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Professor(a) Esp. Bruna de Lima Ramos ARQUITETURA BRASILEIRA 2023 by Editora Edufatecie. Copyright do Texto C 2023. Os autores. Copyright C Edição 2023 Editora Edufatecie. O conteúdo dos artigos e seus dados em sua forma, correção e confiabilidade são de responsabilidade exclusiva dos autores e não representam necessariamente a posição oficial da Editora Edufatecie. Permitido o download da obra e o compartilhamento desde que sejam atribuídos créditos aos autores, mas sem a possibilidade de alterá-la de nenhuma forma ou utilizá-la para fins comerciais. REITORIA Prof. Me. Gilmar de Oliveira DIREÇÃO ADMINISTRATIVA Prof. Me. Renato Valença DIREÇÃO DE ENSINO PRESENCIAL Prof. Me. Daniel de Lima DIREÇÃO DE ENSINO EAD Profa. Dra. Giani Andrea Linde Colauto DIREÇÃO FINANCEIRA Eduardo Luiz Campano Santini DIREÇÃO FINANCEIRA EAD Guilherme Esquivel COORDENAÇÃO DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO Profa. Ma. Luciana Moraes COORDENAÇÃO ADJUNTA DE ENSINO Profa. Dra. Nelma Sgarbosa Roman de Araújo COORDENAÇÃO ADJUNTA DE PESQUISA Profa. Ma. Luciana Moraes COORDENAÇÃO ADJUNTA DE EXTENSÃO Prof. Me. Jeferson de Souza Sá COORDENAÇÃO DO NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Prof. Me. Jorge Luiz Garcia Van Dal COORDENAÇÃO DE PLANEJAMENTO E PROCESSOS Prof. Me. Arthur Rosinski do Nascimento COORDENAÇÃO PEDAGÓGICA EAD Profa. Ma. Sônia Maria Crivelli Mataruco COORDENAÇÃO DO DEPTO. DE PRODUÇÃO DE MATERIAIS DIDÁTICOS Luiz Fernando Freitas REVISÃO ORTOGRÁFICA E NORMATIVA Beatriz Longen Rohling Carolayne Beatriz da Silva Cavalcante Caroline da Silva Marques Eduardo Alves de Oliveira Isabelly Oliveira Fernandes de Souza Jéssica Eugênio Azevedo Louise Ribeiro Marcelino Fernando Rodrigues Santos Vinicius Rovedo Bratfisch PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO Bruna de Lima Ramos Carlos Firmino de Oliveira Hugo Batalhoti Morangueira Giovane Jasper Vitor Amaral Poltronieri ESTÚDIO, PRODUÇÃO E EDIÇÃO André Oliveira Vaz DE VÍDEO Carlos Henrique Moraes dos Anjos Pedro Vinícius de Lima Machado Thassiane da Silva Jacinto FICHA CATALOGRÁFICA Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - CIP R175a Ramos, Bruna de Lima Arquitetura brasileira / Bruna de Lima Ramos. Paranavaí: EduFatecie, 2024. 121 p.: il. Color. ISBN n 978-65-5433-095-4 1. Arquitetura brasileira. 2. Arquitetura de igrejas. 3. Arquitetura indígena. 4. Arquitetura militar. 5. Neoclassicismo (Arquitetura). 6. Arquitetura moderna. I. Centro Universitário UniFatecie. II. Núcleo de Educação a Distância. III. Título. . CDD: 23. ed. 720.981 Catalogação na publicação: Zineide Pereira dos Santos – CRB 9/1577 As imagens utilizadas neste material didático são oriundas do banco de imagens Shutterstock . 3 AUTOR • Bacharel em Arquitetura e Urbanista • Mestranda em Engenharia Urbana • Pós-graduada em Topografia • Pós-graduanda em Gestão ambiental e Engenharia de Segurança no Trabalho Arquiteta e Urbanista, especializada em Topografia e Sensoriamento Remoto, com vasta experiência em projetos urbanísticos e topográficos, atendendo grandes empresas como Agroceres PIC Suínos, PRAT’S, Construtora Monte Cristo e CunhaMais Terraplenagem e Transporte. Informações e contato: Currículo Plataforma Lattes: http://lattes.cnpq.br/5338072314748904. LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/bruna-l-ramos-767141228/. Professor(a) Esp. Bruna de Lima Ramos http://lattes.cnpq.br/5338072314748904 https://www.linkedin.com/in/bruna-l-ramos-767141228/ 4 APRESENTAÇÃO Olá! Sejam bem-vindo(a) Nessa apostila falaremos sobre a História da Arquitetura Brasileira, desde sua origem até a arquitetura contemporânea, estudando e analisando toda a identidade cultural que caracteriza e influência o povo brasileiro durante os anos. Estudar a história da arquitetura brasileira permite que compreendamos como as diversas influências culturais se entrelaçam para formar a identidade arquitetônica única do país, além de ser fundamental para a preservação do patrimônio histórico, por isso, ao longo das unidades conheceremos e analisaremos as técnicas e características dos estilos brasileiros, seguindo os seguintes tópicos: Unidade I: Arquitetura Indígena e Vernacular; Unidade II: Arquitetura Militar e Rural; Unidade III: Arquitetura Religiosa, Neoclássica. Unidade IV: Arquitetura Moderna e Contemporânea E aí, está preparado para estudar sobre os estilos que definem nossa arquitetura? Vamos dar início nesta jornada, boa leitura! 5 SUMÁRIO Arquitetura Moderna e Contemporânea Arquitetura Religiosa e Neoclássica Arquitetura Militar e Colonial Rural Arquitetura Indígena e Vernacular Professor Esp. Bruna de Lima Ramos ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULAR1UNIDADEUNIDADE PLANO DE ESTUDO 7 Plano de Estudos • Arquitetura Indígena; • Tipologias e tecnologias das construções indígenas; • Arquitetura Vernacular; • Tipologias e tecnologias das construções vernaculares; • Influência da e Arquitetura Indígena e Vernacular atualmente. Objetivos da Aprendizagem • Conceituar e contextualizar as influências culturais indígenas no desenvolvimento da arquitetura brasileira; • Analisar técnicas construtivas características da arquitetura indígena e vernacular; • Reconhecer e valorizar a importância histórica e cultural da arquitetura indígena e vernacular. ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 8 INTRODUÇÃO Olá, aluno(a), Estamos iniciando nossa primeira área de estudo, no qual aprenderemos e analisaremos as riquezas históricas e culturais da Arquitetura Indígena e Vernacular, além de destacarmos sua relevância persistente em nosso contexto atual. Compreenderemos as diferenças de cada tipologia, desde a adaptação ao ambiente até o uso de materiais locais, testemunhando como essas abordagens arquitetônicas oferecem soluções sustentáveis e integradas ao meio ambiente. Veremos também como a influência da Arquitetura Indígena e Vernacular transcende a mera estética atualmente, atingindo princípios essenciais de respeito ao meio ambiente, eficiência no uso de recursos e uma conexão mais profunda com as raízes culturais. Ao resgatar essas práticas tradicionais e incorporá-las à arquitetura contemporânea, não apenas enriquecemos a diversidade estilística, mas também respondemos aos desafios atuais de sustentabilidade e identidade. Espero que essa jornada não apenas amplie sua compreensão, mas também sirva de inspiração para os seus futuros projetos. Atenciosamente, Prof. Bruna Ramos. ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 9 A arquitetura indígena é um patrimônio cultural nacional e um direito dos povos existentes, porém são escassos os estudos sobre este tema, se comparados aos de influência estrangeira. A arquitetura dos povos indígenas deve ser reconhecida e valorizada pela sociedade não-indígena, pois faz parte das raízes tecnológicas da própria arquitetura brasileira (PRUDENTE, 2007, p. 14). Os povos indígenas foram os primeiros habitantes de nosso território, ocupando-o por muitoso trabalho missionário, como salas de ensino e oficinas para a catequização indígena. Também eram providenciados espaços para acomodação e cuidados dos habitantes, como dormitórios e enfermarias, denominados “cubículos”. Além disso, essas construções incluíam áreas agrícolas, como hortas e pomares, isoladas da natureza circundante por cercas. As características arquitetônicas dessas construções eram marcadas pela simplicidade e pela utilização de materiais disponíveis localmente, como taipa de barro e adobe. Apesar de sua aparente rusticidade, essas estruturas eram adaptadas às necessidades e recursos da época. Internamente, essas construções tinham dimensões que permitiam a acomodação de todos em pé, seguindo geralmente uma planta baixa retangular para facilitar a reunião de convertidos e indígenas para os rituais religiosos e eventos comunitários. Na figura 2, vemos A igreja de São Cosme e Damião, ela é reconhecida como a mais antiga do Brasil, tendo sua construção original datada de 1535, utilizando a técnica tradicional de taipa de pilão. No entanto, por volta de 1590, a estrutura original colapsou, levando à necessidade de uma reconstrução completa. Esta reconstrução foi realizada com pedra e cal, uma abordagem construtiva mais duradoura e resistente, assegurando a preservação deste importante marco histórico (Summerson, 1982), (Veríssimo; Bittar; Mendes, 2007). FIGURA 2 – IGREJA DE SÃO COSME E DAMIÃO, PERNAMBUCO Fonte: Archdaily, 2022 66ARQUITETURA RELIGIOSA E NEOCLÁSSICAUNIDADE 3 A evolução da arquitetura religiosa no Brasil pode ser dividida em três fases distintas: a Primeira Fase (1549 a 1654), a Segunda Fase (1640 a 1730) e a Terceira Fase (1701 a 1808). 1.1 Primeira Fase (1549 a 1654) A primeira fase foi marcada pela presença das ordens religiosas, iniciando com a chegada dos Jesuítas em 1549 e a fundação da Cidade de São Salvador. As primeiras capelas e o primeiro Colégio Jesuíta foram estabelecidos, marcando o início da arquitetura religiosa no país. Os Jesuítas desempenharam um papel fundamental na evangelização da população, estabelecendo conjuntos que incluíam igrejas, colégios, alojamentos para padres, residências para bispos e até hospitais para lidar com epidemias. Eles colaboravam com a Coroa Portuguesa na fundação de novos núcleos urbanos na colônia, suprindo a falta do Clero Secular e dedicando-se à catequização e à alfabetização dos povos nativos. Além de construírem capelas e colégios, incluindo seminários dedicados à catequese e ao ensino de artes e ofícios, deixando um legado que se estendia desde a região amazônica até o Rio Grande do Sul. A sua abordagem artística buscava não apenas servir a Deus, mas também transformar as cerimônias religiosas em espetáculos fascinantes por meio de entalhes, pinturas, trabalhos em ouro e prata, esculturas e o uso de tecidos ricos. Além dos Jesuítas, outras ordens religiosas como os Franciscanos e Carmelitas também se estabeleceram nas cidades, contribuindo para a evangelização e assumindo a responsabilidade pela administração dos santos ofícios, além de cuidarem dos rituais de sepultamento em seus conventos, chegaram no brasil em 1580, com destino à Paraíba, chegando em Olinda/PE, em 1586 chegaram a Salvador e fundaram o convento Monte Calvário. Os Beneditinos, por sua vez, concentraram-se no ensino da teologia tanto para o clero regular quanto para o secular, estabelecendo mosteiros que muitas vezes ocupavam áreas quase rurais, onde podiam se dedicar ao estudo e à contemplação. Em 1581, os monges chegaram ao Brasil para fundar um mosteiro em Salvador, o qual foi o primeiro das Américas, atendendo à população. Em 1654, com a reconstrução do Colégio da Bahia, encerrou-se a primeira fase (Summerson, 1982), (Veríssimo; Bittar; Mendes, 2007). Ordem Jesuíta A ordem Jesuíta teve suas primeiras edificações construídas de maneira precária, por isso necessitavam de constantes reformas e possuíam pouco espaço para atender à crescente demanda. Os Colégios, de planta baixa quadrada, possuíam em seu centro um pátio descoberto e o edifício para o culto e a igreja, em uma das faces do polígono. Nas demais desenvolvia- se o Colégio. A torre do sino se encontra na lateral ou na fachada posterior do templo, tendo cobertura simples e em duas águas. De estilo renascentista com elementos da arquitetura clássica, como o óculo e a marcação das colunas, possuem fachada plana, em volume único, com abertura centralizada (Summerson, 1982), (Veríssimo; Bittar; Mendes, 2007). 67ARQUITETURA RELIGIOSA E NEOCLÁSSICAUNIDADE 3 FIGURA 3 - PLANTA BAIXA DO CONJUNTO REIS MAGOS E CORTE DA ALA DA RESIDÊNCIA Fonte: Costa, 1941 FIGURA 4 - FACHADA CONJUNTO REIS MAGOS Fonte: Iphan, 2017. 1.2 Segunda Fase (1640 a 1730) 68ARQUITETURA RELIGIOSA E NEOCLÁSSICAUNIDADE 3 A segunda fase teve seu marco na transformação das pequenas capelas e igrejas em construções grandiosas e elaboradas, com interiores elegantes e fachadas elaboradas, além da construção de grandes conventos. Ordem Franciscana As monjas descalças chegaram ao Brasil em 1742 e se estabeleceram no Rio de Janeiro. O primeiro convento a ser construído foi o de Santa Teresa, no antigo Morro do Desterro, que passou a ser conhecido como Morro de Santa Teresa. Os conventos coloniais tinham partido tradicional, composto por uma igreja de nave única alongada, a qual era precedida por um pórtico que apresentava arcadas em arco pleno, sempre em número ímpar de vãos. A concepção das fachadas franciscanas era fundamentalmente inspirada no convento franciscano de Assis. Estas fachadas se destacavam pela predominância de elementos sólidos sobre vazios, com figuras geométricas dispostas de forma clara e uma única torre sineira recuada. A fachada da igreja, de nave única, repousava sobre três arcos, correspondendo cada um a três janelas de verga reta no coro. Ao lado dos cantos, no mesmo nível, duas volutas robustas conectavam-se ao corpo térreo mais largo (Summerson, 1982), (Veríssimo; Bittar; Mendes, 2007). FIGURA 5 - CONVENTO DE SANTA TERESA E IGREJA DE NOSSA SENHORA DO DESTERRO Fonte: Rosa, 2017 Ordem dos Beneditinos Os monges beneditinos chegaram ao Brasil em 1581, marcando o início da história monástica no continente americano com a fundação do primeiro mosteiro. Dentre os mosteiros beneditinos, destaca-se o Majestoso Mosteiro de São Bento, localizado no Rio de Janeiro. Sua construção teve início em 1617, sob a orientação do engenheiro militar Francisco Dias 69ARQUITETURA RELIGIOSA E NEOCLÁSSICAUNIDADE 3 Mesquita. Ao longo do tempo, passou por modificações e expansões, sendo notavelmente ampliado em 1670. A igreja original, caracterizada por uma nave única e um corredor lateral adjacente ao claustro, foi cuidadosamente projetada para harmonizar com a estrutura. As duas torres sineiras, erguidas de maneira simétrica, complementam a fachada de forma discreta, sem comprometer sua integridade visual. Seguindo os preceitos da Regra de São Bento, o mosteiro foi situado afastado do centro urbano, com uma aparência única, a torre sineira, notadamente, se ergue sobre um dos arcos da fachada, adicionando um toque especial à sua arquitetura. A devoção à Nossa Senhora do Desterro permeia todo o espaço sagrado da igreja, enriquecendo sua significância espiritual (Summerson, 1982), (Veríssimo; Bittar; Mendes, 2007). FIGURA 6 - CROQUI MOSTEIRO SÃO BENTO Fonte: Autora, 2024. FIGURA 7 - MOSTEIRO SÃO BENTO. Fonte: Museu do Amanhã. 1.3 Terceira Fase (1701 a 1808) 70ARQUITETURA RELIGIOSA E NEOCLÁSSICAUNIDADE 3 Na terceira fase da arquitetura religiosa brasileira, o início do estilo barroco coincidiu com o aumento da influência social das ordens terceiras, assim, as irmandades e confrarias começaram a construir edifícios para suas atividades, e a partir de 1763, as construções passaram a ser luxuosas, ostentando o ouro, que passou a ser integrado às construções, inclusive em edifícios que faziam votos de pobreza.As modestas capelas dos primeiros anos de ocupação deram lugar a templos suntuosos e espaçosos, enquanto as antigas ermidas foram igualmente expandidas para refletir essa nova tendência de grandiosidade e riqueza. (Summerson, 1982), (Veríssimo; Bittar; Mendes, 2007). FIGURA 8 - EVOLUÇÃO DAS FACHADAS DE TIPOLOGIAS RELIGIOSAS COLONIAIS BASILEIRAS Fonte: Costa, 1941. FIGURA 9 - IGREJA N. SENHORA DAS MERCÊS DIAMANTINA/MG Fonte: Diamantina, 2016. 71 Como vimos no tópico anterior, entramos na terceira fase da arquitetura religiosa, com as novas tendências estilísticas europeias, Barroco e Rococó, estilos que começaram com o objetivo de ser um transmissor da cultura europeia e lei católicas entre os nativos e cativos, a serviço de três grandes poderes da época: a igreja, com a contra reforma, os Reis Absolutistas, que se preocupavam em engrandecer a sua imagem e poder, e a burguesia crescente, que sentia a necessidade de se autoafirmar como classe social. No Brasil, o Barroco, iniciou a partir do ano 1600, 100 anos após seu surgimento na Europa, trazendo um estilo próprio, com mais tropicalidade e cores vivas. Ocorreu, principalmente, nas cidades de Minas Gerais, tendo como principal representante o escultor Antônio Francisco de Lisboa, o famoso Aleijadinho. O legado do barroco brasileiro surge na arte sacra, onde se destacam as estátuas, pinturas e obras de talha utilizadas tanto na ornamentação de igrejas e conventos quanto em culto privado. Em algumas regiões do Brasil, o rococó pode ser considerado uma evolução tardia do estilo barroco, mantendo algumas características do barroco anterior, como a monumentalidade das fachadas e a profusão de elementos decorativos, enquanto introduz formas mais leves e ornamentação mais delicada. Nessa terceira fase, as igrejas utilizavam materiais e técnicas vernaculares, como a taipa de pilão, a pedra mista e cantaria, a madeira de cedro para técnicas de tabique nas divisórias e entalhes de altares e portas, além da pedra-sabão para as esculturas. Nesse contexto, seguiam o seguinte partido arquitetônico: ARQUITETURA BARROCA E ROCOCÓ2 TÓPICO ARQUITETURA RELIGIOSA E NEOCLÁSSICAUNIDADE 3 72ARQUITETURA RELIGIOSA E NEOCLÁSSICAUNIDADE 3 Pavimento Térreo: • Nártex: também chamado de Galilé, é uma zona de entrada situada na frente de uma igreja, funcionando como um ponto de transição entre o mundo exterior e o sagrado interior do edifício religioso. • Nave única retangular; • Corredores laterais; • Púlpito; • Capela-mor anexada à sacristia. Pavimento Superior: • Tribunas: plataforma elevada localizada em um dos lados da nave central, geralmente próxima ao altar-mor. • Coro sobre o Nártex, com acesso as torres sineiras; • Depósitos; • Consistório: é um aposento destinado a realização de assembleias dos integrantes das irmandades leigas, que deve apresentar acesso direto ao exterior sem necessariamente percorrer o espaço de culto (Summerson, 1982), (Veríssimo; Bittar; Mendes, 2007). FIGURA 10 - PLANTA BAIXA IGREJA DE NOSSA SENHORA DO CARMO. OURO PRETO/MG Fonte: Colin, 2012. 73ARQUITETURA RELIGIOSA E NEOCLÁSSICAUNIDADE 3 As construções barrocas são verdadeiros testemunhos da devoção religiosa expressa através da arquitetura e da arte. Cada detalhe dessas estruturas é meticulosamente projetado para inspirar uma sensação de transcendência espiritual nos fiéis. Os altares, que ocupam o centro do espaço litúrgico, são verdadeiras obras de entalhe em madeira, exibindo uma profusão de ornamentos espirais, florais e figuras angelicais, muitas vezes adornados com uma fina camada de ouro, simbolizando a santidade e a divindade. Nas capelas laterais da nave, encontramos esculturas de santos esculpidas em madeira ou pedra-sabão, cada uma representando um aspecto da piedade e da devoção cristã. Os tetos das igrejas barrocas são verdadeiros céus em pintura, onde artistas habilidosos retratam cenas celestiais em perspectiva, criando a ilusão de infinitude e elevação espiritual. Na figura abaixo, podemos apreciar a grandiosidade e a beleza do altar central, cercado pelas capelas laterais da nave, cada uma repleta de símbolos e imagens sagradas, e o teto decorado com uma deslumbrante pintura que nos convida a elevar o olhar para além do mundo terreno, em direção ao divino (Summerson, 1982), (Veríssimo; Bittar; Mendes, 2007). FIGURA 11 - INTERIOR DA IGREJA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS, OURO PRETO/MG. Fonte: Tropia, 2014 2.1.2 Tipologia das Plantas Decorrente de alguns fatores, como geográficos, influências de tendências, disponibilidade tecnológica, e disponibilidade de mão-de-obra capacitada, a evolução das 74ARQUITETURA RELIGIOSA E NEOCLÁSSICAUNIDADE 3 tipologias das plantas e fachadas das igrejas mineiras foram possíveis ao longo do Séc. XVIII, saindo de planta baixa retangular, para oval e por fim, em dupla oval. FIGURA 12 - PLANTA BAIXA RETANGULAR IGREJA DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO. OURO PRETO/MG Fonte: Colin, 2012. A planta foi projetada por Manuel Francisco Lisboa, pai de Aleijadinho. Composta por paredes planas, mantém alguns espaços já tradicionais como a galilé, a nave e o altar, destacando-se a importante presença do corredor lateral em toda a extensão. Porém o altar-mor se aprofunda muito, as capelas laterais perdem importância estrutural, ficando embutidas nas paredes ou projetadas pelas talhas. O consistório aparece acima da sacristia. A planta arquitetônica foi projetada por Manuel Francisco Lisboa, pai de Aleijadinho. Com paredes planas, preserva espaços tradicionais como o nartéx, a nave, o altar e o consistório, situado acima da sacristia. FIGURA 13 - IGREJA DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO. OURO PRETO/MG Fonte: Iphan, 2017. 75ARQUITETURA RELIGIOSA E NEOCLÁSSICAUNIDADE 3 FIGURA 14 - PLANTA BAIXA OVAL IGREJA SÃO PEDRO DOS CLÉRIGOS. RIO DE JANEIRO/RJ. Fonte: Colin, 2012. Foi um dos mais importantes edifícios de nosso acervo colonial, com planta oval, infelizmente ela foi vitimada pelo surto de modernidade do século XX, para resolver os problemas de tráfego na cidade, pois estava no caminho de abertura da Avenida Presidente Vargas, foi demolida em 1943. FIGURA 15 - IGREJA SÃO PEDRO DOS CLÉRIGOS. RIO DE JANEIRO/RJ. Fonte: Colin, 2011. 76ARQUITETURA RELIGIOSA E NEOCLÁSSICAUNIDADE 3 FIGURA 16 - PLANTA BAIXA DUPLA OVAL IGREJA DE SÃO PEDRO DOS CLÉRIGOS. MARIANA/MG. Fonte: Colin, 2012. FIGURA 17 - IGREJA DE SÃO PEDRO DOS CLÉRIGOS. MARIANA/MG. Fonte: Minas Gerais. https://www.minasgerais.com.br/pt/atracoes/mariana/igreja-sao-pedro-dos-clerigos 77 A arquitetura Neoclássica, assim como o Barroco, floresceu no Brasil sob forte influência europeia. Seus primeiros indícios surgiram em 1750, quando o Marquês de Pombal convidou arquitetos neoclássicos de renome para o país. Contudo, foi apenas com a chegada da família real portuguesa em 1808 que o estilo arquitetônico ganhou impulso significativo, alcançando seu ápice em 1816 com a Missão Artística Francesa. Esta missão, que visava estabelecer o ensino oficial das artes plásticas, teve um impacto profundo no cenário artístico nacional, culminando na fundação da Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios. Lá, o Neoclassicismo foi institucionalizado e seu ensino sistematizado no modelo do Academismo. Entre os membros da Missão, destacaram-se personalidades como o pintor Nicolas- Antoine Taunay, o pintor e desenhista Jean Baptiste Debret e o arquiteto Grandjean de Montigny. A arquitetura neoclássica no Brasil é reconhecida pela sua clareza construtiva, inspiração na arquitetura clássica grega e romana, e pelo uso de formas geométricas e simetria, além da utilização de materiais nobres como pedra, granito e mármore. Este estilo também se notabilizou pela ênfase no racionalismo, equilíbrio, ordem, moderação e economia. No Brasil, o Neoclassicismo não apenas replicou características similares, mas também se tornou um símbolo ideológico de progresso e civilização.Seu conteúdo político estimulou a Inconfidência Mineira e, após a independência, inspirou um projeto modernizador oficial, em um momento em que a antiga colônia se transformava em nação autônoma, buscando superar a longa dominação portuguesa, associada ao Barroco (Montezuma, 2002), (Reis Filho, 1987). ARQUITETURA NEOCLÁSSICA3 TÓPICO ARQUITETURA RELIGIOSA E NEOCLÁSSICAUNIDADE 3 78ARQUITETURA RELIGIOSA E NEOCLÁSSICAUNIDADE 3 FIGURA 18 - FACHADA DA ACADEMIA IMPERIAL DE BELAS ARTES. JARDIM BOTÂNICO, RIO DE JANEIRO. Fonte: Miranda, 2011. As edificações neoclássicas, com suas plantas-baixas simplificadas e funcionais, destacavam-se pela simetria e equilíbrio. As paredes robustas, construídas em pedra ou tijolo, eram revestidas com cores suaves como branco, rosa, amarelo e azul-pastel, refletindo a luz e criando uma atmosfera de tranquilidade e elegância. Os corpos de entrada, marcados por escadarias imponentes, colunatas e frontões, conferiam uma sensação de grandeza e poder. Os interiores, enriquecidos com revestimentos e pinturas detalhadas, eram espaços de beleza e refinamento, onde as linhas de composição eram definidas por pilastras que sustentavam objetos decorativos nas platibandas, simbolizando as estações do ano, os continentes e as virtudes. As janelas e portas, emolduradas em pedra trabalhada e finalizadas com arcos plenos, eram adornadas com rosáceas complexas e vidros coloridos, que filtravam a luz e criavam jogos de cores no interior. As casas caracterizavam-se por porões altos e escadas majestosas, que não apenas elevavam a construção fisicamente, mas também elevavam seu status social, alinhando-se aos ideais neoclássicos de beleza e harmonia. Os sistemas construtivos, embora simplificados, utilizavam materiais nobres que garantiam solidez e durabilidade às estruturas. Os volumes corpóreos e maciços, definidos por superfícies murais lisas, ascendiam para formar abóbodas e cúpulas que dominavam a paisagem. 79ARQUITETURA RELIGIOSA E NEOCLÁSSICAUNIDADE 3 As fachadas, ornamentadas com frontões triangulares, cornijas e platibandas, eram realçadas pelo uso de colunas clássicas dóricas, jônicas e coríntias, que adicionavam um ritmo vertical e uma formalidade elegante ao conjunto arquitetônico. A decoração, uma sinfonia de esculturas, vasos, altos-relevos e balaústres, era complementada por uma paleta de cores em tons pastel, que suavizava a imponência dos edifícios e convidava à contemplação e ao apreço pela arte e pela história. Os jardins neoclássicos emergiram como uma continuação natural dos espaços internos, preenchidos com a flora típica europeia e as distintas palmeiras imperiais, que se tornaram um símbolo do estilo no Brasil. Os chafarizes, frequentemente cercados por elegantes gradis de ferro, serviam como uma fronteira visual entre o domínio público e o privado, proporcionando locais para o deleite e a reflexão (Montezuma, 2002), (Reis Filho, 1987). FIGURA 19 – ELEMENTOS NEOCLÁSSICAS NA FACHADA DA ACADEMIA IMPERIAL DE BELAS ARTES Fonte: Autora, 2024 80ARQUITETURA RELIGIOSA E NEOCLÁSSICAUNIDADE 3 FIGURA 20 – FACHADA FUNDAÇÃO CASA FRANÇA-BRASIL - RJ Fonte: Lebarbenchon, 2012. 3.1 Museu Imperial de Petrópolis/RJ O Museu Imperial de Petrópolis é uma grande obra prima da arquitetura neoclássica brasileira, a qual serviu como residência de verão para a família imperial de Dom Pedro II. O projeto inicial, concebido por Julius Koeler, foi posteriormente alterado por Cristoforo Bonini após a morte de Koeler, adicionando um imponente pórtico de granito ao corpo central do edifício. A construção se destaca por sua formalidade simplificada, com cornijas e platibandas que delineiam o perfil do edifício. As paredes, robustas e feitas de pedra e tijolo, são revestidas com argamassa e pintadas em um delicado tom rosa-pastel. Janelas e portas são emolduradas em pedra aparelhada e finalizadas com arcos plenos, com vidros fixos coloridos e janelas deslizantes com vidros transparentes, que permitem a entrada de luz natural, criando um ambiente interno acolhedor e iluminado. O corpo de entrada é marcante, com escadarias que conduzem a colunatas elegantes, e um frontão triangular adornado com altos-relevos simbolizando as quatro estações do ano, os continentes e as virtudes, entre outros elementos. Vasos decorativos são dispostos sobre o guarda-corpo, adicionando um toque de sofisticação. Os porões, localizados abaixo do térreo, apresentam uma série de óculos alinhados sob as janelas dos salões principais, um detalhe arquitetônico que confere charme e funcionalidade ao espaço. Os pisos são verdadeiras obras de arte, com mármores coloridos que formam mosaicos intrincados e tábuas de madeira nobre arranjadas em padrões de parquet, 81ARQUITETURA RELIGIOSA E NEOCLÁSSICAUNIDADE 3 demonstrando a riqueza de materiais e a atenção aos detalhes que são característicos do período neoclássico. Além desses elementos, o Museu Imperial é cercado por jardins meticulosamente planejados, que complementam a beleza do palácio e oferecem um espaço tranquilo para a contemplação da natureza e da arte (Gonçalves, 2016). FIGURA 21 – FACHADA MUSEU IMPERIAL DE PETRÓPOLIS/RJ Fonte: Shutterstock l ID: 27-2219068101 FIGURA 22 – INTERIOR MUSEU IMPERIAL DE PETRÓPOLIS/RJ Fonte: Petrópolis em Cena, 2021 É importante notar que, apesar de todas as adaptações feitas pelo Neoclassicismo no Brasil, havia uma tendência entre as camadas consumidoras de adotar uma arquitetura que dependia da importação de materiais e mão-de-obra especializada, ou que simplesmente mascarava com aplicações superficiais a precariedade da mão-de-obra escrava (Gonçalves, 2016). https://pt.wikipedia.org/wiki/Museu_Imperial https://pt.wikipedia.org/wiki/Museu_Imperial https://pt.wikipedia.org/wiki/Museu_Imperial 82 Uma curiosidade interessante sobre a arquitetura religiosa no Brasil é que, apesar de ter sido fortemente influenciada pelos estilos europeus, ela também incorporou elementos locais, como o uso de materiais e técnicas construtivas adaptadas ao clima e aos recursos disponíveis. Por exemplo, muitas igrejas históricas brasileiras apresentam uma combinação única de estilos barroco e neoclássico, refletindo a transição de um período artístico para outro. Fonte: Autora (2024). “Na arquitetura neoclássica brasileira, cada linha e coluna é um verso que narra a busca de uma nação por ordem e progresso, refletindo o espírito de uma época que se equilibra entre a tradição e a modernidade.” Fonte: Autora (2024). REFLITA SAIBA MAIS ARQUITETURA RELIGIOSA E NEOCLÁSSICAUNIDADE 3 83 Encerramos mais uma de nossas unidades, aqui vimos as riquezas históricas e culturais de nosso país, além de apreciarmos a arte e beleza dessas estruturas importantíssimas para o Brasil. A Arquitetura Religiosa, com suas igrejas e templos, é um reflexo da fé e da comunidade. A Arquitetura Barroca, com sua ornamentação e drama, captura a complexidade das emoções humanas. E a Arquitetura Neoclássica, com sua ordem e simplicidade, simboliza o desejo de progresso e a busca por um ideal de beleza. Cada estilo estudado é um capítulo da história brasileira, contando histórias de conquistas, devoção e transformação. Encorajamos você a continuar explorando, aprendendo e, acima de tudo, apreciando a riqueza da arquitetura brasileira, pois cada pedra e cada coluna têm uma história para contar. Que este seja apenas o início de uma longa e gratificante jornada pelo mundo da arquitetura e além. Te vejo na próxima unidade. Bons estudos! CONSIDERAÇÕES FINAIS ARQUITETURA RELIGIOSA E NEOCLÁSSICAUNIDADE 3 84 MATERIAL COMPLEMENTAR FILME/VÍDEO • Título: Arquiteturas: Igreja de São Francisco de Assis • Produção: Sesc TV • Ano: 2014 • Link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=ijP0AQ9O-m8&t=2s LIVRO • Título: A Arquitetura dos Jesuítas no Brasil • Autor: Lucio Costa • Editora: Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e ArtísticoNacional • Sinopse: Lúcio Costa aborda neste artigo as singularidades das construções jesuíticas no contexto brasileiro, defendendo que essas obras constituíram verdadeiramente nossa “antiguidade”. O autor afirma que enquanto na Europa a Companhia se associava à exuberância das construções barrocas, aqui, suas intervenções eram marcadas por uma profunda sobriedade, não obstante deixando entrever um “sabor popular”, que desfigurava desde sempre os padrões eruditos, configurando-se como experiências legítimas de recriações. O autor não deixa de atentar para o fato de que no Brasil as características arquitetônicas empreendidas nas obras dos jesuítas extrapolavam a esfera das edificações religiosas, repetindo-se nas demais construções do traçado urbano. • Link: https://abre.ai/jssA ARQUITETURA RELIGIOSA E NEOCLÁSSICAUNIDADE 3 Professor(a) Esp. Bruna de Lima Ramos ARQUITETURA MODERNA E CONTEMPORÂNEA4UNIDADEUNIDADE PLANO DE ESTUDO 86 Plano de Estudos • Arquitetura Moderna • Escola Paulista: O Brutalismo Brasileiro • Arquitetura Contemporânea Objetivos da Aprendizagem • Conceituar e contextualizar as influências da arquitetura moderna e contemporânea no Brasil; • Analisar inovações técnicas e estilísticas na arquitetura moderna e contemporânea brasileira; • Reconhecer e valorizar o impacto social e cultural da arquitetura moderna e contemporânea. ARQUITETURA MODERNA E CONTEMPORÂNEAUNIDADE 4 87 Olá, caro (a) aluno(a), Seja bem-vindo a nossa última unidade de estudos, aqui teremos uma jornada exploratória pela arquitetura moderna e contemporânea do Brasil, uma área que se estende além das fronteiras da estética para tocar as bases da sociedade e da cultura. Assim, entenderemos as influências que moldaram o panorama arquitetônico brasileiro, desde as ondas de inovação técnica e estilística até o profundo impacto social e cultural que essas estruturas representam. A arquitetura é mais do que a arte de criar espaços; é um reflexo do tempo e do lugar, uma narrativa contínua que conta histórias de inovação, resistência, adaptação e expressão. No Brasil, essa narrativa é rica e multifacetada, abrangendo desde os ícones modernistas do século XX até as respostas contemporâneas aos desafios urbanos e ambientais do século XXI. Ao longo desta apostila, conceituaremos e contextualizaremos as correntes que influenciaram a arquitetura brasileira, analisaremos as inovações que romperam com o convencional e reconheceremos como a arquitetura tem sido um vetor de mudança social e cultural. Espero que essa jornada não apenas amplie sua compreensão, mas também sirva de inspiração para os seus futuros projetos. Atenciosamente, Prof. Bruna Ramos. INTRODUÇÃO ARQUITETURA MODERNA E CONTEMPORÂNEAUNIDADE 4 88 “Os brasileiros desenvolveram uma atitude arquitetônica moderna própria [...] eu não acredito que seja apenas uma moda passageira, mas um movimento com vigor” Walter Gropius, 1954. Em fevereiro de 1922, temos o primeiro grande marco do movimento moderno no Brasil, com a Semana de Arte Moderna representando uma quebra com o academicismo e fomentando uma identidade artística genuinamente nacional. A arquitetura moderna brasileira, influenciada por arquitetos europeus como Le Corbusier e Gregori Warchavchik, não só adotou o racionalismo, mas também o combinou com elementos das tradições locais. Isso se reflete na harmonia entre as formas curvilíneas das fachadas e a decoração ondulante dos interiores. Os edifícios em si são considerados parte integrante da paisagem, seguindo o princípio da “construção honesta”, que revela vigas e estruturas de ferro, muitas vezes combinadas com o uso de vidro. Elevando os edifícios sobre pilotis, o espaço sob o edifício é liberado, enquanto as fachadas são caracterizadas por grandes panos de vidro contínuos, em vez de janelas tradicionais. A arquitetura moderna brasileira apresentou duas correntes principais: uma com formas orgânicas e sinuosas, e outra com formas geométricas e abstratas, ambas servindo como precursoras do movimento racionalista que viria a seguir. Esta abordagem resultou em uma arquitetura que, embora moderna, não descartava o passado, mas o reinterpretava, criando obras emblemáticas e promovendo uma urbanização estatal progressista, tendo Brasília como seu expoente máximo. Lúcio Costa, figura central do movimento, liderou o SPHAN, reforçando a preservação do patrimônio histórico. A arquitetura moderna no Brasil, integrada ao movimento artístico ARQUITETURA MODERNA1 TÓPICO ARQUITETURA MODERNA E CONTEMPORÂNEAUNIDADE 4 89ARQUITETURA MODERNA E CONTEMPORÂNEAUNIDADE 4 nacional, amadureceu como uma forma de arte interligada a outras expressões culturais, como paisagismo, pintura, escultura, música e literatura. Esta sinergia entre as diversas formas de arte e a arquitetura reflete uma abordagem única e distintiva, enriquecida pela influência intelectual europeia e pela habilidade de figuras notáveis, consolidando o Brasil como líder na arquitetura moderna da América Latina, uma posição alcançada pelo audacioso enfrentamento ao novo. No exterior, temos grandes nomes como Mies van der Rohe, Frank Loyd Right, Oscar Niemeyer, Gregori Warchavchik e o suíço Charles-Edouard Jaenneret- Gris, mais conhecido como Le Corbusier, liderando o Movimento Moderno. Este último desenvolveu uma teoria na qual se destacam os 5 pontos da arquitetura moderna, chamados de 5 pontos de Le Corbusier. São eles: 1) Pilotis; 2) Terraço Jardim; 3) Planta livre; 4) Janela em fita; e 5) Fachada livre (Bruand, 2010), (Segawa, 2014), (Fracalossi, 2011). 1.1 Gregori Warchavchik FIGURA 1 – RETRATO GREGORI WARCHAVCHIK Fonte: Resenhando, 2019. “A nossa arquitetura deve ser apenas racional, deve basear-se apenas na lógica e esta lógica devemos opô-la aos que estão procurando por força imitar algum estilo” Gregori Warchavchik Ucraniano, naturalizado brasileiro, Gregori foi um pioneiro da Arquitetura Moderna no Brasil, promovendo a funcionalidade e a economia em detrimento dos estilos ornamentais tradicionais. O manifesto de 1926 defendia a ideia de uma construção baseada na 90ARQUITETURA MODERNA E CONTEMPORÂNEAUNIDADE 4 racionalidade, em sintonia com os princípios da Semana de Arte Moderna de 1922. Apesar de inicialmente não ter grande impacto, a construção de sua residência na Rua Santa Cruz em 1928, seguindo esses princípios modernistas, trouxe reconhecimento e controvérsia. Entre 1928 e 1931, ele projetou várias residências e conjuntos habitacionais, debatendo com arquitetos tradicionais e evoluindo seu estilo. As limitações locais impediram a plena adoção dos padrões modernistas europeus até 1931, quando a Casa da Rua Itápolis exibiu todas as características do movimento, assim, Warchavchik, fora indicado por Le Corbusier como o representante da América Latina ao CIAM, Congresso Internacional de Arquitetura Moderna (Bruand, 2010), (Segawa, 2014), (Fracalossi, 2011). FIGURA 2 – CASA DA RUA ITÁPOLIS Fonte: Fracalossi, 2013. 1.2 Le Corbusier FIGURA 3 – RETRATO LE CORBUSIER Fonte: Bonamaison, 2016. Quando o movimento moderno começou a ganhar espaço no Brasil, arquitetos recém- formados passaram a se dedicar ao estudo das obras de renomados arquitetos estrangeiros https://www.archdaily.com.br/br/01-163168/classicos-da-arquitetura-casa-modernista-da-rua-itapolis-slash-gregori-warchavchik 91ARQUITETURA MODERNA E CONTEMPORÂNEAUNIDADE 4 líderes do movimento. No entanto, foi o arquiteto franco-suíço Le Corbusier quem exerceu a maior influência na formação do pensamento modernista entre os arquitetos brasileiros. Suas ideias inovadoras tiveram um impacto significativo no movimento no Brasil, inspirando nomes como Lúcio Costa, Niemeyer e outros pioneiros da arquitetura moderna brasileira. Le Corbusier desenvolveu importantes pesquisas para o modernismo, como o conceito do “homem modulor”, um sistema de proporções baseado em uma figura imaginária que ele utilizava paraencontrar harmonia em suas composições arquitetônicas. O Brasil recebeu Le Corbusier em várias ocasiões, algumas delas para orientar equipes de arquitetos, como em 1936, quando trabalhou no projeto do Edifício Gustavo Capanema, nova sede do Ministério da Educação no Rio de Janeiro. Além disso, ele realizou conferências para disseminar seus ideais e reforçar sua influência sobre os jovens arquitetos da época. Destacaram-se no movimento moderno brasileiro figuras como Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Attilio Correa Lima, os irmãos Marcelo, Milton e Maurício Roberto, Paulo Mendes da Rocha, entre outros (Bruand, 2010), (Segawa, 2014), (Fracalossi, 2011). 1.3 Ministério da Educação e Saúde do Rio de Janeiro FIGURA 4 – MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE DO RIO DE JANEIRO Fonte: Beresford, 2013. Concebido em 1936 durante o governo de Getúlio Vargas, o Ministério da Educação e Saúde do Rio de Janeiro foi projetado por uma equipe de arquitetos liderada por Lúcio Costa e composta por Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão, Jorge Moreira 92ARQUITETURA MODERNA E CONTEMPORÂNEAUNIDADE 4 e Ernani Vasconcelos. Sob a orientação de Le Corbusier, este edifício foi pioneiro como uma obra moderna de grande repercussão nacional. Ele representa uma quebra com as formas ornamentadas historicistas e simbólicas predominantes na época, adotando os fundamentos modernistas. O Ministério da Educação e Saúde é caracterizado por um volume elevado sobre pilotis, complementado por um bloco perpendicular mais baixo. Suas fachadas foram projetadas considerando a incidência solar, incorporando elementos arquitetônicos como brises soleils e cortinas de vidro. Internamente, o edifício possui uma planta baixa livre, sem paredes fixas, o que promove maior flexibilidade e mobilidade. As divisórias são em madeira e não alcançam o teto, favorecendo a ventilação cruzada, e há um terraço-jardim. A leveza, imponência e inovação dos materiais utilizados são características marcantes. Alguns espaços foram adornados com azulejos e murais do renomado pintor Candido Portinari, enquanto os jardins contam com esculturas de artistas como Lipchitz, Bruno Giogi e Celso Antônio. 1.3 Lucio Costa FIGURA 5 – RETRATO LUCIO COSTA Fonte: Melo, 2022. Lúcio Costa foi um arquiteto e urbanista brasileiro de grande importância para a história da arquitetura moderna no Brasil. Nascido em 1902, no Rio de Janeiro, Costa foi uma figura central no Movimento Modernista Brasileiro e deixou um legado marcante em diversas áreas da arquitetura e do urbanismo. Uma de suas contribuições mais significativas foi o projeto do Plano Piloto de Brasília, a nova capital do Brasil, inaugurada em 1960. Em colaboração com Oscar Niemeyer e outros arquitetos, Costa desenvolveu um plano urbanístico revolucionário que rompeu com as tradições urbanas pré-existentes, adotando uma abordagem modernista que privilegiava a funcionalidade, a racionalidade e a integração com o meio ambiente. O Plano Piloto de 93ARQUITETURA MODERNA E CONTEMPORÂNEAUNIDADE 4 Brasília é reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO e representa um marco na história do urbanismo contemporâneo (Bruand, 2010), (Segawa, 2014), (Fracalossi, 2011). FIGURA 6 - PLANO PILOTO Fonte: Concursos de Projetos, 2010. Além de Brasília, Lúcio Costa deixou sua marca em diversas outras obras importantes, incluindo o projeto do Ministério da Educação e Saúde no Rio de Janeiro, em parceria com Oscar Niemeyer. Esse edifício, concluído em 1945, é considerado um ícone da arquitetura modernista brasileira. Costa também desempenhou um papel fundamental na disseminação dos ideais modernistas no Brasil, influenciando várias gerações de arquitetos e urbanistas. Sua abordagem enfatizava a integração entre forma, função e contexto, e seu trabalho refletia um profundo compromisso com a criação de espaços urbanos e edifícios que atendessem às necessidades da sociedade contemporânea. 1.4 Oscar Niemeyer FIGURA 7 – RETRATO OSCAR NIEMEYER Fonte: Archdaily Brasil, 2020. https://concursosdeprojeto.org/2010/04/21/plano-piloto-de-brasilia-lucio-costa/ 94ARQUITETURA MODERNA E CONTEMPORÂNEAUNIDADE 4 Oscar Niemeyer foi um dos mais renomados arquitetos brasileiros e uma figura icônica do movimento modernista. Nascido em 1907 no Rio de Janeiro, Niemeyer foi pioneiro na aplicação de formas curvilíneas e orgânicas na arquitetura, desafiando as convenções tradicionais e deixando um legado duradouro que influenciou gerações de arquitetos ao redor do mundo. Uma das características mais distintivas do trabalho de Niemeyer é o uso ousado do concreto armado, que ele moldava de maneira fluida e escultural para criar estruturas que parecem desafiar a gravidade. Suas obras são frequentemente descritas como poéticas e expressivas, refletindo uma profunda sensibilidade artística. Niemeyer é especialmente conhecido por seu papel no projeto da cidade de Brasília, a nova capital do Brasil inaugurada em 1960. Ele colaborou com Lúcio Costa no Plano Piloto da cidade e projetou muitos dos edifícios mais emblemáticos, incluindo o Palácio da Alvorada, o Congresso Nacional e a Catedral Metropolitana de Brasília. Essas estruturas são marcadas por suas formas curvilíneas e pela integração harmoniosa com o ambiente ao redor. FIGURA 8 - PALÁCIO DA ALVORADA Fonte: IPHAN, 2017. Além de Brasília, Niemeyer deixou sua marca em uma série de outras obras influentes ao redor do mundo, incluindo o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, no Rio de Janeiro, a Sede das Nações Unidas em Nova York e o Conjunto Arquitetônico da Pampulha, em Belo Horizonte. Ao longo de sua carreira, Niemeyer recebeu inúmeros prêmios e honrarias, incluindo o Prêmio Pritzker de Arquitetura em 1988 (Bruand, 2010), (Segawa, 2014), (Fracalossi, 2011). 95 ESCOLA PAULISTA: O BRUTALISMO BRASILEIRO2 TÓPICO ARQUITETURA MODERNA E CONTEMPORÂNEAUNIDADE 4 Os historiadores apontam o X Congresso Internacional de Arquitetura Moderna (CIAM), ocorrido em Dubrovnik em 1956 e liderado pelo TEAM X, como o último grande evento a promover o Movimento Moderno como um “movimento”. Desde o VII Congresso Internacional de Arquitetura Moderna (CIAM) em Bergamo, Itália, em 1949, já se tornaram evidentes divergências sobre o rumo a ser tomado pelo Movimento Moderno. No entanto, mesmo após a conclusão dos CIAM, os princípios essenciais do movimento continuaram a influenciar a arquitetura, destacando-se especialmente no final dos anos 50 e nas vibrantes décadas de 60 e 70. Após a Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945), disciplinas como Antropologia Cultural, Psicologia e Teoria da Comunicação de Massa tornaram-se essenciais para a crítica arquitetônica, destacando-se pela observação da perda de identidade urbana e do significado arquitetônico, assim, surgiu-se diversos movimento com o intuito de desafiar uma série de valores sociais através do relativismo cultural, defendendo que os valores são moldados por contextos culturais específicos. No Brasil, concomitantemente ao concurso e construção de Brasília, o Novo Brutalismo Inglês ganhou destaque sendo associado a uma forma de resistência e a uma identidade arquitetônica nacional, no contexto político do governo militar nos anos 1960 e 1970. Acreditava-se que os princípios éticos e estéticos dessa arquitetura poderiam promover uma mudança social e política, buscando uma identidade cultural por meio do uso de materiais como concreto e tijolos aparentes, instalações expostas e a valorização de elementos estruturais, como caixas d’água, elevadores e escadas. O movimento, aconteceu junto do concurso e construção de Brasília, apesar de ter ganhado maior notoriedade e ter se consolidado nacionalmente nos anos 1960, este movimento não se caracterizou, como a maioria dos movimentos, pela união de ideais 96ARQUITETURA MODERNA E CONTEMPORÂNEAUNIDADE 4 comuns. No entanto, em todas as construções desse período, foievidente uma radicalização de certos conceitos modernistas. A ideia central era que a “verdade estrutural” dos edifícios não deveria ser ocultada. Assim, a arquitetura brutalista brasileira é uma expressão marcante, caracterizada pelo uso expressivo do concreto aparente, formas geométricas simples e a ausência de ornamentação. Este estilo reflete uma estética de força e solidez, onde a estrutura e os materiais de construção são deixados à vista, muitas vezes resultando em uma aparência imponente e monumental (Santos, 2004), (Segawa, 2014), (Artigas, 1989). 2.1 Vilanova Artigas FIGURA 9 – RETRATO VILANOVA ARTIGAS Fonte: Nogueira, 2022 João Batista Vilanova Artigas foi um renomado arquiteto brasileiro nascido em 1915 em Curitiba e falecido em 1985 em São Paulo. Reconhecido como uma das figuras mais importantes da arquitetura moderna no Brasil, Artigas deixou um legado significativo através de seus projetos, ensinamentos e ideais. Formado em arquitetura pela Escola de Engenharia Mackenzie, em São Paulo, Artigas foi influenciado por movimentos arquitetônicos internacionais, especialmente pelo racionalismo europeu e pelas ideias de Le Corbusier. Sua abordagem arquitetônica era profundamente humanista, enfatizando a relação entre arquitetura, sociedade e meio ambiente. Artigas ficou conhecido por sua defesa da arquitetura como uma ferramenta para promover a igualdade social e melhorar a qualidade de vida das pessoas. Ele acreditava que a arquitetura deveria estar a serviço do bem comum, buscando soluções que atendessem às necessidades coletivas, e não apenas aos interesses individuais. Entre suas obras mais notáveis está a Vila Nova Artigas, um conjunto residencial em São Paulo projetado por ele e construído entre 1957 e 1961. Essa vila é considerada um marco da arquitetura moderna brasileira, destacando-se pela integração entre espaços internos e externos, pela distribuição funcional dos ambientes e pela ênfase na horizontalidade e simplicidade das formas (Santos, 2004), (Segawa, 2014), (Artigas, 1989). 97ARQUITETURA MODERNA E CONTEMPORÂNEAUNIDADE 4 FIGURA 10 - CONJUNTO VILA NOVA ARTIGAS Fonte: Nelsonkon, 2019. Outra obra importante do arquiteto é a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, de São Paulo, foi projetada por Artigas em colaboração com Carlos Cascaldi e Edmundo Colombo, e sua construção foi concluída em 1969. O projeto reflete os princípios e ideais de Artigas, que buscava uma arquitetura voltada para o bem-estar social e a integração com o ambiente urbano. Uma das características mais distintivas da FAU é a sua estrutura aberta e transparente, que permite uma interação visual entre os diferentes espaços da faculdade. Artigas concebeu o prédio de forma a promover a comunicação e a colaboração entre alunos e professores, refletindo sua visão de arquitetura como um instrumento de transformação social e educacional. FIGURA 11 - FAU, SP Fonte: Fracalossi, 2011. https://www.nelsonkon.com.br/conjunto-habitacional-cecap/ https://www.archdaily.com.br/br/01-163168/classicos-da-arquitetura-casa-modernista-da-rua-itapolis-slash-gregori-warchavchik 98ARQUITETURA MODERNA E CONTEMPORÂNEAUNIDADE 4 Além de sua produção arquitetônica, Artigas também teve uma carreira acadêmica prolífica, lecionando em diversas instituições de ensino, incluindo a Universidade de São Paulo (USP), onde foi professor titular de arquitetura e urbanismo. Sua influência como educador foi fundamental para a formação de várias gerações de arquitetos brasileiros, transmitindo não apenas conhecimentos técnicos, mas também valores éticos e sociais (Santos, 2004), (Segawa, 2014), (Artigas, 1989). 2.2 Paulo Mendes da rocha FIGURA 12 – RETRATO PAULO MENDES DA ROCHA Fonte: Archdaily Brasil, 2023. Paulo Mendes da Rocha é um renomado arquiteto brasileiro, nascido em Vitória, no estado do Espírito Santo, em 1928. Reconhecido internacionalmente por sua arquitetura ousada e inovadora, Mendes da Rocha é uma figura emblemática do movimento modernista brasileiro e um dos mais importantes arquitetos contemporâneos do país. Formado em arquitetura pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. Mendes da Rocha iniciou sua carreira profissional na década de 1950. Desde então, ele tem sido responsável por uma série de projetos que se destacam pela sua originalidade, funcionalidade e integração com o ambiente urbano. Uma das características mais marcantes do trabalho de Mendes da Rocha é o uso expressivo do concreto armado. Suas obras frequentemente apresentam estruturas robustas e geométricas, que exploram as possibilidades do material de forma criativa e inovadora. Ao mesmo tempo, ele busca uma relação harmoniosa entre seus projetos e o entorno urbano, criando espaços que dialoguem com a cidade e suas paisagens. Entre as obras mais notáveis de Paulo Mendes da Rocha estão o Museu Brasileiro da Escultura (MuBE), em São Paulo, o Sesc 24 de Maio, também na capital paulista, o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP), e o Ginásio do Clube Atlético Paulistano, todos eles exemplificando sua abordagem singular e sua preocupação com a interação entre arquitetura e sociedade (Santos, 2004), (Segawa, 2014), (Artigas, 1989). 99ARQUITETURA MODERNA E CONTEMPORÂNEAUNIDADE 4 FIGURA 13 - MUBE, SP Fonte: Shutterstock l ID: 2226361261 FIGURA 14 - SESC 24 DE MAIO, CONJUNTO DE RAMPAS Fonte: Galeria da Arquitetura. Mendes da Rocha recebeu inúmeros prêmios e honrarias ao longo de sua carreira, incluindo o Prêmio Pritzker de Arquitetura, em 2006, o mais prestigiado prêmio da área, em reconhecimento ao seu talento e contribuição para a arquitetura contemporânea. 2.3 Lina Bo Bardi FIGURA 15 – RETRATO LINA BO BARDI Fonte: Oliveira, 2021 100ARQUITETURA MODERNA E CONTEMPORÂNEAUNIDADE 4 Lina Bo Bardi foi uma arquiteta e designer italiana naturalizada brasileira, nascida em 1914 e falecida em 1992. Reconhecida por sua contribuição significativa para a arquitetura moderna brasileira, ela deixou um legado marcante através de suas obras inovadoras e de sua abordagem humanista da arquitetura. Bo Bardi estudou arquitetura na Universidade de Roma, em 1946, Bo Bardi se mudou para o Brasil com seu marido, o crítico de arte Pietro Maria Bardi. Sua obra é marcada pela fusão entre modernidade e tradição, além de uma forte ligação com o contexto cultural e social do país. Entre suas obras mais conhecidas está o Museu de Arte de São Paulo (MASP), projetado em 1957. O MASP é um marco da arquitetura moderna brasileira, destacando- se pela sua estrutura suspensa e pela utilização de vãos livres, que permitem uma integração única entre o espaço expositivo e a cidade ao redor (Santos, 2004), (Segawa, 2014), (Artigas, 1989). FIGURA 16 - MASP, SÃO PAULO. Fonte: Shutterstock l ID: 1962483217 Além do MASP, Bo Bardi também foi responsável por projetos como o SESC Pompéia, um centro cultural em São Paulo, e o Teatro Oficina, também na mesma cidade. Em todas as suas obras, ela buscava criar espaços que fossem acessíveis, inclusivos e que promovessem a interação social e cultural. Além de sua contribuição como arquiteta, Lina Bo Bardi também foi uma importante escritora e ativista cultural, defendendo a democratização do acesso à cultura e à arte (Santos, 2004), (Segawa, 2014), (Artigas, 1989). 101ARQUITETURA MODERNA E CONTEMPORÂNEAUNIDADE 4 FIGURA 17 - SESC POMPEIA Fonte: Shutterstock l ID: 1643272663 102 ARQUITETURA CONTEMPORÂNEA3 TÓPICO ARQUITETURA MODERNA E CONTEMPORÂNEAUNIDADE 4 A arquitetura contemporânea brasileira reflete uma multiplicidade de abordagens, estilos e preocupações, refletindo as complexidades e diversidades do país. Uma das características marcantes da arquitetura contemporânea brasileira estão: • A valorização da luz natural, alcançada por meio de claraboias ou janelas amplas; • O uso de materiais reaproveitados ou provenientes da natureza; • O compromisso coma reciclagem e o uso de materiais que não prejudiquem o meio ambiente. • A busca por uma identidade própria, que valorize as raízes culturais e a diversidade do país. Além disso, há uma busca por individualidade e expressão de personalidade nos projetos contemporâneos. Os arquitetos procuram constantemente ultrapassar os limites da tradição, inovando tanto em forma quanto em funcionalidade. Em termos de forma, vemos construções irregulares, fragmentadas ou com aparência distorcida, acompanhadas por grandes janelas que convidam a luz natural a adentrar e o uso de materiais reutilizados, como pallets industriais e madeira de demolição. O uso de material reciclado não só contribui para a preservação do meio ambiente, mas também se torna uma estética desejável, proporcionando uma forma mais acessível de decorar ambientes. No que diz respeito à funcionalidade, as edificações contemporâneas buscam proporcionar conforto por meio de um design orgânico, como os edifícios verdes, 103ARQUITETURA MODERNA E CONTEMPORÂNEAUNIDADE 4 que incluem telhados vivos e estão se tornando uma solução cada vez mais explorada, além do foco social, promovendo a acessibilidade e a melhoria da qualidade de vida nas cidades. A arquitetura contemporânea no Brasil reflete fortemente o minimalismo. Influenciados pelas referências modernistas, os arquitetos adaptam os padrões estéticos às demandas atuais, incluindo a convivência com a tecnologia e a busca por soluções menos prejudiciais ao meio ambiente (Segawa, 2014), (Souza, 2018). 3.1 João Filgueira Lima, Lelé FIGURA 18 - RETRATO LELÉ Fonte: Delaqua, 2014. João Filgueiras Lima, mais conhecido pelo apelido de “Lelé”, foi um arquiteto brasileiro nascido em 1932 e falecido em 2014. Tinha foco na área da habitação popular, hospitalar e da infraestrutura urbana. Lelé era conhecido por sua abordagem inovadora e seu compromisso com soluções arquitetônicas que fossem eficientes, acessíveis e socialmente responsáveis. Uma de suas principais áreas de interesse foi o desenvolvimento de técnicas de construção utilizando estruturas pré-fabricadas, o que permitia uma construção mais rápida e econômica, além de reduzir o desperdício de materiais. Sua obra é caracterizada por uma fusão de elementos modernos com uma sensibilidade às condições climáticas e culturais do Brasil. Ele buscava integrar a arquitetura ao ambiente natural, incorporando luz, ventilação e espaços abertos em seus projetos. Lelé foi pioneiro no desenvolvimento de soluções arquitetônicas para habitação popular, trabalhando em projetos que visavam melhorar as condições de moradia para as camadas mais pobres da sociedade. Algumas de suas obras mais influentes são os Hospitais da Rede Sarah Kubitschek, onde foi utilizado sheds para garantir a iluminação e ventilação natural em todos os ambientes do hospital, além da organização funcional, posicionando os espaços que exigem 104ARQUITETURA MODERNA E CONTEMPORÂNEAUNIDADE 4 privacidade na parte central dos edifícios, permitindo um fluxo adequado. Os ambulatórios e unidades de terapia foram posicionados nas laterais do edifício, de modo a proporcionar uma agradável visão do jardim, de modo a fornecer bem-estar físico, mental e emocional dos pacientes (Segawa, 2014), (Souza, 2018). FIGURA 19 – HOSPITAL SARAH KUBITSCHEK, BRASÍLIA/DF Fonte: Vada, 2019. Em 2011, Lelé recebeu o prémio Prêmio APCA na Categoria “Projeto referencial”, com seu projeto de habitação social proposto para o programa Minha Casa, Minha Vida, na cidade de Salvador/BA, que enfrenta com sabedoria todos os desafios de um projeto de habitação de interesse social, contribuindo não só para a melhoria do espaço doméstico mas para a transformação da paisagem. O projeto esbarra nas amarras do plano Minha Casa Minha Vida, que impede o repasse de verba da Caixa Econômica para o Instituto Habitat, uma instituição sem fins lucrativos, onde o projeto foi desenvolvido (Segawa, 2014), (Souza, 2018). FIGURA 20 – IMAGEM ILUSTRATIVA CONJUNTO HABITACIONAL SALVADOR/BA Fonte: Camargo, 2011. 105ARQUITETURA MODERNA E CONTEMPORÂNEAUNIDADE 4 3.2 Ruy Ohtake FIGURA 21 – RETRATO RUY OHTAKE Fonte: Kiyomura, 2021 Nascido em São Paulo em 1938, Ruy Ohtake é conhecido por sua arquitetura arrojada e contemporânea, que combina formas fluidas, geometria complexa e uso expressivo de cores. Ohtake graduou-se em arquitetura na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) em 1960. Após sua formação, trabalhou brevemente no escritório de seu pai antes de fundar seu próprio escritório em 1961. Desde então, Ruy Ohtake tem desenvolvido uma ampla gama de projetos arquitetônicos, incluindo edifícios comerciais, residenciais, culturais e hoteleiros. Seu estilo arquitetônico é altamente reconhecível, caracterizado por formas orgânicas, curvas suaves e uma estética contemporânea que incorpora elementos da cultura brasileira. Alguns de seus projetos mais famosos incluem o Hotel Unique em São Paulo, com sua fachada em forma de barco invertido e sua estrutura de concreto aparente, que se tornou um ícone da cidade; o Instituto Tomie Ohtake, um centro cultural em homenagem à sua mãe, que apresenta uma arquitetura arrojada e espaço para exposições de arte contemporânea; e o Hotel Praia do Forte, na Bahia, que se destaca por sua integração com a natureza exuberante ao redor (Segawa, 2014), (Souza, 2018). FIGURA 22 – HOTEL UNIQUE SÃO PAULO Fonte: Shutterstock l ID: 162260201 106 A arquitetura moderna e contemporânea brasileira é mundialmente conhecida por sua inovadora utilização do concreto? Arquitetos como Oscar Niemeyer e Lina Bo Bardi transformaram esse material em verdadeiras obras de arte. Niemeyer, com suas curvas sinuosas que desafiam a gravidade no Congresso Nacional e no Palácio da Alvorada, e Bo Bardi, com a ousada suspensão do MASP (Museu de Arte de São Paulo), onde o vão livre de 74 metros ainda hoje é um dos maiores do mundo. Esses arquitetos não apenas moldaram o concreto de maneira única, mas também imprimiram uma identidade cultural rica e expressiva na paisagem urbana do Brasil. Fonte: A autora, 2024 A arquitetura depende ainda, necessariamente, da época da sua ocorrência, do meio físico e social a que pertence, da técnica decorrente dos materiais empregados e, finalmente, dos objetivos visados e dos recursos financeiros disponíveis para a realização da obra, ou seja, do programa proposto. Pode-se então definir a arquitetura como construção concebida com a intenção de ordenar plasticamente o espaço, em função de uma determinada época de um determinado meio, de uma determinada técnica e de um determinado programa. Arquiteto Lucio Costa, 1995. REFLITA SAIBA MAIS ARQUITETURA MODERNA E CONTEMPORÂNEAUNIDADE 4 FIGURA 23 – INSTITUTO TOMIE OHTAKE Fonte: Shutterstock l ID: 797340844 107 Chegamos ao fim desta jornada pela arquitetura moderna e contemporânea brasileira. Durante esta unidade, exploramos as inovações e os impactos que moldaram o cenário arquitetônico do nosso país. Analisamos desde as linhas fluidas de Niemeyer até as sensibilidades de Lina Bo Bardi e as soluções sociais de Lelé. Compreendemos as correntes que atravessaram o Brasil, examinando técnicas pioneiras e expressões estilísticas que desafiaram limites e romperam paradigmas. Entendemos que a arquitetura não é apenas um abrigo, mas um reflexo das aspirações de uma sociedade. Ela influencia e é influenciada pelo contexto em que está inserida. A arquitetura brasileira nos mostra que o espaço construído é um palco para a vida cotidiana e um espelho da identidade coletiva. Que os estudantes e profissionais da arquitetura possam aplicar as lições aprendidas aqui para criar ambientes que respeitem o passado, atendam às necessidades do presente e pavimentem o caminho para um futuro sustentável e inclusivo. Bons estudos! Até breve! CONSIDERAÇÕES FINAIS ARQUITETURA MODERNA E CONTEMPORÂNEAUNIDADE 4 108 MATERIAL COMPLEMENTARFILME/VÍDEO • Título: Especial - 100 anos de Lina Bo Bardi - Parte 1 e Parte 2 • Ano: 2015 • Sinopse: O pioneirismo da arquiteta romana encantou o Brasil e fez-nos conhecer ainda mais nossa própria cultura. Com seus móveis, Lina Bo Bardi mostrou sua outra faceta que valoriza a experiência humana. • Link: https://www.youtube.com/watch?v=z2mkutMCx3M&t=3s LIVRO • Título: Ruy Ohtake, arquiteto • Autor: Abilio Guerra, Silvana Romano Santos • Editora: Romano Guerra Editora; Coedição com Instituto Tomie Ohtake • Sinopse: Ruy Ohtake, nascido em São Paulo, em 1938, filho da artista plástica Tomie Ohtake, forma-se arquiteto em 1960 na FAU USP. Ganhador de 25 prêmios, conquistou o Colar de Ouro do Instituto de Arquitetos do Brasil – IAB (2007). Recebeu os títulos de Professor Emérito da Faculdade de Arquitetura de Santos e de Professor Honoris Causa da Universidade Braz Cubas. Entre centenas palestras, fez parte do seleto grupo de arquitetos convidados do 20º Congresso da União Internacional de Arquitetos (1999), para proferir uma das principais conferências em Pequim, ao lado de Jean Nouvel e Tadao Ando. Na comemoração dos 60 anos da FAU USP, em 2008, foi o arquiteto convidado a fazer uma exposição no grande espaço projetado pelo mestre Vilanova Artigas. A finalidade maior deste projeto cultural é cumprir o objetivo de publicar um balanço crítico isento e aprofundado, que permita a inserção de sua obra em merecido lugar da história da arquitetura brasileira. ARQUITETURA MODERNA E CONTEMPORÂNEAUNIDADE 4 https://www.youtube.com/watch?v=z2mkutMCx3M&t=3s 109 CONCLUSÃO GERAL Olá aluno, aqui encerramos nossa jornada. A arquitetura brasileira é um reflexo vibrante da identidade e da diversidade cultural do país, ao longo das páginas desta apostila, exploramos os estilos, os movimentos e os principais arquitetos que contribuíram para moldar a paisagem urbana do país. Desde as influências coloniais até as expressões contemporâneas, a arquitetura brasileira reflete não apenas a história e a cultura do país, mas também sua diversidade geográfica e social, nos ensinando que o espaço em que vivemos pode ser ao mesmo tempo belo e funcional, refletindo as aspirações e os valores de uma sociedade, passando desde as obras icônicas de Oscar Niemeyer à sensibilidade de Lina Bo Bardi, passando pelo legado de Lelé e a audácia de Ruy Ohtake, cada arquiteto deixou sua marca única, contribuindo para um panorama arquitetônico rico e multifacetado. Que vocês continuem a inspirar-se nesse legado, projetando não apenas edifícios, mas também sonhos, onde cada linha e curva conta a história de seu povo e de seu tempo, promovendo o bem-estar, a inclusão social e a sustentabilidade ambiental. 110 REFERÊNCIAS ABELHA, C. Ele Construiu Sua Casa Própria de Pau a Pique. Youtube, 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=wTFNwCC1HoI. Acesso em: 12 dez. 2023. AGÊNCIA AC. Ruínas do Forte Príncipe da Beira, em Rondônia, comove visitantes com a memória de negros, índios e brancos. Agencia AC Notícias do Acre, 2023. Disponível em: https://agencia.ac.gov.br/ruinas-do-forte-principe-da-beira-em-rondonia- comove-visitantes-com-a-memoria-de-negros-indios-e-brancos/. Acesso em: 12 fev. 2024 ALMEIDA F. W. YAMASHITA, A. C. Arquitetura Indígena. 16 folhas. 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Atualmente, observamos que muitos indígenas optaram por adotar estilos de vida semelhantes à maioria da população, residindo em áreas urbanas e incorporando, em seu cotidiano, as novas tecnologias, desta forma surgiu um movimento de resistência, um esforço consciente para preservar ao máximo as tradições ancestrais desses povos, onde muitas comunidades permanecem comprometidas em manter vivas as práticas e modos de vida transmitidos de geração em geração (CAU RN) (TAGLIANI, 2023). FIGURA 1 – ALDEIA INDIGENA IKPENG NO PARQUE DO XINGU Fonte: Funai, 2023. ARQUITETURA INDIGENA1 TÓPICO 1 ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 10 A arquitetura indígena, embora pouco reconhecida, deve ser considerada a maior referência de construção sustentável, posto que mesmo antes da colonização portuguesa, as tribos indígenas já empregavam técnicas construtivas adaptadas ao clima local, utilizando exclusivamente materiais ecológicos, tornando-se elos vivos com a natureza de forma a valorizar o ambiente em volta. Cada aldeia utiliza dos ensinamentos antigos, adaptando-os às particularidades culturais e territoriais do local que residem, por isso, podemos ver uma grande diferença nas tecnologias construtivas, isso junto à falta de dados históricos disponíveis, torna extremamente difícil retratar os povos indígenas em particular. Diante disso, focaremos em algumas tipologias já estudadas, que servirão como ilustrações representativas da diversidade existente, este enfoque permite explorar elementos que, em conjunto, compõem o universo da habitação indígena (BRANCO, 1993), (CAU RN) (TAGLIANI, 2023). FIGURA 2 – VISTA AÉREA DA ALDEIA AIHA, DO POVO KALAPALO Fonte: Guerreiro, 2019. Para iniciarmos neste universo, não podemos deixar de entender as aldeias, que são uma unidade política característica dos povos indígenas, sendo a forma mais comum e, ao mesmo tempo, a mais simples de organização habitacional para essas comunidades, podendo abrigar até 400 pessoas. As construções indígenas são caracterizadas por utilizar coberturas de vegetação e estruturas de madeira amarradas com cipós ou, em alguns casos, entalhadas. São projetadas para uso coletivo, assim, seu tamanho varia de acordo com o tamanho da tribo. Elas estão dispostas de forma circular, em ferradura ou linear, formando uma grande praça central onde são realizadas atividades cotidianas, cerimônias e rituais sagrados. ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 11 FIGURA 3 – ORGANIZAÇÃO DAS CONSTRUÇÕES Fonte: Costa e Malhano, 1986. Na tradição indígena, cabe aos homens construírem e erguerem a estrutura das construções, enquanto as mulheres ficam responsáveis por socar o barro do chão das construções. As casas são consideradas acampamentos temporários, pois quando uma casa envelhece e há deterioração da cobertura ou há proliferação de insetos, é comum que as casas sejam queimadas e uma nova construção, seguindo o mesmo formato, é erguida no mesmo local. (ALMEIDA; YAMASHITA, 2013), (CAU RN, reportagem on-line) (FUNAI, 2023). ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 12 As aldeias são caracterizadas por duas formas de habitações, sendo as de casa unitária, ou maloca, como a do povo Tukano, e as de múltiplas casas, como a da aldeia Ikpeng. A seguir, conheceremos algumas das tipologias mais encontradas. 2.1 Casas Unitárias Casa-aldeia Tukanos É a forma de construção mais simples das aldeias, pois toda a tribo vive num só espaço, é de extrema importância para alguns povos, pois, além de moradia, é um espaço essencial para a realização dos rituais. Seu design é intimamente ligado às tradições culturais, permitindo reviver as grandes cerimônias e a trajetória primordial dos antepassados. Sua construção leva em torno de 3 meses, possui planta retangular alongada, com um dos lados menores fechado por uma semicircunferência, há dois acessos, sendo um na fachada principal, que dá para o rio, e o outro nos fundos, dando acesso para as plantações. É dividida internamente pela estrutura do telhado, em espaços de 6x6 metros, fechados por biombos de folhas de palmeira trançadas que são chamados de oca ou oga, onde em cada uma delas reside uma família. As ocas são distribuídas segundo o status que a família ocupa na comunidade, as famílias nucleares ocupam os que estão localizados próximos às paredes na metade posterior, as famílias de maior status, ficam próximo ao meio da casa, enquanto os visitantes ficam na parte frontal. A estrutura é de grandes pilares que se prendem em vigas-travessões, a cobertura, de duas águas, chega quase até o solo e acompanham grandes beirais para proteger os acessos. As malocas sempre são alocadas com base no rio, onde a fachada principal, fica voltada ortogonalmente para ele, enquanto a posterior volta-se para a plantação. A maloca é dividida em três partes, rio acima, onde ficam os homens, rio abaixo, onde ficam as TIPOLOGIAS E TECNOLOGIAS DAS CONSTRUÇÕES INDÍGENAS2 TÓPICO ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 13 mulheres, e a parte intermediária, onde é frequentado por ambos os gêneros e ocorrem as cerimônias e rituais sagrados. FIGURA 4 – CROQUI MALOCA DO POVO TUKANO Fonte: Costa; Malhano, 1986. FIGURA 5 – MALOCA DO POVO TUKANO Fonte: Museu do Índio, 1931. ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 14 Casa Antropomorfa Nesta tipologia, as malocas são construídas fazendo alusão ao corpo humano masculino ou animal macho, é muito vista nas aldeias dos povos do Xingu, onde podemos notar as referências nos seguintes elementos: • Pés: São as carreiras de caibros enterrados para formar as paredes, simbolizando a fundação sólida e a ligação com a terra. • Pernas: São os pilares principais, localizados nos pontos focais da elipse da estrutura, proporcionam estabilidade e equilíbrio à habitação. • Nádegas: São os semicírculos laterais, correspondentes aos setores íntimos da casa. • Peito: É a parte frontal da habitação. • Costas: É a parte posterior da habitação. • Costelas: É a estrutura de vedação da moradia, feita com ripas de madeira e bambu. • Cabeça: É o ponto mais alto da estrutura, conhecido como cumeeira. • Cabelos: São os revestimentos das paredes, geralmente feitos de palha. FIGURA 6 – CROQUI MALOCAS ANTROPOMORFA Fonte: Costa e Malhano, 1986. ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 15 FIGURA 7 – MALOCA ANTROPOMORFA Fonte: Revista Zeiki, 2020. Casa-aldeia Shabono Muito utilizada pelos povos Yanomami, a maloca Shabono tem formato poligonal e cada segmento é a residência de uma família, assim, seu dimensionamento depende de quantas pessoas há na aldeia. Cada polígono possui quatro pilares fincados no chão, sendo dois externos e dois internos, distanciados entre si por um vão de 2,40 a 2,70m, os pilares internos possuem 1,50m de altura e apoiam a terça única da cobertura, enquanto os pilares externos apoiam o frechal. O frechal e a terça, apoiam inúmeros caibros estreitos, que mantêm entre si um ângulo de 25 a 30º com intervalo de aproximadamente 0,75m. Sua cobertura é leve e chega a atingir 15m de diâmetro, tem formato de cone seccionado, formando uma abertura no centro permitindo a entrada de luz. É revestida por braços de folhas de palmeira e possui uma franja do mesmo material que funciona como pingadeira para não permitir que molhe o interior das malocas. FIGURA 8 – CROQUI PLANTA BAIXA MALOCA SHABONO Fonte: Costa e Malhano, 1986. ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 16 FIGURA 8.1 – CROQUI PLANTA BAIXA MALOCA SHABONO Fonte: Costa; Malhano, 1986. FIGURA 9 – MALOCA SHABONO, POVO YANOMAMI Fonte: Funai, 2023. Casa-aldeia Marúbo Utilizada pelos povos Marúbo, a maloca é construída em formato poligonal, irregular, de dez lados e, assim como a casa antropomorfa, faz alusão ao corpo masculino, com enfeitese entretenimento, 2019. Disponível em: https://www. resenhando.com/2019/04/um-imigrante-coloca-arquitetura.html. Acesso em: 27 mar. 2024. RIBEIRO, Nelson Pôrto in: BRAGA, Márcia (org.) Conservação e restauro: arquitetura brasileira. Rio de Janeiro: Editora Rio, 2003. p. 53-84. ISBN: 857579047-1 ROSA, M. DSCN0253 - Convento de Santa Teresa - Rio de Janeiro – Brasil. 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Com 24 pilares, sendo 8 centrais e 16 periféricos, a maloca possui uma disposição específica. Os 8 pilares centrais são organizados em duas fileiras paralelas, criando um corredor ao longo da construção. Enquanto isso, os 16 pilares externos formam um polígono alongado, sendo que os 2 que sustentam as portas de acesso são chamados de coití. A cobertura é sustentada pelos caibros posicionados nos lados maiores do polígono, e as paredes são constituídas por madeiras finas e verticais, fixadas no chão e unidas aos caibros por varas longitudinais, reforçando essa estrutura. Uma característica interessante é a presença de uma parte móvel na cobertura, localizada nas entradas da casa, que pode ser elevada para permitir a entrada de mais luz na maloca sempre que desejado (ALMEIDA; YAMASHITA, 2013), (CAU RN, reportagem on-line) (FUNAI, 2023). ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 17 FIGURA 10 – CROQUI MALOCA MARÚBO Fonte: Costa; Malhano, 1986. FIGURA 11 – MALOCA MARÚBO Fonte: Comtxae, 2021. ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 18 2.2 Múltiplas Casas A aldeia de múltiplas casas é a forma mais comum de assentamentos indígenas, é formada por um conjunto de 04 a 10 casas, denominadas de “oguassu” e geralmente, não passavam de 150m de comprimento, por cerca de 12m de largura. A cultura mais estudada que adotou esse tipo de solução é a tupi-guarani, quando a tribo se tornava muito grande, uma parte da população iniciava peregrinação rumo ao leste que terminava com a chegada ao oceano. Essa divisão de aldeias resultou no aparecimento de uma grande variedade de soluções arquitetônicas para a moradia, onde as mais comuns são: Planta baixa retangular As ocas de planta baixa retangular são as mais simples encontradas, possuem paredes e cobertura contíguas, além de sua forma ogival na secção reta. FIGURA 12 – CROQUI OCAS DE PLANTA BAIXA RETANGULAR Fonte: Costa; Malhano, 1986. ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 19 FIGURA 13 – OCA DE PLANTA RETANGULAR Fonte: Espaço Ciência, 2022. Planta baixa circular Nas ocas de planta baixa circular encontramos três tipos comuns de tipologia, denominadas de mune, tukúxipan e timákötö, onde as três possuem a cobertura colocada sobre pilares verticais. As munes têm formato de cúpula, sem diferenciação entre as paredes e a cobertura, já as tukúxipans, que também tem formato de cúpula, possuem paredes independentes da cobertura, muitas vezes abertas, conforme mostra a figura 14. Por fim, a timákötö é similar à anterior, porém com uma forma cônica, apresentando pilares verticais e laterais não revestidas. FIGURA 14 – CROQUI OCAS DE PLANTA BAIXA CIRCULAR Fonte: Costa; Malhano, 1986. ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 20 FIGURA 15 – OCA TUKÚXIPAN Fonte: Soares, 2016. Planta baixa elíptica As ocas de planta baixa elíptica são, na verdade, uma elipse incompleta, onde uma das extremidades, geralmente a frontal, é aberta. Elas apresentam esteios laterais obliquamente dispostos, com cobertura em duas águas, onde das extremidades da cumeeira partem secções cônicas verticais que atingem as paredes nas extremidades circulares da elipse. Com o passar do tempo, esse tipo de planta baixa foi se modificando, tornando-se retangular, onde a fachada posterior passou a ter um acabamento semelhante à fachada frontal. Outra tipologia encontrada é a planta baixa elíptica sem distinção de parede e cobertura, onde se tem seção transversal em abóbada de berço e a seção longitudinal em asa de cesto (ALMEIDA; YAMASHITA, 2013), (CAU RN, reportagem on-line) (FUNAI, 2023). FIGURA 16 – CROQUI OCAS DE PLANTA BAIXA ELÍPTICAS Fonte: Costa; Malhano, 1986. ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 21 FIGURA 17 – OCA DE PLANTA ELÍPTICA Fonte: Grupioni, 2005. 2.3 Tecnologia Indígena As técnicas e materiais utilizados pelas tribos indígenas muitas vezes compartilham semelhanças, no entanto, o que varia é a aplicação dessas técnicas e a adaptação da tecnologia ao ambiente específico em que cada tribo está localizada, esse ambiente influencia a disponibilidade de materiais e as condições meteorológicas, determinando como aplicarão os conhecimentos adquiridos. Um elemento muito comum em várias aldeias era a amarração de cipós nas estruturas de madeira. Isso se trata de um procedimento técnico usado para fixar os elementos construtivos na estrutura ou revestimento. FIGURA 18 – AMARRAÇÕES EM CIPÓ Fonte: Costa e Malhano, 1986. Outro elemento muito comum, é a utilização de entalhes de madeiras junto das amarrações de cipós, para facilitar no encaixe e garantir melhor segurança para as construções. ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 22 FIGURA 19 – ENTALHE EM MADEIRA Fonte: Costa e Malhano, 1986. O que mais diferencia as construções das aldeias indígenas, é a disponibilidade de materiais e as soluções para as condições climáticas, como: • Clima tropical úmido: Estruturas abertas para garantir a circulação do ar e a eliminação da umidade característica desse clima. • Clima tropical com estação seca de inverno: Fechamento progressivo, embora sejam amplas, possuem um fechamento mais leve para permitir a criação de um colchão de ar na parte alta, suavizando a temperatura ambiente durante os períodos mais quentes. • Clima equatorial a temperado úmido: Edificações completamente fechadas para se protegerem do frio noturno (ALMEIDA; YAMASHITA, 2013), (CAU RN, reportagem on-line) (FUNAI, 2023). ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 23 A arquitetura vernacular é a representação factual da técnica construtiva e da ideologia global de uma determinada cultura, tendo como referências a tradição local e a sabedoria popular (SVENSSON, 1992). A arquitetura vernacular, derivada do latim “vernaculus”, significa algo doméstico ou nativo, é também conhecida como arquitetura popular. Normalmente é produzida por povos com um nível tecnológico menos avançado, esse estilo engloba não apenas aspectos construtivos, mas também elementos relacionados a transportes e comunicação. Por isso é um estilo arquitetônico caracterizado por sua natureza comum, anônima e construída sem a intervenção de arquitetos, cuja as técnicas e os conhecimentos transmitidos de forma tradicional ao longo das gerações. Esse estilo arquitetônico desenvolveu-se de maneira orgânica e adaptativa, refletindo as condições ambientais, culturais, econômicas e sociais específicas de cada região. Uma de suas principais características é a sustentabilidade, evidenciada pelo uso de materiais ecológicos e técnicas construtivas locais que se adaptam passivamente ao clima e às condições específicas de cada local. No Brasil, a arquitetura vernacular teve início com as construções indígenas, ganhando destaque a partir do contato com os colonizadores. A taipa de pau-a-pique foi um dos primeiros elementos arquitetônicos vernaculares brasileiros, construída como uma defesa contra os povos indígenas que habitavam a região durante a colonização. A arquitetura vernacular no Brasil é marcada por uma rica diversidade que reflete a pluralidade cultural do país, incorporando elementos das diversas culturas imigrantes e ARQUITETURA VERNACULAR3 TÓPICO ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 24 adaptando-os às condições locais. Lucio Costa, arquiteto brasileiro, foi um dos principais estudiosos da arquitetura vernacular brasileira, elencando as características e os exemplos das construções do Brasil inteiro, projetando um traçado da história arquitetônica nacional. Com seu estudo, pudemos observar algumas técnicas vernaculares brasileiras, como a taipa de pilão, taipa de pau-a-pique, adobe, que são muito utilizadas no Nordeste e no Centro-oeste, enquanto o enxaimel e a pedra bruta ou de cantaria são muito encontradas no Sul (SANTOS; COSTA, 2018), (SILVA; SILVA, 2023), (TEIXEIRA, 2017). FIGURA 20 – MUSEU DO TROPEIRO DE IBATIBA Fonte: Goulart, 2019. ARQUITETURAINDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 25 4.1 Taipa de Pilão A técnica de construção conhecida como taipa de pilão foi introduzida na arquitetura colonial pelos portugueses e africanos. Essa técnica utiliza principalmente terra crua, misturada com água, fibras vegetais e um aglomerante, como estrume ou sangue de animais. O processo consiste em compactar a terra em camadas de 20cm utilizando um pilão dentro de uma forma de madeira chamada taipal, alcançando uma espessura final de 10 cm. O taipal refere-se a tábuas de madeira com cerca de 40cm de altura, que são posicionadas ao longo das fundações de maneira semelhante a tijolos. Quando a terra compactada atinge 2/3 de altura, pequenas madeiras envolvidas em folhas de bananeiras são introduzidas transversalmente, criando orifícios cilíndricos chamados de cabodás, eles permitem o ancoramento do taipal em uma nova posição, possibilitando a construção da parede por seções. FIGURA 21 – DETALHE DE PAREDE DE TAIPA DE PILÃO Fonte: Ribeiro, 2003 TIPOLOGIAS E TECNOLOGIAS DAS CONSTRUÇÕES VERNACULARES4 TÓPICO ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 26 FIGURA 22 – COMO FAZER UMA PAREDE DE TAIPA DE PILÃO Fonte: Sustentarqui, 2020. As paredes resultantes, que desempenham uma função estrutural, têm uma espessura significativa, variando de 0,30m a 1,00m. Essa solidez proporciona bom isolamento térmico, mas é necessário protegê-las com amplos beirais e construí-las acima do nível do terreno sobre pedras para evitar danos causados pela água. Com o tempo, a terra se solidifica, tornando-se extremamente resistente, no entanto, é importante notar que essas paredes não podem ser ampliadas ou demolidas, o que requer um planejamento cuidadoso da planta baixa desde o início. As construções em taipa de pilão apresentam vantagens como baixo custo, bom desempenho termoacústico e a necessidade mínima de mão-de-obra especializada. Além disso, essa técnica utiliza um material ecológico e abundante, contribuindo para uma abordagem mais sustentável na construção (SATO, 2011). FIGURA 23 – PAREDE DE TAIPA DE PILÃO Fonte: Archdaily, 2023. ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 27 4.2 Taipa de Pau-a-pique A técnica de taipa de pau-a-pique, também conhecida como taipa de mão ou taipa de sopapo, consiste em paredes armadas com madeira ou bambu, amarradas, geralmente com cipó, formando uma trama vertical, onde é colocado, manualmente, uma argamassa de barro e fibra, que preenche os vazios da trama. As tramas simples têm espessura de 0,15 a 0,20 centímetros, possuem apenas uma fileira de madeiramento vertical, enquanto as tramas duplas, chegam a ter 0,40 a 0,50 centímetros de espessura. A parede de pau-a-pique deve ser afastada do solo através de uma fundação, ou baldrame, além de ser protegida por grandes beirais, uma vez que não é resistente à água. Não é estrutural e possui grande leveza, por isso é muito encontrada no interior das edificações e em pavimentos superiores. Da mesma forma que a taipa de pilão, a taipa de pau-a-pique apresenta baixo custo, bom desempenho termoacústico e exige uma quantidade mínima de mão-de-obra especializada (OLENDER, 2013) FIGURA 24 – ESTRUTURA DE PAU A PIQUE Fonte: Ribeiro, 2003. FIGURA 25 – CASA DE PAU A PIQUE Fonte: Chico Abelha, 2022. ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 28 4.3 Adobe Dentro das técnicas construtivas que envolvem o uso da terra, o Adobe representa uma prática onde uma mistura de terra, água e fibras é amassada até alcançar uma consistência plástica. Posteriormente, essa mistura é moldada em fôrmas de madeira e deixada para secar, inicialmente à sombra e depois ao sol, resultando em uma espécie de tijolo sem a necessidade de queima. Em alguns casos, essa mistura plástica é enriquecida com a adição de agregados como vegetais, esterco e pelos de animais, uma prática visando controlar a formação de fissuras durante o processo de secagem. Os tijolos de adobe geralmente possuem dimensões aproximadas de 20x20x40 centímetros e são assentados utilizando uma argamassa de barro. Eles podem ser empregados na construção de diversas estruturas, incluindo paredes, abóbadas, cúpulas, entre outros (ROTONDARO, 2011). FIGURA 26 – SECAGEM DO ADOBE Fonte: Santiago Baraya, 2020. FIGURA 27 – CONSTRUÇÃO DE ADOBE Fonte: Santiago Baraya, 2020. ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 29 4.4 Enxaimel O enxaimel é uma técnica construtiva originária das regiões germânicas, que foi introduzida na cultura brasileira pelos imigrantes que se estabeleceram aqui. Essa abordagem envolve a construção de paredes estruturadas por meio de madeiras encaixadas entre si e preenchidas com diferentes materiais de vedação, como taipa, adobe, pedra ou mesmo tijolos comuns. As vigas horizontais desempenham papéis específicos nesta técnica, as intermediárias são chamadas de “madres”, as vigas localizadas na base da estrutura recebem o nome de “ baldrames” e as vigas no topo da parede, que suportam o telhado, são conhecidas como “frechais”. Além disso, as vigas horizontais são reforçadas por peças inclinadas nos cantos ou diagonalmente nos quadros, denominadas “aspas francesas”. Estas peças são montadas e encaixadas com tarugos, que são pregos de madeira, permitindo que a estrutura seja desmontada e remontada em um novo local, característica que destaca a flexibilidade e a adaptabilidade do estilo enxaimel (VEIGA, 2013) FIGURA 28 – DETALHE DOS ENXAIMEIS Fonte: Viva decora, 2021 ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 30 FIGURA 29 – CONSTRUÇÃO DE ENXAIMEL Fonte: ArchDaily, 2022. 4.5 Pedra Bruta e Cantaria A construção em pedra conferia maior resistência aos muros, por isso foi muito utilizada nos muros, fortificações e igrejas. Nas igrejas de Ouro Preto, essa técnica desempenhou um papel essencial, permitindo a criação de estruturas com alturas superiores às que poderiam ser alcançadas por outras técnicas que utilizam a terra como base. As argamassas utilizadas eram principalmente à base de cal e areia, proporcionando maior resistência, embora em locais onde a cal não estava disponível, o barro era utilizado como alternativa. As pedras variam em tamanho, podendo atingir até 40 cm na maior dimensão ou mais, apresentando um acabamento irregular. Não se realizava nenhum trabalho de aparelhagem, e a disposição das pedras seguia o padrão de encaixar as maiores entre as menores, unindo-as por meio da argamassa. Na alvenaria de pedra seca, a argamassa era dispensada. As paredes construídas por essa técnica tinham uma considerável espessura, variando de 0,60 a 1,00 metro, e eram assentadas com a ajuda de formas de madeira. Essa abordagem era mais comum em muros exteriores, onde as pedras de mão, maiores, eram contornadas por pedras menores, recebendo o nome de “cangicado”. Essa variação na técnica de construção não apenas refletia a adaptabilidade dos construtores às condições locais, mas também adicionava diversidade estética às estruturas edificadas. FIGURA 30 – PAREDE DE CANJICADO Fonte: Astorga Arquitetura e Restauração, 2016. ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 https://www.archdaily.com.br/br/author/archdaily-team 31 FIGURA 31 – MUSEU AMBIÊNCIA, CASA DE PEDRA Fonte: Gomes, 2019. A cantaria chegou ao Brasil durante o século XVI, marcada pela chegada de Luis Dias, mestre na arte da pedraria, em 1549. Essa técnica envolvia um meticuloso processo manual de moldagem de blocos de pedra, utilizando pedra lavrada de maneira precisa para garantir um encaixe perfeito. Para assegurar o assentamento adequado, grampos metálicos e, por vezes, óleo de baleia eram comumente empregados como adesivos, contribuindo para a eficácia na vedação. No Brasil, a cantaria muitas vezes fazia uso de peças de calcário Lioz, trazidas como lastro nos navios e empregadas na construção civil. Devido à complexidade da mão de obra e seu custo, essa técnica não era aplicada em toda a extensão do edifício, mas apenas em partes mais importantes,enquanto outras técnicas, como a de paredes mistas, eram utilizadas para o restante das vedações. FIGURA 32 – PAREDE MISTA E DE CANTARIA Fonte: Silvio Colin, 2010. ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 32 Na figura 33, podemos observar as ruínas da Antiga Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Ouro Preto, apresentando o uso das duas técnicas, a cantaria, encontramos nos pilares e no contorno das esquadrias, enquanto nos demais preenchimentos das paredes de vedação, vemos o canjicado (COLIN, 2010). FIGURA 33 – RUÍNAS DA ANTIGA MATRIZ DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO, EM OURO PRETO. Fonte: Ipatrimônio, 2018. ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 https://www.denia.com/pt/castillo/castillo-de-denia-explanada-del-governador/ 33 As tradições arquitetônicas desempenham até hoje um papel significativo na construção contemporânea. A riqueza cultural e a conexão com o meio ambiente, estão ganhando cada vez mais notoriedade e inspirando arquitetos e designers a incorporar elementos dessas práticas em projetos modernos, criando uma fusão entre a modernidade e a sabedoria construtiva tradicional. Influenciando principalmente nas questões voltadas à sustentabilidade e a preservação ambiental, propondo soluções arquitetônicas que minimizem o impacto ambiental e promovam a eficiência energética. Por isso, veremos a seguir algumas obras contemporâneas inspiradas na arquitetura indígena e vernacular brasileira. 5.1 Centro Sebrae de Sustentabilidade - José Portocarrero O Centro Sebrae de Sustentabilidade, localizado em Cuiabá/MT foi construído entre 2008 e 2010, teve o projeto desenvolvido pelo arquiteto e urbanista José Afonso Portocarrero e recebeu o prêmio BREEAM Awards 2018 como o melhor edifício sustentável das Américas. Ele foi inspirado na arquitetura indígena, tanto em sua estética, quanto em seu aproveitamento de recursos naturais e diminuição dos impactos ambientais. Sua cobertura, de formato ogival, é projetada em duas cascas espaçadas por cerca de 30cm e possibilita o resfriamento interno do prédio, que chega atingir até 10 graus em relação ao exterior, e a captação de água da chuva, que é filtrada e armazenada para uso na irrigação do jardim e lavagem de pisos. ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULAR NOS DIAS ATUAIS5 TÓPICO ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 34 Inspirado na arquitetura indígena, tanto em termos estéticos quanto na abordagem ao aproveitamento de recursos naturais, o Centro Sebrae de Sustentabilidade destaca-se por sua capacidade de minimizar impactos ambientais, a cobertura em duas cascas é uma característica marcante do edifício e desempenha um papel importante no resfriamento interno, promovendo eficiência energética. “Não foi um índio ou um arquiteto, mas gerações de indígenas que desenvolveram essas tecnologias, desde o desenho até os materiais de construção de uma estrutura de arquitetura bioclimática” (Portocarrero, 2018). FIGURA 34 - CENTRO SEBRAE DE SUSTENTABILIDADE Fonte: Sebrae, 2014. 5.2 EcoLoft - Campinas Decor - Maira Del Nero O Ecoloft, um projeto arquitetônico elaborado pela arquiteta Maira Del Nero para a Campinas Decor 2009, destaca-se como um modelo de moradia sustentável e contemporânea, integrando todas as funcionalidades de uma residência convencional em um espaço compacto e versátil. Esta habitação de 25 m², estrategicamente elevada em um terreno em declive, apresenta um sistema estrutural modular de madeira proveniente de manejo sustentável, o qual é de fácil montagem e desmontagem, oferece uma variedade de opções para decoração ecológica. Utiliza também de sistemas construtivos sustentáveis, como a taipa de pilão e o tijolo de solo cimento, evidenciando o comprometimento do projeto com práticas amigáveis ao meio ambiente. Além disso, foram implementadas soluções para redução do consumo de água, energia e tratamento de efluentes, consolidando o Ecoloft como um exemplo de eficiência sustentável. O reconhecimento do Ecoloft é destacado pelo prêmio recebido na categoria Design de Interiores 2009 do Prêmio Planeta Casa. Este não é o primeiro feito da arquiteta Maira Del Nero, que já conquistou o mesmo prêmio em 2006 com o Ecobanheiro e em 2008 com a Sala de Descanso. ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 35 FIGURA 35 - ECOLOFIT Fonte: Del Nero, 2015. “Estabelecer um conjunto de características comuns às soluções arquitetônicas indígenas se mostra uma abordagem muito superficial, já que as conformações e dimensões das ocas ou malocas indígenas variam a depender da tribo e quantidade de pessoas que habitam ali. Porém, ao estudar os diferentes exemplares da arquitetura indígena, é possível rever a noção de “tecnologia avançada” e assimilar soluções sustentáveis e adaptadas às condições ambientais.” Fonte: MOREIRA, Susana. “O que podemos aprender com a arquitetura indígena?” 19 Abr 2021. ArchDaily Brasil. Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/927142/o-que-podemos-aprender-com-a- arquitetura-indigena. Acesso em: 29 nov. 2023. SAIBA MAIS “Em uma palavra, se a terra amassada é ecologicamente limpa, é porque o tempo pode destrui-la completamente e pode-se tornar a usá-la tantas vezes como se deseja. Não deixar resíduos nem rastros indeléveis talvez será uma nova ambição da arquitetura” Fonte: Patrick Bardou. REFLITA ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 https://www.archdaily.com.br/br/927142/o-que-podemos-aprender-com-a-arquitetura-indigena https://www.archdaily.com.br/br/927142/o-que-podemos-aprender-com-a-arquitetura-indigena 36 Olá, aluno(a), Encerramos nossa primeira área de estudo com a reflexão sobre a Arquitetura Indígena e a Arquitetura Vernacular. Durante esse período, exploramos não apenas as riquezas históricas e culturais dessas tradições, mas também destacamos sua relevância contínua atualmente. Ao compreender as características distintas de cada tipologia, desde a adaptação ao ambiente até o uso de materiais locais, percebemos como essas abordagens arquitetônicas proporcionam soluções sustentáveis e integradas. A influência da Arquitetura Indígena e Vernacular vai além da estética, alcançando princípios fundamentais de respeito ao meio ambiente, eficiência no uso de recursos e uma conexão mais profunda com as raízes culturais. O resgate dessas práticas tradicionais e sua integração à arquitetura contemporânea não apenas enriquecem a diversidade estilística, mas também respondem aos desafios atuais de sustentabilidade e identidade. Ao considerar a Arquitetura Indígena e Vernacular, somos instigados a enxergar não apenas formas arquitetônicas, mas um legado valioso que pode inspirar inovações conscientes. Isso contribui para a construção de um cenário arquitetônico mais sustentável, culturalmente enraizado e socialmente significativo nos dias de hoje. Te vejo na próxima unidade. Bons estudos! CONSIDERAÇÕES FINAIS ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 37 Arquitetura Indígena: Qual a lição que ela nos ensina? A arquitetura indígena traz elementos que até hoje podem ser explorados em projetos arquitetônicos e elementos decorativos. A cultura dos povos indígenas é muito presente em nosso país e, muitas vezes, é menos valorizada do que deveria. Acesse o link e continue lendo sobre a arquitetura indígena: https://blog.archtrends. com/arquitetura-indigena-qual-licao-que-ela-nos-ensina/ LEITURA COMPLEMENTAR ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 https://blog.archtrends.com/arquitetura-indigena-qual-licao-que-ela-nos-ensina/ https://blog.archtrends.com/arquitetura-indigena-qual-licao-que-ela-nos-ensina/ 38 MATERIAL COMPLEMENTAR FILME/VÍDEO • Título: Xingu • Ano: 2012 • Sinopse: Os irmãos Orlando, Cláudio e Leonardo Villas Bôas resolvem trocar o conforto da vida na cidade grande pela aventura de viver nas matas. Para isso, resolvem se alistar no programa de expansão na região do Brasil central, incentivado pelo governo. Com enorme poder de persuasão e afinidadecom os habitantes da floresta, os três se tornam referência nas relações com os povos indígenas, vivenciando incríveis experiências, entre elas a eterna conquista do Parque Nacional do Xingu. • Link do vídeo: https://www.netflix.com/br/title/70232037 LIVRO • Título: Tecnologia indígena em Mato Grosso: Habitação • Autor: José Afonso Botura Portocarrero • Editora: Entrelinhas; 1ª edição • Sinopse: Este livro nos abre em toda sua originalidade e dignidade, mas também em toda sua restrição e especificidade tecnológica e socioeconômica, a Arquitetura Indígena Brasileira de cada uma das etnias estudadas. Ora, é justamente esse processo que se retira do limbo empoeirado das citações históricas e dos preconceitos, convidando-as a adentrar o universo das culturas locais e das civilizações dominantes no mundo globalizado e vivo da época presente. ARQUITETURA INDÍGENA E VERNACULARUNIDADE 1 https://www.netflix.com/br/title/70232037 Professor(a) Esp. Bruna de Lima Ramos ARQUITETURA MILITAR E COLONIAL RURAL2UNIDADEUNIDADE PLANO DE ESTUDO 40 Plano de Estudos • Arquitetura Militar • Tipologia da Arquitetura Militar • Arquitetura Colonial Rural • Edificações do Engenho de Açúcar Objetivos da Aprendizagem • Compreender e contextualizar as influências culturais, sociais e estratégicas que moldaram a Arquitetura Militar e Rural no Brasil; • Analisar Técnicas Construtivas Características da Arquitetura Militar e Rural; • Reconhecer e valorizar a Importância Histórica e Cultural da Arquitetura Militar e Rural. ARQUITETURA MILITAR E COLONIAL RURALUNIDADE 2 41 Olá, aluno(a), Estamos iniciando nossa segunda área de estudo, no qual aprenderemos e analisaremos as riquezas históricas e culturais da Arquitetura Militar e Colonial Rural, instigando você a compreender e contextualizar as influências culturais, sociais e estratégicas que deram forma a elas, além de destacarmos sua relevância persistente em nosso contexto atual. Compreenderemos as diferenças de cada tipologia, desde a adaptação ao ambiente até o uso de materiais locais, testemunhando como essas abordagens arquitetônicas oferecem soluções sustentáveis e integradas ao meio ambiente. Ao longo deste percurso, destacamos a importância histórica e cultural da Arquitetura Militar e Rural, te convidando a reconhecer e valorizar o papel significativo que essas manifestações arquitetônicas desempenharam no desenvolvimento do país. Esperamos que esta apostila não apenas forneça conhecimento, mas também inspire uma apreciação mais profunda das raízes arquitetônicas que contribuíram para moldar a identidade do Brasil. Prepare-se para embarcar em uma jornada fascinante através das construções que contam a história da nossa terra. Espero que essa jornada não apenas amplie sua compreensão, mas também sirva de inspiração para os seus futuros projetos. Atenciosamente, Prof. Bruna Ramos. INTRODUÇÃO ARQUITETURA MILITAR E COLONIAL RURALUNIDADE 2 42 Não há como estudarmos a arquitetura brasileira sem vermos a arquitetura militar trazida pelos portugueses, muitas de nossas vilas se desenvolveram a partir de construções militares, onde aplicavam o que havia de melhor nas teorias de defesa e organização urbana da época. No Brasil, mais de 1.300 fortificações foram erguidas, das quais 66 foram oficialmente tombadas pelo IPHAN por seu valor histórico, representando um dos grupos mais significativos do patrimônio histórico nacional, não apenas por suas características estéticas, mas principalmente por serem símbolos da formação do Estado Nacional. A arquitetura militar brasileira, teve caráter defensivo e foi desenvolvida como demarcação do território contra possíveis ataques, conforme Mori (2003), os colonizadores portugueses, no início do século XVI, enfrentaram ameaças constantes de invasores, tanto de europeus, como franceses, holandeses e ingleses, quanto dos povos indígenas nativos. Essas ameaças exigiam uma estratégia defensiva abrangente, considerando tanto os ataques terrestres, onde os indígenas muitas vezes possuíam superioridade numérica, quanto os ataques marítimos, realizados pelas potências europeias. Contudo, até meados do século XVII o sistema defensivo português ainda estava em estágio inicial, era limitada e ineficaz, foi somente após a união das Coroas Ibéricas, que se iniciaram as primeiras ações para organizar efetivamente o sistema de fortificações brasileiras. Isso se tornou especialmente importante diante da ameaça representada pela exploração açucareira holandesa na costa nordeste do Brasil (Castro, 2016), (Moreau, 2012), (Silva, Mello, Saad, 2019). As edificações militares foram desenvolvidas em três tipos de construções, sendo elas: ARQUITETURA MILITAR1 TÓPICO ARQUITETURA MILITAR E COLONIAL RURALUNIDADE 2 43ARQUITETURA MILITAR E COLONIAL RURALUNIDADE 2 • Fortins: pequenas fortificações, geralmente construídas em áreas estratégicas, como passagens de rios, colinas ou fronteiras. São menos complexos e menores que os fortes e fortalezas, muitas vezes consistindo em muros simples ou trincheiras. Seu principal objetivo é fornecer alguma proteção contra-ataques inimigos em áreas específicas, mas geralmente não possuem a mesma capacidade defensiva que os fortes e fortalezas. • Fortes: são estruturas militares maiores e mais robustas que os fortins. Os fortes são projetados para resistir a ataques mais intensos e prolongados. Eles são geralmente equipados com paredes mais espessas, torres de observação, canhões e outras defesas. Os fortes podem servir como bases militares ou como pontos de defesa estratégicos em uma região específica. • Fortaleza: são as maiores e mais imponentes estruturas defensivas. Elas são projetadas para proteger cidades, portos ou outros pontos-chaves contra invasões. As fortalezas são frequentemente construídas em locais elevados e são caracterizadas por suas paredes maciças, torres de vigia, fossos, bastiões e outras características defensivas avançadas. Elas servem como centros de comando militar e como refúgios seguros para a população em tempos de conflito. (Castro, 2016) FIGURA 1 – FORTE REIS MAGOS EM NATAL/RN Fonte: Shutterstock l ID: 2308209057 Elas foram orientadas pelas diretrizes estabelecidas em dois importantes tratados de fortificações: o “Methodo Lusitanico de Desenhar as Fortificaçoens”, de Luís Serrão Pimentel, redigido em 1680, e “O Engenheiro Portuguez”, de Azevedo Fortes, publicado em 1728, que veio para atualizar o Método Lusitânico. Esses tratados representam a formalização teórica de práticas refinadas ao longo de mais de um século, além de evidenciar a necessidade de disseminar métodos alinhados com as novas teorias de fortificação. Eles orientam e detalham a construção de diversos elementos, como baluartes, muralhas, terraplenos, edifícios internos, fossos e até mesmo aspectos relacionados aos armamentos utilizados (Moreau, 2012). https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/landscape-fortress-reis-magos-fort-colonial-2308209057 44 TIPOLOGIA DA ARQUITETURA MILITAR2 TÓPICO ARQUITETURA MILITAR E COLONIAL RURALUNIDADE 2 A tipologia mais comum da arquitetura militar, são as fortificações abaluartadas, também conhecidas como fortificações do tipo “estrela”, foram desenvolvidas após estudos de que ao posicionar a artilharia em plataformas salientes às muralhas, seria possível defender qualquer brecha entre duas plataformas vizinhas do exterior, dizimando as forças inimigas antes que chegassem a ela. Assim, desenvolveu-se o baluarte, conhecido como o “método italiano”, que se estabeleceu como o sistema padrão de fortificação pelos três séculos seguintes. Os baluartes foram desenvolvidos com ângulos salientes, formando triângulos conectados às muralhas por flancos, eles permitiam que a artilharia fosse posicionada em plataformas salientes, proporcionando um campo de tiro mais amplo e melhorando a capacidade de defesa. Além disso, entre os baluartes, existiamáreas abertas chamadas de cortinas, onde os defensores podiam se posicionar para disparar contra os invasores que tentavam se aproximar das muralhas. Algumas características da fortificação abaluartada que podemos observar na figura 2 são: A. Baluarte. B. Terrapleno: Área plana para servir de base para às tropas e à artilharia. C. Praça das armas: Ponto estratégico para o posicionamento de tropas e equipamentos militares. D. Fosso. E. Ponte levadiça. 45ARQUITETURA MILITAR E COLONIAL RURALUNIDADE 2 F. Caminho coberto: Caminho que permite a movimentação da tropa durante uma batalha, pois está em cota abaixo da esplanada, acobertando-os dos projéteis do inimigo. G. Banqueta: Permite que os soldados tenham uma visão clara do campo de batalha abaixo e facilite o uso de armas de fogo ou outras armas defensivas contra os invasores que se aproximam. H. Esplanada: Área aberta projetada para servir a fins estratégicos e operacionais. I. Cortina: A seção de muralha que se estende entre dois baluartes. J. Reparo ou Aterro: Aterro entre duas muralhas concêntricas, tanto para consolidação do conjunto construtivo como para servir de base às tropas e à artilharia. K. Muralha: Estrutura defensiva construída em parede maciça e sólida feita de pedra. L. Contra-muralha: Estrutura defensiva construída em parede maciça e sólida feita de pedra. M. Escarpa: Parede íngreme que forma a parte externa das defesas da fortaleza. N. Contra-escarpa: Parede íngreme que forma a parte externa das defesas da fortaleza. O. Guarita: Local que abriga um soldado em vigília enquanto não havia batalha (Valadares, 2014). FIGURA 2 - ESQUEMA DE FORTIFICAÇÃO ABALUARTADA Fonte: Valadares, 2014. Adaptado pela autora. 46ARQUITETURA MILITAR E COLONIAL RURALUNIDADE 2 Forte Príncipe da Beira - Rondônia Uma das mais impressionantes fortificações erguidas pela engenharia militar portuguesa durante o período colonial brasileiro encontra-se na margem direita do rio Guaporé, na fronteira com a Bolívia, a mais de 3.000 quilômetros do litoral, no coração da floresta amazônica. Esta monumental construção, um quadrado com 970 metros de perímetro, abriga quatro imponentes baluartes, cada um equipado com quatorze canhoneiras. No seu interior, erguiam-se quatorze residências destinadas ao comandante e aos oficiais, além de uma capela, um armazém e depósitos. Ao redor, um fosso profundo garantia a defesa, sendo que o único acesso se dava por uma ponte levadiça que conduzia a um portão de três metros de altura, localizado na muralha norte, que possui 10 metros de altura. Abandonado em 1889, o forte permaneceu em completo desuso por cerca de uma década, sucumbindo ao saque e à invasão da vegetação da floresta. Em 1914, foi redescoberto em ruínas pelo Major Rondon, que em 1930 empreendeu a reconstrução das instalações militares ao lado das ruínas. Em 2009, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) iniciou trabalhos de prospecção arqueológica em seu interior, com o objetivo de revitalizar o forte para visitação turística (Barroso, 2015) FIGURA 3 - VISTA SUPERIOR FORTE PRÍNCIPE DA BEIRA Fonte: Iphan, 2018 Forte de São José de Macapá - Amapá Localizada à margem esquerda do rio Amazonas, a construção imponente incluía um revelim posicionado no lado oeste, em frente ao portão principal. O revelim é uma estrutura defensiva externa de duas faces, formando um ângulo saliente para proteger a cortina 47ARQUITETURA MILITAR E COLONIAL RURALUNIDADE 2 frontal da fortaleza. Reconhecendo sua importância histórica e arquitetônica, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) tombou o forte como patrimônio histórico em 1950. Em um esforço para preservar e revitalizar este marco histórico, em 1997, deu-se início ao processo de revitalização, visando não apenas manter sua integridade estrutural, mas também promover sua apreciação pública e acesso a visitantes interessados na rica história da região amazônica. FIGURA 4 - FORTE DE SÃO JOSÉ DE MACAPÁ Fonte: Portal Amazônia, 2021 Forte de São Marcelo - Salvador/BA O Forte de São Marcelo, conhecido como o “Forte do Mar”, foi erguido em 1650 a cerca de 300 metros da costa, em um banco de areia próximo à parte antiga de Salvador. A sua construção teve início sob a supervisão do Engenheiro Felipe Guiton e foi concluída pelo Engenheiro Pedro Garcin, com o objetivo principal de proteger a entrada do porto da cidade. Apresentando uma planta praticamente circular, o forte é composto por um torreão central rodeado por um anel de igual altura, formado pelo terrapleno perimetral e pelos quartéis. Sua estrutura é predominantemente construída em cantaria de arenito até a linha d’água, enquanto o restante é constituído por alvenaria de pedra irregular, com teto em abóbada de berço. Ao longo dos séculos, o Forte de São Marcelo desempenhou diversos papéis, adaptando-se às necessidades em constante mudança. Além de sua função original como defesa costeira, serviu como prisão em determinados períodos e até mesmo como templo religioso em outros. Seus canhões também foram utilizados ocasionalmente como alarmes em casos de incêndio na região. 48ARQUITETURA MILITAR E COLONIAL RURALUNIDADE 2 FIGURA 6 - FORTE DE SÃO MARCELO - SALVADOR/BA Fonte: Let ‘s Go Bahia, 2022. Forte de Copacabana - RJ A construção do Forte de Copacabana teve início com a instalação do Forte na Ponta da Igrejinha, no promontório que separa as praias de Ipanema e Copacabana, ocupando uma área de aproximadamente 114.000 metros quadrados. O forte foi oficialmente inaugurado em 28 de setembro de 1914 pelo então Presidente Marechal Hermes da Fonseca. A sua arquitetura única, em forma de casamata, representou um verdadeiro desafio para a engenharia militar da época. Trata-se de uma fortificação baixa, algumas vezes parcialmente subterrânea, com uma parte superior abobadada. Suas paredes externas voltadas para o mar, com espessura de 12 metros, abrigavam os canhões, que eram assentados em cúpulas encouraçadas e giratórias. Ao longo dos anos, o Forte de Copacabana passou por diversas transformações e adaptações. Em 1987, deixou de cumprir sua função bélica e tornou-se o Museu Histórico do Exército. FIGURA 7 - FORTE DE COPACABANA Fonte: Volte, 2014. 49 ARQUITETURA COLONIAL RURAL3 TÓPICO ARQUITETURA MILITAR E COLONIAL RURALUNIDADE 2 A partir do século XVI, Portugal adotou medidas estratégicas para consolidar sua presença na Colônia Brasileira, estabelecendo o primeiro Governo Geral e fundando a cidade de Salvador como sua sede administrativa. Essas iniciativas não apenas centralizaram a estrutura política, mas também desencadearam mudanças significativas na economia colonial, com ênfase na produção e exportação de açúcar. Essas decisões não só solidificaram uma sociedade profundamente hierarquizada e escravocrata no Brasil, como também impulsionaram a expansão territorial, o florescimento das fazendas e a construção de edificações que deixaram um legado duradouro na arquitetura brasileira. Estes monumentos não apenas refletem as demandas econômicas e sociais da época, mas também testemunham a interseção de diferentes culturas e modos de vida que caracterizavam o período colonial brasileiro. FIGURA 8 - PROSPECTO DA VILA DO RECIFE - PE JOSÉ CAETANO - 1759 Fonte: Recife Antigo, 2014 50ARQUITETURA MILITAR E COLONIAL RURALUNIDADE 2 3.1 Engenhos de Açúcar As propriedades rurais dedicadas à produção de açúcar, conhecidas como engenhos, deixaram uma marca permanente na paisagem da Região Nordeste do Brasil. Estabelecendo-se em locais estratégicos, muitos engenhos foram escolhidos devido à disponibilidade de energia hidráulica, a opção mais econômica e eficiente na época. Assim, as margens dos rios se tornaram locais privilegiados para a instalação desses empreendimentos, proporcionando tanto o transporte fluvial da produção para a Europa quanto a energia necessária para movimentar asmoendas. O complexo arquitetônico dos engenhos incluía diversos elementos essenciais, como a casa-grande, residência do senhor do engenho e de sua família, a capela para as orações, a fábrica, onde ocorria a produção do açúcar, e a senzala, moradia dos escravos. Ao longo do tempo e do espaço, os tipos arquitetônicos de casa-grande variaram no tempo e no espaço, assim como as fábricas, que foram modificadas segundo o funcionalismo e as formas de energia utilizadas. Enquanto a casa-grande e a fábrica se adaptavam às novas tecnologias e formas de energia, a senzala permanecia praticamente inalterada, refletindo a estagnação das condições de vida dos escravos até a abolição da escravidão. Por outro lado, a capela era frequentemente objeto de investimento por parte dos senhores de engenho, não apenas por seu valor simbólico, mas também por sua importância como centro religioso e elemento de identidade nacional. A disposição das construções seguia uma lógica específica. A casa-grande, posicionada geralmente à meia-encosta, com sua fachada principal voltada para a fábrica, situada em um nível inferior, permitia aos senhores supervisionar as atividades do engenho. A capela, por sua vez, era construída em um nível igual ou superior ao da casa-grande, ligeiramente afastada. No nível mais baixo, próximo ao rio, encontravam-se a fábrica, as construções de apoio e as senzalas, formando um conjunto coeso e funcional. FIGURA 9 – ENGENHO DE AÇÚCAR EM PERNAMBUCO (FRANS POST, 1652) Fonte: Itaú Cultural, 2024 51ARQUITETURA MILITAR E COLONIAL RURALUNIDADE 2 Nos engenhos, uma diversidade de métodos construtivos típicos dos períodos colonial e imperial era empregada, variando de acordo com a disponibilidade de materiais na região, a prosperidade do senhor de engenho e as normas sociais vigentes. As paredes eram erguidas utilizando técnicas como enxaimel, alvenaria de pedra, tijolos ou adobe, e a taipa de pau-a-pique. Quanto às coberturas, estruturas de madeira eram comumente revestidas com palha ou telhas cerâmicas, enquanto nos pisos térreos predominavam tijolos e lajotas de barro, e nos pavimentos superiores, os assoalhos de madeira eram comuns. Um traço distintivo da arquitetura rural era a utilização de tijolos em formato circular ou semicircular, os quais compunham os fustes das colunas dos alpendres das casas- grandes, capelas e senzalas. Esses tijolos conferiam uma estética singular às estruturas, destacando-se como uma característica marcante da arquitetura dos engenhos (Gomes, 2006). 52 EDIFICAÇÕES DO ENGENHO DE AÇÚCAR4 TÓPICO ARQUITETURA MILITAR E COLONIAL RURALUNIDADE 2 4.1 Tipologia Conjugada Os engenhos de tipologia conjugada abrigavam diversas funções em uma única edificação, incluindo a casa do senhor, a capela doméstica, a casa do engenho e os depósitos. Podemos observar essa tipologia no Engenho d’Água, localizado em Ilhabela, São Paulo. As edificações, geralmente possuíam o telhado complexo, com grandes vãos, que apresentava uma multiplicidade de águas furtadas para escoamento da água da chuva. Os longos beirais e as telhas cerâmicas do tipo “capa-canal” completavam a cobertura. A sala principal da residência era o ponto de controle, e a pequena janela interna permitia a fiscalização direta do trabalho realizado na fazenda. Já o pavimento superior da casa apresenta um alpendre de frente para a praia, acessível por uma escada lateral, que consiste em um telhado suspenso, apoiado por pilastras ou colunas, que se estende sobre portas e vãos de acesso. Esse alpendre não apenas proporciona uma vista panorâmica, mas também servia para fiscalizar os trabalhos na fazenda, tendo posições estratégicas de comando. (Cali, 2021) 53ARQUITETURA MILITAR E COLONIAL RURALUNIDADE 2 FIGURA 10 - CROQUI ENGENHO D’ÁGUA, ILHABELA/SP Fonte: Cali, 2021. Adaptado pela autora. FIGURA 11 - ENGENHO D’ÁGUA, ILHABELA/SP Fonte: Ilhabela, 2018. 4.2. Fábrica 54ARQUITETURA MILITAR E COLONIAL RURALUNIDADE 2 A construção do engenho iniciava-se pela fábrica, que é caracterizada por um desenho funcional, refletindo a necessidade prática das atividades que ali se desenvolveram. Geralmente em alvenaria de tijolos e com uma estrutura de cobertura em madeira, sua planta tipicamente retangular seguia um padrão linear que facilitava as operações. As áreas complementares eram integradas às puxadas, geralmente cobertas por extensões do telhado principal da fábrica, este, consistia em um simples telheiro sustentado por colunas de alvenaria de tijolos, muitas vezes era composto por quatro ou mais águas e podia ser descontínuo, permitindo a dissipação do calor e do vapor gerados pelas operações fabris. Ao longo do século XIX, surgiram variações na planta das fábricas, como as em forma de “L”, “T” ou cruz, em grande parte influenciadas por fabricantes estrangeiros de máquinas a vapor (Gomes, 2006). FIGURA 12 - PLANTA BAIXA USINA DE ENGENHO. Fonte: Colin, 2011. FIGURA 13 – ESQUEMA DE UM ENGENHO DE AÇÚCAR EM PERNAMBUCO (FRANS POST, 1652) Fonte: Itaú Cultural, 2024 55ARQUITETURA MILITAR E COLONIAL RURALUNIDADE 2 4.2 Senzalas Após a construção da fábrica, seguia-se a edificação das senzalas, habitações dos escravos, que consistiam em estruturas térreas com paredes de taipa de pau-a-pique, frequentemente cobertas com palha ou telhas de barro. Embora haja raros registros de senzalas construídas com materiais mais duráveis, como tijolo e pedra, a maioria era erguida com materiais mais simples e acessíveis. As senzalas eram compostas por um único edifício, organizado linearmente em uma série de cubículos conjugados que se voltavam para um alpendre comum e coberto. Cada cubículo, também conhecido como senzala, possuía uma área que raramente ultrapassava os 12m². Esses compartimentos não tinham janelas e se comunicavam com a galeria por meio de uma porta (Gomes, 2006). FIGURA 14 - PLANTA ESQUEMÁTICA SENZALA Fonte: Colin, 2011. 4.3 Capelas Dentre todas as construções da propriedade rural, a capela destaca-se como a mais resistente e sólida, notável por ser a única coberta parcialmente por abóbadas ou cúpulas construídas em alvenaria de tijolos ou pedra. Apesar de sua robustez, a planta da capela era simples e não diferia muito das capelas rurais convencionais. No nível térreo, invariavelmente, encontrava-se uma nave, a capela-mor e a sacristia, enquanto no pavimento superior situava-se o coro, posicionado sobre o primeiro terço da nave. Algumas variações incluíam a presença de um alpendre à frente da fachada e corredores laterais à nave, por vezes estendidos ao pavimento superior, dando origem às tribunas, espaços privilegiados destinados à família do senhor do engenho. Uma característica única dessas capelas era o pórtico frontal, uma área intermediária destinada a receber catecúmenos e penitentes. Em alguns casos, os interiores dessas 56ARQUITETURA MILITAR E COLONIAL RURALUNIDADE 2 capelas rurais eram adornados com altares, púlpitos, tribunas, forros e imagens esculpidas em madeira, com detalhes dourados ou policromáticos. No entanto, com o declínio das usinas, pouco restou desse esplendor arquitetônico (Gomes, 2006). FIGURA 15 - INTERIOR CAPELA DO ENGENHO POÇO COMPRIDO. Fonte: Viver PE, 2014 4.4 Casa-Grande A casa do senhor de engenho, apesar de muitas vezes associada a grandiosidade, nem sempre apresentava dimensões imponentes ou materiais de construção duráveis. Na verdade, essas residências variam consideravelmente, especialmente com base na proximidade das cidades. As casas geralmente tinham dimensões médias e eram construídas com dois andares. O telhado era em formato de quatro águas, proporcionando uma aparência tradicional e funcional. No andar superior, encontrávamos uma varanda embutida no centro ou no canto da fachada principal. Os suportes da estrutura eram feitos de madeira e visíveis, utilizando o método de taipa de pau-a-pique. O térreo muitas vezes era aberto paraarmazenamento de produtos agrícolas, ferramentas e outros itens, além de servir de abrigo para os escravos responsáveis pelas tarefas domésticas. O Pavimento Superior possuía alpendres utilizados para relaxar e apreciar a vista, salas multifuncionais onde a família se reunia para diversas atividades, como costurar, tecer, educar, fazer refeições e receber visitas. A cozinha era um espaço amplo para limpeza, abate e preparo das refeições. As alcovas das filhas do senhor do engenho, eram internas, muitas vezes voltadas para o quarto do pai. Já as alcovas dos visitantes, eram voltadas para o alpendre, no lado 57ARQUITETURA MILITAR E COLONIAL RURALUNIDADE 2 externo da residência. Não havia banheiros ou latrinas dentro das casas. Em vez disso, os moradores usavam urinóis, bacias e jarras para atender às necessidades básicas de higiene (Gomes, 2006). FIGURA 16 - PLANTA BAIXA ENGENHO FAZENDA VIEGAS Fonte: Colin, 2011. Adaptado pela autora. FIGURA 17 - ENGENHO POÇO COMPRIDO. Fonte: Viver PE, 2014 58 Arquitetura Militar: tipos de fortificações e outras curiosidades No Brasil, temos centenas de fortificações. Foram mais de 350 fortificações construídas pelos portugueses, em pontos que serviram de definição para as fronteiras marítimas e fluviais brasileiras. Estas fortalezas recebiam os nomes de: fortes, fortins, redutos, redentes, presídios, trincheiras, portões, feitorias, baterias, vigias ou hornaveques. Hoje, pode-se encontrar facilmente no Brasil pontos que são abertos ao turismo. Leia o restante aqui: https://www.numenarquitetura.com/post/arquitetura-militar-tipos-de-fortificações “Arquitetura. Ela começa a espernear de novo. É antes também, e continua. É sempre. A essência da nossa emoção para conseguir viver, a motivação da vida mesmo se você quiser. É ligada à ideia de formação, de consciência e linguagem. Eu estou sempre a fim de dizer para o outro, porque eu vou embora e tem que continuar essa coisa toda no planeta. Portanto, essa dimensão didática, de desvendamento de como foi feita a coisa, não é de época.” Paulo Mendes da Rocha REFLITA SAIBA MAIS ARQUITETURA MILITAR E COLONIAL RURALUNIDADE 2 https://www.numenarquitetura.com/post/arquitetura-militar-tipos-de-fortifica%C3%A7%C3%B5es 59 Olá, aluno(a), Encerramos nossa segunda unidade, durante esse período, exploramos não apenas as riquezas históricas e culturais de nosso país, mas também destacamos sua relevância contínua atualmente. Ao compreender as características distintas de cada tipologia, você adquiriu um conhecimento fundamental para decifrar as narrativas impressas nas construções que nos cercam. Ao reconhecer e valorizar a importância histórica e cultural da Arquitetura Militar e Rural, esperamos ter despertado em você um apreço renovado por essas expressões arquitetônicas que, muitas vezes, são testemunhas silenciosas de eventos cruciais de nosso passado. Essa valorização não apenas enriquece sua bagagem acadêmica, mas também contribui para a preservação e promoção do nosso patrimônio arquitetônico. Como encerramos esta jornada, ressalto a importância de levar consigo não apenas o conhecimento adquirido, mas também a inspiração para aplicá-lo em seus futuros projetos. Que as lições extraídas dessa incursão pela história arquitetônica brasileira sirvam como alicerce sólido para sua trajetória acadêmica e profissional. Te vejo na próxima unidade. Bons estudos! CONSIDERAÇÕES FINAIS ARQUITETURA MILITAR E COLONIAL RURALUNIDADE 2 60 MATERIAL COMPLEMENTAR FILME/VÍDEO • Título: Um Raríssimo Engenho de Açúcar Original em Atividade no Nordeste • Ano: 2022 • Sinopse: Há 5 gerações, este engenho se mantém na família proprietária. Um engenho autêntico de açúcar do nordeste brasileiro em atividade. Este engenho foi fundado por volta de 1850 a 1860. Ele mantém as mesmas características originais da época, que graças aos cuidados do proprietário Eduardo Gomes de Carvalho, estão super conservados. A arquitetura e construção do engenho é peculiar e dá um charme ao local, com toda sua estrutura e telha original. Uma verdadeira relíquia. • Link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=kkQTALNnGRc LIVRO • Título: Ciclo da Cana-de-Açúcar • Autor: José Lins do Rego • Editora: Globo • Sinopse: Os livros retratam um importante período da nossa história justamente do declínio dos engenhos de açúcar nordestinos. Agora com novas capas e conceito gráfico, além de todos os livros conterem material exclusivo sobre cada obra, a Global Editora lança os 5 livros reunidos. Em Menino de engenho (1932) começamos a acompanhar a vida do Carlos em meio ao ambiente do engenho do seu avô e suas percepções do mundo da cana-de-açúcar. O livro Doidinho (1933) se refere ao apelido de Carlos já no internato e seus dramas de adolescente. Após sair do engenho, Carlos chega a vida adulta em Banguê (1934) esta obra retrata o contraponto entre a nova realidade do Brasil e a situação dos engenhos de açúcar. Em Usina (1936) temos a decadência dos engenhos e o surgimento de novas maquinaria. Fogo Morto (1943) a obra prima do autor traz toda uma síntese deste período, com personagens marcantes e situações do fim deste ciclo. ARQUITETURA MILITAR E COLONIAL RURALUNIDADE 2 https://www.youtube.com/watch?v=kkQTALNnGRc Professor(a) Esp. Bruna de Lima Ramos ARQUITETURA RELIGIOSA E NEOCLÁSSICA3UNIDADEUNIDADE PLANO DE ESTUDO 62 Plano de Estudos • Arquitetura Religiosa • Arquitetura Barroca • Arquitetura Neoclássica Objetivos da Aprendizagem • Compreender e contextualizar as influências culturais, religiosas e estilísticas que moldaram a Arquitetura Religiosa e Neoclássica no Brasil; • Estudar as técnicas construtivas específicas utilizadas em edificações religiosas e neoclássicas no Brasil • Reconhecer a importância histórica e cultural das edificações religiosas e neoclássicas no contexto brasileiro. ARQUITETURA RELIGIOSA E NEOCLÁSSICAUNIDADE 3 63 Olá, caro (a) aluno(a), Estamos iniciando nossa terceira etapa de estudo, aqui aprenderemos sobre as riquezas históricas e culturais da Arquitetura Religiosa e Neoclássica, de forma a compreender e contextualizar as influências culturais, sociais e estratégicas que deram forma a elas. Prepare-se para explorar os templos e igrejas que serviram como pilares da fé, os palácios e edifícios públicos que expressam o poder e a glória do Brasil imperial e republicano. Este é um convite para ver além das paredes de pedra e mármore, para ouvir as histórias que elas têm para contar e para entender o Brasil de uma maneira mais profunda e enriquecedora. Espero que essa jornada não apenas amplie sua compreensão, mas também sirva de inspiração para os seus futuros projetos. Atenciosamente, Prof. Bruna Ramos. INTRODUÇÃO ARQUITETURA RELIGIOSA E NEOCLÁSSICAUNIDADE 3 64 A chegada dos portugueses ao Brasil em 1500 marcou não apenas o início da colonização, mas também o início da influência da arquitetura religiosa no novo território. A primeira missa, celebrada em 26 de abril de 1500 pelo bispo Henrique de Coimbra, ocorreu apenas quatro dias após a chegada dos portugueses, na ilha de Vera Cruz. FIGURA 1 - PRIMEIRA MISSA NO BRASIL (VICTOR MEIRELLES – 1861) Fonte: Poubel, 2017 A arquitetura religiosa desempenhou um papel central na colonização, servindo não apenas como local de culto, mas também desempenhando papéis administrativos ARQUITETURA RELIGIOSA1 TÓPICO ARQUITETURA RELIGIOSA E NEOCLÁSSICAUNIDADE 3 65ARQUITETURA RELIGIOSA E NEOCLÁSSICAUNIDADE 3 importantes, registrando eventos como nascimentos, casamentos e óbitos, enquanto também se empenhavam na evangelização e catequização dos povos indígenas. No início do período colonial, as construções religiosas refletiam uma simplicidade estrutural, abrigando uma variedade de funções importantes. O programa construtivo dessas edificações incluía áreas destinadas ao culto, como a igreja, o coro e a sacristia, além de espaços para