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LIVRO 3 VIVÊNCIAS E PRÁTICAS NA EDUCAÇÃO INFANTIL E DIVERSIDADE CULTURAL A PARTIR DA CONTAÇÃO E LEITURA DE HISTÓRIAS LIVRO 3 Sumário 1. A INTENCIONALIDADE PEDAGÓGICA E O QUE LEVAR EM CONSIDERAÇÃO NO PLANEJAMENTO DA EDUCAÇÃO INFANTIL 1.1 FUNDAMENTOS PARA A INTERAÇÃO E BRINCADEIRA NA EDUCAÇÃO INFANTIL 1.2 A INTENCIONALIDADE PEDAGÓGICA 2. ORGANIZANDO O TEMPO E OS ESPAÇOS PARA AMPLIAR POSSIBILIDADES 2.1 A ORGANIZAÇÃO DOS TEMPOS NA EDUCAÇÃO INFANTIL 2.2 MODALIDADES DE ORGANIZAÇÃO DOS TEMPOS NA EDUCAÇÃO INFANTIL 3. O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM NA EDUCAÇÃO INFANTIL 3.1 A LINGUAGEM ORAL NA EDUCAÇÃO INFANTIL 3.2 A IMPORTÂNCIA DA LEITURA E CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS LITERÁRIAS PARA O DESENVOLVIMENTO INFANTIL REFERÊNCIAS Acho que o quintal que a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há de ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Manoel de Barros Neste livro, abordaremos vivências e práticas na Educação Infantil e diversidade cultural por meio da contação e leitura de histórias. Exploraremos como os direitos de aprendizagem e os campos de experiência podem ser incorporados nas experiências cotidianas de professores, bebês e crianças. Isso será alcançado através de um planejamento intencional do professor, que garantirá os direitos das crianças por meio de práticas pedagógicas eficazes. Desse modo, ao final deste livro, espera-se que o professor compreenda o seu papel nas ações contínuas de refletir, ampliar e transformar as concepções que fundamentam a sua prática pedagógica junto aos bebês e às crianças, reconhecendo as especificidades da infância e da Educação Infantil. 1. A INTENCIONALIDADE PEDAGÓGICA E O QUE LEVAR EM CONSIDERAÇÃO NO PLANEJAMENTO DA EDUCAÇÃO INFANTIL No decorrer da primeira infância, ocorrem mudanças que tornam essa etapa muito importante para o desenvolvimento de todo ser humano e, portanto, demanda que os profissionais de educação infantil tenham uma prática pedagógica comprometida com a garantia dos direitos de aprendizagem dos bebês e das crianças. Devem-se priorizar processos educativos que potencializem e desenvolvam as capacidades das crianças, contribuindo significativamente para o desenvolvimento dos aspectos físico, afetivo, psicológico, intelectual e social, por meio de um planejamento que atenda a esse nível de ensino, com objetivos educacionais bem estruturados e delineados. Vimos nos tópicos anteriores que, no Brasil, já se evidenciaram muitas tentativas e acertos de diversas políticas públicas, iniciativas de diversos grupos sociais, visando ao atendimento e à educação da criança de 0 a 5 anos. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) foi um importante marco e é um documento normativo que visa à promoção da qualidade da educação brasileira. Portanto, como agentes da garantia dos direitos de aprender, temos que continuar trilhando um caminho na busca da promoção humana para um maior número de crianças, em que todas tenham direito à educação de qualidade. O professor desempenha um papel crucial no desenvolvimento da autonomia das crianças e na sua própria autonomia como profissional que conhece as abordagens educacionais sobre a infância, sempre proporcionando as melhores oportunidades em ambientes ricos e propícios a descobertas e explorações. IMPORTANTE DIALOGANDO COM O DCRC Os direitos expressos na BNCC (BRASIL, 2017) devem ser o objeto de reflexão de todos os que fazem o cotidiano da educação infantil. Isto é, além da instituição de educação infantil, as interações e a brincadeira devem ser concebidas como os eixos estruturantes nas práticas pedagógicas que promovem os seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento da criança: conviver, brincar, participar, explorar, expressar-se e conhecer-se (BRASIL, 2017). PARA REFLETIR Vimos, em tópicos anteriores, que a criança é o centro do processo de aprendizagem. À vista disso, qual instrumento organiza, registra e permeia todas as ações que fazemos com as crianças e marca a intencionalidade do processo educativo? Sim, o planejamento marca a intencionalidade do processo educativo, segundo Luciana Ostetto (2012). As crianças, como centro do planejamento curricular, trazem consigo experiências e conhecimentos que refletem seu meio social, e estes devem ser considerados. Devemos partir desses conhecimentos, respeitando-os, mas com o compromisso de ampliar as oportunidades para o desenvolvimento de novos interesses e aprendizagens. Sendo assim, a intencionalidade está presente na elaboração do planejamento: nas escolhas que fazemos e nos caminhos que traçamos. Um trabalho de qualidade na Educação Infantil deve reconhecer as curiosidades, os interesses de aprendizagem e as necessidades das crianças, por meio de nossa escuta e de nosso olhar atento e sensível. A partir dessa observação no cotidiano escolar, atribuímos sentido e significado à nossa prática pedagógica. PARA SABER MAIS Perfil do Educador Infantil A professora Maria Malta, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas e professora da PUC de São Paulo, aprofunda um assunto fundamental para a educação infantil - a formação e a identidade dos educadores de crianças pequenas. VÍDEO: https://youtu.be/o4WcvH-2IbI A elaboração do planejamento é um caminho a ser seguido com o objetivo de promover experiências educativas significativas. Nesse processo, serão descritas as experiências a serem promovidas, o que as crianças podem aprender, o tempo e a organização dos ambientes. Essas experiências educativas serão organizadas considerando os direitos de aprendizagem, os campos de experiências, os objetivos de aprendizagem, a organização dos tempos permanentes e diversificados, bem como a organização dos espaços e dos materiais disponibilizados. IMPORTANTE É importante considerar que outros objetivos podem ser definidos pelas instituições de Educação Infantil, resguardados os cuidados com a coerência destes aos campos de experiências e aos direitos de conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se de meninos e meninas. Nesse arranjo curricular, a intencionalidade pedagógica atribui sentidos a essa organização. Necessitamos nos distanciar de uma visão que prioriza os conhecimentos prontos. Construímos oportunidades a partir da observação dos interesses e necessidades das crianças. Promovemos vivências, possibilitamos práticas abertas às iniciativas das crianças. As experiências estão relacionadas aos acontecimentos do cotidiano, aos interesses e às necessidades de educação e cuidado dos bebês e das crianças, e devem ser garantidas por meio de práticas pedagógicas que tenham as interações e a brincadeira como eixos norteadores. O adulto, na relação com a criança, promove qualidade nas interações e é fundamental para o desenvolvimento integral das crianças pequenas. Ao favorecer, mediar e enriquecer as interações das crianças com outras crianças, também asseguramos a qualidade dessas experiências. IMPORTANTE A EDUCAÇÃO INFANTIL COMO ESPAÇO DEMOCRÁTICO Ao considerar que a Educação Infantil é o espaço de garantir interações para o desenvolvimento integral, é urgente pensar sobre o lugar da diversidade nas práticas, projetos e propostas pedagógicas, buscando compreender o que se entende por diversidade e qual diversidade pretendemos contemplar no cotidiano pedagógico.o percurso investigativo, a partir da observação atenta ao que bebês, crianças e famílias expressam no cotidiano. Levando em consideração que os bebês e as crianças vivem parte significativa de suas vidas nas creches e pré-escolas com professores(as) e outros profissionais, entendemos que, antes, durante e depois da realização dos projetos da turma e dos projetos institucionais, é necessária a organização de contextos de aprendizagem e desenvolvimento interessantes, com diversidade de materiais, situações, interações e investigações criativas e que potencializem o desejo de bebês e crianças de brincar, participar, conviver, expressar, explorar e conhecer a si, ao outro e ao mundo. SEQUÊNCIAS DIDÁTICAS É um conjunto de vivências sequenciais e articuladas que pressupõe uma progressividade. A sequência didática tem a função de sistematizar as relações entre os conhecimentos, saberes e experiências, ampliando-as. A proposta de uma sequência didática na educação infantil pressupõe a intenção de promover o entrelaçamento entre os direitos de aprendizagem e os campos de experiências, encadeando e espiralando os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento necessários a uma respectiva faixa etária. Esse modo de organização do trabalho pedagógico também define um período para o desenvolvimento das vivências e se concretiza por meio de módulos continuados, que se constituem em etapas com demarcação de objetivos didáticos, requisitos para as vivências seguintes. Os módulos continuados precisam ser comunicados às crianças e iniciados por meio de uma vivência que convide a turma a co-construir e a compreender o passo a passo do que pode ser vivido por todos. No início da sequência e na transição entre os módulos é primordial que se realize mapeamento dos conhecimentos prévios da turma e autoavaliação das ações didáticas, de forma a assegurar possibilidades de ampliação do repertório dos bebês e das crianças em articulação e continuidade com as etapas seguintes. Vale lembrar que as sequências didáticas envolvem uma temática relacionada às curiosidades e interesses das crianças em confluência com os objetivos didáticos específicos daquela faixa etária e agrupamento. Essas formas de organizar o cotidiano no planejamento pedagógico reconhecem, produzem diferentes olhares, constituindo-se uma polifonia de vozes e de escuta atenta às especificidades das infâncias, tornando o planejamento pedagógico significativo, contextualizado para o professor, mas fundamentalmente para os bebês e as crianças. O professor de Educação Infantil, em parceria com outros profissionais da instituição, deve se empenhar constantemente em aperfeiçoar sua prática pedagógica, qualificando o planejamento de suas atividades. SISTEMATIZANDO O SABER Entendemos que, ao pensar o planejamento pedagógico do cotidiano de cada turma, os professores, em parceria com a gestão da instituição, devem organizar ambientes de aprendizagem e desenvolvimento que primem por materiais, espaços (internos e externos à sala de referência), interações e tempos que colaborem para que todo o protagonismo de bebês e crianças seja expressado e potencializado. PARA REFLETIR Diante de todo o conteúdo, você, professor(a), irá realizar reflexões e registros. Mas, antes, vamos relembrar o primeiro elemento importante para a prática reflexiva que potencializa ações e escolhas para e com as crianças no processo do planejamento. Vimos quatro elementos dialógicos para o fazer docente na educação infantil. O primeiro foi o registro. Quais formas de registros são utilizadas com o objetivo de organizar as práticas planejadas e garantir os direitos de aprendizagem e desenvolvimento das crianças? Como os registros contribuem para a construção do seu planejamento? Como o planejamento pedagógico expressa as oportunidades de interação entre as crianças e entre crianças e adultos, atendendo às necessidades de cada um e respeitando as diferentes formas de expressão da criança? O planejamento pedagógico é alicerçado nas questões geradas a partir da observação e da escuta das crianças em todas as situações no cotidiano da instituição de educação infantil. Como a observação do cotidiano junto às crianças pode dar sustentação ao seu planejamento pedagógico e, consequentemente, à sua prática docente? Quais elementos observados no cotidiano podem ser considerados na busca por articular as necessidades de cada criança, os campos de experiências, os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento e a experiência promovida? Conforme SHÖN (2000), precisamos analisar as situações do cotidiano, tanto individualmente como de forma compartilhada com a gestão da escola, com seus pares, refletindo a prática na ação e sobre a ação. A importância de registrar sistematicamente as observações é um facilitador do acompanhamento das diversas situações de desenvolvimento das crianças e para cumprir as responsabilidades docentes, que são inúmeras, tais como: entregar relatórios ou pareceres à equipe gestora e às famílias para os casos de tratamento médico e terapêutico, muitas vezes solicitados pelos especialistas, ao Conselho Tutelar, Poder Judiciário ou até programas governamentais. Sendo assim, não pode se valer apenas das suas lembranças, o que prejudicaria até mesmo a veracidade das informações. Ao assumir uma postura investigativa e reflexiva, o professor passa a fazer uma leitura da sua prática em busca de entendê-la e transformá-la, contribuindo assim com a sua formação e desenvolvimento profissional. Pois, a observação, o registro e a reflexão são processos inseridos na proposta pedagógica na Educação Infantil, onde avalia-se o trabalho constantemente. SISTEMATIZANDO O SABER Entendemos que, ao pensar o planejamento pedagógico do cotidiano de cada turma, para além dos aspectos que foram construídos, refletidos e oportunizados até aqui, os(as) professores(as), em parceria com a gestão da instituição, devem organizar ambientes de aprendizagens e desenvolvimento que primem por materiais, espaços (internos e externos à sala de referência), interações e tempos que colaborem para que todo o protagonismo de crianças seja expressado e potencializado. É preciso observar, registrar e documentar para conhecer o grupo de crianças, refletir sobre ele e fazer análises e reflexões. É para que possamos entender se aquilo que se está planejando e proposto está garantindo o protagonismo das crianças, a aprendizagem por experiência, o equilíbrio entre os campos e os seus direitos de aprendizagem e desenvolvimento. Tudo isso para que se possa, inclusive, replanejar. 3. O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM NA EDUCAÇÃO INFANTIL Vimos em tópicos anteriores que a criança é produtora de cultura e como produtora ela brinca e dá sentido ao mundo a partir de seu repertório. Produz e narra histórias, experimenta papéis nas brincadeiras de faz de conta. As crianças formulam hipóteses, criam histórias, inventam sentidos, atestando, assim, o seu protagonismo em relação ao processo de construção de conhecimentos sobre a linguagem oral e escrita. Como sujeitos que aspiram a novos conhecimentos, as crianças enfrentam o desafio de compreender os signos, os símbolos e os complexos sistemas de representação que circulam socialmente, que percebem quando vão ao posto médico, ao mercado, à farmácia, entre outros espaços sociais. Mas, é desafiador dar sentido a esses sistemas de representação e deles se apropriar. Ao interagir com os diferentes signos e com os conhecimentos que circulam socialmente, a criança o faz sob a mediação dos seus saberes e das suas experiências infantis. Dessa articulação, nascem novos saberes, conhecimentos e experiências. Portanto, é necessário possibilitar experiências nas instituições de educação infantil em que as criançaspossam, numa brincadeira de faz de conta, por exemplo, cumprir papéis sociais em que possam se comunicar através da leitura e da escrita. Aos poucos, as crianças vão compreendendo as finalidades desses símbolos, suas características e a necessidade de um aprendizado específico. Quando têm a chance de interagir em contextos que envolvem a escrita, suas oportunidades de compreender os significados e usos da escrita na sociedade se ampliam consideravelmente. Cada vez mais cedo, as crianças se interessam pelo funcionamento da linguagem escrita. Portanto, o professor deve proporcionar experiências em que elas possam brincar com a linguagem oral e escrita. PARA SABER MAIS O material didático do Curso “Leitura e Escrita na Educação Infantil” tem como objetivo a formação de professores da Educação Infantil para que possam desenvolver, com qualidade, o trabalho com a linguagem oral e escrita em creches e pré-escolas. A Coleção está constituída de oito cadernos compostos por três unidades temáticas cada um. Os textos foram escritos por diferentes autores, o que permite ampliar o diálogo sobre teorias e práticas que informam e dão concretude ao trabalho docente. Além dos oito cadernos temáticos, há um caderno de apresentação e um encarte destinado às famílias das crianças. O projeto gráfico da Coleção foi cuidadosamente pensado para articular forma e conteúdo, com ilustrações de Graça Lima, Mariana Massarani e Roger Mello, artistas consagrados no campo da literatura infantil. Caderno 4: https://drive.google.com/file/d/1z4DrGI7JWoEUDoWGN2NVD52vL0B9aj4u/view? usp=sharing O LEEI constitui-se em uma proposta de desenvolvimento profissional que utiliza a Coleção Leitura e Escrita na Educação Infantil como material didático. A partir de 2024, o LEEI será desenvolvido em 15 estados e mais o Distrito Federal, no âmbito do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, instituído pelo Decreto Federal nº 11.556, de 12 de junho de 2023. Tem por objetivo ofertar formação continuada a profissionais da Educação Infantil com foco na oralidade, leitura e escrita, de maneira a apoiar teórica e metodologicamente docentes para que desenvolvam práticas educativas capazes de ampliar as experiências das crianças com a linguagem escrita, respeitando as especificidades da primeira infância e as noções de leitura e de escrita como práticas sociais que integram o cotidiano e sustentam interações e brincadeiras neste ciclo de vida. O desejo de compreender e de se apropriar do sistema de escrita é fruto da interação da criança com a cultura escrita, o que ocorre antes mesmo dela frequentar a pré-escola. Nessa convivência, a criança vai elaborando seu conceito de língua escrita, compreendendo as diferentes funções do ler e do escrever, ampliando seu conhecimento sobre letras e números, aprendendo a fazer distinções quanto a gêneros e portadores de textos. Para isso, é necessário que o professor planeje de forma intencional, levando em consideração os objetivos relacionados ao campo de experiência: escuta, fala, pensamento e imaginação. É interessante, portanto, que a linguagem escrita seja trabalhada nas instituições de educação infantil de modo significativo para os bebês e crianças, exercendo funções sociais relevantes para elas. Destacamos que a escrita é apenas uma das linguagens com as quais a criança se relaciona desde o nascimento. Outras formas de expressão, como a oralidade, a música, a dança, as artes visuais e plásticas, as linguagens corporal, audiovisual, digital, matemática, entre outras, também são importantes de serem exploradas na educação infantil. É no contexto das interações e nos espaços lúdicos das brincadeiras, dos jogos de linguagem, das cantigas e dos poemas, das histórias e dos relatos, relacionando com outras linguagens aqui citadas, que as culturas do escrito devem ser oportunizadas para as crianças. Na Educação Infantil, o brincar tem o potencial de oferecer à criança pequena um contexto altamente envolvente e significativo que permite a bebês e crianças adquirirem habilidades e compreenderem conceitos essenciais à alfabetização inicial. O contexto social tem impacto sobre as conexões brincar e alfabetização. Pesquisas forneceram indícios de que os processos do brincar – ou seja, linguagem nas interações, representação simbólica, narrativas usadas ao brincar, parlendas ou brincadeiras cantadas, cantigas de roda etc. – estão relacionados com as habilidades iniciais de alfabetização. É importante destacar que as crianças da pré-escola, de 4 e 5 anos, podem se alfabetizar a partir das interações e brincadeiras com a linguagem escrita. No entanto, não cabe à pré-escola ter a alfabetização da turma como proposta principal, conforme preconizado nos documentos oficiais. Isso não impede, de forma alguma, que ofereçamos oportunidades de experiências e brincadeiras com a língua escrita. Aliás, temos objetivos de aprendizagem que incluem leitura, escrita espontânea, reconhecimento e produção de rimas e aliterações, entre outros. Como educadores, podemos, por meio da brincadeira, explorar ao máximo as diversas formas de aproximação entre as crianças e a cultura escrita, o letramento e as práticas de análise das escritas. O trabalho sistemático com a expressão e a argumentação orais, muitas vezes negligenciado nas etapas posteriores da escolarização, também pode contribuir para ampliar a participação das crianças na cultura escrita. Além disso, é importante um trabalho sistematizado que envolva a manipulação das estruturas sonoras e gráficas da língua escrita. É importante pensar na cultura escrita do modo como estamos discutindo aqui, pois isso certamente contribui para valorizar o conhecimento do mundo das crianças. SISTEMATIZANDO O SABER O trabalho com a leitura e a escrita na educação infantil deve estar comprometido com o direito de a criança expandir seu conhecimento. Para que isso ocorra, a prática pedagógica deve promover situações significativas em relação à cultura letrada e à cultura infantil. Em suma, o trabalho com a linguagem escrita na educação infantil deve realizar-se por meio de estratégias de aprendizagem capazes de respeitar as características da infância, considerando os significados que a linguagem escrita adquire para os sujeitos que vivenciam essa fase da vida. IMPORTANTE Sabemos da importância de oportunizar para bebês e crianças que estão matriculadas na escola pública a mesma oportunidade que outras crianças têm de participar de práticas de letramento para iniciar o entendimento do mundo que a cerca, oportunizando-lhes participação em práticas sociais de leitura e escrita desde cedo, para tanto não se pode desconsiderar o caráter lúdico que envolve a aprendizagem e tantas outras aprendizagens potentes para crianças na educação infantil. O letramento contribui para o desenvolvimento do pensamento na medida em que possibilita às crianças lidar com textos, lendo-os, comentando-os, comparando-os, julgando-os. Enfim, esses sujeitos se tornam competentes para participar de uma determinada forma de discurso, envolvendo-se em uma cultura letrada, oportunizando a participação ativa do mundo que a cerca e contribuindo para a transformação. Segundo Paulo Freire, a escola não transforma a realidade, mas pode ajudar a formar os sujeitos capazes de fazer a transformação da sociedade, do mundo, de si mesmos. É notável que a fala, a leitura e a escrita sejam modos diferenciados de expressão e que, embora pertençam ao mesmo sistema linguístico, possuam muitas diferenças entre si; uma delas é que a fala ocorre de forma natural e espontânea e, para a aquisição da leitura e escrita, é necessária a reflexão e instrução de normas e regras e, por isso, exige disponibilidade para aprendê-la. Entretanto, poderíamos dizer que a criança, aodesenvolver aspectos relacionados à leitura e à escrita, desenvolve também aspectos relacionados à oralidade e vice-versa. As práticas discursivas orais das crianças influenciam o processo de apropriação da linguagem escrita e sofrem influências desse processo. As duas modalidades de linguagem verbal, tanto a oral quanto a escrita, estão, pois, em constante interação. 3.1 A LINGUAGEM ORAL NA EDUCAÇÃO INFANTIL Sabemos que a linguagem oral tem uma indiscutível importância e que para o desenvolvimento do pensamento verbal de bebês e crianças é essencial que o professor oportunize práticas de leitura, oralidade e escrita. A roda de conversa em sala de aula, que é um tempo permanente, proporciona às crianças o desenvolvimento da comunicação oral. Esse momento promove o diálogo entre professor e crianças e traz muita relevância ao universo discursivo, estimulando além da oralidade, a escuta. Vai aprender que é necessário ouvir enquanto o outro fala. Vai aprender a prestar atenção ao que é dito. Vai aprender a esperar e a levantar a mão pra poder falar. Vai aprender a respeitar os turnos de fala para manter a interação respeitosa. Nosso objetivo de aprendizagem não se limita a ensinar a criança a falar, mas sim a desenvolver sua oralidade e capacitá-la para lidar com diversas situações de comunicação. Precisamos instigar as crianças a se expressarem e criar oportunidades, tanto na sala de referência quanto em outros espaços da instituição, que promovam o exercício da linguagem oral. Essas situações devem ser planejadas de forma intencional para maximizar as oportunidades de desenvolvimento da oralidade. Por isso, na organização do nosso trabalho pedagógico, as crianças devem participar de diversas situações que envolvam diferentes gêneros orais. Devemos considerar suas experiências e conhecimentos prévios, a adequação dos gêneros à faixa etária e proporcionar oportunidades para que os objetivos de aprendizagem relacionados ao campo de experiência de escuta, fala, pensamento e imaginação sejam plenamente vivenciados. É a partir do contato com a linguagem escrita, via oralidade, ou seja, a escuta de textos escritos, que a criança constitui sua relação com a escrita e sua fala nas interações com os outros. Vamos tratar, a seguir, mais especificamente sobre um evento de letramento. PARA SABER MAIS Mas o que são eventos de letramentos? São eventos em que a linguagem escrita participa das práticas sociais, ou seja, LETRAMENTO é o uso de diferentes textos, com funções diversas, em práticas sociais. 3.2 A IMPORTÂNCIA DA LEITURA E CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS LITERÁRIAS PARA O DESENVOLVIMENTO INFANTIL A contação de histórias tem muitas funções, mas não precisamos focar inicialmente e diretamente em nenhuma delas. Isso quer dizer que não devemos usar a literatura como pretexto para desenvolver diretamente um só determinado objetivo de aprendizagem. As histórias nos possibilitam: - manter viva a tradição oral, - resguardar os contos, - conhecer outras culturas e costumes, - internalizar valores universais, - encantar os ouvintes, entreter, despertar emoções, - criar ou ampliar laços afetivos, - explorar a imaginação, - desenvolver a criatividade, - potencializar a atenção, - ampliar o repertório linguístico, - favorecer a formação estética, - formar leitores, - ressignificar a vida. Não há nenhum povo que não tenha criado seus mitos e lendas. As histórias nos formam, organizam o caos da nossa existência, nos humaniza. Muito aprendemos com a literatura: a nos conhecer, a conhecer o outro, a conhecer o mundo e nos entender dentro desse mundo. Na arte de ler e contar histórias, você, professor/professora, possibilita grandes contribuições para o desenvolvimento das crianças. Celso Sisto (2005) elenca seis aquisições que nos permite a história narrada. Aquisições nos âmbitos: social, histórico, estético, psicológico, cultural e pedagógico. Com relação às aquisições no âmbito social, a contação ou leitura de histórias é um ato agregador. Reunimo-nos em roda com as crianças, criamos afetividade, exercitamos o encontro consigo mesmos, com as crianças, com suas histórias, suas realidades e com o universo imaginário. As histórias revelam também os modos de interação social entre os personagens, modelos a serem seguidos ou questionados, muitas vezes punidos ou premiados conforme a moral da história, implícita ou explícita. O universo narrativo também revela os modelos de sociedade de determinados povos e culturas. Tudo isso é muito significativo para quem está aprendendo a estar no mundo há pouco tempo. As crianças têm uma certa visão da época, do seu tempo ou de outros tempos, através da escuta de contos. Os personagens revelam vivências, combinados/regras sociais, conjunto de costumes, de comportamentos, valores, uma ética. Podem revelar uma sabedoria ancestral e a tradição de diferentes povos. Quando temos a hora do conto, como tempo permanente, as crianças se familiarizam com a arte da palavra. As crianças vão percebendo os elementos estéticos, o que torna a história uma arte. Elas também vão começar a criar critérios de valoração, de comparação, de fruição - que é o prazer de ouvir, de imaginar. A rotina diária do momento da história permite e familiaridade com a arte, daí a criança vai ter a necessidade de ouvir, ler e contar histórias, cada vez mais na vida, o que vai ampliando a sua dimensão cultural. Ampliando as suas referências. A arte passa a ser necessária para os bebês e as crianças. E ela é necessária para entender o mundo e até para se proteger do caos da vida. São tantas realidades difíceis que essas crianças enfrentam, são tantas histórias tristes que sabemos através delas. Nós precisamos da arte, de voar com outras histórias, de imaginar outros cenários, de saber como podem ser resolvidos conflitos, de pensar que são possíveis finais felizes, mesmo diante de tanta tristeza vivida por algumas delas. Portanto, tratamos aqui sobre a aquisição no plano psicológico. As crianças vivenciam as ações dos personagens, os problemas, os conflitos dessa história. Essa vivência, por empréstimo, é a experimentação de modelos de ações e soluções apresentadas pelos personagens. Com isso a criança amplia seu repertório de conhecimento, sobre si e sobre o mundo. E tudo isso ajuda a formar a personalidade. As crianças, como ouvintes, nesse momento da roda de história, recebem um conjunto de estímulos (emocionais, como vimos, sonoros, de ritmos). Elas se sentem convidadas a recriar as ideias lançadas nas narrativas, para compreender, acompanhar e para ressignificar a história que está ouvindo. Percebemos isso quando elas brincam de faz de conta, de teatro, quando sentem a necessidade de recontar histórias. Elas querem experimentar o papel de co-autor. Elas querem fazer parte das histórias, querem ser os personagens, querem mudar também alguma coisa da história ouvida ou lida pra elas. Portanto, as crianças desenvolvem mais a imaginação, a criatividade e a capacidade de discernimento e crítica. Pois sim, as crianças julgam, contestam, relativizam as ações ocorridas no enredo da história. Por isso, a roda de conversa após a escuta da história se faz tão importante. Bem, com tudo isso, contribuímos, enquanto professores para que os pequenos assumam o protagonismo de suas próprias vidas. O que começou, lá no passado, com o objetivo de apontar padrões sociais aceitáveis, de passar ensinamentos, de instruir mais do que divertir se tornou um exercício do prazer, da cidadania, porque auxilia, como foi possível refletir, na formação de humanos. E tudo isso não pode ser ignorado, pois, aliás, tem-se como rotina permanente ler e contar histórias na sala de referência e em outros espaços da instituição da educação infantil. Na literatura, a criançaparticipa também de uma ação pedagógica, mesmo que não seja essa a função principal da narração oral ou do texto literário. A experiência artística educa! As crianças aprendem a ouvir com atenção, cada vez mais, isso é gradativo. Claro que não conseguimos que estejam todos atentos nos primeiros momentos da roda de história. Até começarem a prestar atenção, é necessária a leitura diária e é necessário também que sejamos bons contadores e leitores de histórias. As crianças aprendem também regras de convivência social, a construção da identidade e a percepção do outro, as diferenças de ritmos, de opiniões, de entendimentos, de contextos, de modos de ser e de viver. Com relação aos mecanismos da comunicação linguística empregados no texto narrado, as crianças começam a perceber o que e como foram utilizados para o reconhecimento e uso da emoção, para a diversidade estética, para a constatação dos usos do tempo e do espaço etc. Elas começam a perceber que, quando dizemos “Era uma vez…”, é uma história que vamos contar, quando dizemos “E foram felizes para sempre…” é uma história que acaba de ser finalizada. Quando dizemos “De repente…” é quando vai acontecer algo de importante na história. Quando dizemos “Num reino longínquo e encantado…” é porque se trata de um lugar. Entre outras muitas estruturas e mecanismos de comunicação linguística. Possibilitamos, através das histórias, a ampliação do vocabulário. Na educação infantil, familiarizamos as crianças com essas estruturas. E elas até utilizam, de certa forma, na oralidade e na escrita, no reconto. Mas, no ensino fundamental, essas estruturas precisam ser utilizadas de forma intencional, planejada e sistemática na análise linguística e na produção de textos orais e escritos. A experiência literária implicada em ouvir uma história vai muito além de perguntar “Vocês gostaram da história?” e/ou “O que aconteceu na história?”. Todos os ganhos, em diferentes âmbitos, que tratamos até aqui, não podem ser construídos sem uma boa mediação antes da leitura, durante a leitura e após a leitura. Construímos, no momento da roda de conversa e no momento após a leitura, a fruição do sentir e os entendimentos do texto, as interpretações e a implicação disso tudo para a vida. Entendem que isso vai muito além de narrar e perguntar se “gostaram da história”. Também vai muito além de pedir sempre um desenho, mais na frente, principalmente no ensino fundamental, um resumo, uma síntese, uma ficha de leitura. Resumindo a experiência que acabara de viver, que é muito potente pra não ser dialogada e, algumas vezes, só sentida. Quebramos com o encantamento da experiência exigindo algo depois, que pode ser até chato para as crianças fazerem. A narração oral proporciona a experiência estética de gosto pela leitura. Ajudamos a desenvolver nas crianças, além da atenção na escuta, o comportamento leitor. Para isso, é necessária a qualidade do narrador (que deve ser um grande leitor!). O professor precisa se preparar para esse momento, planejar os elementos da intenção narrativa, saber como utilizá-los, além de escolher obras que reúnam comprovadas qualidades literárias. REFERÊNCIAS AGUIAR, Vera Teixeira de (org.) Era uma vez...na escola: formando educadores para formar leitores. Belo Horizonte, Formato Editorial, 2001 (série Educador em formação). ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Trad. Dora Flaksman. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1978. 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Governador do Estado do Espírito Santo José Renato Casagrande Secretário de Estado da Educação Vitor Amorim de Angelo Subsecretário de Estado de Planejamento e Avaliação Marcelo Lema Del Rio Martins Subsecretária de Estado da Educação Básica e Profissional Andréa Guzzo Pereira Subsecretária de Estado de Articulação Educacional Darcila Aparecida da Silva Castro Subsecretário de Administração e Finanças Josivaldo Barreto de Andrade Subsecretário de Estado de Suporte à Educação Andre Melotti Rocha Centro de Formação dos Profissionais da Educação (Cefope) Bianca Silva Santana (Gerente – CEFOPE/Gepro) Karoliny Mendes da Costa (Gerente – CEFOPE/Geped) Gerente do Regime de Colaboração com os Municípios (Gerco) Saulo Andreon Assessora Especial do Regime de Colaboração com os Municípios Rosa Maria Ambrozio Técnica Responsável da Subgerência de Fortalecimento da Aprendizagem Sueli Calente Docente Conteudista da Formação Vanessa Lima Martins Coordenação da Formação Cefope/Geped Pollyanna Massucatti Rodrigues Passabão Jorge Luiz Mies Revisão de Texto Cefope Carolina Laura de Almeida Equipe de Tecnologia Cefope Almir Carletti Neto (Assessor de Tecnologia) Felipe Becalli Trindade (Estagiário) Gustavo Pereira da Silva Nascimento (Assessor de Tecnologia) Leonardo Cruz de Andrade (Técnico Pedagógico) Concepção gráfica do Ambiente Virtual de Aprendizagem Ana Beatriz Lima da SilvaAs crianças ocupam o seu lugar na sociedade, participando, construindo, produzindo culturas e ressignificando o mundo. São crianças diferentes inseridas em um mundo diverso. Podemos imaginar uma cultura da infância, crianças diferentes, produzindo infâncias igualmente diferentes e, portanto, se faz necessário pensar formas diferentes de atuar na educação infantil, levando em conta essas infâncias e suas relações com o mundo ao seu redor. Contudo, há que se considerar um cotidiano que valorize e respeite as diversas formas de as crianças estarem e interagirem com o mundo. A diversidade de infâncias se opõe à visão da padronização e a pluralidade da infância nos intima a enxergar, a olhar para as diversas relações que perpassam a infância. A desigualdade social, os diferentes contextos regionais, a diversidade cultural e racial, a educação quilombola, ribeirinha, indígena e de assentamentos traduzem uma infância própria de cada um, com curiosidades, identidades, desejos e sonhos diversos, pensando o mundo a partir de cada contexto (SANTOS e SANTOS, 2017). O cotidiano de bebês e crianças que vivem nas cidades do interior difere do cotidiano das crianças da capital, por exemplo, que por sua vez diferem das que vivem na periferia ou em áreas centrais. Os hábitos, gostos, alimentos, lazer, músicas e brincadeiras refletem o contexto sócio-histórico dessas crianças. Este é um dos grandes papéis da educação infantil: pensar essa diversidade de culturas infantis, que muitas vezes são invisibilizadas, provocar reflexões acerca do papel da comunidade escolar em construir uma educação democrática e promover práticas pedagógicas cotidianas que possibilitem trabalhar a diversidade e que propiciem, em sua essência, uma cultura efetivamente inclusiva. Reconhecer as diferenças é um primeiro passo para pensá-las de forma a promover uma prática educativa que enxergue cada criança em suas potencialidades, histórias, culturas, competências, dificuldades etc. Colocar em prática essa ideia de diversidade como objetivo em planejamento dentro da instituição de educação infantil significa pensar e cuidar de cada relação que envolve esse processo, pensar os tempos, os espaços, apurar a escuta, aprimorar o olhar, dialogar com as famílias e refletir, junto ao grupo de trabalho. Essa sensibilidade transforma a escola em um ambiente que é democrático e inclusivo e que respeita a diversidade. Diante dos avanços na compreensão da importância da escola inclusiva, esta e seus educadores têm o desafio de promover o processo de aprendizagem baseado em valores humanos, éticos, solidários e afetivos, dialógicos e respeitosos a fim de combater práticas de discriminação e de exclusão presentes tradicionalmente em seu cotidiano. Considerando a construção de planejamentos com o olhar para a inclusão baseado na diversidade, é urgente novas práticas que levem em conta a individualidade de cada criança, pensar nos espaços que irão abrigar as experiências vividas pelas crianças, considerando que elas se desenvolvem na interação com o meio e com os pares, pensar o tempo que permeia a rotina da educação infantil, possibilitando às crianças o respeito aos seus ritmos e pensar na parceria com as famílias e comunidade, sempre levando em consideração, no fazer pedagógico, o contexto territorial ao qual cada instituição faz parte. Também é necessário refletir constantemente sobre a prática pedagógica, assim como sobre as concepções e crenças de cada pessoa, pois estas se refletem em nossas relações com o mundo. É importante levar em conta o valor da democracia na construção de uma escola inclusiva. Uma escola democrática considera que promover situações de convivência com as diversidades e diferenças contribui para o respeito e a participação de todos nos processos de tomada de decisões, preservando, assim, os mais diversos interesses e cuidando das relações. Sendo assim, “o processo democrático é inclusivo por excelência” (BRASIL, 2006, p. 18). Uma escola democrática pressupõe a ética, no sentido que nos traz Freire (1996), uma ética universal do ser humano, “ética enquanto marca da natureza humana, enquanto algo absolutamente indispensável à convivência humana” (p. 10). Para o autor, a ética é inseparável da prática educativa em todos os níveis e não tolera discriminação de raça, gênero, de classe etc. É preciso, portanto, colocá-la em prática, vivê-la nas relações com os educandos. “O respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros” (p. 25). Refletir criticamente sobre a prática docente é primordial para que haja uma eficaz construção de uma educação cada vez mais democrática. É imprescindível ao professor compreender os bebês e as crianças como seres históricos, que produzem novos conhecimentos, que são questionadores e curiosos em sua essência; favorecer um ambiente onde impere a escuta, o respeito e o diálogo constante; entender a sua importância enquanto o adulto de referência no ambiente educacional, que seus gestos, sua fala, suas ações são constantemente observados pelos bebês e pelas crianças, para os quais têm grande significância; reconhecer que somos seres inacabados e que aprendemos constantemente com as crianças, compreendendo o valor do afeto, da intuição e da representatividade. No planejamento do professor de educação infantil, os bebês e as crianças precisam se reconhecer no ambiente em que estão inseridos, precisam ser valorizados pelo que são e pelo que trazem na sua história, precisam ser apoiados na construção de um sentimento de pertencimento ao ambiente da instituição educacional, visto que é nessa fase da vida que se dá a construção das identidades de cada bebê e criança e a ampliação do olhar para a diversidade humana. Cruz e Cruz (2017), reitera esse sentimento de pertença e valorização dos bebês e das crianças quando fala: “Se desejamos que as experiências vividas no contexto da educação infantil contribuam para alimentar em todas as crianças um sentimento de segurança e de pertencimento, de acolhimento às suas singularidades, precisamos lhes oferecer, nas suas experiências cotidianas, elementos para se reconhecerem e valorizarem suas peculiaridades (físicas, culturais, religiosas etc), assim como as das demais crianças e dos adultos” (p. 78) Na busca desse sentimento de pertencimento, nas últimas décadas, grupos da sociedade que foram historicamente marginalizados, invisibilizados e discriminados culturalmente e nas suas formas de ser lutaram por igualdade de oportunidades e exigiram o compromisso com a valorização de suas identidades e uma educação que garantisse suas especificidades. As conquistas vieram em forma de leis que garantem o comprometimento com a diversidade e também através de discussões e estudos que priorizam o trabalho pedagógico pautado nas diferenças na construção de uma cultura de equidade. Marcos legais como as leis federais nº 10.639/03 e nº 11.645/08, bem como o Estatuto da Igualdade Racial (2010) são importantes ferramentas para garantir a representação e a valorização da identidade sócio-racial no Brasil. Essas lutas para a garantia da representatividade nos currículos brasileiros originaram uma alteração na Lei nº 9.394/96, que define as Diretrizes e Bases da Educação, passando, assim, em 2003, a ser obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana e, em 2008, o ensino de História e Cultura Indígena. Os marcos legais são importantes pontos de partida para pôr em prática a construção de uma escola que vivencia a interculturalidade. Para Barbosa (2009, p. 10), “A interculturalidade toma as diversidades, mas também as diferenças e as desigualdades. É uma ação política, econômica, social e cultural que questiona o etnocentrismo,os diversos processos de colonização e dominação”. A escola tem a oportunidade de repensar, refletir suas práticas e concepções e avançar no sentido de reconhecer a diversidade, valorizá-la e resgatar a rica história desses povos. Sendo assim, a Lei 10.639/03 confere à escola o importante lugar de mediação dos saberes sobre história e cultura africana e afro-brasileira. Rocha (2015) enfatiza que a identidade pessoal é enriquecida pelo conhecimento da história e cultura africana e o reconhecimento desses saberes colaboram para a construção de uma identidade étnico-racial singular, fortalecendo o sentimento de inteireza e de pertencimento. Portanto, a escuta e os registros do educador são imprescindíveis nesse processo de fortalecimento das identidades infantis. Trazer para as paredes da instituição diferentes imagens positivas com histórias e características diversas, ter cuidado com a linguagem (a cor preta não é sinônimo de sujeira, de maldade ou de coisas ruins nem a cor de pele é representada apenas pelo lápis de cor bege claro), utilizar materiais pedagógicos que apresentem a diversidade existente na sala de convivência e conversar com os colegas da instituição sobre práticas afirmativas que combatem a discriminação são algumas ações que contribuem para a efetivação do trabalho com as diferenças e pela equidade. Nesse sentido, Cruz e Cruz (2017) contribuem quando dizem “(...) é necessário, por exemplo, possibilitar a bebê e crianças pequenas o contato frequente com bonecas, desenhos e fotografias de negros, nisseis, indígenas, pessoas cadeirantes, cegas, surdas, com Síndrome de Down etc.; contar-lhes histórias nas quais tenham papéis importantes e positivos não apenas personagens brancos, mas também os diversos tipos que compõem o rico legado étnico-racial brasileiro, bem como pessoas com algum tipo de deficiência” (p. 78) É necessário que se promovam reflexões e discussões com a comunidade escolar sobre a importância de uma educação transformadora e inclusiva que considere todos os sujeitos capazes de opinar, de participar, de escolher, de escutar, de respeitar e conviver com as diferenças, de dialogar, de ter empatia e que todas as vozes sejam ouvidas! “O sujeito que se abre ao mundo e aos outros inaugura com seu gesto a relação dialógica em que se confirma como inquietação e curiosidade, como inconclusão em permanente movimento na História” (FREIRE, 1996, p. 51). Bebês e crianças negras precisam se reconhecer em histórias que valorizem os seus traços identitários, seus ancestrais e sua cultura, pois isso proporciona um sentimento de pertença ao grupo e ao espaço onde estão inseridas, as fazem pertencentes e reflete no respeito entre todas as crianças. É urgente e necessária uma educação antirracista. Nesse movimento de repensar a escola como um ambiente de transformação social e orientar esse trabalho, em 17 de março de 2004, o Conselho Nacional de Educação aprovou a Resolução 01, que institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira. O referido documento reitera a importância do reconhecimento da cultura afro-brasileira ao afirmar que “Reconhecimento requer adoção de políticas educacionais e de estratégias pedagógicas de valorização da diversidade, a fim de superar a desigualdade étnico-racial presente na educação escolar brasileira, nos diferentes níveis de ensino” (BRASIL, 2004, p. 12). Em relação à educação indígena no Brasil, precisamos considerar a questão territorial, muito forte nessa população. A educação dos povos indígenas precisa ser pensada a partir de onde cada um deles está localizado e de suas especificidades. É importante, antes de tudo, reconhecer a diversidade que existe entre as culturas dos povos indígenas, desconstruir a ideia de que indígenas são todos iguais, comumente retratada há tempos nas escolas. Essa forma estereotipada de apresentar os indígenas às crianças contribui para a perpetuação de um modelo educacional homogeneizador. Com a diversidade de povos indígenas que constituem o Estado do Espírito Santo, os planejamentos e projetos podem retratar esse cenário e buscar a construção de uma cultura que valorize os saberes indígenas. Para isso, é possível organizar visitas aos territórios indígenas, introduzir no cotidiano dos bebês e das crianças as brincadeiras indígenas, histórias que valorizem suas línguas e identidades, garantir nos ambientes das instituições de educação infantil diferentes dimensões que expressem a riqueza desses povos, com referências indígenas deste Estado, que tem como sua marca a diversidade (artefatos, objetos, redes, artesanatos, culinária etc), apresentando aos bebês e às crianças elementos dos distintos grupos sociais. Outro desafio que se apresenta às escolas de educação infantil para pôr em prática o que preconiza o Parecer nº 20/2009, sobre o cumprimento da sua função sociopolítica e pedagógica, diz respeito à promoção de igualdade de oportunidades para meninos e meninas. “(...) creches e pré-escolas constituem-se em estratégia de promoção de igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, uma vez que permitem às mulheres sua realização para além do contexto doméstico” (BRASIL, 2009, p. 5). É preciso ouvir as crianças, refletir e discutir com os parceiros de trabalho a respeito dessa compreensão das relações e reafirmar o que traz o parecer nº 20: “o combate ao racismo e às discriminações de gênero, socioeconômicas, étnico-raciais e religiosas deve ser objeto de constante reflexão e intervenção no cotidiano da Educação Infantil” (BRASIL, 2009, p. 10). Nesse sentido, vamos caminhando para uma educação mais igualitária em relação ao gênero, onde a escola, junto às famílias/responsáveis busquem caminhos para o respeito e a empatia. O desenvolvimento integral da criança passa também pela discussão da Educação Inclusiva nesse cenário da diversidade. A inclusão de crianças com deficiência, altas habilidades/precocidade e TGD (Transtornos Globais de Desenvolvimento) em uma ou mais áreas do desenvolvimento humano é uma realidade no Brasil. São muitos anos de lutas nesse campo para chegarmos à compreensão de equidade no atendimento a essas crianças e à garantia dos direitos iguais para todos. Ressaltamos que, em 2015, foi sancionada a lei da inclusão, Lei 13.146/15, que entrou em vigor em janeiro de 2016 e, dentre alguns avanços obtidos na área, estão a proibição de cobranças adicionais pelas escolas para implementação de recursos de acessibilidade, a recusa de matrícula de alunos com deficiência passou a configurar crime e o preconceito contra pessoas com deficiência se tornou crime em diversas situações (BRASIL, 2015). Diante do desenvolvimento e da aprendizagem significativa das crianças, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2017) menciona que é preciso efetivar a “igualdade de oportunidades para ingressar, permanecer e aprender na escola”, com foco no desenvolvimento integral das crianças; que a equidade é uma premissa garantida às crianças da educação infantil. Os educadores promovem igualdade de oportunidades quando criam condições para atender às necessidades e características de todos, assim a diversidade representa um pilar para a construção de um projeto coletivo. Ainda nessa perspectiva de diversidade e inclusão, o Brasil tem se destacado nos últimos anos na questão migratória: temos recebido estrangeiros do mundo todo. No intuito de acolher esses novos grupos, foi promulgada, em 2017, a nova Lei da Migração nº 13.445. Além de acolher e proteger os imigrantes que chegam ao país, essa lei garante, em seu artigo 3º, parágrafo XVII, o direito “à proteção integral e atenção ao superior interesse da criança e do adolescente migrante”. A inclusão dessas crianças passa pela sensibilidadedos educadores no olhar e na escuta a essas famílias e na valorização da sua cultura, das suas especificidades e língua materna e no acolhimento das suas histórias de vida. Para além de organizar espaços e tempos a fim de contemplar a diversidade nos planejamentos dos professores, apresenta-se diariamente um desafio para os educadores que é o de romper com paradigmas da sua própria educação, romper com a ideia de uma educação individualista, punitivista e competitiva, para então começarmos uma mudança efetiva de atitudes. A transformação começa em nós! Freire (1996, p. 37) já dizia: “Me movo como educador porque, primeiro, me movo como gente”. Vamos então, partir para a ação e construirmos “novas formas de sociabilidade e de subjetividade comprometidas com a ludicidade, a democracia, a sustentabilidade do planeta e com o rompimento de relações de dominação etária, socioeconômica, étnico-racial, de gênero, regional, linguística e religiosa” (BRASIL, 2009, p. 2). PARA SABER MAIS Para que as próximas gerações de brasileiros estejam menos sujeitas ao racismo, é nas salas de aula de hoje que se promove a mudança. Além de reinterpretar a nossa história sob o ângulo das culturas afro-brasileiras e indígenas, a educação escolar nos abre a possibilidade de transformação. Sabemos que as crianças vivenciam e sentem os impactos do preconceito e, portanto, quanto mais cedo os educadores conseguirem garantir um ambiente que valorize a diversidade étnico-racial, respeite condições sociais e as culturas negras e dos povos originários, maiores serão as chances de reverter a situação atual. Vivemos em uma sociedade que está aprendendo a reconhecer o racismo estrutural, o mito da democracia racial e o pacto da branquitude (leia o glossário na pág. 17). Se você, professor, gestor ou profissional da educação sente que precisa compreender melhor esse vocabulário específico e aprender mais sobre questões acerca do letramento racial, este guia pode ser um excelente ponto de partida. Ele foi elaborado por colaboradores e consultores da Associação Bem Comum que estiveram diretamente envolvidos no curso Educação para as Relações Étnico-raciais (ERER) promovido pela NOVA ESCOLA e realizado ao longo dos últimos meses de 2023. Observando o engajamento e os principais desafios dos participantes, os especialistas reuniram materiais teóricos e indicações práticas para apoiar reflexões e atividades que fomentam uma Educação Antirracista, valorizando as culturas negras. O objetivo do guia é proporcionar um aprofundamento em atitudes e práticas antirracistas. Por isso, se inicia com o conceito de letramento racial. Assim como aprender a ler e a escrever amplia as possibilidades do ser humano, o letramento racial altera a nossa forma de ver o mundo – deixando de lado a perspectiva eurocêntrica e orientada aos privilégios das pessoas brancas, ao mesmo tempo que reconhece que o racismo precisa ser desconstruído e combatido. Esperamos que os materiais disponibilizados neste guia possam ser apoio para sua atuação na escola, junto à comunidade escolar, e para o fortalecimento de práticas pedagógicas em uma perspectiva antirracista. Venha com a gente e se aprofunde nesse tema para construir uma sociedade mais justa, equitativa, igualitária e livre de discriminação! Segue o link para o guia: https://drive.google.com/file/d/1ioZQMryHdXXC7cnQxLL1sHahRFWrGKz/view?u sp=drive_link Educação Infantil e práticas promotoras da igualdade racial Link de acesso: https://drive.google.com/file/d/13W4oHnMYDKXDrZUrd6huQxp2Tlrnh7- m/view?usp=sharing O objetivo desse material é apoiar os profissionais de Educação Infantil e as Secretarias de Educação a implementar o Art. 7, inciso V, das Diretrizes Curriculares da Educação Infantil, que indica que as propostas pedagógicas dessa etapa devem estar comprometidas com o rompimento de relações de dominação etnicorracial. Esse material resulta de intervenções em situações reais, nas quais todos os sujeitos envolvidos, equipe gestora, professores e especialistas puderam refletir, cada qual em seu campo de atuação, sobre como as práticas pedagógicas na Educação Infantil podem promover a igualdade racial. Esse processo resultou em momentos de revisão de muitas atividades, da organização do tempo e de espaço e também das ações de gestão. Educação Infantil - Organização dos espaços físicos e dos materiais VÍDEO: https://youtu.be/WfvxOty5Tkg Educação Infantil - Experiências de Aprendizagem VÍDEO: https://youtu.be/WzvBmbWcWTo Educação Infantil - Gestão e Família VÍDEO: https://youtu.be/MIEQO_QXrG4 Os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento trazidos na BNCC são organizados para serem vivenciados pelos bebês (0 a 1 anos e 6 meses de idade), crianças bem pequenas (1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses) e crianças pequenas (4 anos a 5 anos e 11 meses). Dessa forma, esses e outros objetivos devem ser oportunizados em várias situações no período das faixas etárias definidas pela BNCC. Embora esses objetivos não sejam metas a serem alcançadas, mas sim diretrizes para a organização da ação docente, é essencial manter o compromisso e o cuidado para não negligenciar a qualidade do tempo de aprendizagem das crianças. Oferecer a oportunidade para o brincar livre não se resume a colocar um cesto de brinquedos em um canto da sala sem uma intencionalidade planejada e esperar que as crianças brinquem. O planejamento deve respeitar os direitos de aprendizagem dos pequenos e os campos de experiências, e deve incluir uma intencionalidade pedagógica na escolha dos materiais, na organização dos espaços, na gestão do tempo e nas transições entre atividades. Além disso, esse planejamento deve abranger processos de construção de conhecimento que reflitam as práticas sociais vividas pelas crianças no contexto da Educação Infantil. Outros objetivos podem ser definidos pelas instituições também, resguardados os cuidados com a coerência desses novos objetivos com os campos de experiências e aos direitos de brincar, participar, expressar, conviver, conhecer-se e explorar. Dessa forma, neste tópico, você irá se debruçar em reflexões sobre vivências e práticas na Educação Infantil, diversidade cultural e a contação e leitura de histórias na garantia dos direitos de aprendizagem e desenvolvimento das crianças. PARA REFLETIR Vimos a respeito da importância do planejamento para promover o desenvolvimento infantil. Trouxemos definições e características do planejamento para a promoção das práticas pedagógicas para a educação infantil. Na construção do planejamento, das vivências, em que medida sua intencionalidade pedagógica vem considerando o modo como as crianças conhecem a si e interagem com os outros e com a diversidade de conhecimentos preconizados na BNCC, através dos objetivos de aprendizagem? Os espaços, os materiais e os tempos nas instituições de educação infantil estão organizados de forma a abranger a diversidade dos bebês e das crianças neles inseridas? SISTEMATIZANDO O SABER Acolher interesses, saberes, curiosidades e intenções das crianças é o elemento basilar da intencionalidade pedagógica do docente na educação infantil, pressupondo uma perspectiva em que a criança é o centro do planejamento curricular (BRASIL, 2009). 1.1 FUNDAMENTOS PARA A INTERAÇÃO E BRINCADEIRA NA EDUCAÇÃO INFANTIL Ao reconhecer a criança como um ser histórico e socialmente contextualizado, a concepção histórico-cultural da educação, que teve origem nos estudos de Lev Semenovich Vygotsky, nos deixou um legado fundamental para a ação pedagógica com as crianças, sejam elas da Educação Infantil, sejam de outros níveis de ensino. Segundo Vygotsky (1998), para que o desenvolvimento cognitivo ocorra além da maturação biológica da criança, é precisolevar em conta as estimulações recebidas por ela, pelo meio em que está inserida. Deu destaque aos estímulos provenientes da interação com familiares, colegas mais velhos, cuidadores, professores, entre outras pessoas que têm contato com a criança. Na atualidade, não se pode deixar de considerar a influência de outras interações muito presentes no cotidiano, como os meios digitais, por exemplo. Um dos aspectos da teoria de Vygotsky a ser considerado para explicar o processo de desenvolvimento e aprendizagem da criança é o que denominou de Zona de Desenvolvimento Proximal, considerada como a distância entre o nível de desenvolvimento real e o nível de desenvolvimento potencial. O nível de desenvolvimento real é caracterizado quando determinada atividade é realizada sem a ajuda de outras pessoas, enquanto a realização de determinada atividade com a ajuda de outros caracteriza o nível de desenvolvimento potencial. “Aquilo que é zona de desenvolvimento proximal hoje, será o nível de desenvolvimento real amanhã – ou seja, aquilo que uma criança pode fazer com assistência hoje, ela será capaz de fazer sozinha amanhã” (VYGOTSKY, 1988, p. 113). Ao atingir a zona de desenvolvimento real, a criança pode usar o conhecimento adquirido para integrá-lo e usá-lo na aquisição de novos conhecimentos e, assim, aumentar o próprio repertório. A plasticidade neuronal permite que esse processo aconteça de modo constante ao longo da infância. Todas as atividades que são realizadas com frequência ficam marcadas em nossa memória e vão sendo somadas às novas experiências. A criança no grupo II, no segundo ano de vida, geralmente já sabe comunicar o que sente e o que a incomoda mais com palavras do que com gestos, conhece o próprio nome, partes do corpo, inicia a fala com sentenças curtas e simples, afirmativas, negativas e interrogativas, interpreta e nomeia muitas coisas que vê/ouve, compreende algumas noções espaciais e temporais, interage com os outros (adultos e crianças), normalmente com um de cada vez, procura novidades e gosta de experimentar sensações, objetos e situações novas. A partir dos 2 anos, as crianças têm maior domínio do equilíbrio corporal, podendo correr, saltar, subir etc. A atenção delas está ligada às características (cor, forma, tamanho) dos objetos concretos, já rabiscam espontaneamente e fazem movimentos circulares com o lápis, folheiam páginas de livros e revistas, gostam de brincar com bonecos, ouvir histórias e cantar, entre tantas outras vivências. No decorrer do ano letivo, cada criança vai avançar no processo de comunicação, de autonomia e nas possibilidades de experienciar em um contexto de vida coletiva. Há séculos crianças esperam ter credibilidade. Credibilidade nos seus talentos, nas suas sensibilidades, nas suas inteligências criativas, no desejo de entender o mundo. É necessário que se entenda que isso que elas querem é demonstrar aquilo que sabem fazer. A paixão pelo conhecimento é intrínseca a elas (MALAGUZZI, 1992, p. 19 apud FARIA, 2007, p. 278). Conhecer as características das crianças de 2 anos permite que o trabalho pedagógico seja direcionado para o desenvolvimento delas, promovendo as possibilidades, respeitando o ritmo de aprendizagem de cada criança em um ambiente agradável e prazeroso. Esse ambiente precisa ser planejado e os espaços organizados de forma a oferecer enredo para explorações, brincadeiras, interação e descobertas. É importante que a comunicação e a expressividade do professor sejam pautadas na oralidade para promover as capacidades comunicativas das crianças, com bastante contato físico, carinho, elogio e encorajamento. Pronunciar palavras carinhosas, ler histórias, cantar, nomear tudo que estiver presente no ambiente, contar o que está sendo realizado, entre outras atividades de oralidade, colaboram com o desenvolvimento e a ampliação da linguagem. Partindo dos pressupostos teóricos aqui descritos, tratar do desenvolvimento e da aprendizagem na etapa da Educação Infantil pressupõe considerar a criança como um ser humano em constante interação no contexto histórico e social, em que devem ser considerados os aspectos físico, afetivo, psicológico, intelectual e social. A criança pequena, como ser histórico e contextualizado, depende das interações que com ela são estabelecidas para o seu pleno desenvolvimento. Desde o início da vida, as ações são construídas nas interações estabelecidas com o outro e com o meio. É o outro, uma criança mais experiente ou um adulto, quem promove com a criança as primeiras interpretações e constrói os primeiros significados do mundo externo, o que vai se ampliando com o passar do tempo, à medida que novas situações vão se apresentando. Nas situações de aprendizagem da criança pequena, o cuidar e o educar aparecem de forma interligada, pois fazem parte de um contexto em que se desenvolve uma relação de sensibilidade, afeto e comunicação. Acolher, observar, interagir, além de registrar e identificar necessidades de cada criança e do grupo faz parte do trabalho do professor, com vistas às propostas de trabalho com foco no desenvolvimento e na aprendizagem de todos. PARA SABER MAIS Cuidar, Educar e Brincar Fomos a algumas escolas para mostrar na prática que o educar está associado em diversas atividades realizadas na educação infantil - no banho, na troca de fraldas, na alimentação e higiene. VÍDEO: https://youtu.be/s71QaTgNdiw No planejamento do professor, é necessário integrar saberes e conhecimentos necessários para o desenvolvimento das crianças, com propostas de ricas experiências de aprendizagens. É preciso dar suporte à criança para a conquista da sua autonomia e do seu desenvolvimento físico, afetivo, social e cognitivo. PARA SABER MAIS DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM DA CRIANÇA Partindo dos pressupostos teóricos aqui descritos, tratar do desenvolvimento e da aprendizagem na etapa da Educação Infantil pressupõe considerar a criança como um ser humano em constante interação no contexto histórico e social, em que devem ser considerados os aspectos físico, afetivo, psicológico, intelectual e social. A criança pequena, como ser histórico e contextualizado, depende das interações que com ela são estabelecidas para o seu pleno desenvolvimento. Desde o início da vida, as ações são construídas nas interações estabelecidas com o outro e com o meio. É o outro, uma criança mais experiente ou um adulto, quem promove com a criança as primeiras interpretações e constrói os primeiros significados do mundo externo, o que vai se ampliando com o passar do tempo, à medida que novas situações vão se apresentando. Nas situações de aprendizagem da criança pequena, o cuidar e o educar aparecem de forma interligada, pois fazem parte de um contexto em que se desenvolve uma relação de sensibilidade, afeto e comunicação. Acolher, observar, interagir, além de registrar e identificar necessidades de cada criança e do grupo faz parte do trabalho do professor, com vistas às propostas de trabalho com foco no desenvolvimento e na aprendizagem de todos. Nesse processo, há de se considerar, e merece especial atenção por parte dos educadores, a linguagem própria da criança, manifestada por meio de brinquedos e brincadeiras. PARA SABER MAIS As interações e a brincadeira como eixos do trabalho na Educação Infantil VÍDEO: https://youtu.be/P1y2PXzPdHM Programa Diretrizes em Ação - Brincar e Cuidar Muitas interações VÍDEO: https://youtu.be/_CYOxMEQCbw Cultura da infância - O brincar VÍDEO: https://youtu.be/38GfSgXpdX4 A importância das interações e das brincadeiras no contexto da Educação Infantil Este artigo tem como objetivo ressaltar a importância das interações e das brincadeiras propostas pelas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil easseguradas pela Base Nacional Comum Curricular, como percurso para transformar o pensar sobre o fazer pedagógico na infância, considerando a criança como sujeito de direitos que constrói sua identidade pessoal e coletiva por meio das interações, relações e práticas no cotidiano que vivenciam. https://editorarealize.com.br/editora/anais/conedu/2022/TRABALHO_COMPLET O_EV174_MD1_ID9346_TB3150_08112022173922.pdf Aprendizagem por meio de jogos e brincadeiras A compreensão sobre a importância do brincar nas aprendizagens e no desenvolvimento das crianças é fundamental para que os professores valorizem e planejem brincadeiras no cotidiano e nos contextos de aprendizagem. Escolhemos esta publicação por apresentar dois aspetos essenciais para compreender a importância dos jogos e brincadeiras na aprendizagem das crianças: • Jogos e brincadeiras devem ser inerentes ao ambiente escolar, pois favorecem que as crianças aprendam em situações nas quais estão mentalmente ativas e interagindo com materiais de forma significativa, oportunizando o desenvolvimento das habilidades socioemocionais, cognitivas e autorregulatórias. • Evidências comprovam que a brincadeira livre e a brincadeira dirigida contribuem diferentemente para o desenvolvimento e aprendizagem das crianças. A publicação é organizada a partir de diferentes artigos escritos por especialistas e pesquisadores internacionais. A plataforma também disponibiliza um folheto informativo que oferece uma versão abreviada, com o essencial dos conhecimentos em um nível de linguagem adaptado aos diversos leitores, especialmente familiares e cuidadores de crianças. https://drive.google.com/file/d/1JS7aLCwOmSzOLwduirHkt1yXhhHp7mIa/view?us p=sharing PARA SABER MAIS BRINCADEIRA DE CRIANÇA: BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS PARA CRIANÇAS PEQUENAS Produção: Ministério da Educação, por meio da Secretaria de Educação Básica, 2012. Parceria: UNICEF O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) recebeu da Assembleia Geral da ONU o mandato de defender e proteger os direitos de crianças e adolescentes, ajudar a atender suas necessidades básicas e criar oportunidades para que alcancem seu pleno potencial. O UNICEF é guiado pela Convenção sobre os Direitos da Criança e é o principal defensor global de meninas e meninos. Bebês e crianças são sujeitos ativos e curiosos e aprendem e se desenvolvem por meio de brincadeiras e em contextos de interações responsivas. O professor tem um papel fundamental em organizar propostas nas quais, por meio de escuta e observação atenta, organiza espaços e materiais que fazem a diferença na qualidade das brincadeiras e das interações. Escolhemos esta publicação pois reúne, conforme a faixa etária, bebês (0 a 1 ano e meio) e crianças bem pequenas (1 ano e meio a 3 anos), dezenas de dicas de atividades, brinquedos e brincadeiras que valorizam as singularidades das crianças e apoiam aprendizagens fundamentais a partir da garantia do direito de brincar. https://drive.google.com/file/d/1oxImWkFYvlOCjxDf_BsZzNtzNH2NsLsK/view? usp=sharing Por ser um material que apresenta um rico acervo de brincadeiras e brinquedos, é possível usá-lo como referência e inspiração para o planejamento de contextos de brincadeiras. E posteriormente, para reflexão, em contextos formativos, sobre como essas brincadeiras e as interações oportunizadas favorecem aprendizagens. Outra possibilidade que sugerimos é o uso do material como forma de integrar escola e família, uma vez que muitas das propostas também podem acontecer em casa. 1.2 A INTENCIONALIDADE PEDAGÓGICA É importante destacar que a intencionalidade docente não se sobrepõe à ação das crianças nas experiências que realizam no cotidiano. É relevante considerar os desejos e necessidades dos pequenos. Isso significa pensar e agir na organização de tempos, espaços e materiais, para que os meninos e as meninas experienciem situações diversas, que respeitem os objetivos e as intenções que eles constroem, sozinhos e com seus pares ou com o professor. Nesse sentido, é preciso acolher os saberes das crianças, relacionando-os com os conhecimentos construídos ao longo da história humana. E acolher interesses, saberes, curiosidades e intenções das crianças é um elemento básico da intencionalidade pedagógica do profissional na educação infantil, considerando que a criança é o centro do planejamento curricular. PARA RELEMBRAR O objetivo do planejamento é garantir os direitos das crianças, de todas elas, a aprenderem a brincar, a participar, a conviver, a expressar, a explorar e a conhecer a si, ao outro e ao mundo, de se desenvolverem em um determinado espaço e tempo, cuidando do bem-estar físico e emocional dos meninos e meninas das creches e pré- escolas. PARA SABER MAIS O que é intencionalidade pedagógica e como ela impacta o trabalho do professor? De acordo com a BNCC, a intencionalidade pedagógica é a “organização e proposição, pelo educador, de experiências que permitam às crianças conhecer a si e ao outro e de conhecer e compreender as relações com a natureza, com a cultura e com a produção científica, que se traduzem nas práticas de cuidados pessoais (alimentar-se, vestir-se, higienizar-se), nas brincadeiras, nas experimentações com materiais variados, na aproximação com a literatura e no encontro com as pessoas.” A intencionalidade é importante nas tomadas de decisões do educador ou educadora no momento de propor, mediar – ou até mesmo o contrário, não intervir – nas experiências dentro da escola. Por que a intencionalidade pedagógica é importante? ● Direcionamento Ela permite que os educadores tenham um objetivo claro em mente ao planejar e implementar suas práticas de ensino, garantindo que as atividades e estratégias estejam alinhadas aos objetivos de aprendizagem dos alunos. ● Engajamento dos alunos Uma intenção pedagógica bem definida ajuda a tornar o conteúdo mais relevante e significativo para os alunos, pois é projetada para atender às suas necessidades, interesses e habilidades específicas. Ao projetar atividades com intenção pedagógica, os educadores podem criar experiências de aprendizagem mais envolventes e motivadoras, o que aumenta o engajamento dos alunos no processo de aprendizagem. ● Avaliação Eficaz Uma intenção pedagógica clara facilita a avaliação do progresso dos alunos. Isso permite que os educadores identifiquem áreas de maior aptidão e aquelas que precisam de mais suporte ou intervenção. ● Formação Integral Agir com intencionalidade educativa ajuda o professor a observar além da dimensão intelectual. Assim, garante que os desenvolvimentos físico, emocional, social e cultural não fiquem de lado. ● Personalização da Aprendizagem A intencionalidade pedagógica permite que os educadores adaptem suas abordagens de ensino para atender às necessidades individuais dos alunos, promovendo assim uma aprendizagem mais personalizada. Fonte: https://observatorio.movimentopelabase.org.br/ Para que possamos dar conta da complexidade e das especificidades do diálogo sobre necessidades e interesses das crianças e o currículo da educação infantil, precisamos considerar que o planejamento norteia o fazer cotidiano e está aberto ao inusitado, ou seja, é imprescindível planejar, mas é necessário considerar a flexibilidade. Ao planejar, possibilitam experimentar novas ideias a partir da observação e da escuta dos interesses dos bebês e das crianças, por isso a necessidade da observação atenta e o registro para documentar, comunicar e planejar. O planejamento suscita refletir sobre a nossa prática, permite revisitar, redimensionar, rever e continuar o desenvolvimento de ações educativas que sejam significativas, prazerosas e desafiadoras para crianças. PARA REFLETIR Na construçãodo planejamento das vivências, em que medida sua intencionalidade pedagógica vem considerando o modo como as crianças conhecem a si e interagem com os outros, com o patrimônio cultural, artístico, ambiental, científico e tecnológico? (BRASIL, 2009). IMPORTANTE Em cada direito de aprendizagem e desenvolvimento, em cada campo de experiências, em cada aprendizagem essencial expressa pelos objetivos de aprendizagem e desenvolvimento e nas práticas sociais propostas a serem vivenciadas com bebês e crianças na educação infantil, os aspectos socioemocionais estão integrados, pois entendemos a criança como um ser completo e com aprendizagens indivisíveis, sem hierarquização valorativa do que pode ser aprendido, assim como compreendemos que esses aspectos permeiam o cotidiano das escolas de educação infantil. Com isso, além de enriquecermos as nossas práticas, pensadas para e com as crianças no cotidiano da instituição, considerar esses aspectos, aqui tratados no planejamento pedagógico, potencializa o nosso saber e o nosso fazer pedagógico. O que contribui efetivamente para tornar nossas ações potentes são os seguintes elementos: 1. o registro, 2. efetivar as interações para e com as crianças, 3. observar a criança e suas interações, 4. refletir e analisar para planejar novamente. Há uma relação dialógica entre esses elementos. Eles são resultantes da ação contínua do aprimoramento da prática, que é um compromisso do professor de garantir os direitos de aprendizagem e desenvolvimento das crianças nas creches e pré-escolas. PARA REFLETIR Quais formas de registros são utilizadas com o objetivo de organizar as práticas planejadas e garantir os direitos de aprendizagem e desenvolvimento das crianças? Como os registros (relatos, fotos, vídeos etc) contribuem para a construção do seu planejamento? Vamos tratar mais especificamente de cada elemento que enriquece as práticas. O REGISTRO É o ato de registrar os percursos. Há o registro do planejamento, mas também do cotidiano, como das observações nas interações das crianças. Essas observações necessitam estar registradas em fotos, filmagens, anotações, áudios. O registro do planejamento pedagógico representa escolhas do professor, mas também das crianças, revela a práxis - relação teoria e prática. A organização do planejamento decorre da observação e da escuta dos saberes, das necessidades, curiosidades e interesses das crianças, evidenciados através das interações e brincadeiras vividas, e da articulação com os conhecimentos sistematizados historicamente para ampliar os seus saberes. INTERAÇÕES Tratamos desde o primeiro tópico sobre a importância das interações. A efetivação das interações para e com as crianças requer dos professores observação para perceber as interações estabelecidas, os encontros oportunizados pela organização do espaço, pelas experiências promovidas, pela exploração de materiais e o envolvimento das crianças com o que foi disponibilizado. OBSERVAÇÃO É o olhar cuidadoso, a escuta atenta e sensível para conhecer os conflitos, interesses, o que não foi percebido por elas, intenções, curiosidades, dúvidas das crianças. Ao conhecer os pequenos nas suas experiências com os variados materiais, nos diferentes espaços, e escutar os diálogos e acordos com os seus pares, construímos um conjunto de informações que nos auxilia na nossa tomada de decisões para realizarmos intervenções necessárias, para organizarmos práticas pedagógicas para a ampliação das aprendizagens das crianças. PARA SABER MAIS Paulo Fochi - A escuta da criança e as contribuições para nosso aprendizado sobre a infância VÍDEO: https://youtu.be/RmE9bZdZjYI REFLEXÃO É a análise, é a interpretação dos observáveis para a tomada de decisão com base nos nossos estudos, com base nos documentos norteadores e normativos. A reflexão fundamenta as decisões necessárias para garantia dos direitos de aprendizagem e desenvolvimento das crianças. Considerar esses elementos, que dialogam entre si, para encaminhar as ações pedagógicas na Educação Infantil, nos ajuda a acabar com práticas de ensino baseadas no espontaneísmo, autoritarismo e transmissão de conteúdo. PARA SABER MAIS - Espontaneísmo: quando se deixa as crianças sem nenhuma mediação, quando não vemos nenhuma intencionalidade. - Autoritarismo: quando o professor decide todas as ações, sem levar em consideração a escuta das crianças. - Transmissão de conteúdo: práticas de ensino baseadas na transmissão de conteúdo não constroem oportunidades de aprendizagem através da interação e da brincadeira. SISTEMATIZANDO O SABER A intencionalidade pedagógica se apresenta na organização e proposição de experiências, que oportunizam aos bebês e às crianças conhecerem a si e ao outro, relacionarem-se com a natureza, com a cultura e com a produção científica, por meio de práticas sociais diversas, de brincadeiras, experimentações com materiais variados, na aproximação com a literatura e no encontro com as pessoas (BRASIL, 2017). Portanto, tratamos do planejamento reflexivo. Além dos quatro elementos que tratamos aqui, propomos pensar na organização das experiências, na metodologia, considerando os princípios da ludicidade, significatividade e continuidade segundo BONDIOLI e MANTOVANI. A LUDICIDADE é adicionada às propostas num clima de liberdade e exploração. Tem relação com a brincadeira. A SIGNIFICATIVIDADE resulta ter atenção na importância que a criança dá a uma determinada experiência, assunto para, a partir daí, reforçar e dar continuidade. A CONTINUIDADE é pensar em planos, projetos e sequências didáticas que respondam às necessidades de continuidade que as crianças exigem. É possibilitar a ampliação, o aprofundamento e o enriquecimento das experiências em outras experiências. Esses três princípios colaboram com a “didática do fazer” e precisam reger as propostas de experiências para as crianças. PARA SABER MAIS Ludicidade, continuidade e significatividade nos campos de experiência In book: Campos de experiências na escola da infância: contribuições italianas para inventar um currículo de educação infantil brasileiro (pp.221-232) Publicação: Edições Leitura Crítica Organizadoras: Daniela Finco, Maria Carmen Silveira Barbosa, Ana Lúcia Goulart de Faria https://drive.google.com/file/d/1H-Ad07e- NikcW6HITwZLaeSRQnZSmIGW/view?usp=sharing 2. ORGANIZANDO O TEMPO E OS ESPAÇOS PARA AMPLIAR POSSIBILIDADES Considerando, ainda, que os bebês e as crianças ampliam suas experiências conforme a riqueza das vivências propostas, conforme Gandini, e que todo o tempo na instituição envolve o cuidar e o educar, é necessário assegurar todos os dias, na organização dos tempos, os tempos permanentes e os tempos diversificados. Ainda, deve ser especificada a organização: - do tempo, que diz respeito, fundamentalmente, ao desenvolvimento das ações, ao ritmo de cada criança e à continuidade das suas experiências; - dos materiais, que consiste na seleção, variedade e quantidade suficiente para que cada criança tenha a oportunidade de realizar suas experimentações e acordos necessários; - dos espaços, que equivale aos ambientes interno e externo à sala de referência da criança, como a biblioteca, o pátio, o jardim, a quadra esportiva e outros; - e dos agrupamentos nas diferentes atividades e nos modos de organização, que correspondem à formação de pequenos grupos, duplas ou coletivos que levem em conta critérios resultantes da observação do professor ou que derivem da decisão das crianças. PARA SABER MAIS O dia a dia das instituições de Educação Infantil é repleto de atividades pensadas/organizadas pelos educadores, partindo da necessidade e do interesse do grupode crianças que atendem. Dessa maneira, pode-se dizer que pensamos nessa organização de tempo e de espaço, objetivando o desenvolvimento integral das crianças a partir de todos os momentos pedagógicos que envolvem as vivências cotidianas das crianças, desde a chegada até a saída. Segundo Horn (2004), os espaços são flexíveis e devem ser planejados para refletir a cultura e a história de cada realidade. Eles não se restringem às paredes da sala de aula; os espaços externos são extensões dos espaços internos. Portanto, a organização do espaço na educação infantil deve ser parte integrante do planejamento, auxiliando o professor no desenvolvimento de sua prática. Isso requer um planejamento coeso, reflexão sobre a prática pedagógica e mediação por parte do professor, a fim de construir ambientes que estimulem diversas experiências de aprendizagem e convívio social (SAITO, 2015). Barbosa e Horn (2001) também ressaltam a importância da organização do cotidiano na Educação infantil, considerando a necessidade das crianças: Organizar o cotidiano das crianças da Educação Infantil pressupõe pensar que o estabelecimento de uma sequência básica de atividades diárias é, antes de mais nada, o resultado da leitura que fazemos do nosso grupo de crianças, a partir, principalmente, de suas necessidades. É importante que o educador observe o que as crianças brincam, como estas brincadeiras se desenvolvem, o que mais gostam de fazer, em que espaços preferem ficar, o que lhes chama mais atenção, em que momentos do dia estão mais tranquilos ou mais agitados. Este conhecimento é fundamental para que a estruturação espaço-temporal tenha significado. (BARBOSA; HORN, 2001, p. 67). Nesse sentido, ao planejar os espaços, deve-se levar em consideração as características de desenvolvimento de cada faixa etária e o professor é o elemento fundamental para a transformação do espaço em ambiente, observando os interesses e necessidades das crianças, provocando assim novas aprendizagens e ampliando conhecimentos num contexto educativo. Estes deverão ser desafiadores e acolhedores, proporcionando interações entre as crianças e os adultos, favorecendo o desenvolvimento, a criação e a autonomia dos sujeitos envolvidos. É necessário pensar em como disponibilizar materiais instigantes e desafiadores, que respondam ao potencial criador das crianças. Devemos planejar o espaço e perceber a necessidade de qualificar a paisagem sensorial, ou seja, atentar aos materiais que devem compor essa paisagem para que “as crianças tenham acesso a uma amplitude de materialidades para amplificar e complexificar suas percepções e compreensões do seu entorno” (FOCHI, 2019, p. 275). Compreende-se, então, que o ambiente não é meramente físico, ele reflete as concepções de criança, de infância, de educação infantil e como os profissionais que atuam nele entendem como se dá a aprendizagem nessa etapa da educação. Assim, entende-se que o espaço, na educação infantil, está para além da estrutura física. Essa compreensão nos leva a um conceito mais amplo de ambiente. Organização do espaço e materiais com intencionalidade pedagógica https://novaescola.org.br/conteudo/21294/educacao-infantil-como-organizar-o- espaco-escolar-com-intencionalidade-pedagogica Organização do Espaço e do Tempo - Legislação, pesquisas e práticas https://youtu.be/Gdg2j_Y-BsQ IMPORTANTE Segundo Forneiro (1998, p. 232-233), “espaço” se restringe “[...] ao espaço físico, ou seja, aos locais para a atividade caracterizados pelos objetos, pelos materiais didáticos, pelo mobiliário e pela decoração”. No que se refere ao termo ambiente, é o “[...] conjunto do espaço físico e as relações que se estabelecem no mesmo (afetos, as relações interpessoais entre as crianças, entre crianças e adultos, entre crianças e sociedade em seu conjunto)”. Partindo dessas concepções e corroborando com Barbosa (2009, p. 91), pode-se afirmar que “a intencionalidade pedagógica transforma espaços físicos em ambientes”. Diante disso, é de suma importância o olhar atento do educador para os diversos espaços da instituição (salas de convivência, pátio, banheiros, refeitório, parque e outros). A observação o ajudará a pensar os espaços de modo a atender às necessidades e interesses dos bebês e das crianças que neles se encontram, bem como pensar nas possíveis interações que neles podem ocorrer. SISTEMATIZANDO O SABER Considerando que todos os espaços e materiais dentro da instituição de educação infantil devem ser intencionalmente planejados, é inconcebível priorizar um espaço em detrimento de outros, como bem nos alerta Horn (2004), pontuando que não existem espaços mais nobres. A intencionalidade com a qual o educador planeja todos os ambientes de aprendizagem, além de considerar materiais, espaços, tempos e interações, deve atentar para a ampliação das experiências dos bebês e das crianças, para as suas competências, garantir os direitos de aprendizagem e desenvolvimento, bem como ter clareza quanto aos objetivos de aprendizagem para cada etapa da educação infantil, descritos na Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2017). 2.1 A ORGANIZAÇÃO DOS TEMPOS NA EDUCAÇÃO INFANTIL Os TEMPOS PERMANENTES são momentos da rotina que não podem faltar no dia a dia das crianças, enquanto os TEMPOS DIVERSIFICADOS são construídos por nós a partir da observação dos interesses e necessidades dos pequenos e do cotidiano da instituição. Eles se complementam numa rotina que respeita os interesses, as necessidades e as curiosidades das crianças. Ressaltamos que a perspectiva de trabalhar com tempos permanentes na rotina da turma não significa a exclusão de outras experiências em outros tempos diversificados, ao contrário, amplia as possibilidades de oportunidades de viver situações necessárias e importantes para as crianças. Os tempos permanentes e diversificados devem ser planejados e trabalhados no cotidiano com bebês e crianças de forma não fragmentada, entendendo que as experiências e as aprendizagens que acontecem nestes tempos se complementam e não se findam em si mesmas. Na construção do que irá nos tempos permanentes e diversificados, promovemos oportunidades de interação e brincadeira através de diferentes modos de organização da prática pedagógica, como: projetos pedagógicos, sequências didáticas, além de outras atividades eventuais em que as crianças tenham a oportunidade de interagir e se expressar por meio de variadas linguagens. Os tempos permanentes são imprescindíveis de serem planejados e vividos na rotina da Educação Infantil, seja nas turmas de creche ou de pré-escola. Estes tempos garantem o cuidar e o educar em propostas de acolhimento, cuidados pessoais e brincadeiras. São eles: 1. tempo de acolhida (chegada), 2. tempo de brincar, 3. tempo de leitura de histórias (pelo professor) 4. tempo de roda de conversa, 5. tempo de higiene e 6. alimentação. Os tempos diversificados surgem das interações cotidianas entre crianças e adultos no contexto escolar. Os professores, a partir do que consideram importante para a aprendizagem dos bebês e crianças e pautados nos documentos legais da Educação Infantil e na escuta atenta dos bebês e das crianças, planejam situações que podem ser: 1. tempo de explorar os brinquedos e objetos, 2. tempo de ler livros, 3. tempo de cantar e dançar, 4. tempo de explorar calendário, 5. tempo de desenhar e pintar, 6. tempo de escrever do jeito que sabe, 7. tempo com água e com areia, tempo de banho de chuveiro e de chuva, 8. tempo de passeios culturais, 9. tempo de explorações nas áreas diversificadas da sala (faz-de-conta, jogos, blocos e construção), assim como outros tempos que garantam a promoção de experiências diversificadas na rotina das crianças da educação infantil.E que tal realizar no mínimo dois (2) tempos diversificados por dia para as turmas atendidas em tempo parcial? PARA SABER MAIS Tempos permanentes Acolhida O momento da chegada à unidade escolar deve ser proposto atentando para o movimento dos bebês e das crianças que, aos poucos, chegam e se envolvem numa atividade em andamento. Por isso, as atividades propostas para esse tempo não devem constar de início, meio e fim delimitados, como uma roda de conversa ou uma leitura de história, visto que as crianças que chegam após seu início podem ter perdas de informações e, com isso, não se sentirem motivadas a participar. Roda de conversa A roda de conversa é um momento de partilha e construção de ideias em que as crianças relatam sobre suas experiências vividas, expressam seus desejos, sentimentos, emoções, legitimando seus direitos previstos na Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2017). No momento da roda de conversa, é essencial trazer diferentes narrativas, promovendo as trocas entre as crianças e entre as crianças e o adulto, contribuindo assim para que os bebês e as crianças desenvolvam outras formas de pensar o mundo. É necessário que o(a) professor(a) de educação infantil compreenda que o desenvolvimento da linguagem de bebês e crianças não ocorre de forma espontânea, mas por meio da mediação dele com diferentes experiências de diálogo com as crianças desde o momento que chegam na unidade escolar até a saída com suas famílias. Dessa forma, uma estratégia importante é o uso de perguntas abertas nos diálogos cotidianos (em que as crianças pequenas possam trazer suas perspectivas, hipóteses e ideias sobre o mundo) possibilitando que elas ajudem a solucionar problemas, expressando suas opiniões, e a criar outras perguntas. No caso dos bebês e das crianças bem pequenas, o apoio do(a) professor(a), usando perguntas fechadas e mais simples (as quais a resposta pode ser sim ou não), é esperado, todavia é fundamental inseri-las também em diálogos potentes de interação, mesmo que ainda não falem convencionalmente. Assim, planejar perguntas abertas e fechadas nas diferentes situações que for realizar com bebês e crianças é imprescindível para seu desenvolvimento integral. Higiene e alimentação Os tempos vividos pelas crianças cotidianamente, como alimentação, sono e higiene precisam ser pensados coletivamente como momentos de construção de aprendizagens para bebês e crianças, devendo ser planejados ambientes na perspectiva de respeito às especificidades de cada um. Habitualmente, acontecem de forma seguida, e estão relacionados à saúde, ao bem-estar da criança, à formação de bons hábitos (lavar as mãos antes de comer, escovar os dentes, comer frutas, legumes); à construção da autonomia (conseguir usar o banheiro sozinha, sem desperdícios; ter a possibilidade de fazer escolhas, por exemplo) e à construção de conhecimentos sobre o mundo físico (aprender sobre as propriedades dos alimentos: cheiro, sabor, forma, cor, textura). As crianças também constroem sua identidade (conhecimento de si) por meio das experiências de cuidado com o próprio corpo. Brincar livre O tempo do brincar deve ser pensado como um momento de brincadeira livre, na rotina diária, sendo permitido às crianças escolher a brincadeira, o parceiro, o enredo, como também dirigir e controlar sua atividade. É a oportunidade de brincar livremente, seja na sala de referência, no pátio, na área verde, entre outros espaços. O papel do professor deve ser o de planejar e propor espaços estruturados, com intencionalidade pedagógica, oferecer brinquedos e materiais diversificados (que podem ser materiais de largo alcance), de brincar junto entre os pares, além de tempo cronológico suficiente para o desenvolvimento das brincadeiras pelas crianças. Leitura de histórias O tempo da roda de história é um momento de apreciação, fruição, ampliação de repertório literário, de contos de tradição oral e oportunidade de contato com o mundo da leitura e da narração oral. Como um tempo permanente, devem ser pensados, planejados e organizados tempos, espaços, materiais e as interações para as mais diversas situações. Organizar boas situações de leitura e narração de história é sinônimo de criar hábitos para adquirir o comportamento leitor, ampliar vocabulário, instigar a curiosidade, a imaginação, a memória e a percepção da diferenciação entre a oralidade e a escrita. IMPORTANTE Vale ressaltar que tanto os tempos propostos como os modos de organizar o cotidiano de bebês e crianças sustentam-se nas doze experiências expressas no Artigo 9º das DCNEI (BRASIL, 2009) e nos direitos de aprendizagem e desenvolvimento apontados na BNCC (BRASIL, 2017). PARA SABER MAIS Organização do Tempo e do Espaço na Educação infantil – Pesquisas e Práticas https://drive.google.com/file/d/1G943RKHYb5bjGkrmR38ZuJC2MhFwvWfT/view?u sp=sharing 2.2 MODALIDADES DE ORGANIZAÇÃO DOS TEMPOS NA EDUCAÇÃO INFANTIL Destacamos duas modalidades de organização do cotidiano pedagógico que devem ser favorecidas na Educação Infantil. PROJETOS PEDAGÓGICOS Os projetos de turma podem surgir da necessidade de uma criança ou de um grupo de crianças de promover investigações mais aprofundadas. Já os projetos institucionais (coletivos) envolvem toda a instituição, promovendo diálogos e aprofundamentos em uma mesma temática. O trabalho com projetos de turma pode contribuir na articulação dos variados campos de experiências e concretização dos direitos de aprendizagem e desenvolvimento, pois possibilita a realização de atividades contextualizadas, centradas nos interesses e nas necessidades dos bebês e das crianças, valorizando e potencializando o protagonismo infantil. PARA SABER MAIS De uma forma geral, os projetos envolvem algumas etapas que não acontecem de forma linear, mas articuladas, tais como: definição, exploração, investigação, coleta de informações, realização, comunicação e avaliação (BARBOSA, 2012). Os temas dos projetos para os bebês e as crianças bem pequenas, basicamente, são derivados da observação atenta do(a) professor(a) sobre o grupo e, ao mesmo tempo, da escuta de cada criança. Para as crianças pequenas, os assuntos devem ser do interesse e do conhecimento do grupo. Vale destacar que os projetos podem sofrer alterações conforme a participação e o envolvimento das crianças nos temas investigados. Indicação de livro: BARBOSA, Maria Carmen Silveira; HORN, Maria da Graça Souza. Projetos pedagógicos na educação infantil. 2.ed. Porto Alegre: Abdr, 2009.128 p. Resenha: https://youtu.be/969t9D1mkYg As famílias devem ser convidadas a participar e a se envolver intensamente nos projetos da turma. Podemos convidar as famílias, por exemplo, a enviar objetos, textos, livros de casa que se relacionem com o tema investigado, a partilhar alguma experiência com a turma de crianças, participar de passeios e pesquisas coletivas. Cada professor, com seu grupo de crianças e objetivos investigativos, articula a melhor forma de as famílias participarem dos projetos vividos na turma. Os cotidianos de bebês e crianças devem ser permeados por esses projetos, o que requer do docente que atua nessa etapa da educação um redimensionamento do seu papel docente, tendo em vista que ele irá realizar a investigação junto com seu grupo de crianças, pois não detém todos os conhecimentos sobre todos os temas. Nessa parceria investigativa, algumas vezes, em uma mesma sala de referência, podem acontecer dois ou mais projetos simultaneamente, tendo em vista o interesse de pequenos grupos de crianças em fazer investigações distintas. O projeto institucional deve ser construído numa perspectiva de parceria entre gestão, professores, crianças, famílias e todos os profissionais das instituições ao longo de todo