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Entre as leis da robótica e a ética: regulação para o adequado desenvolvimento da Inteligência Artificial Caitlin Mulholland 1 Isabella Z. Frajhof 2 Sumário: 1. Introdução; 2. Breves notas de como funcionam os robôs e sistemas de IA; 2.1. As características da Inteligência Artificial: uma ótica do Direito; 3. Princípios éticos para a IA; 4. É possível codificar princípios éticos?; 5. Conclusão; 6. Referências Bibliográficas. 1. Introdução "– De fato – replicou Powell, amargurado. – Ele é um robô raciocinante. Maldito seja! Só acredita em raciocínio lógico. E há uma dificuldade a respeito… Não terminou a frase. – Qual é a dificuldade? – insistiu Donovan. – É possível provar tudo o que se deseja por um raciocínio lógico e frio, desde que se escolham os postulados convenientes. Nós temos os nossos e Cutie tem os dele". Este é um trecho do conto “Razão”, escrito por Isaac Asimov, em 1941, que foi compilado em seu famoso livro de contos “Eu, Robô”. Neste mesmo livro, Asimov inaugura suas Três Leis da Robótica, um conjunto de regras que tinha por objetivo controlar o comportamento dos robôs para permitir a convivência harmônica entre humanos e artefatos não-humanos. A primeira Lei determinava que: “Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal” A segunda, dizia que: “um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto quando tais ordens entrem em conflito com a 1ª Lei”. E a terceira previa que: “um robô deve proteger sua própria Professora Associada do Departamento de Direito da PUC-Rio. Coordenadora do Grupo de Pesquisa DROIT - 1 Direito e Tecnologia. Doutora em Direito Civil (UERJ). Pesquisadora do Legalite PUC-Rio. Doutoranda e Mestre em Teoria do Estado e Direito Constitucional do Programa de Pós-Graduação em Direito 2 na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio); Integrante do grupo de pesquisa DROIT (Direito e Novas Tecnologias). Pesquisadora do Legalite PUC-Rio. 1 existência desde que tal proteção não se choque com a 1ª ou a 2ª Leis”. Posteriormente, Asimov ainda acrescentou uma quarta lei, denominada como “Lei zero” . 3 Ao longo dos seus contos, Asimov ia testando estas regras, demonstrando como elas constantemente falhavam. O trecho acima ilustra a frustração de Donovan e Powell, dois astronautas em órbita em uma estação solar com o robô Cutie, pois este passa a não acreditar mais que foram os humanos que criaram os robôs, atribuindo à sua criação a uma força superior, the Master (o Mestre). Cutie passa a colocar em xeque todas as crenças e afirmações feitas pelos humanos e afirma que só responde às ordens do Mestre. A frustração dos humanos com o robô se justifica em razão da maneira como estes artefatos funcionam: são guiados por proposições lógicas, onde o que importa é a forma, e não exatamente o conteúdo dos postulados. Basta que as proposições comportem inferências que sigam de maneira correta o silogismo para que o robô aja racionalmente (portanto, corretamente). Diferentemente dos robôs, os humanos são capazes de avaliar criticamente uma conduta ou ideia que, mesmo que guiada por razões capazes de explicá-las, nem sempre vão ser boas o suficiente para justificá-las . É o caso, por exemplo, do assassinato de Renisha 4 McBride. Theodore Wafer, um americano de meia-idade, morador de um subúrbio tipicamente branco de Michigan, pensou que sua casa estava sendo ameaçada no meio da noite. Ele então pegou sua arma e foi até a porta da casa para conferir. Ao abri-la, ele encontrou Renisha, uma jovem negra, que estava em frente à sua casa aleatoriamente, atirou nela e ocasionou a sua morte. Quando Wafer foi a julgamento, a razão apresentada por sua defesa para justificar seu comportamento era que ele estava com medo e teria agido em legítima defesa, o que foi, contudo, rejeitado pelo tribunal, que o condenou por homicídio. Se 5 este caso fosse julgado por um algoritmo de tomada de decisão, será que ele alcançaria o mesmo resultado? Apesar de o conceito de Inteligência Artificial (IA) depender de uma forte associação com a inteligência humana, os processos cognitivos de artefatos não-humanos e humanos são 6 “Um robô não pode fazer mal à humanidade ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal”.3 MERCIER, Hugo; SPERBER, Dan. The Enigma of Reason: A new theory of human understanding. Harvard 4 University Press. Edição iBook, p. 192. Ibidem, p. 185.5 SURDEN, Harry. Machine Learning and Law. 89 Washington Law Review 87, 2014, p. 89. Disponível em: 6 . Acessado em 03.01.2020 2 bastante diferentes, diante da forma como eles apreendem conhecimento. Ao mesmo tempo que esta diferença transforma radicalmente a eficiência destas máquinas, ela limita a sua capacidade de interpretar determinados contextos e “pensar e agir como um humano”. Tendo em vista o uso cada vez mais abrangente de sistemas de Inteligência Artificial, o debate sobre as maneiras de limitar e constranger seu comportamento estão na ordem do dia. Na ausência de uma regulação jurídica sobre o tema, a comunidade acadêmica, entidades governamentais e não-governamentais têm consolidado um conjunto de princípios éticos que devem guiar o adequado desenvolvimento da IA, desde a sua concepção até a sua implementação, a fim assegurar algumas balizas para estes sistemas. Contudo, será que os agentes inteligentes são capazes de atender a estes princípios? Este artigo busca explorar esta pergunta. 2. Breves notas de como funcionam os robôs e sistemas de IA Existe uma grande dificuldade em definir o que é a Inteligência Artificial, e esta dificuldade está diretamente relacionada ao termo “inteligência”. A literatura técnica sobre o tema aponta para dois possíveis conceitos sobre a IA. Para Ben Coppin , o conceito 7 considerado mais simples a define como o “estudo de sistemas que agem de uma forma que para qualquer observador aparentaria ser inteligente” . O segundo traz uma definição mais 8 complexa, e indica que a IA “envolve o uso de métodos baseados no comportamento inteligente de humanos e outros animais para resolver problemas complexos”. Embora esta 9 última definição seja mais explícita que a primeira, a inteligência a qual estas máquinas e artefatos visam alcançar ou replicar é a inteligência humana . Este parâmetro “humano” 10 também é encontrado na definição da IA por acadêmicos do Direito. Por exemplo, Ryan Calo aponta que a Inteligência Artificial se vale de técnicas que tentam aproximar aspectos da COPPIN, Ben. Artificial Intelligence Illuminated. 1a Edição. Massachusetts: Jones & Bartlett Learning, 2004, 7 p. 4. Tradução livre de: “Artificial intelligence is the study of systems that act in a way that to any observer would 8 appear to be intelligent”. Tradução livre de: “Artificial Intelligence involves using methods based on the intelligent behavior of humans 9 and other animals to solve complex problems”. Stuart Rusell e Peter Norvig definem a IA a partir de quatro principais categorias: (i) sistemas que agem como 10 humanos, (ii) sistemas que pensam como humanos, (iii) sistemas que pensam racionalmente e (iv) sistemas que agem racionalmente. RUSSELL, Stuart J.; NORVIG, Peter. Artificial Intelligence: a modern approach. 3a edição. New Jersey: Pearson Education Inc., 2009, p. 3 3 cognição humana a máquinas e Matthew Schrerer indica que a IA é constituída por 11 “máquinas que são capazes de performar tarefas que, se performadas por um humano, seria dito ser requerido inteligência”. 12 Atualmente, a concepção mais genérica do que seja Inteligência Artificial se sustenta na ideia de que as máquinas trabalham para alcançar determinados objetivos . Estes objetivos 13 são atendidos por meio de algumas características que estes agentes inteligentes possuem, como: percepção, aprendizado e autonomia. Pararealizar este objetivo, estes agentes possuem sensores que captam as informações no ambiente que estão inseridos (por exemplo, o Roomba faz o mapeamento de um quarto para limpá-lo), e vão adquirindo maior 14 conhecimento sobre o mundo externo, coletando dados sobre o mesmo, e somando este conhecimento à inteligência inicialmente embarcada no seu sistema. Esta inteligência lhe permite que o agente vá incrementando e desenvolvendo seu saber, construindo sua autonomia, permitindo que o mesmo aja conforme o objetivo inicialmente previsto por seus criadores. Para avaliar se o seu comportamento está adequado com este objetivo, ou seja, avaliar a sua performance, é estabelecida uma métrica que indica a sua taxa de sucesso (por exemplo, se o Roomba mapeou corretamente o ambiente identificando objetos no caminho e desviando dos mesmos, procedendo com uma limpeza adequada). Estes agentes inteligentes visam sempre otimizar sua função, agindo e se desenvolvendo sempre nesta busca. De forma resumida, os agentes inteligentes são coisas que interagem com um dado ambiente, adquirem conhecimento sobre o mesmo, e agem neste ambiente de acordo com a finalidade para a qual foram construídos . 15 CALO, Ryan. Artificial Intelligence policy: a primer and roadmap. 51 U.C. Davis Law Review 300, 2017, p. 11 404. Disponível em: . Acessado em 03.01.2020. Tradução livre de: “machines that are capable of performing tasks that, if performed by a human, would be 12 said to require intelligence”. SCHERER, Matthew U., Regulating Artificial Intelligence Systems: Risks, Challenges, Competencies, and Strategies. Harvard Journal of Law & Technology, Vol. 29, No. 2, Spring 2016, p. 362. Disponível em: http://jolt.law.harvard.edu/articles/pdf/v29/29HarvJLTech353.pdf. Acessado em 13.09.2019. Ibidem, p. 361.13 Ver em: https://www.irobot.com.br/roomba. Acessado em 16.02.2020.14 RUSSELL, Stuart J.; NORVIG, Peter. Artificial Intelligence: a modern approach. 3a Edição. New Jersey: 15 Pearson Education Inc., 2009, p. 54 e seguintes. 4 Os agentes inteligentes podem ser hardware ou softwares; eles podem existir apenas digitalmente (como os algoritmos de recomendação), ou podem ter uma presença física no mundo (como o Roomba). Estes artefatos são regidos por códigos escritos em linguagem de computação, que formam um algoritmo , que é um conjunto de regras que tem como 16 objetivo realizar uma determinada tarefa. Os códigos utilizados para estipular o comportamento dos agentes inteligentes nem sempre são representados simbolicamente por meio de regras de if-then-else statements (se-isso-então-aquilo), ou seja, por enunciados lógicos. É comum que seja adotada uma abordagem não-simbólica, onde o conhecimento não é representado por símbolos, mas por aprendizado, adaptação ou inferência (como é o caso das redes neurais). As dificuldades e principais dilemas que surgem do uso de algoritmos se concentram basicamente neste último caso, pois não há regras explícitas que lastreiam o seu funcionamento, dificultando, ou até mesmo impossibilitando, a sua compreensão. A definição de IA apresentada pelo grupo especializado em Inteligência Artificial formado pela Comissão Europeia, Grupo Independente de Peritos de Alto Nível sobre a Inteligência Artificial (GPAN IA), abarca todos estes aspectos mencionados acima: Sistemas de Inteligência Artificial (IA) são softwares (e possivelmente hardwares) desenhados por humanos que, dado um objetivo complexo, atuam na dimensão física ou digital percebendo o seu ambiente por meio da aquisição de dados, interpretando os dados estruturados e não estruturados coletados, raciocinando sobre o conhecimento ou processando a informação derivada desse dado e decidindo a(s) melhor(es) ação(ões) para alcançar aquele objetivo. Sistemas de IA podem usar regras simbólicas ou aprenderem com modelos numéricos, e também podem adaptar seu comportamento analisando como o ambiente é afetado por suas ações pretéritas (...) . 17 Além da incerteza sobre o termo “inteligência”, uma outra dificuldade na definição da IA é que o seu termo é como um guarda-chuva para abrigar diferentes áreas de estudo, como: O exemplo mais tradicional para explicar o que é um algoritmo é usar a analogia com uma receita de bolo.16 Tradução livre de: “Artificial intelligence (AI) systems are software (and possibly also hardware) systems 17 designed by humans that, given a complex goal, act in the physical or digital dimension by perceiving their environment through data acquisition, interpreting the collected structured or unstructured data, reasoning on the knowledge, or processing the information, derived from this data and deciding the best action(s) to take to achieve the given goal. AI systems can either use symbolic rules or learn a numeric model, and they can also adapt their behaviour by analysing how the environment is affected by their previous actions”. COMISSÃO EUROPEIA. A definition of AI: Main capabilities and scientific disciplines. 2019b, p. 6. Disponível em: Acessado em 14.04.2020. 5 aprendizado de máquina, processamento de linguagem natural, visão computacional, robótica, jogos, sistemas especialistas, pesquisa operacional e estatística. É comum que uma mesma aplicação de IA junte essas diferentes áreas, como é o caso de recentes aplicações: os carros autônomos, as assistentes conversacionais (Siri, Alexa, Cortana), robôs marinhos ou sistemas que jogam xadrez . A história da IA tem demonstrado ser natural a eleição pela academia e 18 pela indústria, em uma determinada época, de uma ou outra área da IA , motivando o seu 19 desenvolvimento e sua pesquisa. Atualmente, para os juristas, duas sub-áreas da IA têm chamado atenção: o aprendizado de máquina (machine learning – ML) e a robótica. De 20 acordo com Ryan Calo e Jack Balkin, estas são as áreas da IA que demandarão maior atenção do Direito, pois ambas possuem características próprias que trazem novos e diferentes desafios regulatórios. A área de aprendizado de máquina tem por objetivo criar algoritmos que evoluem seu comportamento à medida que aprendem com os dados que recebem, tal como descrito acima. Estes algoritmos são usados para tarefas onde é difícil criar um conjunto definido de instruções para resolvê-las, tais como o reconhecimento facial e a decodificação da linguagem. Como o próprio nome indica, ML visa ensinar à máquina a identificar e reconhecer padrões – que não são passíveis de reconhecimento a olhos humanos –, a partir do seu treinamento com um certo conjunto de dados (input). A partir desse treinamento, a 21 máquina é apresentada a um novo conjunto de dados, nunca antes analisados por ela, para que sejam identificados padrões, “e, com base neles, gerar modelos que são usados para predição Tal como o AlphaZero, criado pela DeepMind, derrotou o que era considerado como o melhor programa de 18 xadrez virtual. Ver em: THE GUARDIAN. AlphaZero AI beats champion chess program after teaching itself in four hours. Disponível em: Acessado em 11.04.2020. STONE, Peter et al.. Artificial Intelligence and Life in 2030. One Hundred Year Study on Artificial 19 Intelligence: Report of the 2015-2016 Study Panel, Stanford University, Stanford, CA, 2016. Disponível em: Acessado em 15.04.2020. “Much of the contemporary excitement around AI, however, flows from the enormous promise of a particular 20 set of techniques known collectively as machine learning”. CALO, Ryan. Artificial Intelligence policy: a primer and roadmap. 51 U.C. Davis Law Review 300, 2017, pp. 405. Disponível em: .Acessado em 03.01.2020. LEMLEY, Mark A; CASEY, Bryan. Remedies for Robots. 86 University of Chicago Law Review 1311, 21 Stanford Law and Economics Olin Working Paper No. 523, 2019, p. 1325. Disponível em: https:// lawreview.uchicago.edu/publication/remedies-robots. Acessado em 29.07.2020. 6 a respeitos dos dados tratados (output).” O seu aprendizado vai evoluindo e se 22 aperfeiçoando por meio de feedbacks e técnicas estatísticas, fazendo com que seu algoritmo vá se adaptando e melhorando. A grande vantagem desta técnica é que ela é capaz “retirar dos programadores a difícil tarefa de produzir instruções explícitas para os computadores” além de “aprender exemplos sutis entre dados que podem passar despercebidos para os humanos ou até mesmo não serem reconhecidos” . 23 Apesar dos benefícios gerados pelo ML, é verdade que o seu uso abrangente e em diferentes contextos (diagnóstico médico, decidir pela soltura de um acusado, ou direcionar oportunidades empregatícias), levantam desafios éticos e jurídicos. Estes questionamentos se justificam pelo modo opaco como estes sistemas tomam as suas decisões, o que impede a 24 avaliação da legitimidade e legalidade do código e a compreensão de como e por que uma 25 determinada decisão foi alcançada. Além disso, a ausência de interferência humana no 26 funcionamento e na tomada de decisão desses agentes inteligentes também geram dilemas envolvendo a sua imputabilidade e responsabilidade civil em caso de danos . 27 Apesar da ampla difusão da tecnologia, existe uma assimetria na compreensão dos desenvolvedores e do público em geral em relação à autonomia destes artefatos. Thomas Burri, em 2015, aponta que uma das explicações para esta diferença seria o fato de os 28 desenvolvedores possuírem uma visão do estágio atual da tecnologia, enquanto os MULHOLLAND, Caitlin. Responsabilidade Civil e Processos Decisórios Autônomos em Sistemas de 22 Inteligência Artificial (IA): autonomia, imputabilidade e responsabilidade. In: Ana Frazão; Caitlin Mulholland. (Org.). Inteligência Artificial e Direito: Ética, Regulação e Responsabilidade. 1a ed. São Paulo: Thomson Reuters, 2019, v. 1, p. 329. Tradução livre de: “ability to relieve programmers of the difficult task of producing explicit instructions for 23 computers” e “learn subtle relationships in data that humans might overlook or cannot recognize”. SELBST, Andrew D.; BAROCAS, Solon. Intuitive Appeal of Explainable Machines. 87 Fordham L. Rev. 1085, 2018, p. 1.094. Disponível em: https://ir.lawnet.fordham.edu/4r/vol87/iss3/11. Acessado em 03.01.2020. PASQUALE, Frank. The Black Box Society: the secret algorithms that control money and information. 24 Harvard University Press, 2015; SELBST, Andrew D.; BAROCAS, Solon. Intuitive Appeal of Explainable Machines. 87 Fordham L. Rev. 1085, 2018. Disponível em: https://ir.lawnet.fordham.edu/4r/vol87/iss3/11. Acessado em 03.01.2020. SELBST, Andrew D.; BAROCAS, Solon. Intuitive Appeal of Explainable Machines. 87 Fordham L. Rev. 25 1085, 2018. Disponível em: https://ir.lawnet.fordham.edu/4r/vol87/iss3/11. Acessado em 03.01.2020. Ibidem.26 Ver nota de rodapé n. 22. 27 BURRI, Thomas. The Politics of Robot Autonomy. European Journal of Risk Regulation, 2016, pp. 341-360. 28 Disponível em: https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=2815082. Acesso em 02.02.2020. 7 observadores têm uma visão futurística da mesma, que é fortemente influenciada pela cultura popular. Esta diferença, embora pareça trivial, não é quando estamos diante do desafio de pensar maneiras de regulá-las. Isto porque, nossos legisladores estão longe de serem experts sobre o assunto. A influência que filmes e a literatura, seja ficção ou não, exercem na 29 percepção e imaginário das pessoas sobre a tecnologia é algo mapeado e reconhecido por pesquisadores . Até mesmo as Três Leis da Robótica de Isaac Asimov têm sido utilizadas 30 como ponto de partida para discutir regulação sobre robótica na União Europeia. Embora se 31 defenda que o debate para regular tecnologias deva ocorrer com a ampla participação da sociedade, de maneira multissetorial, assim como se deu com o Marco Civil da Internet (Lei 32 nº 12.965/2014) , o contexto político e social nem sempre vai favorecer este tipo de cenário. 33 Assim, para evitar visões distópicas da tecnologia, é importante “que o Direito avance também para buscar compreender o que são robôs inteligentes e como o ordenamento jurídico deve reagir à sua progressiva inserção na sociedade” à medida que a tecnologia vai se 34 desenvolvendo de maneira complexa. Para caminhar nessa direção, é importante definir quais são as principais características e preocupações que a IA levanta. O relatório produzindo pelas Nações Unidas chamado “I’d Blush If I Could” demonstra como o retrato de 29 robôs em produções cinematográficas americanas, como o HAL 9000, do filme 2001: A Space Odissey, e a assistente virtual que tem a voz de Scarlet Johansson no filme Her. Ambos contribuem para criação de um imaginário do que o público pode esperar dos robôs, no caso, a crítica feminista se dirigia na caracterização de robôs com vozes femininas e sua caracterização como coisas subservientes. UNESCO. I'd blush if I could: closing gender divides in digital skills through education. 2019. Disponível em: . Acessado em 12.09.2019, p. 98. BALKIN, Jack M.. The Path of Robotics Law. California Law Review, vol 6, 2015. Disponível em: https://30 ssrn.com/abstract=2586570. Acessado em 21.04.2017; e RICHARDS, Neil M.; SMART, William D.. How should we think about robots? In: CALO, Ryan; FROOMKIN, A. Michael; KERR, Ian (Org.). Robot Law. Northampton: Edward Elgar Publishing, 2016, pp. 3-24. Resolução do Parlamento Europeu, de 16 de fevereiro de 2017, nas recomendações da Comissão Europeia 31 sobre s disposições de direito civil sobre Robótica (2015/2013(INL)). Disponível em: . Acesso em: 25.07.2020. SOUZA, Carlos Affonso de; LEMOS, Ronaldo. Marco Civil da Internet: construção e aplicação. Juiz de Fora: 32 Editar Editora Associada Ltda, 2016. Como é o caso da “Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet” (PLS 33 2630/2020), também conhecido como PL das Fake News que, apesar de ter sido colocada para consulta pública, tem recebido poucas contribuições. Ver em: SILVA, Priscilla. A Desinformação do PL das Fake News. Revista Jota, publicado em 01 de jun. de 2020. Disponível em: https://www.jota.info/coberturas-especiais/liberdade-de- expressao/a-desinformacao-do-pl-das-fake-news-01062020. Acessado em 28.07.2020. DONEDA, Danilo; MENDES, Laura Schertel; SOUZA, Carlos Affonso Pereira de; ANDRADE, Norberto 34 Nuno Gomes de. Considerações sobre Inteligência Artificial, ética e autonomia pessoal. Pensar – Revista de Ciências Jurídicas, v. 23, 2018, p. 6. 8 2.1. As características da Inteligência Artificial: uma ótica do Direito De acordo com Ryan Calo , podem ser extraídas três características essenciais da IA 35 36 e de robôs que se valem de IA, que representam as possibilidades e as experiências que a sua arquitetura gera e circunscreve no mundo real. São elas: materialidade (embodiment), comportamento emergente (emergence) e valor social (social valence). A materialidade seria a capacidade daquele robô de “senti[r], navega[r] e atuar sob o mundo, geralmente exigindo uma presença física” . Ao invés de utilizar o termo “autonomia”, Calo se refere a esta 37 capacidade com o termo “emergence”, que representa a aptidão do robô em obedecer a comandos, “repet[ir] tarefas com uma paciência não humana, ou reproduz[ir] uma ação em condições de risco” construindo “um comportamento útil imprevisível” . Finalmente, o valor 38 social se refere ao reconhecimento de que os agentes inteligentes “são diferentes paranós, como se fossem agentes vivos” . Cada uma dessas características vai trazer diferentes 39 desafios regulatórios: a materialidade é capaz de causar danos físicos; o comportamento emergente torna imprevisível a ação, não sendo inteligível a compreensão dos motivos que o ocasionaram; e o valor social aponta para as diferentes naturezas jurídicas que atribuímos aos artefatos, que ora podem ser vistos por nós como pessoas, ora como animais ou até mesmo como objeto, o que poderá refletir na incidência de diferentes regimes de responsabilização. Outra discussão que Calo apresenta é qual será a melhor maneira de regular a IA e a robótica, se pela própria tecnologia (seu código) ou pela lei. Mesmo diante do seu comportamento emergente, Calo acredita que o código estaria apto a limitar e constranger o comportamento destes artefatos. Este é um ponto de discordância de Jack Balkin , conforme 40 CALO, Ryan. Robotics and the Lessons of Cyberlaw. California Law Review, Vol. 103, No. 3, 2015, p. 532. 35 Disponível em: https://ssrn.com/abstract=2402972. Acessado em 21.04.2017. Jack Balkin crítica o fato de Calo fixar estas características como essenciais, pois entende que o uso da 36 tecnologia vai se adaptando, modificando e se desenvolvendo a partir dos seus usos sociais. BALKIN, Jack M.. The Path of Robotics Law. California Law Review, vol 6, 2015, p. 52. Disponível em: https://ssrn.com/ abstract=2586570. Acessado em 21.04.2017. Tradução livre de: “Sensing, navigating, and acting upon the world generally requires a physical presence, and 37 that physical presence opens up a universe of new possibilities”. Tradução livre de: “repeating a task with inhuman patience, or by reproducing an action in hazardous 38 conditions” e “unpredictably useful behavior and represents a kind of gold standard among many roboticists”. Tradução livre de: “They feel different to us, more like living agents”.39 BALKIN, Jack M.. The Path of Robotics Law. California Law Review, vol 6, 2015. Disponível em: https://40 ssrn.com/abstract=2586570. Acessado em 21.04.2017. 9 exposto em um artigo escrito em resposta a Calo, onde indica que o comportamento emergente destes artefatos impossibilita que o código seja regulado, seja pelo próprio código, seja pela lei: code is lawless. 41 Apesar da visão pessimista de Jack Balkin, já estão sendo debatidas propostas regulatórias sobre Inteligência Artificial, sendo que os documentos apresentados no âmbito da União Europeia têm ganhado os holofotes . A discussão encontra-se pautada, como se verá 42 abaixo, em diretrizes éticas e principiológicas, o que parece ser importante para evitar o estabelecimento de regras herméticas que impeçam a inovação e o desenvolvimento tecnológico. Diante das características da IA, em especial, da robótica e da área de aprendizado de máquina, será possível que o seu comportamento seja aderente aos princípios éticos? Será possível incorporá-los ao seu código? 3. Princípios éticos para a IA Na ausência de regulação jurídica sobre o assunto, a observação de princípios éticos pode ser importante para maximizar os benefícios da IA e diminuir seus riscos. A questão 43 que se coloca é: quais princípios éticos? A utilização de princípios éticos como instrumento para a regulação da Inteligência Artificial, apesar de não conter uma natureza coercitiva e sancionatória típica da regulação jurídica, permite a criação de guias deontológicos que serão constituídos como a razão prima facie e o fundamento para o desenvolvimento e implementação da IA. Nesse caso, a governança da Inteligência Artificial será baseada em princípios que imporão uma regulação leve (soft law ou soft regulation), na medida em que servirão de limite para a expansão da IA, sem, contudo, prever uma penalidade específica em caso de desvio do padrão constituído. Tanto a União Europeia quanto outros organismos Ibidem, p. 51.41 V e r e m : h t t p s : / / e c . e u r o p a . e u / d i g i t a l - s i n g l e - m a r k e t / e n / a r t i f i c i a l -42 intelligence#:~:text=The%20General%20Data%20Protection%20Regulation,clarity%20in%20AI%20%2Dbased %20applications.&text=%2D%20The%20Declaration%20of%20cooperation%20on,countries%20on%2010%20 April%202018. Acesso em 01.08.2020. Os autores se referem, na realidade, à constituição de quadros éticos corporativos. Contudo, esta mesma 43 afirmação também é adequada quando pensamos em princípios éticos no geral. DONEDA, Danilo; MENDES, Laura Schertel; SOUZA, Carlos Affonso Pereira de; ANDRADE, Norberto Nuno Gomes de. Considerações sobre Inteligência Artificial, ética e autonomia pessoal. Pensar – Revista de Ciências Jurídicas, v. 23, 2018, p. 13. 10 internacionais - como, por exemplo, a OCDE e a Access Now - e instituições privadas - 44 45 como, por exemplo, a IBM e a Microsoft - instituíram guias de recomendação para a 46 47 adoção de princípios éticos para a regulação de IA. Os princípios éticos indicados pelos documentos consultados partem de um mesmo 48 pressuposto, qual seja, a necessidade de fomentar o desenvolvimento de uma Inteligência Artificial confiável e que seja auditável, permitindo que seus processos sejam conhecidos e controlados - ou controláveis - pelo ser humano. Respaldado por estes pressupostos, os princípios-guias que foram primeiramente eleitos para iniciar a construção de uma "Ética para a IA" foram importados da experiência da Bioética , considerada exemplar por promover, ao 49 mesmo tempo, a proteção da pessoa humana e o desenvolvimento da ciência . Estes 50 Para uma leitura a respeito do Guia da OCDE sobre recomendações na regulação da Inteligência Artificial por 44 meio de princípios éticos, visitar a página: https://www.oecd.org/going-digital/ai/principles/. Os 36 países membros da OCDE aderiram aos Princípios da Inteligência Artificial da OCDE. O Brasil, apesar de não ser membro da OCDE, também aderiu ao documento, adotado a partir de maio de 2019. Consultado em: https://www.accessnow.org/artificial-intelligence-we-just-became-a-member-of-the-45 p a r t n e r s h i p - o n - a i / #:~:text=Access%20Now%20recognises%20that%20ethical,only%20be%20a%20first%20step. Acesso em 10.08.2020. A respeito, ver: https://www.ibm.com/blogs/policy/trust-principles/. Acesso em 10.08.2020.46 A respeito, ver: https://www.microsoft.com/en-us/ai/responsible-ai. Acesso em 10.08.2020.47 Além das declarações de princípios de empresas e organismos internacionais (governamentais e não 48 governamentais), foram consultados também os seguintes documentos: (i) Relatório do European Group on Ethics in Science and New Technologies Artificial Intelligence, Robotics and ‘Autonomous’ Systems; (ii) Estratégia Brasileira para a Inteligência Artificial do MCTIC; (iii) Relatório "Orientações éticas para uma IA de confiança", do Grupo de Peritos de Alto Nível sobre a Inteligência Artificial; (iv) "The IEEE Global Initiative on Ethics of Autonomous and Intelligent Systems"; (v) Relatório da Access Now sobre "Human rights in the age of Artificial Intelligence", dentre outros. Sobre os princípios da bioética, sugere-se a consulta ao Relatório de Belmont: https://www.hhs.gov/ohrp/49 regulations-and-policy/belmont-report/read-the-belmont-report/index.html. Acesso em 17.08.2020. Em relação aos princípios da Bioética, Floridi et al, afirmam que podem ser transpostos concretamente para a 50 regulação da IA por meio da promoção do bem comum, preservação da dignidade humana e sustentabilidade (beneficência); proteção da privacidade da segurança e da prevenção de danos (não-maleficência); tutela do poder de decidir (autonomia); e promoção da prosperidade e preservação da solidariedade social (justiça). MITTELSTADT, Brent; ALLO, Patrick; TADDEO, Mariarosaria; WACHTER, Sandra; e FLORIDI, Luciano. 2016. The Ethics of Algorithms: Mapping the Debate. Big Data & Society. 3(2), 2016. Disponível em https:// journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/2053951716679679.Acesso em 28.07.2020. 11 princípios - beneficência; não-maleficência; autonomia e justiça - são a base para a 51 constituição de outros três princípios - estes específicos da IA - que servem de justificativa para a confiabilidade dos sistemas: (i) o princípio da justiça (fairness); (ii) o princípio da acurácia (accuracy); e (iii) o princípio da inteligibilidade (intelligibility). O reconhecimento desses princípios representa, resumidamente, a adoção de medidas que (i) impeçam a aplicação de sistemas de IA que violem o princípio da igualdade de tratamento; (ii) permitam reconhecer que os insumos utilizados pela IA e os resultados que advém de seu tratamento sejam precisos; e (iii) proporcionem à pessoa humana o conhecimento dos processos de decisão tomados pela IA. Dentre os documentos analisados, os Princípios de Asilomar - produto da Asilomar 52 Conference on Beneficial AI, realizado em 2017 - é dos mais relevantes, por se tratar de iniciativa multissetorial, reunindo em nível internacional acadêmicos, indústria, ONGs, entre outros atores, em busca de uma melhor compreensão dos limites para o desenvolvimento da IA. Dos 23 princípios reconhecidos, 13 princípios se referem à Ética e Valores (ethics and values). Não serão analisados todos os princípios, sendo destacados os seguintes: (i) princípio da segurança e precaução a danos; (ii) princípio da transparência sobre incidentes de segurança; (iii) princípio da responsabilidade pelas implicações morais do uso da IA; (iv) princípio da proteção e controle de dados pessoais; e (v) atendimento a valores humanos, dentre os quais se destacam os ideais de dignidade humana, liberdade e diversidade cultural. Outro documento que deve servir de parâmetro para a adoção de princípios éticos, é o preparado pelo Grupo Independente de Peritos de Alto Nível sobre a Inteligência Artificial (GPAN IA) , da União Europeia, que, em 2019, elaborou um Guia Ético para o que 53 Para Floridi et al, "(...) affirming the principle of autonomy in the context of AI means striking a balance 51 between the decision-making power we retain for ourselves and that which we delegate to artificial agents. Not only should the autonomy of humans be promoted, but also the autonomy of machines should be restricted and made intrinsically reversible, should human autonomy need to be re-established (consider the case of a pilot able to turn off the automatic pilot and regain full control of the airplane). MITTELSTADT, Brent; ALLO, Patrick; TADDEO, Mariarosaria; WACHTER, Sandra; e FLORIDI, Luciano. 2016. The Ethics of Algorithms: Mapping the Debate. Big Data & Society. 3(2), 2016. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/full/ 10.1177/2053951716679679. Acesso em 28.07.2020, p. 698. Consulta em https://futureoflife.org/ai-principles/. Acesso em 18 de agosto de 2020.52 https://ec.europa.eu/digital-single-market/en/high-level-expert-group-artificial-intelligence53 12 denominou de IA de Confiança. De acordo com o grupo, uma IA de confiança “tem três 54 componentes, que devem ser observadas ao longo de todo o ciclo de vida do sistema: a) deve ser Legal, cumprindo toda a legislação e regulamentação aplicáveis; b) deve ser Ética, garantindo a observância de princípios e valores éticos; c) deve ser Sólida, tanto do ponto de vista técnico como do ponto de vista social, uma vez que, mesmo com boas intenções, os sistemas de IA podem causar danos não intencionais”. Dentre os princípios éticos arrolados 55 pelo grupo, quatro se destacam, quais sejam, (i) o respeito da autonomia humana, (ii) a prevenção de danos, (iii) a equidade e (iv) a explicabilidade. De uma forma muito semelhante ao documento de Asilomar, o Guia Ético adota uma postura de promoção da tutela da pessoa humana por meio do respeito à sua autonomia e integridade, no que se refere à prevenção e precaução de danos. A Declaração de Montreal, de 2017, por sua vez, indica que os princípios éticos por ela adotados são como um guia moral que oferece uma estrutura ética promotora de direitos humanos. Ao lado dos princípios já mencionados nos demais documentos, a Declaração de Montreal indica a proteção à participação democrática como um norte para o desenvolvimento e utilização da IA, demonstrando uma preocupação genuína com o uso de sistemas de Inteligência Artificial para finalidades políticas autoritárias e não-democráticas. A ideia geral por trás destes guias deontológicos é garantir que os processos em torno do desenvolvimento e utilização dos sistemas de IA cumpram determinados pressupostos, dentre os quais podemos destacar a obrigatoriedade de supervisão humana dos processos. Significa dizer que toda IA deve necessariamente ser centrada na pessoa humana, a ela direcionada e por ela supervisionada, engajando os sistemas para servir à coletividade, no sentido de amplificar não só a sua segurança, mas também garantir a autonomia e a capacidade de decidir das pessoas. Considerando essas premissas, os sistemas de IA devem, a um só tempo, potencializar os benefícios que geram para a humanidade, e prevenir os riscos que venham a causar à coletividade. A tarefa, à toda evidência, não é simples e requer um verdadeiro compromisso por parte não só dos desenvolvedores de sistemas de IA, mas Dentre os princípios enumerados pelo GPAN IA encontram-se (i) a ação e supervisão humana; (ii) a solidez 54 técnica e segurança; (iii) privacidade e governança dos dados; (iv) transparência; (v) diversidade, não discriminação e equidade; (vi) bem-estar ambiental e societal; e (vii) responsabilização. Orientações éticas para uma IA de confiança, p. 2.55 13 também da sociedade como um todo, no sentido de apoiar a IA quando confiável ou denunciar a IA que foge aos escopos dos códigos de ética e valores constituídos. Por outro lado, ao sustentar que a IA deve ser centrada no humano (human centered), pode-se inferir que a regulação do desenvolvimento e uso da IA extrapola aquela determinada pelos princípios éticos e encontra guarida na tutela jurídica dos direitos fundamentais, previstos tanto na Constituição Federal, quanto em outras normas de caráter universal, como declarações e tratados internacionais. Assim, a abordagem à ética da IA seria também baseada nos direitos fundamentais, no sentido de ser por eles apoiada. O princípio da dignidade humana, o direito à liberdade e à igualdade, seriam as fontes para a construção de uma IA ética, confiável e humano-centrada. 4. É possível codificar princípios éticos? Como indicado acima, podemos explicar, de maneira simplista, como esses artefatos podem funcionar de duas maneiras. A primeira maneira remonta ao início da IA, onde os algoritmos eram programados por meio de regras simples de if-else-then, compostas por um conjunto de instruções baseadas em lógica. Esta maneira de codificar, com regras simbólicas, permite a explicação e previsibilidade dos artefatos, mesmo que construídos para contextos complexos. Caso este tipo de regra fosse aplicado ao Roomba, seria algo como: “se sujeira, 56 então limpe, senão, continue andando”. Isto significa que, enquanto o ambiente estiver sujo, ele continuará se movimentando para limpá-lo. Neste cenário, o nível de incerteza do artefato é bastante reduzido, pois o Roomba é tipicamente utilizado em ambientes domésticos. Por isso, não seria necessário criar uma série de regras, tal como se este robô fosse utilizado em um campo de batalha, por exemplo, que é irregular e sujeito a grande variação climática. Estas condições tornam o ambiente incerto, o que exigiria a codificação de uma série de regras simbólicas para dar conta desta nova realidade, tornando a escalabilidade do uso deste artefato difícil ou até mesmo impossível. 57 LEMLEY, Mark A; CASEY, Bryan. Remedies for Robots. 86 University of Chicago Law Review 1311, 56 Stanford Law and Economics Olin Working Paper No. 523, 2019, p. 1.323. Disponívelem: https:// lawreview.uchicago.edu/publication/remedies-robots. Acessado em 29.07.2020. Ibidem, p. 1.324.57 14 Como apontam Mark Lemey e Bryan Casey, a técnica de aprendizado de máquina supera esse problema , pois ela não se vale de regras simbólicas, mas de regras não-58 simbólicas criadas pelo próprio sistema, o que “requer sacrificar algum nível granular de controle sobre os algoritmos da máquina” . Estes algoritmos são motivados a alcançarem um 59 determinado objetivo da maneira mais otimizada possível. O seu aprendizado ocorre por meio de exemplos, que são posteriormente validados por recompensas ou penalizações, bem como por modelos estatísticos. Por este motivo, para implementar uma proibição em seu comportamento, teria de ser atribuída uma consequência ou um peso negativo a uma ação não desejada. Desta forma, enquanto que para os modelos de aprendizado de máquina adotar ou 60 não uma conduta depende de um cálculo econômico de custo/benefício, para algoritmos com regras simbólicas a proibição de um comportamento seria considerada auto-executável. Lemey e Casey chamam este último caso de uma perspectiva normativa de aplicação de uma regra, enquanto a outra assumiria uma visão econômica. 61 Embora abstratamente pareça simples, não é. Um exemplo apresentado por Lemey e Casey, ora adaptado, demonstra isso. Para que um algoritmo simples entenda que deva parar diante de um sinal vermelho, seria suficiente que fosse codificado o seguinte comando “se sinal vermelho, então pare, senão, continue”. Por sua vez, um algoritmo de ML dependeria do reconhecimento dos custos negativos e positivos de avançar o sinal vermelho (potencial aplicação de multa, colisão com outro objeto, atropelamento de uma pessoa ou um animal, etc). Num exemplo hipotético, caso uma mulher grávida, em trabalho de parto, esteja indo em direção ao hospital pela manhã (por volta das 9h) em um dia de semana agitado, é razoável que ela não respeite os sinais de trânsito, avançando diversos sinais vermelhos para chegar ao hospital a tempo, sem colocar em risco a sua vida e a do bebê. Mudando de cenário: caso a mulher fosse até o hospital em um veículo autônomo, que tenha embarcado em seu sistema o algoritmo mais simples, ela poderia ter problemas em chegar a tempo no hospital, pois a regra de parar no sinal vermelho poderia atrasar este objetivo. Caso o veículo fosse operado por um Ibidem, p. 1.324.58 Tradução livre de: “requires sacrificing some degree of fine-grained control over a machine’s algorithms”. 59 Ibidem, p. 1.236. Ibidem, p. 1.348.60 Ibidem, p. 1.349.61 15 algoritmo de ML, o sistema teria que calcular os riscos e os benefícios de avançar os sinais vermelhos. Nesse caso, deve ser levado em consideração o horário, o dia e o percurso que deve ser feito, avaliando quais são os riscos e as vantagens de respeitar os sinais fechados . 62 Uma dificuldade a mais é que os desenvolvedores são incapazes de preverem o comportamento desse algoritmo, e, portanto, não sabem como esta proibição irá interagir com outras regras. 63 A regra proibitiva no exemplo acima não é vaga ou imprecisa, tampouco possui uma linguagem de textura aberta. Ainda assim, quando ela é projetada para ser codificada, seja no algoritmo simples ou no de ML, surgem dilemas que põem em xeque a sua capacidade de se ajustar a determinadas situações. Estes dilemas são ainda mais complexos quando pensamos em codificar princípios éticos, diante da plasticidade e indeterminação dos seus enunciados. Quando ocorrem controvérsias jurídicas envolvendo os mesmos, sempre há a necessidade de interpretação e de ponderação para solucionar o conflito, sempre dependendo de uma determinação contextual, e implicando em uma análise casuística da situação. Consequentemente, a análise onde “cada caso é um caso” afasta a possibilidade de construção de parâmetros de julgamento, fazendo com que não exista um padrão ou standard aplicável . 64 Como as máquinas não são capazes de compreender a semântica das palavras, tampouco fazer abstrações, a codificação de princípios implicaria na necessidade de parametrizar, quantificar e sopesar infinitas situações, o que inviabilizaria o uso de códigos simples ou levaria a resultados insatisfatórios no caso de ML, pela ausência de padrões. É neste sentido que Wachter et al., em um recente artigo (no prelo) , concluem que o 65 princípio de justiça (fairness) não deve ser codificado. Ao avaliaram a jurisprudência do O exemplo foi pensado para criar uma situação em que seria um risco demasiado avançar os sinais vermelhos. 62 Caso fosse madrugada, e não a manhã de um dia de semana, por exemplo, seria razoável que o algoritmo de ML julgasse haver uma baixa probabilidade de acidente, atropelamento ou até mesmo a não aplicação da multa. Ibidem, p. 1.349.63 Este é um problema recorrente da doutrina e jurisprudência brasileira. Isto fica evidente, por exemplo, nos 64 conflitos envolvendo direitos fundamentais, como a liberdade de expressão e direitos da personalidade. Sobre o tema, ver em: LEITE, Fábio Carvalho. Nem todo case é um hard case: reflexões sobre a resolução dos conflitos entre liberdade de expressão e os direitos da personalidade no Brasil. In: ABREU, Célia Barbosa; LEITE, Fábio Carvalho, PEIXINHO, Manoel Messias (Orgs.). Debates sobre Direitos Humanos Fundamentais. Vol. I. Rio de Janeiro: Editora Gramma, 2017, pgs. 209-231. WACHTER, Sandra; MITTELSTADT, Brent; RUSSELL, Chris. Why Fairness Cannot Be Automated: 65 Bridging the Gap Between EU Non-Discrimination Law and AI, no prelo. Disponível em: https://ssrn.com/ abstract=3547922. 16 Tribunal de Justiça da União Europeia de casos envolvendo alegações de discriminação, os autores concluíram pela impossibilidade de codificar o que seria fairness nestes casos, um princípio ético tipicamente aplicado para avaliar a ocorrência ou não de discriminação. O motivo: foi verificada a ausência de parâmetros fixados pelo Tribunal que poderiam ser traduzidos e implementadas em sistemas automatizados. Em seu lugar, os autores sugerem 66 que sejam desenvolvidas ferramentas e aplicados métodos estatísticos que auxiliem julgadores a detectarem uma potencial discriminação, mas que a declaração de discriminação não seja automatizada, e sim revisada e aplicada por uma pessoa humana. Além disso, os autores apontam que o uso crescente e difundido de sistemas de IA deverá incentivar o Tribunal a criar estes parâmetros, de forma a permitir uma possível tradução de precedentes em um formato compreensível para as máquinas. Apesar dessa conclusão e de certo ceticismo dos juristas quanto à codificação de princípios éticos, é verdade que o Grupo Independente de Peritos de Alto Nível sobre a Inteligência Artificial (GPAN IA), em seu relatório que trata sobre ética e IA, aponta uma série de medidas técnicas (indicadores de qualidades, testes e validação, arquiteturas confiáveis e ethics-by-design, por exemplo) e não-técnicas (regulação, códigos de conduta, padronização, certificação, etc) que podem ser observados para a construção de sistemas de IA éticos e confiáveis (trustworthy) . Embora exista um grande desafio, Wachter et al. 67 apresentam uma vasta literatura técnica que tem se debruçado sobre o tema . Ademais, como 68 visto, a própria União Europeia tem apontado opções, ainda que genéricas, para assegurar a observância destes preceitos. A implementação de princípios éticos não significa apenas imputar uma regra ao sistema para que ele aja de maneira justa, equânime, não discriminatória, pois sua maneira de funcionar não permite algo tão simples quanto isso. Em casos de ML, seria até mesmo possível pensar formas de maximizar, gratificar e buscar alcançar determinados valores que atendam a estes princípios éticos, mas a imprevisibilidade do código – assim como a ausência de padrões nestes casos -- gera alguma insegurança sobre o seu sucesso.Ibidem, p. 44.66 COMISSÃO EUROPEIA. A definition of AI: Main capabilities and scientific disciplines. 2019b, pp. 22-24. 67 Disponível em: Acessado em 14.04.2020. Ibidem.68 17 A complexidade do tema exige um esforço criativo para dar conta desta realidade. Uma solução que tem sido apontada pela doutrina especializada para fazer com que tais princípios sejam incorporados a sistemas de IA é a constituição de quadros éticos corporativos. Estes funcionam como uma “estrutura analítica e operacional destinada a orientar a estratégia dos atores corporativos e a moldar as suas práticas nesse domínio”, 69 permitindo que o desenvolvimento da tecnologia seja supervisionado e acompanhado pelo comitê. Junto a isso, o estabelecimento de estratégias de governança de algoritmos também agrega valor à atuação deste quadro ético, com a combinação de diferentes instrumentos regulatórios, que podem “variar desde os pontos de vista estritamente jurídico e regulatório até uma postura puramente técnica” . Este tipo de governança permite que haja um 70 monitoramento da criação de diretrizes éticas, além do estabelecimento de controles sobre a tecnologia. Assim, estes comitês têm o potencial de exercer um escrutínio ético rígido ao longo do ciclo de desenvolvimento da Inteligência Artificial, atendendo à ideia central de que a IA deve ser centrada no humano (human centered). 5. Considerações Finais Na falta de uma regulação jurídica específica sobre a Inteligência Artificial, princípios éticos têm sido considerados para baliza dos progressos em IA, constituindo-se em limite interno – no desenvolvimento dos sistemas – e externo – nas aplicações e usos da tecnologia. Tem-se, assim, que as luzes da Ética e as leis de Asimov servem como ponto de partida para o estudo sobre os impactos jurídicos do desenvolvimento e da aplicação de ferramentas que utilizam IA. Os avanços da tecnologia permitem imaginar um futuro em que serão delegadas a sistemas de Inteligência Artificial decisões que irão, inevitavelmente, gerar danos a pessoas. Além da inexistência de uma regulação jurídica sobre a matéria nos ordenamentos jurídicos analisados, soma-se o desconhecimento sobre os impactos verdadeiros que esse tipo de tecnologia pode gerar na sociedade como um todo e nas relações subjetivas, em concreto. O DONEDA, Danilo; MENDES, Laura Schertel; SOUZA, Carlos Affonso Pereira de; ANDRADE, Norberto 69 Nuno Gomes de. Considerações sobre Inteligência Artificial, ética e autonomia pessoal. Pensar – Revista de Ciências Jurídicas, v. 23, p. 1-17, 2018, p. 13. DONEDA, Danilo; ALMEIDA, Virgílio, A. F.. O que é governança de algoritmos? In: BRUNO, Fernanda et 70 al.. Tecnopolíticas da vigilância: perspectiva da margem. 1ª Edição. São Paulo: Boitempo, 2018, pp. 147. 18 fato de que os processos de decisões levadas a cabo pela IA autônoma não são conhecidos pelas pessoas, ocasionando a formação de verdadeiras caixas-pretas, opacas e impenetráveis ao conhecimento humano, gera incertezas sobre a possibilidade concreta da regulação jurídica, na medida em que não haveria condições de prever ou avaliar probabilisticamente os resultados danosos possíveis do aprendizado da IA. Em conclusão, enquanto não houver uma regulação dos sistemas de Inteligência Artificial – ainda que por meio de códigos deontológicos –, a indagação a respeito do adequado, seguro e confiável desenvolvimento e aplicação da IA permanecerá. Caberá à sociedade como um todo a árdua tarefa de exigir a implementação de um sistema de regulação apropriado que possibilite não somente o pleno desenvolvimento das tecnologias e sistemas de Inteligência Artificial, mas que beneficiarão a todos e promoverão a tutela da pessoa humana. 19 Referências Bibliográficas BALKIN, Jack M.. The Path of Robotics Law. California Law Review, vol 6, 2015. Disponível em: https://ssrn.com/abstract=2586570. Acessado em 21.04.2017 CALO, Ryan. Robotics and the Lessons of Cyberlaw. California Law Review, Vol. 103, No. 3, 2015, pp. 513-564. Disponível em: https://ssrn.com/abstract=2402972. Acessado em 21.04.2017. CALO, Ryan. Artificial Intelligence policy: a primer and roadmap. 51 U.C. Davis Law Review 300, 2017, pp. 399-435. Disponível em: . Acessado em 03.01.2020. COMISSÃO EUROPEIA. A definition of AI: Main capabilities and scientific disciplines. 2019b. Disponível em: Acessado em 14.04.2020. COPPIN, Ben. Artificial Intelligence Illuminated. 1a Edição. 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