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Curitiba 2013 Filosofia da Educa o Carlos Euclides Marques e Dante Carvalho Targa FED.indb 1 25/02/2016 14:39:56 Ficha Catalográfica elaborada pela Fael. Bibliotecária – Cassiana Souza CRB9/1501 Marques, Carlos Euclides M357f Filosofia da educação / Carlos Euclides Marques, Dante Carvalho Targa. – Curitiba: Fael, 2013. x p.: il. ISBN 978-85-8287-056-3 1. Filosofia da educação I. Targa, Dante Carvalho II. Título CDD 370.1 Direitos desta edição reservados à Fael. É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa da Fael. Editora faEl Gerente Editorial Denise Gassenferth Projeto Gráfico Sandro Niemicz Design Instrucional Francine Canto revisão Claudia Helena Carvalho Wigert diagramação Thiago Felipe Victorino Rafael de Queiroz Oliveira Katia Cristina Santos Mendes Capa Sandro Niemicz FED.indb 2 25/02/2016 14:39:56 Sumário Apresentação | 5 1 O homem e sua relação com o mundo: Filosofia e Educação | 7 2 O pensamento moderno e a Filosofia da Educação | 59 3 Novas imagens do homem | 93 4 A formação do pensamento pedagógico brasileiro | 137 Referências | 165 FED.indb 3 25/02/2016 14:39:57 – 4 – Filosofia da Educação FED.indb 4 25/02/2016 14:39:57 Apresentação Segundo Edgar Morin, em sua obra Os sete saberes neces- sários à educação do futuro, uma das crescentes imposições de nossa era é a de lidar com os desafios da complexidade. A complexi- dade não representa simplesmente uma dificuldade a ser superada. Mas, como indica o dicionário Houaiss, sua etimologia é latina: “complexus, a, um part. pas. de complecti ‘cercar, abarcar, compreen- der’”, dando, assim, a ideia de algo “que foi tecido junto”. É disso que falamos quando indicamos ser a Filosofia da Educação uma dis- ciplina complexa, pois se trata de vislumbrarmos uma série de pers- pectivas que foram construídas ao longo de muito tempo por um vasto conjunto de pensadores. Não deve ser entendida, contudo, como uma disciplina impossível de ser trilhada. Mais trabalhosa, talvez, mas não impossível! FED.indb 5 25/02/2016 14:39:57 – 6 – Filosofia da Educação Educar é uma tarefa que os seres humanos têm desempenhado intuiti- vamente desde os primórdios da civilização. A transmissão de uma cultura, de valores e da própria linguagem ocorre naturalmente na relação entre as gerações mais antigas e as novas gerações. Todavia, ao que parece, ao nascer da mentalidade ocidental, com a Filosofia, por volta do século VI a.C., homens e mulheres voltaram a atenção para o ato de educar, seus métodos e conteúdos, dando origem à pedagogia. Na Modernidade, mais claramente, passamos a nos dar conta de que o ato de educar envolve não só a transmissão de uma cultura, mas revela também toda a visão de mundo que sustenta tal cultura, em suas dimensões epistemológica (do conhecimento), humana e política; eis o campo da Filosofia da Educação. Com este livro didático você é convidado a adentrar esse vasto campo, onde a história do pensamento, as teorias do conhecimento e a reflexão filosófica e sociopolítica confluem, formando um interessante leque de possibilidades. Vamos lá? Carlos Euclides Marques1 e Dante Carvalho Targa2 1 Graduado em Filosofia (UFSC, 1991) e em Artes Plásticas (Udesc, 2011), mestre em Litera- tura (UFSC, 1997). Professor da Unisul. Experiência na área de Filosofia, focado em Filosofia Antiga, Filosofia da Educação, Antropologia Filosófica e Discurso Filosófico. Autor de mate- riais didáticos ‒ livros, web aulas e objetos de aprendizagem ‒ para o curso de Filosofia (EaD) da Unisul Virtual. 2 Professor e pesquisador graduado em Filosofia (UFSC, 2005) e mestre em Filosofia (UFSC, 2009). Professor da Unisul e da rede pública do Estado de Santa Catarina ‒ Ensino Médio. Estudos paralelos em Pensamento Oriental (Filosofia Védica/Hinduísmo) e Filosofia da Edu- cação. Autor de materiais didáticos ‒ livros e web aulas ‒ para o curso de Filosofia (EaD) da Unisul Virtual. FED.indb 6 25/02/2016 14:39:57 1 O homem e sua relação com o mundo: Filosofia e Educação Estamos iniciando uma viagem que passará por diversas abordagens da vertente essencialista ou metafísica da pedagogia. Veremos mais detalhadamente o significado desta terminologia: “essencialista” ou “metafísica”. Por ora, basta indicarmos que são abordagens focadas em concepções filosóficas que buscam a essência do ser humano e das coisas no mundo. Para chegarmos a tais abordagens, primeiramente, explicitaremos o que é Filo- sofia e o que é Educação, termos que compõem o nome desta disciplina: Filosofia da Educação. Veremos, também, como Educação e Cultura se relacionam a certas formas de Educação não-formais. Avançando no assunto, entraremos no mundo da Antiguidade Grega, inicialmente, tratando das tradições míticas de Homero e Hesíodo. Esta primeira incursão no mundo grego será o mote para abordarmos a passagem do Mito à Filosofia, apresentando alguns pensadores originários: os pré-socráticos. FED.indb 7 25/02/2016 14:39:58 Filosofia da Educação – 8 – Daí em diante, veremos com mais detalhes a abordagem dos sofistas, a de Sócrates e de Platão, que se confundem, e a de Aristóteles. Depois de um rápido apontar para o período Helenístico, vislumbraremos a menta- lidade medieval e caracterizaremos a Patrística e a Escolástica, centrando, um pouco mais, em um expoente de cada corrente, respectivmente, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino. Em todo este trajeto temos por objetivo caracterizar, principalmente, os diferentes enfoques da abordagem essencialista ou metafísica, que, ainda hoje, está por trás de certos discursos e práticas pedagógicas. Então, preparados(as)? 1.1 Para início de conversa Ao começar uma disciplina de Filosofia da Educação, uma primeira per- gunta que pode vir à mente é: “O que é Filosofia da Educação?”. Eis uma questão de difícil resposta. Mas, para não deixarmos nossa caminhada sem pontos de partida, vamos apontar algumas possibilidades de resposta. Pri- meiro, reforçando que os caminhos adotados são alguns dos muitos possíveis para dar conta de uma resposta a esta pergunta. Numa olhada rápida, vemos dois termos centrais: Filosofia e Educação. Uma estratégia é, primeiro, tomarmos cada um separadamente. Então, defi- nimos Filosofia e depois Educação. Isso, entretanto, não torna a tarefa mais simples. Mas vamos seguir neste caminho. 1.2 Definindo a Filosofia Talvez em razão do advento da obrigatoriedade da Filosofia no currí- culo do Ensino Médio, a partir da Lei no 11.684, de 2 de junho de 2008, alguns já tenham algum contato com a Filosofia como disciplina. Nessa perspectiva, podemos partir de abordagens comuns em manuais de Filoso- fia destinados ao Ensino Médio. Estes, geralmente, indicam que há muitas definições possíveis para o termo Filosofia. E começam diferenciando o uso coloquial do termo de seu uso técnico, mais acadêmico. Assim, certamente FED.indb 8 25/02/2016 14:39:58 – 9 – O homem e sua relação com o mundo: Filosofia e Educação não é o sentido de filosofia como “estratégia de atuação” ou “sabedoria de vida” ou “visão de mundo”, preenchimentos que encontramos no senso comum1, que queremos aqui. Mais uma entre as estratégias adotadas por esses manuais é recuperar a etimologia do termo Filosofia. Nesta, encontramos dois radicais gregos: philos e sophia. O primeiro podemos traduzir por amigo, apaixonado; o segundo, por sabedoria. Assim, a Filosofia seria a amizade pela sabedoria, a paixão pela sabedoria. Isso remete à busca pelo saber. Entretanto, assim como as definições do senso comum, esta não dá conta, propriamente, de uma definição mais técnica do termo Filosofia, pois um cientista ou mesmo um religioso podem ser apaixonados por determinado saber e buscar, cons- tantemente, meios para dar conta desse saber, seja este a explicação de um fenômenonatural, seja em relação ao sagrado. Também encontramos, nos livros didáticos de Filosofia, esta estraté- gia que a toma como uma atitude, uma reflexão sobre o mundo, sobre a realidade. É partindo desta perspectiva que Dermeval Saviani, num texto originariamente escrito para estudantes da disciplina de Filosofia da Edu- cação I do curso de Pedagogia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) em 1973 e, mais tarde, publicado como primeiro capí- tulo de seu livro Educação: do senso comum à consciência filosófica, apresenta uma definição de Filosofia. Atentemos para ela: Com efeito, se a filosofia é realmente uma reflexão sobre os proble- mas que a realidade apresenta, entretanto ela não é qualquer tipo de reflexão. Para que uma reflexão possa ser adjetivada de filosófica, é preciso que se satisfaça uma série de exigências que vou resumir em apenas três requisitos: a radicalidade, o rigor e a globalidade. Quero dizer, em suma, que a reflexão filosófica, para ser tal, deve ser radi- cal, rigorosa e de conjunto. Radical: Em primeiro lugar, exige-se que o problema seja colocado em termos radicais, entendida a palavra radical no seu sentido mais 1 Conhecimento adquirido pela tradição e acrescido pela experiência do dia a dia; conjunto de ideias, preceitos, técnicas que permitem a interpretação da realidade; conhecimento espontâ- neo, por vezes, pouco sistematizado e contraditório. FED.indb 9 25/02/2016 14:39:58 Filosofia da Educação – 10 – próprio e imediato. Quer dizer, é preciso que se vá até às raízes da questão, até seus fundamentos. Em outras palavras, exige-se que se opere uma reflexão em profundidade. Rigorosa: Em segundo lugar e como que para garantir a primeira exigência, deve-se proceder com rigor, ou seja, sistematicamente, segundo métodos determinados, colocando-se em questão as conclusões da sabedoria popular e as generalizações apressadas que a ciência pode ensejar. De conjunto: Em terceiro lugar, o problema não pode ser examinado de modo parcial, mas numa perspectiva de conjunto, relacionando-se o aspecto em questão com os demais aspectos do contexto em que está inserido. É neste ponto que a filosofia se distingue da ciência de um modo mais marcante. Com efeito, ao contrário da ciência, a filosofia não tem objeto determinado; ela dirige-se a qualquer aspecto da realidade, desde que seja problemático; seu campo de ação é o problema, esteja onde estiver. Melhor dizendo, seu campo de ação é o problema enquanto não se sabe ainda onde ele está; por isso se diz que a filosofia é busca. [...] Além disso, enquanto a ciência isola o seu aspecto do contexto e o analisa separadamente, a filosofia, embora dirigindo-se às vezes apenas a uma parcela da realidade, insere-a no contexto e a examina em função do conjunto. (SAVIANI, 2007, p. 20- 21). Reforça ainda o autor que esses termos – radical, rigorosa, de conjunto – não podem ser vistos em separado para definir Filosofia. Dessa forma, nem todo tipo de reflexão é filosófica, assim como nem toda avaliação rigorosa ou de conjunto o é. Se ficarmos com essa definição de Saviani, veremos que Filosofia da Educação é “uma reflexão radical, rigorosa e de conjunto sobre a Educação”. Resta, então, pensarmos a noção de Educação. Todos nós temos um sentido para este termo: Educação. Alguns o tomam como sinônimo de instrução; outros, de postura moral; outros, ainda, como a transmissão do legado de uma tradição. FED.indb 10 25/02/2016 14:39:58 – 11 – O homem e sua relação com o mundo: Filosofia e Educação Fonte: REMBRANDT, Harmensz van Rijn. Filósofo meditando, 1632. Louvre, Paris, França. Num sentido mais amplo, Educação se apro- xima de certo sentido do termo Cultura, pois, assim como este, é um diferenciador do ser humano em relação aos outros seres não humanos. Admite-se, geralmente, que o ser humano se caracteriza não só por responder aos estímulos do meio a sua volta, mas também por alterar este meio e transmitir suas experiências às gerações seguintes. O conjunto de técnicas, práticas, teorias, instituições, preceitos morais e intelectuais é visto pela Antropologia como Cultura. Entendendo Cultura neste sentido é que podemos ver o ser humano como um produtor de Cultura e, consequentemente, de Educação. FED.indb 11 25/02/2016 14:39:58 Filosofia da Educação – 12 – Nossa caminhada, doravante, deve ter em vista esta breve apresentação das noções de Filosofia e Educação. Ao longo dos próximos capítulos, vere- mos, de forma mais detalhada, diferentes abordagens, predominantemente as filosóficas, sobre a Educação, passando por aspectos práticos e teóricos. Vamos em frente? 1.3 A cultura antiga e a Educação Se olharmos para história da humanidade, veremos uma diversidade de culturas e modos de vida: divisão de trabalho; tratos sociais; hábitos alimen- tares e de vestuário; valores; manifestações artísticas. Cada cultura tem formas específicas de transmitir seu legado. Essas “formas de transmissão“ do legado cultural podemos chamar “educação”. É bom lembrar, entretanto, que este vocabulário não se restringe a algo formalmente institucionalizado. De fato, por milhares de anos, o ser humano transmitiu seu legado cul- tural de modo mais espontâneo. Não existiam profissionais especializados, escolas, teorias educacionais ou leis – no sentido jurídico – específicas para dar conta de processos que consideramos, hoje, partes de nossas vidas. O “educar” poderia ser: um adestramento para uma atividade que era passada de pai para filho; um conjunto de preceitos religiosos-morais aglutinadores de terminados grupos. Esse aspecto do educar, alguns autores denominam “educação difusa”; outros “educação não formal” ou “informal”, em oposição à educação for- mal, mais característica nas sociedades letradas que estabeleceram instituições, como a escola, para transmitir o legado cultural sistematizado. Pensar a educação sistematicamente, teorizando seus fundamentos e suas práticas, não é algo que encontramos desde os primórdios da humanidade. Na realidade, se tomarmos a história da humanidade, tal perspectiva é tardia, ou seja, muito mais próxima, cronologicamente, de nós do que pensamos. Diante da diversidade cultural, mencionada anteriormente, precisamos ter muito cuidado com a temática que temos pela frente. O ato de educar é produto de cada concepção de mundo que predomina em determinado tempo, lugar e cultura. Esse ato assume distintas formas, produzindo diferentes pedagogias. Cabe esclarecer que a Pedagogia, enten- dida como área de conhecimento, já é uma forma sistemática e teorizada FED.indb 12 25/02/2016 14:39:58 – 13 – O homem e sua relação com o mundo: Filosofia e Educação do ato educacional, uma Ciência da Educação. As diferentes pedagogias só podem ser bem compreendidas se analisadas à luz de determinado momento histórico, ideias e valores que a fundamentam. Se desprezarmos esses aspectos em nossa reflexão, estaremos fadados a julgar uma cultura a partir de outra e a cometer algum tipo de preconceito. O que implicaria não entendermos adequadamente nosso objeto de estudo. Aliando essas ideias às da Introdução, vislumbra- mos uma tarefa para a Filosofia da Educação, a saber: compreender ideias, fundamentos e princípios que sustentam as variadas concepções pedagógicas. Encontramos a “educação difusa” ou “não formal” nas sociedades tri- bais, nas práticas de trabalho menos especializadas, nas brincadeiras infantis, nas relações familiares e entre amigos, na transmissão das regras de compor- tamentos morais e em outros tratos sociais2. É bom frisar que, mesmo no espaço acadêmico, encontramos essa forma de “educação”. Em geral, esse modo do ato de educar, principalmente nas sociedades tribais e nas civilizações da Antiguidade, tem maior teor de transmissão do legado cultural, de adestramento, e gera poucas modificações ao longo do tempo. Tal tipo de “educação” é mais estável, mais estático. Contudo,isso não significa que, também aqui, ao longo da história, não encontremos mudan- ças, apenas que tais mudanças são mais demoradas e sutis. Esse aspecto de maior estabilidade, como já foi apontado, encontramos em certos procedimentos educacionais de algumas das grandes civilizações antigas. Nas sociedades do Antigo Oriente, por exemplo, temos o predomí- nio de um tradicionalismo pedagógico. Mas o que é isto? O tradicionalismo pedagógico consiste na transmissão de uma doutrina sagrada; uma sabedo- ria conquistada pela prática, objetivando conduzir o indivíduo à virtude e à felicidade. Aqui, a educação se caracteriza pela busca da perfeição espiritual, 2 Refere-se a normas de conduta, comportamentos normativos não morais ou legais (Direito) relacionados à forma de se portar à mesa, de se dirigir a outrem, de se vestir; à pontualidade etc. FED.indb 13 25/02/2016 14:39:59 Filosofia da Educação – 14 – que, por sua vez, é identificada como único caminho para a virtude e a vida feliz. Temos, nessas culturas, o mestre ou preceptor como figura exemplar, ou seja, que os discípulos e a própria sociedade devem tomar com modelo. Essa prática se liga à visão mítica do mundo, que perpassa, ainda hoje, a Religião. Seguindo as ideias anteriores, podemos traçar pontes entre Mito e Edu- cação. Lembrando que a perspectiva mítica é anterior à perspectiva filosófica e mais ainda à perspectiva científica, podemos compreender a perspectiva mítica não como algo falso ou uma construção mirabolante, mas como uma forma de conhecimento, uma visão de mundo, um conjunto de práticas e valores que agregam certos grupos humanos. É característica da tradição mítica a transmissão do legado cultural por artifícios mnemônicos, ou seja, por meio de técnicas de memorização, que privilegiam aspectos sonoros, por vezes, aliados a aspectos gestuais e imagéticos3. Dessa forma, há um privi- légio da memória sonora e gestual-visual aliada a esta. Até porque a maior parte dos membros dessas sociedades não dominam sistemas de escrita. Não é à toa que, predominantemente, se manifestam por meio de poemas recita- dos musicalmente, não raro acompanhados por certos tipos de instrumentos musicais. Exemplos disso são os mantras, as leituras repetidas de textos sagra- dos, os cânticos e a liturgia nas missas, as epopeias, as narrativas dos bardos4 e trovadores. De forma similar, poderíamos incluir as cantigas de trabalho, as canções que transmitem valores sobre as relações amorosas etc. Para entendermos um pouco mais a mentalidade mítica, devemos perguntar: Qual o papel (função) do mito? Como o mito funciona (suas características)? Primeiramente, como toda forma de conhecimento (modos de ver o mundo), o homem, ao produzir mitos, ou seja, a consciência mítica, procura: 2 dar sentido à vida; ordenar as relações entre si e o Universo, geral- mente sacralizado (divinizado), e entre os fenômenos deste; 2 justificar e consolidar práticas sociais (relações de trabalho, casa- mento, condutas e posições sociais etc.); 2 “explicar” as origens do Universo, dos seres vivos e de práticas sociais estabelecidas. 3 Relativo à imagem; que se revela pela imagem. 4 Nas sociedades celta e gaulesa eram os recitadores dos poemas épicos. FED.indb 14 25/02/2016 14:39:59 – 15 – O homem e sua relação com o mundo: Filosofia e Educação Desse modo, o ser humano se sente mais seguro no mundo. O que difere o pensamento mítico das outras formas de conhecimento é como este se organiza, suas bases, seus instrumentos. Para reforçar o que já foi dito e complementar, tomemos o que diz Chaui (1996, p. 161-163), baseada no antropólogo Claude Lévi-Strauss: O mito possui três características gerais: 1. Função explicativa: o presente é explicado por al guma ação passada cujos efeitos permaneceram no tempo. [...]; 2. Função organizativa: o mito organiza as relações sociais (de paren- tesco, de alianças, de trocas, de sexo, de idade, de poder etc.) de modo a legitimar e garantir a permanên cia de um sistema complexo de proibições e permissões. [...]; 3. Função compensatória: o mito narra uma situação passada, que é a negação do presente e que serve tanto para compensar os humanos de alguma perda como para garantir-lhes que um erro passado foi corrigido no presente, de modo a oferecer uma visão estabilizada e re gularizada da Natureza e da vida comunitária. Podemos perceber que a narrativa mítica não é uma falsificação do real, uma mentira ou mera alegoria ‒ no sentido de figura de retórica ‒, mas uma mentalidade, uma visão de mundo, uma consciência que encontramos, ainda hoje, arraigada em nossas vidas. Dica de Leitura Para aprofundar um pouco mais essa visão sobre o Mito, uma leitura recomendável é Mito e realidade, de Mircea Eliade. Quando pensamos a passagem do Mito à Filosofa, por volta do século VI a.C., na Grécia Antiga, começamos refletindo sobre esta tradição, a mítica, já apontado para aspectos característicos do filosofar. Eis por que partimos dos poemas homéricos. Os poemas atribuídos a Homero (século IX a.C. aproximadamente) constituíram a fonte primária da educação grega desde os primórdios da formação da mentalidade grega. O papel dessas narrativas era transmitir a FED.indb 15 25/02/2016 14:39:59 Filosofia da Educação – 16 – história, a cultura e a relação dos seres humanos com o sagrado por meio da perspectiva mítica. A Ilíada cantava os feitos heroicos dos gregos contra os povos do Oriente e a Odisseia evocava a força das tradições familiares e dos costumes domésticos. Os mitos, sejam das sociedades tribais, sejam dos povos da Antiguidade, têm a função de revelar a faceta intuitiva da compreensão da realidade e de transmitir valores e ensinamentos por meio de imagens, personagens e de narrativas carregadas de grandes façanhas heroicas. Nisso os chamados poemas homéricos foram exemplares dentro da socie- dade grega, desde a suas recônditas origens até os tempos de decadência da men- talidade grega antiga, no período Helenístico. Mesmo Platão, filósofo do período Clássico, que por diversas vezes apresenta posições contrárias à paideia5 homérica, em alguns momentos reconhece Homero como “mestre da Hélade6”. Saiba mais Homero, para os estudiosos, é uma figura de procedência discu- tida. A ele são atribuídas a Ilíada e a Odisseia, que, aceitando a vertente interpretativa mais difundida hoje quanto à questão da gênesis das obras homéricas, não foram escritas por um único homem, mas são – a Ilíada e a Odisseia – construções coletivas de longos anos de compilações e rearranjos de narrativas orais. Logo, obra construída por séculos para chegar à forma “defini- tiva”, que conhecemos até hoje. Outro expoente importante da cultura mítica grega é Hesíodo, que escreveu Os trabalhos e os dias e Teogonia. Parte do que temos da gênesis 5 Palavra grega que pode ser traduzida por Educação. Mas, conforme Jaeger (1989, p. 1), tem uma conotação muito mais complexa para o mundo grego, na Antiguidade: “Paidéia, não é apenas um nome simbólico; é a única designação exacta do tema histórico nela estudado. Este tema é, de facto, difícil de definir: como outros conceitos de grande amplidão (por exemplo os de filosofia ou cultura) [...]. O seu conteúdo e significado só se nos revelam plenamente quando lemos a sua história e lhes seguimos o esforço para conseguirem plasmar-se na realidade.” 6 Refere-se à Grécia, donde seu derivado heleno como sinônimo de grego. FED.indb 16 25/02/2016 14:39:59 – 17 – O homem e sua relação com o mundo: Filosofia e Educação dos deuses gregos vem dos escritos desse poeta, que viveu por volta do século VIII a.C., na região da Beócia. Enquanto Homero retrata o ambiente aris- tocrático, Hesíodo retrata o ambiente do campo, a vida dura do agricultor. Nas obras do primeiro, os valores transmitidos são os dos guerreiros e de seu ambiente: o vigor físico, o preparo para a batalha, a coragem e a inteligência para estratégias bélicas. Já nasobras de Hesíodo, são os valores do campo: a perseverança no trabalhos do dia a dia, mesmo diante das intempéries, a esperança. Isso quanto ao universo masculino. Também quanto ao universo feminino encontramos diferenças entre ambos. Nas narrativas do primeiro, vemos a mulher bela e prendada, com seus dotes domésticos, fiel ao marido e que administra a casa e cuida dos filhos. Nos escritos de Hesíodo, ela apa- rece como um castigo dos deuses, mais uma boca a ser alimentada, o ser que levará os homens à perdição. De um lado temos a figura de Penélope, esposa de Odisseu ou Ulisses; de outro, Pandora, aquela mandada pelos deuses como castigo, que, ao abrir uma jarra ‒ variantes da narrativa dizem caixa ‒, deixa escapar todos os males da humanidade. Saiba mais Como nosso foco não é principalmente a “educação difusa” ou “informal” e a mentalidade mítica, o que por ora foi apresentado é suficiente para se ter uma ideia desses aspectos. Para um maior aprofundamento recomendamos a leitura dos tópicos “Cultura e Educação da nobreza homérica”, “Homero como educador” e “Hesíodo e a vida do campo”, da obra de Werner Jaeger, Pai- deia: a formação do homem grego. Imagens contemporâneas sobre as narrativas homéricas encontramos no cinema, por exem- plo, nos filmes: Odisseia (1997); Helena de Tróia: paixão e guerra (2003); Tróia (2004). Já que estamos nos pautando na Filosofia da Educação, é o nascimento da filosofia grega que nos interessa mais, pois é a Filosofia que trará à Educação, até a nossa época, características fundamentais para o desenvolvimento de concepções pedagógicas ao longo do desenvolvimento da civilização ocidental. FED.indb 17 25/02/2016 14:39:59 Filosofia da Educação – 18 – Tomando por foco, no próximo tópico, a filosofia grega na Antiguidade e seus principais expoentes, vamos identificar os traços fundamentais das cha- madas pedagogias essencialistas ou metafísicas. Mas, antes de avançarmos, é preciso explicitar o que caracteriza as peda- gogias essencialistas ou metafísicas. Para tanto, tomemos algumas passagens do livro Filosofia da Educação, de Maria Lúcia de Arruda Aranha: Na tradição filosófica em que predomina a concepção essencialista ou metafísica, herdada dos gregos ‒ e que ainda hoje persiste em algumas teorias pedagógicas ‒ busca-se a unidade na multiplicidade dos seres, ou seja, a essência que caracteriza cada coisa. Também o conceito de humanidade é compreendido a partir de uma natureza imutável: ape- sar de constatadas diferenças entre os seres humanos, existiria uma essência humana, um modelo a ser atingido. [...] Essas pedagogias tinham como característica o enfoque metafísico próprio da filosofia antiga, que acentuava a atitude teórica de aná- lise dos conceitos universais. Segundo essa perspectiva, educar seria desenvolver as potencialidades da natureza humana, fazendo cada um tender para a perfeição, para aquilo que pode vir a ser. (ARANHA, 2006, p. 150-151). 1.4 Do nascimento da Filosofia à tradição socrática Foi com os pensadores originais ou pré-socráticos, que nasceu a Filoso- fia como um modo de buscar a sabedoria através de uma reflexão orientada pela razão. Esses pensadores buscavam um princípio fundamental, conforme interpretação aristotélica, para a existência de todos as coisas. Aqui, antes de avançarmos, cabe esclarecer como entendemos a noção de princípio fundamental. O termo grego que pode ser traduzido por prin- cípio é arkhé. Conforme explica Marilena Chaui, em Introdução à história da filosofia: Esta palavra possui dois grandes significados principais: 1) o que está à frente e por isso é o começo ou o princípio de tudo; 2) o que está à frente e por isso o comando de todo o restante. No primeiro sigi- nificado, arkhé é fundamento, origem, princípio, o que está no prin- FED.indb 18 25/02/2016 14:39:59 – 19 – O homem e sua relação com o mundo: Filosofia e Educação cípio ou na origem, o que está no começo de modo absoluto, ponto de partida de um caminho; fundamento das ações e ponto final a que elas chegam ou retornam. No segundo caso, arkhé é comando, poder, autoridade, magistratura; coletivamente significa: o governo, por extensão, reino, império. [...] Os dois sentidos estão fundidos na cosmologia e, posteriormente, na metafísica de Aristóteles. É o princí- pio absoluto, eterno, idêntico e incorruptível de todas as coisas e que governa/comanda a realidade. (2002, p. 495-496). Percebemos, no significado de arkhé, uma conotação essencialista ou metafísica. Entretanto, cabe uma ressalva: esses termos ‒ essencialista e meta- física ‒ não são empregados no período da Filosofia nascente e mesmo no período Clássico para identificar tais concepções. Voltemos aos pensadores originários. Ao buscarem um princípio não divinizado e usarem a reflexão orientada pela razão, rompem com as expli- cações míticas sobre o universo. Mas essa ruptura não é imediata, pois, se analisarmos melhor, veremos certo parentesco entre algumas respostas dos pensadores da Filosofia nascente e as narrativas míticas. Talvez, um dos aspec- tos mais gritantes seja o fato de, em sua maioria, aquilo que nos restou dos escritos desses pensadores ‒ os fragmentos e as doxografias ‒ estão em poesia. Ainda assim, cabe indicar que a questão das semelhanças e diferenças entre as narrativas da mitologia grega e as hipóteses defendidas pelos pensadores da Filosofia nascente não é questão fechada e encontramos posições divergentes sobre o tema. Porém, tal digressão não é nosso foco. É pensando a passagem do Mito à Filosofia como algo lento e gradual que vislumbramos a substituição do mýthos ‒ termo grego que traduzimos por: ação de recitar; palavra; discurso; mensagem; mito ‒ pela afirmação do lógos ‒ termo grego que podemos traduzir por: palavra; discurso, razão ‒ e, com isso, o nascer da mentalidade Ocidental. Notadamente, esses dois ter- mos gregos carregam a possibilidade de serem traduzidos por palavra, dis- curso. Entretanto, são discursos com modos diferentes de operar. Enquanto o primeiro tem um caráter mais intuitivo, mas “fechado”, o segundo é mais racional, aberto às críticas. Um exemplo claro dessa “abertura às críticas” é a sequência de hipóte- ses apresentadas pelos três primeiros filósofos, todos da cidade de Mileto. Para Tales, “Tudo é água”. Já Anaximandro, o filósofo na sequência de Tales, estabe- FED.indb 19 25/02/2016 14:39:59 Filosofia da Educação – 20 – lece uma arkhé mais abstrata se comparada à água: o ápeiron ‒ termo grego que traduzimos por: ilimitado, indeterminado. Parecendo fazer uma mediana entre seus antecessores, Anaxímenes diz ser o ar o princípio de tudo. Notemos que há uma passagem de um princípio mais concreto ‒ a água ‒ para um mais abstrato ‒ o ápeiron ‒, caracterizando um primeiro movimento da “abertura às críticas”. Por fim, numa segunda passagem, temos o ar como elemento primordial, que não é tão concreto como a água nem tão abstrato como o ápeiron. Assim, comparando a mentalidade mítica e a filosófica nascente, o que temos são duas formas de conhecimento, cada qual pautada em fundamentos diferentes mesmo que encontremos algumas similaridades entre elas. É esse aspecto próprio da filosofia nascente, a reflexão racional, que conduz, já na tradição filosófica grega, ao aparecimento da pedagogia num sentido mais técnico, como Ciência da Educação. Há em alguns fragmentos dos pensadores originários elementos que são indicativos de uma tradição que começa a tentar se colocar no lugar da paideia homérica e hesiódica. Típico disso são as críticas de Heráclito de Éfeso (cerca de 540-470 a.C.) às tradições que o precederam. Vejamos um fragmento: Estão iludidos os homens quanto ao conhecimento das coisas visí- veis, mais ou menos como Homero, que foi o homem mais sábio que todos os helenos. Pois enganaram-no meninos que matando piolhos lhe disseram: o que vimos e pegamos é o que largamos, e o que não vimos nem pegamos é o que trazemos conosco. (HIPÓLITO,Refu- tações, fragmento 56, IX, 9). Alguns desses filósofos pré-socráticos foram líderes de movimentos políticos que propagavam ideais transformadores para as sociedades da época. Exemplos destes são Pitágoras e os pitagóricos que viam a harmonia cósmica como modelo para encontrarmos a harmonia nas relações humanas. A origem de tudo estava nos números, diziam eles. Entendendo por números, principalmente, as relações de proporções. Assim, para os pitagóricos, descobrir a harmonia constitutiva do cosmo possibilitaria traçar, na concordância com essa harmonia cósmica, regras para a vida individual e política. Há aí um entendimento de que o macro (cosmo) se reflete no micro (vida humana). Embora predomine, nos fragmentos dos pensadores originários, a temática da cosmologia e da busca de um princípio natural, não divino, encontramos em alguns deles conselhos para uma vida regrada e comedida; FED.indb 20 25/02/2016 14:39:59 – 21 – O homem e sua relação com o mundo: Filosofia e Educação regras para a convivência social e política harmoniosas e mesmo orientações alimentares. Entretanto, essas temáticas mais antropológicas são mais características do período seguinte, denominado, na História da Filosofia, Socrático ou Antropológico, que corresponde, geralmente, ao período Clássico da historiografia tradicional. É bom entendermos melhor aquilo que tomamos por princípios naturais como uma remissão a outra noção muito importante para compreendermos o pensamento da Filosofia nascente que é a de phýsis ‒ natureza. Para esclarecer melhor essa noção, tomemos uma passagem de Chaui (2002, p. 509): Possui três sentidos principais: 1) processo de nascimento, surgi- mento, crescimento de um ser [...]; 2) disposição espontânea e natu- reza própria de um ser; características naturais e essenciais de um ser [...]; 3) força originária criadora de todos os seres, responsável pelo surgimento, transformação e perecimento deles. A phýsis é o fundo inesgotável de onde vem o kósmos; e é o fundo perene para onde regressam todas as coisas, a realidade primeira e última de todas as coisas. Opõe-se a nómos [regra, lei, norma]. Com a retomada do comércio, a invenção da escrita alfabética, o advento de leis escritas, culminando com o aparecimento e desenvolvimento da cidade-estado (pólis) como estrutura predominante na organização sociopolítica do mundo grego ‒ fatores que ocorreram ao longo do período Arcaico (aproximadamente do século VIII ao VI a.C.) ‒, novas preocupações apareceram. Isso levou alguns estudiosos contemporâneos a afirmarem que: “A filosofia é filha da pólis”. Esse mote se torna muito mais significativo no período Clássico (entre os séculos V e IV a. C.), no qual Atenas floresce como uma pujante pólis. 1.4.1 Sofistas: os primeiros professores Depois da vitória dos gregos sobre os persas, fechando as Guerras Médi- cas (entre 490 e 479 a.C.), a acrópole de Atenas é reconstruída no comando de Péricles ‒ grande general e, consequentemente, estrategista7. Reformas políticas, aos poucos, levam ao aparecimento da democracia. Esses fatos, além de propiciarem a ascensão de outras classes sociais atenienses que não a aristocracia, atraem, para Atenas, uma diversidade de pessoas: comerciantes, 7 Lembrar que a palavra estrategista vem do grego estrategos. FED.indb 21 25/02/2016 14:39:59 Filosofia da Educação – 22 – músicos, escultores, pintores, arquitetos e pensadores de diferentes matizes. Entre estes estão os sofistas. Mas quem foram esses homens e qual a impor- tância deles para o desenvolvimento da pedagogia? Os sofistas foram pensadores itinerantes, conhecidos, principalmente, como mestres de Retórica e Oratória, que cobravam por seus ensinamentos, aspecto que os coloca como os primeiros professores particulares. Em sua grande maioria os sofistas não são atenienses. Diferentemente dos pensadores originários, os sofistas estabeleceram uma cisão entre as leis da natureza (phýsis) e as leis do universo humano (nómos). Para eles, as leis do universo humano não são a priori nem se mantêm sempre as mesmas. Ao contrário das leis cósmicas, as do universo humano são arbitrárias, conforme a sofística. Dessa forma, não há para os sofistas, no universo humano, valores universalmente válidos. Aquilo que um determinado grupo social vê como bom, justo ou belo pode ser, para outro grupo social, ruim, injusto ou feio. O que faz uma dada sociedade assumir determinados valores são convenções estabelecidas por estratégias de convencimento e o valor atribuído por certa sociedade para isso ou aquilo não é, no fundo, melhor ou pior que os atribu- ídos por outra sociedade. Tal visão expressa dois princípios: o relativismo e o humanismo, ou antropocentrismo. Apesar do relativismo e do antropocentrismo, há quem veja na sofística aspectos da pedagogia essencialista ou metafísica, como indica esta passagem de Aranha (2006, p. 150): Os filósofos sofistas (século V a.C.) eram educadores, mas, quando ensi- navam retórica, a arte de bem falar, na verdade estavam voltados para a formação do homem público, capaz de defender com argumentos suas idéias - e convencer os demais - na assembléia democrática. No mundo da Atenas democrática, tais princípios ‒ relativismo e huma- nismo ‒ combinam com os da própria democracia: a isonomia e a isegoria. Para entender melhor essas noções e a de nómos, já utilizada, tomemos o glos- sário de termos gregos, apresentado por Chauí (2002, p. 503-506): FED.indb 22 25/02/2016 14:39:59 – 23 – O homem e sua relação com o mundo: Filosofia e Educação Nómos: Regra, lei, norma. O primeiro sentido desta palavra é aquilo que se possui por partilha, aquilo que se usa porque atribuído por uma partilha; por extensão: uso, costume conforme ao uso ou ao cos- tume. Esta conformidade ao costume passa a significar a norma ou regra costumeira de um comportamento de um grupo, as conven- ções sociais que o grupo estabelece para seus membros. Mais adiante: opinião geral, máxima geral, regra de conduta. [...] Nómos opõe-se a physis: o nómos é o que é por convenção, por acordo e decisão dos humanos, enquanto physis é o que é por natureza, por si mesmo inde- pendentemente da decisão ou vontade dos homens. Os sofistas dirão que tudo é pelo nómos, tudo é por convenção. Isegoría: Palavra composta de dois elementos: ise-, que vem de isos (igual, igual em número e em força; igualmente repartido, ter parte igual; justo, equitável, equilibrado, nivelado), e -goria, derivada do verbo agoreúo (falar em público, falar numa assembléia, discursar em público). É o direito de cada cidadão de dizer sua opinião na assem- bléia democrática. É a liberdade de expressão que cada um possui e de que todos os cidadãos desfrutam. Isonomía: Palavra composta por ise- (ver isegoría) e -nomia, vinda de nómos (ver nómos). Inicialmente, significa repartição igual; a seguir, significa igualdade de direitos perante a lei no regime democrático. O regime democrático se pauta pelos debates na assembleia, que envol- vem todos os cidadãos atenienses, que devem ter habilidades próprias da Retórica e da Oratória. Logo, essas, para o regime democrático, são de fun- damental importância. Entre os grandes sofistas se destacam Protágoras de Abdera e Górgias de Leontinos. O primeiro afirma que: “O homem é a medida de todas as coisas, das que são como são e das que não são como não são”. O que Protágoras está afirmando é que o ser humano é quem atribui valores a todas as coisas e diz que as coisas são dessa ou daquela forma, pois, se há uma essência das coisas, tal essência não é passível de ser conhecida pelo ser humano. Por que o ser humano não tem conhecimento da essência das coisas? Porque, segundo a sofística, das coisas o ser humano só tem aquilo que lhe aparece, ou seja, o fenômeno. Ainda há o fato de ser a partir da linguagem que os seres humanos tentam dizer o que são as coisas. E a linguagem não é a coisa em si. Dizer “casa” não é sentir,essencialmente, uma casa. FED.indb 23 25/02/2016 14:39:59 Filosofia da Educação – 24 – O segunda afirma: “Nada existe que possa ser conhecido; se pudesse ser conhecido não poderia ser comunicado; se pudesse ser comunicado não poderia ser compreendido”. Górgias é mais radical que Protágoras; ele apresenta a impossibilidade do conhecimento, prenunciando o ceticismo do período Helenístico. Notemos que ambos os fragmentos nos colocam perante problemas rela- tivos à possibilidade do conhecimento e a função da linguagem humana no processo de comunicação da experiência sobre o mundo. Ou seja, questões ligadas à pedagogia. Não bastasse isso, os sofistas foram os primeiros a elaborar uma educação intelectual desligada da educação do corpo. Lembremos que até então a educação grega combinava a educação do corpo com a educação da alma: para a primeira a ginástica; para a segunda, a música ‒ aqui, sinô- nimo de poesia. E, como atenta Aranha (1996, p. 43), os sofistas alargam a noção de paideia, que inicialmente se referia à educação da criança, passando, como os sofistas, a se referir, também, à educação continuada do adulto. Os sofistas foram os primeiros a sistematizar um currículo educacional, composto de gramática, retórica e dialética; e, na linha dos pitagóricos, aritmética, geometria, astrono- mia e música. Tal proposta é a precursora da tradicional divisão das Sete Artes Liberais, que, na Idade Média, será a base o currículo escolar, dividido em Trivium e Qua- drivium, dos quais voltaremos a falar mais à frente. A sofística não foi muito bem-vista pelos filósofos do período Clássico: Sócrates, Platão e Aristóteles. A impressão que a tríade deixou sobre a sofística foi de tal forma negativa que a imagem predominante por muito tempo na História da Filosofia leva a crer que os sofistas foram apenas um bando de charlatões, preocupados apenas em enriquecer. O prejuízo decorrente dessa imagem foi, em parte, a perda das obras atribuídas a esses pensadores, restando de suas hipóteses esparsos fragmentos e alusões nos textos de seus opositores, como encontramos, por exemplo, nos Diálogos de Platão. FED.indb 24 25/02/2016 14:39:59 – 25 – O homem e sua relação com o mundo: Filosofia e Educação O próprio termo sofista e seu derivado passaram a ter conotações pejorativas. Embora, por vezes, esqueçamos que o termo sofisticado venha de sophisés, que traduzimos por sofista, e também, numa tradição anterior ao advento da sofística, que significava sábio, excelente em uma arte ou técnica, sensato, prudente. 1.4.2 A questão socrática Como vimos, um dos opositores da sofística foi Sócrates. Mas quem foi esse filósofo e que legado nos deixou? De Sócrates não temos nada escrito, pois este, seguindo à risca a sua visão sobre o texto escrito ‒ para ele, uma imitação da palavra falada e, como tal, algo menor, que não contribuía muito para a busca do saber ‒, nada escreveu. O que temos a repeito de Sócrates nos foi deixado, predominante- mente, por seu mais ilustre discípulo, Platão. Mas também temos os relatos de Xenofontes. Ambos, Platão e Xenofontes, por perspectivas e estilos dife- rentes, dão-nos um Sócrates sábio e modelar. Platão chega mesmo a dizer que Sócrates foi o homem mais justo que ele conheceu. Muito diferente dessa imagem é a que nos deixou Aristófanes, um comediógrafo, contemporâneo de Sócrates. A partir dele, temos um Sócrates malvestido, pobre, que vivia nas nuvens e se utilizava de artifícios retóricos (aqui, no sentido pejorativo). Tais registros divergentes e, provavelmente, não isentos de valores ‒ derivados sejam da excessiva admiração ou da função ridicularizante, típica da comédia clássica ‒ colocam Sócrates muito mais como um personagem. Disso deriva o que os estudiosos chamam de “a questão socrática”. Mesmo assim, sabemos que Sócrates jamais saiu de Atenas e que morreu em 399 a.C., durante o regime democrático. Morte que fez dele uma espécie de mártir da Filosofia. Lembramos que a maior parte dos textos que falam de Sócrates são posteriores a sua morte. Sabemos, também, que ele vivia na ágora ‒ praça pública ‒ e nos ginásios questionando figuras ilustres e quem mais se aproximasse das rodas de debates promovidas por sua estratégia dialogal. Em razão disso, muitos jovens o seguiam. E uma das acusações que o levaram a julgamento foi corromper os jovens; a outra, não crer nos deuses. Saiba mais Para saber mais sobre Sócrates assista ao filme Sócrates (1971). FED.indb 25 25/02/2016 14:39:59 Filosofia da Educação – 26 – Conta-se que, em certa ocasião, um amigo de infância e membro do par- tido democrático de Sócrates, Querefonte, indo a Delfos, cidade grega onde ficava o mais célebre oráculo da Antiguidade, teria consultado o Oráculo, perguntando se havia homem mais sábio que Sócrates. Recebeu a resposta de que não havia ninguém mais sábio que Sócrates. Ora, Sócrates vivia dizendo que nada sabia. Como interpretar esse aparente contrassenso? O próprio Sócrates, personagem de Platão, na Defesa de Sócrates (21b-e), responde: Quando soube daquele oráculo, pus-me a refletir assim: “Que que- rerá dizer o deus? Que sentido oculto pôs na resposta? Eu cá não tenho consciência de ser nem muito sábio nem pouco; que quererá ele, então, significar declarando-me o mais sábio? Naturalmente, não está mentindo, porque isso lhe é impossível.” Por longo tempo fiquei nessa incerteza sobre o sentido; por fim, muito contra meu gosto, decidi-me por uma investigação, que passo a expor. Fui ter com um dos que passam por sábios, porquanto, se havia lugar, era ali que, para rebater o oráculo, mostraria ao deus: “Eis aqui um mais sábio que eu, quando tu disseste que eu o era!” Submeti a exame essa pessoa ‒ [...]Eis, Atenienses, a impressão que me ficou do exame e da conversa que tive com ele; achei que ele passava por sábio aos olhos de muita gente, principalmente aos seus próprios, mas não o era. Meti-me, então, a explicar-lhe que supunha ser sábio, mas não o era. A conseqüência foi tornar-me odiado dele e de muitos dos circunstantes. Ao retirar-me, ia concluindo de mim para comigo: “Mais sábio do que esse homem eu sou; é bem provável que nenhum de nós saiba nada de bom, mas ele supõe saber alguma coisa e não sabe, enquanto eu, se não sei, tampouco suponho saber. Parece que sou um nadinha mais sábio que ele exatamente em não supor que saiba o que não sei.” Tal fragmento é indicativo de que Sócrates era um filósofo no sentido mais etimológico do termo: não um sábio, mas um amigo da sabedoria, ou seja, alguém que busca a sabedoria. Mas como se dá essa busca? Sócrates costumava dizer que nada ensinava, mas procurava ajudar as pessoas a buscarem no interior de si mesmas o conhecimento que tinham. Tal perspectiva é claramente essencialista ou metafísica, pois FED.indb 26 25/02/2016 14:39:59 – 27 – O homem e sua relação com o mundo: Filosofia e Educação revela uma concepção inatista do conhecimento: de alguma forma nossa alma já traz – antes mesmo de nosso nascimento, que corresponde ao estabelecimento de uma relação corpo- alma, matéria-espírito – o conhecimento do Bem, do Justo e do Belo. Entretanto, tal conhecimento se encontra adormecido. Assim, segundo Sócrates, o que ele fazia era ajudar as pessoas a recuperar esse conhecimento que estava dentro de si. Para tanto, Sócrates inquiria seus interlocutores. O depoimento de Sócrates, no fragmento da Defesa de Sócrates, apresentado anteriormente, aponta para o método socrático que possuía duas etapas: 2 primeira, a ironia ‒ do grego eironia ‒, perguntar, fingindo igno- rância ‒ que tem um caráter negativo, pois desconstrói a opinião (dóxa) apresentada pelo interlocutor sobre algo; 2 segunda, a maiêutica ‒ maieutiké, relativo ao parto8 ‒, mais posi- tiva, pois consistia em, a partir de outras perguntas, dar à luz as ideias que cada um tem dentro de si. Para Sócrates, conhecer era relembrar (anámnesis). Mas, para enten-dermos tal concepção, devemos aceitar um fundamento religioso no pensa- mento socrático e sua concepção de alma (psykhé). Ao final da parte Vida e obra do volume Sócrates da coleção Os pensadores, José Américo Motta Pessanha esclarece: Na verdade, Sócrates criou uma nova concepção de alma (piquê), que passou a dominar a tradição ocidental. Antes, como em Homero, a psiquê era o “duplo” que podia se desprender provi- soriamente durante o sono ou definitivamente, com a morte, mas que nada tinha a ver com a vida mental ou as “faculdades” da pessoa. [...] É a partir de Sócrates – ou pelo menos é na literatura 8 Sócrates revela (Platão, Teeteto, 148e-151a) que age como as parteiras, mas, enquanto estas trazem ao mundo corpos, ele traz ideias. Sócrates reforça que, assim como as parteiras, ela ape- nas ajuda no nascimento, não faz nascer. Lembremos que Sócrates era filho de uma parteira, Fenárete. FED.indb 27 25/02/2016 14:39:59 Filosofia da Educação – 28 – referente a ele e que se seguiu à sua morte – que surge a concepção de alma como sede da consciência normal e do caráter, a alma que no cotidiano de cada um é aquela realidade interior que se manifesta mediante palavras e ações, podendo ter conhecimento ou ignorância, bondade ou maldade. E que, por isso, deveria ser o objeto principal da preocupação e dos cuidados do homem. (1987, p. XXI). É essa concepção de alma que costura a relação entre conhecimento e atitudes, fundamentando um “já-saber”. É porque outrora a alma vislum- brou a perfeição e depois caiu, agarrando-se à matéria ou bebendo no rio do esquecimento, que a alma participa das ideias, esquecendo-as posteriormente. Cabendo ao mestre provocar no discípulo o desejo de autoconhecimento. Sócrates tomou para si uma máxima que encontramos no Oráculo de Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”. Dessa forma, é preciso pensar bem para viver bem. Outra máxima atribuída a ele: “Uma vida sem reflexão não vale a pena ser vivida”. A ética de Sócrates parte da ideia de que a ação moral está intima- mente ligada ao grau de conhecimento do bem. Conhecer o bem, de forma racional, implica agir bem. Ter conhecimento racional (epistéme) é ser virtu- oso. Esta, para ele, é uma relação direta. Assim como os sofistas, Sócrates não se preocupa com a questão cos- mológica pelo arkhé; traz a reflexão filosófica para um domínio centrado no homem e em suas questões. Questionar sobre a natureza do bom, do belo e do justo envolve o agir humano, tanto no aspecto individual (ética) como no coletivo (política). Em oposição às tradições orientais, o homem ocupa o centro do pensamento na cultura ateniense do período Clássico, eis por que podemos falar num humanismo entre os gregos. Mesmo sendo complicado estabelecer um limite, na obra platô- nica, entre o que é de Sócrates e o que é de Platão, muitos estudiosos, ao classificar as obras de Platão, denominam os Diálogos da juventude como “socráticos” ou “aporéticos”. Para esses estudiosos, os Diálogos da juventude estão mais próximos do que seria o pensamento de Sócrates; já os posteriores a esta fase começariam a apresentar ideias propriamente de Platão. Outra característica dos Diálogos da juventude de Platão é serem inconclusos, ou seja, há uma pergunta que inquieta os persona- gens, conduzidos por Sócrates. Eles procuram uma definição para deter- minado objeto de estudo, mas não a encontram, descobrindo, apenas, FED.indb 28 25/02/2016 14:39:59 – 29 – O homem e sua relação com o mundo: Filosofia e Educação que as certezas que tinham sobre o objeto são apenas opiniões parciais, que não servem para definir universalmente o objeto de estudo. A esse questionamento que fica sem resposta chamamos aporia. Eis o porquê da denominação aporético. Vamos agora ao pensamento de Platão. 1.5 Platão: uma utopia, a educação dos governantes Platão nasceu em Atenas9 por volta de 428 a.C. e morreu em cerca de 348 a.C. Assim, viveu entre o apogeu e o declínio de Atenas e foi contempo- râneo do enfraquecimento de Esparta, duas das mais importantes pólei (plural de pólis) da época e que eram inimigas. É significativo que, dez anos após a morte de Platão, Filipe da Macedônia domine a Grécia, perdendo, esta, para sempre, sua autonomia. Platão era de família influente e, por sua origem, tendia para a vida polí- tica. Entretanto, a Grécia vivia em guerra; após o domínio de Esparta sobre as cidades gregas, instaurou-se, em Atenas, um regime tirânico, denominado o Governo dos Trinta, do qual participavam parentes e amigos de Platão. Esse governo impopular foi derrubado pela democracia. Mas, ao que parece, mesmo essa democracia recuperada não tinha a pujança da democracia dos tempos de Péricles. Foi durante essa retomada da democracia que Platão pre- senciou o julgamento, a condenação e a morte de seu mestre: Sócrates. Todas essas circunstâncias levaram Platão a desacreditar da carreira política, o que deixa claro na Carta VII (325c-326b): A mim, que observava essas coisas e os homens que faziam polí- tica, quanto mais examinava as leis e os costumes e avançava em idade, tanto mais me parecia difícil ser correto o dedicar-me à política. Pois, sem amigos e companheiros fiéis, não é possível agir. – Ora, não era fácil achar quem tomasse a iniciativa, uma vez que nossa cidade não era administrada mais nos costumes e usos dos ances- trais, e não era possível conseguir com facilidade outros novos 9 Há quem diga que tenha nascido em Égina, uma pequena ilha do mar Egeu que se tornou possessão de Atenas. FED.indb 29 25/02/2016 14:39:59 Filosofia da Educação – 30 – amigos e companheiros. – A corrupção dos artigos das leis e dos costumes alastrava tão espantosamente, que eu, que de início estava pleno de ímpeto para realizar o bem comum, olhando para eles e vendo-os sendo completamente levados de qualquer modo, acabei em vertigem. Não deixei, contudo, de esperar um momento ade- quado, se, na verdade, a situação e todo o governo melhorassem, para ainda aproveitar qualquer ocasião de realizar o bem comum. Acabei por entender que todas as cidades de agora são mal gover- nadas, pois têm legislação quase incurável, e falta uma preparação extraordinária aliada à fortuna. Fui obrigado a dizer, louvando a verdadeira filosofia, que a ela cabe discernir o politicamente justo em tudo dos indivíduos, e que a espécie dos homens não renunciará aos males antes que a espécie dos que filosofam correta e verdadeira- mente chegue ao poder político, ou a espécie dos que têm soberania nas cidades, por alguma graça divina, filosofe realmente. Após a morte de Sócrates, Platão deixou Atenas, fez diversas viagens; cogita-se que tenha ido ao Egito, à Ásia Menor, a Creta, ao Sul da Itália e à Sicília. Numa dessas viagens é provável que tenha encontrado Arquitas, governador de Tarento, da escola pitagórica. Voltando a Atenas, em torno de 387 a.C., fundou a Academia – para alguns a primeira escola superior do Ocidente – com o objetivo de formar o autêntico filósofo, através dos estudos científicos. Mais ou menos nessa época teria escrito a maior parte de seu mais conhecido Diálogo A república. Fonte: SANZIO, Rafael. Escola de Atenas, pintado de 1508 a 1511. Afresco. Stanza della Segnatura, Vaticano. Em A república, Platão construiu uma cidade ideal como contraponto à cidade real, corrompida. Nessa cidade idealizada o filósofo é o governante. Mas, para que este chegue a governar, tem de passar por uma longa etapa de FED.indb 30 25/02/2016 14:40:00 – 31 – O homem e sua relação com o mundo: Filosofia e Educação educação. Educação essa que servirá para pôr os olhos na direção correta, evitando que a alma seja corrompida. Sabemos que por, ao menos três ocasiões, Platão tentou implantar tal proposta. Em todas elas se saiu malogrado. Algo que leva alguns estudiosos a compararem esta obra do período intermediário da produção platônica com outra da velhice, que, ao que parece, ficou inacabada: As leis. Vamos contextualizarum pouco a Educação da época. Esparta e Atenas eram as cidades modelares também nesse campo. Na primeira predominava uma rígida educação militar: aos sete anos os jovens eram tirados de suas famílias, entregues ao Estado; havia treinamento atlético militar rigoroso, com a finalidade de modelar os espíritos à coragem; os educandos viviam em comunidade e passavam por diversas provas, semelhantes, ou piores, às militares de hoje. A segunda seguia um modelo mais privado, onde a edução ficava sobre a responsabilidade da família; além de aspectos tradicionais da paideia aristocrática – ginástica e música –, devido à ascensão de outras classes sociais, Retórica e Oratória se tornaram partes do “currículo escolar”. Para saber um pouco mais sobre a educação ateniense, tomemos uma passagem do livro História da Educação, de Maria Lúcia de Arruda Aranha: Vimos que, passado o período heróico, a educação ainda é aristo- crática e uma incumbência da família. No final do século VI a.C., já terminando o período arcaico, aparecem formas simples de escolas. Embora o Estado demonstre al gum interesse, o ensino não se torna nem obriga tório nem gratuito e continua predominantemente sob a iniciativa particular. A educação se inicia aos sete anos. Se a crian ça é do sexo feminino, permanece no gineceu, parte da casa onde as mulheres se dedicam aos afazeres domésticos, pouco importantes em um mundo essen- cialmente masculino. Se é menino, desliga-se da autoridade materna e inicia a alfabetização e a educação física e musical. Acompanhado por um escravo, o pedagogo, o menino dirige-se à palestra [lugar para exercícios de luta], onde pratica exercícios físicos. Sob a orientação do pedó triba (instrutor físico), é iniciado em corrida, salto, lançamento de disco, de dardo e em luta, as cinco modalidades do pentatlo, competição famosa de jogos. Aprende assim a fortalecer o corpo e a exercer domínio sobre si próprio, já que a educação física nunca se reduz à mera destreza corporal, mas vem acompanhada pela orientação moral e estética. FED.indb 31 25/02/2016 14:40:00 Filosofia da Educação – 32 – Além do preparo físico, a educação musical é extremamente valo- rizada, e por isso o pedagogo também leva a criança ao citarista, ou professor de cítara. Os gregos eram amantes da música (a arte das musas), de significado muito amplo, abrangendo a educação artística em ge ral. Assim, qualquer jovem bem-educado aprende a tocar lira ou outros instrumentos, como cítara e flauta. É cultivado o canto, sobre tudo coral, bem como a declamação de poesias, geral- mente acompanhada por instrumento mu sical. A dança é expressão abrangente que in clui o exercício físico e a música. [...] O ensino elementar de leitura e escrita, durante muito tempo, merece menor atenção e cuidado do que as práticas esportivas e musicais já referi das. O mestre é geralmente uma pessoa humilde, mal paga e sem o prestígio do instrutor físico. Com o tempo, à medida que aumenta a exigência de melhor formação intelectual, delineiam-se três níveis de educação: elementar, secundária e superior. O gramático (grammata, literalmente “le tra”), também chamado didáscalo (didasko, “eu ensino”), costuma reunir, em qualquer canto – sala, tenda, esquina ou praça pública – um grupo de alunos para ensinar-lhes leitura e escrita. Usa métodos que dificultam a apren- dizagem, em que é acentuado o recurso da silabação, repetição, memo rização e declamação. Geralmente as crianças apren dem de cor os poe mas de Homero, de Hesíodo, as fá bulas de Esopo e de outros autores. Escrevem em tabuinhas enceradas e fazem os cálculos com o auxílio dos dedos e do ábaco, instrumento de contar constituído de pequenas bolas. A educação elementar completa-se por volta dos 13 anos. As crianças mais pobres saem então em busca de um ofício, enquanto as de famí- lia rica continuam os estudos, sendo encaminhadas ao ginásio, pala- vra com diversos sentidos. Inicialmente designa o local para a cultura física onde, com freqüência, os gregos se apresentam despidos (daí sua origem etimológica: gimno. “nu”). Com o tempo, as atividades musicais as direcionam para discussões literárias, abrindo espaço para o estudo de assuntos gerais com matemática, geometria e astronomia, sobretudo sob a influência dos filósofos. Com a criação de bibliotecas e salas de estudo, o ginásio adquire feição mais próxima do conceito de local de educação secundária. Dos 16 aos 18 anos, a educação adquire uma dimensão cívica de pre- paração militar, instituição que se desenvolve por volta do século IV a.C. e é conhecida como efebia (efebo significa jo vem). Após a aboli- ção do serviço militar em Atenas, a efebia passa a constituir a escola em que se ensina filosofia e literatura. FED.indb 32 25/02/2016 14:40:00 – 33 – O homem e sua relação com o mundo: Filosofia e Educação Apenas com os sofistas se inicia uma espécie de educação superior. Eles também se dedicam à profissionalização dos mestres e à didática, cuidando inclusive da ampliação das disciplinas de estudo. [...] Como se vê por este relato, a educação for mal atende aos filhos da elite, excluindo os demais. Segundo o legislador Sólon, “as crianças devem, antes de tudo, aprender a nadar e a ler; em seguida, os pobres devem exercitar-se na agricultura ou em uma indústria qualquer, ao passo que os ricos devem se preocupar com a música e a equitação, e entregar-se à filosofia, à caça e à freqüência aos ginásios”. Isso significa também que não há preocupação com o ensino profis- sional, pois os ofícios são aprendidos no próprio mundo do trabalho. Uma exceção é a medicina, profissão al tamente considerada entre os gregos. Os ensinamentos de Hipócrates (460-377 a.C.) são acrescidos de inúmeras observações, que tor nam a medicina parte integrante da cultura geral grega, ao lado de considerações éticas e regras de conduta. Segundo o helenista Werner Jaeger, esta posição de prestígio decorre da sua relação com a paidéia, ou seja, o médico é co locado ao lado do pedótriba (professor de ginástica), do músico e do poeta. Se o homem sadio é um ideal grego, é preciso entender que ginastas e médicos con- cebem a cultura física na sua dimensão espiritual. (1996, p. 52-53). Com elementos da paideia espartana e da padeia ateniense, Platão com- pôs sua paideia, que transparece, principalmente, no Diálogo A república. Vemos, nesta obra platônica, elementos da velha paideia, como a ginástica e a música. Entretanto, Platão expulsa de sua cidade ideal algumas artes como certos tipos de pintura e de poesia. Há vasta literatura sobre a censura a essas artes imitativas. Partamos da fala do próprio texto platônico: Logo, devemos começar por vigiar os autores de fábulas, e selecio- nar as que forem boas, e proscrever as más. As que forem escolhidas, persuadiremos as amas e as mães a contá-las às crianças, e a moldar as suas almas por meio das fábulas, com muito mais cuidado do que os corpos com as mãos. Das que agora se contam, a maioria deve rejeitar-se. (PLATÃO, A república, II, 377c). O que está por trás disso? Tentando responder ao dilema entre o mobilismo – o ser é constante trans- formação – e o monismo – o ser é uno e sempre o mesmo – que vem da tradição pré-socrática, do debate entre a Escola de Eléia e Heráclito de Éfeso, Platão estabe- lece a separação entre dois mundos: o dos sentidos, mobista; e o das Ideias, imutá- FED.indb 33 25/02/2016 14:40:00 Filosofia da Educação – 34 – vel. Partindo dessa perspectiva, formula, também uma teoria do conhecimento10, que trata as coisas do mundo sensorial como imitações das ideias. E, dessa forma, considera o “conhecimento” gerado pelos sentidos como ilusórios, frutos da dóxa (opinião). Tal concepção é sintetizada na chamada Alegoria da Caverna, à qual votaremos mais à frente. As artes imitativas – particularmente a poesia homérica, as tragédias e a pintura – são, então, para Platão, imitações de imitações. Dessa forma, estão muitodistantes dos modelos dados pelas Ideias. E são tais modelos – essências – que devem ser buscados, no processo de conhecimento. Além disso, Platão pretendia uma reforma nas bases morais e tendia a defender uma concepção religiosa monoteísta, aspectos que se chocam com as características da tradição homérica e das representações dela derivadas na tragédia e na pintura. Muitos estudiosos de Platão defendem que, no fundo, sua crítica à paideia homérica é mais ética do que epistêmica, ou seja, refere-se mais aos aspectos éticos e de conhecimento. Assim, deuses, como os descritos pela tradição homérica, que mudam de forma, são vingativos, têm raiva e outras paixões humanas, não servem como modelo ético para o agir humano. Platão, assim como Sócrates, não tinha grande apreço pela escrita, pois esta era imitação da linguagem oral. No entanto, Platão, diferentemente de Sócra- tes, deixou-nos obras escritas. Mas optou por um estilo literário que se mostra o mais próximo possível às conversas que tinha na Academia; por isso, escreveu em forma de diálogo. Eis um claro exemplo de pensador que reflete, na sua própria forma de escrever, princípios de seu método, do qual falaremos à frente. 1.6 A dialética: muito mais que um método O método platônico toma por base as etapas do método socrático, já apresentado. O procedimento dialógico adotado por Sócrates serve para fazer com que os interlocutores descubram a debilidade de suas opiniões (argu- mentos). No entanto, Platão – e o Diálogo A república é um bom exemplo 10 Na realidade, esta é uma terminologia mais adequada para a Modernidade. Em vista disso, para alguns estudiosos, não haveria, propriamente, entre os filósofos gregos, uma preocupação sobre se podemos ou não conhecer e como conhecemos o objeto, mas partiria de um pressu- posto de que esse objeto já é um dado. Logo, não podemos duvidar da possibilidade do conhe- cimento. Tal abordagem é controversa. Mesmo assim, em Platão, seria mais adequado dizer uma Teorias das Ideias que tem reverberações na questão sobre o conhecimento. FED.indb 34 25/02/2016 14:40:00 – 35 – O homem e sua relação com o mundo: Filosofia e Educação disso – não mantém essa característica na totalidade em seu método, indo além no processo de definição conceitual. Assim o processo proposto por Pla- tão vai das opiniões (dóxa – escuridão) às essências (luzes, ideias – epistéme). Este caminhar prático/teórico é a dialética; para Platão, a única forma em que podemos filosofar. O método da dialéctica é o único que procede, por meio da destrui- ção das hipóteses, a caminho do autêntico princípio, a fim de tornar seguros os seus resultados, e que realmente arrasta aos poucos os olhos da alma da espécie do lodo bárbaro em que está atolada e eleva-os às alturas […]. (Platão, A república, VII, 533c-d). O falar está muito ligado ao raciocínio, à construção dos conceitos, ao ser como essência. O homem é o único animal que fala, tem uma linguagem, produz conceitos, juízos. Assim, Platão aposta que o homem consegue se aproximar das coisas em si, ir além das opiniões. Também crê na possibilidade humana de se chegar – ou ao menos se aproximar – a algo irrecusável e seguro para todos enquanto todos são racionais. E, se há essa possibilidade, também é possível, pensa Platão, alcançar o Bem, o Justo e o Belo. Uma etapa para esse processo é o procedimento dialogal, o cuidado com as definições conceituais no debate. Entretanto, o cuidado com a linguagem, a tentativa de não se colocar em contradição e o polimento na definição conceitual ainda não são suficientes, pois estão no âmbito da linguagem. E Platão não discorda dos sofistas quanto a ver na linguagem um dizer algo que esta não é. Eis porque os procedimentos dialogais apenas prenunciam uma intuição de conhecimento. E, no fundo, para Platão é essa intuição intelectual que leva o ser humano ao reconheci- mento das essências (Ideias). [...] a dialética é o instrumento próprio para chegar ao conhecimento dos objetos do pensamento – as Idéias puras – e, finalmente, ao seu objeto último, a Idéia do Bem. Podemos chamar a dialética de lógica e metafísica, ou simplesmente de filosofia; mas, qualquer que seja denominação, ela é não apenas o estudo de objetos percebidos pela mente (mathémata); mas o exame dos primeiros princípios do ser, e sobretudo daquele que é o primeiro e o último, a Idéia do Bem, causa do ser e objeto final do conhecimento. (BARKER, 1978, p. 194). A dialética é o estágio mais elevado da caminhada que vai da dóxa à epis- téme, ocupando, na “grade curricular” estabelecida em A república, o último FED.indb 35 25/02/2016 14:40:00 Filosofia da Educação – 36 – nível, a educação superior. Depois da música, artes e ginástica, matemática e ciências afins, vem a dialética. Esta dará ao guardião a condição de ver além, de conseguir ver a Justiça, o Bem, as Ideias e tornar-se o verdadeiro Filósofo. Sir Ernest Baker (1978, p. 13-184) atualiza este procedimento, explicando-o: [...] o professor “extrai” do aluno o que ele tem de melhor; na verdade, seria mais próprio dizer que este “melhor” aparece por si, reagindo à presença de certos fatores externos, e que a arte do professor consiste justamente em expor tais fatos diante do aluno. No próprio caminhar de A república vemos isso: o “professor”, aqui, Sócrates, faz seus alunos descobrirem, ou reconhecerem, o que seja a Justiça em sua essência. Dando estímulos que os desvelarão ao que está escondido no seu “interior”. E aí conhecer-se a si mesmo equivale a conhecer o mundo, as ideias. Em complemento a uma estratégia mais racional e de uso do raciocínio lógico, o texto platônico recorre a vários Mitos, ou melhor, Alegorias. Mas por que isso? Segundo Platão, há certas coisas muito difíceis de explicar. E mais, há pessoas que não acompanham muito bem uma linguagem lógico-argumentativa. Assim, o recurso aos Mitos ou Alegorias facilitam a compreensão, pois têm uma linguagem poética, sem distorções como as de Homero e outros poetas, e que anima o espírito, provocando a imaginação. Dessa forma o mito completa o diálogo, como nos esclarece François Châtelet no volume 1. A filosofia pagã, de História da filosofia: ideias e doutrinas: O método platônico é demonstrativo e seu instrumento é a “arte” dialética. Entretanto, freqüentemente, o discurso lógico busca apoio em imagens ou alegorias, freqüentemente também desemboca em narrações míticas. Às técnicas indutiva e dedutiva ajuntam-se, pois, procedimentos que repousam sobre o valor expressivo da analogia ou da metáfora. […] Nos dois casos, a linguagem do saber é, ela também, parcialmente inapta para dizer o que é. Duplamente inapta: demasiado envolvida no sensível, ela não consegue dizer completamente a mais alta realidade; demasiado desligada dela, tem dificuldade em fazer entender o que, “lá em cima”, aprendeu. A imagem, o mito compensam essa insuficiência; compensam-na mas num sentido positivo, se se pode dizer: a narração lendária enriquece a dialética, aumenta seu FED.indb 36 25/02/2016 14:40:00 – 37 – O homem e sua relação com o mundo: Filosofia e Educação vigor, acrescenta uma lógica metafórica à lógica da demonstração. (1981, p. 113). Ao aliar várias estratégias em seus escritos, Platão pretende não só fis- gar um leitor ou, para sua época, também, um ouvinte especializado, mas qualquer um que se dispusesse a trilhar a via para fora da caverna. Na Alegoria da caverna, o personagem Sócrates solicita a seus interlocutores que imaginem uma série de seres humanos acorrentados no fundo de uma caverna. Esses seres humanos só podem olhar para o fundo da caverna. Entre eles e uma fogueira, há uma mureta, por trás da qual passam vários viajantes, muitos deles carregando objetos na cabeça. O reflexo desses objetos projeta, no fundo da caverna, sombras, que os prisioneiros acreditam ser a realidade. Alguns até identificam certa regularidade nas sombras e advinham o que virá. Mas eisque um desses prisioneiros é arrastado do fundo da caverna para o lado de fora. Sócrates continua conjecturando que provavelmente tal prisioneiro resistirá e terá dificuldades, no lado de fora da caverna, de olhar para a luz durante o dia, ficando mais à vontade, inicialmente, durante a noite. Mas aos poucos seus olhos se acostumarão à luz e ele poderá, por fim, olhar brevemente para o sol. Esse prisioneiro, ao voltar à caverna para contar a seus colegas o que realmente é a verdade, será visto como um louco. E, em razão de sua insistência em mostrar a verdade, poderá ser morto por seus antigos colegas. Eis um resumo da Alegoria da caverna que você encontra nas primeiras páginas do Livro VII, do Diálogo A república de Platão. Certamente, uma das interpretações possíveis dessa alegoria nos remete ao processo educacional e à função daqueles que buscam tirar outros de sua ignorância. Algo que, não raramente, pode incomodar aqueles que desejam manter o status quo, gerando a morte dos Sócrates que encontramos na vida. Há aí também um caráter soteriológico em relação ao educador, ou seja, uma visão deste como aquele que tem a missão de salvador. No fundo, aquele a quem Platão aponta como o salvador (soter) é o verdadeiro Filósofo, que, apesar de tudo, se dispõe à difícil tarefa de administrar uma cidade. Mas, para Platão, apenas a este cabe o papel de administrador ou de conselheiro do administrado por ser ele o que tem uma alma que mais se recorda da ideias, das essências e modelos do mundo. Fica claro, então, o teor essencialista ou metafísico da proposta platônica. FED.indb 37 25/02/2016 14:40:00 Filosofia da Educação – 38 – Na linha das diferenciações entre Sócrates e Platão – aceitando a possibilidade de estabelecer um limite entre um e outro – é bom lembra- mos, antes de passarmos para o pensamento de Aristóteles, que, enquanto Sócrates se dedica apenas a questões antropológicas – afastando-se do foco naturalista e cosmológico dos pensadores originários –, Platão alarga seus estudos, estabelecendo relações entre cosmologia e antropologia. Dessa forma, ele também retoma temáticas típicas dos pré-socráticos. A ordem cósmica11 é tomada como modelo para a ordem política, que deve ser modelo para a autorregulação do indivíduo. Aliam-se, então, teologia, cosmologia, ética e política. Essa retomada também fará parte do pensamento de Aristóteles. Vamos a ele? 1.7 Do realismo aristotélico à mentalidade medieval Aristóteles nasceu em Estagira12 em 384 a.C. Seu pai, Nicômaco, que morreu quando Aristóteles tinha uns sete anos, foi médico do rei macedônio Amintos, como apuramos em Chaui (2002, p. 334). Mesmo que educado por seu tio, Aristóteles se manteve no ambiente da formação médica. Eis algo que, para muitos comentadores, influenciou sua tendência, mais tarde, aos estudos da natureza e da biologia. Aos dezoito anos Aristóteles vai para Atenas e ingressa na Academia de Platão. É interessante notar que, na faixada de entrada da Academia, estava escrito: “Aqui só entra matemático”. Mas Aristóteles estava mais ligado à biologia. Talvez em razão disso corre uma anedota de que o estagirita tenha entrado pela janela da Academia. Jocosidades à parte, a situação reflete a oposição entre a mentalidade platônica e a aristotélica. Isso, entretanto, não indica que o estagirita foi desafeto de Platão. Muito pelo contrário, ambos tecem elogios entre si. 11 Que, se pensarmos etimologicamente, é um pleonasmo, pois kósmos, em grego, significa: ordenado; ornado. 12 Cidade fundada por gregos, onde se falava grego, mas nos domínios dos macedônios. Algo que fazia com que alguns gregos não vissem os estagiritas como gregos. FED.indb 38 25/02/2016 14:40:00 – 39 – O homem e sua relação com o mundo: Filosofia e Educação Depois de um tempo na Academia, Aristóteles funda, em 335 a.C., o Liceu. Este ficava num bosque dedicado às Musas e a Apolo Lício. Com- punham o Liceu: uma edificação, na qual encontramos a primeira biblio- teca e um museu ligados diretamente ao ensino; um jardim; e uma área de passeio. O termo grego para passeio é perípatos; a ação de passear, peripatéô. Termos formados por um prefixo perí-, que indica: a volta de, em torno, sobre ou em vista de; e patéô, que significa: pisar, marchar, caminhar, percorrer; conforme apu- ramos em Chaui (2002, p. 508). Sabemos que no Liceu as lições, por vezes, eram dadas em caminhadas. Dessa forma, Aristóteles e os estudantes, transitando pelo passeio do jar- dim liceísta, debatiam animadamente filosofia. Eis o porquê da denominação peripatéticos para os membros da escola aristotélica. A dar conta de alguns relatos, o Liceu alcançou prestígio grandioso, reunindo cerca de dois mil alunos. Diversas fontes atestam que, a partir dos quatorze anos, Alexandre, o Grande, teve como seu preceptor – um tipo de professor particular – Aris- tóteles. Os registros de que o estagirita teria ensinado ao futuro imperador são escassos. Entretanto, como aponta Chaui (2002, p. 335-336): Pelos escritos políticos aristotélicos, porém, podemos inferir que, pelo menos, duas ideias foram transmitidas a Alexandre: a de que a Grécia não sobreviveria dividida em cidades rivais, mas precisava ser pacificada sem recorrer a um governo central; e a de que a Macedô- nia era mais grega do que oriental, que havia diferenças profundas entre os gregos e os “bárbaros” e que não era possível unificá-los, pois os primeiros estavam, por natureza e por costume, habituados à liberdade enquanto os segundos eram, por natureza e por costume, afeitos ao despotismo. Pelo que sabemos da história, Alexandre não levou em consideração nenhum desses ensinamentos. FED.indb 39 25/02/2016 14:40:00 Filosofia da Educação – 40 – Dica de filme Para ter em mente um pouco das atitudes de Alexandre em relação a suas conquistas, recomendamos assistir ao filme Alexandre, o Grande (2004). Nesse mesmo filme, encontramos uma sequên- cia onde aparece Aristóteles dando aulas ao jovem Alexandre. Alguns atenienses começaram a ver Aristóteles com desconfiança por diversos fatores: ele ser de Estagira; ter sido preceptor de Alexandre – muitos gregos não gostaram das investidas, por vezes, violentas do imperador macedô- nio na Grécia –; ter divergências com outros membros da Academia, principal- mente quanto ao papel central da matemática na paideia da Academia. Com a morte de Alexandre, eclodiram, em Atenas, posições antimacedônicas mais radicais. Eis os motivos que levaram Aristóteles a se retirar de Atenas e, ainda conforme apuramos em Chaui (2002, p. 337), estabelecer-se em Cálcis, na Eubeia, onde não tardou a falecer, em 321 ou 322 a.C., aos sessenta e três anos. Quanto à sua obra, o que sobrou para a posteridade foram, no geral, escritos para o público interno do Liceu. Escritos esses derivados, na maio- ria, dos apontamentos que Teofrastos e Eudemo – auxiliares do estagirita no Liceu – fizeram. Esse aspecto diferencia os registros que temos do estagirita daqueles que temos de seu mestre: os de Platão são escritos para os de fora da Academia; os de Aristóteles, para os peripatéticos. Além disso, boa parte do que temos hoje desses escritos se perderam no Ocidente, já no final da Antiguidade. Houve, também, transferências para o mundo Oriental, e, mais tarde, esses escritos foram absorvidos pela cultura islâmica. Com a expansão do Islã, durante o século VI d.C., chegando à Europa Ocidental a partir do século seguinte, na Península Ibérica, os textos do estagirita voltaram à Europa Ocidental. Uma das principais divergências de Aristóteles com o seu mestre é quanto à Teoria das Ideias. Para esta as essências (ou Ideias) estão no mundo suprassensível (Mundo Inteligível ou das Ideias), caracterizando uma con- cepção idealista; já aquilo que tomamos por realidade, o Mundo Sensível, é mera cópia ou reflexo do Mundo das Ideias. Mas o estagirita não vê as coisas assim. Defendendo que as essências estão nas próprias coisas,sua Metafísica FED.indb 40 25/02/2016 14:40:00 – 41 – O homem e sua relação com o mundo: Filosofia e Educação ou Filosofia Primeira13 considera a substância ou essência (ousía) um com- posto de matéria (idéa) e forma (hýle). A essa perspectiva, muitos dão o nome de realista14. Mesmo que trilhando caminhos diferentes, o idealismo platônico e o realismo aristotélico são perspectivas essencialistas ou metafísicas, pois ambas procuram determinar a essência de cada coisa, aquilo que define a natureza própria de cada coisa, a despeito de suas características acidentais. Explicitando melhor. Para Aristóteles, há dois tipos de catego- rias – predicações, atribuições – para as coisas: substância e acidentes. A substância é aquilo que faz de um objeto o que este é; os acidentes ou atributos são características mutáveis dos objetos, ou seja, com ou sem esses, o objeto continua a ser o que é. Exemplificando: o enunciado “Sócrates é homem” indica uma predicação substancial ou essencial de Sócrates. Já “Sócrates é careca” enuncia um acidente, pois Sócrates outrora ostentava vasta cabeleira Ao usar esses pares de opostos – substâncias e acidentes –, Aristóteles tentou, assim como seu mestre, responder ao dilema entre monismo e mobi- lismo, deixados pela tradição pré-socrática. É o que Danilo Marcondes, em Iniciação à história da filosofia, explicita: Contra o monismo de Parmênides, Aristóteles defende a concepção de uma natureza plural, na medida em que composta de indivíduos; porém, isso não deve ser visto como problemático, desde que algu- 13 O termo Metafísica não é empregado por Aristóteles, mas deriva da catalogação das obras de Aristóteles feita por Adrônico de Rodes, no século I d.C., consolidando o que chamamos Corpus aristotelicus. Depois de catalogar as obras que tratavam da natureza, phýsis, sobraram alguns escritos cujos temas não se encaixavam em nenhuma das classificações anteriores. A estes Andrônico deu o nome de Metà tà phýsiká, ou seja, As coisas depois da física: Metafísica. Aristóteles denominava os estudos sobre Ser enquanto Ser, com Próte Philosophía, ou seja, Filosofia Primeira, conforme apuramos em Chaui (2002, p. 505). 14 É uma estratégia didática opor realismo a idealismo. Entretanto, no fundo, Platão também é realista, só que, para ele, a realidade são as Ideias, e não o mundo concreto. FED.indb 41 25/02/2016 14:40:00 Filosofia da Educação – 42 – mas distinções básicas sejam feitas acerca da noção de ser. Há, na verdade, segundo Aristóteles, uma confusão em torno dos vários sentidos e usos do verbo “ser” em grego (einai). As coisas existem de diferentes maneiras, ou seja, o modo de existência da substância individual é diferente do das qualidades, quantidades, e relações, já que estas dependem das substâncias. [...] A mudança só é conside- rada contraditória pelos monistas porque ela envolve o problema da identidade, é interpretada como equivalendo a dizer que o ser é e não é. Contudo, o verbo “ser” nem sempre expressa identidade, podendo ter um uso atributivo ou predicativo, designando uma característica do objeto. (1998, p. 72-73). Assim, entende o estagirita, o movimento é a passagem da potência ao ato. Explicando melhor: uma semente tem em si uma potência de se trans- formar em uma planta. Essa passagem do estado de semente para o de planta não é por acaso. Eis aí outro aspecto importante na perspectiva aristotélica. Para o estagirita, o ser se diz (ou se conhece) pelas causas, que são quatro: 2 Causa formal: forma ou modelo, aquilo que faz a coisa ser o que é. 2 Causa material: aquilo de que algo é feito. 2 Causa eficiente: aquilo que produz mudança em algo. 2 Causa final: o propósito ou a finalidade de algo. Tomemos um exemplo para melhor explicitar isso. Para darmos conta do que é um copo, Aristóteles diria que temos de fazer as seguintes perguntas: 2 Qual a sua forma? Resposta: cilíndrica (causa formal). 2 De que é feito? Resposta: ou plástico, ou vidro, ou argila (causa material). 2 Como foi feito ou por quem foi feito? Resposta: por um processo industrial; ou por um ceramista (causa eficiente). 2 Para que foi feito? Resposta: para conter algo, por exemplo, a água que bebemos (causa final). Ainda explicando o movimento, Aristóteles dirá que tudo tende para a perfeição. Dessa forma, o movimento é derivado da necessidade de suprir alguma carência. Se buscamos conhecimento é porque não o temos e tê-lo é FED.indb 42 25/02/2016 14:40:00 – 43 – O homem e sua relação com o mundo: Filosofia e Educação um estado de perfeição. Assim, discorda o estagirita de seu mestre quanto já possuímos as Ideias ou conceitos universais. Para Aristóteles chegamos aos universais a partir da experiência, ou seja, de um conjunto de impressões particulares que, de alguma forma, fazem com que venhamos a construir um modelo e, de um dado momento em diante, passemos a identificar outros objetos semelhantes a um dado con- ceito. Tomemos outra exemplificação para entendermos melhor a diferencia- ção entre Platão e Aristóteles nesse aspecto. Para Platão a noção de Beleza é inata, ou seja, nossa alma já a carrega, por ter, outrora, participado da perfei- ção, do Mundo das Ideias. Ao olharmos para algo belo, temos a lembrança da Beleza. Aristóteles diria que experimentamos uma série de coisas que tomamos por belas, seja por aspectos formais ou sensoriais (que agradam); é desse conjunto de experiências que, a partir de certo momento, formula- mos o conceito de Beleza. Ou seja, o conceito de Beleza, para o estagirita, não é algo inato. Entretanto, ainda podemos ver em Aristóteles um inatismo quando indica que nenhum ser adquire aquilo que não está apto a adquirir. Exemplo, não será impossível a um cego saber o que é verde, pois lhe falta a faculdade da visão. O exposto anteriormente releva a diferenciação entre Platão e Aristó- teles quanto ao papel dos sentidos na Teoria do conhecimento. O primeiro afirma serem os sentidos fonte de ilusões e, em razão disso, não conduzirem ao conhecimento. Aristóteles, embora ainda privilegie o conhecimento inte- lectual, dá ao conhecimento sensório um lugar no processo cognitivo. Isso o faz, também, ter outra posição sobre o papel da imitação (mímesis) e, con- sequentemente, das artes imitativas na paideia. Logo no início de sua obra Metafísica, parece apontar para isso: Todos os homens, por natureza, tendem ao saber. Sinal disso é o amor pelas sensações. [...] e amam, acima de todas, a sensação da visão. [...] E o motivo está no fato de que a visão nos proporciona mais conhecimentos do que todas as outras sensações e nos torna manifes- tas numerosas diferenças entre as coisas. Os animais são naturalmente dotados de sensação; mas em alguns da sensação não nasce a memória, ao passo que em outros nasce. Por isso estes últimos são mais inteligentes e mais aptos a apren- der do que os que não têm capacidade de recordar. São inteligen- tes, mas incapazes de aprender, todos os animais incapacitados de FED.indb 43 25/02/2016 14:40:00 Filosofia da Educação – 44 – ouvir os sons [...]; ao contrário, aprendem todos os que, além da memória, possuem também o sentido da audição. [...] Nos homens, a experiência deriva da memória. De fato, muitas recordações do mesmo objeto chegam a constituir uma experiência única. A experiência parece um pouco semelhante à ciência e à arte. Com efeito, os homens adquirem ciência e arte por meio da experi- ência. A experiência, como diz Polo, produz a arte, enquanto a inex- periência produz o puro acaso. A arte se produz quando, de muitas observações da experiência, forma-se um juízo geral e único passível de ser referido a todos os casos semelhantes. [...] Ora, em vista da atividade prática, a experiência em nada parece dife- rir da arte; antes, os empíricos têm mais sucesso do que os que pos- suem a teoria sem a prática. E a razão disso é a seguinte: a experiência é conhecimento dos particulares, enquanto aarte é conhecimento dos universais; ora, todas as ações e as produções referem-se ao particular. [...] Portanto, se alguém possui a teoria sem a experiência e conhece o universal mas não conhece o particular que nele está contido, muitas vezes errará o tratamento, porque o tratamento se dirige, justamente, ao indivíduo particular. Todavia, consideramos que o saber e o entender sejam mais próprios da arte do que da experiência, e julgamos os que possuem a arte mais sábios do que os que só possuem a experiência, na medida em que estamos convencidos de que a sapiência, em cada um dos homens, corresponda à sua capacidade de conhecer. E isso porque os primeiros conhecem a causa, enquanto os outros não a conhecem. Os empíricos conhecem o puro dado de fato, mas não seu porquê; ao contrário, os outros conhecem o porquê e a causa. (A, 988a-981b). Além de apontar para o papel dos sentidos, a passagem supracitada tam- bém revela uma hierarquia do conhecimento: passando da sensação (aisthesis) para a memória (mnemósine); desta para a experiência (empeiria); que resulta na arte ou técnica (tékhne); e, finalmente, na teoria ou ciência (epistema). Dessa hierarquização dos estágios do conhecimento, temos também, em Aristóteles, a divisão do conhecimento em três tipos: 2 Prático (praxis): são os conhecimentos ligados à ética e à política, que não dependem propriamente da verdade, mas dos resultados, pois as ações éticas e políticas afetam a vida de cada um, produ- zindo felicidade ou infelicidade. FED.indb 44 25/02/2016 14:40:00 – 45 – O homem e sua relação com o mundo: Filosofia e Educação 2 Produtivo ou poético (poiesis): são os saberes que envolvem a capacidade de produzir algo, que podem ser tanto objetos reais como artísticos. 2 Teórico: são os conhecimentos que se referem à realidade – no sentido de ser das coisas, essência ou substância –, dividindo-se em: físicos (que tratam do mundo natural); matemáticos (que tratam das quantidades e dos números); e, no nível mais elevado, a filosofia primeira e a teologia. Vejamos, agora, um pouco da psicologia – entendida, aqui, como tra- tado sobre a alma (psýkhé) – de Aristóteles. O estagirita fala de faculdades ou funções ou partes da alma. Mais uma vez trazemos o texto de Chaui (2002, p. 419-420) para ilustrar melhor. Assim, as almas ou funções são: • alma ou função nutritiva e reprodutiva, existente em todos os seres vivos ou animados; opera para conservar e reproduzir a vida; [...] não há nenhum exercício de conhecimento; • alma ou função sensitiva, existente somente nos animais e surgindo com diferentes capacidades à medida que se sobe na escala dos seres vivos. [Nessa ordem]: tato, paladar, olfato, audição e visão. Essa alma ou função dá início ao conhecimento: a sensação (aísthesis). [...] a alma sensitiva possui mais duas funções: a de sentir prazer e dor, e no homem, [também], tem a função de imaginar e lembrar; • alma ou função locomotora-apetitiva, existente nos animais dota- dos de sensação e memória: é o que faz buscar os objetos de prazer e fugir dos que causam dor, ou seja, realiza o movimento do apetite ou desejo; no homem, o apetite ou desejo refere-se não só à sensação, mas também à imaginação. [...] [É] considerada locomotora porque incita à mudança de lugar [...]; • alma ou função intelectual ou intelectiva, exclusiva do homem, responsável pelo conhecimento intelectual. Essa função subdivide- -se em duas: intelecto passivo, quando o conhecimento depende dos objetos oferecidos pela sensação, pela memória, pela ima- ginação e pelo apetite; intelecto ativo, quando o conhecimento depende exclusivamente da atividade do próprio pensamento. Aristóteles é o pai da Lógica. Mas o que é a Lógica e qual seu papel? Resumidamente, a Lógica, para o estagirita, é um instrumento (órganon) que tem por função assegurar a possibilidade de um conhecimento objetivo, FED.indb 45 25/02/2016 14:40:01 Filosofia da Educação – 46 – ou seja, universal e necessário. Não entraremos, aqui, em detalhes sobre o funcionamento da Lógica aristotélica, mas cabe indicar que Aristóteles, assim como muitos outros pensadores de sua época, identificou que a linguagem comum apresenta ambiguidades e tais ambiguidades resultam em problemas de comunicação. Ora, se é por meio da linguagem que os seres humanos trocam experiências (conhecimentos), para ter conhecimentos seguros temos que estabelecer regras de raciocínio. Ao tratar das regras de raciocínio, Aristóteles estabelece princípios e classi- ficações de proposições. Combinando regra, princípios e classificações, Aristó- teles contribuiu para diminuir os problemas da linguagem comum, facilitando o encadeamento de juízos adequados à formulação do conhecimentos objetivos. Saiba mais Para entender melhor a Lógica de Aristóteles, consulte algum manual de História da Filosofia. Recomendamos o de Marilena Chaui, Introdução à história da filosofia, volume 1, Dos pré-socráticos a Aristóteles, e o de Giovanni Reale e Dario Antiseri, História da filosofia, volume 1, Filosofia pagã. Apontamos anteriormente para a questão do papel das artes imitativas em Aristóteles. Cabe retomarmos rapidamente esse aspecto, pois tem implicações pedagógicas. Há na Poética de Aristóteles uma passagem muito comentada, que transcrevemos: É pois a Tragédia imitação de uma ação de caráter elevado, completa e de certa extensão, em linguagem ornamentada e com as várias espécies de ornamentos distribuídas pelas diversas partes [do drama], [imitação que se efetua não por narrativa, mas mediante atores, e que, suscitando o “terror e a piedade, tem por efeito a purificação dessas emoções”. (1449b-24-30). O que Aristóteles parece apontar é que as artes – a tragédia em particular – têm um papel de fazer com que possamos reavaliar nossas próprias atitudes, melhorando nosso caráter. Logo, essa função catártica – de purgação ou purificação – é didática quanto ao aspecto ético. E mais, para o estagirita FED.indb 46 25/02/2016 14:40:01 – 47 – O homem e sua relação com o mundo: Filosofia e Educação boa parte do que aprendemos é por imitação, principalmente no campo dos conhecimentos práticos e poéticos. Para Aristóteles, as virtudes éticas e políticas podem ser ensinadas. Algo bem diferente do que Sócrates – personagem de Platão – defende no Diálogo Mênon, por exemplo. Enquanto Platão pensa num governo de aristocratas – poucos e sábios –, Aristóteles pensa numa República governada por alguém que não seja nem pobre nem rico, um homem de classe média. Aliás, a areté – excelência moral, virtude –, para o estagirita, é resultante de um meio-termo (meso metron) entre uma carência e um excesso, é uma disposição de caráter para o bem agir. Entretanto, concorda com seu mestre que o governante e as leis devem levar os cidadãos à vida harmoniosa. Ética e política têm, em Aristóteles, a finalidade de propiciar a felicidade ou bem-estar (eudaimonia) para o ser humano. Ser este que o estagirita definiu como animal político e racional, mais precisamente que usa o lógos, ou seja, que fala. Logo, a realização humana, para o estagirita, consiste em desenvolver aquilo que é mais próprio do ser humano: sua racionalidade, orientada pela virtude da mediania, para atingir a felicidade, finalidade da vida humana. Aqui, educar busca conduzir e preparar o ser humano para as boas escolhas, vislumbrando a virtude e a felicidade. 1.8 Passando pelo período Helenístico Antes de avançarmos à mentalidade medieval, é bom lembrarmos que as contribuições deixadas pela mentalidade grega não terminaram como o fim do período Clássico. Ainda sobre o domínio dos macedônios e dos romanos, essa mentalidade deixou um grande legado para o Ocidente. O período Helenístico, por exemplo, legou-nos a formulação dos manuais de gramática, que ainda hoje servem de base para as chamadas Gramáticas Modernas; a matemática euclidiana; a astrofísica de Aristarco de Samos, que, muito antes deCopérnico, apresentou a teoria heliocêntrica. Além dessas contribuições, na filosofia tivemos as visões do ceticismo, do epicurismo e do estoicismo. Filosofias que têm um teor mais prático e tentaram dar respostas a um mundo onde a autonomia política não era mais possível. Restava, então, pensar a autonomia interior. Muitas dessas filosofias helenísticas chegaram ao mundo da cultura FED.indb 47 25/02/2016 14:40:01 Filosofia da Educação – 48 – greco-romana e, por fim, influenciaram e foram influenciadas por uma nova mentalidade que surgia no limiar da Antiguidade: o cristianismo. Eis o apontar para a mentalidade medieval. 1.9 A difusão do Cristianismo Foi no contexto do Império Romano que surgiu o Cristianismo. Como toda religião, inicialmente, sustentou-se na fé. Mas, ao que parece, para o seu desenvolvimento e a sua aceitação, isso não foi suficiente. Por quê? O Cristianismo ‒ como o próprio termo indica ‒ difundiu-se a partir das pregações de Jesus de Nazaré pela Judeia, domínio do Império Romano, no primeiro século da Era Cristã. O nazareno se anunciava como filho de Deus, pregando o amor ao próximo, a benevolência e o desprezo aos valores mundanos em troca de outra morada, a verdadeira, no reino dos céus. Com a morte de seu mestre, os nazarenos, como se denominavam os primeiros cristãos, mais particularmente os discípulos de Cristo ‒ os apóstolos ‒, tomaram para si a tarefa de difundir a boa-nova15. Em suas viagens de evangelização, chegaram a espaços dominados por outras culturas. Entre elas, o espaço da cultura helenística. Embora alguns vejam a cultura helenística como manifestação da decadência da cultura grega, é incontestável que o mundo Ocidental ainda era culturalmente grego. Enfrentar uma tradição milenar não era tarefa fácil. Ainda que alguns dos primeiros grandes padres da Igreja Cristã tenham tentado levar a boa-nova partindo tão somente da fé, isso só servia para propagá-la entre as classes sociais menos privilegiadas. Antes de avançarmos, cabe um esclarecimento. Quando usamos os termos “mentalidade medieval”, não estamos falando de algo restrito à Idade Média, e sim de uma perspectiva que, embora domine e caracterize a Idade Média, nasceu muito antes desta e sobreviveu ao ocaso desta. O mesmo ocorre com o termo “cultura helenística”, que ultrapassou o período Helenístico. 15 Em grego, eu aggelós, literalmente, boa mensagem, evangelho. FED.indb 48 25/02/2016 14:40:01 – 49 – O homem e sua relação com o mundo: Filosofia e Educação Para maior aceitação oficial do Cristianismo, a conversão de pessoas de classes mais elevadas se fazia necessária. Para se chegar a elas, um discurso mais elaborado era imprescindível, até porque a habilidade discursiva ‒ o lógos ‒ era uma característica inerente à mentalidade greco-romana. E, se lembrarmos que, nos primeiros séculos da Era Cristã, os cristãos eram perseguidos, converter autoridades do Império também seria útil. Eis um dos papéis da filosofia tomada pelos filósofos cristãos. É nessa relação entre a classe intelectualizada da cultura pagã e o nascente Cristianismo que encontramos o dilema que perpassou toda a mentalidade medieval: o debate entre fé e razão. Na linha dessa relação entre cultura grega e cultura cristã, na tentativa de conciliar fé e razão, temos duas grandes perspectivas: a Patrística e a Escolástica. Esta surge já no adiantado da Idade Média; aquela ainda na Antiguidade, com os primeiros padres da Igreja Cristã. Você sabia? Patrística é a Filosofia dos primeiros Padres da Igreja, caracterizada, principalmente, por defender a fé e procura converter os não cristãos. Tem, predominantemente, um teor platônico. A Escolástica determina o conhecimento elaborado e ensinado nas escolas medievais, sobretudo nas “palacianas”, que versava sobre a linguagem, a natureza, a filosofia e a teologia. Tem uma ligação muito grande com as Universidades e possui teor, predominantemente, aristotélico. Mas, antes de nos aprofundarmos nessas perspectivas, precisamos entender melhor os fatores sociais e políticos que evidenciaram o surgimento da mentalidade medieval. FED.indb 49 25/02/2016 14:40:01 Filosofia da Educação – 50 – O Cristianismo, assim como as escolas Helenísticas, procura responder a duas inquietações típicas do final da Antiguidade: o medo da morte e o medo dos castigos dos deuses. À primeira inquietação, o Cristianismo responde com a vida após a morte; à segunda, oferece a imagem de um deus único e amoroso, do qual só o bem pode brotar. A religião oficial, no período do aparecimento do Cristianismo, era a romana. Uma religião politeísta, que havia absorvido uma série de elementos da mitologia grega. O fato de o Cristianismo ser monoteísta e universal o contrapõe à religiosidade romana. Mas, como já dissemos em outro momento, a: [...] maior ameaça à estrutura militar e escravista da Roma Imperial é o fato de [o Cristianismo] condenar o militarismo e defender a igualdade entre os homens. Estas divergências levam a uma violenta perseguição aos cristãos. São conhecidas as narrativas de uso, por parte dos romanos, de cristãos nos espetáculos de arena, onde estes – os cristãos – eram jogados aos leões. Entretanto, a resistência dos cristãos, produtora de mártires, é um dos fatores importantes de sua divulgação e expansão. E, conforme a crise do Império Romano ia se agravando, muitos se converteram para a nova religião, particularmente cativos e pobres, pois estes visualizavam alento para suas vidas na nova fé. Aos poucos, o Cristianismo vai sendo aceito pelo Império Romano e, finalmente, em 313, com o Edito de Milão, promulgado pelo imperador Constantino, é dada a liberdade de culto aos cristãos. Inicialmente, a estrutura hierárquica do Cristianismo era mais diluída. Nas primeiras comunidades, os presbíteros (ou padres) eram responsáveis pela divulgação da doutrina, da organização das reuniões e pelo culto; os diáconos, pelas questões administrativas; e aos bispos cabia zelar pela preservação dos princípios cristãos. Do século IV em diante, o bispo de Roma passa a ter primazia em relação aos outros e, com Leão I, em 455, cria-se o mais alto posto eclesiástico: o de Papa. A partir daí, a Igreja vai tomando um caráter mais imperial, embora ainda conviva com uma postura mais apostólica. (MARQUES; NESI, 2011, p. 35-36). No limiar da Idade Média, devemos levar em conta outro elemento: as invasões bárbaras, que aguçam os medos na fase inicial desse período. A própria demarcação historiográfica tradicional da Idade Média está relacionada aos fatos que envolvem os povos bárbaros: a tomada de Roma pelos germanos FED.indb 50 25/02/2016 14:40:01 – 51 – O homem e sua relação com o mundo: Filosofia e Educação e a consequente derrocada do Império Romano do Ocidente, em 476; e o ataque a Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente, com sua conquista pelos turcos otomanos em 1453. Embora, no geral, os reinos que os diversos povos bárbaros constituíram ao longo dos primeiros séculos da Idade Média não durassem muito, um em especial teve grande importância para a consolidação da Igreja Cristã: o Império Carolíngio, na figura de Carlos Magno. Exemplar é a cerimônia de coroação do Imperador dos francos, Carlos Magno, pelo Papa Leão III, no ano 800. Tal fato pode ser considerado a primeira tentativa de recuperar a antiga unidade do Império Romano, formando o Sacro Império Romano-Germânico. (MARQUES; NESI, 2011, p. 37). Com a consolidação do poder institucional da Igreja Cristã, estamos próximos do aparecimento da Escolástica. É nesse período, final do domínio da Patrística e início da Escolástica, que surgem as ordem monásticas cristãs; a primeira é a dos Beneditinos, fundada por São Bento, em 529. Como atesta Maria Lúcia de Arruda Aranha, em sua História da educação: Criar escolas não é a finalidade principal dos mosteiros, mas a atividade pedagógica se torna inevitável à medida que épreciso instruir os novos irmãos. Surgem então as escolas monacais (nos mosteiros), em que se aprende o latim e as humanidades. Os melhores alunos coroam a aprendizagem com o estudo da filosofia e da teologia. Os mosteiros assumem o monopólio da ciência e se tornam o princi- pal reduto da cultura. Guardam nas bibliotecas os tesouros da cultura greco-latina, traduzem obras para o latim, adaptam algumas e reinter- pretam outras à luz do cristianismo. Monges copistas, pacientemente, multiplicam os textos clássicos. (1996, p. 76). Eis um resumo do que constituiu o contexto do surgimento e desenvolvimento da Patrística. Mas, filosoficamente, como ela se caracterizava? De forma bem básica podemos dizer que a Patrística caracteriza-se pelo uso predominantemente da filosofia platônica ou do neoplatonismo dela derivado para harmonizar fé e razão. Tem, como sintetiza Aranha (1996, p. 72), intenções apologéticas, que buscam defender a fé e converter os não cristãos. Em termos filosóficos, divide-se em duas grandes correntes: a Grega e a Latina. Um dos grandes expoentes da perspectiva latina foi Santo Agostinho. FED.indb 51 25/02/2016 14:40:01 Filosofia da Educação – 52 – 1.10 Santo Agostinho Aurélio Agostinho (354-430), o bispo de Hipona, nasceu em Targa, Nnorte da África, e falaceu em Hipona, quando da invasão dos vândalos. Passou por diversas correntes de pensamento da época, entre elas o maniqueísmo16 e o neoplatonismo. A dar conta de alguns relatos, foi um jovem inquieto de vida não muito exemplar para os modelos cristãos; matava aulas, viveu em concubinato com uma mulher, pois, na época, por seu estrato social, não poderia se casar com alguém de uma classe social inferior. Tudo isso foi esquecido com sua conversão, que se deu aos 32 anos. Dica de filme Para se ter uma melhor ideia da vida de Agostinho, recomendamos o filme Santo Agostinho: o declínio do Império Romano (2010). As grandes contribuições de Agostinho para a Filosofia foram, como apuramos em Marcondes (1998): 2 A formulação das relações entre teologia e filosofia, entre razão e fé. 2 A Teoria do conhecimento, enfatizando a questão da subjetividade e da interioridade. 2 A Teoria da história, que relacionava a Cidade de Deus e a cidade dos homens. Uma de suas obras específicas sobre educação é De magistro. Obra escrita de foma dialogal ‒ o que aponta para a influência do estilo literário platônico ‒, nela Agostinho estabelece um diálogo fictício com Adelardo ‒ nome de seu filho ‒, no qual discutem sobre o que é ensinar e o que é aprender e qual o papel da linguagem nesse contexto. Danilo Marcondes, em sua obra Textos de linguagem: de Platão a Foucault, apresenta um resumo contextualizado dessa obra: 16 Segundo o Houaiss eletrônico (2009): “[...] dualismo religioso sincretista que se originou na Pérsia e foi amplamente difundido no Império Romano (s. III d.C. e IV d.C.), cuja doutrina con- sistia basicamente em afirmar a existência de um conflito cósmico entre o reino da luz (o Bem) e o das sombras (o Mal), em localizar a matéria e a carne no reino das sombras, e em afirmar que ao homem se impunha o dever de ajudar à vitória do Bem por meio de práticas ascéticas [...]”. FED.indb 52 25/02/2016 14:40:01 – 53 – O homem e sua relação com o mundo: Filosofia e Educação O diálogo De magistro (c.389) nos permite compreender bem a posição agostiniana a respeito da questão do inatismo. [...] Na mesma linha [de Platão], Santo Agostinho começa se interrogando sobre o que é ensinar e apreender ‒ o que torna esse diálogo, em sua parte inicial, um dos textos clássicos da pedagogia. lndaga-se, em seguida, sobre o papel da linguagem e da comunicação no processo de ensino e de aprendizagem, fazendo do diálogo também um dos clássicos da teoria da linguagem e do significado, assunto de que Santo Agostinho se ocupou [...] em várias de suas obras, sendo sua teoria do signo de grande influência na tradição filosófica e linguística [...]. Após uma detalhada consideração da natureza do signo e do processo de comunicação (De magistro l-Vlll), Santo Agostinho conclui, na linha das concepções tradicionais na Antiguidade (Platão, Aristóteles, os estoicos), que dada a sua convencionalidade ‒ isto é, as palavras variam de língua para língua e são sinais arbitrários das coisas ‒, o signo linguístico não pode ter qualquer valor cognitivo mais profundo. Portanto, não é através das palavras que conhecemos, e assim sendo não podemos transmitir conhecimento pela linguagem. A possibilidade de conhecer supõe algo de prévio, que torna inteligível a própria linguagem, ou seja: a luz interior. Sua posição é, assim, na mesma direção da platônica, inatista, supondo que o conhecimento não pode ser derivado inteiramente da apreensão sensível ou da experiência concreta, mas necessita de um elemento prévio que sirva de ponto de partida para o próprio processo de conhecer. Santo Agostinho apelará então ao “mestre interior”, Cristo, que representa, nesse sentido, nossa capacidade inata de conhecer. (2009, p. 31-32). 1.11 A Escolástica Em que consistia o método escolástico? Primeiramente, é preciso entender que Escolástica e Universidades estão intimamente ligadas, conforme salientam Jacques Le Goff e Jean- Claude Schmitt no Dicionário temático do Ocidente medieval, no verbete Escolástica. Lembrando que as Universidades são um tipo de corporação, não é de se estranhar que o método escolástico reflita um corporativismo. Nesse caso, o corporativismo intelectual: a Escolástica dá “[...] forma normativa ao corpo universitário e, ao mesmo tempo, prescreve os textos a ‘comentar’ (legere) [...]” (LE GOFF; SCHMITT, 2002, p. 367), como também prescreve os textos que não devem ser lidos. O papel dos mestres é supervisionar os estudos, evitando FED.indb 53 25/02/2016 14:40:01 Filosofia da Educação – 54 – qualquer desvio. Nesse contexto, o livro passa a ter uma grande importância. A base do método escolástico é o uso da lógica aristotélica, predominantemente o silogismo ‒ tipo de raciocínio dedutivo, do qual se vai de proposições gerais ou universais para conclusões particulares e gerais. Aliados ao “princípio de autoridade”, os argumentos devem estar sustentados ou nas Sagradas Escrituras ou nos grandes sábios já consagrados pela Igreja. Dessa forma, como resume Maria Lúcia de Aranha (1996, p. 73): Munidos do instrumental para a discussão, surgem inúmeros comentadores dos textos sagrados da Bíblia e dos escritos dos Padres da Igreja que alargam a reflexão pessoal, criando o método escolástico, constituído por várias etapas: a leitura (lectio), o comentário (glossa), as questões (quaestio) e a discussão (disputatio). Os termos que denominam as etapas do método escolástico podem dar a aparência de certa liberdade de expressão ou altos voos. Ledo engano, pois não raro tais procedimentos “[...] acham vinculadas às verdades reveladas e ao estrito controle da ortodoxia religiosa, temerosa dos desvios heréticos” (ARANHA, 1996, p. 74). Na Modernidade, o filósofo empirista inglês Francis Bacon (1561-1626) apresentará ferrenhas oposições ao método escolástico. Também o eminente filósofo racionalista René Descartes (1596-1650) apontará equívocos nesse procedimento. Ambos consideram que o uso do silogismo não possibilita apontar novos conhecimentos e que o recurso à autoridade impossibilita um conhecimento mais individual. Provavelmente, esteja na radicalização do método escolástico que, com o passar do tempo, se torna distante da vivência cotidiana e abusa da lógica com fins de disputas metafísicas, gerando formalismo e verborragias, um dos motivos da crise da Escolástica. Dica de filme No filme Em nome de Deus (1988), que se baseia na vida de um dos expoentes da Escolástica, Pedro Abelardo (1079- 1142), há uma cena em que aparece o mestre Abelardo dando aulas. Essa cena apresenta o método escolástico em sua forma ainda não tão radicalizada. Outro aspecto interessante,que não tocaremos aqui, é o da educação feminina, particularmente de algumas mulheres que, por fatores variados, ingressavam na vida religiosa. Heloise. FED.indb 54 25/02/2016 14:40:01 – 55 – O homem e sua relação com o mundo: Filosofia e Educação A datação do período Escolástico geralmente adotada vai do século IX ao XVI. Outros estudiosos tomam como parâmetro para subdividir esse período a figura de Santo Tomás de Aquino. Dessa forma, temos: 2 Fase Pré-Escolástica – entre os séculos VIII e X Temos aí a Renascença Carolíngia, o renascimento das artes e da literatura, onde há a organização das “escolas”, cujos programas acabaram por manter a tradição das escolas antigas. 2 Fase da Alta Escolástica – entre os séculos XI e XII Tem início na crise do sistema feudal, durante o surgimento de uma espécie de pré-capitalismo; quando aconteceu um renascimento das cidades europeias, o que produziu significativas mudanças políticas e sociais. Encontramos nesta fase duas forças contrárias que agiram, respectivamente, nos séculos XI e XII: a primeira leva a um enfraquecimento das escolas; a segunda produz mais um renascimento pela retomada do estudo da língua grega e pelos trabalhos de tradução dos pensadores bizantinos e muçulmanos, especialmente na Itália e na Espanha. Muitas das obras antigas chegaram por meio da cultura árabe; encontramos textos antigos traduzidos para o siríaco e o árabe, não em sua língua originária, o grego, forçando os tradutores a dominarem pelo menos três línguas. É também a fase onde surgem as primeiras Universidades, que são derivadas das corporações de ofícios ou guildas, onde professores e estudantes se agrupavam, organizadamente, para o estudo das artes liberais ‒ o Trivium e o Quadrivium ‒ acrescidas de noções de história, geografia e ciências naturais. Começa, aí, a substituição do latim pelas línguas nacionais. São deste período, também, a primeira Cruzada e o primeiro cisma da Igreja Cristã, dividindo-a em Romanos e Ortodoxos. Nas artes temos o surgimento do estilo Gótico. 2 Fase do ápice da Escolástica – século XIII É a fase na qual são finalizadas as traduções da obra de Aristóteles, que passa a ser estudado com mais profundidade em vários aspectos. Com a obra de Tomás de Aquino, uma das figuras mais proeminentes da Escolástica, o aristotelismo foi, definitivamente, incorporado à reflexão teológica. FED.indb 55 25/02/2016 14:40:01 Filosofia da Educação – 56 – 2 Fase da crise da Escolástica – do final do século XIII ao século XIV Retomam-se questões da relação entre a lógica e a fé, a filosofia de Aristóteles e o cristianismo. Duns Scot, um dos expoentes desta fase, como seus irmãos franciscanos, nega que a razão pudesse ser fundamento da fé. Segundo ele, enquanto a filosofia pertence ao domínio teórico, a religião é relativa à vida prática. Também Guilherme de Ockham representa essa fase da Escolástica. 1.12 Tomás de Aquino Nascido em 1224, na Sicília, Tomás de Aquino estudou com os beneditinos e, por volta dos vinte anos, ingressou na ordem dos dominicanos. Diferentemente de Agostinho, dedicou-se desde cedo aos estudos. Com seu mestre Alberto Magno estudou, principalmente, teologia. Com trinta e quatro anos, obteve o título em Teologia na Universidade de Paris. Deixou extensa obra. Podemos dizer que o trabalho de Tomás de Aquino foi, principalmente, a organização do conhecimento teológico medieval. A ele devemos a cristianização, por definitivo, da filosofia de Aristóteles. Fonte: CRIVELLI, Carlo. Parte de ‘’Retábulo Demidoff”, 1476. Altar de San Domenico, Ascoli Piceno, Itália. Usando categorias aristotélicas, aliadas aos graus de hierarquia das coisas, formulados por Platão, Tomás explica que as coisas do mundo têm causa, pois FED.indb 56 25/02/2016 14:40:02 – 57 – O homem e sua relação com o mundo: Filosofia e Educação não existe um efeito sem causa nem uma coisa que seja causa de si mesma. Retrocedendo, segundo ele, encontramos algo que, não tendo causa, é a causa de si e a primeira causa de todas as coisas do mundo (o “motor primeiro”): Deus. Eis, resumidamente, a “prova da existência de Deus”. Mesmo usando da argumentação lógica, Tomás prioriza a fé ao afirmar que alguns conhecimentos revelados são superiores aos alcançados com o simples exercício racional. Tais conhecimentos não podem ser demonstrados, mas são verdadeiros, necessariamente, porque provêm da revelação divina. Segundo Aristóteles, tudo caminha para um fim preestabelecido pela própria natureza das coisas. Nessa linha, Tomás de Aquino vê o Universo como algo ordenado e hierarquizado, dando a cada coisa uma função e um grau de perfeição. Assim, tudo que existe é dirigido a um fim último: Deus. O ser humano, explica o aquinatense, como os outros animais e as plantas, constitui-se de corpo e alma. Esta responde pela razão; aquele, pelos sentidos. Caso o corpo seja destruído, desaparecem as faculdades sensitivas. Ainda assim, permanecem as faculdades inerentes à alma, pois esta é imor- tal. A função dela é, então, obter conhecimento, particularmente, o que não depende dos órgãos dos sentidos. Tomás afirma, ainda, que existem outros conhecimentos além dos revelados: aqueles obtidos por meio dos sentidos e organizados pela razão. Primeiramente, os sentidos recolhem dados do mundo exterior. Depois, a mente humana abstrai a essência desses dados, organizando os conceitos. Tal conhecimento, para o aquinatense, deve levar o ser humano a diferenciar variados tipos de bem do Sumo Bem. Este é Deus. O erro, ao qual o ser humano está sujeito, está em escolher um bem menor ou meramente ligado ao prazer (sensorial). Assim, a metafísica teológica de Tomás sustenta uma Teoria do conhecimento que, por sua vez, sustenta uma Ética que dá elementos para uma pedagogia. Tal pedagogia, como os outros matizes que estudamos até o momento, é essencialista ou metafísica, vindo como mais um instrumento para alcançar Deus. Percebemos, então, no ocaso da Idade Média, uma crise que virá separar a Teologia da Filosofia, a fé da razão, apontando, entre outras coisas, para o aparecimento de concepções pedagógicas não essencialistas ou não metafísicas. Eis um dos assuntos que veremos a seguir. FED.indb 57 25/02/2016 14:40:02 Filosofia da Educação – 58 – Síntese No percurso trilhado neste capítulo, passamos por diversas abordagens da vertente essencialista ou metafísica da pedagogia. Começamos tratando do significado dos termos Filosofia e Educação, que compõem o nome desta disciplina: Filosofia da Educação. Passamos, então, à relação entre Educação e Cultura. Vimos certas formas de Educação não formais ou difusas. Avançando, passamos pelo mundo da Antiguidade Grega, inicialmente tratando das tradições míticas de Homero e Hesíodo. Daí, abordarmos a passagem do Mito à Filosofia, apresentando tanto as características da paideia homérica e hesiódica como a abordagem de alguns pensadores originários: os pré-socráticos, seja quanto à crítica a tradição mítica, seja em relação à visão mais racionalista desses primeiros filósofos. Passamos, então, para o ambiente do período Clássico, mostrando o papel dos sofistas ‒ primeiros pedagogos ‒ no contexto da democracia ateniense e as abordagens de Sócrates, Platão e Aristóteles. De um brevíssimo apontar para a cultura helenística e suas contribuições para o desenvolvimento intelectual do Ocidente, vislumbramos o apontar da mentalidade medieval. Ao passarmos pela Idade Média, deparamo-nos com duas correntes: a Patrística ‒ de cunho mais platônico ‒ e a Escolástica ‒ de cunho mais aristotélico. Ainda, caracterizamos cada uma dessas correntes e focamos as ideias de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, respectivamente, representantes da Patrística e da Escolástica. Em todo esse trajeto o objetivo central foi caracterizar, principalmente, os diferentes enfoques da abordagem essencialista ou metafísica, para fortalecer a indicação de que estas estãofocadas em concepções filosóficas que buscam a essência do ser humano e das coisas no mundo. E mais, desejamos que seja entendido que o essencialismo pedagógico não consiste apenas na influência de uma filosofia sobre a Educação. Mais que isso, trata-se de uma perspectiva que reforça o caráter comum de diferentes pensamentos, tanto na Antiguidade como na Idade Média, e mesmo na Modernidade, sobrevivendo em discursos e práticas pedagógicas adotadas ainda hoje, como veremos nos próximos capítulos. É partindo deste fundo inicial que entenderemos, também, na sequência de nossos estudos, as críticas às abordagens essencialistas ou metafísicas e o surgimento de outras abordagens pedagógicas. Então, sigamos em frente? FED.indb 58 25/02/2016 14:40:02 2 O pensamento moderno e a Filosofia da Educação Estudando a unidade anterior, pudemos perceber o predo- mínio do chamado “essencialismo pedagógico” como resultado da perspectiva metafísica predominante até o nascimento da filosofia moderna, tanto na cultura clássica como no pensamento medie- val. A passagem da Idade Média para a Modernidade, contudo, trouxe consigo profundas modificações em todos os campos da vida humana. Transformaram-se os modos de produção, a orga- nização social e política, as formas de conhecimento e a própria concepção do universo e da natureza humana. Nesse turbilhão de mudanças, gradualmente desenvolveram-se outros modos de compreender o homem e a realidade, cujos desdobramentos influenciaram diretamente a educação. FED.indb 59 25/02/2016 14:40:03 – 60 – Filosofia da Educação Nesta unidade passamos a investigar o advento da Modernidade (como momento histórico) e suas consequências para a filosofia moderna e para a educação; sobretudo no que se refere às diferentes concepções do conhecimento. Você compreenderá a oposição entre o Racionalismo e o Empirismo modernos e conhecerá o debate sobre a natureza das nossas ideias. Entram em cena também as primeiras rupturas com o essencialismo, como o realismo pedagógico e as ideias de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). 2.1 A Modernidade e suas transformações O início da Idade Moderna consiste em um momento histórico complexo marcado por grandes transformações em todos os campos da vida humana. Essas mudanças passam a questionar radicalmente a concepção de mundo e do homem vigentes até então. Vejamos uma breve contextualização histórica. 2.1.1 Ruptura da tradição medieval e Renascimento Ao longo da Idade Média, o pensamento cristão tornou-se a base da cultura europeia. No século IV, o cristianismo fora nomeado como a religião oficial do Império Romano. O predomínio da Igreja gradualmente estendeu-se não apenas ao campo da religião, mas a todos os aspectos da vida particular e comunitária do homem europeu. Na chamada Baixa Idade Média, a partir do século XI, a Igreja já ocupava um papel central na cultura europeia, exercendo forte influência nos eventos sociais, na organização do trabalho e na política. Essa hegemonia foi mantida até o século XIV, quando o fim do feudalismo e o Renascimento passaram a introduzir algumas rupturas na ordem social vigente. Já no início do século XIV, a Europa passou por grandes turbulências. A fome e a proliferação de epidemias como a peste negra provocaram rebeliões dos servos contra seus senhores, indicando a decadência do sistema feudal. A Guerra dos Cem Anos, entre a França e a Inglaterra, foi responsável por um grande abalo populacional e representou mais um duro golpe sobre a organização social medieval. Em 1453, a tomada de Constantinopla, capital da Cristandade Oriental e sede do Império Bizantino, foi outro importante acontecimento do início FED.indb 60 25/02/2016 14:40:03 – 61 – O pensamento moderno e a Filosofia da Educação da história moderna. Além de repelir o cristianismo da Ásia Menor, a ocupação da cidade pelos turcos otomanos forçou os navegadores europeus a enfrentarem o Oceano Atlântico e buscarem outro caminho para chegar às Índias. Começaram, assim, as Grandes Navegações. A expansão ultramarina proporcionou um alargamento dos horizontes geográficos e intelectuais do homem europeu, levando-o a ter contato com novas culturas e, por fim, à “descoberta” do continente americano. O fim do feudalismo e o desenvolvimento da burguesia comercial e da atividade mercantil estimularam a vida urbana. O crescimento e a organização das cidades, em oposição ao predomínio da vida rural da medievalidade, foi um evento típico da Modernidade e do nascimento do capitalismo. Com a ascensão da burguesia, ocorreu uma maior mobilidade social, alterando-se também os valores medievais. A honra e o prestígio do indivíduo, antes apenas determi- nados por sua ascendência familiar, passaram agora a ser alcançados como resultado do esforço pessoal e do talento próprio, como pregava Francesco Petrarca (1304-1374). Estavam lançadas as sementes do pensamento liberal. Em termos culturais, a Renascença (ou Renascimento) traduziu todas essas transformações sociais e políticas para o campo das artes e da reflexão filosófica, mostrando-se como um dos movimentos intelectuais mais prósperos do Ocidente. Em contraposição à cultura medieval teocentrista, consolidou-se um clima intelectual mais voltado para a capacidade de realização do ser humano. Isso se deveu ao reencontro dos intelectuais europeus com a cultura clássica greco-romana através das artes, da literatura poética e da filosofia. Inaugurava-se o pensamento humanista1, que retomou o antigo espírito pagão de exaltação da individualidade humana como revelação do valor intrínseco da vida. O humanismo renascentista foi marcado pela acentuação 1 O humanismo é a perspectiva filosófica que resulta do Renascimento das artes e homem presente no pensamento medieval, o humanismo renascentista passou a valorizar todos os aspectos do humano e a ressaltar sua dignidade como elemento sem igual na criação divina. FED.indb 61 25/02/2016 14:40:03 – 62 – Filosofia da Educação e valorização do subjetivo, do humano, do secular. Começou, assim, a se estruturar uma visão de mundo antropocêntrica. Fonte: DA VINCI, Leonardo. Homem Vitruviano, 1492. Lápis e tinta sobre papel. Gallerie dell’Accademia, Veneza, Itália. Segundo Reale e Antisseri (2004, p. 9): A renascença representou grandioso fenômeno de regeneração e de reforma espiritual, em que a volta aos antigos significou revives- cência das origens, retorno aos princípios autênticos, e a imitação dos antigos revelou-se como o caminho mais eficaz para recriar e regenerar a si mesmos. Nesse ambiente de efervescência intelectual, surgiram grandes descober- tas, em todos os campos do saber humano. O Renascimento proporcionou um intenso desenvolvimento das artes, da engenharia, da literatura, dos estudos matemáticos e da reflexão filosófica. Esse grande estímulo ao conhecimento humano teve influências FED.indb 62 25/02/2016 14:40:04 – 63 – O pensamento moderno e a Filosofia da Educação para a educação. A invenção da imprensa, por J. Gutenberg, permitiu maior difusão dos livros, antes restritos às cópias manuais. O pensamento humanista trouxe para a educação mais preocupação com o corpo, com o estudo das artes e com o desenvolvimento da reflexão filosófica. Mas, no que se refere ao domínio da educação, o ensino permaneceu restrito às elites, dirigindo-se ao clero, à nobreza e a partes da burguesia. 2.2 A Reforma Protestante, a Contra- Reforma e a inversão copernicana A Reforma Protestante foi um movimento que uniu o inconformismo com certas ações da Igreja e as novas condições sociais e econômicas da Europa no século XVI. Trata-se da intensificação de uma crise que vinha se desenvolvendo desde o final da Idade Média, motivada pelo crescente descontentamento, e até rejeição, com o clero por parte de outros setores da sociedade e mesmo por cisões internas nas ordens religiosas. Sob a ótica da economia, o crescente capitalismo comercial chocava-secom os ideais católicos de uma vida simples, privada de riquezas e facilidades. Essa oposição entre os dogmas da Igreja e a transição para um novo modelo econômico contribuiu para dividir opiniões e abalar o status do clero como autoridade absoluta para todos os aspectos da vida humana. Esse quadro de abalo da autoridade da Igreja Católica tornou-se mais crítico pelos crescentes relatos de abusos e comportamentos inadequados por parte de membros do clero. A venda de indulgências, que se destinava ao perdão dos pecados e a garantir aos compradores seu lugar no paraíso, permaneceu como um ícone da degeneração da classe clerical, levando a Igreja a uma crise moral. A essa altura o número de críticos das atitudes da Igreja aumentou significativamente. Martinho Lutero (1483-1546), sacerdote alemão da Ordem dos Agostinianos e professor de teologia, desafiou a autoridade de seus superiores FED.indb 63 25/02/2016 14:40:05 – 64 – Filosofia da Educação afixando na entrada de sua Igreja, em Wittenberg, as célebres Noventa e cinco teses contra a venda de indulgências. Recusando-se ao pedido do Papa para a retirada de seus escritos, Lutero foi excomungado da Igreja Católica em 1521, passando a liderar a Reforma Protestante, responsável pelo surgimento de novas instituições religiosas e pela cisão da unidade cristã. O protestantismo questionava vários dogmas e práticas instituídos pela Igreja. Em sua visão, não devia haver nenhum intermediário entre a alma e Deus. Essa nova abertura para uma relação pessoal e direta com o divino estava alinhada com um dos principais valores da renascença: o individualismo. Ao contrário dos católicos, Lutero enfatizava a necessidade de educação e da alfabetização para o estudo individual da Bíblia. Considerando a educação infantil uma prioridade, o chefe da Igreja Protestante solicitava às autoridades que assumissem a tarefa de educar as crianças, lançando as primeiras sementes do ideal de uma educação universal e pública. Em resposta ao movimento protestante, a partir do século XVI, a Igreja Católica passou por um processo de Contrarreforma, buscando o resgate de seus valores morais e da disciplina eclesiástica2. Na prática, aumentou o controle social da Igreja sobre suas dependências através do Tribunal do Santo Ofício, responsável por interrogar e julgar os acusados de heresias, isto é, de sustentar ideias divergentes da fé cristã. Intensificaram-se, a partir daí, as oposições entre a ciência e a religião. A Contrarreforma instituiu também a Companhia de Jesus, conhecida como ordem jesuíta. Os jesuítas se ocuparam mais diretamente da educação e da pregação, estabelecendo insti- tuições de ensino por toda a Europa e nas colônias europeias. 2 O termo “eclesiástico” designa tudo aquilo que é relacionado à Igreja. FED.indb 64 25/02/2016 14:40:05 – 65 – O pensamento moderno e a Filosofia da Educação Assim, os séculos XVI e XVII foram marcados pela disputa entre os partidários da Reforma Protestante os defensores da Igreja Católica. Criticando os métodos antiquados e punitivos do ensino escolástico, a educação luterana passou a valorizar o ensino da literatura, da música, da história e da matemática. A educação jesuíta, por sua vez, permaneceu centrada na rígida disciplina e se manteve mais ligada à educação clássica e erudita, ao ensino do Latim e da Retórica. Por fim, outro importantíssimo elemento para compreender o advento da Modernidade é a chamada Revolução Científica, que teve início a partir dos estudos do astrônomo Nicolau Copérnico (1473-1543) e sua proposição da tese heliocentrista. A suposição de que a Terra gira em torno do Sol, e não o contrário (como se acreditava até o século XV), trouxe consigo uma transformação no modo como concebemos a realidade. A chamada inversão copernicana, foi levada adiante e estruturada matematicamente por outro grande nome da nascente ciência moderna, Galileu Galilei. A contestação da autoridade dos conhecimentos antigos e tradicionais por um novo conheci- mento, baseado na observação da natureza e na experimentação, colocou a Igreja e a ciência definitivamente em lados opostos. Era o início de um con- flito que se estenderia por toda a Modernidade. O significado filosófico da inversão copernicana encontra-se na afirmação do homem como um ser dotado de razão para conhecer, por si mesmo, a ordem do universo. Galileu consi- derava que o universo era como um livro aberto, porém, escrito em caracteres matemáticos. Apenas o homem, por meio da investigação racional, poderia compreender e interpretar ade- quadamente os fenômenos naturais. Nesse sentido, a inversão copernicana representa também a passagem do teocentrismo medieval ao antropocentrismo moderno. Devemos acrescentar também, que a inversão copernicana, o huma- nismo e a forte oposição religiosa a essas ideias produziram concepções mís- ticas do mundo e também tendências céticas. O ceticismo, por sinal, teve um terreno fértil nessa época, ganhando voz através de alguns pensadores FED.indb 65 25/02/2016 14:40:05 – 66 – Filosofia da Educação como Nicolau de Cusa, Francisco Sanchez e, um dos mais ilustres, Michel de Montaigne. Em resumo, a partir da inversão copernicana aumentou o interesse por um novo modo de produção do conhecimento, a saber: a ciência moderna. No período que se estendeu da descoberta de Copérnico até o século XVIII, com a física de Isaac Newton, a ciência passou por uma verdadeira revolução, conquistando seu espaço como uma das mais importantes fontes do conhecimento humano. A revolução científica influenciaria de forma determinante a educação moderna por meio da concepção empirista do conhecimento, como veremos na seção seguinte. 2.3 O florescimento da filosofia moderna A grande transformação cultural que marcou o advento da modernidade proporcionou as condições para que uma nova maneira de fazer filosofia pudesse ensaiar seus primeiros passos. Tendo escrito duas célebres obras, as Meditações metafísicas e o Discurso do método, René Descartes (1596- 1650) é considerado o precursor da filosofia moderna. Acompanhe uma síntese dos elementos que motivaram a filosofia cartesiana: 2 O Humanismo renascentista gerou uma grande multiplicidade de perspectivas filosóficas, cada uma delas projetando uma imagem diferente do homem e do universo. Para Reale e Antiseri (2004, p. 287): Em uma época em que se haviam afirmado e se desenvolviam com vigor novas perspectivas científicas e se abriam novos horizontes filosóficos, Descartes percebia a falta de um método que ordenasse o pensamento e, ao mesmo tempo, fosse instrumento heurístico3 e de fundamentação verdadeiramente eficaz. 2 Com a difusão do ceticismo, que coloca em dúvida os fundamentos do conhecimento, tornou-se necessária a busca por novas bases seguras para o saber. 3 Um instrumento ou procedimento eurístico é um “simplificador”, ou seja, o ato de, em face de questões complicadas, substituir os elementos complexos por outros mais simples, facilitan- do a resolução ou o entendimento. FED.indb 66 25/02/2016 14:40:05 – 67 – O pensamento moderno e a Filosofia da Educação 2 Tendo estudado no renomado colégio jesuíta francês de La Flèche, Descartes recebeu uma sólida formação filosófica e científica conforme os princípios da educação escolástica. Entretanto, não ficou satisfeito com a desconexão entre os saberes clássicos ensinados pelas instituições eclesiásticas e os novos conhecimentos científicos e filosóficos produzidos pelo paradigma heliocentrista e pelo pensamento humanista. 2 Como implicações filosóficas da astronomia geocentrista (Copérnico/Galileu) a natureza passa a ser concebida como uma estrutura de perfeitas proporções e regularidade matemática, ainda que não perceptível diretamente para os nossos sentidos. Mas neste mundo natural perfeitamente ordenado pelas leis matemáticas, cujo funcionamento revela-se independente da presença do homem, qual seriao lugar do ser humano? Onde se encaixam suas ideias, ações e paixões, que não se deixam reduzir à objetividade das ciências físicas? Em resumo, sintonizado com os problemas filosóficos de seu tempo, Descartes se deparou com uma dupla tarefa: a busca por um método seguro para o conhecimento e a necessidade de repensar o lugar do homem no “sistema do universo”, reafirmando, assim, seu valor intrínseco. Nesse con- texto, a razão humana passaria a ocupar o centro da reflexão filosófica. A partir do nascimento da Filosofia moderna, portanto, a episte- mologia, também chamada de teoria do conhecimento, passou a ser um dos temas proeminentes na atividade filosófica. Trata-se da reflexão sobre os diferentes modos pelos quais percebemos a realidade e adquirimos conhecimentos sobre o mundo. Pode- mos afirmar que, enquanto os antigos faziam filosofia buscando explicar o Ser, os modernos passaram a se perguntar de que modo podemos conhecer o mundo, encontrando diferentes respostas para a questão. FED.indb 67 25/02/2016 14:40:05 – 68 – Filosofia da Educação Mas, afinal, quais as relações entre a educação e a epistemologia ou teoria do conhecimento? Ora, o ensino e as práticas educacionais em geral permanecem ancorados não apenas na transmissão de saberes, mas também no ato de conhecer, ou seja, a aprendizagem. O ato de conhecer envolve o acesso ao mundo por meio de percepções, ideias, memórias e a conexão articulada entre estes elementos, tradicionalmente atribuída ao intelecto ou à razão. Desse modo, sob o ponto de vista da Filosofia da Educação, a Filosofia moderna caracterizou-se pelas recorrentes tentativas de organizar tais elemen- tos em uma teoria que possa explicar como se dá o conhecimento humano. Como veremos nas seções seguintes, diferentes teorias do conhecimento originam diferentes estratégias pedagógicas. Por isso compreender essa discussão teórica nos deixa mais preparados para uma leitura crítica (não ingênua) das múltiplas concepções pedagógicas presentes em nosso tempo. Segundo Giles (1983, p. 38): Toda teoria educacional pressupõe uma teoria do conhecimento, teoria que nem sempre é explicitamente formulada. Cabe à filosofia da educação explicitar estas teorias, mostrando sua incidência sobre as respectivas teorias educacionais. 2.4 O racionalismo moderno e a teoria inatista do conhecimento Ao contrário dos ideais humanistas de exaltação da cultura antiga, a filosofia moderna nasceu por meio da rejeição do conhecimento tradicional, tanto da cultura greco-romana como do pensamento medieval. Apesar das grandes mudanças sociais e culturais durante o Renascimento, o pensamento filosófico e a ciência se desenvolveram primordialmente fora das instituições de ensino, pois, até o início do século XVII, as Universidades (em virtude de sua estreita ligação com a Igreja) permaneceram ainda muito presas ao ensino escolástico da filosofia medieval e só foram se abrindo aos novos valores da Modernidade gradualmente. Fui instruído nas letras desde a infância, e por me haver convencido de que, por intermédio delas, poder-se-ia adquirir um conhecimento claro e seguro de tudo o que é útil à vida, sentia extraordinário desejo de aprendê-las. Porém, assim que terminei estes estudos, ao cabo do qual costuma-se ser recebido na classe dos eruditos, mudei totalmente de opinião. Pois me encontrava embaraçado com tantas dúvidas e FED.indb 68 25/02/2016 14:40:05 – 69 – O pensamento moderno e a Filosofia da Educação erros que me parecia não haver conseguido outro proveito procu- rando instruir-me, senão o de ter descoberto cada vez mais a minha ignorância. E, contudo, estudara numa das mais célebres escolas da Europa, onde imaginava que devia haver homens sábios, se é que havia em algum lugar da Terra. (1999, p. 37). Em resumo, as novas descobertas científicas sobre a natureza e o iminente conflito desses conhecimentos com o saber tradicional geraram um clima de incerteza e ceticismo, traduzido pela obra de autores como Michel de Montaigne e Francisco Sanchez, dois pensadores conhecidos por suas dúvidas e seus questionamentos céticos em relação aos saberes de sua época. Mas essas críticas aos saberes da época não indicavam ainda nenhum caminho positivo a ser seguido pelo pensamento filosófico. Fazia-se necessário um novo caminho para a filosofia, independente tanto do pensamento antigo como do saber das escrituras. Nas palavras de Brown (1995, p. 43): A pressão exercida pela autoridade da tradição levou alguns a um sectarismo intelectual, outros a uma eclética mistura de doutrinas, e outros ainda ao ceticismo. O que se fazia necessário era um método, ou métodos para decidir com certeza o que é verdadeiro, sem referência às autoridades. Além de filósofo, Descartes também foi um grande matemático, fundador da geometria analítica e do conhecido plano cartesiano, que tornaram possível a conversão de problemas geométricos em equações algébricas. Com essa inovação, a matemática se tornou extremamente clara em seus processos, explicando e demonstrando com exatidão situações relacionadas ao movimento dos corpos no espaço e no tempo. Fonte: HALS, Frans (após). Retrato de René Descartes, cerca de1649-1700. © Musée du Louvre/A. Dequier - M. Bard FED.indb 69 25/02/2016 14:40:05 – 70 – Filosofia da Educação Para Descartes, a ordem e a rigorosidade das demonstrações geomé- tricas seriam um reflexo da própria essência do pensamento racional, cuja natureza permite analisar cada coisa dividindo-a em partes e encontrando suas noções mais fundamentais. Motivado pela exatidão e rigorosidade do método matemático, o filósofo se propôs a aplicar esse modelo a outras áreas do conhecimento. Tal como nas demonstrações geométricas, também a filosofia deveria estar fundada em um método rigoroso para o conheci- mento, onde cada ideia, representação ou teoria pudesse ser decomposta em noções mais simples, que estivessem claramente estabelecidas como um saber claro e distinto. É a partir dessa aproximação entre o pensamento filosófico e o método matemático que surgiram as bases do racionalismo moderno: ao resolver uma equação, partimos do valor de termos conhecidos para encontrar o valor de uma incógnita (x). Analogamente, estabelecidas certas regras básicas de inferência e operando por meio de intuição e análise, nosso raciocínio teria a capacidade de encontrar em si mesmo as representações verdadeiras sobre o mundo. Em outras pala- vras, a razão humana é mais significativa para a aquisição do conhecimento verdadeiro do que tudo aquilo que aprende- mos por meio de nossos cinco sentidos. A filosofia cartesiana pode ser considerada como um humanismo intelectualista, visto que reafirma o valor do homem como ser único na criação divina, dotado de capacidade racional para compreender a regularidade das leis universais. Assim, se os mistérios das leis físicas da natureza encontram-se acessíveis apenas para a razão (e não pela observação direta), o verdadeiro conhecimento está situado na própria interioridade (ou imanência) do sujeito, concebido como ser pensante. É na subjetividade pensante, portanto, que se deve procurar o fundamento para o conhecimento. Estamos próximos do caminho que levou Descartes a pronunciar sua célebre máxima: “Eu penso, logo existo”. FED.indb 70 25/02/2016 14:40:05 – 71 – O pensamento moderno e a Filosofia da Educação 2.5 Descartes e as Meditações metafísicas As Meditações metafísicas foram publicadas em 1641 e consagraram-se como um ícone do nascimento da filosofia moderna. Sem recorrer a nenhuma outra fonte de conhecimento além do próprio pensamento, Descartes procura submeter todos os seus saberes adquiridos ao longo da vida ao teste da dúvida. Utilizando-se de um ceticismo metodológico4, Descartes passa a suspender seu juízo sobre tudo aquilo que julgava conhecer. Antes de tudo, raciocina o filósofo, todo o conhecimento que possuímos sobre o mundo através de nossaspercepções sensíveis pode ser posto em dúvida. Afinal, inúmeras vezes os sentidos já nos enganaram (como em um golpe de vista ou quando nos confundimos com algum som ou aroma), e é prudente não confiar plenamente naqueles que uma vez falharam conosco. Mesmo a percepção total que temos da realidade que nos cerca pode ser duvidosa, dado que por vezes temos sonhos extremamente reais, que chegam a nos confundir (ainda que por poucos segundos) sobre a diferença entre o estado de sono e o estado de vigília. Os dois argumentos apresentados anteriormente (o da falibilidade dos sentidos e o do sonho) permitem a Descartes duvidar completamente da validade da percepção sensível como fundamento de um conhecimento seguro. Contudo, estejamos dormindo ou acordados, as ideias matemáticas parecem ser fortes candidatas a um tipo de conhecimento indubitável, uma vez que apenas dependem da análise da razão. A fim de pôr em dúvida também a aparentemente infalível matemática, Descartes lança mão do célebre argumento do gênio maligno, considerando a hipótese da existência de um ser poderoso, capaz de enganá-lo sobre a existência de todas as coisas, inclusive quanto ao resultado de seus cálculos. Chegando ao final da primeira meditação neste estado de extrema dúvida sobre a existência do mundo exterior (chamado de dúvida hiperbólica), Descartes avança em sua reflexão e encontra, enfim, uma ideia da qual não pode duvidar. Acompanhe a seguir a estrutura lógica de seu argumento: 4 Adotar um ceticismo metodológico significa assumir temporariamente uma postu- ra cética (mesmo que esta não seja sua posição pessoal) apenas para testar ou refletir melhor sobre algum conhecimento. FED.indb 71 25/02/2016 14:40:05 – 72 – Filosofia da Educação — Eu duvido de todas as coisas. — Mas, ao duvidar de tudo, não posso duvidar do próprio fato de que estou duvidando. — Ora, duvidar é um modo de pensar. _____________________________________________ E se penso, logo existo. Ao encontrar esse “eu pensante” (em latim, ego cogito) como conhecimento indubitável atingido unicamente pela reflexão racional, Descartes tem a certeza de que a razão é a principal fonte de conhecimento do ser humano. Uma vez que, deixando de lado as percepções sensíveis, o pensamento pôde encontrar em si mesmo uma certeza, todo o verdadeiro conhecimento sobre as verdades eternas e universais deveria ser buscado por meio da atividade do espírito racional. Utilizando esse pressuposto racionalista, Descartes avança com sua investigação e passa a se perguntar se, além da ideia do cogito (a noção de que eu penso, logo existo), haveriam outras ideias claras e distintas presentes em seu pensamento. Assim, na terceira meditação, o filósofo se encontra com a ideia de Deus. Por meio de vários argumentos, Descartes afirma que a ideia de Deus como um ser infinito, que ele agora reconhecia possuir, não poderia ter se originado de sua própria imaginação. Afinal, como poderia uma cria- tura finita e limitada ter em si mesma a ideia de algo infinito e sem limites? A origem da ideia de Deus, portanto, deveria ser o próprio Deus, de modo que estaria provada a existência de ao menos uma coisa no mundo exterior, sem a ajuda das percepções sensíveis, isto é, apenas por meio do pensamento racio- nal. E, sendo essa “coisa” nada mais, nada menos que o Criador, ou a origem de todas as coisas, Descartes julgou estar garantida novamente a certeza sobre a existência do mundo exterior, contrariando o estado de dúvida hiperbólica com o qual iniciou suas Meditações. Em resumo, Descartes se utiliza da ideia de Deus para fundamentar a objetividade das representações do eu pensante e garantir a existência do mundo exterior. Essa solução causou um amplo debate, dividindo opiniões e marcando definitivamente o início da Filosofia Moderna. FED.indb 72 25/02/2016 14:40:05 – 73 – O pensamento moderno e a Filosofia da Educação Retornando à filosofia da educação, o que mais nos importa é o fato de que Descartes considerava que preexistem em nossa alma (ou mente) algumas ideias verdadeiras, independentes do nosso contato com as coisas exteriores através dos sentidos. Em outras palavras, o racionalismo tem como pressuposto a existên- cia de ideias inatas. 2.6 As ideias inatas e a educação Nas Meditações, Descartes afirmava já possuir em sua alma a ideia de Deus, de modo que essa representação seria um conteúdo “inato”, isto é, uma ideia que não nasce do nosso contato com o mundo através dos cinco senti- dos. Ao contrário, ela sempre esteve lá, desde o momento em que passamos a existir. Assim como a ideia de Deus, outras representações nos seriam inatas, como as leis lógicas do pensamento e as verdades matemáticas. Esse tipo de afirmação nos conduz a muitas perguntas sobre a natureza das ideias, de nossa própria consciência e do conhe- cimento. Afinal, trazemos em nosso íntimo um saber sobre o mundo, algo que precisa ser despertado? Ou, ao contrário, tudo que pensamos se deve à nossa experiência acumulada em anos de vida? Tal discussão reproduz o grande debate entre racionalismo e empirismo na Filosofia Moderna, cujas consequ- ências são imediatas para a educação. Para o racionalismo, algumas noções fundamentais do conhecimento já nascem com o sujeito. Enquanto o saber cotidiano adquirido pelos sentidos é falível, as ideias inatas devem ser sempre verdadeiras, pois provêm direta- mente da razão. Cabe à reflexão racional atingir o conhecimento verdadeiro discernindo e examinando todas as ideias que possuímos, até encontrar aque- las que são claras e distintas5. Descartes afirma nas Meditações que temos três tipos de ideias. Vejamos a seguir: 5 Para Descartes, “claro” é aquilo que se deixa conhecer nele próprio. “Distinto” corresponde ao que mostra em si mesmo as suas diferenças em relação aos demais, não se deixando confundir. FED.indb 73 25/02/2016 14:40:05 – 74 – Filosofia da Educação 2 Ideias adventícias: constituem a maior parte de nossas ideias. As ideias adventícias são assim chamadas porque “advêm” à nossa mente por meio dos sentidos, trazendo coisas novas, inteiramente diferentes do sujeito. 2 Ideias fictícias: são as ideias que construímos por meio da imaginação e da fantasia, unindo as informações trazidas pelas ideias adventícias com outros elementos escolhidos arbitrariamente por nós. Por exemplo, podemos facilmente pensar em algo que não existe, como um cavalo alado, unindo a noção de cavalo e a experiência de ter visto animais com asas. 2 Ideias inatas: são encontradas em nós, presentes na consciência desde o início da vida; mesmo que não possam ser percebidas pela razão em virtude de limitações do conhecimento. O inatismo não é uma exclusividade da filosofia cartesiana. Na Grécia Antiga, Platão também defendia a ideia de que a alma, por já ter contemplado o mundo das ideias, guardava consigo o conhecimento sobre as coisas do mundo. No diálogo Menon, a fim de provar que temos ideias verdadeiras em nossa alma, Sócrates (principal personagem dos diálogos platônicos) faz uma série de perguntas a um escravo analfabeto, conduzindo-o a extrair de seu íntimo difíceis conhecimentos sobre as figuras geométricas. Segundo Dalbosco (2012, p. 270): Temos aí, portanto, uma noção de conhecimento como algo que já está contido na alma previamente, antes de qualquer experiência, competindo ao mestre, por meio da arte da interrogação, fazer este conhecimento brotar de dentro do educando. [...] O resultado disso, do ponto de vista pedagógico, considerando a perspectiva do educando (aluno), é que ele é conduzido, do começo ao fim, como Sócrates fez com o escravo, a responder as perguntas que o mestre lhe impõe, sem poder formular suas próprias perguntas ou mesmo mudar a rota do diálogo. Destaca-se aí um papel de total subserviência do educando em relação ao educador. Além disso, a relação pedagógica entre educador e educando movimenta-se no âmbito conceitual e conteudístico,no qual já há uma verdade definida de antemão, competindo ao aluno recordá-la, desde que se mantenha fielmente no caminho retilíneo de questionamento preestabelecido pelo mestre. Guardadas as devidas proporções, a filosofia racionalista de Descartes também aponta as ideias inatas como o elemento central de nosso FED.indb 74 25/02/2016 14:40:06 – 75 – O pensamento moderno e a Filosofia da Educação conhecimento. Contudo, enquanto Platão considerava que aprender era “lembrar” de algo já visto pela alma no mundo das ideias, Descartes não se reporta à existência de uma realidade inteligível, apenas entende que a razão pode encontrar em si mesma, pelo trabalho analítico, diversos conteúdos preexistentes, independentes da experiência dos cinco sentidos. Quanto ao tema da educação, ficam evidentes as relações entre uma postura inatista (também chamada “apriorista”) sobre o conhecimento e o modo mais tradicional de ensino. Segundo essa pedagogia tradicional, a ênfase na repetição de lições e a centralização do aprendizado na figura do mestre são consideradas as condições necessárias para que o aluno possa percorrer o caminho que leva a desenvolver algo que ele já possui. Apenas o professor é capaz de levar a cabo essa “condução”, pois já percorreu anteriormente o mesmo caminho. Retornando à filosofia moderna, embora Descartes não tenha se dedicado a escrever diretamente sobre a educação, sua conhecida crítica ao ensino de sua época nos permite deduzir uma proposta de educação baseada em um método mais voltado para o desenvolvimento dos critérios da razão. Em outras palavras, o ensino deveria priorizar o desenvolvimento do raciocínio claro e positivo, visando à construção de um conhecimento seguro sobre as coisas. Essa ênfase na importância de métodos para se conhecer permanece como uma das maiores contribuições do racionalismo cartesiano para a educação. 2.7 O empirismo e o realismo pedagógico Sob a influência da filosofia cartesiana, vários pensadores do século XVII desenvolveram suas ideias na direção do racionalismo. Filósofos como Spinoza e Leibniz, mantiveram seus sistemas voltados para a capacidade da razão e para o pressuposto de que detemos em nosso intelecto certos saberes, isto é, ideias inatas. FED.indb 75 25/02/2016 14:40:06 – 76 – Filosofia da Educação Na Inglaterra, entretanto, surgiu uma tradição de pensamento oposta ao racionalismo, sustentada por pensadores como Thomas Hobbes, John Locke, Berkeley e, mais adiante, David Hume. Os empiristas ingleses, como ficaram conhecidos, concordavam com a importância da razão (ou intelecto) para a organização do conhecimento. Entretanto, afirmavam que, sem nosso primeiro contato com as sensações, nada poderíamos conhecer. Em outras palavras, são os dados da experiência (em grego, empeiría) que constituem a base fundamental para a formação de nossas ideias, segundo esta vertente. Assim, embora sustentando cada um suas próprias concepções filosóficas, os empiristas ingleses têm em comum a rejeição de alguns pressupostos do racionalismo. Sua principal alegação é a de que a experiência é anterior ao intelecto. Nesse sentido, a razão é subordinada às percepções sensoriais6. De fato, Descartes também afirmava que os nossos cinco sentidos nos oferecem ideias através de seu contato com o mundo (as ideias adventícias). Entretanto estas não seriam as mais seguras e nem as únicas que podemos ter. Discordando da teoria racionalista das ideias inatas, os empiristas sustentam que todas as nossas ideias são formadas a partir de nossa experiência prática com o mundo. Ainda que possamos contemplar diversas noções abstratas por meio da razão, tais noções complexas sempre se originam pela associação de ideias mais simples, as quais sempre nos são trazidas pelos cinco sentidos. Para os empiristas, conhecer significa captar uma relação entre ideias, as quais derivam sempre, direta ou indiretamente, das percepções sensoriais. Segundo a perspectiva empirista, as sensações devem ser consideradas a fonte primordial do conhecimento humano. Seu argumento é o de que de nada valeria o poder analítico da razão se não houvesse as informações obtidas pela nossa experiência sensível. Para John Locke, o espírito humano seria originalmente como uma folha de papel em branco ou, na linguagem de sua época, uma tábula rasa. Isso significa que, ao nascer, um homem nada 6 Percepções sensoriais são os dados ou as informações que recebemos de nossos sentidos. As imagens captadas pela visão, os sons, as impressões do tato e assim por diante. FED.indb 76 25/02/2016 14:40:06 – 77 – O pensamento moderno e a Filosofia da Educação traz em sua mente; tudo o que conhece começa a ser impresso em sua alma a partir dos dados fornecidos pelas sensações. Fonte: KNELLEREM, Sir Godfrey. Retrato de John Locke, 1697. State Hermitage Museum, St. Petersburg, Russia. Ao rejeitar as ideias inatas, Locke adota uma teoria sensibilista do conhecimento. Isso significa que, se todos os nossos saberes devem provir originalmente dos dados dos sentidos, é preciso explicar de que forma ocorre esse processo. Para isso o filósofo empirista desenvolve uma complexa teoria do conhecimento. Não cabe aqui expor toda a estrutura desta teoria, mas seguem alguns de seus traços gerais: Empirismo: a formação das ideias Todas as nossas ideias advêm inteiramente da experiência. Nossa experiência, porém, manifesta-se interna e externamente. Pela experiência externa (as sensações) conhecemos os corpos. Já pela experiência interna (a reflexão) conhecemos nossos próprios estados de consciência. Assim, as ideias podem ser simples ou complexas. a) Ideias simples se formam pelas sensações, pela reflexão (comparação entre ideias que já temos) ou pela união entre essas duas fontes (sensação + reflexão). FED.indb 77 25/02/2016 14:40:06 – 78 – Filosofia da Educação b) Ideias complexas se referem a modos (objetos de sensação, como o espaço, o tempo ou os números), a substâncias (corpo- rais, espirituais e a substância divina) e a relações (causalidade, identidade, conceitos morais). No esquema anterior, as ideias simples encontram-se diretamente ligadas às percepções dos objetos externos, isto é, as sensações visuais, os aromas, os sabores e demais dados fornecidos por nossos cinco sentidos. Além dos dados dos sentidos, Locke considera também como ideias simples as reações de nossa mente às percepções, ou seja, nossas distinções elementares entre objetos, com- parações, composições e outras operações do intelecto. Já as ideias complexas são formadas a partir da atividade do intelecto ao lidar com conjuntos de ideias simples. Em síntese, somos capazes de reunir ou separar ideias com base em um determinado sentido, assim como de extrair de certo conjunto de ideias alguma noção geral. Resultam desta atividade intelectual ideias complexas e abstratas como as noções de espaço, de duração, de substância e também das relações lógicas percebidas pelo espírito (causalidade, identidade etc.). É importante observar que, ao tomar as ideias em si mesmas, um empirista não as compreende ainda como “conhecimento” propriamente dito. Apenas a percepção da concordância ou discordância das ideias em relação ao mundo (atestada pelas relações de identidade ou diversidade, de conexão lógica e de existência) é que nos confere efetivo conhecimento sobre as coisas, defendem os empiristas. O conhecimento, portanto, constitui-se pela relação direta com a experiência, e não como resultado da intuição racional, como queriam os racionalistas. Para o nosso presente estudo, mais importante que com- preender os detalhes da teoria lockeana da formação das ideias é atentar para o seguinte fato: tentando descrever a forma específica pela qual as impressões sensíveis são captadas por nosso aparelho perceptivo e se transformam em ideias assimiladas pelo intelecto, os filósofos empiristas FED.indb 78 25/02/2016 14:40:06– 79 – O pensamento moderno e a Filosofia da Educação construíram os primeiros esquemas cognitivos. Tal estudo sobre a percepção e a composição do conhecimento humano foi levado adiante por diversas vertentes das ciências huma- nas, como a psicologia, a pedagogia e a linguística. Hoje, os estudos sobre a cognição avançam para o campo da neuro- fisiologia e da biologia evolutiva, situando-se em um novo paradigma de compreensão sobre o modo como aprendemos. Você deve estar percebendo como a teoria empirista encaminha uma perspectiva mais científica sobre o conhecimento, voltada para a experiência prática. Mas quais seriam as influências da epistemologia empirista para a educação? Ora, um empirista tende a dar mais valor àquilo que causa nossas percepções; aos objetos dos sentidos presentes na realidade que nos cerca. Assim, em conexão com o empirismo moderno, surge a tendência pedagógica realista, adotada por alguns pensadores como Amós Comênio e o próprio John Locke. Embora assuma variadas formas ao longo da história do pensamento, a noção geral do realismo pode ser compreendida como a tese segundo a qual as coisas que percebemos existem de forma independente da mente humana. Voltado para a pedagogia, o realismo propõe que o processo educativo parta do aprendizado das coisas, diretamente, e não das palavras ou dos pensamentos. Enfatiza-se, assim, o caráter prático do ensino e a atenção aos resultados dos processos de aprendizagem. Entra em cena o tema da didática na educação, ou seja, a discussão sobre as técnicas para ensinar e os respectivos níveis de aproveitamento deste ensino pelos alunos. Saiba mais Educação realista é aquela que se baseia na concepção do domínio do mundo exterior sobre o mundo interior, da supre- macia das coisas sobre as palavras e, por conseguinte, da supe- rioridade pedagógica dos fenômenos naturais e das instituições sociais sobre as línguas e a literatura. FED.indb 79 25/02/2016 14:40:06 – 80 – Filosofia da Educação Tal foi a doutrina educativa que encontramos dominando o pensamento pedagógico do século XVII, ainda que sem grandes reflexos diretos no âmbito da prática escolar. (SANTOS, 1960, p. 265) Vejamos a seguir as ideias pedagógicas dos dois pensadores recen- temente citados. 2.8 Amós Comênio e a Didática magna No século XVII, João Amós Comênio foi o precursor de uma nova forma de compreender a educação, registrada em sua principal obra, a Didática magna. Nascido em família protestante na Europa Central, Comênio foi herdeiro das reflexões de Lutero sobre a educação, buscando um ensino útil e conferindo muita importância à educação infantil. O autor dedicou-se com profundidade a refletir sobre as diferenças entre o processo de ensinar e os processos de aprender. Sua intenção era a de construir um método universal, isto é, procedimentos que permitissem ensinar “tudo a todos”. A publicação da Didática magna pode ser tomada como o primeiro impulso de uma sistematização para a pedagogia no Ocidente. Mantendo suas raízes protestantes, Comênio se propôs a repensar o modelo de escola predominante na Europa, praticado até então pelos jesuítas e voltado principalmente para as classes dominantes da sociedade. A educação de caráter abstrato, intelectualista e extremamente rígida deveria ser substituída por um ensino mais prático. Para Comênio, a educação deveria partir das coisas que conhecemos e lidamos diretamente no dia a dia. Trata-se de tentar desenvolver um “ensino vivo” através de processos práticos em que fossem utilizadas coisas, e não apenas símbolos, ou seja, a linguagem escrita presente nos livros. A didática aparece, então, como a arte de saber ensinar. Um mestre deve dominar não somente o conteúdo que ensina, mas também os meios que utiliza para levar seus alunos a um efetivo aprendizado desse conteúdo. Em sua época, Comênio foi o primeiro a introduzir imagens como recurso didático. Ele também priorizava o desenvolvimento dos diferentes sentidos, criando brincadeiras e atividades externas às salas de aula. Sua proposta FED.indb 80 25/02/2016 14:40:06 – 81 – O pensamento moderno e a Filosofia da Educação pedagógica era contrária à rígida disciplina e aplicação de castigos físicos; o autor apresenta uma nova concepção de criança, que deveria ser tratada com delicadeza e cuidado, a fim de aperfeiçoar seus poderes naturais. A pedagogia de Comênio conjuga vários elementos do realismo, como o estímulo ao aprendizado por meio das sensações e a preocupação em aprender com as coisas do mundo, isto é, com a realidade externa. Mas a orientação empirista e realista de suas ideias não exclui a valorização da formação religiosa, que, em sua opinião, deveria constituir a finalidade última da educação. A despeito das propostas inovadoras presentes na Didática magna, na prática poucas mudanças foram efetivamente implantadas em uma escala significativa no ensino escolar. Segundo Santos (1960), por quase dois séculos o pensamento de Comênio e sua obra permaneceram praticamente desconhecidos. 2.9 John Locke Como vimos anteriormente, de acordo com o esquema empirista proposto por Locke, o entendimento humano trabalha com ideias simples e complexas. Nesse contexto, o termo “ideia” se refere a tudo o que possa ser objeto de nosso intelecto quando pensamos. Para o filósofo, as ideias estão presentes em nossa mente, mas são sempre produzidas pela influência direta ou indireta dos objetos que percebemos. A perspectiva empirista de Locke se reflete diretamente em suas concepções pedagógicas. Ao contrário de Descartes, do qual apenas podemos deduzir certas noções pedagógicas de seu racionalismo, Locke se dedicou especificamente ao tema da educação e do ensino escolar, escrevendo a obra Alguns pensamentos sobre educação (1693). Em conexão com suas influências no campo político (o filósofo foi um dos fundadores do liberalismo político), esse livro tornou-se um clássico da literatura pedagógica no século XVIII, alcançando grande reconhecimento entre as classes emergentes. Segundo Locke, a educação deveria basear-se não apenas na instrução, mas sobretudo na formação do ser humano. Mais do que apenas conhecer, é preciso desenvolver o aspecto físico, intelectual e moral das crianças e dos jovens, formando verdadeiros cavalheiros (gentlemans) no que se refere aos FED.indb 81 25/02/2016 14:40:06 – 82 – Filosofia da Educação costumes e à boa conduta. O treino e aperfeiçoamento do comportamento, portanto, seriam um elemento fundamental da educação. Mas, afinal, de que modo a proposta pedagógica lockeana traz os ideais empiristas para a prática do ensino? Ora, uma vez que o intelecto humano nasce sem nenhuma impressão prévia (ideia inata), como se fosse uma tela em branco a ser preenchida pelos dados da experiência, faz-se necessário um direcionamento preciso e cuidadoso para a educação infantil. As crianças devem aprender gradualmente com os objetos a elas apresentados, valorizando-se as informações e vivências que estes podem lhe propiciar. Desse modo, ao professor caberia um criterioso direcionamento dos alunos por meio de bons exemplos e da escolha de práticas de aprendizagem adequadas para cada idade. Opondo-se aos racionalistas, Locke combate a ideia de que as noções de moral, de bondade ou de Deus seriam algo intrínseco ao ser humano. Ao contrário, para esse filósofo, todo o nosso conhecimento começa ao nascermos, concomitantemente às nossas primeiras sensações e percepções. Portanto, todos esses valores precisam ser alcançados tão somente pelo aprendizado racional. Observe, então, que, na perspectiva, empirista é a capacidade de aprender que se encontra presente desde o início no ser humano; e não esta ou aquela ideia determinada. A oposição entre racionalismo e empirismo presente na filosofia moderna constitui o que podemos chamar de epistemologia tradicional. Seu traço mais marcante para a filosofia da educação é o predomínio da separaçãoentre o sujeito que conhece e o objeto conhecido. Preocupado em sustentar a existência de ideias inatas e seu papel fundamental como base de nossos demais saberes, o racionalismo deu prioridade ao sujeito e sua capacidade para alcançar o conhecimento. O empirismo, por sua vez, inverteu essa ordem priorizando o objeto, e as informações que ele proporciona ao sujeito, através dos dados dos sentidos. E é por isso que as ideias pedagógicas de Locke são consideradas realistas, pois FED.indb 82 25/02/2016 14:40:06 – 83 – O pensamento moderno e a Filosofia da Educação estão focadas no conhecimento do mundo (o objeto, a realidade sensível), que se apresenta como algo cuja existência independe da mente humana. Ao dar ênfase aos objetos do conhecimento, Locke prioriza mais a prática que o conteúdo. “O saber constitui apenas um elemento para a conquista de hábitos intelectuais por meio do exercício e da disciplina.” (SANTOS, 1960, p. 279). Em sua opinião, as crianças não trazem do berço motivações naturais para o aprendizado. Afinal, pelo reduzido acúmulo de dados da experiência, a mente humana, em seus primeiros anos de vida, não seria capaz de um desenvolvimento autônomo do raciocínio e de seus valores morais. Somente com mais alguns anos de vivência, surgiria o gosto por aprender coisas novas. Assim, é muito importante que os educandos sejam constantemente estimulados a aprender, sendo seduzidos por estratégias criadas pelo educador. Nas palavras de Ozmon e Craver (2004, p. 81): Os realistas pensam que o aspecto factual de aprender não deveria ser doloroso ou maçante; de fato, eles dizem que a aprendizagem deveria ser tão agradável quanto proveitosa. Locke pensava que a brincadeira era um evidente auxílio ao aprendizado. Parece que ele teve uma grande compreensão da psicologia infantil e defendeu métodos que hoje são considerados modernos. Ainda que inovadoras em muitos aspectos, as reflexões pedagógicas de Locke foram exclusivamente direcionadas à formação da elite burguesa, a qual assume a propriedade dos meios de produção na Inglaterra a partir da Revolução Industrial. Bem adequados à lógica do pensamento liberal, seus esforços recaem apenas sobre a formação do cavalheiro burguês, cuja conduta moral e as boas maneiras teriam prioridade, inclusive, sobre a ins- trução teórica. Na visão do autor, ao educar com perfeição os homens que dirigem a sociedade, estaria garantido o bom andamento dos demais setores sociais, dado que o povo em geral tende a seguir e copiar seus líderes. Considerando esse ponto de vista, bem próprio do pensamento aristo- crático inglês, não é difícil perceber que a filosofia da educação lockeana é alvo de diversas críticas, as quais coincidem com a oposição contemporânea às pedagogias liberais: elabora-se um projeto educativo, mas alheio a um pro- jeto político que atenda aos interesses do conjunto dos homens, que propor- cione iguais oportunidades e condições de vida a todos. FED.indb 83 25/02/2016 14:40:06 – 84 – Filosofia da Educação 2.10 O Iluminismo e a filosofia da educação de Jean-Jaques Rousseau As grandes transformações no modo de vida e no pensamento europeu iniciadas no Renascimento fizeram do século XVII um período histórico turbulento, marcado por diversas polêmicas. Entre elas, o atrito entre a Revolução Científica e os dogmas da Igreja, o intenso debate filosófico entre racionalistas e empiristas, a ascensão da classe burguesa e as disputas entre a Reforma Protestante e a Contrarreforma. Como resultado de todas essas mudanças, surgiu, no século XVIII, o Iluminismo, um movimento filosófico de exaltação da razão humana, voltado para o progresso e para o desenvolvimento da cultura. Em seus traços gerais, os iluministas se dedicaram a elaborar uma defesa e um elogio do conhecimento científico e da confiança na razão humana como principal instrumento de progresso e libertação do homem. O Iluminismo consistiu em um movimento complexo, não circunscrito a apenas uma filosofia ou doutrina. Antes, trata-se de um conjunto de ideais difundidos por toda a Europa e motivados por elementos distintos. A prerrogativa do uso crítico e livre da razão buscava rejeitar qualquer tipo de imposição cultural mantida como herança do passado, seja pela filosofia, pela religião ou pelos costumes. Para o nosso presente estudo, vamos nos concentrar em dois elementos presentes nas ideias de vários pensadores iluministas: a oposição à metafísica tradicional e a luta pela educação laica e de responsabilidade do Estado. 2.11 A oposição à metafísica tradicional Tomado como um esforço consciente de valorização da razão, o ideal iluminista de conhecimento encontrou no empirismo a sua base filosófica, rejeitando, assim, as concepções metafísicas7 predominantes no século XVII. 7 Em seu sentido literal a partir da língua grega, metafísica significa: “aquilo que está para além da física”. Esse conceito se refere aos temas da filosofia que se estendem para adiante do mundo que experimentamos com os sentidos. Falar sobre a alma, Deus ou da existência de realidades que não podemos captar pelos sentidos é referir-se a elementos metafísicos. FED.indb 84 25/02/2016 14:40:06 – 85 – O pensamento moderno e a Filosofia da Educação Immanuel Kant, para alguns o maior filósofo da modernidade, desenvolveu uma filosofia crítica, cujo objetivo era o de conhecer os limites de nossa razão e determinar até onde realmente podemos chegar com nosso conhecimento. Diferente da maior parte dos primeiros filósofos modernos, Kant deixa de considerar o pensamento como uma substância (propriedade da alma) e passa a entendê-lo como uma operação da razão pura. Nesse sentido, conhecer não é algo que se relaciona a supostas ideias inatas dadas à alma, mas sim com a capacidade da razão para organizar os múltiplos dados de nossa experiência sensível. Segundo Kant, o conhecimento empírico, isto é, os saberes que obtemos através de nossos cinco sentidos, sempre pode ser confirmado ou negado pela observação direta do que ocorre no mundo. Já um discurso que afirme a existência de objetos inobserváveis pelos sentidos ou pela ciência (tais como as ideias inatas) somente pode ser defendido por meio de argumentações filosóficas, mas não comprovado por qualquer tipo de experiência prática. Por isso mesmo, qualquer discurso de caráter metafísico (ainda que não necessariamente falso) corre o risco de recair em especulações inverificáveis, que se prendem a crenças infundadas ou argumentos inválidos. Para Kant e outros iluministas, o passado do homem europeu esteve envolto em trevas pelo dogmatismo religioso e filosófico. Somente a razão crítica poderia iluminar o caminho para fazer de nossa sociedade um mundo melhor. E a direção a ser seguida seria a da introspecção, da autonomia do indivíduo, do livre exercício das capacidades humanas e do engajamento político-social. Olhando para a educação, podemos perceber nitidamente o resultado dessa oposição do Iluminismo às metafísica tradicional: Questionada a ideia da razão como uma substância, isto é, como a essência metafísica ser humano, começa a cair por terra a concepção essencialista da educação. Em outras palavras, para os iluministas, nem a filosofia nem a religião devem determinar de antemão um ideal de homem a ser seguido, cabendo à educação conduzir todos a esse único objetivo. FED.indb 85 25/02/2016 14:40:06 – 86 – Filosofia da Educação 2.12 Luta pela educação laica e de responsabilidade do Estado Mesmo com todas as transformações no pensamento filosófico e no conhecimento científico, a educação escolar do século XVII havia se mantido essencialmente de orientação religiosa, agora dividida entre as ordens protestantes e as católicas. Embora houvesse algumas manifestações contra o domínio praticamente absoluto das instituições de ensino pelas autoridades eclesiásticas, nenhuma tentativa de mudança desse quadro tornou-se significativa até o finaldo século. Contudo, por diversos fatores históricos e sociais, como o desenvolvimento do capitalismo, o Iluminismo agora se encontrava em posição de reivindicar o ensino laico, isto é, sem direcionamento religioso, e sob responsabilidade do Estado. O princípio filosófico que permitiu aos iluministas sustentar essa separação entre educação e religião foi justamente a afirmação da autonomia da razão para compreender o mundo. Mas é importante notar que tal separação não significava necessariamente o banimento da religião em nome de um materialismo. No lugar da transmissão de dogmas religiosos, os iluministas propunham o exercício de uma “fé neutra”, o deísmo. O deísmo seria uma espécie de crença racional e natural em Deus, que permanece essencialmente empírica e se afasta de qualquer concepção metafísica, admitindo somente aquilo que a razão humana possa conhecer. Immanuel Kant foi um dos maiores defensores da laicização do ensino, enfatizando a necessidade de implantação da escola leiga, universal e gratuita mantida pelo Estado. Nessa mesma direção seguiram outros pensadores iluministas, como Condorcet, que, no período histórico que se seguiu à Revolução Francesa, concebeu e apresentou à assembleia legislativa um minucioso relatório para a construção de um Plano de instrução nacional. Construído com base no espírito iluminista de valorização da razão e da autonomia, esse documento influenciou posteriormente muitos movimentos de criação das escolas públicas em diferentes países, inclusive no Brasil. Assim, foram as ideias iluministas as principais responsáveis pela organização da educação escolar tal como a conhecemos hoje. FED.indb 86 25/02/2016 14:40:06 – 87 – O pensamento moderno e a Filosofia da Educação Além da luta pela universalização e laicização do ensino, suas propostas incluíam o uso das línguas vernáculas, em detrimento do latim, e a inclusão de um conteúdo menos abstrato e mais técnico voltado para as ciências e a prática de diferentes ofícios. Essa nova maneira de pensar a educação encontra-se presente também na pedagogia elaborada por Rousseau, que passaremos a conhecer a seguir. 2.13 Rousseau e a pedagogia do Emílio Além de ter se tornando um dos maiores teóricos da educação na Modernidade, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) foi também um eminente pensador da filosofia política e crítico da sociedade burguesa europeia. Seu pensamento apresenta um caráter singular que não permite enquadrá-lo facilmente em apenas uma corrente filosófica. Embora motivado pelos ideais iluministas, afastou-se radicalmente da exaltação da cultura, tão característica desse movimento. Mais voltado à natureza e à valorização dos sentimentos do indivíduo, antecipou aspectos do romantismo do século XIX. E, mesmo dedicado à teoria política do contratualismo8, opunha-se à concepção negativa do homem em seu “estado de natureza”, conforme sustentada por outros pensadores como Hobbes e Locke. Suas ideias liberais contribuíram de forma substancial para o cenário cultural da Revolução Francesa. Embora o movimento iluminista tenha sido responsável por grandes transformações na ideologia, na política e na sociedade europeia, a educação não sofreu as mudanças imediatas sonhadas pelos integrantes desse movimento, e muitas das inovações propostas foram recusadas ou minimizadas pelas autoridades. Assim, mesmo com o impulso de criação das escolas públicas, do ponto de vista da pedagogia, o ensino do século XVIII ainda guardava boa 8 O contratualismo é a teoria política segundo a qual o nascimento do Estado moderno deriva de um contrato social, ou seja, do acordo entre todos os homens para respeitar uma autoridade maior, capaz de manter a ordem e a paz através das leis. FED.indb 87 25/02/2016 14:40:06 – 88 – Filosofia da Educação parte dos traços das instituições tradicionais: um ensino estático e autoritário, sempre centralizado na figura doutrinária do professor. Contribuiu para manter esse quadro o princípio contratualista segundo o qual o estado primitivo da vida humana (o chamado “estado de natureza”) era predominantemente marcado pela guerra e pela maldade. Segundo essa teoria política, a paz na sociedade apenas passa a prevalecer quando os homens renun- ciam, em parte, aos seus direitos e concebem as leis, isto é, um contrato social responsável por suprimir o estado de natureza e instituir o Estado organizado política e socialmente. Nesse sentido, caberia à educação principalmente um papel civilizatório, ou seja, a tarefa de retirar a criança desse estado selvagem e originalmente mau para torná-la boa por meio da cultura e dos bons costumes. Em 1762, Rousseau publicou o ensaio pedagógico Emílio ou Da educação, pronunciando-se radicalmente contra essa forma de conceber a educação. O Emílio ou Da educação é um romance que descreve o percurso com- pleto da educação de um jovem, Emílio, por um mestre ideal, capaz de guiar seu discípulo pelos caminhos da liberdade em harmonia com a razão. Um dos elementos responsáveis por conferir à pedagogia de Rousseau um caráter revolucionário é a inversão metodológica quanto ao centro da reflexão sobre o ato de educar: não é mais o professor o centro da discussão pedagógica, e sim o próprio aluno. No Emílio, Rousseau enfatiza a necessidade de que o educador se volte para a criança e seus estágios de desenvolvimento, a fim de estruturar a ação educativa. Em outras palavras, a criança, e a infância de um modo geral, devem ser compreendidas em suas singularidades. Segundo o autor, ao tentar exigir da criança um comportamento adulto, por meio de excessiva disciplina e repreensões, acabamos por ignorar as peculiaridades da infância, oferecendo um ensino fora de contexto. Quanto a esse ponto, Rousseau se opunha veementemente à pedagogia de seu tempo, que, em sua opinião, considerava a criança um “adulto em miniatura”. FED.indb 88 25/02/2016 14:40:06 – 89 – O pensamento moderno e a Filosofia da Educação Discordando dos demais filósofos contratualistas, Rousseau não consi- derava a natureza humana originalmente má. Ao contrário, o filósofo considerava que o homem em seu estado de natureza era bom, sendo gradualmente corrompido pelos maus hábitos gerados pela vida social. Podemos identificar essa postura na pedagogia do Emílio: não é o papel da educação moldar a criança segundo a cultura, salvando-a da suposta ignorância presente no estado de natureza. Antes, é preciso evitar que ela se torne má, conservando a sua bondade natural e protegendo-a dos maus costumes através do desenvolvimento de seu senso crítico autônomo. O Emílio apresenta uma separação de capítulos que corresponde aos diferentes períodos da educação de seu jovem protagonista. O primeiro capítulo aborda os seus primeiros meses de vida e se estende até o início da fala. O segundo trata da primeira infância até os doze anos. O terceiro cobre o período dos doze aos quinze anos. O quarto capítulo vai dos quinze anos até a época do casamento de Emílio. A divisão do Emílio ou da educação com base nas diferentes fases da educação do jovem Emílio representa muito mais do que um mero recurso literário, pois aí se revela outro princípio inovador da pedagogia rousseauniana. Para as diferentes fases de desenvolvimento da criança devem corresponder tipos específicos de ensino e de conteúdo, de modo a não antecipar conhecimentos que o aluno não seja capaz de assimilar. Utilizando um modelo progressivo de educação, conforme descrito anteriormente, o sábio professor de Emílio permitiu que ele vivesse plenamente sua infância, exercitando seu aprendizado do forma espontânea através do contato com a natureza. Desse modo, nas primeiras fases da educação infantil as potencialidades racionais da criança devem ser desenvolvidas por meio da observação e do contato com as coisas, de acordo com seu interesse imediato. Somente aos doze anos, teria início o ensino com uso dos livros. E, atingindoos dezesseis anos, o jovem Emílio começaria a receber a educação voltada à responsabilidade, ao dever e demais princípios morais. FED.indb 89 25/02/2016 14:40:07 – 90 – Filosofia da Educação Segundo Rousseau, não seria adequado para a educação infantil o estímulo extremado do raciocínio lógico nem a transmissão do ensino religioso. De uma forma bem menos impositiva, a atuação do educador nesses primeiros períodos deveria consistir na observação atenta e constante, mas sem muitas inter- venções nas ações da criança. Nas palavras do autor: “o preceptor não deve dar pre-ceitos e sim fazer com que eles sejam encontrados” (2005, p. 29). Com base nas observações sobre o Emílio descritas, podemos compreender melhor algumas denominações geralmente aplicadas à pedagogia de Rousseau. Em primeiro lugar, o filósofo é considerado um naturalista. Este conceito (com relação a Rousseau) indica o pressuposto de que a educação não deve se fiar às convenções sociais artificialmente estabelecidas, senão que deve adotar o caminho da espontaneidade natural do comportamento infantil, e também da espontaneidade da própria natureza em nos proporcionar vivências e aprendizados significativos. Em segundo lugar, atribui-se a Rousseau uma Pedagogia negativa, pois, nos períodos iniciais do ensino, a ação do educador deve se restringir a poucas intervenções na natureza do educando, apenas conduzindo os seus impulsos na direção de novas descobertas. Além disso, as reflexões de Rousseau indicam principalmente aquilo que o educador não deve fazer, de forma que a própria natureza do educando não seja sobrecarregada por muitas influências alheias, prejudicando, assim, a formação de sua individualidade. Em terceiro lugar, a pedagogia de Rousseau pode ser considerada não essencialista; o filósofo acreditava que a educação não poderia ser pensada como apenas um meio para formar o homem religioso ou torná-lo um seguidor de alguma doutrina filosófica. Antes, a educação deveria ter um fim em si mesma. O homem teria de aprender a viver para si, e não exclusivamente para Deus, para a pátria ou para a sociedade. A proposta pedagógica não essencialista de Rousseau de fato encontrava-se muito à frente de seu tempo. Sendo considerado o inventor da ideia moderna de criança, o filósofo foi capaz de fornecer os elementos para uma ampla e fundamentada discussão com as formas tradicionais de ensino, não apenas em termos metodológicos, mas também como crítica filosófica ao conceito de homem. Desse modo, o Emílio continua sendo uma literatura pedagógica de extrema relevância até os dias de hoje, influenciando as correntes pedagógicas da perspectiva histórico-crítica, como veremos no capítulos seguintes deste livro. Para Dalbosco (2012, p. 273): FED.indb 90 25/02/2016 14:40:07 – 91 – O pensamento moderno e a Filosofia da Educação A educação natural [proposta por Rousseau] diferencia-se da educação tradicional na medida em que nega a teoria das ideias inatas e o princí- pio metodológico a ela correspondente do ensino da criança pela razão (educação verbal), colocando em seu lugar o ensino pelos sentidos e pela experiência (educação ativa). Há, no entanto, um conceito filosó- fico de ser humano que sustenta o significado e a profundidade desta mudança operada pela educação natural, que é o conceito de perfecti- bilidade humana. [...] Procurando investigar o que tornou possível a sociabilidade humana, fazendo com que o homem evoluísse do estado selvagem para o estado civil, Rousseau vê na capacidade humana de se aperfeiçoar, ao lado da liberdade, o aspecto decisivo de tal evolução. A proposta de uma pedagogia não essencialista, porém, não deve ser confundida com uma educação “sem rumo”, somente motivada pelos impulsos e pelas emoções. Para Rousseau, a razão e os sentimentos deveriam sempre permanecer sob o controle da “liberdade bem guiada”, voltada para o equilíbrio entre a felicidade pessoal e o bem comum. Aqui nos deparamos com os grandes desafios que se apresentam à pedagogia idealizada no Emílio, como nos mostra Maria Lúcia de Arruda Aranha, em Filosofia da educação: É portanto delicada a função do professor na pedagogia rousseauniana. Se não deve impor o saber à criança, tampouco pode deixá-la no puro espontaneísmo. Afinal, ela deve aprender a lidar com os próprios desejos e a conhecer os limites para se tornar um indivíduo adulto dono de si mesmo. (2006, p. 209). Essa citação permite-nos vislumbrar as críticas mais frequentes à pedagogia não essencialista de Rousseau. Em primeiro lugar, a educação ideal recebida por Emílio pode ser considerada individualista, pois se realizou de forma isolada do convívio social e com a plena dedicação do educador a um só aluno. Não haveria aí uma forma de exclusão, colocando o educando à margem da sociedade? Em segundo lugar, como aplicar as condições do ensino ideal ministrado a Emílio (a formação permanente e a dedicação exclusiva do mestre) ao mundo de hoje? Como transportar esse modelo para a realidade do ensino coletivo, que deve se estender a todas as camadas da sociedade? Não seria esse um ideal elitista de educação? Essas críticas são, de fato, bastante pertinentes, revelando a grande complexidade que se estabelece entre teoria e prática, quando o tema é a educação. Em defesa de Rousseau, apenas convém lembrar que a obra Emílio aborda as condições ideais para a educação. Trata-se de uma abstração metodológica cujo objetivo foi o de apontar os princípios gerais de uma nova FED.indb 91 25/02/2016 14:40:07 – 92 – Filosofia da Educação forma de pensar a pedagogia e o próprio ser humano. Muitos desses princípios valem por si mesmos, demarcando a direção de uma pedagogia mais humana e consciente das especificidades da infância e da juventude. Síntese Neste capítulo acompanhamos a influência do advento da Modernidade e do desenvolvimento da Filosofia Moderna para a Educação. A partir de grandes transformações sociais, econômicas, políticas e ideológicas, o rompimento com a tradição medieval coloca em curso um novo modelo de desenvolvimento da cultura europeia. O Renascimento da cultura greco-romana, a Reforma Protestante e as grandes descobertas da ciência relativizaram os valores medievais e prepararam o terreno para a virada antropocêntrica que marca o pensamento moderno. No campo específico do pensamento filosófico, o tema do conhecimento se torna o centro das atenções a partir da filosofia racionalista de René Descartes. A teoria cartesiana das ideias inatas, porém, receberá a oposição da corrente empirista, representada por pensadores como Hobbes e John Locke. Para os empiristas não existem ideias inatas e todo o nosso conhecimento provém da experiência. Da perspectiva empirista decorre o realismo pedagógico, que ensaia as primeiras propostas de uma educação menos intelectualista e mais voltada para o corpo e o aprendizado prático, através de pensadores como Comênio e do próprio John Locke. A disputa entre o Racionalismo e o Empirismo se estende por toda a Filosofia Moderna, constituindo a base da epistemologia tradicional. Mas, no século XVIII, a ênfase na razão e o empirismo confluem para a formação do movimento iluminista. Entre as contribuições significativas do Iluminismo para a educação, encontra-se a reivindicação por um ensino laico e de responsabilidade do Estado, sustentada por filósofos como Kant e Condorcet. Nesse contexto surgem as ideias de Jean-Jaques Rousseau e a elaboração de uma proposta pedagógica diferente das tendências traçadas para a educação até aquele momento. Sobretudo pela centralização no aluno e pela concepção da educação como um fim em si mesma, a pedagogia rousseauniana pode ser classificada como uma proposta não essencialista para a educação, antecipando consideravelmente as preocupações da filosofia da educação contemporânea. FED.indb 92 25/02/2016 14:40:07 3 Novas imagens do homem Agora que já temos conhecimentos sobre asbases da filosofia moderna e suas influências para a filosofia da educação, estamos em condições de dar um passo adiante, estudando a formação de novas imagens do homem e, por conseguinte, novas perspectivas pedagógicas. Para isso, além das discussões sobre a teoria do conhecimento, é preciso investigar as diferentes “imagens do homem” predominantes em cada momento histórico. Este conceito se refere à antropologia filosófica, isto é, “a investigação sobre o conceito que o ser humano faz de si próprio, de suas faculdades, habilidades e ações que orientam sua vida ao responder à questão: “O que é o ser humano?’” (ARANHA, 2006, p. 150). FED.indb 93 25/02/2016 14:40:08 – 94 – Filosofia da Educação Cada momento histórico ofereceu e oferece diferentes respostas a questões como “O que é o conhecimento?”, “O que é o homem?”, “Para que ensinar?”. No estudo desta unidade, agrupamos as ideias e contribuições de diferentes pensadores e escolas a partir do final do século XIX em duas posturas filosóficas distintas que virão se opor ao essencialismo, oferecendo novos instrumentos teóricos para pensar a educação e seus pressupostos: o naturalismo científico e a perspectiva histórico-crítica. Pela via da reflexão sobre o conhecimento, o naturalismo representa o modo científico de pensar, cujas influências se estendem na direção das concepções educacionais de cunho tecnicista. Pela via da reflexão sobre o papel social e político da educação, a perspectiva histórico-crítica enfoca a análise crítica da educação como ação transformadora do mundo. Tais perspectivas constituem a orientação geral para as principais correntes pedagógicas contemporâneas. Conhecendo-as, você, será capaz de refletir criticamente sobre a educação contemporânea e suas principais questões. 3.1 A imagem naturalista científica do homem Para compreender as novas imagens do homem que ganham vida a partir do século XIX, é preciso ter em mente não apenas o desenvolvimento das ideias filosóficas, mas uma série de outros eventos históricos, como a Revolução Industrial e o desenvolvimento inicial do capitalismo mercantil. Vejamos, portanto, uma breve contextualização histórica. 3.1.1 A Revolução Industrial e o positivismo Desde o século XVII vinham sendo introduzidas na Inglaterra transformações no modo artesanal de produção de materiais e no trabalho rural. Assim, na segunda metade do século XVIII, tem início na Inglaterra a Revolução Industrial, que se difundiu gradualmente por toda a Europa. Surge, nesse período, a maquinofatura, ou seja, a mecanização dos processos de produção agrícola e industrial. Aparecem também as primeiras máquinas a vapor e as inovações na metalurgia, na indústria têxtil e na mineração. A utilização das máquinas exigiu uma padronização do trabalho, causando profundas transformações no processo produtivo e na circulação do capital. FED.indb 94 25/02/2016 14:40:08 – 95 – Novas imagens do homem Todas essas transformações provocam uma nova relação entre capital e trabalho. Com a nova forma de produção industrial, o controle dos meios de produção deixa as mãos dos trabalhadores e se transfere exclusivamente para a nova classe burguesa industrial. Surge então uma grande massa de operários cujo único meio de vida é a venda de sua força de trabalho. Fonte: SCOTT, Willian Bell. Ferro e Carvão, 1855-60. National Trust, Wallington, Northumberland. As grandes mudanças introduzidas pela Revolução Industrial fizeram-se sentir de forma concreta no campo da educação. O rápido desenvolvimento do cenário capitalista produziu novas profissões e a necessidade de um trabalhador mais preparado para operar máquinas e outros meios de produção. A crescente demanda pela escolarização da classe trabalhadora dá início a uma série de transformações no ensino escolar. Acompanhe: 2 A educação fundamental torna-se indispensável como modo de preparação das classes menos favorecidas para o trabalho industrial. Surgem no século XIX os primeiros projetos de escolas públicas por toda a Europa. 2 Além da nova educação direcionada à classe popular, o ensino elitizado das escolas tradicionais (antes voltado apenas à nobreza feudal) agora passa a receber as classes mais favorecidas da burguesia. Também nesse caso ocorrem transformações significativas para FED.indb 95 25/02/2016 14:40:08 – 96 – Filosofia da Educação adaptar a escola à nova realidade social. Em lugar da tradicional educação humanística, que priorizava as letras e a formação intelectual, o estudo das ciências e da matemática aplicada ganha destaque no conteúdo escolar, juntamente com a formação técnica especializada. 2 Em comparação ao período feudal europeu, a expansão e populariza- ção das escolas representou um grande avanço. Por outro lado, tem início o dualismo pedagógico, isto é, a dicotomia entre o ensino das classes populares e a educação destinada aos filhos da burguesia abastada, que até hoje pode ser identificada em nossa sociedade. Em síntese, a Revolução Industrial do século XIX pode ser vista como a concretização do clima de otimismo e progresso expresso anteriormente pelos iluministas. Nesse contexto, a educação passa a incorporar um valor instrumental ligado à preparação para a vida prática e principalmente para o trabalho. A escola assumirá um papel vital para a manutenção da organização social e para o desenvolvimento econômico da sociedade moderna, inserindo-se definitivamente na edificação da nova sociedade capitalista moderna. Em conexão com o ritmo das inovações trazidas pela Revolução Industrial, surge outro elemento central para a composição da nova imagem do homem no século XIX: o pensamento positivista. Desenvolvido por Augusto Comte no século XIX, o positivismo é uma doutrina filosófica cujo conteúdo reúne a filosofia, a sociologia e a política com base em uma orientação predominantemente fundamentada no método empírico de conhecimento fornecido pelas ciências naturais. O positivismo tem como marca central o entusiasmo pela ciência e a aposta na capacidade do conhecimento científico para propiciar uma melhora significativa em todos os domínios da vida humana. A “Filosofia Positiva” elaborada por Augusto Comte consiste em um ambicioso projeto de reorganização do conhecimento humano voltado para as FED.indb 96 25/02/2016 14:40:08 – 97 – Novas imagens do homem transformações sociais. Seus objetivos incluem o progresso nas diversas áreas da ciência, a reforma da educação, a reflexão sobre as leis lógicas do espírito humano e a consequente reorganização da sociedade com base nas contribuições da sociologia. O positivismo comteano declara guerra ao pensamento metafísico, assumindo de forma radical a perspectiva empirista das Ciências. Qualquer reflexão sobre o conhecimento que estivesse fundamentada em uma compreensão do espírito humano como algo imaterial (não passível de explicação e comprovação pelo método científico) deveria ser excluída como algo ultrapassado. Segundo a concepção histórica de Comte, o “estado positivo” alcançado pelas ciências naturais indica o grau mais alto de evolução do conhecimento humano. Desse modo, a rigorosidade e objetividade alcançadas pelas ciências naturais deveriam agora ser transmitidas e servir de modelo ao desenvolvimento das ciências humanas, como a psicologia e as ciências sociais. As ciências, portanto, deveriam constituir o único caminho para o efetivo progresso da humanidade e, por conseguinte, a principal referência para a educação. Provém dessa interpretação cientificista do conhecimento o termo “naturalismo científico”, que denota a visão do mundo orientada pelos padrões objetivos das ciências naturais. O pensamento positivista traduz para a filosofia o espírito de progresso e entusiasmo com as conquistas humanas que animava a alta sociedade europeia no século XIX. A rejeição radical dos conceitos e das explicações de ordem metafísica será responsável pela consolidaçãode uma nova forma de conceber o homem e o conhecimento. Essa nova imagem científica do homem trará profundas influências para a educação. Assim, as transformações sociais e econômicas geradas pela Revolução Industrial, aliadas à difusão do pensamento positivista, motivaram o desenvolvimento de uma imagem científica do homem, que gradualmente passa a influenciar a educação do final do século XIX, impondo-se às perspectivas pedagógicas mais tradicionais, de orientação essencialista. FED.indb 97 25/02/2016 14:40:08 – 98 – Filosofia da Educação 3.1.2 A epistemologia naturalista científica A epistemologia ou teoria do conhecimento que permanece na base do naturalismo científico é fundamentalmente empirista. Mas, embora sua origem remeta ao empirismo moderno tradicional (como nos esquemas cognitivos formulados por Locke no século XVII), em certo sentido ela se equipara ao próprio método científico, que vai constantemente se renovando e aprofundando. Em outras palavras, no século XIX a epistemologia naturalista científica havia incorporado à sua base teórica os saberes adquiridos com as novas descobertas e as contribuições da lógica, da matemática e das tecnologias para estabelecer formas mais rigorosas e objetivas de conhecimento. Vejamos a seguir alguns de seus pressupostos básicos. 3.1.3 Princípios da epistemologia naturalista científica 2 O conhecimento provém exclusivamente do mundo empírico, isto é, da realidade concreta que percebemos através de nossos sentidos. A experiência prática, portanto, tem um papel primordial na construção do saber. O que sabemos é, antes de tudo, aquilo que podemos comprovar pela experiência, seja ela direta (por meio dos sentidos) ou indireta (através de experimentos científicos). 2 “Conhecer” significa aprimorar a compreensão da realidade que nos cerca. Isso deve ser feito não através de especulações filosóficas, mas de forma objetiva, estendendo nossa capacidade de percepção por meio do uso de instrumentos e outros recursos técnicos. A ciência é capaz de conhecer com precisão as qualidades dos objetos, valendo-se de um método rigoroso e objetivo de investigação. 2 A História mostra que a ciência desenvolveu um progresso consistente e homogêneo em seu modo de conhecer, enquanto a filosofia sempre abrigou controvérsias e perspectivas diferentes (e até mesmo contraditórias) sobre o mundo. Assim, é a objetividade do método científico que deve servir como modelo padrão para todas as áreas do conhecimento humano. Trata-se de exigir das diferentes ciências e da filosofia uma imagem objetiva do homem e de suas características. Também a educação deve seguir esse padrão de conhecimento caso deseje obter efetivo progresso em seu campo de atuação. FED.indb 98 25/02/2016 14:40:08 – 99 – Novas imagens do homem 2 A investigação científica é objetiva porque é capaz de comprovar suas hipóteses por meio da experimentação e porque se utiliza de uma linguagem bem definida, onde cada termo deve ter seu significado rigorosamente determinado. Espelhando-se nesse modelo, é preciso que a educação siga um firme direcionamento para a utilização de métodos objetivos, voltados para resultados claramente determinados e para a observação e o controle dos processos de aprendizagem. Esses princípios demarcam a concepção cientificista do conhecimento que marcou o pensamento do final do século XIX. Alinhada com os ideais positivistas, tal epistemologia será considerada “naturalista” justamente pela tentativa de trazer para a filosofia e as ciências humanas a metodologia de pesquisa utilizada pelas ciências naturais. “Natural”, nesse contexto, nada tem a ver com a conexão entre o homem e a natureza (como idealizava Rousseau). Ao contrário, o que está em questão é a compreensão do ser humano e de seus fenômenos (como a sociedade) relacionada exclusivamente à sua origem bioló- gica e, portanto, passível de ser entendida por meio do conhecimento científico. 3.1.4 A imagem naturalista científica do homem Agora que compreendemos o contexto histórico e as bases epistemológicas do naturalismo científico, vamos recorrer à antropologia filosófica para analisar que imagem do homem é projetada por essa perspectiva e de que modo ela passou a vigorar como a base teórica predominante daquilo que hoje se considera a educação tradicional. A fantástica capacidade de predição, de controle e de aparente neutralidade do conhecimento científico se deve à regularidade presente na natureza (onde os fenômenos tendem a comportar-se da mesma forma, mantidas as mesmas condições) e à possibilidade de manipulação dos elementos naturais (cujo caráter passivo facilita a experimentação). Essa estabilidade permite aos cientistas propor intervenções totalmente controladas, testando hipóteses e formulando teorias passíveis de testes e corroboração. Ao final do século XIX, motivadas pelo extraordinário progresso das ciências naturais, as ciências humanas (psicologia, ciências sociais e economia) aparecem como a promessa de estender o padrão objetivo do conhecimento FED.indb 99 25/02/2016 14:40:08 – 100 – Filosofia da Educação científico ao domínio das ações humanas, transformando efetivamente a socie- dade e o homem. Ao mesmo tempo, no domínio do pensamento filosófico, a metafísica é posta em xeque pelo positivismo. A complexidade e, principal- mente, a indemonstrabilidade dos conceitos e sistemas filosóficos tradicionais mostravam-se incompatíveis com o novo paradigma de conhecimento orien- tado pela observação empírica. Eis o cenário que prepara uma nova compreen- são do homem, alicerçada nos conhecimentos fornecidos pela ciência. Kneller (1972, p. 59) oferece uma boa descrição dessa nova imagem do homem: De acordo com o realismo natural [a perspectiva naturalista], o homem é um organismo biológico com um sistema nervoso alta- mente desenvolvido e uma disposição naturalmente social. Suas ati- vidades pretensamente mentais são, de fato, processos físicos imensa- mente intrincados, que a ciência ainda não foi capaz de explicar de um modo satisfatório. A maior parte dos realistas naturais nega a exis- tência do livre arbítrio; argumenta que o indivíduo está determinado pelo impacto do meio físico e social sobre a sua genética herdada. Assim, a imagem do homem delineada pela perspectiva naturalista é com- posta da reunião das contribuições dos diversos ramos particulares das ciências e suas respectivas teorias. Sob esse ponto de vista, o homem é, antes de tudo, um corpo vivo, regido pelas leis da física e da química; produto biológico da evolução natural das espécies. Já o emaranhado campo das ações humanas passa a ser analisado sob a ótica das novas teorias psicológicas e sociais, cuja linha de pesquisa estava fundamentada inicialmente no determinismo. De um modo geral, o positivismo trouxe para as ciências huma- nas a abordagem determinista, segundo a qual o homem é sem- pre determinado pelas condições do meio em que se encontra, de maneira que suas ações passam a ser compreendidas em termos causais, pela interação entre estímulos e reflexos. Quanto à educação, a imagem naturalista científica do homem fornece alguns novos pressupostos teóricos importantes. Entre eles: 2 Concepção mecanicista do corpo humano: Já no início da Modernidade, Descartes passa a compreender o corpo como uma FED.indb 100 25/02/2016 14:40:08 – 101 – Novas imagens do homem máquina natural, cujo funcionamento depende unicamente de sua estrutura fisiológica, sem a necessidade da interação da alma. A perspectiva naturalista rejeita a concepção cartesiana do homem como substância metafísica (espírito ou alma), mas aproveita essa ideia do corpo humano como uma espécie de autômato natural, guiado unicamente pelas leis físico-químicas, reveladas pela ciên- cia. A educação, portanto, também precisa se dirigir ao corpo e desenvolvê-lo a partir de técnicas. 2 Objetivação dos aspectos humanos: As ciências avançam ao conseguiremanalisar isoladamente seus objetos. Voltando-se para o homem, o naturalismo o converte também em objeto de estudo. A estratégia da perspectiva naturalista é analítica, ou seja, tende a fragmentar a existência humana em diversas partes, entregando cada uma delas à sua respectiva ciência particular, para que sejam estudadas individualmente. Também na pedagogia surgem as diferentes especificidades ligadas à psicologia, à antropologia e à filosofia. 2 Sistematização e controle dos fenômenos: A ciência é capaz de prever e controlar fenômenos naturais devido ao seu caráter siste- mático. A partir da observação metódica e experimental, passa-se a conhecer a sequência de causas que desencadeiam o fenômeno, o que permite interferir com sucesso nos processos naturais. Essa capacidade de controlar seu objeto de estudo será uma influência marcante para a perspectiva naturalista da educação. Afinal, tam- bém o ensino, pensado como ação programada, deve manter um rigoroso controle de seus procedimentos e resultados, com vistas a alcançar os objetivos originalmente propostos. 2 Concepção determinista da ação humana: Sendo o homem um ser vivo como os demais, sua vida é regida pelas mesmas leis que presidem a vida orgânica e a matéria. Nesse sentido, as influências do ambiente em que se encontra estabelecem suas ações, de modo que a ação pedagógica pode exercer um controle do ambiente esco- lar, a fim de determinar resultados e comportamentos. Os pressupostos elencados nos tópicos anteriores aparecerão de maneira concreta nas reflexões pedagógicas de autores do início do século XX, FED.indb 101 25/02/2016 14:40:09 – 102 – Filosofia da Educação diretamente influenciados pela perspectiva naturalista científica. Vejamos o exemplo da pedagogia evolucionista de Spencer e dos primeiros passos da psicologia experimental. 3.1.5 A pedagogia evolucionista de H. Spencer Fonte: Autor desconhecido. Fotografia de Herbert Spencer. Dibner Library of the History of Science and Technology. Washington DC, Estados Unidos. Ao final do século XIX, Herbert Spencer foi um dos maiores responsáveis por propagar as ideias positivistas na Inglaterra, incorporando a elas seu pensamento evolucionista. A teoria da evolução é geralmente associada ao nome do pesquisador britânico Charles Darwin. Entretanto, enquanto Darwin se dedicou a formular no campo da biologia a revolu- cionária teoria da evolução das espécies, Spencer, alguns anos antes, já sustentara certas ideias evolucionistas no domínio da filosofia e das ciências humanas. O caráter naturalista da concepção pedagógica de Spencer é bastante evidente. Para esse pensador, somente a Ciência seria capaz de proporcionar FED.indb 102 25/02/2016 14:40:09 – 103 – Novas imagens do homem os meios adequados para uma educação efetiva, que preparasse o educando para os novos tempos em que vivemos e para os desafios da vida prática. Segundo Spencer, a prática educativa deve ser pensada em termos de adaptação à vida. Levando em conta a posição do homem como ser vivo na cadeia evolutiva, o objetivo central do ensino é a autopreservação, ou seja, o desenvolvimento das habilidades individuais que per- mitem estender a vida pelo maior tempo possível. As principais entre essas habilidades são: a conservação pessoal (integri- dade física), a aquisição de bens materiais, a manutenção da vida familiar, o convívio social e político e o desenvolvimento intelectual. Por meio dessa compreensão extremamente científica do homem e do mundo, Spencer associa o evolucionismo à sua pedagogia. Seguindo os parâ- metros da teoria evolucionista, sua proposta pedagógica prevê um processo educacional gradativo, que possa acompanhar passo a passo o desenvolvi- mento das aptidões e capacidades do aluno, sempre com o apoio das diferen- tes ciências. Veja alguma de suas medidas práticas: 2 No que se refere à conservação pessoal, é preciso ensinar a fisiologia do corpo e a higiene, levando os alunos a compreender as implica- ções entre o cuidado com o corpo e a boa saúde. 2 A fim de garantir a aquisição de bens materiais, deve-se capacitar os alunos para o trabalho. Spencer ressalta a importância da educação profissionalizante. 2 Quanto à manutenção da família, é preciso ensinar os princípios gerais da educação. Os bons costumes e o comportamento ético devem ser transmitidos através da educação básica advinda da convivência familiar. 2 Para a vida social e política, bem como para o desenvolvimento intelectual, são necessários os estudo de várias ciências combinadas, como a sociologia, a psicologia, entre outras. FED.indb 103 25/02/2016 14:40:09 – 104 – Filosofia da Educação A constante ênfase sobre a importância da Ciência para o ensino escolar fez de Spencer um porta-voz do positivismo na luta pela renovação da educação na Inglaterra. Ao aplicar os pressupostos da teoria evolucionista ao desenvolvimento social e à pedagogia, o autor estabelece uma reflexão de caráter utilitarista: é preciso primeiramente definir quais são os conhecimentos mais uteis ao homem. A educação, por conseguinte, deve atuar de forma prática na preparação para a aquisição desses conhecimentos e habilidades. Tais reflexões causaram profundo impacto da opinião pública da época, de modo que a sua obra Educação intelectual, moral e física (1861) tornou-se uma das principais referências que colaborou para a implantação do moderno ensino de ciências naturais no currículo escolar. 3.1.6 A psicologia experimental A psicologia experimental dedicou-se inicialmente a investigar a mente humana e o conhecimento partindo da análise de fatos concretos. Para alcançar os padrões de objetividade determinados pela metodologia científica, era preciso realizar experimentos de forma controlada. No final do século XIX, o pesquisador alemão Wilhelm Wundt fundou o primeiro laboratório de investigação psicológica, cuja finalidade era estudar as particularidades das percepções sensoriais e suas reações fisiológicas dentro do cérebro. A proposta de utilizar uma base física para o estudo de conteúdos mentais foi inovadora e passou a motivar o desenvolvimento de inúmeras pesquisas sobre o comportamento humano: da mesma forma como a percepção humana pôde ser estudada fisicamente como ligação entre os sentidos sensoriais e o cérebro, todos os demais conteúdos de nossa mente deveriam ser explorados por meio de testes empíricos, sem a necessidade de divagações filosóficas sobre o conhecimento. Além da opção pelo enfoque empirista, os primeiros psicólogos assumem também uma interpretação determinista do comportamento humano. Dado que a função das ciências é a de encontrar regularidades na natureza, e, sendo o homem um ser vivo como qualquer outro, também as ações humanas deveriam conter certas regularidades. Uma vez identificados esses supostos padrões da ação humana, estaria aberto o caminho para o estabelecimento de leis comportamentais a partir de bases científicas. Tais leis, segundo os pesquisadores, passariam a fundamentar a capacidade de predição dos FED.indb 104 25/02/2016 14:40:09 – 105 – Novas imagens do homem fenômenos humanos, do mesmo modo como procede às ciências naturais. Segundo esse ponto de vista, o homem seria, portanto, um ser invariavelmente determinado pelas condições do meio em que se encontra. A autonomia ou liberdade das ações humanas teria uma reduzida margem de atuação, comparada à ação predominante de seus impulsos naturais. É importante notar que a psicologia experimental tomava como objeto apenas o comportamento observável, que era conside- rado com base nas reações de um sujeito (humano ou animal) a determinados estímulos gerados em um ambiente controlado. Assim, houve uma priorização excessiva da exterioridade do comportamento, em detrimento de aspectos ligados à consci- ência do sujeito e à sua capacidade de introspecção; elementos declaradamente rejeitados pela perspectiva naturalista, emrazão de sua inacessibilidade ao método empírico experimental. Nos primeiros anos do século XX, o cientista Ivan Pavlov elaborou uma série de experiências com animais e formulou a teoria do comportamento reflexo. Ao estudar a produção de saliva dos cães, o pesquisador russo notou que determinados eventos externos relacionados à obtenção de comida produziam nos animais maior salivação, por exemplo, ouvir os passos da pessoa que diaria- mente os alimentava. Pavlov então construiu em seu laboratório um ambiente que o permitisse observar minuciosamente e medir as reações fisiológicas dos cães a estímulos relacionados à comida. O pesquisador mostrou que, se uma campainha fosse tocada a cada vez que o cão fosse alimentado, esse animal acabaria por desenvolver certa associação entre o som da campainha e a comida. Amplamente reproduzidos com outros animais por diver- sos pesquisadores ao redor do mundo, os experimentos de Pavlov ganharam fama ao demonstrar na prática como era possível obter um comportamento previsto por meio da FED.indb 105 25/02/2016 14:40:09 – 106 – Filosofia da Educação repetição de determinado estímulo. Esses estudos deram origem à chamada psicologia comportamentalista ou behaviorismo, que representa a presença mais concreta da perspectiva naturalista científica em nosso tempo, exercendo expressiva influência sobre a educação contemporânea. O termo “behaviorismo” provém do vocábulo inglês behavior, que significa conduta ou comportamento. Ele será utilizado para indicar não somente a psicologia comportamental, mas também algumas perspectivas teóricas ligadas à filosofia da linguagem. Como teoria psicológica, o behaviorismo teve início com os estudos de John Watson, apresentando-se como um prolongamento da psicologia experimental aliada à teoria do comportamento reflexo de Pavlov. Seu pressuposto central está fundado na compreensão do comportamento dos seres vivos exclusivamente a partir de eventos observáveis, ou seja, a relação estímulo-resposta. Para o behaviorismo, o comportamento do homem e de outros animais é o resultado das alterações ocorridas em seu ambiente. Cada alteração atua como um estímulo, desencadeando uma reação comportamental correspondente (resposta). Portanto, conhecendo adequadamente a natureza do estímulo, é possível prever a resposta; observando a resposta, pode-se identificar o estímulo. A ideia behaviorista de projetar estímulos adequados a fim de obter determinadas respostas ou comportamentos alcançará ampla aceitação na pedagogia naturalista. Segundo Aranha (2006, p. 152): O behaviorismo ou psicologia comportamentalista influencia até hoje diversas tendências na educação, inspirando técnicas e procedimentos pedagógicos, bem como uma metodologia que enfatiza a rigorosa programação dos passos para adquirir conhecimentos. Skinner, o principal representante desta tendência, criou a instrução programada, em que o aluno recebe um texto com uma série de espaços em branco para serem preenchidos, de acordo com a dificuldade crescente, podendo conferir passo a passo o acerto e o erro das respostas. A aplicação prática da teoria behaviorista à educação ficou conhecida como engenharia comportamental. Trata-se de estudos que buscavam a FED.indb 106 25/02/2016 14:40:09 – 107 – Novas imagens do homem organização da aprendizagem mediante estratégias de condicionamento fundamentadas na aplicação de estímulos e reforços adequados. Skinner contribuiu para esse projeto ao aprofundar a compreensão sobre os diferentes tipos de comportamentos condicionados, ou seja, modos distintos de reação do indivíduo a um determinado estímulo. São eles: 2 Condicionamento reflexivo: é o tipo de comportamento mera- mente reativo às estimulações do ambiente. São atos instintivos como o de desviarmo-nos de algo que repentinamente atravessa nosso caminho enquanto andamos em uma rua. 2 Condicionamento operante: é um comportamento mais complexo que, em resposta ao estímulo, faz com que o indivíduo transforme o ambiente que o circunda. Podemos tomar como exemplo o ato espontâneo de endireitar um quadro na parede em vez de apenas seguir em frente, ignorando sua posição. Pensando agora nas salas de aula como o ambiente em questão, não é difícil imaginar essas duas espécies de comportamento no cotidiano da educação. Muito mais frequente, o condicionamento reflexivo corresponde ao comportamento simplesmente reativo do aluno aos atos do professor, estes entendidos como estímulos de aprendizagem. Nesse caso, a estratégia de ensino adotada não exige do educando uma iniciativa própria. O condicionamento operante, por outro lado, induziria a um comportamento ativo. O educando passaria a valer-se do conteúdo aprendido de maneira mais própria, utilizando-o de forma articulada com os demais saberes em sua própria vida prática. Os objetivos propostos pela engenharia comportamental destinavam-se precisamente a desenvolver estratégias capazes de produzir nos alunos o con- dicionamento operante, pelo qual as respostas aos estímulos são elaboradas com propriedade, envolvendo a atividade criativa do indivíduo. Nesse caso, o reforço às respostas corretas passa ter grande importância, contribuindo para efetivar o aprendizado. Por fim, resta dizer que, mesmo com um significativo avanço teórico, o behaviorismo também recebe muitas críticas quanto à sua atuação no campo pedagógico. Talvez você já esteja fazendo uma ideia das possíveis objeções, principalmente ligadas ao tema da liberdade humana. Afinal, até que ponto devemos aplicar nossos esforços (e tecnologias) para tentar determinar ou FED.indb 107 25/02/2016 14:40:09 – 108 – Filosofia da Educação controlar as reações de outras pessoas? Tais críticas serão levantadas precisa- mente pela perspectiva histórico-social, nosso próximo objeto de estudo. 3.2 A imagem histórico-crítica do homem Ao estudarmos a cultura antiga, pudemos observar a educação em relação direta e harmônica com a filosofia ou com a religião, característica que nomeamos de “essencialismo pedagógico”. Em seguida, aprendemos que a perspectiva naturalista, por sua vez, representa a conexão da educação com o saber científico. Agora, para conhecer a perspetiva histórico-crítica, precisamos alargar nosso campo de estudos incluindo a dimensão sociopolítica das ações humanas e sua íntima ligação com a educação de um modo geral. Estamos adentrando, assim, no contexto da educação contemporânea. Antes de tudo é preciso esclarecer que a denominação “histórico-crítica” ou “histórico-social” não designa uma só escola de pensamento ou determinado grupo de pensadores da educação que possa ser situado claramente no tempo e quanto ao conteúdo de suas ideias. Ao contrário, são considerados “histórico- críticos” diferentes tipos de pensadores ou correntes pedagógicas cujo traço comum é justamente o posicionamento crítico às tendências pedagógicas tradicionais e à estrutura social. De uma forma bem genérica, podemos assinalar certos aspectos comuns em torno do qual se agrupam essas linhas de pensamento: 2 A compreensão de que as desigualdades sociais surgem como algo intrínseco ao modelo de desenvolvimento no qual estamos inseridos. E, como consequência dessa compreensão, a tomada de consciência sobre o papel crucial da educação nesse contexto; muitas vezes como instrumento de manutenção da estrutura vigente, mas também como eterna possibilidade de libertação do ser humano. 2 A concepção do desenvolvimento da história humana como um processo dinâmico. Tanto o estabelecimento da sociedade como a prática educativa estão em constante movimento, assim como todos os demais aspectos do universo. Nada é imutável. FED.indb 108 25/02/2016 14:40:09 – 109 – Novas imagens do homem 2 A interpretação e apropriação do conceito de dialética como ele- mento fundamental da prática educativa. Compreensão da contra- dição como algo próprio do fazer humano e, portanto, também do processoeducativo. 2 Proximidade com a reflexão filosófica contemporânea sobre a teoria do conhecimento. Reavaliação teórica das relações sujeito-objeto/ professor-aluno. A perspectiva histórico-crítica se dedica a uma interpretação da educação relacionada às suas condições históricas e sociais e à avaliação crítica desses elementos. Ela nos adverte um fato importante, a saber: a despeito de tantas tentativas de inovação na educação moderna e da coexistência de diversas atitudes pedagógicas, o ensino escolar tende a manter uma relação de condicionamento ao formato político e econômico de cada sociedade. Esquecer a íntima relação entre a educação e a política é uma atitude ingênua diante dos acontecimentos históricos. Contudo, convém perguntar: a perspectiva histórico-crítica é crítica em relação a quê? Seria a compreensão histórica tão importante assim para a filosofia da educação? A resposta a essas questões pode nos dar a orientação adequada para conhecer os fundamentos teóricos da perspectiva histórico- crítica na educação. A principal contribuição da perspectiva histórico-crítica para a educação está relacionada aos esforços de superação tanto do essencialismo como da perspectiva naturalista. Essa tendência se deve à compreensão de que a riqueza e a diversidade que compõem a condição humana não podem ser resumidas em uma imagem universal e abstrata do homem, e também não cabem na concepção do ser humano que o reduz à condição biológica, tomando-o apenas como corpo natural. Mais do que isso, o homem também é fundamentalmente determinado pelas relações dinâmicas que estabelece com a natureza e a sociedade através do trabalho, da família e das relações políticas. Enfim, o ser humano apresenta uma FED.indb 109 25/02/2016 14:40:09 – 110 – Filosofia da Educação condição diferenciada dos demais seres vivos porque é determinado pelas condições objetivas de sua existência, mas também é capaz de intervir sobre elas, transformando-as. Seguindo essa linha de raciocínio, vamos retornar brevemente ao con- texto sociopolítico do estabelecimento da pedagogia moderna, marcado pelo desenvolvimento da sociedade industrial e pela consolidação do capitalismo. 3.2.1 Capitalismo, liberalismo e a educação Conforme estudamos anteriormente, a Revolução Industrial estabele- ceu na Europa do século XVIIII uma nova ordem social, fundamentada no livre comércio, no acúmulo de capital, na propriedade privada e no trabalho assalariado. Trata-se do capitalismo, que se sobrepôs ao regime feudal subs- tituindo gradualmente a antiga aristocracia real pela burguesia, que passou a ocupar a condição de classe hegemônica1. O liberalismo foi a teoria política e econômica responsável por legitimar o capitalismo burguês. O pensamento liberal teve sua origem na reação dos burgueses ao predomínio das monarquias absolutistas, onde todos os homens, suas famílias e seus pertences permaneciam subordinados à vontade arbitrária dos reis. Alinhada com o espírito empreendedor e autossuficiente do homem burguês, a teoria liberalista apoiará o individualismo, a liberdade, o direito à propriedade privada e à igualdade, e, como meio para alcançar esses valores, a obrigação do Estado em garantir a segurança do cidadão, de seus direitos e suas propriedades. Do ponto de vista ideológico, o liberalismo defendia elevados valores humanos, em oposição à opressão do sistema feudal. Na prática, entretanto, tais valores não puderam ser estendidos a toda a sociedade. A História nos mostra como, após a Revolução Francesa, a tomada do poder pela burgue- sia rapidamente estabeleceu uma sociedade de classes, marcada pela divisão entre os proprietários dos meios de produção e a classe trabalhadora, cujo único bem era a própria força de trabalho a ser vendida, sem nenhum direito aos resultados do processo produtivo. 1 Classe hegemônica é a classe dominante, isto é, que detém o maior poder em uma sociedade. FED.indb 110 25/02/2016 14:40:09 – 111 – Novas imagens do homem A disparidade social presente desde a origem do capi- talismo será o motivo de diversas revoltas, deflagrando a luta histórica dos trabalhadores por uma sociedade mais igualitária. Com o avanço da sociedade indus- trial, o liberalismo sofre repetidas reformulações, dei- xando de ser apenas o conjunto de ideias humanistas que motivaram as revoluções burguesas, para converter-se na ideologia que atende aos interesses capitalistas. É importante ressaltar que, ao menos em teoria, os princípios capita- listas realmente estão fundados em um ideal de igualdade entre os homens, onde a lei da oferta e da procura e a livre concorrência deveriam exercer um equilíbrio econômico natural. A sua aplicação prática, entretanto, revela outra realidade. Se de fato a abertura do mercado para a livre-iniciativa de produção propicia as mesmas chances de lucro para todos, na prática nem todos os membros da sociedade têm, de saída, as mesmas oportunidades. Afinal, o acesso aos meios de produção e aos recursos necessários para um empreendimento estão centralizados nas mãos de uma classe minoritária. Mais do que isso, o acesso aos meios de produção não está determinado apenas pela posse de recursos, mas também pela de conhecimentos, isto é, o desenvolvimento intelectual e a habilidade para administrar um empre- endimento mercantil. Aqui adentramos o ponto central de reflexão da perspectiva histórico-crítica sobre a educação: em uma sociedade na qual todos os seus setores tornaram-se condicionados pela econo- mia, inclusive a política, o Estado tende a permanecer a serviço da classe hegemônica. Nesse quadro, também a educação passa assimilar os interesses dessa classe dominante, subscrevendo a estrutura social vigente ao reproduzir determinado corpo de saberes, costumes e práticas sociais de forma irrefletida. FED.indb 111 25/02/2016 14:40:09 – 112 – Filosofia da Educação É imprescindível, portanto, que a reflexão filosófica sobre a edu- cação leve em consideração o aspecto histórico e social que envolve qualquer prática de ensino. De acordo com a perspectiva histórico-crítica, uma vez que o objetivo do processo educativo é a formação do ser humano, sua prática encontra-se diretamente mediada pelos valores predominantes em cada sociedade, tendendo a reproduzi-los na educação de novas gerações. Essa relação, porém, raramente se estabelece de forma consciente. É preciso elucidá-la através de uma interpretação crítica, avaliando os conceitos, as atitudes e as visões de mundo que permanecem implícitos ao ensino. Assim, o alvo ao qual se direciona a perspectiva histórico-crítica é a chamada pedagogia liberal, que se estabeleceu na sociedade moderna juntamente com o desenvolvimento do capitalismo. Como um reflexo da sociedade na qual se encontra situada, a pedago- gia liberal adaptou-se ao capitalismo e ao antagonismo entre classes sociais por ele instituída. Como vimos anteriormente, a partir do desenvolvimento da sociedade industrial, a escola adquire um papel instrumental, prepa- rando as classes menos favorecidas para o trabalho. Nesse sentido, a criação da escola pública e da educação gratuita e obrigatória nos países da Europa no século XIX não foi apenas uma conquista do ideal iluminista, senão que permaneceu diretamente associada à demanda capitalista por mão de obra qualificada para o empreendimento industrial. Já em sua própria origem a pedagogia liberal é marcada pelo dualismo entre o ensino popular e o ensino direcionado à formação da classe burguesa. O primeiro ficou mais voltado para a escolarização em massa e para a capacitação ao trabalho, também assumindo um caráter disciplinar. O segundo permaneceu direcionado à elite da sociedade, quase sempre ministrado em regime de internato. Embora também estruturado sob rigorosa disciplina, seu conteúdo priorizava a educação humanista ligada à cultura clássica e a formação intelectual. Eis a raiz histórica das diferenças entre a escolapública e a escola privada; um debate sempre atual no domínio da educação. FED.indb 112 25/02/2016 14:40:09 – 113 – Novas imagens do homem De um ponto de vista mais crítico, podemos reconhecer como uma das principais características da pedagogia liberal o centramento nos conteúdos e no desenvolvimento da práticas pedagógicas, sem qualquer relação com o contexto social, político e econômico que envolve o educando. Desenvolve-se uma teoria acrítica da educação, onde o status quo2 da sociedade permanece sem maiores questionamentos. Nessa dinâmica, a educação é mantida e apri- morada como elemento formador e preparador do ser humano; mas vê res- tringido o seu poder transformador e libertador, capaz de fazer de um homem um ser autônomo, senhor de si. Do ponto de vista da análise histórico-crítica, a opção da pedagogia liberal em concentrar-se somente na formação pessoal, sem maiores referências ao entorno sociopolítico, não permanece como um ato neutro. Ao contrário, através da pedagogia liberal, o ensino escolar passa a cumprir um papel crucial para a manutenção da estrutura social vigente. A priorização do merecimento individual, da competição e da aprendizagem predominantemente receptiva acabam por formatar os novos cidadãos para o convívio passivo na sociedade de classes, aceitando a sua divisão como um fato natural. Segundo Luckesi (1990, p. 56): [Na pedagogia liberal tradicional] A atuação da escola consiste na preparação intelectual e moral dos alunos para assumir sua posição na sociedade. O compromisso da escola é com a cultura, os problemas sociais pertencem à sociedade. O caminho cultural em direção ao saber é o mesmo para todos os alunos, desde que se esforcem. Assim, os menos capazes devem lutar para superar suas dificuldades e conquistar seu lugar junto aos mais capazes. Caso não consigam, devem recorrer ao ensino mais profissionalizante. Essa postura eminentemente reprodutora dos valores sociais tem suas implicações pedagógicas: voltada para uma cultura da adaptação social, a prática educativa se torna mais direcionada à transmissão de conhecimentos e à memorização e assimilação passiva dos conteúdos. Cada um dos elementos que envolvem o ensino escolar, portanto, assume feições ou tendências características. Veja a seguir as características da pedagogia liberal. 2 Status quo (estado de partida) é o termo latino que designa a conjuntura anterior a uma mudança. A expressão política “manter o status quo” quer dizer manter a situação anterior ou sustentar a que está às vésperas de ser modificada. FED.indb 113 25/02/2016 14:40:10 – 114 – Filosofia da Educação 2 O professor é o centro e o único condutor da prática educacional. Através de suas lições, ele transfere ao aluno todo o seu saber. Cabe ao aluno apenas receber o conhecimento e memorizá-lo. 2 Quanto à metodologia de ensino, trata-se de um método invariavelmente expositivo. O professor expõe os temas aos alunos por meio da fala e da escrita, explicando-os e associando-os logicamente ao conteúdo de sua disciplina. Priorizam-se as cópias, as leituras, os exercícios, a repetição e memorização de conceitos e fórmulas. O aprendizado é de caráter individual, sendo estimulado por meio de competições e disputas. 2 Quanto à avaliação, os métodos avaliativos tendem a ser classificatórios, medindo quantitativamente a capacidade de memorização e reprodução dos conteúdos. Os melhores alunos são aqueles que conseguem reproduzir com perfeição o conteúdo cobrado nas provas, alcançando a nota máxima. 2 Cabe à escola a transmissão de conhecimentos e a preparação inte- lectual e moral para o desempenho dos diferentes papéis sociais. Por fim, é através do olhar crítico para o nascimento da educação na era industrial que a perspectiva histórico-crítica vai buscar variados elementos teóricos para se opor à influência da lógica liberal na educação. Sua abordagem reúne a dimensão política, social e pedagógica da prática educacional. A bases teóricas dessa oposição se estabelecem com base em referências muito variadas. Mas para fins didáticos, podemos compreendê-las a partir de duas frentes: a crítica histórica e social à pedagogia liberal e a crítica filosófico- metodológica, dirigida tanto ao essencialismo como à perspectiva naturalista científica. Vamos tentar compreender melhor cada uma delas a seguir. 3.2.2 Críticas histórico-sociais à pedagogia liberal O elemento central da perspectiva histórico-crítica é a oposição ao modelo de desenvolvimento e controle social inerente ao pensamento liberal e suas consequências para a educação. Evidentemente, uma das maiores referências teóricas para essa oposição foram as ideias revolucionárias de Karl Marx e seu materialismo histórico dialético. Contudo, outros elementos FED.indb 114 25/02/2016 14:40:10 – 115 – Novas imagens do homem teóricos anteriores e posteriores ao pensamento marxista também contribuem ativamente para essa interpretação crítica da sociedade e da educação contemporânea. Vejamos adiante uma descrição breve dos principais deles. 3.2.3 Dialética hegeliana O conceito de dialética é complexo e pode se referir a elementos e pensamentos muito diferentes entre si. Para fins didáticos, aqui podemos compreendê-lo de um modo genérico, visualizando a forma assumida por um diálogo. Em uma (boa) conversa entre duas pessoas, diferentes posições ou perspectivas se contrapõem, muitas vezes colocando-se em posições opostas. Da contradição entre essas posições, pode surgir uma conclusão, representada por uma nova posição que mantém os melhores elementos das posições confrontadas anteriormente. Como você aprendeu no primeiro capítulo deste livro, na antiga Grécia Sócrates se valia da dialética como o meio adequado para buscar as ideias eternas e imutáveis. Platão também adotou esse método em seus diálogos. Fonte: SCHLESINGER. Retrato de Hegel, 1831. Alte Nationalgalerie, Berlin, Alemanha. No século XIX o filósofo alemão W. G. Hegel retomou a concepção da dialética como o próprio modo de ser da realidade, que se manifesta através da História. Mas Hegel inseriu no conceito de dialética um terceiro termo capaz de mediar a tensão entre os opostos. Para este filósofo, a realidade consiste em um processo constante e dinâmico, ou seja, na contínua mudança ou passagem de um contrário a outro. Esse movimento de devir (vir a ser) de FED.indb 115 25/02/2016 14:40:10 – 116 – Filosofia da Educação tudo o que há não se estabelece de maneira linear, mas sim por meio da contradição; do eterno jogo entre forças opostas. Veja um exemplo: Uma minúscula semente é capaz de gerar um árvore. Como tal, a pequena semente é apenas um grão fechado. Mas, em contato com a terra, ocorre a germinação: do próprio interior da semente se desenvolve uma haste capaz de rompê-la completamente e tomar uma forma bem diferente. Assim, podemos dizer que a semente não era, ela mesma, uma árvore; mas trazia em si esse potencial. Para que esse potencial pudesse se reali- zar, entretanto, a semente precisou deixar de existir, rompendo-se e dando lugar a uma forma contrária. De um modo mais conceitual, esse processo dialético apontado por Hegel consiste na relação entre uma tese (no caso, a semente) e sua antítese (a haste que dará origem à nova planta). Contudo, os eventos no mundo natural, e principalmente no mundo humano, apontam também a presença de um termo mediador entre o atrito gerado pela positividade da tese e a radicalidade da antítese. Trata-se da síntese, que é a integração do que há de bom nesses dois extremos. Hegel compreendia a dialética como a forma dinâmica da natureza, da História e do próprio pensamento. Partindo desse ponto de vista, o filósofo tece uma poderosa crítica ao pensamento ocidental, que será muito valiosa para a perspectiva histórico-crítica em educação. Segundo o autor, ao con- ceber o conhecimento tomando como limite apenas o alcance do intelecto, a epistemologiatradicional permaneceu imersa em dicotomias (ou isto ou aquilo), perdendo a habilidade para compreender a realidade como um pro- cesso dinâmico que se desenvolve a partir da tensão entre os contrários. Mesmo operando com conceitos bastante abstratos, a filosofia hegeliana chamou a atenção para uma interpretação do homem com base em seu contí- nuo processo de vir a ser (devir), o qual sempre está dado a partir da História. FED.indb 116 25/02/2016 14:40:10 – 117 – Novas imagens do homem Para a dialética importa a visão da totalidade: tudo se encontra de alguma forma relacionado; nada pode ser bem compreendido de maneira isolada. Essa conexão entre todas as coisas é responsável pela oposição entre os con- trários, que atua como a “mola propulsora” de toda mudança. 3.2.4 Marx e o materialismo histórico dialético Costuma-se afirmar que o pensador alemão Karl Marx pôs de cabeça para baixo a dialética hegeliana, invertendo sua polaridade. Se Hegel compreendia a dialética como um princípio metafísico, ou seja, a representação dos diferentes momentos de desenvolvimento do Espírito através da História, Marx passa a interpretá-la a partir de uma perspectiva materialista. Segundo Marx, ao analisarmos o homem em sua situação concreta, veremos que o domínio material antecede as realizações do espírito, isto é, a vida prática vem antes das ideias. Nessa direção, não há, portanto, uma essência do ser humano. O homem primeiramente se define no plano da sobrevivência e do trabalho, constituindo família e convivendo em sociedades. É preciso compreendê-lo situado em seu contexto histórico e social. Assim, o caráter dialético da história não advém metafisicamente das ideias, senão que é um resultado objetivo do fazer humano. Focando sua reflexão no caráter concreto da existência humana, Marx reinterpreta a concepção dialética a partir de uma análise da história, pensada como o contínuo processo de embate entre forças opostas, ou seja, a luta de classes. Essa concepção dialética da história proposta por Marx ficou conhecida como o materialismo histórico dialético, doutrina que exercerá profunda influência em diversas correntes do pensamento, cristalizando-se como a base teórica do movimento socialista e influenciando a Revolução Russa e a formação da antiga União Soviética. É importante atentar para o fato de que a recepção das ideias de Marx originou diferentes “filosofias marxistas”, de acordo com as variadas interpretações (e interesses) de seus seguidores. Nem todas essas filosofias marxistas mantiveram-se plenamente fiéis às ideias originais do pensador alemão. Acompanhe a seguir um resumo da interpretação de Marx sobre o processo histórico. FED.indb 117 25/02/2016 14:40:10 – 118 – Filosofia da Educação O materismo histórico dialético Para Marx a história se constrói a partir das atividades concre- tas realizadas pelos homens, ou seja, através da produção de seus meios de vida pelo trabalho. Para compreender o efetivo desenvolvimento da história, é preciso analisar de que maneira as pessoas produzem seus bens materiais, uma vez que esses são os verdadeiros fundamentos de toda sociedade. Dito de forma mais técnica: a totalidade da produção material de um povo (a agricultura, a produção artesanal, a indústria etc.) constitui a base ou estrutura da sociedade. É sobre essa base que se edificam as diferentes relações sociais, as instituições, a lei e as ideologias. Esse conjunto de elementos é denominado superestrutura. A teoria do materialismo histórico dialético considera que só é possível compreender adequadamente o desenvolvimento da his- tória por meio de uma análise das relações que implícita ou expli- citamente se estabelecem entra a base e a superestrutura social. Assim, Marx dividia em cinco estágios o desenvolvimento da História até sua época (o século XIX). O critério para essa divisão corresponde justamente ao tipo de produção material de cada sociedade e suas respectivas divisões da propriedade e do trabalho. 2 Sociedades tribais: Desde a Pré-História, nas primeiras sociedades prevalecia uma espécie de “comunismo primitivo”. Vivendo como nômades, os primeiros agrupamentos humanos compartilhavam da terra e de seus frutos. A divisão do trabalho era mínima; não havia produção excedente de bens, nem comércio. 2 Cidades-estados: Com o início da agricultura, as tribos tornaram-se mais sedentárias, agrupando-se em pequenos povoados. O trabalho começou a gerar um excedente econômico, isto é, a produção de bens se estendeu para além das necessidades básicas da família. Surgiu nesse período a propriedade privada, o comércio e também o início da escravidão. FED.indb 118 25/02/2016 14:40:10 – 119 – Novas imagens do homem 2 Feudalismo: Com a formação dos reinos feudais e dos impérios, ocorreu uma divisão mais elaborada do trabalho. Os camponeses trabalhavam em regime de servidão, pelo direito de utilizar as terras e os recursos dos senhores feudais. Nasceu, assim, a classe da nobreza e as pequenas cidades, habitadas por artesãos e pelos viajantes que se ocupavam do comércio. 2 Sociedade burguesa industrial: Com o passar do tempo a burguesia (classe mercantil) superou o feudalismo, estendendo a toda sociedade o regime capitalista. A era industrial intensificou significativamente a divisão do trabalho. A classe proletária não possuía nenhum controle sobre os meios de produção. 2 Era socialista: Marx idealizava um novo momento da história, que ainda estaria por vir. Trata-se do momento em que a sociedade capitalista não mais teria condições para se expandir e manter a imensa classe trabalhadora sob seu controle, ocorrendo assim a revolução do proletariado e a sua chegada ao poder. Com essa queda do capitalismo, seria construída a sociedade comunista, fundada em novos valores e num modo alternativo de produção e divisão da propriedade, da riqueza e do trabalho. O pensamento marxista mantém uma crítica radical e aberta ao capitalismo, denunciando a exploração da classe trabalhadora como a condição fundamental para que a riqueza possa permanecer concentrada nas mãos de uma minoria. Segundo Marx, a chave dessa desigualdade é a alienação ocasionada pelos modernos meios de produção. Vendendo somente a sua força de trabalho e abrindo mão dos resultados do processo produtivo, o homem gradualmente passa a compreender sua sobrevivência de um modo automático e limitado, deixando de se reconhecer como um sujeito capaz de agir e transformar o mundo que o rodeia. Neste ponto talvez você esteja se perguntando por que o materialismo histórico dialético se constituiu como uma influência tão significativa para o tema da educação. A resposta se encontra no aprofundamentos das ideias de Marx sobre o conceito de alienação. Acompanhe o raciocínio: 2 O critério central da análise histórica elaborada por Marx diz respeito ao papel essencial do trabalho na formação das instituições sociais e das relações humanas. Antes do desenvolvimento do FED.indb 119 25/02/2016 14:40:10 – 120 – Filosofia da Educação modo de produção industrial, a agricultura e a fabricação de bens necessários à vida humana eram desenvolvidas de forma artesanal. Os diferentes ofícios (sapateiro, carpinteiro, alfaiate, ferreiro) eram ensinados de forma prática no ambiente familiar, onde o conhecimento e a arte dos processos produtivos passavam de pai para filho. Assim, a educação ligada ao mundo do trabalho pertencia aos próprios produtores, bem como o resultado de sua produção, que era diretamente comercializado, provendo seu sustento. 2 Com o estabelecimento da era industrial e do moderno sistema de produção, também o processo educativo se afasta dos trabalhadores e passa a ser monopolizado pelas classes dominantes. Agora, a escola passa a ser a responsável por capacitar os filhos da classe operária para o trabalho. Porém, a instituição educacional é mantida pela classe burguesa, atendendo diretamente aos seus interesses.Não será este um fator de condução da sociedade, conforme os interesses daqueles que a dominam? 2 Pensando dessa forma, Marx concebe uma severa crítica à educação no sistema capitalista: uma vez que não está ao alcance da classe trabalhadora decidir sobre sua própria educação, permanecendo essa tarefa confiada à burguesia, o próprio processo educativo se degenera em um modo de controle e opressão das massas. 2 A burguesia se mantém no poder porque dispõe não apenas de todos os recursos materiais e dos meios de produção, mas também dos recursos intelectuais da sociedade. O ensino escolar, além da capacitação ao trabalho, cumpre a tarefa ideológica de acomodar desde o início a classe proletária ao seu lugar no sistema capitalista. 2 Somente através de mudanças radicais na sociedade industrial e em suas condições econômicas (o capital, a propriedade privada, o mercado de consumo) é que se apresenta a viabilidade de um novo processo educativo, voltado para os interesses das classes populares. A doutrina marxista de fato culmina em um ideal revolucionário, atuando como principal motivação para diferentes linhas de pensamento comunista3. 3 A partir do século XX, comunismo e socialismo foram conceitos tomados como sinônimos; mas é possível fazer uma distinção: comunismo é o ideal de uma sociedade não dividida em FED.indb 120 25/02/2016 14:40:10 – 121 – Novas imagens do homem Nesse sentido, as ideias de Marx costumam ser diretamente associadas à postura política mantida pelos regimes socialistas do início do século XX. Neste ponto, cabe uma ressalva em relação à sua influência na filosofia da educação. Concebido como ideologia política, o “marxismo” se apropria das ideias de Marx de uma forma bem específica, a partir da interpretação de outros pensadores revolucionários como Friedrich Engels e Lenin, esse último um dos principais líderes comunistas da Revolução Russa. A perspectiva histórico-crítica, entretanto, não necessariamente se afilia ao marxismo ou ao projeto político socialista. A maior contribuição de Marx para a filosofia da educação consiste na percepção de que nenhuma forma de educação pode ser absolutamente neutra e imparcial em termos políticos. Todo ato educativo traz consigo valores e uma determinada visão de mundo, de modo que a escola deve ser pensada con- juntamente com uma reflexão mais ampla sobre a conjuntura socioeconômica e política da sociedade. É precisamente essa percepção do caráter “não neutro” da educação que permanecerá como uma orientação geral para as diversas vertentes da perspectiva histórico-crítica; algumas mais diretamente comprometidas com um projeto político de esquerda, outras simplesmente concentradas na análise crítica das relações entre a escola e a sociedade. O posicionamento de Marx acerca da educação assume, no início, um caráter expressamente negativo: dado que no sistema capitalista a escola integra a superestrutura social, não haveria meios para uma efetiva reforma do ensino sem a total transformação da sociedade. Seria preciso que a escola classes, sem a existência da propriedade privada e, mais importante, sem a presença do Estado, ou seja, não regida por qualquer forma de governo. Já o socialismo seria um passo intermediá- rio entre a extinção do capitalismo e o comunismo, ou seja, uma forma de governo que man- tém a presença do Estado, mas socializa os meios de produção. No socialismo ocorre o fim da propriedade privada e o Estado fica responsável pela manutenção dos cidadãos, cujo trabalho se destina à produção de bens comuns, distribuídos pelo governo. FED.indb 121 25/02/2016 14:40:10 – 122 – Filosofia da Educação acompanhasse o próprio movimento revolucionário, instituindo novas for- mas de ensino de acordo como os valores da classe trabalhadora. Contudo, para os fins de uma transformação desse porte, a educação ocuparia um papel especial em relação aos demais setores da sociedade. Afinal, apenas por meio da tomada de consciência de sua própria realidade social é que os homens podem libertar-se de sua condição alienada, passando a se reconhe- cer como seres políticos e sujeitos do próprio conhecimento. Precisamente neste ponto, podemos vislumbrar a valorosa suges- tão da reflexão de teor marxista para a perspectiva histórico-crítica: Embora a educação possa, de fato, contribuir para a alienação social, ela também traz consigo o eterno poder de libertação do ser humano. Em outras palavras, a prática educacional tem a capacidade de se converter em um instrumento transformador da consciência, levando o educando a superar o estado de alienação e reconhecer- -se como coautor do processo histórico da humanidade. As críticas sociopolíticas à educação liberal, portanto, não se restringem à tarefa negativa de explicitar o comprometimento do ensino escolar com o projeto econômico e político vigente. Uma vez compreendida essa situação, é preciso seguir adiante e refletir sobre as estratégias que permitam, antes de tudo, superar o modelo pedagógico reprodutivista, propiciando o ambiente para qualquer tipo de transformação ideológica. 3.2.5 Gramsci e o conceito de hegemonia Enquanto o marxismo-leninismo se estendeu pelo oriente em sua forma mais radical e revolucionária, mantendo-se como a ideologia oficial dos regimes socialistas totalitários nos países da antiga União Soviética, na Europa Ocidental surgem outras linhas interpretativas das ideias de Marx, conhecidas como neomarxismo. Entre os neomarxistas, o italiano Antonio Gramsci destacou-se por reformular alguns pressupostos do materialismo histórico dialético, oferecendo contribuições muito relevantes para a filosofia da educação. Antonio Gramsci foi um militante do Partido Comunista Italiano. Tralhando como jornalista, ele escreveu diversos artigos sobre a luta entre os FED.indb 122 25/02/2016 14:40:10 – 123 – Novas imagens do homem partidos socialistas e o Estado capitalista pelo poder. Preso durante onze anos pelo regime fascista, Gramsci passou a aprofundar seus estudos sobre as ideias de Marx e a teoria socialista, tornando-se um crítico de certos aspectos do marxismo adotado pelos comunistas. A crítica de Marx à escola, concebida como um instrumento de reprodução da sociedade de classes, será amplamente desenvolvida pela maioria dos teóricos socialistas. Assumindo uma postura determinista, tais teóricos afirmavam que nada poderia ser feito pela educação (superestrutura) enquanto a base social não houvesse sido transformada pelo processo revolucionário. Pelo contrário, talvez a escola representasse até mesmo um obstáculo para a revolução, devendo ser abolida, conforme defendiam alguns comunistas mais radicais. Recuperando a noção marxista de dialética, Gramsci recusa a ideia de uma relação determinista e estacionária entre a base e a superestrutura social. Segundo o filósofo italiano, não é apenas por meio de seu aparato econômico que o Estado burguês consegue se manter no poder. A dimensão da cultura e da educação também são responsáveis pela sustentação dos ideais pertencentes à classe dominante. Em outras palavras, a burguesia se consolida como classe hegemônica à medida que os seus valores passam a ser compartilhados também pela classe proletária, que deseja alcançar a mesma posição. Através do conceito de hegemonia, Gamsci resgata o valor da escola como o principal espaço aberto para a organização popular e o questionamento da dominação ideológica. Ainda que tenha sido responsável pela reprodução dos valores da classe hegemônica, a escola não está eternamente condenada a este papel. A educação pode contribuir para o surgimento e a consolidação de uma cultura contra-hegemônica, capaz de resistir ao predomínio ideológicas do capitalismo. É nesse contexto que Gramsci fala da possibilidade do surgimento de um novo tipo de pensador; o intelectual orgânico. Para o filósofo todos somos intelectuais, pois refletimos diretamente sobre o mundo quenos cerca. Porém, FED.indb 123 25/02/2016 14:40:10 – 124 – Filosofia da Educação nas sociedades formadas ao longo da história, apenas alguns desenvolveram tradicionalmente esse papel. Há, portanto, dois tipos de intelectuais que podemos diferenciar: intelectuais tradicionais e intelectuais orgânicos. Os primeiros se consideram uma classe separada e detentora de um saber muito especializado, (como o clero nas sociedades medievais ou a figura do técnico na sociedade industrial). Essa pressuposição sustenta uma neutralidade do pensamento intelectual, separando ação intelectual (teoria) e ação política ou social (prática). Já o intelectual orgânico apresenta-se como alguém que vem de camadas inferiores da sociedade ou adere a estas e constitui ações e discursos que conscientizam todos de seu papel social. Novamente, a escola se apresenta como um campo possível de mobilização popular e desenvolvimento de ideais contra-hegemô- nicos. Conectada aos interesses das classes trabalhadoras, a ins- tiuições de ensino poderiam estar abertas à atuação de intelectuais orgânicos, envolvidos em um projeto de emancipação popular. 3.2.6 Epistemologia histórico-crítica Como vimos anteriormente, resultou da filosofia moderna uma dicotomia entre a razão e a percepção sensível no processo de construção do conhecimento. No século XIX, ao rejeitar a existência de conhecimentos a priori (conceitos dados pela razão sem a participação da sensibilidade, como propunha Kant), o positivismo volta a dar prioridade a uma visão empirista, valorizando o conhecimento científico dos objetos, mas oferecendo uma visão limitada do ser humano. Aqueles que se opuseram a essa epistemologia naturalista, entretanto, permaneceram inclinados a conservar alguma forma de apriorismo, ou seja, a aposta na existência de noções ou conceitos inatos ao sujeito. De acordo com Maria Lúcia de Arruda Aranha, essa oposição encerra sérias dificuldades: Segundo as tendências contemporâneas, tanto o apriorismo quanto o empirismo são insuficientes para explicar a complexidade do ato cog- nitivo, esbarrando várias vezes em problemas insolúveis. Vejamos um exemplo: se as idéias são inatas devem ser atemporais e, portanto, per- manentes. Como explicar sua mudança no tempo e no espaço? [...] Por outro lado, se os empiristas partem da experiência, como considerar que FED.indb 124 25/02/2016 14:40:10 – 125 – Novas imagens do homem as sensações individuais, portanto particulares e subjetivas, podem nos levar a um conhecimento geral? Nesse caso seria preciso concluir que tudo é relativo ou que a razão humana é incapaz de conhecer a realidade, ou seja, seria preciso admitir o ceticismo. (ARANHA, 2006, p. 162). Ao longo do século XX, as tentativas de superar a oposição entre apriorismo e empirismo pretendem reformular por completo a questão do conhecimento, rompendo com os paradigmas presentes na epistemologia tradicional. No campo da filosofia da educação, tais alternativas representarão não apenas uma inovação na compreensão do processo cognitivo, mas também o surgimento de outras formas de conceber o próprio ser humano e sua relação com o outro e com o mundo. Vejamos algumas breves indicações dessas referências teóricas. 3.2.7 A fenomenologia e a dicotomia sujeito-objeto A interpretação fenomenológica do conhecimento tem como uma de suas motivações iniciais precisamente a crítica ao dualismo mantido pela epis- temologia tradicional. A dicotomia entre o apriorismo e o empirismo sempre oscila entre o polo do sujeito e o polo do objeto. Quando o objeto é colocado em primeiro plano (empirismo), prevalece a noção de “realidade em si” inerente à perspectiva naturalista, onde todas as qualidades do sujeito são minimizadas como elementos subjetivos. Quando, ao contrário, o sujeito passa a ocupar o centro da reflexão (racionalismo/Kant), predominam as referências às ideias a priori ou “conteúdos mentais”, dificilmente justificadas sem o recurso a outra realidade, concebida à parte do mundo material. Assim, a fenomenologia recusa essa dicotomia considerando-a como um produto da abstração racional, posterior à nossa existência concreta no mundo. Anterior a toda espécie de racionalização, o conhecimento ocorre pelo encontro entre sujeito e objeto num só ato; a abertura da consciência ao mundo. É importante saber que, desde o seu nascimento, a partir das ideias do filósofo alemão Edmund Husserl, a fenomenologia não representa apenas mais uma filosofia, mas sim um novo modo de filosofar. Seu método está fundamentado na tentativa de descrição e reflexão filosófica sobre as coisas, tal como elas se mostram à nossa consciência, sem o recurso aos conceitos teóricos utilizados pela ciência e pela filosofia tradicional. FED.indb 125 25/02/2016 14:40:10 – 126 – Filosofia da Educação Deixando para trás a metafísica clássica e a perspectiva naturalista das ciências, Husserl deixou claro em seus escritos que a fenomenologia deveria “ir às coisas mesmas”. O método fenomenológico, portanto, consiste na tentativa de nos despirmos de toda a nossa herança conceitual, passando a investigar filosoficamente apenas os fenômenos, isto é, o puro mostrar-se do mundo para a consciência. Levando adiante esse esforço, passamos a compreender como o nosso ser está sempre direcionado ao mundo; referindo-se a ele em todos os nossos atos de consciência (pensamentos, imaginações, vontades, percepções etc). Trata-se do conceito de intencionalidade: em nossa vida prática, qualquer ação da consciência pode ser vista como um “voltar-se para”. A intencionalidade é justamente esse permanente direcionamento da consciência para o mundo, que não apenas descobre as coisas (como uma realidade pronta), senão que também lhes confere o próprio sentido. Nesse contexto, ao perceber o mundo, também o construímos à nossa maneira. Essa inovadora e complexa forma de filosofar revela um importante ponto de oposição à epistemologia tradicional, a saber: sujeito e objeto nunca são entidades separadas no mundo. Do ponto de vista do fenômeno, ou seja, do modo como acessamos imediatamente a realidade, o “eu” que percebe e a coisa percebida se dão conjunta- mente para a consciência intencional. Sem essa união original, nem o sujeito nem o objeto poderiam ser pensados separadamente. Esse tipo de conclusão trará múltiplas implicações para uma nova forma de compreender o processo educacional. Vejamos as principais delas: 2 Ensinar e aprender não se limitam nem à mera transmissão de conteúdos do professor ao aluno nem à elaboração exclusiva do aluno orientada pelo professor. Podemos concluir que sujeito e objeto complementam-se um ao outro, construindo o conhecimento. 2 Dado que, ao abrir-se para o mundo, a consciência também lhe confere significado, o conhecimento não se resume à “aquisição” de conteúdos prontos. Ao contrário, trata-se de um processo em aberto, onde o sujeito e o objeto do conhecimento permanecem em íntima relação de significação. FED.indb 126 25/02/2016 14:40:10 – 127 – Novas imagens do homem 2 Husserl valorizava o “mundo da vida” como o terreno de atuação do fenomenólogo. É preciso se ocupar da realidade das salas de aula, e não de situações ideais de ensino. A filosofia da educação deve se voltar para as vivências do educando e sua relação com o saber. 2 A abertura da consciência individual ao mundo traz consigo, imedia- tamente, a presença do outro, ou seja, o fato da existência de outras consciências, de igual modo capazes de sentir e significar a realidade. A complexidade das relações humanas é diretamente abordada pela reflexão fenomenológica, como a própria complexidade do mundo. É preciso decodificar e ressignificar os valores culturais através da tomada de consciência do eu e do outro na construção do conhecimento. Em resumo, a nova abordagem da fenomenologia sobre o conhecimento e a sua rejeição da dicotomia sujeito-objeto fornecerão à filosofia da educaçãouma base teórica alternativa. A partir dessas referências, começam a surgir teorias pedagógicas capazes de pensar as relações professor-aluno como cons- trução do conhecimento mediada pelo mundo. 3.2.8 Teorias construtivista e sociointeracionista Como vimos anteriormente, no início do século XX a psicologia com- portamental foi desenvolvida com base na perspectiva naturalista científica. Aprofundando este ramo, psicólogos behavioristas como Watson e Skinner interpretaram o ato de aprender como algo que se resume à adequada influ- ência do objeto sobre o aparelho sensível do sujeito. No campo da educação, essa concepção se reflete na ênfase à minuciosa programação técnica das ati- vidades de ensino, que devem ser seguidas passo a passo, com o objetivo de provocar os estímulos corretos para a aprendizagem. Para a perspectiva histórico-social, essa concepção behaviorista da educa- ção minimiza o valor da individualidade do educando no processo de apren- dizagem. Pensados unicamente sob o ponto de vista de sua natureza biológica, os homens são vistos como iguais. Porém, essa igualdade biológica despreza o fato de que cada indivíduo mantém a sua singularidade e a constrói justamente pelas relações sociais e pela interação (e não sujeição) com o seu meio. FED.indb 127 25/02/2016 14:40:11 – 128 – Filosofia da Educação O sucesso das ações pedagógicas extremamente programadas depende de uma condição nem sempre fácil de se conseguir, a saber, que o ambiente se comporte do modo esperado, para que os estímulos possam ser corretamente eficazes. Mas o comportamento humano, entretanto, nunca é unidimensional e não pode ser inteiramente previsto pela ciência como uma realidade objetiva. Basta pensarmos no dia a dia das salas de aula, onde variados elementos contribuem para o ambiente e a estabilidade de uma turma de alunos. Assim, influenciada tanto pela dialética marxista como pela metodologia fenomenológica, surge a psicologia construtivista-interacionista de Jean Piaget e o sociointeracionismo de Lev S. Vygotksky, que ainda exercem significativa influência sobre as teorias pedagógicas contemporâneas. O psicólogo suíço Jean Piaget compreendia o organismo e seu comportamento como um sistema complexo, que procura manter um equilíbrio entre as estruturas cognitivas do indivíduo (a mente) e os estímulos do ambiente (o mundo). Absorvendo a reformulação da dicotomia sujeito-objeto realizada pela fenomenologia, Piaget desenvolve sua noção construtivista do conhecimento. Segundo Becker (1994, p. 88): O sujeito age sobre o objeto, assimilando-o: essa ação assimiladora transforma o objeto. O objeto, ao ser assimilado, resiste aos instrumen- tos de assimilação de que o sujeito dispõe no momento. Por isso, o sujeito reage refazendo esses instrumentos ou construindo novos instru- mentos, mais poderosos, com os quais se torna capaz de assimilar, isto é, de transformar objetos cada vez mais complexos. [...] Piaget derruba a ideia de um universo de conhecimento dado, seja na bagagem here- ditária (apriorismo), seja no meio (empirismo) físico ou social. Criou a ideia de conhecimento-construção, expressando, nessa área específica, o movimento do pensamento humano em cada indivíduo particular. Os estudos de Piaget sobre o conhecimento ficaram conhecidos como psicologia genética4 (ou epistemologia genética). Para o psicólogo suíço, as estruturas do conhecimento humano nunca se encontram prontas e acabadas, mas vão se desenvolvendo de forma gradual a partir da interação do homem com o meio natural e social. Dessa maneira, principalmente durante diferentes fases do desenvolvimento infantil, desenvolvem-se certas 4 Este nome não se refere aos avanços das pesquisas biológicas sobre os genes, mas sim à im- portância dada por Piaget ao modo como se desenvolve o conhecimento no homem desde a infância, isto é, à gênese dos processos cognitivos. FED.indb 128 25/02/2016 14:40:11 – 129 – Novas imagens do homem capacidades cognitivas, de modo que a educação deve ser apropriadamente direcionada a essas fases de aprendizagem. Fonte: Shutterstock, 2013. Dedicando-se a extensos estudos experimentais que envolvem a educação, Piaget classificou diferentes fases de aprendizagem e suas características. 2 De 0 a 2 anos (período sensório-motor): A inteligência começa a se desenvolver a partir da motricidade; o bebê aos poucos organiza sua experiência do mundo conforme a sua percepção sensorial e os movimentos. 2 De 2 a 7 anos (período simbólico): Ocorre o desenvolvimento gradual da linguagem e da capacidade de trabalhar com representações para atribuir significados à realidade. 2 De 7 a 11 anos (período das operações concretas): A criança constrói relações entre os diferentes aspectos da realidade e a capacidade de abstração das propriedades de objetos e situações. Tem início a estruturação das operações lógicas. 2 A partir de 12 anos (período das operações formais): Dá-se o pleno desenvolvimento do raciocínio lógico, a capacidade de raciocinar sobre hipóteses e formular esquemas conceituais abstratos. Desenvolve-se também a autonomia moral, entendida como a capacidade de compreender e criticar os sistemas sociais e propor novos códigos de conduta. Como você pôde ver, Piaget não considera a inteligência (e o desenvol- vimento humano) algo estático. Ao contrário, assim como o mundo que nos FED.indb 129 25/02/2016 14:40:12 – 130 – Filosofia da Educação cerca, também a nossa cognição se encontra em constante movimento, sendo construída a partir do jogo entre as percepções do indivíduo e a reação do meio externo. Segundo Piaget, a simultânea determinação do objeto pelo sujeito e do sujeito pelo objeto (interação) expressa o próprio processo de adaptação natural de um indivíduo a seu meio. Observe a seguir como acontece esse processo. 2 Em primeiro lugar, ocorre uma assimilação do objeto, pela qual o sujeito usa as estruturas cognitivas de que dispõe para compreender melhor as características de algo novo. 2 Muitas vezes, tais estruturas não são suficientes para entender a novidade, criando um desequilíbrio entre tudo o que conhecemos e aquele novo elemento, ainda incompatível com nossos saberes. 2 Ocorre então uma acomodação das novas características apreen- didas, ou seja, um alargamento de nossos conhecimento através da criação de novas estruturas que nos permitem incluir os elementos desconhecidos. A partir dessa nova concepção do conhecimento, a teoria construtivista ofereceu à pedagogia e à filosofia da educação uma enorme contribuição. Aqui se encontra uma base teórica capaz de sustentar uma sólida oposição ao ensino tradicional, baseado unicamente na autoridade do professor. Afinal, se o conhecimento humano se estrutura em diferentes fases, também a educação deve consistir em um processo gra- dual de desenvolvimento da autonomia do educando. Mais do que isso, torna-se evidente o valor da interação do educando com os objetos de conhecimento, de modo que, para a teoria construtivista, o aluno precisa “aprender fazendo” (este será o lema das linhas pedagógicas que seguem a psicologia genética), e cabe ao professor conduzir esse processo e estar atento às construções do conhecimento elaboradas pelo aluno. A psicologia sociointeracionista de Lev Vygotsky segue um caminho próximo ao construtivismo, porém assimilando as influências da filosofia FED.indb 130 25/02/2016 14:40:12 – 131 – Novas imagens do homem marxista e permanecendo mais próxima da perspectiva histórico-crítica. Para o psicólogo russo, a interação sujeito-objeto não pode ser concebida sem que se leve em conta o meio em que ela ocorre. O conhecimento, portanto, tem sua origem no nível coletivo (interpsicológico), efetivando-se então no nível pessoal (intrapsicológico). Para Vygotsky o meio social se apresenta como o principal fator de desenvolvimento da consciência. As ações e a linguagem se unem no processo de mediação do indivíduo comoutros seres humanos, de modo que a convivência o impele a aprimorar suas funções mentais superiores. Contudo, a aprendizagem não se resume a um processo de cópia ou reprodução da realidade externa pelo sujeito. Cada indivíduo internaliza o conhecimento, reconstruindo-o de forma particular. Trata-se de um processo de apropriação do saber. A partir dos estudos desenvolvidos por Piaget, Vygotsky também analisou as diversas fases do desenvolvimento psicológico infantil, criando o conceito de desenvolvimento proximal, que permite identificar o campo de conhecimentos que se encontra ao alcance do potencial de aprendizagem do indivíduo. Segundo o sociointeracionismo, nossas funções psicológicas incluem dois níveis de desenvolvimento, que se mostram mais claramente durante a infância: a zona de desenvolvimento real, ou seja, as etapas de desenvolvimento já definitivamente conquistadas pelo indivíduo, que permitem-no resolver problemas e desempenhar atividades sozinho; e a zona de desenvolvimento potencial, que indica um conjunto de competências ao alcance do indivíduo de acordo com os conhecimento de que dispõe, mas que, para atingi-lo, ainda é necessária alguma ajuda externa, seja de um professor ou de um colega. Assim, a zona de desenvolvimento proximal consiste justamente na distância entre o desenvolvimento real e o desenvolvimento potencial, que pode ser verificada pelo professor enquanto auxilia a criança em suas atividades ou na resolução de problemas. Considerando o conceito de desenvolvimento proximal, pode- mos perceber como a interação com o meio social é um elemento fundamental para a teoria de Vygotsky. O conhecimento deixa de ser um conteúdo meramente abstrato e existente por si para FED.indb 131 25/02/2016 14:40:12 – 132 – Filosofia da Educação converter-se em um processo de elaboração coletiva, que sofre uma reelaboração individual, sendo apropriado a seu modo por cada sujeito. Em outras palavras, o conhecimento é algo vivo, sendo construído e reconstruído a cada momento pelos sujei- tos, os quais são mediados pela interação social. Aqui chegamos ao grande desafio da educação em nosso tempo, encarado de frente pela perspectiva histórico-crítica: é preciso que o ensino escolar conduza a esse processo de apropriação do conhecimento por parte do educando. A atribuição fundamental do professor é a de socializar o conhecimento produzido pela humanidade e intervir como agente mediador no processo de desenvolvimento autônomo dos alunos. 3.2.9 Crítica filosófico-metodológica Por fim, uma última via de oposição histórico-crítica às concepções pedagógicas tradicionais se dá através da antropologia filosófica. Trata-se da rejeição do essencialismo e do naturalismo científico em razão das respectivas “imagens do homem” projetadas por cada uma dessas perspectivas. Vamos retomar algumas das referências teóricas vistas anteriormente, agora sob o ponto de vista da imagem histórico-crítica do homem. 3.2.10 A dialética na educação A perspectiva histórico-crítica aplica os pressupostos da dialética hegeliana para pensar a educação como algo fundamentalmente dinâmico. Dada a complexidade do mundo em que vivemos, é preciso romper com o modo linear e dogmático de interpretar a realidade. A contrariedade é um elemento fundamental no processo educativo, pois o conhecimento humano se realiza através da oposição entre perspectivas contrárias. A dialética permite ao educador gerenciar a contradição como parte integrante da ação pedagógica. Segundo Aranha (2006, p. 213): [...] da concepção dialética deriva um novo conceito de razão e de his- tória: enquanto os filósofos anteriores estavam preocupados em afir- FED.indb 132 25/02/2016 14:40:13 – 133 – Novas imagens do homem mar ou rejeitar a capacidade da razão para alcançar a verdade eterna e imutável, Hegel argumentava que a razão é histórica. Portanto, em oposição à pedagogia essencialista, para a qual a educação é pensada em termos de valores eternos, uma pedagogia de orientação dialética deve compreender a educação na confluência do presente, passado e futuro. Por reconhecer que a negação também faz parte do processo de aprendizagem, a concepção dialética dá um importante passo na direção de uma educação mais humanitária, voltada para a construção ativa do saber. A contradição de opiniões, o debate, a dúvida e a oposição (que naturalmente surgem em qualquer sala de aula) não devem ser encarados como falhas na assimilação de um conteúdo. Ao contrário, constituem o próprio meio a partir do qual nos apropriamos verdadeiramente do conhecimento. 3.2.11 Fenomenologia e existencialismo Como vimos anteriormente, a fenomenologia se opõe à objetivação do ser humano imposta pela perspectiva naturalista científica. Ao converter o ser humano em objeto, a ciência perde de vista sua dimensão existencial. Precisamente o “ser” do ser humano escapa a esse tipo de investigação objetiva, limitando nossa compreensão sobre a pluralidade de sentido própria da existência humana. Nas palavras de Martin Heidegger, um dos principais expoentes da corrente fenomenológica: A pessoa não é um ser substancial, nos moldes de uma coisa. Além disso, o ser da pessoa não pode exaurir-se em ser sujeito de atos racionais, regidos por determinadas leis. […] Atos são sempre algo não psíquico. Pertence à essência da pessoa apenas existir no exercício de atos intencionais e, portanto, a pessoa em sua essência não é objeto algum. Toda objetivação psíquica, por conseguinte toda apreensão de um ato como algo psíquico, equivale a uma despersonalização. (HEIDEGGER, 1998, p. 84). FED.indb 133 25/02/2016 14:40:13 – 134 – Filosofia da Educação Note que a orientação metodológica da fenomenologia consiste em ten- tar pôr de lado toda teoria previamente determinada para focar-se apenas no fenômeno, tal como ele se mostra à consciência. Quando utilizamos esse método para pensar o homem, somos conduzidos diretamente para o domí- nio da existência, para o mundo da vida. Assim, o ser humano passa a ser compreendido, antes de tudo, como ser-no-mundo. Daí a conexão da feno- menologia com a filosofia existencialista. Como perspectiva filosófica, o existencialismo assumiu um caráter con- turbado, marcado pelas tensões e ansiedades do indivíduo, que se encontra lançado no mundo por sua própria responsabilidade, sem o conforto de um sentido previamente determinado por qualquer filosofia ou pela religião. O filósofo existencialista Jean-Paul Sartre afirmava que “a existência precede a essência”, querendo com isso dizer que somente durante sua existência a consciência humana define, a cada momento, o que ela é. Esse caráter único da condição humana implica a mais absoluta liberdade, mas também a com- pleta ausência de um ponto fixo que forneça qualquer sentido claramente definido à existência. Deixando de lado as especificidades da fenomenologia e do existencia- lismo, vamos analisar o modo pelo qual essas correntes filosóficas são assimi- ladas pela perspectiva histórico-crítica, contribuindo significativamente para a filosofia da educação. Priorizando a aplicação do conhecimento científico no campo da edu- cação, a perspectiva naturalista origina um ensino predominantemente tec- nicista, voltado para a instrução e a padronização do conhecimento. O aluno é considerado especificamente sob o ponto de vista da efetivação do apren- dizado. Essa objetificação do sujeito do conhecimento conduz a uma perda da individualidade, ou seja, à alienação intelectual. O aluno deixa de se reconhecer como sujeito do conhecimento, para apenas se identificar como objeto da ação pedagógica do professor. Posicionando-se contrariamente à postura tecnicista, a fenomenologia tenta combater a alienação intelectual compreendendo o educando como ser-no-mundo. Nesse sentido, todas as suas dimensões existenciais (cog- nitiva, afetiva, emocional, social) devem adquirir maior importância para os teóricos da educação.Também para o existencialismo, é imprescindível FED.indb 134 25/02/2016 14:40:13 – 135 – Novas imagens do homem romper com a objetificação e reconhecer que cada indivíduo tem seu uni- verso de significado pessoal. De um modo geral, uma das maiores contribuições da fenomenologia e do existencialismo para a perspectiva histórico- crítica é a reflexão sobre a figura do professor em sala de aula e o significado da interação entre professores e alunos. Conclui-se que é preciso romper com a dicotomia professor/aluno e valorizar a educação como o encontro de dois seres-no-mundo que, apesar de quaisquer diferenças, compartilham de uma unidade de sentido conferida pela experiência; a vivência na escola e em sala de aula. Síntese Nesta unidade fizemos uma longa jornada pelas diferentes bases teóricas que sustentam as novas imagens do homem: a perspectiva naturalista cien- tífica e a perspectiva histórico-crítica. Destas duas provém a maior parte dos elementos teóricos presentes no cenário pedagógico contemporâneo. Primeiro, acompanhamos a formação da perspectiva naturalista a partir do contexto histórico da Revolução Industrial e das contribuições do pensa- mento positivista, bem como seus desdobramentos pedagógicos na concep- ção evolucionista de Spencer e na psicologia comportamental. O naturalismo tende a enfatizar a abordagem empirista do conhecimento e o aspecto mais técnico da educação, tanto em relação aos conteúdos como também no que se refere ao planejamento de ações pedagógicas. Posteriormente, estudamos o surgimento de uma nova forma de enca- rar a educação, o homem e a sociedade, vistos sob a chamada perspectiva histórico-crítica. Mais do que uma corrente pedagógica bem definida em seus conceitos e autores, essa perspectiva representa a reunião de diversas referências teóricas unidas pela intenção comum da transformação da ima- gem tradicional da educação como transmissão de conhecimentos. A dia- lética traz a importância da aceitação da contradição como um elemento presente nas relações humanas e na educação. As filosofias de orientação FED.indb 135 25/02/2016 14:40:13 – 136 – Filosofia da Educação marxista mostram como o ato de educar nunca é neutro, sempre trazendo consigo determinada visão de mundo. A fenomenologia e o construti- vismo apontam para novas formas de compreender a relação sujeito-objeto e a aprendizagem. FED.indb 136 25/02/2016 14:40:13 4 A formação do pensamento pedagógico brasileiro Após termos conhecido diferentes perspectivas sobre a educação a partir de seus pressupostos teóricos, chegou o momento de compreendermos de que modo elas se desdobram na prática. Cada uma das perspectivas estudadas anteriormente teve ou ainda tem influência sobre o pensamento pedagógico brasileiro, atuando concretamente em relação ao ensino e à realidade das salas de aula. Seguindo a ordem cronológica do desenvolvimento da educação brasileira, você aprenderá sobre as pedagogias liberais (pedagogia tradicional, Escola Nova e tendência tecnicista) e as alternativas histórico-sociais representadas pela pedagogia progressista. FED.indb 137 25/02/2016 14:40:14 – 138 – Filosofia da Educação 4.1 O desenvolvimento da educação brasileira e a pedagogia tradicional O conceito de pedagogia tradicional é usado para designar a reunião de certas tendências assimiladas pela educação brasileira ao longo da história, até as primeiras décadas do século XX. Boa parte dessas tendências provém da tradição do ensino católico, presente desde os primórdios da colonização portuguesa até o período republicano. Mas há também influências do desenvolvimento da sociedade capitalista e do debate político que universaliza o ensino e instaura a escola pública como direito do cidadão e dever do Estado. Vejamos um breve resumo histórico do desenvolvimento inicial da educação brasileira. A educação confessional1 esteve presente desde a chegada dos portugueses ao Brasil. As primeiras escolas foram construídas pelos padres jesuítas, que buscavam ensinar às crianças nativas a língua e os costumes europeus, com o objetivo de convertê-las à fé católica. Com o passar do tempo, os jesuítas assumiram também a educação dos colonos, fundando os primeiros colégios secundários em regime de internato. A pedagogia jesuítica se fundamentava na Ratio studiorum, uma publicação que estabelecia todos os detalhes da organização das escolas e do plano de estudos a ser seguido por qualquer membro da Companhia de Jesus. Assim, utilizando uma forma padrão de ensinar, baseada em um rigoroso método disciplinar e administrativo, a educação jesuíta se expandiu por todas as regiões colonizadas do país. Esse monopólio sobre a educação será mantido até o século XVIII, quando, por questões políticas, a Companhia de Jesus será banida pelo Marquês de Pombal, tendo início a primeira reforma educacional da história da educação brasileira. 1 Educação confessional é a educação religiosa, cujo projeto pedagógico inclui na formação do educando os princípios de determinada fé. FED.indb 138 25/02/2016 14:40:14 – 139 – A formação do pensamento pedagógico brasileiro A partir da chamada reforma pombalina, a educação será então conduzida pelo Estado português, que passa a cobrar impostos voltados para a estruturação de um novo sistema de ensino. Porém, sem a eficaz sistemati- zação do ensino e da administração das escolas mantida pelos jesuítas, as tentativas de reforma introduzidas pela Coroa portuguesa não alcançaram o sucesso esperado. Ao contrário, o que efetivamente ocorreu foi a completa desarticulação do ensino, de modo que a as instituições de ensino mais estruturadas continuaram a ser os semi- nários e os colégios religiosos de outras ordens católicas, como os franciscanos, os carmelitas e os oratorianos. Voltada principalmente para o ensino secundário diri- gido à elite colonial, a educação brasileira permaneceu estagnada. Embora a chegada da família real, no início do século XIX, tenha trazido algumas inovações (como a criação das primeiras instituições de ensino supe- rior), a condição da educação popular era a mesma. Somente ao final do século XIX, com o movimento repu- blicano e a difusão dos ideais positivistas de progresso e modernização da sociedade brasileira, a educação rece- berá uma nova abordagem, surgindo as primeiras esco- las leigas2 e a proposta de universalização do ensino. Como você pode ver, o ensino religioso foi uma constante no desenvolvimento inicial da educação brasileira. A pedagogia jesuítica era baseada na disciplina rígida, na exposição verbal e na memorização de conteúdos por meio da repetição. Os alunos tinham todo o seu tempo ocupado por um intenso regime de estudos, marcado pela ênfase à obediência, sob pena de castigos corporais. As aulas consistiam na leitura 2 Escola leiga é um sinônimo de escola laica, ou seja, as instituições de ensino não orientadas por nenhuma doutrina religiosa. FED.indb 139 25/02/2016 14:40:14 – 140 – Filosofia da Educação dos textos didáticos pelo professor, seguida pela explicação expositiva, pelos exercícios de leitura, memorização e repetição do conteúdo abordado em cada aula. Mesmo após a partida dos jesuítas, esse modelo de educação continuou influenciando as demais escolas religiosas e também as primeiras escolas leigas estabelecidas pelo Estado. Com base no que já estudamos, podemos analisar teoricamente essa forma de educação e situá-la na perspectiva essencialista, dado que sua meta é a de “educar para a fé”, enfatizando a formação intelectual e moral dos alu- nos segundo os preceitos da Igreja. O método de ensino pode ser classificado como expositivo-reprodutor, e a relação professor-aluno é magistrocêntrica, isto é, apenas o mestre (em latim, magister) detém todo o saber e ocupa o centro da ação pedagógica. O aluno é o objeto ao qual se dirige o ensino. Embora você talvez já esteja associando essas características do ensinoreligioso à pedagogia tradicional, é importante saber que a educação religiosa não é a única base daquilo que consideramos a pedagogia tradicional na edu- cação brasileira. Além da influência religiosa, a pedagogia tradicional recebeu influências dos valores republicanos e do pensamento liberal. Quanto a este ponto, podemos dizer que a pedagogia tradicional já se afastava da antiga educação confessional por seu caráter laico (sem relação com a religião) e por sustentar a proposta de universalização do ensino. Com a Proclamação da República no Brasil, o novo governo se volta para a reforma do ensino primário e secundário. Se anteriormente a educação popular não convinha à estrutura da economia latifundiária do Império, a partir desse momento a proposta da universalização do ensino se torna uma necessidade urgente para a estruturação do capitalismo industrial no país. Segundo Saviani (1994, p. 28), “a escola surge, então, como o grande instrumento de realização dos ideais liberais. Forja-se, a partir da segunda metade do século XIX, a idéia da ‘escola redentora da humanidade’”. A presença do liberalismo político trouxe para a educação brasileira uma vertente pedagógica leiga, que passa a se desenvolver juntamente com as pri- meiras tentativas de estruturação de um sistema público de ensino. A nas- cente escola pública receberá novas influências pedagógicas, diferenciando-se, em certos aspectos, das instituições religiosas de ensino confessional. Uma dessas influências será a pedagogia realista do alemão John Friedrich Her- FED.indb 140 25/02/2016 14:40:14 – 141 – A formação do pensamento pedagógico brasileiro bart, para o qual a educação deveria seguir um método rigorosamente guiado pela instrução intelectual e moral do aluno. A pedagogia herbartiana apresentava um programa de “instrução educa- tiva” dividido em cinco passos formais: 2 Preparação: Retomada dos conteúdos anteriores à lição a ser aprendida. 2 Apresentação: Exposição do conteúdo pelo professor de forma oral. 2 Assimilação: Relação do conteúdo com outros temas aprendidos. 2 Generalização: Os alunos são levados a tentar desenvolver concep- ções gerais com base no conteúdo em questão. 2 Aplicação: Através de exercícios, o aluno aplica o que aprendeu. Comparada à metodologia religiosa, a pedagogia herbartiana de fato se mostra mais dinâmica, pois diversifica o processo de ensino, concentrando-se um pouco mais na figura do aluno. Entretanto, a educação continua a ser totalmente conduzida pelo professor e permanece centrada na ideia de “governo”’, isto é, no rígido controle da agitação infantil. Nesse sentido, Herbart também sustenta um intelectualismo e a ênfase na disciplina e na transmissão de conhecimento; características típicas da pedagogia tradicional. 4.1.1 Características da pedagogia tradicional Mesmo passando por diversas reformas e adaptações, toda a educação brasileira até as primeiras décadas do século XX permaneceu direcionada pelos pressupostos da pedagogia tradicional. De um modo geral, boa parte dos hábitos e valores herdados da pedagogia jesuíta se mantiveram presentes entre os profissionais da educação. A valorização extrema da obediência e da disciplina, o caráter direcionador da conduta e a pouca abertura à inovação são resquícios dessa influência que se encontravam presentes no ideário dos educadores tradicionais. Também foram mantidos os processos tradicionais de aprendizagem, orientados pela perspectiva da transmissão do conhecimento. Do ponto de vista dos conteúdos tradicionalmente ensinados, é preciso reconhecer certas diferenças entre a pedagogia jesuítica dos FED.indb 141 25/02/2016 14:40:14 – 142 – Filosofia da Educação primeiros séculos de colonização e a orientação pedagógica das escolas do início do século XX. As transformações sociais e políticas trazidas pelo liberalismo transmitiram à educação uma nova imagem do homem, ligada ao desenvolvimento da ciência e ao esclarecimento pela razão. Gradualmente a escola se volta para o pensamento moderno e para os novos conhecimentos científicos, realizando adaptações em seus programas curriculares. Ainda assim, os conteúdos da pedagogia tradicional permanecem de caráter livresco, isto é, centrados na preocupação em transmitir de forma mecânica os saberes acumulados pela humanidade. A partir destas observações, podemos agora compreender melhor as características da pedagogia tradicional. Acompanhe: 2 Caráter diretivo e magistrocêntrico: Na pedagogia tradicional, o professor é o único responsável por dirigir todo o processo de aprendizado. A apresentação do conteúdo, a explicação, as ativi- dades e as avaliações são todas guiadas pelo mestre, cabendo aos alunos apenas seguir o ritmo imposto. O professor é considerado o único detentor do conhecimento e da autoridade. O aluno (em latim, alumnus: “aquilo que não tem luz”) tende a ser considerado como aquele que nada sabe e que deve receber a iluminação do conhecimento trazida pelo professor. 2 Metodologia expositiva: Todo o processo de ensino encontra-se fundamentado na exposição de conteúdos e na ênfase à fixação des- tes por meio de exercícios. A repetição das leituras e cópias dos textos visam à memorização de conceitos e fórmulas, que são pos- teriormente cobrados através dos processos de avaliação. 2 Abordagem intelectualista e abstrata: Ênfase na educação for- mal e na aquisição de conhecimentos a partir do esforço intelectual. Valorização dos conteúdos clássicos como fonte primária de conhe- cimento. Pelo próprio caráter intelectualista, a pedagogia tradicional tende a ser abstrata, ou seja, seus conteúdos se mostram distantes das questões da vida prática, sem aparente possibilidade de conexão. 2 Rigidez: Para manter a eficácia do método, é imprescindível que o ensino seja uniforme, sem alterações. Há, portanto, pouco ou nenhum espaço para inovações pedagógicas. FED.indb 142 25/02/2016 14:40:14 – 143 – A formação do pensamento pedagógico brasileiro 2 Reprodutora do status quo: Influenciada pelos ideais liberais, a pedagogia tradicional se adequa ao sistema político e econômico do capitalismo, formando os alunos para a inserção passiva neste tipo de sociedade. Prevalece a dualidade do ensino, com tipos dife- renciados de educação para cada classe social. O ensino popular direciona-se para a educação básica e o ensino técnico, formando a mão de obra da indústria e do comércio. Já o ensino elitizado (a cargo das escolas particulares) tende a investir na cultura e no desenvolvimento das potencialidades empreendedoras do aluno, preparando-o para exercer papeis de liderança e para ingressar no ensino superior. Em linhas gerais, essas características representam os principais elementos da pedagogia tradicional. Com o passar do tempo, algumas delas foram amenizadas, outras sofreram transforma- ções. A disciplina e a rigidez do ensino presentes nos colégios confessionais do início do século XX certamente não são as mesmas mantidas nas escolas de hoje, por exemplo. Entretanto, boa parte dessas características não foi plenamente superada. Mesmo com a ocorrência de novas tendências pedagógicas, ainda hoje a prática de muitos professores em sala de aula con- serva alguns desses elementos, em maior ou menor proporção. A fórmula geral do ensino baseado unicamente na transmissão dos conteúdos, de forma diretiva e intelectualista, certamente permanece como pano de fundo para a ação pedagógica de muitos educadores, ainda que de forma inconsciente. 4.2 O movimento da Escola Nova Na primeira década do século XX, a escola aparece como o caminho efetivo para a modernização e democratização do Brasil através do esclareci- mento das classes populares. Nesse período houve uma grande variedade de experiências pedagógicas e sucessivas reformas educacionais, na tentativa de FED.indb 143 25/02/2016 14:40:14 – 144 – Filosofia da Educação organizar e expandir o sistema público de ensino.Porém, no início dos anos 20, tal entusiasmo pela educação sofreu um abalo. Além das idas e vindas das reformas educacionais, diversos fatos históricos indicam a instabilidade social e política presente no país3. A escola não estava obtendo o sucesso esperado em seu papel de instruir as camadas populares, nem as desigualdades sociais haviam desaparecido, como sonhavam os idealistas republicanos. As críticas se voltam então para a pedagogia tradicional. Nas palavras de Saviani (1994, p. 28): No século atual [séc. XX], especialmente a partir da primeira grande guerra, as esperanças depositadas na escola resultam frustradas. A escola que nascera com a missão de “redimir os homens de seu duplo pecado histórico: a ignorância, miséria moral e a opressão, miséria política”, revelou-se incapaz de levar a bom termo aquele objetivo. Acreditou-se então que a razão do fracasso não estava na escola como tal, mas no tipo de escola de que se dispunha. Consequentemente, manteve-se a crença na “escola redentora da humanidade”. Todavia, para que ela pudesse desempenhar seu papel, era mister reformar a escola. Desencadeia-se, então, o movimento da escola nova. O movimento da Escola Nova consistiu em uma ampla tentativa de renovação da pedagogia tradicional. Suas origens se deram na Europa e nos Estados Unidos com a crítica à perspectiva essencialista e ao academicismo abstrato do ensino tradicional. Um de seus maiores teóricos foi o filósofo pragmatista americano John Dewey. O pragmatismo ficou conhecido como a filosofia da prática (do grego, pragma: “ação”), que trabalha não apenas com as ideias em si mesmas, mas principalmente com o seu resultado concreto, ou seja, os seus efeitos. Para os pragmatistas, conceitos nunca podem ser separados da experiência e da conduta humana. Seu valor deve ser medido em termos de sua aplicabilidade na vida prática. 3 Entre esses acontecimentos estão a fundação do Partido Comunista (1922) e a Revolta Te- nentista (1924). FED.indb 144 25/02/2016 14:40:14 – 145 – A formação do pensamento pedagógico brasileiro John Dewey sistematizou as ideias pragmatistas e as trouxe para o campo das ciências sociais e da educação. Para ele, as ideias só têm impor- tância desde que sirvam de instrumento para a resolução de problemas reais. Desse modo, o autor enfatiza a necessidade de aproximação entre a teoria e a prática no ambiente escolar. Dewey também rejeita o pressuposto de que exista um conhecimento absoluto a ser transmitido ao aluno. O conhecimento é, em parte, relativo às experiências práticas de cada um e se estrutura a partir de consensos. Por isso o ambiente escolar deve reproduzir as condições da vida prática, baseado em atividades conjuntas que promo- vam situações de cooperação. Em contraste com a pedagogia tradicional, o propósito fun- damental das ideias de John Dewey era o de deslocar o foco do processo de aprendizagem para a figura do aluno e para a dimensão prática do conhecimento, remodelando o ambiente escolar. Essa proposta de uma pedagogia renovada seria levada para diversos países, ficando conhecida como o movimento da Escola Nova. No Brasil o escolanovismo se desenvolveu a partir da década de 1920 com a divulgação das ideias de Dewey pelos escritos do educador e filó- sofo Anísio Teixeira. Tendo sido aluno de Dewey na Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque, Anísio dedicou-se a traduzir algumas obras do filósofo pragmatista para o português, publicando também inúmeros livros sobre educação. Ao final da mesma década, as críticas à pedagogia tradicional ganharam consistência e um número cada vez maior de educa- dores e intelectuais se uniram em torno do ideal de uma nova orientação para o ensino. Gradualmente as ideias escolanovistas ganharam seu espaço no cenário político-educacional brasileiro, e em 1932 foi publicado o Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova, um documento composto e assinado por mais de 100 intelectuais brasileiros ligados à Educação e às Ciências Sociais. FED.indb 145 25/02/2016 14:40:14 – 146 – Filosofia da Educação Fonte: Shutterstock, 2013. O objetivo central desse manifesto era compor um plano nacional de reestruturação do ensino em todos os seus níveis. Discutiam-se as políticas educacionais (a legislação sobre a educação), a integração dos sistemas de ensino municipal, estadual e federal; e a reestruturação dos currículos a partir de métodos ativos e experimentais baseados nos ideais pragmatistas. 4.2.1 Características da pedagogia renovada As críticas da Escola Nova à pedagogia tradicional direcionam-se ao seu caráter estático, isto é, à incapacidade de adaptação dos seus métodos a um mundo em constante transformação, totalmente diferente daquele no qual ela foi consolidada. Assim, o movimento escolanovista propõe uma renova- ção radical da educação, a começar pelo próprio papel da escola, que não mais deve se destinar apenas à formação intelectual do aluno, mas sim à sua prepa- ração para a vida em uma sociedade que permanece em constante mudança. Assumindo o pragmatismo de Dewey, os teóricos da Escola Nova compre- endem a noção de desenvolvimento humano em termos naturalistas, ou seja, como adaptação gradual do indivíduo ao seu meio. No caso do ser humano, essa adaptação não é apenas biológica, mas também social: o desenvolvimento de cada indivíduo consiste numa adaptação cada vez mais perfeita ao meio em que vive, através de suas relações. Cabe à educação promover esse desen- volvimento valorizando a atividade participativa dos alunos e proporcionando experiências concretas de aprendizagem. A pedagogia expressa então um cará- FED.indb 146 25/02/2016 14:40:17 – 147 – A formação do pensamento pedagógico brasileiro ter predominantemente psicológico, considerando o interesse do aluno e suas experiências individuais como centro de gravidade da prática educativa. Podemos dizer que a característica fundamental da Escola Nova é a mudança de foco no que se refere à posição do aluno no processo de aprendizagem. Assim como Rousseau, a Escola Nova pretende realizar uma inversão de papéis na educação, retirando o professor do centro da ação pedagógica e voltando todas as atenções para o aluno e seu desenvolvimento. A partir desse pressuposto, alteram-se as concepções sobre a escola, o processo de aprendizagem, a metodologia de ensino e os conteúdos ensina- dos. Embora a pedagogia renovada tenha se manifestado em diversas verten- tes, é possível apontar suas características gerais: 2 Caráter semidiretivo e paidocêntrico: A Escola Nova tende a per- manecer centrada nos interesses do aluno e, por isso, pode ser consi- derada “paidocêntrica” (do grego paidos: “criança”). Motivada por essa postura, a participação do educando é que determina o ritmo e a dire- ção das atividades; não há um direcionamento exclusivo do professor. 2 Metodologia prática (“aprender fazendo”): As aulas devem adquirir um caráter prático, ligado à pesquisa, à experimentação e às atividades manuais. Os conteúdos científicos devem ser apren- didos em laboratórios, desenvolvidos pelos próprios alunos sob a supervisão do professor. Ao mestre não caberia tanto expor os con- teúdos, mas sim coordenar o processo de descoberta dos alunos. 2 Abordagem cognitiva: Enfatizam-se mais os métodos do que os conteúdos. As atividades visam ao desenvolvimento dos processos mentais, do raciocínio e das habilidades cognitivas, isto é, a nossa capacidade de aprender. Os conteúdos podem variar de acordo com o direcionamento das atividades, não havendo um corpo específico de saberes a ser transmitido. 2 Flexibilidade e espontaneidade: A Escola Nova se propõe a con- siderar os interesses dos alunos, investindo no potencial da criança FED.indb 147 25/02/2016 14:40:17 – 148 – Filosofia da Educação em aprender buscando respostas às suas perguntas. Nesse sentido, a espontaneidade do processo pedagógico substitui a rigidez da peda- gogia tradicional. 2 Reprodutora dostatus quo: A Escola Nova se volta totalmente para o aspecto interno do ensino escolar, adequando-se às condi- ções sociais estabelecidas pelo capitalismo. E por isso figura entre as pedagogias liberais. Como você pode notar, a Escola Nova pretendia seguir pressupostos pedagógicos radicalmente contrários à educação tradicional. Seu objetivo era o de superar a concepção essencialista de “formação” da criança para incen- tivar o desenvolvimento autônomo de cada indivíduo a partir de atividades práticas, que possam despertar-lhe o interesse. Há uma grande valorização do trabalho em grupo e da construção de ideias. Enfatizam-se mais os méto- dos do que os conteúdos, mais a espontaneidade do que a disciplina rígida. Para isso, o ambiente escolar deveria ser bem equipado com oficinas, recursos tecnológicos, laboratórios e outros espaços que permitissem aos professores utilizar métodos alternativos de ensino. Para os escolanovistas, a aprendizagem se dá principalmente pela tenta- tiva de resolver problemas concretos. O ensino deve começar com atividades práticas capazes de suscitar uma dúvida, algo que motive o interesse dos alu- nos. O professor orienta e acompanha os alunos em suas discussões e pesqui- sas. As possíveis soluções são tratadas como hipóteses, que devem ser testa- das de forma experimental. Por fim, os próprios alunos se tornariam aptos a solucionar os problemas, construindo assim um conhecimento significativo a partir da experiência. Repare que nesse modelo a avaliação não se encontra mais relacionada especificamente ao aspecto intelectual. Ela deve converter-se em um processo válido para o próprio aluno, tornando-se comum o recurso à autoavaliação ao final de cada projeto. Pela sua proposta extremamente inovadora e pela complexidade das transformações exigidas para a sua implantação, a Escola Nova nunca se estabeleceu como um sistema de ensino universalizado. FED.indb 148 25/02/2016 14:40:17 – 149 – A formação do pensamento pedagógico brasileiro Em termos práticos, a sua implantação permaneceu restrita a experiências isoladas ao redor do mundo, resultando em métodos variados. Entre eles, o método de projetos (William Kilpatrick), o método Montessori (Maria Montessori) e as pedagogias não diretivas (Carl Rogers e A. S. Neill), que radicalizam os princípios escolanovistas de espontaneidade e liberdade do aluno, propondo os primeiros modelos de educação libertária. O mais famoso exemplo é o da escola de Summerhill, que ficou conhecida mundialmente por abolir as provas e também a obrigatoriedade das aulas. Partindo do pressuposto de que as crianças deveriam ser estimuladas a aprender em um ambiente de liberdade e de responsabilidade, em Summerhill cada aluno deveria decidir quais as disciplinas ou atividades de seu interesse. Eles podiam também levar o tempo que achassem necessário para estudar determinado conteúdo. Todas as questões de disciplina eram decididas em assembleia geral. Fundada em 1927, a instituição continua de portas abertas, permanecendo como uma referência em educação libertária. No que se refere à educação brasileira, os princípios pedagógicos da Escola Nova foram amplamente difundidos no meio intelectual e nos cur- sos de licenciatura, influenciando a formação de professores em todo o país. Entretanto, sua aplicação prática foi muito reduzida. Em primeiro lugar, pelo alto custo da modernização das escolas para atender a esse modelo. Além disso, pelo seu caráter completamente oposto à pedagogia tradicional, que suscitou muitas polêmicas e resistências por parte de educadores e dirigentes da escola pública. Olhando para o contexto histórico e social, podemos então perceber que os princípios revolucionários da pedagogia renovada contribu- íram mais diretamente para a modernização de algumas escolas particula- res, que dispunham de recursos para efetivar as transformações necessárias. Segundo Aranha (2006, p. 230): FED.indb 149 25/02/2016 14:40:17 – 150 – Filosofia da Educação Contraditoriamente, o ideário da Escola Nova contribuiu para a maior elitização do ensino, sobretudo no Brasil. Ao dar ênfase à qua- lidade e à exigência de escolas aparelhadas e professores altamente qualificados, colocou a escola pública em posição inferiorizada, inca- paz de introduzir as novidades didáticas. Tais desacertos dificultavam a implantação da democracia, porque o rebaixamento da qualidade da escola pública concorria para o agravamento da marginalização do maior segmento da sociedade. Além disso, alguns prejuízos resultaram da assimilação inadequada das novas ideias e da tentativa de implantação sem critérios. Por exemplo, a crítica ao autoritarismo da velha escola ‒ justa, sem dúvida ‒ não reconhece a assimetria da relação professor-aluno e não raramente descamba em ausência de disciplina; a ênfase dada ao processo (e não ao produto) é confundida com o aligeiramento do conteúdo. Enfim, ainda que opondo-se radicalmente à pedagogia tradicional, de um ponto de vista histórico-crítico a Escola Nova poder ser incluída no grupo das pedagogias liberais. Afinal, o papel da escola é entendido como a inte- gração dos indivíduos na sociedade, mas tal integração será vista muito mais como a adaptação ao meio social estabelecido do que como um processo real de democratização. Reforça-se, portanto, a distinção de classes mantida pelo capitalismo. Além disso, segundo Saviani (2008, p. 10): Ao enfatizar a “qualidade do ensino” ela [a Escola Nova] deslocou o eixo de preocupação do âmbito político (relativo à sociedade em conjunto) para o âmbito técnico-pedagógico (relativo ao interior da escola), cumprindo ao mesmo tempo uma dupla função: manter a expansão da escola em limites suportáveis pelos interesses dominantes e desenvolver um tipo de ensino adequado a estes interesses. É a esse fenômeno que denominei de “mecanismo de recomposição da hege- monia da classe dominante”. 4.3 Tecnicismo A Escola Nova permaneceu como a concepção teórica dominante na educação brasileira durante as primeiras décadas do século XX. Entretanto, o abismo que se formou entre suas ideias e a viabilidade de sua aplicação prática resultou em uma desorientação sobre as reais diretrizes do ensino. Assim, a partir da década de 60, a concepção pedagógica tecnicista passa a influen- ciar a educação brasileira. FED.indb 150 25/02/2016 14:40:17 – 151 – A formação do pensamento pedagógico brasileiro A pedagogia tecnicista assimilou da Escola Nova a orientação para encon- trar métodos de ensino eficazes e a abertura para as contribuições da ciência à pedagogia. Contudo, tais diretrizes foram levadas ao extremo, resultando em uma concepção da educação focada unicamente em sua eficiência instrumental. O tecnicismo se apoia na aplicação da perspectiva naturalista à prá- tica educativa, orientada pelos princípios da psicologia comporta- mental. Seu objetivo central é a racionalização das atividades edu- cacionais com vistas a torná-las um processo eficiente e produtivo. A pedagogia tecnicista foi introduzida no Brasil a partir dos anos 60, tornando-se, após o Golpe de 64, a política oficial do governo militar para a escola pública. No período da regime, o governo brasileiro firmou um acordo com a agência americana de desenvolvimento internacional, recebendo assis- tência técnica e financeira para uma reforma educacional nos moldes tecnicis- tas. Alinhada com os interesses políticos dos militares, o objetivo da reforma era replanejar a educação escolar em todos os seu níveis, dotando-a de uma organização mais ágil, mecanizada e capaz de minimizar as interferências sub- jetivas que pudessem pôr em risco sua eficiência. As políticas públicas passam a concentrar-se na consolidação de um sistema de ensino profissionalizante voltado para atender a demanda por mão de obra qualificada para o trabalho nas multinacionais que vieram se instalar no país nos anos 60 e 70. Na pedagogia tecnicista o foco da educação nãose encontra mais nem sobre o professor nem sobre o aluno, senão na organização racional e metó- dica dos meios de ensino. A autoria da educação deixa as mãos dos professores para tornar-se objeto dos técnicos, isto é, os especialistas em comportamento e educação, responsáveis por pensar e conceber previamente os métodos e conteúdos a serem transmitidos aos alunos em sala de aula. O tecnicismo adota a concepção de instrução programada, baseada nas teorias behavioristas do comportamento. O processo de aprendizagem será compreendido pelo conceito de condicionamento operante (Skinner). Trata- -se da ideia de que é possível desenvolver determinado comportamento ativo nos alunos (o aprendizado) por meio de esquemas mecânicos de estímulos e reforços positivos. A educação, portanto, limita-se a alcançar objetivos instru- FED.indb 151 25/02/2016 14:40:17 – 152 – Filosofia da Educação cionais, isto é, mudanças comportamentais específicas, compreendidas como a habilidade do aluno para responder a testes e questões da forma esperada. O ensino tecnicista segue o padrão objetivo das ciências, supervalori- zando os aspectos mensuráveis e observáveis do processo de aprendizagem. As aulas devem seguir todos os passos prefixados em apostilas e livros didáticos. O conteúdo é sempre dividido em pequenos módulos, facilitando a aplicação de testes e exercícios. A avaliação assume um papel fundamental no controle do processo, pois os testes objetivos devem revelar se os alunos desenvolve- ram o comportamento desejado, acertando as respostas. Os resultados dos testes são posteriormente avaliados por técnicos e convertidos em números e percentuais de aproveitamento. Por fim, todas as decisões pedagógicas são tomadas com base nesses resultados, sempre direcionadas para o aumento da produtividade dos alunos. Quanto ao conteúdo, predominam nos currículos as disciplinas exatas e científicas, voltadas para a aplicação profissionalizante. Algumas ciências humanas, como as letras, a história e a geografia continuam a ser ensinadas de modo instrumental, fornecendo apenas os conhecimentos necessários para a formação técnica. Em vista da densa carga de conteúdos e métodos obje- tivos, o espaço para a subjetividade do aluno no processo de aprendizagem é diminuída ao mínimo. O conhecimento escolar se reduz à informação e memorização de fórmulas, teorias e princípios gerais. Uma das consequências da objetivação educacional introdu- zida pela pedagogia tecnicista é o conteudismo, ou seja, a fragmentação do conhecimento acadêmico e sua desapropria- ção por parte do aluno. Este se torna um mero receptor de conteúdos prontos, sem desenvolver qualquer construção do conhecimento de forma mais autônoma. Ao contrário da Escola Nova, as manifestações da pedagogia tecnicista na prática escolar brasileira tornaram-se concretas, influenciando diretamente a configuração da escola pública. Sua atuação, entretanto, transformou mais diretamente o contexto burocrático do ensino do que a prática educacional propriamente dita. Na avaliação crítica de Aranha (2006, p. 232): FED.indb 152 25/02/2016 14:40:18 – 153 – A formação do pensamento pedagógico brasileiro A burocratização do ensino foi intensificada, afogando os professores em papéis nos quais deviam ser detalhados os objetivos de cada passo do programa. Com suas funções inferiorizadas, o professor tornou-se simples executor de ordens vindas do setor de planejamento, a cargo de técnicos de educação que, por sua vez, não pisavam em sala de aula. […] A queda do nível de ensino repercutiu de maneira mais drástica na escola pública, obrigada a atender às exigências oficiais ao pé da letra, enquanto as escolas particulares de certa forma “contornavam” a lei, assumindo apenas a nomenclatura dos cursos, mas mantendo os conteúdos tradi- cionais. Isso aumentou a seletividade de nossa educação, fazendo com que o ensino superior se destinasse cada vez mais aos filhos da elite. Enfim, a pedagogia tecnicista pode evidentemente ser incluída entre as pedagogias liberais, uma vez que compreende a noção de “inserção social” exclusivamente em termos da preparação para o mercado de trabalho. Nessa perspectiva, a escola se converte apenas em um instrumento para suprir a demanda de expansão e desenvolvimento do capitalismo industrial. 4.4 As pedagogias histórico-críticas Conforme você estudou no capítulo anterior, o ponto de partida da perspectiva histórico-crítica é a tomada de consciência das desigualdades sociais mantidas pela organização econômica do capitalismo e a denúncia da postura acrítica assumida pela pedagogia liberal. Segundo esta corrente, ao minimizar a subjetividade do educando pelo autoritarismo (pedagogia tradi- cional) ou pela automatização do ensino (tecnicismo), as pedagogias liberais geram uma alienação do ato de conhecer, pois o aluno se acostuma a apenas receber instruções de forma passiva, deixando de reconhecer-se como sujeito capaz de apropriar-se do conhecimento. Considerando essa oposição comum ao caráter acrítico da pedagogia liberal e os pressupostos teóricos que estudamos no capítulo anterior, pode- mos generalizar algumas características das pedagogias histórico-críticas: 2 Nenhuma educação pode ser considerada uma ação “neutra”: Todo ato de educar está vinculado à realidade concreta na qual se encontra historicamente inserido, de modo que não se pode ignorar o caráter social e político da educação. As pedagogias histórico- críticas denunciam a atuação da escola como um instrumento de FED.indb 153 25/02/2016 14:40:18 – 154 – Filosofia da Educação reprodução da desigualdade social (Marx), mas também mantém a crença no potencial de libertação da educação e na escola como espaço democrático de reorganização social (Gramsci). 2 É tarefa da educação viabilizar a reflexão crítica e a tomada de consciência das desigualdades sociais: Deve-se trazer a reflexão sobre as contradições sociais (dialética) para o contexto da escola, levando o aluno a problematizar a sua realidade. 2 A educação é construção do sujeito mediada pelo mundo: O desenvolvimento humano tem raízes sociais e culturais (Piaget/ Vygotsky). O homem é um ser social que desenvolve seu conheci- mento a partir da presença do outro, sempre mediada pelo mundo. A educação deve abordar essas três dimensões (o eu, o outro e o mundo) de forma crítica e consciente. 2 Tentativa de superação da dicotomia professor-aluno: A educa- ção não precisa estar centrada apenas no professor (pedagogia tra- dicional) ou no aluno (pedagogia renovada). A educação que surge justamente desse encontro, isto é, da interação social entre diferen- tes sujeitos e seus respectivos conhecimentos (fenomenologia). 2 Concepção aberta do conhecimento: O conhecimento não se resume a um conjunto fechado de saberes a serem transmitidos para as futuras gerações. O conhecimento é ligado à existência (existencialismo), sendo, portanto, passível de desconstrução, interpretação e reelaboração. A pedagogia histórico-crítica é um movimento atual e, portanto, con- tinua em construção. Suas manifestações práticas não constituem uma pro- posta unificada de ensino, senão que aparecem de forma esparsa no trabalho de diversos educadores. Vejamos o exemplo da pedagogia progressista, de George Snyders, e da educação como prática de liberdade, de Paulo Freire. 4.5 George Snyders e a pedagogia progressista O pedagogo francês George Snyders propõe a superação tanto da pedagogia tradicional como da Escola Nova através de uma síntese dialética. Segundo ele, a escola tradicional se prendeu demasiadamente aos conteúdos, FED.indb 154 25/02/2016 14:40:18 – 155 – A formação do pensamento pedagógico brasileiro tornando o seu ensino muito abstrato. A Escola Nova, entretanto, valorizou demais os métodos e minimizou o valor dos conteúdos, gerando uma indefinição das bases da prática de ensino. Para a pedagogia progressista de Snyders, é preciso resgatar a importânciados conteúdos como parte fundamental de qualquer teoria pedagógica. Contudo, ao mesmo tempo não se pode perder o foco na interatividade do ensino e na contextualização desses conteúdos em relação à realidade sociocultural do aluno. Olhando para o dia a dia das salas de aula, Snyders conclui que não é propriamente o ensino do pensamento racional e da cultura intelectual que estabelece um abismo entre o patrimônio cultural da humanidade e a realidade social e econômica das classes populares. O problema está na forma como esses conteúdos são impostos, transformados em “matéria” abstrata e saber livresco, dissociadas de qualquer relação com o cotidiano dos alunos que a aprendem. Assim, a pedagogia progressista tenta encontrar maneiras de fazer com que esses conteúdos se tornem significativos para o ensino popular, sem permitir que se convertam em mais uma forma de exclusão a partir do ensino tradicional. A proposta progressista de Snyders busca compreender a educação na perspectiva da intersubjetividade. A construção do conhecimento ocorre precisamente na experiência do encontro entre educador e educando proporcionada pela escola. O educador não deve eximir-se da problematização da realidade à medida que esta vai aparecendo no decorrer da prática pedagógica. A escola não deve, portanto, desprezar a transmissão dos conteúdos. Mas é preciso empregá-los na construção ativa de conhecimento pelos educandos e na socialização do saber. 4.6 Paulo Freire e a educação como prática de liberdade A concepção de educação como prática de liberdade elaborada por Paulo Freire teve sua origem a partir do contato desse autor com a educação popular e da criação de um método de alfabetização de adultos, que ficou conhecido internacionalmente na década de 1960. O método freireano utilizava o diálogo para conduzir adultos analfabetos ou semianalfabetos ao ingresso no mundo das letras por meio de seus próprios passos, à medida que FED.indb 155 25/02/2016 14:40:18 – 156 – Filosofia da Educação estes se descobriam como sujeitos históricos capazes de produzir o próprio conhecimento. Sua teoria pedagógica ficou conhecida como a pedagogia do oprimido, pois compreende a educação como um instrumento capaz de despertar a consciência das classes exploradas e levá-las a compreender sua situação e a agir em favor da própria libertação. Em 1963, ao participar dos círculos de cultura criados por Freire, 300 adultos aprenderam a ler e escrever em um período de aproximadamente 45 dias, na cidade de Angicos, Rio Grande do Norte. Esses resultados desper- taram a atenção do governo João Goulart, que imediata- mente aprovou a multiplicação dessas experiências em um plano nacional de alfabetização. Porém, poucos meses após a implantação do projeto, o golpe militar interrom- peu bruscamente esse esforço e Paulo Freire foi preso por 70 dias, sendo exilado em seguida, passando 12 anos fora do Brasil. É nesse período que o autor escreve sua principal obra, a Pedagogia do oprimido, traduzida para 18 línguas e comentada e estudada em diversos países. A pedagogia freireana não aborda especificamente o ensino escolar, dado que o autor concentrou-se na alfabetização de adultos através da educação não formal, ou seja, dos chamados círculos de cultura. Este trabalho envolvia essencialmente o diálogo, em que o educador precisa inicialmente estabelecer uma relação horizontal e não hierarquizada com os educandos, alcançando assim a relação de “simpatia”. O primeiro passo é o de levantar o universo vocabular dos sujeitos presentes, escolhendo as palavras geradoras, ou seja, termos cujos significados estão fortemente enraizados na vida dos educandos. Em seguida, são mostradas, lado a lado, a palavra escrita e o objeto que ela designa. Criada a identificação entre esses dois elementos, passa-se então a separar as sílabas (os “pedaços” das palavras) e identificar sua família fonêmica (os sons possíveis entre cada letra a uma vogal, por exemplo: ta-te-ti-to-tu). Essa experiência permite aos educandos um salto para o universo de possibilidades da língua. Nas palavras de Freire (1980, p. 116): FED.indb 156 25/02/2016 14:40:18 – 157 – A formação do pensamento pedagógico brasileiro [O educando] Apropriando-se criticamente e não memorizadamente ‒ o que não seria uma apropriação ‒ deste mecanismo, começa a produzir por si mesmo o seu sistema de sinais gráficos. Começa, então, com a maior facilidade, a criar palavras com as combinações fonêmicas à sua disposição, que a decomposição de um vocábulo trissilábico lhe oferece, no primeiro dia em que debateu para alfabetizar-se. Diferentemente das outras correntes pedagógicas que vimos até agora, o pensamento de Paulo Freire não se destaca tanto pela sistematização de métodos ou conteúdos para o ensino. Sua grande contribuição é a profunda reflexão filosófica sobre o ato de educar, a postura do educador e o papel da educação em nossa sociedade. Essas ideias estão presentes em obras como Pedagogia como prática de liberdade, Pedagogia do oprimido e Peda- gogia da autonomia. Fonte: CAPPELLANO, Luiz Carlos. Painel Paulo Freire, 2008. Centro de Formação, Tecnologia e Pesquisa Educacional da Secretaria Municipal de Educação. Campinas, SP. Para Paulo Freire, o homem estabelece com o mundo relações dinâmicas, pois não apenas percebe a realidade, mas também interfere nela e a constrói. Ao interferir na realidade que o cerca, o homem cria novas coisas, desenvolve o conhecimento e constrói seu próprio mundo, o qual não é apenas determinado pela natureza, mas também pela cultura. A História e a cultura são marcas próprias do ser humano e se mantêm como um projeto permanentemente “em aberto”. Isso significa que o ser humano é um ser de possibilidades; nada está dado de maneira definitiva. Essa possibilidade de transcender o domínio da vida FED.indb 157 25/02/2016 14:40:18 – 158 – Filosofia da Educação natural e lançar-se em um âmbito próprio (da História e da cultura) é o que caracteriza o homem como um ser livre. Contudo, se a marca da humanidade é a capacidade de construir sua própria realidade histórica e cultural, há também a possibilidade de desumanização; quando o homem é privado de sua aptidão natural para modificar a realidade de um modo próprio e apenas passa a adaptar-se a ela, acomodando-se ao ambiente. Para Freire, essa possibilidade de “perda da humanidade” é um fato concreto em nossa sociedade, presente na dura realidade das favelas, do trabalho semiescravo no campo e da grande parcela carente da população, excluída do acesso aos bens materiais e culturais disponíveis a outras classes mais favoreci- das. É preciso reconhecer a clara situação de opressão presente na realidade brasileira e nos demais países de terceiro mundo, onde nem todos possuem as mesmas condições para exercer livremente sua humanidade; seu direito de participar do rumo da História e da construção da cultura. Olhando para a condição social e política do Brasil nos anos 60, Freire apontava a divisão entre opressores e oprimidos. Aos primeiros interessa a manutenção do status quo, ou seja, a acomodação da classe oprimida ao formato vigente. Aos oprimidos, por sua vez, restaria a adequação à presente estrutura da sociedade e suas desigualdades, uma vez que se encontram privados dos recursos para sua humanização e, muitas vezes, ignoram a condição concreta de opressão em que vivem. Veja como o autor descreve essa situação: Uma das grandes, senão a maior, tragédia do homem moderno, está em que é hoje dominado pela força dos mitos e comandado pela publicidade organizada, ideológica ou não, e por isso vem renun- ciando cada vez mais, sem o saber, à sua capacidade de decidir. Vem sendo expulso da órbita das decisões. As tarefas de seu tempo não são captadas pelo homem simples, mas a ele apresentadas por uma “elite” que as interpreta e lhas entrega em forma de receita, de prescrição a ser seguida. E, quando julgaque se salva seguindo as prescrições, afoga-se no anonimato nivelador da massificação, sem esperança e sem fé, domesticado e acomodado: já não é sujeito. Rebaixa-se a puro objeto. Coisifica-se. (FREIRE, 1980, p. 43). FED.indb 158 25/02/2016 14:40:18 – 159 – A formação do pensamento pedagógico brasileiro Mas, para Paulo Freire, essa acomodação diante dos acontecimentos pode ser transformada a partir do autorreconhecimento do homem do povo como sujeito histórico, como parte do mundo da cultura. Aí se encontra a função da educação como verdadeira “prática da liberdade”, ou seja, um caminho para devolver aos oprimidos sua autonomia criadora, que é a própria condição de sua humanidade. É nesse sentido que a educação consiste em instrumento de libertação, pois traz em si a possibilidade de permitir que os homens reconheçam-se na condição de oprimidos e passem a buscar as próprias soluções para a sua humanização. A tomada de consciência da opressão e das desigualdades sociais, entretanto, não pode ser “ensinada” aos homens de forma prescritiva, nos moldes de uma pedagogia tradicional. Ela precisa ser conquistada pelo educando através da leitura crítica de sua própria realidade, proporcionada pelo método dialó- gico. Daí a recusa de Paulo Freire àquilo que ele denominou educação bancária, cujo ensino é acrítico e vertical; vinculado tão somente à transmissão de conteúdos. Segundo Freire, a educação tradicional pode ser vista como “bancária” porque a atuação do professor se assemelha às operações financeiras que realizamos em um banco. Na forma de uma narração protagonizada invariavelmente pelo mestre, deposita-se uma série de conteúdos nos alunos. Estes saberes devem ser “arquivados” por meio da memorização. Nas palavras do autor: “Quanto mais vá ‘enchendo’ os recipientes com seus ‘depósitos’, tanto melhor o educador será. Quanto mais se deixem docilmente ‘encher’, tanto melhores educandos serão” (FREIRE, 1987, p. 58). Chegado o momento da avaliação, o professor efetua seu “saque”, ou seja: através de provas e testes objetivos, espera-se que os alunos devolvam os depósitos de conhecimento que receberam, sendo capazes de reproduzir de forma fiel os conteúdos transmitidos. Os problemas da educação bancária vão muito além da mera desconexão entre o saber formal e a realidade dos alunos. Freire considera que esse tipo de pedagogia reflete e mantém o formato da sociedade opressora. Afinal, os FED.indb 159 25/02/2016 14:40:18 – 160 – Filosofia da Educação alunos acabam por receber uma cultura pronta, um corpo de conhecimentos externo ao seu mundo concreto, sendo levados a acreditar que apenas esse conteúdo constitui a verdadeira “cultura”. Deixam, portanto, de se perceber como autores do mundo em que vivem e da própria cultura. Ao aluno menos preparado (cuja condição social e econômica muitas vezes põe diversos obstáculos à permanência na escola), resta a mera adaptação ao conhecimento exposto na tentativa de “acompanhar” os estudos. E tal como o educando se adapta ao conteúdo pronto apresentado pelo professor, sem chegar a reconhecer-se como sujeito do conhecimento, da mesma forma o homem oprimido adapta-se às desigualdades da sociedade, sem reconhecer-se como um ser capaz de interferir na realidade que o oprime. Indo além da crítica à educação bancária, Freire elabora em seus livros os pressupostos de uma pedagogia libertadora, que possa problematizar a realidade do educando e superar o caráter alienante da mera reprodução de conteúdos. Embora o foco principal de suas reflexões seja a educação popular informal, é possível deduzir certos princípios para a educação escolar: 2 Superação da contradição educador-educando: É preciso que o diálogo entre educador e educando se torne verdadeira comunicação, estabelecida de modo horizontal, através do respeito aos saberes que o educando traz consigo com base em suas vivências. Isso não pode ocorrer a menos que o educador abra mão do pressuposto tradicional de que apenas os seus conhecimentos são válidos para a prática pedagógica. 2 Rejeição da aprendizagem mecânica: Na mesma direção da interpretação fenomenológica do conhecimento, Freire argumenta que a mente não “guarda” as diversas partes do mundo como conhecimentos armazenados. O conhecimento não pode ser transmitido, mas apenas vivenciado e construído pelo sujeito em sua relação direta com o mundo. 2 Construção conjunta dos conteúdos programáticos: Os conteúdos a serem ensinados não podem ser decididos unicamente pelo educador, sob a forma de uma prescrição aos educandos O aluno sempre traz consigo uma cultura e um universo de conhecimento. O professor deve valorizar o encontro de sua cultura e da cultura do aluno, estabelecendo uma relação de mútuo aprendizado em sala FED.indb 160 25/02/2016 14:40:18 – 161 – A formação do pensamento pedagógico brasileiro de aula, encontrando na fala do educando os melhores caminhos para a abordagem de um tema. Entendida como prática problematizadora, a pedagogia freireana se estabelece como um esforço constante para levar os homens a pensar a maneira pela qual estão sendo no mundo. Com isso, procura-se ajudar o educando a desenvolver seu poder de captação e de compreensão do mundo no qual se encontra inserido. Compreendendo-se como ser inacabado, cuja existência nunca é determinada de modo imutável, o homem passa a compreender também a realidade concreta como algo passível de transformação. Essa libertação da alienação é, para Paulo Freire, a verdadeira vocação de uma educação humanista, e não somente humanitária. 4.7 Filosofia e ética como reflexão crítica do educador Encerrando nosso estudo, vejamos como algumas referências filosóficas contemporâneas nos ajudam a pensar as relações éticas na escola. O tema da violência nas escolas ocupa hoje um espaço de destaque nos debates sobre a educação brasileira. Essa discussão remete ao entendimento das relações de poder no âmbito escolar. Para a filósofa alemã Hannah Arendt, desde o início do século XX enfrentamos uma crise política, em que as autoridades tradicionais perderam seu valor original em vista da ascensão de regimes totalitários e do enfrentamento entre diferentes formas de poder político. Essa crise afetou também outras áreas “pré-políticas” da vida humana, como a criação dos filhos e a educação, onde a autoridade sempre foi aceita como uma necessidade natural. Assim, “[...] tanto prática como teoricamente, não estamos mais em posição de saber o que a autoridade realmente é” (ARENDT, 1988, p. 128). Em seu livro Sobre a violência, Hannah Arendt chama a atenção para o fato de que frequentemente confundimos autoridade com poder ou violência. Segundo a autora, é importante distinguir esses conceitos. O poder é uma qualidade de um grupo; ele não pode ser atribuído a alguém, a menos que o grupo seja persuadido a abrir mão de seu poder e passe a agir de acordo com FED.indb 161 25/02/2016 14:40:18 – 162 – Filosofia da Educação a vontade de uma só pessoa. A violência é o uso de meios coercitivos para impor o vigor de um indivíduo sobre os demais. A autoridade, entretanto, é “[...] reconhecida de modo inquestionável, sem o auxílio da força ou da persuasão” (ARENDT, 1994, p. 37). A autoridade é a expressão de obediência e reconhecimento espontâneos pelas qualidades ou posição de um indivíduo perante um grupo. Assim, havendo violência, não há autoridade. Quando usamos da força para ser obedecidos, já tomamos essa atitude por perda da autoridade, ou seja, porque o grupo não a reconhece mais em nós. Com essa delimitação precisa de conceitos, podemos perceber que as dificuldades cada vez maiores encontradas pelos profissionais da educação para manter o controle das salas de aula e da escola revelam o esvaziamento da autoridade da figura do educador. Isso não se deve simplesmente a limitações pessoais do profissional. A filosofia nos mostra que as raízes do problema são bem maisprofundas. Em primeiro lugar, tendemos a pensar que a autoridade do professor em sala de aula está ligada à sua qualificação. Entretanto, Arendt (1988, p. 239) não concorda com essa associação: A autoridade do educador e as qualificações do professor não são a mesma coisa. Embora certa qualificação seja indispensável para a autori- dade, a qualificação, por maior que seja, nunca engendra por si só auto- ridade. A qualificação do professor consiste em conhecer o mundo e ser capaz de instruir os outros acerca deste, porém sua autoridade se assenta na responsabilidade que ele assume por este mundo. Face à criança, é como se ele fosse um representante de todos os habitantes adultos, apon- tando os detalhes e dizendo à criança: — Isso é o nosso mundo. Assim, se representamos diante dos jovens e das crianças o mundo dos adultos, é preciso admitir que, cada vez mais, estamos representando um mundo bastante problemático, diretamente vivido por esses alunos em sua realidade cotidiana. Segundo Arendt (1988, p. 240): “A autoridade foi recusada pelos adultos, e isso somente pode significar uma coisa: que os adultos se recusam a assumir a responsabilidade pelo mundo ao qual trouxeram as crianças”. A crise da autoridade do professor, portanto, se apresenta como sintoma de um problema maior, permeado por diversas espécies de violência instauradas na família, na sociedade, nas relações de trabalho, e também pelo avanço da drogas e de outros tantos problemas de nosso tempo. A mera tentativa de impor a ordem pela coerção apenas reproduz e reforça os modelos de violência presentes em nosso meio. FED.indb 162 25/02/2016 14:40:18 – 163 – A formação do pensamento pedagógico brasileiro Cabe à educação, portanto, resgatar o conceito original de autoridade, no sentido de realmente importar-se com a realidade do aluno, discutir abertamente os problemas que atingem a todos na escola e oferecer uma referência de equilíbrio, abertura e tolerância nas relações cotidianas. Para Hannah Arendt (1988, p. 247): A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bas- tante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda dos novos e dos jovens. A educação é, também, onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos, e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum. Enfim, se a educação é um ato de preparação da criança e do jovem para a convivência e para a renovação de nosso mundo, ela é também uma preparação para a cidadania e a ação política. Arendt recupera da cultura grega o sentido mais profundo da política como prática da liberdade. A liberdade deve ser entendida de forma negativa como o não ser dominado e não dominar, e, de forma positiva, como “[...] um espaço que só pode ser produzido por muitos, onde cada qual se move entre iguais” (ARENDT, 2007, p. 48). Neste sentido, permanece como um desafio para a educação contemporânea constituir-se como uma prática de liberdade, utilizando o espaço escolar como um palco para a discussão e problematização da reali- dade concreta que nos cerca. Eis as lições dessa autora. Saiba mais Outro filósofo contemporâneo que aborda as relações de poder é o francês Michel Foucault. Em obras como Micro- física do poder (1986) e Vigiar e punir (1977), Foucault faz uma análise das instituições tradicionais como as escolas, os hospitais e os sanatórios, mostrando como determinadas rela- ções de poder são construídas por discursos que as reforçam, baseados na dependência entre saber e poder. FED.indb 163 25/02/2016 14:40:19 – 164 – Filosofia da Educação Síntese Neste capítulo você acompanhou as linhas gerais do desenvolvimento da educação no Brasil desde a época colonial até os tempos atuais. A chamada “pedagogia tradicional” consolidou-se através da predominância histórica do ensino religioso, mas também pela entrada dos ideais liberais no perí- odo republicano. O caráter acadêmico, abstrato e autoritário assumido pelo ensino tradicional foi criticado pela Escola Nova, uma perspectiva pedagógica ligada ao pragmatismo americano que encontrou lugar no ideário intelectual e político da sociedade brasileira no início do século XX. A Escola Nova pre- tendia transformar o ensino escolar, voltando-de totalmente para o aluno e seu desenvolvimento cognitivo. Contudo, apesar de suas propostas inovado- ras, poucas mudanças ocorreram em termos práticos. Com o regime militar, a educação passou a ser orientada pela peda- gogia tecnicista. Segundo esse modo de compreender a educação, nem o professor nem o aluno ocupam o centro da prática pedagógica, pois quem ocupa essa posição são os técnicos em educação, cuja maior preocupação é a eficiência dos métodos. Em linhas gerais, essas três correntes pedagógicas constituem diferentes momentos da pedagogia liberal, caracterizada pela atitude acrítica em relação às questões sociais que permeiam a educação. Conhecemos também a pedagogia histórico-crítica, que representa uma postura de oposição às pedagogias liberais, tentando propor alternativas aos problemas da educação contemporânea. A pedagogia progressista de Snyders é um exemplo de reflexão crítica, que procura integrar a realidade social no âmbito da educação formal. Já as ideias de Paulo Freire, embora desenvolvidas no domínio da educação popular não formal, fornecem diversos elementos para uma reflexão filosófica sobre o papel da educação, a postura do educador e as relações entre cultura, educação e sociedade. Por fim, como um exemplo do papel da filosofia e da ética na refle- xão crítica do educador, aproximamo-nos das reflexões da pensadora política Hannah Arendt sobre a autoridade, o poder e suas relações com a educação. FED.indb 164 25/02/2016 14:40:19 Referências FED.indb 165 25/02/2016 14:40:20 – 166 – Filosofia da Educação AGOSTINHO, S. Confissões/De magistro. São Paulo: Abril Cultural, 1987. (Os pensadores). ARANHA, M. L. A. História da educação. 2. ed. rev. e atual. São Paulo: Moderna, 1996. ______. Filosofia da educação. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2006. ARENDT, H. Entre o passado e o futuro. 2 ed. São Paulo: Perspectiva, 1988. ______. Origens do totalitarismo. 7. reimpr. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. ______. Sobre a violência. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994. ______. O que é política? 7. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007. ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco/Poética. São Paulo: Nova Cultural, 1987. (Os pensadores). ______. A política. São Paulo: M. 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