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CASAMENTO, FILHOS, FAMÍLIA e as filosofias ocultas do cotidiano Alessandro Loiola, MD Copyright © 2019 ManhoodBrasil www.manhoodbrasil.com.br http://www.manhoodbrasil.com.br/ Sobre a obra: O que é um matrimônio? Ele está fora de moda ou o conceito de casamento pode ser redefinido sem consequências? E o que exatamente é uma família? As mudanças nos modelos que conhecemos devem ser aceitas ou são pelo menos social e naturalmente viáveis? E quanto aos filhos e ao adultério: eles aumentam ou diminuem nossa felicidade? Em “CASAMENTO, FILHOS, FAMÍLIA”, o médico capixaba Alessandro Loiola faz uma excursão inusitada pela psicologia e pela filosofia envolvida nas relações entre homens e mulheres e seus filhos. Este lançamento exclusivo de ManhoodBrasil Edições é mais uma leitura essencial para psicólogos, formadores de opinião, influenciadores digitais, apaixonados por Filosofia e livres pensadores com interesse e coragem suficiente para aprofundar- se em estudos sérios acerca da natureza humana. Caso tenha interesse em conhecer outros conteúdos produzidos por ManhoodBrasil, teremos grande prazer em receber sua visita: Site: www.manhoodbrasil.com.br Facebook: https://web.facebook.com/manhoodbrasil/ Instagram: https://www.instagram.com/manhoodbrasil/ http://www.manhoodbrasil.com.br/ https://web.facebook.com/manhoodbrasil/ https://www.instagram.com/manhoodbrasil/%0d Índice 1. O Nem Sempre Sagrado Matrimônio 2. O Mito da Família Tradicional 3. Autoritário, Permissivo ou Democrático? 4. A Infância Perdida Encontra a Criação-Helicóptero 5. A Invenção da Adolescência 6. Quem Tem Filhos é Mais Feliz? 7. Casais Gays e Evidências 8. O Reino Encantado do Adultério 1. O NEM SEMPRE SAGRADO MATRIMÔNIO Mais que uma escolha, o Matrimônio (ou casamento, entenda como preferir) parece ser a programação preferida para que os humanos desempenhem sua função reprodutora: apesar da poliginia ser permitida em mais de 80% das sociedades, apenas 5-10% dos homens têm várias esposas simultaneamente7. Desde há muito tempo, a formação de casais se mostrou vital para a saúde dos filhotes: a maioria das fêmeas de grandes primatas utiliza as mãos e os braços para carregar a cria recém- nascida, comprometendo sua capacidade de defesa contra predadores. A presença de um macho com ambos os braços e mãos livres seria um recurso interessante para assegurar a sobrevivência da descendência genética de ambos, mas um macho só conseguiria proteger de maneira eficaz a fêmea mais próxima de si. Defender um harém disperso pela floresta seria um pouco mais complicado. Assim, sob as pressões da Seleção Natural, cerca de 4 milhões de anos atrás o bípede Australopithecus afarensis – o ancestral do Homem sapiens que tem no esqueleto de Lucy seu representante mais famoso – criou o padrão de casais heterossexuais monogâmicos a que nos acostumamos hoje8. Além de benéfico para a produção de uma prole, o matrimônio possui efeitos positivos sobre a saúde dos envolvidos: pessoas viúvas apresentam quatro vezes mais chances de sofrer com depressão que pessoas casadas (42% versus 10%)9. Sem levar a satisfação com o próprio relacionamento em conta, diversos estudos mostram que o casamento está associado a uma saúde melhor (homens casados possuem menor risco de síndrome plurimetabólica que homens solteiros)13, maior abandono de comportamentos de risco e uma rede de amigos de melhor qualidade14. Além disso, em média, pessoas casadas ganham em longevidade e sobrevida ao câncer em comparação a pessoas solteiras15,16. Obviamente, nem todo matrimônio produz esses lucros e os bônus tendem a estar mais restritos às uniões “felizes”, bem- sucedidas em vários aspectos diferentes: atração sexual, dinheiro, disciplina dos filhos, religião, parentes, respeito, reciprocidade e lealdade10. Cientes do poder do casamento na formação da célula-base da sociedade – a Família –, o Estado e a Igreja rapidamente encontraram maneiras de tornar os matrimônios oficiais e sagrados, assumindo o juízo sobre sua legitimidade, sobre quais filhos são lícitos e, obviamente, sobre a quem caberiam os direitos de sucessão e herança11,12. Todavia, apenas por volta do século VIII a Igreja Católica começaria a celebrar casamentos e, a partir do século XII, a defini-lo como uma união sagrada e estritamente monogâmica entre um homem e uma mulher, e sancionada por deus. Pelo menos em teoria. Com a chegada do Ceticismo e as tempestades de mudança do Pós-Modernismo, os profetas do Absolutismo Moral religioso apontaram seus dedos para o apocalipse iminente, denunciando que “os valores fundamentais do casamento estão sendo destruídos um a um”. Um bom exemplo deste estarrecimento pode ser visto nos trabalhos do antropólogo inglês Joseph Daniel Unwin (1895-1936). Em 1934, Unwin descreveu os resultados de seus estudos envolvendo 80 tribos primitivas e outras 6 civilizações, totalizando um período de 5.000 anos de história, afirmando ter encontrado uma correlação positiva entre as conquistas sociais de um povo e o grau de restrições sexuais de sua sociedade: de acordo com Unwin, quando uma nação se torna próspera o suficiente e liberal o bastante com respeito à Moralidade sexual, o resultado é uma perda irreversível da coesão e do ímpeto do tecido social1. Contra o diagnóstico de Unwin pesam as recorrentes epidemias de hedonismo no Ocidente, indo desde o grego Aristipo de Cirene (435-335 a.C.), contemporâneo de Sócrates; passando pelos franceses Julien Offray de La Mettrie e seu discípulo, Donatien Alphonse François de Sade (o Marquês de Sade, 1740-1814); pela Geração Perdida de Paris dos anos 1920; e chegando às visões utilitaristas de Jeremy Bentham e Henry Sidgwick: assim como vírus, fungos, bactérias e anúncios periódicos do fim do mundo e da civilização como a conhecemos, o Hedonismo temido por Unwin sempre andou por aí, acompanhando-nos em toda parte, e ainda não foi capaz de provocar a extinção do Homo sapiens: éramos pouco mais de 1,5 bilhão de humanos no começo do século XX e chegamos ao século XXI ultrapassando a marca dos 6 bilhões2. E, apenas no Brasil, segundo as estatísticas de Registro Civil do IBGE, são celebrados mais de 1 milhão de casamentos anualmente. Apesar do número de divórcios ter aumentado significativamente nos últimos 30 anos, a taxa de separações matrimoniais se encontra estabilizada e as uniões de agora duram mais que aquelas de 20 anos atrás. À primeira vista, portanto, o alarmismo de Unwin quanto ao final do matrimônio que acompanharia a liberalização dos costumes não se concretizou. Ao invés de relatar as evidências com honestidade, o antropólogo pareceu mais preocupado em comprovar que o modelo de família ideal seria aquele com pais e mães Realistas Morais, preferivelmente adeptos da Ética das Virtudes Aristotélica com forte um viés religioso monoteísta, criando filhos sob um estilo Democrático ou suavemente Autoritário, porém jamais Permissivo. Infelizmente, este modelo de família fantasiado por boa parte do Ocidente sofre do mesmo problema do Papai Noel, do Saci Pererê e do Estado sem Estado de Karl Marx: ele não existe no mundo real. O que temos são pessoas falhas, com Moralidades falhas, vidas falhas, empregos falhos, filosofias falhas e julgamentos falhos – e, mesclando todos esses ingredientes de terceira categoria, sonhamos em encontrar uma maneira de preparar uma refeição digna da mais alta culinária de nossas expectativas. Será que aqueles que, como Unwin e outros Moralistas teocráticos, veem na falência do “casamento tradicional” um sinal indubitável do cataclismo de nossa espécie, porventura sabem de onde suas ideias sobre casamento vieram? Como mencionado, esta configuração surgiu ainda no Paleolítico, como uma estratégia para garantir um ambiente seguro para prole. Com o advento do Neolítico, oaumentando a incidência de transtornos de comportamento, delinquência, uso de drogas e envolvimento com o crime58-61. Em contrapartida, nos EUA, a renda anual média de casais homossexuais é quase o dobro daquela de casais heterossexuais (US$118,619 versus US$62,798). Se, como sociedade, acreditamos que é nosso dever garantir por todos os meios possíveis que as crianças venham ao mundo em circunstâncias ótimas, por que não selecionar quem deve ser pai ou mãe com base na renda do lar e não da identidade sexual? A resposta: porque proibir que pessoas pobres tenham filhos é absolutamente desumano e incorreto – assim como é desumano e incorreto impedir que casais homossexuais façam o mesmo42. Qualquer pessoa racional concorda – pelo menos da boca para fora – que o bem-estar das crianças deve ser a meta mais importante ao se considerar a estrutura familiar. Se realmente levássemos isto a sério, deveríamos rejeitar comparações de casais homossexuais com casais heterossexuais como se o segundo representasse o padrão-ouro. Boa parte dos estudos de crianças de lares homossexuais utiliza como grupo-controle crianças de lares heterossexuais, mas raríssimos estudos fazem o contrário, ainda que, em termos de cuidados com a criança, casais homossexuais apresentem níveis maiores de calor humano e interação, e níveis menores de agressões disciplinares, ao ponto de chegar a existir um ambiente de harmonia maior entre crianças adotadas por casais homossexuais que aquelas adotadas por casais heterossexuais44. Em qualquer sociedade que se diga democrática, o pluralismo Moral é norma geral e todas as decisões devem ser justificadas a partir de argumentos fundados principalmente na Lógica e na Razão. Se um grupo decide fazer valer acima de tudo uma regra baseada meramente em uma visão de mundo que não é compartilhada pelos demais membros, esta é uma violação da liberdade de todos aqueles que compõem esta mesma sociedade. Se alguém espera proibir casamentos homossexuais, ou expressões de afeto homossexuais, ou amor homossexual, ou adoção de crianças por casais homossexuais, esta pessoa deve, por meio da Lógica e da Razão – e não por meio de tabus, fé ou crenças religiosas -, comprovar que estas situações são de fato danosas e perigosas para a segurança, a ordem e o progresso do grupo como um todo. Quando um indivíduo ou grupo se posiciona contra o casamento de homossexuais ou a adoção de crianças por casais homossexuais, seria de se esperar que esta pessoa apresentasse argumentos apoiados por evidências sólidas: “casais homossexuais são ruins para a economia e a geração de riqueza”, ou “crianças de lares homossexuais tendem a desenvolver problemas emocionais e comprometimento escolar”, e etc. Se esta pessoa é incapaz de mudar de opinião a despeito das provas em contrário (casais homossexuais tendem a apresentar uma renda anual média superior a casais heterossexuais, crianças adotadas por homossexuais não diferem daquelas adotadas por casais heterossexuais em termos de transtornos emocionais ou rendimento escolar, etc.), então podemos muito bem acusá-la de má-fé. Na verdade, ela está experimentando a Estupefação Moral de Haidt e é pouco provável que mude de opinião, não interessando a quantidade de provas que você oferecer. Mais de 80 anos depois de Randolph Scott ter se mudado para o apartamento de Cary Grant, muitas pessoas ainda têm dificuldade em aceitar um casal de homens (ou mulheres) morando juntos, que dirá tendo ou criando filhos. A despeito do amplo conjunto de evidências descartando a ocorrência de “traumas” nas crianças, os Deontologistas que se opõem aos casais homossexuais jamais trocarão de ideia, mesmo quando confrontados com números que apontam solidamente em uma direção oposta às suas convicções. Seu desprezo e sua desconfiança não são determinados pelos resultados ruins do desempenho dos filhos criados nesses lares (até porque, estes resultados não são consistentes com os dados da realidade), mas de uma repugnância Moral, emocional e irracional, ainda que organizações como a American Academy of Pediatrics, a American Medical Association, a American Psychiatric Association e a National Association of Social Workers tenham manifestado reiterada e oficialmente seu apoio à adoção de crianças por casais do mesmo sexo. Ao entrar no barco das críticas sobre o risco de extinção da “família tradicional”, recomendo que considere com honestidade e sem ataques de fanatismo histérico os dados que se encontram disponíveis. Apesar de me considerar um crítico ferrenho das molenguices da Pós-Modernidade, não percebo casais homossexuais com filhos como uma ameaça à instituição da família, e considero todo ataque a esta nova configuração um reflexo da soma da insuficiência intelectual coletiva. E você, voluntariamente ou não, pode estar fazendo parte dela. 8. O REINO ENCANTADO DO ADULTÉRIO Há mais de 250 anos, Rousseau escreveu que “o dever de manter a fidelidade eterna serve apenas para criar adultérios”32. Contudo, apesar dos alertas do filósofo suíço e de os registros antropológicos indicarem que aproximadamente 85% das sociedades humanas permitiram que os homens tivessem mais de uma esposa (especialmente se fossem ricos!), o padrão do casamento com seu contrato de fidelidade “eterna” se popularizou por todo o mundo como uma epidemia. Somos animais profundamente individualistas e, ao longo de nossa história evolutiva, as influências biopsicossociais tornaram a monogamia a norma da conduta romântica. Existem duas explicações para este fenômeno, ambas baseadas na estratégia de reprodução de nossa espécie: uma responde pelo nome de Modelo do Esforço Procriador e outra pela alcunha de Modelo Protetor-Provedor62. No Modelo do Esforço Procriador, o casamento seria uma forma de o macho monopolizar uma fêmea para si, garantindo que os filhos dela carregariam a genética dele e não de outro. Nas primeiras sociedades, os homens não possuíam meios para determinar a paternidade de sua prole, então este sistema “romântico-patriarcal-opressor” tinha lá sua justificativa. Copular com várias fêmeas poderia aumentar a fertilidade de um homem, mas também representaria um investimento tolo caso ele não possuísse recursos suficientes para atuar como protetor e provisor de suas crias. Ademais, a infidelidade, se generalizada, não daria a qualquer um dos homens a certeza de transmissão de seus genes. Da parte da fêmea, o contrato de exclusividade lhe garantia a lealdade e a proteção do macho. O Modelo Protetor-Provedor afirma que os relacionamentos monogâmicos facilitam a divisão de trabalho e o cuidado com a prole. Considerando que nascemos como pequenos animais completamente indefesos e inúteis, e permanecemos assim por um período relativamente longo, o Modelo Protetor-Provedor faz bastante sentido tanto para os homens quanto para as mulheres. Qualquer que seja o modelo que tenha prevalecido, a monogamia certamente ofereceu vantagens adicionais: com a abolição da poligamia, o número de mulheres disponíveis para uma relação monogâmica duradoura aumentou. Consequentemente, o número de homens solteiros e sexualmente tensos diminuiu e, com eles, diminuíram também os índices de estupro, sequestro (especialmente de mulheres), homicídio, assalto, roubo e escravidão sexual. Menos crimes significaram mais comércio, mais investimentos, maior fluxo de informações e maior sofisticação na divisão do trabalho, aumentando a produtividade dos núcleos familiares. Se isso não bastasse, historicamente a monogamia também está associada a uma redução nas taxas de infanticídio, negligência, abuso e morte acidental de crianças63. No curso de nossa espécie, a soma dessas vantagens sacramentou a validade normativa da monogamia: uma vez que para prosperar as sociedades costumam reforçar hábitos e instituições Utilitaristas que reduzem custos e riscos, e melhoram as chances de competiçãocom sociedades rivais pelos recursos do ambiente, a monogamia criou raízes e floresceu em toda parte. Infelizmente, os regulamentos da monogamia não evoluíram da mesma maneira que nossa herança de grandes primatas. Temos corpos, mentes e estratégias de procriação formatados no distante Paleolítico e, eventualmente, alguns preceitos Morais colidem com essa programação. Por mais que nos esforcemos, as convenções de relacionamento nem sempre se correlacionam à psicologia reprodutora dos humanos, tampouco podem subvertê- la inteiramente. Assim, para tentar escapar da maldição que Rousseau jogou sobre a monogamia, elaboramos alguns jogos alternativos. No cardápio de convivências, as opções à monogamia incluem, além da poligamia óbvia, o poliamor (você tem relacionamentos românticos com múltiplas pessoas); a polifidelidade (três ou mais pessoas formam um relacionamento romântico fechado); e os relacionamentos abertos (o casal mantem a fidelidade da intimidade emocional, mas permite-se sexo casual com outras pessoas separadamente ou pela prática de swing). Em todos estes casos, os participantes aquiescem voluntariamente quanto ao modelo alternativo adotado. Os relacionamentos não-monogâmicos consensuais frequentemente são considerados menos Morais, menos satisfatórios e seguros do ponto de vista sexual, e com menor qualidade emocional, mas boa parte desta noção decorre de estereótipos sociais hostis: estudos mostram que pessoas em relacionamentos não-monogâmicos apresentam uma probabilidade maior de utilizar camisinha e fazem mais testes para doenças sexualmente transmissíveis que casais que se dizem monogâmicos. Todavia, os envolvidos nestas uniões menos convencionais de fato relatam uma menor percepção de Felicidade e menos satisfação sexual em seus relacionamentos primários que pessoas monogâmicas. Em uma análise generalizada, a monogamia é o modelo de romance escolhido por cerca de 90% das pessoas – a não- monogamia consensual ocorre em apenas 8% dos humanos. Mais especificamente, o relacionamento não-monogâmico consensual é praticado por aproximadamente 2% das pessoas heterossexuais, 32% dos homossexuais masculinos, 5% das homossexuais femininas e 22% dos bissexuais64. A monogamia tornou-se tão profundamente incrustada em nossa cultura como um “ideal conjugal” que frequentemente consideramos os divórcios uma forma de insucesso, e os casos extraconjugais, uma forma de traição. A reverência a este arquétipo é tão grande que apenas cerca de 9% das pessoas consideram o adultério Moralmente justificável, independente das causas que levaram a ele. Para efeito de comparação, o suicídio é considerado Moralmente justificável por 17% das pessoas e a clonagem humana, por 11%65. Mesmo com todas essas desvantagens, a prevalência do adultério sempre foi bastante elevada entre nós, tornando a infidelidade um dos assuntos campeões de audiência quando se fala sobre Moralidade e relacionamentos. Atualmente, a infidelidade ocorre em algum momento do relacionamento em 36% dos casais na Inglaterra e na Finlândia; 39% na Espanha; 40% na Noruega e na Bélgica; 43% na França, 45% na Itália e na Alemanha; 46% na Dinamarca; e inacreditáveis 56% na Tailândia68. Tipicamente, os homens são mais adúlteros que as mulheres, mas não muito: 25% dos homens e 20% das mulheres referem ter sido infiéis em seus relacionamentos “monogâmicos”69-71. Mas exatamente o quê seria esta “infidelidade”? Comumente, a definimos como uma violação do acordo marital, uma traição e uma ameaça ao vínculo conjugal, dividindo-a em duas categorias: Sexual e Emocional67. Com a popularização da Internet, o segundo tipo vem crescendo em importância, já sendo considerado por muitos tão traumático quanto a infidelidade “ao vivo e em cores”66. A infidelidade estende-se desde beijar, fazer sexo oral ou ir de fato para a cama com alguém fora do seu “relacionamento oficial”, até o desenvolvimento de laços emocionais com outra pessoa (inclusive laços virtuais) ou assistir pornografia. Para os homens, a infidelidade reside principalmente no contato físico, especialmente aquele de cunho sexual. De acordo com os psicólogos evolucionários, esta peculiaridade decorre da incerteza da paternidade por parte dos machos de nossa espécie, como descrito no Modelo do Esforço Procriador. Para as mulheres, a infidelidade está nas emoções, havendo ou não contato físico. Como descrito no Modelo Protetor-Provedor, dada a necessidade de proteção durante a gestação e os primeiros meses de vulnerabilidade após o parto, o risco de não poder contar com os recursos físicos de um homem seria catastrófico para uma fêmea nesse período. E é por isso que a omissão masculina tem o mesmo peso de uma traição sexual para as mulheres: não interessa exatamente se houve sexo. O que conta é se o homem manteve-se emocionalmente fiel – ou não. Se a monogamia consensual é o modelo de relacionamento preferido pela esmagadora maioria das pessoas, por que cometemos adultério? Simples: o Amor Eros (o tesão apaixonado) diminui com o tempo, cedendo seu lugar para um Amor do tipo Philia (afeto por admiração). Algumas pessoas, ressentidas pela abstinência de Eros, tornam-se propensas ao desejo de procurá-lo fora de casa – o que eventualmente termina se concretizando em algum momento. O risco de adultério tende a diminuir para as mulheres e aumentar para os homens ao longo do relacionamento: entre os homens, o risco de adultério atinge o nível mínimo por volta do décimo oitavo ano de relacionamento, avultando lentamente daí em diante. Casais com filhos apresentam índices de adultério um pouco maiores que casais sem filhos, assim como a gravidez da parceira tende a aumentar o risco de infidelidade por parte do homem72,73. Não obstante os fatores evolutivos e contextuais, uma parcela significativa da etiologia do adultério depende da programação genética: em uma análise de 1.600 mulheres gêmeas realizada na Grã Bretanha, os pesquisadores descobriram que a programação genética influencia no mínimo em 40% a ocorrência infidelidade74. Além disso, quanto mais sinais de androgenização (ou seja: quanto mais intensa for a expressão da produção de testosterona), maior a probabilidade de um homem cometer adultério75 – um dado que deveria servir de alerta para mulheres neuróticas que se relacionam com machos musculosos, de voz grave, carecas e peludos. Indo além do determinismo genético, mas ainda obedecendo às iminências daquelas partes primitivas de nossos cérebros hedônicos, a natureza corruptora do Amor Eros impulsiona psicologicamente o adultério com o motor da “novidade”: o novo desafio, a nova conquista, a nova paixão, o beijo inédito, a nudez desconhecida. Há décadas, o amor e o romance intensos têm sido glorificados através da televisão, do cinema, da literatura e da música. Quando estamos em um relacionamento de longo prazo, as intensidades desaparecem e o desejo de reavê-las pode se tornar avassalador. O adultério, então, com seu ar de segredo e contravenção, apresenta-se como um terreno fértil para cultivar novamente a “loucura impetuosa do amor”. Se todas essas influências internas e externas não bastassem, vale ressaltar que bebês criados em um modelo Ansioso-Evitativo se tornam adultos pouco empáticos que gostam de sexo casual; e bebês criados em um modelo Ambivalente, se tornam adultos carentes e adúlteros seriais. Quando a genética não prevalece, a personalidade dos pais e a Teoria do Apego de Bowlby podem preparar o sujeito para a infidelidade na fase adulta. Algo similar processa-se com outros aspectos culturais contingenciais: pessoas criadas em ambientes mais religiosos e conservadores tendem a ser mais fieis que aquelas crescidas ou adeptas de discernimento mais agnósticos e liberais 72. Apesar de alguns cônjuges procurarem deliberadamente oportunidades para cometer alguma forma de adultério, a maior parte dos incidentessucede de maneira não planejada: poucas pessoas se arrumam e saem de casa com o propósito de praticar o adultério nos próximos quinze minutos. A vulnerabilidade para sexo fora do relacionamento é criada com o tempo e concretiza-se por uma oportunidade eventual. Afinal de contas, tanto a monogamia quanto a poligamia, o poliamor, a polifidelidade, os relacionamentos abertos, o swing e a promiscuidade podem produzir Felicidade, e a busca pela Felicidade pode conduzir a vários caminhos – e nem sempre conscientemente. Quando esmiuçamos a monogamia de modo mais frio e analítico, constatamos que a demanda por fidelidade que ela exige envolve a abdicação de encontros com uma gama enorme de pessoas fantásticas e excitantes. A monogamia pode ser enlouquecedora e sufocante. Contudo, o adultério, a despeito de todo seu charme potencial, corrói a confiança e a segurança – fatores essenciais para construir um relacionamento e uma mente saudáveis. Ou seja: qualquer que seja sua escolha, ela envolverá ganhos e perdas. A favor da tentação do adultério, não se pode negar que ele é cheio de hormônios picantes e um senso de estar vivendo em plenitude. No Pós-Modernismo, a monogamia, com sua promessa de renúncia sexual biologicamente estranha, passou a ser associada a um tipo de generosidade estoica melancólica e pessimista. Ora, se o sexo é um instinto natural e sua repressão resulta em neuroses – e até mesmo em insanidade –, por que deveríamos perder as oportunidades que se apresentam? Toda nossa sociedade, desde o Estado até as Leis, os programas de saúde pública e todos os avanços tecnológicos realizados até aqui tiveram como premissa implícita ou explícita a maximização do prazer humano. Por que deveríamos condenar o adultério a esta altura do campeonato? Curiosamente, em uma era que aceitou praticamente qualquer tipo de atividade sexual voluntária entre pessoas adultas, o adultério continua sendo uma das transgressões mais condenáveis. O Relativismo Moral Pós-Moderno pode ter expandido várias fronteiras, mas a noção de que o relacionamento é uma fusão monogâmica e vitalícia de amor e sexo segue firme e forte no imaginário da maioria das pessoas – especialmente entre as mulheres. Em última análise, o Julgamento Moral do adultério dependerá do tipo de código ético que você considera válido. Se você optar pelo Consequencialismo ou pelo Subjetivismo, poderá validar o adultério de várias maneiras diferentes (aumento da possibilidade de reprodução, diversificação das oportunidades de sexo e relacionamento, etc.). Além disso, poderá argumentar que, se a traição permanecer em segredo e pessoa alguma jamais for afetada ou sofrer por isso (além do adúltero e seu par), o adultério torna-se Moralmente justificável. Para Relativistas pós-modernos, Céticos, Niilistas e Hedonistas, questionar sobre a ética do adultério é algo completamente fora de propósito. Os Coletivistas simplesmente diriam – como sempre dizem – que a proibição do adultério ajuda a sustentar o modo capitalista de produção, reforçando os sistemas socioeconômicos opressores da sociedade patriarcal. Por fim, dentro do Absolutismo Moral dogmático, da Ética das Virtudes e dos imperativos categóricos da Deontologia centrada no agente, o adultério é sempre condenável, pois implica em uma violação da lealdade. Somos animais frágeis. Desde sempre, para sobrevivermos, dependemos da lealdade do grupo, da tribo, da família, de nossos pais e, fundamentalmente, da pessoa com quem dividimos a cama. Independente de sua escola Moral, por trás da condenação popular quase unânime do adultério esconde-se justamente a necessidade que temos por este elo tão precioso. Apesar de pressões evolucionárias inimagináveis terem plantado a monogamia entre nós, parece que nenhuma outra sociedade anterior à nossa jamais teve tantas esperanças ingênuas quanto ao casamento – e nenhuma jamais demonstrou tamanha prevalência de desapontamentos histéricos com ele. E nos metemos no adultério sem perceber o equívoco da crença de que é possível consertar o que está quebrado e superar as dificuldades de um relacionamento utilizando o passe de mágica de uma mentira. O que torna a infidelidade conjugal tão execrável é a desonrosa quebra da promessa de fidelidade que fizemos voluntariamente ao adentrar em um relacionamento. A Moralidade pode ser torcida de várias maneiras diferentes, mas em alguns pontos – como na Lealdade –, ela parece simplesmente recusar-se a qualquer negociação. Os adúlteros relatam motivações diversas para sua ação: tédio, busca pela Felicidade, vingança, carência, oportunidade, instinto animal, urgência biológica por intimidade, “amor” à primeira vista, narcisismo, sede de poder, fome por afeto, necessidade de aventura e por aí vai. Com estas racionalizações ambíguas, os adúlteros procuram sancionar sua deslealdade conferindo-lhe um ar de sedutora condescendência. Ainda que uma mentira ou um assassinato eventualmente possam causar algum bem, em geral não é bem isso que ocorre. E o mesmo pode ser dito com relação às consequências do adultério: um adultério justificável assemelha-se muito a um homicídio justificável. A sociedade Pós-Moderna é insistente em afirmar que a monogamia, ao oferecer tão poucos benefícios a um alto custo físico e emocional, falhou tanto com os homens quanto com as mulheres em resolver a busca pela Felicidade. Contudo, os arautos dessa calamidade parecem ser imaturos demais para perceber o valor que a confiança, a honestidade, a lealdade e o Amor Philia têm para os seres humanos. Argumentos estritamente racionais que comparam o coito a atividades inócuas como jogar tênis ou uma partida de baralho são ingênuos na medida em que fingem não compreender o papel emocional que o sexo tem em nossas vidas. Apesar de o adultério poder resultar em gravidez indesejável e contaminação por doenças sexualmente transmissíveis, seu principal fardo está nas cicatrizes emocionais que causa. Não surpreende que ele seja a principal causa de divórcio tanto para homens quanto para mulheres. Não existe uma fórmula infalível para resolver as tensões e os desgastes de um relacionamento, pois amor, sexo e vínculo familiar afetam-se mutuamente: o surgimento do Amor Philia pode inibir o desejo sexual do Amor Eros, e o Amor Ágape (o amor fraterno) que surge com o nascimento dos filhos pode inibir as duas formas anteriores de Amor ao mesmo tempo. A escolha que se apresenta não é entre uma ou outra forma de amor, mas entre ser ou não capaz de navegar entre elas com maturidade e excelência. Se você procura uma prova definitiva de que a monogamia leva à Felicidade, esqueça: tal coisa não existe. Tampouco se pode afirmar que o adultério, a promiscuidade ou formas de abertas de relacionamentos românticos sejam capazes de fazer o mesmo. Sim, concordo que todas as regras merecem interpretação; todos os princípios devem ser contextualizados; e todas as proibições devem ser examinadas à luz da Razão. Contudo, a percepção de Felicidade em um relacionamento dependerá primariamente do indivíduo, de sua programação genética, do modo como foi criado e do seu contexto sócio-econômico-cultural. Talvez pessoas mais inseguras e relutantes em assumir compromissos sólidos optem pela infidelidade ou por relacionamentos não-monogâmicos, e é sua insegurança, não sua opção romântica, a causa primária de sua insatisfação perene. O modelo de relacionamento escolhido é apenas um sintoma tardio de um problema interno e anterior de personalidade. E quanto à completude satisfeita e inabalável prometida pelo reino encantado do adultério, ela derradeiramente mostrar-se-á tão real quanto os unicórnios voadores cor-de-rosa que o povoam. _________________________ Referências: 1. Joseph Daniel Unwin. Sex and Culture (1934). 2. Kurt Lampe. The Birth of Hedonism: The Cyrenaic Philosophers and Pleasure as a Way of Life. PrincetonUniversity Press (2017) 3. Stephanie Coontz. 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A noção de casamento sempre variou absurdamente de uma cultura para outra: algumas tribos humanas estimulavam a endogamia (união com quase familiares do mesmo grupo ou clã), outras a exogamia (união com não-familiares de regiões geográficas ou grupos sociais distantes), e outras a poligamia – a prática da poligamia foi banida no Ocidente durante o Império Romano, mas ainda é considerada legal em mais de 50 países, sendo aceita em outros vinte17,18. Durante a Era Vitoriana (1837-1901), o Amor passou a ser visto como um pré-requisito para o casamento, tornando os rituais de flerte mais formais e cheios de rapapés. Segundo Maria Stella Ferreira Levy, professora de Epidemiologia e doutora em Saúde Pública, no Brasil de 1650 não existiam tabus como o da virgindade obrigatória antes do casamento, e era difícil achar alguém que se casasse sem antes ter tido relações sexuais – mas por motivos bem diferentes dos atuais. Naquela época, a mulher precisava provar que era fértil, e engravidar antes do compromisso era uma regra consentida pela comunidade, desde que o relacionamento terminasse em casamento4. Nas classes privilegiadas do Período Colonial, raramente a escolha do pretendente para o casamento era prerrogativa da moça. Às vezes, o futuro esposo era uma surpresa agradável para uma menina de 14 ou 15 anos por se tratar de um jovem pálido de 23 a 25 anos, e o romance se desenvolvia bem entre os noivos. Outras vezes, a sorte não sorria tanto e o futuro esposo era um português obeso, de pescoço curto e para lá da meia idade. Em qualquer uma das situações, o casamento era decidido pelos pais, cabendo à noiva apenas aceitar a decisão tomada. E toda sociedade considerava esta Moralidade apropriada e vantajosa4. No século XIX, o casamento entre as classes médias e altas estava liberado quando após a donzela ter sido formalmente apresentada à sociedade em um baile de debutante. As jovens mulheres costumavam debutar por volta dos 17 ou 18 anos, mas a idade podia ser antecipada ou adiada de acordo com as possibilidades financeiras da família. Depois de apresentada, uma jovem não deveria esperar muito tempo antes do noivado: na França, considerava-se adequado que ela ficasse noiva já no primeiro ano em que estivesse frequentando a sociedade. Aparecer por três anos seguidos na temporada social sem conseguir um casamento abria espaço para fofocas: talvez a senhorita não fosse virtuosa ou, pior, não tivesse um dote atraente, e suas possibilidades de fazer um bom casamento iam diminuindo a cada estação5,6. Durante todo este tempo, o divórcio acompanhou nossa monogamia: ainda na Grécia antiga, Péricles divorciou-se da primeira esposa para casar com sua amante, a sofista Aspásia de Mileto. O respeitado e influente pensador Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.) separou-se de Terência e casou-se poucos anos depois com uma ex-aluna, Publília, antes de ser assassinado por ordens de Marco Antônio19. Quase dois mil anos mais tarde, no século XVI, um rei britânico seria protagonista de um dos mais famosos divórcios de todos os tempos: em 1533, Henrique VIII provocou um abalo sísmico ao romper com a Igreja Católica, separando-se da feiosa Catarina de Aragão para desposar a bela, manipuladora e impopular Ana Bolena20. Entre outras coisas, este evento custaria a cabeça do famoso filósofo Thomas More. Com o desenvolvimento das economias de mercado e a diversificação das fontes de renda, os jovens adquiriram autonomia para decidir com quem iriam se casar: era possível agora partir para um amor, uma cabana e uma vendinha de pastéis ou uma estalagem ou uma oficina de ferraduras ou uma marcenaria para pagar as contas. A expansão do Iluminismo e da democracia conferiu um charme extra à ênfase na liberdade individual e no lema “o importante é que nos amamos de verdade!”. A partir da década de 1960, o movimento feminista e a ampla adoção do capitalismo por parte das mulheres igualaram ainda mais o jogo do matrimônio, flexibilizando-o com relação à divisão do trabalho doméstico, ao companheirismo e à necessidade de atração sexual mútua. Atualmente, cerca de 60% dos casais passam um período morando junto antes de casar “oficialmente” – isso quando casam38. Então, na próxima vez que ouvir algum Absolutista inspirado em Unwin anunciando que “os valores fundamentais do casamento que estão sendo destruídos um a um”, pergunte a ele (ou ela) sobre quais valores fundamentais, de qual cultura, de qual tribo ou clã, de qual estrato socioeconômico, Religião e Era “tradicional” está se referindo em meio aos escombros da crise Moral que estamos vivendo. Não se assuste se ele engasgar antes de tentar responder isto com frágil propriedade. 2. O MITO DA FAMÍLIA TRADICIONAL “A família tradicional está à deriva, se desintegrando. Vivemos tempos difíceis para a boa família cristã. Os valores familiares foram perdidos. É preciso resgatar o respeito pela família de antigamente”. Tenho certeza de que você já trombou com alguém indignado entoando coisas. Pudera: a noção de família é extremamente preciosa. Aristóteles já havia afirmado que a família é “anterior à cidade e mais necessária do que esta”33, sendo completado por Rousseau, que escreveu acertadamente que “cada família é uma pequena sociedade”32. Estavam ambos cobertos de sensatez. O bem-estar Moral de qualquer sociedade depende da saúde Moral de suas famílias – e esta, da saúde Moral de seus constituintes. Todavia, a crise Moral não está ocorrendo exatamente na família: ela está ocorrendo no sujeito, na imensa coleção de analfabetos funcionais de nossos dias, incapazes de identificar as competências nucleares que determinam o bom desenvolvimento de um cidadão. O indivíduo incongruente do século XXI, casado com o Relativismo Normativo, praticante da Deontologia Centrada na Vítima, e tendo como amante um Subjetivismo hedonista permanentemente hospedado no motel Carpe Diem, não tem a menor ideia de autocontrole, planejamento, objetivismo, meritocracia, processo coerente de tomada de decisões, liberdade de expressão, conectividade pró-social ou filosofia racional de vida. E ele reclama que os valores da “família” estão se perdendo... Historicamente, a Moralidade sempre percorreu ciclos revisionistas. Não é a família que está se deteriorando: é a própria Moralidade grávida que está tendo metrossístoles enquanto pare algo que ninguém sabe ao certo o que é. Os sujeitos, todos nervosos neste centro obstétrico consumidor de dogmas, não estão dedicando a devida atenção para ao contexto, portanto não admira que se sintam assoberbados. O sucesso do modelo de família, qualquer que seja este modelo, dependerá do compartilhamento de certos princípios, hábitos e práticas que expressem respeito pelos direitos uns dos outros e fomentem a atenção com as responsabilidades pessoais e coletivas. Uma família “tradicional” em pleno século XXI é aquela capaz de compreender isto, transmitindo esta dinâmica para a geração seguinte. A diversidade cultural e sexual não representa uma ameaça à integridade da família – a não ser que você seja um fã de Tomás de Torquemada e guarde com carinho um exemplar do Malleus Maleficarum na estante do seu quarto. Você não pode se dizer um admirador da democracia, gostar de desfrutar de liberdade, apreciar ser tratado com tolerância e respeito, e, ao mesmo tempo, definir suas versões impensadas da Verdade substantiva como o único caminho Bom e Correto dentre todos os possíveis. Ao menos em parte, o Relativismo Moral tem razão quando tenta catequizar-nos com um pouco de temporização.3. AUTORITÁRIO, PERMISSIVO OU DEMOCRÁTICO? Nos anos após a Segunda Guerra Mundial, a psicóloga americana Diana Baumrind identificou três estilos básicos de criação parental: Autoritário, Permissivo e Democrático31. A criação Autoritária é um descendente direto do Absolutismo Moral clássico. Pais e mães desta escola acreditam que seu dever é socializar seus filhos para que eles ajam de modo exato segundo padrões de qualidade bem elevados. As crianças devem ser gentilmente dobradas às suas vontades: a disciplina é importante, pois demonstra obediência – e esta sempre foi uma prata valorizada na casa do Absolutismo Moral. Regras foram feitas para serem obedecidas, não negociadas; e demonstrações de carinho são artigos de segunda categoria. Pais e mães Permissivos, por outro lado, veem a si mesmos como apoiadores e fornecedores de recursos para as crianças. Eles oferecem orientação, não cobranças, normas ou regras inflexíveis. São Consequencialistas mansos, dedicados e carinhosos. Não anseiam pelo respeito, mas pelo amor dedicado de seus filhos, e esperam que todos sejam felizes com isso. Neste processo, ao colocarem as crianças em altares sacrossantos de veneração irrestrita, terminam sem qualquer respeito e sem qualquer amor genuíno. Uma vez que a Moral lida com a formação do Caráter e é expressa na forma de comportamentos éticos, não existe lugar melhor para começar a desenvolvê-la que dentro do núcleo familiar: do ponto de vista da criança, a família é o primeiro contexto importante para sociabilização da Moralidade e esta tarefa deveria estar no centro das responsabilidades de qualquer adulto responsável. Conversar com seus filhos é um modo fantástico e avaliar os padrões éticos que eles assimilaram, e cada oportunidade para este tipo de interação vale seu peso em ouro. É importante transmitir às crianças a noção de que elas são parte de algo muito maior e grandioso que elas mesmas. Se o lar é egocentrado, os filhos crescerão acreditando que cada uma de suas vontades corresponde a direitos inatos, ainda que estas vontades violem a liberdade de expressão, as ideias, a propriedade e a autonomia de outras pessoas. E exatamente este é o grande mal do estilo de criação Permissivo, cada vez mais popular no Brasil. Por fim, pais e mães de estilo Democrático são “o tudo de bom com quase nada de ruim”. Eles representam a família sorridente dos comerciais de margarina: ao mesmo tempo em que exigem altos padrões de qualidade, estabelecem regras bem determinadas e impõem castigos criteriosos, são afetuosos, solícitos, responsáveis e explicativos, dosando o respeito à individualidade da criança com a devida observância aos valores Morais primordiais. E, provavelmente, também têm asas, usam auréolas e solfejam melodias perfeitas enquanto saltam de uma nuvem à outra nos céus. Uma parcela considerável dos pais e mães acredita piamente passar boa parte de suas vidas criando filhos dentro de um estilo Democrático – até mesmo aqueles que representam a segunda ou terceira geração de Autoritários ou Permissivos inveterados. Enquanto os Autoritários expõem-se ao risco de trazer ao mundo a próxima linhagem de neuróticos insatisfeitos e retraídos, porém academicamente competentes, os Permissivos seguem entregando à sociedade levas de diabretes egocêntricos sem o mínimo de autocontrole. As crianças filhas do estilo Autoritário vivem aterrorizadas pelo medo de fazer algo errado; aquelas filhas do estilo Permissivo aterrorizam a todos por desconhecerem o que é autoridade. As crianças do estilo Democrático ainda não desembarcaram do planeta misterioso onde levam suas vidas. Independente do estilo de criação, pais e mães devem fazer provas para entrar em uma universidade, para tirar carteira de motorista e até mesmo para exercer cargos públicos concursados, mas nenhum treinamento lhes é exigido para serem pais e mães – e o mesmo vale para serem eleitores. Examinando nosso cenário político, não é difícil tecer considerações análogas sobre como vai a criação de nossos infantes: uma fração significativa dos adultos crê que deixar um bebê de 3 meses chorar até ficar azul é compatível com uma boa criação (quando não é); e, ao invés de permitirmos que as crianças brinquem livremente com outros indivíduos de diferentes idades – como é típico em outras sociedades de primatas –, as colocamos em pequenas prisões chamadas escolas onde passam seus primeiros anos confinadas em grupos da mesma faixa etária, interferindo com o desenvolvimento competitivo saudável de seus corpos e suas mentes. E estas são apenas pequenas pontas de um iceberg mastodôntico. Como Thomas Lewis anotou em Uma Teoria Geral do Amor (2000): “boa parte da cultura moderna é um longo experimento de como privar as pessoas daquilo que elas mais necessitam”35. A combinação da criação Permissiva com a Relativização egocêntrica da Moralidade está produzindo pelotões em série de crianças hedonistas com péssimas habilidades sociais e habilidades de controle emocional ainda mais medíocres. A pandemia de delírios de baixa autoestima, de transtornos de ansiedade e depressão, além dos elevados índices de uso de drogas e medicamentos controlados, agressão, delinquência e hiperatividade em todas as faixas etárias, é um bom termômetro do tamanho da crise que atravessamos. 4. A INFÂNCIA PERDIDA ENCONTRA A CRIAÇÃO HELICÓPTERO Os direitos e deveres dos pais e mães com relação aos seus filhos deveriam consistir basicamente em assegurar para as crianças o melhor possível para o mais longo prazo possível. Todavia, esse “melhor” assume significados diferentes em diferentes sociedades, e até mesmo dentro de uma mesma sociedade a noção do que é Bom e Correto pode variar segundo o estrato sócio-econômico-cultural ou o credo religioso predominante naquela faixa. Gostamos de afirmar que toda criança tem o direito de ser ouvida. Ainda que o ponto de vista de uma criança não tenha um peso autoritativo, ele certamente tem um papel consultativo: a ausência de autoridade não deve elimina a relevância de sua opinião para os adultos que tomam as decisões em seu nome – ainda que, ulteriormente, o poder de tomar a decisão caiba ao seu adulto-guardião ou representante legal. Compete aos pais a prioridade de decidir pelos seus filhos em assuntos como alimentação, escola, amizades e Religião, além do direito de excluir outras pessoas deste processo – inclusive e até mesmo a Sociedade e o Estado. Os direitos adquiridos dos pais com relação aos filhos – praticamente uma relação de posse por custódia – são um bônus pelas responsabilidades prévias que os progenitores deveriam carregar, ainda que estas responsabilidades percam efeito à medida que os filhotes adquirem sua própria competência intelectual. Mas esta aquisição é um processo lento: a especialização de nossos cérebros cobrou um preço caro de nossa autonomia Dentre todos os animais, somos aqueles cuja prole nasce mais indefesa e depende por mais tempo de cuidados. Por isso, em tese, os pais deveriam desenvolver uma atmosfera propícia para o bem estar e segurança de seus filhos durante longos anos. É certo que este dever eventualmente incorre em falhas, negligências e abusos, mas o problema do Subjetivismo da Pós- Modernidade adicionou um tempero extra: a imaturidade mental persistente e extrema de pais e mães que chegam aos 30, 40, 50 anos de idade ou mais sem terem passado mentalmente sequer da meia-adolescência. Em alguns casos, bastam 12 ou 15 anos – ou às vezes até menos que isso – para que os filhos entrem em atrito com a imaturidade cognitiva e emocional de seus pais infantilizados. A concepção que temos da infância é tanto um fato biológico quanto uma construção histórica e social. De acordo com Aristóteles, existem 4 Causalidades no mundo: Material (do que as coisas são feitas), Eficiente (o que fez a coisa), Formal (o que deu forma à coisa) e Final(a intenção da coisa). No caso dos seres humanos, a Causalidade Formal pode ser representada pela criança – aquilo que tem o potencial de se transformar em um espécime maduro com a estrutura, a forma e a função de um adulto padrão. A Causalidade Final é este adulto. A maioria dos adultos compartilha desta concepção aristotélica da infância – e muitos até mesmo a estendem ao embrião e ao feto –, ainda que jamais tenha lido uma linha sequer de Aristóteles. Todavia, a criança humana – como qualquer outro filhote no reino animal –, nasce munida da faculdade de reproduzir o desenvolvimento evolucionário de sua espécie a despeito de ter ou não os exemplos de um adulto capaz. Nenhuma criança nasce um livro completamente em branco: os genes trazem temperamentos e esboços de uma Moralidade que somos capazes de reconhecer e expressar. A tabula rasa de John Locke é um erro de ingenuidade risível, e a noção incondicional de crianças unicamente como Causalidades Formais é um conceito meio furado: a mente de uma criança pode ser diferente, mas ela é tão complexa e poderosa quanto a de um adulto. Desde os mais tenros anos, a criança é capaz de expressar comportamentos direcionados para um objetivo específico. Em algumas ações de divórcio, elas podem ser capazes de demonstrar preferência para ir morar com o pai ou a mãe, e suas vontades são levadas em conta quando o juiz decide pela custódia. O mesmo pode ser dito com relação a algumas crianças portadoras de doenças terminais quando lhes são explicadas as opções de tratamento disponíveis. Não obstante estas evidências, a transformação das crianças de Causalidades Formais possíveis em Causalidades Finais absolutas causou uma crise na dinâmica familiar: o simples fato de uma criança ser capaz de fazer uma escolha sensata não é uma evidência conclusiva de sua perícia de decidir por si – e o inverso é igualmente verdadeiro. Afinal, adultos sábios ocasionalmente tomam decisões estúpidas da mesma maneira que adultos estúpidos ocasionalmente se comportam de modo sábio. É visível que uma criança de 10 anos de idade, por exemplo, simplesmente não possui capacidade para tomar uma série de decisões, seja por falta de bagagem de vida, inaptidão para autorreflexão ou circunspecção cognitiva insuficiente. Anatomicamente, o córtex pré-frontal – responsável pela ponderação e pela avaliação de situações de risco, entre outras tarefas – só atinge a maturidade entre os 20-25 anos. Como exigir de uma criança um julgamento adequado ou levar suas preferências completamente a sério quando, em termos estritamente anátomo-fisiológicos, ela ainda é meramente uma Causalidade Formal, como proposto por Aristóteles? É preciso dar algum crédito ao filósofo grego nesse sentido. Devido a estas mudanças de visão e comportamento, a sociedade Pós-Moderna está começando a retornar aos padrões Morais de antes da Revolução Industrial: para a maioria das crianças, a vida se tornou bem mais segura do ponto de vista econômico e de saúde, e os estilos de criação se tornaram cada vez menos punitivos e autoritários. Com o crescimento do mercado de propagandas e entretenimento, a saturação da cultura popular com cenas de sexo e a franca apologia à violência, a infância deixou de ser o período de proteção Moral que foi durante séculos. Hoje, as crianças são indiscriminadamente arremessadas no universo adulto em idades cada vez mais precoces, assim como ocorria em eras ancestrais, porém agora com consequências funestas: um estudo organizado pela psiquiatra Evelyn Kuczynski mostrou que, em nove capitais brasileiras, o suicídio ocupa o sexto lugar entre as mortes por causas externas na população entre 15 e 24 anos de idade21. Para Kuczynski, apesar das taxas de suicídio entre jovens serem ainda relativamente baixas no Brasil, o aumento do problema nas últimas duas décadas é bem perceptível, mesmo considerando-se a subnotificação de muitos casos. Algo semelhante pode ser dito com relação à taxa de mortalidade por arma de fogo, que quintuplicou no Brasil entre homens de 15 a 29 anos de idade mais menos no mesmo período22. Em um movimento paradoxal, revertendo o cenário de segurança tão duramente conquistado, as crianças estão se transformando em jovens delinquentes com altíssimo potencial de letalidade – tanto para terceiros quanto para si mesmas. A ironia é que o crescimento econômico deveria ter-se metamorfoseado em sofisticação cultural e aprimoramento Moral, garantindo a qualidade das futuras gerações, mas o que ocorreu foi oposto a isso. Em grande parte, é preciso admitir, a natureza tóxica do novo ambiente que criamos é diferente da toxicidade dos ambientes do passado. Antes, as crianças apanhavam; hoje, são abandonadas ou negligenciadas. Antes, as crianças passavam fome; hoje, são materialmente mimadas. Antes, viviam em aglomerações insalubres e superlotadas; hoje, existem em um isolamento virtual. No somatório destes fatores, não melhoramos muita coisa: apenas trocamos nossas ruindades. De todas as consequências trazidas por este Subjetivismo e pela transformação das crianças em Causalidades Finais, nenhuma foi mais danosa para as famílias que a disseminação da criação de estilo Permissivo, também conhecida como Criação Helicóptero, um modelo de atenção caracterizado pelo gerenciamento microscópico de cada aspecto da rotina da criança. De produtos educacionais corretamente desenhados e pintados com tinta hipoalérgena e atóxica, até creches com pisos antiderrapantes e tanques de areia esterilizada, os praticantes da Criação Helicóptero deleitam-se com a suposição de que seus filhos terão uma trajetória de sucesso garantida na vida, pois eles mesmos cuidaram de apagar os incêndios pelo caminho e pavimentar todo o percurso para a criança, paralelepípedo por paralelepípedo. Pais e mães Permissivos podem ser sensíveis, obsequiosos e devotados, mas sua indulgência tóxica detonou o conceito de limites: quando uma criança chora e esperneia por 10 minutos antes de conseguir o que quer, ela aprende que esta é a quantidade de tempo necessária para atingir seu objetivo. Na próxima vez que ambicionar algo, irá chorar e espernear durante os mesmos 10 minutos, pelo menos. Mas as crianças não desenvolvem esse comportamento do nada: elas o aprendem. Apelar para a Causalidade Final de Aristóteles e permitir que uma criança de 2 anos de idade faça o que bem entende, acreditando que em algum momento mágico ela irá descobrir por si própria os Imperativos Categóricos de Kant e passará a se comportar de modo Bom e Correto, é uma bizarrice estúpida. Uma criança que sempre consegue o que quer, do jeito e na hora que quer, que nunca é apropriadamente punida pelo seu mau comportamento, que nunca é repreendida por desrespeitar uma autoridade ou por tirar notas baixas na escola, jamais irá aprender a lidar com a frustração ou qualquer sentimento de perda. Ao atingir a idade adulta, como este projeto de desastre irá lidar com um subemprego, uma demissão, um divórcio, o falecimento de um ente querido, a perda de um animal de estimação, o desapontamento em um relacionamento ou o excesso de peso? Não é atribuição de um pai ou de uma mãe tornar seus filhos satisfeitos e felizes o tempo inteiro – o mundo não é um feriado em um resort de verão, e pais e mães não são animadores infantis vestindo trajes de iguana cor de rosa. O papel dos progenitores consiste em certificar de que seus filhos saibam que são amados e estão seguros, e de que possuem o conhecimento e as habilidades necessários para enfrentar as vicissitudes e manusear por si as tristezas do mundo. Infelizmente, o individualismo subjetivista e o Relativismo progressista do século XX parecem ter guardado esta maturidade em uma caixa cuidadosamente selada – e cortado seu suprimento de oxigênio. 5. A INVENÇÃO DA ADOLESCÊNCIA A adolescência é definida como o intervalo entre a puberdade e a idadeadulta. Por sua vez, a puberdade se inicia quando a hipófise começa a estimular a produção de hormônios sexuais (testosterona nos meninos, estrogênio e progesterona nas meninas), desencadeando o desenvolvimento dos caracteres sexuais primários, como aumento dos testículos e do pênis, e maturação dos ovários, do útero e da vagina. Na sequência, os caracteres sexuais secundários vão surgindo: os meninos ganham pelos púbicos, no rosto e nas axilas, além de uma voz mais grossa; as meninas ganham seios, quadris, menstruação e alguns pelos também. Apesar do momento da puberdade variar um bocado, a idade média do evento está entre 9-14 anos para as meninas e 10-17 anos para os meninos, e este momento possui consequências psicológicas importantes: meninos que maturam mais cedo ganham algumas vantagens, pois se tornam mais altos e mais fortes e, por conseguinte, mais populares. Mas eles também apresentam um risco maior para delinquência, abuso de álcool e drogas, doenças sexualmente transmissíveis e produção de filhos não programados. Por seu lado, meninas que maturam precocemente também enfrentam desafios como assédio sexual, problemas emocionais, baixa autoestima e maiores índices de depressão, ansiedade e transtornos alimentares. A erupção dos processos biológicos das adolescência provoca surtos de empatia, irritabilidade, altruísmo, agressividade, romance, intimidade e comportamentos pró-sociais. Simultaneamente, os julgamentos aumentam e passam a se tornar mais relevantes para o indivíduo e seu círculo de amigos. O início da vida Moral apresenta aos adolescentes desafios, compreensões, oportunidades e habilidades inéditas. Eles estão abertos a uma rica variedade de influências e mudam consideravelmente em virtude disso, com uma Deontologia vertiginosamente fluida e pluralista. Contudo, diferente do que ocorria na infância, o adolescente representa um agente Moral ativo e – até certa medida – independente, devendo assumir novos papeis e obrigações enquanto navega em seu novo contexto sociocultural. Além das alterações no corpo, é durante a adolescência que a Identidade Pessoal começa a exteriorizar suas características mais marcantes, e o senso de responsabilidade e o desassossego da demanda por independência estreiam seu teatro. Todavia, esta ideia de que crianças levam décadas para tornarem-se adultas, passando por um intervalo de “adolescência” e de “adultos jovens”, é uma concepção relativamente recente na evolução de nossa espécie. Anteriormente, esperava-se que as crianças absorvessem o know-how de seus pais e alcançassem a idade adulta assim que chegassem à puberdade: a longevidade estreita não deixava muito espaço entre a Causalidade Formal e a Causalidade Final. Assim, quando as pessoas se casavam no começo dos 20 anos ou ainda mais cedo, o período denominado “adolescência” durava no máximo 10 anos, iniciando-se por volta dos 12 e terminando aos 20 anos de idade. Durante este hiato, a criança arrumava uma profissão e instituía sua própria família. Hoje, a maturação se tornou mais lenta, os laços com os pais são mantidos por um prazo maior, e a adolescência passou a se estender até os 24 anos de idade ou mais: 14% das mulheres e 10% dos homens entre 25-34 anos de idade ainda moram com seus pais38. As mudanças dos conceitos sobre os estágios da vida é um exemplo notável de como a sociedade e o Estado, por meio de modulações na Janela de Overton de nossa Moralidade, são capazes de construir, difundir e efetivar suas próprias versões da Verdade substantiva: a “adolescência” raramente era mencionada antes do final do Século XIX. A análise de materiais escritos entre 1800 e 1875 mostra praticamente nenhuma utilização deste termo, aliada a uma preocupação muitíssimo discreta com este estágio da vida e seus comportamentos característicos. No passado, a puberdade chegava um pouco mais tarde, mas a ausência de supervisão dos pais chegava mais cedo. Romeu & Julieta e Peri & Cecília carregavam o peso do mundo em seus ombros – ainda que fosse um mundo bem menor que o mundo corrente. Mas as coisas mudaram. Desde meados do Século XIX, a puberdade tem retrocedido 1 ano a cada intervalo de 25 anos. Atualmente, ela ocorre por volta dos 11-12 anos entre as meninas e 12-13 anos para os meninos – cerca de 6 anos mais cedo que em 1850. Ainda não se sabe direito a causa deste fenômeno, mas é possível que o início da puberdade esteja retroagindo devido à melhora da nutrição durante o período pré-natal e a infância. Independente dos motivos, o fato é que, por muitos milênios, um humano sexualmente maduro nunca foi tratado como uma Causalidade Formal ou uma criança em crescimento. Na época atual, indivíduos sexualmente maduros passam seis ou mais anos (digamos, dos 12 aos 18, e muitas vezes bem mais que isso) vivendo sob a tutela de seus pais. Para efeito de comparação, entre os primatas não-humanos, os indivíduos fisicamente maduros não são bem-vindos na família: a competição sexual torna essa convivência impossível. Mas, nestes e em outros animais, a maturidade física coincide com a maturidade mental, então a separação do indivíduo de seu núcleo familiar não constitui exatamente uma rejeição: é mais como uma promoção. Sem embargo, o cérebro humano não cresce no mesmo ritmo dos demais órgãos e sistemas, e a colisão entre a maturação física e a imaturidade mental não apenas confunde os pais, mas também lança o adolescente em situações caricatas. Por exemplo: eles se tornam intensamente interessados em fantasias amorosas, mas suas ideias de romance são absurdamente simples, culminando em bilhetes que são trocados na sala de aula ou postagens no Facebook dizendo coisas como “Você gosta de mim? Marque sim ou não”. A invenção da adolescência humana decorreu de três fatores principais: a aplicação da tecnologia para aumento da produtividade; a afluência de pessoas que este processo gerou, e a transição demográfica que o acompanhou. Graças ao ganho em tecnologia e em produção, as famílias puderam se tornar sistemas menores e biologicamente mais estáveis. A população adulta urbana cresceu e os adolescentes saíram da força de trabalho, sendo deslocados para as escolas. O aumento da dependência dos pais e do tempo livre foi rapidamente acompanhado da criação de produtos bem direcionados para este novo público e pronto! – a adolescência recebeu sua validação pelo mercado de consumo. Nas palavras de Schoen-Ferreira, “a sociedade contemporânea Ocidental estendeu o período da adolescência, que não é mais encarada apenas como uma preparação para a vida adulta, mas passou a adquirir um sentido em si mesma, como um estágio do ciclo vital”24. A puberdade não é o único marcador da adolescência. Também se observa um lento aumento da capacidade de pensamento abstrato e raciocínio relativo: os adolescentes tornam-se capazes de refletir sobre grandes tópicos – Morte, Destruição, Sentido da Vida –, porém essas reflexões tendem a gerar angústia e depressão. Eles estão sexualmente maduros, mas ainda vivem sob a dependência financeira e a vigília Moral dos pais – como diabos irão mudar o mundo desse jeito? A saída para este conflito ocorre através da descoberta intuitiva do Ceticismo e do Relativismo Moral pelos adolescentes, resultando em uma impugnação sistemática de todas as regras que lhe são apresentadas – como observou Spinoza, “a adolescência é aquela etapa da vida em que o humano aceita qualquer encargo contanto que se vingue dos pais”25. Eles levarão um tempo se lambuzando com o doce da contestação infinita até compreenderem quais brigas valem à pena e quais não valem. Enquanto procuram a autonomia que lhes falta, querem ficar sozinhos porque têm “coisas demais na cabeça”. Curiosamente, esse desejo de solitude deriva justamente da importância dos relacionamentos sociais: avaliar as vantagens e desvantagens das diversas situações Morais a que eles são expostosrequer um tempo sem fazer nada. A despeito do que quer que cause o humor típico do aborrecente, os hormônios recebem um crédito exagerado por isso. A produção hormonal que dá forma aos nossos corpos se inicia por volta dos 7-8 anos de idade, e as crises cansativas de humor ocorrem entre os 11 e 14 anos – nessa época, os hormônios já andavam pela vizinhança há alguns anos, eliminando deles uma boa carga da culpa. O mais provável é que os surtos histéricos da adolescência estejam relacionados à intensificação dos estados emocionais, ao aumento das cobranças sociais e escolares, ao fluxo de eventos e às novas incumbências frente a este mesmo fluxo de eventos – e não simplesmente às descargas hormonais. Durante a adolescência, o prestígio da família e da religião é vencido pela influência da cultura e dos círculos de amizade: na infância, são os pais que mediam o contato da criança com as instituições, monitoram suas amizades e controlam sua participação na vida cultural. De um modo geral, as crianças seguem regras para evitar problemas; os adolescentes, seguem regras apenas quando obtém alguma vantagem neste comportamento. Longe de ser uma conduta digna de punição, isto mostra o ponto onde o indivíduo deixa de agir para evitar punições (como uma criança ipso facto) e passa a trabalhar focado em resultados e recompensas (como um adulto provável). A partir de um conjunto extraordinário de estudos, a psicóloga americana Nancy Eisenberg mostrou que o julgamento Moral baseado na obediência às normas e aos valores internalizados apresenta um incremento entre a infância e a adolescência, ao passo que o raciocínio estereotipado (p.ex.: observância a Moralidades Normativas como “é importante ajudar”) sofre um decréscimo da infância até o final da adolescência. Ao mesmo tempo, o hedonismo aumenta durante a puberdade, especialmente entre os meninos, e a recém- conquistada habilidade de pensar abstratamente capacita o adolescente a reconhecer que muitas regras são meras criações de outras pessoas26. Ao abandonar o Realismo Moral compulsório da família, ele vai criando um universo particular de Relativismos através de seu Ceticismo entusiasmado. Como qualquer humano, sente-se apaixonado pelo código de ética que elaborou, e adora organizar e participar de demonstrações e protestos que projetem suas convicções ingênuas sobre o mundo. Existem várias teorias sobre como e quando a Identidade Pessoal dos adolescentes inicia o processo de formatação de sua Moralidade particular. A teoria de desenvolvimento de Jean Piaget (1896-1980), por exemplo, centra-se no conceito de que jogos simples moldam e revelam nossa bússola Moral: crianças muito novas podem explicar que as regras de um determinado jogo devem ser seguidas porque alguém lhes disse para segui-las. Crianças mais velhas podem explicar que as regras devem ser seguidas, pois assim o grupo inteiro pode brincar, mostrando um progresso na direção de um Consequencialismo mais maduro. Segundo Piaget, o nível mais elevado de pensamento atingível por um humano só é alcançado a partir dos 12 anos de idade, quando nos tornamos capazes de empregar hipóteses, sistemas de tentativa e erro, e abstrações a partir de conclusões lógicas e científicas. Partindo dos argumentos de Piaget, o psicólogo Lawrence Kohlberg (1927-1987) elaborou sua própria teoria de desenvolvimento cognitivo ao avaliar um grupo de meninos com idades entre 10 e 16 anos, contando-lhes histórias com dilemas Morais e solicitando-lhes que descrevessem como resolveriam cada situação. Com base nos resultados, Kohlberg sugeriu que consideramos as regras como fixas e absolutas até por volta dos 10 anos de idade. A partir desta faixa etária, passamos a elaborar julgamentos mais baseados em intenções que em resultados finais: crianças de 11 anos, por exemplo, tendem a julgar de modo mais severo alguém que fez algo ruim e machucou outra pessoa que alguém que fez algo bom e, inadvertidamente, causou o mesmo resultado – é a intenção que conta. Aos 14-18 anos de idade, já somos donos de nossos próprios códigos Morais, mas as atitudes tendem a não ser muito congruentes com nossas conclusões. Isto não acontece por maldade ou hipocrisia: o adolescente típico simplesmente ainda não foi capaz de conectar suas convicções às suas atitudes. A partir dos 18-21 anos, esta sintonia se torna mais natural, assim como a definição de conceitos sólidos sobre justiça, paz e patriotismo. É impossível negar a utilidade das teorias de Kohlberg, assim como é impossível negar que elas são demasiadamente simplistas. Primeiro: os dilemas propostos são artificiais, excessivamente hipotéticos e carecem de validade “ecológica” – os contextos expostos por Kohlberg em seus dilemas são pouco familiares para a maioria das pessoas. Segundo: sua amostra é absurdamente androcentrada (Kohlberg avaliou apenas meninos). Terceiro: até agora, o argumento de que existem estágios circunstanciais ímpares no desenvolvimento da Moralidade não conseguiu ser comprovado de modo irrefutável. Por último, Kohlberg parece defender que a justiça é o princípio Moral mais importante, negligenciando a voz de compaixão, afeto e não-violência associada à socialização do sexo feminino. Kohlberg errou ao não perceber que as mulheres abordam os problemas Morais com uma perspectiva de “ética de cuidados” e não uma “ética de justiça” – e isso desmonta a universalidade de sua teoria27. Independente de como a Moralidade se desenvolve no adolescente – se em estágios sequenciais bem determinados ou em surtos psicodélicos de certezas transitórias –, sabe-se que a adequação do julgamento Moral depende grandemente do nível de criação a que o indivíduo foi submetido: pais apoiadores e estimuladores refinam a capacidade de julgamento, e o mesmo ocorre com pais mais rígidos e autoritários. Em contrapartida, experiências traumáticas como abusos, violência, abandono ou falecimento de entes queridos, por exemplo, interferem neste desenvolvimento, fazendo o adolescente enxergar o mundo como um lugar essencialmente ruim e injusto. Na ausência de uma bússola adequada, eles podem jamais atingir a plenitude de suas vidas, enfrentando grandes dificuldades para estabelecer relacionamentos interpessoais significativos e recompensadores. As evidências sugerem que a melhor maneira para fomentar a capacidade de emitir julgamentos Morais adequados na adolescência consiste em utilizar, desde a infância, um método Socrático de argumentação, encorajando a criança a formar suas próprias opiniões, raciocinando sobre elas sob a orientação de seus responsáveis. Pais excessivamente críticos que emitem opiniões sempre hostis, interferindo no processo de raciocínio de seus filhotes, ou que interagem expressando uma profusão de mecanismos de defesa do ego (como negação, racionalização, repressão, deslocamento, projeção ou sublimação, por exemplo), impedem que a criança avance na direção de uma compreensão mais madura do mundo. Os adolescentes sempre parecem agir de modo impulsivo e isto pode se dever à falta de maturação do córtex pré-frontal e do sistema límbico. Ainda que as mudanças mais frenéticas ocorram durante a infância, o cérebro continua a se desenvolver ao longo da adolescência, terminando seu processo de maturação após os 20 anos de idade. As habilidades cognitivas adquiridas com a puberdade, associadas à imaturidade dos centros cerebrais relacionados, produzem o típico comportamento egocentrado do adolescente: ele acha que sabe mais que todo mundo e especialmente mais que seus pais. Como pensa o tempo todo em si, ele equivocadamente acredita que os outros estão fazendo o mesmo, e seu comportamento em público não raramente é bizarro, variando da timidez ao exibicionismo ridículo. A busca por uma Identidade Pessoal estável pode levar vários anos, e o adolescente frequentemente testa várias identidades diferentes antes de decidir-sepor uma. Ele pode manter uma identidade em casa e vestir-se de outra persona completamente diferente com seus amigos. As “gangues” e “tribos”, além de oferecerem a oportunidade de testar figuras diferentes, também ofertam um senso de conforto e pertencimento. Apesar de a montanha russa de mudanças ser estafante, a maioria dos humanos ultrapassa a adolescência com algum sucesso. Por exemplo: mais de 75% dos adolescentes experimentam álcool em algum momento, mas apenas 15% se tornarão alcoólatras na idade adulta28,29. Observando a longa adolescência de fora, é fácil perceber como nossa Pós-Modernidade valoriza o jovem em grande parte por ser jovem, pelas suas características físicas de jovem, pelas ideias libertárias e seu Relativismo descompromissado de jovem, e não por demonstrações de vontade, engajamento e domínio das habilidades necessárias para tornar o mundo um lugar melhor para todos. Isso é um erro. A filosofia que deveríamos tatuar na mente de nossos filhotes deveria ser a seguinte: se você não é mais criança, então trate de colocar-se rapidamente à altura das competências do mundo adulto. E as competências do mundo adulto não dizem respeito apenas à capacitação profissional: elas vão além da celebração permissiva do deslumbramento frívolo com o descompromisso, e incluem doses generosas da boa e velha Ética das Virtudes de Aristóteles e suas fortes noções de decência, honra, disciplina, generosidade, empatia e tolerância. Sim, é fato que o adolescente confronta a tradição com um espírito de puro Ceticismo Moral. Ele não medirá esforços e empregará todas as armas que puder dispor para destruir as Verdades que lhe cercam; arrancará sem piedade as raízes de expectativas de seus pais, frustrará propositadamente seus professores, desenvolverá uma religiosidade conflitante com aquela predominante em seu meio, romperá com os gostos musicais da geração anterior, inventará roupas, tatuagens, piercings, penteados, acessórios, combinações esdrúxulas de cores e tudo mais que for escandaloso e ultrajante. Seu espírito cético não conhecerá limites. E de tal forma se empenhará nessa desconstrução que nos faz pensar que dentro da cada adolescente mora um pequeno Nietzsche – ou, talvez, tenha sido Nietzsche o protótipo do adolescente de 30 anos com o qual nos deparamos hoje. Quaisquer que sejam os motivos – hormônios, influências da tribo, imaturidade cognitiva ou simplesmente rebeldia sem causa –, não se pode negar que a adolescência cumpre um papel de extrema relevância em nossa sociedade: é através de sua balbúrdia irreverente que somos compelidos a reforçar a Razão embutida em nossas convicções ou simplesmente abandoná-la por completo, como lixos culturais de uma geração que não soube produzir verdades suficientemente fundamentadas em Lógica. As provocações impiedosas da adolescência nos empurram da estagnação em direção a um precipício Relativista de cujo desfecho fatal só seremos salvos se formos capazes de produzir um Realismo Moral rejuvenescido, mais vigoroso e lúcido que o anterior. Talvez a consciência da transitoriedade de muitos de nossos dogmas mais queridos – e a certeza de que uma fração considerável destas hipocrisias será esmagada pelo Ceticismo da juventude – responda em parte pelo deslumbre assustado que os adultos nutrem com a fase da adolescência: de que adianta tornamo-nos sábios se nossa sabedoria será revelada pura estupidez daqui 10 ou 20 anos? Todavia, justamente este é o maior risco da adoção generalizada do Relativismo travestido de Realismo Moral como ferramenta de defesa contra o ataque do Ceticismo juvenil: o risco de perdermos completamente os parâmetros razoáveis do que é Bom e Correto, entregando, uma geração após a outra, o fardo de ter de inventar a roda e descobrir o fogo novamente e novamente e eternamente. Quando embarcamos sem restrições na onda da veneração da adolescência, trocamos as Verdades substantivas duramente conquistadas por milênios de frustrações por um lema como o do Gato de Cheshire em Alice no País das Maravilhas: “para quem não sabe para onde está indo, qualquer destino se presta”... Se pretendemos ter alguma esperança viável em nossa racionalidade, precisamos deixar a Permissividade de lado, abandonando o viés de mimar crianças e adolescentes como se fossem Causalidades Finais absolutas. Ao mesmo tempo, temos que assumir a obrigação de revisar todos os nossos Imperativos Categóricos com honestidade e antecipação, entregando aos mais jovens o ouro de nossa sapiência ao invés do fedor de nossos escrúpulos inexatos. Afinal, uma das coisas às quais a adolescência mais se presta é denunciar as mentiras que seus pais e avós semearam diligentemente, anos a fio – e apenas por isto esta fase estapafúrdia da vida já mereceria toda nossa estima. 6. QUEM TEM FILHOS É MAIS FELIZ? Se você fizer uma reflexão rápida ou questionar as pessoas que conhece, perguntando “ter filhos é uma fonte inegável de alegria?”, a resposta será um “sim!” na esmagadora maioria dos casos. Não é à toa que somamos mais de 7 bilhões de pessoas no mundo: além de produzir Felicidade, o sexo também produz filhos, e eventualmente o segundo propósito predomina sobre o primeiro. Fazemos sexo para produzir descendentes que, achamos, resultarão em mais Felicidade no futuro. A percepção de Felicidade depende de fatores como renda, empregabilidade, estado civil, religiosidade, nível de educação, qualidade de moradia, taxas locais de criminalidade, traços de personalidade geneticamente programados, etc. Como não poderia deixar de ser, os filhos são uma variável importante nesta equação, pois oferecem um mar de possibilidades para gratificação, identificação pessoal, propósito de vida, conexão com outras pessoas e – teoricamente – melhora da autoestima e da saúde mental39. Alguns dizem que ser pai ou mãe é uma experiência transformadora, com uma relação única de custos e benefícios; outros afirmam que o efeito global de “ter filhos” sobre a Felicidade é zero; e outros dizem que filhos são um passaporte certo para a apreensão, o desprazer e a infelicidade36,37,38. Qual dessas afirmações é a mais correta? Bem, tudo dependerá de sua configuração... A favor da crença de que “filhos trazem Felicidade”, podemos afirmar que pessoas que têm filhos em idade mais avançada e possuem níveis educacionais melhores, tendem a ser mais felizes com eles. De um modo geral, um segundo filho aumenta a felicidade, mas um terceiro não40. Entre mulheres pobres, a maternidade oferece significado e propósito em suas vidas, e, de um modo geral, o nascimento de um filho traz mais felicidade para as mulheres que para os homens – mas esta diferença desaparece quando a criança atinge 2-3 anos de idade38,41. Apesar de homens e mulheres que tiveram filhos antes dos 23 anos apresentarem uma incidência um pouco maior de depressão que aqueles sem filhos, após esta idade, ter filhos diminui o risco para o transtorno. Por exemplo: a partir dos 70 anos de idade, homens que não tiveram filhos apresentam uma incidência maior de depressão e sentimento de solidão. Apesar da falta de altruísmo nesta intenção, filhos adultos exercem um impacto positivo no bem-estar de seus pais, sendo uma fonte potencial de auxílio para pais e mães na velhice38. Na somatória destas evidências, seria de se pensar que a afirmação “filhos trazem Felicidade” estaria correta acima de qualquer dúvida. Não obstante, enquanto as mães tendem a se estressar com os conflitos entre a maternidade e seu desempenho profissional, os pais preocupam-se com a carga financeira associada às crianças. Em ambos os casos, a preocupação se instala, colocando a Felicidade em risco. E os problemas não param aí. Recentemente, o baixo nível de bem-estar emocional encontrado entre pessoas com filhos quando comparadas com pessoas sem filhos em países desenvolvidos levantou a curiosidade de cientistas,políticos e do público em geral. Pessoas morando com filhos pequenos relatam uma maior incidência de sintomas de depressão, ansiedade, estresse, raiva e infelicidade que pessoas sem filhos ou com filhos que moram fora de casa. Se porventura a opção escolhida foi não ter filhos em qualquer idade, isso não resulta em um aumento na incidência de problemas psicológicos com o passar dos anos: pessoas que nunca tiveram filhos não referem uma percepção de Felicidade menor que pessoas cujos filhos cresceram e saíram de casa37,38,39. O fenômeno de que os filhos podem comprometer a Felicidade – ou não estão necessariamente associados a ela – parece ter começado com as revoluções sociais que marcaram o início da década de 1970. Foi a partir desta época que as recompensas emocionais de ter filhos passaram a ser massacradas pelos custos emocionais e financeiros da Pós- Modernidade, e os filhos começaram a ser associados a sintomas e emoções negativas como raiva, incerteza e diminuição da percepção global de Felicidade. De fato, a paternidade ou a maternidade per se não prediz Felicidade. Quando ocorre na adolescência, o evento compromete o ganho de educação formal e as oportunidades de trabalho, além de aumentar a instabilidade marital – fatores que podem minar a Felicidade no curto e no longo prazo. Como consequência, em 1975, 15% das mulheres norte-americanas com menos de 35 anos não tinham filhos. Em 2000 este porcentual atingiu 28% – e isto em um país desenvolvido, onde ter filhos é mais uma escolha hedônica detalhadamente antecipada que um acidente de percurso38. Em países subdesenvolvidos, o buraco é mais fundo, uma vez que o planejamento familiar não é tão eficaz ou voluntário e os filhos ocorrem em pais com idades mais tenras. Como consequência, nestes locais, a maioria dos pais refere que ter filhos causou uma diminuição de sua percepção geral de Felicidade37. A conclusão é que, se sua vida emocional está madura e estável, você já passou dos 30 anos de idade, tem boa educação, boa renda e boa moradia, e os filhos (de preferência em número de dois) foram fruto de uma escolha voluntária e não de um tropeço no seu percurso, você experimentará um aumento da sua Felicidade assim que eles passarem dos 3 anos de idade. Se algum desses itens não corresponde ao seu perfil (por exemplo: sua vida conjugal está uma porcaria ou você tem menos de 30 anos e produziu uma ou mais crianças por negligência ou imperícia), é quase certo que os filhos diminuirão sua percepção de Felicidade. Finalmente, caso sua opção tenha sido “não ter filhos”, ao longo de sua vida você provavelmente experimentará uma Felicidade mais contínua que pessoas que tiveram filhos, porém com uma ressalva: se você for homem e chegar solteiro e sem filhos aos 70 anos de idade, as apostas estarão contra você. 7. CASAIS GAYS E EVIDÊNCIAS Assim como o Iluminismo transformou para sempre o relacionamento entre Razão e Religião, e Alva J. Fisher transformou para sempre o modo como você lava suas roupas, o Pós-Modernismo transformou para sempre o conceito de núcleo familiar. Mas isso não significa que a “família tradicional” esteja se desfazendo ou desaparecendo: ela está se re-significando. Enquanto você debatia durante o almoço sobre a validade de famílias homoafetivas, a taxa de divórcios no Brasil aumentava 160% entre 2004 e 2014 – motivada, principalmente, por casos de infidelidade, problemas financeiros e pela maior aceitação social deste status conjugal. Aproximadamente 2% dos casais heterossexuais casados divorciam-se por ano, enquanto a cifra é de 1% entre os casais homossexuais. Será que a “família tradicional” que você tem em mente guarda mesmo o segredo para lares mais felizes e longevos? “Ah, mas casais homossexuais não se reproduzem segundo as leis da natureza!”. Sim, isso é óbvio, e é também um dos motivos porque sociólogos, biólogos, antropólogos, psicólogos e médicos ainda quebram a cabeça para entender exatamente como o comportamento homossexual se manteve em nossa espécie, dado seu viés reprodutivo negativo. Todavia, a despeito do assombro desses especialistas, considerando as mais de 5.000 crianças inscritas no Cadastro Nacional de Adoção, além das dezenas de milhares de outras abrigadas ou institucionalizadas devido insuficiência de recursos materiais de suas famílias, abandono, violência doméstica, envolvimento de drogas pelos pais ou responsáveis ou situação de rua, isso para não falar dos recursos de reprodução assistida, não acredito que casais “não-tradicionais” encontrarão dificuldade para estabelecer seus próprios núcleos familiares com filhos – exceto, é claro, pelo nariz torcido daqueles que se dizem defensores da “família tradicional”. Com o aumento da tolerância social às uniões homossexuais, estes casais vêm se tornando mais abertos quanto aos seus relacionamentos, buscando oportunidades de adoção e técnicas de reprodução. Casais homoafetivos não estão apenas se tornando mais comuns, mas os filhos criados em lares assim também. Por ser um fenômeno tão recente, as críticas e as dúvidas quanto a este novo formato de família tem atraído grande atenção e controvérsia, e atravessamos uma verdadeira batalha cultural e legal para determinar se esta configuração familiar deve ser permitida ou mesmo aceita. Nos últimos cinquenta anos, fatores como o aumento da taxa de divórcios, a liberdade sexual e o avanço das mulheres no mercado de trabalho contribuíram para que o núcleo familiar heterossexual estável fosse perdendo seu monopólio. Na década de 1960, 80% das crianças nos EUA vivam em lares com ambos os pais devidamente casados. Em 2011, esta proporção caiu para 69%, e, atualmente, encontramos crianças vivendo em lares com configurações bem variadas: 11% das crianças americanas vivem em lares com mães divorciadas, 1,7% com pais divorciados, e 3,9% com casais sob união estável. Em 2000, havia cerca de 600 mil lares constituídos por pessoas do mesmo sexo nos EUA. Em 2006, 35% dos casais homossexuais femininos e 22% dos casais homossexuais masculinos estavam criando filhos. As estimativas sobre crianças vivendo em lares homossexuais são desconhecidas, mas alguns levantamentos estimam que elas totalizem algo entre 1 e 9 milhões42,43. Estatisticamente, casais homossexuais masculinos tendem a adotar meninos e casais femininos, meninas44. Ainda não está claro se isso decorre de políticas das agências de adoção ou de preferências expressas pelos casais. Meio século atrás, todos estes dados seriam ultrajantes, mas – como você já deve ter percebido – os tempos estão mudando. E rápido. Moralmente, podemos abordar os lares homossexuais segundo dois pontos de vista: um Deontológico e outro Utilitário. Para condenar este tipo de matrimônio, os Deontologistas se apoiam em defesas de uma suposta racionalidade, nas “leis da Natureza” e na “vontade de deus”, sem se importar muito com as consequências de seus julgamentos ou com o que as evidências científicas mostram. Por outro lado, os Utilitaristas colocam o foco no bem-estar das crianças, que deveria ser a questão objetiva e crucial nesta situação. Um dos primeiros argumentos utilizados para condenar famílias homoafetivas com filhos consiste em salientar a importância das figuras distintas do pai e da mãe para identificação sexual de seus filhos: a sociedade em geral – e os homens em particular – consideram que crianças de lares homossexuais apresentarão mais problemas de identidade sexual que crianças de lares heterossexuais. De fato, crianças de lares homossexuais exibem menos comportamentos sexuais estereotipados que crianças de lares heterossexuais: 35% das crianças em lares homossexuais optam por uma orientação homossexual, sendo as meninas criadas por mães lésbicas são especialmente propensas neste sentido44-46. Quando consideramos que a prevalência geral da homossexualidade é de cerca de 7% para homense 3% para mulheres, fica evidente a influência de ter um modelo masculino e feminino dentro de casa e o grau em que a identificação de gênero se sujeita à manipulação do ambiente familial34,47,48. Todavia, é válido lembrar que a definição da identidade sexual depende de uma interação complexa entre mecanismos biológicos, psicológicos e sociais, sendo que os pais desempenham algum papel neste processo, mas não o determinam em absoluto. Se fosse diferente disso, simplesmente não veríamos surgir pessoas homossexuais em núcleos familiares heterossexuais. A argumentação denunciando o viés na identificação sexual das crianças criadas por pais homossexuais seria válida se considerássemos a homossexualidade algum tipo de problema, patologia, doença mental ou dano – algo que ela certamente não é. A homossexualidade pode ser uma desvantagem, mas isso ocorre principalmente devido às reações hostis de uma sociedade homofóbica. Assim, deixando de lado a hipocrisia do Moralismo de gênero e enveredando pelo frio raciocínio Utilitário, seria mais honesto avaliar as crianças de lares homossexuais quanto à sua estabilidade psicológica-emocional e seu desempenho educacional. Exploremos então a primeira premissa: a estabilidade psicológica e emocional. As crianças preferem suas mães aos pais quando procuram alívio de fome, medo, doença ou outro sintoma estressante: as mães tendem a ser mais consoladoras e responsivas aos lamentos das crianças, além de serem melhores que os pais para determinar o estado emocional de sua prole. Crianças privadas do contato materno por longos períodos no começo de suas vidas tendem a apresentar baixa empatia, relacionamentos superficiais e prevalência de desconfiança, traços hostis e comportamentos antissociais. Os pais também colaboram para a formação de traços distintos: eles são a principal fonte de noções de disciplina e estímulo para enfrentamento de desafios. Fornecem um modelo essencial para os meninos e sua presença no lar fortalece a capacidade da criança em se sentir segura34. Ao avaliar a importância das figuras materna e paterna para as crianças, alguns estudos mostraram que crianças de lares homossexuais apresentam uma prevalência de problemas emocionais duas vezes maior que crianças criadas em lares heterossexuais49,50. Quando comparamos mulheres criadas com uma figura paterna heterossexual com mulheres criadas por um pai homossexual ou bissexual, estas últimas apresentam maior dificuldade para desenvolver vínculos íntimos na idade adulta, tornando-se mais desconfiadas e ansiosas quanto aos seus relacionamentos51. Para completar, segundo alguns especialistas, crianças concebidas por meio de inseminação artificial e criadas em lares homossexuais tendem a se tornar adultos mais confusos, que se sentem mais isolados de suas famílias e com uma maior incidência de sintomas psicossomáticos, depressão, agressividade, problemas de adequação social, comportamentos delinquentes e abuso de drogas que crianças concebidas naturalmente e criadas em lares heterossexuais49,52. Com relação ao desempenho educacional, um estudo envolvendo 174 crianças do ensino primário na Austrália comparou crianças vivendo sob um regime de casamento heterossexual, sob um regime de união estável heterossexual e sob uniões homossexuais. Os autores descobriram que crianças vivendo em lares sob casamentos heterossexuais apresentavam uma performance escolar superior a de crianças de lares sob união estável heterossexual – e ambas eram superiores ao desempenho de crianças de lares de casais homossexuais53. Outro estudo, desta vez realizado no Canadá, revelou que crianças de lares de casais homossexuais apresentavam uma chance de apenas 65% de terminar o ensino médio quando comparadas a crianças de lares heterossexuais, e isso foi especialmente válido para meninas criadas por casais lésbicos. Em todos os quatro principais tipos de arranjo avaliados pelos pesquisadores (união estável, casais homossexuais, mães solteiras e pais solteiros), o desempenho escolar de crianças de lares homossexuais mostrou ser inferior àquele observado em lares constituídos por um casal heterossexual oficialmente casado54. Entretanto, é preciso escrutinar outros lados dessa moeda: Se acreditarmos que os índices desfavoráveis em quesitos psicológicos e acadêmicos de crianças de lares homossexuais são conclusivos e inquestionáveis, é no mínimo razoável adicionar a este raciocínio o fato de que muitas crianças adotadas por casais homossexuais vêm de situações desfavoráveis como orfanatos, famílias em péssimas situações socioeconômicas ou casais heterossexuais que perderam sua guarda devido situações de violência doméstica, por exemplo. Nos EUA, as agências de adoção tendem a colocar as crianças com os históricos mais complicados e com maior incidência de problemas prévios de comportamento em lares homossexuais, dificultando a comparação do desenvolvimento e ajuste social destas crianças com aquelas adotadas por lares heterossexuais44. Não obstante, as pesquisas avaliando negativamente o potencial de crianças de lares homossexuais estão longe de serem axiomáticas. Por exemplo: avaliações realizadas em famílias compostas por casais homossexuais na Espanha e no Brasil apontaram que eles são tão capazes de proporcionar um desenvolvimento saudável para suas crianças quanto casais heterossexuais30. E mais: filhos de casais homossexuais com frequência referem aprendizados positivos de justiça, compaixão, pluralismo, tolerância e empatia, e adolescentes vivendo em lares homossexuais apresentam índices de estabilidade psicológica que não diferem de adolescentes criados em lares heterossexuais. Novamente, é a qualidade do ambiente no lar – e não a orientação sexual dos pais – que determina as diferenças de desenvolvimento dos filhos52,55. Em 2014, um estudo realizado pelo Departamento de Sociologia e pelo Centro de Pesquisas Demográficas da Bowling Green State University (Ohio, EUA), mostrou que as diferenças de bem-estar, desempenho escolar, desenvolvimento cognitivo, adequação do relacionamento interpessoal, atividade sexual e abuso de drogas entre as crianças dependem muito mais de circunstâncias socioeconômicas e da estabilidade do núcleo familiar que da identidade de gênero de seus pais ou mães38,56. Do ponto de vista delas, um divórcio tem mais impacto na percepção de bem-estar que ter um pai ou mãe que “saiu do armário”. E quando se trata de descobrir a homossexualidade de um dos pais, as crianças se sentem envergonhadas ou traídas quando o fazem por conta própria, mas nem tanto quando são comunicadas diretamente pelo pai ou pela mãe52. Finalmente, uma revisão da literatura especializada abordando trabalhos europeus e norte-americanos publicados entre 1978 e 2000 avaliou o desempenho psicológico, social e escolar de crianças de lares homossexuais, e não encontrou diferenças estatisticamente significativas entre estas e aquelas criadas em lares heterossexuais57. Como é possível perceber, os posicionamentos conservadores que sumariamente rotulam os lares homossexuais como nocivos para crianças estão muito mais relacionados a pré-conceitos culturais e estigmas de Moralidade religiosa que fundamentados em evidências científicas coletadas em campo. A maior parte da mitologia em torno do que ocorre quando uma criança é criada por um casal homossexual funda-se em uma fixação em considerar apenas núcleos familiares heterossexuais como “socialmente aceitáveis”. Sim, nem todo casal homossexual apresenta condições emocionais e econômicas para criar ou adotar uma criança, mas nem todo casal heterossexual idem. Por exemplo: notoriamente, crianças de lares de baixa renda apresentam desempenhos bem piores que aquelas de lares mais prósperos, e vários estudos mostram que problemas financeiros no núcleo familiar comprometem o desempenho escolar e o desenvolvimento emocional infantil,