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CASAMENTO, 
FILHOS, FAMÍLIA 
 
e as filosofias ocultas 
do cotidiano 
 
 
 
 
 
 
Alessandro Loiola, MD 
 
 
 
 
 
Copyright © 2019 ManhoodBrasil 
www.manhoodbrasil.com.br 
 
 
 
http://www.manhoodbrasil.com.br/
 
 
Sobre a obra: 
 
O que é um matrimônio? Ele está fora de moda ou o conceito de 
casamento pode ser redefinido sem consequências? E o que 
exatamente é uma família? As mudanças nos modelos que 
conhecemos devem ser aceitas ou são pelo menos social e 
naturalmente viáveis? E quanto aos filhos e ao adultério: eles 
aumentam ou diminuem nossa felicidade? 
 
Em “CASAMENTO, FILHOS, FAMÍLIA”, o médico capixaba 
Alessandro Loiola faz uma excursão inusitada pela psicologia e 
pela filosofia envolvida nas relações entre homens e mulheres e 
seus filhos. 
 
Este lançamento exclusivo de ManhoodBrasil Edições é mais 
uma leitura essencial para psicólogos, formadores de opinião, 
influenciadores digitais, apaixonados por Filosofia e livres 
pensadores com interesse e coragem suficiente para aprofundar-
se em estudos sérios acerca da natureza humana. 
 
Caso tenha interesse em conhecer outros conteúdos produzidos 
por ManhoodBrasil, teremos grande prazer em receber sua visita: 
 
Site: www.manhoodbrasil.com.br 
 
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Índice 
 
1. O Nem Sempre Sagrado Matrimônio 
 
2. O Mito da Família Tradicional 
 
3. Autoritário, Permissivo ou Democrático? 
 
4. A Infância Perdida Encontra a Criação-Helicóptero 
 
5. A Invenção da Adolescência 
 
6. Quem Tem Filhos é Mais Feliz? 
 
7. Casais Gays e Evidências 
 
8. O Reino Encantado do Adultério 
 
 
 
 
1. O NEM SEMPRE SAGRADO MATRIMÔNIO 
 
Mais que uma escolha, o Matrimônio (ou casamento, entenda 
como preferir) parece ser a programação preferida para que os 
humanos desempenhem sua função reprodutora: apesar da 
poliginia ser permitida em mais de 80% das sociedades, apenas 
5-10% dos homens têm várias esposas simultaneamente7. 
Desde há muito tempo, a formação de casais se mostrou vital 
para a saúde dos filhotes: a maioria das fêmeas de grandes 
primatas utiliza as mãos e os braços para carregar a cria recém-
nascida, comprometendo sua capacidade de defesa contra 
predadores. A presença de um macho com ambos os braços e 
mãos livres seria um recurso interessante para assegurar a 
sobrevivência da descendência genética de ambos, mas um 
macho só conseguiria proteger de maneira eficaz a fêmea mais 
próxima de si. Defender um harém disperso pela floresta seria 
um pouco mais complicado. Assim, sob as pressões da Seleção 
Natural, cerca de 4 milhões de anos atrás o 
bípede Australopithecus afarensis – o ancestral do Homem 
sapiens que tem no esqueleto de Lucy seu representante mais 
famoso – criou o padrão de casais heterossexuais monogâmicos a 
que nos acostumamos hoje8. 
Além de benéfico para a produção de uma prole, o 
matrimônio possui efeitos positivos sobre a saúde dos 
envolvidos: pessoas viúvas apresentam quatro vezes mais 
chances de sofrer com depressão que pessoas casadas (42% 
versus 10%)9. Sem levar a satisfação com o próprio 
relacionamento em conta, diversos estudos mostram que o 
casamento está associado a uma saúde melhor (homens casados 
possuem menor risco de síndrome plurimetabólica que homens 
solteiros)13, maior abandono de comportamentos de risco e uma 
rede de amigos de melhor qualidade14. Além disso, em média, 
pessoas casadas ganham em longevidade e sobrevida ao câncer 
em comparação a pessoas solteiras15,16. 
Obviamente, nem todo matrimônio produz esses lucros e os 
bônus tendem a estar mais restritos às uniões “felizes”, bem-
 
 
sucedidas em vários aspectos diferentes: atração sexual, dinheiro, 
disciplina dos filhos, religião, parentes, respeito, reciprocidade e 
lealdade10. 
Cientes do poder do casamento na formação da célula-base 
da sociedade – a Família –, o Estado e a Igreja rapidamente 
encontraram maneiras de tornar os matrimônios oficiais e 
sagrados, assumindo o juízo sobre sua legitimidade, sobre quais 
filhos são lícitos e, obviamente, sobre a quem caberiam os 
direitos de sucessão e herança11,12. Todavia, apenas por volta do 
século VIII a Igreja Católica começaria a celebrar casamentos e, a 
partir do século XII, a defini-lo como uma união sagrada e 
estritamente monogâmica entre um homem e uma mulher, e 
sancionada por deus. Pelo menos em teoria. 
Com a chegada do Ceticismo e as tempestades de mudança 
do Pós-Modernismo, os profetas do Absolutismo Moral religioso 
apontaram seus dedos para o apocalipse iminente, denunciando 
que “os valores fundamentais do casamento estão sendo 
destruídos um a um”. Um bom exemplo deste estarrecimento 
pode ser visto nos trabalhos do antropólogo inglês Joseph Daniel 
Unwin (1895-1936). Em 1934, Unwin descreveu os resultados de 
seus estudos envolvendo 80 tribos primitivas e outras 6 
civilizações, totalizando um período de 5.000 anos de história, 
afirmando ter encontrado uma correlação positiva entre as 
conquistas sociais de um povo e o grau de restrições sexuais de 
sua sociedade: de acordo com Unwin, quando uma nação se torna 
próspera o suficiente e liberal o bastante com respeito à 
Moralidade sexual, o resultado é uma perda irreversível da 
coesão e do ímpeto do tecido social1. 
Contra o diagnóstico de Unwin pesam as recorrentes 
epidemias de hedonismo no Ocidente, indo desde o grego 
Aristipo de Cirene (435-335 a.C.), contemporâneo de Sócrates; 
passando pelos franceses Julien Offray de La Mettrie e seu 
discípulo, Donatien Alphonse François de Sade (o Marquês de 
Sade, 1740-1814); pela Geração Perdida de Paris dos anos 1920; e 
chegando às visões utilitaristas de Jeremy Bentham e Henry 
Sidgwick: assim como vírus, fungos, bactérias e anúncios 
 
 
periódicos do fim do mundo e da civilização como a conhecemos, 
o Hedonismo temido por Unwin sempre andou por aí, 
acompanhando-nos em toda parte, e ainda não foi capaz de 
provocar a extinção do Homo sapiens: éramos pouco mais de 1,5 
bilhão de humanos no começo do século XX e chegamos ao 
século XXI ultrapassando a marca dos 6 bilhões2. E, apenas no 
Brasil, segundo as estatísticas de Registro Civil do IBGE, são 
celebrados mais de 1 milhão de casamentos anualmente. Apesar 
do número de divórcios ter aumentado significativamente nos 
últimos 30 anos, a taxa de separações matrimoniais se encontra 
estabilizada e as uniões de agora duram mais que aquelas de 20 
anos atrás. 
À primeira vista, portanto, o alarmismo de Unwin quanto ao 
final do matrimônio que acompanharia a liberalização dos 
costumes não se concretizou. Ao invés de relatar as evidências 
com honestidade, o antropólogo pareceu mais preocupado em 
comprovar que o modelo de família ideal seria aquele com pais e 
mães Realistas Morais, preferivelmente adeptos da Ética das 
Virtudes Aristotélica com forte um viés religioso monoteísta, 
criando filhos sob um estilo Democrático ou suavemente 
Autoritário, porém jamais Permissivo. Infelizmente, este modelo 
de família fantasiado por boa parte do Ocidente sofre do mesmo 
problema do Papai Noel, do Saci Pererê e do Estado sem Estado 
de Karl Marx: ele não existe no mundo real. O que temos são 
pessoas falhas, com Moralidades falhas, vidas falhas, empregos 
falhos, filosofias falhas e julgamentos falhos – e, mesclando todos 
esses ingredientes de terceira categoria, sonhamos em encontrar 
uma maneira de preparar uma refeição digna da mais alta 
culinária de nossas expectativas. 
Será que aqueles que, como Unwin e outros Moralistas 
teocráticos, veem na falência do “casamento tradicional” um sinal 
indubitável do cataclismo de nossa espécie, porventura sabem de 
onde suas ideias sobre casamento vieram? Como mencionado, 
esta configuração surgiu ainda no Paleolítico, como uma 
estratégia para garantir um ambiente seguro para prole. Com o 
advento do Neolítico, oaumentando a incidência de 
transtornos de comportamento, delinquência, uso de drogas e 
envolvimento com o crime58-61. Em contrapartida, nos EUA, a 
renda anual média de casais homossexuais é quase o dobro 
daquela de casais heterossexuais (US$118,619 versus 
US$62,798). Se, como sociedade, acreditamos que é nosso dever 
garantir por todos os meios possíveis que as crianças venham ao 
mundo em circunstâncias ótimas, por que não selecionar quem 
 
 
deve ser pai ou mãe com base na renda do lar e não da identidade 
sexual? A resposta: porque proibir que pessoas pobres tenham 
filhos é absolutamente desumano e incorreto – assim como é 
desumano e incorreto impedir que casais homossexuais façam o 
mesmo42. 
Qualquer pessoa racional concorda – pelo menos da boca 
para fora – que o bem-estar das crianças deve ser a meta mais 
importante ao se considerar a estrutura familiar. Se realmente 
levássemos isto a sério, deveríamos rejeitar comparações de 
casais homossexuais com casais heterossexuais como se o 
segundo representasse o padrão-ouro. Boa parte dos estudos de 
crianças de lares homossexuais utiliza como grupo-controle 
crianças de lares heterossexuais, mas raríssimos estudos fazem o 
contrário, ainda que, em termos de cuidados com a criança, 
casais homossexuais apresentem níveis maiores de calor humano 
e interação, e níveis menores de agressões disciplinares, ao ponto 
de chegar a existir um ambiente de harmonia maior entre 
crianças adotadas por casais homossexuais que aquelas adotadas 
por casais heterossexuais44. 
Em qualquer sociedade que se diga democrática, o 
pluralismo Moral é norma geral e todas as decisões devem ser 
justificadas a partir de argumentos fundados principalmente na 
Lógica e na Razão. Se um grupo decide fazer valer acima de tudo 
uma regra baseada meramente em uma visão de mundo que não 
é compartilhada pelos demais membros, esta é uma violação da 
liberdade de todos aqueles que compõem esta mesma sociedade. 
Se alguém espera proibir casamentos homossexuais, ou 
expressões de afeto homossexuais, ou amor homossexual, ou 
adoção de crianças por casais homossexuais, esta pessoa deve, 
por meio da Lógica e da Razão – e não por meio de tabus, fé ou 
crenças religiosas -, comprovar que estas situações são de fato 
danosas e perigosas para a segurança, a ordem e o progresso do 
grupo como um todo. 
Quando um indivíduo ou grupo se posiciona contra o 
casamento de homossexuais ou a adoção de crianças por casais 
homossexuais, seria de se esperar que esta pessoa apresentasse 
 
 
argumentos apoiados por evidências sólidas: “casais 
homossexuais são ruins para a economia e a geração de riqueza”, 
ou “crianças de lares homossexuais tendem a desenvolver 
problemas emocionais e comprometimento escolar”, e etc. Se esta 
pessoa é incapaz de mudar de opinião a despeito das provas em 
contrário (casais homossexuais tendem a apresentar uma renda 
anual média superior a casais heterossexuais, crianças adotadas 
por homossexuais não diferem daquelas adotadas por casais 
heterossexuais em termos de transtornos emocionais ou 
rendimento escolar, etc.), então podemos muito bem acusá-la de 
má-fé. Na verdade, ela está experimentando a Estupefação Moral 
de Haidt e é pouco provável que mude de opinião, não 
interessando a quantidade de provas que você oferecer. 
Mais de 80 anos depois de Randolph Scott ter se mudado 
para o apartamento de Cary Grant, muitas pessoas ainda têm 
dificuldade em aceitar um casal de homens (ou mulheres) 
morando juntos, que dirá tendo ou criando filhos. A despeito do 
amplo conjunto de evidências descartando a ocorrência de 
“traumas” nas crianças, os Deontologistas que se opõem aos 
casais homossexuais jamais trocarão de ideia, mesmo quando 
confrontados com números que apontam solidamente em uma 
direção oposta às suas convicções. Seu desprezo e sua 
desconfiança não são determinados pelos resultados ruins do 
desempenho dos filhos criados nesses lares (até porque, estes 
resultados não são consistentes com os dados da realidade), mas 
de uma repugnância Moral, emocional e irracional, ainda que 
organizações como a American Academy of Pediatrics, a 
American Medical Association, a American Psychiatric 
Association e a National Association of Social Workers tenham 
manifestado reiterada e oficialmente seu apoio à adoção de 
crianças por casais do mesmo sexo. 
Ao entrar no barco das críticas sobre o risco de extinção da 
“família tradicional”, recomendo que considere com honestidade 
e sem ataques de fanatismo histérico os dados que se encontram 
disponíveis. Apesar de me considerar um crítico ferrenho das 
molenguices da Pós-Modernidade, não percebo casais 
 
 
homossexuais com filhos como uma ameaça à instituição da 
família, e considero todo ataque a esta nova configuração um 
reflexo da soma da insuficiência intelectual coletiva. E você, 
voluntariamente ou não, pode estar fazendo parte dela. 
 
 
8. O REINO ENCANTADO DO ADULTÉRIO 
 
Há mais de 250 anos, Rousseau escreveu que “o dever de 
manter a fidelidade eterna serve apenas para criar 
adultérios”32. Contudo, apesar dos alertas do filósofo suíço e de 
os registros antropológicos indicarem que aproximadamente 85% 
das sociedades humanas permitiram que os homens tivessem 
mais de uma esposa (especialmente se fossem ricos!), o padrão 
do casamento com seu contrato de fidelidade “eterna” se 
popularizou por todo o mundo como uma epidemia. 
Somos animais profundamente individualistas e, ao longo de 
nossa história evolutiva, as influências biopsicossociais tornaram 
a monogamia a norma da conduta romântica. Existem duas 
explicações para este fenômeno, ambas baseadas na estratégia de 
reprodução de nossa espécie: uma responde pelo nome de 
Modelo do Esforço Procriador e outra pela alcunha de Modelo 
Protetor-Provedor62. 
No Modelo do Esforço Procriador, o casamento seria uma 
forma de o macho monopolizar uma fêmea para si, garantindo 
que os filhos dela carregariam a genética dele e não de outro. Nas 
primeiras sociedades, os homens não possuíam meios para 
determinar a paternidade de sua prole, então este sistema 
“romântico-patriarcal-opressor” tinha lá sua justificativa. 
Copular com várias fêmeas poderia aumentar a fertilidade de um 
homem, mas também representaria um investimento tolo caso 
ele não possuísse recursos suficientes para atuar como protetor e 
provisor de suas crias. Ademais, a infidelidade, se generalizada, 
não daria a qualquer um dos homens a certeza de transmissão de 
seus genes. Da parte da fêmea, o contrato de exclusividade lhe 
garantia a lealdade e a proteção do macho. 
 
 
O Modelo Protetor-Provedor afirma que os relacionamentos 
monogâmicos facilitam a divisão de trabalho e o cuidado com a 
prole. Considerando que nascemos como pequenos animais 
completamente indefesos e inúteis, e permanecemos assim por 
um período relativamente longo, o Modelo Protetor-Provedor faz 
bastante sentido tanto para os homens quanto para as mulheres. 
Qualquer que seja o modelo que tenha prevalecido, a 
monogamia certamente ofereceu vantagens adicionais: com a 
abolição da poligamia, o número de mulheres disponíveis para 
uma relação monogâmica duradoura aumentou. 
Consequentemente, o número de homens solteiros e sexualmente 
tensos diminuiu e, com eles, diminuíram também os índices de 
estupro, sequestro (especialmente de mulheres), homicídio, 
assalto, roubo e escravidão sexual. Menos crimes significaram 
mais comércio, mais investimentos, maior fluxo de informações e 
maior sofisticação na divisão do trabalho, aumentando a 
produtividade dos núcleos familiares. Se isso não bastasse, 
historicamente a monogamia também está associada a uma 
redução nas taxas de infanticídio, negligência, abuso e morte 
acidental de crianças63. No curso de nossa espécie, a soma dessas 
vantagens sacramentou a validade normativa da monogamia: 
uma vez que para prosperar as sociedades costumam reforçar 
hábitos e instituições Utilitaristas que reduzem custos e riscos, e 
melhoram as chances de competiçãocom sociedades rivais pelos 
recursos do ambiente, a monogamia criou raízes e floresceu em 
toda parte. 
Infelizmente, os regulamentos da monogamia não evoluíram 
da mesma maneira que nossa herança de grandes primatas. 
Temos corpos, mentes e estratégias de procriação formatados no 
distante Paleolítico e, eventualmente, alguns preceitos Morais 
colidem com essa programação. Por mais que nos esforcemos, as 
convenções de relacionamento nem sempre se correlacionam à 
psicologia reprodutora dos humanos, tampouco podem subvertê-
la inteiramente. Assim, para tentar escapar da maldição que 
Rousseau jogou sobre a monogamia, elaboramos alguns jogos 
alternativos. 
 
 
No cardápio de convivências, as opções à monogamia 
incluem, além da poligamia óbvia, o poliamor (você tem 
relacionamentos românticos com múltiplas pessoas); a 
polifidelidade (três ou mais pessoas formam um relacionamento 
romântico fechado); e os relacionamentos abertos (o casal 
mantem a fidelidade da intimidade emocional, mas permite-se 
sexo casual com outras pessoas separadamente ou pela prática de 
swing). Em todos estes casos, os participantes aquiescem 
voluntariamente quanto ao modelo alternativo adotado. 
Os relacionamentos não-monogâmicos consensuais 
frequentemente são considerados menos Morais, menos 
satisfatórios e seguros do ponto de vista sexual, e com menor 
qualidade emocional, mas boa parte desta noção decorre de 
estereótipos sociais hostis: estudos mostram que pessoas em 
relacionamentos não-monogâmicos apresentam uma 
probabilidade maior de utilizar camisinha e fazem mais testes 
para doenças sexualmente transmissíveis que casais que se dizem 
monogâmicos. Todavia, os envolvidos nestas uniões menos 
convencionais de fato relatam uma menor percepção de 
Felicidade e menos satisfação sexual em seus relacionamentos 
primários que pessoas monogâmicas. 
Em uma análise generalizada, a monogamia é o modelo de 
romance escolhido por cerca de 90% das pessoas – a não-
monogamia consensual ocorre em apenas 8% dos humanos. Mais 
especificamente, o relacionamento não-monogâmico consensual 
é praticado por aproximadamente 2% das pessoas 
heterossexuais, 32% dos homossexuais masculinos, 5% das 
homossexuais femininas e 22% dos bissexuais64. 
A monogamia tornou-se tão profundamente incrustada em 
nossa cultura como um “ideal conjugal” que frequentemente 
consideramos os divórcios uma forma de insucesso, e os casos 
extraconjugais, uma forma de traição. A reverência a este 
arquétipo é tão grande que apenas cerca de 9% das pessoas 
consideram o adultério Moralmente justificável, independente 
das causas que levaram a ele. Para efeito de comparação, o 
 
 
suicídio é considerado Moralmente justificável por 17% das 
pessoas e a clonagem humana, por 11%65. 
Mesmo com todas essas desvantagens, a prevalência do 
adultério sempre foi bastante elevada entre nós, tornando a 
infidelidade um dos assuntos campeões de audiência quando se 
fala sobre Moralidade e relacionamentos. Atualmente, a 
infidelidade ocorre em algum momento do relacionamento em 
36% dos casais na Inglaterra e na Finlândia; 39% na Espanha; 
40% na Noruega e na Bélgica; 43% na França, 45% na Itália e na 
Alemanha; 46% na Dinamarca; e inacreditáveis 56% na 
Tailândia68. Tipicamente, os homens são mais adúlteros que as 
mulheres, mas não muito: 25% dos homens e 20% das mulheres 
referem ter sido infiéis em seus relacionamentos 
“monogâmicos”69-71. 
Mas exatamente o quê seria esta “infidelidade”? Comumente, 
a definimos como uma violação do acordo marital, uma traição e 
uma ameaça ao vínculo conjugal, dividindo-a em duas categorias: 
Sexual e Emocional67. Com a popularização da Internet, o 
segundo tipo vem crescendo em importância, já sendo 
considerado por muitos tão traumático quanto a infidelidade “ao 
vivo e em cores”66. A infidelidade estende-se desde beijar, fazer 
sexo oral ou ir de fato para a cama com alguém fora do seu 
“relacionamento oficial”, até o desenvolvimento de laços 
emocionais com outra pessoa (inclusive laços virtuais) ou assistir 
pornografia. 
Para os homens, a infidelidade reside principalmente no 
contato físico, especialmente aquele de cunho sexual. De acordo 
com os psicólogos evolucionários, esta peculiaridade decorre da 
incerteza da paternidade por parte dos machos de nossa espécie, 
como descrito no Modelo do Esforço Procriador. Para as 
mulheres, a infidelidade está nas emoções, havendo ou não 
contato físico. Como descrito no Modelo Protetor-Provedor, dada 
a necessidade de proteção durante a gestação e os primeiros 
meses de vulnerabilidade após o parto, o risco de não poder 
contar com os recursos físicos de um homem seria catastrófico 
para uma fêmea nesse período. E é por isso que a omissão 
 
 
masculina tem o mesmo peso de uma traição sexual para as 
mulheres: não interessa exatamente se houve sexo. O que conta é 
se o homem manteve-se emocionalmente fiel – ou não. 
Se a monogamia consensual é o modelo de relacionamento 
preferido pela esmagadora maioria das pessoas, por que 
cometemos adultério? Simples: o Amor Eros (o tesão 
apaixonado) diminui com o tempo, cedendo seu lugar para um 
Amor do tipo Philia (afeto por admiração). Algumas pessoas, 
ressentidas pela abstinência de Eros, tornam-se propensas ao 
desejo de procurá-lo fora de casa – o que eventualmente termina 
se concretizando em algum momento. O risco de adultério tende 
a diminuir para as mulheres e aumentar para os homens ao longo 
do relacionamento: entre os homens, o risco de adultério atinge o 
nível mínimo por volta do décimo oitavo ano de relacionamento, 
avultando lentamente daí em diante. Casais com filhos 
apresentam índices de adultério um pouco maiores que casais 
sem filhos, assim como a gravidez da parceira tende a aumentar o 
risco de infidelidade por parte do homem72,73. 
Não obstante os fatores evolutivos e contextuais, uma parcela 
significativa da etiologia do adultério depende da programação 
genética: em uma análise de 1.600 mulheres gêmeas realizada na 
Grã Bretanha, os pesquisadores descobriram que a programação 
genética influencia no mínimo em 40% a ocorrência 
infidelidade74. Além disso, quanto mais sinais de androgenização 
(ou seja: quanto mais intensa for a expressão da produção de 
testosterona), maior a probabilidade de um homem cometer 
adultério75 – um dado que deveria servir de alerta para mulheres 
neuróticas que se relacionam com machos musculosos, de voz 
grave, carecas e peludos. 
Indo além do determinismo genético, mas ainda obedecendo 
às iminências daquelas partes primitivas de nossos cérebros 
hedônicos, a natureza corruptora do Amor Eros impulsiona 
psicologicamente o adultério com o motor da “novidade”: o novo 
desafio, a nova conquista, a nova paixão, o beijo inédito, a nudez 
desconhecida. Há décadas, o amor e o romance intensos têm sido 
glorificados através da televisão, do cinema, da literatura e da 
 
 
música. Quando estamos em um relacionamento de longo prazo, 
as intensidades desaparecem e o desejo de reavê-las pode se 
tornar avassalador. O adultério, então, com seu ar de segredo e 
contravenção, apresenta-se como um terreno fértil para cultivar 
novamente a “loucura impetuosa do amor”. 
Se todas essas influências internas e externas não bastassem, 
vale ressaltar que bebês criados em um modelo Ansioso-Evitativo 
se tornam adultos pouco empáticos que gostam de sexo casual; e 
bebês criados em um modelo Ambivalente, se tornam adultos 
carentes e adúlteros seriais. Quando a genética não prevalece, a 
personalidade dos pais e a Teoria do Apego de Bowlby podem 
preparar o sujeito para a infidelidade na fase adulta. Algo similar 
processa-se com outros aspectos culturais contingenciais: 
pessoas criadas em ambientes mais religiosos e conservadores 
tendem a ser mais fieis que aquelas crescidas ou adeptas de 
discernimento mais agnósticos e liberais 72. 
Apesar de alguns cônjuges procurarem deliberadamente 
oportunidades para cometer alguma forma de adultério, a maior 
parte dos incidentessucede de maneira não planejada: poucas 
pessoas se arrumam e saem de casa com o propósito de praticar o 
adultério nos próximos quinze minutos. A vulnerabilidade para 
sexo fora do relacionamento é criada com o tempo e concretiza-se 
por uma oportunidade eventual. Afinal de contas, tanto a 
monogamia quanto a poligamia, o poliamor, a polifidelidade, os 
relacionamentos abertos, o swing e a promiscuidade podem 
produzir Felicidade, e a busca pela Felicidade pode conduzir a 
vários caminhos – e nem sempre conscientemente. 
Quando esmiuçamos a monogamia de modo mais frio e 
analítico, constatamos que a demanda por fidelidade que ela 
exige envolve a abdicação de encontros com uma gama enorme 
de pessoas fantásticas e excitantes. A monogamia pode ser 
enlouquecedora e sufocante. Contudo, o adultério, a despeito de 
todo seu charme potencial, corrói a confiança e a segurança – 
fatores essenciais para construir um relacionamento e uma 
mente saudáveis. Ou seja: qualquer que seja sua escolha, ela 
envolverá ganhos e perdas. 
 
 
A favor da tentação do adultério, não se pode negar que ele é 
cheio de hormônios picantes e um senso de estar vivendo em 
plenitude. No Pós-Modernismo, a monogamia, com sua 
promessa de renúncia sexual biologicamente estranha, passou a 
ser associada a um tipo de generosidade estoica melancólica e 
pessimista. Ora, se o sexo é um instinto natural e sua repressão 
resulta em neuroses – e até mesmo em insanidade –, por que 
deveríamos perder as oportunidades que se apresentam? Toda 
nossa sociedade, desde o Estado até as Leis, os programas de 
saúde pública e todos os avanços tecnológicos realizados até aqui 
tiveram como premissa implícita ou explícita a maximização do 
prazer humano. Por que deveríamos condenar o adultério a esta 
altura do campeonato? 
Curiosamente, em uma era que aceitou praticamente 
qualquer tipo de atividade sexual voluntária entre pessoas 
adultas, o adultério continua sendo uma das transgressões mais 
condenáveis. O Relativismo Moral Pós-Moderno pode ter 
expandido várias fronteiras, mas a noção de que o 
relacionamento é uma fusão monogâmica e vitalícia de amor e 
sexo segue firme e forte no imaginário da maioria das pessoas – 
especialmente entre as mulheres. 
Em última análise, o Julgamento Moral do adultério 
dependerá do tipo de código ético que você considera válido. Se 
você optar pelo Consequencialismo ou pelo Subjetivismo, poderá 
validar o adultério de várias maneiras diferentes (aumento da 
possibilidade de reprodução, diversificação das oportunidades de 
sexo e relacionamento, etc.). Além disso, poderá argumentar que, 
se a traição permanecer em segredo e pessoa alguma jamais for 
afetada ou sofrer por isso (além do adúltero e seu par), o 
adultério torna-se Moralmente justificável. 
Para Relativistas pós-modernos, Céticos, Niilistas e 
Hedonistas, questionar sobre a ética do adultério é algo 
completamente fora de propósito. 
Os Coletivistas simplesmente diriam – como sempre dizem – 
que a proibição do adultério ajuda a sustentar o modo capitalista 
 
 
de produção, reforçando os sistemas socioeconômicos opressores 
da sociedade patriarcal. 
Por fim, dentro do Absolutismo Moral dogmático, da Ética 
das Virtudes e dos imperativos categóricos da Deontologia 
centrada no agente, o adultério é sempre condenável, pois 
implica em uma violação da lealdade. 
Somos animais frágeis. Desde sempre, para sobrevivermos, 
dependemos da lealdade do grupo, da tribo, da família, de nossos 
pais e, fundamentalmente, da pessoa com quem dividimos a 
cama. Independente de sua escola Moral, por trás da condenação 
popular quase unânime do adultério esconde-se justamente a 
necessidade que temos por este elo tão precioso. 
Apesar de pressões evolucionárias inimagináveis terem 
plantado a monogamia entre nós, parece que nenhuma outra 
sociedade anterior à nossa jamais teve tantas esperanças 
ingênuas quanto ao casamento – e nenhuma jamais demonstrou 
tamanha prevalência de desapontamentos histéricos com ele. E 
nos metemos no adultério sem perceber o equívoco da crença de 
que é possível consertar o que está quebrado e superar as 
dificuldades de um relacionamento utilizando o passe de mágica 
de uma mentira. O que torna a infidelidade conjugal tão 
execrável é a desonrosa quebra da promessa de fidelidade que 
fizemos voluntariamente ao adentrar em um relacionamento. A 
Moralidade pode ser torcida de várias maneiras diferentes, mas 
em alguns pontos – como na Lealdade –, ela parece 
simplesmente recusar-se a qualquer negociação. 
Os adúlteros relatam motivações diversas para sua ação: 
tédio, busca pela Felicidade, vingança, carência, oportunidade, 
instinto animal, urgência biológica por intimidade, “amor” à 
primeira vista, narcisismo, sede de poder, fome por afeto, 
necessidade de aventura e por aí vai. Com estas racionalizações 
ambíguas, os adúlteros procuram sancionar sua deslealdade 
conferindo-lhe um ar de sedutora condescendência. Ainda que 
uma mentira ou um assassinato eventualmente possam causar 
algum bem, em geral não é bem isso que ocorre. E o mesmo pode 
 
 
ser dito com relação às consequências do adultério: um adultério 
justificável assemelha-se muito a um homicídio justificável. 
A sociedade Pós-Moderna é insistente em afirmar que a 
monogamia, ao oferecer tão poucos benefícios a um alto custo 
físico e emocional, falhou tanto com os homens quanto com as 
mulheres em resolver a busca pela Felicidade. Contudo, os 
arautos dessa calamidade parecem ser imaturos demais para 
perceber o valor que a confiança, a honestidade, a lealdade e o 
Amor Philia têm para os seres humanos. Argumentos 
estritamente racionais que comparam o coito a atividades 
inócuas como jogar tênis ou uma partida de baralho são ingênuos 
na medida em que fingem não compreender o papel emocional 
que o sexo tem em nossas vidas. Apesar de o adultério poder 
resultar em gravidez indesejável e contaminação por doenças 
sexualmente transmissíveis, seu principal fardo está nas 
cicatrizes emocionais que causa. Não surpreende que ele seja a 
principal causa de divórcio tanto para homens quanto para 
mulheres. 
Não existe uma fórmula infalível para resolver as tensões e os 
desgastes de um relacionamento, pois amor, sexo e vínculo 
familiar afetam-se mutuamente: o surgimento do Amor Philia 
pode inibir o desejo sexual do Amor Eros, e o Amor Ágape (o 
amor fraterno) que surge com o nascimento dos filhos pode inibir 
as duas formas anteriores de Amor ao mesmo tempo. A escolha 
que se apresenta não é entre uma ou outra forma de amor, mas 
entre ser ou não capaz de navegar entre elas com maturidade e 
excelência. 
Se você procura uma prova definitiva de que a monogamia 
leva à Felicidade, esqueça: tal coisa não existe. Tampouco se pode 
afirmar que o adultério, a promiscuidade ou formas de abertas de 
relacionamentos românticos sejam capazes de fazer o mesmo. 
Sim, concordo que todas as regras merecem interpretação; todos 
os princípios devem ser contextualizados; e todas as proibições 
devem ser examinadas à luz da Razão. Contudo, a percepção de 
Felicidade em um relacionamento dependerá primariamente do 
 
 
indivíduo, de sua programação genética, do modo como foi 
criado e do seu contexto sócio-econômico-cultural. 
Talvez pessoas mais inseguras e relutantes em assumir 
compromissos sólidos optem pela infidelidade ou por 
relacionamentos não-monogâmicos, e é sua insegurança, não sua 
opção romântica, a causa primária de sua insatisfação perene. O 
modelo de relacionamento escolhido é apenas um sintoma tardio 
de um problema interno e anterior de personalidade. E quanto à 
completude satisfeita e inabalável prometida pelo reino 
encantado do adultério, ela derradeiramente mostrar-se-á tão 
real quanto os unicórnios voadores cor-de-rosa que o povoam. 
 
_________________________ 
 
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https://www.statista.com/chart/3238/the-worlds-most-adulterous-countries/matrimônio passou a servir também para 
 
 
garantir o direito à propriedade e assegurar a transmissão da 
herança material para os descendentes consanguíneos. Nestas 
épocas, o casamento estava tão associado ao Amor e ao desejo 
quanto à estabilidade econômica, ao artifício para aumento da 
força de trabalho e à formação de alianças políticas3. 
A noção de casamento sempre variou absurdamente de uma 
cultura para outra: algumas tribos humanas estimulavam a 
endogamia (união com quase familiares do mesmo grupo ou clã), 
outras a exogamia (união com não-familiares de regiões 
geográficas ou grupos sociais distantes), e outras a poligamia – a 
prática da poligamia foi banida no Ocidente durante o Império 
Romano, mas ainda é considerada legal em mais de 50 países, 
sendo aceita em outros vinte17,18. 
Durante a Era Vitoriana (1837-1901), o Amor passou a ser 
visto como um pré-requisito para o casamento, tornando os 
rituais de flerte mais formais e cheios de rapapés. Segundo Maria 
Stella Ferreira Levy, professora de Epidemiologia e doutora em 
Saúde Pública, no Brasil de 1650 não existiam tabus como o da 
virgindade obrigatória antes do casamento, e era difícil achar 
alguém que se casasse sem antes ter tido relações sexuais – mas 
por motivos bem diferentes dos atuais. Naquela época, a mulher 
precisava provar que era fértil, e engravidar antes do 
compromisso era uma regra consentida pela comunidade, desde 
que o relacionamento terminasse em casamento4. 
Nas classes privilegiadas do Período Colonial, raramente a 
escolha do pretendente para o casamento era prerrogativa da 
moça. Às vezes, o futuro esposo era uma surpresa agradável para 
uma menina de 14 ou 15 anos por se tratar de um jovem pálido de 
23 a 25 anos, e o romance se desenvolvia bem entre os noivos. 
Outras vezes, a sorte não sorria tanto e o futuro esposo era um 
português obeso, de pescoço curto e para lá da meia idade. Em 
qualquer uma das situações, o casamento era decidido pelos pais, 
cabendo à noiva apenas aceitar a decisão tomada. E toda 
sociedade considerava esta Moralidade apropriada e vantajosa4. 
No século XIX, o casamento entre as classes médias e altas 
estava liberado quando após a donzela ter sido formalmente 
 
 
apresentada à sociedade em um baile de debutante. As jovens 
mulheres costumavam debutar por volta dos 17 ou 18 anos, mas a 
idade podia ser antecipada ou adiada de acordo com as 
possibilidades financeiras da família. Depois de apresentada, 
uma jovem não deveria esperar muito tempo antes do noivado: 
na França, considerava-se adequado que ela ficasse noiva já no 
primeiro ano em que estivesse frequentando a sociedade. 
Aparecer por três anos seguidos na temporada social sem 
conseguir um casamento abria espaço para fofocas: talvez a 
senhorita não fosse virtuosa ou, pior, não tivesse um dote 
atraente, e suas possibilidades de fazer um bom casamento iam 
diminuindo a cada estação5,6. 
Durante todo este tempo, o divórcio acompanhou nossa 
monogamia: ainda na Grécia antiga, Péricles divorciou-se da 
primeira esposa para casar com sua amante, a sofista Aspásia de 
Mileto. O respeitado e influente pensador Marco Túlio Cícero 
(106-43 a.C.) separou-se de Terência e casou-se poucos anos 
depois com uma ex-aluna, Publília, antes de ser assassinado por 
ordens de Marco Antônio19. Quase dois mil anos mais tarde, no 
século XVI, um rei britânico seria protagonista de um dos mais 
famosos divórcios de todos os tempos: em 1533, Henrique VIII 
provocou um abalo sísmico ao romper com a Igreja Católica, 
separando-se da feiosa Catarina de Aragão para desposar a bela, 
manipuladora e impopular Ana Bolena20. Entre outras coisas, 
este evento custaria a cabeça do famoso filósofo Thomas More. 
Com o desenvolvimento das economias de mercado e a 
diversificação das fontes de renda, os jovens adquiriram 
autonomia para decidir com quem iriam se casar: era possível 
agora partir para um amor, uma cabana e uma vendinha de 
pastéis ou uma estalagem ou uma oficina de ferraduras ou uma 
marcenaria para pagar as contas. A expansão do Iluminismo e da 
democracia conferiu um charme extra à ênfase na liberdade 
individual e no lema “o importante é que nos amamos de 
verdade!”. A partir da década de 1960, o movimento feminista e a 
ampla adoção do capitalismo por parte das mulheres igualaram 
ainda mais o jogo do matrimônio, flexibilizando-o com relação à 
 
 
divisão do trabalho doméstico, ao companheirismo e à 
necessidade de atração sexual mútua. Atualmente, cerca de 60% 
dos casais passam um período morando junto antes de casar 
“oficialmente” – isso quando casam38. 
Então, na próxima vez que ouvir algum Absolutista inspirado 
em Unwin anunciando que “os valores fundamentais do 
casamento que estão sendo destruídos um a um”, pergunte a ele 
(ou ela) sobre quais valores fundamentais, de qual cultura, de 
qual tribo ou clã, de qual estrato socioeconômico, Religião e Era 
“tradicional” está se referindo em meio aos escombros da crise 
Moral que estamos vivendo. Não se assuste se ele engasgar antes 
de tentar responder isto com frágil propriedade. 
 
 
2. O MITO DA FAMÍLIA TRADICIONAL 
 
“A família tradicional está à deriva, se desintegrando. 
Vivemos tempos difíceis para a boa família cristã. Os valores 
familiares foram perdidos. É preciso resgatar o respeito pela 
família de antigamente”. 
Tenho certeza de que você já trombou com alguém indignado 
entoando coisas. Pudera: a noção de família é extremamente 
preciosa. Aristóteles já havia afirmado que a família é “anterior à 
cidade e mais necessária do que esta”33, sendo completado por 
Rousseau, que escreveu acertadamente que “cada família é uma 
pequena sociedade”32. Estavam ambos cobertos de sensatez. 
O bem-estar Moral de qualquer sociedade depende da saúde 
Moral de suas famílias – e esta, da saúde Moral de seus 
constituintes. Todavia, a crise Moral não está ocorrendo 
exatamente na família: ela está ocorrendo no sujeito, na imensa 
coleção de analfabetos funcionais de nossos dias, incapazes de 
identificar as competências nucleares que determinam o bom 
desenvolvimento de um cidadão. 
O indivíduo incongruente do século XXI, casado com o 
Relativismo Normativo, praticante da Deontologia Centrada na 
Vítima, e tendo como amante um Subjetivismo hedonista 
 
 
permanentemente hospedado no motel Carpe Diem, não tem a 
menor ideia de autocontrole, planejamento, objetivismo, 
meritocracia, processo coerente de tomada de decisões, liberdade 
de expressão, conectividade pró-social ou filosofia racional de 
vida. E ele reclama que os valores da “família” estão se 
perdendo... 
Historicamente, a Moralidade sempre percorreu ciclos 
revisionistas. Não é a família que está se deteriorando: é a 
própria Moralidade grávida que está tendo metrossístoles 
enquanto pare algo que ninguém sabe ao certo o que é. Os 
sujeitos, todos nervosos neste centro obstétrico consumidor de 
dogmas, não estão dedicando a devida atenção para ao contexto, 
portanto não admira que se sintam assoberbados. O sucesso do 
modelo de família, qualquer que seja este modelo, dependerá do 
compartilhamento de certos princípios, hábitos e práticas que 
expressem respeito pelos direitos uns dos outros e fomentem a 
atenção com as responsabilidades pessoais e coletivas. Uma 
família “tradicional” em pleno século XXI é aquela capaz de 
compreender isto, transmitindo esta dinâmica para a geração 
seguinte. 
A diversidade cultural e sexual não representa uma ameaça à 
integridade da família – a não ser que você seja um fã de Tomás 
de Torquemada e guarde com carinho um exemplar do Malleus 
Maleficarum na estante do seu quarto. Você não pode se dizer 
um admirador da democracia, gostar de desfrutar de liberdade, 
apreciar ser tratado com tolerância e respeito, e, ao mesmo 
tempo, definir suas versões impensadas da Verdade substantiva 
como o único caminho Bom e Correto dentre todos os possíveis. 
Ao menos em parte, o Relativismo Moral tem razão quando tenta 
catequizar-nos com um pouco de temporização.3. AUTORITÁRIO, PERMISSIVO OU DEMOCRÁTICO? 
 
Nos anos após a Segunda Guerra Mundial, a psicóloga 
americana Diana Baumrind identificou três estilos básicos de 
 
 
criação parental: Autoritário, Permissivo e Democrático31. A 
criação Autoritária é um descendente direto do Absolutismo 
Moral clássico. Pais e mães desta escola acreditam que seu dever 
é socializar seus filhos para que eles ajam de modo exato segundo 
padrões de qualidade bem elevados. As crianças devem ser 
gentilmente dobradas às suas vontades: a disciplina é 
importante, pois demonstra obediência – e esta sempre foi uma 
prata valorizada na casa do Absolutismo Moral. Regras foram 
feitas para serem obedecidas, não negociadas; e demonstrações 
de carinho são artigos de segunda categoria. 
Pais e mães Permissivos, por outro lado, veem a si mesmos 
como apoiadores e fornecedores de recursos para as crianças. 
Eles oferecem orientação, não cobranças, normas ou regras 
inflexíveis. São Consequencialistas mansos, dedicados e 
carinhosos. Não anseiam pelo respeito, mas pelo amor dedicado 
de seus filhos, e esperam que todos sejam felizes com isso. Neste 
processo, ao colocarem as crianças em altares sacrossantos de 
veneração irrestrita, terminam sem qualquer respeito e sem 
qualquer amor genuíno. 
Uma vez que a Moral lida com a formação do Caráter e é 
expressa na forma de comportamentos éticos, não existe lugar 
melhor para começar a desenvolvê-la que dentro do núcleo 
familiar: do ponto de vista da criança, a família é o primeiro 
contexto importante para sociabilização da Moralidade e esta 
tarefa deveria estar no centro das responsabilidades de qualquer 
adulto responsável. Conversar com seus filhos é um modo 
fantástico e avaliar os padrões éticos que eles assimilaram, e cada 
oportunidade para este tipo de interação vale seu peso em ouro. É 
importante transmitir às crianças a noção de que elas são parte 
de algo muito maior e grandioso que elas mesmas. Se o lar é 
egocentrado, os filhos crescerão acreditando que cada uma de 
suas vontades corresponde a direitos inatos, ainda que estas 
vontades violem a liberdade de expressão, as ideias, a 
propriedade e a autonomia de outras pessoas. E exatamente este 
é o grande mal do estilo de criação Permissivo, cada vez mais 
popular no Brasil. 
 
 
Por fim, pais e mães de estilo Democrático são “o tudo de 
bom com quase nada de ruim”. Eles representam a família 
sorridente dos comerciais de margarina: ao mesmo tempo em 
que exigem altos padrões de qualidade, estabelecem regras bem 
determinadas e impõem castigos criteriosos, são afetuosos, 
solícitos, responsáveis e explicativos, dosando o respeito à 
individualidade da criança com a devida observância aos valores 
Morais primordiais. E, provavelmente, também têm asas, usam 
auréolas e solfejam melodias perfeitas enquanto saltam de uma 
nuvem à outra nos céus. 
Uma parcela considerável dos pais e mães acredita piamente 
passar boa parte de suas vidas criando filhos dentro de um estilo 
Democrático – até mesmo aqueles que representam a segunda ou 
terceira geração de Autoritários ou Permissivos inveterados. 
Enquanto os Autoritários expõem-se ao risco de trazer ao mundo 
a próxima linhagem de neuróticos insatisfeitos e retraídos, porém 
academicamente competentes, os Permissivos seguem 
entregando à sociedade levas de diabretes egocêntricos sem o 
mínimo de autocontrole. As crianças filhas do estilo Autoritário 
vivem aterrorizadas pelo medo de fazer algo errado; aquelas 
filhas do estilo Permissivo aterrorizam a todos por 
desconhecerem o que é autoridade. As crianças do estilo 
Democrático ainda não desembarcaram do planeta misterioso 
onde levam suas vidas. 
Independente do estilo de criação, pais e mães devem fazer 
provas para entrar em uma universidade, para tirar carteira de 
motorista e até mesmo para exercer cargos públicos concursados, 
mas nenhum treinamento lhes é exigido para serem pais e mães 
– e o mesmo vale para serem eleitores. Examinando nosso 
cenário político, não é difícil tecer considerações análogas sobre 
como vai a criação de nossos infantes: uma fração significativa 
dos adultos crê que deixar um bebê de 3 meses chorar até ficar 
azul é compatível com uma boa criação (quando não é); e, ao 
invés de permitirmos que as crianças brinquem livremente com 
outros indivíduos de diferentes idades – como é típico em outras 
sociedades de primatas –, as colocamos em pequenas prisões 
 
 
chamadas escolas onde passam seus primeiros anos confinadas 
em grupos da mesma faixa etária, interferindo com o 
desenvolvimento competitivo saudável de seus corpos e suas 
mentes. E estas são apenas pequenas pontas de um iceberg 
mastodôntico. Como Thomas Lewis anotou em Uma Teoria 
Geral do Amor (2000): “boa parte da cultura moderna é um 
longo experimento de como privar as pessoas daquilo que elas 
mais necessitam”35. 
A combinação da criação Permissiva com a Relativização 
egocêntrica da Moralidade está produzindo pelotões em série de 
crianças hedonistas com péssimas habilidades sociais e 
habilidades de controle emocional ainda mais medíocres. A 
pandemia de delírios de baixa autoestima, de transtornos de 
ansiedade e depressão, além dos elevados índices de uso de 
drogas e medicamentos controlados, agressão, delinquência e 
hiperatividade em todas as faixas etárias, é um bom termômetro 
do tamanho da crise que atravessamos. 
 
 
4. A INFÂNCIA PERDIDA ENCONTRA A CRIAÇÃO 
HELICÓPTERO 
 
Os direitos e deveres dos pais e mães com relação aos seus 
filhos deveriam consistir basicamente em assegurar para as 
crianças o melhor possível para o mais longo prazo possível. 
Todavia, esse “melhor” assume significados diferentes em 
diferentes sociedades, e até mesmo dentro de uma mesma 
sociedade a noção do que é Bom e Correto pode variar segundo o 
estrato sócio-econômico-cultural ou o credo religioso 
predominante naquela faixa. 
Gostamos de afirmar que toda criança tem o direito de ser 
ouvida. Ainda que o ponto de vista de uma criança não tenha um 
peso autoritativo, ele certamente tem um papel consultativo: a 
ausência de autoridade não deve elimina a relevância de sua 
opinião para os adultos que tomam as decisões em seu nome – 
ainda que, ulteriormente, o poder de tomar a decisão caiba ao seu 
 
 
adulto-guardião ou representante legal. Compete aos pais a 
prioridade de decidir pelos seus filhos em assuntos como 
alimentação, escola, amizades e Religião, além do direito de 
excluir outras pessoas deste processo – inclusive e até mesmo a 
Sociedade e o Estado. Os direitos adquiridos dos pais com relação 
aos filhos – praticamente uma relação de posse por custódia – 
são um bônus pelas responsabilidades prévias que os 
progenitores deveriam carregar, ainda que estas 
responsabilidades percam efeito à medida que os filhotes 
adquirem sua própria competência intelectual. Mas esta 
aquisição é um processo lento: a especialização de nossos 
cérebros cobrou um preço caro de nossa autonomia 
Dentre todos os animais, somos aqueles cuja prole nasce 
mais indefesa e depende por mais tempo de cuidados. Por isso, 
em tese, os pais deveriam desenvolver uma atmosfera propícia 
para o bem estar e segurança de seus filhos durante longos anos. 
É certo que este dever eventualmente incorre em falhas, 
negligências e abusos, mas o problema do Subjetivismo da Pós-
Modernidade adicionou um tempero extra: a imaturidade mental 
persistente e extrema de pais e mães que chegam aos 30, 40, 50 
anos de idade ou mais sem terem passado mentalmente sequer 
da meia-adolescência. Em alguns casos, bastam 12 ou 15 anos – 
ou às vezes até menos que isso – para que os filhos entrem em 
atrito com a imaturidade cognitiva e emocional de seus pais 
infantilizados. 
A concepção que temos da infância é tanto um fato biológico 
quanto uma construção histórica e social. De acordo com 
Aristóteles, existem 4 Causalidades no mundo: Material (do que 
as coisas são feitas), Eficiente (o que fez a coisa), Formal (o que 
deu forma à coisa) e Final(a intenção da coisa). No caso dos 
seres humanos, a Causalidade Formal pode ser representada 
pela criança – aquilo que tem o potencial de se transformar em 
um espécime maduro com a estrutura, a forma e a função de um 
adulto padrão. A Causalidade Final é este adulto. A maioria dos 
adultos compartilha desta concepção aristotélica da infância – e 
 
 
muitos até mesmo a estendem ao embrião e ao feto –, ainda que 
jamais tenha lido uma linha sequer de Aristóteles. 
Todavia, a criança humana – como qualquer outro filhote no 
reino animal –, nasce munida da faculdade de reproduzir o 
desenvolvimento evolucionário de sua espécie a despeito de ter 
ou não os exemplos de um adulto capaz. Nenhuma criança nasce 
um livro completamente em branco: os genes trazem 
temperamentos e esboços de uma Moralidade que somos capazes 
de reconhecer e expressar. A tabula rasa de John Locke é um 
erro de ingenuidade risível, e a noção incondicional de crianças 
unicamente como Causalidades Formais é um conceito meio 
furado: a mente de uma criança pode ser diferente, mas ela é tão 
complexa e poderosa quanto a de um adulto. 
Desde os mais tenros anos, a criança é capaz de expressar 
comportamentos direcionados para um objetivo específico. Em 
algumas ações de divórcio, elas podem ser capazes de demonstrar 
preferência para ir morar com o pai ou a mãe, e suas vontades 
são levadas em conta quando o juiz decide pela custódia. O 
mesmo pode ser dito com relação a algumas crianças portadoras 
de doenças terminais quando lhes são explicadas as opções de 
tratamento disponíveis. 
Não obstante estas evidências, a transformação das crianças 
de Causalidades Formais possíveis em Causalidades Finais 
absolutas causou uma crise na dinâmica familiar: o simples fato 
de uma criança ser capaz de fazer uma escolha sensata não é uma 
evidência conclusiva de sua perícia de decidir por si – e o inverso 
é igualmente verdadeiro. Afinal, adultos sábios ocasionalmente 
tomam decisões estúpidas da mesma maneira que adultos 
estúpidos ocasionalmente se comportam de modo sábio. 
É visível que uma criança de 10 anos de idade, por exemplo, 
simplesmente não possui capacidade para tomar uma série de 
decisões, seja por falta de bagagem de vida, inaptidão para 
autorreflexão ou circunspecção cognitiva insuficiente. 
Anatomicamente, o córtex pré-frontal – responsável pela 
ponderação e pela avaliação de situações de risco, entre outras 
tarefas – só atinge a maturidade entre os 20-25 anos. Como 
 
 
exigir de uma criança um julgamento adequado ou levar suas 
preferências completamente a sério quando, em termos 
estritamente anátomo-fisiológicos, ela ainda é meramente uma 
Causalidade Formal, como proposto por Aristóteles? É preciso 
dar algum crédito ao filósofo grego nesse sentido. 
Devido a estas mudanças de visão e comportamento, a 
sociedade Pós-Moderna está começando a retornar aos padrões 
Morais de antes da Revolução Industrial: para a maioria das 
crianças, a vida se tornou bem mais segura do ponto de vista 
econômico e de saúde, e os estilos de criação se tornaram cada 
vez menos punitivos e autoritários. Com o crescimento do 
mercado de propagandas e entretenimento, a saturação da 
cultura popular com cenas de sexo e a franca apologia à violência, 
a infância deixou de ser o período de proteção Moral que foi 
durante séculos. Hoje, as crianças são indiscriminadamente 
arremessadas no universo adulto em idades cada vez mais 
precoces, assim como ocorria em eras ancestrais, porém agora 
com consequências funestas: um estudo organizado pela 
psiquiatra Evelyn Kuczynski mostrou que, em nove capitais 
brasileiras, o suicídio ocupa o sexto lugar entre as mortes por 
causas externas na população entre 15 e 24 anos de idade21. 
Para Kuczynski, apesar das taxas de suicídio entre jovens 
serem ainda relativamente baixas no Brasil, o aumento do 
problema nas últimas duas décadas é bem perceptível, mesmo 
considerando-se a subnotificação de muitos casos. Algo 
semelhante pode ser dito com relação à taxa de mortalidade por 
arma de fogo, que quintuplicou no Brasil entre homens de 15 a 29 
anos de idade mais menos no mesmo período22. Em um 
movimento paradoxal, revertendo o cenário de segurança tão 
duramente conquistado, as crianças estão se transformando em 
jovens delinquentes com altíssimo potencial de letalidade – tanto 
para terceiros quanto para si mesmas. A ironia é que o 
crescimento econômico deveria ter-se metamorfoseado em 
sofisticação cultural e aprimoramento Moral, garantindo a 
qualidade das futuras gerações, mas o que ocorreu foi oposto a 
isso. 
 
 
Em grande parte, é preciso admitir, a natureza tóxica do novo 
ambiente que criamos é diferente da toxicidade dos ambientes do 
passado. Antes, as crianças apanhavam; hoje, são abandonadas 
ou negligenciadas. Antes, as crianças passavam fome; hoje, são 
materialmente mimadas. Antes, viviam em aglomerações 
insalubres e superlotadas; hoje, existem em um isolamento 
virtual. No somatório destes fatores, não melhoramos muita 
coisa: apenas trocamos nossas ruindades. 
De todas as consequências trazidas por este Subjetivismo e 
pela transformação das crianças em Causalidades Finais, 
nenhuma foi mais danosa para as famílias que a disseminação da 
criação de estilo Permissivo, também conhecida como Criação 
Helicóptero, um modelo de atenção caracterizado pelo 
gerenciamento microscópico de cada aspecto da rotina da 
criança. De produtos educacionais corretamente desenhados e 
pintados com tinta hipoalérgena e atóxica, até creches com pisos 
antiderrapantes e tanques de areia esterilizada, os praticantes da 
Criação Helicóptero deleitam-se com a suposição de que seus 
filhos terão uma trajetória de sucesso garantida na vida, pois eles 
mesmos cuidaram de apagar os incêndios pelo caminho e 
pavimentar todo o percurso para a criança, paralelepípedo por 
paralelepípedo. 
Pais e mães Permissivos podem ser sensíveis, obsequiosos e 
devotados, mas sua indulgência tóxica detonou o conceito de 
limites: quando uma criança chora e esperneia por 10 minutos 
antes de conseguir o que quer, ela aprende que esta é a 
quantidade de tempo necessária para atingir seu objetivo. Na 
próxima vez que ambicionar algo, irá chorar e espernear durante 
os mesmos 10 minutos, pelo menos. Mas as crianças não 
desenvolvem esse comportamento do nada: elas o aprendem. 
Apelar para a Causalidade Final de Aristóteles e permitir que 
uma criança de 2 anos de idade faça o que bem entende, 
acreditando que em algum momento mágico ela irá descobrir por 
si própria os Imperativos Categóricos de Kant e passará a se 
comportar de modo Bom e Correto, é uma bizarrice estúpida. 
 
 
Uma criança que sempre consegue o que quer, do jeito e na 
hora que quer, que nunca é apropriadamente punida pelo seu 
mau comportamento, que nunca é repreendida por desrespeitar 
uma autoridade ou por tirar notas baixas na escola, jamais irá 
aprender a lidar com a frustração ou qualquer sentimento de 
perda. Ao atingir a idade adulta, como este projeto de desastre irá 
lidar com um subemprego, uma demissão, um divórcio, o 
falecimento de um ente querido, a perda de um animal de 
estimação, o desapontamento em um relacionamento ou o 
excesso de peso? 
Não é atribuição de um pai ou de uma mãe tornar seus filhos 
satisfeitos e felizes o tempo inteiro – o mundo não é um feriado 
em um resort de verão, e pais e mães não são animadores infantis 
vestindo trajes de iguana cor de rosa. O papel dos progenitores 
consiste em certificar de que seus filhos saibam que são amados e 
estão seguros, e de que possuem o conhecimento e as habilidades 
necessários para enfrentar as vicissitudes e manusear por si as 
tristezas do mundo. Infelizmente, o individualismo subjetivista e 
o Relativismo progressista do século XX parecem ter guardado 
esta maturidade em uma caixa cuidadosamente selada – e 
cortado seu suprimento de oxigênio. 
 
 
5. A INVENÇÃO DA ADOLESCÊNCIA 
 
A adolescência é definida como o intervalo entre a puberdade 
e a idadeadulta. Por sua vez, a puberdade se inicia quando a 
hipófise começa a estimular a produção de hormônios sexuais 
(testosterona nos meninos, estrogênio e progesterona nas 
meninas), desencadeando o desenvolvimento dos caracteres 
sexuais primários, como aumento dos testículos e do pênis, e 
maturação dos ovários, do útero e da vagina. Na sequência, os 
caracteres sexuais secundários vão surgindo: os meninos 
ganham pelos púbicos, no rosto e nas axilas, além de uma voz 
mais grossa; as meninas ganham seios, quadris, menstruação e 
alguns pelos também. 
 
 
Apesar do momento da puberdade variar um bocado, a idade 
média do evento está entre 9-14 anos para as meninas e 10-17 
anos para os meninos, e este momento possui consequências 
psicológicas importantes: meninos que maturam mais cedo 
ganham algumas vantagens, pois se tornam mais altos e mais 
fortes e, por conseguinte, mais populares. Mas eles também 
apresentam um risco maior para delinquência, abuso de álcool e 
drogas, doenças sexualmente transmissíveis e produção de filhos 
não programados. Por seu lado, meninas que maturam 
precocemente também enfrentam desafios como assédio sexual, 
problemas emocionais, baixa autoestima e maiores índices de 
depressão, ansiedade e transtornos alimentares. 
A erupção dos processos biológicos das adolescência provoca 
surtos de empatia, irritabilidade, altruísmo, agressividade, 
romance, intimidade e comportamentos pró-sociais. 
Simultaneamente, os julgamentos aumentam e passam a se 
tornar mais relevantes para o indivíduo e seu círculo de amigos. 
O início da vida Moral apresenta aos adolescentes desafios, 
compreensões, oportunidades e habilidades inéditas. Eles estão 
abertos a uma rica variedade de influências e mudam 
consideravelmente em virtude disso, com uma Deontologia 
vertiginosamente fluida e pluralista. Contudo, diferente do que 
ocorria na infância, o adolescente representa um agente Moral 
ativo e – até certa medida – independente, devendo assumir 
novos papeis e obrigações enquanto navega em seu novo contexto 
sociocultural. 
Além das alterações no corpo, é durante a adolescência que a 
Identidade Pessoal começa a exteriorizar suas características 
mais marcantes, e o senso de responsabilidade e o desassossego 
da demanda por independência estreiam seu teatro. Todavia, esta 
ideia de que crianças levam décadas para tornarem-se adultas, 
passando por um intervalo de “adolescência” e de “adultos 
jovens”, é uma concepção relativamente recente na evolução de 
nossa espécie. Anteriormente, esperava-se que as crianças 
absorvessem o know-how de seus pais e alcançassem a idade 
adulta assim que chegassem à puberdade: a longevidade estreita 
 
 
não deixava muito espaço entre a Causalidade Formal e a 
Causalidade Final. Assim, quando as pessoas se casavam no 
começo dos 20 anos ou ainda mais cedo, o período denominado 
“adolescência” durava no máximo 10 anos, iniciando-se por volta 
dos 12 e terminando aos 20 anos de idade. Durante este hiato, a 
criança arrumava uma profissão e instituía sua própria família. 
Hoje, a maturação se tornou mais lenta, os laços com os pais são 
mantidos por um prazo maior, e a adolescência passou a se 
estender até os 24 anos de idade ou mais: 14% das mulheres e 
10% dos homens entre 25-34 anos de idade ainda moram com 
seus pais38. 
As mudanças dos conceitos sobre os estágios da vida é um 
exemplo notável de como a sociedade e o Estado, por meio de 
modulações na Janela de Overton de nossa Moralidade, são 
capazes de construir, difundir e efetivar suas próprias versões da 
Verdade substantiva: a “adolescência” raramente era 
mencionada antes do final do Século XIX. A análise de materiais 
escritos entre 1800 e 1875 mostra praticamente nenhuma 
utilização deste termo, aliada a uma preocupação muitíssimo 
discreta com este estágio da vida e seus comportamentos 
característicos. No passado, a puberdade chegava um pouco mais 
tarde, mas a ausência de supervisão dos pais chegava mais cedo. 
Romeu & Julieta e Peri & Cecília carregavam o peso do mundo 
em seus ombros – ainda que fosse um mundo bem menor que o 
mundo corrente. Mas as coisas mudaram. 
Desde meados do Século XIX, a puberdade tem retrocedido 1 
ano a cada intervalo de 25 anos. Atualmente, ela ocorre por volta 
dos 11-12 anos entre as meninas e 12-13 anos para os meninos – 
cerca de 6 anos mais cedo que em 1850. Ainda não se sabe direito 
a causa deste fenômeno, mas é possível que o início da puberdade 
esteja retroagindo devido à melhora da nutrição durante o 
período pré-natal e a infância. Independente dos motivos, o fato é 
que, por muitos milênios, um humano sexualmente maduro 
nunca foi tratado como uma Causalidade Formal ou uma criança 
em crescimento. Na época atual, indivíduos sexualmente 
maduros passam seis ou mais anos (digamos, dos 12 aos 18, e 
 
 
muitas vezes bem mais que isso) vivendo sob a tutela de seus 
pais. Para efeito de comparação, entre os primatas não-humanos, 
os indivíduos fisicamente maduros não são bem-vindos na 
família: a competição sexual torna essa convivência impossível. 
Mas, nestes e em outros animais, a maturidade física coincide 
com a maturidade mental, então a separação do indivíduo de seu 
núcleo familiar não constitui exatamente uma rejeição: é mais 
como uma promoção. 
Sem embargo, o cérebro humano não cresce no mesmo ritmo 
dos demais órgãos e sistemas, e a colisão entre a maturação 
física e a imaturidade mental não apenas confunde os pais, 
mas também lança o adolescente em situações caricatas. Por 
exemplo: eles se tornam intensamente interessados em fantasias 
amorosas, mas suas ideias de romance são absurdamente 
simples, culminando em bilhetes que são trocados na sala de aula 
ou postagens no Facebook dizendo coisas como “Você gosta de 
mim? Marque sim ou não”. 
A invenção da adolescência humana decorreu de três fatores 
principais: a aplicação da tecnologia para aumento da 
produtividade; a afluência de pessoas que este processo gerou, e a 
transição demográfica que o acompanhou. Graças ao ganho em 
tecnologia e em produção, as famílias puderam se tornar 
sistemas menores e biologicamente mais estáveis. A população 
adulta urbana cresceu e os adolescentes saíram da força de 
trabalho, sendo deslocados para as escolas. O aumento da 
dependência dos pais e do tempo livre foi rapidamente 
acompanhado da criação de produtos bem direcionados para este 
novo público e pronto! – a adolescência recebeu sua validação 
pelo mercado de consumo. Nas palavras de Schoen-Ferreira, “a 
sociedade contemporânea Ocidental estendeu o período da 
adolescência, que não é mais encarada apenas como uma 
preparação para a vida adulta, mas passou a adquirir um 
sentido em si mesma, como um estágio do ciclo vital”24. 
A puberdade não é o único marcador da adolescência. 
Também se observa um lento aumento da capacidade de 
pensamento abstrato e raciocínio relativo: os adolescentes 
 
 
tornam-se capazes de refletir sobre grandes tópicos – Morte, 
Destruição, Sentido da Vida –, porém essas reflexões tendem a 
gerar angústia e depressão. Eles estão sexualmente maduros, mas 
ainda vivem sob a dependência financeira e a vigília Moral dos 
pais – como diabos irão mudar o mundo desse jeito? 
A saída para este conflito ocorre através da descoberta 
intuitiva do Ceticismo e do Relativismo Moral pelos adolescentes, 
resultando em uma impugnação sistemática de todas as regras 
que lhe são apresentadas – como observou Spinoza, “a 
adolescência é aquela etapa da vida em que o humano aceita 
qualquer encargo contanto que se vingue dos pais”25. Eles 
levarão um tempo se lambuzando com o doce da contestação 
infinita até compreenderem quais brigas valem à pena e quais 
não valem. Enquanto procuram a autonomia que lhes falta, 
querem ficar sozinhos porque têm “coisas demais na cabeça”. 
Curiosamente, esse desejo de solitude deriva justamente da 
importância dos relacionamentos sociais: avaliar as vantagens e 
desvantagens das diversas situações Morais a que eles são 
expostosrequer um tempo sem fazer nada. 
A despeito do que quer que cause o humor típico do 
aborrecente, os hormônios recebem um crédito exagerado por 
isso. A produção hormonal que dá forma aos nossos corpos se 
inicia por volta dos 7-8 anos de idade, e as crises cansativas de 
humor ocorrem entre os 11 e 14 anos – nessa época, os 
hormônios já andavam pela vizinhança há alguns anos, 
eliminando deles uma boa carga da culpa. O mais provável é que 
os surtos histéricos da adolescência estejam relacionados à 
intensificação dos estados emocionais, ao aumento das cobranças 
sociais e escolares, ao fluxo de eventos e às novas incumbências 
frente a este mesmo fluxo de eventos – e não simplesmente às 
descargas hormonais. 
Durante a adolescência, o prestígio da família e da religião é 
vencido pela influência da cultura e dos círculos de amizade: na 
infância, são os pais que mediam o contato da criança com as 
instituições, monitoram suas amizades e controlam sua 
participação na vida cultural. De um modo geral, as crianças 
 
 
seguem regras para evitar problemas; os adolescentes, seguem 
regras apenas quando obtém alguma vantagem neste 
comportamento. Longe de ser uma conduta digna de punição, 
isto mostra o ponto onde o indivíduo deixa de agir para evitar 
punições (como uma criança ipso facto) e passa a trabalhar 
focado em resultados e recompensas (como um adulto provável). 
A partir de um conjunto extraordinário de estudos, a 
psicóloga americana Nancy Eisenberg mostrou que o julgamento 
Moral baseado na obediência às normas e aos valores 
internalizados apresenta um incremento entre a infância e a 
adolescência, ao passo que o raciocínio estereotipado (p.ex.: 
observância a Moralidades Normativas como “é importante 
ajudar”) sofre um decréscimo da infância até o final da 
adolescência. Ao mesmo tempo, o hedonismo aumenta durante a 
puberdade, especialmente entre os meninos, e a recém-
conquistada habilidade de pensar abstratamente capacita o 
adolescente a reconhecer que muitas regras são meras criações de 
outras pessoas26. Ao abandonar o Realismo Moral compulsório 
da família, ele vai criando um universo particular de Relativismos 
através de seu Ceticismo entusiasmado. Como qualquer humano, 
sente-se apaixonado pelo código de ética que elaborou, e adora 
organizar e participar de demonstrações e protestos que projetem 
suas convicções ingênuas sobre o mundo. 
Existem várias teorias sobre como e quando a Identidade 
Pessoal dos adolescentes inicia o processo de formatação de sua 
Moralidade particular. A teoria de desenvolvimento de Jean 
Piaget (1896-1980), por exemplo, centra-se no conceito de que 
jogos simples moldam e revelam nossa bússola Moral: crianças 
muito novas podem explicar que as regras de um determinado 
jogo devem ser seguidas porque alguém lhes disse para segui-las. 
Crianças mais velhas podem explicar que as regras devem ser 
seguidas, pois assim o grupo inteiro pode brincar, mostrando um 
progresso na direção de um Consequencialismo mais maduro. 
Segundo Piaget, o nível mais elevado de pensamento atingível 
por um humano só é alcançado a partir dos 12 anos de idade, 
quando nos tornamos capazes de empregar hipóteses, sistemas 
 
 
de tentativa e erro, e abstrações a partir de conclusões lógicas e 
científicas. 
Partindo dos argumentos de Piaget, o psicólogo Lawrence 
Kohlberg (1927-1987) elaborou sua própria teoria de 
desenvolvimento cognitivo ao avaliar um grupo de meninos com 
idades entre 10 e 16 anos, contando-lhes histórias com dilemas 
Morais e solicitando-lhes que descrevessem como resolveriam 
cada situação. Com base nos resultados, Kohlberg sugeriu que 
consideramos as regras como fixas e absolutas até por volta dos 
10 anos de idade. A partir desta faixa etária, passamos a elaborar 
julgamentos mais baseados em intenções que em resultados 
finais: crianças de 11 anos, por exemplo, tendem a julgar de modo 
mais severo alguém que fez algo ruim e machucou outra pessoa 
que alguém que fez algo bom e, inadvertidamente, causou o 
mesmo resultado – é a intenção que conta. 
Aos 14-18 anos de idade, já somos donos de nossos próprios 
códigos Morais, mas as atitudes tendem a não ser muito 
congruentes com nossas conclusões. Isto não acontece por 
maldade ou hipocrisia: o adolescente típico simplesmente ainda 
não foi capaz de conectar suas convicções às suas atitudes. A 
partir dos 18-21 anos, esta sintonia se torna mais natural, assim 
como a definição de conceitos sólidos sobre justiça, paz e 
patriotismo. 
É impossível negar a utilidade das teorias de Kohlberg, assim 
como é impossível negar que elas são demasiadamente 
simplistas. Primeiro: os dilemas propostos são artificiais, 
excessivamente hipotéticos e carecem de validade “ecológica” – 
os contextos expostos por Kohlberg em seus dilemas são pouco 
familiares para a maioria das pessoas. Segundo: sua amostra é 
absurdamente androcentrada (Kohlberg avaliou apenas 
meninos). Terceiro: até agora, o argumento de que existem 
estágios circunstanciais ímpares no desenvolvimento da 
Moralidade não conseguiu ser comprovado de modo irrefutável. 
Por último, Kohlberg parece defender que a justiça é o princípio 
Moral mais importante, negligenciando a voz de compaixão, afeto 
e não-violência associada à socialização do sexo feminino. 
 
 
Kohlberg errou ao não perceber que as mulheres abordam os 
problemas Morais com uma perspectiva de “ética de cuidados” e 
não uma “ética de justiça” – e isso desmonta a universalidade de 
sua teoria27. 
Independente de como a Moralidade se desenvolve no 
adolescente – se em estágios sequenciais bem determinados ou 
em surtos psicodélicos de certezas transitórias –, sabe-se que a 
adequação do julgamento Moral depende grandemente do nível 
de criação a que o indivíduo foi submetido: pais apoiadores e 
estimuladores refinam a capacidade de julgamento, e o mesmo 
ocorre com pais mais rígidos e autoritários. Em contrapartida, 
experiências traumáticas como abusos, violência, abandono ou 
falecimento de entes queridos, por exemplo, interferem neste 
desenvolvimento, fazendo o adolescente enxergar o mundo como 
um lugar essencialmente ruim e injusto. Na ausência de uma 
bússola adequada, eles podem jamais atingir a plenitude de suas 
vidas, enfrentando grandes dificuldades para estabelecer 
relacionamentos interpessoais significativos e recompensadores. 
As evidências sugerem que a melhor maneira para fomentar 
a capacidade de emitir julgamentos Morais adequados na 
adolescência consiste em utilizar, desde a infância, um método 
Socrático de argumentação, encorajando a criança a formar suas 
próprias opiniões, raciocinando sobre elas sob a orientação de 
seus responsáveis. Pais excessivamente críticos que emitem 
opiniões sempre hostis, interferindo no processo de raciocínio de 
seus filhotes, ou que interagem expressando uma profusão de 
mecanismos de defesa do ego (como negação, racionalização, 
repressão, deslocamento, projeção ou sublimação, por exemplo), 
impedem que a criança avance na direção de uma compreensão 
mais madura do mundo. 
Os adolescentes sempre parecem agir de modo impulsivo e 
isto pode se dever à falta de maturação do córtex pré-frontal e do 
sistema límbico. Ainda que as mudanças mais frenéticas ocorram 
durante a infância, o cérebro continua a se desenvolver ao longo 
da adolescência, terminando seu processo de maturação após os 
20 anos de idade. As habilidades cognitivas adquiridas com a 
 
 
puberdade, associadas à imaturidade dos centros cerebrais 
relacionados, produzem o típico comportamento egocentrado do 
adolescente: ele acha que sabe mais que todo mundo e 
especialmente mais que seus pais. Como pensa o tempo todo em 
si, ele equivocadamente acredita que os outros estão fazendo o 
mesmo, e seu comportamento em público não raramente é 
bizarro, variando da timidez ao exibicionismo ridículo. 
A busca por uma Identidade Pessoal estável pode levar vários 
anos, e o adolescente frequentemente testa várias identidades 
diferentes antes de decidir-sepor uma. Ele pode manter uma 
identidade em casa e vestir-se de outra persona completamente 
diferente com seus amigos. As “gangues” e “tribos”, além de 
oferecerem a oportunidade de testar figuras diferentes, também 
ofertam um senso de conforto e pertencimento. Apesar de a 
montanha russa de mudanças ser estafante, a maioria dos 
humanos ultrapassa a adolescência com algum sucesso. Por 
exemplo: mais de 75% dos adolescentes experimentam álcool em 
algum momento, mas apenas 15% se tornarão alcoólatras na 
idade adulta28,29. 
Observando a longa adolescência de fora, é fácil perceber 
como nossa Pós-Modernidade valoriza o jovem em grande parte 
por ser jovem, pelas suas características físicas de jovem, pelas 
ideias libertárias e seu Relativismo descompromissado de jovem, 
e não por demonstrações de vontade, engajamento e domínio das 
habilidades necessárias para tornar o mundo um lugar melhor 
para todos. Isso é um erro. A filosofia que deveríamos tatuar na 
mente de nossos filhotes deveria ser a seguinte: se você não é 
mais criança, então trate de colocar-se rapidamente à altura das 
competências do mundo adulto. E as competências do mundo 
adulto não dizem respeito apenas à capacitação profissional: elas 
vão além da celebração permissiva do deslumbramento frívolo 
com o descompromisso, e incluem doses generosas da boa e 
velha Ética das Virtudes de Aristóteles e suas fortes noções de 
decência, honra, disciplina, generosidade, empatia e tolerância. 
Sim, é fato que o adolescente confronta a tradição com um 
espírito de puro Ceticismo Moral. Ele não medirá esforços e 
 
 
empregará todas as armas que puder dispor para destruir as 
Verdades que lhe cercam; arrancará sem piedade as raízes de 
expectativas de seus pais, frustrará propositadamente seus 
professores, desenvolverá uma religiosidade conflitante com 
aquela predominante em seu meio, romperá com os gostos 
musicais da geração anterior, inventará roupas, tatuagens, 
piercings, penteados, acessórios, combinações esdrúxulas de 
cores e tudo mais que for escandaloso e ultrajante. Seu espírito 
cético não conhecerá limites. E de tal forma se empenhará nessa 
desconstrução que nos faz pensar que dentro da cada adolescente 
mora um pequeno Nietzsche – ou, talvez, tenha sido Nietzsche o 
protótipo do adolescente de 30 anos com o qual nos deparamos 
hoje. 
Quaisquer que sejam os motivos – hormônios, influências da 
tribo, imaturidade cognitiva ou simplesmente rebeldia sem causa 
–, não se pode negar que a adolescência cumpre um papel de 
extrema relevância em nossa sociedade: é através de sua 
balbúrdia irreverente que somos compelidos a reforçar a Razão 
embutida em nossas convicções ou simplesmente abandoná-la 
por completo, como lixos culturais de uma geração que não soube 
produzir verdades suficientemente fundamentadas em Lógica. As 
provocações impiedosas da adolescência nos empurram da 
estagnação em direção a um precipício Relativista de cujo 
desfecho fatal só seremos salvos se formos capazes de produzir 
um Realismo Moral rejuvenescido, mais vigoroso e lúcido que o 
anterior. 
Talvez a consciência da transitoriedade de muitos de nossos 
dogmas mais queridos – e a certeza de que uma fração 
considerável destas hipocrisias será esmagada pelo Ceticismo da 
juventude – responda em parte pelo deslumbre assustado que os 
adultos nutrem com a fase da adolescência: de que adianta 
tornamo-nos sábios se nossa sabedoria será revelada pura 
estupidez daqui 10 ou 20 anos? Todavia, justamente este é o 
maior risco da adoção generalizada do Relativismo travestido de 
Realismo Moral como ferramenta de defesa contra o ataque do 
Ceticismo juvenil: o risco de perdermos completamente os 
 
 
parâmetros razoáveis do que é Bom e Correto, entregando, uma 
geração após a outra, o fardo de ter de inventar a roda e descobrir 
o fogo novamente e novamente e eternamente. Quando 
embarcamos sem restrições na onda da veneração da 
adolescência, trocamos as Verdades substantivas duramente 
conquistadas por milênios de frustrações por um lema como o do 
Gato de Cheshire em Alice no País das Maravilhas: “para quem 
não sabe para onde está indo, qualquer destino se presta”... 
Se pretendemos ter alguma esperança viável em nossa 
racionalidade, precisamos deixar a Permissividade de lado, 
abandonando o viés de mimar crianças e adolescentes como se 
fossem Causalidades Finais absolutas. Ao mesmo tempo, temos 
que assumir a obrigação de revisar todos os nossos Imperativos 
Categóricos com honestidade e antecipação, entregando aos mais 
jovens o ouro de nossa sapiência ao invés do fedor de nossos 
escrúpulos inexatos. Afinal, uma das coisas às quais a 
adolescência mais se presta é denunciar as mentiras que seus pais 
e avós semearam diligentemente, anos a fio – e apenas por isto 
esta fase estapafúrdia da vida já mereceria toda nossa estima. 
 
 
6. QUEM TEM FILHOS É MAIS FELIZ? 
 
Se você fizer uma reflexão rápida ou questionar as pessoas 
que conhece, perguntando “ter filhos é uma fonte inegável de 
alegria?”, a resposta será um “sim!” na esmagadora maioria dos 
casos. Não é à toa que somamos mais de 7 bilhões de pessoas no 
mundo: além de produzir Felicidade, o sexo também produz 
filhos, e eventualmente o segundo propósito predomina sobre o 
primeiro. Fazemos sexo para produzir descendentes que, 
achamos, resultarão em mais Felicidade no futuro. 
A percepção de Felicidade depende de fatores como renda, 
empregabilidade, estado civil, religiosidade, nível de educação, 
qualidade de moradia, taxas locais de criminalidade, traços de 
personalidade geneticamente programados, etc. Como não 
poderia deixar de ser, os filhos são uma variável importante nesta 
 
 
equação, pois oferecem um mar de possibilidades para 
gratificação, identificação pessoal, propósito de vida, conexão 
com outras pessoas e – teoricamente – melhora da autoestima e 
da saúde mental39. 
Alguns dizem que ser pai ou mãe é uma experiência 
transformadora, com uma relação única de custos e benefícios; 
outros afirmam que o efeito global de “ter filhos” sobre a 
Felicidade é zero; e outros dizem que filhos são um passaporte 
certo para a apreensão, o desprazer e a infelicidade36,37,38. Qual 
dessas afirmações é a mais correta? Bem, tudo dependerá de sua 
configuração... 
A favor da crença de que “filhos trazem Felicidade”, podemos 
afirmar que pessoas que têm filhos em idade mais avançada e 
possuem níveis educacionais melhores, tendem a ser mais felizes 
com eles. De um modo geral, um segundo filho aumenta a 
felicidade, mas um terceiro não40. Entre mulheres pobres, a 
maternidade oferece significado e propósito em suas vidas, e, de 
um modo geral, o nascimento de um filho traz mais felicidade 
para as mulheres que para os homens – mas esta diferença 
desaparece quando a criança atinge 2-3 anos de idade38,41. 
Apesar de homens e mulheres que tiveram filhos antes dos 23 
anos apresentarem uma incidência um pouco maior de depressão 
que aqueles sem filhos, após esta idade, ter filhos diminui o risco 
para o transtorno. Por exemplo: a partir dos 70 anos de idade, 
homens que não tiveram filhos apresentam uma incidência maior 
de depressão e sentimento de solidão. Apesar da falta de 
altruísmo nesta intenção, filhos adultos exercem um impacto 
positivo no bem-estar de seus pais, sendo uma fonte potencial de 
auxílio para pais e mães na velhice38. 
Na somatória destas evidências, seria de se pensar que a 
afirmação “filhos trazem Felicidade” estaria correta acima de 
qualquer dúvida. Não obstante, enquanto as mães tendem a se 
estressar com os conflitos entre a maternidade e seu desempenho 
profissional, os pais preocupam-se com a carga financeira 
associada às crianças. Em ambos os casos, a preocupação se 
 
 
instala, colocando a Felicidade em risco. E os problemas não 
param aí. 
Recentemente, o baixo nível de bem-estar emocional 
encontrado entre pessoas com filhos quando comparadas com 
pessoas sem filhos em países desenvolvidos levantou a 
curiosidade de cientistas,políticos e do público em geral. Pessoas 
morando com filhos pequenos relatam uma maior incidência de 
sintomas de depressão, ansiedade, estresse, raiva e infelicidade 
que pessoas sem filhos ou com filhos que moram fora de casa. Se 
porventura a opção escolhida foi não ter filhos em qualquer 
idade, isso não resulta em um aumento na incidência de 
problemas psicológicos com o passar dos anos: pessoas que 
nunca tiveram filhos não referem uma percepção de Felicidade 
menor que pessoas cujos filhos cresceram e saíram de casa37,38,39. 
O fenômeno de que os filhos podem comprometer a 
Felicidade – ou não estão necessariamente associados a ela – 
parece ter começado com as revoluções sociais que marcaram o 
início da década de 1970. Foi a partir desta época que as 
recompensas emocionais de ter filhos passaram a ser 
massacradas pelos custos emocionais e financeiros da Pós-
Modernidade, e os filhos começaram a ser associados a sintomas 
e emoções negativas como raiva, incerteza e diminuição da 
percepção global de Felicidade. 
De fato, a paternidade ou a maternidade per se não prediz 
Felicidade. Quando ocorre na adolescência, o evento compromete 
o ganho de educação formal e as oportunidades de trabalho, além 
de aumentar a instabilidade marital – fatores que podem minar a 
Felicidade no curto e no longo prazo. Como consequência, em 
1975, 15% das mulheres norte-americanas com menos de 35 anos 
não tinham filhos. Em 2000 este porcentual atingiu 28% – e isto 
em um país desenvolvido, onde ter filhos é mais uma escolha 
hedônica detalhadamente antecipada que um acidente de 
percurso38. Em países subdesenvolvidos, o buraco é mais fundo, 
uma vez que o planejamento familiar não é tão eficaz ou 
voluntário e os filhos ocorrem em pais com idades mais tenras. 
Como consequência, nestes locais, a maioria dos pais refere que 
 
 
ter filhos causou uma diminuição de sua percepção geral de 
Felicidade37. 
A conclusão é que, se sua vida emocional está madura e 
estável, você já passou dos 30 anos de idade, tem boa educação, 
boa renda e boa moradia, e os filhos (de preferência em número 
de dois) foram fruto de uma escolha voluntária e não de um 
tropeço no seu percurso, você experimentará um aumento da sua 
Felicidade assim que eles passarem dos 3 anos de idade. Se 
algum desses itens não corresponde ao seu perfil (por exemplo: 
sua vida conjugal está uma porcaria ou você tem menos de 30 
anos e produziu uma ou mais crianças por negligência ou 
imperícia), é quase certo que os filhos diminuirão sua percepção 
de Felicidade. 
Finalmente, caso sua opção tenha sido “não ter filhos”, ao 
longo de sua vida você provavelmente experimentará uma 
Felicidade mais contínua que pessoas que tiveram filhos, porém 
com uma ressalva: se você for homem e chegar solteiro e sem 
filhos aos 70 anos de idade, as apostas estarão contra você. 
 
 
7. CASAIS GAYS E EVIDÊNCIAS 
 
Assim como o Iluminismo transformou para sempre o 
relacionamento entre Razão e Religião, e Alva J. Fisher 
transformou para sempre o modo como você lava suas roupas, o 
Pós-Modernismo transformou para sempre o conceito de núcleo 
familiar. Mas isso não significa que a “família tradicional” esteja 
se desfazendo ou desaparecendo: ela está se re-significando. 
Enquanto você debatia durante o almoço sobre a validade de 
famílias homoafetivas, a taxa de divórcios no Brasil aumentava 
160% entre 2004 e 2014 – motivada, principalmente, por casos 
de infidelidade, problemas financeiros e pela maior aceitação 
social deste status conjugal. Aproximadamente 2% dos casais 
heterossexuais casados divorciam-se por ano, enquanto a cifra é 
de 1% entre os casais homossexuais. Será que a “família 
 
 
tradicional” que você tem em mente guarda mesmo o segredo 
para lares mais felizes e longevos? 
“Ah, mas casais homossexuais não se reproduzem segundo as 
leis da natureza!”. Sim, isso é óbvio, e é também um dos motivos 
porque sociólogos, biólogos, antropólogos, psicólogos e médicos 
ainda quebram a cabeça para entender exatamente como o 
comportamento homossexual se manteve em nossa espécie, dado 
seu viés reprodutivo negativo. 
 Todavia, a despeito do assombro desses especialistas, 
considerando as mais de 5.000 crianças inscritas no Cadastro 
Nacional de Adoção, além das dezenas de milhares de outras 
abrigadas ou institucionalizadas devido insuficiência de recursos 
materiais de suas famílias, abandono, violência doméstica, 
envolvimento de drogas pelos pais ou responsáveis ou situação de 
rua, isso para não falar dos recursos de reprodução assistida, não 
acredito que casais “não-tradicionais” encontrarão dificuldade 
para estabelecer seus próprios núcleos familiares com filhos – 
exceto, é claro, pelo nariz torcido daqueles que se dizem 
defensores da “família tradicional”. 
Com o aumento da tolerância social às uniões homossexuais, 
estes casais vêm se tornando mais abertos quanto aos seus 
relacionamentos, buscando oportunidades de adoção e técnicas 
de reprodução. Casais homoafetivos não estão apenas se 
tornando mais comuns, mas os filhos criados em lares assim 
também. Por ser um fenômeno tão recente, as críticas e as 
dúvidas quanto a este novo formato de família tem atraído 
grande atenção e controvérsia, e atravessamos uma verdadeira 
batalha cultural e legal para determinar se esta configuração 
familiar deve ser permitida ou mesmo aceita. 
Nos últimos cinquenta anos, fatores como o aumento da taxa 
de divórcios, a liberdade sexual e o avanço das mulheres no 
mercado de trabalho contribuíram para que o núcleo familiar 
heterossexual estável fosse perdendo seu monopólio. Na década 
de 1960, 80% das crianças nos EUA vivam em lares com ambos 
os pais devidamente casados. Em 2011, esta proporção caiu para 
69%, e, atualmente, encontramos crianças vivendo em lares com 
 
 
configurações bem variadas: 11% das crianças americanas vivem 
em lares com mães divorciadas, 1,7% com pais divorciados, e 
3,9% com casais sob união estável. 
Em 2000, havia cerca de 600 mil lares constituídos por 
pessoas do mesmo sexo nos EUA. Em 2006, 35% dos casais 
homossexuais femininos e 22% dos casais homossexuais 
masculinos estavam criando filhos. As estimativas sobre crianças 
vivendo em lares homossexuais são desconhecidas, mas alguns 
levantamentos estimam que elas totalizem algo entre 1 e 9 
milhões42,43. Estatisticamente, casais homossexuais masculinos 
tendem a adotar meninos e casais femininos, meninas44. Ainda 
não está claro se isso decorre de políticas das agências de adoção 
ou de preferências expressas pelos casais. Meio século atrás, 
todos estes dados seriam ultrajantes, mas – como você já deve ter 
percebido – os tempos estão mudando. E rápido. 
Moralmente, podemos abordar os lares homossexuais 
segundo dois pontos de vista: um Deontológico e outro Utilitário. 
Para condenar este tipo de matrimônio, os Deontologistas se 
apoiam em defesas de uma suposta racionalidade, nas “leis da 
Natureza” e na “vontade de deus”, sem se importar muito com as 
consequências de seus julgamentos ou com o que as evidências 
científicas mostram. Por outro lado, os Utilitaristas colocam o 
foco no bem-estar das crianças, que deveria ser a questão objetiva 
e crucial nesta situação. 
Um dos primeiros argumentos utilizados para condenar 
famílias homoafetivas com filhos consiste em salientar a 
importância das figuras distintas do pai e da mãe para 
identificação sexual de seus filhos: a sociedade em geral – e os 
homens em particular – consideram que crianças de lares 
homossexuais apresentarão mais problemas de identidade sexual 
que crianças de lares heterossexuais. De fato, crianças de lares 
homossexuais exibem menos comportamentos sexuais 
estereotipados que crianças de lares heterossexuais: 35% das 
crianças em lares homossexuais optam por uma orientação 
homossexual, sendo as meninas criadas por mães lésbicas são 
especialmente propensas neste sentido44-46. Quando 
 
 
consideramos que a prevalência geral da homossexualidade é de 
cerca de 7% para homense 3% para mulheres, fica evidente a 
influência de ter um modelo masculino e feminino dentro de casa 
e o grau em que a identificação de gênero se sujeita à 
manipulação do ambiente familial34,47,48. Todavia, é válido 
lembrar que a definição da identidade sexual depende de uma 
interação complexa entre mecanismos biológicos, psicológicos e 
sociais, sendo que os pais desempenham algum papel neste 
processo, mas não o determinam em absoluto. Se fosse diferente 
disso, simplesmente não veríamos surgir pessoas homossexuais 
em núcleos familiares heterossexuais. 
A argumentação denunciando o viés na identificação sexual 
das crianças criadas por pais homossexuais seria válida se 
considerássemos a homossexualidade algum tipo de problema, 
patologia, doença mental ou dano – algo que ela certamente não 
é. A homossexualidade pode ser uma desvantagem, mas isso 
ocorre principalmente devido às reações hostis de uma sociedade 
homofóbica. Assim, deixando de lado a hipocrisia do Moralismo 
de gênero e enveredando pelo frio raciocínio Utilitário, seria mais 
honesto avaliar as crianças de lares homossexuais quanto à sua 
estabilidade psicológica-emocional e seu desempenho 
educacional. Exploremos então a primeira premissa: a 
estabilidade psicológica e emocional. 
As crianças preferem suas mães aos pais quando procuram 
alívio de fome, medo, doença ou outro sintoma estressante: as 
mães tendem a ser mais consoladoras e responsivas aos lamentos 
das crianças, além de serem melhores que os pais para 
determinar o estado emocional de sua prole. Crianças privadas 
do contato materno por longos períodos no começo de suas vidas 
tendem a apresentar baixa empatia, relacionamentos superficiais 
e prevalência de desconfiança, traços hostis e comportamentos 
antissociais. Os pais também colaboram para a formação de 
traços distintos: eles são a principal fonte de noções de disciplina 
e estímulo para enfrentamento de desafios. Fornecem um modelo 
essencial para os meninos e sua presença no lar fortalece a 
capacidade da criança em se sentir segura34. 
 
 
Ao avaliar a importância das figuras materna e paterna para 
as crianças, alguns estudos mostraram que crianças de lares 
homossexuais apresentam uma prevalência de problemas 
emocionais duas vezes maior que crianças criadas em lares 
heterossexuais49,50. Quando comparamos mulheres criadas com 
uma figura paterna heterossexual com mulheres criadas por um 
pai homossexual ou bissexual, estas últimas apresentam maior 
dificuldade para desenvolver vínculos íntimos na idade adulta, 
tornando-se mais desconfiadas e ansiosas quanto aos seus 
relacionamentos51. Para completar, segundo alguns especialistas, 
crianças concebidas por meio de inseminação artificial e criadas 
em lares homossexuais tendem a se tornar adultos mais confusos, 
que se sentem mais isolados de suas famílias e com uma maior 
incidência de sintomas psicossomáticos, depressão, 
agressividade, problemas de adequação social, comportamentos 
delinquentes e abuso de drogas que crianças concebidas 
naturalmente e criadas em lares heterossexuais49,52. 
Com relação ao desempenho educacional, um estudo 
envolvendo 174 crianças do ensino primário na Austrália 
comparou crianças vivendo sob um regime de casamento 
heterossexual, sob um regime de união estável heterossexual e 
sob uniões homossexuais. Os autores descobriram que crianças 
vivendo em lares sob casamentos heterossexuais apresentavam 
uma performance escolar superior a de crianças de lares sob 
união estável heterossexual – e ambas eram superiores ao 
desempenho de crianças de lares de casais homossexuais53. 
Outro estudo, desta vez realizado no Canadá, revelou que 
crianças de lares de casais homossexuais apresentavam uma 
chance de apenas 65% de terminar o ensino médio quando 
comparadas a crianças de lares heterossexuais, e isso foi 
especialmente válido para meninas criadas por casais lésbicos. 
Em todos os quatro principais tipos de arranjo avaliados pelos 
pesquisadores (união estável, casais homossexuais, mães 
solteiras e pais solteiros), o desempenho escolar de crianças de 
lares homossexuais mostrou ser inferior àquele observado em 
lares constituídos por um casal heterossexual oficialmente 
 
 
casado54. Entretanto, é preciso escrutinar outros lados dessa 
moeda: 
Se acreditarmos que os índices desfavoráveis em quesitos 
psicológicos e acadêmicos de crianças de lares homossexuais são 
conclusivos e inquestionáveis, é no mínimo razoável adicionar a 
este raciocínio o fato de que muitas crianças adotadas por casais 
homossexuais vêm de situações desfavoráveis como orfanatos, 
famílias em péssimas situações socioeconômicas ou casais 
heterossexuais que perderam sua guarda devido situações de 
violência doméstica, por exemplo. Nos EUA, as agências de 
adoção tendem a colocar as crianças com os históricos mais 
complicados e com maior incidência de problemas prévios de 
comportamento em lares homossexuais, dificultando a 
comparação do desenvolvimento e ajuste social destas crianças 
com aquelas adotadas por lares heterossexuais44. Não obstante, 
as pesquisas avaliando negativamente o potencial de crianças de 
lares homossexuais estão longe de serem axiomáticas. 
Por exemplo: avaliações realizadas em famílias compostas 
por casais homossexuais na Espanha e no Brasil apontaram que 
eles são tão capazes de proporcionar um desenvolvimento 
saudável para suas crianças quanto casais heterossexuais30. E 
mais: filhos de casais homossexuais com frequência referem 
aprendizados positivos de justiça, compaixão, pluralismo, 
tolerância e empatia, e adolescentes vivendo em lares 
homossexuais apresentam índices de estabilidade psicológica que 
não diferem de adolescentes criados em lares heterossexuais. 
Novamente, é a qualidade do ambiente no lar – e não a 
orientação sexual dos pais – que determina as diferenças de 
desenvolvimento dos filhos52,55. 
Em 2014, um estudo realizado pelo Departamento de 
Sociologia e pelo Centro de Pesquisas Demográficas da Bowling 
Green State University (Ohio, EUA), mostrou que as diferenças 
de bem-estar, desempenho escolar, desenvolvimento cognitivo, 
adequação do relacionamento interpessoal, atividade sexual e 
abuso de drogas entre as crianças dependem muito mais de 
circunstâncias socioeconômicas e da estabilidade do núcleo 
 
 
familiar que da identidade de gênero de seus pais ou mães38,56. 
Do ponto de vista delas, um divórcio tem mais impacto na 
percepção de bem-estar que ter um pai ou mãe que “saiu do 
armário”. E quando se trata de descobrir a homossexualidade de 
um dos pais, as crianças se sentem envergonhadas ou traídas 
quando o fazem por conta própria, mas nem tanto quando são 
comunicadas diretamente pelo pai ou pela mãe52. 
Finalmente, uma revisão da literatura especializada 
abordando trabalhos europeus e norte-americanos publicados 
entre 1978 e 2000 avaliou o desempenho psicológico, social e 
escolar de crianças de lares homossexuais, e não encontrou 
diferenças estatisticamente significativas entre estas e aquelas 
criadas em lares heterossexuais57. 
Como é possível perceber, os posicionamentos conservadores 
que sumariamente rotulam os lares homossexuais como nocivos 
para crianças estão muito mais relacionados a pré-conceitos 
culturais e estigmas de Moralidade religiosa que fundamentados 
em evidências científicas coletadas em campo. 
A maior parte da mitologia em torno do que ocorre quando 
uma criança é criada por um casal homossexual funda-se em uma 
fixação em considerar apenas núcleos familiares heterossexuais 
como “socialmente aceitáveis”. Sim, nem todo casal homossexual 
apresenta condições emocionais e econômicas para criar ou 
adotar uma criança, mas nem todo casal heterossexual idem. Por 
exemplo: notoriamente, crianças de lares de baixa renda 
apresentam desempenhos bem piores que aquelas de lares mais 
prósperos, e vários estudos mostram que problemas financeiros 
no núcleo familiar comprometem o desempenho escolar e o 
desenvolvimento emocional infantil,

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