a te n d e im u tav e lm en te às o rações, m a s o faz 
n o rtea d o pelo s dese jo s e p ro p ó s ito s do seu san to am or. P o rtan to , em b o ra em 
te rm os de ex p eriên c ia h u m a n a as E scritu ras d ig am às vezes q u e D eus se arre- 
pende , n a v e rd a d e tra ta -se do im p e n ite n te q u e m u d o u e se a r re p e n d e u o u do 
fiel q u e se en treg o u à in fide lidade .
D eus é 0 m e sm o , em b o ra tu d o 0 m a is n a criação en v e lh eça com o u m a ves- 
tim e n ta (SI 102.25-27). Je su s co m p artilh av a d essa m esm a n a tu re za im u táv e l 
(Hb 1.10-12) e a ex ib iu de fo rm a v iv id a ao longo do seu a tivo m in is té rio em 
d iversas situações.
A im u tab ilid ad e do ca rá te r d iv ino sign ifica q u e D eus ja m a is p e rd e a in te- 
g ridade q u e lhe é p ró p ria nem ta m p o u co d e sa m p a ra as p esso as . Ele n ão m u d a
9 8 CURSO PARA FORMAÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS ן 
3Em c o n tr a s te c o m 0 c o n c e ito h in d u d e maya.
e n e le n ã o h á “m u d a n ç a n em so m b ra de v a ria çã o ” (Tg 1.17). A n a tu re za e a 
P alav ra in ab a láv e is de D eus c o n s titu e m 0 m ais fo rte fu n d am e n to de fé q u e pos- 
sa haver, e tra z e m p ro fu n d a conso lação (Hb 6 .17 ,18). D eus n ão é h o m em para 
m e n tir (K m 23.19) ou m u d a r de o p in ião ( IS m 15.29). O co n se lh o do S enho r 
p e rm a n e c e p a ra se m p re (SI 33.11). Os cé u s e a te rra p o d e rã o passar, m a s as 
p a lav ras d e D eus jam ais p a ssa rão (Mt 5.18; 24.35).
INTELECTUALM ENTE, DEUS É O N ISCIEN TE, FIEL E SÁBIO 
D eus d ifere d e ou tro s e sp írito s n ão a p e n a s em seu ser, m as ta m b ém em seu 
co n h ec im en to . S uas cap ac id ad es in te lec tu a is são ilim itadas, e ele as u tiliza de 
fo rm a p le n a e p erfe ita .
D eus é onisciente. D eus sa b e to d as as co isas (1J0 3 .20 ). Je su s ta m b ém tem 
esse a tr ib u to d a d iv in d ad e , p o rq u e P edro diz: “Senhor, tu sabes to d as as co isas 
e sab es q u e te a m o ” (Jo 21,17). D eus co n h ece to d o s os p e n sa m e n to s ín tim o s e 
os a tos ex te rn o s d a h u m a n id a d e (SI 139). “E n ã o h á c r ia tu ra a lg u m a en co b erta 
d ian te dele; an te s to d as as co isas es tão d esco b e rta s e expostas aos o lhos d aque- 
le a q u e m d everem os p re s ta r c o n ta s” (Hb 4 .13 ). Isa ía s d is tin g u ia 0 S en h o r dos 
ídolos p e la cap ac id ad e do S en h o r de p rev e r 0 fu tu ro (ls 44 .7 ,8 ,25 -28). Sem dú- 
v id a o co n h ec im en to q u e D eus te m do fu tu ro p o d ia se r tran sm itid o em p a lav ras 
e co n ce ito s h u m a n o s , N o con tex to em q u es tão , Isaías fez p red içõ es re la tiv a s a 
Je ru sa lé m , Ju d á , Ciro e ao tem p lo . Esses conceito s fo ram in sp ira d o s n a lín g u a 
orig inal e p o d e m se r trad u z id o s n a s lín g u as q u e h á no m u n d o .
C om o p o d e D eus co n h ece r 0 f inal d esde 0 in ício? De u m m odo a in d a m ais 
im p re ss io n a n te do q u e o exem plo de a lguém q u e c o n h e ça de m em ó ria u m 
sa lm o , d isse A gostinho . A n tes d e c itar 0 sa lm o 23, ele já e s tá in te iro em n o ssa 
m en te . D izem os en tão a p rim e ira m e tad e e sab em o s q u e p a r te já foi fa lada e 
qu a l fa lta se r c itada . D eus co n h ece a h is tó ria to d a de u m a v e z só , sim u ltân ea- 
m en te , p o rq u e ele n ã o e s tá lim itado pelo tem p o e p e la su cessão de ev en to s, m as 
ele ta m b ém sab e q u a l p a r te d a h is tó ria é p a ssad o h o je e q u a l é fu tu ro , p o rq u e o 
tem po p a ra e le n ão é sem im p o rtâ n c ia e irre a l (Confissões, xi.31).
A id e ia de q u e D eus sa b e tudo — p a ssad o , p resen te e fu tu ro — tem po u ca 
im p o rtân c ia , p o rém , se esse co n h ec im en to es tive i sep arad o do co n h ec im en to 
h u m a n o p o r u m a d ife ren ça in fin ita e qu a lita tiv a . A afirm ação freq u en te d e que 
0 co n h ec im en to de D eus é to ta lm en te d is tin to do n o sso im p lica q u e sua verda- 
de ta lv ez co n trad ig a a n o ssa . Em o u tra s pa lav ras , 0 q u e ta lv ez seja v erdade p a ra 
nós é falso p a ra D eus, o u 0 q u e é falso p a ra n ó s pode se r v e rd ad e p a ra D eus.
Do p o n to de v is ta da B íblia, p o rém , a m e n te h u m a n a foi c riad a à im agem de 
D eus p a ra p e n s a r os p e n sa m e n to s q u e D eus p e n sa o u receb er a v e rd a d e dele 
p o r m eio d a reve lação geral e especial. E m bora a Q u ed a te n h a a fe tado a m en te 
h u m a n a , essa p o ss ib ilid ad e n ão foi e rrad icad a . O novo n asc im en to re q u e r a
A DOUTRINA DE □EUS PAI j 9 9
100 I CURSO PARA FORM AÇÃO DE LIDERES E OBREIROS
renovação da pessoa, pelo Espírito, no conhecimento segundo a imagem do 
Criador (Cl 3.10). No contexto, faz parte do conhecimento possível para 0 rege- 
nerado a posição e a natureza atuais do Cristo exaltado (Cl 1.15-20), bem como 
0 conhecimento da vontade de Deus (Cl 1.9). Com esse conhecimento, 0 cristão 
pode evitar ser enganado por “palavras capciosas” (Cl 2.4). Ele deve fortalecer-se 
na fé que lhe foi ensinada em conceitos e palavras (Cl 2.7). O conteúdo da pa- 
lavra de Cristo deve dar forma ao seu ensino e adoração (Cl 3.16).
Em tudo isso, e muito mais, a Escritura pressupõe uma revelação informa- 
tiva da parte de Deus, verbalmente inspirada e iluminada pelo Espírito, para 
mentes criadas e renovadas pela imagem divina para que recebam essa verdade 
ígualmente divina. À medida que tivermos entendido 0 significado do contexto 
dado pelos autores originais da Escritura, as afirmações que fizermos baseadas 
na Escritura de que Deus é espírito, Deus é santo ou Deus é amor serão verda- 
deiras. São verdadeiras para Deus tal como ele é verdadeiro para si mesmo. São 
verdadeiras para a fé e a vida dos cristãos e da igreja.
A verdade proposicional comunicada pela Bíblia em frases no modo indicati- 
vo que afirmam, negam, defendem, sustentam, supõem e inferem é plenamente 
verdadeira para Deus e para a humanidade. É evidente que a onisciência divina 
não se limita à distinção entre sujeitos e predicados, sequência lógica, pesquisa 
exegética ou argumentação discursiva. Todavia, Deus sabe a diferença entre um 
sujeito e um predicado, convive com a sequência lógica tanto quanto convive 
com a sequência temporal e incentiva a pesquisa exegética e revelacional com 
base na argumentação discursiva. Embora a mente divina seja ilimitada e co- 
nheça todas as coisas, ela não é totalmente distinta da mente humana criada à 
sua imagem. Em sua onisciência, portanto, Deus forma seus juízos com base no 
pleno conhecimento de todos os dados pertinentes. Deus tem conhecimento de 
tudo 0 que exerce algum impacto sobre a verdade de que quem quer que seja 
ou sobre um evento qualquer. Nossos juízos são verdadeiros à medida que se 
conformam aos juízos divinos, pela coerência ou fidelidade a todas as evidên- 
cias relevantes.
Deus é fiel e verdadeiro (Ap 19.11); portanto, seus juízos(Ap 19.2) e suas 
palavras em linguagem humana são fiéis e verdadeiras (Ap 21.5; 22.6). Não há 
falta de fidelidade na pessoa de Deus, em seu pensamento ou promessa. Deus 
não é hipócrita e incoerente.
Podemos manter inabalável “a confissão da nossa esperança, pois quem fez 
a promessa é fiel” (Hb 10.23). Ele é fiel em perdoar nossos pecados (1J0 1.9), 
santificar os crentes até a volta de Cristo (lTs 5.23,24), fortalecê-los e protegê-los 
do Maligno (2Ts 3.3) e não permitirá que sejamos tentados além do que pode- 
mos suportar (1C0 10.13). Ainda que sejamos infiéis, ele permanece fiel, porque 
não pode negar a si mesmo (2Tm 2.13).
Nenhuma palavra de todas as boas promessas que Deus deu por meio de 
Moisés falhou (lRs 8.56). Isaías louva 0 nome de Deus, porque em perfeita 
fidelidade Deus fez coisas maravilhosas planejadas há muito tempo (Is 25.1). 
Passagens como essas falam de uma integridade básica que Deus tem, tanto em 
sua vida quanto em seu pensamento. Não se pode estabelecer contraste algum 
entre 0 que Deus é em si mesmo e 0 que Deus é em relação àqueles que confiam 
nele. Ele não contradiz suas promessas em suas obras ou ensinamentos pela 
dialética, pelo paradoxo ou pela mera complementaridade. Ele conhece todas 
as coisas, e nada vem à luz que não tenha sido levado em conta antes que ele 
revelasse seus propósitos.
Como Deus é fiel e coerente, devemos também ser fiéis e coerentes. Jesus 
disse: “Seja, porém, 0 vosso falar sim, sim; não, não.” (Mt 5.37). Paulo exibiu 
essa autenticidade lógica naquilo que ensinou. “Mas, assim como Deus é fiel”, 
disse ele, “a nossa palavra em relação a vós não é um sim e um não” (2C0 1.18). 
Quem imagina que falar sobre Deus em linguagem humana consiste em afir- 
mar e negar a mesma coisa ao mesmo tempo no que diz respeito a um mesmo 
assunto (recorrendo para isso à dialética ou ao paradoxo) tem opinião diferente 
da de Paulo acerca da relação entre a mente divina e a mente da pessoa piedosa. 
Porque Deus é fiel, devemos ser fiéis em nossa mensagem a seu respeito. Uma 
vez que Deus não pode negar a si mesmo, não devemos negar a nós mesmos 
quando falamos com ele.
Sabendo da conexão entre fidelidade pessoal e fidelidade conceituai em 
Deus, sabemos que a ideia segundo a qual pessoas fiéis não devem contradizer 
a si mesmas não começou com Aristóteles. Ele pode ter formulado a lei da não 
contradição da forma que vem sendo reproduzida desde então, porém a fonte 
por excelência do desafio à fidelidade humana em pessoa e palavra remonta a 
Deus. A exigência universal de honestidade intelectual repercute no coração hu- 
mano a integridade por excelência do coração do Criador.
Deus não é apenas onisciente e coerente em pessoa e palavra, mas é também 
perfeitamente sábio. Além de conhecer tudo 0 que há de importante a respeito 
de qualquer assunto, Deus escolhe os fins com discernimento e age em harmo- 
nia com seus propósitos de amor santo. Talvez nem sempre sejamos capazes de 
ver que os acontecimentos da nossa vida cooperam para a concretização de um 
propósito sábio, porém sabemos que Deus escolhe entre todas as alternativas 
possíveis os melhores meios e fins para atingir seus objetivos. Deus não só esco- 
lhe os fins certos como também os motivos certos para 0 bem de suas criaturas 
e, por conseguinte, de sua glória.
Embora possamos não entender completamente a sabedoria divina, temos 
bons motivos para confiar nela. Depois de escrever sobre a grande dádiva da 
justiça que vem de Deus, Paulo exclama: “Ao único Deus sábio seja dada glória
A DO UTRINA DE DEUS PAI 1 1 0 1
CURSO PARA FORM AÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS102
por meio de Jesus Cristo. Amém” (Rm 16.27). Anteriormen- 
te, ele havia feito alusão às profundezas incompreensí- 
veis das riquezas da sabedoria e do conhecimento 
divinos (Rm 11.33).
A inter-relação dos atributos já é evidente, no sen- 
tido de que a onisciência divina tem consciência não 
só do que é, mas também do que deve ser (moral- 
mente); a fidelidade e a coerência divinas requerem 
integridade moral e ausência de hipocrisia, enquanto 
a sabedoria toma decisões com vistas a certos fins e 
meios no que diz respeito a valores mais elevados. 
Não é de estranhar, portanto, que o temor do Senhor 
seja 0 princípio da sabedoria (Pv 1.7).
para todo 0 sempre,
A exigência 
universal de 
honestidade 
intelectual 
repercute no 
coração humano 
a integridade por 
excelência do 
coração do Criador.
ETICAM ENTE, DEUS É SANTO, JU STO E A M O R O SO
Deus é diferente de todas as suas criaturas e transcende a todas elas, não só 
metafísica e epistemologicamente, mas também moralmente. Deus é moralmen- 
te imaculado em caráter e ação, justo, puro e livre de maus desejos, motivos, 
pensamentos, palavras ou atos. Deus é santo e, como tal, é fonte e padrão do 
que é correto. Deus é livre de todo mal, ama tudo 0 que é verdadeiro e bom. 
Ele valoriza a pureza e detesta a impureza e a falta de autenticidade. Deus não 
pode compactuar com mal algum, ele não tem prazer no mal (SI 5.4) e não pode 
tolerar 0 mal (Hc 1.13). Deus abomina 0 mal e não pode encorajar 0 pecado 
de forma alguma (Tg 1.13,14). O cristão não contempla admirado a santidade 
abstrata, e sim a santidade do Santo (Is 40.25), que não é meramente objeto do 
fascínio emocional, mas também do ouvir intelectual e da obediência volitiva.
A santidade não é apenas produto da vontade divina; mais que isso, é ca- 
racterística imutável da natureza eterna de Deus. A pergunta que Platão fez, 
portanto, deve ser reformulada para que se aplique ao Deus cristão: “É bom 
porque Deus quer ou Deus quer porque é bom?”. A pergunta não diz respeito à 
vontade de Deus ou a algum princípio de bondade acima dele, mas à sua essên- 
cia. O bom, 0 justo, 0 puro, 0 santo é santo não por causa de um ato arbitrário 
da vontade divina, nem por causa de um princípio independente de Deus, mas 
porque flui de sua natureza. Deus sempre deseja de acordo com sua nature- 
za de forma coerente. Ele deseja 0 que é bom porque ele é bom. E, porque é 
santo, odeia consequentemente 0 pecado e sente repulsa por todo tipo de mal, 
independentemente de quem 0 tenha praticado. O Espírito Santo é chamado 
de santo não só porque, como membro da Trindade divina, ele compartilha da 
santidade da natureza divina, mas porque a função específica do Espírito é a de 
produzir amor santo entre 0 povo redimido de Deus. É nosso dever nos esforçar
1 03A DO UTRINA DE DEUS ΡΛΙ
para ser moralmente imaculados no caráter e na ação, retos e justos como 0 
Deus que adoramos.
Deus é justo, ou reto. A justiça ou retidão divina se revela em sua lei moral, 
que expressa sua natureza moral, e em seu juízo, concedendo a todos, conforme 
seu mérito, exatamente o que merecem. Seu juízo não é arbitrário ou caprichoso, 
porque está baseado em princípios e não faz acepção de pessoas. Os autores do 
Antigo Testamento protestam muitas vezes contra a injustiça que atinge 0 pobre, 
as viúvas, os órfãos, os estrangeiros e os piedosos. Deus, por sua vez, tem com- 
paixão dos pobres e dos necessitados (SI 72.12-14). Ele responde, livra, revive, 
absolve e concede a eles a justiça que merecem receber. Movido pela retidão que 
lhe é própria, ele livra 0 necessitado da injustiça e da perseguição. Por fim, criará 
um novo céu e uma nova terra em que a justiça prevalecerá (Is 65.17).
A ira de Deus é revelada à medida que pecadores, tanto judeus quanto gentios 
(Is 2.1—3.20), suprimem sua verdade e a inibem pela injustiça (Rm 1.18-32). 
No evangelho, revela-se uma justiça de Deus, uma justiça que é pela fé do 
começo ao fim (Rm 1.17; 3.21). Os que creem são justificados gratuitamente 
pela graça divina por meio de Jesus Cristo, que se ofereceu em sacrifício de ex- 
piação (Rm 3.25). Portanto, assim como Abraão, quem estiver plenamente con- 
vencido de que Deus cumpre 0 que prometeu (Rm 4.21) terá sua fé imputada 
como justiça (Rm 4.3,24). Deus, em sua justiça, concede aos que creem em 
Cristo, pela graça, a condição de justificados. A justiça divina nãoestá desvin- 
culada da misericórdia, da graça e do amor.
Pela misericórdia, Deus retém ou modifica 0 juízo merecido e, pela graça, 
concede benefícios imerecidos a quem desejar conceder. Todas essas caracte- 
rísticas morais decorrem do imenso, gracioso e generoso amor agape. Aquele 
que vive para sempre como santo, alto e sublime vive também com 0 contrito 
e humilde de espírito (Is 57.15).
Não que falte a Deus algo em si mesmo (At 17.25), mas 0 fato é que ele de- 
seja dar de si pelo bem daqueles a quem ama, apesar da falta de amor deles e 
de não 0 merecerem. Deus não apenas ama, mas é em si mesmo amor (1J0 4.8). 
Seu amor é como 0 de um marido pela esposa, de um pai pelo filho e de uma 
mãe pelo bebê que ainda não foi desmamado. Por amor, Deus escolheu Israel 
(Dt 7.7) e predestinou os crentes — a igreja — para que fossem filhos adotivos 
por meio de Jesus Cristo (Ef 1.4,5). “Porque Deus amou tanto 0 mundo, que 
deu 0 seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas 
tenha a vida eterna” (Jo 3.16).
O amor se preocupa com os idosos, os oprimidos, os pobres, os órfãos e 
outros necessitados. O Deus amoroso da Bíblia não fica indiferente (ou impas- 
sível) diante de pessoas realmente necessitadas. O Deus de Abraão, Isaque e 
Jacó, Jó, Jeremias, Jesus, Judas, Pedro e Paulo sofreu e, na verdade, sofreu com
paciência. De modo empático, Deus penetra a imaginação de suas criaturas e 
as atinge. Mais do que isso, 0 Deus-encarnado entrou de modo participativo em 
nossas tentações e sofrimentos. Como disse H. W. Robinson: “A única maneira 
de 0 mal moral entrar na consciência dos que são moralmente bons é pelo sofri- 
mento”. Em toda a angústia de Israel, Deus também ficou angustiado (Is 63.9). 
Que sentido pode haver, indaga Robinson, num amor que não é custoso a quem 
ama? O Deus da Bíblia está longe de ser apático no que diz respeito ao enorme 
sofrimento. Por amor, Deus enviou seu Filho para que morresse, de modo que 0 
sofrimento, no final, fosse vencido e a justiça, restaurada na terra, assim como 
as águas cobrem 0 mar.
Uma vez que 0 amor requer compromisso com 0 bem-estar dos outros, um 
compromisso responsável, fiel, não se pode classificá-lo como algo basicamente 
emocional. O amor é um propósito definido da vontade que envolve a pessoa 
toda na busca do bem-estar do próximo.
EM O CIO N A LM EN TE, DEUS DETESTA O MAL,
É PACIENTE E CO M PASSIVO
A. H. Strong diz que Deus é desprovido de paixão e de caprichos. De fato, Deus 
é desprovido de caprichos, injustiças ou emoções descontroladas. Procuramos 
anteriormente negar a existência de quaisquer paixões indignas de Deus. Strong 
acrescenta acertadamente que não há em Deus nenhuma ira que seja egoísta. 
Contudo, Deus é pessoal e ético, e essas duas noções requerem emoções ou 
paixões sadias. Quem se deleita na justiça, na retidão e na santidade pensando 
no bem-estar de suas criaturas só pode sentir repulsa diante da injustiça, da 
iniquidade e da corrupção que destrói 0 corpo, a mente e 0 espírito delas. Por- 
tanto, a Bíblia se refere com frequência à justa indignação divina diante do mal. 
A indignação justa é a ira suscitada não pela vitória egoísta das emoções, mas 
pela injustiça e por todas as obras da “carne” corrompida. Deus detesta 0 mal.
De modo geral, Jesus e as Escrituras se referem com mais frequência à ira de 
Deus diante das injustiças, como os maus-tratos persistentes impostos aos po- 
bres e aos necessitados, do que ao amor e ao céu. Embora 0 Senhor seja tardio 
em irar-se, de forma alguma deixará 0 culpado sem castigo, despejando sobre 
ele sua fúria (Na 1.3). Ninguém pode resistir à sua indignação, que é derramada 
como fogo e parte a rocha diante dele (Na 1.6). Se não compreendermos a ira 
de Deus contra 0 mal, é impossível compreender a extensão do amor divino na 
encarnação, a extensão do sofrimento de Cristo na cruz, a natureza propiciató- 
ria do seu sacrifício, as Escrituras proféticas e sua referência ao grande dia da 
ira de Deus, a grande tribulação ou 0 livro de Apocalipse.
Deus é paciente e longânimo. Por causa do ciúme sadio que sente daque- 
les cujo bem-estar é objeto do seu amor, a ira de Deus se manifesta contra
1 0 4 j CURSO PARA FORM AÇÃO DE LÍDERES F. OBREIROS
1 105A DO UTRINA DE DEUS PAI
a injustiça praticada contra eles, mas ele a suporta sem desanimar. Longâni- 
mo para com os que praticam 0 mal, Deus, sem compactuar com 0 pecado, 
concede-lhes gratuitamente os benefícios temporais e espirituais de que não 
são merecedores. Deus prometera uma terra a Abraão, mas a iniquidade dos 
amorreus ainda não havia atingido sua medida completa (Gn 15.16). Depois de 
mais de quatro séculos de paciência contida, Deus, na plenitude dos tempos, 
permitiu que os exércitos de Israel impusessem 0 justo juízo sobre a impiedade 
dos amorreus. Mais tarde, Israel adorou 0 bezerro de ouro e mereceu 0 juízo di- 
vino, assim como outros idólatras. Deus, porém, se revelou na segunda vez em 
que concedeu a lei como “ Senhor, Senhor, Deus misericordioso e compassivo, 
tardio em irar-se e cheio de bondade e de fidelidade” (Êx 34.6). O salmista es- 
creveu: “Mas tu, Senhor, és um Deus compassivo e benigno, paciente e grande 
em misericórdia e verdade” (SI 86.15). Contudo, 0 dia da graça de Deus chega 
ao fim. Nesse dia, sem acepção de pessoas, seu justo juízo caiu sobre Israel por 
causa dos seus muitos pecados. A paciência de Deus é uma virtude notável, 
mas ela não exclui nem contraria a justiça divina.
As Escrituras não hesitam em chamar Deus de compassivo.4 Por causa do 
seu grande amor é que não somos consumidos, porque suas misericórdias não 
têm fim (Lm 3.22). Mesmo depois do cativeiro, Deus novamente terá compai- 
xão de Israel (Mq 7.19). O Deus da Bíblia não é apático. Ele se preocupa muito 
quando vê 0 pardal cair. Jesus mostrou de modo muito belo a compaixão pelos 
famintos (Mt 15.32), pelos cegos (Mt 20.34), pelos que sofrem (Lc 7.13). Jesus 
ensinou também a importância da compaixão na parábola do bom samaritano 
(Lc 10.33) e do filho pródigo (Lc 15.20).
O Cristo encarnado sentiu tudo 0 que nós sentimos, mas não cedeu ao peca- 
do. Como Deus que era numa experiência literalmente humana, Jesus chorou 
com aqueles que choraram e se alegrou com os que se alegraram. Ele se lem- 
brou da glória que tivera com 0 Pai antes da fundação do mundo (Jo 17.5,13). O 
autor divino-humano da nossa salvação, porém, tornou-se perfeito ou completo 
por meio do sofrimento que padeceu nesta vida (Hb 2.10). E assim, porque so- 
freu, pode ajudar aqueles que sofrem e são tentados (Hb 2.18). O Deus revelado 
em Jesus Cristo não é uma primeira causa alheia e impessoal. O Pai revelado 
por Jesus sente-se profundamente comovido por tudo 0 que magoa seus filhos.
EXISTEN CIALM EN TE, DEUS É LIVRE, A U TÊN TIC O 
E O N IPO TEN TE
O interesse contemporâneo por liberdade, autenticidade e realização não se 
limita à humanidade. Os autores bíblicos parecem ainda mais preocupados em 
mostrar que Deus é livre, autêntico e realizado. 1
1Isso contradiz os defensores da tradição tomista, que ensinam a im passibilidade de Deus.
Deus é livre. Jamais, eternamente, Deus se viu condicionado por qualquer 
coisa — exceto ele mesmo — que lhe fosse contrária. Coisas boas, conforme 
vimos, são planejadas e proporcionadas com prazer por Deus. Coisas más são 
permitidas, mas sem nenhum prazer da parte dele. Contudo, seja como for, 
Deus é um ser dotado de autodeterminação. Autodeterminação é um conceito 
de liberdade que privilegia 0 pensamento, 0 sentimento e a volição pessoais, 
não sendo determinado por fatores externos, mas pelo eu da pessoa.
Deus não é livre para aprovar 0 pecado, para deixar de ser amoroso, ignorar 
os fatos brutos da realidade ou para ser infiel ao que deve ser, destituído de 
compaixão ou de misericórdia. Deus não pode negar a si mesmo. Ele é livre 
para ser ele mesmo — para ser 0 seu eu pessoal, eterno, vivo, intelectual, ético, 
emocional, volitivo.
Deus é autêntico, ele é autenticamente quem é.O Deus que em Cristo se 
opôs tão firmemente à hipocrisia é, ele mesmo, não hipócrita. Enfatizamos 
acima sua integridade ou fidelidade intelectual. Aqui queremos enfatizar sua 
integridade do ponto de vista ético, emocional e existencial. Deus tem consci- 
ência de si mesmo, sabe quem ele é e quais são seus propósitos (1C0 2.11). Ele 
tem percepção apurada de identidade, sentido e propósito.
Deus sabe que ele é 0 ser por excelência, que não há, de fato, ninguém 
que se compare a ele. Portanto, ao conclamar seu povo para que abandone os 
ídolos, Deus de forma alguma nos pede algo que não esteja de acordo com a 
realidade. Ao se opor de forma veemente à idolatria, ele quer com isso proteger 
as pessoas de objetivos finais cujo desfecho é desilusão e desapontamento. 
Deus deseja que 0 adoremos para 0 nosso próprio bem, de tal forma que não 
cedamos por fim ao desespero à medida que, um depois do outro, os deuses 
finitos nos forem desamparando.
Em seguida, vemos que Deus é onipotente (Mc 14.36; Lc 1.37), capaz de 
fazer 0 que quiser do jeito que quiser. Deus não escolhe fazer seja 0 que for que 
contrarie sua natureza sábia e de amor santo. Ele não pode negar a si mesmo e 
não escolhe fazer tudo por conta própria imediatamente sem agentes angélicos 
e humanos que lhe sirvam de intermediários. Embora determine que algumas 
coisas aconteçam incondicionalmente (Is 14.24-27), a maior parte dos eventos 
históricos são planejados condicionalmente por meio da obediência ou da de- 
sobediência consentida das pessoas aos preceitos divinos (2Cr 7.14; Lc 7.30; 
Rm 1.24). Seja como for, os propósitos eternos de Deus não são frustrados; eles 
são cumpridos da maneira que ele escolheu que fossem cumpridos (Ef 1.11).
Muita gente diz que há ênfases em Paulo que a igreja tem hesitado em as- 
sumir. Sempre que isso aconteceu, a igreja se tornou mais pobre e toldou 
sua perspectiva acerca da atividade divina. Hesitar em coisas nas quais 
Paulo demonstrou ousadia sempre fez com que a igreja problematizasse
1 0 6 j CURSO PARA FORM AÇÃO DF I ÍDFKtS E OBREIROS
A DOUTRINA DE DEUS PAI J 1 07
't
a ordem divina e a responsabilidade humana. Com isso, a igreja solapa 
as bases ou da providência divina ou da responsabilidade humana. Na 
Escritura, essas duas realidades coexistem sem nenhum problema. Am- 
bas revelam a grandeza da atividade divina no sentido de que não ex- 
cluem a atividade e a responsabilidade humanas, mas as acolhem e nelas 
manifestam a presença de Deus que cumpre seus propósitos.5
Deus não só tem a força para realizar todos os seus propósitos da forma que os 
propôs como também tem autoridade em todo o seu reino para fazer 0 que bem 
lhe aprouver. Deus não é vassalo de domínio alheio, e sim Rei ou Senhor de tudo. 
Em virtude de todos os outros atributos que possui — sabedoria, justiça e amor, 
por exemplo —, ele está apto para governar tudo 0 que criou e sustém. É um so- 
berano sábio, santo e misericordioso. Como ser justo que é, Deus não pode punir 
os pecadores mais do que eles merecem. A quem muito foi dado, muito será pe- 
dido; a quem pouco foi dado, pouco será exigido. Contudo, ao conceder bênçãos 
e graças imerecidas, Deus é livre para dispensá-las como quiser (Sl 135.6). Ao 
permitir 0 pecado, Deus é grande 0 suficiente para limitar a fúria das paixões pe- 
caminosas e erradicá-las, a fim de proporcionar-nos um bem maior, como fez no 
Calvário (At 4.24-28). Deus pode derrotar as nações e as hostes demoníacas que 
se insurgem contra ele. Ninguém pode existir à parte de sua soberania divina. A 
tentativa de seguir um caminho próprio longe de Deus é uma insolência pecami- 
nosa por parte das criaturas que nele vivem, se movem e têm o seu ser. Somente 
alguém muito tolo pode dizer que Deus não existe, pois é ele quem dá ao ateu 0 
fôlego de vida que este usa para negar 0 domínio de Deus sobre sua vida.
RELACIO N ALM EN TE, DEUS É UM SER TRAN SCEN D EN TE, 
IM ANENTE UN1VERSALMENTE NA ATIV ID AD E DA 
PRO V ID ÊN C IA UN IVERSAL E IM ANENTE EM M EIO AO SEU 
PO VO NA ATIV ID AD E DA REDEN ÇÃO
Como ser transcendente, Deus é único e totalmente distinto de tudo na criação. 
A singularidade divina em relação ao ser do mundo já ficou implícita na discus- 
são anterior a respeito dos atributos de Deus no plano metafísico, intelectual, 
ético, emocional e existencial. O ser de Deus é eterno, 0 do mundo é temporal. 
O conhecimento de Deus é absoluto, 0 dos seres humanos é incompleto. O 
caráter de Deus é santo, 0 da humanidade é decaído e pecaminoso. Os desejos 
de Deus são sempre contrários ao mal, porém longânimos e compassivos; os 
desejos humanos variam de forma incoerente e, não raro, introduzem 0 mal 
misturado com 0 bem. A energia divina é infatigável e inexaurível; a energia do
G. C. B־ e r k o u w f .r , P ro v id e n c e of God, p. 9 8 .
mundo está sujeita ao esgotamento pela entropia. Portanto, em tudo isso, Deus 
está muito acima de todos que estão no mundo.
A incomparável transcendência divina traz consigo um dualismo radical 
entre Deus e 0 mundo que não deve ficar obscurecido pelo ressurgimento do 
monismo e do panteísmo. Embora criada à semelhança de Deus e à imagem 
divina, a humanidade não é (como Cristo) nascida de Deus, tampouco é uma 
emanação de Deus e da mesma natureza divina. O propósito original da salva- 
ção não consiste na reabsorção no ser divino, mas na comunhão ininterrupta 
com Deus. A unidade que os cristãos buscam não é uma unidade metafísica 
com Deus, e sim uma unidade relacionai, de mente, desejo e vontade. Procu- 
rar ser igual a Deus na perspectiva bíblica não é sinônimo de espiritualidade 
profunda, mas de idolatria rebelde ou de blasfêmia. O cristão deve respeitar a 
natureza como criação divina, mas não adorá-la como se fosse divina. O cristão 
deve respeitar os fundadores das religiões do mundo, mas não deve curvar-se 
diante de um guru como se ele fosse manifestação do divino em forma huma- 
na. Só Jesus Cristo veio do alto; todos os demais procedem de baixo (Jo 8.23). 
Como Deus é distinto do mundo, o cristão não pode inclinar-se perante outro 
poder terreno como se ele fosse Deus, quer se trate de poder econômico, polí- 
tico, religioso, científico, educacional ou cultural. A bênção inestimável de se 
curvar diante do transcendente Senhor de tudo 0 que há é que por meio desse 
gesto ficamos livres de toda tirania finita decaída.
O teísta bíblico não só acredita que 0 Deus vivo, único, é distinto do mundo 
em contraposição ao panteísmo e ao panenteísmo, como também que Deus age 
continuamente no mundo de maneira providencial, de modo contrário ao que 
pensam os deístas. Deus não é tão exaltado que não conheça, ame ou possa se 
relacionar com a lei natural do mundo na experiência cotidiana. Um estudo so- 
bre a providência divina conforme ensinada na Escritura mostra que ele susten- 
ta, guia e governa tudo 0 que criou. Os salmos que falam da natureza refletem 
sobre a atividade de Deus no que diz respeito a tudo sobre a face da terra, a 
atmosfera, a vegetação e os animais (p. ex., 0 salmo 104). Ele também preserva 
e governa a história humana, julgando as sociedades corruptas e abençoando 0 
justo e 0 injusto com bênçãos temporais como a luz do sol, a chuva, 0 alimento 
e a bebida. Graças à providência divina universal, 0 cosmos se mantém e os 
sábios propósitos da graça comum são alcançados.
Contudo, Deus é imanente à vida do seu povo, que se arrepende dos seus 
pecados e vive pela fé para realizar os objetivos de sua graça redentora.
Porque assim diz 0 Alto e 0 Sublime, que habita na eternidade e cujo 
nome é santo: Habito num lugar alto e santo, e também com 0 contrito 
e humilde de espírito, para vivificar o espírito dos humildes e 0 coração 
dos contritos (Is 57.15).
1 0 8 CURSO PARA FORM ן AÇÃO DC I.ÍDÍIRES t OBREIROS
A DO UTRINA DE DEUS PAI
Assim como as pessoas podem estar presentes umas para as outras em graus 
variados, Deus pode estar presente para 0 ímpio num sentido e para 0 justo em 
outro mais excelente. Uma pessoa podesimplesmente estar presente na condi- 
ção de um passageiro a mais dentro do ônibus ou, de uma maneira bem mais 
significativa do que essa, como uma mãe piedosa que orou por você todos os 
dias da sua vida.
Deus, por sua misericórdia, está presente com seu amor bondoso junto aos 
convertidos, os quais, pela fé, receberam a propiciação, a reconciliação e a 
redenção pelo sangue precioso de Cristo. Eles se tornaram seu povo, ele agora 
é seu Deus. Deus habita neles, seu lugar santo ou templo. A identidade rela- 
cional de pensamentos, desejos e propósitos aumenta no decorrer dos anos. 
Essa unidade é compartilhada por outros membros do corpo de Cristo que, 
por meio dos dons que lhes foram concedidos, ajudarão a edificar uns aos ou- 
tros para que se tornem, paulatinamente, mais parecidos com 0 Deus que ado- 
ram, não metafisicamente, mas intelectualmente, eticamente, emocionalmente 
e existencialmente.
RESUM O
Em suma, Deus é um Espírito vivo e pessoal digno de que 0 adoremos e confie- 
mos nele de todo 0 coração (por causa de seus atributos perfeitos), distinto do 
mundo, porém ativo nele de forma ininterrupta.
Ilimitado espacialmente, Deus, apesar disso, criou e sustenta 0 cosmos, as 
leis científicas e as fronteiras geográficas e políticas.
Situado fora do tempo. Deus, apesar disso, se relaciona ativamente com 0 
tempo, com cada vida humana, cada lar, cidade, nação e com a história da hu- 
manidade de modo geral.
Transcendente ao conhecimento discursivo e à verdade conceituai, Deus, 
apesar disso, se relaciona de maneira inteligente com 0 pensamento proposi- 
cional e com a comunicação verbal, a validade objetiva, a coerência lógica, a 
confiabilidade dos fatos, a coerência e a clareza, bem como com a autenticidade 
subjetiva e a integridade existencial.
Livre das limitações do corpo, Deus, apesar disso, relaciona-se de modo 
providencial com a energia física presente na natureza e na sociedade, com a 
indústria, a agricultura, a sociedade e a política. Deus conhece e julga a gestão 
de todos os recursos da terra pelo homem.
Deus transcende a toda tentativa de se alcançar justiça no mundo, mas, 
apesar disso, relaciona-se de modo justo com todo esforço positivo de suas 
criaturas e 0 faz de maneira pessoal, por meio da economia, da sociedade, da 
escola, da religião e da política.
Embora livre de emoções indignas e incontroláveis, Deus se relaciona de 
maneira afetuosa com 0 pobre, 0 infeliz, 0 solitário, 0 aflito, 0 doente e também 
com as vítimas do preconceito, da injustiça, da ansiedade e do desespero.
Além de toda a aparente falta de sentido e de propósito da existência huma- 
na, Deus pessoalmente dá significado à vida mais insignificante.
G ordon R . L ew is6
A O BRA D IV IN A : A C R IA Ç Ã O
Tanto 0 primeiro versículo da Bíblia quanto a declaração inicial do Credo con- 
fessam que Deus é Criador. Na Escritura, 0 tema do Deus Criador dos “céus e a 
terra" (G11 1.1) aparece em destaque tanto no Antigo Testamento (Is 40.28; 42.5; 
45.18) quanto no Novo Testamento (Mc 13.19; Ap 10.6). Deus é 0 Criador dos 
seres humanos (Gn 1.27; 5.2; Is 45.12; Ml 2.10; Mc 10.6), de Israel (Is 43.15), 
enfim, de todas as coisas (Ef 3.9; Cl 1.16; Ap 4.11). A criação foi obra da palavra 
de Deus (Gn 1.3ss), de modo que, quando ele fala, tudo passa a existir (SI 33.9; 
148.5). Sua palavra de comando que traz à luz coisas que antes não existiam 
foi proferida pela Palavra [0 Verbo], que estava com Deus e é Deus (Jo 1.1-14). 
“Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi 
feito existiría”, é 0 que diz João 1.3 em referência à Palavra de Deus, Jesus 
Cristo, 0 Filho, que se tornou carne (Jo 1.14). De Cristo se diz que “nele foram 
criadas todas as coisas” (Cl 1.16; cf. 1C0 8.6), 0 que faz dele agente da criação. 
A obra do Espírito de Deus também está presente (Gn 1.2; Jó 33.4; SI 104.30). A 
criação é obra do Deus trino e é artigo de fé, como mostra claramente Ilb 11.3.
TEO LO G IA DA C R IA Ç Ã O
Com base na afirmação de que Deus é Criador ex nihilo, seguem-se diversas 
considerações teológicas. Langdon Gilkey menciona três grandes dimensões do 
significado teológico disso.
D eus é a fonte de tudo o que existe. Deus é Senhor soberano sobre todas as 
coisas. Nenhum outro princípio ou poder pode ser posto no mesmo grau de ig- 
ualdade ou de eternidade com Deus. Uma vez que tudo 0 que existe procede da 
vontade de Deus, no qual tem sua fonte, nada do que existe é mau em si mesmo. 
O quadro que a Bíblia mostra é 0 de um Criador bom, cuja palavra criativa é 
poderosa e sábia (Jr 10.12; Pv 3.19), e que criou todas as coisas boas (Gn 1.31). 
A criação ex nihilo por um Deus bom aponta para a bondade essencial de todas
110 j CURSO PARA FORM AÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
6Attributes of God, in: W. A. Ei.wki.l, org., Evangelical Dictionary o f Theology, 2J ed., 
p. 492-500. Usado com perm issão.
f,
as coisas, as quais podem ser dirigidas e transformadas pelo poder divino. Deus 
como Criador único significa que nada, nem ninguém mais, deve ser adorado. 
Todas as formas de idolatria são proibidas. O ato criador de Deus ex nihilo foi 
único, diferente de todo ato natural ou humano com 0 qual estamos habitu- 
ados. A relação entre Criador e criatura deve, portanto, ser entendida de um 
modo que a distinga de como nos referimos à relação de um evento finito com 
outro. Portanto, a doutrina teológica da criação não pode ser avaliada da for- 
ma como se faz com a ciência contemporânea, que, por definição, lida apenas 
com as relações dos eventos finitos no âmbito das limitações e das fronteiras. 
A doutrina cristã da criação diz respeito às origens últimas, e não às origens 
próximas com as quais a ciência se preocupa.
A s CRIATURAS SÃO DEPENDENTES, PORÉM REAIS E BOAS. A doutrina CllStã COlltia 
a qual se insurge 0 monismo panteísta afirma que a existência das criaturas é 
real porque Deus é seu autor e, portanto, é “boa” se está em relação com Deus. 
Às criaturas humanas foram concedidas liberdade e inteligência, que poderão 
ser usadas para afirmar ou negar a relação fundamental da existência: a depen- 
dência de Deus. Surgem a partir disso interpretações sobre 0 pecado e a graça 
em que as criaturas se rebelam e rejeitam seu Criador ou são “recriadas” por 
ele por meio de Jesus Cristo (2C0 5.17), passando a ter então um relaciona- 
mento de amor e realização. A visão cristã básica da bondade da vida permite 
a existência da ciência ao enfatizar a ordem e os aspectos relacionais da vida e 
seu valor, cultivando também 0 desejo de controlar a natureza para propósitos 
humanos positivos.
D eus cria em liberdade e com propósito. Contra as teorias de criação do mun- 
do por emanação, como os raios de luz emitidos pelo sol, ou a geração por meio 
do processo de acasalamento e nascimento, ou através de um processo artesa- 
nal, como 0 carpinteiro que faz uma caixa trabalhando a madeira, a doutrina 
cristã da criação ex nihilo abre mão de toda explicação de “com o” a criação 
ocorreu. A criação foi um ato livre de Deus, uma expressão do caráter divino 
descrita de várias maneiras nas Escrituras, mas que encontra seu foco princi- 
palmente no amor (1J0 4.16), especificamente no amor de Deus pelo mundo 
conforme demonstrado em Jesus Cristo (Jo 3.16). Na criação e no sustento e 
provisão contínuos da criação por parte de Deus, ele executa seus propósitos 
fundamentais para a humanidade e para 0 mundo. Isso significa que a vida 
humana pode ter sentido, ser inteligível e com propósitos mesmo em face do 
mal ou “de qualquer outra criatura”, porque a vida pode basear-se no “amor de 
Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.39). isso aponta, por fim,
A DO UTRINA DE DEUS PAI | 111
1 1 2 ( CURSO PARA FORM AÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
para 0 propósito de Deus que é a criação de “novos céus e nova terra” (Is 65.17; 
cf. Is 66.22; 2Pe 3.13; Ap 21.1).
D onald K. Mc Kim7
A O BRA D IV IN A : PRO VID ÊN CIA
Providência é uma daquelas palavras que não ocorrem na Bíblia, masque, mes- 
mo assim, constitui de fato uma doutrina bíblica. Não existe um equivalente 
em hebraico para providência. 0 termo grego usado na tradução é pronoia e se 
refere exclusivamente à previdência humana (At 24.2; Rm 13.14; para 0 verbo 
pronoeô, ver Rm 12.17; 2C0 8.21; lTm 5.8). Em vez disso, a Bíblia usa expres- 
sões explicativas como “aquele que alimenta todos os seres vivos” (SI 136.25), 
ou “fazes brotar nos vales nascentes que correm entre as colinas” (SI 104.10), 
expressando assim, de maneira concreta, os atos poderosos de Deus para com 
seus filhos.
Devemos resistir à tentação de pensar na providência de modo geral e in- 
dependente de Cristo. Seria possível, por exemplo, criar uma doutrina sobre a 
relação de Deus com sua criação que nada tivesse a ver com Jesus. Mas como 
é por meio de Cristo que tal relacionamento se dá, a tentativa de entendê-la à 
parte dele seria equivocada desde 0 início. Em Cristo, Deus estabeleceu uma 
relação entre ele mesmo e suas criaturas, prometendo cumprir seu propósito na 
criação até sua conclusão triunfal. A relação original com Adão, renovada com 
Noé (Gn 8.21,22), não está menos em Cristo do que a aliança com Abraão ou 
Moisés. O Mediador, que é a Palavra encarnada, estabelece essa relação; nele 
Deus se torna Deus do povo, e eles se tornam seu povo. (O Mediador também 
deve ser visto como artífice da relação entre Deus e suas criaturas que não se- 
jam seres humanos.) Como seu Deus, ele assumirá a responsabilidade por sua 
existência terrena.
A doutrina da providência pode ser entendida sob três aspectos diferentes.
1) A criação é a etapa em que se desenrolam as tratativas de Deus com a hu- 
manidade. A providência é a realização misericordiosa de Deus do seu propósi- 
to em Cristo que introduz as tratativas divinas com a humanidade. Não estamos 
ainda entrando na doutrina da predestinação. Estamos dizendo apenas que, no 
início, Deus ordenou 0 curso dos eventos em direção a Jesus Cristo e sua en- 
carnação. Do ponto de vista da Bíblia, a história mundial e as histórias da vida 
pessoal possuem significado apenas à luz da encarnação. A sórdida história de 
lascívia no relacionamento de Judá com Tamar (Gn 38) encontra seu lugar na
7Adaptado de “Doctrine of Creation”, in: W. Λ. Elwell, org., Evangelical Dictionaiy o f Theo- 
logy, 2* ed., p. 304-6. Usado com permissão.
&
Λ DO UTRINA DE DEUS PAI 1 1 1 3
genealogia do Messias (Mt 1.3). César Augusto ocupava 0 trono de Roma por 
causa do bebê desconhecido na manjedoura.
2) De acordo com At 14.17; 17.22-30 e Rm 1 -a providência divina tam ,־1823.
bém teve 0 propósito de dar testemunho de Deus entre os pagãos. Seu cuidado 
paternal era um sinal que apontava para ele mesmo. Romanos 1.20 deixa claro 
que 0 objetivo desse testemunho da providência era simplesmente 0 de tornar 0 
homem inescusável por desconhecer a Deus. Portanto, por causa desse aspecto 
a providência é também incluída na doutrina da reconciliação.
3) O Deus que dá vida ao homem também 0 preserva enquanto ele caminha 
sobre a terra. Deus não é um Deus da alma apenas, mas também do corpo. 
Em Mateus 6.25-34, 0 Criador lembra aos discípulos sua relação com Deus e 
os liberta de toda ansiedade quanto ao seu futuro terreno. As demais criaturas 
(conforme exemplificado pelos pássaros e pelas flores silvestres) foram postas 
numa relação definitiva com Deus que ele mantém fielmente, atendendo às 
suas necessidades. Dará ele, portanto, menos atenção aos seres humanos, a 
quem concedeu 0 lugar mais elevado na criação (cf. SI 8.6-8)? O homem, por 
conseguinte, “glorifica seu Criador [...) ao aceitar sem perguntas as dádivas que 
recebe dele diariamente”.8 Por trás dessa doutrina está a liberdade grandiosa e 
cheia de amor de Deus.
Resumindo, a doutrina da providência nos diz que o mundo e nossa vida 
não são governados pelo acaso, mas por Deus, que deixou claro seus propósitos 
de provedor na encarnação do seu Filho.
T. H . L. P a r k e r9
OS AGENTES DE DEUS
Os anjos estão incluídos na descrição de tudo 0 que Deus criou (SI 148.2; Cl 1.16). 
Há indícios de que tenham testemunhado a criação do mundo (Jó 38.7). Por 
mais próximos que os anjos estejam de Deus, compartilham com a humanida- 
de a condição de criaturas, mas, como criaturas totalmente espirituais, estão 
livres de muitas limitações humanas, como a morte (Lc 20.36). Não se casam 
(Mt 22.30), portanto podemos dizer que são assexuados. Em todas as ocasiões 
em que aparecem na Bíblia em forma humana, sempre foram vistos como ho- 
mens, nunca como mulheres ou crianças. Sua capacidade de se comunicar em 
linguagem humana e de simular a vida humana sob outros aspectos é primor- 
dial no papel que desempenham na Bíblia. Seu poder (Mt 28.2) e sua aparência
8Dietrich B o n h o e f f e r , The God o f Discipleship, p. 179.
9T. H. L. P a r k e r , Providence of God, in: W. A. E l w e l l , org., Evangelical Dictionary o f Theo- 
logy, 2* ed ., p. 964-5. Usado com permissão.
1 1 4 ; CURSO PARA FORM AÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
formidável (Mt 28.3,4) faziam com que as pessoas se sentissem tentadas, por 
vezes, a adorá-los, mas 0 Novo Testamento não aprova a adoração dos anjos 
(Cl 2.18; Ap 22.8,9). Embora os anjos sejam mais fortes e mais sábios do que os 
seres humanos, seu poder e seu conhecimento são também limitados por Deus 
(SI 103.20; Mt 24.36; lPe 1.11,12; 2Pe 2.11).
RELAÇÃO CO M CRISTO
O apóstolo João teve uma visão de anjos que rodeavam 0 trono de Deus (Ap 5.11). 
Certa vez, Paulo deu uma ordem solene a Timóteo “diante de Deus, de Cristo 
Jesus e dos anjos eleitos” (lTm 5.21). Cristo se tornou “superior aos anjos, a 
ponto de herdar um nome mais excelente do que eles” (Hb 1.4). “E ao introdu- 
zir 0 Primogênito no mundo, outra vez diz: E todos os anjos de Deus 0 adorem” 
(Hb 1.6). “Mas a qual dos anjos disse alguma vez: Assenta-te à minha direita 
até que eu ponha os teus inimigos como estrado de teus pés? Não são todos 
eles espíritos ministradores, enviados para servir em favor dos que herdarão a 
salvação?” (Hb 1.13,14). O salmo 8 é citado em referência a Cristo, feito “um 
pouco menor que os anjos” (Hb 2.7).
AN JO S C A ÍD O S
Antes da vitória final de Cristo, Satanás (literalmente, “0 adversário”) deve- 
rá primeiro ser derrotado. Na terra, Jesus expulsou demônios "pelo Espírito 
de Deus” (Mt 12.28). Quando seus discípulos descobriram que os demônios 
se sujeitavam a ele, Jesus disse: “Eu vi Satanás cair do céu como um raio” 
(Lc 10.18). À medida que se aproximava a hora da crucificação, Jesus disse 
que chegara a hora “do julgamento deste mundo, e 0 seu príncipe será expulso 
agora” (Jo 12.31). Muitas referências indiretas identificam Satanás como 0 anjo 
que pecou por causa do orgulho, e Apocalipse 12.7-9 fala de guerra no céu, na 
qual 0 arcanjo Miguel e seus anjos lutaram contra Satanás e seus anjos caídos. 
Embora 0 cristão seja advertido a estar vigilante contra Satanás, que ainda é “0 
príncipe do poderio do ar” (Ef 2.2), não há base bíblica para temor excessivo do 
diabo ou dos espíritos maus.
FU N ÇÕ ES TERRENAS
Paralelamente, “sobre os anjos ele diz: De seus anjos ele faz ventos, e de seus 
ministros, labaredas de fogo” (Hb 1.7; cf. SI 104.4). Os anjos apareceram a mui- 
tos do povo de Deus na Bíblia para anunciar boas-novas (Jz 13.3), advertir do 
perigo (Gn 19.15), guardar do mal (Dn 3.28; 6.22), guiar e proteger (Êx 14.19), 
alimentar (Gn 21.14-20; lRs 19.4-7) ou instruir (At 7.38; G1 3.19). Quando Cristo 
veio à terra como Salvador, os anjos anunciaram seu nascimento (Lc 2.8-15), 
guiaram seus pais e os advertiram (Mt 2.13), fortaleceram-no quando foi tentado
A DO UTRINA DE DEUS PAI
(Mt 4.11) e em sua agonia final (Lc 22.43) e participaram de sua ressurreição 
(Mt 28.1-6). Jesus falou de anjos da guarda das crianças (Mt 18.10). Filipe foi 
guiado por um anjo (At 8.26). Os apóstolos foram libertos da prisão por um 
anjo (At 5.19; 12.7-11). Numa situação assustadora, Paulo foi encorajado por 
um anjo (At 27.21-25).
SEU PAPEL NO JU ÍZOWilliams, doutor em filosofia, é reitor da Escola de Educação e de 
Liderança Cristã e professor de educação cristã do Southern Baptist Theological 
Seminary, onde obteve 0 doutorado.
Marvin R. Wilson, doutor em filosofia, é professor da cátedra Harold J. Ockenga 
de Estudos Bíblicos e Teológicos no Gordon College. Doutorou-se pela Brandeis 
University.
Robert W. Yarbrough, doutor em filosofia, é professor associado de Novo 
Testamento da Trinity International University e coeditor da série Baker Exe- 
getical Commentary on the New Testament. Doutorou-se pela Universidade 
de Aberdeen,
Timothy E. Yates, doutor em missiologia pela Universidade de Uppsala, na 
Suécia. É ex-monitor e professor do St. John’s College, Universidade de Durham, 
na Inglaterra, e é autor de The Expansion of Christianity.
Ravi Zacharias, mestre em divindade pela Trinity Evangelical Divinity School, 
é presidente do Ravi Zacharias International Ministries, conferencista respei- 
tado no mundo todo e autor de diversos livros, entre eles, Jesus Among Other 
Gods. Seu programa radiofônico semanal de rádio, Let My People Think, é ouvi- 
do no mundo todo através de milhares de estações de rádio.
PROFESSORES" DO CURSED PARA FORMAÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS J 17־
INTRODUÇÃO
O Carso para formação de líderes e obreiros oferece uma oportunidade única 
de aprendizagem. A exemplo dos seminários tradicionais, ele foi criado com 0 
objetivo de promover um entendimento mais profundo das verdades das Escri- 
turas, ampliar 0 conhecimento bíblico e teológico dos líderes cristãos [de hoje 
e de amanhã) e estimular a reflexão e a ação cristãs verdadeiras num mundo 
em que 0 cristianismo é pouco valorizado — e, não raro, questionada — por 
pessoas e forças que dão forma à cultura contemporânea.
Ao reunir um grupo internacional de “docentes” cristãos evangélicos do 
mais alto calibre, constituído tanto de estudiosos quanto de gèntè que põe real- 
mente a mão na massa, este curso oferece uma introdução a uma ampla gama 
de disciplinas: Teologia, Línguas Bíblicas e Interpretação, Análise e Formação 
do Antigo e do Novo Testamentos, História do Cristianismo, Apologética e Reli- 
giões do Mundo, Missões, Educação Cristã, Liderança, Ética Cristã etc.
Tbdo isso bem longe dos corredores solenes, dos edifícios antigos e vitrais. 
Quem faz 0 cronograma é 0 aluno, é ele quem decide o quanto vai estudar, 
se muito ou pouco, depressa ou mais lentamente, se vai se dedicar a uma ou 
mais matérias ou se vai devorar 0 livro todo. O local de estudos também fica a 
critério dele, de acordo com sua preferência: na praia ou num lugar Isolado nas 
montanhas, no metrô ou no avião, ou em casa mesmo, em seu escritório parti- 
cular. Quem quiser se aprofundar nos conhecimentos de teologia e de Bíblia não 
precisa fazer matrícula alguma. É só começar a estudar.
Mas será que um livro pode substituir 0 ensino ministrado no seminário? 
De forma alguma. Não há como substituir a profundidade dos estudos ou a 
densidade da interação pessoal que se tem num seminário ou numa faculdade 
qualquer. Por isso mesmo, 0 Curso para formação de líderes e obreiros se propõe 
a ser uma introdução — um panorama — do ensino de nível superior.
Quem se beneficiará dele? As pessoas que estiverem pensando na possi- 
bilidade de ingressar no seminário terão um aperitivo do que as espera mais
adiante. Os pastores que não tiveram tempo nem oportunidade de cursar um 
programa de graduação formal poderão aprofundar seu conhecimento bíblico e 
teológico, quem sabe descobrindo neste livro um excelente curso de atualização 
e uma ferramenta prática de referência. Para os leigos que queiram ampliar seus 
conhecimentos ou que pensam em seguir o ministério — em tempo integral ou 
de forma voluntária , este curso foi concebido com 0 propósito de expandir o 
conhecimento e 0 vocabulário, estimular 0 pensamento e proporcionar recursos 
para estudos futuros.
A exemplo de outras experiências de aprendizagem, 0 empenho com que 
o aluno estuda os capítulos deste livro terá influência direta sobre o proveito 
que poderá tirar dele. O conteúdo que se segue não foi simplificado para maior 
conveniência. Há assuntos complexos — línguas bíblicas, a doutrina de Deus Pai 
e apologética, por exemplo —, embora qualquer pessoa com bom nível de leitura 
esteja em condições de destrinchá-los. O glossário de termos especializados (no 
final do livro) tem como objetivo tomar acessível a tarefa aqui proposta.
A vida crista exige mais do que simples conhecimento. Pode-se ter uma 
educação esmerada e não ter a fé, a coragem e a humildade que Deus deseja 
que tenhamos. Contudo, quanto mais entendermos sobre Deus e sobre a vida 
para a qual ele nos chama, tanto menos seremos levados pelas ondas da opinião 
popular, da doutrina dúbia e do hedonismo.
Portanto, bem-vindo ao Curso para formação de líderes e obreiros! Nosso 
desejo é que estas páginas estimulem sua mente, abram seu coração e enrique- 
çam sua alma.
2 0 j CURSO RARA FORMAÇÃO OE llDERES E OBREIROS
POR QUE ESTUDAR TEOLOGIA?
Se você não se preocupa com teologia, isso não significa que 
você não tenha idéia alguma a respeito de Deus. Significa, isto 
sim, que você tem uma porção de idéias equivocadas, ruins, 
confusas e ultrapassadas.
C. S, L e w is 1
A simples menção de palavras como teologia ou doutrina em qualquer ajun- 
tamento cristão suscita uma série de reações, algumas delas bastante negati- 
vas. Há cristãos que sem hesitação alguma — e quase mesmo com orgulho 
— confessam ignorar 0 assunto. Poucos, ao que parece, querem ser vistos como 
"teólogos". Afinal de contas, teólogo não é aquele sujeito piedoso, mas pouco
1 Mere Christianity, p. 136-7. (Publicado em português com 0 título CristUmismo puro e 
simples. São Paulo: Martins Fontes, 2005.]
prático, que se preocupa com trivialidades bíblicas, se envolve em disputas 
doutrinárias sutis e escreve sobre tópicos obscuros em livros pretensiosos que 
ninguém lê? Enquanto esses especialistas perdem seu tempo precioso com coi- 
sas de menor importância — se é que têm, de fato, alguma importância, confor- 
me dizem por aí —, as demais pessoas estão ocupadas tentando viver a fé cristã 
num ambiente por vezes hostil.
Se você é uma dessas pessoas que pensam assim, saiba que, para Bruce 
Milne, “não há cristão que não seja também teólogo”.2 Isso talvez o surpreen- 
da ou 0 deixe desanimado. P0Tém, pense um pouco. A teologia é o estudo da 
ciência'divina, Todos sabemos alguma coisa a respeito de Deus; no entanto, 
raramente chamamos isso que sabemos de “teologia”.
Tendo nascido de novo, começamos a conhecer a Deus e, portanto, temos 
uma certa compreensão da sua natureza e de suas ações. Em Dutras pa- 
lavras, trabalhamos com algum tipo de teologia, quer tenhamos sentado 
um dia para lhe dar forma, quer não. Portanto, a rigor, a teologia não é de 
modo algum objeto exclusivo de uns poucos intelectuais com gosto para 
o debate abstrato. Todos somos teólogos. No momento em que tivermos 
entendido isso, devemos nos tornar os melhores teólogos que pudermos 
para a glória de Deus, à medida que nossa compieensão sobre Deus e 
sobre seus caminhos vai se tornando mais clara e mais profunda graças 
ao estudo do livro que ele deixou exatamente com esse objetivo: a Bíblia.3 
(V. 2Tm 3.16.)
Como filhos de Deus, é de esperar que nos esforcemos para saber tudo 0 que 
estiver ao nosso alcance sobre nosso Pai celestial, seus caminhos e sua vontade 
para nossa vida. Lidar com aquilo em que acreditamos de maneira desleixada é re- 
ceita quase certa de frustração e de equívoco em nosso relacionamento com Deus.
Diante da escolha entre "teologia” e "fé prática”, a maior parte dos cristãos 
opta pela última. Mas será realmente possível crescer na fé sem crescer no co- 
nhecimento de Deus? Como saber se estamos agindo corretamente, se estamos 
fazendo as escolhas certas e vivendo de modo a agradá-lo se não houver uma 
base para esse conhecimento? Alister McGrath diz que, se alguém quiser fazer o 
que é certo, "seráOs cristãos esperam que os anjos acompanhem Cristo em seu retorno triunfante 
(Mt 25.31; At 1.10,11; lTs 4.16; 2Ts 1.7). Os anjos participarão do juízo final, tal 
como anteriormente exerceram 0 juízo de Deus. Foi um anjo que feriu de morte 
Herodes Agripa (At 12.21-23). O “destruidor”, cuja passagem sobre os israelitas, 
quando matou os egípcios, é celebrada na Páscoa judaica (Êx 12.21-27), pode 
ter sido um “anjo da morte”.
O ESPÍRITO SANTO
Desde os tempos do Novo Testamento, muitas das obras previamente confiadas 
por Deus a seus anjos fazem parte da função do Espírito Santo na vida dos cren- 
tes em Cristo. Em sua atividade de guiar, iluminar, proteger e revestir de poder 
0 cristão, 0 Espírito Santo poderá, no entanto, continuar a usar anjos por amor 
a Deus e ao seu povo.
W alter R. H e a r n e H o w a r d F. V o s 10
RECU RSO S PARA LEITURA E ESTU D O
Ver o final do capítulo 10.
RECU RSO S A D IC IO N A IS
B ray, Gerald. A doutrina de Deus.
F erreira , Franklin & M yatt, Alan. Teologia sistemática: uma análise histórica, bí- 
blica e apologética para 0 contexto atual (parte 3).
H orton, Michael. A face de Deus.
P acker , J. 1. O conhecimento de Deus.
P iper , John. Em busca de Deus: a plenitude da alegria cristã.
P eantinga , Alvin. Deus, a liberdade e 0 mal.
S t u r z , Richard J. Teologia sistemática (parte 11).
W enham , John W. O enigma do mal: podemos crer na bondade de Deus?
W right , R. K. McGregor. A soberania banida: redenção para a cultura pós-moderna.
10Adaptado de “A ngel”, in: W. A. Elwell, 01׳g., Baker Encyclopedia o f the Bible, v. 1, p. 89. 
Usado com perm issão.
CAPÍTULO 5
A DOUTRINA DE 
DEUS FILHO
Estou tentando impedir que alguém repita a rematada tolice dita 
por muitos a seu respeito: “Estou disposto a aceitar Jesus como um 
grande mestre da moral, mas não aceito a sua afirmação de ser 
Deus". Essa é a única coisa que não devemos dizer. Um homem 
que fosse somente um homem e dissesse as coisas que Jesus disse 
não seria um grande mestre da moral. Seria um lunático — no 
mesmo grau de alguém que pretendesse ser um ovo cozido — ou 
então 0 diabo em pessoa. Faça a sua escolha. Ou esse homem era 
e é o Filho de Deus ou não passa de um louco ou coisa pior. Você 
pode querer calá-lo por ser louco, pode cuspir nele e matá-lo como 
se fosse um demônio; ou pode prostrar-se a seus pés e chamá-lo de 
Senhor e Deus. Mas que ninguém venha, com paternal condescen- 
dência, dizer que ele não passava de um grande mestre humano. 
Ele não nos deixou essa opção, e não quis deixá-la.
C . S . L e w i s '
JESUS DE NAZARÉ
Em Mateus e Lucas encontramos relatos do nascimento de Jesus. Ambos res- 
saltam que ele nasceu de uma virgem de nome Maria na cidade de Belém 
(Mt 1.18—2.12; Lc 1.26—2.7; as tentativas de descobrir alusões ao nascimento 
virginal em G1 4.4 e Jo 8.41 são muito forçadas). Querer comparar essas histó- 
rias com mitos gregos esbarra na falta de paralelos significativos na literatura 
grega e, sobretudo, na natureza judaica desses relatos. 1
1 Mere Christianity, p. 56. [Publicado no Brasil com 0 título Cristianismo puro e simples, São 
Paulo: Martins Fontes, 2005.[
0 ministério de Jesus começou com seu batismo por João (Mc 1.1-15; 
At 1.21,22; 10.37} e sua tentação por Satanás. Seu ministério caracterizou-se: 
pela escolha de 12 discípulos (Mc 3.13-19), que simbolizava a reunião das 12 
tribos de Israel; pela pregação da necessidade de arrependimento (Mc 1.15) e 
pela chegada do reino de Deus em seu ministério (Lc 11.20); pela oferta de sal- 
vação aos banidos da sociedade (Mc 2.15-17; Lc 15; 19.10); pela cura dos doen- 
tes e dos possuídos pelo demônio (fatos mencionados no Talmude judaico); e 
por seu retorno glorioso para consumar 0 reino.
O momento decisivo de seu ministério ocorreu em Cesareia de Filipe, depois 
que Pedro confessou que Jesus era 0 Cristo. Jesus disse que Pedro estava certo e 
contou em seguida aos discípulos que deveria morrer (Mt 16.13-21; Mc 8.27-31). 
Prosseguindo em direção a Jerusalém, Jesus purificou 0 templo e, com isso, jul- 
gou a religião de Israel (observe como Marcos coloca esse acontecimento entre 
11.12-14 e 11.20,21, bem como os conteúdos dos dois capítulos seguintes). Na 
noite em que foi traído, Jesus instituiu a ordenança da Santa Ceia, numa refe- 
rência à nova aliança selada por seu sangue sacrifical e pelo reencontro vitorio- 
so no reino de Deus (Mt 26.29; Mc 14.25; Lc 22.18; 1C0 11.26). Em seguida, foi 
preso no Jardim do Getsêmani, julgado diante do Sinédrio, de Herodes Antipas 
e, por fim, de Pôncio Pilatos, que 0 condenou à morte com base em acusações 
políticas por ter declarado ser 0 Messias (Mc 15.26; Jo 19.19). Na véspera do 
sábado, Jesus foi crucificado pelos pecados do mundo (Mc 10.45) fora da cidade 
de Jerusalém (Jo 19.20), num lugar chamado Gólgota (Mc 15.22), entre dois 
ladrões que talvez tenham sido revolucionários (Mt 27.38).
Como Jesus expirou antes do sábado, não foi preciso apressar sua morte 
quebrando-lhe as pernas, num procedimento conhecido como crucifragium (Jo 
19.31-34). Ele foi sepultado no túmulo cedido por José de Arimateia (Mc 15.43; 
Jo 19.38). No primeiro dia da semana, que era 0 terceiro dia (sexta-feira até as 
18h, dia 1; sexta-feira, das 18h até sábado, às 18h, dia 2; sábado: das 18h até 
domingo pela manhã, dia 3), ele ressuscitou dos mortos, 0 túmulo vazio foi des- 
coberto e ele apareceu a seus seguidores (Mt 28; Mc 16; Lc 24; Jo 20—21). Jesus 
ficou quarenta dias com seus discípulos e depois subiu ao céu (At 1.1-11).
Assim terminaram os três anos de ministério (Jo 2.13; 5.1; 6.4; 13.1) de 
Jesus de Nazaré.
1 1 8 | CURSO PARA FORM AÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
FONTES DE INFORMAÇÃO SOBRE JESUS CRISTO
Fontes não cristãs. Essas fontes podem ser divididas em dois grupos: pagãs e 
judaicas. Ambas têm valor limitado. Existem basicamente apenas três fontes 
pagãs importantes: Plínio (Epístolas, x.96); Tácito [Anais, w.44); e Suetônio
{Vidas, xxv.4). Esses documentos são da segunda década do segundo século.
As principais fontes judaicas são Josefo (Antiguidades, xviii.3.3 e xx.9.1) e 
0 Talmude. As fontes não cristãs oferecem poucas informações sobre Jesus, 
mas confirmam que ele viveu de fato, fez discípulos, realizou curas e foi 
condenado à morte por Pôncio Pilatos.
Fontes cristãs. As fontes cristãs não bíblicas consistem, em sua maior 
parte, em evangelhos apócrifos (150-350 d.C.) e “agrafos” (“dizeres não es- 
critos” de Jesus, isto é, dizeres supostamente autênticos de Jesus não en- 
contrados nos evangelhos canônicos). Seu valor é bastante duvidoso porque 
0 que neles está registrado, quando não é totalmente fantasioso (cf. 0 
Evangelho da infância de Tomé) ou herético (cf. O evangelho da verdade) é, 
no máximo, apenas possível e não provável (cf. O evangelho de Tomé 31,47).
Os materiais bíblicos podem ser divididos em Evangelhos e Atos até Apoca- 
lipse. As informações à disposição de Atos a Apocalipse são essenciais: Jesus 
era judeu de nascimento (G1 4.4) e descendente de Davi (Rm 1.3); era manso 
(2C0 10.1), justo (lPe 3.18), sem pecado (2C0 5.21) e humilde (Fp 2.6-8); foi 
tentado (Hb 2.18; 4.15); instituiu a Santa Ceia (1C0 11.23-26); foi transfigurado 
(2Pe 1.16-18); foi traído (1C0 11.23), crucificado (1C0 1.23), ressuscitou dos 
mortos (1C0 15.3-8) e subiu ao céu (Ef 4.8). Algumas declarações específicas 
de Jesus são conhecidas (cf. At 20.35; 1C0 7.10; 9.14), além de possíveis alu- 
sões a coisas que ele disse (p. ex., Rm 12.14,17; 13.7-10; 14.10).
As principais fontes de informação sobre Jesus são os Evangelhos canôni- 
cos. Esses evangelhos são geralmente divididos em dois grupos: os Evangelhos 
sinóticos (os evangelhos “parecidos” de Mateus, Marcos e Lucas) e João. A 
tese mais aceita é a de que os três primeiros guardam uma proximidade lite- 
rária. A explicação disso seria que Marcos escreveu primeiro, depois Mateus 
e Lucas se basearam em Marcos e em outra fonte, hoje perdida, que conteria 
a maior parte dos ensinamentos de Jesus (chamada de“Q”), além de outros 
materiais (“M”: materiais encontrados apenas em Mateus; “L”: materiais en- 
contrados apenas em Lucas).
Robert H , Stein
A DO UTRINA DE DEUS F ILH O I 1 1 9
O C R ISTO DA FÉ
A consciência notável que Jesus tinha de si mesmo fica evidente de duas manei- 
ras: pela cristologia implícita revelada em suas ações e palavras e pela cristolo- 
gia explícita revelada pelos títulos que ele escolheu para descrever a si mesmo.
Cristologia implícita. Durante seu ministério, Jesus agiu como alguém que 
possuía autoridade especial. Ele tomou para si a prerrogativa de purificar 0
templo (Mc 11.12-33), de acolher no reino os marginalizados (Lc 15) e de assu- 
mir a autoridade divina para perdoar pecados (Mc 2.5-7; Lc 7.48,49).
Jesus também falou como alguém que possuía autoridade maior do que a do 
Antigo Testamento (Mt 5.31,32,38,39), do que Abraão (Jo 8.53), Jacó (Jo 4.12) 
e 0 templo (Mt 12.6). Ele disse ser Senhor do sábado (Mc 2.28). Afirmou ainda 
que 0 destino das pessoas dependia de como reagiríam a ele (Mt 10.32,33; 11.6; 
Mc 8.34-38).
C ristologia explícita. Juntamente com a cristologia implícita que caracterizou 
seu comportamento, Jesus fez algumas afirmações cristológicas por meio dos 
vários títulos que aplicou a si mesmo. Ele se referiu a si mesmo como Messias, 
Cristo (Mc 8.27-30; 14.61,62), e sua sentença formal de morte por motivações 
políticas (note-se 0 sobrescrito na cruz) só faz sentido se tomarmos por base 0 
fato de que Jesus admitiu ser 0 Messias. Ele também se referiu a si mesmo como 
Filho de Deus (Mt 11.25-27; Mc 12.1-9), e uma passagem como Mc 13.32, em 
que estabelece uma diferença nítida entre si mesmo e os outros tem mesmo de 
ser autêntica, porque ninguém na igreja teria criado uma declaração em que 0 
Filho de Deus afirma não saber a hora do fim.
Jesus preferia referir-se a si mesmo como Filho do homem, dada a natureza 
de ocultamento e revelação desse título. Ao usá-lo, era óbvio que Jesus tinha 
em mente 0 Filho do homem mencionado em Daniel 7.13 (cf. fica claro em 
Mt 10.23; 19.28; 25.31; Mc 8.38; 13.26; 14.62). Portanto, em vez de enfatizar a 
humildade, é evidente que esse título revela a autoridade divina que Jesus pos- 
sui como Filho do homem para julgar 0 mundo, bem como sua percepção de 
que viera do Pai (cf. aqui também Mt 5.17; 10.34; Mc 2.17; 10.45). Houve várias 
tentativas de negar a autenticidade de algumas ou de todas as declarações de 
Filho do homem, porém tais tentativas fracassaram porque esse título é encon- 
trado em todos os substratos dos evangelhos (Marcos, Q, M, L e João) e satisfaz 
plenamente 0 “critério da dissimilaridade”. De acordo com esse critério, se 0 
aparecimento de uma declaração ou título como esse só fosse possível dentro 
do judaísmo ou da igreja primitiva, 0 título deveria ser autêntico. Negar sua 
autenticidade, portanto, decorre não tanto de questões exegéticas, mas muito 
mais de pressupostos racionalistas que negam a priori que Jesus de Nazaré pu- 
desse ter-se referido a si mesmo dessa maneira.
Robert H . Stein 2
1 2 0 I CURSO PARA FORM AÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
2Adaptado de "Jesus Christ”, in: W. A. Elwki.l, org., Evangelical Dictionary o f Theology, 
2s ed., p. 629-32. Usado com perm issão.
C R IS TO LO G IA DO N O VO TESTAM ENTO
Os autores do Novo Testamento dizem quem é Jesus ao descrever 0 significado 
da obra que ele veio realizar e 0 ofício que veio cumprir. Entre as várias descri- 
ções de sua obra e ofício, sobretudo no que diz respeito ao Antigo Testamento, 
há uma mistura que une um aspecto a outro e uma progressão que leva a um 
enriquecimento, mas sem eliminar a tradição mais antiga.
J esus nos E vangelhos. A humanidade de Jesus não é questionada nos Evan- 
gelhos sinóticos, como se não pudesse ocorrer a ninguém questioná-la. Nós 0 
vemos deitado na manjedoura, crescendo, aprendendo, sentindo fome, ansieda- 
de, dúvida, tendo decepções e surpresas (Mc 2.15; 14.33; 15.34; Lc 2.40; 7.9), 
até que finalmente morre e é sepultado. Mas há outros lugares que dão também 
testemunho específico de sua humanidade, como se isso pudesse estar sujei- 
to a dúvidas (Jo 1.14; G1 4.4), ou sua importância pudesse ser negligenciada 
(Hb 2.9,17; 4.15; 5.7,8; 12.2).
Além dessa ênfase em sua verdadeira humanidade, há sempre, entretanto, 
uma ênfase no fato de que mesmo em sua humanidade ele é sem pecado e tam- 
bém completamente diferente dos outros homens. Sua importância não deve 
ser buscada na comparação com homens que foram os maiores, mais sábios 
ou mais santos entre todos os demais. O nascimento virginal e a ressurreição 
são sinais de que aqui temos algo incomparável no mundo dos homens. Só po- 
demos saber quem ou 0 que ele é contrastando-o com outros, mas a diferença 
torna-se mais evidente quando os outros são comparados a ele. O fato de ter 
vindo para sofrer e triunfar como homem em nosso meio é, sem dúvida alguma, 
decisivo para todos com quem ele se encontra e para 0 destino do mundo todo 
(Jo 3.16-18; 10.27,28; 12.31; 16.11; 1J0 3.8). Com sua vinda, veio também 0 rei- 
no de Deus (Mc 1.15); seus milagres são sinais de que isso é verdade (Lc 11.20). 
Portanto, ai daqueles que os interpretam erroneamente (Mc 3.22-29).
Ele age e fala com autoridade real de quem veio do céu. Pode desafiar os 
homens a entregar a vida por causa dele (Mt 10.39). O reino é, de fato, seu rei- 
no (Mt 16.28; Lc 22.30). Ele é aquele que, ao dizer simplesmente 0 que pensa, 
pronuncia ao mesmo tempo a palavra eterna e decisiva de Deus (Lc 5.22,27,28; 
24.35). Sua palavra cumpre aquilo que proclama (Lc 8.2; Mc 11.21), como faz a 
Palavra de Deus. Ele tem autoridade e poder até mesmo para perdoar pecados 
(Mc 2.1-12).
Cristo. Seu verdadeiro significado só será entendido quando sua relação com 0 
povo em cujo meio nasceu for compreendida. Nos eventos desencadeados por 
sua carreira terrena, realiza-se 0 propósito e a aliança de Deus com Israel. Ele é 
aquele que vem fazer 0 que nem 0 povo do Antigo Testamento nem tampouco
A DO UTRINA DE DEUS FILHO [ 1 2 1
seus representantes ungidos — os profetas, sacerdotes e reis — puderam fazer. 
Eles receberam a promessa de que alguém se levantaria em seu meio e realiza- 
ria aquilo que ninguém fora capaz de realizar. Nesse sentido, Jesus de Nazaré 
é 0 Ungido com 0 Espírito e poder (At 10.38) para ser 0 verdadeiro Messias, 
ou 0 Cristo (Jo 1.41; Rm 9.5) do seu povo. Ele é 0 verdadeiro profeta (Mc 9.7; 
Lc 13.33; Jo 1.21; 6.14), sacerdote (Jo 17; Hebreus) e rei (Mt 2.2; 21.5; 27.11) 
conforme se vê, por exemplo, em seu batismo (Mt 3.13-17) e na interpretação 
que faz de Isaías 61 (Lc 4.16-22). Ao receber essa unção e cumprir esse propó- 
sito messiânico, recebe dos seus contemporâneos os títulos de Cristo (Mc 8.29) 
e Filho de Davi (Mt 9.27; 12.23; 15.22; cf. Lc 1.32; Rm 1.3; Ap 5.5).
Contudo, ele dá a si mesmo vários títulos e recebe muitos outros que ajudam 
a esclarecer 0 ofício que ele cumpriu. Esses títulos são ainda mais decisivos 
para esclarecer quem ele é. Uma comparação das idéias messiânicas do juda- 
ísmo tanto com 0 ensinamento de Jesus quanto com 0 testemunho do Novo 
Testamento mostra que ele escolheu certos aspectos da tradição messiânica 
que enfatizou e permitiu que se cristalizassem em torno de sua pessoa. Alguns 
títulos messiânicos são usados por Jesus e aplicados a ele em detrimento de ou- 
tros, os quais são, por sua vez, reinterpretados no uso que Jesus faz deles e na 
relação que estabelece entre esses títulos e ele mesmo e entre um e outro. Isso 
explica, em parte, sua “cautela messiânica” (Mt 8.4; 16.20; Jo 10.24).
F ilho do homem. Jesus usou 0 título Filho do homem em relação a si mesmo 
mais do que qualquer outro. Há passagens no Antigo Testamento em que a 
expressão significa simplesmente “homem” (p. ex., SI 8.4), e às vezes 0 uso 
que Jesus faz da expressão corresponde a esse sentido (cf. Mt 8.20). Contudo, a 
maior parte dos contextos indica que, ao usar esse título, Jesus estava pensan- 
do em Daniel 7.13, onde 0 “Filho dohomem” é um personagem celestial que é 
tanto um indivíduo quanto 0 representante ideal do povo de Deus. Na tradição 
apocalíptica judaica, esse Filho do homem é tido como um ser preexistente 
que virá no fim dos tempos como juiz e luz para os gentios (cf. Mc 14.62). Às 
vezes, Jesus usa esse título quando enfatiza sua autoridade e poder (Mc 2.10; 
2.28; Lc 12.8-10). Outras vezes, ele o utiliza quando enfatiza sua humildade e 
0 fato de que está incógnito (Mc 10.45; 14.21; Lc 9.58). No Evangelho de João, 
0 título é usado em contextos que ressaltam sua preexistência, sua vinda ao 
mundo num estado de humilhação que esconde e manifesta ao mesmo tempo 
sua glória (Jo 3.13,14; 6.62,63), sua tarefa de unir céu e terra (Jo 1.51) e sua 
vinda para julgar os homens e celebrar 0 banquete messiânico (Jo 5.27; 6.27).
Embora “Filho do homem” seja uma expressão usada apenas por Jesus para 
se referir a si mesmo, seu significado é expresso de outra maneira, principal- 
mente em Romanos 5 e ICoríntios 15, passagens em que Cristo é descrito como
1 2 2 I CURSO RARA FORM AÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
“homem do céu” e “último Adão”. Paulo recorre a algumas referências dos 
Evangelhos sinóticos de que com a vinda de Cristo haverá uma nova criação 
(Mt 19.28), na qual sua atuação deve ser associada à de Adão e contrastada com 
ela na primeira criação (cf., p. ex., Mc 1.13; Lc 3.38). Tanto Adão quanto Cristo 
apresentam uma relação de representatividade no que diz respeito à humani- 
dade toda que integra 0 conceito de “Filho do hom em ”. Contudo, a identificação 
de Cristo com toda a humanidade é entendida como algo muito mais profundo 
e completo do que a de Adão. Em sua ação redentora, a salvação é estendida 
a toda a humanidade. Pela fé nele, todos podem participar de uma salvação 
já realizada em Cristo. Ele é também a imagem e a glória de Deus (2C0 4.4,6; 
Cl 1.15), as quais 0 homem foi feito para refletir (1C0 11.7) e das quais os cren- 
tes devem se revestir ao participar da nova criação (Cl 3.10).
S ervo. Jesus se identifica com a humanidade, conforme se vê em passagens 
que lembram 0 servo sofredor de Isaías (Mt 12.18; Mc 10.45; Lc 24.26). Na ex- 
periência do batismo, ele assume 0 papel (cf. Is 42.1; Mt 3.17) de quem sofre, 
em quem todos estão representados e que é oferecido pelos pecados do mundo 
(Is 53; Jo 1.29). Jesus é chamado explicitamente de “servo” no início da prega- 
ção da igreja (At 3.13,26; 4.27, 30), uma ideia que estava também na mente de 
Paulo (cf. Rm 4.25; 5.19; 2C0 5.21).
Na humilhação de se identificar com nossa humanidade (Hb 2.9,17; 4.15; 5.7; 
12.2), ele desempenha 0 papel não só da vítima, mas também do sumo sacerdote, 
oferecendo-se de uma vez por todas (Hb 7.27; 9.12; 10.10) num autossacrifício 
que inaugura para sempre uma nova relação entre Deus e 0 homem. Seu “ba- 
tismo”, que ele realiza em sua carreira terrena e cujo ápice é a cruz (Lc 12.50), 
santifica-0 em seu sacerdócio eterno, e é nessa santificação pessoal e por meio 
dela que seu povo é santificado para sempre (Jo 17.19; Hb 10.14).
F ilho de D eus. O título Filho de Deus não é usado por Jesus com a mesma fre- 
quência que Filho do homem (v., porém, p. ex., Mc 12.6), mas foi esse 0 nome 
que lhe deu (cf. Lc 1.35) a voz celestial no batismo e na transfiguração (Mc 1.11; 
9.7), Pedro em seu momento de iluminação (Mt 16.16), os demônios (Mc 5.7) 
e 0 centurião (Mc 15.39).
Trata-se de um título messiânico. No Antigo Testamento, Israel é chamado 
de “filho” (Êx 4.22; Os 11.1). O rei (2Sm 7.14; SI 2.7) e possivelmente os sacer- 
dotes (Ml 1.6) também recebem 0 mesmo título. Jesus, portanto, ao usar esse 
título e admitir sua utilização, assume 0 nome de alguém que deverá cumprir 0 
verdadeiro destino de Israel.
Contudo, 0 título mostra também a consciência especial de filiação que Jesus 
tem em meio à sua tarefa messiânica (cf. SI 2.7; Mt 11.27; Mc 13.32; 14.36). As
A DO UTRINA DE DEUS EILHO j 1 2 3
implicações cristológicas disso são profundas. Ele não é simplesmente um filho, 
mas 0 Filho (Jo 20.17). Essa consciência, revelada em momentos de clímax nos 
sinóticos, é entendida por João como parte do fluxo contínuo de consciência 
pregressa na vida de Jesus. O Filho e 0 Pai são um (Jo 5.19,30; 16.32) em sua 
vontade (Jo 4.34; 6.38; 7.28; 8.42; 13.3), atividade (Jo 14.10) e na oferta de vida 
eterna (Jo 10.28-30). O Filho está no Pai e 0 Pai está no Filho (Jo 10.38; 14.10). 
O Filho, assim como 0 Pai, tem vida e poder de vivificar em si mesmo (Jo 5.26). 
O Pai ama 0 Filho (Jo 3.35; 10.17; 17.23,24) e confiou tudo a ele (Jo 5.36), dando- 
-lhe autoridade para julgar (Jo 5.22). O título implica também unidade de ser e de 
natureza com 0 Pai e singularidade de origem e de preexistência (Jo 3.16; Hb 1.2).
S e n h o r . Embora Paulo também utilize 0 título Filho de Deus, a maior parte 
das vezes ele se refere a Jesus como Senhor. O termo não foi criação do após- 
tolo. Jesus é chamado de Senhor e é também mencionado desse modo nos 
Evangelhos (Mt 7.21; Mc 11.3; Lc 6.46). Aqui 0 título pode referir-se principal- 
mente à sua autoridade de ensino (Lc 11.1; 12.41), mas pode também ter um 
sentido mais profundo (Mt 8.25; Lc 5.8). Embora 0 título lhe seja atribuído com 
mais frequência depois de sua exaltação, ele mesmo citou SI 110.1 (Mc 12.35-37).
O senhorio de Cristo se estende em todo 0 curso da história e sobre to- 
dos os poderes do mal (1C0 2.6-8; 8.5; 15.24; Cl 2.15), e deve ser 0 principal 
interesse da vida da igreja (1C0 7.10,25; Ef 6.7). Como Senhor, ele virá para 
julgar (2Ts 1.7).
Embora a obra realizada em sua condição de humilhação seja também um 
exercício de senhorio, foi depois da ressurreição e da ascensão que 0 título de 
Senhor passou a ser conferido de forma mais espontânea a Jesus (At 2.32-36; 
Fp 2.1-11) pela igreja primitiva. A igreja orava a ele como se orasse a Deus 
(At 7.59,60; 1C0 1.2; cf. Ap 3.14,21; 22.16). Senhor é um título que tem ligação 
muito próxima com 0 nome de Deus (1C0 1.3; 2C0 1.2; cf. Ap 17.14; 19.16; cf. 
Dt 10.17). Atribuern-se a Cristo as promessas e os atributos do Senhor (Javé) 
mencionados no Antigo Testamento (cf. At 2.21,38; Rm 10.3 e J1 2.32; lTs 5.2 e 
Am 5.18; Fp 2.10,11 e Is 45.23). Aplicam-se livremente a ele a linguagem e as 
fórmulas usadas em referência a Deus. Em Jo 1.1,18; 20.28; 2Ts 1.12; lTm 3.16; 
Tt 2.13 e 2Pe 1.1, confessa-se que Jesus é “Deus”.
P a l a v r a . A declaração “O Verbo se fez carne” (Jo 1.14) vincula Jesus tanto 
com a sabedoria de Deus no Antigo Testamento (que ganha status de pessoa em 
Pv 8) quanto com a Lei divina (Dt 30.11-14; Is 2.3), na medida em que ambas 
são reveladas e declaradas pela operação da Palavra por meio da qual Deus cria, 
se revela e cumpre sua vontade na história (SI 33.6; Is 55.10,11; 11.4; Ap 1.16). 
Existe aqui uma relação íntima entre palavra e evento. No Novo Testamento, fica
1 2 4 I CURSO PARA FORM AÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
A DO UTRINA DE DEUS FILHO f 1 25
mais claro que a Palavra não é simplesmente uma mensagem proclamada, mas 
0 próprio Cristo (cf. Jo 8.31 e 15.17; Ef 3.17 e Cl 3.16; lPe 1.3 e 23). 0 que Paulo 
expressa em Cl 1, João diz em seu prólogo. As duas passagens (e Hb 1.1-14) 
afirmam 0 lugar de Cristo como aquele que, no princípio, era 0 agente da ativi- 
dade criadora de Deus. Ao testificar dessas características da pessoa de Jesus, 
é inevitável que 0 Novo Testamento testifique de sua preexistência. Ele estava 
“no princípio” (Jo 1.1-3; Hb 1.2-10). Seu advento (Mc 1.24; 2.17; Lc 12.49) 
0 submete a uma profunda humilhação de si mesmo (2C0 8.9; Fp 2.5-7) 
no cumprimento de um propósito que lhe fora ordenado desde a fundação do 
mundo (Ap 13.8). No Evangelho de João, ele dá esse testemunho com suas 
próprias palavras (Jo 8.58; 17.5,24).
Contudo, embora sua vinda do Pai não implique diminuição alguma de sua 
divindade, 0 Filho encarnado está subordinado ao Pai no âmbito de uma relação 
de amor que subsiste entre 0 Pai e 0 Filho (Jo 14.28). É 0 Pai que envia e é 0 Filho 
que é enviado (Jo10.36); é 0 Pai que dá e é 0 Filho que recebe (Jo 5.26); é 0 Pai 
que ordena e é 0 Filho que cumpre (Jo 10.18). Cristo pertence a Deus, que é 0 
Cabeça (1C0 3.23; 11.3), e no final sujeitará todas as coisas a Deus (1C0 15.28).
R o n a l d S . W allace e G ene L. G r e e n 3
EXPIAÇÃO
A expressão “fazer expiação” é frequente em Êxodo, Levítico e Números, mas 
é rara no restante da Bíblia. A ideia básica, porém, permeia a Escritura toda. A 
necessidade de expiação decorre da situação de pecado da humanidade, uma 
verdade que a Bíblia toda deixa muito clara, mas que é pouco frequente fora dela.
No Antigo Testamento, 0 pecado é tratado por meio da oferta de sacrifícios. 
Assim, a oferta queimada será aceita “para sua expiação” (Lv 1.4), bem como a 
oferta pelo pecado e pela culpa (Lv 4.20; 7.7), e principalmente os sacrifícios do 
Dia da Expiação (Lv 7.16). É evidente que 0 sacrifício será ineficaz se oferecido 
com 0 espírito errado. Pecar “à mão levantada” (Nm 15.30, arc) o u “com atitu- 
de desafiadora” ( n v i) , isto é, de forma atrevida e presunçosa, é 0 mesmo que se 
colocar fora da esfera do perdão divino. Muitas vezes os profetas denunciaram 
a oferta de sacrifícios qualificando-a de mera ação externa. Contudo, ofere- 
cer sacrifício como expressão de arrependimento e coração sincero é encontrar 
a expiação. Às vezes, a expiação ocorre independentemente do sacrifício — 
pagando-se por ela com dinheiro (Êx 30.12-16) ou com vidas (2Sm 21.3-6). 
Nesses casos, fazer expiação significa “evitar 0 castigo, especialmente a ira
'Extraído de ,,Christology”, in: W. Λ. Elwki.i., org., Evangelical Dictionary o f Theology, 
2J ed., p. 239-45. Usado com permissão.
divina, pelo pagamento de um koper, um resgate, que podia ser pago em di- 
nheiro ou com vidas”.4 Em todo 0 Antigo Testamento, 0 pecado é uma coisa 
séria. Ele será punido, a menos que a expiação seja realizada do modo que Deus 
exigiu que fosse.
Essa verdade é repetida e ampliada pelo Novo Testamento, onde fica cia- 
ro que todos são pecadores (Rm 3.23} e que 0 inferno os aguarda (Mc 9.43; 
Lc 12.5). Contudo, é igualmente justo e evidente que Deus deseja oferecer a 
salvação e que ele a trouxe por meio da vida, morte, ressurreição e ascensão de 
seu Filho. O amor de Deus é a causa de tudo (Jo 3.16; Rm 5.8). Não devemos 
imaginar um Filho amoroso arrancando a salvação de um Pai justo, porém se- 
vero. É da vontade do Pai que todos se salvem, e a salvação se dá não de modo 
trivial, por assim dizer, mas pelo que Deus fez em Cristo: “Deus estava em 
Cristo reconciliando consigo mesmo 0 mundo” (2C0 5.19), uma reconciliação 
que se realizou pela morte de Cristo (Rm 5.10). O Novo Testamento enfatiza sua 
morte, e não é por mero acaso que a cruz se tornou 0 símbolo da fé cristã, ou 
que palavras como crive [ingl., dilema] e crucial tenham 0 sentido que têm. A 
cruz é central para a salvação, e é isso que distingue 0 cristianismo. Outras re- 
ligiões têm seus mártires, mas a morte de Jesus não foi a morte de um mártir, e 
sim de um Salvador. Sua morte salva as pessoas de seus pecados. Cristo tomou 
0 lugar delas e morreu a morte delas (Mc 10.45; 2C0 5.21), ponto culminante de 
um ministério em que ele sempre fez-se um com os pecadores.
O sacrifício deve ser oferecido — não 0 de animais, que não pode tirar nos- 
sos pecados (Hb 10.4), mas 0 sacrifício perfeito de Cristo (Hb 9.26; 10.5-10). 
Cristo pagou a penalidade devida pelo pecado (Rm 3.25,26; 6.23; G1 3.13). Ele 
nos redimiu (Ef 1.7), pagando 0 preço que nos deixa livres (1C0 6.20; G1 5.1). 
Cristo instituiu uma nova aliança (Hb 9.15). Ele saiu vitorioso (1C0 15.55-57). 
Ele realizou a propiciação que afasta a ira de Deus (Rm 3.25,26) e fez a reconci- 
liação que transforma inimigos em amigos (Ef 2.16). Seu amor e sua longanimi- 
dade paciente deixaram 0 exemplo (lPe 2.21); cabe a nós tomarmos nossa cruz 
(Lc 9.23). A salvação tem muitos aspectos, mas seja qual for 0 que escolhemos 
ver, Cristo tomou nosso lugar, fazendo por nós 0 que não poderiamos fazer por 
nós mesmos. Nossa parte consiste simplesmente em responder em arrependí- 
mento, fé e com uma vida desprendida.
O Novo Testamento não apresenta uma teoria da expiação, mas há muitas 
referências à eficácia da obra expiatória de Cristo, e não nos faltam informações 
sobre seus múltiplos aspectos. Assim, Paulo enfatiza sobremaneira a expiação 
como processo de justificação usando conceitos como redenção, propiciação e 
reconciliação. Às vezes, lemos que a cruz é vitória ou exemplo, 0 sacrifício que
1 2 6 { CURSO PARA FORM AÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
“L. L. M o r r i s , Apostolic Preaching o f the Cross, p. 166.
inaugura uma nova aliança ou simplesmente um sacrifício. Há muitas maneiras 
de interpretá-la. Não há dúvida alguma quanto à sua eficácia e complexidade. 
Seja como for que vejamos 0 problema espiritual, a cruz atende à sua necessi- 
dade. Todavia, 0 Novo Testamento não diz como isso é possível.
São inúmeras as teorias sobre a expiação, à medida que os crentes em dife- 
rentes épocas e países tentaram reunir os vários fios dos ensinos escriturísticos 
sobre 0 assunto com 0 propósito de transformá-lo em uma teoria que pudesse 
ajudar a compreender de que maneira Deus agiu para nos trazer a salvação. O 
caminho esteve aberto a esse tipo de empreendimento porque, em parte pelo 
menos, a igreja jamais teve um ponto de vista oficial ortodoxo sobre a questão. 
Nos primeiros séculos do cristianismo, houve grandes controvérsias sobre a 
pessoa de Cristo e a natureza da Trindade. Surgiram heresias, que foram então 
amplamente discutidas e depois repudiadas. Por fim, a igreja aceitou a fórmula 
de Calcedônia como expressão convencional da fé ortodoxa.
Contudo, não havia algo equivalente algum para a expiação. As pessoas 
simplesmente se apegavam à verdade satisfatória de que Cristo as salvara mor- 
rendo na cruz, mas não questionavam de que maneira tal salvação podia ser 
eficaz. Portanto, não havia nenhuma fórmula que fosse aceita como padrão, a 
exemplo da declaração de Calcedônia. Isso fez com que os crentes buscassem 
por conta própria uma teoria que satisfizesse suas dúvidas. Até hoje não há 
uma teoria da expiação que seja aceita universalmente. Isso não deve fazer com 
que desistamos da tarefa. Todas as teorias nos ajudam a entender um pouco 
mais 0 significado da cruz e, seja como for, somos incentivados a dar uma ra- 
zão para a esperança que há em nós (lPe 3.15). É isso 0 que procuram fazer as 
teorias da expiação.
Seria impossível lidar com todas as teorias da expiação já formuladas, mas 
a maior parte delas pode ser enquadrada em uma das três categorias a seguir: 
as que veem no âmago da questão 0 efeito da cruz sobre 0 crente; as que veem 
nela uma vitória de algum tipo; e as que enfatizam sua qualidade de nos reme- 
ter sempre a Deus. Alguns preferem uma dupla classificação, em que as teorias 
subjetivas como as que enfatizam 0 efeito sobre 0 crente seriam distintas da- 
quelas de caráter objetivo que enfatizam 0 efeito da expiação no âmbito externo 
ao indivíduo.
TEO RIA DA V ISÃ O SU BjETIVA O U DA IN FLU ÊN C IA M ORAL
Atualmente, é comum encontrar quem defenda alguma forma de visão subje- 
tiva ou moral, principalmente entre os intelectuais da escola liberal. Em todas 
as suas variações, essa teoria enfatiza a importância do efeito da cruz de Cristo 
sobre 0 pecador. Tal visão é geralmente atribuída a Pedro Abelardo, que en- 
fatizava 0 amor de Deus, e é geralmente conhecida como teoria da influência
A DO UTRINA DE DEUS FILHO j 1 2 7
moral, ou exemplarisrno. Quando olhamos para a cruz, vemos a grandeza do 
amor divino, que nos livra do medo e acende em nós 0 amor como resposta. 
Respondemos ao amor com amor e deixamos de viver no egoísmo e no pecado. 
Outra interpretação recorre à ideia de que a visão do Cristo abnegado morrendo 
pelos pecadores nos leva ao arrependimento e à fé. Imaginamos que, se Deus 
está disposto a fazer tudo aquilo por nós, não devemos continuar no pecado. 
Então nosarrependemos, nos desviamos do pecado e somos salvos. A ideia- 
-chave por trás disso é a experiência pessoal. A expiação, vista dessa forma, não 
tem efeito nenhum fora do crente. Ela é real na experiência do indivíduo, e em 
nenhum outro aspecto. Tal perspectiva foi defendida por Hastings Rashdall em 
Idea 0[ atonement [A ideia da expiação], de 1919.
É verdade que, num primeiro momento, deparamos com alguma verdade 
nessa teoria. Por si só, porém, ela é inadequada, embora não seja falsa. Deve- 
mos responder ao amor de Cristo demonstrado na cruz e reconhecer a força 
constrangedora do seu exemplo. Um hino muito conhecido e também muito 
amado, Ao contemplar a rude cruz, apresenta uma perspectiva exclusivamente 
moral. Não há uma linha que não enfatize 0 efeito sobre 0 observador. Sua 
mensagem é a um só tempo verdadeira e importante, mas, quando afirma que 
0 sentido da expiação é só esse, torna-se necessário rejeitá-la. Da forma como 
ela se apresenta, está aberta a sérias críticas. Se Cristo não estava realmente 
fazendo algo concreto por meio de sua morte, 0 que nos resta é a encenação de 
um espetáculo, nada mais. Se estivéssemos nos afogando em um rio de corren- 
teza forte e alguém pulasse para nos salvar, mas acabasse morrendo enquanto 
tentava nos socorrer, não teríamos dúvidas de que aquela pessoa praticou um 
ato de amor e sacrifício. Contudo, se estivéssemos sentados seguros em terra 
firme e alguém pulasse na correnteza impetuosa em sinal de amor, acharíamos 
aquilo sem sentido e lamentaríamos uma atitude tão irracional. A menos que 
a morte de Cristo produza realmente alguma coisa, não será, de modo algum, 
uma demonstração de amor.
EXPIAÇÃO C O M O V ITÓ R IA
Na igreja primitiva, parece que não houve muita preocupação com a forma 
como a expiação opera; entretanto, no momento em que a questão foi levanta- 
da, na maioria das vezes a resposta veio expressa em termos neotestamentários. 
Por causa do pecado, 0 ser humano pertence por direito a Satanás, concluíram 
os pais da igreja. Deus, porém, ofereceu seu Filho como resgate, uma barganha 
que 0 maligno aceitou entusiasticamente. Satanás, no entanto, percebeu que 
não podería reter Jesus no inferno. No terceiro dia, Cristo ressurgiu triunfante e 
tomou de Satanás os prisioneiros que ele retinha, bem como 0 resgate que ele 
aceitara em troca deles. Não era preciso ter um intelecto muito brilhante para
1 2 8 I CURSO PARA FORM AÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
1 2 9A DO UTRINA DF DEUS FILHO
perceber que Deus devia ter previsto isso, mas a ideia de que Deus lograra 0 
diabo não preocupava os pais. Para eles, 0 que ocorreu mostrava claramente 
que Deus era mais forte e mais sábio do que Satanás. Eles chegaram inclusive a 
elaborar ilustrações em que a carne de Jesus era a isca, e a divindade, 0 anzol. 
Satanás engoliu 0 anzol junta com a isca e ficou atônito. Essa interpretação fi- 
cou conhecida por vários nomes: teoria do resgate pago ao diabo, teoria clássica 
ou teoria do anzol.
A metáfora encantou a alguns pais, mas, depois de criticada por Anselmo, 
caiu no esquecimento. Foi só mais recentemente que Gustaf Aulén (Chüstus 
Victor) demonstrou que há verdades importantes por trás daquelas metáforas 
grotescas. No fim das contas, a obra expiatória de Cristo significa vitória. O dia- 
bo e todo 0 seu exército maligno foram derrotados. O pecado foi vencido. Embo- 
ra nada disso tenha sido trabalhado em teorias prontas e acabadas, nem por isso 
deixou de estar presente na hinódia ocidental. É parte importante da devoção 
cristã e aponta para uma realidade que os cristãos não devem perder de vista.
Essa visão requer muita cautela, caso contrário é como se disséssemos que 
Deus salva simplesmente porque é forte — em outras palavras, quem tem po- 
der sempre tem razão. Essa conclusão é impossível para quem leva a Bíblia 
a sério. Cabe, portanto, a advertência de que, isoladamente, tal perspectiva 
não é adequada. Todavia, se combinada com outras interpretações, poderá ter 
finalmente lugar junto a qualquer outra teoria satisfatória. O importante é que 
Cristo venceu.
A TEO R IA DA SATISFAÇÃO DE AN SELM O
No século xi, Anselmo, arcebispo da Cantuária, escreveu um livrinho intitulado 
CurDeus Homo? (“Por que Deus se tornou homem?”), em que criticava aspera- 
mente a visão patrística do resgate pago a Satanás. Para ele, 0 pecado desonrava 
a majestade divina. Um soberano pode perfeitamente, por sua própria conta, 
dispor-se a perdoar um insulto ou uma injúria, mas, como é soberano, não pode 
fazê-lo. O Estado foi desonrado na figura do seu chefe. É preciso que se ofereça 
uma satisfação à altura. Deus é 0 soberano governante de todas as coisas e não 
pode permitir que uma irregularidade cometida em seu reino fique impune. 
Anselmo diz então que 0 insulto cometido contra Deus é de tal magnitude que 
só alguém que seja Deus poderá pagar por ele. Contudo, 0 insulto foi cometido 
por seres humanos, portanto somente um ser humano poderá propiciar a satis- 
fação devida. Ele conclui, por fim, que essa pessoa tem de ser Deus e homem.
O tratamento que Anselmo deu à questão elevou 0 debate a um plano muito 
mais alto do que ocupara nas discussões anteriores. Muitos acham, porém, que 
a demonstração apresentada não é conclusiva. No fim das contas, Anselmo re- 
trata Deus de forma muito parecida com um rei cuja dignidade fora afrontada.
1 30 ! CURSO PARA FORM AÇÃO DE LIDERES E OBREIROS
Ele desconsiderou a possibilidade de um soberano demonstrar clemência e per- 
dão sem prejuízo para seu reino. Outra deficiência dessa visão deve-se ao fato 
de que Anselmo não viu nenhuma conexão necessária entre a morte de Cristo 
e a salvação dos pecadores. Cristo era merecedor de uma grande recompensa, 
porque morreu sem que houvesse necessidade alguma de que isso acontecesse 
(porque era sem pecado). No entanto, não havia como ele receber tal recom- 
pensa, porque já era dono de tudo. A quem, então, deveria entregar 0 prêmio 
recebido senão àqueles por quem morrera? Por esse ângulo, a salvação dos 
pecadores foi mais ou menos uma questão de sorte. Poucos hoje em dia subs- 
creveriam a teoria de Anselmo. Mas pelo menos ele levou a sério 0 pecado, e a 
maioria dos estudiosos concorda que, sem isso, não há interpretação satisfató- 
ria da expiação.
SU B S T ITU IÇ Ã O PENAL
Os reformadores concordavam com Anselmo que pecado é coisa séria, mas para 
eles tratava-se de transgredir a lei de Deus, e não de ofender sua honra. A lei 
moral, diziam eles, não deve ser encarada levianamente. “O salário do pecado 
é a morte” (Rm 6.23), e esse é que é 0 problema da humanidade pecadora. Eles 
levaram a sério os ensinamentos da Escritura sobre a ira de Deus, bem como 
aqueles que se referiam à maldição sob a qual se encontram os pecadores. 
Parecia-lhes claro que a essência da obra de salvação consistia em Cristo tomar 
0 lugar dos pecadores. Ele sofreu por nós a morte, que é 0 salário do pecado. 
Suportou a maldição que nós deveriamos suportar (G1 3.13). Os reformadores 
não hesitaram em dizer que Cristo sofreu nosso castigo ou que apaziguou a ira 
divina em nosso lugar.
Essa perspectiva foi bastante criticada. De modo especial, menciona-se 0 
fato de que 0 pecado não é uma coisa externa que possa ser transferida facil- 
mente de uma pessoa para outra e que, embora algumas formas de penalida- 
de possam ser transferidas (p. ex., o pagamento de uma multa), outras não 
podem (prisão, pena capital). Argumenta-se que essa teoria coloca Cristo em 
oposição ao Pai ao maximizar 0 amor de Cristo e minimizar 0 amor do Pai. Tais 
críticas talvez sejam válidas em relação a diversas formulações da teoria, mas 
não abalam seu fundamento básico. Essas críticas negligenciam a dupla iden- 
tificação: Cristo é um com os pecadores (os salvos estão “em ” Cristo, Rm 8.1) 
e ele é um com 0 Pai (ele e 0 Pai são um, Jo 10.30; 2C0 5.18,19). Elas também 
negligenciam 0 respaldo em grande escala que 0 Novo Testamento concede 
à teoria. É uma falácia da alegação especial, por exemplo, negarque Paulo 
a tenha proposto. Talvez seja preciso formular 0 conceito com mais cuidado, 
porém ele ainda tem algo importante a dizer sobre a maneira pela qual Cristo 
conquistou nossa salvação.
SA C R IF ÍC IO
No Antigo Testamento há muita coisa sobre sacrifício e no Novo Testamento 
também. Alguns insistem em que aí está a chave para entender a expiação. 
Não há dúvida de que, para a Bíblia, 0 ato redentor de Cristo é um sacrifício, 
e nenhuma teoria que seja satisfatória poderá omiti-lo. Contudo, a menos que 
seja complementada, tal explicação nada explica. O ponto de vista moral ou da 
substituição penal pode ser certo ou errado, mas pelo menos é possível enten- 
dê-lo. De que maneira, porém, 0 sacrifício salva? A resposta não é tão óbvia.
TEO RIA GO VERN AM EN TAL
Para Hugo Grotius, Cristo não suportou 0 castigo em nosso lugar, mas sofreu 
como exemplo penal por meio do qual a lei foi honrada e os pecadores, perdoa- 
dos. Essa perspectiva é conhecida como “governamental”, porque Grotius via em 
Deus um governante ou chefe de governo que havia sancionado uma lei — neste 
caso, “aquele que pecar, esse morrerá”. Como Deus não queria que os pecadores 
morressem, ele abrandou essa lei e aceitou a morte de Cristo no lugar dos pecado- 
res. Ele podería ter simplesmente perdoado a humanidade, se quisesse, mas isso 
não teria tido valor algum para a sociedade. A morte de Cristo foi um exemplo 
público que mostrou até onde Deus está disposto a ir para preservar a lei moral 
do universo. Essa interpretação está exposta em numerosos detalhes em Defensio 
Fidei Catholicae de Satisfactione Christi adversus F. Socinum (1636).
RESUM O
Todas as perspectivas anteriores reconhecem de algum modo que 0 alcance da 
expiação é vasto e profundo. Não há nada parecido, e é preciso que ela seja 
entendida à luz daquilo que é de fato. O drama dos seres humanos pecadores 
é terrível, porque para 0 Novo Testamento 0 pecador está perdido, merece 0 
inferno, deve perecer e ser lançado nas trevas e muito mais. Uma expiação que 
retifique tudo isso tem, necessariamente, de ser complexa. Portanto, precisa- 
mos de todos os conceitos importantes: redenção, propiciação, justificação etc. 
Também precisamos de todas as teorias. Cada uma delas chama a atenção para 
um aspecto importante da nossa salvação, e não devemos abrir mão de nenhu- 
ma delas. Contudo, somos todos pecadores de mente tacanha, e a expiação é 
ampla e profunda. Não devemos imaginar que nossas teorias sejam capazes de 
explicá-la compietamente. Mesmo quando reunimos todas elas, estamos apenas 
principiando a compreender um pouco da imensidão do ato salvífico de Deus.
Leon L. Morris5
A DOUTRINA DE DEUS FILHO | 131
5Adaptado de "Atonement” e "Theories of Atonement", in: W. A. Elwf.1.1., org.. Evangelical 
Dictionary o f Theology, 2° ed ., p. 113-4, 116-9. Usado com permissão.
1 3 2 J CURSO PARA FORMAÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
DUAS VISÕES DIFERENTES DA EXPIAÇÃO DE CRISTO
A morte de Cristo teve como propósito assegurar a salvação de um número 
limitado de pessoas (os “eleitos”) ou de todos? A primeira visão é chamada, 
às vezes, de “expiação limitada”, porque Deus limitou 0 efeito da morte de 
Cristo aplicando-a a um número específico de eleitos; também é conhecida 
como “redenção particular”, porque a redenção alcançou um grupo particu- 
lar de pessoas. A segunda visão é conhecida por vezes como “expiação ilimi- 
tada” ou “redenção geral”, porque Deus não restringiu a morte redentora de 
Cristo aos eleitos, permitindo que se estendesse à humanidade toda.
W alter A . E lwell
R e d e n ç ã o p a r t ic u l a r . A doutrina segundo a qual Jesus morreu pelos eleitos 
em particular, assegurando assim a salvação deles, mas não pelo mundo todo, 
surgiu logo depois da Reforma, na esteira do desdobramento de implicações 
decorrentes da doutrina da eleição e da teoria da satisfação. A controvérsia que 
se instalou resultou em um pronunciamento do Sínodo de Dort (1618-1619) de 
que a morte de Cristo foi “suficiente para todos, mas eficiente apenas para os 
eleitos”. Muitos teólogos não ficaram satisfeitos com a solução, inclusive alguns 
calvinistas, e a controvérsia prossegue até hoje.
São inúmeros os argumentos usados para defender a doutrina da expiação 
limitada, mas os seguintes estão entre os usados com maior frequência.
Em primeiro lugar, a Bíblia limita 0 número daqueles que se beneficiarão 
da morte de Cristo, restringindo, por conseguinte, seu efeito. A Bíblia diz que 
Cristo morreu por suas ovelhas (Jo 10.11,15), por sua igreja (At 20.28), pelos 
eleitos (Rm 8.32-35) e por seu povo (Mt 1.21).
Em segundo lugar, os desígnios de Deus sempre são eficazes e não podem 
jamais ser frustrados pelos seres humanos. Se Deus tivesse planejado que todos 
se salvassem pela morte de Cristo, assim seria. É evidente que nem todos se sal- 
vam, pois a Bíblia ensina claramente que, ao rejeitar Cristo, muitos se perdem. 
Portanto, é lógico que Cristo não pode ter morrido por todos, porque nem todos 
se salvam. Dizer que Cristo morreu por todos significa, na verdade, dizer que a 
vontade salvífica de Deus não está sendo realizada ou que todos serão salvos, 
porém ambas as proposições são claramente falsas.
Em terceiro lugar, se Cristo morreu por todos, Deus seria injusto se mandas- 
se as pessoas para 0 inferno por causa dos seus pecados. Nenhum tribunal de 
justiça exige que se pague duas vezes pelo mesmo crime, nem Deus tampouco. 
Ele não permitiría que Cristo morresse por todos a menos que planejasse a
salvação de todos, 0 que, obviamente, não fez, já que alguns se perdem. Cristo 
pagou pelos pecados dos eleitos; os perdidos pagam por seus próprios pecados.
Em quarto lugar, dizer que Cristo morreu por todos conduz, logicamente, ao 
universalismo. É verdade que nem todos os que creem na redenção geral acre- 
ditam no universalismo; entretanto, não há razão válida para que não 0 façam. 
Se fossem coerentes, eles 0 fariam, já que defendem a ideia de que Cristo pagou 
pelos pecados de todos e, por conseguinte, salvou todos.
Em quinto lugar, Cristo não morreu apenas para tornar possível a salvação, 
e sim para salvar de fato. Dizer que Cristo morreu apenas para tornar possível a 
salvação não diz se alguém se salva ou não. Se os desígnios divinos são apenas 
possibilidades, e não realidade, conclui-se que ninguém está seguro e que tudo 
está aberto à dúvida. A Bíblia ensina claramente que a morte de Jesus garante, 
de fato, a salvação para 0 seu povo, tornando-a assim uma certeza e limitando 
a expiação (Rm 5.10; 2C0 5.21; G1 1.4; 3.13; Ef 1.7).
Em sexto lugar, como não há necessidade de atender a exigência alguma 
para que haja salvação (isto é, a salvação é pela graça e não por meio de obras) 
— não é nem mesmo consequência de um ato de fé —, tanto 0 arrependimento 
quanto a fé estão garantidos para aqueles por quem Cristo morreu. Se a expia- 
ção fosse destinada a todos, então todos alcançariam arrependimento e fé, mas 
isso é nitidamente falso. Portanto, a eficácia da morte de Cristo pode ter sido 
concebida para alcançar tão somente os que viríam a se arrepender e a crer, a 
saber, os eleitos.
Em sétimo lugar, as passagens que fazem referência à morte de Cristo pelo 
“mundo” foram mal interpretadas. A palavra mundo significa, na verdade, 0 
mundo dos eleitos, 0 mundo dos crentes, a igreja ou todas as nações.
Por fim, as passagens que dizem que Cristo morreu por todos foram mal 
entendidas. A palavra todos significa “todas as classes” de pessoas, e não todo 
0 mundo.
R e d e n ç ã o g e r a l . De acordo com a doutrina da redenção geral, a morte de Cris- 
to teve como propósito incluir toda a humanidade, independentemente do fato 
de todos crerem ou não. Para aqueles que acreditam, ela tem efeito redentor, 
e para os que não creem, ela dispensa as bênçãos da graça comum e erradica 
toda desculpa de perdição. Deus amou os incrédulos e Cristo morreu por eles; 
estão perdidos porque se recusam a aceitar a salvação que lhes foi sinceramente 
oferecida emCristo.
Em primeiro lugar, os que defendem a salvação universal dizem que esse é 0 
ponto de vista histórico da igreja, que é também defendido por numerosos teó- 
logos, reformadores, evangelistas e pais desde 0 início da igreja até 0 presente 
momento, incluindo-se aí praticamente todos os autores de antes da Reforma,
A DOUTRINA DE DEUS FILHO j 1 33
CURSO PARA FORM AÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS1 3 4
com a possível exceção de Agostinho. Entre os reformadores, a doutrina é 
encontrada em Lutero, Melanchthon, Bullinger, Latimer, Cranmer, Coverdale 
e até mesmo em Calvino, em alguns de seus comentários. Calvino diz, por 
exemplo, com relação a Colossenses 1.14: “Essa redenção foi comprada com 
0 sangue de Cristo, porque, pelo sacrifício de sua morte, todos os pecados 
do mundo foram expiados”; e, em relação à expressão “derramado em favor 
de muitos”, em Mc 14.24, ele diz: “Com a palavra muitos, ele se refere não 
apenas a uma parte do mundo, mas a toda a raça humana”. Até mesmo entre 
calvinistas esse conceito está presente e atende pelo nome de universalismo 
hipotético, em autores como Moise Amyraut, Richard Baxter, John Bunyan, 
John Newton e John Brown, além de vários outros. Será possível que a maio- 
ria esmagadora dos cristãos teria entendido errado a direção do Espírito Santo 
nesse ponto tão importante?
Em segundo lugar, quando a Bíblia diz que Cristo morreu por todos os ho- 
mens, 0 sentido é esse mesmo. O termo deve ser tomado em seu sentido nor- 
mal, a menos que haja algum motivo muito forte para não fazê-lo — e não há 
tal motivo. Algumas passagens (por exemplo, Is 53.6, 1J0 2.2; lTm 2.1-6; 4.10) 
não fazem sentido se não forem tomadas em seu sentido comum.
Em terceiro lugar, a Bíblia diz que Cristo tira 0 pecado do mundo e é o 
Salvador do mundo. Um estudo da palavra mundo — sobretudo em João, onde 
é usada 78 vezes — mostra que 0 mundo odeia Deus, rejeita Cristo e está sob 0 
domínio de Satanás. Contudo, esse é 0 mundo pelo qual Cristo morreu. Não há 
um único lugar em todo 0 Novo Testamento em que mundo signifique “igreja” 
ou “os eleitos”.
Em quarto lugar, os diversos argumentos que redundam em críticas ao uni- 
versalismo não passam de falácias da alegação especial. A morte de Cristo por 
todos não implica que todos se salvem — é preciso crer em Cristo para ser 
salvo, portanto a morte de Cristo pelo mundo evidentemente não garante a sal- 
vação de todos. Paulo não tinha problema algum em dizer que Deus podia ser 0 
Salvador de todos, em certo sentido, e também dos que cressem, em outro sen- 
tido (lTm 4.9,10).
Em quinto lugar, Deus não é injusto ao condenar os que rejeitam a oferta de 
salvação. Ele não está julgando duas vezes. Como os não crentes se recusam a 
aceitar a morte de Cristo como sua própria morte, os benefícios decorrentes da 
morte de Cristo não se aplicam a eles. Eles se perdem não porque Cristo não 
tenha morrido por eles, mas porque recusam a oferta de perdão de Deus.
Em sexto lugar, é verdade que a menção dos benefícios decorrentes da morte 
de Cristo ocorre em vinculação com os eleitos, seu rebanho, seu povo, mas seria 
preciso demonstrar que Cristo morreu apenas por eles. Ninguém nega que Cris- 
to tenha morrido por eles; 0 que se nega é que Cristo tenha morrido só por eles.
Em sétimo lugar, a Bíblia ensina que Cristo morreu pelos “pecadores” 
(Rm 5 .6 8 lTm 1.15). A palavra pecador em parte alguma tem 0 sentido de ;־
“igreja” ou “os eleitos”; trata-se de toda a humanidade perdida.
Por fim, Deus oferece sinceramente 0 evangelho a todos para que creiam 
nele, e não apenas aos eleitos. De que maneira isso seria possível se Cristo não 
houvesse, de fato, morrido por todos? Deus sabería perfeitamente que algumas 
pessoas jamais poderíam ser salvas porque ele não permitiu que Cristo pagasse 
pelos pecados delas. Até mesmo Louis Berkhof, um fervoroso defensor da ex- 
piação limitada, admite que “não se deve negar que há um entrave significativo 
nesse aspecto da questão”.6
A DO UTRINA Γ>Γ DEUS FILHO j 1 3 5
R esumo . Ambos os pontos de vista procuram preservar dados teológicos im- 
portantes. Os defensores da expiação limitada enfatizam a certeza da salvação 
divina e a iniciativa da parte de Deus de oferecê-la aos homens. Se a salvação 
dependesse de nossas obras, estaríamos todos perdidos. Os defensores da re- 
denção geral querem preservar a justiça divina e 0 que consideram um ensina- 
mento claro da Escritura. A salvação não é menos segura porque Cristo morreu 
por todos. A decisão de rejeitá-la traz condenação, porém a fé coloca 0 indi- 
víduo num relacionamento com Cristo, que morreu para que tivéssemos vida. 
E. A. Litton procura mediar essas duas visões da seguinte forma: “Portanto, é 
possível que os contendores não estejam realmente de lados tão distantes como 
imaginam. O calvinista mais radical poderá concordar que há lugar para todos, 
contanto que se proponham a entrar; 0 arminiano mais extremado concordará 
que a redenção, em seu sentido escriturístico pleno, não é privilégio de todos 
os hom ens”.7
W alter A . E lwell8
RECU RSO S PARA LEITU RA E ESTU D O
Ver 0 final do capítulo 10.
RECU RSO S A D IC IO N A IS
F erreira , Franklin & M yatt, Alan. Teologia sistemática: uma análise histórica, bí- 
blica e apologética para 0 contexto atual (parte 5).
H orton, Michael. Cristianismo sem Cristo.
6Systematic Theology, p. 462. !Publicado no Brasil com 0 título Teologia sistemática. São 
Paulo: Cultura Cristã, 2009.1
7Introduction to Dogmatic Theology. New York: Oxford University Press, 3■' ed ., 1912, 
p. 236.
sEt al., Extent of Atonement, in: W. A. Elwell, org., Evangelical Dictionary o f Theology, 
2·' ed., p. 114-6. Usado com permissão.
CURSO PARA FORM AÇÃO DF LÍDERES E OBREIROS1 3 6
M acL eod , Donald. A pessoa de Cristo.
S proul, R.C. A glória de Cristo.
Stein , Robert. A pessoa de Cristo: um panorama da vida e dos ensinos de Jesus. 
Stott, John R. W. A cruz de Cristo.
______. O incomparável Cristo.
Sturz , Richard J . Teologia sistemática (parte iv).
A DOUTRINA DE DEUS 
ESPÍRITO SANTO
Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acen- 
dei neles 0 fogo do vosso amor.
R á b a n o M a u r o , a r c e b is p o d e M a i n z , V e n i C r e a t o r S p ir it u s
O Espírito Santo é a terceira pessoa da Trindade. A palavra espírito (hebr., 
ruah; gr., pneum a) é usada desde há muito tempo para descrever e explicar a 
experiência do poder divino em ação nos homens, sobre eles e em torno deles, 
entendido por eles como poder de Deus.
O ESPÍR ITO SANTO NO A N TIG O TESTAM EN TO
Tfês sentidos básicos aparecem com destaque na forma em que os antigos es- 
critos hebraicos usam 0 termo espírito.
P eríodo dos juizes. 1) Vento de Deus. Foi um vento de Deus que fez com que 
as águas do dilúvio baixassem (Gn 8.1), que encheu de gafanhotos 0 Egito (Êx 
10.13) e de codornizes 0 acampamento de Israel. O sopro de suas narinas sepa- 
rou as águas do mar Vermelho no Êxodo (Êx 14.21).
2) Sopro da vida. O fôlego divino fez do homem um ser vivo (Gn 2.7). É um 
dos conceitos mais antigos da fé hebraica que 0 homem viva somente porque 
se move dentro dele 0 fôlego divino ou 0 espírito (Jó 33.4; 34.14,15; SI 104.29). 
Mais tarde, estabeleceu-se uma distinção mais nítida entre 0 Espírito divino e 
0 espírito humano e entre 0 espírito e a alma, porém no início referia-se a ma- 
nifestações mais ou menos homônimas do mesmo poder divino, fonte de toda 
vida, tanto animal como humana (Gn 7.15,22; v. Ec 3.19,21).
CURSO RARA FORM AÇÃO DF IÍD ERES E OBREIROS3 ו 8
3) Espírito de êxtase. Havia ocasiões em que esse poder divino parecia aco- 
meter e possuir completamente um indivíduo, de modo que suas palavras ou 
ações transcendiam significativamente as de seu comportamento normal. Essa 
pessoa ficava nitidamente marcada como agente do desígnio divino e passava 
a ser respeitada como tal. Era desse modo, evidentemente, que os líderes eram 
reconhecidos no período pré-monárquico — Otoniel (Jz 3.10), Gideão (Jz 6.34), 
Jefté(Jz 11.29), bem como 0 primeiro rei, Saul (ISm 11.6). Também os primei- 
ros profetas eram pessoas a quem a inspiração sobrevinha em estado de êxtase 
(ISm 19.20,23,24).
Essa compreensão do chamado divino naturalmente suscitava questões sé- 
rias: 0 êxtase é a única forma de autenticação divina? E mais: todo êxtase deve 
ser igualmente aceito? Há indicações no Antigo Testamento de que tais indaga- 
ções tornaram-se importantes durante 0 período em que Israel foi nação inde- 
pendente, antes do exílio babilônico.
P eríodo da monarquia. Durante a transição da liderança carismática dos juí- 
zes para a instituição de uma monarquia hereditária, questionou-se se a unção 
com 0 poder de Deus era a qualificação para ser rei ou se era parte da cerimônia 
de coroação. O tema foi tratado com mais empolgação no Reino do Norte de 
Israel, cuja monarquia hereditária não sobreviveu por muito tempo. A reivindi- 
cação ao trono por Jeú tinha como respaldo a unção que recebera de Elias por 
ordem divina. No Reino do Sul, 0 regente modelo era Davi, cuja reivindicação 
ao trono encontrava respaldo na unção carismática que Samuel lhe ministrara 
(ISm 16.13; SI 89.20,21).
A questão da qualificação para 0 ofício e para a unção divina surgiu de for- 
ma ainda mais acentuada no período anterior ao exílio. Quem deveria ser con- 
siderado porta-voz fidedigno de Deus — os sacerdotes e os profetas autorizados 
ou os profetas independentes? A Palavra fidedigna de Deus vinha do sacerdote 
ou do profeta que falava em função do lugar que ocupava dentro do sistema ofi- 
ciai de adoração ou do santuário ou vinha do profeta que falava com autoridade 
única de inspiração irrefutável? Mesmo em retrospecto, não é possível optar de 
maneira inequívoca pela última alternativa. Embora Isaías e Jeremias ataquem 
a corrupção dos porta-vozes oficiais de seus dias (Is 28.7; Jr 6.13; 23.11), é bem 
provável que alguns dos profetas canônicos, inclusive Habacuque e Zacarias, 
pertencessem ao sistema oficial de adoração. (Estudos acadêmicos recentes 
concluíram que pelo menos alguns dos salmos foram inicialmente pronuncia- 
mentos proféticos no âmbito da adoração do santuário.) Por outro lado, todas 
as vezes que a religião oficial e 0 carisma entram em choque, as palavras do 
profeta carismático é que são, quase sempre, reverenciadas como Palavra fide- 
digna do Senhor. Os dois incidentes mais famosos são 0 encontro entre Micaías 
e os 400 profetas do rei Acabe (lRs 22.5-28) e a confrontação entre Amós e 
Amazias, sacerdote de Betei (Amós 7.10-17).
Nos estágios mais antigos do pensamento hebraico, a experiência extática 
era considerada efeito direto do poder divino. Isso era verdade mesmo quando 
0 êxtase era entendido como algo de caráter maligno, como no episódio em que 
o Espírito se apoderou de Saul (ISm 16.14-16). Um espírito enviado por Deus 
podia se comportar de forma maligna ou benigna (v. Jz 9.23; lRs 22.19-23).
Dos profetas maiores em diante, porém, falar do Espírito tornou-se algo que 
requeria maior cautela. Para Isaías, 0 espírito era 0 que caracterizava Deus e 0 
distinguia, bem como às suas ações, dos assuntos humanos (Is 31.3). Mais tar- 
de, 0 adjetivo “santo” apareceu para distinguir entre 0 Espírito de Deus e outro 
espírito qualquer, humano ou divino (SI 51.11; Is 63.10,11).
O problema da falsa profecia realçava 0 perigo de supor que toda mensagem 
entregue em êxtase era Palavra do Senhor. Por isso, os testes de profecia avalia- 
vam 0 conteúdo transmitido ou 0 caráter da vida do profeta, e não 0 grau ou a 
qualidade da inspiração (Dt 13.1-5; 18.22; Is 44.7,8; Jr 23.14; Mq 3.5). Esse dis- 
cernimento de que era preciso discriminar entre a inspiração verdadeira e a falsa 
e separar a Palavra de Deus do mero oráculo extático talvez ajude a explicar a 
relutância, de outro modo intrigante, da maior parte dos profetas do sexto e séti- 
mo séculos a.C. em atribuir sua inspiração ao Espírito (Mq 3.8 talvez seja a única 
exceção). É possível, conforme Oseias 9.7 parece sugerir, que 0 Espírito tenha 
sido identificado demais com a loucura ou com 0 êxtase e que um período de 
silêncio era necessário para separar a Palavra das manifestações mais grosseiras 
que, anteriormente, haviam sido consideradas como sua expressão mais óbvia.
As indagações suscitadas pela compreensão anterior que se tinha do Espírito 
e que afligiu os grandes profetas ainda hoje persistem: como é possível saber 
se determinada experiência é de fato do Espírito? Como distinguir a inspiração 
verdadeira da falsa? Como é possível manter um equilíbrio satisfatório e uma 
tensão sadia entre 0 Espírito e as formas institucionais da religião?
P eríodos do exílio e pós-exílio. Na literatura do exílio e do pós-exílio, 0 papel 
do Espírito fica circunscrito a duas funções principais.
1) O Espírito profético. Os profetas posteriores referiam-se novamente ao Espí- 
rito em termos explícitos como inspirador da profecia (v. Ez 3.1-4,22-24; Ag 2.5; 
Zc 4.6). Ao refletirem sobre 0 período anterior ao exílio, esses profetas atribuíram 
livremente a inspiração dos “antigos profetas” igualmente ao Espírito (Zc 7.12).
A tendência de exaltar 0 papel do Espírito como fonte de inspiração da pro- 
fecia tornou-se mais forte no período entre 0 Antigo e 0 Novo Testamentos, até 
que, no judaísmo rabínico, 0 Espírito era considerado quase exclusivamente 0 
inspirador dos escritos proféticos então tidos como Escritura.
2) O espírito escatológico. Outra concepção que se tinha do papel do Espírito 
nos tempos do exílio e no período posterior a ele era a concepção de poder de 
Deus que caracterizaria a era por vir. A esperança escatológica do poder divino
A DO UTRINA DE DEUS ESPÍRITO SANTO J 1 3 9
que faria uma purificação final e renovaria a criação baseia-se principalmente nas 
profecias de Isaías (Is 4.4; 32.14,15; 44.3,4), nas quais a esperança de alguém un- 
gido pelo Espírito como agente da salvação final se torna mais explícita (Is 11.1,2; 
42.1; 61.1-3). Em outras partes, esse mesmo anseio é expresso em relação àquela 
época em que 0 Espírito seria livremente dispensado a todo 0 Israel (Ez 39.29; 
J1 2.28,29; Zc 12.10), para aquela nova criação e nova aliança em que a relação 
com Deus seria muito mais vital e imediata (Jr 31.31,34; Ez 36.26,27).
No período anterior a Jesus, a concepção do Espírito como Espírito da profe- 
cia e da era por vir havia evoluído para 0 dogma disseminado de que ele não era 
mais uma experiência possível no presente. No passado, 0 Espírito fora conhecido 
como fonte de inspiração dos escritos proféticos, mas depois de Ageu, Zacarias 
e Malaquias, ele fora retirado (!Mac 4.44-46; 9.27; v. tb. SI 74.9; Zc 13.2-6). O 
Espírito se mostraria novamente na era do Messias; nesse ínterim, porém, estava 
ausente de Israel. Nem mesmo 0 grande Hillel (líder e mestre judeu de grande 
erudição, 60 a.C-20 d.C.), quase contemporâneo de Jesus, recebera 0 Espírito. 
Existe uma tradição segundo a qual, numa reunião de Hillel com outros sábios, 
uma voz do céu disse: “Entre os homens aqui presentes, há um que merecería a 
visita do Espírito Santo, se sua época tivesse sido digna disso”.
A consequência dessa penúria consentida do Espírito foi que ele se tornou, 
de fato, subordinado à Lei. O Espírito era 0 inspirador da Lei, mas, uma vez 
que ele não podia mais ser experimentado diretamente, a Lei se tornara a única 
voz do Espírito. Foi esse predomínio cada vez maior da Lei e de seus intérpretes 
conceituados que proporcionou 0 pano de fundo da missão de Jesus e da difu- 
são inicial do cristianismo.
O ESPÍR ITO SANTO NO N OVO TESTAM ENTO
Para entendermos corretamente 0 ensino do Novo Testamento sobre o Espírito, 
será preciso que reconheçamos tanto sua continuidade quanto sua descontinui- 
dade com 0 Antigo Testamento. Em muitos pontos, 0 uso do termo no Novo 
Testamento não pode ser totalmente compreendido a não ser em contraposição 
aos conceitos ou passagens veterotestamentários sempre em segundo plano. Por 
exemplo, a ambiguidade de João 3.8 (“vento”,“Espírito”), 2Tessalonicenses 2.8 
(“sopro”) e Apocalipse 11.11 (“espírito de vida” ou “sopro de vida”, n v i) nos 
remete aos significados básicos em hebraico de espírito delineados no início des- 
te capítulo. Atos 8.39 e Apocalipse 17.3; 21.10 refletem 0 mesmo conceito de 
Espírito que encontramos em IReis 18.12, 2Reis 2.16 e Ezequiel 3.14. Além disso, 
os autores do Novo Testamento expressam 0 ponto de vista rabínico de que a 
Escritura tem por trás de si a autoridade do Espírito (v. Mc 12.36; At 28.25; Hb 3.7; 
2Pe 1.21). A principal continuidade, entretanto, é a da realização daquilo que os 
autores do Antigo Testamento aguardavam com esperança. Ao mesmo tempo, 0
1 4 0 I CURSO PARA FORM AÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
cristianismo não é simplesmente 0 judaísmo realizado. Na importância central de 
Jesus e na nova definição do Espírito que decorre da vida e obra de Jesus, temos 
um elemento de descontinuidade que distingue a nova fé como algo diferente.
O Espírito da nova era. A característica mais surpreendente do ministério de 
Jesus e da mensagem dos primeiros cristãos era sua convicção e proclamação 
de que as bênçãos da nova era já estavam presentes, que 0 Espírito escatológico 
já havia sido derramado. Com exceção dos essênios de Cunrã, nenhum outro 
grupo ou indivíduo no âmbito da religião judaica da época havia ousado fazer 
declaração tão ousada. Os profetas e os rabinos aguardavam uma era rnessiâ- 
nica futura, e os autores dos apocalipses advertiam de sua chegada iminente, 
mas ninguém imaginava que ela já tivesse chegado. Até mesmo João Batista se 
referiu apenas a alguém que viria e à operação do Espírito no futuro iminente 
(Mc 1.8). Contudo, para Jesus e para os cristãos do primeiro século, a esperança 
tão aguardada era uma realidade viva, e essa afirmação trazia consigo a per- 
cepção empolgante de estarem nos “últimos tempos”. Se não houver essa com- 
preensão da dimensão escatológica da fé e da vida cristã, não entenderemos 0 
ensino e a experiência do Espírito.
Para Jesus, seus ensinamentos e as curas que realizava eram cumprimento 
da esperança profética (Mt 12.41,42; 13.16,17; Lc 17.20,21). De modo especial, 
ele via a si mesmo como 0 Ungido pelo Espírito para ser 0 agente da salvação 
escatológica (Mt 5.3-6; 11.5; Lc 4.17-19). Portanto, Jesus também entendeu os 
exorcismos que fez como efeito do poder escatológico (Espírito) de Deus e 
manifestações do regime de fim dos tempos de Deus (reino — Mt 12.27,28; 
Mc 3.22-26). Os autores dos Evangelhos, sobretudo Lucas, destacam 0 caráter 
escatológico da vida e do ministério de Jesus, realçando 0 papel do Espírito em 
seu nascimento (Mt 1.18; Lc 1.35,41,67; 2.25-27), batismo (Mc 1.9,10; At 10.38) 
e ministério (Mt 4.1; 12.18; Mc 1.12; Lc 4.1,14; 10.21; Jo 3.34).
O cristianismo propriamente dito começou com 0 derramamento do Espírito 
no Pentecostes, “nos últimos dias”, ocasião em que a experiência avassaladora 
de visões e declarações inspiradas foram tomadas como prova positiva de que 
a nova era profetizada por Joel havia enfim chegado (At 2.2-4,17,18). De igual 
modo, em Hebreus, 0 dom do Espírito é descrito como “poderes do mundo 
vindouro” (Hb 6.4,5). Mais notável ainda é a concepção que Paulo tem do 
Espírito como garantia da salvação completa de Deus (2C0 1.22; 5.5; Ef 1.13,14), 
“primeiros frutos” da colheita final de Deus entre os homens (Rm 8.23) e bem 
primeiro da herança a que tem direito 0 crente no reino de Deus (Rm 8.15-17; 
1C0 6.9-11; 15.42-50; G1 4.6,7; 5.16-18,21-23; Ef 1.13,14). Aqui, mais uma vez, 
0 Espírito é concebido como 0 poder da era por vir, como 0 poder — que carac- 
terizará 0 governo divino no fim dos tempos — já moldando e transformando 
a vida dos crentes.
A DO UTRINA IDF DTUS FSPÍRITO SANTO f 141
Para Paulo, isso significa também que 0 dom do Espírito não é senão 0 
começo de um processo de toda a vida, que não terminará até que a pessoa to- 
tal do crente esteja submetida à direção do Espírito (Rm 8.11,23; 1C0 15 ;־4249.
2C0 3.18; 5.1-5). Significa também que a experiência atual de fé é uma experiên- 
cia de tensão por toda a vida entre 0 que Deus já começou a realizar na vida 
do crente e o que não foi ainda realizado pela graça de Deus (Fp 1.6), entre o 
Espírito e a carne, entre a vida e a morte (Rm 8.10,12,13; G1 5.16,17; 6.8). É essa 
tensão escatológica entre a vida “no Espírito” e a vida “na carne” (v. G1 2.20) 
que ganha expressão pungente em Romanos 7.24 e 2Coríntios 5.2-4.
O Espírito da nova vida . Uma vez que 0 Espírito é a marca da nova era, não 
é de surpreender que os autores do Novo Testamento, de modo geral, tenham 
entendido 0 dom do Espírito como aquilo que transporta 0 indivíduo para a 
nova era. João Batista descreveu a maneira pela qual aquele que viria batizaria 
com 0 Espírito Santo e com fogo (Mt 3.11). De acordo com Atos 1.5 e 11.16, 
essa imagem foi tomada por Jesus, e a promessa foi considerada cumprida no 
Pentecostes — 0 derramamento do Espírito sendo aqui entendido como a ação 
do Cristo ressurreto que atrai seus discípulos para a nova era, iniciando-os “nos 
últimos dias” (At 2.17,33).
Parece que um dos objetivos de Lucas em Atos era sublinhar a importância 
central do dom do Espírito como estopim da conversão, como aquele “dom 
do Espírito Santo” decisivo que converte 0 indivíduo a Cristo (At 2.38,39). As 
pessoas podem ter sido seguidoras de Jesus na terra, mas foi apenas com 0 
dom do Espírito Santo no Pentecostes que se pode dizer que elas creram [isto 
é, comprometeram-se com] no Senhor Jesus Cristo (At 11.16,17). Até mesmo a 
fé na mensagem do evangelho por ocasião do batismo poderia ficar aquém do 
comprometimento total com Cristo e da aceitação plena dele dos quais 0 Espí- 
rito era a evidência decisiva (At 8.12-17).
A presença do Espírito manifesta na e sobre a vida de alguém era prova 
suficiente para Pedro de que Deus havia aceito a pessoa, embora ela não ti- 
vesse feito ainda nenhuma profissão de fé formal ou não tivesse sido batizada 
(At 10.44-48; 11.15-18; 15.7-9). De igual modo, Apoio, que já brilhava no Espírito 
(At 18.25; cf. Rm 12.11), muito embora seu conhecimento do “caminho do Senhor” 
fosse um pouco deficiente (At 18.24-26), não precisou complementar seu “ba- 
tismo de João” com 0 batismo cristão. Todavia, os chamados 12 discípulos de 
Éfeso mostraram com seu desconhecimento do Espírito que não eram ainda 
discípulos do Senhor Jesus (At 19.1-6). Lucas mostra Paulo perguntando a eles: 
“Recebestes 0 Espírito Santo quando crestes?” (At 19.2).
Isso está inteiramente de acordo com a ênfase de Paulo em suas epístolas. 
O passo de fé e 0 recebimento do Espírito caminham juntos, os dois lados da 
mesma moeda: receber 0 Espírito significa começar a vida cristã (G1 3.2,3); a
4 2 I CURSO PARA FORM ו AÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
justiça pela fé e a promessa do Espírito são consideradas equivalentes à “bên- 
ção de Abraão” (G1 3.1-14); ser batizado no Espírito significa tornar-se membro 
do corpo de Cristo (1C0 12.13); se alguém “não tem 0 Espírito de Cristo”, não 
pertence a ele, não é um cristão (Rm 8.9); somente ao receber 0 Espírito pode- 
mos nos tornar filhos de Deus, chamar Deus de Pai (Rm 8.14-17; Cl 4.6,7); 0 
selo divino que estabelece 0 elo entre Deus e 0 crente agora é 0 Espírito, não a 
circuncisão (nem 0 batismo — 2C0 1.22; Ef 1.13,14). O Espírito caracteriza de 
tal forma essa nova era e a vida nela que somente 0 dom do Espírito é capaz 
de trazer uma pessoa para ela a fim de que experimente essa vida. O Espírito 
é 0 único que dá a vida; 0 Espírito, de fato, é a vida da nova era (Rm 8.2,6,10; 
1C0 15.45; 2C0 3.6; G1 5.25).
Da mesma forma nos escritos de João, 0 Espírito é sempre aquele que vivi- 
fica (Jo 6.63), é 0 poder do alto, a semente da vida divina que produz 0 novo 
nascimento (Jo 3.3-8; 1J0 3.9), um rio de água viva que dá vida a quem crê 
em Cristo (Jo 7.37-39; v. tb. Jo 4.10,14). Ou então 0 recebimento do Espírito 
em João 20.22 é descrito como uma nova criação análoga à de Gênesis 2.7. 
Consequentemente,em Uoão 3.24 e 4.13 a posse e a experiência do Espírito 
constituem um dos “testes de vida” listados naquela epístola.
O Espírito da nova aliança. A vida que começa com 0 Espírito depende do Es- 
pírito para sua continuação (G1 3.3). Assim como Cristo cumpriu sua missão no 
poder do Espírito (Hb 9.14), assim a pessoa “em Cristo” só pode viver sua vida 
de cristão pelo mesmo Espírito. Jesus prometera a inspiração do Espírito em tem- 
pos de provação (Mc 13.11), e os primeiros cristãos viram isso se realizar em sua 
experiência pessoal (At 4.8, 31; 6.10; 13.9). Contudo, eles experimentaram tam- 
bém 0 Espírito de um modo muito mais frequente como aquele que dirigia sua 
missão (At 1.8; 8.29,39; 10.19; 11.12; 13.2,4; 15.28; 17.16,17; 19.21; IPe 1.12; v. 
tb. Jo 16.8-11; 20.21-23) e como poder fortalecedor (At 9.3; lPe4.14; Jo 14— 16).
Paulo, em especial, deixa bem claro que essa vida fundamentada nos recur- 
sos e na direção do Espírito é 0 que diferencia 0 cristianismo do judaísmo de 
sua época. Existe uma prática religiosa que é segundo a letra, 0 código escrito 
(Rm 2.28,29; 7.6; 2C0 3.6; G14.9,10; Cl 2.20-23), assim como há uma qualidade 
de vida que é “segundo a carne”, de acordo com os apetites e os desejos ego- 
ístas (Rm 8.3-7,12,13; G1 5.13). Contudo, 0 cristão é aquele que anda pelo 
Espírito, é guiado pelo Espírito, organiza sua vida pelo Espírito (Rm 7.6; 8.3-7,14; 
G1 5.5,16,18,25). O Espírito dentro de nós é precisamente 0 cumprimento da 
esperança profética de uma nova aliança, de uma circuncisão do coração que 
permite 0 conhecimento imediato e direto da vontade de Deus, bem como uma 
espontaneidade de adoração que deixa para trás, bem longe, a religião proto- 
colar (Rm 2.28,29; 7.6; 12.2; 2C0 3.3 — em alusão a Jr 31.31-34, Ef 2.18; 6.18; 
Fp 3.3; cf. 1J0 2.27; Jd 20).
Λ DO UTRINA DE DEUS ESPÍRITO SANTO I 1 4 3
1 4 4 I CURSO PARA FORM AÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
M anifestações do E spírito. Fica claro pelo que já foi dito que, quando os 
primeiros cristãos, assim como os antigos hebreus, falavam do Espírito, pensa- 
vam em uma experiência de poder divino. Tal como no Antigo Testamento e 
também no Novo, Espírito é a palavra usada para explicar a experiência de vida 
nova e de vitalidade (v. explicação anterior), de libertação do legalismo (p. ex., 
Rm 8.2; 2C0 3.17), de refrigério espiritual e de renovação (cf., p. ex., Is 32.15;
Ez 39.29 e Jo 7.37-39; Rm 5.5; 1C0 12.13; Tt 3.5,6). É 
importante perceber como é ampla a gama de 
experiências atribuída ao Espírito: experiências extáti- 
cas, ou ״em êxtase” (At 2 . 2 1 9 . 6 ;10.44-47 ;4 ;cf. 10.10 ;־
22.17; 2C0 12.1-4; Ap 1.10; 4.2), experiências emocio- 
nais (p. ex., amor, Rm 5.5; alegria, At 13.52; lTs 1.6; 
v. tb. G1 5.22; Fp 2.1,2), experiências de iluminação 
(2C0 3.14-17; Ef 1.17,18; Hb 6.4-6; 1J0 2.20), experiên- 
cias que resultam em transformação moral (1C0 6.9- 
11). De igual modo, quando Paulo fala de dons 
espirituais, carismas (atos ou palavras que convertem 
a graça divina em expressão concreta), ele tem, evi- 
dentemente, um grande rol de eventos em mente: fala 
inspirada (1C0 12.8,10; v. tb. 2.4,5; lTs 1.5), milagres 
e curas (1C0 12.9,10; G1 3.5; cf. Hb 2.4), atos de servi- 
ço e assistência, de aconselhamento e administração, de ajuda e misericórdia 
(Rm 12.7,8; 1C0 12.28).
Ao falar assim do Espírito, em termos de experiência, não devemos enfatizar 
demais as experiências ou manifestações particulares, como se 0 cristianismo 
primitivo fosse uma sequência de experiências elevadas ou arrebatadoras. É cia- 
ro que houve tais experiências, houve realmente uma vasta gama de experiên- 
cias, mas nenhuma delas é destacada das demais como a que todos devam 
buscar (exceto a profecia) e não há nenhuma segunda (ou terceira) experiência 
específica do Espírito no Novo Testamento. Paulo, na verdade, adverte quanto 
ao perigo de supervalorizar manifestações particulares do Espírito (1C0 14.6-19; 
2C0 12.1-10; cf. Mc 8.11-13). As experiências particulares são valorizadas quan- 
do se trata de manifestações de uma experiência mais duradoura, da expressão 
particular de um relacionamento subjacente (cf. At 6.3-5; 11.24, “cheio do Es- 
pírito”; Ef 5.18).
Aqui estamos em contato com 0 vigor da dimensão experiencial do cristianis- 
mo primitivo. Se 0 Espírito é 0 sopro da nova vida em Cristo (cf. Ez 37.9,10,14; 
Jo 20.22; 1C0 15.45), então supostamente a analogia se estende mais além, e 
a experiência do Espírito é como a experiência da respiração: não temos cons- 
ciência dela 0 tempo todo, mas, se não nos conscientizarmos dela pelo menos 
algumas vezes, algo está errado.
A experiência 
do Espírito é como 
a experiência da 
respiração: não 
temos consciência 
dela o tempo todo, 
mas, se não nos 
conscientizarmos 
dela pelo menos 
algumas vezes, algo 
está errado.
Comunhão do Espírito. Foi a partir dessa experiência compartilhada do Espírito 
que a comunidade dos primeiros cristãos cresceu e se desenvolveu — porque 
isso é 0 que significa propriamente “comunhão (koinonia) do Espírito”, parti- 
cipação comum no mesmo Espírito (Fp 2.1,2; cf. At 2.42; 1C0 1.4-9). Como foi 
0 dom do Espírito que fez com que os de Samaria, Cesareia e de outros lugares 
entrassem efetivamente na comunidade do Espírito (At 8 e 10), foi também a 
experiência do Espírito que proporcionou 0 elo comum às igrejas da missão de 
Paulo (1C0 12.13; Ef 4.3,4; Fp 2.1). Aqui vemos a importância verdadeira das 
manifestações do Espírito divino para Paulo: é da diversidade dessas manifesta- 
ções particulares que emerge a unidade da igreja, que 0 corpo de Cristo cresce 
em unidade (Rm 12.4-8; 1C0 12.12-27; Ef 4.4-16). São as expressões específicas 
da vida divina de que todos compartilhamos que Paulo vê como carismas. E é 
só na medida em que beneficiam e edificam essa vida comum e de adoração 
que Paulo valoriza tais manifestações (1C0 12.7). É por isso que ele tem a pro- 
fecia em tão alta conta (cf. At 2.17,18), porque, diferentemente da glossolalia 
(0 falar em línguas), a profecia ministra para a pessoa toda (mente e espírito) e 
principalmente para toda a comunidade (1C0 14).
Por esse mesmo motivo, Paulo aconselha prudência na hora de aceitar todas 
as manifestações como carismas — a experiência da inspiração não autentica 
a si mesma — e insiste em que toda manifestação seja submetida ao juízo da 
comunidade. Aquilo que não encontrar eco entre aqueles que têm 0 Espírito e 
não contribuir para a edificação da comunidade do Espírito dificilmente será 
dom do Espírito (1C0 2.12-15; 14.29; lTs 5.19-22; cf. Mt 7.15-23).
Assim, Paulo apresenta a solução para 0 problema veterotestamentário da 
autoridade, isto é, se ela está no pronunciamento individual do profeta caris- 
mático ou na autoridade oficial da religião institucionalizada. Isto porque a 
confrontação que havia entre 0 carismático individual e 0 porta-voz oficial foi 
transcendida. Todos, e não apenas um ou dois indivíduos especialmente ungi- 
dos, têm 0 Espírito; e todos, e não apenas um profeta em particular, podem ser 
usados pelo Espírito como ministros da graça (Rm 8.9; 1C0 2.12; 12.7,11). Isso 
significa que a autoridade não reside no carisma ou no ofício, e sim na correia- 
ção e na interação entre carisma e comunidade, no carisma individual (palavra 
ou ato) conforme testado e aprovado pela comunidade de modo geral.
O Espírito de Cristo. No início, 0 desdobramento mais importante da concep- 
ção cristã do Espírito é que 0 Espírito passava a ser percebido como 0 Espírito 
de Jesus (At 16.7; Rm 8.9; G1 4.6; Fp 1.19; lPe 1.11; v. tb. Jo 7.38; 15.26; 16.7; 
19.30; Ap 3.1; 5.6). É essa definição mais precisa do Espírito que dá ao cristão a 
resposta a outro problema do Antigo Testamento: como reconhecer a experiên- 
cia do Espírito como tal. A resposta é, em parte, que 0 Espírito deve ser iden- 
tificado como aquele que dá testemunho de Jesus (Jo 15.26; 16.13,14; At 5.32;
A DO UTRINA DE DEUS ESPÍRITO SANTO { 1 45
CURSO PARA FORM AÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS1 4 6
1C0 12.3; 1J0 4.2;preciso que tenha um conjunto de valores sobre a vida huma- 
na. Esses valores são determinados por crenças, e essas crenças são formuladas
INTRODUÇÃO I 21
·1Krtouj the Truth; A Handbook o f Christian Belief, p. 11. [Publicado em português com o 
título Estudando as doutrinas da Bíblia. São Paulo: ABU, 2005.]
3Ibidem.
2 2 I CURSO PARA FORMAÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
por doutrinas. A doutrina cristã proporciona, portanto, a estrutura fundamenta] 
para 0 viver cristão”.4
Onde McGrath enxerga uma estrutura, Philip Yancey vê um fundamento:
Jesus contou a história de dois homens cujas casas, a princípio, pareciam 
ter sido erguidas da mesma maneira. A diferença real entre elas se revelou 
no momento em que foram atingidas por uma tempestade. Uma delas 
não desabou, apesar da chuva forte que caía, do rio que se formara e dos 
ventos que a açoitaram, porque seu fundamento fora construído em solo 
rochoso. A segunda casa, cujo dono construíra tolamente sobre a areia, 
ruiu com grande estrondo. Na teologia, tal como na construção, os funda- 
mentos são muito importantes.5
Uma queixa frequente que se faz à teologia é a de que ela dá mais mar- 
gem a disputas do que ao progresso espiritual. Não seria melhor, avaliam os 
cristãos, se gastássemos mais energia amando-nos uns aos outros em vez de 
tentar provar que estamos certos e os outros, errados? Sem dúvida, a doutrina 
é usada com frequência como arma (e, na maioria das vezes, bem afiada!) 
para desacreditar a opinião alheia. Não devemos jamais promover a “justeza” 
do nosso ponto de vista à custa da "justiça”. Contudo, evitar 0 estudo da dou- 
trina porque alguns lidam com o assunto de maneira inadequada é tão tolo 
quanto construir uma casa sem fundamento algum simplesmente porque a 
casa da outra pessoa é uma monstruosidade. O apóstolo Paulo advertiu que o 
conhecimento pode nos tornar arrogantes [1 C0 8.1); no entanto, ele criticava 
os que pecavam, como se não tivessem “conhecimento de Deus” (1C0 15.34). 
E preciso encontrar 0 equilíbrio entre o conhecimento e 0 amor, entre 0 co- 
nhecimento e a fé.
O cristão moderno tende a ignorar ou a menosprezar a importância da 
reta doutrina. Cansado de disputas intermináveis, 0 cristão hoje em dia 
abraça a ideia de que aquilo que Importa realmente são os relaciona- 
mentos corretos, e não a doutrina certa. A ideia de que uma coisa é mais 
importante do que a outra é uma falsa premissa. Tanto o relacionamento 
adequado quanto a doutrina correta são importantes.6 1
1 Doctrine and Ethics, in: D. CLARK e R. R akestraw , orgs., Readings in Christian Ethics, p. 
85, teimpresso .com permissão de Journal o f the Evangelical Theological Society 34, 2, June 1991, p. 
145-56.
5 The Bible Jesus Read, p. 26. [Publicado em português com o título A Bíblia que Jesus lia. 
São Paulo: Vida, 2000.1
1R. C. SPROUL, The Soul's Quest for God: Satisfying the Hunger for Spiritual Communion 
with God, p. 47.
INTRODUÇÃO I 23
Ao mesmo tempo:
A doutrina correta em si mesma não é suficiente; ínfelizmente, é possível 
que não se consiga seguir a verdade de Deus na prática. Esse é um dos 
motivos pelos quais a doutrina é sempre criticada. Se a doutrina correta 
não produz vidas santas, amorosas e maduras, alguma coisa deu muito 
errado. Mas isso não é motivo para negligenciar ou menosprezar a fé.?
O maior dos mandamentos, disse Jesus, consiste em “[amar] 0 Senhor teu 
Deus de todo 0 coração, de toda a alma e de todo o entendimento” (Mt 22.37). 
Ele não disse que se referia a categorias opcionais, como se pudéssemos amar a 
Deus de todo o coração ou de toda a alma ou de todo 0 entendimento. O man- 
damento exige que se cumpram as trés exigências citadas. Amar a Deus com 
todo q nosso entendimento exigirá, naturalmente, que descubramos 0 máximo 
possível a seu respeito. Assim como em qualquer relacionamento, 0 amor nos 
induz a conhecer e a compreender como Deus é, de que maneira ele trabalha 
no mundo e em nós, do que ele gosta, 0 que deseja, 0 que 0 ofende e 0 que lhe 
dá prazer. Isso requer toda a nossa atenção, bem como um estudo muito atento.
A oração e a humildade são essenciais, porque nos ajudam a manter em 
perspectiva nosso relacionamento com Deus e com os outros. Jamais — pelo 
menos nesta vida — compreenderemos Deus totalmente. Isaías nos lembra que 
seus caminhos são mais altos do que os nossos (Is 55.9). Todavia, 0 estudo 
feito em espírito de oração seguido de uma vida pautada pela obediência e pela 
humildade pode levar-nos a compreendê-lo melhor hoje do que ontem. Uma 
atitude de oração e de humildade permitirá que atentemos mais facilmente 
para 0 que o Espírito está nos dizendo, à medida que examinamos as Escrituras 
e ouvimos a voz de Deus através de seus servos humanos. Tal atitude servirá 
também para que estejamos atentos ao fato de que ninguém, nenhuma escola 
de pensamento, instituição, igreja ou denominação tem todas as respostas.
Tampouco este livro, seus editores ou as diversas pessoas que deram sua 
contribuição a ele têm todas as respostas. Apesar disso, oferecemos nas páginas 
que se seguem algumas reflexões para que você possa dar os primeiros passos 
em direção a um conhecimento mais aprofundado da doutrina bíblica. Tenha 
ao seu lado uma Bíblia e um caderno de anotações enquanto lê. Ao estudar 
os atributos divinos, ou ao ler sobre a obra expiatória de Jesus Cristo, ou ao 
refletir sobre a obra do Espírito Santo, você começará a lançar os alicerces — o 
fundamento teológico — de uma vida de fé que agradara a Deus e fará diferença 
onde você está.
7B. M iln e , op. dt., p. 12.
CAPÍTULO 1
l " v ' í
(s&íà&i
A DOUTRINA DA 
ESCRITURA
A Palavra de Deus pode estar na mente sem estar no coração; 
mas não pode estar no coração sem estar primeiro na mente.
R. C. S p r o u l 1
INTRODUÇÃO
Virou moda hoje em dia negar às religiões quaisquer elementos exclusivos que 
reivindiquem para si. Outras religiões também têm seus livros sagrados, portan- 
to o que há de especial nas Escrituras cristãs, a Bíblia?
Cientes da importância do nosso assunto e do pouco apreço com que mui- 
tos veem nossa tentativa de defender a singularidade da Bíblia, começaremos 
com algumas definições. As três palavras principais comumente usadas pelos 
cristãos em relação à Bíblia são revelação, inspiração e autoridade. São termos 
relacionados, porém distintos.
0 termo fundamental é revelação. Derivado de um substantivo latino que sig- 
nifica “desvelamento”, indica que Deus tomou a iniciativa de se tomar conhe- 
rido. A lógica desse conceito parece evidente. O que quer que ele seja, ou seja lá 
ele quem for, Deus está totalmente além do nosso conhecimento. “Poderás des- 
cobrir as profundezas de Deus? Poderás descobrir a perfeição do Todo-podero- 
so?” [Jó 11.7). De fato, não. Há um véu entre sua grandeza infinita e os nossos 
olhos. Não podemos descobri-lo por conta própria. Só será possível conhecê-lo 
se ele se der a conhecer.
1 The Soul's Quest for God: Satisfying the Hunger for Spiritual Communion with God, p. 64-5. 
[Publicado em português com 0 título A alma em busca de Deus. São Paulo: Eclesia, 1998.1
CURSO PARA FORMAÇAO DE LÍDERES E OBREIROS2 6
A seguir vem inspiração. O termo aponta a principal maneira pela qual Deus 
escolheu se revelar. Ele se revelou parcialmente na natureza e sobretudo em 
Cristo, mas também quando “falou” a certas pessoas. É a esse processo de co- 
municação verbal que se dá 0 nome de “inspiração”. Não 0 usamos no sentido 
comumente utilizado quando queremos dizer que um poeta ou músico é “ins- 
pirado”. Pelo contrário, a palavra tem uma conotação especial e precisa, isto é, 
“toda a Escritura é soprada por Deus” (2Tm 3.16). Essa frase traduz um único 
termo grego que costuma ser vertido de forma menos precisa em algumas versões 
nas quais se lê: “inspirada por Deus”. O sentido, portanto, não é que Deus soprou 
nos autores, nem tampouco que ele, de algum modo, soprou nos escritos para 
lhes dar um caráter especial, é sim que os escritos dos autores humanos foram 
soprados5.7,8; Ap 19.10), mas também, e de modo mais profundo, 
como 0 Espírito que inspirou e concedeu poder a Jesus.
Portanto, 0 Espírito deve ser reconhecido como 0 Espírito de filiação — isto 
é, como aquele que inspira a mesma oração e concretiza a mesma relação com 
Deus Pai de que Jesus desfrutou (Rm 8.15-17, “coerdeiros”; G1 4.6,7). O Espírito 
deve ser visto como poder de Deus que transforma 0 indivíduo à imagem de 
Deus, que torna 0 crente semelhante a Cristo (2C0 3.18; cf. Rm 8.29; 1C0 13; 
15.42-49; Fp 3.20,21; Cl 3.9,10; 1J0 3.2). De modo especial, isso significa que a 
experiência do Espírito de Jesus é a experiência de Cristo crucificado bem como 
do Cristo exaltado, experiência não só do poder da ressurreição, mas também 
do compartilhamento do seu sofrimento e morte (Rm 8.17; 2C0 4.7-12,16-18; 
G1 2.20; Fp 3.10,11). A marca do Espírito de Cristo não são tanto as experiências 
do poder divino que transformam as debilidades físicas, e sim a experiência do 
poder na fraqueza, da vida através da morte (2C0 12.9,10).
O elo entre 0 Espírito e Jesus exaltado está inclusive mais próximo para 0 
crente. O Espírito, num sentido real, é 0 modo de existir de Jesus agora (Rm 1.4; 
1C0 15.45; lTm 3.16; lPe 3.18). Experimentar 0 Espírito é experimentar Jesus 
(Jo 14.16-28; Rm 8.9,10; 1C0 6.17; 12.4-6; Ef 3.16-19; Ap 2—3). Não se pode co- 
nhecer Jesus à parte do Espírito ou por outro meio que não pelo Espírito. Não se 
pode experimentar 0 Espírito senão deste modo: 0 Espírito tem 0 caráter de Cristo 
e imprime esse caráter naqueles que se submetem a ele. Qualquer outra experiên- 
cia espiritual deve ser totalmente desprezada, desacreditada e evitada pelo cristão.
J a m e s D . G. D u n n 1
RECU RSO S PARA LEITU RA E ESTU DO
Ver 0 final do capítulo 10.
RECU RSO S A D IC IO N A IS
A zevedo , Israel Belo de. O fruto do Espírito (1. ed. rev.).
B runer, Frederick Dale. Teologia do Espírito Santo: a experiência pentecostal e o 
testemunho do Novo Testamento.
E dwards, Jonathan. A verdadeira obra do Espírito (2. ed. rev.).
F erreira , Franklin & M yatt , Alan. Teologia sistemática: uma análise histórica, bí- 
blica e apologética para 0 contexto atual (parte 6).
G raham , Billy. O poder do Espírito Santo (2. ed. rev.).
P acker , J . 1. Na dinâmica do Espírito: uma avaliação das práticas e doutrinas. 
Sproul, R. C. O mistério do Espírito Santo.
Sto tt , John R. W. Batismo e plenitude do Espírito (2. ed.).
Sturz , Richard J. Teologia sistemática (parte iv ).
1Holy Spirit, in: W. A. Elwell, org., Baker Encyclopedia o f the Bible, v. 1., p. 986-91. Usado 
com permissão.
AS DOUTRINAS 
DA HUMANIDADE 
E DO PECADO
Deus criou o homem para ser alguém — não apenas para ter 
coisas.
B r o t h e r h o o d J o u r n a l
O pecado é a declaração de independência do homem em rela- 
ção a Deus.
A n ô n im o
O Q U E S IG N IF IC A SER H UM AN O
O ensinamento bíblico sobre a humanidade começa com a noção correta de 
Deus. A perspectiva bíblica da antropologia (i.e., 0 estudo da humanidade) 
tem papel fundamental no contexto de uma teologia elevada (i.e., 0 estudo de 
Deus). Uma visão elevada e reverente de Deus conduz a uma visão nobre e 
digna da humanidade, ao passo que um conceito pouco desenvolvido de Deus 
geralmente produz uma perspectiva distorcida da humanidade. Portanto, os 
seres humanos podem ser vistos como mais importantes do que realmente são 
ou como menos importantes do que a Bíblia os vê. Qualquer uma das duas 
perspectivas é sub-bíblica. Deve-se começar 0 estudo do homem com uma visão 
elevada de Deus, seu Criador.
A O R IG EM DA H UM AN ID AD E
Em oposição às teorias naturalista e materialista das origens, a visão bíblica 
começa com a afirmativa de que 0 Deus eterno criou a humanidade, a mais
importante obra de todas que criou. Não é necessário subscrever nenhum 
cenário cronológico em particular para a obra divina de criação da humanidade. 
Há cristãos para os quais a Bíblia ensinaria uma cronologia fechada em Gênesis, 
capítulo 1, composta de seis dias literais de 24 horas cada (cf. Gn 1.5,8,13 
etc.), com 0 aparecimento súbito e surpreendente de Adão e Eva há cerca de 6 
mil anos (cf. as cronologias associadas ao arcebispo James Ussher — Annales, 
1650-1658 —, mas não só a ele). Alguns que defendem essa perspectiva geral 
(chamada, às vezes, de ciência da criação) estendem a criação do homem a 
cerca de 10 mil anos atrás, com base numa visão mais flexível das cronologias 
de Gênesis 5 e 11.
Outros acreditam que os textos de Gênesis 1 e 2 devem ser interpretados 
de maneira muito mais ampla, que nos permita supor uma antiguidade mais 
remota para a criação da humanidade (de alguns milhões de anos). Dizem eles 
que esse processo (sob controle e direção de Deus) pode ter tido um papel sig- 
nificativo na obra criadora de Deus. O melhor nome para esse ponto de vista é 
criacionismo progressivo, e deve-se contrastá-lo com a evolução teísta, em que 
Deus, via de regra, inicia 0 processo, mas pouco se envolve a partir do momen- 
to em que ele começa a se desenvolver. No esquema anterior, 0 termo hebraico 
dia {yom), em Gênesis 1, pode referir-se a um período extenso de tempo (é 0 
caso, por exemplo, da teoria do “dia-era”); a frase “noite e manhã, 0 dia tal” 
pode ser um recurso literário usado para apresentar cenas sucessivas da obra 
criadora de Deus ocorridas ao longo do tempo.
Muitos cristãos se posicionam em algum lugar entre uma cronologia con- 
servadora e outra mais ampla no que diz respeito à origem da humanidade. 
Contudo, apesar das preferências individuais, é preciso crer na obra criadora de 
Deus ao produzir a humanidade para que se possa pensar biblicamente nela. 
A essência da fé começa com as palavras “Creio em Deus Pai todo-poderoso, 
Criador do céu e da terra”.
A humanidade não é apenas criação divina, mas também 0 ápice de sua 
obra criadora. Muito antes da precisão moderna que hoje caracteriza as pesqui- 
sas científicas, os antigos tinham consciência das semelhanças anatômicas dos 
seres humanos com membros do reino animal. Todavia, apesar das semelhan- 
ças, o ponto de vista bíblico sempre foi 0 de não confundir 0 humano com 0 
animal — os seres humanos são diferentes, eles são 0 clímax da obra de criação 
de Deus, 0 ponto mais alto da sua arte criadora. A progressão das coisas criadas 
em Gênesis 1 atinge seu ponto culminante na criação do ser humano.
Do ponto de vista da sociologia, as características específicas de comporta- 
mento dos seres humanos consistem em linguagem, fabricação de ferramentas 
e cultura. Suas características experienciais específicas consistem em consciên- 
cia reflexiva, preocupações éticas, anseios estéticos, consciência histórica e
1 4 8 CURSO PARA FORM ן AÇÃO DF LÍDERFS F OBREIROS
AS DOUTRINAS DA HUMANIDADE E DO PECADO j 1 4 9
preocupações metafísicas. Esses fatores separam, individual e coletivamente, os 
seres humanos de outras formas de vida animada. A humanidade é muito mais 
do que 0 “macaco nu” de algumas teorias evolucionistas modernas. A sociolo- 
gia por si só não basta para explicar a natureza do ser humano em toda a sua 
inteireza. Isso cabe à revelação divina.
Embora a humanidade mantenha uma continuidade com a criação divina 
(pressuposta nas palavras de Gn 2.7, tendo sido moldada do pó da terra), os 
seres humanos também são distintos de todos os que os precederam, porque 
foi em uma criatura nova que Deus soprou o sopro da vida, para que ele se 
tornasse um ser vivo. A redação desse texto desfere um golpe contra a teoria da 
progressão gradual do desenvolvimento do homem. Não foi em uma das criatu- 
ras em desenvolvimento que Deus introduziu um alento extra ou uma natureza 
distinta, e sim em uma criatura plenamente acabada, porém inanimada, na qual 
ele soprou 0 sopro da vida. O princípio de animação da humanidade vem como 
dádiva diretamente de Deus.
Os seres humanos foram criados por Deus como macho e fêmea (Gn 1.27). 
Em outras palavras, 0 que se diz geralmente da humanidade deve ser dito tan- 
to empor Deus. Ele falou através deles. Os autores foram porta-vozes de Deus.
Além disso, não hesitamos em dizer que essa inspiração era de caráter “ver- 
hai ”, no sentido de que ela se estende a todas as palavras usadas pelos autores 
humanos. Era isso o que eles afirmavam. O apóstolo Paulo, por exemplo, disse 
que, ao comunicar a outros 0 que Deus lhe revelara, não usou "palavras ensi- 
nadas pela sabedoria humana, mas [...] palavras ensinadas pelo Espírito Santo” 
(1C0 2.13). Tal fato não deveria constituir surpresa alguma, já que não é possí- 
vel transmitir uma mensagem precisa de nenhuma outra maneira a não ser por 
meio de palavras precisas.
Autoridade, 0 terceiro termo, diz respeito ao poder ou peso que a Escritura 
possui por se tratar do que é, ou seja, a revelação divina dada por intermédio da 
inspiração divina. Se é palavra de Deus, ela tem autoridade sobre nós, porque 
por trás de cada palavra proferida está quem a propõe. É 0 próprio falante (seu 
caráter, conhecimento e posição) que determina de que maneira as pessoas in- 
terpretam suas palavras. Portanto, a Palavra de Deus traz consigo a autoridade 
divina. É por Deus ser quem é que devemos crer no que ele disse.
Foi essa a lição que Simão Pedro aprendeu quando Jesus lhe disse no mar da 
Galileia que lançasse de novo as redes nas águas. A experiência que Pedro tinha, 
fruto de muitos anos de trabalho, aconselhava-o a não fazê-lo. Ele chegou a repli- 
car: “Mestre, trabalhamos a noite toda e nada pescamos”. Contudo, sabiamente 
acrescentou: “Mas, por causa da tua palavra, lançarei as redes” (Lc 5.4,5).
Afirmamos, portanto, que Deus se revelou por meio das palavras que pro- 
nunciou; que esse discurso divino ("divinamente inspirado") foi escrito e pre- 
servado na Escritura; e que a Escritura é, de fato, a Palavra escrita de Deus e que 
é, portanto, verdadeira e confiável e tem autoridade divina sobre nós.
John R . W . Sto tt* 1
1Understanding the Bible, p. 123-4. Usado com permissão. [Publicado no Brasil com 0 título 
Entenda a BÍblia. São Paulo: Mundo Cristão, 2005.]
A DOUTRINA DA ESCRITURA J 27
REVELAÇÃO
A teologia cristã afirma, com base no texto da Escritura e pela confirmação dos 
atos de poder de Deus, que a revelação divina é a primeira, última e única fon- 
te da tarefa teológica; sem essa base sólida, toda discussão teológica torna-se 
inócua, até mesmo fútil. O conhecimento que as pessoas tem de Deus se deve 
à iniciativa e à atividade divinas. Deus é sempre 0 iniciador e 0 autor da reve- 
lação. As pessoas são destinatárias dela. Deus revela 0 que, do contrário, per- 
maneceria desconhecido; ele desvela o que, se assim não fosse, permanecería 
oculto (Dt 29.29; G11.12; Ef 3.3).
REVELAÇÃO GERAL
Deus retira 0 véu de duas maneiras. A primeira delas é a que se conhece como 
revelação geral. Deus se revela na natureza, na história e em todas as pessoas 
criadas à sua imagem. A associação da revelação divina com a natureza, por 
meio da qual as pessoas têm um conhecimento intuitivo da existência de Deus, 
é antiga e é uma verdade que encontra apoio em toda a Escritura, no Antigo 
Testamento (SI 14.1; 19.1) eno Novo Testamento (At 14.17; 17.22-29; Rm 1.19-21). 
Que há um Deus, que Deus é 0 Criador todo-poderoso, que ele julga com justiça 
como Juiz supremo que é ou que reina na condição de “Totalmente Outro” sobre 
suas criaturas são tópicos aceitos e reconhecidos por todos. Portanto, é inegável 
a realidade de Deus, a saber 0 fato de que Deus é. Quando as pessoas 0 negam, 
conforme faz o ateu, trata-se de uma atitude forçada contra uma convicção inte- 
rior engendrada pela natureza. Paulo esperava que os atenienses concordassem 
quando disse que é em Deus, o Deus único e verdadeiro, que as pessoas vivem 
e se movem e existem (At 17.28). Por causa do conhecimento natural de Deus 
(escolásticos como Tbmás de Aquino referiam-se a esse conhecimento como teo- 
logia natural para distingui-10 daquilo que era revelado diretamente por Deus), 
que confronta a humanidade por toda parte. Em toda a criação e nas leis da 
natureza, igualmente criadas, é que Paulo pode dizer que as pessoas são “muito 
religiosas” (At 17.22, NVI). Não se trata de identificar Deus com a natureza, e 
sim de reconhecer que 0 conhecimento natural de Deus se acha profundamente 
arraigado na natureza da humanidade e no mundo natural.
O conhecimento natural de Deus, porém, tem suas limitações e inadequa- 
ções. Como ele confronta 0 indivíduo com o fato da existência de Deus, 0 indiví- 
duo, por causa disso, envolve-se na prática religiosa e começa a fazer perguntas 
fundamentais a respeito da fonte, da razão e do propósito de sua existência. O 
trágico disso, porém, conforme diz Paulo (Rm 1.18—2.16), é que desde a Queda 
as pessoas transformam 0 conhecimento de Deus em práticas perversas: em vez 
de adorá-lo, adoram imagens, criaturas ou coisas criadas. Desse modo, os peca- 
dores se afastam de Deus e se satisfazem com respostas tolas para as questões
fundamentais da existência. Por causa da tendência de distorcer e de desfigurar 
esse conhecimento natural, alguns teólogos disseram que não era possível cha- 
má-10 de revelação. De acordo com tal conceito, a revelação desperta dentro do 
indivíduo o confronto com Deus. Essa explicação, entretanto, foi amplamente 
contestada com base no argumento de que, se a revelação geral fosse contesta- 
da, as pessoas não poderíam mais ser responsabilizadas diante de Deus.
Martinho Lutero reconheceu a validade de um conhecimento natural de 
Deus. Para ele, Deus não é encontrado, como se estivesse oculto atrás da cria- 
ção, nem simplesmente inferido de maneira abstrata a partir dela. Pelo contra- 
rio, as maravilhas do mundo natural estão entre os “véus” ou "máscaras” de 
Deus por meio dos quais ele se dá a conhecer, Não são meros pontos de partida 
para que se formem idéias a seu respeito; representam, isto sim, que Deus está 
no palco como ator principal. As distorções impostas a essas evidências natu- 
rais, segundo Lutero, não negam a validade da revelação divina. Embora frag- 
mentária, incompleta e muitas vezes distorcida, a revelação geral, ou natural, é 
um desvelamento genuíno e válido de Deus no tocante à sua majestade e poder 
no mundo da criação (Rm 1.18-32).
REVELAÇÃO ESPECIAL
Contudo, conhecer a Deus por meio de sua revelação na natureza deixa na 
mais completa obscuridade sua pessoa e os propósitos de sua graça. O coração 
amoroso e cheio de graça de Deus quer a salvação de todas as pessoas. Pela 
revelação especial, Deus se propõe a compartilhá-la de várias maneiras. A 
humanidade não sabería coisa alguma a respeito dos propósitos messiânicos 
de Deus em Cristo se Deus não houvesse dado a conhecer seu coração e seus 
propósitos por meio da Escritura. Antes da Queda, a comunhão entre 0 Criador e 
0 homem era direta e, aparentemente, ininterrupta, Com os primeiros patriarcas 
— Adão, Noé e outros — a revelação divina se deu por intermédio da articulação 
da linguagem de modo sobrenatural, isto é, pela comunicação direta (Gn 3.14- 
19; 6.13-21; 7.1-4; 12.1-3). Em outros tempos, a revelação divina veio através 
de meios diversos, como no episódio em que 0 Senhor apareceu na tenda de 
Abraão (Gn 18.1-15), na sarça ardente (Èx 3.1-22), na nuvem (Èx 34.6,7), no 
fogo e na nuvem sobre o monte Sinai diante de Moisés e do povo de Israel 
(Êx 19). No monte santo, Deus falou e tornou conhecida sua mente e coração 
por meio de Moisés, seu servo especial. Por vezes, sonhos e visões, que podiam 
ocorrer durante o sono ou em momentos de vigília (foi 0 caso, por exemplo, do 
jovem Samuel, em ISm 3.1-14), foram usados por Deus em seu contato com os 
profetas que escolhera. Deus moveu interiormente os profetas e, mais tarde, os 
apóstolos, para que falassem e escrevessem seus pensamentos e suas palavras 
à humanidade. Os atos poderosos de Deus em favor do seu povo, tais como o
2 8 I CURSO PARA FORMAÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
Êxodo, a travessia do mar Vermelho, os quarenta anos no deserto, em que vários 
milagressustentaram 0 povo o tempo todo, foram cuidadosa e corretamente 
interpretados por Deus por intermédio dos seus profetas. Pela iluminação 
interior e imediata de Deus no coração e na mente dos profetas e apóstolos, eles 
comunicaram a Palavra conforme ele concedia que a expressassem [Jr 1.4-19; 
1C0 2.13; ITs 2.13; 2Pe 1.16-21). O ponto alto da revelação divina foi a 
encarnação do seu Filho amado, Jesus Cristo (Jo 1.14-18; G1 4.4,5; Hb 1—2). A 
revelação do Pai por Jesus e a vontade misericordiosa de Deus para seu povo foi 
direta, precisa e incomparável (Jo 14).
Deus não iluminou simplesmente 0 coração e a mente de seus profetas e 
apóstolos para que proferissem sua Palavra. Houve casos específicos em que 
os inspirou também a escrever os pensamentos, palavras e promessas que ele 
gostaria que fossem revelados e conhecidos para sempre. A coleção sagrada de 
escritos forma um todo harmonioso notável por meio do qual Deus revela seus 
pensamentos e propósitos para a humanidade. Para essa tarefa, Deus impeliu 
os profetas e os apóstolos não só a que narrassem certas ocorrências e eventos 
históricos, mas também o que ele lhes havia revelado em comunicações espe- 
ciais. A revelação e a inspiração são companheiras necessárias da revelação 
que Deus faz de si mesmo e de sua vontade. Há situações em que elas simples- 
mente se unem na dispensação graciosa da sua Palavra. Poderão diferir por- 
que, enquanto a revelação diz respeito à iluminação divina (dada por Deus de 
várias maneiras), por meio da qual profetas e apóstolos conheceram a Deus e 
às coisas de Deus, a inspiração é o meio divino empregado por Deus para o 
registro escrito de sua Palavra. Portanto, 0 ponto central da inspiração é, antes 
de qualquer outra coisa, 0 texto; o ponto central da revelação é a informação 
ou desvelamento que Deus concede de si mesmo e de seus propósitos. Como 
é inspirada por Deus, a Escritura é reconhecidamente e com justiça respeitada, 
porque é a revelação de Deus para as pessoas hoje, proclamando duas grandes 
doutrinas: a da lei (sua vontade) e a do evangelho (suas promessas salvadoras 
em Cristo, Jo 20.21).
Teologia moderna. De acordo com a teologia liberal, não há necessidade de re- 
velação especial, uma vez que Deus pode ser compreendido e apreendido pela 
iluminação interior. Para alguns, a Bíblia não passa de mero registro no qual 
observamos as tentativas do ser humano de repetir e reproduzir os atos podero- 
sos de Deus, recontando-os por meio de palavras e pensamentos humanos, de 
acordo com a situação humana. A Bíblia, suas verdades proposicionais e suas 
doutrinas, são rejeitadas como revelação, ao passo que 0 encontro pessoal do 
crente com Deus é visto como a única revelação genuína ou evento revelatório
A DOUTRINA DA ESCRITURA J 2 9
3 0 I CURSO PARA FORMAÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
suscitado por Deus. Isso significa também que não pode haver revelação onde 
ela não é recebida ou onde 0 homem falha em encontrar Deus.
Nem é preciso dizer que essa idéia é uma estranha separação dos propósitos 
da graça de Deus em sua revelação, particularmente conforme se encontra re- 
gistrada na Palavra profética e apostólica inspirada. Deus tomou a iniciativa de 
tomar a si mesmo, seus juízos contra o pecado é a injustiça, sua misericórdia e 
graça em Cristo conhecidos dessa maneira, Essa Palavra continua a ser sua re- 
velação sagrada, quer as pessoas a acolham, quer não. Tbdavia, 0 propósito 
amoroso de Deus consiste em que todos 0 ouçam à me- 
dida que ele revela a si mesmo em sua Palavra e 0 abra- 
cem com fé e confiança, sendo por fim salvos pela fé 
no Salvador.
Para os teólogos modernos, a obsessão excessiva 
com que dèféndem a revelação associada ao encontro 
pessoal do indivíduo com Deus e a crítica que fazem 
às verdades reveladas da Bíblia se explicam pelo fato 
de que trabalham com o pressuposto dè que a Bíblia 
não é verdadeiramente a Palavra de Deus inspirada. A 
Bíblia vê a si mesma como produto de autores humanos 
que escreveram sob inspiração divina. Contudo, para a 
teologia moderna, ela é o registro meramente humano 
dos atos poderosos de Deus. Há uma inconsistência 
muito grande no discurso dos teólogos liberais quando, 
por um lado, falam dos atos poderosos de Deus e, por 
outro, rejeitam o ato poderoso desse mesmo Deus ao 
confiar à humanidade sua Palavra, a Bíblia. Não há 
outro Cristo senão 0 Cristo da Escritura e nenhuma 
outra Escritura senão aquela que 0 Senhor Jesus Cristo deu e confirmou. Para 
ele, a Escritura toda é fonte de testemunho (Jo 5.39; At 10.43; 18.28; 1C0 15.3).
W alter A . E lw ell et a l . 5
A INSPIRAÇÃO DA ESCRITURA
Para a igreja primitiva, dois fatores foram significativos para sua aceitação plena 
do Antigo Testamento como divinamente inspirado. Em primeiro lugar, havia 
a declaração reiterada em suas páginas de que “Deus falou”, ou “Deus disse” 
isto ou aquilo. Além disso, muitas profecias do Antigo Testamento relativas ao
Há uma 
inconsistência 
muito grande 
no discursa dos 
teólogos liberais 
quando, por um 
lado, falam dos 
atos poderosos 
de Deus e, por 
outro, rejeitam 
o ato poderoso 
desse mesmo 
Deus ao confiar 
à humanidade 
sua Palavra.
Adaptado de "Revelation”, in: Walter A. Elwéll, org,, Baker Encyclopedia o,־ f the Bible, v. 2, 
p. 1844-7. Usado com permissão,
futuro Messias foram cumpridas em Jesus, e para os cristãos parecia claro que 
tais profecias só poderíam ter sido comunicadas diretainente por Deus. Em 
segundo lugar, temos a atitude de Jesus em relação à Escritura. Ele disse que a 
Escritura, 0 que então significava 0 Antigo Testamento, “não pode ser anulada” 
(Jo 10.35; cf. Lc 16.17). Jesus amava 0 Antigo Testamento e viveu sua mensa- 
gem básica, demonstrando assim que o aceitava como Palavra de Deus. Para a 
igreja primitiva, 0 fato de Jesus reconhecer sua inspiração (Mt 22.43) validava 
sua origem divina e comprovava sua exatidão histórica.
A opinião de Cristo sobre o Antigo Testamento tornou-se 0 ponto de vis- 
ta expresso no Novo Testamento, que está saturado de citações do Antigo 
Testamento e de alusões a ele. O uso repetitivo de fórmulas como “a Escritura 
diz”, “está escrito”, “Deus disse”, ou “o Espírito Santo disse” mostra que, no 
Novo Testamento, a Escritura é equiparada à Palavra de Deus escrita.
Mas e quanto à inspiração do Novo Testamento? Os primeiros pregadores 
do evangelho tinham certeza de que haviam recebido um “evangelho" divina- 
mente inspirado (Rm 1.16). A mensagem do evangelho, dada de forma oral aos 
apóstolos “pelo Espírito Santo” (At 1.2), foi posteriormente registrada por escri- 
to pela ação do Espírito. Quando, por fim, o Novo Testamento tomou seu fugar 
de Escritura ao lado do Antigo Testamento, isso se deu mediante a consciência 
do significado específico e consolidado do termo: Escritura tinha a conotação 
de “Palavra de Deus escrita".
Consequentemente, os dois testamentos foram feitos um para o outro e cons- 
tituem para o cristão um único pronunciamento de Deus. Chama-se “escritura- 
ção" ao processo de registrar por escrito a autorrevelação divina, de modo que 
0 produto resultante pode ser designado com precisão como Palavra de Deus. A 
revelação divina, portanto, acha-se inscrita no registro bíblico. Algumas passa- 
gens do Novo Testamento referem-se especificamente à inspiração sobrenatural 
da Escritura; para os cristãos, porém, a evidência dessa realidade permeia a 
Bíblia toda.
A NATUREZA DA INSPIRAÇÃO
Até meados do século xix, a igreja tinha uma postura unânime em relação à 
inspiração: Deus dera as palavras tais como se encontram nas Escrituras a seus 
autores humanos para perpetuar de forma inequívoca sua autorrevelação 
especial. No segundo século, Justino Mártir referia-se à Bíblia como “linguagem 
genuína de Deus”. No quarto século, Gregorio de Nissa disse que ela era “a 
voz do Espírito Santo". Nos séculos xvi e xvn, os reformadores protestantes 
repercutiram essas declarações. Contudo, na segunda metade do século xix, 
a penetração das idéias evolucionistas e 0surgimento da "alta crítica” nos 
estudos bíblicos levaram alguns teólogos a questionar o conceito histórico da
A DOUTRINA □A ESCRITURA j 31
inspiração verbal. Foram feitas tentativas de modificar o conceito ou de substituí- 
10 compietamente por uma nova doutrina da inspiração que abrisse espaço a 
uma teoria do desenvolvimento religioso e a fazer do Antigo Testamento uma 
colcha de retalhos. Alguns teólogos deslocaram a sede da inspiração da palavra 
objetiva para a experiência subjetiva. Tal experiência pode ser a de um gênio 
da religião ou a de um profeta cujas intuições e vislumbres da verdade foram 
preservados na Bíblia. Pode ser também a experiência de uma pessoa que, hoje, 
tocada por uma palavra ou por uma mensagem da Bíblia, reconhece que ela é 
um livro inspirador.
Essas alterações drásticas de ponto de vista não correspondem à compreen- 
são que a Bíblia tem de sua inspiração: “Pois a profecia nunca foi produzida 
por vontade humana, mas homens falaram da parte de Deus, conduzidos pelo 
Espírito Santo" (2Pe 1.21). Portanto, de acordo com o Novo Testamento, os 
profetas do Antigo Testamento proclamaram uma palavra iniciada e controlada 
pelo Espírito Santo. O que disseram não foi meramente a expressão do que pen- 
savam ou a expressão do pensamento divino por meio de suas palavras, e sim 
palavras “da parte de Deus”, à medida que eram conduzidos (no original grego, 
“movidos ou impelidos”) pelo Espírito Santo. Embora a passagem trate espe- 
cificamente da profecia falada, 0 apóstolo Pedro parece usar a ação do Espírito 
nos profetas para enfatizar a origem divina da Escritura em toda a sua extensão 
(cf. lPe 1.3-25). O mesmo Espírito de Deus impeliu também Paulo a escrever 
(cf, 2Pe 3.15,16). No que diz respeito tanto à Palavra escrita quanto à falada, 0 
Espírito Santo iluminou a mente e supervisionou a obra dos autores bíblicos.
De acordo com Paulo, a linguagem da Escritura foi, literalmente no grego, 
“soprada" por Deus (2Tm 3.16). O termo grego, conforme utilizado pelo após- 
tolo, significa que a Escritura é mais do que um tipo comum de escrita sobre a 
qual teria meramente "soprado Deus”. Paulo também quis dizer que a Bíblia é 
mais do que um livro que o Espírito "emana". Ela é, isto sim, produto do sopro 
criador de Deus e, portanto, um produto divino.
No Antigo Testamento, os termos hebraicas para “sopro” são frequentemen- 
te traduzidos como “espírito” nas diversas versões (p. ex., Gn 1.2; 6.3; Jz 3.10; 
6.34). O sopro de Deus é uma expressão usada em referência à atuação do 
Espírito mediante seu poder criador (Gn 1.2; 2,7; Jó 33.4; Si 104.30). Esse po- 
der criador é a fonte de atividades e habilidades humanas especiais, requisita- 
das por Deus paia a realização dos seus propósitos (Êx 35.30-35; Nm 24.2ss; 
Jz 6,34). Ao longo de todo o Antigo Testamento, 0 sopro ou espírito de Deus 
aparece especificamente associado à profecia (Nm 24.2ss; Is 48.16; J1 2.28; 
Mq 3.8). Tais observações constituem 0 pano de fundo que permite entender 
a expressão paulina “soprada por Deus”, “Os céus foram feitos pela palavra 
do Senhor, e todo o exército deles, pelo sopro da sua boca” (SI 33.6); de igual
3 2 I CURSO PARA FORMAÇAO DE LÍDERES E OBREIROS
33A DOUTRINA DA ESCRITURA
m o d o , as E scritu ra s fo ram p ro d u z id a s pelo sopro d iv ino . N o in íc io , ao en v ia r 
seu E sp írito (SI 104.30), D eus rea lizo u a o b ra da C riação . i־... D eus [...] sop rou - 
-lhe n a s n a r in a s o fô lego da v ida ; e 0 h o m e m to rn o u -se a lm a v iv e n te ” (Gn 2 .7). 
De igua l m o d o , D eus so p ro u p o r m eio do h o m e m as p a lav ras q u e fo rm a m as 
E scritu ras , q u e tra z e m a im ag em de D eus e que , p o r si sós, in s tru e m p a ra a 
sa lv ação e p re p a ra m p a ra a ju s tiç a (2Tm 3.15-17).
Ig u a lm en te sign ifica tiva em to d o o A ntigo T estam en to é a a sso c iação en tre 
"E sp írito ” e “p a la v ra ”, sen d o a d is tin ção en tre as d u as co m p aráv e l à d istín - 
ção e n tre o " so p ro ” e a “v o z ” d iv inas. A voz é a exp ressão a r ticu la d a de u m 
p e n sa m e n to , ao p a s so q u e 0 sop ro é a fo rça p o r m eio da q u a l as p a lav ras se 
to rn a m rea lidade .
No N ovo T estam en to , 0 sop ro d iv ino , ag en te da P alav ra de D eus, é 0 E spírito 
San to . A re lação en tre 0 E sp írito e as E scritu ras é de ta l m o d o p ró x im a q u e a 
d ec la ração “ 0 E sp írito S an to d iz ” equ ivale a “as E scritu ras d iz e m ” (cf. H b 3 .7). 
P au lo d isse q u e aq u ilo q u e reg is tro u p o r e scrita à ig reja de C orin to foi com uni- 
cado n ão “com p a lav ras en s in ad a s p e la sa b ed o ria h u m a n a , m as co m p a lav ras 
en s in a d a s pe lo E sp írito S a n to ”. Ele ac re sc en ta que , p o r m eio d as p a iav ras q u e 
a p re n d e u co m o E sp írito , es tav a “in te rp re tan d o co isas e sp iritu a is p a ra p esso as 
e s p ir i tu a is ” (1C0 2 .13 , cf. n o ta d e ro d ap é d a a21). Os teó logos c o s tu m a m cha- 
m a r de “ilu m in a ç ã o ”, em v ez de in sp iração , ao p ro ce sso pelo q u a l 0 E sp írito faz 
co m q u e 0 le ito r o u o u v in te co m p reen d a as E scritu ras.
Consequências dessa visão bíblica. São do is os co ro lá rio s q u e se seg u em se 
ac e ita rm o s o q u e a B íblia d iz sob re su a insp iração :
A in sp iração é plenária. Em p rim e iro lugar, a in sp ira çã o das E scritu ras p ode 
se r c o n s id e rad a plenária, te rm o q u e sign ifica “to ta l, in te ira , c o m p le ta”, ou se ja , 
a E scritu ra foi in te g ra lm e n te so p rad a p o r D eus. D izer q u e a in sp iração é p lená- 
r ia sign ifica re je ita r u m a teo ria da ilu m in ação em q u e a in sp iração se ria ap en as 
parc ia l ou v ariável. A a tiv id ad e do E sp írito n ão se lim ita a u n s p o u co s tex to s ou 
a p assag en s espec ia is da E scritu ra , an te s e la se e s ten d e à to ta lid a d e d a Palavra 
de D eus escrita . A in sp iração p le n á r ia se o p õ e ig u a lm e n te a q u a lq u e r “teo ria 
da in tu iç ã o ”, se g u n d o a q u a l a in sp iração n ão p a s sa de u m a a tiv id ad e n a tu ra l.
C on tu d o , a in sp iração p len á ria n ão req u e r q u e to d a dec la ração co n tid a n a 
Bíblia se ja n ec e s sa r ia m e n te v e rd ad e ira . O p o n to de v is ta eq u iv o cad o dos am igos 
de Jó (cf. Jó 42 .7-9), as fa ls id ad es d ita s p o r P edro (M c 14 .66-72), b em com o as 
cartas dos reis p ag ão s (Ed 4 .7-24), em b o ra c itad as n a s E scritu ras, n ão fo ram 
in sp irad as pelo E sp írito . Só sab e rem o s se são d ec la raçõ es falsas ou v erd ad e ira s 
se as in te rp re ta rm o s em seu co n tex to . O reg istro de ta is p a lav ras pelo s au to re s 
d a E scritu ra , p o rém , foi o b ra su je ita à in sp iração do E sp írito . D eus q u is que 
fossem p a r te d e s u a revelação .
3 4 I CURSO PARA FORMAÇÃO DE LÍDERES E OBREIROS
A inspiração é verbal. U m se g u n d o co ro lá rio da a firm ação b íb lica é q u e a 
in sp iração se ap lica às p a lav ras d a Bíblia. A E scritu ra so p rad a p o r D eus co n s is te 
em p a lav ras d a d a s p o r D eus. As E scritu ras são "escrito s sag rados". A insp ira- 
Ção fu n c io n av a n a conexão ín tim a en tre p e n sam e n to e p a lav ra , in flu en c ian d o 
am b as . E ssa co m p re en sã o da in sp ira çã o ficou co n h ec id a h is to r ic a m e n te com o 
“verbal". O te rm o ch am a a a te n ç ã o p a ra o p ro d u to d o so p ro d iv in o , isto é, as 
p a lav ras em si. P o rque 0 E spírito p reo cu p o u -se com as p alav ras d a E scritu ra , 
n ão h á lim ite p a ra a con fian ça do c re n te nelas .C o n tu d o , d iz e r q u e a in sp ira çã o é verb a l n ão é 0 m esm o q u e d iz e r q u e se 
tra to u de u m p ro cesso d itad o , m ecân ico . E ssa v isão m a is am p la , s u s te n ta d a 
p e lo s p a is d a ig re ja , m o stra com o eles tin h a m em a lta e s tim a a E scritu ra , m a s 
ta l p o s tu ra n ão c o n s titu i b a s e su fic ien te p a ra a teo ria d a in sp ira çã o . Os a d v e r- 
sá rio s d a d o u tr in a h is tó ric a d a in sp iração , p o rém , m u ita s v ezes a s so c ia m a 
in sp ira çã o v e rb a l a e s se p ro ce sso au to m á tico e, c o n se q u e n te m e n te , 0 re je ita m 
d e im e d ia to p o r co n s id e rá - lo m a te r ia lis ta . Para e les , o te rm o verb a l in d ica q u e 
os au to re s b íb lico s e ra m u m a espéc ie d e es ten ó g ra fo s q u e a n o ta v a m p a la v ra s 
q u e m a l co m p re en d ia m .
Q u an d o falam ho je d e in sp iração v e rb a l, os teó logos evan g é lico s n ão espe- 
cificam u m m éto d o . Eles en fa tizam q u e a a tiv id ad e do E spírito d iz re sp e ito às 
p a lav ras da E scritu ra em si. N ão se p ode defin ir com p rec isão a n a tu re z a d a 
in sp iração . É p rec iso v e r o p ro ce sso com o seg redo d iv in o — u m m is té r io ou 
m ilagre q u e n ã o tem exp licação se n ão p o r D eus.
O te rm o verbal dá m a rg em a ce rta am b ig u id ad e , co n fo rm e ad m ite m p ro n ta - 
m e n te a lg u n s e s tu d io so s m a is co n se rv ad o res . A m a io r p a rte d o s teó logos evan - 
gélicos ac red ita q u e se deva re je ita r q u a lq u e r con ce ito de in sp iração se g u n d o 0 
qu al as p a lav ras d a E scritu ra fo ram " d ita d a s” pelo E spírito S anto aos au to re s d e 
m o d o m ecân ico . C o n tu d o , co n se rv am o te rm o verbal p o rq u e ac red itam q u e se 
tra ta da m e lh o r fo rm a de co m u n ica r 0 fato d e q u e 0 E sp írito S an to in flu en c io u 
de ta l m an e ira os au to re s da E scritu ra q u e su a s p a lav ras devem se r to m a d a s em 
sen tid o m a is p le n o possível co m o p a lav ra s d o E sp írito S anto (p. e x .p IR s 22 ,8-16 ; 
N e 8; SI 119; J r 2S.1-13; Rm 1.2; 3 .2 ,21; 16.26).
As p a lav ra s do E sp írito S an to , p o rém , são ao m esm o te m p o h u m a n a s em 
su a p len itu d e . P ode-se d iz e r q u e a E scritu ra tem d u p la au to ria : e la é a p ro d u - 
ção co n ju n ta de D eus e dos se res h u m a n o s in d iv id u a is . A ev id ên c ia d a a u to ria 
h u m a n a é ó b v ia nas c a rac te r ís tic a s de es tilo , p e rsp ec tiv a h is tó ric a , co n tex to 
cu ltu ra l e tc . D o p o n to d e v is ta d a psico log ia , os liv ros d a B íblia são criações 
lite rá ria s e sp ec íficas d o s s e u s au to re s . Do p o n to d e v is ta d a teo lo g ia , se u con- 
teú d o é fru to da criação d iv ina . Para M oisés, os p ro fe ta s , Je su s C risto e os 
ap ó s to lo s , as p a lav ras q u e lh e s v in h a m à b o ca e ram lite ra lm en te p a lav ras q u e 
p ro ced iam d e D eus. O s p ro fe ta s fa la ram p a lav ra s d e D eus (Jr 1.7; Ez 2 .7 ); Je su s
fa lou as p a lav ra s de se u Pai (Jo 7.16; 12 .49 ,50). Os ap ó s to lo s d e ra m o rd en s 
em n o m e de C risto (2Ts 3 .6 ), a tr ib u in d o -lh e s a u to rid a d e d iv in a (1C0 14 .37); 
su a s d o u tr in a s p ro c e d ia m do E spírito S an to (1C0 2 .9 1 3 ־ ).
A d o u tr in a da in sp iração verba l p le n á ria , p o rtan to , a firm a que , de fo rm a 
ú n ica e ab so lu ta , 0 E sp írito S an to ag iu em p a rc e ria co m qs au to re s b íb licos de 
m odo a to rn á -lo s in fa líve is em se u p ap e l de reve la r a v erd ad e d iv ina . Por isso 
é possível d ize r q u e a B íblia é a P alav ra in fa líve l de D eus. N a E scritu ra , assim 
com o n a p e s so a de Je su s C risto , os e lem en to s h u m a n o e d iv ino são v is to s com o 
u m to d o in d isso lú v e l cu ja u n ião se d á de fo rm a d in âm ica . A lin g u ag em é h um a- 
n a ; a m en sag em é d iv in a . Os au to re s h u m a n o s não fo ram p ass iv o s no p rocesso . 
N ão e ra m m ero s can a is u tilizad o s p o r D eus; e ram gente . C o n seq u en tem en te , 
D eus é 0 a u to r p rim eiro da E scritu ra , p o r isso o re la to to d o p o d e se r perfe ita- 
m e n te d es ig n ad o com o P alav ra de D eus.
A DOUTRINA DA ESCRITURA J 35
CONCLUSÃO. A in sp ira çã o , p o r ta n to , co n s is te n a in f lu ên c ia d ire ta de D eus so b re 
os a u to re s da B íblia, o s q u a is , e m b o ra n ão te n d o d eixado de se r q u e m eram , 
fo ram im p e lid o s , g u a rd a d o s e g u iad o s pelo E sp írito S an to de ta l m odo q u e su a 
p ro d u çã o c o n s titu i a P alav ra e scrita de D eus. A g o stin h o d isse q u e a B íblia e ra 
u m a c a r ta do D eu s T odo-P oderoso d irig ida a su a s c r ia tu ras . M a rtin h o L utero 
in d ag o u : “O nde en c o n tra m o s a P alav ra de D eus, se n ão n a E s c r itu ra i”. Para 
0 C a tec ism o de W estm inste r, u m a v ez q u e D eus é 0 a u to r d a E scritu ra , “ela 
dev e se r receb id a , p o rq u e é a P alav ra de D e u s”. P ara os c r is tão s evangé lico s, a 
B íblia c o n tin u a a se r p le n a m e n te confiável e f id ed ig n a p o r c a u sa de s u a inspi- 
ração d iv ina .
H ugh D ermot M cD onald4
A AUTORIDADE DA ESCRITURA
A c iv ilização se a c h a em m eio a u m a “c rise de a u to r id a d e ” q u e n ão se 
lim ita u n ic a m e n te ao âm b ito da fé re lig io sa n em ta m p o u co a m e a ç a de m odo 
p a r tic u la r o u e sp ec ia l q u e m crê na B íblia. A a u to rid a d e p a te rn a , con ju g a l, 
p o lítica , a c ad ê m ic a e ec le s iá s tic a p a s sa p o r p ro fu n d o q u e s tio n a m e n to , N ão 
a p e n as as a u to rid a d e s espec íficas — a E scritu ra , o p a p a , os d irig en tes po lítico s 
etc. — , m as ta m b ém o p ró p rio co n ce ito de au to rid ad e em si é a lvo de fo rte 
co n tes taçã o . A a tu a l crise de a u to rid a d e d a B íblia refle te , p o r ta n to , as in c e r te z a s 
de u m co n sen so ao q u a l ch eg o u a civ ilização : q u e m te m 0 p o d er e 0 d ire ito de 
receb er e de exigir sub m issão ?
·,Adaptado de“The Inspiration of the Bible”, in: Walter A. Elwf,i.l, org., Baker Encyclopedia 
o f th e B ib le , v. 1, p. 306-8. Usado com permissão.
A REVOLTA CONTRA A AUTORIDADE DA BÍBLIA
0 q u es tio n a m en to g en e ra liz ad o d a au to rid a d e é to le rad o e in c en tiv ad o em m ui- 
ta s c írcu lo s acad êm ico s. F ilósofos com u m a p e rsp ec tiv a rad ic a lm en te se cu la r 
d izem q u e D eus e 0 so b ren a tu ra l são co n c e ito s m ítico s 
e q u e o s p ro ce sso s e o s ev en to s n a tu ra is c o n s titu e m a 
rea lid ad e d errad e ira . A ex istên c ia é te m p o rá ria e m u- 
tável, to d a s as c renças e ideais d e p e n d em d a ép o ca e 
da cu ltu ra em q u e su rg iram . A relig ião b íb lica , p o rtan - 
to , ass im com o q u a lq u e r o u tra relig ião , n ão p a s sa d e 
m ero fen ô m en o cu ltu ra l. A re iv ind icação de a u to rid a d e 
d iv in a feita p e la B íblia é d esca rta d a p o r esses p en sa - 
do res; a reve lação tran sc en d e n ta l, as v e rd ad es fixas e 
os m a n d a m e n to s im u táv e is são p o s to s d e lado com o 
ficção p iedosa .
Em n o m e d a su p o s ta “e m a n c ip a ç ã o ” da h u m a n id a - 
de, 0 se cu la rism o rad ica l d efen d e a au to n o m ia h u

Mais conteúdos dessa disciplina