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PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO E DA APRENDIZAGEM UNIASSELVI-PÓS Autoria: Norma Lucia Neris de Queiroz Indaial - 2020 2ª Edição CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI Rodovia BR 470, Km 71, no 1.040, Bairro Benedito Cx. P. 191 - 89.130-000 – INDAIAL/SC Fone Fax: (47) 3281-9000/3281-9090 Reitor: Prof. Hermínio Kloch Diretor UNIASSELVI-PÓS: Prof. Carlos Fabiano Fistarol Equipe Multidisciplinar da Pós-Graduação EAD: Carlos Fabiano Fistarol Ilana Gunilda Gerber Cavichioli Jóice Gadotti Consatti Norberto Siegel Julia dos Santos Ariana Monique Dalri Marcelo Bucci Revisão Gramatical: Equipe Produção de Materiais Diagramação e Capa: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Copyright © UNIASSELVI 2020 Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. Q3p Queiroz, Norma Lucia Neris de Psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem. / Norma Lucia Neris de Queiroz. – Indaial: UNIASSELVI, 2020. 167 p.; il. ISBN 978-85-7141-434-1 ISBN Digital 978-85-7141-435-8 1. Psicologia educacional. - Brasil. Centro Universitário Leonar- do Da Vinci. CDD 370.15 Impresso por: Sumário APRESENTAÇÃO ............................................................................5 CAPÍTULO 1 BASES EPISTEMOLÓGICAS TEÓRICO-METODOLÓGICAS DA PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO E DA APRENDIZAGEM HUMANA ............................................................7 CAPÍTULO 2 TECENDO O OLHAR SOBRE O CICLO VITAL, PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM E PSICOPATOLÓGICOS VIVENCIADOS PELOS SUJEITOS EM SEU DESENVOLVIMENTO HUMANO ...................................................67 CAPÍTULO 3 CONTRIBUIÇÕES DAS NEUROCIÊNCIAS PARA O DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM HUMANA ................129 APRESENTAÇÃO Caro acadêmico. Para começar o nosso diálogo é importante dizer a você que é um grande prazer tê-lo, aqui, como estudante nesta disciplina. Para isso, foi traçado com o objetivo de construir ou ampliar seus conhecimentos sobre psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem humana, privilegiando as mudanças que ocorrem durante todo o ciclo vital humano, a vivência dos processos psicológicos e psicopatológicos, bem como as contribuições das neurociências para a aprendizagem. Assim, a relação entre Psicologia e Educação se constitui em uma temática relevante, conferindo ao campo educacional significativas contribuições na atualidade, especialmente com relação às mudanças vivenciadas no comportamento humano e na aprendizagem de uma pessoa ou de um grupo, a partir das dimensões: físicas, cognitivas e psicossociais, bem como as influências contextuais, incluindo as condições socioeconômicas, políticas, saúde, a formação acadêmica e profissional, os valores familiares, religiosos, étnicos, sexuais, culturais e do lugar em que reside, que são essenciais para dar continuidade ao desenvolvimento integral das pessoas e da sociedade de um modo geral. Durante toda a vida humana ocorrem mudanças no desenvolvimento e na aprendizagem. Aqui, elas foram abordadas em seu conjunto, considerando que refletem as exigências vivenciadas pela sociedade cada vez mais plural, mais complexa e sujeita a imprevistos, a emergências e ao inesperado, envolvendo diversos níveis da realidade socioeconômica, política e cultural. O caminho trilhado, nesta disciplina, foi discutir o conceito de Psicologia do desenvolvimento, somando a essa discussão algumas questões ligadas à aprendizagem escolar e aos avanços que a educação brasileira vem perseguindo, especialmente com relação à inclusão de todos os sujeitos na escola dos anos 1990 até nossos dias, isto é, a educação brasileira vem trabalhando em alguns momentos de forma mais intensa e, em outros, nem tanto para cumprir as metas assumidas na Conferência Mundial de Educação para Todos, em Jomtien, na Tailândia, com vistas à construção de uma sociedade livre, justa e igualitária, como determina a Constituição Federal, promulgada em 1988. Este livro foi organizado em três capítulos, subdivididos em seções com a intenção de facilitar seu estudo sobre os diversos temas trabalhados. Ao longo desses capítulos, você encontra, ainda, indicações de textos teóricos, artigos Comente sobre as capacidades científicos, vídeos e as atividades que devem ser feitas durante os momentos de estudos, cuja intenção é enriquecer sua aprendizagem. No primeiro capítulo, foram abordadas as bases epistemológicas teórico- metodológicas da Psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem humana, as quais procuram explicar como os sujeitos aprendem e se desenvolvem, a partir de diferentes concepções de mundo, de sociedade e de homem no contexto brasileiro. No segundo capítulo, o debate direcionou seu olhar para o ciclo vital, problematizando as condições e o lugar da infância, da juventude, do adulto e do idoso e as questões que interferem nos processos de desenvolvimento humano e da aprendizagem, bem como os processos psicopatológicos desses sujeitos e sua complexidade em nossa sociedade. Por fim, no terceiro e último capítulo, a discussão deu ênfase à neurociência e às contribuições dessa ciência para o desenvolvimento e a aprendizagem dos sujeitos humanos em processo de formação escolar. A partir dessas discussões e reflexões propostas, espera-se que você demonstre, ao final desta disciplina, seu aprendizado com relação à Psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem humana, especialmente, como desenvolvemos e como aprendemos do nascimento até à morte, bem como as neurociências contribuem para o desenvolvimento e a aprendizagem dos sujeitos escolares. Bons estudos e excelente aprendizagem! CAPÍTULO 1 Bases Epistemológicas Teórico- Metodológicas Da Psicologia Do Desenvolvimento E Da Aprendizagem Humana A partir da perspectiva do saber-fazer, são apresentados os seguintes objetivos de aprendizagem: • Conhecer as bases epistemológicas que procuram explicar como os sujeitos aprendem e se desenvolvem, a partir da concepção de mundo, de sociedade e de homem. • Interpretar os conceitos de desenvolvimento e de aprendizagem humanos como mudanças nas dimensões físicas, intelectuais, emocionais e sociais que fundamentam as diversas concepções discutidas e apresentadas. • Refletir acerca da influência da cognição e da afetividade sobre o desenvolvimento e a aprendizagem humanos. • Discutir as concepções teórico-metodológicas sobre desenvolvimento e aprendizagem para aprimorar sua atuação profissional e pessoal nos diferentes contextos educativos. 8 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem 9 Bases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da PsicologiaBases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da Psicologia Do Desenvolvimento E Da Aprendizagem HumanaDo Desenvolvimento E Da Aprendizagem Humana Capítulo 1 1 CONTEXTUALIZAÇÃO Estudar os referenciais da Psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem é de grande relevância no fortalecimento da formação acadêmica dos profissionais de educação, a qual poderá auxiliar na relação com pessoas, bem como enfrentar os desafios apresentados pela realidade social. Esse campo da psicologia tem a intenção de colaborar com estudantes e profissionais para compreenderem o comportamento humano, os processos mentais, os pensamentos, as emoções e o funcionamento das instituições, assim como contribuir para articular os arranjos e as soluções para os problemas que envolvem o bem-estar das pessoas no mundo, com os pares e consigo mesmo. Para começar a dialogar sobre a Psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem humana, objeto central desta disciplina, é importante trazer a conceituação de Psicologia Geral nos dias de hoje e algumas mudanças históricas. O termo Psicologia (Ψ) Ψυχολογία (Psyché + logia) é de origem grega. Psyché significa “alma ou mente” e logos (logia) quer dizer “discurso, palavra, conhecimento ou ciência”. Assim, a PsicologiaO questionário referente à pesquisa de campo foi aplicado em uma escola estadual de Londrina, localizada na região oeste, distante do centro da cidade. Participaram dessa pesquisa 22 estudantes matriculados no 4º ano e 18 do 5º ano do Ensino Fundamental I, os quais responderam às questões em sala de aula. Os estudantes residem em um bairro de médio porte econômico, e a maioria dos pais trabalha em fábricas próximas. A escolarização dos pais abrange o Ensino Fundamental e Médio, com algumas exceções, pois alguns, não concluíram a 1º e 2º anos do Ensino Fundamental. A conversa com os estudantes sobre o que mais valorizam na escola, teve como principais respostas as boas notas (quinze alunos) e a importância do professor (dez alunos). O interessante é que as boas notas (dez alunos) também foram consideradas o segundo elemento mais importante pelo ponto de vista do que os pais mais valorizam na escola, sendo que o primeiro foi o aprender (dezenove). Percebe-se na fala dos estudantes que pelo fato dos pais esperarem deles uma nota alta no fim do bimestre, o incentivo que eles têm para estudar se apoia principalmente na nota. Na escola, o objetivo dos estudantes é a busca por uma nota alta, sendo que o olhar desses estudantes para a importância da nota não é uma surpresa, uma vez que a escola se organiza historicamente para atingir esse objetivo. Entretanto, percebe-se, também, a importância que o professor tem para uma parte dos estudantes. Em suas respostas pode-se constatar que para eles o professor representa uma forte influência em seu aprendizado. Desse modo, como foi mencionado anteriormente, Souza (1986) afirma que a influência mais importante no processo educativo é a figura do professor; ele pode contribuir para modificações positivas no comportamento infantil. Outro aspecto relevante é que ao questionar os estudantes sobre o que o pai, a mãe ou outra pessoa faz que os deixa mais felizes, as respostas deles apontam para o carinho que recebem (vinte estudantes) e o tempo durante o qual ficam juntos (nove estudantes). Consequentemente, o que eles mais admiram nos professores dos quais mais gostam também é o carinho (dez estudantes) para com eles. Percebe-se assim o quanto esperam tanto dos pais quanto dos professores, que sejam carinhosos, pacientes e respeitosos. Isso pode ser verificado com base no gráfico a seguir, o qual traz as características de um bom professor na visão dos estudantes: 37 Bases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da PsicologiaBases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da Psicologia Do Desenvolvimento E Da Aprendizagem HumanaDo Desenvolvimento E Da Aprendizagem Humana Capítulo 1 GRÁFICO 1 – BOM PROFESSOR (VISÃO DOS ALUNOS) FONTE: Brust (2008, p. 34) Com base no gráfico anterior, destacam-se, entre as características de ser bom professor: a paciência (quinze estudantes) e as boas explicações (nove estudantes). Os estudantes esperam que o professor tenha paciência durante a aula, como ponto de grande valor para que haja reciprocidade entre ambos. Contrapostas às características de um bom professor, entre as principais atitudes dos professores dos quais não gostam, apontam o “brigar” (broncas) (dezenove estudantes) e o não ter paciência (sete estudantes) durante as aulas. Das falas dos estudantes, pode-se concluir que, na maioria dos casos, os professores esquecem-se de ouvir os estudantes, tornando-os meros recebedores de informações. As palavras dos estudantes deixam bem claro que a afetividade representa um aspecto importante no processo de aprendizagem, que tem como base o respeito mútuo, o diálogo e, principalmente, o carinho recíproco. Todos os estudantes que participaram da pesquisa disseram que gostam quando o professor conversa com eles, que gostam de conversar com o professor e de serem ouvidos por eles. Ao observar o gráfico a seguir, pode-se destacar o quanto os estudantes gostam de discutir sobre questões pessoais (doze estudantes), sobre dúvidas da aula (dez estudantes) e receber elogios das atividades desenvolvidas (sete estudantes). 38 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem GRÁFICO 2 – ASSUNTOS QUE OS ALUNOS GOSTAM DE CONVERSAR COM OS PROFESSORES FONTE: Brust (2008, p. 35) A conversa entre professor e estudantes é muito importante para o processo de aprendizagem. Segundo Woolfolk (2000, p. 47), é preciso que os professores estabeleçam limites claros, respeitem os estudantes e mostrem uma preocupação com o seu bem-estar. Como professor, ele deve oportunizar que seus estudantes conversem sobre problemas pessoais, suas ansiedades e suas dúvidas sobre os conteúdos e atividades solicitadas. Ao serem perguntados como expressam carinho por seus professores, responderam que expressam pelo comportamento: obediência (dez estudantes) e pelo respeito (dez estudantes). Retomando algumas reflexões sobre a importância da afetividade para o processo de aprendizagem formal, Rego (1995, p. 102) diz que “a escola desempenha um importante papel no desenvolvimento intelectual e conceitual dos estudantes”. Desse modo, as interações entre os estudantes e os professores é condição necessária para a produção de conhecimentos, permitindo o diálogo, a cooperação e as trocas de informações mútuas. Ainda sobre a mesma abordagem, Dantas (1994, p. 65) ressalta “a influência da afetividade na construção do conhecimento, no qual a aprendizagem depende do clima afetivo na sala de aula”. FONTE: . Acesso em: 30 jul. 2019. 39 Bases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da PsicologiaBases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da Psicologia Do Desenvolvimento E Da Aprendizagem HumanaDo Desenvolvimento E Da Aprendizagem Humana Capítulo 1 Indicamos o vídeo intitulado “Psicologia do Desenvolvimento - Aula 05 - Déficit Cognitivo e a dificuldade brasileira”, o qual se refere a uma aula ministrada pelo Prof. Dr. Ulisses Araújo (USP). Esse material está disponível no seguinte endereço eletrônico do YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=rQ_PhKLH_ fY&list=PLxI8Can9yAHdcP2d2gr1Kaw0jCyKV7jWB&index=5. 1 Solicitamos que assista ao seguinte vídeo no YouTube: https://www. youtube.com/watch?v=QWG7mjVbY30&list=PLxI8Can9yAHdcP 2d2gr1Kaw0jCyKV7jWB&index=4. Após assistir, elabore uma produção escrita que apresente uma visão da relação entre cognição e afetividade. R.:____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 40 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem 5 CONCEPÇÕES TEÓRICO- METODOLÓGICAS PARA O DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM HUMANA As concepções teórico-metodológicas são modos de interpretar a relação sujeito-ambiente que derivam das diversas tomadas de posições epistemológicas com relação ao sujeito, ao meio e à cultura. Buscou-se, nesta seção, oferecer-lhe um texto com um corpo sistematizado de ideias para subsidiar sua aprendizagem e influenciar positivamente sua práticapedagógica. Assim, apresentam-se as principais concepções teórico-metodológicas da Psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem para que você compreenda como o homem se desenvolve e aprende com e sobre os objetos, com o mundo, com a sociedade, com os pares e sobre si mesmo. São elas: inatista ou apriorista, ambientalista ou empirista e interacionista ou sociointeracionismo. 5.1 CONCEPÇÃO INATISTA OU APRIORISTA O inatismo ou apriorismo fundamenta-se na concepção de ser humano inspirada na filosofia racionalista e idealista. Nesta perspectiva, o racionalismo defende que o conhecimento só pode ser alcançado por intermédio da razão, já que esta é inata, imutável e igual em todos os homens. Já no idealismo, “o real é confundido com o mundo das ideias e significados” (NUNES, 1986, p. 25). Assim, a consciência é considerada a base e não o produto da atividade humana, nada existe fora do homem. O mundo real é um mero fenômeno da consciência. Para os inatistas, segundo Davis e Oliveira (1994, p. 27), o homem já nasce pronto, ou seja, ele nasce com as possibilidades de adquirir conhecimentos, uma vez que essas condições são herdadas, inatas e predeterminadas geneticamente, por exemplo, a “inteligência é transmitida dos pais para os filhos”. Traduzindo os fundamentos dessa concepção, Davis e Oliveira (1994, p. 27) afirmam, ainda, que para os inatistas, as “qualidades e as capacidades básicas de cada ser humano – sua personalidade, seus valores, suas crenças, sua forma de pensar e suas reações emocionais – já se encontravam basicamente prontas ao nascer”, ou seja, os sujeitos, ao nascer, já se encontravam praticamente “prontos” 41 Bases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da PsicologiaBases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da Psicologia Do Desenvolvimento E Da Aprendizagem HumanaDo Desenvolvimento E Da Aprendizagem Humana Capítulo 1 ou potencialmente definidos com dons e aptidões que serão desenvolvidos de acordo com o amadurecimento biológico. Com isso, apesar de o ser humano ser dotado de dons divinamente justificáveis e inserido em uma sociedade harmônica, hierarquizada, ele é impossibilitado de realizar mudanças em seus dons e potencialidades, embora o discurso liberal afirme o contrário, isto é, o sujeito não tem possibilidades de mudanças, não age efetivamente e não recebe interferências significativas do ambiente social. Os inatistas afirmam, ainda, que o sujeito sofre pouca ou quase nenhuma transformação do meio ambiente em seu desenvolvimento humano e na aprendizagem. Portanto, o destino individual de cada sujeito é determinado antes mesmo do nascimento, ou seja, as possibilidades de o sujeito aprender, de tornar-se inteligente e de ser criativo entre outras habilidades são herdadas, principalmente, quando esse sujeito tem interesse de aprender “coisas”. Nesse caso, as implicações educacionais que essa concepção nos traz são conhecidas e representam àquelas argumentações recorrentes de que o estudante pode ou não ter aptidões para aprender a lidar com conteúdos escolares ou de que há necessidade de esperar o desenvolvimento biológico e a maturação dele para que determinados conhecimentos sejam ensinados e aprendidos. Por muito tempo se justificou com esse argumento da maturidade a idade de sete anos para a criança ingressar na escolarização obrigatória. Cabe ao professor organizar seu planejamento de ensino com vistas a despertar o potencial que existe dentro do estudante. Assim, essa concepção não acredita em mudanças do ser humano. Portanto, o sucesso ou o fracasso do estudante é atribuído, única e exclusivamente à falta de desempenho, de aptidão, de dom ou de maturidade (REGO, 1996). “O professor, imbuído de uma epistemologia apriorista – inconsciente, na maioria das vezes – renuncia àquilo que seria um dos elementos essenciais de sua ação docente: a intervenção no processo de aprendizagem do aluno” (NEVES; DAMIANI, 2006, p. 4). 42 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem Epistemologia apriorista sustenta o modelo pedagógico. É, também, denominada de apriorista. A palavra apriorista é derivada da expressão a priori e significa “aquilo que é posto antes”, no caso em questão, o conhecimento foi posto anteriormente, portanto geneticamente herdado (NEVES; DAMIANI, 2006, p. 4). Becker (1993) destaca que cabe à educação escolar, nessa concepção, despertar o conhecimento que está dentro do estudante para que ocorra a formação dele como o homem que assegurará a manutenção do status quo da sociedade em que ele está inserido. Nesse caso, o professor pode definir os conteúdos de forma unidirecional, assumindo a centralidade do processo educacional. Ao contrário de outras concepções, nas quais o professor, os estudantes e a comunidade educacional atuam uns sobre os outros de forma que cada um vai transformando ativamente suas ações sobre os outros. Assim, observa-se que essa concepção pode facilitar determinadas ideologias que não consideram a diversidade dos sujeitos, marginalizando e rotulando esses indivíduos, argumentando que eles não se desenvolvem e não aprendem devido exclusivamente por suas dificuldades pessoais e da falta de condições de suas famílias. 5.2 CONCEPÇÃO AMBIENTALISTA, EMPIRISTA OU COMPORTAMENTALISTA A concepção ambientalista tem sua origem no empirismo, ou seja, privilegia o meio ambiente, por isso é chamada de ambientalista. Os pesquisadores ambientalistas, ao contrário dos inatistas, consideram que a pessoa está sujeita às contingências do meio ambiente, sendo o conhecimento uma cópia de algo dado no mundo externo. Nesse sentido, o sujeito se constitui a partir das influências do meio, de suas experiências, as quais dão origem a determinados comportamentos por esse meio, como destacam Raposo e Queiroz (2008). Por outro lado, a inspiração dessa concepção foi a Filosofia empirista, na qual a experiência é a fonte de conhecimento que vai originando determinados 43 Bases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da PsicologiaBases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da Psicologia Do Desenvolvimento E Da Aprendizagem HumanaDo Desenvolvimento E Da Aprendizagem Humana Capítulo 1 comportamentos. Assim, essa concepção ficou conhecida como empirista, behaviorista ou comportamentalista. Os representantes teóricos dessa concepção atribuem, exclusivamente, ao ambiente a constituição das características humanas. Com isso, privilegia a experiência como fonte de conhecimento e de formação de valores e hábitos comportamentais. Essa concepção se preocupa, ainda, em explicar os comportamentos observáveis do estudante, desprezando a análise de outros aspectos da conduta humana, como o raciocínio, o desejo, a imaginação, os sentimentos, a fantasia, entre outros. Defende, ainda, a necessidade de medir, comparar, testar, experimentar e controlar o comportamento. A expressão dessa concepção na educação é a organização de um espaço educacional munido com um grande número de informações e programas educacionais que produzem transformação, correção e estimulação do estudante, a partir do uso programado de técnicas e metodologias entendidas como adequadas à aprendizagem dos estudantes, pois estes, ao chegarem à escola, são uma tábula rasa, cujas impressões do mundo foram fornecidas pelos órgãos dos sentidos e associadas umas às outras, dando lugar ao conhecimento (GIUSTA, 1985). Se o professor acredita que a capacidade individual dos estudantes esteja vinculada a uma tendência natural, oriunda de características genéticas ou de um interesse pessoal, e sobre as quais pouco pode alterar, então, é possível que este professor conceba o desenvolvimento e a aprendizagem a partir de uma concepção inatista, como discutimos na seção anterior. Por outro lado, se o professor considerar que a aprendizagem e as dificuldades dos estudantes não estão associadas aos estudantes, mas à escola e ao trabalho pedagógico,talvez sua concepção de desenvolvimento e aprendizagem seja a ambientalista ou empirista. Nessa perspectiva, cabe ao professor interferir e disponibilizar ao estudante o conhecimento socialmente construído, de forma que ele tenha condições de ir assimilando essas informações e reproduzi-las corretamente. Geralmente, o fracasso ou o sucesso na escola estão muito mais relacionados às contingências de reforço que o estudante teve ao longo de sua vida escolar do que a sua ‘capacidade natural’, como ressaltam Raposo e Queiroz (2008). 44 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem Vygotsky e as teorias da aprendizagem As diferentes abordagens teóricas De acordo com as diferentes abordagens teóricas, a concepção ambientalista é chamada também de empirismo, behaviorista ou comportamentalista. Nas palavras de Giusta (1985, p. 26), a aprendizagem, nessa concepção, pode ser compreendida como: [...] as investigações empiristas em Psicologia, ou seja, as investigações com base no pressuposto de que todo conhecimento provém da experiência. Isso significa afirmar o primado absoluto do objeto e considerar o sujeito como uma tábula rasa, uma cera mole, cujas impressões do mundo, formadas pelos órgãos dos sentidos, são associadas umas às outras, dando lugar ao conhecimento. O conhecimento é, portanto, uma cadeia de ideias atomisticamente formada, a partir do registro dos fatos e se reduz a uma simples cópia do real. Nessa concepção, as características individuais são determinadas por fatores externos ao indivíduo. Igualmente, desenvolvimento e aprendizagem se confundem e ocorrem simultaneamente. Essa maneira de se conceber o conhecimento influenciou amplamente teorias psicológicas e pedagógicas, que se traduziram em concepções de ensino e aprendizagem também empiristas. Em decorrência de sua base epistemológica, tais investigações formam o corpo do que se chama associacionismo, cuja expressão mais imponente é o behaviorismo, teoria psicológica derivada da concepção empirista, que, por exemplo, tinha como meta a construção de uma “psicologia científica”, livre da introspecção e fundada numa metodologia “materialista”, que lhe garantisse a objetividade das ciências da natureza. Nessa concepção, ganha sentido a definição de aprendizagem como mudança de comportamento resultante do treino ou da experiência. Nesse conceito, a dissolução entre sujeito e conhecimento é evidente. O primeiro é, de fato, aquela tábula rasa e, por isso, a aprendizagem é identificada com condicionamento (GIUSTA, 1985). Como consequência da corrente empirista, o processo ensino e aprendizagem é centrado no professor, que organiza as informações 45 Bases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da PsicologiaBases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da Psicologia Do Desenvolvimento E Da Aprendizagem HumanaDo Desenvolvimento E Da Aprendizagem Humana Capítulo 1 do meio externo, que deverão ser internalizadas pelos alunos, sendo esses apenas receptores de informações e do seu armazenamento na memória. O modelo de ensino é fechado, acabado, livresco, no qual a noção de conhecimento consiste no acúmulo de fatos e informações isoladas, imerso em simbolismos, quadros cheios de cálculos e fórmulas ou definições a serem memorizadas sem significado real, numa concepção de memória associacionista/ empirista, em que fatos são armazenados por associação e, quando necessário, recuperados. Há uma preocupação excessiva em organizar o ensino, baseando-se na ideia de que “ensinando bem” o aluno aprende. Todo o conhecimento está fora do sujeito, portanto, no professor e nos livros. De acordo com as ideias de Becker (1993), na aula fundada nessa concepção epistemológica, o professor fala e o aluno escuta; o professor dita e o aluno copia; o professor decide o que fazer e o aluno executa; o professor ensina e o aluno aprende. Por que o professor age assim? Porque ele acredita que o conhecimento pode ser transmitido para o aluno. Ele acredita no mito da transmissão do conhecimento, enquanto forma ou estrutura, não só enquanto conteúdo. Isso ocorre porque para ele, o indivíduo, ao nascer, nada tem em termos de conhecimento: é uma folha de papel em branco, ou, conforme já referido, uma tábula rasa. Portanto, o conhecimento vem do meio físico e/ou social; de fora para dentro. Nas exatas palavras de Becker (1993, p. 19), o professor: No seu imaginário, ele, e somente ele, pode produzir algum novo conhecimento no aluno. O aluno aprende, se, e somente se, o professor ensina. O professor acredita no mito da transferência do conhecimento: o que ele sabe, não importa o nível de abstração ou de formalização, pode ser transferido ou transmitido para o aluno. Tudo que o aluno tem a fazer é submeter-se à fala do professor: ficar em silêncio, prestar atenção, ficar quieto e repetir tantas vezes quantas forem necessárias, escrevendo, lendo etc, até aderir em sua mente o que o professor deu. O impacto da abordagem ambientalista na educação pode ser verificado nos programas educacionais elaborados com o objetivo de estimular e intervir no desenvolvimento dos sujeitos provenientes das camadas populares ou compensar, de forma assistencialista, as carências sociais dos alunos. Nesses casos, o que está subjacente é a ideia de que a escola tem, não somente o poder de transformar o indivíduo, como também a incumbência de corrigir os problemas sociais. Aqui, os papéis do ensino e da escola são supervalorizados, 46 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem já que o estudante é um receptáculo vazio. O compromisso da escola é com a transmissão da cultura e a modelagem comportamental dos estudantes. Valoriza-se o trabalho individual, a atenção, a concentração, o esforço e a disciplina, como garantias para a apreensão do conhecimento (REGO, 2002). FONTE: . Acesso em: 30 jul. 2019. Analisando as concepções estudadas até o momento, observa-se que elas partem de bases epistemológicas distintas. No entanto, do ponto de vista pedagógico, ambas concepções podem resultar em práticas bastante semelhantes, como centralizam o processo de ensino e aprendizagem no professor e os estudantes não são convidados a participar do planejamento de sua sala de aula nem da escola, apesar do estudante trazer latente o conhecimento dentro de si (dom) no inatismo e do conhecimento encontrar-se fora do estudante, como na concepção ambientalista. Por fim, se o professor acredita que a aprendizagem está relacionada à interação ativa do estudante com o conhecimento e com o outro social (professores, colegas mais experientes, pais, irmãos, adultos etc), talvez sua concepção seja a interacionista (RAPOSO; QUEIROZ, 2008). É interessante ressaltar que a interação ativa do estudante está sendo entendida como o processo no qual o estudante tenha a oportunidade de ter acesso à informação, conhecer a história de sua produção, compreender seu significado social, estabelecer relação com a sua história e com os conhecimentos prévios que tinha a esse respeito, construir e reconstruir o conhecimento a partir dessa interação. Sugerimos que assista ao filme Gattaca. Esse filme se passa em uma sociedade imaginária, na qual o conhecimento sobre o funcionamento dos genes está muito avançado. Assim, é possível fazer uma completa avaliação das predisposições genéticas de cada indivíduo. Acreditamos que por meio dessa ficção você poderá refletir sobre como o pensamento dessa sociedade expressa a dicotomia entre a determinação inatista versus a determinação ambiental do comportamento. Acesse o filme indicado no endereço a seguir: https://www.youtube.com/watch?v=mV40nDD7gDk. 47 Bases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da PsicologiaBases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da Psicologia Do Desenvolvimento E Da AprendizagemHumanaDo Desenvolvimento E Da Aprendizagem Humana Capítulo 1 5.3 CONCEPÇÃO INTERACIONISTA OU SOCIOINTERACIONISTA A última concepção é a chamada interacionista ou sociointeracionista ou ainda socioconstrutivista/histórico cultual. Por que ela é chamada assim? Porque do ponto de vista dessa concepção, o sujeito se constitui historicamente nas interações com o meio, com os objetos e, principalmente, com as outras pessoas. Nesse sentido, o desenvolvimento ocorre dinamicamente, durante toda a vida da pessoa, de forma que o homem, o mundo e a sociedade vão se transformando ativamente pela ação de uns aos outros. Assim, a educação, nessa concepção, exerce um papel fundamental no desenvolvimento humano. No entanto, ela não acontece de forma unidirecional. Ao contrário, professor, estudantes e comunidade educacional atuam uns sobre os outros, de forma que cada um deles vai ativamente transformando suas ações internamente. Entraremos, agora, em contato com duas abordagens que representam, na atualidade educacional, significativos marcos referenciais, expressos em processos de aprendizagem e concepções de desenvolvimento humano interacionista, sociointeracionista e socioconstrutivista/histórico-cultural. Para os interacionistas, o processo de construção de conhecimentos (aprendizagem) acontece por meio das relações sociais estabelecidas no contexto escolar e em outros lugares. Tratando-se da escola, as metodologias de ensino devem criar situações coletivas que promovam aprendizagem, resolvam conflitos, problemas e desafios nas tarefas, de forma que o estudante possa construir o conhecimento ativa e interativamente. Então, é possível compreender que, dependendo da concepção de desenvolvimento e aprendizagem adotadas, o professor elabora atividades pedagógicas de formas diferenciadas ou não. Subjacente a essas atividades, está presente – implícita ou explicitamente, de forma articulada ou não, consciente ou não – um referencial teórico vinculado com o tipo de mundo que queremos ter, o tipo de homem que queremos formar para contribuir na construção desse mundo e dessa sociedade e o tipo de educação que embasará o desenvolvimento desse homem. Se a aprendizagem for relacionada à interação ativa do estudante com o conhecimento e com outro social (professores, colegas, pais, irmãos etc.), talvez a sua concepção seja a interacionista. É importante ressaltar que o termo interação 48 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem ativa está sendo entendido como um processo, no qual o estudante tenha a oportunidade de ter acesso à informação, conhecer a história de sua produção, entender seu significado social, estabelecer relação com a sua história e com os conhecimentos prévios que tinha a esse respeito, construir e se reconstruir a partir dessa interação. Na concepção interacionista, as principais teorias com essa base epistemológica são o construtivismo de Jean Piaget e a abordagem sócio-histórica de Lev Vygotsky. Em ambas teorias, a concepção de homem é analisada como um processo ativo de contínua interação com o meio social, procurando entender que mecanismos mentais o homem usa para entender o mundo e a sociedade. 5.4 ABORDAGEM CONSTRUTIVISTA A abordagem construtivista de Piaget apresenta uma visão de desenvolvimento humano, visto que na relação entre homem e mundo não existe ênfase em nenhum dos polos, mas na interação entre eles. Seu principal representante foi o suíço Jean Piaget (1896-1980) e seus trabalhos tiveram grande difusão no Brasil em curso de Licenciatura para formação de professores e pedagogos. 5.4.1 Quem foi Jean Piaget? Jean Piaget nasceu na cidade de Neuchâtel (Suíça) em 9 de agosto de 1896 e morreu em 17 de setembro de 1980. Especializou-se em Psicologia evolutiva e também no estudo de epistemologia genética. Seus estudos revolucionaram a educação, pois derrubou várias visões e teorias tradicionais relacionadas à aprendizagem. Piaget fez pesquisas sobre as características do pensamento infantil com crianças francesas e também com deficientes mentais. No ano de 1921 escreveu suas primeiras teorias pedagógicas. Foi diretor do Instituto Jean-Jacques Rousseau, na Suíça, e lecionou Psicologia infantil na Universidade de Genebra. As ideias de Piaget estão presentes em diversas propostas educacionais do mundo todo. Suas teorias buscam implantar nos espaços de aprendizagem uma metodologia inovadora que busca formar cidadãos criativos e críticos. De acordo com suas teorias, o professor não deve apenas ensinar, mas sim orientar os educandos no caminho da aprendizagem autônoma. 49 Bases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da PsicologiaBases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da Psicologia Do Desenvolvimento E Da Aprendizagem HumanaDo Desenvolvimento E Da Aprendizagem Humana Capítulo 1 QUADRO 1 – PRINCIPAIS OBRAS DE PIAGET (1923-1959) Obras de Piaget Obras de Piaget A Linguagem e o Pensamento na Criança (1923) O Juízo e o Raciocínio na Crian- ça (1924). A representação do mundo na crian- ça (1926) A causalidade física na criança (1927) O julgamento moral na criança (1931) O desenvolvimento das quantidades físicas (1941) A gênese do número (1941) A noção de tempo na criança (1946) A geometria espontânea na crian- ça (1948) A representação do espaço na crian- ça (1948) Da lógica da criança à lógica do ado- lescente (1955) A gênese das estruturas lógicas ele- mentares (1959) FONTE: A autora Piaget se preocupou, principalmente, com a gênese do conhecimento e mostra o homem em um processo ativo em contínua interação com o meio social, procurando entender quais os mecanismos mentais que ele usa nas diferentes etapas da vida para entender o mundo. Nessa abordagem se encontra a noção de desenvolvimento humano por fases que se inter-relacionam e se sucedem até que atinjam estágios de inteligência caracterizados por maior mobilidade e estabilidade. Os trabalhos de Jean Piaget, portanto, giraram em torno da construção de uma epistemologia genética capaz de mostrar como o conhecimento se desenvolve, desde as estruturas mentais rudimentares do recém-nascido até o pensamento lógico-formal do adulto. Ele explicou como e em função de que essas estruturas iniciais se transformam, dando lugar a outras mais complexas. Piaget entende que o sujeito herda uma série de estruturas biológicas (sensoriais e neurológicas) que amadurecem em contato com o ambiente e predispõem o surgimento de certas estruturas mentais. Dessa forma, para o autor, não herdamos inteligência, mas um organismo que vai amadurecer em contato com o meio e resultará na formação de estruturas cognitivas que ampliarão a possibilidade do sujeito de interpretação da realidade. Nesta perspectiva, as estruturas que dão origem à inteligência não são inatas, mas construídas pelo sujeito com o meio ambiente. Piaget refere-se às estruturas cognitivas como esquemas, ou seja, unidades básicas de pensamento que correspondem à estrutura que mudou e se adaptou. Esses esquemas não são estáticos, mas da mesma forma que as unidades estruturais biológicas, são dinâmicos e variados em seu conteúdo. 50 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem A transformação das estruturas biológicas do ser humano em esquemas se dá por meio do processo de equilibração. Nesse processo, o ambiente físico ou social coloca a pessoa diante de questões que rompem seu estado de equilíbrio mental, ou seja, questões nas quais ele ainda não consegue compreender completamente. Para Piaget, o sujeito tem uma tendência natural ao equilíbrio, o organismo se mobilizará internamente para alcançar novamente seu estado de equilíbrio. Nessa movimentação, os esquemas são reorganizados ou novos esquemas são construídos, possibilitando uma ampliação da possibilidade de interpretação ou adaptação da realidade (RAPOSO; QUEIROZ, 2008). Para exemplificar como se dá o desenvolvimento na ótica de Piaget,pensaremos juntos em uma situação hipotética, em que uma pessoa que já sabe andar em bicicletas simples se depara agora com um triciclo com marchas e mais complexo. A pessoa precisa andar nesse triciclo, e agora? Será que vai conseguir desenvolver um comportamento mais adaptativo? No primeiro momento, ela agirá com o triciclo da mesma forma como anda em bicicletas simples. Ela estará usando o processo de assimilação, isto é, tentará solucionar a nova situação com base nos esquemas mentais que possui. Esse processo é importante, poderá ajudar a pessoa, mas não será eficiente, pois as estruturas são insuficientes para esse novo elemento. A pessoa tentará, então, novas maneiras de agir, levando em consideração as propriedades específicas do triciclo. Em outras palavras, modificará seus esquemas mentais para poder dominar a nova situação que precisa enfrentar pelo processo de acomodação. A partir de novas estratégias (leitura do manual, informações de outras pessoas com experiências em triciclo, marchas e outras informações) a pessoa dominará adequadamente o novo triciclo, diremos que se adaptou às novas exigências da realidade e, portanto, desenvolveu-se. Piaget (1999b) explica, ainda, que essa movimentação interna se dá pelo processo de adaptação. Nesse processo, o sujeito em desequilíbrio procura utilizar os esquemas mentais da forma em que estão inicialmente organizados – processo de assimilação. Não conseguindo responder à demanda social (por isso encontra-se em estado de desequilíbrio), o organismo busca reorganizar ou construir novos esquemas mentais – processo de acomodação. Dessa forma, o sujeito vai atingindo formas de equilíbrio cada vez melhores e sua capacidade de interpretação e atuação na realidade é ampliada, o que significa, para o autor, desenvolvimento. Com isso, Piaget analisou como o sujeito, de diferentes faixas etárias e formas, interage com o ambiente. A essas diferentes maneiras de interagir, de agir e de pensar do sujeito, o autor propôs os estágios de desenvolvimento e aprendizagem. 51 Bases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da PsicologiaBases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da Psicologia Do Desenvolvimento E Da Aprendizagem HumanaDo Desenvolvimento E Da Aprendizagem Humana Capítulo 1 5.5 ESTÁGIOS DE DESENVOLVIMENTO HUMANO E APRENDIZAGEM PROPOSTOS POR PIAGET Piaget (1999a) propôs que o desenvolvimento se inicia no estágio sensório- motor a partir do equipamento inicial (reflexos inatos), que vai gradualmente se transformando em esquemas sensoriais motores rudimentares. Tais esquemas incluem ações motoras explícitas, que serão interiorizadas gradualmente e caminharão para um desligamento progressivo da ação para a formação de esquemas conceituais, que supõe a ação mental. Nesse estágio, portanto, a percepção que a criança de 0 a 2 anos de idade tem do mundo é baseada em seus aspectos sensoriais e motores. A fase seguinte é o estágio pré-operacional, que corresponde à faixa etária que vai dos 2 aos 7 anos de idade aproximadamente. Nesse estágio, a criança formará esquemas simbólicos, ou seja, ela já consegue representar uma coisa por outra (brincadeira de faz de conta). Esses esquemas representam as cópias internalizadas dos esquemas sensório-motores, isto é, ela passa do pensamento explícito – motor – para o pensamento interiorizado – mental. Nessa fase, a criança inventa suas próprias explicações a respeito dos fenômenos da realidade como um exercício mental do que construiu com seus esquemas sensório-motores. Piaget definiu como terceira fase o estágio operacional concreto. Nele, os conhecimentos a respeito da realidade externa adquiridos na fase anterior (pré-operacional) são gradualmente transformados em verdadeiros esquemas conceituais. Isso significa que neste estágio (operacional concreto) a criança dos 7 aos 11 anos de idade já forma esquemas conceituais e já trabalha com eles de acordo com os princípios da lógica, mas depende da existência dos objetos do mundo exterior. Já no estágio das operações formais é que a criança atinge os objetivos básicos de seu desenvolvimento mental, seja pensar abstratamente ou pensar sobre situações hipotéticas de modo lógico e organizar regras em estruturas mais complexas. Será, portanto, na adolescência que o sujeito será capaz de conceituar termos, como bondade, amizade, Deus, entre outros. É importante ressaltar que, segundo o autor, as novas estruturas que vão surgindo em cada um desses estágios não desaparecem. “O essencial dessas construções sucessivas permanece no decorrer dos estágios ulteriores, como 52 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem subestruturas sobre as quais se edificam as novas características” (PIAGET, 1999a, p. 79). A partir dessa ideia, é possível entender o que Piaget (1999a) definiu por processo de aprendizagem. Para o autor, a aprendizagem é um processo de construção ativa do sujeito, no qual o sujeito constrói seus próprios conhecimentos quando colocado em situações de desequilíbrio mental. Nessa situação, o sujeito tentará explicar o fenômeno estudado a partir de seus conhecimentos prévios e, em um processo de tentativa de acerto e erro, irá construindo novas hipóteses pessoais. Errar, portanto, ganha um significado diferenciado daquele conhecido na escola tradicional, uma vez que representa uma etapa obrigatória do processo de construção de conhecimentos. Será exatamente a partir das respostas erradas construídas no processo de adaptação que o professor poderá atuar para conduzir o estudante a novos desequilíbrios mentais e construção de novos esquemas, provocando, assim, o desenvolvimento e a aprendizagem. Após essa discussão, parece ter ficado mais fácil sistematizarmos as contribuições dessa abordagem para a educação. No que se refere ao processo educacional, torna-se fundamental que o estudante tenha a oportunidade de viver situações que sejam desequilibradoras, de forma que seja possível a construção progressiva das noções e operações. Tais situações, no entanto, devem considerar tanto o aspecto intelectual como o aspecto moral, uma vez que, segundo Piaget (1999a, p. 69): Não se pode formar personalidades autônomas no domínio moral se por outro lado o indivíduo é submetido a um constrangimento intelectual de tal ordem que tenha de se limitar a aprender por imposição sem descobrir por si mesmo a verdade: se é passivo intelectualmente, não conseguiria ser livre moralmente. Reciprocamente, porém, se a sua moral consiste exclusivamente em uma submissão à autoridade adulta, e se os únicos relacionamentos sociais que constituem a vida da classe são os que ligam cada aluno individualmente a um mestre que detém todos os poderes, ele também não conseguiria ser ativo intelectualmente. O objetivo da educação, portanto, não será somente a transmissão de conhecimentos, mas o desenvolvimento da autonomia intelectual que possibilite ao estudante aprender, por si próprio, a construir o conhecimento. Além disso, é fundamental que a educação se organize de forma que haja um equilíbrio nas relações interindividuais, de forma que se crie condições de cooperação, colaboração, trocas e intercâmbio entre as pessoas, ao invés de uma relação reguladora. 53 Bases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da PsicologiaBases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da Psicologia Do Desenvolvimento E Da Aprendizagem HumanaDo Desenvolvimento E Da Aprendizagem Humana Capítulo 1 5.6 A ESCOLA, O ENSINO E O PROFESSOR A escola, nessa perspectiva, deve organizar-se de forma que o estudante tenha uma atividade intelectual baseada em ações, investigações e pesquisas orientadas. Para isso torna-se fundamental que ela possibilite tentativas de ensaios e erros com base em uma atividade real. É importante, também, que os estudantes tenham liberdade de agruparem- se espontaneamente e que os temas a serem pesquisados constituam problemasde seu interesse. No que se refere ao ensino nessa direção, a relevância encontra-se na atividade do sujeito. Dessa forma, o ensino deve possibilitar, também, a descoberta dos fundamentos do conhecimento, fazendo com que os estudantes despertem o interesse pela aprendizagem que estão construindo. Ao professor, cabe o papel de criar situações, nas quais se possam estabelecer reciprocidade intelectual e cooperação moral e racional. Para isso precisa evitar a rotina e a fixação de resposta e hábitos. Ele será o provocador dos desequilíbrios e deverá orientar o estudante sem oferecer-lhes as soluções, dando-lhes ampla margem de autocontrole e autonomia. O professor, portanto, deve assumir o papel de investigador, pesquisador, orientador e coordenador, levando o aluno a trabalhar o mais independente possível. Piaget (1999b, p. 88) afirma que “o trabalho do professor se torna fundamental, quando ele deixa de ser um conferencista e estimula a pesquisa e o esforço dos estudantes, em lugar de contentar-se em transmitir a resolução para problemas já solucionados”. O autor afirma, ainda, que a inteligência se constrói a partir de excelentes estratégias pedagógicas, as quais enfatizam a troca do organismo com o meio, por meio das ações do sujeito do indivíduo e especialmente, o trabalho em equipe. Essa última estratégia não só é uma condição para o desenvolvimento mental individual na construção da autonomia do sujeito, como também poderá servir para a superação do egocentrismo natural do comportamento humano, que só ocorre quando há conflitos provenientes de interesses individuais diferentes. Sugere-se que o professor estimule agrupamentos autônomos entre os estudantes, para que o mecanismo social do respeito mútuo, da troca de informações e pontos de vista e da cooperação possam ser desenvolvidos. 54 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem 6 ABORDAGEM SOCIOINTERACIONISTA Ainda com base na concepção teórica interacionista de desenvolvimento humano, Raposo e Queiroz (2008) apresentam a teoria de Vygotsky, que trabalha com a noção de que a relação do homem com o mundo não é uma relação direta, mas mediada por instrumentos e signos. Para Vygotsky (1998), o sujeito constrói ao longo de sua história representações mentais que substituem os objetos do mundo real – os signos. Tais signos passam a ser compartilhados pelo conjunto dos membros do grupo social, permitindo a comunicação entre os indivíduos e o aprimoramento da interação social. O professor e pesquisador Lev S. Vygotsky nasceu em Orsha, pequena cidade da Bielorrúsia, no ano de 1896 e faleceu em 1934, em decorrência da tuberculose, com 37 anos de idade. Sua teoria tem por base o desenvolvimento do indivíduo como resultado de um processo sócio-histórico, enfatizando o papel da linguagem e da aprendizagem nesse desenvolvimento. Sua questão central é a aquisição de conhecimentos pela interação do sujeito com o meio. Esse autor russo se dedicou a estudar, prioritariamente, as funções psicológicas superiores, chamadas, também, de processos mentais. Tais funções são desenvolvidas permanentemente ao longo da história do sujeito por meio de sua interação com uma determinada cultura em um determinado momento histórico (VYGOTSKY, 1984). FIGURA 4 – LEV VYGOTSKY FONTE: . Acesso em: 29 out. 2019. 55 Bases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da PsicologiaBases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da Psicologia Do Desenvolvimento E Da Aprendizagem HumanaDo Desenvolvimento E Da Aprendizagem Humana Capítulo 1 Funções psicológicas superiores representam a capacidade estritamente humana de pensar em objetos ausentes, imaginar eventos nunca vividos ou planejar ações a serem realizadas em momentos posteriores, de maneira intencional e voluntária (VYGOTSKY, 1984, p. 23). Outro conceito relevante que se torna o centro da explicação vygotskyana diz respeito à mediação. Ele é reconhecido como um processo essencial que possibilita a realização de atividades psicológicas voluntárias, intencionais e controladas pelo próprio sujeito. É importante compreender, também, o conceito de internalização. Para Vygotsky (1998), ao longo do desenvolvimento humano, cada sujeito utiliza marcas externas, as quais vão se transformando em processos internos, ou seja, o sujeito constrói ao longo de sua história representações mentais que substituem os objetos do mundo real. Esse mecanismo é chamado de internalização. Para ele, essa capacidade de lidar com representações que substituem o próprio real é que possibilita ao homem libertar-se do espaço e do tempo presentes, fazer relações mentais na ausência das próprias “coisas”, imaginar, fazer planos e ter intenções. Com base em sua teoria, Vygotsky (1984) ressalta que ao longo da história da espécie humana, os signos passam a ser compartilhados pelo conjunto dos membros do grupo social, permitindo a comunicação entre os indivíduos e o aprimoramento da interação social. Os sistemas de representação da realidade, portanto, são socialmente dados, ou seja, “é o grupo cultural, com o qual o indivíduo se desenvolve que lhe fornece o modo de perceber e organizar o real, que vai constituir os instrumentos psicológicos que fazem a mediação entre o indivíduo e o mundo” (OLIVEIRA, 1993, p. 37). Nesse sentido, a interação face a face entre sujeitos particulares desempenha um papel fundamental na construção do ser humano: é por meio da relação interpessoal concreta com outros homens que o sujeito vai chegar a interiorizar as formas culturalmente estabelecidas de funcionamento psicológico. Entretanto, o processo pelo qual o sujeito internaliza as informações, conceitos e significados culturais não é um processo de assimilação passiva, mas de transformação e síntese. Tal processo ocorre num constante movimento de recriação e reinterpretação, no qual cada sujeito é ativo e cria significados para a interação entre o mundo cultural e o mundo subjetivo de cada um. 56 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem As diferentes abordagens teóricas Do ponto de vista da aprendizagem, a importância dos estudos de Vygotsky é inquestionável, pois ele critica as teorias que separam a aprendizagem do desenvolvimento (GIUSTA, 1985). A fim de compreender as contribuições do pensamento vygotskyano para a Educação é necessário que se faça uma breve consideração acerca dos fundamentos filosóficos subjacentes as suas ideias. É impossível querer entendê-las sem reconhecer o caráter marxista que fundamenta suas investigações. O autor procurou, assumidamente, construir uma psicologia marxista, buscando as bases de sua teoria para explicar a formação da mente (VYGOTSKY, 1984). Na abordagem vygotskyana, o homem é visto como alguém que se transforma e é transformado nas relações que acontecem em uma determinada cultura. O que ocorre não é uma somatória entre fatores inatos e adquiridos, mas uma interação dialética que se dá, desde o nascimento, entre o ser humano, o meio social e o cultural em que se insere. Assim, é possível constatar que o desenvolvimento humano para Vygotsky é compreendido não como uma decorrência de fatores isolados que amadurecem, nem tampouco de fatores ambientais que agem sobre o organismo controlando o seu comportamento, mas sim como produto de trocas recíprocas, que se estabelecem durante toda a vida, entre sujeito e cultura, cada aspecto influindo sobre o outro. Vygotsky (1982) não nega que exista diferença entre os sujeitos, que uns estejam mais predispostos a algumas atividades do que outros, em razão do fator físico ou genético. Contudo, não entende que essa diferença seja determinante para a aprendizagem. Ele rejeita os modelos baseados em pressupostos inatistas que determinam características comportamentais universais do ser humano, como definições de comportamento humano por faixa etária, por entender queo homem é um sujeito datado, vinculado às determinações de sua estrutura biológica e de sua conjuntura histórica. Vygotsky discorda, também, da visão ambientalista, pois, para ele, o sujeito não é resultado de um determinismo cultural, ou seja, não é um receptáculo vazio, um ser passivo, que só reage frente às pressões do meio, mas um sujeito que realiza uma atividade organizadora na sua interação com o mundo, capaz, inclusive, de renovar a própria cultura. Se para Vygotsky, o homem for produto do meio, qual é a diferença entre a sua teoria e o empirismo? Para Vygotsky (1982), o sujeito é ativo e age sobre o meio. Para ele, não 57 Bases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da PsicologiaBases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da Psicologia Do Desenvolvimento E Da Aprendizagem HumanaDo Desenvolvimento E Da Aprendizagem Humana Capítulo 1 há a “natureza humana”, a “essência humana”. Somos primeiro sociais e depois nos individualizamos. Nas palavras de Rego (2002, p. 98), ao descrever a teoria vygotskyana: O sujeito é produtor de conhecimento não um mero receptáculo que absorve e contempla o real nem o portador de verdades oriundas de um plano ideal; pelo contrário, é um sujeito ativo que em sua relação com o mundo, com seu objeto de estudo, reconstrói (no seu pensamento) este mundo. O conhecimento envolve sempre um fazer, um atuar do homem. Por outro lado, Vygotsky, devido à natureza dialética de seu pensamento, defende que o sujeito é social em essência e não pode ser separado ou compreendido fora do âmbito social. O homem é sua realidade social, e sua ecologia cognitiva pode assumir diferentes características, dependendo desta. Em razão disso, Vygotsky (1982) buscou superar os unilateralismos na análise da relação sujeito- objeto e ao mesmo tempo compreender as especificidades dessa relação, quando sujeito e objeto são históricos e quando a relação entre eles também é histórica. Não é possível compreender essas especificidades, quando se adota o modelo biológico da interação entre organismos e meio ambiente. Portanto, usamos a categoria do interacionismo, que resulta de um modelo essencialmente biológico, para caracterizar a escola de Vygotsky. Nesse sentido, essa escola é vista como um modelo que contraria a pretensão fundamental de construir uma psicologia histórico-cultural do homem (DUARTE, 1999). Uma leitura atenta de Vygotsky demonstra que a sua concepção de social não incluía apenas a interação entre pessoas. Para ele, essa interação entre subjetividades era sempre historicamente situada, mediatizada por ferramentas sociais – desde os objetos até os conhecimentos historicamente produzidos, acumulados e transmitidos (DUARTE, 1999). Quanto ao “professor vygotskyano”, Freitas (2000) explica que é aquele que, detendo mais experiência, funciona intervindo e mediando a relação do aluno com o conhecimento. Ele está sempre, em seu esforço pedagógico, procurando criar Zonas de Desenvolvimento Proximal (ZDP), isto é, atuando como elemento de intervenção e procurando contribuir com a aprendizagem dos estudantes. Na ZDP, o professor atua de forma explícita, interferindo no desenvolvimento dos alunos, provocando avanços que não ocorreriam espontaneamente. Vygotsky, dessa forma, resgata a importância da escola e do papel do professor como agentes 58 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem indispensáveis do processo de ensino-aprendizagem. Assim, o professor pode interferir no processo de aprendizagem do estudante e contribuir para a transmissão do conhecimento acumulado historicamente pela humanidade. É nesse sentido que as ideias de Vygotsky sobre a educação constituem-se em uma abordagem tanto da transmissão cultural quanto do desenvolvimento humano. FONTE: . Acesso em: 30 jul. 2019. As contribuições sobre a concepção de sujeito ativo e a importância do contexto do construtivismo piagetiano, apontadas anteriormente, são fundamentais para a abordagem sociocultural de Vygotsky. Entretanto, é justamente com relação a essas contribuições que se pode, também, encontrar diferenças importantes entre essas duas abordagens, ou seja, a perspectiva piagetiana enfatiza que a interação com o ambiente forja o sujeito ativo. Já na abordagem vygotskyana, são privilegiadas as origens sociais para a construção desse sujeito. Em geral, há restrições ao sujeito ativo e em constante interação com o meio sócio-histórico, que ao mesmo tempo limitam e promovem, dentro de um leque de possibilidades, o seu desenvolvimento. Portanto, sua ação tanto é promovida quanto limitada pelo “Outro social”. Essa perspectiva de desenvolvimento, portanto, enfatiza a importância do aprendizado como o processo que possibilita o desenvolvimento; e o papel do Outro social no desenvolvimento dos sujeitos. Para explicar essa relação com o Outro, Vygotsky ofereceu um conceito específico essencial em sua teoria: zona de desenvolvimento proximal – ZDP. Vygotsky (1998, p. 51) define a zona de desenvolvimento proximal como: A distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes. Na ZDP, o professor atua de forma explícita, interferindo no desenvolvimento dos alunos, provocando avanços que não ocorreriam espontaneamente. Vygotsky, dessa forma, resgata a importância da escola e do papel do professor como agentes indispensáveis do processo de ensino-aprendizagem. Assim, o professor pode interferir no processo de aprendizagem do estudante e contribuir para a transmissão do conhecimento acumulado historicamente pela humanidade. É 59 Bases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da PsicologiaBases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da Psicologia Do Desenvolvimento E Da Aprendizagem HumanaDo Desenvolvimento E Da Aprendizagem Humana Capítulo 1 nesse sentido que as ideias de Vygotsky sobre a Educação constituem-se em uma abordagem tanto da transmissão cultural quanto do desenvolvimento humano. 1 Solicitamos que assista aos seguintes vídeos no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=rTqWOsAjPeI https://www.youtube.com/watch?v=V64C1BNVXa0 https://www.youtube.com/watch?v=vjez_rNXGYk. Após assistir, elabore uma produção escrita que discuta as bases teóricas da psicologia que tratam da aprendizagem e do desenvolvimento humano, com ênfase em Piaget e Vygotsky. R.:____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 60 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Para finalizar esse capítulo, é necessáriotrazer algumas considerações para orientar o seu estudo, especialmente, no tocante às bases epistemológicas que procuram explicar como os sujeitos aprendem e se desenvolvem a partir da concepção de mundo, de sociedade e de homem. Para isso, na primeira seção, foram discutidos os conceitos de desenvolvimento e de aprendizagem, demonstrando que o desenvolvimento vai além de apenas mudanças físicas, intelectuais, emocionais e sociais que fundamentam as diversas concepções apresentadas. Demonstrou-se, ainda, a importância de um desenvolvimento humano de qualidade para corroborar com o processo de aprendizagem humana dos saberes culturais e dos conhecimentos científicos necessários para intervir no processo de humanização das pessoas. Na segunda seção, explorou-se a influência acerca da cognição e da afetividade sobre o desenvolvimento e de aprendizagem humana. Nela, foram apresentados os conceitos de cognição e afetividade discutidos por diversos autores que vêm se debruçando sobre essa temática. Para fundamentar melhor a relação sobre esses temas: cognição e afetividade, indicamos dois textos, sendo um mais teórico e o outro com os resultados de um estudo empírico com estudantes de 4º e 5º anos do Ensino Fundamental, no qual se destaca a importância das práticas pedagógicas com afetividade na escola. É possível concluir que a afetividade deve estar presente em todas as escolas e salas de aula, uma vez que ela produzirá impactos positivos na aprendizagem escolar e no desenvolvimento humano dos estudantes. Ela trará, também, impactos positivos na mediação pedagógica, de acordo com o estudo realizado por Brust (2008, p 27), pois “é preciso haver empatia entre professor e aluno, pois isso favorece o aparecimento de uma simpatia mútua entre ambos. O professor deve ter claro que o processo de ensino e aprendizagem é uma via de mão dupla, um vai e vem dele para o estudante e do estudante para ele”. Ressalta-se que no século XXI, no qual se busca desenvolver processos de ensino-aprendizagem comprometidos com o sucesso na formação dos estudantes, as práticas escolares precisam considerar entre outras questões, a do desenvolvimento da afetividade com todos os segmentos da escola. Por fim, na terceira seção, discutimos as concepções teórico-metodológicas sobre a psicologia do desenvolvimento e aprendizagem humana, trazendo as principais perspectivas do Inatismo (ou apriorista), da Ambientalista e da Construtivista. 61 Bases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da PsicologiaBases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da Psicologia Do Desenvolvimento E Da Aprendizagem HumanaDo Desenvolvimento E Da Aprendizagem Humana Capítulo 1 Com a discussão dessas perspectivas, destacamos que mesmo as concepções mais antigas, como a inatista e a ambientalista, algumas características ainda se fazem presentes em nossa sociedade e são valorizadas, como: a pessoa é dotada de um “saber de nascença”, e conceberá também, dependendo das conveniências, outra pessoa desprovida da mesma capacidade (BECKER, 1993). Em outras palavras, isso significa que desde o nascimento, algumas pessoas já foram determinadas se serão ou não inteligentes. Assim, pode-se esperar que uns nasçam para aprender, e aprendem facilmente; outros não nasçam para o estudo e, se fracassam, o fracasso é só deles (DARSIE, 1999). Como o fracasso é mais comum entre as camadas sociais mais desfavorecidas: os malnutridos, os pobres, os marginalizados, pode-se pensar que isso ocorre porque lhes falta bagagem genética adequada, o que é um absurdo. Se, por outro lado, a aprendizagem do estudante não está associada a ele, mas à escola, ao professor ou à organização de uma atividade pedagógica eficiente, a partir dessa concepção ambientalista, cabe ao professor colocar o estudante em contato com o conhecimento socialmente construído, de forma que ele tenha condições de ir assimilando essas informações e reproduzindo-as corretamente. Os casos de fracasso ou de sucesso na escola, portanto, estão muito mais relacionados às contingências de reforço que o aluno teve ao longo de sua vida escolar do que a sua ‘capacidade natural’. Buscou-se, portanto, destacar a importância, nessa seção, do conhecimento dessas concepções por parte dos gestores e professores para fundamentar e planejar suas práticas pedagógicas e garantir um processo de desenvolvimento e de aprendizagem humana com qualidade social. Desejamos a você bons estudos! REFERÊNCIAS ARANTES, V. A. Afetividade no cenário da educação. In: OLIVEIRA, M. K. de e colaboradores. Psicologia, educação e as temáticas da vida contemporânea. São Paulo: Moderna, 2002. ARAUJO, C. M. M. A ciência do desenvolvimento humano: para além de uma Psicologia do Desenvolvimento. Resenha. Revista Semestral da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional (ABRAPEE), v. 10, n. 1, Campinas-São Paulo, jan./jun., p. 133-143, 2006. BARRETO, S. J. Psicomotricidade: educação e reeducação. Blumenau: Odorizzi, 1998. 62 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem BECKER, F. A epistemologia do professor: o cotidiano da escola. Petrópolis: Vozes, 1993. BEE, H. 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CAPÍTULO 2 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano A partir da perspectiva do saber-fazer, são apresentados os seguintes objetivos de aprendizagem: • Dialogar acerca dos processos metodológicos de ensino e aprendizagem, bem como aqueles denominados de processos psicopatológicos em seus diferentes momentos do ciclo vital de desenvolvimento humano com vistas a atender aos objetivos propostos para este capítulo. • Apresentar sua compreensão acerca do ciclo vital, a relação entre concepções epistemológicas de aprendizagem e o ensino, bem como identificar os processos psicopatológicos vivenciados por alguns sujeitos em desenvolvimento humano. • Aplicar as concepções epistemológicas aprendidas com vistas a ampliar e qualificar sua atuação profissional no contexto da realidade. 68 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem 69 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 1 CONTEXTUALIZAÇÃO Estudar o desenvolvimento humano, tecendo o olhar para o ciclo vital humano, as concepções epistemológicas de ensino e aprendizagem e os processos psicopatológicos vivenciados pelos sujeitos é de extrema relevância para se compreender as mudanças, como elas ocorrem de forma contínua, descontínua, normal ou patológica ao longo da vida, contemplando o todo e as partes. Assim, esse olhar pode ver as mudanças da infância para a adolescência, da adolescência para a juventude, para a adultez e para a velhice. Podem ser vistas as mudanças que ocorrem dentro de cada etapa e aquelas que acontecem ao longo de todo o ciclo, pois elas não acontecem de forma isolada, como algumas pessoas imaginavam, por exemplo: que mudanças aconteceram na infância que podem impactar o desenvolvimento humano na vida adulta ou na velhice? É possível inferir que as experiências vividas na infância por algumas pessoaspoderão afetar positivamente ou não, a adolescência, a juventude, a vida adulta e a velhice de uma pessoa, inclusive com relação aos processos de aprendizagem, bem como aquele sujeito que apresenta alguma patologia, dificultando aprender conteúdos escolares formais. Olhar para esses temas por meio da lente da Psicologia pode auxiliar estudantes e profissionais da educação a compreenderem como acontecem os processos de desenvolvimento humano e a aprendizagem por parte dos sujeitos, inclusive aqueles que trazem ou adquirem em seu curso de vida processos psicopatológicos. FIGURA 1 – CICLO VITAL FONTE: . Acesso em: 14 jun. 2019. 70 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem 2 PERSPECTIVAS DO CICLO VITAL: DA CONCEPÇÃO AO ENVELHECIMENTO E SUAS CONDIÇÕES Como mencionamos no Capítulo 1, a Psicologia do desenvolvimento, nos dias de hoje, é considerada uma ciência relevante para se compreender a transformação do homem, do mundo e da sociedade, a partir de olhares mais amplos, ou seja, de olhares que envolvem diversas áreas de conhecimento. Todo ser humano passa por um determinado ciclo em seu desenvolvimento humano, alguns sujeitos vivenciam o ciclo vital – infância, adolescência, vida adulta e velhice – de forma completa e saudável. Outros interrompem logo na primeira etapa, estágio ou fase, outros vivem mais algumas etapas, cujas interrupções podem ser de forma natural ou provocadas por diversos mecanismos ao longo da vida. A partir daqui utilizaremos o termo “etapa” para referir à infância, à adolescência, à vida adulta ou à velhice, para não ficar repetindo etapa, fase ou estágio. FIGURA 2 – CICLO VITAL: DA CONCEPÇÃO AO ENVELHECIMENTO FONTE: . Acesso em: 14 jun. 2019. É relevante estudar as mudanças que ocorrem ao longo da vida, ou seja, durante o ciclo vital, focando em todas as etapas: infância, adolescência, vida adulta e a velhice, como expressa o ciclo da Figura 2. Assim, quando tecemos um olhar sobre o ciclo vital humano, observa-se que ocorrem mudanças em todas as 71 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 etapas e não apenas sobre algumas delas isoladamente. Por outro lado, essas mudanças são intensas: [...] especialmente nos 20 primeiros anos de vida, que vão resultando em avanços no plano do pensamento, do sentimento, do comportamento etc., para níveis de complexidade cada vez maiores. Por exemplo, uma criança evolui do engatinhar para a marcha, do balbucio para a fala, do pensamento concreto para o abstrato e assim por diante. Podemos dizer que o estudo do desenvolvimento humano está relacionado ao como e ao porquê do nosso organismo crescer e se modificar ao longo de nossa existência (GERRIG; ZIMBARDO, 2005, p. 9-10). Assim, o ciclo do desenvolvimento humano como um todo poderá ajudar a compreender os modelos que se têm hoje para explicar as mudanças, o como e o porquê elas acontecem ao longo da vida dos seres humanos, por exemplo, mudanças com as contribuições dos processos educacionais. FIGURA 3 – CICLO VITAL FONTE: . Acesso em: 19 ago. 2019. O ciclo vital pode ser nomeado, também, como “ciclo da vida” de um ser vivo, incluindo todas as etapas da vida, como mostra a Figura 3. Questões como: “O que é o ciclo vital do desenvolvimento humano?”; “Todos os seres humanos passam por todas etapas em um mesmo ciclo?”; “Será que a idade é a variável mais importante para a concretização do ciclo vital, o qual determina estatutos e funções diferentes para os sujeitos humanos?”; “A infância, a adolescência, a vida adulta e a velhice sempre foram assim como conhecemos hoje?” e “Que 72 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem tipos de influências tornam uma pessoa diferente da outra?”. Consideramos fundamental pensar sobre essas questões e tomá-las como o ponto de partida para aprofundarmos o nosso entendimento acerca do ciclo de vida. Assim, o ciclo vital pode ser compreendido como um: [...] conjunto de etapas da vida, nas quais é suposto realizar- se uma série de transições e superar uma série de provas e crises. Este ciclo desenvolve-se por meio de um processo de socialização e endoculturação, mediante os quais, em contato com outros seres humanos e por meio da educação, uma criança passa de um modo gradual por diferentes idades e status como ser capaz e consciente nas formas de uma cultura até enfrentar a morte como a conclusão de sua existência pessoal (XAVIER; NUNES, 2013, p. 8). No contexto da Psicologia do desenvolvimento, a ideia de ciclo remete a etapas, fases ou estágios que se articulam em torno do desenvolvimento humano, “como um modo de organização da vida humana [...]” (OLIVEIRA, 2004, p. 213). Para essa autora, o conceito (e o termo) de “ciclo de vida” pode ser mais promissor para uma compreensão de maior alcance do fenômeno do desenvolvimento humano do que a ideia normalmente utilizada de estágios. Ela ressalta, ainda, nesse mesmo artigo, que se pode definir “desenvolvimento, sinteticamente, como transformação. Processos de transformação que ocorrem ao longo de toda a vida do sujeito e estão relacionados a um conjunto complexo de fatores e não são universais” (OLIVEIRA, 2004, p. 213). Nessa perspectiva, o ciclo de vida é, também, culturalmente organizado, encerrando, portanto, a nossa passagem pela existência humana, com uma certa ordem, pois não dá para vivenciarmos a velhice sem ter passado pela infância. Nessa mesma direção, Xavier e Nunes (2013, p. 9) afirmam que olhar o desenvolvimento humano como um todo é um processo de: [...] descobertas, mudanças, avanços, novas aquisições e crescimento. Da concepção à morte, a cada instante e de forma singular, vivemos esse processo. Por conseguinte, diz respeito a nossa vida cotidiana com questões que vão desde a aquisição da fala ou do andar, passando pelo processo de aprendizagem escolar e pelas inquietações da adolescência, até as transformações biopsicossociais que a vida adulta e a velhice trazem consigo. Já Sifuentes, Dessen e Oliveira (2007, p. 380) afirmam que durante o ciclo vital, o sujeito: [...] vivencia mudanças e continuidades ao longo de todo o seu processo de desenvolvimento. Tais mudanças são interdependentes não apenas em relação a um dado momento 73 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 de vida, mas também às mudanças que ocorrem na sociedade da qual ele é participante. Nesse percurso, as interações sociais levam a organizar-se e reorganizar-se, constantemente, de modo a reestruturar suas relações com o mundo, o que abre novas possibilidades para o curso do seu desenvolvimento. Cada etapa gera a possibilidade da próxima, em uma relação probabilística [...]. Por falar em mudanças que ocorrem ao longo do desenvolvimento humano, Xavier e Nunes (2013, p. 10) fazem um destaque pertinente, lembrando que ao longo da vida, os sujeitos humanos “lidam com mudanças universais, como as transformações físicas e hormonais que marcam a puberdade [...] e particulares, pois o ser humano é singular e as diferençaspode ser compreendida como a ciência da alma e da mente, que se preocupa em entender o comportamento humano e dos animais, interagindo com outros homens em grupo no mundo, na sociedade e convivendo entre eles mesmos. FONTE: . Acesso em: 27 jun. 2019. FIGURA 1 – DESENVOLVIMENTO HUMANO FONTE: . Acesso em: 27 de jun. de 2019. 10 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem 2 COMO O TERMO PSICOLOGIA PODE SER COMPREENDIDO? Será que dar apoio a um parente ou amigo com uma escuta sensível, nos dias de hoje, pode ser “interpretado” como um comportamento psicológico? A Psicologia, de acordo com Serbena e Raffaelli (2003, p. 31), pode ser compreendida como o “[...] estudo da alma ou da subjetividade, havendo necessidade de um discurso simbólico e subjetivo complementando o racional e o objetivo”. O termo ‘alma’ pode ser visto como uma metáfora da psique e os diversos discursos ou disciplinas psicológicas seriam explorações desta metáfora, permitindo ampliar sua expressão e compreensão. Schultz e Schultz (2002 apud SERBENA; RAFFAELLI, 2003, p. 32) apontam algumas mudanças na Psicologia, especialmente, em sua conceituação ao longo da história. Para os autores, “a Psicologia Científica surgiu aproximadamente no ano de 1879 por meio da atuação de William Wundt, na Alemanha, por ocasião da criação do primeiro Laboratório de Psicologia Experimental”. Em seu artigo “Psicologia como disciplina científica e discurso sobre a alma: problemas epistemológicos e ideológicos”, Serbena e Raffaelli (2003, p. 35) afirmam que a Psicologia “começou a ser vista como um ramo da Filosofia que estudava, mais especificamente, a alma. Ela foi definida como um “princípio de pensamento” e como a animação do corpo”. Ressaltam, ainda, que na filosofia moderna a alma também é entendida como sujeito. Titchener (1924, p. 28 apud SERBENA; RAFFAELLI, 2003, p. 32) afirma, ainda, que “[...] o objeto da Psicologia era a experiência humana”. Já James (1916, p. 1, tradução nossa) privilegiou a consciência: “é a Psicologia, usando a definição imbatível de Ladd, a descrição e explicação dos estados de consciência como tal”. Serbena e Raffaelli (2003, p. 31) dizem que é, ainda, comum em alguns manuais de Psicologia trazer a definição de Psicologia como a ciência da alma e da mente, cujo objeto central dessa ciência “é entender o comportamento humano e dos animais”. Entretanto, ressaltam que a Psicologia vem, há muitos anos, ultrapassando esse limite. Para os autores, a Psicologia pode ser entendida como: [...] “ciência do comportamento” necessita de uma revisão de seus pressupostos básicos. O cunho comportamentalista dessa definição é evidente e representa o predomínio histórico das correntes neopositivistas e materialistas no campo psicológico, contrapondo-se à própria etimologia da palavra Psicologia, 11 Bases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da PsicologiaBases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da Psicologia Do Desenvolvimento E Da Aprendizagem HumanaDo Desenvolvimento E Da Aprendizagem Humana Capítulo 1 que significa estudo da alma. Esse é, talvez, um dos poucos casos em que uma ciência não é definida de acordo com a sua etimologia, afinal a Biologia estuda a vida, a Geologia a Terra, e assim por diante. Esse predomínio torna-se claro desde a afirmação da psicologia científica enquanto um ramo da biologia e da fisiologia, apoiada nas perspectivas epistemológicas derivadas da física clássica, aceitando-se implicitamente o primado da matéria sobre o espírito (SERBENA; RAFFAELLI, 2003, p. 31). Serbena e Raffaelli (2003, p. 31) apontam mais mudanças na conceituação da Psicologia após a Primeira Guerra Mundial. Nesse momento, a Psicologia precisava desenvolver-se como ciência e elaborar técnicas eficazes e instrumentais. Com isso, “as noções metafísicas como a Psicologia da alma foram abandonadas, devido a sua falta de precisão e de objetividade”. Nessa perspectiva histórica, foi possível inovar a conceituação da ciência da Psicologia como um ramo do conhecimento preocupado em compreender os fenômenos comportamentais e os processos mentais dos seres humanos, isto é, uma ciência que estuda o modo como o sujeito se comporta, a partir de seus valores, ideias e emoções, bem como os processos e expressões que afetam sua saúde mental e física. Assim, entra em cena o psicólogo, profissional capaz de ajudar a pessoa e as instituições a interpretarem sentimentos, emoções, identificar doenças, distúrbios mentais, comportamentos, relações interpessoais e intrapessoais, bem como o “clima” entre as pessoas da organização social. FIGURA 2 – BASES EPISTEMOLÓGICAS FONTE: . Acesso em: 27 jun. 2019. Durante séculos, muitos filósofos buscaram compreender a natureza da mente humana e especularam muito sobre isso. Essas especulações foram importantes para a constituição dos conhecimentos que subsidiaram o nascimento da Psicologia que se conhece hoje. Com isso, pondera-se que essa é uma ciência 12 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem interdisciplinar e que, historicamente, é, ainda, nova. No entanto, são inegáveis suas contribuições para os seres humanos. Inicialmente, a atuação da Psicologia deu ênfase à doença e à resolução de queixas trazidas pelos pacientes. Schultz e Schultz (2007) afirmam que no passado a Psicologia direcionou sua aplicação ao tratamento de doenças mentais, buscando compreender e auxiliar pessoas acometidas por patologias nesse campo. Entretanto, no século XIX, pensadores da Psicologia, incomodados com a visão mecanicista e positivista assumida por essa ciência, começaram a estudar o comportamento humano e as relações interpessoais construídas pelo sujeito. Essa nova abordagem defendia que “o sujeito era produto de forças e de instituições sociais, portanto, o comportamento deveria ser estudado em termos sociais e não somente biológicos” (SCHULTZ; SCHULTZ, 2007, p. 398). À época, essa visão, segundo os autores, teve grande repercussão na sociedade, uma vez que trazia um cenário mais otimista acerca dos problemas mentais para as pessoas e suas famílias, por exemplo. A partir da abordagem geral do conceito de Psicologia, passou-se a conceituar e discutir a Psicologia do desenvolvimento, da aprendizagem e as bases teórico-metodológicas permeadas pelas influências da cognição e da afetividade no campo educacional, que é o nosso objeto central. Tendo como horizonte esclarecer o sentido da cognição, vista como sendo a capacidade humana de pensar, que permite ao ser humano reagir diante de situações distintas, indicamos que assista ao seguinte vídeo disponível no YouTube: https://www.youtube.com/ watch?v=byEUtpgmroo. Com foco na discussão acerca do lugar da afetividade no processo educativo e as suas relações com a aprendizagem, indicamos que assista às lições sobre o papel das emoções para a atribuição de significados ao aprender, que estão disponíveis no seguinte vídeo no YouTube: https://www.youtube.com/ watch?v=6QfbBcjtGuM. Por fim, ao término deste capítulo, esperamos que os estudantes sejam capazes de demonstrar seu aprendizado com relação à conceituação da Psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem e suas bases teórico-metodológicas, bem 13 Bases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da PsicologiaBases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da Psicologia Do Desenvolvimento E Da Aprendizagem HumanaDo Desenvolvimento E Da Aprendizagem Humana Capítulo 1 como se posicionem acerca da importância da cognição, da afetividade e das influências na aprendizagem, especialmente como desenvolvemos e aprendemos ao longo da vida. A título de elucidação da relação entre modelos epistemológicos e modelosindividuais também precisam ser consideradas”, uma vez que nem mesmo os irmãos gêmeos são iguais entre si. Assim, cada criança vivenciará mudanças corporais de uma forma particular, atribuindo-lhes um significado específico, de acordo com suas experiências. Portanto, o desenvolvimento não é “linear e universal, pois há também a diversidade cultural, social, política e econômica que constitui os contextos nos quais se desenvolvem os seres humanos” (XAVIER; NUNES, 2013, p. 10). Picon (2012), resenhando o livro “O ciclo da vida humana: uma perspectiva psicodinâmica”, de Eizirik et al. (2001), destacou um dos trechos que parece tecer uma síntese sobre o ciclo vital, apontando que ele “traz uma visão de que cada fase tem suas características positivas/negativas, seus desafios, suas dificuldades e que pode ser encarado como algo a ser almejado, desejado e, por fim, vivido integralmente, seja com felicidades ou tristezas” (PICON, 2012, p. 68). Para enriquecer seu aprendizado nesta disciplina, trouxemos um fragmento curto do artigo “Ciclos de vida: algumas questões sobre a psicologia do adulto”, publicado por Oliveira (2004, p. 214), na Revista Educação e Pesquisa, no qual a pesquisadora discutiu as mudanças no ciclo de vida dos seres humanos. [...] Pensemos, por exemplo, nos grandes períodos em que normalmente tem sido dividida a vida humana – a infância, a adolescência, a idade adulta e a velhice. Essas etapas nos têm sido apresentadas como universais e associadas a características comuns a todas as pessoas e a todos os grupos humanos: a infância como o período em que ocorrem as experiências com efeito determinante e configurador de todo o desenvolvimento posterior, a adolescência como a época das mudanças drásticas e turbulentas, a idade adulta como o momento de estabilidade e ausência de 74 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem mudanças importantes e a velhice como sinônimo de deterioração dos processos psicológicos (PALACIOS, 1995, p. 21-22). Por não levar em conta aspectos da história cultural e da história individual dos sujeitos, essa perspectiva não contempla a multiplicidade de possibilidades do desenvolvimento humano. Para contestar essa suposta universalidade, basta imaginar e comparar pessoas de diferentes grupos culturais nas mesmas etapas de desenvolvimento: uma criança de classe média alta, de sete anos, em Nova York, frequentando a escola, e uma criança de sete anos na zona rural do Afeganistão, que trabalha no campo e cuida dos irmãos menores; uma jovem paulistana que faz curso de inglês com intenção de inscrever-se num programa de intercâmbio para estudar na Austrália e a outra de um jovem filho da periferia de uma cidade brasileira de médio porte; uma dona de casa carioca, um monge do Tibete e um cientista inglês, o que eles têm em comum como adultos? A perspectiva universalizante não contempla, tampouco, a própria essência do desenvolvimento, isto é, a transformação. Como explicar os inúmeros casos de pessoas que superam condições adversas ocorridas em sua infância? Ou dos jovens que percebem sua adolescência mais como continuidade do que como ruptura com seu percurso anterior? Onde ficaria o potencial transformador das intervenções educativas na idade adulta? Os idosos que iniciam uma nova atividade em idade avançada e tornam-se criativos, produtivos, independentes? Diante dessas reflexões, a questão não é eliminar o problema das etapas do desenvolvimento, mas historicizar sua compreensão. Toda sociedade é organizada por idades e toda sociedade tem um sistema de expectativas sociais com relação ao comportamento apropriado às idades. O indivíduo passa por um ciclo socialmente regulado do nascimento à morte tão inexoravelmente como passa pelo ciclo biológico: uma sucessão de status de idade delineada socialmente, cada um com seus direitos, deveres e obrigações reconhecidos (MERRIAN; CAFFARELLA, 1999, p. 120). É nesse sentido que a ideia dos ciclos da vida pode ser mais promissora para uma compreensão minuciosa do fenômeno do desenvolvimento do que a ideia dos estágios. FONTE: OLIVEIRA, M. K. de. Ciclos de vida: algumas questões sobre a psicologia do adulto. Revista Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 30, n. 2, maio/ago. 2004. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517- 97022004000200002&lng=pt&tlng=pt. Acesso em: 19 dez. 2019. 75 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 1 Solicitamos que leia o seguinte artigo: “Ciclo de vida: algumas questões sobre a psicologia do adulto”, que pode ser encontrado no endereço: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S1517-97022004000200002. Após a leitura, elabore uma produção escrita, apresentando uma visão mais ampla do ciclo vital, especialmente a do adulto, cujo foco é tratado nesse artigo. R.:____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ___________________________________________________ ___________________________________________________. 2.1 DISCUTINDO A RELAÇÃO ENTRE CONCEPÇÕES EPISTEMOLÓGICAS DO DESENVOLVIMENTO HUMANO E O ENSINO E A APRENDIZAGEM Nesta seção, discutiremos a relação entre concepções epistemológicas do desenvolvimento humano apresentadas no Capítulo 1 e suas implicações na organização do trabalho pedagógico que guiam as abordagens tradicional, ambientalista/tecnicista e construtivista/socioconstrutivista. 76 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem 2.2.1 Concepções epistemológicas do desenvolvimento humano: abordagem tradicional e o processo de aprendizagem A partir de sua experiência pessoal e profissional, que elementos ou situações se configuram em um ensino ou em uma escola tradicional em sua opinião? Que implicações a abordagem de ensino tradicional reflete sobre o processo de ensino e de aprendizagem em nossa cultura? No capítulo anterior, discutimos diversas concepções epistemológicas do desenvolvimento humano, entre elas, a concepção inatista. Para os adeptos dessa concepção, as capacidades básicas como: personalidade, valores, comportamentos, formas de pensar são inatas nos seres humanos. Para eles, a pessoa, desde o nascimento, já carrega essas capacidades. Ela já nasce “inteligente” ou não. Durante o seu desenvolvimento, quase nada vai alterar essas capacidades herdadas geneticamente. Assim, o destino individual de cada ser humano já está determinado antes mesmo do nascimento. Essas crenças predominaram por muito tempo, mas com os questionamentos de estudiosos preocupados em explicar o desenvolvimento humano, essas certezas foram sendo rompidas e outras concepções foram ocupando o espaço nesse campo e passamos a conviver com essas afirmações ao mesmo tempo. Com isso, registra-se que uma concepção de ensino e aprendizagem não é específica de um único tempo. Assim, o surgimento de uma não implica o desaparecimento da outra, isto é, em alguns momentos históricos, elas convivem simultaneamente uma com a outra, embora suas formulações obedeçam a uma ordem cronológica diferente e uma possa se sobressairum pouco mais que a outra. Historicamente, a abordagem de ensino sistematizada em nosso sistema de educação é a tradicional, iniciada no século XIX e se tornou predominante em boa parte do século XX. Apesar das inovações metodológicas deste século XXI, e pelo nível de influência que teve na educação brasileira, alguns elementos dessa metodologia se encontram presentes nas práticas pedagógicas até os dias de hoje (LEÃO, 1999; RAPOSO; QUEIROZ, 2008). A abordagem de ensino tradicional é a mais antiga em nossa sociedade. Apesar de as inúmeras críticas, ela é considerada um marco para as demais abordagens e implicações no campo da educação. Essa abordagem advoga as conhecidas argumentações recorrentes de que o estudante pode ou não ter aptidões para aprender algumas coisas ou a de que há necessidade de esperar 77 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 o desenvolvimento biológico do estudante, especialmente, a maturação para ensiná-lo determinados conhecimentos. Essa concepção se expressa muitas vezes por meio de alguns profissionais da educação quando se deparam com “alguns estudantes com dificuldades para aprender por serem filhos de pessoas analfabetas ou marginalizadas, acreditam que esses estudantes não têm como mudar suas condições, pois suas dificuldades foram herdadas geneticamente” (XAVIER; NUNES, 2013, p. 10). Para continuar a discussão, passaremos a trabalhar algumas afirmações por considerá-las relevantes em qualquer processo de ensino-aprendizagem. Entre elas, as concepções de homem, de mundo, de sociedade/cultura e de conhecimento. De acordo com Mizukami (1986), o homem é visto, nessa concepção, como aquele sujeito que pertence a um mundo, mas não o conhece. A escola tem a função de repassar as informações sobre esse mundo para as novas gerações, fornecendo-lhes os saberes que considera relevantes para a sociedade. Assim, o homem, mais especificamente a criança, recebe essas informações passivamente sem questionamentos. Quando estiver repleta delas, poderá memorizá-las e repeti-las, demonstrando que aprendeu os ensinamentos do professor. Portanto, o ensino tradicional tem como objetivo: [...] transmitir os conhecimentos, por meio dos conteúdos a serem ensinados por esse paradigma seriam previamente compendiados, sistematizados e incorporados ao acervo cultural da humanidade. Dessa forma, é o professor quem domina os conteúdos logicamente organizados e estruturados para serem transmitidos aos alunos. A ênfase do ensino tradicional, portanto, está na transmissão dos conhecimentos (SAVIANI, 1991 apud LEÃO, 1999, p. 189). Com relação à concepção de mundo, como já foi mencionado anteriormente, Mizukami (1986, p. 9) afirma que nessa abordagem: [...] a realidade é algo que será transmitido ao indivíduo principalmente pelo processo da educação formal, além de outras agências, tais como a família, igreja. O mundo é externo ao indivíduo, e este irá apossando-se gradativamente de uma compreensão cada vez mais sofisticada dele na medida em que se confronta os modelos, com os ideais, as aquisições científicas e tecnológicas elaboradas através dos séculos. De posse desse instrumental, o indivíduo contribuirá, por sua vez, para uma maior compreensão e domínio do mundo que o cerca, seja este considerado como físico, social etc. Já a concepção de sociedade-cultura que permeia essa abordagem é diversa. É possível inferir que há uma tendência de educar as crianças como 78 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem sujeitos dóceis, capazes de manter a harmonia da sociedade. Ao mesmo tempo, defende que as novas gerações sejam eficientes para impulsionar a sociedade a dominar a natureza, ampliando e aprofundando as áreas do conhecimento. Os valores culturais privilegiados estão, geralmente, relacionados ao que essa sociedade estabelece como relevante para preservar a harmonia, o poder nas mãos de um grupo dominante e a manutenção de diferentes classes sociais. Para assegurar a harmonia, o domínio do poder concentrado e a divisão de classes sociais, que tipo de escola poderá atender a tais demandas? Que valores a escola tem de adotar nessa abordagem? A escola, nessa abordagem, tem a função de desvelar o mundo a partir das informações que os professores consideram imprescindíveis para os estudantes. Assim, a escola é vista como o lugar por excelência que se realiza a aprendizagem. Nessa perspectiva, a educação formal é considerada importante e define a escola como uma instituição sistematizadora dos conhecimentos acumulados pela humanidade. Nessa direção, Freire (2006) demonstra o quanto é importante o diálogo no processo educativo em oposição ao método bancário de transmissão de conhecimento e mostra a relevância do contexto social e cultural trazido pelo estudante para a sala de aula, uma vez que a educação, para esse autor, é um ato político e cabe ao professor assumir o compromisso de ajudar os estudantes a pensarem e refletirem sobre a realidade, ou seja, mais que memorizar conteúdos. FIGURA 4 – EDUCAÇÃO BANCÁRIA FONTE: Babette et al. (1986, p. 48) Mizukami (1986, p. 12) afirma que o filósofo e ensaísta francês Émile Chartier (1868-1951) foi defensor da abordagem de ensino tradicional e definiu a escola como “o lugar também por excelência onde se raciocina”. Ademais, Chartier defendeu a escola “como um ambiente físico austero para que o aluno não se 79 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 distraia. Considera o ato de aprender como uma cerimônia e acha necessário que o professor se mantenha distante dos alunos” (MIZUKAMI, 1986, p. 12). Chartier (1978) afirmou, ainda, que o professor era um expertise naquilo que se propôs a ensinar. Portanto, “não cabia ao estudante duvidar da competência de seu professor. Em seu ofício era tido como uma autoridade intelectual e moral, ou seja, uma autoridade máxima. Assim, o professor sabia quais conhecimentos eram mais importantes para a formação dos estudantes”, como destaca Mizukami (1986, p. 13). Portanto, a relação entre professor-aluno se configura, na instituição escolar, como vertical. As possibilidades de cooperação entre os pares eram reduzidas, uma vez que a maioria das tarefas designadas aos estudantes exigia que fossem realizadas individualmente, pois dessa forma, o controle do professor sobre os corpos e a cognição dos estudantes era mais fácil. A afetividade e as emoções, apesar de serem sentimentos humanos, eram deixadas do lado de fora da sala de aula. Um dos trechos que pode exemplificar a rigidez na relação entre professor-estudante e a inculcação de valores morais predominantes de sua época pode ser representada no Conto de Escola, escrito por Machado de Assis em 1896: CONTO DE ESCOLA “[...] — Oh! Seu Pilar! — bradou o mestre com a voz de trovão. Estremeci como se acordasse de um sonho, e levantei-me às pressas. Dei com o mestre, olhando para mim, cara fechada, jornais dispersos (em sua mesa), e ao pé da mesa em pé, o Curvelo. Pareceu-me adivinhar tudo. — Venha cá! — bradou o mestre. Fui e parei diante dele. Ele enterrou-me pela consciência a dentro um par de olhos pontudos; depois chamou o filho (que também era aluno). Toda a escola tinha parado; ninguém mais lia, ninguém fazia um só movimento. Eu, conquanto não tirasse os olhos do mestre, sentia no ar a curiosidade e o pavor de todos. — Então o senhor recebe o dinheiro para ensinaras lições aos outros? — disse-me o mestre Policarpo. — Eu... — Dê cá a moeda que este seu colega lhe deu! — clamou. Não obedeci logo, mas não pude negar nada. Continuei a tremer muito. Policarpo bradou de novo que lhe desse a moeda, e 80 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem eu não resisti mais, meti a mão no bolso, vagarosamente, saquei-a e entreguei-lha. Ele examinou-a de um e do outro lado, bufando de raiva; depois estendeu o braço e atirou-a à rua. E então disse-nos uma porção de coisas duras, que tanto o filho como eu acabávamos de praticar uma ação feia, indigna, baixa, uma vilania, e para emenda e exemplo íamos ser castigados. Aqui pegou da palmatória. — Perdão, seu mestre... — solucei eu. — Não há perdão! Dê cá a mão! Dê cá! Vamos! Sem-vergonha! Dê cá a mão. — Mas, seu mestre... — Olhe que é pior! Estendi-lhe a mão direita, depois a esquerda, e fui recebendo os bolos uns por cima dos outros, até completar doze, que me deixaram as palmas vermelhas e inchadas. Chegou a vez do filho, e foi a mesma coisa; não lhe poupou nada, dois, quatro, oito, doze bolos. Acabou, pregou-nos outro sermão [...]”. FONTE: . Acesso em: 14 jun. 2019. No que diz respeito ao ensino-aprendizagem, a ênfase era dada ao domínio dos conteúdos e informações sobre os modelos oferecidos pelo professor, como expressa o mestre Policarpo no Conto de Escola. Assim, os estudantes são “instruídos” e “ensinados” pelo professor para romper a “ignorância dos estudantes sobre o mundo” (MIZUKAMI, 1986, p. 13). Observa-se, entretanto, que esse modo de intervir do professor é um dos aspectos mais criticados dessa abordagem, uma vez que o processo de ensino-aprendizagem é centralizado no professor, que goza de status e tem o poder de determinar sozinho o rumo da aprendizagem dos estudantes. Os assuntos tratados nas aulas geralmente estão fora do interesse dos estudantes e estes não são chamados para participarem de nenhuma tomada de decisão sobre o ensino e sua aprendizagem. Ao longo da história, esse tipo de ensino caracterizou-se pelo verbalismo do professor e pela repetição e memorização do estudante. De acordo com Mizukami (1986), a aprendizagem, nessa abordagem, é tida como a memorização das informações e conteúdos transmitidos pelo professor na escola. Outra preocupação muito evidente é a apresentação dos conhecimentos como verdades absolutas, prontas e acabadas. Então, para que os alunos possam fixar os conhecimentos, as atividades de aprendizagem quase sempre são padronizadas e recorrentes, estabelecendo na sala de aula uma rotina que muitas vezes se torna enfadonha para crianças pensantes e ativas. 81 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 Nessa perspectiva, o papel do professor é o de um transmissor dos conteúdos, os quais são predefinidos e que constituem o próprio fim da escolarização. O papel do estudante, a partir dessa abordagem é o de um memorizador e de um reprodutor desses conteúdos nas provas e exames avaliativos. Essa reprodução feita pelo estudante muitas vezes assume a forma automatizada e sem variações. Geralmente, os estudantes dão uma resposta curta e não transmitem a compreensão esperada. Por outro lado, as avaliações são vistas como instrumentos indicadores relevantes para demonstrar se houve aprendizagem ou não por parte dos estudantes. Mizukami (1986, p. 15) afirma que a didática de ensino utilizada “[...] poderia ser resumida em ‘dar a lição’ e em ‘tomar a lição”. Para fazer uma síntese dessa abordagem, indica-se um fragmento do artigo “Reflexão acerca do processo ensino-aprendizagem na perspectiva freireana e biocêntrica”. O método tradicional de ensino-aprendizagem centra-se no ato de transferir conhecimento. O professor é visto como um portador de conhecimentos que devem ser repassados aos alunos, que, por sua vez, devem decorá-los para logo serem conferidos pelo professor. [...] A educação tradicional tem oferecido a seus alunos uma aprendizagem que resulta numa memorização mecânica de um conjunto de teorias retiradas de livros didáticos, que, por sua vez, têm a tendência de apresentar os conteúdos das disciplinas isolados, isto é, sem interconexão com a realidade do mundo. Isso se enquadra num processo narrativo de ensino que prejudica a atitude do educando com relação a agir como um ser pensante. A cada dia, todos aqueles que se encontram no processo educativo tradicional têm assumido ferozmente a prática da narração. Os professores narram o que aprenderam e os alunos os seguem nesta prática de repetição. O conteúdo trabalhado desta maneira torna-se algo supérfluo, vazio na vida do estudante que desconhece a função daquele assunto no seu cotidiano; o aluno não delimita nenhum grau de importância neste tipo de trabalho, pois se apresenta de forma fria, solitária e percebe que o seu educador também não consegue dar sentido/luz a seu planejamento, rotulado já como tradicional. A liberdade de trabalho, a reflexão e a crítica estão presas numa tendência de ensino despida de criatividade humana. Professor 82 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem e aluno são considerados como meros objetos que fazem parte desse processo educativo tradicional – o professor visto como o centralizador do conhecimento e o aluno como um ser vazio à espera de informações fragmentadas. [...] Nesta concepção de educação, quanto mais vezes o professor narrar determinado conhecimento, mais fácil será para o aluno decorar e transferir para seus processos avaliativos. Logo, não se percebe a construção de um conhecimento mais efetivo, pois não se propicia isso nas aulas. As perguntas são evasivas tanto quanto as respostas dos alunos. Seguindo essa percepção, temos uma educação bancária. Isso quer dizer que o educando está na escola somente para receber informações, decorá-las para transferi-las a uma prova e logo esquecer. Esquecer por quê? Porque esse processo educativo não contribuiu para uma prática eficiente da aprendizagem, pois não se teve espaço para o debate, o uso da criatividade, a reflexão da ética e a pesquisa, entre outros saberes considerados importantes para a formação cognitiva do aluno, como também a formação do seu eu enquanto sujeito capaz de transformar o meio em que vive. FONTE: CARNEIRO, R. P. Reflexão acerca do processo ensino-aprendizagem na perspectiva freireana e biocêntrica. Revista Thema, v. 9, n. 2, p. 2-3, 2012. A didática, nessa abordagem, parece não facilitar a identificação das dificuldades de aprendizagem dos estudantes, isto é, o professor expõe o conteúdo e os estudantes escutam passivamente. Por outro lado, o atendimento individual é bastante complexo durante a aula, pois quando o professor dá atendimento a um único estudante, os demais ficam isolados e dependendo do grupo, ocorrem muitas conversas paralelas, atrapalhando mais do que ajudam a classe a continuar seu trabalho escolar. Diante dessa situação, há uma tendência de o professor não definir estratégias didáticas de trabalhos em grupo e tratar a todos igualmente: todos deverão seguir o mesmo ritmo de trabalho, estudar os mesmos livros-texto, utilizar o mesmo material didático, repetir as mesmas coisas para adquirir os mesmos conhecimentos e resultados. Além disso, a escola tradicional é encarada por excelência como o único local em que os estudantes se apropriam do conhecimento acumulado pela humanidade, por meio da transmissão de conteúdos e da imitação de modelos e demonstrações. 83 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De EnsinoE Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 2.2.2 Abordagem de ensino e o processo de aprendizagem tecnicista ou comportamentalista/ behaviorista Essa abordagem comportamentalista/tecnicista foi discutida, também, no Capítulo 1. Lá foi denominada de ambientalista/behaviorista – empirista, pois a discussão teve o olhar mais voltado para a Psicologia do desenvolvimento. Ela guarda algumas diferenças com a concepção inatista e a educação tradicional. Aqui, a ênfase incidiu sobre questões de aprendizagem. Para os adeptos da abordagem tecnicista-comportamentalista de ensino-aprendizagem, o “organismo está sujeito às contingências do meio, sendo o conhecimento uma cópia de algo que simplesmente já é dado pelo mundo externo” (MIZUKAMI, 1986, p. 19). Nesse sentido, o indivíduo vai se constituindo a partir das influências do meio, ou seja, suas experiências vão dando origem a comportamentos determinados por esse meio ambiente. Xavier e Nunes (2013, p. 11) afirmam que essa abordagem valoriza de forma contundente a intervenção do meio ambiente no desenvolvimento humano e no processo de aprendizagem, ou seja, ela: [...] atribui grande poder ao ambiente como fator interveniente no desenvolvimento humano/aprendizagem. O homem é visto ao nascer como uma folha em branco a ser escrita pelo ambiente, ou seja, como é um ser flexível, que desenvolve suas características apenas em função das condições presentes no meio, no qual se encontra. Essa visão do ser humano como passivo e moldado pelo ambiente tem como consequência uma definição mecanicista do desenvolvimento e de aprendizagem. Ainda presente no cenário educacional, está marcada por um ensino tecnicista, no qual o professor é aquele que detém o conhecimento e o aluno deve apenas recebê-lo. De acordo com Xavier e Nunes (2013), essa abordagem se configura como comportamentalista/behaviorista ou tecnicista e alguns elementos estão presentes no cenário educacional brasileiro até os dias de hoje em nossas escolas. A preocupação central dessa abordagem é, também, formar o estudante para atender às necessidades da sociedade como tal, portanto, ela foi classificada como uma abordagem conservadora. O behaviorismo nessa abordagem é equivalente à abordagem comportamentalista? Como a ciência vê o behaviorismo? 84 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem Watson afirma que o behaviorismo tem como objetivo a previsão e o controle do comportamento de todo e qualquer indivíduo. Ele vê a ciência como “um ramo experimental e puramente objetivo da ciência natural (WATSON, 2008, p. 289 apud JESUS, 2018, p. 10). Essa abordagem surgiu nos Estados Unidos e foi trazida para o Brasil pelo regime militar, por meio do Programa de Assistência Brasileiro-Americana ao Ensino Elementar – PABAEE, a partir de 1967 (RAPOSO; QUEIROZ, 2008). O representante mais influente dessa abordagem ambientalista/behaviorista é o psicólogo norte-americano Burrhus Frederic Skinner. Sua preocupação central foi construir uma ciência do comportamento que defendesse a: Necessidade de medir, comparar, testar, experimentar, prever e controlar eventos de modo que explicasse o objeto de investigação, de comportamentos observáveis dos sujeitos, desprezando, assim, a análise de outros aspectos da conduta humana como: o raciocínio, os desejos, as fantasias e os sentimentos (DAVIS; OLIVEIRA, 1994, p. 31). FIGURA 5 – A ESCOLA NÃO É LUGAR PARA MUITAS COISAS FONTE: Babette et al. (1986, p. 53) 85 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 Skinner, com a teoria Comportamentalista Radical, foi considerado o psicólogo mais eminente do século XX, como destaca Sampaio (2005, p. 372) na citação a seguir: Skinner marcou profundamente toda a Psicologia americana (e, em consequência, a Psicologia mundial) no século passado e continua ainda hoje a ser amplamente estudado, discutido e a ter suas proposições ampliadas e revisadas (GLENN, 1988; MALAGODI, 1986; MALOTT, 1988). Afora sua importância para a construção da Psicologia como a conhecemos hoje. De acordo com Milholan e Forisha (1992 apud SAMPAIO, 2005), os estudos de Skinner tiveram forte influência no ensino e na psicologia clínica, especialmente, na terapia comportamental. Entretanto, Sampaio (2005) afirma que foi na ciência, principalmente na teoria do Behaviorismo, que buscaram a fórmula para mudar o comportamento humano nesse período histórico. O termo radical – utilizado por Skinner para compor a expressão behaviorismo –, consiste em negar radicalmente explicações metafísicas e atribuições de causas do comportamento a agentes internos/mentais, bem como aceitar e estudar qualquer evento capaz de impactar o organismo (JESUS, 2018, p. 10). Fragmento de texto do livro “Psicologia na educação”, publicado por Claudia Davis e Zilma de Moraes Ramos de Oliveira (1994, p. 31), com a intenção de enriquecer seu aprendizado nesta disciplina. CONCEPÇÃO AMBIENTALISTA/BEHAVIORISTA Na concepção do comportamento defendida por Skinner e seus seguidores, o papel do ambiente é muito mais importante do que a maturação biológica. Na verdade, são os estímulos presentes numa dada situação que levam ao aparecimento de um determinado comportamento. Como isso ocorre? Segundo os ambientalistas (ou comportamentalistas, também chamados de behavioristas, do inglês behavior – comportamento), os indivíduos buscam maximizar o prazer e minimizar a dor. 86 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem Manipulando-se os elementos presentes no ambiente – que, por essa razão, são chamados de estímulos – é possível controlar o comportamento: fazer com que aumente ou diminua a frequência com que ele aparece; fazer com que ele desapareça ou só apareça em situações consideradas adequadas; fazer com que o comportamento se refine e aprimore etc. Daí o motivo pelo qual se atribui à concepção ambientalista uma visão do indivíduo enquanto ser extremamente reativo à ação do meio. FONTE: DAVIS, C.; OLIVEIRA, Z. de M. R. de. Psicologia na educação. 2. ed. São Paulo: Cortez Associados, 1994. Mudanças no comportamento podem ser provocadas de diversas maneiras. Uma delas requer uma análise das consequências ou resultados que o comportamento produz no ambiente. As consequências positivas são chamadas de reforçamento e provocam um aumento na frequência com que o comportamento aparece. Por exemplo, se após arrumar os seus brinquedos (comportamento), a criança ouvir elogios de sua mãe (consequência positiva), ela poderá deixar os brinquedos arrumados mais vezes, porque estabeleceu uma associação entre esse comportamento e aquele da sua mãe. Já as consequências negativas recebem o nome de punição e levam a uma diminuição na frequência com que certos comportamentos ocorrem. Por exemplo, se cada vez que João quebrar uma vidraça ao jogar bola (comportamento) ele for obrigado a pagar pelo estrago (consequência negativa), ele passará a tomar mais cuidado ao jogar, diminuindo os estragos em janelas (DAVIS; OLIVEIRA, 1994). Com base nessa discussão, podemos guiar nossas reflexões com base nas seguintes questões: “O que a diferencia da abordagem anteriormente?”; “Como o sujeito aprende e se desenvolve nessa abordagem?”; “De modo geral, o que caracteriza essa abordagem de ensino-aprendizagem?” e “Como se caracteriza o conhecimento nessa abordagem?”. Quando se interroga aos pensadores dessa abordagem como o sujeito aprende e se desenvolve, observa-se que eles se aproximam mais da Escola Nova do que da abordagem Tradicional. Essa aproximaçãoestá relacionada ao “primado do objeto”, ou seja, o empirismo defendido pela proposta da Escola Nova (MIZUKAMI, 1986). Para os autores comportamentalistas ou behavioristas, “a aquisição do conhecimento é vista como uma “descoberta”. Essa descoberta é nova para o 87 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 indivíduo que a faz. O que foi descoberto, porém, já se encontrava presente na realidade exterior” (MIZUKAMI, 1986, p. 19). Os alicerces do conhecimento são a experiência ou a experimentação planejada, isto é, o indivíduo aprende, a partir da experimentação e da experiência (empirismo) direta sobre o objeto, como um estudante que visita pela primeira vez o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) e descobre as obras de Alfredo Volpi. O estudante faz uma descoberta e por meio dela adquire um conhecimento novo, mas essas obras já existiam e estavam integradas à realidade do MASP na cidade de São Paulo. Essa visita (experiência direta) contribuiu para que esse estudante adquirisse o conhecimento sobre as obras de Volpi. Como as obras já faziam parte do mundo, considera-se que para o sujeito aprender, ele se submete às contingências do meio. O conhecimento é uma cópia de algo que é dado pelo mundo externo. Com base nesta concepção de homem, a educação brasileira assumiu, neste período, a função de preparar os estudantes para incrementar o sistema produtivo (industrialização). Seu principal objetivo era tornar esses estudantes “competentes para atender ao mercado de trabalho, transmitindo, eficientemente, informações precisas, objetivas e rápidas” (LIBÂNEO, 1989, p. 290). Sampaio (2005, p. 380) afirma que Skinner abordou nesse período (1953) um “conjunto de concepções próprias utilizadas na abordagem do objeto, nas quais se tornaram de grande importância o conceito de condicionamento operante”. Esse conceito foi amplamente utilizado nas análises do comportamento verbal e social para as ações humanas. Com isso, as questões relativas à descrição, à evolução e ao planejamento de culturas ocuparam grande parte do livro de Skinner. O termo condicionamento operante é um conceito central na teoria de Skinner e pode ser compreendido como: [...] um mecanismo que premia determinada resposta, seja por parte do indivíduo ou do animal, até ele ficar condicionado a associar a necessidade à ação. Por exemplo, um rato faminto, que em uma experiência percebe que acionando uma alavanca receberá comida. Quando o rato quiser saciar sua fome, tenderá a repetir o movimento (KELLER; SCHOENFELD, 1950, p. 75-76). É importante para entender a teoria de Skinner definir, também, o que é reforço positivo e negativo. O reforço positivo pode ser visto como aquele estímulo que intensifica as respostas quando presente (por exemplo, um rato faminto quando vê o alimento intensifica a pressão da barra ou puxa o cordão para acionar a comida). Como reforço negativo, aquele que intensifica as respostas quando é removido. Temos, então, duas maneiras de definir o reforço negativo. A primeira diz respeito ao efeito de enfraquecimento que tem quando apresentado; a segunda está relacionada ao efeito de reforçamento pela sua remoção. Nesse ponto, “o efeito se faz sentir sobre o comportamento operante; um operante é 88 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem enfraquecido num caso e reforçado no outro. No entanto, deve-se notar que o mesmo operante não deve sofrer as duas modificações simultaneamente” (KELLER; SCHOENFELD, 1950, p. 75-76). Mais tarde, Skinner acrescentou, em sua teoria, os conceitos de punição e extinção em sua teoria do condicionamento operante. Para ele, a punição ocorre quando algo desejável é retirado devido ao comportamento inadequado. Isso ocorre, por exemplo, quando um adolescente tem seu celular retirado devido a um comportamento indesejado naquela cultura. A extinção pode ser vista como um estímulo que reforça uma determinada conduta e deixa de influenciá-la. O castigo é semelhante ao da extinção e é utilizado para reduzir uma conduta indesejada. Para uma melhor compreensão sobre o behaviorismo metodológico e radical tendo como pauta a discussão acerca da natureza dessa abordagem de ensino, sugerimos que você assista ao seguinte vídeo disponível no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=ipHFpXAgjiA&index=2& list=PLlRXPYzCvw2L5zdgiiCXDZ 89TJ4_Eqhyu. Skinner sempre justificou (e lutou) por uma ciência do comportamento com base na crença de que ela poderia ajudar na resolução da maioria dos grandes problemas com que nossa cultura convive. Para ele, o sentido último do empreendimento de uma análise do comportamento não era teórico, mas prático. Portanto, o objetivo final dessa ciência seria o de promover a sobrevivência da cultura (DITTRICH, 2004). Os analistas do comportamento, assim, “deveriam se voltar sempre para o desenvolvimento de uma ciência e de uma profissão voltados para tal fim” (SAMPAIO, 2005, p. 382). Para uma melhor compreensão sobre Behaviorismo: comportamento operante, tendo como pauta a discussão acerca da natureza dessa abordagem de ensino, sugerimos que você assista ao seguinte vídeo disponível no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=s4NM1kK5zUc&list=PLlRX PYzCvw2L5zdgiiCXDZ89TJ4_Eqhyu&index=6. 89 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 A aprendizagem para Skinner é fruto de condicionamento operante, ou seja, um comportamento é premiado, reforçado, até que ele seja condicionado de tal forma que ao se retirar o reforço, o comportamento continua a acontecer. A partir de 1953, Skinner define de forma mais clara sua concepção de ciência. Para ele, a ciência é “meio privilegiado de intervenção na realidade, de resolução de problemas sociais. Uma ciência do comportamento seria uma necessidade para a solução dos problemas sociais” (SAMPAIO, 2005, p. 380). Para uma melhor compreensão sobre Behaviorismo: implicações pedagógicas, tendo como pauta a discussão acerca da natureza dessa abordagem de ensino, sugerimos que você assista ao seguinte vídeo disponível no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=UkrlNh90BFg&list=PLlRXP YzCvw2L5zdgiiCXDZ89TJ4_Eqhyu&index=1. Fragmento de texto do livro “Ensino: as abordagens do processo”, publicado por Maria da Graça Nicoletti Mizukami (1986, p. 27-28), com a intenção de enriquecer seu aprendizado nesta disciplina. A CONCEPÇÃO DE EDUCAÇÃO A educação está intimamente ligada à transmissão cultural. “É quase impossível ao estudante descobrir por si mesmo qualquer parte substancial da sabedoria de sua cultura [...]” (SKINNER, 1968, p. 110). A educação deverá transmitir conhecimentos, assim como comportamentos éticos, práticas sociais, habilidades consideradas básicas para a manipulação e controle do mundo/ambiente (cultural, social etc.). Ao se tomar consciência do poder controlador que a educação assume, passa-se a se conceber o ensino de maneira diferente. Muitos se negam a admitir tal poder. Um problema de natureza epistemológica, no entanto, persiste: o de se saber, exatamente, o que se quer ensinar. 90 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem É necessário mencionar que, na fixação de critérios de desempenhos adequados, são consideradas igualmente: as exigências da agência educacional; as exigências de outras agências a ela ligadas, tais como família, grupos etc., as exigências da própria sociedade. Dessa forma, os centrosdecisórios, em sua maioria, encontram-se fora de cada situação particular de ensino- aprendizagem. O sistema educacional tem como finalidades básicas promover mudanças nos indivíduos, mudanças essas desejáveis e relativamente permanentes, as quais implicam tanto a aquisição de novos comportamentos quanto a modificações dos já existentes. O objetivo último da educação é que os indivíduos sejam os próprios dispensadores dos reforços que elicitam seus comportamentos. O uso adequado das técnicas de modificações de comportamento é aquele em que se passa progressivamente o controle da estruturação do esquema de contingência para cada indivíduo. O indivíduo, dessa forma, será capaz de estruturar as contingências de seu próprio ambiente, de modo que seu comportamento leve às contingências que deseja. Quanto maior o controle, maior a responsabilidade. O comportamento é moldado a partir da estimulação externa, portanto, o indivíduo não participa das decisões curriculares que são tomadas por um grupo do qual ele não faz parte. Referindo-se aos reforços naturais ou primários, Skinner (1993; 1980) argumenta que a ideia do homem natural e bom, corrompido pela sociedade, não é o suficiente para os indivíduos se comportarem de certas maneiras desejáveis. Além disso, muitos reforços naturais, se controladores do comportamento do indivíduo, são muito mais prováveis de levar o indivíduo à preguiça e ao lazer do que a um estado de trabalho e produtividade. Muitas vezes esses reforços levam o indivíduo a demonstrar uma série de comportamentos triviais, exaustivos e sem uso para si ou para a sociedade. O indivíduo pagaria muito caro, diz Skinner, se ele fosse regulado simplesmente por acidentes e contingências naturais. É importante – e nisso consiste o processo da educação ou treinamento social – aumentar as contingências de reforço e sua frequência, utilizando-se de sistemas organizados, pragmáticos, que lançam mão de reforços secundários associados aos naturais, a fim de se obter certos produtos preestabelecidos, com maior ou menor rigor. FONTE: MIZUKAMI, M. da G. N. Ensino: as abordagens do processo. São Paulo: EPU, 1986. 91 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 De modo mais enfático, Skinner (1953) sustenta que “na infância, controla- se intensamente o ambiente das crianças e, mais tarde, para aqueles em que as condições da infância permanecem pela vida afora, em institutos que os asilam”. Nas fábricas e indústrias se mantêm o controle das condições relevantes bastante intensos, a partir do controle do comportamento sob a forma de pequenos salários e condições de trabalho; nas escolas, sob a forma de notas e condições de trabalho; no comércio, por quem quer que possua mercadorias ou dinheiro; pelas agências governamentais, através da polícia e do exército; a clínica psicológica, por meio do consentimento do controlado, e assim por diante. Fragmento de texto do livro “Psicologia na educação”, publicado por Claudia Davis e Zilma de Moraes Ramos de Oliveira (1994, p. 33- 34), com a intenção de enriquecer seu aprendizado nesta disciplina. A aprendizagem, na visão ambientalista, pode assim ser entendida como o processo pelo qual o comportamento é modificado como resultado da experiência. Além das condições já mencionadas para que a aprendizagem se dê – estabelecimento de associações entre um estímulo e uma resposta e entre uma resposta e um reforçador –, é importante que se leve em conta o estado fisiológico e psicológico do organismo. Crianças com fome tornam-se apáticas: não prestam atenção aos estímulos, não conseguem discriminá- los, não percebem as associações que estes provocam. Como consequência, não conseguem aprender. Crianças privadas de afeto tornam-se excessivamente dependentes da aprovação da professora: são incapazes de tomar iniciativas, por medo de que a sua maneira de se comportar provoque sanções e reprimendas. Para que a aprendizagem ocorra é preciso, portanto, que se considere a natureza dos estímulos presentes na situação, tipo de resposta que se espera obter e o estado físico e psicológico do organismo. É ainda importante aquilo que resultará da própria aprendizagem: mais conhecimentos, elogios, prestígio, notas altas etc. Na visão ambientalista, a ênfase está em propiciar novas aprendizagens, por meio da manipulação dos estímulos que antecedem e sucedem o comportamento. Para tanto, é preciso uma análise rigorosa da forma como os indivíduos atuam em seu ambiente, identificando os estímulos que provocam o aparecimento do comportamento-alvo e as consequências que o mantém. A esta análise dá-se o nome de análise funcional do comportamento. Nela defende-se o planejamento das condições ambientais para a 92 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem aprendizagem de determinados comportamentos. A introdução de teorias ambientalistas na sala de aula teve o mérito de chamar a atenção dos educadores para a importância do planejamento de ensino. A organização das condições para que a aprendizagem ocorra exige clareza a respeito dos objetivos que se quer alcançar (objetivos instrucionais ou operacionais), a estipulação da sequência de atividades, que levarão ao objetivo proposto, e a especificação dos reforçadores que serão utilizados. A concepção ambientalista da educação valoriza o papel do professor, cuja importância havia sido minimizada na abordagem inatista. Coloca em suas mãos a responsabilidade de planejar, organizar e executar – com sucesso – as situações de aprendizagens. Para tanto, o professor pode fazer uso de vários artifícios para reforçar positivamente os comportamentos esperados: elogios, notas, diplomas etc., premiando também a entrega de lições caprichadas e corretas. Por outro lado, as teorias ambientalistas tiveram também efeitos nocivos na prática pedagógica. A educação foi sendo entendida como tecnologia, ficando de lado a reflexão filosófica sobre a sua prática. A ênfase na tecnologia educacional exigia do professor um profundo conhecimento dos fatores a serem considerados numa programação de ensino, contudo, tal conhecimento não era transmitido a eles. Programar o ensino deixou de ser uma atividade cognitiva de pesquisar condições de aprendizagem para se tornar uma atividade meramente formal de colocar os projetos de aula numa fórmula padrão. A principal crítica que se faz ao ambientalismo e quanto à própria visão de homem adotada: a de seres humanos como criaturas passivas face ao ambiente, que podem ser manipuladas e controladas pela simples alteração das situações em que se encontram. Nesta concepção, não há lugar para a criação de novos comportamentos. Na sala de aula, ela acarretou um excessivo diretivismo por parte do adulto. Deixou-se de valorizar e fazer uso de situações em que a aprendizagem pode se dar de modo espontâneo, como aquelas nas quais as crianças cooperam entre si para alcançar um fim comum. Tal concepção propõe que as situações de ensino devam ser bem estruturadas e planejadas previamente, recorrendo- se, sempre que possível, à presença de computadores, televisão e outros recursos audiovisuais. Não há, na concepção ambientalista, preocupação em explicar os processos por meio dos quais a criança raciocina e que estariam presentes na forma como ela se apropria dos conhecimentos. FONTE: DAVIS, C.; OLIVEIRA, Z. de M. R. de. Psicologia na educação. 2. ed. São Paulo: Cortez Associados, 1994. 93 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicosVivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 2.2.3 Abordagens de ensino e o processo de aprendizagem construtivista e sociointeracionista Nesta seção, discutiremos duas abordagens que representam no campo educacional, nos dias de hoje, marcos referenciais significativos. São elas: as abordagens de ensino construtivista e sociointeracionista. Cada uma delas possui uma concepção específica de desenvolvimento e de aprendizagem que influencia o processo de aprendizagem. Refletiremos sobre a abordagem construtivista de Piaget e suas contribuições para a educação e para a escola, bem como a abordagem sociointeracionista, que tem como um dos maiores representantes, Lev Semyonovich Vygotsky. Nessas abordagens, o homem é um ser situado historicamente no mundo concreto, real, social, econômico e político, cujo sistema econômico divide os sujeitos em classes sociais diferenciadas, gerando, assim, a desigualdade social. A principal tarefa dos homens, nessa sociedade, é reconstruir a si mesmos coletivamente e o mundo exterior. Xavier e Nunes (2013, p. 11) ressaltam que são: [...] múltiplos os fatores constituintes do desenvolvimento humano, ou seja, entende o sujeito como um ser ativo e interativo no mundo, com diversas influências em sua trajetória. Por conseguinte, é o homem que se constrói e é construído na permanente interação dos aspectos biológicos com o meio no qual está inserido. Tal concepção tem estado presente no âmbito educacional brasileiro a partir da difusão das ideias dos estudiosos como: Piaget, Vygotsky e Wallon. A partir desse entendimento, “as escolas têm buscado desenvolver metodologias mais ativas e críticas, preocupando-se com o processo de conhecer e com as interações e as mediações presentes em sala de aula” (XAVIER; NUNES, 2013, p. 11). Nessa perspectiva, a contribuição do processo educacional é essencial, incluindo, ainda, a ampla difusão do conhecimento acumulado historicamente, privilegiando metodologias que transformem conteúdos abstratos em conteúdos vivos e concretos para facilitar a aprendizagem dos estudantes. Com isso, a escola é vista como parte integrante do todo social, com a tarefa de orientar os estudantes para participarem ativamente na sociedade por meio da aprendizagem do saber elaborado. Neste sentido, o professor, além de ajudar os estudantes a se estruturarem e agirem, busca organizar a metodologia de ensino, selecionando os conteúdos mais significativos que possam contribuir para a formação pessoal e de mundo do trabalho para os estudantes. Na realidade, “não basta que os conteúdos 94 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem sejam bem ensinados, é preciso que eles tenham significação humana e social” (LIBÂNEO, 1989, p. 39), ou seja, os conteúdos devem ser selecionados a partir da experiência dos estudantes, atendendo às peculiaridades locais e às diferenças individuais para serem confrontadas com o saber sistematizado. Portanto, essa abordagem parte das experiências vivenciadas pelos estudantes em seu cotidiano e os tornam o centro da aprendizagem para criar condições de superar suas dificuldades sociais. Para uma melhor compreensão da discussão acerca do interpretativismo e construtivismo, sugerimos que você assista aos vídeos disponíveis em: http://ead.ifg.edu.br/mod/page/view.php?id=34596; https://www.youtube.com/watch?v=j_0BOJO4YEM. Por outro lado, a superação dessas dificuldades se dá por meio da apreensão de conteúdos culturais e universais, bem como do desenvolvimento nos estudantes da capacidade de reavaliá-los frente à realidade social. Assim, a abordagem construtivista apresenta uma visão interacionista de desenvolvimento humano, ou seja, não há ênfase em nenhum dos polos na relação homem e mundo, mas na interação entre eles. Seu principal representante foi o suíço Jean Piaget (1896-1980) e seus trabalhos tiveram grande difusão, no Brasil, em cursos de formação de professores. A preocupação predominante dos estudos de Piaget foi com a gênese do conhecimento. Neles, Piaget mostra que o homem aprende em um processo ativo de contínua interação com o meio social, procurando entender quais os mecanismos mentais usados por ele nas diferentes etapas da vida para entender o mundo. Nessa abordagem, encontra-se a noção de desenvolvimento do ser humano por fases que se inter-relacionam e se sucedem até que atinja estágios de inteligência caracterizados por maior mobilidade e estabilidade. Nessa perspectiva, os trabalhos de Piaget giraram em torno da construção de uma epistemologia genética capaz de mostrar como o conhecimento se desenvolve, desde as estruturas mentais rudimentares do recém-nascido até o pensamento lógico-formal do adulto. Explicou como e em função de que essas estruturas mentais iniciais se transformam, dando lugar a outras cada vez mais complexas. 95 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 Para explicar o processo de desenvolvimento da inteligência humana, Piaget partiu do pressuposto de que o indivíduo herda uma série de estruturas biológicas (sensoriais e neurológicas) que amadurecem em contato com o meio ambiente e predispõem o surgimento de certas estruturas mentais. Dessa forma, para Piaget, não herdamos inteligência, mas um organismo que vai amadurecer em contato com o meio e resultará na formação de estruturas cognitivas que ampliarão a possibilidade do sujeito de interpretação da realidade. Piaget refere-se às estruturas mentais (cognitivas) como esquemas, ou seja, as unidades básicas de pensamento que correspondem à estrutura biológica que mudam e se adaptam. Os esquemas não são elementos estáticos, mas, da mesma forma que as unidades estruturais biológicas, são dinâmicos e variados em seu conteúdo. A transformação das estruturas biológicas inatas do ser humano em esquemas se dá por meio do processo de equilibração. Nesse processo, o ambiente físico ou social coloca a pessoa diante de questões que rompem seu estado de equilíbrio mental, ou seja, questões que ela ainda não consegue compreender completamente. Nesse sentido, Piaget afirma que o sujeito tem uma tendência natural ao equilíbrio, o organismo se mobilizará internamente para alcançar novamente seu estado de equilíbrio. Nessa movimentação, os esquemas mentais são reorganizados ou novos esquemas são construídos, possibilitando uma ampliação da possibilidade de interpretação da realidade e sua adaptação (PIAGET, 1999a; 1999b). Piaget explica, ainda, que essa movimentação interna se dá pelo processo de adaptação. Nesse processo, o indivíduo em desequilíbrio procura utilizar os esquemas mentais da forma em que estão inicialmente organizados – processo de assimilação. Não conseguindo responder à demanda social (por isso encontra- se em estado de desequilíbrio), o organismo busca reorganizar ou construir novos esquemas mentais – processo de acomodação. Dessa forma, o indivíduo vai atingindo formas de equilíbrio cada vez melhores, e sua capacidade de interpretação e atuação na realidade é ampliada, o que significa, para Piaget, desenvolvimento (PIAGET, 1999b). Para exemplificarmos como se dá o desenvolvimento, segundo Piaget (1999b), pensaremos juntos numa situação hipotética, em que um jovem sabe andar de bicicleta e se depara com outro veículo semelhante e mais complexo que a bicicleta, como o monociclo. Estando em estado de desequilíbrio mental e em busca de um comportamento mais adaptativo, o jovem tentará agir com o monociclo da mesma maneira como faz com a bicicleta. Estará usando o processo de assimilação, isto é, de tentar solucionar a situação nova com base 96 Psicologia do Desenvolvimentoe da Aprendizagem nos esquemas mentais que possui em sua experiência. Esse processo não será eficiente, pois essas estruturas são inadequadas e insuficientes para esse novo elemento. O jovem tentará, então, novas maneiras de agir, levando em consideração as propriedades específicas do monociclo. Em outras palavras, modificará seus esquemas mentais para poder dominar essa nova situação pelo processo de acomodação. No momento em que o jovem conseguir dominar adequadamente o novo veículo, diremos que se adaptou a essa nova exigência da realidade e, portanto, desenvolveu-se. Dando continuidade aos seus estudos do desenvolvimento, Piaget (1999b) observou que existem formas diferentes de interagir com o ambiente nas diversas faixas etárias. A essas maneiras típicas de agir e pensar, Piaget denominou de estágios. O desenvolvimento se inicia no estágio sensório-motor, a partir do equipamento inicial (reflexos inatos) que vai gradualmente se transformando em esquemas sensoriais motores rudimentares. Tais esquemas incluem ações motoras explícitas que serão interiorizadas gradualmente e caminharão para um desligamento progressivo da ação para a formação de esquemas conceituais, que supõem a ação mental. Nesse estágio, a criança está na faixa etária aproximadamente que vai de 0 a 2 anos, portanto, a percepção que ela tem do mundo é baseada em seus aspectos sensoriais e motores. Somente no estágio seguinte, denominado de estágio das operações formais, é que a criança atinge os objetivos básicos de seu desenvolvimento mental, quais sejam: pensar abstratamente, pensar sobre situações hipotéticas de modo lógico e organizar regras em estruturas mais complexas. Possivelmente será, portanto, na adolescência, que o sujeito será capaz de conceituar termos, como bondade, amizade, Deus, amor, entre outros (RAPOSO; QUEIROZ, 2008). É importante ressaltar que, segundo Piaget, as novas estruturas que vão surgindo em cada um desses estágios não desaparecem. Segundo o autor, “o essencial dessas construções sucessivas permanece no decorrer dos estágios ulteriores, como subestruturas sobre as quais se edificam as novas características” (PIAGET, 1999a, p. 79). Assim, no adulto permanecem elementos adquiridos nas fases anteriores. 97 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 Para uma melhor compreensão da discussão acerca da equilibração majorante – assimilação e acomodação, sugerimos que você assista aos vídeos disponíveis em: http://ead.ifg.edu.br/mod/page/view.php?id=34596; https://www.youtube.com/watch?v=TL-_LCvtaPg. A partir dessa ideia, é possível entender que, para Piaget (1999b), o processo da aprendizagem é um processo de construção ativa do sujeito, no qual esses sujeitos constroem seus próprios conhecimentos em diferentes estágios. Da mesma forma como ocorre no desenvolvimento, a aprendizagem exige que apresentem ao sujeito situações de desequilíbrio mental, o que o conduzirá à construção de novas estruturas mentais que possibilitem a ampliação da interpretação sob a realidade. Na visão de Piaget (1999a), o sujeito tentará explicar o fenômeno estudado a partir de seus conhecimentos prévios e, em um processo de tentativa e erro, vai construindo novas hipóteses pessoais. Esse é um processo que passa por ações motoras explícitas e que vai sendo gradualmente internalizado até chegar à abstração. É necessário, então, que o aprendiz tenha oportunidade de estabelecer contatos sensório-motores diretos com o objeto de estudo; arriscar hipóteses imaginadas a partir de seus esquemas simbólicos, construindo diferentes teorias explicativas do fenômeno em estudo; ter acesso aos conhecimentos culturalmente construídos a fim de ampliar seus referenciais, em uma perspectiva histórica e contextual; definir e redefinir conceitos e regras em estruturas mais complexas, num processo constante de construção e reconstrução de conhecimentos. No que se refere ao processo educacional, torna-se fundamental que o estudante tenha oportunidades de vivenciar situações que sejam desequilibradoras, de forma que seja possível a construção progressiva das noções e operações. Tais situações, no entanto, devem considerar tanto o aspecto intelectual quanto o aspecto moral, uma vez que, segundo Piaget (1999a, p. 69): Não se pode formar personalidades autônomas no domínio moral se por outro lado o indivíduo é submetido a um constrangimento intelectual de tal ordem que tenha de se limitar a aprender por imposição sem descobrir por si mesmo a verdade: se é passivo intelectualmente, não conseguiria ser livre moralmente. Reciprocamente, porém, se a sua moral consiste exclusivamente em uma submissão à autoridade adulta, e se os únicos relacionamentos sociais que constituem 98 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem a vida da classe são os que ligam cada aluno individualmente a um mestre que detém todos os poderes, ele também não conseguiria ser ativo intelectualmente. O objetivo da educação, portanto, não será a transmissão da cultura, mas o desenvolvimento de uma autonomia intelectual que possibilite ao estudante aprender por si próprio a construir o conhecimento. Além disso, é fundamental que o processo pedagógico seja organizado de forma que haja um equilíbrio nas relações interindividuais e condições de cooperação, colaboração, trocas e intercâmbio entre as pessoas, ao invés de uma relação reguladora. Para uma melhor compreensão da discussão do construtivismo, sugerimos que você assista ao vídeo disponível em: https://www. youtube.com/watch?v=_1zEriZIwQc. A escola, nessa perspectiva, deve organizar-se de forma que o estudante tenha uma atividade intelectual baseada em ações, investigações e pesquisas espontâneas. Para isso, torna-se fundamental que se possibilitem tentativas de ensaios e erros que uma atividade real pressupõe. É importante, também, que os estudantes tenham a liberdade de se agruparem espontaneamente e que os temas a serem pesquisados constituam verdadeiros problemas de seus interesses. No que se refere ao ensino nessa perspectiva, a relevância se encontra na atividade do sujeito. O ensino deve ser baseado na pesquisa, na investigação e na solução de problemas por parte do estudante. A descoberta garantirá ao estudante uma compreensão da estrutura fundamental do conhecimento, fazendo com que os processos pelos quais a aprendizagem se realizou assumam papel preponderante sobre os produtos dessa mesma aprendizagem. Ao professor, portanto, cabe o papel de criar situações, nas quais se possam estabelecer reciprocidade intelectual e cooperação moral e racional. Para isso, ele precisa evitar a rotina e a fixação de respostas ou hábitos. Ele será o provocador dos desequilíbrios e deverá orientar o estudante sem oferecer-lhe as soluções, dando-lhe ampla margem ao autocontrole e à autonomia. Dessa forma, o professor deve assumir o papel de investigador, pesquisador, orientador e coordenador, levando o estudante a trabalhar o mais independente possível. Para Piaget (1999a, p. 88), o professor torna-se fundamental para: 99 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 Criar as situações e construir os dispositivos de partida suscetíveis de apresentar problemas úteis à criança e, em seguida, organizar contraexemplos que forçam a reflexão e obrigam o controle de soluções mais precoces: o que se deseja é que o mestre deixe de ser apenas um conferencista eestimule a pesquisa e esforço, em lugar de contentar-se em transmitir os problemas já solucionados. Como nessa abordagem a inteligência se constrói a partir da troca do sujeito com o meio, por meio das ações, o trabalho em equipe se torna uma excelente opção metodológica, isto é, o trabalho em grupo não é só uma condição para o desenvolvimento mental do sujeito, mas interferirá também na construção da autonomia dele. Pode, ainda, servir como excelente estratégia para superar o egocentrismo natural do comportamento humano, que observamos claramente quando ocorre conflitos provenientes de interesses individuais diferentes. É importante, também, que o trabalho seja apresentado a partir de situações que gerem investigação por parte do estudante. Segundo esta abordagem, não se deve ensinar à criança aquilo que ela poderia descobrir por conta própria. De acordo com Piaget (1999b, p. 93), “tudo o que se ensina à criança a impede de inventar ou de descobrir”. Tal ação serve com uma barreira para o desenvolvimento cognitivo da criança. Sugere-se enfatizar os agrupamentos autônomos entre os estudantes, para que o mecanismo social do respeito mútuo, da troca de informações, dos pontos de vista e da cooperação possa ser desenvolvido. Por fim, a avaliação, nessa abordagem, também ganha características diferentes daquela apresentada pela escola tradicional. Ela deverá ser realizada a partir de parâmetros extraídos da própria teoria e implicará verificar se o aluno já adquiriu noções, conservações, realizou operações e relações (MIZUKAMI, 1986). O rendimento poderá ser avaliado, de acordo com a sua aproximação, a uma norma qualitativa pretendida e ele poderá ser verificado por meio de: reproduções livres, com expressões próprias da criança, reproduções sob diferentes formas e ângulos, explicações práticas e causais. 100 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem 2.2.4 A abordagem sociointeracionista: algumas contribuições de Vygotsky para a educação Passaremos a discutir, agora, a abordagem teórica sociointeracionista, cujo principal representante é o crítico literário russo Lev Semyonovich Vygotsky (1896-1934). Essa abordagem é, também, uma abordagem interacionista, na qual “o homem é reconhecido como produto da interação dos aspectos biológicos e sociais, dentro de um tempo e espaço determinados e em um processo permanente de construção histórica” (ZANELLA; NUEMBERG, 2008, p. 121). Para uma melhor compreensão da discussão acerca do construtivismo e socioconstrutivismo, sugerimos que você assista aos vídeos disponíveis em: http://ead.ifg.edu.br/mod/page/view. php?id=34596; https://www.youtube.com/watch?v=gfOdV_MV8Ug. Vygotsky (1998) dedicou-se a estudar, prioritariamente, as funções psicológicas superiores, também chamadas de processos mentais superiores. Segundo o autor, as funções psicológicas superiores representam a capacidade estritamente humana de pensar em objetos ausentes, de imaginar eventos nunca vividos ou de planejar ações a serem realizadas em momentos posteriores, de maneira intencional e voluntária. Tais funções, segundo o teórico, são desenvolvidas permanentemente ao longo da história do sujeito, por meio da sua interação com uma determinada cultura, em um momento histórico determinado. Vygotsky (1998) trabalha com a noção de que a relação do homem com o mundo não é direta. Essa relação, de acordo com o teórico, é mediada por instrumentos e signos, que representam instrumentos auxiliares da atividade humana. O instrumento é entendido como um elemento interposto entre o sujeito e o objeto, ampliando as possibilidades de transformação da natureza. No caso de um lenhador, o machado, por exemplo, representa um instrumento mediador da relação dele com seu trabalho e o mundo, uma vez que corta mais e melhor que apenas a mão humana. Os instrumentos são, pois, elementos externos ao sujeito, que têm como função provocar mudanças nos objetos e controlar processos da natureza. 101 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 Os signos, por sua vez, são orientados pelo próprio sujeito. Eles se dirigem ao controle de ações psicológicas, seja do próprio sujeito, seja de outras pessoas. São interpretáveis como representação da realidade e podem referir- se a elementos ausentes do espaço e do tempo presentes, como fazer uma lista de compras por escrito, utilizar um mapa para encontrar um determinado local ou dar um nó no lenço para não esquecer um compromisso são ações de como recorremos à mediação de signos para melhorar nossa possibilidade de armazenamento de informações e de controle da ação psicológica. A invenção e o uso de signos podem ser compreendidos como: [...] meios auxiliares para solucionar um dado problema (lembrar, comparar coisas, relatar, escolher etc.), é análoga à invenção e ao uso de instrumentos, só que agora no campo psicológico. O signo age como um instrumento da atividade psicológica de maneira análoga ao papel de um instrumento no trabalho (VYGOTSKY, 1984, p. 59-60). O conceito de mediação, nesse sentido, torna-se o centro da explicação vygotskyana sobre o funcionamento psicológico, e é reconhecido como o processo essencial para tornar possível atividades psicológicas voluntárias, intencionais e controladas pelo próprio indivíduo. Segundo o teórico, ao longo do desenvolvimento de cada indivíduo, a utilização das marcas externas se transformará em processos internos de mediação, ou seja, o indivíduo constrói ao longo de sua história representações mentais que substituem os objetos do mundo real. Esse mecanismo é chamado por Vygotsky (1984) de internalização. Para ele, essa capacidade de lidar com representações que substituem o próprio real é que possibilita ao homem libertar- se do espaço e do tempo presentes, fazer relações mentais na ausência das próprias coisas, imaginar, fazer planos e ter intenções. Ao longo da história da espécie humana, de acordo com Vygotsky (1984 apud OLIVEIRA 1997), os signos passaram a ser compartilhados pelo conjunto dos membros do grupo social, permitindo a comunicação entre os sujeitos e o aprimoramento da interação social. Os sistemas de representação da realidade, portanto, são socialmente dados, ou seja, “é o grupo cultural onde o indivíduo se desenvolve que lhe fornece formas de perceber e organizar o real, as quais vão constituir os instrumentos psicológicos que fazem a mediação entre o indivíduo e o mundo” (OLIVEIRA, 1997, p. 36). Nesse sentido, a interação face a face entre indivíduos particulares desempenha um papel fundamental na construção do ser humano: é através da relação interpessoal concreta com outros homens que o indivíduo chegará a 102 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem interiorizar as formas culturalmente estabelecidas de funcionamento psicológico. Entretanto, o processo pelo qual o indivíduo internaliza as informações, os conceitos e os significados culturais não é um processo de absorção passiva, mas de transformação e síntese. Tal processo ocorre num constante movimento de recriação e reinterpretação, em que cada sujeito é ativo e onde acontece a interação entre o mundo cultural e o mundo subjetivo de cada um (OLIVEIRA, 1997). Para uma melhor compreensão da discussão acerca das ferramentas psicológicas, sugerimos que você assista aos vídeos disponíveis em: http://ead.ifg.edu.br/mod/page/view.php?id=34596; https://www.youtube.com/watch?v=ZvY8qbIuLvQ. Pensar o processo de desenvolvimento do ser humano marcado por sua inserção em determinado grupo social é reconhecer que esse processo se dá ‘de fora para dentro’. Em outras palavras, nessa perspectiva, a criança primeiramenterealiza ações externas, que serão interpretadas pelas pessoas ao seu redor, de acordo com os significados culturalmente estabelecidos. Em seguida, o sujeito poderá atribuir significados para suas próprias ações e desenvolver processos psicológicos internos que podem ser interpretados por ele próprio. Essa perspectiva de desenvolvimento explicitada por Vygotsky (1984) enfatiza a importância do aprendizado. Para o autor, existe um percurso de desenvolvimento, em parte definido pelo processo de maturação do organismo individual, pertencente à espécie humana, mas é o aprendizado que possibilita o despertar de processos internos de desenvolvimento que, se não fosse o contato do sujeito com certo ambiente cultural, não ocorreriam. Vygotsky (1984, p. 101) afirma que “o aprendizado é um aspecto necessário e universal do processo de desenvolvimento das funções psicológicas superiores culturalmente organizadas e especificamente humanas”. Essa concepção de aprendizagem reforça a importância que Vygotsky deu ao papel do outro social no desenvolvimento dos indivíduos, uma vez que, segundo o autor, não há desenvolvimento pleno sem suporte de outras pessoas da mesma espécie. Para explicar essa relação com o outro, Vygotsky oferece um conceito específico essencial de sua teoria: zona de desenvolvimento proximal – ZDP. Segundo o autor, o desenvolvimento infantil configura-se pela: 103 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 [...] zona de desenvolvimento proximal. Que é a distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes (VYGOTSKY, 1984, p. 97). A ZDP refere-se, então, ao caminho que o indivíduo percorre para desenvolver suas funções mentais superiores. Ela está em constante transformação num movimento em que o processo de aprendizagem desperta processos de desenvolvimento. É fundamental lembrar, ainda, que para Vygotsky, o adulto ou a criança mais experiente deve interferir constantemente nessa ZDP a fim de movimentar o processo de desenvolvimento da criança. FIGURA 6 – ZONA DE DESENVOLVIMENTO PROXIMAL FONTE: A autora Apresentamos um exemplo de como podemos agir na ZPD para que a criança consiga fazer sozinha, vamos supor que uma criança esteja aprendendo a engatinhar. Nessa fase, se um adulto ou uma criança mais velha pegar a mão da criança, ela conseguirá andar, partindo inicialmente de um processo de imitação do adulto. Essa capacidade de andar com a ajuda de um outro social mais competente representa o nível de desenvolvimento potencial da criança, e a distância entre engatinhar e andar é a ZDP. À medida que a criança vai sendo mediada por um outro ser social, ela vai internalizando o andar em um plano intrapsicológico até conseguir desenvolver a atividade sozinha. No momento em que a criança conseguir andar sozinha, seu nível de desenvolvimento real passa a ser “andar”, e o potencial será uma outra atividade mais difícil, como “correr” ou “saltar”, por exemplo. É importante, então, que o mediador esteja sempre atento àquilo que a criança já faz sozinha, a fim de conduzi-la a níveis mais avançados de desenvolvimento por meio de processos de aprendizagem. 104 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem Para uma melhor compreensão da discussão acerca da Zona de Desenvolvimento Proximal, sugerimos que você assista aos vídeos disponíveis em: http://ead.ifg.edu.br/mod/page/view.php?id=34596; https://www.youtube.com/watch?v=vUX3XJVPlWo. A implicação dessa concepção de Vygotsky para o ensino é imediata. Se o aprendizado impulsiona o desenvolvimento, então a escola tem um papel essencial na construção do ser psicológico adulto dos indivíduos que vivem em sociedades escolarizadas. Caberá a ela conhecer o nível de desenvolvimento real dos alunos e dirigir o ensino para estágios de desenvolvimento ainda não incorporados pelos estudantes, funcionando como um motor de novas conquistas psicológicas. Vygotsky (1984) destaca, então, a necessidade de a escola fazer a ponte entre os conhecimentos espontâneos gerados pela observação e experiências dos estudantes, com os conteúdos científicos, desenvolvidos pelo homem nas diversas áreas de conhecimento. O processo de ensino na escola, nessa perspectiva, deve ser construído tomando como ponto de partida o nível de desenvolvimento real do estudante, e, como ponto de chegada, os objetivos estabelecidos pela escola, supostamente adequados ao grupo de estudantes. O percurso será balizado pelo nível de desenvolvimento potencial da criança, de forma que ela possa avançar em sua compreensão de mundo a partir dos conhecimentos já consolidados e tendo como meta etapas posteriores, ainda não alcançadas. Nesse sentido, o único bom ensino é aquele que se adianta ao desenvolvimento. O professor, nesse processo, assume um papel especial de mediador das relações interpessoais e do conhecimento construído historicamente. Em outras palavras, ele será “um intermediário entre o conteúdo em si e a atividade construtora dos estudantes, determinando em grande parte que esta mediação seja feita de tal forma que o estudante possa produzir determinadas atividades” (COLL; MARCHESI; PALACIOS, 1996, p. 23). Além disso, ele terá um papel explícito de interferir na ZDP dos estudantes, provocando avanços que não aconteceriam espontaneamente. 105 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 Assim, o professor poderá usar, então, diferentes procedimentos de ensino, como demonstrações, assistência, fornecimento de pistas, instruções etc., todos eles essenciais para a promoção do ‘bom ensino’. Vygotsky (1998) sugere, também, que se faça uso da imitação, não como mera cópia do modelo, mas como uma reconstrução individual daquilo que é observado nos outros. Segundo o autor, esse procedimento possibilita que o estudante realize ações que estão além de suas próprias capacidades, o que contribui para o seu desenvolvimento. Por fim, destacamos um outro aspecto muito enfatizado na teoria, que se refere à interação entre os estudantes. Segundo Vygotsky (1998), os grupos de estudantes são sempre heterogêneos quanto ao conhecimento já adquirido nas diversas áreas, e uma criança mais avançada em um determinado assunto pode contribuir para o desenvolvimento de outras. “Assim como o adulto, uma criança também pode funcionar como mediadora entre uma outra criança e as ações e significados estabelecidos como relevantes no interior da cultura” (OLIVEIRA, 1997, p. 64). Em síntese, as abordagens pedagógicas discutidas nessa seção continuam influenciando as pessoas e influenciam o processo de ensino e aprendizagem em todos os níveis e modalidades de ensino. Esperamos que a exposição até aqui continue influenciando sua visão para que siga se vendo e vendo os estudantes com os quais trabalha como sujeitos do processo histórico, pois ao mesmo tempo fazem a história e são determinados por ela. Além disso, buscou- se explicitar que para interferir no presente, que já contém os germes do futuro, torna-se fundamental compreender o percurso já construído no passado. A compreensão da história possibilitará uma ação transformadora no processo de ensino-aprendizagem de todas as áreas do conhecimento, bem como fornecerápsicológicos, sugerimos que assista ao seguinte vídeo no YouTube: https://www.youtube.com/ watch?v=I__1zse1d8Q&list=PLxI8Can9yAHdcP2d2gr1Ka. Do final do século passado para os dias atuais, constata-se que a sociedade brasileira vem se tornando mais plural e mais complexa, exigindo novas formas de intervenções e posicionamentos críticos por parte das instituições e das pessoas em todas as áreas do conhecimento. A Psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem humana são duas dessas áreas de conhecimento e de aplicação prática que se apresentam como extremamente relevantes para dar continuidade aos processos de desenvolvimento e de aprendizagem humana. Com isso, a Psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem passaram a ser vistas como disciplinas que estudam a formação humana, a partir de diversas dimensões, tais como: biológicas, cognitivas, afetivas, sociais, econômicas, políticas, culturais, entre outras para atender às necessidades dos homens no mundo contemporâneo. Cabe dizer, ainda, que as mudanças no desenvolvimento e na aprendizagem humana não começaram hoje e não vão encerrar, também, por aqui. Elas vão exigir dos homens que transformem seu desenvolvimento, seu modo de ser, de agir e de aprender para acompanhar as transformações socioeconômicas, políticas, culturais e ambientais que ocorrem em seu entorno e no mundo como um todo. Muitos estudos têm concebido o desenvolvimento humano como um processo de mudanças contínuas que acontecem durante toda a vida. Ao longo da história, observa-se que diversas áreas do conhecimento manifestaram o interesse de compreender esse fenômeno. Apesar do interesse comum das áreas, elas têm empreendido estudos que muitas vezes geram resultados contraditórios e até antagônicos por falta de articulação nos debates, por exemplo, um dos estudos da Filosofia afirmou que o desenvolvimento humano era uma ilusão; e os de ciências 14 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem naturais orientavam, a partir da linha de tempo, que os processos de mudanças seriam reais e naturais, uma vez que as mudanças da espécie humana seguem o curso da evolução. Em face da importância de esclarecer o conceito de evolução, assim como desconstruir alguns mitos resultantes de embates ideológicos, indicamos que assista ao seguinte vídeo no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=H_XyC1DOzB4. O termo “psicologia” é usado pela primeira vez em 1590 como título de uma obra escrita por Rudolf Goclenius (1547-1628), professor da Universidade de Marburgo, na Alemanha, e que ficou muito conhecido na época por suas contribuições à terminologia filosófica. Logo de início, a história da Psicologia foi confundida com a Filosofia até meados do século XIX. A partir do século XIX, com o positivismo de Auguste Comte (1798-1857), a construção do conhecimento psicológico foi ganhando corpo e delimitando seu objeto de estudo, buscando compreender os processos mentais, os sentimentos, a razão, o inconsciente, as atividades psíquicas e o comportamento humano e animal. No século XX, a Psicologia passa a ser vista como ciência. “Uma visão abreviada de seu nascimento nos remete ao primeiro laboratório de psicofisiologia criado por Wilhem Wundt (1832-1920), na Universidade de Leipizig (Alemanha)” (NETTO; COSTA, 2017, p. 217). Biaggio e Monteiro (1998) afirmaram que houve, de certa forma, no período entre 1960 e 1990, um grande interesse em compreender como os homens se desenvolviam e aprendiam. Essa questão não é novidade. Muitos pensadores e pesquisadores se debruçaram sobre isso desde a Antiguidade. Nesse período mais recente, foi ampliado, significativamente, o número de pesquisas nesse campo da Psicologia do desenvolvimento humano e da aprendizagem. Entretanto, não se pode ignorar que, nesse período, em meados da década de 1970, essas áreas sofreram, também, grandes influências da teoria behaviorista 15 Bases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da PsicologiaBases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da Psicologia Do Desenvolvimento E Da Aprendizagem HumanaDo Desenvolvimento E Da Aprendizagem Humana Capítulo 1 e da aprendizagem social. Somados a isso, registrou-se o despertar do interesse dos pesquisadores do desenvolvimento e da educação pela teoria genética de Piaget, como arcabouço teórico. Aprendizagem social, de acordo com Mota (2005), tem um vínculo direto com o meio social que circunscreve não só as condições de vida do indivíduo, mas também a sua relação com o ambiente social, seja a escola, a família, o trabalho, o bairro, a comunidade, a cidade com foco na percepção e compreensão desses espaços como formadores. A consolidação dos conhecimentos depende dos significados que os sujeitos aprendizes carregam com relação à experiência social das crianças, do jovem e dos adultos na família, no meio social e no trabalho. Com o intuito de apresentar uma visão ampla acerca do sujeito psicológico, em contraposição à noção de sujeito ideal ou epistêmico, de modo a possibilitar uma melhor compreensão da complexidade do sujeito para além dos reducionismos típicos dos olhares circunspectos em dimensões, como o biológico, a cognição, o sociocultural ou o afetivo e pensar sob o prisma das interações, tendo como pauta reflexões interdisciplinares que consideram, simultaneamente, aspectos, como os neurotransmissores, os sentimentos, a linguagem e os esquemas mentais, nesse sentido, indicamos que assista ao seguinte vídeo no YouTube: https://www.youtube.com/ watch?v=t7qYh3CoAHE&list=PLxI8Can9yAHdcP2d2gr1Kaw0jCyKV 7jWB&index=3. Já nos anos 1990, a psicologia do desenvolvimento humano e da aprendizagem, acompanhando as mudanças vivenciadas pela sociedade brasileira, traçaram novos paradigmas. Moura e Moncorvo (2006) destacaram, ainda, que esses paradigmas sinalizaram que não era mais possível continuar realizando pesquisas de forma isolada. Assim, era necessário que as pesquisas dessa área incluíssem a interdisciplinaridade e articulassem outros contextos 16 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem sem que esses contextos fossem, ainda, mais reais, ou seja, os contextos mais reais seriam aqueles em que os sujeitos vivenciassem (in lócus) o seu próprio desenvolvimento. Registraram-se, nesse período, alguns estudos que começaram a encarar o desenvolvimento humano mais ampliado como um ciclo vital, ao invés da tradicional ênfase na infância e adolescência. Como ressaltamos anteriormente, na entrada do novo milênio, os psicólogos do desenvolvimento foram confrontados com novos desafios. Esses desafios envolvem, sobretudo, o caráter multidisciplinar dessa disciplina, fazendo com que psicólogos do desenvolvimento precisem encontrar uma linguagem que facilite a comunicação entre profissionais de diferentes áreas de atuação (DESSEN; COSTA JUNIOR, 2005). Este é ainda um desafio que se tenta ultrapassar neste campo de atuação. Cada vez mais o desenvolvimento foi estudado ao longo do ciclo vital, ao invés da tradicional ênfase na infância e na adolescência. Magnusson e Cairns (1996) propuseram que as mudanças de perspectivas do estudo do desenvolvimento humano constituíssem uma Ciência do Desenvolvimento Humano, uma disciplina independente que englobasse conhecimentos não só da psicologia, mas de outras áreas afins. Com isso, fundou-se, em 1998, a “Sociedade Brasileira de Psicologia do Desenvolvimento” no Brasil. Novos paradigmas emergiram na psicologia do desenvolvimento, assumindo o caráter interdisciplinar dessa disciplina. Assim, a partir da importância de se discutir nesse campo, passou-se, também, a incorporar nas pesquisas os diversos contextos em que os indivíduos se desenvolvem, inclusive a dimensão histórica do desenvolvimento (DESSEN; COSTA JUNIOR, 2005; MOURA; MONCORVO, 2006). Na esteira dessas mudanças, os pesquisadores brasileiros Dessen e Costa Junior (2005) propuseram substituir os estudos do desenvolvimento humano pelasubsídios para recriar as relações sociais existentes nas instituições de ensino de suas comunidades. 1 Solicitamos que assista ao seguinte vídeo no YouTube: https://www. youtube.com/watch?v=9i5s85TpViI. Após assisti-lo, elabore uma produção escrita que apresente uma visão mais ampla do que se denomina a intervenção pedagógica discutida por Lev Vygotsky. R.:____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 106 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem ____________________________________________________ ____________________________________________________ ___________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ___________________________________________________. 2 Para este autor, as capacidades do ser humano têm origem e se desenvolvem nas interações (ações externas) que são internalizadas, ou seja, transformadas em ações internas. É importante frisar que o desenvolvimento das capacidades de pensar e agir não se dá de forma homogênea e nem como um passe de mágica: são movidas por necessidades, interesses, paixões, emoções, expectativas, inclinações e conflitos. Este texto é parte da fundamentação psicopedagógica dos PCN e faz referência ao autor: ( ) Piaget. ( ) Wallon. ( ) Paulo Freire. ( ) Vygotsky. 3 Duas meninas, da mesma turma, saíram muito entusiasmadas da aula, conversavam sobre o que estavam aprendendo e foram questionadas por colegas de outra turma sobre o motivo de tanto entusiasmo. Eles queriam saber como eram as aulas da professora Luiza, que era muito elogiada pelos alunos. As duas foram logo contando: “A aula dela é muito gostosa porque todo mundo tem o mesmo direito de participar e falar, dar opiniões; não fica assim, de deixar os alunos meio isolados, pelo contrário”. E a outra menina complementa: E na hora de explicar, ela explica de um jeito que não tem jeito de não entender. Quando ela está explicando, ela está conversando com os alunos e pede muito a opinião da classe inteira. É um jeito muito fácil de aprender”. O encontro cotidiano entre professores e alunos em sala de aula envolve um conjunto de fatores necessários para facilitar a aprendizagem. No caso da professora Luiza, as alunas colocam em destaque a sua habilidade em: 107 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 (a) Estabelecer vínculos entre os novos conteúdos e os conhecimentos prévios, bem como determinar o que deve constituir o ponto de partida das aulas. (b) Promover o trabalho independente por meio de situações em que possam se atualizar e utilizar autonomamente os conhecimentos construídos. (c) Criar oportunidades para os alunos expressarem suas próprias ideias e selecionar os aspectos relevantes e os que devem ser descartados. (d) Gerar um ambiente em que seja possível que os estudantes se abram, façam perguntas e aproveitar, quando possível, as contribuições dos alunos. (e) Contar com as contribuições e os conhecimentos dos alunos, estabelecer um ambiente favorável, além de criar uma rede comunicativa na aula. 3 APRESENTANDO PROCESSOS PSICOPATOLÓGICOS DOS SUJEITOS NO DESENVOLVIMENTO HUMANO A psicopatologia é o estudo das doenças mentais, mais especificamente, um campo de estudo acerca do sofrimento psíquico. Essa construção de conhecimento tem como propósito contribuir com informações e dados sistematizados para que os sujeitos, durante seu desenvolvimento, tenham acesso a esclarecimentos e desmistificação sem um julgamento moral do objeto em apreciação. Isso porque o propósito é poder observar, reconhecer e ter um melhor entendimento das doenças mentais que afetam as pessoas. 108 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem 3.1 CARACTERIZAÇÃO DOS PROCESSOS PSICOPATOLÓGICOS NO DESENVOLVIMENTO HUMANO E NA APRENDIZAGEM Como todo conhecimento, a psicopatologia requer um pensamento sustentado em conceitos, de modo sistemático, e sua origem se dá em razão de uma tradição médica (observação de doentes mentais, sobretudo ao longo do século XIX e XX) e humanista (Filosofia, Literatura, Artes e Psicanálise). FIGURA 7 – PSICOPATOLOGIAS FONTE: . Acesso em: 19 ago. 2019. Nos últimos 40 anos, a psicopatologia passou por profundas mudanças no Brasil. Essa área está cada vez mais presente no cotidiano e se relaciona com as teorias, os conceitos e as práticas psiquiátricas e seus usos por distintos públicos. Nas relações sociais, esses referenciais são recorridos pelas pessoas e isso tem repercutido em consequências para a vida das pessoas e no dia a dia delas (vide Figura 8). 109 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 FIGURA 8 – REFLEXOS NO COTIDIANO FONTE: . Acesso em: 19 ago. 2019. A psicopatologia não é científica e sim uma atividade permanente que se constitui, nos últimos 200 anos (desde que se criou a ideia de doença mental), como exercício cultural constante de demarcação do que é a normalidade, do que é a diferença (mas ainda não patologia) e do que é a diferença que se considera patológica e que exige intervenção. Os critérios de definição dos fenômenos que distinguem o normal do patológico variam muito conforme as opções filosóficas dos profissionais. Além disso, os critérios de normalidade podem ser combinados em conformidade com a situação. Xavier e Nunes (2013, p. 12) afirmam que quando se trata da evolução humana, a palavra “‘normal’ não deve ser entendida como um julgamento de valor do que é melhor ou pior, mas como um parâmetro científico para avaliar diversos caminhos, formas e expressões do desenvolvimento”. Outro autor que discute sobre normalidade é Foucault (1926-1984). Para ele, o termo normalidade tem sido visto como um instrumento de controle social, compreendido a partir de determinadas culturas como “os comportamentos, pensamentos e sentimentos “adequados” para a população, em geral. Assim, faz referência à ideia de enquadre e ajustamento” (XAVIER; NUNES, 2013, p. 12). Para Bee (2000 apud XAVIER; NUNES, 2013, p. 12): É tênue a linha entre o que se dá de forma atípica ou não, pois alguns problemas considerados desviantes da média geral, podem, em determinados estágios, fazer parte do desenvolvimento “normal”. Além do mais, é preciso atentar para ritmos e singularidades dos sujeitos, reconhecendo que em alguns aspectos, o desenvolvimento pode ser visto como patológico e em outros não. Por exemplo, a criança pode expressar dificuldades no andar, mas no aspecto afetivo e cognitivo está dentro do que se espera na sua faixa etária. 110 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem A rigor, a psicopatologiaé algo que todos nós, como membros da sociedade, contribuímos à medida que damos subsídios para a compreensão das experiências psíquicas e dos comportamentos. Uma experiência ou uma conduta para ser considerada patológica não é algo científico, o sofrimento é inerente e implica uma avaliação subjetiva que foge à objetividade científica. Assim, as demarcações das fronteiras entre normalidade, diferença e patologia são um exercício constante de toda a sociedade, desde que se constituiu esse campo da psicopatologia (últimos 200 anos). FIGURA 9 – RECONHECIMENTO DE QUE A PSICOPATOLOGIA NÃO É CIENTÍFICA FONTE: . Acesso em: 19 ago. 2019. A partir da ilustração (Figura 9) que retrata os impasses do reconhecimento da psicopatologia, em nossa visão, o entendimento do que vem a ser científico está relacionado ao tipo de conhecimento que é passível de contestação ou de ser submetido à comprovação. Assim, a capacidade de teste é o divisor de águas para a sedimentação do que é e do que não é científico, dado que a ciência é sempre algo que pode ser refutado e tudo aquilo que não está passível de ser refutado, então, não é científico. É sob esse viés que a psicopatologia não é considerada uma ciência, em razão dos argumentos apresentados anteriormente, definindo-a como um exercício cultural (Figura 10). 111 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 FIGURA 10 – A CIÊNCIA É ALGO QUE PODE SEMPRE SER REFUTADO FONTE: . Acesso em: 19 ago. 2019. Pontua-se que o comportamento é entendido em nossa reflexão como aquilo que torna possível a caracterização das ações realizadas pelas pessoas (nadar, escrever, caminhar, rezar). Os processos mentais são vistos, em nossa perspectiva, como as experiências internas pelas quais o ser humano vivencia (sonhos, lembranças, sentimentos, vontades). A psicopatologia da infância e da adolescência é configurada pela existência de transtorno em pelo menos uma das seguintes dimensões: comportamento manifesto; estados emocionais; relacionamentos interpessoais; e função cognitiva. Para o estudo desse campo voltado para a infância e para a adolescência são considerados enfoques que subvencionam tais pesquisas, como podemos assinalar os seguintes: fenomenologia clínica; fatores psicossociais; fatores demográficos; fatores biológicos; fatores genéticos; fatores familiares; história natural; e resposta à intervenção. FIGURA 11 – PSICOPATOLOGIA INFANTIL (NECESSÁRIO CONHECER) FONTE: . Acesso em: 19 ago. 2019. 112 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem Como podemos notar, esse campo de estudo se vale de muitos referenciais em razão da complexidade e das exigências a que uma discussão desse porte pode estar relacionada ao ser humano, que demanda cada vez mais um estofo para construir possibilidades interpretativas. É importante salientar que para pensar acerca de um transtorno mental é preciso entender as operações mentais que estão envolvidas nessa condição apresentada. Logo, em termos de operações mentais, as funções neuropsicológicas precisam ser evidenciadas, ou seja, aspectos concernentes à memória, à atenção e às funções mentais executivas. Por outro ângulo, faz-se necessário, também, nessa esteira de propósitos, discutir as atividades psíquicas que são fontes importantes, como é o caso das funções mentais superiores, tais como: raciocínio, julgamento, percepções, consciência e sentimentos, como destaca Vygotsky (1984). Nesse tocante, para que se consiga realizar um diagnóstico, é crucial a realização de ações procedimentais capazes de constituir um panorama confiável para as afirmações apresentadas. Isso pode ocorrer por intermédio das seguintes estratégias: entrevista diagnóstica direcionada aos pais com o propósito da aplicação de questionário flexível, sistemático e detalhado; avaliação geral e realização de exame físico; entrevista com forte marca de ludicidade com a própria pessoa para se ter uma ideia do seu estado mental; proceder uma avaliação da capacidade de adaptação do paciente; tomar conhecimento dos relatórios pediátricos, escolares e daqueles que possam ter sido construídos no âmbito da comunidade que o paciente mantém algum tipo de relação, de modo que esses recursos deem um estado do comportamento e do rendimento em sentido mais específico; e a elaboração da história evolutiva. Além disso, registramos a importância de se consolidar ações como a avaliação psicológica, de rendimento escolar – relativo ao rendimento intelectual, à linguagem, à percepção, à memória, às funções executivas – e neuropsicológica. Nos dias atuais, os diagnósticos psiquiátricos estão cada vez mais presentes em outras áreas médicas. Para além dos psiquiatras, quem mais medicam antidepressivos e tranquilizantes são os médicos ginecologistas, otorrinolaringologistas, oftalmologistas, osteopatas etc. Já os diagnósticos, em um processo de vulgarização e simplificação, são apresentados por todos os profissionais da área de saúde, os professores, os pais, entre outros. 113 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 3.2 COMO LIDAR COM OS SUJEITOS EM DESENVOLVIMENTO COM PROCESSOS PSICOPATOLÓGICOS Os transtornos mentais caracterizados como disfunções no funcionamento da mente e que estão relacionados às alterações no sistema nervoso central são muitos. Entre eles, são apresentados alguns transtornos mentais no Quadro 1 a seguir: QUADRO 1 – PROCESSOS PSICOPATOLÓGICOS E OS TRANSTORNOS MENTAIS Ansiedade As formas mais comuns são a síndrome do pânico, fobias, ansiedade generali- zada. Sintomas comuns são palpitação, suor frio, tremores, falta de ar, sensação de sufocamento, formigamentos ou calafrios. Esse grupo apresenta maiores ris- cos de desenvolver depressão ou vícios associados ao álcool e medicamentos. Depressão É um estado de humor deprimido que se mantém por tempo superior a duas semanas, apresentando tristeza, perda de interesse em atividades, e, em alguns casos, ocorre irritabilidade, insônia ou muito sono, dificuldade de concentração, entre outros. Esquizofrenia É um transtorno psicótico resultante de desajustes nos sistemas neurotransmis- sores do cérebro com impacto na linguagem, no pensamento, na percepção, na afetividade, entre outros. Mormente as ocorrências se dão na adolescência. São comuns sintomas, como alucinações, delírios, ausência de um pensamento organizado. Transtornos alimentares A anorexia nervosa é constituída como a perda de peso intencional resultante da distorção da imagem e recusa plena da ideia de engordar. A bulimia é a rejeição da comida que foi ingerida de modo agressivo por meio de vômitos, laxantes, jejum prolongado, intensas atividades físicas. Outros casos são a ortorexia (pro- funda preocupação em comer saudável), a vigorexia (obsessão por um corpo musculoso), a compulsão alimentar, entre outros. Estresse pós- -traumático É a reação de ansiedade apresentada por uma pessoa que passou por uma situação muito forte e intensa, como um assalto ou uma ameaça de morte. A pessoa constantemente revive o ocorrido em recordações e em sonhos. Tais fatos repercutem em grande sofrimento psicológico.Somatização É a apresentação de queixas físicas sem, de fato, do ponto de vista clínico, figurar com alterações em seu quadro de saúde. Esse transtorno implica ansie- dades e alterações de humor, e, em muitos casos, impulsividade. Transtorno bipolar Trata-se de uma doença de ordem psiquiátrica marcada por mudanças repenti- nas de personalidade, podendo oscilar de depressão à extroversão. 114 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem Transtorno obsessivo- -compulsivo O TOC é característico de pensamentos obsessivos e compulsivos que geram prejuízos às atividades do dia a dia. Podemos sinalizar como pertencente a esse quadro condutas, como excesso de limpeza, de lavagem das mãos, de simetria, de acumulação de objetos, entre outros. FONTE: A autora Para uma melhor compreensão da discussão acerca da ansiedade, sugerimos que você assista ao seguinte vídeo disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Tv0gJTBmVuc. Há um consenso no meio médico de que nem todas as pessoas que possuem transtornos tenham de fato alguma doença mental. Cada vez mais são oferecidos diagnósticos para crianças na mais tenra idade com transtornos mentais. É importante ressaltar que os diagnósticos psiquiátricos precisam assumir toda uma responsabilidade, porque influenciam fortemente no destino das crianças e geram consequência na maneira como a criança se vê. Acerca desses pontos, registramos que é uma criança ou adolescente que não segue um desenvolvimento atípico porque possui um transtorno. Os transtornos não causam o desenvolvimento atípico. Podemos dizer que a criança possui um transtorno porque ela seguiu um desenvolvimento atípico, dado que o transtorno se configura como o resultado de um desenvolvimento atípico. A Figura 12 ilustra bem essa realidade. FIGURA 12 – CURSOS DE DESENVOLVIMENTO E A REALIDADE DOS TRANSTORNOS FONTE: . Acesso em: 19 ago. 2019. 115 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 FIGURA 13 – ADOLESCÊNCIA E PSICOPATOLOGIA FONTE: . Acesso em: 19 ago. 2019. Quando se pensa nos diagnósticos na adolescência, as consequências podem ser terríveis, pois trata-se de uma fase que, em muitos casos, foge completamente do padrão desenvolvido após essa fase nas pessoas. Então, um comportamento apresentado na adolescência pode não ter nada a ver com as dinâmicas da vida do adolescente quando entra para a vida adulta e um diagnóstico muito severo pode repercutir em uma padronização de comportamento, de modo a enquadrar, em alguma medida, ao olhar que o outro, um especialista, tem sobre si próprio (Figura 13). Muitas pessoas podem ser consideradas normais do ponto de vista estatístico, entretanto, podem não estar bem. Dado que ser considerado normal porque é comum não necessariamente sustente uma realidade para as pessoas que são vistas como normais. A vida de todos a todo tempo é valorada (julgada). Portanto, se a pessoa é viva ou adere ou recua, mesmo uma bactéria faz valorações em sua dinâmica da vida. Ser normativo ou ser saudável não é não ter doença. Ser saudável é manter a vida e superar o sofrimento, passar pela doença e se recuperar. É a normalidade como um valor e não como um fato estatisticamente mensurável (MISKOLCI, 2003). Admite-se que muitas pessoas que com diagnósticos dados pela psiquiatria podem desconsiderá-los ou criticá-los, pois aquela experiência pode ser vista pelo paciente como uma diferença ou uma idiossincrasia ou singularidade que não merece, não precisa e não deve ser considerada como doença. Muitos autistas se consideram apenas como neurodiversos e não como neurotípicos. Nota-se que as classificações são baseadas em uma ideia de modelo ideal, logo, o ser humano é muito mais que isso e a pluralidade deve ser vista também 116 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem como base para novos critérios que possam fazer com que muitos sejam apenas considerados como diferentes e não como patológicos (MISKOLCI, 2003). Dessa forma, a fronteira entre a normalidade e a patologia é uma das áreas mais tênues da psiquiatria. O caso dos autistas ou até mesmo da homossexualidade, nos anos 1970, por exemplo, se reafirmou apenas como diferente da maioria dos episódios da estatística e que não tinha nada a ver com patologias. Fragmento do artigo “A inclusão do aluno com transtorno do espectro autista na escola comum: desafios e possibilidades”, publicado por Wiviane Benini e André Paulo Castanha, v. I, Caderno de Artigos, p. 5-20, 2016, com a intenção de enriquecer seu aprendizado nesta disciplina. O Uso dos Recursos da Tecnologia na Promoção da Aprendizagem do aluno com TEA A tecnologia está cada vez mais presente no nosso dia a dia. Em todos os espaços, quer seja no trabalho ou no lazer, não podemos mais viver sem o seu potencial transformador. No âmbito da educação escolar, a tecnologia tem se apresentado como um meio importante para o avanço do conhecimento. Por isso, a cada dia que passa, professores utilizam esse instrumento como forma de aprimorar o processo de ensino e aprendizagem. Na escolarização das pessoas com deficiência, a utilização dos recursos advindos das tecnologias ultrapassa o caráter instrumental e revela ser preciosa ferramenta para o acesso ao currículo. Para Galvão Filho (2002), a tecnologia é um recurso que proporciona autonomia para o processo de aprendizagem, já que as limitações físicas ou sensoriais tendem a tornar-se um obstáculo para o processo de aprendizagem da pessoa com deficiência. Seabra e Mendes (2009, p. 1) também destacam a importância da acessibilidade dos alunos com deficiência aos recursos tecnológicos da escola e os benefícios que estes trazem à autonomia desses sujeitos. Todavia, ao fazer referência à inclusão escolar, as referidas autoras reconhecem: “colocar um aluno com deficiência numa sala de aula sem oferecer recursos que possibilitem que ele enfrente as diferentes situações de forma funcionalmente competente pode não ser suficiente”. Neste sentido, cabe pensar em todo o processo de inclusão, de modo a fornecer meios, criando condições para que os estudantes 117 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 em condições de deficiências possam se desenvolver e aprender de maneira justa e equiparada com os demais pares. Assim, a acessibilidade às tecnologias no contexto da educação inclusiva é algo imprescindível, que favorece a participação do aluno ao currículo sem discriminação. Galvão Filho (2009) destaca que, no contexto da educação inclusiva, existe um número incontável de possibilidades, de recursos simples e de baixo custo, que podem e devem ser disponibilizados nas salas de aulas inclusivas, e que a disponibilidade e a adaptação podem ser bastante simples e artesanais, às vezes arquitetadas por seus próprios professores. No âmbito da educação de autistas, estes recursos têm ganhado espaço por influenciar positivamente na aprendizagem e desenvolvimento do estudante. Dentre estes, podemos citar os recursos que são construídos de formas artesanais até os mais sofisticados, como tablets, iPod, softwares, aplicativos e os auxílios externos amplamente utilizados na área da Comunicação Alternativa. O que é Comunicação Alternativa? Bersch e Sartoretto (2017, p. 1) nos esclarecem:“Comunicação Alternativa é uma área da tecnologia assistiva, que se destina especificamente à ampliação de habilidades de comunicação”. Segundo essas autoras, o objetivo da Comunicação Alternativa é auxiliar pessoas sem fala ou sem escrita funcional ou defasagem comunicativa em habilidade de falar ou escrever. Seus escritos também fazem referências a auxílios externos a partir de outros canais de comunicação diferentes da fala, como gestos, sons, expressões faciais e corporais, cartões de comunicação, pranchas alfabéticas, vocalizadores, computadores e softwares específicos para ampliar ainda mais o repertório comunicativo, que envolve habilidades de expressão e compreensão. Orrú (2012) também destaca o uso dos sistemas de Comunicação Alternativa e salienta que estes podem ser classificados como “sem ajuda” e “com ajuda”. O primeiro relacionado à utilização de gestos de uso comum, língua de sinais, códigos gestuais e expressões faciais e o segundo, os que abarcam elementos de representação externos, como os iconográficos, objetos, fotografia, desenhos representativos e sistemas de desenhos lineares como os pictogramas, que objetivam o desenvolvimento da capacidade da pessoa em exprimir pensamentos e sentimentos e exceder o limite de suas incapacidades. No Sistema de Comunicação Alternativa também são utilizados recursos de baixa tecnologia, compostos por elementos acessíveis de baixo custo e que podem ser confeccionados e personalizados de 118 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem acordo com a necessidade da pessoa, e os de alta tecnologia, com suporte de recursos complexos e com alto custo. Smith (2008) declara que as pessoas com autismo normalmente não precisam de apoio da alta tecnologia, em vez disso, a tecnologia útil aos autistas, na maioria dos casos, é simples e de baixo custo. Um dos recursos utilizados e amplamente conhecidos no mundo inteiro são os materiais e cartões com elementos representativos de imagens e figuras, denominados de PCS – (Símbolos de Comunicação Pictórica). O PCS é uma técnica de intervenção criada pela fonoaudióloga estadunidense Roxanna Mayer Johnson, em 1980. Essa técnica de comunicação utiliza desenhos simples, de fácil reconhecimento, facilmente combináveis e úteis para a criação de atividades educacionais. O sistema de símbolos PCS geralmente é aplicado na intervenção de autistas com graves atrasos na fala e grandes comprometimentos na área da linguagem. FIGURA 14 – VOCALIZADOR E PRANCHA COM SÍMBOLOS FONTE: . Acesso em: 19 dez. 2019. Entre os recursos que utilizam imagens com símbolos estão os vocalizadores, as pranchas de comunicação e os softwares específicos. 119 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 FIGURA 15 – PRANCHA COM IMAGENS E CARTÕES DE COMUNICAÇÃO FONTE: . Acesso em: 19 dez. 2019. Estudos têm evidenciado que a comunicação por meio de imagens é uma das estratégias mais importantes na intervenção no TEA. Devemos observar que a maioria dos autistas possui dificuldade em representar um objeto ausente, necessitando de instrumentos de apoio para que seja possível essa representação mental. Assim, através do uso de imagens, a pessoa com TEA obtém uma melhor compreensão, que vem colaborar significativamente no processo de organização do pensamento e da linguagem. Dessa forma, um dos principais motivos para a utilização da linguagem visual é considerá- la uma ferramenta importante para potencializar a aprendizagem desses estudantes. Utilização de recursos visuais – Conceitos Matemáticos FIGURA 16 – EXPERIMENTO EDUCACIONAL PARA O ENSINO DE ÁREA FONTE: . Acesso em: 19 dez. 2019. 120 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem Materiais concretos, como figuras geométricas, peças coloridas e miniaturas também cumprem a mesma função. Esses recursos acessíveis representam um ganho significativo na aprendizagem, permitindo ao aluno com autismo o desenvolvimento de habilidades de observação, investigação, análise e raciocínio. A utilização desses materiais, além de estimular a capacidade de construir significados, desperta a atenção e promove a ampliação do seu vocabulário. FIGURA 17 – MATERIAL CONCRETO – ATIVIDADE SOMANDO COM DOMINÓS FONTE: . Acesso em: 19 dez. 2019. Agendas, calendários, listas, roteiros de estudos ou tabelas também podem auxiliar o aluno na organização temporal e espacial, no planejamento e antecipação de ações, sendo um recurso importante até mesmo em situações difíceis, como inflexibilidade com mudanças de rotinas. Já os jogos, dentre eles os de caráter lúdico cooperativo, são importantes na medida em que promovem o desenvolvimento cognitivo, emocional e social do autista. São considerados relevantes, pois estimulam aspectos afetivos, proporcionando ganhos em habilidades sociais, sendo instrumentos significativos no processo de inclusão escolar. 121 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 FIGURA 18 – JOGOS EM GRUPO FONTE: . Acesso em: 19 dez. 2019. FONTE: BENINI W.; CASTANHA A. P. A inclusão do aluno com transtorno do espectro autista na escola comum: desafios e possibilidades. Os desafios da escola pública paranaense na perspectiva do professor PDE. Cadernos PDE, v. 1, p. 5-20, 2016. Disponível em: http://www.diaadiaeducacao. pr.gov.br/portals/cadernospde/pdebusca/producoes_pde/2016/2016_ artigo_ped_unioeste_wivianebenini.pdf. Acesso em: 7 jan. 2020. É importante reconhecer que todos os recursos que a escola pode oferecer aos estudantes com TEA podem oportunizar a aprendizagem, contribuindo, assim, para a superação das dificuldades, seja na comunicação e socialização, bem como impulsionando o desenvolvimento do aluno. Considera-se, portanto, que possíveis intervenções utilizando esses instrumentos têm resultado em novas aprendizagens, ajudando na construção de conceitos e no desenvolvimento da autonomia desse aluno no ambiente escolar. FIGURA 19 – UMA LINHA SEPARA O NORMAL DO PATOLÓGICO FONTE: . Acesso em: 19 ago. 2019. 122 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem Um desafio atual que vale a pena salientar no campo da psicopatologia é o demandado pelo campo das deficiências, porque tem sido sinalizada a necessidade de se superar a visão da deficiência como uma tragédia pessoal relacionada à ideia de desastre e associada à pena, à piedade, entre outros sentimentos. A visão que se busca sustentar na atualidade é a noção de que todo ser humano é deficiente em alguma coisa, dado que todos nós somos dependentes uns dos outros em distintas dimensões das nossas vidas. O que varia é o grau de dependência, então não faz sentido pensar a deficiência como uma tragédia e sim como um desafio de adaptação constante dos contextos para contemplar os indivíduos. Isso porque, de perto, ninguém é normal. Precisamos superar os limites, adaptar os nossos contextos e construir autonomias. Voltando à reflexão para casos mais concretos do ponto de vista da formação de profissionais, destacamos que o estudo da disciplina de psicopatologia em cursos de formação de umaparcela significativa de profissionais seria de extrema relevância, entretanto, não é essa a realidade que notamos na sociedade brasileira. Ao que tudo indica, um curso dessa natureza, que enfatiza os sinais e os sintomas de ordem psiquiátrica, seria de grande relevância para líderes religiosos, todavia, essa perspectiva não é adotada nas instituições religiosas. Ademais, salientamos que a formação de professores precisa de uma maior conscientização no sentido de valorizar os conhecimentos acerca dos processos psicopatológicos. O conhecimento psíquico contribui para entender práticas (deixar pregos na cadeira do colega para que ele se machuque, colar chiclete na roupa do colega para ridicularizá-lo, torturar animais, como formigas, lesmas, sapos) que crianças podem realizar em ambientes escolares que extrapolam os limites do que muitos chamam de “arte de criança” e passam a representar sinais de distúrbios psíquicos. FIGURA 20 – CRIANÇAS COM DISTÚRBIOS PSÍQUICOS FONTE: . Acesso em: 19 ago. 2019. 123 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 A psicopatologia deve ser uma disciplina formadora para o professor para que ele consiga ter mais condições de entender os seus alunos e realizar um trabalho a contento em razão de melhorar a sua capacidade de se relacionar com os estudantes. Isso está relacionado à compreensão dos distúrbios atinentes à seguinte tríade: físico, psíquico e social. Essa possibilidade de visão que pode ser agregada por meio de uma formação mais robusta acerca da dimensão psíquica permite uma leitura do mundo menos alienada por parte dos educadores. Os processos psicopatológicos do desenvolvimento influenciam diretamente na aprendizagem, haja vista que afetam as relações, e o ato de aprender significa desenvolver habilidades para se relacionar com a realidade externa, desde falar, comer, estudar ou aprender questões complexas tratadas no mundo escolar. Para aprender, precisamos da nossa condição humana e nos tornamos mais humanos a partir da aprendizagem. O processo de aprendizagem envolve uma participação integral do sujeito e o significado envolvido nisso. Quando aprendemos estão envolvidos a nossa inteligência, os processos cognitivos, o nosso corpo como instrumento de apreensão dos objetos de conhecimento e a condição afetiva, emocional e biológica do nosso organismo. Assim, interagir com a realidade externa implica levar em consideração o ser humano como um todo: sua inteligência, seu mundo afetivo, sua condição biológica e o seu plano relacional. Esse funcionamento pode ser assim ilustrado: precisamos do corpo para entrar em contato com a realidade externa, da inteligência para pensar sobre essa realidade, da vontade para que essa interação aconteça e do organismo funcionando de uma maneira que favoreça esse processo. Pondera-se que a inteligência vai da ação do homem na realidade até o ponto em que consegue teorizar acerca dela. Para tanto, podemos entender que para a criança ter a possibilidade de na escola conseguir escrever as letras, é preciso ter vivido o momento da ação que permitisse a ela interação com objetos que lhe oferecessem conceitos de redondo, quadrado, entre outros, para que ela possa discriminar as letras e, assim, construir as primeiras noções relacionadas a essas primeiras experiências, que podem gerar um repertório que viabilize um pensar sobre o que vivencia e, desse modo, poder transitar entre ação-representação- pensamento-teorização. 124 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem 1 Solicitamos que assista ao seguinte vídeo que discute a depressão infantil: https://www.youtube.com/watch?v=CV5iVifEXn4. Após assisti-lo, elabore uma produção escrita que apresente sintomas, consequências e implicações na vida pessoal e escolar da criança com depressão. R.:____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ___________________________________________________ ___________________________________________________. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Para finalizar esse capítulo, é interessante trazer algumas considerações para orientar o seu estudo, especialmente, no tocante ao ciclo vital, às abordagens psicológicas do desenvolvimento humano e da aprendizagem que dão ênfase ao processo de aprender e de desenvolver. Para isso, na primeira seção, teceu-se o olhar sobre o ciclo vital do desenvolvimento humano e as mudanças físicas, intelectuais, emocionais e sociais do sujeito humano. Buscou-se demonstrar, ainda, que os processos de mudanças ocorrem ao longo de toda a nossa vida e estão relacionados a um conjunto complexo de fatores, incluindo a qualidade de vida. 125 Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Tecendo O Olhar Sobre O Ciclo Vital, Processos De Ensino E Aprendizagem E Psicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento HumanoPsicopatológicos Vivenciados Pelos Sujeitos Em Seu Desenvolvimento Humano Capítulo 2 O ciclo vital humano foi abordado nesse texto por meio da infância, da adolescência, da idade adulta e da velhice. Essas etapas nos têm sido apresentadas como universais e associadas a características comuns a todas as pessoas e a todos os grupos humanos. A infância como o período em que ocorrem as experiências com efeito determinante e configurador de todo o desenvolvimento humano, a adolescência como a época das mudanças drásticas e turbulentas; a idade adulta como o momento de estabilidade e ausência de mudanças importantes e a velhice como sinônimo de deterioração dos processos psicológicos. Na segunda seção, explorou-se as concepções psicológicas do desenvolvimento humano e a aprendizagem. Assim, discutiu-se as concepções de educação tradicional, ambientalista/comportamentalista, construtivista e sociointeracionista. Para fundamentar melhor a relação sobre esse tema, lançamos mão de textos, sendo alguns mais teóricos e outros com os resultados de estudos empíricos, envolvendo estudantes e professores da educação básica, nos quais se destaca a importância de uma compreensão mais aprofundada sobre essas concepções para desenhar práticas pedagógicas mais efetivas na escola. Piaget destaca que uma criança não pode pular do estágio sensório- motor para o operatório concreto sem ter passado pelo pré-operatório. Afinal, suas estruturas vão amadurecendo gradativamente. Para ele, à medida que as aquisições do indivíduo na construção da inteligência vão se complexificando, há um decréscimo da influência da maturação e, consequentemente, um aumento das influências do meio físico e social. Sobre o fator maturação, Vygotsky defende que a base biológica do funcionamento psicológico humano se assenta no cérebro como órgão principal do desenvolvimento mental. O cérebro é a base da atividade psíquica que cada indivíduo traz consigo ao nascer.No entanto, para ele, essa base não é imutável, posto que, na permanente internalização da cultura e interação com o outro, o cérebro humano foi desenvolvendo novas funções criadas ao longo da história. Por fim, na terceira seção, discutiu-se os processos psicopatológicos no desenvolvimento humano e na aprendizagem mais encontrados na infância e na adolescência e que a escola tem dificuldades de lidar com os sujeitos que apresentam: alto grau de ansiedade, depressão infantil e na adolescência, entre outros transtornos. Na caracterização desses processos, enfatizou-se a importância dos saberes culturais e os conhecimentos científicos necessários para intervir no processo de humanização e da aprendizagem dessas pessoas. Desejamos a você bons estudos! 126 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem REFERÊNCIAS ASSIS, M. Conto de escola. 32. ed. Rio de Janeiro: Cosac Naify, 2005. BABETTE, H. et al. Cuidado, Escola! Desigualdade, domesticação e algumas saídas. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1986. CARNEIRO, R. P. Reflexões acerca do processo ensino-aprendizagem na perspectiva freireana e biocêntrica. Revista Thema, v. 9, n. 2, p. 1-18, 2012. CHARTIER, É. Reflexões sobre a educação. 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CAPÍTULO 3 Contribuições Das Neurociências Para O Desenvolvimento E Aprendizagem Humana A partir da perspectiva do saber-fazer, são apresentados os seguintes objetivos de aprendizagem: • Conceituar e discutir as abordagens da neurociência no processo de desenvolvimento e aprendizagem. • Refletir acerca das contribuições da neurociência, que busca educar pela atenção, percepção, memória e emoções no processo de desenvolvimento e aprendizagem. • Apresentar estratégias criadas, repensando sobre perguntas, emoções, novas negociações, aprendizagem, ética e consciência social dos estudantes. • Discutir algumas atividades pedagógicas realizadas em salas de aula para promover a aprendizagem, a ética e a consciência social, levando em conta a emoção dos estudantes. 130 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem 131 Contribuições Das Neurociências Para O DesenvolvimentoContribuições Das Neurociências Para O Desenvolvimento E Aprendizagem HumanaE Aprendizagem Humana Capítulo 3 1 CONTEXTUALIZAÇÃO Neste capítulo, apresentaremos as principais contribuições da neurociência no processo de desenvolvimento e aprendizagem humana na ótica da Psicologia contemporânea, especialmente, o processo que busca educar pela atenção, percepção, memória e emoções (GARDNER, 1999). O objetivo principal é que você, acadêmico, seja capaz de demonstrar seu aprendizado com relação aos estudos das neurociências e suas contribuições para o desenvolvimento e aprendizagem humana, os processos psicopatológicos desses sujeitos e sua complexidade em nossa sociedade. 2 NEUROCIÊNCIA: ABORDAGENS E CONTRIBUIÇÕES Oliveira (2014, p. 14) afirma que a neurociência “tem raízes que somente a partir do século XIX começaram a florescer”. Entre os profissionais envolvidos com essa área em neurociência, os professores vêm despertando para a necessidade de se compreender eventos biológicos relacionados ao desenvolvimento e à aprendizagem. FIGURA 1 – NEUROCIÊNCIAS FONTE: . Acesso em: 4 out. 2019. 132 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem A partir de Almeida (2010), explicitamos que o sistema nervoso central (SNC) é um órgão de extrema importância para o ser humano. É por meio dele que se recebe e transmite informações para todo o organismo. Trata-se do “Quartel General” das atividades do nosso corpo. Constitui-se de duas divisões principais, que são o encéfalo (composto pelo cérebro, cerebelo e tronco encefálico) e a medula espinhal (parte mais alongada do SNC) e a sua localização é dentro do esqueleto axial, embora nervos penetram-se no crânio ou na coluna vertebral. FIGURA 2 – SISTEMA NERVOSO CENTRAL FONTE:sistema-nervoso-central-resumo/>. Acesso em: 4 out. 2019. O cérebro é a porção mais maciça e o principal órgão do sistema nervoso. Ele é responsável por comandar ações motoras, estímulos sensoriais e atividades neurológicas, como a memória, a aprendizagem, o pensamento e a fala. Ele é formado por duas metades, os hemisférios direito e esquerdo, separados por uma fissura longitudinal. Os dois hemisférios compreendem o telencéfalo. O cerebelo ou metencéfalo representa 10% do volume do encéfalo. Ele é relacionado com a manutenção do equilíbrio corporal, controle do tônus muscular e aprendizagem motora. Assim como ocorre no cérebro, o cerebelo possui dois hemisférios separados por uma faixa estreita, o vérmis. O tronco encefálico é constituído pelo mesencéfalo, ponte e bulbo. O mesencéfalo é a menor parte do tronco encefálico, localiza- se entre a ponte e o cérebro. A ponte localiza-se entre o mesencéfalo 133 Contribuições Das Neurociências Para O DesenvolvimentoContribuições Das Neurociências Para O Desenvolvimento E Aprendizagem HumanaE Aprendizagem Humana Capítulo 3 e o bulbo. No bulbo, a parte inferior liga-se à medula espinhal e a superior com a ponte. A medula espinhal é a parte mais alongada do sistema nervoso central. É caracterizada por um cordão cilíndrico composto por células nervosas, localizado no canal interno das vértebras da coluna vertebral. FONTE: . Acesso em: 14 nov. 2019. Nesse sentido, Cosenza e Guerra (2011 apud OLIVEIRA, 2014, p. 16) nos esclarece que o SNC é: [...] o primeiro sistema a surgir entre a terceira e quarta semana após a fecundação. O amadurecimento do neurônio promove a formação de sinapses. O cérebro do recém- nascido é pobre em sinapses, mas o cérebro infantil possui uma quantidade exagerada delas que continua aumentando até o início da adolescência. Nesse período, iniciam-se os processos regressivos com a finalidade de reorganizar a estrutura cerebral. A capacidade de aprender está relacionada à quantidade de sinapses. Neurônio é: “uma célula nervosa, estrutura básica do sistema nervoso, comum à maioria dos vertebrados. Os neurônios são células altamente estimuláveis, que processam e transmitem informação através de sinais eletroquímicos. Uma das suas caraterísticas é a capacidade das suas membranas plasmáticas gerarem impulsos nervosos. A maioria dos neurônios, tipicamente, possui o corpo celular e dois tipos de prolongamentos citoplasmáticos, as dendrites e os axônios” (MOREIRA, 2013, p. 1). Sinapses - tendo Bear, Connors e Paradiso (2002) como referência, podemos manifestar que as sinapses podem ser entendidas como sendo tipos específicos de junções especializadas, nas quais um terminal axonal estabelece contato com outro neurônio ou qualquer outro tipo celular. Essas junções podem se caracterizar por duas naturezas: as elétricas e as químicas. 134 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem Para Malloy-Diniz et al. (2010, p. 342), “a neurociência se preocupa com a complexa organização cerebral, que trata da relação entre cognição e comportamento e a atividade do SNC em condições normais e patológicas”. Em face dessa posição, como pode ser conceituada a neurociência? É possível afirmar que a neurociência é um campo que se ocupa em estudar o funcionamento do sistema nervoso, desvendando sua estrutura, o desenvolvimento humano, a aprendizagem humana e as eventuais alterações que ocorrem ao longo da vida. Buscou, também, conhecer seus encantos, bem como desmistificar conceitos e linguagens, adentrando em uma direção desafiadora no universo do aprender. Com isso, foi ficando mais claro que tomar posse do funcionamento cerebral é entender como o conhecimento se organiza e, portanto, torna-se uma tarefa respeitável ao redimensionamento do ser humano (REZENDE, 2008). 1 Comente sobre as capacidades do cérebro humano tendo em vista os aspectos abordados pela neurocientista Suzana Herculano-Houzel no Programa Roda Viva, no dia 25 de março de 2013, disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=VVMHrWallRc&t=1455s, cujo título é “Suzana Herculano-Houzel - 25/03/2013”, bem como fazendo uso dessa breve contextualização e da explicação do que é neurociência apresentada no vídeo “O que é a neurociência?”. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=bdEku4TSNqE. R.:____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 135 Contribuições Das Neurociências Para O DesenvolvimentoContribuições Das Neurociências Para O Desenvolvimento E Aprendizagem HumanaE Aprendizagem Humana Capítulo 3 2.1 DISCUTINDO A NEUROCIÊNCIA NA ESCOLA E NA SALA DE AULA Na visão de Kandel et al. (2014), a neurociência tem como objetivo majoritário a compreensão do modo com que os fluxos de sinais elétricos por intermédio dos circuitos neurais dão origem ao que é denominado como mente (associado ao entendimento de como agimos, percebemos, pensamos, lembramos e aprendemos). Herculano-Houzel (2009) ilumina esse debate nos esclarecendo que a neurociência é uma ciência nova, mas que vem proporcionando mudanças significativas na forma de perceber o funcionamento cerebral, caracterizando- se, assim, como uma forma diferenciada de olhar. Os estudos da neurociência exploram as áreas do sistema nervoso. FIGURA 3 – NEUROCIÊNCIA FONTE: . Acesso em: 2 out. 2019. Nesse tocante, recorremos a Bartoszeck (2006, p. 1) que define a neurociência como “uma das áreas do conhecimento biológico que utiliza os achados de subáreas que a compõem, por exemplo, a neurofisiologia, a neurofarmacologia, o eixo psiconeuroendoimuno, a psicologia evolucionária, o neuroimageamento, a fim de esclarecer como funciona o sistema nervoso”. Conhecer a neurociência pode nos ajudar a entender melhor como acontecem as nossas aprendizagens, esse conhecimento pode subsidiar no sentido de saber como o cérebro aprende e assim dar uma conotação educacional, buscando as melhores construções e articulações para que o estudante aprenda mais e melhor. A aprendizagem está inteiramente relacionada ao desenvolvimento do cérebro e os estudos de Fischer e Rose (1998) sinalizaram que o cérebro é moldável aos estímulos do ambiente. Isso porque o que temos nesse cenário é um entendimento de que há uma plasticidade cerebral, em que os estímulos ambientais colaboram 136 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem para que os neurônios constituam novas sinapses, em outros termos, trata-se da ativação de sinapses, tornando-as mais presentes. Para ampliar a compreensão do termo neurociência da aprendizagem, sugerimos que você assista ao vídeo “A Neurociência da Aprendizagem”. Disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=pLTJK7Dm4iY. A neurociência trata de aspectos relacionados ao sistema nervoso e suas funcionalidades, assim como as estruturas e seus processos de desenvolvimento. A neurociência é o entrecruzamento de áreas, como Biologia, Fisiologia, Medicina, Psicologia, Pedagogia, entre outras que se interessam em aprofundar o conhecimento acerca do sistema nervoso (estrutura, função, desenvolvimento, evolução e disjunções). A neurociência trata de aspectos relacionados ao sistemanervoso e suas funcionalidades, assim como as estruturas e seus processos de desenvolvimento. FIGURA 4 – NEUROCIÊNCIAS E EDUCAÇÃO FONTE: . Acesso em: 2 out. 2019. 137 Contribuições Das Neurociências Para O DesenvolvimentoContribuições Das Neurociências Para O Desenvolvimento E Aprendizagem HumanaE Aprendizagem Humana Capítulo 3 Nessa perspectiva, a neurociência é uma fonte importante para se compreender como o sujeito aprende, considerando que a aprendizagem se processa no cérebro e resulta da experiência de modificações no cérebro. As informações constituídas no sistema nervoso são processadas por células nervosas especializadas denominadas neurônios. A neurociência é uma ciência nova, mas apresenta bases sólidas para a compreensão da aprendizagem, tendo como foco o debate acerca do sistema nervoso central, visto que existe uma anatomia e uma fisiologia em um cérebro que aprende, e isso dialoga com o debate educacional. Essa ciência pode nos ajudar a entender a estrutura, o funcionamento e as patologias no comportamento humano no que diz respeito à percepção, à memória, ao humor, à atenção, ao sono e ao comportamento em geral. Oliveira (2014, p. 14) afirma que a neurociência se constitui como: A ciência do cérebro e a educação como ciência do ensino e da aprendizagem e ambas têm uma relação de proximidade porque o cérebro tem uma significância no processo de aprendizagem da pessoa. Verdadeiro seria, também, afirmar o inverso: que a aprendizagem interessa diretamente o cérebro. Rato e Caldas (2010, p. 627) afirmam que “a ideia de que a investigação neurocientífica pode influenciar a teoria e prática educacional já não é mais uma novidade. Atualmente, com as novas descobertas científicas, a neurociência e a educação voltam a cruzar caminhos”. Oliveira (2014, p. 14) destaca que “há entraves que podem ser apontados para esta aproximação, por exemplo, a questão se refere à limitação em demonstrar cientificamente como a mente e o cérebro funcionam”. Fischer (2009) discorda dos autores que consideram prematura a ideia de relacionar a educação com a neurociência. Esse autor defende a ideia de que a investigação da neurociência em contextos educativos abriria um leque de possibilidades de descobertas tanto em Biologia básica quanto aos processos cognitivos relacionados ao desenvolvimento e à aprendizagem. Ele propôs a união da Biologia, neurociência, desenvolvimento e educação, que seriam a base da pesquisa educacional. Para a ocorrência da aprendizagem, muitas condições influenciam, como é o caso da dimensão social (que pode ser interpretada como sendo as interações entre as pessoas, a cultura, o nível socioeconômico que permite entender os acessos e as limitações dos sujeitos), psicológica (relacionada a nossa maturidade e estabilidade emocional) e motora (atinente a nossa organização mental relativa aos cinco sentidos e a maturação concernente ao crescimento e a evolução). 138 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem Nesse sentido, apontamos os seguintes fatores que influenciam no aprendizado. Podemos relacionar as conexões entendidas aqui como sinapses, as experiências no campo sensorial, a capacidade de dar atenção a fatos, pessoas e objetos, a estimulação para perceber e compreender comportamentos e ações, o desenvolvimento afetivo que permite um maior grau de envolvimento e interação, a maturação e a maturidade e a modificabilidade cognitiva. Tendo como sustentação posições defendidas em Carvalho, Campos Júnior e Souza (2019), Moreira e Oliveira (2018), Albuquerque e Oliveira (2019), Macedo (2005), Nunes e Silveira (2009) e Morales (2005), pontuamos os fatores a seguir como aqueles que promovem alterações na aprendizagem: • Fatores relacionados à composição orgânica. • Uso de drogas ilícitas e lícitas, que podem significar a redução de substâncias essenciais para o processo de ramificações neurais, estabelecendo prejuízos para áreas específicas do cérebro com impactos que resultam em transtornos, distúrbios, dificuldades e perturbações de desenvolvimento. • Gestação precoce também é indicada como prejudicial no que tange à aprendizagem. • Condições de habitabilidade associadas às questões sanitárias e de higiene precária, assim como a alimentação com ausência de um padrão nutricional a contento resulta em danos na aprendizagem. • Potencial de aprendizagem também possui uma carga importante na herança genética, que quando combinada com o patrimônio social e cultural exerce uma relevância fundamental na aprendizagem humana, esses fatores são igualmente de grande relevância. • Pessoa que é privada de atividades lúdicas e psicomotoras apresenta danos em sua capacidade de aprender, já que são fundamentais para o processamento de um novo conhecimento. • Presença ou o lidar em um ambiente de intenso potencial repressivo repercute em processos de encolhimento da capacidade de aprendizagem. A neurociência é muito importante para a educação, pois está diante da questão levantada entre os educadores no sentido de pensar como fazer os estudantes aprenderem. Nessa perspectiva, é essencial conhecer a biologia cerebral e suas relações com as dimensões: cognitiva, emocional, afetivas e motoras para se constituir um grande aliado na construção de conhecimentos que colaboram para uma construção de posturas pedagógicas. Precisamos nos valer, na pedagogia, de bases científicas para podermos compreender melhor os nossos estudantes. 139 Contribuições Das Neurociências Para O DesenvolvimentoContribuições Das Neurociências Para O Desenvolvimento E Aprendizagem HumanaE Aprendizagem Humana Capítulo 3 A figura a seguir apresenta as dimensões do desenvolvimento humano e que dialogam intimamente com o debate acerca das dimensões que se deve considerar para pensar o aprendizado e a sua relação com a neurociência para que se consiga de modo mais holístico alcançar a integralidade do sujeito, com respeito as suas particularidades (COLL; MARCHESI; PALACIOS, 2004; 1995). FIGURA 5 – DIMENSÕES DO DESENVOLVIMENTO HUMANO FONTE: . Acesso em: 4 out. 2019. Algumas contribuições foram fundamentais para o avanço da neurociência. Nesse tocante, sinalizamos avanços nesse campo desde o século XIX. Fritsch e Hitzig (2009) perceberam que todo cérebro responde a mudanças efetivas por meio de estímulos cerebrais. Nessa mesma direção, Cajal (1890) afirma que os estímulos são travados por meio de sinapses neurais. Destacamos os ensinamentos de Kandel (1982), o pai da neurociência, que leciona no sentido de que somos produtos das nossas sinapses e refletimos o que aprendemos e o que lembramos ao mesmo tempo. Esse autor defende que nem tudo se explica por conflitos psíquicos, nem por neurotransmissores alterados, ou seja, o cérebro é capaz de transformar-se, curar-se e mudar, logo, ele é capaz de construir novas maneiras de aprender e consolidar novas conexões. Esse olhar de Kandel (1982) nos ilumina em direção ao rompimento dos rótulos presentes nos ambientes escolares que culminam em posturas não inclusivas. A partir da compreensão dos sistemas nervosos, podemos perceber o funcionamento do cérebro e isso nos ajuda a entender as possibilidades humanas de reagir a estímulos, dando novas condições para a escrita, a fala, a leitura e os cálculos matemáticos. 140 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem A partir de novas plataformas de compreensão do comportamento humano, o professor pode se valer de elementos que subsidiam na construção de estratégias de ações de cunho pedagógico com fundamentos em achados científicos relacionados e como se processam os pensamentos, a memória, o planejamento das ações, as habilidades e as formas motoras, que são condicionadas na sala de aula e na escola, em geral. Osmédicos Broca e Wernicke confirmaram que a linguagem se processa no córtex cerebral (ZURIF et al., 1993; SHAPIRO et al., 1993). O cientista Ramón y Cajal, em 1890, estabeleceu que cada célula nervosa é única, distinta e individual, que respondem a estímulos e são conectadas por sinapses. Em 1970, desenvolveram-se técnicas produzidas por imagens que ofereciam informações fisiológicas e patológicas. Ressaltamos como técnicas revolucionárias nesse conjunto, a tomografia computadorizada e a ressonância magnética. A neurociência contribui para os professores com interessantes subsídios relacionados à discussão de como se estruturam fisiologicamente em nosso cérebro a memória, o sono, a linguagem, o esquecimento, a atenção, a afetividade, o movimento, o medo e o humor. Essa plêiade de conhecimentos agrega para a compreensão da ação pedagógica. Esse conhecimento é, também, fundamental para a ação pedagógica. Com isso, é possível constatar que há várias possibilidades de aprender, então, existem, também, várias formas de ensinar. Nesse sentido, a neurociência traz a ideia de sujeito cerebral, que significa tratar o sujeito como único para poder incluí-lo. O nosso cérebro sofre alterações à medida que o estudante é submetido a novas possibilidades de exposição e, assim, constitui-se a plasticidade cerebral. Essa compreensão é crucial para a história do educando, pois quanto mais conhecemos o cérebro, melhor poderemos educá-lo. FIGURA 6 – EDUCAÇÃO DO CÉREBRO FONTE: . Acesso em: 4 out. 2019. 141 Contribuições Das Neurociências Para O DesenvolvimentoContribuições Das Neurociências Para O Desenvolvimento E Aprendizagem HumanaE Aprendizagem Humana Capítulo 3 O educando é aquele que pensa, dialoga e usa a linguagem como ferramenta essencial para o aprendizado. Dessa forma, é essencial olhar para a singularidade do sujeito cerebral na pluralidade da sala de aula, considerado a partir da perspectiva coletiva. É a diversidade ou pluralidade dentro da singularidade. Os nossos cérebros são únicos, porém sofrem alterações em função dos processos de ensino e aprendizagem. É o ator principal na estimulação do sujeito do século XXI. Em razão disso, é necessário entender as dimensões, as necessidades, as expectativas, as capacidades, as limitações, os afetos e as emoções, em síntese, as particularidades do funcionamento cerebral para usar a favor dos estudantes. O cérebro humano é dividido didaticamente, mas ele funciona como um todo. Essa divisão é originária dos nossos ancestrais. Com base na teoria da evolução, Volpi (2005, p. 3) afirma que “o cérebro humano ganhou novas estruturas, as quais foram sendo sobrepostas umas às outras. Tomando como base a teoria de MacLean, o cérebro humano evoluiu e adquiriu três estruturas: o cérebro reptiliano, o cérebro límbico e o neocórtex”. FIGURA 7 – TEORIA DO CÉREBRO TRINO FONTE: . Acesso em: 2 out. 2019. Nessa mesma direção, Mograbi (2015) nos ensina que a compreensão do cérebro em camadas sobrepostas é um recurso importante e um dos mais interessantes nesse campo, pois na tradição da popularização do conhecimento científico, em termos de neuroanatomia, essa maneira de pensar a estrutura cerebral pode nos ajuda a decifrar o ser humano. Essas camadas do cérebro são 142 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem divididas em: “o arquicórtex (arquipálio, cérebro primitivo ou cérebro reptiliano), o paleocórtex (paleopálio ou sistema límbico) e o neocórtex (ou neopálio)” (MOGRABI, 2015, p. 228). O primeiro cérebro é o primitivo (reptiliano), que é responsável pela autopreservação, pelas funções vitais e pelas relações sexuais. Com base em Volpi (2005), o cérebro mais antigo no processo de evolução é o reptiliano. Ele é datado de aproximadamente 500 milhões de anos. Já nos animais de sangue frio e mamíferos inferiores são encontrados cérebros com estruturas associadas ao tronco encefálico. FIGURA 8 – TRONCO ENCEFÁLICO FONTE: . Acesso em: 2 out. 2019. O tronco encefálico é dividido em mesencéfalo (mais cranialmente), ponte (intermediária) e bulbo (mais caudal). Pontua-se que essa parte do sistema nervoso central possui características específicas em função dos tipos de feixes de neurônios que transitam por ela e de seus núcleos celulares, funções e particularidades morfológicas específicas. De modo geral, o tronco encefálico tem a função de receber informações sensitivas, bem como exercer o controle motor por intermédio dos núcleos motores e sensitivos dos nervos cranianos. Na região do tronco encefálico, localizam-se circuitos de transmissão de informações da medula espinhal até as regiões cerebrais, assim como na direção contrária, ou seja, do cérebro à medula espinal. Constitui-se como o lugar propriamente dito para a realização do controle das funções vitais, como o controle cardiovascular, a respiração e o ciclo sono-vigília. 143 Contribuições Das Neurociências Para O DesenvolvimentoContribuições Das Neurociências Para O Desenvolvimento E Aprendizagem HumanaE Aprendizagem Humana Capítulo 3 FIGURA 9 – DIVISÕES DO TRONCO ENCEFÁLICO FONTE: . Acesso em: 2 out. 2019. A função proeminente do cérebro reptiliano é atinente ao plano do comportamento emocional do indivíduo. A partir desse plano, o indivíduo consegue incorporar novas aprendizagens com sustentação na experiência e, de modo mais amplo, refere-se a um processo responsável pela sobrevivência. FIGURA 10 – CÉREBRO REPTILIANO FONTE: . Acesso em: 2 out. 2019. O segundo é o cérebro intermediário, que se caracteriza como o espaço das emoções, formado por uma estrutura substancial denominada sistema límbico, que corresponde ao cérebro dos mamíferos inferiores. 144 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem FIGURA 11 – SISTEMA LÍMBICO FONTE: . Acesso em: 2 out. 2019. Para Volpi (2005), esse cérebro surgiu há 70 milhões de anos. Faz a cobertura do cérebro reptiliano e se encontra em todos os animais de sangue quente. Além de estar associado às emoções também se conecta com o sistema neurovegetativo. A sua composição se constitui do paleocórtex e núcleos atrelados ao tronco encefálico. Essas emoções têm relação direta com o nosso cotidiano, pois todas as relações afetivas e de vínculos se pautam no nosso cuidar e esse cérebro intermediário diz respeito aos nossos prazeres e vivências afetivas. Uma estrutura importante que se destaca nessa relação é o hipotálamo. Na visão de Moraes (2009), os estados emocionais, na maioria das vezes, acabam por envolver muitas áreas do sistema límbico. Quando consideramos estados, como a alegria ou a raiva, notamos que esse processo se dá em intercalações entre estruturas ativadas e outras inibidas, concomitantemente. Dessa forma, esse sistema processa nossas emoções no plano bioquímico. O homem evoluiu, já que saiu do cérebro reptiliano, perpassou pelo intermediário e ganhou, recentemente, um neocórtex. O neocórtex é uma camada de estrutura pensante e reflexiva conhecida, na atualidade, como cérebro superior. Na perspectiva de Volpi (2005), essa camada é datada de 2 milhões de anos e se estabeleceu como a grande e a mais nova aquisição realizada pelos mamíferos superiores. Somente os homens e o chimpanzé a possuem e, em linhas gerais, é “responsável pela localização tempo-espaço, historicidade, decodificação, metacomunicação etc. É ele quem nos dá a capacidade de conhecer e saber, da lógica e do raciocínio” (VOLPI, 2005, p. 4). 145 ContribuiçõesDas Neurociências Para O DesenvolvimentoContribuições Das Neurociências Para O Desenvolvimento E Aprendizagem HumanaE Aprendizagem Humana Capítulo 3 FIGURA 12 – CÉREBRO NEOCÓRTEX FONTE: . Acesso em: 2 out. 2019. Essa camada do cérebro é dividida em lobos denominados frontal, temporal, parietal e occipital. As separações ocorrem entre eles por meio de sulcos. FIGURA 13 – LOBOS NEOCÓRTEX FONTE: . Acesso em: 2 out. 2019. A racionalidade e o pensamento são gerados por impulsos nervosos que se instauram como importantes potenciais de ação. Esses impulsos se movimentam por meio do córtex. Trata-se de um cérebro lógico formado por uma memória temporária, que tem dificuldade de compreender linguagens que não são bem concluídas e, em termos de atenção, apresenta dificuldades de concentração em muitas coisas ao mesmo tempo. No entanto, é esse nível que nos ajuda a decidir racionalmente entre fazer uma coisa ou outra. 146 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem Diante dessa exposição, pontuamos que a Teoria do Cérebro Trino ainda é “a única visão macroevolutiva no mercado sobre a morfologia e genética do cérebro humano e de como as emoções humanas estariam a partir daí prefiguradas” (MOGRABI, 2015, p. 239). Assim, o homem, ao longo de sua condição evolutiva, constituiu uma caminhada que o impulsionou para uma etapa em que se edificou o patamar de ser pensado e dotado de saberes. MacLean apresentou em 1970 a teoria do cérebro trino que definia essa divisão do cérebro em três camadas e tentava explicar o funcionamento do cérebro humano a partir delas: 1) O cérebro protoreptiliano (ou reptiliano), o eixo mais básico do sistema nervoso, composto de medula espinhal, tronco cerebral, cerebelo, diencéfalo e gânglios basais, responsáveis por comportamentos estereotipados geneticamente determinados e funções parassimpáticas (involuntárias); 2) O cérebro paleomamífero, composto pelo sistema límbico (hipocampo, amídala, giro cingulado, giro para-hipocampal, tálamo, hipotálamo e fórnix), que é responsável pela regulação de emoções, motivações, bem como algumas funções instintivas. Memória e aprendizado também fazem parte das funções mais sofisticadas do sistema límbico; 3) O cérebro neomamífero, que é aquilo que chamamos propriamente de córtex cerebral e que é responsável por análise complexa de estímulos internos e externos, racionalidade, linguagem, resolução de tarefas e controle de comportamento flexível (MOGRABI, 2015, p. 228). O nosso cérebro é constituído por uma estrutura anatômica de dois hemisférios, sendo que no hemisfério esquerdo (análise, ordenação e classificação) são enfatizados a linguagem, a lógica, os números, a matemática, a sequência e as palavras, ao tempo que no hemisfério direito (espacialidade e temporalidade) a ênfase se dá na rima, no ritmo, na música, na pintura, na imaginação e nos modelos. Entre esses dois hemisférios, encontra-se o corpo caloso que liga os dois. O nosso cérebro apresenta um desenvolvimento em que ocorrem modificações em seu funcionamento e no modo de construir suas decisões e como percebe as experiências. 147 Contribuições Das Neurociências Para O DesenvolvimentoContribuições Das Neurociências Para O Desenvolvimento E Aprendizagem HumanaE Aprendizagem Humana Capítulo 3 FIGURA 14 – ATIVIDADES ‘PREPONDERANTES’ NOS HEMISFÉRIOS CEREBRAIS FONTE: . Acesso em: 3 out. 2019. A comunicação entre os dois hemisférios perpassa cinco cérebros, que, na prática, é na forma que o nosso cérebro funciona, haja vista que nós, humanos, somos dotados de cinco cérebros e o conhecimento deles nos ajuda a entender as múltiplas eficiências e aprendizagens. O cérebro individual é constituído por uma estrutura anatômica e fisiológica única e singular dentro da caixa craniana. FIGURA 15 – CAIXA CRANIANA FONTE: . Acesso em: 3 out. 2019. 148 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem O cérebro social é o da cultura, das relações, da sociedade e depende do cérebro individual para realizar tarefas, está representado na estrutura do cérebro numa área denominada pré-frontal e requer a atenção e as habilidades nas atitudes positivas da personalidade. FIGURA 16 – ÁREA PRÉ-FRONTAL FONTE: . Acesso em: 3 out. 2019. O cérebro motor é relacionado ao movimento do corpo e se localiza na região parietal, relaciona-se à destreza e ao refinamento do movimento, bem como associa-se à fala, à leitura e à escrita. FIGURA 17 – PARIETAL FONTE: . Acesso em: 3 out. 2019. 149 Contribuições Das Neurociências Para O DesenvolvimentoContribuições Das Neurociências Para O Desenvolvimento E Aprendizagem HumanaE Aprendizagem Humana Capítulo 3 O cérebro afetivo e emocional é fundamental para nossas vidas, porque está relacionado aos nossos vínculos emocionais representados no sistema límbico, especificamente no hipotálamo, integrando-se às áreas do córtex frontal-orbital (resfriamento da explosão impulsiva), do córtex cingulado-anterior (ativa outras regiões para responder conflitos) e das amígdalas cerebrais (respostas ao medo e a outras emoções negativas). Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade TDAH - programa Ligado em Saúde. Disponível em: https://portal.fiocruz. br/video/transtorno-do-deficit-de-atencao-e-hiperatividade-tdah- programa-ligado-em-saude. Salto para o futuro 2018 - TDAH: Mitos e verdades. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=kL-X48pIYgI. FIGURA 18 – HIPOTÁLAMO FONTE: . Acesso em: 3 out. 2019. O hipotálamo é uma região que coordena parte significativa das funções endócrinas. Exerce ação direta na hipófise e indireta em outras glândulas (mamárias, tireoide, gônadas sexuais, adrenais). Localiza-se na base do encéfalo, abaixo do tálamo e acima da hipófise. A sua dimensão é do tamanho de uma amêndoa. Atua na regulação de fatores, como a sede, a temperatura, o apetite, o ciclo do sono e o sistema nervoso autônomo (GRAEFF, 2007). O cérebro genial/criativo é o da potencialidade, que é capaz de usar tanto o hemisfério direito quanto o esquerdo para resolver problemas, de modo a 150 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem expressar da melhor forma os desejos e sentimentos, bem como constitui novas oportunidades em descobertas e curiosidades. Segundo Pantano e Zorzi (2009), o estudo da neurociência considera o conhecimento acerca das funções cerebrais a peça-chave para estimular o desenvolvimento cognitivo saudável. Os estudos de Fonseca (2008, p. 322) reforçam essa ideia quando a autora afirma que a “educação cognitiva tem como finalidade proporcionar ferramentas psicológicas que permitam maximizar a capacidade de aprender a aprender, aprender a pensar e refletir, aprender a transferir e generalizar conhecimentos, aprender a estudar e a comunicar-se”. O estudante tem o direito de desenvolver cada vez mais seu potencial cognitivo. Entrevista Luciana Brites - Tudo sobre o TDAH - Programa Manhã Leve. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=8ek-_XBLvgE. 1 Assista ao vídeo “Os Três Cérebros - Cérebro Reptiliano, Sistema Límbico, Neocórtex - Instinto/Emoção/Razão” disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=EVnmeamqhWc, bem como faça uso das discussões desenvolvidas ao longo desse tópico e da explicação exposta no vídeo intitulado “Tudo Acontece no Cérebro - Ele é Trino - Reptiliano + Límbico + Neocórtex”, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=DWweS9sM7P4Ciência do Desenvolvimento Humano. Essa ciência apresenta-se como um: [...] novo domínio científico que reúne diversas áreas do saber em torno da temática sobre desenvolvimento humano e do seu estudo em uma perspectiva integradora, com princípios e conceitos que consideram a tessitura singular e complexa que caracteriza os indivíduos e suas relações contextualizadas. Partindo dos avanços científicos das últimas décadas do século XX, em diferentes áreas dedicadas ao estudo do desenvolvimento humano, a Ciência do Desenvolvimento delineia um conjunto de estudos interdisciplinares que se dedicam a entender os fenômenos relacionados ao desenvolvimento dos indivíduos, englobando as áreas social, psicológica e biocomportamental, focalizando a ontogênese dos processos evolutivos desde seus eventos genéticos 17 Bases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da PsicologiaBases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da Psicologia Do Desenvolvimento E Da Aprendizagem HumanaDo Desenvolvimento E Da Aprendizagem Humana Capítulo 1 constitutivos até os processos culturais (ARAUJO, 2006, p. 133). Esses novos estudos partem da epigenética do desenvolvimento (DESSEN; GUEDEA, 2005). Nesse caso, o desenvolvimento de cada sujeito é singular. Portanto, é construído por inúmeras possibilidades vinculadas ao tempo, ao contexto e ao processo (ELDER, 1996; HINDE, 1992), exercendo a função primordial de agente de mudança e da transformação da sua própria história (BRANCO, 2003; ELDER, 1996; MAGNUSSON; CAIRNS, 1996). A epigenética no desenvolvimento humano pode ser de dois tipos, a epigênese predeterminada e a epigênese probabilística. A predeterminada sustenta que a atividade genética dá origem a estruturas somáticas, que, por sua vez, só desempenharão uma função quando estiverem maduras, portanto, ela pode ser encarada como um processo unidirecional. Já a epigênese probabilística defende que esse processo apresenta influências bidirecionais, intra e entre os níveis, nesse caso, as estruturas começam a funcionar antes mesmo de seu amadurecimento. Tal atividade pode ser tanto intrínseca (espontânea) quanto extrínseca, que é evocada, desenvolvendo um papel relevante no desenvolvimento (CARVALHO; FERNANDES, 2005). Biocomportamental: a síntese da Análise do Comportamento e das neurociências foi denominada de abordagem biocomportamental (DONAHOE; BURGOS; PALMER, 1993; DONAHOE; PALMER, 1994). Assim, como proposta de síntese, a abordagem biocomportamental apresenta um modelo interpretativo para os dados gerados no âmbito da análise do comportamento e das neurociências, e não a instituição de um novo programa de investigações do comportamento que signifique o abandono do programa skinneriano de pesquisas (CAVALCANTE, 1997). Probalística do desenvolvimento pode ser entendida como o desenvolvimento da probabilidade. Tem grande impulso em 1657, com a publicação do primeiro tratado formal sobre probabilidades, escrito pelo físico, geômetra e astrônomo holandês Christiaan Huygens. A esse estudo deve-se o conceito de esperança matemática de grande relevância para o Cálculo de Probabilidades e Estatística. Depois disso, apenas em 1713, foi publicado postumamente o 18 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem primeiro livro inteiramente dedicado à teoria das probabilidades, de autoria de Jakob Bernoulli (1654-1705). Uma parte desse livro é dedicada à reedição do trabalho de Huygens sobre jogos de azar, a outra parte relaciona-se com permutações e combinações, chegando ao teorema de Bernoulli sobre as distribuições binomiais. “A probabilidade além de ter suas raízes na solução de problemas de jogos também as tem no processamento de dados estatísticos. Os problemas estatísticos mais importantes que requerem o pensamento probabilístico originam-se no processo de amostras” (CARVALHO; FERNANDES, 2005, p. 71). A ontogênese pode ser vista como um processo de construção ao longo do curso de vida pela Teoria da Evolução de Darwin (BJORKLUND; PELLEGRINI, 2000). Outra explicação para o foco na mente adulta pode ser encontrada nas ideias de Tooby e Cosmides (1992), no capítulo “The Psychological Foundations of Culture”, no qual apresentam ideias evolucionistas, partindo da crítica ao modelo padrão das ciências sociais (STANDARD SOCIAL SCIENCES MODEL/SSSM). Como esse modelo destaca, prioritariamente, o papel da ontogênese na explicação do desenvolvimento humano, hipotetiza-se que a negligência da ontogênese pelos autores da Psicologia Evolucionista deva-se, também, a uma reação a esse modelo. Segundo Tooby e Cosmides (1992), o SSSM entende o funcionamento humano com base em alguns pressupostos: 1) os bebês nascem com o mesmo aparato biológico, portanto, algo tão constante não seria capaz de explicar a variação verificada no comportamento dos adultos; 2) como os bebês não possuem toda competência cognitiva e social dos adultos, sua estrutura rudimentar precisa de uma fonte externa para desenvolver-se, algo fora deles; 3) a fonte de que o bebê precisa está presente no mundo social na forma de comportamentos e representações dos membros dos grupos, a cultura. Assim, a organização mental é categorizada em: inata (o que vem com o bebê, é visível, geneticamente programada, biológica) e social (cultural, aprendida ou adquirida no ambiente) (MARTINS; VIEIRA, 2010). No que diz respeito às fontes de produção das pesquisas acerca do desenvolvimento humano e da aprendizagem, foram tomadas como referência o levantamento de Moura e Moncorvo (2006), as quais trabalharam com três bases de dados. São elas, a internacional Psyclit, os Grupos de Pesquisas registrados no 19 Bases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da PsicologiaBases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da Psicologia Do Desenvolvimento E Da Aprendizagem HumanaDo Desenvolvimento E Da Aprendizagem Humana Capítulo 1 CNPq e os Grupos de Trabalho (GT) da Associação Nacional de Pesquisa e Pós- Graduação em Psicologia (ANPEPP). Nesse levantamento, Moura e Moncorvo (2006) informaram que, no período entre 1974 e 1996, os documentos publicados no Psyclit (14,82%) foram da área de Psicologia do desenvolvimento humano. Com relação aos grupos de pesquisas, identificaram 76 grupos registrados no CNPq. Reconheceram, ainda, que as principais linhas de pesquisas desenvolvidas por esses grupos eram: questões epistemológicas, constituição da subjetividade e do sujeito, processos de desenvolvimento no ciclo vital, contextos do desenvolvimento/família, desenvolvimento cognitivo e da linguagem, desenvolvimento afetivo e sociocognitivo, gênero e desenvolvimento e desenvolvimento e saúde. Tratando-se dos Grupos de Trabalho (GT) da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (ANPEPP), Moura e Moncorvo (2006) disseram que os objetivos desses GT eram promover o intercâmbio e a cooperação entre pesquisadores, bem como fortalecer a pós-graduação em psicologia e a formação de pesquisadores. Os autores identificaram entre os 41 GT inscritos, em 2004, no X Simpósio da ANPEPP, que 16 deles tinham como objeto de discussão, temas ligados ao desenvolvimento humano. Destes, sete discutiam o desenvolvimento humano, mais especificamente, contextos sociais e desenvolvimento, aspectos evolutivos e culturais; desenvolvimento e educação na perspectiva sociocultural; desenvolvimento humano em situação de risco social e pessoal; interação pais-bebê-criança; jogos e sua importância em psicologia e educação; psicologia da educação matemática; psicologia e moralidade, brinquedo, aprendizagem e saúde e pesquisa em psicologia pediátrica. Comparando os números do Simpósio anterior, no XI Simpósio da ANPEPP, em 2006, as autoras fizeram nova análise dos GT e observaram que os grupos de trabalho inscritos no X Simpósio se mantiveram no XI. Observaram, ainda, um aumento no número de grupos na área do desenvolvimento com a criação de dois novose comente a contribuição que a Teoria do Cérebro Trino pode oferecer para melhorar o processo de aprendizagem humano. R.:____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 151 Contribuições Das Neurociências Para O DesenvolvimentoContribuições Das Neurociências Para O Desenvolvimento E Aprendizagem HumanaE Aprendizagem Humana Capítulo 3 2.2 APRESENTANDO ESTRATÉGIAS PEDAGÓGICAS PARA CONQUISTAR OS “NEURÔNIOS” NA SALA DE AULA Nesta seção, apresentaremos estratégias pedagógicas que podem promover a aprendizagem dos estudantes, privilegiando a ética, a consciência social, a percepção, a atenção, a memória e a emoção dos estudantes, mas o que são estratégias pedagógicas? Como ponto de partida para pensar as estratégias pedagógicas, selecionamos a concepção do psicólogo russo Luria citada por Sousa e Alves (2017), que considera o cérebro como: [...] um sistema biológico que está em constante interação com a cultura, ou seja, as funções mentais superiores são desenvolvidas durante a evolução do sujeito, da história social e do desenvolvimento de cada indivíduo. Pode-se dizer que se tem aqui o conceito de plasticidade cerebral. Compreendendo- se que o cérebro humano possa revitalizar (neuroplasticidade), têm-se outras possibilidades para trabalhar o processo de ensino e aprendizagem, já que o cérebro é dinâmico, tem a capacidade de mudar em resposta aos desafios da sociedade moderna. Essa visão permite mudanças nas ações dos educadores compreendendo que nada é determinante, podendo-se obter resultados cada vez melhores a partir de novas práticas pedagógicas (LURIA, 2008 apud SOUSA; ALVES, 2017, p. 322). Diante das considerações figuradas no capítulo acerca da neurociência e do posicionamento de Luria (2008 apud SOUSA; ALVES, 2017), na citação em apreço, entendemos que o reconhecimento das implicações do funcionamento do cérebro, suas estruturas e regiões, como lobos e sulcos no processo de aprendizagem, ainda não são levadas em consideração em muitos estudos e na formação inicial e continuada dos professores. Em vista disso, destaca-se a importância de retratar as estratégias pedagógicas que os profissionais podem fazer uso em suas ações docentes no ato de ensinar direcionadas à aprendizagem dos estudantes. Nesse sentido, compreende-se como estratégias de aprendizagem técnicas ou métodos que os professores planejam e utilizam para propiciar as condições de aprendizagem dos estudantes em sala de aula e na escola. De acordo com Teixeira e Alliprandini (2013), estratégias de aprendizagem podem ser definidas como sequências de procedimentos ou atividades que se escolhem com o propósito de facilitar a aquisição, o armazenamento e a utilização da informação 152 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem para promover a aprendizagem. Geralmente, quando essas estratégias são planejadas junto aos estudantes dão resultados mais positivos. É possível utilizar estratégias de aprendizagem a todos os estudantes. [...] É possível ensinar a todos os alunos a expandir notas de aulas, a sublinhar pontos importantes de um texto, a monitorar a compreensão na hora da leitura, usar técnicas de memorização, fazer resumos, entre outras estratégias. Resultados de pesquisas revelam que o treinamento em estratégias de aprendizagem tem sido bem-sucedido de modo geral, pois é capaz de produzir tanto uma melhora imediata no uso das estratégias envolvidas, quanto no rendimento escolar geral dos alunos (BORUCHOVITCH,1999, p. 3). Para Boruchovitch (1999), são, ainda, escassas as pesquisas brasileiras sobre os impactos das estratégias de aprendizagem sobre o desempenho da aprendizagem. Um dos estudos brasileiros encontrados teve como objetivo investigar se o uso de estratégias de aprendizagem contribuiu para aumentar o desempenho escolar dos estudantes ou não. Os participantes eram estudantes dos anos iniciais do Ensino Fundamental, divididos em dois grupos, sendo um de controle e o outro livre (participantes não tiveram nenhuma preparação ou intervenção). O instrumento de análise utilizado foi uma tarefa que envolvia raciocínio espacial. Os estudantes do grupo de controle apresentaram um percentual de erros significativamente menor do que o grupo livre. Boruchovitch (1999, p. 4) defende ainda que “um dos principais objetivos da escola é ajudar o estudante a gerenciar e autorregular sua própria aprendizagem. Se ele não utiliza, ainda, estratégias necessárias para sua aprendizagem, um dos objetivos do ensino deve ser, portanto, ajudá-lo a adquiri-las”. Nessa direção, cabe ao professor, também “implementar estratégias pedagógicas que proporcionem ao estudante o desenvolvimento de habilidades próprias de estudo, facilitando, assim, a aquisição de conhecimentos” (BORUCHOVITCH, 1999, p. 10). Uma das tarefas da escola é oportunizar aos estudantes o acesso aos conteúdos já elaborados pela humanidade para que eles se humanizem. Facci (2004), fundamentado na teoria de Vygotsky (1989), defende a importância da participação do professor no processo ensino e aprendizagem, uma vez que ele é o mediador entre o estudante e o conhecimento. Portanto, cabe ao professor criar estratégias de aprendizagem, intervir na zona de desenvolvimento proximal dos alunos e conduzir sua prática pedagógica, despertando a potencialidade de cada um dos estudantes. 153 Contribuições Das Neurociências Para O DesenvolvimentoContribuições Das Neurociências Para O Desenvolvimento E Aprendizagem HumanaE Aprendizagem Humana Capítulo 3 A mediação do professor implica, necessariamente, ensinar, uma vez que a zona de desenvolvimento proximal da teoria vygotskyana compreende que, ao lembrar, sugerir e elogiar, por exemplo, pode contribuir para orquestrar e estruturar atividades pedagógicas do estudante sob a orientação de alguém que seja mais experiente (adulto ou criança mais experiente). Assim, ao ajudar o estudante a estruturar suas atividades, estamos auxiliando esse estudante a fazer “coisas” que ele não podia fazer sozinho até o momento da atividade. A esse momento, Vygotsky (1989) chamou de nível de desenvolvimento potencial. Já o nível que a criança consegue se familiarizar com as exigências da tarefa e resolver o problema sozinho de forma autônoma, o autor nomeou de nível de desenvolvimento real. O autor afirma também que essas atividades externas e sociais são gradualmente internalizadas pela criança, conforme ela passa a regular sua própria atividade intelectual. Além disso, as estratégias são importantes para impulsionar o desenvolvimento das competências cognitivas, mediante a formação de conceitos e desenvolvimento do pensamento teórico, como também os meios pelos quais os estudantes podem melhorar e potencializar sua aprendizagem. Refere-se ao saber como fazer, para estimular as capacidades investigadoras dos estudantes, ajudando-os a desenvolver competências e habilidades mentais. Assim, Libâneo (2004) aponta que uma prática pedagógica a serviço de uma pedagogia voltada para a formação de sujeitos pensantes e críticos deve privilegiar estratégias pedagógicas que oportunizem os estudantes internalizar conceitos, desenvolver competências e habilidades do pensar, assumir postura crítica para lidar com a realidade, resolver problemas, tomar decisões e formular estratégias de ação. 154 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem Com a intenção de enriquecer seu aprendizado nesta disciplina, leremos um fragmento do artigo: A neurociência na formação dos educadores e sua contribuição noprocesso de aprendizagem, escrito por Anne Madeliny Oliveira Pereira de Sousa e Rilton Nogueira Alves. Baseado nas pesquisas e no desenvolvimento do artigo, verifica- se que ao pensar em “educação de qualidade” faz necessária a compreensão de como se dá o processo de aprendizagem no cérebro e a importância desse conhecimento por parte dos educadores, pois o objetivo da educação só é atingido se houver aprendizagem, e esse processo se dá em todos os ambientes sociais. Entretanto, é na escola que o conhecimento acadêmico é desenvolvido, tendo como mediador desse processo o professor. Estudar é um comportamento aprendido, pois não é somente entender uma informação, mas, antes de tudo, saber organizá-la. Quando o educando lê para estudar, faz-se necessária a utilização das estratégias de aprendizagem, que são técnicas ou métodos que os alunos usam para adquirir a informação. Assim, o educador pode implementar ações inovadoras, o que proporciona ao educando o desenvolvimento de suas próprias habilidades de estudo, facilitando assim a aquisição de conhecimentos. É imprescindível que educadores conheçam as estruturas cerebrais como interfaces da aprendizagem e que seja sempre um campo a ser explorado. Os professores conhecedores dessa realidade transformam a informação em conhecimento e o conhecimento em experiência. A experiência é registrada de maneira privilegiada nos solos da memória, capazes de transformar a personalidade. Por isso, é fundamental envolver as informações que transmitem para a experiência de vida. A neurociência por si só não introduz novas estratégias educacionais. Ela fornece razões importantes e concretas, demonstrando por que algumas abordagens são mais eficientes do que outras. Explorar as bases da aprendizagem a partir da neurociência poderá contribuir de forma satisfatória para responder algumas questões, tais como: garantir o sucesso de um currículo compatível com o desenvolvimento cerebral; converter o conhecimento obtido em pesquisas e métodos instrucionais efetivos com cenários reais; melhorar a instrução nas disciplinas; impacto de novas tecnologias no desempenho escolar. O educador é o profissional que maior impacto pode causar no sistema atual da educação e do qual muito se espera. De acordo com a neurociência, o aprendizado e a memória são 155 Contribuições Das Neurociências Para O DesenvolvimentoContribuições Das Neurociências Para O Desenvolvimento E Aprendizagem HumanaE Aprendizagem Humana Capítulo 3 fases diferentes do mesmo mecanismo progressivo e contínuo. Sem memória, o aprendizado se torna impossível e, sem aprendizado, não existe memória. Aprendizagem, memória e emoção ficam interligadas, quando ativadas pelo processo de aquisição do conhecimento. O desafio para a educação não é apenas saber como ensinar ou como avaliar, mas apresentar o conhecimento em um formato que o cérebro aprenda melhor. Salienta-se que, na aprendizagem, sendo esta uma atividade social, os alunos precisam de oportunidades para discutir tópicos em um ambiente tranquilo, que possibilita o encorajamento à exposição de seus sentimentos e ideias. O educador tem papel fundamental na formação do sujeito; em razão disso, é indispensável uma atualização contínua, uma revisão crítica de sua atuação e de sua proposta pedagógica. No desenvolvimento da revisão científica, percebe-se a necessidade de mais investimentos que aliem os conhecimentos da educação com as neurociências, visto que os educadores também precisam conhecer e compreender a influência dos aspectos biológicos e sociais que repercutem na aprendizagem dos seus educandos. FONTE: . Acesso em: 22 set. 2019. Com isso, as estratégias de aprendizagem podem desempenhar um papel essencial na vida escolar dos estudantes. Nesse sentido, Macedo (2005, p. 46) lembra-nos que, para “alcançarmos uma escola para todos, é necessário que revisemos antigos padrões de ensino e situemos a relação pedagógica e os objetivos educacionais em todos os sentidos”. Ressalta-se, aqui, que os professores que conhecerem o funcionamento do sistema nervoso podem desenvolver melhor seu trabalho e fundamentar sua prática diária com reflexos no desempenho e no desenvolvimento dos estudantes, além de intervir de forma mais efetiva nos processos de ensino e aprendizagem de todos os estudantes, especialmente, daqueles que apresentam algumas dificuldades de aprendizagem. Considerando os processos psicopatológicos e os transtornos mentais abordados no Capítulo 2 deste livro, traçamos algumas estratégias pedagógicas que podem auxiliar no processo de aprendizagem dos estudantes que mais apresentam: ansiedade, depressão infantil e na adolescência, esquizofrenia, transtorno bipolar, de déficit de atenção e hiperatividade, transtorno obsessivo-compulsivo e do espectro autista (TEA), também conhecido como desordens do espectro autista (DEA) ou condições do espectro autista (CEA) do neurodesenvolvimento. 156 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem Para ter uma melhor compreensão acerca do autismo, sugerimos que você assista ao vídeo “Simplesmente lindo”, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=yeLFATXM0hc. Nessa perspectiva, os professores precisam elaborar atividades pedagógicas adequadas, que deem possibilidades aos estudantes, a partir de suas singularidades, de se desenvolverem e aprenderem. De-Nardin e Sordi (2007) orientam, a partir do estudo realizado sobre as formas de atenção do professor em sala de aula e suas implicações para a aprendizagem dos estudantes, que a prática pedagógica deve inserir atividades que proporcionem a problematização de situações e sua resolução, o levantamento de hipóteses, bem como experiências práticas, envolvendo situações de conhecimento e interações com a realidade dos estudantes. Outras estratégias pedagógicas importantes para a aprendizagem desses estudantes são aquelas que utilizam jogos pedagógicos, métodos de associação de informações, imagens e brincadeiras envolvendo os cinco sentidos, como orienta Cosenza e Guerra (2011) sobre os seguintes jogos e brincadeiras: bingo de letras, sílabas e palavras, quebra-cabeça e jogos de encaixes. FIGURA 19 – BINGO DE LETRAS, SÍLABAS E PALAVRAS FONTE: A autora 157 Contribuições Das Neurociências Para O DesenvolvimentoContribuições Das Neurociências Para O Desenvolvimento E Aprendizagem HumanaE Aprendizagem Humana Capítulo 3 FIGURA 20 – BINGO DE SÍLABAS E PALAVRAS FONTE: A autora FIGURA 21 – JOGO DE SÍLABAS E PALAVRAS FONTE: A autora 158 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem FIGURA 22 – BINGO DE PALAVRAS FONTE: A autora FIGURA 23 – CARTELA DE SÍLABAS FONTE: A autora FIGURA 24 – BINGO DE SÍLABAS E DESENHOS FONTE: A autora 159 Contribuições Das Neurociências Para O DesenvolvimentoContribuições Das Neurociências Para O Desenvolvimento E Aprendizagem HumanaE Aprendizagem Humana Capítulo 3 Entre as estratégias de aprendizagem, o professor mediador, no contexto de sala de aula, pode optar por aquelas que possibilitam oportunidades de sucesso para a aprendizagem do estudante, por exemplo, aquelas que usam perguntas abertas feitas no começo da aula e a resposta é dada no final, pois elas facilitam o desenvolvimento da atenção sobre o tema ou assunto que será discutido na aula, conforme destacam Rotta, Ohlweiler e Riesgo (2006). Os processos de elaboração, revisão e consolidação de uma atividade, por exemplo, a produção de um texto para um estudante que vivencia o TDAH, é um exemplo de outra estratégia. Nesses casos, é importante trabalhar a produção do texto em etapas para que sinta confiança que dará conta de resolver cada uma das etapas. É interessante sinalizar ao estudante que as etapas poderão ser cumpridas e ele será capaz de concluir a atividade total, eliminando, assim, situações defrustrações, as quais são vivenciadas muito frequentemente por ele em seu dia a dia. Assim, o professor pode orientar estratégias pedagógicas que ajudem seu melhor processamento, pois a memória de curto prazo, muitas vezes, não consegue processar tudo que é exigido dela e, em alguns momentos, torna-se necessário limitar os estímulos e privilegiar os conhecimentos que devem ser aprendidos. Lembrando que o cérebro se dedica a aprender aquilo que ele entende como significante, como ressaltam Cosenza e Guerra (2011). Por outro lado, Rotta, Ohlweiler e Riesgo (2006, p. 45) nos lembram que “a memória é essencial em todos os processos de aprendizagem e seus distúrbios não permitem reter as informações”. Para ter uma melhor compreensão acerca da atenção, memória e aprendizagem, sugerimos que você assista ao vídeo disponível neste link: https://www.youtube.com/watch?v=w8nMNPrCtzg. O cérebro se dedica a aprender aquilo que ele entende como significante. 160 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem Filme: Como Estrelas na Terra Este filme conta a história de um menino de nove anos de idade, chamado Ishaan Awasthi, que vivencia a dislexia. Ele estuda em uma escola regular, repetiu uma vez o terceiro ano e está correndo o risco de reprovar novamente. O menino diz que as letras dançam em sua frente e não consegue acompanhar as aulas e nem prestar atenção. Seu pai acredita que ele é indisciplinado e o trata com rudez e falta de sensibilidade. Quando foi para o internato, a aprendizagem ficou ainda mais sem sentido. Disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=VPElZ85VLcg. Para atender às necessidades dos estudantes que apresentam dificuldades de aprendizagem, é necessário proceder adaptações no currículo da escola, diferenciando-o, com atividades padronizadas para auxiliar o processo de aprendizagem do estudante disléxico, que será mais beneficiado se tiver aulas mais oralizadas e com uma quantidade menor de textos escritos. Que estratégias pedagógicas o professor poderá criar para atender a todos os estudantes? Sugere-se, nesse caso, que o professor dê mais tempo ao estudante disléxico quando tiver de executar atividades escritas, mas ele poderá, ainda, modificar a didática ou o tipo de material – aulas mais oralizadas e menos textos escritos, considerando que esses procedimentos didáticos tanto atendem às necessidades do estudante disléxico quanto não prejudicam os estudantes que estão construindo sua aprendizagem sem obstáculos. Quando se trata da aprendizagem, existem alguns princípios e padrões comuns que podem ser adequados para todos os estudantes, mas existem também situações específicas (individuais, resultantes da experiência vivida por cada um) que o professor precisa conhecer as dificuldades para agir de maneira diferenciada. Por outro lado, nos dias de hoje, as emoções podem contribuir para a aprendizagem dos estudantes de forma significativa e o estresse tem efeito contrário. Cabe ao professor colaborador na produção da consciência e memória, trocar a dispersão pela atenção consciente. Nessa perspectiva, Tunes, Tacca e Bartholo Júnior (2005, p. 691) ressaltam que a “vivência na escola perpassa por um processo significativo, despertando o desenvolvimento integral do indivíduo e as múltiplas inteligências implicam novos paradigmas para a educação, pois 161 Contribuições Das Neurociências Para O DesenvolvimentoContribuições Das Neurociências Para O Desenvolvimento E Aprendizagem HumanaE Aprendizagem Humana Capítulo 3 afirmam que os alunos são construtores do seu conhecimento”. Com isso, o estudante deve ser considerado em seu contexto geral, pois possui outras inteligências e o professor, o mediador do processo de aprendizagem, portanto, não é um transmissor de informações prontas e o estudante um reprodutor dessas informações. A teoria das inteligências múltiplas revela a nós educadores que os sujeitos humanos possuem diferentes tipos de inteligências e diversas possibilidades para compor atividades diversificadas (ANTUNES, 1998; 2014). Cosenza e Guerra (2011) afirmam ainda que é importante o professor compreender com clareza quais os problemas dos estudantes, pois assim ele poderá criar estratégias que influenciarão no processo de aprendizagem, por exemplo, estudantes com dificuldades de concentração, ele pode colocar o estudante para sentar-se na primeira fileira, próximo a sua mesa, para manter o contato visual mais constante e manter a sala de aula mais silenciosa, com menos estímulos e quando for trabalhar com grupos, inserir esse estudante em um dos grupos que costumam se engajar nessas atividades. Observa-se que essas estratégias têm trazido resultados positivos para todos os estudantes. Pfromm (1987, p. 36) destaca a “importância da motivação para que uma ação seja iniciada e sustentada. O envolvimento e a persistência nas tarefas escolares são essenciais e mostram adequadamente esta característica da motivação relacionada à iniciação e à sustentação de um comportamento”. O envolvimento também possibilita a aquisição de novos conhecimentos e habilidades de forma qualitativa, ou seja, estudantes motivados demonstram interesse pelas tarefas e geralmente trabalham com mais vontade. Portanto, é essencial que o professor crie planejamentos de ensino que mantenham a motivação da turma. Em síntese, observa-se que as dificuldades de aprendizagem não são situações isoladas e para fazer a diferença na vida dos estudantes que apresentam essas dificuldades, é imprescindível compreendê-las para propor estratégias adequadas tanto para os estudantes com dificuldades quanto para os que não estão com essas dificuldades, como trabalhar o mesmo conteúdo de diversas formas, tais como: textos de diversos gêneros, filmes, brincadeiras, entre outras estratégias. Estudantes motivados demonstram interesse pelas tarefas e geralmente trabalham com mais vontade. Portanto, é essencial que o professor crie planejamentos de ensino que mantenham a motivação da turma. 162 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem 1 Assista ao vídeo “Neurociência e Educação”, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=022ahqb3fgg, faça uso das discussões desenvolvidas ao longo desse tópico e da explicação exposta no vídeo intitulado “Estúdio - Neurociência Aplicada à Educação”, disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=JMh1Q83HIzo, discuta o diálogo entre neurociência e educação e apresente uma reflexão acerca da contribuição da neurociência para o entendimento dos processos de aprendizagem em educação. Além disso, evidencie os entendimentos que podem repercutir (com aplicações) de modo direto em aspectos, como a aquisição de conhecimento, a linguagem, a alfabetização, entre outros. R.:____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Nesse capítulo, buscamos conceituar e discutir as abordagens sobre a neurociência e a importância dela no processo de desenvolvimento e aprendizagem veiculados nos dias de hoje, trazendo também os diferentes cérebros humanos e como eles agem com relação a essa temática. Refletiu-se, ainda, acerca das contribuições da neurociência,que busca educar pela atenção, percepção, memória e emoções no processo de desenvolvimento e aprendizagem. 163 Contribuições Das Neurociências Para O DesenvolvimentoContribuições Das Neurociências Para O Desenvolvimento E Aprendizagem HumanaE Aprendizagem Humana Capítulo 3 Além disso, apresentamos algumas estratégias pedagógicas que podem ser criadas pelo professor para atender, especialmente, os estudantes que apresentam dificuldades de aprendizagem. Sugerimos algumas orientações que podem fazer o professor repensar sua prática pedagógica, privilegiando o tipo, o modo e o sentido com que fazem as perguntas aos estudantes em sala de aula, isto é, se as perguntas são feitas somente com o intuito de despertar a curiosidade dos estudantes, sem constrangê-los. REFERÊNCIAS ALBUQUERQUE, G. C.; OLIVEIRA, R. C. Conhecimento dos professores sobre a aprendizagem da linguagem escrita. 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Quanto aos métodos de pesquisa propõem-se novos paradigmas metodológicos, estudos sistêmicos, longitudinais, transculturais, transgeracionais e multimetodológicos (DESSEN; COSTA JUNIOR, 2005). Foi possível identificar a partir do novo século, nos anos 2000, que os pesquisadores do desenvolvimento humano passaram a enfrentar, ainda, mais desafios. Entre eles, o de inserir, em suas pesquisas, o caráter multidisciplinar com uma linguagem que facilitasse a comunicação entre profissionais de diferentes áreas de atuação (DESSEN; COSTA JUNIOR, 2005). Outro desafio foi o de refletir sobre novas metodologias para os estudos, isto é, os pesquisadores precisavam ultrapassar as metodologias tradicionais e refletir com seus pares que o desenvolvimento humano ocorre em um contexto. Mota (2005, p. 110) destacou que as abordagens sistêmicas enfatizaram a relevância dos “diversos contextos que não só afetam, mas também são afetados pelo desenvolvimento do indivíduo”. Com isso, o desenvolvimento humano passou a ser estudado como um ciclo. Essa forma de encarar o desenvolvimento humano trouxe mudanças importantes para os resultados dos estudos, inclusive pautaram a necessidade de realizar uma discussão mais ampliada sobre metodologias de pesquisa com as instituições e os grupos de pesquisas. Nessa perspectiva, a ampliação da concepção de psicologia do desenvolvimento trouxe significativas contribuições, quando incluiu outras áreas em sua metodologia de pesquisa, buscando responder a novas perguntas sobre a psicologia do desenvolvimento, além dos costumeiros estudos da infância e da adolescência. No século XXI, a Psicologia do desenvolvimento é considerada uma ciência fundamental para se compreender a transformação do homem do mundo e da sociedade, especialmente, a possibilidade de qualificar a atuação humana. Hoje, essa ciência agrega diversas áreas, entre elas: Psicologia Experimental, Psicologia da Personalidade, Psicologia Clínica, Psicologia do Desenvolvimento, Psicologia Organizacional, Psicologia da Educação, Psicologia Esportiva, Psicologia 21 Bases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da PsicologiaBases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da Psicologia Do Desenvolvimento E Da Aprendizagem HumanaDo Desenvolvimento E Da Aprendizagem Humana Capítulo 1 Forense, Neuropsicologia, Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem, entre outras. Essas duas últimas são objetos de nossa discussão aqui. Nesta perspectiva, alguns pesquisadores afirmam que o desenvolvimento humano não se restringe a uma determinada faixa etária, ao contrário, deve ser visto como algo que ocorre durante toda a vida do sujeito (BEE, 1997). Assim, o desenvolvimento do homem ocorre desde a concepção até a morte, considerando as diversas mudanças afetivas, cognitivas, sociais e biológicas no curso da vida. Para continuar avançando, é necessário que a Psicologia do desenvolvimento humano estabeleça novos estudos para essa área, considerando as diferentes problemáticas que temos de solucionar nas etapas do ciclo vital e para que esses estudos possam produzir um impacto efetivo para a população, devem ampliar a quantidade de pesquisas em nosso país, uma vez que o número delas é, ainda, baixo. 1 Após estudar os conteúdos abordados anteriormente, elabore uma produção escrita que apresente uma visão mais ampla do que se denomina sujeito psicológico em contraposição à ideia de sujeito ideal. R.:____________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ 22 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem 3 CONCEITUANDO A PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO E DA APRENDIZAGEM HUMANA É possível encontrar, nos dias de hoje, diversos conceitos de Psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem humana. Para compreender esses conceitos, partimos do ponto de que a todo momento nos desenvolvemos e aprendemos com e sobre os objetos, com os homens, com o mundo e com a cultura. Enfim, cada um de nós tem uma concepção de mundo, de sociedade, de homem, de mulher, de jovem, de criança, de idoso e, ainda, de nós mesmos. Essas concepções são modos de interpretar a relação entre sujeito-ambiente, que deriva de uma tomada de posição epistemológica no que diz respeito ao sujeito, ao meio e à cultura. Pontua-se que a epistemologia procura responder a perguntas como as apresentadas a seguir: Como é obtido e validado o conhecimento científico? Existe um método de Ciência? Se afirmativo, qual é esse método? Em que circunstâncias se dá o abandono de uma teoria e sua substituição por outra? Qual é o estado cognitivo das leis e dos princípios científicos? É possível estabelecer um critério de demarcação? (OSTERMANN; CAVALCANTI, 2011, p. 9). Por outro lado, Raposo e Queiroz (2008) destacam que, de acordo com a concepção de desenvolvimento e de aprendizagem escolhidas consciente ou não, fazemos a seleção de um determinado referencial teórico que estará vinculado a um tipo de mundo que se quer ter, de um tipo de homem que se quer formar para construir esse mundo e essa sociedade e de um tipo de educação que propiciará o desenvolvimento e a aprendizagem desse sujeito. Nessa perspectiva, a Psicologia do desenvolvimento, um dos objetos de estudo dessa seção, pode ser entendida como a ciência que busca compreender as mudanças de comportamento que ocorrem durante as etapas do curso da vida, ou seja, as mudanças que acontecem ao longo da vida. Por outro lado, a Psicologia do desenvolvimento não atua sozinha, ela incorporou em sua área de conhecimentos outras Psicologias, como a Psicologia da personalidade, a Psicologia da aprendizagem, a Psicologia Social, a Psicopatologia, a Psicologia Fisiológica e ainda outras ciências afins, como: Genética, Antropologia e Sociologia, entre outras. Essas áreas de conhecimentos e Ciências focalizam, também, mudanças de comportamento a curto prazo. A centralidade da Psicologia do desenvolvimento é compreender as transformações psicológicas que as pessoas vivenciam no percurso de suas 23 Bases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da PsicologiaBases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da Psicologia Do Desenvolvimento E Da Aprendizagem HumanaDo Desenvolvimento E Da Aprendizagem Humana Capítulo 1 vidas. Diversos estudiosos têm se engajado nessa área para traçar modelos e trilhar percursos que explicam as mudanças que acontecem na vida dos sujeitos e o modo como elas podem ser descritas e entendidas, como Jean Piaget (1896- 1980), Vygotsky (1896-1934), Skinner (1904-1990), entre outros. Nesse caso, o desenvolvimento humano é definido com base em diferentes concepções,como “[...] é uma espécie de desenvolvimento da pessoa sem interrupção e gradativo, que obedece a uma série de normas ou regras e de regularidades. Isto implica que o desenvolvimento é processado por etapas do ciclo que seguem uma sequência” (GALLO; ALENCAR, 2012, p. 5). Com isso, mesmo a pessoa capaz de pular algumas fases mais rapidamente, não pode suprimir essas fases. Imagine uma criança porque tem bom desenvolvimento rapidamente passar a um adulto. Isso parece não ser muito bom para o desenvolvimento humano dessa criança. Assim, o processo de desenvolvimento é fruto de toda uma vida. Nenhum ser humano pode se desenvolver totalmente na infância. É preciso passar por outras etapas da vida para que tenha um desenvolvimento pleno (BISSOL, 2014). Com a concepção anterior, é possível compreender que o desenvolvimento humano segue uma sequência de etapas do ciclo vital, pois nenhum ser humano consegue ser adulto antes de vivenciar a infância ou ser um idoso antes da adolescência. Nesse sentido, o desenvolvimento humano pode ser concebido, também, como: [...] as etapas das mudanças de comportamento relacionadas à idade durante a vida de uma pessoa. Este campo examina mudanças por meio de uma ampla variedade de aspectos tais como: habilidades motoras, habilidades em solução de problemas, entendimento conceitual, aquisição de linguagem, entendimento da moral e formação da identidade (SIMÕES, 2016, p. 15). Mota afirma em seu artigo “Psicologia do Desenvolvimento: uma perspectiva histórica”, publicado em 2005, que nos tempos atuais, o desenvolvimento humano envolve: [...] o estudo de variáveis afetivas, cognitivas, sociais e biológicas em todo ciclo da vida. Desta forma para se definir o desenvolvimento humano faz-se necessário interfaces com diversas áreas do conhecimento como a Biologia, Antropologia, Sociologia, Educação, Medicina, Psicologia, entre outras (MOTA, 2005, p. 106). O estudo científico do desenvolvimento humano evoluiu de várias pesquisas sobre a infância e a adolescência para as demais etapas do ciclo da vida. Os 24 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem pesquisadores dessa área buscaram e buscam descrever, explicar, prever as mudanças quantitativas e qualitativas e a estabilidade nos domínios físico, cognitivo e psicossocial. O desenvolvimento está, também, sujeito a influências internas e externas, tanto normativas como não normativas. Importantes influências contextuais sobre o desenvolvimento das pessoas incluem a família, a comunidade, as condições socioeconômicas, a etnicidade e a cultura. De um modo geral, os estudos tradicionais sobre o desenvolvimento humano privilegiavam a criança e o adolescente em seus manuais da Psicologia do desenvolvimento e abordavam apenas essas etapas da vida (BEE, 1997; COLE; COLE, 2004). Atualmente, os estudos se ampliaram para todas as etapas da vida, pois parece estar claro que os sujeitos humanos vivem em constantes mudanças e que essas análises não poderiam ficar restritas às etapas iniciais da vida humana, pois os estudos sobre todo o ciclo vital trazem benefícios ao desenvolvimento dos jovens, dos adultos e dos idosos. Privilegiando o contexto cultural, Cole e Cole (2004) afirmam que o desenvolvimento humano é “regulado por meio da interação entre herança biológica e ambiente; entretanto essa interação não é de forma direta entre indivíduo e sociedade (biologia e ambiente), mas por meio da cultura”. A cultura, para Cole e Cole (2004), é concebida como um elemento constituidor do desenvolvimento e não apenas um cenário para esse processo. É na cultura que o homem sintetiza as diferentes influências do seu contexto sócio- histórico e suas circunstâncias da herança biológica ao longo do processo do desenvolvimento humano. Vygotsky e Leontiev (1984, p. 33) destacaram, ainda, que o desenvolvimento humano pode ser compreendido como: 25 Bases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da PsicologiaBases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da Psicologia Do Desenvolvimento E Da Aprendizagem HumanaDo Desenvolvimento E Da Aprendizagem Humana Capítulo 1 FIGURA 3 – DESENVOLVIMENTO HUMANO FONTE: Adaptada de Vygotsky e Leontiev (1984) Enfim, podemos dizer que a Psicologia do desenvolvimento se configura como uma área que tem como objetivo estudar as mudanças das pessoas, a partir da interação dos processos físicos e psicológicos durante toda a vida em suas etapas. Essas etapas são vistas como um todo, ou seja, da concepção ao final da vida. Com isso, é relevante que os profissionais compreendam os princípios que embasam as teorias do desenvolvimento humano. Ford e Lerner (1992, p. 73) ressaltam que o desenvolvimento pode ser visto como um: [...] processo de transformações por meio das interações entre os indivíduos e o contexto em que estão inseridos. Nesse processo, o indivíduo vivencia uma série de mudanças relativamente duradouras que elabora, ou aumenta a diversidade de suas experiências pessoais e dos padrões de suas interações com o ambiente, ao mesmo tempo em que mantém a organização coerente e a unidade estrutural-funcional da pessoa como um todo. O desenvolvimento humano, para esses autores, não é uma decorrência do processo de adaptação ou da apropriação passiva, nem a expressão dos processos endógenos (parte do interior para o exterior) ou inatos, mas um processo de transformação estrutural que dá origem a novas experiências que antecederam no tempo, o que é irreversível. Com base nesse conceito, deriva- se a ideia de que o desenvolvimento humano implica mudanças de estado, que se expressam de maneira qualitativamente diferente da categoria de maturação (COLE; COLE, 2004). Psicologia do desenvolvimento se configura como uma área que tem como objetivo estudar as mudanças das pessoas, a partir da interação dos processos físicos e psicológicos durante toda a vida em suas etapas. Essas etapas são vistas como um todo, ou seja, da concepção ao final da vida. 26 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem Um dos aspectos essenciais postulados por Vygotsky (1998) é que o ambiente é a fonte de desenvolvimento humano e não o lugar ou a situação, uma vez que o ser humano é essencialmente social e sem a interação com os outros, a pessoa não poderá desenvolver-se, usufruindo dos resultados construídos na evolução histórica da espécie humana. Tomando como referência um bebê, na visão do autor, o ambiente exerce influência em seu desenvolvimento desde o nascimento, uma vez que esse bebê começou a interagir com os adultos, cuja linguagem verbal e não verbal está presente no ambiente de uma forma desenvolvida, isto é, o bebê vivencia a linguagem dos adultos normalmente em sua interação. Os adultos não modificam sua fala com outros sujeitos porque em sua casa tem um bebê. Com relação à discussão sobre a aprendizagem humana, destaca-se, em primeiro lugar, que já foram realizadas muitas investigações sobre esse tema. De acordo com Netto e Costa (2017, p. 216), “a aprendizagem é um dos temas mais estudados pela Psicologia da Educação, pois praticamente todo comportamento e todo conhecimento humanos são aprendidos e não inatos”. Muitos são os autores que discutem a Psicologia da aprendizagem. Entre eles, ressaltamos Skinner, Piaget e Vygotsky. Após analisar os escritos e as teorias de cada um deles, registramos algumas das muitas contribuições dadas por eles à educação. As teorias da aprendizagem “estabelecem relação com as ações pedagógicas e refletem também sobre a maneira como as teorias estudadas questionam e se relacionam criticamente” (NETTO; COSTA, 2017, p. 216). Nessa perspectiva, a aprendizagem pode ser entendida como: Um processo de aquisição de novos conhecimentos por meio de experiências vivenciadas e determinadas por fatores endógenos e exógenos que resultam na modificação do comportamento humano e que dependem de condições essenciais, tais como: mentais,físicas, sensoriais e sociais para se desenvolverem e aprenderem (NETTO; COSTA, 2017, p. 216). Apresentamos o fragmento de texto do livro Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento um processo sócio-histórico, publicado por Martha Kohl de Oliveira (1993, p. 57), com a intenção de enriquecer seu aprendizado nesta disciplina. Confira a seguir: Aprendizado ou aprendizagem: é o processo pelo qual o indivíduo adquire informações, habilidades, atitudes, valores etc., 27 Bases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da PsicologiaBases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da Psicologia Do Desenvolvimento E Da Aprendizagem HumanaDo Desenvolvimento E Da Aprendizagem Humana Capítulo 1 a partir de seu contato com a realidade, o meio ambiente, outras pessoas. É um processo que se diferencia dos fatores inatos (a capacidade de digestão, por exemplo, que já nasce com o indivíduo) e dos processos de maturação do organismo, independentes da informação do ambiente (a maturação sexual, por exemplo). Em Vygotsky, justamente por sua ênfase nos processos sócio-históricos, a ideia de aprendizado inclui a interdependência dos indivíduos envolvidos no processo. O termo que ele utiliza em russo (obuchenie) significa algo como “processo de ensino-aprendizagem”, incluindo sempre aquele que aprende, aquele que ensina e a relação entre essas pessoas. Pela falta de um termo equivalente em inglês, a palavra obutchenie tem sido traduzida ora como ensino, ora como aprendizagem e assim re-traduzida para o português. Optamos aqui pelo uso da palavra aprendizado, menos comum que aprendizagem, para auxiliar o leitor a lembrar-se de que o conceito em Vygotsky tem um significado mais abrangente, sempre envolvendo interação social. Netto e Costa (2017, p. 217) afirmam que, inicialmente, a Psicologia da aprendizagem apresenta “conhecimentos sobre a natureza humana e os padrões evolutivos normais de desenvolvimento e aprendizagem que contribuirão para o planejamento e execução de programas de recuperação e assistência àqueles que se distanciavam dessa pretensa “normalidade” na sociedade”. Para os autores, a Psicologia da Aprendizagem foca o indivíduo e o desenvolvimento cognitivo, buscando “normalizar” comportamentos e ações que culpabilizavam aqueles que por algum motivo não desenvolviam ou não aprendiam dentro do esperado. Assim, a Psicologia da Aprendizagem, por meio de suas teorias do ensino-aprendizagem e das contribuições, pode “transformar a aprendizagem em um processo a ser investigado pela ciência”, como ressaltam Bock, Furtado e Teixeira (2008, p. 132). A Psicologia da aprendizagem estuda, de acordo com Netto e Costa (2017), a evolução da capacidade intelectual, motora, sociável e afável do ser humano. Por meio da Psicologia do desenvolvimento, ela é capaz de detectar as ações mais complexas das atividades psíquicas no adulto, que são produtos de uma longa jornada cultural, ontológica e filogenética. Em síntese, conclui-se que a Psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem, quando se articulavam, podiam contribuir para que os profissionais da educação compreendessem as mudanças vivenciadas pelas 28 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem pessoas durante suas vidas, a partir das mudanças físicas e psicológicas do sujeito, desde a concepção até a morte, especialmente, os estudantes. Na contemporaneidade, novas teorias defendem a ideia de estudar o processo de desenvolvimento de todo o ciclo vital, tendo em vista que esse conhecimento possibilita maiores benefícios para os estudos da aprendizagem de forma científica no processo de ensino e aprendizagem. Nessa perspectiva, a produção nacional acerca da temática encontra- se um pouco tímida, sendo necessário que novas pesquisas sejam realizadas a fim de produzir um impacto na produção desse conhecimento e auxiliar na compreensão da complexidade do desenvolvimento humano e da aprendizagem. 1 Solicitamos que assista aos seguintes vídeos no YouTube: https:// www.youtube.com/watch?v=4UnuZV5i7Kw, que trata dos aspectos históricos da Psicologia do desenvolvimento e o vídeo https://www.youtube.com/watch?v=n6LUOr4xZOM, que se refere à evolução histórica da Psicologia e, na sequência, solicitamos que elabore um texto com a discussão sobre os processos de constituição do sujeito, considerando os vídeos supracitados a respeito da contribuição da Psicologia do desenvolvimento. R.:____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 29 Bases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da PsicologiaBases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da Psicologia Do Desenvolvimento E Da Aprendizagem HumanaDo Desenvolvimento E Da Aprendizagem Humana Capítulo 1 4 DISCUTINDO A COGNIÇÃO E A AFETIVIDADE NO DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM HUMANA Estudar a relação entre cognição e afetividade é fundamental para se compreender o desenvolvimento e a aprendizagem dos seres humanos. Apesar desses temas serem diferentes, eles são, também, indissociáveis (ARANTES, 2002). Encontra-se, ainda, em nossa cultura, uma valorização maior da cognição em detrimento à afetividade. Tal afirmativa se assenta no argumento de que os processos de ensino-aprendizagem exigem atitudes racionais para se obter melhores resultados, pois para muitas pessoas as emoções, os sentimentos e o afeto gerados pela afetividade podem até atrapalhar a aprendizagem. Será que isso pode acontecer? Para aprender é preciso inibir a emoção, os sentimentos e o afeto na relação entre quem ensina e quem aprende? Alguns autores vêm afirmando que essas ações, cognição e afetividade, apesar de não trazerem, ainda, uma definição precisa sobre cada uma delas, estão sendo solicitadas, nos debates educacionais, pelos gestores, professores, famílias e estudantes para estarem presentes nas pautas de forma articulada nas propostas e práticas pedagógicas nas últimas décadas (LEITE, 2012). Assim, as propostas educacionais devem assumir um fazer pedagógico pautado na dimensão conhecimentos cognitivo-afetivos (ARANTES, 2002). A partir dessas discussões, é possível que seja ultrapassada a ideia de que inteligência e afetividade sejam vistas como ações dicotômicas e/ou separadas no processo de construção do conhecimentos e aprendizagem. Ao contrário, acredita-se que o conhecimento dos sentimentos e das emoções requer ações cognitivas, da mesma forma que essas ações cognitivas pressupõem a presença de aspectos afetivos. Talvez faltem, ainda, em nossa linguagem cotidiana e acadêmica, expressões como “conhecimento sentido” ou – por que não? –, “sentimento conhecido” (ARANTES, 2002). Em decorrência dessas discussões, faz sentido refletir que não há oposição entre pensar e sentir. Com isso parece razoável afirmar que no trabalho pedagógico não exixte uma aprendizagem apenas cognitiva ou racional, pois estudantes e professores não deixam aspectos afetivos do “lado de fora” da sala de aula, quando estão construindo o conhecimento escolar ou não deixam “latentes” seus sentimentos, afetos e relações interpessoais, enquanto aprendem na escola ou em qualquer lugar. 30 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem Dando continuidade a nossa interlocução, é relevante definir o termo cognição. Essa palavra é oriunda do latim e significa conhecer, assimilar e compreendercompletamente as informações recebidas. A psicologia cognitiva afirma que a cognição está ligada ao desenvolvimento intelectual. Segundo o epistemólogo e pensador suíço Jean Piaget, a atividade intelectual está relacionada ao funcionamento do próprio organismo e do desenvolvimento biológico de cada pessoa. De forma semelhante a Piaget, Vygotsky (1984, p. 35) diz que a cognição pode ser compreendida como a “capacidade de uma pessoa processar informações e transformá-las em conhecimentos, com base em um conjunto de habilidades mentais e/ou cerebrais, tais como: a percepção, a atenção, a associação, a imaginação, o juízo, o raciocínio e a memória”. A cognição sempre foi e ainda é um comportamento bastante valorizado até os dias de hoje. De modo geral, pode-se dizer que a cognição humana é a interpretação que o cérebro faz das informações captadas pelos cinco sentidos e a conversão dessa interpretação para o nosso ser. Se considerarmos as características do desenvolvimento apresentadas por Papalia, Olds e Feldman (2006), talvez facilite compreender por que alguns estudantes apresentam dificuldades, ora de aprendizagem, ora de comportamento e ora de relacionamento. Para os professores, quais as dificuldades ou potencialidades apresentadas pelo estudante que poderiam ser justificadas pelas características de desenvolvimento? Dizem respeito ao meio externo (condições da família e aquelas oferecidas pela escola, as interações com seus pares e os adultos) ou ao responsável pelo sucesso ou fracasso escolar dos estudantes? Para ampliar a nossa discussão sobre o tema, é preciso falar, também, como a afetividade tem sido compreendida em nossa cultura. Nessa perspectiva, Barreto (1998, p. 71) afirma que a afetividade tem sido definida como uma: [...] dimensão constituinte de todo ser humano, pois ela exerce um papel fundamental na vida psíquica das pessoas, pois emoções e sentimentos são “combustíveis” que alimentam o psiquismo e estão presentes em todas as expressões de vida. Enfim, a afetividade parece a mais evidente manifestação da nossa subjetividade, na qual se encontram os sentimentos, as emoções, as paixões, o medo, o sofrimento, o interesse, a tristeza, a alegria. Barreto (1998, p. 71) menciona outros elementos para aprimorar a definição do termo quando diz que a afetividade pode ser compreendida como “[...] o conjunto de fenômenos psíquicos que se manifestam sob as formas de emoções, 31 Bases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da PsicologiaBases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da Psicologia Do Desenvolvimento E Da Aprendizagem HumanaDo Desenvolvimento E Da Aprendizagem Humana Capítulo 1 sentimentos e paixões, acompanhados sempre da impressão de dor ou de prazer, de satisfação ou insatisfação, de agrado ou desagrado, de alegria ou tristeza”. Portanto, é a mistura de todos os sentimentos: amor, ciúme, raiva, inveja, saudade. Uma forma de aprender a cuidar corretamente de todas essas emoções poderá possibilitar ao sujeito uma vida emocional plena e equilibrada. Por outro lado, a dimensão afetiva pode ser considerada, ainda, como a energia vital que impulsiona os sujeitos durante sua existência, ou seja, ela conduz o sujeito para desempenhar as ações. Desse modo, é um elemento indispensável ao desenvolvimento humano, pois a sua presença ou a sua ausência influencia significativamente o desenvolvimento humano, pois ela é a “substância” que nutre as ações e que, consequentemente, potencializa a vida humana. Com relação ao campo da educação escolar, a afetividade pode estimular a aprendizagem, como ressalta Piaget (1996 apud LA TAILLE; OLIVEIRA; PINTO, 2000). Para o autor, uma prática pedagógica afetiva pode fazer uma grande diferença no desenvolvimento e na aprendizagem dos estudantes, quando o professor assume uma postura de mediador, tornando-se uma pessoa significativa, apoiando, facilitando e desafiando os estudantes a construírem o conhecimento. Piaget (1996) ressalta, também, que a aprendizagem não é uma simples cópia do real ou fora determinado totalmente pela mente do sujeito. Assim, a aprendizagem é resultado da interação entre o sujeito e o objeto; é a interação provocada pela reação do organismo e pelos estímulos externos. Portanto, a aprendizagem, fruto de uma relação que nunca tem um só sentido, é resultado dessa interação. A afetividade é a energia que move as ações humanas, sem ela não há interesse e não há motivação para a aprendizagem. Com a intenção de enriquecer ainda mais seu aprendizado nesta disciplina, indicamos a seguir um fragmento do artigo “Afetividade nas práticas pedagógicas”, publicado pelo professor da Unicamp Sérgio Antônio da Silva Leite. Bases teóricas Este é um tema sobre o qual é fundamental a construção de um modelo teórico adequado, que possibilite uma compreensão que ultrapasse o olhar tradicional ou o senso comum sobre a relação razão x emoção, como já foi discutido. Um modelo teórico que nos ajude a entender que o Homem é um ser único; que o dualismo é uma leitura artificial da constituição humana, produzido pelo próprio Homem em função de determinadas condições históricas, políticas e sociais; 32 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem que o Homem é um ser que pensa e sente simultaneamente, sendo que a emoção está sempre presente na relação do Homem com a cultura; que, portanto, razão e emoção são indissociáveis, o que aponta para uma concepção holística/monista sobre a constituição humana. Enfim, este é um tema que exige estudo e o exercício da reflexão, uma vez que essas questões frequentemente esbarram e colidem com velhas concepções ideológicas, de natureza liberal, muitas delas ainda fortemente presentes na própria constituição de nossa subjetividade. Portanto, no campo da teoria psicológica, buscamos respaldo, para ancorar as pesquisas do Grupo do Afeto, em autores que apresentam, em comum, teorias com pressupostos centrados na concepção materialista dialética, segundo a qual o processo de desenvolvimento humano e, portanto, as funções superiores que caracterizam o homem devem ser explicados pelas relações que o homem mantém com a sua cultura, no seu ambiente social. Para esses autores, o objetivo da teoria psicológica é explicar os mecanismos pelos quais os processos naturais/filogenéticos, presentes no recém-nascido, se mesclam com os processos culturais e sociais para produzir as funções complexas que caracterizam o homem maduro. Wallon (1968; 1971; 1978) desenvolveu uma teoria sobre o processo de desenvolvimento humano centrado no processo de relação entre quatro grandes núcleos funcionais, determinantes do processo: a afetividade, a cognição, o movimento e a pessoa. Para o autor, o processo de desenvolvimento, que ocorre através da contínua interação entre esses núcleos, só pode ser explicado pela relação dialética entre os processos biológicos/orgânicos e o ambiente social – ou seja, o biológico e o social são indissociáveis, estando dialeticamente sempre relacionados. Para Wallon (1968), as emoções são manifestações de estados subjetivos, mas com componentes orgânicos (contrações musculares, viscerais etc.). Assim, na teoria walloniana, a emoção é o primeiro e mais forte vínculo que se estabelece entre o sujeito e as pessoas do ambiente, constituindo as manifestações iniciais de estados subjetivos, com componentes orgânicos. Apresenta três propriedades: a) contagiosidade – a capacidade de contaminar o outro; b) plasticidade – a capacidade de refletir sobre o corpo os seus sinais; c) regressividade – a capacidade de regredir as atividades ao raciocínio. Para o autor (WALLON, 1971), caberá às manifestações emocionais, através do seu poder de contágio, possibilitar ao recém- nascido sensibilizar as pessoas do ambiente para satisfazer suas necessidades e desejos. 33 Bases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da PsicologiaBases Epistemológicas Teórico-MetodológicasDa Psicologia Do Desenvolvimento E Da Aprendizagem HumanaDo Desenvolvimento E Da Aprendizagem Humana Capítulo 1 A afetividade, por sua vez, envolve uma gama maior de manifestações, englobando as emoções (de origem biológica) e os sentimentos (de origem psicológica). Neste sentido, é um processo mais amplo, que envolve a emoção, o sentimento e a paixão. Segundo Mahoney (2004, p. 17-18), “as emoções são identificadas pelo seu lado orgânico, empírico e de curta duração; os sentimentos, mais pelo componente representacional e de maior duração. A paixão é encoberta, mais duradoura, mais intensa, mais focada e com mais autocontrole sobre o comportamento”. Assim, a afetividade é um conceito mais amplo, constituindo-se mais tarde no processo de desenvolvimento humano, envolvendo vivências e formas de expressão mais complexas, desenvolvendo- se com a apropriação, pelo indivíduo, dos processos simbólicos da cultura, que vão possibilitar sua representação. É um conceito que “além de envolver um componente orgânico, corporal, motor e plástico, que é a emoção, apresenta também um componente cognitivo, representacional, que são os sentimentos e a paixão” (DÉR, 2004, p. 61). Deve-se, no entanto, relembrar que a complexificação das formas de manifestação afetivas – que alguns autores caracterizam como cognitivização do processo de desenvolvimento afetivo – só pode ser atingida através da mediação cultural, a partir, portanto, de um ambiente social (DANTAS, 1992). Desta forma, emoção e cognição coexistem no indivíduo em todos os momentos, embora, nas diversas etapas do desenvolvimento, Wallon defende que há um predomínio alternado entre as duas funções. Como lembra Almeida (1999, p. 29), “a inteligência não se desenvolve sem afetividade, e vice-versa, pois ambas compõem uma unidade de contrários”. Vygotsky (1993; 1998), por sua vez, de maneira semelhante, assume uma posição segundo a qual o indivíduo nasce como ser biológico, fruto da história filogenética da espécie, mas que, através da inserção na cultura, constituir-se-á como um ser sócio-histórico, ou seja, o ser humano nasce com as chamadas funções elementares, de natureza biológica. Cabe à teoria psicológica explicar como tais funções, a partir da inserção cultural, vão se constituir nas chamadas funções superiores, que caracterizam o ser humano. Oliveira (1993) resume as ideias basilares da teoria vygotskyana: a) as funções psicológicas superiores têm suporte biológico, pois são produtos da atividade cerebral; o cérebro, assumido como a base biológica do funcionamento psicológico, é entendido como um sistema aberto e de grande plasticidade, o que permite as imensas possibilidades de realização humana e a enorme capacidade de adaptação do homem; b) o funcionamento psicológico fundamenta-se 34 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem nas relações sociais concretas entre o indivíduo e o mundo exterior, as quais se desenvolvem num processo histórico; assim, as funções superiores constituem-se na/pela cultura; c) a relação homem-mundo é sempre mediada por sistemas simbólicos, o que coloca o conceito de mediação como central na teoria. Dentre os sistemas simbólicos, a fala é considerada fundamental para a construção das funções superiores, sendo internalizada nos anos iniciais do processo de desenvolvimento, passando a funcionar como um instrumento do pensamento. O desenvolvimento humano pode ser entendido como um processo de apropriação dos elementos e processos culturais, ocorrendo no sentido do externo (relações interpessoais) para o interno (relações intrapessoais), mediado pela ação do outro (pessoas físicas ou agentes culturais). A aprendizagem desempenha, portanto, um papel crucial na medida em que possibilita o processo de desenvolvimento. É inegável o impacto dessas concepções no pensamento pedagógico. De um lado, aponta que o processo de mediação pedagógica é fundamental na relação que se estabelece entre o sujeito/aluno e o objeto de conhecimento/conteúdos escolares, lembrando que, em sala de aula, o professor é o principal agente mediador, embora não o único. De outro lado, sugere que a mediação pedagógica ocorre através de práticas e situações concretas, o que significa que elas podem ser planejadas de forma a aumentar as chances da aprendizagem com sucesso pelo aluno. Este, por sua vez, é entendido por Vygotsky (1998) como um sujeito interativo, ou seja, um sujeito que desempenha um papel ativo nos processos de interação vivenciados. Com relação à afetividade, Vygotsky (1993) denuncia a divisão histórica entre os afetos e a cognição, apontando-a como um dos grandes problemas da Psicologia na sua época, ao mesmo tempo em que critica as abordagens orgânicas. Para o autor, as emoções deslocam-se do plano individual, inicialmente biológico, para um plano de função superior e simbólico, de significações e sentidos, constituídos na/pela cultura. Nesse processo, internalizam-se os significados e sentidos, atribuídos pela cultura e pelo indivíduo aos objetos e funções culturais, a partir das experiências vivenciadas, sendo crucial o papel do outro, como agente mediador entre o sujeito e os objetos culturais. Assim, para o autor, “as emoções isolam-se cada vez mais do reino dos instintos e se deslocam para um plano totalmente novo” (VYGOTSKY, 1998, p. 94). Comparando-se as posições de Wallon e Vygotsky sobre a afetividade, percebe-se que os autores apresentam pontos comuns 35 Bases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da PsicologiaBases Epistemológicas Teórico-Metodológicas Da Psicologia Do Desenvolvimento E Da Aprendizagem HumanaDo Desenvolvimento E Da Aprendizagem Humana Capítulo 1 com relação aos aspectos essenciais do fenômeno em pauta: a) ambos assumem uma concepção desenvolvimentista sobre as manifestações emocionais: inicialmente orgânicas, vão ganhando complexidade na medida em que o indivíduo desenvolve-se na cultura, passando a atuar no universo simbólico, ampliando e complexificando suas formas de manifestação; b) assumem, pois, o caráter social da afetividade; c) assumem que a relação entre a afetividade e inteligência é fundante para o processo do desenvolvimento humano. FONTE: . Acesso em: 30 jul. 2019. Parece clara a importância trabalhada nesta seção sobre a relação positiva entre cognição e afetividade em nossa sociedade. Entretanto, algumas escolas ou alguns professores possuem práticas pedagógicas que privilegiam mais os aspectos cognitivos em detrimento da afetividade no processo de ensino- aprendizagem. Para ampliar o nosso olhar sobre essa relação, explicitou- se, a seguir, o resumo do estudo “A influência da afetividade no processo de aprendizagem de estudantes nos anos iniciais do Ensino Fundamental”, realizado por Josiane Regina Brust no ano de 2008, que traz a importância da mediação do professor que considera tanto a cognição quanto a afetividade em sua prática pedagógica. A influência da afetividade no processo de aprendizagem de estudantes nos anos iniciais do Ensino Fundamental Para este estudo, foi realizada uma pesquisa bibliográfica a partir da produção de autores clássicos e contemporâneos que trabalham com a questão da afetividade no processo de aprendizagem, buscou-se obter o máximo de informações e esclarecimentos que contribuíssem para a resolução dos problemas aqui apresentados. Realizou-se, também, uma pesquisa de campo de caráter investigativo exploratório, através de questionários com perguntas objetivas e subjetivas. Essas questões foram respondidas por estudantes de 4º e 5º anos do Ensino Fundamental I. As informações continham questões sociais, econômicas e culturais, que ajudam a compreender melhor o ambiente cognitivo e afetivo dos estudantes, segundo a pesquisadora. 36 Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem