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1. prefacio: levar o neoberalismo a serio
2. apresentaÇão
3. introdução:
1. i-4• A racionalidade liberal: promessas de liberdade
2. 1.7. O nascimento do neoliberalismo
3. 1.1o. As resistências neoliberais: mudar para dominar
4. 2.2. Poder, norma e neoliberalismo
1. 224 Carvalho, Saio. Aplicação da pena no Estado de
5. 3-5- Tudo é impossível de mudar
Contra a miséria neoliberal Rubens Casara
prefacio: levar o neoberalismo a serio
apresentaÇão
introdução:
i-4• A racionalidade liberal: promessas de
liberdade
1.7. O nascimento do neoliberalismo
1.1o. As resistências neoliberais: mudar para
dominar
2.2. Poder, norma e neoliberalismo
224 Carvalho, Saio. Aplicação da pena no
Estado de
3-5- Tudo é impossível de mudar
PREFACIO: LEVAR O NEOBERALISMO A
SERIO
Christian Lavalj
Fala-se constantemente do neoliberalismo, atribuindo-lhe significados muito
diferentes uns dos outros, numa espécie de inflação verbal descontrolada.
Rubens Casara tem razão em escrever que “o significante ‘neoliberalismo’ é
usado de tantas maneiras que acaba por se tornar uma espécie de conceito
‘guarda-chuva’, um nome vago e impreciso”. Tal imprecisão é uma fonte de erro
no diagnóstico e também na resposta política ao fenômeno. Por conseguinte,
qualquer trabalho acadêmico que vise definir rigorosamente o neoliberalismo e
colocá-lo de novo no centro da discussão é uma salvação pública. Esse é o caso
do livro de Rubens Casara que estás prestes a ler. O autor oferece ao leitor
brasileiro uma entrada extremamente clara em toda uma série de análises e
pesquisas que compõem o que poderia ser chamado, para usar uma expressão
inglesa, studies que se desenvolvido há cerca de vinte anos em nível internacional.
Esses estudos permitiram corrigir uma série de erros, como o que consiste em
identificar o neoliberalismo com uma completa abstenção do Estado na vida
econômica e social. O neoliberalismo não é, e nem pode ser, no plano da prática
algo “anti-estado”, como proclamado por doutrinas que são mais ligadas ao
libertarismo do que propriamente neoli-berais. É preciso dar ao termo o sentido
mais exato que se encontra presente nos trabalhos de pesquisa inspirados pelas
intuições de Michel Foucault: de um certo tipo de governo de indivíduos, que,
por sua vez, exige um certo exercício de poder por meio de um Estado forte,
autoritário, por vezes violento, que visa uma nova articulação entre as esferas
pública e privada. Dizer que esse Estado neoliberal está a serviço da dominação
capitalista ngo suficiente. A afirmação é demasiado geral e, além disso, não é
muito nova. O Estado neoliberal é um instrumento de transformação de toda a
sociedade, mesmo em domínios da existência que não estão retamente
implicados na acumulação de capital, como se o seu objetivo final fosse uma
transformação global da sociedade de acordo com as normas do mercado e do
funcionamento das empresas.
E é mesmo a metamorfose do ser humano que está em questão com a extensão
universal da lógica da concorrência e a identificação de cada indivíduo com um
universal da lógica da concorrência e a identificação de cada indivíduo com um
capital que deve ser racionalmente gerido. O núcleo do neoliberalismo é um
certo modo de governar as sociedades de acordo com a razão do capital
transformada em universal, ou seja, de acordo com a norma da concorrência e a
lógica da empresa impostas a todas as atividades e subjetividades.
Esse núcleo não faz do neoliberalismo uma forma política imóvel. O livro tem
outros interesses, como o de sublinhar a plasticidade do neoliberalismo e a sua
capacidade de adaptação aos mais variados contextos. Rubens Casara tem
fórmulas notáveis. Assim, quando escreve: “a racionalidade neoliberal produz
‘novos’ modelos neoliberais compatíveis com as necessidades de cada contexto:
neoliberalismo com um verniz democrático, neoliberalismo para Estados laicos,
neoliberalismo para fundamentalistas religiosos, neoliberalismo para sociedades
conservadoras, neoliberalismo para sociedades autoritárias e, como símbolo de
maior engenho-sidade, um ‘novo’ neoliberalismo como ‘resposta’ aos problemas
gerados pelos ‘velhos’ neoliberalismos”. Não se poderia dizer nada melhor na
tentativa de compreender as situações muito confusas que encontramos nos
Estados Unidos ou no Brasil, que associam métodos autoritários com o conteúdo
político mais autenticamente neoliberal. O neoliberalismo pode perfeitamente se
acomodar a métodos e a discursos fascistas para se impor contra as forças de
esquerda e os sindicatos, e pode ocasionalmente empunhar golpes de Estado,
promover mobilizações de massas, incentivar milícias armadas, mesmo que não
possa ser inteiramente confundido com o fascismo histórico. O Estado Total de
Mussolini não era compatível com uma racionalidade que toma como modelo a
empresa privada em situação de concorrência e introduz o cálculo econômico em
todas as engrenagens institucionais. Mais do que expor raciocínios de forma
analógica, o livro procura captar a originalidade das formas mais
contemporâneas de neoliberalismo, que são também as formas mais duras e
violentas. Distante de qualquer abordagem essencialista, o método de Rubens
Casara consiste em perguntar como j-unciona o neoliberalismo. Quais forças de
sedução imaginária ele mobiliza? Por meio de quais normas ele orienta as
práticas? Quais subjetividades ele forma?
É talvez na terceira parte da obra que nós encontraremos a chave da resiliência
do neoliberalismo. É a parte que constitui, a meus olhos, a mais fecunda
contribuição para as investigações futuras. Pois a questg0 política mais
fundamental hoje em dia é saber como uma lógica normativa como essa pode
continuar a impor-se quando, todos os dias e em todos os planos, vemos e
sofremos as suas consequências mais negativas. À ideia tipicamente foucaultiana
de uma uniformização de práticas é necessário acrescentar outro esquema
interpretative, que considero mais complementar a ela do que contraditório. Esse
outro quadro de análise mobiliza a
. • j . . z ■ , ao qual Castoriadis inscreveu o seu nome. Eu sou, pessoalmente,
muito sensível a
categoria do imagmario 1 r
essa injunção de Rubens Casara: “É preciso levar a sério o imaginário
neoliberal.”
De fato, não podemos esquecer que o mundo social e as subjetividades, que são
também sociais, são estruturadas por imagens de si, dos outros, da sociedade, da
vida em geral, que interagem permanentemente com as práticas. Também é
necessário interessar-se de perto, como faz o autor, pelas máquinas produtoras
de imagem que naturalizam o mercado, a empresa e o capital. Isso leva Rubens
Casara a se interrogar sobre a imago fundamental do neoliberalismo: a
ilimitação. O autor não faz disso um simples reflexo da economia capitalista.
Esta última precisava, certamente, do imaginário do mundo infinito nos seus
primórdios. Mas tal imaginário capitalista permaneceu, durante muito tempo,
confinado à economia, foi mesmo confundido com a economia, o que, ademais,
permitiu a Marx desenvolver a lei da dinâmica capitalista, esse “sempre mais”
que impulsiona o progresso dos negócios.
Com o neoliberalismo, a ilimitação está no coração do imaginário produzido
pela indústria cultural, pela cultura gerencial e pelo discurso do Estado. Ela se
estende a todos os campos da existência, e pretende dar-lhe o seu último sentido.
Já não estamos na época em que Freud descobriu, ao mesmo tempo, o
narcisismo e as feridas infligidas pela civilização. Agora nós chegamos a uma
exaltação da onipotência que os falsos heróis do entretenimento de massas e os
modelos de publicidade, para não falar de alguns autocratas vulgares, procuram
encarnar. Falar do imaginário neoliberal, portanto, é dizer que as imagens da
ilimitação tornaram-se autônomas em relação à economia e jorram
continuamente nos receptáculos das subjetividades dos con-consumi-dores.
E é precisamente aí, como o autor insiste no final do seu livro, que se pode
vislumbrar um possível “para além da ilimitação”. O dilema agorasoberania dos demais
Estados a uma mera ficção. Assim, também o poder bélico e/ou econômico de
um Estado, em princípio, pode limitar o poder econômico de uma empresa, da
mesma maneira que o poder econômico de algumas empresas podem impactar
no poder político de diversos Estados.
O Direito ocupa um papel de destaque entre os limites ao poder. Desde a Idade
Média, o Direito é apresentado como uma das principais tentativas de contenção
do poder, e, de fato, ele, com seus respectivos ritos e procedimentos jurídicos,
muitas vezes similares aos procedimentos religiosos, tanto quanto o recurso às
armas, serviu à limitação do exercício do poder feudal, do poder exercido a
partir da racionalidade feudal, então hegemônica. O Direito foi um dos
principais instrumentos e fatores da superação do feudalismo, o que levou à
concentração de poder nas mãos do rei. Por outro lado, se o Direito serviu ao
absolutismo, também, quase que imediatamente, passou a ser utilizado na
tentativa de impor limites ao poder real, mais precisamente ao poder de polícia
exercido de forma arbitrária em nome do rei.
O Direito natural, que se sustentaria na mesma ordem superior (natureza/Deus)
que autorizava os privilégios reais, serviu de apoio a todos aqueles que
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pretendiam limitar a extensão indefinida do poder real e superar a razão do
Estado que permitia o uso do poder contra os inimigos políticos do rei. Assim,
ainda no absolutismo, o instrumental jurídico passou a ser utilizado na tentativa
de construir uma espécie de limite externo à razão de Estado. O Direito era,
então, apresentado por juristas como anterior ao Estado (e toda a construção do
Direito natural se desenvolve a partir dessa premissa). Então, segundo essa
construção ideológica, o direito constituiría o próprio Estado, razão pela qual
algumas leis fundamentais seriam tão absolutas quanto o poder do rei. Esses
direitos naturais seriam ainda imprescritíveis, e nenhum soberano poderia
transgredi-los.
Durante os séculos XVII e XVIII não faltaram tentativas de, através do Direito e
da razão jurídica, produzir fissuras na razão de Estado e, em consequência,
limitar o poder de polícia. O Direito, em relação à razão de Estado, se
apresentava como um elemento externo que procurava direcioná-la. A razão de
Estado, por sua vez, sempre autorizou ações tendentes a desconsiderar as regras
jurídicas e exorbitar a esfera do Direito. Desnecessário frisar que, como todo
limite externo, o Direito nunca conseguiu impedir que o exercício do poder
tendesse ao arbítrio e à opressão.
É importante, todavia, registrar que, em um dado momento, o Direito e as
instituições do sistema de justiça passaram a não mais legitimar e multiplicar o
poder real. Ao contrário, pode-se perceber uma atuação voltada a restringi-lo, o
que é um sintoma de que a hegemonia da razão de Estado enfrentava resistência.
Tanto a tese da existência de um Direito natural anterior ao Estado quanto as
teorias contratualistas, que são construídas a partir da ideia de que as pessoas
abrem mão de parcela de sua liberdade para constituir um governo que, por sua
vez, passaria a ser devedor de prestações negativas e positivas em relação ao
povo, são exemplos de esforços intelectuais para limitar o exercício do poder do
rei. Pode-se, inclusive, afirmar que o ramo do Direito público nasce no momento
em que o Direito passa a ser utilizado com o objetivo de limitar o poder do
Estado.
No século XVI, a racionalidade hegemônica (razão de Estado) levou a um
imaginário que englobava diversas crenças influentes até hoje, mas que podem
ser tidas como contrárias ao ideal democrático, tais como a de que um fim
superior justifica os meios empregados. Oportuno lembrar que, ao lado da
concepção laica de razão de Estado, surgiu uma variação fundada nas virtudes
cristãs (e com um conteúdo ético que se revelava no prestígio do valor
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prudência) que seguia o modelo da Igreja Católica Romana e tinha por objetivo
alcançar a ordem e a obediência em atenção à vontade divina, que a tudo
autorizava.
Em apertada síntese, pode-se afirmar que a razão do Estado, em que pese as
variações percebidas durante o período de hegemonia dessa racionalidade (e que
podem ser identificadas nos escritos de autores como Maquiavel e Botero), leva
ao exercício do poder com o objetivo principal de eliminar os riscos para o
Estado e garantir a segurança contra os inimigos. Isso, pois, aponta para uma
racionalidade voltada à manutenção da ordem e que pode ser resumida na
fórmula típica da lógica absolutista: “paz armada”. Para garantir a segurança do
Estado, ou seja, para assegurar a manutenção do poder, o governante estaria
autorizado a fazer o que fosse necessário para afastar o risco.
Como toda racionalidade hegemônica, a razão de Estado tinha uma dimensão
normativa e uma imaginária. A primeira impunha ao governante determinados
modos de atuar, mesmo que isso significasse violar outras normatividades, a
segunda, por sua vez, explicava a existência de certas imagens e idéias
compartilhadas entre os governantes e os governados. Um dos efeitos da
hegemonia de uma racionalidade é naturalizar práticas e discursos que seriam
impensáveis à luz de outras racionalidades. Essas práticas e discursos, não raro,
sobrevivem à perda da hegemonia da racionalidade que lhe deu origem e,
sempre que úteis, podem ser resgatadas e empregadas à luz dos objetivos dos
detentores do poder político.
Vale ainda lembrar que o exercício do poder real durante muito tempo esteve
longe de merecer ser chamado de absolutista.^ Na realidade, durante muito
tempo vigorou uma espécie de equilíbrio transacional entre o rei, os demais
nobres (os detentores do poder econômico) e o chefe militar (detentor direto do
poder bélico). O poder não era concentrado, uma vez que exercido por diversos
agentes. Essa forma partilhada de governo, pouco a pouco, foi substituída. E
essa substituição, com o fortalecimento do poder real, se deu juntamente com a
emergência da razão de Estado. Essa nova racionalidade levou à compreensão e
à naturalização da ideia de que a concentração de poder, com o monopólio do
uso da violência, era necessária para a solução dos problemas postos ao
governante.
Todavia, a razão de Estado, racionalidade que permitiu e justificou o
absolutism©, começou a ser superada a partir da mudança gradativa tanto da
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percepção quanto das práticas das pessoas submetidas ao exercício do poder real.
E isso só foi possível a partir do aprofundamento de discussões, da identificação
dos problemas causados pela concepção absolutista, da superação de medos e
preconceitos, da formulação de teorias, do reconhecimento de abusos, de ações
contrárias ao poder real etc.
Uma nova racionalidade produz tanto um novo imaginário, um novo conjunto de
imagens produzidas a partir do universo simbólico, quanto uma nova
normatividade. A racionalidade insere-se, portanto, no campo da linguagem e
dos limites, e é da ordem de um sistema de representações que determinam o
indivíduo à sua revelia, o que se dá a partir do recurso a determinados
significantes (no caso do neoliberalismo: mercado, empresa, capital humano,
concorrência etc.). Uma nova racionalidade produz também um novo habitus,H
um sistema de disposições duráveis que produzem ações e modificam a
sociedade e o indivíduo. Com a emergência de uma nova racionalidade, há uma
progressiva alteração da forma como indivíduos e atores políticos percebem o
mundo-da-vida e a ele reagem.
Diversas racionalidades podem coexistir, seja de maneira harmônica, seja em
contradição. A hegemonia de uma racionalidade não apaga os elementos ou
impede as práticas forjadas a partir de outras racionalidades. Nesses momentos
de coexistência conflituosa entre racionalidades distintas, tanto o imaginário
quanto o habitus tornam-se mais complexos na medida em que as imagens e as
práticas que passam a ser produzidas se originam de imaginários e de
normatividadescontraditórios. Essas contradições acabam por revelar o caráter
dialético, plástico e amoldável das racionalidades, bem como a tendência à
cooptação de elementos de outras racionalidades pela racionalidade hegemônica.
Preservando-se o núcleo fundamental de uma determinada racionalidade, ou
seja, as imagens e as normas principais geradas por ela, o periférico pode ser
abandonado ou se adaptar às tradições ou às características locais. No Brasil, a
convivência entre a racionalidade liberal e a escravidão, no século XIX, é um
bom exemplo dessa adaptação da racionalidade hegemônica aos fenômenos
gerados em outras racionalidades e às mais diversas ideologias.
No Brasil, a escravidão é o fenômeno que condiciona até hoje o modo de ver e
de agir da população. Mesmo com o fim formal da escravidão em 1888, a
percepção de que é possível hierarquizar e descartar seres humanos nunca
deixou de existir. As diversas racionalidades que se tornaram hegemônicas no
Brasil, em especial no que se refere à dimensão imaginária da população, se
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adaptaram sem dificuldades ao racismo estrutural do brasileiro. A ideia de que
existem pessoas que podem ser usadas e comercializadas perdura em diversos
setores da vida brasileira, como demonstram tanto a seletividade da atividade
policial quanto os episódios frequentes de racismo explícito. Pretos são mais
abordados e presos pela polícia brasileira do que brancos, conforme demonstrou
a pesquisa^ conduzida por Silvia Ramos e Leonarda Musumeci sobre a
dimensão racista do significante “elemento suspeito”, um dos conceitos abertos
utilizados pela lei brasileira para legitimar a abordagem policial. Sem
compreender o racismo em todas as suas variações (estrutural,^ religioso,
policial, recreativo^ etc.) não é possível compreender, por exemplo, a facilidade
com que racionalidades autoritárias se tornam hegemônicas no Brasil.
O Brasil foi construído a partir da naturalização da escravidão, ou seja, a partir
de um imaginário que aceita a humilhação, a desumanização e o castigo físico de
pessoas. É a escravidão, e o fato dessa ideia nunca ter chegado a ser
desconstruída no Brasil, que levou à construção de um imaginário que permite o
prazer em humilhar aqueles que são considerados inferiores sociais e que
reserva à elite, em especial àqueles que detêm o poder econômico, a gestão do
Estado diante da crença da incapacidade do povo de cuidar de seus próprios
interesses. A República Velha (de 15 de novembro de 1889 a 24 de outubro de
1930), nada mais foi do que uma continuação do imaginário escravagista e das
idéias dominantes com uma tendência oligárquica (em especial, após 1894) que
se caracterizava pela ampliação do poder das elites regionais, com destaque para
os detentores do poder político e econômico de São Paulo e de Minas Gerais.
Como percebeu Jessé Souza, as idéias dominantes, parte fundamental do
material que vai constituir o imaginário em uma determinada época, produzem
um efeito de desconhecimento e de ocultação, distorcendo a realidade e
invertendo as causas dos fenômenos sociais.^ Há uma espécie de bloqueio que
certas idéias provocam e que impede a reflexão. A imagem equivocada que se
cria dos fenômenos e o empobrecimento subjetivo têm nessas idéias
hegemônicas, muitas vezes produzidas e reproduzidas com finalidade ocultas,
uma de suas principais causas. Por vezes, travestidas de científicas ou neutras,
essas idéias são fabricadas e servem para confirmar um conjunto de preconceitos
e eternizar quadros de dominação social. Uma racionalidade com potencial para
condicionar o exercício do poder precisa contar com essas idéias que são aceitas
como naturais pelas pessoas que serão tanto sujeitos quanto objetos dos atos
concretos de poder. Não é incomum que essas idéias ligadas a uma determinada
racionalidade se distanciem do valor verdade, pois, tanto para os que vão exercer
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o poder quanto para os que vão se submeter a ele, a verdade pode ser incômoda.
Em apertada síntese, uma racionalidade só se torna hegemônica em um
determinado contexto, ou seja, só passa a condicionar a forma de ver e atuar no
mundo a partir da aceitação social da importância das idéias, da normatividade e
do imaginário construído a partir dela. O processo de construção, manipulação e
naturalização de idéias e conceitos, apresentados como os únicos possíveis ou
realistas, explica como tantos oprimidos aceitam passivamente medidas que só
interessam ao opressor. Oportuno lembrar do slogan usado pela primeira-
ministra britânica Margaret Thatcher no campo econômico, “there is no
alternative” (“Tina”), ao implementar o neoliberalismo na Inglaterra.
Para entender como uma racionalidade se torna hegemônica, portanto, é
necessário não só identificar as idéias dominantes em uma determinada época
como também as mentiras que servem ao exercício do poder. Como o
liberalismo econômico, que parte da premissa de que todos os indivíduos são
autônomos, livres e vivem em um mundo transparente e claro. A partir dessa
ideia-base, nasce a crença de que o mundo está livre para ser conquistado por
cada indivíduo, que se vê como plenamente capacitado para vencer na vida,
bastando para tanto que atue de forma disciplinada e diligente.^?
O liberalismo econômico, que se apresenta como a melhor maneira de cuidar da
economia, leva à crença de que cada um tem todas as condições de saber de onde
vem, o que é e o que precisa fazer para conseguir o que quer (algo como o
slogan “querer é poder”). Trata-se de uma mentira que esconde as limitações
individuais (e ninguém gosta de saber que está submetido a limitações e a
impossibilidades) e ajuda a sustentar uma determinada ordem social, que não
necessariamente atende aos interesses daqueles que acreditam nessa mentira.
Hoje, pessoas são exploradas com a ajuda dessas idéias dominantes: pessoas que
acreditam ser empresários-de-si acabam exploradas de maneira mais intensa e
perversa do que eram explorados os velhos trabalhadores sindicalizados.
No Brasil, algumas idéias, nem sempre verdadeiras, influenciam diretamente no
modo como o poder é percebido e exercido. Dentre outras, o personalismo, o
patrimonialismo e o populismo merecem destaque. O personalismo em terra
brasilis se caracteriza pela crença de que o brasileiro é inferior ao europeu e ao
norte-americano por ser mais emotivo e tendente a privilegiar a família e os
amigos. A ideia do patrimonialismo se sustenta na crença de que o brasileiro,
mais do que os cidadãos de outros países, tendería a confundir o público com o
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privado, o que faz com que ele seja corrupto na gestão do Estado e na política
(enquanto o mercado é apresentado como o espaço da virtude). Por fim, no
Brasil, vigora uma versão negativa do populismo, mais precisamente a ideia de
que tudo aquilo que vem do povo é ruim ou, ainda, a crença de que a população
é infantilizada e precisa ser tutelada pelas elites.
Pode-se, portanto, levantar a hipótese de que o imaginário forjado a partir de
uma determinada racionalidade pode ser retratado como algo que possui
camadas, como uma espécie de cebola, ou seja, um ente com folhas
escamiformes ou camadas, o que sugere a existência de imagens e normas mais
profundas e sedimentadas em oposição a imagens e normas mais tênues e
tendencialmente provisórias. Isso porque a imagem que se tem do mundo é
produzida a partir de vários elementos, como, v.g., a coexistência de
normatividades distintas, a suscetibilidade a determinadas idéias, o
pertencimento a uma classe, a história de vida de cada um etc.
A racionalidade procura tanto dar sentido e coerência a um conjunto normativo
quanto fundamentar e condicionar o imaginário de forma profunda, o que
implica a conformidade de determinadas crenças às ações adotadas a partir
dessas crenças.Percebe-se, pois, que existem diversas racionalizações em
diferentes esferas de vida e em todas as culturas. Há, por exemplo,
racionalidades em que a realização de uma determinada finalidade é a principal
meta a ser buscada por todos, como acontece na razão do Estado, e outras em
que vigora a norma de que os fins não justificam os meios, uma vez que as ações
estão condicionadas por determinados valores que impedem determinadas ações
e a utilização de determinados meios. A diferença entre uma racionalidade
relacionada com os fins e uma racionalidade forjada a partir de valores, por
exemplo, permite constatar que o processo de hegemonização não é simples. Há
uma tensão constitutiva de cada racionalidade, bem como a pretensão de tornar-
se hegemônica. Identificar a racionalidade hegemônica ajuda à explicitação do
processo histórico e sociocultural que leva à compreensão do mundo, mas
também toca questões pulsionais à repressão, ou não, das pulsões.
Uma racionalidade torna-se hegemônica no momento em que passa a servir às
decisões e condicionar o acerto ou não das condutas adotadas pela maioria da
população em um determinado contexto. Pode-se, então, relacionar uma
racionalidade hegemônica com aquilo que Foucault chamou de regime de
verdade. Uma determinada racionalidade, ao se tornar hegemônica, produz um
regime de verdade típico. Pense-se nas ordálias ou juízos de Deus (judicium
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dei), procedimentos probatórios destinados à revelação da verdade a partir da
intervenção divina. Como, por exemplo, no caso de Ema da Normandia, acusada
de adultério, que, para provar sua inocência, teria tido que andar descalça
pisando em arados de ferro, enfileirados e aquecidos por fogo, pois se a acusação
fosse falsa, Deus interviria para impedir o sofrimento e salvá-la. A verdade era
revelada por Deus a partir de uma racionalidade que partia da crença de que o
Senhor poderia intervir diretamente no mundo-da-vida. Uma nova racionalidade
sempre coloca em questão o regime de verdade antes em vigor.
Os valores que integram determinada forma de ver o mundo levam a princípios e
a regras que tendem a ser seguidos, ou seja, há uma dimensão normativa contida
na ideia de racionalidade. O absolutismo, por exemplo, correspondia a uma
determinada maneira de entender e atuar no mundo. Sem a normatividade que se
originava de uma espécie de consenso em torno dos valores típicos do
absolutismo, essa forma de exercício do poder não teria se mantido. Existia,
então, um conjunto de valores, de narrativas, de regras e de princípios que
justificava e permitia a concentração explícita de poder e a submissão de muitos
aos desejos de poucos. Na modernidade, superada a racionalidade absolutista, a
concentração de poder e a submissão da maioria ao desejo da minoria passou a
ser dissimulada. A religião, que sempre se apresentou como a chave para a
religação com Deus, exercia um papel fundamental à concentração de poder
absolutista: se Deus, através de seus pre-postos na terra, únicos legitimados a
interpretar a vontade divina e os textos sagrados, reconhecia uma pessoa como
aquela a que todos deveríam se submeter, o que esperar de uma população que
compreendida e atuava no mundo à luz da promessa de vida eterna e de salvação
divina?
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i-4• A racionalidade liberal: promessas de liberdade
Apenas por volta da metade do século XVIII pode-se constatar uma mudança
significativa na racionalidade governamental. Foucault chega a mencionar que a
partir desse momento pode-se falar em uma “razão governamental moderna.”^ E
o que aconteceu nesse momento? O surgimento de uma regulação interna da
racionalidade governamental. Não mais uma tentativa de impor limites externos,
como a vontade divina ou mesmo o Direito, mas um princípio de limitação que
começa a se impor de dentro da própria ação governamental. O próprio desejo de
uma ação governamental eficiente fazia com que determinadas ações não
pudessem mais ser realizadas. Os fins da ação governamental passaram a limitar
os meios. Tratava-se, então, de uma limitação de fato, e não de direito, mesmo
que, após o aparecimento dessa limitação de fato, alguns textos legais tenham
descrito e previsto em textos legais esse limite.
Assim, o respeito (ou não) ao limite se dava mais em razão de juízos de valor
relacionados à eficiência do ato do que da existência de uma proibição legal: se
um governante violasse esse limite interno, ele seria considerado um governante
inapto, um governante que não faz aquilo que interessa a um bom governo. Não
se trata de um conselho de prudência, mas de uma verdadeira regulação interna:
uma limitação, que se caracteriza pela generalidade; uma normatividade que leva
a um quadro de ações relativamente uniformes, em função de princípios que são
considerados válidos diante de determinadas circunstâncias. Admitir a existência
de limites internos ao exercício do poder e à prática governamental significa
reconhecer a possibilidade de meios inadequados aos fins visados pela ação
governamental. Para atender aos objetivos do Estado passou a ser necessário
aceitar a existência de limites à ação estatal.
O que caracteriza esse momento de transformação e a emergência da razão
governamental moderna é a descoberta de um cálculo, inerente à ação
governamental, direcionado à realização dos objetivos do Estado. A
racionalidade governamental leva, desde então, à prática de ações e ao respeito
de limites que são revelados a partir de cálculos que têm por finalidade alcançar
os objetivos do Estado e apontar os melhores meios à disposição dos
governantes para isso. Surge, então, uma divisão entre o que deve ser feito para
alcançar os objetivos do Estado e aquilo que não convém fazer, entre as
operações que podem ser feitas e as que não podem, entre os meios a serem
empregados e os que estão vedados. Em outras palavras, há um novo regime da
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empregados e os que estão vedados. Em outras palavras, há um novo regime da
verdade: uma verdade revelada e alcançada através de cálculos.
Nessa época, surge também a ideia do homem econômico (Homo economicus),
um homem que faz cálculos para decidir o que fazer para facilitar sua vida e
aumentar sua satisfação. A máxima do “maior proveito com o menor esforço”
explicaria as escolhas racionais de todas as pessoas, independentemente do lugar
ou da época. Portanto, o conceito que justificaria a ação, a razão da atividade
econômica, seria o de interesse.
A ideia de homem econômico é uma abstração que parte de uma simplificação
do comportamento humano: são desconsideradas as dimensões morais,
religiosas, políticas, relacionais, bem como a tradição em que o indivíduo está
inserido e seu inconsciente, esse “saber que não se sabe” identificado por Freud.
As teorizações a partir da ideia do homem econômico, portanto, deixam de fora
diversos fatores que condicionam o comportamento humano. Assim, a tese do
homem econômico como modelo para as decisões no mundo-da-vida
desconsidera que raramente as pessoas estão satisfatoriamente informadas,
sabem com exatidão as consequências de seus atos ou identificam todas as
opções de ação que se fazem presentes. Não obstante, desde então, o indivíduo
foi sendo formatado para se aproximar desse modelo abstrato de ser racional.
É importante perceber que essa diferença entre limites externos (direito, moral
etc.) e limites internos à razão governamental torna-se visível já na metade do
século XVIII. Essa transformação da racionalidade, com a perda de importância
de valores até então considerados intocáveis, toma corpo através de um
verdadeiro instrumental intelectual, com a produção de imagens e idéias que
levam a uma determinada forma de cálculo, e à correlata racionalidade que se
mostra adequada à autolimitação de fato das práticas governamentais. O direito,
por sua vez, passa a servir cada vez mais para produzir efeitos no campo
ideológico, atuando de forma a justificar o sistema em vez de limitaro exercício
do poder.
Tem-se, desde então, uma normatividade de fato, ou melhor, um modo de ver e
atuar no mundo intrínseco às operações e conectado com os fins do governo.
Foucault, ao analisar essa quadra histórica, percebe que esse instrumental
intelectual, esse saber baseado em cálculos, que passa a potencializar valores
como interesse e utilidade em um dado contexto, e que permite à razão
governamental se autolimitar, não é o Direito, mas sim a economia política,
entendida como todo um saber suscetível de assegurar prosperidade, ou, na linha
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utilizada por Rousseau na Enciclopédia, como uma espécie de reflexão sobre a
organização, a distribuição e a limitação de poderes dentro de uma sociedade.
Percebe-se, porém, que, diferentemente do que ocorreu com o pensamento
jurídico dos séculos XVI e XVII, a economia política não foi uma disciplina
pensada e desenvolvida com o objetivo de limitar a razão de Estado, pelo menos
em um primeiro momento. Ao contrário, a economia política foi, em princípio,
pensada para enriquecer o Estado. Tal qual ocorria com a razão de Estado, o
objetivo da economia política era o de tornar o Estado mais forte e, assim, capaz
tanto de ajustar, ordenar e manter a vida da população quanto de fortalecer a
posição desse Estado diante de um quadro de concorrência com outros Estados.
A economia política nasce, então, comprometida com os mesmos fins da razão
de Estado. Mas não é só. Para alcançar esses fins, a economia política não
rejeita, e até se mostra capaz de incentivar, a ilimitação do poder do Estado, bem
como naturalizar as consequências da adoção de um modelo de Estado de
polícia, por exemplo. Isso, aliás, permitiu que o saber da economia política e a
prática dos cálculos de interesse começassem a produzir efeitos mesmo diante da
hegemonia da “razão de Estado” - e, pouco a pouco, passasse a corroê-la por
dentro.
Vale repetir: esse vínculo originário entre a economia política e o objetivo de
fortalecer o Estado permitiu, desde o início, reconhecer a compatibilidade de
uma racionalidade predominantemente econômica com o despotismo, entendido
como um poder político sem limites externos. No século XVIII, os fisiocratas
(François Quesnay, Anne Robert Jacques Turgot etc.), que costumam ser
apontados como os primeiros formuladores de uma teoria econômica bem
desenvolvida (“a primeira economia política”) defendiam uma concepção
tipicamente despótica: para eles, a análise econômica levava à conclusão de que
o poder deveria ser “sem limites” para que fosse possível alcançar seus objetivos
com mais facilidade. Vale lembrar que a máxima do laissez-faire, que para
muitos resume o ideário liberal, nasce justamente nesse contexto, para se opor ao
modelo de intervenção e controle governamental sugerido por Jean-Baptiste
Colbert.
Essa racionalidade que se baseia na economia política produz um afastamento de
questões como legalidade (salvo, por evidente, a defesa de uma legalidade
instrumental aos fins econômicos desejados) e legitimidade, bem como confere
pouca importância à substância e à origem dos atos do Estado e dos particulares
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(em resumo: pecunia non olet), priorizando juízos e ações focados nos efeitos
desses atos. A partir dessa nova racionalidade, os fins passaram a justificar os
meios. O que passou a importar, doravante, é saber quais são os efeitos concretos
da ação governamental no momento do seu exercício e se esses efeitos devem
ser tidos por positivos ou negativos. A partir dessa racionalidade econômica os
efeitos produzidos pelo exercício concreto de um ato de poder são mais
importantes do que os valores ou as regras que levaram à prática desse ato. Para
limitar o exercício do poder, o binômio sucesso-fracasso torna-se mais
importante do que o binômio legitimidade-ilegitimidade.
Ligada à racionalidade econômica está a crença dominante de que existem
fenômenos, processos e regula-ridades que se produzem necessariamente em
razão de mecanismos inteligíveis. Essa ideia, por sua vez, leva ao imaginário de
que esses fenômenos, processos e regularidades nunca podem ser suspensos
totalmente ou de forma definitiva, mesmo que esses mecanismos inteligíveis e
tidos por necessários sejam, vez por outra, contrariados por atos de maus
governantes. Sempre que reprimidos ou constrangidos, esses elementos,
processos e mecanismos produziríam uma reação, algo como o “retorno do
recalcado” em Freud.
No imaginário adequado à racionalidade econômica haveria algo de natural,
necessário e que não pode ser contrariado na atividade governamental. Uma
espécie de fórmula para o sucesso que precisa ser seguida. Passa-se, então, a
defender a existência de uma natureza que é própria à governabilidade, aos seus
objetivos e às suas operações, razão pela qual a ação governamental concreta
deve respeitar essa natureza, as respectivas leis, os fenômenos correlates e as
regularidades necessárias. Ao contrariar a natureza da atividade governamental e
suas leis, o governante passaria a sofrer consequências negativas e fracassaria.
Como percebeu Michel Foucault, sucesso ou fracasso tornaram-se na
modernidade os critérios para a ação governamental.^ Um mau governante não é
mais aquele que é ruim com o povo por capricho ou desejo, mas aquele que é
ignorante; mais precisamente, aquele que ignora as leis da economia política. A
ignorância do novo regime de verdade que surgiu da racionalidade econômica
torna-se um fator que impede a autolimitação do governo e, por isso, faz
aumentar o risco de fracasso.
Percebe-se, pois, que cada regime de verdade e cada racionalidade hegemônica
em um determinado contexto estão relacionados com a questão dos limites ao
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poder. A verdade, ao longo da história, sempre foi utilizada para justificar ou
deslegitimar o exercício do poder. A verdade econômica tornou-se a fonte do
sucesso e da legitimação do governante. A partir da econômica política,
reforçou-se a crença de que o conhecimento da verdade (uma verdade não é
mais aquela revelada por Deus) permite ao governante a prática de atos de
governo que se direcionam à realização do princípio da máxima felicidade para
a maioria e do mínimo sofrimento necessário.
No campo do direito a ideia de justiça a partir de juízos equitativos começa a
perder espaço para o modelo de justiça a partir de cálculos utilitários. Por outro
lado, para além dos efeitos ideológicos (ideologia, aqui, empregada em seu
sentido negativo de falsa compreensão da realidade) adequados à nova
racionalidade, o aparecimento de um regime de verdade, ancorado na ideia de
que cálculos poderíam direcionar as ações políticas, não permite afirmar que as
decisões se tornaram mais racionais ou que o respeito ao valor verdade tornou-se
a regra na política. Isso porque há uma diferença substancial entre os elementos
discursivos da nova racionalidade e as ações concretas praticadas pelos
governantes, que se apresentam como os intérpretes da verdade que se
acreditava produzida pela racionalidade econômica. Em apertada síntese,
diversos outros fatores, que poderíam ser chamados de hermenêuticos, alguns de
natureza inconsciente, continuaram a influenciar na prática dos atos de governos,
desde preconceitos e pré-compreensões incompatíveis com o princípio
utilitarista da máxima felicidade, até desvios de natureza ética, ressentimentos e
pulsões. Mesmo assim, é possível perceber nessa primeira racionalidade
moderna a articulação entre uma série de práticas e um discurso que permite
identificar essas práticas, de um lado, como um conjunto coerente e, de outro,
como verdadeiras ou falsas.
Assim, a partir da metade do século XVIII cresceu a convicção de que era
possível identificar, no exercício concreto dos atos de poder, uma coerência
reflexiva e estável, a partir de mecanismos inteligíveis e fórmulas dedutíveis,
que ligava diferentes práticas aos efeitos desejados pelos detentores do poder.
São essesmecanismos, esses cálculos e a reflexão que é feita a partir deles que
permitiríam o julgamento das práticas de governo como boas ou ruins.
Em apertada síntese, com a hegemonia de uma racionalidade econômica baseada
em cálculos, passou-se a permitir uma espécie de planificação das ações estatais
que não parte do direito, da lei, da moral ou de Deus, mas sim de proposições, de
leis que seriam derivadas da natureza das coisas e que levariam ao sucesso (ou
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ao fracasso) do ato à luz dos objetivos do Estado. Em outras palavras: a ação
governamental e, em especial, os limites ao exercício do poder passaram a ser
fixados em razão desse novo regime de verdade que emerge da economia
política. Pode-se, então, falar em uma verdadeira normatividade, que tem o
regime de verdade de viés econômico como princípio de autolimitação do
exercício do poder penal.
Como se viu, o regime de verdade que se liga a uma determinada racionalidade
define o certo e o errado, o permitido e o vedado ao bom governante. Com
Foucault pode-se afirmar que o binômio práticas-regime de verdade forma um
dispositivo de saber-poder que produz efeitos na realidade, entendida como uma
trama simbó-lico-imagi-nária que repercute não só nos limites às ações humanas
como também na imagem que cada um tem dos fenômenos. Isso porque, a partir
desse dispositivo de saber-poder, é possível atribuir aos atos dos governantes as
qualidades de verdadeiro ou falso, de certo ou errado à luz da racionalidade
econômica e, portanto, condicionar a realidade.
A máxima liberal do laissez-faire retrata claramente um desses princípios de
autolimitação da razão governamental. O liberalismo, que é uma teoria, uma
prática e um modelo de organização, tornou-se também uma racionalidade
hegemônica que parte da ideia de que é necessário limitar as práticas
governamentais e, portanto, limitar o exercício do poder político em nome dos
objetivos econômicos. A premissa de que o livre mercado organiza as coisas de
maneira bem mais eficaz do que um planificador, de que o mercado pode se
auto-gerir, é apresentada como um limite interno à atividade governamental, pois
agir em sentido contrário seria violar a natureza das coisas e caminhar em
direção ao fracasso.
O liberalismo, entendido como prática governamental que conta com tecnologias
e dispositivos particulares, mas também como uma reflexão coerente e com
pretensão de verdade sobre o exercício do governo, permite identificar uma
articulação entre determinados enunciados e as práticas concretas que incidem
sobre a economia e os cidadãos. Apresentado como uma doutrina da liberdade
política, o liberalismo leva a uma racionalidade política que aparece no século
XVIII em reação às práticas do Estado de Polícia, baseadas no uso da força e na
potencialização do poder estatal. A resposta liberal ao crescimento do poder
estatal é o estabelecimento de limites. O bom governante não seria mais aquele
virtuoso, inteligente, corajoso e fiel a Deus, mas a pessoa que conhecesse e
respeitasse os limites naturais que asseguram o sucesso do governo, em especial
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o respeito à propriedade, aos direitos, às potencialidades e aos interesses dos
governados.!! E isso se daria a partir dos dois eixos da governabilidade liberal
que muitas vezes andam juntos: a lógica jurídica dos direitos inerentes às
pessoas e a lógica utilitarista. Os direitos, como já se viu, constituem limites
externos à prática governamental e ao exercício do poder, isso porque são
consagrados anteriormente em leis, tratados, convenções e constituições, escritas
ou não. A lógica utilitarista, que visa controlar os atos de poder a partir do
cálculo de seus efeitos, por sua vez, é “interior” à prática governamental. Dentre
a lógica jurídica e a lógica utilitária, os limites mais efetivos ao poder sempre
foram aqueles que se justificam a partir dos cálculos de interesse e utilidade; ou
seja, que buscam “atuar sobre o interesse dos indivíduos e se apoiar sobre o
saber econômico para limitar ao estritamente necessário o uso dos meios
governamentais”.!!
Com o liberalismo, a razão de Estado passa a ser limitada e organizada a partir
do princípio do “menor governo possível”. A racionalidade política liberal leva,
portanto, à redução das funções do Estado e faz com que os indivíduos sejam
incentivados a agir por seus interesses pessoais, porque assim acabariam por
corresponder de maneira mais adequada ao interesse geral da sociedade. No
mais, as leis compatíveis com o ideário liberal seriam reforçadas e
complementadas por induções e incitações sobre os interesses relacionados à
ação governamental. O regime de verdade nascido do liberalismo, uma verdade
sobre e para o mercado, começou a condicionar os atos de governo.
As funções administrativas e legislativas também passaram a ser exercidas a
partir dessa verdade. No aspecto disciplinar, o discurso genuinamente liberal
enunciava que cabia ao Estado defender a sociedade e aos agentes estatais,
respeitar as liberdades públicas, as liberdades do indivíduo frente ao Estado.
Percebe-se, pois, que a racionalidade liberal fez a economia política tornar-se um
guia para a renovação do direito público. Nesse movimento de renovação, o
conceito de utilidade passou a servir de critério à ação pública, enquanto o
conceito de interesse apareceu como matéria, alvo e meio à ação
governamental.!! O bom governo liberal era apresentado como aquele útil à
satisfação dos interesses individuais: a prática liberal deveria se fundar na ideia
de interesse. A noção de interesse interferiría até na compreensão e na maneira
como o governo se relacionava com o valor liberdade. No liberalismo, a
liberdade dos indivíduos costumava ser apresentada como um valor superior e
um dos objetivos do governo, mas frequentemente a liberdade concreta dos
indivíduos era manipulada ou mesmo restringida pelos governantes a partir e em
nome da ideia de interesse.
A depender do interesse dos detentores do poder político, não havia pudor em
restringir o alcance da liberdade concreta dos governados. Pense-se, por
exemplo, nas guerras travadas em nome do ideal liberal e nas pessoas obrigadas
(ainda que pelas circunstâncias) a servir a esse projeto político-econômico. No
Brasil, por exemplo, o fenômeno da escravização de pessoas trazidas do
continente africano conviveu sem pudor com o liberalismo econômico. Aliás, a
confusão tipicamente liberal entre a liberdade concreta do indivíduo e a
liberdade abstrata (presente na maioria dos manuais da teoria liberal) sempre
serviu ao uso e aos abusos dos governantes. Em nome dos interesses individuais
e coletivos era necessário, por um lado, encorajar e, por outro, controlar e
restringir as condutas individuais, naquilo que Foucault chamou de “jogo
liberdade e segurança”!! A governabilidade liberal pode ser resumida, então,
como o modo de governar que articula um sistema de poder dominado pela
forma de soberania estatal, e um sistema de interdependência e de interação dos
interesses individuais.!! Para Foucault, é essa articulação de elementos
heterogêneos que faz nascer um novo “plano de referência”, um horizonte
epistemológico original e próprio da governabilidade liberal: a “sociedade civil”.
Ainda segundo esse autor, a “sociedade civil” é um “conceito de tecnologia
governamental” ou, mais precisamente, “o correlativo de uma tecnologia de
governo em que a medida racional deva se indexar juridicamente a uma
economia, entendida como processo de produção e de troca”.ü É indispensável
governar a sociedade para que seja possível alcançar os objetivos visados por
uma economia capitalista. O social não é, para a racionalidade liberal,
incompatível com uma economia capitalista e, por isso, o princípio do laissez-
faire passou a conviver, na medida do possível, com dispositivos de segurança e
processos de normalização presentes em todos os níveis da sociedade e em todas
as esferas da existência. Assim surge a biopolítica, a gestão política da vida, nos
cálculos que são feitos a partir da relação entrea reprodução expandida do
capital e a reprodução da sociedade. Cálculos que nunca cessaram de ser feitos e
que podem levar à submissão da vida ao poder da morte (necropoder), ou seja, à
necropolítica:2Ê a gestão da morte dos indesejáveis aos olhos dos detentores do
poder político ou econômico.
A racionalidade liberal faz uso do significante “liberdade” de várias maneiras:
por vezes, como a razão de um contrato (a liberdade indiscutível seria apenas a
liberdade de contratar); em outras ocasiões, como uma mensagem ideológica,
que cria a imagem do mundo livre, submetido à racionalidade liberal (em
oposição aos países que experimentam outras racionalidades); mas, sobretudo,
como um elemento para governar as pessoas. Não por acaso, Foucault chegou a
apontar que as manifestações do poder disciplinar, em especial no que tange às
disciplinas corporais, são o “porão das liberdades formais e jurídicas”.2Z
A criação de mecanismos disciplinares, aliás, só se justifica e é aceita porque é
útil: não é possível manter a exploração e a acumulação de capital, inerentes às
sociedades de mercado, sem adotar medidas que produzam corpos dóceis (e
úteis) a esses fins. Em outras palavras, é útil a criação de mecanismos e de
corpos que protejam a acumulação e a circulação de riquezas diante dos riscos
das ilegalidades populares. A coação e a repressão podem ser vistas como a
contrapartida das liberdades, ou mesmo como condição de possibilidade da
liberdade de contratar.
A racionalidade liberal indica, ainda, que a liberdade nem sempre precisa ser
limitada pelo poder disciplinar. Ao contrário, a liberdade pode ser (e
normalmente é) instrumentalizada e usada como um elemento de uma técnica de
poder^ para conseguir o que desejam os detentores do poder político ou os
detentores do poder econômico. Isso se dá porque, segundo cálculos
probabilísticos, a coerção e a opressão direta podem ser contraprodutivas para os
objetivos de quem poderia exercê-las. Esses mesmos cálculos indicam que a
manipulação de certos elementos da trama simbólica-imaginária, conhecida
como realidade, pode ser mais eficaz, tanto para construir corpos dóceis e úteis
quanto para alcançar o objetivo de acumular e circular riquezas. Ao modificar o
imaginário ou enfraquecer o simbólico, por exemplo, os indivíduos podem ser
levados a fazer o que em princípio não fariam. Fala-se, nesses casos, em
psicopoder; em pessoas que são controladas (e, por vezes, se autoexploram) sem
ter consciência disso. O poder, então, passa a ser exercido sobre pessoas de
forma produtiva, e não mais predominantemente com um objetivo repressivo.
Se a repressão e a exclusão partem de uma consideração negativa do indivíduo
submetido ao poder, a racionalidade liberal indica que o poder também pode ser
utilizado sobre um indivíduo, que é percebido como uma positividade: utiliza-se
o poder de forma produtiva para maximizar os processos vitais da sociedade. O
foco do poder político não deve ser mais limitar a liberdade, mas produzir a
liberdade útil aos interesses dos detentores do poder econômico, a partir de leis e
dispositivos que favoreçam a liberdade de produção e de circulação. Como
percebeu Christian Laval, há uma tensão entre dois regimes de poder que
coexistem na sociedade capitalista: o regime de “controle heterônomo dos
indivíduos” e o regime de “liberdade das trocas”, que supõe uma certa
autonomia do indivíduo. Pretende-se, assim, que exista um homem formatado
por normas e livre para consumir: o homem desejável à sociedade de mercado. É
a racionalidade liberal que funda as bases que permitem e levam à separação
entre os indivíduos desejáveis (produtivos e, portanto, úteis) e os indesejáveis,
aqueles que não interessam à sociedade de mercado.
Percebe-se, pois, que a economia política, mais do que uma teoria do valor,
funciona como o ponto de apoio teórico para o exercício concreto do poder em
suas variadas manifestações. A partir de cálculos relacionados aos conceitos de
interesse, utilidade e troca, passou-se às tentativas de ampliar os efeitos
indiretos do exercício do poder. O utilitarismo torna-se, então, a teoria
dominante, com destaque para as lições de Bentham (1748-1832) e Stuart Mill
(1806-1873), na busca da ampliação dos efeitos do exercício do poder
concomitante à redução dos custos da atividade estatal.
A tecnologia utilitarista do governo consiste justamente nesse conjunto de
instrumentos, mecanismos e dispositivos voltados à manipulação das vontades e
ao condicionamento das ações que recorrem à ideia de interesse individual. E
isso só é possível porque o indivíduo a ser governado é levado a calcular seus
interesses antes de agir. Promete-se a maior felicidade e o menor sofrimento
possível, ou a maior felicidade para a maioria possível e o menor sofrimento
inevitável, este reservado à minoria da população: e o indivíduo passa a acreditar
que tudo vai depender do seu esforço e dos cálculos que ele mesmo deve fazer.
A racionalidade liberal leva os indivíduos a buscarem a realização de seus
próprios interesses, a produzirem suas próprias riquezas úteis e, em
consequência, a acreditarem que podem produzir a própria felicidade. Não se
trata mais de esperar ou de encontrar o local da felicidade, mas de produzir
utilidades, o que equivalería a produzir a própria felicidade. Essas ações
individuais em busca da máxima felicidade possível são sempre instigadas,
incentivadas e controladas a partir de cálculos que envolvem tanto os efeitos das
ações governamentais quanto os objetivos de permitir a acumulação de riquezas
e a livre circulação das mercadorias e do dinheiro. Os limites à liberdade e ao
exercício do poder, portanto, passam a ser definidos a partir do critério da
utilidade.
Mas o que é útil? Quando o indivíduo e, em especial, o governante podem agir?
Como resume Christian Laval, “o poder liberal se exerce por técnicas jurídicas e
não jurídicas de incitação e desincitação que induzem o indivíduo a calcular
dados e parâmetros que o fazem agir da maneira desejada”.^ Para o modo de
pensar liberal, o útil é sempre o resultado desses cálculos de interesse, dessas
operações matemáticas que envolvem custos e benefícios.
Se o discurso oficial do liberalismo afirma que existe um indivíduo naturalmente
livre (que cede parcela dessa sua liberdade para o Estado, em uma relação de
natureza contratual, em troca de prestações estatais), na realidade, a liberdade do
indivíduo sob o poder liberal sempre foi relativa e reduzida. A ação do indivíduo
“livre” é orientada a partir de ações deliberadas de terceiros (em regra, de quem
detém o poder político ou o poder econômico) que modificam o meio dentro do
qual, e a partir do qual, o indivíduo “decide” agir.
A racionalidade liberal permite que a liberdade do indivíduo passe a ser
encarada como um recurso calculável e direcionável. O princípio da utilidade
passa a ser o meio não só para redefinir o exercício do poder como também para
limitar a liberdade de escolha dos indivíduos. Em suma, desde o início do século
XIX, a questão da utilidade (o que é útil? Útil para quem? Utilidade individual
ou geral?) torna-se fundamental para compreender os limites ao poder público.
Sob a égide da racionalidade liberal, a liberdade deixa de ser um dom concedido
por Deus, ou um dado da natureza humana, para se tornar o produto de uma
intervenção política. A liberdade passa a ser limitada, aprovada, estimulada ou
reprovada a partir de uma opção política. Esse controle da liberdade, que
depende dos cálculos típicos de toda racionalidade econômica, passou a ser
percebido como necessário ao bom funcionamento da sociedade de mercado.
Mas não só. Também é necessário ao bom funcionamento do liberalismo
restringir a liberdade dos indesejáveis ao mercado.
Como facilmente se percebe, o “menor governo possível” proposto pelos liberais
precisa de “muito governo”.12 A meta de ampliar os efeitos e reduzir os custos
das ações governamentais nunca foi alcançado. Concessões feitas às classes
populares para manter o modelo capitalista tiveram um custoelevado. E um
governo que atenda às demandas sociais reduz a margem de lucro visada pelos
detentores do poder econômico. Há no liberalismo essa tendência às
contradições e tensões, isso porque, de um lado, a liberdade individual é tida
como a fonte da prosperidade, enquanto que, por outro, para esse modelo não
colapsar, são necessárias cada vez mais instituições sociais que assegurem a
existência, reduzam os riscos da vida em sociedade, eduquem e cuidem da
população. Assim, com o aprofundamento liberal cresce a tensão entre a
liberdade necessária à sociedade de mercado e o crescimento da esfera pública,
entre o lucro dos detentores do poder econômico e os gastos sociais do Estado, e
entre o interesse dos capitalistas e os interesses populares.
A explicitação das contradições do liberalismo, nos anos sessenta e setenta do
século XX, fez agravar a crise de governabilidade, a ponto da Comissão
Trilateral!! ter produzido um relatório, em 1975, no qual se faz constar a
“ingovernabilidade das sociedades democráticas”. Esse documento assume
relevância por revelar que nos cálculos de interesse dos detentores do poder
econômico a democracia nunca foi um valor inegociável. Não por acaso, com o
fim da União Soviética e a perda progressiva da importância política da
manipulação do signi-ficante “democracia”, cada vez mais as democracias
ocidentais passaram a se afastar dos princípios democráticos que miram na
igualdade e na realização dos direitos fundamentais da população.
Se o laissez-faire foi interiorizado como verdadeiro no imaginário construído a
partir do regime de verdade resultante da racionalidade liberal, nem todas as
premissas adotadas pelos principais teóricos liberais tiveram o mesmo fim. A
racionalidade liberal não raro produz imagens e idéias que se distanciam das
teorias e das lições dos pais-fundadores do liberalismo. Adam Smith não
desconhecia os limites do mercado e a necessidade do governo exercer
determinadas funções intervencionistas. O “pai do liberalismo” defendia a
necessidade de proteger os salários, de velar pela probidade dos bancos, de
tutelar as novas indústrias, de estabelecer normas educacionais, de limitar as
taxas de juros, dentre outras medidas de natureza interventiva que visavam
controlar o desejo de lucro dos capitalistas. É, portanto, um erro esperar uma
total identificação entre uma determinada racionalidade e as teorias, as fórmulas
econômicas ou os modelos explicativos estanques ligados a ela; isso porque a
plasticidade, a capacidade de adaptação, é uma característica do imaginário
construído a partir de um determinado regime de verdade. O imaginário é
construído a partir de múltiplos fatores, alguns deles capazes de fornecer
imagens contraditórias entre si, mas que precisam ser organizadas para fazer
algum sentido para o indivíduo.
A plasticidade e a adaptabilidade do imaginário produzido a partir de uma
determinada racionalidade é condição para a expansão desse modo de pensar e
atuar. Logo, novas imagens são produzidas para compatibilizar e conformar as
diversas crenças já incorporadas, as razões para crer, as diversas ações já
naturalizadas e as razões para agir. Assim, por mais estranho que possa parecer,
naturalizadas e as razões para agir. Assim, por mais estranho que possa parecer,
teorias liberais podem se mostrar contrárias ao imaginário liberal, ou seja, em
oposição do ponto de vista lógico à imagem que se faz do mundo a partir da
racionalidade governamental liberal.
Como se percebe, a história do liberalismo nunca deixou de ser marcada por
tensões. Isso porque, apesar de um imaginário que procurava compatibilizar
elementos tão díspares e potencialmente contraditórios (tais como os direitos
naturais, dentre outros obstáculos ao poder, a liberdade de comércio, a
propriedade privada, as virtudes do equilíbrio do mercado, a crença de que a
concorrência leva ao enriquecimento do corpo social etc.), uma série de valores
sociais continuava a impedir que a sociedade se deixasse reduzir ao resultado da
lógica da concorrência ou de trocas contratuais. A crise do liberalismo foi,
portanto, gerada internamente. Vale lembrar as tensões produzidas no campo
liberal pela disputa de idéias entre os partidários da liberdade indi-vidual-con-
tratual como um fim em si mesmo - e, portanto, absoluto - e os reformistas
sociais, que defendiam o ideal de “bem comum”, ou seja, a liberdade como meio
à construção desse bem comum.^ Essa longa crise retrata a permanência
possível de um modelo sedimentado sobre dogmas contraditórios e durou dos
anos 1880 à grande depressão dos anos 1930, quando se dá a emergência do
neoliberalismo.
1.5. A crise do liberalismo: a fraude desvelada
Toda crise tem um elemento em comum: o desmantelamento (ou a radical
transformação) do funcionamento das instituições edificadas a partir da
racionalidade hegemônica em risco de ser superada. Assim, durante a crise, o
Executivo, o Legislativo e o Judiciário passam a atuar de maneira distinta, e o
Direito e as diretrizes econômicas também se tornam disfuncionais ao sistema. O
neoliberalismo nasce dessa revisão das leis e dos dogmas liberais, da
necessidade de readaptar as instituições aos novos fins do Estado e da adesão à
ideia de que o Estado tem que ter uma função ativa na direção da economia.
O liberalismo (a racionalidade, a normatividade e o imaginário liberais) foi
superado porque se revelou incapaz de apresentar uma resposta adequada à
questão prática da intervenção política em matéria econômica e social (algo que
tanto o socialismo quanto o neoliberalismo conseguiram). Em apertada síntese, o
liberalismo passou a ser gradualmente substituído porque as imagens e as idéias
produzidas sob essa racionalidade não conseguiam explicar, de forma
minimamente coerente com os dogmas liberais, a razão pela qual, em inúmeras
minimamente coerente com os dogmas liberais, a razão pela qual, em inúmeras
oportunidades, o Estado precisava socorrer o mercado. Ou seja, diante do modo
de atuar e pensar tipicamente liberal não era possível encontrar uma justificação
à necessidade, não rara, do Estado atuar na economia.
Já no momento de crise do paradigma liberal era possível vislumbrar que os
direitos invioláveis do indivíduo passavam pouco a pouco a ser considerados
obstáculos à governabilidade e, principalmente, ao mercado. Diante das novas
questões econômicas e sociais, surgidas em meio aos movimentos de
industrialização e urbanização crescentes, que exigiam do Estado uma atuação
direta em resposta às mutações do capitalismo (mutações que, em grande parte,
correspondiam ao projeto de ampliar as margens de lucro dos detentores do
poder econômico) e ao agravamento dos conflitos de classe que colocavam em
risco a propriedade privada, muitos dos antigos entusiastas do modelo liberal
começaram a reconhecer a necessidade de permitir intervenções estatais sob
domínios antes reservados ao indivíduo. O dia a dia do capitalismo não
correspondia às antigas representações liberais da economia e da política. As
harmonias econômicas, a mão invisível e outras idealizações descritas nos
esquemas teóricos liberais não estavam presentes no capitalismo então existente.
As regras do jogo econômico não eram mais aquelas que se originaram e
seguiam os dogmas liberais, tais como as concepções originais da lei da oferta e
da procura, ou mesmo a crença de que todas as decisões econômicas seriam
coordenadas pelo mercado concorrencial. Para muitos, o liberalismo clássico
revelou-se incapaz de incorporar as modificações que surgiram a partir do
fenômeno da empresa, um modelo que pouco a pouco passou a ser reproduzido
por todos os entes (inclusive o Estado). A ideia de empresa levou a um novo
modelo de organização, bem como a novas formas jurídicas e a novas dinâmicas
de competição incompatíveis com a rigidez dos dogmas liberais. Com a forma
jurídica empresa começou-se também a naturalizar a ideia de concentração
tendencialmente ilimitada de recursos e poderes em um ente privado. Note-se,
ainda, que as regras do jogo do liberalismoclássico não davam conta do
surgimento de cartéis (grupos que concentram poder e marginalizam as pequenas
unidades empresariais adequadas ao antigo modelo atomístico de agentes
econômicos independentes e em concorrência “justa”), do desenvolvimento de
técnicas que criam necessidades artificiais e enfraquecem a crença na autonomia
dos consumidores, das manipulações no mercado conduzidas por oligopólios e
dos monopólios sobre preços, fenômenos que desvelaram a fantasia em torno do
mito de uma concorrência leal e que sempre resultava no “melhor resultado para
todos”.
A racionalidade liberal não impediu que o poder econômico passasse a controlar
o poder político. E, pior: o liberalismo propiciou a opressão econômica dos
indivíduos, inclusive dos pequenos proprietários. Como perceberam Christian
Laval e Pierre Dardot, “a ‘mão visível’ dos empresários, dos financistas e dos
políticos ligados a eles enfraqueceu formidavelmente a crença na ‘mão invisível’
do mercado”.^!
Também a pauperização da população foi um fenômeno que contribuiu para a
crise do liberalismo. As fórmulas idealizadas pelos teóricos do liberalismo
clássico não apresentavam respostas aos problemas concretos das pessoas, bem
como eram explicitamente incompatíveis com as tentativas de reformas sociais e
de regulamentações salariais, que se mostravam cada vez mais necessárias, sob
pena de se intensificarem os conflitos de classe. Pode-se tentar resumir a crise do
liberalismo clássico pela constatação da ausência de uma teoria e de uma
orientação para as práticas governamentais que foram se fazendo necessárias
diante das próprias contradições da racionalidade liberal.
Os efeitos sentidos pela população ao longo do século XIX também fizeram com
que o imaginário popular pouco a pouco fosse abandonando as imagens
positivas relacionadas ao laissez-faire e à liberdade como um fim em si mesmo.
O liberalismo clássico e o respectivo ciclo de negócios geraram uma “nova”
pobreza que comprometeu todo o século XIX. A ideia liberal de que a relação
salarial era o resultado harmonioso de um contrato entre partes iguais e com
vontades independentes caiu em descrédito, como demonstrou todo um
movimento na Europa, instaurado em meados do século XIX e intensificado com
as reformas de Bismarck (fins dos anos 1870), de criação de dispositivos,
regulamentações, leis destinadas à proteção do trabalhador e que, indiretamente,
visavam evitar revoltas populares. A proteção coletiva e a segurança social
surgem, nesse contexto, como concessões dos detentores do poder político,
pressionados pelo surgimento de um forte movimento operário, diante do
fracasso da prometida “harmonia” social a partir da concorrência e da
“liberdade” de contratar.
Essas concessões, que figuram como a origem da maioria dos direitos sociais
(direitos a uma prestação positiva do Estado), são tidas como inadmissíveis pelos
partidários da ideia de liberdade (basicamente, a liberdade de contratar) como
um fim em si mesmo (os individualistas). Não raro, os liberais adeptos das
reformas sociais eram acusados de socialistas por aqueles que defendiam as leis
do liberalismo clássico e a absoluta ausência de intervenção estatal nos domínios
econômicos. E foi nesse contexto que Herbert Spencer tornou famosa a
expressão “sobrevivência dos mais aptos”,como forma de aproximar sua
concepção de laissez-faire da teoria evolucionista de Darwin. Em apertada
síntese, para Spencer, toda ingerência na coordenação da sociedade pelo Estado
representaria um obstáculo injustificável à lei de evolução que levaria à
cooperação voluntária de natureza contratual. Mesmo as leis que criaram
obstáculo ao trabalho de crianças em minas, por exemplo, eram objeto da
reprovação de Spencer e de seus apoiadores na medida em que, segundo eles,
contribuíram para minar o sistema de “liberdade e responsabilidade” oriundo dos
dogmas do liberalismo clássico.
Frise-se que essa linha argumentativa de Herbert Spencer se aproxima do
discurso encontrado na obra do neoliberal Friedrich Hayek ao tratar da
“impaciência das massas”,^ muito embora este último vá sustentar a necessidade
do Estado atuar na defesa dos interesses do mercado. A semelhança entre o
discurso de Spencer e o de Hayeck serve, porém, para demonstrar que o valor da
dignidade da pessoa humana não serve de obstáculo aos cálculos de interesse
enunciados a partir das racionalidades econômicas (liberal e neoliberal).
A ajuda estatal aos pobres, para Spencer, era uma ação equivocada direcionada
aos “pobres demeritórios”,íZ pessoas que não iam trabalhar por contar com o
Estado. A “lei natural” de Spencer seria no sentido de que as pessoas que não se
bastam deveríam perecer. Ainda segundo esse autor (que defende posições que
retomaram prestígio no século XXI), haveria uma tendência à falta de limites da
intervenção estatal, o que seria reforçado tanto pela educação, uma vez que o
estudo intensificaria desejos por objetos que são inacessíveis às grandes massas,
quanto pelo sufrágio universal, responsável por fazer com que os políticos
fizessem promessas para determinadas parcelas da sociedade, que nunca
poderíam ser cumpridas sob pena de instaurar o caos social.
A visão de mundo do spencerismo era apresentada por seus defensores como
científica, enquanto as construções teóricas que procuravam justificar a criação
de direitos (como, por exemplo, as de Hobbes, Bentham e Austin) eram tachadas
de falaciosas, pois ao Estado caberia apenas moldar o que já existe, o que
significaria garantir tão somente a execução dos contratos livremente
estipulados.
Vale lembrar que, para Spencer, todos os direitos se originaram de contratos
expressos ou tácitos, que eram os instrumentos responsáveis por fazer as pessoas
viverem em sociedade, e que as partes teriam se comprometido
“espontaneamente” a respeitar. Em outras palavras, contra a busca do bem-estar
defendida pelos liberais intervencionistas, sobretudo os oriundos do radicalismo
inglês (utilitaristas), Spencer defendia as “leis naturais”, as relações de causa e
efeito geradas pela ideologia do laissez-faire.
Apesar do spencerismo, e do sucesso alcançado por suas principais formulações
em um certo meio, prevaleceu um modo de ver e atuar na sociedade que
reconhecia o valor da solidariedade e o instinto da simpatia como expressões da
civilização que se queria construir. Mesmo entre os liberais, ganhou corpo a tese
de que o Estado era não só um interventor legítimo nos domínios da sociedade e
do mercado como também um agente necessário tanto na organização do
capitalismo quanto na melhoria das condições da população. Assim, pode-se
afirmar que a Primeira Guerra Mundial e as crises que lhe seguiram apenas
anteciparam mudanças nos dogmas liberais que já estavam em gestação desde
meados do século XIX. Essas mudanças no campo teórico e no modo de governo
liberal vieram acompanhadas também de mudanças no imaginário.
As imagens produzidas a partir de visões idealizadas da livre concorrência, da
liberdade contratual e do livre comércio perdiam força diante dos abalos
percebidos e sentidos no sistema social e econômico. Fenômenos como
manipulação de preços, especulação, desordens políticas e revoltas populares
revelavam aos olhos de governantes e de governados a impossibilidade de um
governo preso aos dogmas liberais clássicos. Esse conjunto de fatores fez com
que se instaurasse a desconfiança e, pouco depois, a rejeição a um conjunto de
idéias que pregava a liberdade total para os agentes econômicos e os atores no
mercado. Mesmo os defensores do liberalismo passaram a considerar o laissez-
faire ultrapassado. Buscava-se, então, reformular o modelo liberal para salvá-lo.
E o Estado parecia ser o ente capaz da missão de reconstruir o sistema capitalista
liberal.
Em meio às tensões inerentes ao liberalismo, costuma-se apontar a Grande
Depressão dos anos 1930 como o ponto de revisão radical da representação e do
imaginário liberal. Todavia, nos países anglo-saxões, o processo de reforma
social do liberalismo já estava em andamento mesmo antesdisso. O próprio New
Deal foi antecedido de um trabalho crítico considerável que passava, dentre
outras coisas, por produzir mudanças no subje-tivismo liberal. Como explicam
Christian Laval e Pierre Dardot,
Christian Laval e Pierre Dardot,
[...] desde o fim do século XIX, nos Estados Unidos, o significado das palavras
liberalism e liberal começava a mudar para designar uma doutrina que rejeitava
o laissez-faire e visava reformar o capitalismo. Um ‘novo liberalismo’ mais
consciente das realidades sociais e econômicas procurava definir havia muito
tempo uma nova maneira de compreender os princípios do liberalismo, que
emprestaria certas críticas do socialismo, mas para melhor realizar os fins da
civilização liberal.^
Ainda em 1911, Leonard Hobhouse sustentou a necessidade de uma nova leitura
sistemática do liberalismo. Para ele, o movimento de libertação do indivíduo
teria levado a certas formas de organização social que não encontravam
equivalência nas idealizações dos teóricos do liberalismo clássico. Caberia a essa
nova organização social, resultado de um processo histórico, produzir
coletivamente as condições de possibilidade do pleno desenvolvimento da
personalidade, inclusive em sua dimensão econômica. Para tanto, segundo
Hobhouse, era necessário que as relações que necessariamente os indivíduos
travavam uns com os outros ficassem submetidas a regras coletivamente
estabelecidas. Essas regras, construídas com a possibilidade de participação de
cada indivíduo (baseadas, portanto, no princípio da proporcionalidade da
representação política), seriam indispensáveis à concretização da verdadeira
liberdade, ou seja, de uma liberdade efetiva para além dos esquemas teóricos dos
liberais clássicos.^
Ainda segundo Hobhouse, a ideia de liberdade necessita de uma concepção mais
concreta, o que só seria possível a partir de uma legislação voltada à proteção
dos mais fracos. Assim, como o verdadeiro consentimento é sempre livre e bem
informado, caberia ao Estado reequilibrar as trocas sociais em benefício dos
mais fracos através de uma intervenção legislativa, de modo a assegurar a
igualdade entre as partes comprometidas em uma transação, o que é necessário à
plena liberdade do consentimento. Enquanto o liberalismo clássico se mostrava
capaz apenas de assegurar a liberdade não social (a liberdade dos mais fortes), a
proposta de Hobhouse era no sentido inverso: o Estado deveria intervir para
garantir a liberdade social, o acesso à informação e o consentimento livre, a
única forma de se chegar à liberdade plena. Ter-se-ia, então, uma intervenção
para não só assegurar a verdadeira liberdade como também para impedir a
desarmonia social.^2
Havia, então, uma espécie de consenso: um novo liberalismo fazia-se necessário
para evitar o fim do liberalismo. Dessa necessidade, que retratava a incapacidade
dos dogmas liberais clássicos de estabelecer e justificar limites à intervenção
estatal surge tanto o novo liberalismo, que costuma ser atribuído a John Maynard
Keynes (também conhecido como liberalismo social ou socialismo liberal),
quanto o neoliberalismo que aparece a partir da Escola Austríaca e que ganha
novos contornos e possibilidades com a Escola de Chicago.
De um lado, um novo liberalismo com preocupações sociais e que era
fundamentalmente democrático, com mais receio dos abusos do capital e da
reconstituição das oligarquias do que do poder das massas ou da tirania das
maiorias. De outro, o neoliberalismo, tendencialmente desdemocratizante,
marcado desde sua origem pela dificuldade de conciliar os interesses do mercado
(e de uma minoria constituída pelos detentores do poder
econômico) com os interesses da maioria da população. Não por acaso, o
keynesianismo tornou-se o alvo preferido dos neoliberais, muito embora os dois
movimentos reformistas tenham nascido do mesmo desejo de salvar o sistema
capitalista diante das distorções produzidas por uma concepção dogmática e
alheia à realidade do liberalismo.
Em Keynes encontra-se uma das mais bem formuladas críticas ao liberalismo
clássico.” A obra de John Maynard Keynes, contudo, parece deixar claro que ele
não desejava superar o liberalismo, mas apenas substituir as concepções
dogmáticas distanciadas das necessidades do momento histórico. Com Keynes,
ganhou corpo uma espécie de “terceira via” ao liberalismo clássico e ao
socialismo, na medida em que foi formulada uma teoria em que eram
apresentados novos fundamentos para repensar a intervenção estatal.
Resumidamente, pode-se afirmar que Keynes formulou uma alternativa em
termos de governabilidade que se situava entre o conservadorismo liberal (e suas
distorções, como o fascismo) e a revolução comunista. Apropriando-se de lições
de pensadores tão diferentes, como o conservador Edmund Burke e o
“revolucionário” Bentham, Keynes procurou desenvolver uma teoria que desse
conta tanto do problema jurídico de definir com precisão a área de atuação do
Estado (o que o Estado deve tomar a seu cargo e gerir segundo o desejo da
maioria) e o que deveria ser deixado à iniciativa privada, quanto da questão
prática de definir uma agenda (um dever fazer) e uma não agenda (um dever
não fazer) para os governantes.
Em linhas gerais, pode-se dizer que a teoria de Keynes justifica a ação
governamental necessária, ou seja, “o essencial para um governo não é fazer um
pouco melhor ou um pouco pior o que os indivíduos já fazem, mas fazer o que
atualmente não é feito de maneira alguma”.” Para ele era absurdo atribuir a
riqueza, o comércio e a indústria simplesmente à livre concorrência, como
faziam os economistas liberais clássicos, da mesma forma que era absurdo
deixar a população ao acaso, submetida às condições da livre concorrência e do
laissez-faire, como defendiam os “darwinistas sociais”. Caberia ao “novo
liberalismo” controlar as forças econômicas, evitando conflitos sociais, através
de intervenções estatais que teriam um papel regulador e redistri-buidor
fundamental.
Na proposta de um novo liberalismo de Keynes, os princípios da liberdade do
comércio e da propriedade privada deveríam ser percebidos como meros meios
como outros quaisquer, e não mais como os núcleos do modelo liberal ou fins
em si mesmos. Assim, através de ações estatais de reequilíbrio e proteção dos
mais fracos, se estaria assegurando a liberdade de um maior número de pessoas,
inclusive fornecendo oportunidades melhores para mais pessoas participarem
ativamente, e em condições mais justas, do jogo econômico: o liberalismo social
se propõe, portanto, a garantir a extensão máxima da liberdade para o maior
número possível de indivíduos. Ao contrário do que sustentam seus adversários,
o liberalismo keynesiano é uma “filosofia plenamente individualista, esse
liberalismo dá ao Estado o papel essencial de assegurar a cada indivíduo os
meios de realizar seu próprio projeto”.”
Percebe-se que teóricos como Hobhouse e Keynes procuraram dar conta de
salvar o liberalismo e reformar o capitalismo. Em comum entre ambos, além da
crença um tanto ingênua em um capitalismo saudável e com preocupações
sociais, há a ideia de que a política deve buscar a realização do bem comum e
ficar condicionada por diretrizes morais coletivas. Essa postura, como se
percebe, não é uma traição ao “verdadeiro liberalismo”, mas uma tentativa de
salvar o liberalismo que, na visão dessa corrente “progressista”, caminhava para
a extinção. O equívoco de muitos dos detratores do chamado liberalismo social é
o de acreditar que o liberalismo representa um todo monolítico, sem tensões ou
variações. Como já se viu, o liberalismo, como racionalidade e imaginário, não
possui uma identidade fundamental e imutável, mas apresenta uma plasticidade
que permite adaptações e permanências a depender do contexto.
Em A grande transformação,^ Karl Polanyi mostra que a racionalidade liberal
permitiu uma dupla ação do Estado no século XIX: por um lado, atuou na
criação, no fortalecimento e na manutenção dos mecanismos de mercado, por
outro implementou mecanismos de limitação desse mesmo mercado. Pode-se,então, admitir que as tensões do liberalismo produziam um movimento na
direção da sociedade de mercado e um contramo-vimento de resistência aos
mecanismos desse mesmo mercado em favor da sociedade e dos indivíduos.
Nesse movimento produzido a partir da racionalidade liberal, a natureza e o
trabalho passaram a ser percebidos e tratados como mercadorias, enquanto que
as relações sociais tomaram a forma da relação mercantil.
Essa ficção de que o mercado pode ser o modelo para tudo o que existe passou a
organizar a sociedade. Para mantê-la tornou-se necessária uma atuação do
Estado, através da produção de leis (função legislativa) e de atos concretos de
poder (função executiva), direcionados a fixar o direito de propriedade,
estabelecer as regras dos contratos e assegurar as condições necessárias ao
funcionamento otimizado do mercado concorrencial. Em poucas palavras, do
ponto de vista da história do liberalismo econômico, a racionalidade liberal
levou à criação do laissez-faire, e não o contrário. Aliás, pode-se afirmar que o
laissez-faire faz parte do imaginário liberal, mas não é da essência do
liberalismo econômico.
O paradoxo percebido por Polanyi é o de que o mesmo Estado que criou e
mantém a sociedade de mercado é também o responsável por estabelecer limites
ao poder econômico, reprimindo a dinâmica espontânea do mercado com o
objetivo de proteger a sociedade. A complexidade da racionalidade liberal reside
no fato de que ela permite criar e destruir em nome do mercado, bem como
produzir medidas de correção dos rumos do mercado “autorregulador”, tais
como o protecionismo comercial e o protecionismo social (através, por exemplo,
da instituição de direitos aos trabalhadores). Polanyi foi capaz de perceber que
várias formas de intervencionismo do Estado são possíveis. Ele demonstra que a
separação radical entre, de um lado, o Estado e, de outro, o mercado, presente no
imaginário liberal, é antes de tudo uma fraude histórica. Basta, por exemplo,
analisar a funcionalidade econômica da guerra entre o Norte e o Sul para unificar
as regras de funcionamento do capitalismo norte-americano. Poder-se-ia, ainda,
lembrar do exemplo do golpe de Estado no Chile em 1973 que funcionou como
condição de possibilidade da colocação em prática das fórmulas neoliberais
cunhadas pela Escola de Chicago. Na realidade, as intervenções voltadas à
criação do mercado e as direcionadas à proteção da sociedade (reduzindo as
tensões políticas e sociais) são contraditórias apenas na aparência, pois ambas
atendiam ao mesmo projeto: manter o liberalismo econômico.
Contudo, o grande equívoco de Polanyi, que apostava no fim do liberalismo
(extinção que representaria “a grande transformação” anunciada em sua
principal obra), foi subestimar o potencial de uma nova forma de intervenção, de
natureza “liberal” (neoliberal), voltada exclusivamente à satisfação dos
interesses dos detentores do poder econômico: uma intervenção que é possível
manter, proteger e levar ao melhor funcionamento possível do mercado” sem
compromisso com os dogmas liberais (capaz, inclusive, de sacrificar o laissez-
faire).
A realidade, sempre uma trama entre o simbólico e o imaginário, levou à
modificação da racionalidade liberal a ponto de 0 sistema de mercado e a
intervenção estatal não serem mais termos que se excluam mutuamente diante
das regras do jogo econômico. O Estado, para atender aos fins do mercado (e,
em consequência, aos interesses dos detentores do poder econômico), cada vez
mais passou a atuar na economia. É justamente esse movimento que vai levar à
substituição sem traumas da racionalidade liberal pela racionalidade neoliberal.
Um modo de ver e atuar no mundo que conta com intervenções estatais para
socorrer o mercado, mas que não admite limites ao exercício do poder
econômico: “um intervencionismo destinado a moldar politicamente relações
econômicas e sociais regidas pela concorrência”.”
i.6. A hegemonia da racionalidade neoliberal: um
mundo para os detentores do poder econômico
Se a racionalidade liberal gerou o primeiro governo econômico dos homens, a
racionalidade neoliberal, que se tornou hegemônica após os esforços dos
detentores do poder econômico voltados à criação de obstáculos para outras
formas de racionalidade de viés antiliberal ou social, se caracteriza por alterar as
formas do exercício do poder a partir da sedimentação de uma nova relação entre
o mercado e o Estado. Surge um novo imaginário e uma nova normatividade que
se relacionam com novas maneiras de condicionar as ações humanas. Como uma
reação econômica e política a fenômenos como o keynesianismo e o socialismo,
o neoliberalismo leva à gerência econômica de esferas e atividades até então
governados por outros sistemas de valores, o que leva à hegemonia de uma
racionalidade, uma normatividade e um imaginário desestruturantes das
instituições e das práticas anteriores.
Para qualquer análise do neoliberalismo é importante atentar que o produto dessa
racionalidade pode tomar diversas formas e apresentar significativas variações
racionalidade pode tomar diversas formas e apresentar significativas variações
de conteúdo. Como percebeu Wendy Brown, “ele é onipresente em escala
mundial, mas não é unificado nem idêntico a si mesmo no tempo e no
espaço”.^Z Frequentemente, o neoliberalismo se reconfigura como condição
para manter a hegemonia, e, para tanto, sua dimensão ideológica é fundamental,
para tornar possível a apresentação de uma nova versão do neoliberalismo como
resposta aos problemas gerados pela própria racionalidade neoliberal. Em certo
sentido, essa versatilidade, essa irregularidade e essa ausência de uma identidade
bem definida são manifestações da ilimitação que caracteriza o fenômeno:
teorias, práticas e formas podem ser abandonadas em atenção aos fins do
mercado.
Como em toda mudança paradigmática, o neoliberalismo procura apresentar uma
garantia para o estado do planeta, os interesses individuais e a justiça entre os
homens. Se no absolutismo a garantia era Deus, no neoliberalismo a garantia é o
mercado protegido e auxiliado pelo Estado. Diante do contexto gerado pela crise
do liberalismo, a racionalidade neoliberal aparece como a resposta possível à
superação dos problemas sem solução no modelo anterior. Para tanto, há um
novo modo de pensar e atuar que, por exemplo, se dispõe a “abandonar ou trair o
ideal de uma cidade regida por leis que ela mesma se dá”,^ substituindo essas
leis, pensadas e aprovadas segundo a tradição da democracia representativa, por
decisões tomadas a partir de cálculos de interesse, por um governo impessoal
que assume a forma de “uma governança pelos números”.^
A racionalidade neoliberal faz dos valores e dos interesses do mercado
verdadeiros condicionantes de toda atuação humana. E isso leva a uma mutação
do Estado, da sociedade e dos indivíduos, a partir de “ataques aos princípios,
práticas, culturas, sujeitos e instituições da democracia, compreendida como
governo pelo povo”.É2 Esse caráter profundamente desestruturante do
neoliberalismo indica, como percebeu Wendy Brown, que tal fenômeno é “bem
mais do que um conjunto de políticas econômicas, uma ideologia ou uma
redefinição radical das relações entre o Estado e a economia”.^
O neoliberalismo torna-se, então, uma racionalidade, isto é, um modo de
compreender e atuar no mundo, capaz de produzir mutações sobre tudo e todos.
Muda o funcionamento das instituições. Muda o relacionamento entre as
pessoas. Muda a imagem que cada pessoa faz de si. Uma racionalidade que, para
facilitar os “cálculos de interesse”, gera classificações, tais como “desejáveis” e
“indesejáveis”, “amigos” (do mercado) e “inimigos”. Um modo de pensar e
atuar no mundo que redefine vocabulários, empobrece a linguagem, demo-niza
atuar no mundo que redefine vocabulários, empobrece a linguagem, demo-niza
culturas políticas, modifica hábitos cidadãos, relativiza direitos fundamentais e
inviabiliza práticas democráticas. Sob a égide da racionalidade neoliberal, todas
as esferas da vida passam a ser pensadas eé o seguinte:
ou a maquinaria de produção do imaginário continua a sua loucura, e será o
colapso da humanidade, ou é detida, e a humanidade faz uma bifurcação radical
colapso da humanidade, ou é detida, e a humanidade faz uma bifurcação radical
para se dar uma oportunidade de sobreviver. Mas ao preço de que esforço da
parte de cada um? E com que apoio? Nada será feito sem uma nova imagem de
si próprio, dos outros, da vida: por outras palavras, pensar a alternativa à
catástrofe que se avizinha implica a reconstrução de outro imaginário. Assim, é a
reflexão e a ação às quais o belo livro de Rubens Casara nos convida, mas
talvez, ainda mais, a criação dessas novas imagens da vida e do ser humano que
serão necessárias para ultrapassarmos a lógica destrutiva que nos leva ao pior.
1
Christian Laval (1953) é sociólogo e professor da Universidade de Paris-
Nanterre. Especialista nas obras de Jeremy Bentham e Karl Marx, dedica grande
parte da sua obra a discutir os enigmas e implicações do neoliberalismo. É
membro do grupo de estudos Question Marx e do Centre Bentham, além de
pesquisador associado a Fédération Syndicale Unitaire. No Brasil, é conhecido
por obras como Comum, a nova razão do mundo e A escola não é uma empresa,
todas pela Editora Boitempo, sendo as duas primeiras em colaboração com
Pierre Dardot.
APRESENTAÇÃO
Márcio Sotelo Felippe^
i. “A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma grande.” Em um ensaio
sobre Tolstoi, Isaiah Berlin resgatou esse fragmento do poeta grego arcaico
Arquíloco. Pensadores e escritores podem ser ouriços ou raposas. Ouriços,
explica Berlin, relacionam tudo a uma noção central, um sistema coerente e
articulado, um princípio único, universal e organizador. Raposas buscam
diversos fins, geralmente não relacionados, eventualmente contraditórios, sem
vínculo a alguma moral específica ou princípio estético. Movem-se em vários
níveis e em uma vasta variedade de experiências. Mas não se deve tomar
esquematicamente a distinção e nem entendê-la como juízo de valor, já que o
ouriço se safa.
Berlin classifica como ouriços Dante, Platão, Lucrécio, Pascal, Hegel,
Dostoievski, Nietzsche, Ibsen, Proust. Como raposas, Heródoto, Aristóteles,
Montaigne, Erasmo, Molière, Goethe, Pushkin, Balzac, Joyce.
Se tomarmos o afresco de Rafael Escola de Atenas, que representa a Academia
de Platão, temos uma mostra pictórica da distinção. Platão aponta o dedo para o
alto, para um princípio único e organizador da realidade. Aristóteles espalma a
mão para baixo, indicando que está ocupado com a multiplicidade de
experiências aqui mesmo pela Terra, com os cinco dedos abertos.
Rousseau e Voltaire, que não aparecem nos exemplos de Berlin, são clássicos
ouriço e raposa. A raposa Voltaire criticou a intolerância, defendeu a liberdade,
combateu a opressão sem filiar suas causas a um princípio universal, ao
contrário de Rousseau. Foi ferino com Rousseau e Leibniz, que eram, ou talvez
porque fossem, ouriços. Movia-se quando se deparava com a estupidez e o
obscurantismo, mas não se preocupava com a organização da experiência por
meio de uma lente. O ouriço Rousseau, apesar de ter sido objeto - melhor seria
dizer vítima - de múltiplas e contraditórias interpretações, fundamentava a
democracia em uma base filosófica derivada de uma base teológica.
Seu caminho para ela se iniciava com uma teodiceia, expressão cunhada por
Leibniz para o problema de conciliar a perfeição de Deus com a existência do
mal no mundo. A solução de Leibniz, para dizê-lo sinteti-camente, consistiu em
mal no mundo. A solução de Leibniz, para dizê-lo sinteti-camente, consistiu em
remeter o problema à distância entre a mente humana, limitada e incapaz de
alcançar a mente divina, seus desígnios e planos.
Mas a solução de Rousseau para o problema da teodiceia era mais específica,
original e concreta e forjou, em grande parte, a modernidade, que dispensou o
fundo teológico. Nunca houve um pecado original, uma natureza humana
imperfeita, mas seres que nascem livres, capazes de construir o racional, com o
atributo da per-fectibilidade, a aptidão para aperfeiçoar-se. O mal decorre do não
uso desse atributo, e na gênese disso está a propriedade, a partir da qual surgem
as instituições políticas e jurídicas visando assegurá-la, como se vê na segunda
parte do Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens. Portanto, o
sujeito da imputabilidade pelo mal era a sociedade. Como afirma Ernst Cassirer,
em um texto indispensável para compreender Rousseau (A questão Jean-
Jacques Rousseau), todas as lutas sociais dos séculos seguintes têm essa dívida
com Rousseau: a de apontar a sociedade como o mal, e não a natureza humana
(como decorrería, por exemplo, do pecado original). Sendo o mal social,
transforme-se a sociedade. Toda a modernidade é prenhe dessa questão, e cada
um de nós está em um lado da fronteira: reformar e revolucionar ou conservar.
Este fundo teológico contempla uma vontade geral divina, que se expressa em
leis necessárias que dão harmonia ao todo. Tudo está bem quando se considera o
todo. No particular que não se harmoniza com o todo reside o mal. A vontade
geral surge, pois, em Rousseau como resultado da passagem de um conceito
teológico e filosófico para o político, como Patrick Riley demonstrou em The
general will before Rousseau. The transformation of the divine into the civic.l
Malebranche, teólogo que Rousseau leu e admirava, dizia que Deus estabelece
leis gerais e não age no particular, com exceção dos milagres. Uma intervenção
específica faria Deus carecer de uma lógica perfeita, que se expressa em leis
simples e gerais.
A vontade geral é o modelo da Criação projetado para a sociedade. Deus não é o
estafeta que cuida de nossa valise ou de nossa dor de dente, como Rousseau
afirma, satirizando a Igreja na Carta Sobre a Providência e ecoando
Malebranche. Nela cuida de absolver Deus pelo terremoto que destruiu Lisboa
em 1755. Leis gerais e necessárias da natureza determinaram, desde priscas eras,
o terremoto onde um dia Lisboa seria edificada e não eram derrogáveis porque
os homens decidiram construir ali uma cidade mal organizada e mal-ajambrada,
com seres humanos empilhados em edificações grosseiras. O que responde pelo
mal, pelo que de ruim nos acontece, é o humano em sua imperfeita organização
mal, pelo que de ruim nos acontece, é o humano em sua imperfeita organização
social: “A maior parte dos nossos males é obra nossa: não foi a natureza quem
reuniu em Lisboa vinte mil casas de seis a sete pavimentos”. Se, prossegue, os
lisboetas estivessem melhor distribuídos, vivessem mais modestamente e se, ao
primeiro abalo, cuidassem de se proteger em vez de recolher seus pertences e
dinheiro, o dano teria sido menor ou nenhum.
Tem-se aí a dicotomia geral - particular numa espetacular passagem do teológico
para o político e social, um modelo acabado do pensador ouriço que subordina
tudo a uma visão central e chave para a existência: a vontade geral, a
racionalidade do geral e a racionalidade do particular.
A vontade geral, tanto como ideia teológica quanto política, é vetusta. Ela já
aparece em Platão, no Livro V da República em linguagem distinta. Quando um
de nós recebe uma pancada no dedo, a comunidade do corpo e da alma,
submetida ao comando unificador da parte da alma que a dirige, sente o
traumatismo e se associa à dor do local ofendido, motivo de dizermos que o
homem sente dor no dedo. Da mesma forma a cidade organizada, afirma Platão,
sempre que acontecer algo de bom ou mau para qualquer cidadão, dirá, antes de
mais nada, que o fato se passou com ela e se alegrará ou sofrerá juntamente com
o cidadão.
Podemos encontrá-la em Paulo, na “Segunda epístola aos coríntios”. O corpo é
um todo contendo muitos membros. Se o pé dissesse: eu não sou a mão, por isso
não sou do corpo, acaso ele deixaria de ser do corpo? Há muitos membros, mas
o corpo é um só. Patrick Riley, na obra citada, nota que Pascal faz da passagem
um texto político: é necessário tender ao geral: o amor de si é o princípio de toda
desordem,avaliadas a partir de critérios
econômicos, em termos de cálculos, com o objetivo de obter vantagens e lucros.
Assim, é possível, ainda que provisoriamente, definir o neoliberalismo como
“uma forma particular de razão que reconfigura todos os aspectos da existência
em termos econômicos”.^
A lei, entendida como um efeito da soberania, é colonizada e, quando necessário,
substituída por uma normatividade de ocasião que se baseia em cálculos de
interesse. O Estado, regido por essa nova normatividade, torna-se um
instrumento do mercado, ajudando a lançar indivíduos em um estado tanto de
competição permanente (“lógica da concorrência”) quanto de submissão dos
vários aspectos da vida a um cálculo econômico. A própria “lei” torna-se um
objeto de cálculo ou uma mercadoria, “um produto legislativo em competição
em um mercado mundial de normas”.^ Como aponta Wendy Brown,
[...] a “razão econômica - onipresente hoje em dia, quer trate da gestão estatal,
quer das relações de trabalho, assim como na jurisprudência, na educação, na
cultura e em um grande número de atividades quotidianas - transforma o caráter,
a significação e o funcionamento tipicamente políticos, de elementos
constitutivos da democracia, em caráter, significação e funcionamento
econômicos”, o que fará com que as instituições, as práticas e os hábitos
democráticos “possivelmente não sobrevivam a essa conversão [•••]“
A partir da racionalidade neoliberal surge um Estado em que desaparece a
pretensão de impor limites ao poder exercido para favorecer, direta ou
indiretamente, o mercado ou reforçar o imaginário e a normatividade neoliberal.
Em oposição ao Estado Democrático de Direito, surgido após o fim da Segunda
Guerra Mundial e que se caracteriza pela existência de limites rígidos ao
exercício do poder (inclusive, do poder econômico), constrói-se aquilo que se
pode chamar de Estado Pós-Democrático, que tem como principais
características a ausência de limites rígidos ao poder, a relativização da
soberania popular e a confusão entre o poder político e o poder econômico.
Na sociedade neoliberal não é mais preciso recorrer a conceitos como
culpabilidade e responsabilidade, ou mesmo à coerção externa, bastando aos
detentores do poder político apostar na manipulação dos interesses da população
dentro de uma sociedade de trocas formatada a partir da lógica da concorrência.
A racionalidade neoliberal, em um governo econômico baseado no interesse e no
cálculo, permite que esses conceitos também sejam manipulados no meio social
com o objetivo de controlar e domesticar as ações humanas. Com o
neoliberalismo, naturaliza-se essa espécie de jogo estratégicos de poder.
Outra diferença significativa produzida pela racionalidade neoliberal se dá no
plano das relações entre o mercado e o Estado: não mais um Estado que procura
se mostrar afastado das atividades econômicas e nem um Estado preocupado em
defender os mais fracos, mas um Estado interventor a serviço do mercado e,
consequentemente, dos detentores do poder econômico. Em um certo sentido,
reaparece uma espécie de Estado patrimonial, pois a propriedade e as funções do
Estado parecem pertencer a uma pequena parcela de agentes: os detentores do
poder econômico. Isso acaba por produzir tanto uma reaproximação entre o
poder político e o poder econômico quanto polarizações que fazem dos inimigos
do mercado também os inimigos do Estado: os indesejáveis.
Os indesejáveis à sociedade construída à luz da racionalidade neoliberal são não
apenas os pobres, que não produzem riqueza ou geram lucro (e que, por vezes,
representam despesas ao Estado), mas todos aqueles que representam alguma
forma de perigo para o imaginário e a hegemonia da racionalidade neoliberal,
tais como os inimigos políticos do ideário neoliberal, intelectuais que não foram
cooptados, artistas, jornalistas independentes etc.
A superação do liberalismo pelo neoliberalismo se deu no ponto crítico em que
os efeitos perversos do primeiro modelo começaram a superar os benefícios
produzidos para os detentores do poder econômico. Se a crise do liberalismo
revelou uma impotência no campo da governabilidade, marcada tanto pela
insuficiência do princípio dogmático do laissez-faire para a condução dos
negócios governamentais quanto pela artificialidade e incapacidade das “leis
naturais” do mercado para guiar o governo e assegurar a maior prosperidade
possível, o neoliberalismo aparece em substituição, com a missão de assegurar
os interesses dos detentores do poder econômico custe o que custar. Nesse
movimento de preservação da concorrência, de busca pelo lucro e de
fortalecimento do mercado, princípios, regras e valores que caracterizavam
conquistas civilizatórias passaram a ser relativizados, quando não explicitamente
descartados. Se o liberalismo clássico e o liberalismo social tinham, ao menos no
plano retórico, um inegável compromisso com a democracia, o neoliberalismo
pouco a pouco acabou por revelar um potencial desdemocratizante: os valores,
princípios e regras democráticos passaram a ser percebidos como obstáculos à
eficiência estatal e do mercado, razão pela qual foram relativizados ou
desconsiderados.
No neoliberalismo,
[...] o adjetivo liberal designa a condição de um homem “libertado” de toda
ligação aos antigos valores simbólicos. Nesse novo discurso, tudo o que se
relaciona com a esfera transcendente e moral dos princípios e das idéias, que são
convertíveis em mercadorias ou em serviços, se vê doravante sem valor.
O que não serve ao mercado, não tem mais valor em um mundo-da-vida
transformado em um mercado totali-zante.
Curioso notar que tanto o neoliberalismo quanto o chamado “novo liberalismo”
(liberalismo social), para além da semelhança de nomenclatura, nascem com um
inimigo comum: o totalitarismo, que visava a destruição da sociedade liberal.
Em defesa da sociedade liberal, essas duas correntes apresentaram propostas
para transformar o liberalismo, produzindo idéias e discursos que legitimavam a
intervenção governamental. Com isso, abriram espaço à superação da
racionalidade liberal. Do ponto de vista cronológico, o novo liberalismo, que
parecia conquistar hegemonia a partir da teoria econômica desenvolvida por
Keynes, surgiu antes do neo-liberalismo. O novo liberalismo (liberalismo social)
tinha a proposta de uma intervenção estatal para reestruturar os meios jurídicos,
morais, políticos, econômicos e sociais com o objetivo de concretizar uma
sociedade de liberdade individual em proveito de todos. Christian Laval e Pierre
Dardot resumem esse projeto da seguinte forma:
i) as agendas do Estado devem ir além dos limites que o dogmatismo do laissez-
faire impôs a elas, se se deseja salvaguardar o essencial dos benefícios de uma
sociedade liberal; 2) essas novas agendas devem pôr em questão, na prática, a
confiança que se depositou até então nos mecanismos autorreguladores do
mercado e a fé na justiça dos contratos entre indivíduos supostos iguais.ÉÉ
Assim, em defesa dos benefícios da sociedade liberal, seriam admitidos
instrumentos e práticas que poderíam até ser opostos aos princípios liberais
clássicos. Mas, esse intervencionismo, capaz de restringir até interesses
individuais em nome da defesa do interesse coletivo (leis de proteção ao
trabalhador, auxílios sociais obrigatórios, nacionalizações etc.), tinha por única
finalidade garantir as condições de possibilidade para a realização dos fins
individuais.
individuais.
O neoliberalismo, por sua vez, também parte do princípio de que as agendas do
Estado devem ir além dos limites impostos pela visão dogmática do laissez-faire,
mas se opõem a qualquer medida que represente um obstáculo à realização dos
interesses dos detentores do poder econômico. Dito de outra forma: a corrente
neoliberal rejeita qualquer “ação que entrave o jogo da concorrência entre
interesses privados”^ (um “jogo de cartas marcadas”, em razão do desequilíbrio
provocado pelo exercício sem controle ou limites do poder econômico). No
neoliberalismo, a intervenção estatal nunca é direcionada à limitaçãodo poder
econômico ou à redução dos danos provocados pelo mercado. Ao contrário, a
intervenção autorizada pela teoria neoliberal dire-ciona-se ao desenvolvimento
do mercado e à facilitação dos lucros a serem alcançados pelos titulares do poder
econômico. O enquadramento jurídico neoliberal, portanto, não se revela
compatível com obstáculos legais à atividade econômica e à obtenção do lucro,
razão pela qual tanto os direitos fundamentais, historicamente construídos como
obstáculos ao exercício do poder, quanto os direitos sociais, forjados a partir das
lutas populares no âmbito do liberalismo social, passam a ser relativizados. O
direito, a partir da racionalidade neoliberal, deve ter por objetivo tão somente
construir ótimas condições para o mercado e o jogo concorrencial.
Pode-se imaginar o neoliberalismo também como uma tentativa de impor limites
às políticas redistributivas, reguladoras, protecionistas, assistencialistas e
planificadoras que reduziam as possibilidades de lucros dos mais fortes
economicamente. Não se pode estranhar, então, o apoio financeiro recebido para
a reconstrução da doutrina liberal, tanto por instituições de prestígio (como o
Instituto Universitário de Altos Estudos Internacionais, a London School of
Economics e a Universidade de Chicago) quanto por centenas de think tanks
encarregadas de difundir os mantras neoliberais.
1.7. O nascimento do neoliberalismo
Há certa divergência sobre o marco histórico que representaria o nascimento do
neoliberalismo, o momento em que foi apresentado como um projeto à
sociedade. Para alguns, esse momento seria a criação da Sociedade Mont-
Pèlerin, em 1947. Todavia, foi com a realização do Colóquio Walter Lippmann,^
em 1938, que pela primeira vez se tentou a formulação de uma teoria do
intervencionismo estatal propriamente liberal. Foi, ainda, nesse evento que se
deram os primeiros passos para a tentativa de criação de uma espécie de
“Internacional Neoliberal”.^
A premissa dos “pais fundadores” do neoliberalismo era a de que a manutenção
do liberalismo necessitava de uma refundação teórica da doutrina liberal para
que fosse possível dela deduzir uma política ativa verdadeiramente liberal. Em
que pese certa divergência, em especial causada pelo conservadorismo de
teóricos como Von Mises e Hayek (que atribuíam a derrocada do modelo liberal
às traições dos princípios do liberalismo clássico, em especial às intervenções
políticas),70 tornou-se hegemônica a tese de que não poderíam existir liberdades
sem intervenção estatal. Assim, o liberalismo deveria ser visto não mais como
uma justificação do status quo, mas como uma “lógica de reajustamento”7! do
Estado e da economia.
O neoliberalismo, então, passou a se distanciar da tese do laissez-faire. Diante
dos efeitos danosos produzidos pela inércia do Estado, a ideia de uma radical
oposição às políticas intervencionistas passou a figurar no plano imaginário
como uma negatividade. Também ganhou corpo, durante as discussões que
fundaram as bases do modelo neoliberal, a tese de que o próprio regime liberal e
a vida econômica eram construções que nasciam e se desenvolviam a partir de
um quadro legal e, portanto, do intervencionismo do Estado. Passou-se, portanto,
a negar a espontaneidade do mercado.
Há na inovação do neoliberalismo o reconhecimento da necessidade de
mudanças de ordem epistemológica (por exemplo, a rejeição da metafísica
naturalista) bem como da importância do Direito na instauração e na manutenção
da economia de mercado (o próprio direito de propriedade é uma criação da lei).
Há também na aceitação das propostas neoliberais a vitória da tese de que o
mercado, por si só, não é capaz de assegurar a integração de todos, razão pela
qual precisa da sustentação do Estado. Percebe-se, pois, que apesar do discurso
qual precisa da sustentação do Estado. Percebe-se, pois, que apesar do discurso
de retorno ao liberalismo, os neoliberais produziram uma nova base teórica e
uma nova política. O neoliberalismo sedimenta-se, então, como um modelo
marcado pelo ativismo, através do qual se busca a construção das condições
ideais para que a iniciativa privada possa se desenvolver livremente.
Do ponto de vista teórico, assumia-se que o dogmatismo liberal clássico foi o
responsável pelos fenômenos da planificação econômica e do dirigismo de viés
keynesiano. Isso porque a teoria liberal clássica estava errada ao confundir as
regras para o funcionamento de um sistema social com as leis naturais
imodificáveis (que serviríam para justificar o laissez-faire) e ao ignorar a
dimensão política da economia. A partir da hegemonia desse novo modo de ver e
atuar tipicamente neoliberal, passou-se a admitir que a ordem econômica e o
mercado são construções históricas e, portanto, passíveis de serem alteradas pela
ação humana. Existiríam, então, condições para o estabelecimento de um
programa estatal (uma agenda) visando conservar e potencializar o
funcionamento do mercado e, em consequência, potencializar e conservar os
lucros dos detentores do poder econômico. Reconhecia-se, enfim, a dimensão
institucional da organização econômica e social.
O neoliberalismo cooptou o Direito e passou a fazer uso do “império da lei”. A
chamada “colonização do Direito pela economia” é uma das leituras possíveis do
fenômeno do uso do Direito e das instituições jurídicas para a potencialização e
conservação do mercado, e também para a realização dos desejos dos detentores
do poder econômico. Tornou-se comum que, em atenção a um determinado
sistema econômico, as leis e as decisões judiciais passassem a ser modificadas
sempre que os detentores do poder econômico julgassem necessário. E, de fato, a
partir da racionalidade neoliberal as leis e as decisões judiciais passaram a ser
direcionadas à potencialização dos mercados e não mais vistas como obstáculos
à sua eficiência (entendida como possibilidade de geração ilimitada de lucro).
Por isso a simpatia dos neoliberais (Lippman, Hayek e outros) pelo sistema da
Common Law, que, com seus precedentes judiciais, mostra-se muito mais
flexível do que os modelos da Civil Law e da rigidez constitucional. A
racionalidade neoliberal, como se vê, leva também à tendência à flexibilização
dos direitos fundamentais, tanto os de dimensão social quanto os de origem
liberais, vistos como potenciais obstáculos ao desejo de lucro.
Para os neoliberais, caberia ao sistema jurídico assegurar o que um homem pode
esperar dos outros, bem como garantir a realização dessa expectativa.7^ Contam,
portanto, com uma espécie de “governamentalidade do tipo judicial”: um
governo da economia a partir da criação de normas que se adaptam às
necessidades mutantes dos detentores do poder econômico. Aposta-se, assim, na
dimensão hermenêutica dos comportamentos, ou seja, na criação em cada caso
concreto, por cada governante e por cada governado, de normas de conduta que
seriam condicionadas pela racionalidade neoliberal.
Vale lembrar que há uma diferença ontológica entre o texto legal (dispositivo
abstrato e genérico) e a norma (dispositivo concreto), esta sempre o produto da
ação do intérprete. Ao atuar no mundo-da-vida sempre se está a interpretar (e a
julgar) e, portanto, a criar normas (mandamentos de conduta) para situações
concretas, o que se dá a partir da tradição em que o intérprete está inserido, de
suas pré-compreensões e também de seus preconceitos. Os neoliberais contam e
só consideram legítimas as normas que se revelam adequadas à racionalidade
neoliberal.
Com a lei a serviço do mercado, e o consequente declínio do império da lei
diante dos cálculos de interesses, retorna-se à busca de harmonia pelo cálculo e
pela análise de números (o que se reforça com a chamada “revolução numérica e
digital7^”), o que permite “pensar a normatividade não mais em termos de
legislação, mas em termos de programação”.7! Com isso, se busca reduzir a
dimensão humana no processo de criação e aplicação da lei, pretendendo que as
pessoas cumpram o programa estabelecido, ou, mais precisamente, se limitem a
reagir em temporeal aos múltiplos sinais que levam ao atendimento dos
objetivos que lhe são atribuídos.7! Uma normatividade, portanto, que exclui e
tende a degenerar a capacidade humana de pensar e agir segundo as suas
próprias idéias.
Desde sua origem, o significante “neoliberalismo” se tornou uma espécie de
conceito guarda-chuva, abrangendo uma vasta gama de objetos e significados. É
importante ter em mente que essa palavra tem servido para nomear fenômenos
(ou dimensões de um mesmo fenômeno) bem diferentes. Muitas vezes, a crítica
ao neoliberalismo se perde nessa diferença de objetos e de dimensões nomeadas
pela mesma palavra. Em apertada síntese, pode-se apontar que o neoliberalismo
surge como uma teoria econômica construída entre tensões doutrinárias para, em
seguida, se transformar em política(s) econômica(s) e, mais tarde, em uma
racionalidade governamental. A ideia neoliberal, desenvolvida a partir do
Colóquio Lippmann, levou a uma teoria, a uma política e a um modo de
governar. Mas não só. Hoje a ideia de racionalidade governamental não é
suficiente para explicar o que produz o neoliberalismo e, mais precisamente, a
relação entre a racionalidade neoliberal e os limites ao exercício do poder. Isso
porque o neoliberalismo, mais do que uma nova arte de governo, tornou-se uma
“nova razão do mundo”,76 uma normatividade e um imaginário que ultrapassam
os limites do mercado e do Estado. Por neoliberalismo, deve-se entender um
fenômeno conglobante, um modo de ver e atuar sobre tudo e todos.
Como esclarecem Christian Laval e Pierre Dardot, o neoliberalismo deve ser
entendido não como
[...] o conjunto de doutrinas, correntes ou autores os mais diversos e, em
determinados pontos, opostos, que a história política e econômica gosta de
arrumar sob esse muito vasto chapéu. Também não como políticas econômicas
que procederíam de uma mesma vontade de enfraquecer o Estado em proveito
do mercado. Mas, sobretudo como isso que nós temos analisado como uma
“razão-mundo” que tem por característica estender e impor a lógica do capital a
todas as relações sociais para torná-la a forma de nossas vidas.ZZ
É possível afirmar, então, que o neoliberalismo se apresentou como uma teoria
econômica (variante do liberalismo que começou a surgir a partir dos anos Hr- e
HY-), um novo modelo econômico que representaria uma espécie de ajuste em
relação aos problemas que levaram à crise da forma anterior de liberalismo. Mas
a tentativa de novamente atualizar o liberalismo deu lugar a algo novo. A grande
questão não era mais discutir se o governo podia intervir ou não no mercado, e
sim identificar quais intervenções precisavam ser feitas a partir do exercício do
poder político para obter os efeitos desejados pelo mercado.
Em um certo sentido, pode-se afirmar que o neoliberalismo surge em um
contexto de risco ao liberalismo representado pelo movimento comunista, mas
elege um outro adversário principal: o dirigismo de Keynes, que tinha
repercussão direta na luta contra a pobreza, a discriminação e a desigualdade
com reflexos na educação, no emprego, da saúde e na habitação. Aos olhos dos
detentores do poder econômico, as propostas de Keynes representariam a
promessa de redução de suas margens de lucro. Os neoliberais, em sentido
contrário, voltavam a defender a primazia do mercado, que deveria ser “o
objetivo, o princípio e a forma do Estado”.ZH No neoliberalismo, o mercado
passa a ser tratado como fundamento, mas também como efeito e
responsabilidade do Estado, razão pela qual a ação governamental deve
assegurar um quadro jurídico-político estável que permita o seu bom
funcionamento, garantindo-lhe ainda as condições monetárias e orçamentárias
para permitir a circulação e a acumulação do capital.
para permitir a circulação e a acumulação do capital.
A coerência política neoliberal é um sintoma que permite afirmar a existência de
uma racionalidade: um modo de ver e atuar no mundo próprio do ideário
neoliberal. O ordoliberalismo da Escola de Fribourg e o neoliberalismo
americano da Escola de Chicago, que são as mais conhecidas e influentes
manifestações teóricas do neoliberalismo, apesar das diferenças, têm muito mais
pontos de contato do que divergências. Ambas as correntes neoliberais defendem
tanto a crítica da ação política voltada à redução da desigualdade quanto a crença
em um poder que age sobre os indivíduos a partir do meio em que vivem. E o
meio de vida do homem neoliberal é, e para sempre deveria ser, o mercado.
Com o ordoliberalismo, pode-se falar em uma nova racionalidade governamental
na qual as decisões políticas devem ser tomadas a partir da premissa de que a
liberdade econômica do mercado é a condição de prosperidade da população e,
portanto, deve exercer a função de legitimar as ações governamentais. Segundo
Michel Foucault, o ordoliberalismo implica na necessidade de uma
Gesellschaftspolitik, isto é, de uma política de sociedade e de um
intervencionismo estatal “ativo, múltiplo, vigilante e onipresente”:^ uma espécie
de intervenção social que não é voltada nem à compensação dos efeitos
desestruturantes e perversos eventualmente gerados pela liberdade econômica,
nem à redução dos danos produzidos no interior das “regras do jogo” da
sociedade de mercado, mas que deve se dar “a título de uma condição histórica e
social de possibilidade de uma sociedade de mercado, a título de condição para
que funcione o mecanismo formal da concorrência”.^ Não se trata apenas de
uma governabilidade econômica, mas de uma quase identificação entre os fins
do Estado e os fins do mercado, entre a prosperidade econômica e a legitimidade
política. Segundo a leitura foucaultiana^l dos ordoliberais, existem dois eixos
que caracterizam essa corrente de pensamento: de um lado, a formalização da
sociedade ao modelo da empresa e, do outro, a redefinição da instituição jurídica
e das regras do direito, “que são necessárias em uma sociedade regulada a partir
e em função da economia concorrencial de mercado”.^
No esquema liberal clássico, buscava-se desenvolver e facilitar o funcionamento
dos mecanismos autossu-ficientes do mercado no interior de um espaço político
estruturado pelo princípio da soberania, cabendo ao princípio da utilidade se
impor como um limite governamental diante da tendência à ilimitação do
exercício do poder, oriundo da ideia de soberania. O ordoliberalismo produz
uma inversão: o mercado, percebido como fonte do bem-estar, é que funda e
torna legítima a soberania do Estado. Os limites e os objetivos do Estado, para o
ordoliberalismo, são os limites e os objetivos do mercado. O Estado, dentro
dessa leitura neoliberal, passa a ter o dever de assegurar o sucesso do mercado.
A sociedade também se torna um dos alvos preferenciais das ações estatais:
produz-se uma política para a sociedade voltada à promoção do mercado. É a
política direcionada à sociedade que funciona como regulador do Estado. Em
teoria, o Estado passaria a desenvolver e a incentivar uma lógica concorrencial,
mas, ao mesmo tempo, deveria proteger os indivíduos da tendência à anomia
inerente à prática concorrencial (que se traduz em uma espécie de vale-tudo pelo
sucesso) através do apoio às estruturas de supervisão comunitária ou às
atividades que visam estimular a responsabilidade individual, como o incentivo à
abertura de pequenas empresas. A proposta ordoliberal, como se vê, é um
governo liberal ativo, e, por essa razão, Foucault identifica no ordoliberalismo
uma racionalidade governamental inédita: “um governo pelo mercado mais do
que um governo por causa do mercado”.^
Para o ordoliberalismo, a economia de mercado passa a definir quais ações
governamentais levarão ao sucesso e quais estão destinadas ao fracasso. Surge
uma normatividade, primeiramente, voltada às ações governamentais e, em
seguida, direcionada a todos os indivíduos. O conceito central para se entender o
funcionamento do mercado a partir da racionalidade neoliberal é o da
concorrência: a forma concorrência é o que caracteriza o mercado. No
neoliberalismo, a concorrência é o eidos do mercado.Para a corrente ordoliberal,
o mercado é o produto de um contexto e o efeito de uma determinada política,
por isso a intervenção estatal é encorajada sempre que a ação governamental for
direcionada a permitir o funcionamento livre dos mecanismos concorrenciais na
economia, sempre que a intervenção produzida pelo exercício do poder político
criar ou otimizar as condições fundamentais à concorrência.
A constitucionalização dos princípios da economia do mercado é desejada pelos
ordoliberais. O enquadramento constitucional das condições fundamentais à
concorrência e ao livre mercado, que produz limitações tanto à vontade popular
quanto aos atos dos agentes estatais, leva à estabilidade necessária à sociedade
de mercado. Para os ordoliberais, o ordenamento legal não é encarado como uma
superestrutura, mas como uma dimensão imanente ao funcionamento econômico
e social. O econômico determinaria o conteúdo e a finalidade do direito público
(inclusive do direito penal, sempre destinado ao controle social) e constitucional,
e, em seguida, o jurídico, condicionado (e, com o tempo, colonizado) pela
economia, informaria as ações governamentais.
Por sua vez, o neoliberalismo americano, testado no Chile após o golpe de
Estado que derrubou o presidente democraticamente eleito Salvador Allende em
1973, apresenta algumas diferenças, mas muitos pontos de contato com o
ordoliberalismo. É no neoliberalismo americano que surge a ideia de uma
política social privatizada, o que acabou por levar à opção política por medidas
de privatização dos mecanismos de seguridade social. O neoliberalismo
americano aparece assim como uma corrente de pensamento que radicaliza as
propostas neoliberais de favorecer a iniciativa privada, os planos privados de
previdência e as técnicas de capitalização em detrimento dos mecanismos de
redistribuição entre os grupos sociais.^As ações governamentais condicionadas
pela lógica da concorrência seriam destinadas à otimização do funcionamento do
mercado, com o objetivo de alcançar o máximo crescimento das negociações e o
aumento do lucro dos detentores do poder econômico. Esse “sucesso”
econômico representaria a única verdade possível sob a égide da racionalidade
neoliberal. Em outras palavras, trata-se de um regime de verdade em que o
crescimento do mercado, a livre concorrência e o lucro ocupam papel central. O
verdadeiro, à luz da racionalidade neoliberal, é a necessidade de satisfazer o
mercado e a obtenção de lucros. Não por acaso, o mercado se transforma no
modelo para todas as relações sociais.
As ações sobre a sociedade e sobre os indivíduos têm por objetivo desenvolver a
concorrência, adaptar os indivíduos a ela e domesticar as condutas. Para os
neoliberais americanos, todos os domínios do mundo-da-vida remetem à ideia de
empresa, isso porque toda atividade é assimilável a uma produção e é regida por
um cálculo de rentabilidade. Para eles, então, deveria ser possível aplicar uma
análise econômica, baseada em cálculos de interesse, a toda uma série de objetos
que tradicionalmente se encontram desvinculados da lógica empresarial e de
mercado, tais como a família, os casamentos, a educação dos filhos, a justiça, a
criminalidade.^ As ações passariam a ser calculadas a partir da figura do homem
econômico: aquele ente abstrato que representaria o indivíduo capaz de decidir
de uma maneira previsível a partir de seus próprios interesses.
Dá-se, a partir da teorização dos neoliberais americanos, a extensão da abstração
Homo aeconomicus à análise de decisões em domínios não diretamente
econômicos. Todas as condutas passam a ser potencialmente objeto dessa análise
econômica: primeiro, aquelas condutas que implicam a alocação de recursos que
são raros no mundo-da-vida, depois, todas as condutas que se dirigem à
utilização de meios limitados para alcançar um fim determinado dentre outros
possíveis, e por fim, a análise econômica abrangería também todas as condutas
que podem ser tidas como racionais, ou seja, condutas finalisticamente dirigidas,
que impliquem a escolha estratégica de meios, de instrumentos e de caminhos.^
Em autores como Gary Becker, por exemplo, a análise econômica é apresentada
como legítima para abarcar inclusive condutas não racionais, isto é, ações
humanas em que inexiste o objetivo de angariar alguma vantagem ou otimizar o
resultado.^?
Toda conduta que “aceita a realidade” (Becker), que busca responder de modo
sistemático às modificações das variáveis do meio, torna-se potencialmente
objeto da análise econômica, inclusive o modo de governar. Como Michel
Foucault tornou explícito, o homem econômico seria aquele que aceita a
realidade.^ Passa-se a considerar racional a conduta que responde
previsivelmente (ou seja, de modo não aleatório) às modificações das variáveis
do meio (“que aceita a realidade”). Agir racionalmente no mundo-da-vida seria
o equivalente à busca de uma vantagem ou lucro. Por isso, para os teóricos
neoliberais americanos, a sociedade precisava ser entendida a partir dos
conceitos de entrepreneurship (como faculdade do gênero humano) e capital
humano.^.
Em suma, para os neoliberais americanos, todos os comportamentos humanos
podem ser resumidos pelo resultado da escolha entre fins rivais, como fica claro
na obra de Gary Becker, o que alarga o campo da economia política e ressalta a
importância tanto dos sujeitos econômicos quanto da racionalidade de suas
condutas. O trabalhador, por exemplo, deixa de figurar como uma espécie de
objeto, submetido à lei da oferta e da procura, para se tornar um sujeito ativo,
capaz de escolhas racionais entre alternativas que podem ser mensuradas em
termos de satisfação. A subjetividade humana, para essa corrente de pensamento,
estaria em consonância com a lógica de acumulação capitalista: o trabalhador
passa a se identificar como um capital de competências (abilities) a gerir. Em
outras palavras, o trabalhador não é mais percebido como uma força de trabalho
que tem um preço no mercado, mas como uma empresa que precisa ser gerida
segundo uma racionalidade específica. E o mais impressionante é que, sob a
racionalidade neoliberal, o indivíduo, ainda que permaneça explorado, passa a
acreditar que é um empresário-de-si, o que faz com que os outros trabalhadores
sejam percebidos como concorrentes ou inimigos (inviabiliza-se, assim, a ideia
de consciência de classe), e ele passe a se comportar segundo os imperativos de
maximização dos investimentos dentro de todos os domínios de sua existência (a
educação, a saúde, a família, a criminalidade, a imigração etc.).
Para os neoliberais americanos, também as instituições e todas as atividades
deveríam seguir a lógica das empresas: passar a combinar inputs e custos com o
objetivo de produzir outputs específicos. Todas as atividades, mesmo aquelas
que historicamente nunca tinham sido relacionadas à obtenção de lucros,
passariam a ser percebidas e geridas como atividades econômicas que exigem
cálculos típicos das atividades empresariais. Começou-se a pensar e trabalhar a
partir da premissa de que a racionalidade da conduta é universal e que os
cálculos dos indivíduos são sempre cálculos de investimento que podem,
inclusive, exigir a escolha entre ganhos imediatos menores ou satisfações futuras
(com maiores ganhos), o que faz com que aquilo que, em um primeiro momento,
parece ser uma decisão irracional revele-se no futuro a decisão acertada para
aumentar o respectivo capital.
O neoliberalismo promete uma sociedade em que as pessoas espontaneamente
seguiríam as “regras do jogo” com o objetivo de lucrar e levar vantagens. A
ideia dessa sociedade, apontada pelo discurso neoliberal como consequência da
racionalidade neoliberal, passa a integrar o respectivo imaginário. Formam-se
imagens e idéias associadas a esse modelo de sociedade. Ao mesmo tempo,
instaura-se todo um sistema simbólico, uma normatividade, que enuncia
mandamentos destinados a estabelecer a conduta “normal”, esperada, de cada
indivíduo.
Busca-se no neoliberalismo formatar o indivíduo à imagem e semelhança do
homem econômico,aquele que sempre obedece ao próprio interesse, mesmo que
para isso seja necessário integrar técnicas e dispositivos comportamentais à
economia, tais como jogos de estímulo e mecanismos de reforço, bem como
introduzir ou reforçar outras variáveis condicionantes do comportamento,^ em
especial ligadas à propaganda, à indústria cultural^! e à repetição (a exclusão da
expectativa do novo). Com o neoliberalismo, contudo, o Homo oecono-micus
adquire uma forma histórica particular. Como explica Wendy Brown, “à
diferença da criatura de Adam Smith, movida por uma propensão natural ao
‘tráfego, a troca e aos negócios’, o Homo oeconomicus atual é uma unidade de
capital humano essencialmente construído e intensamente governado”.^ Um
indivíduo formatado para atender ao mercado, maximizar a competitividade e
aumentar o seu valor em todos os domínios de sua vida.
Como lembra Foucault, buscou-se expandir o modelo do homem econômico
porque ele é, “do ponto de vista de uma teoria governamental, aquele que não
precisa ser tocado”,^. ou seja, ele é o tipo ideal de indivíduo, por não dar ou
exigir trabalho. O homem econômico é o indivíduo desejável à sociedade
neoliberal. Para o neoliberalismo funcionar de modo harmônico é preciso que as
pessoas obedeçam à lógica interna da valorização de seu próprio capital e de
seus ativos. Uma obediência que, segundo alguns teóricos neoliberais, poderia
ser alcançada a partir de dispositivos de incitação e de desincitação. Considerar o
homem como um capital humano, a ser valorizado ou como uma empresa
significa fazer dominante o modelo normativo do homem econômico neoliberal,
que se caracteriza por um agir dirigido ao sucesso econômico, o que se revela
em oposição aos modelos morais hegemônicos anteriores, tais como o da virtude
(presente na ética tradicional) e o da queda (encontrado no modelo teológico).
A funcionalidade política da racionalidade neoliberal é ampla. Ao mesmo tempo
em que permite uma análise crítica do exercício do poder, um modo de ver e
encarar o poder em relação aos efeitos que ele produz sobre as condutas e as
escolhas individuais, a racionalidade neoliberal é também uma forma de
governar os indivíduos. Há um julgamento e uma filtragem das ações estatais e
individuais à luz da lógica e do modelo de mercado, em uma espécie de tribunal
econômico permanente.^ Esse complexo de julgamentos, induções e incentivos
às condutas esperadas constitui uma forma de exercício do poder que age a
distância sobre os indivíduos, em especial por estar direcionada ao meio de vida
das pessoas sob a égide neoliberal (tudo é construído ou reconstruído tendo o
mercado como modelo), priorizando a ideia de autovalorização do capital
humano. Tem-se, sob a hegemonia do neoliberalismo, a prevalência daquilo que
Byung-Chul Han chama de “poder inteligente”, uma manifestação de poder que
“não age contra a vontade dos sujeitos subjugados, controlando suas vontades
em seu próprio benefício. É mais afirmador do que negador, mais sedutor do que
repressor. Ele se esforça em produzir emoções positivas e explorá-las. Seduz, em
vez de proibir”.^
A normatividade que é construída a partir da racionalidade neoliberal não é
imposta do exterior por um terceiro que pretende estabelecer limites ao poder,
nem do alto por uma autoridade, e também não se fundamenta em uma lei
divina, nos ideais de justiça social ou em uma espécie de senso histórico, mas se
impõe pelo livre jogo das forças econômicas, reproduzindo em toda a sociedade
a lei do mais forte. A concorrência torna-se padrão normativo. Cada pessoa
passa a estar submetida às regras do jogo da concorrência. O outro torna-se
concorrente e, não raro, passa a ser tratado como um inimigo a ser destruído.
No imaginário neoliberal, a concorrência é um dado natural, logo o modo de agir
a partir das regras do jogo concorrencial também passa a ser percebido como
evidente. Como não olhar para os outros trabalhadores como concorrentes, senão
inimigos, que disputam o sucesso e o lucro? Em uma sociedade em que o
egoísmo foi transformado em virtude, a extensão da lógica da concorrência para
as demais relações sociais não foi traumática. Ainda para o imaginário
neoliberal, esse novo modo de ver e atuar no mundo a partir da lógica
concorrencial representaria uma continuação do trabalho crítico do liberalismo a
respeito dos excessos e da irracionalidade das ações governamentais.
Ter-se-ia, então, um governo menos preocupado com questões “secundárias” e
mais eficaz no campo econômico se o Estado fosse gerido como uma empresa.
Para tanto, o receituário neoliberal propõe que se faça uma espécie de
“transfusão da cultura e do modo de exercer o poder da Empresa, instituição da
religião industrial, em direção ao Estado, instituição da religião política”.^ A
virtude da empresa privada seria, então, transferida ao Estado, visto pelo olhar
neoliberal como um ente fraco e corrupto. Não por acaso, figuras como Silvio
Berlusconi e Donald Trump (e, em menor escala, também Emmanuel Macron),
políticos que se apresentam como não políticos e homens de negócios,
personificam a figura do gestor, necessário ao sucesso do fenômeno do Es-tado-
Em-presa. De igual sorte, ainda segundo a racionalidade neoliberal, as pessoas
alcançariam mais vantagens pessoais se passassem a se perceber também como
empresários-de-si. Mas essa realidade, que o imaginário neoliberal apresenta
como natural, é também o produto de situações artificialmente criadas, de regras
estabelecidas, de idéias fabricadas, de instituições construídas para orientar as
condutas e os pensamentos na direção da crença na eficácia do governo
neoliberal.
Como percebeu Christian Laval,
[...] a ação governamental à distância pelo aparecimento de “regras do jogo” visa
estruturar o espaço dentro do qual se tratam os indivíduos segundo a lógica
concorrencial. Os indivíduos que estão a se conduzir nesse espaço devem se
adaptar a esse meio concorrencial em funcionamento como empresas têm que
gerir recursos para maximizar o capital. Longe de ser anormativo ou
subgovernado, o espaço neoliberal é repleto de técnicas comportamentais cada
vez mais refinadas, que afetam toda a vida e até o mais íntimo dos indivíduos.2Z
O neoliberalismo supõe, e a racionalidade neoliberal produz, uma representação
de mundo em que os indivíduos podem ser governados através de certos modos
de ação que incidem sobre o meio em que eles vivem. Essa não é uma questão
nova. Max Weber já apontava para o fato de que o indivíduo foi lançado ao
nascer na ordem econômica capitalista, um habitat dentro do qual cada um tem
que sobreviver. E para sobreviver, dentro dessa rede do mercado, “a ordem
econômica lhe impõe as normas de seu agir”.25Uma das chaves de leitura
possíveis da racionalidade neoliberal é a atenção ao governo dos indivíduos e
das instituições através de uma regulamentação concorrencial da sociedade. Esse
modo de governar parte da crença no novo Homo oecono-micus como um ser
eminentemente governável e formatável a partir de estímulos e de mudanças, por
vezes sutis e quase imperceptíveis, sobre as regras do jogo que precisam ser
seguidas para se obter sucesso na sociedade. As ações governamentais, então,
passam a ser dirigidas para produzir essa formatação, ou seja, para criar e manter
as condições de funcionamento do mercado, o que muitas vezes, ao longo da
história, significava apenas assegurar a acumulação de capital aos detentores do
poder econômico. O governo neoliberal age sobre o ambiente social para
orientar as condutas de indivíduos transformados, segundo os teóricos
neoliberais americanos, em “capital humano” e tratados, pelos detentores do
poder econômico, como objetos negociáveis, mas que acreditam ser os futuros
vencedores do jogo da concorrência.
O sujeito neoliberal, o indivíduo submetido à racionalidade neoliberal, é
“incapaz de se relacionar livre de qualquer propósito. Entre empreendedores não
surge amizade desinteressada”.^ Categorias como “capital humano” e a crença
de que cada pessoa deve atuar no mundo-da-vida como um empreendedor,como
empre-sários-de-si, produzem uma profunda mutação antropológica, a ponto de
inviabilizar laços sociais.
Karl Marx, à luz do contexto em que escreveu sua monumental obra, sustentava
que a partir de um determinado momento as forças produtivas entrariam em
contradição insuperável com as relações de produção dominantes, isso porque as
forças produtivas se desenvolvem continuamente e cresceríam a ponto de não
mais se deixar subalternizar.100 A consequência lógica, pensou Marx, seria que a
industrialização e as mudanças seguintes produziríam novas forças produtivas,
bem como provocariam o aumento da importância dessas forças em comparação
ao poder dos detentores dos meios de produção. Os trabalhadores, que
personificavam as forças de produção, então, uniriam-se para destruir as antigas
relações de propriedade e de dominação (algo parecido com o que já havia
ocorrido com o feudalismo). Esse confronto entre as forças produtivas e as
relações de produção dominantes levaria à revolução com a radical mudança nas
relações de produção. Não foi o que aconteceu.
Foram justamente as contradições intrínsecas ao modelo capitalista que levaram
às mudanças que tornaram hegemônica a racionalidade neoliberal. Em lugar do
comunismo previsto por Marx, o capitalismo industrial se manteve sob a forma
neoliberal, com especial destaque para o crescimento do chamado “capitalismo
improdutivo” (capitalismo financeiro), no qual as forças de produção (força de
trabalho, modos de trabalho e meios de produção) perdem importância, o que
dificulta ainda mais o devir revolucionário. A racionalidade neoliberal faz
desaparecer o imaginário revolucionário que cercava a figura do proletário,
dando lugar ao empreendedor. Em certo sentido, como percebeu Byung-Chul
Han, não foi a revolução comunista que eliminou a exploração alheia da classe
trabalhadora, mas o neoliberalismo: a partir dessa nova racionalidade, “cada um
é um trabalhador que explora a si mesmo para a sua própria empresa. Cada um é
senhor e servo em uma única pessoa”.101 Desaparece também a perspectiva de
uma consciência de classe, o que faz com que a luta passe a ser travada no
interior de cada pessoa. Ausente a imagem de um nós político, impossível um
agir conjunto capaz de eliminar a opressão e mudar a sociedade: a exploração
neoliberal não transforma o indivíduo em revolucionário, mas em deprimido.
102O regime de autoexploração, nascido da racionalidade neoliberal, diante da
necessidade cotidiana de enfrentar os concorrentes, faz com que a agressão que
acompanha a exploração seja dirigida pelo agente contra seus “concorrentes”,
mas também contra ele mesmo. A percepção do fracasso econômico na
sociedade neoliberal, que se relaciona com os mandamentos de otimização e
desempenho pessoal, se dá de maneira perversa: o empresário-de-si fracassado é
incapaz de qualquer reflexão sobre o sistema e as distorções sociais, o que faz
com que acabe dominado pelo imaginário meritocrático, que faz com que ele se
considere o único responsável pelos rumos de seu empreendimento.
Pode-se dizer que o que caracteriza os modos de produção neoliberais é a
solitude de indivíduos enquanto exploradores-de-si. Mais do que isso, em razão
de uma racionalidade que introjeta a ideia de ilimitação no imaginário das
pessoas, os empresários-de-si passam a acreditar que são capazes de uma
autoprodução ilimitada (e isso vale tanto para o prestador de serviços francês
quanto para o traficante de drogas de uma favela do Rio de Janeiro). As classes
não desapareceram, mas não são mais percebidas como tais. Seja em razão da
dimensão ideológica do neoliberalismo, seja em razão do mimetismo que faz
com que “os de baixo procurem se parecer com “os de cima” como forma de se
proteger, há um ocultamento dos estratos antagônicos da sociedade, o que ajuda
a estabilidade do sistema neoliberal. Desaparece o risco da ditadura do
proletariado, que tanto assustou os “pais fundadores” do neoliberalismo,
enquanto se oculta cada vez mais a ditadura do capital em vigor. Um modelo
autoritário e tendencialmente destrutivo passa a ser percebido como um mero
exercício da liberdade.
Como se viu, a racionalidade neoliberal fez com que o indivíduo passasse a agir
como uma empresa e que o Estado assumisse o modelo de Estado-Empresa, o
que significa operar escolhas com o objetivo de produzir o máximo de
satisfação. Uma satisfação que passa a se identificar exclusivamente com a
obtenção de lucro. Governar, legislar e julgar passa a ser sinônimo de agir sobre
o meio, de modo a conseguir que os indivíduos respeitem as regras do mercado e
respondam às incitações que esse mesmo meio produz, no sentido de que todos
busquem sempre, e sem limites, o crescimento de seus capitais. A liberdade do
indivíduo passa a ser direcionada à capitalização de seus próprios recursos e
relações, inclusive pessoais.
O meio que passa a servir de modelo é o mercado concorrencial, pois é o meio
que se revela mais adequado às incitações e aos estímulos direcionados à
capitalização: trata-se, pois, de um espaço em que todos os sujeitos devem atuar
como empresas, como unidades de capitalização privada, enfim, como entidades
que buscam o lucro. O mercado, percebido pelos teóricos neoliberais como um
espaço normativo, passa a contar com uma política econômica e com ações
legislativas voltadas à construção, à manutenção, à correção e à multiplicação
das condições necessárias ao seu bom funcionamento e à satisfação dos
interesses dos detentores do poder econômico. Cabe aos indivíduos sob a égide
neoliberal se adaptar à realidade do mercado para maximizarem seus ganhos ou,
ao menos, sobreviverem à disputa concorrencial. A racionalidade neoliberal,
portanto, revela duas faces: “a ideológica, que continua a naturalizar o mercado,
e a politicamente ativa, que cria as condições econômicas, jurídicas e políticas
pelas quais o mercado funciona de modo otimizado”.103 Foi no ambiente
neoliberal que surgiu a ideia de que o indivíduo deve ser tratado como um ser
integralmente econômico, ou seja, um ente capaz de fazer escolhas supostamente
racionais a partir de critérios econômicos em todas as áreas de sua vida, tais
como o trabalho, a família, a educação, os relacionamentos intersubjetivos, as
drogas e o crime. Fala-se, então, em uma subjetivação neoliberal que fez do
indivíduo uma empresa, um ente moral e racional, despido de pulsões ou desejos
para além do enriquecimento.
É importante frisar que a racionalidade neoliberal não leva ao fim da
normalização ou das técnicas disciplinares, mas a novas modalidades de
normalização, que não necessariamente excluem as demais e que se caracterizam
por operar a partir da produção de estímulos comportamentais através do meio.
Para tanto, são desenvolvidos mecanismos de adaptação e de reação às variáveis
do mercado, em especial técnicas comportamentais, de propaganda, de controle,
de incitação, de estimulação etc. Esses mecanismos e dispositivos podem incluir
desde práticas reiteradas a propagandas subliminares, desde um jogo de
incitação e “desincitação” às novas tecnologias produzidas a partir das
neurociências. Todo um instrumental destinado a moldar comportamentos e a
produzir novas normas, que devem ser interiorizadas pelos indivíduos, é
colocado a serviço do mercado.
Em o Nascimento da biopolítica, Foucault dá início ao desvelamento da ligação
entre biopolítica e governabilidade neoliberal, esta baseada no cálculo
econômico transformado em princípio, que legitima tanto o exercício do poder
quanto a sua própria regulamentação. A transformação do espaço, moldado à
imagem e semelhança do mercado, é a estratégia para dar conta de uma política
econômica que ambiciona a gestão de todo o corpo social. Esse planejamento do
espaço funciona, segundo a lição neoliberal, como um meio de educar, vigiar e
cuidar dos indivíduos para que eles não prejudiquem a livre circulação e os
processos de acumulação do capital. Trata-se daquilo que Ferhat Taylan chamou
de “mesopolítica”.104
Dito de outra maneira, o poder e a gestão das pessoas,a partir da racionalidade
neoliberal, se fazem não só através da punição e da repressão, mas, sobretudo,
através da organização das forças, da criação de novos estímulos, da canalização
e da intensificação dos fluxos e pulsões, inclusive da pulsão de morte. A
biopolítica (bem como a necropolítica) aparece nesse contexto como um
exercício de poder produtivo, ou seja, como a gestão da vida (e a produção
estratégica da morte) através da orientação, do controle e da maximização dos
mecanismos fisiológicos, psicológicos, demográficos e econômicos. Não mais
um exercício de poder voltado prioritariamente a um corpo individual, não mais
direcionado ao corpo do desviante, como acontecia na sociedade disciplinar, mas
um poder direcionado à massa popular, o que se consegue, por exemplo, através
do estímulo e da regulação de fenômenos vitais, tais como a natalidade, a
mortalidade, a educação, a delinquência, a fome, o controle da opinião etc. Um
poder biopolítico que “faz viver e deixa morrer”105 conforme cada situação e que
modifica o imaginário popular. Em síntese: o poder produz a realidade,
entendida como uma trama simbólico-imaginária a que os indivíduos devem
buscar se adaptar; o poder produz “regimes de verdade”, controlando os objetos
e os rituais destinados à revelação do verdadeiro; e o poder produz tanto o
mercado e o consumidor quanto o crime e o desviante.
i.8. O meio, o sujeito e a governabilidade: como se
constrói uma servidão voluntária
O neoliberalismo instaura a governabilidade pelo meio, isso a partir da
constatação de que o meio afeta o jogo de interesses. O meio, então, é tomado
como a base das relações de poder: o espaço em que vive uma população e onde
é possível agir sobre ela. Ao se estruturar o espaço da conduta do outro, espera-
se que este comece a agir de uma maneira determinada e funcional aos interesses
do detentor do poder político, que muitas vezes se identifica com o detentor do
poder econômico. Essa forma de governo da população, que se torna objeto de
uma espécie de jogo que envolve os valores liberdade e segurança, através de
mecanismos de regulação e condicionamento da conduta individual que
envolvem a construção do meio social como um mercado, busca uma gestão da
massa da população (tratada como rebanho), na medida em que os indivíduos
são levados a pensar (ou a não pensar), agir e consumir de maneira semelhante,
em que pese algumas variações compatíveis com o mercado e com o fato dos
indivíduos tentarem gerir a si mesmos como capitais valorizáveis.
O sujeito neoliberal, abstratamente concebido como detentor de todas as
informações e capaz das melhores escolhas, mas que em concreto acredita no
discurso neoliberal e se reconhece como um empresário-de-si, torna-se também
o único responsável diante dos variados riscos a que está submetido, e pelo seu
próprio fracasso, isso porque ajudas sociais ou subvenções representariam
violações das regras do jogo concorrencial. O Estado, por sua vez, deixa de atuar
diretamente na redução da desigualdade e passa a focar em ações no, para e pelo
mercado.
A racionalidade neoliberal gera também o fenômeno de pessoas livres do peso
de terem que pensar (em certo sentido, assujeitos), na medida em que suas ações
são direcionadas por modificações do meio, pela manipulação das informações,
pela propaganda, pela indústria cultural e, hoje, pelos mandamentos produzidos
pelas telas (televisões, smartphones, computadores ligados à rede etc.), que
funcionam como “próteses do pensamento”106 adequado ao mercado. Sob a
racionalidade neoliberal, aparece o fenômeno da população fabricada para se
tornar uma formação “ego-gregária”:107 um coletivo marcado mais pelo egoísmo
e pelo narci-sismo, estimulados tanto pelo poder político quanto pelo poder
econômico, do que por um legítimo individualismo, o que exigiría uma
verdadeira autonomia, inexistente na subjetivação neoliberal.
Esse narcisismo neoliberal leva ao desaparecimento do valor da política. Em
outras palavras, o narcisismo produz a antipolítica. A promessa de
autodeterminação pessoal, distorcida a partir de manipulações do sujeito e
transformada em egoísmo, entra em conflito com o projeto de autodeterminação
coletiva.108 Não por acaso, o mesmo movimento que levou à hegemonia do
neoliberalismo produziu também a desagregação do movimento operário e do
projeto revolucionário a ele ligado. Valores e idéias como solidariedade, comum
e espaço público perderam importância para o indivíduo. A ideia de
individualismo também sofreu uma mutação. O individualismo perdeu em
autonomia e ganhou contornos narcísicos.109 o que significa a perda do interesse
das pessoas pelos outros e pelo coletivo. Pode-se, então, associar esse narcisismo
e esse egoísmo ao desinteresse pelo comum e à ausência de projetos coletivos.
Como lembrou Cornelius Castoriadis em 1986,
[...] há trinta ou sessenta anos, as pessoas de esquerda falavam da “Grande
Noite”, as pessoas de direita do “progresso indefinido”, etc. Hoje, ninguém mais
ousa exprimir um projeto ambicioso, nem mesmo aproximadamente razoável,
que se dirija para além do orçamento ou das próximas eleições.110
O egoísmo, incentivado pela racionalidade neoliberal, e a correlata preocupação
exclusiva com os próprios problemas fazem com que as pessoas não se
envolvam com o comum e se afastem do horizonte público. O espaço público
fica reduzido à propaganda, à publicidade e à exposição pornográfica de vidas
transformadas em mercadorias. As pessoas, condicionadas pela racionalidade
neoliberal, são levadas à repetição das mesmas condutas e dos mesmos
pensamentos, inofensivos aos olhos dos detentores do poder econômico, mas, ao
mesmo tempo, estão isoladas, na medida em que tendem a perceber os outros
como potenciais concorrentes ou inimigos.
Para Christopher Lasch, as fronteiras entre o eu e o resto do mundo tornaram-se
instáveis, com as imagens adquirindo um caráter alucinatório, muito em razão da
propaganda e da tecnologia dos meios de comunicação de massa.111 Mesmo a
ciência, que poderia permitir uma visão de mundo mais racional, passou a ser
percebida como o espaço da produção de milagres que fazem com que tudo se
torne possível, o que contribui para a alucinação neoliberal da ausência de
limites.
Essa sensação de alucinação relacionada ao consumo, a que fica submetido o
indivíduo, se explica em razão da racionalidade neoliberal que contém em si um
princípio de ilimitação. Em outras palavras, se tudo é calculo econômico, se o
homem tende a buscar a maximização diante das alternativas postas à escolha, e
se inexistem limites no meio em que se encontra, há uma tendência a que toda a
sociedade passe a ser regida pela busca da maximização do capital humano e que
todos os obstáculos ao lucro e às relações mercantis entre indivíduos sejam
percebidos como negatividades e afastados, inclusive aqueles obstáculos
tradicionais regidos por códigos religiosos ou éticos.
A tendência à ilimitação do neoliberalismo produz, também no plano simbólico,
profundas modificações. Uma das mais importantes é a mutação do desejo em
sentido lacaniano, ou mais precisamente a perda da “energia psíquica do
desejo”112 que leva à ação. Jacques Lacan demonstrou satisfatoriamente em suas
obras que o desejo tem como causa a falta (se deseja, sobretudo, aquilo que não
se tem) e que essa falta (que seria constitutiva do indivíduo) existe tanto pela
impossibilidade do real ser representado adequadamente quanto em razão de
limites naturais, jurídicos, morais, dentre outros, impostos à fruição dos
objetos.113 Uma sociedade em que os limites não são percebidos ou são
naturalmente ignorados na busca pelo lucro, o que, em certo sentido, se liga
também ao empobrecimento da linguagem típica da racionalidade neoliberal, faz
com que a ideia de desejo acabe substituída pela de necessidade, ou instinto. Há
uma espécie de aposta na dimensão animal dos indivíduos em detrimento do
cultural e da própria ideia de civilização: correlata à perda civilizatória (uma
civilização que nasce com a renúncia pulsional e quesempre se caracterizou pela
imposição de limites), dá-se o aumento da percepção de que coisas se tornaram
necessidades, ainda que artificialmente construídas.
O “capital gera suas próprias necessidades, que erroneamente percebemos como
se fossem nossas”.114 No lugar de pulsões mediadas pela linguagem e, portanto,
que participam de uma economia psíquica em que os limites se fazem presentes,
a racionalidade neoliberal leva ao retorno da ideia de instinto, no qual a
realização das necessidades se torna uma questão de sobrevivência no mundo
neoliberal, que passa a ser instrumentalizada com objetivos político-econômicos.
Diante da falta de desejo, a lógica concorrência faz com que os indivíduos lutem
entre si para a realização de necessidades, o que torna a luta muito mais feroz e,
não raro, faz do concorrente um inimigo, ou seja, alguém que não ter direitos
reconhecidos.
Além de reforçar a ideia de que as pessoas são (e devem ser) movidas por seus
interesses, a racionalidade neoliberal leva à interiorização tanto pelos agentes
estatais quanto pelos indivíduos da lógica concorrencial do mercado. Como
Christian Laval, pode-se afirmar que a racionalidade neoliberal leva à ampliação
da disputa e da concorrência: o Estado encontraria legitimidade em razão do
bom funcionamento econômico da sociedade e, para tanto, deveria ampliar a
disputa concorrencial na sociedade, inclusive aplicando ao próprio Estado, tanto
quanto possível, o mecanismo da concorrência.115
A governabilidade pode ser definida como o conjunto formado por instituições,
normas, procedimentos, análises, cálculos, táticas e dispositivos que permitem
uma forma específica de exercício do poder que tem por alvo a população, a
partir da economia política e de instrumentos técnicos essenciais aos dispositivos
de segurança.116 Implica, igualmente, maneiras concretas, porém às vezes
invisíveis e quase imperceptíveis, de conduzir e controlar os indivíduos. A
governabilidade pode, portanto, ser sinônimo de racionalidade governamental,
de arte de governar e de orientação para o exercício do poder político. Há na
governabilidade um direcionamento de ações para que um indivíduo faça ou
deixe de fazer alguma coisa que outros indivíduos (ou grupos de interesse)
esperam que ele faça, bem como existem também ações concretas para excluir a
possibilidade de que uma pessoa ou um grupo de pessoas façam o que não
interessa ao detentor do poder político (que, por vezes, também se identifica com
o titular do poder econômico). Não por acaso Michel Foucault sustentou que
governar é “estruturar o campo de ação eventual dos outros”.117Adequada à
racionalidade neoliberal, a governabilidade faz cada vez mais uso das técnicas de
biopolítica, uma vez que a gestão da vida é utilizada para atender aos interesses
do mercado e, mais precisamente, satisfazer aos interesses dos detentores do
poder econômico. Segundo Michel Foucault, o biopoder se manifesta a partir de
mecanismos que fazem com que traços biológicos fundamentais da espécie
humana passem a ser utilizados na política, na formulação de uma estratégia
geral de poder: o exercício do poder parte da instrumentalização do fato
biológico fundamental de que a vida de um ser humano pode ser manipulada ou
até extinta.118 A biopolítica, portanto, passa a atuar em relação com as variáveis
relacionadas à vida da população (a morte, o nascimento, a mortalidade, a
riqueza, a pobreza, a sexualidade etc.).
A governabilidade neoliberal se caracteriza justamente por produzir uma visão
de mundo que compatibilize o controle da população com o mercado, a
concorrência e os objetivos buscados pelos detentores do poder econômico. Se o
liberalismo historicamente tinha como princípio orientador a limitação do
exercício do poder político, a governabilidade neoliberal necessita de um poder
político cada vez mais sem limites quando se trata de ajudar o mercado ou os
detentores do poder econômico.
Em uma apertada síntese, pode-se afirmar que tanto a tendência à ilimitação
quanto o pensar, agir e governar pela concorrência são as características que
revelam a especificidade do neoliberalismo. E essa racionalidade, diferentemente
das anteriores, acabou por possibilitar (e necessitar de) novas formas de
dominação. A ideologia tornou-se, então, fundamental à manutenção da
hegemonia neoliberal. A dominação ideológica foi elevada a um novo patamar.
Os efeitos da racionalidade neoliberal podem ser sentidos, mas a dimensão
ideológica do neoliberalismo impede a identificação das causas do sofrimento. A
ideologia permite, por exemplo, que o neoliberalismo seja apresentado como
resposta a problemas criados pelo próprio neoliberalismo. É esse componente
ideológico do neoliberalismo que permite fazer da liberdade uma justificativa
para o exercício do poder de forma autoritária, bem como instaurar um regime
de verdade que se contenta com a chamada pós-verdade. A verdade neoliberal
não passa de narrativas que confirmam preconceitos sociais ou fornecem os
dados úteis aos detentores do poder econômico.
A comparação entre Ewen Cameron e Milton Friedman, figuras históricas que
são resgatadas no livro de Naomi Klein sobre a Doutrina do Choque,permite
demonstrar essa transformação do poder e sua ligação com a ideologia. Os dois,
tanto o médico quanto o economista, pensavam o choque como uma
oportunidade para produzir transformações significativas, mas enquanto para
Cameron o choque é uma manifestação genuinamente disciplinar, produzida por
um terceiro necessariamente contra a vontade manifesta do paciente (que era
tratado por eletrochoques com o objetivo de aniquilar seus conteúdos psíquicos),
o choque neoliberal pensado por Friedman apresenta-se como pura positividade,
despida inclusive de ideologia (como, aliás, acontece com toda ideologia). No
lugar de ameaças de impor sofrimento ou outras negatividades, o poder exercido
por neoliberais como Friedman busca apresentar medidas drásticas (e, por vezes,
catastróficas e criminosas) como estímulos positivos, seduzindo os destinatários.
O poder disciplinar explicitamente restringe a liberdade, enquanto o exercício
neoliberal de poder, mesmo que restrinja a liberdade, o faz de maneira
disfarçada, como uma manifestação em nome da liberdade (mesmo diante da
constatação de que golpes de Estado e o poder disciplinar sempre estão à
disposição para que se alcance os fins visados no projeto neoliberal).
i.9. Neoliberalismo, geopolítica, guerras híbridas e
novos golpes: os velhos “donos do mundo”
mostram suas novas armas
No plano das ações geopolíticas, a racionalidade neoliberal também produziu
mudanças sensíveis. A lógica da concorrência (que, sem limites, leva à
construção de inimigos) e a desconsideração de limites externos à eficiência
econômica fizeram com que as intervenções dos Estados (e, portanto, as
intervenções dos mercados a que servem os Estados) se ampliassem. Para além
do funcionamento de empresas transnacionais (que expandem suas atividades
em vários países e, não raro, possuem poder econômico para interferir na vida
política dos países-hospedeiros) e de organismos que representam uma espécie
de prolongamento da Sociedade Mont-Pèlerin (como órgãos de difusão e
sustentação do projeto neoliberal, tais como o Fórum Econômico Mundial de
Davos), alguns Estados, para defender os interesses de grupos econômicos,
intensificaram a atuação política, militar e econômica sobre outros países,
reduzidos a mercados ou commodities a serem conquistados e negociados.
Os exemplos do Chile, da Argentina e do Brasil, que suportaram golpes de
Estado apoiados pelos Estados Unidos, deixam evidente que a ideia de soberania
nunca foi um obstáculo à ilimitação neoliberal. Os interesses dos detentores do
poder econômico justificam a superação de qualquer obstáculo, permitindo,
inclusive, a criação de grupos de interesse formados por quem quer lucrar nas
mais variadas partes do mundo. Não por acaso, floresceu uma duradoura
amizade entre o ditador chileno Augusto Pinochet e a dama de ferro neoliberal
Margaret Thatcher.
Semnunca afastar a possibilidade do recurso da invasão militar, tradição
estadunidense iniciada ainda no século XIX, a racionalidade neoliberal e as
correlatas técnicas de psicopoder (utilizadas no processo de subje-tivação
neoliberal) levaram ao surgimento de fenômenos como as guerras híbridas (uma
combinação entre revoluções coloridas120 e guerras não convencionais), as
colaborações informais de agentes estatais com grupos de interesse de outros
países e os intercâmbios de saber com a intenção de formar quadros (políticos,
ativistas sociais, juizes etc.) capazes de realizar, ainda que sem consciência
disso, os interesses dos detentores do poder econômico. Como percebeu Andrew
Korybko, “as ocupações militares podem dar lugar a golpes e operações indiretas
para a troca de regimes, que são muito mais econômicos e menos sensíveis do
ponto de vista político”.121 Nas operações geopolíticas indiretas, as munições
são substituídas pelas redes sociais, pelos grupos econômico-midiáticos, por
juizes ou outros atores sociais do país que é objeto da intervenção. São esses
sujeitos e esses meios que, condicionados pela racionalidade neoliberal, passam
a atuar como agressores do governo indesejável; isso em substituição aos
soldados, tanques e balas do governo estrangeiro (a serviço de grupos
econômicos) que pretende intervir. Grupos formados a partir do aplicativo
WhatsApp e em páginas como as do Facebook, do Twitter e do YouTube
funcionam nesse novo contexto como os antigos “covis dos militantes”.122
O exemplo da Rede Atlas123 é significativo. Trata-se de uma organização que
patrocina ações, com destaque para as redes sociais, para desestabilizar e
combater governos não completamente alinhados ao livre mercado. A Rede
Atlas, com forte atuação na América Latina, dá suporte ou forma lideranças que
se colocam na oposição aos governos identificados como progressistas, desde
senadores bolivianos a jovens desocupados transformados em líderes da
oposição, como ocorreu com os membros do Movimento Brasil Livre. As ações
da Rede Atlas têm alcançado resultados satisfatórios na demonização de
governos e intelectuais de esquerda, no fomento ao descontentamento com
políticas sociais e no apoio à eleição de candidatos comprometidos com o ideal
neoliberal. Na Argentina, por exemplo, a Fundación Pensar, um dos think tanks
da Rede Atlas espalhados pela América do Sul, foi incorporada ao partido
político do presidente Mauricio Macri (PRO), logo após a vitória eleitoral do
candidato neoliberal, e membros dessa fundação foram, então, nomeados para
cargos no governo.
A Rede Atlas, que conta com apoio financeiro de empresários e bilionários
conservadores como os irmãos Koch (Fundação Koch) pode, ainda, ser apontada
como uma extensão tácita da política externa dos Estados Unidos, o que salta aos
olhos ao se perceber que vários dos think tanks associados a essa rede são
financiados pelo Departamento de Estado norte-americano e o National
Endowment for Democracy, um dos braços do soft power dos Estados Unidos. A
Rede Atlas realizou, nos últimos anos, centenas de doações para think tanks
conservadores e defensores do livre mercado na América Latina, bem como
forneceu treinamento a membros dessas organizações e militantes do livre
comércio, inclusive sobre técnicas voltadas à desconstrução da imagem de
lideranças apontadas como socialistas ou comunistas. As tentativas de manipular
o meio, potencializar o poder econômico e controlar o poder político, porém, não
se limitam às ações na América Latina de associações como a Rede Atlas, como
demonstra a atuação da Cambridge Analytical^ nos Estados Unidos e na
Inglaterra.
Para atender aos interesses dos detentores do poder econômico (na disputa por
riquezas naturais, por exemplo), acontecimentos são fabricados e o meio é
manipulado para justificar a revolta contra os inimigos, ainda que imaginários,
do modelo neoliberal. Ao estudar as revoluções coloridas e a utilização de forças
não convencionais, que caracterizam as operações geopolíticas indiretas
conduzidas pelos Estados Unidos em busca de commodities (como o petróleo),
de novos mercados ou de “derrubar governos desfavoráveis ou simplesmente
não submissos ao EUA e seus objetivos”,Hl Andrew Korybko percebe que essas
falsificações da realidade e manipulações do meio são produzidas pela interação
de vários fatores, que poderíam ser subdivididos em algumas categorias:
ideologia, financiamento, social, treinamento, informação e mídia.126 Esses
fatores, em uma interação complexa, levariam a um movimento de superação do
governo indesejável.
O funcionamento e o êxito das chamadas revoluções coloridas no mundo árabe e
na Ucrânia, que atenderam aos objetivos da política externa norte-americana,
merecem ser analisados à luz da racionalidade neoliberal. As revoluções
coloridas podem ser definidas como transformações de regimes provocadas pela
desesta-bilização de governos e o crescimento de conflitos internos a partir de
manifestações de massa aparentemente espontâneas que se realizam em torno de
pautas abertas e abstratas (defesa da democracia, contra a corrupção, contra
“tudo o que está aí” etc.). Essas manifestações espontâneas (e, por vezes, sem
líderes) são precedidas de processos de subjetivação que fazem uso de um
instrumental ligado ao psicopoder, tais como o recurso à propaganda, a
utilização de técnicas que derivam do estudo da psicologia das massas e o uso
das redes sociais.
Não é obra do acaso a recepção tanto no meio nazista quanto no meio neoliberal
das teorias desenvolvidas por Edward Bernays, filho da irmã de Freud, que
sustentava a possibilidade dos governos e dos anunciantes arregimentarem a
mente “como os militares o fazem com o corpo”, bem como a necessidade de
apelar para o individualismo e o “desejo” para conseguir o que se quer.127 As
teorias sobre a propaganda de Bernays, inspiradas na teoria freudiana da
psicologia das massas, podem ser encontradas na base das ações incentivadas ou
induzidas que antecedem as revoluções coloridas. Bernays sustentava que
poucas pessoas “invisíveis” têm o potencial de influenciar e orientar o
pensamento das massas, e que essas pessoas precisavam ser usadas para manter
a ordem (ou criar a desordem) na sociedade. Era necessário, portanto,
“contaminar” o grupo com idéias de fora através de abordagens indiretas, o que
se conseguiría através do estudo de grupos de pessoas, para se descobrir como
alcançá-las e fabricar “consensos”.128 Através dessas técnicas, que visam antes
seduzir do que coagir, e que envolvem notícias que “devem ser fabricadas
artificialmente para que a campanha de publicidade seja mais eficiente”, o
objetivo é fazer com que as idéias transmitidas através de palavras, sons e gestos
se tornem parte integrante da própria massa. Assim, as mensagens produzidas
contra os governos indesejáveis passam a ser percebidas como um elemento
unificador da massa através de técnicas utilizadas para mobilizar as pessoas, tais
como o recurso a marchas, o boicote às eleições, os slogans, as caricaturas (no
Brasil, o boneco Pixuleco, vestido de presidiário, buscava atacar o capital
simbólico do ex-presidente Lula da Silva, então novamente candidato à
presidência do país), os gestos obscenos, os desacatos a autoridades, as
representação de funerais, dentre outras técnicas já descritas pelo teórico dos
“meios não violentos” de ação política Gene Sharp.129As revoluções coloridas e
as demais formas de intervenção indireta no governo de um país, inclusive os
golpes brandos (sem o uso explícito da força ou de técnicas de guerra,
convencionais ou não, contra as regras do jogo democrático), se explicam a
partir da lógica da concorrência e da ilimitação, típicas do neoliberalismo, que
geram uma normatividade em que tudo é possível para vencer o concorrente-
inimigo e aumentar o lucro, inclusive desconsiderar a normatividade
internacional e a soberania popular.
1.1o. As resistências neoliberais: mudar para dominar
É importante ter em conta que a racionalidade neoliberal não leva a um modelo
únicode governo ou à adesão a fórmulas rígidas para governar os cidadãos. O
neoliberalismo, entendido como uma racionalidade ou um modo de governar as
pessoas, não é um fenômeno unitário ou imutável ao longo do tempo e do
espaço. De igual sorte, o neoliberalismo não pode ser analisado seriamente a
partir de visões essencialistas ou de fun-damentalismos ligados aos textos
fundadores da concepção econômica neoliberal. Esse modo de ver e atuar no
mundo, que se origina das lógicas do mercado e da concorrência, se mostra
adaptável a diversas tradições, a diversas situações, a inúmeras práticas e aos
contextos mais diferentes. Também as “ideologias mais diversas se acomodam
perfeitamente a essa racionalidade, mais do que isso, elas lhe servem
ativamente’'.130 E esse “caráter plástico e plural do neoliberalismo”131 que
explica a facilidade com que o neoliberalismo econômico, testado no laboratório
da América Latina (mais precisamente no Chile após o golpe de Estado de 1973
que derrubou o presidente Salvador Allende), foi exportado para a Inglaterra de
Margaret Thatcher e os Estados Unidos de Ronald Reagan, bem como a
incidência da racionalidade neoliberal em regimes tanto conservadores quanto
liberais, tanto em regimes formalmente democráticos quanto em explicitamente
autoritários.
O neoliberalismo, descreve Wendy Brown, “como uma política econômica,
como um modo de governo e como uma forma de ordenar a razão é um
fenômeno simultaneamente mundial e mutante, diferenciado, não sistemático e
impuro”.132 Esse caráter mutante é fundamental para compreender as
permanências neoliberais. As políticas e o modo de pensar neoliberais se
difundem através dos agentes mais diversos e em diferentes níveis de
intensidade, em discursos progressistas e em discursos conservadores, por via
formalmente democrática ou por golpes de Estado, espontaneamente ou por
pressão de instituições como o Fundo Monetário Internacional. Há uma espécie
de evolução adaptativa, como a que ocorreu da transição do capitalismo
produtivo (e, portanto, produtor de riquezas) para o capitalismo financeiro.
Para o modo de ver e atuar no mundo-da-vida neoliberal, tudo pode ser
transformado em fonte de lucros. Por isso, o neoliberalismo é capaz de “envolver
dentro de sua lógica o conservadorismo islâmico, tanto quanto outras ideologias
em concorrência com ele no mercado das identidades culturais”.133 Da mesma
maneira, os preconceitos sociais são colonizados pela racionalidade neoliberal
para que gerem lucros. Essa racionalidade permite, ainda, articular liberalismo
avançado e dispositivos securitários dirigidos contra os direitos civis e políticos
(de origem liberal) da população. Aliás, a existência de uma sociedade pautada
pela liberdade de concorrência, que leva a um quadro de intensificação dos
conflitos intersubjetivos, gera a necessidade de medidas de controle social para
assegurar a realização dos interesses dos detentores do poder econômico. A
transformação da segurança, que deixou de ser um direito destinado a proteger o
cidadão do arbítrio para se tornar uma mercadoria a ser explorada
economicamente (o que torna necessária a manutenção, ainda que artificial, das
sensações de insegurança e de medo, que passam a ser manipuladas com
funcionalidade político-econômica), também se mostra adequada a essa
racionalidade.
i.ii. Os “novos” neoliberalismos: ultra-
autoritarismo como resposta
O desconhecimento tanto do caráter adaptativo, plural e plástico quanto das
múltiplas dimensões do fenômeno neoliberal (racionalidade, normatividade e
imaginário) foi o responsável por muitos erros de diagnóstico. Assim, por
exemplo, por diversas vezes foi anunciado o fim da era neoliberal e, em
consequência, da hegemonia da racionalidade neoliberal. Com a crise financeira
de 2008, de âmbito mundial, se acreditou que o neoliberalismo havia gerado o
seu próprio fim. Muitos chegaram a falar do fim do neoliberalismo com a
chegada ao poder de governantes com propostas ultra-autoritárias apresentadas
como resposta aos problemas que, em realidade, foram gerados por medidas de
natureza neoliberal. Todavia, a racionalidade neoliberal não foi abandonada após
a crise de 2008 e nem está ausente dos governos ultra-autoritários (em regra,
conservadores nos costumes e neoliberais na economia). Ao contrário, como
perceberam Dardot e Laval, a racionalidade neoliberal revelou-se facilmente
adaptável aos problemas que ela mesma gerou, e justamente esse “caráter
plástico e plural do neoliberalismo é o que permite falar em ‘novos’
neoliberalismos”.134 O que é apresentado como novo é tão somente uma
demonstração da capacidade de adaptação do neoliberalismo aos mais variados
contextos.
Em outras palavras, a racionalidade neoliberal produz modelos neoliberais,
aparentemente novos, compatíveis com as necessidades de cada contexto:
neoliberalismo com verniz democrático, neoliberalismo para Estados laicos,
neoliberalismo para fundamentalistas religiosos, neoliberalismo para sociedades
conservadoras, neoliberalismo para sociedades autoritárias e, o símbolo de maior
engenhosidade, um “novo” neoliberalismo como resposta para os problemas
gerados pelos “velhos” neoliberalismos. A eficiência do neoliberalismo é
inegável: tudo aquilo que pertence à esfera do sensível, às práticas e às formas
de expressão, inclusive os erros e consequências negativas das próprias condutas
condicionadas pela racionalidade neoliberal, são exploradas e vistas como
oportunidade de geração de lucro. O caos, inclusive o caos gerado pelo
neoliberalismo, é valorado positivamente como uma oportunidade de aumentar
os lucros dos detentores do poder econômico. Desvelar as mutações e perceber o
sentido das transformações da racionalidade neoliberal é condição que torna
possível entender a dinâmica das modificações ocorridas no Estado, nas
instituições, nas relações sociais e nos indivíduos.
O que alguns chamam de novo neoliberalismo nasce da crise do neoliberalismo,
mas é apresentado a partir de um discurso que responsabiliza os direitos
fundamentais e as políticas de redução da desigualdade pelos sofrimentos
suportados pela população. As crises geradas por medidas concretas
condicionadas pela racionalidade neoliberal são apresentadas pelos gestores dos
“novos” neoliberalismos como crises geradas por um alegado excesso de
democracia. Os danos causados por medidas neoliberais são apresentados como
problemas gerados pelo respeito a princípios democráticos. A crise produzida
pelo neoliberalismo é travestida de crise da democracia liberal-social. Como
resposta à desagregação dos laços sociais, à demonização da política, à desestru-
turação dos serviços públicos, à destruição da solidariedade, ao enfraquecimento
dos valores civilizatórios, à criação de inimigos e ao aprofundamento das
rivalidades a partir da lógica da concorrência, o neoliberalismo com verniz
democrático passa a ser substituído por um “novo” neoliberalismo, agora com
caráter ultra-autoritário. Para justificar a perda de direitos, aposta-se na
manipulação do ressentimento e da cólera popular contra o sistema. Mas a
racionalidade neoliberal, a normatividade que levou a esse sistema, permanece
hegemônica nesses “novos” neoliberalismos e nos projetos de poder dos partidos
que se arrogam antis-sistema.
Os novos neoliberalismos são a comprovação de que a democracia pode ser
sacrificada no altar neoliberal. Dito de outra forma: o neoliberalismo coloniza e
parasita qualquer valor, elemento, categoria ou sistema, e o coloca à disposição
do mercado e da concorrência. Não há pudor em eliminar o hospedeiro se for
necessário. A democracia foi parasitada pela racionalidade neoliberal da mesma
forma como o Direito acabou colonizado pela visão econômica construída pelo
neoliberalismo. Uma colonização capitaneada pelos detentores do poder
econômico através de lobbies, do patrocínio para a eleição dos “representantes
do povo”, do financiamento da vida política dos agentes públicos, da produção
de regulamentação direcionada à satisfação dos próprios interesses, etc.
O significantena guerra, política, economia, no corpo particular do homem.
As noções kantianas de heteronomia e autonomia compreendem a dicotomia
geral - particular. O uso pleno da racionalidade, que afasta a heteronomia e,
portanto, o particular, conduz à autonomia, e esta ao geral. No véu de ignorância
de John Rawls, de fundamentação kantiana, a autonomia é alcançada pelo
recurso do esquecimento do particular. O desconhecimento das partes de sua
situação na sociedade, talentos, habilidades etc., possibilitaria o acordo sobre
regras de justiça e nesse acordo a desigualdade somente se admitiría quando
favorecesse o menos privilegiado. O particular é esquecido, mas apenas para
reaparecer em seguida em toda plenitude, formulação de Rawls que influiu em
políticas de cotas nos Estados Unidos. Assim, a racionalidade do geral implica
necessariamente contemplar o particular.
Notará o leitor que, nesta síntese, todos os filósofos e pensadores citados são
ouriços. Platão, Paulo, Pascal, Rousseau, Rawls. Todos recorrem a um princípio
único, universal e organizador: construir a solidariedade, a harmonia entre o todo
e a parte, sob pena de opressão e injustiça. Na metáfora do dedo, Platão, crítico
da democracia ateniense, diz o que, afinal, entendemos hoje por democracia:
quando algo de bom ou ruim acontece ao cidadão, “a cidade organizada desse
modo dirá, antes de mais nada, que o fato se passou com ela e se alegrará ou
sofrerá juntamente com o cidadão”. São ouriços porque, ao privilegiarem
filosoficamente as categorias todo e parte, veem o sentido da existência humana
pela lente da solidariedade.
2. Rubens Casara descende dessa ilustre genealogia de ouriços porque, tal como
eles, vê a existência a partir de uma visão central e organizadora. Ao deter-se na
pesquisa e reflexão sobre a racionalidade neoliberal, operou na esfera de um
aggiornamento da questão ética da relação do todo com a parte, de que cada um
deles, a seu modo, também se ocupou. A racionalidade neoliberal é a expressão
perfeita e acabada da parte indiferente ou, perversamente, hostil à totalidade,
como quando se aproxima do fascismo. O uso específico das categorias todo e
parte, explicitando a questão ética da solidariedade, vai além da preocupação
com a injustiça. Aquela abarca esta, mas nem sempre o contrário é verdadeiro
porque pode-se reivindicar justiça para si e não em si, incondicionalmente.
Quando a solidariedade é posta no centro não há suspeita de contaminação.
Casara se ocupa persistentemente da democracia, nesta e em outras obras, do seu
desvanecimento sob a hegemonia do neoliberalismo atendendo à essência do
conceito de democracia. A democracia se diz de muitas maneiras, e muito
frequentemente quem a diz não a compreende, o que leva a confundir traços,
características e atributos com o núcleo do conceito. Mas Casara é ouriço porque
sabe essa coisa grande, a essência do conceito de democracia, e essa essência é
para ele o princípio central e organizador do que deve ser a existência humana: a
solidariedade social. O que o impulsiona é ver que a racionalidade que ameaça
tornar-se hegemônica, a do neoliberalismo, atinge fundamentalmente esse valor.
O neoliberalismo é a racionalidade que se propôs atrevidamente a eliminar de
nossa consciência o todo para que nela somente viceje a parte, fragmentada,
caótica.
Assim, explica Casara, o mercado passa a ser o modelo para todas as relações
sociais. A racionalidade neoli-beral separa os desejáveis e os indesejáveis. Leva
o indivíduo a acreditar que, atomizadamente, pode realizar sua própria
felicidade. Rejeita “princípios, políticas, sujeitos e instituições da democracia
felicidade. Rejeita “princípios, políticas, sujeitos e instituições da democracia
compreendidas como governo pelo povo”. A democracia é um problema para os
neoliberais porque ela significa exatamente o oposto disso. A racionalidade
neoliberal não seria apenas uma cisão da racionalidade do indivíduo. Pretende-se
absoluta, extirpar da consciência o todo visando acumulação, apropriação de
renda e patrimônio, exclusão da maior parte da humanidade do acesso ao bem-
estar material e à realização espiritual.
Não encontrará o leitor dados, números e estatísticas (com exceção de uma breve
passagem) nesta obra de Casara. A ênfase é a moralidade das relações sociais. A
condenação do individualismo, do egoísmo, da fragmentação do social, a crítica
à brutalidade da ideia, certa vez expressada por Margaret Thatcher, de que não
existe sociedade, mas indivíduos e interesses, exatamente o oposto da categoria
que é a essência da democracia.
Rubens Casara vê a existência humana, e somente pode concebê-la assim, a
partir de uma visão central organizadora que implica liberdade, igualdade e
fraternidade. Ou, em apenas uma expressão: solidariedade social, a relação
harmônica entre todo e parte, a categoria que é a essência da democracia.
Rubens Casara sabe uma coisa grande: sem solidariedade não há sentido para a
existência humana.
2 Márcio Sotelo Felippe é pós-graduado em Filosofia e Teoria Geral do
Direito pela Universidade de São Paulo. Procurador do Estado, exerceu o
cargo de procurador-geral do Estado de 1995 a 2000. Publicou Razão
jurídica e dignidade humana (1996) e foi diretor da Escola Superior da
Procuradoria Geral do Estado de 2007 a 2009, oportunidade em que
elaborou o projeto pedagógico e implantou o curso de pós-graduação lato
sensu em direitos humanos.
3 Princeton: Princeton University Press, 1986.
INTRODUÇÃO:
UM NOVO MAL-ESTAR
Naturaliza-se o absurdo, mesmo quando o horror parece estar perto demais.
Diante de tanto sofrimento evi-tável, constata-se uma inércia que, em princípio,
soa incompreensível. O caos parece reinar em meio à crença generalizada de que
não existem alternativas. As pessoas, mesmo percebendo que há algo de errado,
não sabem como agir para fazer diferente. Aliás, parecem ignorar que é possível
fazer diferente.
Enquanto isso, o indivíduo sente-se autorizado a deixar-se levar pela corrente em
busca da felicidade possível: a mercadoria que pode ser adquirida, a derrota dos
adversários e a obtenção de lucro, custe o que custar. A ilimitação tornou-se a
regra: instaurou-se uma espécie de vale-tudo, no qual tudo e todos podem ser
negociados ou destruídos.
O mercado, por sua vez, é apresentado como o espaço da virtude e o modelo
ideal para todas as relações sociais, inclusive as amorosas e familiares. A única
postura racional e aceitável é aquela direcionada à obtenção de alguma forma de
lucro. Desaparecem os laços intersubjetivos: o outro passa a ser visto como um
concorrente que precisa ser destruído ou um objeto que pode ser usado e
descartado.
Hoje, as idéias de democracia e de povo são encaradas com desconfiança. Os
limites democráticos (em especial os direitos e as garantias fundamentais) são
tidos como obstáculos à eficiência do Estado ou à satisfação dos interesses
egoísticos dos indivíduos (inclusive a manutenção de privilégios e a separação
espacial das classes sociais). A imagem do povo, uma coletividade
tendencialmente solidária, é substituída pela de indivíduos-empresas em
concorrência. Com isso, desaparece a solidariedade e criam-se novos adversários
e inimigos. Diante desse quadro, uma velha pergunta insiste em voltar: o que
fazer?
A proposta deste livro é fornecer elementos que permitam compreender o modo
de pensar e agir que nos levou até aqui. Compreender para poder agir e romper a
inércia. A angústia e o caos são, em grande medida, o resultado da ausência de
inércia. A angústia e o caos são, em grande medida, o resultado da ausência de
reflexão. É preciso, então, insistir em confrontar com lucidez as exigências do
presente e criar alternativas. Para tanto, é necessário identificar a racionalidade, a
normatividade e o imaginário que levam aos novos autoritarismos, às novas
formas de opressão, às novas justificativas para a desigualdade, às novas
patologias sociais e às novas subjetividades.
Os fatos, que normalmente são apresentados pelos detentores do poder político e
do poder econômico“democracia” deixa de representar um modelo consistente na
participação popular na tomada de decisões e na existência de limites rígidos ao
exercício do poder, para significar o mercado das decisões políticas, inclusive
das decisões que regulamentam as ações privadas e estatais. Toda concepção de
democracia que não interesse à manutenção do mercado, à governança por
números135 e à busca ilimitada de lucro é abandonada, o que faz com que
valores, princípios e regras também sejam abandonados e substituídos.
A liberdade de expressão, para citar um exemplo, foi colonizada pelo
neoliberalismo e passou a ser utilizada para justificar a livre distribuição de
dinheiro (alguns poderíam chamar de “compra de apoio”) em campanhas
políticas, o que era necessário para estabelecer uma das fontes de controle (e
identificação) do poder político pelo poder econômico. Diante da dependência
dos eleitores em relação aos meios de comunicação de massa e às redes sociais
para se informarem sobre o contexto, as eleições e os candidatos, a liberdade de
expressão daqueles detentores do poder econômico e de capital simbólico
responsáveis por doações financeiras, por mobilizações “espontâneas” nas redes
sociais e por aparições e manifestações “gratuitas” nas grandes redes de
televisão, geram significativas vantagens nas campanhas. Em adesão à
racionalidade neoliberal, todos os valores, todas as imagens e todo o
conhecimento são quantificados, o que gera o fenômeno da mutação do dinheiro
em argumento nas eleições e no debate público.
1.12. A “democracia” neoliberal como mercado de
idéias
A racionalidade neoliberal, para colonizar o significante “democracia”, que
detém uma carga semântica que demora para ser desconstruída, levou à
concepção de mercado de idéias. A democracia seria o espaço em que se
produzem, vendem e compram idéias ao gosto do eleitor: haveria um mercado
para as idéias de direita, para as idéias de esquerda, para as idéias de direita que
se apresentam como neutras e até para a ausência de idéias que caracteriza
manifestações políticas pautadas pela ignorância e pela reprodução dos mais
variados preconceitos. Por democracia, o sujeito neoliberal passou a vislumbrar
um espaço de concorrência entre os interesses econômicos de grupos. Não por
acaso, no sistema de justiça, com destaque para a Suprema Corte norte-
americana, começou a ganhar corpo a crença no livre comércio de idéias, bem
como na obtenção da verdade a partir da concorrência. O contraditório, a
dialética entre as razões das partes que levaria à solução justa de um caso, é
transformado à luz da lógica concorrencial em uma disputa pela satisfação de
interesses.
Reduziu-se a democracia à ideia de livre comércio de idéias, o que levou à
competição como critério de verdade. A metáfora neoliberal foi transformada em
valor jurídico, o que não impede que, diante da necessidade, a própria ideia de
verdade, sempre complexa (constituída, portanto, de positividades e
negatividades), acabe substituída pela ideia de informação (o dado útil à luz da
racionalidade neoliberal - portanto, uma mera positi-vidade, como as
mercadorias).
A identificação da democracia como mercado de idéias é o sintoma principal da
colonização da democracia pelo mercado concorrencial, o que leva ao
reconhecimento do direito que as empresas teriam de pagar para influenciar nas
políticas públicas, sob o disfarce da liberdade de expressão. Nesse mercado, o
neoliberalismo produz e vende idéias contra o Estado Social (desde o socialismo
ao New Deal), disfarçadas pela retórica da luta contra o autoritarismo. Em
princípio, qualquer ideia pode ser construída e vendida no mercado. Assim
funciona, por exemplo, a ideia de que a alienação da liberdade é um exercício do
direito à liberdade ou de que é melhor um trabalho escravo do que o
desemprego. No mercado de idéias, interesses privados são vendidos como
interesses públicos, o pensamento crítico (e todo pensamento mais sofisticado)
enfrenta resistências, e o valor intrínseco da democracia sofre uma mutação, com
o desaparecimento dos limites rígidos ao arbítrio e à opressão.
A análise econômica incentivada pela racionalidade neoliberal leva a ficções que
tomam a forma jurídica e facilitam a colonização neoliberal. O exemplo das
empresas de responsabilidade limitada é significativo. Ao se acreditar na ficção
de que o lucro de poucos aumenta a riqueza coletiva, empresas recebem
tratamentos privilegiados na esfera fiscal sem a contrapartida de desenvolver
atividades no interesse da população. Mas não é só. Sociedades anônimas podem
chegar a concentrar poder econômico suficiente para controlar os rumos da
economia de um país e colocar em risco os resquícios democráticos do Estado.
A democracia, entendida como mercado de idéias, se submete a dois princípios:
a) a equivalência entre a quantidade de dinheiro e a quantidade de idéias; e b) a
ausência de limites ao poder econômico das empresas (pessoas morais). Essa
relação entre a ausência de limites, de um lado, e o binômio dinheiro-ideia, de
outro, é facilmente percebida na ficção jurídica da liberdade de expressão das
empresas, que tem por finalidade conferir ares de legitimidade às doações de
muito dinheiro para campanhas de políticos e o financiamento de partidos
políticos. A liberdade de expressão, que nasceu como um direito individual
diante das ameaças de opressão estatal, à luz da lógica do mercado de idéias
neoliberal passou a ser reconhecida às empresas, que buscam tão somente
realizar os interesses dos detentores do poder econômico.
Desde a decisão136 tomada pela Corte Suprema norte-americana em janeiro de
2010, no caso Citizens United versus Federal Election Commission, em que foi
declarado inconstitucional um dispositivo jurídico que pretendia regular o
financiamento das campanhas eleitorais, bem como impedir que empresas
divulgassem mensagens sobre candidatos nos sessenta dias que antecedem uma
eleição primária e nos trinta dias a seguem, em nome da liberdade de expressão,
legitimando o uso de uma garantia individual contra o arbítrio estatal por
empresas com o intuito de defender seus interesses político-econômicos, tornou-
se evidente o potencial que a racionalidade neoliberal tem de colonizar o sistema
de Justiça.
i.i). Ainda sobre a colonização neoliberal: o buraco
negro neoliberal
Como alguns fenômenos não suportam a colonização neoliberal, desaparecem.
Assim, por exemplo, a concentração de poder econômico e político, em torno de
oligarquias e corporações que defendem seus próprios interesses (e que geram o
risco permanente de despotismos empresariais, corporativos ou financeiros), faz
desaparecer o ideal republicano de bem comum, e a própria ideia de comum
passa a ser demonizada. A chamada democracia econômica é uma ideia vendida
com o objetivo de esconder o desaparecimento dos limites democráticos ao
poder econômico e o impacto de um projeto que coloca o Estado a serviço de
empresas e do rentismo. De igual sorte, a ideia de empreendedorismo disfarça as
novas formas de servidão, pois o empresário-de-si, que livremente adere às
propostas de “uberização” das relações de trabalho, suporta efeitos exploratórios
similares aos da escravidão, sem que exista o ônus social de existirem escravos
sob a égide neoliberal.
Em resumo, esse processo de colonização neoliberal pode ser chamado de
captura normativa. Cada racionalidade tende a produzir modificações não só na
forma de exercer o poder, mas também nas pessoas, nas sociedades e nas
instituições. Atualmente a racionalidade hegemônica, que produziu mudanças
significativas no funcionamento das relações intersubjetivas e nas instituições,
vai ao encontro das teorias econômicas e do modo de governabilidade que
costuma ser chamado de neoliberalismo. Adequado, pois, falar-se em uma
racionalidade neoliberal, em uma normatividade neoliberal e em um imaginário
neoliberal, que faz do mercado e da lógica da concorrência os modelos de todas
as relações sociais, a partir da crença de que tudo e todos podem ser tratados
como objetos negociáveis.1.14. O neoliberalismo como razão de mundo
O significante “neoliberalismo” é utilizado de tantas maneiras que acaba por se
tornar uma espécie de conceito guarda-chuva, uma denominação vaga e
imprecisa. Alguns criticam o neoliberalismo sem saber muito bem o que estão a
reprovar, outros não acreditam que exista um fenômeno que possa ser chamado
de neoliberalismo. Critica-se o neoliberalismo sem muita convicção do que ele
significa, sem conhecer o âmbito de sua eficácia política, sua história ou mesmo
o seu potencial de transformação. Há também aqueles que negam a importância
do neoliberalismo diante da multiplicidade e da diversidade de explicações sobre
o fenômeno, enquanto outros, após constatarem que se trata de um termo
empregado principalmente pelos críticos a ele, chegam a considerar a existência
do neoliberalismo como algo questionável do ponto de vista conceituai. Todavia,
o neoliberalismo é um fenômeno que tem uma história, uma funcionalidade, uma
coerência e, em especial, uma engenhosidade que permitem tanto a sua
continuidade quanto uma profunda transformação, não só do capitalismo como
também das instituições, da sociedade e dos indivíduos.
É essa engenhosidade que se revela na capacidade de adaptação do
neoliberalismo às mais variadas situações e contextos, o que permite, inclusive,
que medidas neoliberais sejam apresentadas como antídotos, como respostas
mágicas, a problemas gerados por outras medidas neoliberais. De igual sorte, a
lógica neoliberal permite que passagens das teorias desenvolvidas pelos pais
fundadores do neoliberalismo (Mises, Hayek, Friedman etc.) sejam esquecidas
ou ignoradas pela normatividade prática que tem por base a racionalidade
neoliberal, o que explica, por exemplo, a existência de um novo neoliberalismo
hiperautoritário, que é construído a partir da racionalidade neoliberal como uma
opção ao neoliberalismo de verniz democrático.
A confusão entre as teorias ou as representações ideológicas neoliberais (como,
por exemplo, a de que o “neoliberalismo se opõe ao Estado autoritário”) e o
modo de ser e atuar neoliberal (a normatividade global e prática, na medida em
que conforma a realidade) leva a erros de análise, como os que insistem no
enfraquecimento ou no fim do neoliberalismo. É preciso uma perspectiva crítica
capaz de atentar para a diferença entre, de um lado, os discursos e as
representações ideológicas que acompanham a implementação das medidas
neoliberais e, de outro, a funcionalidade real, a normatividade e os interesses que
realmente são atendidos pela medida implementada.
O exemplo do Chile é esclarecedor: a versão de economistas neoliberais que
apontam o modelo econômico chileno durante o governo do ditador Pinochet
como um sucesso, a ser imitado por outros países, não encontra correspondência
com a análise dos efeitos produzidos pelo choque neoliberal iniciado após o
golpe de Estado em 1973. A experiência econômica chilena costuma ser
falsificada para esconder que pouquíssimas pessoas lucraram com o modelo
econômico neoliberal desenvolvido a partir dos postulados da Escola de
Chicago. Para que se tenha uma ideia do desastre econômico, em uma ditadura, e
praticamente sem oposição às medidas econômicas, entre milhares de mortos,
desaparecidos, presos e torturados, o modelo imposto ao Chile levou, em 1982, à
queda do PIB em 13,4%, o desemprego chegou a 19,6%, e 30% da população
passou a depender de programas sociais criados emergencialmente em razão do
desastre social produzido. Em 1986, mesmo com a alteração de algumas
medidas econômicas, o PIB per capita chileno ainda era inferior ao patamar que
havia alcançado antes do golpe de Estado de n de setembro de 1973.
Pesquisas apontam137 que a racionalidade neoliberal produz desigualdade e
concentração de renda. Alguns chegam a apontar que a pauperização da maioria
da população seria a consequência necessária do neoliberalismo, um modo de
agir voltado à satisfação de uma pequena parcela da população. De fato, a
análise do crescimento rápido das maiores fortunas mundiais, desde 1980,
permite afirmar que a racionalidade neoliberal favoreceu a um pequeno grupo
social: os super-ricos. De 1980 até 2018, o crescimento das superfortunas se deu
em um ritmo muito superior ao crescimento da economia mundial. Acontece que
esse fenômeno, por definição, só pode se manter às custas dos direitos e da
própria sobrevivência de outra parcela população que não pertence a esse grupo
(como imaginar que os super-ricos possam obter 100% da riqueza mundial, a
não ser com a destruição dos demais?). Como percebeu Thomas Piketty, esse
quadro exige discursos de justificação tanto para o crescimento da desigualdade
quanto para o afastamento de direitos: e esses discursos revelam a dimensão
ideológica da racionalidade neoliberal.
É a ideologia neoliberal que produz a separação artificial entre os inimigos e os
amigos, entre as fortunas reprováveis (oligarcas russos, milionários do petróleo
do Oriente Médio ou chineses etc.) e as fortunas supostamente merecidas
(empresários e empreendedores ocidentais). Os primeiros não mereceriam suas
fortunas, em razão de suas relações com o Estado ou dos meios utilizados para
apropriação de recursos, enquanto que os segundos seriam os responsáveis pelo
crescimento da economia e do bem-estar mundial. Esse segundo grupo é
apontado como o tipo ideal, empresários “irrepreensíveis” que poderiam ser
ainda mais ricos e, em certos casos, deveriam exercer também o poder político
em seus países. Justifica-se, então, a acumulação de capital e a desigualdade, a
partir de um regime discursivo que se caracteriza por ser hipermeritocrático e
oci-dental-cen-trado, o que, não raro, obstaculiza a percepção de que muitas
dessas fortunas só foram construídas a partir de investimentos públicos na
formação e na pesquisa (poder-se-ia dizer uma “apropriação indébita” do
conhecimento138), bem como do apoio ativo do sistema fiscal e legal conferido.
Basta pensar na proteção legal à herança e ao patrimônio139 (direitos
“sacralizados” que, por sua vez, encontrariam justificativa na estabilidade
sociopolítica e na necessidade de segurança, a mesma justificativa que servia à
sustentação ideológica da escravidão nos Estados Unidos e no Brasil).
Hoje, a racionalidade neoliberal, para se manter hegemônica, não necessita mais
de atos de fé na naturalidade do mercado ou na ideologia do laissez-faire. O
relativo descrédito dessas crenças, ideologias ou mesmo das teorias neoliberais
não impede que o neoliberalismo ocupe a posição de razão de mundo, ou seja,
que funcione como um sistema normativo que produz efeitos concretos sobre
todos, “orientando internamente a prática efetiva dos governos, das empresas e,
para além deles, de milhões de pessoas”.140
Reduzir o neoliberalismo a uma teoria econômica, a uma forma política, a um
modo de governabilidade ou mesmo a uma ideologia é um equívoco. O que hoje
se entende por neoliberalismo não se resume às teorias formuladas ou ao modo
de governo inspirado nessas teorias. O neoliberalismo também não pode ser
resumido a um conjunto de idéias, como as que defendem a existência de uma
identificação do mercado com uma realidade natural e o laissez-faire, ou a uma
falsa compreensão da realidade - isso porque o neoliberalismo conforma a
realidade. Há algo no neoliberalismo que não pode ser resumido a uma teoria, a
uma política, a um modo de governar ou a uma ideologia, mas que representa o
seu núcleo fundamental. Algo que se origina da lógica da concorrência e do
conceito de interesse, bem como se adapta com facilidade a diferentes tradições
e contextos. É esse núcleo fundamental presente na teoria, na política, na forma
de governo e na ideologia que pode ser identificado como a atual razão de
mundo, ou seja, uma normatividade e um imaginário com pretensão (e
possibilidade) de condicionar o mundo inteiro, “estendendo a lógica do capital a
todas as relações sociais e a todas as esferas da vida”.141 Em apertada síntese,
esse núcleo é composto de duas normas: a) não devem existir limitesà satisfação
dos interesses; e b) os “outros” devem ser tratados como concorrentes e inimigos
a serem derrotados. Essas normas geram imagens que são a base de todo o
imaginário neoliberal: imagens que levam à ideia de que tudo e todos são objetos
negociáveis e descartáveis na busca por lucro. No âmbito do Estado,
desaparecem os limites rígidos ao exercício do poder político, e cada vez mais o
poder político passa a se identificar com o poder econômico, afastando-se do
ideal democrático de soberania popular. Instaura-se a pós-democracia,142 que só
é possível no ambiente neoliberal. Tem-se, então, uma nova razão de mundo, um
conjunto de normas e imagens que justificam e dão sentido às ações em todas as
esferas da vida.
O neoliberalismo busca formatar a existência. A mesma racionalidade que leva à
destruição de regras, princípios, valores, instituições, direitos e garantias, ao
mesmo tempo produz novas regras, novos princípios, novos valores, novas
instituições, novos tipos de relações sociais e subjetividades. Assim, “longe de
limitar-se à esfera econômica, tende à totalização, isto é, a ‘fazer o mundo’, por
seu poder de integração de todas as dimensões da existência humana. Razão do
mundo, mas ao mesmo tempo uma ‘razão-mundo’”.143 Uma razão, portanto,
com pretensão de configurar todo o mundo.144 Trata-se de uma razão de mundo
que convive (e necessita) de crises e do caos. A destruição e a necessária
reconstrução do Estado, das sociedades, das cidades, dos sistemas de saúde e
educacional, dentre outros, são funcionais ao projeto de acumulação ilimitada do
capital. O caos é uma oportunidade de negócios e de destruição dos concorrentes
(e demais indesejáveis): abre-se a via do necropoder, isto é, do exercício de
poder direcionado à destruição do outro, reduzido a mais um objeto descartável.
A racionalidade neoliberal, portanto, se fortalece nos períodos de crise, isso
porque o respectivo modo de ver e atuar no mundo faz com que os limites ao
exercício do poder, mesmo os limites que foram construídos para evitar a
barbárie, sejam percebidos como as causas dos problemas suportados e,
portanto, como obstáculos a serem suplantados. Ao contrário das crises que
ocorriam nos séculos XIX e XX, que serviam para lembrar da importância dos
limites às ações estatais e individuais, a crise neoliberal tornou-se uma
oportunidade e um modo de governo, uma desculpa para o aprofundamento do
modelo neoliberal e a naturalização do ideal de ilimitação.
A dimensão ideológica do neoliberalismo faz com que o acúmulo de tensões de
classe, os movimentos que reforçam a desigualdade, o uso partidário do sistema
de justiça, os desequilíbrios gerados pelo capitalismo financeiro e outras
distorções não sejam percebidos pela população como consequências das ações
regidas pela racionalidade neoliberal. A própria exploração do trabalho aparece
travestida de empreendedorismo ou de modernização das relações de trabalho. A
solidariedade de classe dá lugar à concorrência. O egoísmo trans-forma-se em
virtude. Desaparece o espaço do comum e do coletivo. É a ideologia que nubla a
percepção do projeto social e político que, desde os anos 1930, foi construído a
partir da racionalidade neoliberal e que coloca o Estado a serviço dos detentores
do poder econômico, afastando-o dos princípios democráticos. A ausência de
limites ao poder leva a uma espécie de sentimento antidemocrático ou, mais
precisamente, ao abandono das regras do jogo democrático e à perda da
importância (e, por vezes, à criminalização) da política como atividade regida
por valores. Como perceberam Christian Laval e Pierre Dardot, “o sistema
neoliberal está nos fazendo entrar na era pós-democrática”,145 em que os valores,
as regras e os princípios são considerados não só dispensáveis como também
obstáculos a serem superados.
A nova razão de mundo leva a uma visão redutora das relações sociais em
atenção à lógica das mercadorias, que se expande para todos os campos. A
revisão de Marx se confirmou: sob a égide neoliberal, tudo se tornou negociável.
A mercadoria se apresenta como uma positividade, um bem, como aquilo que se
quer. As pessoas também passam a ser vistas como mercadorias, a partir de um
valor de uso, de um valor de troca ou de um valor simbólico que lhes é atribuído.
Desse valor conferido, as pessoas passam a ser etiquetadas de desejáveis ou de
indesejáveis.
Como as mercadorias, as pessoas passam a ser percebidas como úteis e
positividades ou como descartáveis e negatividades. Toda complexidade
desaparece, e as pessoas passam a receber rótulos a partir de uma visão binária:
amigo e inimigo, pessoas de bem e bandidos, cristão e comunistas etc. Mas não
é só. Com a racionalidade neoliberal, desaparece o laço social, o vínculo que une
pessoas reconhecidas enquanto tal, na medida em que o sujeito passa a se
relacionar exclusivamente com coisas ou, mais precisamente, com pessoas
percebidas como objetos negociáveis.
A nova razão de mundo produz novos modos de subjetivação que se originam da
ampliação da lógica da concorrência para todas as esferas da vida. O indivíduo
passa a se perceber como um empreendedor, um empre-sário-de-si, que
reconhece os outros como concorrentes ou inimigos. Reforça-se tanto o mito da
meritocracia, a partir da imagem que separa os bem-sucedidos dos fracassados
quanto os preconceitos e as perspectivas identi-tárias, que produzem divisões
dentro da mesma classe social entre o nós e o eles. Com isso, desaparecem os
valores da solidariedade e da cidadania. Para Byung-Chul Han, o neoliberalismo
faz com que o capital se multiplique “enquanto competimos livremente uns com
os outros. A liberdade individual é uma servidão na medida em que é tomada
pelo capital para a sua própria multiplicação [...]. Dessa maneira, o indivíduo
livre é rebaixado a órgão genital do capital”.146
Essa razão de mundo neoliberal produz um sistema que atende a um projeto.
Para entender a permanência da racionalidade neoliberal é preciso desvelar esse
projeto, seus efeitos concretos, as forças que o constituem e os beneficiados pela
hegemonia dessa razão-mundo. Isso significa buscar a história e as motivações
sociais e subjetivas que levaram à construção desse determinado modo de ver e
atuar no mundo.
1.15. O sistema neoliberal
O sistema neoliberal é composto dos poderes que o sustentam tanto no plano
interno quanto no plano internacional. De modo muito simplificado, pode-se
afirmar que são os detentores do poder econômico e, não raro, os detentores do
poder político que sustentam o projeto neoliberal. Quem busca como finalidade
última gerar capital a partir do próprio capital é o beneficiário das medidas
última gerar capital a partir do próprio capital é o beneficiário das medidas
neoliberais e, portanto, forma o pequeno grupo em que figuram aqueles a quem
atende a racionalidade neoliberal. Corporações, sociedades empresárias
multinacionais, atores financeiros, organismos econômicos internacionais e
oligarquias políticas, midiáticas e jurídicas locais formam uma espécie de
coalizão de poderes em nome da manutenção e do fortalecimento tanto desse
projeto quanto da racionalidade neoliberal.
A economia, ou mais precisamente o desejo de lucro, passa a colonizar o
pensamento, o Estado, a sociedade e as condutas individuais. O Estado torna-se
um instrumento para o mercado na busca por acumulação e lucro ilimitados. O
poder exercido a partir da racionalidade neoliberal, portanto, tendo como base a
mesma lógica normativa, passa a reger todas as relações, as maneiras de
governar em todos os níveis e domínios e o comportamento das empresas e
também das pessoas.
Em outras palavras, mais do que uma teoria, uma política econômica ou uma
ideologia, o neoliberalismo é um sistema construído a partir de uma
racionalidade com pretensão à totalidade e que, por essa razão, busca estruturar e
organizar a ação dos governantes e dos governados, das empresas e dos
indivíduos, das instituições públicas e das corporações privadas. E isso se faz
com a generalização da concorrência como norma(mandamento de conduta) e
da empresa como modelo de subjetivação, através de um conjunto de discursos,
práticas e dispositivos que levam à introjeção das regras do jogo neoliberal. Ins-
taura-se o tempo do Estado-Empresa e do indivíduo empresário-de-si. Cada um é
lançado na disputa concorrencial e deve passar a atuar como uma empresa na
busca por lucros.
4 Sobre o tema: Chapoutot, Johann. La revolution culturelle nazie. Paris:
Gallimard, 2017.
5 Na pós-democracia, o poder econômico volta a se identificar, cada vez
mais, com o poder político (Sobre o tema: Casara, Rubens. Estado pós-
democrático. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017).
6 Em linhas gerais, pode-se afirmar que o sentido negativo de ideologia é o
de falsa consciência da realidade.
7 Uma visão de mundo, como sempre, relacionada às condições concretas
de produção.
8 Por exemplo: Locke, John. Segundo tratado sobre 0 governo civil. São
Paulo: Edipro, 2014.
c) Sobre o tema: Freud, Sigmund. Totem e tabu. São Paulo: Companhia das
Letras, 2013.
10 Que abrange as modalidades e possibilidades de guiar as pessoas, de
dirigir e impor limites às condutas humanas, de criminalizar e punir ações e
omissões.
11 Sobre o tema: Chapoutot, Johann. La revolution culturelle nazie. Paris:
Gallimard, 2017.
12 Sobre o tema: Adorno, Theodor. Études sur la personnalité autoritaire.
Paris: Allia, 2007.
13 Mussolini, Benito. A doutrina do fascismo. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 2019, p. 19.
14 Por mundo-da-vida entende-se, na linha desenvolvida por Edmund
Husserl, o terreno concreto a partir do qual as abstrações teóricas são
desenvolvidas, o “universo do que é intuível” ou, ainda, o campo das
evidências originárias. A ciência busca interpretar e explicar o que é dado
no mundo-da-vida.
15 Vale conferir: Foucault, Michel. Theories et institutions pénales: cours
au Collège de France (1971-1972). Paris: EHESS/Gallimard/Seuil, 2015, p.
3-4.
16 Foucault, Michel. Naissance de la biopolitique: cours au Collège de
France (1979-1979)- Paris: EHESS/ Gallimard/Seuil, 2004, p. 6.
17 Nesse sentido: Viroli Maurizio. Il significato storico della nascita del
concetto di ragion di Stato. In: Baldini, Enzo (org.). Aristotelismo politico
ragion di Stato. Firenze: Leo S. Olschki Editore, 1993, p. 67-83.
18 Foucault, Michel. Naissance de la biopolitique: cours au Collège de
France (1979-1979). Paris: EHESS/ Gallimard/Seuil, 2004, p. 6.
i_9 Benjamin, Walter. Per la critica della violenza. In: Angelas novas, Saggi
eframmenti. Turin: Einaudi, 1981, p.
15-
20 Benjamin, Walter. Per la critica della violenza. In: Angelas novas, Saggi
eframmenti. Turin: Einaudi, 1981, p.
15-
21 Foucault, Michel. Naissance de la biopolitiqae: cours au Collège de
France (1979-1979)- Paris: EHESS/ Gallimard/Seuil, 2004, p. n.
22 Bourdieu, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand,
2003, p. 64.
23 Ramos, Silvia; Musumeci, Leonarda. “Elemento suspeito”. Abordagem
policial e discriminação na cidade do Rio de Janeiro. Boletim Segurança e
Cidadania, n. 8, novembro de 2004.
24. Sobre o tema: Almeida, Silvio. Racismo estrutural? São Paulo: Letramento,
2019.
25 Sobre o tema: Moreira, Adilson. Racismo recreativo. São Paulo:
Letramento, 2019.
26 Souza, Jessé. A classe média no espelho. Rio de Janeiro: Estação Brasil,
2018, p. 11.
27 Nesse sentido: Souza, Jessé. A classe média no espelho. Rio de Janeiro:
Estação Brasil, 2018, p. 12-15.
28 Foucault, Michel. Naissance de la biopolitiqae: cours au Collège de
France (1979-1979)- Paris: EHESS/ Gallimard/Seuil, 2004, p. 14.
2.9 Nesse sentido: Foucault, Michel. Naissance de la biopolitiqae: cours au
Collège de France (1979-1979)- Paris: EHESS/Gallimard/Seuil, 2004, pp.
18-19.
30 Nesse sentido: Laval, Christian. Foucault, Bourdieu et la question
néolibérale. Paris: Découverte, 2018, p. 36.
31 Laval, Christian. Foucault, Bourdieu et la question néolibérale. Paris:
Découverte, 2018, p. 37.
32 Nesse sentido: Laval, Christian. Foucault, Bourdieu et la question
néolibérale. Paris: Découverte, 2018, p. 38.
33 Foucault, Michel. Naissance de la biopolitiqae: cours au Collège de
France (1979-1979)- Paris: EHESS/ Gallimard/Seuil, 2004, p. 67.
34. Laval, Christian. Foucault, Bourdieu et la question néolibérale. Paris:
Découverte, 2018, p. 40.
3.5 Foucault, Michel. Naissance de la biopolitique: cours au Collège de
France (1979-1979)- Paris: EHESS/ Gallimard/Seuil, 2004, p. 299-300.
36 Sobre o tema: Mbembe, Achille. Necropolítica. São Paulo: N-i, 2018.
37 Foucault, Michel. Surveiller et punir. Paris: Gallimard, 1975.
38 Foucault, Michel. Sécurité, territoire, population. Paris: Gallimard,
2004, p. 50.
3.9. Laval, Christian. Foucault, Bourdieu et la question néolibérale. Paris:
Découverte, 2018, p. 45.
40 Laval, Christian. Foucault, Bourdieu et la question néolibérale. Paris:
Découverte, 2018, p. 38.
41 Organização privada que reunia o pensamento dos detentores do poder
econômico, criada em 1973 por iniciativa dos principais dirigentes do grupo
Bilderberg e do grupo Council on Foreign Relations, dentre eles David
Rockefeller, Henry Kissinger e Zbigniew Brzezinski.
42 Nesse sentido, por todos: Freeden, Michael. Liberalism divided: a study
in british political thought 1914-1939. Oxford: Clarendon,1986.
43 Nesse sentido: Dardot, Pierre; Laval, Christian. A nova razão de mundo:
ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016, p. 39-41.
44. Dardot, Pierre; Laval, Christian. A nova razão de mundo: ensaio sobre a
sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016, p. 39.
4.5 Spencer, Herbert. Principes de biologic. Paris: Germer Baillière, 1880,
tomo I, p. 539.
46 Hayek, Friedrich. O caminho da servidão. Trad. Anna Capovilla, José
ítalo Stelle e Liane de Morais Ribeiro. Rio de Janeiro: Biblioteca do
Exército/Instituto Liberal, 1994.
47 Spencer, Herbert. L’individu contre VÉtat. Paris: Alcan, 1885, p. 26.
48 Dardot, Pierre; Laval, Christian. A nova razão de mundo: ensaio sobre a
sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016, p.57.
4.9 Nesse sentido: Hobhouse, Leonard. Liberalism and other writings.
Cambridge: Cambridge University Press, 1994.
50 Hobhouse, Leonard. Liberalism and other writings. Cambridge:
Cambridge University Press, 1994, p. 43-44.
51 Por todos: Keynes, John Maynard. The end of laissez-faire. Marseille:
Agone, 1999.
52 Keynes, John Maynard. The end of laissez-faire. Marseille: Agone,
1999, p. 26.
53 Dardot, Pierre; Laval, Christian. A nova razão de mundo: ensaio sobre a
sociedade neoliberal. São Paulo: Boi-tempo, 2016, p. 61.
54 Polanyi, Karl. La grande transformation. Paris: Gallimard, 1983.
55 Dardot, Pierre; Laval, Christian. A nova razão de mundo: ensaio sobre a
sociedade neoliberal. São Paulo: Boi-tempo, 2016, p. 66.
56 Dardot, Pierre; Laval, Christian. A nova razão de mundo: ensaio sobre a
sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016, p. 68.
57. Brown, Wendy. Défaire le demos. Le néolibéralisme, une révolution furtive.
Trad. Jérôme Vidal. Paris: Editions Amsterdam, 2018, p. 22.
58 Supiot, Alain. La gouvernance par les nombres. Cours au Collège de France
(2012/2014). Paris: Fayard, 2015, p. 22.
59. Supiot, Alain. La gouvernance par les nombres. Cours au Collège de France
(2012/2014). Paris: Fayard, 2015, p. 22.
60 Brown, Wendy. Défaire le demos. Le néolibéralisme, une révolution
furtive. Trad. Jérôme Vidal. Paris: Editions Amsterdam, 2018, p. 9.
61 Brown, Wendy. Défaire le demos. Le néolibéralisme, une révolution
furtive. Trad. Jérôme Vidal. Paris: Éditi-ons Amsterdam, 2018, p. 10.
62 Brown, Wendy. Défaire le demos. Le néolibéralisme, une révolution
furtive. Trad. Jérôme Vidal. Paris: Editions Amsterdam, 2018, p. 17.
63 Supiot, Alain. La gouvernance par les nombres. Cours au Collège de
France (2012/2014). Paris: Fayard, 2015, p. 23.
64 Brown, Wendy. Défaire le demos. Le néolibéralisme, une révolution
furtive. Trad. Jérôme Vidal. Paris: Editions Amsterdam, 2018, p. 18.
65 Dufour, Dany-Robert. L’individu qui vient après le libéralisme. Paris:
Denôel, 2011, p. 23.66 Dardot, Pierre; Laval, Christian. A nova razão de mundo: ensaio sobre a
sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016, p. 69.
67 Dardot, Pierre; Laval, Christian. A nova razão de mundo: ensaio sobre a
sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016, p. 69.
68 Sobre o tema, por todos: Audier, Serge. Le colloque Lippmann: aux
origines du néolibéralisme. Latresne, Le Bord de L’Eau, 2008.
69 Nesse sentido: Dardot, Pierre; Laval, Christian. A nova razão de mundo:
ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016, p. 72.
70 Para a ala conservadora neoliberal, o desemprego, por exemplo, seria
consequência de uma política que tem por objetivo manter os salários em
um nível mais elevado do que aquele que resultaria do livre funcionamento
do mercado.
71 Lippman, Walter. La cité libre. Paris: Librairie de Médicis, 1938, p. 272.
72 Nesse sentido: Lippman, Walter. La cité libre. Paris: Librairie de
Médicis, 1938, p. 343.
73 Por “Revolução Numérica” entende-se a transformação produzida na
sociedade a partir das empresas que controlam e exploram a produção de
dados digitais.
74. Supiot, Alain. La gouvernance par les nombres. Cours au Collège de France
(2012/2014). Paris: Fayard, 2015, p. 23.
75 Nesse sentido: Supiot, Alain. La gouvernance par les nombres. Cours au
Collège de France (2012/2014). Paris: Fayard, 2015, p. 23.
76 Sobre o tema: Dardot, Pierre; Laval, Christian. A nova razão de mundo:
ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.
77 Dardot, Pierre; Laval, Christian. Ce cauchemar qui n’en finit pas:
comment le néolibéralisme défait la démo-cratie. Paris: La Découverte,
2016, p. 10.
78 Foucault, Michel. Naissance de la biopolitique: cours au Collège de
France (1979-1979)- Paris: EHESS/ Gallimard/Seuil, 2004, p. 121
79. Foucault, Michel. Naissance de la biopolitique: cours au Collège de France
(1979-1979)- Paris:
EHESS/Gallimard/Seuil, 2004, p. 165.
80 Foucault, Michel. Naissance de la biopolitique: cours au Collège de
France (1979-1979). Paris: EHESS/ Gallimard/Seuil, 2004, p. 165-166.
81 Foucault, Michel. Naissance de la biopolitique: cours au Collège de
France (1979-1979)- Paris: EHESS/ Gallimard/Seuil, 2004, p. 166.
82 Foucault, Michel. Naissance de la biopolitique: cours au Collège de
France (1979-1979). Paris: EHESS/ Gallimard/Seuil, 2004, p. 166.
83 Foucault, Michel. Naissance de la biopolitique: cours au Collège de
France (1979-1979). Paris: EHESS/ Gallimard/Seuil, 2004, p. 121
84. Nesse sentido: Laval, Christian. Foucault, Bourdieu et la question
néolibérale. Paris: Découverte, 2018, p. 53.
85 Foucault, Michel. Naissance de la biopolitique: cours au Collège de
France (1978-1979). Paris: EHESS/ Gallimard/Seuil, 2004, p. 271.
86 Foucault, Michel. Naissance de la biopolitique: cours au Collège de
France (1979-1979). Paris: EHESS/ Gallimard/Seuil, 2004, p. 272.
87 Foucault, Michel. Naissance de la biopolitique: cours au Collège de
France (1979-1979). Paris: EHESS/ Gallimard/Seuil, 2004, p. 273.
88 Foucault, Michel. Naissance de la biopolitique: cours au Collège de
France (1979-1979). Paris: EHESS/ Gallimard/Seuil, 2004, p. 273.
89. Conceito desenvolvido por Theodore Schultz e Gary Becker.
90 Nesse sentido: Foucault, Michel. Naissance de la biopolitique: cours au
Collège de France (1979-1979). Paris: EHESS/Gallimard/Seuil, 2004, p.
274.
91 Sobre o tema: Adorno, Theodor; Horkheimer, Max. Dialética do
esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, p. 113-156.
92 Brown, Wendy. Défaire le demos. Le néolibéralisme, une révolution
furtive. Trad. Jérôme Vidal. Paris: Editions Amsterdam, 2018, p. 10.
9.3 Foucault, Michel. Naissance de la biopolitique: cours au Collège de France
(1979-1979). Paris: EHESS/ Gallimard/Seuil, 2004, p. 274.
94. Foucault, Michel. Naissance de la biopolitique: cours au Collège de France
(1979-1979). Paris: EHESS/ Gallimard/Seuil, 2004, p. 253.
9.5 Han, Byung-Chul. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas
de poder. Trad. Mauricio Liesen. Belo Horizonte, 2018, p. 26.
96 Musso, Pierre. Le temps de l’État-Entreprise. Paris: Fayard, 2019, p. 13.
97. Laval, Christian. Foucault, Bourdieu et la question néolibérale. Paris:
Découverte, 2018, p. 60.
98 Weber, Max. L’Ethique protestante et I’esprit du capitalisme. Paris:
Flammarion, 2009, p. 22.
99 Han, Byung-Chul. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de
poder. Trad. Mauricio Liesen. Belo Horizonte: Âyiné, 2018, p. n.
100 Marx, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo
de produção do capital. Trad. Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013,
p. 203.
101 Han, Byung-Chul. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas
de poder. Trad. Maurício Liesen. Belo Horizonte: Âyiné, 2018, p. 14.
102 Nesse sentido: Han, Byung-Chul. Psicopolítica: o neoliberalismo e as
novas técnicas de poder. Trad. Maurício Liesen. Belo Horizonte: Âyiné,
2018, p. 16.
103 Laval, Christian. Foucault, Bourdieu et la question néolibérale. Paris:
Découverte, 2018, p. 64.
104 Taylan. Ferhat. Mésopolitique. Connaitre, théoriser et gouverner les
milieu de vie (1750-1900). Paris: Editions de la Sorbonne, 2018.
105 Foucault, Michel. Ilfaut défendre la société. Paris: Gallimard, 1997, p.
214.
106 Tiburi, Mareia. Olho de vidro: a televisão e o estado de exceção da
imagem. Rio de Janeiro: Record, 2011.
107 Dufour, Dany-Robert. O divino mercado: a revolução cultural liberal.
Trad. Procópio Abreu. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2008, p. 24.
108 Nesse sentido: Orsina, Giovanni. La democrazia dei narcisismo: breve
storia dell’antipolitica. Venezia: Marsilio Editori, p. 61.
109 Nesse sentido, por todos: Lasch, Christopher. The culture of
narcissism. American life in age of diminishing expectations. New York:
W.W. Norton & Company, 2018.
no Castoriadis, Cornelius; Lasch, Christopher. La culture de I’egoisme. Paris:
Climats, 2012, p. 18-19.
in Castoriadis, Cornelius; Lasch, Christopher. La culture de I’egoisme. Paris:
Climats, 2012, p. 22.
112 Lacan, Jacques. Le semindire. Livre VI. Le désir et son interpretation.
Paris, Editions de La Martinière, 2013, p. 12.
113 Nesse sentido: Lacan, Jacques. Le séminaire. Livre X. L’angoisse.
Paris: Seuil, 2004.
114 Han, Byung-Chul. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas
de poder. Trad. Mauricio Liesen. Belo Horizonte: Âyiné, 2018, p. 16.
115 Laval, Christian. Foucault, Bourdieu et la question néolibérale. Paris:
Découverte, 2018, p. 31.
116 Nesse sentido: Foucault, Michel. Sécurité, territoire, population: cours
au Collège de France (1977-1978). Paris: Gallimard, 2004, p. in.
117. Foucault, Michel. Le sujet et le pouvoir. In: Michel Foucault. Un parcours
philosophique (Org. Humbert Dreyfus et Paul Rabinow). Paris: Gallimard, 1984,
p. 314.
118 Nesse sentido: Foucault, Michel. Sécurité, territoire, population: cours
au Collège de France (1977-1978). Paris: Gallimard, 2004, p. 3.
119 Klein, Naomi. Doutrina do choque: a ascensão do capitalismo de
desastre. Trad. Vania Cury. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008, p. 73-74.
120 Por “revolução colorida” entende-se a manifestação política que
envolve a derrubada de governos considerados antiestadunidenses, ainda
que democraticamente eleitos, através do uso de ações diretas e com um
discurso liberalizante e democratizante, que muitas vezes nublam a
percepção dos interesses econômicos que levaram à revolução.
121 Korybko, Andrew. Guerras híbridas: das revoluções coloridas aos
golpes. Trad. Thyago Antunes. São Paulo: Expressão Popular, 2018, p. 12.
122 Korybko, Andrew. Guerras híbridas: das revoluções coloridas aos
golpes. Trad. Thyago Antunes. São Paulo: Expressão Popular, 2018, p. 12.
123 Atlas Economic Research Foundation.
124 Uma sociedade de publicações estratégicas, surgida em 2013, que
combinava instrumentos de exploração e de análise de dados com ações
políticas (poder numérico/digital), o que muitos apontam ter colaborado de
forma expressiva tanto para a aprovação do Brexit no Reino-Unido quanto
para a eleição de Donald Trump nos EstadosUnidos.
125 Korybko, Andrew. Guerras híbridas: das revoluções coloridas aos
golpes. Trad. Thyago Antunes. São Paulo: Expressão Popular, 2018, p. 94.
126 Korybko, Andrew. Guerras híbridas: das revoluções coloridas aos
golpes. Trad. Thyago Antunes. São Paulo: Expressão Popular, 2018, p. 113.
127 Bernays, Edward. Crystallizing public opinion. Montana: Kessinger
Publishing, 2004.
128 Bernays, Edward. The engineering of consent, 1947. Disponível em:
.sent.pdf>. Acesso em: 15 jun. 2019.
129 Sharp, Gene. 198 Methods of nonviolent action. The Albert Einstein
Institution. Disponível em: . Acesso em: 11 jun. de 2019.
130 Dardot, Pierre; Laval, Christian. Ce cauchemar qui n’en finit pas:
comment le néolibéralisme défait la démo-cratie. Paris: La Découverte,
2016,11.
131 Nesse sentido: Dardot, Pierre; Laval, Christian. Ce cauchemar qui n’en
finit pas: comment le néolibéralisme défait la démocratie. Paris: La
Découverte, 2016.
132 Brown, Wendy. Défaire le demos. Le néolibéralisme, une révolution
furtive. Trad. Jérôme Vidal. Paris: Editions Amsterdam, 2018, p. 21.
http://classes.design.ucla.edu/Fallo7/28/Engi-ring_of_consent.pdf
http://www.aeistein.org/nva/198-methods-of-nonviolent-action/
133 Dardot, Pierre; Laval, Christian. Ce cauchemar qui n’en finit pas:
comment le néolibéralisme défait la démocratie. Paris: La Découverte,
2016, p. 11.
134 Dardot, Pierre; Laval, Christian. A “nova” fase do neoliberalismo.
Publicado em www.outraspalavras.net,
consultado em 30 de julho de 2019.
13.5 Sobre o tema: Supiot, Alain. La gouvernance par les nombres: cours
au Collège de France (2012-2014). Paris: Fayard, 2015.
136 Citizens United v. Federal Election Commission, 130 S. Ct. 876, 558
U.S. 310,175 L. Ed. 2D753 (2010).
137 Por todos: Piketty, Thomas. Capital et ideologic. Paris: Seuil, 2019.
138 Alperovitz, Gar; Daly, Lew. Apropriação indébita. São Paulo: Senac,
2010.
13.9 Nesse sentido: Piketty, Thomas. Capital et ideologic. Paris: Seuil,
2019, p. 45-46.
140 Dardot, Pierre; Laval, Christian. A nova razão de mundo: ensaio sobre
a sociedade neoliberal. Trad. Mariana Echalar. São Paulo: Boitempo, 2016,
p. 15.
141 Dardot, Pierre; Laval, Christian. A nova razão de mundo: ensaio sobre
a sociedade neoliberal. Trad. Mariana Echalar. São Paulo: Boitempo, 2016,
p. 7.
142 Crouch, Colin. Post-démocratie. Paris: Diaphanes, 2013.
14.3 Dardot, Pierre; Laval, Christian. A nova razão de mundo: ensaio sobre a
sociedade neoliberal. Trad. Mariana Echalar. São Paulo: Boitempo, 2016, p. 16.
144. No sentido de uma razão configuradora do mundo, mas referindo-se à
ordem econômica capitalista: Weber, Max. L’ethique protestante et I’esprit du
capitalisme. Trad. Isabelle Kalinowski. Paris: Champs Flam-marion, 2000, p.
93-94.
http://www.outraspalavras.net
14.5 Dardot, Pierre; Laval, Christian. A nova razão de mundo: ensaio sobre
a sociedade neoliberal. Trad. Mariana Echalar. São Paulo: Boitempo, 2016,
p. 8.
14.6 Han, Byung-Chul. Psicopolítica. O neoliberalismo e as novas técnicas
de poder. Trad. Ligia Azevedo. Belo Horizonte: Âyiné, 2018, p. 13.
2. A NORMATIVIDADE
NEOLIBERAL
2.i. Uma lógica normativa global
O neoliberalismo pode ser descrito como uma “lógica normativa global”.147 Mas
o que isso significa? Em suma, pode-se afirmar que o neoliberalismo é
constituído de mandamentos de conduta que devem ser seguidos por quem busca
aderir ou ser aceito por um Estado, por uma sociedade ou por indivíduos
submetidos a essa mesma normatividade. O neoliberalismo produz maneiras de
agir, subjetividades, modos de viver, desejos, ausência de desejos etc. Em
apertada síntese, o neoliberalismo molda a existência a partir de normas que os
destinatários raramente têm consciência de existirem.
Pode-se, portanto, reconhecer a existência de regras do jogo neoliberal que
derivam do compromisso com o mercado, da lógica da concorrência e da busca
tendencialmente ilimitada pela realização dos próprios interesses. Essas regras
do jogo formam um sistema normativo coerente, capaz de orientar a forma de
governar, a adoção de determinadas políticas públicas, a produção de decisões
judiciais, a elaboração de leis, o funcionamento de empresas, as decisões de
organismos internacionais e as condutas das pessoas.
O Estado, a sociedade e o indivíduo não são entes que escapam ao poder e às
diversas ordens de restrições. Ao contrário, todos esses entes são construídos e
investidos pelo poder das normas, ou seja, por processos de normalização que
buscam modelar as condutas e as subjetividades. A racionalidade neoliberal, esse
determinado modo de ver e atuar no mundo, gera normas de vida, mandamentos
de conduta que prometem assegurar uma vida normal e feliz às pessoas nas
sociedades modernas.
Essas normas impõem
[...] a cada um de nós que vivamos num universo de competição generalizada,
intima os assalariados e as populações a entrar em luta econômica uns contra os
outros, ordena as relações sociais segundo o modelo do mercado, obriga a
justificar desigualdades cada vez mais profundas, muda até o indivíduo, que é
instado a conceber a si mesmo e a comportar-se como uma empresa.148
As normas são imanentes às práticas, intimamente ligadas a uma determinada
racionalidade e também figuram como um dos objetos da luta política. Não há
prática dissociada de normas e nem normas que não sejam colocadas em prática
através de ações. Há um mandamento de ação normal, e os efeitos produzidos
pelas ações que seguem, ou não, a norma. Dito de outra forma: o meio, as
práticas e as existências são também normativas. Se não há prática sem norma,
exista ou não consciência do indivíduo a ela submetido, a disputa política passa a
ser por modificar o conjunto ou elementos do conjunto normativo: a luta política
passa a ocorrer sobre o campo normativo para modificá-lo e, em consequência,
produzir transformações no meio e efeitos sobre as condutas.
As ações humanas se desenvolvem em um meio que fixa normas. A família, a
escola, o espaço urbano, as instituições, dentre outros meios indispensáveis à
existência do indivíduo, impõem normas. Como, a partir da racionalidade
neoliberal, o meio passou a adotar o modelo de mercado e o quadro
concorrencial, pode-se dizer que a normatividade neoliberal enuncia que todas as
instituições e todas as pessoas devem agir como sujeitos econômicos em busca
do lucro e tratando os demais indivíduos como concorrentes.
2.2. Poder, norma e neoliberalismo
O poder se exerce de variadas formas. O exercício do poder mais efetivo não se
dá de forma explícita ou mesmo coercitiva. Ao contrário, as pessoas, em regra,
seguem normas e se submetem ao poder sem saber. O poder é mais efetivo
quanto menos ele é percebido como um direcionamento externo ao indivíduo.
Isso se dá porque os detentores do poder mobilizam as normas mais comuns
imanentes aos processos direcionados tanto à realização dos desejos quanto às
práticas cotidianas. Se a existência tem uma dimensão normativa, manipular as
normas significa manipular a existência. Como percebeu Pierre Macherey,
[...] as normas que ordenam a vida [...] não são pré-estabelecidas ou pré-
constituídas, mas elas se elaboram no curso do mesmo processo antagônico que
faz e desfaz as formas dessa vida humana.149
Pode-se reconhecer que em um determinado meio o homem fica submetido a
uma espécie de determinismo. Determinados fatores presentes no meio tendem a
condicionar as ações e as escolhas dos indivíduos submetidos a eles. Esse
determinismo nada tem de natural, ele é fruto de uma criação artificial, faz parte
de um projeto, na medida em que o meio é construído pela ação humana.150 A
ideologia, porém, estimula a crença de que o meio é um dado natural e que a
vontade dos indivíduos é livre. O meio, que tem uma dimensão normativa, é o
resultado do desenvolvimento geográfico e social produzido mediante o
emprego de técnicas, da manipulação economicamente direcionada da natureza.
Mudaro meio é também produzir alterações nas normas a que as pessoas estão
submetidas. Essa possibilidade de construir o meio em que as pessoas vivem
acaba por gerar tensões políticas. Vários conflitos, então, surgem em torno da
forma como organizar ou modificar o meio: cada racionalidade leva a uma
atuação diferente sobre o meio, ou seja, cada modo de ver e atuar no mundo é
também um modo de perceber, respeitar ou transformar o meio.
Em certo sentido, a história pode ser resumida como o movimento constante das
pessoas de inventar novas formas de viver e, em consequência, de criar também
novas normas direcionadas às pessoas. Toda ação humana se relaciona com
valores e normas, bem como se inserem, ainda que sem a consciência das
pessoas, nos jogos de interesses em torno do meio e da existência. Vale ressaltar,
por oportuno, que a ação humana não se resume a uma tentativa de adaptação ao
meio, ela é criativa e conflitiva. Há uma relação dialética entre a pessoa e o
meio, ela é criativa e conflitiva. Há uma relação dialética entre a pessoa e o
meio, um tentando modificar e controlar o outro. As pessoas procuram fazer com
que o meio atenda aos seus interesses, e isso implica em debates e conflitos em
torno dos modos de organização e de transformação do meio em que se vive. Há,
sempre, uma dimensão ética e política nas ações humanas voltadas à
modificação do meio.
A ação humana cria normas, mas essas normas estão vinculadas a determinadas
visões de mundo, pré-compreensões e relações de poder. No capitalismo,
verifica-se uma determinação das normas pelos imperativos econômicos do
meio. Em outras palavras, há a colonização do meio pela economia. Essa
determinação, por vezes, pode sofrer resistências. Em dado momento, os
trabalhadores ensaiaram essa resistência ao se afirmarem como sujeitos críticos
do meio em que se encontram. Mas essa resistência coletiva só é possível se os
indivíduos não sofrerem processos de dissolução de suas subjetividades. Não por
acaso, a racionalidade neoliberal busca ultrapassar os limites da economia para
produzir mudanças na subjetividade dos indivíduos, domesticando-os e
condicionando-os ao projeto neoliberal.
Vale lembrar que as normas estão presentes sempre no mundo-da-vida. Dentre
as normas sociais, as normas jurídicas diferenciam-se por contarem com um
procedimento específico para a sua elaboração (processo legislativo) e com a
possibilidade de um controle de conteúdo exercido pelo Poder Judiciário
(controle de cons-titucionalidade). Todavia, as leis produzidas pelo legislador de
cada país constituem uma parcela ínfima do complexo normativo a que está
submetido o indivíduo desde o nascimento. E mesmo o processo de criação de
leis também se encontra submetido à mutação produzida pela racionalidade
neoliberal. Sob a égide neoliberal, ao mesmo tempo em que as leis que poderíam
servir de limites ao poder econômico são afastadas (tanto pela agência legislativa
quanto pela agência judicial), a estrutura jurídica readquire uma “estrutura
feudal”,151 voltada à defesa do economicamente mais forte. Como lembra Alain
Supiot,
[...] na medida em que o direito contribui para ancorar dentro da realidade a
imagem que nós temos do
mundo onde vivemos [...], a normatividade jurídica participa da instituição da
razão.152
O direito é peça fundamental, portanto, do processo de instituição, naturalização
e legitimação da racionalidade neoliberal.
e legitimação da racionalidade neoliberal.
Há também instituições que integram um conjunto educacional e que são
importantes à introjeção das normas neoliberais na sociedade. Essas instituições
têm a função de organizar a transmissão de conteúdo espiritual e cognitivo, tais
como a família, as igrejas, as escolas e as universidades. Transmitem dogmas,
regras, ideologias e, assim, ajudam a sedimentar ou construir um conjunto de
idéias, discursos e normas que levam à sedimentação de um determinado modo
de ver e atuar no mundo.
Diante do caráter imanente das normas no que toca às práticas e ao pensamento,
torna-se importante compreender a relação entre elas e os interesses dos
detentores do poder econômico. Em que medida o mandamento de conduta tida
como normal atende a determinados agentes no jogo de interesses do mercado?
Sem desvelar os interesses que essa ideia de normatividade satisfaz e com os
quais opera, torna-se impossível instaurar uma racionalidade alternativa e
construir uma normatividade adequada ao novo modo de ver e atuar no mundo.
Christian Laval explica que há várias maneiras de pensar a norma, seja ao
considerá-la como um poder que exerce uma força sobre uma matéria viva que
lhe é anterior e exterior, seja considerando-a uma forma interior ao campo da
ação e da experiência, portanto, imanente ao desenvolvimento de práticas e de
processos. Segundo a primeira concepção, a norma atuaria em um plano que, em
princípio, escapa de toda influência e de toda força exterior, ou seja, a norma
atuaria para interditar e reprimir condutas em um espaço em que vigoraria o
domínio da liberdade e da espontaneidade. As tentativas de controlar as condutas
individuais a partir do poder penal, um poder externo exercido principalmente
sobre o corpo do indivíduo apontado como desvi-ante (que levaram ao que
Foucault chamou de “sociedade de normalização”), são típicas dessa primeira
concepção. Todavia, aderir à segunda concepção de norma significa reconhecer
que ela é ativa, ou seja, mais do que interditar e reprimir, a norma volta-se à
produção da realidade.153A norma, em sua dimensão criativa, produz a ordem. A
ordem, por sua vez, gera um sistema comprometido com determinados interesses
que passa a ocupar o papel da realidade. A realidade é construída tanto pelo
simbólico, que é a linguagem em forma de lei, quanto pela imagem que o
indivíduo faz das coisas a partir da linguagem. A sexualidade, a loucura, o
crime, a economia, o trabalho, o certo e o errado são criados pela norma. Em
outras palavras, os fenômenos são produzidos por normas e entram no mundo-
da-vida através da conduta de indivíduos lançados na linguagem, indivíduos que
pensam, falam e atuam de acordo com normas, i.e., segundo limites inscritos na
linguagem, mesmo que não tenham consciência disso. Em certo sentido, pode-se
afirmar que a norma constrói os sujeitos e os objetos históricos. Só há a loucura
porque uma norma definiu o que é normal e o que é loucura. A mesma conduta
pode ser criminosa ou não, a depender da norma aplicável ao contexto. Não se
pode esquecer, portanto, da existência de “processos históricos e sociais de
objetivação-normalização-subjetivação”!^ que permitem a existência de práticas
diversamente condicionadas a depender do tempo e do espaço.
As normas instrumentalizam um poder que se exerce nas práticas, mas também
nas esferas mais íntimas dos indivíduos. Da mesma maneira que a prática é
criada e desenhada pela norma, a norma busca formatar as pessoas. Normas que
representam uma força externa (poder disciplinar) a atuar sobre o indivíduo se
somam a normas que constituem o sujeito a partir da linguagem (biopoder e
psicopoder). Ao lado na normalização disciplinar existe também a normalização
biopolítica.
A normalização disciplinar pressupõe a existência de normas gerais, abstratas e
independentes da atividade concreta, que devem ser aplicadas “de fora”,
garantidas por um terceiro que aplicará a sanção como resposta ao
desatendimento da norma. Toda teoria do Direito é construída a partir da crença
não só no livre-arbítrio como também no caráter motivador e preventivo dessas
normas exteriores à atividade que se quer regular. A pena por um delito155 nos
sistemas punitivos modernos, por exemplo, apresenta-se com a função de
retribuir, reeducar e prevenir outros delitos. Espera-se com a criminalização de
uma conduta reduzir a prática de determinados fatos e os riscos de resultados
danosos. Toda a atividade policial legítima também está fundamentada nessas
normas postas pelo legislador e exteriores à atividade vedada pela lei. Há,
portanto, um modelo normativo (“nãomatarás”) voltado a um determinado
resultado (reduzir o número de homicídios). Espera-se, então, que o ato seja
adequado ao modelo normativo, sob pena de uma sanção aos que se mostram
incapazes de seguir o mandamento de conduta normal, que passam a ser
etiquetados de criminosos ou de anormais.
Por outro lado, a normalização biopolítica, identificada inicialmente por Michel
Foucault,156 se dá a partir de uma norma que, do interior do processo, regula a
intensidade, a adequação ao meio e o equilíbrio de cada ato concreto.
Desaparece a abstração, típica da normalização disciplinar. Não há, portanto,
uma norma prévia a servir de exemplo a ser seguido, mas a introjeção da noção
de que uma determinada ação deve ser praticada de uma determinada forma para
alcançar da maneira mais simples possível o objetivo desejado. Há a introjeção,
a partir da linguagem, de uma noção de normal, o que envolve necessariamente
elementos de uma tradição, de um contexto, de discursos e de práticas anteriores.
A linguagem, que carrega tanto a tradição quanto o inconsciente (o “saber que
não se sabe” identificado por Freud), faz o indivíduo ter como normal uma
conduta e as demais como anormal. Essa pré-compreensão do que é normal dá
lugar à norma no momento em que a atividade é executada.
Na biopolítica, o ato de poder normalmente se dá à distância, como já havia
percebido Bentham,157 isso porque para alcançar a conduta desejada muitas
vezes é necessário apenas agir sobre o meio ou estimular um interesse. Na lógica
da biopolítica, sempre que possível, a repressão acaba substituída pela
manipulação de interesses. Não se trata mais da necessidade da ação de um
corpo sobre outro, mas de movimentos mais sutis, que implicam ao mesmo
tempo vigilância e condicionamento, o que passa tanto pela manipulação do
meio quanto pela criação de necessidades, bem como pela transformação da
opinião pública em um tribunal permanente de julgamento da normalidade das
condutas.
Se no poder disciplinar a liberdade é restringida ou coagida, no biopoder a
liberdade é manipulada. As pessoas acreditam estar livres, mas a liberdade é
cooptada e utilizada em uma técnica mais eficiente de subje-tivação e, portanto,
de sujeição. Cada pessoa livre passa a se submeter a mandamentos de conduta
direcionados ao próprio desempenho, ao consumo e à inércia política.
Paradoxalmente, a liberdade submetida ao biopoder permite mais coações do
que o dever produzido pelo poder disciplinar através de interdições e regras
externas. Há um limite à capacidade do Estado de fazer valer suas interdições e
regras, mas não há limite ao biopoder e ao psicopoder que introjetam regras,
interdições e mandados de otimização em cada indivíduo que acredita estar
exercendo a própria liberdade ao servir aos objetivos do titular do poder. Por
isso, o indivíduo neoliberal é “um servo absoluto, na medida em que, sem um
senhor, explora voluntariamente a si mesmo. Nenhum senhor o obriga a
trabalhar. O sujeito absolutiza a vida nua e trabalha”.158
As pessoas foram levadas a acreditar que estavam livres de qualquer coação
externa e de restrições impostas por terceiros, mas passaram a se submeter a
coações internas que têm a forma de normas de desempenho e de otimização.
Passam a acreditar que precisam agir “livremente” de uma determinada forma,
sem perceber que nesse agir “livremente” está embutido uma nova forma de
sem perceber que nesse agir “livremente” está embutido uma nova forma de
exploração: uma autoexploração, que é inconsciente a ponto do indivíduo
acreditar que atua em seu próprio interesse enquanto está servindo ao projeto
neoliberal, que tem por objetivo a acumulação de capital dos detentores do poder
econômico.
Como já se viu, no neoliberalismo, o mercado torna-se o meio normativo por
excelência. Atuar no mundo equivale a atuar no mercado e para o mercado. E a
norma do mercado é a concorrência. Com isso a lógica da concorrência é
estendida a todas as instituições e a todas as relações sociais. Todos os valores
passam a estar subordinados à norma da concorrência. A liberdade, por exemplo,
passa a se resumir ao modelo de liberdade de escolha do homem econômico, ou
seja, uma liberdade, em certo sentido, manipulada, de tomar decisões segundo o
que o indivíduo acredita ser o seu interesse em função de variáveis do meio
(mercado) que podem ser modificadas por uma política geral ou por técnicas de
incitação.
Maior será o poder quanto menor for a necessidade de se utilizar uma força
externa para fazer valer a norma. Não por acaso tanto os detentores do poder
político quanto os detentores do poder econômico procuram produzir normas
que transformam o meio e orientam as condutas. Basta pensar na potência da
televisão na produção de normas e, em consequência, na alteração do meio e das
subjetividades. Com razão Mareia Tiburi percebe que o conto de Kafka “Diante
da Lei” poderia ser “pensado como uma figuração do telespectador diante da
tela”, razão pela qual o significante “lei”, hoje, poderia ser facilmente
substituído pela palavra “televisão”159 ou pelas demais telas {smartphones,
computadores etc.).
2.3. Normatividade e poder numérico
Entender a normatividade neoliberal nas últimas décadas passa por procurar
desvelar o que alguns estão a chamar de a “ditadura invisível do numérico”,160 a
saber, uma forma de criar e manipular vontades a partir de algoritmos, de
codificações, da produção, da coleta e do tratamento de dados. O poder
“numérico-digital”161 (exercido a partir do big data por corporações como o
Google, a Apple, o Facebook e a Amazon) é capaz, como afirma Byung-Chul
Han, de reprogramar a população sem que os atingidos tenham sequer
possibilidade de saber a mudança de paradigma que está em jogo,162 Ainda
segundo Han,
[...] nós somos desatualizados pelo numérico que, por debaixo de cada decisão
consciente, modifica de modo determinante nosso comportamento, nossa
percepção, nossas sensações, nosso pensamento e nossa vida social.163
O indivíduo torna-se transparente, etiquetado e, em certo sentido, cego à
alteridade em razão do poder numérico e do rápido crescimento das inovações
tecnológicas que se referem às informações e à inteligência artificial.
Como os homens iludidos por sombras projetadas, que estão descritos na
Alegoria da Caverna de Platão, as pessoas são levadas a assumir posturas
diferentes daquelas que teriam se não estivessem seduzidas e dependentes da
realidade projetada pelas empresas que exercem o “poder numérico”164 e que
compõem a indústria dos megadados (big-data). Trata-se de um exercício de
poder ligado a um projeto: remodelar a humanidade com finalidade política e
econômica. Esse projeto normativo passa por fazer o mundo-da-vida
subordinado ao mundo das aparências produzidas e das informações
selecionadas a partir do poder numérico. O poder numérico, para alcançar seus
objetivos, gera obstáculos à capacidade humana de ter consciência das suas
próprias condições de existência.
Não são poucos os sintomas sociais desse novo modo de produzir normas. Ao
contrário da promessa de acabar com a solidão e fomentar a solidariedade,
plataformas como o Facebook e o Twitter formam pessoas incapazes de serem
felizes fora do mundo virtual, indivíduos fechados em si e que procuram ficar
conectados permanentemente aos computadores.165 O fenômeno da foto-
souvenir, por exemplo, é a explicitação de que a experiência corporal (o
presente) se tornou menos importante do que a captura digital (portanto,
numérica). Dá-se com a digitalização do mundo uma perda da experiência e do
real. Tem-se uma espécie de inversão de valores em que a imagem substitui a
realidade: a “hologramação” da vida, uma forma superficial de conhecimento
que desconsidera a dimensão corporal da experiência. Em apertada síntese,
pode-se afirmar que o domínio da técnica numérica leva ao empobrecimento da
linguagem e da experiência, bem como o confi-namento da imaginação e das
capacidades sociais, com o objetivo de produzir uma formatação de cada pessoa
em um ser útil e inofensivo ao sistema neoliberal.O poder numérico permite a captura e a sedução dos indivíduos pela imagem de
perfeição do virtual, o que leva ao desinteresse ou à raiva da realidade (esta, por
definição, complexa, imprevisível e com defeitos). O projeto político que faz uso
do poder numérico, ao contrário, procura atuar para dar fim à imprevisibilidade,
à complexidade social, à consciência dos erros e à singularidade vistas como
obstáculos.
A liberdade e a autonomia prometidas aos usuários da internet, bem como a
gratuidade dos serviços, nunca se realizam: são falsas promessas. O limite da
liberdade dos usuários (inclusive a ciência de notícias e outras informações)
passa a depender de um dispositivo: o algoritmo. Trata-se de uma sequência de
ações executáveis que visa obter um determinado resultado, que se refere mais
ao projeto do programador do que ao desejo do usuário. De igual sorte, como diz
o ditado popular, “se no neoliberalismo você não paga por alguma coisa, você
não é um cliente, mas é o produto”. Ao usar os serviços das empresas que
exercem o poder numérico, o indivíduo trabalha para elas produzindo dados e,
em certo sentido, perde a própria identidade numérica (os dados que, em
princípio, são inerentes a ele e que não deveríam ser explorados
economicamente), tornando-se um produto.
Hoje, estima-se que 98% da informação produzida no mundo esteja sob a forma
numérica. E o principal produtor de informações é o internauta. Cada internauta
fornece dados sobre o que consome e faz diariamente, sobre sua saúde e seu
comportamento amoroso e sexual, sobre suas tendências políticas e suas
opiniões. Graças a esse serviço voluntário é possível a “datificação” que facilita
projetar e controlar a vida (biopolítica). Da mesma maneira que o mais-valor
sobre a matéria-prima do petróleo se origina do refinamento, também os dados
fornecidos pelos indivíduos adquirem mais valor ao serem refinados a partir de
algoritmos sofisticados, que tratam, separam e classificam as informações de
modo a torná-las atrativas para terceiros, inclusive o Estado. Registre-se que são
empresas privadas que exploram esses dados (acredita-se que a Apple, a
Microsoft, o Google e o Facebook detenham aproximadamente 80% das
informações pessoais numéricas da humanidade), sob a tutela dos Estados
Unidos.166
A identidade numérica, após ser apropriada por empresas, é “vendida várias
vezes como se fazia nos mercados de escravos”167 ou utilizada diretamente pelos
governos. Esse fenômeno revela que o valor de mercado do indivíduo passa a ser
medido mais pela identidade numérica do que pela força de trabalho. Ao se
conectar à internet, o usuário passa a obedecer determinados comandos
normativos e a se submeter ao conteúdo designado pelo algoritmo, o que
significa consumir informações selecionadas por um terceiro, mensagens
formatadas e relações sociais programadas.
Pode-se, portanto, afirmar que os algoritmos interferem no modo de ser e,
portanto, nos processos democráticos. Uma eleição, por exemplo, pode ser
decidida a partir da manipulação da opinião pública (com fake news, distorções
de notícias etc.) através de algoritmos e da segmentação de informações (sem
qualquer compromisso com o valor “verdade”) para os diferentes perfis de
potenciais eleitores. Assim, o que parece contraditório, ao se analisar o conjunto
de declarações de um candidato, na realidade, pode representar uma
comunicação direcionada e capaz de atender a diferentes aspirações de eventuais
eleitores. Técnicas como a microtargeting168 e o profiling169 facilitam a
segmentação das campanhas e, em certa medida, reproduzem, no ambiente da
democracia formal, estratégias militares. Perfis são classificados a partir de
marcadores sociais, tais como classe social, etnia, identidade de gênero, religião
e crenças, e isso permite atacar os pontos sensíveis de cada grupo de eleitores de
uma forma mais eficaz.
Há, portanto, uma questão ligada à formação da subjetividade e ao acesso à
informação. O poder numérico (espécie de psicopoder) condiciona os indivíduos
e restringe as informações que cada um deve receber. Basta pensar, por exemplo,
que um usuário da internet não terá acesso aos mesmos resultados de busca (em
plataformas como o Google), nem aos mesmos artigos e nem às mesmas
publicidades que os outros usuários.
Para além da exploração, há uma formatação dos indivíduos submetidos à
internet e ao poder numérico, em um ambiente em que dados são mercadorias e
a codificação funciona como lei. A codificação (o tratamento e modificação de
um dado, ou de um conjunto de dados, para torná-lo mais apropriado a um fim
específico) implementa valores e impõe normas, podendo preservar ou levar à
exclusão da liberdade, fortalecer ou extin-guir vínculos intersubjetivos etc.
O exemplo da experiência narrada por Lantana Sweeper, professor de Harvard,
que, ao lançar seu nome no serviço de busca da empresa Google, sempre passava
a receber anúncios de serviços jurídicos para pessoas acusadas ou condenadas
pelo sistema penal (isso porque o algoritmo não só identificava o seu nome
como o de um afro-americano como também “deduzia” que ele estivesse com
problemas jurídico-penais), demonstra satisfatoriamente que o universo
numérico-digital não é neutro e que, ao contrário, pode atuar a partir de
preconceitos racistas.170 Não se pode, ainda, esquecer que tanto a sociedade
financeira quanto as sociedades da internet, hoje, estão no coração da economia
da informação e que seus interesses econômicos tendem a condicionar as opções
postas aos cidadãos, reduzidos a usuários da internet.
Percebe-se, pois, que a neutralidade e a imparcialidade no ambiente da internet
são impossíveis, uma vez que os dados são codificados a partir dos interesses da
indústria dos megadados e o algoritmo é direcionado para determinar quais
informações ou artigos vão ter maior visibilidade para cada usuário ou grupo de
usuários. Pode-se, portanto, afirmar que, na vida digital, existe um filtro que
atende a determinados fins (políticos e econômicos), capaz de ampliar ou não,
segundo uma lógica própria (e programada), o impacto de uma ou outra
informação, de uma ou outra opinião política etc. Dentro da lógica da
racionalidade neoliberal, para os interesses das empresas de big data, a
democracia e os valores democráticos são irrelevantes, quando não obsoletos, e
podem ser afastados sempre que representarem obstáculos à idealizada
governabilidade algorítmica (que, como toda governabilidade, é também
essencialmente política).
Costuma-se afirmar que a revolução numérica se insere dentro da ideologia do
liberalismo informacional.171 mais precisamente se revela um fenômeno
neoliberal no campo da apropriação e do uso da tecnologia da informação, na
medida em que o intervencionismo estatal em favor do mercado se faz presente
desde a criação da internet. Vale registrar que, para parte considerável dos
empreendedores do Silicon Valley, o Estado representa um obstáculo e é o
inimigo a ser superado (há, inclusive, quem defenda a criação de “nações start-
up"). Diante desse quadro, não há que se estranhar a presença de Path Friedman,
neto do economista neoliberal Milton Friedman, nos quadros da empresa
Google, e nem os seus discursos contra a “ineficácia do governo”, o sistema
político “esclerosado”, as regulamentações sobre o uso de dados e a
incapacidade da democracia se “adaptar” às necessidades do “progresso”.172
Se um Estado capaz de impor limites ao poder numérico é indesejado, por outro
lado a história da indústria do big data está intimamente ligada aos interesses do
Estado. Vale lembrar que a rede de computadores (internet) nasce, em meados
dos anos 1980, dentro dos laboratórios das forças armadas estadunidenses,
tornando-se um sistema tentacular que se alastrou por todo o planeta e criou
dependências das mais variadas formas. Uma dependência que cresceu com a
possibilidade dessa rede de computadores ser acessada através de aparelhos de
telefonia móvel (que permitem, inclusive, o mapeamento do deslocamento dos
usuários) e com o surgimento de dispositivosde comunicação via internet, como
o WhatsApp e o Telegram.
O Estado sempre foi também o principal incentivador e cliente da indústria da
vigilância eletrônica (em especial, depois do atentado às Torres Gêmeas, em
Nova York, no ano de 2001). A vigilância a partir do poder numérico se tornou
um modelo seguido nos Estados Unidos e em grande parte da Europa (o que para
esses países, em termos geopolíticos, significa ficar em grande medida
submetidos ao conglomerado de segurança norte-americano), embora os vários
atentados posteriores realizados nesses países tenham revelado que a segurança
prometida não foi concretizada, mesmo diante do alto custo em termos de
liberdades públicas, em especial do sacrifício do direito à intimidade.
Ainda sobre a relação entre segurança, terrorismo e big data, não se pode
esquecer que as mesmas empresas que coletam e refinam os dados a serem
usados na tentativa de evitar novos atentados são também responsáveis por
fornecer o instrumental necessário à difusão de teses antidemocráticas, violentas
e que estimulam o terrorismo. Grupos como o Al-Qaeda e o Daesh, por exemplo,
não deixaram de utilizar a internet para recrutar militantes e difundir sua
ideologia. Como percebem Marc Dugain e Christophe Labbé, os
[...] principais vetores para a eclosão mundial da propaganda jihadista, os big
data pretendem ao mesmo tempo fornecer o antídoto através da coleta massiva
de informações para as agências do Estado. É o que se chama no jargão dos
negócios de uma transação “ganha-ganha”.173
Os Estados Unidos, hoje, exercem o controle da infosfera. Dá-se, nesse campo,
uma espécie de consórcio entre o Estado, através de agências como o
Departamento de Comércio americano e as empresas que exploram os dados
coletados dos indivíduos. Os detentores do poder econômico que atuam na
infosfera representam “os novos Rockefellers. Aqueles a quem os Estados
Unidos delegam a exploração, a estocagem e o refinamento dos depósitos
numéricos”.!7! Alguns efeitos da transformação produzida pelas empresas que
compõem a indústria dos big data se fazem sentir de maneira acentuada na
sociedade e merecem ser objeto de atenção. A coleta, o tratamento e a utilização
de dados, bem como a produção de informações (sem qualquer relação
necessária com o valor verdade), têm levado a população a um estado de
docilidade, de servidão voluntária, de transparência, de polarizações, de
desaparição da intimidade e de condicionamento da liberdade. Dugain e Labbé
afirmam que a revolução numérica instaurou
[...] um processo de desnudar o indivíduo em proveito de um pequeno número de
multinacionais, americanas na maior parte, os famosos big datas. Sua intenção é
a de transformar radicalmente a sociedade em que nós vivemos e nos tornar
definitivamente dependentes.175
A reaproximação, e consequente confusão, entre poder político e o poder
econômico explica a utilização dos dados produzidos e tratados por essas
empresas na produção e na internalização da normatividade neoliberal. A
evolução tecnológica, ainda que incentivada e tutelada pelo Estado, “se inscreve
dentro das estratégias das empresas, elas mesmas inseridas nos processos de
mudanças mais globais”.176 Se os governos e as empresas sempre utilizaram
informações e dados, o regime de quantificação que surge com o big data
representa um marco de ruptura com o passado diante da potencialização da
capacidade de captura, armazenamento, classificação e seleção desses dados.
Com o big data, os dados se tornam uma fonte econômica, ao mesmo tempo que
assumem a forma de registros de uma variedade enorme dos comportamentos
individuais, bem como circulam em atenção aos interesses das empresas e do
governo.177 Em apertada síntese, enquanto o governo faz uso do mercado, mais
precisamente do setor do big data, para controlar a população em atenção aos
interesses do próprio mercado, os detentores do poder econômico lucram.
A maior eficiência prometida pela cultura numérica, que passa a ser percebida
como um vetor de progresso, de maiores facilidades e de crescimento
econômico, leva ao velamento de que o numérico-digital reforça a precarização
dos indivíduos (e das relações de trabalho), o empobrecimento da linguagem, a
privatização dos serviços, a vigilância generalizada e a tecnocratização dos
governos. Pode-se, portanto, falar de uma espécie de determinismo tecnológico,
produzido por empresas e governos que exploram as tecnologias de informação
e de comunicação nas sociedades, que se soma às outras técnicas de biopoder.
A estratégia de coleta dos dados necessários à exploração econômica dos
indivíduos, à governança das cidades e ao controle da população é típica das
modernas técnicas de biopoder, que surgem e se multiplicam a partir da
racionalidade neoliberal. Nelas, o explorado, sem perceber, colabora para a sua
própria exploração. Durante todo o dia, pessoas conectadas à rede de
computadores fornecem dados sobre seus gostos, suas prioridades, sua saúde,
seu grau de instrução, seus estados psicológicos, suas ideologias, seus projetos,
suas ações etc. O indivíduo, sem saber, trabalha para as empresas de big data,
emitindo cada vez mais dados, inclusive durante o período que deveria ser
destinado ao descanso. A produção desses dados é, então, tratada e coletada em
computadores que possuem capacidade de armazenamento e cálculos cada vez
maiores, o que permite realizar associações, etiquetamentos sociais e correlações
das mais audaciosas às mais improváveis, bem como projeções e cálculos
governamentais. Busca-se com isso criar uma espécie de verdade numérica com
o objetivo de simplificar o mundo, fazendo desaparecer toda a imprevisibilidade
e demais negatividades que atrapalhavam os negócios.
A verdade numérica, que integra o regime de verdade neoliberal, tornou-se uma
mercadoria que é explorada por empresas especializadas, em ramos que variam
da potencialização das vendas de um produto à prevenção de crimes através da
predição das condutas reprováveis (como promete, por exemplo, o aplicativo
PredPol). O preço a pagar é a redução drástica e o quase desaparecimento da
intimidade, da esfera indevassável da vida.178 Curioso notar que o fim dos anos
2000 é marcado tanto por mais uma crise gerada pelo modelo capitalista quanto
pela eclosão da revolução numérica. No ano de 2007, a empresa Apple lançou o
iPhone, um aparelho de telefonia celular que produz uma ruptura no sistema de
comunicação tradicional ao permitir a conexão quase permanente à internet e o
acesso em qualquer momento do dia a serviços e informações: não por acaso,
rapidamente, “o smartphone se torna o objeto e a tecnologia de base do cidadão
consumidor urbano”.179 Em 2008, foi lançada a ideia de Smart Cities, que
prometiam tornar a gestão urbana mais eficiente através da tecnologia, em
especial da utilização de dados coletados. Também em 2008, foi criada a
plataforma Airbnb, enquanto, em 2009, é fundada a Uber, sedimentando o
fenômeno do sharing economy.180
A partir do digital não só o mercado cresce e é otimizado como também surgem
novos modos de governar.181 Por um lado, o indivíduo integralmente conectado
passa a viver “completamente nu sob o olhar daqueles que coletam sem cessar
informações sobre ele”:182 por outro, surgem novas técnicas de governança a
partir da verdade numérica. Os dados coletados e tratados passam a ser um
elemento central tanto para o controle social quanto para a transformação do
modo de governar e do exercício do poder. Não por acaso, a indústria do
numérico foi colocada sob tutela das agências de informação dos Estados
Unidos, o que acabou facilitado pelo fato do mercado de dados massivos ser um
setor econômico ultraconcentrado nas mãos de poucos. Nesse contexto, a
vigilância e o controle das condutas de cada indivíduo tornam-se a regra, sem
que as pessoas tenham consciência ou condições de resistir à invasão da
privacidade. A diversão, a saúde e a própria segurança tornaram-se o pretexto
oficial para a transparência, a produção de dados e o desaparecimento da
intimidade.
Com a revoluçãode forma isolada, na tentativa de fragmentar a realidade
para torná-la incompreensível, são encadeados a outros fatos e fazem parte de
projetos que precisam ser compreendidos. Abdicar de perceber como uma
determinada racionalidade condiciona os imaginários e a normatividade,
significa naturalizar as diversas opressões e as novas formas de dominação, bem
como aceitar ser tratado como gado pelos donos do poder.
A ilimitação capitalista é incompatível com a finitude dos recursos naturais. A
desconfiança e o ódio gerados pela lógica da concorrência acabam por
contaminar as relações humanas. Impõe-se, então, uma verdadeira ruptura com o
atual modo hegemônico de ver e atuar em relação ao mundo, às coisas e às
pessoas.
A crise global, sanitária e social provocada pela Covid-19 em 2020 revelou as
consequências das políticas econômicas neoliberais das décadas anteriores sobre
os corpos vivos. A opção política e ideológica por processos de privatização e
desmantelamento dos sistemas nacionais de cuidado e atenção à saúde produziu
mortes e potencializou o sofrimento da população. A aproximação entre
neoliberalismo e necropolítica tornou-se ainda mais evidente.
O modo neoliberal de compreender e de atuar no mundo passa necessariamente
por decisões que autorizam a morte. Porém, grande parte da população
permanece sem compreender a relação entre o crescimento do número de mortos
e as opções políticas condicionadas pelo neoliberalismo. Isso porque foi
construída uma espécie de véu sobre os mecanismos de sociabilidade, de
produção e de reprodução do capital e da vida, bem como sobre as opções
políticas neoliberais, que passaram a ser vistos como naturais e inevitáveis.
Tanto as vítimas de violência policial quanto os pacientes sem tratamento
adequado nos hospitais públicos são também efeitos de uma determinada
racionalidade, que produz uma rede de poder que extrapola os limites legais e
faz com que parcela da população passe a ser etiquetada de “matável”. A
racionalidade, hoje hegemônica, busca o lucro sobre os corpos, os mortos, as
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racionalidade, hoje hegemônica, busca o lucro sobre os corpos, os mortos, as
crises, os desastres, as pandemias etc.
A crise sanitária, econômica e social global de 2020, porém, abre um horizonte
de possibilidades. A palavra “crise” (krísis), aliás, aparece na Grécia como um
termo médico para designar o momento decisivo em que se define se um
paciente doente vai morrer ou, a partir da própria doença, se curar. Diante de
cada crise, que sempre é a consequência de um determinado modo de ver e atuar
no mundo, diversos caminhos e possibilidades se abrem. Pode-se, por exemplo,
insistir em fazer do Estado um instrumento a serviço do mercado e dos
detentores do poder econômico, prestando auxílio financeiro a empresários e a
instituições financeiras, restringindo a liberdade dos cidadãos em nome do medo
da contaminação, eliminando os espaços de intimidade, reduzindo a liberdade
das pessoas e aumentando o controle biopolítico sobre a população. Mas, diante
de um quadro de crise, também se pode construir saídas novas e originais,
revolucionárias, a partir da construção coletiva de um outro modo de ver e atuar
no mundo.
A premissa deste livro é a de que é preciso apostar em uma verdadeira
revolução, e, para tanto, será necessário deixar de olhar o presente com os olhos
do passado a partir de idéias, imagens e normas que atendem, prioritariamente,
aos interesses dos detentores do poder econômico.
É a percepção do absurdo e da injustiça que leva à ação e permite transformar o
mundo. Por isso, é necessário, antes de tudo, buscar perceber e compreender o
que está acontecendo, em favor de quem o poder é exercido, quais são os valores
em disputa, quem está lucrando com o caos, o que é escondido da população,
como funciona atualmente o sistema de exploração etc.
O objetivo deste ensaio, portanto, é ajudar no desvelamento e na compreensão
desse modo de ver e atuar no mundo que levou à naturalização do absurdo. Mas
não só. Busca-se, ainda, fornecer nas próximas páginas algumas informações
que serão úteis à transformação necessária e urgente do Estado, da sociedade e
do indivíduo. Para tanto, procurou-se explicar a racionalidade, a normatividade e
o imaginário que são responsáveis pelo sofrimento, pela desigualdade e pelo
extermínio de parcela da população. Compreender “como chegamos até o fim do
poço”, portanto, é condição para se revoltar, agir, inventar novas vias, criar um
novo imaginário e produzir novas práticas, pois já não há mais tempo a perder: a
manutenção desse quadro levará à destruição da natureza e da humanidade.
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i. RACIONALIDADE
NEOLIBERAL
1.1. Racionalidade e poder: o que pode?
Em 1799, o pintor espanhol Francisco de Goya produziu uma gravura a que deu
o nome de O sono da razão produz monstros. Trata-se de uma representação do
artista dormindo, prestes a ser invadido por criaturas noturnas e perigosas
(morcegos, linces etc.). A imagem, tipicamente iluminista, anuncia os riscos de
se afastar da razão. Infelizmente, e em que pese o otimista presente nessa obra de
Goya, manter-se acordado não é suficiente para evitar a produção de monstros.
Por vezes, as criaturas perigosas e o horror surgem, justamente, do excesso de
razão, como demonstra a experiência nazista. E isso só é possível porque existe
uma relação necessária (e condicionante) entre o poder e a racionalidade.
A ausência de limites e o abuso de poder também atendem a uma racionalidade.
Em outras palavras, todo poder é exercido a partir de um determinado modo de
compreender o mundo. É fundamental, portanto, buscar compreender a relação
entre a forma como o poder é exercido e o modo de ver e atuar no mundo que
prevalece em um determinado contexto. A maneira como o poder atinge o corpo
de uma pessoa ou produz uma mudança na realidade depende sempre de um
modo específico, que se pretende racional e aceitável, de se relacionar com o
mundo. Tanto o poder sobre a vida exercido por um oficial nazista como Adolf
Eichmann quanto a mais singela manifestação de poder em um regime
formalmente democrático (o poder exercido, por exemplo, pelo guarda da
esquina) estão condicionados por uma racionalidade, um modo de entender o
mundo que permite, por exemplo, que o mal seja transformado em algo banal ou
que o uso da violência seja percebido como algo legítimo.
O exemplo da racionalidade que permitiu o surgimento do movimento nacional-
socialista, que, como se verá, apresenta várias semelhanças com a racionalidade
que hoje é hegemônica, pode ser útil para explicar a relação entre, de um lado,
um determinado modo de pensar e atuar no mundo e, de outro, o exercício
concreto do poder.
A racionalidade nazista, que começou a se destacar na década de vinte do século
passado na Alemanha, levou a uma nova visão de mundo a partir de uma espécie
de “revolução cultural”.! Com ela, algumas práticas, antes tidas por inaceitáveis
e interditadas (como o assassinato de crianças, idosos e doentes), passaram a ser
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e interditadas (como o assassinato de crianças, idosos e doentes), passaram a ser
admitidas e justificadas. Em outras palavras, uma nova racionalidade produz
uma mutação de sentido, de cultura e de norma. Cada racionalidade, portanto,
estabelece os novos limites do aceitável e a esfera do absurdo.
Para muitos o nazismo representa a falta de sentido. Várias das vítimas da
violência nazista morreram atordoadas pela falta de sentido e pelo desamparo
radical. Em torno do nazismo, ainda hoje vigora um hiato de sentido que
provavelmente nunca terá fim, mas isso não impede de se identificar uma
racionalidade que fazia com que a maioria dos alemães aceitassem o absurdo e
os nazistas percebessem os seus atos como legítimos, justos e, muitas vezes,
naturais e necessários. Como ocorre com a racionalidade neoliberal, atualmente
hegemônica, a racionalidade nazista levava seres humanos a perceberem outros
seres humanos não só como coisas ou ferramentasnumérica, as pessoas passaram a ter as vontades condicionadas
por informações e dados selecionados por terceiros com motivação comercial,
política e ideológica. As pessoas encontram-se presas à rede (e ao fato de terem
se tornado objetos de empresas que buscam o lucro), mas de uma maneira
indolor, sutil e até agradável, seduzidas pela tecnologia, enquanto a sociedade
fica reduzida a uma espécie de “nuvem volátil de indivíduos conectados”,183
embora cada vez mais sozinhos.
Os algoritmos e a cultura numérica criam bolhas de interesse que favorecem o
distanciamento, a incomuni-cabilidade e a polarização da sociedade, o que
também tem uma funcionalidade política e é útil aos detentores do poder
político. Como percebeu Byung-Chul Han, o numérico faz desaparecer o
distanciamento, a curiosidade e, consequentemente, o respeito pelo outro. Em
lugar do distanciamento respeitoso, surge uma espécie de intromissão voyeurista
combinada como uma permissão para ultrapassar os limites tradicionais na
comunicação, o que está ligado também ao desaparecimento das distâncias e das
hierarquias entre o emissor e o receptor das informações e das mensagens. Essa
redução artificial das distâncias reforça a interpenetração neoliberal entre as
esferas pública e privada.
Ainda segundo Han, o respeito é a pedra angular da esfera pública184 e funciona
como condição de possibilidade tanto de um espaço público quanto da percepção
de um comum. Só há debate ou reconhecimento de um espaço comum se existir
o respeito ao outro. O numérico-digital, ao contrário, favorece ondas de
indignação e de ódio contra o pensamento diferente. E essas ondas podem ser
manipuladas com finalidade política. Trata-se de um fenômeno que cresce
acobertado pela distância de uma forma de comunicação em que é impossível
olhar para os olhos do interlocutor. Nas redes sociais não há espaço para o
diálogo ou para o debate público, uma vez que a comunicação numérica, em
regra, se dá como a “expressão instantânea da reação emocional”.185 sem tempo
para elaborações ou reflexões sobre o conteúdo do que é escrito ou falado.
2.4- As normas neoliberais
A normatividade neoliberal faz do indivíduo um objeto, uma marionete, dos
detentores do poder econômico. O sujeito neoliberal, entre o consumidor acrítico
e o empresário-de-si, torna-se o objeto privilegiado de políticas públicas e
cálculos de interesses. Essa mesma normatividade produz a modificação de
valores e a desfiguração de categorias que as pessoas haviam se acostumado a
fazer uso. Assim, por exemplo, o valor do especialista em um determinado
assunto, pouco a pouco, desaparece em plataformas e outros espaços em que a
opinião acabou por substituir o conhecimento.
A ordem, o sistema e o respectivo projeto político são assegurados pela norma. E
pelos detentores do poder que produzem e dão sustentação à normatividade. O
poder da norma se faz sentir na configuração social, na naturalização dos
fenômenos (ainda, que absurdos), em todos os setores e atividades. Doenças
como a depressão e o burnout são sintomas do potencial coercitivo das normas
incorporadas pelo indivíduo sob o neoliberalismo.
Como se viu, a normatividade neoliberal leva o indivíduo a se perceber como
uma espécie de empresa, como um empreendedor de si mesmo, o que o torna
“incapaz de se relacionar livre de qualquer propósito”.186 Dito de outra forma, a
normatividade neoliberal produz apenas relações baseadas em interesses e
perspectivas de lucro. Não se trata de um fenômeno novo, mas de um quadro
potencializado pela normatividade neoliberal. Marx já identificava na ideia de
liberdade burguesa um potencial de manipulação e de bloqueio às relações
desinteressadas, que são a base do desenvolvimento e da realização pessoal em
uma comunidade.187 Para Marx, a liberdade, construída à imagem e semelhança
da livre concorrência, retrata apenas “a relação do capital consigo mesmo como
outro capital, i.e., o comportamento real do capital como capital”.188 E isso
porque, na “livre concorrência, não são os indivíduos que são liberados, mas o
capital”. 189
A normatividade neoliberal, introjetada a partir de técnicas e procedimentos
destinados a dirigir as condutas, implementada em vários domínios e através de
diferentes meios (escola, família, televisão, redes sociais, igrejas etc.), produz
efeitos em várias dimensões e levou o projeto neoliberal ao sucesso político,
com a rea-proximação incestuosa entre o poder político e o poder econômico;
econômico, com a progressiva substituição do capitalismo produtivo pelo
capitalismo improdutivo, como se verifica a partir do crescimento do capitalismo
financeiro globalizado; social, com o processo de mutação do simbólico e a
flexibilização dos limites éticos e jurídicos, o desaparecimento das
solidariedades coletivas, a radicalização da polarização entre ricos e pobres e o
desaparecimento dos laços sociais; e subjetivo, como demonstra a transformação
do cidadão crítico, solidário e ciente de seus limites em um potencial
consumidor acrítico, egoísta e tendencialmente perverso (que goza ao violar
limites), quando não psicótico (que não reconhece a existência de limites).
A normatividade neoliberal permite um autogoverno do indivíduo adequado ao
projeto neoliberal de buscar o lucro sem limites. Tem-se uma sujeição pela
liberdade ou, mais precisamente, uma sujeição a partir daquilo que o indivíduo
acredita ser a liberdade: um estado manipulado e extremamente restrito, que é
configurado a partir da lógica da concorrência. Essa mesma normatividade
determina ações do Estado em defesa do mercado. Foram os Estados, aliás, os
principais propagadores da racionalidade neoliberal, na medida em que adotaram
e universalizaram uma visão de mundo e ações concretas construídas a partir da
concorrência e do modelo de empresa. Da mesma maneira, foram políticas
estatais que permitiram tanto a expansão do rentismo quanto o financiamento da
dívida pública.
A razão-mundo neoliberal, como já se viu, se identifica com uma normatividade
que se origina da lógica da concorrência e do conceito de interesse, e se adapta
com facilidade a diferentes tradições e contextos. É esse núcleo fundamental
presente na teoria, na política econômica, na forma de governo e na ideologia
neoliberal que permite identificar uma normatividade e um imaginário que se
caracterizam por buscar condicionar todo o mundo-da-vida, “estendendo a lógica
do capital a todas as relações sociais e a todas as esferas da vida”.190 Pode-se,
numa tentativa de resumir o sistema normativo neoliberal, afirmar que o seu
núcleo é composto de duas normas que servem de mandamentos nucleares de
todo o complexo normativo: a) não deve existir limites à satisfação dos
interesses; e b) os outros devem ser tratados como concorrentes ou inimigos a
serem derrotados.
Essas duas normas geram uma imagem que é a base de todo o imaginário
neoliberal: tudo e todos são objetos negociáveis ou descartáveis na busca por
lucro. A consagração normativa da ilimitação e da ideologia do concorrente-
inimigo estabelecem a base de sustentação de um sistema que, com o objetivo de
inimigo estabelecem a base de sustentação de um sistema que, com o objetivo de
se manter, está programado para destruir qualquer óbice ou ameaça. Um sistema
que exige um modo específico, positivo e original, de exercício do poder: em
que o poder político serve ao poder econômico. Um sistema composto de
instituições estatais e privadas, políticas e financeiras, bem como de dispositivos
econômicos, legislativos, administrativos (policiais, inclusive) e judiciários. Um
sistema que exige o intervencionismo estatal e uma produção de subjetivação
direcionados à construção e à manutenção da ordem neoliberal.
Não se pode esquecer que uma das principais manifestações da governabilidade
neoliberal se dá através da concretização da lógica disciplinar. É preciso
controlar, punir e, se for necessário, eliminar qualquer resistência ao sistema e à
normatividade neoliberal. São potenciais objetos das medidas disciplinares todos
aqueles que nãointeressam à sociedade neoliberal, desde os pobres (que não têm
poder de consumo e, muitas vezes, representam gastos para o Estado) aos
inimigos políticos que defendem alternativas ao modelo neoliberal (construído,
no imaginário neoliberal, como o único possível). Esse quadro normativo, que
autoriza o exercício do poder disciplinar e do poder punitivo, é composto
também por leis nacionais, tratados, pactos, contratos privados, acordos
internacionais, regras de direito comercial internacional, dentre outras normas
corpori-ficadas em documentos públicos e privados, que se submetem à
vigilância tanto de governos quanto de organismos internacionais (Organização
Mundial do Comércio, Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial etc.),
bem como de agências privadas de classificação de riscos econômicos, todas a
exercer a “função de polícia econômica”.191
2.5. Normatividade neoliberal: o conceito de interesse
Um dos conceitos básicos à compreensão da normatividade neoliberal é o de
interesse. Por interesse entende-se a vontade de obtenção daquilo que se quer
(um bem ou vantagem). Essa vontade, como lembra Michel Foucault, pode ser
considerada como do mesmo tipo que a vontade jurídica ou, ao menos, pode ser
considerada como conciliável em relação a ela.192 O contrato, instrumento que
gera a obrigação entre as partes que a ele aderem (justamente, por estarem
movidas por interesses), surge dessa vontade. O próprio mito do contrato social
deriva da ideia de que, também no estado de natureza, havia a consciência da
necessidade de se preservar alguns interesses, mesmo que para isso fosse
necessário o sacrifício de outros, o que justificava a criação do Estado. O sujeito
jurídico é, portanto, também o sujeito do interesse que, pouco a pouco, passou a
ser reconhecido como o sujeito racional, o sujeito do cálculo. A distorção,
tipicamente neoliberal, porém, foi a transformação do sujeito racional em sujeito
egoísta.
A satisfação do interesse é o princípio implícito em toda a normatividade
econômica, ao que o neoliberalismo acrescenta uma perspectiva de ilimitação.
No âmbito do Estado, desaparecem os limites rígidos ao exercício do poder
político, e cada vez mais o poder político passa a se identificar com o poder
econômico, o que inviabiliza a antiga normatividade democrática baseada na
soberania popular. O Estado pós-democrático torna-se a forma estatal do
neoliberalismo. No âmbito social, instaura-se uma espécie de vale-tudo em nome
da satisfação social.
É importante frisar que a normatividade neoliberal é o resultado de “um processo
histórico que não foi inteiramente programado por seus pioneiros, os elementos
que a compõem foram se juntando pouco a pouco a partir da interação de uns
com os outros, uns reforçando os outros”.193 Essas normas não são, portanto,
criações a partir de uma doutrina homogênea, nem podem ser atribuídas à crise
de acumulação. Ao contrário, surgem da adaptabilidade inerente ao
neoliberalismo e que se traduz na adoção de qualquer medida necessária à
preservação da lógica da concorrência, dos fins do mercado e de uma ideia de
interesse que se identifica com a obtenção de vantagens pessoais e a geração de
lucro. Pode-se, portanto, falar de um novo capitalismo, capaz de explorar até as
crises do capitalismo, sustentado por essas novas regras e princípios que
produzem efeitos nas instituições, na sociedade e no indivíduo. Como explicam
Dardot e Laval, a originalidade do neoliberalismo está em “criar um novo
conjunto de regras que definem não somente um outro ‘regime de acumulação’,
mas mais amplamente uma outra sociedade”.194
2.6. Mais cinco normas neoliberais
É possível, então, tentar expor de forma resumida algumas dessas outras normas
que forjam essa outra sociedade e que têm no mercado a sua grundnorm:
2.6.I. As decisões devem ser tomadas a partir do critério da exclusiva
satisfação pessoal
Há todo um projeto de subjetivação, que envolve desde políticas públicas até
propagandas e produtos da indústria cultural, que faz com que o interesse
pessoal seja percebido como superior a todos os outros fatores. Para Christian
Laval, o interesse apresenta-se como o “fundamento normativo da nova
humanidade”.195 Dany-Robert Dufour, por sua vez, identifica como um
mandamento de base da “revolução cultural liberal”, o “aceitarás ser conduzido
pelo egoísmo”.196 As pessoas devem, segundo essa norma, atuar a partir da pré-
compreensão de que suas decisões, das mais simples às mais complexas, serão
tomadas a partir de cálculos voltados à satisfação do seu próprio interesse.
Com isso, mesmo as relações pessoais tornam-se cada vez mais pobres e
precárias, pautadas e sustentadas por cálculos de interesses. Há um esvaziamento
das relações sociais, inclusive as de natureza familiar. E,
[...] quando esse vazio que habita tanto o singular quanto o coletivo vê-se
desmentido pelo Imaginário Social, chegamos [...] à suspensão de todo limite, de
toda diferenciação de lugares, de toda lei à qual temos que recorrer... exceto
apenas a pretensa ‘lei do mercado’.197
Busca-se preencher o vazio, crescente em um mundo aparentemente sem limites
e normatizado a partir do conceito de interesse, com algumas práticas sociais
que, no imaginário neoliberal, representam a felicidade e o sucesso, tais como o
consumo de bens materiais e o entretenimento proporcionado pelos programas
de televisão e demais telas (com suas redes sociais que permitem amigos
virtuais, como o Facebook e o Twitter). Esses dispositivos servem, ao mesmo
tempo, para alienar, induzir ao consumo e formatar subjetividades através de
técnicas que buscam definir o que é do interesse de cada um.
A racionalidade neoliberal leva a uma mutação do significado de “interesse”,
que passa a se identificar com o egoísmo. Um interesse, portanto, despido dos
valores religiosos e morais tradicionais. Um interesse que desconhece o valor,
por exemplo, da solidariedade. Tem-se um individualismo corrompido, que
reforça o narcisismo198 (a orientação de todas as pulsões para si mesmo em vez
de estendê-las para outros) e leva ao egoísmo (self-preference).
Tem-se, também, a naturalização da imagem do homem econômico, o sujeito da
relação social interessada. Parte-se da ideia de que o indivíduo é (ou deve ser)
“governado por seu interesse e que sua conduta é conformada por um cálculo de
maximização”.199 Como percebeu Christian Laval, o homem econômico, esse
ser-no-mundo200 que tem como especificidade calcular vantagens (o homem
maximizador), e a sociedade de mercado são fenômenos que não podem ser
separados. Isso porque “derivam do mesmo postulado, segundo o qual a relação
humana, isso que une um indivíduo aos outros, é o interesse que todos têm
primeiro em si mesmos”.201 Por isso, na normatividade neoliberal o
“crescimento econômico” é tomado como finalidade e fundamento de
legitimidade de toda ação, pública ou privada.
Essa identidade entre o interesse privado, a obtenção de lucro ou vantagem e o
crescimento econômico é uma fraude, conforme alertam muitos economistas,
isso porque “a acumulação de capital e o crescimento econômico não estão
ligados, notadamente porque a extração de renda facilitada pela financeirização
não é um fator de crescimento”.202 Fazer do interesse pessoal, tomado como
sinônimo de crescimento econômico ou de obtenção de vantagens, o fundamento
de legitimidade das ações no mundo-da-vida, faz com que valores como a
democracia, a igualdade, a liberdade, a verdade, o constitucionalismo e a justiça
fiquem subordinados aos fins do mercado, ao crescimento econômico, à lógica
da concorrência e à valorização do capital.
A ideia de calcular as vantagens como método para definir a norma de conduta
remonta ao antigo desejo de evitar erros, afastar a imprecisão e alcançar a
harmonia através dos números. Os números permitiram “acordos perfeitos” e
representariam o princípio capaz de estabelecer a ordem do mundo. No lugar do
governo dos homens, uma governança pelos números, capaz de evitar equívocos
e as distorções das paixões humanas. Um mundo em queas leis não
desapareceríam, mas teriam o conteúdo submetido “a cálculos de interesse, de
maneira que elas serviríam às ‘harmonias econômicas’ que presidem o
funcionamento da sociedade humana”.203 Os números, que quantificam os
interesses pessoais, deixam de ser objetos de contemplação (a contemplação dos
números “como chave de acesso à ordem divina”) para se tornarem o meio de
conhecimento e a fonte de previsibilidade desejados, adquirindo “uma força
propriamente jurídica com a prática contemporânea da governança pelos
números”,204 tipicamente neoliberal. Essa crença em um mundo que pode ser
ordenado (se tornando, portanto, harmônico) por números readquire força no
imaginário neoliberal e serve de base à aceitação da normatividade neoliberal.
Uma crença que encontra seu ponto máximo na idealização de um “mercado
total”, capaz de produzir espontaneamente a harmonia global (algo que é
ensaiado e explicitado no artigo 151 do Tratado de Funcionamento da União
Européia).
A normatividade neoliberal busca uma harmonia a partir do reconhecimento de
que todos são egoístas. Cada pessoa, portanto, deve se esforçar para bem
calcular os seus interesses, e isso vale tanto para o chefe do comércio do tráfico
na cidade do Rio de Janeiro quanto para o executivo de Wall Street, não somente
nas suas atividades tipicamente econômicas, mas em todas as esferas de sua
vida. Aposta-se, pois, em um acordo cimentado pelo egoísmo que une as
pessoas, enquanto se procura eliminar os elementos de discórdia. Isso repercute
nas ações e nas teorias, como fica explícito na doutrina da Law and Economics,
que “pretende fundar a harmonia social sobre a razão matemática”.205
A normatividade neoliberal (que gera uma governança “pelos números”) partilha
do mesmo ideal que movia o conceito de “governo pelas leis”, isto é, ambos
aspiram a uma sociedade em que as regras se originam de uma fonte impessoal e
não da vontade dos detentores eventuais do poder político. Todavia, na versão
neoliberal, a normatividade visa eliminar os obstáculos ao exercício do poder
econômico, ou seja, afastar toda espécie de heteronomia, inclusive a que se
origina dos processos legislativos democráticos. Mesmo direitos fundamentais
dos cidadãos devem ser afastados em nome da impessoalidade dos números.
Através de uma linguagem econômico-matemática promete-se afastar valorações
morais, ideologias e o imprevisível humano, uma vez que o número se apresenta
como um princípio que se afirma unívoco, o que tornaria qualquer reflexão
desnecessária. Do ponto de vista da matemática contemporânea, essa formulação
tem por base um mito que já foi superado, como demonstrou Kurt Gõdel ao
provar a existência de proposições matemáticas “indecidíveis” (undecidable).
Na sociedade neoliberal, espera-se que as pessoas funcionem como máquinas. O
sujeito neoliberal é programado. Deve reagir conforme a programação que é
reforçada por técnicas de psicopoder e, principalmente, pelo poder numérico.
Não por acaso, o computador foi transformado em um “novo objeto fetiche”.206
O computador, a partir de uma programação adequada, é uma máquina capaz de
uma espécie de autogoverno. Também a sociedade e o homem, a partir da
normatividade neoliberal (programados: o ser humano, para ser egoísta, e a
sociedade, para assumir a forma de uma rede de egoístas - egoísmo gregário),
devem reagir com base em regras impessoais imanentes ao seu funcionamento.
Com isso, espera-se uma sociedade sem outros limites a não ser os imanentes ao
programa neoliberal.
Uma sociedade eficiente, concebida sob o modelo de uma máquina, não é algo
novo, mas essa concepção assume sua forma extrema a partir da hegemonia da
racionalidade neoliberal e do desenvolvimento das técnicas de psicopoder, com
as quais se pretende não só um autogoverno da sociedade e dos indivíduos como
também a autoexploração: o trabalho voluntário de cada pessoa em favor dos
detentores do poder econômico.
Os cálculos sobre 0 interesse buscam construir uma ordem capaz de se
autorregular, o que tornaria desnecessária a imposição de qualquer limite externo
(Constituição, leis, princípios éticos etc.) à ação humana. Uma ordem povoada
de pessoas programadas para serem egoístas (átomos egoístas em interação) e
regida por cálculos sobre as vantagens que podem ser obtidas com cada ação.
Algo que Karl Polanyi chamou de “solipsismo econômico”, uma consequência
da mentalidade de mercado e um fenômeno correlato ao eclipse do pensamento
político. A partir da normatividade neoliberal, deve-se confiar na lógica de
mercado (nas ações regidas por cálculos de interesse) e considerar a política e o
Estado como tendencialmente inconvenientes, a não ser quando a atuação estatal
estiver a serviço do mercado. Esse solipsismo econômico gerou, como uma
espécie de dano colateral, um conceito insubstancial de justiça, de direto, de
verdade e de liberdade (valores, historicamente, ligados à ação estatal).207
Importante, pois, frisar que o homem neoliberal e o mercado precisaram não só
de uma mutação antropológica como também de uma profunda modificação do
quadro de valores. Essas mudanças deram origem a uma nova moral particular,
adequada à racionalidade neoliberal, na qual o egoísmo deixa de ser um vício
para se tornar uma virtude. O egoísmo passou a ser tratado como um dado da
natureza humana que não pode ser contrastado. Mais do que isso. O egoísmo
passou a ser visto como a condição de possibilidade das ciências humanas e da
nova normatividade, o que tornou a antiga sanção social, que era de inspiração
religiosa, obsoleta.208 Essa ode ao egoísmo gerou o fenômeno do egoísmo
gregário: pessoas que se percebem como livres e autônomas, mas que, na
realidade, passam a integrar o que Dufour chamou de “rebanho pós-
moderno”.209 Pode-se, então, afirmar que o egoísmo, que caracteriza a
subjetivação neoliberal, é utilizado para
[...] agarrar os indivíduos para arrebanhá-los, pois é o meio mais econômico e
mais racional de ampliar sempre mais as bases do consumo de um conjunto de
pessoas permanentemente levadas para necessidades reais ou, quase sempre,
supostas.210
Em razão da dimensão ideológica da racionalidade neoliberal, as pessoas
acreditam praticar livremente certas ações e ir em direção de produtos que
seriam os melhores para elas, enquanto, na realidade, seguem um programa.
Essa postura das pessoas arrebanhadas, que favorece o sistema neoliberal, é
parte desse mesmo sistema. O indivíduo subjetivado pelo neoliberalismo quer “o
que dizem que deve querer como cidadão livre”.211 Não se pode esquecer, ainda,
que a racionalidade neoliberal é uma espécie de racionalidade técnica e que a
técnica não só seduz como leva à compulsão. Por isso, a “racionalidade técnica
hoje é a racionalidade da própria dominação. Ela é o caráter compulsivo da
sociedade alienada de si mesma”.212A lógica da ilimitação, que se impõe em
todos os domínios,213 somada ao egoísmo, leva os indivíduos neoliberais à
utilização de mecanismos psicóticos (certezas delirantes, substituição da lei
simbólica por uma lei imaginária) ou perversos narcísicos214 (assédios
morais.215 transferência ao outro da raiva, do medo e da culpabilidade que o
indivíduo deveria suportar etc.). A perversão é, em certo sentido, um anteparo à
psicose. O perverso se aproveita dos laços familiares, amorosos ou profissionais,
por exemplo, para transformar o outro em um objeto que o faz gozar sempre que
os limites são violados, mas isso se dá como um meio de evitar o delírio,
“fazendo o outro carregar o seu caos”.216 O critério da exclusiva satisfação
pessoal, típica dos cálculos de interesse neoliberais, leva à redução do espaço
público ao espaço da publicidade e da exibição pornográfica dos
relacionamentos humanos como mercadoria, bem como à antipolítica, ao
abandono do projeto de autodeterminação coletiva diante da promessa de
autodeterminação individual capaz de assegurar a felicidade. Essa
impossibilidade de um projeto coletivo, sempre obstaculizado pela urgência da
satisfação dos interesses pessoais, tem a funcionalidade políticade velar os
conflitos e domesticar as pessoas. Basta comparar, por exemplo, os movimentos
negros e feministas nos Estados Unidos antes da era Reagan, marco da
hegemonia política neoliberal estadunidense, e depois. Assim, por exemplo,
aumentou o número de negros desempregados (em especial, entre os jovens) e
presos, mas a atuação política do movimento perdeu força. A situação piorou,
mas a atividade política desses movimentos perdeu o potencial transformador.
A antipolítica é inegavelmente a face neoliberal da política, que promete
substituir os governantes por gestores e reduz o governo à ideia de boa
governança. A política, demonizada no espaço público, se torna uma questão de
concorrência entre grupos de interesse (cada um a seguir a norma: “as decisões
devem ser tomadas a partir do critério da exclusiva satisfação”), em que cada um
desses grupos reivindica a sua parcela de vantagens do Estado, sem que existam
reivindicações mais gerais ou mesmo formulações em termos universais. O que é
para todos, de um parque público até um direito fundamental, perde valor à luz
dessa norma neoliberal.
A norma que determina ações a partir exclusivamente do próprio interesse, para
pessoas subjetivadas como empresários-de-si, faz com que essas pessoas tenham
a impressão de que se dedicar à política é uma perda de tempo que as colocará
em situação de inferioridade em relação aos outros concorrentes-inimigos; e que
as idéias políticas que podem ser encontradas no atual mercado de idéias não
valem a pena diante do desgaste que a luta por elas exigiría. Em outras palavras,
uma norma que enuncia que “as decisões devem ser tomadas a partir do critério
da exclusiva satisfação pessoal” veda de maneira implícita o comprometimento
com a ideia de luta de classes, porque as classes perderam valor dentro da
sociedade neoliberal (desaparece, então, a possibilidade da tomada de uma
consciência de classe).
Antes da hegemonia da racionalidade neoliberal, as lutas por emancipação e por
democracia eram forjadas a partir de uma certa ideia de comum, de superação
coletiva de problemas. Durante o século XIX (e até os anos trinta e quarenta do
século XX), essas lutas tomaram a forma dada pelo movimento operário e,
também, pelo movimento feminista, mais precisamente pela chamada primeira
onda feminista. A partir da hegemonia da normatividade neoliberal, dá-se a
crença de que não há nada a fazer no plano coletivo, devendo cada um cuidar
dos seus próprios interesses.
A própria atuação dos movimentos sociais, inclusive do movimento operário,
sofreu uma mutação. A partir da introjeção da norma neoliberal que enuncia o
dever de agir egoisticamente, parcela dos movimentos negros, feministas e de
trabalhadores acabou se redefinindo como grupos de interesse que, no mercado
das idéias, disputam sua “fatia do bolo” sem formular qualquer reivindicação de
ordem geral217 ou construir uma concepção de democracia que se afaste das
idéias de mercado e de busca de vantagens pessoais.
Cada movimento popular e mesmo os partidos políticos passaram a se
fragmentar em razão da necessidade de defender interesses cada vez mais
específicos. Assim, por exemplo, o movimento feminista deu origem a vários
grupos de interesse (feminismo liberal, feminismo negro, feminismo radical,
transfeminismo, putafe-minismo etc.) com dificuldades crescentes de diálogo
entre eles e entre outros movimentos de oprimidos, como se a questão de gênero
não se relacionasse com a questão da raça e da classe: falar de gênero é falar de
poder e de opressão, portanto, necessariamente entrar em diálogo com outros
marcadores sociais como a raça e a classe, bem como procurar superar toda
forma de opressão. Todavia, instaurou-se uma espécie de hierarquia de
interesses (ou uma hierarquia de opressão), a partir da percepção individual (e
egoísta) de que os respectivos interesses, de que os interesses do grupo a que
pertence, precisavam ser atendidos antes dos demais. Em substituição ao desejo
de lutar contra todas as formas de opressão, passa a vigorar a ideia de
concorrência entre os vários grupos de interesse. Segundo Christopher Lasch,
esses grupos atuam a partir da crença de que suas reivindicações não se
relacionam com a história dos demais grupos ou com o conjunto da sociedade, o
que levaria tanto a uma espécie de incomunicabilidade quanto à exclusão da
possibilidade de um verdadeiro debate político.218 O egoísmo, ainda que
gregário, impede a união de grupos oprimidos e a formação de consensos sociais
capazes de superar o quadro de opressões.
Essa nova configuração dos grupos de interesse, adequada à racionalidade
neoliberal, faz com que os movimentos populares percam apoio de outros setores
da sociedade, que encaram suas reivindicações setoriais como manifestações de
concorrentes e distantes dos interesses da coletividade. Desaparece o valor
social de uma reivindicação justa, uma vez que as reivindicações passaram a ser
percebidas como defesas de interesses particulares por grupos de interesse muito
particulares.
Mesmo os indesejáveis aos olhos do projeto neoliberal aderem a essa
normatividade. Assim, por exemplo, os autores de crimes patrimoniais ou
mesmo os traficantes de drogas etiquetadas como ilícitas (etiquetação e cri-
minalização que também se dá a partir de cálculos de interesse) atendem ao
comando de tomar decisões a partir do critério da exclusiva satisfação pessoal.
Da mesma maneira que o operador do mercado financeiro ou o empresário-
presidente Donald Trump, esses “criminosos” também naturalizam a falta de
limites em busca de lucros. No que se refere à reação social, a diferença (que
está na raiz do neoliberalismo) é que a ação estatal (inclusive, a ação repressiva)
sempre se dá no interesse do mercado e, por vezes, os interesses dos detentores
do poder econômico farão com que esses empresários-de-si indesejáveis acabem
criminalizados ou mortos para não atrapalhar a harmonia do sistema.
De igual sorte, em certo sentido, a corrupção torna-se a regra. Corrupção, por
definição, é uma degeneração: a violação dos padrões normativos de um Estado
ou de uma sociedade construídos para servir de limite ao exercício do poder, de
qualquer poder. Em nome da satisfação dos interesses pessoais e com o
desaparecimento dos limites ao poder econômico, diversos atos de corrupção
acabaram naturalizados. Ilimitação e corrupção são conceitos e fenômenos que
sempre andam juntos. Uma normatividade que incentiva a ilimitação,
transformada em regime da subjetividade (uma subjetivação financeira),219
favorece as mais variadas formas de corrupção.
Em uma sociedade corrompida, a corrupção a ser combatida torna-se apenas a
corrupção do outro, daquele que figura como concorrente ou inimigo. No
neoliberalismo, então, potencializa-se a seletividade dos processos de combate à
corrupção e, mais precisamente, o uso político desse signiíicante “corrupção”,
transformado em um signiíicante vazio a ser utilizado contra os inimigos. E isso
se dá ao mesmo tempo em que a interpenetração dos interesses dos detentores do
poder econômico, dos atores da burocracia estatal e dos políticos profissionais
adquire um caráter estrutural que permite identificar uma “corrupção
sistêmica”,220 um fenômeno que ocorre em todos os níveis, desde as menores
coletividades às grandes empresas e aos mais altos escalões do Estado.
Ademais, a acumulação tendencialmente ilimitada de riqueza funciona como
origem e condição de manutenção de neo-oligarquias. Os ricos tendem a se
tornar cada vez mais ricos e, em consequência, mais poderosos. A aproximação
entre poder político e o poder econômico, que não raro voltam a se identificar
(Silvio Berlusconi e Donald Trump são dois dos exemplos mais conhecidos),
confirma não só a identidade entre a acumulação de riqueza e a acumulação de
poder como também revela a existência de novas dinâmicas da corrupção, isso
na medida em que desaparece a mediação política entre o detentor do poder
econômico e a vantagem que ele pretende auferir a partir do Estado. Os donos do
dinheiro, transformadosem congressistas ou governantes, não precisam mais
comprar de terceiros (políticos profissionais) o apoio para as medidas de seu
interesse. A corrupção sistêmica, inerente à normatividade neoliberal, se
caracteriza justamente por um conluio permanente entre os interesses dessas
oligarquias, que levam à confusão entre o público e o privado, bem como ao
desaparecimento da diferença de papéis entre os agentes públicos e os agentes
econômicos privados.
Em razão do objetivo de acumular riquezas, os limites ao exercício do poder
acabam substituídos pela norma que enuncia a satisfação do interesse como o
único critério legitimador das ações e decisões. Essa norma neoliberal não é
aplicada apenas pelas classes dominantes, como sustentam ainda hoje alguns
marxistas ortodoxos, mas por cada pessoa subjetivada como empresária-de-si
que passa a agir com o objetivo exclusivo de conseguir lucros e vantagens
pessoais. Essa subjetivação é, em parte, produzida por uma espécie de
“modelagem midiática da realidade”221 a partir de uma linguagem econômica e
da transmissão de valores que levam tanto à ode ao mercado quanto à
demonização do político (e de todas as opções ao modelo neoliberal): o
indivíduo, então, passa a se reconhecer tanto nas figuras do empreendedor (para
a grande maioria da população, esse empreendedor não passará de um mero
gestor da sobrevivência) e do manager quanto nos dramas e dilemas vividos
pelos grandes empresários. Não raro, o indivíduo neoliberal, de fato, acredita
que será capaz de enriquecer a partir, exclusivamente, de cálculos de interesse.
2.6.2. Os direitos e as garantias fundamentais devem ser afastados sempre
que necessário à eficiência do mercado
A racionalidade neoliberal faz com que os direitos e garantias fundamentais
sejam percebidos e tratados como objetos negociáveis, que podem, ou não, ter
valor à luz dos interesses dos detentores do poder econômico. Assim, os direitos
e as garantias fundamentais, os direitos humanos positivados nas Constituições
de cada país, deixam de representar limites rígidos ao exercício do poder e
obstáculos contra arbítrios para se tornarem dispositivos a serviço do mercado.
Por “direitos fundamentais” pode-se adotar uma definição teórica, meramente
formal ou estrutural: são “direitos fundamentais” todos aqueles “direitos
subjetivos que pertençam, indistintamente, a ‘todos’ os seres humanos, enquanto
seres dotados do status de pessoa, de cidadãos ou pessoas com capacidade de
agir”.222 É no reconhecimento e afirmação dos direitos fundamentais que se
assenta a base da utópica vida digna para todos (igualdade material).223 Um
esquema normativo construído a partir de uma concepção de direitos e garantias
fundamentais como limites intransponíveis ao exercício do poder levaria ao
“máximo grau de tutela dos direitos e na fiabilidade do juízo e da legislação,
limitando o poder punitivo e garantindo a(s) pessoa(s) contra qualquer tipo de
violência arbitrária, pública ou privada”.224 Nas sociedades ocidentais, em
especial após a Segunda Guerra Mundial, os direitos fundamentais (direitos
humanos positivados nas Constituições) tornaram-se a linguagem hegemônica da
dignidade humana. Todavia, como percebeu Boaventura de Sousa Santos.225
essa hegemonia no campo discursivo nunca deixou de conviver com um fato
assustador: grande parte da população mundial não alcançou a condição de
sujeito de direitos humanos. E o quadro se agrava, em razão, de uma
normatividade fundada no ideal de ilimitação do poder econômico e no modelo
da concorrência tendente à produção de indivíduos na condição de não sujeitos,
submetidos às várias formas de condicionamento e de violência (física, moral,
estrutural, simbólica etc.).
Não se pode esquecer que, para muitos, os “direitos humanos” nunca passaram
de uma espécie de ideologia europeia, uma representação ideológica capaz de
mistificar a condição humana e tranquilizar as almas daqueles que, por ação ou
omissão, são responsáveis pela violência contra as pessoas. Assim, o discurso
dos direitos humanos, percebidos como abstrações, acabaria por esconder as
violações concretas aos interesses e às necessidades de cada pessoa. Nesse
sentido, pode-se afirmar que as concepções abstratas dos direitos humanos
produzem efeitos perversos226 que se revelam conexos e integrados: a) o efeito
ilusório, que dificulta a percepção da distância entre o discurso e a prática, ou
melhor, entre os direitos previstos nas legislações e os direitos efetivados no
mundo-da-vida (a previsão legal de um direito passa a funcionar como uma
espécie de substituto de sua concretização); b) o efeito imobilizador, uma vez
que o reconhecimento legal do direito gera uma sensação de satisfação e de
suficiência, de que não há mais o que se conquistar (eventuais violações dos
direitos humanos seriam meras disfunções atribuíveis a erros individuais) e que,
agora, cabe ao aparato estatal concretizar os direitos humanos; c) o efeito de
ordem, que reduz os direitos humanos àqueles que são consagrados na legislação
e reconhecidos pelas agências estatais (em especial, o Poder Judiciário), o que
faz com que se aceite que o aparato estatal possa selecionar, identificar, limitar,
excepcionar, relativizar ou conter os direitos humanos em nome da manutenção
da ordem; d) o efeito de legitimação de uma ordem hegemônica, uma vez que a
compreensão dos direitos humanos está condicionada por uma determinada
configuração de poder (não raro, o signi-ficante “direitos humanos” é utilizado,
por governos que violam cotidianamente direitos de parcela de sua população,
para atacar projetos de poder alternativos); etc. Fácil, pois, perceber a tensão
entre o que “é” (plano do “ser”) e o que deve ser (plano do “dever ser”), bem
como a diferença entre “o que deve ser segundo o direito que é” e “o que é no
mundo-da-vida”. Por fim, o que e está longe de se identificar com o que deveria
ser em um mundo no qual os direitos humanos, reconstruídos para além do
referencial do homem branco europeu, fossem respeitados.
Diante desse quadro, ainda com Boaventura de Sousa Santos, pode-se afirmar
que nunca foi possível deixar de suspeitar dos direitos fundamentais (direitos
humanos). Como a ideia de direitos humanos pode conviver com uma realidade
que nega para grande parcela da população mundial as condições necessárias à
vida minimamente digna? A que direitos se refere, e a quem pretendem proteger,
os defensores dos direitos humanos?
É importante, então, ter em mente que ao se falar em direitos humanos recorre-se
a dois significantes, “direitos” e “humanos”, bem diferentes dos significantes-
mestres neoliberais (“interesse”, “mercado”, “empresa” etc.). Trata-se de um
conceito complexo, portanto, uma vez que integrado por dois elementos
vinculados entre si, em uma relação de complementaridade e, ao mesmo tempo,
de contradição. Segundo Alessandro Baratta, há complementaridade, “no sentido
de que pertence ao homem enquanto tal, segundo o direito; contradição no
sentido de que o direito não reconhece ao homem o que lhe pertence enquanto
tal”.227 Em outras palavras, ao longo da história, o legislador nunca reconheceu à
pessoa o que é necessário à sua plena realização. Os significantes “humano” e
“direito” são definidos, do ponto de vista ideal, em reciprocidade, enquanto no
mundo-da-vida a pessoa concreta, a depender de uma série de condicionantes,
sofre a negação do direito a uma vida digna. Não raro, a legislação (o direito
reduzido à lei e à interpretação dada à lei a partir de um determinado contexto)
se coloca em oposição aos valores dos direitos humanos, em especial no que
toca aos vários segmentos étnicos e sociais subalternizados e excluídos das
políticas sociais (basta lembrar, por exemplo, de como os sistemas de Justiça de
vários países e seus atores jurídicos tratam daqueles que são etiquetados como
indesejáveis ao projeto neoliberal de acumulação ilimitada do capital).
Em apertada síntese, na tradição do direito liberal, chamam-se direitos humanos
aos direitos que pertencem a todas as pessoas naturaispelo simples fato de terem
nascido. A pessoa o é, e merecería proteção, por ter sido lançada na linguagem.
É possível afirmar a existência de direitos (fenômeno que importa comunicação)
porque a humanidade é composta de entes dotados de linguagem e em
comunicação a partir de valores, regras e princípios. “Direitos humanos”, então,
deveríam se referir à realização plena da humanidade e englobar todos os
direitos necessários à concretização da dignidade humana. Assim, os direitos
fundamentais e os direitos humanos corresponderíam à dimensão normativa do
comum, isto é, aos direitos compartilhados por todos, por todas as
singularidades, enquanto pessoas naturais.
A ideia de direitos fundamentais ou de direitos humanos liga-se à de direitos
universais, posto que deveríam pertencer a todas as pessoas naturais, sem
qualquer exceção, a todos os seres humanos. Tanto a Declaração de
Independência dos Estados Unidos da América (1776) quanto a Declaração dos
Direitos do Homem e do Cidadão (1789) destacam-se pela universalidade das
afirmações feitas nesses documentos históricos: “todos os homens são criados
iguais, dotados pelo seu Criador de certos Direitos inalienáveis”, “todos os
homens”, “homens”, “todos os cidadãos”, “cada cidadão” etc. Assim, no plano
retórico, pretendia-se afastar qualquer dúvida acerca da intenção de que “toda
pessoa” era titular desses direitos pelo simples fato de ter nascido, o que, em
concreto, era negado pelos fenômenos da escravidão e do patriarcado.
É verdade que a afirmada universalidade dos direitos humanos merece
problematização. Basta lembrar que Olympe de Gouges foi guilhotinada após
publicar a Declaração dos direitos da mulher e da cidadã justamente por
questionar a precária universalidade da declaração francesa. Há uma tensão
inafastável entre o universal (aquilo que se pode afirmar como válido
independentemente dos contextos) e o fundacional (o que representa uma
identidade específica, com a memória, a tradição, a história e as raízes). Ao
pesquisar a situação dos direitos humanos em diversas regiões do mundo, ou até
em diferentes regiões de um mesmo país, chega-se à conclusão de que inexiste,
em concreto, um tratamento homogêneo ou mesmo a afirmada validade
universal de direitos em contextos políticos, econômicos ou culturais diversos.
Mas essa relativização dos direitos humanos, que sempre existiu, é muito
potencializada com a hegemonia da racionalidade neoliberal e o seu
compromisso com a ilimitação do mercado, do consumo e da acumulação de
capital.
Em relação aos direitos humanos, não se pode ignorar que uma determinada
cultura (situada, pois, no plano fundacional) passou a se afirmar como universal.
O que se entende hoje por “direitos humanos” é o que essa cultura particular
disse se tratar de um “universal”. Sempre que se fala em universalidade, tem-se
um processo de imposição dos valores e das idéias dominantes de uma
determinada cultura sobre as demais. Inegavelmente, na construção das
categorias jurídicas “direitos fundamentais” e “direitos humanos” está embutida
a noção de superioridade (espiritual, existencial, política, cultural, bélica etc.) de
uma cultura, baseada na crença, acompanhada das melhores intenções (as
mesmas que enchem o inferno desde o fenômeno da colonização), de que os
valores e as idéias de alguns devem ser transmitidos e incorporados por outras
comunidades tidas como inferiores. Com a hegemonia de uma concepção de
cultura redefinida pela racionalidade neoliberal, nem mesmo essa perspectiva
limitada e eurocêntrica de direitos humanos sobrevive, isso porque desaparece a
própria perspectiva de universalidade em nome do mercado. Sob a égide
neoliberal não há espaço para uma dimensão normativa do comum em uma
sociedade em que o egoísmo e a busca ilimitada por lucros tornaram-se a regra.
Tendencialmente universais, à luz da racionalidade neoliberal (ou seja, desde
que não atrapalhem os interesses dos detentores do poder econômico), apenas o
direito de propriedade e a liberdade de contratar.
Com razão, Herrera Flores dizia que “o direito, o pensamento e a prática jurídica
comprometida com os direitos humanos de todas e todos podem converter-se na
pauta política, ética e social que sirva de guia à construção dessa nova
racionalidade, sempre e quando os retirarmos da jaula de ferro que os mantém
presos na ideologia de mercado e no correlato formalismo jurídico”.228
Justamente esse potencial constitutivo de uma nova racionalidade é o que
precisava ser destruído, razão pela qual os direitos humanos e os direitos
fundamentais acabaram relativizados, quando não colonizados.
Uma concepção de direito, entendido como “um sistema artificial de garantias,
artificialmente preordenado à tutela dos direitos fundamentais”,229 é
incompatível com o projeto neoliberal. Não há interesse em um modelo ou
sistema que resgate o valor vinculante das normas, para que não só o direito
posto se torne efetivamente condicionante da vida em uma sociedade
democrática, como também a produção jurídica estatal (leis, sentenças, decisões
etc.) fique condicionada por vínculos jurídicos formais e substanciais.
A normatividade neoliberal, portanto, não pode impor obstáculos ao exercício de
poder econômico (ou do poder político, desde que em favor do mercado), razão
pela qual, no âmbito estatal, desaparece a dimensão de garantia dos direitos
(salvo dos direitos relacionados à propriedade e à liberdade de contratar). Se a
pedra de toque de uma normatividade democrática, em especial nos sistemas que
contam com constituições rígidas, era o respeito aos direitos fundamentais, na
normatividade neoliberal o que é fundamental é a criação de comandos
concretos em favor do mercado.
A dimensão formal da democracia, que se refere ao “quem” decide e ao “como”
decidir,230 que sempre foi regulada por normas que garantem o respeito à
vontade da maioria, nunca se revelou suficiente ao ideal democrático de vida
digna para todos. Assim, com base nesse ideal de comum, buscava-se exigir o
respeito e a concretização dos direitos fundamentais e, em decorrência, regular o
que pode e o que não pode ser objeto da deliberação de qualquer maioria. Hoje,
em razão das transformações produzidas a partir da racionalidade neoliberal,
essa preocupação desapareceu: instaurou-se uma espécie de “vale-tudo” em
atenção aos interesses do mercado.
Desaparecem, então, os vínculos negativos, gerados pelos direitos individuais
(dever de não fazer), e os vínculos positivos, gerados por direitos sociais (dever
de fazer), que constituíam, respectivamente, a “esfera do não decidível que sim”
e a “esfera do não decidível que não”, típicos de democracias constitucionais,
pois nenhuma maioria, mesmo que absoluta, devia poder impor um agir
contrário a um direito liberal ou impedir e retardar os atos tendentes à
concretização de um direito social.231 Dentre os direitos humanos de natureza
social, típicos do pós-guerra e reflexos da Guerra-Fria (direitos que foram
reconhecidos pelos detentores do poder político para tentar reduzir os riscos de
uma revolução comunista protagonizada pelos trabalhadores), destacam-se os
direitos à alimentação, ao trabalho digno, à habitação, à informação, à educação
e à saúde. Se os direitos de natureza liberal são negativos, e correspondem a
vedações (“direitos de”), os direitos de natureza social são positivos, geram
expectativas de um comportamento alheio (“direitos a”) e correspondem a
obrigações de agir, deveres do Estado de fazer. O direito à saúde e os direitos
dos trabalhadores, por exemplo, enquadram-se entre os direitos humanos de
natureza social. No neoliberalismo, tanto a vontade da maioria quanto os direitos
fundamentais ficam subordinados aos interesses dos detentores do poder
econômico. Há uma radical simplificação do complexo normativo, em razão da
norma neoliberal que enuncia o dever de afastar qualquer direito (individual,
social, coletivo ou difuso) que represente um obstáculo à eficiência do mercado.
No neoliberalismo, os direitos e garantias fundamentais deixam de funcionarcomo vetores interpretativos do Sistema de Justiça, como recursos heurísticos de
legitimação e deslegitimação das normas e das práticas do controle social
formal, porque foram substituídos por cálculos de interesses. Tem-se, assim, o
abandono de qualquer pretensão a um modelo normativo baseado no controle,
constitucionalmente regrado, sobre a ilegalidade do exercício do poder, público
ou privado.
A racionalidade neoliberal, que hoje condiciona o modo de ver e de atuar no
mundo, transformou o comum em privado, o direito fundamental (entendido
como limite intransponível ao exercício do poder) em mercadoria, a vida e a
dignidade da pessoa humana em objetos negociáveis. Da mesma maneira que o
egoísmo foi transformado em virtude, a doença e a crise do sistema de saúde
pública, por exemplo, passaram a ser vistas como novas oportunidades para
alguns poucos lucrarem e acumularem capital. A norma, introjetada pela
população, passa a ser a de que todos os direitos, mesmo os direitos
fundamentais, podem ser usados e devem ser afastados sempre que necessário,
para potencializar os interesses do mercado.
Essa norma neoliberal confirma a tese de Wendy Brown de que o papel do
direito no processo de neolibe-ralização não é somente o de dar uma forma
jurídica à economia, mas, sobretudo, o de servir de “meio de disseminação da
racionalidade neoliberal para além da economia, alcançando até os elementos
constitutivos da via democrática”.232 De fato, a racionalidade neoliberal “não se
contenta em garantir os direitos do capital e organizar a concorrência, ela
redefine os direitos políticos, a cidadania e o campo mesmo da democracia
dentro de um registro econômico”,233 o que acaba por levar à substituição da
ideia de povo, como motor do funcionamento do Estado, pela de cálculos de
interesse. Ainda com Brown, pode-se afirmar que a racionalidade neoliberal faz
com que o Direito e o modo de pensar jurídico passem a servir de apoio às
práticas governamentais que visam suprimir “a via política e os imaginários
democráticos”, como fica evidente nas reformas e decisões jurídicas que
reforçam o poder político do capital ao mesmo tempo que enfraquecem as
associações de cidadãos, as lideranças de oposição ao neoliberalismo e os
sindicatos de trabalhadores.234 Essa instrumentalização neoliberal do Direito
também pode ser percebida tanto em decisões judiciais favoráveis à lógica das
empresas quanto em decisões que concretizam perseguições contra os inimigos
políticos do projeto neoliberal (o “caso Lula”,!ü marcado por inúmeras
atipicidades processuais e ilegalidades, é um exemplo dessa utilização do Direito
como “arma de guerra” contra os inimigos, em uma clara manifestação de
lawfare neoliberal).
Em suma, a norma que enuncia o dever de afastar os direitos e garantias
fundamentais em favor da eficiência do mercado (e cada indivíduo, como
empresários-de-si, percebe-se como um agente do mercado), faz com que o
Estado deixe de ser o promotor e o garantidor dos direitos fundamentais para
assumir a função política de regulador das expectativas do mercado e dos
detentores do poder econômico. O Direito, por sua vez, deixa de ser um
regulador social para acabar transformado tanto em mais um instrumento para o
mercado quanto em uma mercadoria. Com isso, a ideia de Direito como
mercado quanto em uma mercadoria. Com isso, a ideia de Direito como
expressão do comum, a solidariedade, a alte-ridade e, em consequência, o
diálogo são negados, enquanto a diferença e os conflitos capazes de gerar lucros
são incentivados.
2.6.3. 0s concorrentes- inimigos devem ser vencidos ou destruídos
A construção da normatividade neoliberal, que leva a uma profunda mutação
antropológica, é um fenômeno complexo. Ao lado das normas utilitaristas que
estendem o modelo de maximização dos lucros e das vantagens pessoais através
de cálculos de interesse, e que exigiram ressignificações de conceitos como
interesse e utilidade, há também as consequências normativas da lógica da
concorrência, forjada no ambiente do livre mercado, mas que também se
espalhou por todas as relações humanas.
Se a normatividade construída a partir do desejo de enriquecer, mais
precisamente da hipótese de que toda ação humana deveria obedecer a uma
racionalidade, que asseguraria a escolha que mais satisfação fosse capaz de
produzir para o indivíduo (e o sucesso desse objetivo em razão da adequação
entre os meios e os fins), tem uma dimensão preponderantemente individual, na
medida em que o mandamento da conduta desconsidera a existência de outras
pessoas, a normatividade que se origina da lógica da concorrência é tipicamente
relacionai: trata-se de um mandamento direcionado a condicionar a maneira
como cada pessoa deve se relacionar com as outras. A lógica da concorrência,
portanto, leva à fabricação de normas que pretendem regular e condicionar as
relações intersubjetivas.
Concorrência, por definição, é o ato ou efeito relacionado à tentativa de alcançar
a primazia sobre algo em detrimento de outras pessoas. A ideia de concorrência,
portanto, sempre está relacionada com a competição, a disputa, a rivalidade ou a
guerra. A concorrência também costuma ser relacionada com um estado
dinâmico, com uma situação de busca por lucro em um mercado no qual os
agentes econômicos estão livres para utilizar uma série de instrumentos (tais
como o preço, a propaganda, os serviços conexos, a qualidade dos produtos etc.)
para vencer (ou seja, para alcançar os objetivos propostos). Em um mercado
concorrencial idealizado, o funcionamento se daria entre partes em situação de
disputar e em atenção às “regras do jogo”, em especial à lei da oferta e da
procura, sem intervenção do Estado. A lógica da concorrência, portanto, é
marcada pela rivalidade entre duas ou mais pessoas que devem fazer o que for
possível para vencer uma disputa.
possível para vencer uma disputa.
A concorrência (rivalidade de interesses) revela o ideal oposto ao da cooperação
(união de interesses), bem como dificulta a formação de vínculos de
solidariedade, da consciência de problemas partilhados entre indivíduos e da
percepção de espaços comuns não marcados por disputas. Se é verdade que a
fraternidade não pode ser imposta “de cima”, a lógica da concorrência impede
que ela se construa “de baixo”, o que faz com que o eu sem o nós se atrofie no
egoísmo.236
A racionalidade neoliberal faz do eu uma ficção, o empresário-de-si, e do outro
um concorrente. O empre-sário-de-si entra em disputa com outras pessoas
também identificadas como empresários. Dá-se uma espécie de coisificação: o
outro, resumido a uma empresa perigosa para os interesses do eu. Mesmo em
instituições como a família, o outro cada vez mais é identificado como um
adversário a ser vencido. A consciência de classe torna-se uma não questão para
pessoas subjetivadas como capital humano ou empresários que precisam derrotar
outros entes empresariais, por mais próximos que sejam os interesses que os
vinculam.
A ilimitação, também própria da racionalidade neoliberal, por sua vez, faz com
que o concorrente passe a ser tratado como um inimigo a ser destruído. A
pessoa, subjetivada como uma atividade economicamente organizada, quer
destruir as demais empresas que concorrem com ela e, portanto, são percebidas
como perigosas. Reforçam-se as diferenças e velam-se as semelhanças na
tentativa de vencer a disputa. A vontade de vencer, estimulada e despida de
limites éticos ou jurídicos, não raro, transforma-se em ódio contra os
adversários. Assim, aumentam-se os conflitos e reduz-se a possibilidade de paz:
isso porque, como escreveu Claude Lefort, “a paz não pode se fundar, a não ser
sobre a ideia de que as relações entre os homens são relações entre
semelhantes”.237
O poder sempre procurou discriminar seres humanos conferindo-lhes tratamento
não condizentes com a sua condição de pessoa, reduzindo-os a entes perigosos
ou danosos à sociedade. A construção da dogmática penal soviética do “inimigo
do povo” é apenas um exemplo. O inimigo foi, ao longo da história, o rótulo do
não cidadão.As guerras enfrentadas por uma nação colocavam os cidadãos para
lutarem contra os seus inimigos, os não cidadãos. Toda ação bélica (bem como
todo regime autoritário), ainda que dentro do próprio território, precisa de
inimigos, ou seja, de indivíduos equiparados a não cidadãos a serem enfrentados
(a “guerra às drogas” nas favelas do Rio de Janeiro, por exemplo, é uma guerra
contra pessoas rotuladas de inimigas e tratadas como não cidadas). É importante
frisar que a ação estatal que leva ao tratamento de pessoas como inimigas, não
raro, é autorizada por leis formalmente democráticas, o que gera contradições e
crises em regimes que se afirmam democráticos.
Em apertada síntese, sempre que instituições de um Estado começam a tratar
cidadãos como inimigos, caminha-se para a substituição do Estado Democrático
de Direito pelo Estado Policial. Cada indivíduo etiquetado como indesejável
tende a ser igualmente designado como perigoso ou danoso aos interesses
hegemônicos. A lógica da concorrência permite não só naturalizar a rotulação de
pessoas e o exercício do poder político contra esses “inimigos”, como também
faz com que cada indivíduo também se sinta autorizado a rotular e atuar contra
as pessoas identificadas como perigosas ou danosas aos seus interesses.
Uma sociedade que cede à lógica da concorrência e, portanto, passa a tratar
pessoas como entes perigosos ou obstáculos a interesses econômicos, e não mais
como sujeitos dotados de autonomia ética, tende a se tornar um ente
absolutista:238 a sociedade neoliberal se revela, então, um mercado absolutista.
Uma normatividade que faz com que pessoas tendam a considerar que outros
indivíduos são não pessoas (entes perigosos, empresas concorrentes etc.),
mostra-se o espaço adequado à propaganda võlkisch (popula-resca), a partir de
discursos que buscam conseguir a adesão popular a uma proposta ou a uma ação
de modo demagógico e grosseiro, reafirmando e estimulando a existência de
preconceitos e de reações tendencialmente agressivas contra o outro. Em linhas
gerais, essas propagandas reproduzem a norma neoliberal que estimula a
destruição do concorrente ou inimigo.
O objeto da disputa e da concorrência pode ser o mais variado. Assim, por
exemplo, pode se resumir à divisão do espaço ou o acesso aos serviços públicos.
A reação da classe média brasileira à presença de pessoas das classes
subalternizadas em aeroportos nos anos 2010, em razão da redução da
desigualdade vivenciada no país, e o ódio do grupo social chamado de White
Trash, pessoas brancas miseráveis que detinham apenas o privilégio da “cor da
pele”, direcionado às políticas afirmativas que visavam minorar os efeitos do
racismo, são exemplos perversos da lógica da concorrência estendida à dinâmica
da sociedade.
Importante, por oportuno, frisar a importância das técnicas de propaganda na
criação do inimigo. Sentimentos legítimos como a angústia diante da piora das
condições de vida podem ser manipulados com finalidade política. Assim, esse
sentimento de perda pode ser “transformado em vitimização e ressentimento e
explorado para justificar formas de opressão passadas, atuais e novas”.239 Como
exemplifica Jason Stanley, a propaganda de idéias racistas (em especial, a da
supremacia branca) fez com que o Men’s Rights Activist Movement (MRA) nos
Estados Unidos, na década de 1990, cristalizasse a vivência da perda de
privilégios, diante de políticas afirmativas, como vitimização.240
A construção social da figura do inimigo, da pessoa que não merece o tratamento
de pessoa, não é recente. O poder sempre fez uso dessa redução de indivíduos a
entes perigosos, que precisam ser contidos ou eliminados, na “arte de governar”.
O conceito de “inimigo” tem origem no direito romano, mais precisamente na
distinção entre o inimicus (inimigo pessoal) e o hostis (inimigo político: aquele
que incomoda o poder). Em que pesem as subclassificações posteriores (que
permitem incluir desde o prisioneiro escravizado da Antiguidade até o imigrante
na Europa do século XXI), pode-se, hoje, apresentar uma definição de inimigo a
partir da sua essência, que é a anulação de sua condição de pessoa: inimigo,
portanto, é aquele que pode ser tratado como não pessoa.241Um dos principais
teóricos alemães do período nazista, Carl Schmitt (também um teórico do estado
de exceção), foi o responsável por inserir a figura do inimigo em destaque na
ciência política. Para ele, a “específica distinção política à qual é possível referir
as ações e os motivos políticos é a distinção de amigo e inimigo”.242 Segundo
Schmitt, todo conceito do direito é fundamentalmente político e não há
neutralidade possível. O Estado, portanto, seria aquele ente a quem cabe
produzir decisões parciais. Dito de outra forma, o Estado é definido pelo
monopólio da decisão: cabe ao Estado definir a exceção, cabe ao Estado definir
os inimigos.
Como lembra Eugênio Raúl Zaffaroni,
[...] o discurso teocrático, usado durante a primeira etapa da planetarização do
poder, apresentava o genocídio colonialista como uma empresa piedosa, em cujo
nome se matavam os dissidentes internos, os colonizados rebeldes e as mulheres
desordeiras. O inimigo desta empresa, depois da extinção dos infelizes
albigenses e cátaros, era Satã, o que deu lugar à primeira de uma longa lista de
emergências, que se seguiram pelos séculos afora até a atualidade, ou seja,
ameaças mais ou menos cósmicas ou apocalípticas que justificavam uma guerra
e, por conseguinte, demandam a individualização de um inimigo243.
Não raro, o inimigo escolhido é construído a partir de um preconceito que impõe
medo (pense-se nos maleficia das bruxas). O modelo inquisitorial, que fazia de
indivíduos meros objetos usados para a descoberta da “verdade”, servia à
construção e à eliminação dos inimigos. Na Inquisição ocorre, em certo sentido,
o “sequestro de Deus”.244 Para lutar contra os inimigos, que tanto podiam ser as
bruxas e os hereges quanto os inimigos políticos do soberano, também acusados
de heresia. É igualmente na Inquisição que o saber, uma espécie de “apetite pela
verdade” intimamente ligado ao poder, torna-se uma arma contra os inimigos.
A normatividade neoliberal facilita o processo de “etiquetamento” e amplia o rol
dos inimigos, percebidos como entes perigosos aos interesses do indivíduo e da
sociedade neoliberal. A lógica da concorrência, que orienta a normatividade
neoliberal, produz também distâncias entre os indivíduos, produzindo mutações,
inclusive, no funcionamento concreto das instituições estatais. A função
jurisdicional, por exemplo, sempre foi exercida a partir da dialética entre a
proximidade e a distância na relação entre o julgador (seja o juiz profissional,
seja o juiz popular) e a pessoa a ser julgada. Como identificou Denis Salas, o
julgamento era o resultado de um “jogo” em que era necessário levar em
consideração “a proximidade de um ser semelhante e a diferença de um ato
reprovável”.245 De igual sorte, o ato de punir deveria oscilar “entre a
incompreensão que acusa e a compreensão que explica”.246 Todavia, a norma
neoliberal (“os concorrentes-inimigos devem ser vencidos”) dificulta a
proximidade ao acusado e também a sua identificação, bem como a compreensão
do ato. Ao concorrente-inimigo não deve ser assegurado qualquer direito, isso
porque ele é uma não pessoa, um ente perigoso ou danoso aos interesses do eu
(inclusive aos interesses do ser-no-mundo que exerce a função de julgador).
É essa mesma norma neoliberal, ao permitir tratar indivíduos como não pessoas
(uma empresa danosa ou perigosa), que abre a possibilidade para o retorno de
fenômenos como o fascismo e o modelo inquisitorial (que faz do imputado um
mero objeto), mas adaptados à racionalidade neoliberal. Como percebeu Pierre
Sauvêtre.247 não há como pensar o neofascismo e as derivas autoritárias
percebidas nos últimos anos sem compreender a complexa história do
neoliberalismo.
Ainda segundo Sauvêtre, o afastamento de direitos, que permite a destruição dos
inimigos (indesejáveis) está ligada a uma clara
[...] dimensão ‘imunizante’do neoliberalismo, no sentido de um projeto que visa
restaurar os direitos de propriedade do capital corroídos pelas políticas sociais
redistributivas do século XX, imunizando o mercado contra qualquer
intervenção democrática externa - seja ela governamental ou social - que vise
regulá-lo.248
E essa imunização só é possível a partir da extensão da lógica concorrencial para
todo o campo social.
A lógica concorrencial transformada em norma tem necessariamente uma
“dimensão constitutiva focada na implementação da norma de concorrência nas
instituições, relações sociais e subjetividades” e “uma dimensão defensiva, até
mesmo destrutiva, que consiste em proteger o funcionamento regulado do
mercado contra práticas sociais com potencial regulatório ou redistributivo”.249 o
que implica em identificar, controlar ou destruir os elementos que atentam contra
o mercado e a racionalidade neoliberal.
Ainda segundo Pierre Sauvêtre, o neoliberalismo pode, em certo sentido, ser
definido como
[...] a política que consiste, por um lado, em tornar o mercado hermético a
qualquer atividade contrária à sua lógica, e, por outro, impor a sua lógica a todas
as atividades. Em conjunto, persegue o sonho do fim da democracia e do
estabelecimento de uma sociedade normalizada pela concorrência integral
(Estado Total substituído pela Concorrência Total). As duas dimensões, a
defensiva e a constitutiva, são complementares entre si, mas prevalece a
dimensão defensiva, uma vez que a defesa contra a conduta democrática é um
pré-requisito que deve ser constantemente replicado para desencadear a
imposição da norma econômica na sociedade.250 Não há, portanto, como
desassociar a lógica concorrencial e o processo de desdemocratização do Estado
denunciado por Wendy Brown. Isso porque a destruição dos limites
democráticos ao exercício do poder, bem como a redução dos direitos
fundamentais a objetos negociáveis, não é propriamente uma consequência do
neoliberalismo, mas um dos objetivos do projeto neoliberal.251 Se, no plano
retórico, os detentores do poder político e do poder econômico defendem que
ninguém pode ameaçar ou cometer atos de violência contra a pessoa ou a
propriedade de outro homem, a não ser de maneira “defensiva” contra a
violência de outros, na realidade sensível, a versão neoliberal do axioma de não
violência busca “essencialmente uma justificação para a violência defensiva
contra qualquer agressão contra a propriedade ou a pessoa”.252 ou mais
precisamente, a legitimação do uso da violência em defesa dos próprios
interesses contra os seus inimigos, ainda que imaginários.
A imagem do inimigo é frequentemente produto de preconceitos e certezas
delirantes. O concorrente ou inimigo escolhido, não raro, é pensado como um
ente com poderes excessivos. Essa desproporção entre a realidade do objeto e a
onipotência temida pelo indivíduo demonstra, para Theodor Adorno, a presença
de um “mecanismo projetivo”.253 O medo de fantasmas, sempre onipotentes e
onipresentes, acaba projetado em pessoas ou grupos, o que propicia o
surgimento de certezas delirantes e ilusões paranóicas.
A utilidade política da fabricação de um inimigo, inclusive para justificar a
utilização da violência em defesa de interesses econômicos, não é um fenômeno
que passa despercebido. Michel Onfray, por exemplo, a partir do que chamou de
“Teoria da Ditadura” de George Orwell, sustenta que
[...] para a tirania existir, é necessário um inimigo, um adversário. Pouco importa
quem ele seja [...]. O que importa é dispor de um bode expiatório capaz de
concentrar sobre ele a raiva, o ressentimento e as paixões tristes.254
O inimigo torna-se objeto de medo e, portanto, serve à manipulação política
desse medo, em especial nos casos em que essa figura não só é construída a
partir de estereótipos que confirmam preconceitos como também é apresentada
com poderes excessivos.
Vale reparar que, na retórica neoliberal, o “direito de propriedade” é ameaçado
por políticas inclusivas, pelo Estado social, pelos direitos trabalhistas, pela força
dos sindicatos, pelo crescimento da importância política das chamadas minorias,
pela postura das feministas etc. Essas “ameaças”, que muitas vezes se misturam
com preconceitos, servem, então, para justificar a violência “defensiva”. Assiste,
portanto, razão a Pierre Sauvêtre ao apontar que a retórica populista liberal de
autores como Rothbard255 revela um novo tipo de governamen-talidade
neoliberal:
[...] a governabilidade brutalista, que consiste em levar os indivíduos a fazer uso
brutal de sua liberdade para defender a propriedade capitalista: todo o
ressentimento que o próprio neoliberalismo causa nas classes média e
trabalhadora é instrumentalizado e canalizado para uma brutalização das relações
sociais a partir das quais a democracia é aniquilada.256Em resumo, a norma
neoliberal que enuncia a necessidade de cada indivíduo vencer o outro (visto
como concorrente, hostil, estrangeiro ou inimigo), repercute tanto no imaginário
neoliberal quanto no modo de governo. A transformação do outro em um ente
“potencialmente perigoso”, um não sujeito indesejável, dificulta ações coletivas,
incentiva a violação de direitos e serve à manutenção do mercado como modelo
para todas as relações sociais. O indivíduo, a partir da normatividade neoliberal,
sente-se livre para usar um não sujeito como meio para alcançar seus fins.257
Esse não sujeito é inerente ao “discurso do capitalista”, identificado por Jacques
Lacan, no qual o indivíduo, que se imagina como um empresário, não se
relaciona com outros sujeitos ou com a diferença, mas apenas com “os objetos-
mercadorias comandados pelo significante-mestre capital”.™ Não há laço social
com um não sujeito. A frase “There is no society”, verbalizada por Margaret
Thatcher em outubro de 1987, em uma entrevista para a revista Woman's Own, é
a síntese dos efeitos sociais do projeto neoliberal fundado na lógica
concorrencial. No neoliberalismo tem-se a ruptura dos laços sociais, que leva à
ausência de limites nas trocas intersubjetivas, à guerra entre os “de cima” e os
“de baixo” e ao abandono da ideia de comum.
2.6.4. Tudo e todos devem ser tratados como coisas O comando normativo
para tratar tudo e todos como coisas pode ser percebido tanto nas relações
do indivíduo com o Estado quanto nas privadas, inclusive nas mais íntimas.
O pai e a mãe se acreditam donos dos filhos. O marido da mulher e vice-
versa. O patrão de seus empregados. O sentimento de propriedade é
inerente à coisi-ficação.
A reificação é o fenômeno que retrata aquilo que Marx chamou de “mundo
invertido” em relação à concorrência,259 um mundo no qual as relações sociais
são tomadas como coisas independentes e a-históricas. A racionalidade
neoliberal potencializa a mistificação capitalista consistente em tratar as relações
sociais a partir de ficções como a propriedade e as relações de produção como
coisas negociáveis e reduzíveis a dinheiro. Para manter a hegemonia do
neoliberalismo é necessário criar um mundo de aparências, em que o interesse e
a felicidade se identifiquem completamente com a obtenção de vantagem ou
lucro tendencialmente ilimitado, dentro do qual vão se mover cotidianamente os
indivíduos reduzidos a consumidores acríticos, a consumidores falhos (os
indesejáveis), os agentes da produção e do rentismo e também os governantes. O
mundo reificado é aquele necessário ao movimento da concorrência, à
identificação dos concorrentes-inimigos, ao egoísmo gregário e à destruição dos
laços sociais.
O mandamento neoliberal de tratar tudo e todos como coisas é a dimensão
normativa do fenômeno da reificação. Reificar (Verdinglichung) significa
converter, tratar ou fazer de algo uma coisa (do latim res). Literalmente, busca-
se, no neoliberalismo, a coisificação total. Mesmo as pessoas devem ser
consideradas como objetos sem consciência ou liberdade tanto nas considerações
do poder político quanto nos cálculos do poder econômico, e até nas relações
mais íntimas familiares e amorosas. O patriarcado, intimamente ligado ao
modelo de exploraçãocapitalista, por exemplo, acaba reforçado a partir da
racionalidade neoliberal, isso porque a percepção de que as mulheres e os filhos
devem ser tratados como coisas pertencentes ao pater (e, portanto, sem liberdade
ou consciência) acaba naturalizada.
A normatividade neoliberal estimula que as relações sociais acabem coisificadas
para serem tratadas à luz de cálculos econômicos. As relações sociais neoliberais
são sempre percebidas como relações comerciais, de consumo ou financeiras.
Desaparece, com a reificação capitalista (potencializada pela racionalidade
neoliberal), o liame social: as pessoas, que também se percebem como coisas
(empresas) se relacionam com outras coisas, e não mais com outras pessoas.
A ideia de reificação e coisificação como inerente ao capitalismo está
relacionada com os estudos de Karl Marx sobre alienação e fetichismo das
mercadorias. Grosso modo, o conceito de reificação é construído a partir da
reflexão sobre os efeitos sociais da generalização da forma mercadoria como o
principal modo de satisfazer as necessidades humanas. No capitalismo, a
mercadoria passa a ser identificada com “tudo aquilo que se quer”. Trata-se,
segundo Marx, de um processo pelo qual as demais relações assumem “a forma
fantasmagórica de uma relação entre coisas”.260 Gyõrgy Lukács, ao aprofundar o
estudo sobre a reificação, aponta que a coisificação é uma determinação central
tanto da troca mercantil quanto de todas as demais formas de objetividade e
subjetividade presentes na sociedade burguesa. Não por acaso, a reificação
depende de um tipo de racionalidade que permita o recurso à quantificação, ao
cálculo e à abstração.261 É essa racionalidade que, condicionando processos
objetivos e subjetivos, vai mediar a sociedade capitalista “em todas as suas
manifestações vitais”.262 No neoliberalismo, o ato de transformar as
características, as relações e as ações humanas em objetos (portanto, em coisas
negociáveis, que seriam - ou são imaginados como - independentes das pessoas e
sem relação com a dimensão humana) funciona como uma verdadeira condição
de possibilidade de um mundo tendencialmente sem limites ao lucro e à
obtenção de vantagens. O processo de reificação revela-se fundamental para
levar ao esquecimento construções históricas como a “vedação ética à
instrumentalização das pessoas” e a consciência de que algumas coisas deveríam
permanecer “fora do comércio”. Em outras palavras, o Estado, a sociedade e os
indivíduos precisam ser coisificados, em atenção à racionalidade neoliberal, para
que os objetivos do mercado sejam alcançados com maior facilidade.
É com o processo de reificação que as práticas e as relações humanas passam a
ser vistas como objetos externos e, portanto, como fenômenos alienados da
dimensão humana. Mesmo os entes vivos passam a ser tratados como objetos
inertes em uma abstração necessária à sociedade concorrencial. A reificação faz
da normatividade inerente às coisas o quadro normativo de todos os fenômenos.
Tudo é reduzido e deve ser tratado como uma coisa, um objeto que pode ser
negociado ou descartado. Na reificação, aquilo que deveria ser percebido como
móvel e dinâmico passa a ser tratado como algo estático e sem vida. E essa
coisificação passa a ser vista como um acontecimento natural, necessário e
imutável. Da transformação do trabalho em mercadoria no século XIX à
coisificação do corpo, que permite o crescimento do “mercado da carne” (no
qual o sexo, os órgãos e até a potencialidade reprodutiva tornam-se objetos a
serem explorados), tudo é exemplo de reificação e, portanto, de fenômenos
adequados à racionalidade neoliberal.
Como se vê, a racionalidade neoliberal vai ao encontro do antigo “sonho de
superar os limites da existência carnal, de abandonar o próprio corpo e adquirir
outro”.263 E, parafraseando Walter Benjamin, pode-se afirmar que essa
reificação torna possível que as pessoas entrem na época de sua
reprodutibilidade técnica.264 ou seja, trata-se de um processo que permite
transformar órgãos e pedaços do corpo humano em fontes de lucro. A norma
neoliberal que enuncia o dever de reificar, portanto, confirma a tese marxista de
que todas as coisas, morais ou físicas, adquiriríam “valor venal” e estariam
postas no mercado para serem negociadas.
Deve-se atentar que a transformação de tudo, inclusive da atividade humana, em
objeto negociável é um movimento análogo ao do fenômeno da fetichização do
objeto, o que fica evidente diante do fato do valor de troca se sobrepor ao valor
de uso. O fetichismo da mercadoria, que simboliza o esquecimento da história
do objeto, representa um dos mecanismos mentais mais importantes da
sociedade (re)construída sob o modelo do mercado. Pensar as coisas e as pessoas
desassociadas de suas histórias e de seus processos de formação é fundamental
para a liberdade de negociar e de obter lucros tendencialmente ilimitados. Essa
reificação tem transformado todas as esferas da vida social (política, jurídica,
religiosa etc.), que passaram a se articular e se relacionar com as outras esferas
do mundo-da-vida em termos de cálculos econômicos.
A atitude de tomar as relações intersubjetivas como trocas abstratas, em que as
características individuais das coisas e das pessoas são desconsideradas para
facilitar as negociações, os cálculos e a “livre” concorrência, também leva ao
esquecimento da história, das desigualdades sociais e do papel da classe social
dos envolvidos. Não se pode, portanto, ignorar a funcionalidade teórica e política
do fenômeno da reificação-coisificação. O mundo representado a partir da
racionalidade neoliberal (e, portanto, reificado) aparece como uma caricatura,
um mundo invertido em que as pessoas servem às coisas.
O interesse e a racionalidade neoliberal, uma espécie de racionalidade técnica e
instrumental que visa não só a dominação como a concorrência total, se mostram
incompatíveis com outras racionalidades fundadas sobre valores inegociáveis
(verdade, liberdade, ética). A alienação da humanidade, dentro de um mundo
que reproduz a ideia de um mercado dominado pelo fetichismo da mercadoria,
leva ao conformismo, à repetição e à massificação, de um lado, e à rejeição da
diferença e do modernismo estético, de outro.
O mundo reificado é tendencialmente totalitário, uma vez que busca concretizar
um projeto de supressão da alteridade e de reafirmação de uma espécie de
princípio da identidade: tudo aquilo que não pode (ou aceita) ser tratado como
objeto precisa ser descartado ou destruído. A sociedade neoliberal é uma espécie
de sociedade em que o cálculo e o autoritarismo são legitimados pela mesma
lógica, ou seja, são visões distintas de uma mesma realidade, de uma mesma
trama simbólico-imaginária.
A reificação, uma espécie tipicamente capitalista de esquecimento, só é possível
a partir da confusão entre o fundamento e a consequência, entre a causa e o
efeito. Assim, no capitalismo, e com mais intensidade ainda na era neoliberal, o
capital acaba confundido com o interesse, enquanto o trabalho, confundido com
a força de trabalho e reduzido a um salário, torna-se alheio ao seu produto.
Elementos e valores que não deveríam ser medidos por critérios econômicos
passam a sê-lo. Novos jogos de linguagem se instauram a partir de uma visão
econômica do mundo. Tudo passa a pertencer à mesma esfera: a das coisas
econômica do mundo. Tudo passa a pertencer à mesma esfera: a das coisas
avaliadas em dinheiro e, portanto, negociáveis e descartáveis.
A reificação e a simplificação do mundo, através do tratamento de todas as
coisas e das pessoas como mercadorias (portanto, meras positividades), são
idéias complementares e exigências de um mundo construído à imagem e
semelhança do mercado concorrencial. Nesse movimento, a fonte e os
fundamentos das coisas, em especial o trabalho e a exploração das pessoas,
acabam esquecidos, enquanto o valor é apresentado como produto do próprio
valor (o que, aliás, fica explícito no fenômeno do rentismo). No neoliberalismo,
aprofunda-se o esquecimento que faz com que as coisas se apresentempara alcançar os objetivos dos
detentores do poder, mas também como ameaças.
A racionalidade que condicionava a ação dos nazistas permitiu que o absurdo e a
loucura fossem percebidos por seus agentes como algo legítimo, natural e
necessário à sobrevivência do povo alemão. Ela também fez com que pessoas e
condutas passassem a ser compreendidas como ameaças.
No caso da Alemanha das décadas de trinta e quarenta do século passado, a
ameaça que o nazismo dizia combater era direcionada à raça e à natureza do
povo alemão; no caso do Brasil neoliberal do início do século XXI, a ameaça
que o bolsonarismo, uma manifestação do neoliberalismo ultra-autoritário,
afirma existir é voltada à família brasileira, um conceito cunhado a partir do
colonialismo, da escravidão e do sistema de privilégios que marca a história do
Brasil. Nos dois casos, a criação da ameaça e as formas de reagir a ela ligam-se
à hegemonia de uma racionalidade autoritária que substituiu um conjunto de
crenças, narrativas e visões de mundo democráticas.
O poder exercido de forma democrática, dentro de limites que têm por finalidade
evitar o arbítrio e a opressão, parte de uma racionalidade diferente daquela que
leva ao exercício autoritário do poder. Uma racionalidade democrática, ao
produzir uma normatividade e um imaginário marcados por valores, princípios e
regras democráticos, tende a reduzir o arbítrio e a opressão. Por outro, uma
racionalidade autoritária autoriza e permite naturalizar o exercício concreto de
poderes sem limites.
A depender da racionalidade hegemônica o poder pode ser exercido de várias
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A depender da racionalidade hegemônica o poder pode ser exercido de várias
maneiras, a partir de formas, intensidades e modalidades bem distintas. Também
a efetividade do controle do poder está relacionada com a racionalidade
hegemônica que condiciona a atuação das pessoas e das instituições que teriam a
possibilidade de impor freios ao arbítrio e à opressão. O Direito, por exemplo,
pode ser percebido como algo autônomo em relação ao fato do poder e utilizado
como um instrumento de garantia dos direitos e de manutenção dos limites
democráticos ou, ao contrário, pode ser utilizado como parte do conteúdo
normativo que justifica a opressão e projetos políticos distanciados dos
interesses da população. A funcionalidade da política, da moral e do direito
mudam de acordo com a racionalidade. As instituições mudam de acordo com a
racionalidade. As pessoas mudam de acordo com a racionalidade.
O poder é sempre a possibilidade de produzir uma modificação no mundo, em
especial na esfera de uma outra pessoa. Com o nascimento, ao ser lançada na
linguagem, cada pessoa adquire certa quantidade de poder. A linguagem é uma
condição de possibilidade para que o poder possa ser exercido. Há uma
dimensão comunicativa no exercício do poder. Ao exercer o poder, uma
comunicação se faz presente. Uma criança ao chorar exerce poder, desde que
esse choro produza uma mudança na ação de pelo menos uma outra pessoa. O
Édipo, na versão descrita por Freud e Lacan a partir da imagem da família
burguesa-patriarcal, é uma história de poder, no qual um terceiro (o pai) coloca
freio à pretensão de poder ilimitado do filho. Na teoria psicana-lítica, a partir do
Édipo bem-sucedido, a criança passa a perceber que a mãe não lhe pertence e
que o seu desejo e poder têm limites.
Mas esse poder inerente a cada pessoa soa insignificante diante de relações
complexas que ampliam o poder de pessoas ou entidades. Os conceitos de
Estado e de empresa, por exemplo, trazem em si as idéias de complexo de
poderes e reunião de esforços. E essa ampliação do poder, que pode se tornar
incontrastável, gera riscos aos demais indivíduos e às instituições. Não por
acaso, o Estado moderno surgiu da separação entre poder político e poder
econômico.^ Mas a transformação de súditos em cidadãos não fez desaparecer
todos os riscos inerentes à concentração de poder.
Ainda que de forma provisória, pode-se afirmar que a racionalidade é tanto o
estado ou a qualidade de agir a partir de razões quanto o conjunto de elementos
que explicam, condicionam e justificam essas ações e os fins visados. As razões
para agir são crenças ou idéias que se acredita estarem corretas e, mais do que
isso, compatíveis e adequadas às ações escolhidas e aos fins visados.
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Em um certo sentido, o conceito de racionalidade aproxima-se do uso corrente (e
do sentido “positivo”)6 atribuído ao termo “ideologia”, que designa um conjunto
de idéias ou mesmo a organização de opiniões, condutas e valores - uma maneira
de pensar concernente ao homem e à sociedade. Há uma evidente dimensão
ideológica da racionalidade na medida em que o modo racional de perceber e
atuar no mundo liga-se a uma visão de mundo.7 Todavia, a racionalidade não se
limita à ideologia, uma vez que é composta também por elementos não
ideológicos. Vale lembrar que as condições de produção do pensamento, que
servem para orga-nizá-lo, levam também ao surgimento de um conjunto de
idéias aceito pela maioria das pessoas.
Reflexões sobre a verdade ou a falsidade das imagens, idéias e crenças que
fazem parte de uma determinada racionalidade são acidentais. A rigor, a
falsidade ou os erros das premissas identificadas com uma racionalidade se
encontram veladas na relação entre essa racionalidade e o poder que é exercido
em concreto. O modo de ver e atuar no mundo existe e condiciona as ações
humanas independentemente da consciência (verdadeira ou falsa) das pessoas.
Há uma relação dialética entre as idéias e a realidade social no processo de
hegemonização de uma racionalidade. A racionalidade, portanto, se distingue
tanto da pura verdade quanto da pura mentira, tanto da consciência do real
quanto da falsa consciência, tanto da base material quanto da ideologia. É essa
formação dialética que envolve dados objetivos e construções ideológicas, que
ajuda a explicar o fato de uma racionalidade tornar-se adaptável a diferentes
contextos, sempre procurando dar sentido e condicionando o funcionamento da
sociedade.
A racionalidade, portanto, está ligada a uma espécie de programação para o
funcionamento da sociedade, que é positiva e, ao mesmo tempo, potencialmente
negativa, composta de verdades e também de mentiras. E essa programação leva
tanto a um imaginário, a um conjunto de imagens partilhadas, quanto a uma
normatividade, um conjunto de mandamentos de conduta.
A racionalidade também diz respeito à experiência e à ideia que procura dar
conta dessa experiência. Da mesma maneira que a ideologia contém elementos
de racionalidade, a racionalidade é construída de elementos ideológicos. Pense-
se nas justificativas para os privilégios da nobreza e para o poder do rei sobre a
vida dos súditos nos regimes monárquicos. Ou, ainda, nas explicações para a
desigualdade social no século XXL Qualquer tentativa de racionalização que
pretenda se tornar aceita pela maioria das pessoas vai conter elementos
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pretenda se tornar aceita pela maioria das pessoas vai conter elementos
ideológicos que permitam apresentar como racional o que é irracional. Não se
trata, por evidente, de uma falsa consciência que a si própria se basta, mas de um
determinado arranjo de elementos que não só justificam como também
condicionam a maneira como as coisas são percebidas e projetadas e as ações
são adotadas.
De igual sorte, não pode ser desconsiderada a relação entre as modificações
sociais, o poder e a racionalidade. Ao longo da história, as grandes mudanças nas
instituições da sociedade e na estrutura psíquica dos indivíduos se originaram da
relação entre limites e poder. Ou, em outras palavras, de novos arranjos desses
elementos que levam a novas racionalidades. A história das racionalidades é
também a história dos limites ao exercício do poder. Não por acaso, a ideia de
limite está presente em diversos mitos fundadores do Estado, como se percebe
tanto nas teoriascomo
fenômenos independentes de qualquer determinação social. Oculta-se, por
exemplo, que a propriedade privada é uma forma historicamente determinada.
Em contrapartida, é construído um imaginário de que nada pode ser feito para
mudar os rumos políticos e econômicos. O que é, na realidade, o resultado de um
contexto histórico-social, no neoliberalismo é apresentado como inerente à coisa.
Trata-se, evidentemente, de mais uma mistificação, facilitada pelo
desaparecimento da reflexão em razão de uma outra norma neoliberal, a que
enuncia o dever de simplificar e tornar “transparente” tudo aquilo que já foi
reduzido a uma coisa.
No capitalismo, a vantagem ou o lucro que é obtido com a exploração de
indivíduos e a extração do mais-valor é apresentado como o resultado “limpo”
dos fatores de produção. No discurso hegemônico do capitalista, o lucro não
guardaria relação com a exploração, nem mesmo com as pessoas envolvidas ou
com o contexto histórico-social. Com o aprofundamento da reificação produzido
pelo neoliberalismo, mesmo os fatores de produção são esquecidos, com o lucro
e o valor transformados em consequência do próprio valor e do mérito de cada
indivíduo (empresário-de-si).
A mídia e a indústria cultural também reproduzem o ambiente da reificação ao
mesmo tempo em que ajudam a introjetar a norma neoliberal. A repetição de
casos em que a regra é o tratamento de pessoas como coisas em jornais, revistas,
telenovelas, séries e outros programas leva à naturalização da reificação.
Esses sintomas ligados à coisificação das relações sociais, constitutivos da era
neoliberal, também são retratados em obras de ficção. Na produção de romances
e filmes é possível perceber uma estética e uma linguagem que revelam a
economização latente da vida cotidiana com personagens que tratam os outros
como objetos que podem ser usados e descartados. Autores como Michel
Houellebecq, Silke Scheuermann, Harold Brodkey, Arnon Grunberg, dentre
outros, em suas obras, apontam a reificação como a atmosfera em que se
desenvolvem movimentos egoicos e que negam a alteridade. Mesmo no campo
narrativo, o sujeito é transformado em mero objeto, isto é, ele passa a ocupar a
posição sintática de objeto no interior da narrativa de um outro sujeito. Também
no campo das ciências, em especial no desenvolvimento da neurociência, aposta-
se em uma percepção reificante da pessoa, com a redução dos sentimentos e das
condutas a meras reações das redes neurais, abstraindo o livre arbítrio, os saberes
do mundo-da-vida, a história e as qualidades individuais, o que significa tratar o
ser humano como uma espécie de autômato e, portanto, como uma máquina ou
coisa.265
A norma neoliberal que determina que tudo deve ser objeto de reificação liga-se
também ao fenômeno do reconhecimento. No neoliberalismo, as pessoas e os
objetos só precisam ser reconhecidos na medida em que podem servir de meios
para conseguir vantagens ou lucros. Percebe-se, pois, que se trata de um falso
reconhecimento, isso porque despido de seu conteúdo moral. Na realidade, esse
falso reconhecimento busca esconder o procedimento de instrumentalização
capitalista potencializado na era neoliberal. Se Adorno e Horkheimer estão
corretos ao afirmar que toda reificação é um “esquecimento”, pode-se
acrescentar que a normatividade neoliberal busca um grande “esquecimento
coletivo” como condição necessária à manutenção da hegemonia da respectiva
racionalidade. A norma que procura impor que tudo e todos devem ser tratados
como coisas é construída a partir de uma mutação valorativa que elevou o mais-
valor a objetivo final ou, em termos psicanalíticos, em “causa do desejo”. Vale
lembrar, como esclareceu Jacques Lacan, que o mais-valor (o lucro, a vantagem)
“é a causa do desejo da qual uma economia faz seu princípio”.266
Com a economia libidinal neoliberal, todos se transformam em potenciais
exploradores do outro e também em exploradores-de-si (embora acreditem ser
empresários, acabam por confundir “gestão da sobrevivência” com
“empreendedorismo”). Surge, no ambiente normativo neoliberal,
[...] uma forte tendência dos sujeitos a encenar determinados sentimentos e
desejos por motivos oportunistas a ponto de também serem realmente vividos
como componentes de sua própria personalidade -uma forma de
automanipulação emocional.267
O indivíduo neoliberal é levado, então, a naturalizar a busca de lucro ou de
vantagem obtidos de sobretrabalho não contabilizado. Em outras palavras,
busca-se levar vantagem ou, ao menos, a sensação de levar vantagem, ainda que
travestida de uma busca neutra por eficiência econômica. Para lucrar, o sujeito
neoliberal passa a negar o reconhecimento de direitos e, mais do que isso, passa
a negar também o reconhecimento do outro como um sujeito capaz de
comportamentos autônomos e críticos.
A racionalização neoliberal levou ao ponto máximo do processo de reificação
social, o que só se tornou possível a partir da mutação do simbólico com o
afastamento de limites éticos e jurídicos. No neoliberalismo,
desapareceram os bens e valores “fora-do-comércio”: tudo se tornou negociável
e, portanto, potencialmente descartável. Valores como “verdade” e “liberdade”,
por exemplo, tornaram-se objetos de negociação. O exemplo do instituto da
delação premiada, dispositivo jurídico presente em diversas legislações, no qual
um acusado, e mesmo uma pessoa já condenada por um crime, pode assegurar a
liberdade (ou outras vantagens) mediante o fornecimento da informação
desejada pelo acusador, é significativo.
A ideia de fetichismo da mercadoria, hoje, revela-se insuficiente para explicar a
ampliação do processo de reificação e a extensão da normatividade neoliberal.
Mais do que um efeito do fetichismo da mercadoria, a reificação é atualmente
uma consequência normativa da racionalidade neoliberal, que produziu uma
profunda mutação no simbólico a partir da incorporação da lógica da
concorrência e do primado dos cálculos de interesse. É a racionalidade
neoliberal, esse modo de ver e atuar no mundo, que autoriza a crença em uma
observação neutra dos fenômenos, fruto de um mero cálculo matemático, e
impede a experiência do pertencimento e da participação do sujeito como ator-
no-mundo.
Ainda sobre esse tratamento reificante conferido às pessoas, costuma-se afirmar
que ele começou a ser percebido com o aparecimento de novas formas de
trabalho por ocasião da Revolução Industrial. Com cada nova forma de trabalho
perdia-se um pouco da dimensão humana da produção, em especial a autonomia
do trabalhador. E esse processo de coisificação levou também tanto à alienação,
esse ato de tornar-se estranho a si mesmo, ao produto de suas ações e a outrem,
quanto a uma visão “empresarial” pautada pelas idéias de racionalidade
instrumental e governança por números. Gyõrgy Lukács tinha razão, portanto, ao
fazer uso da categoria weberiana da racionalidade para identificar a existência
de uma racionalização que funciona como motor e expressão da reificação
social, da “coisificação das relações sociais”.268
De fato, pode-se identificar uma relação direta entre o desenvolvimento dos
processos de produção e o surgimento de relações distanciadas e impessoais no
campo da socialização. Em apertada síntese, as pessoas foram levadas cada vez
mais a reproduzir nas relações sociais a lógica instaurada para regular a troca de
mercadorias e a obtenção de vantagens. Desapareceu, assim, a perspectiva da
solidariedade e do pertencimento a uma classe, substituídas por uma leitura de
mundo a partir de cálculos utilitários e egoístas. Deu-se, para a ampliação da
lógica capitalista, a necessidade de padrões de comportamento egoístas,
indiferentes e tendencialmente reificantes.
A racionalidade neoliberal, por sua vez, reconhece a reificação do mundo como
uma realidade necessária, o que leva à produção de uma normatividade que
enuncia que “tudo e todos devem ser tratados como coisas”. Essa norma tem a
funcionalidade de impedir tanto juízos críticos quanto um engajamento
transformador da sociedade e, em última análise, bloquearcontratualistas^ quanto na descrição freudiana do assassinato do
“Pai da horda”.^
A Grécia Antiga e a Europa moderna são exemplos de casos em que os limites
fixados ao poder marcam um modelo de organização social que viveu um
movimento de expansão até os anos trinta e quarenta do século XX. Foi a
mudança no modo de ver o mundo (poder-se-ia dizer: uma mudança da
racionalidade), ocorrida no momento em que as primeiras pessoas começaram a
perguntar sobre a justiça das leis ou se os deuses do Olimpo realmente existiam,
que levou à incorporação de limites à tradição ocidental.
Depois, no fim da Idade Média, no momento em que os protoburgueses
perceberam que a realização de seus interesses exigiría a formação de
comunidades políticas e de órgãos de governo que impedissem o arbítrio do
príncipe, da Igreja ou do senhor feudal, outros limites foram fixados. A fixação
desses limites correspondeu também à origem de uma série de direitos da
população e levaram a profundas modificações no funcionamento das
instituições e também no subjetivismo individual. Em um certo sentido, o
estabelecimento de limites para impedir a opressão e a barbárie se identifica com
a própria ideia de cultura e de civilização.
Hoje, por exemplo, com a transformação de cidadãos em consumidores acríticos,
a concentração de poder econômico aparece como uma ameaça à democracia, na
medida em que tende à produção de distorções como a cooptação do poder
político pela potência econômica. O detentor do poder econômico pode não só
“comprar” o apoio do poder político - e isso se faz de diversas maneiras, desde
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doações legais à campanha dos políticos até formas explícitas de corrupção -
como também exercer diretamente o poder político, como o fizeram Silvio
Berlusconi, na Itália, ou Donald Trump, nos Estados Unidos, dentre outros. Mas
não é só. A concentração de poder econômico leva também à submissão dos
interesses da população diante da sedução do dinheiro, ao surgimento de
oligarquias industriais e à primazia das oligarquias financeiras, que lucram a
partir do fenômeno do capitalismo improdutivo (rentismo).
i.2. Governo, projetos e racionalidade: sobre
revoluções culturais
A própria ideia de governar™ liga-se diretamente à problemática dos limites ao
exercício do poder. O exercício da soberania política, inerente às ações de
governo, não passa de uma manifestação de poder. Não raro, sob o disfarce do
exercício da soberania, da defesa da sociedade ou da salvação de um povo, o
exercício abusivo do poder se faz naturalizado. A racionalidade nazista, por
exemplo, só se tornou hegemônica a partir de um contexto em que os alemães se
sentiam humilhados e ameaçados, o que facilitou a internalização dos mitos
raciais, o reforço dos preconceitos já existentes e a aceitação das medidas
propostas pelos ideólogos do nacional-socialismo que as apresentavam como
naturais à defesa da Alemanha e à sobrevivência do povo alemão.
Pode-se apontar que o livro Mein Kampf não passa de um pot-pourri de idéias e
preconceitos correntes no momento em que foi escrito por Hitler. A manipulação
dessas idéias e desses preconceitos já presentes na sociedade alemã levaram a
uma nova visão de mundo e à naturalização de práticas condicionadas pela
racionalidade que conduziu ao fenômeno nazista. Uma racionalidade, para se
tornar hegemônica, nunca é obra de um só homem ou de um pequeno grupo de
pessoas, mas de dezenas de milhares de produtores, ideólogos, políticos,
jornalistas, juizes, intelectuais, artistas e outros influenciadores que elaboram ou
divulgam as idéias e imagens típicas dessa racionalidade. Há, portanto, uma
espécie de revolução cultural para adequar o modo de pensar e sentir da
população, bem como os atos e projetos de governo, à nova racionalidade.
Em certo sentido, pode-se dizer que cada racionalidade, ao se tornar
hegemônica, tende a produzir uma revolução cultural: a naturalização de um
novo modo de pensar e agir, bem como novas leituras da história, novas políticas
e novos projetos para o futuro. Com o nazismo não foi diferente. Mais do que
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somente um projeto de poder, o nazismo pretendeu instaurar uma revolução
cultural capaz de naturalizar as medidas necessárias ao projeto e à visão de
mundo nazista. O fato de uma pessoa ser vista e tratada como um objeto
descartável ou como uma ferramenta ou fator de produção útil (passível de ser
substituída) só foi possível a partir dessa revolução culturally
Tem-se com a hegemonia de uma racionalidade tanto uma nova visão sobre o
passado quanto novas perspectivas (projetos) para o futuro e para o Estado.
Novos relatos e modificações profundas no campo normativo acompanham esse
processo de construção da hegemonia. Tanto quanto as normas jurídicas,
também todo o campo da moralidade tende a ser reformado através de novas
compreensões e categorias que modificam o pensamento e permitem a ação, a
dominação e até o extermínio. De igual sorte, o exercício da soberania política se
modifica a depender da racionalidade que condiciona as ações do governo.
A visão nazista sobre o passado, por exemplo, foi construída a partir de
preconceitos e pré-compreensões (ligadas a fenômenos diversos como o
colonialismo, a escravidão, o racismo, a exploração econômica e o desprezo
pelas diferenças) que produziram uma releitura dos episódios históricos e da
mitologia antiga (as conquistas gregas, por exemplo, passam a ser incorporadas
aos feitos nórdicos e germânicos), condicionada tanto por uma angústia
biológica quanto por preocupações apocalípticas que reservavam à raça alemã o
papel de vítima de ataques e da desnaturalização promovida por influências
culturais e biológicas estrangeiras (o iguali-tarismo, o direito romano, a
Revolução Francesa, os casamentos inter-raciais etc.).
A preocupação apocalíptica que integrava o modo de pensar dos nazistas (e de
todos aqueles que exploram a metáfora bélica do nós contra eles), por sua vez,
levou a um determinado modo de exercício da soberania política que procurava
expandir a revolução cultural nazi para além dos limites da Alemanha em nome
da defesa da pátria e da raça. Assim, a concepção de que era importante
abandonar os ideais universalistas e os valores ligados à igualdade, à
fraternidade e ao humanismo que, segundo a lente nazista, teriam desfigurado o
modo de pensar alemão, levaria a uma nova visão de mundo em que o valor raça
deveria ser encarado como superior e, portanto, como capaz de justificar a guerra
contra os indesejáveis segundo a lei de sangue. Uma guerra, também cultural,
que asseguraria o espaço vital ao povo e aos valores alemães, bem como
permitiría um reino de paz.
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Acreditar que os crimes e a barbárie nazista foram obras de monstros e loucos,
de uma época e de um país distantes, é algo que conforta e tranquiliza as
consciências. Todavia, não faltam sinais a apontar o equívoco dessa crença e a
reforçar a necessidade de compreender o funcionamento do Estado, os projetos
de governo e a dinâmica da sociedade à luz da racionalidade hegemônica em
cada momento da história. Em importante pesquisa, publicada em 1950, Theodor
Adorno, Daniel Levinson, Nevitt Sanford e Else Frenkel-Brunswik revelam que
as convicções políticas, econômicas e sociais de grande parte da população
norte-americana (o que se poderia chamar de imaginário norte-americano) eram
muito próximas da visão de mundo dos alemães que aderiram ao nazismo.^ As
convicções dos nazistas, compartilhadas por pessoas de diversas partes do
mundo, iam ao encontro de preconceitos enraizados nas sociedades, bem como
forneciam respostas simples (e, no mais das vezes, ineficazes) para medos
compartilhados pela população.
É importante lembrar que a crise econômica, a perda de status e a fome de
parcela considerável da população serviam para dar credibilidade à leitura,
distorcida pela lente nazista, de que o povo e os valores alemães estavam
ameaçados por fenômenos tão distintos quanto a Revolução Francesa e o
comunismo soviético, oscomerciantes judeus e as abstrações do direito romano.
Não se pode estranhar, portanto, que tanta gente, dentro e fora da Alemanha,
tenha acreditado que as medidas e posições políticas adotadas pelos nazistas
eram não só naturais como também necessárias à sobrevivência. O resultado
dessa adesão acrítica ao projeto nazista é conhecido (e lamentado) por muitos.
Todavia, não é preciso muito esforço para perceber o risco gerado pela
reprodução acrítica da lógica inerente a uma racionalidade. Basta, por exemplo,
perceber a semelhança entre a ilimitação nazista da década de 1930 e a rejeição a
qualquer limite externo inerente à racionalidade neoliberal, hoje hegemônica.
Tanto quanto os atuais ideólogos neoliberais, os nazistas também apostavam em
cálculos de interesse e na técnica como parte importante de sua ideologia. Hoje,
se substituirmos as idéias de raça alemã e lei do sangue por tradicional família
brasileira e moral brasileira ou a demonização dos judeus pela de esquerdistas,
gays e lésbicas, alguns discursos frequentes nos anos 1930 na Alemanha
pareceríam estranhamente “familiares” aos brasileiros sob o governo de Jair
Bolsonaro, submetidos ao neoliberalismo ultra-autoritário.
Para além do crescimento de movimentos explicitamente neonazistas, há um
grande perigo em ignorar os riscos inerentes ao modo de pensar e agir que levou
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ao nazismo, o que dele ainda permanece nas sociedades contemporâneas e a
forma como esse conjunto discursivo, normativo e ideológico é atualizado e
reproduzido nos dias de hoje. Por evidente, não basta perceber o ridículo que se
revela em performances escandalosamente copiadas da estética nazista, mas de
compreender e desvelar o perigo que se esconde em discursos e práticas que
partem das mesmas premissas, perversões e princípios que inspiraram os
criminosos nazistas. Em recente e polêmico livro (Libres d’obéir. Le
management, du nazisme à aujourd’hui. Paris: Gallimard, 2019), o historiador
francês Johann Chapoutot revela que várias práticas comuns à gestão neoliberal
se desenvolveram durante o auge do III Reich. Idéias e exigências como as de
flexibilidade, elasticidade, capital humano e performance estavam presentes nas
diretivas de nazistas importantes como Herbert Backe. Backe, como muitos
outros nazistas (e como muitos dos gestores e empreendedores de hoje),
acreditava que o mundo era uma arena em que tudo era válido para vencer. O
caso de Reinhard Hõhn (1904-2000) também é significativo. Jurista e intelectual
tecnocrata a serviço do III Reich, Hõhn alcançou o posto de general
(Oberführer) e, após o fim da guerra, fundou o principal instituto de gestão da
Alemanha, que acolheu ao longo das últimas décadas a elite econômica e
patronal do país. Se é verdade que o conceito de gestão é anterior ao nazismo,
não há como negar que durante os doze anos do III Reich as técnicas de gestão
de recursos e de pessoal sofreram profundas modificações que serviram de
modelo para as teorias e práticas no pós-guerra.
O Estado é um dos veículos para a sedimentação e a permanência da visão de
mundo e dos projetos condicionados pela racionalidade hegemônica. Não por
acaso, o fascista Benito Mussolini escreveu que
[...] o Estado não é apenas a Autoridade que governa e confere forma legal e
valor espiritual às vontades individuais, mas também o Poder que faz sentir e ser
respeitada a sua vontade para além das próprias fronteiras, assim fornecendo
prova prática da natureza universal das decisões necessárias para garantir seu
desenvolvimento.
O Estado total, sonhado por fascistas e nazistas, levaria ao exercício da soberania
política direcionado à alteração tanto da normatividade quanto do imaginário
popular para produzir uma nova visão de mundo: uma revolução cultural
antiliberal, anticomunista e autoritária.
Em princípio, o exercício da soberania política, como toda manifestação de
poder, pode encontrar limites externos, impostos de fora por um terceiro, ou
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poder, pode encontrar limites externos, impostos de fora por um terceiro, ou
limites internos, que se originam de circunstâncias relacionadas à própria prática
governamental. A racionalidade que condiciona a atuação dos governantes, por
sua vez, pode servir tanto para limitar quanto para ampliar o exercício do poder,
tanto para instaurar mecanismos de controle democrático quanto mecanismos
paranóicos, em que a única lei a ser respeitada é a vontade do governante; tanto
para reconhecer a pluralidade quanto para demonizar a diferença.
Para além de identificar as escolhas políticas dos governantes, que são muitas
vezes disfarçadas de medidas técnicas, torna-se, portanto, importante identificar
a racionalidade que condiciona o exercício do poder nas diversas agências
estatais (Congresso, ministérios, Poder Judiciário, Ministério Público etc.). Em
outras palavras, é fundamental entender a racionalização que leva à prática
governamental e, não menos importante, compreender o modo como se dá o uso
(e o abuso) do poder na sociedade e a maneira como o cidadão percebe o
exercício do poder na prática governamental concreta. Cada racionalidade, como
já se viu, significa um modo diferente de ver e atuar no mundo.
Por exemplo, é impossível entender os mecanismos de poder atuais sem atentar
para o fenômeno do neoliberalismo, essa racionalidade governamental, essa
normatividade e esse imaginário que se originam da premissa de que o mercado
é o modelo para todas as relações sociais, o que demonstra uma sociabilidade
marcada pela concorrência e a crença de que tudo (e todos) pode(m) ser
negociado(s).
Para identificar a racionalidade que condiciona tanto os agentes estatais quanto a
percepção da população acerca do exercício do poder é necessário focar no
mundo-da-vida,21 mais precisamente, no acontecimento do poder como ele se
faz presente na vida concreta das pessoas que o exercem e das pessoas que se
submetem a ele. O neoliberalismo, por exemplo, não pode ser reduzido às
teorizações econômicas de seus “pais fundadores” (Mises, Hayek, Friedman etc.)
e nem pode ser encarado como um produto acabado, com elementos duros e
estanques. Mais do que uma teoria, o neoliberalismo, como toda racionalidade,
produz efeitos na vida das pessoas porque se apresenta como um modo de pensar
que leva a uma determinada forma de exercer o poder.
A análise do sistema penal pode ajudar a compreender o método aqui sugerido.
Para entender a relação entre uma determinada racionalidade e o funcionamento
do sistema penal não há que se partir de teorias penais e nem de legislações ou
instituições tomadas em abstrato, mas de situar e relacionar a utilização desses
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instrumentos por pessoas concretas contra pessoas concretas em meio ao que se
convencionou chamar de “sistema de repressão”. Mais importante do que a
abstração é a análise do ato de poder, das consequências do exercício do poder
penal sobre “pessoas de carne e osso”, e do desvelamento da funcionalidade que
se esconde através dos discursos oficiais. Em outras palavras, para perceber
como uma racionalidade condiciona o sistema penal é preciso perceber o uso que
se faz das teorias, das leis e das agências estatais, relacionando-as com as
mudanças produzidas na subjetividade dos atores estatais que exercem os atos de
poder voltados à restrição da liberdade individual. Cada racionalidade
hegemônica tende a levar a respostas diferentes às questões que buscam
esclarecer quem reprime, quem é reprimido, o que se reprime e por que se
reprime em concreto de uma determinada maneira e não de outra, isso porque
levam a mudanças estratégicas dentro das relações de força em uma sociedade.^
Tentar abandonar os condicionamentos produzidos por dogmatismos ou
esquematismos, que tentam simplificar e enrijecer fenômenos que são
essencialmente complexos e plásticos, é uma condição para a possibilidade de se
entender o que se esconde em cada ato de poder, o que as diversas manifestações
de poder têm em comum e, se forpossível, encontrar uma lógica interna de
atuação que leve ao exercício do poder de um determinado modo em uma
determinada época. Dizendo de outro modo, é preciso buscar, na complexidade e
plasticidade com que o poder é exercido, os sinais que permitam identificar a
emergência de um certo tipo de racionalidade: uma racionalidade que permita,
em certa medida, prever e regular a maneira como o poder será exercido sobre
qualquer coisa ou pessoa e como o poder vai se exteriorizar nas agências estatais
e nas relações entre os indivíduos.
Para começar a identificar as modificações no exercício do poder na esfera
estatal é possível seguir o caminho sugerido por Michel Foucault^ e partir
daquilo que se convencionou chamar de “razão de Estado”, um conjunto de
práticas ligado a um objetivo e que exterioriza uma das primeiras
racionalizações sobre o exercício do poder.
1.3. A razão de Estado: poder de polícia e vale-tudo
A razão de Estado se situa entre o Estado concreto e como ele deveria ser. A
razão de Estado, portanto, foi percebida por Foucault como uma racionalidade
que passou a condicionar as ações do Estado com o objetivo de permitir, de uma
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maneira refletida e calculada, que se alcançassem os objetivos estatais, tornando-
o sólido, próspero e forte para fazer frente a tudo que possa destruí-lo.
A expressão “razão de Estado” surge no Renascimento tardio, em geral,
relacionada ao uso da força pelos governantes, que buscavam atingir os objetivos
estatais, conservar e garantir a ordem de determinado principado ou sociedade.lZ
A partir de uma determinada compreensão do Estado, que priorizava os
objetivos e fazia uso indiscriminado dos instrumentos à disposição dos
governantes, exercia-se o poder em atos que não encontravam limites pré-
estabelecidos. A razão de Estado, que se liga principalmente à exigência de
assegurar a segurança do Estado, levava os governantes a determinados modos
de atuar que eram naturalizados em um certo contexto. Essa naturalização, como
se verá, é efeito de um imaginário, de uma imagem que, apesar de estar no
campo perceptivo, não é objeto de reflexão porque não interessa, pois é
percebida como ordinária e familiar. Durante a hegemonia da razão de Estado, a
imagem do uso livre da força estatal e a ideia de uma força incontrastável a
serviço do governo tornaram-se familiares.
Em apertada síntese, pode-se apontar que os governantes consideram estar diante
de uma missão ou razão superior (a razão de Estado), que os autorizaria a se
comportar e a agir sem limites na busca de um determinado resultado. Ainda
hoje, esse modo de pensar e agir que evoca interesses superiores como
justificativa para aquilo que seria em princípio inaceitável está presente em
governos autoritários.
Essa racionalidade, que tende ao abuso e ao arbítrio, assume hegemonia no curso
do século XVI, caracte-rizando-se pelo fato do Estado passar a ser definido
como uma realidade específica e autônoma (ao menos, relativamente
autônoma).18 E isso se dá a partir da reiteração de um certo número de práticas,
de uma certa maneira de governar e da constituição de instituições adequadas a
essas práticas e a essas maneiras específicas de governar que se relacionam com
os objetivos superiores atribuídos ao Estado.
Essa racionalidade conhecida como razão de Estado, para alcançar seus
objetivos, incorporou o mercantilismo, que pode ser entendido como uma forma
de governo dos assuntos econômicos. Mais do que uma doutrina econômica, o
mercantilismo revela uma certa organização da produção e dos circuitos
comerciais segundo o princípio que enuncia a necessidade do Estado enriquecer
para, depois, se reforçar com o crescimento da população, gerando mais
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soldados e pessoas interessadas no comércio e, por fim, conseguir entrar e se
manter em um estado de concorrência permanente com os demais Estados, vistos
como outros centros de exercício de poder.
De um lado, o mercantilismo, do outro, a necessidade de uma gestão interior dos
interesses do Estado, que se faz através do que hoje se costuma chamar de poder
de polícia: o poder de controlar a população de um Estado segundo um modelo
de ordem. O objeto do poder de polícia é, em razão do que se espera dele, quase
infinito. Dito de outra forma, a partir da geração de um poder, de um complexo
de forças voltado ao objetivo de controlar os indivíduos (e do monopólio desse
poder), abre-se a possibilidade para um rol de medidas praticamente infinito a
disposição dos detentores desse poder, e que se justificariam a partir dos fins
positivos do Estado de polícia. Para fazer o bem e manter a ordem, praticamente
tudo é permitido, segundo a lógica da razão de Estado e do poder de polícia.
Antes de avançar sobre a história, que envolve a identificação da racionalidade
hegemônica em cada período histórico, vale insistir que o Estado, a sociedade e
o indivíduo não devem ser pensados como meras abstrações. O Estado é,
sobretudo, aquilo que se exterioriza através de uma certa maneira de governar
ou, mais precisamente, de uma determinada maneira de exercer o poder por
determinadas pessoas em uma determinada sociedade. O fato do Estado, ao
longo da história, ter servido à manutenção do sistema capitalista, permite
identificar uma forma jurídica e uma maneira de exercer o poder político que faz
dele um instrumento voltado à manutenção de um determinado modelo político e
econômico, que mira na preservação da propriedade privada, no funcionamento
do livre-mercado, na manutenção da lógica da concorrência e no enriquecimento
dos detentores do poder econômico. O Estado que hoje precisa ser pensado e
compreendido é o Estado capitalista. Poderia ter sido diferente, mas não foi. É o
Estado concreto, como ele funciona e a quem ele atende, que merece uma
abordagem crítica.
Vale lembrar, por oportuno, que toda a análise de Marx sobre o Estado parte da
forma concreta de como o poder estatal era (e ainda é) exercido e sentido. Isso
fez com que o Direito, o conjunto normativo estatal com pretensão de regular
tanto o comportamento individual quanto a atividade do Estado, tenha sido
tratado como uma forma social relacionada ao processo de valorização do valor.
O capitalismo, em apertada síntese, é esse fim em si de transformar dinheiro em
mais dinheiro, e, para Marx, o Estado existiría para atender a esse objetivo. A
obra marxiana permite, ainda, identificar que as exigências normativas existiam
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e ainda existem, mas são irrelevantes (e ignoráveis) para os detentores dos meios
de produção (o que importa para eles é apenas transformar dinheiro em mais
dinheiro). Ao longo da história, os detentores do poder econômico sempre
esperaram (e ainda esperam) utilizar o Estado, e inclusive o Direito, para manter
suas posições privilegiadas e permitir que ganhem ainda mais dinheiro.
A forma jurídica “Estado”, historicamente comprometida com a manutenção das
estruturas do modelo capitalista, não é eterna. Ela pode ser abandonada. Mas,
para compreender a racionalidade hegemônica no Estado, que leva às ações das
agências estatais, é fundamental perceber que o Estado só merece atenção a
partir da maneira como o poder político é exercido em concreto. E essa maneira
de exercer o poder político depende de uma determinada racionalidade, de uma
espécie de programa que leva a um modo de compreender e agir. Da mesma
maneira, as agências estatais (Poder Judiciário, agências reguladoras, fundações
públicas etc.) só podem ser compreendidas a partir do que os atores estatais
fazem (ou podem fazer) delas.
Ações estatais voltadas à redução da desigualdade e ações políticas direcionadas
à acumulação de capital são o resultado de opções políticas que, em princípio,
atendem a diferentes racionalidades. A partir da constatação de que a
funcionalidade e os fins do Estado dependem do modo específico de como o
poder político é exercido, o que se dá em um determinado contexto a partir da
internalizaçãode valores e concepções sobre as melhores práticas e objetivos,
reforça-se a necessidade de entender como se desenvolve essa certa maneira de
exercer o poder, as nuances do modo como ele é exercido, quem ganha com isso,
quem perde, qual é a história que levou à hegemonia dessa maneira de agir,
como são desenvolvidas novas práticas, qual a perspectiva de superação dessa
racionalidade etc.
A identificação da razão de Estado como uma racionalidade parte da premissa
de que a ela corresponde uma determinada maneira de exercer o poder, um
conjunto de crenças sobre a finalidade do Estado e a natureza dos governantes,
um rol de práticas tidas como racionais e, em especial, uma forma de encarar a
relação entre poder e limites aos governantes. Em linhas gerais, permanece
íntegra a afirmação de que cada Estado deve se autolimitar a partir de seus
próprios objetivos, bem como assegurar sua independência (soberania) e
acumular forças que permitam não se encontrar em situação de inferioridade em
relação aos outros países e impotente em relação à própria população. O Estado
deve, portanto, ter condições de exercer poder suficiente para manter a ordem
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interna e, ao mesmo tempo, se manter competitivo no plano internacional. No
século XVII tivemos o aparelho diplomático-militar, que surgiu dessa espécie de
autolimitação externa do exercício do poder (a necessidade de se relacionar com
potências externas), servindo à coordenação entre esse princípio da
autolimitação do Estado e o princípio da concorrência necessária entre os
diferentes Estados.
Se na relação com os outros Estados, em razão dos poderes que os outros países
podem exercer (poder econômico, bélico, simbólico etc.), cada Estado mostra
limites, o mesmo não pode ser dito em relação ao exercício do poder na esfera
interna. Tem-se, nesse particular, as condições para o surgimento do que se
convencionou chamar de Estado de Polícia, um modelo que se caracteriza pelo
exercício do poder de interferir na esfera de terceiros, sem a existência de
limites, para dar conta de uma série de problemas e atender a uma série de
objetivos não bem definidos e potencialmente ilimitados. Os detentores do poder
político, ao exercerem o poder de polícia, que é a principal manifestação da
razão de Estado, podem produzir efeitos sobre um número enorme de
indivíduos, em diferentes intensidades e em variados aspectos de suas vidas.
Pode-se afirmar, e os tratados que abordam o poder de polícia nos séculos XVII
e XVIII deixam isso evidente, que a razão de Estado, entendida como uma
racionalidade governamental, levava a objetivos limitados em relação aos outros
Estados. Isso em consequência do fenômeno da concorrência entre os Estados,
que limitava os desejos de onipotência dos detentores do poder político. Por
outro lado, a razão de Estado autorizava objetivos ilimitados no interior do
Estado, o que significava, não raro, quadros de despotismo e de arbítrio contra
indivíduos ou grupos de indivíduos percebidos como indesejáveis. Percebe-se,
pois, que o mecanismo da concorrência entre os Estados poderia funcionar como
um elemento limitador do poder, mas essa necessidade de autolimitação do
exercício do poder em relação a outros Estados sempre contrastou com a
tendência à ilimitação no exercício do poder no interior das fronteiras do Estado.
Essa tendência à ilimitação do exercício do poder de polícia, do poder exercido
para o controle social dentro dos limites de um Estado, nunca deixou de existir.
Até hoje, ao se recorrer aos discursos securitários, que pretendem substituir o
valor liberdade pelo valor segurança, os governantes buscam retomar a tradição
da razão de Estado. Aliás, a permanência da ideologia da defesa social, que
busca naturalizar o exercício do poder no interior de um Estado em nome da
defesa da sociedade, ainda que fora dos marcos legais, é um bom exemplo dessa
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permanência autoritária. Ainda hoje, tanto à direita quanto à esquerda do
espectro político (échiquier politique), não são poucos os governantes que
defendem o afastamento dos limites democráticos ao exercício do poder (em
especial a desconsideração dos direitos e garantias fundamentais), apontando-os
como obstáculo à eficácia estatal no tratamento de indivíduos etiquetados de
perigosos ou suspeitos.
Aliás, o tratamento jurídico dado ao poder de polícia ao longo do tempo
demonstra que a razão de Estado nunca chegou a ser completamente
abandonada. Por vezes, apostou-se no controle do poder de polícia através das
regras do jogo próprias do Estado Democrático de Direito, tais como o respeito
aos direitos fundamentais, o controle da função administrativa de polícia pelo
exercício independente da função jurisdicional, a atenção às formas processuais,
a atuação estatal adstrita ao princípio da legalidade estrita etc. Em outras
oportunidades, permitiu-se que o poder de polícia fosse exercido sem pudor,
limite ou controle efetivo com o objetivo de controlar a população, em especial
aqueles que são considerados indesejáveis aos olhos dos detentores do poder
político, em especial os pobres e o inimigos políticos dos detentores do poder.
As teorias do tipo normativo de autor (Tãtertyp), durante o nazismo na
Alemanha, e do inimigo do povo, desenvolvida na União Soviética durante o
período stalinista, para citar dois exemplos, partiam da mesma premissa que
fundamentava a razão de Estado e procuravam dar feição legítima ao exercício
arbitrário do poder contra parcela da população.
Como percebeu Walter Benjamin, o poder de polícia é exercido sempre que o
Estado (ou, mais precisamente, os detentores do poder político) não está em
condições de alcançar (por impotência ou por limitações inerentes ao
ordenamento jurídico) os fins empíricos que deseja realizar a qualquer preço.f^
O poder de polícia é justificado por questões de segurança. O significante
“segurança” passa a se identificar com os fins desejados pelos detentores do
poder político, o que facilita a permanência do poder de polícia como uma figura
espectral e difusa sempre presente na vida dos Estados civilizados.^ Pode-se,
portanto, apontar a razão de Estado como o antecedente lógico e teórico de todo
discurso (e prática) fundador da ideologia securitária.
Com a razão de Estado, e mais precisamente com o poder de polícia, desaparece
a diferença entre a violência que cria as condições para a lei, a que conserva a lei
e a contrária à lei. O poder de polícia não guarda uma relação necessária com o
objetivo de criar condições para a lei ou de conservá-la, ele é uma manifestação
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da violência sem compromisso com a lei. No modo de pensar e agir
condicionado pela razão de Estado, violência estatal tendería a ser percebida
sempre como legítima, pois, em última análise, serviría a uma finalidade
superior que, para ser alcançada, poderia exigir até a violação da lei.
Da mesma maneira que a concorrência entre Estados serve de limite aos
governantes, é possível identificar que diversos outros fatores interferem no
exercício do poder. Do ponto de vista teológico, Deus pode tanto legitimar
quanto deslegitimar o exercício do poder. Lutero, por exemplo, justificava o
direito divino do príncipe (e, em consequência, o exercício do poder) em
consequência da “natureza corrupta” dos homens. Não por acaso, no século XVI,
as grandes monarquias (França, Inglaterra e Espanha) disputavam com o Papa a
palavra do Pai (potentia absoluta). Ainda hoje, o discurso da luta do bem contra
o mal se apresenta como justificativa teológica para abusos e arbítrios em nome
do bem.
Como acontece com a imagem de Deus, também o poder bélico e o poder
econômico de um ente funcionam como fatores com potencial de limitar o
exercício do poder de outros entes. Do ponto de vista geopolítico, o poder
econômico e o poder bélico de um país podem reduzir a