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3ª Edição
Rio de Janeiro
2018
Copyright © 2004 – Eliane Potiguara
Todos os direitos reservados.
Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida,
disponibilizada para download ou transmitida por qualquer
meio (eletrônico, mecânico, fotocópia), sem a autorização por
escrito do proprietário do copyright.
Revisão: Eliane Potiguara – Obra revisada conforme o Acordo Ortográfico
da Língua Portuguesa
Texto de orelhas: Marcello Pereira Borghí
Diagramação de capa e miolo: Lenca Marques – Imagem art studio
Fotografia da capa: Antonio Carlos Banavita
Foto da contracapa: Ana Cota (https://www.flickr.com/photos/ana_cotta)
Ilustrações: obra Jabuti de Aline Ngrenhtabare Lopes Kayapó – presente
carinhosamente oferecido à autora.
Dados internacionais de catologação da publicação (CIP):
P863m Potiguara, Eliane
Metade cara, metade máscara / Eliane Potiguara.
Rio de Janeiro, RJ – 3ª edição – Grumin, 2018.
160 pp.
ISBN: 978-85-54397-00-5
1. Índios da América do Sul – Brasil – Condições sociais 2. Índios da
América do Sul – Brasil – Cultura 3. Índios da América do Sul – Brasil
– História 4. Índios Potiguara – Brasil 5. Povos indígenas – Brasil
I. Título. II Autor
CDD 306.089.981
Índices para catálogo sistemático:
1. Índios Potiguara : Cultura : Brasil : Sociologia - 306.089981
2. Índios Potiguara : História : Brasil : Sociologia - 306.089981
GRUMIN EDIÇÕES
E-Mails: elianepotiguara@gmail.com
elianepotiguara@uol.com.br
Sites: www.elianepotiguara.org.br e www.grumin.org.br
FAnPAgE: https://www.facebook.com/elianepotiguaraescritora
À minha falecida avó indígena Maria de Lourdes, que, no
início do século XX, teve seu pai desaparecido por ação
colonizadora no estado da Paraíba. Suas quatro filhas
indígenas, ainda adolescentes, migraram
compulsoriamente dessas terras, sacrificando-se, como
outras mulheres indígenas anônimas, pela construção de
um momento novo na luta dos povos indígenas brasileiros
hoje, o reconhecimento do grande contingente de
descendentes de indígenas e de indígenas desaldeados.
Aos meus filhos Moína, Tajira e Samora Potiguara e à
minha mãe, a eterna sacerdotisa que as águas fluviais
levaram para seu mundo.
A todos os parentes indígenas.
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Esta utilidade pública da poesia se baseia na força, na
ternura, na alegria e na essência verdadeira. Sem esta
qualidade a poesia soa, mas não canta.
Pablo Neruda
Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver o Universo.
Alberto Caieiro (em Fernando Pessoa)
Agradeço a todas as mulheres de garra
e luta e a todos os homens fortes.
E mais: a todos os homens com
perspectivas de mudanças.
Apresentação ............................................................................. 11
Prefácio ...................................................................................... 13
Outros Escritos ........................................................................... 17
1. Invasão às terras indígenas e a migração ................................ 21
2. Angústia e desespero pela perda das terras e pela
ameaça à cultura e às tradições ............................................... 41
3. Ainda a insatisfação e a consciência da mulher indígena ....... 71
4. Influência dos ancestrais na busca pela preservação da
identidade ............................................................................... 85
5. Exaltação à terra, à cultura e à espiritualidade indígenas ...... 117
6. Combatividade e resistência ................................................ 143
7. Vitória dos povos.................................................................. 149
Bibliografia ............................................................................... 161
Biografia ................................................................................... 163
Um ser de profundas raízes no universo feminino, aquática
natureza em constante mutação. Assim tem sido a presença desta
inquieta mulher das águas correntes, em borbotões de imagens
poéticas, escritas que abrem fendas nas rochas, água mole em
pedra dura. Vida de correnteza em terra árida e hostil paisagem
da realização da vida que se quer farta e próspera como seios de
mãe, da mãe Terra. Fez-se ouvir arranhando a pele das árvores,
fazendo da escrita seu campo de batalhas, uma extensão do seu
labor de educadora. Professora de nenhumas pedagogias, mestra
de fazeres sem ofício fixo, segue caçando sonhos nas dobras do
tempo memória. Clama no deserto dos direitos à vida, gênero e
raça. Herdeira de antigas tradições que evoca nos poemas, contos
e narrativas de afirmação étnica dos povos originários, assim foi
que chegou um dia para mim, esta irmã desde sempre. Parente!
Uma mulher que vai se desdobrando em irmã, mãe e mestra
de saberes que buscam escutas, debate ideias fora de lugar,
antecipando no tempo as nossas lutas por um lugar no mundo
globalizante. Eliane Potiguara com sua instigante presença, no
nascente movimento de ideias que veio configurar o Movimento
Indígena, foi essa voz mulher extemporânea, marcando a
diferente visão de gênero, que nós seus irmãos de luta, todos
formados no mundo masculino, tínhamos dificuldade de
entender. Com seus textos políticos, incitando a luta contra o
colonialismo e racismo institucional, esta guerreira avant la lettre,
chegou falando aos Kurumim, alfabetizando em línguas estranhas
e pagãs, convocando para outras poéticas da Terra Mãe, uma
longa jornada até publicar Metade Cara Metade Máscara, seu livro
totem que veio para firmar a escrita feminina contemporânea
indígena. Uma arte criadora, a militante dos Direitos Humanos,
para além das linhas que separam campo e cidade, diluindo as
fronteiras de mundos urbanos e rural, transcendendo o lugar
comum, que se interroga sobre o lugar do ÍNDIO, nas sociedades
capturadas pelo colonialismo ocidental, grita aos quatro cantos
“Eu sou da América do Sul...”, Sou de Pindorama, de Abya Yalla,
das florestas e cordilheiras. Uma Terra que grita, como mulher
indígena despertada para o mundo em convulsão, assim tem sido
as décadas de convivência nossa, querida contadora de histórias
antigas Eliane Potiguara.
Ailton Krenak
Líder indígena, ambientalista e escritor brasileiro.
Professor Doutor Honoris Causa – Universidade Federal de Juiz de
Fora (UFJF)
Uma das maiores lideranças do movimento indígena brasileiro,
possuindo reconhecimento internacional.
Pertence ao povo indígena Krenak.
No mais recente encontro do GELNE, ocorrido em 2017 no
Recife, apresentei um trabalho (posteriormente publicado no livro
intitulado GELNE 40 anos) que se voltava às relações e trocas
possíveis entre nativos das Américas, suas literaturas e a forma
como essas raramente chegam à sala de aula. Ali desenvolvi um
olhar comparativo sobre a poesia de Rita Joe, membro da tribo
Mi’kmaq, Canadá, e de Eliane Potiguara, do Brasil. O capítulo
recebeu o seguinte título: Linguagem, literatura e cultura na
sala de aula: as Américas na poética indígena.
Tendo sido convidada por Eliane Potiguara para prefaciá-la
nessa reedição do seu livro Metade cara, metade máscara, de
imediato, creio ser importante localizar minha fala – ou minha
escrita. Pertenço à área de Letras, Letras/Inglês, com foco nas
literaturas contemporâneas. Dentre as literaturas que venho
analisando desde os anos 90, meu interesse pelas narrativas
indígenas cresceu a partir de minha pesquisa de doutoramento,
ou seja, desde 1996, quando enfoquei comparativamente
romances de Louise Erdrich, Susan Power e Leslie Marmon Silko,
todas estadunidenses. Portanto, cheguei às literaturas nativas
através daquelas produzidas principalmente por mulheres da
América do Norte, que escreviam, em sua maioria,hoje, Rede de Comunicação Indígena) e Grumin Edições.
Em resumo, o governo deve reconhecer, na prática, isto é, por
meio das ações afirmativas, o fator pluricultural e diferenciado dos
povos indígenas, incluindo os direitos relativos a gênero, direitos
sexuais e reprodutivos das mulheres indígenas, como foi discutido
na Conferência Mundial sobre População (Cairo, 1994) e na
Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial,
Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, ocorrida em Durban (África
do Sul), em 2001, ambas realizadas pela ONU. As terras indígenas
devem ser definitivamente demarcadas como garantia da
integridade física, social, cultural, econômica e psicológica dos
povos indígenas e, em particular, das mulheres – velhas, viúvas e
mães solteiras. Os invasores devem ser definitivamente retirados
para garantir a sobrevivência e a segurança das mulheres, das
crianças e dos mais velhos.
Os programas de desenvolvimento aplicados à mulher, em
instância nacional, devem ser estendidos às mulheres indígenas,
desde que a comunidade seja consultada e dentro do que
espera e necessita esse povo. Especificar detalhadamente medidas
emergenciais que defendam, em rápido prazo, os direitos das
mães solteiras, viúvas e mães anciãs contra a violência doméstica
e social.
A Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação
Racial, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, vitoriosamente, teve
sua marca peculiar. Foi a maior e mais expressiva conferência de
todos os tempos e deu o passo inicial para futuras gerações. Que
possamos verdadeiramente colher os frutos em prol dos direitos
humanos em todas as partes do mundo.
O Grumin, hoje, Grumin/Rede de Comunicação Indígena, foi
criado juridicamente, em assembleia, em 1987, mas política e
moralmente foi concebido em 1978. O Grumin recebeu o II
Prêmio Cidadania Internacional, em 1996, da Comunidade
Bah’ai, por ter desenvolvido dezenas de projetos comunitários e
ter promovido a formação de opiniões. A diretoria era formada
por Wilma, Fátima, Djalma, Tonhô, Marina, Belarmina, Anaí,
Rosineide Pio e Zenilda Sateré-Mawé.
Promover o acesso de mulheres e homens indígenas e suas
organizações às informações, mobilizando-os, influenciando-os na
formação de opiniões. Desenvolver consciências críticas mobilizando
indivíduos e organizações ao “empoderamento”, empowerment,
buscando o exercício dos direitos humanos para o desenvolvimento
sociopolítico-econômico do presente e do futuro de suas tradições e
cultura. Promover consciências à multiplicação de organizações de
mulheres indígenas no Brasil. O Grumin visa o acesso à informação
e à tecnologia. Dizíamos: “Mulheres indígenas: criem suas
organizações dentro de suas próprias casas”.
1. Rede Grumin (ex-Jornal do Grumin)
Foi criado em 1988, e hoje está constituído em versão on-
line ou textos para discussão via Facebook. O jornal objetiva
difundir informações sobre direitos indígenas sob perspectiva de
gênero, abordando a questão racial e a violência à cosmovisão
indígena (cultura, território, educação, biodiversidade e meio
ambiente, espiritualidade). Trata também da migração e de
formas contemporâneas de racismo. Objetivava ainda sensibilizar
a opinião pública para os direitos constitucionais; difundir
instrumentos jurídicos nacionais e internacionais; difundir os
debates do Fórum Permanente e o Projeto de Declaração dos
Povos Indígenas; sendo que o Grumin esteve presente em vários
momentos de sua criação, em Genebra, por ocasião das sessões
do Grupo de Trabalho sobre Populações Indígenas, nas Nações
Unidas. Objetiva divulgar documentos e os passos anteriores e
futuros da Conferência Mundial contra o Racismo.
2. Série Cadernos Conscientizados
É um material didático para grupos de estudo que objetiva
difundir filosofia, educação, saúde e direitos reprodutivos e
pensamentos indígenas, disseminando as causas da discriminação
social e racial que permeiam as etnias indígenas.
3. Fórum de debates on-line
Objetiva disseminar e discutir instrumentos jurídicos
elaborados pelo Grumin ao longo de uma década, como as
Declarações dos Encontros e Conferências, nas quais foram
mencionados, pela primeira vez, temas como mulheres indígenas,
direitos e meio ambiente (1989); saúde e direitos reprodutivos
(1994), direitos humanos das mulheres indígenas, família e
identidade (1995); racismo, violência, migração (1996) etc. Esse
fórum abre canal para difundir e debater a tradicionalidade do
discurso oral e escrito das histórias, contos, filosofias indígenas,
enfim, da literatura indígena como um importante pensamento
brasileiro.
1. Publicação de livro didático Akajutibiró: terra do índio
potiguara, apoiado pela Organização das Nações Unidas para
a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
2. Publicação do livro A terra é a mãe do índio, premiado pelo
Pen Club da Inglaterra e o Fundo Livre de Expressão.
3. Boletins Informativos.
– Rede Grumin, hoje, Rede de Comunicação Indígena e
Grumin Edições.
– Boletim do Grumin, em língua inglesa.
4. Projetos de desenvolvimento comunitário como: Casa da
Mulher Indígena, promovendo o resgate e a preservação
cultural; feiras de artesanato; produção de roupas, redes de
dormir e colchas; incentivos à criação de plantações e
farmácias de fitoterapia; projeto de primeiros-socorros; cursos
de capacitação em vários temas; cursos de corte e costura;
doação de equipamentos de cestas básicas e carros; apoios às
lideranças indígenas em viagens e pequenos projetos e muitos
outros projetos de desenvolvimento comunitário, que buscam
basicamente fortalecer e “empoderar” a mulher indígena em
suas relações.
5. Organização de seminários, conferências e congressos envol-
vendo questões de gênero e direitos.
6. Participação em conferências nacionais e internacionais,
objetivando negociações, consultorias e testemunhos.
Ignacio Alberto Pane, o primeiro antropólogo indígena do
Paraguai, autor do livro Apuntes de sociología e do poema La
mujer paraguaya sobre a mulher Guarani, conta que, antes do
processo de escravidão, a mulher indígena tinha o mesmo papel
de decisão que os pais, maridos e irmãos. A sua palavra era a
palavra final para decidir uma guerra intertribal, uma decisão ou
uma assembleia política. Com a chegada dos estrangeiros, a
mulher passou à retaguarda e permanece até hoje servindo de
mão de obra escrava, ou submetendo-se à neocolonização como
objeto sexual e descartável. Basta!
Vamos ousar dizer que não haverá defesa do meio ambiente
se inicialmente não se reconhecerem os direitos indígenas. O
meio ambiente, o território, o planeta Terra estão intrinsecamente
ligados ao ventre da mulher indígena, da mulher selvagem nos
dois sentidos (primeira cidadã do mundo e intuitiva) e, por isso,
não haverá defesa ambiental se não se destacar a influência e o
conhecimento milenar da mulher, do ser que habita esse meio
ambiente. Isso é um testemunho para a sociedade e para a
formação da cidadania brasileira.
Se a natureza deve ser respeitada no seu ciclo de existência e
valorizadas as fases da Lua, da maré, do florescimento das
árvores, da correnteza dos rios, do nascer e do pôr do sol da
colheita, as mulheres indígenas devem ter o mesmo tratamento.
O ato de criação é um ato de amor. Amor a si mesmo, amor
ao próximo, amor à natureza. Pode ser criar um texto, uma
música, uma pintura ou qualquer outra arte. Mas, para se chegar
até aí, muitos caminhos foram bloqueados, tivemos de tomar
muita água envenenada; muitos fantasmas tivemos de enfrentar.
Permanecemos como um rio que morre, que não corre e não
ecoa ao encontrar-se com as pedras. Tornamo-nos uma fome
desesperada pelo novo, enfraquecendo a nossa fecundidade.
Enfim, um caminho árido e infértil. Estivemos enclausurados
dentro de nós mesmos. Mas não aguentamos mais e demos um
basta! É hora de criar pacientemente o novo!
Aí soltamos as amarras que sufocam a nossa alma,a nossa
anima, a nossa essência, para que os pássaros possam cantar de
novo dentro de nosso espírito. Parece tudo muito simples. Mas
não é. Reencontrarmo-nos com nosso ser selvagem, com nossa
intuição, com nosso ser sutil, com nossos ancestrais, com nossa
força interior é um desafio diário, principalmente quando a força
externa impõe condicionantes sociais, psicológicos e político-
econômicos maléficos, que lançam as sementes da enfermidade
da alma e que, lá na frente, se transformam em enfermidades da
mente e do corpo. Nosso corpo pode estar doente porque nossa
alma também está. E temos de buscar a cura do espírito, a cura da
anima. Somente nós mesmos podemos fazer isso, assim como
somente nós mesmos podemos sentir o ato do nascimento,
quando nascemos, e o ato da morte, quando morremos. São atos
só nossos. Ninguém pode senti-los. Por isso, quando morre um
parente indígena, seus pertences são todos depositados em sua
tumba. Somos seres coletivos, mas, antes, temos nossa
individualidade, inclusive nossa solidão, como no ato do pensar e
da escrita.
Nos tempos atuais, é hora do desafio. Extirpar o monstro que
nos mata dia a dia é dura tarefa. Primeiro se sofre calado. Há os
que se acostumam com a dor, a opressão e a repressão social e
política, desembocando no desequilíbrio ou na loucura. Mas há
os que clamam, depois de invernos. Há os que berram! Nesse
momento, abre-se uma porta. A mudança dentro de nós só se dá
quando identificamos o inimigo interno (às vezes o inimigo somos
nós mesmos) e o rejeitamos, seja da maneira que for. Então,
podemos parecer loucos, mas, no ato de “vomitar”, é que está a
transformação do espírito para o novo homem, para a nova
mulher! Sofremos e não estamos aqui para sofrer. O Criador
oferece grandes dádivas de vida para seu filho, senão ele não
criaria tantas belezas, tantos mares, tantas planícies, céus,
montanhas, pássaros, seres humanos, ad infinitum...
E, quando o homem selvagem e a mulher selvagem4 gritam
dentro de nós querendo voltar para a casa primitiva, é chegada a
hora da mudança. Atente para os significados de selvagem e
primitivo, que nada têm a ver com historiografia, mas sim com
interior humano, âmago, essência espiritual, ser sutil, a casa da
alma, a ancestralidade e a intuição. Quando perdemos os
tesouros de Deus e ficamos desnudos e damos um basta, é
chegada a hora da criação. Ficamos quietos, sentimos solidão,
solidão que parece que mata, que maltrata, mas que é necessária.
E entramos em outras esferas superiores e sagradas. Esse selvagem
sagrado que foi resgatado, e que já estava dentro de nós e não
sabíamos, está também nos “recriando” e nos enchendo de amor
e nos fortalecendo. Nasce a criatividade. E renascemos. E
florescemos para o futuro. O processo de criação emana de algo
que surge e que vai crescendo em nosso âmago; é como um novo
amor em nossos corações. Vai crescendo e não temos rédeas para
segurá-lo. É um vulcão. É a (r)evolução do espírito. É o êxtase. É o
insight para o novo ser humano.
E esse único ato de criação é o suficiente para alimentar um
oceano, assim como o leite doce e materno de uma jovem mãe é
o suficiente para trazer de volta um ser nascido prematuramente.
No ato da criação se dá a purificação do espírito, da anima, da
alma e, consequentemente, a purificação do corpo e a extirpação
de velhos tumores, velhos fantasmas... O termo “purificação” não
está ligado a facções religiosas ou conotações cristãs. O termo
refere-se ao ser primeiro, ao ser sutil, à compreensão simples de
4 Aqui, “selvagem” refere-se a um conceito psicológico que significa intuição,
segundo a escritora Clarissa Píncola.
que a vida precisa ser vivida com amor e dignidade, e que o
amor, a compreensão, o diálogo e cooperação são os alicerces
para o novo homem, a nova mulher.
O processo anterior à criação – o sofrimento, o coração
endurecido, a anima esfacelada – é agora neutralizado e transfo-
rmado em pó, diante da grandiosidade da BUSCA pela
transformação e purificação do espírito. Tudo isso é simplesmente
política, a política da existência. CRIEMOS, então... porque a
criação é um ato divino que tende a mudar consciências, formar
opiniões, suavizar o individualismo que ronda as mentes.
E a mulher indígena, que passou por toda a sorte de massacres
ao longo da história, condicionada ao medo e ao racismo,
sobrevive porque é criativa, é xamã, é visionária, é curandeira, é
guerreira e guardiã do planeta. Seu inconsciente coletivo ancestral
refloresce a cada ato de criação, porque ela é capaz de beijar as
cicatrizes do mundo, em um ato de caridade. E a palavra dela é
sagrada como a terra que dá o alimento ao próximo, alimento da
CURA em todos os sentidos.
Retornando à personagem de nosso enredo, a Cunhataí, após
o sofrimento da perda de suas terras, de sua família e de sua
consciência de mulher indígena, revolta-se e desafoga suas dores
refletidas nos textos a seguir, porque, além do desterro, não
consegue saber o paradeiro de seu homem.
Amanhã é o último dia que venho aqui
Vou prestar as contas
Vou tirar essas roupas sujas
E vou lavar minha alma
Acho que vou ser feliz
Ou então vou viver na inércia da própria existência.
(Período da colonização)
Há vida nesta flor
Há vida nesta vida
Tão guerreira
Desprendida.
Há flor nesta vida
Há vida nesta vida
De guerreiro desprendido.
Nas veias Tocantins
Corre teu sangue humano
Louco, desvairado
Corre ou marca passo
A vida e a alegria
A ida que não devia.
Escorre, faz doer
Teu corpo humano
Pinga no alvorecer
Gotas, gotas rubras
Sangue louco, desvairado
Desvairado sangue
Sangue desesperado sangue
Há sangue nesta vida
Há vida neste sangue
Tão guerreiro
Desprendido.
Banha o suor do mundo
Com tua luta
Junta líquidos, faz crescer
Nossa gente pobre
Nossa vida amarga
Nós – Decadentes!
Indígenas, não...
Indigentes.
Às vezes
Me olho no espelho
E me vejo tão distante
Tão fora de contexto!
Parece que não sou daqui
Parece que não sou desse tempo.
Sabe, meus filhos...
Nós somos marginais das famílias
Somos marginais das cidades
Marginais das palhoças...
E da história?
Não somos daqui
Nem de acolá...
Estamos sempre ENTRE
Entre este ou aquele
Entre isto ou aquilo!
Até onde aguentaremos, meus filhos?...
Um dia
Esse corpo vai apodrecer
E eu vou ser verdade...
Então eu vou ser feliz.
Neste século já não teremos mais os sexos.
Porque ser mãe neste século de morte
É estar em febre pra subsistir
É ser fêmea na dor
Espoliada na condição de mulher.
Eu repito
Que neste século não teremos mais os sexos
Tampouco me importa que entendam
Possam só compreender em outro século besta.
Não temos mais vagina, não mais procriamos
Nossos maridos morreram
E pra parir indígenas doentes
Pra que matem nossos filhos
E os joguem nas valas
Nas estradas obscuras da vida
Neste mundo sem gente
Basta um só mandante.
Neste século não teremos mais peitos
Despeitos, olhos, bocas ou orelhas
Tanto faz sexos ou orelhas
Princípios morais, preconceitos ou defeitos
Eu não quero mais a agonia dos séculos...
Neste século não teremos mais jeito
Trejeitos, beleza, amor ou dinheiro
Neste século, oh Deus (?!)
Não teremos mais jeito.
Eu sou rebelde
E faço questão de o ser.
Tenho fome, tenho ódio
E não me deem uma metralhadora.
O que tenho pra te oferecer amigo
Enquanto bebo tua fonte que me espera?
São palavras, são sentidos, são perigos
Ou são silêncios profundos de uma era.
O que tenho pra te oferecer amigo
Enquanto sugo de teus olhos uma velha história?
São prazeres, são amores, roucos gritos
Ou sussurros de vencer até a vitória.
O que tenho pra te oferecer amigo
Enquanto me aqueço no calor de tuas mãos?
São lágrimas, são motivos, são juízos
Ou são faíscas conscientes da razão.
Andaram procurando por mimE eu estava só, triste e doente
E você amigo me estendeu a mão
Mesmo com palavras duras que não mentem.
Amigo, tu moras no fundo de minh’alma
E o que tenho pra te oferecer?
Só muita garra
Muita luta
Uma grande gratidão.
Pra nunca desvanecer...
Pra nunca desmerecer...
Pois te amo com grande afeição!
5 UNI (União das Nações Indígenas)
Não me importo
Se o que escrevo
São ilusões
Não me importo
Se o que escrevo
Não são versos,
Rimas
Redondilhas...
Não me importo
Se dizem que não trabalho
Sou vagabunda da vida
E ela é minha amante.
Juntos, temos o que contar...
Escorria-me das veias doentes
Um sangue ainda quente
Como percorre as águas do
Norte Levando pra bem longe
As ervas daninhas.
Onde estavas identidade adormecida?
Sofrida nas noites ensanguentadas
Anestesiada ou morta
Ou apenas me contemplando
Ao pé da porta?
Mirava-me calada, identidade amiga
Mas vieste a mim, pelas mãos do Criador
Fruto das atenções da luta
De suas mãos solares
De olhares ternos e carinhos puros.
Quem tu és identidade?
Que secretos poderes tens,
Que me matas ou me faz reviver
Que me faz sofrer ou me faz calar
Quais mistérios tu trazes na alma?
E quem é você doce guerreiro salvador das vidas?
Por quantos sangues lutou para estancar?
Quantos curumins fez brotar
Doce amante de mil formas a me encantar.
Vamos embora – nós três – agora
Tu, eu e a identidade caminhante
Só que cada um pro seu lado
Porque minha identidade pra renascer
A qualquer instante
Basta um fio de luz.
Uma gota mínima de tolerância
Ou uma esperança em seu semblante.
Porque só um fogo eterno
O útero de meus avós
Pra tornar minha cidadania decente.
A mim me choca muito esse ambiente
Essa música, essa dança
Parece que todos dizem sim.
Sim a quê?
Sim a quem?
Por que concordar tanto
Se o que se tem que dizer agora
É NÃO!
NÃO à morte da família
NÃO à perda da terra
NÃO ao fim da identidade.
Não tenhas medo, Ianuí
Que não vou te enfeitiçar
O nada, eu quero de ti
Pro nada talvez vou partir.
Poema de Amor?
Sei lá... se poema de amor!...
Só sei que me passa essa chama
E que me queima a alma errante.
Horas, mas dias, mil noites
Relembro teu corpo parado
Feito máscara imóvel ao vento
Doido a flutuar nos mares quentes.
Pássaro louco bicando os peixes
Engorda teu peito aberto
Inflama teu coração militante
É tua, essa paixão dos séculos
Mas te guardas feito tatu
Que não é chegada a hora
Enfia teus dedos na terra.
Desafoga as dores nela!
Mira pros céus navegantes
De teu barco em flor e vela
E rouba todas as forças solares
E renasce Boto6, amante, mais belo.
Engorda teu peito aberto
Aquece o coração nu noutras eras
Alimenta tuas veias em asas
Nas fantasias desertas
Corre pelos cajueiros e arrozais
Que te trago essa cana caiana
E outras limas pra melar nossas bocas
E relaxar no calor das manhãs.
Eu não te quero mais puro
Entrega-te que te vejo criança
Amor pronto a explodir
6 Mamífero marítimo que mostra o caminho
Fogo eterno, quem sabe?...
Ou vou partir, antes mesmo de vir
Num calor aberto semente...
Numa ilusão e sonho somente...
Nessa estrada longa, errante
Sendo meu caminho tão farto
Sendo teu peito tão forte.
Cabelos em mantos prateados
Ondas soltas nos meus mares
Sol aberto pra fortuna
Calor nos seios, teus olhares:
Rolam na imensidão de uma loucura.
Cabelos mágicos metálicos
São grisalhos os teus orvalhos
Tua cara é clara e farta
Tão bonita quanto a Antártida.
Cabelos tontos tons da paz
Despertam num mar entristecido
Tuas dores nunca ouvidas
Carências, desamor desesperados.
Cabelos brancos, neves, pratas
Achou-me nua, sem fé, vagante
Solidão nas madrugadas andantes
Amor, beijo-te o sexo: néctar das matas!
São teus cabelos tão brancos
Lindos brancos quanto francos
Me rouba toda num grande encanto
Feitiço brando em meus cânticos.
Quais mistérios nesses cantos?
Amor louco desvairado
Em tua descrença tão doída
Nas tuas desilusões de vida.
Tua beleza de meio século
Brota em teu corpo crédulo-nobre
Pele em flor amante descobre
Teu forte, lábios famintos
E me leva arrebatado afora
Pro outro século
E faz-me mulher desses ossos
Nas tuas asas românticas...
Gota de amor, tão obscura!
Alimenta meu coração insano
E dou-te o fogo, a força, a forma
Dou-te amor, faço-te certeza
E ganhas tempo, ganhas terra
Nós: Vida e amor, hoje... Tão mancos!
Quando Cunhataí era criança, ouvia os espíritos da mata, ela
via a mãe das águas. Cunhataí tinha o poder da cura. Sua mãe,
insatisfeita com as invasões dos estrangeiros, tomou erva má, para
que a semente que ouvia o espírito da mata morresse. A erva fez
muito mal à pequena Cunhataí; não a matou, tirou um pedaço
dela... A mãe, desesperançada com sua aldeia, não queria mais as
coisas do espírito, negava a terra e a raiz. Mas a avó da menina
era mais guerreira. A mãe ficou cega e muda. Tempos depois, a
mãe renasceu da mudez e da cegueira por uma prova divina que
passou e se tornou pajé, sacerdotisa das águas. E a triste avó,
cansada das dores e do peso do tempo, morreu. Mas sua essência
permaneceu.
O branco ria e incutia maus valores em alguns membros do
povo... A semente ferida e mutilada nasceu triste e com uma
estrela no olho direito. Era Cunhataí. Foi o lado direito que quase
morreu. Só ficou roxo como uma marca, “um sinal”, e sobreviveu
para ouvir os espíritos, os antepassados e as velhas mulheres
enrugadas pelos séculos. O velho espírito disse a Cunhataí: “Vai
ave-menina e mulher! Cria asas e enxergue; um dia, quem sabe,
seremos livres!”. Ela foi para longe sofrer. Por isso, quando ela
retornou à sua aldeia de origem, o cacique, a pajé e os segmentos
do povo a reconheceram, porque ela já era esperada, por decisão
dos ancestrais, há muitos séculos. O seu olho direito roxo – o
espiritual – foi identificado pelos líderes conectados com a
ancestralidade e pelo pitiguary, o pássaro que anuncia. Os que
não reconheceram estavam muito além, mas muito além de
qualquer tipo de compreensão do que seja essência,
transcendência indígena. Estavam cegos, por isso traíam seus
próprios conterrâneos e incentivavam a discórdia, a inveja, a
mentira, a intriga e a luta pelo poder e desconheciam o
verdadeiro sentimento de paz, solidariedade, amor ao próximo,
companheirismo, cooperação. Foram contaminados pelo poder
dos colonizadores. Só vislumbravam o materialismo, por isso não
podiam perceber os sinais dos deuses e ancestrais. Mas Cunhataí,
em toda a sua vida, seguiu o boto e as ordenações de seus
sagrados ancestrais.
Cristiane Portela
Cristiane Portela
Cristiane Portela
Dedicado à índia guerreira Dona Marta Guarani
Estávamos lá... Todos pintados e pintadas como se fôssemos para
a guerra. Quando passávamos pelos corredores do Congresso
Nacional, em Brasília, em 1988, por ocasião das atividades políticas
que conduziam à nossa luta dentro da Assembleia Constituinte,
vozes ecoavam e as palmas soavam estridentes. Várias bocas, dentes
e sorrisos. Mas um mesmo coração pulsava na esperança de que
essa constituinte trouxesse avanços para a garantia dos direitos
humanos dos povos indígenas. As senhoras e senhores executivos,
funcionários parlamentares, olhavam-nos da cabeça aos pés
admirados e curiosos como se fôssemos seres de outro planeta,
mas com carinho, certos de desconhecer a realidade de seu
próprio país. Porém, estávamos emocionados e emocionadas.
Todos se emocionavam, os olhos brilhavam como as estrelas e
essa emoção se misturava ao cheiro do café, na cantina ao lado,
aos lindos desenhos indígenas e ao cheiro da pintura de jenipapo
na cara, ao cheiro do óleo da castanha-do-pará e ao cheiro do
vermelho urucum que besuntava e brilhavaos longos cabelos dos
Kaiapó, liderados por Megaron. Os olhares dos Guarani
esperançados saltitavam apertados na capital do país. Os olhares
de lince dos Terena e Tukano almejavam por decisões. Olhares
desconfiados dos indígenas do Nordeste questionavam o futuro,
com suas palhas ressecadas pelo calor. As mulheres olhavam
sobressaltadas, mas resolutas.
Todos, apesar dos esforços e esperanças, estavam mais
realistas. Aquilo foi em 1988. Ailton Krenak7 pintou o rosto de
jenipapo. Impactou! Tempos depois, em 2003, a esperança
surgiu com o governo de Luís Inácio Lula da Silva, mas ainda se
avançou pouco no que se refere às conquistas.
7 Ailton Alves Lacerda Krenak, mais conhecido como Ailton Krenak, é um
líder indígena brasileiro, ambientalista e escritor.
À amada tia Severina, índia Potyguara,
grande anciã guerreira que muito me incentivou e
me amou com a força da mulher indígena.
No passado, nossas avós falavam forte
Elas também lutavam
Aí, chegou o homem branco mau
Matador de índio
E fez nossa avó calar
E nosso pai e nosso avô abaixarem a cabeça.
Um dia eles entenderam
Que deviam se unir e ficar fortes
E a partir daí eles lutaram
Para defender sua terra e cultura.
Durante séculos
As avós e mães esconderam na barriga
As histórias, as músicas, as crianças,
As tradições da casa,
O sentimento da terra onde nasceram,
As histórias dos velhos
Que se reuniram pra fumar cachimbo.
Foi o maior segredo das avós e das mães.
Os homens, ao saberem do segredo,
Ficaram mais fortes para o amor, lutaram
E protegeram as mulheres.
Por isso, homens e mulheres juntos
São fortes
E fazem fortes os seus filhos
Para defenderem o segredo das mulheres.
Pra que nunca mais aquele homem branco
Mate a história do índio!
(Texto publicado na cartilha de apoio, um “complemento político” à alfabetização
Potyguara e a todos os índios do Brasil, de autoria de Eliane Potiguara, em 1984,
com apoio da Unesco e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – Uerj.)
Na realidade, a simbologia de Cunhataí demonstra o
compromisso que ela tem com todas as mulheres indígenas do
Brasil. Sua dor, sua insatisfação e consciência de mulher é a
mesma trazida pelas mulheres guerreiras dos tempos atuais, que
agora se organizam.
Cunhataí tem os olhos de águia, Cunhataí tem a memória dos
elefantes. Cunhataí tem as pernas de um alce, velozes como as
éguas. Cunhataí vislumbra o novo, apesar de sua angústia, e quer
saber onde está o seu amor, desaparecido por ação do colonizador.
Cunhataí reconhece que as bases de suas tradições indígenas só
serão preservadas quando sua família estiver unida, física e
moralmente. Cunhataí sai pelas matas, pelos céus, pelos rochedos,
pelas montanhas, pelos rios e pelos lagos buscando suas raízes
fragmentadas e fragilizadas pelo colonizador de todos os tempos.
Viaja pelo espaço e vai percebendo, como em um filme, as
histórias de outras mulheres, de outros guerreiros, de crianças, de
velhos e de velhas ou viúvos(as). Ela vai testemunhando a
destruição das terras, a poluição dos rios, o saque das riquezas
minerais. Os véus coloridos e transparentes vão se enegrecendo
diante de seus olhos, os animais vão se transformando em
carniças, as lágrimas dos pajés e das velhas inundam seus cabelos
negros e sua nudez. E seu amor não é encontrado. Grita
Cunhataí:
O que quero dizer são loucuras assim...
São delírios da noite, pesadelos sem fim
São absurdos desejos embebedando a solidão
Pois perdi o caminho e sofri o amanhã.
Agora o que faço: só penso intranquila
A tua figura diante de mim
Parado no vento, feito imagem de santo
Que nem posso tocar...
Que nem posso falar...
Porque és feito pras deusas,
Completamente impossível
Impossível de olhar...
Impossível de amar...
E as minhas mãos trêmulas e tímidas
Procuram as tuas
E estás tão distante no tempo, no espaço
Que faço loucuras e grito e procuro.
Mas paro!
E quero apagar da minha memória
Tua imagem de homem
Cantando a história
Porque és forte, por ser macho guerreiro
Valente lanceiro
Gritando a vitória.
E só porque existes
Nem pedes licença
E me invades a mente.
O que quero dizer são loucuras enfim...
Loucuras escondidas, sentidas, doídas
Tanta loucura que não quero mais pensar em ti.
Lá vão dias roendo comigo
Tua imagem de amigo
Lavando a memória e não te querendo
Mas me invades a alma
Meus olhos, as noites, meus cantos
Enfim, os sonhos
E tua imagem guerreira de cara fechada
Fechada pro mundo
Se abre pra mim...
E em cada sorriso eu sofro de novo
Com medo da vida, sufoco o meu pranto.
E vivo essa roda enjoada, perdida
Contando os minutos, procurando a razão
E as horas passam
E o tempo não passa
E só passa por mim
Uma errante grisalha que ri a zombar sem fim.
E te imagino nos rios, nas matas contentes
Que são teus amigos constantes,
Fiéis, e a eles teus segredos confessas
E apenas no olhar são teus confidentes.
Amaste minha flor aberta, semente
Ferida de luta inda menina pra amar
E acendeu a paixão escondida
Brilhante pra vida
Sedenta a chamar-te
São tudo loucuras enfim...
Por isso vou me entregando à saudade, à ausência
À impaciência da ilusão.
E vou escrevendo e contando
Pro cais desse tempo, ainda criança
O tempo que jamais terei
Porque não brinco com a esperança
E vou vivendo a realidade
Do passado e do presente
Enquanto teu corpo ausente
Chama pelo futuro verdade!
Clama por uma vida crescente!
(ou “no dia em que mataram nossos avós ou quando eles desapareceram”)
Dedicado às viúvas indígenas
A minha tristeza é cor de prata
É o sol que bate no mar de suor e lágrimas
Refletido o amor doído
O amor impossível
Um amor das matas.
A minha tristeza é cor de prata
São teus olhos que procuro nas águas
Nas ondas do infinito azul
Enquanto ouço tua voz veloz
Trazida pelos ventos ardentes.
Vai-te sol vermelho
Rasgando o meu coração indefeso
Leva pro lado de lá
Meu amor
Uma mensagem de Paz
Um amor ingênuo, puro
Eternamente cândido
E que jamais te esquece.
Vai-te sol vermelho
Furando as nuvens em raios prepotentes
Quebra as ondas
E gritas se puderes
Que nessa margem de cá
Existe uma mulher amante, só
CONSCIENTE
Que jamais se cala...
Mesmo se lhe arranquem os dentes
ou se lhe cortem a garganta gritante!
Ó mulher, vem cá
que fizeram do teu falar?
Ó mulher conta aí...
Conta aí da tua trouxa
Fala das barras sujas
dos teus calos na mão
O que te faz viver, mulher?
Bota aí teu armamento.
Diz aí o que te faz calar...
Ah! Mulher enganada
Quem diria que tu sabias falar!
Tu que muito sabes desse mundo
Tu que nesta vida profunda
Com todos os séculos aprendeu a malícia
Como quer que te chame?
Tu que me enganas (suponho) ouvindo parada
Te vejo os que te fingem aos ouvidos
E tua mente chama ainda;
“Não é isso não!”
E tu choras
E tu sofres pela incompreensão
E tu morres
Pelo roubo e assassinato.
Por que ficas parada?
No dia em que rastejastes
E no que apanhaste na cara
Vi a teu lado a miséria e a morte
Companheiras fiéis.
Tu que te banhaste em teu próprio sangue
Não tem coragem de exclamar
Ou tem medo de ser errante?
Tu que sentiste
O racismo na carne
O desprezo dos olhares
A inveja de serem
Pelo menos um minuto
O que hoje és: HONESTA!
Tu calas, mas vejo teu sorriso
Da compreensão deste mundo
Na ruga do pé do olho
No canto da boca rota.
E penso mesmo, talvez...
Que seja, por enquanto, calar e olhar ao redor.
Porque tua mente viaja
E enxerga...
E és nobre por calar-te nesta hora
És humilde e guerreira.
Mas sei que tens uma cachoeira de lágrimas
Dentro do peito
E uma enorme garra na VOZ
Pra gritar esse massacre SEM PAZ
Mas luta, mesmo que não possas falar
Por ora, minha TERRA
Porque ainda estás presa
Nas garras da tua própria história.
Mulher indígena!
Que muito sabes deste mundo
Com a dor elaaprendeu pelos séculos
A ser sábia, paciente, profunda.
Imóvel, tu escutas
Os que te fingem aos ouvidos
Fé guerreira, contestas:
“Não aguento mais a mentira!”
Mas longe deles, choras a estupidez,
O MEDO...
(sim, longe deles!)
Sofres incompreensão e maldade
Aos poucos morres à míngua...
Desrespeito, roubo, assassinato.
No dia em que rastejaste
Imploraste tua terra – e JÁ TINHAS!
A teu lado companheiras: miséria e morte
A violência e a angústia dos trópicos...
Nas caras ela viu o abuso
A inveja de ser o que és: cândida,
lúcida, mãe, companheira...
E tu zombastes desses pobres (de) espíritos.
Sabes do rio de lágrimas
Que te aperta o peito aflito
Na bolsa d’água o filho esperas
Futuro, luz, nova era.
Mas luta, raiz forte da terra!
Mesmo que te matem por ora
Porque estás presa ainda
Nas garras do PODER e da história.
8 Este texto já foi publicado várias vezes como Mulher Macuxi, Mulher
Yanomami.
Quando eu te conheci, guerreiro
jamais iria sonhar
que nossos corpos se tocariam
que nossas bocas se esquentariam
com ares de manhã.
Quando eu te conheci, amigo
amei-te terna pela luta
amei-te muda pelo mundo
desprezando línguas falantes.
Quando eu te conheci, amigo
estava só, triste e doente
ensaiando um abrigo
de amor, um doce amante.
Quando eu te conheci, guerreiro
vi brotar a luz em mim
vi brilhar a juventude
corroída no semblante.
Quando eu te conheci, amigo
voltei à não vivida infância
passei a pular feito criança
buscando um sangue novo – a esperança.
Mas já é tarde, doce guerreiro
pois não trago no peito a moça pra ti.
O tempo passou e não pôde nascer
a mulher que não deixaram viver!
Enquanto ela geme calada
Não mais teme a solidão
Corroída e amofinada
Vence o câncer que a maltrata.
Anda só em pele e osso
Com vergonha da agonia
Caladinha seca o olho
Das lembranças e da ironia.
Se querem cortem logo sua língua
Se querem injetem logo essa morfina
Porque pra ser mulher determinada
O sorriso aparece na verdade
Mas a tristeza está sempre presente.
Vem, irmã
bebe dessa fonte que te espera
minhas palavras doces ternas.
Grita ao mundo
a tua história
vá em frente e não desespera.
Vem, irmã
bebe da fonte verdadeira
que faço erguer tua cabeça
pois tua dor não é a primeira
e um novo dia sempre começa.
Vem, irmã
lava tua dor à beira-rio
chama pelos passarinhos
e canta como eles, mesmo sozinha
e vê teu corpo forte florescer.
Vem, irmã
despe toda a roupa suja
fica nua pelas matas
vomita o teu silêncio
e corre – criança – feito garça.
Vem, irmã
liberta tua alma aflita
liberta teu coração amante
procura a ti mesma e grita:
sou uma mulher guerreira!
sou uma mulher consciente!
-
-
Cunhataí viaja pelo tempo e pelo espaço e, depois de seguir
trilhas e sofrer todas as dores que uma mulher pode sofrer, ela
para, senta-se e reclina a cabeça ao chão. Absorta nos passos de
um formigueiro, ouve vozes intercaladas e, no meio delas, escuta
a voz ancestral.
A coisa mais bonita que temos dentro de nós mesmos é a
dignidade. Mesmo se ela está maltratada. Mas não há dor ou
tristeza que o vento ou o mar não apaguem. E o mais puro
ensinamento dos velhos, dos anciãos parte da sabedoria, da
verdade e do amor. Bonito é florir no meio dos ensinamentos
impostos pelo poder. Bonito é florir no meio do ódio, da inveja,
da mentira ou do lixo da sociedade. Bonito é sorrir ou amar
quando uma cachoeira de lágrimas nos cobre a alma! Bonito é
poder dizer sim e avançar. Bonito é construir e abrir as portas a
partir do nada. Bonito é renascer todos os dias. Um futuro digno
espera os povos indígenas de todo o mundo. Foram muitas vidas
violadas, culturas, tradições, religiões, espiritualidade e línguas.
A verdade está chegando à tona, mesmo que nos arranquem
os dentes! O importante é prosseguir. É comer caranguejo com
farinha, peixe seco com beiju e mandioca. É olhar o mar e o céu.
E reverenciar os mortos, os ancestrais. É sonhar os sonhos deles e
vê-los. É conviver com as “manias de caboco”, mesmo sufocados
pela confusão urbana ou as ameaças agrestes, porque, na
realidade, são as relações mais sagradas de nosso povo, porque
são relações com a terra e com o Criador, nosso Deus Tupã.
Bonito é vestir os trajes do Toré e honrar-se como se vestisse os
trajes dos reis, e senti-los como a expressão máxima das relações
entre o homem, a terra e Deus. É sentir o sagrado e o universo. O
importante é crer e confiar, mesmo que, na noite anterior,
tenham violado nossa casa ou nosso corpo. É preciso ouvir os
velhos, o som do mar e dos ventos. É preciso a unidade entre as
famílias, por isso pedimos a Tupã que nos proteja e dê um basta
ao sofrimento secular de nosso povo comedor de mandioca.
Pedimos à Força Superior que nossos pensamentos se elevem aos
mais profundos planos sagrados da espiritualidade indígena, junto
aos velhos, aos curandeiros, aos velhos pajés, muitas vezes apagados
pelo poder, mas renascidos como força, pela consciência do povo.
Pedimos que nossos espíritos se elevem ao mais sagrado da
sabedoria humana e que todas as nossas cabeças indígenas e de
outras etnias e povos recebam a irradiação do amor, da paz e do
conhecimento, transformando todo pensamento discordante e
conflituoso em pensamento de paz, construtor da unidade entre
todos os seres do planeta Terra.
Que possamos construir, a partir de agora, uma grande frente
de energias, apoiada por todos que leem ou ouvem este
compromisso, para garantir a dignidade de povos abandonados,
condenados à extinção.
Não! Não podemos admitir a derrota. Há jovens, há crianças
sorrindo, há mar, há sol, há esperanças. Há espiritualidade! Basta
que soltemos as amarras do racismo impostas ao nosso
subconsciente, esse inimigo que divide o nosso povo.
Abramos a porta. Entremos. Nossos velhos nos esperam para a
cerimônia da paz e da luz inquebrantável.
Um grande marco está se colocando aos anciãos, aos
guerreiros, a nossos avós, a nossas mães, aos nossos velhos
defensores eternos da terra e da natureza.
Vamos, meu povo, elevemos nossos pensamentos a Tupã e
abramos o nosso coração na Oração pela libertação dos povos
indígenas, pelos 300 milhões de indígenas que habitam o planeta
Terra. E pensemos na frase sábia do cacique Xavante Aniceto: “A
palavra da mulher é sagrada como a Terra”.
Por que aguentamos tanta violência? Nós, mulheres dos
segmentos dos povos indígenas e afrodescendentes, ainda
aguentamos tanta violência porque não reforçamos a nossa
mulher interna, a mulher selvagem que existe dentro de nós, a
mulher primitiva, no sentido “primeiro”. Uma mulher deve andar
com a força à sua frente; a profunda natureza intuitiva dessa
mulher deve prevalecer na dualidade obrigatória de toda a mente
feminina. E quem dá essa força? Receber a herança ancestral de
nossa família ou de uma cultura é uma missão a cumprir, isso é
praticamente obrigatório dentro da anima. Mas levar adiante essa
herança é Sabedoria. Quais as rasteiras que devemos dar no
neocolonizador, no opressor político-cultural para despertarmos a
força interior e transformá-la em sabedoria e arma para o
crescimento da humanidade e de melhor qualidade de vida?
Como purificar a persona que existe em nós, com tantos vícios
impostos pelo sistema político e econômico que nos discrimina,
nos oprime, nos mata e torna a nossa autoestima deplorável,
fazendo com que aceitemos, pacíficas, durante séculos, a
violência, seja física, psicológica, sexual, mental e até espiritual!
Franz Fanon coloca em seu livro Condenados da terra os
resultados psicológicos maléficos da opressão política e racial ao
povo argelino há mais de vinte anos.
A chama do conhecimento ancestral, seja indígena, seja
oriunda de outras raízes, deve ser reavivada imediatamente na
alma de todas as mulheres,e dos homens também, para que
possa despertar o feminino dentro dela, e a parceria homem-
mulher seja comungada dentro dos princípios dos direitos
humanos mais transcendentais.
Quando despertamos essa força, começamos a reconhecer a
sombra negativa da nossa psique, o predador natural, os aspectos
negativos de nosso comportamento, o nosso inimigo interno; e,
nesse processo, começamos a reagir contra a opressão, o racismo
e a destruição causados à nossa persona. Os aspectos negativos de
nosso interior vão se somando a milhares de mentes do planeta
Terra, atrelando-se a outras mentes, também vítimas da opressão
e, dessa forma, sedimentam o grande contingente que hoje é
chamado “Terceiro Mundo”. Diante disso, temos de lutar contra
o inimigo interno, mesmo que sejamos oprimidos, pois essa
opressão certamente trará não só os aspectos positivos de nosso
caráter, como também os vícios impostos subliminarmente pelo
colonizador.
Os aspectos da cultura de alguns povos, como o sacrifício de
crianças ou a mutilação de partes do sexo feminino, são costumes
muitas vezes empregados por membros comunitários para
intimidar e impedir práticas costumeiras que possam vir a ser
vinculadas com o colonizador. Tal medida gera medo do
relacionamento com esses povos, por constituir um ato doloroso ou
moralmente cruel. No contexto étnico brasileiro, a identidade
masculina, para defender suas mulheres indígenas, por exemplo,
fazia com que estas tivessem dor no ato sexual, vinculando assim o
prazer à dor. Desse modo, as mulheres indígenas não aceitariam a
submissão ou ofertas de qualquer homem branco que nelas
chegasse, porque pensariam que o relacionamento sexual estaria
sempre atrelado à dor. Assim, o marido, de certa forma, estaria
defendendo sua mulher. Ao longo da história, o homem indígena
teve de mudar seu comportamento com a mulher indígena, em
uma tentativa desesperada e inconsciente de preservar a família.
No período das colonizações portuguesa e espanhola, no Brasil, os
homens indígenas conduziam toda a sua família ao suicídio
coletivo, contra a escravidão, e, consequentemente, à destruição
cultural. Nos tempos atuais, o suicídio, a submissão, o alcoolismo, a
desesperança e a fome têm sido sintomas da opressão colonizadora
decorrentes da violência aos direitos humanos fundamentais dos
povos indígenas e que afetam as mulheres mais diretamente.
O empobrecimento econômico de nossas vidas, o racismo, a
intolerância, o desequilíbrio da nossa biodiversidade em todos os
sentidos são fatores que provocam timidez, conformismo, baixa
autoestima, sentimento de culpa, infelicidade, angústia, insatisfação
constante e concessão ao dominador, além de cooptação política.
Esse processo desestabiliza o contexto cultural e espiritual;
enfim, a cosmovisão de cada um de nós, indígenas, negros ou
demais pertencentes a segmentos oprimidos, o que traz à tona
um lamentável estado psicológico de angústia e insatisfação,
prejudicando todos os aspectos das relações humanas.
Ainda a pergunta: Por que aguentamos tanta violência
subliminar? A intuição é a mensageira da alma; a intuição é a
força do conhecimento tradicional, ancestral. A tocha da
ancestralidade deve ser trabalhada dentro de cada um de nós,
pois ela é riquíssima em conhecimentos, sejamos indígenas,
negros, amarelos ou brancos. O nosso cérebro, fisicamente,
guarda espaços e tradições jamais alcançados. É preciso lembrar,
despertar da escuridão mental e espiritual e deixar fluir o
inconsciente coletivo para que ele flutue nos mares da
consciência, que é quem dá a tônica da vida. É preciso uma força
extraordinária para resgatar os conceitos e princípios da
ancestralidade que cada um tem dentro de si. É ética. É princípio.
É busca, inclusive, da paz que vai se somar à construção da
corrente do amor e da ética. Mas só da conscientização de quem
somos nós, como povos indígenas ou oriundos de outras raízes, é
que brotará uma percepção, reveladora da riqueza, da
preciosidade que existe adormecida na vastidão das mentes, dos
corações e dos espíritos.
O homem – ser do sexo masculino –, que também tenha
buscado esse homem selvagem, esse homem “primeiro”, ancestral
dentro de si, é o verdadeiro homem que vai conquistar o coração de
uma mulher, pois ele vai compreender, reconhecer e respeitar
profundamente a dualidade feminina, a guerreira e a mãe doce e
pacífica que existem dentro de todas as mulheres. E a guerreira, a
ancestral, a mãe selvagem, a filha, todas reunidas em uma só
mulher, não vai mais permitir a sombra negativa que ronda o
planeta Terra, porque ela, purificando/lapidando sua persona, vai
multiplicar muitas outras essências, começando pelo seu próprio
filho homem, futuro cidadão, futura cidadania mundial, para a
construção da cultura da verdadeira paz e da igualdade social. E a
relação de gênero nesse estágio será bem melhor do que a dos
tempos contemporâneos, que nos faz sucumbir à dor, que nos faz
desamar a nós mesmos e ao próximo. Nesse processo de
reconstrução do ser humano, vamos lapidando o grande
diamante que é a consciência humana.
Homens e mulheres que reconhecerem mutuamente o
processo de reconstrução da mente e do espírito estarão
apoiando a criatura interna, a verdadeira anima, o profundo
anseio da alma fortalecida pela ancestralidade que existe dentro
de todos nós, a verdadeira ancestralidade do ser “primeiro” – a
força interior. Esses sim estarão construindo a grande força mental
e espiritual, a grande frente em direção à conquista dos direitos
humanos, para nunca mais se permitir a opressão, a baixa
autoestima, o conformismo, o racismo, a desvalorização do eu
físico e da verdadeira persona. Necessitamos estar fortes para lutar
pelos nossos direitos civis, exigindo-os.
Para isso, é importante ouvir os sábios e as sábias indígenas e
afrodescendentes e de outras etnias e raças. No entanto, o
sistema político e social desvaloriza os idosos, postergando-os,
arrastando-os para o corredor da morte lenta. Ao longo do tempo,
os velhos e as velhas pajés e xamãs foram subestimados pelas
instituições, que insistem em impor valores políticos e religiosos
alheios a eles, conduzindo-os à marginalidade cultural. É tempo de
resgate. Os caminhos e as respostas para um novo mundo estão na
aquisição e no reconhecimento dos conhecimentos tradicionais das
primeiras nações deste grande e luminoso asteroide azul contra o
inimigo interno e externo.
Os povos indígenas do Canadá, por exemplo, como forma de
resistência, criaram, há décadas, um movimento de luta, uma
organização chamada The First Nations, como uma maneira de
mostrar e reforçar que os primeiros povos do território canadense
foram e são os povos indígenas de lá. Com essa atitude, The First
Nations promove uma importante conscientização de quem
somos como indígenas e qual a nossa importância nesse contexto.
É necessário fazermos uma reavaliação das histórias de vida de
nossos velhos e velhas profetas, de qualquer etnia, nação, religião,
corrente espiritual, dando uma nova interpretação às suas palavras.
Não interpretações segundo nossas crenças, velhos costumes, velhos
modelos, velhos preconceitos; mas começar a perceber, nas
profecias deles, os verdadeiros caminhos para a construção da
paz e da ética que todos almejamos.
E quando a mulher puder sentir o gosto salgado das lágrimas
de seu homem, porque ele humildemente o permitir, por sua
sinceridade, compaixão, história e tolerância, assim como o homem
em relação à mulher, em uma imagem simbólica, mítica, mística,
mágica, encantada, aí sim, o verdadeiro sentido de gênero existirá
nas relações humanas: a mão da paz estará sobre todas as cabeças
e todas as mãos estarão entrelaçadas entre elas pelo espírito de
cooperação, solidariedade, amor, compreensão e paz verdadeira.
Ser líder espiritual, em qualquer lugar, em quaisquer culturas e
tradições significa estar conectado primeiro com o eu interior, a
mulher/o homem selvagemdentro de si mesmo, como já
dissemos. É estar conectado(a) com a sua intuição e com todos os
desdobramentos dela, o que nos remete às nossas culturas e
espiritualidades tradicionais, dentro da nossa casa espiritual e
mental. Realmente é poder fazer com que seu cérebro e seu
espírito relembrem os ensinamentos da ancestralidade, como no
caso indígena, cuja herança espiritual é passada de pai/mãe para
filho/filha. Nenhum pajé indígena faz curso para ser pajé. O pajé
– “é” – e ponto final e ninguém o discrimina. O ser xamã não tem
designação espacial, ele pode ser do mar, da terra, da cidade, do
campo, das montanhas. É evidente que os lugares mais tranquilos,
como a mata, são favoráveis à meditação e à expansão da alma.
Mas quem é líder espiritual o é em qualquer circunstância. No
caso indígena, em uma família, pode haver vários filhos, mas
somente um ou dois terão qualificação para a espiritualidade.
Todos os filhos terão a mesma educação, mas “aquele” se
destacará por sua natureza iluminada, será um grande
reverenciador da cultura da paz e da ética. É intrínseco nele, ele
já traz as lembranças adormecidas mais favoráveis ao despertar
interior. As práticas espirituais, as pajelanças de seus avós, pais ou
tios na sua educação diária, desde a tenra infância, vão
funcionando como um elemento motivador, iluminador de sua
trajetória espiritual. E seu fortalecimento só será complementado
quando ele expandir a sua energia vital e espiritual – a sua
consciência e inconsciência – direcionadas para sua comunidade,
exercendo a cura em todos os sentidos.
O eixo celular do significado espiritual dentro da casa física do
pajé é o dar-se ao próximo. Sem o “dar-se” não há energia e
tampouco a cura, o Poder de realizar as cerimônias e o Poder do
pressentir. E o pressentir é remetido para o doar-se. Como se vê, é
um ciclo... como é um ciclo a morte e a vida... A vida e a morte...
A morte e a vida... E o caminho espiritual do pajé é solitário,
assim como o ato de nascer ou de morrer, ou o ato da criação da
arte. É um ato só nosso. O pajé, mesmo sem conhecimento
científico do que sejam direitos humanos, é um dos maiores
defensores natos, na teoria e na prática, desses direitos, além de ser
um curador. Ele é o verdadeiro conhecedor dos conhecimentos
tradicionais: Patrimônio cultural de povo, propriedade intelectual de
seu povo.
De 2001 a 2003, fazendo um estudo sobre a filosofia e a
psicologia de Clarissa Pinkola Estés, em seu livro Mulheres que
correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher
selvagem – leitura a mim indicada por uma grande amiga, Maria
Inês, mulher negra –, encontrei parte das respostas para as
perguntas que estava fazendo há muitos anos em minha vida: eu
como uma pessoa de origem indígena, mulher, de família
extremamente pobre e migrante dos territórios indígenas por ação
violenta da neocolonização algodoeira nordestina, vitimada pelo
racismo ambiental e pelo racismo contra as próprias mulheres que
serviam de objeto sexual para os colonos. E, em um momento de
maior êxtase de minha vida e inspirada por essa pensadora
feminina, a escritora Clarissa de múltiplas identidades e
cidadanias (classificação dada por mim), inclusive a indígena,
escrevi o texto a seguir:
A luz se abriu e a minha pele de foca voltou a se umedecer.
Minha pele estava seca pelas vicissitudes da vida.
Eu mergulhei nas profundezas dos mares e reencontrei minha
avó-foca, minhas sagradas ancestrais e os velhos guerreiros que
também não se envergonhavam por suas lágrimas.
Elas – sabiamente – me contestaram e mostraram que eu,
inconsciente e pacificamente, aceitava os padrões éticos
impostos pela intolerância da sociedade, e voltei com minha
alma fortalecida, voltei com meus sonhos definidos, voltei com
minha intuição extremamente clara, precisa, determinada.
Minhas costelas não estão mais descarnadas, a carne voltou a
crescer depois que os homens derramaram suas lágrimas pelas
mulheres do mundo e eu não sou mais uma mulher-
esqueleto, jogada ao fundo do mar, como se fora um sapato
velho, pela cultura impostora. Sou uma mulher de fibra,
porque eu me reconstruí por mim mesma, depois de dançar
desvairadamente na vida com meu iludido sapatinho
vermelho. Quase perdi os meus pés, as ervas daninhas
enrolaram neles pra que nunca mais caminhasse pelas estradas
do saber, da consciência e do mais alto grau da espiritualidade
indígena, mas pude dominá-los e arrancar esses malditos
sapatinhos vermelhos das chamadas “Mulheres e mães boas-
demais!” que, por serem assim, vivem sufocadas pelo peso da
história e da opressão e quando vislumbram uma
“semiliberdade”, uma ilusão, a seudoliberdade, se perdem nos
terríveis sapatinhos vermelhos da cultura falsamente
iluminada, que escamoteia o poder, o preconceito, o racismo.
Meu ego não pode ser mais forte que minha alma. Minha
alma é ancestral, meu ego não pode dominar minha
verdadeira história. Faço agora um acordo entre meu ego e
minha alma. Minha alma é primeira, é forte, é intuitiva; ela é
ética, para não dizer pura, minha alma é terna, eterna amante,
indígena.
Mas meu ego, condicionado pela cultura dominante, me leva
para a escuridão terrena, celestial, marítima, onírica e
filosófica.
Conduz minha autoestima para os porões. Não, mulheres do
mundo! Não aceitemos mais. Não, não, não, não, não!
Meu ego não pode ser mais forte que minha alma, minha
anima, minha essência de mulher selvagem, indígena,
essencial à preservação digna do planeta e dos seres humanos.
Basta de violência. Nós somos lobas. Somos músicas que
ecoam no etéreo.
Nós somos focas. Nós somos Humanidade e sabemos o que é
digno para nós. Nossa pele de foca brilha de novo.
Ouçamos definitivamente nossas velhas e velhos.
A partir desse texto, Pele de foca, chamo a atenção de todas as
mulheres e de todos os homens. Mas vejam: como esse
antagonismo ego versus alma foi minimizado entre os povos
indígenas em uma tentativa de neutralizar sua cosmovisão? É uma
pergunta que precisamos fazer e encontrar caminhos concretos para
solucionar problemas identificados. Quando nos apercebemos da
luta que existe entre o ego e a alma é que devemos, lucidamente,
fazer uma viagem ao inconsciente coletivo em busca das nossas
raízes étnicas, raciais, espirituais para fortalecer o nosso eu
interior. As histórias de nossas e nossos ancestrais são referenciais
riquíssimos para esse fortalecimento interno.
A mulher e o homem que ouvem a sua intuição, que se
apercebem de seus sonhos, que ouvem a voz interior das velhas e
das mulheres guerreiras de sua ancestralidade e que possuem o
olhar suspeito dos desconfiados, esses, sim, são uma ameaça ao
predador natural da história e da cultura. Por isso o predador tem
medo desses homens e mulheres quando percebem a violência
de seu algoz. Quando podemos identificar quem são as três
velhas indígenas que nos surgem nos momentos de maior crise,
ou nos momentos de perigo, e compreender por que suas mãos
se estendem às suas filhas, netas e bisnetas, e, juntas, as seis mãos
se transformam em cobras como em um aviso quase rouco, mas
grandioso, pela simbologia e anúncio, aí sim, somos aquelas e
aqueles que, como águias, percebemos o menor gesto do
inimigo, não só interno como o inimigo na sociedade do dia a
dia. Devemos alimentar o nosso lado criativo, intuitivo, o nosso
lado bom contra o lado mau de nossas mentes. É preciso
interpretar as mensagens oníricas de nossas velhas indígenas.
Para dominar esse predador (o inimigo de que falei
anteriormente), que está dentro do homem e da mulher, e fora
deles, na sua cultura, é preciso tomar posse de nosso instinto
selvagem, de nossos poderes intuitivos, de nosso ser resistente, ser
guerreira(o), ser questionadora(o). É preciso ter insights, ter
tenacidade e personalidade no amor que procura, ter percepção
aguçada, ter audição apurada, ouvir os cantos dos mortos, ter
sensibilidade, ter alcance de visão, cuidar do fogo criativo,ter
espiritualidade, mesmo que, para tudo isso, elas(es) sofram,
sangrem, tremam, se rasguem e gritem ou desçam ao fundo do
poço do sofrimento humano para renascer mais belas(os)! É uma
luta delas(es) contra elas(es) mesmas(os), porque é uma luta contra
uma cultura que impõe valores dominantes como machismo,
racismo, intolerância, discriminação, preconceito, xenofobia, falso
moralismo. O predador natural da história faz com que esses
homens e mulheres se sintam “esgotados”, mas, mesmo assim,
serão vencedores, se quiserem vencer. Renascidos, farão renascer
também seus descendentes, inclusive os masculinos. Por isso a
importância da mulher na existência humana. Ela é sábia; está
mais aberta ao aprofundamento do eu interior, da busca da
ancestralidade.
Essa filosofia de vida nada mais é que uma estratégia
infinitamente condizente com a cultura indígena. A cultura do
respeito, a cultura de paz, a cultura da veneração à natureza e ao
grande espírito, o Criador. É a cultura do respeito aos velhos(as),
às crianças, aos mitos, às lendas de origem da vida. É a cultura do
agradecimento pela existência humana, como fizeram os Maias,
por exemplo.
O povo indígena sobrevive há séculos de opressão porque tem
como maior referencial a tocha da ancestralidade, do perceber
intuitivo, da leitura e da percepção dos sonhos, do exercício da
dança como expressão máxima da espiritualidade e da
valorização da cultura, das tradições, da cosmovisão personificada
na figura dos mais velhos e das mais velhas, os idosos planetários.
Sua percepção é aguçada como a de uma águia ou de um
condor, sua percepção de visão é como o olhar de uma sábia
coruja, sua audição é tão nobre, mágica e perspicaz como a
surdez de uma cobra, e sua visão interior é maior que a cegueira
de um morcego, a força de um rinoceronte indomável ou a
inteligência de um elefante.
Quando se comunga com as águias, no caso dos indígenas
norte-americanos, ou com o condor, na América do Sul, se
comunga com a força interior dessas aves que trazem no olhar o
fogo da quintessência, a força da alma. Seus olhos traduzem-se
nas janelas da intuição. Os olhos sábios são as janelas das almas
sábias! Os xamãs, os pajés, os líderes espirituais masculinos e
femininos aperceberam-se dessa energia vital e comungam com
essa energia em suas vidas, inclusive passadas, repassando essa
força para o seu povo. Por isso o povo indígena guarda uma
cosmologia refletida em seus mistérios, suas histórias, seus
silêncios e seus territórios, demonstrando a ética, a cultura de paz,
o conservador nato da ecologia, da natureza da vida, o amor
profundo e o respeito.
Lendo, então, a escritora Clarissa Pinkola, percebi que ela
enfocou aspectos da tradição indígena no papel do fortalecimento
das mulheres do mundo. Fui muito feliz nesse encontro comigo
mesma e com a escritora, porque, antes, já havia incorporado
inconscientemente a sabedoria de minha mãe, minhas tias
indígenas e, principalmente, minha avó, Maria de Lourdes, filha
do guerreiro indígena desaparecido no início do século XX. Sou
feliz porque aprendi esses conceitos com elas, mesmo que elas
estivessem fora de suas terras tradicionais. Elas foram enxotadas
de suas terras, mas os valores, os conceitos, os princípios, a
cosmologia jamais, em tempo algum, foram dizimados pelo
colonizador. Essa é a nossa maior herança: a preservação da nossa
essência, em um mundo impune, cheio de diferenças e
preconceitos. É como renascer no meio do lixo. É como a flor de
lótus, que nasce na lama e atinge a superfície cristalina.
Foi aí que comecei a compreender, na prática (pois na teoria
já percebia, mas não tinha consciência que minha prática era
totalmente ignorante), que era necessário eu me amar e
compreender as razões pelas quais essas mulheres de minha
família foram tão sofredoras. Esse sofrer me pegou pelo pé, mas
pude dar um nó nisso tudo quando pisei nas terras de meus avós
e compreendi sua história oprimida e a história opressora do
colonizador. A partir das histórias, pude compreender que a
sociedade impõe às mulheres e às pessoas discriminadas
racialmente um desamor a elas mesmas, conduzindo-as aos vícios
e à baixa autoestima. Há mais de cinquenta anos tenho
trabalhado pelo amor a mim mesma, para colocar na prática que
a re-evolução começa dentro de cada um, para que possamos
construir o amor ao próximo ou o amor sem imposições, o
chamado amor incondicional. Isso é muito difícil na prática!
Povos indígenas exerciam relações de gênero no passado de
forma justa, quando as mulheres Guarani, por exemplo, eram
ouvidas nas assembleias indígenas. Há mais de vinte anos tenho
dito, em todas as assembleias, conferências, palestras por onde
passo, que as mulheres indígenas tinham o seu papel político
extremamente determinado e forte. A palavra final, em uma
assembleia indígena, no século XVII, era a da mulher. Os homens,
desesperados pelo processo de colonização e racismo, ao verem suas
mulheres estupradas pelo europeu, decidiam pelo suicídio coletivo
com a palavra final da mulher. Os povos que permaneceram vivos
introduziram-se pelas matas e, temerosos, colocaram as mulheres,
crianças e velhos na “retaguarda cultural”. Passaram-se séculos e, até
hoje, esse temor indígena sobrevive no universo masculino, pois o
neocolonialismo existiu, assim como existem a nova ordem mundial
e a globalização. De certa forma, o homem, obrigatoriamente,
assumiu um papel machista para a defesa de sua família. No contato
com o colonizador, esse homem adquiriu os vícios dos estrangeiros.
Hoje, os povos indígenas trazem marcas dessa colonização e da
neocolonização também imposta, por isso precisamos reconstruir
o gênero entre povos indígenas e reconstruir nossas histórias.
Voltando à questão da essência, por que povos indígenas
chamados emergentes, ressurgidos, descendentes ou quilombolas
reacendem sua identidade étnica após diversos massacres
culturais, religiosos ou políticos? Porque seu inconsciente coletivo,
isto é, sua alma, sua essência, sua quintessência gritam mais forte
que seu ego, repito. Sua alma é atrelada aos ancestrais, à sua
história pseudoesquecida. Essa história é como uma mina em
terreno proibido. A qualquer hora, um movimento mínimo mina
como um fio d’água e explode como um oceano. Não dá para
calar, por isso a há a tradição do povo guerreiro.
Em muitas áreas brasileiras, povos dessa natureza refletem esse
pensamento e pipocam translucidamente, como é o caso dos
Pitiguary, no Ceará, ressurgidos nos anos 1990; o caso dos
Catókin (em 2003), no interior de Alagoas; ou ainda o povo
ressurgido Poruborá, de Rondônia, ou descendentes indígenas em
casos individuais, como a história de Juvenal Teodoro, de origem
Paiai-á, da Bahia, e outras pessoas indígenas que pipocam aqui
ou ali. Caso peculiar e antigo é o da constituição da Organização
Kaguateka, que tinha uma proposta preliminar de organizar os
indígenas desaldeados de Campo Grande, Mato Grosso do Sul,
encabeçados pela saudosa índia Dona Marta. A proposta era
muito interessante, mas esbarrou em problemas históricos,
intolerâncias e autoritarismos dos não indígenas. E o próprio
contingente desaldeado não estava preparado para tal
organização. Os aldeados jamais poderiam compreender.
Tudo é um processo histórico. Não pode haver discriminação
com esses segmentos. Essa cidadania precisa ser reconstruída, mas
há segmentos na sociedade que tentam bloquear e discriminar
esse fenômeno social. Tem sido um desafio para esses povos e para o
movimento esse “reconhecimento” como indígena, dada a
intolerância de uma minoria da antropologia institucional, eclesiástica
e oficial, na realidade purista, insensibilizada, que ainda não
assimilou a dinâmica do combate à discriminação racial, à xenofobia
e a todas as formas correlatas de intolerância tão bem discutidas na
Conferência das Nações Unidas, na África do Sul, em 2001, por
exemplo, na qual a participação brasileira foi muitomarcante em
número e posição. Algumas propostas consideradas prioritárias
para os povos indígenas muitas vezes se chocam com o lado
institucional, por esse lado querer ter poder total e exclusivo
sobre a luta desses povos.
Há organizações que formam correntes cujas filosofias acabam
dividindo os povos indígenas, criando lideranças-chave que precisam
sobreviver pela luta e pela própria sobrevivência econômica. É o caso
da cooptação política. Por isso a existência de chavões que ouvimos
do tipo “índios dessa ou daquela organização”, “índios dessa ou
daquela corrente”. Isso precisa acabar. Os povos indígenas devem
tomar seu destino nas mãos, como fazem os índios norte-
americanos ou os Sami, da Noruega, que aboliram e abominam,
há décadas, o paternalismo. Os Kuna, do Panamá, nos dão um
exemplo de autodeterminação política, eles não permitem esse
paternalismo. Hoje, possuem representantes no Congresso, Senado e
Câmaras Municipais e Estaduais; são os porta-vozes sociológicos e
antropológicos.
Lamentavelmente, no Brasil, ainda encontramos essa tutela em
instituições, às vezes da direita, às vezes da esquerda, às vezes
paternalizada pela Igreja, às vezes pelas universidades. Isso teve
origem na colonização portuguesa, quando foi criado o cargo de
Diretor dos Índios. Essa criação foi feita “devido à brutalidade
natural e manisfesta ignorância do índio” por Francisco Xavier,
irmão do Marquês de Pombal, que expulsou os jesuítas do Brasil.
Esse marco oficial deu-se em 1759, por considerarem os povos
indígenas arredios, violentos. Antes, foi institucionalizado o cargo
de “capitão dos índios”. De lá para cá, centenas de órgãos
dirigiram os povos indígenas, mas isso não se deu com os povos
negros “domesticados” que chegaram da África para o processo
de escravidão. Como um marco absurdo, os antigos presidentes
da Funai eram militares. Outro agravante refere-se às lideranças
“pensadas” pelo poder local (empresários, latifundiários, políticos,
instituições locais de direita ou de esquerda) contra as lideranças
originais, os pajés. São famílias pobres de um lado e famílias que
detêm algum capital financeiro do outro.
A Coiab, inicialmente coordenada pelo índio Manoel Moura
Tukano, depois, por outros indígenas como os irmãos Orlando e
Orlandino Baré, Obadias Sateré-Mawé, Sebastião Manchineri e
Euclides Macuxi, que, a partir do final do século XX, deu o
pontapé inicial na ruptura com organizações terceiras de cunho
paternalista. Mas esse é um processo histórico longo. A União das
Nações Indígenas (Unind), criada por Marcos Terena, Mário
Juruna, Álvaro Tukano, Lino Miranha, Paulo Borôro e outros, mais
tarde levada adiante, em São Paulo, por Ailton Krenak, foi um
movimento revolucionário, mas também esbarrou na deficiência
do processo histórico e político dos povos indígenas, nas
perseguições políticas, nas discriminações paternalistas, assim
como muitas outras organizações, como o Grumin, que sofreu
também perseguição política por noticiar fatos e criar políticas de
autogerenciamento.
Povos indígenas, povos ressurgidos, emergentes, indiodes-
cendentes, índios desaldeados, deslocados e migrantes grupais ou
migrantes individuais não podem ficar à mercê de análises
antropológicas burguesas, insensíveis e intolerantes de governos
racistas, preconceituosos e autoritários, seja este, seja aquele. As
almas dessas pessoas devem ser respeitadas porque têm a história
de seus antepassados; têm a história das mulheres e de homens
decididos. Temos discutido muito também a questão da migração
indígena motivada pela violação aos direitos humanos dos povos
indígenas e os efeitos aterrorizantes nesses povos, nas pessoas
individualmente falando, nas mulheres e nas crianças, que são as
mais afetadas. As histórias dessas mulheres indígenas, empurradas
para o lixo da sociedade nas grandes cidades como Manaus,
Belém, Fortaleza, Boa Vista, Recife e demais cidades não podem
ficar invisíveis como ainda estão.
Repetindo: a formação de gênero entre povos indígenas deve
ser uma estratégia para promover a justiça de gênero dentro das
organizações indígenas para a defesa das mulheres aldeadas, das
viúvas, das idosas, das meninas e daquelas que vivem na periferia,
em casas de palafitas, na Amazônia, ou das que vivem nas favelas
nas grandes cidades, servindo de mão de obra quase escrava na
sociedade discriminatória. Essa foi a bandeira levada pelo
Grumin!
Oh! Grande criador da natureza, fazei com que as mulheres
indígenas tenham qualidade de vida, porque elas, durante a sua
trajetória por este planeta, somente uma vida têm, e essa vida
precisa ser vivida com dignidade. É nesta vida que as mulheres
precisam exercer seus direitos humanos. Se forem esperar por
outra vida, os resquícios do passado histórico ainda vão
influenciar sua mente, seu inconsciente coletivo. Oh! Criador,
fazei com que essas mulheres sejam rainhas do novo alvorecer!
Vejamos esse resultado da imigração indígena, que descrevi
em 2004, na Rede de Comunicação Indígena, publicação do
Grumin:
Vi um indiozinho escorrendo pelo bueiro. A metade de seu
corpo superior debruçava-se sobre o meio-fio da rua e a outra
parte jazia cansada, escorrendo pelo esgoto urbano.
Imediatamente, lembrei-me do quadro de Salvador Dalí,
retratando um relógio de pulso desconstruído em sua forma
original, mas reconstruído de forma que o relógio obedecesse às
formas roliças do punho humano. Vieram-me à cabeça diversas
imagens derretidas desse pintor surrealista, desconstruidor da
formalidade e convencionalidade sociais, políticas e humanas.
Mas o indiozinho estava lá, derretendo, e eu tive vontade de me
derreter junto a ele pelo ralo planetar, mas não pude. Seria
covardia de minha parte!
O menino de 10 anos, um indiozinho urbano, desse tipo que a
intolerância e o paternalismo sociais ignoram e invisibilizam,
compunha o triste quadro da miséria humana. E se sua mãe
pestanejar pelos direitos humanos, como alimentar-se pelo menos, o
paternalismo analisará: “quem mandou sair de sua aldeia, quem
são seus pais, seus avós, nós não lembramos dessas histórias?!”.
De vítima do processo social e racial passa a oportunista. Essa
índia não pôde ficar na sua aldeia e esperar o “Paralelo 11”,
versão 2004, ela fugiu antes!
O último censo do IBGE registrou um aumento da população
indígena, considerando os indígenas desaldeados e indiodes-
cendentes.. Isso é um primeiro passo. Mas, enquanto isso, o
indiozinho continuava lá, sucumbindo às lágrimas. Seu corpo
magro e sujo amoldava-se às formas do paralelepípedo. Sua
cabeça reclinava sobre o chão imundo e seus pés mostravam os
ossos aos “abutres”. Eu nunca vira uma cena como essa. Nessa
noite eu não dormi. Nem na Índia eu vira cena tão agressiva à
minha ética. Lá, choquei-me ao ver os dalits (os intocáveis), que
sobreviviam raquíticos, famintos, desconsiderados em estações
de trem desativadas. Os dalits eram mais felizes do que aquele
indiozinho, sabe lá Deus, de que aldeia veio! E sua mãe? Onde
estaria? Onde estariam suas lendas, sua história de origem de vida?
Onde estariam suas tradições, seus costumes e sua espiritualidade?
Sua ancestralidade, naquele momento, descomprazia-se de sua sina.
Os ossos daquela família, das mulheres daquele clã, jaziam
fétidos no fundo do mar à espera da luz da foca ancestral ou
jaziam à beira-rio esperando um milagre do Pitiguary ancestral.
Toda essa cena contrastava-se com a propaganda da arte
indígena que, naquele momento, fazia sucesso em uma
exposição citadina que corria o Brasil: “arte milenar indígena
não morre!”... Mas as pessoas indígenas morrem pela falta de
uma posição governamental que faça exercer os direitos
indígenas neste país. O indígena precisa sair das paredes dos
museus, das salas de exposição!
O Fórum Permanente para Povos Indígenas, para quem não
sabe, foi criado a duras penas pela pressão do movimento indígena
internacional. Isso há mais de 20 anos! A Assembleia das PrimeirasNações, o Cisa (Conselho Indígena de Sudamérica), entre outras
organizações indígenas, foram os precursores pela implantação de
uma política indígena autodeterminante, isto é, onde os próprios
indígenas possam ser representados por eles mesmos. O governo
pode considerar os povos indígenas brasileiros despreparados,
divididos, infelizes, assessorados ora por um, ora por outros, o que
queira. O indígena brasileiro deve sentar na cadeira destinada a ele
dentro do Fórum Permanente para Povos Indígenas da ONU.
Aquele espaço político foi construído por ele e para ele, não foi
uma concessão da ONU. Rigoberta Menchu, Prêmio Nobel da Paz,
como um exemplo clássico, assim como milhares de indígenas
invisíveis, derramou seu sangue e lágrimas por aquele Fórum. Que
imagem continuamos construindo para nossos irmãos indígenas
internacionais! Que imagem estamos construindo para nós, povos
indígenas! A indígena Dona Marta, índia desaldeada, que queria
ser deputada pelo PT, morreu em vão? Não construiu esse direito,
não conseguiu, porque ninguém vota em candidatos indígenas.
Mas lançou uma semente. Aproximam-se as eleições e esse quadro
precisa mudar. Não há uma cadeira provisória no Congresso, a
Constituição, o departamento jurídico A ou B não deixam. O
Estatuto do Índio não deixa. Por acaso a Constituição deixa morrer
à míngua os direitos indígenas? Claro que deixa, isso pode... e nós,
por pensarmos assim, somos imediatistas, antiprofissionais,
irresponsáveis, não sabemos esperar “o momento certo”, enfim... o
“tempo histórico e político”. Quanto tempo temos que esperar?
O que deve ser feito é que esses homens de terno preto e
cinza, com gravatas coloridas, que trabalham no Congresso
Nacional, enfim... desconsiderando Leis, Estatutos, Constituição
devem reconhecer, não na lei, como li na matéria do Jornal do
Serviço de Informação Indígena (Servindi/ Jornal dos próprios
indígenas) sobre o representante brasileiro na última reunião do
Projeto de Declaração sobre os Direitos Indígenas/Genebra/
2003, que os direitos dos indígenas brasileiros “já estão
assegurados”, no Brasil. Eu interpretei isso apenas na teoria! No
Brasil, nunca se diz o que já foi feito concretamente e se anuncia
o que se vai fazer: é aí que as coisas se perdem.
O indígena brasileiro não pode ser mais idolatrado na sua
cultura e arte, nas suas fotografias, nas suas artes cinematográficas,
nas suas expressões literárias e orais e ser literalmente ignorado na
sua condição física, humana, social e política.
Enquanto isso o indiozinho, cor da terra, que se esvaía no
chão, moreno, faceiro, cabelos lisinhos, olhinhos de tigre, roupas
de mendigo, continuava lá, na indignidade que lhe foi imposta
pelos que dizem que temos uma Constituição e leis e que não
podemos desconsiderá-las. E eu, vendo aquele serzinho humano
escorrendo pelo meio-fio, perguntei a ele: “O que aconteceu?”.
Ele, com uma mão esticada tentando catar os centavinhos caídos
e outra mãozinha apertando uma nota fétida de um real, me
respondeu: “Os meninos de rua roubaram o meu dinheiro e me
bateram”. Ele não se considerava um menino de rua! Vejam só!
Quem será menino de rua, meu Deus? Negros, favelados,
delinquentes, marginais, ciganos, deficientes, cegos pedintes,
negras grávidas com o filho no colo, portadores de HIV, velhos,
velhas?
Eu perguntei a ele: “Como consegue dinheiro?”. Ele, com o
rosto encharcado de lágrimas misturadas à poeira, respondeu:
“Pedindo!”. Ele era só um pedinte indígena, uma nova classe
social criada pela pobreza. E meu útero de mãe rosnou, rosnou
tanto que uma dor rouca, uma dor cavernosa saiu pelas minhas
entranhas, uma dor insuportável que esmigalhava minha alma,
minha essência indígena, meus berros internos! Indigente
indígena: indigno isso!
Ai que dor, ser testemunha do renascimento desse novo
contingente. O SPI (Serviço de Proteção ao Índio), antes do golpe
militar, em 1964, nunca se preocupou com o êxodo
indígena para as cidades. Era melhor fechar os olhos e ver os
“indiozinhos” e suas famílias partirem de suas terras do que
investigar as causas da migração compulsória.
Aprendi com minha avó indígena, com Salvador Dali e Paulo
Freire a reconstruir uma imagem de nós mesmos, desconstruir
imposições e a reconstruir nosso discurso. Nós – povos indígenas
– precisamos nos salvar, antes mesmo que a demarcação das
terras chegue no seu contexto mais amplo e antes desse almejado
novo Estatuto do Índio, porque as coisas, como estão, podem
deixar a população indígena muito revoltada, pipocando casos
como os que temos visto nos últimos meses. Povos indígenas
querem viver dentro do equilíbrio e dar seu testemunho de uma
convivência pacífica e não serem vistos na mídia empunhando
bordunas ou armas. Eu clamo aos governantes e empresários:
“Reconheçam os povos indígenas como os primeiros povos desta
terra e sem paternalismos, entreguem as terras que são de seus
ancestrais, numa medida de reconhecimento, de compensação e
restauração da dignidade indígena deste país”.
Trezentos milhões de povos indígenas no mundo inteiro estão em
estado de alerta na defesa de sua identidade, participando de fóruns
nacionais, internacionais, participando do Fórum Permanente para
Povos Indígenas, uma vitória nossa no Grupo de Trabalho sobre
Povos Indígenas que batalhou vinte anos para a constituição da
Declaração Universal dos Direitos Indígenas. Outras instâncias
também ouvem os povos indígenas como a Organização dos Estados
Americanos (OEA), a Organização Internacional do Trabalho (OIT),
entre outras, e os líderes indígenas brasileiros têm tomado essa frente
de combate, além das lutas locais.
Defendendo a identidade, defendendo as raízes culturais, as
etnias – as raças, o gênero, o ser humano – terão uma melhor
qualidade de vida e a passagem do ser humano pelo planeta
Terra terá realmente uma razão de ser: viver bem a vida, poder
enxergar com alegria a criação de Deus, a perfeita natureza, o céu
azul, os mares, as cachoeiras, os infinitos rios e riachos, as
poderosas montanhas, o calor glorificante do Sol, a magnitude da
Lua, o esplendor das nuvens e dos trovões, o canto lírico e doce
dos pássaros e uma infinidade de belezas naturais, inclusive a
beleza do ser humano. Tudo isso constitui a biodiversidade do
planeta Terra. Tudo é muito sagrado; é preciso fazer essa leitura
para que se possa construir o autorrespeito e o respeito ao outro.
Esse é o caminho para a construção de um mundo ético, um
mundo de paz.
E é com a mulher que o homem aprende. É com a mãe-terra,
é com o ventre vulcânico revolucionário, guerreiro, combativo
que trará a transformação do ser humano contra a exploração do
homem pelo homem e, por conseguinte, a transformação dos
sistemas políticos, sociais e econômicos. Assim, homens e
mulheres, democraticamente, poderão estar no topo do mundo,
e as relações de gênero no planeta Terra serão mais socializadas e
sem temores, e o amor será mais puro, natural, respeitoso,
amigável, construtivo, definido. Nunca, em tempo algum, desde a
criação do mundo, com o estabelecimento do primeiro ser
pensante, que evoluiu do macaco para o homem, as relações de
gênero, raça, classe, castas, as relações sociopolítico-econômicas
foram democráticas, porque o inimigo interno do inconsciente
humano (a força negativa contra a natureza) sempre venceu na
batalha do superior contra o inferior.
A revolução – a transformação, repetindo – começa dentro de
casa, dentro da mente, dentro dos corações. Mulheres indígenas,
criem suas organizações sob seus tetos sagrados e deixem os
homens de suas famílias aprenderem com as guerreiras que vivem
em nós. E os amemos por toda a eternidade, porque o amor é a
melhor virtude que o Criador inseriu na Terra. O amor é sublime,
feliz de quem o sente e consegue amar a humanidade. Quem
ama verdadeiramente a si mesmo ama o seu(sua) companheiro(a)
e, consequentemente, ama a humanidade, porque, quando se
ama, a pessoa se conecta comem inglês, já
que essa é minha área de inserção na Universidade Federal da
Paraíba, onde venho atuando há dezesseis anos junto ao
Departamento de Letras Estrangeiras Modernas. Concluo que fiz
um caminho talvez inverso – primeiro li escritoras indígenas
norte-americanas, bem como teorias e críticas produzidas
naquele contexto, para só depois me aproximar das literaturas
nativas produzidas no Brasil. Assim, insisto em me inscrever nesse
terreno crítico de forma comparativa, dialógica, em tradução,
com um pé cá e outro acolá.
Após encerrar meu doutorado e já trabalhando na UFPB, João
Pessoa, participei do comitê organizador do I Seminário
Internacional Mulher e Literatura, vinculado à ANPOLL,
ocorrido em 2003. Havia conhecido Eliane Potiguara em um
Seminário Fazendo Gênero em Florianópolis, quando fizemos
parte de uma Mesa Redonda sobre estudos indígenas, em 2002.
Quando começamos a organizar o seminário de 2003 em João
Pessoa, imediatamente pensei em seu nome para uma das Mesas
Redondas do Seminário Internacional Mulher e Literatura.
Portanto, desde “o começo desse século” temos trocado algumas
figuras, informações e contatos eventuais.
A meu ver, considerando o público leitor brasileiro, o fato de
ter contato com vozes que lamentam, que problematizam as
perdas e traumas vivenciados pela experiência de ter tido
territórios e culturas invadidas, me parece ser a melhor forma de
se promover a literatura indígena, conscientizando nossos alunos
e leitores quanto a cosmovisões que praticamente desconhecem.
Analisar a relação entre o trauma individual – vivenciado por um
sujeito nativo via atropelo físico ou verbal – e o trauma histórico
coletivo – que se manifesta como desafio às construções
simbólicas de todo um povo através da leitura de textos, tanto
teórico-críticos quanto literários, é a proposta que entendo como
mais produtiva para a área na contemporaneidade.
Como venho lendo literatura indígena de forma comparativa,
acredito que aproximar Rita Joe de Eliane Potiguara, a fim de
mostrar como seus lugares de fala se assemelham, é algo
interessante e bastante produtivo. Por exemplo, em um de seus
poemas, intitulado “I lost my talk” (“Perdi minha fala”),
publicado em 1989, reconhecemos em Joe uma denúncia que
também se verifica em Potiguara. Nos dois primeiros versos do
poema – “I lost my talk / the talk you took away” – podemos
perceber que há uma clara tensão entre as figuras do eu-lírico, de
quem algo foi tomado, e a pessoa a quem ele se dirige, o
colonizador ("you"), responsabilizando-o por ter-lhe tirado, entre
outras coisas, a “fala”. A fala aqui foi utilizada para se referir não
apenas à língua, à tradição oral e à cultura indígena em geral, mas
também, à capacidade de manifestar ideias, enfim, a voz ativa
dos povos nativos sobre decisões que dizem respeito a suas
próprias vidas.
Nesse sentido, vale destacar que ecos da temática utilizada
por Rita Joe marcam presença também no território nacional. (...)
Potiguara relata sobre o deslocamento imposto no início do
século XX ao seu grupo familiar, por razões políticas, praticamente
uma expulsão vivenciada. Em seu poema “A denúncia”, que
compõe o livro Metade Cara, metade máscara, (POTIGUARA,
2004, p. 73) a temática dialoga com o poema de Joe mencionado
acima. Em Potiguara há um chamamento pela voz da mulher mais
uma vez. Através de uma proposição de temas do cotidiano –
sobre a trouxa de roupa, o duplo sentido das barras sujas, sobre
calos e labutas – esse cotidiano pede reação, uma reapropriação
do lugar da fala. Não é a mulher indígena quem engana, algo
largamente divulgado pela voz colonial, apresentando essa
repetidamente como squaw, traidora, prostituída. A voz poética
confirma ter sido, sim, enganada ao deixar de acreditar em sua
voz, no poder de suas palavras, em seu poder de fala, de criação
(pela fala) de um mundo que ainda possa fazer sentido. O poema
diz que “o que te fez calar não é o mesmo que te faz viver”. Há
outras razões de vida que a força que planejou a dominação
cultural no continente americano não consegue compreender.
Como um armamento, as crenças, as forças vitais arrancam essa
mulher da posição silenciada, de invisibilidade, de debilidade. E a
partir daí inúmeras são as surpresas no que diz respeito às
semelhanças entre as Américas e o poderio da força de um
feminino relido.
Acredito que Eliane Potiguara faz isso através da poesia que
cria, ou seja, busca res-significar as histórias do seu povo,
confirmando que o desconhecido sempre carrega surpresas,
como diz o eu lírico no último verso de seu poema: “Quem diria
que tu sabias falar!”. Revalorizar o lugar de fala, o foco, a
perspectiva desses povos nativos é surpreender leitores e leitoras
em geral quanto às possibilidades de se pensar a
contemporaneidade. Que venham outras edições de seus livros,
Eliane!
Liane Schneider
(Universidade Federal da Paraíba/DLEM/PPGL – NPq/PQ2)
João Pessoa, 13 de junho de 2018.
A literatura indígena brasileira contemporânea comporta uma
multiplicidade de autores e de vozes, de temas, de resistência e,
sobretudo, de uma autoexpressão criativa irrigada e orientada pela
ancestralidade, pelas tradições indígenas. Nesse sentido, a autoria
individual de Eliane Potiguara, na obra Metade cara, metade
máscara (Global, 2004), não poderia apresentar-se a partir de uma
enunciação unívoca e individualista, posto que adveniente de uma
ação/história/pertença coletiva valoriza a comunidade, ao mesmo
tempo em que reconhece o sujeito de autoria feminina enquanto
protagonista nesse projeto literário.
O projeto literário parte de modo consciente da vida pessoal e
também coletiva de Eliane Potiguara. Pessoal porque é desde sua
bisavó, Maria da Luz, e de sua vó, Maria de Lourdes que a família
da autora se encontrará em trânsito migratório da Paraíba ao Rio de
Janeiro. E é coletiva posto que é no movimento de resgate das
tradições ancestrais e também das raízes da família que Eliane
empreende uma luta em favor das mulheres indígenas do Brasil.
Marias, mulheres, indígenas que experienciaram as mazelas da
sociedade paraibense e carioca, mas que, no entanto, souberam
manter vivas as tradições ancestrais, a cosmologia e a herança
espiritual.
Assim, a identidade literária de Eliane denota e conota
ancestralidade e resistência política. Isto é, ao mesmo tempo em
que enuncia a trajetória de sua vida desde a infância até a
militância engajada, as narrativas que fazem parte do arcabouço
tradicional do povo Potyguara, e, isso, não se pode inventar,
ressignifica de modo criativo na poesia, cunhando personagens –
Jurupiranga e Cunhataí – capazes de representar a situação de
diáspora, exílio, escravização indígenas por um lado, e de
resistência, redenção e esperança indígenas por outro. Os poemas,
apesar de apresentarem a saga de Jurupiranga e Cunhataí, que
podem ser facilmente compreendidos como a metonímia para o
povo indígena no país, enunciam temas que evocam a uma
reflexão para os povos originários em situação de exílio físico e
epistemológico
A voz em tom de resistência, nos versos do poema Identidade
Indígena, enuncia poeticamente às futuras gerações que nascerão
guerreiros capazes de lutar contra a marginalização e a pobreza,
contra os registros históricos que silenciam ou descaracterizam os
sujeitos indígenas; em favor da demarcação de suas terras, da
valorização das florestas e da possibilidade de serem reconhecidos,
não de modo pretenso pela sociedade, mas como sujeitos dignos
em sua cultura, memória e tradição.
O poema Identidade Indígena foi escrito em 1975, apesar de ser
um poema atemporal, prenuncia um conjunto de guerreiros
resistentes, orgulhosos de sua etnia, de seu povo, de sua
ancestralidade, lutando por pautas políticas e culturais em favor de
si e dos povos indígenas do Brasil. À luz da valorização da
diferença, dos direitos das minorias, percebemos que a obra
Metadeo mais sagrado plano e esferas do
poder da criação, o espaço divino. Quando se ama, se atinge a
Deus. Deus é amor e os seres humanos são consequentemente
“Deus em ação”. Seres humanos amantes, amados são Deuses.
É assim também a dança e, quando se dança se atinge o mais
alto grau da espiritualidade, por isso escrevi, com o apoio de
algumas pessoas da Funai/Paraíba, professores e algumas
lideranças Potyguara, a cartilha de reflexão e complemento
político à alfabetização Potyguara, que enfatiza a dança do Toré
como o maior valor cultural e referencial do povo Potyguara. Fiz
isso com o maior amor no coração. Deus, meus guias espirituais e
meus ancestrais são testemunhas desse ato de amor.
A cartilha de apoio, como um material de complementação
política a esse tipo de educação diferenciada, surgiu por duas
razões: a primeira, por ter ouvido o índio Potyguara Zé Augusto
contar sobre a necessidade de preservarmos as palavras que
permaneceram na linguagem cotidiana Potyguara. E, em segundo
lugar, por observarmos os materiais didáticos utilizados pelas
crianças e professores, materiais que não transmitiam, em sua
aprendizagem, a realidade dos povos indígenas. Mostravam, sim,
uma realidade urbana, da sociedade envolvente que sequer
menciona traços da cultura indígena.
A cartilha não tinha a pretensão de ser o único material de
alfabetização: era um material de apoio e complementação, mas
lançava as primeiras sementes da busca do inconsciente coletivo,
busca da reflexão do que era a Educação Indígena Potyguara
(dizíamos isso em 1992). O material versava sobre a busca da
reflexão de que, para mantermos viva uma cultura, é preciso
incentivá-la dentro de casa e na escola, preservando a identidade
indígena a qualquer preço. É claro que, depois, vieram outros
materiais de alfabetização Potyguara melhores e mais completos
do que essa simples cartilha. Mas, na época, penso que
influenciou mentes.
Eu perguntava, em 1994: quem sabe uma criança Potyguara
alfabetizada, ou até mesmo um professor, a partir dessa proposta
inicial, vai poder perceber e definir quem são os Potyguaras no
contexto da história do Brasil e gerar uma reflexão mais profunda
acerca das discriminações a que esse povo esteve sujeito há
séculos? Eu disse ali, naquela cartilha: “É preciso sorrir, é preciso
criar quando estamos na luta pela sobrevivência e preservação
cultural, mesmo que nos arranquem os dentes ou a língua”.
A cartilha trabalhava em quatro níveis de mensagem/
informação: nível onírico/psicológico (plano dos sonhos,
valorização dos velhos(as), valorização da mulher/mãe e sonhos
com as mensagens dos avós). Nível cultural (tradições indígenas
Potyguara), nível físico (remetendo sempre ao trabalho diário na
terra, formando consciências e cidadania contra vícios impostos
pelo colonizador e contra o alcoolismo) e, finalmente, nível
linguístico (utilização de algumas palavras-chave de remanescência
linguística indígena).
Esse material didático foi apoiado por 25 professores e líderes
Potyguaras. E muito elogiado por Marcos Clemente, Administrador
Regional da Funai na época. O material foi financiado pela
Unesco, apoiado pela Uerj e editado pelo Grumin. A cartilha
estava aberta às críticas. Nunca considerei um material estático,
muitos outros virão pela frente e mais definidos. A vida é
dinâmica.
Nasci com uma mancha roxa no olho direito. A sociedade me
discriminava, principalmente os homens, que diziam que eu
havia tomado um soco no olho ou tomado uma surra do marido e
que eu era marcada pela polícia. Eu me sentia muito mal com
todos esses preconceitos.
Por ocasião da vinda de uma delegação de kaiapó e outras
etnias ao Rio de Janeiro, organizada pelo saudoso escritor negro
Joel Rufino, na época diretor de um museu na Gávea em parceria
com a Fundação Palmares feita por intermédio do antropólogo
Olímpio Serra (no final de 1980), pude compreender algo muito
profundo e que definitivamente incorporei em minha vida. A
mancha que tenho é uma grande folha de jenipapo, que foi
identificada pelos Kaiapós quando eu os encontrei. Choramos
verdadeiramente juntos, como se eu encontrasse uma família
ancestral, e os Kaiapós me chamaram de prima, colocaram a mão
direita em meu ombro e choraram copiosamente pelo
reencontro. Eu, que ainda não havia entendido, busquei uma
resposta. A resposta foi muito singular. Eles disseram que eu era
parente deles porque trazia uma marca de jenipapo com
significado espiritual, igual à pintura que eles fazem no corpo, me
disse um Kaiapó completamente desprovido de preconceitos e
intolerâncias. Tempos depois, ao me encontrar com uma
delegação indígena no Novo México, em Albuquerque (Estados
Unidos), fui homenageada, também sem saber a razão, por um
xamã Potyguara e seus seguidores espirituais. O xamã Potyguara
me disse, em 1979, que o Pitiguary (o pássaro que anuncia)
anunciava a chegada de um ser humano que possuía a seta
direcionada para uma obrigação, um trabalho, por exemplo, e
poderia arriscar a dizer, talvez uma pequena missão espiritual,
com a humildade dos cães obedientes e que servem aos seus
donos. Dizia-me o velho João Batista Faustino: “Eu já sei quando
você vai chegar, o Pitiguary canta, Eliane já vem, Eliane já vem,
Eliane já vem!”. Tanto era que o líder indígena potyguara Tonhô e
sua esposa colocaram meu nome e de Taiguara em dois filhos
seus.
Quando a luz passa, ela não pede para ficar: ela segue seu
caminho e ilumina mentes. Feliz daquele que pode se beneficiar
dessa luz. Mas há momentos na vida dos seres, como na vida de
Cunhataí, Jurupiranga e sua família indígena, protagonistas do
poema Ato de amor entre povos, em que, ao enfrentarem os
colonizadores, viram a morte a seu lado e, muitas vezes, quiseram
desistir da vida. Assim disse Cunhataí, na revolta ou na
consciência. Na alegria e na dor, na desesperança e na esperança:
“Não tenho mais força, extinguiu, apagou... Apagou a força da
razão e da ilusão. É... não tenho mais forças. Quero adormecer
em uma canoa ao mar e deixar o vento me levar para o futuro.
Não quero ser errante!
“Quando o céu e o mar não podem se encontrar, é melhor
parar. Eu quero calar. É como o Sol e a Lua, que nunca podem se
encontrar. Forçar é perder as forças; forçar é sangrar a alma;
forçar é perder a luta. É tempo de parar. Que vergonha, meus
céus, é indigno! Tenho vergonha de meus olhos na beira-rio,
tenho vergonha de minha própria alma, que foge de mim mesma,
na outra margem do rio! Eu tinha paz; eu tinha voz, que saía do
âmago da terra, mas a voz foi estrangulada e a música nunca mais
tocou dentro de meu coração. Os cânticos de meus avós
adormeceram dentro de mim; as lendas, eu as esqueci. As
danças, os meus pés não quiseram mais dançá-las. E as danças
queriam que eu as dançassem. Brigava eu, brigavam as danças. As
pinturas corporais bailavam nos ares, querendo um corpo pousar.
As pinturas se compartimentavam no espaço, assim como os
espíritos das matas. Todos compartimentavam, porque não
encontravam sua célula-mãe. As tintas de jenipapo e do urucum
anemizavam-se sem a presença de um corpo, mesmo errante,
para pousar. As pinturas desabrochavam e murchavam como
flores antigas. Meu nome é Cunhataí, o nome do meu amor é
Jurupiranga, nós somos indígenas do lugar do sol, da terra da
mandioca, da lagoa intocável, sagrada, terra do caju amigo e das
frutas doces. O Criador é testemunha de nossa dor. Vamos, meu
povo, que todos se elevem para que Nosso Pai nos dê a força
necessária e nós, fortalecidos e conscientes de quem somos,
poderemos reconstruir nossa pátria indígena, nossa terra: nosso
território, terra de nossos avós e futuros cidadãos. Eu sou força, eu
sou Tupã em ação; não eu, mas todos os povos indígenas do
Brasil hão de resgatar suas histórias a partir da consciência de
quem somos, do que queremos e para onde iremos. Somos uma
Nação. A nação indígena brasileira.”
Cunhataí, que ainda não havia reencontrado seu amor,pôde
perceber que os velhos felizes e sorridentes foram ressurgindo
como gafanhotos, suas velhas, que também surgiram das nuvens,
foram trazendo o alimento sagrado. Comeram, tocaram a maraca
e dançaram por sete dias. Os filhos e netos observaram calados,
com o coração explodindo de emoção. Os velhos pararam,
beberam água do rio, tão límpida como as lágrimas de um bebê e
enfim... se aproximaram dos netos e netas, abençoando-os. O
pajé, mais sábio, abriu os olhos adormecidos, anestesiados pelo
peso das armas de fogo. As rugas de seus olhos queriam saltitar de
alegria. “Nós vimos nosso pajé como deve ser olhado!”, disse a
jovem Cunhataí. As águas sagradas da lagoa ebuliram e, de lá,
saíram as parteiras que dariam nova vida ao povo dessa mulher
guerreira.
Velhos e jovens, naquele território indígena, se compraziam e
se deleitavam no AMOR. Havia uma interação benéfica do
passado e do presente, do novo e do velho, do homem e da
mulher, do animal e do humano, das águas e da terra, do céu e
do mar, do branco e do preto, do dia e da noite, da vida e da
morte... de Deus e do Inferno Social.
Quando o vi co’a maraca negra
No meio da relva verde e do rubro entardecer
O sol batia calmo nas suas sofridas bainhas
Era um homem amado, todo humilde, tão guerreiro!
Quando o vi co’a maraca negra
No meio do Brasil verde e o vermelho sol poente
O vento batia mais forte às portas da América Latina:
Era um homem da fé, simples, muito mais guerreiro!
Quando o vi co’a maraca negra
No coração deste continente
O sol reabria no poente
Seus fortes raios prepotentes.
Era gente de todas as caras
Era gente de todas as correntes
Era gente comum
Era uma gente crente!
Salve a maraca negra!
Salve a indumentária indígena
Daquele pajé!
Que guiava gerações
E iluminava as mentes!
Em memória de meus avós, escrito em 1975
(Versão indígena)
Nosso ancestral dizia: Temos vida longa!
Mas caio da vida e da morte
E range o armamento contra nós.
Mas enquanto eu tiver o coração acesso
Não morre a indígena em mim e
E nem tampouco o compromisso que assumi
Perante os mortos
De caminhar com minha gente passo a passo
E firme, em direção ao sol.
Sou uma agulha que ferve no meio do palheiro
Carrego o peso da família espoliada
Desacreditada, humilhada
Sem forma, sem brilho, sem fama.
Mas não sou eu só
Não somos dez, cem ou mil
Que brilharemos no palco da História.
Seremos milhões, unidos como cardume
E não precisaremos mais sair pelo mundo
Embebedados pelo sufoco do massacre
A chorar e derramar preciosas lágrimas
Por quem não nos tem respeito.
A migração nos bate à porta
As contradições nos envolvem
As carências nos encaram
Como se batessem na nossa cara a toda hora.
Mas a consciência se levanta a cada murro
E nos tornamos secos como o agreste
Mas não perdemos o amor.
Porque temos o coração pulsando
Jorrando sangue pelos quatro cantos do universo.
Eu viverei 200, 500 ou 700 anos
E contarei minhas dores pra ti
Oh! Identidade
E entre um fato e outro
Morderei tua cabeça
Como quem procura a fonte da tua força
Da tua juventude
O poder da tua gente
O poder do tempo que já passou
Mas que vamos recuperar.
E tomaremos de assalto moral
As casas, os templos, os palácios
E os transformaremos em aldeias do amor
Em olhares de ternura
Como são os teus, brilhantes, acalentante identidade
E transformaremos os sexos indígenas
Em órgãos produtores de lindos bebês
guerreiros do futuro
E não passaremos mais fome
Fome de alma, fome de terra, fome de mata
Fome de História
E não nos suicidaremos
A cada século, a cada era, a cada minuto
E nós, indígenas de todo o planeta,
Só sentiremos a fome natural
E o sumo de nossa ancestralidade
Nos alimentará para sempre
E não existirão mais úlceras, anemias, tuberculoses
Desnutrição
Que irão nos arrebatar
Porque seremos mais fortes que todas as
células cancerígenas juntas
De toda a existência humana.
E os nossos corações?
Nós não precisaremos catá-los
aos pedaços mais do chão!
E pisaremos a cada cerimônia nossa
Mais firmes
E os nossos neurônios serão tão poderosos
Quanto nossas lendas indígenas
Que nunca mais tremeremos diante das armas
E das palavras e olhares dos que “chegaram e não foram”.
Seremos nós, doces, puros, amantes, gente e normal!
E te direi identidade: Eu te amo!
E nos recusaremos a morrer,
A sofrer a cada gesto, a cada dor física, moral e espiritual.
Nós somos o primeiro mundo!
Aí queremos viver pra lutar
E encontro força em ti, amada identidade!
Encontro sangue novo pra suportar esse fardo
Nojento, arrogante, cruel...
E enquanto somos dóceis, meigos
Somos petulantes e prepotentes
Diante do poder mundial
Diante do aparato bélico
Diante das bombas nucleares.
Nós, povos indígenas,
Queremos brilhar no cenário da História
Resgatar nossa memória
E ver os frutos de nosso país, sendo divididos
Radicalmente
Entre milhares de aldeados e “desplazados”
Como nós.
-
Desde o passado até os dias atuais, o território e a cultura
indígenas têm sido as linhas mestras de determinação para a
sustentação de um povo. Quando dizemos “território”, não
estamos simplificando o termo para algo simples e final; estamos
expandindo o termo para algo mais digno no que se refere aos
direitos dos povos indígenas. Um território não é apenas um
pedaço ou uma vastidão de terras. Um território traz marcas de
séculos, de culturas, de tradições. É um espaço verdadeiramente
ético, não é apenas um espaço físico como muitos políticos
querem impor. Território é quase sinônimo de ética e dignidade.
Território é vida, é biodiversidade, é um conjunto de elementos
que compõem e legitimam a existência indígena. Território é
cosmologia que passa inclusive pela ancestralidade.
Dentro desses parâmetros, os povos indígenas têm exaltado e
perpetuado suas culturas contra o sistema social e político. A
exaltação é uma forma de resgate e preservação de algo. É a
valorização daquilo que não é valorizado como deveria ser.
Exaltação é afirmação na poesia e na vida.
No final da década de 1980, assisti a uma peça teatral, no
Panamá, escrita e dirigida pelo Movimento da Juventude Indígena
Kuna, e pude conhecer escritores como Arysteídes Turpana,
poetas, teatrólogos, pintores, antropólogos e mulheres artesãs
indígenas que produzem arte em tecidos chamados “mola”.
Conheci Atêncio Lopez, assim como Marcial Arias, líderes da
Asociación Napguana, ao exaltarem e propagarem a cultura Kuna.
As peças de teatro, os livros de literatura indígena, as letras das
músicas, os cânticos glorificavam as suas histórias, os seus
conhecimentos, os atos históricos. Dentro dessa perspectiva, vi o
movimento indígena Kuna crescer e obter conquistas baseadas
nessa premissa. Os jovens eram os pioneiros dessa ação e eles se
encarregavam, e se encarregam até hoje, de traçar um acordo com
os anciãos, que, muitas vezes, rejeitam qualquer atitude que não
esteja de acordo com as antigas tradições. A contemporaneidade
indígena, dinâmica e consciente, unida às tradições dos avós,
perpetua e exalta a cosmovisão Kuna. Foi por essa razão que o
Grumin, em outra oportunidade, indicou uma mulher Potyguara
(Wilma dos Santos − irmã do prefeito indígena Marco Santana
−1991) para participar do Congresso Kuna. No Panamá, em outro
contexto, pude compartilhar também experiências com a saudosa
e guerreira Lélia Gonzáles, com Esmeralda Brown e muitas outras
negras maravilhosas e combativas que exaltavam sua negritude e
a utilizavam como expoente de valorização cultural.
No México, nas sete vezes em que lá estive, assim como na
Costa Rica, pude assistir a festas, danças e rituais que, mais uma
vez, exaltavam a cultura indígena. Maria de Fátima Potyguara,
primeira pajé mulher, da etnia Potyguara, ajudou a colocar, por
intermédio do Grumin, a primeira sementinha da Casa da Mulher
Indígena e pôdecompartilhar também dessas experiências. Essa
sementinha não é um prédio; é uma ideia, uma essência, uma
filosofia. Aprendemos muito com a índia Esther Camac, do povo
Ixacaava, imigrada para a Costa Rica por problemas políticos
também. No México, quando eu subi os primeiros degraus da
Pirâmide do Sol, ouvi estrondosos e verdadeiros tambores
eclodirem. Meu acompanhante, um xamã indígena de lá
chamado Oscar Marquez Montoya, um sacerdote muito especial
e bonito, de uma beleza infinita, de olhar cristalino e púrpuro e
sorriso límpido dizia: “Não há tambores agora aqui, você ouve
sons de outros tempos imemoriais”. E me rendia homenagens! Ele
me enxergava! Isso me deu muita força em minha luta. Sabia que
minha tribo ancestral estava comigo sempre.
Naquela ocasião, o escritor e jornalista Genaro Bautista, índio
mexicano que criou a organização chamada Aipin, me indicou
para o prêmio do Pen Club da Inglaterra/Fundo Livre de
Expressão, pelo livro que eu havia escrito em 1987, A terra é a
mãe do índio, apoiado financeiramente pelo mesmo programa
que apoiava Nelson Mandela, o Programa de Combate ao
Racismo do Conselho Mundial de Igrejas de Genebra e,
politicamente, pelo saudoso e guerreiro Betinho do Instituto
Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e da
Campanha contra a Fome.
Naquela época, eu sofria muito, pois passava por uma
perseguição política no estado da Paraíba pelo meu trabalho que
muitos amavam e muitos odiavam e pela minha história de ter a
consciência de “minha transcendência indígena”. A minha
transcendência é maior que a minha ascendência. Naquela
época, eu precisava encontrar os documentos de minha falecida
avó, que estavam perdidos no meio de uma extensa biblioteca e
arquivos desorganizados em minha casa, para, em seguida,
apresentá-los ao Procurador do Estado da Paraíba Dr. Luciano
Maia, para que fosse feito um reconhecimento de minha
identidade indígena, exigência feita pelos poucos que me
questionavam. Eu estava incomodando muita gente com os
projetos e ideias do Grumin e minhas dezenas de viagens
internacionais, além de um jornal nacional e um internacional
que denunciavam a violação dos povos indígenas no Brasil. Eu
comungava, respeitosamente, com os entes da natureza,
principalmente os espíritos das águas e das luzes, que me
ajudavam na clarividência e no meu fortalecimento e crescimento
espiritual.
A presença das matas, cachoeiras, rios ou mares me jogava para
um plano transcendental que, muitas vezes, eu mesma nem
entendia. Assim como a experiência que tive quando me
transportei ao sagrado ao tomar a bebida mágica em um ritual
espiritual entre os xamãs Yanomami, no qual só pude ver gente
muito velha, com as peles bem enrugadas; eram mulheres e
homens indígenas muito morenos. Dessa mesma forma, quando
dançava o Toré Potyguara junto a Maria de Fátima, Djalma,
cacique João Batista Faustino, Tonhô, entre outros, ao som das
maracas, da flauta, dos tambores, das batidas dos pés, que
levantavam uma poeira como se fosse uma nuvem encantada, uma
grande força tomava minha existência e me revelava fatos, histórias,
lembranças, imagens cuja razão eu mesma não conseguia
entender. Eu pensava estar louca, disse isso no Tribunal de Histórias
Não Contadas, na China, por ocasião da Conferência Internacional
da Mulher, promovida pela ONU, em 1994. Maria de Fátima e
Wilma muitas vezes testemunhavam meus momentos de revelação.
Eu era uma testemunha dos tempos, mas não me dava conta! No
meu interior e, depois, refletia tudo aquilo de novo, e realmente
percebia que não dava mais para fugir de meu destino.
A força lunar e o divino regiam verdadeiramente minha vida. Os
sonhos eram canais de revelação. Por meio dos sonhos, eu podia
escrever meus textos, minhas orações, minhas poesias e, inclusive,
direcionar meu trabalho dentro do Grumin. Tudo o que acontecia
comigo era realmente muito forte. Dezenas de rostos
desconhecidos de mulheres indígenas, com peles bem coradas,
mudas e olhares fixos em mim me chamavam como que
ordenando: “Levanta-te!”. E, por meio dos sonhos, eu ia dando os
primeiros passos. Um exemplo clássico desse processo foi por
ocasião da morte de Quitéria Xukuru-Kariri, vitimada pelo descaso
dos órgãos de saúde de Palmeira dos Índios, estado de Alagoas. Eu
estava em Genebra, participando do Grupo de Trabalho sobre
Povos Indígenas e fui sobressaltada em sonhos durante a noite por
mulheres indígenas, que me revelaram a situação de Quitéria.
Anos depois, contei o ocorrido a Maninha Xukuru-Kariri, que
permaneceu pensativa e séria. Algumas pessoas foram testemunhas
de meu processo; outras, jamais poderão compreender o sentido
das coisas. Muitas podem dizer que a ilusão faz parte de meu
universo. Só tempos depois entendi a marca de jenipapo que
tenho no olho direito, identificada pelos Kaiapó como uma grande
aliada espiritual, carregada pelas asas da ancestralidade.
Desesperada e aos prantos, procurando os documentos de
vovó, ouvi vozes, sussurros e pisadas, como se estivessem umas
vinte pessoas adentrando o corredor que antecedia a entrada da
casa em que eu estava, sentada ao chão junto aos meus dois
filhos, Tajira e Samora Potiguara — na época, com 9 e 12 anos,
respectivamente. Lembro-me bem: estávamos na época que
antecedia a Conferência Internacional sobre Meio Ambiente,
promovida pela ONU em 1992, na qual eu estava envolvida
também, por intermédio do Comitê Intertribal, cujo presidente era
Marcos Terena. Pensava eu que o som era dos ruídos de minha
filha mais velha, Moína, na época com 16 anos aproximadamente,
e de suas amigas barulhentas. Eu, que havia retornado da área
Potyguara com a exigência de recolher os documentos e levá-los ao
procurador, encontrava-me com a sensibilidade à flor da pele,
passando por diversas crises de pressão alta e úlceras gástricas.
Meus filhos também sofriam consequências desse processo. De
repente, uma grande luz branca esfumaçada, de dois metros e
meio mais ou menos, ultrapassando a altura da porta de cerca de
um metro e meio de largura, acompanhada de ruídos de passos,
surgiu à nossa frente. Eu olhei estática para aquele fenômeno, e
minha filha levantou-se e foi ao encontro da grande luz. A menina
passou por dentro dela e foi a outro cômodo. Voltou e, nas mãos,
trazia uma pastinha vermelha. Eram os documentos de vovó, que
estavam perdidos atrás da estante de ferro em meio à bagunça
literária. Eu nunca iria encontrar aquela pastinha! Então, disse-me
Tajira: “Toma, mamãe!”. Eu nem pude acreditar! A luz se foi e eu,
ainda estupefata, perguntei a meus filhos com os olhos marejados e
profundamente agradecida: “Vocês viram?”. Eles responderam:
“Sim, mamãe”. Eu estava em estado de choque, contemplando o
fato mais lindo que já vira em toda a minha vida. Nunca mais
falamos no assunto e tive vontade de contá-lo aqui: talvez esse seja
um dos meus maiores segredos, agora, revelado.
Voltei para a Paraíba infinitamente feliz, achando que, com
aquilo, eu iria resolver a situação pendente.
Na época, quando tive de me apresentar à Polícia Federal, em
1991/92, a saudosa tia Severina, a mulher mais velha da tribo
Potyguara, que estava com câncer de mama extremamente
avançado, pois escorria-lhe por entre os panos um sangue já
aguado, dentro de sua sabedoria, soube identificar os que me
faziam mal. Sabia de alguma coisa que eu não podia decifrar, mas
desconfiava.
Ela deu ordens, anteriormente, de que eu não fosse só, que os
mais velhos, Maria de Fátima Potyguara (coordenadora do Toré e
Xamã na época); Sr. Domingos, o ex-cacique de Jacaré de São
Domingos; João Batista Faustino, o cacique de São Francisco; o ex-
cacique Djalma Domingues; José Augusto Potyguara e Tonha, sua
esposa, grandes e sinceras pessoas; Sr. Severino, que já não
caminhava tão bem, e outros fossem me acompanhar à cidade de
João Pessoa. A primeira prefeita indígena do Brasil, Iraci Cassiano
(Nancy), me disse que seu velho pai (“Pai Grosso”), que já não
andavae era muito gordo, conheceu o avô de minha mãe e que os
velhos se lembravam da história passada. Os velhos me davam
certeza, e eu estava cada vez mais confiante.
A guerreira Maria de Fátima não só disse à Polícia Federal, mas
também ao procurador, que, onde eu caísse, um buraco seria
aberto e todos se jogariam nele e, se precisasse, um caminhão de
mulheres indígenas Potyguara iria a João Pessoa para me defender
de qualquer dano moral. Com esse depoimento, o processo que a
reação queria me impingir foi arquivado. Os danos morais, como a
difamação feita nos jornais da Paraíba, a difamação local entre o
povo indígena e o povo da cidadezinha, as intrigas e discórdias, as
violências moral e psicológica, o abuso sexual, os enormes prejuízos
ao trabalho do Grumin, os prejuízos pessoais e financeiros por
conta de minha desestabilização emocional e física me fizeram
parar por quase uma década: realmente, eu não aguentei o peso
da dor moral e espiritual que me expôs à frente de meus próprios
filhos, à frente de um povo que eu tentava parceirizar em uma luta
pelos direitos humanos, à frente das organizações indígenas e
indigenistas, feministas e outras que bem ou mal souberam dessa
arbitrariedade.
Logo depois, meu nome foi notificado ao lado do nome do
jornalista Caco Barcellos, no Jornal Nacional, na TV Globo, em uma
lista de “marcados para morrer”. Caco Barcellos havia denunciado
a Rota 66 em São Paulo. Foi um susto avassalador e vivi um estado
de horror, pois eu não sabia de onde partira aquela ação e quem
era o inimigo. Ele não tinha cara, não tinha nome. Era uma força
contrária às minhas ideias, ao meu ideal. Naquele ano, meus três
filhos não passaram de ano na escola, também ficaram traumatizados
e enfermos, e a “insensibilidade” não se dá conta do mal que faz ao
semelhante. Durante muitos anos eu refleti muito. Os rios de
lágrimas que jorravam de meu ser eram por eu ter de me retirar
das terras de meus avós − na realidade, minha casa também −,
minha cidadania, veia aberta de meu coração, e deixar para trás a
irmandade que houvera conquistado e amado verdadeiramente. A
promessa que a minoria me fez, na época, de reunir o povo para
uma retratação, nunca aconteceu. No dia em que era para
acontecer, uma desculpa me foi dada. O povo também precisava
de uma satisfação e muita gente sofreu e chorou comigo, mesmo às
escondidas.
Quando eu saí dessas terras, chorei copiosamente; uma dor
aguda, forte e penetrante me cortou as entranhas, a alma, a
essência. Não era a hora histórica! A “pequena” minoria que me
causou danos, eu já perdoei e nunca tentei processá-la, mas eu
nunca esqueci o fato político e quero que essa história seja um
testemunho de vida, para todo o sempre! Registro aqui como a
colonização deixou vícios. E que, por onde passo, faço questão de
contar a minha história, para que outras mulheres indígenas, que
possuem famílias migrantes, desaldeadas das terras originais,
sejam realmente ouvidas e respeitadas no futuro e que a
xenofobia seja um segmento a ser analisado. Espero que o
governo faça um estudo sociopolítico sobre a situação desse
grande contingente de indígenas desaldeados, ressurgidos,
migrantes. Isso constituiria um passo para uma ação afirmativa
para o reconhecimento da cidadania desse contingente, assim
como a população negra necessita de ações afirmativas que
devolvam a sua dignidade, perdida no processo de dor,
personificada na atual miséria, no desemprego e na fome em que
vive pelo extenso território brasileiro. É o que reivindicava na
África, por ocasião da Conferência Internacional da ONU contra
o Racismo, na qual exigia a restauração.
Tive de parar a minha luta, o meu trabalho, a minha missão.
Eu fiquei enferma em todos os níveis. Nove anos depois, os
médicos retiraram nódulos de minha garganta estrangulada pelo
silêncio sufocado. O Jornal do Grumin incomodou muita gente, os
projetos que desenvolvemos dentro da área indígena também
incomodaram, as feiras de artesanatos, a sementinha da Casa da
Mulher Indígena e outros tantos também incomodaram. Mas
muita gente Potyguara assumiu esse sobrenome para carregá-lo à
posteridade, como muito bem perguntou o procurador Dr.
Luciano Maia a Maria de Fátima: “Quem mandou você se chamar
Maria de Fátima Potyguara?”. Ela respondeu: “Foi Eliane
Potiguara”. Isso porque eu havia aprendido primeiro com minha
própria avó desde a infância, e, depois, com Ailton Krenak,
Marcos Terena, Paulo Bororo, Lino Miranha, Mário Juruna,
Manoel Moura Tukano, Álvaro Tukano, Chiquinha Pareci,
Megaron Txukahamãe, Dona Marta Kaiwoá, Daniel Mantenho
Cabixi, Quitéria Pankararu, Quitéria Xukuru-Kariri, Andila Inácio
Kaigang e muitos e muitos outros que começaram o Movimento
Indígena Brasileiro, alguns se prejudicando pela intolerância e
cooptação institucional, religiosa ou política. Quando eu escrevi
Ato de amor entre povos, em 1978, dedicado aos povos indígenas
da América Latina e ao poeta de todos os tempos, Pablo Neruda,
chileno, senti nos ares a inspiração das cartas que escrevia ditadas
por minha avó indígena, quando eu tinha 7 anos. Foi assim que,
pela primeira vez, assinei meu nome de escritora Eliane Potiguara
e me tornei uma pequena escritora, com apenas 7 anos,
influenciada e inspirada por minha avó, a mulher dos peitos
grandes e da nudez acolhedora: uma indígena paraibana.
A glorificação da etnia indígena, associada ao nome de
batismo, foi um caminho encontrado pelo nascer do movimento
indígena como uma forma de exaltação à identidade indígena,
uma forma de resgate cultural e de resistência indígena. Eu estava
resistindo, no meu entender!
No Novo México, por ocasião do 49º Congresso dos Índios
Norte-Americanos (1990), pude narrar para 1.500 indígenas
vestidos com seus trajes típicos, mesclados de milhares de penas
de águia, a comungar e exaltar sua cultura. Por horas e horas
dançaram as músicas e os tambores dos séculos! Senti o espaço se
compartimentar, transformando-se em fagulhas do tempo,
pequenas gotas aéreas coloridas que me enfeitiçaram e me
colocaram em contato com os ancestrais. Naquela ocasião, fui
entregar a eles um dossiê da situação indígena brasileira e, pela
primeira vez, uma moção foi enviada à ONU sobre o extermínio
dos povos indígenas do Brasil. Em São Francisco (Estados Unidos)
conheci índios e índias desaldeados, urbanos, sofridos, calejados
por tanta discriminação, entregues ao alcoolismo, às drogas e ao
desemprego. O Movimento Intertribal e a South and Meso American
Indian Rights Center (SAIIC) lutavam desesperadamente para
conseguir fundos e sustentar a organização que acolhia literalmente
aqueles indígenas, com sopas, agasalhos, víveres e hospedagens.
Mesmo assim, havia um orgulho entre eles. O International Indian
Treaty Council (IITC), por intermédio do líder indígena e ex-
combatente da guerra do Vietnã Antônio Gonzales, alfinetava
constantemente os Estados Unidos em defesa do que já haviam
conseguido em termos de tratados ao longo dos últimos séculos
com o governo e com a constituição de novos acordos que
dignificassem os indígenas daquele país. Além disso, havia sua
luta no cenário internacional como a primeira organização
indígena a conseguir abrir espaço dentro da ONU, resultando
hoje no Fórum Permanente para Povos Indígenas. A Sra. Érika
Daes (grega), o Sr. Afonso Martinez (cubano) e os suíços Sr. Julien
Burgen e Sra. Pierret foram pessoas muito sensíveis que conheci
no desenvolvimento seus trabalhos e opiniões dentro da
Comissão dos Direitos Humanos das Nações Unidas, sem
desmerecer o trabalho de outro(as).
No Canadá, nas duas vezes em que lá estive, pude admirar a
construção da Nova Constituinte, coordenada pela organização
chamada Primeiras Nações, por meio do líder Ovide Mercredi,
que publicamente confessou que batia na sua esposa e que
aprendeu muito com a luta indígena a resgatar e exaltar o
território e a cultura indígenas. E que, a partir disso, pôde
compreender que a violênciaque fazia à sua esposa era fruto da
colonização. Naquela época, o movimento de mulheres indígenas
crescia no plano internacional. A luta de Mercredi também se
debruçou sobre o problema do alcoolismo, cujo índice era
altíssimo entre jovens e velhos. O resgate da pesca foi o primeiro
passo, acompanhado por uma luta pela mudança da Constituinte,
conseguida anos depois. Percebi também a valorização das artes
indígenas, como a literatura, o artesanato, o teatro, a pintura, a
arquitetura, a música etc. O pensador brasileiro Marcos Terena,
primeiro índio piloto, um dos criadores da União das Nações
Indígenas (UNI) e articulador dos povos indígenas na ONU, lá
estava também a compartilhar essas lutas e testemunhá-las, além
do Prof. Eduardo Portela (Unesco), que se sensibilizou com meu
texto lido em plenário, o Oração pela libertação dos povos
indígenas.
Na Bolívia, acompanhada pelo Programa de Combate ao
Racismo do Conselho Mundial de Igrejas, fui parceira da
inesquecível Jean Sindab e do Bispo Eugênio Poma e pude
testemunhar, em várias cidades, a luta e a determinação dos
indígenas e campesinos, além das greves das mulheres por seus
maridos presos. Tive a honra de discursar em um palanque para
mais de 2 mil Kechuas e Aymaras nas cidadelas interioranas.
Compartilhava comigo o índio Jorge Terena, o primeiro índio a
falar inglês no Brasil.
Na Amazônia Peruana, em 1997, ao lado do Movimento de
Mulheres Indígenas, que lutava pelos direitos reprodutivos, pude
presenciar a dor que cada uma sentia na construção de sua etnia,
identidade e família. Ali, eu ouvia Nina Pacari, primeira mulher
indígena a ocupar espaço parlamentar como deputada no
Congresso equatoriano. Em Cuba, onde fui fazer um curso sobre
elaboração de projetos, ideias e estratégias, conheci Blanca
Chancoso, a primeira indígena a criar o movimento de mulheres
do Equador, levantar a bandeira dos direitos reprodutivos e
ocupar um cargo dentro dos organismos da ONU. Hoje, o Enlace
Continental de Mujeres Indígenas é uma realidade. Em Cuba, em
1988, me aproximei da negra brasileira Sueli Carneiro e da
feminista Schuma Schumaher (uma das organizadoras do
dicionário Mulheres do Brasil ) e pude ouvi-las. Éramos ouvintes
de Fidel Castro em um discurso de quatro horas seguido de um
enorme jantar.
Em Trinidad e Tobago, junto às mulheres negras e indígenas,
coordenadas pela Rede Sister (Conselho Mundial de Igrejas) por
intermédio da brasileira Marilia Schüller, aprendi o verdadeiro
sentido de solidariedade e companheirismo; vivenciei junto ao
grupo de mulheres de lá o sentimento de construir uma pátria
sem discriminação e sem racismo. Compartilhava comigo a
primeira mulher indígena a defender uma tese sobre Educação
Indígena, a Professora Darlene Taukane, da nação indígena
Bakairi, irmã também da primeira mulher a assumir a chefia do
Posto Indígena da referida nação, a indígena Doroty Mayron, que
foi uma das dez mulheres do ano do Conselho de Mulheres do
Brasil − prêmio que me fora dado também anos antes, em 1988,
por trabalhar pelo desenvolvimento das mulheres indígenas no
país.
Em 1995, viajei por diversas cidadezinhas no interior da Índia,
durante um longo e exaustivo mês, em uma delegação de negros e
indígenas indicada pelo Reverendo Metodista Antônio Olímpio de
Santana, que me levou a discursar na Serra da Barriga/Quilombo dos
Palmares ao lado de Ailton Krenak, em Alagoas (1986/87).
Na Índia, vivenciei o verdadeiro valor do significado de cada
olhar de uma mulher, uma criança, um homem e um(a) velho(a).
Eu via os olhos espirituais dos indianos marcados pelos traços,
pelas tintas, pelas formas. Encontrei vários deuses ali. Eram
deuses-pedras, eram deuses em forma de artesanatos, eram
deuses de todas as formas. Eram deuses feitos de palhas. Eram
centenas de religiões, eram milhares de corpos inertes, já fétidos,
que jaziam em camas suspensas, mas valorizados pelas famílias, à
espera da cremação. As danças locais se incumbiam de carregar o
meu ser para os mais longínquos espaços transcendentais. Pude
conhecer também o lado trágico do sofrimento das mulheres
indianas de origem mulçumana, que eram apedrejadas,
espancadas ou incendiadas caso não cumprissem seu acordo no
casamento ou praticassem o adultério. Os homens podiam ter
outras mulheres ou traí-las eventualmente: era a sua cultura ou
linhas mestras de sua ideologia religiosa. Fiquei chocada. Obadias
Batista, índio Sateré-Mawé, diretor da Coiab na época, era meu
parceiro nessa compreensão, junto com a Reverenda Maria do
Carmo, a Cacá, do Grupo Agar, que trabalha com mulheres
negras da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. Naquele
misterioso país, tomei conhecimento das pessoas mais
discriminadas no mundo inteiro, “os intocáveis”, chamados dalits
a mais baixa camada da sociedade indiana, a que vive nas ruas,
sem direitos de cidadania, e sem direito a um olhar de
misericórdia. As castas não podem tocar os dalits, por considerá-
los impuros, sujos, pobres, vis. O sistema de castas empurra os
intocáveis para a morte prematura, pelo racismo e pela intolerância
internos, pela falta de condições dignas de sobrevivência. Pude visitá-
los morando em uma velha e desativada estação de trem,
desamparados, ao relento e ao frio, extremamente famintos,
fazendo suas necessidades básicas aos olhos de todos. Na Índia,
compreendi que, para nascermos belos e éticos, precisamos ser
como a flor de lótus: nascer na lama, possuir as raízes no povo e
florescer no ar puro, fortalecer colorida, bela, formosa e próspera,
como a imagem da deusa da prosperidade indiana Nataraja. Ou
mãe Oxum, ou Afrodite, simbologias que representam o rio, o
amor e a prosperidade. Na Índia, pude ver o sol mais lindo de
toda a minha vida, vermelho, redondo, enorme, cheio de
espiritualidade.
No Egito, observei um bairro inteiro dentro de um cemitério de
um nobre do passado, dos tempos do faraó. As pessoas vivem ali,
como em centenas de outros bairros, sem condições de vida, sem
água, sem saneamento básico, em casas parecidas com as casas de
tapume e tetos de palha e terra. Andando pelas ruas, éramos
molestadas pelos homens muçulmanos porque não usávamos
burca ou a cabeça coberta com lenço.
Na China, pude perceber o quanto sofria uma mulher chinesa
sob o efeito do império e do próprio comunismo, apesar da
riqueza cultural e da própria exaltação de seus costumes. Aprendi
muito nas Conferências Internacionais sobre a Mulher promovidas
pela ONU. Um mundo de mulheres permitia-se tirar as vendas
dos olhos. Eu via essas amarras caindo, como véus coloridos,
transparentes, escamoteando culturas, intolerâncias, racismos que
impunham valores que trazem sofrimentos às mulheres. Um
mundo de mulheres crescia “ao redor do planeta”, todas davam-
se as mãos e realmente podiam “abraçar” o planeta Terra. As
mulheres caminhavam a passos largos pela defesa de seus direitos
humanos e para impor a sua voz.
Na Suíça, por mais de uma década em que estive em
Genebra, em tempos alternados, pude compartilhar experiências
com o Grupo de Trabalho sobre Povos Indígenas, na Subcomissão
de Direitos Humanos, que trabalhou durante vinte anos a
Declaração Universal dos Direitos Indígenas. Em uma dessas idas
e vindas, Marcos Santana dos Santos Potyguara, primeiro prefeito
indígena do Brasil, por intermédio dos esforços do Grumin,
conseguiu sua participação nesse fórum internacional, o que
constituiu minimamente uma ínfima parcela positiva para a sua
luta local, no estado da Paraíba, na cidade de Baía da Traição.
Durante aquele período, também pude aprender e compartilhar
muitas experiências ao lado da guatemalteca Rigoberta Menchu
(primeira indígena a receber o Prêmio Nobel da Paz), que teve seus
pais assassinados à sua frente. Ao lado de centenas de líderes
indígenas internacionais, que trabalhavam incessantemente pelos
direitos indígenas em seus países, pude aprender o valor de nossos
ancestrais. Ali, compartilhei experiências com o indígenaaustraliano
Bob Scott (diretor do Programa de Combate ao Racismo) e com o
primeiro bispo indígena boliviano, o coordenador do Programa para
Povos Indígenas do Conselho Mundial de Igrejas, Eugênio Poma, que
destituiu um bispo branco da Igreja de La Paz/Bolívia. Esse era um
programa que apoiava Nelson Mandela contra a situação de
racismo na África.
Participei de dezenas e dezenas de fóruns sobre Direitos
Indígenas, na Holanda, na Bélgica, na França, na Itália, em
Luxemburgo, na Alemanha, na Inglaterra e na África do Sul, em
momentos diferentes, nos quais pude participar de uma luta
árdua, apresentar denúncias e propostas para a constituição de
instrumentos internacionais, negociações políticas e acordos de
combate à violação dos Direitos Indígenas. Líderes indígenas
estavam presentes, como Azelene Kaigang, do Instituto Warã e a
feminista Concita Maia, do Mama, entre outros. Em Soweto
(África do Sul), em 2000, meus tristes olhos aperceberam-se das
cicatrizes deixadas pelo racismo e pelo apartheid, motivados pela
burguesia imperialista sul-africana. Junto à delegação da Fundação
Palmares do Ministério da Cultura, durante a gestão da arquiteta e
socióloga negra Dra. Dulce Pereira, andamos por Soweto nas
chamadas noites perigosas permeadas pelas “chamadas pessoas
negras perigosas”, ainda sem direito ao transporte coletivo para as
áreas burguesas. A circulação dessas pessoas por essas áreas só são
requisitadas pelos patrões, que os pegam em transportes coletivos
para trabalharem para eles e os levam de volta à origem negra.
Em Soweto, as campanhas contra a Aids estavam por todos os
lados; estava narrada, nos outdoors, a marca da tragédia humana.
No Chile, pude participar e compartilhar experiências ao lado
de lideranças indígenas não só brasileiras como de outros países.
Ali, pude dividi-las com Sebastião Manchineri, Benedita da Silva,
Ivanir Ribeiro, Edna Roland, Miralda do Cir, entre outros.
No Brasil, compartilhei com os Kaiowá, a convite do Conselho
Indigenista Missionário (Cimi) de Dourados, na década de 1980,
assim como visitei diversos povos indígenas brasileiros, carregando
a cartilha A terra é a mãe do índio, os jornais, os panfletos e
manifestos do Grumin na minha bagagem política.
Tomei conhecimento do livro A República “comunista” cristã
dos guaranis por intermédio do meu falecido esposo, o cantor
Taiguara, indígena Charrua do Uruguai, que, em 1977, exaltava
esse povo e o tinha como um referencial. Mais tarde escrevi:
O povo Guarani é um dos maiores povos indígenas do Brasil.
Atualmente, somam cerca de 67.500 pessoas, distribuídas nos
estados do Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São
Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, comportadas
nas regiões Oeste, Leste e Sul do Brasil. Os países vizinhos ao
Brasil, como Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia, possuem
também essa tão espiritualizada etnia indígena. Nos séculos XVII e
XVIII, eles somavam mais de 2 milhões de indígenas, só no Brasil.
Os indígenas Guarani de todos esses países possuem cultura
milenar, baseada em sua ancestralidade histórica, política e
organizativa: “ñanderekó, nanderekó, arandu” é sua visão de
mundo, sua cosmologia, seu jeito de ser. Dotados de extrema
espiritualidade, usufruem dela como sua autêntica religião, a qual,
durante séculos e séculos, o sistema político por um lado, e o
jesuítico por outro, tentaram deflagrar, apesar das boas intenções.
O povo “combativo e guerreiro” nas suas convicções culturais
detém conhecimentos ancestrais da mais elevada categoria,
baseados na língua indígena, também chamada Guarani e
preservada até os dias de hoje, após sofrer milhares de pressões
políticas, econômicas e étnico-culturais.
O Guarani tem como essência de vida, isto é, sua marca
étnica, a grande prática do “caminhar”, que, na língua Guarani, é
“guata”. O caminhar significa também evoluir e fortalecer-se
espiritualmente. Essa prática do caminhar faz parte do movimento
migratório dos Guarani desde o tempo da colonização. Esse
caminhar constante é justificado pelo yv´y opa, a busca da terra
sem males, que aqui definimos como uma terra que os permita
viver com dignidade, sem interferências paternalistas; enfim, um
paraíso mítico de sua ascendência. Esse caminhar cobre uma
grande extensão, que vai do norte da Argentina (no caso do
subgrupo Mbyá) e da Serra de Mbaracaju (no caso do subgrupo
Xiriá ou Nhandeva) até o litoral do estado do Espírito Santo,
passando por todos os estados já citados.
Voltando ao passado, Sepé Tiaraju, uma das maiores
lideranças do século XVIII, foi assassinado por um português pela
frente e um espanhol pelas costas, simultaneamente, na batalha
de 7 de fevereiro de 1756, em Bagé, no Rio Grande do Sul,
Brasil. Isso depois de caminhar com seus guerreiros por dias,
meses e anos, fazendo negociações entre os países que cobriam
as bacias dos rios Paraguai, Paraná e Uruguai, objetivando os
Direitos Indígenas daquele povo que estava sendo massacrado
pela escravidão, pela imposição de uma política europeia, que já
existia por aqui desde o século XVI, pela decadência moral,
política e econômica de Portugal e Espanha, que impuseram o
Tratado de Tordesilhas (1494) e o Tratado de Madri (1750). Esses
tratados dividiam e entregavam o Brasil e toda a América Latina
para esses dois países e só trouxeram, durante um século e meio,
o desrespeito à cultura Guarani e à cultura indígena como um
todo.
De 2 milhões que eram os Guarani, hoje, somam cerca de
67.500 pessoas. Realmente foram exterminados, mas ficaram
filhos e filhas de líderes assassinados na atualidade, como Marçal
Tupã-y, o pequeno Deus (líder indígena Guarani assassinado em
25 de novembro de 1983, por defender o seu povo), que pensava
como o chefe Maxuxi e que, como outros, criou consciência para
as próximas gerações: “Já não podemos nós, os Guarani, calar-nos
agora, diante dos estrangeiros [...] Eu não fico quieto não, eu
reclamo, eu falo, eu denuncio [...] A bomba atômica é uma
ameaça constante. Quem a programou? Quem deseja realmente
a paz mundial? Por que os covardes ameaçam com seus aparatos
bélicos? [...] E nós éramos... E nós somos ainda uma nação
espoliada, explorada, esfolada” (Marçal Tupã-y, 1982, em
discurso em reunião do movimento indígena brasileiro nas ruínas
de São Miguel, no estado do Rio Grande do Sul, aldeamento
indígena criado pelos jesuítas para apoiar o povo de Sepé Tiaraju,
destruído no período da colonização).
A partir do início do século XXI, a consciência indígena
Guarani tem se sobrelevado e sua autoestima começou a
despontar como a ponta de um iceberg, assim como para mais de
400 mil indígenas que ressurgiram – como em um sonho – dos
cantões das cidades, justamente como índios desaldeados, como
revelou o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), em pesquisa feita em 2000. Surgirão muitos mais, neste
século, os indiodescendentes, com caras e histórias de índios e
índias, ignorados pela ciência que ignora certos valores, pois esse
contingente indígena nunca mais terá vergonha nem medo de
assumir sua identidade indígena. Não haverá de sofrer a
discriminação social, racial e a intolerância cultural e religiosa
sobre sua cosmovisão de vida.
Menos de 50% das terras Guarani estão demarcadas e
asseguradas juridicamente e muitas delas estão ameaçadas pela
sobreposição de Unidades de Conservação Ambiental em seu
território, projetos governamentais planejados sem passar pela
consulta dos Guarani.
Os Guarani, desde o passado, quando o Projeto Jesuítico,
chamado de “República dos Guarani”, foi implantado como um
projeto assistencial, de defesa e de desenvolvimento aos moldes
da Igreja católica contra os colonizadores chamados de “entradas
e bandeiras”, até hoje plantam a erva-mate. Com essa erva, se faz
um chá tomado bem quente denominado “chimarrão” ou um
chá bem frio denominado “tereré”, o que se tornou marca
cultural de todo o povo nãoindígena do sul do Brasil nos dias
atuais.
Utilizam a agricultura de subsistência (mel do mato, palmito,
banana, mandioca, milho e feijão) e a conservam de forma
tradicional, assim como suas língua, religião, educação e
organização social. Praticam com muita ênfase a medicina
tradicional indígena e a valorização dos cânticos e dos pajés.
Produzem e vendem artesanatos, cerâmicas, tecelagens, arcos e
flechas para caça e pesca.
Os Guarani do passado, junto com o padre alemão Sepp, no
século XVII, no citado Projeto República Guarani, descobriram o
ferro e passaram a produzir sinos para igrejas e aldeamentos,
assim como centenas de atividades faziam parte do cotidiano
daqueles Guarani, como a aprendizagem de línguas estrangeiras,
matemática, astrologia, artes etc. Depois do massacre imposto
pelo Marquês de Pombal, grande parte da população Guarani foi
exterminada e conduzida à escravidão. Quando iam para a
lavoura, cabisbaixos, realizavam suas tarefas com muita dor e
muitos se suicidavam. E a melancolia surgia como uma centelha
de esperança para um novo momento. A luta dos Guarani foi
muito sacrificada e ardorosa, mas, hoje, esse povo canta a alegria
de sua identidade e dignidade reconstruídas. As crianças e
adolescentes Guarani já têm um patrimônio cultural registrado
digitalmente, em CDs, para a posteridade.
As orações dos Guarani, consideradas demoníacas para os
jesuítas, eram, na realidade, o que são hoje: a verdadeira
expressão das crenças e espiritualidade indígenas. As orações são
dirigidas ao Sol, ao Criador, aos espíritos, aos ancestrais. A alma é
universal, e Deus é supremo, um grande ancestral. Nas danças,
embebedados pela erva-mate ou por uma bebida tradicional
oriunda do kurupá, que causa uma certa excitação, divertem-se e
entram em contato com os espíritos. O pajé, costumeiramente,
toma a bebida para prever o futuro ou curar. Os espíritos dos
mortos permanecem por algum tempo em suas moradas. Esses
espíritos têm grande poder sobre os vivos. Esse povo desconhece
castigos, punições ou coerções às crianças ou ao seu semelhante.
Segundo o Dr. Bevilaqua, no Congresso de História Nacional
(1915), os Guarani, antes da colonização estrangeira, possuíam
organização política definida. Se havia defeitos ou vícios, esses
deviam-se ao fato de o domínio Guarani ser extenso demais − e
também é necessário relevar as diferenças climáticas, os meios
distintos, as diferentes necessidades de cada grupo.
Aos Guarani não cabe o termo “clãs”, e sim nações, pátrias,
como é o conceito atual do Movimento Indígena Internacional,
termo esse designado por “povos indígenas”, conquistado nas
lutas em várias instâncias para que fosse efetivamente substituído
na Declaração Universal dos Direitos Indígenas. Essa declaração
foi trabalhada durante vinte anos, pelos próprios povos indígenas,
ao lado dos governos, no Grupo de Trabalho sobre Povos
Indígenas, na Subcomissão contra a Discriminação e Proteção de
Minorias, na Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas,
de 1981 até 2001, culminando na vitória da constituição de um
Fórum Permanente para Povos Indígenas, ocupado por indígenas
dentro do sistema da ONU.
O passado Guarani significava total liberdade de ação e
pensamentos. Eram independentes e autônomos. A liberdade
individual de cada um era por demais respeitada e aqueles que
não estavam satisfeitos com a sua organização tinham a total
liberdade de migrar. Reinavam o interesse comum e a igualdade
absoluta dos direitos. Desconheciam a disciplina convencional.
Existiam o diálogo e o respeito mútuo e tinham uma forma de
falar direta, sem rodeios. Não havia poder central, pois a
independência era individual. Caciques, líderes, anciãos não
eram posições que denotavam poder. Esses elementos formavam,
sim, um conselho, que discutia as questões sociais e políticas e
deliberava, junto, em uníssono, a resolução de um determinado
assunto. Dava títulos às leis de organização: “tekomonãngava”,
literalmente, significa “o que faz a vida”.
Lamentavelmente, os livros do passado e do presente não
registram as formas de vida do povo Guarani. Temos muitos
conceitos determinados pelos antropólogos, estudiosos da
questão, dos padres, mas conceitos registrados pelos próprios
Guarani têm sido difíceis de encontrar. Com exceção de Ignacio
Alberto Pane, um dos primeiros antropólogos indígenas e Guarani
que escreveu sobre a mulher indígena, verdadeiramente
colocando-a em um patamar muito digno, no qual o matriarcado
predominava. Esse estudioso, autêntico sociólogo Guarani,
pesquisou durante vinte anos a cultura de seu povo e criticou
veementemente a maioria dos estudos feitos pelos cientistas que
se dedicaram ao estudo desse povo. Pane acreditava que os
antropólogos distanciavam-se demais da realidade Guarani, por
não poderem, na prática, internalizar a identidade indígena. Só
um índio Guarani ou uma outra pessoa indígena detém esse
conhecimento tradicional, até ancestral, por ter uma visão
cosmológica real oriunda de suas próprias história, tradições e
cultura.
Exaltação é o mesmo que render homenagens. Quando
exaltamos, não só percebemos a essência das coisas, mas
respeitamos, reverenciamos o alvo amado. As culturas milenares,
como no interior dos países asiáticos, valorizam muito as histórias
de vida e preservam valores incomensuráveis.
A sociedade moderna, tecnológica e ocidental, exalta o corpo
físico, valoriza o dinheiro e a juventude. Os idosos não mais têm
vez.
Cunhataí, ao contemplar sua terra, apercebe-se de sua cultura
e espiritualidade, após todo o sofrimento que teve pela destruição
de seu povo, que permaneceu anestesiado, cego e infeliz pela
devastação causada pelos colonizadores, vislumbra um momento
novo em sua história. Após a volta dos ancestrais, dos velhos, das
velhas, da comunhão dos novos com os velhos, reacendida pela
compreensão de que só a valorização dos ancestrais e das
tradições trará a perpetuação da cultura; Cunhataí compreende
que a exaltação à natureza e à cultura a remete a planos nunca
pisados e essa exaltação lhe dá forças para sua caminhada e
glória. Vivera séculos para a construção dessa ideologia. Seu
amado dá sinais de vida, apesar de ainda não poder deitar-se em
seu colo. É um prenúncio da chegada de Jurupiranga, que
também viajara séculos. Vejamos:
Bom dia sol! Nesta noite eu renasci.
Vi brilhar a luz em mim
Num carapinã que aos meus ouvidos
Zumbia o futuro de um colibri.
Canto teu primeiro beijo
Nas asas de uma imensa arara
Preparo o sagrado beiju
Pra te fazer delirar num calor primeiro.
Pouco a pouco essa coisa louca
Vai-me tomando feito Anhangá
És tu que me cheira
Que me morde
Que me beija
Que me penetra até sangrar.
Corre-me nas veias quentes
O delírio que me rouba a paz
Agonizo-me inteira!
Enrijeço-me solteira!
É tua boca que me suga a fonte sagaz...
Aqui sob o tronco amazônico
Grita forte – LIBERTO – atônico
O velho ancestral
Um bruxo das matas
Dos rios
Dos lagos.
Me traz uma cana caiana
E me diz que é pra quem ama.
Me entrega um atobá
E diz que um homem honesto
De olhos claros – GUERREIRO
Repousa enfeitiçado
Porque nele começa o primeiro reinado.
Ao bruxo, lhe disse o índio astuto
Acordando dos sonos matinais:
Que nas asas do Pitiguary
Viajaria no âmago das matas árduas
E traria – rápido – o bálsamo da HISTÓRIA
E traria – ríspido – a verdade nos matagais.
O índio – o meu rei amante – ainda sussurrando
Levantou áspero e sumiu pelos ventos
Nunca mais se bateu olhos nele, no entanto...
Mas ele deixou marcado nas pedras errantes
Um princípio de vida pros ilustres e banais:
“Nesta noite somos todos iguais”.
Meu coração se esquenta com tua chegada
E nela vejo o alvorecer
O cantar dos pássaros
O cocoricó dos galos
O ciscar das aves
Como que anunciando um novo dia
Claro
Aberto
Limpo.
O meu sangue se acelera nas veias
Como o correr das garças e lebresFugindo de seus assassinos famintos.
É você que vem de longe
Detrás dos montes, esperança trazendo
É você que chega
E acalma os meus mares bravios.
E a tristeza me toma de vez
Pois jamais poderei te alcançar
Assim como sei
Da certeza da morte.
E fico aqui só vendo
O mundo correr
E você passar...
Mas estou feliz com tua chegada
Pro bem da gente
Pra felicidade de milhões de criancinhas.
Foi no berço de Ângelo Kretã
Que aflorou como semente na terra
A união dos negros, mestiços e brancos...
Índios! Como num grito de guerra
Que se erguem por um novo amanhã
Sim
Foi no Brasil de Marçal Tupã
E de muitos Ângelos Kretãs
Que se uniram Manoéis da Conceição
Elisabetes Teixeiras, Krenakes e Tukanos...
É Paraná de boa gente
Que em seu seio acolheu
Que em seu rio de decência
Gente forte resolveu:
– Nunca mais a violência!
Paranauê! Paranauê!
Paraná!
Terra dos pinheirais
Os sem-terra – nunca mais!
Das cataratas – livres – do Iguaçu
Igarapés levam água a quem tem sede
A garapa a quem tem fome
RAONI – Guaíras a quem tem luta
Eta! Paraná...
Rio grande em guarani
Num lugar a reunir
Sindicalistas, políticos e a UNI.
Foram representantes do povo,
Da igreja, é uma vitória!...
Eta! Paraná...
Que entrou pra história!
Mas pra que isso acontecesse
Santinas, Linas e Marias
Tiveram assassinados seus maridos
Como o operário Santo Dias.
Foram muitas Aurélias
Durantis Irmãs guerreiras
Margaridas e Josimos
Que também vimos partir.
Trabalhadoras as mulé agora
Enfrentam jagunço fazendeiro
Ao pai, ao marido, ao irmão ladeiam
Pelos sem-terra, até a morte, guerreiam!...
O que é da vida?
Se sofremos...
Se choramos...
Por que não sorrir?
E deixar o rio de mágoas
Que nos sufoca.
Secar ao sol da esperança
Da vontade de viver...
Da vontade de nossa terra
Perdemos nossas terras, a saúde, nossa comida,
nossos rios e tantas outras coisas mais, mas uma
coisa nós índios não perdemos, é a resistência.
Olívio Jecupé, escritor indígena
Cunhataí passou por todos os dissabores, como foi visto nos
capítulos anteriores. E Jurupiranga? O que aconteceu a esse
guerreiro, enquanto sua esposa sofria de outro lado?
No passado, estava Jurupiranga em seu território distante
trabalhando no roçado pelo alimento diário de sua família, quando o
chefe da tribo chegou gritando ao lado de outros homens: “Os
colonizadores estão invadindo nossas terras, levando nossas mulheres
e crianças, matando nossos velhos e incendiando nossas casas!”.
Mal teve tempo Jurupiranga de enfrentar o inimigo, quando
viu tombada sua aldeia e mortos seus familiares. Os brancos
haviam levado sua esposa, Cunhataí, e outras mulheres para a
escravidão e para submetê-las às suas sevícias. Foi uma verdadeira
tragédia.
Jurupiranga e outros homens desesperados partiram à procura
de suas mulheres. Quando chegaram ao povoado dos colonos,
viram centenas de indígenas de outras tribos escravizados. Seus
amigos e parentes foram capturados, mas ele, ágil como uma
flecha, escapou pelo interior das matas. Assim começou sua
peregrinação pelo interior do extenso território norte-centro e sul-
americano. Atravessou rios, montanhas, vales, viu centenas de
povos tombados pela guerra, viu aldeias inteiras destruídas, viu
povos escravizados cabisbaixos trabalhando para os jesuítas, viu
indígenas escravizados na lavoura do algodão, do café, do milho,
do arroz e milhares de cadáveres. Caminhando muito mais, viu
indígenas trabalhando nas minas de Potosi, viu a colonização pelo
estanho, pelo ouro, pela prata, pelo carvão, pela marcassita, pela
cana-de-açúcar, pela madeira e pelo látex. Viu centenas de povos
tombarem à baioneta dos neoamericanos, ingleses, holandeses,
franceses, espanhóis, portugueses e dos próprios brasileiros.
Compreendeu que os tratados feitos entre indígenas e
governo, na realidade, mais favoreciam ao governo. Conheceu
centenas de guerreiros. Atravessou desertos no território
mexicano. Adentrou o Arizona. Sucumbiu. Esqueceu os sons de
sua flauta, esqueceu os acordes de seu povo, esqueceu o ritmo
dos tambores. Viajou presente, passado e futuro. Passou fome,
criou calos nos pés e nas mãos, adoeceu as piores doenças dos
invasores, adquiriu o vírus da tuberculose, do tifo, da malária, da
escarlatina, da loucura. Enfumaçando-se nos tempos, adquiriu o
vírus HIV, das hepatites de todos os gêneros, o vírus do medo, da
insegurança, do desespero e da desesperança. Percebeu, também,
os vícios mais sórdidos dos colonizadores e neocolonizadores. Viu a
água do planeta ser contaminada e desperdiçada. Viu a
biodiversidade da terra ser destruída pelos corruptos e dominadores.
Nesses séculos, Jurupiranga, com sua lança, combatia os
inimigos, tornando-se um guerreiro sem terras, andarilho e
solitário. Mas, quando meditava, meditava e meditava, buscando
sua força interior, o seu self selvagem, sua iluminação. Às noites,
sonhava com sua esposa, sua família, seus filhos, suas histórias,
seus cânticos, que não conseguia decifrar, mas percebia a
existência de uma grande história interior e resistia como se fosse
um rinoceronte, no meio dos ventos, pois, de onde estava, podia
ver todas as aldeias do mundo. Jurupiranga estava no topo do
mundo e, dessa aldeia, podia ver o quão grandiosa era a Terra e
os próprios territórios por onde passava. Seu casco era grosso, sua
alma de ferro, suas mãos de aço, sua voz e sua consciência eram
de ouro e seu olhar sábio era de diamante! Só tinha um objetivo:
persistir em sua convicção e na sua voz interior contra os
dominadores e reencontrar seu povo, reconstruí-lo para sempre
na paz e no amor.
Um dia, deitado sob uma árvore e enfraquecido pelas
dificuldades, fome, desesperança e enfermidades, mas, enalte-
cido, glorificado pela força interior, teve um sonho. Sonhou que
estava em uma grande sala, cheia de cadeiras envernizadas e
muitos indígenas, inclusive representantes de seu povo, vestidos
com vestimentas alheias e estranhas a seu tempo original. Via
vários guerreiros usarem a palavra e serem ouvidos e respeitados.
Ouvia várias línguas indígenas e estrangeiras. Via o grupo indígena
apresentando papéis para uns homens brancos de roupas pretas e
cinzas. Via mesas cobertas de mapas de territórios indígenas
definidos por eles e via negociações serem feitas objetivando a
paz indígena. Os homens brancos, engravatados, acatavam as
decisões indígenas, porque havia estatutos, leis, mecanismos
internacionais, tratados, pontos na Constituição que haviam sido
trabalhados pelos indígenas durante séculos e séculos, aquilo
constituía uma vitória para os povos indígenas. Os brancos diziam
que estavam reconhecendo a dívida histórica que aquele país
tinha para com os povos tradicionais e, por isso, tinham decidido
– politicamente – aceitar, pacificamente, as demandas que os
povos apresentavam para o exercício dos direitos indígenas.
Ele pôde ver as guerras pelo poder, viu tombarem os povos do
Oriente e esses serem massacrados pelas potências mundiais. Em um
sobressalto e num piscar de olhos, vislumbrou a universidade
indígena lotada de jovens, futuros antropólogos, cientistas,
historiadores, jornalistas, juristas, contadores de sua própria história.
Viu bibliotecas inteiras recheadas de livros escritos pelos indígenas,
viu uma qualidade de vida nunca vista em toda a sua vida. Mulheres
indígenas eram respeitadas quando passavam nas cidadelas, ao
fazerem suas compras, ou quando necessitavam de recursos
médicos, educacionais ou jurídicos. Os velhos eram venerados
por todos. Os indígenas desaldeados e descendentes (aqueles que
quisessem) eram reconhecidos não só pelo seu próprio povo, mas
pela sociedade e reintegrados a seu povo original por um mecanismo
legal aprovado no que chamavam de Congresso e Senado, por
indígenas parlamentares. Juízas indígenas conquistaram a inclusão
dos povos indígenas em todosos segmentos da sociedade, na mídia,
na educação, na saúde, no trabalho, na legislação da sociedade
envolvente. Enfim, percebeu a comunhão da nova e avançada
tecnologia utilizada por alguns indígenas com as tecnologias e
tradições indígenas, na qual o diálogo de jovens e velhos era uma
realidade. Naquele ano, um prêmio Nobel da Paz foi dado a uma
indígena guatemalteca e, mais à frente, a outro indígena, um
escritor, que o recebeu também porque havia escrito algo que
precisava ser escrito, com a alma, uma lição para o mundo, na
construção da paz mundial e dos direitos não só indígenas, mas os
direitos humanos.
Jurupiranga sonhou ainda com toda a trajetória passada e
sofrida de sua esposa e sonhou as histórias dos velhos e velhas.
Chorou e chorou. Sonhou com todas as lendas, todas as músicas,
cânticos, todas as técnicas artesanais, alimentares, agroculturais, com
todas as regras e princípios éticos, origens de vida, princípios
espirituais e todos os sonhos imemoriais dos pajés de todos os
tempos; a propriedade intelectual indígena, que envolvia a mais
nobre biodiversidade da natureza.
Jurupiranga, ao despertar do sono eterno, confuso, como se
não soubesse onde estava, em que tempo estava, acordou com
uma melodia na cabeça e, reunindo forças, compôs o Hino
Nacional Indígena, acompanhado de uma orquestra de chocalhos
e vozes de meninas indígenas e escreveu para a posteridade as
palavras sábias de seus avós e bisavós, o poema Terra.
Forte, renascido, encontrou forças, por meio das lembranças
de suas histórias, de seus ancestrais e de sua cultura e pôde
encontrar o caminho de volta de onde saíra há cinco séculos.
Como em um sopro divino e nas asas da luz e do amor, seguiu
firme adentrando sua aldeia – sua nação indígena – totalmente
refeita com a força da consciência do povo.
Quando eu vi as araras
seus rabos azuis azul-real
só pôde bater forte o meu coração amante
pela minha terra verdinha.
Eram araras de todos os tamanhos
de tantos gritos
de tantos gestos
e bailavam pelos ares
dando mil voltas e gracejos.
Elas beijavam e conversavam
como os casais românticos
que juram amor eterno.
Eu te vi arara querida
VERDE – AMARELA – AZUL E BRANCA!
Te vi voando
solta
livre
pelos ares.
Eras tu mesma minha
terra querida!
Aos que não puderam encontrar sua aldeia,
mas encontraram sua essência
Eu não tenho minha aldeia
Minha aldeia é minha casa espiritual
Deixada pelos meus pais e avós
A maior herança indígena.
Essa casa espiritual
É onde vivo desde tenra idade
Ela me ensinou os verdadeiros valores
Da espiritualidade
Do amor
Da solidariedade
E do verdadeiro significado
Da tolerância.
Mas eu não tenho minha aldeia
E a sociedade intolerante me cobra
Algo físico que não tenho
Não porque queira
Mas porque de minha família foi tirada
Sem dó, nem piedade.
Eu não tenho minha aldeia
Mas tenho essa casa iluminada
Deixada como herança
Pelas mulheres guerreiras
Verdadeiras mulheres indígenas
Sem medo e que não calam sua voz.
Eu não tenho minha aldeia
Mas tenho o fogo interno
Da ancestralidade que queima
Que não deixa mentir
Que mostra o caminho
Porque a força interior
É mais forte que a fortaleza dos preconceitos.
Ah! Já tenho minha aldeia
Minha aldeia é Meu Coração ardente
É a casa de meus antepassados
E do topo dela eu vejo o mundo
Com o olhar mais solidário que nunca
Onde eu possa jorrar
Milhares de luzes
Que brotarão mentes
Despossuídas de racismo e preconceito.
Homem que nesta fortaleza mágica
És capaz de transformar
Tua dor e tua coragem sólidas
Os vícios e os princípios másculos
Em carinhos e créditos
Mas amantes com fé?
Homem, que me dizes – Hoje – Mulher!
És capaz de te despir
Deste sórdido destino
Deste código maldito
Que te faz muito sofrer
E que a história impõe te dar?
Homem, que me fazes, porém, sorrir...
És capaz de te impor
Diante da crueldade maior
Do egoísmo secular
Do poder e do julgar
E defender tua mulher?
Homem que me fazes, então, chorar
É possível despertar
Tão virgens teus fortes peitos
Rir de teus velhos conceitos
E ver o fêmeo em ti brotar
Acreditando em quem te quer?
Homem que não me permites errar!
És capaz de perdoar
Sem cobrar mil sacrifícios
Me ceder bens ou benefícios
E lá na frente me tomar?
Então, homem!
Contigo e por ti quero criar
E nas matas fecundar.
Produzir nas fábricas
Produzir nos campos
Produzir no lar...
Trabalhar com as mãos
Batalhar com as mentes
Numa célula crente.
É aí que eu te quero gente
E aí, eu te quero amante...
Portanto, homem,
Eu te quero forte
Mas também te quero fraco...
Eu te quero rindo
Mas te quero chorando...
Eu te vejo indo
Mas te quero chegando...
Suponho-te potente
Porém também és impotente
Parece-me prepotente
Mas muito esforça-te humilde...
Eu te quero homem
Eu te quero humano
Eu te amo hoje
Eu te amo sempre
Eu te quero herói
Porém te vejo homem
Homem até errante
Mas da verdade urgente.
Homem!
Concebeu a mim, não de uma costela
Mas de uma estrela, que trabalhava bela:
Mãe, fêmea, amante secular
Mas com seus direitos de mulher.
Todos na comunidade esperavam a volta de Jurupiranga.
Muitos séculos haviam se passado, mas, na simbologia da volta
daquele homem, viriam vários outros homens de outros séculos
que a mesma dor passaram.
Cunhataí convocou uma assembleia geral para definir como
recepcionariam os guerreiros. E ela, no seu interior de mulher,
pensava como receberia Jurupiranga depois de tanto tempo! Filhos,
netos, tataranetos e todos os ancestrais antes dos tataranetos
estariam na grande festa! Havia as plumagens e tintas mais lindas
de toda a eternidade. As estradas pululavam de alegria,
enlouquecidas para receberem e serem pisadas pelos guerreiros.
As árvores, os frutos, os rios, os mares, os animais silvestres, as
chuvas, os raios solares, as flores, as cachoeiras, as lagoas, as
noites enluaradas e estreladas cantavam e despejavam húmus,
néctar do amor e da prosperidade para endossar e adoçar a
chegada de Jurupiranga. As notas musicais saltitavam no ar e as
músicas se faziam por si sós no espaço. Enfim, os cajueiros
explodiam de risadas e soltavam belíssimos cajus amarelos e
avermelhados pelo chão afora.
Cunhataí preparou uma grande festa nordestina, convocou
todas as crianças da comunidade, convocou as velhas, as tias, as
vizinhas e os homens para ajudarem a organizar a festança.
Convidou todas as tribos brasileiras e estrangeiras. Os imensos
cajus foram transformados, felizes, em uma grande caldeirada de
doce. A comida foi preparada com amor para milhares de
pessoas.
Mas, quando a caldeirada do doce de caju ficou pronta, a
calda escura começou a ferver de forma tão estranha, que foi se
multiplicando, triplicando tão rapidamente, e, em uma fração de
segundos, inundou, como um rio, a escola onde faziam a comida.
A escola estava impregnada dos vícios do neocolonizador.
Cunhataí, ao ver a escola totalmente coberta com a calda do caju,
desesperou-se. “E agora? O que vamos fazer para que os
guerreiros não vejam essa imundície?”
Faltava apenas uma hora para a chegada de todos... Cunhataí,
então, convocou todas as crianças e jovens da comunidade para
secar toda aquela calda. Era impossível secar todo o chão. As
crianças, alegres com a tarefa e lambendo os dedos, besuntaram-
se naquela calda morna, que crescia cada vez mais, escorrendo
como um rio e formando um grande lago. Cunhataí observava
todo aquele fato e se perguntava por que acontecera aquilo,
depois de tanto trabalho que tivera para recrutar as pessoas e
estruturar seu povo? Cunhataí, naquele momento, estava seca,
sua pele enrugara, suas mãos amoleceram, suas carnes
desapareceram, seus olhos cobriram-se com uma película azul
enevoada. Estava enfraquecida, porque estava em pele e osso.
Seus ossos jaziam no fundo do mar. Não havia mais nada a fazer.Estava em estado de choque brutal! Totalmente esfacelada,
aniquilada. Nunca mais veria seu amado!
No entanto, alguma coisa aconteceu fora de sua razão e
consciência. Pensando que havia voltado à escola minutos depois,
deparou-se com uma surpresa. Sua mãe, Alzael, e sua filha,
Monaí, coordenaram juntas as lideranças e limparam toda aquela
lambança da calda de caju. Limparam tudo, a festa foi um
sucesso, os amigos ficaram mais amigos, os inimigos esqueceram
suas diferenças.
Cunhataí, pensando que ainda faltavam poucos minutos para
o começo da festa, se deparou com sua mãe e filha já efetuando
outro trabalho: o de reorganizar as sobras da festa. A mãe disse a
ela: “Foi bom você não ter vindo, Cunhataí. Você dormiu, mas
vieram todos os chefes e guerreiros, todos foram recebidos pelas
esposas e famílias, nós recebemos Jurupiranga. Foi feita uma
grande homenagem a ele, e ele se emocionou muito e chorou e
chorou e chorou. Jurupiranga agora está na casa dos homens,
confabulando o nosso futuro e cada coisa está no seu devido
lugar, não há nenhum problema. A alma foi lavada e as crianças e
jovens cantam os cânticos sagrados. As crianças já podem comer a
caldeirada de caju, tranquilas”.
Estagnada, perplexa, espantada, Cunhataí começou a soluçar
por não ter assistido à festa que tanto queria e organizara.
Era a chegada de seu marido depois de séculos, mas o povo
assistiu e o povo trabalhou para isso. Todos os povos indígenas
compareceram à festa e muitas horas, minutos, segundos, dias se
passaram, e Cunhataí dormira profundamente, o sono do
descanso merecido, o sono da mulher. Ela descansara durante
toda aquela situação de sujeira da calda do caju e da própria
festança para receber os guerreiros.
A mulher, ainda tonta com o sono e com os olhos marejados
de lágrimas, pensando que havia se passado apenas alguns
minutos, compreendeu que não era importante ela estar presente
quando o povo está organizado, consciente.
Por um lado, as lágrimas de Jurupiranga foram derramadas
pelo sofrimento e pela emoção da chegada à sua terra natal e, por
outro lado, as lágrimas de Cunhataí foram derramadas pela
consciência de que seu povo realmente estava forte, consciente,
tranquilo em suas convicções, era um povo ético e construtor da
paz. Ambas as lágrimas – unidas – devolveram as carnes, as peles
frescas e suaves de Cunhataí. Seus ossos se constituíram de novo
e ela pôde realmente sentir suas costas livres, soltas. Havia se
libertado de seu casco grosso e pesado, seu fardo... e, pela
primeira vez, uma grande alegria inundou seu coração e espírito –
a felicidade da mulher – pois todos haviam trabalhado por esse
objetivo.
(Texto publicado em pôster em 1982.)
BOCA VERMELHA, guerreiros das cordilheiras,
cansado... Repousava adormecido sob o orvalho.
Abriram-lhe os olhos rubros raios solares,
aromas silvestres, canções da mata.
Era Cunhataí – trêmula – errante das águas,
envolta em folhagens, flores mas sem abrigo...
Cantou-lhe em voz alta e compassada,
uma canção de amor... Mas sem destino:
(porém ele nada dizia e tudo entendia)
– Desperta JURUPIRANGA!
Vem me ver que hoje acordei suada.
Benzo com o sumo de minha rosa aberta, enamorada,
as manhãs de delírio, completamente cansada.
Vem, que te sonhei a noite toda:
puro, te revelando nas águas do Orinoco,
sorrateiro, espreitando o massacre de Potosi
Vem, que te sonhei na noite pela PAZ
e teus dedos velozes, a guarânia, tocavam
as vitórias felizes do Império Inca.
Teu rosto estranhava a luz que me envolvia,
porque – recuperado – todo o estanho eu trazia.
Vem, que vou me pintar com urucum.
Vou me encher de mil colares
pra te esperar pro ritual.
Tenso está meu corpo ofegante e penso
no teu cheiro de homem,
no teu corpo de homem,
que me assanha e me esquenta.
Me senta a teu lado,
me toca co’as mãos
poéticas, tão grandes e musicais.
Me espera na hermosa Ponta Porã
E faz tua amante se sentir cunhã.
Me roça
Me faz a palhoça
pra eu morar.
Me afoga em teus beijos,
teus quentes desejos
pra que eu veja
um pituã pra nos cantar.
Me traz os teus cânticos
Me grita aos ouvidos
compõe a cantiga
que me faz tua AMIGA...
E te deitas em meu colo
que eu toda me enrolo
em teus cabelos românticos.
Me aponta teus ventos brabos
de um país roubado,
de tanto sangue derramado,
chamando um xaxado
pro gozo de amar.
Que vou bebendo
com muita cadência
o fogo que expele do teu olhar.
E nesse momento teus beijos ardentes
explodem contentes
queimando meus lábios,
meus tão fartos lábios
que te fazem delirar.
Ah!... Me traz teus quenachos
Pra que eu te dê meus penachos
Assim... Vou te levando aos Tabajaras.
Lá, dormiremos ao som das araras
testemunhando o amor, a oiticica sagrada.
E ungiremos com óleo todas as nossas feridas.
Então, tomaremos o mel da manhã
pra que todos os antepassados renasçam.
E olharemos pro céu do amanhã
pra que nossos filhos se elevem
e beberemos a água do carimã
pra suportar a dor da Nação acabada.
E os POTIGUARAS, comedores de camarão
que HOJE – carentes –
nos recomendarão a Tupã.
E te darão o anel do guerreiro – parceiro
E a mim?
Me darão a honra do Nome
A ESPERANÇA – meu homem!
De uma pátria sem fim.
Agora, chamego!
me cheira,
me faz um churrasco,
me dá chimarrão,
uma saia de chita,
mais um chocalho bonito
pra Zamacueca dos Andes
pro Toré do Sertão.
Reparte essa carne-de-sol,
esse baião temperado
que eu tô danada assim...
de amor por esse diabo.
Me dá açaí geladinho
uma rede quentinha
pra nos sonhar agarrados
nas libertas Ilhas Galápagos.
Mas Zanzo,
zonza,
ao som do zabumba
ao som das zampoñas,
sob o azul do Amazonas
Benzendo teu coração.
Mas chora teu charango latino
tua lhama andina,
pelos cantos da cidade,
pelas cidades sem flor.
Chora meu ximango sofrido
Porque eu estou triste aqui.
E juntos, num só instante,
depois de tanto amor incessante
perceberemos INQUIETOS aqui,
o JURUPARIPINDÁ
a separar a todos os loucos Amantes.
CHEUICHE, Alcy. Sepé Tiaraju: romance dos sete povos das
missões, Age Editora, 2016.
ÉSTER, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com lobos:
mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Editora Rocco,
1999.
FANON Frantz. Os condenados da Terra. Editora Grove Press,
1969.
LUGON Clóvis. A República “comunista” cristã dos guaranis.
Editora Paz e Terra, 1977.
PANE, Ignacio Alberto. Apuntes de sociología, Instituto
Colorado de Cultura, 1976.
POTIGUARA, Eliane. A terra é a mãe do índio. Grupo Mulher-
Educação Indígena, 1989.
JORNAL PORANTIM, Conselho Indigenista Missionário (Cimi).
Depoimento e testemunhos dados ao Grumin, em 1985, para
relatórios.
.
Foto presenteada por Silvia Villalva.
Eliane Potiguara é escritora, poeta, professora, ativista
indígena e contadora de histórias, poeta de ancestralidade
potyguara, nascida em 29/9/1950, Rio de Janeiro, bisneta do
guerreiro paraibano e potyguara Chico Solón de Souza.
Foi nomeada na Ordem do Mérito Cultural na classe
“Cavaleiro”, pela contribuição à cultura pelo governo brasileiro
em 2014. Indicada em 2005 ao Projeto Internacional “Mil
mulheres ao Prêmio Nobel da Paz”. É formada em Letras
(Português-Literaturas) e Educação pela UFRJ, especialização e
extensão em Educação Ambiental pela UFOP, é fundadora do
GRUMIN / Grupo Mulher – Educação Indígena), que recebeu, em
1996, o II Prêmio de Cidadania Internacional, pela Fundação
Bah’ai. Hoje, o Grumin constitui-se na Rede de Comunicação
Indígena e Grumin Edições. Foi considerada Mulher do Ano de
1988, pelo Conselho de Mulheres do Brasil, por seu trabalho em
prol do desenvolvimento das mulheres indígenas no Brasil. É
autora de A terra é a mãe do índio (1989), livro premiado pelo
Pen Club da Inglaterra. Esse texto foi traduzido para o inglês e foi
tese de dois mestrados (Índia e Estadoscara, metade máscara integra um movimento literário
indígena contemporâneo no país. E, nesse diapasão, pensamos ser
Eliane Potiguara uma dessas guerreiras que, por meio da escrita, da
publicação, do livro literário, luta em favor das causas inerentes aos
povos indígenas no país. Pela vida que está, sobretudo,
representada na obra e de onde inicia este projeto, e pela voz,
criativa, metonímica e ancestral, o projeto literário de Eliane
enfatiza a mulher indígena na beleza, na força, na sabedoria e na
resistência aos projetos coloniais e neocoloniais, dando forma a
uma linguagem em prosa ou poesia, em diálogo intercultural, cuja
matriz está em sua memória e na de seu povo, e que podemos
acessá-la tão-somente pela propriedade intelectual dessa guerreira,
mulher, indígena, no presente.
Julie Dorrico
Doutoranda em Teoria da Literatura no Programa de Pós-Graduação em
Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal de Rondônia.
Pesquisa literatura indígena brasileira contemporânea com ênfase em
autobiografia indígena.
Deslocar-se, involuntariamente abandonar seu território,
(re)construir-se. Essa é uma leitura, entre possíveis outras, de Metade
Cara, Metade Máscara. Escrito por Eliane Potiguara, o livro narra a
mobilidade forçada de mulheres indígenas, deslocadas sem opção de
suas comunidades e terras para guetos nas cidades, sofrendo assim
dupla violência por sua condição de mulheres e indígenas.
Mergulhando no tempo, a autora encontra os fios indispensáveis que
constroem e unem os textos-poesias: a ancestralidade potiguara, a
história familiar, o abandono da aldeia. Trata-se, portanto de “um
livro de resgate”.
Marcada pelos deuses e pelo êxodo, Eliane Potiguara usa a
literatura para revelar aspectos espíritos-existenciais dolorosos que
transcendem às suas experiências próprias, pois seu texto é
testemunha ocular dos efeitos do colonialismo e da colonialidade
na vida e na história dos povos originários e seus descendentes,
especialmente das mulheres indígenas. Abordados ainda a partir
do olhar distorcido da mídia dominante e do senso comum, eles
habitualmente tornam-se notícias quando se transformam em um
problema. Mascara-se a humanidade, nega-se um lugar no
mundo, todavia esquecem que antes de serem índios, emigrantes,
“desaldeados” são pessoas, com particulares jeitos de ser e viver,
e devem ser tratados com dignidade.
O desterro transforma vidas, caminhos, corporalidades, paisa-
gens. Afetadas, essas identidades in flux se desconstroem e se
constroem a partir de deslocamentos. Eliane Potiguara, ao mesmo
tempo, nos aproxima de sentimentos, fragilidades, emoções íntimas
não somente suas, mas familiares, sociais. Desse modo, a autora
encontra na narratividade de sua escrita a ferramenta necessária de
transformação para dar visibilidade à diversidade sociocultural e
linguística dos povos originários, instrumentalizar lutas, pleitos,
empoderar as mulheres indígenas, tema central na trajetória e
pensamento dessa mulher guerreira.
Cristiane Portela
Singular, à frente de seu tempo, a potiguara é protagonista do
movimento de mulheres indígenas, denunciando, em instâncias
nacionais e internacionais, situações de vulnerabilidade, ameaças,
violências, opressões e discriminação contra mulheres indígenas.
Sensível e poeticamente, todos esses temas estão reunidos em
Metade Cara, Metade Máscara. Eliane Potiguara, sua escrita é
movimento, denúncia, militância, transformação.
Ana Paula da Silva
Doutora em Memória Social,
Pesquisadora Associada do Programa de Estudos dos Povos Indígenas,
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PROÍNDIO/UERJ).
-
Dedicado a Marina (que eu apelidei Juçara em outros textos
meus), esposa do líder indígena Guarani Sepé Tiaraju, século XVIII.
Ela representa o início da solidão das mulheres motivada pela
violência e pelo racismo.
Muitas famílias indígenas foram separadas pelas invasões
estrangeiras. Invasões do passado, invasões do presente, invasões
do futuro. No passado, as frentes de expansão econômica, as
frentes missionárias e as frentes de atração eram as causas das
transformações sociais das populações indígenas. Varicela,
escarlatina, varíola, sarampo, gripe e tuberculose, em 1763,
fizeram 7.414 vítimas! O padre Fernandez escreveu, em um de
seus relatórios, que os portugueses e os mamelucos de São Paulo
tinham assassinado, em 130 anos, 2 milhões de índios Guarani
nas bacias dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai. Muitos desses
indígenas foram, capturados, levados para São Paulo, para o Rio
de Janeiro e até para o Nordeste brasileiro. Em 1729, a chamada
República Guarani somava um total de 131.658 indígenas
escravizados. Os exércitos português e espanhol, na batalha de 7
de fevereiro de 1756, próxima a Bagé (sudoeste do Rio Grande
do Sul), assassinaram Sepé Tiaraju e mais 10 mil Guarani. Sua
esposa, Marina (Juçara), levaria às costas a menina recém-nascida
que Sepé jamais veria. Era o início da solidão das mulheres,
motivada pela violência, pelo racismo e por todas as formas de
intolerância referentes inclusive à espiritualidade e à cultura
indígenas.
Durante o processo de escravidão indígena, muitos pais e famílias
realizavam o suicídio em massa contra essa forma de opressão.
Despencavam dos penhascos. Isso era um ato de resistência. Então,
percebemos que muitas famílias sofreram a separação, e é a esse
enfoque que nos reportamos. Entre as causas da separação das
famílias estão a violência aos territórios imemoriais dos povos
indígenas e a migração compulsória. Isso provocou insegurança
familiar, distúrbios, medo e pânico, causando loucura, violências
interpessoais, suicídios, alcoolismo, timidez e a baixa autoestima
diante do mundo. Tudo isso motivado pelo racismo contra povos
indígenas e em prol da colonização europeia. E mais: a destruição
dos cemitérios sagrados dos povos indígenas, que representam uma
forte referência cultural, fez com que famílias perdessem
definitivamente o elo com seus ancestrais, causando a
desintegração cultural e espiritual.
Dando um salto cronológico na história, já na segunda década
do século XX, a violação aos direitos humanos dos povos
indígenas continua. E, aqui, contamos não um caso particular,
mas um caso comum a milhares de brasileiros, migrantes
indígenas. Conta-se que o índio X, pai das meninas Maria de
Lourdes, Maria Isabel, Maria das Neves e Maria Soledad, por
combater a invasão às terras tradicionais no Nordeste, foi
assassinado cruelmente, segundo palavras de uns velhos que
encontrei um dia. Amarraram-lhe pedras aos pés, enfiaram um
saco em sua cabeça e o arremessaram ao fundo das águas do
litoral paraibano. A família colonizadora inglesa Y ainda fez
desaparecer muitos pais e avós de família. Quase 70 anos depois,
a empresa Z foi à falência e nunca se fez justiça a esses crimes
organizados, objetivando interesses políticos e econômicos locais.
As filhas do índio X e toda a sua família, amedrontadas, assim
como outras famílias, migraram para Pernambuco, nordeste do
Brasil. Em 31 de dezembro de 1928, nascia a pequena Elza, filha
de Maria de Lourdes, fraquinha e enferma – tanto pelas
condições de vida de sua família quanto por sua própria mãe ter
somente 12 anos, uma menina ainda em formação, violentada
sexualmente pelo colonizador. Pouco tempo depois, toda a
família migrava de novo para o Rio de Janeiro, em um navio
subumano que trazia os nordestinos para o sul do Brasil. Sem
conhecer ninguém e completamente empobrecida, a família
indígena permaneceu por uns tempos nas ruas. Quando Maria de
Lourdes, índia, mulher, analfabeta, paraibana, nordestina e já
separada do homem que lhe fez mais dois filhos, conseguiu
trabalho, se estabeleceu com a família em uma área de
prostituição chamada Zona do Mangue, próxima à Estação
Ferroviária da CentralUnidos), no tema
ecofeminismo; de Akajutitibirô, terrado índio potiguara (1994),
cartilha de apoio à alfabetização para adultos e crianças, financiada
pela Unesco; e do Jornal Grumin (versões nacional e internacional).
É membro do Comitê Intertribal fellow da Ashoka, Enlace
Continental de mulheres Indígenas, Associação pela Paz, Cônsul de
Poetas del Mundo e embaixadora da Paz pelo Círculo de Escritores
da França e Suíça. Trabalhou uma década pela Declaração
Universal dos Direitos Indígenas na ONU em Genebra. Escreveu
vários livros, inclusive premiados nos Estados Unidos pelo Fundo
Livre de Expressão, indicada pelo Pen Club da Inglaterra. Participou
de diversos congressos, feiras, festivais literários e sobre direitos
humanos dos povos indígenas no Brasil e exterior. Autora de
diversos livros para adultos, crianças e adolescentes em vários
gêneros literários.
Escreveu e publicou artigos e entrevistas em centenas de
coletâneas, livros e jornais sobre a temática dos povos indígenas e
seus direitos ao longo de quatro décadas de militância.
Entre em contato com Eliane Potiguara:
E-mails: elianepotiguara@gmail.com
elianepotiguara@uol.com.br
Sites: www.elianepotiguara.org.br
www.grumin.org.br
Fanpage: https://www.facebook.com/elianepotiguaraescritorado Brasil, na Praça XI, propriamente à rua
General Pedra.
Para que Maria de Lourdes pudesse trabalhar, a debilitada Elza
tinha de tomar contar de seus dois irmãos. Ia à escola, levando-os
junto, um no colo e outro pela mão. Elza, no começo da
adolescência, acabou permanecendo seis meses entrevada na
cama por uma doença nos ossos. Mais ou menos oito anos
depois, a jovem Elza casou-se e teve dois filhos: um menino e
uma menina. Lamentavelmente, seu marido foi atropelado por
um bonde na cidade e morreu, ficando órfãs as suas crianças. A
história se repetiu na vida de Elza, tornando-se só, como sua mãe
Maria de Lourdes, e sofrendo todas as consequências de uma
mulher sozinha em uma sociedade em que o pátrio poder
dominava.
Em 1956, quando a filha de Elza já tinha 6 anos de idade,
Maria de Lourdes, mulher indígena, analfabeta, paraibana,
nordestina e, então, quase mão de obra escrava nas feiras
cariocas, iniciou o processo de criação da menina, para ajudar
Elza, que trabalhava como faxineira em uma empresa.
A menina, então, foi criada a sete chaves, dentro de um
quarto mal iluminado, e quase nunca saía. Quando via o Sol,
desmaiava. As necessidades fisiológicas e os banhos eram
realizados ali mesmo. A cozinha apertada e fora da casa era
cenário das caçarolas expostas; os peixes e carnes-secas eram
pendurados como se fossem roupas no varal ou expostos no
telhado para secar, sendo constante a presença de mandioca,
fruta-pão, inhame, banana-da-terra e frutas em geral. Quando
conseguiam, comiam caranguejo e o caldo com farinha, fazendo
bolinhas com a mão. Presume-se que a índia Maria de Lourdes
mantinha a pequena menina Potiguara no quarto objetivando a
preservação de sua identidade moral, física e psicológica, pois
viviam em uma área socialmente comprometida. Além disso,
havia uma colônia de estrangeiros que vieram imigrados da
Europa, fugindo da Segunda Guerra Mundial, como carvoeiros
italianos, bananeiros portugueses e comerciantes espanhóis. Maria
de Lourdes era uma curandeira: não só curou pessoas estranhas
como também dois tumores de sua neta, alojados um no olho
outro no mamilo, com uma mistura de minhoca amassada, teia
de aranha e visgo de jaca. Ela trocava essa composição
diariamente, por um período de mais de quinze dias.
Ali, naquele pequeno mundo ou, politicamente situando,
naquele pequeno gueto indígena, a menina foi ouvindo as
histórias indígenas de suas tias, tias-avós (aquelas quatro
adolescentes filhas do índio X) e mãe, todas mulheres indígenas,
migrantes de suas terras originais. Com exceção da tia Evanilda,
todas se casaram e, tempos depois, os maridos foram embora ou
morreram, ficando as mulheres sozinhas com os filhos para criar e
enfrentando o racismo e a intolerância da sociedade. A menina a
que nos referimos teve como cenário de vida essa história e
tornou-se uma pessoa muito observadora, calada, sensível e
espiritualizada, herança dessas mulheres indígenas que, mesmo
fora das terras originais e violentadas pelo processo histórico,
político e cultural, mantiveram sua cultura, seus hábitos
tradicionais e, principalmente, seus laços com os ancestrais, a
cosmologia e a herança espiritual.
Quando a menina começou a ir à escola, era a sua avó que a
levava diariamente e permanecia do lado de fora das grades,
tomando conta, observando todas as ações da neta. A menina nunca
podia falar com as outras crianças, não conseguia se relacionar ou
brincar com elas, principalmente porque a estigmatizavam por ser
indígena e por sua avó ter hábitos de uma avó diferenciada. Aquela
avó tinha peitos grandes, caídos, barriga inchada, vendia bananas,
tinha algum pedaço de ouro nos dentes, misturado às grandes
falhas, como uma necessidade de elevar seu nível social que
testemunhava a pobreza. Mas sua fala, seu sotaque e seus hábitos
denunciavam sua condição de migrante indígena e as crianças e
adolescentes debochavam cruelmente, em uma atitude xenófoba,
que deixava Potiguara extremamente infeliz, sentindo-se feia,
magra e menor, não conseguindo compreender o sentido daquilo
tudo.
Porém, com a cultura indígena recebida no gueto familiar, o
amor e a dedicação que tinha aos livros, Potiguara (com i e não
com y) foi crescendo. Sua avó, analfabeta, sempre solicitava que a
menina, já com 7 anos, escrevesse cartas a uma determinada
pessoa na Paraíba e sempre chorava ao receber as respostas. Por
isso, a avó bebia demais, bebia cachaça pura, que era escondida
atrás das panelas, sob a pia enegrecida pelo limo e pelo tempo de
uso. Carlos Alberto, irmão da menina, às vezes, despejava a
bebida no ralo e substituía por água, o que deixava a idosa
Lourdes revoltada. Foi assim que Potiguara começou a escrever,
absorta nas histórias da própria avó e no sentimento que tudo isso
envolvia. As histórias reais de sua avó a levavam para um mundo
mágico e literário.
Quando a “encarcerada domiciliar” se tornou professora
primária, “o orgulho da família pobre, indígena e desaldeada”, a
sua consciência crítica estava borbulhando a ponto de explodir.
Ao tomar contato com a filosofia de educação do professor Paulo
Freire, um dos maiores educadores populares do Brasil,
perseguido pela ditadura militar e exilado no Chile e na África, a
menina – agora mulher – ganhou o mundo. Incentivada por sua
avó, já falecida pelos maus-tratos da migração, e pelo cantor e
comunista, de origem indígena Charrua, o inesquecível Taiguara,
com o qual se unira em 1978, Potiguara fez o retorno ao
inconsciente coletivo visitando nações indígenas e perseguindo,
sem medir esforços, a verdadeira história de sua tão sacrificada,
marginalizada e discriminada família migrante do nordeste
brasileiro, uma das áreas mais pobres do país. Nas cidades de
Santa Maria, Bagé, Santo Ângelo e cidadelas próximas à fronteira
do Uruguai, em 1978, pôde conhecer as mulheres indígenas que
testemunhavam em suas peles e rugas o sofrimento que causava a
violação dos direitos dos povos indígenas. Ali começou a segunda
etapa de seu diálogo com as mulheres indígenas. Pensava, já
naquela época, na organização e na articulação das mulheres
indígenas. Há quase quatro décadas!
Visitou as terras imemoriais de sua mãe, de sua avó paraibana
e de seus ancestrais espirituais. Ali sentiu a essência da existência
humana, o seu cordão umbilical queimava e seus pés não
andavam: flutuavam... Foi lá que, em 1979, conheceu um senhor
muito velhinho e cego, o índio Potyguara, a quem chamavam de
Sr. Marujo, com cerca de 90 anos, que narrou como se deu a
retirada daquela família específica do local, por volta de 1927. Foi
impactante porque eram todas mulheres, as quatro filhas do índio
X, mais a mãe Maria da Luz. Sua avó, a menina Maria de Lourdes,
com apenas 12 anos, já era mãe solteira, vítima de violação sexual
praticada por colonos que trabalhavam para a família inglesa Y,
que escravizava a população indígena no plantio do algodão.
Com esse testemunho, a nova cidadã, agora sabedora de suas
raízes, tinha a certeza de que estava em casa e queria resgatar e
preservar essa cidadania. Entrou para o movimento indígena,
arquitetou políticas de resistência, fez um trabalho de campo que
sensibilizou muitas pessoas, mas esbarrou com as forças
reacionária, política e econômica locais que quase a mataram, por
querer noticiar os fatos arbitrários e por disseminar a conscientização
dos Direitos Indígenas entre aquele povo, que, na época, sofria o
impacto sociopolítico e ambiental do arrendamento de terras
indígenas e suas trágicas consequências. Sofreu humilhações
públicas, ameaças de morte, extorsões e difamações em jornais de
renome e em jornais locais. Sofreu também abuso sexual, o que
prejudicou sua imagem moral, afetou seu trabalho, seu lado
psicológico e o de seus filhos.
Para não prejudicar a imagem histórica, política e social de um
povo, teve de se calar na época, sendo levada pela Polícia
Federal, na frente de seus filhos, como se fora uma assassina. Tevede depor na Procuradoria do Estado, na época do governo de
Fernando Collor, e retirar-se, constituindo, assim, um ato de
respeito e desapego à história de seu povo, após uma ação de
solidariedade internacional do Pen Club da Inglaterra e da
organização internacional denominada Escritores na Prisão, que
defendiam os Direitos Humanos em seus países. Essa ação de
solidariedade foi indicada por Genaro Bautista, índio mexicano,
escritor, jornalista e coordenador do Agência de Imprensa
Indígena (Aipin).
Analisando esses fatos que ocorreram no final do século XX,
percebemos que a causa principal dos conflitos, dissabores,
amarguras e solidão está lá! Lá no início do século XX, quando o
índio X foi dado como desaparecido e sua família mutilada. E a
violência, a intolerância e o racismo aos direitos indígenas se
arrastaram por muitos e muitos anos e séculos, vindo a prejudicar
dezenas de vidas e de relações interpessoais. Assim está formalizada
a história de muitas famílias indígenas que se separaram de seu
território tradicional e de seus parentes. Esse é um caso a ser
estudado também e que deve se constituir em um inquérito a
partir de estudos antropológicos baseados em histórias e
testemunhos, para que se consiga resgatar a dignidade e a
cidadania dessas famílias discriminadas, exploradas e escravizadas
por milhares de processos colonizadores ao longo do território
nacional, como é o caso também dos Povos Ressurgidos e dos
Quilombolas.
A história aqui narrada não é um caso incomum. A diferença é
que, aqui, está tendo visibilidade, quando a esmagadora maioria
de famílias indígenas violentadas, que continua em aldeias
indígenas ou que faz parte das famílias desaldeadas ou
desestruturadas, permaneceu calada, enferma, enlouquecida,
isolada na sociedade envolvente. Famílias caladas pela pressão
política, social e econômica ou por desconhecerem os seus
direitos ou, até mesmo, por vergonha. A vergonha é o resultado
do estigma. A paraibana Maria de Lourdes, a avó da menina,
tinha vergonha de sua história, assim como muitos indígenas
desaldeados das terras amazônicas. A vergonha se transforma em
medo, medo da discriminação social e racial.
Esse tipo de violência e racismo e a migração dos povos
indígenas de suas áreas tradicionais merecem estudos, pois essas
situações não têm visibilidade no país, assim com a situação das
mulheres indígenas que sofrem abuso, assédio, violência sexual,
que se tornam objeto de tráfico nas mãos de avarentos e
degradados nacionais e internacionais não é divulgada. Essa é a
causa que estamos levantando!
Os conflitos entre povos e o poder, no mundo inteiro, têm
causado migrações, deslocamentos (esses povos são obrigados a
se deslocar e a fugir por diversos motivos, sejam guerras locais,
sejam internacionais, conflitos de raça, etnia ou religião). Muitas
consciências já se levantaram contra essa situação e,
principalmente, contra as consequências desses deslocamentos de
povos de seu habitat natural, constituindo-se no chamado racismo
ambiental. Muitos organismos da Organização das Nações Unidas
(ONU) têm tratado desse ponto com considerável atenção. E as
mulheres e as crianças são os mais atingidos nesses casos.
Sobre as mulheres indígenas, a violação aos seus direitos
humanos as tem conduzido às mãos de homens corruptos que as
seduzem por um prato de comida, por programas ou eventuais
promessas, que confundem esse universo feminino, pois essas
mulheres têm valores e tradições totalmente diferentes do mundo
urbano, envolvente e masculino. Temos como exemplo o caso de
algumas mulheres indígenas Yanomami (Roraima), que, há mais
de uma década, são conduzidas à prostituição, ludibriadas por
soldados ou comerciantes.
Em 1996, um chefe indígena no Brasil Central passou por uma
situação muito humilhante perante os parentes de seu povo. Sua
esposa partiu com um comerciante local, estranho à sua etnia. As
mulheres indígenas, em suas comunidades, acabam sendo
iludidas pelo encantamento e pelas condições da sociedade
envolvente, assim, centenas delas acabam por sair de suas casas
para a insegurança das cidades próximas ou das grandes cidades.
Isso constitui tráfico de mulheres, pois a maioria acaba sendo
empregada como doméstica com mão de obra quase escrava.
Podemos tomar como exemplo o depoimento de Deolinda Prado,
índia Dessana (Amazonas), dado ao Grupo Mulher-Educação
Indígena (Grumin) há quase trinta anos, quando eu estive lá, que
motivou a criação do primeiro núcleo de apoio às empregadas
indígenas em Manaus, a Associação de Mulheres do Alto Rio
Negro (Amarn).
As mulheres indígenas também vão trabalhar como operárias
mal remuneradas ou nas grandes plantações dos latifundiários, em
um sistema de cativeiro, trocando seu trabalho por latas de
sardinhas e nunca conseguindo pagar sua dívida com o
contratante. Outras vezes, vão morar com homens sem caráter
que as transformam em objeto de cama e mesa, submetidas a
agressões físicas e parindo dezenas de filhos, para viverem,
miseravelmente, nas casas de palafitas na Amazônia, dentro e fora
do Brasil, ou sobreviverem em favelas contaminadas moral, social,
política e fisicamente. Muitas vezes, trabalham somente pelo
prato miserável de comida ou por um pouco de farinha de
mandioca.
Atualmente, com o apelo da comunicação de massa, muitas
meninas e adolescentes querem projetar-se nos louríssimos símbolos
sexuais das grandes redes de televisão, atuais modelos de beleza
brasileira que deixam os homens enlouquecidos e supérfluos. É o
que acontece com centenas de mulheres indígenas que se
dirigem aos grandes centros urbanos como Manaus, Belém, Boa
Vista, Recife, Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e demais capitais
do Brasil. Muita gente desatenta pode criticar, conduzindo seu
raciocínio para um julgamento injusto e intolerante, do tipo: “Essa
população, então, não preserva mais os seus valores, já quer o
mundo da sociedade envolvente!”. Outra forma de escravidão de
mulheres indígenas é a constatação da presença delas em
prostíbulos e em zonas de meretrício, onde vendem seu corpo
por migalhas, contraindo Aids e outras doenças sexuais. Criando
crianças sem futuro, famintas ou portadoras do vírus HIV.
O sistema político, que deveria garantir o direito territorial dos
povos indígenas, a preservação cultural e sua dignidade, nada faz.
Entra governo e sai governo e as terras indígenas não são
priorizadas, tampouco os direitos constitucionais e imemoriais
desses povos são considerados. Os povos, há séculos, sobrevivem
em um clima constante de insegurança, não se sabendo se aquele
local em que estão enterrados seus mortos será o território de
seus filhos!
Os instrumentos jurídicos internacionais resultantes das
Conferências sobre o Meio Ambiente Humano1 organizadas pela
ONU estão aí para serem aplicados pelos governos. Mas cada
vitória da população oprimida do mundo é uma nova batalha
para que os governos ponham em prática os direitos conseguidos.
Jurupiranga e Cunhataí são dois personagens do texto Ato de
amor entre povos, de minha autoria, reproduzido nas próximas
páginas, que sobreviveram à colonização e, poeticamente, vão
nos contar as suas dores, lutas e conquistas. Esses personagens são
atemporais e sem locais específicos de origem. Eles simbolizam a
família indígena e o amor, independentemente de tempo, local,
espaço onírico ou espaço físico; eles podem mudar de nome, ir e
voltar no tempo e no espaço. Na sequência, há outros poemas
também de minha autoria que falam do mesmo assunto.
1 Conferência de Estocolmo (Estocolmo, 1972); Eco 92 ou Rio 92 (Rio de
Janeiro, 1992); Rio+10 ou Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável
(Johanesburgo, 2002); Rio+ 20 (2012).
Que faço com a minha cara de índia?
E meus cabelos
E minhas rugas
E minha história
E meus segredos?
Que faço com a minha cara de índia?
E meus espíritosE minha força
E meu Tupã
E meus círculos?
Que faço com a minha cara de índia?
E meu Toré
E meu sagrado
E meus “cabocos”
E minha Terra?
Que faço com a minha cara de índia?
E meu sangue
E minha consciência
E minha luta
E nossos filhos?
Brasil, o que faço com a minha cara de índia?
Não sou violência
Ou estupro
Eu sou história
Eu sou cunhã
Barriga brasileira
Ventre sagrado
Povo brasileiro.
Ventre que gerou
O povo brasileiro
Hoje está só...
A barriga da mãe fecunda
E os cânticos que outrora cantavam
Hoje são gritos de guerra
Contra o massacre imundo.
Quem diria que a gente tão guerreira
Fosse acabar um dia assim na vida.
Quem diria que viriam de longe
E transformariam teu homem
Em ração para as rapinas.
Quem diria que sobre os escombros
Te esconderias e emudecerias teu filho – fruto do amor.
Cenário macabro te é reservado.
Pra que lado tu corres,
Se as metralhadoras e catanas e enganos
Te seguem e te mutilam?
É impossível que mulher guerreira
Possa ter seu filho estrangulado
E seu crânio esfacelado!
Quem são vocês que podem violentar
A filha da terra
E retalhar suas entranhas?
Parem de podar as minhas folhas e tirar a minha enxada
Basta de afogar as minhas crenças e torar minha raiz.
Cessem de arrancar os meus pulmões e sufocar minha razão
Chega de matar minhas cantigas e calar a minha voz.
Não se seca a raiz de quem tem sementes
Espalhadas pela terra pra brotar.
Não se apaga dos avós – rica memória
Veia ancestral: rituais pra se lembrar
Não se aparam largas asas
Que o céu é liberdade
E a fé é encontrá-la.
Rogai por nós, meu Pai-Xamã
Pra que o espírito ruim da mata
Não provoque a fraqueza, a miséria e a morte.
Rogai por nós – terra nossa mãe
Pra que essas roupas rotas
E esses homens maus
Se acabem ao toque dos maracás.
Afastai-nos das desgraças, da cachaça e da discórdia,
Ajudai a unidade entre as nações.
Alumiai homens, mulheres e crianças,
Apagai entre os fortes a inveja e a ingratidão.
Dai-nos luz, fé, a vida nas pajelanças,
Evitai, ó Tupã, a violência e a matança.
Num lugar sagrado junto ao igarapé.
Nas noites de lua cheia, ó MARÇAL, chamai
Os espíritos das rochas pra dançarmos o Toré.
Trazei-nos nas festas da mandioca e pajés
Uma resistência de vida
Após bebermos nossa chicha com fé.
Rogai por nós, ave-dos-céus
Pra que venham onças, caititus, seriemas e capivaras
Cingir rios Juruena, São Francisco ou Paraná.
Cingir até os mares do Atlântico
Porque pacíficos somos, no entanto.
Mostrai nosso caminho feito boto
Alumiai pro futuro nossa estrela.
Ajudai a tocar as flautas mágicas
Pra vos cantar uma cantiga de oferenda
Ou dançar num ritual Iamaká.
Rogai por nós, Ave-Xamã
No Nordeste, no Sul toda manhã.
No Amazonas, agreste ou no coração da cunhã.
Rogai por nós, araras, pintados ou tatus,
Vinde em nosso encontro
Meu Deus, NHENDIRU2!
Fazei feliz nossa mintã3
Que de barrigas índias vão renascer.
Dai-nos cada dia de esperança
Porque só pedimos terra e paz
Pra nossas pobres – essas ricas crianças.
Tenho medo das coisas que falo
Que mais parecem profecias
De tudo mais que falei
Hoje estou tão só, triste e descontente
Perdi o meu amor
Perdi minha razão
Dói-me profundo
Profundamente meu coração.
Choro intranquila, sofro a desgraça
Vivo o desamor na solidão
E por onde passo
Há só lembranças, tristes lembranças
De uma aldeia acabada.
Eu tenho medo das coisas que falo
Que mais parecem profecias
Pois de tudo, tudo que falei
Hoje estou sofrida, amargurada
Perdi minha essência
Grito traída, canto a trapaça
Sou a própria tristeza
Transformei-me numa constante ameaça.
Agora não rio, não sonho
Não suporto mais nada
Uma dor aguda me sufoca, me maltrata
É a dor da saudade que me mata.
2 Nhendiru: Deus
3 Mintã: criança.
No teu universo de gestos
Teus olhos são mensagem sem palavras
Tua boca ainda incandescente
Me queima o rosto na partida
E tuas mãos...
Ah!... Não sei mais continuar esses cânticos
Porque a mim tudo foi roubado.
Se ainda consigo escrever alguns deles
Só é fruto mesmo da mágoa que me toma a alma
Da saudade que me mata
Da tristeza que invade todo o meu universo interno
Apesar do sorriso na face...
Negros olhos na tarde clara
Se espreitam emudecidos
No derradeiro encontro
Às vésperas de uma nova era
Às portas de uma nova vida.
Mãos outrora apertadas
Vão-se agora
Soltas
Entristecidas
Fim de tarde em corpos loucos
Suados, cálidos, calados
Uniram-se num amor quietinho
Sem nenhuma lágrima ou lamento.
O sussurro inda retumba no espaço
E os ecos se chocam contra os ventos
Esquentando ossos e pulmões sozinhos
Vai-se a graúna sussurrenta
Vai-se mais um dia.
O outro, e mais o outro
Vão-se todos os dias...
Por que largar teu ninho
Por que sucumbir teu bem?
Essa estância amante e sonhadora
Se despojou da energia e do calor
Hoje está só
Fria
Sem amor e sem ninguém.
Vai-se a graúna negra do meu cais
Cantar nos campos lisos, ensolarados
Deixa teu rastro rude pros passarinhos
Que pelo teu cheiro e brilho
Eu bem sei que não molestas os arrozais.
Vai-se a minha graúna querida
Enquanto resguardo paciente o meu corpo puro
Enquanto preservo consciente, meus beijos, juro!
Vai-se a graúna tranquila
Que minha fonte de amor é intocável
E descansa sobre gozos abafados
E esconde a grande paixão ferida
Por isso trago nos olhos vermelhos
A saudade e as marcas
Pra uma nova visão de VIDA.
Não adianta fugir dessa realidade
Quando te trazem aos braços
Uma criança que nem dois anos completos tem.
E tua boca que gargalhadas davam
Ao sabor do álcool
Se cala
E umedece de vez
E te desarma
É uma criança faminta
Doente
Órfã de pais
Órfã de país.
Sou um cachorro raivoso e irado
E minhas garras cortam as gargantas
Das feras, nos portões de ferro do mundo.
Não me venham com análises
Porque não sou louco.
Sou lúcido, tanta lucidez
Que sangro e consigo engatilhar meu coração
E explodo nos ares.
Aí, cato meus pedaços E saio pelas ruas
Avenidas, matas
Florestas e espaço...
Procurando a verdade.
Do teu passado de cão maldito
Pra abanar a fome cansado do grito...
Do suco extraído da própria terra
Pra embebedar o teu berro...
Da mulher violada que a ti esteve junto
Pra satisfazer desejos imundos...
Do teu sorriso roubado
Pra rosnar de dor, o menino calado...
Da trama criada e da boca sem paz
Pra caírem em ti feito fera voraz...
Por destruírem tua palhoça inteira
E te cortarem as orelhas
Não precisam de mais nada...
Já padece teu corpo na sujeira
E te arrematam os porcos, à baioneta...
Quer ser lacaio prostituído,
Quer ser caniça bêbada
Ou escorregar num parque
BICHO-MARIONETE?
Pra agradar o poder, esconder o grito
Pra servir de história social...
E virar herói nacional!
Eles criticam
Por nos encontrar nas estradas
Alegrem-se
Por não nos encontrar ainda nos hospícios!...
Meu coração em tua ausência arde
E diverge minha mente confusa.
Naquele rio erguia meus braços
Eu não era eu.
Eu mesma
Fugia de mim na outra margem...
Dentro de mim essa ausência forja
Uma mulher fatal e louca
Desgarrada me toma essa fera e age
E mancha a várzea verde do meu ser
E mancha a essência branca do meu lar...
A incerteza gera em mim todos os males
E temia o medo de nadar nos rios
E tinha medo de andar nas matas
E ganhava medo de existir nos vales
Eu era o próprio medo da minha viagem...
Gritou meu medo de ver gente
Tua despedida me matou de verdade
Rugiu ainda minha voz rouca
Fraca, anêmica, covarde...
Quebrou-se um destino
Fora de combate
Num desvio que eu mesma repugnei:
É a mulher de fibra que um dia imerge
Nas falsas e corruptas personagens...
Mágoas, lágrimas rolam dessa existência
Num pedido de perdão, amor primeiro.
Perdoe-me atriste sina, a violência,
Meu medo, minha carência
Minha sorte!
Antes que tudo em mim se transforme em morte...
O processo de colonização e neocolonização dos povos
indígenas do Brasil os conduziu ao trabalho semiescravo, em um
regime de exploração causado pela intromissão de milhares de
segmentos, tais como madeireiros, garimpeiros, latifundiários,
mineradoras, caminhoneiros, empresários das hidrelétricas,
rodovias, pistas de pouso etc.
Tal intromissão, conivente com políticas locais, com a falta de
vontade política e com a omissão governamental, causou, nas
últimas décadas, o desmatamento, o assoreamento dos rios, a
poluição ambiental e a diminuição da biodiversidade local, entre
outros estragos. As invasões trouxeram as enfermidades, a fome, o
empobrecimento compulsório da população indígena. E mais: as
dificuldades locais levaram muitas pessoas à migração, à
submissão ao trabalho semiescravo e a péssimas condições de
moradias (favelas, casas de palafitas na periferia dos centros
urbanos).
As invasões trouxeram também distúrbios como a loucura, o
alcoolismo, o suicídio, a violência interpessoal, afetando conside-
ravelmente a autoestima dos seres humanos indígenas. Podemos
perceber claramente que todos esses sintomas são causados pelo
racismo subliminar do poderio do Estado e pelas reações
discriminatórias subliminares da sociedade brasileira, oriunda da
miscigenação entre brancos e negros, índios e brancos e negros e
índios. O desejo de ascensão da população miscigenada e/ou
branca é construído com base no racismo implícito e no processo
de escravidão, semiescravidão e exploração da mão de obra
barata dos mais oprimidos segmentos da sociedade, como os
miseráveis, pobres, negros e a população indígena.
A colonização e a neocolonização, no entanto, são refletidas
também por grupos de interesses religiosos que, ao longo da
história do Brasil, vêm confundindo a cosmovisão indígena com
ideologias e fundamentos alheios à realidade tradicional. Impor
culturas dominantes é uma forma de racismo. O paternalismo
oficioso e governamental e o paternalismo eclesiástico também
são formas de racismo, por melhores que sejam as intenções. Há
de se respeitar a espiritualidade e as tradições de ritos dos povos
indígenas.
A demarcação das terras indígenas nunca foi uma prioridade
governamental. Uma política que garantisse e respeitasse os povos
indígenas como unidades sociopolíticas e culturais distintas
deveria ser uma prioridade como respeito histórico. Nunca se
realizou, na prática, uma política voltada aos interesses e projetos
econômicos de autossustentação propostos pelos indígenas,
baseados em sua biodiversidade, com segurança para a saúde, a
educação, a agricultura e os direitos humanos, levando em
consideração sua cultura diferenciada.
Por todas essas razões, há muitas décadas, muitas lideranças
têm sido sacrificadas por lutar por seus direitos. Os casos mais
polêmicos referem-se ao assassinato de Marçal Tupã-y, em 1983;
ao caso dos 14 índios Tikuna assassinados, em 1988; ao caso do
assassinato dos 16 índios Yanomami, em 1993 e ao caso do índio
Galdino, do povo Pataxó, queimado em Brasília, um exemplo
clássico de racismo urbano e violento, em 1997. Todos esses
casos continuam impunes. Ainda existem outras centenas de
casos anônimos, indefinidos, e outros abafados de indígenas que
lutam pelos seus direitos, por temerem represálias ou por estarem
abalados moral e psicologicamente.
O governo brasileiro, nas últimas décadas, tem facilitado os
interesses das mineradoras em territórios indígenas e protegido
sempre os empresários e políticos locais.
Uma mulher indígena Potyguara me contou um dia, em 1989:
“Eu estava em casa sozinha, cozinhando; entrou um homem-
peixe em minha casa e me tomou o espírito e partiu. Nunca mais
o vi, mas sempre ia à beira-mar esperar por ele”. Os dias se
passaram, os meses, os anos... A mulher estava louca e velha. Havia
passado toda uma vida e a velha esperava seu homem-peixe, desde
que acontecera aquele incidente. A menina-moça estava em casa
sozinha, entrou um colonizador local inescrupuloso, nos anos 1940,
a violentou sexualmente e fugiu... O desastre à mente daquela
criança foi tamanho que o universo cultural foi completamente
confundido, tornando-a uma criança – mulher – velha maltrapilha e
louca! Quantas histórias dessa natureza teremos?
Um chefe da nação indígena Macuxi (Jornal do Brasil, 10 jul.
1980) nos conta, referindo-se à situação das mulheres:
Quando o branco chegou nas nossas terras,
índio pensava que branco era do lado de
Deus, índio pensava que Deus tinha vindo
visitar. De fato, branco tem tudo e índio não
tem nada: branco tem arame farpado, nós não
temos; branco tem livro, nós não temos;
branco tem machado de ferro, nós não temos;
branco tem carro, nós não temos; branco tem
avião, nós não temos [...] Mas o branco veio e
roubou as nossas terras; e o índio não podia
mais caçar. Falou que as terras boas eram dele,
falou que os peixes dos rios e dos lagos eram
dele. Depois trouxe doenças. E depois se
aproveitou de nossas mulheres [grifo nosso]. E
o índio se revoltou. Então o branco matou os
nossos avós, matou-os, massacrou-os muito, e
o índio fugia tão rápido como a coisa mais
rápida. Então o índio entendeu que o Deus do
branco era ruim.
Exemplos como esse mostram que povos indígenas são
colonizados, mas, na realidade, não aceitam integralmente os
valores impostos por terceiros. Povos indígenas, na realidade, e
até muitas vezes precariamente, dependendo da região e dos
níveis de integração, continuam mantendo e exercendo sua
espiritualidade e suas raízes cosmológicas, rendendo homenagens
aos seus ancestrais e aos símbolos tradicionais da natureza.
As razões de violência são caracterizadas sempre da mesma
forma. As razões são as mesmas, o espírito de dominação do
homem pelo homem é o mesmo, passadas gerações, séculos,
enfim...
Amílcar Cabral, poeta, escritor negro, na luta revolucionária na
Guiné-Bissau (África), na década de 1970, afirmava que “a cultura
deve ser utilizada como instrumento de libertação nacional”.
Complementando o raciocínio, podemos dizer que a libertação
do povo indígena passa radicalmente pela cultura, pela
espiritualidade e pela cosmovisão das mulheres. O papel da
mulher na luta pela identidade é natural, espontâneo e
indispensável. A mulher tem a função política de gerar o filho e
educá-lo conforme as tradições, assim como na sociedade
envolvente. Se criarmos um adolescente em um ambiente de
tráfico de drogas, ele poderá vir a ser um marginal.
Com relação à cultura indígena, a mulher é uma fonte de
energias, é intuição, é a mulher selvagem não no sentido primitivo
da palavra, mas selvagem como desprovida de vícios de uma
sociedade dominante, uma mulher sutil, uma mulher primeira,
um espírito em harmonia, uma mulher intuitiva em evolução para
com sua sociedade e para com o bem-estar do planeta Terra. Essa
mulher não está condicionada psicológica e historicamente a
transmitir o espírito de competição e dominação segundo os
moldes da sociedade contemporânea. O poder dela é outro. Seu
poder é o conhecimento passado através dos séculos e que está
reprimido pela história. A mulher, intuitivamente, protege os seios
e o ventre contra seu dominador e busca forças nos antepassados
e nos espíritos da natureza para a sobrevivência da família. Todos
esses aspectos foram mais preservados do que no homem.
Frantz Fanon, escritor argelino (África), nos mostra em seu livro
Os condenados da Terra como o processo de violência, tortura,
repressão e opressão deixou o povo argelino anestesiado,
cabisbaixo, triste, infeliz e até louco, na luta pela libertação
nacional, na década de 1960. O mesmo aconteceu com os povos
das Missões Guarani. Existiu, de 1610 a 1768 − portanto, durante
um século e meio −, um tipo de sociedade chamada República
Cristãdos Guarani ou República dos Guarani, envolvendo os
estados do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato
Grosso do Sul e uma parte do Paraguai, Argentina e Uruguai. Essa
república foi criada pelos bem-intencionados jesuítas contra os
espanhóis e portugueses, que queriam submeter e subjugar os
Guaranis como escravos. Mas, mesmo essas missões, em que a
população aprendia artes, ofícios, astrologia, filosofia, matemática,
física etc., não foram o suficiente para tornar os indígenas felizes.
Após a expulsão dos jesuítas pelo Marquês de Pombal, em 1759,
a república foi totalmente dissolvida. Conta-se que os sobreviventes
desse projeto, quando iam para a lavoura, permaneciam cabisbaixos,
não mais produziam, recusavam-se à reprodução humana e,
melancólicos, não mais cantavam. Eu senti um enorme calafrio
andando pelas ruínas das missões, em Santo Ângelo, no Rio
Grande do Sul, em 1978. Parecia que, nos entroncamentos, se
ouviam os gritos de dor ecoando pelos ares e que as paredes
estavam impregnadas do suor da escravidão e do racismo. Assim
senti quando estive lá! Meu coração esquentava de dor e minha
imaginação era um pesadelo. O mesmo aconteceu quando visitei
as ruínas da igreja de São Miguel e o cemitério indígena, já na
área Potyguara, no estado da Paraíba, em 1979. A voz dos
oprimidos ecoa igualmente em qualquer parte do mundo. E
temos de ouvi-la para que a justiça se faça a qualquer momento
da história.
Em 18 de abril de 1977, o líder indígena Marçal Tupã-y,
assassinado em 25 de novembro de 1983, esteve nas terras do Sul
do Brasil e disse:
Eu não fico quieto não!
Eu reclamo...
Eu falo...
Eu denuncio!...
Voltando à história, em 1557, por meio de armas e canhões,
os espanhóis subjugaram 40 mil Guarani da região Sul do Brasil.
Os portugueses e os mamelucos de São Paulo assassinaram e
escravizaram, em 130 anos (séculos XVI e XVII), 2 milhões de
índios nas bacias dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai, no período
da chamada Caça ao Índio no processo de escravidão e racismo.
Após tantas violências contra as mulheres, não só as indígenas,
como as indianas, que os homens têm o direito de queimar vivas
em suas próprias cozinhas (pude saber desse fato quando viajei
pelo interior do território indiano com o Programa de Combate
ao Racismo – mesmo programa que apoiava Nelson Mandela –,
convidada pelo Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra, 1995).
Soube como as mulheres muçulmanas têm seus clitóris
arrancados quando nascem, para que não sintam prazer sexual;
assim como as mulheres chinesas têm seus pés amarrados para
que não cresçam e não possam correr livremente pelo mundo,
buscando o conhecimento, além de muitos outros exemplos...
Sendo assim, parte da humanidade, sensibilizada, entendeu que
deveria haver uma ação para defender as mulheres desses atos.
Atos que, na realidade, são soluções que os homens encontraram
para defender as mulheres das mãos dos colonizadores ingleses,
holandeses, alemães etc., que chegavam aos seus países,
invadindo-os e saqueando suas riquezas naturais e familiares, em
nome do poder econômico, político, social e religioso.
Como resultado das denúncias das mulheres do mundo inteiro, a
ONU promoveu várias grandes conferências internacionais. São elas:
a Conferência da Mulher, na Cidade do México, no México, em
1975; a de Copenhague, na Dinamarca, em 1980; a de Nairóbi,
no Quênia, em 1985; a do Cairo, no Egito, em 1994; a de
Pequim, na China, em 1995 (Beijin+10), e muitas outras reuniões
de avaliação, nas quais foram estudadas e propostas diversas
estratégias a favor da mulher, dentre elas a que diz que “A saúde
reprodutiva é um estado de completo bem-estar físico, mental e
social em todas as matérias concernentes ao sistema reprodutivo,
suas funções e processos, e não a simples ausência de doença”.
Os direitos humanos da mulher compreendem seu direito de
ter controle sobre sua sexualidade, incluindo sua saúde sexual e
reprodutiva, assim como decidir livremente sobre ela, sem estar
exposta à coerção, à discriminação e à violência, e controlar sua
própria fecundidade como um elemento responsável para o
desfrute de outros direitos.
Para isso, é necessário que as políticas públicas, os programas
estatais e comunitários facilitem o exercício responsável desses
direitos.
É necessário também que se adotem medidas legislativas,
administrativas, sociais e educativas claras para defender as
meninas, tanto na família quanto na sociedade, contra todas as
formas de violência física ou mental, lesões ou abusos, abandono
ou trato negligente, maus-tratos ou exploração, incluindo o abuso
sexual.
Após quinze anos de trabalho do Grumin,
que juridicamente surgiu em uma reunião no
Rio e Janeiro e foi, posteriormente, ampliado
em uma assembleia na área indígena
Potyguara, Paraíba, em 1987, apoiada pelo,
na época, cacique João Batista Faustino, pela
mulher mais velha da tribo que eu chamava
de tia Severina, por Maria de Fátima da Conceição, o líder
Djalma, entre outros − após vários debates locais, regionais e
estaduais, cursos de capacitação, seminários nacionais e
conferências internacionais que realizamos, chegamos à crítica
conclusão de que não existiam estudos, cifras, estatísticas que
documentassem as maneiras como as mulheres indígenas eram
ameaçadas e violadas em seus direitos humanos. Também não
era dada atenção ao modo como elas estavam se extinguindo a
partir da mortalidade materna, por violências físicas, por conflitos
culturais, por migração de suas terras indígenas e por conflitos
políticos que ameaçavam suas vidas, suas famílias e o direito ao
território indígena e à sua cosmovisão. Quando, naquela época, o
Grumin chamava a atenção para a invisibilidade da mulher
indígena, a antropologia, a Igreja, as entidades e o Estado,
conservadores, nos miravam como inconsequentes, por falarmos
em saúde e direitos reprodutivos.
Naquela época, não existiam Organizações não Governa-
mentais (ONGs), que foram criadas a partir de 1992, motivadas
pela Conferência Internacional do Meio Ambiente promovida
pela ONU. Acreditavam, as entidades ligadas à questão indígena
daquela época, que esse assunto era alheio à cultura indígena e
influenciado pelo Movimento de Mulheres Não Indígenas, as
feministas brasileiras ou outros movimentos populares. As
entidades ainda viam a questão indígena de uma forma muito
romântica, apesar de compreenderem a violação aos Direitos
Indígenas. Eu mesma sentia os olhares questionadores quando
distribuía o polêmico Jornal do Grumin, em um encontro muito
conhecido em Altamira (Pará), o 1º Encontro dos Povos Indígenas
do Xingu, sobre hidrelétricas, no final da década de 1980.
Lembro-me como uma minoria de sociólogos, sutilmente, causava
desconforto entre nós, indígenas, por sermos urbanos, aldeados
do Nordeste ou desaldeados citadinos. A discriminação contra
nossa consciência era enorme, principalmente quando vínhamos
das cidades. Imaginem! Nós tínhamos nossas terras e fomos
acuados para as cidades! Não somos culpados. De vítimas,
passamos a ser discriminados como oportunistas! Vinte anos
depois, organizações já levantam a bandeira dos indígenas
ressurgidos, nordestinos, inclusive desaldeados e descendentes,
como no caso da Bahia. Algum dia reconhecerão a importância
política dos indígenas desaldeados pela violência ou pela
migração.
No encontro em Altamira, a guerreira Tuíra apontou o facão
para um empresário como uma atitude de intimidá-lo. Em
contrapartida, um líder indígena me mandou ir para a cozinha e
me ordenou que eu ficasse fora das assembleias, segurando os
filhos no colo, inclusive o dele! Acredito que Tuíra Kaiapó abriu
uma brecha para a mulher indígena, mas, ainda hoje, temos que
impulsionar as Conferências de Saúde Indígena para que se inclua
o tema Saúde Integral e Direitos Reprodutivos em todos os fóruns
indígenas. Há quinze anos, por exemplo, eu já via uma mulher
indígena como líder na Coordenação Indígenada Amazônia
Brasileira (Coiab), a guerreira Sonia Bone Guajajara, pressionada
por veteranas mulheres indígenas como a falecida Zenilda Sateré-
Mawé, Deolinda Prado e suas amigas, que conheceram muito
bem os guerreiros indígenas de Manaus Álvaro Tukano, o
inesquecível Manoel Moura Tukano, entre outros, e, assim, vejo a
multiplicação de organizações de mulheres indígenas e as vejo se
formarem como advogadas e, quem sabe, futuras juízas,
deputadas e vereadoras. Isso é uma vitória!
Os cursos de capacitação, as consultas nacionais, os
seminários sobre família e cidadania e sobre direitos reprodutivos,
as feiras de artesanatos, os projetos de desenvolvimento
comunitário, as cartilhas, os jornais, os panfletos e os livros de
conscientização contra o alcoolismo, contra a violência, contra a
desinformação, contra o analfabetismo, contra a ignorância de
não se querer preservar e em prol resgatar a identidade indígena,
todas essas ações e outras foram estratégias que utilizamos no
Grumin, no período de 1988 a 1996, época em que atuei em
campo, objetivando trazer o assunto à tona. Foi um desafio.
Hoje já se sabe que a Fundação Nacional de Saúde (Funasa)
dispõe de uma ação nas áreas indígenas e que a Fundação
Nacional do Índio (Funai) está aberta ao assunto, mas é preciso
ampliar esse debate. As ONGs de apoio e as organizações
indígenas devem facilitar a visibilidade desse assunto e interessar-
se por ele, assim como as próprias mulheres indígenas têm
provado a necessidade de se unirem para discutir suas
necessidades.
Também é um desafio para os povos indígenas a discussão
sobre o assunto, pois em seu pensamento estão enraizados os
vícios e fatores impostos pelo colonizador, como dificuldades de
se falar sobre sexo, desinformação, alcoolismo, incestos, gravidez
prematura, analfabetismo, desequilíbrios emocional e psicológico
causados pelas invasões das terras e ameaças de sobrevivência,
falta de alimentos, roupas e medicamentos, o desprestígio das
parteiras dos pajés e dos caciques, intrigas e competições entre
membros comunitários, além de outros fatores.
Os pontos de discussão e as sugestões apresentadas a seguir
não foram criados ou imaginados. Tais referências têm base em
consultas nacionais e regionais que realizamos ao longo de alguns
anos. Acreditamos que possam ser analisadas, discutidas e que
sirvam de base para futuras investigações científicas, ações políticas
e medidas legislativas, sociais, educativas e administrativas, enfim,
ações afirmativas para os povos indígenas, além de servirem de
base para aprofundar o tema. Os pontos não são estáticos, são
dinâmicos, e partiram de observações e conversas ao pé do ouvido
e resultados de seminários e conferências organizadas pelo Grumin.
Nada técnico ou científico. Apenas real, apenas palavras não
contadas. O importante é não esquecer que esses temas foram
levantados em uma época em que não se falava desse assunto, e
que demos o pontapé inicial. Eis os pontos:
Que as políticas públicas reconheçam os direitos reprodutivos
das mulheres indígenas de acordo com as tradições e culturas,
desde que essas culturas não violentem as mulheres.
Que as mulheres indígenas curandeiras, pajés, líderes
espirituais e os próprios pajés sejam valorizados pelas políticas
públicas como conhecedores milenares da tradição indígena.
Que o conhecimento ancestral sobre ervas medicinais seja
uma prioridade em benefício da saúde e da integridade da
mulher, da comunidade e da humanidade.
Que as cerimônias de cura sejam respeitadas pelas políticas
públicas.
Que as mulheres indígenas sejam incentivadas, por agentes de
saúde locais e líderes do movimento indígena, a realizar seus
partos em casa junto às parteiras tradicionais.
Que os métodos tradicionais de controle de natalidade, assim
como as decisões culturais sobre concepção e parto, sejam
reconhecidos nos hospitais públicos, caso a mulher recorra a
eles.
Que a espiritualidade feminina possa ser resgatada quando ela
queira e reconhecida dentro e fora da cultura, espiritualidade
essa exercida em forma de pajelança e que foi abafada pela
imposição da Igreja no período da colonização.
Que as mulheres possam buscar socorro em caso de violência
doméstica causado por alcoolismo de seus maridos, pais ou
irmãos e que eles sejam punidos pelos órgãos competentes.
Que as mulheres possam falar sobre esse assunto sem receber
represálias.
Que as adolescentes e meninas sejam educadas sobre incesto,
assédio, abuso e violência sexuais ou estupro e que tenham
acesso garantido à defesa legal, não sendo obrigadas a
esconder o fato por medo, pena ou risco de vida, mesmo
dentro das áreas indígenas.
Que seja garantido o tratamento das consequências
psicológicas da violência física, moral ou estupro, como
silêncio por medo ou por não conhecer os seus direitos,
alcoolismo, loucura, violência feminina com as crianças etc.
Que as mulheres indígenas e seus filhos tenham acesso
facilitado e garantido à saúde integral, por meio das políticas
públicas.
Que a concepção materna seja um ato consciente da mulher
indígena e de seu marido e que o casal seja instruído,
informado e conscientizado sobre a questão de esterilização
depois do segundo ou terceiro filho, prática feita e imposta
pelas políticas públicas.
Que as mulheres indígenas tenham determinação sobre seu
parto e que a cesariana não seja uma imposição, como meio
mais cômodo para os médicos.
Que as mulheres indígenas sejam incentivadas, por agentes de
saúde locais e líderes do movimento indígena, a realizar seus
partos em casa junto às parteiras tradicionais.
Que os postos de saúde locais e seus agentes estejam
conscientizados sobre os direitos reprodutivos e sexuais das
mulheres.
Que as mulheres e jovens não sejam obrigadas ao aborto
clandestino e mecânico, que as leva à morte e a enfermidades
irreversíveis.
Que a ligadura das trompas não seja imposta e sim decidida
pela família, pela mulher.
Que as mulheres possam decidir sobre sua maternidade com
dignidade e em conjunto com sua cultura e tradições.
Que adolescentes, meninos e homens possam ser instruídos e
recebam apoio institucional sobre o ato da concepção e suas
responsabilidades paternas, incluindo as responsabilidades
políticas referentes à preservação da cultura e à garantia da
identidade indígena.
Que homens e mulheres indígenas possam encontrar, juntos,
caminhos concretos que viabilizem atitudes responsáveis com
relação à saúde reprodutiva e desenvolvam uma relação de
gênero mais consciente e mais democrática, baseada em
conceitos perdidos ao longo da colonização e da
neocolonização.
Que homens e mulheres indígenas possam ter acesso às
informações sobre doenças sexualmente transmissíveis, vias
mais fáceis de acesso a outras doenças mais graves como a Aids.
Que as mulheres tenham acesso à informação sobre câncer
cervical e das mamas e sua prevenção.
Que o conhecimento ancestral sobre ervas medicinais seja uma
prioridade em benefício da saúde e da integridade da mulher,
da comunidade e da humanidade.
Que se introduzam no Estatuto do Índio medidas bem claras e
específicas que defendam os direitos humanos das mulheres e
seus direitos reprodutivos.
Que os agentes de saúde sejam, na maioria, indígenas ou, caso
contrário, que sejam sensibilizados para tal.
Que todos os documentos produzidos pelo Movimento
Indígena Brasileiro, órgãos governamentais ou não de saúde
local ou nacional contenham sempre itens que denunciem a
violação dos direitos reprodutivos das mulheres indígenas e
proponham ações afirmativas segundo seus desejos e que
melhorem sua qualidade de vida, defendendo seus direitos
humanos como mulheres indígenas.
Essa foi a Declaração Final dos Encontros de Mulheres
Indígenas (Saúde e Direitos Reprodutivos), 1993 a 1996,
organizados pelo Grumin (Grupo Mulher-Educação Indígena,