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Laje Prof. Vitor Kümpel Sergio Fazollo Naves - 01215021127 SUMÁRIO 1. Conceito 2. Nomenclatura 3. Natureza jurídica 4. Regime jurídico 5. Características 6. Espécies 7. Registro 2Sergio Fazollo Naves - 01215021127 Laje1 3Sergio Fazollo Naves - 01215021127 1. Conceito 4 Laje, substantivo feminino, do termo lajota ou laja, designa obra de concreto armado, ou um teto de um compartimento, ou ainda um teto, com dimensões de comprimento e largura, mas sem profundidade Coloquialmente, o termo se aproxima da noção de superfície, mas, em sentido jurídico, não se confunde com o direito real de superfície. Para o direito, laje é direito real sobre uma unidade imobiliária erigida sobre ou sob construção de outrem, tendo sido introduzido no direito brasileiro com autonomia e características bem específicas. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 1. Conceito 5 A introdução da laje no Código Civil se deu originalmente pela Medida Provisória 759/20164, que conceituou o direito de laje no art. 1.510-A, caput, como a “possibilidade de coexistência de unidades imobiliárias autônomas de titularidades distintas situadas em uma mesma área, de maneira a permitir que o proprietário ceda a superfície de sua construção a fim de que terceiro edifique unidade distinta daquela originalmente construída sobre o solo”. Tal definição, contudo, foi duramente criticada pela doutrina, uma vez que o direito como “possibilidade”, por si só, já é categoria fora do alcance jurídico. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 1. Conceito 6 Com o advento da Lei 13.465/2017, o caput do art. 1.510-A do Código Civil recebeu nova redação, passando a dispor: “O proprietário de uma construção-base poderá ceder a superfície superior ou inferior de sua construção a fim de que o titular da laje mantenha unidade distinta daquela originalmente construída sobre o solo”. O direito de laje surge como forma de dissociar a propriedade exclusiva de uma certa construção da propriedade do solo, sem, contudo, confundir-se com o direito de superfície ou condomínio horizontal. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 1. Conceito 7 Trata-se de uma forma de propriedade em plano vertical, com construções que se delimitam pelo solo, por uma outra edificação ou pelo espaço aéreo, constituindo unidades autônomas, sem qualquer relação de condomínio entre si. Com a instituição da laje, o direito de propriedade é exercido em sentido vertical, ou seja, o titular do direito real se torna proprietário de um espaço físico sobre a construção alheia ou em seu subsolo, sem que existam partes comuns do edifício nem mesmo frações ideais sobre o terreno. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 1. Conceito 8 O titular da laje tem a faculdade de edificar sobre a construção alheia ou no seu subsolo, originando uma forma de propriedade em plano vertical. Amolda-se à função social da propriedade, gerando valorização econômica, ao mesmo tempo em que, pela titulação da propriedade nestes moldes, aumenta a arrecadação fiscal municipal (IPTU e ITBI). Sergio Fazollo Naves - 01215021127 1. Conceito 9 Espécies de propriedade quanto aos titulares (art. 1.231, CC) Propriedade exclusiva 1 titular na matrícula 1 titular do solo Propriedade comum 2 ou mais titulares na matrícula Condomínio voluntário Condomínio edilício (atribuição de fração do solo) Laje O titular da laje não tem titularidade na matrícula Sergio Fazollo Naves - 01215021127 2. Nomenclatura 10 A denominação “laje”, embora carente de elegância de estilo e qualidade técnica, prestigia as tradições sociais, marcando formalmente o clamor público pela regularização de imóveis da população de baixa renda. É justamente em vista desse viés social, aliás, que a Lei 13.465/2017 estabelece a gratuidade de custas e emolumentos, entre outros, no primeiro registro do direito real de laje no âmbito da Reurb-S. Trata-se, portanto, de uma nomenclatura popular, condizente com uma prática já comum entre a população, e que visa tornar o instituto familiar ao “homem comum”, tendo em mira sua efetiva regularização. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 2. Nomenclatura 11 A positivação do direito de laje serviu para referendar o propósito de regularização especialmente voltada às áreas economicamente desfavorecidas – nas quais é de praxe edificar sobrelevações e adquirir sua posse –, mas sua incidência independe do caráter social. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 3. Natureza jurídica 12 A laje foi introduzida como direito real no rol do art. 1.225 do Código Civil (inciso XIII), e disciplinada exclusivamente no Título XI, pela Lei 13.465/2017. A análise desse regime jurídico demonstra tratar-se de um direito real com natureza jurídica, características e efeitos próprios, não guardando grandes similitudes com nenhum outro direito real. Essa particularidade do novo instituto propiciou intensas controvérsias doutrinárias sobre sua natureza jurídica. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 3. Natureza jurídica 13 1ª tese: trata-se de direito real de superfície. A aproximação verifica-se já nos negócios jurídicos que instituem o direito de superfície e o direito de laje: em ambos há um afastamento do princípio da acessão, afastamento este que corresponde a um aspecto elementar dessas duas figuras. O problema é que os efeitos disso são diversos nos dois institutos. - A grande partição dos direitos reais é aquela que se dá entre o direito real sobre coisa alheia (ius in re aliena) e o direito real sobre coisa própria (ius in re propria). A colocação do direito de laje numa ou noutra categoria é prenhe de efeitos práticos. Se se afirmar que o direito de laje constitui direito real sobre coisa alheia, fica, por exemplo, afastado o direito de sequela. O titular da laje teria apenas acesso aos interditos possessórios. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 3. Natureza jurídica 14 - A topografia do novo direito real, a princípio, depõe a favor de não ser direito de propriedade, pois nesse caso sua inserção correta seria junto ao art. 1.228 do Código Civil. - O mero descerramento da matrícula, decorrente da constituição da laje no registro imobiliário, não pode ser visto como elemento determinante da qualificação jurídica de um direito real, sob pena de uma inversão lógica: o instrumento ficaria sobreposto ao direito material. - Pense-se em outras figuras, como a enfiteuse, por exemplo, o mais amplo dos direitos reais depois da propriedade. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 3. Natureza jurídica 15 - Se se afirmar que a laje, individualizada espacialmente, é fruto de uma reforma legislativa que objetiva mesmo a atribuição do domínio ao titular, é “menos” do que a propriedade, chegar-se-ia à conclusão de que esse titular tem apenas um domínio útil. Alguém afinal titulariza a propriedade do imóvel edificado e inscrito no fólio real (a unidade autônoma). - Se não for o próprio titular do direito de laje, será o da construção-base. Esta intepretação não parece de forma alguma estar sistematicamente autorizada. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 3. Natureza jurídica 16 A defesa de que a laje constitui direito real sobre coisa alheia estabeleceria uma situação peculiar: a individualização, com a matrícula, de um imóvel construído pelo sujeito “A”, mas que entra na esfera de propriedade do sujeito “B” (o titular do solo). Prefere-se ver o direito de laje como direito real sobre coisa própria. Recorde-se que o direito real sobre coisa própria é aquele em que há uma unidade de poder, toda ela circunscrita a um único titular, que é exatamente o caso da laje. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 3. Natureza jurídica 17 A relação jurídica estabelecida entre o titular da propriedade da construção-base e os titulares das lajes é fortemente informada pelo negócio jurídico constitutivo do direito em discussão. Derivam-se efeitos no plano obrigacional, ordinariamente. O eventual espaço para essa autorregulamentação não é capaz de influenciardecisivamente a qualificação do direito real (isto é, sua colocação junto a uma daquelas duas principais categorias dos direitos reais). Tanto menos no caso do direito real de laje. Uma vez edificada a construção sobreposta (ou subterrânea), aberta a matrícula e registrado o imóvel em nome do pretendente, consolida-se a situação jurídica marcada pelo exercício exclusivo de poderes sobre a unidade. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 3. Natureza jurídica 18 É o direito real de laje um direito real sobre coisa própria, limitado externamente por uma série de deveres que incidem em outras tantas situações jurídico-reais, que não têm o poder de neutralizar o caráter de verdadeiro proprietário atribuído ao titular. A pergunta que evidentemente remanesce dirige-se, enfim, aos aspectos diferenciais entre direito de laje e direito de propriedade. - Para alguns, a laje é um dos produtos de uma concepção contemporânea da propriedade, alargada em relação à concepção tradicional. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 3. Natureza jurídica 19 - O direito de propriedade é, especialmente no Brasil, fortemente relacionado ao princípio da acessão. Acostumou-se a manejar a categoria paradigmática do direito das coisas (a propriedade) tendo em vista o objeto sobre o qual incide o plexo de poderes jurídico-reais. A eventual fragmentação do princípio da acessão, com a correspondente cisão da qual resultam unidades autônomas – o que ocorre no direito de laje – parece revelar a necessidade do estabelecimento de nova categoria. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 3. Natureza jurídica 20 O problema é que também no condomínio edilício há essa cisão, e nem por isso se cogita chamar essa especial situação de nova categoria de direito real (o que pode ainda, em tese, ser justificado pela existência das frações ideais). Mas, como se disse, no caso da laje, sua positivação como uma nova categoria se deve fortemente ao fator juscultural. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 3. Natureza jurídica 21 Natureza jurídica da laje Direito real sobre coisa própria Propriedade exclusiva Condomínio Voluntário Edilício Laje Direito real sobre coisa alheia Aquisição Fruição (superfície) Só por concreção Garantia Sergio Fazollo Naves - 01215021127 4. Regime jurídico 22 A laje foi instituída no art. 1.510-A do Código Civil pela Medida Provisória nº 759, de 2016, Esta foi posteriormente convertida na Lei n. 13.465, de 2017, que manteve o direito de laje, porém com diversas modificações em seu regime jurídico. A mesma Lei incluiu a laje no rol dos direitos reais do art. 1.125, XIII, do Código Civil, regulamentando-a, mais adiante, nos arts. 1.510-A a 1.510-E do mesmo Código. Além disso, acresceu o § 9º ao art. 176 da Lei 6.015/1973, estabelecendo atos registrais para a publicidade constitutiva da laje no Registro de Imóveis. Soma-se a esse regime jurídico, ainda, a breve menção ao direito de laje na própria Lei n. 13.465/2017, no que tange seu registro em Reurb. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 5. Características - Transmissibilidade 23 Por ser impessoal, o direito de laje pode ser alienado ou transmitido, a título oneroso ou gratuito, por negócio inter vivos ou causa mortis, sempre levado ao registro imobiliário, ante a adoção do sistema de publicidade constitutiva das transmissões de bens imóveis. A venda, a doação, o compromisso de venda, a permuta, a dação em pagamento e outros instrumentos transmissivos de propriedade são aplicados no direito de laje. Tal assertiva funda-se na característica da transmissibilidade da laje, acrescida da sua própria natureza como direito de propriedade. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 5. Características - Transmissibilidade 24 O poder de disposição sobre o direito real de laje é expressamente referido no § 3º do art. 1.510-A do Código Civil, e reforçado no caput do art. 1.510-D. Embora o legislador tenha tratado, de modo expresso, apenas da transmissão inter vivos, nada obsta a transmissão causa mortis, como consectário da faculdade de dispor e da própria equiparação do direito de laje ao direito de propriedade. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 5. Características - Perpetuidade 25 Ao contrário da superfície e outros direitos reais sobre coisa alheia, que são essencialmente temporários, a laje é constituída para permanecer de forma perene. Em que pese a inexistência de previsão legal acerca da perpetuidade da laje, tal característica se infere de uma interpretação sistemática. A perpetuidade da laje decorre da própria ausência de regras sobre a fixação de prazo no ato constitutivo. Como se sabe, restrições aos direitos reais dependem de previsão legal, de modo que, não tendo o legislador atribuído termo final à laje, pode-se concluir que o direito subsiste, em princípio, perpetuamente. A laje, enquanto direito, persistirá até que a construção pereça, conferindo ao seu titular direitos próximos ao da propriedade plena. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 5. Características - Perpetuidade 26 Questão bastante complexa é o do titular da construção-base, dolosamente, destruir sua acessão e, por via indireta, gerar o perecimento de todas as lajes. Se não edificar, em 5 anos, ocasionaria a extinção da laje que seria uma espécie de propriedade resolúvel. Outra possibilidade é intentar ação de obrigação de fazer, em face do titular do imóvel base, para fins de edificação. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 5. Características - Autonomia 27 O direito real de laje é autônomo, pois engloba o exercício de todos os poderes de propriedade (usar, fruir e dispor) independente da construção-base e de outras lajes existentes. Poderá, por conseguinte, ser alienada e onerada por seu titular isoladamente, sem vinculação com as demais lajes, tampouco com os proprietários ou ocupantes destas e da construção-base. O direito de laje tem matrícula própria, cujo objeto é o próprio imóvel, não o direito de laje. Tal fato corrobora seu caráter autônomo, marcando a independência do direito de propriedade da laje em relação aos demais. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 5. Características - Exclusividade 28 Natureza de direito real sobre coisa própria. O direito de um titular sobre determinada laje exclui o direito de qualquer outra pessoa sobre essa mesma coisa. O titular da laje não se confunde com o titular da construção-base ou de outras lajes (no caso de laje sucessiva). Cada um deles exerce o seu direito de propriedade de modo exclusivo, sem ingerência sobre os demais. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 5. Características - Aderência 29 A laje é caracterizada pela aderência, ou inerência, segundo a qual o direito real adere à coisa, acompanhando-a em todas as suas mutações subjetivas. Tem como vetor o art. 1.228, caput, do Código Civil, segundo o qual “o proprietário tem a faculdade de usar, gozar e dispor da coisa, e o direito de reavê-la do poder de quem quer que injustamente a possua ou detenha”. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 5. Características - Aderência 30 Uma vez constituída a laje, o titular da laje terá direito de utilizá-la e dela fruir sem intervenção de qualquer intermediário. Da aderência advém o direito de sequela, ou ius persequendi. Dessa forma, pode o titular do laje persegui-la e reivindicá-la de quem quer que injustamente a possua ou detenha (art. 1.228 do Código Civil). Sergio Fazollo Naves - 01215021127 5. Características - Limitada 31 O direito de laje poderá sofrer limitações fundadas na lei ou na vontade particular. Fundada na lei: incluem-se restrições de direito público (como o tombamento) e de direito privado (como o bem de família legal e o direito de vizinhança). Fundada na vontade particular: decorrem das relações negociais, e abarcam, por exemplo, as cláusulas de inalienabilidade, impenhorabilidade, incomunicabilidade e indivisibilidade. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 5. Características - Absoluta 32 A propriedadefoi tradicionalmente considerada um direito “absoluto”, na medida em que constitui o direito oponível erga omnes mais amplo e completo, se comparado aos demais direitos reais. O mesmo se aplica à laje, que se equipara ao direito de propriedade, abrangendo as mesmas faculdades que lhe são inerentes. Isso não significa, contudo, que seja um direito ilimitado, pois assim como a propriedade, está sujeita a diversas restrições, tanto de caráter público (como as normas municipais relativas à edificação) quanto de caráter privado (como as normas do direito de vizinhança). Sergio Fazollo Naves - 01215021127 5. Características - Acessoriedade 33 A laje não constitui um direito principal, na medida em que é sempre acessória de uma construção-base. O “caput” do artigo 1510-A deixa bastante claro que a laje surge de uma cessão, em projeção vertical, superior ou inferior da construção-base. É sempre uma unidade projetada e distinta do solo. A laje é uma estrutura de concreto batido projetada a partir de uma construção-base, obrigatoriamente acessória a esta construção. Gera uma espécie “sui generis” de propriedade, na medida em que a ruína da construção-base pode extinguir o direito de laje que ontologicamente desaparece. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 5. Características - Acessoriedade 34 Com a ruína da construção-base desaparecem as lajes projetadas no plano vertical superior, por razões óbvias e mesmo as projetadas no plano inferior deixam de ter sentido, não obstante o artigo 1.510-E, I, diga expressamente que a ruína do imóvel-base, nesse caso, não extingue direito real de laje. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 5. Características - Acessoriedade 35 Características da laje 1 Absoluta Erga omnes Todos os poderes dominiais 2 Exclusiva 3 Perpétua Podendo ter resolubilidade 4 Aderente 5 Limitada 6 Acessória 7 Autônoma 8 Transmissível Sergio Fazollo Naves - 01215021127 6. Espécies – Laje sobreposta e sotoposta 36 A classificação da laje em sobreposta ou sotoposta está fundada na localização da unidade ou da laje em relação à construção-base. O termo “sotoposta” advém do verbo “sotopor”, que designa “pôr por baixo”. Laje sotoposta: é aquela instituída abaixo da base existente. Laje sobreposta: é aquela instituída acima da construção-base, projetando-se em sentido ascendente. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 6. Espécies – Laje sobreposta e sotoposta 37 Preferência: Segundo o art. 1.510-D, § 2º, do Código Civil, havendo mais de uma laje, a preferência será, sucessivamente, do titular das lajes ascendentes e do titular das lajes descendentes, com prioridade para a laje mais próxima à unidade sobreposta a ser alienada. Daí dizer que, respeitada a ordem de preferência legal, os titulares de laje sobrepostas têm preferência na aquisição em relação aos titulares das sotopostas Sergio Fazollo Naves - 01215021127 6. Espécies – Laje sobreposta e sotoposta 38 Quanto à localização da laje Sobreposta Acima do imóvel-base Sotoposta Abaixo do imóvel-base Sergio Fazollo Naves - 01215021127 6. Espécies – Laje sucessiva 39 É aquela instituída sobre (ou sob, no caso de laje sotoposta) a laje preexistente, originando lajes de diversos graus (segundo, terceiro, quarto etc.). A Medida Provisória 759/2016 aparentemente vedava a constituição de lajes sucessivas, ou seja, de lajes em segundo grau em diante. Essa matéria foi alterada pela Lei 13.465/2017, cujo art. 1510-A, § 6º, é categórico ao afirmar a possibilidade de ceder a superfície da construção para a “instituição de um sucessivo direito real de laje”. Exige-se, contudo, autorização expressa dos titulares da construção- base e das demais lajes, bem como o respeito às posturas edilícias e urbanísticas vigentes. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 6. Espécies – Laje sucessiva 40 O fundamento dessa alteração legislativa reporta-se ao fato de que tanto a edificação sobreposta quanto a sua superfície pertencem ao titular do direito de laje, estando em sua esfera de domínio. O art. 1.510-A, §6º, contempla uma situação restrita, consistente na instituição de novo direito real de laje, e não na simples alienação de um já existente, cuja regulamentação repousa no art. 1.510-D. A abertura deste novo direito real de laje na edificação pode ocorrer tanto através de cessão da superfície da unidade para edificação da laje quanto por cisão. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 6. Espécies – Laje sucessiva 41 No caso de constituição por edificação de nova unidade, destaca-se a necessidade de observância das posturas edilícias e urbanísticas, bem como de autorização expressa de todos os demais titulares das unidades na edificação, seja o proprietário da construção-base, seja os das demais lajes a ela sobrepostas ou sotopostas, em qualquer grau. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 6. Espécies – Laje sucessiva 42 3º grau 2º grau 1º grau 1º grau 2º grau 3º grau Lajes sobrepostas Lajes sotopostas Construção-base Sergio Fazollo Naves - 01215021127 6. Espécies – Laje por cisão e por concreção 43 Laje por cisão: é a laje instituída em imóvel que já a tem fisicamente, ou seja, a laje já está previamente construída no imóvel. Ou seja, a constituição da laje ocorre em face de uma unidade já edificada e pertencente a um indivíduo, mas ainda não autônoma. - Este titular, então, fragmenta as unidades, individualizando-as e constituindo, por negócio jurídico com outro sujeito, o direito real de laje sobre uma delas. Neste caso, portanto, o proprietário transfere a construção superior ou inferior existente em favor de outrem, na forma do direito real de laje, remanescendo com a propriedade da construção-base. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 6. Espécies – Laje por cisão e por concreção 44 Laje por concreção: é aquela que se amolda à situação descrita no caput do art. 1510-A do Código Civil, ou seja, há cessão da superfície ao adquirente, para que este nela erija a estrutura física da laje, como unidade distinta daquela originalmente construída. Vale dizer, na laje por concreção, a cessão se dá sobre a laje “vazia”, agregada ao direito de construir sobre a acessão principal (base). Sergio Fazollo Naves - 01215021127 6. Espécies – Laje limitada, ilimitada e mista 45 Laje limitada: aquela sujeita a restrições quanto às faculdades de uso, fruição e disposição, ou limitações quanto ao seu objeto, ou seja, ao espaço físico da laje. Restrições físicas: se referem às limitações da extensão do espaço físico da laje (cobertura e solo) e das acessões a serem implantadas sobre ele, tal como vender parte da cobertura ou subsolo (com ou sem edificação), vender laje com vedação ao novo adquirente de instituir nova unidade autônoma (laje), vender todo o pavimento com a proibição de edificação etc. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 6. Espécies – Laje limitada, ilimitada e mista 46 Laje ilimitada: refere-se àquela contratualmente livre de restrições ao seu objeto e às faculdades de uso, fruição e disposição. Laje mista: por sua vez, é a laje ilimitada quanto à sua extensão e limitada quanto às faculdades de uso, fruição e disposição. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 6. Espécies – Laje limitada, ilimitada e mista 47 Tal classificação desconsidera o caráter intrinsecamente ilimitado do direito real de laje, que tem natureza jurídica de direito real sobre coisa própria, como já analisado. De fato, entende-se que a laje é sempre ilimitada, porque é uma propriedade, e não direito real sobre coisa alheia. Por isso, não se vislumbra a possibilidade jurídica de instituir laje com restrições sobre o seu uso, fruição e disposição, aplicando-se, aqui, as mesmas regras do direito de propriedade. A laje, portanto, não pode conter restrições convencionais ao seu uso, gozo e fruição. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 6. Espécies – Laje limitada, ilimitada e mista 48 Admite-se, contudo,a imposição de limitações de ordem pública, notadamente de restrições físicas, fundadas no código de posturas municipais. - É o que ocorre, por exemplo, na vedação de edificar, muitas vezes necessária para atender às regras municipais e à própria estrutura da construção-base. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 6. Espécies – Laje limitada, ilimitada e mista 49 Laje Ilimitada D. Real sobre coisa própria Limitada Mista Sergio Fazollo Naves - 01215021127 7. Registro 50 A constituição da laje no fólio real opera pelos atos do proprietário pleno de organizar o seu terreno e a construção-base de modo a desmembrar o espaço aéreo e/ou subsolo da construção-base, a fim de que haja futura alienação. Por se tratar de direito de propriedade sobre bem imóvel, a instituição da laje atua no Registro de Imóveis da circunscrição territorial do terreno- base, atendidos os requisitos legais, mediante abertura de uma matrícula própria para a laje e averbação desse fato nas matrículas da construção- base e de lajes anteriores, com remissões recíprocas. Juízo qualificador registral: aplicam-se todos os princípios registrais (continuidade, disponibilidade, especialidade etc.). O oficial apenas efetuará os atos registrais atinentes à laje se o título atender os requisitos necessários para sua registrabilidade. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 7. Registro 51 Princípio da instância: a atividade registral dependerá de rogação manifestada por requerimento escrito do proprietário pleno do terreno e da construção-base, que deverá apresentar o título respectivo e os documentos subjacentes, tais como as plantas, memoriais descritivos e demais aprovações ou alvarás municipais. Potencial construtivo para o remanescente do imóvel: é salutar constarem na documentação informações acerca do potencial construtivo para o remanescente do imóvel, que será averbado na matrícula do terreno-base para dar conhecimento aos terceiros acerca do que ainda se pode construir segundo a autorização municipal. Tal providência permite um controle da disponibilidade quantitativa do imóvel pelo registro imobiliário. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 7. Registro 52 É condição para a admissibilidade registral da laje a existência da matrícula regular do terreno onde conste a averbação da construção- base, não apenas porque a existência da última consiste em requisito expresso no art. 1.510-A do Código Civil para se constituir a laje, mas também para atender à continuidade registral. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 7. Registro 53 A averbação da construção-base no fólio real não se confunde com a edificação acima dela, que será englobada pelo direito real de laje, até porque a preexistência física da laje sequer é necessária para a instituição do direito real correspondente, que pode se dar por concreção. Porém, a construção-base deve existir no fólio real e estar sob a titularidade do instituidor da laje. O registrador deve, ainda, exigir a certidão da municipalidade, expedida de acordo com o código de posturas municipais, onde conste a aprovação da segurança da construção, o que também será averbado na matrícula do terreno. No caso de lajes sucessivas, deverá o oficial conferir a anuência dos demais titulares, bem como se foram atendidas as exigências legais concernentes ao exercício do direito de preferência. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 7. Registro 54 Embora a laje não esteja diretamente arrolada no rol do art. 167, inc. I, da Lei 6.015/1973, por se tratar de direito real sobre coisa própria (propriedade), suas transmissões e aquisições operam nos mesmos moldes da propriedade. A propriedade da laje passa a existir no fólio real quando cumpridos os atos registrais do art. 176, § 9º, da LRP e, uma vez aberta sua matrícula, nesta serão registrados os atos e os negócios jurídicos de transferência do direito de propriedade da laje. A laje, nesse sentido, não tem caráter de direito propriamente dito, mas de objeto do direito. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 7. Registro 55 O objeto da matrícula é o imóvel, e não o seu direito, tal como se extrai da dicção do caput do art. 176, que destina o Livro 2 (Registro Geral) à matrícula dos imóveis e ao registro ou averbação dos atos relacionados no art. 167 e não atribuídos ao Livro nº 3. Essa noção é corroborada pelo § 1º, inc. I, do art. 176 da LRP, que dispõe “cada imóvel terá matrícula própria”. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 7. Registro 56 A matrícula, que deverá atender aos requisitos do art. 176, inc. II, da Lei 6.015/1973, não tem como objeto a laje, mas o imóvel, sendo que a laje, a rigor, é o imóvel. Porém, a existência da laje fica condicionada à existência do terreno e da construção-base, o que, evidentemente, é fundamental para a projeção física da laje e sua constituição real. Requisitos da matrícula: a matrícula da laje significa matrícula de imóvel, que deverá atender a todos os requisitos do art. 176, inc. II, da Lei 6.015/1973, a saber: Sergio Fazollo Naves - 01215021127 7. Registro 57 I. o número de ordem; II. a data; III. a identificação ou especialização do imóvel, no caso, da laje, com a indicação de seu perímetro, área e localização; IV. a especialização do seu proprietário; V. o número do registro anterior, que se refere à matrícula do terreno onde consta averbada a construção-base ou, no caso de lajes sucessivas, a da laje antes constituída; VI. cadastro da laje; VII. o número do cartório no Conselho Nacional de Justiça. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 7. Registro 58 Ao ser criada a matrícula do novo imóvel, que passa a ser unidade imobiliária autônoma, com edificação (se for laje por cisão), ou sem edificação (se for laje por concreção), a propriedade da laje passa a existir juridicamente, podendo ser alienada e onerada. Por isso, é nesta matrícula que se farão os registros e as averbações de todas as transmutações jurídico-reais da laje, desde que legalmente possíveis. Nela serão feitos os registros de vendas, doação, usufruto, dação em pagamento, partilhas, e outras transmissões inter vivos ou causa mortis. Também poderá ser eventualmente averbada construção nos casos de laje por concreção. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 7. Registro 59 A instituição da laje enseja duplo ato registral, isto é, a abertura da matrícula da nova unidade (laje) e a averbação na matrícula do imóvel- base e das outras lajes eventualmente existentes. Assim, além da abertura de uma matrícula própria para a laje, deve o oficial averbar esse fato na matrícula da construção-base e, quando for o caso, nas matrículas de lajes anteriores, com remissão recíproca. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 7. Registro 60 A remissão nas demais matrículas, além de constituir exigência legal do art. 176, § 9º, da LRP, serve para: I. indicar as alterações ocorridas no imóvel; II. cientificar terceiros interessados acerca da existência da laje e III. permitir um controle quantitativo e subjetivo do bem. Em uma edificação em que, provavelmente, incidirão diversos direitos, e habitarão diversas pessoas, é estritamente necessária uma ampla publicização das situações jurídicas, inclusive de modo que a consulta a cada uma das matrículas permita conhecer a situação das demais unidades. Assim, no caso de lajes sucessivas, a remissão deverá ser feita em todas as matrículas, indicando-se a nova unidade. Sergio Fazollo Naves - 01215021127 7. Registro 61 Extinção da laje Voluntária Alienação (venda ou doação) Renúncia Abandono Propriedade resolúvel Involuntária Ruína do imóvel base involuntária sem reconstrução em 5 anos Desapropriação Sergio Fazollo Naves - 01215021127