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TEMA 04 – INCIDENTES DE IMPEDIMENTO E SUSPEIÇÃO Aula 01 – Incidentes de impedimento e suspeição A arguição de impedimento e suspeição é a última hipótese de resposta do réu/demandado em uma ação judicial. Como observado anteriormente, são modalidades de resposta do réu a contestação, a reconvenção e a arguição de impedimento ou suspeição. A contestação possui natureza defensiva, sendo que ela é utilizada estritamente para que o réu/demandado ofereça resistência à pretensão do autor/demandante. Todavia, a reconvenção possui natureza de ação, uma vez que, a partir dela, é possível trazer novos fatos e fundamentos à lide e, inclusive, formular pretensões em desfavor do autor originário da demanda, ora denominado réu reconvindo. Por outro lado, a arguição de impedimento ou suspeição tem natureza incidental. Isso significa que ela é um mero incidente processual que pode ser sanado. Para melhor compreender essa relação, observe-se o quadro a seguir: Aspectos gerais sobre as modalidades de resposta do réu: É importante destacar, neste sentido, que o objetivo da arguição de impedimento e suspeição é assegurar um julgamento imparcial da lide, motivo pelo qual trata-se de um instituto que não cabe somente ao réu, mas a ambas as partes envolvidas no litígio judicial. Isso porque a arguição de impedimento e suspeição é dirigida a pessoa do magistrado que está encarregado de processar e julgar a demanda judicial, sob os fatos e fundamentos admitidos em juízo como situações que prejudicam sua imparcialidade. Assim, a suspeição e o impedimento do magistrado estão relacionados no Código de Processo Civil de 2015, no artigo 144 e seguintes: Art. 144. Há impedimento do juiz, sendo-lhe vedado exercer suas funções no processo: I - em que interveio como mandatário da parte, oficiou como perito, funcionou como membro do Ministério Público ou prestou depoimento como testemunha; II - de que conheceu em outro grau de jurisdição, tendo proferido decisão; III - quando nele estiver postulando, como defensor público, advogado ou membro do Ministério Público, seu cônjuge ou companheiro, ou qualquer parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, inclusive; IV - quando for parte no processo ele próprio, seu cônjuge ou companheiro, ou parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, inclusive; V - quando for sócio ou membro de direção ou de administração de pessoa jurídica parte no processo; VI - quando for herdeiro presuntivo, donatário ou empregador de qualquer das partes; VII - em que figure como parte instituição de ensino com a qual tenha relação de emprego ou decorrente de contrato de prestação de serviços; VIII - em que figure como parte cliente do escritório de advocacia de seu cônjuge, companheiro ou parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, inclusive, mesmo que patrocinado por advogado de outro escritório; IX - quando promover ação contra a parte ou seu advogado. § 1º Na hipótese do inciso III, o impedimento só se verifica quando o defensor público, o advogado ou o membro do Ministério Público já integrava o processo antes do início da atividade judicante do juiz. § 2º É vedada a criação de fato superveniente a fim de caracterizar impedimento do juiz. § 3º O impedimento previsto no inciso III também se verifica no caso de mandato conferido a membro de escritório de advocacia que tenha em seus quadros advogado que individualmente ostente a condição nele prevista, mesmo que não intervenha diretamente no processo. Art. 145. Há suspeição do juiz: I - amigo íntimo ou inimigo de qualquer das partes ou de seus advogados; II - que receber presentes de pessoas que tiverem interesse na causa antes ou depois de iniciado o processo, que aconselhar alguma das partes acerca do objeto da causa ou que subministrar meios para atender às despesas do litígio; III - quando qualquer das partes for sua credora ou devedora, de seu cônjuge ou companheiro ou de parentes destes, em linha reta até o terceiro grau, inclusive; IV - interessado no julgamento do processo em favor de qualquer das partes. § 1º Poderá o juiz declarar-se suspeito por motivo de foro íntimo, sem necessidade de declarar suas razões. § 2º Será ilegítima a alegação de suspeição quando: I - houver sido provocada por quem a alega; II - a parte que a alega houver praticado ato que signifique manifesta aceitação do arguido. (BRASIL, 2015, s.p.). Nesse momento do estudo, a breve citação sobre tais dispositivos legais é suficiente, pois suas especificidades serão abordadas no próximo tópico. Basta compreender que os incidentes de suspeição e impedimento se referem à pessoa do magistrado que, por algum motivo de ordem pessoal, possa expressar um julgamento parcial. Nesse sentido, para que se evite a parcialidade do juiz, tanto a parte demandada quanto a parte demandante podem ingressar com a arguição de impedimento ou suspeição. Nessa senda, torna-se importante mencionar o significado da imparcialidade do julgamento do magistrado. A imparcialidade do juízo é um princípio do direito processual, tanto civil quanto penal. Tal princípio advém do artigo 5º da Constituição Federal de 1988, que dispõe que todos os cidadãos brasileiros são iguais perante a lei. Trata-se do mandamento constitucional da igualdade formal, que diz respeito à obrigatoriedade de o Estado tratar de forma igualitária todos os indivíduos, de acordo com a lei. Significa, em última análise, a proibição de o Estado agir de forma discriminatória ou de prover privilégios a determinadas pessoas, em virtude de seus status sociais. Assim o princípio da imparcialidade é uma forma de garantir que o magistrado irá proferir julgamentos com base estritamente na lei e no processo, e não guiado por motivações de ordem pessoal em razão de sua relação íntima com as partes envolvidas no litígio jurisdicional. Desta forma, segundo a doutrina: O magistrado imparcial é aquele que busca nas provas a verdade dos fatos, com objetividade e fundamento, mantendo ao longo de todo o processo uma distância equivalente das partes. [...]. A imparcialidade do juiz é pressuposto de validade do processo, devendo o juiz colocar-se entre as partes e acima delas, sendo esta a primeira condição para que possa o magistrado exercer sua função jurisdicional. (NOVO, 2019, s.p.). Desta forma, a imparcialidade do magistrado é demonstrada a partir da inexistência de vínculos subjetivos e objetivos com as partes envolvidas no litígio judicial. São vínculos objetivos os que podem ser comprovados objetivamente, diante da apresentação da materialidade de documentos. Por outro lado, os vínculos subjetivos são mais sutis, comprovados a partir da colheita de provas relacionadas às relações interpessoais do magistrado. Um exemplo de vínculo objetivo é a parentesco, enquanto que um exemplo de vínculo subjetivo é a amizade ou inimizade. Nesse sentido, é importante ressaltar que o objetivo da arguição de impedimento e suspeição é um incidente processual que objetiva afastar a pessoa do magistrado do julgamento da demanda, a partir da denúncia de seu vínculo objetivo ou subjetivo com as partes envolvidas no litígio. É, portanto, uma forma de assegurar o princípio da imparcialidade do juiz o que, consequentemente, garante um julgamento justo, no sentido de preservar o direito das partes com a base estrita dos fatos apresentados no processo e na lei. Tanto o impedimento quanto a suspeição são objeções processuais, e isso significa que podem (e devem) ser reconhecidos de ofício pelo magistrado, sem necessidade da provocação das partes. Contudo, caso o magistral não declare o impedimento ou a suspeição de ofício, é possível que as partes recorram ao instrumentojurídico da arguição de suspeição ou impedimento para sanar o vício processual. Assim sendo, uma diferenciação importante de ser realizada é entre impedimento e suspeição. Em linhas gerais, pode-se definir que ambas são objeções, porém, que os impedimentos são objeções objetivas, enquanto que a suspeição são objeções subjetivas. Portanto, o impedimento do magistrado se refere a manutenção, por exemplo, de vínculo familiar com uma das partes envolvidas no litígio, enquanto que a suspeição se refere, exemplificativamente, aos vínculos de amizade ou inimizade com as partes. Todavia, essa diferenciação não é meramente formalística. O impedimento e a suspeição possuem efeitos jurídicos distinto, pois, O impedimento pode ser alegado a qualquer tempo e em qualquer grau de jurisdição, não sofrendo, portanto, os efeitos da preclusão. A suspeição pode ser alegada em até 15 dias após a ciência da situação suspeita, sob pena de preclusão. Observe-se a figura a seguir sobre as diferenças e semelhanças entre suspeição e impedimento: Figura 11: Impedimento versus suspeição Fonte: SERAVALI, Dayanne. Impedimento X Suspeição. Disponível em: https://www.passeidireto.com/arquivo/101170502/impedimento-x-suspeicao Acesso em 28 nov. 2022. A partir da figura relacionada, percebe-se que as hipóteses de impedimento se referem a situações mais gravosas, que vinculam de forma mais contundente a pessoa do magistrado às partes do processo, o que, consequentemente, tem reflexos na sua decisão. É por este motivo que o impedimento pode ser arguido a qualquer tempo e em qualquer grau de jurisdição. Da mesma forma, se houver sentença transitada em julgado e, apenas posteriormente, a parte se der conta da situação de impedimento do magistrado, é possível ingresso com ação rescisória, a fim de revisar a decisão anteriormente proferida. Assim, outro ponto importante do impedimento é que ele pode ser objeto de ação rescisória na iminência de sentença com transito em julgado proferida pelo magistrado impedido. A ação rescisória serve para atacar uma decisão judicial que já tenha alcançado o trânsito em julgado e, portanto, da qual não cabe recurso. Ela é determinada pelo artigo 966 do CPC/2015, que dispõe: Art. 966. A decisão de mérito, transitada em julgado, pode ser rescindida quando: I - se verificar que foi proferida por força de prevaricação, concussão ou corrupção do juiz; II - for proferida por juiz impedido ou por juízo absolutamente incompetente; III - resultar de dolo ou coação da parte vencedora em detrimento da parte vencida ou, ainda, de simulação ou colusão entre as partes, a fim de fraudar a lei; IV - ofender a coisa julgada; V - violar manifestamente norma jurídica; VI - for fundada em prova cuja falsidade tenha sido apurada em processo criminal ou venha a ser demonstrada na própria ação rescisória; VII - obtiver o autor, posteriormente ao trânsito em julgado, prova nova cuja existência ignorava ou de que não pôde fazer uso, capaz, por si só, de lhe assegurar pronunciamento favorável; VIII - for fundada em erro de fato verificável do exame dos autos. (BRASIL, 2015, s.p. Grifo nosso). Apesar de a ação rescisória poder ser proposta sob o fundamento do impedimento do magistrado, o mesmo não é válido quando se tratar de suspeição. A suspeição não pode ser alegada a qualquer tempo e, em caso de ciência da parte sobre a situação suspeição, haverá o prazo de 15 dias para protocolo da arguição de suspeição do magistrado. É importante mencionar que o prazo é de 15 dias a contar da ciência da situação suspeita, e não se trata, portanto, do mesmo prazo da contestação, como muitas doutrinas mencionam. É possível que o prazo de contestação coincida com o prazo para a arguição de suspeição, mas não se trata do mesmo prazo. É interessante relacionar, nesse sentido, o artigo 146 do CPC/2015: Art. 146. No prazo de 15 (quinze) dias, a contar do conhecimento do fato, a parte alegará o impedimento ou a suspeição, em petição específica dirigida ao juiz do processo, na qual indicará o fundamento da recusa, podendo instruí-la com documentos em que se fundar a alegação e com rol de testemunhas. (BRASIL, 2015, s.p.). Se não proposta neste período de tempo, a suspeição estará preclusa e não poderá mais ser arguida em instância judicial. Contudo, se a ciência da suspeição for descoberta apenas após o transito em julgado da sentença, não haverá mais nada a ser feito. A suspeição pode ser alegada em sede de apelação, porém, para apelação é preciso que a sentença não tenha transitado em julgado. Após o transito em julgado, não se pode ingressar com ação rescisória com base na suspeição, pois não é uma hipótese que admite essa ação. Isso nos termos do artigo 966 do CPC/2015, que se trata de um rol taxativo, e não meramente exemplificativo. Estes são, portanto, os aspectos gerais do impedimento e da suspeição. Na próxima aula serão abordadas as especificidades de cada hipótese que gera impedimento ou suspeição do magistrado. Aula 02 – Incidentes de impedimento e suspeição No tópico anterior abordaram-se questões referentes aos aspectos gerais do incidente de impedimento e suspeição. Observou-se que a arguição de impedimento e suspeição é uma modalidade de resposta do réu, de caráter incidental, que objetiva resguardar o princípio da imparcialidade do magistrado e, assim, resguardar também o mandamento constitucional de igualdade formal entre os cidadãos brasileiros. Tanto o impedimento quanto a suspeição são incidentes processuais que devem ser reconhecidos de ofício pelo julgador, porém, possuem efeitos jurídicos distintos. Enquanto que o impedimento pode ser alegado a qualquer tempo ou em qualquer grau de jurisdição, a suspeição só pode ser alegada no prazo de 15 dias a contar a ciência da parte sobre a situação suspeita do magistrado. Se houver decisão judicial com trânsito em julgado, é possível ingressar com ação rescisória com base na verificação de impedimento do magistrado. Por outro lado, o mesmo não é válido na suspeição, que só pode ser alegada em sede recursal, se verificada após ser proferida a sentença, sem que antes tenha se esgotado do prazo recursal. Entretanto, para que o profissional da área jurídica possua os aportes teóricos necessários para a prática na advocacia contenciosa, não basta apenas ter noção das premissas básicas teóricas. É muito importante que se verifique especificadamente cada hipótese geradora de impedimento ou suspeição. Este será o objetivo deste e dos próximos tópicos de estudo. Iniciando pelas hipóteses de impedimento, é importante mencionar que elas estão dispostas no artigo 144 do CPC/2015, que dispõe: Art. 144. Há impedimento do juiz, sendo-lhe vedado exercer suas funções no processo: I - em que interveio como mandatário da parte, oficiou como perito, funcionou como membro do Ministério Público ou prestou depoimento como testemunha; II - de que conheceu em outro grau de jurisdição, tendo proferido decisão; III - quando nele estiver postulando, como defensor público, advogado ou membro do Ministério Público, seu cônjuge ou companheiro, ou qualquer parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, inclusive; IV - quando for parte no processo ele próprio, seu cônjuge ou companheiro, ou parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, inclusive; V - quando for sócio ou membro de direção ou de administração de pessoa jurídica parte no processo; VI - quando for herdeiro presuntivo, donatário ou empregador de qualquer das partes; VII - em que figure como parte instituição de ensino com a qual tenha relação de emprego ou decorrente de contrato de prestação de serviços; VIII - em que figure como parte cliente do escritório de advocaciade seu cônjuge, companheiro ou parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, inclusive, mesmo que patrocinado por advogado de outro escritório; IX - quando promover ação contra a parte ou seu advogado. § 1º Na hipótese do inciso III, o impedimento só se verifica quando o defensor público, o advogado ou o membro do Ministério Público já integrava o processo antes do início da atividade judicante do juiz. § 2º É vedada a criação de fato superveniente a fim de caracterizar impedimento do juiz. § 3º O impedimento previsto no inciso III também se verifica no caso de mandato conferido a membro de escritório de advocacia que tenha em seus quadros advogado que individualmente ostente a condição nele prevista, mesmo que não intervenha diretamente no processo. (BRASIL, 2015, s.p.). Analisando cada hipótese específica, tem-se o primeiro inciso do artigo 144 do CPC/2015, que dispõe sobre o magistrado que interviu efetivamente no processo, seja como mandatário da parte (procurador jurídico), perito, membro do ministério público ou testemunha. Evidentemente que, neste caso, há uma relação objetivamente verificável entre o magistrado e não apenas as partes litigantes, mas o objeto do litígio em si. É importante denotar que a figura do juiz inquisidor, que era, simultaneamente, defensor, acusador e julgador, inexiste tanto no processo civil quanto no processo penal brasileiro. Para que se resguarde a imparcialidade do magistrado, é fundamental que a as funções do julgador, do defensor, do acusador, da testemunha e do perito estejam desconcentradas em pessoas diferentes. Portanto, se o magistrado julgador da demanda atuou como procurador da parte, membro do ministério público, testemunha ou perito do litígio, estará impedido a proferir o seu julgamento. Se mesmo assim o fizer, estará violando a imparcialidade do juízo, e caberá tanto recurso, quanto ação rescisória no caso de haver sentença com o trânsito em julgado. Prosseguindo com a segunda hipótese de impedimento do artigo 144 do CPC/2015, tem-se a situação em que o magistrado se encontra impedido de analisar uma demanda que já foi analisada por si em outro grau de jurisdição. Comumente isso pode ocorrer nos tribunais superiores. Tendo em vista a morosidade dos processos judicias, é possível que um magistrado do primeiro grau altere suas atribuições e passe a integrar um tribunal superior. Se, por ventura, o novo desembargador se deparar com um recurso sobre um processo que ele foi responsável por apreciar no primeiro grau de jurisdição, estará o magistrado impedido de analisar o documento recursal. Mais uma vez se resguarda, além da imparcialidade do magistrado, o princípio do duplo grau de jurisdição. O princípio do duplo grau de jurisdição garante a todo cidadão brasileiro a possibilidade de revisão da decisão proferida por um grau de jurisdição superior. Essa revisão é realizada por intermédio de recurso direcionado à instância superior competente, desde que dentro do prazo recursal. A ideia da garantia do duplo grau de jurisdição é promover um olhar diferenciado sobre o processo, o que implica a análise da demanda por outro julgador, que não aquele que proferiu a sentença. Não obstante, ao juízo que proferiu a sentença é possível um juízo de retratação em diversos recursos. Portanto, seria incoerente não apenas ao princípio da imparcialidade, mas ao próprio princípio do duplo grau de jurisdição e ao procedimento do juízo de retratação a possibilidade de análise em segunda instância pelo mesmo magistrado julgador que proferiu a sentença em primeira instância. Na sequência, o inciso III do artigo 144 do CPC/2015 traduz uma terceira hipótese de impedimento, que seria a questão da parentesco. O texto do referido inciso dispõe que estará impedido o magistrado III - quando nele estiver postulando, como defensor público, advogado ou membro do Ministério Público, seu cônjuge ou companheiro, ou qualquer parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, inclusive. (BRASIL, 2015, s.p.). Tal disposição retrata a situação em que o cônjuge ou parente, em linha reta ou colateral até terceiro grau, atuam com interesse na demanda. Isso inclui a atuação desses indivíduos como procuradores (advogado), membros do ministério público ou da defensoria. Lembre-se que a parentesco em linha reta é definida pelo grau de ascendência e descendência. São parentes em linha reta os bisavós, avós, pais, filhos, netos e bisnetos. Por outro lado, a linha colateral envolve os irmãos, primos e tios. A linha reta até o terceiro grau envolve os avós, pais e filhos. Em linha colateral, envolve os irmãos, tios e sobrinhos. Portanto, esses são os parentes que, se atuando na causa do litígio, impedem a apreciação da demanda pelo magistrado. Para melhor compreender a questão dos graus de parentesco, observe-se a figura a seguir: Figura 12: Graus de parentesco Fonte: TRILHANTE. Impedimento do Juiz. Disponível em: https://trilhante.com.br/curso/juiz- e-auxiliares-da-justica/aula/impedimento-do-juiz-1 Acesso em 29 nov. 2022. A questão da parentesco na apreciação das demandas judiciais é muito delicada, pois envolve os vínculos familiares do julgador. Tento em vista a afetividade e também os interesses pessoais envolvidos entre o julgador e o parente que atua na demanda, é evidente que uma forma de resguardar a imparcialidade do juízo e a igualdade formal é a partir do impedimento do magistrado em atuar nas causas em que seus parentes estiverem atuando. Nessa senda, por outro lado, é interessante mencionar a situação em que o cônjuge ou parente do magistrado atua como julgador em instância superior, de recursos formulado com base em decisão por si proferida. É importante mencionar que o Superior Tribunal de Justiça, em 2016, deliberou, a partir do julgamento do REsp 1.673.3271, que a decisão proferida que não analisou o mérito da causa poderá ser apreciada, em segunda instância, por cônjuge ou parente do magistrado julgador do primeiro grau. O mesmo não ocorre, portanto, com a decisão que aprecia o mérito da demanda. Para assegurar a imparcialidade e o duplo grau de jurisdição, das sentenças de mérito cabe recurso ao tribunal superior e também a desembargador que não possui vínculo afetivo com o magistrado julgador de primeira instância. Dando seguimento as demais hipóteses do artigo 144 do CPC/2015, o inciso IV do dispositivo legal menciona novamente a questão da parentesco, entretanto, desta vez vinculada às partes envolvidas na demanda. Da mesma forma que as hipóteses de impedimento que resguardam a atividade da pessoa do magistrado diante da atuação de seu cônjuge ou parente na demanda, há também uma hipótese semelhante de impedimento relacionada a esses indivíduos atuando como parte da demanda. Ainda, o dispositivo menciona o impedimento do magistrado que é ele mesmo parte do processo. Evidentemente, que o julgador não pode ser também parte da demanda, pois há uma grande incompatibilidade entre os interesses. Deve-se sempre relembrar que o magistrado não está, no exercício e sua função, agindo em interesse próprio, mas sim representando o interesse do Estado em dizer o direito e ponderar a justiça em cada caso in concreto. Enquanto parte no litígio judicial, evidente que o magistrado poderá defender interesses próprios. Teoricamente esta distinção de interesses é possível, mas no efetivo cumprimento dos deveres e levando em consideração a subjetividade humana, que não pode ser reduzida apenas a uma mera representação de um ente jurisdicional abstrato, a linha de separação entre eles é frágil. Portanto, não é apensa coerente, mas extremamente necessário manter essa condição de impedimento aos magistrados,no sentido de que 1 SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. RECURSO ESPECIAL Nº 1.673.327 – SC. (2015/0023129-4). RELATORA: MINISTRA NANCY ANDRIGHI. Disponível em: Acesso em 29 nov. 2022. eles não devem atuar em causas das quais fazem parte, ou das quais seu cônjuge ou parente, em linha reta ou colateral até terceiro grau, fazem parte. Outra hipótese de impedimento a ser estudada nesta aula é a que consta no inciso V do artigo 144 do CPC/2015, que dispõe o seguinte como causa de impedimento do magistrado: “V - quando for sócio ou membro de direção ou de administração de pessoa jurídica parte no processo” (BRASIL, 2015, s.p.). Tal disposição legal impõe que o magistrado que seja associado ou membro de alguma empresa que presta serviços jurídicos não atue como julgador em demandas que tal empresa represente. Mais uma vez, é evidente que se resguarda a imparcialidade do juízo, uma vez que o magistrado terá interesse no objeto do litígio, pois uma empresa da qual aufere lucros está atuando na demanda. Novamente, a fim de distinguir os interesses estatais dos interesses privados, é preciso que haja o delineamento do impedimento do magistrado em atuar nas causas em que ele pode possuir um interesse próprio. Na sequência, a próxima hipótese de impedimento do magistrado consta no inciso VI do artigo 144 do CPC/2015, que dispõe sobre a relação de herdeiro ou donatário que o próprio julgador pode ter com qualquer das partes envolvidas no litígio. Mais uma vez, nessa hipótese o interesse pessoal, mais especificadamente patrimonial, do julgador pode interferir na sentença, o que significa, portanto, uma interferência na vocação estatal de dizer o direito e ponderar pela justiça. Assim, é causa de impedimento do magistrado o fato de ele ser herdeiro presuntivo, donatário ou empregador de qualquer das partes envolvidas no litígio. Observe-se que o herdeiro presuntivo é a pessoa que, por proximidade ou parentesco, tem o direito à sucessão. Porém, é um direito que pode ser ratificado em testamento. Assim, o herdeiro presuntivo é aquele que tem direito à sucessão, porém, ainda não pode exercer tal direito porque a linha sucessória ainda não está aberta. Mais uma causa de impedimento encontra-se elencada no inciso VII do artigo 144 do CPC/2015, e trata sobre a questão de instituição de ensino que mantêm vínculos com o magistrado figurar como parte da demanda. Nesse sentido, é sempre importante mencionar que muitos magistrados também atuam como professores em instituições de ensino. Nestes casos, é impedido ao magistrado que mantenha vínculo empregatício ou de prestação de serviços com instituição de ensino superior, julgar demanda na qual a mesma instituição de ensino figura como parte. Novamente, há uma mescla entre os interesses pessoais e patrimoniais do julgador com o interesse de sua função vinculada ao poder jurisdicional do Estado. Por mais que o magistrado, no exercício de sua função, esteja representando o ente público, ele ainda é uma pessoa humana, com sua subjetividade e que pode incorrer em erros que prejudicam sua função de dizer a justiça. Por esse motivo esses impedimentos são importantes: eles são garantias de que o interesse privado do magistrado não interferirá em seu julgamento e, portanto, são garantias de sua imparcialidade. Restam ainda duas hipóteses de impedimento do juiz, que serão abordadas no próximo tópico do estudo. Aula 03 – Incidentes de impedimento e suspeição A penúltima hipótese de impedimento do magistrado é elencada no inciso VIII do artigo 144 do CPC/2015. Ela se refere a situação em que a parte seja também cliente de escritório do cônjuge ou de parente consanguíneo, em linha reta ou colateral até terceiro grau do julgador. Ainda, mesmo que outro procurador patrocine a causa, ainda assim estará o magistrado impedido, devido ao vínculo pessoal com o procurador da parte e ao interesse patrimonial que possa vir a ter no objeto do litígio. E, por fim, a nona e última hipótese de impedimento do magistrado versa sobre a situação em que o magistrado julgador tenha movido ação contra a parte ou o procurador da parte envolvida no litígio. Neste sentido, não se visa resguardar a imparcialidade apenas por motivos de possível interferência dos interesses patrimoniais do magistrado na causa, mas também por motivos de vingança ou inimizade com as partes envolvidas. Nesse ponto é muito importante uma atenção especial para distinguir que esta hipótese não se confunde com a suspeição, que será objeto de estudo no próximo tópico. As hipóteses de suspeição se fundamentam no vínculo subjetivo do magistrado para com as partes, isto é, aqueles vínculos que não podem ser objetivamente verificados e comprovados. Neste caso, o que se busca evitar são os possíveis prejuízos que o magistrado pode auferir a parte em virtude da inimizade antes contraída devido a um vínculo que pode ser comprovado objetivamente (ação movida pelo magistrado em face da parte ou do seu procurador). Estas são, portanto, as hipóteses de impedimento do magistrado. Deve-se lembrar sempre que o impedimento é matéria de ordem pública que pode ser reconhecido de ofício pelo julgador. Contudo, se o julgador não o fizer, o impedimento pode ser alegado por qualquer das partes, em qualquer grau de jurisdição e a qualquer tempo, inclusive, se já houver sentença transitado em julgado pode-se ingressar com ação rescisória com o fundamento do impedimento. A suspeição difere substancialmente do impedimento, tanto pelas suas hipóteses, quanto pelas suas consequências jurídicas. Lembre-se que os incidentes de impedimento e suspeição são matérias que podem ser arguidas por ambas as partes, porém, neste estudo, o foco recai sobre esses incidentes como matéria de defesa, isto é, como alternativa de resposta do réu. A fim de retomar as hipóteses de impedimento, observe-se o quadro síntese a seguir: Hipóteses de impedimento do magistrado, nos termos do artigo 144 do CPC/2015: Observe-se que todas as hipóteses de impedimento podem ser objetivamente comprovadas a partir de documentos, o que caracteriza a objetividade desse tipo de alegação. A suspeição, por outro lado, é denominada subjetiva justamente porque não é comprovável com tanta objetividade quanto o impedimento. Isso se percebe a partir da leitura atenta do artigo 145 do CPC/2015, que traduz as hipóteses de suspeição no ordenamento jurídico brasileiro: Art. 145. Há suspeição do juiz: I - amigo íntimo ou inimigo de qualquer das partes ou de seus advogados; II - que receber presentes de pessoas que tiverem interesse na causa antes ou depois de iniciado o processo, que aconselhar alguma das partes acerca do objeto da causa ou que subministrar meios para atender às despesas do litígio; III - quando qualquer das partes for sua credora ou devedora, de seu cônjuge ou companheiro ou de parentes destes, em linha reta até o terceiro grau, inclusive; IV - interessado no julgamento do processo em favor de qualquer das partes. § 1º Poderá o juiz declarar-se suspeito por motivo de foro íntimo, sem necessidade de declarar suas razões. § 2º Será ilegítima a alegação de suspeição quando: I - houver sido provocada por quem a alega; II - a parte que a alega houver praticado ato que signifique manifesta aceitação do arguido. (BRASIL, 2015, s.p.). Observe-se que o próprio parágrafo primeiro do artigo dispõe que o magistrado pode se declarar suspeito na demanda em explicar seus motivos, o que já ressalta o caráter subjetivo e pessoal da suspeição. Não obstante, a doutrina dispõe que: Questão relevante, que deve ser analisadacom razoabilidade, por poder gerar uma renúncia da função jurisdicional, é a suspeição por motivo de foro íntimo, sem necessidade de declarar suas razões (art. 145, § 1º, do CPC), devendo ser controlada, a fim de impedir que o juiz a use de forma arbitrária, para não julgar a causa que não lhe convier. O CNJ, recentemente, por meio da Resolução 82/2009, restabeleceu regra contida no art. 119 do CPC/1939, exigindo motivação por parte do magistrado para alegar tal suspeição. Tal resolução tem sido questionada por setores da magistratura, que a consideram inconstitucional. (LOURENÇO, 2021, p. 66). Denota-se que a referida resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) dispõe o seguinte: Art. 1º No caso de suspeição por motivo íntimo, o magistrado de primeiro grau fará essa afirmação nos autos e, em ofício reservado, imediatamente exporá as razões desse ato à Corregedoria local ou a órgão diverso designado pelo seu Tribunal. (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2009, s.p.). Devido ao questionamento acerca da inconstitucionalidade da resolução do CNJ, em 2018 foi publicada uma nova resolução que revogou a disposição de 2009 sobre a necessidade de manifestação das razões do magistrado acerca da suspeição. Tal resolução é a de número 250, de 31 de agosto de 2018. Portanto, atualmente, não é exigido que o magistrado exponha os motivos e razões pelas quais se declara suspeito em proferir determinada apreciação sobre um litígio jurisdicional. Explicadas essas noções iniciais sobre suspeição, é possível prosseguir no estudo, analisando as hipóteses específicas de suspeição do juízo, elencadas no artigo 145 do CPC/2015. A primeira hipótese consta no inciso I do referido dispositivo legal, e diz respeito á relação de amizade ou inimizade que o juiz pode manifestar em relação a uma das partes ou aos seus procuradores. Essa relação é denominada, comumente, de amizade íntima ou inimizade capital. Contudo, a alegação de suspeição com base na amizade íntima ou na inimizade capital deve ser comprovada de forma robusta, porque não se pode confundi-la com o mero conhecimento ou coleguismo entre as partes, procuradores e o magistrado. Não obstante, no cotidiano das profissões jurídicas, é comum que magistrados, procuradores, e até mesmo as partes convivam e mantenham vínculos de coleguismo. Essa relação não configura a hipótese de suspeição com base na amizade íntima. Da mesma forma, um mero aborrecimento entre as partes não gera motivos suficientes para que se alegue suspeição com base na inimizade capital. Para que se caracterize a suspeição, é necessário que a relação de amizade ou inimizade entre o magistrado e os procuradores ou as partes seja tamanha que prejudique manifestamente a sua isenção. Com base nisso, é importante relacionar o julgado pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul de 2015, que dispõe sobre a prova de alegação de suspeição com base em contato em redes sociais: EXCEÇÃO DE SUSPEIÇÃO. AMIZADE ÍNTIMA DO JUIZ E DA PARTE AUTORA NÃO COMPROVADA. CONTATO EM REDE SOCIAL. REJEIÇÃO. 1. No feito em exame nenhuma das hipóteses legais de suspeição se opera em razão de a parte autora ter contato em rede social com o julgador que preside a causa. 2. Amizade íntima não demonstrada. Rejeição da exceção, que resta afastada na medida em que contato em rede social por si só não demonstra a existência da relação interpessoal íntima alegada. (…) Rejeitada a exceção de suspeição. (TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO RIO GRANDE DO SUL, Quinta Câmara Cível, Exceção de Suspeição 0261276-19.2015.8.21.7000, rel. Des. Jorge Luiz Lopes do Canto, s.p.). Pelo julgado, se percebe que o mero contato do magistrado a partir das redes sociais não caracteriza uma hipótese de suspeição com base na amizade íntima. Contudo, isso não obsta que as redes sociais sejam utilizadas como meio de prova, o que, inclusive, pode ocorrer a partir de fotos e publicações constantes compartilhadas. A segunda hipótese de suspeição do magistrado é a que consta no inciso II do artigo 145 do CPC/2015, que trata sobre o recebimento de presentes, aconselhamento das partes ou financiamento para a causa. Evidente que o magistrado não pode se envolver pessoalmente nas causas que é responsável por apreciar, pois isso corrompe sua isenção e imparcialidade. Nesse sentido, aconselhar as partes durante o litígio judicial é inconcebível, pois se trata de uma conduta parcial que fere os princípios do processo civil brasileiro. Da mesma forma, o magistrado não deve se envolver pessoalmente a ponto de financiar a própria causa, como, por exemplo, concedendo empréstimos para o pagamento das custas judiciais às partes. Mais uma vez, se trata de não se envolver pessoalmente com os litigantes a ponto de prejudicar sua isenção no julgamento da demanda. A questão do recebimento de presentes, por outro lado, é mais sutil. A legislação dispõe claramente que os presentes não devem ser recebidos das partes ou de qualquer interessado no objeto do litígio, antes, durante ou depois do processamento da demanda. Significa, portanto, que o magistrado, não pode aceitar presentes das partes ou de qualquer interessado no objeto da causa. Nessa senda, a terceira hipótese de suspeição do magistrado é aquele presente no inciso III do artigo 145 do CPC/2015. Tal hipótese de refere à situação em que a parte é credora ou devedora do magistrado, de seu cônjuge ou parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral. Essa causa de suspeição existe justamente porque pode haver uma natural inclinação do magistrado em mesclar seus interesses privados de credor ou devedor no interesse das partes no processo e, portanto, prejudicando sua imparcialidade. É importante mencionar, nesse sentido, que não se está afirmando que todo o magistrado que possui uma dessas situações de suspeição caracterizada estará agindo de forma imparcial. É plenamente possível que o magistrado distinga de forma coerente os seus interesses próprios do objeto do litígio e das partes litigantes. Contudo, para se resguardar a lisura do processamento, é importante que essas hipóteses de suspeição existam e sejam reconhecidas de ofício ou alegadas pelas partes, pois como se tratam de situações extremamente subjetivas, não há como comprovar que efetivamente a decisão judicial foi parcial ou não. Assim, persistindo a dúvida, o preferível é que o magistrado se afaste da apreciação da demanda, para resguardar não apenas as partes, mas a sua própria função e o papel do Estado jurisdicional. Por fim, a quarta e última hipótese de suspeição do magistrado é elencada no inciso IV do artigo 145 do CPC/2015, e diz respeito a situação de haver interesse do magistrado no favorecimento ou desfavorecimento das partes no julgamento da demanda. Novamente, tem-se o interesse privado do magistrado no objeto do litígio, sejam quais forem os motivos que ainda não foram elencados nas hipóteses antecessoras. Trata-se, portanto, de uma hipótese subsidiária, na qual pode se enquadrar qualquer outro motivo que leve o magistrado a tomar partido de um dos polos litigantes que ainda não foi elencado nas outras hipóteses legais. Ainda, é importante destacar os parágrafos do artigo 145, que traduzem outras questões importantes e tangentes à suspeição do magistrado. A primeira questão elencada no parágrafo primeiro do artigo 145 é que há a reafirmação de que o magistrado que se declarar suspeito não poderá ser obrigado a expor suas razões. Nesse sentido, o Superior Tribunal de Justiça (2022, s.p.) compreende que É ilegal e abusiva a intervenção do conselho de magistratura de um tribunal ao invalidar a manifestação do julgador que se declarou suspeito por motivo de foro íntimo, uma vez que essa declaração é dotada de imunidade constitucional e, por isso, é ressalvada de censura ou de críticada instância superior. Para o ministro Raul Araújo, relator do RMS 33.531, a declaração de suspeição por motivo de foro íntimo se relaciona com os predicamentos da magistratura (artigo 95 da Constituição Federal), que funcionam como asseguradores de um juiz independente e imparcial, o que é inerente ao devido processo legal (artigo 5º, LIV, da CF). Portanto, a não exposição dos motivos da suspeição, quando o magistrado a declara de oficio, é tida como uma condição par assegurar a liberdade e segurança do julgador na sua função de proferir sentenças judiciais, sendo, portanto, um requisito da própria imparcialidade e do devido processo legal. A segunda questão elencada no parágrafo segundo o artigo 145 se refere à ilegitimidade da alegação de suspeição. A lei exige que o magistrado reconheça de ofício a suspeição ou que ela seja alegada por uma das partes. Isso significa que a suspeição não pode ser alegada: a) pela parte que provoca a situação de suspeição; e b) quando a parte faz originar a situação de suspeição alegada. Significa que, por exemplo, é vedada a alegação de suspeição pela parte quanto o motivo da suspeição é ela mesma. Um exemplo seria o réu/demandado de um litígio judicial ingressar com petição de arguição de impedimento e suspeição com base em uma situação de suspeição formada entre ele próprio e o magistrado. Também não cabe alegação de suspeição quando a situação que a origina é arquitetada pela parte. Um exemplo seria a parte insistir em presentar o magistrado, a fim de utilizar-se da situação para alegar em juízo a suspeição do juízo. Nesse caso é evidente que se trata de uma situação orquestrada para fins escusos e, portanto, a legislação veda sua utilização em juízo para fins de incidente de suspeição. A fim de retomar as informações estudadas até esse momento, observe-se a imagem a seguir: Figura 14: Esquematização das hipóteses de suspeição e impedimento: CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Impedido ou suspeito? Disponível em: https://pt- br.facebook.com/cnj.oficial/photos/a.191159914290110/2422788274460585/?type=3&theate r Acesso em 30 nov. 2022. Deve relembrar, contudo, que a suspeição não possui as mesmas consequências jurídicas do impedimento. O impedimento pode ser alegado a qualquer tempo, inclusive qualquer grau de jurisdição e, se for percebido depois de sentença transitada em julgado, é possível ingressar com ação rescisória sob o fundamento do impedimento. Todavia, o mesmo não ocorre com a suspeição, que possui prazo para ser alegada e, se fora deste prazo, sofre os efeitos da preclusão. Esses aspectos finais da suspeição são tema de abordagem do próximo tópico do estudo. Aula 04 – Incidentes de impedimento e suspeição Diferentemente do impedimento, portanto, a suspeição possui um prazo para ser arguida, que é de 15 dias a partir da ciência da ocorrência da situação geradora da suspeição pela parte que a está arguindo. Esse prazo também se aplica para o impedimento, porém, é na suspeição que ele importa, pois, o impedimento não sofre os efeitos da preclusão, enquanto que a suspeição sim. Se por um lado já se tem ciência sobre as hipóteses que geram impedimento ou suspeição do magistrado, por outro lado é importante esclarecer qual o procedimento formal para ingresso com arguição de impedimento e suspeição. Tal incidente processual deve ser formulado em petição própria, dirigida ao juízo que aprecia a demanda. Isso significa que a arguição de impedimento e suspeição é realizada em uma peça processual distinta da petição inicial, contestação ou revelia por exemplo, e é dirigida para o próprio magistrado que se deseja declarar impedido ou suspeito. Se por um lado o magistrado que se declarar suspeito no processo, sem que haja necessidade de provocação da parte, não precisa expor suas razões, por outro lado, a parte que alega a suspeição deve provar o alegado, expondo os motivos da possível suspeição. É isso que aponta o artigo 146 do CPC/2015, que dispõe: Art. 146. No prazo de 15 (quinze) dias, a contar do conhecimento do fato, a parte alegará o impedimento ou a suspeição, em petição específica dirigida ao juiz do processo, na qual indicará o fundamento da recusa, podendo instruí-la com documentos em que se fundar a alegação e com rol de testemunhas. (BRASIL, 2015, s.p. Grifo nosso). Portanto, quando a parte é quem alega a suspeição ou impedimento, ela deve fazê-lo por petição própria e munida de provas, sejam elas documentais ou testemunhais. A título de conhecimento, observe-se o modelo de petição de arguição de impedimento ou suspeição relacionada abaixo: EXCELENTISSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA VARA DE.... DO FORO DA COMARCA ....................... (ENDEREÇAR A PETIÇÃO AO PROPRIO JUÍZO OU TRIBUNAL) Processo autuado sob nº FREDDO (nome do réu), já qualificado nos autos da AÇÃO DE PROCEDIMENTO COMUM, de numero em epigrafe, que lhe move JERRY (nome do autor), vem, por seu procurador, com fundamento nos artigos 145 e 146 do Código de Processo Civil, arguir SUSPEIÇÃO, pelos seguintes fundamentos: No dia ___/___/___ Vossa Excelencia em seu gabinete recebeu flores, caixas de bombom e balões infláveis de Jerry, autor da presente ação. Além disso, por ser sabido o gosto do juiz por gatos, Jerry comprou e deu a Vossa Excelencia um dos gatos mais caros do mundo, o gato britânico de pelo curto cujo preço varia entre 500 a 1500 dolares. Ainda, conforme comprovam as certidões expedidas pelo Cartorio de Protesto (dos. 3 e 4), o magistrado possui crédito no valor de R$ 15.000,00 em relação à parte autora. No devido processo legal a imparcialidade é imprescindível como medida de justiça, além de ser pressuposto processual em relação ao órgão jurisdicional. A Lei nesse caso é clara ao declarar que havendo impedimento ou suspeição o magistrado deverá ser afastado do processo, devendo o processo ser encaminhado para o seu substituto legal. O art. 145 do Novel Processual Civil de 2015 em seu inciso segundo declara ser causa de suspeição quando o juiz receber presentes de pessoas que tiverem interesse na causa antes ou depois de iniciado o processo. Portanto, flagrante a respectiva ilegalidade no caso em concreto. Assim, devido ao exposto, requer a Vossa Excelência o acolhimento de suspeição de imparcialidade remetendo os autos ao substituto legal. Caso Vossa Excelência não reconheça o impedimento, requer a remessa dos autos ao Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, para o julgamento do incidente processual que se formará. Requer provar o alegado com a ouvida das seguintes testemunhas: (rol) Termos em que, Pede deferimento. Local, ___de ______de ANO Nome e assinatura do advogado OAB Endereço completo para recebimento de intimações https://www.jusbrasil.com.br/topicos/28895309/artigo-145-da-lei-n-13105-de-16-de-marco-de-2015 https://www.jusbrasil.com.br/topicos/28895291/artigo-146-da-lei-n-13105-de-16-de-marco-de-2015 https://www.jusbrasil.com.br/legislacao/174788361/lei-13105-15 Portanto, deve-se ter bem clara a ideia de que a arguição de impedimento ou suspeição é uma peça processual própria, com pedidos próprios, que não pode ser formulada dentro de outra peça, como, por exemplo, dentro da contestação. Existe, contudo, uma única hipótese de exceção dessa regra, que é no caso da apelação. Em caso de apelação, excepcionalmente as matérias da suspeição ou do impedimento podem ser arguidas como preliminar processual. Recebida a arguição de impedimento ou suspeição pelo magistrado, este seguirá o procedimento do artigo 146 do CPC/2015, parágrafo 1º: § 1º Se reconhecer o impedimento ou a suspeição ao receber a petição, o juiz ordenará imediatamente a remessa dos autos a seu substituto legal, caso contrário, determinará a autuação em apartado da petição e, no prazo de 15 (quinze) dias,apresentará suas razões, acompanhadas de documentos e de rol de testemunhas, se houver, ordenando a remessa do incidente ao tribunal. (BRASIL, 2015, s.p.). Nesse sentido, diante do recebimento da petição de arguição de impedimento ou suspeição, abrem-se duas vias para o magistrado: a primeira, diz respeito ao reconhecimento da situação de impedimento ou suspeição, momento no qual o magistrado enviará imediatamente os autos do processo a um juiz substituto; e, a segunda, em caso de não reconhecimento da situação de impedimento ou suspeição, o magistrado poderá apresentar resposta à arguição, remetendo os autos para julgamento do tribunal superior. Nessa segunda hipótese, o magistrado se comporta como se parte fosse da demanda, pois terá de responder ao processo, defendendo-se das alegações de impedimento ou suspeição. É importante mencionar, neste ponto do estudo, que em 2020 o Superior Tribunal de Justiça cassou um acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça de São Paulo que negava o reconhecimento de embargos de declaração interpostos pelo próprio magistrado à decisão que o declarava afastado de um processo sob os fundamentos de impedimento ou suspeição. Para ciência, segue ementa do acórdão proferido pelo STJ: RECURSO ESPECIAL - EXCEÇÃO DE SUSPEIÇÃO DE JUIZ JULGADA PROCEDENTE - TRIBUNAL A QUOQUE REPUTOU INEXISTENTE A LEGITIMAÇÃO RECURSAL DO MAGISTRADO EXCEPTO E NÃO CONHECEU DOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO OPOSTOS. 1. O juiz, apesar de não participar como parte ou terceiro prejudicado da relação jurídica de direito material é sujeito do processo e figura como parte no incidente de suspeição, por defender de forma parcial direitos e interesses próprios, possuindo, portanto, interesse jurídico e legitimação recursal para impugnar, via recurso, a decisão que julga procedente a exceção de suspeição, ainda que não lhe seja atribuído o pagamento de custas e honorários advocatícios. 2. Recurso especial provido para cassar o acórdão embargado e determinar o retorno dos autos ao Tribunal de origem a fim de que aprecie o mérito dos aclaratórios opostos. (SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA, 2020, p. 1). Portanto, se reconhece o direito do magistrado de recorrer de decisão que o declara afastado do processo. Na mesma senda, se reconhece a capacidade postulatória do magistrado em causa própria, o que lhe isenta de constituir um advogado para tal. Imprescindível ressaltar, ainda, que até que a arguição de impedimento ou suspeição seja resolvida, o processo originário poderá estar suspenso, dependendo da forma de recebimento da arguição pelo tribunal. Na prática cotidiana, a maioria dos recebimentos desse tipo de petição é de natureza suspensiva. Nos termos dos demais parágrafos do artigo 146 do CPC/2015: § 2º Distribuído o incidente, o relator deverá declarar os seus efeitos, sendo que, se o incidente for recebido: I - sem efeito suspensivo, o processo voltará a correr; II - com efeito suspensivo, o processo permanecerá suspenso até o julgamento do incidente. § 3º Enquanto não for declarado o efeito em que é recebido o incidente ou quando este for recebido com efeito suspensivo, a tutela de urgência será requerida ao substituto legal. § 4º Verificando que a alegação de impedimento ou de suspeição é improcedente, o tribunal rejeitá-la-á. § 5º Acolhida a alegação, tratando-se de impedimento ou de manifesta suspeição, o tribunal condenará o juiz nas custas e remeterá os autos ao seu substituto legal, podendo o juiz recorrer da decisão. § 6º Reconhecido o impedimento ou a suspeição, o tribunal fixará o momento a partir do qual o juiz não poderia ter atuado. § 7º O tribunal decretará a nulidade dos atos do juiz, se praticados quando já presente o motivo de impedimento ou de suspeição. (BRASIL, 2015, s.p. Grifo nosso). Observe-se que, reconhecido o impedimento ou a suspeição pelo tribunal superior, os atos praticados pelo juízo imparcial estarão automaticamente nulos. Isso significa que tanto a suspeição quanto ao impedimento são causas de nulidade de atos processuais, tendo em vista o grande prejuízo que causam à ordem pública e a justiça. Também se deve atentar para o fato de que, em caso de julgamento procedente, determinando o impedimento ou suspeição do magistrado, o próprio juiz deverá arcar com as custas do processamento da arguição. Dizer que um ato processual é nulo significa que ele não pode produzir efeitos desde a sua origem, pois não é válido. A nulidade do ato processual gera efeitos ex tunc, isto é, que retroagem à data da origem do ato. Assim, os demais atos que se originaram da causa de nulidade, são considerados também automaticamente nulos: é como se nunca tivessem existido no mundo jurídico, portanto, incapazes de produzir efeitos. Assim, quanto ao procedimento da arguição de impedimento ou suspeição, observe-se a figura a seguir: Figura 16: impedimento ou suspeição – procedimento: Fonte: JUSBRASIL. Suspeição do Juiz no Novo CPC. Disponível em: https://cursoonlinenovocpc.jusbrasil.com.br/artigos/464370285/suspeicao-do-juiz-no-novo-cpc Acesso em 30 nov. 2022. Outra questão muito importante diz respeito à impossibilidade de alegar impedimento ou suspeição contra instituição. Em 2017, o STJ julgou improcedente o REsp 1.469.827que pretendia declarar toda a instituição do Tribunal Regional Federal da 4ª Região. Segundo a ementa da decisão, PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. EXCEÇÃO DE SUSPEIÇÃO. OMISSÃO. CONTRADIÇÃO. VÍCIOS INEXISTENTES. QUEBRA DA IMPARCIALIDADE DO MAGISTRADO. MERAS CONJECTURAS. INADMISSIBILIDADE. JUIZ NATURAL. PRESERVAÇÃO. 1. Recurso especial interposto em 20/01/2014 e atribuído a este Gabinete em 25/08/2016. 2. Ausentes os vícios do art. 535 do CPC, rejeitam-se os embargos de declaração.3. Para o acolhimento da suspeição do magistrado prevista no art. 135, V, do CPC/73 é indispensável que a parte supostamente prejudicada pela quebra de imparcialidade demonstre concretamente quais elementos convergem para o induvidoso interesse do juiz no desfecho da lide. 4. Meras conjecturas, ilações sem vínculo efetivo com a realidade ou pretensões destituídas de qualquer elemento objetivo e demonstrável nos autos não são hipóteses de afastamento do juiz natural da causa. 5. Recurso especial não provido. (SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA, 2017, p. 1). Nesse sentido, o superior tribunal fixou a tese de que não cabe alegação de suspeição ou impedimento contra instituição, apenas contra a pessoa. Assim, além da exceção de suspeição não ser cabível contra uma instituição, "a alegação de parcialidade, na realidade, constitui mera conjectura, destituída de qualquer elemento objetivo de prova, pois não há nenhuma evidência de que a atividade jurisdicional restou comprometida pelos fatos narrados pela recorrente". (SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA, 2022, s.p.). Contudo, dizer que instituições não podem ser consideradas suspeitas ou impedidas, não significa dizer que os membros de tais instituições não podem ser suspeitos ou impedidos. Nos termos do próprio artigo 148 do CPC/2015, os membros do Ministério Público, auxiliares da justiça e quaisquer outras pessoas imparciais que estejam envolvidas no processo: Art. 148. Aplicam-se os motivos de impedimento e de suspeição: I - ao membro do Ministério Público; II - aos auxiliares da justiça; III - aos demais sujeitos imparciais do processo. § 1º A parte interessada deverá arguir o impedimento ou a suspeição, em petição fundamentada e devidamente instruída, na primeira oportunidade em que lhe couber falar nos autos. § 2º O juiz mandará processar o incidente em separado e sem suspensão do processo, ouvindo o arguido no prazo de 15 (quinze) dias e facultando a produção de prova, quando necessária. § 3º Nos tribunais, a arguição a que se refereo § 1º será disciplinada pelo regimento interno. § 4º O disposto nos §§ 1º e 2º não se aplica à arguição de impedimento ou de suspeição de testemunha. (BRASIL, 2015, s.p.). Na sequência, ainda é importante mencionar, nesse tema das instituições, que se deve sempre lembrar que os prazos correm dobrados para o Ministério Público, Defensoria Pública ou entes federativos. Isso também significa que, no caso de impedimento ou suspeição, para essas entidades, o prazo para a arguição é de trinta dias, e não quinze. Esses são os aspectos principais que norteiam a arguição de impedimento e suspeição. Retomando alguns pontos fundamentais sobre o tema, observe-se o quadro síntese a seguir: Quadro síntese sobre as distinções entre impedimento e suspeição: Fonte: TAQUINI, Sérgio. Impedimento e Suspeição. Disponível em: https://www.passeidireto.com/arquivo/89979403/1-impedimento-e-suspeicao Acesso em 30 nov. 2022. Nesse sentido, cabe ressaltar que O instituto da Suspeição delimita as hipóteses em que o magistrado fica impossibilitado de exercer sua função em determinado processo, devido a vinculo subjetivo (relacionamento) com algumas das partes, fato que compromete seu dever de imparcialidade. [...].No instituto do Impedimento, a lei relaciona expressamente os casos em que o magistrado fica impossibilitado de atuar, independe de sua intenção no processo ou de sua relação com as partes. As causas de impedimento também decorrem do dever de imparcialidade do juiz, mas se referem à sua relação com o processo. (TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS TERRITÓRIOS, 2020, s.p.). A arguição de impedimento e suspeição não é apenas uma faculdade que o réu pode dispor, mas, neste estudo, ela é elencada como uma forma de resposta do réu/demandado. Apesar de não obstar ou resolver o processo, esse incidente é importante para que se assegure a imparcialidade do magistrado e, portanto, um julgamento justo. Legislação Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Phasellus pellentesque in nisl id viverra. Ut ut tempor orci, in sollicitudin massa. Fusce lectus purus, tristique a leo quis, varius condimentum tellus. Ut bibendum suscipit tellus. Proin eu felis ipsum. 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