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1.	 prefacio:	levar	o	neoberalismo	a	serio
2.	 apresentaÇão
3.	 introdução:
1.	 i-4•	A	racionalidade	liberal:	promessas	de	liberdade
2.	 1.7.	O	nascimento	do	neoliberalismo
3.	 1.1o.	As	resistências	neoliberais:	mudar	para	dominar
4.	 2.2.	Poder,	norma	e	neoliberalismo
1.	 224	Carvalho,	Saio.	Aplicação	da	pena	no	Estado	de
5.	 3-5-	Tudo	é	impossível	de	mudar
Contra	a	miséria	neoliberal	Rubens	Casara
prefacio:	levar	o	neoberalismo	a	serio
apresentaÇão
introdução:
i-4•	A	racionalidade	liberal:	promessas	de
liberdade
1.7.	O	nascimento	do	neoliberalismo
1.1o.	As	resistências	neoliberais:	mudar	para
dominar
2.2.	Poder,	norma	e	neoliberalismo
224	Carvalho,	Saio.	Aplicação	da	pena	no
Estado	de
3-5-	Tudo	é	impossível	de	mudar
PREFACIO:	LEVAR	O	NEOBERALISMO	A
SERIO
Christian	Lavalj
Fala-se	constantemente	do	neoliberalismo,	atribuindo-lhe	significados	muito
diferentes	uns	dos	outros,	numa	espécie	de	inflação	verbal	descontrolada.
Rubens	Casara	tem	razão	em	escrever	que	“o	significante	‘neoliberalismo’	é
usado	de	tantas	maneiras	que	acaba	por	se	tornar	uma	espécie	de	conceito
‘guarda-chuva’,	um	nome	vago	e	impreciso”.	Tal	imprecisão	é	uma	fonte	de	erro
no	diagnóstico	e	também	na	resposta	política	ao	fenômeno.	Por	conseguinte,
qualquer	trabalho	acadêmico	que	vise	definir	rigorosamente	o	neoliberalismo	e
colocá-lo	de	novo	no	centro	da	discussão	é	uma	salvação	pública.	Esse	é	o	caso
do	livro	de	Rubens	Casara	que	estás	prestes	a	ler.	O	autor	oferece	ao	leitor
brasileiro	uma	entrada	extremamente	clara	em	toda	uma	série	de	análises	e
pesquisas	que	compõem	o	que	poderia	ser	chamado,	para	usar	uma	expressão
inglesa,	studies	que	se	desenvolvido	há	cerca	de	vinte	anos	em	nível	internacional.
Esses	estudos	permitiram	corrigir	uma	série	de	erros,	como	o	que	consiste	em
identificar	o	neoliberalismo	com	uma	completa	abstenção	do	Estado	na	vida
econômica	e	social.	O	neoliberalismo	não	é,	e	nem	pode	ser,	no	plano	da	prática
algo	“anti-estado”,	como	proclamado	por	doutrinas	que	são	mais	ligadas	ao
libertarismo	do	que	propriamente	neoli-berais.	É	preciso	dar	ao	termo	o	sentido
mais	exato	que	se	encontra	presente	nos	trabalhos	de	pesquisa	inspirados	pelas
intuições	de	Michel	Foucault:	de	um	certo	tipo	de	governo	de	indivíduos,	que,
por	sua	vez,	exige	um	certo	exercício	de	poder	por	meio	de	um	Estado	forte,
autoritário,	por	vezes	violento,	que	visa	uma	nova	articulação	entre	as	esferas
pública	e	privada.	Dizer	que	esse	Estado	neoliberal	está	a	serviço	da	dominação
capitalista	ngo	suficiente.	A	afirmação	é	demasiado	geral	e,	além	disso,	não	é
muito	nova.	O	Estado	neoliberal	é	um	instrumento	de	transformação	de	toda	a
sociedade,	mesmo	em	domínios	da	existência	que	não	estão	retamente
implicados	na	acumulação	de	capital,	como	se	o	seu	objetivo	final	fosse	uma
transformação	global	da	sociedade	de	acordo	com	as	normas	do	mercado	e	do
funcionamento	das	empresas.
E	é	mesmo	a	metamorfose	do	ser	humano	que	está	em	questão	com	a	extensão
universal	da	lógica	da	concorrência	e	a	identificação	de	cada	indivíduo	com	um
universal	da	lógica	da	concorrência	e	a	identificação	de	cada	indivíduo	com	um
capital	que	deve	ser	racionalmente	gerido.	O	núcleo	do	neoliberalismo	é	um
certo	modo	de	governar	as	sociedades	de	acordo	com	a	razão	do	capital
transformada	em	universal,	ou	seja,	de	acordo	com	a	norma	da	concorrência	e	a
lógica	da	empresa	impostas	a	todas	as	atividades	e	subjetividades.
Esse	núcleo	não	faz	do	neoliberalismo	uma	forma	política	imóvel.	O	livro	tem
outros	interesses,	como	o	de	sublinhar	a	plasticidade	do	neoliberalismo	e	a	sua
capacidade	de	adaptação	aos	mais	variados	contextos.	Rubens	Casara	tem
fórmulas	notáveis.	Assim,	quando	escreve:	“a	racionalidade	neoliberal	produz
‘novos’	modelos	neoliberais	compatíveis	com	as	necessidades	de	cada	contexto:
neoliberalismo	com	um	verniz	democrático,	neoliberalismo	para	Estados	laicos,
neoliberalismo	para	fundamentalistas	religiosos,	neoliberalismo	para	sociedades
conservadoras,	neoliberalismo	para	sociedades	autoritárias	e,	como	símbolo	de
maior	engenho-sidade,	um	‘novo’	neoliberalismo	como	‘resposta’	aos	problemas
gerados	pelos	‘velhos’	neoliberalismos”.	Não	se	poderia	dizer	nada	melhor	na
tentativa	de	compreender	as	situações	muito	confusas	que	encontramos	nos
Estados	Unidos	ou	no	Brasil,	que	associam	métodos	autoritários	com	o	conteúdo
político	mais	autenticamente	neoliberal.	O	neoliberalismo	pode	perfeitamente	se
acomodar	a	métodos	e	a	discursos	fascistas	para	se	impor	contra	as	forças	de
esquerda	e	os	sindicatos,	e	pode	ocasionalmente	empunhar	golpes	de	Estado,
promover	mobilizações	de	massas,	incentivar	milícias	armadas,	mesmo	que	não
possa	ser	inteiramente	confundido	com	o	fascismo	histórico.	O	Estado	Total	de
Mussolini	não	era	compatível	com	uma	racionalidade	que	toma	como	modelo	a
empresa	privada	em	situação	de	concorrência	e	introduz	o	cálculo	econômico	em
todas	as	engrenagens	institucionais.	Mais	do	que	expor	raciocínios	de	forma
analógica,	o	livro	procura	captar	a	originalidade	das	formas	mais
contemporâneas	de	neoliberalismo,	que	são	também	as	formas	mais	duras	e
violentas.	Distante	de	qualquer	abordagem	essencialista,	o	método	de	Rubens
Casara	consiste	em	perguntar	como	j-unciona	o	neoliberalismo.	Quais	forças	de
sedução	imaginária	ele	mobiliza?	Por	meio	de	quais	normas	ele	orienta	as
práticas?	Quais	subjetividades	ele	forma?
É	talvez	na	terceira	parte	da	obra	que	nós	encontraremos	a	chave	da	resiliência
do	neoliberalismo.	É	a	parte	que	constitui,	a	meus	olhos,	a	mais	fecunda
contribuição	para	as	investigações	futuras.	Pois	a	questg0	política	mais
fundamental	hoje	em	dia	é	saber	como	uma	lógica	normativa	como	essa	pode
continuar	a	impor-se	quando,	todos	os	dias	e	em	todos	os	planos,	vemos	e
sofremos	as	suas	consequências	mais	negativas.	À	ideia	tipicamente	foucaultiana
de	uma	uniformização	de	práticas	é	necessário	acrescentar	outro	esquema
interpretative,	que	considero	mais	complementar	a	ela	do	que	contraditório.	Esse
outro	quadro	de	análise	mobiliza	a
.					•	j	.				.	z	■	,	ao	qual	Castoriadis	inscreveu	o	seu	nome.	Eu	sou,	pessoalmente,
muito	sensível	a
categoria	do	imagmario	1																																														r
essa	injunção	de	Rubens	Casara:	“É	preciso	levar	a	sério	o	imaginário
neoliberal.”
De	fato,	não	podemos	esquecer	que	o	mundo	social	e	as	subjetividades,	que	são
também	sociais,	são	estruturadas	por	imagens	de	si,	dos	outros,	da	sociedade,	da
vida	em	geral,	que	interagem	permanentemente	com	as	práticas.	Também	é
necessário	interessar-se	de	perto,	como	faz	o	autor,	pelas	máquinas	produtoras
de	imagem	que	naturalizam	o	mercado,	a	empresa	e	o	capital.	Isso	leva	Rubens
Casara	a	se	interrogar	sobre	a	imago	fundamental	do	neoliberalismo:	a
ilimitação.	O	autor	não	faz	disso	um	simples	reflexo	da	economia	capitalista.
Esta	última	precisava,	certamente,	do	imaginário	do	mundo	infinito	nos	seus
primórdios.	Mas	tal	imaginário	capitalista	permaneceu,	durante	muito	tempo,
confinado	à	economia,	foi	mesmo	confundido	com	a	economia,	o	que,	ademais,
permitiu	a	Marx	desenvolver	a	lei	da	dinâmica	capitalista,	esse	“sempre	mais”
que	impulsiona	o	progresso	dos	negócios.
Com	o	neoliberalismo,	a	ilimitação	está	no	coração	do	imaginário	produzido
pela	indústria	cultural,	pela	cultura	gerencial	e	pelo	discurso	do	Estado.	Ela	se
estende	a	todos	os	campos	da	existência,	e	pretende	dar-lhe	o	seu	último	sentido.
Já	não	estamos	na	época	em	que	Freud	descobriu,	ao	mesmo	tempo,	o
narcisismo	e	as	feridas	infligidas	pela	civilização.	Agora	nós	chegamos	a	uma
exaltação	da	onipotência	que	os	falsos	heróis	do	entretenimento	de	massas	e	os
modelos	de	publicidade,	para	não	falar	de	alguns	autocratas	vulgares,	procuram
encarnar.	Falar	do	imaginário	neoliberal,	portanto,	é	dizer	que	as	imagens	da
ilimitação	tornaram-se	autônomas	em	relação	à	economia	e	jorram
continuamente	nos	receptáculos	das	subjetividades	dos	con-consumi-dores.
E	é	precisamente	aí,	como	o	autor	insiste	no	final	do	seu	livro,	que	se	pode
vislumbrar	um	possível	“para	além	da	ilimitação”.	O	dilema	agorasoberania	dos	demais
Estados	a	uma	mera	ficção.	Assim,	também	o	poder	bélico	e/ou	econômico	de
um	Estado,	em	princípio,	pode	limitar	o	poder	econômico	de	uma	empresa,	da
mesma	maneira	que	o	poder	econômico	de	algumas	empresas	podem	impactar
no	poder	político	de	diversos	Estados.
O	Direito	ocupa	um	papel	de	destaque	entre	os	limites	ao	poder.	Desde	a	Idade
Média,	o	Direito	é	apresentado	como	uma	das	principais	tentativas	de	contenção
do	poder,	e,	de	fato,	ele,	com	seus	respectivos	ritos	e	procedimentos	jurídicos,
muitas	vezes	similares	aos	procedimentos	religiosos,	tanto	quanto	o	recurso	às
armas,	serviu	à	limitação	do	exercício	do	poder	feudal,	do	poder	exercido	a
partir	da	racionalidade	feudal,	então	hegemônica.	O	Direito	foi	um	dos
principais	instrumentos	e	fatores	da	superação	do	feudalismo,	o	que	levou	à
concentração	de	poder	nas	mãos	do	rei.	Por	outro	lado,	se	o	Direito	serviu	ao
absolutismo,	também,	quase	que	imediatamente,	passou	a	ser	utilizado	na
tentativa	de	impor	limites	ao	poder	real,	mais	precisamente	ao	poder	de	polícia
exercido	de	forma	arbitrária	em	nome	do	rei.
O	Direito	natural,	que	se	sustentaria	na	mesma	ordem	superior	(natureza/Deus)
que	autorizava	os	privilégios	reais,	serviu	de	apoio	a	todos	aqueles	que
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pretendiam	limitar	a	extensão	indefinida	do	poder	real	e	superar	a	razão	do
Estado	que	permitia	o	uso	do	poder	contra	os	inimigos	políticos	do	rei.	Assim,
ainda	no	absolutismo,	o	instrumental	jurídico	passou	a	ser	utilizado	na	tentativa
de	construir	uma	espécie	de	limite	externo	à	razão	de	Estado.	O	Direito	era,
então,	apresentado	por	juristas	como	anterior	ao	Estado	(e	toda	a	construção	do
Direito	natural	se	desenvolve	a	partir	dessa	premissa).	Então,	segundo	essa
construção	ideológica,	o	direito	constituiría	o	próprio	Estado,	razão	pela	qual
algumas	leis	fundamentais	seriam	tão	absolutas	quanto	o	poder	do	rei.	Esses
direitos	naturais	seriam	ainda	imprescritíveis,	e	nenhum	soberano	poderia
transgredi-los.
Durante	os	séculos	XVII	e	XVIII	não	faltaram	tentativas	de,	através	do	Direito	e
da	razão	jurídica,	produzir	fissuras	na	razão	de	Estado	e,	em	consequência,
limitar	o	poder	de	polícia.	O	Direito,	em	relação	à	razão	de	Estado,	se
apresentava	como	um	elemento	externo	que	procurava	direcioná-la.	A	razão	de
Estado,	por	sua	vez,	sempre	autorizou	ações	tendentes	a	desconsiderar	as	regras
jurídicas	e	exorbitar	a	esfera	do	Direito.	Desnecessário	frisar	que,	como	todo
limite	externo,	o	Direito	nunca	conseguiu	impedir	que	o	exercício	do	poder
tendesse	ao	arbítrio	e	à	opressão.
É	importante,	todavia,	registrar	que,	em	um	dado	momento,	o	Direito	e	as
instituições	do	sistema	de	justiça	passaram	a	não	mais	legitimar	e	multiplicar	o
poder	real.	Ao	contrário,	pode-se	perceber	uma	atuação	voltada	a	restringi-lo,	o
que	é	um	sintoma	de	que	a	hegemonia	da	razão	de	Estado	enfrentava	resistência.
Tanto	a	tese	da	existência	de	um	Direito	natural	anterior	ao	Estado	quanto	as
teorias	contratualistas,	que	são	construídas	a	partir	da	ideia	de	que	as	pessoas
abrem	mão	de	parcela	de	sua	liberdade	para	constituir	um	governo	que,	por	sua
vez,	passaria	a	ser	devedor	de	prestações	negativas	e	positivas	em	relação	ao
povo,	são	exemplos	de	esforços	intelectuais	para	limitar	o	exercício	do	poder	do
rei.	Pode-se,	inclusive,	afirmar	que	o	ramo	do	Direito	público	nasce	no	momento
em	que	o	Direito	passa	a	ser	utilizado	com	o	objetivo	de	limitar	o	poder	do
Estado.
No	século	XVI,	a	racionalidade	hegemônica	(razão	de	Estado)	levou	a	um
imaginário	que	englobava	diversas	crenças	influentes	até	hoje,	mas	que	podem
ser	tidas	como	contrárias	ao	ideal	democrático,	tais	como	a	de	que	um	fim
superior	justifica	os	meios	empregados.	Oportuno	lembrar	que,	ao	lado	da
concepção	laica	de	razão	de	Estado,	surgiu	uma	variação	fundada	nas	virtudes
cristãs	(e	com	um	conteúdo	ético	que	se	revelava	no	prestígio	do	valor
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prudência)	que	seguia	o	modelo	da	Igreja	Católica	Romana	e	tinha	por	objetivo
alcançar	a	ordem	e	a	obediência	em	atenção	à	vontade	divina,	que	a	tudo
autorizava.
Em	apertada	síntese,	pode-se	afirmar	que	a	razão	do	Estado,	em	que	pese	as
variações	percebidas	durante	o	período	de	hegemonia	dessa	racionalidade	(e	que
podem	ser	identificadas	nos	escritos	de	autores	como	Maquiavel	e	Botero),	leva
ao	exercício	do	poder	com	o	objetivo	principal	de	eliminar	os	riscos	para	o
Estado	e	garantir	a	segurança	contra	os	inimigos.	Isso,	pois,	aponta	para	uma
racionalidade	voltada	à	manutenção	da	ordem	e	que	pode	ser	resumida	na
fórmula	típica	da	lógica	absolutista:	“paz	armada”.	Para	garantir	a	segurança	do
Estado,	ou	seja,	para	assegurar	a	manutenção	do	poder,	o	governante	estaria
autorizado	a	fazer	o	que	fosse	necessário	para	afastar	o	risco.
Como	toda	racionalidade	hegemônica,	a	razão	de	Estado	tinha	uma	dimensão
normativa	e	uma	imaginária.	A	primeira	impunha	ao	governante	determinados
modos	de	atuar,	mesmo	que	isso	significasse	violar	outras	normatividades,	a
segunda,	por	sua	vez,	explicava	a	existência	de	certas	imagens	e	idéias
compartilhadas	entre	os	governantes	e	os	governados.	Um	dos	efeitos	da
hegemonia	de	uma	racionalidade	é	naturalizar	práticas	e	discursos	que	seriam
impensáveis	à	luz	de	outras	racionalidades.	Essas	práticas	e	discursos,	não	raro,
sobrevivem	à	perda	da	hegemonia	da	racionalidade	que	lhe	deu	origem	e,
sempre	que	úteis,	podem	ser	resgatadas	e	empregadas	à	luz	dos	objetivos	dos
detentores	do	poder	político.
Vale	ainda	lembrar	que	o	exercício	do	poder	real	durante	muito	tempo	esteve
longe	de	merecer	ser	chamado	de	absolutista.^	Na	realidade,	durante	muito
tempo	vigorou	uma	espécie	de	equilíbrio	transacional	entre	o	rei,	os	demais
nobres	(os	detentores	do	poder	econômico)	e	o	chefe	militar	(detentor	direto	do
poder	bélico).	O	poder	não	era	concentrado,	uma	vez	que	exercido	por	diversos
agentes.	Essa	forma	partilhada	de	governo,	pouco	a	pouco,	foi	substituída.	E
essa	substituição,	com	o	fortalecimento	do	poder	real,	se	deu	juntamente	com	a
emergência	da	razão	de	Estado.	Essa	nova	racionalidade	levou	à	compreensão	e
à	naturalização	da	ideia	de	que	a	concentração	de	poder,	com	o	monopólio	do
uso	da	violência,	era	necessária	para	a	solução	dos	problemas	postos	ao
governante.
Todavia,	a	razão	de	Estado,	racionalidade	que	permitiu	e	justificou	o
absolutism©,	começou	a	ser	superada	a	partir	da	mudança	gradativa	tanto	da
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percepção	quanto	das	práticas	das	pessoas	submetidas	ao	exercício	do	poder	real.
E	isso	só	foi	possível	a	partir	do	aprofundamento	de	discussões,	da	identificação
dos	problemas	causados	pela	concepção	absolutista,	da	superação	de	medos	e
preconceitos,	da	formulação	de	teorias,	do	reconhecimento	de	abusos,	de	ações
contrárias	ao	poder	real	etc.
Uma	nova	racionalidade	produz	tanto	um	novo	imaginário,	um	novo	conjunto	de
imagens	produzidas	a	partir	do	universo	simbólico,	quanto	uma	nova
normatividade.	A	racionalidade	insere-se,	portanto,	no	campo	da	linguagem	e
dos	limites,	e	é	da	ordem	de	um	sistema	de	representações	que	determinam	o
indivíduo	à	sua	revelia,	o	que	se	dá	a	partir	do	recurso	a	determinados
significantes	(no	caso	do	neoliberalismo:	mercado,	empresa,	capital	humano,
concorrência	etc.).	Uma	nova	racionalidade	produz	também	um	novo	habitus,H
um	sistema	de	disposições	duráveis	que	produzem	ações	e	modificam	a
sociedade	e	o	indivíduo.	Com	a	emergência	de	uma	nova	racionalidade,	há	uma
progressiva	alteração	da	forma	como	indivíduos	e	atores	políticos	percebem	o
mundo-da-vida	e	a	ele	reagem.
Diversas	racionalidades	podem	coexistir,	seja	de	maneira	harmônica,	seja	em
contradição.	A	hegemonia	de	uma	racionalidade	não	apaga	os	elementos	ou
impede	as	práticas	forjadas	a	partir	de	outras	racionalidades.	Nesses	momentos
de	coexistência	conflituosa	entre	racionalidades	distintas,	tanto	o	imaginário
quanto	o	habitus	tornam-se	mais	complexos	na	medida	em	que	as	imagens	e	as
práticas	que	passam	a	ser	produzidas	se	originam	de	imaginários	e	de
normatividadescontraditórios.	Essas	contradições	acabam	por	revelar	o	caráter
dialético,	plástico	e	amoldável	das	racionalidades,	bem	como	a	tendência	à
cooptação	de	elementos	de	outras	racionalidades	pela	racionalidade	hegemônica.
Preservando-se	o	núcleo	fundamental	de	uma	determinada	racionalidade,	ou
seja,	as	imagens	e	as	normas	principais	geradas	por	ela,	o	periférico	pode	ser
abandonado	ou	se	adaptar	às	tradições	ou	às	características	locais.	No	Brasil,	a
convivência	entre	a	racionalidade	liberal	e	a	escravidão,	no	século	XIX,	é	um
bom	exemplo	dessa	adaptação	da	racionalidade	hegemônica	aos	fenômenos
gerados	em	outras	racionalidades	e	às	mais	diversas	ideologias.
No	Brasil,	a	escravidão	é	o	fenômeno	que	condiciona	até	hoje	o	modo	de	ver	e
de	agir	da	população.	Mesmo	com	o	fim	formal	da	escravidão	em	1888,	a
percepção	de	que	é	possível	hierarquizar	e	descartar	seres	humanos	nunca
deixou	de	existir.	As	diversas	racionalidades	que	se	tornaram	hegemônicas	no
Brasil,	em	especial	no	que	se	refere	à	dimensão	imaginária	da	população,	se
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adaptaram	sem	dificuldades	ao	racismo	estrutural	do	brasileiro.	A	ideia	de	que
existem	pessoas	que	podem	ser	usadas	e	comercializadas	perdura	em	diversos
setores	da	vida	brasileira,	como	demonstram	tanto	a	seletividade	da	atividade
policial	quanto	os	episódios	frequentes	de	racismo	explícito.	Pretos	são	mais
abordados	e	presos	pela	polícia	brasileira	do	que	brancos,	conforme	demonstrou
a	pesquisa^	conduzida	por	Silvia	Ramos	e	Leonarda	Musumeci	sobre	a
dimensão	racista	do	significante	“elemento	suspeito”,	um	dos	conceitos	abertos
utilizados	pela	lei	brasileira	para	legitimar	a	abordagem	policial.	Sem
compreender	o	racismo	em	todas	as	suas	variações	(estrutural,^	religioso,
policial,	recreativo^	etc.)	não	é	possível	compreender,	por	exemplo,	a	facilidade
com	que	racionalidades	autoritárias	se	tornam	hegemônicas	no	Brasil.
O	Brasil	foi	construído	a	partir	da	naturalização	da	escravidão,	ou	seja,	a	partir
de	um	imaginário	que	aceita	a	humilhação,	a	desumanização	e	o	castigo	físico	de
pessoas.	É	a	escravidão,	e	o	fato	dessa	ideia	nunca	ter	chegado	a	ser
desconstruída	no	Brasil,	que	levou	à	construção	de	um	imaginário	que	permite	o
prazer	em	humilhar	aqueles	que	são	considerados	inferiores	sociais	e	que
reserva	à	elite,	em	especial	àqueles	que	detêm	o	poder	econômico,	a	gestão	do
Estado	diante	da	crença	da	incapacidade	do	povo	de	cuidar	de	seus	próprios
interesses.	A	República	Velha	(de	15	de	novembro	de	1889	a	24	de	outubro	de
1930),	nada	mais	foi	do	que	uma	continuação	do	imaginário	escravagista	e	das
idéias	dominantes	com	uma	tendência	oligárquica	(em	especial,	após	1894)	que
se	caracterizava	pela	ampliação	do	poder	das	elites	regionais,	com	destaque	para
os	detentores	do	poder	político	e	econômico	de	São	Paulo	e	de	Minas	Gerais.
Como	percebeu	Jessé	Souza,	as	idéias	dominantes,	parte	fundamental	do
material	que	vai	constituir	o	imaginário	em	uma	determinada	época,	produzem
um	efeito	de	desconhecimento	e	de	ocultação,	distorcendo	a	realidade	e
invertendo	as	causas	dos	fenômenos	sociais.^	Há	uma	espécie	de	bloqueio	que
certas	idéias	provocam	e	que	impede	a	reflexão.	A	imagem	equivocada	que	se
cria	dos	fenômenos	e	o	empobrecimento	subjetivo	têm	nessas	idéias
hegemônicas,	muitas	vezes	produzidas	e	reproduzidas	com	finalidade	ocultas,
uma	de	suas	principais	causas.	Por	vezes,	travestidas	de	científicas	ou	neutras,
essas	idéias	são	fabricadas	e	servem	para	confirmar	um	conjunto	de	preconceitos
e	eternizar	quadros	de	dominação	social.	Uma	racionalidade	com	potencial	para
condicionar	o	exercício	do	poder	precisa	contar	com	essas	idéias	que	são	aceitas
como	naturais	pelas	pessoas	que	serão	tanto	sujeitos	quanto	objetos	dos	atos
concretos	de	poder.	Não	é	incomum	que	essas	idéias	ligadas	a	uma	determinada
racionalidade	se	distanciem	do	valor	verdade,	pois,	tanto	para	os	que	vão	exercer
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o	poder	quanto	para	os	que	vão	se	submeter	a	ele,	a	verdade	pode	ser	incômoda.
Em	apertada	síntese,	uma	racionalidade	só	se	torna	hegemônica	em	um
determinado	contexto,	ou	seja,	só	passa	a	condicionar	a	forma	de	ver	e	atuar	no
mundo	a	partir	da	aceitação	social	da	importância	das	idéias,	da	normatividade	e
do	imaginário	construído	a	partir	dela.	O	processo	de	construção,	manipulação	e
naturalização	de	idéias	e	conceitos,	apresentados	como	os	únicos	possíveis	ou
realistas,	explica	como	tantos	oprimidos	aceitam	passivamente	medidas	que	só
interessam	ao	opressor.	Oportuno	lembrar	do	slogan	usado	pela	primeira-
ministra	britânica	Margaret	Thatcher	no	campo	econômico,	“there	is	no
alternative”	(“Tina”),	ao	implementar	o	neoliberalismo	na	Inglaterra.
Para	entender	como	uma	racionalidade	se	torna	hegemônica,	portanto,	é
necessário	não	só	identificar	as	idéias	dominantes	em	uma	determinada	época
como	também	as	mentiras	que	servem	ao	exercício	do	poder.	Como	o
liberalismo	econômico,	que	parte	da	premissa	de	que	todos	os	indivíduos	são
autônomos,	livres	e	vivem	em	um	mundo	transparente	e	claro.	A	partir	dessa
ideia-base,	nasce	a	crença	de	que	o	mundo	está	livre	para	ser	conquistado	por
cada	indivíduo,	que	se	vê	como	plenamente	capacitado	para	vencer	na	vida,
bastando	para	tanto	que	atue	de	forma	disciplinada	e	diligente.^?
O	liberalismo	econômico,	que	se	apresenta	como	a	melhor	maneira	de	cuidar	da
economia,	leva	à	crença	de	que	cada	um	tem	todas	as	condições	de	saber	de	onde
vem,	o	que	é	e	o	que	precisa	fazer	para	conseguir	o	que	quer	(algo	como	o
slogan	“querer	é	poder”).	Trata-se	de	uma	mentira	que	esconde	as	limitações
individuais	(e	ninguém	gosta	de	saber	que	está	submetido	a	limitações	e	a
impossibilidades)	e	ajuda	a	sustentar	uma	determinada	ordem	social,	que	não
necessariamente	atende	aos	interesses	daqueles	que	acreditam	nessa	mentira.
Hoje,	pessoas	são	exploradas	com	a	ajuda	dessas	idéias	dominantes:	pessoas	que
acreditam	ser	empresários-de-si	acabam	exploradas	de	maneira	mais	intensa	e
perversa	do	que	eram	explorados	os	velhos	trabalhadores	sindicalizados.
No	Brasil,	algumas	idéias,	nem	sempre	verdadeiras,	influenciam	diretamente	no
modo	como	o	poder	é	percebido	e	exercido.	Dentre	outras,	o	personalismo,	o
patrimonialismo	e	o	populismo	merecem	destaque.	O	personalismo	em	terra
brasilis	se	caracteriza	pela	crença	de	que	o	brasileiro	é	inferior	ao	europeu	e	ao
norte-americano	por	ser	mais	emotivo	e	tendente	a	privilegiar	a	família	e	os
amigos.	A	ideia	do	patrimonialismo	se	sustenta	na	crença	de	que	o	brasileiro,
mais	do	que	os	cidadãos	de	outros	países,	tendería	a	confundir	o	público	com	o
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privado,	o	que	faz	com	que	ele	seja	corrupto	na	gestão	do	Estado	e	na	política
(enquanto	o	mercado	é	apresentado	como	o	espaço	da	virtude).	Por	fim,	no
Brasil,	vigora	uma	versão	negativa	do	populismo,	mais	precisamente	a	ideia	de
que	tudo	aquilo	que	vem	do	povo	é	ruim	ou,	ainda,	a	crença	de	que	a	população
é	infantilizada	e	precisa	ser	tutelada	pelas	elites.
Pode-se,	portanto,	levantar	a	hipótese	de	que	o	imaginário	forjado	a	partir	de
uma	determinada	racionalidade	pode	ser	retratado	como	algo	que	possui
camadas,	como	uma	espécie	de	cebola,	ou	seja,	um	ente	com	folhas
escamiformes	ou	camadas,	o	que	sugere	a	existência	de	imagens	e	normas	mais
profundas	e	sedimentadas	em	oposição	a	imagens	e	normas	mais	tênues	e
tendencialmente	provisórias.	Isso	porque	a	imagem	que	se	tem	do	mundo	é
produzida	a	partir	de	vários	elementos,	como,	v.g.,	a	coexistência	de
normatividades	distintas,	a	suscetibilidade	a	determinadas	idéias,	o
pertencimento	a	uma	classe,	a	história	de	vida	de	cada	um	etc.
A	racionalidade	procura	tanto	dar	sentido	e	coerência	a	um	conjunto	normativo
quanto	fundamentar	e	condicionar	o	imaginário	de	forma	profunda,	o	que
implica	a	conformidade	de	determinadas	crenças	às	ações	adotadas	a	partir
dessas	crenças.Percebe-se,	pois,	que	existem	diversas	racionalizações	em
diferentes	esferas	de	vida	e	em	todas	as	culturas.	Há,	por	exemplo,
racionalidades	em	que	a	realização	de	uma	determinada	finalidade	é	a	principal
meta	a	ser	buscada	por	todos,	como	acontece	na	razão	do	Estado,	e	outras	em
que	vigora	a	norma	de	que	os	fins	não	justificam	os	meios,	uma	vez	que	as	ações
estão	condicionadas	por	determinados	valores	que	impedem	determinadas	ações
e	a	utilização	de	determinados	meios.	A	diferença	entre	uma	racionalidade
relacionada	com	os	fins	e	uma	racionalidade	forjada	a	partir	de	valores,	por
exemplo,	permite	constatar	que	o	processo	de	hegemonização	não	é	simples.	Há
uma	tensão	constitutiva	de	cada	racionalidade,	bem	como	a	pretensão	de	tornar-
se	hegemônica.	Identificar	a	racionalidade	hegemônica	ajuda	à	explicitação	do
processo	histórico	e	sociocultural	que	leva	à	compreensão	do	mundo,	mas
também	toca	questões	pulsionais	à	repressão,	ou	não,	das	pulsões.
Uma	racionalidade	torna-se	hegemônica	no	momento	em	que	passa	a	servir	às
decisões	e	condicionar	o	acerto	ou	não	das	condutas	adotadas	pela	maioria	da
população	em	um	determinado	contexto.	Pode-se,	então,	relacionar	uma
racionalidade	hegemônica	com	aquilo	que	Foucault	chamou	de	regime	de
verdade.	Uma	determinada	racionalidade,	ao	se	tornar	hegemônica,	produz	um
regime	de	verdade	típico.	Pense-se	nas	ordálias	ou	juízos	de	Deus	(judicium
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dei),	procedimentos	probatórios	destinados	à	revelação	da	verdade	a	partir	da
intervenção	divina.	Como,	por	exemplo,	no	caso	de	Ema	da	Normandia,	acusada
de	adultério,	que,	para	provar	sua	inocência,	teria	tido	que	andar	descalça
pisando	em	arados	de	ferro,	enfileirados	e	aquecidos	por	fogo,	pois	se	a	acusação
fosse	falsa,	Deus	interviria	para	impedir	o	sofrimento	e	salvá-la.	A	verdade	era
revelada	por	Deus	a	partir	de	uma	racionalidade	que	partia	da	crença	de	que	o
Senhor	poderia	intervir	diretamente	no	mundo-da-vida.	Uma	nova	racionalidade
sempre	coloca	em	questão	o	regime	de	verdade	antes	em	vigor.
Os	valores	que	integram	determinada	forma	de	ver	o	mundo	levam	a	princípios	e
a	regras	que	tendem	a	ser	seguidos,	ou	seja,	há	uma	dimensão	normativa	contida
na	ideia	de	racionalidade.	O	absolutismo,	por	exemplo,	correspondia	a	uma
determinada	maneira	de	entender	e	atuar	no	mundo.	Sem	a	normatividade	que	se
originava	de	uma	espécie	de	consenso	em	torno	dos	valores	típicos	do
absolutismo,	essa	forma	de	exercício	do	poder	não	teria	se	mantido.	Existia,
então,	um	conjunto	de	valores,	de	narrativas,	de	regras	e	de	princípios	que
justificava	e	permitia	a	concentração	explícita	de	poder	e	a	submissão	de	muitos
aos	desejos	de	poucos.	Na	modernidade,	superada	a	racionalidade	absolutista,	a
concentração	de	poder	e	a	submissão	da	maioria	ao	desejo	da	minoria	passou	a
ser	dissimulada.	A	religião,	que	sempre	se	apresentou	como	a	chave	para	a
religação	com	Deus,	exercia	um	papel	fundamental	à	concentração	de	poder
absolutista:	se	Deus,	através	de	seus	pre-postos	na	terra,	únicos	legitimados	a
interpretar	a	vontade	divina	e	os	textos	sagrados,	reconhecia	uma	pessoa	como
aquela	a	que	todos	deveríam	se	submeter,	o	que	esperar	de	uma	população	que
compreendida	e	atuava	no	mundo	à	luz	da	promessa	de	vida	eterna	e	de	salvação
divina?
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i-4•	A	racionalidade	liberal:	promessas	de	liberdade
Apenas	por	volta	da	metade	do	século	XVIII	pode-se	constatar	uma	mudança
significativa	na	racionalidade	governamental.	Foucault	chega	a	mencionar	que	a
partir	desse	momento	pode-se	falar	em	uma	“razão	governamental	moderna.”^	E
o	que	aconteceu	nesse	momento?	O	surgimento	de	uma	regulação	interna	da
racionalidade	governamental.	Não	mais	uma	tentativa	de	impor	limites	externos,
como	a	vontade	divina	ou	mesmo	o	Direito,	mas	um	princípio	de	limitação	que
começa	a	se	impor	de	dentro	da	própria	ação	governamental.	O	próprio	desejo	de
uma	ação	governamental	eficiente	fazia	com	que	determinadas	ações	não
pudessem	mais	ser	realizadas.	Os	fins	da	ação	governamental	passaram	a	limitar
os	meios.	Tratava-se,	então,	de	uma	limitação	de	fato,	e	não	de	direito,	mesmo
que,	após	o	aparecimento	dessa	limitação	de	fato,	alguns	textos	legais	tenham
descrito	e	previsto	em	textos	legais	esse	limite.
Assim,	o	respeito	(ou	não)	ao	limite	se	dava	mais	em	razão	de	juízos	de	valor
relacionados	à	eficiência	do	ato	do	que	da	existência	de	uma	proibição	legal:	se
um	governante	violasse	esse	limite	interno,	ele	seria	considerado	um	governante
inapto,	um	governante	que	não	faz	aquilo	que	interessa	a	um	bom	governo.	Não
se	trata	de	um	conselho	de	prudência,	mas	de	uma	verdadeira	regulação	interna:
uma	limitação,	que	se	caracteriza	pela	generalidade;	uma	normatividade	que	leva
a	um	quadro	de	ações	relativamente	uniformes,	em	função	de	princípios	que	são
considerados	válidos	diante	de	determinadas	circunstâncias.	Admitir	a	existência
de	limites	internos	ao	exercício	do	poder	e	à	prática	governamental	significa
reconhecer	a	possibilidade	de	meios	inadequados	aos	fins	visados	pela	ação
governamental.	Para	atender	aos	objetivos	do	Estado	passou	a	ser	necessário
aceitar	a	existência	de	limites	à	ação	estatal.
O	que	caracteriza	esse	momento	de	transformação	e	a	emergência	da	razão
governamental	moderna	é	a	descoberta	de	um	cálculo,	inerente	à	ação
governamental,	direcionado	à	realização	dos	objetivos	do	Estado.	A
racionalidade	governamental	leva,	desde	então,	à	prática	de	ações	e	ao	respeito
de	limites	que	são	revelados	a	partir	de	cálculos	que	têm	por	finalidade	alcançar
os	objetivos	do	Estado	e	apontar	os	melhores	meios	à	disposição	dos
governantes	para	isso.	Surge,	então,	uma	divisão	entre	o	que	deve	ser	feito	para
alcançar	os	objetivos	do	Estado	e	aquilo	que	não	convém	fazer,	entre	as
operações	que	podem	ser	feitas	e	as	que	não	podem,	entre	os	meios	a	serem
empregados	e	os	que	estão	vedados.	Em	outras	palavras,	há	um	novo	regime	da
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empregados	e	os	que	estão	vedados.	Em	outras	palavras,	há	um	novo	regime	da
verdade:	uma	verdade	revelada	e	alcançada	através	de	cálculos.
Nessa	época,	surge	também	a	ideia	do	homem	econômico	(Homo	economicus),
um	homem	que	faz	cálculos	para	decidir	o	que	fazer	para	facilitar	sua	vida	e
aumentar	sua	satisfação.	A	máxima	do	“maior	proveito	com	o	menor	esforço”
explicaria	as	escolhas	racionais	de	todas	as	pessoas,	independentemente	do	lugar
ou	da	época.	Portanto,	o	conceito	que	justificaria	a	ação,	a	razão	da	atividade
econômica,	seria	o	de	interesse.
A	ideia	de	homem	econômico	é	uma	abstração	que	parte	de	uma	simplificação
do	comportamento	humano:	são	desconsideradas	as	dimensões	morais,
religiosas,	políticas,	relacionais,	bem	como	a	tradição	em	que	o	indivíduo	está
inserido	e	seu	inconsciente,	esse	“saber	que	não	se	sabe”	identificado	por	Freud.
As	teorizações	a	partir	da	ideia	do	homem	econômico,	portanto,	deixam	de	fora
diversos	fatores	que	condicionam	o	comportamento	humano.	Assim,	a	tese	do
homem	econômico	como	modelo	para	as	decisões	no	mundo-da-vida
desconsidera	que	raramente	as	pessoas	estão	satisfatoriamente	informadas,
sabem	com	exatidão	as	consequências	de	seus	atos	ou	identificam	todas	as
opções	de	ação	que	se	fazem	presentes.	Não	obstante,	desde	então,	o	indivíduo
foi	sendo	formatado	para	se	aproximar	desse	modelo	abstrato	de	ser	racional.
É	importante	perceber	que	essa	diferença	entre	limites	externos	(direito,	moral
etc.)	e	limites	internos	à	razão	governamental	torna-se	visível	já	na	metade	do
século	XVIII.	Essa	transformação	da	racionalidade,	com	a	perda	de	importância
de	valores	até	então	considerados	intocáveis,	toma	corpo	através	de	um
verdadeiro	instrumental	intelectual,	com	a	produção	de	imagens	e	idéias	que
levam	a	uma	determinada	forma	de	cálculo,	e	à	correlata	racionalidade	que	se
mostra	adequada	à	autolimitação	de	fato	das	práticas	governamentais.	O	direito,
por	sua	vez,	passa	a	servir	cada	vez	mais	para	produzir	efeitos	no	campo
ideológico,	atuando	de	forma	a	justificar	o	sistema	em	vez	de	limitaro	exercício
do	poder.
Tem-se,	desde	então,	uma	normatividade	de	fato,	ou	melhor,	um	modo	de	ver	e
atuar	no	mundo	intrínseco	às	operações	e	conectado	com	os	fins	do	governo.
Foucault,	ao	analisar	essa	quadra	histórica,	percebe	que	esse	instrumental
intelectual,	esse	saber	baseado	em	cálculos,	que	passa	a	potencializar	valores
como	interesse	e	utilidade	em	um	dado	contexto,	e	que	permite	à	razão
governamental	se	autolimitar,	não	é	o	Direito,	mas	sim	a	economia	política,
entendida	como	todo	um	saber	suscetível	de	assegurar	prosperidade,	ou,	na	linha
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utilizada	por	Rousseau	na	Enciclopédia,	como	uma	espécie	de	reflexão	sobre	a
organização,	a	distribuição	e	a	limitação	de	poderes	dentro	de	uma	sociedade.
Percebe-se,	porém,	que,	diferentemente	do	que	ocorreu	com	o	pensamento
jurídico	dos	séculos	XVI	e	XVII,	a	economia	política	não	foi	uma	disciplina
pensada	e	desenvolvida	com	o	objetivo	de	limitar	a	razão	de	Estado,	pelo	menos
em	um	primeiro	momento.	Ao	contrário,	a	economia	política	foi,	em	princípio,
pensada	para	enriquecer	o	Estado.	Tal	qual	ocorria	com	a	razão	de	Estado,	o
objetivo	da	economia	política	era	o	de	tornar	o	Estado	mais	forte	e,	assim,	capaz
tanto	de	ajustar,	ordenar	e	manter	a	vida	da	população	quanto	de	fortalecer	a
posição	desse	Estado	diante	de	um	quadro	de	concorrência	com	outros	Estados.
A	economia	política	nasce,	então,	comprometida	com	os	mesmos	fins	da	razão
de	Estado.	Mas	não	é	só.	Para	alcançar	esses	fins,	a	economia	política	não
rejeita,	e	até	se	mostra	capaz	de	incentivar,	a	ilimitação	do	poder	do	Estado,	bem
como	naturalizar	as	consequências	da	adoção	de	um	modelo	de	Estado	de
polícia,	por	exemplo.	Isso,	aliás,	permitiu	que	o	saber	da	economia	política	e	a
prática	dos	cálculos	de	interesse	começassem	a	produzir	efeitos	mesmo	diante	da
hegemonia	da	“razão	de	Estado”	-	e,	pouco	a	pouco,	passasse	a	corroê-la	por
dentro.
Vale	repetir:	esse	vínculo	originário	entre	a	economia	política	e	o	objetivo	de
fortalecer	o	Estado	permitiu,	desde	o	início,	reconhecer	a	compatibilidade	de
uma	racionalidade	predominantemente	econômica	com	o	despotismo,	entendido
como	um	poder	político	sem	limites	externos.	No	século	XVIII,	os	fisiocratas
(François	Quesnay,	Anne	Robert	Jacques	Turgot	etc.),	que	costumam	ser
apontados	como	os	primeiros	formuladores	de	uma	teoria	econômica	bem
desenvolvida	(“a	primeira	economia	política”)	defendiam	uma	concepção
tipicamente	despótica:	para	eles,	a	análise	econômica	levava	à	conclusão	de	que
o	poder	deveria	ser	“sem	limites”	para	que	fosse	possível	alcançar	seus	objetivos
com	mais	facilidade.	Vale	lembrar	que	a	máxima	do	laissez-faire,	que	para
muitos	resume	o	ideário	liberal,	nasce	justamente	nesse	contexto,	para	se	opor	ao
modelo	de	intervenção	e	controle	governamental	sugerido	por	Jean-Baptiste
Colbert.
Essa	racionalidade	que	se	baseia	na	economia	política	produz	um	afastamento	de
questões	como	legalidade	(salvo,	por	evidente,	a	defesa	de	uma	legalidade
instrumental	aos	fins	econômicos	desejados)	e	legitimidade,	bem	como	confere
pouca	importância	à	substância	e	à	origem	dos	atos	do	Estado	e	dos	particulares
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(em	resumo:	pecunia	non	olet),	priorizando	juízos	e	ações	focados	nos	efeitos
desses	atos.	A	partir	dessa	nova	racionalidade,	os	fins	passaram	a	justificar	os
meios.	O	que	passou	a	importar,	doravante,	é	saber	quais	são	os	efeitos	concretos
da	ação	governamental	no	momento	do	seu	exercício	e	se	esses	efeitos	devem
ser	tidos	por	positivos	ou	negativos.	A	partir	dessa	racionalidade	econômica	os
efeitos	produzidos	pelo	exercício	concreto	de	um	ato	de	poder	são	mais
importantes	do	que	os	valores	ou	as	regras	que	levaram	à	prática	desse	ato.	Para
limitar	o	exercício	do	poder,	o	binômio	sucesso-fracasso	torna-se	mais
importante	do	que	o	binômio	legitimidade-ilegitimidade.
Ligada	à	racionalidade	econômica	está	a	crença	dominante	de	que	existem
fenômenos,	processos	e	regula-ridades	que	se	produzem	necessariamente	em
razão	de	mecanismos	inteligíveis.	Essa	ideia,	por	sua	vez,	leva	ao	imaginário	de
que	esses	fenômenos,	processos	e	regularidades	nunca	podem	ser	suspensos
totalmente	ou	de	forma	definitiva,	mesmo	que	esses	mecanismos	inteligíveis	e
tidos	por	necessários	sejam,	vez	por	outra,	contrariados	por	atos	de	maus
governantes.	Sempre	que	reprimidos	ou	constrangidos,	esses	elementos,
processos	e	mecanismos	produziríam	uma	reação,	algo	como	o	“retorno	do
recalcado”	em	Freud.
No	imaginário	adequado	à	racionalidade	econômica	haveria	algo	de	natural,
necessário	e	que	não	pode	ser	contrariado	na	atividade	governamental.	Uma
espécie	de	fórmula	para	o	sucesso	que	precisa	ser	seguida.	Passa-se,	então,	a
defender	a	existência	de	uma	natureza	que	é	própria	à	governabilidade,	aos	seus
objetivos	e	às	suas	operações,	razão	pela	qual	a	ação	governamental	concreta
deve	respeitar	essa	natureza,	as	respectivas	leis,	os	fenômenos	correlates	e	as
regularidades	necessárias.	Ao	contrariar	a	natureza	da	atividade	governamental	e
suas	leis,	o	governante	passaria	a	sofrer	consequências	negativas	e	fracassaria.
Como	percebeu	Michel	Foucault,	sucesso	ou	fracasso	tornaram-se	na
modernidade	os	critérios	para	a	ação	governamental.^	Um	mau	governante	não	é
mais	aquele	que	é	ruim	com	o	povo	por	capricho	ou	desejo,	mas	aquele	que	é
ignorante;	mais	precisamente,	aquele	que	ignora	as	leis	da	economia	política.	A
ignorância	do	novo	regime	de	verdade	que	surgiu	da	racionalidade	econômica
torna-se	um	fator	que	impede	a	autolimitação	do	governo	e,	por	isso,	faz
aumentar	o	risco	de	fracasso.
Percebe-se,	pois,	que	cada	regime	de	verdade	e	cada	racionalidade	hegemônica
em	um	determinado	contexto	estão	relacionados	com	a	questão	dos	limites	ao
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poder.	A	verdade,	ao	longo	da	história,	sempre	foi	utilizada	para	justificar	ou
deslegitimar	o	exercício	do	poder.	A	verdade	econômica	tornou-se	a	fonte	do
sucesso	e	da	legitimação	do	governante.	A	partir	da	econômica	política,
reforçou-se	a	crença	de	que	o	conhecimento	da	verdade	(uma	verdade	não	é
mais	aquela	revelada	por	Deus)	permite	ao	governante	a	prática	de	atos	de
governo	que	se	direcionam	à	realização	do	princípio	da	máxima	felicidade	para
a	maioria	e	do	mínimo	sofrimento	necessário.
No	campo	do	direito	a	ideia	de	justiça	a	partir	de	juízos	equitativos	começa	a
perder	espaço	para	o	modelo	de	justiça	a	partir	de	cálculos	utilitários.	Por	outro
lado,	para	além	dos	efeitos	ideológicos	(ideologia,	aqui,	empregada	em	seu
sentido	negativo	de	falsa	compreensão	da	realidade)	adequados	à	nova
racionalidade,	o	aparecimento	de	um	regime	de	verdade,	ancorado	na	ideia	de
que	cálculos	poderíam	direcionar	as	ações	políticas,	não	permite	afirmar	que	as
decisões	se	tornaram	mais	racionais	ou	que	o	respeito	ao	valor	verdade	tornou-se
a	regra	na	política.	Isso	porque	há	uma	diferença	substancial	entre	os	elementos
discursivos	da	nova	racionalidade	e	as	ações	concretas	praticadas	pelos
governantes,	que	se	apresentam	como	os	intérpretes	da	verdade	que	se
acreditava	produzida	pela	racionalidade	econômica.	Em	apertada	síntese,
diversos	outros	fatores,	que	poderíam	ser	chamados	de	hermenêuticos,	alguns	de
natureza	inconsciente,	continuaram	a	influenciar	na	prática	dos	atos	de	governos,
desde	preconceitos	e	pré-compreensões	incompatíveis	com	o	princípio
utilitarista	da	máxima	felicidade,	até	desvios	de	natureza	ética,	ressentimentos	e
pulsões.	Mesmo	assim,	é	possível	perceber	nessa	primeira	racionalidade
moderna	a	articulação	entre	uma	série	de	práticas	e	um	discurso	que	permite
identificar	essas	práticas,	de	um	lado,	como	um	conjunto	coerente	e,	de	outro,
como	verdadeiras	ou	falsas.
Assim,	a	partir	da	metade	do	século	XVIII	cresceu	a	convicção	de	que	era
possível	identificar,	no	exercício	concreto	dos	atos	de	poder,	uma	coerência
reflexiva	e	estável,	a	partir	de	mecanismos	inteligíveis	e	fórmulas	dedutíveis,
que	ligava	diferentes	práticas	aos	efeitos	desejados	pelos	detentores	do	poder.
São	essesmecanismos,	esses	cálculos	e	a	reflexão	que	é	feita	a	partir	deles	que
permitiríam	o	julgamento	das	práticas	de	governo	como	boas	ou	ruins.
Em	apertada	síntese,	com	a	hegemonia	de	uma	racionalidade	econômica	baseada
em	cálculos,	passou-se	a	permitir	uma	espécie	de	planificação	das	ações	estatais
que	não	parte	do	direito,	da	lei,	da	moral	ou	de	Deus,	mas	sim	de	proposições,	de
leis	que	seriam	derivadas	da	natureza	das	coisas	e	que	levariam	ao	sucesso	(ou
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ao	fracasso)	do	ato	à	luz	dos	objetivos	do	Estado.	Em	outras	palavras:	a	ação
governamental	e,	em	especial,	os	limites	ao	exercício	do	poder	passaram	a	ser
fixados	em	razão	desse	novo	regime	de	verdade	que	emerge	da	economia
política.	Pode-se,	então,	falar	em	uma	verdadeira	normatividade,	que	tem	o
regime	de	verdade	de	viés	econômico	como	princípio	de	autolimitação	do
exercício	do	poder	penal.
Como	se	viu,	o	regime	de	verdade	que	se	liga	a	uma	determinada	racionalidade
define	o	certo	e	o	errado,	o	permitido	e	o	vedado	ao	bom	governante.	Com
Foucault	pode-se	afirmar	que	o	binômio	práticas-regime	de	verdade	forma	um
dispositivo	de	saber-poder	que	produz	efeitos	na	realidade,	entendida	como	uma
trama	simbó-lico-imagi-nária	que	repercute	não	só	nos	limites	às	ações	humanas
como	também	na	imagem	que	cada	um	tem	dos	fenômenos.	Isso	porque,	a	partir
desse	dispositivo	de	saber-poder,	é	possível	atribuir	aos	atos	dos	governantes	as
qualidades	de	verdadeiro	ou	falso,	de	certo	ou	errado	à	luz	da	racionalidade
econômica	e,	portanto,	condicionar	a	realidade.
A	máxima	liberal	do	laissez-faire	retrata	claramente	um	desses	princípios	de
autolimitação	da	razão	governamental.	O	liberalismo,	que	é	uma	teoria,	uma
prática	e	um	modelo	de	organização,	tornou-se	também	uma	racionalidade
hegemônica	que	parte	da	ideia	de	que	é	necessário	limitar	as	práticas
governamentais	e,	portanto,	limitar	o	exercício	do	poder	político	em	nome	dos
objetivos	econômicos.	A	premissa	de	que	o	livre	mercado	organiza	as	coisas	de
maneira	bem	mais	eficaz	do	que	um	planificador,	de	que	o	mercado	pode	se
auto-gerir,	é	apresentada	como	um	limite	interno	à	atividade	governamental,	pois
agir	em	sentido	contrário	seria	violar	a	natureza	das	coisas	e	caminhar	em
direção	ao	fracasso.
O	liberalismo,	entendido	como	prática	governamental	que	conta	com	tecnologias
e	dispositivos	particulares,	mas	também	como	uma	reflexão	coerente	e	com
pretensão	de	verdade	sobre	o	exercício	do	governo,	permite	identificar	uma
articulação	entre	determinados	enunciados	e	as	práticas	concretas	que	incidem
sobre	a	economia	e	os	cidadãos.	Apresentado	como	uma	doutrina	da	liberdade
política,	o	liberalismo	leva	a	uma	racionalidade	política	que	aparece	no	século
XVIII	em	reação	às	práticas	do	Estado	de	Polícia,	baseadas	no	uso	da	força	e	na
potencialização	do	poder	estatal.	A	resposta	liberal	ao	crescimento	do	poder
estatal	é	o	estabelecimento	de	limites.	O	bom	governante	não	seria	mais	aquele
virtuoso,	inteligente,	corajoso	e	fiel	a	Deus,	mas	a	pessoa	que	conhecesse	e
respeitasse	os	limites	naturais	que	asseguram	o	sucesso	do	governo,	em	especial
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o	respeito	à	propriedade,	aos	direitos,	às	potencialidades	e	aos	interesses	dos
governados.!!	E	isso	se	daria	a	partir	dos	dois	eixos	da	governabilidade	liberal
que	muitas	vezes	andam	juntos:	a	lógica	jurídica	dos	direitos	inerentes	às
pessoas	e	a	lógica	utilitarista.	Os	direitos,	como	já	se	viu,	constituem	limites
externos	à	prática	governamental	e	ao	exercício	do	poder,	isso	porque	são
consagrados	anteriormente	em	leis,	tratados,	convenções	e	constituições,	escritas
ou	não.	A	lógica	utilitarista,	que	visa	controlar	os	atos	de	poder	a	partir	do
cálculo	de	seus	efeitos,	por	sua	vez,	é	“interior”	à	prática	governamental.	Dentre
a	lógica	jurídica	e	a	lógica	utilitária,	os	limites	mais	efetivos	ao	poder	sempre
foram	aqueles	que	se	justificam	a	partir	dos	cálculos	de	interesse	e	utilidade;	ou
seja,	que	buscam	“atuar	sobre	o	interesse	dos	indivíduos	e	se	apoiar	sobre	o
saber	econômico	para	limitar	ao	estritamente	necessário	o	uso	dos	meios
governamentais”.!!
Com	o	liberalismo,	a	razão	de	Estado	passa	a	ser	limitada	e	organizada	a	partir
do	princípio	do	“menor	governo	possível”.	A	racionalidade	política	liberal	leva,
portanto,	à	redução	das	funções	do	Estado	e	faz	com	que	os	indivíduos	sejam
incentivados	a	agir	por	seus	interesses	pessoais,	porque	assim	acabariam	por
corresponder	de	maneira	mais	adequada	ao	interesse	geral	da	sociedade.	No
mais,	as	leis	compatíveis	com	o	ideário	liberal	seriam	reforçadas	e
complementadas	por	induções	e	incitações	sobre	os	interesses	relacionados	à
ação	governamental.	O	regime	de	verdade	nascido	do	liberalismo,	uma	verdade
sobre	e	para	o	mercado,	começou	a	condicionar	os	atos	de	governo.
As	funções	administrativas	e	legislativas	também	passaram	a	ser	exercidas	a
partir	dessa	verdade.	No	aspecto	disciplinar,	o	discurso	genuinamente	liberal
enunciava	que	cabia	ao	Estado	defender	a	sociedade	e	aos	agentes	estatais,
respeitar	as	liberdades	públicas,	as	liberdades	do	indivíduo	frente	ao	Estado.
Percebe-se,	pois,	que	a	racionalidade	liberal	fez	a	economia	política	tornar-se	um
guia	para	a	renovação	do	direito	público.	Nesse	movimento	de	renovação,	o
conceito	de	utilidade	passou	a	servir	de	critério	à	ação	pública,	enquanto	o
conceito	de	interesse	apareceu	como	matéria,	alvo	e	meio	à	ação
governamental.!!	O	bom	governo	liberal	era	apresentado	como	aquele	útil	à
satisfação	dos	interesses	individuais:	a	prática	liberal	deveria	se	fundar	na	ideia
de	interesse.	A	noção	de	interesse	interferiría	até	na	compreensão	e	na	maneira
como	o	governo	se	relacionava	com	o	valor	liberdade.	No	liberalismo,	a
liberdade	dos	indivíduos	costumava	ser	apresentada	como	um	valor	superior	e
um	dos	objetivos	do	governo,	mas	frequentemente	a	liberdade	concreta	dos
indivíduos	era	manipulada	ou	mesmo	restringida	pelos	governantes	a	partir	e	em
nome	da	ideia	de	interesse.
A	depender	do	interesse	dos	detentores	do	poder	político,	não	havia	pudor	em
restringir	o	alcance	da	liberdade	concreta	dos	governados.	Pense-se,	por
exemplo,	nas	guerras	travadas	em	nome	do	ideal	liberal	e	nas	pessoas	obrigadas
(ainda	que	pelas	circunstâncias)	a	servir	a	esse	projeto	político-econômico.	No
Brasil,	por	exemplo,	o	fenômeno	da	escravização	de	pessoas	trazidas	do
continente	africano	conviveu	sem	pudor	com	o	liberalismo	econômico.	Aliás,	a
confusão	tipicamente	liberal	entre	a	liberdade	concreta	do	indivíduo	e	a
liberdade	abstrata	(presente	na	maioria	dos	manuais	da	teoria	liberal)	sempre
serviu	ao	uso	e	aos	abusos	dos	governantes.	Em	nome	dos	interesses	individuais
e	coletivos	era	necessário,	por	um	lado,	encorajar	e,	por	outro,	controlar	e
restringir	as	condutas	individuais,	naquilo	que	Foucault	chamou	de	“jogo
liberdade	e	segurança”!!	A	governabilidade	liberal	pode	ser	resumida,	então,
como	o	modo	de	governar	que	articula	um	sistema	de	poder	dominado	pela
forma	de	soberania	estatal,	e	um	sistema	de	interdependência	e	de	interação	dos
interesses	individuais.!!	Para	Foucault,	é	essa	articulação	de	elementos
heterogêneos	que	faz	nascer	um	novo	“plano	de	referência”,	um	horizonte
epistemológico	original	e	próprio	da	governabilidade	liberal:	a	“sociedade	civil”.
Ainda	segundo	esse	autor,	a	“sociedade	civil”	é	um	“conceito	de	tecnologia
governamental”	ou,	mais	precisamente,	“o	correlativo	de	uma	tecnologia	de
governo	em	que	a	medida	racional	deva	se	indexar	juridicamente	a	uma
economia,	entendida	como	processo	de	produção	e	de	troca”.ü	É	indispensável
governar	a	sociedade	para	que	seja	possível	alcançar	os	objetivos	visados	por
uma	economia	capitalista.	O	social	não	é,	para	a	racionalidade	liberal,
incompatível	com	uma	economia	capitalista	e,	por	isso,	o	princípio	do	laissez-
faire	passou	a	conviver,	na	medida	do	possível,	com	dispositivos	de	segurança	e
processos	de	normalização	presentes	em	todos	os	níveis	da	sociedade	e	em	todas
as	esferas	da	existência.	Assim	surge	a	biopolítica,	a	gestão	política	da	vida,	nos
cálculos	que	são	feitos	a	partir	da	relação	entrea	reprodução	expandida	do
capital	e	a	reprodução	da	sociedade.	Cálculos	que	nunca	cessaram	de	ser	feitos	e
que	podem	levar	à	submissão	da	vida	ao	poder	da	morte	(necropoder),	ou	seja,	à
necropolítica:2Ê	a	gestão	da	morte	dos	indesejáveis	aos	olhos	dos	detentores	do
poder	político	ou	econômico.
A	racionalidade	liberal	faz	uso	do	significante	“liberdade”	de	várias	maneiras:
por	vezes,	como	a	razão	de	um	contrato	(a	liberdade	indiscutível	seria	apenas	a
liberdade	de	contratar);	em	outras	ocasiões,	como	uma	mensagem	ideológica,
que	cria	a	imagem	do	mundo	livre,	submetido	à	racionalidade	liberal	(em
oposição	aos	países	que	experimentam	outras	racionalidades);	mas,	sobretudo,
como	um	elemento	para	governar	as	pessoas.	Não	por	acaso,	Foucault	chegou	a
apontar	que	as	manifestações	do	poder	disciplinar,	em	especial	no	que	tange	às
disciplinas	corporais,	são	o	“porão	das	liberdades	formais	e	jurídicas”.2Z
A	criação	de	mecanismos	disciplinares,	aliás,	só	se	justifica	e	é	aceita	porque	é
útil:	não	é	possível	manter	a	exploração	e	a	acumulação	de	capital,	inerentes	às
sociedades	de	mercado,	sem	adotar	medidas	que	produzam	corpos	dóceis	(e
úteis)	a	esses	fins.	Em	outras	palavras,	é	útil	a	criação	de	mecanismos	e	de
corpos	que	protejam	a	acumulação	e	a	circulação	de	riquezas	diante	dos	riscos
das	ilegalidades	populares.	A	coação	e	a	repressão	podem	ser	vistas	como	a
contrapartida	das	liberdades,	ou	mesmo	como	condição	de	possibilidade	da
liberdade	de	contratar.
A	racionalidade	liberal	indica,	ainda,	que	a	liberdade	nem	sempre	precisa	ser
limitada	pelo	poder	disciplinar.	Ao	contrário,	a	liberdade	pode	ser	(e
normalmente	é)	instrumentalizada	e	usada	como	um	elemento	de	uma	técnica	de
poder^	para	conseguir	o	que	desejam	os	detentores	do	poder	político	ou	os
detentores	do	poder	econômico.	Isso	se	dá	porque,	segundo	cálculos
probabilísticos,	a	coerção	e	a	opressão	direta	podem	ser	contraprodutivas	para	os
objetivos	de	quem	poderia	exercê-las.	Esses	mesmos	cálculos	indicam	que	a
manipulação	de	certos	elementos	da	trama	simbólica-imaginária,	conhecida
como	realidade,	pode	ser	mais	eficaz,	tanto	para	construir	corpos	dóceis	e	úteis
quanto	para	alcançar	o	objetivo	de	acumular	e	circular	riquezas.	Ao	modificar	o
imaginário	ou	enfraquecer	o	simbólico,	por	exemplo,	os	indivíduos	podem	ser
levados	a	fazer	o	que	em	princípio	não	fariam.	Fala-se,	nesses	casos,	em
psicopoder;	em	pessoas	que	são	controladas	(e,	por	vezes,	se	autoexploram)	sem
ter	consciência	disso.	O	poder,	então,	passa	a	ser	exercido	sobre	pessoas	de
forma	produtiva,	e	não	mais	predominantemente	com	um	objetivo	repressivo.
Se	a	repressão	e	a	exclusão	partem	de	uma	consideração	negativa	do	indivíduo
submetido	ao	poder,	a	racionalidade	liberal	indica	que	o	poder	também	pode	ser
utilizado	sobre	um	indivíduo,	que	é	percebido	como	uma	positividade:	utiliza-se
o	poder	de	forma	produtiva	para	maximizar	os	processos	vitais	da	sociedade.	O
foco	do	poder	político	não	deve	ser	mais	limitar	a	liberdade,	mas	produzir	a
liberdade	útil	aos	interesses	dos	detentores	do	poder	econômico,	a	partir	de	leis	e
dispositivos	que	favoreçam	a	liberdade	de	produção	e	de	circulação.	Como
percebeu	Christian	Laval,	há	uma	tensão	entre	dois	regimes	de	poder	que
coexistem	na	sociedade	capitalista:	o	regime	de	“controle	heterônomo	dos
indivíduos”	e	o	regime	de	“liberdade	das	trocas”,	que	supõe	uma	certa
autonomia	do	indivíduo.	Pretende-se,	assim,	que	exista	um	homem	formatado
por	normas	e	livre	para	consumir:	o	homem	desejável	à	sociedade	de	mercado.	É
a	racionalidade	liberal	que	funda	as	bases	que	permitem	e	levam	à	separação
entre	os	indivíduos	desejáveis	(produtivos	e,	portanto,	úteis)	e	os	indesejáveis,
aqueles	que	não	interessam	à	sociedade	de	mercado.
Percebe-se,	pois,	que	a	economia	política,	mais	do	que	uma	teoria	do	valor,
funciona	como	o	ponto	de	apoio	teórico	para	o	exercício	concreto	do	poder	em
suas	variadas	manifestações.	A	partir	de	cálculos	relacionados	aos	conceitos	de
interesse,	utilidade	e	troca,	passou-se	às	tentativas	de	ampliar	os	efeitos
indiretos	do	exercício	do	poder.	O	utilitarismo	torna-se,	então,	a	teoria
dominante,	com	destaque	para	as	lições	de	Bentham	(1748-1832)	e	Stuart	Mill
(1806-1873),	na	busca	da	ampliação	dos	efeitos	do	exercício	do	poder
concomitante	à	redução	dos	custos	da	atividade	estatal.
A	tecnologia	utilitarista	do	governo	consiste	justamente	nesse	conjunto	de
instrumentos,	mecanismos	e	dispositivos	voltados	à	manipulação	das	vontades	e
ao	condicionamento	das	ações	que	recorrem	à	ideia	de	interesse	individual.	E
isso	só	é	possível	porque	o	indivíduo	a	ser	governado	é	levado	a	calcular	seus
interesses	antes	de	agir.	Promete-se	a	maior	felicidade	e	o	menor	sofrimento
possível,	ou	a	maior	felicidade	para	a	maioria	possível	e	o	menor	sofrimento
inevitável,	este	reservado	à	minoria	da	população:	e	o	indivíduo	passa	a	acreditar
que	tudo	vai	depender	do	seu	esforço	e	dos	cálculos	que	ele	mesmo	deve	fazer.
A	racionalidade	liberal	leva	os	indivíduos	a	buscarem	a	realização	de	seus
próprios	interesses,	a	produzirem	suas	próprias	riquezas	úteis	e,	em
consequência,	a	acreditarem	que	podem	produzir	a	própria	felicidade.	Não	se
trata	mais	de	esperar	ou	de	encontrar	o	local	da	felicidade,	mas	de	produzir
utilidades,	o	que	equivalería	a	produzir	a	própria	felicidade.	Essas	ações
individuais	em	busca	da	máxima	felicidade	possível	são	sempre	instigadas,
incentivadas	e	controladas	a	partir	de	cálculos	que	envolvem	tanto	os	efeitos	das
ações	governamentais	quanto	os	objetivos	de	permitir	a	acumulação	de	riquezas
e	a	livre	circulação	das	mercadorias	e	do	dinheiro.	Os	limites	à	liberdade	e	ao
exercício	do	poder,	portanto,	passam	a	ser	definidos	a	partir	do	critério	da
utilidade.
Mas	o	que	é	útil?	Quando	o	indivíduo	e,	em	especial,	o	governante	podem	agir?
Como	resume	Christian	Laval,	“o	poder	liberal	se	exerce	por	técnicas	jurídicas	e
não	jurídicas	de	incitação	e	desincitação	que	induzem	o	indivíduo	a	calcular
dados	e	parâmetros	que	o	fazem	agir	da	maneira	desejada”.^	Para	o	modo	de
pensar	liberal,	o	útil	é	sempre	o	resultado	desses	cálculos	de	interesse,	dessas
operações	matemáticas	que	envolvem	custos	e	benefícios.
Se	o	discurso	oficial	do	liberalismo	afirma	que	existe	um	indivíduo	naturalmente
livre	(que	cede	parcela	dessa	sua	liberdade	para	o	Estado,	em	uma	relação	de
natureza	contratual,	em	troca	de	prestações	estatais),	na	realidade,	a	liberdade	do
indivíduo	sob	o	poder	liberal	sempre	foi	relativa	e	reduzida.	A	ação	do	indivíduo
“livre”	é	orientada	a	partir	de	ações	deliberadas	de	terceiros	(em	regra,	de	quem
detém	o	poder	político	ou	o	poder	econômico)	que	modificam	o	meio	dentro	do
qual,	e	a	partir	do	qual,	o	indivíduo	“decide”	agir.
A	racionalidade	liberal	permite	que	a	liberdade	do	indivíduo	passe	a	ser
encarada	como	um	recurso	calculável	e	direcionável.	O	princípio	da	utilidade
passa	a	ser	o	meio	não	só	para	redefinir	o	exercício	do	poder	como	também	para
limitar	a	liberdade	de	escolha	dos	indivíduos.	Em	suma,	desde	o	início	do	século
XIX,	a	questão	da	utilidade	(o	que	é	útil?	Útil	para	quem?	Utilidade	individual
ou	geral?)	torna-se	fundamental	para	compreender	os	limites	ao	poder	público.
Sob	a	égide	da	racionalidade	liberal,	a	liberdade	deixa	de	ser	um	dom	concedido
por	Deus,	ou	um	dado	da	natureza	humana,	para	se	tornar	o	produto	de	uma
intervenção	política.	A	liberdade	passa	a	ser	limitada,	aprovada,	estimulada	ou
reprovada	a	partir	de	uma	opção	política.	Esse	controle	da	liberdade,	que
depende	dos	cálculos	típicos	de	toda	racionalidade	econômica,	passou	a	ser
percebido	como	necessário	ao	bom	funcionamento	da	sociedade	de	mercado.
Mas	não	só.	Também	é	necessário	ao	bom	funcionamento	do	liberalismo
restringir	a	liberdade	dos	indesejáveis	ao	mercado.
Como	facilmente	se	percebe,	o	“menor	governo	possível”	proposto	pelos	liberais
precisa	de	“muito	governo”.12	A	meta	de	ampliar	os	efeitos	e	reduzir	os	custos
das	ações	governamentais	nunca	foi	alcançado.	Concessões	feitas	às	classes
populares	para	manter	o	modelo	capitalista	tiveram	um	custoelevado.	E	um
governo	que	atenda	às	demandas	sociais	reduz	a	margem	de	lucro	visada	pelos
detentores	do	poder	econômico.	Há	no	liberalismo	essa	tendência	às
contradições	e	tensões,	isso	porque,	de	um	lado,	a	liberdade	individual	é	tida
como	a	fonte	da	prosperidade,	enquanto	que,	por	outro,	para	esse	modelo	não
colapsar,	são	necessárias	cada	vez	mais	instituições	sociais	que	assegurem	a
existência,	reduzam	os	riscos	da	vida	em	sociedade,	eduquem	e	cuidem	da
população.	Assim,	com	o	aprofundamento	liberal	cresce	a	tensão	entre	a
liberdade	necessária	à	sociedade	de	mercado	e	o	crescimento	da	esfera	pública,
entre	o	lucro	dos	detentores	do	poder	econômico	e	os	gastos	sociais	do	Estado,	e
entre	o	interesse	dos	capitalistas	e	os	interesses	populares.
A	explicitação	das	contradições	do	liberalismo,	nos	anos	sessenta	e	setenta	do
século	XX,	fez	agravar	a	crise	de	governabilidade,	a	ponto	da	Comissão
Trilateral!!	ter	produzido	um	relatório,	em	1975,	no	qual	se	faz	constar	a
“ingovernabilidade	das	sociedades	democráticas”.	Esse	documento	assume
relevância	por	revelar	que	nos	cálculos	de	interesse	dos	detentores	do	poder
econômico	a	democracia	nunca	foi	um	valor	inegociável.	Não	por	acaso,	com	o
fim	da	União	Soviética	e	a	perda	progressiva	da	importância	política	da
manipulação	do	signi-ficante	“democracia”,	cada	vez	mais	as	democracias
ocidentais	passaram	a	se	afastar	dos	princípios	democráticos	que	miram	na
igualdade	e	na	realização	dos	direitos	fundamentais	da	população.
Se	o	laissez-faire	foi	interiorizado	como	verdadeiro	no	imaginário	construído	a
partir	do	regime	de	verdade	resultante	da	racionalidade	liberal,	nem	todas	as
premissas	adotadas	pelos	principais	teóricos	liberais	tiveram	o	mesmo	fim.	A
racionalidade	liberal	não	raro	produz	imagens	e	idéias	que	se	distanciam	das
teorias	e	das	lições	dos	pais-fundadores	do	liberalismo.	Adam	Smith	não
desconhecia	os	limites	do	mercado	e	a	necessidade	do	governo	exercer
determinadas	funções	intervencionistas.	O	“pai	do	liberalismo”	defendia	a
necessidade	de	proteger	os	salários,	de	velar	pela	probidade	dos	bancos,	de
tutelar	as	novas	indústrias,	de	estabelecer	normas	educacionais,	de	limitar	as
taxas	de	juros,	dentre	outras	medidas	de	natureza	interventiva	que	visavam
controlar	o	desejo	de	lucro	dos	capitalistas.	É,	portanto,	um	erro	esperar	uma
total	identificação	entre	uma	determinada	racionalidade	e	as	teorias,	as	fórmulas
econômicas	ou	os	modelos	explicativos	estanques	ligados	a	ela;	isso	porque	a
plasticidade,	a	capacidade	de	adaptação,	é	uma	característica	do	imaginário
construído	a	partir	de	um	determinado	regime	de	verdade.	O	imaginário	é
construído	a	partir	de	múltiplos	fatores,	alguns	deles	capazes	de	fornecer
imagens	contraditórias	entre	si,	mas	que	precisam	ser	organizadas	para	fazer
algum	sentido	para	o	indivíduo.
A	plasticidade	e	a	adaptabilidade	do	imaginário	produzido	a	partir	de	uma
determinada	racionalidade	é	condição	para	a	expansão	desse	modo	de	pensar	e
atuar.	Logo,	novas	imagens	são	produzidas	para	compatibilizar	e	conformar	as
diversas	crenças	já	incorporadas,	as	razões	para	crer,	as	diversas	ações	já
naturalizadas	e	as	razões	para	agir.	Assim,	por	mais	estranho	que	possa	parecer,
naturalizadas	e	as	razões	para	agir.	Assim,	por	mais	estranho	que	possa	parecer,
teorias	liberais	podem	se	mostrar	contrárias	ao	imaginário	liberal,	ou	seja,	em
oposição	do	ponto	de	vista	lógico	à	imagem	que	se	faz	do	mundo	a	partir	da
racionalidade	governamental	liberal.
Como	se	percebe,	a	história	do	liberalismo	nunca	deixou	de	ser	marcada	por
tensões.	Isso	porque,	apesar	de	um	imaginário	que	procurava	compatibilizar
elementos	tão	díspares	e	potencialmente	contraditórios	(tais	como	os	direitos
naturais,	dentre	outros	obstáculos	ao	poder,	a	liberdade	de	comércio,	a
propriedade	privada,	as	virtudes	do	equilíbrio	do	mercado,	a	crença	de	que	a
concorrência	leva	ao	enriquecimento	do	corpo	social	etc.),	uma	série	de	valores
sociais	continuava	a	impedir	que	a	sociedade	se	deixasse	reduzir	ao	resultado	da
lógica	da	concorrência	ou	de	trocas	contratuais.	A	crise	do	liberalismo	foi,
portanto,	gerada	internamente.	Vale	lembrar	as	tensões	produzidas	no	campo
liberal	pela	disputa	de	idéias	entre	os	partidários	da	liberdade	indi-vidual-con-
tratual	como	um	fim	em	si	mesmo	-	e,	portanto,	absoluto	-	e	os	reformistas
sociais,	que	defendiam	o	ideal	de	“bem	comum”,	ou	seja,	a	liberdade	como	meio
à	construção	desse	bem	comum.^	Essa	longa	crise	retrata	a	permanência
possível	de	um	modelo	sedimentado	sobre	dogmas	contraditórios	e	durou	dos
anos	1880	à	grande	depressão	dos	anos	1930,	quando	se	dá	a	emergência	do
neoliberalismo.
1.5.	A	crise	do	liberalismo:	a	fraude	desvelada
Toda	crise	tem	um	elemento	em	comum:	o	desmantelamento	(ou	a	radical
transformação)	do	funcionamento	das	instituições	edificadas	a	partir	da
racionalidade	hegemônica	em	risco	de	ser	superada.	Assim,	durante	a	crise,	o
Executivo,	o	Legislativo	e	o	Judiciário	passam	a	atuar	de	maneira	distinta,	e	o
Direito	e	as	diretrizes	econômicas	também	se	tornam	disfuncionais	ao	sistema.	O
neoliberalismo	nasce	dessa	revisão	das	leis	e	dos	dogmas	liberais,	da
necessidade	de	readaptar	as	instituições	aos	novos	fins	do	Estado	e	da	adesão	à
ideia	de	que	o	Estado	tem	que	ter	uma	função	ativa	na	direção	da	economia.
O	liberalismo	(a	racionalidade,	a	normatividade	e	o	imaginário	liberais)	foi
superado	porque	se	revelou	incapaz	de	apresentar	uma	resposta	adequada	à
questão	prática	da	intervenção	política	em	matéria	econômica	e	social	(algo	que
tanto	o	socialismo	quanto	o	neoliberalismo	conseguiram).	Em	apertada	síntese,	o
liberalismo	passou	a	ser	gradualmente	substituído	porque	as	imagens	e	as	idéias
produzidas	sob	essa	racionalidade	não	conseguiam	explicar,	de	forma
minimamente	coerente	com	os	dogmas	liberais,	a	razão	pela	qual,	em	inúmeras
minimamente	coerente	com	os	dogmas	liberais,	a	razão	pela	qual,	em	inúmeras
oportunidades,	o	Estado	precisava	socorrer	o	mercado.	Ou	seja,	diante	do	modo
de	atuar	e	pensar	tipicamente	liberal	não	era	possível	encontrar	uma	justificação
à	necessidade,	não	rara,	do	Estado	atuar	na	economia.
Já	no	momento	de	crise	do	paradigma	liberal	era	possível	vislumbrar	que	os
direitos	invioláveis	do	indivíduo	passavam	pouco	a	pouco	a	ser	considerados
obstáculos	à	governabilidade	e,	principalmente,	ao	mercado.	Diante	das	novas
questões	econômicas	e	sociais,	surgidas	em	meio	aos	movimentos	de
industrialização	e	urbanização	crescentes,	que	exigiam	do	Estado	uma	atuação
direta	em	resposta	às	mutações	do	capitalismo	(mutações	que,	em	grande	parte,
correspondiam	ao	projeto	de	ampliar	as	margens	de	lucro	dos	detentores	do
poder	econômico)	e	ao	agravamento	dos	conflitos	de	classe	que	colocavam	em
risco	a	propriedade	privada,	muitos	dos	antigos	entusiastas	do	modelo	liberal
começaram	a	reconhecer	a	necessidade	de	permitir	intervenções	estatais	sob
domínios	antes	reservados	ao	indivíduo.	O	dia	a	dia	do	capitalismo	não
correspondia	às	antigas	representações	liberais	da	economia	e	da	política.	As
harmonias	econômicas,	a	mão	invisível	e	outras	idealizações	descritas	nos
esquemas	teóricos	liberais	não	estavam	presentes	no	capitalismo	então	existente.
As	regras	do	jogo	econômico	não	eram	mais	aquelas	que	se	originaram	e
seguiam	os	dogmas	liberais,	tais	como	as	concepções	originais	da	lei	da	oferta	e
da	procura,	ou	mesmo	a	crença	de	que	todas	as	decisões	econômicas	seriam
coordenadas	pelo	mercado	concorrencial.	Para	muitos,	o	liberalismo	clássico
revelou-se	incapaz	de	incorporar	as	modificações	que	surgiram	a	partir	do
fenômeno	da	empresa,	um	modelo	que	pouco	a	pouco	passou	a	ser	reproduzido
por	todos	os	entes	(inclusive	o	Estado).	A	ideia	de	empresa	levou	a	um	novo
modelo	de	organização,	bem	como	a	novas	formas	jurídicas	e	a	novas	dinâmicas
de	competição	incompatíveis	com	a	rigidez	dos	dogmas	liberais.	Com	a	forma
jurídica	empresa	começou-se	também	a	naturalizar	a	ideia	de	concentração
tendencialmente	ilimitada	de	recursos	e	poderes	em	um	ente	privado.	Note-se,
ainda,	que	as	regras	do	jogo	do	liberalismoclássico	não	davam	conta	do
surgimento	de	cartéis	(grupos	que	concentram	poder	e	marginalizam	as	pequenas
unidades	empresariais	adequadas	ao	antigo	modelo	atomístico	de	agentes
econômicos	independentes	e	em	concorrência	“justa”),	do	desenvolvimento	de
técnicas	que	criam	necessidades	artificiais	e	enfraquecem	a	crença	na	autonomia
dos	consumidores,	das	manipulações	no	mercado	conduzidas	por	oligopólios	e
dos	monopólios	sobre	preços,	fenômenos	que	desvelaram	a	fantasia	em	torno	do
mito	de	uma	concorrência	leal	e	que	sempre	resultava	no	“melhor	resultado	para
todos”.
A	racionalidade	liberal	não	impediu	que	o	poder	econômico	passasse	a	controlar
o	poder	político.	E,	pior:	o	liberalismo	propiciou	a	opressão	econômica	dos
indivíduos,	inclusive	dos	pequenos	proprietários.	Como	perceberam	Christian
Laval	e	Pierre	Dardot,	“a	‘mão	visível’	dos	empresários,	dos	financistas	e	dos
políticos	ligados	a	eles	enfraqueceu	formidavelmente	a	crença	na	‘mão	invisível’
do	mercado”.^!
Também	a	pauperização	da	população	foi	um	fenômeno	que	contribuiu	para	a
crise	do	liberalismo.	As	fórmulas	idealizadas	pelos	teóricos	do	liberalismo
clássico	não	apresentavam	respostas	aos	problemas	concretos	das	pessoas,	bem
como	eram	explicitamente	incompatíveis	com	as	tentativas	de	reformas	sociais	e
de	regulamentações	salariais,	que	se	mostravam	cada	vez	mais	necessárias,	sob
pena	de	se	intensificarem	os	conflitos	de	classe.	Pode-se	tentar	resumir	a	crise	do
liberalismo	clássico	pela	constatação	da	ausência	de	uma	teoria	e	de	uma
orientação	para	as	práticas	governamentais	que	foram	se	fazendo	necessárias
diante	das	próprias	contradições	da	racionalidade	liberal.
Os	efeitos	sentidos	pela	população	ao	longo	do	século	XIX	também	fizeram	com
que	o	imaginário	popular	pouco	a	pouco	fosse	abandonando	as	imagens
positivas	relacionadas	ao	laissez-faire	e	à	liberdade	como	um	fim	em	si	mesmo.
O	liberalismo	clássico	e	o	respectivo	ciclo	de	negócios	geraram	uma	“nova”
pobreza	que	comprometeu	todo	o	século	XIX.	A	ideia	liberal	de	que	a	relação
salarial	era	o	resultado	harmonioso	de	um	contrato	entre	partes	iguais	e	com
vontades	independentes	caiu	em	descrédito,	como	demonstrou	todo	um
movimento	na	Europa,	instaurado	em	meados	do	século	XIX	e	intensificado	com
as	reformas	de	Bismarck	(fins	dos	anos	1870),	de	criação	de	dispositivos,
regulamentações,	leis	destinadas	à	proteção	do	trabalhador	e	que,	indiretamente,
visavam	evitar	revoltas	populares.	A	proteção	coletiva	e	a	segurança	social
surgem,	nesse	contexto,	como	concessões	dos	detentores	do	poder	político,
pressionados	pelo	surgimento	de	um	forte	movimento	operário,	diante	do
fracasso	da	prometida	“harmonia”	social	a	partir	da	concorrência	e	da
“liberdade”	de	contratar.
Essas	concessões,	que	figuram	como	a	origem	da	maioria	dos	direitos	sociais
(direitos	a	uma	prestação	positiva	do	Estado),	são	tidas	como	inadmissíveis	pelos
partidários	da	ideia	de	liberdade	(basicamente,	a	liberdade	de	contratar)	como
um	fim	em	si	mesmo	(os	individualistas).	Não	raro,	os	liberais	adeptos	das
reformas	sociais	eram	acusados	de	socialistas	por	aqueles	que	defendiam	as	leis
do	liberalismo	clássico	e	a	absoluta	ausência	de	intervenção	estatal	nos	domínios
econômicos.	E	foi	nesse	contexto	que	Herbert	Spencer	tornou	famosa	a
expressão	“sobrevivência	dos	mais	aptos”,como	forma	de	aproximar	sua
concepção	de	laissez-faire	da	teoria	evolucionista	de	Darwin.	Em	apertada
síntese,	para	Spencer,	toda	ingerência	na	coordenação	da	sociedade	pelo	Estado
representaria	um	obstáculo	injustificável	à	lei	de	evolução	que	levaria	à
cooperação	voluntária	de	natureza	contratual.	Mesmo	as	leis	que	criaram
obstáculo	ao	trabalho	de	crianças	em	minas,	por	exemplo,	eram	objeto	da
reprovação	de	Spencer	e	de	seus	apoiadores	na	medida	em	que,	segundo	eles,
contribuíram	para	minar	o	sistema	de	“liberdade	e	responsabilidade”	oriundo	dos
dogmas	do	liberalismo	clássico.
Frise-se	que	essa	linha	argumentativa	de	Herbert	Spencer	se	aproxima	do
discurso	encontrado	na	obra	do	neoliberal	Friedrich	Hayek	ao	tratar	da
“impaciência	das	massas”,^	muito	embora	este	último	vá	sustentar	a	necessidade
do	Estado	atuar	na	defesa	dos	interesses	do	mercado.	A	semelhança	entre	o
discurso	de	Spencer	e	o	de	Hayeck	serve,	porém,	para	demonstrar	que	o	valor	da
dignidade	da	pessoa	humana	não	serve	de	obstáculo	aos	cálculos	de	interesse
enunciados	a	partir	das	racionalidades	econômicas	(liberal	e	neoliberal).
A	ajuda	estatal	aos	pobres,	para	Spencer,	era	uma	ação	equivocada	direcionada
aos	“pobres	demeritórios”,íZ	pessoas	que	não	iam	trabalhar	por	contar	com	o
Estado.	A	“lei	natural”	de	Spencer	seria	no	sentido	de	que	as	pessoas	que	não	se
bastam	deveríam	perecer.	Ainda	segundo	esse	autor	(que	defende	posições	que
retomaram	prestígio	no	século	XXI),	haveria	uma	tendência	à	falta	de	limites	da
intervenção	estatal,	o	que	seria	reforçado	tanto	pela	educação,	uma	vez	que	o
estudo	intensificaria	desejos	por	objetos	que	são	inacessíveis	às	grandes	massas,
quanto	pelo	sufrágio	universal,	responsável	por	fazer	com	que	os	políticos
fizessem	promessas	para	determinadas	parcelas	da	sociedade,	que	nunca
poderíam	ser	cumpridas	sob	pena	de	instaurar	o	caos	social.
A	visão	de	mundo	do	spencerismo	era	apresentada	por	seus	defensores	como
científica,	enquanto	as	construções	teóricas	que	procuravam	justificar	a	criação
de	direitos	(como,	por	exemplo,	as	de	Hobbes,	Bentham	e	Austin)	eram	tachadas
de	falaciosas,	pois	ao	Estado	caberia	apenas	moldar	o	que	já	existe,	o	que
significaria	garantir	tão	somente	a	execução	dos	contratos	livremente
estipulados.
Vale	lembrar	que,	para	Spencer,	todos	os	direitos	se	originaram	de	contratos
expressos	ou	tácitos,	que	eram	os	instrumentos	responsáveis	por	fazer	as	pessoas
viverem	em	sociedade,	e	que	as	partes	teriam	se	comprometido
“espontaneamente”	a	respeitar.	Em	outras	palavras,	contra	a	busca	do	bem-estar
defendida	pelos	liberais	intervencionistas,	sobretudo	os	oriundos	do	radicalismo
inglês	(utilitaristas),	Spencer	defendia	as	“leis	naturais”,	as	relações	de	causa	e
efeito	geradas	pela	ideologia	do	laissez-faire.
Apesar	do	spencerismo,	e	do	sucesso	alcançado	por	suas	principais	formulações
em	um	certo	meio,	prevaleceu	um	modo	de	ver	e	atuar	na	sociedade	que
reconhecia	o	valor	da	solidariedade	e	o	instinto	da	simpatia	como	expressões	da
civilização	que	se	queria	construir.	Mesmo	entre	os	liberais,	ganhou	corpo	a	tese
de	que	o	Estado	era	não	só	um	interventor	legítimo	nos	domínios	da	sociedade	e
do	mercado	como	também	um	agente	necessário	tanto	na	organização	do
capitalismo	quanto	na	melhoria	das	condições	da	população.	Assim,	pode-se
afirmar	que	a	Primeira	Guerra	Mundial	e	as	crises	que	lhe	seguiram	apenas
anteciparam	mudanças	nos	dogmas	liberais	que	já	estavam	em	gestação	desde
meados	do	século	XIX.	Essas	mudanças	no	campo	teórico	e	no	modo	de	governo
liberal	vieram	acompanhadas	também	de	mudanças	no	imaginário.
As	imagens	produzidas	a	partir	de	visões	idealizadas	da	livre	concorrência,	da
liberdade	contratual	e	do	livre	comércio	perdiam	força	diante	dos	abalos
percebidos	e	sentidos	no	sistema	social	e	econômico.	Fenômenos	como
manipulação	de	preços,	especulação,	desordens	políticas	e	revoltas	populares
revelavam	aos	olhos	de	governantes	e	de	governados	a	impossibilidade	de	um
governo	preso	aos	dogmas	liberais	clássicos.	Esse	conjunto	de	fatores	fez	com
que	se	instaurasse	a	desconfiança	e,	pouco	depois,	a	rejeição	a	um	conjunto	de
idéias	que	pregava	a	liberdade	total	para	os	agentes	econômicos	e	os	atores	no
mercado.	Mesmo	os	defensores	do	liberalismo	passaram	a	considerar	o	laissez-
faire	ultrapassado.	Buscava-se,	então,	reformular	o	modelo	liberal	para	salvá-lo.
E	o	Estado	parecia	ser	o	ente	capaz	da	missão	de	reconstruir	o	sistema	capitalista
liberal.
Em	meio	às	tensões	inerentes	ao	liberalismo,	costuma-se	apontar	a	Grande
Depressão	dos	anos	1930	como	o	ponto	de	revisão	radical	da	representação	e	do
imaginário	liberal.	Todavia,	nos	países	anglo-saxões,	o	processo	de	reforma
social	do	liberalismo	já	estava	em	andamento	mesmo	antesdisso.	O	próprio	New
Deal	foi	antecedido	de	um	trabalho	crítico	considerável	que	passava,	dentre
outras	coisas,	por	produzir	mudanças	no	subje-tivismo	liberal.	Como	explicam
Christian	Laval	e	Pierre	Dardot,
Christian	Laval	e	Pierre	Dardot,
[...]	desde	o	fim	do	século	XIX,	nos	Estados	Unidos,	o	significado	das	palavras
liberalism	e	liberal	começava	a	mudar	para	designar	uma	doutrina	que	rejeitava
o	laissez-faire	e	visava	reformar	o	capitalismo.	Um	‘novo	liberalismo’	mais
consciente	das	realidades	sociais	e	econômicas	procurava	definir	havia	muito
tempo	uma	nova	maneira	de	compreender	os	princípios	do	liberalismo,	que
emprestaria	certas	críticas	do	socialismo,	mas	para	melhor	realizar	os	fins	da
civilização	liberal.^
Ainda	em	1911,	Leonard	Hobhouse	sustentou	a	necessidade	de	uma	nova	leitura
sistemática	do	liberalismo.	Para	ele,	o	movimento	de	libertação	do	indivíduo
teria	levado	a	certas	formas	de	organização	social	que	não	encontravam
equivalência	nas	idealizações	dos	teóricos	do	liberalismo	clássico.	Caberia	a	essa
nova	organização	social,	resultado	de	um	processo	histórico,	produzir
coletivamente	as	condições	de	possibilidade	do	pleno	desenvolvimento	da
personalidade,	inclusive	em	sua	dimensão	econômica.	Para	tanto,	segundo
Hobhouse,	era	necessário	que	as	relações	que	necessariamente	os	indivíduos
travavam	uns	com	os	outros	ficassem	submetidas	a	regras	coletivamente
estabelecidas.	Essas	regras,	construídas	com	a	possibilidade	de	participação	de
cada	indivíduo	(baseadas,	portanto,	no	princípio	da	proporcionalidade	da
representação	política),	seriam	indispensáveis	à	concretização	da	verdadeira
liberdade,	ou	seja,	de	uma	liberdade	efetiva	para	além	dos	esquemas	teóricos	dos
liberais	clássicos.^
Ainda	segundo	Hobhouse,	a	ideia	de	liberdade	necessita	de	uma	concepção	mais
concreta,	o	que	só	seria	possível	a	partir	de	uma	legislação	voltada	à	proteção
dos	mais	fracos.	Assim,	como	o	verdadeiro	consentimento	é	sempre	livre	e	bem
informado,	caberia	ao	Estado	reequilibrar	as	trocas	sociais	em	benefício	dos
mais	fracos	através	de	uma	intervenção	legislativa,	de	modo	a	assegurar	a
igualdade	entre	as	partes	comprometidas	em	uma	transação,	o	que	é	necessário	à
plena	liberdade	do	consentimento.	Enquanto	o	liberalismo	clássico	se	mostrava
capaz	apenas	de	assegurar	a	liberdade	não	social	(a	liberdade	dos	mais	fortes),	a
proposta	de	Hobhouse	era	no	sentido	inverso:	o	Estado	deveria	intervir	para
garantir	a	liberdade	social,	o	acesso	à	informação	e	o	consentimento	livre,	a
única	forma	de	se	chegar	à	liberdade	plena.	Ter-se-ia,	então,	uma	intervenção
para	não	só	assegurar	a	verdadeira	liberdade	como	também	para	impedir	a
desarmonia	social.^2
Havia,	então,	uma	espécie	de	consenso:	um	novo	liberalismo	fazia-se	necessário
para	evitar	o	fim	do	liberalismo.	Dessa	necessidade,	que	retratava	a	incapacidade
dos	dogmas	liberais	clássicos	de	estabelecer	e	justificar	limites	à	intervenção
estatal	surge	tanto	o	novo	liberalismo,	que	costuma	ser	atribuído	a	John	Maynard
Keynes	(também	conhecido	como	liberalismo	social	ou	socialismo	liberal),
quanto	o	neoliberalismo	que	aparece	a	partir	da	Escola	Austríaca	e	que	ganha
novos	contornos	e	possibilidades	com	a	Escola	de	Chicago.
De	um	lado,	um	novo	liberalismo	com	preocupações	sociais	e	que	era
fundamentalmente	democrático,	com	mais	receio	dos	abusos	do	capital	e	da
reconstituição	das	oligarquias	do	que	do	poder	das	massas	ou	da	tirania	das
maiorias.	De	outro,	o	neoliberalismo,	tendencialmente	desdemocratizante,
marcado	desde	sua	origem	pela	dificuldade	de	conciliar	os	interesses	do	mercado
(e	de	uma	minoria	constituída	pelos	detentores	do	poder
econômico)	com	os	interesses	da	maioria	da	população.	Não	por	acaso,	o
keynesianismo	tornou-se	o	alvo	preferido	dos	neoliberais,	muito	embora	os	dois
movimentos	reformistas	tenham	nascido	do	mesmo	desejo	de	salvar	o	sistema
capitalista	diante	das	distorções	produzidas	por	uma	concepção	dogmática	e
alheia	à	realidade	do	liberalismo.
Em	Keynes	encontra-se	uma	das	mais	bem	formuladas	críticas	ao	liberalismo
clássico.”	A	obra	de	John	Maynard	Keynes,	contudo,	parece	deixar	claro	que	ele
não	desejava	superar	o	liberalismo,	mas	apenas	substituir	as	concepções
dogmáticas	distanciadas	das	necessidades	do	momento	histórico.	Com	Keynes,
ganhou	corpo	uma	espécie	de	“terceira	via”	ao	liberalismo	clássico	e	ao
socialismo,	na	medida	em	que	foi	formulada	uma	teoria	em	que	eram
apresentados	novos	fundamentos	para	repensar	a	intervenção	estatal.
Resumidamente,	pode-se	afirmar	que	Keynes	formulou	uma	alternativa	em
termos	de	governabilidade	que	se	situava	entre	o	conservadorismo	liberal	(e	suas
distorções,	como	o	fascismo)	e	a	revolução	comunista.	Apropriando-se	de	lições
de	pensadores	tão	diferentes,	como	o	conservador	Edmund	Burke	e	o
“revolucionário”	Bentham,	Keynes	procurou	desenvolver	uma	teoria	que	desse
conta	tanto	do	problema	jurídico	de	definir	com	precisão	a	área	de	atuação	do
Estado	(o	que	o	Estado	deve	tomar	a	seu	cargo	e	gerir	segundo	o	desejo	da
maioria)	e	o	que	deveria	ser	deixado	à	iniciativa	privada,	quanto	da	questão
prática	de	definir	uma	agenda	(um	dever	fazer)	e	uma	não	agenda	(um	dever
não	fazer)	para	os	governantes.
Em	linhas	gerais,	pode-se	dizer	que	a	teoria	de	Keynes	justifica	a	ação
governamental	necessária,	ou	seja,	“o	essencial	para	um	governo	não	é	fazer	um
pouco	melhor	ou	um	pouco	pior	o	que	os	indivíduos	já	fazem,	mas	fazer	o	que
atualmente	não	é	feito	de	maneira	alguma”.”	Para	ele	era	absurdo	atribuir	a
riqueza,	o	comércio	e	a	indústria	simplesmente	à	livre	concorrência,	como
faziam	os	economistas	liberais	clássicos,	da	mesma	forma	que	era	absurdo
deixar	a	população	ao	acaso,	submetida	às	condições	da	livre	concorrência	e	do
laissez-faire,	como	defendiam	os	“darwinistas	sociais”.	Caberia	ao	“novo
liberalismo”	controlar	as	forças	econômicas,	evitando	conflitos	sociais,	através
de	intervenções	estatais	que	teriam	um	papel	regulador	e	redistri-buidor
fundamental.
Na	proposta	de	um	novo	liberalismo	de	Keynes,	os	princípios	da	liberdade	do
comércio	e	da	propriedade	privada	deveríam	ser	percebidos	como	meros	meios
como	outros	quaisquer,	e	não	mais	como	os	núcleos	do	modelo	liberal	ou	fins
em	si	mesmos.	Assim,	através	de	ações	estatais	de	reequilíbrio	e	proteção	dos
mais	fracos,	se	estaria	assegurando	a	liberdade	de	um	maior	número	de	pessoas,
inclusive	fornecendo	oportunidades	melhores	para	mais	pessoas	participarem
ativamente,	e	em	condições	mais	justas,	do	jogo	econômico:	o	liberalismo	social
se	propõe,	portanto,	a	garantir	a	extensão	máxima	da	liberdade	para	o	maior
número	possível	de	indivíduos.	Ao	contrário	do	que	sustentam	seus	adversários,
o	liberalismo	keynesiano	é	uma	“filosofia	plenamente	individualista,	esse
liberalismo	dá	ao	Estado	o	papel	essencial	de	assegurar	a	cada	indivíduo	os
meios	de	realizar	seu	próprio	projeto”.”
Percebe-se	que	teóricos	como	Hobhouse	e	Keynes	procuraram	dar	conta	de
salvar	o	liberalismo	e	reformar	o	capitalismo.	Em	comum	entre	ambos,	além	da
crença	um	tanto	ingênua	em	um	capitalismo	saudável	e	com	preocupações
sociais,	há	a	ideia	de	que	a	política	deve	buscar	a	realização	do	bem	comum	e
ficar	condicionada	por	diretrizes	morais	coletivas.	Essa	postura,	como	se
percebe,	não	é	uma	traição	ao	“verdadeiro	liberalismo”,	mas	uma	tentativa	de
salvar	o	liberalismo	que,	na	visão	dessa	corrente	“progressista”,	caminhava	para
a	extinção.	O	equívoco	de	muitos	dos	detratores	do	chamado	liberalismo	social	é
o	de	acreditar	que	o	liberalismo	representa	um	todo	monolítico,	sem	tensões	ou
variações.	Como	já	se	viu,	o	liberalismo,	como	racionalidade	e	imaginário,	não
possui	uma	identidade	fundamental	e	imutável,	mas	apresenta	uma	plasticidade
que	permite	adaptações	e	permanências	a	depender	do	contexto.
Em	A	grande	transformação,^	Karl	Polanyi	mostra	que	a	racionalidade	liberal
permitiu	uma	dupla	ação	do	Estado	no	século	XIX:	por	um	lado,	atuou	na
criação,	no	fortalecimento	e	na	manutenção	dos	mecanismos	de	mercado,	por
outro	implementou	mecanismos	de	limitação	desse	mesmo	mercado.	Pode-se,então,	admitir	que	as	tensões	do	liberalismo	produziam	um	movimento	na
direção	da	sociedade	de	mercado	e	um	contramo-vimento	de	resistência	aos
mecanismos	desse	mesmo	mercado	em	favor	da	sociedade	e	dos	indivíduos.
Nesse	movimento	produzido	a	partir	da	racionalidade	liberal,	a	natureza	e	o
trabalho	passaram	a	ser	percebidos	e	tratados	como	mercadorias,	enquanto	que
as	relações	sociais	tomaram	a	forma	da	relação	mercantil.
Essa	ficção	de	que	o	mercado	pode	ser	o	modelo	para	tudo	o	que	existe	passou	a
organizar	a	sociedade.	Para	mantê-la	tornou-se	necessária	uma	atuação	do
Estado,	através	da	produção	de	leis	(função	legislativa)	e	de	atos	concretos	de
poder	(função	executiva),	direcionados	a	fixar	o	direito	de	propriedade,
estabelecer	as	regras	dos	contratos	e	assegurar	as	condições	necessárias	ao
funcionamento	otimizado	do	mercado	concorrencial.	Em	poucas	palavras,	do
ponto	de	vista	da	história	do	liberalismo	econômico,	a	racionalidade	liberal
levou	à	criação	do	laissez-faire,	e	não	o	contrário.	Aliás,	pode-se	afirmar	que	o
laissez-faire	faz	parte	do	imaginário	liberal,	mas	não	é	da	essência	do
liberalismo	econômico.
O	paradoxo	percebido	por	Polanyi	é	o	de	que	o	mesmo	Estado	que	criou	e
mantém	a	sociedade	de	mercado	é	também	o	responsável	por	estabelecer	limites
ao	poder	econômico,	reprimindo	a	dinâmica	espontânea	do	mercado	com	o
objetivo	de	proteger	a	sociedade.	A	complexidade	da	racionalidade	liberal	reside
no	fato	de	que	ela	permite	criar	e	destruir	em	nome	do	mercado,	bem	como
produzir	medidas	de	correção	dos	rumos	do	mercado	“autorregulador”,	tais
como	o	protecionismo	comercial	e	o	protecionismo	social	(através,	por	exemplo,
da	instituição	de	direitos	aos	trabalhadores).	Polanyi	foi	capaz	de	perceber	que
várias	formas	de	intervencionismo	do	Estado	são	possíveis.	Ele	demonstra	que	a
separação	radical	entre,	de	um	lado,	o	Estado	e,	de	outro,	o	mercado,	presente	no
imaginário	liberal,	é	antes	de	tudo	uma	fraude	histórica.	Basta,	por	exemplo,
analisar	a	funcionalidade	econômica	da	guerra	entre	o	Norte	e	o	Sul	para	unificar
as	regras	de	funcionamento	do	capitalismo	norte-americano.	Poder-se-ia,	ainda,
lembrar	do	exemplo	do	golpe	de	Estado	no	Chile	em	1973	que	funcionou	como
condição	de	possibilidade	da	colocação	em	prática	das	fórmulas	neoliberais
cunhadas	pela	Escola	de	Chicago.	Na	realidade,	as	intervenções	voltadas	à
criação	do	mercado	e	as	direcionadas	à	proteção	da	sociedade	(reduzindo	as
tensões	políticas	e	sociais)	são	contraditórias	apenas	na	aparência,	pois	ambas
atendiam	ao	mesmo	projeto:	manter	o	liberalismo	econômico.
Contudo,	o	grande	equívoco	de	Polanyi,	que	apostava	no	fim	do	liberalismo
(extinção	que	representaria	“a	grande	transformação”	anunciada	em	sua
principal	obra),	foi	subestimar	o	potencial	de	uma	nova	forma	de	intervenção,	de
natureza	“liberal”	(neoliberal),	voltada	exclusivamente	à	satisfação	dos
interesses	dos	detentores	do	poder	econômico:	uma	intervenção	que	é	possível
manter,	proteger	e	levar	ao	melhor	funcionamento	possível	do	mercado”	sem
compromisso	com	os	dogmas	liberais	(capaz,	inclusive,	de	sacrificar	o	laissez-
faire).
A	realidade,	sempre	uma	trama	entre	o	simbólico	e	o	imaginário,	levou	à
modificação	da	racionalidade	liberal	a	ponto	de	0	sistema	de	mercado	e	a
intervenção	estatal	não	serem	mais	termos	que	se	excluam	mutuamente	diante
das	regras	do	jogo	econômico.	O	Estado,	para	atender	aos	fins	do	mercado	(e,
em	consequência,	aos	interesses	dos	detentores	do	poder	econômico),	cada	vez
mais	passou	a	atuar	na	economia.	É	justamente	esse	movimento	que	vai	levar	à
substituição	sem	traumas	da	racionalidade	liberal	pela	racionalidade	neoliberal.
Um	modo	de	ver	e	atuar	no	mundo	que	conta	com	intervenções	estatais	para
socorrer	o	mercado,	mas	que	não	admite	limites	ao	exercício	do	poder
econômico:	“um	intervencionismo	destinado	a	moldar	politicamente	relações
econômicas	e	sociais	regidas	pela	concorrência”.”
i.6.	A	hegemonia	da	racionalidade	neoliberal:	um
mundo	para	os	detentores	do	poder	econômico
Se	a	racionalidade	liberal	gerou	o	primeiro	governo	econômico	dos	homens,	a
racionalidade	neoliberal,	que	se	tornou	hegemônica	após	os	esforços	dos
detentores	do	poder	econômico	voltados	à	criação	de	obstáculos	para	outras
formas	de	racionalidade	de	viés	antiliberal	ou	social,	se	caracteriza	por	alterar	as
formas	do	exercício	do	poder	a	partir	da	sedimentação	de	uma	nova	relação	entre
o	mercado	e	o	Estado.	Surge	um	novo	imaginário	e	uma	nova	normatividade	que
se	relacionam	com	novas	maneiras	de	condicionar	as	ações	humanas.	Como	uma
reação	econômica	e	política	a	fenômenos	como	o	keynesianismo	e	o	socialismo,
o	neoliberalismo	leva	à	gerência	econômica	de	esferas	e	atividades	até	então
governados	por	outros	sistemas	de	valores,	o	que	leva	à	hegemonia	de	uma
racionalidade,	uma	normatividade	e	um	imaginário	desestruturantes	das
instituições	e	das	práticas	anteriores.
Para	qualquer	análise	do	neoliberalismo	é	importante	atentar	que	o	produto	dessa
racionalidade	pode	tomar	diversas	formas	e	apresentar	significativas	variações
racionalidade	pode	tomar	diversas	formas	e	apresentar	significativas	variações
de	conteúdo.	Como	percebeu	Wendy	Brown,	“ele	é	onipresente	em	escala
mundial,	mas	não	é	unificado	nem	idêntico	a	si	mesmo	no	tempo	e	no
espaço”.^Z	Frequentemente,	o	neoliberalismo	se	reconfigura	como	condição
para	manter	a	hegemonia,	e,	para	tanto,	sua	dimensão	ideológica	é	fundamental,
para	tornar	possível	a	apresentação	de	uma	nova	versão	do	neoliberalismo	como
resposta	aos	problemas	gerados	pela	própria	racionalidade	neoliberal.	Em	certo
sentido,	essa	versatilidade,	essa	irregularidade	e	essa	ausência	de	uma	identidade
bem	definida	são	manifestações	da	ilimitação	que	caracteriza	o	fenômeno:
teorias,	práticas	e	formas	podem	ser	abandonadas	em	atenção	aos	fins	do
mercado.
Como	em	toda	mudança	paradigmática,	o	neoliberalismo	procura	apresentar	uma
garantia	para	o	estado	do	planeta,	os	interesses	individuais	e	a	justiça	entre	os
homens.	Se	no	absolutismo	a	garantia	era	Deus,	no	neoliberalismo	a	garantia	é	o
mercado	protegido	e	auxiliado	pelo	Estado.	Diante	do	contexto	gerado	pela	crise
do	liberalismo,	a	racionalidade	neoliberal	aparece	como	a	resposta	possível	à
superação	dos	problemas	sem	solução	no	modelo	anterior.	Para	tanto,	há	um
novo	modo	de	pensar	e	atuar	que,	por	exemplo,	se	dispõe	a	“abandonar	ou	trair	o
ideal	de	uma	cidade	regida	por	leis	que	ela	mesma	se	dá”,^	substituindo	essas
leis,	pensadas	e	aprovadas	segundo	a	tradição	da	democracia	representativa,	por
decisões	tomadas	a	partir	de	cálculos	de	interesse,	por	um	governo	impessoal
que	assume	a	forma	de	“uma	governança	pelos	números”.^
A	racionalidade	neoliberal	faz	dos	valores	e	dos	interesses	do	mercado
verdadeiros	condicionantes	de	toda	atuação	humana.	E	isso	leva	a	uma	mutação
do	Estado,	da	sociedade	e	dos	indivíduos,	a	partir	de	“ataques	aos	princípios,
práticas,	culturas,	sujeitos	e	instituições	da	democracia,	compreendida	como
governo	pelo	povo”.É2	Esse	caráter	profundamente	desestruturante	do
neoliberalismo	indica,	como	percebeu	Wendy	Brown,	que	tal	fenômeno	é	“bem
mais	do	que	um	conjunto	de	políticas	econômicas,	uma	ideologia	ou	uma
redefinição	radical	das	relações	entre	o	Estado	e	a	economia”.^
O	neoliberalismo	torna-se,	então,	uma	racionalidade,	isto	é,	um	modo	de
compreender	e	atuar	no	mundo,	capaz	de	produzir	mutações	sobre	tudo	e	todos.
Muda	o	funcionamento	das	instituições.	Muda	o	relacionamento	entre	as
pessoas.	Muda	a	imagem	que	cada	pessoa	faz	de	si.	Uma	racionalidade	que,	para
facilitar	os	“cálculos	de	interesse”,	gera	classificações,	tais	como	“desejáveis”	e
“indesejáveis”,	“amigos”	(do	mercado)	e	“inimigos”.	Um	modo	de	pensar	e
atuar	no	mundo	que	redefine	vocabulários,	empobrece	a	linguagem,	demo-niza
atuar	no	mundo	que	redefine	vocabulários,	empobrece	a	linguagem,	demo-niza
culturas	políticas,	modifica	hábitos	cidadãos,	relativiza	direitos	fundamentais	e
inviabiliza	práticas	democráticas.	Sob	a	égide	da	racionalidade	neoliberal,	todas
as	esferas	da	vida	passam	a	ser	pensadas	eé	o	seguinte:
ou	a	maquinaria	de	produção	do	imaginário	continua	a	sua	loucura,	e	será	o
colapso	da	humanidade,	ou	é	detida,	e	a	humanidade	faz	uma	bifurcação	radical
colapso	da	humanidade,	ou	é	detida,	e	a	humanidade	faz	uma	bifurcação	radical
para	se	dar	uma	oportunidade	de	sobreviver.	Mas	ao	preço	de	que	esforço	da
parte	de	cada	um?	E	com	que	apoio?	Nada	será	feito	sem	uma	nova	imagem	de
si	próprio,	dos	outros,	da	vida:	por	outras	palavras,	pensar	a	alternativa	à
catástrofe	que	se	avizinha	implica	a	reconstrução	de	outro	imaginário.	Assim,	é	a
reflexão	e	a	ação	às	quais	o	belo	livro	de	Rubens	Casara	nos	convida,	mas
talvez,	ainda	mais,	a	criação	dessas	novas	imagens	da	vida	e	do	ser	humano	que
serão	necessárias	para	ultrapassarmos	a	lógica	destrutiva	que	nos	leva	ao	pior.
1
Christian	Laval	(1953)	é	sociólogo	e	professor	da	Universidade	de	Paris-
Nanterre.	Especialista	nas	obras	de	Jeremy	Bentham	e	Karl	Marx,	dedica	grande
parte	da	sua	obra	a	discutir	os	enigmas	e	implicações	do	neoliberalismo.	É
membro	do	grupo	de	estudos	Question	Marx	e	do	Centre	Bentham,	além	de
pesquisador	associado	a	Fédération	Syndicale	Unitaire.	No	Brasil,	é	conhecido
por	obras	como	Comum,	a	nova	razão	do	mundo	e	A	escola	não	é	uma	empresa,
todas	pela	Editora	Boitempo,	sendo	as	duas	primeiras	em	colaboração	com
Pierre	Dardot.
APRESENTAÇÃO
Márcio	Sotelo	Felippe^
i.	“A	raposa	sabe	muitas	coisas,	mas	o	ouriço	sabe	uma	grande.”	Em	um	ensaio
sobre	Tolstoi,	Isaiah	Berlin	resgatou	esse	fragmento	do	poeta	grego	arcaico
Arquíloco.	Pensadores	e	escritores	podem	ser	ouriços	ou	raposas.	Ouriços,
explica	Berlin,	relacionam	tudo	a	uma	noção	central,	um	sistema	coerente	e
articulado,	um	princípio	único,	universal	e	organizador.	Raposas	buscam
diversos	fins,	geralmente	não	relacionados,	eventualmente	contraditórios,	sem
vínculo	a	alguma	moral	específica	ou	princípio	estético.	Movem-se	em	vários
níveis	e	em	uma	vasta	variedade	de	experiências.	Mas	não	se	deve	tomar
esquematicamente	a	distinção	e	nem	entendê-la	como	juízo	de	valor,	já	que	o
ouriço	se	safa.
Berlin	classifica	como	ouriços	Dante,	Platão,	Lucrécio,	Pascal,	Hegel,
Dostoievski,	Nietzsche,	Ibsen,	Proust.	Como	raposas,	Heródoto,	Aristóteles,
Montaigne,	Erasmo,	Molière,	Goethe,	Pushkin,	Balzac,	Joyce.
Se	tomarmos	o	afresco	de	Rafael	Escola	de	Atenas,	que	representa	a	Academia
de	Platão,	temos	uma	mostra	pictórica	da	distinção.	Platão	aponta	o	dedo	para	o
alto,	para	um	princípio	único	e	organizador	da	realidade.	Aristóteles	espalma	a
mão	para	baixo,	indicando	que	está	ocupado	com	a	multiplicidade	de
experiências	aqui	mesmo	pela	Terra,	com	os	cinco	dedos	abertos.
Rousseau	e	Voltaire,	que	não	aparecem	nos	exemplos	de	Berlin,	são	clássicos
ouriço	e	raposa.	A	raposa	Voltaire	criticou	a	intolerância,	defendeu	a	liberdade,
combateu	a	opressão	sem	filiar	suas	causas	a	um	princípio	universal,	ao
contrário	de	Rousseau.	Foi	ferino	com	Rousseau	e	Leibniz,	que	eram,	ou	talvez
porque	fossem,	ouriços.	Movia-se	quando	se	deparava	com	a	estupidez	e	o
obscurantismo,	mas	não	se	preocupava	com	a	organização	da	experiência	por
meio	de	uma	lente.	O	ouriço	Rousseau,	apesar	de	ter	sido	objeto	-	melhor	seria
dizer	vítima	-	de	múltiplas	e	contraditórias	interpretações,	fundamentava	a
democracia	em	uma	base	filosófica	derivada	de	uma	base	teológica.
Seu	caminho	para	ela	se	iniciava	com	uma	teodiceia,	expressão	cunhada	por
Leibniz	para	o	problema	de	conciliar	a	perfeição	de	Deus	com	a	existência	do
mal	no	mundo.	A	solução	de	Leibniz,	para	dizê-lo	sinteti-camente,	consistiu	em
mal	no	mundo.	A	solução	de	Leibniz,	para	dizê-lo	sinteti-camente,	consistiu	em
remeter	o	problema	à	distância	entre	a	mente	humana,	limitada	e	incapaz	de
alcançar	a	mente	divina,	seus	desígnios	e	planos.
Mas	a	solução	de	Rousseau	para	o	problema	da	teodiceia	era	mais	específica,
original	e	concreta	e	forjou,	em	grande	parte,	a	modernidade,	que	dispensou	o
fundo	teológico.	Nunca	houve	um	pecado	original,	uma	natureza	humana
imperfeita,	mas	seres	que	nascem	livres,	capazes	de	construir	o	racional,	com	o
atributo	da	per-fectibilidade,	a	aptidão	para	aperfeiçoar-se.	O	mal	decorre	do	não
uso	desse	atributo,	e	na	gênese	disso	está	a	propriedade,	a	partir	da	qual	surgem
as	instituições	políticas	e	jurídicas	visando	assegurá-la,	como	se	vê	na	segunda
parte	do	Discurso	sobre	a	origem	da	desigualdade	entre	os	homens.	Portanto,	o
sujeito	da	imputabilidade	pelo	mal	era	a	sociedade.	Como	afirma	Ernst	Cassirer,
em	um	texto	indispensável	para	compreender	Rousseau	(A	questão	Jean-
Jacques	Rousseau),	todas	as	lutas	sociais	dos	séculos	seguintes	têm	essa	dívida
com	Rousseau:	a	de	apontar	a	sociedade	como	o	mal,	e	não	a	natureza	humana
(como	decorrería,	por	exemplo,	do	pecado	original).	Sendo	o	mal	social,
transforme-se	a	sociedade.	Toda	a	modernidade	é	prenhe	dessa	questão,	e	cada
um	de	nós	está	em	um	lado	da	fronteira:	reformar	e	revolucionar	ou	conservar.
Este	fundo	teológico	contempla	uma	vontade	geral	divina,	que	se	expressa	em
leis	necessárias	que	dão	harmonia	ao	todo.	Tudo	está	bem	quando	se	considera	o
todo.	No	particular	que	não	se	harmoniza	com	o	todo	reside	o	mal.	A	vontade
geral	surge,	pois,	em	Rousseau	como	resultado	da	passagem	de	um	conceito
teológico	e	filosófico	para	o	político,	como	Patrick	Riley	demonstrou	em	The
general	will	before	Rousseau.	The	transformation	of	the	divine	into	the	civic.l
Malebranche,	teólogo	que	Rousseau	leu	e	admirava,	dizia	que	Deus	estabelece
leis	gerais	e	não	age	no	particular,	com	exceção	dos	milagres.	Uma	intervenção
específica	faria	Deus	carecer	de	uma	lógica	perfeita,	que	se	expressa	em	leis
simples	e	gerais.
A	vontade	geral	é	o	modelo	da	Criação	projetado	para	a	sociedade.	Deus	não	é	o
estafeta	que	cuida	de	nossa	valise	ou	de	nossa	dor	de	dente,	como	Rousseau
afirma,	satirizando	a	Igreja	na	Carta	Sobre	a	Providência	e	ecoando
Malebranche.	Nela	cuida	de	absolver	Deus	pelo	terremoto	que	destruiu	Lisboa
em	1755.	Leis	gerais	e	necessárias	da	natureza	determinaram,	desde	priscas	eras,
o	terremoto	onde	um	dia	Lisboa	seria	edificada	e	não	eram	derrogáveis	porque
os	homens	decidiram	construir	ali	uma	cidade	mal	organizada	e	mal-ajambrada,
com	seres	humanos	empilhados	em	edificações	grosseiras.	O	que	responde	pelo
mal,	pelo	que	de	ruim	nos	acontece,	é	o	humano	em	sua	imperfeita	organização
mal,	pelo	que	de	ruim	nos	acontece,	é	o	humano	em	sua	imperfeita	organização
social:	“A	maior	parte	dos	nossos	males	é	obra	nossa:	não	foi	a	natureza	quem
reuniu	em	Lisboa	vinte	mil	casas	de	seis	a	sete	pavimentos”.	Se,	prossegue,	os
lisboetas	estivessem	melhor	distribuídos,	vivessem	mais	modestamente	e	se,	ao
primeiro	abalo,	cuidassem	de	se	proteger	em	vez	de	recolher	seus	pertences	e
dinheiro,	o	dano	teria	sido	menor	ou	nenhum.
Tem-se	aí	a	dicotomia	geral	-	particular	numa	espetacular	passagem	do	teológico
para	o	político	e	social,	um	modelo	acabado	do	pensador	ouriço	que	subordina
tudo	a	uma	visão	central	e	chave	para	a	existência:	a	vontade	geral,	a
racionalidade	do	geral	e	a	racionalidade	do	particular.
A	vontade	geral,	tanto	como	ideia	teológica	quanto	política,	é	vetusta.	Ela	já
aparece	em	Platão,	no	Livro	V	da	República	em	linguagem	distinta.	Quando	um
de	nós	recebe	uma	pancada	no	dedo,	a	comunidade	do	corpo	e	da	alma,
submetida	ao	comando	unificador	da	parte	da	alma	que	a	dirige,	sente	o
traumatismo	e	se	associa	à	dor	do	local	ofendido,	motivo	de	dizermos	que	o
homem	sente	dor	no	dedo.	Da	mesma	forma	a	cidade	organizada,	afirma	Platão,
sempre	que	acontecer	algo	de	bom	ou	mau	para	qualquer	cidadão,	dirá,	antes	de
mais	nada,	que	o	fato	se	passou	com	ela	e	se	alegrará	ou	sofrerá	juntamente	com
o	cidadão.
Podemos	encontrá-la	em	Paulo,	na	“Segunda	epístola	aos	coríntios”.	O	corpo	é
um	todo	contendo	muitos	membros.	Se	o	pé	dissesse:	eu	não	sou	a	mão,	por	isso
não	sou	do	corpo,	acaso	ele	deixaria	de	ser	do	corpo?	Há	muitos	membros,	mas
o	corpo	é	um	só.	Patrick	Riley,	na	obra	citada,	nota	que	Pascal	faz	da	passagem
um	texto	político:	é	necessário	tender	ao	geral:	o	amor	de	si	é	o	princípio	de	toda
desordem,avaliadas	a	partir	de	critérios
econômicos,	em	termos	de	cálculos,	com	o	objetivo	de	obter	vantagens	e	lucros.
Assim,	é	possível,	ainda	que	provisoriamente,	definir	o	neoliberalismo	como
“uma	forma	particular	de	razão	que	reconfigura	todos	os	aspectos	da	existência
em	termos	econômicos”.^
A	lei,	entendida	como	um	efeito	da	soberania,	é	colonizada	e,	quando	necessário,
substituída	por	uma	normatividade	de	ocasião	que	se	baseia	em	cálculos	de
interesse.	O	Estado,	regido	por	essa	nova	normatividade,	torna-se	um
instrumento	do	mercado,	ajudando	a	lançar	indivíduos	em	um	estado	tanto	de
competição	permanente	(“lógica	da	concorrência”)	quanto	de	submissão	dos
vários	aspectos	da	vida	a	um	cálculo	econômico.	A	própria	“lei”	torna-se	um
objeto	de	cálculo	ou	uma	mercadoria,	“um	produto	legislativo	em	competição
em	um	mercado	mundial	de	normas”.^	Como	aponta	Wendy	Brown,
[...]	a	“razão	econômica	-	onipresente	hoje	em	dia,	quer	trate	da	gestão	estatal,
quer	das	relações	de	trabalho,	assim	como	na	jurisprudência,	na	educação,	na
cultura	e	em	um	grande	número	de	atividades	quotidianas	-	transforma	o	caráter,
a	significação	e	o	funcionamento	tipicamente	políticos,	de	elementos
constitutivos	da	democracia,	em	caráter,	significação	e	funcionamento
econômicos”,	o	que	fará	com	que	as	instituições,	as	práticas	e	os	hábitos
democráticos	“possivelmente	não	sobrevivam	a	essa	conversão	[•••]“
A	partir	da	racionalidade	neoliberal	surge	um	Estado	em	que	desaparece	a
pretensão	de	impor	limites	ao	poder	exercido	para	favorecer,	direta	ou
indiretamente,	o	mercado	ou	reforçar	o	imaginário	e	a	normatividade	neoliberal.
Em	oposição	ao	Estado	Democrático	de	Direito,	surgido	após	o	fim	da	Segunda
Guerra	Mundial	e	que	se	caracteriza	pela	existência	de	limites	rígidos	ao
exercício	do	poder	(inclusive,	do	poder	econômico),	constrói-se	aquilo	que	se
pode	chamar	de	Estado	Pós-Democrático,	que	tem	como	principais
características	a	ausência	de	limites	rígidos	ao	poder,	a	relativização	da
soberania	popular	e	a	confusão	entre	o	poder	político	e	o	poder	econômico.
Na	sociedade	neoliberal	não	é	mais	preciso	recorrer	a	conceitos	como
culpabilidade	e	responsabilidade,	ou	mesmo	à	coerção	externa,	bastando	aos
detentores	do	poder	político	apostar	na	manipulação	dos	interesses	da	população
dentro	de	uma	sociedade	de	trocas	formatada	a	partir	da	lógica	da	concorrência.
A	racionalidade	neoliberal,	em	um	governo	econômico	baseado	no	interesse	e	no
cálculo,	permite	que	esses	conceitos	também	sejam	manipulados	no	meio	social
com	o	objetivo	de	controlar	e	domesticar	as	ações	humanas.	Com	o
neoliberalismo,	naturaliza-se	essa	espécie	de	jogo	estratégicos	de	poder.
Outra	diferença	significativa	produzida	pela	racionalidade	neoliberal	se	dá	no
plano	das	relações	entre	o	mercado	e	o	Estado:	não	mais	um	Estado	que	procura
se	mostrar	afastado	das	atividades	econômicas	e	nem	um	Estado	preocupado	em
defender	os	mais	fracos,	mas	um	Estado	interventor	a	serviço	do	mercado	e,
consequentemente,	dos	detentores	do	poder	econômico.	Em	um	certo	sentido,
reaparece	uma	espécie	de	Estado	patrimonial,	pois	a	propriedade	e	as	funções	do
Estado	parecem	pertencer	a	uma	pequena	parcela	de	agentes:	os	detentores	do
poder	econômico.	Isso	acaba	por	produzir	tanto	uma	reaproximação	entre	o
poder	político	e	o	poder	econômico	quanto	polarizações	que	fazem	dos	inimigos
do	mercado	também	os	inimigos	do	Estado:	os	indesejáveis.
Os	indesejáveis	à	sociedade	construída	à	luz	da	racionalidade	neoliberal	são	não
apenas	os	pobres,	que	não	produzem	riqueza	ou	geram	lucro	(e	que,	por	vezes,
representam	despesas	ao	Estado),	mas	todos	aqueles	que	representam	alguma
forma	de	perigo	para	o	imaginário	e	a	hegemonia	da	racionalidade	neoliberal,
tais	como	os	inimigos	políticos	do	ideário	neoliberal,	intelectuais	que	não	foram
cooptados,	artistas,	jornalistas	independentes	etc.
A	superação	do	liberalismo	pelo	neoliberalismo	se	deu	no	ponto	crítico	em	que
os	efeitos	perversos	do	primeiro	modelo	começaram	a	superar	os	benefícios
produzidos	para	os	detentores	do	poder	econômico.	Se	a	crise	do	liberalismo
revelou	uma	impotência	no	campo	da	governabilidade,	marcada	tanto	pela
insuficiência	do	princípio	dogmático	do	laissez-faire	para	a	condução	dos
negócios	governamentais	quanto	pela	artificialidade	e	incapacidade	das	“leis
naturais”	do	mercado	para	guiar	o	governo	e	assegurar	a	maior	prosperidade
possível,	o	neoliberalismo	aparece	em	substituição,	com	a	missão	de	assegurar
os	interesses	dos	detentores	do	poder	econômico	custe	o	que	custar.	Nesse
movimento	de	preservação	da	concorrência,	de	busca	pelo	lucro	e	de
fortalecimento	do	mercado,	princípios,	regras	e	valores	que	caracterizavam
conquistas	civilizatórias	passaram	a	ser	relativizados,	quando	não	explicitamente
descartados.	Se	o	liberalismo	clássico	e	o	liberalismo	social	tinham,	ao	menos	no
plano	retórico,	um	inegável	compromisso	com	a	democracia,	o	neoliberalismo
pouco	a	pouco	acabou	por	revelar	um	potencial	desdemocratizante:	os	valores,
princípios	e	regras	democráticos	passaram	a	ser	percebidos	como	obstáculos	à
eficiência	estatal	e	do	mercado,	razão	pela	qual	foram	relativizados	ou
desconsiderados.
No	neoliberalismo,
[...]	o	adjetivo	liberal	designa	a	condição	de	um	homem	“libertado”	de	toda
ligação	aos	antigos	valores	simbólicos.	Nesse	novo	discurso,	tudo	o	que	se
relaciona	com	a	esfera	transcendente	e	moral	dos	princípios	e	das	idéias,	que	são
convertíveis	em	mercadorias	ou	em	serviços,	se	vê	doravante	sem	valor.
O	que	não	serve	ao	mercado,	não	tem	mais	valor	em	um	mundo-da-vida
transformado	em	um	mercado	totali-zante.
Curioso	notar	que	tanto	o	neoliberalismo	quanto	o	chamado	“novo	liberalismo”
(liberalismo	social),	para	além	da	semelhança	de	nomenclatura,	nascem	com	um
inimigo	comum:	o	totalitarismo,	que	visava	a	destruição	da	sociedade	liberal.
Em	defesa	da	sociedade	liberal,	essas	duas	correntes	apresentaram	propostas
para	transformar	o	liberalismo,	produzindo	idéias	e	discursos	que	legitimavam	a
intervenção	governamental.	Com	isso,	abriram	espaço	à	superação	da
racionalidade	liberal.	Do	ponto	de	vista	cronológico,	o	novo	liberalismo,	que
parecia	conquistar	hegemonia	a	partir	da	teoria	econômica	desenvolvida	por
Keynes,	surgiu	antes	do	neo-liberalismo.	O	novo	liberalismo	(liberalismo	social)
tinha	a	proposta	de	uma	intervenção	estatal	para	reestruturar	os	meios	jurídicos,
morais,	políticos,	econômicos	e	sociais	com	o	objetivo	de	concretizar	uma
sociedade	de	liberdade	individual	em	proveito	de	todos.	Christian	Laval	e	Pierre
Dardot	resumem	esse	projeto	da	seguinte	forma:
i)	as	agendas	do	Estado	devem	ir	além	dos	limites	que	o	dogmatismo	do	laissez-
faire	impôs	a	elas,	se	se	deseja	salvaguardar	o	essencial	dos	benefícios	de	uma
sociedade	liberal;	2)	essas	novas	agendas	devem	pôr	em	questão,	na	prática,	a
confiança	que	se	depositou	até	então	nos	mecanismos	autorreguladores	do
mercado	e	a	fé	na	justiça	dos	contratos	entre	indivíduos	supostos	iguais.ÉÉ
Assim,	em	defesa	dos	benefícios	da	sociedade	liberal,	seriam	admitidos
instrumentos	e	práticas	que	poderíam	até	ser	opostos	aos	princípios	liberais
clássicos.	Mas,	esse	intervencionismo,	capaz	de	restringir	até	interesses
individuais	em	nome	da	defesa	do	interesse	coletivo	(leis	de	proteção	ao
trabalhador,	auxílios	sociais	obrigatórios,	nacionalizações	etc.),	tinha	por	única
finalidade	garantir	as	condições	de	possibilidade	para	a	realização	dos	fins
individuais.
individuais.
O	neoliberalismo,	por	sua	vez,	também	parte	do	princípio	de	que	as	agendas	do
Estado	devem	ir	além	dos	limites	impostos	pela	visão	dogmática	do	laissez-faire,
mas	se	opõem	a	qualquer	medida	que	represente	um	obstáculo	à	realização	dos
interesses	dos	detentores	do	poder	econômico.	Dito	de	outra	forma:	a	corrente
neoliberal	rejeita	qualquer	“ação	que	entrave	o	jogo	da	concorrência	entre
interesses	privados”^	(um	“jogo	de	cartas	marcadas”,	em	razão	do	desequilíbrio
provocado	pelo	exercício	sem	controle	ou	limites	do	poder	econômico).	No
neoliberalismo,	a	intervenção	estatal	nunca	é	direcionada	à	limitaçãodo	poder
econômico	ou	à	redução	dos	danos	provocados	pelo	mercado.	Ao	contrário,	a
intervenção	autorizada	pela	teoria	neoliberal	dire-ciona-se	ao	desenvolvimento
do	mercado	e	à	facilitação	dos	lucros	a	serem	alcançados	pelos	titulares	do	poder
econômico.	O	enquadramento	jurídico	neoliberal,	portanto,	não	se	revela
compatível	com	obstáculos	legais	à	atividade	econômica	e	à	obtenção	do	lucro,
razão	pela	qual	tanto	os	direitos	fundamentais,	historicamente	construídos	como
obstáculos	ao	exercício	do	poder,	quanto	os	direitos	sociais,	forjados	a	partir	das
lutas	populares	no	âmbito	do	liberalismo	social,	passam	a	ser	relativizados.	O
direito,	a	partir	da	racionalidade	neoliberal,	deve	ter	por	objetivo	tão	somente
construir	ótimas	condições	para	o	mercado	e	o	jogo	concorrencial.
Pode-se	imaginar	o	neoliberalismo	também	como	uma	tentativa	de	impor	limites
às	políticas	redistributivas,	reguladoras,	protecionistas,	assistencialistas	e
planificadoras	que	reduziam	as	possibilidades	de	lucros	dos	mais	fortes
economicamente.	Não	se	pode	estranhar,	então,	o	apoio	financeiro	recebido	para
a	reconstrução	da	doutrina	liberal,	tanto	por	instituições	de	prestígio	(como	o
Instituto	Universitário	de	Altos	Estudos	Internacionais,	a	London	School	of
Economics	e	a	Universidade	de	Chicago)	quanto	por	centenas	de	think	tanks
encarregadas	de	difundir	os	mantras	neoliberais.
1.7.	O	nascimento	do	neoliberalismo
Há	certa	divergência	sobre	o	marco	histórico	que	representaria	o	nascimento	do
neoliberalismo,	o	momento	em	que	foi	apresentado	como	um	projeto	à
sociedade.	Para	alguns,	esse	momento	seria	a	criação	da	Sociedade	Mont-
Pèlerin,	em	1947.	Todavia,	foi	com	a	realização	do	Colóquio	Walter	Lippmann,^
em	1938,	que	pela	primeira	vez	se	tentou	a	formulação	de	uma	teoria	do
intervencionismo	estatal	propriamente	liberal.	Foi,	ainda,	nesse	evento	que	se
deram	os	primeiros	passos	para	a	tentativa	de	criação	de	uma	espécie	de
“Internacional	Neoliberal”.^
A	premissa	dos	“pais	fundadores”	do	neoliberalismo	era	a	de	que	a	manutenção
do	liberalismo	necessitava	de	uma	refundação	teórica	da	doutrina	liberal	para
que	fosse	possível	dela	deduzir	uma	política	ativa	verdadeiramente	liberal.	Em
que	pese	certa	divergência,	em	especial	causada	pelo	conservadorismo	de
teóricos	como	Von	Mises	e	Hayek	(que	atribuíam	a	derrocada	do	modelo	liberal
às	traições	dos	princípios	do	liberalismo	clássico,	em	especial	às	intervenções
políticas),70	tornou-se	hegemônica	a	tese	de	que	não	poderíam	existir	liberdades
sem	intervenção	estatal.	Assim,	o	liberalismo	deveria	ser	visto	não	mais	como
uma	justificação	do	status	quo,	mas	como	uma	“lógica	de	reajustamento”7!	do
Estado	e	da	economia.
O	neoliberalismo,	então,	passou	a	se	distanciar	da	tese	do	laissez-faire.	Diante
dos	efeitos	danosos	produzidos	pela	inércia	do	Estado,	a	ideia	de	uma	radical
oposição	às	políticas	intervencionistas	passou	a	figurar	no	plano	imaginário
como	uma	negatividade.	Também	ganhou	corpo,	durante	as	discussões	que
fundaram	as	bases	do	modelo	neoliberal,	a	tese	de	que	o	próprio	regime	liberal	e
a	vida	econômica	eram	construções	que	nasciam	e	se	desenvolviam	a	partir	de
um	quadro	legal	e,	portanto,	do	intervencionismo	do	Estado.	Passou-se,	portanto,
a	negar	a	espontaneidade	do	mercado.
Há	na	inovação	do	neoliberalismo	o	reconhecimento	da	necessidade	de
mudanças	de	ordem	epistemológica	(por	exemplo,	a	rejeição	da	metafísica
naturalista)	bem	como	da	importância	do	Direito	na	instauração	e	na	manutenção
da	economia	de	mercado	(o	próprio	direito	de	propriedade	é	uma	criação	da	lei).
Há	também	na	aceitação	das	propostas	neoliberais	a	vitória	da	tese	de	que	o
mercado,	por	si	só,	não	é	capaz	de	assegurar	a	integração	de	todos,	razão	pela
qual	precisa	da	sustentação	do	Estado.	Percebe-se,	pois,	que	apesar	do	discurso
qual	precisa	da	sustentação	do	Estado.	Percebe-se,	pois,	que	apesar	do	discurso
de	retorno	ao	liberalismo,	os	neoliberais	produziram	uma	nova	base	teórica	e
uma	nova	política.	O	neoliberalismo	sedimenta-se,	então,	como	um	modelo
marcado	pelo	ativismo,	através	do	qual	se	busca	a	construção	das	condições
ideais	para	que	a	iniciativa	privada	possa	se	desenvolver	livremente.
Do	ponto	de	vista	teórico,	assumia-se	que	o	dogmatismo	liberal	clássico	foi	o
responsável	pelos	fenômenos	da	planificação	econômica	e	do	dirigismo	de	viés
keynesiano.	Isso	porque	a	teoria	liberal	clássica	estava	errada	ao	confundir	as
regras	para	o	funcionamento	de	um	sistema	social	com	as	leis	naturais
imodificáveis	(que	serviríam	para	justificar	o	laissez-faire)	e	ao	ignorar	a
dimensão	política	da	economia.	A	partir	da	hegemonia	desse	novo	modo	de	ver	e
atuar	tipicamente	neoliberal,	passou-se	a	admitir	que	a	ordem	econômica	e	o
mercado	são	construções	históricas	e,	portanto,	passíveis	de	serem	alteradas	pela
ação	humana.	Existiríam,	então,	condições	para	o	estabelecimento	de	um
programa	estatal	(uma	agenda)	visando	conservar	e	potencializar	o
funcionamento	do	mercado	e,	em	consequência,	potencializar	e	conservar	os
lucros	dos	detentores	do	poder	econômico.	Reconhecia-se,	enfim,	a	dimensão
institucional	da	organização	econômica	e	social.
O	neoliberalismo	cooptou	o	Direito	e	passou	a	fazer	uso	do	“império	da	lei”.	A
chamada	“colonização	do	Direito	pela	economia”	é	uma	das	leituras	possíveis	do
fenômeno	do	uso	do	Direito	e	das	instituições	jurídicas	para	a	potencialização	e
conservação	do	mercado,	e	também	para	a	realização	dos	desejos	dos	detentores
do	poder	econômico.	Tornou-se	comum	que,	em	atenção	a	um	determinado
sistema	econômico,	as	leis	e	as	decisões	judiciais	passassem	a	ser	modificadas
sempre	que	os	detentores	do	poder	econômico	julgassem	necessário.	E,	de	fato,	a
partir	da	racionalidade	neoliberal	as	leis	e	as	decisões	judiciais	passaram	a	ser
direcionadas	à	potencialização	dos	mercados	e	não	mais	vistas	como	obstáculos
à	sua	eficiência	(entendida	como	possibilidade	de	geração	ilimitada	de	lucro).
Por	isso	a	simpatia	dos	neoliberais	(Lippman,	Hayek	e	outros)	pelo	sistema	da
Common	Law,	que,	com	seus	precedentes	judiciais,	mostra-se	muito	mais
flexível	do	que	os	modelos	da	Civil	Law	e	da	rigidez	constitucional.	A
racionalidade	neoliberal,	como	se	vê,	leva	também	à	tendência	à	flexibilização
dos	direitos	fundamentais,	tanto	os	de	dimensão	social	quanto	os	de	origem
liberais,	vistos	como	potenciais	obstáculos	ao	desejo	de	lucro.
Para	os	neoliberais,	caberia	ao	sistema	jurídico	assegurar	o	que	um	homem	pode
esperar	dos	outros,	bem	como	garantir	a	realização	dessa	expectativa.7^	Contam,
portanto,	com	uma	espécie	de	“governamentalidade	do	tipo	judicial”:	um
governo	da	economia	a	partir	da	criação	de	normas	que	se	adaptam	às
necessidades	mutantes	dos	detentores	do	poder	econômico.	Aposta-se,	assim,	na
dimensão	hermenêutica	dos	comportamentos,	ou	seja,	na	criação	em	cada	caso
concreto,	por	cada	governante	e	por	cada	governado,	de	normas	de	conduta	que
seriam	condicionadas	pela	racionalidade	neoliberal.
Vale	lembrar	que	há	uma	diferença	ontológica	entre	o	texto	legal	(dispositivo
abstrato	e	genérico)	e	a	norma	(dispositivo	concreto),	esta	sempre	o	produto	da
ação	do	intérprete.	Ao	atuar	no	mundo-da-vida	sempre	se	está	a	interpretar	(e	a
julgar)	e,	portanto,	a	criar	normas	(mandamentos	de	conduta)	para	situações
concretas,	o	que	se	dá	a	partir	da	tradição	em	que	o	intérprete	está	inserido,	de
suas	pré-compreensões	e	também	de	seus	preconceitos.	Os	neoliberais	contam	e
só	consideram	legítimas	as	normas	que	se	revelam	adequadas	à	racionalidade
neoliberal.
Com	a	lei	a	serviço	do	mercado,	e	o	consequente	declínio	do	império	da	lei
diante	dos	cálculos	de	interesses,	retorna-se	à	busca	de	harmonia	pelo	cálculo	e
pela	análise	de	números	(o	que	se	reforça	com	a	chamada	“revolução	numérica	e
digital7^”),	o	que	permite	“pensar	a	normatividade	não	mais	em	termos	de
legislação,	mas	em	termos	de	programação”.7!	Com	isso,	se	busca	reduzir	a
dimensão	humana	no	processo	de	criação	e	aplicação	da	lei,	pretendendo	que	as
pessoas	cumpram	o	programa	estabelecido,	ou,	mais	precisamente,	se	limitem	a
reagir	em	temporeal	aos	múltiplos	sinais	que	levam	ao	atendimento	dos
objetivos	que	lhe	são	atribuídos.7!	Uma	normatividade,	portanto,	que	exclui	e
tende	a	degenerar	a	capacidade	humana	de	pensar	e	agir	segundo	as	suas
próprias	idéias.
Desde	sua	origem,	o	significante	“neoliberalismo”	se	tornou	uma	espécie	de
conceito	guarda-chuva,	abrangendo	uma	vasta	gama	de	objetos	e	significados.	É
importante	ter	em	mente	que	essa	palavra	tem	servido	para	nomear	fenômenos
(ou	dimensões	de	um	mesmo	fenômeno)	bem	diferentes.	Muitas	vezes,	a	crítica
ao	neoliberalismo	se	perde	nessa	diferença	de	objetos	e	de	dimensões	nomeadas
pela	mesma	palavra.	Em	apertada	síntese,	pode-se	apontar	que	o	neoliberalismo
surge	como	uma	teoria	econômica	construída	entre	tensões	doutrinárias	para,	em
seguida,	se	transformar	em	política(s)	econômica(s)	e,	mais	tarde,	em	uma
racionalidade	governamental.	A	ideia	neoliberal,	desenvolvida	a	partir	do
Colóquio	Lippmann,	levou	a	uma	teoria,	a	uma	política	e	a	um	modo	de
governar.	Mas	não	só.	Hoje	a	ideia	de	racionalidade	governamental	não	é
suficiente	para	explicar	o	que	produz	o	neoliberalismo	e,	mais	precisamente,	a
relação	entre	a	racionalidade	neoliberal	e	os	limites	ao	exercício	do	poder.	Isso
porque	o	neoliberalismo,	mais	do	que	uma	nova	arte	de	governo,	tornou-se	uma
“nova	razão	do	mundo”,76	uma	normatividade	e	um	imaginário	que	ultrapassam
os	limites	do	mercado	e	do	Estado.	Por	neoliberalismo,	deve-se	entender	um
fenômeno	conglobante,	um	modo	de	ver	e	atuar	sobre	tudo	e	todos.
Como	esclarecem	Christian	Laval	e	Pierre	Dardot,	o	neoliberalismo	deve	ser
entendido	não	como
[...]	o	conjunto	de	doutrinas,	correntes	ou	autores	os	mais	diversos	e,	em
determinados	pontos,	opostos,	que	a	história	política	e	econômica	gosta	de
arrumar	sob	esse	muito	vasto	chapéu.	Também	não	como	políticas	econômicas
que	procederíam	de	uma	mesma	vontade	de	enfraquecer	o	Estado	em	proveito
do	mercado.	Mas,	sobretudo	como	isso	que	nós	temos	analisado	como	uma
“razão-mundo”	que	tem	por	característica	estender	e	impor	a	lógica	do	capital	a
todas	as	relações	sociais	para	torná-la	a	forma	de	nossas	vidas.ZZ
É	possível	afirmar,	então,	que	o	neoliberalismo	se	apresentou	como	uma	teoria
econômica	(variante	do	liberalismo	que	começou	a	surgir	a	partir	dos	anos	Hr-	e
HY-),	um	novo	modelo	econômico	que	representaria	uma	espécie	de	ajuste	em
relação	aos	problemas	que	levaram	à	crise	da	forma	anterior	de	liberalismo.	Mas
a	tentativa	de	novamente	atualizar	o	liberalismo	deu	lugar	a	algo	novo.	A	grande
questão	não	era	mais	discutir	se	o	governo	podia	intervir	ou	não	no	mercado,	e
sim	identificar	quais	intervenções	precisavam	ser	feitas	a	partir	do	exercício	do
poder	político	para	obter	os	efeitos	desejados	pelo	mercado.
Em	um	certo	sentido,	pode-se	afirmar	que	o	neoliberalismo	surge	em	um
contexto	de	risco	ao	liberalismo	representado	pelo	movimento	comunista,	mas
elege	um	outro	adversário	principal:	o	dirigismo	de	Keynes,	que	tinha
repercussão	direta	na	luta	contra	a	pobreza,	a	discriminação	e	a	desigualdade
com	reflexos	na	educação,	no	emprego,	da	saúde	e	na	habitação.	Aos	olhos	dos
detentores	do	poder	econômico,	as	propostas	de	Keynes	representariam	a
promessa	de	redução	de	suas	margens	de	lucro.	Os	neoliberais,	em	sentido
contrário,	voltavam	a	defender	a	primazia	do	mercado,	que	deveria	ser	“o
objetivo,	o	princípio	e	a	forma	do	Estado”.ZH	No	neoliberalismo,	o	mercado
passa	a	ser	tratado	como	fundamento,	mas	também	como	efeito	e
responsabilidade	do	Estado,	razão	pela	qual	a	ação	governamental	deve
assegurar	um	quadro	jurídico-político	estável	que	permita	o	seu	bom
funcionamento,	garantindo-lhe	ainda	as	condições	monetárias	e	orçamentárias
para	permitir	a	circulação	e	a	acumulação	do	capital.
para	permitir	a	circulação	e	a	acumulação	do	capital.
A	coerência	política	neoliberal	é	um	sintoma	que	permite	afirmar	a	existência	de
uma	racionalidade:	um	modo	de	ver	e	atuar	no	mundo	próprio	do	ideário
neoliberal.	O	ordoliberalismo	da	Escola	de	Fribourg	e	o	neoliberalismo
americano	da	Escola	de	Chicago,	que	são	as	mais	conhecidas	e	influentes
manifestações	teóricas	do	neoliberalismo,	apesar	das	diferenças,	têm	muito	mais
pontos	de	contato	do	que	divergências.	Ambas	as	correntes	neoliberais	defendem
tanto	a	crítica	da	ação	política	voltada	à	redução	da	desigualdade	quanto	a	crença
em	um	poder	que	age	sobre	os	indivíduos	a	partir	do	meio	em	que	vivem.	E	o
meio	de	vida	do	homem	neoliberal	é,	e	para	sempre	deveria	ser,	o	mercado.
Com	o	ordoliberalismo,	pode-se	falar	em	uma	nova	racionalidade	governamental
na	qual	as	decisões	políticas	devem	ser	tomadas	a	partir	da	premissa	de	que	a
liberdade	econômica	do	mercado	é	a	condição	de	prosperidade	da	população	e,
portanto,	deve	exercer	a	função	de	legitimar	as	ações	governamentais.	Segundo
Michel	Foucault,	o	ordoliberalismo	implica	na	necessidade	de	uma
Gesellschaftspolitik,	isto	é,	de	uma	política	de	sociedade	e	de	um
intervencionismo	estatal	“ativo,	múltiplo,	vigilante	e	onipresente”:^	uma	espécie
de	intervenção	social	que	não	é	voltada	nem	à	compensação	dos	efeitos
desestruturantes	e	perversos	eventualmente	gerados	pela	liberdade	econômica,
nem	à	redução	dos	danos	produzidos	no	interior	das	“regras	do	jogo”	da
sociedade	de	mercado,	mas	que	deve	se	dar	“a	título	de	uma	condição	histórica	e
social	de	possibilidade	de	uma	sociedade	de	mercado,	a	título	de	condição	para
que	funcione	o	mecanismo	formal	da	concorrência”.^	Não	se	trata	apenas	de
uma	governabilidade	econômica,	mas	de	uma	quase	identificação	entre	os	fins
do	Estado	e	os	fins	do	mercado,	entre	a	prosperidade	econômica	e	a	legitimidade
política.	Segundo	a	leitura	foucaultiana^l	dos	ordoliberais,	existem	dois	eixos
que	caracterizam	essa	corrente	de	pensamento:	de	um	lado,	a	formalização	da
sociedade	ao	modelo	da	empresa	e,	do	outro,	a	redefinição	da	instituição	jurídica
e	das	regras	do	direito,	“que	são	necessárias	em	uma	sociedade	regulada	a	partir
e	em	função	da	economia	concorrencial	de	mercado”.^
No	esquema	liberal	clássico,	buscava-se	desenvolver	e	facilitar	o	funcionamento
dos	mecanismos	autossu-ficientes	do	mercado	no	interior	de	um	espaço	político
estruturado	pelo	princípio	da	soberania,	cabendo	ao	princípio	da	utilidade	se
impor	como	um	limite	governamental	diante	da	tendência	à	ilimitação	do
exercício	do	poder,	oriundo	da	ideia	de	soberania.	O	ordoliberalismo	produz
uma	inversão:	o	mercado,	percebido	como	fonte	do	bem-estar,	é	que	funda	e
torna	legítima	a	soberania	do	Estado.	Os	limites	e	os	objetivos	do	Estado,	para	o
ordoliberalismo,	são	os	limites	e	os	objetivos	do	mercado.	O	Estado,	dentro
dessa	leitura	neoliberal,	passa	a	ter	o	dever	de	assegurar	o	sucesso	do	mercado.
A	sociedade	também	se	torna	um	dos	alvos	preferenciais	das	ações	estatais:
produz-se	uma	política	para	a	sociedade	voltada	à	promoção	do	mercado.	É	a
política	direcionada	à	sociedade	que	funciona	como	regulador	do	Estado.	Em
teoria,	o	Estado	passaria	a	desenvolver	e	a	incentivar	uma	lógica	concorrencial,
mas,	ao	mesmo	tempo,	deveria	proteger	os	indivíduos	da	tendência	à	anomia
inerente	à	prática	concorrencial	(que	se	traduz	em	uma	espécie	de	vale-tudo	pelo
sucesso)	através	do	apoio	às	estruturas	de	supervisão	comunitária	ou	às
atividades	que	visam	estimular	a	responsabilidade	individual,	como	o	incentivo	à
abertura	de	pequenas	empresas.	A	proposta	ordoliberal,	como	se	vê,	é	um
governo	liberal	ativo,	e,	por	essa	razão,	Foucault	identifica	no	ordoliberalismo
uma	racionalidade	governamental	inédita:	“um	governo	pelo	mercado	mais	do
que	um	governo	por	causa	do	mercado”.^
Para	o	ordoliberalismo,	a	economia	de	mercado	passa	a	definir	quais	ações
governamentais	levarão	ao	sucesso	e	quais	estão	destinadas	ao	fracasso.	Surge
uma	normatividade,	primeiramente,	voltada	às	ações	governamentais	e,	em
seguida,	direcionada	a	todos	os	indivíduos.	O	conceito	central	para	se	entender	o
funcionamento	do	mercado	a	partir	da	racionalidade	neoliberal	é	o	da
concorrência:	a	forma	concorrência	é	o	que	caracteriza	o	mercado.	No
neoliberalismo,	a	concorrência	é	o	eidos	do	mercado.Para	a	corrente	ordoliberal,
o	mercado	é	o	produto	de	um	contexto	e	o	efeito	de	uma	determinada	política,
por	isso	a	intervenção	estatal	é	encorajada	sempre	que	a	ação	governamental	for
direcionada	a	permitir	o	funcionamento	livre	dos	mecanismos	concorrenciais	na
economia,	sempre	que	a	intervenção	produzida	pelo	exercício	do	poder	político
criar	ou	otimizar	as	condições	fundamentais	à	concorrência.
A	constitucionalização	dos	princípios	da	economia	do	mercado	é	desejada	pelos
ordoliberais.	O	enquadramento	constitucional	das	condições	fundamentais	à
concorrência	e	ao	livre	mercado,	que	produz	limitações	tanto	à	vontade	popular
quanto	aos	atos	dos	agentes	estatais,	leva	à	estabilidade	necessária	à	sociedade
de	mercado.	Para	os	ordoliberais,	o	ordenamento	legal	não	é	encarado	como	uma
superestrutura,	mas	como	uma	dimensão	imanente	ao	funcionamento	econômico
e	social.	O	econômico	determinaria	o	conteúdo	e	a	finalidade	do	direito	público
(inclusive	do	direito	penal,	sempre	destinado	ao	controle	social)	e	constitucional,
e,	em	seguida,	o	jurídico,	condicionado	(e,	com	o	tempo,	colonizado)	pela
economia,	informaria	as	ações	governamentais.
Por	sua	vez,	o	neoliberalismo	americano,	testado	no	Chile	após	o	golpe	de
Estado	que	derrubou	o	presidente	democraticamente	eleito	Salvador	Allende	em
1973,	apresenta	algumas	diferenças,	mas	muitos	pontos	de	contato	com	o
ordoliberalismo.	É	no	neoliberalismo	americano	que	surge	a	ideia	de	uma
política	social	privatizada,	o	que	acabou	por	levar	à	opção	política	por	medidas
de	privatização	dos	mecanismos	de	seguridade	social.	O	neoliberalismo
americano	aparece	assim	como	uma	corrente	de	pensamento	que	radicaliza	as
propostas	neoliberais	de	favorecer	a	iniciativa	privada,	os	planos	privados	de
previdência	e	as	técnicas	de	capitalização	em	detrimento	dos	mecanismos	de
redistribuição	entre	os	grupos	sociais.^As	ações	governamentais	condicionadas
pela	lógica	da	concorrência	seriam	destinadas	à	otimização	do	funcionamento	do
mercado,	com	o	objetivo	de	alcançar	o	máximo	crescimento	das	negociações	e	o
aumento	do	lucro	dos	detentores	do	poder	econômico.	Esse	“sucesso”
econômico	representaria	a	única	verdade	possível	sob	a	égide	da	racionalidade
neoliberal.	Em	outras	palavras,	trata-se	de	um	regime	de	verdade	em	que	o
crescimento	do	mercado,	a	livre	concorrência	e	o	lucro	ocupam	papel	central.	O
verdadeiro,	à	luz	da	racionalidade	neoliberal,	é	a	necessidade	de	satisfazer	o
mercado	e	a	obtenção	de	lucros.	Não	por	acaso,	o	mercado	se	transforma	no
modelo	para	todas	as	relações	sociais.
As	ações	sobre	a	sociedade	e	sobre	os	indivíduos	têm	por	objetivo	desenvolver	a
concorrência,	adaptar	os	indivíduos	a	ela	e	domesticar	as	condutas.	Para	os
neoliberais	americanos,	todos	os	domínios	do	mundo-da-vida	remetem	à	ideia	de
empresa,	isso	porque	toda	atividade	é	assimilável	a	uma	produção	e	é	regida	por
um	cálculo	de	rentabilidade.	Para	eles,	então,	deveria	ser	possível	aplicar	uma
análise	econômica,	baseada	em	cálculos	de	interesse,	a	toda	uma	série	de	objetos
que	tradicionalmente	se	encontram	desvinculados	da	lógica	empresarial	e	de
mercado,	tais	como	a	família,	os	casamentos,	a	educação	dos	filhos,	a	justiça,	a
criminalidade.^	As	ações	passariam	a	ser	calculadas	a	partir	da	figura	do	homem
econômico:	aquele	ente	abstrato	que	representaria	o	indivíduo	capaz	de	decidir
de	uma	maneira	previsível	a	partir	de	seus	próprios	interesses.
Dá-se,	a	partir	da	teorização	dos	neoliberais	americanos,	a	extensão	da	abstração
Homo	aeconomicus	à	análise	de	decisões	em	domínios	não	diretamente
econômicos.	Todas	as	condutas	passam	a	ser	potencialmente	objeto	dessa	análise
econômica:	primeiro,	aquelas	condutas	que	implicam	a	alocação	de	recursos	que
são	raros	no	mundo-da-vida,	depois,	todas	as	condutas	que	se	dirigem	à
utilização	de	meios	limitados	para	alcançar	um	fim	determinado	dentre	outros
possíveis,	e	por	fim,	a	análise	econômica	abrangería	também	todas	as	condutas
que	podem	ser	tidas	como	racionais,	ou	seja,	condutas	finalisticamente	dirigidas,
que	impliquem	a	escolha	estratégica	de	meios,	de	instrumentos	e	de	caminhos.^
Em	autores	como	Gary	Becker,	por	exemplo,	a	análise	econômica	é	apresentada
como	legítima	para	abarcar	inclusive	condutas	não	racionais,	isto	é,	ações
humanas	em	que	inexiste	o	objetivo	de	angariar	alguma	vantagem	ou	otimizar	o
resultado.^?
Toda	conduta	que	“aceita	a	realidade”	(Becker),	que	busca	responder	de	modo
sistemático	às	modificações	das	variáveis	do	meio,	torna-se	potencialmente
objeto	da	análise	econômica,	inclusive	o	modo	de	governar.	Como	Michel
Foucault	tornou	explícito,	o	homem	econômico	seria	aquele	que	aceita	a
realidade.^	Passa-se	a	considerar	racional	a	conduta	que	responde
previsivelmente	(ou	seja,	de	modo	não	aleatório)	às	modificações	das	variáveis
do	meio	(“que	aceita	a	realidade”).	Agir	racionalmente	no	mundo-da-vida	seria
o	equivalente	à	busca	de	uma	vantagem	ou	lucro.	Por	isso,	para	os	teóricos
neoliberais	americanos,	a	sociedade	precisava	ser	entendida	a	partir	dos
conceitos	de	entrepreneurship	(como	faculdade	do	gênero	humano)	e	capital
humano.^.
Em	suma,	para	os	neoliberais	americanos,	todos	os	comportamentos	humanos
podem	ser	resumidos	pelo	resultado	da	escolha	entre	fins	rivais,	como	fica	claro
na	obra	de	Gary	Becker,	o	que	alarga	o	campo	da	economia	política	e	ressalta	a
importância	tanto	dos	sujeitos	econômicos	quanto	da	racionalidade	de	suas
condutas.	O	trabalhador,	por	exemplo,	deixa	de	figurar	como	uma	espécie	de
objeto,	submetido	à	lei	da	oferta	e	da	procura,	para	se	tornar	um	sujeito	ativo,
capaz	de	escolhas	racionais	entre	alternativas	que	podem	ser	mensuradas	em
termos	de	satisfação.	A	subjetividade	humana,	para	essa	corrente	de	pensamento,
estaria	em	consonância	com	a	lógica	de	acumulação	capitalista:	o	trabalhador
passa	a	se	identificar	como	um	capital	de	competências	(abilities)	a	gerir.	Em
outras	palavras,	o	trabalhador	não	é	mais	percebido	como	uma	força	de	trabalho
que	tem	um	preço	no	mercado,	mas	como	uma	empresa	que	precisa	ser	gerida
segundo	uma	racionalidade	específica.	E	o	mais	impressionante	é	que,	sob	a
racionalidade	neoliberal,	o	indivíduo,	ainda	que	permaneça	explorado,	passa	a
acreditar	que	é	um	empresário-de-si,	o	que	faz	com	que	os	outros	trabalhadores
sejam	percebidos	como	concorrentes	ou	inimigos	(inviabiliza-se,	assim,	a	ideia
de	consciência	de	classe),	e	ele	passe	a	se	comportar	segundo	os	imperativos	de
maximização	dos	investimentos	dentro	de	todos	os	domínios	de	sua	existência	(a
educação,	a	saúde,	a	família,	a	criminalidade,	a	imigração	etc.).
Para	os	neoliberais	americanos,	também	as	instituições	e	todas	as	atividades
deveríam	seguir	a	lógica	das	empresas:	passar	a	combinar	inputs	e	custos	com	o
objetivo	de	produzir	outputs	específicos.	Todas	as	atividades,	mesmo	aquelas
que	historicamente	nunca	tinham	sido	relacionadas	à	obtenção	de	lucros,
passariam	a	ser	percebidas	e	geridas	como	atividades	econômicas	que	exigem
cálculos	típicos	das	atividades	empresariais.	Começou-se	a	pensar	e	trabalhar	a
partir	da	premissa	de	que	a	racionalidade	da	conduta	é	universal	e	que	os
cálculos	dos	indivíduos	são	sempre	cálculos	de	investimento	que	podem,
inclusive,	exigir	a	escolha	entre	ganhos	imediatos	menores	ou	satisfações	futuras
(com	maiores	ganhos),	o	que	faz	com	que	aquilo	que,	em	um	primeiro	momento,
parece	ser	uma	decisão	irracional	revele-se	no	futuro	a	decisão	acertada	para
aumentar	o	respectivo	capital.
O	neoliberalismo	promete	uma	sociedade	em	que	as	pessoas	espontaneamente
seguiríam	as	“regras	do	jogo”	com	o	objetivo	de	lucrar	e	levar	vantagens.	A
ideia	dessa	sociedade,	apontada	pelo	discurso	neoliberal	como	consequência	da
racionalidade	neoliberal,	passa	a	integrar	o	respectivo	imaginário.	Formam-se
imagens	e	idéias	associadas	a	esse	modelo	de	sociedade.	Ao	mesmo	tempo,
instaura-se	todo	um	sistema	simbólico,	uma	normatividade,	que	enuncia
mandamentos	destinados	a	estabelecer	a	conduta	“normal”,	esperada,	de	cada
indivíduo.
Busca-se	no	neoliberalismo	formatar	o	indivíduo	à	imagem	e	semelhança	do
homem	econômico,aquele	que	sempre	obedece	ao	próprio	interesse,	mesmo	que
para	isso	seja	necessário	integrar	técnicas	e	dispositivos	comportamentais	à
economia,	tais	como	jogos	de	estímulo	e	mecanismos	de	reforço,	bem	como
introduzir	ou	reforçar	outras	variáveis	condicionantes	do	comportamento,^	em
especial	ligadas	à	propaganda,	à	indústria	cultural^!	e	à	repetição	(a	exclusão	da
expectativa	do	novo).	Com	o	neoliberalismo,	contudo,	o	Homo	oecono-micus
adquire	uma	forma	histórica	particular.	Como	explica	Wendy	Brown,	“à
diferença	da	criatura	de	Adam	Smith,	movida	por	uma	propensão	natural	ao
‘tráfego,	a	troca	e	aos	negócios’,	o	Homo	oeconomicus	atual	é	uma	unidade	de
capital	humano	essencialmente	construído	e	intensamente	governado”.^	Um
indivíduo	formatado	para	atender	ao	mercado,	maximizar	a	competitividade	e
aumentar	o	seu	valor	em	todos	os	domínios	de	sua	vida.
Como	lembra	Foucault,	buscou-se	expandir	o	modelo	do	homem	econômico
porque	ele	é,	“do	ponto	de	vista	de	uma	teoria	governamental,	aquele	que	não
precisa	ser	tocado”,^.	ou	seja,	ele	é	o	tipo	ideal	de	indivíduo,	por	não	dar	ou
exigir	trabalho.	O	homem	econômico	é	o	indivíduo	desejável	à	sociedade
neoliberal.	Para	o	neoliberalismo	funcionar	de	modo	harmônico	é	preciso	que	as
pessoas	obedeçam	à	lógica	interna	da	valorização	de	seu	próprio	capital	e	de
seus	ativos.	Uma	obediência	que,	segundo	alguns	teóricos	neoliberais,	poderia
ser	alcançada	a	partir	de	dispositivos	de	incitação	e	de	desincitação.	Considerar	o
homem	como	um	capital	humano,	a	ser	valorizado	ou	como	uma	empresa
significa	fazer	dominante	o	modelo	normativo	do	homem	econômico	neoliberal,
que	se	caracteriza	por	um	agir	dirigido	ao	sucesso	econômico,	o	que	se	revela
em	oposição	aos	modelos	morais	hegemônicos	anteriores,	tais	como	o	da	virtude
(presente	na	ética	tradicional)	e	o	da	queda	(encontrado	no	modelo	teológico).
A	funcionalidade	política	da	racionalidade	neoliberal	é	ampla.	Ao	mesmo	tempo
em	que	permite	uma	análise	crítica	do	exercício	do	poder,	um	modo	de	ver	e
encarar	o	poder	em	relação	aos	efeitos	que	ele	produz	sobre	as	condutas	e	as
escolhas	individuais,	a	racionalidade	neoliberal	é	também	uma	forma	de
governar	os	indivíduos.	Há	um	julgamento	e	uma	filtragem	das	ações	estatais	e
individuais	à	luz	da	lógica	e	do	modelo	de	mercado,	em	uma	espécie	de	tribunal
econômico	permanente.^	Esse	complexo	de	julgamentos,	induções	e	incentivos
às	condutas	esperadas	constitui	uma	forma	de	exercício	do	poder	que	age	a
distância	sobre	os	indivíduos,	em	especial	por	estar	direcionada	ao	meio	de	vida
das	pessoas	sob	a	égide	neoliberal	(tudo	é	construído	ou	reconstruído	tendo	o
mercado	como	modelo),	priorizando	a	ideia	de	autovalorização	do	capital
humano.	Tem-se,	sob	a	hegemonia	do	neoliberalismo,	a	prevalência	daquilo	que
Byung-Chul	Han	chama	de	“poder	inteligente”,	uma	manifestação	de	poder	que
“não	age	contra	a	vontade	dos	sujeitos	subjugados,	controlando	suas	vontades
em	seu	próprio	benefício.	É	mais	afirmador	do	que	negador,	mais	sedutor	do	que
repressor.	Ele	se	esforça	em	produzir	emoções	positivas	e	explorá-las.	Seduz,	em
vez	de	proibir”.^
A	normatividade	que	é	construída	a	partir	da	racionalidade	neoliberal	não	é
imposta	do	exterior	por	um	terceiro	que	pretende	estabelecer	limites	ao	poder,
nem	do	alto	por	uma	autoridade,	e	também	não	se	fundamenta	em	uma	lei
divina,	nos	ideais	de	justiça	social	ou	em	uma	espécie	de	senso	histórico,	mas	se
impõe	pelo	livre	jogo	das	forças	econômicas,	reproduzindo	em	toda	a	sociedade
a	lei	do	mais	forte.	A	concorrência	torna-se	padrão	normativo.	Cada	pessoa
passa	a	estar	submetida	às	regras	do	jogo	da	concorrência.	O	outro	torna-se
concorrente	e,	não	raro,	passa	a	ser	tratado	como	um	inimigo	a	ser	destruído.
No	imaginário	neoliberal,	a	concorrência	é	um	dado	natural,	logo	o	modo	de	agir
a	partir	das	regras	do	jogo	concorrencial	também	passa	a	ser	percebido	como
evidente.	Como	não	olhar	para	os	outros	trabalhadores	como	concorrentes,	senão
inimigos,	que	disputam	o	sucesso	e	o	lucro?	Em	uma	sociedade	em	que	o
egoísmo	foi	transformado	em	virtude,	a	extensão	da	lógica	da	concorrência	para
as	demais	relações	sociais	não	foi	traumática.	Ainda	para	o	imaginário
neoliberal,	esse	novo	modo	de	ver	e	atuar	no	mundo	a	partir	da	lógica
concorrencial	representaria	uma	continuação	do	trabalho	crítico	do	liberalismo	a
respeito	dos	excessos	e	da	irracionalidade	das	ações	governamentais.
Ter-se-ia,	então,	um	governo	menos	preocupado	com	questões	“secundárias”	e
mais	eficaz	no	campo	econômico	se	o	Estado	fosse	gerido	como	uma	empresa.
Para	tanto,	o	receituário	neoliberal	propõe	que	se	faça	uma	espécie	de
“transfusão	da	cultura	e	do	modo	de	exercer	o	poder	da	Empresa,	instituição	da
religião	industrial,	em	direção	ao	Estado,	instituição	da	religião	política”.^	A
virtude	da	empresa	privada	seria,	então,	transferida	ao	Estado,	visto	pelo	olhar
neoliberal	como	um	ente	fraco	e	corrupto.	Não	por	acaso,	figuras	como	Silvio
Berlusconi	e	Donald	Trump	(e,	em	menor	escala,	também	Emmanuel	Macron),
políticos	que	se	apresentam	como	não	políticos	e	homens	de	negócios,
personificam	a	figura	do	gestor,	necessário	ao	sucesso	do	fenômeno	do	Es-tado-
Em-presa.	De	igual	sorte,	ainda	segundo	a	racionalidade	neoliberal,	as	pessoas
alcançariam	mais	vantagens	pessoais	se	passassem	a	se	perceber	também	como
empresários-de-si.	Mas	essa	realidade,	que	o	imaginário	neoliberal	apresenta
como	natural,	é	também	o	produto	de	situações	artificialmente	criadas,	de	regras
estabelecidas,	de	idéias	fabricadas,	de	instituições	construídas	para	orientar	as
condutas	e	os	pensamentos	na	direção	da	crença	na	eficácia	do	governo
neoliberal.
Como	percebeu	Christian	Laval,
[...]	a	ação	governamental	à	distância	pelo	aparecimento	de	“regras	do	jogo”	visa
estruturar	o	espaço	dentro	do	qual	se	tratam	os	indivíduos	segundo	a	lógica
concorrencial.	Os	indivíduos	que	estão	a	se	conduzir	nesse	espaço	devem	se
adaptar	a	esse	meio	concorrencial	em	funcionamento	como	empresas	têm	que
gerir	recursos	para	maximizar	o	capital.	Longe	de	ser	anormativo	ou
subgovernado,	o	espaço	neoliberal	é	repleto	de	técnicas	comportamentais	cada
vez	mais	refinadas,	que	afetam	toda	a	vida	e	até	o	mais	íntimo	dos	indivíduos.2Z
O	neoliberalismo	supõe,	e	a	racionalidade	neoliberal	produz,	uma	representação
de	mundo	em	que	os	indivíduos	podem	ser	governados	através	de	certos	modos
de	ação	que	incidem	sobre	o	meio	em	que	eles	vivem.	Essa	não	é	uma	questão
nova.	Max	Weber	já	apontava	para	o	fato	de	que	o	indivíduo	foi	lançado	ao
nascer	na	ordem	econômica	capitalista,	um	habitat	dentro	do	qual	cada	um	tem
que	sobreviver.	E	para	sobreviver,	dentro	dessa	rede	do	mercado,	“a	ordem
econômica	lhe	impõe	as	normas	de	seu	agir”.25Uma	das	chaves	de	leitura
possíveis	da	racionalidade	neoliberal	é	a	atenção	ao	governo	dos	indivíduos	e
das	instituições	através	de	uma	regulamentação	concorrencial	da	sociedade.	Esse
modo	de	governar	parte	da	crença	no	novo	Homo	oecono-micus	como	um	ser
eminentemente	governável	e	formatável	a	partir	de	estímulos	e	de	mudanças,	por
vezes	sutis	e	quase	imperceptíveis,	sobre	as	regras	do	jogo	que	precisam	ser
seguidas	para	se	obter	sucesso	na	sociedade.	As	ações	governamentais,	então,
passam	a	ser	dirigidas	para	produzir	essa	formatação,	ou	seja,	para	criar	e	manter
as	condições	de	funcionamento	do	mercado,	o	que	muitas	vezes,	ao	longo	da
história,	significava	apenas	assegurar	a	acumulação	de	capital	aos	detentores	do
poder	econômico.	O	governo	neoliberal	age	sobre	o	ambiente	social	para
orientar	as	condutas	de	indivíduos	transformados,	segundo	os	teóricos
neoliberais	americanos,	em	“capital	humano”	e	tratados,	pelos	detentores	do
poder	econômico,	como	objetos	negociáveis,	mas	que	acreditam	ser	os	futuros
vencedores	do	jogo	da	concorrência.
O	sujeito	neoliberal,	o	indivíduo	submetido	à	racionalidade	neoliberal,	é
“incapaz	de	se	relacionar	livre	de	qualquer	propósito.	Entre	empreendedores	não
surge	amizade	desinteressada”.^	Categorias	como	“capital	humano”	e	a	crença
de	que	cada	pessoa	deve	atuar	no	mundo-da-vida	como	um	empreendedor,como
empre-sários-de-si,	produzem	uma	profunda	mutação	antropológica,	a	ponto	de
inviabilizar	laços	sociais.
Karl	Marx,	à	luz	do	contexto	em	que	escreveu	sua	monumental	obra,	sustentava
que	a	partir	de	um	determinado	momento	as	forças	produtivas	entrariam	em
contradição	insuperável	com	as	relações	de	produção	dominantes,	isso	porque	as
forças	produtivas	se	desenvolvem	continuamente	e	cresceríam	a	ponto	de	não
mais	se	deixar	subalternizar.100	A	consequência	lógica,	pensou	Marx,	seria	que	a
industrialização	e	as	mudanças	seguintes	produziríam	novas	forças	produtivas,
bem	como	provocariam	o	aumento	da	importância	dessas	forças	em	comparação
ao	poder	dos	detentores	dos	meios	de	produção.	Os	trabalhadores,	que
personificavam	as	forças	de	produção,	então,	uniriam-se	para	destruir	as	antigas
relações	de	propriedade	e	de	dominação	(algo	parecido	com	o	que	já	havia
ocorrido	com	o	feudalismo).	Esse	confronto	entre	as	forças	produtivas	e	as
relações	de	produção	dominantes	levaria	à	revolução	com	a	radical	mudança	nas
relações	de	produção.	Não	foi	o	que	aconteceu.
Foram	justamente	as	contradições	intrínsecas	ao	modelo	capitalista	que	levaram
às	mudanças	que	tornaram	hegemônica	a	racionalidade	neoliberal.	Em	lugar	do
comunismo	previsto	por	Marx,	o	capitalismo	industrial	se	manteve	sob	a	forma
neoliberal,	com	especial	destaque	para	o	crescimento	do	chamado	“capitalismo
improdutivo”	(capitalismo	financeiro),	no	qual	as	forças	de	produção	(força	de
trabalho,	modos	de	trabalho	e	meios	de	produção)	perdem	importância,	o	que
dificulta	ainda	mais	o	devir	revolucionário.	A	racionalidade	neoliberal	faz
desaparecer	o	imaginário	revolucionário	que	cercava	a	figura	do	proletário,
dando	lugar	ao	empreendedor.	Em	certo	sentido,	como	percebeu	Byung-Chul
Han,	não	foi	a	revolução	comunista	que	eliminou	a	exploração	alheia	da	classe
trabalhadora,	mas	o	neoliberalismo:	a	partir	dessa	nova	racionalidade,	“cada	um
é	um	trabalhador	que	explora	a	si	mesmo	para	a	sua	própria	empresa.	Cada	um	é
senhor	e	servo	em	uma	única	pessoa”.101	Desaparece	também	a	perspectiva	de
uma	consciência	de	classe,	o	que	faz	com	que	a	luta	passe	a	ser	travada	no
interior	de	cada	pessoa.	Ausente	a	imagem	de	um	nós	político,	impossível	um
agir	conjunto	capaz	de	eliminar	a	opressão	e	mudar	a	sociedade:	a	exploração
neoliberal	não	transforma	o	indivíduo	em	revolucionário,	mas	em	deprimido.
102O	regime	de	autoexploração,	nascido	da	racionalidade	neoliberal,	diante	da
necessidade	cotidiana	de	enfrentar	os	concorrentes,	faz	com	que	a	agressão	que
acompanha	a	exploração	seja	dirigida	pelo	agente	contra	seus	“concorrentes”,
mas	também	contra	ele	mesmo.	A	percepção	do	fracasso	econômico	na
sociedade	neoliberal,	que	se	relaciona	com	os	mandamentos	de	otimização	e
desempenho	pessoal,	se	dá	de	maneira	perversa:	o	empresário-de-si	fracassado	é
incapaz	de	qualquer	reflexão	sobre	o	sistema	e	as	distorções	sociais,	o	que	faz
com	que	acabe	dominado	pelo	imaginário	meritocrático,	que	faz	com	que	ele	se
considere	o	único	responsável	pelos	rumos	de	seu	empreendimento.
Pode-se	dizer	que	o	que	caracteriza	os	modos	de	produção	neoliberais	é	a
solitude	de	indivíduos	enquanto	exploradores-de-si.	Mais	do	que	isso,	em	razão
de	uma	racionalidade	que	introjeta	a	ideia	de	ilimitação	no	imaginário	das
pessoas,	os	empresários-de-si	passam	a	acreditar	que	são	capazes	de	uma
autoprodução	ilimitada	(e	isso	vale	tanto	para	o	prestador	de	serviços	francês
quanto	para	o	traficante	de	drogas	de	uma	favela	do	Rio	de	Janeiro).	As	classes
não	desapareceram,	mas	não	são	mais	percebidas	como	tais.	Seja	em	razão	da
dimensão	ideológica	do	neoliberalismo,	seja	em	razão	do	mimetismo	que	faz
com	que	“os	de	baixo	procurem	se	parecer	com	“os	de	cima”	como	forma	de	se
proteger,	há	um	ocultamento	dos	estratos	antagônicos	da	sociedade,	o	que	ajuda
a	estabilidade	do	sistema	neoliberal.	Desaparece	o	risco	da	ditadura	do
proletariado,	que	tanto	assustou	os	“pais	fundadores”	do	neoliberalismo,
enquanto	se	oculta	cada	vez	mais	a	ditadura	do	capital	em	vigor.	Um	modelo
autoritário	e	tendencialmente	destrutivo	passa	a	ser	percebido	como	um	mero
exercício	da	liberdade.
Como	se	viu,	a	racionalidade	neoliberal	fez	com	que	o	indivíduo	passasse	a	agir
como	uma	empresa	e	que	o	Estado	assumisse	o	modelo	de	Estado-Empresa,	o
que	significa	operar	escolhas	com	o	objetivo	de	produzir	o	máximo	de
satisfação.	Uma	satisfação	que	passa	a	se	identificar	exclusivamente	com	a
obtenção	de	lucro.	Governar,	legislar	e	julgar	passa	a	ser	sinônimo	de	agir	sobre
o	meio,	de	modo	a	conseguir	que	os	indivíduos	respeitem	as	regras	do	mercado	e
respondam	às	incitações	que	esse	mesmo	meio	produz,	no	sentido	de	que	todos
busquem	sempre,	e	sem	limites,	o	crescimento	de	seus	capitais.	A	liberdade	do
indivíduo	passa	a	ser	direcionada	à	capitalização	de	seus	próprios	recursos	e
relações,	inclusive	pessoais.
O	meio	que	passa	a	servir	de	modelo	é	o	mercado	concorrencial,	pois	é	o	meio
que	se	revela	mais	adequado	às	incitações	e	aos	estímulos	direcionados	à
capitalização:	trata-se,	pois,	de	um	espaço	em	que	todos	os	sujeitos	devem	atuar
como	empresas,	como	unidades	de	capitalização	privada,	enfim,	como	entidades
que	buscam	o	lucro.	O	mercado,	percebido	pelos	teóricos	neoliberais	como	um
espaço	normativo,	passa	a	contar	com	uma	política	econômica	e	com	ações
legislativas	voltadas	à	construção,	à	manutenção,	à	correção	e	à	multiplicação
das	condições	necessárias	ao	seu	bom	funcionamento	e	à	satisfação	dos
interesses	dos	detentores	do	poder	econômico.	Cabe	aos	indivíduos	sob	a	égide
neoliberal	se	adaptar	à	realidade	do	mercado	para	maximizarem	seus	ganhos	ou,
ao	menos,	sobreviverem	à	disputa	concorrencial.	A	racionalidade	neoliberal,
portanto,	revela	duas	faces:	“a	ideológica,	que	continua	a	naturalizar	o	mercado,
e	a	politicamente	ativa,	que	cria	as	condições	econômicas,	jurídicas	e	políticas
pelas	quais	o	mercado	funciona	de	modo	otimizado”.103	Foi	no	ambiente
neoliberal	que	surgiu	a	ideia	de	que	o	indivíduo	deve	ser	tratado	como	um	ser
integralmente	econômico,	ou	seja,	um	ente	capaz	de	fazer	escolhas	supostamente
racionais	a	partir	de	critérios	econômicos	em	todas	as	áreas	de	sua	vida,	tais
como	o	trabalho,	a	família,	a	educação,	os	relacionamentos	intersubjetivos,	as
drogas	e	o	crime.	Fala-se,	então,	em	uma	subjetivação	neoliberal	que	fez	do
indivíduo	uma	empresa,	um	ente	moral	e	racional,	despido	de	pulsões	ou	desejos
para	além	do	enriquecimento.
É	importante	frisar	que	a	racionalidade	neoliberal	não	leva	ao	fim	da
normalização	ou	das	técnicas	disciplinares,	mas	a	novas	modalidades	de
normalização,	que	não	necessariamente	excluem	as	demais	e	que	se	caracterizam
por	operar	a	partir	da	produção	de	estímulos	comportamentais	através	do	meio.
Para	tanto,	são	desenvolvidos	mecanismos	de	adaptação	e	de	reação	às	variáveis
do	mercado,	em	especial	técnicas	comportamentais,	de	propaganda,	de	controle,
de	incitação,	de	estimulação	etc.	Esses	mecanismos	e	dispositivos	podem	incluir
desde	práticas	reiteradas	a	propagandas	subliminares,	desde	um	jogo	de
incitação	e	“desincitação”	às	novas	tecnologias	produzidas	a	partir	das
neurociências.	Todo	um	instrumental	destinado	a	moldar	comportamentos	e	a
produzir	novas	normas,	que	devem	ser	interiorizadas	pelos	indivíduos,	é
colocado	a	serviço	do	mercado.
Em	o	Nascimento	da	biopolítica,	Foucault	dá	início	ao	desvelamento	da	ligação
entre	biopolítica	e	governabilidade	neoliberal,	esta	baseada	no	cálculo
econômico	transformado	em	princípio,	que	legitima	tanto	o	exercício	do	poder
quanto	a	sua	própria	regulamentação.	A	transformação	do	espaço,	moldado	à
imagem	e	semelhança	do	mercado,	é	a	estratégia	para	dar	conta	de	uma	política
econômica	que	ambiciona	a	gestão	de	todo	o	corpo	social.	Esse	planejamento	do
espaço	funciona,	segundo	a	lição	neoliberal,	como	um	meio	de	educar,	vigiar	e
cuidar	dos	indivíduos	para	que	eles	não	prejudiquem	a	livre	circulação	e	os
processos	de	acumulação	do	capital.	Trata-se	daquilo	que	Ferhat	Taylan	chamou
de	“mesopolítica”.104
Dito	de	outra	maneira,	o	poder	e	a	gestão	das	pessoas,a	partir	da	racionalidade
neoliberal,	se	fazem	não	só	através	da	punição	e	da	repressão,	mas,	sobretudo,
através	da	organização	das	forças,	da	criação	de	novos	estímulos,	da	canalização
e	da	intensificação	dos	fluxos	e	pulsões,	inclusive	da	pulsão	de	morte.	A
biopolítica	(bem	como	a	necropolítica)	aparece	nesse	contexto	como	um
exercício	de	poder	produtivo,	ou	seja,	como	a	gestão	da	vida	(e	a	produção
estratégica	da	morte)	através	da	orientação,	do	controle	e	da	maximização	dos
mecanismos	fisiológicos,	psicológicos,	demográficos	e	econômicos.	Não	mais
um	exercício	de	poder	voltado	prioritariamente	a	um	corpo	individual,	não	mais
direcionado	ao	corpo	do	desviante,	como	acontecia	na	sociedade	disciplinar,	mas
um	poder	direcionado	à	massa	popular,	o	que	se	consegue,	por	exemplo,	através
do	estímulo	e	da	regulação	de	fenômenos	vitais,	tais	como	a	natalidade,	a
mortalidade,	a	educação,	a	delinquência,	a	fome,	o	controle	da	opinião	etc.	Um
poder	biopolítico	que	“faz	viver	e	deixa	morrer”105	conforme	cada	situação	e	que
modifica	o	imaginário	popular.	Em	síntese:	o	poder	produz	a	realidade,
entendida	como	uma	trama	simbólico-imaginária	a	que	os	indivíduos	devem
buscar	se	adaptar;	o	poder	produz	“regimes	de	verdade”,	controlando	os	objetos
e	os	rituais	destinados	à	revelação	do	verdadeiro;	e	o	poder	produz	tanto	o
mercado	e	o	consumidor	quanto	o	crime	e	o	desviante.
i.8.	O	meio,	o	sujeito	e	a	governabilidade:	como	se
constrói	uma	servidão	voluntária
O	neoliberalismo	instaura	a	governabilidade	pelo	meio,	isso	a	partir	da
constatação	de	que	o	meio	afeta	o	jogo	de	interesses.	O	meio,	então,	é	tomado
como	a	base	das	relações	de	poder:	o	espaço	em	que	vive	uma	população	e	onde
é	possível	agir	sobre	ela.	Ao	se	estruturar	o	espaço	da	conduta	do	outro,	espera-
se	que	este	comece	a	agir	de	uma	maneira	determinada	e	funcional	aos	interesses
do	detentor	do	poder	político,	que	muitas	vezes	se	identifica	com	o	detentor	do
poder	econômico.	Essa	forma	de	governo	da	população,	que	se	torna	objeto	de
uma	espécie	de	jogo	que	envolve	os	valores	liberdade	e	segurança,	através	de
mecanismos	de	regulação	e	condicionamento	da	conduta	individual	que
envolvem	a	construção	do	meio	social	como	um	mercado,	busca	uma	gestão	da
massa	da	população	(tratada	como	rebanho),	na	medida	em	que	os	indivíduos
são	levados	a	pensar	(ou	a	não	pensar),	agir	e	consumir	de	maneira	semelhante,
em	que	pese	algumas	variações	compatíveis	com	o	mercado	e	com	o	fato	dos
indivíduos	tentarem	gerir	a	si	mesmos	como	capitais	valorizáveis.
O	sujeito	neoliberal,	abstratamente	concebido	como	detentor	de	todas	as
informações	e	capaz	das	melhores	escolhas,	mas	que	em	concreto	acredita	no
discurso	neoliberal	e	se	reconhece	como	um	empresário-de-si,	torna-se	também
o	único	responsável	diante	dos	variados	riscos	a	que	está	submetido,	e	pelo	seu
próprio	fracasso,	isso	porque	ajudas	sociais	ou	subvenções	representariam
violações	das	regras	do	jogo	concorrencial.	O	Estado,	por	sua	vez,	deixa	de	atuar
diretamente	na	redução	da	desigualdade	e	passa	a	focar	em	ações	no,	para	e	pelo
mercado.
A	racionalidade	neoliberal	gera	também	o	fenômeno	de	pessoas	livres	do	peso
de	terem	que	pensar	(em	certo	sentido,	assujeitos),	na	medida	em	que	suas	ações
são	direcionadas	por	modificações	do	meio,	pela	manipulação	das	informações,
pela	propaganda,	pela	indústria	cultural	e,	hoje,	pelos	mandamentos	produzidos
pelas	telas	(televisões,	smartphones,	computadores	ligados	à	rede	etc.),	que
funcionam	como	“próteses	do	pensamento”106	adequado	ao	mercado.	Sob	a
racionalidade	neoliberal,	aparece	o	fenômeno	da	população	fabricada	para	se
tornar	uma	formação	“ego-gregária”:107	um	coletivo	marcado	mais	pelo	egoísmo
e	pelo	narci-sismo,	estimulados	tanto	pelo	poder	político	quanto	pelo	poder
econômico,	do	que	por	um	legítimo	individualismo,	o	que	exigiría	uma
verdadeira	autonomia,	inexistente	na	subjetivação	neoliberal.
Esse	narcisismo	neoliberal	leva	ao	desaparecimento	do	valor	da	política.	Em
outras	palavras,	o	narcisismo	produz	a	antipolítica.	A	promessa	de
autodeterminação	pessoal,	distorcida	a	partir	de	manipulações	do	sujeito	e
transformada	em	egoísmo,	entra	em	conflito	com	o	projeto	de	autodeterminação
coletiva.108	Não	por	acaso,	o	mesmo	movimento	que	levou	à	hegemonia	do
neoliberalismo	produziu	também	a	desagregação	do	movimento	operário	e	do
projeto	revolucionário	a	ele	ligado.	Valores	e	idéias	como	solidariedade,	comum
e	espaço	público	perderam	importância	para	o	indivíduo.	A	ideia	de
individualismo	também	sofreu	uma	mutação.	O	individualismo	perdeu	em
autonomia	e	ganhou	contornos	narcísicos.109	o	que	significa	a	perda	do	interesse
das	pessoas	pelos	outros	e	pelo	coletivo.	Pode-se,	então,	associar	esse	narcisismo
e	esse	egoísmo	ao	desinteresse	pelo	comum	e	à	ausência	de	projetos	coletivos.
Como	lembrou	Cornelius	Castoriadis	em	1986,
[...]	há	trinta	ou	sessenta	anos,	as	pessoas	de	esquerda	falavam	da	“Grande
Noite”,	as	pessoas	de	direita	do	“progresso	indefinido”,	etc.	Hoje,	ninguém	mais
ousa	exprimir	um	projeto	ambicioso,	nem	mesmo	aproximadamente	razoável,
que	se	dirija	para	além	do	orçamento	ou	das	próximas	eleições.110
O	egoísmo,	incentivado	pela	racionalidade	neoliberal,	e	a	correlata	preocupação
exclusiva	com	os	próprios	problemas	fazem	com	que	as	pessoas	não	se
envolvam	com	o	comum	e	se	afastem	do	horizonte	público.	O	espaço	público
fica	reduzido	à	propaganda,	à	publicidade	e	à	exposição	pornográfica	de	vidas
transformadas	em	mercadorias.	As	pessoas,	condicionadas	pela	racionalidade
neoliberal,	são	levadas	à	repetição	das	mesmas	condutas	e	dos	mesmos
pensamentos,	inofensivos	aos	olhos	dos	detentores	do	poder	econômico,	mas,	ao
mesmo	tempo,	estão	isoladas,	na	medida	em	que	tendem	a	perceber	os	outros
como	potenciais	concorrentes	ou	inimigos.
Para	Christopher	Lasch,	as	fronteiras	entre	o	eu	e	o	resto	do	mundo	tornaram-se
instáveis,	com	as	imagens	adquirindo	um	caráter	alucinatório,	muito	em	razão	da
propaganda	e	da	tecnologia	dos	meios	de	comunicação	de	massa.111	Mesmo	a
ciência,	que	poderia	permitir	uma	visão	de	mundo	mais	racional,	passou	a	ser
percebida	como	o	espaço	da	produção	de	milagres	que	fazem	com	que	tudo	se
torne	possível,	o	que	contribui	para	a	alucinação	neoliberal	da	ausência	de
limites.
Essa	sensação	de	alucinação	relacionada	ao	consumo,	a	que	fica	submetido	o
indivíduo,	se	explica	em	razão	da	racionalidade	neoliberal	que	contém	em	si	um
princípio	de	ilimitação.	Em	outras	palavras,	se	tudo	é	calculo	econômico,	se	o
homem	tende	a	buscar	a	maximização	diante	das	alternativas	postas	à	escolha,	e
se	inexistem	limites	no	meio	em	que	se	encontra,	há	uma	tendência	a	que	toda	a
sociedade	passe	a	ser	regida	pela	busca	da	maximização	do	capital	humano	e	que
todos	os	obstáculos	ao	lucro	e	às	relações	mercantis	entre	indivíduos	sejam
percebidos	como	negatividades	e	afastados,	inclusive	aqueles	obstáculos
tradicionais	regidos	por	códigos	religiosos	ou	éticos.
A	tendência	à	ilimitação	do	neoliberalismo	produz,	também	no	plano	simbólico,
profundas	modificações.	Uma	das	mais	importantes	é	a	mutação	do	desejo	em
sentido	lacaniano,	ou	mais	precisamente	a	perda	da	“energia	psíquica	do
desejo”112	que	leva	à	ação.	Jacques	Lacan	demonstrou	satisfatoriamente	em	suas
obras	que	o	desejo	tem	como	causa	a	falta	(se	deseja,	sobretudo,	aquilo	que	não
se	tem)	e	que	essa	falta	(que	seria	constitutiva	do	indivíduo)	existe	tanto	pela
impossibilidade	do	real	ser	representado	adequadamente	quanto	em	razão	de
limites	naturais,	jurídicos,	morais,	dentre	outros,	impostos	à	fruição	dos
objetos.113	Uma	sociedade	em	que	os	limites	não	são	percebidos	ou	são
naturalmente	ignorados	na	busca	pelo	lucro,	o	que,	em	certo	sentido,	se	liga
também	ao	empobrecimento	da	linguagem	típica	da	racionalidade	neoliberal,	faz
com	que	a	ideia	de	desejo	acabe	substituída	pela	de	necessidade,	ou	instinto.	Há
uma	espécie	de	aposta	na	dimensão	animal	dos	indivíduos	em	detrimento	do
cultural	e	da	própria	ideia	de	civilização:	correlata	à	perda	civilizatória	(uma
civilização	que	nasce	com	a	renúncia	pulsional	e	quesempre	se	caracterizou	pela
imposição	de	limites),	dá-se	o	aumento	da	percepção	de	que	coisas	se	tornaram
necessidades,	ainda	que	artificialmente	construídas.
O	“capital	gera	suas	próprias	necessidades,	que	erroneamente	percebemos	como
se	fossem	nossas”.114	No	lugar	de	pulsões	mediadas	pela	linguagem	e,	portanto,
que	participam	de	uma	economia	psíquica	em	que	os	limites	se	fazem	presentes,
a	racionalidade	neoliberal	leva	ao	retorno	da	ideia	de	instinto,	no	qual	a
realização	das	necessidades	se	torna	uma	questão	de	sobrevivência	no	mundo
neoliberal,	que	passa	a	ser	instrumentalizada	com	objetivos	político-econômicos.
Diante	da	falta	de	desejo,	a	lógica	concorrência	faz	com	que	os	indivíduos	lutem
entre	si	para	a	realização	de	necessidades,	o	que	torna	a	luta	muito	mais	feroz	e,
não	raro,	faz	do	concorrente	um	inimigo,	ou	seja,	alguém	que	não	ter	direitos
reconhecidos.
Além	de	reforçar	a	ideia	de	que	as	pessoas	são	(e	devem	ser)	movidas	por	seus
interesses,	a	racionalidade	neoliberal	leva	à	interiorização	tanto	pelos	agentes
estatais	quanto	pelos	indivíduos	da	lógica	concorrencial	do	mercado.	Como
Christian	Laval,	pode-se	afirmar	que	a	racionalidade	neoliberal	leva	à	ampliação
da	disputa	e	da	concorrência:	o	Estado	encontraria	legitimidade	em	razão	do
bom	funcionamento	econômico	da	sociedade	e,	para	tanto,	deveria	ampliar	a
disputa	concorrencial	na	sociedade,	inclusive	aplicando	ao	próprio	Estado,	tanto
quanto	possível,	o	mecanismo	da	concorrência.115
A	governabilidade	pode	ser	definida	como	o	conjunto	formado	por	instituições,
normas,	procedimentos,	análises,	cálculos,	táticas	e	dispositivos	que	permitem
uma	forma	específica	de	exercício	do	poder	que	tem	por	alvo	a	população,	a
partir	da	economia	política	e	de	instrumentos	técnicos	essenciais	aos	dispositivos
de	segurança.116	Implica,	igualmente,	maneiras	concretas,	porém	às	vezes
invisíveis	e	quase	imperceptíveis,	de	conduzir	e	controlar	os	indivíduos.	A
governabilidade	pode,	portanto,	ser	sinônimo	de	racionalidade	governamental,
de	arte	de	governar	e	de	orientação	para	o	exercício	do	poder	político.	Há	na
governabilidade	um	direcionamento	de	ações	para	que	um	indivíduo	faça	ou
deixe	de	fazer	alguma	coisa	que	outros	indivíduos	(ou	grupos	de	interesse)
esperam	que	ele	faça,	bem	como	existem	também	ações	concretas	para	excluir	a
possibilidade	de	que	uma	pessoa	ou	um	grupo	de	pessoas	façam	o	que	não
interessa	ao	detentor	do	poder	político	(que,	por	vezes,	também	se	identifica	com
o	titular	do	poder	econômico).	Não	por	acaso	Michel	Foucault	sustentou	que
governar	é	“estruturar	o	campo	de	ação	eventual	dos	outros”.117Adequada	à
racionalidade	neoliberal,	a	governabilidade	faz	cada	vez	mais	uso	das	técnicas	de
biopolítica,	uma	vez	que	a	gestão	da	vida	é	utilizada	para	atender	aos	interesses
do	mercado	e,	mais	precisamente,	satisfazer	aos	interesses	dos	detentores	do
poder	econômico.	Segundo	Michel	Foucault,	o	biopoder	se	manifesta	a	partir	de
mecanismos	que	fazem	com	que	traços	biológicos	fundamentais	da	espécie
humana	passem	a	ser	utilizados	na	política,	na	formulação	de	uma	estratégia
geral	de	poder:	o	exercício	do	poder	parte	da	instrumentalização	do	fato
biológico	fundamental	de	que	a	vida	de	um	ser	humano	pode	ser	manipulada	ou
até	extinta.118	A	biopolítica,	portanto,	passa	a	atuar	em	relação	com	as	variáveis
relacionadas	à	vida	da	população	(a	morte,	o	nascimento,	a	mortalidade,	a
riqueza,	a	pobreza,	a	sexualidade	etc.).
A	governabilidade	neoliberal	se	caracteriza	justamente	por	produzir	uma	visão
de	mundo	que	compatibilize	o	controle	da	população	com	o	mercado,	a
concorrência	e	os	objetivos	buscados	pelos	detentores	do	poder	econômico.	Se	o
liberalismo	historicamente	tinha	como	princípio	orientador	a	limitação	do
exercício	do	poder	político,	a	governabilidade	neoliberal	necessita	de	um	poder
político	cada	vez	mais	sem	limites	quando	se	trata	de	ajudar	o	mercado	ou	os
detentores	do	poder	econômico.
Em	uma	apertada	síntese,	pode-se	afirmar	que	tanto	a	tendência	à	ilimitação
quanto	o	pensar,	agir	e	governar	pela	concorrência	são	as	características	que
revelam	a	especificidade	do	neoliberalismo.	E	essa	racionalidade,	diferentemente
das	anteriores,	acabou	por	possibilitar	(e	necessitar	de)	novas	formas	de
dominação.	A	ideologia	tornou-se,	então,	fundamental	à	manutenção	da
hegemonia	neoliberal.	A	dominação	ideológica	foi	elevada	a	um	novo	patamar.
Os	efeitos	da	racionalidade	neoliberal	podem	ser	sentidos,	mas	a	dimensão
ideológica	do	neoliberalismo	impede	a	identificação	das	causas	do	sofrimento.	A
ideologia	permite,	por	exemplo,	que	o	neoliberalismo	seja	apresentado	como
resposta	a	problemas	criados	pelo	próprio	neoliberalismo.	É	esse	componente
ideológico	do	neoliberalismo	que	permite	fazer	da	liberdade	uma	justificativa
para	o	exercício	do	poder	de	forma	autoritária,	bem	como	instaurar	um	regime
de	verdade	que	se	contenta	com	a	chamada	pós-verdade.	A	verdade	neoliberal
não	passa	de	narrativas	que	confirmam	preconceitos	sociais	ou	fornecem	os
dados	úteis	aos	detentores	do	poder	econômico.
A	comparação	entre	Ewen	Cameron	e	Milton	Friedman,	figuras	históricas	que
são	resgatadas	no	livro	de	Naomi	Klein	sobre	a	Doutrina	do	Choque,permite
demonstrar	essa	transformação	do	poder	e	sua	ligação	com	a	ideologia.	Os	dois,
tanto	o	médico	quanto	o	economista,	pensavam	o	choque	como	uma
oportunidade	para	produzir	transformações	significativas,	mas	enquanto	para
Cameron	o	choque	é	uma	manifestação	genuinamente	disciplinar,	produzida	por
um	terceiro	necessariamente	contra	a	vontade	manifesta	do	paciente	(que	era
tratado	por	eletrochoques	com	o	objetivo	de	aniquilar	seus	conteúdos	psíquicos),
o	choque	neoliberal	pensado	por	Friedman	apresenta-se	como	pura	positividade,
despida	inclusive	de	ideologia	(como,	aliás,	acontece	com	toda	ideologia).	No
lugar	de	ameaças	de	impor	sofrimento	ou	outras	negatividades,	o	poder	exercido
por	neoliberais	como	Friedman	busca	apresentar	medidas	drásticas	(e,	por	vezes,
catastróficas	e	criminosas)	como	estímulos	positivos,	seduzindo	os	destinatários.
O	poder	disciplinar	explicitamente	restringe	a	liberdade,	enquanto	o	exercício
neoliberal	de	poder,	mesmo	que	restrinja	a	liberdade,	o	faz	de	maneira
disfarçada,	como	uma	manifestação	em	nome	da	liberdade	(mesmo	diante	da
constatação	de	que	golpes	de	Estado	e	o	poder	disciplinar	sempre	estão	à
disposição	para	que	se	alcance	os	fins	visados	no	projeto	neoliberal).
i.9.	Neoliberalismo,	geopolítica,	guerras	híbridas	e
novos	golpes:	os	velhos	“donos	do	mundo”
mostram	suas	novas	armas
No	plano	das	ações	geopolíticas,	a	racionalidade	neoliberal	também	produziu
mudanças	sensíveis.	A	lógica	da	concorrência	(que,	sem	limites,	leva	à
construção	de	inimigos)	e	a	desconsideração	de	limites	externos	à	eficiência
econômica	fizeram	com	que	as	intervenções	dos	Estados	(e,	portanto,	as
intervenções	dos	mercados	a	que	servem	os	Estados)	se	ampliassem.	Para	além
do	funcionamento	de	empresas	transnacionais	(que	expandem	suas	atividades
em	vários	países	e,	não	raro,	possuem	poder	econômico	para	interferir	na	vida
política	dos	países-hospedeiros)	e	de	organismos	que	representam	uma	espécie
de	prolongamento	da	Sociedade	Mont-Pèlerin	(como	órgãos	de	difusão	e
sustentação	do	projeto	neoliberal,	tais	como	o	Fórum	Econômico	Mundial	de
Davos),	alguns	Estados,	para	defender	os	interesses	de	grupos	econômicos,
intensificaram	a	atuação	política,	militar	e	econômica	sobre	outros	países,
reduzidos	a	mercados	ou	commodities	a	serem	conquistados	e	negociados.
Os	exemplos	do	Chile,	da	Argentina	e	do	Brasil,	que	suportaram	golpes	de
Estado	apoiados	pelos	Estados	Unidos,	deixam	evidente	que	a	ideia	de	soberania
nunca	foi	um	obstáculo	à	ilimitação	neoliberal.	Os	interesses	dos	detentores	do
poder	econômico	justificam	a	superação	de	qualquer	obstáculo,	permitindo,
inclusive,	a	criação	de	grupos	de	interesse	formados	por	quem	quer	lucrar	nas
mais	variadas	partes	do	mundo.	Não	por	acaso,	floresceu	uma	duradoura
amizade	entre	o	ditador	chileno	Augusto	Pinochet	e	a	dama	de	ferro	neoliberal
Margaret	Thatcher.
Semnunca	afastar	a	possibilidade	do	recurso	da	invasão	militar,	tradição
estadunidense	iniciada	ainda	no	século	XIX,	a	racionalidade	neoliberal	e	as
correlatas	técnicas	de	psicopoder	(utilizadas	no	processo	de	subje-tivação
neoliberal)	levaram	ao	surgimento	de	fenômenos	como	as	guerras	híbridas	(uma
combinação	entre	revoluções	coloridas120	e	guerras	não	convencionais),	as
colaborações	informais	de	agentes	estatais	com	grupos	de	interesse	de	outros
países	e	os	intercâmbios	de	saber	com	a	intenção	de	formar	quadros	(políticos,
ativistas	sociais,	juizes	etc.)	capazes	de	realizar,	ainda	que	sem	consciência
disso,	os	interesses	dos	detentores	do	poder	econômico.	Como	percebeu	Andrew
Korybko,	“as	ocupações	militares	podem	dar	lugar	a	golpes	e	operações	indiretas
para	a	troca	de	regimes,	que	são	muito	mais	econômicos	e	menos	sensíveis	do
ponto	de	vista	político”.121	Nas	operações	geopolíticas	indiretas,	as	munições
são	substituídas	pelas	redes	sociais,	pelos	grupos	econômico-midiáticos,	por
juizes	ou	outros	atores	sociais	do	país	que	é	objeto	da	intervenção.	São	esses
sujeitos	e	esses	meios	que,	condicionados	pela	racionalidade	neoliberal,	passam
a	atuar	como	agressores	do	governo	indesejável;	isso	em	substituição	aos
soldados,	tanques	e	balas	do	governo	estrangeiro	(a	serviço	de	grupos
econômicos)	que	pretende	intervir.	Grupos	formados	a	partir	do	aplicativo
WhatsApp	e	em	páginas	como	as	do	Facebook,	do	Twitter	e	do	YouTube
funcionam	nesse	novo	contexto	como	os	antigos	“covis	dos	militantes”.122
O	exemplo	da	Rede	Atlas123	é	significativo.	Trata-se	de	uma	organização	que
patrocina	ações,	com	destaque	para	as	redes	sociais,	para	desestabilizar	e
combater	governos	não	completamente	alinhados	ao	livre	mercado.	A	Rede
Atlas,	com	forte	atuação	na	América	Latina,	dá	suporte	ou	forma	lideranças	que
se	colocam	na	oposição	aos	governos	identificados	como	progressistas,	desde
senadores	bolivianos	a	jovens	desocupados	transformados	em	líderes	da
oposição,	como	ocorreu	com	os	membros	do	Movimento	Brasil	Livre.	As	ações
da	Rede	Atlas	têm	alcançado	resultados	satisfatórios	na	demonização	de
governos	e	intelectuais	de	esquerda,	no	fomento	ao	descontentamento	com
políticas	sociais	e	no	apoio	à	eleição	de	candidatos	comprometidos	com	o	ideal
neoliberal.	Na	Argentina,	por	exemplo,	a	Fundación	Pensar,	um	dos	think	tanks
da	Rede	Atlas	espalhados	pela	América	do	Sul,	foi	incorporada	ao	partido
político	do	presidente	Mauricio	Macri	(PRO),	logo	após	a	vitória	eleitoral	do
candidato	neoliberal,	e	membros	dessa	fundação	foram,	então,	nomeados	para
cargos	no	governo.
A	Rede	Atlas,	que	conta	com	apoio	financeiro	de	empresários	e	bilionários
conservadores	como	os	irmãos	Koch	(Fundação	Koch)	pode,	ainda,	ser	apontada
como	uma	extensão	tácita	da	política	externa	dos	Estados	Unidos,	o	que	salta	aos
olhos	ao	se	perceber	que	vários	dos	think	tanks	associados	a	essa	rede	são
financiados	pelo	Departamento	de	Estado	norte-americano	e	o	National
Endowment	for	Democracy,	um	dos	braços	do	soft	power	dos	Estados	Unidos.	A
Rede	Atlas	realizou,	nos	últimos	anos,	centenas	de	doações	para	think	tanks
conservadores	e	defensores	do	livre	mercado	na	América	Latina,	bem	como
forneceu	treinamento	a	membros	dessas	organizações	e	militantes	do	livre
comércio,	inclusive	sobre	técnicas	voltadas	à	desconstrução	da	imagem	de
lideranças	apontadas	como	socialistas	ou	comunistas.	As	tentativas	de	manipular
o	meio,	potencializar	o	poder	econômico	e	controlar	o	poder	político,	porém,	não
se	limitam	às	ações	na	América	Latina	de	associações	como	a	Rede	Atlas,	como
demonstra	a	atuação	da	Cambridge	Analytical^	nos	Estados	Unidos	e	na
Inglaterra.
Para	atender	aos	interesses	dos	detentores	do	poder	econômico	(na	disputa	por
riquezas	naturais,	por	exemplo),	acontecimentos	são	fabricados	e	o	meio	é
manipulado	para	justificar	a	revolta	contra	os	inimigos,	ainda	que	imaginários,
do	modelo	neoliberal.	Ao	estudar	as	revoluções	coloridas	e	a	utilização	de	forças
não	convencionais,	que	caracterizam	as	operações	geopolíticas	indiretas
conduzidas	pelos	Estados	Unidos	em	busca	de	commodities	(como	o	petróleo),
de	novos	mercados	ou	de	“derrubar	governos	desfavoráveis	ou	simplesmente
não	submissos	ao	EUA	e	seus	objetivos”,Hl	Andrew	Korybko	percebe	que	essas
falsificações	da	realidade	e	manipulações	do	meio	são	produzidas	pela	interação
de	vários	fatores,	que	poderíam	ser	subdivididos	em	algumas	categorias:
ideologia,	financiamento,	social,	treinamento,	informação	e	mídia.126	Esses
fatores,	em	uma	interação	complexa,	levariam	a	um	movimento	de	superação	do
governo	indesejável.
O	funcionamento	e	o	êxito	das	chamadas	revoluções	coloridas	no	mundo	árabe	e
na	Ucrânia,	que	atenderam	aos	objetivos	da	política	externa	norte-americana,
merecem	ser	analisados	à	luz	da	racionalidade	neoliberal.	As	revoluções
coloridas	podem	ser	definidas	como	transformações	de	regimes	provocadas	pela
desesta-bilização	de	governos	e	o	crescimento	de	conflitos	internos	a	partir	de
manifestações	de	massa	aparentemente	espontâneas	que	se	realizam	em	torno	de
pautas	abertas	e	abstratas	(defesa	da	democracia,	contra	a	corrupção,	contra
“tudo	o	que	está	aí”	etc.).	Essas	manifestações	espontâneas	(e,	por	vezes,	sem
líderes)	são	precedidas	de	processos	de	subjetivação	que	fazem	uso	de	um
instrumental	ligado	ao	psicopoder,	tais	como	o	recurso	à	propaganda,	a
utilização	de	técnicas	que	derivam	do	estudo	da	psicologia	das	massas	e	o	uso
das	redes	sociais.
Não	é	obra	do	acaso	a	recepção	tanto	no	meio	nazista	quanto	no	meio	neoliberal
das	teorias	desenvolvidas	por	Edward	Bernays,	filho	da	irmã	de	Freud,	que
sustentava	a	possibilidade	dos	governos	e	dos	anunciantes	arregimentarem	a
mente	“como	os	militares	o	fazem	com	o	corpo”,	bem	como	a	necessidade	de
apelar	para	o	individualismo	e	o	“desejo”	para	conseguir	o	que	se	quer.127	As
teorias	sobre	a	propaganda	de	Bernays,	inspiradas	na	teoria	freudiana	da
psicologia	das	massas,	podem	ser	encontradas	na	base	das	ações	incentivadas	ou
induzidas	que	antecedem	as	revoluções	coloridas.	Bernays	sustentava	que
poucas	pessoas	“invisíveis”	têm	o	potencial	de	influenciar	e	orientar	o
pensamento	das	massas,	e	que	essas	pessoas	precisavam	ser	usadas	para	manter
a	ordem	(ou	criar	a	desordem)	na	sociedade.	Era	necessário,	portanto,
“contaminar”	o	grupo	com	idéias	de	fora	através	de	abordagens	indiretas,	o	que
se	conseguiría	através	do	estudo	de	grupos	de	pessoas,	para	se	descobrir	como
alcançá-las	e	fabricar	“consensos”.128	Através	dessas	técnicas,	que	visam	antes
seduzir	do	que	coagir,	e	que	envolvem	notícias	que	“devem	ser	fabricadas
artificialmente	para	que	a	campanha	de	publicidade	seja	mais	eficiente”,	o
objetivo	é	fazer	com	que	as	idéias	transmitidas	através	de	palavras,	sons	e	gestos
se	tornem	parte	integrante	da	própria	massa.	Assim,	as	mensagens	produzidas
contra	os	governos	indesejáveis	passam	a	ser	percebidas	como	um	elemento
unificador	da	massa	através	de	técnicas	utilizadas	para	mobilizar	as	pessoas,	tais
como	o	recurso	a	marchas,	o	boicote	às	eleições,	os	slogans,	as	caricaturas	(no
Brasil,	o	boneco	Pixuleco,	vestido	de	presidiário,	buscava	atacar	o	capital
simbólico	do	ex-presidente	Lula	da	Silva,	então	novamente	candidato	à
presidência	do	país),	os	gestos	obscenos,	os	desacatos	a	autoridades,	as
representação	de	funerais,	dentre	outras	técnicas	já	descritas	pelo	teórico	dos
“meios	não	violentos”	de	ação	política	Gene	Sharp.129As	revoluções	coloridas	e
as	demais	formas	de	intervenção	indireta	no	governo	de	um	país,	inclusive	os
golpes	brandos	(sem	o	uso	explícito	da	força	ou	de	técnicas	de	guerra,
convencionais	ou	não,	contra	as	regras	do	jogo	democrático),	se	explicam	a
partir	da	lógica	da	concorrência	e	da	ilimitação,	típicas	do	neoliberalismo,	que
geram	uma	normatividade	em	que	tudo	é	possível	para	vencer	o	concorrente-
inimigo	e	aumentar	o	lucro,	inclusive	desconsiderar	a	normatividade
internacional	e	a	soberania	popular.
1.1o.	As	resistências	neoliberais:	mudar	para	dominar
É	importante	ter	em	conta	que	a	racionalidade	neoliberal	não	leva	a	um	modelo
únicode	governo	ou	à	adesão	a	fórmulas	rígidas	para	governar	os	cidadãos.	O
neoliberalismo,	entendido	como	uma	racionalidade	ou	um	modo	de	governar	as
pessoas,	não	é	um	fenômeno	unitário	ou	imutável	ao	longo	do	tempo	e	do
espaço.	De	igual	sorte,	o	neoliberalismo	não	pode	ser	analisado	seriamente	a
partir	de	visões	essencialistas	ou	de	fun-damentalismos	ligados	aos	textos
fundadores	da	concepção	econômica	neoliberal.	Esse	modo	de	ver	e	atuar	no
mundo,	que	se	origina	das	lógicas	do	mercado	e	da	concorrência,	se	mostra
adaptável	a	diversas	tradições,	a	diversas	situações,	a	inúmeras	práticas	e	aos
contextos	mais	diferentes.	Também	as	“ideologias	mais	diversas	se	acomodam
perfeitamente	a	essa	racionalidade,	mais	do	que	isso,	elas	lhe	servem
ativamente’'.130	E	esse	“caráter	plástico	e	plural	do	neoliberalismo”131	que
explica	a	facilidade	com	que	o	neoliberalismo	econômico,	testado	no	laboratório
da	América	Latina	(mais	precisamente	no	Chile	após	o	golpe	de	Estado	de	1973
que	derrubou	o	presidente	Salvador	Allende),	foi	exportado	para	a	Inglaterra	de
Margaret	Thatcher	e	os	Estados	Unidos	de	Ronald	Reagan,	bem	como	a
incidência	da	racionalidade	neoliberal	em	regimes	tanto	conservadores	quanto
liberais,	tanto	em	regimes	formalmente	democráticos	quanto	em	explicitamente
autoritários.
O	neoliberalismo,	descreve	Wendy	Brown,	“como	uma	política	econômica,
como	um	modo	de	governo	e	como	uma	forma	de	ordenar	a	razão	é	um
fenômeno	simultaneamente	mundial	e	mutante,	diferenciado,	não	sistemático	e
impuro”.132	Esse	caráter	mutante	é	fundamental	para	compreender	as
permanências	neoliberais.	As	políticas	e	o	modo	de	pensar	neoliberais	se
difundem	através	dos	agentes	mais	diversos	e	em	diferentes	níveis	de
intensidade,	em	discursos	progressistas	e	em	discursos	conservadores,	por	via
formalmente	democrática	ou	por	golpes	de	Estado,	espontaneamente	ou	por
pressão	de	instituições	como	o	Fundo	Monetário	Internacional.	Há	uma	espécie
de	evolução	adaptativa,	como	a	que	ocorreu	da	transição	do	capitalismo
produtivo	(e,	portanto,	produtor	de	riquezas)	para	o	capitalismo	financeiro.
Para	o	modo	de	ver	e	atuar	no	mundo-da-vida	neoliberal,	tudo	pode	ser
transformado	em	fonte	de	lucros.	Por	isso,	o	neoliberalismo	é	capaz	de	“envolver
dentro	de	sua	lógica	o	conservadorismo	islâmico,	tanto	quanto	outras	ideologias
em	concorrência	com	ele	no	mercado	das	identidades	culturais”.133	Da	mesma
maneira,	os	preconceitos	sociais	são	colonizados	pela	racionalidade	neoliberal
para	que	gerem	lucros.	Essa	racionalidade	permite,	ainda,	articular	liberalismo
avançado	e	dispositivos	securitários	dirigidos	contra	os	direitos	civis	e	políticos
(de	origem	liberal)	da	população.	Aliás,	a	existência	de	uma	sociedade	pautada
pela	liberdade	de	concorrência,	que	leva	a	um	quadro	de	intensificação	dos
conflitos	intersubjetivos,	gera	a	necessidade	de	medidas	de	controle	social	para
assegurar	a	realização	dos	interesses	dos	detentores	do	poder	econômico.	A
transformação	da	segurança,	que	deixou	de	ser	um	direito	destinado	a	proteger	o
cidadão	do	arbítrio	para	se	tornar	uma	mercadoria	a	ser	explorada
economicamente	(o	que	torna	necessária	a	manutenção,	ainda	que	artificial,	das
sensações	de	insegurança	e	de	medo,	que	passam	a	ser	manipuladas	com
funcionalidade	político-econômica),	também	se	mostra	adequada	a	essa
racionalidade.
i.ii.	Os	“novos”	neoliberalismos:	ultra-
autoritarismo	como	resposta
O	desconhecimento	tanto	do	caráter	adaptativo,	plural	e	plástico	quanto	das
múltiplas	dimensões	do	fenômeno	neoliberal	(racionalidade,	normatividade	e
imaginário)	foi	o	responsável	por	muitos	erros	de	diagnóstico.	Assim,	por
exemplo,	por	diversas	vezes	foi	anunciado	o	fim	da	era	neoliberal	e,	em
consequência,	da	hegemonia	da	racionalidade	neoliberal.	Com	a	crise	financeira
de	2008,	de	âmbito	mundial,	se	acreditou	que	o	neoliberalismo	havia	gerado	o
seu	próprio	fim.	Muitos	chegaram	a	falar	do	fim	do	neoliberalismo	com	a
chegada	ao	poder	de	governantes	com	propostas	ultra-autoritárias	apresentadas
como	resposta	aos	problemas	que,	em	realidade,	foram	gerados	por	medidas	de
natureza	neoliberal.	Todavia,	a	racionalidade	neoliberal	não	foi	abandonada	após
a	crise	de	2008	e	nem	está	ausente	dos	governos	ultra-autoritários	(em	regra,
conservadores	nos	costumes	e	neoliberais	na	economia).	Ao	contrário,	como
perceberam	Dardot	e	Laval,	a	racionalidade	neoliberal	revelou-se	facilmente
adaptável	aos	problemas	que	ela	mesma	gerou,	e	justamente	esse	“caráter
plástico	e	plural	do	neoliberalismo	é	o	que	permite	falar	em	‘novos’
neoliberalismos”.134	O	que	é	apresentado	como	novo	é	tão	somente	uma
demonstração	da	capacidade	de	adaptação	do	neoliberalismo	aos	mais	variados
contextos.
Em	outras	palavras,	a	racionalidade	neoliberal	produz	modelos	neoliberais,
aparentemente	novos,	compatíveis	com	as	necessidades	de	cada	contexto:
neoliberalismo	com	verniz	democrático,	neoliberalismo	para	Estados	laicos,
neoliberalismo	para	fundamentalistas	religiosos,	neoliberalismo	para	sociedades
conservadoras,	neoliberalismo	para	sociedades	autoritárias	e,	o	símbolo	de	maior
engenhosidade,	um	“novo”	neoliberalismo	como	resposta	para	os	problemas
gerados	pelos	“velhos”	neoliberalismos.	A	eficiência	do	neoliberalismo	é
inegável:	tudo	aquilo	que	pertence	à	esfera	do	sensível,	às	práticas	e	às	formas
de	expressão,	inclusive	os	erros	e	consequências	negativas	das	próprias	condutas
condicionadas	pela	racionalidade	neoliberal,	são	exploradas	e	vistas	como
oportunidade	de	geração	de	lucro.	O	caos,	inclusive	o	caos	gerado	pelo
neoliberalismo,	é	valorado	positivamente	como	uma	oportunidade	de	aumentar
os	lucros	dos	detentores	do	poder	econômico.	Desvelar	as	mutações	e	perceber	o
sentido	das	transformações	da	racionalidade	neoliberal	é	condição	que	torna
possível	entender	a	dinâmica	das	modificações	ocorridas	no	Estado,	nas
instituições,	nas	relações	sociais	e	nos	indivíduos.
O	que	alguns	chamam	de	novo	neoliberalismo	nasce	da	crise	do	neoliberalismo,
mas	é	apresentado	a	partir	de	um	discurso	que	responsabiliza	os	direitos
fundamentais	e	as	políticas	de	redução	da	desigualdade	pelos	sofrimentos
suportados	pela	população.	As	crises	geradas	por	medidas	concretas
condicionadas	pela	racionalidade	neoliberal	são	apresentadas	pelos	gestores	dos
“novos”	neoliberalismos	como	crises	geradas	por	um	alegado	excesso	de
democracia.	Os	danos	causados	por	medidas	neoliberais	são	apresentados	como
problemas	gerados	pelo	respeito	a	princípios	democráticos.	A	crise	produzida
pelo	neoliberalismo	é	travestida	de	crise	da	democracia	liberal-social.	Como
resposta	à	desagregação	dos	laços	sociais,	à	demonização	da	política,	à	desestru-
turação	dos	serviços	públicos,	à	destruição	da	solidariedade,	ao	enfraquecimento
dos	valores	civilizatórios,	à	criação	de	inimigos	e	ao	aprofundamento	das
rivalidades	a	partir	da	lógica	da	concorrência,	o	neoliberalismo	com	verniz
democrático	passa	a	ser	substituído	por	um	“novo”	neoliberalismo,	agora	com
caráter	ultra-autoritário.	Para	justificar	a	perda	de	direitos,	aposta-se	na
manipulação	do	ressentimento	e	da	cólera	popular	contra	o	sistema.	Mas	a
racionalidade	neoliberal,	a	normatividade	que	levou	a	esse	sistema,	permanece
hegemônica	nesses	“novos”	neoliberalismos	e	nos	projetos	de	poder	dos	partidos
que	se	arrogam	antis-sistema.
Os	novos	neoliberalismos	são	a	comprovação	de	que	a	democracia	pode	ser
sacrificada	no	altar	neoliberal.	Dito	de	outra	forma:	o	neoliberalismo	coloniza	e
parasita	qualquer	valor,	elemento,	categoria	ou	sistema,	e	o	coloca	à	disposição
do	mercado	e	da	concorrência.	Não	há	pudor	em	eliminar	o	hospedeiro	se	for
necessário.	A	democracia	foi	parasitada	pela	racionalidade	neoliberal	da	mesma
forma	como	o	Direito	acabou	colonizado	pela	visão	econômica	construída	pelo
neoliberalismo.	Uma	colonização	capitaneada	pelos	detentores	do	poder
econômico	através	de	lobbies,	do	patrocínio	para	a	eleição	dos	“representantes
do	povo”,	do	financiamento	da	vida	política	dos	agentes	públicos,	da	produção
de	regulamentação	direcionada	à	satisfação	dos	próprios	interesses,	etc.
O	significantena	guerra,	política,	economia,	no	corpo	particular	do	homem.
As	noções	kantianas	de	heteronomia	e	autonomia	compreendem	a	dicotomia
geral	-	particular.	O	uso	pleno	da	racionalidade,	que	afasta	a	heteronomia	e,
portanto,	o	particular,	conduz	à	autonomia,	e	esta	ao	geral.	No	véu	de	ignorância
de	John	Rawls,	de	fundamentação	kantiana,	a	autonomia	é	alcançada	pelo
recurso	do	esquecimento	do	particular.	O	desconhecimento	das	partes	de	sua
situação	na	sociedade,	talentos,	habilidades	etc.,	possibilitaria	o	acordo	sobre
regras	de	justiça	e	nesse	acordo	a	desigualdade	somente	se	admitiría	quando
favorecesse	o	menos	privilegiado.	O	particular	é	esquecido,	mas	apenas	para
reaparecer	em	seguida	em	toda	plenitude,	formulação	de	Rawls	que	influiu	em
políticas	de	cotas	nos	Estados	Unidos.	Assim,	a	racionalidade	do	geral	implica
necessariamente	contemplar	o	particular.
Notará	o	leitor	que,	nesta	síntese,	todos	os	filósofos	e	pensadores	citados	são
ouriços.	Platão,	Paulo,	Pascal,	Rousseau,	Rawls.	Todos	recorrem	a	um	princípio
único,	universal	e	organizador:	construir	a	solidariedade,	a	harmonia	entre	o	todo
e	a	parte,	sob	pena	de	opressão	e	injustiça.	Na	metáfora	do	dedo,	Platão,	crítico
da	democracia	ateniense,	diz	o	que,	afinal,	entendemos	hoje	por	democracia:
quando	algo	de	bom	ou	ruim	acontece	ao	cidadão,	“a	cidade	organizada	desse
modo	dirá,	antes	de	mais	nada,	que	o	fato	se	passou	com	ela	e	se	alegrará	ou
sofrerá	juntamente	com	o	cidadão”.	São	ouriços	porque,	ao	privilegiarem
filosoficamente	as	categorias	todo	e	parte,	veem	o	sentido	da	existência	humana
pela	lente	da	solidariedade.
2.	Rubens	Casara	descende	dessa	ilustre	genealogia	de	ouriços	porque,	tal	como
eles,	vê	a	existência	a	partir	de	uma	visão	central	e	organizadora.	Ao	deter-se	na
pesquisa	e	reflexão	sobre	a	racionalidade	neoliberal,	operou	na	esfera	de	um
aggiornamento	da	questão	ética	da	relação	do	todo	com	a	parte,	de	que	cada	um
deles,	a	seu	modo,	também	se	ocupou.	A	racionalidade	neoliberal	é	a	expressão
perfeita	e	acabada	da	parte	indiferente	ou,	perversamente,	hostil	à	totalidade,
como	quando	se	aproxima	do	fascismo.	O	uso	específico	das	categorias	todo	e
parte,	explicitando	a	questão	ética	da	solidariedade,	vai	além	da	preocupação
com	a	injustiça.	Aquela	abarca	esta,	mas	nem	sempre	o	contrário	é	verdadeiro
porque	pode-se	reivindicar	justiça	para	si	e	não	em	si,	incondicionalmente.
Quando	a	solidariedade	é	posta	no	centro	não	há	suspeita	de	contaminação.
Casara	se	ocupa	persistentemente	da	democracia,	nesta	e	em	outras	obras,	do	seu
desvanecimento	sob	a	hegemonia	do	neoliberalismo	atendendo	à	essência	do
conceito	de	democracia.	A	democracia	se	diz	de	muitas	maneiras,	e	muito
frequentemente	quem	a	diz	não	a	compreende,	o	que	leva	a	confundir	traços,
características	e	atributos	com	o	núcleo	do	conceito.	Mas	Casara	é	ouriço	porque
sabe	essa	coisa	grande,	a	essência	do	conceito	de	democracia,	e	essa	essência	é
para	ele	o	princípio	central	e	organizador	do	que	deve	ser	a	existência	humana:	a
solidariedade	social.	O	que	o	impulsiona	é	ver	que	a	racionalidade	que	ameaça
tornar-se	hegemônica,	a	do	neoliberalismo,	atinge	fundamentalmente	esse	valor.
O	neoliberalismo	é	a	racionalidade	que	se	propôs	atrevidamente	a	eliminar	de
nossa	consciência	o	todo	para	que	nela	somente	viceje	a	parte,	fragmentada,
caótica.
Assim,	explica	Casara,	o	mercado	passa	a	ser	o	modelo	para	todas	as	relações
sociais.	A	racionalidade	neoli-beral	separa	os	desejáveis	e	os	indesejáveis.	Leva
o	indivíduo	a	acreditar	que,	atomizadamente,	pode	realizar	sua	própria
felicidade.	Rejeita	“princípios,	políticas,	sujeitos	e	instituições	da	democracia
felicidade.	Rejeita	“princípios,	políticas,	sujeitos	e	instituições	da	democracia
compreendidas	como	governo	pelo	povo”.	A	democracia	é	um	problema	para	os
neoliberais	porque	ela	significa	exatamente	o	oposto	disso.	A	racionalidade
neoliberal	não	seria	apenas	uma	cisão	da	racionalidade	do	indivíduo.	Pretende-se
absoluta,	extirpar	da	consciência	o	todo	visando	acumulação,	apropriação	de
renda	e	patrimônio,	exclusão	da	maior	parte	da	humanidade	do	acesso	ao	bem-
estar	material	e	à	realização	espiritual.
Não	encontrará	o	leitor	dados,	números	e	estatísticas	(com	exceção	de	uma	breve
passagem)	nesta	obra	de	Casara.	A	ênfase	é	a	moralidade	das	relações	sociais.	A
condenação	do	individualismo,	do	egoísmo,	da	fragmentação	do	social,	a	crítica
à	brutalidade	da	ideia,	certa	vez	expressada	por	Margaret	Thatcher,	de	que	não
existe	sociedade,	mas	indivíduos	e	interesses,	exatamente	o	oposto	da	categoria
que	é	a	essência	da	democracia.
Rubens	Casara	vê	a	existência	humana,	e	somente	pode	concebê-la	assim,	a
partir	de	uma	visão	central	organizadora	que	implica	liberdade,	igualdade	e
fraternidade.	Ou,	em	apenas	uma	expressão:	solidariedade	social,	a	relação
harmônica	entre	todo	e	parte,	a	categoria	que	é	a	essência	da	democracia.
Rubens	Casara	sabe	uma	coisa	grande:	sem	solidariedade	não	há	sentido	para	a
existência	humana.
2	Márcio	Sotelo	Felippe	é	pós-graduado	em	Filosofia	e	Teoria	Geral	do
Direito	pela	Universidade	de	São	Paulo.	Procurador	do	Estado,	exerceu	o
cargo	de	procurador-geral	do	Estado	de	1995	a	2000.	Publicou	Razão
jurídica	e	dignidade	humana	(1996)	e	foi	diretor	da	Escola	Superior	da
Procuradoria	Geral	do	Estado	de	2007	a	2009,	oportunidade	em	que
elaborou	o	projeto	pedagógico	e	implantou	o	curso	de	pós-graduação	lato
sensu	em	direitos	humanos.
3	Princeton:	Princeton	University	Press,	1986.
INTRODUÇÃO:
UM	NOVO	MAL-ESTAR
Naturaliza-se	o	absurdo,	mesmo	quando	o	horror	parece	estar	perto	demais.
Diante	de	tanto	sofrimento	evi-tável,	constata-se	uma	inércia	que,	em	princípio,
soa	incompreensível.	O	caos	parece	reinar	em	meio	à	crença	generalizada	de	que
não	existem	alternativas.	As	pessoas,	mesmo	percebendo	que	há	algo	de	errado,
não	sabem	como	agir	para	fazer	diferente.	Aliás,	parecem	ignorar	que	é	possível
fazer	diferente.
Enquanto	isso,	o	indivíduo	sente-se	autorizado	a	deixar-se	levar	pela	corrente	em
busca	da	felicidade	possível:	a	mercadoria	que	pode	ser	adquirida,	a	derrota	dos
adversários	e	a	obtenção	de	lucro,	custe	o	que	custar.	A	ilimitação	tornou-se	a
regra:	instaurou-se	uma	espécie	de	vale-tudo,	no	qual	tudo	e	todos	podem	ser
negociados	ou	destruídos.
O	mercado,	por	sua	vez,	é	apresentado	como	o	espaço	da	virtude	e	o	modelo
ideal	para	todas	as	relações	sociais,	inclusive	as	amorosas	e	familiares.	A	única
postura	racional	e	aceitável	é	aquela	direcionada	à	obtenção	de	alguma	forma	de
lucro.	Desaparecem	os	laços	intersubjetivos:	o	outro	passa	a	ser	visto	como	um
concorrente	que	precisa	ser	destruído	ou	um	objeto	que	pode	ser	usado	e
descartado.
Hoje,	as	idéias	de	democracia	e	de	povo	são	encaradas	com	desconfiança.	Os
limites	democráticos	(em	especial	os	direitos	e	as	garantias	fundamentais)	são
tidos	como	obstáculos	à	eficiência	do	Estado	ou	à	satisfação	dos	interesses
egoísticos	dos	indivíduos	(inclusive	a	manutenção	de	privilégios	e	a	separação
espacial	das	classes	sociais).	A	imagem	do	povo,	uma	coletividade
tendencialmente	solidária,	é	substituída	pela	de	indivíduos-empresas	em
concorrência.	Com	isso,	desaparece	a	solidariedade	e	criam-se	novos	adversários
e	inimigos.	Diante	desse	quadro,	uma	velha	pergunta	insiste	em	voltar:	o	que
fazer?
A	proposta	deste	livro	é	fornecer	elementos	que	permitam	compreender	o	modo
de	pensar	e	agir	que	nos	levou	até	aqui.	Compreender	para	poder	agir	e	romper	a
inércia.	A	angústia	e	o	caos	são,	em	grande	medida,	o	resultado	da	ausência	de
inércia.	A	angústia	e	o	caos	são,	em	grande	medida,	o	resultado	da	ausência	de
reflexão.	É	preciso,	então,	insistir	em	confrontar	com	lucidez	as	exigências	do
presente	e	criar	alternativas.	Para	tanto,	é	necessário	identificar	a	racionalidade,	a
normatividade	e	o	imaginário	que	levam	aos	novos	autoritarismos,	às	novas
formas	de	opressão,	às	novas	justificativas	para	a	desigualdade,	às	novas
patologias	sociais	e	às	novas	subjetividades.
Os	fatos,	que	normalmente	são	apresentados	pelos	detentores	do	poder	político	e
do	poder	econômico“democracia”	deixa	de	representar	um	modelo	consistente	na
participação	popular	na	tomada	de	decisões	e	na	existência	de	limites	rígidos	ao
exercício	do	poder,	para	significar	o	mercado	das	decisões	políticas,	inclusive
das	decisões	que	regulamentam	as	ações	privadas	e	estatais.	Toda	concepção	de
democracia	que	não	interesse	à	manutenção	do	mercado,	à	governança	por
números135	e	à	busca	ilimitada	de	lucro	é	abandonada,	o	que	faz	com	que
valores,	princípios	e	regras	também	sejam	abandonados	e	substituídos.
A	liberdade	de	expressão,	para	citar	um	exemplo,	foi	colonizada	pelo
neoliberalismo	e	passou	a	ser	utilizada	para	justificar	a	livre	distribuição	de
dinheiro	(alguns	poderíam	chamar	de	“compra	de	apoio”)	em	campanhas
políticas,	o	que	era	necessário	para	estabelecer	uma	das	fontes	de	controle	(e
identificação)	do	poder	político	pelo	poder	econômico.	Diante	da	dependência
dos	eleitores	em	relação	aos	meios	de	comunicação	de	massa	e	às	redes	sociais
para	se	informarem	sobre	o	contexto,	as	eleições	e	os	candidatos,	a	liberdade	de
expressão	daqueles	detentores	do	poder	econômico	e	de	capital	simbólico
responsáveis	por	doações	financeiras,	por	mobilizações	“espontâneas”	nas	redes
sociais	e	por	aparições	e	manifestações	“gratuitas”	nas	grandes	redes	de
televisão,	geram	significativas	vantagens	nas	campanhas.	Em	adesão	à
racionalidade	neoliberal,	todos	os	valores,	todas	as	imagens	e	todo	o
conhecimento	são	quantificados,	o	que	gera	o	fenômeno	da	mutação	do	dinheiro
em	argumento	nas	eleições	e	no	debate	público.
1.12.	A	“democracia”	neoliberal	como	mercado	de
idéias
A	racionalidade	neoliberal,	para	colonizar	o	significante	“democracia”,	que
detém	uma	carga	semântica	que	demora	para	ser	desconstruída,	levou	à
concepção	de	mercado	de	idéias.	A	democracia	seria	o	espaço	em	que	se
produzem,	vendem	e	compram	idéias	ao	gosto	do	eleitor:	haveria	um	mercado
para	as	idéias	de	direita,	para	as	idéias	de	esquerda,	para	as	idéias	de	direita	que
se	apresentam	como	neutras	e	até	para	a	ausência	de	idéias	que	caracteriza
manifestações	políticas	pautadas	pela	ignorância	e	pela	reprodução	dos	mais
variados	preconceitos.	Por	democracia,	o	sujeito	neoliberal	passou	a	vislumbrar
um	espaço	de	concorrência	entre	os	interesses	econômicos	de	grupos.	Não	por
acaso,	no	sistema	de	justiça,	com	destaque	para	a	Suprema	Corte	norte-
americana,	começou	a	ganhar	corpo	a	crença	no	livre	comércio	de	idéias,	bem
como	na	obtenção	da	verdade	a	partir	da	concorrência.	O	contraditório,	a
dialética	entre	as	razões	das	partes	que	levaria	à	solução	justa	de	um	caso,	é
transformado	à	luz	da	lógica	concorrencial	em	uma	disputa	pela	satisfação	de
interesses.
Reduziu-se	a	democracia	à	ideia	de	livre	comércio	de	idéias,	o	que	levou	à
competição	como	critério	de	verdade.	A	metáfora	neoliberal	foi	transformada	em
valor	jurídico,	o	que	não	impede	que,	diante	da	necessidade,	a	própria	ideia	de
verdade,	sempre	complexa	(constituída,	portanto,	de	positividades	e
negatividades),	acabe	substituída	pela	ideia	de	informação	(o	dado	útil	à	luz	da
racionalidade	neoliberal	-	portanto,	uma	mera	positi-vidade,	como	as
mercadorias).
A	identificação	da	democracia	como	mercado	de	idéias	é	o	sintoma	principal	da
colonização	da	democracia	pelo	mercado	concorrencial,	o	que	leva	ao
reconhecimento	do	direito	que	as	empresas	teriam	de	pagar	para	influenciar	nas
políticas	públicas,	sob	o	disfarce	da	liberdade	de	expressão.	Nesse	mercado,	o
neoliberalismo	produz	e	vende	idéias	contra	o	Estado	Social	(desde	o	socialismo
ao	New	Deal),	disfarçadas	pela	retórica	da	luta	contra	o	autoritarismo.	Em
princípio,	qualquer	ideia	pode	ser	construída	e	vendida	no	mercado.	Assim
funciona,	por	exemplo,	a	ideia	de	que	a	alienação	da	liberdade	é	um	exercício	do
direito	à	liberdade	ou	de	que	é	melhor	um	trabalho	escravo	do	que	o
desemprego.	No	mercado	de	idéias,	interesses	privados	são	vendidos	como
interesses	públicos,	o	pensamento	crítico	(e	todo	pensamento	mais	sofisticado)
enfrenta	resistências,	e	o	valor	intrínseco	da	democracia	sofre	uma	mutação,	com
o	desaparecimento	dos	limites	rígidos	ao	arbítrio	e	à	opressão.
A	análise	econômica	incentivada	pela	racionalidade	neoliberal	leva	a	ficções	que
tomam	a	forma	jurídica	e	facilitam	a	colonização	neoliberal.	O	exemplo	das
empresas	de	responsabilidade	limitada	é	significativo.	Ao	se	acreditar	na	ficção
de	que	o	lucro	de	poucos	aumenta	a	riqueza	coletiva,	empresas	recebem
tratamentos	privilegiados	na	esfera	fiscal	sem	a	contrapartida	de	desenvolver
atividades	no	interesse	da	população.	Mas	não	é	só.	Sociedades	anônimas	podem
chegar	a	concentrar	poder	econômico	suficiente	para	controlar	os	rumos	da
economia	de	um	país	e	colocar	em	risco	os	resquícios	democráticos	do	Estado.
A	democracia,	entendida	como	mercado	de	idéias,	se	submete	a	dois	princípios:
a)	a	equivalência	entre	a	quantidade	de	dinheiro	e	a	quantidade	de	idéias;	e	b)	a
ausência	de	limites	ao	poder	econômico	das	empresas	(pessoas	morais).	Essa
relação	entre	a	ausência	de	limites,	de	um	lado,	e	o	binômio	dinheiro-ideia,	de
outro,	é	facilmente	percebida	na	ficção	jurídica	da	liberdade	de	expressão	das
empresas,	que	tem	por	finalidade	conferir	ares	de	legitimidade	às	doações	de
muito	dinheiro	para	campanhas	de	políticos	e	o	financiamento	de	partidos
políticos.	A	liberdade	de	expressão,	que	nasceu	como	um	direito	individual
diante	das	ameaças	de	opressão	estatal,	à	luz	da	lógica	do	mercado	de	idéias
neoliberal	passou	a	ser	reconhecida	às	empresas,	que	buscam	tão	somente
realizar	os	interesses	dos	detentores	do	poder	econômico.
Desde	a	decisão136	tomada	pela	Corte	Suprema	norte-americana	em	janeiro	de
2010,	no	caso	Citizens	United	versus	Federal	Election	Commission,	em	que	foi
declarado	inconstitucional	um	dispositivo	jurídico	que	pretendia	regular	o
financiamento	das	campanhas	eleitorais,	bem	como	impedir	que	empresas
divulgassem	mensagens	sobre	candidatos	nos	sessenta	dias	que	antecedem	uma
eleição	primária	e	nos	trinta	dias	a	seguem,	em	nome	da	liberdade	de	expressão,
legitimando	o	uso	de	uma	garantia	individual	contra	o	arbítrio	estatal	por
empresas	com	o	intuito	de	defender	seus	interesses	político-econômicos,	tornou-
se	evidente	o	potencial	que	a	racionalidade	neoliberal	tem	de	colonizar	o	sistema
de	Justiça.
i.i).	Ainda	sobre	a	colonização	neoliberal:	o	buraco
negro	neoliberal
Como	alguns	fenômenos	não	suportam	a	colonização	neoliberal,	desaparecem.
Assim,	por	exemplo,	a	concentração	de	poder	econômico	e	político,	em	torno	de
oligarquias	e	corporações	que	defendem	seus	próprios	interesses	(e	que	geram	o
risco	permanente	de	despotismos	empresariais,	corporativos	ou	financeiros),	faz
desaparecer	o	ideal	republicano	de	bem	comum,	e	a	própria	ideia	de	comum
passa	a	ser	demonizada.	A	chamada	democracia	econômica	é	uma	ideia	vendida
com	o	objetivo	de	esconder	o	desaparecimento	dos	limites	democráticos	ao
poder	econômico	e	o	impacto	de	um	projeto	que	coloca	o	Estado	a	serviço	de
empresas	e	do	rentismo.	De	igual	sorte,	a	ideia	de	empreendedorismo	disfarça	as
novas	formas	de	servidão,	pois	o	empresário-de-si,	que	livremente	adere	às
propostas	de	“uberização”	das	relações	de	trabalho,	suporta	efeitos	exploratórios
similares	aos	da	escravidão,	sem	que	exista	o	ônus	social	de	existirem	escravos
sob	a	égide	neoliberal.
Em	resumo,	esse	processo	de	colonização	neoliberal	pode	ser	chamado	de
captura	normativa.	Cada	racionalidade	tende	a	produzir	modificações	não	só	na
forma	de	exercer	o	poder,	mas	também	nas	pessoas,	nas	sociedades	e	nas
instituições.	Atualmente	a	racionalidade	hegemônica,	que	produziu	mudanças
significativas	no	funcionamento	das	relações	intersubjetivas	e	nas	instituições,
vai	ao	encontro	das	teorias	econômicas	e	do	modo	de	governabilidade	que
costuma	ser	chamado	de	neoliberalismo.	Adequado,	pois,	falar-se	em	uma
racionalidade	neoliberal,	em	uma	normatividade	neoliberal	e	em	um	imaginário
neoliberal,	que	faz	do	mercado	e	da	lógica	da	concorrência	os	modelos	de	todas
as	relações	sociais,	a	partir	da	crença	de	que	tudo	e	todos	podem	ser	tratados
como	objetos	negociáveis.1.14.	O	neoliberalismo	como	razão	de	mundo
O	significante	“neoliberalismo”	é	utilizado	de	tantas	maneiras	que	acaba	por	se
tornar	uma	espécie	de	conceito	guarda-chuva,	uma	denominação	vaga	e
imprecisa.	Alguns	criticam	o	neoliberalismo	sem	saber	muito	bem	o	que	estão	a
reprovar,	outros	não	acreditam	que	exista	um	fenômeno	que	possa	ser	chamado
de	neoliberalismo.	Critica-se	o	neoliberalismo	sem	muita	convicção	do	que	ele
significa,	sem	conhecer	o	âmbito	de	sua	eficácia	política,	sua	história	ou	mesmo
o	seu	potencial	de	transformação.	Há	também	aqueles	que	negam	a	importância
do	neoliberalismo	diante	da	multiplicidade	e	da	diversidade	de	explicações	sobre
o	fenômeno,	enquanto	outros,	após	constatarem	que	se	trata	de	um	termo
empregado	principalmente	pelos	críticos	a	ele,	chegam	a	considerar	a	existência
do	neoliberalismo	como	algo	questionável	do	ponto	de	vista	conceituai.	Todavia,
o	neoliberalismo	é	um	fenômeno	que	tem	uma	história,	uma	funcionalidade,	uma
coerência	e,	em	especial,	uma	engenhosidade	que	permitem	tanto	a	sua
continuidade	quanto	uma	profunda	transformação,	não	só	do	capitalismo	como
também	das	instituições,	da	sociedade	e	dos	indivíduos.
É	essa	engenhosidade	que	se	revela	na	capacidade	de	adaptação	do
neoliberalismo	às	mais	variadas	situações	e	contextos,	o	que	permite,	inclusive,
que	medidas	neoliberais	sejam	apresentadas	como	antídotos,	como	respostas
mágicas,	a	problemas	gerados	por	outras	medidas	neoliberais.	De	igual	sorte,	a
lógica	neoliberal	permite	que	passagens	das	teorias	desenvolvidas	pelos	pais
fundadores	do	neoliberalismo	(Mises,	Hayek,	Friedman	etc.)	sejam	esquecidas
ou	ignoradas	pela	normatividade	prática	que	tem	por	base	a	racionalidade
neoliberal,	o	que	explica,	por	exemplo,	a	existência	de	um	novo	neoliberalismo
hiperautoritário,	que	é	construído	a	partir	da	racionalidade	neoliberal	como	uma
opção	ao	neoliberalismo	de	verniz	democrático.
A	confusão	entre	as	teorias	ou	as	representações	ideológicas	neoliberais	(como,
por	exemplo,	a	de	que	o	“neoliberalismo	se	opõe	ao	Estado	autoritário”)	e	o
modo	de	ser	e	atuar	neoliberal	(a	normatividade	global	e	prática,	na	medida	em
que	conforma	a	realidade)	leva	a	erros	de	análise,	como	os	que	insistem	no
enfraquecimento	ou	no	fim	do	neoliberalismo.	É	preciso	uma	perspectiva	crítica
capaz	de	atentar	para	a	diferença	entre,	de	um	lado,	os	discursos	e	as
representações	ideológicas	que	acompanham	a	implementação	das	medidas
neoliberais	e,	de	outro,	a	funcionalidade	real,	a	normatividade	e	os	interesses	que
realmente	são	atendidos	pela	medida	implementada.
O	exemplo	do	Chile	é	esclarecedor:	a	versão	de	economistas	neoliberais	que
apontam	o	modelo	econômico	chileno	durante	o	governo	do	ditador	Pinochet
como	um	sucesso,	a	ser	imitado	por	outros	países,	não	encontra	correspondência
com	a	análise	dos	efeitos	produzidos	pelo	choque	neoliberal	iniciado	após	o
golpe	de	Estado	em	1973.	A	experiência	econômica	chilena	costuma	ser
falsificada	para	esconder	que	pouquíssimas	pessoas	lucraram	com	o	modelo
econômico	neoliberal	desenvolvido	a	partir	dos	postulados	da	Escola	de
Chicago.	Para	que	se	tenha	uma	ideia	do	desastre	econômico,	em	uma	ditadura,	e
praticamente	sem	oposição	às	medidas	econômicas,	entre	milhares	de	mortos,
desaparecidos,	presos	e	torturados,	o	modelo	imposto	ao	Chile	levou,	em	1982,	à
queda	do	PIB	em	13,4%,	o	desemprego	chegou	a	19,6%,	e	30%	da	população
passou	a	depender	de	programas	sociais	criados	emergencialmente	em	razão	do
desastre	social	produzido.	Em	1986,	mesmo	com	a	alteração	de	algumas
medidas	econômicas,	o	PIB	per	capita	chileno	ainda	era	inferior	ao	patamar	que
havia	alcançado	antes	do	golpe	de	Estado	de	n	de	setembro	de	1973.
Pesquisas	apontam137	que	a	racionalidade	neoliberal	produz	desigualdade	e
concentração	de	renda.	Alguns	chegam	a	apontar	que	a	pauperização	da	maioria
da	população	seria	a	consequência	necessária	do	neoliberalismo,	um	modo	de
agir	voltado	à	satisfação	de	uma	pequena	parcela	da	população.	De	fato,	a
análise	do	crescimento	rápido	das	maiores	fortunas	mundiais,	desde	1980,
permite	afirmar	que	a	racionalidade	neoliberal	favoreceu	a	um	pequeno	grupo
social:	os	super-ricos.	De	1980	até	2018,	o	crescimento	das	superfortunas	se	deu
em	um	ritmo	muito	superior	ao	crescimento	da	economia	mundial.	Acontece	que
esse	fenômeno,	por	definição,	só	pode	se	manter	às	custas	dos	direitos	e	da
própria	sobrevivência	de	outra	parcela	população	que	não	pertence	a	esse	grupo
(como	imaginar	que	os	super-ricos	possam	obter	100%	da	riqueza	mundial,	a
não	ser	com	a	destruição	dos	demais?).	Como	percebeu	Thomas	Piketty,	esse
quadro	exige	discursos	de	justificação	tanto	para	o	crescimento	da	desigualdade
quanto	para	o	afastamento	de	direitos:	e	esses	discursos	revelam	a	dimensão
ideológica	da	racionalidade	neoliberal.
É	a	ideologia	neoliberal	que	produz	a	separação	artificial	entre	os	inimigos	e	os
amigos,	entre	as	fortunas	reprováveis	(oligarcas	russos,	milionários	do	petróleo
do	Oriente	Médio	ou	chineses	etc.)	e	as	fortunas	supostamente	merecidas
(empresários	e	empreendedores	ocidentais).	Os	primeiros	não	mereceriam	suas
fortunas,	em	razão	de	suas	relações	com	o	Estado	ou	dos	meios	utilizados	para
apropriação	de	recursos,	enquanto	que	os	segundos	seriam	os	responsáveis	pelo
crescimento	da	economia	e	do	bem-estar	mundial.	Esse	segundo	grupo	é
apontado	como	o	tipo	ideal,	empresários	“irrepreensíveis”	que	poderiam	ser
ainda	mais	ricos	e,	em	certos	casos,	deveriam	exercer	também	o	poder	político
em	seus	países.	Justifica-se,	então,	a	acumulação	de	capital	e	a	desigualdade,	a
partir	de	um	regime	discursivo	que	se	caracteriza	por	ser	hipermeritocrático	e
oci-dental-cen-trado,	o	que,	não	raro,	obstaculiza	a	percepção	de	que	muitas
dessas	fortunas	só	foram	construídas	a	partir	de	investimentos	públicos	na
formação	e	na	pesquisa	(poder-se-ia	dizer	uma	“apropriação	indébita”	do
conhecimento138),	bem	como	do	apoio	ativo	do	sistema	fiscal	e	legal	conferido.
Basta	pensar	na	proteção	legal	à	herança	e	ao	patrimônio139	(direitos
“sacralizados”	que,	por	sua	vez,	encontrariam	justificativa	na	estabilidade
sociopolítica	e	na	necessidade	de	segurança,	a	mesma	justificativa	que	servia	à
sustentação	ideológica	da	escravidão	nos	Estados	Unidos	e	no	Brasil).
Hoje,	a	racionalidade	neoliberal,	para	se	manter	hegemônica,	não	necessita	mais
de	atos	de	fé	na	naturalidade	do	mercado	ou	na	ideologia	do	laissez-faire.	O
relativo	descrédito	dessas	crenças,	ideologias	ou	mesmo	das	teorias	neoliberais
não	impede	que	o	neoliberalismo	ocupe	a	posição	de	razão	de	mundo,	ou	seja,
que	funcione	como	um	sistema	normativo	que	produz	efeitos	concretos	sobre
todos,	“orientando	internamente	a	prática	efetiva	dos	governos,	das	empresas	e,
para	além	deles,	de	milhões	de	pessoas”.140
Reduzir	o	neoliberalismo	a	uma	teoria	econômica,	a	uma	forma	política,	a	um
modo	de	governabilidade	ou	mesmo	a	uma	ideologia	é	um	equívoco.	O	que	hoje
se	entende	por	neoliberalismo	não	se	resume	às	teorias	formuladas	ou	ao	modo
de	governo	inspirado	nessas	teorias.	O	neoliberalismo	também	não	pode	ser
resumido	a	um	conjunto	de	idéias,	como	as	que	defendem	a	existência	de	uma
identificação	do	mercado	com	uma	realidade	natural	e	o	laissez-faire,	ou	a	uma
falsa	compreensão	da	realidade	-	isso	porque	o	neoliberalismo	conforma	a
realidade.	Há	algo	no	neoliberalismo	que	não	pode	ser	resumido	a	uma	teoria,	a
uma	política,	a	um	modo	de	governar	ou	a	uma	ideologia,	mas	que	representa	o
seu	núcleo	fundamental.	Algo	que	se	origina	da	lógica	da	concorrência	e	do
conceito	de	interesse,	bem	como	se	adapta	com	facilidade	a	diferentes	tradições
e	contextos.	É	esse	núcleo	fundamental	presente	na	teoria,	na	política,	na	forma
de	governo	e	na	ideologia	que	pode	ser	identificado	como	a	atual	razão	de
mundo,	ou	seja,	uma	normatividade	e	um	imaginário	com	pretensão	(e
possibilidade)	de	condicionar	o	mundo	inteiro,	“estendendo	a	lógica	do	capital	a
todas	as	relações	sociais	e	a	todas	as	esferas	da	vida”.141	Em	apertada	síntese,
esse	núcleo	é	composto	de	duas	normas:	a)	não	devem	existir	limitesà	satisfação
dos	interesses;	e	b)	os	“outros”	devem	ser	tratados	como	concorrentes	e	inimigos
a	serem	derrotados.	Essas	normas	geram	imagens	que	são	a	base	de	todo	o
imaginário	neoliberal:	imagens	que	levam	à	ideia	de	que	tudo	e	todos	são	objetos
negociáveis	e	descartáveis	na	busca	por	lucro.	No	âmbito	do	Estado,
desaparecem	os	limites	rígidos	ao	exercício	do	poder	político,	e	cada	vez	mais	o
poder	político	passa	a	se	identificar	com	o	poder	econômico,	afastando-se	do
ideal	democrático	de	soberania	popular.	Instaura-se	a	pós-democracia,142	que	só
é	possível	no	ambiente	neoliberal.	Tem-se,	então,	uma	nova	razão	de	mundo,	um
conjunto	de	normas	e	imagens	que	justificam	e	dão	sentido	às	ações	em	todas	as
esferas	da	vida.
O	neoliberalismo	busca	formatar	a	existência.	A	mesma	racionalidade	que	leva	à
destruição	de	regras,	princípios,	valores,	instituições,	direitos	e	garantias,	ao
mesmo	tempo	produz	novas	regras,	novos	princípios,	novos	valores,	novas
instituições,	novos	tipos	de	relações	sociais	e	subjetividades.	Assim,	“longe	de
limitar-se	à	esfera	econômica,	tende	à	totalização,	isto	é,	a	‘fazer	o	mundo’,	por
seu	poder	de	integração	de	todas	as	dimensões	da	existência	humana.	Razão	do
mundo,	mas	ao	mesmo	tempo	uma	‘razão-mundo’”.143	Uma	razão,	portanto,
com	pretensão	de	configurar	todo	o	mundo.144	Trata-se	de	uma	razão	de	mundo
que	convive	(e	necessita)	de	crises	e	do	caos.	A	destruição	e	a	necessária
reconstrução	do	Estado,	das	sociedades,	das	cidades,	dos	sistemas	de	saúde	e
educacional,	dentre	outros,	são	funcionais	ao	projeto	de	acumulação	ilimitada	do
capital.	O	caos	é	uma	oportunidade	de	negócios	e	de	destruição	dos	concorrentes
(e	demais	indesejáveis):	abre-se	a	via	do	necropoder,	isto	é,	do	exercício	de
poder	direcionado	à	destruição	do	outro,	reduzido	a	mais	um	objeto	descartável.
A	racionalidade	neoliberal,	portanto,	se	fortalece	nos	períodos	de	crise,	isso
porque	o	respectivo	modo	de	ver	e	atuar	no	mundo	faz	com	que	os	limites	ao
exercício	do	poder,	mesmo	os	limites	que	foram	construídos	para	evitar	a
barbárie,	sejam	percebidos	como	as	causas	dos	problemas	suportados	e,
portanto,	como	obstáculos	a	serem	suplantados.	Ao	contrário	das	crises	que
ocorriam	nos	séculos	XIX	e	XX,	que	serviam	para	lembrar	da	importância	dos
limites	às	ações	estatais	e	individuais,	a	crise	neoliberal	tornou-se	uma
oportunidade	e	um	modo	de	governo,	uma	desculpa	para	o	aprofundamento	do
modelo	neoliberal	e	a	naturalização	do	ideal	de	ilimitação.
A	dimensão	ideológica	do	neoliberalismo	faz	com	que	o	acúmulo	de	tensões	de
classe,	os	movimentos	que	reforçam	a	desigualdade,	o	uso	partidário	do	sistema
de	justiça,	os	desequilíbrios	gerados	pelo	capitalismo	financeiro	e	outras
distorções	não	sejam	percebidos	pela	população	como	consequências	das	ações
regidas	pela	racionalidade	neoliberal.	A	própria	exploração	do	trabalho	aparece
travestida	de	empreendedorismo	ou	de	modernização	das	relações	de	trabalho.	A
solidariedade	de	classe	dá	lugar	à	concorrência.	O	egoísmo	trans-forma-se	em
virtude.	Desaparece	o	espaço	do	comum	e	do	coletivo.	É	a	ideologia	que	nubla	a
percepção	do	projeto	social	e	político	que,	desde	os	anos	1930,	foi	construído	a
partir	da	racionalidade	neoliberal	e	que	coloca	o	Estado	a	serviço	dos	detentores
do	poder	econômico,	afastando-o	dos	princípios	democráticos.	A	ausência	de
limites	ao	poder	leva	a	uma	espécie	de	sentimento	antidemocrático	ou,	mais
precisamente,	ao	abandono	das	regras	do	jogo	democrático	e	à	perda	da
importância	(e,	por	vezes,	à	criminalização)	da	política	como	atividade	regida
por	valores.	Como	perceberam	Christian	Laval	e	Pierre	Dardot,	“o	sistema
neoliberal	está	nos	fazendo	entrar	na	era	pós-democrática”,145	em	que	os	valores,
as	regras	e	os	princípios	são	considerados	não	só	dispensáveis	como	também
obstáculos	a	serem	superados.
A	nova	razão	de	mundo	leva	a	uma	visão	redutora	das	relações	sociais	em
atenção	à	lógica	das	mercadorias,	que	se	expande	para	todos	os	campos.	A
revisão	de	Marx	se	confirmou:	sob	a	égide	neoliberal,	tudo	se	tornou	negociável.
A	mercadoria	se	apresenta	como	uma	positividade,	um	bem,	como	aquilo	que	se
quer.	As	pessoas	também	passam	a	ser	vistas	como	mercadorias,	a	partir	de	um
valor	de	uso,	de	um	valor	de	troca	ou	de	um	valor	simbólico	que	lhes	é	atribuído.
Desse	valor	conferido,	as	pessoas	passam	a	ser	etiquetadas	de	desejáveis	ou	de
indesejáveis.
Como	as	mercadorias,	as	pessoas	passam	a	ser	percebidas	como	úteis	e
positividades	ou	como	descartáveis	e	negatividades.	Toda	complexidade
desaparece,	e	as	pessoas	passam	a	receber	rótulos	a	partir	de	uma	visão	binária:
amigo	e	inimigo,	pessoas	de	bem	e	bandidos,	cristão	e	comunistas	etc.	Mas	não
é	só.	Com	a	racionalidade	neoliberal,	desaparece	o	laço	social,	o	vínculo	que	une
pessoas	reconhecidas	enquanto	tal,	na	medida	em	que	o	sujeito	passa	a	se
relacionar	exclusivamente	com	coisas	ou,	mais	precisamente,	com	pessoas
percebidas	como	objetos	negociáveis.
A	nova	razão	de	mundo	produz	novos	modos	de	subjetivação	que	se	originam	da
ampliação	da	lógica	da	concorrência	para	todas	as	esferas	da	vida.	O	indivíduo
passa	a	se	perceber	como	um	empreendedor,	um	empre-sário-de-si,	que
reconhece	os	outros	como	concorrentes	ou	inimigos.	Reforça-se	tanto	o	mito	da
meritocracia,	a	partir	da	imagem	que	separa	os	bem-sucedidos	dos	fracassados
quanto	os	preconceitos	e	as	perspectivas	identi-tárias,	que	produzem	divisões
dentro	da	mesma	classe	social	entre	o	nós	e	o	eles.	Com	isso,	desaparecem	os
valores	da	solidariedade	e	da	cidadania.	Para	Byung-Chul	Han,	o	neoliberalismo
faz	com	que	o	capital	se	multiplique	“enquanto	competimos	livremente	uns	com
os	outros.	A	liberdade	individual	é	uma	servidão	na	medida	em	que	é	tomada
pelo	capital	para	a	sua	própria	multiplicação	[...].	Dessa	maneira,	o	indivíduo
livre	é	rebaixado	a	órgão	genital	do	capital”.146
Essa	razão	de	mundo	neoliberal	produz	um	sistema	que	atende	a	um	projeto.
Para	entender	a	permanência	da	racionalidade	neoliberal	é	preciso	desvelar	esse
projeto,	seus	efeitos	concretos,	as	forças	que	o	constituem	e	os	beneficiados	pela
hegemonia	dessa	razão-mundo.	Isso	significa	buscar	a	história	e	as	motivações
sociais	e	subjetivas	que	levaram	à	construção	desse	determinado	modo	de	ver	e
atuar	no	mundo.
1.15.	O	sistema	neoliberal
O	sistema	neoliberal	é	composto	dos	poderes	que	o	sustentam	tanto	no	plano
interno	quanto	no	plano	internacional.	De	modo	muito	simplificado,	pode-se
afirmar	que	são	os	detentores	do	poder	econômico	e,	não	raro,	os	detentores	do
poder	político	que	sustentam	o	projeto	neoliberal.	Quem	busca	como	finalidade
última	gerar	capital	a	partir	do	próprio	capital	é	o	beneficiário	das	medidas
última	gerar	capital	a	partir	do	próprio	capital	é	o	beneficiário	das	medidas
neoliberais	e,	portanto,	forma	o	pequeno	grupo	em	que	figuram	aqueles	a	quem
atende	a	racionalidade	neoliberal.	Corporações,	sociedades	empresárias
multinacionais,	atores	financeiros,	organismos	econômicos	internacionais	e
oligarquias	políticas,	midiáticas	e	jurídicas	locais	formam	uma	espécie	de
coalizão	de	poderes	em	nome	da	manutenção	e	do	fortalecimento	tanto	desse
projeto	quanto	da	racionalidade	neoliberal.
A	economia,	ou	mais	precisamente	o	desejo	de	lucro,	passa	a	colonizar	o
pensamento,	o	Estado,	a	sociedade	e	as	condutas	individuais.	O	Estado	torna-se
um	instrumento	para	o	mercado	na	busca	por	acumulação	e	lucro	ilimitados.	O
poder	exercido	a	partir	da	racionalidade	neoliberal,	portanto,	tendo	como	base	a
mesma	lógica	normativa,	passa	a	reger	todas	as	relações,	as	maneiras	de
governar	em	todos	os	níveis	e	domínios	e	o	comportamento	das	empresas	e
também	das	pessoas.
Em	outras	palavras,	mais	do	que	uma	teoria,	uma	política	econômica	ou	uma
ideologia,	o	neoliberalismo	é	um	sistema	construído	a	partir	de	uma
racionalidade	com	pretensão	à	totalidade	e	que,	por	essa	razão,	busca	estruturar	e
organizar	a	ação	dos	governantes	e	dos	governados,	das	empresas	e	dos
indivíduos,	das	instituições	públicas	e	das	corporações	privadas.	E	isso	se	faz
com	a	generalização	da	concorrência	como	norma(mandamento	de	conduta)	e
da	empresa	como	modelo	de	subjetivação,	através	de	um	conjunto	de	discursos,
práticas	e	dispositivos	que	levam	à	introjeção	das	regras	do	jogo	neoliberal.	Ins-
taura-se	o	tempo	do	Estado-Empresa	e	do	indivíduo	empresário-de-si.	Cada	um	é
lançado	na	disputa	concorrencial	e	deve	passar	a	atuar	como	uma	empresa	na
busca	por	lucros.
4	Sobre	o	tema:	Chapoutot,	Johann.	La	revolution	culturelle	nazie.	Paris:
Gallimard,	2017.
5	Na	pós-democracia,	o	poder	econômico	volta	a	se	identificar,	cada	vez
mais,	com	o	poder	político	(Sobre	o	tema:	Casara,	Rubens.	Estado	pós-
democrático.	Rio	de	Janeiro:	Civilização	Brasileira,	2017).
6	Em	linhas	gerais,	pode-se	afirmar	que	o	sentido	negativo	de	ideologia	é	o
de	falsa	consciência	da	realidade.
7	Uma	visão	de	mundo,	como	sempre,	relacionada	às	condições	concretas
de	produção.
8	Por	exemplo:	Locke,	John.	Segundo	tratado	sobre	0	governo	civil.	São
Paulo:	Edipro,	2014.
c)	Sobre	o	tema:	Freud,	Sigmund.	Totem	e	tabu.	São	Paulo:	Companhia	das
Letras,	2013.
10	Que	abrange	as	modalidades	e	possibilidades	de	guiar	as	pessoas,	de
dirigir	e	impor	limites	às	condutas	humanas,	de	criminalizar	e	punir	ações	e
omissões.
11	Sobre	o	tema:	Chapoutot,	Johann.	La	revolution	culturelle	nazie.	Paris:
Gallimard,	2017.
12	Sobre	o	tema:	Adorno,	Theodor.	Études	sur	la	personnalité	autoritaire.
Paris:	Allia,	2007.
13	Mussolini,	Benito.	A	doutrina	do	fascismo.	Rio	de	Janeiro:	Nova
Fronteira,	2019,	p.	19.
14	Por	mundo-da-vida	entende-se,	na	linha	desenvolvida	por	Edmund
Husserl,	o	terreno	concreto	a	partir	do	qual	as	abstrações	teóricas	são
desenvolvidas,	o	“universo	do	que	é	intuível”	ou,	ainda,	o	campo	das
evidências	originárias.	A	ciência	busca	interpretar	e	explicar	o	que	é	dado
no	mundo-da-vida.
15	Vale	conferir:	Foucault,	Michel.	Theories	et	institutions	pénales:	cours
au	Collège	de	France	(1971-1972).	Paris:	EHESS/Gallimard/Seuil,	2015,	p.
3-4.
16	Foucault,	Michel.	Naissance	de	la	biopolitique:	cours	au	Collège	de
France	(1979-1979)-	Paris:	EHESS/	Gallimard/Seuil,	2004,	p.	6.
17	Nesse	sentido:	Viroli	Maurizio.	Il	significato	storico	della	nascita	del
concetto	di	ragion	di	Stato.	In:	Baldini,	Enzo	(org.).	Aristotelismo	politico
ragion	di	Stato.	Firenze:	Leo	S.	Olschki	Editore,	1993,	p.	67-83.
18	Foucault,	Michel.	Naissance	de	la	biopolitique:	cours	au	Collège	de
France	(1979-1979).	Paris:	EHESS/	Gallimard/Seuil,	2004,	p.	6.
i_9	Benjamin,	Walter.	Per	la	critica	della	violenza.	In:	Angelas	novas,	Saggi
eframmenti.	Turin:	Einaudi,	1981,	p.
15-
20	Benjamin,	Walter.	Per	la	critica	della	violenza.	In:	Angelas	novas,	Saggi
eframmenti.	Turin:	Einaudi,	1981,	p.
15-
21	Foucault,	Michel.	Naissance	de	la	biopolitiqae:	cours	au	Collège	de
France	(1979-1979)-	Paris:	EHESS/	Gallimard/Seuil,	2004,	p.	n.
22	Bourdieu,	Pierre.	A	dominação	masculina.	Rio	de	Janeiro:	Bertrand,
2003,	p.	64.
23	Ramos,	Silvia;	Musumeci,	Leonarda.	“Elemento	suspeito”.	Abordagem
policial	e	discriminação	na	cidade	do	Rio	de	Janeiro.	Boletim	Segurança	e
Cidadania,	n.	8,	novembro	de	2004.
24.	Sobre	o	tema:	Almeida,	Silvio.	Racismo	estrutural?	São	Paulo:	Letramento,
2019.
25	Sobre	o	tema:	Moreira,	Adilson.	Racismo	recreativo.	São	Paulo:
Letramento,	2019.
26	Souza,	Jessé.	A	classe	média	no	espelho.	Rio	de	Janeiro:	Estação	Brasil,
2018,	p.	11.
27	Nesse	sentido:	Souza,	Jessé.	A	classe	média	no	espelho.	Rio	de	Janeiro:
Estação	Brasil,	2018,	p.	12-15.
28	Foucault,	Michel.	Naissance	de	la	biopolitiqae:	cours	au	Collège	de
France	(1979-1979)-	Paris:	EHESS/	Gallimard/Seuil,	2004,	p.	14.
2.9	Nesse	sentido:	Foucault,	Michel.	Naissance	de	la	biopolitiqae:	cours	au
Collège	de	France	(1979-1979)-	Paris:	EHESS/Gallimard/Seuil,	2004,	pp.
18-19.
30	Nesse	sentido:	Laval,	Christian.	Foucault,	Bourdieu	et	la	question
néolibérale.	Paris:	Découverte,	2018,	p.	36.
31	Laval,	Christian.	Foucault,	Bourdieu	et	la	question	néolibérale.	Paris:
Découverte,	2018,	p.	37.
32	Nesse	sentido:	Laval,	Christian.	Foucault,	Bourdieu	et	la	question
néolibérale.	Paris:	Découverte,	2018,	p.	38.
33	Foucault,	Michel.	Naissance	de	la	biopolitiqae:	cours	au	Collège	de
France	(1979-1979)-	Paris:	EHESS/	Gallimard/Seuil,	2004,	p.	67.
34.	Laval,	Christian.	Foucault,	Bourdieu	et	la	question	néolibérale.	Paris:
Découverte,	2018,	p.	40.
3.5	Foucault,	Michel.	Naissance	de	la	biopolitique:	cours	au	Collège	de
France	(1979-1979)-	Paris:	EHESS/	Gallimard/Seuil,	2004,	p.	299-300.
36	Sobre	o	tema:	Mbembe,	Achille.	Necropolítica.	São	Paulo:	N-i,	2018.
37	Foucault,	Michel.	Surveiller	et	punir.	Paris:	Gallimard,	1975.
38	Foucault,	Michel.	Sécurité,	territoire,	population.	Paris:	Gallimard,
2004,	p.	50.
3.9.	Laval,	Christian.	Foucault,	Bourdieu	et	la	question	néolibérale.	Paris:
Découverte,	2018,	p.	45.
40	Laval,	Christian.	Foucault,	Bourdieu	et	la	question	néolibérale.	Paris:
Découverte,	2018,	p.	38.
41	Organização	privada	que	reunia	o	pensamento	dos	detentores	do	poder
econômico,	criada	em	1973	por	iniciativa	dos	principais	dirigentes	do	grupo
Bilderberg	e	do	grupo	Council	on	Foreign	Relations,	dentre	eles	David
Rockefeller,	Henry	Kissinger	e	Zbigniew	Brzezinski.
42	Nesse	sentido,	por	todos:	Freeden,	Michael.	Liberalism	divided:	a	study
in	british	political	thought	1914-1939.	Oxford:	Clarendon,1986.
43	Nesse	sentido:	Dardot,	Pierre;	Laval,	Christian.	A	nova	razão	de	mundo:
ensaio	sobre	a	sociedade	neoliberal.	São	Paulo:	Boitempo,	2016,	p.	39-41.
44.	Dardot,	Pierre;	Laval,	Christian.	A	nova	razão	de	mundo:	ensaio	sobre	a
sociedade	neoliberal.	São	Paulo:	Boitempo,	2016,	p.	39.
4.5	Spencer,	Herbert.	Principes	de	biologic.	Paris:	Germer	Baillière,	1880,
tomo	I,	p.	539.
46	Hayek,	Friedrich.	O	caminho	da	servidão.	Trad.	Anna	Capovilla,	José
ítalo	Stelle	e	Liane	de	Morais	Ribeiro.	Rio	de	Janeiro:	Biblioteca	do
Exército/Instituto	Liberal,	1994.
47	Spencer,	Herbert.	L’individu	contre	VÉtat.	Paris:	Alcan,	1885,	p.	26.
48	Dardot,	Pierre;	Laval,	Christian.	A	nova	razão	de	mundo:	ensaio	sobre	a
sociedade	neoliberal.	São	Paulo:	Boitempo,	2016,	p.57.
4.9	Nesse	sentido:	Hobhouse,	Leonard.	Liberalism	and	other	writings.
Cambridge:	Cambridge	University	Press,	1994.
50	Hobhouse,	Leonard.	Liberalism	and	other	writings.	Cambridge:
Cambridge	University	Press,	1994,	p.	43-44.
51	Por	todos:	Keynes,	John	Maynard.	The	end	of	laissez-faire.	Marseille:
Agone,	1999.
52	Keynes,	John	Maynard.	The	end	of	laissez-faire.	Marseille:	Agone,
1999,	p.	26.
53	Dardot,	Pierre;	Laval,	Christian.	A	nova	razão	de	mundo:	ensaio	sobre	a
sociedade	neoliberal.	São	Paulo:	Boi-tempo,	2016,	p.	61.
54	Polanyi,	Karl.	La	grande	transformation.	Paris:	Gallimard,	1983.
55	Dardot,	Pierre;	Laval,	Christian.	A	nova	razão	de	mundo:	ensaio	sobre	a
sociedade	neoliberal.	São	Paulo:	Boi-tempo,	2016,	p.	66.
56	Dardot,	Pierre;	Laval,	Christian.	A	nova	razão	de	mundo:	ensaio	sobre	a
sociedade	neoliberal.	São	Paulo:	Boitempo,	2016,	p.	68.
57.	Brown,	Wendy.	Défaire	le	demos.	Le	néolibéralisme,	une	révolution	furtive.
Trad.	Jérôme	Vidal.	Paris:	Editions	Amsterdam,	2018,	p.	22.
58	Supiot,	Alain.	La	gouvernance	par	les	nombres.	Cours	au	Collège	de	France
(2012/2014).	Paris:	Fayard,	2015,	p.	22.
59.	Supiot,	Alain.	La	gouvernance	par	les	nombres.	Cours	au	Collège	de	France
(2012/2014).	Paris:	Fayard,	2015,	p.	22.
60	Brown,	Wendy.	Défaire	le	demos.	Le	néolibéralisme,	une	révolution
furtive.	Trad.	Jérôme	Vidal.	Paris:	Editions	Amsterdam,	2018,	p.	9.
61	Brown,	Wendy.	Défaire	le	demos.	Le	néolibéralisme,	une	révolution
furtive.	Trad.	Jérôme	Vidal.	Paris:	Éditi-ons	Amsterdam,	2018,	p.	10.
62	Brown,	Wendy.	Défaire	le	demos.	Le	néolibéralisme,	une	révolution
furtive.	Trad.	Jérôme	Vidal.	Paris:	Editions	Amsterdam,	2018,	p.	17.
63	Supiot,	Alain.	La	gouvernance	par	les	nombres.	Cours	au	Collège	de
France	(2012/2014).	Paris:	Fayard,	2015,	p.	23.
64	Brown,	Wendy.	Défaire	le	demos.	Le	néolibéralisme,	une	révolution
furtive.	Trad.	Jérôme	Vidal.	Paris:	Editions	Amsterdam,	2018,	p.	18.
65	Dufour,	Dany-Robert.	L’individu	qui	vient	après	le	libéralisme.	Paris:
Denôel,	2011,	p.	23.66	Dardot,	Pierre;	Laval,	Christian.	A	nova	razão	de	mundo:	ensaio	sobre	a
sociedade	neoliberal.	São	Paulo:	Boitempo,	2016,	p.	69.
67	Dardot,	Pierre;	Laval,	Christian.	A	nova	razão	de	mundo:	ensaio	sobre	a
sociedade	neoliberal.	São	Paulo:	Boitempo,	2016,	p.	69.
68	Sobre	o	tema,	por	todos:	Audier,	Serge.	Le	colloque	Lippmann:	aux
origines	du	néolibéralisme.	Latresne,	Le	Bord	de	L’Eau,	2008.
69	Nesse	sentido:	Dardot,	Pierre;	Laval,	Christian.	A	nova	razão	de	mundo:
ensaio	sobre	a	sociedade	neoliberal.	São	Paulo:	Boitempo,	2016,	p.	72.
70	Para	a	ala	conservadora	neoliberal,	o	desemprego,	por	exemplo,	seria
consequência	de	uma	política	que	tem	por	objetivo	manter	os	salários	em
um	nível	mais	elevado	do	que	aquele	que	resultaria	do	livre	funcionamento
do	mercado.
71	Lippman,	Walter.	La	cité	libre.	Paris:	Librairie	de	Médicis,	1938,	p.	272.
72	Nesse	sentido:	Lippman,	Walter.	La	cité	libre.	Paris:	Librairie	de
Médicis,	1938,	p.	343.
73	Por	“Revolução	Numérica”	entende-se	a	transformação	produzida	na
sociedade	a	partir	das	empresas	que	controlam	e	exploram	a	produção	de
dados	digitais.
74.	Supiot,	Alain.	La	gouvernance	par	les	nombres.	Cours	au	Collège	de	France
(2012/2014).	Paris:	Fayard,	2015,	p.	23.
75	Nesse	sentido:	Supiot,	Alain.	La	gouvernance	par	les	nombres.	Cours	au
Collège	de	France	(2012/2014).	Paris:	Fayard,	2015,	p.	23.
76	Sobre	o	tema:	Dardot,	Pierre;	Laval,	Christian.	A	nova	razão	de	mundo:
ensaio	sobre	a	sociedade	neoliberal.	São	Paulo:	Boitempo,	2016.
77	Dardot,	Pierre;	Laval,	Christian.	Ce	cauchemar	qui	n’en	finit	pas:
comment	le	néolibéralisme	défait	la	démo-cratie.	Paris:	La	Découverte,
2016,	p.	10.
78	Foucault,	Michel.	Naissance	de	la	biopolitique:	cours	au	Collège	de
France	(1979-1979)-	Paris:	EHESS/	Gallimard/Seuil,	2004,	p.	121
79.	Foucault,	Michel.	Naissance	de	la	biopolitique:	cours	au	Collège	de	France
(1979-1979)-	Paris:
EHESS/Gallimard/Seuil,	2004,	p.	165.
80	Foucault,	Michel.	Naissance	de	la	biopolitique:	cours	au	Collège	de
France	(1979-1979).	Paris:	EHESS/	Gallimard/Seuil,	2004,	p.	165-166.
81	Foucault,	Michel.	Naissance	de	la	biopolitique:	cours	au	Collège	de
France	(1979-1979)-	Paris:	EHESS/	Gallimard/Seuil,	2004,	p.	166.
82	Foucault,	Michel.	Naissance	de	la	biopolitique:	cours	au	Collège	de
France	(1979-1979).	Paris:	EHESS/	Gallimard/Seuil,	2004,	p.	166.
83	Foucault,	Michel.	Naissance	de	la	biopolitique:	cours	au	Collège	de
France	(1979-1979).	Paris:	EHESS/	Gallimard/Seuil,	2004,	p.	121
84.	Nesse	sentido:	Laval,	Christian.	Foucault,	Bourdieu	et	la	question
néolibérale.	Paris:	Découverte,	2018,	p.	53.
85	Foucault,	Michel.	Naissance	de	la	biopolitique:	cours	au	Collège	de
France	(1978-1979).	Paris:	EHESS/	Gallimard/Seuil,	2004,	p.	271.
86	Foucault,	Michel.	Naissance	de	la	biopolitique:	cours	au	Collège	de
France	(1979-1979).	Paris:	EHESS/	Gallimard/Seuil,	2004,	p.	272.
87	Foucault,	Michel.	Naissance	de	la	biopolitique:	cours	au	Collège	de
France	(1979-1979).	Paris:	EHESS/	Gallimard/Seuil,	2004,	p.	273.
88	Foucault,	Michel.	Naissance	de	la	biopolitique:	cours	au	Collège	de
France	(1979-1979).	Paris:	EHESS/	Gallimard/Seuil,	2004,	p.	273.
89.	Conceito	desenvolvido	por	Theodore	Schultz	e	Gary	Becker.
90	Nesse	sentido:	Foucault,	Michel.	Naissance	de	la	biopolitique:	cours	au
Collège	de	France	(1979-1979).	Paris:	EHESS/Gallimard/Seuil,	2004,	p.
274.
91	Sobre	o	tema:	Adorno,	Theodor;	Horkheimer,	Max.	Dialética	do
esclarecimento.	Rio	de	Janeiro:	Zahar,	p.	113-156.
92	Brown,	Wendy.	Défaire	le	demos.	Le	néolibéralisme,	une	révolution
furtive.	Trad.	Jérôme	Vidal.	Paris:	Editions	Amsterdam,	2018,	p.	10.
9.3	Foucault,	Michel.	Naissance	de	la	biopolitique:	cours	au	Collège	de	France
(1979-1979).	Paris:	EHESS/	Gallimard/Seuil,	2004,	p.	274.
94.	Foucault,	Michel.	Naissance	de	la	biopolitique:	cours	au	Collège	de	France
(1979-1979).	Paris:	EHESS/	Gallimard/Seuil,	2004,	p.	253.
9.5	Han,	Byung-Chul.	Psicopolítica:	o	neoliberalismo	e	as	novas	técnicas
de	poder.	Trad.	Mauricio	Liesen.	Belo	Horizonte,	2018,	p.	26.
96	Musso,	Pierre.	Le	temps	de	l’État-Entreprise.	Paris:	Fayard,	2019,	p.	13.
97.	Laval,	Christian.	Foucault,	Bourdieu	et	la	question	néolibérale.	Paris:
Découverte,	2018,	p.	60.
98	Weber,	Max.	L’Ethique	protestante	et	I’esprit	du	capitalisme.	Paris:
Flammarion,	2009,	p.	22.
99	Han,	Byung-Chul.	Psicopolítica:	o	neoliberalismo	e	as	novas	técnicas	de
poder.	Trad.	Mauricio	Liesen.	Belo	Horizonte:	Âyiné,	2018,	p.	n.
100	Marx,	Karl.	O	capital:	crítica	da	economia	política.	Livro	I:	o	processo
de	produção	do	capital.	Trad.	Rubens	Enderle.	São	Paulo:	Boitempo,	2013,
p.	203.
101	Han,	Byung-Chul.	Psicopolítica:	o	neoliberalismo	e	as	novas	técnicas
de	poder.	Trad.	Maurício	Liesen.	Belo	Horizonte:	Âyiné,	2018,	p.	14.
102	Nesse	sentido:	Han,	Byung-Chul.	Psicopolítica:	o	neoliberalismo	e	as
novas	técnicas	de	poder.	Trad.	Maurício	Liesen.	Belo	Horizonte:	Âyiné,
2018,	p.	16.
103	Laval,	Christian.	Foucault,	Bourdieu	et	la	question	néolibérale.	Paris:
Découverte,	2018,	p.	64.
104	Taylan.	Ferhat.	Mésopolitique.	Connaitre,	théoriser	et	gouverner	les
milieu	de	vie	(1750-1900).	Paris:	Editions	de	la	Sorbonne,	2018.
105	Foucault,	Michel.	Ilfaut	défendre	la	société.	Paris:	Gallimard,	1997,	p.
214.
106	Tiburi,	Mareia.	Olho	de	vidro:	a	televisão	e	o	estado	de	exceção	da
imagem.	Rio	de	Janeiro:	Record,	2011.
107	Dufour,	Dany-Robert.	O	divino	mercado:	a	revolução	cultural	liberal.
Trad.	Procópio	Abreu.	Rio	de	Janeiro:	Companhia	de	Freud,	2008,	p.	24.
108	Nesse	sentido:	Orsina,	Giovanni.	La	democrazia	dei	narcisismo:	breve
storia	dell’antipolitica.	Venezia:	Marsilio	Editori,	p.	61.
109	Nesse	sentido,	por	todos:	Lasch,	Christopher.	The	culture	of
narcissism.	American	life	in	age	of	diminishing	expectations.	New	York:
W.W.	Norton	&	Company,	2018.
no	Castoriadis,	Cornelius;	Lasch,	Christopher.	La	culture	de	I’egoisme.	Paris:
Climats,	2012,	p.	18-19.
in	Castoriadis,	Cornelius;	Lasch,	Christopher.	La	culture	de	I’egoisme.	Paris:
Climats,	2012,	p.	22.
112	Lacan,	Jacques.	Le	semindire.	Livre	VI.	Le	désir	et	son	interpretation.
Paris,	Editions	de	La	Martinière,	2013,	p.	12.
113	Nesse	sentido:	Lacan,	Jacques.	Le	séminaire.	Livre	X.	L’angoisse.
Paris:	Seuil,	2004.
114	Han,	Byung-Chul.	Psicopolítica:	o	neoliberalismo	e	as	novas	técnicas
de	poder.	Trad.	Mauricio	Liesen.	Belo	Horizonte:	Âyiné,	2018,	p.	16.
115	Laval,	Christian.	Foucault,	Bourdieu	et	la	question	néolibérale.	Paris:
Découverte,	2018,	p.	31.
116	Nesse	sentido:	Foucault,	Michel.	Sécurité,	territoire,	population:	cours
au	Collège	de	France	(1977-1978).	Paris:	Gallimard,	2004,	p.	in.
117.	Foucault,	Michel.	Le	sujet	et	le	pouvoir.	In:	Michel	Foucault.	Un	parcours
philosophique	(Org.	Humbert	Dreyfus	et	Paul	Rabinow).	Paris:	Gallimard,	1984,
p.	314.
118	Nesse	sentido:	Foucault,	Michel.	Sécurité,	territoire,	population:	cours
au	Collège	de	France	(1977-1978).	Paris:	Gallimard,	2004,	p.	3.
119	Klein,	Naomi.	Doutrina	do	choque:	a	ascensão	do	capitalismo	de
desastre.	Trad.	Vania	Cury.	Rio	de	Janeiro:	Nova	Fronteira,	2008,	p.	73-74.
120	Por	“revolução	colorida”	entende-se	a	manifestação	política	que
envolve	a	derrubada	de	governos	considerados	antiestadunidenses,	ainda
que	democraticamente	eleitos,	através	do	uso	de	ações	diretas	e	com	um
discurso	liberalizante	e	democratizante,	que	muitas	vezes	nublam	a
percepção	dos	interesses	econômicos	que	levaram	à	revolução.
121	Korybko,	Andrew.	Guerras	híbridas:	das	revoluções	coloridas	aos
golpes.	Trad.	Thyago	Antunes.	São	Paulo:	Expressão	Popular,	2018,	p.	12.
122	Korybko,	Andrew.	Guerras	híbridas:	das	revoluções	coloridas	aos
golpes.	Trad.	Thyago	Antunes.	São	Paulo:	Expressão	Popular,	2018,	p.	12.
123	Atlas	Economic	Research	Foundation.
124	Uma	sociedade	de	publicações	estratégicas,	surgida	em	2013,	que
combinava	instrumentos	de	exploração	e	de	análise	de	dados	com	ações
políticas	(poder	numérico/digital),	o	que	muitos	apontam	ter	colaborado	de
forma	expressiva	tanto	para	a	aprovação	do	Brexit	no	Reino-Unido	quanto
para	a	eleição	de	Donald	Trump	nos	EstadosUnidos.
125	Korybko,	Andrew.	Guerras	híbridas:	das	revoluções	coloridas	aos
golpes.	Trad.	Thyago	Antunes.	São	Paulo:	Expressão	Popular,	2018,	p.	94.
126	Korybko,	Andrew.	Guerras	híbridas:	das	revoluções	coloridas	aos
golpes.	Trad.	Thyago	Antunes.	São	Paulo:	Expressão	Popular,	2018,	p.	113.
127	Bernays,	Edward.	Crystallizing	public	opinion.	Montana:	Kessinger
Publishing,	2004.
128	Bernays,	Edward.	The	engineering	of	consent,	1947.	Disponível	em:
.sent.pdf>.	Acesso	em:	15	jun.	2019.
129	Sharp,	Gene.	198	Methods	of	nonviolent	action.	The	Albert	Einstein
Institution.	Disponível	em:	.	Acesso	em:	11	jun.	de	2019.
130	Dardot,	Pierre;	Laval,	Christian.	Ce	cauchemar	qui	n’en	finit	pas:
comment	le	néolibéralisme	défait	la	démo-cratie.	Paris:	La	Découverte,
2016,11.
131	Nesse	sentido:	Dardot,	Pierre;	Laval,	Christian.	Ce	cauchemar	qui	n’en
finit	pas:	comment	le	néolibéralisme	défait	la	démocratie.	Paris:	La
Découverte,	2016.
132	Brown,	Wendy.	Défaire	le	demos.	Le	néolibéralisme,	une	révolution
furtive.	Trad.	Jérôme	Vidal.	Paris:	Editions	Amsterdam,	2018,	p.	21.
http://classes.design.ucla.edu/Fallo7/28/Engi-ring_of_consent.pdf
http://www.aeistein.org/nva/198-methods-of-nonviolent-action/
133	Dardot,	Pierre;	Laval,	Christian.	Ce	cauchemar	qui	n’en	finit	pas:
comment	le	néolibéralisme	défait	la	démocratie.	Paris:	La	Découverte,
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134	Dardot,	Pierre;	Laval,	Christian.	A	“nova”	fase	do	neoliberalismo.
Publicado	em	www.outraspalavras.net,
consultado	em	30	de	julho	de	2019.
13.5	Sobre	o	tema:	Supiot,	Alain.	La	gouvernance	par	les	nombres:	cours
au	Collège	de	France	(2012-2014).	Paris:	Fayard,	2015.
136	Citizens	United	v.	Federal	Election	Commission,	130	S.	Ct.	876,	558
U.S.	310,175	L.	Ed.	2D753	(2010).
137	Por	todos:	Piketty,	Thomas.	Capital	et	ideologic.	Paris:	Seuil,	2019.
138	Alperovitz,	Gar;	Daly,	Lew.	Apropriação	indébita.	São	Paulo:	Senac,
2010.
13.9	Nesse	sentido:	Piketty,	Thomas.	Capital	et	ideologic.	Paris:	Seuil,
2019,	p.	45-46.
140	Dardot,	Pierre;	Laval,	Christian.	A	nova	razão	de	mundo:	ensaio	sobre
a	sociedade	neoliberal.	Trad.	Mariana	Echalar.	São	Paulo:	Boitempo,	2016,
p.	15.
141	Dardot,	Pierre;	Laval,	Christian.	A	nova	razão	de	mundo:	ensaio	sobre
a	sociedade	neoliberal.	Trad.	Mariana	Echalar.	São	Paulo:	Boitempo,	2016,
p.	7.
142	Crouch,	Colin.	Post-démocratie.	Paris:	Diaphanes,	2013.
14.3	Dardot,	Pierre;	Laval,	Christian.	A	nova	razão	de	mundo:	ensaio	sobre	a
sociedade	neoliberal.	Trad.	Mariana	Echalar.	São	Paulo:	Boitempo,	2016,	p.	16.
144.	No	sentido	de	uma	razão	configuradora	do	mundo,	mas	referindo-se	à
ordem	econômica	capitalista:	Weber,	Max.	L’ethique	protestante	et	I’esprit	du
capitalisme.	Trad.	Isabelle	Kalinowski.	Paris:	Champs	Flam-marion,	2000,	p.
93-94.
http://www.outraspalavras.net
14.5	Dardot,	Pierre;	Laval,	Christian.	A	nova	razão	de	mundo:	ensaio	sobre
a	sociedade	neoliberal.	Trad.	Mariana	Echalar.	São	Paulo:	Boitempo,	2016,
p.	8.
14.6	Han,	Byung-Chul.	Psicopolítica.	O	neoliberalismo	e	as	novas	técnicas
de	poder.	Trad.	Ligia	Azevedo.	Belo	Horizonte:	Âyiné,	2018,	p.	13.
2.	A	NORMATIVIDADE
NEOLIBERAL
2.i.	Uma	lógica	normativa	global
O	neoliberalismo	pode	ser	descrito	como	uma	“lógica	normativa	global”.147	Mas
o	que	isso	significa?	Em	suma,	pode-se	afirmar	que	o	neoliberalismo	é
constituído	de	mandamentos	de	conduta	que	devem	ser	seguidos	por	quem	busca
aderir	ou	ser	aceito	por	um	Estado,	por	uma	sociedade	ou	por	indivíduos
submetidos	a	essa	mesma	normatividade.	O	neoliberalismo	produz	maneiras	de
agir,	subjetividades,	modos	de	viver,	desejos,	ausência	de	desejos	etc.	Em
apertada	síntese,	o	neoliberalismo	molda	a	existência	a	partir	de	normas	que	os
destinatários	raramente	têm	consciência	de	existirem.
Pode-se,	portanto,	reconhecer	a	existência	de	regras	do	jogo	neoliberal	que
derivam	do	compromisso	com	o	mercado,	da	lógica	da	concorrência	e	da	busca
tendencialmente	ilimitada	pela	realização	dos	próprios	interesses.	Essas	regras
do	jogo	formam	um	sistema	normativo	coerente,	capaz	de	orientar	a	forma	de
governar,	a	adoção	de	determinadas	políticas	públicas,	a	produção	de	decisões
judiciais,	a	elaboração	de	leis,	o	funcionamento	de	empresas,	as	decisões	de
organismos	internacionais	e	as	condutas	das	pessoas.
O	Estado,	a	sociedade	e	o	indivíduo	não	são	entes	que	escapam	ao	poder	e	às
diversas	ordens	de	restrições.	Ao	contrário,	todos	esses	entes	são	construídos	e
investidos	pelo	poder	das	normas,	ou	seja,	por	processos	de	normalização	que
buscam	modelar	as	condutas	e	as	subjetividades.	A	racionalidade	neoliberal,	esse
determinado	modo	de	ver	e	atuar	no	mundo,	gera	normas	de	vida,	mandamentos
de	conduta	que	prometem	assegurar	uma	vida	normal	e	feliz	às	pessoas	nas
sociedades	modernas.
Essas	normas	impõem
[...]	a	cada	um	de	nós	que	vivamos	num	universo	de	competição	generalizada,
intima	os	assalariados	e	as	populações	a	entrar	em	luta	econômica	uns	contra	os
outros,	ordena	as	relações	sociais	segundo	o	modelo	do	mercado,	obriga	a
justificar	desigualdades	cada	vez	mais	profundas,	muda	até	o	indivíduo,	que	é
instado	a	conceber	a	si	mesmo	e	a	comportar-se	como	uma	empresa.148
As	normas	são	imanentes	às	práticas,	intimamente	ligadas	a	uma	determinada
racionalidade	e	também	figuram	como	um	dos	objetos	da	luta	política.	Não	há
prática	dissociada	de	normas	e	nem	normas	que	não	sejam	colocadas	em	prática
através	de	ações.	Há	um	mandamento	de	ação	normal,	e	os	efeitos	produzidos
pelas	ações	que	seguem,	ou	não,	a	norma.	Dito	de	outra	forma:	o	meio,	as
práticas	e	as	existências	são	também	normativas.	Se	não	há	prática	sem	norma,
exista	ou	não	consciência	do	indivíduo	a	ela	submetido,	a	disputa	política	passa	a
ser	por	modificar	o	conjunto	ou	elementos	do	conjunto	normativo:	a	luta	política
passa	a	ocorrer	sobre	o	campo	normativo	para	modificá-lo	e,	em	consequência,
produzir	transformações	no	meio	e	efeitos	sobre	as	condutas.
As	ações	humanas	se	desenvolvem	em	um	meio	que	fixa	normas.	A	família,	a
escola,	o	espaço	urbano,	as	instituições,	dentre	outros	meios	indispensáveis	à
existência	do	indivíduo,	impõem	normas.	Como,	a	partir	da	racionalidade
neoliberal,	o	meio	passou	a	adotar	o	modelo	de	mercado	e	o	quadro
concorrencial,	pode-se	dizer	que	a	normatividade	neoliberal	enuncia	que	todas	as
instituições	e	todas	as	pessoas	devem	agir	como	sujeitos	econômicos	em	busca
do	lucro	e	tratando	os	demais	indivíduos	como	concorrentes.
2.2.	Poder,	norma	e	neoliberalismo
O	poder	se	exerce	de	variadas	formas.	O	exercício	do	poder	mais	efetivo	não	se
dá	de	forma	explícita	ou	mesmo	coercitiva.	Ao	contrário,	as	pessoas,	em	regra,
seguem	normas	e	se	submetem	ao	poder	sem	saber.	O	poder	é	mais	efetivo
quanto	menos	ele	é	percebido	como	um	direcionamento	externo	ao	indivíduo.
Isso	se	dá	porque	os	detentores	do	poder	mobilizam	as	normas	mais	comuns
imanentes	aos	processos	direcionados	tanto	à	realização	dos	desejos	quanto	às
práticas	cotidianas.	Se	a	existência	tem	uma	dimensão	normativa,	manipular	as
normas	significa	manipular	a	existência.	Como	percebeu	Pierre	Macherey,
[...]	as	normas	que	ordenam	a	vida	[...]	não	são	pré-estabelecidas	ou	pré-
constituídas,	mas	elas	se	elaboram	no	curso	do	mesmo	processo	antagônico	que
faz	e	desfaz	as	formas	dessa	vida	humana.149
Pode-se	reconhecer	que	em	um	determinado	meio	o	homem	fica	submetido	a
uma	espécie	de	determinismo.	Determinados	fatores	presentes	no	meio	tendem	a
condicionar	as	ações	e	as	escolhas	dos	indivíduos	submetidos	a	eles.	Esse
determinismo	nada	tem	de	natural,	ele	é	fruto	de	uma	criação	artificial,	faz	parte
de	um	projeto,	na	medida	em	que	o	meio	é	construído	pela	ação	humana.150	A
ideologia,	porém,	estimula	a	crença	de	que	o	meio	é	um	dado	natural	e	que	a
vontade	dos	indivíduos	é	livre.	O	meio,	que	tem	uma	dimensão	normativa,	é	o
resultado	do	desenvolvimento	geográfico	e	social	produzido	mediante	o
emprego	de	técnicas,	da	manipulação	economicamente	direcionada	da	natureza.
Mudaro	meio	é	também	produzir	alterações	nas	normas	a	que	as	pessoas	estão
submetidas.	Essa	possibilidade	de	construir	o	meio	em	que	as	pessoas	vivem
acaba	por	gerar	tensões	políticas.	Vários	conflitos,	então,	surgem	em	torno	da
forma	como	organizar	ou	modificar	o	meio:	cada	racionalidade	leva	a	uma
atuação	diferente	sobre	o	meio,	ou	seja,	cada	modo	de	ver	e	atuar	no	mundo	é
também	um	modo	de	perceber,	respeitar	ou	transformar	o	meio.
Em	certo	sentido,	a	história	pode	ser	resumida	como	o	movimento	constante	das
pessoas	de	inventar	novas	formas	de	viver	e,	em	consequência,	de	criar	também
novas	normas	direcionadas	às	pessoas.	Toda	ação	humana	se	relaciona	com
valores	e	normas,	bem	como	se	inserem,	ainda	que	sem	a	consciência	das
pessoas,	nos	jogos	de	interesses	em	torno	do	meio	e	da	existência.	Vale	ressaltar,
por	oportuno,	que	a	ação	humana	não	se	resume	a	uma	tentativa	de	adaptação	ao
meio,	ela	é	criativa	e	conflitiva.	Há	uma	relação	dialética	entre	a	pessoa	e	o
meio,	ela	é	criativa	e	conflitiva.	Há	uma	relação	dialética	entre	a	pessoa	e	o
meio,	um	tentando	modificar	e	controlar	o	outro.	As	pessoas	procuram	fazer	com
que	o	meio	atenda	aos	seus	interesses,	e	isso	implica	em	debates	e	conflitos	em
torno	dos	modos	de	organização	e	de	transformação	do	meio	em	que	se	vive.	Há,
sempre,	uma	dimensão	ética	e	política	nas	ações	humanas	voltadas	à
modificação	do	meio.
A	ação	humana	cria	normas,	mas	essas	normas	estão	vinculadas	a	determinadas
visões	de	mundo,	pré-compreensões	e	relações	de	poder.	No	capitalismo,
verifica-se	uma	determinação	das	normas	pelos	imperativos	econômicos	do
meio.	Em	outras	palavras,	há	a	colonização	do	meio	pela	economia.	Essa
determinação,	por	vezes,	pode	sofrer	resistências.	Em	dado	momento,	os
trabalhadores	ensaiaram	essa	resistência	ao	se	afirmarem	como	sujeitos	críticos
do	meio	em	que	se	encontram.	Mas	essa	resistência	coletiva	só	é	possível	se	os
indivíduos	não	sofrerem	processos	de	dissolução	de	suas	subjetividades.	Não	por
acaso,	a	racionalidade	neoliberal	busca	ultrapassar	os	limites	da	economia	para
produzir	mudanças	na	subjetividade	dos	indivíduos,	domesticando-os	e
condicionando-os	ao	projeto	neoliberal.
Vale	lembrar	que	as	normas	estão	presentes	sempre	no	mundo-da-vida.	Dentre
as	normas	sociais,	as	normas	jurídicas	diferenciam-se	por	contarem	com	um
procedimento	específico	para	a	sua	elaboração	(processo	legislativo)	e	com	a
possibilidade	de	um	controle	de	conteúdo	exercido	pelo	Poder	Judiciário
(controle	de	cons-titucionalidade).	Todavia,	as	leis	produzidas	pelo	legislador	de
cada	país	constituem	uma	parcela	ínfima	do	complexo	normativo	a	que	está
submetido	o	indivíduo	desde	o	nascimento.	E	mesmo	o	processo	de	criação	de
leis	também	se	encontra	submetido	à	mutação	produzida	pela	racionalidade
neoliberal.	Sob	a	égide	neoliberal,	ao	mesmo	tempo	em	que	as	leis	que	poderíam
servir	de	limites	ao	poder	econômico	são	afastadas	(tanto	pela	agência	legislativa
quanto	pela	agência	judicial),	a	estrutura	jurídica	readquire	uma	“estrutura
feudal”,151	voltada	à	defesa	do	economicamente	mais	forte.	Como	lembra	Alain
Supiot,
[...]	na	medida	em	que	o	direito	contribui	para	ancorar	dentro	da	realidade	a
imagem	que	nós	temos	do
mundo	onde	vivemos	[...],	a	normatividade	jurídica	participa	da	instituição	da
razão.152
O	direito	é	peça	fundamental,	portanto,	do	processo	de	instituição,	naturalização
e	legitimação	da	racionalidade	neoliberal.
e	legitimação	da	racionalidade	neoliberal.
Há	também	instituições	que	integram	um	conjunto	educacional	e	que	são
importantes	à	introjeção	das	normas	neoliberais	na	sociedade.	Essas	instituições
têm	a	função	de	organizar	a	transmissão	de	conteúdo	espiritual	e	cognitivo,	tais
como	a	família,	as	igrejas,	as	escolas	e	as	universidades.	Transmitem	dogmas,
regras,	ideologias	e,	assim,	ajudam	a	sedimentar	ou	construir	um	conjunto	de
idéias,	discursos	e	normas	que	levam	à	sedimentação	de	um	determinado	modo
de	ver	e	atuar	no	mundo.
Diante	do	caráter	imanente	das	normas	no	que	toca	às	práticas	e	ao	pensamento,
torna-se	importante	compreender	a	relação	entre	elas	e	os	interesses	dos
detentores	do	poder	econômico.	Em	que	medida	o	mandamento	de	conduta	tida
como	normal	atende	a	determinados	agentes	no	jogo	de	interesses	do	mercado?
Sem	desvelar	os	interesses	que	essa	ideia	de	normatividade	satisfaz	e	com	os
quais	opera,	torna-se	impossível	instaurar	uma	racionalidade	alternativa	e
construir	uma	normatividade	adequada	ao	novo	modo	de	ver	e	atuar	no	mundo.
Christian	Laval	explica	que	há	várias	maneiras	de	pensar	a	norma,	seja	ao
considerá-la	como	um	poder	que	exerce	uma	força	sobre	uma	matéria	viva	que
lhe	é	anterior	e	exterior,	seja	considerando-a	uma	forma	interior	ao	campo	da
ação	e	da	experiência,	portanto,	imanente	ao	desenvolvimento	de	práticas	e	de
processos.	Segundo	a	primeira	concepção,	a	norma	atuaria	em	um	plano	que,	em
princípio,	escapa	de	toda	influência	e	de	toda	força	exterior,	ou	seja,	a	norma
atuaria	para	interditar	e	reprimir	condutas	em	um	espaço	em	que	vigoraria	o
domínio	da	liberdade	e	da	espontaneidade.	As	tentativas	de	controlar	as	condutas
individuais	a	partir	do	poder	penal,	um	poder	externo	exercido	principalmente
sobre	o	corpo	do	indivíduo	apontado	como	desvi-ante	(que	levaram	ao	que
Foucault	chamou	de	“sociedade	de	normalização”),	são	típicas	dessa	primeira
concepção.	Todavia,	aderir	à	segunda	concepção	de	norma	significa	reconhecer
que	ela	é	ativa,	ou	seja,	mais	do	que	interditar	e	reprimir,	a	norma	volta-se	à
produção	da	realidade.153A	norma,	em	sua	dimensão	criativa,	produz	a	ordem.	A
ordem,	por	sua	vez,	gera	um	sistema	comprometido	com	determinados	interesses
que	passa	a	ocupar	o	papel	da	realidade.	A	realidade	é	construída	tanto	pelo
simbólico,	que	é	a	linguagem	em	forma	de	lei,	quanto	pela	imagem	que	o
indivíduo	faz	das	coisas	a	partir	da	linguagem.	A	sexualidade,	a	loucura,	o
crime,	a	economia,	o	trabalho,	o	certo	e	o	errado	são	criados	pela	norma.	Em
outras	palavras,	os	fenômenos	são	produzidos	por	normas	e	entram	no	mundo-
da-vida	através	da	conduta	de	indivíduos	lançados	na	linguagem,	indivíduos	que
pensam,	falam	e	atuam	de	acordo	com	normas,	i.e.,	segundo	limites	inscritos	na
linguagem,	mesmo	que	não	tenham	consciência	disso.	Em	certo	sentido,	pode-se
afirmar	que	a	norma	constrói	os	sujeitos	e	os	objetos	históricos.	Só	há	a	loucura
porque	uma	norma	definiu	o	que	é	normal	e	o	que	é	loucura.	A	mesma	conduta
pode	ser	criminosa	ou	não,	a	depender	da	norma	aplicável	ao	contexto.	Não	se
pode	esquecer,	portanto,	da	existência	de	“processos	históricos	e	sociais	de
objetivação-normalização-subjetivação”!^	que	permitem	a	existência	de	práticas
diversamente	condicionadas	a	depender	do	tempo	e	do	espaço.
As	normas	instrumentalizam	um	poder	que	se	exerce	nas	práticas,	mas	também
nas	esferas	mais	íntimas	dos	indivíduos.	Da	mesma	maneira	que	a	prática	é
criada	e	desenhada	pela	norma,	a	norma	busca	formatar	as	pessoas.	Normas	que
representam	uma	força	externa	(poder	disciplinar)	a	atuar	sobre	o	indivíduo	se
somam	a	normas	que	constituem	o	sujeito	a	partir	da	linguagem	(biopoder	e
psicopoder).	Ao	lado	na	normalização	disciplinar	existe	também	a	normalização
biopolítica.
A	normalização	disciplinar	pressupõe	a	existência	de	normas	gerais,	abstratas	e
independentes	da	atividade	concreta,	que	devem	ser	aplicadas	“de	fora”,
garantidas	por	um	terceiro	que	aplicará	a	sanção	como	resposta	ao
desatendimento	da	norma.	Toda	teoria	do	Direito	é	construída	a	partir	da	crença
não	só	no	livre-arbítrio	como	também	no	caráter	motivador	e	preventivo	dessas
normas	exteriores	à	atividade	que	se	quer	regular.	A	pena	por	um	delito155	nos
sistemas	punitivos	modernos,	por	exemplo,	apresenta-se	com	a	função	de
retribuir,	reeducar	e	prevenir	outros	delitos.	Espera-se	com	a	criminalização	de
uma	conduta	reduzir	a	prática	de	determinados	fatos	e	os	riscos	de	resultados
danosos.	Toda	a	atividade	policial	legítima	também	está	fundamentada	nessas
normas	postas	pelo	legislador	e	exteriores	à	atividade	vedada	pela	lei.	Há,
portanto,	um	modelo	normativo	(“nãomatarás”)	voltado	a	um	determinado
resultado	(reduzir	o	número	de	homicídios).	Espera-se,	então,	que	o	ato	seja
adequado	ao	modelo	normativo,	sob	pena	de	uma	sanção	aos	que	se	mostram
incapazes	de	seguir	o	mandamento	de	conduta	normal,	que	passam	a	ser
etiquetados	de	criminosos	ou	de	anormais.
Por	outro	lado,	a	normalização	biopolítica,	identificada	inicialmente	por	Michel
Foucault,156	se	dá	a	partir	de	uma	norma	que,	do	interior	do	processo,	regula	a
intensidade,	a	adequação	ao	meio	e	o	equilíbrio	de	cada	ato	concreto.
Desaparece	a	abstração,	típica	da	normalização	disciplinar.	Não	há,	portanto,
uma	norma	prévia	a	servir	de	exemplo	a	ser	seguido,	mas	a	introjeção	da	noção
de	que	uma	determinada	ação	deve	ser	praticada	de	uma	determinada	forma	para
alcançar	da	maneira	mais	simples	possível	o	objetivo	desejado.	Há	a	introjeção,
a	partir	da	linguagem,	de	uma	noção	de	normal,	o	que	envolve	necessariamente
elementos	de	uma	tradição,	de	um	contexto,	de	discursos	e	de	práticas	anteriores.
A	linguagem,	que	carrega	tanto	a	tradição	quanto	o	inconsciente	(o	“saber	que
não	se	sabe”	identificado	por	Freud),	faz	o	indivíduo	ter	como	normal	uma
conduta	e	as	demais	como	anormal.	Essa	pré-compreensão	do	que	é	normal	dá
lugar	à	norma	no	momento	em	que	a	atividade	é	executada.
Na	biopolítica,	o	ato	de	poder	normalmente	se	dá	à	distância,	como	já	havia
percebido	Bentham,157	isso	porque	para	alcançar	a	conduta	desejada	muitas
vezes	é	necessário	apenas	agir	sobre	o	meio	ou	estimular	um	interesse.	Na	lógica
da	biopolítica,	sempre	que	possível,	a	repressão	acaba	substituída	pela
manipulação	de	interesses.	Não	se	trata	mais	da	necessidade	da	ação	de	um
corpo	sobre	outro,	mas	de	movimentos	mais	sutis,	que	implicam	ao	mesmo
tempo	vigilância	e	condicionamento,	o	que	passa	tanto	pela	manipulação	do
meio	quanto	pela	criação	de	necessidades,	bem	como	pela	transformação	da
opinião	pública	em	um	tribunal	permanente	de	julgamento	da	normalidade	das
condutas.
Se	no	poder	disciplinar	a	liberdade	é	restringida	ou	coagida,	no	biopoder	a
liberdade	é	manipulada.	As	pessoas	acreditam	estar	livres,	mas	a	liberdade	é
cooptada	e	utilizada	em	uma	técnica	mais	eficiente	de	subje-tivação	e,	portanto,
de	sujeição.	Cada	pessoa	livre	passa	a	se	submeter	a	mandamentos	de	conduta
direcionados	ao	próprio	desempenho,	ao	consumo	e	à	inércia	política.
Paradoxalmente,	a	liberdade	submetida	ao	biopoder	permite	mais	coações	do
que	o	dever	produzido	pelo	poder	disciplinar	através	de	interdições	e	regras
externas.	Há	um	limite	à	capacidade	do	Estado	de	fazer	valer	suas	interdições	e
regras,	mas	não	há	limite	ao	biopoder	e	ao	psicopoder	que	introjetam	regras,
interdições	e	mandados	de	otimização	em	cada	indivíduo	que	acredita	estar
exercendo	a	própria	liberdade	ao	servir	aos	objetivos	do	titular	do	poder.	Por
isso,	o	indivíduo	neoliberal	é	“um	servo	absoluto,	na	medida	em	que,	sem	um
senhor,	explora	voluntariamente	a	si	mesmo.	Nenhum	senhor	o	obriga	a
trabalhar.	O	sujeito	absolutiza	a	vida	nua	e	trabalha”.158
As	pessoas	foram	levadas	a	acreditar	que	estavam	livres	de	qualquer	coação
externa	e	de	restrições	impostas	por	terceiros,	mas	passaram	a	se	submeter	a
coações	internas	que	têm	a	forma	de	normas	de	desempenho	e	de	otimização.
Passam	a	acreditar	que	precisam	agir	“livremente”	de	uma	determinada	forma,
sem	perceber	que	nesse	agir	“livremente”	está	embutido	uma	nova	forma	de
sem	perceber	que	nesse	agir	“livremente”	está	embutido	uma	nova	forma	de
exploração:	uma	autoexploração,	que	é	inconsciente	a	ponto	do	indivíduo
acreditar	que	atua	em	seu	próprio	interesse	enquanto	está	servindo	ao	projeto
neoliberal,	que	tem	por	objetivo	a	acumulação	de	capital	dos	detentores	do	poder
econômico.
Como	já	se	viu,	no	neoliberalismo,	o	mercado	torna-se	o	meio	normativo	por
excelência.	Atuar	no	mundo	equivale	a	atuar	no	mercado	e	para	o	mercado.	E	a
norma	do	mercado	é	a	concorrência.	Com	isso	a	lógica	da	concorrência	é
estendida	a	todas	as	instituições	e	a	todas	as	relações	sociais.	Todos	os	valores
passam	a	estar	subordinados	à	norma	da	concorrência.	A	liberdade,	por	exemplo,
passa	a	se	resumir	ao	modelo	de	liberdade	de	escolha	do	homem	econômico,	ou
seja,	uma	liberdade,	em	certo	sentido,	manipulada,	de	tomar	decisões	segundo	o
que	o	indivíduo	acredita	ser	o	seu	interesse	em	função	de	variáveis	do	meio
(mercado)	que	podem	ser	modificadas	por	uma	política	geral	ou	por	técnicas	de
incitação.
Maior	será	o	poder	quanto	menor	for	a	necessidade	de	se	utilizar	uma	força
externa	para	fazer	valer	a	norma.	Não	por	acaso	tanto	os	detentores	do	poder
político	quanto	os	detentores	do	poder	econômico	procuram	produzir	normas
que	transformam	o	meio	e	orientam	as	condutas.	Basta	pensar	na	potência	da
televisão	na	produção	de	normas	e,	em	consequência,	na	alteração	do	meio	e	das
subjetividades.	Com	razão	Mareia	Tiburi	percebe	que	o	conto	de	Kafka	“Diante
da	Lei”	poderia	ser	“pensado	como	uma	figuração	do	telespectador	diante	da
tela”,	razão	pela	qual	o	significante	“lei”,	hoje,	poderia	ser	facilmente
substituído	pela	palavra	“televisão”159	ou	pelas	demais	telas	{smartphones,
computadores	etc.).
2.3.	Normatividade	e	poder	numérico
Entender	a	normatividade	neoliberal	nas	últimas	décadas	passa	por	procurar
desvelar	o	que	alguns	estão	a	chamar	de	a	“ditadura	invisível	do	numérico”,160	a
saber,	uma	forma	de	criar	e	manipular	vontades	a	partir	de	algoritmos,	de
codificações,	da	produção,	da	coleta	e	do	tratamento	de	dados.	O	poder
“numérico-digital”161	(exercido	a	partir	do	big	data	por	corporações	como	o
Google,	a	Apple,	o	Facebook	e	a	Amazon)	é	capaz,	como	afirma	Byung-Chul
Han,	de	reprogramar	a	população	sem	que	os	atingidos	tenham	sequer
possibilidade	de	saber	a	mudança	de	paradigma	que	está	em	jogo,162	Ainda
segundo	Han,
[...]	nós	somos	desatualizados	pelo	numérico	que,	por	debaixo	de	cada	decisão
consciente,	modifica	de	modo	determinante	nosso	comportamento,	nossa
percepção,	nossas	sensações,	nosso	pensamento	e	nossa	vida	social.163
O	indivíduo	torna-se	transparente,	etiquetado	e,	em	certo	sentido,	cego	à
alteridade	em	razão	do	poder	numérico	e	do	rápido	crescimento	das	inovações
tecnológicas	que	se	referem	às	informações	e	à	inteligência	artificial.
Como	os	homens	iludidos	por	sombras	projetadas,	que	estão	descritos	na
Alegoria	da	Caverna	de	Platão,	as	pessoas	são	levadas	a	assumir	posturas
diferentes	daquelas	que	teriam	se	não	estivessem	seduzidas	e	dependentes	da
realidade	projetada	pelas	empresas	que	exercem	o	“poder	numérico”164	e	que
compõem	a	indústria	dos	megadados	(big-data).	Trata-se	de	um	exercício	de
poder	ligado	a	um	projeto:	remodelar	a	humanidade	com	finalidade	política	e
econômica.	Esse	projeto	normativo	passa	por	fazer	o	mundo-da-vida
subordinado	ao	mundo	das	aparências	produzidas	e	das	informações
selecionadas	a	partir	do	poder	numérico.	O	poder	numérico,	para	alcançar	seus
objetivos,	gera	obstáculos	à	capacidade	humana	de	ter	consciência	das	suas
próprias	condições	de	existência.
Não	são	poucos	os	sintomas	sociais	desse	novo	modo	de	produzir	normas.	Ao
contrário	da	promessa	de	acabar	com	a	solidão	e	fomentar	a	solidariedade,
plataformas	como	o	Facebook	e	o	Twitter	formam	pessoas	incapazes	de	serem
felizes	fora	do	mundo	virtual,	indivíduos	fechados	em	si	e	que	procuram	ficar
conectados	permanentemente	aos	computadores.165	O	fenômeno	da	foto-
souvenir,	por	exemplo,	é	a	explicitação	de	que	a	experiência	corporal	(o
presente)	se	tornou	menos	importante	do	que	a	captura	digital	(portanto,
numérica).	Dá-se	com	a	digitalização	do	mundo	uma	perda	da	experiência	e	do
real.	Tem-se	uma	espécie	de	inversão	de	valores	em	que	a	imagem	substitui	a
realidade:	a	“hologramação”	da	vida,	uma	forma	superficial	de	conhecimento
que	desconsidera	a	dimensão	corporal	da	experiência.	Em	apertada	síntese,
pode-se	afirmar	que	o	domínio	da	técnica	numérica	leva	ao	empobrecimento	da
linguagem	e	da	experiência,	bem	como	o	confi-namento	da	imaginação	e	das
capacidades	sociais,	com	o	objetivo	de	produzir	uma	formatação	de	cada	pessoa
em	um	ser	útil	e	inofensivo	ao	sistema	neoliberal.O	poder	numérico	permite	a	captura	e	a	sedução	dos	indivíduos	pela	imagem	de
perfeição	do	virtual,	o	que	leva	ao	desinteresse	ou	à	raiva	da	realidade	(esta,	por
definição,	complexa,	imprevisível	e	com	defeitos).	O	projeto	político	que	faz	uso
do	poder	numérico,	ao	contrário,	procura	atuar	para	dar	fim	à	imprevisibilidade,
à	complexidade	social,	à	consciência	dos	erros	e	à	singularidade	vistas	como
obstáculos.
A	liberdade	e	a	autonomia	prometidas	aos	usuários	da	internet,	bem	como	a
gratuidade	dos	serviços,	nunca	se	realizam:	são	falsas	promessas.	O	limite	da
liberdade	dos	usuários	(inclusive	a	ciência	de	notícias	e	outras	informações)
passa	a	depender	de	um	dispositivo:	o	algoritmo.	Trata-se	de	uma	sequência	de
ações	executáveis	que	visa	obter	um	determinado	resultado,	que	se	refere	mais
ao	projeto	do	programador	do	que	ao	desejo	do	usuário.	De	igual	sorte,	como	diz
o	ditado	popular,	“se	no	neoliberalismo	você	não	paga	por	alguma	coisa,	você
não	é	um	cliente,	mas	é	o	produto”.	Ao	usar	os	serviços	das	empresas	que
exercem	o	poder	numérico,	o	indivíduo	trabalha	para	elas	produzindo	dados	e,
em	certo	sentido,	perde	a	própria	identidade	numérica	(os	dados	que,	em
princípio,	são	inerentes	a	ele	e	que	não	deveríam	ser	explorados
economicamente),	tornando-se	um	produto.
Hoje,	estima-se	que	98%	da	informação	produzida	no	mundo	esteja	sob	a	forma
numérica.	E	o	principal	produtor	de	informações	é	o	internauta.	Cada	internauta
fornece	dados	sobre	o	que	consome	e	faz	diariamente,	sobre	sua	saúde	e	seu
comportamento	amoroso	e	sexual,	sobre	suas	tendências	políticas	e	suas
opiniões.	Graças	a	esse	serviço	voluntário	é	possível	a	“datificação”	que	facilita
projetar	e	controlar	a	vida	(biopolítica).	Da	mesma	maneira	que	o	mais-valor
sobre	a	matéria-prima	do	petróleo	se	origina	do	refinamento,	também	os	dados
fornecidos	pelos	indivíduos	adquirem	mais	valor	ao	serem	refinados	a	partir	de
algoritmos	sofisticados,	que	tratam,	separam	e	classificam	as	informações	de
modo	a	torná-las	atrativas	para	terceiros,	inclusive	o	Estado.	Registre-se	que	são
empresas	privadas	que	exploram	esses	dados	(acredita-se	que	a	Apple,	a
Microsoft,	o	Google	e	o	Facebook	detenham	aproximadamente	80%	das
informações	pessoais	numéricas	da	humanidade),	sob	a	tutela	dos	Estados
Unidos.166
A	identidade	numérica,	após	ser	apropriada	por	empresas,	é	“vendida	várias
vezes	como	se	fazia	nos	mercados	de	escravos”167	ou	utilizada	diretamente	pelos
governos.	Esse	fenômeno	revela	que	o	valor	de	mercado	do	indivíduo	passa	a	ser
medido	mais	pela	identidade	numérica	do	que	pela	força	de	trabalho.	Ao	se
conectar	à	internet,	o	usuário	passa	a	obedecer	determinados	comandos
normativos	e	a	se	submeter	ao	conteúdo	designado	pelo	algoritmo,	o	que
significa	consumir	informações	selecionadas	por	um	terceiro,	mensagens
formatadas	e	relações	sociais	programadas.
Pode-se,	portanto,	afirmar	que	os	algoritmos	interferem	no	modo	de	ser	e,
portanto,	nos	processos	democráticos.	Uma	eleição,	por	exemplo,	pode	ser
decidida	a	partir	da	manipulação	da	opinião	pública	(com	fake	news,	distorções
de	notícias	etc.)	através	de	algoritmos	e	da	segmentação	de	informações	(sem
qualquer	compromisso	com	o	valor	“verdade”)	para	os	diferentes	perfis	de
potenciais	eleitores.	Assim,	o	que	parece	contraditório,	ao	se	analisar	o	conjunto
de	declarações	de	um	candidato,	na	realidade,	pode	representar	uma
comunicação	direcionada	e	capaz	de	atender	a	diferentes	aspirações	de	eventuais
eleitores.	Técnicas	como	a	microtargeting168	e	o	profiling169	facilitam	a
segmentação	das	campanhas	e,	em	certa	medida,	reproduzem,	no	ambiente	da
democracia	formal,	estratégias	militares.	Perfis	são	classificados	a	partir	de
marcadores	sociais,	tais	como	classe	social,	etnia,	identidade	de	gênero,	religião
e	crenças,	e	isso	permite	atacar	os	pontos	sensíveis	de	cada	grupo	de	eleitores	de
uma	forma	mais	eficaz.
Há,	portanto,	uma	questão	ligada	à	formação	da	subjetividade	e	ao	acesso	à
informação.	O	poder	numérico	(espécie	de	psicopoder)	condiciona	os	indivíduos
e	restringe	as	informações	que	cada	um	deve	receber.	Basta	pensar,	por	exemplo,
que	um	usuário	da	internet	não	terá	acesso	aos	mesmos	resultados	de	busca	(em
plataformas	como	o	Google),	nem	aos	mesmos	artigos	e	nem	às	mesmas
publicidades	que	os	outros	usuários.
Para	além	da	exploração,	há	uma	formatação	dos	indivíduos	submetidos	à
internet	e	ao	poder	numérico,	em	um	ambiente	em	que	dados	são	mercadorias	e
a	codificação	funciona	como	lei.	A	codificação	(o	tratamento	e	modificação	de
um	dado,	ou	de	um	conjunto	de	dados,	para	torná-lo	mais	apropriado	a	um	fim
específico)	implementa	valores	e	impõe	normas,	podendo	preservar	ou	levar	à
exclusão	da	liberdade,	fortalecer	ou	extin-guir	vínculos	intersubjetivos	etc.
O	exemplo	da	experiência	narrada	por	Lantana	Sweeper,	professor	de	Harvard,
que,	ao	lançar	seu	nome	no	serviço	de	busca	da	empresa	Google,	sempre	passava
a	receber	anúncios	de	serviços	jurídicos	para	pessoas	acusadas	ou	condenadas
pelo	sistema	penal	(isso	porque	o	algoritmo	não	só	identificava	o	seu	nome
como	o	de	um	afro-americano	como	também	“deduzia”	que	ele	estivesse	com
problemas	jurídico-penais),	demonstra	satisfatoriamente	que	o	universo
numérico-digital	não	é	neutro	e	que,	ao	contrário,	pode	atuar	a	partir	de
preconceitos	racistas.170	Não	se	pode,	ainda,	esquecer	que	tanto	a	sociedade
financeira	quanto	as	sociedades	da	internet,	hoje,	estão	no	coração	da	economia
da	informação	e	que	seus	interesses	econômicos	tendem	a	condicionar	as	opções
postas	aos	cidadãos,	reduzidos	a	usuários	da	internet.
Percebe-se,	pois,	que	a	neutralidade	e	a	imparcialidade	no	ambiente	da	internet
são	impossíveis,	uma	vez	que	os	dados	são	codificados	a	partir	dos	interesses	da
indústria	dos	megadados	e	o	algoritmo	é	direcionado	para	determinar	quais
informações	ou	artigos	vão	ter	maior	visibilidade	para	cada	usuário	ou	grupo	de
usuários.	Pode-se,	portanto,	afirmar	que,	na	vida	digital,	existe	um	filtro	que
atende	a	determinados	fins	(políticos	e	econômicos),	capaz	de	ampliar	ou	não,
segundo	uma	lógica	própria	(e	programada),	o	impacto	de	uma	ou	outra
informação,	de	uma	ou	outra	opinião	política	etc.	Dentro	da	lógica	da
racionalidade	neoliberal,	para	os	interesses	das	empresas	de	big	data,	a
democracia	e	os	valores	democráticos	são	irrelevantes,	quando	não	obsoletos,	e
podem	ser	afastados	sempre	que	representarem	obstáculos	à	idealizada
governabilidade	algorítmica	(que,	como	toda	governabilidade,	é	também
essencialmente	política).
Costuma-se	afirmar	que	a	revolução	numérica	se	insere	dentro	da	ideologia	do
liberalismo	informacional.171	mais	precisamente	se	revela	um	fenômeno
neoliberal	no	campo	da	apropriação	e	do	uso	da	tecnologia	da	informação,	na
medida	em	que	o	intervencionismo	estatal	em	favor	do	mercado	se	faz	presente
desde	a	criação	da	internet.	Vale	registrar	que,	para	parte	considerável	dos
empreendedores	do	Silicon	Valley,	o	Estado	representa	um	obstáculo	e	é	o
inimigo	a	ser	superado	(há,	inclusive,	quem	defenda	a	criação	de	“nações	start-
up").	Diante	desse	quadro,	não	há	que	se	estranhar	a	presença	de	Path	Friedman,
neto	do	economista	neoliberal	Milton	Friedman,	nos	quadros	da	empresa
Google,	e	nem	os	seus	discursos	contra	a	“ineficácia	do	governo”,	o	sistema
político	“esclerosado”,	as	regulamentações	sobre	o	uso	de	dados	e	a
incapacidade	da	democracia	se	“adaptar”	às	necessidades	do	“progresso”.172
Se	um	Estado	capaz	de	impor	limites	ao	poder	numérico	é	indesejado,	por	outro
lado	a	história	da	indústria	do	big	data	está	intimamente	ligada	aos	interesses	do
Estado.	Vale	lembrar	que	a	rede	de	computadores	(internet)	nasce,	em	meados
dos	anos	1980,	dentro	dos	laboratórios	das	forças	armadas	estadunidenses,
tornando-se	um	sistema	tentacular	que	se	alastrou	por	todo	o	planeta	e	criou
dependências	das	mais	variadas	formas.	Uma	dependência	que	cresceu	com	a
possibilidade	dessa	rede	de	computadores	ser	acessada	através	de	aparelhos	de
telefonia	móvel	(que	permitem,	inclusive,	o	mapeamento	do	deslocamento	dos
usuários)	e	com	o	surgimento	de	dispositivosde	comunicação	via	internet,	como
o	WhatsApp	e	o	Telegram.
O	Estado	sempre	foi	também	o	principal	incentivador	e	cliente	da	indústria	da
vigilância	eletrônica	(em	especial,	depois	do	atentado	às	Torres	Gêmeas,	em
Nova	York,	no	ano	de	2001).	A	vigilância	a	partir	do	poder	numérico	se	tornou
um	modelo	seguido	nos	Estados	Unidos	e	em	grande	parte	da	Europa	(o	que	para
esses	países,	em	termos	geopolíticos,	significa	ficar	em	grande	medida
submetidos	ao	conglomerado	de	segurança	norte-americano),	embora	os	vários
atentados	posteriores	realizados	nesses	países	tenham	revelado	que	a	segurança
prometida	não	foi	concretizada,	mesmo	diante	do	alto	custo	em	termos	de
liberdades	públicas,	em	especial	do	sacrifício	do	direito	à	intimidade.
Ainda	sobre	a	relação	entre	segurança,	terrorismo	e	big	data,	não	se	pode
esquecer	que	as	mesmas	empresas	que	coletam	e	refinam	os	dados	a	serem
usados	na	tentativa	de	evitar	novos	atentados	são	também	responsáveis	por
fornecer	o	instrumental	necessário	à	difusão	de	teses	antidemocráticas,	violentas
e	que	estimulam	o	terrorismo.	Grupos	como	o	Al-Qaeda	e	o	Daesh,	por	exemplo,
não	deixaram	de	utilizar	a	internet	para	recrutar	militantes	e	difundir	sua
ideologia.	Como	percebem	Marc	Dugain	e	Christophe	Labbé,	os
[...]	principais	vetores	para	a	eclosão	mundial	da	propaganda	jihadista,	os	big
data	pretendem	ao	mesmo	tempo	fornecer	o	antídoto	através	da	coleta	massiva
de	informações	para	as	agências	do	Estado.	É	o	que	se	chama	no	jargão	dos
negócios	de	uma	transação	“ganha-ganha”.173
Os	Estados	Unidos,	hoje,	exercem	o	controle	da	infosfera.	Dá-se,	nesse	campo,
uma	espécie	de	consórcio	entre	o	Estado,	através	de	agências	como	o
Departamento	de	Comércio	americano	e	as	empresas	que	exploram	os	dados
coletados	dos	indivíduos.	Os	detentores	do	poder	econômico	que	atuam	na
infosfera	representam	“os	novos	Rockefellers.	Aqueles	a	quem	os	Estados
Unidos	delegam	a	exploração,	a	estocagem	e	o	refinamento	dos	depósitos
numéricos”.!7!	Alguns	efeitos	da	transformação	produzida	pelas	empresas	que
compõem	a	indústria	dos	big	data	se	fazem	sentir	de	maneira	acentuada	na
sociedade	e	merecem	ser	objeto	de	atenção.	A	coleta,	o	tratamento	e	a	utilização
de	dados,	bem	como	a	produção	de	informações	(sem	qualquer	relação
necessária	com	o	valor	verdade),	têm	levado	a	população	a	um	estado	de
docilidade,	de	servidão	voluntária,	de	transparência,	de	polarizações,	de
desaparição	da	intimidade	e	de	condicionamento	da	liberdade.	Dugain	e	Labbé
afirmam	que	a	revolução	numérica	instaurou
[...]	um	processo	de	desnudar	o	indivíduo	em	proveito	de	um	pequeno	número	de
multinacionais,	americanas	na	maior	parte,	os	famosos	big	datas.	Sua	intenção	é
a	de	transformar	radicalmente	a	sociedade	em	que	nós	vivemos	e	nos	tornar
definitivamente	dependentes.175
A	reaproximação,	e	consequente	confusão,	entre	poder	político	e	o	poder
econômico	explica	a	utilização	dos	dados	produzidos	e	tratados	por	essas
empresas	na	produção	e	na	internalização	da	normatividade	neoliberal.	A
evolução	tecnológica,	ainda	que	incentivada	e	tutelada	pelo	Estado,	“se	inscreve
dentro	das	estratégias	das	empresas,	elas	mesmas	inseridas	nos	processos	de
mudanças	mais	globais”.176	Se	os	governos	e	as	empresas	sempre	utilizaram
informações	e	dados,	o	regime	de	quantificação	que	surge	com	o	big	data
representa	um	marco	de	ruptura	com	o	passado	diante	da	potencialização	da
capacidade	de	captura,	armazenamento,	classificação	e	seleção	desses	dados.
Com	o	big	data,	os	dados	se	tornam	uma	fonte	econômica,	ao	mesmo	tempo	que
assumem	a	forma	de	registros	de	uma	variedade	enorme	dos	comportamentos
individuais,	bem	como	circulam	em	atenção	aos	interesses	das	empresas	e	do
governo.177	Em	apertada	síntese,	enquanto	o	governo	faz	uso	do	mercado,	mais
precisamente	do	setor	do	big	data,	para	controlar	a	população	em	atenção	aos
interesses	do	próprio	mercado,	os	detentores	do	poder	econômico	lucram.
A	maior	eficiência	prometida	pela	cultura	numérica,	que	passa	a	ser	percebida
como	um	vetor	de	progresso,	de	maiores	facilidades	e	de	crescimento
econômico,	leva	ao	velamento	de	que	o	numérico-digital	reforça	a	precarização
dos	indivíduos	(e	das	relações	de	trabalho),	o	empobrecimento	da	linguagem,	a
privatização	dos	serviços,	a	vigilância	generalizada	e	a	tecnocratização	dos
governos.	Pode-se,	portanto,	falar	de	uma	espécie	de	determinismo	tecnológico,
produzido	por	empresas	e	governos	que	exploram	as	tecnologias	de	informação
e	de	comunicação	nas	sociedades,	que	se	soma	às	outras	técnicas	de	biopoder.
A	estratégia	de	coleta	dos	dados	necessários	à	exploração	econômica	dos
indivíduos,	à	governança	das	cidades	e	ao	controle	da	população	é	típica	das
modernas	técnicas	de	biopoder,	que	surgem	e	se	multiplicam	a	partir	da
racionalidade	neoliberal.	Nelas,	o	explorado,	sem	perceber,	colabora	para	a	sua
própria	exploração.	Durante	todo	o	dia,	pessoas	conectadas	à	rede	de
computadores	fornecem	dados	sobre	seus	gostos,	suas	prioridades,	sua	saúde,
seu	grau	de	instrução,	seus	estados	psicológicos,	suas	ideologias,	seus	projetos,
suas	ações	etc.	O	indivíduo,	sem	saber,	trabalha	para	as	empresas	de	big	data,
emitindo	cada	vez	mais	dados,	inclusive	durante	o	período	que	deveria	ser
destinado	ao	descanso.	A	produção	desses	dados	é,	então,	tratada	e	coletada	em
computadores	que	possuem	capacidade	de	armazenamento	e	cálculos	cada	vez
maiores,	o	que	permite	realizar	associações,	etiquetamentos	sociais	e	correlações
das	mais	audaciosas	às	mais	improváveis,	bem	como	projeções	e	cálculos
governamentais.	Busca-se	com	isso	criar	uma	espécie	de	verdade	numérica	com
o	objetivo	de	simplificar	o	mundo,	fazendo	desaparecer	toda	a	imprevisibilidade
e	demais	negatividades	que	atrapalhavam	os	negócios.
A	verdade	numérica,	que	integra	o	regime	de	verdade	neoliberal,	tornou-se	uma
mercadoria	que	é	explorada	por	empresas	especializadas,	em	ramos	que	variam
da	potencialização	das	vendas	de	um	produto	à	prevenção	de	crimes	através	da
predição	das	condutas	reprováveis	(como	promete,	por	exemplo,	o	aplicativo
PredPol).	O	preço	a	pagar	é	a	redução	drástica	e	o	quase	desaparecimento	da
intimidade,	da	esfera	indevassável	da	vida.178	Curioso	notar	que	o	fim	dos	anos
2000	é	marcado	tanto	por	mais	uma	crise	gerada	pelo	modelo	capitalista	quanto
pela	eclosão	da	revolução	numérica.	No	ano	de	2007,	a	empresa	Apple	lançou	o
iPhone,	um	aparelho	de	telefonia	celular	que	produz	uma	ruptura	no	sistema	de
comunicação	tradicional	ao	permitir	a	conexão	quase	permanente	à	internet	e	o
acesso	em	qualquer	momento	do	dia	a	serviços	e	informações:	não	por	acaso,
rapidamente,	“o	smartphone	se	torna	o	objeto	e	a	tecnologia	de	base	do	cidadão
consumidor	urbano”.179	Em	2008,	foi	lançada	a	ideia	de	Smart	Cities,	que
prometiam	tornar	a	gestão	urbana	mais	eficiente	através	da	tecnologia,	em
especial	da	utilização	de	dados	coletados.	Também	em	2008,	foi	criada	a
plataforma	Airbnb,	enquanto,	em	2009,	é	fundada	a	Uber,	sedimentando	o
fenômeno	do	sharing	economy.180
A	partir	do	digital	não	só	o	mercado	cresce	e	é	otimizado	como	também	surgem
novos	modos	de	governar.181	Por	um	lado,	o	indivíduo	integralmente	conectado
passa	a	viver	“completamente	nu	sob	o	olhar	daqueles	que	coletam	sem	cessar
informações	sobre	ele”:182	por	outro,	surgem	novas	técnicas	de	governança	a
partir	da	verdade	numérica.	Os	dados	coletados	e	tratados	passam	a	ser	um
elemento	central	tanto	para	o	controle	social	quanto	para	a	transformação	do
modo	de	governar	e	do	exercício	do	poder.	Não	por	acaso,	a	indústria	do
numérico	foi	colocada	sob	tutela	das	agências	de	informação	dos	Estados
Unidos,	o	que	acabou	facilitado	pelo	fato	do	mercado	de	dados	massivos	ser	um
setor	econômico	ultraconcentrado	nas	mãos	de	poucos.	Nesse	contexto,	a
vigilância	e	o	controle	das	condutas	de	cada	indivíduo	tornam-se	a	regra,	sem
que	as	pessoas	tenham	consciência	ou	condições	de	resistir	à	invasão	da
privacidade.	A	diversão,	a	saúde	e	a	própria	segurança	tornaram-se	o	pretexto
oficial	para	a	transparência,	a	produção	de	dados	e	o	desaparecimento	da
intimidade.
Com	a	revoluçãode	forma	isolada,	na	tentativa	de	fragmentar	a	realidade
para	torná-la	incompreensível,	são	encadeados	a	outros	fatos	e	fazem	parte	de
projetos	que	precisam	ser	compreendidos.	Abdicar	de	perceber	como	uma
determinada	racionalidade	condiciona	os	imaginários	e	a	normatividade,
significa	naturalizar	as	diversas	opressões	e	as	novas	formas	de	dominação,	bem
como	aceitar	ser	tratado	como	gado	pelos	donos	do	poder.
A	ilimitação	capitalista	é	incompatível	com	a	finitude	dos	recursos	naturais.	A
desconfiança	e	o	ódio	gerados	pela	lógica	da	concorrência	acabam	por
contaminar	as	relações	humanas.	Impõe-se,	então,	uma	verdadeira	ruptura	com	o
atual	modo	hegemônico	de	ver	e	atuar	em	relação	ao	mundo,	às	coisas	e	às
pessoas.
A	crise	global,	sanitária	e	social	provocada	pela	Covid-19	em	2020	revelou	as
consequências	das	políticas	econômicas	neoliberais	das	décadas	anteriores	sobre
os	corpos	vivos.	A	opção	política	e	ideológica	por	processos	de	privatização	e
desmantelamento	dos	sistemas	nacionais	de	cuidado	e	atenção	à	saúde	produziu
mortes	e	potencializou	o	sofrimento	da	população.	A	aproximação	entre
neoliberalismo	e	necropolítica	tornou-se	ainda	mais	evidente.
O	modo	neoliberal	de	compreender	e	de	atuar	no	mundo	passa	necessariamente
por	decisões	que	autorizam	a	morte.	Porém,	grande	parte	da	população
permanece	sem	compreender	a	relação	entre	o	crescimento	do	número	de	mortos
e	as	opções	políticas	condicionadas	pelo	neoliberalismo.	Isso	porque	foi
construída	uma	espécie	de	véu	sobre	os	mecanismos	de	sociabilidade,	de
produção	e	de	reprodução	do	capital	e	da	vida,	bem	como	sobre	as	opções
políticas	neoliberais,	que	passaram	a	ser	vistos	como	naturais	e	inevitáveis.
Tanto	as	vítimas	de	violência	policial	quanto	os	pacientes	sem	tratamento
adequado	nos	hospitais	públicos	são	também	efeitos	de	uma	determinada
racionalidade,	que	produz	uma	rede	de	poder	que	extrapola	os	limites	legais	e
faz	com	que	parcela	da	população	passe	a	ser	etiquetada	de	“matável”.	A
racionalidade,	hoje	hegemônica,	busca	o	lucro	sobre	os	corpos,	os	mortos,	as
marco
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racionalidade,	hoje	hegemônica,	busca	o	lucro	sobre	os	corpos,	os	mortos,	as
crises,	os	desastres,	as	pandemias	etc.
A	crise	sanitária,	econômica	e	social	global	de	2020,	porém,	abre	um	horizonte
de	possibilidades.	A	palavra	“crise”	(krísis),	aliás,	aparece	na	Grécia	como	um
termo	médico	para	designar	o	momento	decisivo	em	que	se	define	se	um
paciente	doente	vai	morrer	ou,	a	partir	da	própria	doença,	se	curar.	Diante	de
cada	crise,	que	sempre	é	a	consequência	de	um	determinado	modo	de	ver	e	atuar
no	mundo,	diversos	caminhos	e	possibilidades	se	abrem.	Pode-se,	por	exemplo,
insistir	em	fazer	do	Estado	um	instrumento	a	serviço	do	mercado	e	dos
detentores	do	poder	econômico,	prestando	auxílio	financeiro	a	empresários	e	a
instituições	financeiras,	restringindo	a	liberdade	dos	cidadãos	em	nome	do	medo
da	contaminação,	eliminando	os	espaços	de	intimidade,	reduzindo	a	liberdade
das	pessoas	e	aumentando	o	controle	biopolítico	sobre	a	população.	Mas,	diante
de	um	quadro	de	crise,	também	se	pode	construir	saídas	novas	e	originais,
revolucionárias,	a	partir	da	construção	coletiva	de	um	outro	modo	de	ver	e	atuar
no	mundo.
A	premissa	deste	livro	é	a	de	que	é	preciso	apostar	em	uma	verdadeira
revolução,	e,	para	tanto,	será	necessário	deixar	de	olhar	o	presente	com	os	olhos
do	passado	a	partir	de	idéias,	imagens	e	normas	que	atendem,	prioritariamente,
aos	interesses	dos	detentores	do	poder	econômico.
É	a	percepção	do	absurdo	e	da	injustiça	que	leva	à	ação	e	permite	transformar	o
mundo.	Por	isso,	é	necessário,	antes	de	tudo,	buscar	perceber	e	compreender	o
que	está	acontecendo,	em	favor	de	quem	o	poder	é	exercido,	quais	são	os	valores
em	disputa,	quem	está	lucrando	com	o	caos,	o	que	é	escondido	da	população,
como	funciona	atualmente	o	sistema	de	exploração	etc.
O	objetivo	deste	ensaio,	portanto,	é	ajudar	no	desvelamento	e	na	compreensão
desse	modo	de	ver	e	atuar	no	mundo	que	levou	à	naturalização	do	absurdo.	Mas
não	só.	Busca-se,	ainda,	fornecer	nas	próximas	páginas	algumas	informações
que	serão	úteis	à	transformação	necessária	e	urgente	do	Estado,	da	sociedade	e
do	indivíduo.	Para	tanto,	procurou-se	explicar	a	racionalidade,	a	normatividade	e
o	imaginário	que	são	responsáveis	pelo	sofrimento,	pela	desigualdade	e	pelo
extermínio	de	parcela	da	população.	Compreender	“como	chegamos	até	o	fim	do
poço”,	portanto,	é	condição	para	se	revoltar,	agir,	inventar	novas	vias,	criar	um
novo	imaginário	e	produzir	novas	práticas,	pois	já	não	há	mais	tempo	a	perder:	a
manutenção	desse	quadro	levará	à	destruição	da	natureza	e	da	humanidade.
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i.	RACIONALIDADE
NEOLIBERAL
1.1.	Racionalidade	e	poder:	o	que	pode?
Em	1799,	o	pintor	espanhol	Francisco	de	Goya	produziu	uma	gravura	a	que	deu
o	nome	de	O	sono	da	razão	produz	monstros.	Trata-se	de	uma	representação	do
artista	dormindo,	prestes	a	ser	invadido	por	criaturas	noturnas	e	perigosas
(morcegos,	linces	etc.).	A	imagem,	tipicamente	iluminista,	anuncia	os	riscos	de
se	afastar	da	razão.	Infelizmente,	e	em	que	pese	o	otimista	presente	nessa	obra	de
Goya,	manter-se	acordado	não	é	suficiente	para	evitar	a	produção	de	monstros.
Por	vezes,	as	criaturas	perigosas	e	o	horror	surgem,	justamente,	do	excesso	de
razão,	como	demonstra	a	experiência	nazista.	E	isso	só	é	possível	porque	existe
uma	relação	necessária	(e	condicionante)	entre	o	poder	e	a	racionalidade.
A	ausência	de	limites	e	o	abuso	de	poder	também	atendem	a	uma	racionalidade.
Em	outras	palavras,	todo	poder	é	exercido	a	partir	de	um	determinado	modo	de
compreender	o	mundo.	É	fundamental,	portanto,	buscar	compreender	a	relação
entre	a	forma	como	o	poder	é	exercido	e	o	modo	de	ver	e	atuar	no	mundo	que
prevalece	em	um	determinado	contexto.	A	maneira	como	o	poder	atinge	o	corpo
de	uma	pessoa	ou	produz	uma	mudança	na	realidade	depende	sempre	de	um
modo	específico,	que	se	pretende	racional	e	aceitável,	de	se	relacionar	com	o
mundo.	Tanto	o	poder	sobre	a	vida	exercido	por	um	oficial	nazista	como	Adolf
Eichmann	quanto	a	mais	singela	manifestação	de	poder	em	um	regime
formalmente	democrático	(o	poder	exercido,	por	exemplo,	pelo	guarda	da
esquina)	estão	condicionados	por	uma	racionalidade,	um	modo	de	entender	o
mundo	que	permite,	por	exemplo,	que	o	mal	seja	transformado	em	algo	banal	ou
que	o	uso	da	violência	seja	percebido	como	algo	legítimo.
O	exemplo	da	racionalidade	que	permitiu	o	surgimento	do	movimento	nacional-
socialista,	que,	como	se	verá,	apresenta	várias	semelhanças	com	a	racionalidade
que	hoje	é	hegemônica,	pode	ser	útil	para	explicar	a	relação	entre,	de	um	lado,
um	determinado	modo	de	pensar	e	atuar	no	mundo	e,	de	outro,	o	exercício
concreto	do	poder.
A	racionalidade	nazista,	que	começou	a	se	destacar	na	década	de	vinte	do	século
passado	na	Alemanha,	levou	a	uma	nova	visão	de	mundo	a	partir	de	uma	espécie
de	“revolução	cultural”.!	Com	ela,	algumas	práticas,	antes	tidas	por	inaceitáveis
e	interditadas	(como	o	assassinato	de	crianças,	idosos	e	doentes),	passaram	a	ser
marco
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e	interditadas	(como	o	assassinato	de	crianças,	idosos	e	doentes),	passaram	a	ser
admitidas	e	justificadas.	Em	outras	palavras,	uma	nova	racionalidade	produz
uma	mutação	de	sentido,	de	cultura	e	de	norma.	Cada	racionalidade,	portanto,
estabelece	os	novos	limites	do	aceitável	e	a	esfera	do	absurdo.
Para	muitos	o	nazismo	representa	a	falta	de	sentido.	Várias	das	vítimas	da
violência	nazista	morreram	atordoadas	pela	falta	de	sentido	e	pelo	desamparo
radical.	Em	torno	do	nazismo,	ainda	hoje	vigora	um	hiato	de	sentido	que
provavelmente	nunca	terá	fim,	mas	isso	não	impede	de	se	identificar	uma
racionalidade	que	fazia	com	que	a	maioria	dos	alemães	aceitassem	o	absurdo	e
os	nazistas	percebessem	os	seus	atos	como	legítimos,	justos	e,	muitas	vezes,
naturais	e	necessários.	Como	ocorre	com	a	racionalidade	neoliberal,	atualmente
hegemônica,	a	racionalidade	nazista	levava	seres	humanos	a	perceberem	outros
seres	humanos	não	só	como	coisas	ou	ferramentasnumérica,	as	pessoas	passaram	a	ter	as	vontades	condicionadas
por	informações	e	dados	selecionados	por	terceiros	com	motivação	comercial,
política	e	ideológica.	As	pessoas	encontram-se	presas	à	rede	(e	ao	fato	de	terem
se	tornado	objetos	de	empresas	que	buscam	o	lucro),	mas	de	uma	maneira
indolor,	sutil	e	até	agradável,	seduzidas	pela	tecnologia,	enquanto	a	sociedade
fica	reduzida	a	uma	espécie	de	“nuvem	volátil	de	indivíduos	conectados”,183
embora	cada	vez	mais	sozinhos.
Os	algoritmos	e	a	cultura	numérica	criam	bolhas	de	interesse	que	favorecem	o
distanciamento,	a	incomuni-cabilidade	e	a	polarização	da	sociedade,	o	que
também	tem	uma	funcionalidade	política	e	é	útil	aos	detentores	do	poder
político.	Como	percebeu	Byung-Chul	Han,	o	numérico	faz	desaparecer	o
distanciamento,	a	curiosidade	e,	consequentemente,	o	respeito	pelo	outro.	Em
lugar	do	distanciamento	respeitoso,	surge	uma	espécie	de	intromissão	voyeurista
combinada	como	uma	permissão	para	ultrapassar	os	limites	tradicionais	na
comunicação,	o	que	está	ligado	também	ao	desaparecimento	das	distâncias	e	das
hierarquias	entre	o	emissor	e	o	receptor	das	informações	e	das	mensagens.	Essa
redução	artificial	das	distâncias	reforça	a	interpenetração	neoliberal	entre	as
esferas	pública	e	privada.
Ainda	segundo	Han,	o	respeito	é	a	pedra	angular	da	esfera	pública184	e	funciona
como	condição	de	possibilidade	tanto	de	um	espaço	público	quanto	da	percepção
de	um	comum.	Só	há	debate	ou	reconhecimento	de	um	espaço	comum	se	existir
o	respeito	ao	outro.	O	numérico-digital,	ao	contrário,	favorece	ondas	de
indignação	e	de	ódio	contra	o	pensamento	diferente.	E	essas	ondas	podem	ser
manipuladas	com	finalidade	política.	Trata-se	de	um	fenômeno	que	cresce
acobertado	pela	distância	de	uma	forma	de	comunicação	em	que	é	impossível
olhar	para	os	olhos	do	interlocutor.	Nas	redes	sociais	não	há	espaço	para	o
diálogo	ou	para	o	debate	público,	uma	vez	que	a	comunicação	numérica,	em
regra,	se	dá	como	a	“expressão	instantânea	da	reação	emocional”.185	sem	tempo
para	elaborações	ou	reflexões	sobre	o	conteúdo	do	que	é	escrito	ou	falado.
2.4-	As	normas	neoliberais
A	normatividade	neoliberal	faz	do	indivíduo	um	objeto,	uma	marionete,	dos
detentores	do	poder	econômico.	O	sujeito	neoliberal,	entre	o	consumidor	acrítico
e	o	empresário-de-si,	torna-se	o	objeto	privilegiado	de	políticas	públicas	e
cálculos	de	interesses.	Essa	mesma	normatividade	produz	a	modificação	de
valores	e	a	desfiguração	de	categorias	que	as	pessoas	haviam	se	acostumado	a
fazer	uso.	Assim,	por	exemplo,	o	valor	do	especialista	em	um	determinado
assunto,	pouco	a	pouco,	desaparece	em	plataformas	e	outros	espaços	em	que	a
opinião	acabou	por	substituir	o	conhecimento.
A	ordem,	o	sistema	e	o	respectivo	projeto	político	são	assegurados	pela	norma.	E
pelos	detentores	do	poder	que	produzem	e	dão	sustentação	à	normatividade.	O
poder	da	norma	se	faz	sentir	na	configuração	social,	na	naturalização	dos
fenômenos	(ainda,	que	absurdos),	em	todos	os	setores	e	atividades.	Doenças
como	a	depressão	e	o	burnout	são	sintomas	do	potencial	coercitivo	das	normas
incorporadas	pelo	indivíduo	sob	o	neoliberalismo.
Como	se	viu,	a	normatividade	neoliberal	leva	o	indivíduo	a	se	perceber	como
uma	espécie	de	empresa,	como	um	empreendedor	de	si	mesmo,	o	que	o	torna
“incapaz	de	se	relacionar	livre	de	qualquer	propósito”.186	Dito	de	outra	forma,	a
normatividade	neoliberal	produz	apenas	relações	baseadas	em	interesses	e
perspectivas	de	lucro.	Não	se	trata	de	um	fenômeno	novo,	mas	de	um	quadro
potencializado	pela	normatividade	neoliberal.	Marx	já	identificava	na	ideia	de
liberdade	burguesa	um	potencial	de	manipulação	e	de	bloqueio	às	relações
desinteressadas,	que	são	a	base	do	desenvolvimento	e	da	realização	pessoal	em
uma	comunidade.187	Para	Marx,	a	liberdade,	construída	à	imagem	e	semelhança
da	livre	concorrência,	retrata	apenas	“a	relação	do	capital	consigo	mesmo	como
outro	capital,	i.e.,	o	comportamento	real	do	capital	como	capital”.188	E	isso
porque,	na	“livre	concorrência,	não	são	os	indivíduos	que	são	liberados,	mas	o
capital”.	189
A	normatividade	neoliberal,	introjetada	a	partir	de	técnicas	e	procedimentos
destinados	a	dirigir	as	condutas,	implementada	em	vários	domínios	e	através	de
diferentes	meios	(escola,	família,	televisão,	redes	sociais,	igrejas	etc.),	produz
efeitos	em	várias	dimensões	e	levou	o	projeto	neoliberal	ao	sucesso	político,
com	a	rea-proximação	incestuosa	entre	o	poder	político	e	o	poder	econômico;
econômico,	com	a	progressiva	substituição	do	capitalismo	produtivo	pelo
capitalismo	improdutivo,	como	se	verifica	a	partir	do	crescimento	do	capitalismo
financeiro	globalizado;	social,	com	o	processo	de	mutação	do	simbólico	e	a
flexibilização	dos	limites	éticos	e	jurídicos,	o	desaparecimento	das
solidariedades	coletivas,	a	radicalização	da	polarização	entre	ricos	e	pobres	e	o
desaparecimento	dos	laços	sociais;	e	subjetivo,	como	demonstra	a	transformação
do	cidadão	crítico,	solidário	e	ciente	de	seus	limites	em	um	potencial
consumidor	acrítico,	egoísta	e	tendencialmente	perverso	(que	goza	ao	violar
limites),	quando	não	psicótico	(que	não	reconhece	a	existência	de	limites).
A	normatividade	neoliberal	permite	um	autogoverno	do	indivíduo	adequado	ao
projeto	neoliberal	de	buscar	o	lucro	sem	limites.	Tem-se	uma	sujeição	pela
liberdade	ou,	mais	precisamente,	uma	sujeição	a	partir	daquilo	que	o	indivíduo
acredita	ser	a	liberdade:	um	estado	manipulado	e	extremamente	restrito,	que	é
configurado	a	partir	da	lógica	da	concorrência.	Essa	mesma	normatividade
determina	ações	do	Estado	em	defesa	do	mercado.	Foram	os	Estados,	aliás,	os
principais	propagadores	da	racionalidade	neoliberal,	na	medida	em	que	adotaram
e	universalizaram	uma	visão	de	mundo	e	ações	concretas	construídas	a	partir	da
concorrência	e	do	modelo	de	empresa.	Da	mesma	maneira,	foram	políticas
estatais	que	permitiram	tanto	a	expansão	do	rentismo	quanto	o	financiamento	da
dívida	pública.
A	razão-mundo	neoliberal,	como	já	se	viu,	se	identifica	com	uma	normatividade
que	se	origina	da	lógica	da	concorrência	e	do	conceito	de	interesse,	e	se	adapta
com	facilidade	a	diferentes	tradições	e	contextos.	É	esse	núcleo	fundamental
presente	na	teoria,	na	política	econômica,	na	forma	de	governo	e	na	ideologia
neoliberal	que	permite	identificar	uma	normatividade	e	um	imaginário	que	se
caracterizam	por	buscar	condicionar	todo	o	mundo-da-vida,	“estendendo	a	lógica
do	capital	a	todas	as	relações	sociais	e	a	todas	as	esferas	da	vida”.190	Pode-se,
numa	tentativa	de	resumir	o	sistema	normativo	neoliberal,	afirmar	que	o	seu
núcleo	é	composto	de	duas	normas	que	servem	de	mandamentos	nucleares	de
todo	o	complexo	normativo:	a)	não	deve	existir	limites	à	satisfação	dos
interesses;	e	b)	os	outros	devem	ser	tratados	como	concorrentes	ou	inimigos	a
serem	derrotados.
Essas	duas	normas	geram	uma	imagem	que	é	a	base	de	todo	o	imaginário
neoliberal:	tudo	e	todos	são	objetos	negociáveis	ou	descartáveis	na	busca	por
lucro.	A	consagração	normativa	da	ilimitação	e	da	ideologia	do	concorrente-
inimigo	estabelecem	a	base	de	sustentação	de	um	sistema	que,	com	o	objetivo	de
inimigo	estabelecem	a	base	de	sustentação	de	um	sistema	que,	com	o	objetivo	de
se	manter,	está	programado	para	destruir	qualquer	óbice	ou	ameaça.	Um	sistema
que	exige	um	modo	específico,	positivo	e	original,	de	exercício	do	poder:	em
que	o	poder	político	serve	ao	poder	econômico.	Um	sistema	composto	de
instituições	estatais	e	privadas,	políticas	e	financeiras,	bem	como	de	dispositivos
econômicos,	legislativos,	administrativos	(policiais,	inclusive)	e	judiciários.	Um
sistema	que	exige	o	intervencionismo	estatal	e	uma	produção	de	subjetivação
direcionados	à	construção	e	à	manutenção	da	ordem	neoliberal.
Não	se	pode	esquecer	que	uma	das	principais	manifestações	da	governabilidade
neoliberal	se	dá	através	da	concretização	da	lógica	disciplinar.	É	preciso
controlar,	punir	e,	se	for	necessário,	eliminar	qualquer	resistência	ao	sistema	e	à
normatividade	neoliberal.	São	potenciais	objetos	das	medidas	disciplinares	todos
aqueles	que	nãointeressam	à	sociedade	neoliberal,	desde	os	pobres	(que	não	têm
poder	de	consumo	e,	muitas	vezes,	representam	gastos	para	o	Estado)	aos
inimigos	políticos	que	defendem	alternativas	ao	modelo	neoliberal	(construído,
no	imaginário	neoliberal,	como	o	único	possível).	Esse	quadro	normativo,	que
autoriza	o	exercício	do	poder	disciplinar	e	do	poder	punitivo,	é	composto
também	por	leis	nacionais,	tratados,	pactos,	contratos	privados,	acordos
internacionais,	regras	de	direito	comercial	internacional,	dentre	outras	normas
corpori-ficadas	em	documentos	públicos	e	privados,	que	se	submetem	à
vigilância	tanto	de	governos	quanto	de	organismos	internacionais	(Organização
Mundial	do	Comércio,	Fundo	Monetário	Internacional,	Banco	Mundial	etc.),
bem	como	de	agências	privadas	de	classificação	de	riscos	econômicos,	todas	a
exercer	a	“função	de	polícia	econômica”.191
2.5.	Normatividade	neoliberal:	o	conceito	de	interesse
Um	dos	conceitos	básicos	à	compreensão	da	normatividade	neoliberal	é	o	de
interesse.	Por	interesse	entende-se	a	vontade	de	obtenção	daquilo	que	se	quer
(um	bem	ou	vantagem).	Essa	vontade,	como	lembra	Michel	Foucault,	pode	ser
considerada	como	do	mesmo	tipo	que	a	vontade	jurídica	ou,	ao	menos,	pode	ser
considerada	como	conciliável	em	relação	a	ela.192	O	contrato,	instrumento	que
gera	a	obrigação	entre	as	partes	que	a	ele	aderem	(justamente,	por	estarem
movidas	por	interesses),	surge	dessa	vontade.	O	próprio	mito	do	contrato	social
deriva	da	ideia	de	que,	também	no	estado	de	natureza,	havia	a	consciência	da
necessidade	de	se	preservar	alguns	interesses,	mesmo	que	para	isso	fosse
necessário	o	sacrifício	de	outros,	o	que	justificava	a	criação	do	Estado.	O	sujeito
jurídico	é,	portanto,	também	o	sujeito	do	interesse	que,	pouco	a	pouco,	passou	a
ser	reconhecido	como	o	sujeito	racional,	o	sujeito	do	cálculo.	A	distorção,
tipicamente	neoliberal,	porém,	foi	a	transformação	do	sujeito	racional	em	sujeito
egoísta.
A	satisfação	do	interesse	é	o	princípio	implícito	em	toda	a	normatividade
econômica,	ao	que	o	neoliberalismo	acrescenta	uma	perspectiva	de	ilimitação.
No	âmbito	do	Estado,	desaparecem	os	limites	rígidos	ao	exercício	do	poder
político,	e	cada	vez	mais	o	poder	político	passa	a	se	identificar	com	o	poder
econômico,	o	que	inviabiliza	a	antiga	normatividade	democrática	baseada	na
soberania	popular.	O	Estado	pós-democrático	torna-se	a	forma	estatal	do
neoliberalismo.	No	âmbito	social,	instaura-se	uma	espécie	de	vale-tudo	em	nome
da	satisfação	social.
É	importante	frisar	que	a	normatividade	neoliberal	é	o	resultado	de	“um	processo
histórico	que	não	foi	inteiramente	programado	por	seus	pioneiros,	os	elementos
que	a	compõem	foram	se	juntando	pouco	a	pouco	a	partir	da	interação	de	uns
com	os	outros,	uns	reforçando	os	outros”.193	Essas	normas	não	são,	portanto,
criações	a	partir	de	uma	doutrina	homogênea,	nem	podem	ser	atribuídas	à	crise
de	acumulação.	Ao	contrário,	surgem	da	adaptabilidade	inerente	ao
neoliberalismo	e	que	se	traduz	na	adoção	de	qualquer	medida	necessária	à
preservação	da	lógica	da	concorrência,	dos	fins	do	mercado	e	de	uma	ideia	de
interesse	que	se	identifica	com	a	obtenção	de	vantagens	pessoais	e	a	geração	de
lucro.	Pode-se,	portanto,	falar	de	um	novo	capitalismo,	capaz	de	explorar	até	as
crises	do	capitalismo,	sustentado	por	essas	novas	regras	e	princípios	que
produzem	efeitos	nas	instituições,	na	sociedade	e	no	indivíduo.	Como	explicam
Dardot	e	Laval,	a	originalidade	do	neoliberalismo	está	em	“criar	um	novo
conjunto	de	regras	que	definem	não	somente	um	outro	‘regime	de	acumulação’,
mas	mais	amplamente	uma	outra	sociedade”.194
2.6.	Mais	cinco	normas	neoliberais
É	possível,	então,	tentar	expor	de	forma	resumida	algumas	dessas	outras	normas
que	forjam	essa	outra	sociedade	e	que	têm	no	mercado	a	sua	grundnorm:
2.6.I.	As	decisões	devem	ser	tomadas	a	partir	do	critério	da	exclusiva
satisfação	pessoal
Há	todo	um	projeto	de	subjetivação,	que	envolve	desde	políticas	públicas	até
propagandas	e	produtos	da	indústria	cultural,	que	faz	com	que	o	interesse
pessoal	seja	percebido	como	superior	a	todos	os	outros	fatores.	Para	Christian
Laval,	o	interesse	apresenta-se	como	o	“fundamento	normativo	da	nova
humanidade”.195	Dany-Robert	Dufour,	por	sua	vez,	identifica	como	um
mandamento	de	base	da	“revolução	cultural	liberal”,	o	“aceitarás	ser	conduzido
pelo	egoísmo”.196	As	pessoas	devem,	segundo	essa	norma,	atuar	a	partir	da	pré-
compreensão	de	que	suas	decisões,	das	mais	simples	às	mais	complexas,	serão
tomadas	a	partir	de	cálculos	voltados	à	satisfação	do	seu	próprio	interesse.
Com	isso,	mesmo	as	relações	pessoais	tornam-se	cada	vez	mais	pobres	e
precárias,	pautadas	e	sustentadas	por	cálculos	de	interesses.	Há	um	esvaziamento
das	relações	sociais,	inclusive	as	de	natureza	familiar.	E,
[...]	quando	esse	vazio	que	habita	tanto	o	singular	quanto	o	coletivo	vê-se
desmentido	pelo	Imaginário	Social,	chegamos	[...]	à	suspensão	de	todo	limite,	de
toda	diferenciação	de	lugares,	de	toda	lei	à	qual	temos	que	recorrer...	exceto
apenas	a	pretensa	‘lei	do	mercado’.197
Busca-se	preencher	o	vazio,	crescente	em	um	mundo	aparentemente	sem	limites
e	normatizado	a	partir	do	conceito	de	interesse,	com	algumas	práticas	sociais
que,	no	imaginário	neoliberal,	representam	a	felicidade	e	o	sucesso,	tais	como	o
consumo	de	bens	materiais	e	o	entretenimento	proporcionado	pelos	programas
de	televisão	e	demais	telas	(com	suas	redes	sociais	que	permitem	amigos
virtuais,	como	o	Facebook	e	o	Twitter).	Esses	dispositivos	servem,	ao	mesmo
tempo,	para	alienar,	induzir	ao	consumo	e	formatar	subjetividades	através	de
técnicas	que	buscam	definir	o	que	é	do	interesse	de	cada	um.
A	racionalidade	neoliberal	leva	a	uma	mutação	do	significado	de	“interesse”,
que	passa	a	se	identificar	com	o	egoísmo.	Um	interesse,	portanto,	despido	dos
valores	religiosos	e	morais	tradicionais.	Um	interesse	que	desconhece	o	valor,
por	exemplo,	da	solidariedade.	Tem-se	um	individualismo	corrompido,	que
reforça	o	narcisismo198	(a	orientação	de	todas	as	pulsões	para	si	mesmo	em	vez
de	estendê-las	para	outros)	e	leva	ao	egoísmo	(self-preference).
Tem-se,	também,	a	naturalização	da	imagem	do	homem	econômico,	o	sujeito	da
relação	social	interessada.	Parte-se	da	ideia	de	que	o	indivíduo	é	(ou	deve	ser)
“governado	por	seu	interesse	e	que	sua	conduta	é	conformada	por	um	cálculo	de
maximização”.199	Como	percebeu	Christian	Laval,	o	homem	econômico,	esse
ser-no-mundo200	que	tem	como	especificidade	calcular	vantagens	(o	homem
maximizador),	e	a	sociedade	de	mercado	são	fenômenos	que	não	podem	ser
separados.	Isso	porque	“derivam	do	mesmo	postulado,	segundo	o	qual	a	relação
humana,	isso	que	une	um	indivíduo	aos	outros,	é	o	interesse	que	todos	têm
primeiro	em	si	mesmos”.201	Por	isso,	na	normatividade	neoliberal	o
“crescimento	econômico”	é	tomado	como	finalidade	e	fundamento	de
legitimidade	de	toda	ação,	pública	ou	privada.
Essa	identidade	entre	o	interesse	privado,	a	obtenção	de	lucro	ou	vantagem	e	o
crescimento	econômico	é	uma	fraude,	conforme	alertam	muitos	economistas,
isso	porque	“a	acumulação	de	capital	e	o	crescimento	econômico	não	estão
ligados,	notadamente	porque	a	extração	de	renda	facilitada	pela	financeirização
não	é	um	fator	de	crescimento”.202	Fazer	do	interesse	pessoal,	tomado	como
sinônimo	de	crescimento	econômico	ou	de	obtenção	de	vantagens,	o	fundamento
de	legitimidade	das	ações	no	mundo-da-vida,	faz	com	que	valores	como	a
democracia,	a	igualdade,	a	liberdade,	a	verdade,	o	constitucionalismo	e	a	justiça
fiquem	subordinados	aos	fins	do	mercado,	ao	crescimento	econômico,	à	lógica
da	concorrência	e	à	valorização	do	capital.
A	ideia	de	calcular	as	vantagens	como	método	para	definir	a	norma	de	conduta
remonta	ao	antigo	desejo	de	evitar	erros,	afastar	a	imprecisão	e	alcançar	a
harmonia	através	dos	números.	Os	números	permitiram	“acordos	perfeitos”	e
representariam	o	princípio	capaz	de	estabelecer	a	ordem	do	mundo.	No	lugar	do
governo	dos	homens,	uma	governança	pelos	números,	capaz	de	evitar	equívocos
e	as	distorções	das	paixões	humanas.	Um	mundo	em	queas	leis	não
desapareceríam,	mas	teriam	o	conteúdo	submetido	“a	cálculos	de	interesse,	de
maneira	que	elas	serviríam	às	‘harmonias	econômicas’	que	presidem	o
funcionamento	da	sociedade	humana”.203	Os	números,	que	quantificam	os
interesses	pessoais,	deixam	de	ser	objetos	de	contemplação	(a	contemplação	dos
números	“como	chave	de	acesso	à	ordem	divina”)	para	se	tornarem	o	meio	de
conhecimento	e	a	fonte	de	previsibilidade	desejados,	adquirindo	“uma	força
propriamente	jurídica	com	a	prática	contemporânea	da	governança	pelos
números”,204	tipicamente	neoliberal.	Essa	crença	em	um	mundo	que	pode	ser
ordenado	(se	tornando,	portanto,	harmônico)	por	números	readquire	força	no
imaginário	neoliberal	e	serve	de	base	à	aceitação	da	normatividade	neoliberal.
Uma	crença	que	encontra	seu	ponto	máximo	na	idealização	de	um	“mercado
total”,	capaz	de	produzir	espontaneamente	a	harmonia	global	(algo	que	é
ensaiado	e	explicitado	no	artigo	151	do	Tratado	de	Funcionamento	da	União
Européia).
A	normatividade	neoliberal	busca	uma	harmonia	a	partir	do	reconhecimento	de
que	todos	são	egoístas.	Cada	pessoa,	portanto,	deve	se	esforçar	para	bem
calcular	os	seus	interesses,	e	isso	vale	tanto	para	o	chefe	do	comércio	do	tráfico
na	cidade	do	Rio	de	Janeiro	quanto	para	o	executivo	de	Wall	Street,	não	somente
nas	suas	atividades	tipicamente	econômicas,	mas	em	todas	as	esferas	de	sua
vida.	Aposta-se,	pois,	em	um	acordo	cimentado	pelo	egoísmo	que	une	as
pessoas,	enquanto	se	procura	eliminar	os	elementos	de	discórdia.	Isso	repercute
nas	ações	e	nas	teorias,	como	fica	explícito	na	doutrina	da	Law	and	Economics,
que	“pretende	fundar	a	harmonia	social	sobre	a	razão	matemática”.205
A	normatividade	neoliberal	(que	gera	uma	governança	“pelos	números”)	partilha
do	mesmo	ideal	que	movia	o	conceito	de	“governo	pelas	leis”,	isto	é,	ambos
aspiram	a	uma	sociedade	em	que	as	regras	se	originam	de	uma	fonte	impessoal	e
não	da	vontade	dos	detentores	eventuais	do	poder	político.	Todavia,	na	versão
neoliberal,	a	normatividade	visa	eliminar	os	obstáculos	ao	exercício	do	poder
econômico,	ou	seja,	afastar	toda	espécie	de	heteronomia,	inclusive	a	que	se
origina	dos	processos	legislativos	democráticos.	Mesmo	direitos	fundamentais
dos	cidadãos	devem	ser	afastados	em	nome	da	impessoalidade	dos	números.
Através	de	uma	linguagem	econômico-matemática	promete-se	afastar	valorações
morais,	ideologias	e	o	imprevisível	humano,	uma	vez	que	o	número	se	apresenta
como	um	princípio	que	se	afirma	unívoco,	o	que	tornaria	qualquer	reflexão
desnecessária.	Do	ponto	de	vista	da	matemática	contemporânea,	essa	formulação
tem	por	base	um	mito	que	já	foi	superado,	como	demonstrou	Kurt	Gõdel	ao
provar	a	existência	de	proposições	matemáticas	“indecidíveis”	(undecidable).
Na	sociedade	neoliberal,	espera-se	que	as	pessoas	funcionem	como	máquinas.	O
sujeito	neoliberal	é	programado.	Deve	reagir	conforme	a	programação	que	é
reforçada	por	técnicas	de	psicopoder	e,	principalmente,	pelo	poder	numérico.
Não	por	acaso,	o	computador	foi	transformado	em	um	“novo	objeto	fetiche”.206
O	computador,	a	partir	de	uma	programação	adequada,	é	uma	máquina	capaz	de
uma	espécie	de	autogoverno.	Também	a	sociedade	e	o	homem,	a	partir	da
normatividade	neoliberal	(programados:	o	ser	humano,	para	ser	egoísta,	e	a
sociedade,	para	assumir	a	forma	de	uma	rede	de	egoístas	-	egoísmo	gregário),
devem	reagir	com	base	em	regras	impessoais	imanentes	ao	seu	funcionamento.
Com	isso,	espera-se	uma	sociedade	sem	outros	limites	a	não	ser	os	imanentes	ao
programa	neoliberal.
Uma	sociedade	eficiente,	concebida	sob	o	modelo	de	uma	máquina,	não	é	algo
novo,	mas	essa	concepção	assume	sua	forma	extrema	a	partir	da	hegemonia	da
racionalidade	neoliberal	e	do	desenvolvimento	das	técnicas	de	psicopoder,	com
as	quais	se	pretende	não	só	um	autogoverno	da	sociedade	e	dos	indivíduos	como
também	a	autoexploração:	o	trabalho	voluntário	de	cada	pessoa	em	favor	dos
detentores	do	poder	econômico.
Os	cálculos	sobre	0	interesse	buscam	construir	uma	ordem	capaz	de	se
autorregular,	o	que	tornaria	desnecessária	a	imposição	de	qualquer	limite	externo
(Constituição,	leis,	princípios	éticos	etc.)	à	ação	humana.	Uma	ordem	povoada
de	pessoas	programadas	para	serem	egoístas	(átomos	egoístas	em	interação)	e
regida	por	cálculos	sobre	as	vantagens	que	podem	ser	obtidas	com	cada	ação.
Algo	que	Karl	Polanyi	chamou	de	“solipsismo	econômico”,	uma	consequência
da	mentalidade	de	mercado	e	um	fenômeno	correlato	ao	eclipse	do	pensamento
político.	A	partir	da	normatividade	neoliberal,	deve-se	confiar	na	lógica	de
mercado	(nas	ações	regidas	por	cálculos	de	interesse)	e	considerar	a	política	e	o
Estado	como	tendencialmente	inconvenientes,	a	não	ser	quando	a	atuação	estatal
estiver	a	serviço	do	mercado.	Esse	solipsismo	econômico	gerou,	como	uma
espécie	de	dano	colateral,	um	conceito	insubstancial	de	justiça,	de	direto,	de
verdade	e	de	liberdade	(valores,	historicamente,	ligados	à	ação	estatal).207
Importante,	pois,	frisar	que	o	homem	neoliberal	e	o	mercado	precisaram	não	só
de	uma	mutação	antropológica	como	também	de	uma	profunda	modificação	do
quadro	de	valores.	Essas	mudanças	deram	origem	a	uma	nova	moral	particular,
adequada	à	racionalidade	neoliberal,	na	qual	o	egoísmo	deixa	de	ser	um	vício
para	se	tornar	uma	virtude.	O	egoísmo	passou	a	ser	tratado	como	um	dado	da
natureza	humana	que	não	pode	ser	contrastado.	Mais	do	que	isso.	O	egoísmo
passou	a	ser	visto	como	a	condição	de	possibilidade	das	ciências	humanas	e	da
nova	normatividade,	o	que	tornou	a	antiga	sanção	social,	que	era	de	inspiração
religiosa,	obsoleta.208	Essa	ode	ao	egoísmo	gerou	o	fenômeno	do	egoísmo
gregário:	pessoas	que	se	percebem	como	livres	e	autônomas,	mas	que,	na
realidade,	passam	a	integrar	o	que	Dufour	chamou	de	“rebanho	pós-
moderno”.209	Pode-se,	então,	afirmar	que	o	egoísmo,	que	caracteriza	a
subjetivação	neoliberal,	é	utilizado	para
[...]	agarrar	os	indivíduos	para	arrebanhá-los,	pois	é	o	meio	mais	econômico	e
mais	racional	de	ampliar	sempre	mais	as	bases	do	consumo	de	um	conjunto	de
pessoas	permanentemente	levadas	para	necessidades	reais	ou,	quase	sempre,
supostas.210
Em	razão	da	dimensão	ideológica	da	racionalidade	neoliberal,	as	pessoas
acreditam	praticar	livremente	certas	ações	e	ir	em	direção	de	produtos	que
seriam	os	melhores	para	elas,	enquanto,	na	realidade,	seguem	um	programa.
Essa	postura	das	pessoas	arrebanhadas,	que	favorece	o	sistema	neoliberal,	é
parte	desse	mesmo	sistema.	O	indivíduo	subjetivado	pelo	neoliberalismo	quer	“o
que	dizem	que	deve	querer	como	cidadão	livre”.211	Não	se	pode	esquecer,	ainda,
que	a	racionalidade	neoliberal	é	uma	espécie	de	racionalidade	técnica	e	que	a
técnica	não	só	seduz	como	leva	à	compulsão.	Por	isso,	a	“racionalidade	técnica
hoje	é	a	racionalidade	da	própria	dominação.	Ela	é	o	caráter	compulsivo	da
sociedade	alienada	de	si	mesma”.212A	lógica	da	ilimitação,	que	se	impõe	em
todos	os	domínios,213	somada	ao	egoísmo,	leva	os	indivíduos	neoliberais	à
utilização	de	mecanismos	psicóticos	(certezas	delirantes,	substituição	da	lei
simbólica	por	uma	lei	imaginária)	ou	perversos	narcísicos214	(assédios
morais.215	transferência	ao	outro	da	raiva,	do	medo	e	da	culpabilidade	que	o
indivíduo	deveria	suportar	etc.).	A	perversão	é,	em	certo	sentido,	um	anteparo	à
psicose.	O	perverso	se	aproveita	dos	laços	familiares,	amorosos	ou	profissionais,
por	exemplo,	para	transformar	o	outro	em	um	objeto	que	o	faz	gozar	sempre	que
os	limites	são	violados,	mas	isso	se	dá	como	um	meio	de	evitar	o	delírio,
“fazendo	o	outro	carregar	o	seu	caos”.216	O	critério	da	exclusiva	satisfação
pessoal,	típica	dos	cálculos	de	interesse	neoliberais,	leva	à	redução	do	espaço
público	ao	espaço	da	publicidade	e	da	exibição	pornográfica	dos
relacionamentos	humanos	como	mercadoria,	bem	como	à	antipolítica,	ao
abandono	do	projeto	de	autodeterminação	coletiva	diante	da	promessa	de
autodeterminação	individual	capaz	de	assegurar	a	felicidade.	Essa
impossibilidade	de	um	projeto	coletivo,	sempre	obstaculizado	pela	urgência	da
satisfação	dos	interesses	pessoais,	tem	a	funcionalidade	políticade	velar	os
conflitos	e	domesticar	as	pessoas.	Basta	comparar,	por	exemplo,	os	movimentos
negros	e	feministas	nos	Estados	Unidos	antes	da	era	Reagan,	marco	da
hegemonia	política	neoliberal	estadunidense,	e	depois.	Assim,	por	exemplo,
aumentou	o	número	de	negros	desempregados	(em	especial,	entre	os	jovens)	e
presos,	mas	a	atuação	política	do	movimento	perdeu	força.	A	situação	piorou,
mas	a	atividade	política	desses	movimentos	perdeu	o	potencial	transformador.
A	antipolítica	é	inegavelmente	a	face	neoliberal	da	política,	que	promete
substituir	os	governantes	por	gestores	e	reduz	o	governo	à	ideia	de	boa
governança.	A	política,	demonizada	no	espaço	público,	se	torna	uma	questão	de
concorrência	entre	grupos	de	interesse	(cada	um	a	seguir	a	norma:	“as	decisões
devem	ser	tomadas	a	partir	do	critério	da	exclusiva	satisfação”),	em	que	cada	um
desses	grupos	reivindica	a	sua	parcela	de	vantagens	do	Estado,	sem	que	existam
reivindicações	mais	gerais	ou	mesmo	formulações	em	termos	universais.	O	que	é
para	todos,	de	um	parque	público	até	um	direito	fundamental,	perde	valor	à	luz
dessa	norma	neoliberal.
A	norma	que	determina	ações	a	partir	exclusivamente	do	próprio	interesse,	para
pessoas	subjetivadas	como	empresários-de-si,	faz	com	que	essas	pessoas	tenham
a	impressão	de	que	se	dedicar	à	política	é	uma	perda	de	tempo	que	as	colocará
em	situação	de	inferioridade	em	relação	aos	outros	concorrentes-inimigos;	e	que
as	idéias	políticas	que	podem	ser	encontradas	no	atual	mercado	de	idéias	não
valem	a	pena	diante	do	desgaste	que	a	luta	por	elas	exigiría.	Em	outras	palavras,
uma	norma	que	enuncia	que	“as	decisões	devem	ser	tomadas	a	partir	do	critério
da	exclusiva	satisfação	pessoal”	veda	de	maneira	implícita	o	comprometimento
com	a	ideia	de	luta	de	classes,	porque	as	classes	perderam	valor	dentro	da
sociedade	neoliberal	(desaparece,	então,	a	possibilidade	da	tomada	de	uma
consciência	de	classe).
Antes	da	hegemonia	da	racionalidade	neoliberal,	as	lutas	por	emancipação	e	por
democracia	eram	forjadas	a	partir	de	uma	certa	ideia	de	comum,	de	superação
coletiva	de	problemas.	Durante	o	século	XIX	(e	até	os	anos	trinta	e	quarenta	do
século	XX),	essas	lutas	tomaram	a	forma	dada	pelo	movimento	operário	e,
também,	pelo	movimento	feminista,	mais	precisamente	pela	chamada	primeira
onda	feminista.	A	partir	da	hegemonia	da	normatividade	neoliberal,	dá-se	a
crença	de	que	não	há	nada	a	fazer	no	plano	coletivo,	devendo	cada	um	cuidar
dos	seus	próprios	interesses.
A	própria	atuação	dos	movimentos	sociais,	inclusive	do	movimento	operário,
sofreu	uma	mutação.	A	partir	da	introjeção	da	norma	neoliberal	que	enuncia	o
dever	de	agir	egoisticamente,	parcela	dos	movimentos	negros,	feministas	e	de
trabalhadores	acabou	se	redefinindo	como	grupos	de	interesse	que,	no	mercado
das	idéias,	disputam	sua	“fatia	do	bolo”	sem	formular	qualquer	reivindicação	de
ordem	geral217	ou	construir	uma	concepção	de	democracia	que	se	afaste	das
idéias	de	mercado	e	de	busca	de	vantagens	pessoais.
Cada	movimento	popular	e	mesmo	os	partidos	políticos	passaram	a	se
fragmentar	em	razão	da	necessidade	de	defender	interesses	cada	vez	mais
específicos.	Assim,	por	exemplo,	o	movimento	feminista	deu	origem	a	vários
grupos	de	interesse	(feminismo	liberal,	feminismo	negro,	feminismo	radical,
transfeminismo,	putafe-minismo	etc.)	com	dificuldades	crescentes	de	diálogo
entre	eles	e	entre	outros	movimentos	de	oprimidos,	como	se	a	questão	de	gênero
não	se	relacionasse	com	a	questão	da	raça	e	da	classe:	falar	de	gênero	é	falar	de
poder	e	de	opressão,	portanto,	necessariamente	entrar	em	diálogo	com	outros
marcadores	sociais	como	a	raça	e	a	classe,	bem	como	procurar	superar	toda
forma	de	opressão.	Todavia,	instaurou-se	uma	espécie	de	hierarquia	de
interesses	(ou	uma	hierarquia	de	opressão),	a	partir	da	percepção	individual	(e
egoísta)	de	que	os	respectivos	interesses,	de	que	os	interesses	do	grupo	a	que
pertence,	precisavam	ser	atendidos	antes	dos	demais.	Em	substituição	ao	desejo
de	lutar	contra	todas	as	formas	de	opressão,	passa	a	vigorar	a	ideia	de
concorrência	entre	os	vários	grupos	de	interesse.	Segundo	Christopher	Lasch,
esses	grupos	atuam	a	partir	da	crença	de	que	suas	reivindicações	não	se
relacionam	com	a	história	dos	demais	grupos	ou	com	o	conjunto	da	sociedade,	o
que	levaria	tanto	a	uma	espécie	de	incomunicabilidade	quanto	à	exclusão	da
possibilidade	de	um	verdadeiro	debate	político.218	O	egoísmo,	ainda	que
gregário,	impede	a	união	de	grupos	oprimidos	e	a	formação	de	consensos	sociais
capazes	de	superar	o	quadro	de	opressões.
Essa	nova	configuração	dos	grupos	de	interesse,	adequada	à	racionalidade
neoliberal,	faz	com	que	os	movimentos	populares	percam	apoio	de	outros	setores
da	sociedade,	que	encaram	suas	reivindicações	setoriais	como	manifestações	de
concorrentes	e	distantes	dos	interesses	da	coletividade.	Desaparece	o	valor
social	de	uma	reivindicação	justa,	uma	vez	que	as	reivindicações	passaram	a	ser
percebidas	como	defesas	de	interesses	particulares	por	grupos	de	interesse	muito
particulares.
Mesmo	os	indesejáveis	aos	olhos	do	projeto	neoliberal	aderem	a	essa
normatividade.	Assim,	por	exemplo,	os	autores	de	crimes	patrimoniais	ou
mesmo	os	traficantes	de	drogas	etiquetadas	como	ilícitas	(etiquetação	e	cri-
minalização	que	também	se	dá	a	partir	de	cálculos	de	interesse)	atendem	ao
comando	de	tomar	decisões	a	partir	do	critério	da	exclusiva	satisfação	pessoal.
Da	mesma	maneira	que	o	operador	do	mercado	financeiro	ou	o	empresário-
presidente	Donald	Trump,	esses	“criminosos”	também	naturalizam	a	falta	de
limites	em	busca	de	lucros.	No	que	se	refere	à	reação	social,	a	diferença	(que
está	na	raiz	do	neoliberalismo)	é	que	a	ação	estatal	(inclusive,	a	ação	repressiva)
sempre	se	dá	no	interesse	do	mercado	e,	por	vezes,	os	interesses	dos	detentores
do	poder	econômico	farão	com	que	esses	empresários-de-si	indesejáveis	acabem
criminalizados	ou	mortos	para	não	atrapalhar	a	harmonia	do	sistema.
De	igual	sorte,	em	certo	sentido,	a	corrupção	torna-se	a	regra.	Corrupção,	por
definição,	é	uma	degeneração:	a	violação	dos	padrões	normativos	de	um	Estado
ou	de	uma	sociedade	construídos	para	servir	de	limite	ao	exercício	do	poder,	de
qualquer	poder.	Em	nome	da	satisfação	dos	interesses	pessoais	e	com	o
desaparecimento	dos	limites	ao	poder	econômico,	diversos	atos	de	corrupção
acabaram	naturalizados.	Ilimitação	e	corrupção	são	conceitos	e	fenômenos	que
sempre	andam	juntos.	Uma	normatividade	que	incentiva	a	ilimitação,
transformada	em	regime	da	subjetividade	(uma	subjetivação	financeira),219
favorece	as	mais	variadas	formas	de	corrupção.
Em	uma	sociedade	corrompida,	a	corrupção	a	ser	combatida	torna-se	apenas	a
corrupção	do	outro,	daquele	que	figura	como	concorrente	ou	inimigo.	No
neoliberalismo,	então,	potencializa-se	a	seletividade	dos	processos	de	combate	à
corrupção	e,	mais	precisamente,	o	uso	político	desse	signiíicante	“corrupção”,
transformado	em	um	signiíicante	vazio	a	ser	utilizado	contra	os	inimigos.	E	isso
se	dá	ao	mesmo	tempo	em	que	a	interpenetração	dos	interesses	dos	detentores	do
poder	econômico,	dos	atores	da	burocracia	estatal	e	dos	políticos	profissionais
adquire	um	caráter	estrutural	que	permite	identificar	uma	“corrupção
sistêmica”,220	um	fenômeno	que	ocorre	em	todos	os	níveis,	desde	as	menores
coletividades	às	grandes	empresas	e	aos	mais	altos	escalões	do	Estado.
Ademais,	a	acumulação	tendencialmente	ilimitada	de	riqueza	funciona	como
origem	e	condição	de	manutenção	de	neo-oligarquias.	Os	ricos	tendem	a	se
tornar	cada	vez	mais	ricos	e,	em	consequência,	mais	poderosos.	A	aproximação
entre	poder	político	e	o	poder	econômico,	que	não	raro	voltam	a	se	identificar
(Silvio	Berlusconi	e	Donald	Trump	são	dois	dos	exemplos	mais	conhecidos),
confirma	não	só	a	identidade	entre	a	acumulação	de	riqueza	e	a	acumulação	de
poder	como	também	revela	a	existência	de	novas	dinâmicas	da	corrupção,	isso
na	medida	em	que	desaparece	a	mediação	política	entre	o	detentor	do	poder
econômico	e	a	vantagem	que	ele	pretende	auferir	a	partir	do	Estado.	Os	donos	do
dinheiro,	transformadosem	congressistas	ou	governantes,	não	precisam	mais
comprar	de	terceiros	(políticos	profissionais)	o	apoio	para	as	medidas	de	seu
interesse.	A	corrupção	sistêmica,	inerente	à	normatividade	neoliberal,	se
caracteriza	justamente	por	um	conluio	permanente	entre	os	interesses	dessas
oligarquias,	que	levam	à	confusão	entre	o	público	e	o	privado,	bem	como	ao
desaparecimento	da	diferença	de	papéis	entre	os	agentes	públicos	e	os	agentes
econômicos	privados.
Em	razão	do	objetivo	de	acumular	riquezas,	os	limites	ao	exercício	do	poder
acabam	substituídos	pela	norma	que	enuncia	a	satisfação	do	interesse	como	o
único	critério	legitimador	das	ações	e	decisões.	Essa	norma	neoliberal	não	é
aplicada	apenas	pelas	classes	dominantes,	como	sustentam	ainda	hoje	alguns
marxistas	ortodoxos,	mas	por	cada	pessoa	subjetivada	como	empresária-de-si
que	passa	a	agir	com	o	objetivo	exclusivo	de	conseguir	lucros	e	vantagens
pessoais.	Essa	subjetivação	é,	em	parte,	produzida	por	uma	espécie	de
“modelagem	midiática	da	realidade”221	a	partir	de	uma	linguagem	econômica	e
da	transmissão	de	valores	que	levam	tanto	à	ode	ao	mercado	quanto	à
demonização	do	político	(e	de	todas	as	opções	ao	modelo	neoliberal):	o
indivíduo,	então,	passa	a	se	reconhecer	tanto	nas	figuras	do	empreendedor	(para
a	grande	maioria	da	população,	esse	empreendedor	não	passará	de	um	mero
gestor	da	sobrevivência)	e	do	manager	quanto	nos	dramas	e	dilemas	vividos
pelos	grandes	empresários.	Não	raro,	o	indivíduo	neoliberal,	de	fato,	acredita
que	será	capaz	de	enriquecer	a	partir,	exclusivamente,	de	cálculos	de	interesse.
2.6.2.	Os	direitos	e	as	garantias	fundamentais	devem	ser	afastados	sempre
que	necessário	à	eficiência	do	mercado
A	racionalidade	neoliberal	faz	com	que	os	direitos	e	garantias	fundamentais
sejam	percebidos	e	tratados	como	objetos	negociáveis,	que	podem,	ou	não,	ter
valor	à	luz	dos	interesses	dos	detentores	do	poder	econômico.	Assim,	os	direitos
e	as	garantias	fundamentais,	os	direitos	humanos	positivados	nas	Constituições
de	cada	país,	deixam	de	representar	limites	rígidos	ao	exercício	do	poder	e
obstáculos	contra	arbítrios	para	se	tornarem	dispositivos	a	serviço	do	mercado.
Por	“direitos	fundamentais”	pode-se	adotar	uma	definição	teórica,	meramente
formal	ou	estrutural:	são	“direitos	fundamentais”	todos	aqueles	“direitos
subjetivos	que	pertençam,	indistintamente,	a	‘todos’	os	seres	humanos,	enquanto
seres	dotados	do	status	de	pessoa,	de	cidadãos	ou	pessoas	com	capacidade	de
agir”.222	É	no	reconhecimento	e	afirmação	dos	direitos	fundamentais	que	se
assenta	a	base	da	utópica	vida	digna	para	todos	(igualdade	material).223	Um
esquema	normativo	construído	a	partir	de	uma	concepção	de	direitos	e	garantias
fundamentais	como	limites	intransponíveis	ao	exercício	do	poder	levaria	ao
“máximo	grau	de	tutela	dos	direitos	e	na	fiabilidade	do	juízo	e	da	legislação,
limitando	o	poder	punitivo	e	garantindo	a(s)	pessoa(s)	contra	qualquer	tipo	de
violência	arbitrária,	pública	ou	privada”.224	Nas	sociedades	ocidentais,	em
especial	após	a	Segunda	Guerra	Mundial,	os	direitos	fundamentais	(direitos
humanos	positivados	nas	Constituições)	tornaram-se	a	linguagem	hegemônica	da
dignidade	humana.	Todavia,	como	percebeu	Boaventura	de	Sousa	Santos.225
essa	hegemonia	no	campo	discursivo	nunca	deixou	de	conviver	com	um	fato
assustador:	grande	parte	da	população	mundial	não	alcançou	a	condição	de
sujeito	de	direitos	humanos.	E	o	quadro	se	agrava,	em	razão,	de	uma
normatividade	fundada	no	ideal	de	ilimitação	do	poder	econômico	e	no	modelo
da	concorrência	tendente	à	produção	de	indivíduos	na	condição	de	não	sujeitos,
submetidos	às	várias	formas	de	condicionamento	e	de	violência	(física,	moral,
estrutural,	simbólica	etc.).
Não	se	pode	esquecer	que,	para	muitos,	os	“direitos	humanos”	nunca	passaram
de	uma	espécie	de	ideologia	europeia,	uma	representação	ideológica	capaz	de
mistificar	a	condição	humana	e	tranquilizar	as	almas	daqueles	que,	por	ação	ou
omissão,	são	responsáveis	pela	violência	contra	as	pessoas.	Assim,	o	discurso
dos	direitos	humanos,	percebidos	como	abstrações,	acabaria	por	esconder	as
violações	concretas	aos	interesses	e	às	necessidades	de	cada	pessoa.	Nesse
sentido,	pode-se	afirmar	que	as	concepções	abstratas	dos	direitos	humanos
produzem	efeitos	perversos226	que	se	revelam	conexos	e	integrados:	a)	o	efeito
ilusório,	que	dificulta	a	percepção	da	distância	entre	o	discurso	e	a	prática,	ou
melhor,	entre	os	direitos	previstos	nas	legislações	e	os	direitos	efetivados	no
mundo-da-vida	(a	previsão	legal	de	um	direito	passa	a	funcionar	como	uma
espécie	de	substituto	de	sua	concretização);	b)	o	efeito	imobilizador,	uma	vez
que	o	reconhecimento	legal	do	direito	gera	uma	sensação	de	satisfação	e	de
suficiência,	de	que	não	há	mais	o	que	se	conquistar	(eventuais	violações	dos
direitos	humanos	seriam	meras	disfunções	atribuíveis	a	erros	individuais)	e	que,
agora,	cabe	ao	aparato	estatal	concretizar	os	direitos	humanos;	c)	o	efeito	de
ordem,	que	reduz	os	direitos	humanos	àqueles	que	são	consagrados	na	legislação
e	reconhecidos	pelas	agências	estatais	(em	especial,	o	Poder	Judiciário),	o	que
faz	com	que	se	aceite	que	o	aparato	estatal	possa	selecionar,	identificar,	limitar,
excepcionar,	relativizar	ou	conter	os	direitos	humanos	em	nome	da	manutenção
da	ordem;	d)	o	efeito	de	legitimação	de	uma	ordem	hegemônica,	uma	vez	que	a
compreensão	dos	direitos	humanos	está	condicionada	por	uma	determinada
configuração	de	poder	(não	raro,	o	signi-ficante	“direitos	humanos”	é	utilizado,
por	governos	que	violam	cotidianamente	direitos	de	parcela	de	sua	população,
para	atacar	projetos	de	poder	alternativos);	etc.	Fácil,	pois,	perceber	a	tensão
entre	o	que	“é”	(plano	do	“ser”)	e	o	que	deve	ser	(plano	do	“dever	ser”),	bem
como	a	diferença	entre	“o	que	deve	ser	segundo	o	direito	que	é”	e	“o	que	é	no
mundo-da-vida”.	Por	fim,	o	que	e	está	longe	de	se	identificar	com	o	que	deveria
ser	em	um	mundo	no	qual	os	direitos	humanos,	reconstruídos	para	além	do
referencial	do	homem	branco	europeu,	fossem	respeitados.
Diante	desse	quadro,	ainda	com	Boaventura	de	Sousa	Santos,	pode-se	afirmar
que	nunca	foi	possível	deixar	de	suspeitar	dos	direitos	fundamentais	(direitos
humanos).	Como	a	ideia	de	direitos	humanos	pode	conviver	com	uma	realidade
que	nega	para	grande	parcela	da	população	mundial	as	condições	necessárias	à
vida	minimamente	digna?	A	que	direitos	se	refere,	e	a	quem	pretendem	proteger,
os	defensores	dos	direitos	humanos?
É	importante,	então,	ter	em	mente	que	ao	se	falar	em	direitos	humanos	recorre-se
a	dois	significantes,	“direitos”	e	“humanos”,	bem	diferentes	dos	significantes-
mestres	neoliberais	(“interesse”,	“mercado”,	“empresa”	etc.).	Trata-se	de	um
conceito	complexo,	portanto,	uma	vez	que	integrado	por	dois	elementos
vinculados	entre	si,	em	uma	relação	de	complementaridade	e,	ao	mesmo	tempo,
de	contradição.	Segundo	Alessandro	Baratta,	há	complementaridade,	“no	sentido
de	que	pertence	ao	homem	enquanto	tal,	segundo	o	direito;	contradição	no
sentido	de	que	o	direito	não	reconhece	ao	homem	o	que	lhe	pertence	enquanto
tal”.227	Em	outras	palavras,	ao	longo	da	história,	o	legislador	nunca	reconheceu	à
pessoa	o	que	é	necessário	à	sua	plena	realização.	Os	significantes	“humano”	e
“direito”	são	definidos,	do	ponto	de	vista	ideal,	em	reciprocidade,	enquanto	no
mundo-da-vida	a	pessoa	concreta,	a	depender	de	uma	série	de	condicionantes,
sofre	a	negação	do	direito	a	uma	vida	digna.	Não	raro,	a	legislação	(o	direito
reduzido	à	lei	e	à	interpretação	dada	à	lei	a	partir	de	um	determinado	contexto)
se	coloca	em	oposição	aos	valores	dos	direitos	humanos,	em	especial	no	que
toca	aos	vários	segmentos	étnicos	e	sociais	subalternizados	e	excluídos	das
políticas	sociais	(basta	lembrar,	por	exemplo,	de	como	os	sistemas	de	Justiça	de
vários	países	e	seus	atores	jurídicos	tratam	daqueles	que	são	etiquetados	como
indesejáveis	ao	projeto	neoliberal	de	acumulação	ilimitada	do	capital).
Em	apertada	síntese,	na	tradição	do	direito	liberal,	chamam-se	direitos	humanos
aos	direitos	que	pertencem	a	todas	as	pessoas	naturaispelo	simples	fato	de	terem
nascido.	A	pessoa	o	é,	e	merecería	proteção,	por	ter	sido	lançada	na	linguagem.
É	possível	afirmar	a	existência	de	direitos	(fenômeno	que	importa	comunicação)
porque	a	humanidade	é	composta	de	entes	dotados	de	linguagem	e	em
comunicação	a	partir	de	valores,	regras	e	princípios.	“Direitos	humanos”,	então,
deveríam	se	referir	à	realização	plena	da	humanidade	e	englobar	todos	os
direitos	necessários	à	concretização	da	dignidade	humana.	Assim,	os	direitos
fundamentais	e	os	direitos	humanos	corresponderíam	à	dimensão	normativa	do
comum,	isto	é,	aos	direitos	compartilhados	por	todos,	por	todas	as
singularidades,	enquanto	pessoas	naturais.
A	ideia	de	direitos	fundamentais	ou	de	direitos	humanos	liga-se	à	de	direitos
universais,	posto	que	deveríam	pertencer	a	todas	as	pessoas	naturais,	sem
qualquer	exceção,	a	todos	os	seres	humanos.	Tanto	a	Declaração	de
Independência	dos	Estados	Unidos	da	América	(1776)	quanto	a	Declaração	dos
Direitos	do	Homem	e	do	Cidadão	(1789)	destacam-se	pela	universalidade	das
afirmações	feitas	nesses	documentos	históricos:	“todos	os	homens	são	criados
iguais,	dotados	pelo	seu	Criador	de	certos	Direitos	inalienáveis”,	“todos	os
homens”,	“homens”,	“todos	os	cidadãos”,	“cada	cidadão”	etc.	Assim,	no	plano
retórico,	pretendia-se	afastar	qualquer	dúvida	acerca	da	intenção	de	que	“toda
pessoa”	era	titular	desses	direitos	pelo	simples	fato	de	ter	nascido,	o	que,	em
concreto,	era	negado	pelos	fenômenos	da	escravidão	e	do	patriarcado.
É	verdade	que	a	afirmada	universalidade	dos	direitos	humanos	merece
problematização.	Basta	lembrar	que	Olympe	de	Gouges	foi	guilhotinada	após
publicar	a	Declaração	dos	direitos	da	mulher	e	da	cidadã	justamente	por
questionar	a	precária	universalidade	da	declaração	francesa.	Há	uma	tensão
inafastável	entre	o	universal	(aquilo	que	se	pode	afirmar	como	válido
independentemente	dos	contextos)	e	o	fundacional	(o	que	representa	uma
identidade	específica,	com	a	memória,	a	tradição,	a	história	e	as	raízes).	Ao
pesquisar	a	situação	dos	direitos	humanos	em	diversas	regiões	do	mundo,	ou	até
em	diferentes	regiões	de	um	mesmo	país,	chega-se	à	conclusão	de	que	inexiste,
em	concreto,	um	tratamento	homogêneo	ou	mesmo	a	afirmada	validade
universal	de	direitos	em	contextos	políticos,	econômicos	ou	culturais	diversos.
Mas	essa	relativização	dos	direitos	humanos,	que	sempre	existiu,	é	muito
potencializada	com	a	hegemonia	da	racionalidade	neoliberal	e	o	seu
compromisso	com	a	ilimitação	do	mercado,	do	consumo	e	da	acumulação	de
capital.
Em	relação	aos	direitos	humanos,	não	se	pode	ignorar	que	uma	determinada
cultura	(situada,	pois,	no	plano	fundacional)	passou	a	se	afirmar	como	universal.
O	que	se	entende	hoje	por	“direitos	humanos”	é	o	que	essa	cultura	particular
disse	se	tratar	de	um	“universal”.	Sempre	que	se	fala	em	universalidade,	tem-se
um	processo	de	imposição	dos	valores	e	das	idéias	dominantes	de	uma
determinada	cultura	sobre	as	demais.	Inegavelmente,	na	construção	das
categorias	jurídicas	“direitos	fundamentais”	e	“direitos	humanos”	está	embutida
a	noção	de	superioridade	(espiritual,	existencial,	política,	cultural,	bélica	etc.)	de
uma	cultura,	baseada	na	crença,	acompanhada	das	melhores	intenções	(as
mesmas	que	enchem	o	inferno	desde	o	fenômeno	da	colonização),	de	que	os
valores	e	as	idéias	de	alguns	devem	ser	transmitidos	e	incorporados	por	outras
comunidades	tidas	como	inferiores.	Com	a	hegemonia	de	uma	concepção	de
cultura	redefinida	pela	racionalidade	neoliberal,	nem	mesmo	essa	perspectiva
limitada	e	eurocêntrica	de	direitos	humanos	sobrevive,	isso	porque	desaparece	a
própria	perspectiva	de	universalidade	em	nome	do	mercado.	Sob	a	égide
neoliberal	não	há	espaço	para	uma	dimensão	normativa	do	comum	em	uma
sociedade	em	que	o	egoísmo	e	a	busca	ilimitada	por	lucros	tornaram-se	a	regra.
Tendencialmente	universais,	à	luz	da	racionalidade	neoliberal	(ou	seja,	desde
que	não	atrapalhem	os	interesses	dos	detentores	do	poder	econômico),	apenas	o
direito	de	propriedade	e	a	liberdade	de	contratar.
Com	razão,	Herrera	Flores	dizia	que	“o	direito,	o	pensamento	e	a	prática	jurídica
comprometida	com	os	direitos	humanos	de	todas	e	todos	podem	converter-se	na
pauta	política,	ética	e	social	que	sirva	de	guia	à	construção	dessa	nova
racionalidade,	sempre	e	quando	os	retirarmos	da	jaula	de	ferro	que	os	mantém
presos	na	ideologia	de	mercado	e	no	correlato	formalismo	jurídico”.228
Justamente	esse	potencial	constitutivo	de	uma	nova	racionalidade	é	o	que
precisava	ser	destruído,	razão	pela	qual	os	direitos	humanos	e	os	direitos
fundamentais	acabaram	relativizados,	quando	não	colonizados.
Uma	concepção	de	direito,	entendido	como	“um	sistema	artificial	de	garantias,
artificialmente	preordenado	à	tutela	dos	direitos	fundamentais”,229	é
incompatível	com	o	projeto	neoliberal.	Não	há	interesse	em	um	modelo	ou
sistema	que	resgate	o	valor	vinculante	das	normas,	para	que	não	só	o	direito
posto	se	torne	efetivamente	condicionante	da	vida	em	uma	sociedade
democrática,	como	também	a	produção	jurídica	estatal	(leis,	sentenças,	decisões
etc.)	fique	condicionada	por	vínculos	jurídicos	formais	e	substanciais.
A	normatividade	neoliberal,	portanto,	não	pode	impor	obstáculos	ao	exercício	de
poder	econômico	(ou	do	poder	político,	desde	que	em	favor	do	mercado),	razão
pela	qual,	no	âmbito	estatal,	desaparece	a	dimensão	de	garantia	dos	direitos
(salvo	dos	direitos	relacionados	à	propriedade	e	à	liberdade	de	contratar).	Se	a
pedra	de	toque	de	uma	normatividade	democrática,	em	especial	nos	sistemas	que
contam	com	constituições	rígidas,	era	o	respeito	aos	direitos	fundamentais,	na
normatividade	neoliberal	o	que	é	fundamental	é	a	criação	de	comandos
concretos	em	favor	do	mercado.
A	dimensão	formal	da	democracia,	que	se	refere	ao	“quem”	decide	e	ao	“como”
decidir,230	que	sempre	foi	regulada	por	normas	que	garantem	o	respeito	à
vontade	da	maioria,	nunca	se	revelou	suficiente	ao	ideal	democrático	de	vida
digna	para	todos.	Assim,	com	base	nesse	ideal	de	comum,	buscava-se	exigir	o
respeito	e	a	concretização	dos	direitos	fundamentais	e,	em	decorrência,	regular	o
que	pode	e	o	que	não	pode	ser	objeto	da	deliberação	de	qualquer	maioria.	Hoje,
em	razão	das	transformações	produzidas	a	partir	da	racionalidade	neoliberal,
essa	preocupação	desapareceu:	instaurou-se	uma	espécie	de	“vale-tudo”	em
atenção	aos	interesses	do	mercado.
Desaparecem,	então,	os	vínculos	negativos,	gerados	pelos	direitos	individuais
(dever	de	não	fazer),	e	os	vínculos	positivos,	gerados	por	direitos	sociais	(dever
de	fazer),	que	constituíam,	respectivamente,	a	“esfera	do	não	decidível	que	sim”
e	a	“esfera	do	não	decidível	que	não”,	típicos	de	democracias	constitucionais,
pois	nenhuma	maioria,	mesmo	que	absoluta,	devia	poder	impor	um	agir
contrário	a	um	direito	liberal	ou	impedir	e	retardar	os	atos	tendentes	à
concretização	de	um	direito	social.231	Dentre	os	direitos	humanos	de	natureza
social,	típicos	do	pós-guerra	e	reflexos	da	Guerra-Fria	(direitos	que	foram
reconhecidos	pelos	detentores	do	poder	político	para	tentar	reduzir	os	riscos	de
uma	revolução	comunista	protagonizada	pelos	trabalhadores),	destacam-se	os
direitos	à	alimentação,	ao	trabalho	digno,	à	habitação,	à	informação,	à	educação
e	à	saúde.	Se	os	direitos	de	natureza	liberal	são	negativos,	e	correspondem	a
vedações	(“direitos	de”),	os	direitos	de	natureza	social	são	positivos,	geram
expectativas	de	um	comportamento	alheio	(“direitos	a”)	e	correspondem	a
obrigações	de	agir,	deveres	do	Estado	de	fazer.	O	direito	à	saúde	e	os	direitos
dos	trabalhadores,	por	exemplo,	enquadram-se	entre	os	direitos	humanos	de
natureza	social.	No	neoliberalismo,	tanto	a	vontade	da	maioria	quanto	os	direitos
fundamentais	ficam	subordinados	aos	interesses	dos	detentores	do	poder
econômico.	Há	uma	radical	simplificação	do	complexo	normativo,	em	razão	da
norma	neoliberal	que	enuncia	o	dever	de	afastar	qualquer	direito	(individual,
social,	coletivo	ou	difuso)	que	represente	um	obstáculo	à	eficiência	do	mercado.
No	neoliberalismo,	os	direitos	e	garantias	fundamentais	deixam	de	funcionarcomo	vetores	interpretativos	do	Sistema	de	Justiça,	como	recursos	heurísticos	de
legitimação	e	deslegitimação	das	normas	e	das	práticas	do	controle	social
formal,	porque	foram	substituídos	por	cálculos	de	interesses.	Tem-se,	assim,	o
abandono	de	qualquer	pretensão	a	um	modelo	normativo	baseado	no	controle,
constitucionalmente	regrado,	sobre	a	ilegalidade	do	exercício	do	poder,	público
ou	privado.
A	racionalidade	neoliberal,	que	hoje	condiciona	o	modo	de	ver	e	de	atuar	no
mundo,	transformou	o	comum	em	privado,	o	direito	fundamental	(entendido
como	limite	intransponível	ao	exercício	do	poder)	em	mercadoria,	a	vida	e	a
dignidade	da	pessoa	humana	em	objetos	negociáveis.	Da	mesma	maneira	que	o
egoísmo	foi	transformado	em	virtude,	a	doença	e	a	crise	do	sistema	de	saúde
pública,	por	exemplo,	passaram	a	ser	vistas	como	novas	oportunidades	para
alguns	poucos	lucrarem	e	acumularem	capital.	A	norma,	introjetada	pela
população,	passa	a	ser	a	de	que	todos	os	direitos,	mesmo	os	direitos
fundamentais,	podem	ser	usados	e	devem	ser	afastados	sempre	que	necessário,
para	potencializar	os	interesses	do	mercado.
Essa	norma	neoliberal	confirma	a	tese	de	Wendy	Brown	de	que	o	papel	do
direito	no	processo	de	neolibe-ralização	não	é	somente	o	de	dar	uma	forma
jurídica	à	economia,	mas,	sobretudo,	o	de	servir	de	“meio	de	disseminação	da
racionalidade	neoliberal	para	além	da	economia,	alcançando	até	os	elementos
constitutivos	da	via	democrática”.232	De	fato,	a	racionalidade	neoliberal	“não	se
contenta	em	garantir	os	direitos	do	capital	e	organizar	a	concorrência,	ela
redefine	os	direitos	políticos,	a	cidadania	e	o	campo	mesmo	da	democracia
dentro	de	um	registro	econômico”,233	o	que	acaba	por	levar	à	substituição	da
ideia	de	povo,	como	motor	do	funcionamento	do	Estado,	pela	de	cálculos	de
interesse.	Ainda	com	Brown,	pode-se	afirmar	que	a	racionalidade	neoliberal	faz
com	que	o	Direito	e	o	modo	de	pensar	jurídico	passem	a	servir	de	apoio	às
práticas	governamentais	que	visam	suprimir	“a	via	política	e	os	imaginários
democráticos”,	como	fica	evidente	nas	reformas	e	decisões	jurídicas	que
reforçam	o	poder	político	do	capital	ao	mesmo	tempo	que	enfraquecem	as
associações	de	cidadãos,	as	lideranças	de	oposição	ao	neoliberalismo	e	os
sindicatos	de	trabalhadores.234	Essa	instrumentalização	neoliberal	do	Direito
também	pode	ser	percebida	tanto	em	decisões	judiciais	favoráveis	à	lógica	das
empresas	quanto	em	decisões	que	concretizam	perseguições	contra	os	inimigos
políticos	do	projeto	neoliberal	(o	“caso	Lula”,!ü	marcado	por	inúmeras
atipicidades	processuais	e	ilegalidades,	é	um	exemplo	dessa	utilização	do	Direito
como	“arma	de	guerra”	contra	os	inimigos,	em	uma	clara	manifestação	de
lawfare	neoliberal).
Em	suma,	a	norma	que	enuncia	o	dever	de	afastar	os	direitos	e	garantias
fundamentais	em	favor	da	eficiência	do	mercado	(e	cada	indivíduo,	como
empresários-de-si,	percebe-se	como	um	agente	do	mercado),	faz	com	que	o
Estado	deixe	de	ser	o	promotor	e	o	garantidor	dos	direitos	fundamentais	para
assumir	a	função	política	de	regulador	das	expectativas	do	mercado	e	dos
detentores	do	poder	econômico.	O	Direito,	por	sua	vez,	deixa	de	ser	um
regulador	social	para	acabar	transformado	tanto	em	mais	um	instrumento	para	o
mercado	quanto	em	uma	mercadoria.	Com	isso,	a	ideia	de	Direito	como
mercado	quanto	em	uma	mercadoria.	Com	isso,	a	ideia	de	Direito	como
expressão	do	comum,	a	solidariedade,	a	alte-ridade	e,	em	consequência,	o
diálogo	são	negados,	enquanto	a	diferença	e	os	conflitos	capazes	de	gerar	lucros
são	incentivados.
2.6.3.	0s	concorrentes-	inimigos	devem	ser	vencidos	ou	destruídos
A	construção	da	normatividade	neoliberal,	que	leva	a	uma	profunda	mutação
antropológica,	é	um	fenômeno	complexo.	Ao	lado	das	normas	utilitaristas	que
estendem	o	modelo	de	maximização	dos	lucros	e	das	vantagens	pessoais	através
de	cálculos	de	interesse,	e	que	exigiram	ressignificações	de	conceitos	como
interesse	e	utilidade,	há	também	as	consequências	normativas	da	lógica	da
concorrência,	forjada	no	ambiente	do	livre	mercado,	mas	que	também	se
espalhou	por	todas	as	relações	humanas.
Se	a	normatividade	construída	a	partir	do	desejo	de	enriquecer,	mais
precisamente	da	hipótese	de	que	toda	ação	humana	deveria	obedecer	a	uma
racionalidade,	que	asseguraria	a	escolha	que	mais	satisfação	fosse	capaz	de
produzir	para	o	indivíduo	(e	o	sucesso	desse	objetivo	em	razão	da	adequação
entre	os	meios	e	os	fins),	tem	uma	dimensão	preponderantemente	individual,	na
medida	em	que	o	mandamento	da	conduta	desconsidera	a	existência	de	outras
pessoas,	a	normatividade	que	se	origina	da	lógica	da	concorrência	é	tipicamente
relacionai:	trata-se	de	um	mandamento	direcionado	a	condicionar	a	maneira
como	cada	pessoa	deve	se	relacionar	com	as	outras.	A	lógica	da	concorrência,
portanto,	leva	à	fabricação	de	normas	que	pretendem	regular	e	condicionar	as
relações	intersubjetivas.
Concorrência,	por	definição,	é	o	ato	ou	efeito	relacionado	à	tentativa	de	alcançar
a	primazia	sobre	algo	em	detrimento	de	outras	pessoas.	A	ideia	de	concorrência,
portanto,	sempre	está	relacionada	com	a	competição,	a	disputa,	a	rivalidade	ou	a
guerra.	A	concorrência	também	costuma	ser	relacionada	com	um	estado
dinâmico,	com	uma	situação	de	busca	por	lucro	em	um	mercado	no	qual	os
agentes	econômicos	estão	livres	para	utilizar	uma	série	de	instrumentos	(tais
como	o	preço,	a	propaganda,	os	serviços	conexos,	a	qualidade	dos	produtos	etc.)
para	vencer	(ou	seja,	para	alcançar	os	objetivos	propostos).	Em	um	mercado
concorrencial	idealizado,	o	funcionamento	se	daria	entre	partes	em	situação	de
disputar	e	em	atenção	às	“regras	do	jogo”,	em	especial	à	lei	da	oferta	e	da
procura,	sem	intervenção	do	Estado.	A	lógica	da	concorrência,	portanto,	é
marcada	pela	rivalidade	entre	duas	ou	mais	pessoas	que	devem	fazer	o	que	for
possível	para	vencer	uma	disputa.
possível	para	vencer	uma	disputa.
A	concorrência	(rivalidade	de	interesses)	revela	o	ideal	oposto	ao	da	cooperação
(união	de	interesses),	bem	como	dificulta	a	formação	de	vínculos	de
solidariedade,	da	consciência	de	problemas	partilhados	entre	indivíduos	e	da
percepção	de	espaços	comuns	não	marcados	por	disputas.	Se	é	verdade	que	a
fraternidade	não	pode	ser	imposta	“de	cima”,	a	lógica	da	concorrência	impede
que	ela	se	construa	“de	baixo”,	o	que	faz	com	que	o	eu	sem	o	nós	se	atrofie	no
egoísmo.236
A	racionalidade	neoliberal	faz	do	eu	uma	ficção,	o	empresário-de-si,	e	do	outro
um	concorrente.	O	empre-sário-de-si	entra	em	disputa	com	outras	pessoas
também	identificadas	como	empresários.	Dá-se	uma	espécie	de	coisificação:	o
outro,	resumido	a	uma	empresa	perigosa	para	os	interesses	do	eu.	Mesmo	em
instituições	como	a	família,	o	outro	cada	vez	mais	é	identificado	como	um
adversário	a	ser	vencido.	A	consciência	de	classe	torna-se	uma	não	questão	para
pessoas	subjetivadas	como	capital	humano	ou	empresários	que	precisam	derrotar
outros	entes	empresariais,	por	mais	próximos	que	sejam	os	interesses	que	os
vinculam.
A	ilimitação,	também	própria	da	racionalidade	neoliberal,	por	sua	vez,	faz	com
que	o	concorrente	passe	a	ser	tratado	como	um	inimigo	a	ser	destruído.	A
pessoa,	subjetivada	como	uma	atividade	economicamente	organizada,	quer
destruir	as	demais	empresas	que	concorrem	com	ela	e,	portanto,	são	percebidas
como	perigosas.	Reforçam-se	as	diferenças	e	velam-se	as	semelhanças	na
tentativa	de	vencer	a	disputa.	A	vontade	de	vencer,	estimulada	e	despida	de
limites	éticos	ou	jurídicos,	não	raro,	transforma-se	em	ódio	contra	os
adversários.	Assim,	aumentam-se	os	conflitos	e	reduz-se	a	possibilidade	de	paz:
isso	porque,	como	escreveu	Claude	Lefort,	“a	paz	não	pode	se	fundar,	a	não	ser
sobre	a	ideia	de	que	as	relações	entre	os	homens	são	relações	entre
semelhantes”.237
O	poder	sempre	procurou	discriminar	seres	humanos	conferindo-lhes	tratamento
não	condizentes	com	a	sua	condição	de	pessoa,	reduzindo-os	a	entes	perigosos
ou	danosos	à	sociedade.	A	construção	da	dogmática	penal	soviética	do	“inimigo
do	povo”	é	apenas	um	exemplo.	O	inimigo	foi,	ao	longo	da	história,	o	rótulo	do
não	cidadão.As	guerras	enfrentadas	por	uma	nação	colocavam	os	cidadãos	para
lutarem	contra	os	seus	inimigos,	os	não	cidadãos.	Toda	ação	bélica	(bem	como
todo	regime	autoritário),	ainda	que	dentro	do	próprio	território,	precisa	de
inimigos,	ou	seja,	de	indivíduos	equiparados	a	não	cidadãos	a	serem	enfrentados
(a	“guerra	às	drogas”	nas	favelas	do	Rio	de	Janeiro,	por	exemplo,	é	uma	guerra
contra	pessoas	rotuladas	de	inimigas	e	tratadas	como	não	cidadas).	É	importante
frisar	que	a	ação	estatal	que	leva	ao	tratamento	de	pessoas	como	inimigas,	não
raro,	é	autorizada	por	leis	formalmente	democráticas,	o	que	gera	contradições	e
crises	em	regimes	que	se	afirmam	democráticos.
Em	apertada	síntese,	sempre	que	instituições	de	um	Estado	começam	a	tratar
cidadãos	como	inimigos,	caminha-se	para	a	substituição	do	Estado	Democrático
de	Direito	pelo	Estado	Policial.	Cada	indivíduo	etiquetado	como	indesejável
tende	a	ser	igualmente	designado	como	perigoso	ou	danoso	aos	interesses
hegemônicos.	A	lógica	da	concorrência	permite	não	só	naturalizar	a	rotulação	de
pessoas	e	o	exercício	do	poder	político	contra	esses	“inimigos”,	como	também
faz	com	que	cada	indivíduo	também	se	sinta	autorizado	a	rotular	e	atuar	contra
as	pessoas	identificadas	como	perigosas	ou	danosas	aos	seus	interesses.
Uma	sociedade	que	cede	à	lógica	da	concorrência	e,	portanto,	passa	a	tratar
pessoas	como	entes	perigosos	ou	obstáculos	a	interesses	econômicos,	e	não	mais
como	sujeitos	dotados	de	autonomia	ética,	tende	a	se	tornar	um	ente
absolutista:238	a	sociedade	neoliberal	se	revela,	então,	um	mercado	absolutista.
Uma	normatividade	que	faz	com	que	pessoas	tendam	a	considerar	que	outros
indivíduos	são	não	pessoas	(entes	perigosos,	empresas	concorrentes	etc.),
mostra-se	o	espaço	adequado	à	propaganda	võlkisch	(popula-resca),	a	partir	de
discursos	que	buscam	conseguir	a	adesão	popular	a	uma	proposta	ou	a	uma	ação
de	modo	demagógico	e	grosseiro,	reafirmando	e	estimulando	a	existência	de
preconceitos	e	de	reações	tendencialmente	agressivas	contra	o	outro.	Em	linhas
gerais,	essas	propagandas	reproduzem	a	norma	neoliberal	que	estimula	a
destruição	do	concorrente	ou	inimigo.
O	objeto	da	disputa	e	da	concorrência	pode	ser	o	mais	variado.	Assim,	por
exemplo,	pode	se	resumir	à	divisão	do	espaço	ou	o	acesso	aos	serviços	públicos.
A	reação	da	classe	média	brasileira	à	presença	de	pessoas	das	classes
subalternizadas	em	aeroportos	nos	anos	2010,	em	razão	da	redução	da
desigualdade	vivenciada	no	país,	e	o	ódio	do	grupo	social	chamado	de	White
Trash,	pessoas	brancas	miseráveis	que	detinham	apenas	o	privilégio	da	“cor	da
pele”,	direcionado	às	políticas	afirmativas	que	visavam	minorar	os	efeitos	do
racismo,	são	exemplos	perversos	da	lógica	da	concorrência	estendida	à	dinâmica
da	sociedade.
Importante,	por	oportuno,	frisar	a	importância	das	técnicas	de	propaganda	na
criação	do	inimigo.	Sentimentos	legítimos	como	a	angústia	diante	da	piora	das
condições	de	vida	podem	ser	manipulados	com	finalidade	política.	Assim,	esse
sentimento	de	perda	pode	ser	“transformado	em	vitimização	e	ressentimento	e
explorado	para	justificar	formas	de	opressão	passadas,	atuais	e	novas”.239	Como
exemplifica	Jason	Stanley,	a	propaganda	de	idéias	racistas	(em	especial,	a	da
supremacia	branca)	fez	com	que	o	Men’s	Rights	Activist	Movement	(MRA)	nos
Estados	Unidos,	na	década	de	1990,	cristalizasse	a	vivência	da	perda	de
privilégios,	diante	de	políticas	afirmativas,	como	vitimização.240
A	construção	social	da	figura	do	inimigo,	da	pessoa	que	não	merece	o	tratamento
de	pessoa,	não	é	recente.	O	poder	sempre	fez	uso	dessa	redução	de	indivíduos	a
entes	perigosos,	que	precisam	ser	contidos	ou	eliminados,	na	“arte	de	governar”.
O	conceito	de	“inimigo”	tem	origem	no	direito	romano,	mais	precisamente	na
distinção	entre	o	inimicus	(inimigo	pessoal)	e	o	hostis	(inimigo	político:	aquele
que	incomoda	o	poder).	Em	que	pesem	as	subclassificações	posteriores	(que
permitem	incluir	desde	o	prisioneiro	escravizado	da	Antiguidade	até	o	imigrante
na	Europa	do	século	XXI),	pode-se,	hoje,	apresentar	uma	definição	de	inimigo	a
partir	da	sua	essência,	que	é	a	anulação	de	sua	condição	de	pessoa:	inimigo,
portanto,	é	aquele	que	pode	ser	tratado	como	não	pessoa.241Um	dos	principais
teóricos	alemães	do	período	nazista,	Carl	Schmitt	(também	um	teórico	do	estado
de	exceção),	foi	o	responsável	por	inserir	a	figura	do	inimigo	em	destaque	na
ciência	política.	Para	ele,	a	“específica	distinção	política	à	qual	é	possível	referir
as	ações	e	os	motivos	políticos	é	a	distinção	de	amigo	e	inimigo”.242	Segundo
Schmitt,	todo	conceito	do	direito	é	fundamentalmente	político	e	não	há
neutralidade	possível.	O	Estado,	portanto,	seria	aquele	ente	a	quem	cabe
produzir	decisões	parciais.	Dito	de	outra	forma,	o	Estado	é	definido	pelo
monopólio	da	decisão:	cabe	ao	Estado	definir	a	exceção,	cabe	ao	Estado	definir
os	inimigos.
Como	lembra	Eugênio	Raúl	Zaffaroni,
[...]	o	discurso	teocrático,	usado	durante	a	primeira	etapa	da	planetarização	do
poder,	apresentava	o	genocídio	colonialista	como	uma	empresa	piedosa,	em	cujo
nome	se	matavam	os	dissidentes	internos,	os	colonizados	rebeldes	e	as	mulheres
desordeiras.	O	inimigo	desta	empresa,	depois	da	extinção	dos	infelizes
albigenses	e	cátaros,	era	Satã,	o	que	deu	lugar	à	primeira	de	uma	longa	lista	de
emergências,	que	se	seguiram	pelos	séculos	afora	até	a	atualidade,	ou	seja,
ameaças	mais	ou	menos	cósmicas	ou	apocalípticas	que	justificavam	uma	guerra
e,	por	conseguinte,	demandam	a	individualização	de	um	inimigo243.
Não	raro,	o	inimigo	escolhido	é	construído	a	partir	de	um	preconceito	que	impõe
medo	(pense-se	nos	maleficia	das	bruxas).	O	modelo	inquisitorial,	que	fazia	de
indivíduos	meros	objetos	usados	para	a	descoberta	da	“verdade”,	servia	à
construção	e	à	eliminação	dos	inimigos.	Na	Inquisição	ocorre,	em	certo	sentido,
o	“sequestro	de	Deus”.244	Para	lutar	contra	os	inimigos,	que	tanto	podiam	ser	as
bruxas	e	os	hereges	quanto	os	inimigos	políticos	do	soberano,	também	acusados
de	heresia.	É	igualmente	na	Inquisição	que	o	saber,	uma	espécie	de	“apetite	pela
verdade”	intimamente	ligado	ao	poder,	torna-se	uma	arma	contra	os	inimigos.
A	normatividade	neoliberal	facilita	o	processo	de	“etiquetamento”	e	amplia	o	rol
dos	inimigos,	percebidos	como	entes	perigosos	aos	interesses	do	indivíduo	e	da
sociedade	neoliberal.	A	lógica	da	concorrência,	que	orienta	a	normatividade
neoliberal,	produz	também	distâncias	entre	os	indivíduos,	produzindo	mutações,
inclusive,	no	funcionamento	concreto	das	instituições	estatais.	A	função
jurisdicional,	por	exemplo,	sempre	foi	exercida	a	partir	da	dialética	entre	a
proximidade	e	a	distância	na	relação	entre	o	julgador	(seja	o	juiz	profissional,
seja	o	juiz	popular)	e	a	pessoa	a	ser	julgada.	Como	identificou	Denis	Salas,	o
julgamento	era	o	resultado	de	um	“jogo”	em	que	era	necessário	levar	em
consideração	“a	proximidade	de	um	ser	semelhante	e	a	diferença	de	um	ato
reprovável”.245	De	igual	sorte,	o	ato	de	punir	deveria	oscilar	“entre	a
incompreensão	que	acusa	e	a	compreensão	que	explica”.246	Todavia,	a	norma
neoliberal	(“os	concorrentes-inimigos	devem	ser	vencidos”)	dificulta	a
proximidade	ao	acusado	e	também	a	sua	identificação,	bem	como	a	compreensão
do	ato.	Ao	concorrente-inimigo	não	deve	ser	assegurado	qualquer	direito,	isso
porque	ele	é	uma	não	pessoa,	um	ente	perigoso	ou	danoso	aos	interesses	do	eu
(inclusive	aos	interesses	do	ser-no-mundo	que	exerce	a	função	de	julgador).
É	essa	mesma	norma	neoliberal,	ao	permitir	tratar	indivíduos	como	não	pessoas
(uma	empresa	danosa	ou	perigosa),	que	abre	a	possibilidade	para	o	retorno	de
fenômenos	como	o	fascismo	e	o	modelo	inquisitorial	(que	faz	do	imputado	um
mero	objeto),	mas	adaptados	à	racionalidade	neoliberal.	Como	percebeu	Pierre
Sauvêtre.247	não	há	como	pensar	o	neofascismo	e	as	derivas	autoritárias
percebidas	nos	últimos	anos	sem	compreender	a	complexa	história	do
neoliberalismo.
Ainda	segundo	Sauvêtre,	o	afastamento	de	direitos,	que	permite	a	destruição	dos
inimigos	(indesejáveis)	está	ligada	a	uma	clara
[...]	dimensão	‘imunizante’do	neoliberalismo,	no	sentido	de	um	projeto	que	visa
restaurar	os	direitos	de	propriedade	do	capital	corroídos	pelas	políticas	sociais
redistributivas	do	século	XX,	imunizando	o	mercado	contra	qualquer
intervenção	democrática	externa	-	seja	ela	governamental	ou	social	-	que	vise
regulá-lo.248
E	essa	imunização	só	é	possível	a	partir	da	extensão	da	lógica	concorrencial	para
todo	o	campo	social.
A	lógica	concorrencial	transformada	em	norma	tem	necessariamente	uma
“dimensão	constitutiva	focada	na	implementação	da	norma	de	concorrência	nas
instituições,	relações	sociais	e	subjetividades”	e	“uma	dimensão	defensiva,	até
mesmo	destrutiva,	que	consiste	em	proteger	o	funcionamento	regulado	do
mercado	contra	práticas	sociais	com	potencial	regulatório	ou	redistributivo”.249	o
que	implica	em	identificar,	controlar	ou	destruir	os	elementos	que	atentam	contra
o	mercado	e	a	racionalidade	neoliberal.
Ainda	segundo	Pierre	Sauvêtre,	o	neoliberalismo	pode,	em	certo	sentido,	ser
definido	como
[...]	a	política	que	consiste,	por	um	lado,	em	tornar	o	mercado	hermético	a
qualquer	atividade	contrária	à	sua	lógica,	e,	por	outro,	impor	a	sua	lógica	a	todas
as	atividades.	Em	conjunto,	persegue	o	sonho	do	fim	da	democracia	e	do
estabelecimento	de	uma	sociedade	normalizada	pela	concorrência	integral
(Estado	Total	substituído	pela	Concorrência	Total).	As	duas	dimensões,	a
defensiva	e	a	constitutiva,	são	complementares	entre	si,	mas	prevalece	a
dimensão	defensiva,	uma	vez	que	a	defesa	contra	a	conduta	democrática	é	um
pré-requisito	que	deve	ser	constantemente	replicado	para	desencadear	a
imposição	da	norma	econômica	na	sociedade.250	Não	há,	portanto,	como
desassociar	a	lógica	concorrencial	e	o	processo	de	desdemocratização	do	Estado
denunciado	por	Wendy	Brown.	Isso	porque	a	destruição	dos	limites
democráticos	ao	exercício	do	poder,	bem	como	a	redução	dos	direitos
fundamentais	a	objetos	negociáveis,	não	é	propriamente	uma	consequência	do
neoliberalismo,	mas	um	dos	objetivos	do	projeto	neoliberal.251	Se,	no	plano
retórico,	os	detentores	do	poder	político	e	do	poder	econômico	defendem	que
ninguém	pode	ameaçar	ou	cometer	atos	de	violência	contra	a	pessoa	ou	a
propriedade	de	outro	homem,	a	não	ser	de	maneira	“defensiva”	contra	a
violência	de	outros,	na	realidade	sensível,	a	versão	neoliberal	do	axioma	de	não
violência	busca	“essencialmente	uma	justificação	para	a	violência	defensiva
contra	qualquer	agressão	contra	a	propriedade	ou	a	pessoa”.252	ou	mais
precisamente,	a	legitimação	do	uso	da	violência	em	defesa	dos	próprios
interesses	contra	os	seus	inimigos,	ainda	que	imaginários.
A	imagem	do	inimigo	é	frequentemente	produto	de	preconceitos	e	certezas
delirantes.	O	concorrente	ou	inimigo	escolhido,	não	raro,	é	pensado	como	um
ente	com	poderes	excessivos.	Essa	desproporção	entre	a	realidade	do	objeto	e	a
onipotência	temida	pelo	indivíduo	demonstra,	para	Theodor	Adorno,	a	presença
de	um	“mecanismo	projetivo”.253	O	medo	de	fantasmas,	sempre	onipotentes	e
onipresentes,	acaba	projetado	em	pessoas	ou	grupos,	o	que	propicia	o
surgimento	de	certezas	delirantes	e	ilusões	paranóicas.
A	utilidade	política	da	fabricação	de	um	inimigo,	inclusive	para	justificar	a
utilização	da	violência	em	defesa	de	interesses	econômicos,	não	é	um	fenômeno
que	passa	despercebido.	Michel	Onfray,	por	exemplo,	a	partir	do	que	chamou	de
“Teoria	da	Ditadura”	de	George	Orwell,	sustenta	que
[...]	para	a	tirania	existir,	é	necessário	um	inimigo,	um	adversário.	Pouco	importa
quem	ele	seja	[...].	O	que	importa	é	dispor	de	um	bode	expiatório	capaz	de
concentrar	sobre	ele	a	raiva,	o	ressentimento	e	as	paixões	tristes.254
O	inimigo	torna-se	objeto	de	medo	e,	portanto,	serve	à	manipulação	política
desse	medo,	em	especial	nos	casos	em	que	essa	figura	não	só	é	construída	a
partir	de	estereótipos	que	confirmam	preconceitos	como	também	é	apresentada
com	poderes	excessivos.
Vale	reparar	que,	na	retórica	neoliberal,	o	“direito	de	propriedade”	é	ameaçado
por	políticas	inclusivas,	pelo	Estado	social,	pelos	direitos	trabalhistas,	pela	força
dos	sindicatos,	pelo	crescimento	da	importância	política	das	chamadas	minorias,
pela	postura	das	feministas	etc.	Essas	“ameaças”,	que	muitas	vezes	se	misturam
com	preconceitos,	servem,	então,	para	justificar	a	violência	“defensiva”.	Assiste,
portanto,	razão	a	Pierre	Sauvêtre	ao	apontar	que	a	retórica	populista	liberal	de
autores	como	Rothbard255	revela	um	novo	tipo	de	governamen-talidade
neoliberal:
[...]	a	governabilidade	brutalista,	que	consiste	em	levar	os	indivíduos	a	fazer	uso
brutal	de	sua	liberdade	para	defender	a	propriedade	capitalista:	todo	o
ressentimento	que	o	próprio	neoliberalismo	causa	nas	classes	média	e
trabalhadora	é	instrumentalizado	e	canalizado	para	uma	brutalização	das	relações
sociais	a	partir	das	quais	a	democracia	é	aniquilada.256Em	resumo,	a	norma
neoliberal	que	enuncia	a	necessidade	de	cada	indivíduo	vencer	o	outro	(visto
como	concorrente,	hostil,	estrangeiro	ou	inimigo),	repercute	tanto	no	imaginário
neoliberal	quanto	no	modo	de	governo.	A	transformação	do	outro	em	um	ente
“potencialmente	perigoso”,	um	não	sujeito	indesejável,	dificulta	ações	coletivas,
incentiva	a	violação	de	direitos	e	serve	à	manutenção	do	mercado	como	modelo
para	todas	as	relações	sociais.	O	indivíduo,	a	partir	da	normatividade	neoliberal,
sente-se	livre	para	usar	um	não	sujeito	como	meio	para	alcançar	seus	fins.257
Esse	não	sujeito	é	inerente	ao	“discurso	do	capitalista”,	identificado	por	Jacques
Lacan,	no	qual	o	indivíduo,	que	se	imagina	como	um	empresário,	não	se
relaciona	com	outros	sujeitos	ou	com	a	diferença,	mas	apenas	com	“os	objetos-
mercadorias	comandados	pelo	significante-mestre	capital”.™	Não	há	laço	social
com	um	não	sujeito.	A	frase	“There	is	no	society”,	verbalizada	por	Margaret
Thatcher	em	outubro	de	1987,	em	uma	entrevista	para	a	revista	Woman's	Own,	é
a	síntese	dos	efeitos	sociais	do	projeto	neoliberal	fundado	na	lógica
concorrencial.	No	neoliberalismo	tem-se	a	ruptura	dos	laços	sociais,	que	leva	à
ausência	de	limites	nas	trocas	intersubjetivas,	à	guerra	entre	os	“de	cima”	e	os
“de	baixo”	e	ao	abandono	da	ideia	de	comum.
2.6.4.	Tudo	e	todos	devem	ser	tratados	como	coisas	O	comando	normativo
para	tratar	tudo	e	todos	como	coisas	pode	ser	percebido	tanto	nas	relações
do	indivíduo	com	o	Estado	quanto	nas	privadas,	inclusive	nas	mais	íntimas.
O	pai	e	a	mãe	se	acreditam	donos	dos	filhos.	O	marido	da	mulher	e	vice-
versa.	O	patrão	de	seus	empregados.	O	sentimento	de	propriedade	é
inerente	à	coisi-ficação.
A	reificação	é	o	fenômeno	que	retrata	aquilo	que	Marx	chamou	de	“mundo
invertido”	em	relação	à	concorrência,259	um	mundo	no	qual	as	relações	sociais
são	tomadas	como	coisas	independentes	e	a-históricas.	A	racionalidade
neoliberal	potencializa	a	mistificação	capitalista	consistente	em	tratar	as	relações
sociais	a	partir	de	ficções	como	a	propriedade	e	as	relações	de	produção	como
coisas	negociáveis	e	reduzíveis	a	dinheiro.	Para	manter	a	hegemonia	do
neoliberalismo	é	necessário	criar	um	mundo	de	aparências,	em	que	o	interesse	e
a	felicidade	se	identifiquem	completamente	com	a	obtenção	de	vantagem	ou
lucro	tendencialmente	ilimitado,	dentro	do	qual	vão	se	mover	cotidianamente	os
indivíduos	reduzidos	a	consumidores	acríticos,	a	consumidores	falhos	(os
indesejáveis),	os	agentes	da	produção	e	do	rentismo	e	também	os	governantes.	O
mundo	reificado	é	aquele	necessário	ao	movimento	da	concorrência,	à
identificação	dos	concorrentes-inimigos,	ao	egoísmo	gregário	e	à	destruição	dos
laços	sociais.
O	mandamento	neoliberal	de	tratar	tudo	e	todos	como	coisas	é	a	dimensão
normativa	do	fenômeno	da	reificação.	Reificar	(Verdinglichung)	significa
converter,	tratar	ou	fazer	de	algo	uma	coisa	(do	latim	res).	Literalmente,	busca-
se,	no	neoliberalismo,	a	coisificação	total.	Mesmo	as	pessoas	devem	ser
consideradas	como	objetos	sem	consciência	ou	liberdade	tanto	nas	considerações
do	poder	político	quanto	nos	cálculos	do	poder	econômico,	e	até	nas	relações
mais	íntimas	familiares	e	amorosas.	O	patriarcado,	intimamente	ligado	ao
modelo	de	exploraçãocapitalista,	por	exemplo,	acaba	reforçado	a	partir	da
racionalidade	neoliberal,	isso	porque	a	percepção	de	que	as	mulheres	e	os	filhos
devem	ser	tratados	como	coisas	pertencentes	ao	pater	(e,	portanto,	sem	liberdade
ou	consciência)	acaba	naturalizada.
A	normatividade	neoliberal	estimula	que	as	relações	sociais	acabem	coisificadas
para	serem	tratadas	à	luz	de	cálculos	econômicos.	As	relações	sociais	neoliberais
são	sempre	percebidas	como	relações	comerciais,	de	consumo	ou	financeiras.
Desaparece,	com	a	reificação	capitalista	(potencializada	pela	racionalidade
neoliberal),	o	liame	social:	as	pessoas,	que	também	se	percebem	como	coisas
(empresas)	se	relacionam	com	outras	coisas,	e	não	mais	com	outras	pessoas.
A	ideia	de	reificação	e	coisificação	como	inerente	ao	capitalismo	está
relacionada	com	os	estudos	de	Karl	Marx	sobre	alienação	e	fetichismo	das
mercadorias.	Grosso	modo,	o	conceito	de	reificação	é	construído	a	partir	da
reflexão	sobre	os	efeitos	sociais	da	generalização	da	forma	mercadoria	como	o
principal	modo	de	satisfazer	as	necessidades	humanas.	No	capitalismo,	a
mercadoria	passa	a	ser	identificada	com	“tudo	aquilo	que	se	quer”.	Trata-se,
segundo	Marx,	de	um	processo	pelo	qual	as	demais	relações	assumem	“a	forma
fantasmagórica	de	uma	relação	entre	coisas”.260	Gyõrgy	Lukács,	ao	aprofundar	o
estudo	sobre	a	reificação,	aponta	que	a	coisificação	é	uma	determinação	central
tanto	da	troca	mercantil	quanto	de	todas	as	demais	formas	de	objetividade	e
subjetividade	presentes	na	sociedade	burguesa.	Não	por	acaso,	a	reificação
depende	de	um	tipo	de	racionalidade	que	permita	o	recurso	à	quantificação,	ao
cálculo	e	à	abstração.261	É	essa	racionalidade	que,	condicionando	processos
objetivos	e	subjetivos,	vai	mediar	a	sociedade	capitalista	“em	todas	as	suas
manifestações	vitais”.262	No	neoliberalismo,	o	ato	de	transformar	as
características,	as	relações	e	as	ações	humanas	em	objetos	(portanto,	em	coisas
negociáveis,	que	seriam	-	ou	são	imaginados	como	-	independentes	das	pessoas	e
sem	relação	com	a	dimensão	humana)	funciona	como	uma	verdadeira	condição
de	possibilidade	de	um	mundo	tendencialmente	sem	limites	ao	lucro	e	à
obtenção	de	vantagens.	O	processo	de	reificação	revela-se	fundamental	para
levar	ao	esquecimento	construções	históricas	como	a	“vedação	ética	à
instrumentalização	das	pessoas”	e	a	consciência	de	que	algumas	coisas	deveríam
permanecer	“fora	do	comércio”.	Em	outras	palavras,	o	Estado,	a	sociedade	e	os
indivíduos	precisam	ser	coisificados,	em	atenção	à	racionalidade	neoliberal,	para
que	os	objetivos	do	mercado	sejam	alcançados	com	maior	facilidade.
É	com	o	processo	de	reificação	que	as	práticas	e	as	relações	humanas	passam	a
ser	vistas	como	objetos	externos	e,	portanto,	como	fenômenos	alienados	da
dimensão	humana.	Mesmo	os	entes	vivos	passam	a	ser	tratados	como	objetos
inertes	em	uma	abstração	necessária	à	sociedade	concorrencial.	A	reificação	faz
da	normatividade	inerente	às	coisas	o	quadro	normativo	de	todos	os	fenômenos.
Tudo	é	reduzido	e	deve	ser	tratado	como	uma	coisa,	um	objeto	que	pode	ser
negociado	ou	descartado.	Na	reificação,	aquilo	que	deveria	ser	percebido	como
móvel	e	dinâmico	passa	a	ser	tratado	como	algo	estático	e	sem	vida.	E	essa
coisificação	passa	a	ser	vista	como	um	acontecimento	natural,	necessário	e
imutável.	Da	transformação	do	trabalho	em	mercadoria	no	século	XIX	à
coisificação	do	corpo,	que	permite	o	crescimento	do	“mercado	da	carne”	(no
qual	o	sexo,	os	órgãos	e	até	a	potencialidade	reprodutiva	tornam-se	objetos	a
serem	explorados),	tudo	é	exemplo	de	reificação	e,	portanto,	de	fenômenos
adequados	à	racionalidade	neoliberal.
Como	se	vê,	a	racionalidade	neoliberal	vai	ao	encontro	do	antigo	“sonho	de
superar	os	limites	da	existência	carnal,	de	abandonar	o	próprio	corpo	e	adquirir
outro”.263	E,	parafraseando	Walter	Benjamin,	pode-se	afirmar	que	essa
reificação	torna	possível	que	as	pessoas	entrem	na	época	de	sua
reprodutibilidade	técnica.264	ou	seja,	trata-se	de	um	processo	que	permite
transformar	órgãos	e	pedaços	do	corpo	humano	em	fontes	de	lucro.	A	norma
neoliberal	que	enuncia	o	dever	de	reificar,	portanto,	confirma	a	tese	marxista	de
que	todas	as	coisas,	morais	ou	físicas,	adquiriríam	“valor	venal”	e	estariam
postas	no	mercado	para	serem	negociadas.
Deve-se	atentar	que	a	transformação	de	tudo,	inclusive	da	atividade	humana,	em
objeto	negociável	é	um	movimento	análogo	ao	do	fenômeno	da	fetichização	do
objeto,	o	que	fica	evidente	diante	do	fato	do	valor	de	troca	se	sobrepor	ao	valor
de	uso.	O	fetichismo	da	mercadoria,	que	simboliza	o	esquecimento	da	história
do	objeto,	representa	um	dos	mecanismos	mentais	mais	importantes	da
sociedade	(re)construída	sob	o	modelo	do	mercado.	Pensar	as	coisas	e	as	pessoas
desassociadas	de	suas	histórias	e	de	seus	processos	de	formação	é	fundamental
para	a	liberdade	de	negociar	e	de	obter	lucros	tendencialmente	ilimitados.	Essa
reificação	tem	transformado	todas	as	esferas	da	vida	social	(política,	jurídica,
religiosa	etc.),	que	passaram	a	se	articular	e	se	relacionar	com	as	outras	esferas
do	mundo-da-vida	em	termos	de	cálculos	econômicos.
A	atitude	de	tomar	as	relações	intersubjetivas	como	trocas	abstratas,	em	que	as
características	individuais	das	coisas	e	das	pessoas	são	desconsideradas	para
facilitar	as	negociações,	os	cálculos	e	a	“livre”	concorrência,	também	leva	ao
esquecimento	da	história,	das	desigualdades	sociais	e	do	papel	da	classe	social
dos	envolvidos.	Não	se	pode,	portanto,	ignorar	a	funcionalidade	teórica	e	política
do	fenômeno	da	reificação-coisificação.	O	mundo	representado	a	partir	da
racionalidade	neoliberal	(e,	portanto,	reificado)	aparece	como	uma	caricatura,
um	mundo	invertido	em	que	as	pessoas	servem	às	coisas.
O	interesse	e	a	racionalidade	neoliberal,	uma	espécie	de	racionalidade	técnica	e
instrumental	que	visa	não	só	a	dominação	como	a	concorrência	total,	se	mostram
incompatíveis	com	outras	racionalidades	fundadas	sobre	valores	inegociáveis
(verdade,	liberdade,	ética).	A	alienação	da	humanidade,	dentro	de	um	mundo
que	reproduz	a	ideia	de	um	mercado	dominado	pelo	fetichismo	da	mercadoria,
leva	ao	conformismo,	à	repetição	e	à	massificação,	de	um	lado,	e	à	rejeição	da
diferença	e	do	modernismo	estético,	de	outro.
O	mundo	reificado	é	tendencialmente	totalitário,	uma	vez	que	busca	concretizar
um	projeto	de	supressão	da	alteridade	e	de	reafirmação	de	uma	espécie	de
princípio	da	identidade:	tudo	aquilo	que	não	pode	(ou	aceita)	ser	tratado	como
objeto	precisa	ser	descartado	ou	destruído.	A	sociedade	neoliberal	é	uma	espécie
de	sociedade	em	que	o	cálculo	e	o	autoritarismo	são	legitimados	pela	mesma
lógica,	ou	seja,	são	visões	distintas	de	uma	mesma	realidade,	de	uma	mesma
trama	simbólico-imaginária.
A	reificação,	uma	espécie	tipicamente	capitalista	de	esquecimento,	só	é	possível
a	partir	da	confusão	entre	o	fundamento	e	a	consequência,	entre	a	causa	e	o
efeito.	Assim,	no	capitalismo,	e	com	mais	intensidade	ainda	na	era	neoliberal,	o
capital	acaba	confundido	com	o	interesse,	enquanto	o	trabalho,	confundido	com
a	força	de	trabalho	e	reduzido	a	um	salário,	torna-se	alheio	ao	seu	produto.
Elementos	e	valores	que	não	deveríam	ser	medidos	por	critérios	econômicos
passam	a	sê-lo.	Novos	jogos	de	linguagem	se	instauram	a	partir	de	uma	visão
econômica	do	mundo.	Tudo	passa	a	pertencer	à	mesma	esfera:	a	das	coisas
econômica	do	mundo.	Tudo	passa	a	pertencer	à	mesma	esfera:	a	das	coisas
avaliadas	em	dinheiro	e,	portanto,	negociáveis	e	descartáveis.
A	reificação	e	a	simplificação	do	mundo,	através	do	tratamento	de	todas	as
coisas	e	das	pessoas	como	mercadorias	(portanto,	meras	positividades),	são
idéias	complementares	e	exigências	de	um	mundo	construído	à	imagem	e
semelhança	do	mercado	concorrencial.	Nesse	movimento,	a	fonte	e	os
fundamentos	das	coisas,	em	especial	o	trabalho	e	a	exploração	das	pessoas,
acabam	esquecidos,	enquanto	o	valor	é	apresentado	como	produto	do	próprio
valor	(o	que,	aliás,	fica	explícito	no	fenômeno	do	rentismo).	No	neoliberalismo,
aprofunda-se	o	esquecimento	que	faz	com	que	as	coisas	se	apresentempara	alcançar	os	objetivos	dos
detentores	do	poder,	mas	também	como	ameaças.
A	racionalidade	que	condicionava	a	ação	dos	nazistas	permitiu	que	o	absurdo	e	a
loucura	fossem	percebidos	por	seus	agentes	como	algo	legítimo,	natural	e
necessário	à	sobrevivência	do	povo	alemão.	Ela	também	fez	com	que	pessoas	e
condutas	passassem	a	ser	compreendidas	como	ameaças.
No	caso	da	Alemanha	das	décadas	de	trinta	e	quarenta	do	século	passado,	a
ameaça	que	o	nazismo	dizia	combater	era	direcionada	à	raça	e	à	natureza	do
povo	alemão;	no	caso	do	Brasil	neoliberal	do	início	do	século	XXI,	a	ameaça
que	o	bolsonarismo,	uma	manifestação	do	neoliberalismo	ultra-autoritário,
afirma	existir	é	voltada	à	família	brasileira,	um	conceito	cunhado	a	partir	do
colonialismo,	da	escravidão	e	do	sistema	de	privilégios	que	marca	a	história	do
Brasil.	Nos	dois	casos,	a	criação	da	ameaça	e	as	formas	de	reagir	a	ela	ligam-se
à	hegemonia	de	uma	racionalidade	autoritária	que	substituiu	um	conjunto	de
crenças,	narrativas	e	visões	de	mundo	democráticas.
O	poder	exercido	de	forma	democrática,	dentro	de	limites	que	têm	por	finalidade
evitar	o	arbítrio	e	a	opressão,	parte	de	uma	racionalidade	diferente	daquela	que
leva	ao	exercício	autoritário	do	poder.	Uma	racionalidade	democrática,	ao
produzir	uma	normatividade	e	um	imaginário	marcados	por	valores,	princípios	e
regras	democráticos,	tende	a	reduzir	o	arbítrio	e	a	opressão.	Por	outro,	uma
racionalidade	autoritária	autoriza	e	permite	naturalizar	o	exercício	concreto	de
poderes	sem	limites.
A	depender	da	racionalidade	hegemônica	o	poder	pode	ser	exercido	de	várias
marco
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A	depender	da	racionalidade	hegemônica	o	poder	pode	ser	exercido	de	várias
maneiras,	a	partir	de	formas,	intensidades	e	modalidades	bem	distintas.	Também
a	efetividade	do	controle	do	poder	está	relacionada	com	a	racionalidade
hegemônica	que	condiciona	a	atuação	das	pessoas	e	das	instituições	que	teriam	a
possibilidade	de	impor	freios	ao	arbítrio	e	à	opressão.	O	Direito,	por	exemplo,
pode	ser	percebido	como	algo	autônomo	em	relação	ao	fato	do	poder	e	utilizado
como	um	instrumento	de	garantia	dos	direitos	e	de	manutenção	dos	limites
democráticos	ou,	ao	contrário,	pode	ser	utilizado	como	parte	do	conteúdo
normativo	que	justifica	a	opressão	e	projetos	políticos	distanciados	dos
interesses	da	população.	A	funcionalidade	da	política,	da	moral	e	do	direito
mudam	de	acordo	com	a	racionalidade.	As	instituições	mudam	de	acordo	com	a
racionalidade.	As	pessoas	mudam	de	acordo	com	a	racionalidade.
O	poder	é	sempre	a	possibilidade	de	produzir	uma	modificação	no	mundo,	em
especial	na	esfera	de	uma	outra	pessoa.	Com	o	nascimento,	ao	ser	lançada	na
linguagem,	cada	pessoa	adquire	certa	quantidade	de	poder.	A	linguagem	é	uma
condição	de	possibilidade	para	que	o	poder	possa	ser	exercido.	Há	uma
dimensão	comunicativa	no	exercício	do	poder.	Ao	exercer	o	poder,	uma
comunicação	se	faz	presente.	Uma	criança	ao	chorar	exerce	poder,	desde	que
esse	choro	produza	uma	mudança	na	ação	de	pelo	menos	uma	outra	pessoa.	O
Édipo,	na	versão	descrita	por	Freud	e	Lacan	a	partir	da	imagem	da	família
burguesa-patriarcal,	é	uma	história	de	poder,	no	qual	um	terceiro	(o	pai)	coloca
freio	à	pretensão	de	poder	ilimitado	do	filho.	Na	teoria	psicana-lítica,	a	partir	do
Édipo	bem-sucedido,	a	criança	passa	a	perceber	que	a	mãe	não	lhe	pertence	e
que	o	seu	desejo	e	poder	têm	limites.
Mas	esse	poder	inerente	a	cada	pessoa	soa	insignificante	diante	de	relações
complexas	que	ampliam	o	poder	de	pessoas	ou	entidades.	Os	conceitos	de
Estado	e	de	empresa,	por	exemplo,	trazem	em	si	as	idéias	de	complexo	de
poderes	e	reunião	de	esforços.	E	essa	ampliação	do	poder,	que	pode	se	tornar
incontrastável,	gera	riscos	aos	demais	indivíduos	e	às	instituições.	Não	por
acaso,	o	Estado	moderno	surgiu	da	separação	entre	poder	político	e	poder
econômico.^	Mas	a	transformação	de	súditos	em	cidadãos	não	fez	desaparecer
todos	os	riscos	inerentes	à	concentração	de	poder.
Ainda	que	de	forma	provisória,	pode-se	afirmar	que	a	racionalidade	é	tanto	o
estado	ou	a	qualidade	de	agir	a	partir	de	razões	quanto	o	conjunto	de	elementos
que	explicam,	condicionam	e	justificam	essas	ações	e	os	fins	visados.	As	razões
para	agir	são	crenças	ou	idéias	que	se	acredita	estarem	corretas	e,	mais	do	que
isso,	compatíveis	e	adequadas	às	ações	escolhidas	e	aos	fins	visados.
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Em	um	certo	sentido,	o	conceito	de	racionalidade	aproxima-se	do	uso	corrente	(e
do	sentido	“positivo”)6	atribuído	ao	termo	“ideologia”,	que	designa	um	conjunto
de	idéias	ou	mesmo	a	organização	de	opiniões,	condutas	e	valores	-	uma	maneira
de	pensar	concernente	ao	homem	e	à	sociedade.	Há	uma	evidente	dimensão
ideológica	da	racionalidade	na	medida	em	que	o	modo	racional	de	perceber	e
atuar	no	mundo	liga-se	a	uma	visão	de	mundo.7	Todavia,	a	racionalidade	não	se
limita	à	ideologia,	uma	vez	que	é	composta	também	por	elementos	não
ideológicos.	Vale	lembrar	que	as	condições	de	produção	do	pensamento,	que
servem	para	orga-nizá-lo,	levam	também	ao	surgimento	de	um	conjunto	de
idéias	aceito	pela	maioria	das	pessoas.
Reflexões	sobre	a	verdade	ou	a	falsidade	das	imagens,	idéias	e	crenças	que
fazem	parte	de	uma	determinada	racionalidade	são	acidentais.	A	rigor,	a
falsidade	ou	os	erros	das	premissas	identificadas	com	uma	racionalidade	se
encontram	veladas	na	relação	entre	essa	racionalidade	e	o	poder	que	é	exercido
em	concreto.	O	modo	de	ver	e	atuar	no	mundo	existe	e	condiciona	as	ações
humanas	independentemente	da	consciência	(verdadeira	ou	falsa)	das	pessoas.
Há	uma	relação	dialética	entre	as	idéias	e	a	realidade	social	no	processo	de
hegemonização	de	uma	racionalidade.	A	racionalidade,	portanto,	se	distingue
tanto	da	pura	verdade	quanto	da	pura	mentira,	tanto	da	consciência	do	real
quanto	da	falsa	consciência,	tanto	da	base	material	quanto	da	ideologia.	É	essa
formação	dialética	que	envolve	dados	objetivos	e	construções	ideológicas,	que
ajuda	a	explicar	o	fato	de	uma	racionalidade	tornar-se	adaptável	a	diferentes
contextos,	sempre	procurando	dar	sentido	e	condicionando	o	funcionamento	da
sociedade.
A	racionalidade,	portanto,	está	ligada	a	uma	espécie	de	programação	para	o
funcionamento	da	sociedade,	que	é	positiva	e,	ao	mesmo	tempo,	potencialmente
negativa,	composta	de	verdades	e	também	de	mentiras.	E	essa	programação	leva
tanto	a	um	imaginário,	a	um	conjunto	de	imagens	partilhadas,	quanto	a	uma
normatividade,	um	conjunto	de	mandamentos	de	conduta.
A	racionalidade	também	diz	respeito	à	experiência	e	à	ideia	que	procura	dar
conta	dessa	experiência.	Da	mesma	maneira	que	a	ideologia	contém	elementos
de	racionalidade,	a	racionalidade	é	construída	de	elementos	ideológicos.	Pense-
se	nas	justificativas	para	os	privilégios	da	nobreza	e	para	o	poder	do	rei	sobre	a
vida	dos	súditos	nos	regimes	monárquicos.	Ou,	ainda,	nas	explicações	para	a
desigualdade	social	no	século	XXL	Qualquer	tentativa	de	racionalização	que
pretenda	se	tornar	aceita	pela	maioria	das	pessoas	vai	conter	elementos
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pretenda	se	tornar	aceita	pela	maioria	das	pessoas	vai	conter	elementos
ideológicos	que	permitam	apresentar	como	racional	o	que	é	irracional.	Não	se
trata,	por	evidente,	de	uma	falsa	consciência	que	a	si	própria	se	basta,	mas	de	um
determinado	arranjo	de	elementos	que	não	só	justificam	como	também
condicionam	a	maneira	como	as	coisas	são	percebidas	e	projetadas	e	as	ações
são	adotadas.
De	igual	sorte,	não	pode	ser	desconsiderada	a	relação	entre	as	modificações
sociais,	o	poder	e	a	racionalidade.	Ao	longo	da	história,	as	grandes	mudanças	nas
instituições	da	sociedade	e	na	estrutura	psíquica	dos	indivíduos	se	originaram	da
relação	entre	limites	e	poder.	Ou,	em	outras	palavras,	de	novos	arranjos	desses
elementos	que	levam	a	novas	racionalidades.	A	história	das	racionalidades	é
também	a	história	dos	limites	ao	exercício	do	poder.	Não	por	acaso,	a	ideia	de
limite	está	presente	em	diversos	mitos	fundadores	do	Estado,	como	se	percebe
tanto	nas	teoriascomo
fenômenos	independentes	de	qualquer	determinação	social.	Oculta-se,	por
exemplo,	que	a	propriedade	privada	é	uma	forma	historicamente	determinada.
Em	contrapartida,	é	construído	um	imaginário	de	que	nada	pode	ser	feito	para
mudar	os	rumos	políticos	e	econômicos.	O	que	é,	na	realidade,	o	resultado	de	um
contexto	histórico-social,	no	neoliberalismo	é	apresentado	como	inerente	à	coisa.
Trata-se,	evidentemente,	de	mais	uma	mistificação,	facilitada	pelo
desaparecimento	da	reflexão	em	razão	de	uma	outra	norma	neoliberal,	a	que
enuncia	o	dever	de	simplificar	e	tornar	“transparente”	tudo	aquilo	que	já	foi
reduzido	a	uma	coisa.
No	capitalismo,	a	vantagem	ou	o	lucro	que	é	obtido	com	a	exploração	de
indivíduos	e	a	extração	do	mais-valor	é	apresentado	como	o	resultado	“limpo”
dos	fatores	de	produção.	No	discurso	hegemônico	do	capitalista,	o	lucro	não
guardaria	relação	com	a	exploração,	nem	mesmo	com	as	pessoas	envolvidas	ou
com	o	contexto	histórico-social.	Com	o	aprofundamento	da	reificação	produzido
pelo	neoliberalismo,	mesmo	os	fatores	de	produção	são	esquecidos,	com	o	lucro
e	o	valor	transformados	em	consequência	do	próprio	valor	e	do	mérito	de	cada
indivíduo	(empresário-de-si).
A	mídia	e	a	indústria	cultural	também	reproduzem	o	ambiente	da	reificação	ao
mesmo	tempo	em	que	ajudam	a	introjetar	a	norma	neoliberal.	A	repetição	de
casos	em	que	a	regra	é	o	tratamento	de	pessoas	como	coisas	em	jornais,	revistas,
telenovelas,	séries	e	outros	programas	leva	à	naturalização	da	reificação.
Esses	sintomas	ligados	à	coisificação	das	relações	sociais,	constitutivos	da	era
neoliberal,	também	são	retratados	em	obras	de	ficção.	Na	produção	de	romances
e	filmes	é	possível	perceber	uma	estética	e	uma	linguagem	que	revelam	a
economização	latente	da	vida	cotidiana	com	personagens	que	tratam	os	outros
como	objetos	que	podem	ser	usados	e	descartados.	Autores	como	Michel
Houellebecq,	Silke	Scheuermann,	Harold	Brodkey,	Arnon	Grunberg,	dentre
outros,	em	suas	obras,	apontam	a	reificação	como	a	atmosfera	em	que	se
desenvolvem	movimentos	egoicos	e	que	negam	a	alteridade.	Mesmo	no	campo
narrativo,	o	sujeito	é	transformado	em	mero	objeto,	isto	é,	ele	passa	a	ocupar	a
posição	sintática	de	objeto	no	interior	da	narrativa	de	um	outro	sujeito.	Também
no	campo	das	ciências,	em	especial	no	desenvolvimento	da	neurociência,	aposta-
se	em	uma	percepção	reificante	da	pessoa,	com	a	redução	dos	sentimentos	e	das
condutas	a	meras	reações	das	redes	neurais,	abstraindo	o	livre	arbítrio,	os	saberes
do	mundo-da-vida,	a	história	e	as	qualidades	individuais,	o	que	significa	tratar	o
ser	humano	como	uma	espécie	de	autômato	e,	portanto,	como	uma	máquina	ou
coisa.265
A	norma	neoliberal	que	determina	que	tudo	deve	ser	objeto	de	reificação	liga-se
também	ao	fenômeno	do	reconhecimento.	No	neoliberalismo,	as	pessoas	e	os
objetos	só	precisam	ser	reconhecidos	na	medida	em	que	podem	servir	de	meios
para	conseguir	vantagens	ou	lucros.	Percebe-se,	pois,	que	se	trata	de	um	falso
reconhecimento,	isso	porque	despido	de	seu	conteúdo	moral.	Na	realidade,	esse
falso	reconhecimento	busca	esconder	o	procedimento	de	instrumentalização
capitalista	potencializado	na	era	neoliberal.	Se	Adorno	e	Horkheimer	estão
corretos	ao	afirmar	que	toda	reificação	é	um	“esquecimento”,	pode-se
acrescentar	que	a	normatividade	neoliberal	busca	um	grande	“esquecimento
coletivo”	como	condição	necessária	à	manutenção	da	hegemonia	da	respectiva
racionalidade.	A	norma	que	procura	impor	que	tudo	e	todos	devem	ser	tratados
como	coisas	é	construída	a	partir	de	uma	mutação	valorativa	que	elevou	o	mais-
valor	a	objetivo	final	ou,	em	termos	psicanalíticos,	em	“causa	do	desejo”.	Vale
lembrar,	como	esclareceu	Jacques	Lacan,	que	o	mais-valor	(o	lucro,	a	vantagem)
“é	a	causa	do	desejo	da	qual	uma	economia	faz	seu	princípio”.266
Com	a	economia	libidinal	neoliberal,	todos	se	transformam	em	potenciais
exploradores	do	outro	e	também	em	exploradores-de-si	(embora	acreditem	ser
empresários,	acabam	por	confundir	“gestão	da	sobrevivência”	com
“empreendedorismo”).	Surge,	no	ambiente	normativo	neoliberal,
[...]	uma	forte	tendência	dos	sujeitos	a	encenar	determinados	sentimentos	e
desejos	por	motivos	oportunistas	a	ponto	de	também	serem	realmente	vividos
como	componentes	de	sua	própria	personalidade	-uma	forma	de
automanipulação	emocional.267
O	indivíduo	neoliberal	é	levado,	então,	a	naturalizar	a	busca	de	lucro	ou	de
vantagem	obtidos	de	sobretrabalho	não	contabilizado.	Em	outras	palavras,
busca-se	levar	vantagem	ou,	ao	menos,	a	sensação	de	levar	vantagem,	ainda	que
travestida	de	uma	busca	neutra	por	eficiência	econômica.	Para	lucrar,	o	sujeito
neoliberal	passa	a	negar	o	reconhecimento	de	direitos	e,	mais	do	que	isso,	passa
a	negar	também	o	reconhecimento	do	outro	como	um	sujeito	capaz	de
comportamentos	autônomos	e	críticos.
A	racionalização	neoliberal	levou	ao	ponto	máximo	do	processo	de	reificação
social,	o	que	só	se	tornou	possível	a	partir	da	mutação	do	simbólico	com	o
afastamento	de	limites	éticos	e	jurídicos.	No	neoliberalismo,
desapareceram	os	bens	e	valores	“fora-do-comércio”:	tudo	se	tornou	negociável
e,	portanto,	potencialmente	descartável.	Valores	como	“verdade”	e	“liberdade”,
por	exemplo,	tornaram-se	objetos	de	negociação.	O	exemplo	do	instituto	da
delação	premiada,	dispositivo	jurídico	presente	em	diversas	legislações,	no	qual
um	acusado,	e	mesmo	uma	pessoa	já	condenada	por	um	crime,	pode	assegurar	a
liberdade	(ou	outras	vantagens)	mediante	o	fornecimento	da	informação
desejada	pelo	acusador,	é	significativo.
A	ideia	de	fetichismo	da	mercadoria,	hoje,	revela-se	insuficiente	para	explicar	a
ampliação	do	processo	de	reificação	e	a	extensão	da	normatividade	neoliberal.
Mais	do	que	um	efeito	do	fetichismo	da	mercadoria,	a	reificação	é	atualmente
uma	consequência	normativa	da	racionalidade	neoliberal,	que	produziu	uma
profunda	mutação	no	simbólico	a	partir	da	incorporação	da	lógica	da
concorrência	e	do	primado	dos	cálculos	de	interesse.	É	a	racionalidade
neoliberal,	esse	modo	de	ver	e	atuar	no	mundo,	que	autoriza	a	crença	em	uma
observação	neutra	dos	fenômenos,	fruto	de	um	mero	cálculo	matemático,	e
impede	a	experiência	do	pertencimento	e	da	participação	do	sujeito	como	ator-
no-mundo.
Ainda	sobre	esse	tratamento	reificante	conferido	às	pessoas,	costuma-se	afirmar
que	ele	começou	a	ser	percebido	com	o	aparecimento	de	novas	formas	de
trabalho	por	ocasião	da	Revolução	Industrial.	Com	cada	nova	forma	de	trabalho
perdia-se	um	pouco	da	dimensão	humana	da	produção,	em	especial	a	autonomia
do	trabalhador.	E	esse	processo	de	coisificação	levou	também	tanto	à	alienação,
esse	ato	de	tornar-se	estranho	a	si	mesmo,	ao	produto	de	suas	ações	e	a	outrem,
quanto	a	uma	visão	“empresarial”	pautada	pelas	idéias	de	racionalidade
instrumental	e	governança	por	números.	Gyõrgy	Lukács	tinha	razão,	portanto,	ao
fazer	uso	da	categoria	weberiana	da	racionalidade	para	identificar	a	existência
de	uma	racionalização	que	funciona	como	motor	e	expressão	da	reificação
social,	da	“coisificação	das	relações	sociais”.268
De	fato,	pode-se	identificar	uma	relação	direta	entre	o	desenvolvimento	dos
processos	de	produção	e	o	surgimento	de	relações	distanciadas	e	impessoais	no
campo	da	socialização.	Em	apertada	síntese,	as	pessoas	foram	levadas	cada	vez
mais	a	reproduzir	nas	relações	sociais	a	lógica	instaurada	para	regular	a	troca	de
mercadorias	e	a	obtenção	de	vantagens.	Desapareceu,	assim,	a	perspectiva	da
solidariedade	e	do	pertencimento	a	uma	classe,	substituídas	por	uma	leitura	de
mundo	a	partir	de	cálculos	utilitários	e	egoístas.	Deu-se,	para	a	ampliação	da
lógica	capitalista,	a	necessidade	de	padrões	de	comportamento	egoístas,
indiferentes	e	tendencialmente	reificantes.
A	racionalidade	neoliberal,	por	sua	vez,	reconhece	a	reificação	do	mundo	como
uma	realidade	necessária,	o	que	leva	à	produção	de	uma	normatividade	que
enuncia	que	“tudo	e	todos	devem	ser	tratados	como	coisas”.	Essa	norma	tem	a
funcionalidade	de	impedir	tanto	juízos	críticos	quanto	um	engajamento
transformador	da	sociedade	e,	em	última	análise,	bloquearcontratualistas^	quanto	na	descrição	freudiana	do	assassinato	do
“Pai	da	horda”.^
A	Grécia	Antiga	e	a	Europa	moderna	são	exemplos	de	casos	em	que	os	limites
fixados	ao	poder	marcam	um	modelo	de	organização	social	que	viveu	um
movimento	de	expansão	até	os	anos	trinta	e	quarenta	do	século	XX.	Foi	a
mudança	no	modo	de	ver	o	mundo	(poder-se-ia	dizer:	uma	mudança	da
racionalidade),	ocorrida	no	momento	em	que	as	primeiras	pessoas	começaram	a
perguntar	sobre	a	justiça	das	leis	ou	se	os	deuses	do	Olimpo	realmente	existiam,
que	levou	à	incorporação	de	limites	à	tradição	ocidental.
Depois,	no	fim	da	Idade	Média,	no	momento	em	que	os	protoburgueses
perceberam	que	a	realização	de	seus	interesses	exigiría	a	formação	de
comunidades	políticas	e	de	órgãos	de	governo	que	impedissem	o	arbítrio	do
príncipe,	da	Igreja	ou	do	senhor	feudal,	outros	limites	foram	fixados.	A	fixação
desses	limites	correspondeu	também	à	origem	de	uma	série	de	direitos	da
população	e	levaram	a	profundas	modificações	no	funcionamento	das
instituições	e	também	no	subjetivismo	individual.	Em	um	certo	sentido,	o
estabelecimento	de	limites	para	impedir	a	opressão	e	a	barbárie	se	identifica	com
a	própria	ideia	de	cultura	e	de	civilização.
Hoje,	por	exemplo,	com	a	transformação	de	cidadãos	em	consumidores	acríticos,
a	concentração	de	poder	econômico	aparece	como	uma	ameaça	à	democracia,	na
medida	em	que	tende	à	produção	de	distorções	como	a	cooptação	do	poder
político	pela	potência	econômica.	O	detentor	do	poder	econômico	pode	não	só
“comprar”	o	apoio	do	poder	político	-	e	isso	se	faz	de	diversas	maneiras,	desde
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doações	legais	à	campanha	dos	políticos	até	formas	explícitas	de	corrupção	-
como	também	exercer	diretamente	o	poder	político,	como	o	fizeram	Silvio
Berlusconi,	na	Itália,	ou	Donald	Trump,	nos	Estados	Unidos,	dentre	outros.	Mas
não	é	só.	A	concentração	de	poder	econômico	leva	também	à	submissão	dos
interesses	da	população	diante	da	sedução	do	dinheiro,	ao	surgimento	de
oligarquias	industriais	e	à	primazia	das	oligarquias	financeiras,	que	lucram	a
partir	do	fenômeno	do	capitalismo	improdutivo	(rentismo).
i.2.	Governo,	projetos	e	racionalidade:	sobre
revoluções	culturais
A	própria	ideia	de	governar™	liga-se	diretamente	à	problemática	dos	limites	ao
exercício	do	poder.	O	exercício	da	soberania	política,	inerente	às	ações	de
governo,	não	passa	de	uma	manifestação	de	poder.	Não	raro,	sob	o	disfarce	do
exercício	da	soberania,	da	defesa	da	sociedade	ou	da	salvação	de	um	povo,	o
exercício	abusivo	do	poder	se	faz	naturalizado.	A	racionalidade	nazista,	por
exemplo,	só	se	tornou	hegemônica	a	partir	de	um	contexto	em	que	os	alemães	se
sentiam	humilhados	e	ameaçados,	o	que	facilitou	a	internalização	dos	mitos
raciais,	o	reforço	dos	preconceitos	já	existentes	e	a	aceitação	das	medidas
propostas	pelos	ideólogos	do	nacional-socialismo	que	as	apresentavam	como
naturais	à	defesa	da	Alemanha	e	à	sobrevivência	do	povo	alemão.
Pode-se	apontar	que	o	livro	Mein	Kampf	não	passa	de	um	pot-pourri	de	idéias	e
preconceitos	correntes	no	momento	em	que	foi	escrito	por	Hitler.	A	manipulação
dessas	idéias	e	desses	preconceitos	já	presentes	na	sociedade	alemã	levaram	a
uma	nova	visão	de	mundo	e	à	naturalização	de	práticas	condicionadas	pela
racionalidade	que	conduziu	ao	fenômeno	nazista.	Uma	racionalidade,	para	se
tornar	hegemônica,	nunca	é	obra	de	um	só	homem	ou	de	um	pequeno	grupo	de
pessoas,	mas	de	dezenas	de	milhares	de	produtores,	ideólogos,	políticos,
jornalistas,	juizes,	intelectuais,	artistas	e	outros	influenciadores	que	elaboram	ou
divulgam	as	idéias	e	imagens	típicas	dessa	racionalidade.	Há,	portanto,	uma
espécie	de	revolução	cultural	para	adequar	o	modo	de	pensar	e	sentir	da
população,	bem	como	os	atos	e	projetos	de	governo,	à	nova	racionalidade.
Em	certo	sentido,	pode-se	dizer	que	cada	racionalidade,	ao	se	tornar
hegemônica,	tende	a	produzir	uma	revolução	cultural:	a	naturalização	de	um
novo	modo	de	pensar	e	agir,	bem	como	novas	leituras	da	história,	novas	políticas
e	novos	projetos	para	o	futuro.	Com	o	nazismo	não	foi	diferente.	Mais	do	que
marco
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somente	um	projeto	de	poder,	o	nazismo	pretendeu	instaurar	uma	revolução
cultural	capaz	de	naturalizar	as	medidas	necessárias	ao	projeto	e	à	visão	de
mundo	nazista.	O	fato	de	uma	pessoa	ser	vista	e	tratada	como	um	objeto
descartável	ou	como	uma	ferramenta	ou	fator	de	produção	útil	(passível	de	ser
substituída)	só	foi	possível	a	partir	dessa	revolução	culturally
Tem-se	com	a	hegemonia	de	uma	racionalidade	tanto	uma	nova	visão	sobre	o
passado	quanto	novas	perspectivas	(projetos)	para	o	futuro	e	para	o	Estado.
Novos	relatos	e	modificações	profundas	no	campo	normativo	acompanham	esse
processo	de	construção	da	hegemonia.	Tanto	quanto	as	normas	jurídicas,
também	todo	o	campo	da	moralidade	tende	a	ser	reformado	através	de	novas
compreensões	e	categorias	que	modificam	o	pensamento	e	permitem	a	ação,	a
dominação	e	até	o	extermínio.	De	igual	sorte,	o	exercício	da	soberania	política	se
modifica	a	depender	da	racionalidade	que	condiciona	as	ações	do	governo.
A	visão	nazista	sobre	o	passado,	por	exemplo,	foi	construída	a	partir	de
preconceitos	e	pré-compreensões	(ligadas	a	fenômenos	diversos	como	o
colonialismo,	a	escravidão,	o	racismo,	a	exploração	econômica	e	o	desprezo
pelas	diferenças)	que	produziram	uma	releitura	dos	episódios	históricos	e	da
mitologia	antiga	(as	conquistas	gregas,	por	exemplo,	passam	a	ser	incorporadas
aos	feitos	nórdicos	e	germânicos),	condicionada	tanto	por	uma	angústia
biológica	quanto	por	preocupações	apocalípticas	que	reservavam	à	raça	alemã	o
papel	de	vítima	de	ataques	e	da	desnaturalização	promovida	por	influências
culturais	e	biológicas	estrangeiras	(o	iguali-tarismo,	o	direito	romano,	a
Revolução	Francesa,	os	casamentos	inter-raciais	etc.).
A	preocupação	apocalíptica	que	integrava	o	modo	de	pensar	dos	nazistas	(e	de
todos	aqueles	que	exploram	a	metáfora	bélica	do	nós	contra	eles),	por	sua	vez,
levou	a	um	determinado	modo	de	exercício	da	soberania	política	que	procurava
expandir	a	revolução	cultural	nazi	para	além	dos	limites	da	Alemanha	em	nome
da	defesa	da	pátria	e	da	raça.	Assim,	a	concepção	de	que	era	importante
abandonar	os	ideais	universalistas	e	os	valores	ligados	à	igualdade,	à
fraternidade	e	ao	humanismo	que,	segundo	a	lente	nazista,	teriam	desfigurado	o
modo	de	pensar	alemão,	levaria	a	uma	nova	visão	de	mundo	em	que	o	valor	raça
deveria	ser	encarado	como	superior	e,	portanto,	como	capaz	de	justificar	a	guerra
contra	os	indesejáveis	segundo	a	lei	de	sangue.	Uma	guerra,	também	cultural,
que	asseguraria	o	espaço	vital	ao	povo	e	aos	valores	alemães,	bem	como
permitiría	um	reino	de	paz.
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Realce
Acreditar	que	os	crimes	e	a	barbárie	nazista	foram	obras	de	monstros	e	loucos,
de	uma	época	e	de	um	país	distantes,	é	algo	que	conforta	e	tranquiliza	as
consciências.	Todavia,	não	faltam	sinais	a	apontar	o	equívoco	dessa	crença	e	a
reforçar	a	necessidade	de	compreender	o	funcionamento	do	Estado,	os	projetos
de	governo	e	a	dinâmica	da	sociedade	à	luz	da	racionalidade	hegemônica	em
cada	momento	da	história.	Em	importante	pesquisa,	publicada	em	1950,	Theodor
Adorno,	Daniel	Levinson,	Nevitt	Sanford	e	Else	Frenkel-Brunswik	revelam	que
as	convicções	políticas,	econômicas	e	sociais	de	grande	parte	da	população
norte-americana	(o	que	se	poderia	chamar	de	imaginário	norte-americano)	eram
muito	próximas	da	visão	de	mundo	dos	alemães	que	aderiram	ao	nazismo.^	As
convicções	dos	nazistas,	compartilhadas	por	pessoas	de	diversas	partes	do
mundo,	iam	ao	encontro	de	preconceitos	enraizados	nas	sociedades,	bem	como
forneciam	respostas	simples	(e,	no	mais	das	vezes,	ineficazes)	para	medos
compartilhados	pela	população.
É	importante	lembrar	que	a	crise	econômica,	a	perda	de	status	e	a	fome	de
parcela	considerável	da	população	serviam	para	dar	credibilidade	à	leitura,
distorcida	pela	lente	nazista,	de	que	o	povo	e	os	valores	alemães	estavam
ameaçados	por	fenômenos	tão	distintos	quanto	a	Revolução	Francesa	e	o
comunismo	soviético,	oscomerciantes	judeus	e	as	abstrações	do	direito	romano.
Não	se	pode	estranhar,	portanto,	que	tanta	gente,	dentro	e	fora	da	Alemanha,
tenha	acreditado	que	as	medidas	e	posições	políticas	adotadas	pelos	nazistas
eram	não	só	naturais	como	também	necessárias	à	sobrevivência.	O	resultado
dessa	adesão	acrítica	ao	projeto	nazista	é	conhecido	(e	lamentado)	por	muitos.
Todavia,	não	é	preciso	muito	esforço	para	perceber	o	risco	gerado	pela
reprodução	acrítica	da	lógica	inerente	a	uma	racionalidade.	Basta,	por	exemplo,
perceber	a	semelhança	entre	a	ilimitação	nazista	da	década	de	1930	e	a	rejeição	a
qualquer	limite	externo	inerente	à	racionalidade	neoliberal,	hoje	hegemônica.
Tanto	quanto	os	atuais	ideólogos	neoliberais,	os	nazistas	também	apostavam	em
cálculos	de	interesse	e	na	técnica	como	parte	importante	de	sua	ideologia.	Hoje,
se	substituirmos	as	idéias	de	raça	alemã	e	lei	do	sangue	por	tradicional	família
brasileira	e	moral	brasileira	ou	a	demonização	dos	judeus	pela	de	esquerdistas,
gays	e	lésbicas,	alguns	discursos	frequentes	nos	anos	1930	na	Alemanha
pareceríam	estranhamente	“familiares”	aos	brasileiros	sob	o	governo	de	Jair
Bolsonaro,	submetidos	ao	neoliberalismo	ultra-autoritário.
Para	além	do	crescimento	de	movimentos	explicitamente	neonazistas,	há	um
grande	perigo	em	ignorar	os	riscos	inerentes	ao	modo	de	pensar	e	agir	que	levou
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ao	nazismo,	o	que	dele	ainda	permanece	nas	sociedades	contemporâneas	e	a
forma	como	esse	conjunto	discursivo,	normativo	e	ideológico	é	atualizado	e
reproduzido	nos	dias	de	hoje.	Por	evidente,	não	basta	perceber	o	ridículo	que	se
revela	em	performances	escandalosamente	copiadas	da	estética	nazista,	mas	de
compreender	e	desvelar	o	perigo	que	se	esconde	em	discursos	e	práticas	que
partem	das	mesmas	premissas,	perversões	e	princípios	que	inspiraram	os
criminosos	nazistas.	Em	recente	e	polêmico	livro	(Libres	d’obéir.	Le
management,	du	nazisme	à	aujourd’hui.	Paris:	Gallimard,	2019),	o	historiador
francês	Johann	Chapoutot	revela	que	várias	práticas	comuns	à	gestão	neoliberal
se	desenvolveram	durante	o	auge	do	III	Reich.	Idéias	e	exigências	como	as	de
flexibilidade,	elasticidade,	capital	humano	e	performance	estavam	presentes	nas
diretivas	de	nazistas	importantes	como	Herbert	Backe.	Backe,	como	muitos
outros	nazistas	(e	como	muitos	dos	gestores	e	empreendedores	de	hoje),
acreditava	que	o	mundo	era	uma	arena	em	que	tudo	era	válido	para	vencer.	O
caso	de	Reinhard	Hõhn	(1904-2000)	também	é	significativo.	Jurista	e	intelectual
tecnocrata	a	serviço	do	III	Reich,	Hõhn	alcançou	o	posto	de	general
(Oberführer)	e,	após	o	fim	da	guerra,	fundou	o	principal	instituto	de	gestão	da
Alemanha,	que	acolheu	ao	longo	das	últimas	décadas	a	elite	econômica	e
patronal	do	país.	Se	é	verdade	que	o	conceito	de	gestão	é	anterior	ao	nazismo,
não	há	como	negar	que	durante	os	doze	anos	do	III	Reich	as	técnicas	de	gestão
de	recursos	e	de	pessoal	sofreram	profundas	modificações	que	serviram	de
modelo	para	as	teorias	e	práticas	no	pós-guerra.
O	Estado	é	um	dos	veículos	para	a	sedimentação	e	a	permanência	da	visão	de
mundo	e	dos	projetos	condicionados	pela	racionalidade	hegemônica.	Não	por
acaso,	o	fascista	Benito	Mussolini	escreveu	que
[...]	o	Estado	não	é	apenas	a	Autoridade	que	governa	e	confere	forma	legal	e
valor	espiritual	às	vontades	individuais,	mas	também	o	Poder	que	faz	sentir	e	ser
respeitada	a	sua	vontade	para	além	das	próprias	fronteiras,	assim	fornecendo
prova	prática	da	natureza	universal	das	decisões	necessárias	para	garantir	seu
desenvolvimento.
O	Estado	total,	sonhado	por	fascistas	e	nazistas,	levaria	ao	exercício	da	soberania
política	direcionado	à	alteração	tanto	da	normatividade	quanto	do	imaginário
popular	para	produzir	uma	nova	visão	de	mundo:	uma	revolução	cultural
antiliberal,	anticomunista	e	autoritária.
Em	princípio,	o	exercício	da	soberania	política,	como	toda	manifestação	de
poder,	pode	encontrar	limites	externos,	impostos	de	fora	por	um	terceiro,	ou
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poder,	pode	encontrar	limites	externos,	impostos	de	fora	por	um	terceiro,	ou
limites	internos,	que	se	originam	de	circunstâncias	relacionadas	à	própria	prática
governamental.	A	racionalidade	que	condiciona	a	atuação	dos	governantes,	por
sua	vez,	pode	servir	tanto	para	limitar	quanto	para	ampliar	o	exercício	do	poder,
tanto	para	instaurar	mecanismos	de	controle	democrático	quanto	mecanismos
paranóicos,	em	que	a	única	lei	a	ser	respeitada	é	a	vontade	do	governante;	tanto
para	reconhecer	a	pluralidade	quanto	para	demonizar	a	diferença.
Para	além	de	identificar	as	escolhas	políticas	dos	governantes,	que	são	muitas
vezes	disfarçadas	de	medidas	técnicas,	torna-se,	portanto,	importante	identificar
a	racionalidade	que	condiciona	o	exercício	do	poder	nas	diversas	agências
estatais	(Congresso,	ministérios,	Poder	Judiciário,	Ministério	Público	etc.).	Em
outras	palavras,	é	fundamental	entender	a	racionalização	que	leva	à	prática
governamental	e,	não	menos	importante,	compreender	o	modo	como	se	dá	o	uso
(e	o	abuso)	do	poder	na	sociedade	e	a	maneira	como	o	cidadão	percebe	o
exercício	do	poder	na	prática	governamental	concreta.	Cada	racionalidade,	como
já	se	viu,	significa	um	modo	diferente	de	ver	e	atuar	no	mundo.
Por	exemplo,	é	impossível	entender	os	mecanismos	de	poder	atuais	sem	atentar
para	o	fenômeno	do	neoliberalismo,	essa	racionalidade	governamental,	essa
normatividade	e	esse	imaginário	que	se	originam	da	premissa	de	que	o	mercado
é	o	modelo	para	todas	as	relações	sociais,	o	que	demonstra	uma	sociabilidade
marcada	pela	concorrência	e	a	crença	de	que	tudo	(e	todos)	pode(m)	ser
negociado(s).
Para	identificar	a	racionalidade	que	condiciona	tanto	os	agentes	estatais	quanto	a
percepção	da	população	acerca	do	exercício	do	poder	é	necessário	focar	no
mundo-da-vida,21	mais	precisamente,	no	acontecimento	do	poder	como	ele	se
faz	presente	na	vida	concreta	das	pessoas	que	o	exercem	e	das	pessoas	que	se
submetem	a	ele.	O	neoliberalismo,	por	exemplo,	não	pode	ser	reduzido	às
teorizações	econômicas	de	seus	“pais	fundadores”	(Mises,	Hayek,	Friedman	etc.)
e	nem	pode	ser	encarado	como	um	produto	acabado,	com	elementos	duros	e
estanques.	Mais	do	que	uma	teoria,	o	neoliberalismo,	como	toda	racionalidade,
produz	efeitos	na	vida	das	pessoas	porque	se	apresenta	como	um	modo	de	pensar
que	leva	a	uma	determinada	forma	de	exercer	o	poder.
A	análise	do	sistema	penal	pode	ajudar	a	compreender	o	método	aqui	sugerido.
Para	entender	a	relação	entre	uma	determinada	racionalidade	e	o	funcionamento
do	sistema	penal	não	há	que	se	partir	de	teorias	penais	e	nem	de	legislações	ou
instituições	tomadas	em	abstrato,	mas	de	situar	e	relacionar	a	utilização	desses
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instrumentos	por	pessoas	concretas	contra	pessoas	concretas	em	meio	ao	que	se
convencionou	chamar	de	“sistema	de	repressão”.	Mais	importante	do	que	a
abstração	é	a	análise	do	ato	de	poder,	das	consequências	do	exercício	do	poder
penal	sobre	“pessoas	de	carne	e	osso”,	e	do	desvelamento	da	funcionalidade	que
se	esconde	através	dos	discursos	oficiais.	Em	outras	palavras,	para	perceber
como	uma	racionalidade	condiciona	o	sistema	penal	é	preciso	perceber	o	uso	que
se	faz	das	teorias,	das	leis	e	das	agências	estatais,	relacionando-as	com	as
mudanças	produzidas	na	subjetividade	dos	atores	estatais	que	exercem	os	atos	de
poder	voltados	à	restrição	da	liberdade	individual.	Cada	racionalidade
hegemônica	tende	a	levar	a	respostas	diferentes	às	questões	que	buscam
esclarecer	quem	reprime,	quem	é	reprimido,	o	que	se	reprime	e	por	que	se
reprime	em	concreto	de	uma	determinada	maneira	e	não	de	outra,	isso	porque
levam	a	mudanças	estratégicas	dentro	das	relações	de	força	em	uma	sociedade.^
Tentar	abandonar	os	condicionamentos	produzidos	por	dogmatismos	ou
esquematismos,	que	tentam	simplificar	e	enrijecer	fenômenos	que	são
essencialmente	complexos	e	plásticos,	é	uma	condição	para	a	possibilidade	de	se
entender	o	que	se	esconde	em	cada	ato	de	poder,	o	que	as	diversas	manifestações
de	poder	têm	em	comum	e,	se	forpossível,	encontrar	uma	lógica	interna	de
atuação	que	leve	ao	exercício	do	poder	de	um	determinado	modo	em	uma
determinada	época.	Dizendo	de	outro	modo,	é	preciso	buscar,	na	complexidade	e
plasticidade	com	que	o	poder	é	exercido,	os	sinais	que	permitam	identificar	a
emergência	de	um	certo	tipo	de	racionalidade:	uma	racionalidade	que	permita,
em	certa	medida,	prever	e	regular	a	maneira	como	o	poder	será	exercido	sobre
qualquer	coisa	ou	pessoa	e	como	o	poder	vai	se	exteriorizar	nas	agências	estatais
e	nas	relações	entre	os	indivíduos.
Para	começar	a	identificar	as	modificações	no	exercício	do	poder	na	esfera
estatal	é	possível	seguir	o	caminho	sugerido	por	Michel	Foucault^	e	partir
daquilo	que	se	convencionou	chamar	de	“razão	de	Estado”,	um	conjunto	de
práticas	ligado	a	um	objetivo	e	que	exterioriza	uma	das	primeiras
racionalizações	sobre	o	exercício	do	poder.
1.3.	A	razão	de	Estado:	poder	de	polícia	e	vale-tudo
A	razão	de	Estado	se	situa	entre	o	Estado	concreto	e	como	ele	deveria	ser.	A
razão	de	Estado,	portanto,	foi	percebida	por	Foucault	como	uma	racionalidade
que	passou	a	condicionar	as	ações	do	Estado	com	o	objetivo	de	permitir,	de	uma
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maneira	refletida	e	calculada,	que	se	alcançassem	os	objetivos	estatais,	tornando-
o	sólido,	próspero	e	forte	para	fazer	frente	a	tudo	que	possa	destruí-lo.
A	expressão	“razão	de	Estado”	surge	no	Renascimento	tardio,	em	geral,
relacionada	ao	uso	da	força	pelos	governantes,	que	buscavam	atingir	os	objetivos
estatais,	conservar	e	garantir	a	ordem	de	determinado	principado	ou	sociedade.lZ
A	partir	de	uma	determinada	compreensão	do	Estado,	que	priorizava	os
objetivos	e	fazia	uso	indiscriminado	dos	instrumentos	à	disposição	dos
governantes,	exercia-se	o	poder	em	atos	que	não	encontravam	limites	pré-
estabelecidos.	A	razão	de	Estado,	que	se	liga	principalmente	à	exigência	de
assegurar	a	segurança	do	Estado,	levava	os	governantes	a	determinados	modos
de	atuar	que	eram	naturalizados	em	um	certo	contexto.	Essa	naturalização,	como
se	verá,	é	efeito	de	um	imaginário,	de	uma	imagem	que,	apesar	de	estar	no
campo	perceptivo,	não	é	objeto	de	reflexão	porque	não	interessa,	pois	é
percebida	como	ordinária	e	familiar.	Durante	a	hegemonia	da	razão	de	Estado,	a
imagem	do	uso	livre	da	força	estatal	e	a	ideia	de	uma	força	incontrastável	a
serviço	do	governo	tornaram-se	familiares.
Em	apertada	síntese,	pode-se	apontar	que	os	governantes	consideram	estar	diante
de	uma	missão	ou	razão	superior	(a	razão	de	Estado),	que	os	autorizaria	a	se
comportar	e	a	agir	sem	limites	na	busca	de	um	determinado	resultado.	Ainda
hoje,	esse	modo	de	pensar	e	agir	que	evoca	interesses	superiores	como
justificativa	para	aquilo	que	seria	em	princípio	inaceitável	está	presente	em
governos	autoritários.
Essa	racionalidade,	que	tende	ao	abuso	e	ao	arbítrio,	assume	hegemonia	no	curso
do	século	XVI,	caracte-rizando-se	pelo	fato	do	Estado	passar	a	ser	definido
como	uma	realidade	específica	e	autônoma	(ao	menos,	relativamente
autônoma).18	E	isso	se	dá	a	partir	da	reiteração	de	um	certo	número	de	práticas,
de	uma	certa	maneira	de	governar	e	da	constituição	de	instituições	adequadas	a
essas	práticas	e	a	essas	maneiras	específicas	de	governar	que	se	relacionam	com
os	objetivos	superiores	atribuídos	ao	Estado.
Essa	racionalidade	conhecida	como	razão	de	Estado,	para	alcançar	seus
objetivos,	incorporou	o	mercantilismo,	que	pode	ser	entendido	como	uma	forma
de	governo	dos	assuntos	econômicos.	Mais	do	que	uma	doutrina	econômica,	o
mercantilismo	revela	uma	certa	organização	da	produção	e	dos	circuitos
comerciais	segundo	o	princípio	que	enuncia	a	necessidade	do	Estado	enriquecer
para,	depois,	se	reforçar	com	o	crescimento	da	população,	gerando	mais
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soldados	e	pessoas	interessadas	no	comércio	e,	por	fim,	conseguir	entrar	e	se
manter	em	um	estado	de	concorrência	permanente	com	os	demais	Estados,	vistos
como	outros	centros	de	exercício	de	poder.
De	um	lado,	o	mercantilismo,	do	outro,	a	necessidade	de	uma	gestão	interior	dos
interesses	do	Estado,	que	se	faz	através	do	que	hoje	se	costuma	chamar	de	poder
de	polícia:	o	poder	de	controlar	a	população	de	um	Estado	segundo	um	modelo
de	ordem.	O	objeto	do	poder	de	polícia	é,	em	razão	do	que	se	espera	dele,	quase
infinito.	Dito	de	outra	forma,	a	partir	da	geração	de	um	poder,	de	um	complexo
de	forças	voltado	ao	objetivo	de	controlar	os	indivíduos	(e	do	monopólio	desse
poder),	abre-se	a	possibilidade	para	um	rol	de	medidas	praticamente	infinito	a
disposição	dos	detentores	desse	poder,	e	que	se	justificariam	a	partir	dos	fins
positivos	do	Estado	de	polícia.	Para	fazer	o	bem	e	manter	a	ordem,	praticamente
tudo	é	permitido,	segundo	a	lógica	da	razão	de	Estado	e	do	poder	de	polícia.
Antes	de	avançar	sobre	a	história,	que	envolve	a	identificação	da	racionalidade
hegemônica	em	cada	período	histórico,	vale	insistir	que	o	Estado,	a	sociedade	e
o	indivíduo	não	devem	ser	pensados	como	meras	abstrações.	O	Estado	é,
sobretudo,	aquilo	que	se	exterioriza	através	de	uma	certa	maneira	de	governar
ou,	mais	precisamente,	de	uma	determinada	maneira	de	exercer	o	poder	por
determinadas	pessoas	em	uma	determinada	sociedade.	O	fato	do	Estado,	ao
longo	da	história,	ter	servido	à	manutenção	do	sistema	capitalista,	permite
identificar	uma	forma	jurídica	e	uma	maneira	de	exercer	o	poder	político	que	faz
dele	um	instrumento	voltado	à	manutenção	de	um	determinado	modelo	político	e
econômico,	que	mira	na	preservação	da	propriedade	privada,	no	funcionamento
do	livre-mercado,	na	manutenção	da	lógica	da	concorrência	e	no	enriquecimento
dos	detentores	do	poder	econômico.	O	Estado	que	hoje	precisa	ser	pensado	e
compreendido	é	o	Estado	capitalista.	Poderia	ter	sido	diferente,	mas	não	foi.	É	o
Estado	concreto,	como	ele	funciona	e	a	quem	ele	atende,	que	merece	uma
abordagem	crítica.
Vale	lembrar,	por	oportuno,	que	toda	a	análise	de	Marx	sobre	o	Estado	parte	da
forma	concreta	de	como	o	poder	estatal	era	(e	ainda	é)	exercido	e	sentido.	Isso
fez	com	que	o	Direito,	o	conjunto	normativo	estatal	com	pretensão	de	regular
tanto	o	comportamento	individual	quanto	a	atividade	do	Estado,	tenha	sido
tratado	como	uma	forma	social	relacionada	ao	processo	de	valorização	do	valor.
O	capitalismo,	em	apertada	síntese,	é	esse	fim	em	si	de	transformar	dinheiro	em
mais	dinheiro,	e,	para	Marx,	o	Estado	existiría	para	atender	a	esse	objetivo.	A
obra	marxiana	permite,	ainda,	identificar	que	as	exigências	normativas	existiam
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e	ainda	existem,	mas	são	irrelevantes	(e	ignoráveis)	para	os	detentores	dos	meios
de	produção	(o	que	importa	para	eles	é	apenas	transformar	dinheiro	em	mais
dinheiro).	Ao	longo	da	história,	os	detentores	do	poder	econômico	sempre
esperaram	(e	ainda	esperam)	utilizar	o	Estado,	e	inclusive	o	Direito,	para	manter
suas	posições	privilegiadas	e	permitir	que	ganhem	ainda	mais	dinheiro.
A	forma	jurídica	“Estado”,	historicamente	comprometida	com	a	manutenção	das
estruturas	do	modelo	capitalista,	não	é	eterna.	Ela	pode	ser	abandonada.	Mas,
para	compreender	a	racionalidade	hegemônica	no	Estado,	que	leva	às	ações	das
agências	estatais,	é	fundamental	perceber	que	o	Estado	só	merece	atenção	a
partir	da	maneira	como	o	poder	político	é	exercido	em	concreto.	E	essa	maneira
de	exercer	o	poder	político	depende	de	uma	determinada	racionalidade,	de	uma
espécie	de	programa	que	leva	a	um	modo	de	compreender	e	agir.	Da	mesma
maneira,	as	agências	estatais	(Poder	Judiciário,	agências	reguladoras,	fundações
públicas	etc.)	só	podem	ser	compreendidas	a	partir	do	que	os	atores	estatais
fazem	(ou	podem	fazer)	delas.
Ações	estatais	voltadas	à	redução	da	desigualdade	e	ações	políticas	direcionadas
à	acumulação	de	capital	são	o	resultado	de	opções	políticas	que,	em	princípio,
atendem	a	diferentes	racionalidades.	A	partir	da	constatação	de	que	a
funcionalidade	e	os	fins	do	Estado	dependem	do	modo	específico	de	como	o
poder	político	é	exercido,	o	que	se	dá	em	um	determinado	contexto	a	partir	da
internalizaçãode	valores	e	concepções	sobre	as	melhores	práticas	e	objetivos,
reforça-se	a	necessidade	de	entender	como	se	desenvolve	essa	certa	maneira	de
exercer	o	poder,	as	nuances	do	modo	como	ele	é	exercido,	quem	ganha	com	isso,
quem	perde,	qual	é	a	história	que	levou	à	hegemonia	dessa	maneira	de	agir,
como	são	desenvolvidas	novas	práticas,	qual	a	perspectiva	de	superação	dessa
racionalidade	etc.
A	identificação	da	razão	de	Estado	como	uma	racionalidade	parte	da	premissa
de	que	a	ela	corresponde	uma	determinada	maneira	de	exercer	o	poder,	um
conjunto	de	crenças	sobre	a	finalidade	do	Estado	e	a	natureza	dos	governantes,
um	rol	de	práticas	tidas	como	racionais	e,	em	especial,	uma	forma	de	encarar	a
relação	entre	poder	e	limites	aos	governantes.	Em	linhas	gerais,	permanece
íntegra	a	afirmação	de	que	cada	Estado	deve	se	autolimitar	a	partir	de	seus
próprios	objetivos,	bem	como	assegurar	sua	independência	(soberania)	e
acumular	forças	que	permitam	não	se	encontrar	em	situação	de	inferioridade	em
relação	aos	outros	países	e	impotente	em	relação	à	própria	população.	O	Estado
deve,	portanto,	ter	condições	de	exercer	poder	suficiente	para	manter	a	ordem
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interna	e,	ao	mesmo	tempo,	se	manter	competitivo	no	plano	internacional.	No
século	XVII	tivemos	o	aparelho	diplomático-militar,	que	surgiu	dessa	espécie	de
autolimitação	externa	do	exercício	do	poder	(a	necessidade	de	se	relacionar	com
potências	externas),	servindo	à	coordenação	entre	esse	princípio	da
autolimitação	do	Estado	e	o	princípio	da	concorrência	necessária	entre	os
diferentes	Estados.
Se	na	relação	com	os	outros	Estados,	em	razão	dos	poderes	que	os	outros	países
podem	exercer	(poder	econômico,	bélico,	simbólico	etc.),	cada	Estado	mostra
limites,	o	mesmo	não	pode	ser	dito	em	relação	ao	exercício	do	poder	na	esfera
interna.	Tem-se,	nesse	particular,	as	condições	para	o	surgimento	do	que	se
convencionou	chamar	de	Estado	de	Polícia,	um	modelo	que	se	caracteriza	pelo
exercício	do	poder	de	interferir	na	esfera	de	terceiros,	sem	a	existência	de
limites,	para	dar	conta	de	uma	série	de	problemas	e	atender	a	uma	série	de
objetivos	não	bem	definidos	e	potencialmente	ilimitados.	Os	detentores	do	poder
político,	ao	exercerem	o	poder	de	polícia,	que	é	a	principal	manifestação	da
razão	de	Estado,	podem	produzir	efeitos	sobre	um	número	enorme	de
indivíduos,	em	diferentes	intensidades	e	em	variados	aspectos	de	suas	vidas.
Pode-se	afirmar,	e	os	tratados	que	abordam	o	poder	de	polícia	nos	séculos	XVII
e	XVIII	deixam	isso	evidente,	que	a	razão	de	Estado,	entendida	como	uma
racionalidade	governamental,	levava	a	objetivos	limitados	em	relação	aos	outros
Estados.	Isso	em	consequência	do	fenômeno	da	concorrência	entre	os	Estados,
que	limitava	os	desejos	de	onipotência	dos	detentores	do	poder	político.	Por
outro	lado,	a	razão	de	Estado	autorizava	objetivos	ilimitados	no	interior	do
Estado,	o	que	significava,	não	raro,	quadros	de	despotismo	e	de	arbítrio	contra
indivíduos	ou	grupos	de	indivíduos	percebidos	como	indesejáveis.	Percebe-se,
pois,	que	o	mecanismo	da	concorrência	entre	os	Estados	poderia	funcionar	como
um	elemento	limitador	do	poder,	mas	essa	necessidade	de	autolimitação	do
exercício	do	poder	em	relação	a	outros	Estados	sempre	contrastou	com	a
tendência	à	ilimitação	no	exercício	do	poder	no	interior	das	fronteiras	do	Estado.
Essa	tendência	à	ilimitação	do	exercício	do	poder	de	polícia,	do	poder	exercido
para	o	controle	social	dentro	dos	limites	de	um	Estado,	nunca	deixou	de	existir.
Até	hoje,	ao	se	recorrer	aos	discursos	securitários,	que	pretendem	substituir	o
valor	liberdade	pelo	valor	segurança,	os	governantes	buscam	retomar	a	tradição
da	razão	de	Estado.	Aliás,	a	permanência	da	ideologia	da	defesa	social,	que
busca	naturalizar	o	exercício	do	poder	no	interior	de	um	Estado	em	nome	da
defesa	da	sociedade,	ainda	que	fora	dos	marcos	legais,	é	um	bom	exemplo	dessa
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permanência	autoritária.	Ainda	hoje,	tanto	à	direita	quanto	à	esquerda	do
espectro	político	(échiquier	politique),	não	são	poucos	os	governantes	que
defendem	o	afastamento	dos	limites	democráticos	ao	exercício	do	poder	(em
especial	a	desconsideração	dos	direitos	e	garantias	fundamentais),	apontando-os
como	obstáculo	à	eficácia	estatal	no	tratamento	de	indivíduos	etiquetados	de
perigosos	ou	suspeitos.
Aliás,	o	tratamento	jurídico	dado	ao	poder	de	polícia	ao	longo	do	tempo
demonstra	que	a	razão	de	Estado	nunca	chegou	a	ser	completamente
abandonada.	Por	vezes,	apostou-se	no	controle	do	poder	de	polícia	através	das
regras	do	jogo	próprias	do	Estado	Democrático	de	Direito,	tais	como	o	respeito
aos	direitos	fundamentais,	o	controle	da	função	administrativa	de	polícia	pelo
exercício	independente	da	função	jurisdicional,	a	atenção	às	formas	processuais,
a	atuação	estatal	adstrita	ao	princípio	da	legalidade	estrita	etc.	Em	outras
oportunidades,	permitiu-se	que	o	poder	de	polícia	fosse	exercido	sem	pudor,
limite	ou	controle	efetivo	com	o	objetivo	de	controlar	a	população,	em	especial
aqueles	que	são	considerados	indesejáveis	aos	olhos	dos	detentores	do	poder
político,	em	especial	os	pobres	e	o	inimigos	políticos	dos	detentores	do	poder.
As	teorias	do	tipo	normativo	de	autor	(Tãtertyp),	durante	o	nazismo	na
Alemanha,	e	do	inimigo	do	povo,	desenvolvida	na	União	Soviética	durante	o
período	stalinista,	para	citar	dois	exemplos,	partiam	da	mesma	premissa	que
fundamentava	a	razão	de	Estado	e	procuravam	dar	feição	legítima	ao	exercício
arbitrário	do	poder	contra	parcela	da	população.
Como	percebeu	Walter	Benjamin,	o	poder	de	polícia	é	exercido	sempre	que	o
Estado	(ou,	mais	precisamente,	os	detentores	do	poder	político)	não	está	em
condições	de	alcançar	(por	impotência	ou	por	limitações	inerentes	ao
ordenamento	jurídico)	os	fins	empíricos	que	deseja	realizar	a	qualquer	preço.f^
O	poder	de	polícia	é	justificado	por	questões	de	segurança.	O	significante
“segurança”	passa	a	se	identificar	com	os	fins	desejados	pelos	detentores	do
poder	político,	o	que	facilita	a	permanência	do	poder	de	polícia	como	uma	figura
espectral	e	difusa	sempre	presente	na	vida	dos	Estados	civilizados.^	Pode-se,
portanto,	apontar	a	razão	de	Estado	como	o	antecedente	lógico	e	teórico	de	todo
discurso	(e	prática)	fundador	da	ideologia	securitária.
Com	a	razão	de	Estado,	e	mais	precisamente	com	o	poder	de	polícia,	desaparece
a	diferença	entre	a	violência	que	cria	as	condições	para	a	lei,	a	que	conserva	a	lei
e	a	contrária	à	lei.	O	poder	de	polícia	não	guarda	uma	relação	necessária	com	o
objetivo	de	criar	condições	para	a	lei	ou	de	conservá-la,	ele	é	uma	manifestação
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da	violência	sem	compromisso	com	a	lei.	No	modo	de	pensar	e	agir
condicionado	pela	razão	de	Estado,	violência	estatal	tendería	a	ser	percebida
sempre	como	legítima,	pois,	em	última	análise,	serviría	a	uma	finalidade
superior	que,	para	ser	alcançada,	poderia	exigir	até	a	violação	da	lei.
Da	mesma	maneira	que	a	concorrência	entre	Estados	serve	de	limite	aos
governantes,	é	possível	identificar	que	diversos	outros	fatores	interferem	no
exercício	do	poder.	Do	ponto	de	vista	teológico,	Deus	pode	tanto	legitimar
quanto	deslegitimar	o	exercício	do	poder.	Lutero,	por	exemplo,	justificava	o
direito	divino	do	príncipe	(e,	em	consequência,	o	exercício	do	poder)	em
consequência	da	“natureza	corrupta”	dos	homens.	Não	por	acaso,	no	século	XVI,
as	grandes	monarquias	(França,	Inglaterra	e	Espanha)	disputavam	com	o	Papa	a
palavra	do	Pai	(potentia	absoluta).	Ainda	hoje,	o	discurso	da	luta	do	bem	contra
o	mal	se	apresenta	como	justificativa	teológica	para	abusos	e	arbítrios	em	nome
do	bem.
Como	acontece	com	a	imagem	de	Deus,	também	o	poder	bélico	e	o	poder
econômico	de	um	ente	funcionam	como	fatores	com	potencial	de	limitar	o
exercício	do	poder	de	outros	entes.	Do	ponto	de	vista	geopolítico,	o	poder
econômico	e	o	poder	bélico	de	um	país	podem	reduzir	a

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