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PONTES Rebeca Schmitz Solicitações nas pontes Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Relacionar a proteção de pilares e paredes, guarda-rodas e guarda-corpos. Identificar os tipos de solicitações provocadas por cargas, impactos, pressões, atritos, deslocamentos e deformações. Escrever sobre os estados limites para o dimensionamento das seções. Introdução Segundo Marchetti (2008), as cargas permanentes representam o peso dos elementos estruturais e de outros elementos que estejam perma- nentemente fixos à ponte. Já as cargas móveis são produzidas pelos veículos que circulam na ponte. Entretanto, além dessas, também se verificam outras cargas variáveis, como a frenagem dos veículos, o vento, a variação de temperatura, entre outras. O conjunto de carregamentos que agem sobre a ponte produzirá as solicitações, que serão utilizadas para o futuro dimensionamento dos seus elementos. Neste capítulo, você vai verificar os elementos estruturais das pontes e também aqueles que não são estruturais, mas que estão relacionados ao uso dessas estruturas. A partir da identificação da função desses com- ponentes, poderemos analisar os tipos de ações a que estão sujeitos. Na sequência, você vai verificar quais são as condições de carregamentos necessárias para o dimensionamento dos elementos estruturais. U N I D A D E 2 dpolycarpy Rectangle dpolycarpy Rectangle Ações e solicitações Defi nidos os elementos de uma ponte, podem-se estimar as ações que ocorrerão sobre a estrutura e as solicitações, para posteriormente analisarmos os estados limites. Segundo a NBR 8681, as ações são divididas em três grandes grupos: permanentes, variáveis e excepcionais. A seguir vamos estudar cada um deles. Ações permanentes De acordo com a defi nição da NBR 8687, as ações permanentes são aquelas que ocorrem com valor constante ou com pequena variação durante prati- camente toda a vida da estrutura. A NBR 7187 especifi ca para o projeto de pontes em concreto armado e protendido uma lista de cargas permanentes oriundas de elementos estruturais e não estruturais, de empuxos de terra e água, de protensão ou de deslocamentos impostos. No que tange ao peso dos elementos estruturais e não estruturais, na Tabela 1 são apresentados os pesos específicos de materiais frequentes em pontes. Sobre a pavimentação, é importante destacar que, além de se consi- derar o peso, conforme a Tabela 1, e a espessura inicial do pavimento, deve ser adicionada uma carga de 2 kN/m², prevendo-se possíveis recapeamentos, conforme a ABNT (2003). Material Peso específico (kN/m3) Concreto armado e protendido 25 Concreto simples 24 Aço estrutural 78,5 Pavimentação 24 Tabela 1. Peso específico de materiais frequentes em pontes Segundo a NBR 7187, para a avaliação dos empuxos de terra não se deve considerar peso específico menor do que 18 kN/m³ para o solo e deve-se limitar o ângulo de atrito em 30°, sempre atentando à situação mais desfavorável. Quando for considerado empuxo passivo, deve-se garantir a existência de solo na região durante toda a vida útil da ponte. Sobre empuxos de água, a referida norma é bem sucinta, focando prin- cipalmente a definição dos níveis máximos e mínimos do curso de água ou Solicitações nas pontes2 lençol freático. O carregamento permanente devido à protensão deve ser analisado conforme o dimensionamento dos elementos protendidos e não será avaliado neste capítulo. Sobre os deslocamentos impostos, são listados como causadores: fluência, retração, variação térmica e recalques das fundações. Os efeitos de fluência, retração e variação térmica devem ser estudados com bastante cuidado, pois são fenômenos que possuem modelos aproximados. Nesse caso, pode-se consultar a NBR 6118. A possibilidade de recalque nas fundações existe devido à deformabilidade do solo, por isso, para que se tenha um projeto ge- otécnico de fundações bem elaborado, que preveja com acurácia os possíveis recalques, deve ser feita uma investigação geotécnica detalhada do solo onde será implantada a ponte. Ações variáveis Ações variáveis são aquelas que são transitórias, ou seja, seu valor varia bastante durante a vida útil da estrutura. São exemplos de ações variáveis em pontes: cargas móveis (veículos, pedestres), vento e variações de temperatura. A ação das cargas móveis provoca diversas forças na estrutura, que iremos estudar a partir de agora. A NBR 7188 regulamenta especificamente as cargas móveis. Primeiramente vamos tratar da carga vertical, que se divide em carga de veículo-tipo e carga de multidão. Na Figura 1 podemos ver a carga de veículo-tipo de 450 kN, dividida em 6 cargas concentradas de 75 kN, que são as rodas. O veículo de 3,0 metros x 6,0 metros possui três eixos, sendo eles espaçados a cada 1,5 metros. As rodas de um eixo estão espaçadas 2,0 metros. A carga de multidão é a que circunda o veículo e tem valor de 5 kN/m², sendo considerada em toda a região do tabuleiro (faixas de acostamentos). 3Solicitações nas pontes Figura 1. Cargas móveis verticais: veículo-tipo e carga de multidão. Fonte: Adaptado de ABNT (2013b). A mesma norma possibilita que seja considerado um carregamento de veículo menor para o caso de estradas vicinais. O veículo-tipo, nesse caso, tem mesma disposição de rodas, mas peso total de 240 kN, sendo 40 kN por roda. Já a carga de multidão considerada vale 4 kN/m², conforme a ABNT (2013). O contrário também pode ocorrer: se a ponte estiver em uma rodovia de até 100 km na região de um terminal portuário, pode-se majorar a carga de veículo-tipo e a carga de multidão em 10%. A NBR 7188 ainda prevê em seu Anexo A um veículo especial de 5.120 kN. É importante destacar que quando é feita a análise das solicitações das cargas, coloca-se apenas um veículo-tipo sobre o tabuleiro e, no entorno, considera-se a carga de multidão. O veículo é colocado na posição mais desfavorável para cada elemento que estiver sendo analisado. Entende-se por posição mais desfavorável aquela que provocará maior solicitação. As cargas móveis geradas pelos veículos provocam efeitos dinâmicos, pois são cargas elevadas que variam seu valor em um curto período de tempo. Uma análise dinâmica requer conhecimentos avançados de mecânica estrutural, além de exigir softwares específicos. Alternativamente, a norma sugere que, dentro de uma análise estática, consideremos a carga estática com coeficientes de majoração, devido ao efeito dinâmico. Conforme a NBR 7187, são três os coeficientes dinâmicos adimensionais que multiplicam a carga do veículo-tipo e a carga de multidão. O coeficiente de impacto vertical (CIV) pode ser calculado pela equação 1, sendo Liv o Solicitações nas pontes4 vão (no caso de existir vários vãos, faz-se uma média aritmética). Segundo Pfeil (1979), esse coeficiente está relacionado com o efeito do deslocamento das cargas e com a irregularidade do pavimento. (1) O coeficiente de número de faixas (CNF), que não se aplica a elementos transversais como lajes e transversinas, pode ser calculado pela equação 2. Nessa equação, n é o número de faixas de tráfego, não sendo contabilizados os acostamentos. CNF = 1 – 0,05 · (n – 2) > 0,9 (2) Por fim, o coeficiente de impacto adicional (CIA) está relacionado com o impacto gerado em juntas de dilatação. Por isso, esse coeficiente só deve ser considerado a 5 metros para cada lado da junta. Seu valor está relacionado ao tipo de material da ponte; se a estrutura for em concreto ou estrutura mista aço-concreto, adota-se 1,25. Já para o caso de estruturas inteiramente em aço, aplica-se 1,15. Para o caso de a ponte ter passeios, deve ser considerada carga distribuída de 3 kN/m² quando se faz uma análise global da estrutura. Entretanto, quando é feito o dimensionamento, por exemplo, da laje na região do passeio, deve ser considerada carga de 5 kN/m²; nenhum coeficiente de majoração devido ao efeito dinâmico é considerado.Além das cargas verticais, existem cargas horizontais paralelas ao fluxo, que são cargas relacionadas com a frenagem e a aceleração dos veículos. Essas cargas são definidas pela NBR 7188 e pela equação 3. Nessa equação, utiliza-se o CNF calculado anteriormente; além disso, B é a largura em que ocorre a carga de multidão e L é o comprimento em que ocorre a frenagem e a aceleração e também a carga distribuída. Atenção, a carga de frenagem e aceleração nunca deve ser inferior a 135 kN. (3) A carga horizontal perpendicular ao tráfego ocorre em curvas e é co- nhecida como força centrífuga. Ela é calculada conforme o raio da curva, sendo que, para raios superiores a 1.500 metros, pode ser desconsiderada. Para o caso de raios menores que 1.500 metros e maiores que 200 metros, deve- -se calcular a carga centrífuga (Hfc), por meio da equação 4. Já para curvas com raios inferiores a 200 metros, utiliza-se a equação 5, sendo P a carga do 5Solicitações nas pontes veículo-tipo sem efeitos dinâmicos e R o raio da curva em metros. Deve-se utilizar a carga P em kN, obtendo-se Hfc também em kN. (4) (5) As cargas variáveis não relacionadas ao tráfego são as cargas de vento, as variações térmicas, o empuxo de terra e a pressão da água em movimento. A rigor, a carga de vento deveria ser calculada de acordo com a NBR 6123; entretanto, essa norma ainda não traz especificações para seções de pontes. É possível utilizar a referida norma para definir a pressão dinâmica do vento, contudo a força do vento, que depende do coeficiente de arrasto, não pode ser definida, devido à falta desse parâmetro. Alternativamente, Pfeil (1979) sugere uma pressão de vento para ponte descarregada, sem veículos, igual a 1,5 kN/m². Supondo a ponte carregada, com veículos de dois metros de altura, a pressão de vento pode ser considerada como 1,0 kN/m². A variação de temperatura interfere em fenômenos como fluência e retração, além de poder gerar esforços internos em estruturas hiperestáticas. A carga gerada deve ser avaliada de forma mais específica para cada material, sendo consultadas as normas NBR 6118, para estruturas em concreto armado ou protendido, e NBR 8800, para estruturas em aço ou mistas. A carga variável de empuxo de terra é aquela relacionada ao empuxo provocado pelas cargas móveis. É importante destacar que, se houver junta entre superestrutura e encontros, esses esforços ficam isolados nos encontros e não precisam ser considerados sobre a superestrutura. De acordo com a NBR 7187 (2003), a pressão da água em movimento, sobre pilares nos leitos de rios, por exemplo, pode ser considerada de acordo com a equação 6, em kN/m², sendo k um fator adimensional que depende da seção dos pilares e do ângulo de incidência da água. Para pilares circulares, utiliza-se 0,34, e para pilares retangulares, utiliza-se o valor dado pela Tabela 2, interpolando para situações intermediárias aos ângulos dados. O parâmetro va é a velocidade da água em m/s. (6) Solicitações nas pontes6 Ângulo de incidência Fator k 90º 0,71 45º 0,54 0º 0 Tabela 2. Fatores k para cálculo da pressão da água Ações excepcionais Os elementos estruturais e não estruturais estão sujeitos à ocorrência de colisões. Nesse sentido, devemos avaliar as ações excepcionais. Essas ações são de curta duração e ocorrem em situações não corriqueiras. Por exemplo, a colisão de uma embarcação nos pilares de uma ponte é algo possível, entretanto não ocorre frequentemente, aliás, pode ser que nunca ocorra. A NBR 7188 apresenta valores para esse tipo de ação, considerando o local de colisão. Atenção: devido à aleatoriedade desses carregamentos, o que a norma sugere é uma estimativa, que não garante que a estrutura suporte um carregamento superior. A colisão nos dispositivos de contenção, como os guarda-rodas, resulta em uma carga de 100 kN horizontal e perpendicular ao tráfego e uma carga vertical de 100 kN. Já para os guarda-corpos, considera-se uma carga de 2 kN/m, distribuída horizontal e transversalmente ao tráfego. Em relação aos pilares, a referida norma sugere que sejam projetados dis- positivos de contenção, sobre os quais serão consideradas cargas excepcionais iguais aos guarda-rodas. Entretanto, pode-se verificar uma ação de colisão igual a 1.000 kN na direção do tráfego, e outra perpendicular ao tráfego igual a 500 kN, nunca consideradas juntas, e a uma altura de 1,25 metros em relação à cota da rodovia. Esses valores de carregamento seriam para um pilar junto à rodovia; entretanto, se o pilar estiver a mais de 10 metros da faixa de tráfego, pode ser dispensado esse carregamento. Para distâncias intermediárias, pode-se adotar um valor linearmente proporcional. 7Solicitações nas pontes A Ponte Rio-Niterói, na baía de Guanabara, está em uma região de alto fluxo de em- barcações de diversas proporções, por isso seu greide na região central é elevado, garantindo a navegabilidade para barcos de maiores proporções. Devido a esse fluxo intenso, foram construídas defensas para os pilares da ponte, a fim de evitar possíveis colisões e dar maior segurança à ponte. Visando a diminuir o impacto, essas defensas contam com materiais elastoméricos, além de outros que visam a diminuir o atrito. Solicitações Cada elemento estrutural será responsável por receber uma parcela das cargas apresentadas anteriormente e transferi-la para outro elemento estrutural, até que as fundações descarreguem para o solo. Para defi nir essas solicitações, deve-se fazer um modelo matemático da estrutura. Nesse ponto é interessante a utilização de softwares. Segundo Martha (2017), o modelo matemático consiste na representação matemática da estrutura, sendo necessária a idealização de seus elementos para que se possa analisá-la. Durante a elaboração desse modelo estrutural, são necessárias hipóteses em relação à geometria, às condições de apoio ou engaste das fundações, ao comportamento dos materiais e às ações que agem sobre a estrutura. Cabe aqui um comentário em relação ao comportamento dos materiais, que muitas vezes são considerados isotrópicos e elásticos lineares. Analisando os resultados de um modelo estrutural, verifica-se, normal- mente, que as lajes estão sujeitas a momentos fletores. Esforços cortantes costumam não ser significativos devido à altura reduzida da laje em comparação com as longarinas. É comum que se considere que a laje se apoia unicamente nas longarinas; logo, considera-se que a laje seja armada em apenas uma direção. A armadura na direção longitudinal seria somente de distribuição, já que os apoios da laje no sentido do vão estão distantes e pouco ou nada contribuem na absorção de cargas. A distribuição dos carregamentos móveis sobre as lajes, assim como nas longarinas, é feita por meio de linhas de influência. Observe que a carga móvel é diferente das demais cargas variáveis, pois pode variar a sua posição, o que deve ser considerado, sempre buscando aquela posição que gere as maiores solicitações. As linhas de influência nada mais são do que diagramas que Solicitações nas pontes8 apresentam as solicitações para um ponto específico, considerando que a carga pode estar em qualquer posição. A partir das linhas de influência, coloca-se a carga do veículo-tipo e de multidão (com os coeficientes dinâmicos) na posição mais desfavorável. As longarinas são elementos que estão sujeitos, principalmente, ao momento fletor, no eixo de maior momento de inércia e esforço cortante. Já os pilares, apesar de terem importante esforço normal de compressão, normalmente estão sujeitos a momentos fletores nas três direções, devido a excentricidades nos apoios, bem como carregamentos transversais, como o vento. Esforços cortantes também podem ser importantes e são gerados pelas cargas de frenagem e de aceleração, pelo vento e pelas variações térmicas. Em termos acadêmicos, o software Ftool, apesar de ser simples e possibilitar análise apenas de modelos estruturais bidimensionais,contribui muito para a análise. Permite inclusive a análise por meio de linhas de influência, formando envoltórias de esforços automaticamente. Como o programa tem caráter acadêmico, seu download é gratuito e pode ser feito pelo site oficial. Em projetos comerciais é comum o uso de programas mais sofisticados e que têm sua licença paga. Estados limites e dimensionamento O projeto de estruturas de concreto armado e protendido, de aço e mistas aço- -concreto é baseado na metodologia de estados limites. Estados limites são situações de carregamento a que a estrutura pode estar sujeita. Conforme a NBR 8681, os estados limites são de dois tipos: os últimos e os de serviço. Neste tópico, iremos abordar de maneira mais detalhada o conteúdo dessa norma. Na metodologia de estados limites, divide-se a análise da segurança entre as solicitações e o cálculo das resistências. O cálculo da resistência, que envolve o dimensionamento da peça, não será abordado de forma mais detalhada neste capítulo. Entretanto fica a indicação de que o dimensionamento é feito por meio de normas, como a NBR 7187, a NBR 6118 e a NBR 8800. O cálculo das solicitações é feito a partir de um modelo matemático da estrutura, sobre o qual serão aplicados os carregamentos correspondentes às ações. 9Solicitações nas pontes Imagine você que todas as ações que estudamos no item anterior vão agir sobre a ponte: seriam todas ao mesmo tempo? Outra questão relevante: será que a ponte estará sempre sujeita a uma situação de congestionamento (carga de multidão distribuída em toda a seção transversal e ao longo de todo o vão)? Imagino que você já tenha as respostas para essas perguntas, logo, você mesmo pode concluir que esses carregamentos devem receber algum “tratamento” para serem colocados no modelo estrutural. Dentro da metodologia de estados limites, as solicitações são geradas a par- tir da combinação das ações, e essas combinações são diferentes, dependendo do que está sendo avaliado: estados limites últimos (ELU) ou estados limites de serviço (ELS). A seguir vamos estudar um pouco mais sobre cada um deles. Estados limites últimos Os estados limites últimos estão relacionados a condições de carregamento que possam levar a estrutura a uma condição extrema; por isso, nessas situa- ções, deve ser verifi cado se a estrutura é capaz de suportar as solicitações. A NBR 8681 esclarece que esses estados limites estão relacionados com a perda de equilíbrio devido a movimentos de corpo livre, a ruptura de elementos estruturais, as deformações excessivas que possam comprometer a estrutura, a instabilidade devido à ocorrência de fl ambagem, a instabilidade devido a efeitos dinâmicos, entre outros. As combinações de estados limites últimos podem ser divididas em: a) normais; b) especiais ou de construção; c) excepcionais. As condições normais são as que devem sempre ser verificadas; nelas, as ações são combinadas de acordo com a equação 7. (7) Nessa formulação, o primeiro somatório representa todas as ações per- manentes que devem ser somadas; o termo FGi,k se refere aos valores caracte- rísticos das cargas, vistos no tópico “Ações e solicitações” deste capítulo. O fator γg,i são os valores ponderados das ações permanentes (Tabela 3) que, ao multiplicar as forças características, fazem com que elas se tornem valor de Solicitações nas pontes10 projeto. O coeficiente γq (Tabela 4) é o ponderador de cargas variáveis. Nesse tipo de combinação, adota-se uma carga variável como principal, FQi,k, e as demais como secundárias. Como concluímos anteriormente, nem todas as ações variáveis ocorrem sobre a ponte com seus valores máximos; por isso, as ações variáveis secundárias são multiplicadas pelo coeficiente ψ0j (Tabela 5) que, ao contrário do coeficiente γ, é um valor igual ou inferior a 1,0. Fonte: Adaptada de ABNT (2004). Combinação Estrutura Efeito Desfavorável Favorável Normal Grandes pontes 1,3 1 Pontes em geral 1,35 1 Especial ou de construção Grandes pontes 1,2 1 Pontes em geral 1,25 1 Excepcional Grandes pontes 1,1 1 Pontes em geral 1,15 1 Tabela 3. Coeficientes ponderadores das ações permanentes Fonte: Adaptada de ABNT (2004). Combinação Estrutura Coeficiente de ponderação Normal Pontes 1,5 Especial ou de construção Pontes 1,3 Excepcional Estruturas em geral 1 Tabela 4. Coeficientes γ ponderadores das ações variáveis 11Solicitações nas pontes Fonte: Adaptada de ABNT (2004). Ações Estruturas Ψ0 Ψ1 Vento Pressão dinâmica do vento nas estruturas em geral 0,6 0,3 0 Temperatura Variações uniformes de temperatura em relação à média anual local 0,6 0,5 0,3 Cargas móveis e seus efeitos dinâmicos Passarelas de pedestres 0,6 0,4 0,3 Pontes rodoviárias 0,7 0,5 0,3 Pontes ferroviárias não especializadas 0,8 0,7 0,5 Pontes ferroviárias especializadas 1 1 0,6 Vigas de rolamentos de pontes rolantes 1 0,8 0,5 Tabela 5. Coeficientes Ψ0j ponderadores das ações variáveis. A carga variável principal é aquela que provoca maior carregamento, ou seja, é a mais desfavorável. É importante destacar que a princípio não se sabe qual será essa carga, por isso, deve-se calcular várias combinações supondo que todas as ações variáveis, uma de cada vez, possam ser a principal. Sobre os ponderados, observe que existe a distinção entre grandes pontes e pontes em geral. As grandes pontes são aquelas em que o peso próprio da estrutura representa mais do que 75% das ações permanentes. Nas combinações especiais ou de construção são avaliados possíveis estados limites últimos durante a construção das pontes. Aqui é importante atentar que existem cargas, como o vento, que podem ocorrer com valores Solicitações nas pontes12 elevados a qualquer momento, mesmo quando a estrutura não estiver completa. Logo, mesmo sem todos os elementos estruturais, a construção deve suportar condições de carga semelhantes a situações de uso. Como você pode ter percebido, na combinação última normal não foi considerada nenhuma ação excepcional; o mesmo ocorre na combinação última de construção. As ações excepcionais são consideradas apenas em combinações últimas do tipo excepcional. Esse tipo de combinação é feito segundo a equação 8: (8) A combinação excepcional considera as cargas permanentes da mesma forma que a combinação normal. Observe que a ação excepcional é consi- derada sem qualquer ponderador, e todas as ações variáveis são ponderadas por coeficientes γ (valores maiores que 1,0) e coeficientes ψ (valores menores que 1,0), já que é muito improvável que a ação excepcional ocorra quando as ações variáveis estiverem atuando com valores máximos. Os ponderados são os que aparecem nas Tabelas 3 e 4. Estados limites de serviço Os estados limites de serviço estão relacionados com situações comuns du- rante a vida em serviço da estrutura. As combinações de serviço são utilizadas para verifi car se a estrutura tem bom desempenho frente às condições de serviço. Conforme defi nido pela NBR 8681 (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA), é possível três tipos de combinação, relacionadas à sua frequência: quase permanentes, frequentes e raras. A combinação quase permanente ocorre com muita frequência e é utili- zada para verificar deformação excessiva; conforme a referida norma, pode ser calculada conforme a equação 9. Observe que as cargas permanentes são consideradas com seus valores característicos, sem qualquer ponderação. Já as cargas variáveis são avaliadas com ponderados ψ, que reduzem seu valor característico. (9) Os valores obtidos da combinação são aplicados sobre o modelo matemático da estrutura e, a partir da análise, verifica-se, por exemplo, se o deslocamento da vertical das longarinas está dentro dos limites aceitáveis. A limitação desse deslocamento é a percepção das pessoas, chamada pela NBR 6118 13Solicitações nas pontes de aceitabilidade sensorial. No caso das longarinas, é calculada pelo vão dividido por 250. A NBR 8681 indica que a combinaçãofrequente ocorre na ordem de 105 vezes durante 50 anos, que é o período de vida útil. Essa combinação é utilizada para a verificação do tamanho de fissuras em estruturas de concreto, das vibrações excessivas, entre outros. Essa combinação é dada pela equação 10. Pode-se observar que ocorre a distinção entre uma ação variável principal e as demais, secundárias. (10) A NBR 8800 explica de forma mais detalhada que a combinação rara ocorre durante no máximo algumas horas e causa danos irreversíveis à estru- tura, como a formação de fissuras. Essa combinação é dada pela equação 11. Novamente, uma carga é tomada como principal e as demais como secundárias. (11) 1. Os estados limites de serviço (ELS) verificam critérios de desempenho da estrutura, sendo que cada um verifica determinados parâmetros. Para a verificação do deslocamento vertical máximo nas longarinas, sob o ponto de vista estético, isto é, da aceitabilidade visual, qual é a combinação utilizada? a) Normal. b) Frequente. c) Quase permanente. d) Excepcional. e) Rara. 2. Os pilares de pontes e viadutos são elementos que têm como função estrutural transferir as cargas do tabuleiro para as fundações, portanto estão sujeitos a carregamentos importantes. O que se verifica é que esses elementos estão expostos a possibilidades de colisão de embarcações ou de veículos que trafeguem sob um viaduto. Assinale a alternativa que representa uma maneira de proteger os pilares desse tipo de colisão. a) Guarda-corpo. b) Dispositivos de contenção. c) Guarda-rodas. d) Considerar cargas de colisão sobre pilares. e) Vigas de apoio. Solicitações nas pontes14 3. As cargas móveis sobre uma ponte são o principal motivo de sua construção. O tráfego de veículos provoca ações que são classificadas como variáveis e excepcionais (colisões). As ações variáveis verticais, que podem variar sua posição, são analisadas por meio de linhas de influência, para a determinação das solicitações sobre os elementos da superestrutura. As cargas analisadas, conforme a descrição, são: a) frenagem e aceleração, nunca inferior a 135 kN. b) forças centrífugas calculadas conforme o raio da curva. c) pedestres (3 kN/m2) e multidão (5 kN/m2). d) multidão (5 kN/m2) e veículo-tipo (450 kN). e) peso da pavimentação (24 kN/ m3) e da laje (25 kN/m3). 4. As ações excepcionais têm baixa probabilidade de ocorrência. No caso de pontes, decorrem, principalmente, de colisões. Dentre as cargas apresentadas a seguir, qual delas é considerada uma carga decorrente de ação excepcional? a) Força concentrada de 1.000 kN sobre pilar, no sentido do tráfego sob a ponte. b) Força distribuída de multidão de 5 kN/m2 sobre o tabuleiro. c) Força do vento transversal ao tráfego, calculada conforme a NBR 6123. d) Força distribuída vertical de 2 kN/ m2, devido ao recapeamento. e) Força centrífuga transversal e perpendicular ao tráfego em curvas. 5. Nos estados limites últimos (ELU), é possível verificar situações críticas de carregamento sobre a estrutura da ponte que podem levar à ruína. Em cada ELU é feita a combinação das ações, buscando sempre a condição mais desfavorável para o projeto. Assinale a alternativa que apresenta todos os tipos de ELU. a) Normal e de construção. b) Quase permanente, frequente e raro. c) Quase permanente e frequente. d) Normal e quase permanente. e) Normal, de construção e excepcional. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6118: projeto de estruturas de concreto: procedimento. Rio de Janeiro, 2014. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6123: forças devidas ao vento em edificações. Rio de Janeiro, 2013a. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 7187: projeto de pontes de concreto armado e de concreto protendido:- procedimento. Rio de Janeiro, 2003. 15Solicitações nas pontes ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 7188: cargas móveis em pontes rodoviárias. Rio de Janeiro, 2013b. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 8681: ações e segurança nas estruturas: procedimento. Rio de Janeiro, 2004. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 8687: guia para elaboração de especificações e desempenho para núcleos usados em telecomunicação: pro- cedimentos. Rio de Janeiro, 1984. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 8800: projeto de estruturas de aço e de estruturas mistas de aço e concreto de edifícios. Rio de Janeiro, 2008. MARCHETTI, O. Pontes de concreto armado. 1. ed. São Paulo: Blucher, 2008. MARTHA, L. F. Análise de estruturas: conceitos e métodos básicos. 2. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. PFEIL, W. Pontes em concreto armado: elementos de projetos, solicitações, dimensio- namento. 1. ed. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1979. Leituras recomendadas AMERICAN ASSOCIATION OF STATE HIGHWAY AND TRANSPORT OFFICIALS. AASHTO LRFD bridge: design specifications. Washington, AASHTO: 2012. 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