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AULA 4 – BRANQUITUDE E VIOLÊNCIA POLICIAL:
REFLEXÕES SOBRE RACISMO ESTRUTURAL NO BRASIL
A discussão sobre branquitude e violência policial oferece uma lente poderosa para analisar as profundas
desigualdades raciais presentes na sociedade brasileira. A primeira, enquanto privilégio e perspectiva conferidos
aos indivíduos brancos, está intrinsecamente ligada às dinâmicas de violência policial, que afetam, de forma
desproporcional, a população negra. Explorar essa conexão é essencial para compreender o racismo estrutural
enraizado nas instituições do Brasil e para buscar soluções que promovam justiça e igualdade.
Os estudos críticos de branquitude
Branquitude é um conceito criado na década de 1990 e que ganhou aderência nos Estados Unidos da América
com o nome de critical whiteness studies, cuja tradução literal para o português é “estudos críticos da
branquitude”. No Brasil, esses estudos só ganharam aderência no início do século XXI, a partir da tese de
doutorado em Psicologia Social de Maria Aparecida Bento, intitulada “Pactos narcísicos no racismo: branquitude
e poder nas organizações empresariais e no poder público", de 2002.
A socióloga britânica Ruth Frankenberg (1957 – 2007) propõe que a branquitude deve ser compreendida como
uma localização social estruturada na dominação. Para ela, é um lugar de vantagem estrutural nas sociedades
estruturadas na dominação racial. Compreender a branquitude como uma localização social implica pensá-la
como um “ponto de vista”, um lugar a partir do qual os brancos se veem, veem os outros e as ordens nacionais e
globais, e, a partir daí, emulam a si mesmos como uma espécie de norma e/ou padrão de humanidade a ser
alcançado.
A branquitude se insere em um conjunto de práticas, costumes, identidades culturais, normas e preceitos não
nomeados ou nomeados com categorias globais, como nacionalismo, por exemplo. O primeiro estudo que
investiga o branco como categoria identitária analítica é do sociólogo, historiador, �lósofo e ativista político
W.E.B. Du Bois (1868 – 1963), em seu livro “Black Reconstruction in the United States”, cuja tradução literal para o
português é “Reconstrução Negra nos Estados Unidos”, publicado em 1935, em que se debruçou sobre a classe
trabalhadora branca norte-americana em perspectiva comparada com o trabalhador negro. A tese central do
estudo é de que, apesar de compartilhar das mesmas condições degradantes de trabalho, havia, por parte dos
A branquitude é moldada por um legado histórico de colonização,
escravidão e racismo, que persiste até os dias de hoje. Durante a
colonização, a superioridade branca foi estabelecida como justi�cativa para
a exploração de povos indígenas e africanos. Essa ideologia permeou as
instituições e moldou as estruturas sociais, resultando em uma hierarquia
racial arraigada. A branquitude manifesta-se de diversas maneiras, desde o
acesso privilegiado à educação, a emprego e a oportunidades, até a
invisibilidade dos privilégios raciais.
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trabalhadores brancos, uma aceitação do racismo como uma estratégia de se aproximar dos benefícios
produzidos por ele, aquilo que que Du Bois nomeou de salário público e psicológico, que resultavam em acessos
a bens materiais e simbólicos que os negros não tinham.
O psiquiatra e �lósofo da Martinica, Frantz Fanon (1925 – 1961), também olhou para o branco (colonizador) como
objeto de estudo ao a�rmar em “Peles Negras, Máscaras Brancas”, de 2008, publicado originalmente em 1952,
que o mesmo racismo que é constituinte da identidade negra é, de maneira assimétrica, também constituidor de
uma identidade branca através de um sentimento de superioridade em relação a todos aqueles não brancos.
No Brasil, o primeiro intelectual a olhar para os estudos sobre raça e trabalhar em perspectiva relacional, portanto
colocando também os brancos no centro da problemática, foi o sociólogo Guerreiro Ramos (1915 – 1982), em
seu artigo “Patologia Social do Branco Brasileiro”, publicado em 1957. Nele, Ramos questiona o fato de que os
estudos em relações raciais só são capazes de enxergar o negro como tema, sendo essa, também, uma patologia
social dos brancos. Para o sociólogo, aquilo que era encarado como “problema de negro” carecia de análise e
questionamento sobre o porquê de o branco ser considerado o ideal, a norma ou o “valor por excelência”.
No pioneiro texto, Guerreiro Ramos argumenta que a minoria dominante branca, para garantir a espoliação,
recorria não somente à violência, como também se utilizava de um sistema de pseudo justi�cações e
estereótipos (RAMOS, 1957), fazendo com que os brasileiros rejeitassem sua negritude e desejassem a
branquidade, o que não signi�ca que eles desejavam apenas ser brancos, mas o que isso acarretava em relação a
um status social decorrente do embranquecimento. O argumento extraído do autor é que, ao “embranquecer”,
deseja-se pertencer a uma estrutura de privilégios ampliada que exclui e nega os não brancos.
Para BENTO (2002), o que ocorre na branquitude brasileira seria o conceito “pacto narcísico”, isto é, os brancos
procurariam unir-se para defender seus privilégios raciais. A autora sustenta a tese de que, através da
branquitude, sujeitos acumulam vantagens e reproduzem desigualdades raciais. Em outras palavras, para
compreender melhor as desigualdades raciais em nossa sociedade, seria importante entender o pacto entre os
brancos, ou seja, seria necessário re�etir sobre os preconceitos e práticas racistas que ocorrem “por interesse”,
porque tanto a prática racista oriunda da ignorância (que leva ao preconceito), quanto por interesse, resultam na
manutenção dos privilégios da branquitude.
É importante marcar, aqui, a diferenciação entre BENTO (2002) e PIZA (2002): se, na segunda, a identidade branca
é marcada pela invisibilidade, para Bento há uma intenção de manutenção do interesse dos brancos em
preservarem seus privilégios raciais, logo ele se entende enquanto grupo e obtém vantagens na hierarquia social
a partir desse entendimento. Essas duas trilhas são exploradas e caminhadas por outros atores que,
Após um hiato de quase 50 anos, dentre outros autores que
passaram a debruçar-se sobre o tema da branquitude,
destacam-se PIZA (2000); BENTO (2002) – a primeira tese
de doutorado defendida no Brasil com o tema da
branquitude assumindo centralidade -; SOVIK (2004);
OLIVEIRA (2007); SCHUCMAN (2012) e CARDOSO (2014). A
autora Edith Piza desenvolve a ideia de que o branco não se
enxergava como um ser racializado. Isso signi�ca que a
branquitude seria uma identidade racial não marcada, isto
é, o branco não “enxergaria” sua identidade racial, por isso
ela seria “invisível”. Aliás, para a autora, quando o branco
defronta-se com sua própria branquitude, causa-lhe um
grande impacto, semelhante a uma pessoa desavisada que
se choca com uma porta de vidro (CARDOSO, 2011).
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prioritariamente, analisam a branquitude na perspectiva identitária e buscam compreender como, internamente,
criam-se subdivisões e novas hierarquizações entre os próprios brancos. Nesse sentido, vale destacar a tese de
doutorado de SCHUCMAN (2012), a segunda defendida no Brasil sobre o tema, que trouxe como título “Entre o
encardido, o branco e o branquíssimo: branquitude, hierarquia e poder na cidade de São Paulo”. Os estudos
críticos de branquitude vêm crescendo em produção e assumindo centralidade nas discussões sobre relações
raciais no Brasil e no mundo, sobretudo a partir do esforço de intelectuais e ativistas negras e negros em
responsabilizar e implicar os brancos no olhar estrutural do racismo.
A ideologia do embranquecimento no Brasil
A ideologia do embranquecimento no Brasil é um fenômeno histórico que se desenvolveu como resultado da
interseção entre racismo, colonialismo e a busca por uma identidade nacional moldada por padrões europeus.
Essa ideologia sustentava que a mistura de raças no Brasil, particularmente com europeus,levaria à "melhoria" da
população e à sua aproximação dos ideais de brancura e civilização.
Um exemplo marcante dessa ideologia pode ser encontrado na obra "A Redenção de Cam", pintada por Modesto
Brocos em 1895. A pintura retrata um homem negro, Cam, que, na tradição bíblica, foi amaldiçoado por seu pai
Noé. No entanto, na interpretação de Brocos, Cam é apresentado como um homem negro submisso e agradecido,
sendo "redimido" por um homem branco, possivelmente Noé. A cena é carregada de simbolismo e re�ete a crença
de que a miscigenação com europeus "puri�caria" as raças inferiores, como a negra. O quadro, então, personi�ca
a ideologia do embranquecimento ao retratar a subserviência e a necessidade de redenção do homem negro
diante do homem branco. A pintura não apenas reforça a noção de inferioridade racial, mas também sugere que a
"redenção" do negro está vinculada à sua assimilação e miscigenação com o branco, como se a branquitude
fosse o padrão de superioridade a ser alcançado.
Imagem 1: Óleo sobre tela: A Redenção de Cam, de Modesto Brocos, 1895
Fonte: https://artsandculture.google.com/asset/redemption-of-can-modesto-brocos/_gH_m-s_zK3Wzg?hl=pt-br
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https://artsandculture.google.com/asset/redemption-of-can-modesto-brocos/_gH_m-s_zK3Wzg?hl=pt-br
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Essa ideologia não se limitou à arte, mas permeou muitos aspectos da sociedade brasileira, in�uenciando
políticas de imigração e até mesmo padrões estéticos. A busca pelo clareamento da população, frequentemente
enfatizando a beleza europeia como o ideal, levou à promoção de produtos e práticas para clarear a pele e alisar o
cabelo. Apesar de serem profundamente enraizados, os resquícios dessa ideologia persistem de maneira menos
explícita na contemporaneidade. O sistema educacional, a representação midiática e os conceitos de beleza
continuam re�etindo padrões eurocêntricos, contribuindo para a perpetuação de estereótipos e desigualdades
raciais. Desmantelar a ideologia do embranquecimento requer uma abordagem abrangente que reconheça sua
in�uência passada e presente. Isso envolve a promoção da educação antirracista, a valorização da diversidade
cultural e racial, a garantia de igualdade de oportunidades e a conscientização sobre os impactos das ações e
representações cotidianas.
Em última análise, a compreensão crítica da ideologia do embranquecimento, como representada pelo quadro "A
Redenção de Cam", é essencial para a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva. Ao reconhecer e
confrontar as crenças e práticas que perpetuam desigualdades raciais, o Brasil pode se mover em direção a uma
realidade onde a valorização das diferenças e a equidade de oportunidades sejam fundamentais.
Na busca por uma sociedade mais justa e igualitária, é imperativo enfrentar os desa�os contemporâneos que
surgem da persistência da ideologia do embranquecimento no Brasil. A despeito dos avanços sociais e das
mudanças legais, as raízes históricas desse fenômeno ainda in�uenciam a maneira como as relações raciais são
construídas e vivenciadas no país. Para efetivamente desconstruir essa ideologia, é crucial analisar tanto os
aspectos institucionais quanto culturais que a sustentam.
Raízes históricas e perpetuação institucional
As raízes da ideologia do embranquecimento remontam ao período colonial, quando a mistura racial foi
concebida como um meio de "melhorar" as raças consideradas inferiores. Essa mentalidade continuou a moldar
as políticas de imigração no século XIX, com a vinda de europeus sendo incentivada como forma de "clarear" a
população brasileira. O mito da "democracia racial", surgido no século XX, também contribuiu para a manutenção
da ideologia do embranquecimento, pois sugeriu que a miscigenação no Brasil havia eliminado o racismo.
A ideologia do embranquecimento também se manifesta nas esferas culturais e midiáticas. O padrão estético
eurocêntrico é frequentemente promovido como ideal de beleza, marginalizando e desvalorizando os traços
físicos de origem africana. A mídia desempenha um papel signi�cativo na reprodução desses padrões, dando
mais força à ideia de que a branquitude é mais atraente e digna de respeito. A falta de representação diversi�cada
na televisão, no cinema e na publicidade perpetua uma imagem limitada da sociedade brasileira.
Para desmantelar a ideologia do embranquecimento, é crucial uma abordagem abrangente que inclua medidas
educacionais, políticas públicas e mudanças culturais. A educação antirracista é fundamental para desconstruir
estereótipos e promover uma compreensão crítica da história do Brasil. Isso inclui a revisão de currículos
As instituições também desempenham um papel fundamental na
perpetuação dessa ideologia. A discriminação racial enraizada no sistema
de justiça criminal, a falta de representatividade política da população
negra e as disparidades no acesso à educação e saúde são re�exos de uma
estrutura institucional que reforça desigualdades raciais. A ideia de que a
branquitude é superior persiste nas relações sociais e pro�ssionais,
di�cultando a mobilidade e o sucesso da população negra.
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escolares para incluir uma narrativa mais diversi�cada e precisa sobre a contribuição dos negros à sociedade
brasileira.
Políticas públicas voltadas para a equidade racial também são vitais. A implementação de medidas de ação
a�rmativa em instituições de ensino e no mercado de trabalho é um passo importante para corrigir as
disparidades históricas. A promoção de serviços de saúde e educação de qualidade em áreas marginalizadas
também são cruciais para garantirem que todos os brasileiros tenham acesso igualitário a oportunidades.
A desconstrução da ideologia do embranquecimento também requer uma mudança cultural profunda. Isso
envolve a promoção da representatividade e diversidade em todos os setores da sociedade, incluindo mídia,
política e cultura popular. A celebração das diversas raízes culturais do Brasil e o reconhecimento do valor de
todas as identidades raciais são passos essenciais para superar os padrões eurocêntricos.
O quadro "A Redenção de Cam", de Modesto Brocos, visto anteriormente, é uma obra que encapsula a ideologia
do embranquecimento. Através da representação visual, o quadro reforça a noção de superioridade branca e a
necessidade de "redenção" do negro pela assimilação com o branco. O diálogo entre essa obra e a discussão
sobre a ideologia do embranquecimento é fundamental para a conscientização sobre as raízes históricas desse
fenômeno e como ele ainda ressoa na sociedade atual.
As hierarquias de humanidade entre brancos e negros no Brasil são um testemunho das profundas feridas
deixadas pela história de escravidão e discriminação. Embora avanços tenham sido feitos, a batalha contra o
racismo continua. Enfrentar as hierarquias de humanidade exige uma autoavaliação sincera, como sociedade, e
a disposição de adotar medidas concretas para construir um Brasil verdadeiramente inclusivo e igualitário para
todas as raças. Somente por meio do reconhecimento de nossa história e do compromisso com a mudança
poderemos transformar a realidade e construir um futuro mais justo para todos os brasileiros.
A ideologia do embranquecimento é uma herança histórica que moldou
profundamente a sociedade brasileira. No entanto, o Brasil também possui
uma história rica de resistência e luta por igualdade. A desconstrução dessa
ideologia exige ações coletivas, políticas progressistas e mudanças
culturais profundas. Ao reconhecer os desa�os e as raízes dessa ideologia e
ao trabalhar ativamente para superá-las, o Brasil pode avançar em direção a
uma sociedade mais justa, inclusiva e igualitária, na qual todas as
identidades raciais sejam valorizadas e respeitadas.
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