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Omei� ambient� � à� relaçõe� internacionai� : surgiment� � evoluçã� históric� d� tem� n� cenári� globa� Como veremos nesta aula, o tema ambiental ou, na verdade, as preocupações com a degradação ambiental começaram a surgir ainda no século XIX, mesmo que de maneira esporádica e bastante segmentada. A partir de então, as questões ligadas à preservação do meio ambiente e os efeitos nocivos da rápida industrialização, principalmente entre os países economicamente mais desenvolvidos, acompanharam o próprio avanço do capitalismo global e as transformações nos meios de produção e consumo. Por um lado tivemos uma postura apreensiva dos governos, seja em prevenir a degradação ambiental ou priorizar a industrialização a qualquer custo, por outro, a própria sociedade civil mobilizada em torno da defesa do meio ambiente. Para compreendermos os elementos em torno da questão ambiental nas Relações Internacionais, é fundamental traçarmos alguns esclarecimentos sobre a origem das preocupações com o meio ambiente propriamente dito, os reflexos da ação do homem neste contexto, as principais transformações sociais que acarretaram consequências na relação do homem com a Terra e, não menos importante, a atuação dos governos frente aos novos desafios. Compreendendo a questão ambiental Para pensarmos a questão ambiental, é preciso diferenciar o que é o ambiente natural do ambiente social no qual interagem as sociedades e os homens. A questão ambiental, à qual nos referimos, é justamente o encontro – problemático – entre a primeira esfera (natural, a Terra) e a segunda esfera (social, o Mundo), ou melhor, a atuação da segunda esfera sobre a primeira esfera. A compreensão sobre essas duas esferas é de grande valia para entendermos a questão ambiental não do ponto de vista unilateral, a um Estado ou a um determinado grupo de Estados, mas pelo seu aspecto transfronteiriço, portanto, global. A questão ambiental – ou problema ambiental – não se dá como fator inerente às transformações naturais da Terra, mas do comportamento da humanidade – o Mundo – sobre os elementos da natureza e do meio em que vivemos. Aqui entendemos a Natureza como o conjunto de seres vivos; e o meio ambiente como o ambiente ao redor de algo, portanto, no contexto estudado, ao redor da humanidade. Tradicionalmente, podemos ver essa relação entre o Mundo e a Terra a partir de três perspectivas, quais sejam: ● a economia clássica e a visão bíblica são orientadas segundo a perspectiva antropocêntrica, ou seja, colocam o homem como centro e a Terra como fornecedora ilimitada de recursos; ● A perspectiva geocêntrica coloca a Terra como superior ao Mundo, portanto carrega em seu bojo elementos que fomentarão o debate entre a preservação e conservação ambiental e o desenvolvimento. Aqui está a raiz dos grupos conhecidos como preservacionistas, que defendem uma postura radical de preservação do meio ambiente em detrimento do desenvolvimento econômico e das necessidades de consumo do ser humano; ● a terceira perspectiva busca alinhar o antropocentrismo com o geocentrismo, reconhecendo as limitações da Terra frente ao crescimento econômico ininterrupto. Ou seja, conciliar o bem-estar da humanidade com as condições limitadas de renovação do meio ambiente, gerando o debate sobre o uso racional dos recursos. A década de 1970 foi um divisor de águas no contexto dos debates do tema ambiental nas Relações Internacionais graças, entre outros, à publicação do Relatório do Clube de Roma, intitulado “Os Limites para o Crescimento”, cuja abordagem reconhece a limitação dos recursos naturais frente ao crescimento econômico ininterrupto. Em outras palavras, as consequências dos efeitos negativos do homem sobre o meio ambiente atingem a todos, não respeitando fronteiras, diferenças políticas ou ideológicas. Isso, contudo, não quer dizer que todas as nações e povos desempenham o mesmo papel quando se fala dos efeitos nocivos da atividade humana sobre o meio ambiente. Na verdade, como veremos a seguir, os efeitos nocivos sobre o meio ambiente têm como origem, principalmente, a industrialização acelerada nos países mais ricos ao longo da segunda parte do século XIX. A industrialização e o meio ambiente: os primeiros passos da questão ambiental Ao longo do tempo, as atividades desencadeadas pelo homem têm modificado a Terra sob diversos aspectos. Seja através da agricultura, das transformações de planícies em grandes cidades, do desmatamento de florestas ou da aplicação de novas pesquisas científicas voltadas para a alimentação, a Terra vem sofrendo alterações no curso normal da renovação do meio ambiente e na sua capacidade de regenerar-se. Para termos uma ideia dos resultados da ação do homem sobre a Terra, basta verificarmos os números regularmente divulgados pelos organismos internacionais, ONGs e comunidade científica, segundo os quais, o homem remove todos os anos maior quantidade de solo e rochas do que todo o processo histórico de erosão dos solos, ou os efeitos nocivos à camada de ozônio produzidos pela refrigeração artificial, sem esquecermos o tema mais desconcertante da atualidade: a possibilidade de um aquecimento global que poderia levar até mesmo ao fim das espécies, incluindo o homem. O termo “mudança global”, para indicar as consequências da atuação humana sobre o meio ambiente, começou a ganhar espaço após divulgações científicas, em torno da década de 1970, segundo as quais as emissões de gazes poderiam alterar a química da atmosfera, resultando em chuvas ácidas, aumento da exposição aos raios ultravioletas do sol e o aquecimento global por conta do efeito estufa. Mas, como é simples concluir, o que temos ao longo da década de 1970 é apenas a conclusão científica de ocorrências que já vinham atuando sobre o meio ambiente há um período relativamente grande. Nos tempos modernos, para muitos autores, o advento da Revolução Industrial a partir do século XVIII pode ser visto como um divisor de águas na relação do homem com o meio ambiente. O que vemos é que o desenvolvimento acelerado do período não foi acompanhado de preocupações políticas ou pesquisas científicas que pudessem indicar os efeitos nocivos da rápida industrialização sobre a natureza e o meio ambiente. Por outro lado, quaisquer iniciativas no sentido de proteger áreas ambientais ou criar legislação de defesa do ecossistema foram esporádicas e bastante isoladas. Podemos citar como ações pioneiras: ● 1846: É aprovada uma regulação de proteção ao solo na área de Capoe Flats, próxima à Cidade do Cabo, visando “melhor preservação” da área. ● 1861:A sanção do Imperador D. Pedro II à lei para a proteção da Floresta da Tijuca em 1861, no Rio de Janeiro. Pelo decreto 577 criava-se a Floresta da Tijuca, em área outrora explorada, e degrada, pelo plantio de café. ● 1863: A aprovação por parte do Parlamento Inglês do Alkali Act em 1863, visando regular as indústrias de vidro que emitiam muitos poluentes no ar. Além de criarem a primeira lei contra a poluição do ar, os ingleses também foram pioneiros ao criar o primeiro órgão de fiscalização do setor, a Alkali Inspectorate, cujo trabalho era supervisionar as atividades econômicas e seus efeitos nocivos ao meio ambiente e aos parâmetros sanitários da época. ● 1868: Onze países europeus assinam um tratado de proteção aos pássaros úteis à agricultura. As iniciativas para o encontro que resultou no acordo de proteção se deu por parte de agricultores e exploradores florestais alemães, visando ganho de rentabilidade sobre suas colheitas. ● 1872: A criação do Parque Yellowstone nos Estados Unidos em 1872, tornando-se o primeiro parque nacional que se tem notícias. A criação de Yellowstone exerceu grande influência nos debates, aqui, no Brasil para a criação do nosso primeiro parque nacional. Por questões políticas, no entanto, ainda demoramos um longo tempo para termos uma iniciativa nesse sentido. A questão ambiental no séc. XX: de coadjuvante ao destaque na agendaquanto às questões ambientais ou aos danos provenientes da exploração contínua e de grandes proporções sobre os recursos naturais. ● Conservacionistas: defendiam a viabilidade de uso racional e eficiente justamente como garantia para a preservação. A maior parte dos movimentos ambientalistas inclusive, se baseia na visão conservacionista, que se tornou, gradualmente, um consenso entre as nações ao longo do séc. XX e está na base das políticas instruídas pela ideia de desenvolvimento sustentável. Além das visões antropocentristas e ecocentristas, vistas no início dessa aula, podemos citar também a visão tecnocentrista, cuja característica principal é o otimismo quanto à evolução tecnológica e científica e as soluções que esses meios podem oferecer em termos de reverter e/ou impedir a degradação ambiental. Já a Teoria de Gaia, ou Hipótese de Gaia, propõe que a biosfera e os elementos físicos da Terra estão completamente integrados, de forma a gerarem um complexo sistema interligado que mantém as condições viáveis de sobrevivência e transformação do Planeta Terra. Devemos lembrar também de três propostas importantes, de fundo sociológico, sobre a composição do tema ambiental. São elas: ● Ecologia profunda : O homem é parte integral da complexa estrutura da natureza e deve ser preservado e respeitado para garantir o equilíbrio da biosfera. ● Ecologia social : Os problemas ecológicos estão ligados aos problemas na evolução da própria sociedade sob um sistema político hierárquico e dominante, portanto, apenas medidas tomadas pela coletividade no sentido de romper os tradicionais laços sociais podem surtir efeito sobre as questões ecológicas. ● Ecossocialismo : A expansão do capitalismo é vista como responsável pela a exclusão social, a miséria, a guerra e, evidentemente, a degradação ambiental. Logo, defende que apenas o desmantelamento do capitalismo e do Estado pode impedir a continuidade da degradação humana e ambiental. Para fecharmos essa parte teórica, vale recordar as três abordagens quanto aos mecanismos voltados para a atuação dos Estados e os meios políticos de gestão ambiental. São elas: Abordagens Organizacionais: nasce na percepção de que havia uma pré-disposição em compreender o sistema internacional como um ambiente que caminhava rumo a uma centralização de poder, ou seja, para uma organização ou governo mundial, capaz de unir as principais demandas transfronteiriças ou bens comuns da humanidade através de um mesmo escopo político-diplomático. Regimes Internacionais: uma tendência de movimentação dos Estados em direção a redes institucionais não hierárquicas, onde surgiam regras implícitas ou explícitas que resultavam na modificação do comportamento dos governos em relação a determinados temas. Governança Global: uma percepção sobre a viabilidade da adoção de aspectos transnacionais de regras e normas para a gestão de temas transfronteiriços, ou seja, que “atingem” livremente diferentes nações e espaços geográficos. Desenvolvimento sustentável Podemos pensar em uma estrutura de desenvolvimento sustentável, que se apresenta: ● Sustentabilidade Ambiental: capacidade da biosfera em renovar-se, ou seja a capacidade que o ambiente natural tem de manter as condições propícias de vida aos seres vivos, levando em consideração a habitabilidade, preservação da paisagem ambiental e renovação das fontes naturais. ● Sustentabilidade Econômica: integração dos princípios de sustentabilidade ambiental às estruturas de desenvolvimento econômico e industrial, transformando antigas concepções de mais valia e lucro em novas propostas que ambicionam valorizar as questões ambientais dentro da prática econômica. ● Sustentabilidade Sociopolítica: compreende-se como o ponto de equilíbrio em termos de desenvolvimento e no âmbito socioeconômico, dando uma nova “roupagem” à economia através dos princípios sustentáveis do conceito, desenvolvendo a ideia de que o caráter social e cultural da humanidade são valores intransponíveis. A Agenda 21 é um exemplo de adoção deste princípio. Como não poderia deixar de ser, o modelo adotado de desenvolvimento sustentável recebe muitas críticas, dentre as quais destacamos: ● É bastante influenciado pela visão dos países desenvolvidos e que, então, já passaram por um grande processo de industrialização e degradação ambiental. ● É “implementado” e através de organizações internacionais onde a presença e influência dos países ricos é predominante. ● Esconde interesses nacionais dos países desenvolvidos em manter seus ritmos e estruturas de desenvolvimento econômico, em contrapartida abre possibilidade de dificultar o desenvolvimento das nações mais pobres. Com isso, fechamos nosso conteúdo de revisão. Lembre-se de que a leitura desta aula não é suficiente para preparar você para a prova de Av1, mas deve ser vista como um grande resumo das aulas anteriores, podendo ser usada como guia de leitura e ordenação cronológica e teórica do arcabouço amplo do tema ambiental. Polític� ambienta� globa� : capitalism� verd� : nov�mercad� � mercadoria� diferenciada� A fim de se ajustarem a essa realidade e manter sua competitividade frente às novas demandas de consumo, empresas vêm buscando contribuir para a preservação ambiental fazendo uso dessas preocupações sociais para potencializarem os seus negócios por meio do lançamento dos chamados produtos “ecologicamente corretos”. Logo, essas iniciativas passaram a representar o principal segmento de vendas de inúmeras empresas cujos esforços de marketing e comercialização convergiam para alcançar os cada vez mais numerosos “consumidores verdes”. A questão ambiental e o capitalismo contemporâneo Nas últimas décadas, sobretudo ao longo da década de 1990 nos Estados Unidos, verifica-se o aumento da oferta de produtos ambientalmente responsáveis, o que pode ser visto como uma resposta das empresas às pressões oriundas do mercado consumidor mais consciente quanto às questões ambientais. Além dos Estados Unidos, no Canadá e na Europa Ocidental os esforços governamentais no sentido de legislar em defesa do meio ambiente e estabelecer políticas de proteção ambiental acabam por promover um engajamento da população que, cada vez mais consciente e integrada à questão ambiental, adapta seus hábitos de consumo –ou ao menos passa a considerá-los na hora da decisão de comprar –aos produtos que apresentem os menores danos possíveis ao meio ambiente. Mesmo que possa soar estranha a combinação dos conceitos de “capitalismo” e “verde”, essa relação pode ser vista como a mais nova fronteira do capitalismo e da economia mundial. Por isso, um número cada vez maior de empresas investe em pesquisa de alternativas aos modos de produção danosos ao meio ambiente, percebendo que o “capitalismo verde” deverá ser uma importante bandeira em um futuro próximo, o caminho para uma nova cultura empresarial e de consumo. Por outro lado, durante um longo tempo as empresa temiam os argumentos ecológicos alegando que medidas de preservação eram muito caras, e viam suas ações simplificadas em apenas duas possibilidades: primeira, na limpeza dos efeitos de produção (como remover resíduos poluentes) e, segundo, investir na renovação dos recursos naturais utilizados no processo produtivo (como no replantio de árvores). Empresas no novo contexto É provável que muitas empresas se sentem obrigadas a seguir um comportamento ambientalmente responsável para evitar penalidades por parte da legislação em alguns países e se manterem competitivas frente ao mercado consumidor consciente. Veja o quadro a seguir, onde podemos verificar as diversas razões nas quais se justifica a ação ambientalmente responsável das empresas. No quadro a seguir, podemos ver claramente uma transformação da visão empresarial sobre a lógica produtiva e o meio ambiente: Também no âmbito das relações internacionais, a tendência pela “produção e consumo verdes”, passa a se expandir com a frequente interação entreas questões ambientais e o comércio mundial, principalmente com o aumento da globalização econômica e comercial e a interdependência entre as nações. Essa crescente preocupação, aliás, pode ser percebida pela multiplicação de acordos internacionais e entendimentos que tratam dos impactos transfronteiriços da degradação ambiental, como na incorporação pela Organização Mundial do Comércio das questões ligadas ao desenvolvimento sustentável e ao meio ambiente na sua agenda de trabalhos. Produto verde “Procura-se rotular de 'verde' os produtos que causem menos impacto ao meio ambiente do que seus alternativos”. Um produto ecologicamente correto deve ser concebido para satisfazer as necessidades de preservação ambiental de consumidores preocupados com esta questão, levando-se em conta, contudo, de que esta é uma necessidade secundária destes consumidores. Para muitos autores o processo total de um produto ambientalmente responsável deveria seguir os seguintes critérios: ● Fabricado com matérias-primas renováveis, inclusive embalagem. ● Fabricado com matérias-primas recicláveis, inclusive embalagem. ● Fabricado com a quantidade mínima de matérias-primas e/ou materiais. ● Fabricado com matérias-primas que conservem recursos naturais no processo de extração. ● Fabricado com a máxima eficiência energética e de utilização de água. ● Fabricado com os despejos mínimos de efluentes e resíduos. ● Envasado em embalagens mais leves. ● Envasado em embalagens mais volumosas. ● Concentrado. ● Mais durável. ● Prestar-se a múltiplos propósitos. ● Ser mais facilmente consertado. ● Ter maior eficiência energética quando utilizado. ● Conservar recursos naturais quando utilizado. ● Ser reciclável. ● Ser reutilizável. ● Poder ser refabricado. ● Ser biodegradável. ● Ser substituído por refil Para atender a essa perspectiva de sustentabilidade, é preciso pensar em produtos que levem em conta a questão ambiental em todo o seu processo produtivo, todo o seu “ciclo de vida”, desde a utilização de matérias-primas, suas etapas de transformação industrial, seu uso por parte do consumidor e, finalmente, seu descarte. As pessoas, afinal de contas, compram os produtos para satisfazer as necessidades para as quais foram designados; a característica de não agressão ao meio ambiente pode funcionar como uma ampliação deste produto, extrapolando as expectativas dos clientes. Interessante observar que deve haver uma preocupação extra com a embalagem do produto. Isso porque, invariavelmente, as embalagens dos produtos são uma preocupação especial à medida que sua composição afeta profundamente o meio ambiente. As empresas devem compreender que o lixo e o desperdício de materiais constituem-se como problemas inerentes à questão ambiental atual, portanto, cabe a ela analisar o impacto que seus produtos causam ao meio ambiente em todo o seu ciclo de vida, assumindo a responsabilidade sobre os efeitos do descarte do produto final e de sua embalagem. Na esteira da produção “verde”, podemos indicar alguns vetores essenciais, quais sejam: ● A exclusão do desperdício e da produção de sobras. ● A escolha por matérias-primas renováveis cuja extração cause baixo ou nenhum impacto ao meio ambiente. ● A composição material do produto atendendo todas as necessidades de descarte e de reciclagem ou reutilização da embalagem. Consumo responsável Como vimos, o consumo teve um papel preponderante ao pressionar as empresas por uma produção ambientalmente responsáveis. Na verdade, podemos dizer que o consumidor é o único elemento de pressão que de fato exerceu influência final e determinante no comportamento das empresas, caso contrário os altos custos da produção “verde” – comum em diversas áreas produtivas – não se tornaria um nicho de mercado a ser explorado pelas empresas. Essa grande importância do consumidor, no entanto, não é uma garantia final de que a humanidade aprendeu a selecionar suas compras por um aspecto de sustentabilidade, ou até mesmo que tenha mudado o grau de consumo em escala global. Dados mostram que os povos consomem 25% mais recursos naturais do que a capacidade de renovação da Terra. Continuando nesse ritmo, como já vimos, em menos de 50 anos precisaríamos de outro planeta apenas para fins de fornecimento de matérias-primas para suprir nossas necessidades de consumo. O consumidor verde "é o indivíduo que busca para consumo apenas produtos que causam menor ou nenhum prejuízo ao meio ambiente"; a aquisição ou a utilização de um bem vincula diretamente com ajuda à natureza; o consumidor verde não adquire produto que provoca risco à saúde, que contém excesso de embalagens; faz separação do lixo, não desperdiça a água nem o papel, passa a exigir das empresas não somente a criação e venda de produtos, mas profícua integração com o meio social, ultrapassando o simples relacionamento comercial. Observando o quadro a seguir, concluímos que a transformação no comportamento do consumo acompanha, em termos gerais, as mudanças na percepção ambiental ao longo da segunda parte do séc. XX, quando são divulgados importantes relatórios e acontecem grandes conferências relacionadas à temática ambiental. Inúmeras são as pesquisas que demonstram a mudança no comportamento de consumo, saindo da lógica quantitativa de curto prazo para uma percepção qualitativa de longo prazo, incluindo até mesmo uma preocupação inerente à sobrevivência das empresas cujos processos de produção e produtos finais tenham compromisso com a sustentabilidade ambiental. Dessa forma, o consumidor assume uma postura psicológica participativa de responsabilidade social no combate à degradação do meio ambiente e na retaliação às empresas que mantêm os mesmos processos danosos à biosfera. A produção verde Ainda embrionário, o mercado de produtos ambientalmente responsáveis no Brasil tende a ser uma iniciativa de empresas que já atuam no âmbito global ou que pretendem promover um processo de internacionalização de suas atividades ou vendas ao exterior, afinal, grandes mercados consumidores como o europeu e o estadunidense já demonstram uma consciência social mais seletiva em termos de consumo. De modo geral, no entanto, também no Brasil é possível identificar um processo crescente de conscientização popular da questão ambiental, o que garante às empresas uma perspectiva de ganhos futuros através da produção “verde”. Certificações Além da pressão exercida pela conscientização dos consumidores, é importante compreendermos o papel das certificações como estratégia utilizada pelas empresas para obter ganhos em termos de competitividade nacional e internacional. Em alguns países, entre eles o Brasil, não há efetivamente uma lei que obrigue a obtenção de certificações por parte das empresas, diferentemente dos países europeus onde a certificação é um pré-requisito fundamental à liberação de produtos para o mercado consumidor. Por outro lado, verifica-se no Brasil e em países cujas empresas nacionais estejam seguindo o rumo da internacionalização a tendência de autocertificação ou, até mesmo, pressões empresariais para a criação de selos certificados por instituições de renome (que podem ser ONGs, associações ou federações de determinados setores) ou dos próprios órgãos governamentais. Dessa maneira, essas empresas encontram maiores facilidade para “provar” a sustentabilidade de seus processos produtivos e produtos finais Polític� ambienta� globa� : tema� ambientai� contemporâne� Temas ambientais contemporâneos Segundo organizações não governamentais ambientais como World Wildlife Fund (WWF) e Greenpeace, e mesmo por órgãos governamentais, como a Organização das Nações Unidas (ONU), quando falamos em problemas ambientais é preciso pensar que há questões mais urgentes ou mais alarmantes e, portanto, merecedoras de atenção especial no que tange à criação de mecanismos de desenvolvimento limpo e proteção do meio ambiente. Para se ter uma ideia, na Conferência das Nações Unidassobre o Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de 2002, a Rio + 10, foram destacados os seguintes problemas: ● a.Crescimento demográfico: a população mundial, de 6,1 bilhões, deve chegar a 9,3 bilhões em 2050, sendo que nos 49 países menos desenvolvidos a população deve triplicar, passando de 668 milhões a 1,86 bilhão de habitantes; ● b.Pobreza e desigualdades: cerca de 2,8 bilhões de pessoas vivem com menos de US$ 2 por dia, 800 milhões de pessoas, entre elas 150 milhões de crianças são desnutridas e 80% da riqueza mundial estão nas mãos de 15% dos habitantes dos países mais ricos; ● c.Superexploração dos recursos: a utilização dos recursos supera, anualmente, em 20% a capacidade do planeta de regenerá-los; ● d.Mudanças climáticas: a proporção de CO² na atmosfera passou de 280 partes por milhão a 360 em 150 anos e teme-se que essa concentração seja de entre 500 e 1.000 em 2.100, acarretando um aumento da temperatura média de cerca de 1,5°C a 5,8°C; ● e.Buraco na camada de ozônio: o buraco em cima do Antártico media 30 milhões de km² em outubro de 2001 e, graças ao Protocolo de Montreal de 1987 e à diminuição da produção de CFC, a camada de ozônio está se reconstituindo e deve recuperar seu nível de antes dos anos 80 até 2050; ● f.Espécies ameaçadas de extinção: 11.046 espécies animais estão ameaçadas, principalmente pelo desaparecimento de seu habitat natural, o que representa 24% das espécies mamíferas, 12% dos pássaros, 25% dos répteis, 20% dos anfíbios e 30% dos peixes; ● g.Desaparecimento dos bosques: a superfície dos bosques diminuiu 4% desde 1990, sob a pressão da indústria madeireira, da atividade extrativista e do aumento da área urbana. Cerca de 40% do que resta dos antigos bosques pode desaparecer dentro de 10 a 20 anos; ● h.Acesso à água: cerca de 1,1 bilhão de pessoas não têm acesso à água potável e 2,4 bilhões não vivem em condições sanitárias decentes. A queda do nível dos lençóis freáticos se tornou um sério problema em algumas regiões e metade dos rios do mundo está em um nível muito baixo ou poluído; ● i.Erosão do solo: o crescimento da população acarreta uma enorme pressão sobre a agricultura e, portanto, uma demanda crescente por terras agrícolas. Uma superfície equivalente às áreas dos Estados Unidos e México juntos estão desgastadas pela superexploração agrícola e salinização dos solos; ● j.Esgotamento das reservas de pesca: quase um terço das reservas de pesca está com um nível muito baixo ou superexploradas. Algumas espécies com importância econômica praticamente desapareceram de algumas regiões para comercialização. Como vemos, são muitos os problemas ambientais e os sintomas de que o planeta já está sendo severamente afetado pelo nosso modo de vida, por isso torna-se inviável listarmos e analisarmos todas as questões em aberto decorrentes do desenvolvimento e da degradação da biosfera. O que temos a seguir, é um retrato das principais questões que encontram destaque na agenda política internacional, cujo foco está presente na ação de inúmeros governos e organizações internacionais e, principalmente, a situação da biodiversidade e o risco de sua perda, cuja incontestável irreversibilidade a coloca como dano ambiental mais importante. O aumento da população e a escassez de recursos Segundo dados das Nações Unidas de 2006, a população mundial que estava em 6,7 bilhões de indivíduos neste ano, deverá chegar a 9,2 bilhões em 2050, e continuará crescendo, embora a taxas mais reduzidas. Esse crescimento populacional, no entanto, deverá exercer um impacto fulminante no planeta à medida que deverá ocorrer apenas nos países em desenvolvimento, nos quais a população passará de 5,4 bilhões (2006) para 7,9 bilhões (2050). Esse cenário aponta para um aumento inédito na demandas por produtos a serem consumidos nessas regiões, gerando uma imensa pressão sobre os recursos naturais. Vale lembrar também que o crescimento dessas regiões não será acompanhado da diminuição demográfica nos países desenvolvidos, que deverão permanecer com 1,2 bilhão de pessoas. Embora seja mais difícil prever por depender de condições econômicas globais, o consumo tem crescido a taxas superiores às próprias taxas de crescimento da população. No Brasil, especialistas apontam a soja como o produto agrícola mais afetado pelas mudanças climáticas planetárias. Nos países desenvolvidos o impacto do consumo por pessoa sobre o meio ambiente é entre 6 a 10 vezes superior do que nos países de baixa renda per capita. Então, podemos crer que o crescimento econômico nos países subdesenvolvidos mudará esse cenário, sabendo que a maior parte da população mundial exerce um impacto relativamente alto, pressionando ainda mais a já debilitada capacidade de renovação dos recursos naturais. Na primeira década do séc. XXI o produto interno bruto global chegou a cerca de 20 vezes maior do que era em 1990, e o volume de exploração dos recursos naturais 25% maior do que a capacidade do planeta. O aumento da população e a escassez de recursos A escassez de alimentos, agravada pela péssima distribuição mundial que privilegia os países desenvolvidos e não atende às necessidades dos países mais pobres. ● Uma prova do desequilíbrio global na distribuição de alimentos é a epidemia de obesidade nos países ricos e de desnutrição nos países mais pobres. ● A poluição decorrente do aumento do desperdícios, uso indiscriminado de combustíveis fósseis não renováveis para abastecer carros e indústrias que precisam produzir cada vez mais para atender às demandas da sociedade. Temos assistido a um aumento contínuo do preço dos combustíveis no Brasil nos últimos anos, isso porque a população está comprando mais carros e a capacidade produtiva das empresas petrolíferas e do setor de álcool combustível não consegue acompanhar a demanda). Ameaça à biodiversidade e desertificação A rapidez com que temos identificado a perda da biodiversidade é, sem dúvida, um dos pontos mais alarmantes quando pensamos em questões ambientais na atualidade Isso porque mesmo com a conscientização e algumas ações políticas em torno da proteção de áreas ambientais, considerações legitimas quanto às necessidades de desenvolvimento econômico dos países tropicais e regiões subdesenvolvidas acabam por impedir que determinadas áreas sejam protegidas em sua totalidade. Com isso, florestas inteiras são derrubadas para comercialização de madeiras ou para dar lugar a pastos, sem contar a simples expansão de cidades e assentamentos. Dados mostram que apenas uma pequena parte da cobertura verde original do planeta continua intacta, e nos países em desenvolvimento como a China, quase toda a cobertura vegetal foi ou está sendo exploradas de maneira depredatória, levando à extinção de espécies vegetais e animais. Segundo estimativas da International Union for Conservation of Nature, em 2008 cerca de 16.928 espécies estavam sob ameaças de extinção (IUCN, 2008). Veja na tabela abaixo a relação de espécies ameaçadas e quantas estão presentes nos ecossistemas brasileiros: Mas não são apenas os animais que correm risco de extinção: Estudos indicam que cerca de 80% das plantas em todo o planeta sofrem algum tipo de ameaça, e dessa porcentagem 12% correm o risco de desaparecer em definitivo nos próximos anos. Importante lembrar que a extinção de espécies vegetais contribui para a migração de pragas e insetos para os centros urbanos, já que sem o seu habitat natural, essas espécies buscam alimentação em outras regiões, levando doenças e danos a vida urbana e aos campos agrícolas. Segundo cientistas, a ação humana tem acelerado os processos de extinção a níveis antes nunca vistos, que hoje apresenta uma relação de centenas de vezes superior às taxas registradas nos últimos 65 milhões de anos, debilitando de maneira irreversível inúmeros ecossistemas e a própria capacidade regenerativa do planeta. A principal causa desse processo de extinção de plantas e animais é a perda do habitat naturalórgãos públicos quanto ao desenvolvimento na região. Somadas à proteção ambiental, as decisões do governo rapidamente colocaram o presidente como um nome forte nos meios internacionais onde o debate “verde” ganha espaço. As principais ações foram: ● 1. Continuidade de medidas que suspendiam apoio econômico dos órgãos públicos para a agropecuária na Amazônia. ● 2. Aumento no monitoramento para prevenir e multar o desflorestamento, obtendo queda de 50% no desmatamento entre março e outubro de 1990. ● 3. Elaboração de um programa de desenvolvimento econômico baseado em limites ecológicos e macrozoneamento. ● 4. Interrupção permanente do programa nuclear brasileiro. No contexto ambiental, o BNDES se torna um importante apoiador de projetos de despoluição, colocando o saneamento básico pela primeira vez no centro dos gastos públicos. Também é feita a demarcação da reserva Yanomami atendendo às reivindicações indígenas e o reconhecimento da responsabilidade dos países do Conesul em relação à questão ambiental, que é formalizada com o Pacto Amazônico e no âmbito do Mercosul. Governo Itamar Franco (1992 – 1994) Mesmo tendo sido neste governo a criação do Ministério do Meio Ambiente, pouca coisa foi obtida em termos de sucesso e envolvimento do executivo nas questões ambientais, principalmente porque a agenda política nacional estava imersa em questões emergenciais de curto prazo, como a inflação, a crise política desencadeada pelo impeachment de Collor e a estagnação em termos de crescimento econômico e aumento do desemprego. De modo geral, o Ministério do Meio Ambiente ficou praticamente paralisado devido à perda de importância do tema ambiental frente aos problemas econômicos e sociais do país. Somado a esse cenário, o Ministério da Fazendo teve grande dificuldade em aprovar financiamentos internacionais por não conseguir garantir as contrapartidas exigidas do Tesouro Nacional, além do corporativismo que tomou os funcionários do IBAMA, bloqueando reformas administrativas fundamentais para dar funcionalidade e eficiência aos seus trabalhos. Em 1993, a Amazônia volta ao noticiário internacional por conta do massacre de vinte índios Yanomami em sua reserva em Roraima, chamando a atenção da mídia e das ONGs estrangeiras. Sob pressão dos setores militares que temiam, inclusive, uma quebra de soberania na Amazônia por parte de forças políticas e militares estrangeiras, é criado um moderno sistema de controle aéreo na região, denominado Projeto SIVAM. e também um órgão de coordenação das ações governamentais na região Amazônica posteriormente fundido com o Ministério do Meio Ambiente. Em termos gerais o ambientalismo entra num processo de enfraquecimento no Brasil, sem nenhuma capacidade de articulação política que pudesse ser traduzido na eleição de nomes oriundos de quadros técnicos do setor ambiental ou pressões para a retomada da agenda ambiental, tal qual aconteceu por ocasião da Rio-92. Governo Fernando Henrique Cardoso (1995 – 1998/1999 - 2002) O primeiro mandato de FHC é marcado pela reconstrução da governabilidade amplamente comprometida pelos eventos decorrentes do afastamento do então Presidente Collor e a deterioração das condições econômicas na virada da década de 1980 para 1990, com isso as questões ambientais permanecem num plano secundário, recebendo atenção principalmente de setores organizados da sociedade civil, ONGs e atores transnacionais. Polític� ambienta� globa� : biopiratari�, patente� � comérci� internaciona� Embora seja relativamente recente, o termo biopirataria indica uma prática criminosa que começa a constituir-se no Brasil há mais de 500 anos com a descoberta e início da colonização portuguesa. Neste período, com a extração e envio do pau-brasil para o mercado consumidor europeu quantidades monumentais de recursos naturais provenientes da atividade exploratória colonialista deixava nossas florestas e ecossistemas para alimentar o crescimento econômico e desenvolvimento da sociedade europeia, ávida por consumir mais produtos “exóticos” e dependente de diversificadas e robustas fontes de matérias-primas. Mas o que é a biopirataria? Como esse processo de extração irregular prejudica a atividade econômica em determinadas regiões e oferece impacto sobre o meio ambiente? Embora o Brasil ocupe um lugar vergonhosamente de destaque no que tange a extração irregular do meio ambiente e a comercialização ilegal de espécies, o estudo e o tema da biopirataria não é comum na nossa comunidade científica e acadêmica, por isso torna-se fundamental analisarmos esse assunto à luz dos conhecimentos adquiridos quanto ao tema ambiental e para fecharmos, enfim, a análise ampla sobre a agenda ambiental global e a posição do Brasil. Popularização e conscientização da biopirataria A popularização e conscientização do tema da biopirataria se deu a partir do estabelecimento da soberania dos Estados sobre a biodiversidade em seus territórios, reconhecido pela assinatura da Convenção Sobre Diversidade Biológica na Rio-92. Desde então, percebe-se a biopirataria como uma prática danosa ao meio ambiente local e às comunidades assentadas nas regiões exploradas, já que a exploração e apropriação irregular por parte de indivíduos ou mesmo representantes de empresas multinacionais acabam por excluir tais comunidades dos lucros obtidos com a comercialização e industrialização dos recursos naturais. Em outras palavras, a biopirataria é a apropriação indébita de recursos naturais e conhecimentos tradicionais e sua comercialização para fins de obtenção de lucros e vantagens industriais. É possível dizer que a exploração desordenada de recursos naturais provem de uma perspectiva positivista, segundo a qual o homem se encontra numa posição superior e privilegiada em relação ao planeta e à natureza, por isso suas ações estão excluídas do conjunto de forças que mantêm em equilíbrio o meio ambiente. Esse pensamento, marcante na expansão do capitalismo, acelerou o processo de degradação ambiental principalmente na Inglaterra de fins do séc. XVIII.4 Biopirataria e patentes: os efeitos no Brasil Para entendermos a ameaça da biopirataria, é preciso antes compreender o significado de “megabiodiversos”. Entende-se essa imensa biodiversidade como uma característica de apenas doze países em todo mundo, onde cerca de 70% de todas as espécies estão presentes. Entre estes, o Brasil ocupa o primeiro lugar e outros quatro países megabiodiversos estão na América Latina, o que nos coloca diretamente no caminho dos interesses empresariais e políticos de países e corporações econômicas internacionais. Essa abundância brasileira de biodiversidade também é um sinal do tamanho dos riscos que corremos em termos de vulnerabilidade, já que grande parte dessas espécies não foram reconhecidas ainda por pesquisadores locais e se tornam “presas fáceis” para laboratórios, industriais e instituições internacionais que, de forma geral e com inúmeras exceções, se instalam no Brasil – inclusive de maneira clandestina –, investem em pesquisa e se apropriam dos conhecimentos por meio de patentes e registros feitos em outros países. Em 1990, um estudo da ação antiúlcera gástrica da espinheira-santa feita por grupo de pesquisa brasileiro mereceu uma publicação da Ceme (Central de Medicamentos) do Ministério da Saúde. O material foi divulgado pelo Journal of Ethnofarmacology e despertou o interesse dos japoneses, que saíram na frente e depositaram uma patente com a planta brasileira. A empresa japonesa Nippon Mektron detém uma patente de um remédio que se utiliza do extrato da espinheira-santa. Veja a seguir o quadro com algumas das principais espécies brasileiras patenteadas no exterior: Propriedade Intelectual, Conhecimento Tradicional e Legislação Ambiental Como vimos, o conhecimento popular e tradicional de povos da floresta ou populações regionais podem ser uma base importante para o desenvolvimento científico dos grandes laboratórios. Segundoestudos na área, grandes laboratórios economizam até 50% nos custos de pesquisa levando em conta conhecimentos tradicionais sobre uso de espécies por comunidades indígenas, por exemplo. Mas qual é o limite entre o conhecimento produzido através de pesquisas e na observação dos métodos e culturas tradicionais? Podemos entender como propriedade intelectual a garantia de recompensa dada ao inventor, criador ou responsável pelo desenvolvimento de técnicas ou modelos de produção em termos intelectuais, científicos, literários, artísticos, industrial e afins. O recebimento desses direitos de utilização pode ser temporário e é observado internacionalmente pela Organização Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI). De acordo com as regulações debatidas e aprovadas dentro da OMPI, o conhecimento tradicional oriundo da “sabedoria popular” ainda não goza de direitos por não serem reconhecidos como propriedade intelectual, portanto ficam à margem da legislação de direitos autorais. Esse tema, na verdade, tem sido visto pela organização como uma questão a ser debatida, mas carece de qualquer definição sobre a adequação do conhecimento tradicional ao regime de propriedade intelectual, com isso muitas empresas e instituições de pesquisa exploram livremente o conhecimento de comunidades sobre o uso de espécies para fins de medicinais sem que sejam enquadradas nas disposições da Convenção sobre Diversidade Biológica da ONU. Neste contexto, a aprovação do Acordo sobre os Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual relacionados ao Comércio – TRIPS – contribuiu para a expansão de um sistema de registro de patentes, no entanto, o direito à propriedade intelectual advém de conhecimento obtido sem anuência do “país provedor” do patrimônio genético. Outro ponto negativo, e visto por estudiosos como razão para o aumento da biopirataria, é a ausência dos Estados Unidos e Japão como países signatários da Convenção da Diversidade Biológica. O TRIPS é um acordo internacional, parte do tratado geral que criou a Organização Mundial do Comércio na década de 1990 e concluiu a chamada Rodada do Uruguai, do GATT. A OMC, aliás, mesmo sem prever regras específicas que regulem a proteção ao meio ambiente como prática justa nas relações comerciais internacionais, cada vez mais incorpora a questão ambiental dentro dos acordos entre nações e nos debates sobre regulamentação do comércio internacional. No âmbito nacional, desde o ano de 2003 se discute dentro do Comitê de Gestão do Patrimônio Genético – órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente – regras para beneficiar as comunidades cujos conhecimentos tradicionais estejam sendo usados comercialmente. Busca-se também estabelecer uma regra definitiva para a tipificação da biopirataria como crime, impondo punições. Efetivamente, a legislação nacional contra os crimes ambientais (Leis 5.197/67, l 9.605/98 e decreto 3.179/99) combate o ato de “matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécies da fauna silvestre nativa ou em rota migratória” e “sujeita o autor do crime à detenção, de 6 meses a 1 ano, e a aplicação de multas (...)”. Meio ambiente e comércio internacional Como já vimos, assim como a relação entre degradação ambiental e desenvolvimento capitalista, na década de 1970 percebem-se dois pontos comuns entre o comércio e o meio ambiente: os impactos do comércio no meio ambiente e, por outro lado, o impacto das políticas ambientais no comércio. Interessante observarmos que esse debate continua em voga nas relações internacionais contemporâneas, sobretudo no que tange à preocupação dos países na adoção de medidas legais que possam ter um efeito inibidor sobre a atividade industrial e, consequentemente, no comércio internacional. Polític� ambienta� globa� revisã� d� conteúd�: A questã� ambienta� n� mund� contemporâne� Nesta última aula faremos uma revisão de todos os principais itens estudados a partir da aula 6, abordando o que se compreende por “capitalismo verde”, a situação dos novos hábitos de consumo no Brasil e no mundo, as contínuas e novas ameaças ao meio ambiente e o cenário político da questão ambiental no Brasil após a redemocratização. Revisão de conteúdo Dando início a nossa revisão do conteúdo, vamos rever o que se entende por capitalismo verde e a relação existente entre as mudanças nos hábitos de consumo e as transformações no processo fabril no Brasil e no mundo. Para tanto, não podemos deixar de lado os problemas ambientais que tomam cada vez mais a agenda política internacional, acarretando e demandando posturas diferenciadas por parte dos governos, entre os quais o Brasil. O capitalismo “verde” Para entendermos aquilo que ficou conhecido como capitalismo ou produtos “verdes”, é importante relembrarmos a conscientização do tema ambiental que se dá a partir da década de 1970 e, em consequência, as mudanças nos comportamentos políticos, sociais e, inclusive, da mídia. Não se esqueça de que nessa década são divulgados importantes estudos sobre o impacto do desenvolvimento econômico e industrial no meio ambiente. Dessa forma, podemos dizer que os produtos “verdes” exibem características próprias de sustentabilidade na sua produção global, ou seja, desde a extração de matérias-primas para sua produção até o momento de descarte final da embalagem onde ele é armazenado para a venda ao consumidor. Um dos mais importantes e populares “produtos verdes” na atualidade é o papel reciclado, utilizado na sua forma final – para impressão de documentos e fabricação de cadernos – como para embalagens em geral. No Brasil, o Itaú se tornou o primeiro banco a utilizar papel reciclado em até 78% de suas impressões e produtos em papel, seguido pela Caixa Econômica Federal e outros. Embora, hoje, seja uma realidade ampla no Brasil, a concepção e lançamento de produtos ambientalmente sustentáveis teve início nos países desenvolvidos em meados da década de 1980, sobretudo nos Estados Unidos, Canadá e Europa Ocidental. Além das novas exigências de consumo, também é preciso considerar a legislação em muitos países que obrigava as fábricas a adotar novos métodos tecnológicos de menor impacto no meio ambiente. Nesse contexto, inclusive, também podemos citar a expansão de novas indústrias voltadas para a produção de tecnologias “limpas”, cujo impacto ambiental fosse menor do que as tecnologias tradicionais. Atualmente, a carne brasileira vendida na Europa segue rígidos padrões de fiscalização quanto a sua origem, podendo ser rastreada por códigos e certificados desde o momento em que o gado está no pasto até a chegada ao consumidor final. Tais exigências colocaram os produtores agropecuários brasileiros na esteira da modernização nas fazendas em vias de garantir qualidade aos seus produtos. Também podemos citar os exemplos da madeira - cuja exigência de certificação de origem é uma exigência para entrar no competitivo mercado europeu - e a soja e grãos em geral - também passíveis de certificação. Também no âmbito das mudanças tecnológicas, é preciso dar destaque às inovações nas áreas energéticas, onde o Brasil tem destaque mundial por conta do nosso programa de biocombustíveis e uso extensivo de energia hidrelétrica, que têm impacto substancialmente menor no meio ambiente e são renováveis. O ideal e o real: o consumo, o desenvolvimento e os problemas ambientais na atualidade Ao contrário do que possa parecer, o consumo consciente não é uma prioridade para a maioria das pessoas e, segundo dados mais otimistas, ainda é uma pequena parcela da sociedade no Brasil e no mundo que considera a responsabilidade ambiental como fator decisivo na hora da compra, sendo o preço o elemento fundamental no processo de escolha do consumidor. Dados indicam que hoje o consumo da humanidade é 25% superior à capacidade de renovação do meio ambiente, e essa razão deverá subir com o desenvolvimento econômico e o aumento do consumo nos países emergentes em vias de desenvolvimento. Se mantivermos esseinternacional Como vimos, o tema ambiental já estava timidamente presente na agenda política das nações mesmo no séc. XIX, mas é na segunda parte do séc. XX que os Estados e as organizações internacionais passam a encarar essa questão como um tema global, definindo novos parâmetros de observação ao meio ambiente e avançando no reconhecimento do homem como principal agente transformador das condições da Terra. Na década de 1960, um grupo de cientistas passa a utilizar modelos matemáticos para prever os riscos impostos ao meio ambiente com o crescimento econômico contínuo, resultando no relatório “Limites ao Crescimento”, publicado em 1972. Embora nem todas as projeções do relatório tenham se confirmado ao longo dos anos, essa iniciativa teve o importante papel de conscientizar sobre os limites da exploração do planeta e fez surgir os primeiros movimentos ambientalistas nos países industrializados, abrindo espaço para o que ficou conhecido como a “década da conscientização”. Além da conscientização, os trabalho publicados pelo chamado Clube de Roma refletiam uma preocupação comum no período: o crescimento populacional, o aumento da desnutrição e os efeitos da rápida industrialização no desgaste e desaparecimento dos recursos não renováveis. A conscientização, portanto, passa pelo objetivo de criar novos valores sociais em que o reconhecimento das limitações do planeta em gerar recursos deve dirigir as iniciativas frente ao desenvolvimento e aos hábitos de consumo das populações. Na virada do séc. XX para o XXI, o tema ambiental atinge seu ponto mais alto com as discussões em torno do aquecimento global e as negociações que resultaram no Protocolo de Kioto, mais tarde Tratado de Kioto. Os debates sobre as mudanças climáticas ganham prontamente adeptos em todos os setores da sociedade, desde a mídia até comunidades científicas, que alimentam uma dialética – por vezes ideológica – sobre os limites do aquecimento da Terra frente à sobrevivência da humanidade e os reais agentes desencadeadores desse fenômeno. Polític� ambienta� globa� : a� conferência� internacionai� � a� transformaçõe� n� percepçã� da� questõe� ambientai� globai� As primeiras conferencias, ainda no sec. XIX, já exerceram um papel relevante, mas é na segunda parte do sec. XX – após a II Guerra Mundial – que os resultados desses encontros transformaram por completo a visão sobre a questão ambiental e infligiu à comunidade internacional uma nova postura para tentar reverter as catástrofes ambientais previstas pelos cientistas e estudiosos do tema. Por trás desses eventos, torna-se fundamental compreender a atuação das organizações intergovernamentais, sobretudo a Organização das Nações Unidas, e o funcionamento de seus órgãos. Por isso esses encontros se sucedem e renovam aquilo que compreendemos em termos ambientais, propostas por um desenvolvimento menos nocivo à natureza e políticas positivas por parte dos Estados. Transformações políticas globais e a questão ambiental O monopólio que o tema da segurança internacional causava na agenda internacional também replicava no quesito desenvolvimento econômico, pois as grandes potências enxergavam no apoio econômico, aos países mais pobres, uma forma de manter intacta suas áreas de influência e, em consequência, a expansão do capitalismo liberal – do lado dos Estados Unidos – ou da economia planificada socialista – do lado da União Soviética. É, portanto, justamente a partir da década de 1980 que entra em foco a proposição do “ajuste estrutural” rumo a novas articulações que estabeleceriam a perspectiva de uma economia mundial em rede, globalizada e interligada. Com o fim da Guerra Fria e do antagonismo da bipolaridade, a agenda entra em continuo processo de “descongelamento”, agregando aos debates internacionais novos valores e reflexões sobre temas pontuais. Temos que ter em mente que a ligação entre a pobreza nos países do hemisfério sul e o surgimento de novos problemas ecológicos gerou uma clara percepção de que todas as medidas tomadas no passado para promover o desenvolvimento econômico nas regiões mais pobres do globo tinham sido em vão ou insuficientes – ou até mesmo promovedoras da manutenção da pobreza. Sendo assim, fazia-se necessário que o desenvolvimento voltasse seu escopo de analise para elementos que iam além da questão econômica apenas, englobando também a percepção ambiental, através da ecologia. Principais relatórios e conferências ambientais Além da iniciativa das Nações Unidas em torno do Relatório Brundtland, outras conferências merecem nossa atenção por conta de seus impactos na percepção dos temas ambientais e conscientização de governos e sociedades. Importante percebermos que as primeiras mobilizações em torno das questões ambientais se deram entre as nações mais ricas, e isso justamente porque nestes países, onde a industrialização predatória já era uma realidade em meados do sec. XIX, os efeitos da degradação ambiental também foram inicialmente identificados. Os limites do crescimento: Ao longo das décadas de 1960 e 1970, características típicas do crescimento econômico acelerado como o aumento populacional, a expansão da desnutrição nas regiões menos favorecidas e as dúvidas quanto aos recursos não renováveis, fez com que o chamado Clube de Roma investigasse e produzisse, em 1974, o importante relatório “The Limits do Growth”, cujo conteúdo apontava as principais preocupações ambientais dos países membros. Clube de Roma Formado em 1968 pelo industrial italiano Aurelio Peccei e pelo cientista escocês Alexandre King, o grupo reúne personalidades políticas, científicas e acadêmicas de diversas partes do globo, com o objetivo de debater temas relacionados a política e economia internacional, meio ambiente e desenvolvimento sustentável. Entre os membros, estão presentes os brasileiros Fernando Henrique Cardoso e Hélio Jaguaribe. Segundo o relatório, o mundo passava de um processo de crescimento global para equilíbrio global, devendo, portanto, refletir sobre as transformações decorrentes da industrialização e debater novas políticas que corrigissem a degradação provocada no período de rápido crescimento econômico. Para os autores envolvidos, a saída para essa questão estava plenamente ao alcance dos homens, dependendo apenas de uma decisão política em assumir os custos de uma nova postura econômica frente ao meio ambiente. A cooperação entre as nações, a conscientização e o planejamento global em busca de um equilíbrio, seriam os meios viáveis e eficientes na transformação da percepção individual e dos Estados. Embora lento e de custos altos, esse seria o único caminho rumo a uma mudança que de fato pudesse garantir um futuro harmônico entre o homem, o desenvolvimento econômico e o meio ambiente. Interessante observar que, assim como outros relatórios e pesquisas que ainda surgiriam no contexto global, o trabalho desenvolvido pelo Clube de Roma deixa uma importante e fundamental lacuna: e qual seria então o modelo a ser adotado? A questão girou em torno da denuncia dos problemas decorrentes da degradação e do modelo de industrialização e seus impactos no meio ambiente. Ademais, a conscientização em si não era um instrumento final nas mudanças políticas globais se não fosse oferecido, também, alternativas ao modo de produção que indicassem caminhos ou posturas a seguir. Visando preencher essa lacuna, em 1976, um novo relatório é produzido a partir do encontro realizado na Áustria, e buscava indicar os caminhos para uma nova ordem internacional factível e praticável aos estadistas e grupos sociais em geral. Essa ordem, ou modelo de governança, deveria atender as demandas urgentes das populações contemporâneas e futuras. Desse encontro resultou a Declaração e Programa de Ação, que recomendava a institucionalização do tema através de organismos internacionais para a questão ambiental e a responsabilidade da sociedade em assegurar a satisfação das necessidades individuaise coletivas sem comprometer a renovação ambiental e sem promover ainda mais degradação. Em termos de institucionalização, os autores pensaram em confederações funcionais de organizações sem centralização operacional – que permaneceria local ou regional – mas, por outro lado, com centralidade no âmbito dos debates e decisões relacionados ao meio ambiente. Outro elemento de grande importância deste relatório foi a ideia de “eco-desenvolvimento”, trazendo pela primeira vez ao debate internacional uma postura diferenciada de desenvolvimento econômico e industrial, baseado na premissa ambiental de limites e posturas voltadas à preservação da natureza e garantia dos recursos para as gerações futuras. O chamado “eco-desenvolvimento” demandava não uma solução única em termos globais, ao contrário, recomendava a pesquisa de soluções especificas para questões regionais. Conferência de estocolmo e as ações da ONU Na esteira das preocupações quanto ao crescimento econômico e industrial ao longo da década de 1960 e suas consequências na degradação ambiental, realiza-se em 1972, em Estocolmo, uma grande conferencia cujo objetivo era institucionalizar a questão ambiental no cenário internacional, abordando o desenvolvimento e sem esquecer das preocupações com a segurança militar. Logo, a partir de Estocolmo, a questão ambiental passa a ser encarada como parte de um processo de desenvolvimento formado pelas esferas econômicas e sociais. A Conferência sobre Meio Ambiente em Estocolmo, como é conhecido esse encontro, buscou refletir sobre as providências a serem tomadas para garantir a Terra como um lugar adequado à vida humana para aquela e para as próximas gerações. Havia também uma clara preocupação com a gradativa escassez de recursos naturais, que viriam a impactar na qualidade de vida e afetariam a relação do seu humano com o meio ambiente. Portanto, era preciso fortalecer a importância das agências ambientais nacionais, oriundas aos governos presentes. Também em 1972, como decorrência da busca por institucionalização do tema ambiental no contexto global, é criado dentro da ONU o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), com o objetivo de promover pesquisas na área e acordos e convenções que levem a formulação de uma agenda internacional comum quando se fala em meio ambiente. O PNUMA, por sinal, se tornou a primeira instituição internacional com sede num país africano, na capital do Quênia, o que foi visto como ato de grande simbolismo no que tange a relação entre meio ambiente e desenvolvimento. Alguns países europeus eram favoráveis a criação de uma organização internacional para o tema, que seria a organização das nações unidas para o meio ambiente (ONUMA), mas a ideia era vista com desconfiança por outras nações que temiam a criação de um organismo pautado apenas na visão do norte sobre o tema. Os países do norte, portanto, deveriam pressionar as nações subdesenvolvidas do sul a aceitar as normas tidas com fundamentais para a interrupção do processo de degradação ambiental. Já a Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano (CNUAH), foi a primeira iniciativa em termos de conscientização global e formulação de padrões de comportamento compatíveis com os desafios próprios da interdependência do tema ambiental, indicando o caráter transnacional tanto do controle como do descontrole ambiental. Um obstáculo poderoso aos trabalhos da CNUAH foi o próprio período em vigência na época, a Guerra Fria, que acabou limitando seus esforços em agregar importância e atenção em torno da questão ambiental, já que o posicionamento ideológico e a disputa de poder entre as superpotências Estados Unidos e União Soviética monopolizavam a agenda internacional. Apesar disso, a CNUAH foi responsável pela conscientização dos temas de proteção das especiais em risco de extinção e da preservação dos recursos naturais não renováveis. Por fim, cabe ressaltar que a Conferencia de Estocolmo não produziu de fato nenhum acordo ou resolução que mudassem os rumos da relação desenvolvimento versus meio ambiente. Por outro lado, o encontro garantiu importância no contexto político mundial ao trazer o tema ambiental – e todas as suas vertentes – para o âmbito da diplomacia e ação conjunta entre as nações, ampliando a agenda internacional e agregando novos atores relevantes a compreensão do tema. Relatório Brundtland Em 1983, o então secretario geral da ONU Javier Pérez de Cuéllar indica a Primeira Ministra da Noruega, a senhora Gro Harlem Brundtland, para presidir a recém criada Comissão Mundial do Meio Ambiente e do Desenvolvimento (CMMAD). Se valendo do apoio de grupos ambientalistas e ONGs ligadas ao tema, que prestaram ajuda na construção de um relatório o mais amplo possível e dentro das expectativas dos países dos hemisférios Norte e Sul, em 1988 é publicado o texto NOSSO FUTURO COMUM, cujas revelações não poderiam mais ser ignoradas pelos governos e que demandavam por uma nova postura política e legislativa. O relatório é tido como o principal documento oficial produzido sobre o tema, e seu conteúdo chamou atenção para o papel do homem nas ameaças ao perfeito equilíbrio ao meio ambiente planetário, apontando processos já em andamento como erosão de solos, derrubada de florestas, transformações químicas na atmosfera terrestre como o efeito estufa e o buraco na camada de ozônio, os riscos do desenfreado crescimento demográfico e urbano sobre os recursos hídricos e energéticos, a extinção de espécies animais, entre outros. Mesmo não sendo a primeira mobilização em torno do tema ambiental, o relatório produzido por esta comissão – também chamado de Relatório Brundtland – deve ser visto como diferenciado e inovador por atrelar os valores caros ao desenvolvimento das nações aos temas ambientais, colocando sob o mesmo escopo os desafios da preservação ambiental e as condições estruturais do desenvolvimento em voga até então. Cabe ressaltar que, ao avaliar a condições do desenvolvimento sob a perspectiva crítica ao meio ambiente, o relatório apresentou um painel diferenciado entre os países ricos e pobres – mesmo que todos tivessem uma reconhecida parcela de responsabilidade sobre a degradação do meio ambiente –, e reconheceu as necessidades de expansão econômica como desenvolvimento legitimo aos países subdesenvolvidos. Esse reconhecimento, inclusive, conciliou dois conceitos opostos: A atividade humana como predatória ao meio ambiente. Inviabilidade de ignorar o desenvolvimento dos povos que ainda não tinham acesso às condições mínimas de sobrevivência. Embora o Relatório Brundtland não instrumentalizasse propostas diretas que guiassem a ação dos Estados ou ao menos servissem de parâmetro para avaliar o trato da questão ambiental, este material teve um importante papel na construção daquilo que entendemos como Desenvolvimento Sustentável. A ausência de propostas diretas, inclusive, se tornou alvo de críticas quanto à operacionalidade resultante do reconhecimento sobre as questões ambientas e a dualidade encontrada em determinados trechos do documento final. Vejamos alguns pontos polêmicos: ● A pressuposição de um sujeito coletivo, a humanidade, e sua total responsabilidade sobre o desenvolvimento sustentável, sem indicar ações diretas a países e/ou regiões de responsabilidades diferenciadas. ● O atendimento das necessidades presentes da humanidade sem comprometer as condições para atender as gerações futuras, sem elementos que permitam identificar o que são realmente as necessidades presentes e futuras. ● O modo de produção baseado no modelo industrial não é citado, e sim – e apenas – a atividade humana e seus efeitos sobre a biosfera. ● A condenação da pobreza sem o reconhecimento de que ela é parte de uma estrutura de desenvolvimento que não garante o desenvolvimento de forma igualitária e harmônica a todos os povos. ● A condenação da pobreza como “um mal em si”, garantindo ao desenvolvimento um papel decaráter superior, diferentemente da percepção de que o desenvolvimento acarreta tanta degradação quanto a pobreza em termos ambientais. ● A indicação de que a economia e a ecologia deveriam caminhar unidas sob um ambiente de desenvolvimento sustentável, sem a indicação de como esse processo poderia se dar em termos efetivos. ● A equivalência entre sociedades com níveis de industrialização diferenciadas, com potenciais de crescimento e bases econômicas distintos, indicando dinâmicas que desprezam as especificidades de cada país ou região e, ainda, pouca clareza na questão dos recursos naturais renováveis e não renováveis. Sobre esse último ponto vale ressaltar que o Relatório acabou mostrando pouca isenção, pois, se de um lado enxergou a responsabilidade sobre o meio ambiente como tarefa igualitária entre todas as nações – não diferenciando o papel poluidor que no passado contribuiu para o crescimento e desenvolvimento das potencias do Norte –, por outro ainda recomendou que amplas áreas nos países do Sul, necessárias ao desenvolvimento local da sua população, fossem mantidas intactas e atrasadas para o “equilíbrio do planeta”, desprezando os mesmos argumentos que colocavam o subdesenvolvimento e a miséria como ameaças ao meio ambiente. Conferência das nações unidas sobre o meio ambiente e desenvolvimento - ECO-92 No ano de 1988 uma resolução aprovada pela Assembleia Geral da ONU indica a necessidade de realizar uma conferência na qual fosse possível avaliar a ação dos países a partir da Conferência de Estocolmo de 1972. Nessa sessão o brasil se ofereceu para sediar o evento, que viria a acontecer durante o governo de Fernando Collor. No ano seguinte, em 1989, a Assembléia Geral então convoca a Conferencia das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento – também conhecida como Cúpula da Terra – e marca sua realização para o mês de junho de 1992, de maneira a coincidir com o Dia do Meio Ambiente e tinha como principais objetivos: ● Examinar a situação ambiental mundial desde 1972 e suas relações com o estilo de desenvolvimento vigente. ● Estabelecer mecanismos de transferência de tecnologias não-poluentes aos países subdesenvolvidos. ● Examinar estratégias nacionais e internacionais para incorporação de critérios ambientais ao processo de desenvolvimento. ● Estabelecer um sistema de cooperação internacional para prever ameaças ambientais e prestar socorro em casos emergenciais. ● Reavaliar o sistema de organismos da ONU, eventualmente criando novas instituições para implementar as decisões da conferência. A participação considerável de representantes não estatais foi uma clara demonstração de força e importância desses atores nas negociações internacionais sobre os temas ambientais, garantindo a eles um lugar efetivo nas encontros e debates ocorridos ao longo dos anos seguintes. Entendemos como atores não estatais todos os representantes ou entidades oriundos da sociedade civil, ou seja, sem ligação legal ou institucional com os governos e entidades governamentais. As ONGs, por exemplo, são um grande exemplo de mobilização não estatal. A ECO-92 ou Rio-92, como ficou conhecida a Conferência, gerou uma mobilização inédita na comunidade internacional em termos de atitudes urgentes que transformassem o comportamento social e político visando preservar o meio ambiente e a vida na Terra. ● 1 - Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, que explicitou princípios que visassem um novo estilo de vida baseado na proteção aos recursos naturais e na busca do desenvolvimento sustentável, na melhoria das condições de vida dos povos e na preocupação com um crescimento aliando oportunidade aos países e preservação ambiental. ● 2- Agenda 21, um importante plano de ação a longo prazo a ser implementado pelos governos, órgãos da ONU, grupos e entidades setoriais independentes e agências de desenvolvimento, respeitando as diferentes situações e condições das regiões e a plena observação dos princípios contidos na Declaração do Rio sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento. As quatro seções da agenda 21 são: ● a) Dimensões Econômicas e Sociais, trata das relações entre meio ambiente e pobreza, saúde, comércio, dívida externa, consuma e população. ● b) Conservação e Administração de Recursos, trata das maneiras de gerenciar recursos físicos para garantir o desenvolvimento sustentável. ● c) Fortalecimento dos Grupos Sociais, trata das formas de apoio a grupos sociais organizados e minoritários que colaboram para a sustentabilidade. ● d) Meias de Implementação, trata dos financiamentos e papel das atividades governamentais). Quanto à implementação da Agenda 21, conclui-se que seria necessário cerca de 600 bilhões de dólares anuais ao longo de 7 anos. ● 3 - Princípios para a Administração Sustentável das Florestas, adotado pelos participantes do evento visando um consenso global sobre o manejo, conservação e desenvolvimento sustentável de todos os tipos de florestas. O caráter deste documento é apenas uma declaração, demonstra as dificuldades na negociação do texto e aprovação de um acordo que visava implantar um regime de proteção ambiental de forma integral e de comum acordo entre os participantes. ● 4 - Convenção da Biodiversidade, objetivando a conservação, uso sustentável e divisão equitativa e justa dos benefícios da biodiversidade. ● 5 - Convenção sobre Mudança do Clima, onde são expostas as preocupações sobre a atividade humana e seu impacto na atmosfera, gerando fenômenos como o efeito estufa e o aquecimento global e afetando adversamente ecossistemas naturais e a humanidade. Seus objetivos são: ● Estabilizar a concentração de gases efeito estufa na atmosfera num nível que possa evitar uma interferência perigosa com o sistema climático. ● Assegurar que a produção alimentar não seja ameaçada. ● Possibilitar que o desenvolvimento econômico se dê de forma sustentável. O evento reuniu 172 países (apenas seis membros das Nações Unidas não estiveram presentes), representados por aproximadamente 10.000 participantes, incluindo 116 chefes de Estado. Além disso, receberam credenciais para acompanhar as reuniões cerca de 1.400 organizações não-governamentais e 9.000 jornalistas. A ECO-92 foi um importante marco na consagração do conceito de desenvolvimento sustentável e na ampla conscientização sobre as “responsabilidade comuns, porém diferenciadas”, ou seja, de que a degradação ambiental era majoritariamente causada pelos países desenvolvidos, embora as nações em desenvolvimento também tivessem uma responsabilidade sobre o tema. Dentro dessa perspectiva, destacou-se e necessidade de apoio financeiro e tecnológico para que os países em vias de desenvolvimento pudessem estabelecer uma agenda sustentável de preservação ambiental. Polític� ambienta� globa� : debate� teóric� sobr� desenvolviment� � mei� ambient� Assim como outros temas das Relações Internacionais, tais como a atuação dos Estados e questões de segurança internacional, o tema ambiental é cercado de inúmeras polêmicas, desde aquelas que questionam a validade de dados científicos para justificar grandes mudanças de padrão comportamental, até as variadas concepções sobre as saídas para a degradação ambiental e a harmonia na relação entre o homem e a natureza. Um elemento importante e que devemos nos atentar ao estudar as concepções teóricas dos estudos do meio ambiente é que essas correntes e pensamentos estão por trás de todos os debates na área, portanto são de fundamental importância por servirem de base científica e sociológica para a própria compreensão dos fatos ambientais e, logo, na busca de soluções para a degradação ambiental e na formulação de políticas sustentáveis ou, por outro lado, na desconsideração de determinadas análises e prerrogativas. Quanto ao meio ambiente No limiar do sec. XIX para o sec. XX, o ambientalismo começou lentamente a se aproximar das discussões políticas e preocupações reais das elites, sobretudonos meios acadêmicos e políticos, e isso porque diversas posições sobre o mundo natural – a Terra – começavam a se traduzir em posturas e atores diferenciados. Neste momento, nos Estados Unidos principalmente, emerge o debate entre os preservacionistas e os conservacionistas. Mas quem são esses grupos? O que pensam? Os preservacionistas, observando o estágio de desenvolvimento da produção e os danos causados ao meio ambiente, defendiam uma postura radical de preservação ambiental baseada na proteção integral de determinados ecossistemas, com o objetivo de garantir sua intocabilidade pelo homem ou que fossem assimilados pela lógica da expansão do desenvolvimento urbano. Esse grupo teve um importante papel na criação dos primeiros parques nacionais nos Estados Unidos, como o Parque Nacional de Yellowstone (1872) e o Parque Nacional de Sequoia (1890). Os conservacionistas, por sua vez, admitiam os riscos da exploração dos recursos naturais e também o avançado estágio da degradação produzido pelo desenvolvimento. No entanto, defendiam um uso racional e eficiente justamente como garantia para a preservação. Como assim? Bem, para os conservacionistas conservar era justamente utilizar a natureza de uma maneira sustentável, consumir adequadamente de acordo com necessidades equilibradas e considerar as necessidades futuras, e não – como defendiam os preservacionistas – guardar esses recursos e ignorar as necessidades humanas. A maior parte dos movimentos ambientalistas inclusive, se baseia na visão conservacionista, que se tornou, gradualmente, um consenso entre as nações ao longo do sec. XX e está na base das políticas instruídas pela ideia de desenvolvimento sustentável. Voltando ao debate entre esses dois grupos, os preservacionistas adotavam posições radicais, defendendo que grandes áreas fossem garantidas em sua intocabilidade e fossem, no máximo, usadas para fins recreativos ou educacionais. Já os conservacionistas defendiam uma postura mais moderada, defendendo a viabilidade em explorar recursos naturais de uma maneira racional, sem promover a degradação ambiental ou extinguir recursos para as gerações futuras. Além desses dois grupos, convém indicar também os chamados desenvolvimentistas adeptos de que o crescimento econômico deveria acontecer a qualquer custo, sem qualquer preocupação quanto às questões ambientais ou aos danos provenientes da exploração contínua e de grandes proporções sobre os recursos naturais. “Desenvolvimento, progresso e industrialização transformam-se em termos equivalentes, almejados por todas as nações. Caberia, assim, às nações subdesenvolvidas alcançarem as demais através da industrialização”. Essa concepção compreende que crescimento econômico e desenvolvimento são as mesmas coisas, portanto, é natural ao ser humano – e as suas demandas por desenvolver-se em sociedade – o consumo crescente de recursos naturais e energia. O homem, a terra, a tecnologia: quem é o centro? Nas décadas posteriores, os debates dentro da esfera ambiental basicamente se polarizaram entre o antropocentrismo e o ecocentrismo. ● Antropocentrismo: O antropocentrismo percebe a natureza como um conjunto de elementos que servem ao homem, e a este todos os direitos de utilização dos recursos naturais através de meios científicos e tecnológicos. Essa concepção se baseia na premissa de que a natureza é um tipo de reserva, sem valor em si ou importância autônoma, ou seja, o papel da natureza seria atender as demandas e necessidades do homem. Logo, todas as consequências da atuação do homem sobre a natureza são legitimadas pelas necessidades naturais da humanidade. Por outro lado, há um aspecto de sustentabilidade a medida que há a necessidade de assegurar a máxima utilização sustentável dos recursos naturais, contando com o controle eficiente do Estado. ● Ecocentrismo : O ecocentrismo (ou biocentrismo), ao contrario da premissa anterior que privilegiava o homem, baseia-se na ideia de que a natureza e o mundo natural – a Terra – possuem um valor em si, e não são apenas reservas de recursos para as necessidades humanas. Na verdade, para os defensores desta premissa a natureza já tem um valor em si, mesmo que não apresente recursos necessários ou úteis à humanidade, por isso estão bastante influenciados pelas ideias preservacionistas da proteção total e intocabilidade humana. Logo, há uma incompatibilidade entre as atividades humanas e esse estado de preservação ambiental. Para os tecnocentristas, a postura cientifica e a racionalidade econômica são elementos fundamentais na compreensão dos problemas ecológicos e próprios da sociedade. O berço filosófico do tecnocentrismo encontra-se na revolução científico-tecnológica do século XVII, responsável por colocar a ciência e a tecnologia num alto grau de confiabilidade por parte dos homens. O tecnocentrismo, então, pode ser visto como um pensamento antropocentrista, a medida que coloca nas mãos do homem a atuação sobre o meio ambiente, de acordo com suas necessidades e interesses. Nos dias atuais, tanto o ecocentrismo como o tecnocentrismo se valem de resultados científicos a fim de fortalecer suas proposições e ideias. As interpretações sobre tais resultados, entretanto, diferem de acordo com a linha de pensamento, a ver: Na visão tecnocentrista a evolução cientifica prova as possibilidades humanas de administrar e dominar a natureza. Já o ecocentrismo reivindica as relações de harmonia com a natureza amparadas na ecologia e leis naturais. Raízes teóricas Embora importante, o debate entre o antropocentrismo, ecocentrismo e tecnocentrismo remonta a outras linhas teóricas que estão na base dessas concepções. São elas: ● Ecologia Profunda: trata-se de um conceito filosófico que enxerga o homem como parte integral da complexa estrutura da natureza, portanto, assim como as outras espécies, o homem deve ser preservado e respeitado para garantir o equilíbrio da biosfera. Proposta feita pelo filosofo e ecologista norueguês Arne Naess, em 1973. ● Ecologia Social: este grupo sustenta que os problemas ecológicos estão ligados aos problemas na evolução da própria sociedade sob um sistema político hierárquico e dominante. Dessa forma, apenas medidas tomadas pela coletividade no sentido de romper os tradicionais laços sociais podem surtir efeito sobre as questões ecológicas. Criado pelo geógrafo anarquista francês Elisée Reclus no final do sec. XIX, e rediscutido na década de 1960 pelo filosofo americano Murray Bookchin. ● Eco-Socialismo: este pensamento, como o próprio nome indica, se apodera das reflexões marxistas sobre as consequências do capitalismo para analisar a degradação ambiental como resultado da expansão do modelo econômico vigente e dominante, ou seja, o próprio capitalismo. Para os partidários desse pensamento, então, a expansão do capitalismo gerou a exclusão social, a miséria, a guerra e, evidentemente, a degradação ambiental. Eco-socialistas, portanto, defendem que apenas o desmantelamento do capitalismo e do Estado poder impedir a continuidade da degradação humana e ambiental. Embora não tenha um único criador, essa corrente foi primeiramente abordada a partir dos estudos do romancista inglês William Morris sobre o marxismo e as questões ambientais, ao longo das décadas de 1880 e 1980. Teoria de Gaia O nome Gaia faz referencia a Deusa grega suprema da Terra, Gaia. Também conhecida como Hipótese Biogeoquímica, a Teoria de Gaia baseia-se na proposta de que a biosfera e os elementos físicos da Terra estão completamente integrados, de forma a gerar um complexo sistema interligado que mantém as condições viáveis de sobrevivência e transformação do Planeta Terra, em outras palavras, a Terra seria um super organismo vivo e a biosfera seria um ser único auto regulável. Proposta pelo cientista britânico James E. Lovelock, a Teoria de Gaia foi originalmente vista com descrédito pela comunidade cientifica internacional, se aproximando apenas de grupos ecológicos,místicos e alguns grupos de investigadores interessados em respostas avessas às tradicionais teorias vigentes. Ao longo do tempo, no entanto, com o aquecimento global e as transformações climáticas na Terra, a hipótese levantada por Lovelock – que sempre a considerou uma teoria cientifica –, tem ganhado cada vez mais espaço nas discussões sobre a questão global. Teorias sobre economia ambiental Até agora, vimos diferentes concepções e debates quanto à formulação da questão ambiental e o papel do homem nesse contexto, discutindo a relação humana com a natureza e a representação desta frente às necessidade da humanidade. Antes de mais nada, é preciso levar em conta que interromper a degradação ambiental ou promover políticas baseadas no conceito de desenvolvimento sustentável geram custos, e esses custos deverão – ou deveriam – ser distribuídos internacionalmente a medida que aceitamos o componente transfronteiriço dos problemas ambientais. Temos, portanto, uma questão a ser analisada: como a relação entre economia e meio ambiente tem sido vista desde a ascensão dos temas ambientais na década de 1960/70? Inicialmente podemos dizer que há ao menos três posturas a serem observadas, e todas concordam que a intervenção do Estado deve ocorrer a fim de resolver as questões do meio ambiente. E então começam as diferenças: como deve ser essa intervenção? Podemos, enfim, relacionar essas três visões às chamadas visões globais, sobre a relação economia e meio ambiente, do americano James Turner, que são: ● Orientada para o desenvolvimento dos recursos e crescimento, próxima à visão do Professor Coase. ● De tutela dos recursos e crescimento controlado, presente no pensamento do Professor Pigou e o papel intervencionista do Estado. ● De conservação de recursos e crescimento limitado. ● Preservação extrema que prevê um crescimento zero, como coloca o Professor Sagoff”. O Estado e o Sistema Internacional: a questão do meio ambiente Antes de finalizarmos essa aula, é preciso apresentar um último escopo conceitual, proveniente das posturas recomendadas em âmbito global quando se fala em modelos de gestão internacional do meio ambiente e comportamentos esperados das nações. Importante registrar que, neste item, a base teórica não se constrói a partir de um debate ideológico – como nas primeiras teorias estudadas nessa aula –, ou por uma visão econômica – como no segundo item estudo – mas, como resultado da ação acadêmica, política e diplomática oriunda, sobretudo, de organismos internacionais. Na verdade, as três abordagens que apresentaremos aqui para compreender a questão da gestão coletiva em meio ambiente, representam importantes movimentos de cooperação internacional, mas não podem ser entendidas dentro de uma abordagem teórica porque, como coloca Marie-Claude Smouts, carecem enormemente de um refinamento teórico típico das ciências sociais no mundo contemporâneo. São elas: Abordagens Organizacionais Com grande impacto nos estudos das Relações Internacionais na década de 1960, a ideia de abordagem organizacional nasce nas discussões em torno de um “governo mundial” e da suposta necessidade de regulação, ou legalização, das relações interestatais. Inicialmente percebe-se um pré disposição em compreender o sistema internacional como um ambiente que caminhava rumo a uma centralização de poder, ou seja, para uma organização ou governo mundial, capaz de unir as principais demandas transfronteiriças ou bens comuns da humanidade através de um mesmo escopo político diplomático. A governança internacional, portanto, seria justamente o resultado da ação dessas organização no âmbito global. Como era de se prever, a abordagem organizacional não ganha impulso ao longo do tempo, e isso se da, principalmente, por conta da chamada “crise do multilateralismo” no pós Guerra Fria e a ascensão de diferentes pólos de poder em diversas regiões do globo. Para muitos autores, mesmo durante a Guerra Fria a abordagem organizacional já entra em declínio por conta do afastamento das grandes potencias desses espaços lineares de decisão política, privilegiando a ação unilateral moldada pelo interessa nacional e pelas demandas típicas da bipolaridade. Regimes Internacionais A partir da década de 1970, mesmo com a ausência de um poder central que exercesse o papel de governança global, os autores das Relações Internacionais passam a perceber uma tendência de movimentação de alguns Estados em direção a redes institucionais não hierárquicas ou formalmente estabelecidas. Nesse ambiente surgiam regras implícitas ou explicitas que resultavam na modificação do comportamento dos Estados sob a luz de determinados temas. Em outras palavras, a interação se dá independente de um ente organizacional, ou governamental, superior que possa regular esse relacionamento. “Os regimes são estas instituições de caráter não-hierárquico em torno das quais as expectativas dos atores convergem. Eles são deliberadamente construídos pelos atores com o propósito de mitigar o caráter de auto-ajuda das RI ao demonstrar aos Estados a possibilidade de obter ganhos conjuntos por meio da cooperação”. Alguns autores, como Robert Keohane, compreendem os regimes internacionais como modelos que “involuntariamente” interferem na atuação do Estado, gerando resultados esperados no ambiente internacional. Segundo o Professor Arthur do Amaral, os regimes internacionais ganham cada vez mais importância nas relações internacionais contemporâneas e na formação de cooperação e modelos de comportamento frente aos desafios da agenda internacional atual. “Regimes internacionais são definidos como princípios, normas, regras e procedimentos de tomada de decisão, sobre os quais as expectativas dos atores convergem em uma determinada área temática”. Na área ambiental, por exemplo, os regimes são fundamentais por indicar uma série de padrões a serem seguidos pelos Estados que compartilham as mesmas percepções sobre a degradação ambiental e as necessidades de preservação dos recursos naturais. Mesmo aqueles que estão de fora desse regime, torna-se possível “enquadrá-los” a partir de uma perspectiva do que deveria ser feito, e aceito pelos Estados, no sentido de se adequar às recomendações das grandes conferencias internacionais. Governança Global Embora os debates sobre governança global não sejam recentes, há, paralelo ao movimento de integração política em grande parte do mundo, principalmente a partir da década de 1970, uma percepção crescente sobre a necessidade – ou conveniência – da adoção de aspecto transnacionais de regras e normas para a gestão de temas transfronteiriços, ou seja, que “atingem” livremente diferentes nações e espaços geográficos. Mas, afinal, o que é Governança Global? Podemos entender Governança Global como uma: “(...) Concepção político-ideológica de uma nova ordem mundial caracterizada por um sistema transnacional de gestão (leis e instituições) estabelecido por um Pacto Global, cuja autoridade normativa e executiva supera a soberania absoluta dos Estados-Nação, para solução dos problemas de âmbito nacional (globalização econômica, criminalidade internacionalizada, pobreza, fome e doenças mundiais, direitos humanos e meio-ambiente), para a preservação da paz e promoção da prosperidade geral”. Como dizíamos, o contexto da globalização do final do séc. XX fez acelerar as percepções positivas sobre as idéias da governança global. E, mesmo não sendo recente, o debate ganha força com a evidente aproximação política e econômica de parte do globo no pós Guerra Fria e a ascensão dos problemas transnacionais. Importante lembrar que esses problemas, por estarem fora da jurisdição do Estado – ou compartilhado em um número superior de Estados –, levantam a indagação sobre quem deveria gerir suas soluções, a fim de atender as demandas por equalização do problema sem ferir os interesses nacionais. A governança global, entretanto, só é viável se imaginarmos uma estrutura normativaaceita pelos Estados. Caso contrário, teríamos um sistema de pouca ou nenhuma legitimidade, e isso porque dificilmente haveria condições políticas de impor aos Estados um conjunto de leis internacionais que entrasse em conflito com os interesses nacionais ou a cultura local. Para atender essa necessidade de legitimar uma proposta de governança global então, partiríamos do pressuposto de uma ordem global construída “de baixo para cima” no que tange o papel dos Estados. Polític� ambienta� globa� : capitalism� � desenvolviment� sustentáve� : saída� par� � cris� ambienta� globa� Elaborado pela Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento e usado pela primeira vez no Relatório Brundtland, é na Rio-92 que se consagra o conceito de desenvolvimento sustentável como grande elemento catalisador de transformações no comportamento das sociedades em torno de um modelo de produção que permitisse a renovação dos recursos naturais, o crescimento sem gerar impactos na degradação da natureza e novas formas de exploração da Terra. Capitalismo e desenvolvimento sustentável Importante compreender que além dos acontecimentos que marcaram a evolução do conceito de desenvolvimento sustentável, o progresso tecnológico e a ampla conscientização social sobre a questão ambiental foram fatores cruciais para a chegada deste conceito na agenda internacional e nacional dos governos. De forma geral, o conceito de sustentabilidade cresceu como resposta às assimetrias globais, aos problemas de desenvolvimento local e os impactos transfronteiriços em termos ambientais. Vejamos o gráfico abaixo: ● 1965: ○ Criação do Clube de Roma ● 1970: ○ The Limits to Growth (Os limites do crescimento). ○ O relatório publicado pelo Clube de Roma foi feito por pesquisadores do Massachussetts Institute os Technology, e buscou simular a evolução humana com base no modelo de exploração vigente nas décadas anteriores. O dados mostraram que no sec. XXI haveria um impacto fulminante na população humana devido a degradação ambiental. ○ Conferência de Estocolmo sobre o Ambiente Humano das Nações Unidas. ○ Neste evento o tema ambiental é levado pela primeira vez às esferas globais, e são debatidas as mudanças necessárias para evitarmos inúmeros desastres ambientais. ● 1975: ○ “Princípio responsabilidade”, do filósofo Hans Jonas. ● 1980: ○ Estratégia Global para a conservação da Natureza. ○ Publicado em 1980, o relatório produzido pela União Internacional para a conservação da natureza aborda, pela primeira vez, o conceito de desenvolvimento sustentável. ● 1985: ○ Relatório Brundtland (“Our Common Future”). ○ Através do texto “Nosso Futuro Comum”, é formalizado o conceito de desenvolvimento sustentável. ● 1990: ○ Segunda Cimeira da Terra ○ Nascimento da (“Agenda 21”). ○ Na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento em 1992, é aprovada a agenda 21, entre outros documentos, colocando o desenvolvimento sustentável como elementos fundamental na relação entre desenvolvimento e meio ambiente. ○ V Programa Acção Ambiente da União Europeia. ○ Primeira Conferência sobre Cidades Europeias Sustentáveis. ● 1995: ○ Segunda Conferência sobre Cidades Européias Sustentáveis. ○ Terceira Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas. ○ Protocolo de Quioto. ● 2000: ○ Declaração do Milênio. ○ Terceira Conferência Europeia sobre Cidades Sustentáveis. ○ Conferência Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável (Rio + 10). ○ Em Johanesburgo o Desenvolvimento Sustentável é reafirmado como elemento central da Agenda Internacional e são indicados novos caminhos à ação no combate a pobreza e na preservação do meio ambiente. ○ Conferência sobre Diversidade Biológica e Declaração Kuala Lumpur. ● 2005: ○ Conferência Aalborg + 10 ○ Sexto Programa de Acção Ambiental para o Ambiente da União Europeia. ○ Carta de Leipzig ○ Cimeira de Bali ● 2010 : ○ Declaração de Gaia. Mas o que é o desenvolvimento sustentável? Vejamos a explicação sobre o conceito elaborada para o Relatório Brundtland de 1987: “O desenvolvimento que procura satisfazer as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades, significa possibilitar que as pessoas, agora e no futuro, atinjam um nível satisfatório de desenvolvimento social e econômico e de realização humana e cultural, fazendo, ao mesmo tempo, um uso razoável dos recursos da terra e preservando as espécies e os habitats naturais”. De acordo com o relatório, a perspectiva de desenvolvimento sustentável era viável, pois aceitava que as demandas por desenvolvimento existiam e precisavam ser sanadas, ao mesmo tem que garantia para as gerações futuras condições de sustentação através do meio ambiente preservado. É claro que, para tanto, era preciso que os países ricos adotassem estilos de vida que diminuíssem a forte pressão sobre os recursos naturais, ao mesmo tempo em que houvesse um equilíbrio entre a densidade demográfica nas cidades e o aumento da população. A equidade social e o meio ambiente, portanto, são vistos como valores interdependentes, sendo impossível a exclusão de um para a garantia do outro. Essa relação pode ser facilmente identificada na Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural, onde a diversidade cultural é vista como uma área política própria do desenvolvimento sustentável: “(…) A diversidade cultural é tão necessária para a humanidade como a biodiversidade é para a natureza (...) as raízes do desenvolvimento entendido não só em termos de crescimento econômico mas também como um meio para alcançar um mais satisfatório intelectual, emocional, moral e espiritual”. As primeiras iniciativas em torno da criação de uma arcabouço que reunisse as premissas de sustentabilidade do meio ambiente giravam em torno da ideia de ecodesenvolvimento, ou seja, uma definição simplista de desenvolvimento harmônico com a preservação ambiental, que ao longo do tempo foi mudando graças à resistência dos países mais ricos que temiam apoiar a criação de barreiras ao próprio desenvolvimento econômico. Isso se dava porque até Estocolmo não existia diálogo entre os ambientalistas e os defensores do crescimento econômico. Assim, havia por parte dos governos um temor de que quaisquer políticas voltadas para o tema significasse um entrave ao crescimento. Outro ponto é que a concepção de ecodesenvolvimento era uma visão crítica ao modelo industrial adotado pela sociedade contemporânea. Nas reuniões preparatórias para a Conferencia de Estocolmo, Maurice Strong surgiu com o conceito de desenvolvimento sustentável, embora a ideia ainda não carregasse nenhum contato como os que viriam a construir o tema ao Longo dos tempos. A partir de então, autores como Amartya Sen e Ignacy Sachs tiveram um importante papel ao discutir o que seria o desenvolvimento sustentável e abordando as primeiras concepções que o construiriam conforme conhecemos hoje. Além de importantes autores e acadêmicos, a publicação de numerosos documentos – como podemos ver na LINHA DO TEMPO – contribuíram para a formulação de um conceito mais rico, que englobasse as razões pelas quais existia a preocupação real com um modelo de sustentabilidade e que apontasse quais eram as vertentes prioritárias na questão ambiental. Compreendendo o desenvolvimento sustentável: a estrutura da sustentabilidade Além da composição “desenvolvimento”, o quesito sustentabilidade passou a ser visto pela ONU em termos de sustentabilidade fraca, sustentabilidade e ecologia profunda, dando margem a uma significativa polemica em torno da formação de indicadores que pudessem “mediar” esse grau de proteção ambiental, desenvolvidos e apresentados pela Comissão das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável em 1995. Além da ONU, outros indicadores de desenvolvimento sustentável foram desenvolvidos e são utilizados pela União Europeia, a organização para a cooperação e o desenvolvimentoeconômico (OCDE), e a Global Environment Outlook (GEO). Para compreendermos melhor as áreas conceituais do desenvolvimento sustentável, podemos falar em três esferas: ● Sustentabilidade Ambiental Entende-se como sustentabilidade ambiental a capacidade própria da natureza e meio ambiente em renovar-se, ou seja a capacidade que o ambiente natural tem de manter as condições propicias de vida aos seres vivos, levando em consideração a habitabilidade, preservação da paisagem ambiental e renovação das fontes naturais. Através das Metas do Milênio (a ONU busca garantir ou melhorar a sustentabilidade ambiental através de 4 metas principais:) ● Integração entre os princípios de desenvolvimento sustentável e as agendas políticas e programas nacionais para reverter o quadro de degradação dos recursos ambientais. ● Ampla redução da perda de biodiversidade. ● Redução à metade dos índices de populações sem acesso à água potável e saneamento básico. ● Promover até 2020 políticas para a retirada de pelo menos 100 milhões de pessoas que estão abaixo da linha de pobreza. As metas do milênio foram acordadas entre a ONU e os países membros, seus objetivos giram em torno da eliminação da miséria extrema, promoção da igualdade entre os sexos e do desenvolvimento sustentável, entre outros. As metas foram aprovadas no ano 2000 e deveriam ser alcançadas até o ano 2015. ● Sustentabilidade Econômica Busca justamente integrar os princípios de sustentabilidade ambiental às estruturas de desenvolvimento econômico e industrial, transformando antigas concepções de mais valia e lucro em novas propostas que ambicionam valorizar as questões ambientais dentro da prática econômica. Entre outras palavras, o lucro, por exemplo, passa a ser visto não apenas por sua vertente financeira, mas também em termos ambientais e sociais, estimulando a utilização correta e sustentável dos recursos naturais em termos gerais. Fala-se também em gestão mais eficiente dos recursos naturais, introduzindo elementos que permitam “medir” graus aceitáveis de exploração de recursos que garantam a renovação ambiental. Sustentabilidade Sócio-política Compreende-se como o ponto de equilíbrio em termos de desenvolvimento e no âmbito sócio-econômico, dando uma nova “roupagem” a economia através dos princípios sustentáveis do conceito, desenvolvendo a idéia de que o caráter social e cultural da humanidade são valores intransponíveis. É neste contexto, inclusive, que são criadas a Agenda 21 e as Metas de Desenvolvimento do Milênio que são: ● 1.Erradicar a extrema pobreza e a fome. ● 2.Atingir o ensino básico universal. ● 3.Promover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres. ● 4.Reduzir a mortalidade infantil. ● 5.Melhorar a saúde materna. ● 6.Combater o HIV/AIDS, a malária e outras doenças. ● 7.Garantir a sustentabilidade ambiental. ● 8.Estabelecer uma parceria mundial para o desenvolvimento. Trata-se processo pelo qual as entidades nacionais se envolvem com a comunidade civil na elaboração de uma estratégia conjunta visando melhorar a qualidade de vida local como objetivo de aplicar as recomendações da Agenda 21, envolvendo as entidades governamentais, o empresariado e a sociedade civil. Críticas ao modelo de desenvolvimento sustentável Ao pensarmos sobre o conceito de desenvolvimento sustentável, temos que ter em mente as principais representações presentes nos debates que geram todo o entendimento sobre o tema. Tanto os trabalhos do Clube de Roma como o Relatório Brundtland são oriundos de situações onde a grande presença de países do Norte – desenvolvidos – levou a construção de um arcabouço teórico e proposições para políticas práticas que, na visão de alguns autores, refletem seus interesses e/ou modo de enxergar a questão ambiental. A própria base teórica na qual se constrói o conceito de desenvolvimento sustentável pode nos indicar uma parcialidade importante, afinal, a opção ecocêntrica – em detrimento de uma opção sociológica que respeitasse a pluralidade do campo de analise – revela uma interpretação que pode comprometer a aplicabilidade das propostas por novas estratégias de desenvolvimento. Percebe-se, inclusive, que os títulos e metáforas (termos como “Nosso Futuro Comum”, a ideia de “Crise Planetária”, entre outros) dão base a formação de uma responsabilidade comum a toda a humanidade e, portanto, indicam a diluição das diferenças entre os povos, e sua substituição por uma estrutura sem espaço para o debates sobre conflitos de interesses e contradições nas posturas defendidas. Como consequência, podemos apontar: ● A efetiva presença dos países desenvolvidos e hegemônicos na orientação de políticas e instrumentos a serem aplicados em áreas geográficas fora de suas soberanias territoriais, a medida que essa “intervenção” pode ser justificada pelos interesses de preservação ambiental e os riscos de uma catástrofe planetária; ● A efetividade dos organismos internacionais idealizados pelos países hegemônicos como fóruns propícios para a institucionalização do tema ambiental e formulação de diagnósticos e propostas politicas. Não podemos esquecer que esses organismos são amplamente influenciados pelos países desenvolvidos e, alguns, são diretamente dirigidos e administrados por representantes europeus e americanos. ● A formulação de políticas que não deverão se tornar obstáculos aos interesses dos financiadores internacionais ou à garantia do crescimento econômico dos países desenvolvidos. Interessante notar que, mesmo repleto de polêmicas e pontos claramente tendenciosos, a idéia de desenvolvimento sustentável é uma das mais aceitas em termos mundiais, encontrando apoiadores e defensores entre os mais diversos e conflitantes setores da sociedade. Na opinião de Wolfgang Sachs, a ambiguidade presente na construção conceitual de desenvolvimento sustentável é justamente o que garante a ampla aceitação de seus termos e ideias . Polític� ambienta� globa� : questõe� teórica� � evoluçã� históric� d� tem� ambienta� Nesta aula, faremos uma revisão dos principais pontos, dando destaque às bases do pensamento ecológico, os primeiros indícios da degradação ambiental, os grandes relatórios e conferências ambientais e, finalmente, vamos rever o papel do desenvolvimento sustentável no mundo atual. Para tanto, veremos exemplos e fatos das relações internacionais contemporâneas, mirando em situações verídicas e atuais tanto no Brasil como no contexto global. O que é a questão ambiental? Estrutura o posicionamento do homem em relação à totalidade da biosfera, conhecida como Terra. TERRA: ● BIOSFERA ● ECOSSISTEMAS O mundo é o espaço onde interagem os homens e ocorrem as transformações sociais de grande impacto sobre a Terra. A questão ambiental, portanto, surge da problemática relação entre essas duas esferas: o homem e seu impacto na Terra. Por isso, não podemos dizer que a questão ambiental, pode ser vista de maneira unilateral – de responsabilidade de um Estado ou um determinado grupo de Estados apenas – mas de maneira transnacional, já que a degradação ambiental ou transformações neste âmbito são decorrentes da atuação de toda a humanidade. Relação homem/natureza A percepção sobre essa relação não é nova, e desde o início do processo civilizatório buscou-se refletir sobre a dicotomia homem e planeta. Podemos, então, pensar em três propostas: ● 1.A Economia Clássica e a visão bíblica, segundo as quais o homem é considerado o centro da Terra (visão antropocêntrica). Lembram daquela diferenciação entre a Terra e o Mundo? Pois é, a perspectiva bíblica coloca o homem acima da Terra, por isso não ha uma visão crítica sobre a atuação do homem em abastecer-se indiscriminadamente dos recursos da Terra. ● 2.A perspectiva Geocêntrica ou ecocentrista, ou seja, a Terra como elemento central e superior ao “mundo” dos homens, por isso prioridade absoluta nessa relação entre homem e natureza. Como vimos, a proposta radical dos preservacionistas se baseianessa premissa de superioridade da Terra e na inviabilidade de uma relação harmônica entre o homem e a natureza. ● 3.O alinhamento entre o Antropocentrismo e o Geocentrismo, conciliando as necessidades da humanidade com as condições limites de renovação dos recursos naturais. Pode-se dizer que essa é a base do debate sobre o uso racional do meio ambiente, portanto, de grande parte dos organismos e instituições voltadas ao tema. A origem e evolução das preocupações ambientais Vamos mostrar agora como a evolução do capitalismo e do desenvolvimento econômico foram gerando a degradação ambiental e, como resposta, reações políticas e acadêmicas. ● Revolução industrial sec. XVIII : Efeitos sobre o meio ambiente já ocorriam, mas em proporções menores e menos impactantes.A partir do séc. XVIII, o homem dá inicio a uma mudança radical e sem precedentes na história da humanidade,transformando amplamente sua relação com o meio ambiente. O desenvolvimento industrial acelerado a partir de então, não foi acompanhado por políticas de proteção ambiental. Nesse sentido, até meados do séc. XX, a maior parte das medidas de proteção da biosfera era tímida e não surtia efeito significativo a longo prazo. ● Evolução do capitalismo : Voltado para a produção, acumulação e consumo de bens, o desenvolvimento capitalista gerou mais impactos com a exploração de recursos naturais. ● Efeitos da expansão do capitalismo nos se. XIX e XX. : Gerando uma verdadeira “explosão” demográfica, rápida industrialização nos grandes centros urbanos da Europa e nos Estados Unidos, aumento da desnutrição e miséria, desaparecimento contínuo de recursos não renováveis. ● Clube de Roma: “Os Limites do Crescimento”, 1974 : A partir das preocupações com os efeitos danosos do crescimento industrial nas décadas anteriores, o relatório publicado chama atenção para a necessidade de se repensar o crescimento global em termos de equilíbrio global, visando reflexão sobre os modelos de crescimento baseados na exploração predatória dos recursos naturais. ● I Conferência sobre Meio Ambiente em Estocolmo, 1971 : Seu principal objetivo era institucionalizar o tema ambiental no cenário internacional. Neste encontro os temas sociais e econômicos também passam a ser vistos como parte da questão ambiental, atrelando meio ambiente e desenvolvimento. ● Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, 1972 : Primeira instituição internacional com sede num país africano, o PNUMA voltou seus trabalhos para a promoção da pesquisa cientifica na área ambiental e na promoção de acordos internacionais, fomentando a chamada agenda ambiental global. ● Comissão Mundial do Meio Ambiente e do Desenvolvimento, 1980 : Primeira iniciativa no sentido de conscientização global sobre o tema ambiental e da necessidade de reformulações nos padrões de comportamento, compatíveis com os desafios da interdependência nas questões ambientais. Expansão das ideias de transnacionalidade da questão ambiental. Sua atuação foi prejudicada pelo contexto da Guerra Fria e a centralidade do tema “segurança internacional” na agenda política global. Ao longo da década de 70, um substancial aumento da regulação e controle em torno de elementos que exerciam influência sobre o meio ambiente surgiu como decorrência direta dos debates e deliberações da Conferência de 1972. Presidida pela Primeira-Ministra norueguesa Gra Harlem Brundtland, a comissão se aproximou de grupos ambientalistas e ONGs ligadas ao tema a fim de produzir um estudo imparcial, amplo e isento sobre a questão ambiental e os impactos do homem na biosfera. Na década de 1980, entra em vigor em grande parte do mundo as legislações voltadas para a regulação das indústrias, principalmente as mais poluentes. ● Nosso Futuro Comum: o relatório Brundtland, 1988 : O documento produzido pela Comissão Mundial do Meio Ambiente, considerado o mais importante documento oficial já produzido sobre o tema, chamou atenção para o papel do homem nas ameaças ao perfeito equilíbrio do meio ambiente planetário, apontando processos de degradação já em andamento. Também pode ser considerado inovador, por diferenciar o papel dos países ricos e pobres sobre os impactos do desenvolvimento no meio ambiente e atrelar, definitivamente, questões ligadas ao desenvolvimento das nações aos temas ambientais. Outro ponto importante é que no relatório em questão é formalizado o conceito de desenvolvimento sustentável. ● Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento - ECO-92: Além de consagrar o desenvolvimento sustentável como mecanismo necessário à preservação ambiental frente às necessidades de desenvolvimento dos povos e revisar todas as medidas e recomendações feitas na Conferência de 1972, a ECO-92 produziu cinco documentos de grandes importâncias, entre eles a Agenda 21, com proposições para um amplo plano de ação a longo a prazo para governos, órgãos da ONU, grupos e entidades setoriais independentes e agências de desenvolvimento, respeitando as características locais e os princípios defendidos pelo documento geral dessa conferência. Ao longo da década de 1990, a questão ambiental passa a ocupar ainda mais espaço na agenda internacional por conta do fim da bipolaridade e da centralidade do tema segurança internacional na política global da Guerra Fria. Direito ambiental Vamos ver o que diz o Professor-Doutor Marcelo Varella: “O Direito Internacional do Meio Ambiente é o conjunto de regras e princípios que regulam a proteção da natureza na esfera internacional”. Como podemos ver, o ramo do Direito que trata das questões ambientais enfrenta um grande obstáculo: os limites legais no âmbito global à medida que as consequências da degradação ambiental vão além das fronteiras, mas as regras e leis produzidas em ambientes de grande aplicabilidade são locais e regionais. Essa questão, portanto, gira em torno da soberania dos Estados, os efeitos da degradação ambiental em termos globais e os mecanismos debatidos e instituídos dentro das organizações internacionais. É importante lembrar que o arcabouço normativo do Direito Ambiental não se dá de forma linear justamente por pender entre as diversas concepções da questão ambiental e os diferentes níveis hierárquicos de aplicação das normas jurídicas. As normas podem ser produzidas através de negociações multilaterais ou bilaterais por diferentes fontes – como as negociações ocorridas dentro de organizações políticas internacionais ou negociações diretas entre Estados –, produzindo normas que se sobrepõem, e até mesmo entram em conflito, na regulação de assuntos idênticos. Como foi dito, as normas internacionais devem ser vistas, na verdade, como recomendações, até porque não haveria condições jurídicas para “julgar” ou aplicar sanções sobre os países que não orientassem suas políticas nesses sentidos. Um bom exemplo é o Protocolo de Kioto, posteriormente formalizado em torno do Tratado de Kioto. Neste importante documento, cujos objetivos giram em torno do combate ao aquecimento global, há premissas recomendatórias aos países signatários do acordo. Importantes países, no entanto, como os Estados Unidos, simplesmente ficaram de fora por não crer que a postura defendida nas negociações estejam de acordo com seus interesses. Perspectivas Teóricas Vamos, agora, relembrar as teorias e diferentes concepções sobre a questão ambiental e a relação sociológica com a biosfera. Inicialmente, é importante saber que há três importantes perspectivas sobre a função que o homem deve assumir frente ao meio ambiente. São elas: ● Preservacionistas: radicais defensores da intocabilidade da natureza como único modo de preservação ambiental. Exerceram fortíssima influência na criação de parques nacionais e reservas ambientais, onde as únicas atividades permitidas são recreativas e para fins ambientais. ● Desenvolvimentistas : adeptos de que o crescimento econômico deveria acontecer a qualquer custo, sem qualquer preocupaçãoestudos na área, grandes laboratórios economizam até 50% nos custos de pesquisa levando em conta conhecimentos tradicionais sobre uso de espécies por comunidades indígenas, por exemplo. Mas qual é o limite entre o conhecimento produzido através de pesquisas e na observação dos métodos e culturas tradicionais? Podemos entender como propriedade intelectual a garantia de recompensa dada ao inventor, criador ou responsável pelo desenvolvimento de técnicas ou modelos de produção em termos intelectuais, científicos, literários, artísticos, industrial e afins. O recebimento desses direitos de utilização pode ser temporário e é observado internacionalmente pela Organização Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI). De acordo com as regulações debatidas e aprovadas dentro da OMPI, o conhecimento tradicional oriundo da “sabedoria popular” ainda não goza de direitos por não serem reconhecidos como propriedade intelectual, portanto ficam à margem da legislação de direitos autorais. Esse tema, na verdade, tem sido visto pela organização como uma questão a ser debatida, mas carece de qualquer definição sobre a adequação do conhecimento tradicional ao regime de propriedade intelectual, com isso muitas empresas e instituições de pesquisa exploram livremente o conhecimento de comunidades sobre o uso de espécies para fins de medicinais sem que sejam enquadradas nas disposições da Convenção sobre Diversidade Biológica da ONU. Neste contexto, a aprovação do Acordo sobre os Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual relacionados ao Comércio – TRIPS – contribuiu para a expansão de um sistema de registro de patentes, no entanto, o direito à propriedade intelectual advém de conhecimento obtido sem anuência do “país provedor” do patrimônio genético. Outro ponto negativo, e visto por estudiosos como razão para o aumento da biopirataria, é a ausência dos Estados Unidos e Japão como países signatários da Convenção da Diversidade Biológica. O TRIPS é um acordo internacional, parte do tratado geral que criou a Organização Mundial do Comércio na década de 1990 e concluiu a chamada Rodada do Uruguai, do GATT. A OMC, aliás, mesmo sem prever regras específicas que regulem a proteção ao meio ambiente como prática justa nas relações comerciais internacionais, cada vez mais incorpora a questão ambiental dentro dos acordos entre nações e nos debates sobre regulamentação do comércio internacional. No âmbito nacional, desde o ano de 2003 se discute dentro do Comitê de Gestão do Patrimônio Genético – órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente – regras para beneficiar as comunidades cujos conhecimentos tradicionais estejam sendo usados comercialmente. Busca-se também estabelecer uma regra definitiva para a tipificação da biopirataria como crime, impondo punições. Efetivamente, a legislação nacional contra os crimes ambientais (Leis 5.197/67, l 9.605/98 e decreto 3.179/99) combate o ato de “matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécies da fauna silvestre nativa ou em rota migratória” e “sujeita o autor do crime à detenção, de 6 meses a 1 ano, e a aplicação de multas (...)”. Meio ambiente e comércio internacional Como já vimos, assim como a relação entre degradação ambiental e desenvolvimento capitalista, na década de 1970 percebem-se dois pontos comuns entre o comércio e o meio ambiente: os impactos do comércio no meio ambiente e, por outro lado, o impacto das políticas ambientais no comércio. Interessante observarmos que esse debate continua em voga nas relações internacionais contemporâneas, sobretudo no que tange à preocupação dos países na adoção de medidas legais que possam ter um efeito inibidor sobre a atividade industrial e, consequentemente, no comércio internacional. Polític� ambienta� globa� revisã� d� conteúd�: A questã� ambienta� n� mund� contemporâne� Nesta última aula faremos uma revisão de todos os principais itens estudados a partir da aula 6, abordando o que se compreende por “capitalismo verde”, a situação dos novos hábitos de consumo no Brasil e no mundo, as contínuas e novas ameaças ao meio ambiente e o cenário político da questão ambiental no Brasil após a redemocratização. Revisão de conteúdo Dando início a nossa revisão do conteúdo, vamos rever o que se entende por capitalismo verde e a relação existente entre as mudanças nos hábitos de consumo e as transformações no processo fabril no Brasil e no mundo. Para tanto, não podemos deixar de lado os problemas ambientais que tomam cada vez mais a agenda política internacional, acarretando e demandando posturas diferenciadas por parte dos governos, entre os quais o Brasil. O capitalismo “verde” Para entendermos aquilo que ficou conhecido como capitalismo ou produtos “verdes”, é importante relembrarmos a conscientização do tema ambiental que se dá a partir da década de 1970 e, em consequência, as mudanças nos comportamentos políticos, sociais e, inclusive, da mídia. Não se esqueça de que nessa década são divulgados importantes estudos sobre o impacto do desenvolvimento econômico e industrial no meio ambiente. Dessa forma, podemos dizer que os produtos “verdes” exibem características próprias de sustentabilidade na sua produção global, ou seja, desde a extração de matérias-primas para sua produção até o momento de descarte final da embalagem onde ele é armazenado para a venda ao consumidor. Um dos mais importantes e populares “produtos verdes” na atualidade é o papel reciclado, utilizado na sua forma final – para impressão de documentos e fabricação de cadernos – como para embalagens em geral. No Brasil, o Itaú se tornou o primeiro banco a utilizar papel reciclado em até 78% de suas impressões e produtos em papel, seguido pela Caixa Econômica Federal e outros. Embora, hoje, seja uma realidade ampla no Brasil, a concepção e lançamento de produtos ambientalmente sustentáveis teve início nos países desenvolvidos em meados da década de 1980, sobretudo nos Estados Unidos, Canadá e Europa Ocidental. Além das novas exigências de consumo, também é preciso considerar a legislação em muitos países que obrigava as fábricas a adotar novos métodos tecnológicos de menor impacto no meio ambiente. Nesse contexto, inclusive, também podemos citar a expansão de novas indústrias voltadas para a produção de tecnologias “limpas”, cujo impacto ambiental fosse menor do que as tecnologias tradicionais. Atualmente, a carne brasileira vendida na Europa segue rígidos padrões de fiscalização quanto a sua origem, podendo ser rastreada por códigos e certificados desde o momento em que o gado está no pasto até a chegada ao consumidor final. Tais exigências colocaram os produtores agropecuários brasileiros na esteira da modernização nas fazendas em vias de garantir qualidade aos seus produtos. Também podemos citar os exemplos da madeira - cuja exigência de certificação de origem é uma exigência para entrar no competitivo mercado europeu - e a soja e grãos em geral - também passíveis de certificação. Também no âmbito das mudanças tecnológicas, é preciso dar destaque às inovações nas áreas energéticas, onde o Brasil tem destaque mundial por conta do nosso programa de biocombustíveis e uso extensivo de energia hidrelétrica, que têm impacto substancialmente menor no meio ambiente e são renováveis. O ideal e o real: o consumo, o desenvolvimento e os problemas ambientais na atualidade Ao contrário do que possa parecer, o consumo consciente não é uma prioridade para a maioria das pessoas e, segundo dados mais otimistas, ainda é uma pequena parcela da sociedade no Brasil e no mundo que considera a responsabilidade ambiental como fator decisivo na hora da compra, sendo o preço o elemento fundamental no processo de escolha do consumidor. Dados indicam que hoje o consumo da humanidade é 25% superior à capacidade de renovação do meio ambiente, e essa razão deverá subir com o desenvolvimento econômico e o aumento do consumo nos países emergentes em vias de desenvolvimento. Se mantivermos esseritmo, em cinquenta anos precisaremos de outro planeta apenas para produzir tudo o que será consumido neste planeta. Dê uma olhada na aula 6 para relembrar as 23 dicas para ser um consumidor responsável. Teríamos, então, um “planeta produtor” (responsável por desenvolver toda espécie de produtos para consumo) e um “planeta-mercado” (onde seria consumido tudo o que é produzido no “outro planeta”). Em consequência disso, ainda há muitas empresas e produtos danosos ao meio ambiente, gerando detritos que fomentam problemas ambientais da maior gravidade, como a poluição em rios, mares e lagos, a poluição atmosférica (causadora, entre outros, do efeito estufa e das mudanças climáticas), a poluição do solo e, também, a poluição nuclear (vista por muitos críticos como a grande ameaça à vida na Terra, embora seja defendida como uma fonte energética segura e eficiente por parte de alguns governos). Neste contexto, os países desenvolvidos e fortemente industrializados – como os Estados Unidos e países europeus – são responsáveis pela alta emissão de carbono decorrente da queima de combustíveis nas atividades produtivas e no transporte. Já os países pobres e em desenvolvimento “contribuem” amplamente com a emissão de poluentes no uso dos solos, principalmente com queimadas. Fortemente combatida pelos governos e ONGs, as queimadas são uma realidade no campo e nas florestas brasileiras, onde fazendeiros desenvolveram um terrível hábito de queimar grandes áreas para o desflorestamento para fins de pastagem ou mesmo plantio. Como já foi dito, mesmo a população atual no mundo – 6,7 bilhões – já está em desequilíbrio com a capacidade natural de renovação da biosfera em cerca de 25%. Calcula-se, no entanto, que até o ano de 2050 chegaremos ao patamar de quase 8 bilhões de pessoas, sendo todo o excedente – comparado ao mundo atual – nos países em vias de desenvolvimento, causando um impacto inédito no aumento do consumo planetário. Como vimos, precisaríamos realmente de outro planeta apenas para produzir para o nosso planeta. ● Escassez de alimentos : Escassez de alimentos: Somada à limitada capacidade do planeta em produzir, ainda há o aumento de desertificação – que ameaça toda a biodiversidade no continente africano e na Austrália, por exemplo – e erosão dos solos com o aquecimento global e a poluição. A água potável, por sinal, já é um recurso cada vez menos disponível em diversas regiões do globo. ● Poluição decorrente do uso indiscriminado de combustíveis fósseis : Poluição decorrente do uso indiscriminado de combustíveis fósseis: Com o aumento do poder de compra das pessoas, há também um aumento na demanda por carros e transportes mais caros –como o avião –, gerando maior emissão de poluentes com a queima de combustíveis, elemento essencial para mover os transportes e a indústria propriamente dita. Em grandes cidades como Pequim, São Paulo e Detroit já se pode ver claramente a poluição no ar e os efeitos na saúde das pessoas. ● Rápida expansão de epidemias : Rápida expansão de epidemias: a globalização e a facilidade nos transportes internacionais fazem com que a humanidade esteja mais integrada e interagindo constantemente do que nunca. Com isso, doenças e vírus anteriormente isolados em regiões especificas, agora rapidamente tomam todos os continentes e criam pandemias globais. Gripe suína, gripe aviária, SARS e, mais recentemente (julho de 2011) o fortalecimento e expansão do “vírus do pepino” na Europa, são exemplos de “doenças globalizadas”. Em decorrência das transformações que rapidamente assolam as condições de sustentabilidade ambiental do planeta, a ameaça à biodiversidade sem dúvida tem um lugar de destaque no quesito desastres ambientais. O que se constata, no entanto, é que a partir da Revolução Industrial e expansão do capitalismo os processos de extinção começaram a ser provocados, ou acelerados, pela atividade predatória do homem e pelas mudanças nos habitats naturais com o crescimento das cidades e industrialização. Outro problema crescente quanto ao meio ambiente, sobretudo no Brasil, é a chamada biopirataria, entendida como a apropriação indébita de recursos naturais e conhecimentos tradicionais e sua comercialização para fins de obtenção de lucros e vantagens industriais. Podemos pensar em duas ações de biopirataria: ● O comércio ilegal de espécies da fauna e flora, onde há um destaque para a venda de animais e a morte destes em decorrência das péssimas condições de transporte. ● A apropriação de conhecimento e tradições de povos da floresta ou regiões onde são encontradas espécies de grande interesse para laboratórios e empresas farmacêuticas. A biopirataria, por motivos evidentes, é maior nos chamados países megabiodiversos, cerca de doze países que detêm nada menos que 70% de todas as espécies do planeta. Entre eles, o Brasil é destaque absoluto, nos colocando como “alvo” maior dos criminosos em buscas de nossas riquezas em áreas como a Amazônia, o Pantanal, a Mata Atlântica e a Caatinga. Nos últimos anos, o Ministério Público do Estado do Amazonas denunciou uma série de ONGs estrangeiras em atividades ilegais na região. A desconfiança dos órgãos públicos começou com a divulgação de que essas ONGs eram financiadas e mantidas por laboratórios farmacêuticos europeus e americanos, e as ONGs, no entanto, se diziam defensoras de questões socioculturais dos povos ribeirinhos. As investigações mostraram que muitas estavam por trás do envio ilegal de plantas que eram usadas nos laboratórios de pesquisa farmacêutica no exterior. Outro terrível efeito da biopirataria é o registro de patentes de produtos genuinamente nacionais por parte de empresas estrangeiras, obrigando a indústria nacional a pagar royalties para utilizar matérias-primas retiradas ilegalmente do território brasileiro. Mesmo estando cada vez mais presente na agenda da Organização Mundial do Comércio, o meio ambiente e a biopirataria ainda não contam com regras eficientes no âmbito global, sobretudo o conhecimento tradicional dos povos das florestas, o que impossibilita seu enquadramento nos acordos internacionais. Para saber mais sobre a evolução da questão ambiental no GATT e na OMC. O Brasil “na foto”: o tema ambiental na agenda nacional Como vimos, o pensamento conservacionista e preservacionista esteve presente na agenda nacional já no século XIX com a criação de áreas protegidas, como o Jardim Botânico no Rio de Janeiro. Mas é apenas nos idos da década de 1960 que de fato acontece a expansão da consciência popular quanto aos temas ambientais através de grupos contra hegemônicos que criticavam o status quo e as condições capitalistas de exploração e uso de recursos naturais. Com a redemocratização na década de 1980 e a ascensão dos problemas ambientais ao centro da agenda política mundial, movimentos ambientalistas e ONGs do setor se formam ou chegam ao Brasil, e a Amazônia passa a ocupar um lugar de destaque absoluto em termos de preservação de sua biodiversidade. Ao longo dos anos, percebe-se uma mudança radical no que tange à visão brasileira sobre o desenvolvimento e o meio ambiente. Podemos de modo didático, indicar dois períodos: ● Década de 1970 : Durante a década de 1970, quando acontece a Conferência de Estocolmo, o Brasil e os países subdesenvolvidos defendiam uma agenda de industrialização como prioridade absoluta e, portanto, não viam a questão ambiental como preocupação nas condições de desenvolvimento. Lembre-se do discurso de Costa Cavalcante, representante brasileiro em Estocolmo, dando boas-vindas a poluição dos países ricos. ● Década de 1980 : Ao longo da década de 1980 ocorre uma mudança nos padrões tecnológicos em termos mundiais, transformando em “vilões” elementos vistos como vantagens no Brasil, como grande oferta de recursos naturais a serem explorados como: farta mão-de-obra barata e não qualificada, fraquíssima legislação ambiental ou de proteção dos ecossistemas. Somado ao reconhecimento dosubdesenvolvimento como um elemento de impacto ambiental, o Brasil passa a adotar uma postura de sustentabilidade ambiental e responsabilidade diferenciada entre as nações, mesmo reconhecendo que os subdesenvolvidos têm o seu papel na poluição e na proteção do meio ambiente. Essa postura será ratificada em definitivo na Conferência Rio-92. Também podemos indicar diferenças no trato político da questão ambiental entre os governos brasileiros a partir da primeira eleição direta da redemocratização, no final da década de 1980. Importante compreender que as mudanças no âmbito nacional também ocorrem pelas próprias transformações no âmbito internacional, quando a ordem bipolar dá lugar a uma ordem multipolar, as organizações internacionais e ONGs atuam como grandes espaços de debate do tema ambiental, e as sociedades estão em pleno processo de conscientização sobre consumo e sustentabilidade. A sociedade brasileira, naturalmente, não poderia passar à margem dessas transformações globais, e a valorização da Amazônia como “pulmão do mundo” trouxe a ecologia, o desenvolvimento sustentável na região e o preservacionismo para os debates civis, da mídia e nas esferas políticas. Mas vamos lembrar as principais características dos governos brasileiros a partir da década de 1990: ● Governo Collor: com uma visão estratégica de dar visibilidade internacional ao Brasil e nos mostrar como um país compatível com as novas exigências de consumo e tecnologias do mundo desenvolvido, o governo Collor age diplomaticamente para que aconteça um grande encontro internacional de líderes em torno da questão ambiental, a Eco-92. Para garantir a legitimidade de suas ações, o governo adota uma agenda de preservação ambiental, interrompendo o programa nuclear brasileiro e todos os mecanismos de incentivo à atividade agropecuária na Amazônia, monitoramento florestal e zoneamento de áreas cujo desenvolvimento deveria respeitar limites ecológicos. Há também o reconhecimento do papel das nações do Conesul quanto à questão ambiental e a demarcação de reservas indígenas. As condições políticas nacionais que levaram o presidente ao impeachment, no entanto, acabaram por enfraquecer a agenda ambiental e redirecionar as preocupações e prioridades da sociedade brasileira. ● Governo Itamar Franco: com um curto mandato em substituição ao presidente Collor, o governo Itamar privilegia a questão econômica e a adoção de medidas com vistas a estabilizar a moeda nacional. Em termos ambientais é criado o Ministério do Meio Ambiente, que não apresenta grandes atuações no período por conta da sufocada agenda nacional. É criado o Sistema de Vigilância da Amazônia; importante projeto para monitoramento de atividades ilegais como o narcotráfico, a atividade de madeireiros ilegais, entre outros. Em termos gerais o ambientalismo enfraquece no Brasil, e não há ascensão de qualquer nome ou grupo político voltado para a questão, anulando a entrada do meio ambiente no processo político que elegeria Fernando Henrique Cardoso. ● Governo Fernando Henrique Cardoso: inicialmente volta suas ações majoritariamente para a construção de um ambiente de governabilidade no país, fortemente impactado pelo período da redemocratização e impeachment do presidente Collor. Já no segundo mandato, o Ministério do Meio Ambiente toma uma série de medidas no sentido de descentralizar a administração e gestão dos temas ambientais e ampliação da agenda de conservação de áreas. A adoção da Agenda 21, no entanto, não ganha o destaque que teria quando de sua criação na Eco-92, sendo mencionada apenas na formação da Comissão de Políticas de Desenvolvimento Sustentável e da Agenda 21 Nacional, dentro do Ministério do Meio Ambiente, cujo trabalho mais importante é a publicação de estudos que tiveram pouca ou nenhuma utilização no fomento de políticas públicas. Ascensão do tema ambiental nas áreas empresarias e acadêmicas nacionais. ● Governo Lula: a indicação do nome de Marina Silva para dirigir o Ministério do Meio Ambiente parecia indicar grandes mudanças na área. Ao longo do tempo, no entanto, questões econômicas e estratégias políticas regionais colocaram a ministra “contra a parede”, o que acarretou sua saída e o enfraquecimento da pasta no segundo mandato. Alguns debates importantes acontecem durante os oito anos de governo, entre eles a utilização de transgênicos, a transposição do Rio São Francisco – vista como elemento fundamental para o desenvolvimento da região Nordeste –, a retomada do programa nuclear e a instalação de hidrelétricas na Amazônia.