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CENTRO UNIVERSITÁRIO UNIGRAN CAPITAL EZEQUIEL ELIAS FRANCISCO ÓRFÃOS DE PAIS VIVOS: UM OLHAR PSICANALÍTICO Campo Grande MS 2020 CENTRO UNIVERSITÁRIO UNIGRAN CAPITAL EZEQUIEL ELIAS FRANCISCO ÓRFÃOS DE PAIS VIVOS: UM OLHAR PSICANALÍTICO Trabalho de Conclusão de Curso em forma de artigo científico apresentado ao Curso de Psicologia do Centro Universitário UNIGRAN CAPITAL, como requisito parcial para obtenção do título de bacharel. Professor orientador: Prof. Dr. Jeferson Renato Montreozol. Campo Grande MS 2020 EZEQUIEL ELIAS FRANCISCO ÓRFÃOS DE PAIS VIVOS: UM OLHAR PSICANALÍTICO BANCA EXAMINADORA _______________________________________________________________ Prof. Dr. Jeferson Renato Montreozol ________________________________________________________________ Profa. Ma. Elaine Cristina da Fonseca Costa Pettengill ________________________________________________________________ Prof. Me. Sergio Moura Nonato da Silva Campo Grande MS 2020 Dedico esta produção aos professores que me ajudaram a construir toda a bagagem teórica até o presente momento, me auxiliaram na compreensão dos aspectos e dos modelos do fazer dentro da psicologia, e em especial ao meu orientador Prof. Dr. Jeferson Renato Montreozol. AGRADECIMENTOS Agradeço as pessoas mais próximas que tenho o privilégio de chamar de amigos, pois me é prazeroso recebê-las em casa, assim como é ser acolhido por elas em suas casas. À Tayná Mendonça Lazzari que tenho como irmã, com quem compartilho as alegrias, as tristezas, as séries, as comidas, as despesas, as tarefas domésticas, mas principalmente a companhia do dia a dia. À Carolina Ramos Guedes que conseguiu entender meu jeito estranho de ser por assim ser também, e que me propiciou espalhar meus choruminhos por sua cidade natal. Ao Everton Ferreira com quem posso ter diálogos intensos e produtivos, mas também curtir banalidades do cotidiano. À Ingrid Godois uma pessoinha que sempre tive vontade de ajudar e proteger, e que por diversas vezes me surpreendeu. Ao Jakson Yamashita, uma figura única, onde a companhia é um misto de constrangimento e alegria. E aos amigos, colegas e companheiros que de alguma forma contribuíram para este momento. “As grades do condomínio são para trazer proteção Mas também trazem a dúvida se é você que 'tá nessa prisão Me abrace e me dê um beijo Faça um filho comigo Mas não me deixe sentar na poltrona no dia de domingo, domingo Procurando novas drogas de aluguel Nesse vídeo coagido É pela paz que eu não quero seguir admitindo Às vezes eu falo com a vida Às vezes é ela quem diz Qual a paz que eu não quero Conservar para tentar ser feliz” (O Rapa - Minha Alma) SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 7 2 A CONDIÇÃO HISTÓRICO E SOCIAL DA FAMÍLIA .................................................. 9 3 AS FUNÇÕES PARENTAIS (PARENTALIDADE) E SUA FRAGILIZAÇÃO ............ 14 4 O FENÔMENO DA ORFANDADE FUNCIONAL E SUAS CONSEQUÊNCIAS, SOB O OLHAR DA PSICANÁLISE ........................................................................................ 18 4.1 LEITURA PELO NARCISISMO E SUA CULTURA ................................................... 22 4.2 LEITURA PELAS FASES DO DESENVOLVIMENTO INFANTIL (FREUD) .......... 24 4.3 LEITURA PELO PRINCÍPIO DE AUTORIDADE À CONFIANÇA (WINNICOTT) 27 4.4 FINALIZANDO LEITURAS E DISCUSSÕES ............................................................. 29 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................ 31 REFERÊNCIAS ....................................................................................................................... 31 7 ÓRFÃOS DE PAIS VIVOS: UM OLHAR PSICANALÍTICO Ezequiel Elias Francisco1 Jeferson Renato Montreozol2 RESUMO: A presente obra “Órfãos de pais vivos: um olhar psicanalítico” expressa as consequências da orfandade funcional (orfandade decorrente do abandono das responsabilidades parentais) para a vida dos filhos, família e sociedade, foi produzida em formato de pesquisa descritiva e bibliográfica. A busca pela literatura realizou-se nas bases de dados Scielo, BVS, Google Acadêmico e Jusbrasil, publicados entre os anos de 2000 a 2019. Também foram utilizados livros clássicos e modernos publicados entre os anos de 1969 a 2017, leis brasileiras entre 1988 e 2013, tese de mestrado de 2008 e pesquisas estatísticas entre os anos de 2006 e 2019. Para alcançar tal objetivo ela percorreu caminhos na historicidade desde a família tradicional, passando pela família triangular burguesa e chegando até as diversas configurações familiares na contemporaneidade, elencando então as transformações do laço social, o declínio do patriarcado e o lugar social ocupado pela mulher e pela criança no transcorrer desse período. Ela descreveu as funções parentais na era atual, salientou a análise de diversas formas de negligência parental e as correlacionou com as consequências na vida dos filhos (violência infantil e adolescente, toxicomania, alcoolismo, obesidade, tendências antissociais, delinquência, e desordem nas relações filiais e parentais), considerou a necessidade de serem realizadas pesquisas de campo para corroborar com os resultados identificados e finalizou oferecendo um alerta para pais e mães que acreditam ser este um fenômeno do qual seus filhos estão imunes, sem se atentarem para o fato de que as responsabilidades parentais cabem somente aos responsáveis pelas crianças. Palavras-chave: Família. Órfãos funcionais. Funções parentais. Psicanálise. Narcisismo. 1 INTRODUÇÃO A presente produção foi construída através de pesquisa descritiva e bibliográfica sob o tema da orfandade funcional. Tem como objetivo explicitar o problema apresentado, analisar sua origem, expressar suas consequências, apresentar dados relativos aos efeitos individuais e coletivos do problema, apresentar um olhar através da perspectiva da Psicanálise, e identificar prováveis desdobramentos na vida dos filhos em função da problemática do abandono das responsabilidades parentais. Para tanto, foram utilizados materiais já elaborados, como: livros, artigos científicos, periódicos, teses, dissertações, leis, revistas, documentos eletrônicos e enciclopédias. Foram 1 Acadêmico do curso de Psicologia, ezklinux@gmail.com 2 Professor Dr. do curso de Psicologia da UNIGRAN CAPITAL, Rua Abrão Júlio Rahe, 325, Campo Grande – MS, jeferson.montreozol@gmail.com 8 estabelecidos como principais fontes os artigos científicos dos bancos de dados da Scientific Eletronic Library Online (SciELO), Google Acadêmico, BVS Psicologia do Brasil e Portal Jurídico Jusbrasil, e que abordassem conhecimentos a respeito do tema já citado ou que possuíssem contribuições correlacionadas com ele. A pesquisa adentra na historicidade das definições dos modelos de família, inicia no fim da era medieval (século XV) com o modelo tradicional, e avança até as distintas configurações familiares no contexto contemporâneo. O percurso contempla também a transformação do laço social e das funções parentais, elenca os papéis dos integrantes da família e destaca o lugar da criança nesse espaço temporal. A família é o primeiro grupo social ao qual a criança adentra, nesta lhe são apresentadas diversas noções quanto ao mundo que ainda pode lhe ser estranho, noções essas sobre sua identidade, lugar, papel,com ricas experiencias para a formação de identidade familiar e subjetividade, ao mesmo tempo que em condições adversas onde os pais não conseguiram se posicionar de modo equilibrado quanto às suas funções, promovem um ambiente de liberdade excessiva, no qual os limites e regras não existem ou são frouxos, onde a carência pelo afeto não é suprima, mergulhando os filhos numa condição de orfandade funcional. Vivemos numa era de transformações, onde novas formas de relacionamento entre pais e filhos podem não se isentar de conflitos, pois valores tradicionais são postos em questão, e os novos modelos não se encontram consolidados, podendo culminar em impactos psicológicos, dificuldade de vínculos, desregulada associação entre amor e valor material, e possivelmente num distanciamento entre pais/mães e filhos. Faz-se necessário a construção de uma relação consistente entre pais/mães e filhos, onde a autoridade exercida não seja confundida com autoritarismo, e que haja respeito e entendimento das individualidades e diversos papeis no contexto familiar. Este trabalho não teve pretensão de apresentar fórmulas mágicas para os pais educarem seus filhos, nem para os órfãos de pais vivos saírem da condição a qual se encontram, mas sim exibir o porquê ocorre e como ocorre o fenômeno da orfandade funcional, servindo de mensagem e alerta aos pais/mães e filhos que se identificaram. 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Outro ponto explorado nessa pesquisa é o fenômeno da fragilização das funções parentais, as quais abrangem aspectos biológicos, psicológicos, sociais e jurídicos, e está associada ao novo lugar ocupado pela criança no contexto de suas famílias, ao desenvolvimento cientifico e tecnológico, e a cultura narcísica, onde os filhos são retratados como extensão de seus pais, planejados para exaltar características que seus responsáveis não possuíram ou não possuem, serem o que eles não foram, conquistar o que eles não alcançaram, e viver o que ele não viveram. Seguindo o percurso são apresentados conceitos da orfandade funcional e suas causas, então a pesquisa culmina nos desdobramentos, ou seja, nas consequências vividas pelos filhos órfãos de pais vivos, nos impactos psicológicos causados pela problemática, nas dificuldades de vínculos de relacionamentos, na desregulada ligação entre amor e valor material, e no distanciamento de pais e filhos. Nesta perspectiva, o presente texto está dividido em quatro capítulos posteriores à introdução, onde o primeiro discorre da condição histórica e social dos modelos familiares, o segundo aborda as funções parentais sob diversas perspectivas e sua fragilização, o terceiro explora o fenômeno da orfandade funcional, e o último expressa o olhar psicanalítico sobre o tema, promovendo a discussão dos resultados encontrados ao final do trabalho. Finalmente, através das contribuições sociais, históricas, jurídicas, e da perspectiva psicanalítica, a pretensão do trabalho foi identificar os desdobramentos para os filhos que 9 vivenciam o abandono das responsabilidades parentais em seus lares, fomentar as discussões sobre a temática, e analisar o impacto para o indivíduo, para a família e consequentemente para a sociedade. 2 A CONDIÇÃO HISTÓRICO E SOCIAL DA FAMÍLIA Tomando por base as produções de Ariès (1981), Julien (2000), Roudinesco (2003) e Siqueira (2016), durante muitos séculos o modelo de família tradicional/patriarcal se manteve predominante, tendo em vista que ainda nos tempos atuais estão presentes traços desse modelo. Os casamentos arranjados ocorriam com intuito de serem preservados ou expandidos os patrimônios, os títulos, o sangue, o nome familiar, as crenças, os princípios, e as tradições culturais. Para Julien (2000, p.10), “nas sociedades tradicionais ditas patriarcais os pais dividem entre si o poder na comunidade cívica, ao passo que o exercem absolutamente em suas próprias famílias. É a hierarquia que reina entre o pai e sua mulher, entre o pai e seus filhos”. Ainda segundo o autor, “a subordinação à autoridade de um mestre, chefe político e/ou religioso, era assegurada pelo pai da família, pois este fazia a lei, sendo imposta e obrigatoriamente aceita” (JULIEN, 2000 apud SIQUEIRA, 2016, p. 10). Vitorello (2011) apresenta que com o surgimento do Estado no século XVIII, o modelo familiar patriarcal sofreu uma grande derrota para o patriarcado estatal. “O poder do pai é enfraquecido na medida em que o Estado se solidifica como autoridade pública. Nesse processo de humanização do pai divino, a criança e a mãe ganham valor.” (VITORELLO, 2011, p. 10). Como consequência do declínio da família tradicional, surge a família triangular burguesa, que tem como base o amor romântico, sendo este o fator crucial para a construção das uniões conjugais e familiares, os sentimentos e desejos são selados pelo casamento, também se destaca o trabalho dividido entre o casal. As mudanças não cessam, e em meados do século XX foi intensificada, buscava-se união para satisfação e realização sexual, o patriarcado perdia força, divórcios, separações e recomposições conjugais se tornam comuns e frequentes (ROUDINESCO, 2003; SIQUEIRA, 2016). Ariès (1981), Costa Moreira, Bedran e Dojas Carellos (2011), e Siqueira (2016) relatam que acontecimentos como o trabalho das mulheres nas fabricas no período pós Revolução Industrial, a busca de direitos pelos movimentos feministas, a ocupação dos postos de trabalho antes exercidos apenas pelos homens (durante o período das guerras mundiais) e a 10 sua nova posição decisória na família, foram marcos da postura e importância das mulheres nessa época. O processo de transição das mulheres de seus lares para os postos de trabalho nesse período “[...] fez crescer os conflitos sociais, trazendo consequências para a vida dos filhos. Com a dificuldade de cuidar de todos os afazeres, as mulheres reivindicavam por direitos como escola, creches e auxílio maternidade” (SIQUEIRA, 2016, p. 12). Ariès (1981) aponta que durante o transcorrer dos séculos, a estrutura familiar passou por inúmeras transformações, e tais mudanças não afetaram apenas os homens (pais) e as mulheres (mães), mas interferiram diretamente na vida dos filhos, os quais durante a era medieval até o século XIX eram separados de suas mães logo após seus nascimentos e enviados às amas de leite até atingirem dois anos de idade, e depois aos sete enviados a outras famílias para serem instruídos em oficio, educação e valor humano. No final do século XIX, a família transformou-se profundamente na medida em que modificou suas relações internas com a criança. Nesse processo, a criança foi fundamental para entender o que estava ocorrendo na época e a necessidade de educá-la ou prepará-la para a vida futura passou a fazer parte da dinâmica familiar, tendo a escola como principal complemento. A criança passa a frequentar a escola e permanecer em seus lares, a família se distancia da sociedade para se fechar, cada vez mais, num espaço privado, devido a necessidade de intimidade e de identidade dos seus membros, fator este que se tornou constante na dinâmica da estrutura familiar. O ficar juntos demonstrou ser eficaz nas relações familiares (MEIRA; CENTA, 2003, p. 217). Felippe e Itaqui (2015) ao discorrem sobre o contexto histórico-familiar afirmam que “A Revolução Francesa é o marco principal para que a família pré-moderna sofra modificações em sua formação e constituição. [...] legitima-se a denominação de família nuclear. [...] a família torna-se uma das estruturas de base da sociedade.” (p. 107). A criança ganha espaço na família pré-moderna, uma amalgama de realidade doméstica e o mundo do trabalho é formada, a produção fabril acolhe tanto mulheres quanto crianças, a mortalidade ainda é elevada, mas as preocupações com os filhos ocupam lugar de destaque e seriedade, então os pais concentram-se em volta da criança, estabelecendo-se como protetores (MEIRA; CENTA, 2003, p. 217). [...] começa-se a valorizar a educação da criança, não só o clérigo teria direito de frequentar escola. Começa a existir uma preocupação de isolar a juventude do mundo adulto, dessa forma, os jovens frequentariam a escola juntamente com crianças, aprenderiam no meio delas e não mais nas casas de famílias aprendendo sobre a vida adulta. Isso acarreta também uma aproximação da criança com a família, pois os pais se concentraram na criança (FELIPPE; ITAQUI, 2015, p. 107). 11 Zanetti e Gomes (2011) apontam que com o estabelecimento da família moderna, as atenções voltadas à criança ganham ares de preservação da inocência, afastando-as de situações não condizentes com sua idade, principalmente de contextos de sexualidade, promovendo assim o desenvolver de seu caráter e sua razão. Assim, [...] a família moderna evoluiu, passando a ter uma nova conotação, o de família nuclear, formada pelo pai, mãe e seus filhos. [...] Formou-se o sentimento de família, que está diretamente ligado ao sentimento de infância que surgiram da uniãodo pai, da mãe e dos filhos. [...] o amor materno gerou um ninho sentimental que uniu a família moderna isolando-a em sua domesticidade. A família nuclear como um pequeno grupo tarefa, no qual os membros adultos realizam tarefas diferenciadas e complementares [...]. O pai (masculino) tem o papel de provedor, [...], a mãe (feminino), por sua vez, tem o papel de cuidar e zelar pelo bem-estar do convívio social entre os membros da família [...] (MEIRA; CENTA, 2003, p. 218). A família pós-moderna ou contemporânea toma o lugar de sua antecessora após o enfraquecimento do modelo nuclear funcionalista, sua principal característica é a não existência de um modelo único e dominante, e nesses modelos se observam comportamentos sexuais antes do casamento, gravidez na adolescência, uniões, divórcios, novas uniões, perda de tradição e consequentemente um desestimulo a natalidade, em concordância com Roudinesco (2003) e Siqueira (2016). Meira e Centa (2003) discutem que: Os papéis sexuais e as obrigações entre pais e filhos não se encontram mais definidos. [...] o detentor da autoridade e todas as questões dos direitos e deveres familiares, na atualidade, são negociados entre os membros da família. Verifica-se [...] um conflito entre os exageros da autoridade do tipo tradicional e a autoridade necessária dos pais, levando a uma permissividade que tem prejudicado as crianças, que, por vezes, estão sendo criadas sem o estabelecimento de limites (p. 219). Segundo as autoras, a sociedade contemporânea está submetida ao modelo capitalista, onde o mercado de trabalho, os sistemas educacional e de saúde, a presença dos meios de comunicação incluindo mídias sociais expõem uma forte influência, como resultado a família antes vista como detentora de autoridade, assume um status de provedora econômica de seus filhos. A metamorfose vivida pela família contemporânea pode ser expressa no seguinte parágrafo: “Afastar-se dos modelos dos próprios pais floresceu como uma determinação imperiosa para um número crescente de jovens casais. Como costumava ocorrer, todo modelo fixo, rígido e estereotipado acaba levando à irrupção abrupta de seu oposto.” (SINAY, 2015, p. 47). 12 Mudanças nas relações pais e filhos estão relacionadas a esses rearranjos familiares, está havendo o enfraquecimento dos laços, a diminuição do número de filhos e a desvalorização do trabalho doméstico, porém o lar ainda “[...] é entendido como uma forma de organização social e, como tal, concentra responsabilidades relacionadas ao desenvolvimento de suas crianças envolvendo aprendizagem, solidariedade social, entre outras.” (MEIRA; CENTA, 2003, p. 220). O modelo familiar de pai provedor, mãe rigorosa nos cuidados da casa e na educação dos filhos, tinha como exigência um comportamento de respeito das crianças, obediência para com os adultos e asseio as atividades escolares, porem a vida sobrecarregada do mundo contemporâneo não dispõe mais de todas essas características, hoje os filhos são estimulados a argumentar e brigar por suas ideias, desejos e interesses (SINAY, 2015). Costa e Oliveira (2018) afirmam que o desenvolvimento biopsicossocial da criança tem na família seu principal suporte, pois através desta, seus primeiros contatos são estabelecidos, e relata que a família vem sofrendo mudanças ao longo do tempo, com consequências diretas nas relações psicossociais na família. Ao falar sobre o papel da família e sua dinâmica, deve-se considerar a subjetividade de cada indivíduo que exerce determinado papel, bem como as mudanças que este tem sofrido ao longo do tempo, como mudanças de papéis e na disposição da autoridade, o que tem resultado em diversas modificações psicossociais na família (COSTA; OLIVEIRA, 2018, p. 47). Toda essa mudança de lugar e papéis nas famílias trouxe conflitos em relação a autoridade, trabalhos domésticos e cuidados com os filhos. Na impossibilidade de resolução dos conflitos, segundo Costa Moreira, Bedran e Dojas Carellos (2011), “[...] o casal buscou separação, que, só nos finais da década de 1970, tornou-se amparado legalmente pela lei do divórcio brasileira [Lei 6.515/1977].” (p. 162). Desde a legalização do divórcio até a atualidade, observou-se um crescimento de separações, reconstituições familiares e formação de casais no modelo consensual, este que ficou conhecido como união estável a partir da Constituição de 1988. “As famílias recompostas [...] tem sido cada vez mais frequentes, e essas novas configurações têm trazido importantes questionamentos sobre a fratria e as relações entre pais separados e seus filhos.” (COSTA MOREIRA; BEDRAN; DOJAS CARELLOS, 2011, p. 162). Dois marcos importantíssimos pelo prisma da família brasileira foram identificados, sendo [o primeiro] a Constituição Federal de 1988, conhecida como constituição cidadã, que altera, entre outros aspectos, o estatuto jurídico de homens e mulheres no laço conjugal quando rompe com a figura de ‘chefe de família’. [e o segundo] [...] se dá 13 pela retirada da diferenciação entre filhos gerados dentro e fora do casamento formal, os primeiros nomeados de ‘legítimos’ e os últimos de ‘ilegítimos’, [...] referendada em 1990, pelo ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). (COSTA MOREIRA; BEDRAN; DOJAS CARELLOS, 2011, p. 163). Tantas mudanças nos perfis, constituição e contextos da família brasileira podem ter sido os motivadores que levaram os legisladores brasileiros mais conservadores a apresentarem no ano de 2013 ao Congresso Nacional o Projeto de Lei 6.583/2013 que estabelece o Estatuto da Família (aprovado em 2015), e que define o conceito de família como “[...] o núcleo social formado a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou união estável, ou ainda por comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes” (BRASIL, 2013b, [s.p.]). Para Felippe e Itaqui (2015) o PL 6583/13 não tem apenas a pretensão de definição do termo família, mas sim a manutenção do status quo e o estabelecimento de normas quanto a sua constituição. No mesmo ano, em alternativa ao Estatuto da Família tramitava no Senado Federal o PL 470/2013 (BRASIL, 2013a, [s.p.]), o qual tinha intuito de criar o Estatuto das Famílias, neste seriam reconhecidas as relações homoafetivas como entidade familiar, bem como outras questões do Direito de Família. Este projeto de lei foi apresentado no ano de 2013, percorreu a Comissão dos Direitos Humanos (CDH), passou por audiências públicas nos anos de 2015 e 2017, sendo arquivado em dezembro de 2018. Para Meira e Centa (2003), diversos fatores como “[...] o mercado de trabalho, possibilidades de consumo, acesso à sistema de saúde e educacional, à informação e ação da mídia entre outros.” (p. 219) trouxeram sofrimento a família contemporânea. Na atual conjuntura, a criança e o adolescente protagonizam sua criação, desenvolvimento e educação, os pais aparecem como provedores econômicos e como direitos dos menores. (2003). Fenômenos como globalização, mudanças econômicas, desemprego e dificuldade de acesso a bens de consumo e serviços “[...] tem levado a família brasileira há um processo de empobrecimento e aumento da exclusão social, formando uma sociedade desigual.” (MEIRA e CENTA, 2003, p. 219), levando a fortes mudanças nos perfis familiares, onde crianças e adolescentes adentram precocemente no mercado de trabalho para auxilio da renda familiar, transpondo os estudos de figura à fundo. (2003). A contemporaneidade abarca diversos modelos familiares, as fronteiras entre os papeis de cada gênero já não se fazem mais tão consolidadas, “[...] a mulher conquistando espaço no mercado de trabalho, atuando como chefe de família, o homem podendo cuidar do lar. Há 14 mãe e pais solteiros, uniões homoafetivas com e sem filhos, adoções, produção independente, bebê de proveta.”, conforme expõem Felippe e Itaquim (2015, p. 111).De posse dos pressupostos acima relatados, observam-se diversas mudanças ocorridas entre o século XV e a era atual com relação à estrutura familiar, bem como com alguns fatores compreendidos no universo da dinâmica da família. O conjunto das funções e atividades desenvolvidas pelos pais ou cuidadores são conhecidas como funções parentais ou parentalidade, e são apresentadas a seguir sob as ópticas psicológica, social e jurídica, relatando características, compreensões, mudanças e o enfraquecimento destas funções. 3 AS FUNÇÕES PARENTAIS (PARENTALIDADE) E SUA FRAGILIZAÇÃO De acordo com o artigo 229 da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988: “Os pais tem o dever de assistir, criar e educar os filhos menores” (BRASIL, 1988), e “portanto, não é somente dever moral, também é dever legal dos pais propiciarem uma criação saudável aos seus filhos” (MARTINS, 2017, [s.p.]). Em modo complementar, o artigo 5º do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) “[...] assevera que nenhum menor pode ser vítima de negligencia ou omissão aos seus direitos fundamentais sob pena de punição.” (MARTINS, 2017, [s.p.]) Siqueira (2016, p. 15) expõe que as funções parentais não se limitam às questões de caráter biológico, pois estão “[...] relacionadas principalmente com o desejo de ter o filho, desenvolvendo, assim, os cuidados, tanto físicos quanto psíquicos para sua inserção na cultura”. A autora ainda levanta que os cuidados fisiológicos (alimentação, sono, saúde...) não devem ser os únicos, mas através deles pode-se construir uma segurança psíquica para a criança. Na obra Abandonaras teu pai e tua mãe, Julien (2000, p. 23) discorre a respeito da relação criança, pais e sociedade, expressando que “[...] os direitos do filho nascem com o dever dos pais e da sociedade de assegurar o bem da geração seguinte. Segurança, proteção, prevenção, assistência, tais são as palavras-mestras do discurso social sobre a família”. Teixeira e Ribeiro (2010) adentram juridicamente no Princípio da Parentalidade Responsável para discorrer a respeito das funções parentais, no qual alegam ser este um princípio inscrito constitucionalmente e fortalecido pelo artigo 3º do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), de forma que “Decorre das atribuições da autoridade parental, ou seja, do dever dos pais de educar, criar e assistir seus filhos, sempre se atentando para o objetivo 15 maior da tutela da personalidade das crianças e adolescentes, o que garantirá o pleno exercício dos seus direitos fundamentais.” (TEIXEIRA e RIBEIRO, 2010, p. 234). Em sua publicação Funções parentais? Reflexões sobre a infância, a estrutura e a história, Kamers (2004, [s.p.]) traz que as funções parentais extrapolam o real, pois “[...] tratando-se de funções parentais, portanto, simbólicas e inscritas na cultura, implica necessariamente na reflexão acerca das condições estruturais que permitem o exercício da função por um outro de carne e osso. O que não se confunde com uma fenomenologia relativa aos personagens”. Sob a perspectiva do Direito de Família, Vesentini (2014) discute a evolução social, bem como a possibilidade de responsabilização civil decorrente do não cumprimento do dever de afetividade nas relações parentais. O autor ainda aponta a importância da presença dos pais para o desenvolvimento psíquico dos filhos, e também destaca a afetividade como um fator de dignidade da pessoa humana e um dever parental, além de consequências de sua ausência. Há decisões de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul [...] que tem acolhido a pretensão de filhos de abandono e rejeição por parte dos pais, onde alegam sofrerem transtornos psíquicos em razão da falta de afeto na infância e na juventude, não tendo bastado [...] o fornecimento dos meios de subsistência. Queixam-se estes do descaso, da indiferença e da rejeição dos pais, tendo obtido, em alguns casos, o reconhecimento judicial à indenização [...], com o fundamento de que a educação abrange não somente a escolaridade, mas também a convivência familiar, o afeto, o amor, o carinho, devendo o descaso entre pais e filhos ser punido severamente por constituir abandono moral grave (VESENTINI, 2014, p. 27). Vesentini (2014) traz ainda que no Rio Grande do Sul, em brilhante sentença, o magistrado Mário Romano Maggioni proferiu parecer favorável em um processo sobre abandono afetivo, ressaltando a função paterna ao discorrer que: A função paterna abrange amar os filhos. Portanto, não basta ser pai biológico ou prestar alimentos ao filho. O sustento é apenas uma das parcelas da paternidade. É preciso ser pai na amplitude legal (sustento, guarda e educação). Quando o legislador atribuiu aos pais a função de educar os filhos, resta evidente que aos pais incumbe amar os filhos. Pai que não ama filho está não apenas desrespeitando função de ordem moral, mas principalmente de ordem legal, pois não está bem educando seu filho. [...] Aos pais incumbe o dever de sustento, guarda e educação dos filhos (artigo 22, da lei n° 8.069/90). A educação abrange não somente a escolaridade, mas também a convivência familiar, o afeto, amor, carinho, [...] criar condições para que a presença do pai ajude no desenvolvimento da criança. [...] a ausência, o descaso e a rejeição do pai em relação ao filho recém-nascido, ou em desenvolvimento, violam a sua honra e a sua imagem. (RIO GRANDE DO SUL, Ação Indenizatória nº 141/1030012032-0, Relator: Mario Romano Maggioni) As mudanças trazidas pelas transformações sociais e históricas afetaram as estruturas da família, e consequentemente causaram alterações nas funções parentais, visto que “Estas 16 funções no contexto contemporâneo, além de serem modificadas, são desempenhadas por outras pessoas, as quais na família burguesa não eram pensadas, podem ser exercidas apenas pela mãe, apenas pelo pai, pelos avós, por tios, por amigos” (SIQUEIRA, 2016, p. 22). Julien (2000) destaca que a parentalidade na atualidade está imersa na dependência do social através da figura de especialistas (em detrimento das figuras parentais), estes para dizer quais são os direitos dos filhos, e em situações conjugais conflituosas, supostamente capazes de decidir o melhor destino para as crianças, de forma que “[...] não se pode deixar a critério da mãe ou do pai. [...] pelo bem da criança, coloca-se, sob várias figuras, um terceiro social: professor, pediatra, psicólogo, assistente social, o juiz juvenil, o juiz de assuntos da família. De acordo com os casos, é solicitada a ajuda desse terceiro, ou, compulsoriamente, é introduzido por si só para salvaguarda da criança ou adolescente” (JULIEN, 2000, p. 19). Assim, podemos perceber que as funções parentais, antes caracterizadas pela privacidade do seio familiar perderam lugar frente ao social provido pelo Estado, tornando-se públicas, assim esse tipo de interferência através de especialistas “[...] teve suas consequências nas relações entre pais e filhos. Contribuiu para a ideia de que o saber natural dos pais é desqualificado em relação ao saber dos especialistas e, [...] também retira dos pais a autoridade inerente sobre seus filhos, pois está se justifica quando podem se responsabilizar inteiramente pela educação dos mesmos.” (PRISZKULNIK, 2002 apud ZANETTI; GOMES, 2011, p. 495). Para Zanetti e Gomes (2011), na sociedade contemporânea é comum presenciar crianças e adolescentes que constantemente se posicionam a desafiar a autoridade de seus responsáveis, onde o comportamento de oposição e indisciplina não é exceção de uma minoria. Para tal fenômeno apresentado, Casas (2003), Edwards (2004), Ferreira e Marturano (2002), McLaughlin e Harrison (2006), Pattie (2005), Sanders e Wooley (2004), e Sidebotham (2001) produziram uma série de estudos, visando correlacionar o exercício das funções parentais e o desenvolvimento das características emocionais e/ou comportamentais dos filhos.Sanders e Wooley (2004) em pesquisa sobre a relação entre a autoeficácia materna e as prática parentais descrevem o sentimento de competência dos pais com suas atuações frente aos filhos, e trazem que: “Procurando relacionar o sentimento de competência dos pais com as suas práticas, [...] pais que são mais permissivos com seus filhos, apresentam um sentimento de competência reduzido e que este sentimento corresponde a suas práticas efetivas.” (SANDERS; WOOLEY, 2004 apud ZANETTI, 2008, p. 15). 17 Os estudos de McLaughlin e Harrison (2006) revelam que o sentimento de competência em relação as atividades efetivas das mães na criação dos filhos com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) estão alinhados com o desenvolvimento de suas funções parentais, bem como com a conduta de seus filhos. [...] mães de crianças com TDAH isolam-se e isolam os filhos de contatos sociais devido ao alto nível de atenção e supervisão que essas crianças necessitam [...]. Frente essa situação, os pais passam, deliberadamente, a não frequentar muitas situações do dia-a-dia, julgando-se inadequados em suas atitudes parentais [...]. Esse isolamento social tem como consequência práticas parentais menos efetivas [...], aumentando a probabilidade de manutenção dos comportamentos inadequados dos filhos devido à falta de oportunidades e de modelos para a aprendizagem de comportamentos sociais mais efetivos (MCLAUGHLIN; HARRISON, 2006, p. 85). Corroborando com as pesquisas acima citadas, Casas (2003) em sua publicação Early parenting and children’s use of relational aggression in preschool faz uma correspondência de dados onde [...] foram avaliados os estilos parentais, o uso do controle psicológico pelos pais e relatos sobre os comportamentos dos filhos. As análises produziram associações significativas entre o comportamento agressivo nas crianças e o relato dos pais sobre controle psicológico, estilo parental e relação de apego. Especificamente, o uso de relações agressivas pelos pré-escolares foi positivamente associado ao sentimento de culpa dos pais, no autorrelato dos pais sobre serem permissivos e inseguros sobre os filhos (2003, [s.p.]). Sidebotham (2001) em seu artigo Culture, stress and the parent-child relationship: A qualitative study of parents' perceptions of parenting compreende a existência de uma relação entre pais estressantes quanto a excessivas expectativas e cobranças a respeito de deveres de casa, e filhos ansiosos, estressados e alinhados ao consumismo. [...] ainda que os pais manifestem uma visão positiva sobre seus filhos, em muitos casos não conseguem manifesta um sentimento positivo em relação à pratica da paternidade. Isto principalmente porque, ainda segundo o autor, as condições sócios- culturais contemporâneas atuais têm propiciado aos pais um sentimento grande de incapacidade diante de exigências cada vez maiores em suas práticas parentais, ditadas por esta cultura (ZANETTI, 2008, p. 13). Ferreira e Marturano (2002) expõem que manifestações externalizantes são caracterizadas por comportamentos observados em filhos hiperativos, impulsivos, opositores, agressivos, desafiadores e antissociais, e que tais comportamentos são resultados do convívio destes e seus cuidadores na conjuntura social. “Nessas trocas, o ambiente familiar apresenta práticas de socialização violentas, exposição a modelos adultos agressivos, falta de afeto materno e conflitos entre os pais.” (FERREIRA; MARTURANO, 2002, p. 36). 18 O fenômeno da fragilização das funções parentais foi percebido por Zanetti (2008) ao analisar os trabalhos acima citados, nos quais encontrou correlação entre o comportamento de pais que “[...] sentem culpa, dúvida e/ou insegurança em relação ao próprio posicionamento, enquanto pais, diante do que podem, devem, ou não, fazer por seus filhos, na contemporaneidade” (p. 12-13) e o comportamento das próprias crianças. A fragilização das funções parentais traz como uma de suas consequências o fenômeno da orfandade funcional, e este é expresso no capítulo seguinte, tomando por principais bases a perspectiva da obra A Sociedade dos Filhos Órfãos, de Sinay (2015), e as estatísticas de pesquisas que compreendem as consequências do fenômeno. 4 O FENÔMENO DA ORFANDADE FUNCIONAL E SUAS CONSEQUÊNCIAS, SOB O OLHAR DA PSICANÁLISE O termo orfandade diz respeito a condição do órfão, e este por sua vez, é definido como a “pessoa menor privada de pai, de mãe ou de ambos os pais” (ORFÃO, 1998, [s.p.]), podendo esta privação ser em razão de morte, desaparecimento, ou outro motivo, de modo que a criança não mais tenha ou nunca tivera a presença de seus responsáveis. Crianças de rua abandonadas, marginalizadas, exploradas e abusadas, são resultados comuns da orfandade. “Esses são, sem dúvida, os mais óbvios, que podem ser vistos com mais facilidade através do distanciamento ou podem ser encarados como meros objetos de estatísticas e analise de viés sociológico” (SINAY, 2015, p. 10). O autor descreve crianças e adolescentes de toda a pirâmide social e cultural, porem seu trabalho enfatiza as faixas intermediarias e superiores, ao destacar que, “No entanto, em outras camadas sociais, os órfãos também formam uma legião, uma praga, uma epidemia, uma crescente multidão, um fenômeno de massas. Sua orfandade é de outro tipo, embora seu futuro (geralmente acolchoado por promessas) não seja menos sombrio do ponto de vista existencial.” (SINAY, 2015, p. 10). Órfãos de pais vivos ou órfãos funcionais são destacados como produções decorrentes do fenômeno da fragilização das funções parentais, funções estas que tem suas origens nos caráteres biológico, social, legal e psicológico. O fenômeno apresentado se vincula com as mudanças do novo lugar que a criança ocupa na família, “[...] com o desenvolvimento das ciências especializadas, com a cultura do narcisismo e, finalmente, que as crianças expostas a este fenômeno podem se desenvolver em meio a um ambiente de liberdade excessiva, que pode ser prejudicial” (ZANETTI; GOMES, 2011, p. 491). 19 Para Sinay (2015), o conceito de orfandade no que se refere aos órfãos funcionais contrasta com a ideia da morte dos pais, adotando assim um destoante significado, o de tê-los sem que estes sejam atuantes em várias demandas de seus filhos, pois os cercam de coisas que o dinheiro pode comprar (boa situação financeira, ótimas moradias, alimentação, assistência médica, educação, convivência social, lazer, viagens, entretenimento e futilidades), numa tentativa de compensar a distância existente nessa relação. O autor ainda destaca que as funções de pais e mães são intransferíveis e educativas, e não devem ser confundidas com as atribuições das escolas, pois estas ensinam, informam, argumentam e socializam. Face a esse fenômeno de negligencia e renegação emocional de grande relevância, em decisão que culminou na manutenção de condenação a pagamento de indenização, a 8ª Turma Cível de magistrados do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDF) assim proferiu a sentença a um pai que se manteve ausente física, emocional e financeiramente da vida de uma de suas filhas, onde os relatores entenderam que “[...] os chamados Órfãos de pais vivos tem direito à reparação extrapatrimonial, aquela que segue a lógica jurídica do dano moral decorrente da morte efetiva dos pais da vítima de ato ilícito” (DELGADO, 2019, [s.p.]). O Autor expõe ainda que: [...] não se pode exigir, judicialmente, desde os primeiros sinais do abandono, o cumprimento da obrigação natural do amor. Por tratar-se de uma obrigação natural, um juiz não pode obrigar um pai a amar uma filha. Mas não é só de amor que se trata quando o tema é a dignidade humana dos filhos e a paternidade responsável. Há, entre o abandono e o amor, o dever de cuidado. Amar é uma possibilidade. Cuidar, uma obrigação civil (DELGADO, 2019, [s.p.]).Órfãos funcionais em sua maioria possuem acesso a bens e serviços que o poder aquisitivo pode propiciar, “[...] desconhecem ou tem pouco contato com a impossibilidade, a frustração e a perda; enfrentam poucos limites, que, com frequência, são frouxos e ambíguos; estão cercados de adultos que se comportam como eles e os imitam [...]” (SINAY, 2015, p. 11), adultos estes que apesar do sucesso profissional, poder e respeito conquistados, afastam- se da maturidade quanto a suas responsabilidades parentais. Quanto aos aspectos negligenciados pelos responsáveis para com seus filhos imersos na orfandade funcional, Sinay (2015) os classifica como Órfãos Emocionais (onde há falta de interação e trocas afetivas com seus pais); Órfãos de Ética (ausência de referências a partir ações para a construção de valores); Órfãos de Logos (pouco ou nenhum dialogo para compartilhar experiências e construção de sentido existencial); Órfãos Espirituais (falta de ambiente que permita ou promova adentrar questões além do sentido material); Órfãos 20 Afetivos (carência de estímulos afetivos que alimentem seu valor, importância e caráter); e Órfãos Normativos (caracterizado principalmente pela falta de regras e limites). Algumas justificativas para as negligencias são apresentadas como: a falta de tempo pelo excesso de trabalho para satisfazer as necessidades e vontades das crianças, vindo a tentar compensar a presença com presentes; a falta de carinho por conforto, conversas agradáveis e necessárias por tablets e smartphones; essa troca que não supre, pelo contrário, gera solidão dentro desses lares, pois: Estamos falando de seres frágeis que precisam de orientação, acompanhamento, ordens, referencias, limites, desenvolvimento. Eles necessitam da presença ativa e firme. Necessitam de pais que assumam sua responsabilidade, que exerçam seu papel com amorosa coragem, com convicta iniciativa. Não se pode delegar a criação dos filhos nem sua educação, não se pode deixá-la a cargo de um piloto automático, da sorte, da vontade, dos gostos, das experiências alheias (SINAY, 2015, p. 16). O fenômeno da orfandade funcional traz sérias consequências, primeiramente para as crianças e conseguinte para a sociedade que será presenteada com uma geração de órfãos de pais vivos, tais reflexos podem ser vistos na “violência infantil e adolescente, obesidade infantil epidêmica, toxicomania e alcoolismo em idades cada vez mais baixas, notáveis índices de ignorância de crianças e adolescente a respeito de questões elementares para saber em que ambiente vivem e como este foi criado. Incultura galopante. Há mais: desordem das relações filiais e parentais [...].” (SINAY, 2015, p. 13). Estudo realizado em 2006 pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos relata que “No Brasil, 0,2% dos 25 milhões de adolescentes (de 12 a 18 anos) são autores de infrações” (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008, p.336). São Paulo mesmo sendo o estado mais rico concentra mais de 50% dos casos, onde furtos e roubos são maioria, com uma crescente para tráfico de drogas; 90% deles são do sexo masculino. “[...] há uma correlação entre o grau de escolarização e o tipo de delito, quanto maior a escolarização mais grave é o delito” (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008, p. 336). Dados fornecidos em boletim estatístico da Fundação do Bem-Estar do Menor (Febem) do estado de São Paulo hoje conhecida como Fundação Casa, revelam que no ano de 2006 haviam 6 mil internos, dos quais 28% pertenciam a classe média e 3% advindos de famílias ricas. Os atos infracionais mais expressivos são tráfico de drogas com 43,35% e roubo qualificado com 38,57%. Atualmente não estão mais disponíveis dados socioeconômicos dos internos. A presidente da Fundação no ano de 2006, Berenice Gianella comenta que “são jovens que fogem totalmente do perfil do menor infrator, que vinha de bairros pobres.” (FUNDAÇÃO CASA, 2006, [s.p.]). 21 Abijaudi (2016) investigou em seu estudo de caráter quantitativo, queixas de agressividade na infância apresentadas em prontuários e laudos psicológicos de uma clínica- escola de psicologia compreendendo os anos de 2007 a 2014, nos quais foram identificados de um total de 57 casos, 31,5% relacionados a dificuldade de aprendizado, 26,3% com problemas de atenção e agitação e 17,5% referentes a comportamento agressivos, onde 70% eram meninos, em sua maioria de 7 a 8 anos de idade e integrantes de famílias nucleares. Os números de tragédias argentinas apontam que na província de Buenos Aires houve crescimento de 400 para 1200 mortes de adolescentes por ano em apenas uma década, onde os motivos variam “[...] como a violência, os partos prematuros, os acidentes e o consumo de drogas” e “[...] Sete de cada dez adolescentes chegam ao sistema de saúde devido ao consumo excessivo de álcool, de cocaína e de maconha, mas a principal causa é a [...] intoxicação alcoólica” (JORNAL LA NACION, 20 set. 2006 apud SINAY, 2015, p. 28). Conforme apresentado por um estudo do Departamento de Política Criminal do Ministério do Interior argentino, compreendendo os anos de 2002 a 2006 “[...] morreram de forma violenta (acidentes, suicídios, violência) 11.771 argentinos com idade entre 15 e 24 anos de idade. E, entre 2001 e 2003, 3% das ações penais julgadas em Buenos Aires tinham como réus menores de 18 anos, sendo que 52% deles pertenciam a famílias de classes média e alta.” (REVISTA VEINTITRÉS, 2006 apud SINAY, 2015, p. 28). O Escritório de Defesa do Menor da Comunidade de Madri realizou estudo em 18.000 escolas entre os anos de 2004 e 2005, tendo demonstrado que “[...] 38% dessas crianças desenvolviam alterações comportamentais e transtornos de ansiedade toda vez que eram privadas de seus celulares. O número, embora espanhol, é perfeitamente globalizável, [...] e, portanto, aplicável a nossa sociedade.” (SINAY, 2015, p. 29). Em um estudo liderado pelo Imperial College London e pela Organização Mundial da Saúde (OMS) avaliou no ano de 2016, crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos de mais de 200 países, e concluiu que “[...] o número de obesos com idades entre cinco e 19 anos cresceu mais de dez vezes, de 11 milhões em 1975 para 124 milhões em 2016. Outros 213 milhões estavam com sobrepeso [...]” (LANCET, 2017, [s.p.]). Os dados apontaram que as principais causas foram alimentos ultraprocessados densos em calorias e pobres em nutrientes, e atividades sedentárias baseadas em telas (smartphones, tablets, computadores, eletrônicos portáteis, etc.). Pesquisa intitulada III Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira realizada pelo Ministério da Saúde e Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) no ano de 2015 revela que 34,3% da população com idade entre 12 e 17 anos já consumiram bebida 22 alcóolica na vida, 6,3% já consumiram cigarro, 1,6% já fizeram uso de medicamentos não prescritos, e 4% utilizaram substancias ilícitas (BASTOS, 2017). Números para expressar as características da orfandade funcional não faltam, pelo contrário, se apresentam aos montes, e ainda assim são inferiores frente a realidade social, pois nem todas as famílias tem conhecimento sobre a vida intima de seus filhos, e mesmo muitos dos que têm, podem preferir manter-se anônimos quanto a consumo de bebidas e substancias ilícitas; quanto a atos infracionais e violência, as famílias mais abastadas muitas vezes conseguem impedir o registro institucional, sendo este por influência e/ou poder econômico, o que reflete um perfil de menores infratores altamente relacionados a pobreza; obesidade é outro fenômeno mundial, pois, redes de fast-food estão presentes em todos os lugares, e seus produtos são consumidos quase que diariamente por crianças e adolescentes, além de o sedentarismo baseado em telas já consumir grande parte da agenda diária dos menores. Assim, temos que as principais consequências decorrentes do fenômeno da orfandadefuncional são a violência infantil e adolescente, obesidade infantil, toxicomania e alcoolismo precoces, elevados índices de ignorância e incultura de crianças e adolescentes, e desordem das relações filiais e parentais. Kamers (2006) sob o viés psicanalítico entende que a família através da parentalidade “[...] cumpre a função fundamental da inscrição da criança no universo simbólico através das funções parentais” (p. 108), assim como Ariès (1981) alega que a modernidade estabeleceu um novo lugar para a criança, iniciam-se “[...] novos discursos em que as funções parentais adquirem novas exigências imaginarias.” (KAMERS, 2006, p. 109). Discorre ainda que a expressiva literatura com discursos especializados produziu um “[...] exército de pais desesperados, que não se autorizam junto a seus filhos” (KAMERS, 2006, p. 117), renunciando assim seu papel de educar sua prole face as ilusões de uma educação idealista. 4.1 LEITURA PELO NARCISISMO E SUA CULTURA Freud (1914/1969a) descreve o narcisismo primário como condição para o sentimento de consciência de existência da criança em sua fase inicial de vida, permitindo assim que ela se sinta viva nos momentos de ausência de sua mãe. Na cultura do narcisismo, a criança recebe a percepção de seus pais que ela é livre de imperfeições, dotada de tamanha qualidade que não necessita de correção, regras ou limites, podendo vir a crer que é o centro das atenções e que todos seus desejos devam ser 23 concretizados, e se “[...] prestarmos atenção à atitude de pais afetuosos para com os filhos, temos de reconhecer que ela é uma revivescência e reprodução de seu próprio narcisismo, que há muito abandonaram” (FREUD, 1914/1969a, p. 97), agora sob a forma de um amor objetal. Percebe-se que a criança ao experimentar tal lugar está sendo objeto das projeções parentais, não devendo sofrer as frustrações que seus pais tiveram, “[...] torna-se o ser na família capaz de realizar todas as frustrações destes pais” (ZANETTI; GOMES, 2011, p. 498), a autoridade paterna fica comprometida, e “[...] acabam proporcionando modelos de relação regredidos, baseados no medo da separação e na tentativa de suprir toda e qualquer necessidade. Dessa forma, os pais providenciam às crianças um processo de crescimento em que pouco precisam lidar com limites, tornando-as também incapazes de lidar com a frustração.” (ZANETTI e GOMES, 2011, p. 498). Crianças que desconhecem ou pouco tem contato com regras e limites, possuem traços de personalidade egocêntrica e baixa tolerância a frustrações, resultados segundo Kehl (2001) da tentativa narcísica de imortalidade e perfeição de seus pais num outro corpo e nova vida. Seguindo essa compreensão, Zolet (2017) elenca mais algumas características desses menores, como ser o mestre indiscutível da família, aquele que submete os demais às suas necessidade e caprichos, decide qual comida será feita, destino nas férias, canal de televisão, horários das atividades e descanso, e para conseguirem o que desejam, gritam, usam de ameaças e agressões físicas e psicológicas para com seus pais. “Os pais podem tentar ensinar certos valores, mas a criança inevitavelmente absorverá aquilo que é transmitido através do exemplo de seus pais [...]. Se os pais brigam, discutem em casa, gritam constantemente, xingam, não possuem diálogo, afeto, organização e disciplina, a criança vai espelhar-se neles.” (p. 44). O adulto, ao tentar poupar a criança das frustrações necessárias à sua inserção na cultura, tenta excluí-la da sustentação simbólica, esta que tem por objetivo a humanização do menor, e conforme Freud (1933/1996d) a tarefa inicial da educação seria instruir a criança a controlar seus instintos, pois impossível seria pôr em ação seus impulsos na totalidade. O autor ainda explica que o superego é a: [...] instancia do aparelho psíquico responsável por exercer papel de um juiz ou censor relativamente ao ego, que se constitui a partir da interiorização das interdições parentais, no desenvolvimento do complexo de Édipo, [...] é o sucessor e o representante dos pais para o indivíduo. Os pais são os responsáveis por supervisionar as ações no primeiro período de vida da criança; de modo que o superego continua as funções dos pais quase sem mudança (FREUD, 1924/1996c, p. 197-198). 24 4.2 LEITURA PELAS FASES DO DESENVOLVIMENTO INFANTIL (FREUD) Com intuito de estabelecer relação entre as consequências do fenômeno da orfandade funcional e as demandas compreendidas em cada fase do desenvolvimento infantil, faz-se necessário adentrar na teoria do desenvolvimento psicossexual freudiano, onde Freud pelas palavras de Dolto (1980) para dar nome as fases “[...] escolheu aquele que evoca a parte do corpo em que está eletivamente concentrado o hedonismo do momento [...]” (p. 28). Segundo Freud (1905/1996a), a criança desde o seu nascimento até por volta dos 18 meses apresenta como zona erógena a região da boca (fase oral), tendo como prazer a ingestão de alimento, a mastigação, sucção, mordedura e o ato de engolir, “[...] como há um prazer enorme ligado a mucosa dos lábios e a cavidade bucal, a fonte de onde provêm as excitações é a zona oral, o objeto é o seio materno e o objetivo é a introjeção do objeto” (COUTO, 2017, p. 2). Ingerir ou jogar para fora caso não lhe agrade, diminuem a tensão do bebê. É nesta fase que o Ego surge. Conflitos ou traços patológicos decorrente de falhas na elaboração dessa fase podem causar dependência psicológica, sadismo, resistência ao amadurecimento, tabagismo, alcoolismo, toxicomania, e adicionados ao expresso por Sadock (2017) quando alega que “Gratificações ou privações orais excessivas podem resultar em fixações libidinais que contribuem para traços patológicos. Esses traços podem incluir otimismo excessivo, narcisismo, pessimismo (como nos estados depressivos) e exigências. Inveja e ciúme estão com frequência associados com traços orais.” (SADOCK, 2017, p. 157). Ainda percorrendo Freud (1905/1996a), encontramos que do 18º mês de vida até os 3 anos de idade, a zona erógena concentra-se no ânus (fase anal), e a “libido que provocava a sucção lúdica da fase oral provocará agora a retenção lúdica das fezes e da urina” (DOLTO, 1980, p. 33), e a “[...] recusa obstinada do bebê a esvaziar o intestino ao ser posto no troninho, ou seja, quando isso é desejado pela pessoa que cuida dele, ficando essa função reservada para quando aprouver a ele próprio” (FREUD, 1905/1996a, p. 175). Nessa fase a criança consegue imitar os adultos, não apenas em palavras, mas em conduta, logo ela é [...] ativa, barulhenta, brutal, agressiva em relação aos objetos, que já não são aqueles que se encontram ao seu alcance, como na fase oral, mas que ela pode ir apanhar onde estiver para estraçalhar, agredir, jogar por terra, como se em tudo isso pusesse um prazer maligno, acentuado, aliás por muito pouco que se aperceba disso, pelo fato dessa perversidade desagradar o adulto (DOLTO, 1980, p. 35). 25 Uma inadequada elaboração da fase anal pode gerar problemas de agressividade, desordem, desafio, desconfiança, rebeldia, submissão, que segundo Sadock (2017, p. 157) pode acarretar “Organização, obstinação, teimosia, intencionalidade, frugalidade e parcimônia, [...] falta de asseio, desordem, desafio, raiva e tendências sadomasoquistas. As características e defesas anais costumam ser vistas nas neuroses obsessivo-compulsivas.” (SADOCK, 2017, p. 157). Iniciada por volta dos 3 e permanecendo até os 6 anos de idade, a zona erógena situa- se nos genitais – pênis/menino e clitóris/menina -, Freud (1923/1996 apud COUTO, 2017, p. 2) “[...] pontuou a existência de uma fase que já poderia ser denominada genital. No entanto, pelo fato de haver, por parte da criança, o reconhecimento apenas da genitália masculina, tal fase foi denominada de fase fálica”. A principal fonte de prazer é a manipulaçãodessas áreas, as crianças identificam-se com os pais do mesmo sexo e desenvolvem atração pelos pais do sexo oposto, é o Complexo de Édipo, marcado pela rivalidade com seus genitores do mesmo sexo, angustia e medo da castração (meninos) e a inveja do pênis (menina). Para lidar com os conflitos de sentimentos destrutivos pelos genitores do mesmo sexo, “[...] o ego da criança volta as costas ao complexo de Édipo. [...] As catexias de objeto são abandonadas e substituídas por identificação. A autoridade do pai ou dos pais é introjetada no ego e aí forma o núcleo do superego [...]” (FREUD, 1924/1996c, p. 221). Se o pai é viril, firme em suas atitudes e severo, sem deixar de ser juto, o complexo de Édipo não tem dificuldade alguma em ser inteiramente normal, pois a imagem do pai é de ‘envergadura’ suficiente para suportar a agressividade violenta do filho, sem criar para este a necessidade de procurar a autopunição através de um sentimento de culpa (DOLTO, 1971, p. 81). A noção de tempo fica mais evidente para a criança que antes expressava suas pulsões imediatas, e agora precisa lidar com esperas. “Antes, tudo se passava no presente. Agora existem o ‘daqui a pouco’ e o ‘amanha’, quando o daqui a pouco ocorre depois do cair da noite. [...] Mais tardiamente ainda é que a criança adquirirá a noção de passado [...]” (DOLTO, 1971, p. 43). Ainda nessa fase a criança procura separar o que é real é o que faz parte de sua imaginação, pois “Sua brincadeira reflete o modo como oscila entre estes dois mundos, e ao mesmo tempo a ajuda a compreender melhor a diferença entre eles.” (DOLTO, 1971, p. 91). “Com frequência procurará testar os que a rodeiam, especialmente novos adultos, após um período inicial em que se conforma com tudo e é bem comportada – para ver até onde a 26 deixarão ir. [...] Nessa fase, podem as crianças se tornar muito mandonas e dominadoras e ficar desanimadas se alguma atividade não se realiza como haviam planejado.” (ROSENBLUTH e col., 1982, p. 123). A falta de uma elaboração adequada dessa fase pode provocar ou permitir agressividade violenta, autopunição, sentimento de culpa, comportamentos autoritários, dominadores, controladores, problemas nas relações hierárquicas e quanto às leis sociais, relações perigosas ou incestuosas, egoísmo, desprezo e também [...] as questões concentram-se na castração, nos homens, e na inveja do pênis, nas mulheres. Os padrões de internalização desenvolvidos a partir da resolução do complexo de Édipo fornecem outro foco importante de distorções do desenvolvimento. [...] Eles também reúnem e integram os resíduos dos estágios psicossexuais anteriores, de modo que as fixações ou conflitos derivados deles podem afetar e modificar a resolução edipiana (SADOCK, 2017, p. 157). Por volta dos 6 anos de idade estendendo-se até a puberdade ocorre um retraimento, “[...] A fase fálica, em que o complexo de Édipo se desenvolve, não tem um prosseguimento até atingir a organização genital adulta, pois é interrompida pelo período de latência, provocando uma pausa no desenvolvimento psicossexual da criança.” (FREUD, 1924/1996c apud COUTO, 2017, p. 3), o prazer centra-se na interação social e capacidade intelectual, é um período de idade escolar. Os conflitos nessa fase podem envolvem problemas de interação social e capacidade intelectual, autocontrole, comprometido desenvolvimento da personalidade, obsessão, problemas de pertencimento e também estar relacionados e alinhados com a [...] falta de desenvolvimento de controles internos ou de seu excesso. A falta de controle pode levar a um fracasso em sublimar o suficiente as energias no interesse da aprendizagem e do desenvolvimento de habilidades; um excesso de controle interno, entretanto, pode levar ao término prematuro do desenvolvimento da personalidade e à elaboração precoce de traços de caráter obsessivos (SADOCK, 2017, p. 157). Inicia na puberdade e segue adiante pela vida, é a consolidação da vida sexual adulta, a energia sexual concentra-se nos genitais – pênis/meninos e vagina/meninas – (fase genital), “Conjugadas, as pulsões parciais se dirigem a um objeto sexual externo” (FREUD, 1905/1996a apud COUTO, 2017, p. 3), e conflitos não resolvidos nas fases anteriores ressurgem. A pulsão está direcionada a reprodução. O proposito máximo da puberdade é a desvinculação dos pais, o que permite a inserção na comunidade social. “Para se desvincular dos pais, é preciso dessexualizá-los, ou seja, deixar de tomá-los como objetos sexuais e dirigir 27 os desejos libidinais para um objeto de amor real, no mundo externo.” (FREUD, 1917/1996 apud COUTO, 2017, p. 3). Conflitos entre princípio do prazer e princípio de realidade, imaturidade e compulsão masturbatória, conflitos e fixações decorrentes das fases anteriores podem aparecer juntamente com outros traços patológicos, pois são [...] inúmeros e complexos. Podem surgir defeitos [...] de resíduos psicossexuais, uma vez que a tarefa evolutiva do período adolescente é, de certa forma, uma reabertura parcial, um retrabalho e a reintegração de todos esses aspectos do desenvolvimento. Resoluções e fixações malsucedidas anteriores em várias fases ou aspectos do desenvolvimento psicossexual produzirão defeitos patológicos na personalidade adulta emergente e defeitos na formação da identidade (SADOCK, 2017, p. 159). Apresentado esta visão psicanalítica freudiana, percebe-se um grande alinhamento entre os comportamentos descritos na orfandade funcional e os resultados decorrentes das más elaborações das fases do desenvolvimento psicossexual em Freud, porem a presente pesquisa não possui a pretensão de tratar tais comportamentos como meros desajustes de conduta individual, ou apresentar uma relação de causa e efeito ignorando todo um contexto. 4.3 LEITURA PELO PRINCÍPIO DE AUTORIDADE À CONFIANÇA (WINNICOTT) A relevância da relação criança, pais e ambiente familiar é apresentada em Winnicott (1996; 1999a e 1999b), onde alerta para as repercussões negativas decorrentes da ausência ou até mesmo da presença insatisfatória dos pais para com a criança no ambiente familiar, e os danos para o seu desenvolvimento. Amor e ódio são elementos constantemente presentes e constituintes das relações humanas, não diferente é na vida das crianças, que por vezes enfrentam tentativas de destruição de suas forças de amor, nas quais Winnicott (1999b, p. 99) expõe que “o indivíduo tem de fazer alguma coisa para salvar-se, e uma das coisa que ele faz é pôr para fora seu íntimo, dramatizar exteriormente o mundo interno, representar ele próprio o papel destrutivo e provocar seu controle por uma autoridade externa”. Conforme Winnicott (1999b), a criança ao demonstrar comportamento agressivo está expressando sua vida instintiva ativa e ambientalmente permitida quanto aos seus impulsos instintivos, de modo que Se o ambiente fornece cuidados satisfatórios e se mostra capaz de reconhecer, aceitar e integrar essa manifestação do humano, a fonte de agressividade - que, no 28 início, é motilidade e parte do apetite - torna-se integrada à personalidade total do indivíduo e será elemento central em sua capacidade de relacionar-se com outros, de defender seu território, de brincar e de trabalhar. Se não for integrada, a agressividade terá que ser escondida (timidez, autocontrole) ou cindida, ou ainda poderá redundar em comportamento anti-social, violência ou compulsão à destruição (DIAS, 2000, p. 12). Também encontramos outra forma do controle da agressividade, através do medo, descrita como “[...] a versão dramatizada de um mundo interno terrível demais” (WINNICOTT, 1999b, p. 100), com intenção de que algum controle apareça e este o faça parar. Para tanto, “É tarefa do adulto impedir que essa agressão fuja ao controle. Proporcionando uma autoridade confiante, dentro de cujos limites um certo grau de maldadepode ser dramatizado e usufruído sem perigo.” (1999b, p. 101-102). Pais, professores e demais figuras responsáveis pelo cotidiano das crianças, precisam manter cuidados referentes a uma presença de autoridade, visto que caso assim não seja, elas correm o perigo de ficar ou sentirem-se livres de controle, ou mesmo assumirem a autoridade (WINNICOTT, 1999a). Quanto à agressividade infantil, para o autor ela pode ser uma resposta frente à frustração ou mesmo fonte de energia, deste modo sendo um impulso natural, o qual requer “[...] pais confiantes, fortes e amorosos que possibilitem a expressão, continência e contenção destes comportamentos. Do contrário a criança, [...] sentira necessidade de reprimi-los, tornando-se tímida ou deprimida; ou ainda, tornando-se tirânica [...].” (ZANETTI; GOMES, 2011, p. 88). Um ambiente onde amor, força e tolerância caminhem juntos, quando bem administrado, favorece o desenvolvimento infantil, e de modo contrário, quando o ambiente se mostra com liberdade demasiada, a criança acaba buscando não somente a satisfação do seu prazer, mas também aquilo que lhe causa angústia, na busca de um suporte de autoridade, “[...] alguém que a ajude a contê-la e possa se tornar a fonte de amor e confiança.” (WINNICOTT, 1999 apud ZANETTI; GOMES, 2011, p. 89). Para Winnicott (1999b) a criança que não teve sua agressividade contida por adultos fortes e amáveis, tendem a desenvolver comportamentos de tirania, os quais não retratam maldade ou sadismo, mas sim um pedido de ajuda, e caso não seja cuidada, pode vir a desencadear tendências antissociais. Ainda para este mesmo autor, a criança antissocial esta “[...] olhando para um pouco mais longe, recorrendo à sociedade em vez de recorrer a família ou a escola para lhe fornecer a estabilidade de que necessita, a fim de transpor os primeiros e essenciais estágios de seu crescimento emocional.” (WINNICOTT, 1999b, p. 130). 29 Winnicott (1996) pontua que a família representa o lugar onde a criança crescerá e adolescerá, sendo tarefa dos pais prover um ambiente adequado para esse desenvolvimento, e compreende que quando o mesmo não ocorre, tendências à comportamentos antissociais podem aparecer (1999b). Adolescentes com conduta antissocial podem estar apenas expressando um pedido de ajuda à sociedade, podendo ser entendido que do sentimento ao ato conflitante com a lei existe uma busca por algo ausente. O adolescente “pode transgredir a lei como forma de inscrever-se nela, passando depois a respeitá-la”, de acordo com Nogueira (2003, p. 16) e em conformidade com Winnicott (1999b). Ao compreender a “[...] delinquência como um estilo de vida ou padrão de conduta que se caracteriza pelo confronto e antagonismo frente às normas e valores sociais vigentes”, (SÁ, 2001, p. 13), percebe-se que [...] a delinquência infanto-juvenil, bem como a criminalidade em geral, pode ser compreendida como busca de solução a uma história de conflitos, frustrações e privações, incluída aí a privação emocional das relações com as figuras parentais, [assim como os sentimentos de solidão do menores que - grifo nosso] correspondem a privação emocional de que fala Winnicott. (SÁ, 2001, p. 14). Percebe-se a enorme contribuição das figuras parentais, no que concerne as condutas antissociais dos adolescentes, contudo, reduzir o fenômeno antissocial apenas ao contexto familiar, seria ignorar um universo de possibilidades e inferências do meio. 4.4 FINALIZANDO LEITURAS E DISCUSSÕES Compreende-se que na cultura do narcisismo os pais podem impedir que a criança ou adolescente venha a desenvolver sua própria personalidade, sendo eles a imortalidade de seus egos, pois procuram suspender, em favor da criança, tudo que outrora foram obrigados a respeitar, assim tentam reaver o que não lhes fora concedido ou alcançado. Querem um ser moldado aos seus desejos, e conforme palavras de Freud (1914/1969a, p. 97) “A criança concretizará os sonhos dourados que os pais jamais realizaram”, mesmo que apenas em suas próprias fantasias. Os períodos do desenvolvimento psicossexual freudiano trouxeram luz quanto aos comportamentos decorrentes das más elaborações das fases, visto que muito estão presentes nos comportamentos consequentes da orfandade funcional, como a toxicomania, alcoolismo, tabagismo e obesidade (fase oral), a agressividade, rebeldia e desafio (fase anal), problemas 30 com leis sociais e relações perigosas decorrentes da falta de autoridade, regras e limites (fase fálica), problemas de interação social e pertencimento (período de latência), e retorno dos conflitos e fixações das fases anteriores (fase genital). Ainda assim, seriam necessárias pesquisas de campo com um público alvo específico (crianças e/ou adolescentes com características de órfãos funcionais e suas famílias) para que uma correlação de mais contundente possa ser estabelecida. (FREUD, 1996a, 1996b, 1996c). A leitura pelo princípio de autoridade em Winnicott (1999a) confere a pesquisa um discernimento no que diz respeito a autoridade dos pais frente aos filhos, onde os menores buscam desesperadamente alguém que lhes imponham limites, ao dramatizarem seus impulsos, em busca de responsáveis que possam contê-los, dizer-lhes sobre regras, e suportarem as manifestações desse mundo interior que os impulsionam. Percebe-se que a autoridade buscada pela criança visa um amparo que consiga suportar seus desejos destrutivos - que a frustre sendo justo e firme, que diga não quando necessário -, e quando esta autoridade não se apresenta devido a pais negligentes ou fragilizados em suas atribuições - funções parentais -, esta não lhes concede confiança, e os sintomas da orfandade funcional podem começar a se tornar evidentes (indisciplina em busca de limites, delinquência, tendências antissociais e outros), não para os pais, - estes que negam a existência de deficiências nos próprios filhos, pois estão imersos numa condição narcísica do filho perfeito ou acuados pelo medo de perderem o amor que este possa lhes prover -, mas para os demais que serão presenteados com o convívio de novos órfãos de pais vivos. Ao serem analisadas as três leituras apresentadas (narcisismo, freudiana e winnicottiana), percebe-se onde os autores manifestam suas pontuações sobre a enorme influência dos cuidados, do sentimento de segurança no exercício da autoridade parental sobre as crianças e adolescentes, tanto no que concerne às suas personalidades e saúde psicológica quanto aos aspectos de seus comportamentos perante a sociedade que podem ser comprometidos caso não haja uma efetiva dedicação. Encerra-se aqui, aos que são pais e mães ou ainda aos que desejam ser, fica o alerta “Haverá idas e voltas, haverá luz e penumbra, haverá erros e acertos, o que não pode haver é preguiça, negligência, irresponsabilidade, desonestidade emocional, esvaziamento afetivo, ocultações. O que não pode haver, definitivamente, é deserção, abdicação e ausência.” (SINAY, 2015, p. 205). 31 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Revisitando os objetivos iniciais, buscou-se apresentar através de uma extensa revisão da literatura a respeito do tema, como a historicidade da família, nos seus diversos modelos e distintas configurações na era contemporânea, transformação do laço social e das funções parentais, e cultura do narcisismo colaboraram para o entendimento do fenômeno da orfandade funcional, e como este se mantem tão presente na atualidade. As ponderações presentes neste artigo estão em sintonia com os estudos dos teóricos que se dispuseram a compreender as relações de pais/mães com seus filhos, onde na atualidade as crianças ao nascerem já estão imersas num ambiente de maior liberdade, que consequentemente proporciona um acesso a exploração, conhecimento do mundo que as rodeia e das famílias com as quais vivem. Tal condição permite um convívio com a diversidade, com a tecnologia,