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Número 1, pág. 1Número Temático: Avaliação do Estado de Conservação das Tartarugas Marinhas Biodiversidade Brasileira (2011) Ano I, Nº 1, 1-2 É com grande satisfação que apresentamos a primeira validação científica do conjunto de avaliações conduzidas pelo ICMBio, neste número “Avaliação do Estado de Conservação das Tartarugas Marinhas”. Trata-se de uma avaliação para as populações em território brasileiro de espécies que ocorrem globalmente e, segundo a UICN (2001), essas avaliações são consideradas “avaliações regionais”. Parabenizamos Maria Ângela Marcovaldi (TAMAR/ICMBio), coordenadora de táxon e Alexsandro Santos (Fundação Pró-TAMAR), ponto focal para o grupo, pelo intenso trabalho refletido nos cinco artigos a seguir. Não existem avaliações consistentes sem o trabalho, a disponibilidade e o entusiasmo dos especialistas para disponibilizar e sintetizar o conhecimento sobre cada espécie, tornando-o coletivo. Após a avaliação do estado de conservação das espécies segue-se o processo de revisão que se concentra-se na verificação de coerência entre informações científicas trazidas e a categoria proposta, bem como na clareza da informação consolidada para aplicação dos critérios. Esse formato atende a orientação da UICN de validação por profissionais não envolvidos nas análises. Por isso, agradecemos aos revisores anônimos pela dedicação à essa tarefa. As próximas páginas deste número contam que as tartarugas, originalmente tão abundantes na costa brasileira, foram quase totalmente dizimadas nos últimos cem anos, o que levou à avaliação das cinco espécies como ameaçadas de extinção, em diferentes categorias: a tartaruga- verde (Chelonia mydas), avaliada como “Vulnerável”; a tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta) e a tartatura-oliva (Lepidochelys olivacea) como “Em Perigo”; a tartaruga-de-pente (Eretmochelis imbricata) e a tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea) como “Criticamente em Perigo”. Quando a equipe do TAMAR começou a trabalhar no final da década de 70, muitos pescadores jovens jamais tinham visto um filhote de tartaruga... Na época, o principal impacto era o consumo humano de carne e ovos de tartaruga. O trabalho dedicado e qualificado do Projeto TAMAR ao longo de 30 anos transformou essa realidade no Brasil. O consumo humano de tartarugas marinhas, diferente das tartarugas continentais, praticamente não existe mais. O aumento gradual do número de ninhos nas principais áreas de desova são a prova da mudança de costumes, que não se deu em um esquema de repressão, mas a uma adesão da população ao programa de conservação com atividades que incluem alternativas de renda e intenso envolvimento nas atividades de manejo de praia. Monica Brick Peres1,2, Rafael de Almeida Magris1 e Katia Torres Ribeiro3 Biodiversidade Brasileira Número Temático Avaliação do Estado de Conservação das Tartarugas Marinhas Apresentação Afiliação 1 Editores do número temático 2 Coordenadora do Processo de Avaliação do Estado de Conservação de Espécies (COABIO/CGESP/DIBIO/ICMBio) 3 Editora gerente – Coordenação editorial de Biodiversidade Brasileira (COAPE/CGPEQ/DIBIO/ICMBio) monica.peres@icmbio.gov.br; rafael.magris@icmbio.gov.br; katia.ribeiro@icmbio.gov.br Número 1, pág. 2 Instituto Chico Mendes de Conservção da Biodiversidade Número Temático: Avaliação do Estado de Conservação das Tartarugas Marinhas Desde então os desafios passaram a ser outros. Nas praias, a expansão urbana e o turismo desordenado ameaçam os habitats essenciais de nidificação. No mar, o esforço e o poder de pesca aumentaram drasticamente nos últimos anos e causam a morte de milhares de tartarugas por captura incidental nos anzóis e redes de pesca, como documentado nos artigos a seguir, tornando-se tema de pesquisa e monitoramento essencial para entender os danos e apoiar a elaboração de políticas públicas e propostas de ordenamento pesqueiro. Uma vez que as tartarugas podem levar 30 anos para atingir a maturidade sexual e chegar até as praias para desovar, não há como saber ainda qual é o impacto da pesca sobre cada espécie. Só saberemos isso daqui a muito tempo, e desde que se mantenha a obtenção de informação qualificada tanto nas praias como nas pescarias, e claro, par e passo com as ações de conservação e manejo. As tartarugas dessas espécies vivem muitos anos, provavelmente mais de cem! Isso faz com que a capacidade de reposição populacional seja muito, muito lenta. Perguntamo-nos se nossos filhos teriam tido a chance de conhecer tartarugas marinhas na costa brasileira se não fosse pelo trabalho de conservação e pesquisa capitaneado pelo TAMAR. Também é o caso de nos questionarmos se nossos bisnetos e tataranetos conhecerão esses seres que sobreviveram a tantas transformações da Terra, tantas oscilações climáticas naturais e antrópicas e suas consequências nos mares e terras, se não conseguirmos controlar e ordenar o desenvolvimento costeiro e o da pesca no país. Por isso tudo, essa síntese é tão importante. E por isso, o trabalho de avaliação é tão empolgante. Agradecemos a todos o trabalho realizado, que deve se seguir da avaliação de diversos outros grupos da biota brasileira. Trabalho este que só fará sentido se vier a apoiar o debate, a definição de políticas públicas, a tomada de decisão pela sociedade que, torcemos, opte, sempre que houver discernimento, pela coexistência do ser humano com as demais espécies do planeta. E por estas razões optamos pela publicação integral das informações que levaram à proposição das categorias de estado de conservação, de modo a permitir a construção continuada do conhecimento e o debate, essencial à ciência, à conservação e à cidadania. Agradecimentos Por se tratar do primeiro número de Biodiversidade Brasileira, além dos agradecimentos acima, consideramos fundamental reconhecer o belo trabalho de Denys Márcio de Sousa, no projeto gráfico e arte da capa da revista e dos artigos do número temático. Número 1, pág. 3Caretta caretta Biodiversidade Brasileira (2011) Ano I, Nº 1, 3-11 Apresentação e Justificativa de Categorização O estado de conservação da tartaruga marinha Caretta caretta Linnaeus, 1758 (Cheloniidae) no Brasil foi avaliado de acordo com os critérios da IUCN (2001), com base nos dados disponíveis até 2009. Síntese do processo de avaliação pode ser encontrada em Peres et al., neste número. A categoria proposta para o táxon é “Em perigo (EN)” segundo o critério A2abcd, ou seja, ameaçado, de acordo com informações sobre redução da população. A espécie Caretta caretta apresenta distribuição circunglobal. No Brasil, as áreas prioritárias de desova estão localizadas no norte da Bahia, Espírito Santo, norte do Rio de Janeiro e Sergipe. Ocorrências de indivíduos em diferentes estágios de vida também são registradas na costa de diversos estados do Brasil entre o Pará e o Rio Grande do Sul, em águas costeiras ou oceânicas. A espécie apresenta ciclo de vida longo com maturação sexual entre 25 e 35 anos. O tempo geracional utilizado nesta avaliação é de 100 anos. Este táxon é altamente migratório. As fêmeas migram das áreas de alimentação e descanso para as áreas de reprodução, em deslocamentos que podem chegar a mais de 1500 km. São carnívoros durante todo o ciclo de vida. As principais ameaças para C. caretta no passado foram a coleta de ovos e o abate de fêmeas, o que não acontece mais nas áreas prioritárias de reprodução. Desde a implantação do Projeto TAMAR/ ICMBio em 1982, que promoveu esta proteção, o desenvolvimento e a ocupação desordenada da zona costeira e a pesca artesanal e industrial aumentaram vertiginosamente – principalmente nos últimos 10-15 anos. As tartarugas marinhas são capturadas incidentalmente em praticamente todas as pescarias no Brasil. Não existem dados quantitativos consistentes sobre a abundân- cia deste táxon para o período anterior ao levantamento realizado pelo TAMAR entre 1980-82, quando foi registrada a interrupção do ciclo de vida desses animais em váriasMusick, J.A.; Nel, R.; Pilcher, N.J.; Seminoff, J.A.; Troëng, S.; Witherington, B. & Mast, R.B. 2010. Regional management units for marine turtles: a novel framework for prioritizing conservation and research across multiple scales. PLoS ONE, 5(12): 1-11. Ficha Técnica Avaliação do estado de conservação da tartaruga marinha Chelonia mydas (Linnaeus, 1758) no Brasil. Antônio de Pádua Almeida; Armando José Barsante Santos; João Carlos Alciatti Thomé; Claudio Belini; Cecilia Baptistotte; Maria Ângela Marcovaldi; Alexsandro Santana dos Santos & Milagros Lopez Biodiversidade Brasileira, 2011, 1(1): 18-25. Número temático: Avaliação do Estado de Conservação das Tartarugas Marinhas no Brasil Participantes da oficina de avaliação dos dados: • Alexsandro Santana dos Santos – Fundação Protamar • Jaqueline Comin de Castilhos – Fundação Protamar • Amely Branquinho Martins – CPB/ICMBio • Luciano Soares – Fundação Protamar • Antônio de Pádua Almeida – TAMAR/ICMbio • Maria Ângela Marcovaldi – TAMAR/ICMBio • Armando Barsante – Fundação Protamar • Monica Brick Peres – COABIO/ICMBio • Danielle Monteiro – NEMA • Paulo Barata – Pesquisador – FIOCRUZ • Gustavo D. Stahelin – Fundação Protamar • Yeda Bataus – RAN/ICMBio Local e data da oficina: Praia do Forte, BA, em 22 de setembro de 2009. Fotos: TAMAR/ICMBio – Mapa: Rodrigo Ranulpho – Diagramação: Denys Márcio de Sousa Número 1, pág. 20 Instituto Chico Mendes de Conservção da Biodiversidade Número Temático: Avaliação do Estado de Conservação das Tartarugas Marinhas Apresentação e Justificativa de Categorização O estado de conservação da tartaruga marinha Eretmochelys imbricata (Linnaeus, 1766) (Cheloniidae) foi avaliado de acordo com os critérios da IUCN (2001), com base nos dados disponíveis até 2009. Síntese do processo de avaliação pode ser encontrada em Peres et al., neste número. A categoria proposta para o táxon é “Criticamente em Perigo (CR)” segundo o critério A2abcde, ou seja, ameaçado, de acordo com informações sobre redução da população. Eretmochelys imbricata é encontrada circunglobalmente, em águas tropicais e numa menor extensão, em águas subtropicais. No Brasil, as áreas prioritárias de reprodução de E. imbricata são o litoral norte da Bahia e Sergipe; e o litoral sul do Rio Grande do Norte. Sendo a mais tropical das espécies de tartarugas marinhas, as áreas de alimentação conhecidas deste táxon conhecidas no Brasil, são as ilhas oceânicas de Fernando de Noronha-PE e Atol das Rocas- RN, havendo evidências de que o banco dos Abrolhos-BA seja uma importante área de alimentação. Há ainda ocorrência na reserva biológica do Arvoredo/SC e também na Ilha de Trindade/ES. A principal ameaça para E. imbricata no passado foi a coleta de ovos e o abate de fêmeas, principalmente para exploração e comércio do casco, o que não acontece mais nas áreas prioritárias de reprodução. Desde a implantação do Projeto TAMAR/ICMBio em 1982, o desenvolvimento e a ocupação desordenada da zona costeira e a pesca aumentaram vertiginosamente – principalmente nos últimos 10-15 anos. As tartarugas de pente são capturadas incidentalmente, principalmente em redes costeiras de emalhe e lagosteira. Não existem dados quantitativos comprovados da abundância deste táxon para o período anterior ao levantamento realizado pelo TAMAR entre 1980-82, onde está registrada a interrupção do ciclo de vida desses animais em várias áreas visitadas, devido a um longo histórico de coleta de praticamente todos os ovos e abate de quase todas as fêmeas. Historicamente, a abundância destas populações era enorme. A falta de perspectiva adequada para quantificação ou o uso de uma linha imaginária equivocada de dados iniciais de abundância para o estudo de tendência populacional podem levar a uma interpretação errônea destas análises. A síndrome da mudança Filo: Chordata Classe: Reptilia Ordem: Testudines Família: Cheloniidae Nome popular Tartaruga-de-pente (português / em todo o Brasil), tartaruga- verdadeira (português / Ceará), tortue imbriquée (francês), tortuga carey (espanhol), hawksbill turtle (inglês) Maria Ângela Marcovaldi1; Gustave G. Lopez2; Luciano S. Soares2; Armando J.B. Santos2; Claudio Bellini1; Alexsandro Santana dos Santos2 & Milagros Lopez2 Estado de Conservação Criticamente em perigo (CR) A2abcde Submetido em: 24 / 02 / 2010 Versão reformulada enviada em: 10 / 01 / 2011 Aceito em: 27 / 01 / 2011 Avaliação do Estado de Conservação da Tartaruga Marinha Eretmochelys imbricata (Linnaeus, 1766) no Brasil Afiliação 1 Centro Nacional de Conservação e Manejo de Tartarugas Marinhas – TAMAR/ICMBio – Caixa Postal 2219 – Rio Vermelho – CEP 41950-970 – Salvador/BA 2 Fundação Protamar – Rua Rubens Guelli, 134 – sl. 307 – Ed. Empresarial Itaigara – CEP 41815-135 – Salvador/BA alex@tamar.org.br Número 1, pág. 21Eretmochelys imbricata Biodiversidade Brasileira (2011) Ano I, Nº 1, 20-27 de referencial, ou “shifting baseline syndrome”, é conhecida como o uso de dados de tamanho da população que correspondem ao início das atividades dos pesquisadores e não da sua real abundância no passado, e que pode levar a subestimativas de perdas (Bjorndal, 1999). Considera-se que o índice de abundância populacional mais adequado para as tartarugas-marinhas seja o número de ninhos em cada temporada. Desta forma, o aumento no número de ninhos observado nos últimos anos representa um indício de aumento no tamanho populacional. No entanto, apesar de promissora, acredita-se que essa recuperação é insignificante em relação ao tamanho populacional no passado. Adicionalmente, características da estratégia de vida das tartarugas marinhas como a maturação tardia e ciclo de vida longo tornam a recuperação muito lenta. É possível que os números de desovas observados até o presente não se mantenham no futuro, devido à ação das atuais ameaças sobre o estoque de juvenis a serem recrutados para a população reprodutiva. Além disso, os estudos de tendência de população não cobrem um tempo geracional para este táxon (estimado entre 35 e 45 anos, no mínimo). Portanto, a recuperação do número de adultos ou do tamanho populacional observado só poderá ser considerada consistente quando a série histórica de dados for mais longa, incluindo várias décadas. As informações coletadas no levantamento inicial do TAMAR sugerem que o potencial de áreas de desova e a abundância nas áreas remanescentes deve ser maior do que a encontrada, indicando desaparecimento de desovas em várias destas áreas e, nas remanescentes, o declínio acentuado das populações. O TAMAR iniciou suas atividades apenas nas áreas remanescentes com concentração ainda significativa de desova. Mantém-se a categoria CR, pois além da população brasileira estar isolada, a principal área de ocorrência reprodutiva atual (norte da Bahia, Sergipe e sul do Rio Grande do Norte) é bastante reduzida quando comparada à sua área de ocorrência no passado. Não há possibilidade de migração de adultos de outras regiões para o Brasil: as tartarugas marinhas são conhecidas por sua alta filopatria (homing) – capacidade das fêmeas de voltarem para se reproduzir na praia onde nasceram, tornando praticamente impossivel a recolonização das praias por fêmeas oriundas de outras populações. Distribuição Geográfica A espécie Eretmochelys imbricata tem distribuição circunglobal em águas tropicais e, em menor extensão, em águas subtropicais (Mortimer & Donnelly 2007). No Brasil, as áreas de desova distribuem- se desde o Espírito Santo ao Ceará, porém desovas regulares com maior concentração (definindo áreas prioritárias) encontram-se apenas no litoral norte do Estado da Bahia e Sergipe, e no litoral sul do Rio Grande do Norte (Marcovaldi et al. 2007). Há ainda outras áreas com menor concentração de desovas, mas que devem ser ressaltadas: Paraíba (Mascarenhas et al. 2004), Ceará (Lima 2002) e Espírito Santo (Marcovaldi et al. 2007). Há evidências de desovas regulares, mas também em menornúmero, no estado de Pernambuco (Moura et al. 2009) e no norte do Rio Grande do Norte (Marlova Itini com. pessoal). Juvenis distribuem-se em todo o litoral Norte-Nordeste do Brasil e, com menor freqüência, no Sul- Sudeste, sendo as principais áreas de alimentação conhecidas no Brasil o Arquipélago Fernando de Noronha- PE (Sanches & Bellini 1999) e o Atol das Rocas-RN (Marcovaldi et al. 1998), havendo também registros para a Ilha de Trindade-ES (TAMAR 2009), Abrolhos-BA, arquipélagos de São Pedro e São Paulo e a Ilha do Arvoredo-SC (Reisser et al. 2008). Há evidências de que o banco dos Abrolhos-BA seja uma importante área de alimentação (Pedrosa & Verissimo 2006) para este táxon. Registros de encalhes de tartarugas-de-pente e capturas incidentais pela pesca na costa indicam a presença de indivíduos juvenis e adultos (TAMAR 2009). Estudos de telemetria indicam migrações de fêmeas adultas próximas à costa do estado da Bahia, entre Salvador e Abrolhos, e entre Salvador e áreas de alimentação no estado do Ceará (Marcovaldi et al. 2009a) (Figura 1). População Para tartarugas marinhas, o número de ninhos é usualmente adotado como índice de abundancia populacional (Meylan 1995). Não existem dados quantitativos comprovados da abundância deste táxon para o período anterior à implantação do Projeto TAMAR/ICMBio nas áreas principais de desova em 1982. O levantamento Figura 1 – Distribuição geográfica da tartaruga marinha Eretmochelys imbricata (Linnaeus, 1766) no Brasil. Fonte: Banco de dados do TAMAR / SISTAMAR. Número 1, pág. 23Eretmochelys imbricata Biodiversidade Brasileira (2011) Ano I, Nº 1, 20-27 inicial realizado através de entrevistas com os pescadores ao longo do litoral entre os anos de 1980 e 1982 constatou um histórico muito longo de exploração/uso direto. O depoimento mais freqüente descrevia um número de tartarugas muito maior, coleta de praticamente todos os ovos e matança de quase todas as fêmeas (Marcovaldi & Marcovaldi 1999). Relatos em algumas comunidades litorâneas nos primeiros anos de atuação do Projeto TAMAR/ICMBio indicavam que muitos moradores jamais tinham visto um filhote de tartaruga marinha (Marcovaldi & Albuquerque 1983). No norte da Bahia e Sergipe e em Pipa (Rio Grande do Norte), esta espécie apresentou em 2005- 2006 um número estimado de desovas entre 1.530 e 1.820 ninhos, sendo cerca de 80% no norte da Bahia e em Sergipe (Marcovaldi et al. 2007). É uma espécie que apresenta maturação tardia e ciclo de vida longo. Normalmente apresenta alta fecundidade, com média de 120 a 130 ovos por ninho, e várias ninhadas por estação reprodutiva (Horrocks & Scott 1991). Porém, como ocorre com todas as espécies de tartarugas marinhas, a mortalidade de filhotes e juvenis é alta, sendo que de cada 1.000 ovos aproximadamente, menos de um filhote sobrevive até a fase adulta (Frazer 1986). Devido a características bioecológicas das tartarugas marinhas, tais como ciclo de vida longo e complexo, maturação tardia estimada entre 25 e 35 anos (Chaloupka & Limpus 1997) – tempo geracional estimado entre 35 e 45 anos - comportamento altamente migratório com utilização de uma grande área geográfica (o que inclui normalmente mais de um país) e múltiplos habitats (Bjorndal 1997), somente uma série histórica de dados de no mínimo 20 a 25 anos pode fornecer uma indicação confiável de tendência populacional para as tartarugas marinhas (Chaloupka et al. 2008). Estudos com DNA mitocondrial (DNAmt) mostraram que as diversas populações de locais de desova podem ser distinguidas por diferentes haplótipos. Em áreas de alimentação há uma mistura de haplótipos, indicando que tartarugas de diferentes estoques genéticos (áreas de desova) coexistem em áreas de alimentação e em outras áreas distantes das de desova (Bass 1999, Lara-Ruiz et al. 2006). A população que desova no litoral da Bahia é significativamente distinta das demais populações de tartarugas de pente existentes no mundo (Lara Ruiz et al. 2006). Recente trabalho realizado pelo Grupo de Especialistas em Tartarugas Marinhas da IUCN define a população do Brasil como uma Unidade de Manejo independente e caracterizada como máxima prioridade de conservação (Wallace et al. 2010). Um estudo realizado no litoral norte da Bahia (n=119 indivíduos) mostrou que 44% do total das tartarugas analisadas são híbridas, sendo 42% entre E. imbricata e C. caretta e 2% entre E. imbricata e L. olivacea (Lara Ruiz et al. 2006). A ocorrência de hibridização interespecífica pode acarretar sérias conseqüências para as espécies envolvidas e é de suma importância para sua conservação (Lara-Ruiz et al. 2006). As áreas de alimentação conhecidas de Fernando de Noronha e Atol das Rocas são compostas por juvenis e subadultos pertencentes a estoques múltiplos, com contribuição, por exemplo, de Guinea Bissau, Cuba, Barbados e Brasil (Sanches & Bellini 1999, Mortimer & Donnelley 2007, Lara-Ruiz com. pess.). Corroborando com os resultados dos estudos genéticos, os dados de marcação realizados no Brasil mostram migrações de longa distância através de dois indivíduos subadultos marcados em Fernando de Noronha e no Atol das Rocas, recapturados no Gabão e no Senegal (África), respectivamente (Bellini et al. 2000, Grossman et al. 2007). O Grupo de Especialistas de Tartarugas Marinhas (MTSG) da UICN, baseado em resultados de genética molecular, áreas de reprodução, resultados de marcação e recaptura, satélite telemetria, bem como aspectos da historia natural e biogeografia, definiu Unidades de Manejo Regional para E.imbricata (Wallace et al. 2010). Segundo Wallace 2010, Unidades de Manejo Regionais referem-se às áreas ocupadas por populações funcionalmente independentes, possuidoras de processos demográficos distintos. O Brasil (praias, plataforma costeira e Zona Econômica Exclusiva) pertence à unidade de manejo do Atlântico Sudoeste. Outras Informações Ecológicas A determinação sexual nas tartarugas marinhas, inclusive para a espécie E. imbricata, depende da temperatura na qual os ovos são incubados – temperaturas mais altas produzem fêmeas e mais baixas, machos (Marcovaldi et al. 1997). Para E. imbricata as desovas incubadas nas praias do norte da Bahia produzem mais de 90% de filhotes fêmeas (Godfrey et al. 1999). Número 1, pág. 24 Instituto Chico Mendes de Conservção da Biodiversidade Número Temático: Avaliação do Estado de Conservação das Tartarugas Marinhas Como as demais espécies de tartarugas marinhas, E. imbricata apresenta maturação tardia e ciclo de vida longo, podendo demorar de 25 a 35 anos para atingir a maturidade sexual (Chaloupka & Limpus 1997, Meylan & Donnelly 1999). Fêmeas desovando no norte da Bahia entre 1990-1991 e 1996-1997 apresentaram comprimento curvilíneo da carapaça em média de 97,4 cm (Marcovaldi et al. 1999). No norte da Bahia e em Sergipe, a temporada de reprodução ocorre principalmente entre novembro e março, com 80% das desovas de dezembro a fevereiro. Em Pipa, Rio Grande do Norte, a temporada de reprodução ocorre principalmente entre novembro e abril, com 80% das desovas de janeiro a março. No norte da Bahia, as fêmeas depositam em média a cada postura 136,4 ovos (Marcovaldi et al. 1999). Seus hábitos de desova são noturnos, porém eventualmente podem ocorrer desovas no período diurno. Juvenis e adultos alimentam-se principalmente em locais com substratos duros, como recifes, sendo suas presas: crustáceos, moluscos, briozoários, celenterados, ouriços, esponjas e algas (Sanches & Bellini 1999). No Arquipélago Fernando de Noronha, são encontradas normalmente em profundidades rasas, até cerca de 40 m (Sanches & Bellini 1999). Ameaças A captura incidental em atividades de pesca costeira (principalmente redes de emalhe) (Gallo et al. 2006; Marcovaldi et al. 2009b) é a principal causa de mortalidade conhecida para esta espécie. O impacto humano sobre os habitats das tartarugas marinhas é reconhecido há décadas (Lutcavage et al. 1997), com os esforços para mitigação concentradosno ambiente terrestre. Apesar de progressos feitos na proteção e recuperação de ecossistemas marinhos em algumas áreas, impactos antropogênicos diretos ou indiretos continuam a ocorrer (Hamann et al. 2010). Os principais fatores ligados ao desenvolvimento costeiro desordenado e que causam um impacto negativo nas populações de tartarugas marinhas são: movimentação da areia da praia (extração de areia e aterros); fotopoluição; tráfego de veículos; presença humana nas praias; portos, ancoradouros e molhes; ocupação da orla (hotéis e condomínios); e a exploração (produção e distribuição) de óleo e gás. Segundo Poloczanska et al. (2009), as tartarugas marinhas são geralmente vistas como vulneráveis às alterações climáticas devido ao papel que a temperatura desempenha na determinação do sexo dos embriões. O aumento da temperatura na ordem de 2 ° C pode causar a feminização de toda uma população. Além disto, por se tratar de espécies de natureza altamente migratórias, mudanças de disponibilidade de recursos alimentares, de circulação de correntes marinhas e ventos podem comprometer seu ciclo de vida longo e complexo. Existem diferentes formas de poluição que constituem uma ameaça para os habitats marinhos e terrestres das tartarugas marinhas que incluem som, temperatura, luz, plásticos, produtos químicos, efluentes e outros. De um modo geral, a poluição de qualquer tipo ocorrendo acima de um certo limiar, pode produzir uma área inabitável. Em níveis abaixos desse limiar, pode significativamente degradar a qualidade do habitat, a capacidade de carga e outros aspectos da função do ecossistema (Hamann et al. 2010). O alto índice de ocorrência de híbridos de Caretta caretta e Eretmochelys imbricata na Bahia (Lara- Ruiz et al. 2006), podem significar uma ameaça. No entanto não são compreendidas as causas e implicações deste fato e seu impacto na diversidade genética, taxonomia e conservação destas espécies (Lara-Ruiz et al. 2006, Reis et al. 2010), sendo necessário um estudo a longo prazo dos possíveis efeitos desse fenômeno na viabilidade dessas populações. Atualmente há baixos índices de coleta de ovos (menos de 2% dos ninhos a cada ano) (Banco de dados TAMAR/SITAMAR). Ações de Conservação A espécie é totalmente protegida por instrumentos legais nacionais (Anexo 01), que proíbem todo e qualquer tipo de uso direto além de prever medidas de proteção das áreas de desova. O táxon também faz parte do Anexo I do CITES do qual o Brasil é signatário. O país também participa da Convenção Interamericana para Conservação e Proteção das Tartarugas Marinhas (IAC). Número 1, pág. 25Eretmochelys imbricata Biodiversidade Brasileira (2011) Ano I, Nº 1, 20-27 Ao longo da costa, há Unidades de Conservação que abrangem a área de ocorrência da espécie, sendo: Parque Estadual (PE) Marinho do Parcel do Manuel Luís (MA); Reserva Biológica (REBIO) do Atol das Rocas e Área d Proteção Ambiental (APA) Estadual Bonfim-Guaraíras (RN); REBIO de Santa Isabel e APA Estadual do Litoral Sul (SE); APA de Piaçabuçu (AL); APA de Fernando de Noronha – Rocas São Pedro e São Paulo, Parque Nacional (PARNA) de Fernando de Noronha e APA Costa dos Corais (PE); PARNA Marinho dos Abrolhos, APA Rio Capivara, APA Lagoas de Guarajuba, APA Litoral Norte, APA de Mangue Seco, APA Ponta da Baleia/Abrolhos, APA da Plataforma Continental do Litoral Norte (BA); REBIO de Comboios, PE de Itaúnas e APA Municipal da Praia de Guanabara – Anchieta (ES); Estação Ecológica (ESEC) Tupinambás e Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE) de Queimada Grande e Queimada Pequena (SP); REBIO da Ilha do Arvoredo (SC). Para a conservação da espécie, considera-se fundamental: • Dar continuidade às atividades de educação ambiental, sensibilização pública e desenvolvimento local, incluindo geração de emprego e renda, junto às comunidades costeiras onde a espécie ocorre; • Manter o monitoramento das áreas de desova, garantindo a proteção dos ninhos in situ, filhotes e fêmeas; • Manter e incrementar as atividades de pesquisa a longo prazo para avaliar as tendências das populações (crescimento, estabilidade, diminuição); • Identificar as áreas de alimentação e implementar ações de conservação, manejo e pesquisa de longa duração; • Desenvolver e implementar tecnologia para minimizar impactos antropogênicos; • Dar continuidade ao “Programa Interação Tartarugas e Pesca” para redução das capturas incidentais, com ênfase em: • Estimular a gestão participativa nas comunidades pesqueiras para busca de soluções e alternativas e de ordenamento; • Realizar levantamento sobre a interação com as pescarias costeiras; • Manter e incrementar a marcação de adultos e juvenis, para determinação das áreas de uso e deslocamento e biologia reprodutiva; • Dar continuidade aos estudos genéticos para determinação das populações (áreas de alimentação e desova); • Fomentar a criação, implantação e gestão de Unidades de Conservação litorâneas e marinhas; • Desenvolver e implementar medidas mitigadoras e compensatórias, nas três esferas de licenciamento, para os empreendimentos desenvolvidos na área de ocorrência do táxon; Referências Bibliográficas Bass, A.L. 1999. 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Santos; Claudio Bellini; Alexsandro Santana dos Santos & Milagros Lopez Biodiversidade Brasileira, 2011, 1(1): 26-34. Número temático: Avaliação do Estado de Conservação das Tartarugas Marinhas no Brasil Participantes da oficina de avaliação dos dados: • Alexsandro Santana dos Santos – Fundação Protamar • Jaqueline Comin de Castilhos – Fundação Protamar • Amely Branquinho Martins – CPB/ICMBio • Luciano Soares – Fundação Protamar • Antônio de Pádua Almeida – TAMAR/ICMbio • Maria Ângela Marcovaldi – TAMAR/ICMBio • Armando Barsante – Fundação Protamar • Monica Brick Peres – COABIO/ICMBio • Danielle Monteiro – NEMA • Paulo Barata – Pesquisador – FIOCRUZ • Gustavo D. Stahelin – Fundação Protamar • Yeda Bataus – RAN/ICMBio Local e data da oficina: Praia do Forte, BA, em 22 de setembro de 2009. Fotos: TAMAR/ICMBio – Mapa: Rodrigo Ranulpho – Diagramação: Denys Márcio de Sousa Número 1, pág. 28 Instituto Chico Mendes de Conservção da Biodiversidade Número Temático: Avaliação do Estado de Conservação das Tartarugas Marinhas Apresentação e Justificativa de Categorização O estado de conservação da tartaruga marinha Lepidochelys olivacea (Eschscholtz, 1829) (Cheloniidae) foi avaliado de acordo com os critérios da IUCN (2001), com base nos dados disponíveis até 2009. Síntese do processo de avaliação pode ser encontrada em Peres et al., neste número. A categoria proposta para o táxon é “Em perigo (EN)” segundo o critério A2abcde, ou seja, ameaçado, de acordo com informações sobre redução da população. Lepidochelys olivacea tem distribuição circunglobal. A área prioritária de desova desta espécie no Brasil está localizada entre o litoral sul do estado de Alagoas e o litoral norte da Bahia com maior densidade de desovas no estado de Sergipe. Juvenis e adultos ocorrem em áreas costeiras e oceânicas desde o Rio Grande do Sul até o Pará, e em águas internacionais adjacentes à zona econômica exclusiva do Brasil. Este táxon é altamente migratório. As fêmeas migram das áreasde alimentação e descanso para as áreas de reprodução, em deslocamentos que podem chegar a mais de 1500 km. São carnívoros durante todo o ciclo de vida. A principal ameaça para L.olivacea no passado foi a coleta de ovos e o abate de fêmeas, o que não acontece mais nas áreas prioritárias de reprodução. Desde a implantação do Projeto TAMAR/ICMBio em 1982, o desenvolvimento e a ocupação desordenada da zona costeira e a pesca artesanal e industrial aumentaram vertiginosamente – principalmente nos últimos 10-15 anos. As tartarugas-marinhas são capturadas incidentalmente em praticamente todas as pescarias no Brasil, destacando-se a alta mortalidade de fêmeas adultas que ocorre no entorno das áreas de reprodução. Não existem dados quantitativos comprovados da abundância deste táxon para o período anterior ao levantamento realizado pelo TAMAR entre 1980-82, onde está registrada a interrupção do ciclo de vida desses animais em várias áreas visitadas, devido a um longo histórico de coleta de praticamente todos os ovos e abate de quase todas as fêmeas. Historicamente, a abundância destas populações era enorme. A falta de perspectiva adequada para quantificação ou o uso de uma linha imaginária de dados iniciais de abundância para o Filo: Chordata Classe: Reptilia Ordem: Testudines Família: Cheloniidae Nome popular Tartaruga-oliva; tartaruga- pequena; tartaruga-comum; xibirro (português / Brasil); tortuga lora; tortuga golfina; tortuga olivácea (espanhol); tortue olivâtre (francês); olive ridley (inglês) Jaqueline Comin de Castilhos1; César Augusto Coelho2; Jamyle Freitas Argolo1, Erik Allan Pinheiro dos Santos2; Maria Ângela Marcovaldi2; Alexsandro Santana dos Santos1 & Milagros Lopez1 Estado de Conservação Em Perigo (EN) A2abcde Submetido em: 24 / 02 / 2010 Versão reformulada enviada em: 10 / 01 / 2011 Aceito em: 27 / 01 / 2011 Avaliação do Estado de Conservação da Tartaruga Marinha Lepidochelys olivacea (Eschscholtz, 1829) no Brasil Afiliação 1 Fundação Protamar – Rua Rubens Guelli, 134 – sl. 307 – Ed. Empresarial Itaigara – CEP 41815-135 – Salvador/BA 2 Centro Nacional de Conservação e Manejo de Tartarugas Marinhas – TAMAR/ICMBio – Caixa Postal 2219 – Rio Vermelho – CEP 41950-970 – Salvador/BA alex@tamar.org.br Número 1, pág. 29Lepidochelys olivacea Biodiversidade Brasileira (2011) Ano I, Nº 1, 28-36 estudo de tendência populacional podem levar a uma interpretação errônea destas análises. A síndrome da mudança de referencial ou “shifting baseline syndrome” é conhecida como o uso de dados de tamanho da população que correspondem ao início das atividades dos pesquisadores e não da sua real abundância no passado, levando potencialmente a subestimativas da redução populacional (Bjorndal 1999). Considera-se que o índice de abundância populacional mais adequado para as tartarugas-marinhas seja o número de ninhos em cada temporada. Desta forma, o aumento no número de ninhos observado nos últimos anos representa um indício de aumento no tamanho populacional. No entanto, apesar de promissora, acredita-se que essa recuperação é insignificante em relação ao tamanho populacional no passado. A espécie apresenta ciclo de vida longo. Estudo mostra para que para o Oceano Pacífico, esta espécie atinge a maturidade sexual entre 10 e 18 anos, o que permite a estimativa de tempo geracional em 20 anos. Porém, para outras regiões não se conhece o período de tempo referente a uma geração, mas é provável que três gerações não ultrapassem 100 anos. Adicionalmente, características da estratégia de vida das tartarugas marinhas como a maturação tardia e ciclo de vida longo tornam a recuperação muito lenta. É possível que os números de desovas observados até o presente não se mantenham no futuro, devido à ação das atuais ameaças sobre o estoque de juvenis a serem recrutados para a população reprodutiva. Além disso, os estudos de tendência de população não cobrem um tempo geracional para este táxon (estimado entre 15 e 36 anos). Portanto, a recuperação do número de adultos ou do tamanho populacional observado só poderá ser considerada consistente quando a série histórica de dados for mais longa, incluindo várias décadas. As informações coletadas no levantamento inicial do TAMAR sugerem um potencial de área de desova e abundância nas áreas remanescentes maior do que a encontrada, indicando desaparecimento de desovas em várias destas áreas e, nas remanescentes, o declínio acentuado das populações. O TAMAR iniciou suas atividades apenas nas áreas remanescentes com concentração ainda significativa de desova. Estudos genéticos comprovam a ocorrência de híbridos: existe alta proporção de hibridismo entre tartarugas da espécie Caretta caretta e Lepidochelys olivacea, não sendo ainda entendidas as causas e implicações deste fato, e seu impacto na diversidade genética e identificação destas espécies. A ocorrência de hibridização interespecífica pode acarretar sérias conseqüências para as espécies envolvidas e é de suma importância para sua conservação. Mantém-se a categoria EN, pois além da população brasileira estar isolada, a principal área de ocorrência reprodutiva atual (sul de Alagoas ao norte da Bahia) é bastante reduzida quando comparada à sua área de ocorrência no passado. A morte de fêmeas reprodutivas em frente às praias de desova também contribui para esta categorização. Não há possibilidade de migração de adultos de outras regiões para o Brasil: as tartarugas marinhas são conhecidas por sua alta filopatria (homing), – capacidade das fêmeas de voltarem para se reproduzir na praia onde nasceram, tornando praticamente impossível a recolonização das praias por fêmeas oriundas de outras populações. Distribuição Geográfica Lepidochelys olivacea tem distribuição circunglobal (Abreu-Grobois & Plotkin 2008). No Brasil, a área prioritária de reprodução do táxon está localizada entre o litoral sul do estado de Alagoas e o litoral norte da Bahia com maior densidade de desovas no estado de Sergipe (Marcovaldi & Marcovaldi 1999, Castilhos & Tiwari 2006, Silva et al. 2007). Ocorrências reprodutivas, em muito menor densidade, também são registradas no estado do Espírito Santo. Desovas ocasionais já foram registradas nos estados do Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte (TAMAR 2009) e Ceará (Lima et al. 2003). O táxon está presente nas áreas costeiras e oceânicas. Há registros de captura incidental na pesca oceânica do Norte/Nordeste e Sul/Sudeste do Brasil, com capturas se estendendo para águas internacionais adjacentes (Sales et al. 2008). Na pesca costeira, registros foram realizados nos estados do Ceará, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, assim como registros de encalhes de animais vivos e mortos nas praias dos estados do Rio Grande do Norte, São Paulo (TAMAR 2009), Paraná (D´Amato 1992), Santa Catarina (Marcovaldi et al. 2000), Rio Grande do Sul, no extremo sul do Brasil (Soto & Beheregaray 1997, Pinedo et al. 1998, Monteiro 2004). Os estudos de telemetria apontaram deslocamentos costeiros desde o Espírito Santo até o Pará, além de migrações para regiões equatoriais do Atlântico (Marcovaldi et al. 2008) (Figura 1). Figura 1 – Distribuição geográfica da tartaruga marinha Lepidochelys olivacea (Eschscholtz, 1829) no Brasil. Fonte: Banco de dados do TAMAR / SISTAMAR. Número 1, pág. 31Lepidochelys olivacea Biodiversidade Brasileira (2011) Ano I, Nº 1, 28-36 População O censo de tartarugas marinhas é normalmente feito em praias de desova por causa da dificuldade em se levantar números de indivíduos nas áreas de alimentação. O número total de ninhos registrados a cada temporada reprodutiva é comumente adotado como índice de abundância (Meylan 1995). Não existem dados quantitativos comprovados da abundância deste táxon para o período anterior à implantação do Projeto TAMAR/ICMBio nas áreas principais de desova em 1982. O levantamento inicial realizado através de entrevistas com os pescadores aolongo do litoral entre os anos de 1980 e 1982 constatou um histórico muito longo de exploração/uso direto. O depoimento mais freqüente descrevia um número de tartarugas muito maior, coleta de praticamente todos os ovos e matança de quase todas as fêmeas (Marcovaldi & Marcovaldi, 1999). Relatos em algumas comunidades litorâneas nos primeiros anos de atuação do Projeto TAMAR/ICMBio indicavam que muitos moradores jamais tinham visto um filhote de tartaruga marinha (Marcovaldi & Albuquerque 1983). Desde 1982, um programa de monitoramento das praias e o registro das ocorrências reprodutivas foi estabelecido nas principais áreas de reprodução da espécie. Um crescimento de quase 10 vezes no número de desovas foi observado mediante análise dos dados coletados em Sergipe e Bahia entre 1991/1992 (252 desovas) e 2002/2003 (2602 desovas) (Silva et al. 2007). Na última temporada reprodutiva de 2008/2009, 6492 desovas foram registradas nas bases monitoradas pelo Projeto TAMAR/ICMBio: 77% das desovas foram registradas no estado de Sergipe, 22,4% das desovas registradas no estado da Bahia e 0,6% das desovas registradas nos estados do Espírito Santo (TAMAR 2009). As capturas incidentais de tartarugas olivas ocorrem em praticamente toda a costa do Brasil e na zona oceânica, sendo que as pescas de arrasto de camarão e espinhel pelágico representam as maiores ameaças, com capturas de adultos e juvenis (Sales et al. 2008, TAMAR 2009). Entre setembro de 2005 e março de 2009, 760 tartarugas mortas foram registradas nas principais áreas de desova deste táxon. Das tartarugas mortas com espécie identificada (n=639), as olivas totalizaram 53,4% dos registros. Resultados das análises de fêmeas grávidas (com presença de ovos em formação) encontradas mortas nas praias de desova confirmam a perda de animais reprodutivamente ativos (Castilhos & Tiwari 2006). Estes dados evidenciam a susceptibilidade do táxon à captura nas pescarias costeiras (redes de arrasto de camarão e emalhe) (Silva et al. 2010, TAMAR 2009). Para o período de agosto de 2009 a julho de 2010, foram registrados 326 animais desta espécie encalhados mortos nas praias de Sergipe e região sul de Alagoas, sendo que destes, 275 animais tinham biometria de adulto, permitindo identificar que a grande maioria era composta de fêmeas adultas, muitas delas com ovos em formação no interior (TAMAR 2009), como observado anteriormente por Castilhos & Tiwari (2006). O registro de animais adultos encalhados mortos nas praias de desova, com presença de camarão no trato digestório indica uma possível interação com pescaria costeira de arrasto de camarão local (TAMAR 2009). Registros de captura nas pescarias oceânicas (espinhel) (Sales et al. 2008), apontam para a vulnerabilidade deste táxon durante deslocamentos pós reprodutivos (Silva et al. em prep). Por serem animais de ciclo de vida longo, é impossível se prever quando está ameaça se refletirá em declínio populacional. O Grupo de Especialistas de Tartarugas Marinhas (MTSG) da UICN, baseado em resultados de genética molecular, áreas de reprodução, resultados de marcação e recaptura, satélite telemetria, bem como aspectos da historia natural e biogeografia, definiu Unidades de Manejo Regional para L. olivacea (Wallace et al. 2010). Segundo Wallace 2010, Unidades de Manejo Regionais referem-se às áreas ocupadas por populações funcionalmente independentes, possuidoras de processos demográficos distintos. O Brasil (praias, plataforma costeira e Zona Econômica Exclusiva) pertence à unidade de manejo do Atlântico Oeste. Outras Informações Ecológicas As tartarugas marinhas apresentam maturação tardia e ciclo de vida longo, podendo demorar da ordem de 15 a 40 anos, dependendo da espécie, para a maturidade sexual (Meylan & Donnelly 1999). Para a Lepidochelys olivacea, existe estimativa de 13 anos para o tempo mediano de maturação sexual no Pacífico, o que resulta num tempo geracional estimado de 20 anos, o que não é conhecido para outras Número 1, pág. 32 Instituto Chico Mendes de Conservção da Biodiversidade Número Temático: Avaliação do Estado de Conservação das Tartarugas Marinhas populações do mundo (Zug et al. 2006). Mesmo assim, não acredita-se que 3 gerações do táxon ultrapassem os 100 anos. A Lepidochelys olivacea, assim como as demais tartarugas marinhas, possuem um complexo ciclo de vida e utilizam uma grande área geográfica e múltiplos habitats (Abreu-Grobois & Plotkin 2008, Márquez 1990). As fêmeas desovam em praias, das quais os filhotes eclodem e seguem ao mar para continuarem o desenvolvimento. Embora o habitat dos filhotes recém-eclodidos não seja conhecido, é possível que permaneçam numa fase pelágica, flutuando ao sabor das correntes marinhas que podem levá-los para longe da praia natal (Kopitsky et al. 2000). Algumas populações de Lepidochelys olivacea apresentam comportamento reprodutivo distinto. As fêmeas podem emergir em massa e de forma sincronizada, comportamento denominado de arribada (termo em espanhol) ou podem emergir solitariamente, sozinhas ou em pequenos grupos, mas não de forma sincronizada (Kalb 1999). As maiores arribadas ocorrem em poucas praias no mundo como em: Rushikulya (India), Playa Escobilla (México) e Ostional (Costa Rica), enquanto que as desovas solitárias apresentam ampla distribuição (Bernardo & Plotkin 2007). No Brasil, a temporada reprodutiva deste táxon inicia-se em setembro e prossegue até março (Silva et al. 2007), sendo que as fêmeas desovam 1, 2 ou 3 vezes a cada temporada reprodutiva e apresentam intervalo internidal de 22,5 ± 7,1 dias (média ± DP; n= 132) (Matos et al. 2008, Matos 2009). Os juvenis compartilham algumas áreas utilizadas pelos adultos (Kopitsky et al., 2000) até a maturidade sexual ser atingida (Musick & Limpus 1997). Machos e fêmeas ativos e em fase de reprodução migram para zonas costeiras e se concentram próximos às praias de desova. Contudo, alguns machos aparentemente permanecem em águas oceânicas e acasalam com as fêmeas em rotas para as praias de desovas (Plotkin 1994, Plotkin et al. 1995, Kopitsky et al. 2000). O movimento pós migratório é complexo, com rotas que variam anualmente e que podem cobrir centenas a milhares de quilômetros (Morreale et al. 2007), preferencialmente em regiões do oceano com temperaturas acima de 20º C (Márquez 1990). Estudos recentes de telemetria mostram que a maioria dos animais monitorados deslocou-se dentro da plataforma continental, desde o Espírito Santo até o Pará, em profundidades de 8 a 30 m, além de migrações para regiões equatoriais do Atlântico (Marcovaldi et al. 2008). A determinação sexual nas tartarugas marinhas depende da temperatura na qual os ovos são incubados – temperaturas mais altas produzem fêmeas e mais baixas, machos (Marcovaldi et al. 1997). A determinação sexual nas tartarugas marinhas depende da temperatura na qual em que os ovos são incubados – temperaturas mais altas produzem fêmeas e mais baixas, machos (Marcovaldi et al. 1997). Para essa espécie a temperatura pivotal (na qual são produzidos 50 % de filhotes machos e 50% de filhotes fêmeas) no Brasil não é conhecida. Ameaças A captura incidental em atividades de pesca representa uma das principais ameaças a este táxon, principalmente redes de arrasto empregadas na pesca de camarão no entorno das praias de desova em Sergipe (Silva et al. 2010). Destaca-se que as informações obtidas através da telemetria mostram uma sobreposição com áreas conhecidas para diferentes pescarias ao longo de todo o deslocamento pós reprodutivo (Silva et al. em prep.). Há registros de captura incidental nas pescarias oceânicas (longline ou espinhel de superfície) do norte/Nordeste e sul/sudeste do Brasil com capturas se estendendo para águas internacionais adjacentes (Domingo et al. 2006; Coluchi 2006, Sales et al. 2008). O impacto humano sobre os habitats das tartarugas marinhas é reconhecido há décadas (Lutcavage et al. 1997), com os esforços para mitigação concentrados noambiente terrestre. Apesar de progressos feitos na proteção e recuperação de ecossistemas marinhos em algumas áreas, impactos antropogênicos diretos ou indiretos continuam a ocorrer (Hamann et al. 2010). Atualmente são baixos os índices de coleta de ovos (menos de 2% dos ninhos a cada ano ) (TAMAR 2009). Os principais fatores ligados ao desenvolvimento costeiro desordenado e que causam um impacto negativo nas populações de tartarugas marinhas são: movimentação da areia da praia (extração de areia e aterros); fotopoluição; tráfego de veículos; presença humana nas praias; portos, ancoradouros e molhes; ocupação da orla (hotéis e condomínios); e a exploração (produção e distribuição) de óleo e gás. Número 1, pág. 33Lepidochelys olivacea Biodiversidade Brasileira (2011) Ano I, Nº 1, 28-36 Segundo Poloczanska et al. (2009), as tartarugas marinhas são geralmente vistas como vulneráveis às alterações climáticas devido ao papel que a temperatura desempenha na determinação do sexo dos embriões. O aumento da temperatura na ordem de 2° C pode causar a feminização de toda uma população. Além disto, por se tratar de espécies de natureza altamente migratórias, mudanças de disponibilidade de recursos alimentares, de circulação de correntes marinhas e ventos podem comprometer seu ciclo de vida longo e complexo. Existem diferentes formas de poluição que constituem uma ameaça para os habitats marinhos e terrestres das tartarugas marinhas que incluem som, temperatura, luz, plásticos, produtos químicos, efluentes e outros. De um modo geral, a poluição de qualquer tipo ocorrendo acima de um certo limiar, pode produzir uma área inabitável. Em níveis abaixos desse limiar, pode significativamente degradar a qualidade do habitat, a capacidade de carga e outros aspectos da função do ecossistema (Hamann et al. 2010). O alto índice de ocorrência de híbridos de Caretta caretta com Lepidochelys olivacea em Sergipe (Reis et al. 2010, Reis 2008), podem significar uma ameaça. No entanto não são compreendidas as causas e implicações deste fato e seu impacto na diversidade genética, taxonomia e conservação destas espécies. Ações de Conservação A espécie é totalmente protegida por instrumentos legais nacionais (Anexo 01), que proíbem todo e qualquer tipo de uso direto, além de prever medidas de proteção das áreas de desova. O táxon também faz parte do Anexo I do CITES do qual o Brasil é signatário. O país também participa da Convenção Interamericana para Conservação e Proteção das Tartarugas Marinhas (IAC). No Brasil a Lepidochelys olivacea está protegida nas áreas costeiras e oceânicas nas seguintes Unidades da Federaração e Unidades de Conservação: Rio Grande do Norte – Reserva Biológica (REBIO) do Atol das Rocas, Área de Proteção Ambiental (APA) Estadual dos Recifes de Coral; Pernambuco – Parque Nacional (PARNA) Marinho de Fernando de Noronha; Alagoas – APA de Piaçabuçu, APA da Costa dos Corais (entre o litoral Sul pernambucano e Norte alagoano); Sergipe – REBIO de Santa Isabel, APA Estadual do litoral Norte e Litoral Sul; Bahia – APA Estadual Litoral Norte, APA Estadual da Plataforma Continental do Litoral Norte, Reserva Extrativista (RESEX) Marinha de Corumbau, PARNA Marinho de Abrolhos); Espírito Santo – REBIO de Comboios/ES. Para a conservação da espécie, considera-se fundamental: • Dar continuidade às atividades de educação ambiental, sensibilização pública e desenvolvimento local, incluindo geração de emprego e renda, junto às comunidades costeiras onde a espécie ocorre; • Manter o monitoramento das áreas de desova, garantindo a proteção dos ninhos in situ, filhotes e fêmeas; • Manter e incrementar as atividades de pesquisa a longo prazo para avaliar as tendências das populações (crescimento, estabilidade, diminuição); • Identificar as áreas de alimentação e implementar ações de conservação, manejo e pesquisa de longa duração; • Desenvolver e implementar tecnologia para minimizar impactos antropogênicos; • Dar continuidade ao “Programa Interação Tartarugas e Pesca” para redução das capturas incidentais, com ênfase em: • Estimular a gestão participativa nas comunidades pesqueiras para busca de soluções e alternativas de ordenamento; • Realizar levantamento sobre a interação com as pescarias costeiras; • Promover a revisão da legislação que obriga o uso do Dispositivo Excluidor de Tartarugas – TED. • Manter e incrementar a marcação de adultos e juvenis, para determinação das áreas de uso e deslocamento e biologia reprodutiva; Número 1, pág. 34 Instituto Chico Mendes de Conservção da Biodiversidade Número Temático: Avaliação do Estado de Conservação das Tartarugas Marinhas • Dar continuidade aos estudos genéticos para determinação das populações (áreas de alimentação e desova); • Fomentar a criação, implantação e gestão de Unidades de Conservação litorâneas e marinhas; • Desenvolver e implementar medidas mitigadoras e compensatórias, nas três esferas de licenciamento, para os empreendimentos desenvolvidos na área de ocorrência do táxon. 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Número temático: Avaliação do Estado de Conservação das Tartarugas Marinhas no Brasil Participantes da oficina de avaliação dos dados: • Alexsandro Santana dos Santos – Fundação Protamar • Jaqueline Comin de Castilhos – Fundação Protamar • Amely Branquinho Martins – CPB/ICMBio • Luciano Soares – Fundação Protamar • Antônio de Pádua Almeida – TAMAR/ICMbio • Maria Ângela Marcovaldi – TAMAR/ICMBio • Armando Barsante – Fundação Protamar • Monica Brick Peres – COABIO/ICMBio • Danielle Monteiro – NEMA • Paulo Barata – Pesquisador – FIOCRUZ • Gustavo D. Stahelin – Fundação Protamar • Yeda Bataus – RAN/ICMBio Local e data da oficina: Praia do Forte, BA, em 22 de setembro de 2009. Fotos: TAMAR/ICMBio – Mapa: Rodrigo Ranulpho – Diagramação: Denys Márcio de Sousa Wallace, B.P.; Dimatteo, A.D.; Hurley, B.J.; Finkbeiner, E.M.; Bolten, A.B.; Chaloupka, M.Y.; Hutchinson, B.J.; Abreu- Grobois, F.A.; Amorocho, D.; Bjorndal, K.A.; Bourjea, J.; Bowen, B.W.; Dueñas, R.B.; Casale, P.; Choydhury, B.C.; Costa, A.; Dutton, P.H.; Fallabrino, A.; Girard, A.; Girondont, M.; Godfrey, M.H.; Hamann, M.; López-Mendilaharsu, M.; Marcovaldi, M.A.; Mortimer, J.A.; Musick, J.A.; Nel, R.; Pilcher, N.J.; Seminoff, J.A.; Troëng, S.; Witherington, B. & Mast, R.B. 2010. Regional management units for marine turtles: a novel framework for prioritizing conservation and research acrossmultiple scales. PLoS ONE, 5(12): 1-11. Zug, G.R. ;Chaloupka, M. & Balazs, G.H. 2006. Age and growth in olive ridley sea turtles (Lepidochelys olivacea) from the North-central Pacific: a skeletochnological analysis. Marine Ecology, 27: 263-270. Número 1, pág. 37Dermochelys coriacea Biodiversidade Brasileira (2011) Ano I, Nº 1, 37-44 Apresentação e Justificativa de Categorização O estado de conservação da tartaruga marinha Dermochelys coriacea (Vandelli 1761) (Dermochelyidae) foi avaliado de acordo com os critérios da IUCN (2001), com base nos dados disponíveis até 2009. Síntese do processo de avaliação pode ser encontrada em Peres et al., neste número. A categoria proposta para o táxon é “Criticamente em Perigo (CR)” segundo o critério A2ab, ou seja, ameaçado, de acordo com informações sobre redução da população. A espécie Dermochelys coriacea é cosmopolita, ocorrendo nos oceanos tropicais e temperados de todo o mundo, chegando próximo de águas sub-árticas. Vive usualmente na zona oceânica durante a maior parte da vida. A única área regular de desova conhecida no Brasil situa-se no litoral norte do Espírito Santo. A espécie apresenta ciclo de vida longo com maturação sexual entre 24,5 e 29 anos, valor estimado para a população que desova no Atlântico norte. É uma espécie altamente migratória. As fêmeas migram das áreas de alimentação e descanso para as áreas de reprodução, em deslocamentos que podem chegar até mais de 4.000 km. São carnívoros, alimentando-se de zooplâncton gelatinoso, como celenterados, pyrossomos e salpas durante todo o ciclo de vida. A principal ameaça para D. coriacea no passado foi a coleta de ovos e o abate de fêmeas, o que não acontece mais nas áreas principais de reprodução. Desde a implantação do Projeto TAMAR/ICMBio em 1982, quando as desovas em numerosas praias passaram a estar protegidas, o desenvolvimento e a ocupação desordenada da zona costeira e a pesca artesanal e industrial aumentaram vertiginosamente – principalmente nos últimos 10-15 anos. As tartarugas-marinhas são capturadas incidentalmente em praticamente todas as pescarias no Brasil, com destaque para a alta mortalidade em rede de emalhe de deriva. Não existem dados quantitativos comprovados da abundância deste táxon para o período anterior ao levantamento realizado pelo TAMAR entre 1980-82, onde está registrada a interrupção do ciclo de vida desses animais em várias áreas visitadas, devido a um longo histórico de coleta de praticamente todos os ovos e abate de quase todas as fêmeas. Historicamente, a abundância destas populações era Filo: Chordata Classe: Reptilia Ordem: Testudines Família: Dermochelyidae Nome popular Tartaruga-gigante, tartaruga- de-couro, careba-mole, careba- gigante, tartaruga-de-leste, tartaruga-preta, tartaruga- de-cerro, tartaruga-de-quilha (português); tortuga baula, tortuga laúd, tortuga siete quillas (espanhol); tortue luth (francês); leatherback (inglês) Antônio de Pádua Almeida 1; João Carlos Alciati Thomé2; Cecilia Baptistotte2; Maria Angela Marcovaldi2; Alexsandro Santana dos Santos3; Milagros Lopez3 Estado de Conservação Criticamente em perigo (CR) A2ab Submetido em: 24 / 02 / 2010 Versão reformulada enviada em: 10 / 01 / 2011 Aceito em: 27 / 01 / 2011 Avaliação do Estado de Conservação da Tartaruga Marinha Dermochelys coriacea (Vandelli, 1761) no Brasil Afiliação 1 Reserva Biológica de Comboios/ ICMBio, Rodovia ES 440, Km 47 – Regência – Linhares/ES 2 Centro Nacional de Conservação e Manejo de Tartarugas Marinhas – TAMAR/ICMBio – Caixa Postal 2219 – Rio Vermelho – CEP 41950-970 – Salvador/BA 3 Fundação Protamar – Rua Rubens Guelli, 134 – sl. 307 – Ed. Empresarial Itaigara – CEP 41815-135 – Salvador/BA alex@tamar.org.br Número 1, pág. 38 Instituto Chico Mendes de Conservção da Biodiversidade Número Temático: Avaliação do Estado de Conservação das Tartarugas Marinhas enorme. A falta de perspectiva adequada para quantificação ou o uso de uma linha imaginaria de dados iniciais de abundância para o estudo de tendência populacional podem levar a uma interpretação errônea dos dados. Síndrome da mudança de referencial (“shifting baseline syndrome”) é como se conhece o uso de dados de tamanho da população que correspondem ao início das atividades dos pesquisadores e não da sua real abundância no passado (Bjorndal 1999). Características da estratégia de vida das tartarugas marinhas, como a maturação tardia e ciclo de vida longo, tornam a recuperação populacional muito lenta. É possível que os números de desovas observados até o presente não se mantenham no futuro, devido à ação das atuais ameaças sobre o estoque de juvenis a serem recrutados para a população reprodutiva. Além disso, os estudos de tendência de população não cobrem ainda um tempo geracional para este táxon. As informações coletadas no levantamento inicial do TAMAR sugerem que o potencial de áreas de desova e de abundância nas áreas remanescentes seja maior do que a encontrada, sugerindo desaparecimento de desovas em várias destas áreas e, nas remanescentes, o declínio acentuado das populações. O TAMAR iniciou suas atividades apenas nas áreas remanescentes com concentração ainda significativa de desova. Mantém-se a categoria CR, pois a população brasileira está isolada. Não há possibilidade de migração de adultos de outras regiões para o Brasil: as tartarugas marinhas são conhecidas por sua alta filopatria (homing) – capacidade das fêmeas de voltarem para se reproduzir na praia onde nasceram, tornando praticamente impossível a recolonização das praias por fêmeas oriundas de outras populações. Também possui um número muito baixo de fêmeas (estimada entre 1 e 19) desovando a cada temporada reprodutiva e área de ocorrência reprodutiva prioritária atual restrita somente ao norte do Espírito Santo. Distribuição Geográfica A área conhecida com desovas regulares de D. coriacea situa-se no litoral norte do Espírito Santo, com relatos de desovas ocasionais no Rio Grande do Norte, Bahia, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Rio Grande do Sul (Soto et al. 1997, Barata & Fabiano 2002). Há registros de ocorrências reprodutivas no Piauí (Loebmann et al. 2008). Existem registros de ocorrências de encalhes nos Estados do Maranhão (Santana et al. 2007), Pará (Cunha 1975, Figueiredo et al. 2008); Ceará (Lima & Evangelista 1997, Barata et al. 2004), Rio Grande do Norte (Sanches et al. 1999), Bahia (Barata et al. 2004), Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná (D’Amato 1991) e Rio Grande do Sul (Pinedo et al. 1998). Fêmeas de D. coriacea marcadas no Gabão foram recapturadas ou encontradas mortas no Brasil e na Argentina, confirmando a primeira evidência de migração transatlântica de tartarugas que desovam no Atlântico leste para o Atlântico oeste (Billes et al. 2006). Registros de captura incidental na pesca oceânica estão disponíveis para as costas Nordeste Sudeste e Sul, entre as latitudes 10°N e 35°N (Pinedo & Polacheck 2004, Giffoni et al. 2008, Sales et al. 2008). Ver Figura 1. População Para as tartarugas marinhas o número de ninhos é adotado como índice de abundância populacional (Meylan 1995). Não existem dados quantitativos comprovados da abundância deste táxon para o período anterior à implantação do Projeto TAMAR/ICMBio nas áreas principais de desova em 1982. O levantamento inicial realizado através de entrevistas com os pescadores ao longo do litoral entre os anos de 1980 e 1982 constatou um histórico muito longo de exploração/uso direto. O depoimento mais freqüente descrevia um número de tartarugas muito maior, coleta de praticamente todos os ovos e matança de quase todas as fêmeas (Marcovaldi & Marcovaldi 1999). Relatos em algumas comunidades litorâneas nos primeiros anos de atuação do Projeto TAMAR-ICMBio indicavam que muitos moradores jamais tinham visto um filhote de tartaruga marinha (Marcovaldi & Albuquerque 1983). A população que desova no litoral norte do Espírito Santo é extremamentereduzida (6 a 92 ninhos por ano entre 1988-1989 e 2003-2004; 1 a 19 fêmeas por ano, considerando uma média de 5 ninhos por fêmea; Thomé et al. 2007, Banco de dados do Projeto TAMAR/SITAMAR). Figura 1 – Distribuição geográfica da tartaruga marinha Dermochelys coriacea (Vandelli, 1761) no Brasil. Fonte: Banco de dados do TAMAR / SISTAMAR. Número 1, pág. 40 Instituto Chico Mendes de Conservção da Biodiversidade Número Temático: Avaliação do Estado de Conservação das Tartarugas Marinhas A população do Espírito Santo representa uma unidade genética distinta das demais populações conhecidas do Atlântico (Turtle Expert Working Group 2007; Vargas et al. 2008). O Grupo de Especialistas de Tartarugas Marinhas (MTSG) da UICN, baseado em resultados de genética molecular, áreas de reprodução, resultados de marcação e recaptura, satélite telemetria, bem como aspectos da historia natural e biogeografia, definiu Unidades de Manejo Regional para D. coriacea. Unidades de Manejo Regionais referem-se às áreas ocupadas por populações funcionalmente independentes, com processos processos demográficos distintos (Wallace, 2010). O Brasil (incluindo praias, plataforma costeira e Zona Econômica Exclusiva) pertence à unidade de manejo do Atlântico Sul (Sudoeste e Sudeste). Outras Informações Ecológicas As tartarugas marinhas apresentam maturação tardia e ciclo de vida longo. Para a espécie Dermochelys coriacea, estimativas utilizando diferentes métodos apontam um período de maturação entre 24,5 e 29 anos (Avens et al. 2009). O sexo dos filhotes é influenciado pela temperatura de incubação dos ninhos (Rimblot et al. 1995). A ecologia reprodutiva da espécie varia nas diferentes bacias oceânicas (Wallace et al. 2006), com variações no intervalo de remigração, tamanho dos indivíduos e fertilidade. As populações do Atlântico apresentam indivíduos maiores, que depositam mais ovos a intervalos inter-sazonais menores do que nas outras regiões (Van Buskirk & Crowder 1994, Boulon et al. 1996, Reina et al. 2002, Dutton et al. 2005). As fêmeas de D. coriacea que se reproduzem no Espírito Santo possuem comprimento curvilíneo da carapaça entre 139 e 182 cm, com média de 159,8 cm, e depositam em média 87,7 ovos viáveis, além de 22,1 ovos menores, não-viáveis, por desova (Thomé et al. 2007). Desovas deste táxon concentram-se entre os meses de outubro e fevereiro (Thomé et al. 2007) e em uma mesma temporada reprodutiva as fêmeas podem realizar até 11 desovas (Boulon et al. 1996). O intervalo de remigração geralmente é entre dois e três anos (Thomé et al. 2007). No Espírito Santo, a média anual do sucesso de eclosão das desovas variou entre 53,3% e 78,8% entre 1994-1995 e 2003-2004, e a média anual do período de incubação variou entre 61,5 dias e 78,0 dias entre 1988-1989 e 2003-2004 (Thomé et al. 2007). A espécie realiza grandes deslocamentos transoceânicos (Eckert 2006, Eckert et al. 2006). Indivíduos de diferentes classes de tamanho são capturados na pesca oceânica monitorada no mar territorial e na zona econômica exclusiva do Brasil e em águas internacionais adjacentes, e subadultos e juvenis foram capturados principalmente na costa Nordeste (Sales et al. 2008). Fêmeas adultas marcadas no Gabão foram capturadas em áreas de pesca na costa Sul-Sudeste do Brasil (Billes et al. 2006). A quantidade de encalhes, avistagens no mar e capturas acidentais em atividades de pesca sugere, com base em cálculos demográficos, que as águas adjacentes à costa do Brasil são frequentadas não apenas por indivíduos que compõem a população que desova no Brasil, mas também por indivíduos de outras populações do Atlântico e talvez mesmo do Oceano Índico, uma vez que há comprovação, por meio de telemetria por satélite, de que indivíduos de D. coriacea que desovaram em praias do leste da África entraram depois no Atlântico (Barata et al. 2004). Estudos de telemetria por satélite mostraram deslocamentos costeiros, das praias de desova no Espírito Santo até o estuário do rio da Prata e vice versa (Almeida et al. no prelo, López-Mendilaharsu et al. 2009). D. coriacea forrageia desde a superfície do oceano até grandes profundidades (Doyle et al. 2008). A dieta é composta por zooplâncton gelatinosos, como celenterados, pyrossomos e salpas (James & Herman 2001, Witt et al. 2007). Ameaças O aumento da atividade pesqueira nos últimos anos é considerado a principal ameaça para a população de D. coriacea (Sales et al. 2008). Há captura incidental em atividades de pesca, tanto em pesca costeira (principalmente redes de emalhe) quanto em pesca oceânica (redes de deriva, espinhéis de superfície) e indícios de captura em pesca de arrasto no sul do país. Uma pescaria oceânica de grande impacto para D. coriacea é a pescaria com redes de emalhe de deriva (malhão) direcionada principalmente à captura de tubarões-martelo, realizada de São Paulo ao Rio Grande do Sul por embarcações oriundas dos portos de São Paulo e Santa Catarina (Fiedler 2009, Sales et al. 2003). Na pesca de emalhe de fundo oceânico na frota arrendada (barcos estrangeiros que são arrendados por uma empresa brasileira e assim conseguem permissão para pescar dentro da ZEE brasileira) foram Número 1, pág. 41Dermochelys coriacea Biodiversidade Brasileira (2011) Ano I, Nº 1, 37-44 registradas capturas de D. coriacea, com mortalidade registrada de Santa Catarina a São Paulo (Contato et al. 2004). A pesca com espinhel pelágico para atuns, espadartes e cações captura D. coriacea na região oceânica de todo o Brasil, em águas internacionais adjacentes e na Elevação do Rio Grande, com alguma mortalidade registrada no momento das atividades de pesca (Sales et al. 2008). Em pescarias costeiras, é conhecida até o momento a captura incidental de D. coriacea em currais de pesca no Ceará; em redes de emalhe para lagosta nos estados do Ceará e Bahia; em redes de emalhe para peixes e no arrasto para camarão no Espírito Santo (Marcovaldi et al. 2006). Em Santa Catarina foram registradas capturas de D. coriacea na pescaria com cerco flutuante (Santos & Soto 2004). No Rio Grande do Sul observa-se a captura incidental no emalhe de fundo e arrasto (Nema 2006). De acordo com Thomé et al. (2007), a pesca artesanal de emalhe no entorno da foz do Rio Doce, no Espírito Santo (no entorno da área de desova naquele Estado), oferece risco significativo para D. coriacea, com registros de capturas acidentais. O impacto humano sobre os hábitats das tartarugas marinhas é reconhecido há décadas (Lutcavage et al. 1997), com os esforços para mitigação concentrados no ambiente terrestre. Apesar de progressos feitos na proteção e recuperação de ecossistemas marinhos em algumas áreas, impactos antropogênicos diretos ou indiretos continuam a ocorrer (Hamann et al. 2010). Os principais fatores ligados ao desenvolvimento costeiro desordenado e que causam um impacto negativo nas populações de tartarugas marinhas são: movimentação da areia da praia (extração de areia e aterros); fotopoluição; tráfego de veículos; presença humana nas praias; portos, ancoradouros e molhes; ocupação da orla (hotéis e condomínios); e a exploração (produção e distribuição) de óleo e gás. No Brasil, não há comércio de ovos ou carne nas áreas de desova. Desde 1982 quando o Projeto TAMAR-ICMBio foi implantado no Norte do Espírito Santo, não houve registros de abate de fêmeas, mas há registros esporádicos de coleta de ovos, cerca de uma desova por ano. Segundo Poloczanska et al. (2009), as tartarugas marinhas são geralmente vistas como vulneráveis às alterações climáticas devido ao papel que a temperatura desempenha na determinação do sexo dos embriões. O aumento da temperatura na ordem de 2° C pode causar a feminização de toda uma população. Além disto, por se tratar de espécies de natureza altamente migratórias, mudanças de disponibilidade de recursos alimentares, de circulação de correntes marinhas e ventos podem comprometer seu ciclo de vida longo e complexo. Existem diferentesáreas visitadas, devido a um longo histórico de coleta de praticamente todos os ovos e abate de quase todas as fêmeas. Historicamente, a abundância destas populações era enorme. A falta de perspectiva adequada para quantificação ou o uso de uma linha imaginária de dados iniciais de abundância para o Filo: Chordata Classe: Reptilia Ordem: Testudines Família: Cheloniidae Nome popular Tartaruga-cabeçuda, careba- dura, careba-amarela, tartaruga-amarela, tartaruga- mestiça, tartaruga-avó, avó-de-aruanã (português); loggerhead turtle (inglês) tortuga cabezona, caguama, tortuga boba (espanhol); tortue caouanne (francês) Alexsandro Santana dos Santos1, Luciano Soares e Soares1, Maria Ângela Marcovaldi2, Danielle da Silveira Monteiro3, Bruno Giffoni1 & Antônio de Pádua Almeida4 Estado de Conservação Em perigo (EN) A2abcd Submetido em: 24 / 02 / 2010 Versão reformulada enviada em: 10 / 01 / 2011 Aceito em: 27 / 01 / 2011 Avaliação do Estado de Conservação da Tartaruga Marinha Caretta caretta Linnaeus, 1758 no Brasil Afiliação 1 Fundação Protamar – Rua Rubens Guelli, 134 – sl. 307 – Ed. Empresarial Itaigara – CEP 41815-135 – Salvador/BA 2 Centro Nacional de Conservação e Manejo de Tartarugas Marinhas – TAMAR/ICMBio – Caixa Postal 2219 – Rio Vermelho – CEP 41950-970 – Salvador/BA 3 NEMA – R. Maria Araujo, 450 – CEP 96270-480, Cassino – Rio Grande/RS 4 Reserva Biológica de Comboios/ ICMBio, Rodovia ES 440, Km 47 – Regência – Linhares/ES alex@tamar.org.br Número 1, pág. 4 Instituto Chico Mendes de Conservção da Biodiversidade Número Temático: Avaliação do Estado de Conservação das Tartarugas Marinhas estudo de tendência populacional podem levar a uma interpretação errônea. A (shifting baseline syndrome) síndrome da mudança de referencial, conhecida como o uso de dados de tamanho da população que correspondem ao início das atividades dos pesquisadores e não da sua real abundância no passado, pode levar a subestimativa da perda populacional (Bjorndal 1999). Considera-se que o índice de abundância populacional mais adequado para as tartarugas-marinhas seja o número de ninhos em cada temporada. Desta forma, o aumento no número de ninhos observado nos últimos anos representa um indício de aumento no tamanho populacional. No entanto, apesar de promissora, acredita-se que essa recuperação é insignificante em relação ao tamanho populacional no passado. Adicionalmente, a estratégia de vida das tartarugas marinhas, com características como a maturação tardia e ciclo de vida longo, tornam a recuperação muito lenta. É possível que os números de desovas observados até o presente não se mantenham no futuro, devido à ação das atuais ameaças sobre o estoque de juvenis a serem recrutados para a população reprodutiva. Além disso, os estudos de tendência populacional não cobrem ainda um período geracional para este táxon (estimado em no mínimo 46 anos). Portanto, a recuperação do número de adultos ou do tamanho populacional observado só poderá ser considerada consistente quando a série histórica de dados for mais longa, incluindo várias décadas. As informações coletadas no levantamento inicial do TAMAR sugerem um potencial de áreas de desova e de abundância nas áreas remanescentes maior do que a encontrada, indicando desaparecimento de desovas em várias destas áreas e, nas remanescentes, o declínio acentuado das populações. O TAMAR iniciou suas atividades apenas nas áreas remanescentes com concentração ainda significativa de desova. Mantém-se a categoria EN, pois além da população brasileira estar isolada, a principal área de ocorrência reprodutiva atual foi muito reduzida quando comparada à área no passado. A morte de indivíduos subadultos e adultos na região sul do Brasil e norte do Uruguai – inclusive de fêmeas marcadas em praias de desova brasileira – devido à pesca de arrasto de fundo também contribui para esta categorização. Não há possibilidade de migração de adultos de outras regiões para o Brasil: as tartarugas marinhas são conhecidas por sua alta filopatria (homing) – i.e. a capacidade das fêmeas de voltarem para se reproduzir na praia onde nasceram, tornando praticamente impossível a recolonização das praias por fêmeas oriundas de outras populações. Distribuição Geográfica A espécie Caretta caretta apresenta distribuição circunglobal (Dodd 1988). No Brasil, as áreas prioritárias de desova estão localizadas no norte da Bahia, Espírito Santo, norte do Rio de Janeiro e Sergipe e áreas secundárias ocorrem em alguns pontos dos litorais do Espírito Santo e sul da Bahia (Marcovaldi & Marcovaldi 1999 Marcovaldi & Chaloupka 2007, Figura 1). Desovas ocasionais foram registradas em Parati – RJ (Campos et al. 2004), litoral norte de São Paulo (Banco de Dados TAMAR/SITAMAR), Pontal do Peba – AL, litoral do Ceará, Pipa – RN (Banco de Dados TAMAR/SITAMAR), Santa Catarina (Soto et al. 1997) e Rio Grande do Sul (Nakashima et al. 2004). Ocorrências de indivíduos em diferentes estágios de vida são registradas na costa de diversos estados do Brasil entre o Pará e o Rio Grande do Sul, em áreas costeiras ou oceânicas, o que é conhecido através da interação destes animais com a atividade pesqueira, encalhes ou estudos telemétricos (Banco de Dados TAMAR/SITAMAR, Pinedo et al. 1998, Sales et al. 2008, Reis et al. 2009a). Encalhes de C. caretta são relativamente raros com exceção do sul do Brasil (Marcovaldi & Chaloupka 2007), onde a maioria dos encalhes (cerca de 75%) é de indivíduos juvenis/subadultos com comprimento curvilíneo médio da carapaça de 74,3 cm (Monteiro 2004), o que sugere que o sul do Brasil pode ser uma importante área de alimentação para juvenis/subadultos de C. caretta (Marcovaldi & Chaloupka 2007). Existem registros de encalhes em praias do Uruguai e do Rio Grande do Sul de fêmeas marcadas na Bahia (Laporta & Lopez 2003) e no Espírito Santo (Almeida et al. 2000). O monitoramento de oito fêmeas através de transmissores por satélite, durante a temporada 2000/2001, no litoral do Espírito Santo, mostrou que estes animais migraram em direção ao sul e nordeste do Brasil ao longo da plataforma continental (Marcovaldi et al. 2009, Lemke et al. 2006). Os resultados obtidos em outro estudo de telemetria por satélite com 10 fêmeas durante a temporada reprodutiva 2005/2006, no norte da Bahia, revelaram a existência de um corredor migratório ao longo de toda a costa Nordeste do Brasil, e áreas de alimentação e descanso na costa Norte, especialmente no Ceará (Marcovaldi et al. 2009, Marcovaldi et al. 2010). Figura 1 – Distribuição geográfica da tartaruga marinha Caretta caretta Linnaeus, 1785 no Brasil. Fonte: Banco de da- dos do TAMAR / SISTAMAR. Número 1, pág. 6 Instituto Chico Mendes de Conservção da Biodiversidade Número Temático: Avaliação do Estado de Conservação das Tartarugas Marinhas População Para tartarugas marinhas, o número de ninhos é usualmente adotado como índice de abundância populacional (Meylan 1995). Não existem dados quantitativos comprovados da abundância deste táxon para o período anterior à implantação do Projeto TAMAR/ICMBio nas áreas principais de desova, em 1982. O levantamento inicial realizado através de entrevistas com os pescadores ao longo do litoral entre os anos de 1980 e 1982 constatou um histórico muito longo de exploração/uso direto. O depoimento mais freqüente descrevia um número de tartarugas muito maior anteriormente, coleta de praticamente todos os ovos e matança de quase todas as fêmeas (Marcovaldi & Marcovaldi 1999). Relatos em algumas comunidades litorâneas nos primeiros anos de atuação do Projeto TAMAR-ICMBio indicavam que muitos moradores jamais tinham visto um filhote de tartaruga marinha (Marcovaldi & Albuquerque 1983). Atualmente são baixos os índices de coleta de ovos (menos de 2% dos ninhos a cada ano) (Banco de dados TAMAR/SITAMAR). Caretta caretta é a espécie de tartaruga marinha com maior ocorrência de desovas nas praias continentais brasileiras (Marcovaldi & Chaloupkaformas de poluição que constituem uma ameaça para os habitats marinhos e terrestres das tartarugas marinhas que incluem som, temperatura, luz, plásticos, produtos químicos, efluentes e outros. De um modo geral, a poluição de qualquer tipo, ocorrendo acima de um certo limiar, pode produzir uma área inabitável. Em níveis abaixos desse limiar, pode significativamente degradar a qualidade do habitat, a capacidade de carga e outros aspectos da função do ecossistema (Hamann et al. 2010). Ações de Conservação D. coriacea é totalmente protegida por instrumentos legais nacionais, que proíbem todo e qualquer tipo de uso direto além de prever medidas de proteção das áreas de desova. O táxon também faz parte do Anexo I do CITES do qual o Brasil é signatário. O país participa ainda da Convenção Interamericana para Conservação e Proteção das Tartarugas Marinhas (IAC). A única Unidade de Conservação que protege a área de desova no Espírito Santo é a Reserva Biológica de Comboios – ES, de gestão federal. Para a conservação da espécie, considera-se fundamental: • Dar continuidade às atividades de educação ambiental, sensibilização pública e desenvolvimento local, incluindo geração de emprego e renda, junto às comunidades costeiras onde a espécie ocorre; • Manter o monitoramento das áreas de desova, garantindo a proteção dos ninhos in situ, filhotes e fêmeas; • Manter e incrementar as atividades de pesquisa a longo prazo para avaliar as tendências das populações (crescimento, estabilidade, diminuição); • Identificar as áreas de alimentação e implementar ações de conservação, manejo e pesquisa de longa duração; • Desenvolver e implementar tecnologia para minimizar impactos antropogênicos; Número 1, pág. 42 Instituto Chico Mendes de Conservção da Biodiversidade Número Temático: Avaliação do Estado de Conservação das Tartarugas Marinhas • Dar continuidade ao “Programa Interação Tartarugas e Pesca” para redução das capturas incidentais, com ênfase em: • Estimular a gestão participativa nas comunidades pesqueiras para busca de soluções e alternativas e de ordenamento; • Realizar levantamento sobre a interação com as pescarias costeiras; • Manter e incrementar a marcação de adultos e juvenis, para determinação das áreas de uso e deslocamento e biologia reprodutiva; • Dar continuidade aos estudos genéticos para determinação das populações (áreas de alimentação e desova); • Fomentar a criação, implantação e gestão de Unidades de Conservação litorâneas e marinhas; • Desenvolver e implementar medidas mitigadoras e compensatórias, nas três esferas de licenciamento, para os empreendimentos desenvolvidos na área de ocorrência do táxon. 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Número temático: Avaliação do Estado de Conservação das Tartarugas Marinhas no Brasil Participantes da oficina de avaliação dos dados: • Alexsandro Santana dos Santos – Fundação Protamar • Jaqueline Comin de Castilhos – Fundação Protamar • Amely Branquinho Martins – CPB/ICMBio • Luciano Soares – Fundação Protamar • Antônio de Pádua Almeida – TAMAR/ICMbio • Maria Ângela Marcovaldi – TAMAR/ICMBio • Armando Barsante – Fundação Protamar • Monica Brick Peres – COABIO/ICMBio • Danielle Monteiro – NEMA • Paulo Barata – Pesquisador – FIOCRUZ • Gustavo D. Stahelin – Fundação Protamar • Yeda Bataus – RAN/ICMBio Local e data da oficina: Praia do Forte, BA, em 22 de setembro de 2009. Fotos: TAMAR/ICMBio – Mapa: Rodrigo Ranulpho – Diagramação: Denys Márcio de Sousa Número 1, pág. 45Número Temático: Avaliação do Estado de Conservação das Tartarugas Marinhas Biodiversidade Brasileira (2011) Ano I, Nº 1, 45-48 A biodiversidade é um bem comum essencial para a sobrevivência da humanidade na Terra. Seu valor intrínsecoe extrínseco tem sido amplamente reconhecido por governos e sociedade civil em diversos acordos internacionais. A perda de biodiversidade é uma das piores crises mundiais da atualidade com espécies e habitats diminuindo a uma taxa alarmante como mostrou a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas de Extinção de 2008 (Vié et al. 2009). Por isso a Convenção sobre a Diversidade Biológica (CDB) definiu para 2020 metas claras de redução das taxas de extinção a nível mundial. As listas de espécies ameaçadas de extinção ou Listas Vermelhas (“Red List”), tornaram-se mundial- mente conhecidas através da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Inicialmente elaboradas para mamíferos e aves, essas listas foram criadas para chamar a atenção para a necessidade de agir rápida e efetivamente em prol da conservação das espécies com maior risco de extinção em futuro próximo (Fitter & Fitter 1987). Avaliar o estado de conservação nada mais é do que estimar a probabilidade ou risco relativo de extinção de uma espécie ou subespécie. Além de apontar as espécies com maior urgência de ações de conservação, as avaliações podem gerar índices do estado de degeneração ou recuperação da biodiversidade por grupo taxonômico ou por região geográfica. Por isso, quando o objetivo é reduzir a taxa de extinção de espécies, a avaliação do estado de conservação é considerado o passo inicial e também o mais importante para planejar e priorizar recursos e ações (Mace & Lande 2001, Mace et al. 2008). Segundo estimativas de Lewinsohn & Prado (2005) o número total de espécies conhecidas no Brasil seria algo entre 170 e 210 mil, sendo 103-134 mil animais e 43-49 mil, plantas. Os vertebrados foram estimados em aproximadamente 7 mil espécies, sendo 541 mamíferos, 1.696 aves, 633 répteis, 687 anfíbios e 3.420 peixes, mas os autores acreditam que esses números devem ser bem maiores. Em 2011, os Centros Nacionais de Pesquisa e Conservação1 do Instituto Chico Mendes de Conservação de Biodiversidade (ICMBio/MMA) estimam que o Brasil abrigue algo em torno de 8.200 espécies descritas de vertebrados, sendo 713 mamíferos, 1.826 aves, 721 répteis, 875 anfíbios e aproximadamente 4.100 peixes (2.800 peixes continentais e 1.300 marinhos). Para as plantas, Lewinsohn & Prado (2005) estimaram entre 43 e 49 mil espécies descritas enquanto Forzza et al. (2010) publicaram a Lista de Espécies da Flora do Brasil com 40.982 espécies. Monica Brick Peres1, Ugo Eichler Vercillo1, Braúlio Ferreira de Souza Dias2 Avaliação do Estado de Conservação da Fauna Brasileira e a Lista de Espécies Ameaçadas: o que significa, qual sua importância, como fazer? Afiliação 1 Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade/ICMBio, Coord. Geral de Espécies Ameaçadas/ CGESP. EQSW 103/104 Bloco D, 1o. andar, Complexo Administrativo, Setor Sudoeste, Brasília/DF - CEP: 70.670-350 2 Ministério do Meio Ambiente/MMA, Secretaria de Biodiversidade e Florestas/SBF. Ed. Marie Prendi Cruz SEPN 505 Norte, Bloco “B” 5 º andar sala 504, Brasília DF - CEP: 70.730-542 Emails: Monica.Peres@icmbio.gov.br, Ugo.Vercillo@icmbio.gov.br, Braulio.Dias@mma.gov.br 1 Centros Nacionais de Pesquisa e Conservação do ICMBio: TAMAR (de Tartarugas Marinhas); CMA (de Mamíferos Aquáticos); CEMAVE (de Aves Silvestres); CENAP (de Mamíferos Carnívoros); CEPTA (de Peixes Continentais); CPB (de Primatas Brasileiros); CECAV (de Cavernas); CECAT (da Biodiversidade do Cerrado e Caatinga); CEPAM (de Biodiversidade Amazônica); RAN (de Répteis e Anfíbios) Número 1, pág. 46 Instituto Chico Mendes de Conservção da Biodiversidade Número Temático: Avaliação do Estado de Conservação das Tartarugas Marinhas Esses números mostram que a biodiversidade brasileira é definitivamente um patrimônio natural imensurável, e o Estado Brasileiro reconhece o valor e a importância desse patrimônio. A Constituição Federal estabelece a obrigatoriedade de conservar espécies e suas funções ecológicas quando incube o poder público de “proteger a fauna e a flora, vedadas... as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, e provoquem a extinção de espécies...”. Esse princípio constitucional tem sido regulamentado por diversas normas legais, mas em especial pela Lei de Crimes Ambientais2. As Listas Nacionais de Espécies Ameaçadas de Extinção no Brasil3, publicadas pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) são uma das ferramenta mais importante de conservação porque estabelecem proteção legal imediata para qualquer espécie listada, funcionando como marco legal guarda-chuva com diversas implicações para o país. Por isso, a definição das espécies que constam nas Listas Oficiais é uma decisão de governo que deve estar calçada em três aspectos fundamentais: os aspectos ecológicos, os sociais e os econômicos. Enquanto o processo de avaliação do estado de conservação da biodiversidade analisa os aspectos relacionados ao risco de extinção biológica de cada espécie em relação às suas principais ameaças, os aspectos socioeconômicos são analisados na Comissão Nacional de Biodiversidade (CONABIO), um colegiado paritário entre representantes de governo e da sociedade civil organizada. Diante de todas as informações disponibilizadas, cabe ao Ministro de Estado de Meio Ambiente publicar a(s) Lista(s) Nacional(is) da Fauna Ameaça de Extinção. Com a criação do ICMBio, órgão executor do MMA, foi-lhe delegada a atribuição legal4 de identificar as espécies ameaçadas, elaborar e implementar os seus planos de ação ou recuperação. Com isso, a Coordenação Geral de Espécies Ameaçadas da Diretoria de Conservação da Biodiversidade (CGESP/DIBIO/ ICMBio) estabeleceu uma estratégia de conservação da fauna brasileira que começa com as Avaliações que não só definem o risco de extinção, mas também produzem informações sobre taxonomia, distribuição geográfica, tendências populacionais, biologia reprodutiva, longevidade, principais ameaças, tipos de uso, áreas críticas e ações para conservação (ver os cinco artigos sobre as tartarugas marinhas neste número – Almeida et al. 2011a,b, Castilhos et al. 2011; Marcovaldi et al. 2011, Santos et al. 2011). Esse conjunto de informações permite identificar as áreas críticas e as medidas necessárias para conservação de grupos de espécies, ecossistemas ou regiões para combater ou mitigar os principais impactos. Nesse novo desenho, o planejamento e implantação do trabalho de avaliação no ICMBio estão sendo conduzidos por uma Coordenação Setorial criada especialmente para isso, a Coordenação de Avaliação do Estado de Conservação da Biodiversidade (COABio/CGESP/DIBIO/ICMBio). Para apoiar a COABIO nesta tarefa, cada um dos dez Centros de Pesquisa e Conservação do ICMBio coordenará as avaliações de um ou mais grupos da fauna brasileira, executando e dando suporte logístico ao trabalho de uma rede de especialistas. Dessa forma, estão sendo diretamente envolvidos nesse trabalho centenas de especialistas das principais Instituições de Pesquisa e Ensino, das Sociedades Científicas e de Organizações Não Governamentais. As avaliações dos vertebrados estão sendo organizadas por recortes taxonômicos - ordens ou famílias, e incluirão todas as espécies descritas com ocorrência no Brasil. Pelo grande número de espécies, a avaliação dos invertebrados está sendo conduzida para alguns grupos que cumprem pelo menos um dos seguintes critérios: grupos especialmente vulneráveis, com alto endemismo, indicadores de qualidade ambiental ou com espécies sob exploração comercial direta. Todas as avaliações estão sendo organizadas como um processo regular e contínuo em cada recorte, com procedimentos metodológicos e administrativos padronizados e documentados, com vários mecanismos para viabilizar a ampla participação de especialistas e utilizando a versão 3.1 das categorias e critérios da UICN (UICN 2001). O sistema desenvolvido pela UICN é a metodologia mais aceita e testada mundialmente. Ela éreconhecidamente objetiva, aplicável para uma ampla variedade de grupos e ambientes, razoavelmente rigorosa e defensável cientificamente e, em geral, produz resultados replicáveis independente do avaliador 2 Artigo no. 29 da Lei Federal no. 9.605, de 12/02/1998. Dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, e dá outras providências. 3 Instrução Normativa no. 3 de 2003; Instrução Normativa no. 5 de 2004; Instrução Normativa no. 52 de 2005, todas do MMA. 4 Portaria Conjunta MMA/ICMBio no. 316, de 09/09/2009. Define os instrumentos de implementação da Política Nacional da Biodiversidade voltados para a conservação e recuperação de espécies ameaçadas de extinção sob responsabilidade do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Número 1, pág. 47Número Temático: Avaliação do Estado de Conservação das Tartarugas Marinhas Biodiversidade Brasileira (2011) Ano I, Nº 1, 45-48 (Vié et al. 2009, UICN 2010). Esse sistema foi desenvolvido para avaliar espécies na escala global mas pode ser utilizado em escala nacional com as devidas adaptações (UICN 2003). Nessa última, cada espécie pode ser avaliada em uma das seguintes categorias: Extinta (EX); Extinta na Natureza (EW); Regionalmente Extinta (RE); Criticamente em Perigo (CR), Em Perigo (EN), Vulnerável (VU), Quase Ameaçada (NT), Menor Preocupação (LC), Dados Insuficientes (DD), baseando-se em uma série de critérios quantitativos relacionados às tendências populacionais, tamanho e estrutura populacional, e distribuição geográfica (UICN 2010). Para a UICN, as categorias VU, EN e CR representam, respectivamente, níveis crescentes de risco de extinção em escalas de tempo cada vez menores, e as espécies classificadas em qualquer uma delas são consideradas “ameaçadas” (Mace & Lande 1991). De uma forma geral as avaliações de cada espécie passam por 3 etapas básicas: Preparação, Avaliação e Validação. A Preparação compreende todas as etapas de compilação de informações para cada espécie e incluem revisões bibliográficas, consultas diretas a especialistas e consultas às Sociedades Científicas Organizadas. O conjunto das melhores informações disponíveis e os mapas de distribuição de cada espécie são levados para subsidiar as categorizações, definidas em plenária pelos especialistas de várias áreas do conhecimento. Essas Avaliações são submetidas à Validação como artigos científicos em um sistema de revisão por pares (“peer-review”), duplo cego, através da publicação na revista Biodiversidade Brasileira, estruturada pela Coordenação Geral de Pesquisa/DIBIO/ICMBio. Cada artigo é revisado por pelo menos dois pesquisadores com larga experiência na aplicação de categorias e critérios, e preferencialmente com envolvimento ativo em grupos de especialistas da UICN, mas em geral com sua experiência em grupos taxonômicos diferentes dos que estão sendo validados. Esse processo de Validação visa garantir clareza das informações apresentadas, consistência e coerência da aplicação dos critérios e também a padronização e rigor da aplicação da metodologia utilizada entre os grupos taxonômicos a médio e longo prazos. Para fortalecer e qualificar a execução deste processo, foi celebrada a parceria do ICMBio com a UICN por meio de um Termo de Reciprocidade assinado em 2010. De forma prática a parceria se dá desde 2008 através da participação ativa de especialistas UICN nas avaliações nacionais ou através de avaliações efetivamente conjuntas. Nesse último caso, a avaliação global sob responsabilidade da UICN e a avaliação nacional ocorrem concomitantemente, com especialistas brasileiros e estrangeiros trabalhando nas informações de cada espécie. As reuniões presenciais de especialistas são também conjuntas e realizadas no Brasil. Esse formato tem qualificado ambas as avaliações pela eficiência do aporte de dados e pela troca de experiências entre especialistas, mas especialmente pela padronização metodológica que esse trabalho conjunto vem permitindo. Outro aspecto especialmente importante das avaliações conjuntas é garantir que espécies endêmicas brasileiras possam estar nas mesmas categorias de risco na avaliação global e na nacional. Esse trabalho depende fundamentalmente da disponibilidade dos especialistas para sintetizar o conhecimento coletivo atual acerca do estado de cada espécie, produzindo as melhores e mais confiáveis avaliações possíveis. O trabalho e a dedicação dos Coordenadores de Táxon, que são os coordenadores científicos de cada grupo taxonômico, assim como o trabalho anônimo dos revisores junto à revista Biodiversidade Brasileira têm sido absolutamente fundamentais. Sem o compromisso e o entusiasmo de centenas de pesquisadores, sem sua experiência de campo muitas vezes não publicada e sem o tempo dedicado a esse trabalho, nada disso seria possível. Com isso, esperamos estar contribuindo para que o país possa usar com sabedoria uma das suas maiores riquezas, a fauna brasileira. Agradecimentos Os autores agradecem a Rosana Junqueira Subirá pela revisão do manuscrito. Referências bibliográficas Almeida, A.P.; Santos, A.J.B.; Thomé, J.C.A.; Belini, C.; Baptistotte, C.; Marcovaldi, M.A.; Santos, A.S.S. & Lopez, M. 2011a. Avaliação do estado de conservação da tartaruga marinha Chelonia mydas (Linnaeus, 1758) no Brasil. Biodiversidade Brasileira, 1: 12-19. Almeida, A.P.; Thomé, J.C.A.; Baptistotte, C.; Marcovaldi, M.A.; Santos, A.S.S. & Lopez, M. 2011b. Avaliação do estado de conservação da tartaruga marinha Dermochelys coriacea (Vandelli, 1761) no Brasil. Biodiversidade Brasileira, 1: 37-44. Castilhos, J.C.; Coelho, C.A.; Argolo, J.F.; Santos, E.A.P; Marcovaldi, A.M.; Santos, A.S.S. & Lopez, M. 2011. Avaliação do estado de conservação da tartaruga marinha Lepidochelys olivacea (Eschscholtz, 1829) no Brasil. Biodiversidade Brasileira, 1: 28-36. Número 1, pág. 48 Instituto Chico Mendes de Conservção da Biodiversidade Número Temático: Avaliação do Estado de Conservação das Tartarugas Marinhas Fitter, R. and Fitter, M. (eds). 1987. The Road to Extinction. IUCN, Gland, Switzerland. Forzza, R.C.; Leitman, P.M.; Costa, A.F.; Carvalho Jr., A.A.; Peixoto, A.L.; Walter, B.M.T.; Bicudo, C.; Zappi, D.; Costa, D.P.; Lleras, E.; Martinelli, G.; Lima, H.C.; Prado, J.; Stehmann, J.R.; Baumgratz, J.F.A.; Pirani, J.R.; Sylvestre, L.; Maia, L.C.; Lohmann, L.G.; Queiroz, L.P.; Silveira, M.; Coelho, M.N.; Mamede, M.C.; Bastos, M.N.C.; Morim, M.P.; Barbosa, M.R.; Menezes, M.; Hopkins, M.; Secco, R.; Cavalcanti, T.B. & Souza, V.C. 2010. Lista de Espécies da Flora do Brasil. 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Conservation Biology 5:148–157 Marcovaldi, M.A.; Lopez, G.G.; Soares, L.S.; Sandos, A.J.B.; Bellini, A.; Santos, A.S.S. & Lopez, M. 2011. Avaliação do estado de conservação da tartaruga marinha Eretmochelys imbricata (Linnaeus, 1766) no Brasil. Biodiversidade Brasileira, 1: 20-27. Santos, A.S.; Soares, L.S.; Marcovaldi, M.A.; Monteiro, D.S.; Giffoni, B. & Almeida, A.P. 2011. Avaliação doestado de conservação da tartaruga marinha Caretta caretta Linnaeus, 1758 no Brasil. Biodiversidade Brasileira, 1: 3-11. Vié, J.C.; Hilton-Taylor, C. & Stuart, S.N. (eds.), 2009. Wildlife in a Changing World – An Analysis of the 2008 IUCN Red List of Threatened Species. Gland, Switzerland: IUCN. 180 p.2007). Na temporada reprodutiva 2008/2009 foram registrados no Brasil cerca de 6.800 ninhos (Banco de Dados TAMAR/SITAMAR) distribuídos em 639 km de praias. Para os estados da Bahia e Espírito Santo, onde ocorrem mais de 75% das desovas de C. caretta no Brasil, observa-se um aumento no número de ninhos desde 1988, com taxa de 6,4% ao ano para a Bahia e de 1,9% para o Espírito Santo (Marcovaldi & Chaloupka 2007). Entretanto, há elevada captura incidental na pescaria de espinhel pelágico de indivíduos juvenis (Sales et al. 2008, Monteiro 2008), principalmente no talude da região sul e Elevação do Rio Grande. Devido a características bioecológicas das tartarugas marinhas, tais como ciclo de vida longo e complexo, maturação tardia estimada entre 25 e 35 anos (Chaloupka & Musick 1997), comportamento altamente migratório com utilização de uma grande área geográfica (o que inclui normalmente mais de um país) e múltiplos habitats (Bjorndal 1997), somente uma série histórica de dados de no mínimo 20 a 25 anos pode fornecer uma indicação confiável de tendência populacional para as tartarugas marinhas (Chaloupka et al. 2008). As fêmeas migram das áreas de alimentação e descanso para as áreas de reprodução, em deslocamentos que, confirmados por telemetria por satélite, podem chegar a mais de 1500 km (Marcovaldi et al. 2010). O filhote, após deixar a praia ao nascer, atinge o ambiente oceânico e raramente é visto novamente até um estágio de tamanho juvenil (Bolten 2003). Os juvenis podem compartilhar algumas áreas utilizadas pelos adultos (Kopitsky et al. 2000) até a maturidade sexual ser atingida (Musick & Limpus 1997). Como as demais espécies de tartarugas marinhas, as fêmeas de C. caretta possuem alta filopatria, ou seja, voltam, quando adultas, para desovar na praia em que nasceram, o que torna extremamente improvável o recrutamento de outras populações para ocupar o nicho deixado por uma população extinta. Em um estudo genético com 125 indivíduos juvenis, 59,5% pertenciam à população brasileira e os demais a outras populações (Marcovaldi & Chaloupka 2007, Reis et al. 2009b). Estudos recentes de genética, baseados em DNA mitocondrial, mostram que a população brasileira é distinta das demais populações conhecidas no mundo, e se divide em duas sub-populações: nordeste (praias da Bahia e Sergipe) e sudeste (praias do Rio de Janeiro e Espírito Santo). Há ocorrência de alto índice de hibridismo para o táxon com Lepidochelys olivacea em Sergipe (Reis et al. 2009b) e com Eretmochelys imbricata (Lara-Ruiz et al. 2006) na Bahia. Soares (2005) e Reis et al. (2009a), ao analisarem imaturos capturados incidentalmente na pescaria com espinhel pelágico em alto mar, identificaram indivíduos de diferentes populações, incluindo Brasil, Atlântico Norte, Mediterrâneo e Oceano Indo- Pacífico. O Grupo de Especialistas de Tartarugas Marinhas (MTSG) da UICN, com base em resultados de genética molecular, áreas de reprodução, resultados de marcação e recaptura, satélite telemetria, bem como aspectos da história natural e biogeografia, definiu um conjunto de Unidades de Manejo Regional para C. caretta. Unidades de Manejo Regionais referem-se às áreas ocupadas por populações funcionalmente independentes, com processos demográficos distintos (Wallace 2010). O Brasil (incluindo praias, plataforma costeira e Zona Econômica Exclusiva) pertence à unidade de manejo do Atlântico Sudoeste. Outras Informações Ecológicas A determinação sexual nas tartarugas marinhas, inclusive nas C. caretta, depende da temperatura na qual os ovos são incubados – temperaturas mais altas produzem fêmeas e mais baixas, machos (Marcovaldi Número 1, pág. 7Caretta caretta Biodiversidade Brasileira (2011) Ano I, Nº 1, 3-11 et al. 1997). Para C. caretta as praias de desova localizadas no estado do Espírito Santo apresentam uma proporção de filhotes machos (entre 29,5 a 46,5% dos filhotes nascidos) maior do que nos estados da Bahia e Sergipe, que produzem quase que exclusivamente fêmeas (89,3 a 100 %) (Marcovaldi et al. 1997). Este estudo ainda não foi aplicado às praias do estado do Rio de Janeiro, porém dados de tempo de incubação (Banco de Dados TAMAR/SITAMAR) apontam para um tempo médio semelhante ao do estado do Espírito Santo, sugerindo possivelmente proporção de machos semelhante. No Brasil, a estação reprodutiva estende-se do final de agosto ao final de fevereiro, com pico das desovas entre outubro e dezembro (Marcovaldi & Laurent 1996). Para algumas populações deste táxon conhecidas em outros países, as fêmeas desovam em intervalos de um a nove anos (Dodd 1988), com média de dois anos e meio a três anos (Schroeder et al. 2003) e realizam de uma a sete desovas em uma mesma estação reprodutiva (Bjorndal 1997). Este tipo de dados não são ainda conhecidos para o Brasil. Áreas de alimentação para C. caretta imaturas e adultas na fase nerítica são essencialmente a plataforma continental (Hopkins-Murphy et al. 2003). Shoop & Kenney (1992) observaram que indivíduos de C. caretta tendem a permanecer em profundidades menores de 200 m, sendo observadas geralmente em profundidades inferiores a 60 m. Esta espécie apresenta uma dieta carnívora durante toda a sua vida (Bjorndal 1997). Nos estágios iniciais e de juvenil são epipelágicas e habitam zonas oceânicas, se alimentando na maior parte do tempo nos cinco primeiros metros da coluna d’água, já em estágios de subadulto e adulto se tornam neríticas e se alimentam principalmente no fundo (Bolten 2003). No Rio Grande do Sul, a dieta dos indivíduos de C. caretta na fase oceânica (comprimento curvo da carapaça (CCC) médio de 57 cm) foi composta principalmente por salpas, representando cerca de 70% do volume da dieta. Já os animais neríticos, com CCC médio de 70,7 cm se alimentam sobre a plataforma interna do Rio Grande do Sul, com dieta bentônica composta principalmente por crustáceos, que representaram 55% do volume da dieta. Moluscos e peixes também ocorrem na dieta, sendo os peixes provavelmente provenientes do descarte de pesca (Barros et al. 2009, Barros et al. no prelo). Nos meses de primavera e verão são freqüentes os encalhes de C. caretta nas praias do Rio Grande do Sul. De 1995 a 2003 foram observados 295 indivíduos (Monteiro 2004). A partir de 2004 tem-se observado um aumento nos encalhes de C. caretta no litoral sul e médio do Rio Grande do Sul. Entre 2004 e 2008 foram registrados 1195 indivíduos de C. caretta mortos nas praias, com média de 239 animais/ano (Banco de Dados/ NEMA). Os dados dos encalhes, associados às informações da dieta e de captura incidental na pesca sugerem que o Rio Grande do Sul é uma área de extrema importância para a conservação do táxon no Brasil. A partir de análises genéticas foi observado que todos os indivíduos juvenis e subadultos analisados em estudo realizado por Caraccio et al. (2008) na pescaria de arrasto de parelha no estuário do Rio da Prata (n = 14) pertencem à população do Brasil. Ameaças O aumento da atividade pesqueira nos últimos anos é considerado a principal ameaça para a população deste táxon, atingindo diretamente a população de juvenis (Sales et al. 2008) e também de subadultos e adultos que se alimentam na plataforma continental do Rio Grande do Sul (Monteiro 2004). O esforço da pesca industrial tem aumentado desde 2001, tanto na quantidade de cruzeiros como no número de anzóis (Sales et al. 2008). Embora tenha havido capturas de C. caretta em todas as latitudes entre 10° N e 40° S, a maior parte das capturas se concentraram na região sul (≥20° S; Sales et al. 2008). Apesar de haver capturas de adultos, 95,5% dos registros correspondem a animais menores que 70 cm de comprimento de casco (N = 624; Sales et al. 2008). Em comparação com o Atlântico Norte, as capturas pelo espinhel pelágico no Sul/Sudeste brasileiro são consideradas mais altas (Sales et al. 2008). A pesca com espinhel pelágico para atuns, espadartes e cações, captura C. caretta na região oceânica de todo o Brasil,principalmente nas regiões sudeste e sul e em águas internacionais adjacentes (Sales et al. 2008). A Elevação do Rio Grande, localizada cerca de 1100 km a leste da costa do sul do Brasil, e a região do talude entre o Uruguai e Santa Catarina, locais conhecidos de elevada captura incidental de juvenis tardios e subadultos de C. caretta (Sales et al. 2008, Monteiro 2008, Giffoni et al. 2008) sugerem que estes são importantes habitats oceânicos de desenvolvimento para imaturos de C. caretta no Atlântico Sul (Marcovaldi et al. 2006). Capturas de C. caretta também ocorrem: na pescaria com espinhel de superfície (boiado) direcionada à captura de dourados, realizada principalmente no sudeste do Brasil (Leite-Jr. et al. 2005); em redes de emalhe de deriva (malhão) direcionada principalmente à captura de tubarões-martelo, realizada de São Paulo ao Rio Grande do Sul. Número 1, pág. 8 Instituto Chico Mendes de Conservção da Biodiversidade Número Temático: Avaliação do Estado de Conservação das Tartarugas Marinhas Em pescarias costeiras, é conhecida até o momento a captura incidental de C. caretta em currais de pesca no Ceará; em redes de emalhe para lagosta nos estados do Ceará, Sergipe e Bahia; em redes de emalhe para peixes nos estados do Ceará, Sergipe, Bahia, Espírito Santo e Rio de Janeiro; no arrasto para camarão nos estados de Sergipe, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo e no cerco flutuante em São Paulo (Marcovaldi et al. 2006). No Rio Grande do Sul observa-se a captura incidental no emalhe de fundo e arrasto (Nema 2006) e no emalhe de superfície (malhão) (Monteiro et al. 2005), das quais a captura incidental no arrasto é provavelmente a maior ameaça para indivíduos imaturos e maduros de C. caretta na fase nerítica que estão se alimentando na plataforma continental (Danielle Monteiro, com. pessoal). O impacto humano sobre os habitats das tartarugas marinhas é reconhecido há décadas (Lutcavage et al. 1997), com os esforços para mitigação concentrados no ambiente terrestre. Apesar de progressos feitos na proteção e recuperação de ecossistemas marinhos em algumas áreas, impactos antropogênicos diretos ou indiretos continuam a ocorrer (Hamann et al. 2010). Os principais fatores ligados ao desenvolvimento costeiro desordenado e que causam um impacto negativo nas populações de tartarugas marinhas são: movimentação da areia da praia (extração de areia e aterros); fotopoluição; tráfego de veículos; presença humana nas praias; portos, ancoradouros e molhes; ocupação da orla (hotéis e condomínios); e a exploração (produção e distribuição) de óleo e gás. Segundo Poloczanska et al. 2009, as tartarugas marinhas são geralmente vistas como vulneráveis às alterações climáticas devido ao papel que a temperatura desempenha na determinação do sexo dos embriões. O aumento da temperatura na ordem de 2 ° C pode causar a feminização de toda uma população. Além disto, por se tratar de espécies de natureza altamente migratórias, mudanças de disponibilidade de recursos alimentares, de circulação de correntes marinhas e ventos podem comprometer seu ciclo de vida longo e complexo. Existem diferentes formas de poluição que constituem uma ameaça para os habitats marinhos e terrestres das tartarugas marinhas, que incluem som, temperatura, luz, plásticos, produtos químicos, efluentes e outros. De um modo geral, a poluição de qualquer tipo, ocorrendo acima de um certo limiar, pode produzir uma área inabitável. Em níveis abaixos desse limiar, pode significativamente degradar a qualidade do habitat, a capacidade de carga e outros aspectos da função do ecossistema (Hamann et al. 2010). O alto índice de ocorrência de híbridos de Caretta caretta com Lepidochelys olivacea em Sergipe (Reis et al. 2009b) e Eretmochelys imbricata na Bahia (Lara-Ruiz et al. 2006), podem significar uma ameaça. No entanto, não são compreendidas as causas e implicações deste fato e seu impacto na diversidade genética, taxonomia e conservação destas espécies (Lara-Ruiz et al. 2006, Reis et al. 2009b), sendo necessário um estudo ao longo prazo dos possíveis efeitos desse fenômeno na viabilidade dessas populações. Ações de Conservação A espécie é totalmente protegida por instrumentos legais nacionais, que proíbem todo e qualquer tipo de uso direto além de prever medidas de proteção das áreas de desova. O táxon também faz parte do Anexo I do CITES do qual o Brasil é signatário. O país também participa da Convenção Interamericana para Conservação e Proteção das Tartarugas Marinhas (IAC). O litoral brasileiro abriga indivíduos provenientes de diferentes populações do mundo, dando dimensões globais à conservação da espécie no Brasil (Reis et al. 2009b). O táxon está presente nas seguintes unidades da federação e unidades de conservação: Rio Grande do Norte (Reserva Biológica do Atol das Rocas, Área de Proteção Ambiental Estadual dos Recifes de Coral); Pernambuco (Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha); Alagoas (Área de Proteção Ambiental de Piaçabuçu, Área de Proteção Ambiental da Costa dos Corais entre o litoral Sul pernambucano e Norte alagoano); Sergipe (Reserva Biológica de Santa Isabel, Área de Proteção Ambiental Estadual do Litoral Norte e Litoral Sul); Bahia (Área de Proteção Ambiental Estadual Litoral Norte, Área de Proteção Ambiental Estadual da Plataforma Continental do Litoral Norte, Reserva Extrativista Marinha de Corumbau, Parque Nacional Marinho de Abrolhos); Espírito Santo (Reserva Biológica de Comboios/ES). Para a conservação da espécie, considera-se fundamental: • Dar continuidade às atividades de educação ambiental, sensibilização pública e desenvolvimento local, incluindo geração de emprego e renda, junto às comunidades costeiras onde a espécie ocorre; • Manter o monitoramento das áreas de desova, garantindo a proteção dos ninhos in situ, filhotes e fêmeas; Número 1, pág. 9Caretta caretta Biodiversidade Brasileira (2011) Ano I, Nº 1, 3-11 • Manter e incrementar as atividades de pesquisa ao longo prazo para avaliar as tendências das populações (crescimento, estabilidade, diminuição); • Identificar as áreas de alimentação e implementar ações de conservação, manejo e pesquisa de longa duração; • Desenvolver e implementar tecnologia para minimizar impactos antropogênicos; • Dar continuidade ao “Programa Interação Tartarugas e Pesca” para redução das capturas incidentais, com ênfase em: • Estimular a gestão participativa nas comunidades pesqueiras para busca de soluções e alternativas e de ordenamento; • Realizar levantamento sobre a interação com as pescarias costeiras; • Promover a revisão da legislação que obriga o uso do Dispositivo Excluidor de Tartarugas – TED • Manter e incrementar a marcação de adultos e juvenis, para determinação das áreas de uso e deslocamento e biologia reprodutiva; • Dar continuidade aos estudos genéticos para determinação das populações (áreas de alimentação e desova); • Fomentar a criação, implantação e gestão de Unidades de Conservação litorâneas e marinhas; • Desenvolver e implementar medidas mitigadoras e compensatórias, nas três esferas de licenciamento, para os empreendimentos desenvolvidos na área de ocorrência do táxon. Referências Bibliográficas Almeida, A. de P.; Baptistotte, C. & Schineider, J.A.P. 2000. Loggerhead turtle tagged in Brazil found in Uruguay. Marine Turtle Newsletter, 87: 10. Barros, J. A.; Monteiro, D.; Estima, S.C; Secchi, E. R. & Sassi, B. 2009. Ecologia alimentar da tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta) no extremo sul do Brasil, p. 117–119. In: Libro de Resumenes de las IV Jornadas de Investigación y Conservación de Tortugas Marinas. Barros, J.A.; Secchi, E.R.; Monteiro, D. & Estima, S.C. 2009. Diet of pelagic Loggerhead sea turtles (Caretta caretta) in southern Brazil. In: Proceedings of the 29th Annual Symposium on Sea Turtle Conservation and Biology. NOAA. Bjorndal, K.A. 1997. Foraging ecology and nutrition of sea turtles, p. 199-231. In: Lutz, P.L. & Musick, J.A. (Eds.).The Biology of Sea Turtles. CRC Press. Bolten, A.B. 2003. Active swimmers – passive drifters: the oceanic juvenile stage of loggerhead in the Atlantic system, p. 63-78. In: Bolten, A.B. & Witherington, B.E. 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Número temático: Avaliação do Estado de Conservação das Tartarugas Marinhas no Brasil Participantes da oficina de avaliação dos dados: • Alexsandro Santana dos Santos – Fundação Protamar • Jaqueline Comin de Castilhos – Fundação Protamar • Amely Branquinho Martins – CPB/ICMBio • Luciano Soares – Fundação Protamar • Antonio de Pádua Almeida – TAMAR/ICMbio • Maria Ângela Marcovaldi – TAMAR/ICMBio • Armando Barsante – Fundação Protamar • Monica Brick Peres – COABIO/ICMBio • Danielle Monteiro – NEMA • Paulo Barata – Pesquisador – FIOCRUZ • Gustavo D. Stahelin – Fundação Protamar • Yeda Bataus – RAN/ICMBio Local e data da oficina: Praia do Forte, BA, em 22 de setembro de 2009 Fotos: TAMAR/ICMBio – Mapa: Rodrigo Ranulpho – Diagramação: Denys Márcio de Sousa Número 1, pág. 12 Instituto Chico Mendes de Conservção da Biodiversidade Número Temático: Avaliação do Estado de Conservação das Tartarugas Marinhas Apresentação e Justificativa de Categorização O estado de conservação da tartaruga marinha Chelonia mydas (Linnaeus, 1758) (Cheloniidae) foi avaliado de acordo com os critérios da IUCN (2001), com base nos dados disponíveis até 2009. Síntese do processo de avaliação pode ser encontrada em Peres et al., neste número. A categoria proposta para o táxon é “Vulnerável (VU)” segundo o critério A2ab, ou seja, ameaçado, de acordo com informações sobre redução da população. A espécie Chelonia mydas possui distribuição cosmopolita, desde os trópicos até as zonas temperadas, sendo a espécie de tartaruga marinha que apresenta hábitos mais costeiros, utilizando inclusive estuários de rios e lagos. As desovas ocorrem principalmente nas ilhas oceânicas, Ilha da Trindade (ES), Atol das Rocas (RN) e Fernando de Noronha (PE). Na costa brasileira, áreas de desova secundárias ocorrem no litoral norte do estado da Bahia. Esporadicamente ocorrem também ninhos nos estados do Espírito Santo, Sergipe e Rio Grande do Norte. Ocorrências não reprodutivas são registradas em toda a costa do Brasil e também nas ilhas. Este táxon apresenta ciclo de vida longo, com maturação sexual entre 26 e 40 anos. É altamente migratório. As fêmeas migram das áreas de alimentação e descanso para as áreas de reprodução, em desloca- mentos que podem chegar a mais de 1500 km. São onívoros nos primeiros anos de vida e depois adotam dieta exclusivamente herbívora. Pelo fato das áreas prioritárias de reprodução estarem localizadas em ilhas oceânicas isoladas, C. mydas sofreu menor impacto de predação sobre ovos e fêmeas que outras espécies, e estas áreas de desova não estão sujeitas à ocupação desordenada da zona costeira. Esta espécie apresenta o maior número de indivíduos juvenis mortos encalhados ao longo da costa brasileira em decorrência do aumento da pesca costeira de emalhe. Não existem dados quantitativos comprovados da abundância deste táxon para o período anterior ao levantamento realizado pelo TAMAR entre 1980-82, onde está registrada a interrupção do ciclo de vida desses animais em várias áreas visitadas, devido a um longo histórico de coleta de praticamente todos os ovos e abate de quase todas as fêmeas. Historicamente, a abundância destas populações era Filo: Chordata Classe: Reptilia Ordem: Testudines Família: Cheloniidae Nome popular Tartaruga-verde, aruanã, tartaruga-do-mar, depéia, jereba, suçuarana, tartaruga- pedrês (português), green turtle (inglês), tortuga verde (espanhol) Antônio de Pádua Almeida1; Armando José Barsante Santos2; João Carlos Alciatti Thomé3; Claudio Belini3; Cecilia Baptistotte3; Maria Ângela Marcovaldi3; Alexsandro Santana dos Santos2 & Milagros Lopez2 Estado de Conservação Vulnerável (VU) A2ab Submetido em: 24 / 02 / 2010 Versão reformulada enviada em: 10 / 01 / 2011 Aceito em: 27 / 01 / 2011 Avaliação do Estado de Conservação da Tartaruga Marinha Chelonia mydas (Linnaeus, 1758) no Brasil Afiliação 1 Reserva Biológica de Comboios/ ICMBio, Rodovia ES 440, Km 47 – Regência – Linhares/ES 2 Fundação Protamar – Rua Rubens Guelli, 134 – sl. 307 – Ed. Empresarial Itaigara – CEP 41815-135 – Salvador/BA 3 Centro Nacional de Conservação e Manejo de Tartarugas Marinhas – TAMAR/ICMBio – Caixa Postal 2219 – Rio Vermelho – CEP 41950-970 – Salvador/BA alex@tamar.org.br Número 1, pág. 13Chelonia mydas Biodiversidade Brasileira (2011) Ano I, Nº 1, 12-19 enorme. A falta de perspectiva adequada para quantificação ou o uso de uma linha imaginaria de dados iniciais de abundância para o estudo de tendência populacional podem levar a uma interpretação errônea destas análises. A síndrome damudança de referencial (shifting baseline syndrome) é conhecida como o uso de dados de tamanho da população que correspondem ao inicio das atividades dos pesquisadores e não da sua real abundância no passado, o que pode levar a subestimativa da perda populacional (Bjorndal 1999). Considera-se que o índice de abundância populacional mais adequado para as tartarugas marinhas seja o número de ninhos em cada temporada. A espécie vem mantendo um número estável de ninhos ao longo dos últimos anos. Adicionalmente, algumas características da estratégia de vida das tartarugas marinhas como a maturação tardia e ciclo de vida longo tornam a recuperação muito lenta. É possível que os números de desovas observados até o presente não se mantenham no futuro, devido à ação das atuais ameaças sobre o estoque de juvenis a serem recrutados para a população reprodutiva. Além disso, os estudos de tendência de população não cobrem um tempo geracional para este táxon (estimado em no mínimo 35,5 anos). Portanto, a manutenção do número de ninhos ou do tamanho populacional observado só poderá ser considerada consistente quando a série histórica de dados for mais longa, incluindo várias décadas. Mantém-se a categoria VU, pois a população brasileira está isolada, não havendo a possibilidade de migração de adultos de outras regiões para o Brasil: as tartarugas marinhas são conhecidas por sua alta filopatria (homing) – capacidade das fêmeas de voltarem para se reproduzir na praia onde nasceram, tornando praticamente impossível a recolonização das praias por fêmeas oriundas de outras populações. O táxon apresenta alta mortalidade de juvenis por captura incidental em pescarias costeiras ao longo de toda a costa brasileira. Distribuição Geográfica A espécie Chelonia mydas possui distribuição cosmopolita, desde os trópicos até as zonas temperadas, sendo a espécie de tartaruga marinha que apresenta hábitos mais costeiros, utilizando inclusive estuários de rios e lagos (Hirth 1997). No Brasil, as áreas prioritárias de desova estão localizadas em ilhas oceânicas: Ilha da Trindade (Estado do Espírito Santo, Moreira et al. 1995), Atol das Rocas (Estado do Rio Grande do Norte, Bellini et al. 1996, Grossman et al. 2003) e Fernando de Noronha (Estado de Pernambuco, Bellini & Sanches 1996). Na costa brasileira, áreas de desova secundárias ocorrem no litoral norte do estado da Bahia. Esporadicamente, ocorrem ninhos nos estados do Espírito Santo, Sergipe e Rio Grande do Norte (Figura 1). Apesar das áreas reprodutivas com informação disponível se limitarem aos estados descritos acima, as ocorrências não reprodutivas, sobretudo de indivíduos em estágio juvenil, se distribuem ao longo de toda a costa, inclusive com recaptura de indivíduos juvenis marcados em águas brasileiras e recapturados em outros países (D`Amato 1991, Marcovaldi & Marcovaldi 1999, Marcovaldi et al. 2000, Mascarenhas et al. 2005, Gallo et al. 2006, Barros et al. 2007, Meurer et al. 2007, Sales et al. 2007, Proietti et al. 2009, Torezani no prelo) e também das ilhas oceânicas. A conexão entre as tartarugas-verdes no Brasil e da Ilha de Ascencion, Reino Unido (uma das maiores agregações reprodutivas no Oceano Atlântico, Mortimer & Carr 1987) é amplamente descrita na literatura, através de marcação e recaptura (Mortimer & Carr 1987), telemetria (Hays et al. 2001) e genética de populações (Naro-Maciel et. al. 2007). População Para as tartarugas marinhas, o número de ninhos é adotado como índice de abundância populacional (Meylan 1995). Não existem dados quantitativos comprovados da abundância deste táxon para o período anterior à implantação do Projeto TAMAR/ICMBio nas áreas principais de desova, em 1982. O levantamento inicial realizado através de entrevistas com os pescadores ao longo do litoral entre os anos de 1980 e 1982, constatou um histórico muito longo de exploração/uso direto. O depoimento mais freqüente descrevia um número de tartarugas muito maior, coleta de praticamente todos os ovos e matança de quase todas as fêmeas (Marcovaldi & Marcovaldi 1999). Relatos em algumas comunidades litorâneas nos primeiros anos de atuação do Projeto TAMAR-ICMBio indicavam que muitos moradores jamais tinham visto um filhote de tartaruga marinha (Marcovaldi & Albuquerque 1983). Figura 1 – Distribuição geográfica da tartaruga marinha Chelonia mydas (Linnaeus, 1758) no Brasil. Fonte: Banco de dados do TAMAR / SISTAMAR. Número 1, pág. 15Chelonia mydas Biodiversidade Brasileira (2011) Ano I, Nº 1, 12-19 Na temporada reprodutiva 2008/2009 foram registradas 2.961 desovas na Ilha de Trindade e 55 desovas em Fernando de Noronha. Em Atol das Rocas não houve atividades de monitoramento naquela temporada, mas na temporada 2007/2008 foram registradas 474 desovas (Banco de Dados TAMAR/SITAMAR). As tartarugas-verdes agregam-se nas áreas de reprodução e se espalham pelas áreas de alimentação, podendo haver em uma mesma área indivíduos de estoques genéticos diferentes. Estudos genéticos realizados em dois pontos da costa brasileira (Almofala, CE e Ubatuba, SP) indicam a presença de haplótipos do Atol das Rocas, Ilha da Trindade, Ilha de Ascencion, África, México, Costa Rica e Suriname (Naro-Maciel et al. 2007). Para as áreas de desova, os estudos indicam estrutura populacional significativamente distinta entre a ilha de Trindade e Fernando de Noronha/Atol das Rocas (Bjorndal et al. 2006). Entre as ocorrências não reprodutivas registradas pelo Projeto TAMAR/ICMBio no Brasil, a grande predominância é da espécie C. mydas (Marcovaldi et al. 2009). O Grupo de Especialistas de Tartarugas Marinhas (MTSG) da UICN, com base em resultados de genética molecular, áreas de reprodução, resultados de marcação e recaptura, satélite telemetria, bem como aspectos da historia natural e biogeografia, definiu Unidades de Manejo Regional para C. mydas. Unidades de Manejo Regionais referem-se às áreas ocupadas por populações funcionalmente independentes, possuidoras de processos demográficos distintos (Wallace 2010). O Brasil (incluindo praias, plataforma costeira e Zona Econômica Exclusiva) pertence à unidade de manejo do Atlântico Sudoeste. Outras Informações Ecológicas As tartarugas marinhas, em geral, apresentam maturação tardia e ciclo de vida longo, e podem levar mais de uma década para atingir a maturidade sexual, podendo demorar de 40 a 60 anos para voltarem à mesma praia de nascimento para reproduzir pela primeira vez (Balaz 1982, Bjorndal & Zug 1995). O período de três gerações ultrapassa os 100 anos (Seminoff 2004). Nos primeiros anos de vida, C. mydas apresenta uma dieta onívora, com tendência carnívora (Bjorndal 1997). Após a fase pelágica, com carapaça entre 30 e 40 cm de comprimento (Balazs 1995), torna-se herbívora, com uma dieta principalmente de macroalgas e fanerógamas (Mortimer 1992). Como é de ampla distribuição, as preferências alimentares podem variar de acordo com disponibilidade em cada área (herbivoria). Habita áreas neríticas, associadas a bancos de fanerógamas submersas e algas durante a fase imatura pós-fase pelágica e também na fase adulta (Bugoni et al. 2003). Ao atingirem a maturidade sexual, realizam migrações buscando as áreas de reprodução. Os adultos se agregam nas áreas reprodutivas e espalham-se durante os períodos não reprodutivos, podendo haver em uma mesma área de alimentação indivíduos de estoques genéticos mistos (Naro-Maciel et al. 2007, Proietti et al. 2009). A atividade reprodutiva das tartarugas verdes no Brasil é semelhante entre as colônias que nidificam no Atol Rocas, Fernando de Noronha e na Ilha de Trindade, iniciando em dezembro e prolongando-se até maio ou início de junho (Grossman 2001, Bellini & Sanches 1996, Bellini et al. 1996, Moreira et al. 1995). As fêmeas que desovam no Atol das Rocas e Trindade apresentam comprimento curvilíneo da carapaça (CCC) médio de 115,6 cm. Em cada desova depositam uma média de 122 a 125 ovos e o intervalo de remigração mais freqüenteobservado para estas populações é de 3 anos (Grossman 2001, Moreira 2003). A determinação sexual nas tartarugas marinhas depende da temperatura em que os ovos são incubados – temperaturas mais altas produzem fêmeas e mais baixas, machos (Marcovaldi et al. 1997). Para essa espécie a temperatura pivotal (na qual são produzidos 50 % de filhotes machos e 50% de filhotes fêmeas) no Brasil não é conhecida. Ameaças O aumento da atividade pesqueira nos últimos anos é considerado a principal ameaça para a população de C. mydas, atingindo diretamente a população de juvenis (Sales et al. 2008), principalmente as atividades de pesca costeira (em especial as redes de emalhe em fundos irregulares), com poucos registros de ocorrência em pescarias oceânicas (espinhel de superficie) (Monteiro et al. 2005, Silva 2006, Gallo et al. 2006, Sales et al. 2008, Marcovaldi et al. 2009). Há indícios de consumo e comércio da carne no litoral do Ceará (Eduardo Lima, com. pessoal). Número 1, pág. 16 Instituto Chico Mendes de Conservção da Biodiversidade Número Temático: Avaliação do Estado de Conservação das Tartarugas Marinhas O impacto humano sobre os habitats das tartarugas marinhas é reconhecido há décadas (Lutcavage et al. 1997), com os esforços para mitigação concentrados no ambiente terrestre. Apesar de progressos feitos na proteção e recuperação de ecossistemas marinhos em algumas áreas, impactos antropogênicos diretos ou indiretos continuam a ocorrer (Hamann et al. 2010). Os principais fatores ligados ao desenvolvimento costeiro desordenado e que causam um impacto negativo nas populações de tartarugas marinhas são: movimentação da areia da praia (extração de areia e aterros); fotopoluição; tráfego de veículos; presença humana nas praias; portos, ancoradouros e molhes; ocupação da orla (hotéis e condomínios); e a exploração (produção e distribuição) de óleo e gás. Segundo Poloczanska et al. (2009), as tartarugas marinhas são geralmente vistas como vulneráveis às alterações climáticas devido ao papel que a temperatura desempenha na determinação do sexo dos embriões. O aumento da temperatura na ordem de 2° C pode causar a feminização de toda uma população. Além disto, por se tratarem de espécies de natureza altamente migratórias, mudanças de disponibilidade de recursos alimentares, de circulação de correntes marinhas e ventos podem comprometer seu ciclo de vida longo e complexo. Existem diferentes formas de poluição que constituem uma ameaça para os habitats marinhos e terrestres das tartarugas marinhas, que incluem som, temperatura, luz, plásticos, produtos químicos, efluentes e outros. De um modo geral, a poluição de qualquer tipo, ocorrendo acima de um certo limiar, pode produzir uma área inabitável. Em níveis abaixos desse limiar, pode significativamente degradar a qualidade do habitat, a capacidade de carga e outros aspectos da função do ecossistema (Hamann et al. 2010). A fibropapilomatose é uma doença de origem infecciosa, debilitante, que pode levar à morte, e se caracteriza por múltiplas massas de tumores cutâneos variando de 0,1 cm a mais de 30 cm de diâmetro (TAMAR 2005). No Brasil, foram registrados tumores em 15,41% dos 8359 indivíduos de C. mydas examinados pelo Projeto TAMAR entre os anos de 2000 e 2005 (Baptistotte et al. 2005, Baptistotte 2007). Ações de Conservação As principais áreas de desova de C. mydas estão protegidas por Unidades de Conservação Federais (Reserva Biológica do Atol das Rocas e Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha) e uma Municipal (Trindade/ ES, que também é área militar da Marinha). Este táxon é protegido por leis nacionais que proíbem o uso de qualquer parte do animal ou produto derivado do mesmo e protegem seu habitat. O Brasil é signatário da Convenção sobre Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas da Flora e Fauna Silvestres de Extinção – CITES e signatário da IAC (Convenção Interamericana para a Proteção e Conservação das Tartarugas Marinhas). Para a conservação da espécie, considera-se fundamental: • Dar continuidade às atividades de educação ambiental, sensibilização pública e desenvolvimento local, incluindo geração de emprego e renda, junto às comunidades costeiras onde a espécie ocorre; • Manter o monitoramento das áreas de desova, garantindo a proteção dos ninhos in situ, filhotes e fêmeas; • Manter e incrementar as atividades de pesquisa a longo prazo para avaliar as tendências das populações (crescimento, estabilidade, diminuição); • Identificar as áreas de alimentação e implementar ações de conservação, manejo e pesquisa de longa duração; • Desenvolver e implementar tecnologia para minimizar impactos antropogênicos; • Dar continuidade ao “Programa Interação Tartarugas e Pesca” para redução das capturas incidentais, com ênfase em: • Estimular a gestão participativa nas comunidades pesqueiras para busca de soluções alternativas e de ordenamento; • Realizar levantamento sobre a interação com as pescarias costeiras; • Manter e incrementar a marcação de adultos e juvenis, para determinação das áreas de uso e deslocamento e biologia reprodutiva; • Dar continuidade aos estudos genéticos para determinação das populações (áreas de alimentação e desova); • Fomentar a criação, implantação e gestão de Unidades de Conservação litorâneas e marinhas; • Desenvolver e implementar medidas mitigadoras e compensatórias, nas três esferas de licenciamento, para os empreendimentos desenvolvidos na área de ocorrência do táxon. Número 1, pág. 17Chelonia mydas Biodiversidade Brasileira (2011) Ano I, Nº 1, 12-19 Referências Bibliográficas Balazs, G.H. 1995. Status of sea turtles in the Central Pacific Ocean, p 243-252. In: Bjorndal, K.A. (Ed.) Biology and Conservation of Sea Turtles. Smithsonian Institution Press. Balazs, G.H. 1995. Growth rates of immature Green turtle in the Hawaiian Archipelago, p 489-511. In: Bjorndal, K.A. (Ed.) Biology and Conservation of Sea Turtles. Smithsonian Institution Press. Baptistotte, C. 2007. Caracterização espacial e temporal da fibropapilomatose em tartarugas marinhas da costa brasileira. Tese (Doutorado em Ecologia Aplicada). Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, Universidade de São Paulo. 99f. Baptistotte, C.; Scalfoni, T.J.; Gallo, B.M.G.; Santos, A.S.; Castilhos, J.C.; Lima, E.H.S.M.; Bellini, C. & Barata, P.C.R. 2005. Prevalence of sea turtles fibropapillomatosis in Brazil, p. 101. 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