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Amanda Souza Correa – RESUMO LMF/PBL OITAVO SEMESTRE DOENÇAS HEPÁTICAS ANATOMIA HEPÁTICA • O fígado adulto normal pesa de 1.400 a 1.600g. • Possui suprimento sanguíneo duplo, com a veia porta fornecendo 60% a 70% do fluxo de sangue hepático e a artéria hepática fornecendo os 30% a 40% restantes. • Veia porta e artéria hepática entram no fígado através do hilo ou porta hepatis. • No interior do fígado, os ramos das veias porta, artérias hepáticas e os ductos biliares seguem paralelamente nos tratos portais, ramificando-se de modo variável até 17 a 20 ordens de ramos. • Os hepatócitos são organizados em lâminas ou “placas” anastomosantes, que se estendem dos tratos portais até as veias hepáticas terminais. Funções dos hepatócitos: o Síntese da maioria das proteínas séricas essenciais (albumina, proteínas carreadoras, fatores de coagulação, muitos fatores hormonais e de crescimento); o Produção de bile e seus carreadores (ácidos biliares, colesterol, lecitina, fosfolipídeos); o Regulação dos nutrientes (glicose, glicogênio, lipídeos, colesterol, aminoácidos), e o Metabolismo e conjugação dos compostos lipofílicos (bilirrubina, ânions, cátions, fármacos) para excreção na bile ou na urina. o Bilirrubina: medida da conjugação e excreção hepáticas, albumina e o tempo de protrombina são medidas da síntese proteica. Anormalidades da bilirrubina, albumina e tempo de protrombina são típicas da disfunção hepática • Entre as placas trabeculares de hepatócitos estão os sinusoides vasculares. • O sangue atravessa os sinusoides e passa para as veias hepáticas terminais por numerosos orifícios na parede da veia. Os hepatócitos são, desse modo, banhados nos dois lados por sangue venoso portal e arterial hepático bem misturado. • Os sinusoides são revestidos por células endoteliais fenestradas. • Abaixo das células endoteliais, está localizado o espaço de Disse, para o qual ocorre a protrusão de abundantes microvilos de hepatócitos. • As células de Kupffer dispersas, do sistema mononuclear fagocítico, são anexadas à face luminal das células endoteliais, e células estreladas hepáticas miofibroblásticas contendo gordura são encontradas no espaço de Disse. • Entre os hepatócitos contíguos estão os canalículos biliares. Esses canalículos drenam para os canais de Hering que, por sua vez, se conectam aos dúctulos biliares na região periportal. • Os dúctulos se esvaziam nos ductos biliares terminais dentro dos tratos portais. • Um grande número de linfócitos também está presente no fígado normal, contabilizando até 22% de outras células não hepatócitos. Avaliação Laboratorial de Doença Hepática • Integridade dos hepatócitos – Enzimas hepatocelulares citosólicas (aumenta em dç hepática): Aspartato aminotransferase sérica (AST); Alanina aminotransferase sérica (ALT); Desidrogenase láctica sérica (LDH). • Função excretora biliar o Substâncias normalmente secretadas na bile (aumentam em dç hepática): Bilirrubina sérica ▪ Total: não conjugada mais conjugada ▪ Direta: apenas conjugada ▪ Bilirrubina urinária ▪ Ácidos biliares séricos o Enzimas de membrana plasmática (resultantes de lesão do canalículo biliar - aumentam em dç hepática): Fosfatase alcalina sérica e γ-glutamil transpeptidase sérica (GGT) • Função sintética dos hepatócitos o Proteínas secretadas no sangue: Albumina sérica (diminui em dç hepática); o Fatores de coagulação: Tempos de protrombina (PT) e de tromboplastina parcial (PTT) (fibrinogênio, protrombina, fatores V, VII, IX e X) o Metabolismo do hepatócito Amônia sérica (diminui em dç hepática): Teste de exalação (hálito) de aminopirina (desmetilação hepática) Amanda Souza Correa – RESUMO LMF/PBL OITAVO SEMESTRE MECANISMOS DE LESÃO E REPARO Hepatócitos e Respostas Parenquimatosas Os hepatócitos podem ser submetidos a uma série de alterações degenerativas, mas potencialmente reversíveis, tais como o acúmulo de gordura (esteatose) e de bilirrubina (colestase). Quando a lesão não é reversível, os hepatócitos morrem principalmente por dois mecanismos: necrose ou apoptose. Necrose: as células sofrem tumefação devido à regulação osmótica defeituosa na membrana celular: o fluido flui para dentro da célula, que incha e se rompe. Mesmo antes da ruptura, formam-se bolhas na membrana, levando os conteúdos citoplasmáticos (sem organelas) para o compartimento extracelular. Os macrófagos se aglomeram em tais locais de lesão e marcam os locais de necrose dos hepatócitos, assim as células mortas se rompem e desaparecem. Esse tipo de lesão é o modo predominante de morte em lesões isquêmicas/hipóxicas e uma parte significativa da resposta ao estresse oxidativo. Apoptose de hepatócitos: é uma forma ativa de morte celular “programada” que resulta em encolhimento dos hepatócitos, condensação da cromatina nuclear (picnose), fragmentação (cariorrexe) e fragmentação celular em corpos apoptóticos acidófilos. Essas mudanças são resultado de uma cascata de caspases. Nas configurações mais frequentes em que os hepatócitos apoptóticos são vistos, (p. ex., na hepatite aguda e crônica), o termo corpúsculos acidófilos é utilizado devido às suas características de coloração profundamente eosinofílica. Formação e Regressão de Cicatrizes: A principal célula envolvida na formação de cicatrizes é a célula estrelada hepática. Na sua forma de repouso, ela é uma célula que armazena lipídio (vitamina A). No entanto, em várias formas de lesão aguda e crônica, as células estreladas podem ser ativadas e convertidas em miofibroblastos altamente fibrogênicos. Amanda Souza Correa – RESUMO LMF/PBL OITAVO SEMESTRE Inflamação e Imunidade → Os antígenos no fígado são fagocitados por células apresentadoras de antígenos, incluindo células de Kupffer e células dendríticas derivadas de sangue, que os apresentam aos linfócitos. → Os receptores Toll-like detectam as moléculas hospedeiras e também aquelas derivadas de invasores, tais como bactérias e vírus. → Esses processos levam à elaboração de citocinas pró-inflamatórias, que possuem diversos efeitos sobre o fígado, incluindo o recrutamento de células inflamatórias, lesão hepatocelular, alterações vasculares, formação de cicatrizes e, talvez, até mesmo transformação maligna. → A imunidade adaptativa desempenha um papel ainda mais importante na hepatite viral. → Células antígeno-específicas e células T CD8+ estão envolvidas na erradicação das hepatites B e C, as principais causas de hepatite viral crônica, em grande parte, através da eliminação dos hepatócitos infectados. → Os linfócitos, por sua vez, não só desempenham um papel destrutivo como também ajudam a induzir a replicação local dos hepatócitos através da secreção de citocinas. HISTÓRIA CLÍNICA NAS DOENÇAS HEPÁTICAS → Os sintomas de doença hepática incluem sintomas gerais como fadiga, fraqueza, náuseas, perda do apetite e mal-estar, assim como sintomas hepáticos mais específicos de icterícia, urina escura, fezes claras, prurido, dor abdominal e distensão abdominal. → Os sintomas também podem sugerir cirrose, doença hepática terminal ou complicações da cirrose (p. ex., hipertensão portal). Fadiga: é o sintoma mais comum e mais característico de doença hepática. Nos casos típicos, a fadiga da doença hepática evidencia-se depois de alguma atividade ou exercício e raramente está presente ou é intensa depois de um repouso adequado, ou seja, é uma fadiga “vespertina” e não “matinal”. A fadiga da hepatopatia costuma ser intermitente e de intensidade variável de uma hora para outra e de um dia para outro. Em alguns pacientes, pode não estar evidente se a fadiga é causada pela doença hepática ou por outros problemas como estresse, ansiedade, distúrbios do sono ou doença+ ribavirina por 12 sem Lesões pelo álcool (1) Esteatose (90%); (2) Hepatite alcoólica; e (3) Cirrose. Fátores de risco: Quantidade e duração da ingestão alcoólica; sexo feminino; HCV (idade mais precoce); fatores genéticos (PNPLA3); obesos. Limites de uso: 40–80 g/dia para homens; > 20 g/dia para mulheres. Esteátose hepá ticá: Acúmulo de lipídios nos hepatócitos centrolobulares.Assintomática; eventualmente hepatomegalia dolorosa.Pode regredir (abstinência alcoólica), evoluir para hepatite alcoólica ou, em alguns casos, progredir diretamente para cirrose. Hepátite álcoo licá: Vimos na apostila de "Síndrome Ictérica", levando à hepatomegalia dolorosa, ascite, icterícia, febre baixa, leucocitose. Cirrose hepá ticá: Estágio terminal. Micronodular. Achados de insuficiência hepatocelular e hipertensão porta semelhante às outras causas de cirrose. Diágno stico: História de uso crônico e "pesado" de álcool + clínica + laboratório + biópsia (se necessário). Trátámento Esteatose: abstinência, terapia nutricional e aconselhamento em centro especializado. Hepatite alcoólica: corticoides (prednisona 40 mg/dia ou prednisolona 32 mg/dia por quatro semanas), pentoxifilina. Cirrose: transplante hepático. É necessária abstinência por seis meses. REFERÊNCIAS KUMAR, Vinay. Robbins & Cotran, patologia: bases patológicas das doenças - 9. ed. - Rio de Janeiro: Elsevier, 2016. JAMESON, J. Larry et al. Medicina interna de Harrison – 20. ed. – Porto Alegre: AMGH, 2020.coexistente. Náuseas: ocorrem quando a doença hepática é mais grave e podem acompanhar a fadiga ou ser provocadas por odores de alimentos ou ingestão de alimentos gordurosos. Os vômitos podem ocorrer, porém apenas raramente são persistentes ou intensos. Perda de apetite com emagrecimento é referida comumente nas doenças hepáticas agudas, mas é rara na doença crônica, exceto quando há cirrose em fase avançada. Diarreia: é incomum na doença hepática, exceto nos casos de icterícia grave, quando a ausência de ácidos biliares no intestino pode levar à esteatorreia. Amanda Souza Correa – RESUMO LMF/PBL OITAVO SEMESTRE Desconforto ou dor no quadrante superior direito (“dor no fígado”): ocorre com muitas doenças hepáticas e, em geral, caracteriza-se por hipersensibilidade sobre a área hepática. A dor resulta do estiramento ou irritação da cápsula de Glisson, que circunda o fígado e é rica em terminações nervosas. Dor grave é mais característica de doença da vesícula biliar, abscesso hepático e síndrome de obstrução sinusoidal grave (antes conhecida como doença venoclusiva), mas também ocorre em alguns casos de hepatite aguda. Prurido: ocorre com doença hepática aguda e começa precocemente com a icterícia obstrutiva (devido à obstrução biliar ou à colestase induzida por fármacos) e em uma fase ligeiramente mais tardia da doença hepatocelular (hepatite aguda). O prurido também ocorre com as doenças hepáticas crônicas – em geral as formas colestáticas como colangite biliar primária e colangite esclerosante, em que constitui frequentemente o sintoma inicial, precedendo o início da icterícia. Todavia, o prurido pode ocorrer com qualquer doença hepática, sobretudo depois do desenvolvimento de cirrose. Icterícia: é o sintoma mais característico da doença hepática e talvez o marcador mais confiável de sua gravidade. Os pacientes geralmente relatam escurecimento da urina antes de perceber a icterícia das escleras dos olhos. Apenas raramente, a icterícia pode ser detectada quando o nível de bilirrubina éde cateteres nasobiliares e stents biliares. A US com Doppler e a RM são utilizadas para avaliar a vascularização e a hemodinâmica hepáticas, bem como para monitorar shunts vasculares colocados por meios cirúrgicos ou radiográficos, incluindo shunts portossistêmicos intra-hepáticos transjugulares. A TC com multidetectores ou helicoidal e a RM com contraste são os procedimentos preferíveis para detecção e avaliação de massas hepáticas, estadiamento de tumores hepáticos e avaliação pré- operatória. No que diz respeito às lesões expansivas, a sensibilidade dos exames de imagem do fígado continua a aumentar; infelizmente, a especificidade ainda é pequena e, em muitos casos, dois ou três exames são necessários antes que se possa firmar um diagnóstico. A US contrastada é a modalidade de exame mais recente para investigar lesões hepáticas. Essa técnica permite contrastar as lesões hepáticas com um padrão semelhante ao obtido com imagens contrastadas transversais de TC ou RM. As vantagens principais da US contrastada são a avaliação em tempo real da perfusão hepática em todas as fases circulatórias, sem risco de nefrotoxicidade nem exposição à radiação. Outras vantagens são sua disponibilidade ampla e seu custo reduzido. As limitações são a conformação corporal do paciente e a habilidade do examinador. A US é a modalidade recomendada para rastreamento de carcinoma hepatocelular. US contrastada, TC e RM são apropriadas à investigação mais detalhada das lesões encontradas no rastreamento com US simples. O American College of Radiologists desenvolveu o LI-RADS (Liver Imaging Reporting and Data System, ou em tradução livre Sistema de Obtenção e Descrição de Imagens do Fígado) para padronizar a obtenção e a descrição dos resultados de TC, RM e US contrastada como parte da investigação do carcinoma hepatocelular (CHC). Esse sistema permite a descrição mais consistente dos resultados e reduz a variabilidade e os erros de interpretação. Recentemente, foi aprovada a elastografia hepática transitória por ultrassom para determinar a rigidez hepática – proporcionando uma medida indireta de fibrose e cirrose; essa técnica pode eliminar a necessidade de biópsia hepática quando a única indicação for a avaliação do estágio da doença. A elastografia por RM é mais sensível que a elastografia por US, mas também é mais dispendiosa e requer programação avançada e equipamento especializado. Existem estudos em andamento para determinar se a elastografia hepática constitui um método apropriado de monitoração da fibrose e progressão da doença. Por fim, as técnicas radiológicas intervencionistas possibilitam a realização de biópsia de lesões solitárias, ablação por radiofrequência e quimioembolização de lesões cancerosas, introdução de drenos em abscessos hepáticos, medição da pressão portal e criação de shunts vasculares em pacientes com hipertensão portal. A modalidade a ser utilizada depende de fatores como disponibilidade, custo e experiência do radiologista com cada técnica. Biópsia hepática A biópsia hepática ainda é o padrão de referência para a avaliação de pacientes com doença hepática, particularmente doença hepática crônica. A biópsia de fígado é necessária para estabelecer o diagnóstico em situações específicas, contudo é mais frequentemente valiosa para determinar a gravidade (grau) e o estágio da lesão hepática, prever o prognóstico e monitorar a resposta ao tratamento. O tamanho da amostra de biópsia hepática é um importante determinante de sua confiabilidade; é necessário um comprimento de 1,5 a 2 cm para uma avaliação confiável da fibrose. Como a biópsia de fígado é um procedimento invasivo não desprovido de complicações, só deve ser realizada quando efetivamente contribuir para as decisões relativas ao controle e ao tratamento da doença. No futuro, métodos não invasivos de avaliação da atividade da doença (baterias de exames de sangue) e da fibrose (elastografia e marcadores de fibrose) poderão substituir a biópsia hepática no estadiamento e na graduação da doença. Amanda Souza Correa – RESUMO LMF/PBL OITAVO SEMESTRE INSUFICIÊNCIA HEPÁTICA → A consequência clínica mais severa da doença hepática é a insuficiência hepática. → Ela pode ser o resultado de uma destruição hepática súbita e maciça, a insuficiência hepática aguda, que responde por cerca de 2.000 casos por ano nos Estados Unidos ou, mais frequentemente, a insuficiência hepática crônica, que se desenvolve após anos ou décadas de uma lesão crônica progressiva do fígado. Insuficiência Hepática Aguda → A insuficiência hepática aguda é definida como uma doença hepática aguda associada com encefalopatia e coagulopatia, que ocorre dentro de 26 semanas após a lesão hepática inicial, na ausência de uma doença hepática preexistente. → A insuficiência hepática aguda é causada por necrose hepática maciça, na maioria das vezes induzida por fármacos ou toxinas. → Com toxicidade do acetaminofeno, a insuficiência hepática ocorre dentro de 1 semana após o aparecimento dos sintomas, enquanto a insuficiência devido ao vírus da hepatite leva mais tempo para se desenvolver. O mecanismo da necrose hepatocelular pode consistir em dano tóxico direto (como com o acetaminofeno), porém na maioria das vezes consiste em uma combinação variável de toxicidade e destruição de hepatócitos mediada imunologicamente (p. ex., infecção pelo vírus da hepatite). → A insuficiência hepática aguda se manifesta primeiramente com náuseas, vômitos e icterícia, seguidos por encefalopatia potencialmente fatal e alterações na coagulação. → Tipicamente, as transaminases séricas hepáticas são acentuadamente elevadas. → O fígado é inicialmente volumoso devido à tumefação dos hepatócitos, ao infiltrado inflamatório e edema; no entanto, conforme o parênquima é destruído, o fígado diminui drasticamente. → Portanto, o declínio das transaminases séricas com a diminuição do volume do fígado muitas vezes não é um sinal de melhora, mas sim uma indicação de que há poucos hepatócitos viáveis restantes; essa suspeita é confirmada se houver agravamento da icterícia, coagulopatia e encefalopatia. Insuficiência Hepática Crônica e Cirrose → As principais causas de insuficiência hepática crônica em todo o mundo incluem hepatite B crônica, hepatite C crônica, doença hepática gordurosa não alcoólica e doença hepática alcoólica. → As causas mais comuns de hepatopatia crônica, em ordem geral de frequência, são hepatite C crônica, doença hepática alcoólica, esteato-hepatite não alcoólica, hepatite B crônica, hepatite autoimune, colangite esclerosante, colangite biliar primária, hemocromatose e doença de Wilson. O vírus da hepatite E é uma causa rara de hepatite crônica e esses casos são observados principalmente em indivíduos imunossuprimidos ou imunodeficientes. Ainda não foram elaborados critérios diagnósticos estritos para a maioria das doenças hepáticas; porém, a biópsia de fígado desempenha um importante papel no diagnóstico da hepatite autoimune, colangite biliar primária, esteato- hepatite não alcoólica e alcoólica e doença de Wilson (com nível hepático quantitativo de cobre nesta última condição). → A insuficiência hepática na doença hepática crônica é associada mais frequentemente com a cirrose, uma condição marcada pela transformação difusa de todo o fígado em nódulos parenquimatosos regenerativos, circundados por faixas fibrosas e graus variáveis de derivações (shunts) vasculares (muitas vezes portossistêmicos). → No entanto, nem todas as cirroses levam inexoravelmente à insuficiência hepática crônica, e nem todas as doenças hepáticas crônicas de estágio final são cirróticas. → Por exemplo, doenças crônicas como a cirrose biliar primária, a colangite esclerosante primária, a hiperplasia nodular regenerativa, a esquistossomose crônica e a doença hepática fibropolicística muitas vezes não são acompanhadas por cirrose plenamente estabelecida,mesmo no estágio final. → Por outro lado, pacientes com hepatite autoimune bem tratada ou aqueles com hepatite B suprimida ou hepatite C curada, muitas vezes não progridem para o estágio final, embora sejam cirróticos. → A classificação de Child-Pugh da cirrose distingue entre a classe A (bem compensada), B (parcialmente descompensada) e C (descompensada), que se correlacionam, histologicamente, com diferentes características Amanda Souza Correa – RESUMO LMF/PBL OITAVO SEMESTRE morfológicas. A utilidade desse sistema é que ele ajuda a monitorar o declínio de pacientes na evolução para a insuficiência hepática crônica. → Mesmo nas doenças que são suscetíveis a dar origem à cirrose, como a hepatite viral não tratada, doença hepática alcoólica, doença hepática gordurosa não alcoólica e doenças metabólicas, a morfologia e fisiopatologia da cirrose podem ser diferentes. → Portanto, enquanto o termo cirrose implica a presença de doença crônica grave, ele não é um diagnóstico específico e carece de implicações precisas de prognóstico. → Algumas vezes, o termo cirrose criptogênica é usado para descrever a cirrose quando não há uma causa clara. Insuficiência Hepática Crônica Agudizada → Alguns indivíduos com doença hepática crônica avançada estável, mas bem compensada, de repente desenvolvem sinais de insuficiência hepática aguda. → Em tais pacientes, muitas vezes há uma cirrose estabelecida, com extensa derivação vascular. → Dessa forma, grandes volumes de parênquima hepático funcional possuem um suprimento vascular limítrofe, deixando-os vulneráveis a agressões sobrepostas potencialmente letais. → A taxa de mortalidade, em curto prazo, dos pacientes com esse tipo de insuficiência hepática é de cerca de 50%. → Os pacientes com hepatite B crônica que se tornam superinfectados com hepatite D podem sofrer descompensação súbita, assim como os pacientes com hepatite B controlada por medicamentos, nos quais surgem mutantes virais que são resistentes à terapia. Em ambos os casos há um surto agudo de doença. → A colangite ascendente em um paciente com colangite esclerosante primária ou doença hepática fibropolicística poderia ter o mesmo efeito, rapidamente transformando um indivíduo cronicamente doente, ainda que bem compensado, em alguém com risco de morte ou transplante. HEPATITES VIRAIS Hepatite A: O vírus da hepatite A (HAV, do inglês, hepatitis A virus) causa uma doença normalmente benigna e autolimitada, com um período de incubação de 2 a 6 semanas. O HAV não causa hepatite crônica ou um estado de portador e apenas raramente causa insuficiência hepática aguda, por isso a taxa de fatalidade associada ao HAV corresponde apenas de 0,1% a 0,3%. Hepatite B: O vírus da hepatite B (HBV) pode produzir (1) hepatite aguda seguida por recuperação e eliminação do vírus, (2) hepatite crônica não progressiva, (3) doença crônica progressiva terminando em cirrose, (4) insuficiência hepática aguda com necrose hepática maciça e (5) um estado de portador assintomático “saudável”. → A doença hepática crônica induzida por HBV é também um fator precursor importante para o desenvolvimento de carcinoma hepatocelular, mesmo na ausência de cirrose. → O HBV tem um período de incubação prolongado (2 a 26 semanas). → Ao contrário do HAV, o HBV permanece no sangue até e durante episódios ativos de hepatites aguda e crônica. → Aproximadamente 65% dos adultos que adquiriram o HBV não são sintomáticos ou apresentam sintomas leves e não desenvolvem icterícia. → Os demais 25% apresentam sintomas constitucionais inespecíficos, como anorexia, febre, icterícia e dor no quadrante superior direito. → Em quase todos os casos, a infecção é autolimitada e cede sem tratamento. A doença crônica ocorre em 5% a 10% dos indivíduos infectados. → A hepatite fulminante (insuficiência hepática aguda) é rara, ocorrendo em aproximadamente 0,1% a 0,5% dos indivíduos infectados de forma aguda. Hepatite C: O vírus da hepatite C (HCV) é uma importante causa de doença hepática em todo o mundo, com aproximadamente 170 milhões de pessoas afetadas. → O período de incubação da hepatite por HCV varia de 4 a 26 semanas, com uma média de 9 semanas. → Em aproximadamente 85% dos indivíduos, o curso clínico da infecção aguda é assintomático e normalmente ignorado. RNA do HCV é detectável no sangue por 1 a 3 semanas, coincidindo com as elevações de transaminases Amanda Souza Correa – RESUMO LMF/PBL OITAVO SEMESTRE séricas. Na infecção aguda sintomática por HCV, anticorpos anti-HCV são detectados em apenas 50% a 70% dos pacientes; nos demais pacientes, os anticorpos anti-HCV surgem após 3 a 6 semanas. → O curso clínico da hepatite aguda por HCV é mais leve que com o HBV; raros casos podem ser severos e indistinguíveis da hepatite por HAV ou HBV. Não se sabe porque apenas uma pequena minoria de indivíduos é capaz de curar-se da infecção por HCV. → Infecção persistente e hepatite crônica são as marcas registradas da infecção por HCV, apesar da natureza geralmente assintomática da doença aguda. → Em contraste com o HBV, a doença crônica ocorre na maioria dos indivíduos infectados por HCV (de 80% a 90%), e a cirrose eventualmente ocorre em 20% dos indivíduos com infecção crônica por HCV. → Os mecanismos que levam à cronicidade da infecção por HCV não são bem compreendidos, porém é evidente que o vírus tem desenvolvido várias estratégias para escapar da imunidade antiviral do hospedeiro. → O HCV é capaz de inibir ativamente a resposta antiviral celular mediada pelo IFN em vários passos, incluindo a sinalização do receptor Toll-like em resposta ao reconhecimento do RNA viral e a sinalização associada de receptores de IFN, que de outra forma teriam efeitos antivirais. → Em mais de 90% dos indivíduos com infecção crônica por HCV, o RNA do HCV em circulação persiste apesar da presença dos anticorpos. → Consequentemente, em pessoas com hepatite crônica, o teste de RNA do HCV deve ser realizado para avaliar a replicação viral e confirmar o diagnóstico de infecção por HCV. → Um aspecto clínico bastante característico da infecção crônica por HCV são as elevações episódicas das aminotransferases séricas. → Seus níveis aumentam e diminuem, mas raramente se tornam normais. → Mesmo raros pacientes com transaminases normais correm risco de desenvolver lesão hepática permanente. → Portanto, qualquer indivíduo com RNA de HCV detectável no soro necessita de acompanhamento médico. → Uma característica única para a infecção da hepatite C é a associação com a síndrome metabólica, em especial com o genótipo 3 de HCV. → Aparentemente, o HCV pode dar origem à resistência à insulina e à doença hepática gordurosa não alcoólica. Hepatite D: Também conhecido como “o agente delta”, o vírus da hepatite D (HDV) é um vírus de RNA único que depende do seu ciclo de vida no HBV. A infecção por HDV surge nas seguintes situações: → Uma coinfecção aguda ocorre após a exposição a soro contendo tanto HDV quanto HBV. O HBV deve se estabelecer primeiro para fornecer o HBsAg necessário para o desenvolvimento de virions de HDV completos. A coinfecção de HBV e HDV resulta na hepatite aguda, que é indistinguível da hepatite aguda B. Ela é autolimitada e é normalmente seguida pela eliminação de ambos os vírus. No entanto, há uma maior taxa de insuficiência hepática aguda em usuários de drogas intravenosas. → A superinfecção ocorre quando um portador crônico de HBV é exposto a um novo inóculo de HDV. Isso resulta em doença 30 a 50 dias após, apresentando-se como uma hepatite aguda grave em um portador de HBV não reconhecido anteriormente, ou como uma exacerbação de infecção preexistente da hepatite B crônica. A infecção crônica por HDV ocorre em praticamente todos esses pacientes. A superinfecção pode ter duas fases: uma fase aguda, com replicação ativa de HDV e supressão de HBV com altos níveis de transaminase,e uma fase crônica, na qual a replicação de HDV diminui, a replicação de HBV aumenta, os níveis de transferase flutuam e a doença progride para cirrose e, algumas vezes, carcinoma hepatocelular. Hepatite E: O vírus da hepatite E (HEV) é uma infecção transmitida entericamente pela água, que ocorre principalmente em jovens e adultos de meia-idade. O HEV é uma doença zoonótica com hospedeiros animais, como macacos, gatos, porcos e cães. As epidemias foram relatadas na Ásia e no subcontinente indiano, África subsaariana, Oriente Médio, China e México, embora casos esporádicos sejam observados em países industrializados, especialmente em regiões onde a suinocultura é comum. Uma infecção esporádica também pode ocorrer em viajantes que se destinam a essas regiões, mas, principalmente, a infecção por HEV representa mais de 30% a 60% dos casos de hepatite aguda esporádica na Índia, excedendo a frequência do HAV. Um aspecto característico da infecção por HEV é a alta taxa de mortalidade entre gestantes, chegando a 20%. Na maioria dos casos, a doença é autolimitada; o HEV não está associado à doença hepática crônica ou viremia persistente em pacientes imunocompetentes. A infecção crônica por Amanda Souza Correa – RESUMO LMF/PBL OITAVO SEMESTRE HEV ocorre em pacientes com AIDS e pacientes transplantados imunossuprimidos. O período médio de incubação após a exposição corresponde a 4 a 5 semanas. HEPATITE AUTOIMUNE → A hepatite autoimune é uma hepatite crônica, progressiva, com todas as características das doenças autoimunes em geral: predisposição genética, associação com outras doenças autoimunes, presença de autoanticorpos e resposta terapêutica à imunossupressão. → Fortes associações ao HLA para a hepatite autoimune dão suporte a uma predisposição genética. → Em caucasianos, há uma associação frequente com alelos DRB1*. → Assim como acontece com a maioria das outras doenças autoimunes, as bases mecanicistas da associação ao HLA não são claras. → Os desencadeadores para a reação imune podem incluir infecções virais ou exposições a medicamentos e toxinas. LESÃO HEPÁTICA INDUZIDA POR MEDICAMENTOS E TÓXICOS → Como o principal órgão metabolizante e desintoxicante de fármacos no corpo, o fígado está sujeito à lesão a partir de uma enorme variedade de agentes terapêuticos e ambientais. → A lesão pode resultar da toxicidade direta, ocorrer por meio da conversão hepática de um xenobiótico a uma toxina ativa, ou ser produzida por mecanismos imunes, tais como pelo medicamento ou um metabólito agindo como um hapteno para converter uma proteína celular em um imunógeno. → Um diagnóstico de lesão hepática induzida por fármaco ou tóxico pode ser feito na base de uma associação temporal da lesão hepática com exposição a medicamentos ou tóxico, a recuperação (normalmente) após a remoção do agente agressor e exclusão de outras causas potenciais. → A exposição a um tóxico ou um agente terapêutico deve ser sempre incluída no diagnóstico diferencial de qualquer forma de doença hepática. → O álcool produz mais lesões hepáticas tóxicas do que qualquer outro agente; ele é discutido separadamente. Amanda Souza Correa – RESUMO LMF/PBL OITAVO SEMESTRE Amanda Souza Correa – RESUMO LMF/PBL OITAVO SEMESTRE DOENÇA HEPÁTICA ALCOÓLICA → O consumo excessivo de álcool (etanol) é a principal causa de doença hepática na maioria dos países ocidentais. → O álcool é responsável por 3,8% das mortes em todo o mundo, tornando-se o oitavo maior fator de risco de morte (quinto em países de renda média e nono em países de alta renda). → Existem três formas distintas, embora com alguma sobreposição, de lesão hepática alcoólica: (1) a esteatose hepatocelular ou alteração gordurosa, (2) a hepatite alcoólica (ou esteato-hepatite), e a (3) esteatofibrose (padrões de cicatrizes típicas para todas as doenças hepáticas gordurosas, incluindo álcool), que se soma à cirrose nos estágios tardios da doença. → Por algum motivo desconhecido, a cirrose se desenvolve apenas em uma pequena fração de alcoolistas crônicos. Esteatose Hepática (Fígado Gorduroso) → Mesmo após o consumo moderado de álcool, gotículas lipídicas se acumulam nos hepatócitos aumentando com a quantidade e a cronicidade da ingestão de álcool. → O lipídio começa como pequenas gotas que coalescem em grandes gotas que distendem o hepatócito e empurraram o núcleo para o lado. → Macroscopicamente, o fígado gorduroso em indivíduos com alcoolismo crônico é um órgão grande e macio (chegando a pesar 4 a 6 kg), que é amarelo e untuoso. → A alteração gordurosa é completamente reversível se houver abstinência subsequente da ingestão de álcool. Amanda Souza Correa – RESUMO LMF/PBL OITAVO SEMESTRE Hepatite Alcoólica (Esteato-hepatite) → A hepatite alcoólica é caracterizada por: 1. Tumefação e necrose de hepatócitos: Focos únicos ou dispersos de células sofrem tumefação (balonização) e necrose. A tumefação resulta do acúmulo de gordura e água, assim como de proteínas que são normalmente exportadas. 2. Corpos de Mallory-Denk: Esses corpos estão geralmente presentes como material eosinofílico, amorfo e acumulado em hepatócitos balonizados. Eles são constituídos por novelos emaranhados de filamentos intermediários, tais como a queratina 8 e 18, associados com outras proteínas, como a ubiquitina. Essas inclusões são uma característica não específica de doença hepática alcoólica, uma vez que elas também estão presentes na doença hepática gordurosa não alcoólica e em distribuições periportais na doença de Wilson e em doenças crônicas do trato biliar. 3. Reação neutrofílica: Neutrófilos permeiam o lóbulo hepático e sofrem acúmulo ao redor dos hepatócitos em degeneração, particularmente aqueles que possuem corpos de Mallory-Denk. Eles podem ser mais ou menos associados a células mononucleares. Esteatofibrose alcoólica → A hepatite alcoólica é frequentemente acompanhada por uma ativação evidente de células estreladas dos sinusoides e fibroblastos portais, originando fibrose. → A fibrose começa com a esclerose das veias centrais. A cicatriz perissinusoidal então se acumula no espaço de Disse da região centrolobular, espalhando-se para fora e cercando grupos pequenos ou individuais de hepatócitos em um padrão de cerca de tela de arame. → Essas teias de cicatrizes, eventualmente, se ligam aos tratos portais e, em seguida, começam a se condensar em septos fibrosos centrais-portais. → Com o desenvolvimento de nódulos, a cirrose se estabelece. → Quando o uso do álcool continua sem interrupção em longo prazo, a subdivisão contínua de nódulos estabelecidos por novas teias de cicatrizes perissinusoidais leva a uma clássica cirrose micronodular ou cirrose de Laennec, descrita pela primeira vez para a doença hepática alcoólica em estágio final. → Os estágios iniciais de cicatrização podem regredir com a cessação do uso de álcool, mas quanto mais o fígado avança em direção à cirrose, mais os distúrbios vasculares impedem uma restauração completa. → A regressão completa da cirrose alcoólica, ainda que relatada, é rara. Patogenia • A ingestão em curto prazo de até 80 g de álcool (seis cervejas ou 30 mililitros de uma bebida de 40% de teor alcoólico), durante um a vários dias, geralmente produz esteatose hepática leve e reversível. • A ingestão diária de 80 g de etanol, ou mais, gera um risco significativo de lesão hepática severa, e a ingestão diária de 160 g ou mais por 10 a 20 anos está associada, de modo mais consistente, à lesão hepática severa. • Contudo, apenas 10% a 15% dos alcoolistas desenvolvem cirrose. Portanto, outros fatores também devem influenciar o desenvolvimento e a severidade da doença hepática alcoólica. Esses incluem: • Gênero: As mulheres parecem ser mais suscetíveis à lesãohepática que os homens, embora a maioria dos pacientes seja do sexo masculino. Essa diferença pode estar relacionada com a farmacocinética e o metabolismo do álcool, e a resposta dependente de estrogênio à endotoxina derivada de intestino (LPS) no fígado. Embora os mecanismos exatos não sejam conhecidos, parece que o estrogênio aumenta a permeabilidade do intestino a endotoxinas, as quais, por sua vez, aumentam a expressão do receptor CD14 de LPS nas células de Kupffer. Isso predispõe ao aumento da produção de citocinas pró-inflamatórias e quimiocinas. • Diferenças étnicas e genéticas: Nos Estados Unidos, as taxas de cirrose são maiores em consumidores afro-americanos do que em americanos brancos. A diferença não pode ser explicada pela quantidade de álcool consumido, uma vez que não existe uma diferença significativa no consumo entre os grupos étnicos. Estudos com gêmeos sugerem que há um componente genético em doenças hepáticas induzidas por álcool, embora ainda seja difícil separar a genética das influências ambientais. Polimorfismos genéticos em enzimas desintoxicantes e alguns Amanda Souza Correa – RESUMO LMF/PBL OITAVO SEMESTRE promotores de citocinas podem desempenhar papéis importantes e contribuir para as diferenças étnicas. A ALDH*2, uma variante da aldeído-desidrogenase (ALDH), encontrada em 50% dos asiáticos, tem uma atividade muito baixa. Indivíduos homozigotos para a ALDH*2 são incapazes de oxidar o acetaldeído e não toleram o álcool, sendo a intolerância ao álcool caracterizada por rubor na parte superior do corpo e, variavelmente, náuseas ou letargia. • Condições comórbidas: Sobrecarga de ferro e infecções por HCV e HBV interagem com álcool, levando ao aumento da gravidade da doença hepática. Pertinente a essa discussão estão os efeitos prejudiciais do álcool e de seus subprodutos na função hepatocelular: • A exposição ao álcool causa esteatose, disfunção das membranas mitocondriais e celulares, hipoxia e estresse oxidativo. • Em concentrações milimolares, o álcool afeta diretamente as funções microtubular e mitocondrial e a fluidez da membrana. • A esteatose hepatocelular resulta de: (1) desvio dos substratos normais do catabolismo para a biossíntese de lipídios, como resultado do aumento da geração de nicotinamida adenina dinucleotídeo reduzida (NADH) pelas duas principais enzimas do metabolismo do álcool, álcool desidrogenase e acetaldeído desidrogenase; (2) prejuízo da formação e secreção de lipoproteínas; e (3) aumento do catabolismo periférico de gorduras, liberando assim ácidos graxos livres na circulação. As causas da hepatite alcoólica são incertas. • O acetaldeído (o principal metabólito intermediário do álcool) induz peroxidação e formação do aduto acetaldeído-proteína, desorganizando ainda mais o citoesqueleto e a função das membranas. • O metabolismo pelo citocromo P-450 produz espécies reativas de oxigênio (ROS), que reagem com proteínas celulares, danificam as membranas e alteram a função hepatocelular. • Além disso, o álcool prejudica o metabolismo hepático da metionina, o que provoca a diminuição dos níveis de glutationa, consequentemente sensibilizando o fígado à lesão oxidativa. • A indução do citocromo P-450 no fígado pelo álcool aumenta o catabolismo do álcool no retículo endoplasmático e intensifica a conversão de outros medicamentos (p. ex., acetaminofeno) em metabólitos tóxicos. • O álcool causa a liberação de endotoxinas bacterianas do intestino para a circulação portal, induzindo respostas inflamatórias no fígado, devido à ativação de NF-κB e a liberação de TNF, IL-6 e TGF-α. • Além disso, o álcool estimula a liberação de endotelinas das células endoteliais sinusoidais, causando vasoconstrição e a contração de células estreladas miofibroblásticas ativadas, levando à diminuição da perfusão sinusoidal hepática. • Em resumo, a doença hepática alcoólica é um distúrbio crônico caracterizado por esteatose, hepatite, fibrose progressiva e desorganização acentuada da perfusão vascular. • Em essência, a doença hepática alcoólica pode ser considerada como um estado mal adaptativo, no qual as células do fígado respondem de maneira cada vez mais patológica a um estímulo (álcool) que, no início, era apenas marginalmente nocivo. Aspectos Clínicos → A esteatose hepática pode causar hepatomegalia, com leve elevação dos níveis séricos de bilirrubina e fosfatase alcalina. → Disfunção hepática severa é pouco comum. → A retirada do álcool e o fornecimento de uma dieta adequada constituem um tratamento suficiente. → Em contraste, a hepatite alcoólica tende a aparecer de modo agudo, geralmente após um episódio de ingestão intensa de álcool. → Os sintomas e as manifestações laboratoriais podem variar de mínimos até aqueles semelhantes à insuficiência hepática aguda. Amanda Souza Correa – RESUMO LMF/PBL OITAVO SEMESTRE → Entre esses dois extremos estão os sintomas inespecíficos de mal-estar, anorexia, perda de peso, desconforto abdominal superior, hepatomegalia dolorosa e os achados laboratoriais de hiperbilirrubinemia, elevação de aminotransferases séricas e fosfatase alcalina e, muitas vezes, uma leucocitose neutrofílica. → Em contraste com outras doenças hepáticas crônicas, em que os níveis de ALT (TGP) séricos tendem a ser mais elevados do que os níveis de AST séricos, os níveis de AST (TGO) séricos tendem a ser mais elevados do que os níveis de ALT séricos em uma proporção de 2:1, ou superior, na doença hepática alcoólica. → Isso pode ser útil no diagnóstico diferencial de lesão hepática crônica, quando um histórico adequado não está disponível. Pode surgir uma síndrome colestática aguda, lembrando a obstrução dos grandes ductos biliares. → O prognóstico é imprevisível; cada surto de hepatite acarreta um risco de morte de aproximadamente 10% a 20%. → Com surtos repetidos, a cirrose se desenvolve em cerca de um terço dos pacientes dentro de alguns anos. → A hepatite alcoólica também pode estar superposta a uma cirrose estabelecida. → Com nutrição adequada e a interrupção total do consumo de álcool, a hepatite alcoólica pode ser resolvida lentamente. → Contudo, em alguns pacientes, a hepatite persiste, apesar da abstinência, e progride para cirrose. → As manifestações da cirrose alcoólica são semelhantes às de outras formas de cirrose. → Os achados laboratoriais refletem disfunção hepática, com elevação de aminotransferase sérica, hiperbilirrubinemia, elevação variável de fosfatase alcalina sérica, hipoproteinemia (globulinas, albumina e fatores de coagulação) e anemia. → Em alguns casos, a biópsia hepática pode estar indicada, uma vez que em aproximadamente 10% a 20% dos casos de suposta cirrose alcoólica, outro processo mórbido é encontrado. → Finalmente, a cirrose pode ser clinicamente silenciosa, descoberta apenas na autópsia, ou quando um estresse, como infecção ou trauma, desequilibra a balança para insuficiência hepática. → O prognóstico em longo prazo para alcoolistas com doença hepática é variável. → A sobrevida em 5 anos atinge 90% em abstêmios que não apresentam icterícia, ascite ou hematêmese, mas cai para 50% a 60% em indivíduos que continuam a beber. → Na doença alcoólica em estágio final, as causas imediatas de morte são (1) coma hepático, (2) hemorragia gastrointestinal maciça, (3) infecção intercorrente (à qual esses pacientes são predispostos), (4) síndrome hepatorrenal após uma crise de hepatite alcoólica e (5) carcinoma hepatocelular (o risco de desenvolver esse tumor na cirrose alcoólica corresponde a 1% a 6% dos casos anualmente). CONCEITOS -CHAVES • A doença hepática alcoólica é um distúrbio crônico que pode ocasionar esteatose, hepatite alcoólica, fibrose progressiva, cirrose e desorganização acentuada da perfusão vascular. • O consumo de 80 g/dia de álcool é considerado como sendo o limiar para o desenvolvimento de doença hepáticaalcoólica. Pode demorar de 10 a 15 anos de consumo para o desenvolvimento da cirrose, o que ocorre apenas em uma pequena proporção de alcoólicos crônicos. • Os múltiplos efeitos patológicos do álcool incluem alterações no metabolismo lipídico, diminuição da exportação de lipoproteínas, e lesão celular causada por espécies reativas de oxigênio e citocinas. Amanda Souza Correa – RESUMO LMF/PBL OITAVO SEMESTRE CIRROSE – AVALIAÇÃO As combinações de resultados dos exames sanguíneos que incluam manifestações clínicas, testes laboratoriais de rotina e exames laboratoriais especializados (p. ex., proteínas ou pequenas moléculas séricas que são afetadas ou estão envolvidas na fibrogênese) são usadas para gerar modelos indicados para prever doença hepática avançada, mas esses modelos não são suficientemente confiáveis para que sejam utilizados rotineiramente ou em avaliações repetidas; além disso, apenas permitem diferenciar entre doença inicial e doença avançada Depois que a cirrose está estabelecida, outros sistemas de graduação são utilizados para definir doença compensada versus descompensada e o prognóstico. O sistema de estadiamento inicial usado com essa finalidade era a classificação de Child-Pugh modificada, que incluía um sistema de graduação de 5 a 15: escores 5 e 6 representam a classe A de Child-Pugh (compatível com “cirrose compensada”); escores 7 a 9 representam a classe B; e escores de 10 a 15 representam a classe C. Amanda Souza Correa – RESUMO LMF/PBL OITAVO SEMESTRE CIRROSE HEPÁ TICÁ E SUÁS CÁUSÁS Cirrose hepá ticá e um processo pátolo gico do páre nquimá hepá tico cárácterizádo por dois componentes:(1) fibrose hepá ticá; e (2) reárránjo dá árquiteturá dos hepáto citos nos chámádos "no dulos de regeneráçá o". E á respostá comum do páre nquimá hepá tico á quálquer estí mulo lesivo persistente, representádo gerálmente por inflámáçá o e necrose hepátocitá riá. E quem é a "ESTRELA" desse processo? Apesar de o hepatócito ser a principal célula do parênquima hepático, ele não é a “estrela” desse processo... Você se lembra da existência do espaço de Disse entre o endotélio e o hepatócito (reveja a microarquitetura hepática no primeiro capítulo)? Pois é, as células mais importantes para a progressão da cirrose se encontram neste espaço e recebem o nome de células estreladas. Essas células normalmente armazenam vitamina A. A partir de uma agressão prolongada, citocinas (como a TGF-β) ativam as células estreladas, que assumem a forma de um miofibroblasto e passam a sintetizar colágeno. São estes que, por último, formarão as travas fibróticas que distorcem a arquitetura hepática e perpetuam a atividade inflamatória. Participam também leucócitos, fibroblastos e plaquetas. Para começarmos, uma questão que já apareceu na prova da Unifesp: Sobre a cirrose hepática, pode-se afirmar que: a) Raramente associa-se à insuficiência renal. b) Histologicamente, o desarranjo estrutural é mais importante que a perda de células parenquimatosas. c) O distúrbio circulatório que se associa é caracterizado por vasoconstrição periférica com aumento da volemia central. d) O hepatocarcinoma, embora possa associar-se com o vírus da hepatite C, é incomum em outras etiologias. e) As complicações pulmonares são decorrentes de outros hábitos e costumes (por exemplo, tabagismo) ou mecânica (hidrotórax hepático), mas não há associação conhecida de causa com a hipertensão porta ou a insuficiência hepática. CÁUSÁS DE CIRROSE HEPATITES VIRAIS CRÔNICAS Definição Hepatite viral que persiste por mais de seis meses. Quais vírus? B/C/B + D. Qual é a principal causa de cirrose e transplante? Amanda Souza Correa – RESUMO LMF/PBL OITAVO SEMESTRE O vírus C, que infecta 3,5% da população mundial e quase 90% dos pacientes cronificam. E quem causa mais hepatocarcinoma? O vírus B, que infecta 8,5% da população mundial e pode causar hepatocarcinoma, inclusive em não cirróticos. Apresentação Na maioria das vezes, é ássintomá ticá. Nos casos sintomáticos, a FADIGA é o sintoma mais comum (por vezes, o único). Outros sintomas possíveis: anorexia, náuseas e icterícia flutuante. Exame físico Geralmente, é normal. Pode haver hepatomegalia e, nos casos mais avançados, sinais de insuficiência hepática: aranhas vasculares (telangiectasias), eritema palmar, atrofia testicular, ginecomastia. A persistência da hepatomegalia numa hepatite viral aguda é um forte indício de evolução para hepatite crônica... Laboratório O aumento das transaminases é o achado mais característico, embora nem sempre presente. Tal como nas hepatites virais agudas, a ALT (TGP) predomina sobre a AST (TGO). Contudo, os níveis séricos são menores que os da hepatite aguda, além de serem flutuantes, oscilando entre 2x a 10x do valor de referência (p. ex.: 90 U/L a 500 U/L). Complicações Cirrose hepática pós-necrose.Hepatocarcinoma (especialmente nos casos que já evoluíram para cirrose).Fenômenos autoimunes — os principais são: Hepatite B: síndrome nefrótica por nefropatia membranosa e poliarterite nodosa clássica (PAN-clássica); Hepatite C: crioglobulinemia mista tipo II (vasculite), síndrome nefrótica por glomerulonefrite membranoproliferativa (mesangiocapilar), líquen plano (principalmente formas mucosas), porfiria cutânea tardia. Tratamento Objetivos primários: erradicar a infecção (raro) e prevenir o desenvolvimento de cirrose e hepatocarcinoma. Objetivos secundários: resposta bioquímica com normalização das transaminases, supressão sustentada da replicação viral, resposta histológica com redução da atividade inflamatória e da fibrose. Está indicado, de uma forma geral, nos pacientes que apresentam: • Transaminases elevadas; • Sinais de replicação viral (HBeAg positivo/HBV-DNA elevado); • Biópsia ou método não invasivo mostrando inflamação ativa/fibrose. MICROBIOLOGIÁ Dentre os vírus hepatotrópicos, aqueles associados à cronificação são os vírus B, C e D. O vírus B é o único vírus DNA deste grupo. Ele contém dez genótipos denominados de A a J, que variam quanto à distribuição geográfica, patogenicidade e sequência de nucleotídeos no genoma. Alguns genótipos do HBV são classificados em subgenótipos, exceto E, G e H, sendo mais de 30 já identificados. O genótipo A está presente na África subsaariana, ocidental e norte da Europa; os genótipos B e C, na Ásia; o genótipo C, no Sudeste Asiático; o Amanda Souza Correa – RESUMO LMF/PBL OITAVO SEMESTRE genótipo D, na África, Europa e Índia; o genótipo G, na França, Alemanha e Estados Unidos; o genótipo H, nas Américas do Sul e Central; o genótipo I, no Vietnã e Laos; e o genótipo J, no Japão. No Brasil, alguns estudos identificaram a predominância dos subgenótipos A1, A2, F2a e F4.O vírus C é um vírus RNA de grande diversidade genética, sendo classificados em seis genótipos e diversos subtipos (1a, 1b...). Existem ainda, as quasispecies que são vírus de genomas semelhantes, exceto por alguns nucleotídeos diferentes. No Brasil, os genótipos mais prevalentes são o 1 (64%), 3 (30,2%) e 2 (4,6%).O vírus D, como vimos em "Síndrome Ictérica", é um vírus RNA satélite do VHB, também classificado em genótipos I (presença mundial — cirrose hepática e hepatocarcinoma), II e III (região amazônica — hepatite fulminante). FISIOPÁTOLOGIÁ Na Medicina existem doenças traiçoeiras! Pense ágorá em duás pátologiás bástánte conhecidás: á hipertensá o árteriál siste micá e o diabetes mellitus tipo 2. O que elás te m em comum? Essás desordens cursám ássintomá ticás por de cádás. Contudo, sem um trátámento ádequádo, ás conseque nciás já sábemos: um belo diá, sem áviso álgum, o indiví duo e "átácádo" por umá gráve complicáçá o, envolvendo-se em um infárto, em um ácidente vásculár encefá lico ou mesmo em umá perdá su bitá dá visá o... Ele pensá que á doençá começou náquele diá, más, ná verdáde, já vinhá provocándoleso es há muitos ános, culminándo no evento átuál. Infelizmente, esse evento pode ser fátál ou deixár sequelás irrepárá veis, e tudo isso poderiá ter sido prevenido se ántes, ná fáse ássintomá - ticá, á doençá tivesse sido trátádá. É exatamente assim que acontece com as hepatites crônicas virais! O vírus se instala no organismo do paciente, tornando-se um morador definitivo de seu fígado, mas não costuma causar nenhum problema direto e, em geral, nem danifica o hepatócito. O que acontece na verdade é que o nosso sistema imune, ao reconhecer a existência desse intruso, tenta a todo custo extirpá-lo, e acaba, com isto, lesando os hepatócitos... Se a tentativa de eliminar o vírus é bem-sucedida, o quadro de hepatite tem fim (a hepatite aguda é curada). Caso contrário, o paciente entra no processo de hepatite crônica, caracterizado basicamente por uma eterna e frustrada tentativa de remover o intruso viral das células hepáticas. Conceito: hepatite crônica → o sistema imune não desiste, mas também não consegue remover o vírus. E, com isso, os hepatócitos ficam cronicamente submetidos a agressões repetidas e incessantes. Os casos assintomáticos de hepatite crônica viral são identificados em diversas circunstâncias, como "quando alguém vai doar sangue", durante exame de pré-natal, pacientes em programa de hemodiálise, portadores de HIV, usuários de drogas injetáveis, parceiros sexuais ou pessoas que coabitam com indivíduos sabidamente portadores do vírus B ou C. Em todos esses casos, a sorologia para hepatite B e C é recomendada!Esse cenário pode se arrastar por décadas até que, não mais que de repente, o paciente, previamente assintomático/oligossintomático, desenvolve ascite, hemorragia digestiva (por varizes esofagogástricas), coagulopatia ou mesmo encefalopatia hepática. Nesse momento, não há mais o que fazer. Agora é só esperar na fila do transplante hepático. ÁVÁLIÁÇÁ O INICIÁL O mais importante desde o início é detectar os pacientes que se beneficiarão do tratamento antiviral específico. Veja! Não são todos os pacientes portadores crônicos que devem receber a terapia. O benefício clínico é comprovado principalmente para aqueles com replicação viral, inflamação ativa e fibrose/cirrose no fígado. Amanda Souza Correa – RESUMO LMF/PBL OITAVO SEMESTRE Assim, o primeiro exame a ser solicitado para avaliar se há ou não hepatite em atividade é a DOSAGEM DE TRANSAMINASES. Juntamente com as transaminases, solicitaremos outros exames que marquem a replicação viral (HBeAg, anti-HBe, HBV-DNA) e outros para avaliar a presença ou não de cirrose (albumina, bilirrubina, TAP, contagem de plaquetas). E a biópsia hepática?? Em casos selecionados (veremos adiante), a biópsia pode ser uma grande ferramenta para auxiliar na indicação de terapia. A biópsia hepática também tem outra função (além de graduar e estagiar a hepatite crônica viral): é a função diagnóstica — algumas vezes nos surpreendemos com diagnósticos alternativos (doença hepática alcoólica, esteato-hepatite não alcoólica, doença de Wilson, etc.) em pacientes que jurávamos ter apenas hepatite crônica viral...Na análise histopatológica da peça, duas características devem ser determinadas: (1) GRÁU de átividáde necroinflámáto riá; e (2) ESTÁ GIO de fibrose/cirrose. Antigamente, utilizavam-se as denominações "hepatite crônica ativa", "hepatite crônica persistente" e "hepatite crônica lobular". Hoje, a preferência é para os escores de classificação de "atividade" de doença e estágios de fibrose/cirrose. O GRAU de atividade necroinflamatória aumenta à medida que são encontrados os seguintes achados, DO MELHOR PARA O PIOR: • Inflamação dos espaços-porta; • Necrose lobular focal; • Necrose em saca-bocado*; • Necrose em ponte**. *A necrose em saca-bocado era o critério que definia a antiga nomenclatura "hepatite crônica ativa". **A necrose em ponte indica hepatite grave e um alto potencial para evoluir para cirrose pós-necrótica, se não tratada. O ESTÁGIO de fibrose/cirrose depende da intensidade da fibrose e da presença de cirrose, DO MELHOR PARA O PIOR: • Fibrose dos espaços-porta; • Fibrose dos espaços-porta com septos; • Fibrose em ponte; • Cirrose (no dulos de regeneráçá o circundádos por fibrose). Átuálmente, recomendá-se o uso de umá dás seguintes clássificáço es: METAVIR, ISHAK e Sociedade Brasileira de Patologia (SBP). HEPÁTITE VIRÁL C CRO NICÁ Critério diagnóstico Anti-HCV positivo + HCV-RNA, por mais de seis meses e/ou sinais biológicos ou histológicos de hepatite crônica. Amanda Souza Correa – RESUMO LMF/PBL OITAVO SEMESTRE É comum a infecção pelo vírus C tornar-se crônica? É muito comum!! Isto acontece em 80–90% dos casos, independentemente da faixa etária. A maioria dos pacientes não se recorda de ter apresentado nenhum quadro clínico semelhante a uma hepatite aguda clássica. Por que é tão comum a cronificação? O vírus C é extremamente mutagênico, "escapando" do sistema imunológico do hospedeiro. História natural Após acompanhamento de 20 anos, a infecção crônica pelo vírus C pode tomar três tipos de rumo: • Estável: 30% dos casos; • Evolução para cirrose descompensada: 20–30% dos casos; • Curso variável (entre os extremos): restante dos casos. • Sobre o diagnóstico sorológicoInfecção ativa: anti-HCV positivo + HCV-RNA positivo. • Infecção curada ou falso-positivo: anti-HCV positivo + HCV-RNA negativo. Fatores prognósticos Entre os principais preditores de evolução para cirrose descompensada e hepatocarcinoma, temos: • Biópsia hepática: demonstrando intensidade moderada ou acentuada de inflamação, necrose e/ou fibrose. Este é o principal preditor!!! • Outros maus preditores: alcoolismo, coinfecções (HCV-HIV, HCV-HBV), imunossupressão, idade > 40 anos, sexo masculino, duração prolongada da infecção, obesidade, negros americanos, ferro hepático elevado, hepatopatias concomitantes, grande variedade de quasispecies do vírus C, má aderência ao tratamento, carga viral elevada. Importância do genótipo O vírus C possui seis genótipos principais, sendo a terapia guiada por esse parâmetro. Complicações hepáticas • Cirrose descompensada: 20–30% dos casos (fatores de risco acima); atualmente, a hepatite C é a maior responsável pelos casos de cirrose descompensada e transplante hepático nos EUA. • Hepatocarcinoma: ocorre apenas nos cirróticos, numa taxa de 5–10% em cinco anos. Quais são as principais manifestações extra-hepáticas? • Glomerulonefrite membranoproliferativa (mesangiocapilar). • Crioglobulinemia mista tipo II: cursa com vasculite cutânea (púrpura palpável), glomerulonefrite, fenômeno de Raynaud e aumento das crioglobulinas. A hepatite C é a causa mais comum desta desordem, responsável por 90% dos casos! • Líquen plano. • Porfiria cutânea tardia. • Outras: linfoma de células B, úlcera corneana (úlcera de Mooren), artralgia, mialgia, poliartrite, fibrose pulmonar, PTI. PRIMEIRO PASSO A pesquisa do anti-HCV por imunoensaios ou testes rápidos (imunocromatografia) indica contato prévio com o vírus e, isoladamente, não permite diferenciar uma infecção resolvida naturalmente de uma infecção Amanda Souza Correa – RESUMO LMF/PBL OITAVO SEMESTRE ativa.Podemos dizer que existem três possibilidades que justificam o anti-HCV (+): (1) o paciente teve hepatite C e foi curado, permanecendo com uma "cicatriz sorológica"; (2) o paciente tem hepatite C atual, aguda ou crônica; e (3) o resultado é "falso-positivo", devido à existência de outros anticorpos que apresentam reação cruzada contra antígenos do vírus C (ex.: fator reumatoide).Assim, devemos sempre confirmar o diagnóstico, a partir de testes moleculares de detecção de ácidos nucleicos, denominados HCV- RNA. O HCV-RNA é Indicado: • Para confirmar diagnóstico de hepatite C; • Para caracterizar transmissão vertical; • Em exposições de risco, para definir a transmissão; • Nomonitoramento clínico, para avaliar resposta virológica. SEGUNDO PASSO: Confirmado o diagnóstico, o paciente deve ter consultas no intervalo de 2–4 meses e exames complementares devem ser solicitados. RESIDÊNCIA MÉDICA UNIVERSIDADE FEDERAL DE CAMPINA GRANDE – UFCG – PB O objetivo do escore APRI é: a) Estimar risco de ressangramento em pacientes com HDA varicosa. b) Estimar risco de fratura por osteoporose em 10 anos. c) Estimar grau de fibrose hepática. d) Estimar risco de quedas em idosos. e) Estimar grau de disfunção cognitiva em idosos. TERCEIRO PASSO: Este é um grande diferencial em relação ao que vimos para a hepatite B. O genótipo da infecção viral deve ser determinado em todos os pacientes candidatos ao tratamento, pois, como veremos a seguir, a terapia é guiada de acordo com este dado. RESIDÊNCIA MÉDICA HOSPITAL UNIVERSITÁRIO PEDRO ERNESTO – UERJ Homem de 45 anos, hígido e sem antecedentes mórbidos, queixa-se de adinamia e fraqueza. Ele nega história de febre, emagrecimento ou anemia. Os exames realizados mostram glicemia = 89 mg/dl, creatinina = 0,8 mg/dl, TGO = 87 U/dl, TGP = 110 U/dl, proteína total = 7,5 g/dl, albumina = 3,5 g/dl e TAP com INR = 1,4. Nas sorologias realizadas, verificou-se HBsAg = não reagente, anti-HBs = reagente, anti-HBc = reagente, anti-HCV = reagente e anti-HAV IgG = reagente. Visando à definição diagnóstica do quadro, a melhor opção é solicitar: a) USG de fígado e vias biliares. b) FibroScan® hepático. c) PCR para vírus C. d) PCR para vírus B. TRÁTÁMENTO Façamos agora uma comparação do HIV com outro vírus: o vírus da hepatite C. Este último também é bastante mutagênico, diferente do vírus B. Isso explica alguns fatos: Amanda Souza Correa – RESUMO LMF/PBL OITAVO SEMESTRE É o vírus da hepatite que mais cronifica, por "escapar" do sistema imune do hospedeiro. Num paciente infectado, o genoma dos vírus C circulantes não é homogêneo. Na verdade, existe uma sequência dominante entre eles com uma região variável que se altera no curso da infecção. A essa população com sequência genética diferenciada damos o nome de quasispecies e, quanto maior a diversidade delas, menor a chance de responder ao tratamento; Não existe até hoje vacina eficaz contra a hepatite C (assim como também não existe contra o HIV): a mutagenicidade viral "escapa" da resposta imune vacinal!! O tratamento da hepatite C crônica não deve ser feito com monoterapia: pelo menos duas drogas devem pertencer ao esquema antivírus C. Felizmente, o vírus C não é tão mutagênico quanto o HIV e, com a terapia atualmente recomendada, existe uma alta chance de cura!!! INDICAÇÕES De acordo com o protocolo brasileiro para tratamento da hepatite C, a terapia fica indicada na presença da infecção águdá ou cro nicá pelo vírus, independentemente do estádiámento dá fibrose hepá ticá. Saber se o paciente tem fibrose avançada (F3) ou cirrose (F4) continua sendo importante, mas não para indicação, e sim por afetar o esquema de tratamento. Por outro lado, não devem receber a terapia: Crianças com idade inferior a três anos; Pacientes oncológicos com cirrose Child-Pugh B ou C, ou cuja expectativa de vida seja inferior a 12 meses, sem remissão da doença (nos casos de doença em remissão, a indicação de tratamento poderá ser individualizada); Pacientes adultos com cirrose descompensada e indicação de transplante hepático com MELD ≥ 20, ainda não submetidos a transplante hepático (caso o tempo de espera na fila para o transplante seja superior a seis meses, a indicação do tratamento medicamentoso poderá ser discutida individualmente); Pacientes cuja expectativa de vida for inferior a 12 meses, devido à hepatopatia e a outras comorbidades, os quais poderão ter a indicação de tratamento individualizada; Pacientes com hipersensibilidade ou intolerâncias que impossibilitem o uso de todas as alternativas terapêuticas. Á curá dá hepátite C ápo s o uso de medicámentos, ou mesmo ápo s soroconversá o espontá neá, ná o confere imunidáde. E, por meio de outrás exposiço es, á REINFECÇÁ O pelo ví rus C seriá possí vel. Mesmo ápo s á elimináçá o espontá neá do HCV ná fáse águdá ou ápo s á RVS, o páciente permánece sujeito á reinfecçá o, cáso mántenhá á exposiçá o áos fátores relácionádos á infecçá o. ESQUEMÁS TERÁPE UTICOS Ná decisá o sobre o melhor esquemá á utilizár, os pácientes que nuncá forám trátádos sá o designádos como "pácientes virgens de trátámento" (treatment-naive) e os portádores de histo rico de terápiá ántivirál, como "pácientes experimentádos com trátámento" (treatment-experienced). Ále m disso, pácientes com cirrose descompensádá (Child B e C) exigem átençá o especiál, devendo ser mánejádos em centros especiálizádos. Átençá o especiál támbe m deve ser dádá párá áqueles com disfunçá o renál gráve (Cl. Cr.