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ENSINO MÉDIO
CIÊNCIAS HUMANAS
E SOCIAIS APLICADAS
SOCIEDADE E CULTURA
Editores responsáveis: 
Flávio Manzatto de Souza 
Valéria Vaz 
Organizadora: SM Educação 
Obra coletiva, desenvolvida e produzida 
por SM Educação.
MANUAL DO PROFESSORM
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2 900002 080698
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ISBN 978-65-5744-191-6 
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CÓDIG
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IVULGAÇÃO. 
VERSÃO S
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 » Competências e
habilidades
CGEB1, CGEB2, CGEB3 e 
CGEB7.
CECHSA1: EM13CHS101 e 
EM13CHS102.
CECHSA5: EM13CHS501, 
EM13CHS502 e 
EM13CHS504.
CECNT2: EM13CNT201.
A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO
SOBRE A SOCIEDADE
O conhecimento é uma produção social e cultural, ou seja, envolve a participa-
ção de diferentes indivíduos em determinado contexto. Uma de suas variantes, o 
conhecimento científico, é a base do conhecimento produzido nas universidades 
e ensinado nas escolas. Embora se desenvolva de forma sistematizada nas ins-
tituições de ensino e pesquisa, o conhecimento científico se utiliza de dados co-
letados na sociedade, que se torna objeto de estudo.
1
1. Você já foi entrevistado para alguma pesquisa profissional? Converse com os 
colegas e veja se eles já participaram desse tipo de entrevista. Em seguida,
descubram juntos as diferenças em relação ao tema da pesquisa e ao seu
modo de realização.
2. Pesquisas de opinião sobre produtos ou sobre intenção de voto são muito
comuns. Que outras pesquisas sobre tendências de comportamento e que
coletam dados sobre a população você poderia elencar?
3. Se você pudesse realizar uma pesquisa para investigar algum aspecto da
sociedade, qual seria? Como você escolheria quem entrevistar? Qual aborda-
gem você imagina que seria mais eficaz para obter resultados?
Recenseador do Instituto Brasileiro 
de Geografia e Estatística (IBGE) 
realiza pesquisa para o Censo 2010, 
em Itapevi (SP). Foto de 2010.
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O SER HUMANO COMO SER SOCIAL
Os seres humanos possuem uma série de necessida-
des biológicas relativas à conservação da vida. Entre elas, 
é possível mencionar as necessidades de ingerir alimen-
tos, dormir e se proteger das adversidades. No entanto, 
a forma como essas atividades são realizadas se articula 
com a cultura na qual as pessoas estão inseridas. A ação 
humana agrega conhecimentos e experiências que são 
compartilhados entre os indivíduos de uma sociedade.
Assim, cada cultura cria formas diversas de organi-
zar sua existência. Se já é possível notarmos grande 
variabilidade de formas de vida em nossa comunidade, 
imagina, então, se considerarmos as sociedades que 
viveram ao longo dos séculos, desde o surgimento da 
humanidade?
Desse modo, a vida em sociedade é resultado do pro-
cesso de elaboração e transmissão de conhecimentos, 
que só podem ser compreendidos considerando seus 
contextos culturais e históricos. As expressões artísticas, 
as festas, as maneiras de demonstrar afeto, as formas de 
comunicação, a produção de ferramentas, os conflitos e 
as formas de solucioná-los são construídos coletivamen-
te, por meio de padrões socialmente estabelecidos.
Além disso, em cada sociedade, são atribuídos diferen-
tes significados a objetos, comportamentos e partes do 
corpo, por exemplo, que também variam de acordo com 
os diferentes grupos sociais e o contexto em que estão 
inseridos. Esses significados também são constantemen-
te reelaborados nas interações sociais.
Muitas vezes, algo que é considerado estranho para 
um grupo é comum para outro grupo. Por isso, é 
As sociedades apresentam diferentes culturas, que se manifestam, por exemplo, em suas festas e expressões artísticas. Na foto à 
esquerda, indígenas da etnia Enawenê-nawê realizam ritual de música para homenagear seus líderes espirituais, em Juína (MT), 2020. 
Na foto à direita, grupo folclórico em apresentação de dança típica da Ucrânia, em Antonina (PR), 2017.
importante a construção de um olhar crítico em relação à 
própria cultura, assim como exercitar a empatia para en-
tender e aceitar o que é diferente, pertencente a outro 
grupo ou outra cultura.
Muitos pensadores se dedicaram a compreender as 
sociedades e suas formas de conhecimento em distintos 
contextos culturais e históricos. Ao longo desta unidade, 
você vai estudar como eles criaram metodologias para 
compreender a vida social e suas formas de organização.
Na Antiguidade, em suas teorizações sobre política, o 
filósofo Aristóteles (384–322 a.C.) classificava os seres 
humanos como gregários, ou seja, a vida em sociedade 
não era uma opção, e sim uma necessidade dos seres hu-
manos. Segundo o filósofo, para compensar a fragilidade 
do corpo humano em comparação a outras espécies ani-
mais mais autônomas, a vida em sociedade operaria co-
mo um mecanismo essencial para a proteção e para o 
desenvolvimento humano.
No entanto, mesmo em comparação a outros animais 
gregários, como as abelhas, que dividem as tarefas de 
acordo com sua posição no coletivo (abelha-rainha, zan-
gões ou operárias), o ser humano apresenta uma diferen-
ça substancial.
De acordo com Karl Marx (1818–1883), outro pensa-
dor que se ocupou do caráter social dos seres humanos, 
estes se organizam em sociedades para suprir tanto as 
“necessidades do estômago” quanto as “necessidades do 
espírito”. Isso significa que, ainda que as necessidades 
biológicas tornem fundamental a vida em sociedade, o 
ser humano vive desse modo também por necessidades 
criadas pelas culturas.
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13Não escreva no livro.
A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO
Na vida em sociedade, os seres humanos buscam com-
preender e modificar a realidade. É a partir da experiência 
e das interações sociais que os indivíduos adquirem e 
transmitem conhecimento. É por meio das vivências co-
tidianas que sabe, por exemplo, que uma chave deve en-
caixar na fechadura para poder abrir uma porta, ou que, 
para atravessar a rua, é necessário respeitar os sinais de 
trânsito.
Desse modo, todas as pessoas produzem conhecimen-
to, de acordo com os contextos histórico e cultural em que 
estão inseridas. Em geral, os conhecimentos exercem o 
papel de solucionar os problemas que surgem na vida em 
sociedade, os quais podem estar relacionados à alimen-
tação, ao transporte, à interação com a natureza, às ma-
neiras de organizar as relações socais, etc. As soluções 
para essas questões também podem ser fundamentadas 
de acordo com distintas formas de conhecimento, que se 
baseiam em diferentes perspectivas de análise.
O conhecimento religioso oferece explicações para o 
sentido da vida com base em princípios morais e na cren-
ça em uma ou mais divindades. Cada religião possui sím-
bolos e rituais específicos. De acordo com o IBGE, em 2010, 
92% da população brasileira declarava seguir uma reli-
gião, sendo a maioria praticante do catolicismo, seguido 
dos evangélicos pentecostais e neopenteconstais, do es-
piritismo, da umbanda e do candomblé.
O conhecimento filosófico é pautado no pensamento 
racional e na lógica para compreender a essência das coi-
sas e investiga a realidade com base no questionamento 
dos fenômenos. Por isso, o filósofo adota uma postura de 
estranhamento em relação às coisas, para que, desse mo-
do, possa compreender melhor sua essência.
O senso comum abarca os saberes produzidos e trans-
mitidos de acordo com a experiência e com opiniões e 
ideias que orientam a vida em sociedade. São saberes 
que não são verificados cientificamente, mas que carre-
gam uma importância social e cultural. Ao aprender a 
andar de skate, por exemplo, um jovem utiliza os conhe-
cimentos adquiridos com a experiênciae seu ser se manifestam. 
mills, Charles Wright. A imaginação sociológica. 
Rio de Janeiro: Zahar, 1969. p. 12-13.
A entrevista é um importante instrumento para a 
realização de pesquisas sociológicas. Jovem entrevista 
mulher em São Paulo (SP). Foto de 2016.
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31Não escreva no livro.e os conselhos 
O conhecimento 
religioso baseia-se na 
fé, que não pode ser 
testada, confirmada ou 
negada. A umbanda é 
uma religião brasileira 
que mistura elementos 
do catolicismo, de 
religiões africanas e do 
espiritismo. Na foto, 
umbandistas fazem 
oferenda a Iemanjá, em 
Rio Grande (RS). 
Foto de 2020.
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dos amigos que já praticam o esporte. Dessa maneira, 
esse jovem se baseia no senso comum.
O conhecimento científico abarca uma metodologia de 
investigação e verificação aceita por pesquisadores de 
uma área do conhecimento. É resultado da busca de ex-
plicações para fenômenos naturais e sociais com base na 
aplicação sistemática dessa metodologia.
A compreensão do mundo com base nesses diferentes 
tipos de conhecimento adquiriu diferentes características 
de acordo com o contexto histórico. Na Idade Média, por 
exemplo, predominava o conhecimento religioso como ex-
plicação dos fenômenos. Desse modo, os desastres naturais 
e as mazelas sociais eram atribuídos à vontade divina, ca-
bendo aos seres humanos aceitá-los. Com o declínio do feu-
dalismo e as crescentes críticas às hierarquias e à servidão 
características desse regime, as explicações racionais para 
os fenômenos ganharam destaque, e o conhecimento pas-
sou a ser associado à investigação e ao questionamento.
Nesse contexto, estavam em curso grandes mudanças 
relacionadas, por exemplo, ao crescimento das cidades, ao 
surgimento de novas tecnologias, ao desenvolvimento dos 
Estados-nação e à ideia de representatividade política. Es-
sas transformações impactaram profundamente os modos 
de vida e as dinâmicas de sociabilidade das pessoas. 
Nos séculos XVIII e XIX, as transformações políticas, 
econômicas e sociais engendradas pela Revolução Fran-
cesa e pela Revolução Industrial propiciaram a valoriza-
ção do exercício da razão. A centralidade da razão é o que 
definiu, a partir de então, a noção de modernidade. Assim, 
o conhecimento científico foi associado à ideia de verda-
de, que, como todo conceito, variou historicamente, como 
veremos a seguir.
Na modernidade, a noção de indivíduo se tornou mais 
complexa em razão das transformações ocorridas no âm-
bito das relações sociais marcadas por novos códigos cul-
turais, concepções de individualidade e formas de orga-
nização política no mundo ocidental. Em meio às 
mudanças, foram criadas condições para o debate a res-
peito da natureza dos seres humanos, seu papel em di-
ferentes culturas, suas instituições e sua capacidade pa-
ra a autodeterminação.
14
CONCEPÇÕES SOBRE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO
Como visto anteriormente, a ciência corresponde a um tipo de conhecimento ca-
racterizado por uma metodologia de investigação. Outras características do conhe-
cimento científico são a apresentação de dados e informações necessários à cons-
trução do conhecimento, a elaboração de hipóteses explicativas e a demonstração 
com base em princípios lógicos. Diferentemente, portanto, do senso comum, que 
extrai suas conclusões das impressões pessoais, sem uma metodologia específica, 
o conhecimento científico opera com experimentos e observações para a obtenção 
de conhecimentos que possam ser compreensíveis pela razão.
Ainda que a ciência, da Antiguidade até o presente, tenha conexões com a razão, 
com o conhecimento e com a verdade, existem diferenças importantes que possibi-
litam a categorização de diferentes concepções de ciência. De acordo com a filósofa 
Marilena Chauí (1941- ), a produção científica pode ser classificada de acordo com 
ao menos três concepções:
 • Concepção racionalista: associada ao mundo grego, essa concepção constrói a 
ciência basicamente nos moldes matemáticos, por dedução e demonstração. É uma 
concepção baseada na ideia de que existe uma realidade dada e que a ciência é 
a representação perfeita dela. Ela se estendeu até o século XVII.
 • Concepção empirista: utiliza os conhecimentos gregos relacionados à medicina e 
se fortaleceu com as pesquisas em história natural do século XVII. Tem a indução 
como motor principal, ou seja, parte de experiências para chegar à definição do 
objeto de estudo, bem como de suas leis de funcionamento.
 • Concepção construtivista: elaborada no século XX, fundamenta-se na ideia de 
que o ser humano apenas se aproxima da razão e da verdade por meio da cons-
trução de modelos explicativos para a realidade. Nela, a verdade aproximada é 
sempre passível de complementações, correções e atualizações.
A Escola de Atenas
A obra A Escola de Atenas, afresco 
elaborado pelo pintor italiano Rafael 
Sanzio (1483-1520) entre 1508 e 
1511, representa a valorização da 
razão a partir da retomada de ele-
mentos da Antiguidade clássica, o 
que configura uma das principais ca-
racterísticas do Renascimento. A obra 
também apresenta inovações técni-
cas desse contexto, como a perspec-
tiva, a composição geométrica e a 
técnica de sombra e luz.
A pintura ilustra a Academia de 
Platão, onde são representados filó-
sofos, astrônomos, matemáticos e 
artistas. No centro do quadro, é pos-
sível observar Platão, com a mão 
apontada para cima, e seu discípulo 
Aristóteles, com a mão apontada pa-
ra baixo. Essa cena representa um 
grande conflito presente nas discus-
sões sobre ciência, que diz respeito 
à oposição entre conhecimento inte-
ligível e conhecimento sensível.
1. Em sua opinião, o conflito entre conhecimento inteligível e conhecimento sensível representado no quadro de 
Rafael Sanzio ainda está presente na produção científica atual? Justifique.
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O afresco A Escola de Atenas, de Rafael Sanzio, está no Palácio Apostólico 
do Vaticano. Essa obra retrata Platão, Aristóteles, Sócrates, Pitágoras, entre outros 
filósofos gregos, e evidencia diferentes concepções sobre o conhecimento. 
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15Não escreva no livro.
Ciência e razão
Ao longo da história, em contextos distintos e de maneiras diversas, os seres 
humanos desenvolveram diferentes formas de conhecimento. O senso comum é 
uma delas. De acordo com Aristóteles, o senso comum abrange o que é percebi-
do pelos sentidos. Outros escritores latinos clássicos definem o senso comum co-
mo um hábito ou um costume comum.
Embora as definições variem, elas sempre estabelecem uma distinção entre 
senso comum e ciência. O conhecimento científico é produzido com base na razão 
e almeja alcançar a verdade, pressupondo uma metodologia específica que não 
é aplicável ao senso comum.
Apesar de manter essa definição geral, o conhecimento científico sofreu uma 
importante transformação na passagem do final do século XIX para o início do 
século XX. O surgimento do construtivismo redimensionou as pretensões da ciên-
cia em relação à busca da verdade, que passou a ser entendida como um consen-
so provisório, e não mais uma essência infalível. Esse movimento ficou muito co-
nhecido por um traço específico: a desconfiança em relação à razão.
Alguns acontecimentos históricos do século XX alimentaram essa desconfian-
ça. Ao presenciar as graves consequências da utilização dos conhecimentos cien-
tíficos nas duas Guerras Mundiais, no surgimento de regimes fascistas e no cres-
cimento das desigualdades sociais e dos impactos ambientais, parte significativa 
da intelectualidade do século XX passou a se dedicar ao estudo dos limites da 
racionalidade. Para Karl Marx, a modernidade corresponde ao período em que 
“tudo o que é sólido se desmancha no ar”, como reflexão das grandes mudanças 
políticas e sociais desse contexto.
Não foram somente os acontecimen-
tos históricos, contudo, que motivaram 
esse questionamento. O filósofo Friedrich 
Nietzsche (1844–1900), nas últimas dé-
cadas do século XIX, já suspeitava da 
confiança excessiva na racionalidade, 
caracterizando a história da filosofia co-
mo a história do triunfo da razão em de-
trimento do que ele chamava de “afirma-
ção da vida”. A crítica à sobrevaloração 
dos aspectos “apolíneos” (relacionadosà razão) em contraposição aos aspectos 
“dionisíacos” (relacionados aos sentimen-
tos) e ao desprezo às paixões é um as-
pecto recorrente da sua filosofia. No livro 
Crepúsculo dos ídolos, o autor critica a 
própria noção de verdade, considerada 
um dos falsos deuses que criamos. De-
pois dele, outros pensadores deram con-
tinuidade ao redimensionamento da ra-
cionalidade para a contemporaneidade. 
PARA EXPLORAR
 » Logicomix: uma jornada épi-
ca em busca da verdade, de 
Apostolos Doxiadis e Christos 
Papadimitriou. São Paulo: 
WMF Martins Fontes, 2010. 
A história em quadrinhos con-
ta a trajetória do filósofo Ber-
trand Russell na busca pelos 
fundamentos lógicos que es-
truturam o conhecimento.
O expressionismo foi um dos diversos 
movimento artísticos de vanguarda, do início 
do século XX, que questionava o racionalismo. 
Os artistas expressionistas estavam 
interessados em expressar as emoções, e não 
a observação e a representação objetiva da 
realidade. A obra O grito, de 1983 (óleo, 
têmpera e pastel sobre papelão), do 
expressionista Edvard Munch, é uma das 
principais obras que representam esse 
movimento. No quadro, vê-se uma figura 
humana em estado de desespero e angústia.
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16 Não escreva no livro.
O CONHECIMENTO SOBRE A SOCIEDADE
Em diferentes contextos históricos, os seres humanos 
refletiram sobre suas possibilidades e suas vontades, e 
se questionaram sobre a influência do contexto em que 
viviam nas suas ações. Muitas sociedades desenvolve-
ram técnicas matemáticas para calcular os dias, as por-
ções de alimentos e as distâncias, assim como desenvol-
veram formas de pensar o social. As relações de poder e 
dominação, as regras sociais, a propriedade, a comunica-
ção, a família e mesmo a amizade foram alguns temas 
que inquietaram e ainda inquietam diversos pensadores 
do mundo social.
O conhecimento não surge ou se desenvolve isolada-
mente. Por exemplo, foram as ideias inovadoras de Nico-
lau Copérnico (1473-1543) sobre a Terra e sobre outros 
planetas se movimentarem ao redor do Sol que geraram 
mudanças importantes no pensamento científico de 
Galileu Galilei (1564-1642) e contribuíram para que este 
posteriormente pudesse provar que o Sol é o centro do 
Sistema Solar.
1. Escolha um tópico das 
Ciências Humanas e 
pesquise seus conceitos 
e seus temas principais. 
Há consenso em relação 
às definições? Qual é o 
histórico de cada con-
ceito e do estudo do 
tema escolhido?
2. Pesquise a relação entre 
os saberes pesquisados 
na questão anterior e 
outros que possam ter 
sido sua base ou sua 
fonte de inspiração. 
Como é possível relacio-
ná-los? É possível con-
siderar que eles são 
conhecimentos social-
mente construídos?
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Os censos demográficos atuais mapeiam e registram informações 
sobre as populações. Indícios arqueológicos evidenciam que o 
faraó Amósis, que governou entre 570 e 526 a.C., já realizava 
censos. Eles também eram feitos no Império Inca, entre 1438 até 
1533. A imagem mostra anotações em papiro do período da 
dinastia Ramsés, no Egito Antigo.
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A pintura de Félix Parra mostra Galileu Galilei demostrando suas teorias astronômicas na 
Universidade de Pádua, na Itália. Óleo sobre tela.
No mundo ocidental, um antigo lema latino ficou conhecido por meio de uma 
adaptação realizada pelo cientista Isaac Newton (1642-1727): “Se eu vi mais lon-
ge, foi por estar sobre ombros de gigantes.”.
Esse lema traz a ideia de que todo tipo de conhecimento é socialmente 
construído e de que as contribuições individuais relacionam-se ao que foi cons-
truído antes. Portanto, mesmo que as pesquisas científicas, as obras intelec-
tuais ou as produções artísticas sejam assinadas por uma única pessoa, todas 
essas criações são o resultado do trabalho de muitas pessoas, estejam elas 
vivas ou não.
17Não escreva no livro.
O conhecimento está inserido em um contexto
Como visto anteriormente, os seres humanos são seres sociais que produzem 
conhecimento, e os conhecimentos são fruto dos contextos histórico e social. As-
sim, o conhecimento sobre a sociedade é elaborado de acordo com as possibili-
dades e as características do contexto e do grupo social que o produz. Leia, a se-
guir, uma reflexão de Karl Marx, considerado um dos fundadores da sociologia.
Nesse texto, Marx se contrapunha a duas visões da história: uma visão religio-
sa e uma visão individualista. A visão religiosa acredita que as ações humanas 
são impotentes diante das transformações sociais, pois a história já estava escri-
ta por forças divinas. Já a visão individualista supõe que toda ação humana é ca-
paz de atingir plenamente seu objetivo. Articulando a crítica a essas duas posi-
ções e apresentando uma terceira, Marx reconhece a potência da ação humana, 
mas circunscreve seus limites e suas características ao contexto histórico.
Considerando a visão marxista sobre a história, é possível afirmar que qual-
quer teoria deve ser compreendida como um produto da sociedade. Para com-
preendê-las, é preciso transportar-se para seu contexto, considerando o momen-
to e a cultura em que foram produzidas.
O físico Galileu Galilei foi um dos primeiros estudiosos a examinar o céu com um 
telescópio e provou, com base em seus estudos e em conhecimentos anteriores, 
como os de Copérnico, que o Sol se posiciona no centro do Sistema Solar. A Igreja 
católica, instituição mais influente na época, defendia o modelo geocêntrico e pas-
sou a perseguir Galileu. Em 1633, ele foi chamado pelo Tribunal da Inquisição, uma 
instituição criada pela Igreja católica para combater as ideias contrárias aos seus 
ensinamentos. Galileu foi obrigado a negar o que havia afirmado e foi preso. Esse 
é um exemplo, portanto, de como o contexto cultural pode influenciar na produção 
do conhecimento.
Além disso, ao abordar as Ciências Humanas, é preciso considerar uma carac-
terística bastante específica desse tipo de conhecimento, já que o objeto de estu-
do das humanidades é o próprio ser humano em interação. Como sujeito do co-
nhecimento, o pesquisador possui as próprias crenças, que influenciam no tema 
estudado e na metodologia empregada. Assim, nas Ciências Humanas, há uma 
reciprocidade entre o sujeito do conhecimento (pesquisador) e o objeto a ser es-
tudado (grupos sociais, sistemas políticos, cultura, etc). Ao analisar a sociedade e 
as interações sociais, surge a seguinte questão: Essa especificidade é um entrave 
para as investigações ou colabora para o desenvolvimento das Ciências Humanas? 
Como visto anteriormente, ao longo da história, é possível identificar ao menos 
três concepções de ciência: a racionalista, a empirista e a construtivista. Por ser 
mais afinada com as demandas específicas do pensamento sobre o social, as con-
cepções construtivistas têm predominado nas Ciências Humanas, embora as ou-
tras tenham exercido e ainda exerçam influência. Essa concepção considera a in-
teração entre o pesquisador e o objeto do conhecimento e estabelece como 
princípio dessa relação a impossibilidade de imparcialidade e de neutralidade, 
mas não de objetividade. Fica, portanto, a questão: Como definir ferramentas que 
garantam rigor científico mesmo nessas situações?
Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre von-
tade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se de-
frontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gera-
ções mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando 
parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais exis-
tiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansio-
samente emseu auxílio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, 
os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar nessa linguagem emprestada.
Marx, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011. p. 25-26.
18 Não escreva no livro.
A sociedade como objeto de estudo
Uma possível resposta para a pergunta da página anterior é a capacidade das 
Ciências Humanas de questionar os fenômenos sociais, buscando explicações para 
eles. Para que esse estudo seja possível, é necessária uma postura de estranhamen-
to do pesquisador, de modo a buscar a compreensão das questões sociais em sua 
complexidade, valorizando diferentes pontos de vista.
Em 1917, o cenógrafo e crítico literário russo Viktor Chklóvski (1893-1984) empre-
ga o conceito de estranhamento para nomear o distanciamento – possibilitado pela 
arte – do modo usual de apreensão do mundo. Segundo o autor, a arte permite às 
pessoas entrar em uma nova dimensão e ver a realidade de outra perspectiva.
As Ciências Humanas também se aproximaram dessa ideia, já que seu procedi-
mento de investigação evita tomar a realidade social como algo evidente. Assim, é 
possível questionar como ela se constitui e quais elementos permitem sua reprodu-
ção, buscando explicações para os fenômenos. Assim, o processo de estranhar das 
Ciências Humanas guarda afinidade com o desnaturalizar, ou seja, evidenciar o ca-
ráter social, histórico e cultural dos fenômenos.
Nesse sentido, a capacidade de exercitar o olhar sobre o outro e de se colocar em 
seu lugar é fundamental. Na antropologia, por exemplo, o conceito de alteridade é 
central, já que possibilita reconhecer o outro e sua maneira de ver o mundo, e a par-
tir disso refletir sobre a própria cultura.
A compreensão e o questionamento sobre as formas como o estranhamento in-
fluencia os diferentes pontos de vista e impressões sobre o mundo são importantes 
para o exercício da empatia e do diálogo. Assim, exercitar o olhar sobre os eventos 
ao redor é um desafio fundamental que possibilita enxergar a pluralidade de inter-
pretações de um fenômeno, de acordo com a perspectiva em que é olhado.
1. Ao ouvir uma música, ver um quadro ou assistir a um filme, você já “es-
tranhou” algo que considerava natural, sobre o qual nunca tinha parado 
para pensar? Converse com os colegas sobre obras de arte que os impac-
taram e troquem experiências.
2. Escolha um país que você conhece ou que já tenha ouvido falar de suas 
características, como tamanho do território, tipos climáticos, aspectos 
culturais, etc., e outro país sobre o qual você desconhece ou conhece 
pouco. Em seguida, elabore uma hipótese para explicar por que isso 
acontece. Que fatores determinaram que você conhecesse mais um país 
do que outro?
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O bombardeio à cidade de Guernica, 
promovido pelas forças alemãs 
aliadas do ditador Franco, no País 
Basco, Espanha, foi retratado pelo 
pintor cubista Pablo Picasso (1881- 
-1973) na obra Guernica, de 1937, 
óleo sobre tela. A distorção da 
perspectiva transforma o modo como 
naturalmente vemos o mundo, 
aproximando-se do essencial por 
meio do estranhamento.
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19Não escreva no livro.
Conhecimento e transformação social
As Ciências Humanas trabalham com questionamentos para entender a socie-
dade. É possível investigar, por exemplo: Por que as pessoas agem e pensam de 
uma forma e não de outra? Por que existem desigualdades nas sociedades hu-
manas? Por que existem relações de poder na sociedade? O que é cultura? O que 
é beleza? Ao longo deste volume, será estudado como diferentes pesquisadores 
responderam a essas questões.
Tendo em vista que a pesquisa nas Ciências Humanas é fruto de um contexto 
histórico e cultural e é influenciada pelo sujeito que a produz, é preciso refletir co-
mo as teoriais realizam leituras da realidade social, que é complexa e dinâmica. 
O conhecimento é resultado da perspectiva do pesquisador sobre os fenômenos 
sociais. Assim, é necessário problematizar o conhecimento produzido como um 
recorte da realidade. O sociólogo Pierre Bourdieu (1930–2002), por exemplo, dedi-
cou-se a essas reflexões. Por meio de sua produção teórica, Bourdieu desnaturali-
zou o mundo social, buscando as causas que influenciam a forma como as pessoas 
são e agem. Assim, ele propunha uma ciência social reflexiva, que, em linhas gerais, 
pode ser entendida como uma ciência social que, ao mesmo tempo que produz co-
nhecimento sobre um fenômeno humano, também produz conhecimento sobre si 
mesma, comprometendo-se com a transformação social.
Ele se destacou na academia realizando pesquisas sobre as desigualdades 
sociais, refletindo sobre o fato de os indivíduos, muitas vezes, reproduzirem o des-
tino reservado a sua classe ou a sua posição social. Também teorizou sobre o pa-
pel das instituições e o peso da história nas trajetórias de vida das pessoas. 
Além de sua produção teórica, ele se envolveu em lutas pelos direitos dos desem-
pregados, dos imigrantes e dos desabrigados. Assim, é possível ponderar como a 
pesquisa científica pode ser um importante instrumento de transformação social, já 
que, ao analisar criticamente os fenômenos sociais, ela possibilita a busca de solu-
ções para os problemas. As propostas teóricas de Bourdieu também proporcionaram 
ferramentas para incluir contextos mais amplos, como a história e a economia, na 
análise das interações sociais.
Atualmente, a investigação sobre a desigualdade social, as questões de gêne-
ro, a saúde, a educação, a participação política, entre outros aspectos, permite 
subsidiar as políticas públicas e a luta pela superação de problemas sociais. Assim, 
em pesquisas acadêmicas, a constatação de que há desigualdade de acesso às 
universidades públicas permitiu, por exemplo, a implementação de cotas raciais 
como medida de inclusão no ensino.
Teatro e reflexão social
No Brasil, o Teatro do Oprimido, do dramaturgo Augusto Boal (1931-2019), é 
uma técnica de produção teatral que visa democratizar o acesso ao teatro e a sua 
produção, priorizando as camadas menos favorecidas e valorizando os debates 
sociais por meio do diálogo. O Teatro do Oprimido teve início nos anos 1960 e, 
mesmo em meio à repressão do período ditatorial no Brasil, chegou às camadas 
sociais mais vulneráveis da população. Assim, diversos movimentos sociais e di-
ferentes comunidades desassistidas pelo governo utilizaram a produção teatral 
proposta por Boal para expressar seus ideiais e suas demandas.
Dentre as técnicas do Teatro do Oprimido, destaca-se o “teatro invisível”: nele, 
a encenação é realizada no local real onde ela aconteceria de verdade, sem que 
os espectadores fossem avisados de que se trata de uma peça. Assim, as intera-
ções dos espectadores seriam reais, e eles também seriam protagonistas das in-
tervenções. Os debates gerados partiriam, portanto, de eventos que mesclam en-
cenação e realidade.
1. Com base nos exemplos apresentados acima, que conexões você observa 
entre o teatro e os debates apresentados nas Ciências Humanas?
AÇÃO E CIDADANIA 
PARA EXPLORAR
 » A sociologia é um esporte de 
combate. Direção: Pierre Car-
les. França, 2001 (146 min). 
O diretor acompanha o so-
ciólogo Pierre Bourdieu em 
suas atividades acadêmicas 
e registra como a sociologia 
pode ser um excelente meio 
de reflexão e ação sobre a 
ordem dominante.
Pierre Bourdieu. Foto de 1991.
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20 Não escreva no livro.
ATIVIDADES
GALILEU (se enxugando)
[…] 
Mas as águas da terra fazem girar as novas rocas, e nos estaleiros, nas casas de cordame e de velame, quinhentas 
mãos se movem em conjunto, organizadas de maneira nova.
Predigo que a astronomia será comentada nos mercados, ainda em tempos de nossa vida. Mesmo os filhos das pei-
xeiras quererão ir à escola.Pois os habitantes de nossas cidades, sequiosos de tudo que é novo, gostarão de uma astro-
nomia nova, em que também a terra se mova. O que constava é que as estrelas estão presas a uma esfera de cristal para 
que não caiam. Agora juntamos coragem e deixamos que flutuem livremente, desancoradas e elas estão em grande via-
gem, como as nossas caravelas, desancoradas e em grande viagem.
E a Terra rola alegremente em volta do Sol, e as mercadoras de peixe, os comerciantes, os príncipes e os cardeais, e 
mesmo o papa, rolam com ela. Uma noite bastou para que o universo perdesse o seu ponto central; na manhã seguinte, 
tinha uma infinidade deles. De modo que agora qualquer um pode ser visto como centro, ou nenhum. Subitamente há 
muito lugar. Nossos navios viajam longe. As nossas estrelas giram no espaço longínquo, e mesmo no jogo de xadrez, ago-
ra a torre atravessa o tabuleiro de lado a lado. Como diz o poeta: “Ó manhã dos inícios!...”.
Brecht, Bertold. A vida de Galileu. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/brecht/1938/mes/galileu.pdf. 
Acesso em: 29 maio 2020. 
1 Leia, a seguir, o trecho da uma fala da cena inicial da peça A vida de Galileu, escrita pelo dramaturgo alemão 
Bertold Brecht (1898-1956).
a) Qual descoberta científica deixa Galileu bastante entusiasmado?
b) Considerando o contexto social vivido por Galileu Galilei, quais forças principais eram contrárias às pesquisas 
científicas? E quais eram favoráveis?
c) Hoje em dia, que descobertas científicas causam polêmica na sociedade? Como essa tensão pode ser explicada?
2 Analise a tira a seguir e, depois, responda às questões.
a) Qual é o recurso utilizado pelo quadrinista para provocar o efeito de humor nessa tira?
b) Utilize a tira para comentar a concepção sobre o indivíduo na modernidade. Qual paradigma é problematiza-
do pelo rato?
3 (Enem)
Tira Níquel Náusea, 
de Fernando Gonsales. 
Folha de S.Paulo.
O século XVIII é, por diversas razões, um século diferenciado. Razão e experimentação se aliavam no que se acredi-
tava ser o verdadeiro caminho para o estabelecimento do conhecimento científico, por tanto tempo almejado. O fato, a 
análise e a indução passavam a ser parceiros fundamentais da razão. É ainda no século XVIII que o homem começa a 
tomar consciência de sua situação na história.
Odalia, N. In: Pinsky, J.; Pinsky, C. B. História da cidadania. São Paulo: Contexto, 2003. 
No ambiente cultural do Antigo Regime, a discussão filosófica mencionada no texto tinha como uma de suas 
características a:
a) aproximação entre inovação e saberes antigos.
b) conciliação entre revelação e metafísica platônica.
c) vinculação entre escolástica e práticas de pesquisa.
d) separação entre teologia e fundamentalismo religioso.
e) contraposição entre clericalismo e liberdade de 
pensamento.
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21Não escreva no livro.
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 » Competências e 
habilidades
CGEB1, CGEB2, CGEB3, 
CGEB4, CGEB6, CGEB7 e 
CGEB8.
CECHSA5: EM13CHS501, 
EM13CHS502 e 
EM13CHS504. 
A RELAÇÃO ENTRE
INDIVÍDUO E SOCIEDADE
A relação entre indivíduo e sociedade é o tema fundador das Ciências Sociais.
Ao longo do tempo, essa reflexão possibilitou a construção de conceitos sobre o 
eu, os outros e as formas de interação entre eles.
Neste capítulo, você vai estudar os limites entre o que é social e o que é indivi-
dual e algumas metodologias desenvolvidas para estudar esse assunto.
2
1. Observe a imagem abaixo. Em sua opinião, o que motiva as ações dos 
indivíduos que aparecem na imagem?
2. Você já se perguntou de onde vêm seus gostos e suas preferências? Quais 
sensações são produzidas quando você observa um ambiente como o da 
imagem?
3. Você tem o hábito de praticar esportes? Reflita sobre a influência da esco-
la, da família e de seu gosto pessoal para justificar seu envolvimento com 
esportes.
Pessoas praticam ioga ao ar livre 
em Santos (SP). Foto de 2020. 
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22
A RELAÇÃO ENTRE INDIVÍDUO E SOCIEDADE: 
ABORDAGENS CLÁSSICAS
O que são questões individuais? E questões sociais? Por que as pessoas e os 
grupos sociais são semelhantes? E por que são diferentes? Há muitas respostas 
a essas questões, e foram essas reflexões que contribuíram para a consolidação 
da sociologia como ciência, pois possibilitaram a definição do objeto de estudo e 
o desenvolvimento de ferramentas próprias. Agora, você vai estudar a perspecti-
va das principais teorias sociológicas clássicas sobre a relação entre indivíduo e 
sociedade, com o objetivo de compreender e comparar diferentes percepções so-
bre o tema.
Relação recíproca entre indivíduo e sociedade: 
Karl Marx e Friedrich Engels
Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820- 
-1895) elaboraram seus pensamentos sobre a relação 
entre indivíduo e sociedade com base em pesquisas 
históricas, econômicas e políticas. Para isso, utilizaram 
o conceito de classes sociais, definidas de acordo com 
a posição que um grupo de indivíduos ocupa no pro-
cesso de produção. Segundo esses autores, a classe 
social é uma variável fundamental, já que determina 
a maneira como o indivíduo vive em sociedade. Para 
eles, o modo de produção das condições materiais de 
existência tem grande influência em todos os aspec-
tos da vida social, como a organização política, a pro-
dução do conhecimento, as manifestações culturais, 
o sistema jurídico, entre outros.
A classe social de cada indivíduo define, portanto, 
se ele ocupa posições privilegiadas na organização 
social, já que na relação de produção determinados 
grupos exercem dominação sobre outros. As condições materiais de existência da 
classe burguesa, proprietária dos meios de produção, são diferentes das da classe 
proletária, que dispõe apenas de sua força de trabalho. Segundo Marx e Engels, 
isso ocorre na sociedade capitalista porque a propriedade privada dos meios de 
produção é a causa da desigualdade de classes e da exploração do trabalho. 
A descrição feita por Marx e Engels pode ser mais bem compreendida pelo 
contexto em que ambos viviam. No século XIX, as principais cidades europeias 
experimentavam uma intensificação da rotina de trabalho, aliada ao aumento da 
miséria. As crianças eram obrigadas a trabalhar, não havia aposentadoria e as 
jornadas de trabalho não eram regulamentadas, pois não havia direitos traba-
lhistas. Assim, as pessoas que dependiam do trabalho para viver praticamente 
viviam para trabalhar, e viviam mal.
Dessa maneira, para os autores, as ações individuais são limitadas pelas condi-
ções históricas e materiais em que estão inseridas, como resultado das necessida-
des do modo de produção. Na sociedade capitalista, a relação entre indivíduo e 
sociedade é mediada pela classe social, já que não é possível pensar no indivíduo 
sem levar em conta as diferenças de poder e dominação definidas a partir de sua 
inserção em uma classe social. É possível considerar, por exemplo, que os indiví-
duos pertencentes às classes mais favorecidas têm mais oportunidades de estudo 
e profissionalização e, por isso, mais chances de seguir carreiras mais valorizadas 
socialmente. No século XIX, burguesia e proletariado apresentavam condições ma-
teriais de existência desiguais e interesses antagônicos. No entanto, para Marx e 
Engels, a sociedade também pode ser transformada a partir da mobilização e da 
união dos trabalhadores para interferir no curso dos acontecimentos em favor 
dos seus interesses.
PARA EXPLORAR
 » Marx: uma biografia em 
quadrinhos, de Corinne 
Maier e Anne Simon. São 
Paulo: Boitempo, 2018. 
A história em quadrinhos apre-
senta conceitos e dados bio-
gráficos e foi lançada em co-
memoração ao bicentenário 
do nascimento de Marx.
A gravura de 1872, feita por Gustave 
Doré, retrata as condições de moradia 
em Londres durante a Revolução 
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23Não escreva no livro.
A sociedade determina os indivíduos: Émile Durkheim
O sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917) tentoucompreender as rela-
ções entre indivíduo e sociedade por outro caminho: o funcionalismo. Essa corren-
te teórica estuda as funções que os indivíduos desempenhavam no seu contexto. 
Para Durkheim, a relação entre indivíduo e sociedade pode ser compreendida 
de acordo com as funções que os indivíduos desempenham no sistema social, de 
modo que o todo (a sociedade) seria mais complexo do que a soma das partes 
(indivíduos). Assim, para o sociólogo, a sociedade determina o comportamento 
dos indivíduos, ainda que dependa dos indivíduos para funcionar.
Para ilustrar essa questão, Durkheim estabeleceu uma analogia entre a socie-
dade e o corpo humano. Nele, cada órgão desempenha uma função necessária 
para a manutenção do organismo, assim como os indivíduos exercem papéis fun-
damentais para o funcionamento da sociedade. Desse modo, um trabalhador é 
compreendido por meio de sua função na divisão do trabalho; um pai, por meio 
de sua função na instituição familiar; e assim por diante.
O conceito de fato social também foi fundamental para a teoria durkheimiana. 
Por meio dele, o autor definiu o objeto de estudo da sociologia. Um fato poderia 
ser considerado um fato social se apresentasse as seguintes características:
 • ser exterior ao indivíduo;
 • geral, ou seja, coletivo, não se apresentar apenas para alguns;
 • coercitivo, ou seja, se é perceptível que exista uma força que origina os padrões 
culturais e é imposta ao indivíduo.
A escola pode ser considerada um exemplo de fato social. As disciplinas estu-
dadas, as regras de comportamento, as formas de avaliação e a estrutura arqui-
tetônica das salas de aula foram estabelecidas antes de você frequentá-la e apli-
cam-se de forma coercitiva a todos os estudantes, condicionando seu 
comportamento. Outras instituições, como a família, também podem ser conside-
radas fatos sociais por apresentarem elementos exteriores, gerais e coercitivos 
em relação ao indivíduo.
Assim, Durkheim compreende a sociedade como anterior aos indivíduos, ten-
do em vista que as regras de comportamento e os padrões sociais estabelecem 
os limites das ações individuais. Para ele, as normas, os costumes e as leis são 
formas utilizadas pela sociedade para se impor ao indivíduo, formando uma cons-
ciência coletiva que estabelece o que é o normal (aquilo que é padrão) e o que é 
o patológico (aquilo que é desviante) de cada sociedade. As pressões pela perpe-
tuação do padrão ocorrem muito intensamente, enquanto os comportamentos 
desviantes seriam marginalizados, constantemente convocados a voltar para a 
condição padrão.
Durkheim e o normal
O caráter normal de uma coisa e os sentimentos de aversão que ela inspira po-
dem inclusive ser solidários. A dor é um fato normal, contanto que não seja apre-
ciada; o crime é normal, contanto que seja odiado. Nosso método, portanto, nada 
tem de revolucionário. Num certo sentido, é até essencialmente conservador, pois 
considera os fatos sociais como coisas cuja natureza, ainda que dócil e maleável, 
não é modificável à vontade. Bem mais perigosa é a doutrina que vê neles apenas 
o produto de combinações mentais, que um simples artifício dialético pode, num 
instante, subverter de cima a baixo!
Durkheim, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p. XIII.
1. Você utiliza a palavra normal com o mesmo sentido que Durkheim? 
Qual é o sentido mais comum para você?
2. Em sua opinião, por que o autor caracterizou seu método como conservador?
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Retrato de Émile Durkheim.
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24 Não escreva no livro.
1. É curioso notar que um questionamento simples sobre o que é individual 
e o que é social pode gerar muitas respostas. Você já havia pensado sobre 
essa questão? Discuta com os colegas para descobrir a resposta que 
dialoga mais com o contexto em que vocês vivem. 
2. Cada autor criou ferramentas e métodos próprios para formular suas pro-
posições. E assim como nas artes, quando você desenha um cachorro com 
guache e precisa desenvolver habilidades e adquirir materiais diferentes 
para desenhá-lo com carvão, os resultados são significativamente distintos. 
No entanto, não há uma linha evolutiva. Você pode ficar mais satisfeito com 
o resultado de uma técnica mais antiga do que com o de uma mais moderna. 
Por esse motivo, estudar os clássicos sempre pode colaborar com a nossa 
forma de responder às perguntas contemporâneas. Qual dos conceitos 
apresentados você escolheria para investigar sua vivência em sociedade? 
Esse conceito poderia ajudar você a pensar em qual questão? 
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Os indivíduos determinam a sociedade: Max Weber
O sociólogo alemão Max Weber (1864-1920), em sua obra Economia e socieda-
de, forja o conceito de ação social com o intuito de compreender os sentidos que os 
indivíduos atribuem às ações e os elementos sociais que os influenciam. Para ele, a 
ação social teria como principal característica o fato de ser orientada para a ação dos 
outros. Para ilustrar esse conceito, Weber recorreu a um exemplo envolvendo o 
choque entre dois ciclistas. Embora essa situação configure um acidente fora do 
controle dos indivíduos, ela envolve a ação social porque os ciclistas podem ten-
tar desviar para evitar o choque, podem iniciar uma briga em razão do ocorrido 
ou mesmo estabelecer interações amistosas para aliviar a tensão.
Tendo isso em vista, por conta do caráter social das ações individuais, os indivíduos 
é que determinam a sociedade, segundo Weber. Ele enfatizou que, embora existam 
padrões sociais de comportamento, os indivíduos constituem o único elemento da 
sociedade que pode ser observado, a partir de suas ações e dos sentidos atribuídos 
a elas. Desse modo, a sociedade é determinada pelo conjunto das ações dos in-
divíduos, as quais influenciam e são influenciadas pelas ações de outras pessoas 
por meio das relações sociais, em que os indivíduos reconhecem os padrões so-
ciais, mas atribuem a eles sentidos próprios. Ao observar a realidade, Weber ma-
peou quatro tipos de ação social:
 • ação tradicional, determinada por costumes;
 • ação afetiva, motivada por emoções;
 • ação racional orientada a valores, estabelecida por uma convicção individual 
em relação a um valor;
 • ação racional orientada a fins, relacionada a um planejamento para atingir um 
objetivo.
No entanto, segundo o autor, dificilmente a ação social está exclusivamente orien-
tada por um tipo ou por outro. A tarefa do pesquisador, nessa metodologia, seria par-
tir da observação de padrões em determinada realidade para construir tipos ideais 
que representam generalizações desses padrões. O exercício de classificar os vários 
elementos observados de acordo com determinadas características colabora, assim, 
para a organização e o desenvolvimento do pensamento e para a compreensão dos 
fenômenos sociais.
Ao estudar para um exame, por exemplo, a ação do estudante pode ser classifi-
cada como racional orientada a fins, já que ele planeja sua rotina de estudos com o 
objetivo de ter um bom desempenho. No entanto, outros elementos podem interferir 
na motivação do jovem em estudar, relacionados a aspectos tradicionais, afetivos e 
de valores. Nesse sentido, também deve-se considerar que a manutenção do sistema 
de ensino depende do estudo dos jovens. Portanto, para Weber, a sociedade não exis-
te como um fim em si mesmo, mas depende das consciências e das ações individuais. 
Retrato de Max Weber.
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25Não escreva no livro.
TEORIAS SOCIOLÓGICAS ELABORADAS 
NO SÉCULO XX
Norbert Elias (1897-1990), Pierre Bourdieu (1930-2002), 
Richard Sennett (1943- ) e Erving Goffman (1922-1982) são 
alguns sociólogos que refletiram sobre a relação entre o in-
divíduo e a sociedade no século XX. Esses autores redefini-
ram essa discussão, pois defendiam que, ao mesmo tempo 
que o indivíduo constrói a sociedade, é também construído 
por ela, em uma influência mútua. Assim, não haveria uma 
oposição entre sociedadee indivíduo. 
As experiências individuais devem ser interpretadas 
como componentes da estrutura social. As pessoas for-
mulam estratégias individuais para alcançar seus objeti-
vos, mas esses objetivos estão inseridos no sistema so-
cial. Ao seguir as regras e os padrões de comportamento 
historicamente estabelecidos, os indivíduos adaptam as 
normas às suas necessidades particulares, e assim tam-
bém contribuem para recriar as estruturas da sociedade.
Dessa maneira, o sociólogo Nobert Elias buscou com-
preender a relação entre os comportamentos e as mu-
danças sociais. Ele investigou como o desenvolvimento 
da sociedade de corte, termo que designa o estilo de vida 
da nobreza europeia nos séculos XVII e XVIII, se relacio-
na com o surgimento de determinados hábitos, costumes 
e comportamentos individuais relacionados à higiene e 
à etiqueta. Para ele, esses comportamentos individuais 
também reverberam na estrutura da sociedade, mutua-
mente combinados, e não como objetos separados.
A análise sobre a influência das atitudes individuais 
também pode ser utilizada para compreender a socieda-
de atual. Reflita, por exemplo, sobre os hábitos de consu-
mo. Com o desenvolvimento do capitalismo, os hábitos 
de consumo individuais se modificaram, ao passo que o 
consumismo também influenciou na existência de uma 
estrutura social baseada no lucro e na competitividade. 
Para Richard Sennett, uma das consequências da socie-
dade de consumo é a valorização do individualismo em de-
trimento do coletivo. Segundo ele, essa transformação teria 
contribuído para o distanciamento dos indivíduos em rela-
ção à coletividade e ao espaço público. Assim, é possível 
refletir como o individualismo impacta a sociabilidade con-
temporânea, tendo em vista que os indivíduos tenderiam 
a priorizar as necessidades particulares às coletivas. Isso 
ocorre, por exemplo, com as regras de trânsito. Quando es-
tão com pressa, as pessoas, muitas vezes, desrespeitam as 
regras de sinalização e a velocidade permitida, colocando 
suas necessidades particulares acima do bem coletivo.
Outros autores refletiram sobre a questão da indivi-
dualidade na sociedade contemporânea, com foco nos 
papéis sociais desempenhados por diferentes grupos e 
nos símbolos atribuídos a eles. Erving Goffman elaborou 
a ideia de que os indivíduos constroem uma fachada so-
cial como recurso para sua expressão em seu meio social. 
Ele estudou o comportamento dos indivíduos em situa-
ções sociais determinadas e o papel que eles assumem 
quando se relacionam com outros indivíduos, e concluiu 
Capital cultural
Ao apresentar as hierarquias sociais e a reprodu-
ção dessas hierarquias como se estivessem baseadas 
na hierarquia de “dons”, méritos ou competências 
que suas sanções estabelecem e consagram, ou me-
lhor, ao converter hierarquias sociais em hierarquias 
escolares, o sistema escolar cumpre uma função de 
legitimação cada vez mais necessária à perpetuação 
da “ordem social” uma vez que a evolução das rela-
ções de força entre as classes tende a excluir de mo-
do mais completo a imposição de uma hierarquia 
fundada na afirmação bruta e brutal das relações de 
força. Todavia, na maioria das sociedades altamente 
industrializadas, a expansão contínua da proporção 
de membros das classes dirigentes diplomados pelas 
melhores universidades seria suficiente para levar-
-nos à conclusão de que a transmissão do capital 
cultural tende a substituir-se pura e simplesmente à 
transmissão do capital econômico e da propriedade 
dos meios de produção no sistema dos mecanismos 
de reprodução da estrutura das relações de classe?
BourDieu, Pierre. A economia das trocas simbólicas. 
São Paulo: Perspectiva, 2011. p. 311.
1. Reflita sobre o conceito de capital cultural, des-
crito no texto de Bourdieu. Como o autor dife-
rencia o capital cultural dos outros tipos de ca-
pital? Como o capital cultural contribui para a 
manutenção de hierarquias sociais?
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que o indivíduo busca controlar e dominar as impressões 
que os outros podem ter dele. Assim, segundo o autor, os 
seres humanos utilizam formas de representação em suas 
interações sociais como maneira de construir uma ima-
gem de si mesmos para os outros.
No entanto, esses papéis sociais são dinâmicos, 
variando conforme o contexto em que os indivíduos se 
encontram. O comportamento de um jovem pode ser di-
ferente com a família, o grupo da igreja, os colegas de es-
cola e os companheiros do time de basquete, por exem-
plo. Assim, a posição que um indivíduo ocupa na 
sociedade não é associada apenas a uma posição fixa na 
estrutura social, já que envolve uma representação sim-
bólica do papel social atribuído a ele.
Para Pierre Bourdieu, esses fatores sociais simbólicos in-
cidem sobre os indivíduos de maneira complexa. Os senti-
dos atribuídos às posições sociais e ao modo de agir são 
historicamente situados e devem ser considerados em qual-
quer análise sobre a produção e a reprodução social. Alguns 
papéis sociais são considerados superiores pela socieda-
de, enquanto outros são considerados inferiores. Além 
disso, cada papel social pressupõe um código ou um con-
junto de comportamentos socialmente esperados. Para 
ele, esses códigos são reproduzidos em determinados 
meios sociais e podem contribuir para perpetuar os privi-
légios dos grupos que os frequentam.
26 Não escreva no livro.
O processo de socialização
É por meio do processo de socialização que os padrões 
sociais moldam as condutas individuais e os indivíduos 
aprendem a se integrar na sociedade. O sociólogo aus-
tríaco Peter Berger (1929–2017) e a socióloga alemã Bri-
gitte Berger (1928–2015) abordam os conceitos de so-
cialização primária e socialização secundária, bem como 
os papéis e as identidades sociais. A seguir, esses con-
ceitos serão definidos e articulados na construção sobre 
a teoria da socialização desses autores.
Segundo Berger e Berger, a socialização pode ser com-
preendida em duas etapas: a socialização primária e a 
secundária. Por meio da socialização primária, a criança 
se transforma em um membro participante da sociedade. 
Os atos de comer e ir ao banheiro são exemplos de socia-
lização primária e são responsáveis pela autonomia e pe-
la aceitabilidade da criança no entorno social.
Os processos posteriores, por meio dos quais o indiví-
duo é introduzido em um mundo social específico, confi-
guram a socialização secundária. Nela, os indivíduos 
aprendem a desempenhar papéis sociais e consolidam 
suas identidades na interação e na identificação com os 
outros. Os papéis sociais são apreendidos quando os se-
res humanos passam a reconhecer as atitudes alheias e 
a entender seu sentido, assim como as utilizam como re-
ferência para suas atitudes.
Para além da influência familiar, é importante destacar 
o impacto do contexto cultural na construção dos papéis 
sociais. A maneira pela qual uma criança desempenha o 
papel de policial nas brincadeiras típicas de polícia e la-
drão, por exemplo, depende, em larga escala, do signifi-
cado que esse papel assume em seu ambiente social ime-
diato. Se sua experiência, no ambiente em que 
vive, faz com que ela associe um policial à ideia de 
segurança, haverá um modo específico de desem-
penhar esse papel em uma brincadeira; se ela vive 
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em um ambiente no qual os policiais são associados à 
perseguição, à arbitrariedade e à violência, esse papel 
será desempenhado pela criança de outro modo.
Ao desmembrar o processo de socialização em eta-
pas, os autores identificam a existência de três proces-
sos: interiorização, consciência e autodescoberta. A in-
teriorização é o movimento de trazer o elemento 
externo para dentro, apropriando-se dele. A consciência, 
nesse sentido, seria a presença interiorizada das proi-
bições morais provenientes do exterior, resultando na 
autodescoberta, ou seja, na forma pela qual os indiví-
duos reconhecem as atitudes eos valores do seu con-
texto que eles querem reproduzir, quais eles recusam 
e como farão isso.
A identidade, por sua vez, é considerada um aspecto 
ou uma parte socializada da individualidade. Algumas 
características identitárias são atribuídas ao indivíduo no 
momento de seu nascimento, como a nacionalidade. Ou-
tras vezes, a identidade é atribuída ao indivíduo ou rei-
vindicada por ele em uma fase posterior da vida. De uma 
forma ou de outra, a identidade sempre prescinde da in-
teração com outros, que, de certa maneira, validam a iden-
tidade do indivíduo.
O processo de construção das identidades assume va-
riadas formas em diferentes contextos históricos e sociais, 
o que contribui para imprimir diferentes traços de com-
portamento em indivíduos de sociedades distintas. Assim, 
a socialização atua na produção da diversidade social.
A construção de papéis de gênero, assim como os ritos 
de passagem para a vida adulta, por exemplo, varia con-
forme a sociedade em que a socialização opera.
A brincadeira tem um papel fundamental à compreensão 
dos papéis sociais. Na foto à esquerda, de 2017, crianças 
tupinambás da aldeia Pajurá, em Santarém (PA), plantam 
mudas de árvores. Na foto acima, de 2017, crianças de 
família de pescadores brincam na praia Ponta de Mangue, 
em Maragogi (AL). 
27Não escreva no livro.
Papéis sociais e identidades na juventude
Os papéis sociais envolvem hierarquias e relações de poder. Quando conside-
ramos os jovens e seus familiares, por exemplo, é possível notar que os papéis 
sociais são criados com base na autoridade familiar dos pais em relação aos fi-
lhos e na responsabilidade constituída socialmente dos mais velhos em relação 
aos mais novos. No entanto, essa hierarquia pode ganhar significados negativos 
quando se baseia no autoritarismo ou no abuso de poder.
Algo parecido se passa com os estereótipos. O desempenho dos papéis sociais 
envolve a imitação e a reprodução de modelos. Além disso, quando deparamos 
com algo desconhecido ou diferente, o nosso imaginário, muitas vezes, opera por 
meio de simplificações do mundo e das pessoas. No entanto, quando essas ge-
neralizações e simplificações são sistematicamente realizadas e reproduzidas 
como se fossem a verdade, muitas injustiças são cometidas.
Para que a construção dos papéis sociais e das identidades se dê de forma 
saudável, é preciso combater estereótipos e estigmas sociais e reconhecer o pa-
pel dos jovens nesse processo. Como definir a juventude? Atualmente, os senti-
dos atribuídos socialmente à juventude são bastante diversos dos significados 
elaborados no passado. Essa diferença também pode ser notada na variabilidade 
de territórios e contextos sociais. Assim, dois jovens contemporâneos podem ter 
experiências absolutamente distintas.
Apesar das particularidades das diferentes juventudes, em grande parte das 
sociedades atuais, a juventude – que compreende o período entre ser criança e ser 
adulto, frequentemente estabelecido entre os 12 anos e os 18 anos – é uma etapa 
crucial de desenvolvimento da identidade e de abertura para o mundo exterior.
Muito associada aos estudos, à preparação para o mercado de trabalho e à con-
solidação da “educação sentimental”, a juventude é uma fase em que a busca pe-
lo autoconhecimento e a contestação de padrões estabelecidos são constantes.
Para que os caminhos desse autoconhecimento sejam saudáveis e para que 
os jovens se envolvam progressivamente nas decisões coletivas com satisfação, 
responsabilidade e interesse, são necessárias políticas públicas voltadas para es-
sa faixa etária. Oferecer assistência social, oportunidades de lazer, socialização e 
formação ampla, educação para o trabalho e participação política, educação emo-
cional e sexual são fundamentais para promover uma postura de abertura, pau-
tada em trocas intergeracionais, que favorecem o convívio e o aprendizado mútuo.
Os jovens têm um papel essencial nas 
reivindições por políticas públicas que 
garantam melhores condições de vida 
aos cidadãos, que promovam a 
proteção ao meio ambiente e o acesso 
à educação de qualidade e que 
combatam o preconceito e a 
discriminação contra a população 
negra e a LGBTQI+. Na foto, de 2019, 
estudantes participam de 
manifestação contra cortes de verbas 
na área da educação, em São José dos 
Campos (SP).
O trecho a seguir, de Berger e Berger, trata da interiorização das vozes dos outros.
É só por meio da interiorização das vozes dos outros que podemos falar a nós mes-
mos. Se ninguém nos tivesse dirigido uma mensagem significativa vinda de fora, em 
nosso interior também reinaria o silêncio. É só através dos outros que podemos desco-
brir-nos a nós mesmos. 
Berger, Peter L.; Berger, Brigitte. Sociology: a biographical approach. Tradução de 
Richard Paul Neto. 2. ed. Nova York: Basic Books, 1975. p. 208. 
Nem sempre o processo de interiorização das vozes dos outros tem efeitos po-
sitivos. Muitos processos de socialização incluem repressões a determinadas ca-
racterísticas identitárias (expressões de machismo, lgbtfobia, racismo, gordofobia 
e demais censuras em relação à origem, à expressão, à condição ou à aparência 
alheia), bloqueando um processo de autodescoberta verdadeiro de quem sofre o 
preconceito e forjando uma identidade também debilitada de quem manifesta o 
preconceito, pois este também pode ter problemas de autoaceitação e o “solucio-
na” direcionando suas dores aos outros, violentamente, ao ser preconceituoso.
1. Com base na afirmação acima e nas discussões do capítulo, realizem um tra-
balho em grupos que tematize o respeito ao outro e a boa convivência. Depois, 
promovam uma mostra artística desses trabalhos, que podem ser feitos por 
meio de pinturas, cartazes com colagens, peças de teatro, etc.
AÇÃO E CIDADANIA 
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28 Não escreva no livro.
O PAPEL DA ÉTICA 
A ética é uma área da filosofia que traz importantes reflexões sobre o tema 
da socialização. A ética é uma reflexão sobre a moral, com atenção especial 
aos valores nos diferentes contextos sociais. Uma vez que qualquer processo 
de socialização envolve a interação entre seres humanos, que ferramentas 
podemos manejar para que esse encontro seja realizado com respeito e jus-
tiça? De que forma as liberdades e as restrições podem coexistir com a maior 
harmonia possível? 
Como desenvolver a empatia, que é a capacidade de se colocar no lugar do ou-
tro para compreender melhor suas reações e seus sentimentos em determinada 
situação, em contextos nos quais os medos, a violência e os preconceitos ganham 
maior espaço do que a solidariedade e a fraternidade? 
Ao longo da história, diversos filósofos pensaram sobre o papel da ética e dos 
direitos e deveres para a sociedade. Ao debater sobre a moral e a política na An-
tiguidade, por exemplo, Platão (c. 428 a.C.-348 a.C.) e Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) 
trataram do embate entre os desejos e as paixões e a razão, questões importan-
tes para refletir como interesses individuais podem interferir e prejudicar os inte-
resses coletivos.
Essas reflexões contribuíram para o debate, em diferentes contextos cultu-
rais e históricos, em torno da formulação das leis internacionais e nacionais 
que estabelecem os direitos e os deveres dos indivíduos em cada Estado. Es-
ses direitos e deveres não são imutáveis e estão em permanente negociação 
e atualização.
Após o final da Segunda Guerra Mundial, como reação às violências que foram 
perpetradas, a Organização das Nações Unidas (ONU) ratificou a Declaração Uni-
versal dos Direitos Humanos. Esse documento tem o objetivo de promover a con-
vivência respeitosa e plural entre os indivíduos e as sociedades, já que apresenta 
princípios éticos com base nos quais os países devem elaborar suas políticas pú-
blicas. O descumprimento desses direitos pode ser denunciado internacionalmen-
te, e essas denúncias podem interferir no estabelecimento de acordos comerciais, 
por exemplo.
Nas últimas décadas, com o desenvolvimento de valoresdemocráticos e a 
construção da cidadania, ganhou mais destaque o debate sobre a representa-
tividade de diferentes grupos e a equi-
dade a partir de mecanismos de promo-
ção e proteção de direitos. Isso implica 
a valorização das diferenças e individua-
lidades e, consequentemente, dos prin-
cípios éticos.
As políticas públicas que se orientam 
com base nesses princípios, como aque-
las que visam superar a segregação so-
cioespacial, a desigualdade racial e de 
gênero, a intolerância religiosa, etc., tam-
bém contribuem para o combate às de-
sigualdades e a superação dos precon-
ceitos. Assim, pode-se estabelecer uma 
relação entre os valores éticos e a cons-
trução de uma sociedade justa, demo-
crática e inclusiva.
Na foto, de 1949, Eleanor 
Roosevelt segura a Declaração 
Universal dos Direitos Humanos, 
criada e ratificada em 1948. 
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29Não escreva no livro.
ATIVIDADES
Faça uma pesquisa sobre as condições de trabalho nas 
fábricas, no comércio e no setor de trabalho informal 
e autônomo do município em que você mora. Em se-
guida, escreva um texto analisando a presença dos 
direitos humanos nessas práticas. Caso existam situa-
ções em que eles estejam sendo violados, apresente 
propostas para que esses direitos sejam respeitados. 
4 O trecho abaixo de uma obra de Durkheim, de 1895, 
apresenta uma das primeiras tentativas da sociologia 
de definir seu objeto e estabelecer um método para 
as suas pesquisas. Identifique no texto a concepção 
do autor sobre a articulação entre a consciência in-
dividual e a consciência coletiva.
O texto expressa o esforço de Émile Durkheim em 
construir uma sociologia com base na:
a) vinculação com a filosofia como saber unificado.
b) reunião de percepções intuitivas para demons-
tração.
c) formulação de hipóteses subjetivas sobre a vida
social.
d) adesão aos padrões de investigação típicos das
ciências naturais.
e) incorporação de um conhecimento alimentado
pelo engajamento político.
1 Analise a tira e responda às questões a seguir.
a) As falas das personagens estão relacionadas a
um evento histórico recente. Qual?
b) Os conselhos dizem respeito à dimensão individual
ou social dos envolvidos? Justifique.
c) Categorize as ações mencionadas na tira de acor-
do com os tipos de ação elaborados por Max Weber 
(ação social racional orientada a fins, ação social
racional orientada a valores, ação social afetiva e
ação social tradicional) e justifique sua resposta.
2 (Enem)
Artigo XXIII
1. Todo ser humano tem direito ao trabalho, à livre esco-
lha de emprego, a condições justas e favoráveis de tra-
balho e à proteção contra o desemprego.
2. Todo ser humano, sem qualquer distinção, tem direito 
a igual remuneração por igual trabalho. […]
organização das Nações Unidas (ONU). 
Declaração Universal dos Direitos Humanos. Disponível em: 
https://nacoesunidas.org/wp-content/uploads/ 
2018/10/DUDH.pdf. Acesso em: 2 jun. 2020. 
A sociologia ainda não ultrapassou a era das constru-
ções e das sínteses filosóficas. Em vez de assumir a tarefa 
de lançar luz sobre uma parcela restrita do campo social, 
ela prefere buscar as brilhantes generalidades em que to-
das as questões são levantadas sem que nenhuma seja 
expressamente tratada. Não é com exames sumários e por 
meio de intuições rápidas que se pode chegar a descobrir 
as leis de uma realidade tão complexa. Sobretudo, gene-
ralizações às vezes tão amplas e tão apressadas não são 
suscetíveis de nenhum tipo de prova.
Durkheim, E. O suicídio: estudo de sociologia. 
São Paulo: Martins Fontes, 2000.
[…] Se, como nos concedem, essa síntese sui generis 
que constitui toda sociedade produz fenômenos novos, 
diferentes dos que se passam nas consciências solitárias, 
cumpre admitir que esses fatos específicos residem na so-
ciedade mesma que os produz, e não em suas partes, isto 
é, em seus membros. Neste sentido, portanto, eles são ex-
teriores às consciências individuais, consideradas como 
tais […]. Assim se acha justificada, por uma razão nova, a 
separação que estabelecemos mais adiante entre a psico-
logia propriamente dita, ou ciência do indivíduo mental, e 
a sociologia. Os fatos sociais não diferem apenas em qua-
lidade dos fatos psíquicos; eles têm outro substrato, não 
evoluem no mesmo meio, não dependem das mesmas 
condições. O que não quer dizer que não sejam, também 
eles, psíquicos de certa maneira, já que todos consistem 
em modos de pensar ou de agir. Mas os estados da cons-
ciência coletiva são de natureza diferente dos estados da 
consciência individual; são representações de outra espé-
cie. A mentalidade dos grupos não é a dos particulares; 
tem suas próprias leis. 
Durkheim, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: 
Martins Fontes, 2007. p. XXII-XXIII.
3 Leia o trecho abaixo da Declaração Universal dos 
Direitos Humanos e, depois, faça o que se pede.
Tira Armandinho, 
de Alexandre 
Beck, 2020. 
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30 Não escreva no livro.
AMPLIANDO
Construindo a imaginação sociológica
O sociólogo estadunidense Charles Wright Mills (1916–1962) escreveu um livro intitulado A ima-
ginação sociológica, cujo objetivo principal é colaborar para o cultivo e o desenvolvimento desse tipo 
específico de “imaginação”. Sobre isso, leia o trecho a seguir. 
1. O que o autor entende por imaginação sociológica?
2. Em grupos de até quatro pessoas, imaginem que vocês vão realizar uma pesquisa sobre um 
dos temas estudados neste capítulo. Quais perguntas sugeridas por Mills vocês poderiam 
formular para compreender melhor esse tema? 
[…] Quaisquer que sejam os problemas específicos dos analistas sociais clássicos, por mais limitadas 
ou amplas as características da realidade social que examinaram, os que tiveram consciência imagina-
tiva das possibilidades de seu trabalho formularam repetida e coerentemente três séries de perguntas:
Qual a estrutura dessa sociedade como um todo? Quais seus componentes essenciais, e como se cor-
relacionam? Como difere de outras variedades de ordem social? Dentro dela, qual o sentido de qualquer 
característica particular para a sua continuação e para a sua transformação?
Qual a posição dessa sociedade na história humana? Qual a mecânica que a faz modificar-se? Qual é 
seu lugar no desenvolvimento da humanidade como um todo, e que sentido tem para esse desenvolvi-
mento? Como qualquer característica particular que examinemos afeta o período histórico em que exis-
te, e como é por ele afetada? E esse período – quais as suas características essenciais? Como difere de 
outros períodos? Quais seus processos característicos de fazer a história?
Que variedades de homens predominam nessa sociedade e nesse período? E quais variedades irão 
predominar? De que forma são selecionadas, formadas, liberadas e reprimidas, tornadas sensíveis ou im-
permeáveis? Que tipos de “natureza humana” se revelam na conduta e caráter que observamos nessa 
sociedade, nesse período? E qual é o sentido que para a “natureza humana” tem cada uma das caracte-
rísticas da sociedade que examinamos?
Seja o objeto do exame uma grande potência, 
ou uma passageira moda literária, uma família, uma 
prisão, um credo – são essas as perguntas que os 
melhores analistas sociais formularam. São os cen-
tros intelectuais dos estudos clássicos do homem 
na sociedade – e são perguntas formuladas inevi-
tavelmente por qualquer espírito que possua uma 
imaginação sociológica. Pois essa imaginação é a 
capacidade de passar de uma perspectiva a outra – 
da política para a psicológica; do exame de uma 
única família para a análise comparativa dos orça-
mentos nacionais do mundo […]. 
É a capacidade de ir das mais impessoais e re-
motas transformações para as características mais 
íntimas do ser humano – e ver as relações entre as 
duas. Sua utilização se fundamenta sempre na ne-
cessidade de conhecer o sentido social e histórico 
do indivíduo na sociedade e no período no qual sua 
qualidade

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