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Considerações sobre a federalização e a gestão compartilhada do território na Am

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Accueil Numéros 30 Considerações sobre a federalizaç...
Confins
Revue franco-brésilienne de géographie / Revista franco-brasilera de geografia
30 | 2017
Número 30
Considerações sobre a
federalização e a gestão
compartilhada do território na
Amazônia brasileira
Considérations sur la fédéralisation et la gestion partagée du territoire en Amazonie brésilienne
Considerations on federalization and territory co-management in the Brazilian Amazon
GILBERTO DE MIRANDA ROCHA ET SABRINA FORTES E SILVA
GONÇALVES
https://doi.org/10.4000/confins.11665
Résumés
Português Français English
A federalização do território tem sido, desde a década de 1970, um instrumento jurídico
e político utilizado, no âmbito da organização do Estado brasileiro, por diferentes
governos (militares e civis) para implementar a integração regional e garantir a
apropriação e o uso dos recursos naturais da região. Durante, pelo menos os últimos
quarenta anos, a intervenção federal constituiu-se como alicerce de sucessivos planos,
programas e projetos de desenvolvimento regional. As reformas políticas e
institucionais estabelecidas com a promulgação da Constituição Federal de 1988
redefiniram as relações intergovernamentais. A gestão compartilhada do território
emerge como proposição a partir de então, apontando para a valorização das esferas de
governo subnacionais (estados e municípios) em assuntos pertinentes à organização
territorial, à regulação do uso dos recursos naturais e a mecanismos de regulação social
e política.
La fédéralisation du territoire a été depuis les années 1970 un instrument juridique et
HOME CATALOGUE OF 646 JOURNALS OPENEDITION
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politique dans l'organisation de l'Etat brésilienne dans différents gouvernements
(militaires et civils) pour l'intégration régionale et pour l'appropriation et l'utilisation
des ressources naturelles dans la région Amazonie. Pour au moins les quarante
dernières années, l'intervention fédérale constituait le fondement de plans successifs,
des programmes et projets de développement régional. Les réformes politiques et
institutionnelles établies avec la promulgation de la Constitution fédérale de 1988,
redéfini les relations intergouvernementales. La gestion partagée du territoire apparaît
comme une proposition à partir de là, en montrant la valeur des niveaux sous -
nationaux de gouvernement (États et municipalités) dans les questions relatives à
l'organisation territoriale, la régulation de l'utilisation des ressources naturelles et les
mécanismes de régulation et de la politique sociale.
Territorial federation has since the 1970s been a legal and political instrument within
the framework of the Brazilian State organization in different governments (military
and civil) for regional integration and for the appropriation and use of the region's
natural resources. For at least the last forty years, federal intervention has been the
cornerstone of successive regional development plans, programs and projects. The
political and institutional reforms established with the promulgation of the 1988
Federal Constitution redefined intergovernmental relations. The shared management
of the territory emerges as a proposition from then on, pointing to the valorization of
the subnational spheres of government (states and municipalities) in subjects pertinent
to territorial organization, use of natural resources and mechanisms of social and
political regulation.
Entrées d’index
Index de mots-clés : fédéralisation, gestion partagée, territoire, Amazonie
brésilienne.
Index by keywords: federalization, shared management, territory, developement,
Brazilian Amazon.
Index géographique : Amazônia
Índice de palavras-chaves: federalização, gestão compartilhada, território,
Amazônia Brasileira
Texte intégral
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Crédits : Hervé Théry 2013
A presença do Governo Federal no controle e organização do território e na
implementação de políticas de desenvolvimento regional na Amazônia tem
sido uma questão que se renova e, muitas vezes, amplia-se em diferentes
momentos da vida política brasileira e com diferentes significados e
justificativas. No período entre 1964 e 1985, prevaleceu uma gestão estatal
nacional, expressão dos governos militares. A presença e ação federal (Éleres,
1
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2002) foi compreendida por alguns autores como a transformação da região
em um “projeto (trans)nacional” (Becker,1982; Burstyin, 2013).
O termo “federalização do território” presta-se a múltiplos significados.
Contemporaneamente, a federalização diz respeito, por um lado, ao processo
jurídico e político de controle e domínio do território pelo Governo Federal
(Rocha, 2014). Por outro lado, o termo também se associa às políticas de
planejamento das esferas de poder central, bem como à oferta de serviços
públicos, cujo alcance e abrangência espacial extrapolam a ação dos entes
subnacionais. O espectro semântico do que se compreende, hoje, por
federalização se expande na medida em que se observam novas noções que
aludem não só à valorização do governo central no plano da gestão e do
governo do território, mas também – e, ao mesmo tempo, - à potencialização
do governo do território como ator preponderante no processo de
ordenamento territorial e de desenvolvimento nacional e regional frente,
conforme Giraut (2005), às dinâmicas econômicas, sociais e políticas.
2
A federalização do território na Amazônia, sobreposta tanto à estrutura
política e administrativa oficial e quanto às estruturas sociais e culturais
herdadas do passado, surgiu no início da década de 1970 e tornou-se uma
estratégia e um importante instrumento facilitador do planejamento territorial
e do desenvolvimento regional, tendo em vista a necessidade de estimular a
ocupação produtiva da terra, o uso intensivo dos recursos naturais e a
expansão do povoamento regional, além de adotar medidas de política visando
à integração nacional em seus diversos aspectos e momentos.
3
O processo de redemocratização da sociedade brasileira na década de 1980 e
as reformas políticas e institucionais estabelecidas com a promulgação da
Constituição Federal de 1988 redefiniram as relações intergovernamentais. A
gestão compartilhada do território1 emerge como proposição a partir de então,
apontando para a valorização das esferas de governo subnacionais (estados e
municípios) em assuntos pertinentes à organização territorial, à regulação do
uso dos recursos naturais e a mecanismos de regulação social e política.
4
No entanto, advoga-se a favor de que esses novos processos de mudança e
de recomposição territorial e na gestão não retiram o protagonismo das
políticas territoriais emanadas do Governo Federal na região. Segundo Mello-
Théry e Théry (2014), a década compreendida entre os anos de 1985 a 1995
pode ser considerada perdida para o planejamento governamental. Porém, a
retomada dos princípios de planejamento e/ou de programação na ação
governamental ocorre no governo de Fernando Henrique Cardoso e se
estabelece nos sucessivos governos Luís Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.
Parece que ainda cabe ao Estado Nacional, conforme Moraes (2002), o papel
de condutor básico da articulação interinstitucional e da implementação de
diretrizes voltadas à gestão territorial, mormente no que concerne à
construção de políticas, de planos e de programas delineados na perspectiva
de ordenamento territorial.
5
No presente trabalho2, procuramos refletir sobre a federalização da
Amazônia, sua extensão geográfica e seus desdobramentos na perspectiva de
construção das políticas territoriais ao longo do período recente e, igualmente,
sobre a participação de estados e municípios na gestão territorial. Destaca-se o
papel inovador da gestão compartilhada do território como estratégia de
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Estado e Território: Apontamentos
Teóricos
desenvolvimento regional.Na atualidade, as formas de atuação do Estado e as funções que cabem à
instância política na organização e na gestão do território instituem-se como
objetos de estudo por diferentes autores, seja a partir da realidade onde se
processam as transformações (o que denota a existência de universos,
particularidades e graus de complexidade diversos) seja como Henri Lefébvre
(1974) e Alain Lipietz (1987), que não se atendo a estudos empíricos,
dedicaram esforços no sentido de apreender, teoricamente, a relação Estado e
espaço.
7
Segundo Barrios (1986), “as práticas políticas, numa situação histórica
concreta, podem ser entendidas como as ações sociais que têm por finalidade a
conquista ou a detenção do poder”. O espaço define-se como “um campo de
ação por excelência das forças políticas” (Barrios, 1986). No âmbito de dada
estrutura social, o político constitui um aspecto particular das demais práticas
sociais sempre que essas práticas envolvam relações de poder. Nesse caso, a
instância política será “aquela onde se reflete, se reproduz, se impõe ou se
transforma a unidade das formações sociais” (Muñoz, 1991). O Estado,
portanto, sendo o “responsável pela tomada de decisões ao nível de uma
formação social com base e domínio sobre um território, não está à margem
nem por cima das classes sociais, mas estas é que se inserem nele, dando-lhe
sempre um caráter classista” (Barrios, 1986).
8
Para Lipietz (1993), a relação Estado-espaço se estabelece mediante a
existência de contradições existentes no seio de determinada formação social,
sejam elas horizontais (entre cidade e campo, entre ramos, entre comunidades
locais) sejam verticais (entre exploradores e explorados, classes dominantes e
classes dominadas). Tais contradições expressam-se na articulação entre
“modos de produção” (ou seja, entre relações de produção) existentes em uma
dada formação social. Sob esse ângulo de compreensão, é possível postular que
essas contradições determinam as formas de atuação do Estado na
organização e no desdobramento do espaço capitalista.
9
Quanto à estrutura espacial, o Estado atua na:10
a) organização do território: variável de atuação estatal que pode ser
percebida como processo de intervenção técnica e econômica com vistas a
acelerar a (re)produção da espacialidade do modo capitalista;
11
b) gestão do território: essa variável de atuação estatal permite concebê-la
como processo político de intervenção sobre a evolução das estruturas sociais
regionais com vistas a assegurar condições sociais e políticas estáveis para a
reprodução da estrutura espacial capitalista.
12
Os processos de atuação/intervenção do Estado acima mencionados
caracterizam-se pelo propósito de organizar o território e de gerir o espaço
regional ou local. Esses processos assumem, geralmente, duas formas precisas:
por um lado, materializam-se como atividade de planejamento pela qual
13
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“A necessidade de unificar o mercado interno mobilizando mercados
periféricos para a expansão industrial nacional (integração econômica
pelo lado da demanda) e, por outro, a necessidade de unificar a base
de recursos do país mobilizando recursos naturais nas áreas periféricas
(integração econômica pelo lado da oferta)” (Stohr, 1972).
tendem a ser conduzidas por certa racionalidade; por outro lado, mostram-se
como intervenção política, econômica e ideológica sobre a evolução das
estruturas sociais regionais e locais, remodelando-as.
Detenhamo-nos, em primeiro lugar, às funções que a ação pública deve
procurar cumprir para o desdobramento do espaço capitalista, a organização
do território.
14
A existência das contradições de dada formação social exige a intervenção
do Estado. Em geral, elas podem ser agrupadas na configuração de dois
grandes problemas que se convertem em justificativas para explicar a natureza
das contradições: as disparidades regionais de desenvolvimento existentes
entre estruturas espaciais, diferenciadas no interior de determinado território
nacional; e a escassa integração econômico-territorial existente entre certas
regiões periféricas e os centros dinâmicos do sistema nacional. Com relação ao
primeiro tipo de justificativa, a existência de disparidades regionais, Mattos
(1993) acentua que estas fazem referência a um fenômeno que, de forma
sintética, poderia se caracterizar como desigualdades: a) na distribuição
territorial das forças produtivas; b) no desenvolvimento alcançado por ditas
forças produtivas em distintas partes do território; c) nos ritmos interregionais
de acumulação, crescimento, distribuição e consumo; e d) nas condições para
a satisfação das necessidades básicas da população A segunda justificativa
envolve a escassa integração de certas regiões da periferia ao centro dinâmico
do país. Stohr (1972:91) assinala que dois tipos de necessidades de integração
levaram a desencadear ações do Estado: por um lado,
15
Nesse sentido, a ação do Estado é percebida como condição necessária para
a preservação e a dinamização dos processos de acumulação e de crescimento
do sistema socioeconômico em seu conjunto, e dada “a existência de
obstáculos à transmissão dos impulsos de desenvolvimento através do espaço
e o fracasso no estabelecimento automático do equilíbrio na distribuição da
população, dos recursos e das atividades econômicas” (Stohr, 1972) o Estado
intervém ativamente, objetivando organizar o território através da política
territorial.
16
A política territorial aparece como um corretivo (Schmidt, 1983) que visa a
atenuar as insuficiências da lei do valor na alocação do espaço entre agentes
privados da reprodução social capitalista. Essa atenuação se verifica, por um
lado, através do planejamento e da produção de equipamentos coletivos. É o
que Lipietz (1987) denomina de mediação técnica, o sistema de transportes, de
telecomunicações, de energia que produzem deslocamentos ou transferências
(de mercadorias, de informações etc.). Por outro, a atenuação se verifica por
meio do remanejamento do espaço jurídico (de intervenção fundiária) com o
objetivo de afastar, em favor do desenvolvimento capitalista, “o poder sobre o
espaço” que a História legou aos herdeiros de uma idade pré-capitalista, a
mediação jurídica, o direito de propriedade e os constrangimentos
administrativos que regulam o poder de disposição das parcelas do espaço
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“Impor a lógica capitalista sobre um elemento externo, uma estrutura
herdada das relações de propriedade e apropriação derivadas de
formas não-capitalistas, especialmente quando essas relações
permitem aos não-capitalistas se beneficiarem das externalidades do
investimento público ou privado” (Soja,1983:42).
social (Lipietz, 1987).
No que concerne à provisão de infraestruturas, isto é, ao “capital fixo
coletivo” (na prática, construção de vias de transportes, telecomunicações,
hidrelétricas, dotação de equipamento urbano etc.), diversas razões justificam
por que o Estado deve se encarregar da produção desse tipo de capital ou por
que a “reprodução do sistema social se desenvolve fora do mercado” (Gold,
1976). Dentre essas razões, Lipietz (1987) assinala duas mediações: a técnico-
econômica e a jurídica.
18
A primeira mediação estatal diz respeito a questões de ordem técnico-
econômica. À medida que a produção do sistema de transportes modifica o
espaço econômico, sem que essa produção possa reduzir-se à modificação das
condições de um processo particular (em que o capital correspondente estaria
disponível para pagar o custo), mas em que se trata das condições gerais de
modificação e de “refinamento” da divisão espacial do trabalho, então, só o
Estado (ou, mais geralmente, um centro de decisão “não privado”) pode
assumir a produção do sistema de transportes. Convém destacar que a
produção do quadro espacial material conta como um “capital fixo coletivo”
particularmente vultoso que pode agravar a taxa média de lucro se o Estado
não seencarregar em parte, seja assegurando um “financiamento público
escalonado” (subvenções, nacionalização, orçamentarização), seja garantindo
um “corte rentabilizador” entre uma parte do equipamento justificável em um
grau ou noutro do financiamento público escalonado e outra parte deixada sob
a incumbência da produção privada.
19
A segunda mediação se dá através do sistema de leis e regulamentos que
possibilitam o manejo do espaço jurídico (zonas de organização diferenciada,
estabelecimentos públicos, leis de expropriação, concessões de terrenos etc.).
Essa mediação jurídica é complementar aos processos de intervenção técnico-
econômica, uma vez que se trata de mecanismos jurídico-institucionais que
atuam de forma seletiva no controle contínuo e mais exaustivo possível do
acesso ao espaço potencialmente criado, interferindo na luta pela ocupação e
pela implantação de recursos de exploração no espaço. Essa atuação do Estado
justifica-se, posto que, no processo de organização do território, ele procura
facilitar outras atividades e suas espacialidades próprias, as quais levam a
romper com o espaço herdado. É por isso que o remanejamento do espaço
jurídico torna-se fundamental. Do contrário, significa auferir ao antigo
proprietário um “direito indevido” de acesso ao novo espaço “capitalizável em
forma de mais-valia fundiária”. Desse modo, o Estado intervém para
20
A construção de um “bem coletivo” (uma grande obra de infraestrutura, por
exemplo) e as medidas jurídico-políticas e administrativas, do ponto de vista
do Estado, representariam meios não somente para servir de suporte para o
processo de produção e acumulação (as condições gerais de produção), mas
igualmente para moldar o espaço circundante, sendo, portanto, um
instrumento de reorganização territorial e de desenvolvimento regional.
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Federalização e Gestão
Compartilhada do Território
“Aparece antes de tudo como um organizador do espaço, um gestor do
território. Por isso a prática estatal manifesta-se fortemente em suas
histórias enquanto políticas territoriais, isto é, como ações de
modelagem e produção de espaços. A dotação de infraestruturas, a
normatização do uso do solo, a regulação da propriedade fundiária, a
distribuição das populações, tudo se enfeixa na atuação
governamental” (Moraes,1999).
O território, como observamos, diz respeito à projeção sobre um espaço
determinado de estruturas sociais específicas, que inclui a maneira de
repartição, bem como a gestão e o ordenamento desse espaço (Brunet et al.,
1992:436). O território foi fundamental na constituição do Estado-nação
moderno e é a expressão geográfica da existência estatal (Gottmann, 2012). O
Estado tende a monopolizar os procedimentos de sua organização, adquirindo
uma clara conotação política (Trinca Fighera, 1996). O Estado divide o espaço
e organiza a sua ação por meio de um conjunto de instituições e de
intervenções que configuram o planejamento e a política territorial. O governo
do território se estabelece tendo por base uma malha, uma tessitura político-
administrativa por meio da qual materializa a sua organização. Estado federal,
estados, províncias e departamentos, municípios, comunas e cantões são
exemplos da expressão da organização política e administrativa dos estados.
Essa malha assume características particulares, sendo variável conforme a
formação econômico-social, portanto de acordo com o país.
22
Três níveis de governo caracterizam a organização política e administrativa
do Brasil: União (Governo Federal), estados e municípios. O papel de cada
nível de governo, ao longo do tempo, tem assumido diversas feições em razão
do que dispõem as constituições federais. As relações intergovernamentais
também têm adquirido formas particulares em cada período da história
política brasileira.
23
A organização do território no Brasil tem sido, historicamente, uma marca
da atuação do Estado Nacional (Moraes, 2002). A presença federal no
comando e na coordenação das políticas públicas de desenvolvimento, de
organização do território, no controle dos recursos naturais, na regularização
das terras, caracteriza o que se compreende como federalização do território. O
Estado
24
Apesar das diferenças existentes entre as constituições brasileiras, a
presença do Governo Federal tem se mostrado perene no concernente ao
ordenamento do território. A centralização dos recursos e das decisões tem
caracterizado, em grande parte, a forma de atuação do estado brasileiro. A
despeito das diferentes feições assumidas pelo Estado ao longo do tempo,
consideraremos aqui dois períodos: o primeiro marcado pela intervenção
militar e o segundo período marcado pela redemocratização da sociedade
brasileira.
25
O advento do chamado Estado burocrático-autoritário, ocorrido em meados
da década de 1960, acarreta modificações profundas na divisão institucional
26
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de trabalho entre os níveis de governo do país. A Constituição de 1967, a
Emenda Constitucional de 1969 e a Reforma Tributária de 1966 promovem
uma concentração de competências e de recursos tributários até então inédita
na história político-institucional e fiscal brasileira.
Do ponto de vista do desenvolvimento, a Constituição de 1967 introduz a
inter relação entre desenvolvimento e segurança nacional, abrindo espaço para
a chamada militarização de algumas políticas, como a ambiental. A
Constituição não explicita que os estados têm competência legislativa supletiva
sobre matérias como: jazidas, minas e outros recursos minerais; floresta, caça
e pesca; águas e energia, acrescendo, neste último setor, as energias térmica e
nuclear. Ademais, são sobremaneira ampliadas as possibilidades de
intervenção federal nos estados, inclusive caso estes adotem medidas ou
planos econômico-financeiros que contrariem as diretrizes estabelecidas em
lei federal.
27
A Constituição de 1988, que pretendeu ser demarcadora do fim do regime
autoritário e da transição democrática dando início à democratização
propriamente dita, traz, entre outras bandeiras e pela primeira vez, a explícita
preocupação com o meio ambiente. Quanto às relações intergovernamentais,
os principais pontos de mudança estão em duas direções: nas competências
concorrentes e na reforma tributária. Aparece a proteção às paisagens naturais
notáveis; a proteção ao meio ambiente e o combate à poluição; a preservação
de florestas, fauna e flora; saneamento básico; o registro, o acompanhamento e
a fiscalização das concessões de direitos de pesquisa e exploração dos recursos
hídricos e minerais. Para tarefa de tamanha magnitude de integração, a
Constituição de 1988 prevê que deveria ser promulgada lei complementar
fixando as normas de cooperação entre a União, os Estados e os Municípios,
''tendo em vista o equilíbrio do desenvolvimento e do bem-estar em âmbito
nacional". A gestão do território aparece, visivelmente, como uma tarefa a ser
compartilhada entre os entes da federação.
28
Ademais, compete concorrentemente à União e ao estado legislar sobre:
florestas, caça, pesca, fauna, conservação da Natureza, defesa do solo e dos
recursos naturais, proteção do meio ambiente e controle da poluição, bem
como responsabilidade por dano ao meio ambiente, podendo o município
suplementar a legislação federal e a estadual, no que couber.
29
Assim, a Constituição Federal de 1988, reconhecidamente descentralizadora
em diversos aspectos, tratou o meio ambiente de forma paradoxal,
descentralizando mais o seu controle e pouco a decisão sobre o uso dos
recursos, na medida em que mantém propriedade da União sobre as terras
destinadas à preservação ambiental e os potenciais de energia hidráulica,
incompatível em parte, com a adoção da competência concorrente para a
proteção das paisagens naturais notáveis e a preservação da floresta, fauna e
flora. Outra competência concorrente agora determinada é a do
acompanhamento e da fiscalização das concessõesde direitos de pesquisa e
exploração dos recursos hídricos e minerais, cuja praticidade é questionável,
pois o território brasileiro deve dispor, hoje, de pouco espaço sem concessão
de pesquisa e exploração.
30
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Federalização e Gestão Estatal-
nacional do território na Amazônia:
da “Operação Amazônica” à
tederalização das terras Estaduais
A segunda metade da década de 1960 e o final da década de 1980
representam marcos do ponto de vista do reordenamento político e
institucional, com implicações para o controle territorial, assim como para as
formas de apropriação e de uso do espaço territorial dos estados na Amazônia
Legal. A intervenção estatal (Fig.1) no território dos estados da Amazônia,
como parte das estratégias geopolíticas e a consequente valorização das terras
amazônicas, foi decisiva no período 1968/1988.
31
Três elementos dessa intervenção merecem ser destacados. O primeiro foi a
federalização das terras dos estados da Região Norte com o objetivo de
controle territorial e de transferência do poder de decisão sobre o espaço
regional para o Governo Federal, para a União (Becker, 1982). O segundo foi a
subordinação dos projetos de colonização regional ao projeto mais amplo de
modernização institucional e econômica (Silva, 1967; Cardoso, Mueller, 1977).
E o terceiro foi o uso de redes técnicas modernas, com o objetivo de estimular
e viabilizar a mobilização de capitais e de imigrantes para as novas frentes de
povoamento (Machado, 1987).
32
Em 1966, através do Decreto-Lei nº 5.173, foi criada a Superintendência de
Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM). No mesmo ano, foi criado o sistema
de incentivos fiscais (conforme estabeleceu o Decreto-Lei nº 5.174/66) para a
atração de capitais nacionais e estrangeiros e a diversificação das atividades
produtivas regionais. Na esfera financeira, o Estado transformou o então
Banco de Crédito da Amazônia em Banco da Amazônia S.A. (de acordo com os
dispositivos do Decreto-Lei nº 5.122/66).
33
A “Operação Amazônica” estabelecida em 1968 constituiu a base do
processo das novas investidas do Governo Federal, pois redefiniu o arcabouço
institucional regional: foram criados órgãos federais de atuação regional como
a SUDAM, o Banco da Amazônia (BASA), a Companhia de Pesquisa de
Recursos Minerais (CPRM) e o Instituto Nacional de Colonização e reforma
Agrária (INCRA). Além da criação desses órgãos federais, algumas medidas
institucionais e administrativas de abrangência nacional e regional foram
adotadas, com repercussões sobre o controle do território e dos recursos
naturais, entre as quais, o DEL nº 1.164/1971. Por meio desse decreto, foram
federalizadas as terras pertencentes aos Estados da Amazônia Legal.
34
De uma perspectiva de colonização nos idos da década de 1970, que se
ampliou nas décadas de 1980, 1990 e 2000, por intermédio de uma política de
reforma agrária3, é visível, paralelamente, a projeção de um ordenamento
territorial na perspectiva da preservação e da conservação ambiental, na
delimitação das terras indígenas e quilombolas e na definição de outros
espaços estratégicos.
35
O mapa a seguir demonstra a abrangência espacial do processo de
federalização do território por meio do Decreto Lei nº 1.164, de 1971 e seus
36
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Fig. 1. Federalização do Território na Amazônia, segundo o DEL nº 1.164/71
Planos, Programas e projetos de
desenvolvimento regional: de 1970 a 1990
desdobramentos posteriormente por meio de tipologias de formas de
apropriação e seu vínculo à diversidade de planos, de programas e de projetos
de desenvolvimento regional.
MemfederalizadsenoAmazônisLegal
RodoviasSoderen
Limitesestacias
Registra-se, também, a partir de 1964, a emergência de uma nova
abordagem no tratamento da questão regional e do desenvolvimento nacional.
Os objetivos dos planos regionais, ainda que movidos por questões de natureza
social e política, passam a ser definidos, primordialmente, em termos de
desenvolvimento econômico regional e da necessidade de sua formulação
dentro de um programa nacional de desenvolvimento, bem como a
preocupação de, paralelamente, integrar os planos regionais com o nacional e
de integrar, entre si, os próprios planos regionais. Evolui para uma concepção
que visa à superação dos problemas que regem a escassa integração
econômico-territorial do país. Uma “(...) nova concepção da política regional,
qual seja a de, paralelamente ao crescimento econômico, promover a
integração das várias regiões do país, objetivando a criação de um mercado
diversificado” (PLANO DECENAL,1964:TOMO VII,P.15).
37
O componente regional dessa estratégia envolve a expansão da fronteira
econômica nacional, principalmente em relação ao planalto central, vales
úmidos do Nordeste e, posteriormente, a Amazônia, para tirar proveito da
dimensão continental do país, ampliando o mercado interno pela incorporação
de novas áreas e, simultaneamente, pela melhor utilização da mão de obra
abundante.
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Do Programa de Integração Nacional (PIN) à
Colonização Oficial
A problemática das disparidades regionais evolui para a defesa da
integração nacional, o que pressupõe novas relações inter-setoriais e um novo
padrão de gestão do território. “O planejamento espacial passa a se efetuar
para o país como um todo, e para lugares selecionados: integração do território
e os pólos de desenvolvimento” (Becker, 1983).
39
A ocupação/integração da Amazônia move interesses diferentes, mas não
necessariamente conflitantes. O “despovoamento” do território amazônico,
relativo por certo, colocava-o do ponto de vista político-militar numa condição
de grande vulnerabilidade a invasões externas. O controle militar ou não desse
imenso território, através da ocupação de seus “espaços vazios” constituía para
o Estado, uma questão de “Segurança Nacional”. Todavia, como bem acentua
Oliveira (1994) “isolada do “integrar para não integrar”, sem medir-se pelos
resultados pelos quais a acumulação de capital viabiliza o povoamento por
interesses, a geopolítica terminaria por estiolar-se em discussões de
academia”.
40
A partir de 1970, ocorre a coadunação de processos de integração tomando a
forma de articulação interregional e de interiorização do povoamento e de
modernização, cujas expressões são a diversificação das atividades produtivas
e a concentração populacional urbana. Por um lado, verifica-se a
especificidade do quadro regional: a existência de grande diversidade de
recursos naturais, minérios, florestas, grande potencial hidrelétrico e outros
tornava atraente a Amazônia para a implantação de recursos de exploração.
Por outro lado, o “fator amazônico” entendido como a ausência de
infraestruturas, urbanização, configura-se, nesse caso, como elementos que
impunham grandes incertezas aos investimentos. A formação de um mercado
de trabalho regional, face à escassez de massa crítica populacional,
apresentava-se como uma condição indispensável para a viabilização material
dos empreendimentos (Machado,1991).
41
Em 1970, pelo Decreto-Lei nº 1.106, foi criado o Programa de Integração
Nacional (PIN), com a finalidade de financiar a construção de infraestrutura
nas áreas de atuação da Sudam e da Superintendência de Desenvolvimento do
Nordeste (Sudene) e promover a rápida integração do Nordeste e da Amazônia
à economia e à estrutura espacial nacional.
42
A colonização ao longo da Transamazônica previa um sistema composto de
três pequenos núcleos urbanos hierarquicamente posicionados e com funções
diferentes e complementares: Rurópolis, Agrópolis e Agrovilas. No Projeto
Integrado de Colonização (PIC) Altamira, entretanto, baseado em sistema que
teria como ponto central de apoio uma cidade pré-existente, foram
construídas, apenas, as Agrópolis e Agrovilas.
43
A evolução dos esforços de colonização na Amazônia levou o INCRA a criar
diversas modalidadesde assentamento, numa tentativa de se adequar às
circunstâncias e, mais recentemente, de se adaptar ao ambiente florestal e às
crescentes preocupações a respeito do impacto ambiental dos seus projetos.
44
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A Política dos Pólos de Desenvolvimento
Além dos assentamentos agrícolas "clássicos" (categoria em que agrupamos os
antigos Projetos Integrados de Colonização (PIC), os Projetos de
Assentamento Dirigidos (PAD), os Projetos de Assentamento Rápido (PAR) e
os atuais Projetos de Assentamento (PA), existem, hoje, os assentamentos
agroextrativistas (Projetos de Assentamento Extrativista ou Agroextrativista-
PAE), os assentamentos agroflorestais (Pólos Agroflorestais-PE ou Projetos de
Desenvolvimento Sustentável- PDS), e também formas descentralizadas
(antigamente, Projetos de Assentamento Conjunto-PAC, em parceria com
firmas privadas e, atualmente, Projetos de Assentamento Casulo-PC, em
parceria com as prefeituras).
De modo geral, os projetos clássicos de assentamento continuam sendo os
mais numerosos, representando 72% do total dos assentamentos na região
amazônica (Fig. 2). Vale reconhecer, porém, que os últimos anos mostram
uma mudança neste padrão, uma vez que, desde 2003, os Projetos de
Assentamento (PA) só respondem por 52% das novas iniciativas
implementadas. Durante esse mesmo período, a modalidade Projeto
Agroextrativista (PAE) apresentou um expressivo crescimento, nas
Superintendências Regionais (SR) do Pará e do Amazonas, onde, de fato, há
grande presença de população tradicional (Le Tourneau, 2009). Outra
modalidade em visível crescimento são os Projetos de Desenvolvimento
Sustentável (PDS), embora trabalhos recentes possam colocar em dúvida a sua
real sustentabilidade ou sua capacidade de serem diferentes dos PA
tradicionais. Finalmente, ressalta-se a importância numérica dos Pólos
Agroflorestais, que respondem por 13% do total dos assentamentos na
Amazônia Legal.
45
A crise energética mundial com o primeiro choque do petróleo em 1973,
impõe mudanças importantes nas políticas nacionais de desenvolvimento. O II
Plano Nacional de Desenvolvimento (II P.N.D.1975/1979) visava implantar a
terceira fase do processo de substituição de importações, optando claramente
por um novo padrão de desenvolvimento econômico baseado na
industrialização.
46
Nesse contexto, a estratégia governamental, pautada na necessidade de
atendimento do mercado interno, nas necessidades de aumento das
exportações e do estímulo à agroindústria, deverá atuar: na política de uso da
terra para fins agropecuários; no esforço de modernizar e de dotar de bases
empresariais o setor agropecuário, sobretudo no Centro-Sul; na execução da
reforma agrária e de programas de distribuição de terras, de ocupação de
novas áreas (Centro-Oeste, Amazônia, vales úmidos do Nordeste).
47
A partir de 1974, foi criado, assim, Programa de Pólos Agropecuários e Agro-
minerais da Amazônia, o Polamazônia. Para a Amazônia Legal, foram criados
quinze pólos de desenvolvimento, concebidos conforme as teorias de pólos de
desenvolvimento do Economista francês F. Perroux (1967)4. Este programa foi
concebido no contexto do II Plano de Desenvolvimento da Amazônia (II PDA)
e incluso no II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PDA-de 1975 a 1979).
48
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Fig. 2. Planos, Programas e Projetos na Amazônia,1970-1990.
Planos, Programas e Projetos de
Desenvolvimento Regional: de 1990 a 2014.
A ideia central era a implementação de uma política de integração
amazônica ao dinamismo econômico do Centro-Sul do país, pelo lado da oferta
(Cardoso e Muller, 1977). Isto é, a região assumiria um papel na divisão
nacional e internacional do trabalho como fornecedora de matérias-primas,
recursos naturais, principalmente madeira, minério e energia, além de
produtos agropecuários. A nova política de desenvolvimento regional
redirecionaria a ação pública no concernente à provisão de infraestruturas de
transporte (estradas e ferrovias), de energia (usinas hidrelétricas) e
infraestrutura urbana (SUDAM,1976) a espaços previamente selecionados em
razão da “vocação” identificada e conforme as necessidades e as prioridades do
desenvolvimento nacional.
49
É nesse período que se acirra a política de controle mais efetivo do território.
Para tanto, são criados novos órgãos fundiários: o Grupo Executivo do Baixo
Amazonas (GEBAM) e o Grupo Executivo de Terras do Araguaia-Tocantins
(GETAT). Ambos representariam uma espécie de intervenção branca no
INCRA. Para autores como José de Souza Martins (1984), o aprofundamento
de um processo de militarização da questão agrária no Brasil e em especial na
Amazônia (Martins, 1985).
50
No mapa a seguir (Fig.2) observa-se o conjunto dos principais Planos,
Programas e Projetos criados no período compreendido entre 1970 e 1990
para a Amazônia Legal.
51
Os programas Brasil em Ação (PPA 1996-1999) e Avança Brasil (PPA 2000-52
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2003), realizados, respectivamente, durante o primeiro e o segundo mandato
de Fernando Henrique Cardoso, faziam parte de uma estratégia de integração
da Amazônia ao espaço produtivo brasileiro e de consolidação da política de
integração regional da América do Sul-americana.
Os principais projetos do programa Brasil em Ação visavam à recuperação
das estradas BR 364 (Brasília-Acre) e BR 163 (Cuiabá-Santarém); o
asfaltamento da BR 174 (Manaus-Boa Vista); a implementação das hidrovias
do Araguaia-Tocantins e do Madeira; o gasoduto de Urucu e a linha de energia
conectando Tucuruí a Altamira e a Itaituba.
53
O programa Avança Brasil, já no segundo mandato, concentrava os
investimentos previstos para a Amazônia Legal em quatro corredores
multimodais de transportes: corredor Araguaia–Tocantins, corredor Sudoeste,
corredor Oeste-Norte e corredor Arco Norte. A estratégia territorial global
para a implantação destas ações visava à incorporação efetiva dos territórios
de sua parte mais ocidental ao Sul–Sudeste do país, tomando como eixos
principais as hidrovias e duas rodovias norte-sul, Cuiabá–Santarém e Porto
Velho–Manaus–Boa Vista–Venezuela.
54
Frente a esses grandes projetos, a reação tinha sido fortíssima, porque esses
eixos novos deviam atravessar regiões ainda não abertas à ocupação e, até
então, de baixo impacto ambiental.
55
Entretanto, no mesmo governo de Fernando Henrique Cardoso foi lançado,
em 1998, um programa, denominado de Eixos Nacionais de Integração e
Desenvolvimento (ENID), que remonta a antiga concepção de
desenvolvimento dos governos militares. Segundo o documento Brasil em
Ação (Brasil, 1996), a concepção de desenvolvimento mudou da noção de pólos
de desenvolvimento para a de eixos de desenvolvimento que, à diferença dos
seus predecessores, tendem a gerar efeitos positivos para uma área muito mais
ampla na medida em que infraestrutura e desenvolvimento econômico foram
concebidos de forma integrada.
56
Estes eixos de desenvolvimento, também conhecidos como corredores de
integração, têm como principal objetivo não só a integração das diferentes
economias regionais, como também a sua melhor articulação com o mercado
internacional. O território nacional foi dividido em nove eixos, a saber: Arco-
Norte; Madeira-Amazonas; Araguaia-Tocantins; Oeste; Sudoeste;
Transnordestino; São Francisco; Rede Sudeste; e Sul.
57
No tocante à região amazônica, os Eixos, na verdade, repetem a lógica do
modelo de desenvolvimento passado, na medida em que grande parte, por um
lado, do seu sucesso está baseado na infraestrutura viária, ou seja, a
competitividade nos mercados nacional e internacional depende
fundamentalmente da capacidade de transportar consideráveis volumes de
mercadoria a longas distâncias com velocidade e eficiência. Por outro lado, a
expansão da infraestrutura viária na Amazônia ampliariam os impactos
socioambientais.
58
É patente o viés exportador dos Eixos, posto queo aumento das exportações
exercem um papel decisivo na obtenção dos recursos necessários ao
financiamento do elevado deficit em conta corrente do Brasil. De fato, foi
apontado que o estímulo às exportações e a utilização adequada das
potencialidades regionais são de extrema importância, mas a prioridade dos
59
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Fig. 3. Planos, Programas e Projetos na Amazônia,1990-2014.
Eixos deveria estar centrada na integração territorial (a maioria dos nove
Eixos não apresenta integração e estão voltados para a ligação das regiões
produtoras com os portos) de modo a aproveitar totalmente as dimensões,
geográfica, econômica e populacional, do país (Diniz, 2002).
Esta falta de integração seria fatal para a Amazônia, uma vez que ela
continuaria “isolada” do resto do país. Outro aspecto relevante é o fato de que
a maioria dos projetos deve ser empreendida pela iniciativa privada, sendo a
escolha destes feita em função da sua taxa interna de retorno (Diniz, 2002).
Neste sentido, há uma tendência ao agravamento da concentração de renda no
país que, historicamente, apresenta sérios problemas de disparidade regional.
Uma confirmação dessa tendência continuaria a preservar a região amazônica
como uma das mais pobres do país.
60
O primeiro Plano de Aceleração do Crescimento, PAC-1, foi lançado
oficialmente em 22 de janeiro de 2007, no início do primeiro ano do segundo
mandato do Presidente Luís Inácio Lula da Silva.
61
Com duração prevista de quatro anos (2007-2010), o PAC-1 tinha como
objetivo estimular o investimento privado em obras de infraestrutura, o que se
argumentou na época, seria estimulado pelo aporte financeiro a partir do
Estado, via orçamento público das seguintes fontes: Plano Plurianual, BNDES,
outros bancos públicos, empresas estatais e os fundos de pensão de
trabalhadores destas empresas.
62
No PAC-1, as ações priorizadas foram três “eixos” de investimento: a)Eixo
Logístico, onde estão incluídas as obras de transporte terrestre e fluvial; b)
Eixo Energia, onde estão incluídas as obras dos setores elétrico e petrolífero; e
c) Eixo Infraestrutura Social, onde se incluem as obras de construção e
ampliação de metrôs, habitação e saneamento, acesso à água e o programa Luz
Para Todos.
63
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O papel coadjuvante dos Estados e
dos Municípios na gestão do
território na Amazônia
Com duração de quatro anos (2011-2014), o PAC-2 é apresentado como
tendo por objetivos “consolidar” e “atualizar” a carteira de projetos da
primeira fase. Além de incorporar as obras iniciadas no período anterior e não
concluídas, ou que por diferentes motivos não tiveram sua implementação
iniciada, mais ações de infraestrutura social e urbana são incorporadas ao
novo PAC. Planejou-se por meio dele investir na urbanização de favelas, no
saneamento ambiental e nos chamados “equipamentos públicos”, como
creches, unidades básicas de saúde, espaços para esporte, cultura e lazer etc.
Dessa forma, no PAC-2, novos eixos foram criados, totalizando seis com as
seguintes especificações: Transportes, Energia, Urbanização e Saneamento,
Saúde, Habitação e Cultura, além do Programa Minha Casa, Minha Vida e
Água e Luz para Todos: Luz para Todos, Água em Áreas Urbanas, Recursos
Hídricos.
64
Em 2011, segundo dados disponibilizados pelo BNDS, foram financiados R$
5,2 bilhões para construção de hidrelétricas (UHE). Os principais destaques do
segmento de geração hídrica foram dois, ambos localizados na Amazônia
brasileira: a aprovação do empréstimo-ponte para a Usina Hidrelétrica de
Teles Pires, no estado de Mato Grosso – na bacia do rio Tapajós –, no valor de
R$ 450 milhões. A contratação e o desembolso do empréstimo ponte para a
Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no estado do Pará – na bacia do rio Xingu
–, no valor de R$ 1,1 bilhão.
65
A Amazônia, nas últimas décadas, desde a promulgação da Constituição
Federal de 1988, parece vivenciar um processo de retomada do papel do
Estado como planejador, fomentador e articulador das políticas de
desenvolvimento (Becker, 2001), a partir da execução dos planos, dos
programas e dos projetos de desenvolvimento regional, antes explicitado,
como também estimulador de ações à escala sub-regional e local.
66
É perceptível, nesse sentido, nas instituições governamentais brasileiras, o
desenvolvimento de um discurso favorável à abordagem territorial do
desenvolvimento e das políticas públicas associadas ao nível sub-regional e
local. A sua adoção como elemento integrador das políticas públicas tem
suscitado o aparecimento de diferenciadas configurações espaciais e gerado
implicações, na perspectiva da relação local-global, de que estariam
determinando mudanças e reconfigurações na gestão dos territórios.
67
Na Amazônia, esse processo tem se revestido de importância cabal, quando
refletindo sobre as dinâmicas territoriais do processo de desenvolvimento
regional nas últimas décadas, como fora visto anteriormente. Por um lado,
assiste-se à emergência dos novos territórios da ação pública, em muito
estimulado pelos processos de descentralização e, por outro lado, assiste-se à
eclosão de estímulos à participação social, apontando para processos de
aprendizagem territorial (Rocha et al,, 2016) do processo de desenvolvimento.
68
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Essa inovação e aprendizagem nos mecanismos de gestão territorial na
Amazônia podem ser percebidos no fortalecimento dos estados e dos
municípios no que concerne à elaboração de planos diretores, de planos de
desenvolvimento estadual e local. E assumindo papéis de atores no processo
de desenvolvimento regional e local. No plano estadual, os estados elaboraram
os zoneamentos ecológicos–econômicos, redefiniram a divisão regional de
seus territórios, criaram novas unidades de conservação ambiental e,
definiram mecanismos de participação social.
69
Paralelamente, evidencia-se a emergência de outros territórios da ação
pública: unidades de conservação de uso sustentável, onde são elaborados
planos de manejo, mobilizam atores locais, comunidades que passam a
influenciar na gestão dos recursos naturais como na definição de políticas
públicas sociais e de uso e conservação dos recursos locais.
70
Na construção desse processo de democratização da esfera pública e
valorização da escala local, aparece como fundamental a participação ativa dos
cidadãos, uma cooperação social intensa e a integração das políticas públicas.
Para Guimarães Neto e Araújo (1998, p. 56), os espaços locais ganham
crescente relevância. As cidades, os municípios e os territórios emergentes da
ação pública passam a ser concebidas como atores políticos relevantes, capazes
de assumir a centralidade das ações de intervenções nas diferentes esferas da
vida social e de atuar como protagonistas do processo de desenvolvimento.
71
A presença desses novos agentes na esfera local que, aos poucos, emergiram,
passam também a ser uma marca da cena política da Amazônia
contemporânea. Essa revitalização do espaço local, permeado por experiências
de gestão democrática, possibilitou que novos atores passassem a ter
condições de competir e a testar modelos alternativos de desenvolvimento em
situações que, dificilmente, existiriam nos níveis centralizados da política
nacional expressos pelo excessivo processo de federalização do território na
região.
72
Este texto privilegiou a relação entre federalização do território, base e
sustentáculo das políticas de desenvolvimento regional e a gestão
compartilhada na Amazônia Legal, principalmente, no período entre 1970 e
2010, período correspondente ao planejamento territorial sob os auspícios do
regime autoritário, a era dos PND e o período de crise e de reestruturação do
Estado brasileiro e, por fim, o período de retomada do planejamento estatal no
contexto da abertura econômica e da globalização. A análise permitiu perceber
que
73
1.a dinâmica da federalização do território está diretamente relacionada à
necessidade de apropriação e ao uso dos recursos naturais regionais e,
portanto, a facilitação da inserção privada e, ao mesmo tempo, aos interesses
geopolíticos de ocupação efetiva do território. O controle externo do território
suprimiu as estruturas político–administrativas sub-regionais,
particularmente durante o período do governo autoritário;
74
2. em toda a Amazônia Legal, esse processo se evidenciou, ainda que com75
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Bibliographie
intensidades e abrangências espaciais diferenciadas. Os estados do Pará,
Rondônia e Mato Grosso tiveram seus territórios e sociedades afetadas pelo
conjunto das ações públicas ligadas à exploração mineral, madeireira, hídrica e
a partir da introdução de atividades pecuárias e do agronegócio;
3. a magnitude em que se deram as transformações regionais na estrutura
espacial, em muito determinada pelas ações multiescalares, demonstram um
grau de articulação política entre os agentes políticos e econômicos nacionais e
globais;
76
4. na Amazônia Legal, a mudança no padrão de povoamento do território,
no aporte demográfico com elevada concentração populacional urbana, assim
como a multiplicação de núcleos urbanos regionais são fatores que se associam
a alterações espaciais promovidas pela intensidade dos planos, dos programas
e dos projetos de desenvolvimento regional;
77
5. No período entre 1988 a 2010, observa-se mudança nas relações
intergovernamentais e mudança no padrão de estatal nacional das políticas
territoriais. A gestão compartilhada do território evidencia a ampliação da
participação dos estados e dos municípios como atores coadjuvantes. Os
estados passaram a organizar política e institucionalmente e passam a atuar
em políticas de uso dos recursos naturais e ordenamento do território. Os
municípios assumem papel importante na execução de ações públicas, no
controle e na regulação social.
78
Esses elementos são, portanto, fundamentais para que se compreendam as
mutações na gestão do território na Amazônia nos últimos quarenta anos,
assim como o papel importante da federalização do território para o seu
controle e domínio pela União. O papel de protagonista das políticas se
associam a essa condição de controle central das decisões e dos recursos.
Porém, também demonstram o quanto passou a serem fundamentais a
atuação dos entes federados – estados e municípios, associados ou não às
políticas federais. Aspectos importantes da realidade e da dinâmica social geral
nas últimas décadas.
79
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Notes
1 Entende-se por gestão compartilhada do território“à reconfiguração das formas de
exercício do poder político nos diversos recortes e escalas territoriais” (Levy, J. 1991).
Conforme Rodrigues e Moscarelli (2015) Os processos de descentralização promoveram
rearranjos territoriais nos cinco continentes, pautados pela redefinição de papéis das
escalas de gestão territorial, tanto em Estados Unitários quanto em Estados federais.
No Brasil e em diversos países do mundo, assistimos à recomposição dos espaços de
gestão, à emergência dos chamados “territórios de projeto” e de formas de cooperação
territorial interescalares J. Rodrigues, F. Moscarelli. Os desafios do pacto federativo e
da gestão territorial compartilhada na condução das políticas públicas brasileiras.
GeoTextos, vol. 11, n. 1, julho 2015
2 Este artigo é parte do Projeto de Pesquisa “A Municipalização do Território na
Amazônia: história, tendências e perspectivas“ (CNPq, 2014/2016), desenvolvido
parcialmente no Centre de Recherche sur l’ action local da Université Paris 13
Sorbonne-Cité, durante o Estágio Sênior de Pós–Doutoradofinanciado pela
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES, 2014/2015).
3 A Amazônia Legal constitui a principal região do país no que se refere aos esforços de
reforma agrária, tanto em termos do número de famílias assentadas, como em termos
de área ocupada. Reforma agrária no Brasil tem sido sinônimo de povoamento,
colonização e abertura de novas áreas na Amazônia Legal. Le Tourneau, F-M.E
Bursztyn, M. Assentamentos Rurais na Amazônia: contradições entre a política agrária
e a política ambiental. Ambiente e soc. vol.13 nº.1 Campinas Jan./Jun, 2010.
4 François Perroux elaborou sua teoria dos pólos de crescimento em 1955, quando
estudou a concentração industrial na França, em torno de Paris, e na Alemanha, ao
longo do Vale do Ruhr (PERROUX, 1977).
Table des illustrations
Titre Fig. 1. Federalização do Território na Amazônia, segundo o DEL nº
1.164/71
URL http://journals.openedition.org/confins/docannexe/image/11665/img-
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NUMA/UPA, 2016
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Pour citer cet article
Référence électronique
Gilberto de Miranda Rocha et Sabrina Fortes e Silva Gonçalves, « Considerações
sobre a federalização e a gestão compartilhada do território na Amazônia
brasileira », Confins [En ligne], 30 | 2017, mis en ligne le 13 février 2017, consulté le 13
octobre 2024. URL : http://journals.openedition.org/confins/11665 ; DOI :
https://doi.org/10.4000/confins.11665
Cet article est cité par
Rebelo Porto, Jadson Luís. Superti, Eliane. (2022) Peripheral or
strategic? The border condition of the amazon frontier in Brazil.
Estudios Fronterizos, 23. DOI: 10.21670/ref.2219103
Auteurs
Gilberto de Miranda Rocha
Professor Titular da Universidade Federal do Pará, gilrocha@ufpa.br
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Paru dans Confins, 22 | 2014
Sabrina Fortes e Silva Gonçalves
Professora da Secretaria de Educação e Cultura/Governo do Estado do Pará–SEDUC,
sabrifortesg@gmail.com.
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