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HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA MEDIEVAL OCIDENTAL AULA 4 Prof. Douglas Lima Profª. Mariana Trevisan 2 CONVERSA INICIAL Os séculos medievais revestem-se de especial importância sempre que pretendemos averiguar até que ponto os ideais religiosos, e as organizações destinadas a protegê-los e a perpetuá-los, se mostram influenciados pelo seu ambiente social. [...] Igreja e sociedade constituíam uma unidade, nada se podendo transformar numa das suas partes sem provocar transformações semelhantes na outra, o que constitui uma característica de grande parte da história europeia [...] A identificação da Igreja com a sociedade organizada constitui a característica fundamental que distingue a Idade Média, tanto dos períodos históricos que a antecedem, como dos que lhe sucedem. (Southern, 1970, p. 14-15) Richard Southern (1912-2001) foi um notável medievalista inglês do século XX e legou uma série de contribuições acerca da Idade Média Central, em especial sobre o pensamento escolástico, a piedade religiosa, o humanismo medieval e o desenvolvimento das instituições sociais, políticas e religiosas do período. No trecho, ao tratar especificamente da Igreja no Ocidente, o tema de nossa aula, Southern nos adverte sobre os perigos de uma abordagem histórica da Igreja deveras focada nos elementos eclesiásticos e doutrinários e isolada da história secular. Para o autor, pensar a Igreja durante a Idade Média é considerar a unidade entre ela e a sociedade, percebendo as relações indissociáveis entre a Igreja e o todo secular, assim como as reverberações dessas relações no campo da justiça, da economia, da cultura, da política etc. Antes de enveredarmos sobre o tema da aula, cabe outro esclarecimento prévio que pode ser expresso na seguinte interrogação: afinal, o que é a Igreja medieval? Em aulas anteriores, discutimos a ascensão do cristianismo no Ocidente, com foco nos elementos institucionais e doutrinários, no entanto, tais aspectos representam somente uma das faces relacionadas à Igreja medieval. Como explica Jérôme Baschet (2006), o termo “igreja” (eklesia) designava inicialmente a comunidade dos fiéis, agregando posteriormente tanto o edifício onde se reuniam os fiéis e onde se desenrolava o culto cristão como o corpo eclesiástico, característica que conferia certa plasticidade ao se tratar da Igreja ora como comunidade ora como instituição. Não obstante, a partir do século XI, o termo “igreja” passa a ser cada vez mais reservado aos membros eclesiásticos, ao passo que para designar o conjunto dos fiéis, empregam-se as palavras christianitas ou populus christianus, sinalizando a separação entre clérigos e leigos e o reforço dos poderes da instituição eclesial. A advertência feita pelo historiador inglês, assim como as tendências acerca da história da Igreja apontadas por Baschet, serão seguidas ao longo 3 deste capítulo, que buscará demonstrar a afirmação da Igreja na Idade Média Central, discutindo, num primeiro momento, a afirmação papal e a imposição religiosa sobre as estruturas seculares e, em seguida, as novas entonações do cristianismo relacionadas ao amplo movimento de renovação religiosa no período. Noutro momento, serão abordadas as contestações heréticas e como tais movimentos fomentaram a formação de uma sociedade persecutória. Por fim, a aula tratará dos elementos culturais relacionados ao tema, considerando tanto a questão do saber, expresso nas escolas e nas universidades, como aspectos mais amplos, ligados à arte românica e gótica. TEMA 1 – AFIRMAÇÃO DA IGREJA NO OCIDENTE: IMPOSIÇÃO DO PODER PAPAL SOBRE AS ESTRUTURAS SECULARES O processo que os historiadores se habituaram a nomear “reforma gregoriana” [...] não pode ser reduzido a seus aspectos mais factuais e mais ruidosos: a luta entre o papa e o imperador e a reforma moral do clero. Movimento muito mais profundo e de mais ampla duração que a fase aguda dos anos 1049-1122, ele visa a uma reestruturação global da sociedade cristã, sob a firme condução da instituição eclesial. Os seus eixos principais são a reforma da hierarquia secular sob a autoridade centralizadora do papado e o reforço da separação hierárquica entre laicos e clérigos. Trata-se de nada menos que reafirmar e consolidar a posição dominante da Igreja no seio do mundo feudal. (Baschet, 2006, p. 190) No início do segundo milênio, a Igreja ocidental encontrava-se profundamente envolta nas pressões das aristocracias locais, tendendo a ser absorvida nas estruturas resultantes dos senhorios e na vida secular. Críticas à desordem dos costumes do clero (nicolaísmo) – muitos clérigos, especialmente os seculares, viviam como leigos, não respeitavam o celibato, portavam armas etc. – e ao comércio das coisas sagradas (simonia) – como sacramentos e funções religiosas – eram comuns e debilitavam a Igreja e sua imagem. Como uma forma de resistência a esse processo, os séculos XI e XII marcam um amplo movimento de reforma, o qual teve como uma de suas principais expressões o fortalecimento da hierarquia eclesiástica sob a autoridade papal. Para isso, um dos primeiros alvos dos reformistas foi combater a investidura laica, uma antiga prática na qual bispos e abades, depois de eleitos, eram investidos por uma autoridade laica (o rei ou um representante régio) com símbolos da dignidade espiritual, o báculo e o anel. Dessa prática, comumente decorria a nomeação episcopal pelos poderes seculares e a intervenção imperial na escolha do papa. 4 A querela das investiduras foi mais intensa no Sacro Império Romano1, onde por meio da investidura os bispos recebiam o título de conde ou duque, detendo uma autoridade secular e, por conseguinte, tornavam-se vassalos do príncipe. Um dos primeiros sucessos alcançados pelos reformistas foi a alteração do procedimento de eleição papal, que no século XI deixou de ser selecionado pela diocese romana, sob pressão da aristocracia local, e passou a ser escolhido pelo Sacro Colégio Pontifício, um colegiado de cardeais e bispos influentes. Essa medida foi reforçada no século XIII, com a realização dos primeiros conclaves, reunião a portas fechadas que reduziu a interferência secular para a eleição papal (Blockmans; Hoppenbrouwers, 2012). Concomitantemente, acompanha-se o fortalecimento teológico das reivindicações dos papas como principais autoridades da Cristandade, tanto em termos espirituais, como em questões temporais. Desde os primeiros séculos medievais é possível notar uma “quase-identificação” entre a Igreja e o Império e, por mais que o movimento de afirmação do primado papal estivesse presente, enquanto a figura imperial se manteve assumindo a posição de Vicarius Christi (“vigário de Cristo”) a situação da supremacia do papa foi de difícil estabelecimento (Gomes, 1997). A premissa de S. Paulo de que todo poder vem de Deus foi interpretada de variadas formas no medievo e o papado tendeu a estabelecer uma leitura que colocava o pontífice na posição de mediador supremo entre Deus e os homens. Essas doutrinas, classificadas como hierocráticas, ofereceram o caminho para a legitimação das intervenções papais nas esferas ditas temporais2. O processo de fortalecimento eclesiástico alcançaria o seu ápice na noção de potestas directa no século XIV, período marcado pela promulgação da bula Unam Sanctam3 (1302) pelo papa Bonifácio VIII (1230-1303). Autores eclesiásticos como São Bernardo de Claraval (1091-1153), João de Salisbury (c.1110/1120- 1180) e São Tomás de Aquino (1225-1274), contribuíram para essa gradativa 1 Após o declínio carolíngio e a divisão dos territórios imperiais, a parte mais a leste dos domínios imperiais foi revivida como domínio imperial com a coroação de Otão I (912-973) pelo papa. Na realidade, o termo Sacro Império Romano passou a ser utilizado somente a partir do século XIII,mencionando-se antes a noção de translatio imperii (do latim: transferência do Império). O termo Sacro Império Romano-Germânico passa a ser utilizada apenas a partir do século XVI. 2 Temporais →mundanas, ou seja, distintas das esferas espirituais. 3 Essa bula resultou de uma disputa entre o Papa Bonifácio e o Rei francês Felipe, o Belo, em torno da doutrina do primado pontifício. Buscou estabelecer o primado do poder papal perante todos os outros poderes terrenos. 5 afirmação da dignidade episcopal acima da esfera temporal, fortalecendo o movimento de libertas Ecclesiae que marcou os séculos XI e XII (Souza; Barbosa, 1997). Em termos práticos, as reivindicações do poder papal sobre as estruturas temporais contavam com menos recursos. Sem dispor de instrumentos militares, as armas usadas comumente pela Santa Sé foram a excomunhão – recorrente nas disputas contra o Império e alguns monarcas –, a interdição de atividades e atos, como a suspensão de cultos religiosos em determinadas áreas, e a acusação de heresia, como o célebre caso dos cátaros no sul da França. Tanto para o combate às heresias, como para a implementação de guerras santas, em especial as Cruzadas no Oriente, a Igreja mobilizava, ainda que indiretamente, o apoio dos poderes seculares, convocando a aristocracia guerreira para empreendimentos bélicos justificados pela religião (Flori, 2013). Paralelamente, evidencia-se a expansão dos órgãos administrativos – por exemplo, a criação do Sacro Colégio, no século XII, que reunia os conselheiros e os funcionários eclesiásticos administrativos do papa, passando ainda a agregar clérigos de diferentes regiões da Cristandade – fiscais e jurídicos ligados ao papado. Nessa última dimensão em particular, ressalta-se que foi no mesmo século que se institucionalizou a autoridade judiciária suprema do papado sob a Igreja latina. Todos esses fatores contribuíram para a consumação da primazia pontifícia e da chamada Monarquia papal. Para finalizar esse tópico, lembra-se que a imposição da Igreja sobre as estruturas seculares também se deu por meio dos sínodos e concílios, sendo o mais simbólico do período o IV Concílio de Latrão, realizado em 1215. Tais reuniões, em princípio, visavam eliminar as influências seculares dentro do meio eclesiástico, mas simultaneamente reforçaram a separação entre clérigos e leigos e os princípios morais religiosos para a vida cristã. Nesse sentido, produziram-se regulamentos sobre: as relações de parentesco (casamentos, apadrinhamentos etc.); a prática da confissão; o alinhamento dos sacramentos; o uso de marcações distintivas nas vestimentas para minorias religiosas, como judeus e muçulmanos; e a moral do clero, com a afirmação do celibato. Sobre o matrimônio, cabe mencionar que até então era apenas um contrato civil, tal como na sociedade romana, mas a partir do século XII passa a ser um sacramento, o que amplia o controle eclesiástico sobre as estruturas de parentesco e a reprodução da sociedade (Le Goff, 2007). 6 TEMA 2 – RENOVAÇÃO RELIGIOSA E AS NOVAS ENTONAÇÕES DO CRISTIANISMO Em seu conjunto, os impulsos de reforma na primeira metade do século XII resultaram em uma intensificação e uma diferenciação da vida religiosa comunitária, que não se manifestaram apenas no impressionante número de novas fundações. Simultaneamente cresceu consideravelmente a abrangência social das formas de vida religiosa e dos impulsos de reforma. Nunca anteriormente tantos grupos sociais haviam sido incluídos na vida religiosa comunitária nem nas iniciativas e discussões acerca da reforma da vida religiosa. (Körntgen, 2014, p. 34) As palavras de Ludger Körntgen fazem sobressair o contexto de renovação religiosa que marca a Idade Média Central. As raízes dessa reforma são costumeiramente creditadas ao movimento de Cluny, no ducado da Borgonha, responsável por levar a cabo uma reforma das práticas monásticas em inícios do século X. Cluny foi a primeira abadia onde a prece pela salvação dos mortos tornou-se uma missão, decorrendo dessa prática a comemoração do Dia de Finados, igualmente influenciada pelas novas concepções acerca do lugar das almas falecidas à espera do Juízo Final. No século XI, novamente o meio monástico protagonizou o movimento de renovação religiosa, destacando- se as novas ordens dos cistercienses, dos cartuxos e dos premonstratenses. Gozando de autonomia conventual, elas implementaram esforços por modelos de vida mais austeros, uma vida apostólica sem excessos e mais ligada à espiritualidade, contrapontos ao modelo representado por Cluny. Por inclinação à defesa do trabalho manual dos monges, as novas ordens contribuíram ainda para uma maior aproximação dos leigos na vida religiosa comunitária. A renovação monástica citada foi um claro indício da intensificação da própria vida religiosa em termos mais amplos, um cristianismo de novas entonações que se abriu aos leigos. Estes foram motivados a se aproximar da vida comunitária, sem a necessidade de assumir os votos monásticos e sem a obrigação de participar da liturgia. Assim, o fato novo que marca o período a partir do século XI é a entrada em cena das massas que aspiravam à salvação, criando nos séculos seguintes, inclusive, uma santidade leiga, com o aparecimento de santos de origem popular e urbana (Vauchez, 1995). Do mesmo modo, afirmaram-se no período novas práticas devocionais e um processo de interiorização da fé cristã. Exemplificam essa tendência a retomada do teatro religioso, o desenvolvimento das procissões, da confissão, do culto mariano e das festas cristãs, acompanhadas de alterações litúrgicas. 7 Ademais, tais movimentos nutriram-se do aprimoramento da iconografia e da arte religiosa, contribuindo para a multiplicação de objetos de devoção (Figura 1), como relicários, crucifixos e livros de horas, e a afirmação da imagem de um Cristo sofredor, cada vez mais próximo do homem comum. Outra face das mutações da vida religiosa no período foi o sensível crescimento do número de conventos femininos. Minoria até o século XI, desde então as comunidades religiosas femininas se afirmaram em conventos próprios ou em mosteiros duplos, onde o abade era encarregado da assistência espiritual e sacramental das mulheres. Caso emblemático do período é o de Hildegarda de Bingen (1098-1179), que se tornou conhecida como visionária, escritora e compositora. Pertencente ao mosteiro de Disibodenberg, nas cercanias de Mainz, Hildegarda conduziu a separação de sua comunidade feminina, constituindo um mosteiro exclusivo para mulheres, em Rupertsberg, que gozava de autonomia econômica e uma forma de vida própria (Körntgen, 2014). Figura 1 – Cruz de Bonneval (século XIII) / Cruz de procissão com fundo dourado pontilhado de flores e estrelas e figuras esmaltadas. A face principal representa a Crucificação: sob a Mão de Deus, o Cristo crucificado, encimado por um anjo, é ladeado pela Virgem e São João, pela Igreja e pela Sinagoga; aos pés da cruz, Adão, o primeiro homem, sai de seu túmulo. No lado reverso, o Cristo em Majestade, rodeado de símbolos dos quatro evangelistas e profetas do Antigo Testamento Crédito: Musée de Cluny-França. 8 As críticas ao comportamento do clero e os anseios pelos ideais de pobreza voluntária e vida apostólica conduziram ao surgimento, no século XIII, das ordens mendicantes, com destaque para a Ordem dos Frades Menores, os franciscanos, e a Ordem dos Pregadores, os dominicanos. A criação dessas ordens representou um dos aspectos mais marcantes das transformações religiosas vivenciadas no Ocidente, aproximando a Igreja do revigorado ambiente urbano. São Francisco de Assis (1181-1226) notabilizou-se pela assimilação da imitatio Christi e pela condenação dos bens materiais, fundando uma ordem ancorada na penitência e na pobreza. Paralelamente, São Domingos de Guzmán(1170-1221), fundador dos dominicanos, destacou-se pela pregação contra as heresias e pelo suporte teológico oferecido ao recém- criado tribunal da Inquisição. O sucesso de ambas as ordens foi tão marcante que no início do século XIII, os dominicanos dispunham de cerca de 700 conventos e, no século XIV, a ordem dos franciscanos era composta por cerca de 1400. Mesmo aceitando uma regra de vida comunitária e ascética, franciscanos e dominicanos optaram por viver em meio aos fiéis, renunciando à vida em comunidades rurais isoladas e ao ideal da fuga do mundo. Tal opção permitiu o enraizamento dos princípios do clero regular no coração das cidades medievais, com os frades assumindo uma atividade pastoral adaptada às novas exigências da sociedade medieval (Baschet, 2006). Outro fator que acompanhou o desenvolvimento das ordens mendicantes e acentuou a participação dos leigos na vida cristã foi a formação de ramos femininos dessas ordens, sendo a mais conhecida a Ordem das Clarissas. Clara de Assis (c.1193-1253), fundadora da ordem, deixou importantes escritos e foi responsável pelo fortalecimento dos conventos femininos, garantindo a aprovação de uma nova forma de vida para as mulheres dentro da estrutura da Igreja. Além disso, marca o período a constituição das Ordens Terceiras, ordens destinadas a simpatizantes, por vezes casados, que queriam viver de acordo com o Evangelho, independentemente da adoção dos votos monásticos. O fervor religioso encontrou ainda formas de expressão mais radicais com grupos que buscavam modos de vida mais espirituais e ascéticos. Tal via, por vezes, conduziu-os à crítica ao clero regular e secular, criando problemas de acomodação nas estruturas da Igreja. Exemplificam essa tendência o movimento dos valdenses, liderados pelo comerciante Pedro Valdo (1140-1218), e das beguinas, grupos de mulheres devotas que viviam em comunidades e se 9 sustentavam por meio de trabalhos manuais. Ambos buscavam a vida apostólica de forma mais intensa e esse modelo os levou a localizarem-se na linha limítrofe entre a heresia e a ortodoxia, com os primeiros sendo condenados como hereges e o movimento feminino conseguindo ser absorvido pela Igreja. TEMA 3 – HERESIAS E PERSEGUIÇÃO O movimento de reforma da Igreja, principalmente em sua expressão mais radical, incentivou a crítica ao comportamento e à corrupção do clero, a recusa da riqueza e o ideal de vida apostólica. Esses ideais, defendidos por certos grupos ou indivíduos, poderiam ou não receber a denominação de heresia [...], sua repressão era uma forma de garantir o monopólio da hierarquia eclesiástica no exercício das funções sacerdotais diante de grupos, letrados ou não, que, tendo acesso aos textos e aos ritos sagrados, buscavam imitar ou controlar o exercício dessas funções. (Silva, 2019, p. 106) Como argumenta Marcelo Cândido da Silva, os historiadores costumavam considerar as heresias da Idade Média Central como a expressão de um grande movimento popular de contestação religiosa, assentado sobre uma nova visão ética da instituição eclesiástica e da fé cristã. Tal perspectiva, desprezava o fato de que as heresias foram, sobretudo, a expressão dos discursos daqueles que as identificavam como tais, logo, que a classificação de determinado movimento como herege deve ser entendida dentro das disputas estabelecidas, geralmente, em contextos locais ou regionais. Como estudado anteriormente, o primeiro milênio cristão conheceu intensas disputas doutrinárias, com vários movimentos sendo condenados como hereges, em especial, por proposições acerca da natureza de Cristo. Diferentemente, as heresias do século XII caracterizaram-se por críticas ao modo de vida do clero (Quadro 1), formando comunidades religiosas independentes da Igreja e associadas aos ideais de pobreza e de vida apostólica. Tais movimentos tinham uma conformação socioeconômica variada, reunindo desde grupos pauperizados às camadas dirigentes locais e regionais, como no caso dos valdenses e dos cátaros, consequentemente, representavam perda política e financeira a bispos e párocos locais. Quadro 1 – Heresias dos séculos XII-XIII Nome Motivo Condenação Valdenses Adotavam a pobreza absoluta e proibiam os juramentos e a pena de morte. Acreditavam que qualquer leigo poderia realizar o ritual da missa e que a Igreja romana não era a Igreja de Cristo. Excomungados em 1184, sobreviveram durante muitos séculos na clandestinidade. 10 Cátaros Acreditavam que o mundo foi criado por Satã e que só os puros poderiam chegar a Deus. Negavam a matéria, adotando a pobreza absoluta. Condenavam a riqueza da Igreja, o casamento e qualquer forma de juramento. Condenados em diversos concílios no século XII. Em 1209, foi decretada uma cruzada para exterminá-los. Foram perseguidos pela inquisição. Irmãos do livre espírito Adeptos da pobreza absoluta, consideravam-se parte direta de Deus, por terem em si o Espírito Santo. Condenados em 1209, foram posteriormente perseguidos implacavelmente pela inquisição. Fonte: elaborado com base em Macedo, 1996, p. 26. Outra especificidade do século XII foi que no período o papado assumiu a dianteira na luta contra as heresias, definindo e difundindo procedimentos judiciários a serem utilizados na identificação e combate aos hereges. Tais medidas, compreendidas em conjunto com a emergência do poder monárquico, levaram Robert Moore (1987) a propor que, a partir do século XI, no contexto de reforma da Igreja e reforço do poder papal, formou-se uma “sociedade persecutória”, com o aprimoramento dos instrumentos de perseguição tanto de hereges quanto de grupos marginalizados, como judeus, muçulmanos, leprosos e homossexuais. O conceito elaborado pelo historiador britânico tem sido recorrentemente usado para explicar como a sociedade Ocidental, em termos da Igreja e do Estado, instituiu mecanismos de discriminação aberta, estigmatização e perseguição crônica, uma face obscura do desenvolvimento artístico, intelectual e econômico do período. Considerados como uma doença em meio à comunidade dos fiéis, hereges e grupos marginalizados foram coagidos por meio de diversas maneiras. Para tal, desenvolveu-se um vasto conjunto de textos (manuais de confessores, manuais de inquisidores, obras sobre a arte de pregar etc.) e instrumentos de perseguição e punição, sendo o mais emblemático a Inquisição. Fazendo amplo uso dos procedimentos inquisitoriais, em voga com a retomada do direito romano no Ocidente, a Igreja sistematizou as medidas de investigação e condenação dos crimes de fé, promulgando decretos e mobilizando emissários eclesiásticos, as novas ordens religiosas e os concílios. Tais ações resultaram na criação dos tribunais da inquisição ao longo dos séculos XII e XIII, comumente chamados de Inquisição Papal, em contraste com os tribunais formados a partir do final do século XV, diretamente dependentes do poder monárquico. Com a inquisição medieval, a denúncia de uma vítima deixou de ser necessária para a abertura de um processo, podendo este ser iniciado por determinação de uma autoridade clerical, por vezes baseada em rumores ou em suspeitas externas ao local de diligência. À justiça eclesiástica competia, assim, 11 não somente reagir a denúncias, mas detectar situações cabíveis de punição. Concomitantemente, observa-se a redução dos direitos do acusado, pois as acusações concretas podiam permanecer-lhe desconhecidas, assim como a identidade do acusador e das testemunhas de acusação. Em síntese, essas disposições deixavam o suspeito de heresia à mercê de um processo sem defesa, exposto à arbitrariedade dos acusadores e dos juízes (Ohst, 2014). Com amplo uso da violência física e psicológica, a inquisição tornou-se um órgão essencialmente repressivo, responsável por investigar, descobrir e estabelecer as penas aos infratores.Apesar disso, falar numa inquisição medieval no singular não deve ofuscar a pluralidade e as limitações dos tribunais inquisitoriais no período. Tratava-se, de fato, de tribunais locais assumidos por um bispo ou confiados a frades mendicantes, que objetivavam forçar o arrependimento e a reintegração à comunidade. As penas variavam, abarcando a excomunhão individual, a interdição comunitária, a imposição de obrigações (por exemplo, uso de determinadas vestimentas com identificações de heresia ou peregrinação a lugares santos), o confisco de bens, a perda do direito de herança pelos descendentes do herege, a prisão e, em casos limítrofes, a condenação à morte, geralmente na fogueira. De todo modo, como um processo de múltiplas faces, a partir do século XII a Europa ocidental afirmou-se como uma sociedade persecutória, marcada por um maior controle das instituições civis e eclesiásticas sobre a população. Uma comunidade cada vez mais fracionada internamente, com seus membros reafirmando suspeitas e perseguições entre si. Uma escalada do medo, para usar as palavras de Jean Delumeau (1989), que chegaria ao seu ápice na caça às bruxas dos séculos XVI e XVII, ou seja, no período que consideramos Moderno pela cronologia tradicional. TEMA 4 – IGREJA E SABER: ESCOLAS E UNIVERSIDADES MEDIEVAIS O “Renascimento do século XII” foi marcado pelo que se denominou às vezes de verdadeira “revolução escolar”, cuja essência fora conquistada desde a metade do século, ao menos no que se refere aos princípios e às linhas diretoras. A definição e o enriquecimento dos novos saberes, bem como o surgimento de um número suficiente de indivíduos capazes de assimilá-los e divulgá-los foram tornados possíveis, em grande medida, pela existência de instituições de ensino sólidas, mesmo que ainda não estáveis. (Verger, 2001, p. 35) Como explica Jacques Verger, se podemos falar de um Renascimento do século XII, para usar o consagrado termo cunhado por Charles Haskins (1870- 12 1937), é porque já existia no Ocidente uma rede de escolas estabelecida e que serviu de base para uma verdadeira revolução escolar na Europa medieval. Ao menos desde o século IV, as escolas antigas, ligadas à cultura cívica do mundo romano, deram lugar a uma rede de escolas eclesiásticas, geralmente localizadas junto aos mosteiros e sob a autoridade de um abade. Esse processo conduziu ao quase monopólio da Igreja sobre o ensino, ainda que algumas escolas leigas tenham persistido na Itália, em cidades como Roma, Ravena e Bolonha. Tais estabelecimentos religiosos eram destinados, sobretudo, aos jovens ingressantes na Igreja, mas também recebiam alunos de fora do meio eclesiástico, como filhos de nobres e camponeses. Nessas escolas o programa de ensino era, geralmente, o estabelecido por Alcuíno (735-804) para as escolas carolíngias, pautado nas sete artes liberais: o Trivium (Gramática, Dialética e Retórica) e o Quadrivium (Matemática, Geometria, Música e Astronomia), com o método sendo a lectio, isto é, a leitura de trechos de um texto pelo mestre acompanhada da extração de seu sentido profundo e oculto. Uma das obras mais emblemáticas desse modelo é Didascalicon, de Hugo de São Víctor (1096- 1141). Apesar disso, a maior parte das escolas dispensavam apenas um ensino elementar (leitura, escrita e cálculo), concentrando maior atenção na preparação do jovem para as tarefas litúrgicas, sendo a exceção as escolas catedrais ou de grandes mosteiros, em geral localizadas em centros urbanos de destaque (Verger, 1990). A revolução escolar do século XII tratou-se, inicialmente, de uma mudança quantitativa, com a multiplicação das escolas, dos mestres e dos alunos, e o crescimento dos estabelecimentos nas cidades e nos burgos, colocando em segundo plano as escolas monásticas. Tais escolas urbanas cada vez mais fugiam do controle clerical, alterando ainda a remuneração dos mestres e o próprio funcionamento dos estabelecimentos de ensino. Outra característica dessa revolução foi a renovação da dialética e da lógica, motivada diretamente pelos aportes da obra de Aristóteles, recém-redescoberta no Ocidente (influência do contato com os muçulmanos e o mundo bizantino), renovação que influenciou diretamente o campo do Direito e da Medicina. Nesse contexto de multiplicação de escolas e de aprofundamento e diversificação dos ensinamentos, a passagem do século XII para o século XIII viu surgirem as primeiras universidades na Europa, como as de Bolonha, Paris e Oxford. Ancoradas na realidade urbana do período, as universidades se 13 difundiram rapidamente pelos reinos europeus e, ainda no século XIII, já somavam dezenas de estabelecimentos, chegando a quase uma centena em finais do século XV. Elas constituíam-se como uma corporação de professores e estudantes, as universitas, que tratava dos interesses comuns e buscava autonomia e liberdade frente à Igreja e aos poderes seculares. Tal liberdade, no entanto, não deve ser entendida como uma separação da órbita da Igreja, visto que a licença papal era imprescindível para o funcionamento das instituições e, em geral, era o papado que garantia privilégios e protegia mestres e estudantes contra abusos das autoridades locais. Em termos de método de ensino, as universidades exploraram sobremaneira a disputatio, o debate oral como uma disciplina para o ensino de retórica, que associada a lectio, contribuíram para o desenvolvimento da Escolástica, sistema de ensino medieval por excelência. Cabe ressaltar que as universidades medievais eram espaços masculinos, de homens como mestres e alunos, sendo a educação feminina no período mais restrita a grandes mulheres da nobreza e de famílias de posses, realizada no âmbito doméstico por preceptores. No entanto, em algumas cidades surgiram escolas que aceitavam também meninas, bem como houve mulheres que se tornaram professoras (em geral, junto com seus maridos, em escolas laicas) (Opitz, 1990, p. 398). Para finalizar, como sublinha Verger, uma das características mais marcantes da universidade medieval foi sua vocação universalista, extraída das fontes antigas e da Revelação e proferida por meio de uma língua igualmente universal, o latim. Essa tendência marcou a renovação educacional dos séculos XII e XIII e favoreceu, nos séculos seguintes, o desenvolvimento do humanismo renascentista. Esse saber cristão mais aberto também é expressão de um tempo ambíguo, uma sociedade e uma Igreja que se abria intelectualmente, mas que se fechava por meio de perseguições e segregações. TEMA 5 – ARTE, RELIGIÃO, IGREJA Do românico ao gótico é o mundo que muda e, com ele, a maneira de conceber a função social e ideológica da arquitetura. [...] É assim que a igreja românica aparece como uma cidade santa fortificada, prefiguração terrestre da Jerusalém celeste, exibindo suas muralhas de pedras preciosas, ilha de pureza espiritual em meio à ameaçadora confusão do mundo. [...] Se o românico era uma arte do muro, o gótico é uma arte da linha e da luz, sinal indubitável de uma relação com o mundo mais aberta, menos inquieta com o contato com as realidades mundanas, tão presentes nas próprias portas das catedrais. (Baschet, 2006, p. 201, 203) 14 A história da arte medieval merece um capítulo à parte e, na impossibilidade de tal aprofundamento, propomos uma breve caracterização da arte românica e gótica. Além disso, como será sugerido no item “na prática”, consideramos que o contato visual, ainda que virtual, com as construções do período poderá oferecer experiências enriquecedoras, permitindo uma investigação individualizada. Como assinalou Raul Glaber (985-1047), o contexto do Ano Mil foi marcado por um amplo movimento de (re) construção de igrejas na Europa medieval. Somente no reino francês, por exemplo, foram construídas 500 novas igrejas e quase uma centena de catedrais, sem contaras milhares de igrejas paroquiais. O movimento indicado pelo monge francês foi resultado tanto do crescimento populacional, do desenvolvimento econômico e do aprimoramento das técnicas do período (por exemplo, do trabalho com vitrais), como do fortalecimento das instituições eclesiásticas, força manifesta nas alterações litúrgicas, cada vez mais elaboradas, e nos objetos devocionais. Acrescenta-se a isso o anteriormente mencionado processo de renovação do cristianismo, que aproximou ainda mais as comunidades das instituições clericais. Figura 2 – Igreja românica e igreja gótica / À esquerda: Sé Velha de Coimbra, monumento do românico português, século XII. À direita: Mosteiro da Batalha (vila da Batalha, Portugal), emblema do estilo gótico flamejante, século XV Crédito: Mariana Bonat Trevisan, 2015. Dois estilos artísticos e arquitetônicos principais destacaram-se no período: o românico, entre os séculos XI e XIII, e o gótico, entre os séculos XII e XV. Ambos se manifestaram, sobretudo, nas construções religiosas, mas também podem ser observados em edifícios civis, como castelos, torres e alguns 15 palácios. Conforme indicado na citação de Jérôme Baschet, é possível identificar nas diferenças entre os estilos, a mudança vivenciada pela sociedade medieval no período. Comparando duas catedrais, uma românica e outra gótica, o historiador francês sugere que a primeira representa uma Igreja que quer ser uma fortaleza que se defende contra o mundo exterior, uma ilha de pureza espiritual em meio às ameaças seculares; em contraponto, a catedral gótica, como filha da cidade e do revigoramento urbano e comercial, pauta-se na luz, indicando uma relação aberta com o mundo, menos inquieta frete às realidades mundanas presentes em suas portas, sem deixar de também expressar uma instituição eclesial triunfante sobre as estruturas seculares. Como principais características da arte românica, podem-se se indicar: construções em pedra, com paredes grossas, abóbodas e arcos, num padrão austero; modelos de plantas em cruz, com uma, três ou cinco naves, divididas por colunas; interior com pequenas janelas e decorações diversas em pedra. Em contraste, a arte gótica caracteriza-se pela: verticalização das construções; a ampliação da luz interior; a generalização do uso de rosáceas no portal central; e a ampliação das pinturas a óleo e, principalmente, dos vitrais coloridos. NA PRÁTICA Há poucas décadas, somente por meio de viagens internacionais – experiência de difícil acesso a maior parte da população brasileira – era possível visitar castelos, catedrais e cidades medievais na Europa. Hoje, por intermédio das tecnologias digitais, é possível ao estudante e ao interessado em geral explorar inúmeros monumentos medievais. Considerando o tema dessa aula, nossa sugestão prática é que você faça visitas virtuais a construções religiosas da Idade Média4. Escolhemos para a atividade dois mosteiros de Portugal, que além da riqueza histórica e arquitetônica, oferecem informações em língua portuguesa. O primeiro mosteiro indicado é o mosteiro de Alcobaça, com construção iniciada no século XII, e o segundo é o mosteiro de Santa Maria da Vitória (também conhecido como mosteiro da Batalha), com construção iniciada no século XIV. 4 Caso você tenha familiaridade com a língua inglesa e disponibilidade para ampliar a pesquisa, sugerimos ainda a visita virtual às catedrais de Canterbury, na Inglaterra (https://www.canterbury- cathedral.org/virtual-tour/), e de Amiens, na França. Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2021. 16 Para buscar informações sobre os mosteiros, sugerimos respectivamente os sites institucionais: e . Acessos em: 29 set. 2021. Para visualizar o interior das construções, sugerimos o uso da ferramenta Google Arts & Culture, aplicativo gratuito que permite a visitação a milhares de obras e monumentos em mais de 80 países, entre elas os dois mosteiros da atividade. Como uma forma de visita guiada, propomos um conjunto de interrogações que podem auxiliar na contextualização de ambos os mosteiros frente aos temas da aula: qual ordem religiosa foi responsável por cada um dos mosteiros? Quais as características arquitetônicas das construções? Como a história dos mosteiros relaciona-se com a história da monarquia portuguesa? Como os mosteiros relacionavam-se com a produção agrícola da região? FINALIZANDO Nessa aula pudemos compreender como a instituição eclesiástica foi ao longo dos séculos medievais se fortalecendo e se colocando mediadora essencial entre os cristãos e o divino. Essa mediação e fortalecimento também implicou em maior controle tanto das aristocracias e poderes laicos de reis e príncipes, quanto da população em geral, por meio de regulações mediadas por concílios, encíclicas e legislações canônicas difundidas em diferentes territórios pelos cleros locais, que respondiam ao papado. O fortalecimento da instituição eclesial implicou em conflitos entre papas, imperadores e reis, acabando por revelar a prevalência da chamada hierocracia (supremacia papal) no Ocidente europeu até quase finais do medievo. A organização da Igreja levou também a um movimento reformista e iniciativas de renovação religiosa, com o surgimento de novas ordens regulares e fenômenos como as ordens mendicantes no mundo urbano na Idade Média Central. Todavia, as novas entonações do cristianismo levaram ao surgimento de comunidades religiosas independentes do controle clerical, o que preocupou e ameaçou a posição da Igreja como grande mediadora da Cristandade. Tal processo levou ao enquadramento e perseguição dos que foram chamados de movimentos hereges, com o advento de uma sociedade persecutória. Ao mesmo tempo, os séculos centrais do medievo viram surgir novas formas de arte e arquitetura, bem como de um humanismo cristão e de uma expansão do saber com escolas e universidades. http://www.mosteiroalcobaca.gov.pt/ 17 REFERÊNCIAS BASCHET, J. A civilização feudal: do ano mil à colonização da América. São Paulo: Globo, 2006. BLOCKMANS, W.; HOPPENBROUWERS, P. Introdução à Europa medieval, 300-1550. Rio de Janeiro: Forense, 2012. DELUMEAU, J. História do Medo no Ocidente. 1300-1800. São Paulo: Cia das Letras, 1989. FLORI, J. Guerra Santa: formação da ideia de Cruzada no Ocidente cristão. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2013. GOMES, F. A Igreja e o Poder: representações e discursos. In: RIBEIRO, Maria Eurydice de Barros (org.). A vida na Idade Média. Brasília: Editora da UnB, 1997, p. 39-41. KÖRNTGEN, L. A Igreja no século XIII. 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