Logo Passei Direto
Buscar

Cópia de Potiguara, Eliane Metade cara, metade mascara-1

Ferramentas de estudo

Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

3ª Edição 
Rio de Janeiro 
2018 
 
 
Copyright © 2004 – Eliane Potiguara 
Todos os direitos reservados. 
 
Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida, 
disponibilizada para download ou transmitida por qualquer 
meio (eletrônico, mecânico, fotocópia), sem a autorização por 
escrito do proprietário do copyright. 
 
Revisão: Eliane Potiguara – Obra revisada conforme o Acordo Ortográfico 
da Língua Portuguesa 
Texto de orelhas: Marcello Pereira Borghí 
Diagramação de capa e miolo: Lenca Marques – Imagem art studio 
Fotografia da capa: Antonio Carlos Banavita 
Foto da contracapa: Ana Cota (https://www.flickr.com/photos/ana_cotta) 
Ilustrações: obra Jabuti de Aline Ngrenhtabare Lopes Kayapó – presente 
carinhosamente oferecido à autora. 
 
Dados internacionais de catologação da publicação (CIP): 
 
P863m Potiguara, Eliane 
Metade cara, metade máscara / Eliane Potiguara. 
Rio de Janeiro, RJ – 3ª edição – Grumin, 2018. 
160 pp. 
 
ISBN: 978-85-54397-00-5 
 
1. Índios da América do Sul – Brasil – Condições sociais 2. Índios da 
América do Sul – Brasil – Cultura 3. Índios da América do Sul – Brasil 
– História 4. Índios Potiguara – Brasil 5. Povos indígenas – Brasil 
I. Título. II Autor 
 
CDD 306.089.981 
 
Índices para catálogo sistemático: 
1. Índios Potiguara : Cultura : Brasil : Sociologia - 306.089981 
2. Índios Potiguara : História : Brasil : Sociologia - 306.089981 
 
GRUMIN EDIÇÕES 
E-Mails: elianepotiguara@gmail.com 
elianepotiguara@uol.com.br 
Sites: www.elianepotiguara.org.br e www.grumin.org.br 
FAnPAgE: https://www.facebook.com/elianepotiguaraescritora 
 
 
 
 
 
À minha falecida avó indígena Maria de Lourdes, que, no 
início do século XX, teve seu pai desaparecido por ação 
colonizadora no estado da Paraíba. Suas quatro filhas 
indígenas, ainda adolescentes, migraram 
compulsoriamente dessas terras, sacrificando-se, como 
outras mulheres indígenas anônimas, pela construção de 
um momento novo na luta dos povos indígenas brasileiros 
hoje, o reconhecimento do grande contingente de 
descendentes de indígenas e de indígenas desaldeados. 
Aos meus filhos Moína, Tajira e Samora Potiguara e à 
minha mãe, a eterna sacerdotisa que as águas fluviais 
levaram para seu mundo. 
A todos os parentes indígenas. 
 
 
Ar
qu
ivo
 p
es
so
al
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Esta utilidade pública da poesia se baseia na força, na 
ternura, na alegria e na essência verdadeira. Sem esta 
qualidade a poesia soa, mas não canta. 
 
Pablo Neruda 
 
 
 
 
Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver o Universo. 
 
Alberto Caieiro (em Fernando Pessoa) 
 
 
 
 
Agradeço a todas as mulheres de garra 
e luta e a todos os homens fortes. 
E mais: a todos os homens com 
perspectivas de mudanças. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Apresentação ............................................................................. 11 
Prefácio ...................................................................................... 13 
Outros Escritos ........................................................................... 17 
1. Invasão às terras indígenas e a migração ................................ 21 
2. Angústia e desespero pela perda das terras e pela 
ameaça à cultura e às tradições ............................................... 41 
3. Ainda a insatisfação e a consciência da mulher indígena ....... 71 
4. Influência dos ancestrais na busca pela preservação da 
identidade ............................................................................... 85 
5. Exaltação à terra, à cultura e à espiritualidade indígenas ...... 117 
6. Combatividade e resistência ................................................ 143 
7. Vitória dos povos.................................................................. 149 
Bibliografia ............................................................................... 161 
Biografia ................................................................................... 163 
 
 
 
 
 
 
 
 
Um ser de profundas raízes no universo feminino, aquática 
natureza em constante mutação. Assim tem sido a presença desta 
inquieta mulher das águas correntes, em borbotões de imagens 
poéticas, escritas que abrem fendas nas rochas, água mole em 
pedra dura. Vida de correnteza em terra árida e hostil paisagem 
da realização da vida que se quer farta e próspera como seios de 
mãe, da mãe Terra. Fez-se ouvir arranhando a pele das árvores, 
fazendo da escrita seu campo de batalhas, uma extensão do seu 
labor de educadora. Professora de nenhumas pedagogias, mestra 
de fazeres sem ofício fixo, segue caçando sonhos nas dobras do 
tempo memória. Clama no deserto dos direitos à vida, gênero e 
raça. Herdeira de antigas tradições que evoca nos poemas, contos 
e narrativas de afirmação étnica dos povos originários, assim foi 
que chegou um dia para mim, esta irmã desde sempre. Parente! 
Uma mulher que vai se desdobrando em irmã, mãe e mestra 
de saberes que buscam escutas, debate ideias fora de lugar, 
antecipando no tempo as nossas lutas por um lugar no mundo 
globalizante. Eliane Potiguara com sua instigante presença, no 
nascente movimento de ideias que veio configurar o Movimento 
Indígena, foi essa voz mulher extemporânea, marcando a 
diferente visão de gênero, que nós seus irmãos de luta, todos 
formados no mundo masculino, tínhamos dificuldade de 
entender. Com seus textos políticos, incitando a luta contra o 
colonialismo e racismo institucional, esta guerreira avant la lettre, 
chegou falando aos Kurumim, alfabetizando em línguas estranhas 
e pagãs, convocando para outras poéticas da Terra Mãe, uma 
longa jornada até publicar Metade Cara Metade Máscara, seu livro 
totem que veio para firmar a escrita feminina contemporânea 
indígena. Uma arte criadora, a militante dos Direitos Humanos, 
para além das linhas que separam campo e cidade, diluindo as 
fronteiras de mundos urbanos e rural, transcendendo o lugar 
comum, que se interroga sobre o lugar do ÍNDIO, nas sociedades 
capturadas pelo colonialismo ocidental, grita aos quatro cantos 
“Eu sou da América do Sul...”, Sou de Pindorama, de Abya Yalla, 
das florestas e cordilheiras. Uma Terra que grita, como mulher 
indígena despertada para o mundo em convulsão, assim tem sido 
as décadas de convivência nossa, querida contadora de histórias 
antigas Eliane Potiguara. 
 
Ailton Krenak 
Líder indígena, ambientalista e escritor brasileiro. 
Professor Doutor Honoris Causa – Universidade Federal de Juiz de 
Fora (UFJF) 
Uma das maiores lideranças do movimento indígena brasileiro, 
possuindo reconhecimento internacional. 
Pertence ao povo indígena Krenak. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
No mais recente encontro do GELNE, ocorrido em 2017 no 
Recife, apresentei um trabalho (posteriormente publicado no livro 
intitulado GELNE 40 anos) que se voltava às relações e trocas 
possíveis entre nativos das Américas, suas literaturas e a forma 
como essas raramente chegam à sala de aula. Ali desenvolvi um 
olhar comparativo sobre a poesia de Rita Joe, membro da tribo 
Mi’kmaq, Canadá, e de Eliane Potiguara, do Brasil. O capítulo 
recebeu o seguinte título: Linguagem, literatura e cultura na 
sala de aula: as Américas na poética indígena. 
Tendo sido convidada por Eliane Potiguara para prefaciá-la 
nessa reedição do seu livro Metade cara, metade máscara, de 
imediato, creio ser importante localizar minha fala – ou minha 
escrita. Pertenço à área de Letras, Letras/Inglês, com foco nas 
literaturas contemporâneas. Dentre as literaturas que venho 
analisando desde os anos 90, meu interesse pelas narrativas 
indígenas cresceu a partir de minha pesquisa de doutoramento, 
ou seja, desde 1996, quando enfoquei comparativamente 
romances de Louise Erdrich, Susan Power e Leslie Marmon Silko, 
todas estadunidenses. Portanto, cheguei às literaturas nativas 
através daquelas produzidas principalmente por mulheres da 
América do Norte, que escreviam, em sua maioria,hoje, Rede de Comunicação Indígena) e Grumin Edições. 
 
Em resumo, o governo deve reconhecer, na prática, isto é, por 
meio das ações afirmativas, o fator pluricultural e diferenciado dos 
povos indígenas, incluindo os direitos relativos a gênero, direitos 
sexuais e reprodutivos das mulheres indígenas, como foi discutido 
na Conferência Mundial sobre População (Cairo, 1994) e na 
Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, 
Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, ocorrida em Durban (África 
do Sul), em 2001, ambas realizadas pela ONU. As terras indígenas 
devem ser definitivamente demarcadas como garantia da 
integridade física, social, cultural, econômica e psicológica dos 
povos indígenas e, em particular, das mulheres – velhas, viúvas e 
mães solteiras. Os invasores devem ser definitivamente retirados 
para garantir a sobrevivência e a segurança das mulheres, das 
crianças e dos mais velhos. 
Os programas de desenvolvimento aplicados à mulher, em 
instância nacional, devem ser estendidos às mulheres indígenas, 
desde que a comunidade seja consultada e dentro do que 
espera e necessita esse povo. Especificar detalhadamente medidas 
emergenciais que defendam, em rápido prazo, os direitos das 
mães solteiras, viúvas e mães anciãs contra a violência doméstica 
e social. 
A Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação 
Racial, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, vitoriosamente, teve 
sua marca peculiar. Foi a maior e mais expressiva conferência de 
todos os tempos e deu o passo inicial para futuras gerações. Que 
possamos verdadeiramente colher os frutos em prol dos direitos 
humanos em todas as partes do mundo. 
 
 
O Grumin, hoje, Grumin/Rede de Comunicação Indígena, foi 
criado juridicamente, em assembleia, em 1987, mas política e 
moralmente foi concebido em 1978. O Grumin recebeu o II 
Prêmio Cidadania Internacional, em 1996, da Comunidade 
Bah’ai, por ter desenvolvido dezenas de projetos comunitários e 
ter promovido a formação de opiniões. A diretoria era formada 
por Wilma, Fátima, Djalma, Tonhô, Marina, Belarmina, Anaí, 
Rosineide Pio e Zenilda Sateré-Mawé. 
 
 
Promover o acesso de mulheres e homens indígenas e suas 
organizações às informações, mobilizando-os, influenciando-os na 
formação de opiniões. Desenvolver consciências críticas mobilizando 
indivíduos e organizações ao “empoderamento”, empowerment, 
buscando o exercício dos direitos humanos para o desenvolvimento 
sociopolítico-econômico do presente e do futuro de suas tradições e 
cultura. Promover consciências à multiplicação de organizações de 
mulheres indígenas no Brasil. O Grumin visa o acesso à informação 
e à tecnologia. Dizíamos: “Mulheres indígenas: criem suas 
organizações dentro de suas próprias casas”. 
 
 
1. Rede Grumin (ex-Jornal do Grumin) 
 
Foi criado em 1988, e hoje está constituído em versão on-
line ou textos para discussão via Facebook. O jornal objetiva 
difundir informações sobre direitos indígenas sob perspectiva de 
gênero, abordando a questão racial e a violência à cosmovisão 
indígena (cultura, território, educação, biodiversidade e meio 
ambiente, espiritualidade). Trata também da migração e de 
formas contemporâneas de racismo. Objetivava ainda sensibilizar 
a opinião pública para os direitos constitucionais; difundir 
instrumentos jurídicos nacionais e internacionais; difundir os 
debates do Fórum Permanente e o Projeto de Declaração dos 
Povos Indígenas; sendo que o Grumin esteve presente em vários 
momentos de sua criação, em Genebra, por ocasião das sessões 
do Grupo de Trabalho sobre Populações Indígenas, nas Nações 
Unidas. Objetiva divulgar documentos e os passos anteriores e 
futuros da Conferência Mundial contra o Racismo. 
 
 
2. Série Cadernos Conscientizados 
 
É um material didático para grupos de estudo que objetiva 
difundir filosofia, educação, saúde e direitos reprodutivos e 
pensamentos indígenas, disseminando as causas da discriminação 
social e racial que permeiam as etnias indígenas. 
 
3. Fórum de debates on-line 
 
Objetiva disseminar e discutir instrumentos jurídicos 
elaborados pelo Grumin ao longo de uma década, como as 
Declarações dos Encontros e Conferências, nas quais foram 
mencionados, pela primeira vez, temas como mulheres indígenas, 
direitos e meio ambiente (1989); saúde e direitos reprodutivos 
(1994), direitos humanos das mulheres indígenas, família e 
identidade (1995); racismo, violência, migração (1996) etc. Esse 
fórum abre canal para difundir e debater a tradicionalidade do 
discurso oral e escrito das histórias, contos, filosofias indígenas, 
enfim, da literatura indígena como um importante pensamento 
brasileiro. 
 
 
1. Publicação de livro didático Akajutibiró: terra do índio 
potiguara, apoiado pela Organização das Nações Unidas para 
a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). 
2. Publicação do livro A terra é a mãe do índio, premiado pelo 
Pen Club da Inglaterra e o Fundo Livre de Expressão. 
3. Boletins Informativos. 
– Rede Grumin, hoje, Rede de Comunicação Indígena e 
Grumin Edições. 
– Boletim do Grumin, em língua inglesa. 
4. Projetos de desenvolvimento comunitário como: Casa da 
Mulher Indígena, promovendo o resgate e a preservação 
cultural; feiras de artesanato; produção de roupas, redes de 
dormir e colchas; incentivos à criação de plantações e 
farmácias de fitoterapia; projeto de primeiros-socorros; cursos 
de capacitação em vários temas; cursos de corte e costura; 
doação de equipamentos de cestas básicas e carros; apoios às 
lideranças indígenas em viagens e pequenos projetos e muitos 
outros projetos de desenvolvimento comunitário, que buscam 
basicamente fortalecer e “empoderar” a mulher indígena em 
suas relações. 
5. Organização de seminários, conferências e congressos envol-
vendo questões de gênero e direitos. 
6. Participação em conferências nacionais e internacionais, 
objetivando negociações, consultorias e testemunhos. 
 
 
Ignacio Alberto Pane, o primeiro antropólogo indígena do 
Paraguai, autor do livro Apuntes de sociología e do poema La 
mujer paraguaya sobre a mulher Guarani, conta que, antes do 
processo de escravidão, a mulher indígena tinha o mesmo papel 
de decisão que os pais, maridos e irmãos. A sua palavra era a 
palavra final para decidir uma guerra intertribal, uma decisão ou 
uma assembleia política. Com a chegada dos estrangeiros, a 
mulher passou à retaguarda e permanece até hoje servindo de 
mão de obra escrava, ou submetendo-se à neocolonização como 
objeto sexual e descartável. Basta! 
Vamos ousar dizer que não haverá defesa do meio ambiente 
se inicialmente não se reconhecerem os direitos indígenas. O 
meio ambiente, o território, o planeta Terra estão intrinsecamente 
ligados ao ventre da mulher indígena, da mulher selvagem nos 
dois sentidos (primeira cidadã do mundo e intuitiva) e, por isso, 
não haverá defesa ambiental se não se destacar a influência e o 
conhecimento milenar da mulher, do ser que habita esse meio 
ambiente. Isso é um testemunho para a sociedade e para a 
formação da cidadania brasileira. 
Se a natureza deve ser respeitada no seu ciclo de existência e 
valorizadas as fases da Lua, da maré, do florescimento das 
árvores, da correnteza dos rios, do nascer e do pôr do sol da 
colheita, as mulheres indígenas devem ter o mesmo tratamento. 
 
 
O ato de criação é um ato de amor. Amor a si mesmo, amor 
ao próximo, amor à natureza. Pode ser criar um texto, uma 
música, uma pintura ou qualquer outra arte. Mas, para se chegar 
até aí, muitos caminhos foram bloqueados, tivemos de tomar 
muita água envenenada; muitos fantasmas tivemos de enfrentar. 
Permanecemos como um rio que morre, que não corre e não 
ecoa ao encontrar-se com as pedras. Tornamo-nos uma fome 
desesperada pelo novo, enfraquecendo a nossa fecundidade. 
Enfim, um caminho árido e infértil. Estivemos enclausurados 
dentro de nós mesmos. Mas não aguentamos mais e demos um 
basta! É hora de criar pacientemente o novo! 
Aí soltamos as amarras que sufocam a nossa alma,a nossa 
anima, a nossa essência, para que os pássaros possam cantar de 
novo dentro de nosso espírito. Parece tudo muito simples. Mas 
não é. Reencontrarmo-nos com nosso ser selvagem, com nossa 
intuição, com nosso ser sutil, com nossos ancestrais, com nossa 
força interior é um desafio diário, principalmente quando a força 
externa impõe condicionantes sociais, psicológicos e político-
econômicos maléficos, que lançam as sementes da enfermidade 
da alma e que, lá na frente, se transformam em enfermidades da 
mente e do corpo. Nosso corpo pode estar doente porque nossa 
alma também está. E temos de buscar a cura do espírito, a cura da 
anima. Somente nós mesmos podemos fazer isso, assim como 
somente nós mesmos podemos sentir o ato do nascimento, 
quando nascemos, e o ato da morte, quando morremos. São atos 
só nossos. Ninguém pode senti-los. Por isso, quando morre um 
parente indígena, seus pertences são todos depositados em sua 
tumba. Somos seres coletivos, mas, antes, temos nossa 
individualidade, inclusive nossa solidão, como no ato do pensar e 
da escrita. 
Nos tempos atuais, é hora do desafio. Extirpar o monstro que 
nos mata dia a dia é dura tarefa. Primeiro se sofre calado. Há os 
que se acostumam com a dor, a opressão e a repressão social e 
política, desembocando no desequilíbrio ou na loucura. Mas há 
os que clamam, depois de invernos. Há os que berram! Nesse 
momento, abre-se uma porta. A mudança dentro de nós só se dá 
quando identificamos o inimigo interno (às vezes o inimigo somos 
nós mesmos) e o rejeitamos, seja da maneira que for. Então, 
podemos parecer loucos, mas, no ato de “vomitar”, é que está a 
transformação do espírito para o novo homem, para a nova 
mulher! Sofremos e não estamos aqui para sofrer. O Criador 
oferece grandes dádivas de vida para seu filho, senão ele não 
criaria tantas belezas, tantos mares, tantas planícies, céus, 
montanhas, pássaros, seres humanos, ad infinitum... 
E, quando o homem selvagem e a mulher selvagem4 gritam 
dentro de nós querendo voltar para a casa primitiva, é chegada a 
hora da mudança. Atente para os significados de selvagem e 
primitivo, que nada têm a ver com historiografia, mas sim com 
interior humano, âmago, essência espiritual, ser sutil, a casa da 
alma, a ancestralidade e a intuição. Quando perdemos os 
tesouros de Deus e ficamos desnudos e damos um basta, é 
chegada a hora da criação. Ficamos quietos, sentimos solidão, 
solidão que parece que mata, que maltrata, mas que é necessária. 
E entramos em outras esferas superiores e sagradas. Esse selvagem 
sagrado que foi resgatado, e que já estava dentro de nós e não 
sabíamos, está também nos “recriando” e nos enchendo de amor 
e nos fortalecendo. Nasce a criatividade. E renascemos. E 
florescemos para o futuro. O processo de criação emana de algo 
que surge e que vai crescendo em nosso âmago; é como um novo 
amor em nossos corações. Vai crescendo e não temos rédeas para 
segurá-lo. É um vulcão. É a (r)evolução do espírito. É o êxtase. É o 
insight para o novo ser humano. 
E esse único ato de criação é o suficiente para alimentar um 
oceano, assim como o leite doce e materno de uma jovem mãe é 
o suficiente para trazer de volta um ser nascido prematuramente. 
No ato da criação se dá a purificação do espírito, da anima, da 
alma e, consequentemente, a purificação do corpo e a extirpação 
de velhos tumores, velhos fantasmas... O termo “purificação” não 
está ligado a facções religiosas ou conotações cristãs. O termo 
refere-se ao ser primeiro, ao ser sutil, à compreensão simples de 
 
4 Aqui, “selvagem” refere-se a um conceito psicológico que significa intuição, 
segundo a escritora Clarissa Píncola. 
que a vida precisa ser vivida com amor e dignidade, e que o 
amor, a compreensão, o diálogo e cooperação são os alicerces 
para o novo homem, a nova mulher. 
O processo anterior à criação – o sofrimento, o coração 
endurecido, a anima esfacelada – é agora neutralizado e transfo-
rmado em pó, diante da grandiosidade da BUSCA pela 
transformação e purificação do espírito. Tudo isso é simplesmente 
política, a política da existência. CRIEMOS, então... porque a 
criação é um ato divino que tende a mudar consciências, formar 
opiniões, suavizar o individualismo que ronda as mentes. 
E a mulher indígena, que passou por toda a sorte de massacres 
ao longo da história, condicionada ao medo e ao racismo, 
sobrevive porque é criativa, é xamã, é visionária, é curandeira, é 
guerreira e guardiã do planeta. Seu inconsciente coletivo ancestral 
refloresce a cada ato de criação, porque ela é capaz de beijar as 
cicatrizes do mundo, em um ato de caridade. E a palavra dela é 
sagrada como a terra que dá o alimento ao próximo, alimento da 
CURA em todos os sentidos. 
Retornando à personagem de nosso enredo, a Cunhataí, após 
o sofrimento da perda de suas terras, de sua família e de sua 
consciência de mulher indígena, revolta-se e desafoga suas dores 
refletidas nos textos a seguir, porque, além do desterro, não 
consegue saber o paradeiro de seu homem. 
 
 
Amanhã é o último dia que venho aqui 
Vou prestar as contas 
Vou tirar essas roupas sujas 
E vou lavar minha alma 
Acho que vou ser feliz 
Ou então vou viver na inércia da própria existência. 
 
 
(Período da colonização) 
Há vida nesta flor 
Há vida nesta vida 
Tão guerreira 
Desprendida. 
Há flor nesta vida 
Há vida nesta vida 
De guerreiro desprendido. 
 
Nas veias Tocantins 
Corre teu sangue humano 
Louco, desvairado 
Corre ou marca passo 
A vida e a alegria 
A ida que não devia. 
 
Escorre, faz doer 
Teu corpo humano 
Pinga no alvorecer 
Gotas, gotas rubras 
Sangue louco, desvairado 
Desvairado sangue 
Sangue desesperado sangue 
 
Há sangue nesta vida 
Há vida neste sangue 
Tão guerreiro 
Desprendido. 
 
Banha o suor do mundo 
Com tua luta 
Junta líquidos, faz crescer 
Nossa gente pobre 
Nossa vida amarga 
Nós – Decadentes! 
Indígenas, não... 
Indigentes. 
 
 
Às vezes 
Me olho no espelho 
E me vejo tão distante 
Tão fora de contexto! 
Parece que não sou daqui 
Parece que não sou desse tempo. 
 
Sabe, meus filhos... 
Nós somos marginais das famílias 
Somos marginais das cidades 
Marginais das palhoças... 
E da história? 
 
Não somos daqui 
Nem de acolá... 
Estamos sempre ENTRE 
 
Entre este ou aquele 
Entre isto ou aquilo! 
 
Até onde aguentaremos, meus filhos?... 
 
 
 
Um dia 
Esse corpo vai apodrecer 
E eu vou ser verdade... 
Então eu vou ser feliz. 
 
 
 
Neste século já não teremos mais os sexos. 
Porque ser mãe neste século de morte 
É estar em febre pra subsistir 
É ser fêmea na dor 
Espoliada na condição de mulher. 
 
Eu repito 
Que neste século não teremos mais os sexos 
Tampouco me importa que entendam 
Possam só compreender em outro século besta. 
 
Não temos mais vagina, não mais procriamos 
Nossos maridos morreram 
E pra parir indígenas doentes 
Pra que matem nossos filhos 
E os joguem nas valas 
Nas estradas obscuras da vida 
Neste mundo sem gente 
Basta um só mandante. 
 
 
Neste século não teremos mais peitos 
Despeitos, olhos, bocas ou orelhas 
Tanto faz sexos ou orelhas 
Princípios morais, preconceitos ou defeitos 
Eu não quero mais a agonia dos séculos... 
 
Neste século não teremos mais jeito 
Trejeitos, beleza, amor ou dinheiro 
Neste século, oh Deus (?!) 
Não teremos mais jeito. 
 
 
 
Eu sou rebelde 
E faço questão de o ser. 
Tenho fome, tenho ódio 
E não me deem uma metralhadora. 
 
 
O que tenho pra te oferecer amigo 
Enquanto bebo tua fonte que me espera? 
São palavras, são sentidos, são perigos 
Ou são silêncios profundos de uma era. 
 
O que tenho pra te oferecer amigo 
Enquanto sugo de teus olhos uma velha história? 
São prazeres, são amores, roucos gritos 
Ou sussurros de vencer até a vitória. 
 
O que tenho pra te oferecer amigo 
Enquanto me aqueço no calor de tuas mãos? 
São lágrimas, são motivos, são juízos 
Ou são faíscas conscientes da razão. 
 
Andaram procurando por mimE eu estava só, triste e doente 
E você amigo me estendeu a mão 
Mesmo com palavras duras que não mentem. 
 
Amigo, tu moras no fundo de minh’alma 
E o que tenho pra te oferecer? 
Só muita garra 
Muita luta 
Uma grande gratidão. 
Pra nunca desvanecer... 
Pra nunca desmerecer... 
 
Pois te amo com grande afeição! 
 
5 UNI (União das Nações Indígenas) 
 
Não me importo 
Se o que escrevo 
São ilusões 
Não me importo 
Se o que escrevo 
Não são versos, 
Rimas 
Redondilhas... 
Não me importo 
Se dizem que não trabalho 
Sou vagabunda da vida 
E ela é minha amante. 
 
Juntos, temos o que contar... 
 
 
Escorria-me das veias doentes 
Um sangue ainda quente 
Como percorre as águas do 
Norte Levando pra bem longe 
As ervas daninhas. 
 
Onde estavas identidade adormecida? 
Sofrida nas noites ensanguentadas 
Anestesiada ou morta 
Ou apenas me contemplando 
Ao pé da porta? 
 
Mirava-me calada, identidade amiga 
Mas vieste a mim, pelas mãos do Criador 
Fruto das atenções da luta 
De suas mãos solares 
De olhares ternos e carinhos puros. 
 
Quem tu és identidade? 
Que secretos poderes tens, 
Que me matas ou me faz reviver 
Que me faz sofrer ou me faz calar 
Quais mistérios tu trazes na alma? 
 
E quem é você doce guerreiro salvador das vidas? 
Por quantos sangues lutou para estancar? 
Quantos curumins fez brotar 
Doce amante de mil formas a me encantar. 
Vamos embora – nós três – agora 
 
Tu, eu e a identidade caminhante 
Só que cada um pro seu lado 
Porque minha identidade pra renascer 
A qualquer instante 
Basta um fio de luz. 
 
Uma gota mínima de tolerância 
Ou uma esperança em seu semblante. 
Porque só um fogo eterno 
O útero de meus avós 
Pra tornar minha cidadania decente. 
 
 
A mim me choca muito esse ambiente 
Essa música, essa dança 
Parece que todos dizem sim. 
Sim a quê? 
Sim a quem? 
Por que concordar tanto 
Se o que se tem que dizer agora 
É NÃO! 
NÃO à morte da família 
NÃO à perda da terra 
NÃO ao fim da identidade. 
 
 
 
Não tenhas medo, Ianuí 
Que não vou te enfeitiçar 
O nada, eu quero de ti 
Pro nada talvez vou partir. 
Poema de Amor? 
Sei lá... se poema de amor!... 
Só sei que me passa essa chama 
E que me queima a alma errante. 
Horas, mas dias, mil noites 
Relembro teu corpo parado 
Feito máscara imóvel ao vento 
Doido a flutuar nos mares quentes. 
Pássaro louco bicando os peixes 
Engorda teu peito aberto 
Inflama teu coração militante 
É tua, essa paixão dos séculos 
Mas te guardas feito tatu 
Que não é chegada a hora 
Enfia teus dedos na terra. 
Desafoga as dores nela! 
Mira pros céus navegantes 
De teu barco em flor e vela 
E rouba todas as forças solares 
E renasce Boto6, amante, mais belo. 
Engorda teu peito aberto 
Aquece o coração nu noutras eras 
Alimenta tuas veias em asas 
Nas fantasias desertas 
Corre pelos cajueiros e arrozais 
Que te trago essa cana caiana 
E outras limas pra melar nossas bocas 
E relaxar no calor das manhãs. 
 
Eu não te quero mais puro 
Entrega-te que te vejo criança 
Amor pronto a explodir 
 
6 Mamífero marítimo que mostra o caminho 
Fogo eterno, quem sabe?... 
Ou vou partir, antes mesmo de vir 
Num calor aberto semente... 
Numa ilusão e sonho somente... 
Nessa estrada longa, errante 
Sendo meu caminho tão farto 
Sendo teu peito tão forte. 
 
 
Cabelos em mantos prateados 
Ondas soltas nos meus mares 
Sol aberto pra fortuna 
Calor nos seios, teus olhares: 
Rolam na imensidão de uma loucura. 
 
Cabelos mágicos metálicos 
São grisalhos os teus orvalhos 
Tua cara é clara e farta 
Tão bonita quanto a Antártida. 
 
Cabelos tontos tons da paz 
Despertam num mar entristecido 
Tuas dores nunca ouvidas 
Carências, desamor desesperados. 
 
Cabelos brancos, neves, pratas 
Achou-me nua, sem fé, vagante 
Solidão nas madrugadas andantes 
Amor, beijo-te o sexo: néctar das matas! 
 
São teus cabelos tão brancos 
Lindos brancos quanto francos 
Me rouba toda num grande encanto 
Feitiço brando em meus cânticos. 
 
Quais mistérios nesses cantos? 
Amor louco desvairado 
Em tua descrença tão doída 
Nas tuas desilusões de vida. 
 
 
Tua beleza de meio século 
Brota em teu corpo crédulo-nobre 
Pele em flor amante descobre 
Teu forte, lábios famintos 
E me leva arrebatado afora 
Pro outro século 
E faz-me mulher desses ossos 
Nas tuas asas românticas... 
 
Gota de amor, tão obscura! 
Alimenta meu coração insano 
E dou-te o fogo, a força, a forma 
Dou-te amor, faço-te certeza 
E ganhas tempo, ganhas terra 
Nós: Vida e amor, hoje... Tão mancos! 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Quando Cunhataí era criança, ouvia os espíritos da mata, ela 
via a mãe das águas. Cunhataí tinha o poder da cura. Sua mãe, 
insatisfeita com as invasões dos estrangeiros, tomou erva má, para 
que a semente que ouvia o espírito da mata morresse. A erva fez 
muito mal à pequena Cunhataí; não a matou, tirou um pedaço 
dela... A mãe, desesperançada com sua aldeia, não queria mais as 
coisas do espírito, negava a terra e a raiz. Mas a avó da menina 
era mais guerreira. A mãe ficou cega e muda. Tempos depois, a 
mãe renasceu da mudez e da cegueira por uma prova divina que 
passou e se tornou pajé, sacerdotisa das águas. E a triste avó, 
cansada das dores e do peso do tempo, morreu. Mas sua essência 
permaneceu. 
O branco ria e incutia maus valores em alguns membros do 
povo... A semente ferida e mutilada nasceu triste e com uma 
estrela no olho direito. Era Cunhataí. Foi o lado direito que quase 
morreu. Só ficou roxo como uma marca, “um sinal”, e sobreviveu 
para ouvir os espíritos, os antepassados e as velhas mulheres 
enrugadas pelos séculos. O velho espírito disse a Cunhataí: “Vai 
ave-menina e mulher! Cria asas e enxergue; um dia, quem sabe, 
seremos livres!”. Ela foi para longe sofrer. Por isso, quando ela 
retornou à sua aldeia de origem, o cacique, a pajé e os segmentos 
do povo a reconheceram, porque ela já era esperada, por decisão 
dos ancestrais, há muitos séculos. O seu olho direito roxo – o 
espiritual – foi identificado pelos líderes conectados com a 
ancestralidade e pelo pitiguary, o pássaro que anuncia. Os que 
não reconheceram estavam muito além, mas muito além de 
qualquer tipo de compreensão do que seja essência, 
transcendência indígena. Estavam cegos, por isso traíam seus 
próprios conterrâneos e incentivavam a discórdia, a inveja, a 
mentira, a intriga e a luta pelo poder e desconheciam o 
verdadeiro sentimento de paz, solidariedade, amor ao próximo, 
companheirismo, cooperação. Foram contaminados pelo poder 
dos colonizadores. Só vislumbravam o materialismo, por isso não 
podiam perceber os sinais dos deuses e ancestrais. Mas Cunhataí, 
em toda a sua vida, seguiu o boto e as ordenações de seus 
sagrados ancestrais. 
Cristiane Portela
Cristiane Portela
Cristiane Portela
 
Dedicado à índia guerreira Dona Marta Guarani 
 
Estávamos lá... Todos pintados e pintadas como se fôssemos para 
a guerra. Quando passávamos pelos corredores do Congresso 
Nacional, em Brasília, em 1988, por ocasião das atividades políticas 
que conduziam à nossa luta dentro da Assembleia Constituinte, 
vozes ecoavam e as palmas soavam estridentes. Várias bocas, dentes 
e sorrisos. Mas um mesmo coração pulsava na esperança de que 
essa constituinte trouxesse avanços para a garantia dos direitos 
humanos dos povos indígenas. As senhoras e senhores executivos, 
funcionários parlamentares, olhavam-nos da cabeça aos pés 
admirados e curiosos como se fôssemos seres de outro planeta, 
mas com carinho, certos de desconhecer a realidade de seu 
próprio país. Porém, estávamos emocionados e emocionadas. 
Todos se emocionavam, os olhos brilhavam como as estrelas e 
essa emoção se misturava ao cheiro do café, na cantina ao lado, 
aos lindos desenhos indígenas e ao cheiro da pintura de jenipapo 
na cara, ao cheiro do óleo da castanha-do-pará e ao cheiro do 
vermelho urucum que besuntava e brilhavaos longos cabelos dos 
Kaiapó, liderados por Megaron. Os olhares dos Guarani 
esperançados saltitavam apertados na capital do país. Os olhares 
de lince dos Terena e Tukano almejavam por decisões. Olhares 
desconfiados dos indígenas do Nordeste questionavam o futuro, 
com suas palhas ressecadas pelo calor. As mulheres olhavam 
sobressaltadas, mas resolutas. 
Todos, apesar dos esforços e esperanças, estavam mais 
realistas. Aquilo foi em 1988. Ailton Krenak7 pintou o rosto de 
jenipapo. Impactou! Tempos depois, em 2003, a esperança 
surgiu com o governo de Luís Inácio Lula da Silva, mas ainda se 
avançou pouco no que se refere às conquistas. 
 
 
7 Ailton Alves Lacerda Krenak, mais conhecido como Ailton Krenak, é um 
líder indígena brasileiro, ambientalista e escritor. 
 
À amada tia Severina, índia Potyguara, 
grande anciã guerreira que muito me incentivou e 
me amou com a força da mulher indígena. 
 
No passado, nossas avós falavam forte 
Elas também lutavam 
Aí, chegou o homem branco mau 
Matador de índio 
E fez nossa avó calar 
E nosso pai e nosso avô abaixarem a cabeça. 
Um dia eles entenderam 
Que deviam se unir e ficar fortes 
E a partir daí eles lutaram 
Para defender sua terra e cultura. 
Durante séculos 
As avós e mães esconderam na barriga 
As histórias, as músicas, as crianças, 
As tradições da casa, 
O sentimento da terra onde nasceram, 
As histórias dos velhos 
Que se reuniram pra fumar cachimbo. 
Foi o maior segredo das avós e das mães. 
Os homens, ao saberem do segredo, 
Ficaram mais fortes para o amor, lutaram 
E protegeram as mulheres. 
Por isso, homens e mulheres juntos 
São fortes 
E fazem fortes os seus filhos 
Para defenderem o segredo das mulheres. 
Pra que nunca mais aquele homem branco 
Mate a história do índio! 
 
(Texto publicado na cartilha de apoio, um “complemento político” à alfabetização 
Potyguara e a todos os índios do Brasil, de autoria de Eliane Potiguara, em 1984, 
com apoio da Unesco e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – Uerj.) 
 
 
Na realidade, a simbologia de Cunhataí demonstra o 
compromisso que ela tem com todas as mulheres indígenas do 
Brasil. Sua dor, sua insatisfação e consciência de mulher é a 
mesma trazida pelas mulheres guerreiras dos tempos atuais, que 
agora se organizam. 
Cunhataí tem os olhos de águia, Cunhataí tem a memória dos 
elefantes. Cunhataí tem as pernas de um alce, velozes como as 
éguas. Cunhataí vislumbra o novo, apesar de sua angústia, e quer 
saber onde está o seu amor, desaparecido por ação do colonizador. 
Cunhataí reconhece que as bases de suas tradições indígenas só 
serão preservadas quando sua família estiver unida, física e 
moralmente. Cunhataí sai pelas matas, pelos céus, pelos rochedos, 
pelas montanhas, pelos rios e pelos lagos buscando suas raízes 
fragmentadas e fragilizadas pelo colonizador de todos os tempos. 
Viaja pelo espaço e vai percebendo, como em um filme, as 
histórias de outras mulheres, de outros guerreiros, de crianças, de 
velhos e de velhas ou viúvos(as). Ela vai testemunhando a 
destruição das terras, a poluição dos rios, o saque das riquezas 
minerais. Os véus coloridos e transparentes vão se enegrecendo 
diante de seus olhos, os animais vão se transformando em 
carniças, as lágrimas dos pajés e das velhas inundam seus cabelos 
negros e sua nudez. E seu amor não é encontrado. Grita 
Cunhataí: 
 
O que quero dizer são loucuras assim... 
São delírios da noite, pesadelos sem fim 
São absurdos desejos embebedando a solidão 
Pois perdi o caminho e sofri o amanhã. 
Agora o que faço: só penso intranquila 
A tua figura diante de mim 
Parado no vento, feito imagem de santo 
Que nem posso tocar... 
Que nem posso falar... 
Porque és feito pras deusas, 
Completamente impossível 
Impossível de olhar... 
Impossível de amar... 
E as minhas mãos trêmulas e tímidas 
Procuram as tuas 
E estás tão distante no tempo, no espaço 
Que faço loucuras e grito e procuro. 
 
Mas paro! 
E quero apagar da minha memória 
Tua imagem de homem 
Cantando a história 
Porque és forte, por ser macho guerreiro 
Valente lanceiro 
Gritando a vitória. 
E só porque existes 
Nem pedes licença 
E me invades a mente. 
 
O que quero dizer são loucuras enfim... 
Loucuras escondidas, sentidas, doídas 
Tanta loucura que não quero mais pensar em ti. 
Lá vão dias roendo comigo 
Tua imagem de amigo 
Lavando a memória e não te querendo 
Mas me invades a alma 
Meus olhos, as noites, meus cantos 
Enfim, os sonhos 
E tua imagem guerreira de cara fechada 
Fechada pro mundo 
Se abre pra mim... 
E em cada sorriso eu sofro de novo 
Com medo da vida, sufoco o meu pranto. 
E vivo essa roda enjoada, perdida 
Contando os minutos, procurando a razão 
E as horas passam 
E o tempo não passa 
E só passa por mim 
Uma errante grisalha que ri a zombar sem fim. 
 
E te imagino nos rios, nas matas contentes 
Que são teus amigos constantes, 
Fiéis, e a eles teus segredos confessas 
E apenas no olhar são teus confidentes. 
Amaste minha flor aberta, semente 
Ferida de luta inda menina pra amar 
E acendeu a paixão escondida 
Brilhante pra vida 
Sedenta a chamar-te 
São tudo loucuras enfim... 
Por isso vou me entregando à saudade, à ausência 
À impaciência da ilusão. 
E vou escrevendo e contando 
Pro cais desse tempo, ainda criança 
O tempo que jamais terei 
Porque não brinco com a esperança 
E vou vivendo a realidade 
Do passado e do presente 
Enquanto teu corpo ausente 
Chama pelo futuro verdade! 
Clama por uma vida crescente! 
 
(ou “no dia em que mataram nossos avós ou quando eles desapareceram”) 
Dedicado às viúvas indígenas 
 
A minha tristeza é cor de prata 
É o sol que bate no mar de suor e lágrimas 
Refletido o amor doído 
O amor impossível 
Um amor das matas. 
A minha tristeza é cor de prata 
São teus olhos que procuro nas águas 
Nas ondas do infinito azul 
Enquanto ouço tua voz veloz 
Trazida pelos ventos ardentes. 
 
Vai-te sol vermelho 
Rasgando o meu coração indefeso 
Leva pro lado de lá 
Meu amor 
Uma mensagem de Paz 
Um amor ingênuo, puro 
Eternamente cândido 
E que jamais te esquece. 
 
Vai-te sol vermelho 
Furando as nuvens em raios prepotentes 
Quebra as ondas 
E gritas se puderes 
Que nessa margem de cá 
Existe uma mulher amante, só 
CONSCIENTE 
Que jamais se cala... 
Mesmo se lhe arranquem os dentes 
ou se lhe cortem a garganta gritante! 
 
 
Ó mulher, vem cá 
que fizeram do teu falar? 
Ó mulher conta aí... 
 
Conta aí da tua trouxa 
Fala das barras sujas 
dos teus calos na mão 
O que te faz viver, mulher? 
Bota aí teu armamento. 
Diz aí o que te faz calar... 
Ah! Mulher enganada 
Quem diria que tu sabias falar! 
 
 
Tu que muito sabes desse mundo 
Tu que nesta vida profunda 
Com todos os séculos aprendeu a malícia 
Como quer que te chame? 
Tu que me enganas (suponho) ouvindo parada 
Te vejo os que te fingem aos ouvidos 
E tua mente chama ainda; 
“Não é isso não!” 
E tu choras 
E tu sofres pela incompreensão 
E tu morres 
Pelo roubo e assassinato. 
Por que ficas parada? 
No dia em que rastejastes 
E no que apanhaste na cara 
Vi a teu lado a miséria e a morte 
Companheiras fiéis. 
Tu que te banhaste em teu próprio sangue 
Não tem coragem de exclamar 
Ou tem medo de ser errante? 
Tu que sentiste 
O racismo na carne 
O desprezo dos olhares 
A inveja de serem 
Pelo menos um minuto 
O que hoje és: HONESTA! 
Tu calas, mas vejo teu sorriso 
Da compreensão deste mundo 
Na ruga do pé do olho 
No canto da boca rota. 
E penso mesmo, talvez... 
Que seja, por enquanto, calar e olhar ao redor. 
Porque tua mente viaja 
E enxerga... 
E és nobre por calar-te nesta hora 
És humilde e guerreira. 
Mas sei que tens uma cachoeira de lágrimas 
Dentro do peito 
E uma enorme garra na VOZ 
Pra gritar esse massacre SEM PAZ 
Mas luta, mesmo que não possas falar 
Por ora, minha TERRA 
Porque ainda estás presa 
Nas garras da tua própria história. 
 
Mulher indígena! 
Que muito sabes deste mundo 
Com a dor elaaprendeu pelos séculos 
A ser sábia, paciente, profunda. 
 
Imóvel, tu escutas 
Os que te fingem aos ouvidos 
Fé guerreira, contestas: 
“Não aguento mais a mentira!” 
Mas longe deles, choras a estupidez, 
O MEDO... 
(sim, longe deles!) 
Sofres incompreensão e maldade 
Aos poucos morres à míngua... 
Desrespeito, roubo, assassinato. 
 
No dia em que rastejaste 
Imploraste tua terra – e JÁ TINHAS! 
A teu lado companheiras: miséria e morte 
A violência e a angústia dos trópicos... 
 
Nas caras ela viu o abuso 
A inveja de ser o que és: cândida, 
lúcida, mãe, companheira... 
E tu zombastes desses pobres (de) espíritos. 
 
Sabes do rio de lágrimas 
Que te aperta o peito aflito 
Na bolsa d’água o filho esperas 
Futuro, luz, nova era. 
 
Mas luta, raiz forte da terra! 
Mesmo que te matem por ora 
Porque estás presa ainda 
Nas garras do PODER e da história. 
 
 
8 Este texto já foi publicado várias vezes como Mulher Macuxi, Mulher 
Yanomami. 
 
Quando eu te conheci, guerreiro 
jamais iria sonhar 
que nossos corpos se tocariam 
que nossas bocas se esquentariam 
com ares de manhã. 
Quando eu te conheci, amigo 
amei-te terna pela luta 
amei-te muda pelo mundo 
desprezando línguas falantes. 
Quando eu te conheci, amigo 
estava só, triste e doente 
ensaiando um abrigo 
de amor, um doce amante. 
Quando eu te conheci, guerreiro 
vi brotar a luz em mim 
vi brilhar a juventude 
corroída no semblante. 
 
Quando eu te conheci, amigo 
voltei à não vivida infância 
passei a pular feito criança 
buscando um sangue novo – a esperança. 
 
Mas já é tarde, doce guerreiro 
pois não trago no peito a moça pra ti. 
O tempo passou e não pôde nascer 
a mulher que não deixaram viver! 
 
 
Enquanto ela geme calada 
Não mais teme a solidão 
Corroída e amofinada 
Vence o câncer que a maltrata. 
Anda só em pele e osso 
Com vergonha da agonia 
Caladinha seca o olho 
Das lembranças e da ironia. 
Se querem cortem logo sua língua 
Se querem injetem logo essa morfina 
Porque pra ser mulher determinada 
O sorriso aparece na verdade 
Mas a tristeza está sempre presente. 
 
Vem, irmã 
bebe dessa fonte que te espera 
minhas palavras doces ternas. 
Grita ao mundo 
a tua história 
vá em frente e não desespera. 
 
Vem, irmã 
bebe da fonte verdadeira 
que faço erguer tua cabeça 
pois tua dor não é a primeira 
e um novo dia sempre começa. 
 
Vem, irmã 
lava tua dor à beira-rio 
chama pelos passarinhos 
e canta como eles, mesmo sozinha 
e vê teu corpo forte florescer. 
 
Vem, irmã 
despe toda a roupa suja 
fica nua pelas matas 
vomita o teu silêncio 
e corre – criança – feito garça. 
 
Vem, irmã 
liberta tua alma aflita 
liberta teu coração amante 
procura a ti mesma e grita: 
sou uma mulher guerreira! 
sou uma mulher consciente! 
 
 
- 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
- 
 
Cunhataí viaja pelo tempo e pelo espaço e, depois de seguir 
trilhas e sofrer todas as dores que uma mulher pode sofrer, ela 
para, senta-se e reclina a cabeça ao chão. Absorta nos passos de 
um formigueiro, ouve vozes intercaladas e, no meio delas, escuta 
a voz ancestral. 
 
 
A coisa mais bonita que temos dentro de nós mesmos é a 
dignidade. Mesmo se ela está maltratada. Mas não há dor ou 
tristeza que o vento ou o mar não apaguem. E o mais puro 
ensinamento dos velhos, dos anciãos parte da sabedoria, da 
verdade e do amor. Bonito é florir no meio dos ensinamentos 
impostos pelo poder. Bonito é florir no meio do ódio, da inveja, 
da mentira ou do lixo da sociedade. Bonito é sorrir ou amar 
quando uma cachoeira de lágrimas nos cobre a alma! Bonito é 
poder dizer sim e avançar. Bonito é construir e abrir as portas a 
partir do nada. Bonito é renascer todos os dias. Um futuro digno 
espera os povos indígenas de todo o mundo. Foram muitas vidas 
violadas, culturas, tradições, religiões, espiritualidade e línguas. 
A verdade está chegando à tona, mesmo que nos arranquem 
os dentes! O importante é prosseguir. É comer caranguejo com 
farinha, peixe seco com beiju e mandioca. É olhar o mar e o céu. 
E reverenciar os mortos, os ancestrais. É sonhar os sonhos deles e 
vê-los. É conviver com as “manias de caboco”, mesmo sufocados 
pela confusão urbana ou as ameaças agrestes, porque, na 
realidade, são as relações mais sagradas de nosso povo, porque 
são relações com a terra e com o Criador, nosso Deus Tupã. 
Bonito é vestir os trajes do Toré e honrar-se como se vestisse os 
trajes dos reis, e senti-los como a expressão máxima das relações 
entre o homem, a terra e Deus. É sentir o sagrado e o universo. O 
importante é crer e confiar, mesmo que, na noite anterior, 
tenham violado nossa casa ou nosso corpo. É preciso ouvir os 
velhos, o som do mar e dos ventos. É preciso a unidade entre as 
famílias, por isso pedimos a Tupã que nos proteja e dê um basta 
ao sofrimento secular de nosso povo comedor de mandioca. 
Pedimos à Força Superior que nossos pensamentos se elevem aos 
mais profundos planos sagrados da espiritualidade indígena, junto 
aos velhos, aos curandeiros, aos velhos pajés, muitas vezes apagados 
pelo poder, mas renascidos como força, pela consciência do povo. 
Pedimos que nossos espíritos se elevem ao mais sagrado da 
sabedoria humana e que todas as nossas cabeças indígenas e de 
outras etnias e povos recebam a irradiação do amor, da paz e do 
conhecimento, transformando todo pensamento discordante e 
conflituoso em pensamento de paz, construtor da unidade entre 
todos os seres do planeta Terra. 
Que possamos construir, a partir de agora, uma grande frente 
de energias, apoiada por todos que leem ou ouvem este 
compromisso, para garantir a dignidade de povos abandonados, 
condenados à extinção. 
Não! Não podemos admitir a derrota. Há jovens, há crianças 
sorrindo, há mar, há sol, há esperanças. Há espiritualidade! Basta 
que soltemos as amarras do racismo impostas ao nosso 
subconsciente, esse inimigo que divide o nosso povo. 
Abramos a porta. Entremos. Nossos velhos nos esperam para a 
cerimônia da paz e da luz inquebrantável. 
Um grande marco está se colocando aos anciãos, aos 
guerreiros, a nossos avós, a nossas mães, aos nossos velhos 
defensores eternos da terra e da natureza. 
Vamos, meu povo, elevemos nossos pensamentos a Tupã e 
abramos o nosso coração na Oração pela libertação dos povos 
indígenas, pelos 300 milhões de indígenas que habitam o planeta 
Terra. E pensemos na frase sábia do cacique Xavante Aniceto: “A 
palavra da mulher é sagrada como a Terra”. 
 
 
Por que aguentamos tanta violência? Nós, mulheres dos 
segmentos dos povos indígenas e afrodescendentes, ainda 
aguentamos tanta violência porque não reforçamos a nossa 
mulher interna, a mulher selvagem que existe dentro de nós, a 
mulher primitiva, no sentido “primeiro”. Uma mulher deve andar 
com a força à sua frente; a profunda natureza intuitiva dessa 
mulher deve prevalecer na dualidade obrigatória de toda a mente 
feminina. E quem dá essa força? Receber a herança ancestral de 
nossa família ou de uma cultura é uma missão a cumprir, isso é 
praticamente obrigatório dentro da anima. Mas levar adiante essa 
herança é Sabedoria. Quais as rasteiras que devemos dar no 
neocolonizador, no opressor político-cultural para despertarmos a 
força interior e transformá-la em sabedoria e arma para o 
crescimento da humanidade e de melhor qualidade de vida? 
Como purificar a persona que existe em nós, com tantos vícios 
impostos pelo sistema político e econômico que nos discrimina, 
nos oprime, nos mata e torna a nossa autoestima deplorável, 
fazendo com que aceitemos, pacíficas, durante séculos, a 
violência, seja física, psicológica, sexual, mental e até espiritual! 
Franz Fanon coloca em seu livro Condenados da terra os 
resultados psicológicos maléficos da opressão política e racial ao 
povo argelino há mais de vinte anos. 
A chama do conhecimento ancestral, seja indígena, seja 
oriunda de outras raízes, deve ser reavivada imediatamente na 
alma de todas as mulheres,e dos homens também, para que 
possa despertar o feminino dentro dela, e a parceria homem-
mulher seja comungada dentro dos princípios dos direitos 
humanos mais transcendentais. 
Quando despertamos essa força, começamos a reconhecer a 
sombra negativa da nossa psique, o predador natural, os aspectos 
negativos de nosso comportamento, o nosso inimigo interno; e, 
nesse processo, começamos a reagir contra a opressão, o racismo 
e a destruição causados à nossa persona. Os aspectos negativos de 
nosso interior vão se somando a milhares de mentes do planeta 
Terra, atrelando-se a outras mentes, também vítimas da opressão 
e, dessa forma, sedimentam o grande contingente que hoje é 
chamado “Terceiro Mundo”. Diante disso, temos de lutar contra 
o inimigo interno, mesmo que sejamos oprimidos, pois essa 
opressão certamente trará não só os aspectos positivos de nosso 
caráter, como também os vícios impostos subliminarmente pelo 
colonizador. 
Os aspectos da cultura de alguns povos, como o sacrifício de 
crianças ou a mutilação de partes do sexo feminino, são costumes 
muitas vezes empregados por membros comunitários para 
intimidar e impedir práticas costumeiras que possam vir a ser 
vinculadas com o colonizador. Tal medida gera medo do 
relacionamento com esses povos, por constituir um ato doloroso ou 
moralmente cruel. No contexto étnico brasileiro, a identidade 
masculina, para defender suas mulheres indígenas, por exemplo, 
fazia com que estas tivessem dor no ato sexual, vinculando assim o 
prazer à dor. Desse modo, as mulheres indígenas não aceitariam a 
submissão ou ofertas de qualquer homem branco que nelas 
chegasse, porque pensariam que o relacionamento sexual estaria 
sempre atrelado à dor. Assim, o marido, de certa forma, estaria 
defendendo sua mulher. Ao longo da história, o homem indígena 
teve de mudar seu comportamento com a mulher indígena, em 
uma tentativa desesperada e inconsciente de preservar a família. 
No período das colonizações portuguesa e espanhola, no Brasil, os 
homens indígenas conduziam toda a sua família ao suicídio 
coletivo, contra a escravidão, e, consequentemente, à destruição 
cultural. Nos tempos atuais, o suicídio, a submissão, o alcoolismo, a 
desesperança e a fome têm sido sintomas da opressão colonizadora 
decorrentes da violência aos direitos humanos fundamentais dos 
povos indígenas e que afetam as mulheres mais diretamente. 
O empobrecimento econômico de nossas vidas, o racismo, a 
intolerância, o desequilíbrio da nossa biodiversidade em todos os 
sentidos são fatores que provocam timidez, conformismo, baixa 
autoestima, sentimento de culpa, infelicidade, angústia, insatisfação 
constante e concessão ao dominador, além de cooptação política. 
Esse processo desestabiliza o contexto cultural e espiritual; 
enfim, a cosmovisão de cada um de nós, indígenas, negros ou 
demais pertencentes a segmentos oprimidos, o que traz à tona 
um lamentável estado psicológico de angústia e insatisfação, 
prejudicando todos os aspectos das relações humanas. 
Ainda a pergunta: Por que aguentamos tanta violência 
subliminar? A intuição é a mensageira da alma; a intuição é a 
força do conhecimento tradicional, ancestral. A tocha da 
ancestralidade deve ser trabalhada dentro de cada um de nós, 
pois ela é riquíssima em conhecimentos, sejamos indígenas, 
negros, amarelos ou brancos. O nosso cérebro, fisicamente, 
guarda espaços e tradições jamais alcançados. É preciso lembrar, 
despertar da escuridão mental e espiritual e deixar fluir o 
inconsciente coletivo para que ele flutue nos mares da 
consciência, que é quem dá a tônica da vida. É preciso uma força 
extraordinária para resgatar os conceitos e princípios da 
ancestralidade que cada um tem dentro de si. É ética. É princípio. 
É busca, inclusive, da paz que vai se somar à construção da 
corrente do amor e da ética. Mas só da conscientização de quem 
somos nós, como povos indígenas ou oriundos de outras raízes, é 
que brotará uma percepção, reveladora da riqueza, da 
preciosidade que existe adormecida na vastidão das mentes, dos 
corações e dos espíritos. 
O homem – ser do sexo masculino –, que também tenha 
buscado esse homem selvagem, esse homem “primeiro”, ancestral 
dentro de si, é o verdadeiro homem que vai conquistar o coração de 
uma mulher, pois ele vai compreender, reconhecer e respeitar 
profundamente a dualidade feminina, a guerreira e a mãe doce e 
pacífica que existem dentro de todas as mulheres. E a guerreira, a 
ancestral, a mãe selvagem, a filha, todas reunidas em uma só 
mulher, não vai mais permitir a sombra negativa que ronda o 
planeta Terra, porque ela, purificando/lapidando sua persona, vai 
multiplicar muitas outras essências, começando pelo seu próprio 
filho homem, futuro cidadão, futura cidadania mundial, para a 
construção da cultura da verdadeira paz e da igualdade social. E a 
relação de gênero nesse estágio será bem melhor do que a dos 
tempos contemporâneos, que nos faz sucumbir à dor, que nos faz 
desamar a nós mesmos e ao próximo. Nesse processo de 
reconstrução do ser humano, vamos lapidando o grande 
diamante que é a consciência humana. 
Homens e mulheres que reconhecerem mutuamente o 
processo de reconstrução da mente e do espírito estarão 
apoiando a criatura interna, a verdadeira anima, o profundo 
anseio da alma fortalecida pela ancestralidade que existe dentro 
de todos nós, a verdadeira ancestralidade do ser “primeiro” – a 
força interior. Esses sim estarão construindo a grande força mental 
e espiritual, a grande frente em direção à conquista dos direitos 
humanos, para nunca mais se permitir a opressão, a baixa 
autoestima, o conformismo, o racismo, a desvalorização do eu 
físico e da verdadeira persona. Necessitamos estar fortes para lutar 
pelos nossos direitos civis, exigindo-os. 
Para isso, é importante ouvir os sábios e as sábias indígenas e 
afrodescendentes e de outras etnias e raças. No entanto, o 
sistema político e social desvaloriza os idosos, postergando-os, 
arrastando-os para o corredor da morte lenta. Ao longo do tempo, 
os velhos e as velhas pajés e xamãs foram subestimados pelas 
instituições, que insistem em impor valores políticos e religiosos 
alheios a eles, conduzindo-os à marginalidade cultural. É tempo de 
resgate. Os caminhos e as respostas para um novo mundo estão na 
aquisição e no reconhecimento dos conhecimentos tradicionais das 
primeiras nações deste grande e luminoso asteroide azul contra o 
inimigo interno e externo. 
Os povos indígenas do Canadá, por exemplo, como forma de 
resistência, criaram, há décadas, um movimento de luta, uma 
organização chamada The First Nations, como uma maneira de 
mostrar e reforçar que os primeiros povos do território canadense 
foram e são os povos indígenas de lá. Com essa atitude, The First 
Nations promove uma importante conscientização de quem 
somos como indígenas e qual a nossa importância nesse contexto. 
É necessário fazermos uma reavaliação das histórias de vida de 
nossos velhos e velhas profetas, de qualquer etnia, nação, religião, 
corrente espiritual, dando uma nova interpretação às suas palavras. 
Não interpretações segundo nossas crenças, velhos costumes, velhos 
modelos, velhos preconceitos; mas começar a perceber, nas 
profecias deles, os verdadeiros caminhos para a construção da 
paz e da ética que todos almejamos. 
E quando a mulher puder sentir o gosto salgado das lágrimas 
de seu homem, porque ele humildemente o permitir, por sua 
sinceridade, compaixão, história e tolerância, assim como o homem 
em relação à mulher, em uma imagem simbólica, mítica, mística, 
mágica, encantada, aí sim, o verdadeiro sentido de gênero existirá 
nas relações humanas: a mão da paz estará sobre todas as cabeças 
e todas as mãos estarão entrelaçadas entre elas pelo espírito de 
cooperação, solidariedade, amor, compreensão e paz verdadeira. 
 
 
 
Ser líder espiritual, em qualquer lugar, em quaisquer culturas e 
tradições significa estar conectado primeiro com o eu interior, a 
mulher/o homem selvagemdentro de si mesmo, como já 
dissemos. É estar conectado(a) com a sua intuição e com todos os 
desdobramentos dela, o que nos remete às nossas culturas e 
espiritualidades tradicionais, dentro da nossa casa espiritual e 
mental. Realmente é poder fazer com que seu cérebro e seu 
espírito relembrem os ensinamentos da ancestralidade, como no 
caso indígena, cuja herança espiritual é passada de pai/mãe para 
filho/filha. Nenhum pajé indígena faz curso para ser pajé. O pajé 
– “é” – e ponto final e ninguém o discrimina. O ser xamã não tem 
designação espacial, ele pode ser do mar, da terra, da cidade, do 
campo, das montanhas. É evidente que os lugares mais tranquilos, 
como a mata, são favoráveis à meditação e à expansão da alma. 
Mas quem é líder espiritual o é em qualquer circunstância. No 
caso indígena, em uma família, pode haver vários filhos, mas 
somente um ou dois terão qualificação para a espiritualidade. 
Todos os filhos terão a mesma educação, mas “aquele” se 
destacará por sua natureza iluminada, será um grande 
reverenciador da cultura da paz e da ética. É intrínseco nele, ele 
já traz as lembranças adormecidas mais favoráveis ao despertar 
interior. As práticas espirituais, as pajelanças de seus avós, pais ou 
tios na sua educação diária, desde a tenra infância, vão 
funcionando como um elemento motivador, iluminador de sua 
trajetória espiritual. E seu fortalecimento só será complementado 
quando ele expandir a sua energia vital e espiritual – a sua 
consciência e inconsciência – direcionadas para sua comunidade, 
exercendo a cura em todos os sentidos. 
O eixo celular do significado espiritual dentro da casa física do 
pajé é o dar-se ao próximo. Sem o “dar-se” não há energia e 
tampouco a cura, o Poder de realizar as cerimônias e o Poder do 
pressentir. E o pressentir é remetido para o doar-se. Como se vê, é 
um ciclo... como é um ciclo a morte e a vida... A vida e a morte... 
A morte e a vida... E o caminho espiritual do pajé é solitário, 
assim como o ato de nascer ou de morrer, ou o ato da criação da 
arte. É um ato só nosso. O pajé, mesmo sem conhecimento 
científico do que sejam direitos humanos, é um dos maiores 
defensores natos, na teoria e na prática, desses direitos, além de ser 
um curador. Ele é o verdadeiro conhecedor dos conhecimentos 
tradicionais: Patrimônio cultural de povo, propriedade intelectual de 
seu povo. 
 
 
De 2001 a 2003, fazendo um estudo sobre a filosofia e a 
psicologia de Clarissa Pinkola Estés, em seu livro Mulheres que 
correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher 
selvagem – leitura a mim indicada por uma grande amiga, Maria 
Inês, mulher negra –, encontrei parte das respostas para as 
perguntas que estava fazendo há muitos anos em minha vida: eu 
como uma pessoa de origem indígena, mulher, de família 
extremamente pobre e migrante dos territórios indígenas por ação 
violenta da neocolonização algodoeira nordestina, vitimada pelo 
racismo ambiental e pelo racismo contra as próprias mulheres que 
serviam de objeto sexual para os colonos. E, em um momento de 
maior êxtase de minha vida e inspirada por essa pensadora 
feminina, a escritora Clarissa de múltiplas identidades e 
cidadanias (classificação dada por mim), inclusive a indígena, 
escrevi o texto a seguir: 
 
 
A luz se abriu e a minha pele de foca voltou a se umedecer. 
Minha pele estava seca pelas vicissitudes da vida. 
Eu mergulhei nas profundezas dos mares e reencontrei minha 
avó-foca, minhas sagradas ancestrais e os velhos guerreiros que 
também não se envergonhavam por suas lágrimas. 
Elas – sabiamente – me contestaram e mostraram que eu, 
inconsciente e pacificamente, aceitava os padrões éticos 
impostos pela intolerância da sociedade, e voltei com minha 
alma fortalecida, voltei com meus sonhos definidos, voltei com 
minha intuição extremamente clara, precisa, determinada. 
Minhas costelas não estão mais descarnadas, a carne voltou a 
crescer depois que os homens derramaram suas lágrimas pelas 
mulheres do mundo e eu não sou mais uma mulher-
esqueleto, jogada ao fundo do mar, como se fora um sapato 
velho, pela cultura impostora. Sou uma mulher de fibra, 
porque eu me reconstruí por mim mesma, depois de dançar 
desvairadamente na vida com meu iludido sapatinho 
vermelho. Quase perdi os meus pés, as ervas daninhas 
enrolaram neles pra que nunca mais caminhasse pelas estradas 
do saber, da consciência e do mais alto grau da espiritualidade 
indígena, mas pude dominá-los e arrancar esses malditos 
sapatinhos vermelhos das chamadas “Mulheres e mães boas-
demais!” que, por serem assim, vivem sufocadas pelo peso da 
história e da opressão e quando vislumbram uma 
“semiliberdade”, uma ilusão, a seudoliberdade, se perdem nos 
terríveis sapatinhos vermelhos da cultura falsamente 
iluminada, que escamoteia o poder, o preconceito, o racismo. 
Meu ego não pode ser mais forte que minha alma. Minha 
alma é ancestral, meu ego não pode dominar minha 
verdadeira história. Faço agora um acordo entre meu ego e 
minha alma. Minha alma é primeira, é forte, é intuitiva; ela é 
ética, para não dizer pura, minha alma é terna, eterna amante, 
indígena. 
Mas meu ego, condicionado pela cultura dominante, me leva 
para a escuridão terrena, celestial, marítima, onírica e 
filosófica. 
Conduz minha autoestima para os porões. Não, mulheres do 
mundo! Não aceitemos mais. Não, não, não, não, não! 
Meu ego não pode ser mais forte que minha alma, minha 
anima, minha essência de mulher selvagem, indígena, 
essencial à preservação digna do planeta e dos seres humanos. 
Basta de violência. Nós somos lobas. Somos músicas que 
ecoam no etéreo. 
Nós somos focas. Nós somos Humanidade e sabemos o que é 
digno para nós. Nossa pele de foca brilha de novo. 
Ouçamos definitivamente nossas velhas e velhos. 
 
A partir desse texto, Pele de foca, chamo a atenção de todas as 
mulheres e de todos os homens. Mas vejam: como esse 
antagonismo ego versus alma foi minimizado entre os povos 
indígenas em uma tentativa de neutralizar sua cosmovisão? É uma 
pergunta que precisamos fazer e encontrar caminhos concretos para 
solucionar problemas identificados. Quando nos apercebemos da 
luta que existe entre o ego e a alma é que devemos, lucidamente, 
fazer uma viagem ao inconsciente coletivo em busca das nossas 
raízes étnicas, raciais, espirituais para fortalecer o nosso eu 
interior. As histórias de nossas e nossos ancestrais são referenciais 
riquíssimos para esse fortalecimento interno. 
A mulher e o homem que ouvem a sua intuição, que se 
apercebem de seus sonhos, que ouvem a voz interior das velhas e 
das mulheres guerreiras de sua ancestralidade e que possuem o 
olhar suspeito dos desconfiados, esses, sim, são uma ameaça ao 
predador natural da história e da cultura. Por isso o predador tem 
medo desses homens e mulheres quando percebem a violência 
de seu algoz. Quando podemos identificar quem são as três 
velhas indígenas que nos surgem nos momentos de maior crise, 
ou nos momentos de perigo, e compreender por que suas mãos 
se estendem às suas filhas, netas e bisnetas, e, juntas, as seis mãos 
se transformam em cobras como em um aviso quase rouco, mas 
grandioso, pela simbologia e anúncio, aí sim, somos aquelas e 
aqueles que, como águias, percebemos o menor gesto do 
inimigo, não só interno como o inimigo na sociedade do dia a 
dia. Devemos alimentar o nosso lado criativo, intuitivo, o nosso 
lado bom contra o lado mau de nossas mentes. É preciso 
interpretar as mensagens oníricas de nossas velhas indígenas. 
Para dominar esse predador (o inimigo de que falei 
anteriormente), que está dentro do homem e da mulher, e fora 
deles, na sua cultura, é preciso tomar posse de nosso instinto 
selvagem, de nossos poderes intuitivos, de nosso ser resistente, ser 
guerreira(o), ser questionadora(o). É preciso ter insights, ter 
tenacidade e personalidade no amor que procura, ter percepção 
aguçada, ter audição apurada, ouvir os cantos dos mortos, ter 
sensibilidade, ter alcance de visão, cuidar do fogo criativo,ter 
espiritualidade, mesmo que, para tudo isso, elas(es) sofram, 
sangrem, tremam, se rasguem e gritem ou desçam ao fundo do 
poço do sofrimento humano para renascer mais belas(os)! É uma 
luta delas(es) contra elas(es) mesmas(os), porque é uma luta contra 
uma cultura que impõe valores dominantes como machismo, 
racismo, intolerância, discriminação, preconceito, xenofobia, falso 
moralismo. O predador natural da história faz com que esses 
homens e mulheres se sintam “esgotados”, mas, mesmo assim, 
serão vencedores, se quiserem vencer. Renascidos, farão renascer 
também seus descendentes, inclusive os masculinos. Por isso a 
importância da mulher na existência humana. Ela é sábia; está 
mais aberta ao aprofundamento do eu interior, da busca da 
ancestralidade. 
Essa filosofia de vida nada mais é que uma estratégia 
infinitamente condizente com a cultura indígena. A cultura do 
respeito, a cultura de paz, a cultura da veneração à natureza e ao 
grande espírito, o Criador. É a cultura do respeito aos velhos(as), 
às crianças, aos mitos, às lendas de origem da vida. É a cultura do 
agradecimento pela existência humana, como fizeram os Maias, 
por exemplo. 
O povo indígena sobrevive há séculos de opressão porque tem 
como maior referencial a tocha da ancestralidade, do perceber 
intuitivo, da leitura e da percepção dos sonhos, do exercício da 
dança como expressão máxima da espiritualidade e da 
valorização da cultura, das tradições, da cosmovisão personificada 
na figura dos mais velhos e das mais velhas, os idosos planetários. 
Sua percepção é aguçada como a de uma águia ou de um 
condor, sua percepção de visão é como o olhar de uma sábia 
coruja, sua audição é tão nobre, mágica e perspicaz como a 
surdez de uma cobra, e sua visão interior é maior que a cegueira 
de um morcego, a força de um rinoceronte indomável ou a 
inteligência de um elefante. 
Quando se comunga com as águias, no caso dos indígenas 
norte-americanos, ou com o condor, na América do Sul, se 
comunga com a força interior dessas aves que trazem no olhar o 
fogo da quintessência, a força da alma. Seus olhos traduzem-se 
nas janelas da intuição. Os olhos sábios são as janelas das almas 
sábias! Os xamãs, os pajés, os líderes espirituais masculinos e 
femininos aperceberam-se dessa energia vital e comungam com 
essa energia em suas vidas, inclusive passadas, repassando essa 
força para o seu povo. Por isso o povo indígena guarda uma 
cosmologia refletida em seus mistérios, suas histórias, seus 
silêncios e seus territórios, demonstrando a ética, a cultura de paz, 
o conservador nato da ecologia, da natureza da vida, o amor 
profundo e o respeito. 
Lendo, então, a escritora Clarissa Pinkola, percebi que ela 
enfocou aspectos da tradição indígena no papel do fortalecimento 
das mulheres do mundo. Fui muito feliz nesse encontro comigo 
mesma e com a escritora, porque, antes, já havia incorporado 
inconscientemente a sabedoria de minha mãe, minhas tias 
indígenas e, principalmente, minha avó, Maria de Lourdes, filha 
do guerreiro indígena desaparecido no início do século XX. Sou 
feliz porque aprendi esses conceitos com elas, mesmo que elas 
estivessem fora de suas terras tradicionais. Elas foram enxotadas 
de suas terras, mas os valores, os conceitos, os princípios, a 
cosmologia jamais, em tempo algum, foram dizimados pelo 
colonizador. Essa é a nossa maior herança: a preservação da nossa 
essência, em um mundo impune, cheio de diferenças e 
preconceitos. É como renascer no meio do lixo. É como a flor de 
lótus, que nasce na lama e atinge a superfície cristalina. 
Foi aí que comecei a compreender, na prática (pois na teoria 
já percebia, mas não tinha consciência que minha prática era 
totalmente ignorante), que era necessário eu me amar e 
compreender as razões pelas quais essas mulheres de minha 
família foram tão sofredoras. Esse sofrer me pegou pelo pé, mas 
pude dar um nó nisso tudo quando pisei nas terras de meus avós 
e compreendi sua história oprimida e a história opressora do 
colonizador. A partir das histórias, pude compreender que a 
sociedade impõe às mulheres e às pessoas discriminadas 
racialmente um desamor a elas mesmas, conduzindo-as aos vícios 
e à baixa autoestima. Há mais de cinquenta anos tenho 
trabalhado pelo amor a mim mesma, para colocar na prática que 
a re-evolução começa dentro de cada um, para que possamos 
construir o amor ao próximo ou o amor sem imposições, o 
chamado amor incondicional. Isso é muito difícil na prática! 
Povos indígenas exerciam relações de gênero no passado de 
forma justa, quando as mulheres Guarani, por exemplo, eram 
ouvidas nas assembleias indígenas. Há mais de vinte anos tenho 
dito, em todas as assembleias, conferências, palestras por onde 
passo, que as mulheres indígenas tinham o seu papel político 
extremamente determinado e forte. A palavra final, em uma 
assembleia indígena, no século XVII, era a da mulher. Os homens, 
desesperados pelo processo de colonização e racismo, ao verem suas 
mulheres estupradas pelo europeu, decidiam pelo suicídio coletivo 
com a palavra final da mulher. Os povos que permaneceram vivos 
introduziram-se pelas matas e, temerosos, colocaram as mulheres, 
crianças e velhos na “retaguarda cultural”. Passaram-se séculos e, até 
hoje, esse temor indígena sobrevive no universo masculino, pois o 
neocolonialismo existiu, assim como existem a nova ordem mundial 
e a globalização. De certa forma, o homem, obrigatoriamente, 
assumiu um papel machista para a defesa de sua família. No contato 
com o colonizador, esse homem adquiriu os vícios dos estrangeiros. 
Hoje, os povos indígenas trazem marcas dessa colonização e da 
neocolonização também imposta, por isso precisamos reconstruir 
o gênero entre povos indígenas e reconstruir nossas histórias. 
Voltando à questão da essência, por que povos indígenas 
chamados emergentes, ressurgidos, descendentes ou quilombolas 
reacendem sua identidade étnica após diversos massacres 
culturais, religiosos ou políticos? Porque seu inconsciente coletivo, 
isto é, sua alma, sua essência, sua quintessência gritam mais forte 
que seu ego, repito. Sua alma é atrelada aos ancestrais, à sua 
história pseudoesquecida. Essa história é como uma mina em 
terreno proibido. A qualquer hora, um movimento mínimo mina 
como um fio d’água e explode como um oceano. Não dá para 
calar, por isso a há a tradição do povo guerreiro. 
 
 
Em muitas áreas brasileiras, povos dessa natureza refletem esse 
pensamento e pipocam translucidamente, como é o caso dos 
Pitiguary, no Ceará, ressurgidos nos anos 1990; o caso dos 
Catókin (em 2003), no interior de Alagoas; ou ainda o povo 
ressurgido Poruborá, de Rondônia, ou descendentes indígenas em 
casos individuais, como a história de Juvenal Teodoro, de origem 
Paiai-á, da Bahia, e outras pessoas indígenas que pipocam aqui 
ou ali. Caso peculiar e antigo é o da constituição da Organização 
Kaguateka, que tinha uma proposta preliminar de organizar os 
indígenas desaldeados de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, 
encabeçados pela saudosa índia Dona Marta. A proposta era 
muito interessante, mas esbarrou em problemas históricos, 
intolerâncias e autoritarismos dos não indígenas. E o próprio 
contingente desaldeado não estava preparado para tal 
organização. Os aldeados jamais poderiam compreender. 
Tudo é um processo histórico. Não pode haver discriminação 
com esses segmentos. Essa cidadania precisa ser reconstruída, mas 
há segmentos na sociedade que tentam bloquear e discriminar 
esse fenômeno social. Tem sido um desafio para esses povos e para o 
movimento esse “reconhecimento” como indígena, dada a 
intolerância de uma minoria da antropologia institucional, eclesiástica 
e oficial, na realidade purista, insensibilizada, que ainda não 
assimilou a dinâmica do combate à discriminação racial, à xenofobia 
e a todas as formas correlatas de intolerância tão bem discutidas na 
Conferência das Nações Unidas, na África do Sul, em 2001, por 
exemplo, na qual a participação brasileira foi muitomarcante em 
número e posição. Algumas propostas consideradas prioritárias 
para os povos indígenas muitas vezes se chocam com o lado 
institucional, por esse lado querer ter poder total e exclusivo 
sobre a luta desses povos. 
Há organizações que formam correntes cujas filosofias acabam 
dividindo os povos indígenas, criando lideranças-chave que precisam 
sobreviver pela luta e pela própria sobrevivência econômica. É o caso 
da cooptação política. Por isso a existência de chavões que ouvimos 
do tipo “índios dessa ou daquela organização”, “índios dessa ou 
daquela corrente”. Isso precisa acabar. Os povos indígenas devem 
tomar seu destino nas mãos, como fazem os índios norte-
americanos ou os Sami, da Noruega, que aboliram e abominam, 
há décadas, o paternalismo. Os Kuna, do Panamá, nos dão um 
exemplo de autodeterminação política, eles não permitem esse 
paternalismo. Hoje, possuem representantes no Congresso, Senado e 
Câmaras Municipais e Estaduais; são os porta-vozes sociológicos e 
antropológicos. 
Lamentavelmente, no Brasil, ainda encontramos essa tutela em 
instituições, às vezes da direita, às vezes da esquerda, às vezes 
paternalizada pela Igreja, às vezes pelas universidades. Isso teve 
origem na colonização portuguesa, quando foi criado o cargo de 
Diretor dos Índios. Essa criação foi feita “devido à brutalidade 
natural e manisfesta ignorância do índio” por Francisco Xavier, 
irmão do Marquês de Pombal, que expulsou os jesuítas do Brasil. 
Esse marco oficial deu-se em 1759, por considerarem os povos 
indígenas arredios, violentos. Antes, foi institucionalizado o cargo 
de “capitão dos índios”. De lá para cá, centenas de órgãos 
dirigiram os povos indígenas, mas isso não se deu com os povos 
negros “domesticados” que chegaram da África para o processo 
de escravidão. Como um marco absurdo, os antigos presidentes 
da Funai eram militares. Outro agravante refere-se às lideranças 
“pensadas” pelo poder local (empresários, latifundiários, políticos, 
instituições locais de direita ou de esquerda) contra as lideranças 
originais, os pajés. São famílias pobres de um lado e famílias que 
detêm algum capital financeiro do outro. 
A Coiab, inicialmente coordenada pelo índio Manoel Moura 
Tukano, depois, por outros indígenas como os irmãos Orlando e 
Orlandino Baré, Obadias Sateré-Mawé, Sebastião Manchineri e 
Euclides Macuxi, que, a partir do final do século XX, deu o 
pontapé inicial na ruptura com organizações terceiras de cunho 
paternalista. Mas esse é um processo histórico longo. A União das 
Nações Indígenas (Unind), criada por Marcos Terena, Mário 
Juruna, Álvaro Tukano, Lino Miranha, Paulo Borôro e outros, mais 
tarde levada adiante, em São Paulo, por Ailton Krenak, foi um 
movimento revolucionário, mas também esbarrou na deficiência 
do processo histórico e político dos povos indígenas, nas 
perseguições políticas, nas discriminações paternalistas, assim 
como muitas outras organizações, como o Grumin, que sofreu 
também perseguição política por noticiar fatos e criar políticas de 
autogerenciamento. 
Povos indígenas, povos ressurgidos, emergentes, indiodes-
cendentes, índios desaldeados, deslocados e migrantes grupais ou 
migrantes individuais não podem ficar à mercê de análises 
antropológicas burguesas, insensíveis e intolerantes de governos 
racistas, preconceituosos e autoritários, seja este, seja aquele. As 
almas dessas pessoas devem ser respeitadas porque têm a história 
de seus antepassados; têm a história das mulheres e de homens 
decididos. Temos discutido muito também a questão da migração 
indígena motivada pela violação aos direitos humanos dos povos 
indígenas e os efeitos aterrorizantes nesses povos, nas pessoas 
individualmente falando, nas mulheres e nas crianças, que são as 
mais afetadas. As histórias dessas mulheres indígenas, empurradas 
para o lixo da sociedade nas grandes cidades como Manaus, 
Belém, Fortaleza, Boa Vista, Recife e demais cidades não podem 
ficar invisíveis como ainda estão. 
Repetindo: a formação de gênero entre povos indígenas deve 
ser uma estratégia para promover a justiça de gênero dentro das 
organizações indígenas para a defesa das mulheres aldeadas, das 
viúvas, das idosas, das meninas e daquelas que vivem na periferia, 
em casas de palafitas, na Amazônia, ou das que vivem nas favelas 
nas grandes cidades, servindo de mão de obra quase escrava na 
sociedade discriminatória. Essa foi a bandeira levada pelo 
Grumin! 
Oh! Grande criador da natureza, fazei com que as mulheres 
indígenas tenham qualidade de vida, porque elas, durante a sua 
trajetória por este planeta, somente uma vida têm, e essa vida 
precisa ser vivida com dignidade. É nesta vida que as mulheres 
precisam exercer seus direitos humanos. Se forem esperar por 
outra vida, os resquícios do passado histórico ainda vão 
influenciar sua mente, seu inconsciente coletivo. Oh! Criador, 
fazei com que essas mulheres sejam rainhas do novo alvorecer! 
Vejamos esse resultado da imigração indígena, que descrevi 
em 2004, na Rede de Comunicação Indígena, publicação do 
Grumin: 
 
Vi um indiozinho escorrendo pelo bueiro. A metade de seu 
corpo superior debruçava-se sobre o meio-fio da rua e a outra 
parte jazia cansada, escorrendo pelo esgoto urbano. 
Imediatamente, lembrei-me do quadro de Salvador Dalí, 
retratando um relógio de pulso desconstruído em sua forma 
original, mas reconstruído de forma que o relógio obedecesse às 
formas roliças do punho humano. Vieram-me à cabeça diversas 
imagens derretidas desse pintor surrealista, desconstruidor da 
formalidade e convencionalidade sociais, políticas e humanas. 
Mas o indiozinho estava lá, derretendo, e eu tive vontade de me 
derreter junto a ele pelo ralo planetar, mas não pude. Seria 
covardia de minha parte! 
O menino de 10 anos, um indiozinho urbano, desse tipo que a 
intolerância e o paternalismo sociais ignoram e invisibilizam, 
compunha o triste quadro da miséria humana. E se sua mãe 
pestanejar pelos direitos humanos, como alimentar-se pelo menos, o 
paternalismo analisará: “quem mandou sair de sua aldeia, quem 
são seus pais, seus avós, nós não lembramos dessas histórias?!”. 
De vítima do processo social e racial passa a oportunista. Essa 
índia não pôde ficar na sua aldeia e esperar o “Paralelo 11”, 
versão 2004, ela fugiu antes! 
O último censo do IBGE registrou um aumento da população 
indígena, considerando os indígenas desaldeados e indiodes-
cendentes.. Isso é um primeiro passo. Mas, enquanto isso, o 
indiozinho continuava lá, sucumbindo às lágrimas. Seu corpo 
magro e sujo amoldava-se às formas do paralelepípedo. Sua 
cabeça reclinava sobre o chão imundo e seus pés mostravam os 
ossos aos “abutres”. Eu nunca vira uma cena como essa. Nessa 
noite eu não dormi. Nem na Índia eu vira cena tão agressiva à 
minha ética. Lá, choquei-me ao ver os dalits (os intocáveis), que 
sobreviviam raquíticos, famintos, desconsiderados em estações 
de trem desativadas. Os dalits eram mais felizes do que aquele 
indiozinho, sabe lá Deus, de que aldeia veio! E sua mãe? Onde 
estaria? Onde estariam suas lendas, sua história de origem de vida? 
Onde estariam suas tradições, seus costumes e sua espiritualidade? 
Sua ancestralidade, naquele momento, descomprazia-se de sua sina. 
Os ossos daquela família, das mulheres daquele clã, jaziam 
fétidos no fundo do mar à espera da luz da foca ancestral ou 
jaziam à beira-rio esperando um milagre do Pitiguary ancestral. 
Toda essa cena contrastava-se com a propaganda da arte 
indígena que, naquele momento, fazia sucesso em uma 
exposição citadina que corria o Brasil: “arte milenar indígena 
não morre!”... Mas as pessoas indígenas morrem pela falta de 
uma posição governamental que faça exercer os direitos 
indígenas neste país. O indígena precisa sair das paredes dos 
museus, das salas de exposição! 
O Fórum Permanente para Povos Indígenas, para quem não 
sabe, foi criado a duras penas pela pressão do movimento indígena 
internacional. Isso há mais de 20 anos! A Assembleia das PrimeirasNações, o Cisa (Conselho Indígena de Sudamérica), entre outras 
organizações indígenas, foram os precursores pela implantação de 
uma política indígena autodeterminante, isto é, onde os próprios 
indígenas possam ser representados por eles mesmos. O governo 
pode considerar os povos indígenas brasileiros despreparados, 
divididos, infelizes, assessorados ora por um, ora por outros, o que 
queira. O indígena brasileiro deve sentar na cadeira destinada a ele 
dentro do Fórum Permanente para Povos Indígenas da ONU. 
Aquele espaço político foi construído por ele e para ele, não foi 
uma concessão da ONU. Rigoberta Menchu, Prêmio Nobel da Paz, 
como um exemplo clássico, assim como milhares de indígenas 
invisíveis, derramou seu sangue e lágrimas por aquele Fórum. Que 
imagem continuamos construindo para nossos irmãos indígenas 
internacionais! Que imagem estamos construindo para nós, povos 
indígenas! A indígena Dona Marta, índia desaldeada, que queria 
ser deputada pelo PT, morreu em vão? Não construiu esse direito, 
não conseguiu, porque ninguém vota em candidatos indígenas. 
Mas lançou uma semente. Aproximam-se as eleições e esse quadro 
precisa mudar. Não há uma cadeira provisória no Congresso, a 
Constituição, o departamento jurídico A ou B não deixam. O 
Estatuto do Índio não deixa. Por acaso a Constituição deixa morrer 
à míngua os direitos indígenas? Claro que deixa, isso pode... e nós, 
por pensarmos assim, somos imediatistas, antiprofissionais, 
irresponsáveis, não sabemos esperar “o momento certo”, enfim... o 
“tempo histórico e político”. Quanto tempo temos que esperar? 
O que deve ser feito é que esses homens de terno preto e 
cinza, com gravatas coloridas, que trabalham no Congresso 
Nacional, enfim... desconsiderando Leis, Estatutos, Constituição 
devem reconhecer, não na lei, como li na matéria do Jornal do 
Serviço de Informação Indígena (Servindi/ Jornal dos próprios 
indígenas) sobre o representante brasileiro na última reunião do 
Projeto de Declaração sobre os Direitos Indígenas/Genebra/ 
2003, que os direitos dos indígenas brasileiros “já estão 
assegurados”, no Brasil. Eu interpretei isso apenas na teoria! No 
Brasil, nunca se diz o que já foi feito concretamente e se anuncia 
o que se vai fazer: é aí que as coisas se perdem. 
O indígena brasileiro não pode ser mais idolatrado na sua 
cultura e arte, nas suas fotografias, nas suas artes cinematográficas, 
nas suas expressões literárias e orais e ser literalmente ignorado na 
sua condição física, humana, social e política. 
Enquanto isso o indiozinho, cor da terra, que se esvaía no 
chão, moreno, faceiro, cabelos lisinhos, olhinhos de tigre, roupas 
de mendigo, continuava lá, na indignidade que lhe foi imposta 
pelos que dizem que temos uma Constituição e leis e que não 
podemos desconsiderá-las. E eu, vendo aquele serzinho humano 
escorrendo pelo meio-fio, perguntei a ele: “O que aconteceu?”. 
Ele, com uma mão esticada tentando catar os centavinhos caídos 
e outra mãozinha apertando uma nota fétida de um real, me 
respondeu: “Os meninos de rua roubaram o meu dinheiro e me 
bateram”. Ele não se considerava um menino de rua! Vejam só! 
Quem será menino de rua, meu Deus? Negros, favelados, 
delinquentes, marginais, ciganos, deficientes, cegos pedintes, 
negras grávidas com o filho no colo, portadores de HIV, velhos, 
velhas? 
Eu perguntei a ele: “Como consegue dinheiro?”. Ele, com o 
rosto encharcado de lágrimas misturadas à poeira, respondeu: 
“Pedindo!”. Ele era só um pedinte indígena, uma nova classe 
social criada pela pobreza. E meu útero de mãe rosnou, rosnou 
tanto que uma dor rouca, uma dor cavernosa saiu pelas minhas 
entranhas, uma dor insuportável que esmigalhava minha alma, 
minha essência indígena, meus berros internos! Indigente 
indígena: indigno isso! 
Ai que dor, ser testemunha do renascimento desse novo 
contingente. O SPI (Serviço de Proteção ao Índio), antes do golpe 
militar, em 1964, nunca se preocupou com o êxodo 
indígena para as cidades. Era melhor fechar os olhos e ver os 
“indiozinhos” e suas famílias partirem de suas terras do que 
investigar as causas da migração compulsória. 
Aprendi com minha avó indígena, com Salvador Dali e Paulo 
Freire a reconstruir uma imagem de nós mesmos, desconstruir 
imposições e a reconstruir nosso discurso. Nós – povos indígenas 
– precisamos nos salvar, antes mesmo que a demarcação das 
terras chegue no seu contexto mais amplo e antes desse almejado 
novo Estatuto do Índio, porque as coisas, como estão, podem 
deixar a população indígena muito revoltada, pipocando casos 
como os que temos visto nos últimos meses. Povos indígenas 
querem viver dentro do equilíbrio e dar seu testemunho de uma 
convivência pacífica e não serem vistos na mídia empunhando 
bordunas ou armas. Eu clamo aos governantes e empresários: 
“Reconheçam os povos indígenas como os primeiros povos desta 
terra e sem paternalismos, entreguem as terras que são de seus 
ancestrais, numa medida de reconhecimento, de compensação e 
restauração da dignidade indígena deste país”. 
 
Trezentos milhões de povos indígenas no mundo inteiro estão em 
estado de alerta na defesa de sua identidade, participando de fóruns 
nacionais, internacionais, participando do Fórum Permanente para 
Povos Indígenas, uma vitória nossa no Grupo de Trabalho sobre 
Povos Indígenas que batalhou vinte anos para a constituição da 
Declaração Universal dos Direitos Indígenas. Outras instâncias 
também ouvem os povos indígenas como a Organização dos Estados 
Americanos (OEA), a Organização Internacional do Trabalho (OIT), 
entre outras, e os líderes indígenas brasileiros têm tomado essa frente 
de combate, além das lutas locais. 
Defendendo a identidade, defendendo as raízes culturais, as 
etnias – as raças, o gênero, o ser humano – terão uma melhor 
qualidade de vida e a passagem do ser humano pelo planeta 
Terra terá realmente uma razão de ser: viver bem a vida, poder 
enxergar com alegria a criação de Deus, a perfeita natureza, o céu 
azul, os mares, as cachoeiras, os infinitos rios e riachos, as 
poderosas montanhas, o calor glorificante do Sol, a magnitude da 
Lua, o esplendor das nuvens e dos trovões, o canto lírico e doce 
dos pássaros e uma infinidade de belezas naturais, inclusive a 
beleza do ser humano. Tudo isso constitui a biodiversidade do 
planeta Terra. Tudo é muito sagrado; é preciso fazer essa leitura 
para que se possa construir o autorrespeito e o respeito ao outro. 
Esse é o caminho para a construção de um mundo ético, um 
mundo de paz. 
E é com a mulher que o homem aprende. É com a mãe-terra, 
é com o ventre vulcânico revolucionário, guerreiro, combativo 
que trará a transformação do ser humano contra a exploração do 
homem pelo homem e, por conseguinte, a transformação dos 
sistemas políticos, sociais e econômicos. Assim, homens e 
mulheres, democraticamente, poderão estar no topo do mundo, 
e as relações de gênero no planeta Terra serão mais socializadas e 
sem temores, e o amor será mais puro, natural, respeitoso, 
amigável, construtivo, definido. Nunca, em tempo algum, desde a 
criação do mundo, com o estabelecimento do primeiro ser 
pensante, que evoluiu do macaco para o homem, as relações de 
gênero, raça, classe, castas, as relações sociopolítico-econômicas 
foram democráticas, porque o inimigo interno do inconsciente 
humano (a força negativa contra a natureza) sempre venceu na 
batalha do superior contra o inferior. 
A revolução – a transformação, repetindo – começa dentro de 
casa, dentro da mente, dentro dos corações. Mulheres indígenas, 
criem suas organizações sob seus tetos sagrados e deixem os 
homens de suas famílias aprenderem com as guerreiras que vivem 
em nós. E os amemos por toda a eternidade, porque o amor é a 
melhor virtude que o Criador inseriu na Terra. O amor é sublime, 
feliz de quem o sente e consegue amar a humanidade. Quem 
ama verdadeiramente a si mesmo ama o seu(sua) companheiro(a) 
e, consequentemente, ama a humanidade, porque, quando se 
ama, a pessoa se conecta comem inglês, já 
que essa é minha área de inserção na Universidade Federal da 
Paraíba, onde venho atuando há dezesseis anos junto ao 
Departamento de Letras Estrangeiras Modernas. Concluo que fiz 
um caminho talvez inverso – primeiro li escritoras indígenas 
norte-americanas, bem como teorias e críticas produzidas 
naquele contexto, para só depois me aproximar das literaturas 
nativas produzidas no Brasil. Assim, insisto em me inscrever nesse 
terreno crítico de forma comparativa, dialógica, em tradução, 
com um pé cá e outro acolá. 
 
Após encerrar meu doutorado e já trabalhando na UFPB, João 
Pessoa, participei do comitê organizador do I Seminário 
Internacional Mulher e Literatura, vinculado à ANPOLL, 
ocorrido em 2003. Havia conhecido Eliane Potiguara em um 
Seminário Fazendo Gênero em Florianópolis, quando fizemos 
parte de uma Mesa Redonda sobre estudos indígenas, em 2002. 
Quando começamos a organizar o seminário de 2003 em João 
Pessoa, imediatamente pensei em seu nome para uma das Mesas 
Redondas do Seminário Internacional Mulher e Literatura. 
Portanto, desde “o começo desse século” temos trocado algumas 
figuras, informações e contatos eventuais. 
A meu ver, considerando o público leitor brasileiro, o fato de 
ter contato com vozes que lamentam, que problematizam as 
perdas e traumas vivenciados pela experiência de ter tido 
territórios e culturas invadidas, me parece ser a melhor forma de 
se promover a literatura indígena, conscientizando nossos alunos 
e leitores quanto a cosmovisões que praticamente desconhecem. 
Analisar a relação entre o trauma individual – vivenciado por um 
sujeito nativo via atropelo físico ou verbal – e o trauma histórico 
coletivo – que se manifesta como desafio às construções 
simbólicas de todo um povo através da leitura de textos, tanto 
teórico-críticos quanto literários, é a proposta que entendo como 
mais produtiva para a área na contemporaneidade. 
Como venho lendo literatura indígena de forma comparativa, 
acredito que aproximar Rita Joe de Eliane Potiguara, a fim de 
mostrar como seus lugares de fala se assemelham, é algo 
interessante e bastante produtivo. Por exemplo, em um de seus 
poemas, intitulado “I lost my talk” (“Perdi minha fala”), 
publicado em 1989, reconhecemos em Joe uma denúncia que 
também se verifica em Potiguara. Nos dois primeiros versos do 
poema – “I lost my talk / the talk you took away” – podemos 
perceber que há uma clara tensão entre as figuras do eu-lírico, de 
quem algo foi tomado, e a pessoa a quem ele se dirige, o 
colonizador ("you"), responsabilizando-o por ter-lhe tirado, entre 
outras coisas, a “fala”. A fala aqui foi utilizada para se referir não 
apenas à língua, à tradição oral e à cultura indígena em geral, mas 
também, à capacidade de manifestar ideias, enfim, a voz ativa 
dos povos nativos sobre decisões que dizem respeito a suas 
próprias vidas. 
 
Nesse sentido, vale destacar que ecos da temática utilizada 
por Rita Joe marcam presença também no território nacional. (...) 
Potiguara relata sobre o deslocamento imposto no início do 
século XX ao seu grupo familiar, por razões políticas, praticamente 
uma expulsão vivenciada. Em seu poema “A denúncia”, que 
compõe o livro Metade Cara, metade máscara, (POTIGUARA, 
2004, p. 73) a temática dialoga com o poema de Joe mencionado 
acima. Em Potiguara há um chamamento pela voz da mulher mais 
uma vez. Através de uma proposição de temas do cotidiano – 
sobre a trouxa de roupa, o duplo sentido das barras sujas, sobre 
calos e labutas – esse cotidiano pede reação, uma reapropriação 
do lugar da fala. Não é a mulher indígena quem engana, algo 
largamente divulgado pela voz colonial, apresentando essa 
repetidamente como squaw, traidora, prostituída. A voz poética 
confirma ter sido, sim, enganada ao deixar de acreditar em sua 
voz, no poder de suas palavras, em seu poder de fala, de criação 
(pela fala) de um mundo que ainda possa fazer sentido. O poema 
diz que “o que te fez calar não é o mesmo que te faz viver”. Há 
outras razões de vida que a força que planejou a dominação 
cultural no continente americano não consegue compreender. 
Como um armamento, as crenças, as forças vitais arrancam essa 
mulher da posição silenciada, de invisibilidade, de debilidade. E a 
partir daí inúmeras são as surpresas no que diz respeito às 
semelhanças entre as Américas e o poderio da força de um 
feminino relido. 
Acredito que Eliane Potiguara faz isso através da poesia que 
cria, ou seja, busca res-significar as histórias do seu povo, 
confirmando que o desconhecido sempre carrega surpresas, 
como diz o eu lírico no último verso de seu poema: “Quem diria 
que tu sabias falar!”. Revalorizar o lugar de fala, o foco, a 
perspectiva desses povos nativos é surpreender leitores e leitoras 
em geral quanto às possibilidades de se pensar a 
contemporaneidade. Que venham outras edições de seus livros, 
Eliane! 
Liane Schneider 
(Universidade Federal da Paraíba/DLEM/PPGL – NPq/PQ2) 
João Pessoa, 13 de junho de 2018. 
 
 
 
 
 
 
A literatura indígena brasileira contemporânea comporta uma 
multiplicidade de autores e de vozes, de temas, de resistência e, 
sobretudo, de uma autoexpressão criativa irrigada e orientada pela 
ancestralidade, pelas tradições indígenas. Nesse sentido, a autoria 
individual de Eliane Potiguara, na obra Metade cara, metade 
máscara (Global, 2004), não poderia apresentar-se a partir de uma 
enunciação unívoca e individualista, posto que adveniente de uma 
ação/história/pertença coletiva valoriza a comunidade, ao mesmo 
tempo em que reconhece o sujeito de autoria feminina enquanto 
protagonista nesse projeto literário. 
O projeto literário parte de modo consciente da vida pessoal e 
também coletiva de Eliane Potiguara. Pessoal porque é desde sua 
bisavó, Maria da Luz, e de sua vó, Maria de Lourdes que a família 
da autora se encontrará em trânsito migratório da Paraíba ao Rio de 
Janeiro. E é coletiva posto que é no movimento de resgate das 
tradições ancestrais e também das raízes da família que Eliane 
empreende uma luta em favor das mulheres indígenas do Brasil. 
Marias, mulheres, indígenas que experienciaram as mazelas da 
sociedade paraibense e carioca, mas que, no entanto, souberam 
manter vivas as tradições ancestrais, a cosmologia e a herança 
espiritual. 
Assim, a identidade literária de Eliane denota e conota 
ancestralidade e resistência política. Isto é, ao mesmo tempo em 
que enuncia a trajetória de sua vida desde a infância até a 
militância engajada, as narrativas que fazem parte do arcabouço 
tradicional do povo Potyguara, e, isso, não se pode inventar, 
ressignifica de modo criativo na poesia, cunhando personagens – 
Jurupiranga e Cunhataí – capazes de representar a situação de 
 
diáspora, exílio, escravização indígenas por um lado, e de 
resistência, redenção e esperança indígenas por outro. Os poemas, 
apesar de apresentarem a saga de Jurupiranga e Cunhataí, que 
podem ser facilmente compreendidos como a metonímia para o 
povo indígena no país, enunciam temas que evocam a uma 
reflexão para os povos originários em situação de exílio físico e 
epistemológico 
A voz em tom de resistência, nos versos do poema Identidade 
Indígena, enuncia poeticamente às futuras gerações que nascerão 
guerreiros capazes de lutar contra a marginalização e a pobreza, 
contra os registros históricos que silenciam ou descaracterizam os 
sujeitos indígenas; em favor da demarcação de suas terras, da 
valorização das florestas e da possibilidade de serem reconhecidos, 
não de modo pretenso pela sociedade, mas como sujeitos dignos 
em sua cultura, memória e tradição. 
O poema Identidade Indígena foi escrito em 1975, apesar de ser 
um poema atemporal, prenuncia um conjunto de guerreiros 
resistentes, orgulhosos de sua etnia, de seu povo, de sua 
ancestralidade, lutando por pautas políticas e culturais em favor de 
si e dos povos indígenas do Brasil. À luz da valorização da 
diferença, dos direitos das minorias, percebemos que a obra 
Metadeo mais sagrado plano e esferas do 
poder da criação, o espaço divino. Quando se ama, se atinge a 
Deus. Deus é amor e os seres humanos são consequentemente 
“Deus em ação”. Seres humanos amantes, amados são Deuses. 
É assim também a dança e, quando se dança se atinge o mais 
alto grau da espiritualidade, por isso escrevi, com o apoio de 
algumas pessoas da Funai/Paraíba, professores e algumas 
lideranças Potyguara, a cartilha de reflexão e complemento 
político à alfabetização Potyguara, que enfatiza a dança do Toré 
como o maior valor cultural e referencial do povo Potyguara. Fiz 
isso com o maior amor no coração. Deus, meus guias espirituais e 
meus ancestrais são testemunhas desse ato de amor. 
 
 
A cartilha de apoio, como um material de complementação 
política a esse tipo de educação diferenciada, surgiu por duas 
razões: a primeira, por ter ouvido o índio Potyguara Zé Augusto 
contar sobre a necessidade de preservarmos as palavras que 
permaneceram na linguagem cotidiana Potyguara. E, em segundo 
lugar, por observarmos os materiais didáticos utilizados pelas 
crianças e professores, materiais que não transmitiam, em sua 
aprendizagem, a realidade dos povos indígenas. Mostravam, sim, 
uma realidade urbana, da sociedade envolvente que sequer 
menciona traços da cultura indígena. 
A cartilha não tinha a pretensão de ser o único material de 
alfabetização: era um material de apoio e complementação, mas 
lançava as primeiras sementes da busca do inconsciente coletivo, 
busca da reflexão do que era a Educação Indígena Potyguara 
(dizíamos isso em 1992). O material versava sobre a busca da 
reflexão de que, para mantermos viva uma cultura, é preciso 
incentivá-la dentro de casa e na escola, preservando a identidade 
indígena a qualquer preço. É claro que, depois, vieram outros 
materiais de alfabetização Potyguara melhores e mais completos 
do que essa simples cartilha. Mas, na época, penso que 
influenciou mentes. 
Eu perguntava, em 1994: quem sabe uma criança Potyguara 
alfabetizada, ou até mesmo um professor, a partir dessa proposta 
inicial, vai poder perceber e definir quem são os Potyguaras no 
contexto da história do Brasil e gerar uma reflexão mais profunda 
acerca das discriminações a que esse povo esteve sujeito há 
séculos? Eu disse ali, naquela cartilha: “É preciso sorrir, é preciso 
criar quando estamos na luta pela sobrevivência e preservação 
cultural, mesmo que nos arranquem os dentes ou a língua”. 
A cartilha trabalhava em quatro níveis de mensagem/ 
informação: nível onírico/psicológico (plano dos sonhos, 
valorização dos velhos(as), valorização da mulher/mãe e sonhos 
com as mensagens dos avós). Nível cultural (tradições indígenas 
Potyguara), nível físico (remetendo sempre ao trabalho diário na 
terra, formando consciências e cidadania contra vícios impostos 
pelo colonizador e contra o alcoolismo) e, finalmente, nível 
linguístico (utilização de algumas palavras-chave de remanescência 
linguística indígena). 
Esse material didático foi apoiado por 25 professores e líderes 
Potyguaras. E muito elogiado por Marcos Clemente, Administrador 
Regional da Funai na época. O material foi financiado pela 
Unesco, apoiado pela Uerj e editado pelo Grumin. A cartilha 
estava aberta às críticas. Nunca considerei um material estático, 
muitos outros virão pela frente e mais definidos. A vida é 
dinâmica. 
 
 
Nasci com uma mancha roxa no olho direito. A sociedade me 
discriminava, principalmente os homens, que diziam que eu 
havia tomado um soco no olho ou tomado uma surra do marido e 
que eu era marcada pela polícia. Eu me sentia muito mal com 
todos esses preconceitos. 
Por ocasião da vinda de uma delegação de kaiapó e outras 
etnias ao Rio de Janeiro, organizada pelo saudoso escritor negro 
Joel Rufino, na época diretor de um museu na Gávea em parceria 
com a Fundação Palmares feita por intermédio do antropólogo 
Olímpio Serra (no final de 1980), pude compreender algo muito 
profundo e que definitivamente incorporei em minha vida. A 
mancha que tenho é uma grande folha de jenipapo, que foi 
identificada pelos Kaiapós quando eu os encontrei. Choramos 
verdadeiramente juntos, como se eu encontrasse uma família 
ancestral, e os Kaiapós me chamaram de prima, colocaram a mão 
direita em meu ombro e choraram copiosamente pelo 
reencontro. Eu, que ainda não havia entendido, busquei uma 
resposta. A resposta foi muito singular. Eles disseram que eu era 
parente deles porque trazia uma marca de jenipapo com 
significado espiritual, igual à pintura que eles fazem no corpo, me 
disse um Kaiapó completamente desprovido de preconceitos e 
intolerâncias. Tempos depois, ao me encontrar com uma 
delegação indígena no Novo México, em Albuquerque (Estados 
Unidos), fui homenageada, também sem saber a razão, por um 
xamã Potyguara e seus seguidores espirituais. O xamã Potyguara 
me disse, em 1979, que o Pitiguary (o pássaro que anuncia) 
anunciava a chegada de um ser humano que possuía a seta 
direcionada para uma obrigação, um trabalho, por exemplo, e 
poderia arriscar a dizer, talvez uma pequena missão espiritual, 
com a humildade dos cães obedientes e que servem aos seus 
donos. Dizia-me o velho João Batista Faustino: “Eu já sei quando 
você vai chegar, o Pitiguary canta, Eliane já vem, Eliane já vem, 
Eliane já vem!”. Tanto era que o líder indígena potyguara Tonhô e 
sua esposa colocaram meu nome e de Taiguara em dois filhos 
seus. 
Quando a luz passa, ela não pede para ficar: ela segue seu 
caminho e ilumina mentes. Feliz daquele que pode se beneficiar 
dessa luz. Mas há momentos na vida dos seres, como na vida de 
Cunhataí, Jurupiranga e sua família indígena, protagonistas do 
poema Ato de amor entre povos, em que, ao enfrentarem os 
colonizadores, viram a morte a seu lado e, muitas vezes, quiseram 
desistir da vida. Assim disse Cunhataí, na revolta ou na 
consciência. Na alegria e na dor, na desesperança e na esperança: 
“Não tenho mais força, extinguiu, apagou... Apagou a força da 
razão e da ilusão. É... não tenho mais forças. Quero adormecer 
em uma canoa ao mar e deixar o vento me levar para o futuro. 
Não quero ser errante! 
“Quando o céu e o mar não podem se encontrar, é melhor 
parar. Eu quero calar. É como o Sol e a Lua, que nunca podem se 
encontrar. Forçar é perder as forças; forçar é sangrar a alma; 
forçar é perder a luta. É tempo de parar. Que vergonha, meus 
céus, é indigno! Tenho vergonha de meus olhos na beira-rio, 
tenho vergonha de minha própria alma, que foge de mim mesma, 
na outra margem do rio! Eu tinha paz; eu tinha voz, que saía do 
âmago da terra, mas a voz foi estrangulada e a música nunca mais 
tocou dentro de meu coração. Os cânticos de meus avós 
adormeceram dentro de mim; as lendas, eu as esqueci. As 
danças, os meus pés não quiseram mais dançá-las. E as danças 
queriam que eu as dançassem. Brigava eu, brigavam as danças. As 
pinturas corporais bailavam nos ares, querendo um corpo pousar. 
As pinturas se compartimentavam no espaço, assim como os 
espíritos das matas. Todos compartimentavam, porque não 
encontravam sua célula-mãe. As tintas de jenipapo e do urucum 
anemizavam-se sem a presença de um corpo, mesmo errante, 
para pousar. As pinturas desabrochavam e murchavam como 
flores antigas. Meu nome é Cunhataí, o nome do meu amor é 
Jurupiranga, nós somos indígenas do lugar do sol, da terra da 
mandioca, da lagoa intocável, sagrada, terra do caju amigo e das 
frutas doces. O Criador é testemunha de nossa dor. Vamos, meu 
povo, que todos se elevem para que Nosso Pai nos dê a força 
necessária e nós, fortalecidos e conscientes de quem somos, 
poderemos reconstruir nossa pátria indígena, nossa terra: nosso 
território, terra de nossos avós e futuros cidadãos. Eu sou força, eu 
sou Tupã em ação; não eu, mas todos os povos indígenas do 
Brasil hão de resgatar suas histórias a partir da consciência de 
quem somos, do que queremos e para onde iremos. Somos uma 
Nação. A nação indígena brasileira.” 
Cunhataí, que ainda não havia reencontrado seu amor,pôde 
perceber que os velhos felizes e sorridentes foram ressurgindo 
como gafanhotos, suas velhas, que também surgiram das nuvens, 
foram trazendo o alimento sagrado. Comeram, tocaram a maraca 
e dançaram por sete dias. Os filhos e netos observaram calados, 
com o coração explodindo de emoção. Os velhos pararam, 
beberam água do rio, tão límpida como as lágrimas de um bebê e 
enfim... se aproximaram dos netos e netas, abençoando-os. O 
pajé, mais sábio, abriu os olhos adormecidos, anestesiados pelo 
peso das armas de fogo. As rugas de seus olhos queriam saltitar de 
alegria. “Nós vimos nosso pajé como deve ser olhado!”, disse a 
jovem Cunhataí. As águas sagradas da lagoa ebuliram e, de lá, 
saíram as parteiras que dariam nova vida ao povo dessa mulher 
guerreira. 
Velhos e jovens, naquele território indígena, se compraziam e 
se deleitavam no AMOR. Havia uma interação benéfica do 
passado e do presente, do novo e do velho, do homem e da 
mulher, do animal e do humano, das águas e da terra, do céu e 
do mar, do branco e do preto, do dia e da noite, da vida e da 
morte... de Deus e do Inferno Social. 
 
 
 
Quando o vi co’a maraca negra 
No meio da relva verde e do rubro entardecer 
O sol batia calmo nas suas sofridas bainhas 
Era um homem amado, todo humilde, tão guerreiro! 
 
Quando o vi co’a maraca negra 
No meio do Brasil verde e o vermelho sol poente 
O vento batia mais forte às portas da América Latina: 
Era um homem da fé, simples, muito mais guerreiro! 
 
Quando o vi co’a maraca negra 
No coração deste continente 
O sol reabria no poente 
Seus fortes raios prepotentes. 
 
Era gente de todas as caras 
Era gente de todas as correntes 
Era gente comum 
Era uma gente crente! 
 
Salve a maraca negra! 
Salve a indumentária indígena 
Daquele pajé! 
Que guiava gerações 
E iluminava as mentes! 
 
 
 
Em memória de meus avós, escrito em 1975 
(Versão indígena) 
 
Nosso ancestral dizia: Temos vida longa! 
Mas caio da vida e da morte 
E range o armamento contra nós. 
Mas enquanto eu tiver o coração acesso 
Não morre a indígena em mim e 
E nem tampouco o compromisso que assumi 
Perante os mortos 
De caminhar com minha gente passo a passo 
E firme, em direção ao sol. 
Sou uma agulha que ferve no meio do palheiro 
Carrego o peso da família espoliada 
Desacreditada, humilhada 
Sem forma, sem brilho, sem fama. 
 
Mas não sou eu só 
Não somos dez, cem ou mil 
Que brilharemos no palco da História. 
Seremos milhões, unidos como cardume 
E não precisaremos mais sair pelo mundo 
Embebedados pelo sufoco do massacre 
A chorar e derramar preciosas lágrimas 
Por quem não nos tem respeito. 
A migração nos bate à porta 
As contradições nos envolvem 
As carências nos encaram 
Como se batessem na nossa cara a toda hora. 
Mas a consciência se levanta a cada murro 
E nos tornamos secos como o agreste 
Mas não perdemos o amor. 
 
Porque temos o coração pulsando 
Jorrando sangue pelos quatro cantos do universo. 
Eu viverei 200, 500 ou 700 anos 
E contarei minhas dores pra ti 
Oh! Identidade 
E entre um fato e outro 
Morderei tua cabeça 
Como quem procura a fonte da tua força 
Da tua juventude 
O poder da tua gente 
O poder do tempo que já passou 
Mas que vamos recuperar. 
E tomaremos de assalto moral 
As casas, os templos, os palácios 
E os transformaremos em aldeias do amor 
Em olhares de ternura 
Como são os teus, brilhantes, acalentante identidade 
E transformaremos os sexos indígenas 
Em órgãos produtores de lindos bebês 
guerreiros do futuro 
E não passaremos mais fome 
Fome de alma, fome de terra, fome de mata 
Fome de História 
E não nos suicidaremos 
A cada século, a cada era, a cada minuto 
E nós, indígenas de todo o planeta, 
Só sentiremos a fome natural 
E o sumo de nossa ancestralidade 
Nos alimentará para sempre 
E não existirão mais úlceras, anemias, tuberculoses 
Desnutrição 
Que irão nos arrebatar 
Porque seremos mais fortes que todas as 
células cancerígenas juntas 
 
De toda a existência humana. 
E os nossos corações? 
Nós não precisaremos catá-los 
aos pedaços mais do chão! 
E pisaremos a cada cerimônia nossa 
Mais firmes 
E os nossos neurônios serão tão poderosos 
Quanto nossas lendas indígenas 
Que nunca mais tremeremos diante das armas 
E das palavras e olhares dos que “chegaram e não foram”. 
Seremos nós, doces, puros, amantes, gente e normal! 
E te direi identidade: Eu te amo! 
E nos recusaremos a morrer, 
A sofrer a cada gesto, a cada dor física, moral e espiritual. 
Nós somos o primeiro mundo! 
 
Aí queremos viver pra lutar 
E encontro força em ti, amada identidade! 
Encontro sangue novo pra suportar esse fardo 
Nojento, arrogante, cruel... 
E enquanto somos dóceis, meigos 
Somos petulantes e prepotentes 
Diante do poder mundial 
Diante do aparato bélico 
Diante das bombas nucleares. 
 
Nós, povos indígenas, 
Queremos brilhar no cenário da História 
Resgatar nossa memória 
E ver os frutos de nosso país, sendo divididos 
Radicalmente 
Entre milhares de aldeados e “desplazados” 
Como nós. 
 
 
 
- 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Desde o passado até os dias atuais, o território e a cultura 
indígenas têm sido as linhas mestras de determinação para a 
sustentação de um povo. Quando dizemos “território”, não 
estamos simplificando o termo para algo simples e final; estamos 
expandindo o termo para algo mais digno no que se refere aos 
direitos dos povos indígenas. Um território não é apenas um 
pedaço ou uma vastidão de terras. Um território traz marcas de 
séculos, de culturas, de tradições. É um espaço verdadeiramente 
ético, não é apenas um espaço físico como muitos políticos 
querem impor. Território é quase sinônimo de ética e dignidade. 
Território é vida, é biodiversidade, é um conjunto de elementos 
que compõem e legitimam a existência indígena. Território é 
cosmologia que passa inclusive pela ancestralidade. 
Dentro desses parâmetros, os povos indígenas têm exaltado e 
perpetuado suas culturas contra o sistema social e político. A 
exaltação é uma forma de resgate e preservação de algo. É a 
valorização daquilo que não é valorizado como deveria ser. 
Exaltação é afirmação na poesia e na vida. 
No final da década de 1980, assisti a uma peça teatral, no 
Panamá, escrita e dirigida pelo Movimento da Juventude Indígena 
Kuna, e pude conhecer escritores como Arysteídes Turpana, 
poetas, teatrólogos, pintores, antropólogos e mulheres artesãs 
indígenas que produzem arte em tecidos chamados “mola”. 
Conheci Atêncio Lopez, assim como Marcial Arias, líderes da 
Asociación Napguana, ao exaltarem e propagarem a cultura Kuna. 
As peças de teatro, os livros de literatura indígena, as letras das 
músicas, os cânticos glorificavam as suas histórias, os seus 
conhecimentos, os atos históricos. Dentro dessa perspectiva, vi o 
movimento indígena Kuna crescer e obter conquistas baseadas 
nessa premissa. Os jovens eram os pioneiros dessa ação e eles se 
encarregavam, e se encarregam até hoje, de traçar um acordo com 
os anciãos, que, muitas vezes, rejeitam qualquer atitude que não 
esteja de acordo com as antigas tradições. A contemporaneidade 
indígena, dinâmica e consciente, unida às tradições dos avós, 
perpetua e exalta a cosmovisão Kuna. Foi por essa razão que o 
Grumin, em outra oportunidade, indicou uma mulher Potyguara 
(Wilma dos Santos − irmã do prefeito indígena Marco Santana 
−1991) para participar do Congresso Kuna. No Panamá, em outro 
contexto, pude compartilhar também experiências com a saudosa 
e guerreira Lélia Gonzáles, com Esmeralda Brown e muitas outras 
negras maravilhosas e combativas que exaltavam sua negritude e 
a utilizavam como expoente de valorização cultural. 
No México, nas sete vezes em que lá estive, assim como na 
Costa Rica, pude assistir a festas, danças e rituais que, mais uma 
vez, exaltavam a cultura indígena. Maria de Fátima Potyguara, 
primeira pajé mulher, da etnia Potyguara, ajudou a colocar, por 
intermédio do Grumin, a primeira sementinha da Casa da Mulher 
Indígena e pôdecompartilhar também dessas experiências. Essa 
sementinha não é um prédio; é uma ideia, uma essência, uma 
filosofia. Aprendemos muito com a índia Esther Camac, do povo 
Ixacaava, imigrada para a Costa Rica por problemas políticos 
também. No México, quando eu subi os primeiros degraus da 
Pirâmide do Sol, ouvi estrondosos e verdadeiros tambores 
eclodirem. Meu acompanhante, um xamã indígena de lá 
chamado Oscar Marquez Montoya, um sacerdote muito especial 
e bonito, de uma beleza infinita, de olhar cristalino e púrpuro e 
sorriso límpido dizia: “Não há tambores agora aqui, você ouve 
sons de outros tempos imemoriais”. E me rendia homenagens! Ele 
me enxergava! Isso me deu muita força em minha luta. Sabia que 
minha tribo ancestral estava comigo sempre. 
Naquela ocasião, o escritor e jornalista Genaro Bautista, índio 
mexicano que criou a organização chamada Aipin, me indicou 
para o prêmio do Pen Club da Inglaterra/Fundo Livre de 
Expressão, pelo livro que eu havia escrito em 1987, A terra é a 
mãe do índio, apoiado financeiramente pelo mesmo programa 
que apoiava Nelson Mandela, o Programa de Combate ao 
Racismo do Conselho Mundial de Igrejas de Genebra e, 
politicamente, pelo saudoso e guerreiro Betinho do Instituto 
Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e da 
Campanha contra a Fome. 
Naquela época, eu sofria muito, pois passava por uma 
perseguição política no estado da Paraíba pelo meu trabalho que 
muitos amavam e muitos odiavam e pela minha história de ter a 
consciência de “minha transcendência indígena”. A minha 
transcendência é maior que a minha ascendência. Naquela 
época, eu precisava encontrar os documentos de minha falecida 
avó, que estavam perdidos no meio de uma extensa biblioteca e 
arquivos desorganizados em minha casa, para, em seguida, 
apresentá-los ao Procurador do Estado da Paraíba Dr. Luciano 
Maia, para que fosse feito um reconhecimento de minha 
identidade indígena, exigência feita pelos poucos que me 
questionavam. Eu estava incomodando muita gente com os 
projetos e ideias do Grumin e minhas dezenas de viagens 
internacionais, além de um jornal nacional e um internacional 
que denunciavam a violação dos povos indígenas no Brasil. Eu 
comungava, respeitosamente, com os entes da natureza, 
principalmente os espíritos das águas e das luzes, que me 
ajudavam na clarividência e no meu fortalecimento e crescimento 
espiritual. 
A presença das matas, cachoeiras, rios ou mares me jogava para 
um plano transcendental que, muitas vezes, eu mesma nem 
entendia. Assim como a experiência que tive quando me 
transportei ao sagrado ao tomar a bebida mágica em um ritual 
espiritual entre os xamãs Yanomami, no qual só pude ver gente 
muito velha, com as peles bem enrugadas; eram mulheres e 
homens indígenas muito morenos. Dessa mesma forma, quando 
dançava o Toré Potyguara junto a Maria de Fátima, Djalma, 
cacique João Batista Faustino, Tonhô, entre outros, ao som das 
maracas, da flauta, dos tambores, das batidas dos pés, que 
levantavam uma poeira como se fosse uma nuvem encantada, uma 
grande força tomava minha existência e me revelava fatos, histórias, 
lembranças, imagens cuja razão eu mesma não conseguia 
entender. Eu pensava estar louca, disse isso no Tribunal de Histórias 
Não Contadas, na China, por ocasião da Conferência Internacional 
da Mulher, promovida pela ONU, em 1994. Maria de Fátima e 
Wilma muitas vezes testemunhavam meus momentos de revelação. 
Eu era uma testemunha dos tempos, mas não me dava conta! No 
meu interior e, depois, refletia tudo aquilo de novo, e realmente 
percebia que não dava mais para fugir de meu destino. 
A força lunar e o divino regiam verdadeiramente minha vida. Os 
sonhos eram canais de revelação. Por meio dos sonhos, eu podia 
escrever meus textos, minhas orações, minhas poesias e, inclusive, 
direcionar meu trabalho dentro do Grumin. Tudo o que acontecia 
comigo era realmente muito forte. Dezenas de rostos 
desconhecidos de mulheres indígenas, com peles bem coradas, 
mudas e olhares fixos em mim me chamavam como que 
ordenando: “Levanta-te!”. E, por meio dos sonhos, eu ia dando os 
primeiros passos. Um exemplo clássico desse processo foi por 
ocasião da morte de Quitéria Xukuru-Kariri, vitimada pelo descaso 
dos órgãos de saúde de Palmeira dos Índios, estado de Alagoas. Eu 
estava em Genebra, participando do Grupo de Trabalho sobre 
Povos Indígenas e fui sobressaltada em sonhos durante a noite por 
mulheres indígenas, que me revelaram a situação de Quitéria. 
Anos depois, contei o ocorrido a Maninha Xukuru-Kariri, que 
permaneceu pensativa e séria. Algumas pessoas foram testemunhas 
de meu processo; outras, jamais poderão compreender o sentido 
das coisas. Muitas podem dizer que a ilusão faz parte de meu 
universo. Só tempos depois entendi a marca de jenipapo que 
tenho no olho direito, identificada pelos Kaiapó como uma grande 
aliada espiritual, carregada pelas asas da ancestralidade. 
Desesperada e aos prantos, procurando os documentos de 
vovó, ouvi vozes, sussurros e pisadas, como se estivessem umas 
vinte pessoas adentrando o corredor que antecedia a entrada da 
casa em que eu estava, sentada ao chão junto aos meus dois 
filhos, Tajira e Samora Potiguara — na época, com 9 e 12 anos, 
respectivamente. Lembro-me bem: estávamos na época que 
antecedia a Conferência Internacional sobre Meio Ambiente, 
promovida pela ONU em 1992, na qual eu estava envolvida 
também, por intermédio do Comitê Intertribal, cujo presidente era 
Marcos Terena. Pensava eu que o som era dos ruídos de minha 
filha mais velha, Moína, na época com 16 anos aproximadamente, 
e de suas amigas barulhentas. Eu, que havia retornado da área 
Potyguara com a exigência de recolher os documentos e levá-los ao 
procurador, encontrava-me com a sensibilidade à flor da pele, 
passando por diversas crises de pressão alta e úlceras gástricas. 
Meus filhos também sofriam consequências desse processo. De 
repente, uma grande luz branca esfumaçada, de dois metros e 
meio mais ou menos, ultrapassando a altura da porta de cerca de 
um metro e meio de largura, acompanhada de ruídos de passos, 
surgiu à nossa frente. Eu olhei estática para aquele fenômeno, e 
minha filha levantou-se e foi ao encontro da grande luz. A menina 
passou por dentro dela e foi a outro cômodo. Voltou e, nas mãos, 
trazia uma pastinha vermelha. Eram os documentos de vovó, que 
estavam perdidos atrás da estante de ferro em meio à bagunça 
literária. Eu nunca iria encontrar aquela pastinha! Então, disse-me 
Tajira: “Toma, mamãe!”. Eu nem pude acreditar! A luz se foi e eu, 
ainda estupefata, perguntei a meus filhos com os olhos marejados e 
profundamente agradecida: “Vocês viram?”. Eles responderam: 
“Sim, mamãe”. Eu estava em estado de choque, contemplando o 
fato mais lindo que já vira em toda a minha vida. Nunca mais 
falamos no assunto e tive vontade de contá-lo aqui: talvez esse seja 
um dos meus maiores segredos, agora, revelado. 
Voltei para a Paraíba infinitamente feliz, achando que, com 
aquilo, eu iria resolver a situação pendente. 
Na época, quando tive de me apresentar à Polícia Federal, em 
1991/92, a saudosa tia Severina, a mulher mais velha da tribo 
Potyguara, que estava com câncer de mama extremamente 
avançado, pois escorria-lhe por entre os panos um sangue já 
aguado, dentro de sua sabedoria, soube identificar os que me 
faziam mal. Sabia de alguma coisa que eu não podia decifrar, mas 
desconfiava. 
Ela deu ordens, anteriormente, de que eu não fosse só, que os 
mais velhos, Maria de Fátima Potyguara (coordenadora do Toré e 
Xamã na época); Sr. Domingos, o ex-cacique de Jacaré de São 
Domingos; João Batista Faustino, o cacique de São Francisco; o ex-
cacique Djalma Domingues; José Augusto Potyguara e Tonha, sua 
esposa, grandes e sinceras pessoas; Sr. Severino, que já não 
caminhava tão bem, e outros fossem me acompanhar à cidade de 
João Pessoa. A primeira prefeita indígena do Brasil, Iraci Cassiano 
(Nancy), me disse que seu velho pai (“Pai Grosso”), que já não 
andavae era muito gordo, conheceu o avô de minha mãe e que os 
velhos se lembravam da história passada. Os velhos me davam 
certeza, e eu estava cada vez mais confiante. 
A guerreira Maria de Fátima não só disse à Polícia Federal, mas 
também ao procurador, que, onde eu caísse, um buraco seria 
aberto e todos se jogariam nele e, se precisasse, um caminhão de 
mulheres indígenas Potyguara iria a João Pessoa para me defender 
de qualquer dano moral. Com esse depoimento, o processo que a 
reação queria me impingir foi arquivado. Os danos morais, como a 
difamação feita nos jornais da Paraíba, a difamação local entre o 
povo indígena e o povo da cidadezinha, as intrigas e discórdias, as 
violências moral e psicológica, o abuso sexual, os enormes prejuízos 
ao trabalho do Grumin, os prejuízos pessoais e financeiros por 
conta de minha desestabilização emocional e física me fizeram 
parar por quase uma década: realmente, eu não aguentei o peso 
da dor moral e espiritual que me expôs à frente de meus próprios 
filhos, à frente de um povo que eu tentava parceirizar em uma luta 
pelos direitos humanos, à frente das organizações indígenas e 
indigenistas, feministas e outras que bem ou mal souberam dessa 
arbitrariedade. 
Logo depois, meu nome foi notificado ao lado do nome do 
jornalista Caco Barcellos, no Jornal Nacional, na TV Globo, em uma 
lista de “marcados para morrer”. Caco Barcellos havia denunciado 
a Rota 66 em São Paulo. Foi um susto avassalador e vivi um estado 
de horror, pois eu não sabia de onde partira aquela ação e quem 
era o inimigo. Ele não tinha cara, não tinha nome. Era uma força 
contrária às minhas ideias, ao meu ideal. Naquele ano, meus três 
filhos não passaram de ano na escola, também ficaram traumatizados 
e enfermos, e a “insensibilidade” não se dá conta do mal que faz ao 
semelhante. Durante muitos anos eu refleti muito. Os rios de 
lágrimas que jorravam de meu ser eram por eu ter de me retirar 
das terras de meus avós − na realidade, minha casa também −, 
minha cidadania, veia aberta de meu coração, e deixar para trás a 
irmandade que houvera conquistado e amado verdadeiramente. A 
promessa que a minoria me fez, na época, de reunir o povo para 
uma retratação, nunca aconteceu. No dia em que era para 
acontecer, uma desculpa me foi dada. O povo também precisava 
de uma satisfação e muita gente sofreu e chorou comigo, mesmo às 
escondidas. 
Quando eu saí dessas terras, chorei copiosamente; uma dor 
aguda, forte e penetrante me cortou as entranhas, a alma, a 
essência. Não era a hora histórica! A “pequena” minoria que me 
causou danos, eu já perdoei e nunca tentei processá-la, mas eu 
nunca esqueci o fato político e quero que essa história seja um 
testemunho de vida, para todo o sempre! Registro aqui como a 
colonização deixou vícios. E que, por onde passo, faço questão de 
contar a minha história, para que outras mulheres indígenas, que 
possuem famílias migrantes, desaldeadas das terras originais, 
sejam realmente ouvidas e respeitadas no futuro e que a 
xenofobia seja um segmento a ser analisado. Espero que o 
governo faça um estudo sociopolítico sobre a situação desse 
grande contingente de indígenas desaldeados, ressurgidos, 
migrantes. Isso constituiria um passo para uma ação afirmativa 
para o reconhecimento da cidadania desse contingente, assim 
como a população negra necessita de ações afirmativas que 
devolvam a sua dignidade, perdida no processo de dor, 
personificada na atual miséria, no desemprego e na fome em que 
vive pelo extenso território brasileiro. É o que reivindicava na 
África, por ocasião da Conferência Internacional da ONU contra 
o Racismo, na qual exigia a restauração. 
Tive de parar a minha luta, o meu trabalho, a minha missão. 
Eu fiquei enferma em todos os níveis. Nove anos depois, os 
médicos retiraram nódulos de minha garganta estrangulada pelo 
silêncio sufocado. O Jornal do Grumin incomodou muita gente, os 
projetos que desenvolvemos dentro da área indígena também 
incomodaram, as feiras de artesanatos, a sementinha da Casa da 
Mulher Indígena e outros tantos também incomodaram. Mas 
muita gente Potyguara assumiu esse sobrenome para carregá-lo à 
posteridade, como muito bem perguntou o procurador Dr. 
Luciano Maia a Maria de Fátima: “Quem mandou você se chamar 
Maria de Fátima Potyguara?”. Ela respondeu: “Foi Eliane 
Potiguara”. Isso porque eu havia aprendido primeiro com minha 
própria avó desde a infância, e, depois, com Ailton Krenak, 
Marcos Terena, Paulo Bororo, Lino Miranha, Mário Juruna, 
Manoel Moura Tukano, Álvaro Tukano, Chiquinha Pareci, 
Megaron Txukahamãe, Dona Marta Kaiwoá, Daniel Mantenho 
Cabixi, Quitéria Pankararu, Quitéria Xukuru-Kariri, Andila Inácio 
Kaigang e muitos e muitos outros que começaram o Movimento 
Indígena Brasileiro, alguns se prejudicando pela intolerância e 
cooptação institucional, religiosa ou política. Quando eu escrevi 
Ato de amor entre povos, em 1978, dedicado aos povos indígenas 
da América Latina e ao poeta de todos os tempos, Pablo Neruda, 
chileno, senti nos ares a inspiração das cartas que escrevia ditadas 
por minha avó indígena, quando eu tinha 7 anos. Foi assim que, 
pela primeira vez, assinei meu nome de escritora Eliane Potiguara 
e me tornei uma pequena escritora, com apenas 7 anos, 
influenciada e inspirada por minha avó, a mulher dos peitos 
grandes e da nudez acolhedora: uma indígena paraibana. 
A glorificação da etnia indígena, associada ao nome de 
batismo, foi um caminho encontrado pelo nascer do movimento 
indígena como uma forma de exaltação à identidade indígena, 
uma forma de resgate cultural e de resistência indígena. Eu estava 
resistindo, no meu entender! 
No Novo México, por ocasião do 49º Congresso dos Índios 
Norte-Americanos (1990), pude narrar para 1.500 indígenas 
vestidos com seus trajes típicos, mesclados de milhares de penas 
de águia, a comungar e exaltar sua cultura. Por horas e horas 
dançaram as músicas e os tambores dos séculos! Senti o espaço se 
compartimentar, transformando-se em fagulhas do tempo, 
pequenas gotas aéreas coloridas que me enfeitiçaram e me 
colocaram em contato com os ancestrais. Naquela ocasião, fui 
entregar a eles um dossiê da situação indígena brasileira e, pela 
primeira vez, uma moção foi enviada à ONU sobre o extermínio 
dos povos indígenas do Brasil. Em São Francisco (Estados Unidos) 
conheci índios e índias desaldeados, urbanos, sofridos, calejados 
por tanta discriminação, entregues ao alcoolismo, às drogas e ao 
desemprego. O Movimento Intertribal e a South and Meso American 
Indian Rights Center (SAIIC) lutavam desesperadamente para 
conseguir fundos e sustentar a organização que acolhia literalmente 
aqueles indígenas, com sopas, agasalhos, víveres e hospedagens. 
Mesmo assim, havia um orgulho entre eles. O International Indian 
Treaty Council (IITC), por intermédio do líder indígena e ex-
combatente da guerra do Vietnã Antônio Gonzales, alfinetava 
constantemente os Estados Unidos em defesa do que já haviam 
conseguido em termos de tratados ao longo dos últimos séculos 
com o governo e com a constituição de novos acordos que 
dignificassem os indígenas daquele país. Além disso, havia sua 
luta no cenário internacional como a primeira organização 
indígena a conseguir abrir espaço dentro da ONU, resultando 
hoje no Fórum Permanente para Povos Indígenas. A Sra. Érika 
Daes (grega), o Sr. Afonso Martinez (cubano) e os suíços Sr. Julien 
Burgen e Sra. Pierret foram pessoas muito sensíveis que conheci 
no desenvolvimento seus trabalhos e opiniões dentro da 
Comissão dos Direitos Humanos das Nações Unidas, sem 
desmerecer o trabalho de outro(as). 
No Canadá, nas duas vezes em que lá estive, pude admirar a 
construção da Nova Constituinte, coordenada pela organização 
chamada Primeiras Nações, por meio do líder Ovide Mercredi, 
que publicamente confessou que batia na sua esposa e que 
aprendeu muito com a luta indígena a resgatar e exaltar o 
território e a cultura indígenas. E que, a partir disso, pôde 
compreender que a violênciaque fazia à sua esposa era fruto da 
colonização. Naquela época, o movimento de mulheres indígenas 
crescia no plano internacional. A luta de Mercredi também se 
debruçou sobre o problema do alcoolismo, cujo índice era 
altíssimo entre jovens e velhos. O resgate da pesca foi o primeiro 
passo, acompanhado por uma luta pela mudança da Constituinte, 
conseguida anos depois. Percebi também a valorização das artes 
indígenas, como a literatura, o artesanato, o teatro, a pintura, a 
arquitetura, a música etc. O pensador brasileiro Marcos Terena, 
primeiro índio piloto, um dos criadores da União das Nações 
Indígenas (UNI) e articulador dos povos indígenas na ONU, lá 
estava também a compartilhar essas lutas e testemunhá-las, além 
do Prof. Eduardo Portela (Unesco), que se sensibilizou com meu 
texto lido em plenário, o Oração pela libertação dos povos 
indígenas. 
Na Bolívia, acompanhada pelo Programa de Combate ao 
Racismo do Conselho Mundial de Igrejas, fui parceira da 
inesquecível Jean Sindab e do Bispo Eugênio Poma e pude 
testemunhar, em várias cidades, a luta e a determinação dos 
indígenas e campesinos, além das greves das mulheres por seus 
maridos presos. Tive a honra de discursar em um palanque para 
mais de 2 mil Kechuas e Aymaras nas cidadelas interioranas. 
Compartilhava comigo o índio Jorge Terena, o primeiro índio a 
falar inglês no Brasil. 
Na Amazônia Peruana, em 1997, ao lado do Movimento de 
Mulheres Indígenas, que lutava pelos direitos reprodutivos, pude 
presenciar a dor que cada uma sentia na construção de sua etnia, 
identidade e família. Ali, eu ouvia Nina Pacari, primeira mulher 
indígena a ocupar espaço parlamentar como deputada no 
Congresso equatoriano. Em Cuba, onde fui fazer um curso sobre 
elaboração de projetos, ideias e estratégias, conheci Blanca 
Chancoso, a primeira indígena a criar o movimento de mulheres 
do Equador, levantar a bandeira dos direitos reprodutivos e 
ocupar um cargo dentro dos organismos da ONU. Hoje, o Enlace 
Continental de Mujeres Indígenas é uma realidade. Em Cuba, em 
1988, me aproximei da negra brasileira Sueli Carneiro e da 
feminista Schuma Schumaher (uma das organizadoras do 
dicionário Mulheres do Brasil ) e pude ouvi-las. Éramos ouvintes 
de Fidel Castro em um discurso de quatro horas seguido de um 
enorme jantar. 
Em Trinidad e Tobago, junto às mulheres negras e indígenas, 
coordenadas pela Rede Sister (Conselho Mundial de Igrejas) por 
intermédio da brasileira Marilia Schüller, aprendi o verdadeiro 
sentido de solidariedade e companheirismo; vivenciei junto ao 
grupo de mulheres de lá o sentimento de construir uma pátria 
sem discriminação e sem racismo. Compartilhava comigo a 
primeira mulher indígena a defender uma tese sobre Educação 
Indígena, a Professora Darlene Taukane, da nação indígena 
Bakairi, irmã também da primeira mulher a assumir a chefia do 
Posto Indígena da referida nação, a indígena Doroty Mayron, que 
foi uma das dez mulheres do ano do Conselho de Mulheres do 
Brasil − prêmio que me fora dado também anos antes, em 1988, 
por trabalhar pelo desenvolvimento das mulheres indígenas no 
país. 
Em 1995, viajei por diversas cidadezinhas no interior da Índia, 
durante um longo e exaustivo mês, em uma delegação de negros e 
indígenas indicada pelo Reverendo Metodista Antônio Olímpio de 
Santana, que me levou a discursar na Serra da Barriga/Quilombo dos 
Palmares ao lado de Ailton Krenak, em Alagoas (1986/87). 
Na Índia, vivenciei o verdadeiro valor do significado de cada 
olhar de uma mulher, uma criança, um homem e um(a) velho(a). 
Eu via os olhos espirituais dos indianos marcados pelos traços, 
pelas tintas, pelas formas. Encontrei vários deuses ali. Eram 
deuses-pedras, eram deuses em forma de artesanatos, eram 
deuses de todas as formas. Eram deuses feitos de palhas. Eram 
centenas de religiões, eram milhares de corpos inertes, já fétidos, 
que jaziam em camas suspensas, mas valorizados pelas famílias, à 
espera da cremação. As danças locais se incumbiam de carregar o 
meu ser para os mais longínquos espaços transcendentais. Pude 
conhecer também o lado trágico do sofrimento das mulheres 
indianas de origem mulçumana, que eram apedrejadas, 
espancadas ou incendiadas caso não cumprissem seu acordo no 
casamento ou praticassem o adultério. Os homens podiam ter 
outras mulheres ou traí-las eventualmente: era a sua cultura ou 
linhas mestras de sua ideologia religiosa. Fiquei chocada. Obadias 
Batista, índio Sateré-Mawé, diretor da Coiab na época, era meu 
parceiro nessa compreensão, junto com a Reverenda Maria do 
Carmo, a Cacá, do Grupo Agar, que trabalha com mulheres 
negras da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. Naquele 
misterioso país, tomei conhecimento das pessoas mais 
discriminadas no mundo inteiro, “os intocáveis”, chamados dalits 
a mais baixa camada da sociedade indiana, a que vive nas ruas, 
sem direitos de cidadania, e sem direito a um olhar de 
misericórdia. As castas não podem tocar os dalits, por considerá-
los impuros, sujos, pobres, vis. O sistema de castas empurra os 
intocáveis para a morte prematura, pelo racismo e pela intolerância 
internos, pela falta de condições dignas de sobrevivência. Pude visitá-
los morando em uma velha e desativada estação de trem, 
desamparados, ao relento e ao frio, extremamente famintos, 
fazendo suas necessidades básicas aos olhos de todos. Na Índia, 
compreendi que, para nascermos belos e éticos, precisamos ser 
como a flor de lótus: nascer na lama, possuir as raízes no povo e 
florescer no ar puro, fortalecer colorida, bela, formosa e próspera, 
como a imagem da deusa da prosperidade indiana Nataraja. Ou 
mãe Oxum, ou Afrodite, simbologias que representam o rio, o 
amor e a prosperidade. Na Índia, pude ver o sol mais lindo de 
toda a minha vida, vermelho, redondo, enorme, cheio de 
espiritualidade. 
No Egito, observei um bairro inteiro dentro de um cemitério de 
um nobre do passado, dos tempos do faraó. As pessoas vivem ali, 
como em centenas de outros bairros, sem condições de vida, sem 
água, sem saneamento básico, em casas parecidas com as casas de 
tapume e tetos de palha e terra. Andando pelas ruas, éramos 
molestadas pelos homens muçulmanos porque não usávamos 
burca ou a cabeça coberta com lenço. 
Na China, pude perceber o quanto sofria uma mulher chinesa 
sob o efeito do império e do próprio comunismo, apesar da 
riqueza cultural e da própria exaltação de seus costumes. Aprendi 
muito nas Conferências Internacionais sobre a Mulher promovidas 
pela ONU. Um mundo de mulheres permitia-se tirar as vendas 
dos olhos. Eu via essas amarras caindo, como véus coloridos, 
transparentes, escamoteando culturas, intolerâncias, racismos que 
impunham valores que trazem sofrimentos às mulheres. Um 
mundo de mulheres crescia “ao redor do planeta”, todas davam-
se as mãos e realmente podiam “abraçar” o planeta Terra. As 
mulheres caminhavam a passos largos pela defesa de seus direitos 
humanos e para impor a sua voz. 
Na Suíça, por mais de uma década em que estive em 
Genebra, em tempos alternados, pude compartilhar experiências 
com o Grupo de Trabalho sobre Povos Indígenas, na Subcomissão 
de Direitos Humanos, que trabalhou durante vinte anos a 
Declaração Universal dos Direitos Indígenas. Em uma dessas idas 
e vindas, Marcos Santana dos Santos Potyguara, primeiro prefeito 
indígena do Brasil, por intermédio dos esforços do Grumin, 
conseguiu sua participação nesse fórum internacional, o que 
constituiu minimamente uma ínfima parcela positiva para a sua 
luta local, no estado da Paraíba, na cidade de Baía da Traição. 
Durante aquele período, também pude aprender e compartilhar 
muitas experiências ao lado da guatemalteca Rigoberta Menchu 
(primeira indígena a receber o Prêmio Nobel da Paz), que teve seus 
pais assassinados à sua frente. Ao lado de centenas de líderes 
indígenas internacionais, que trabalhavam incessantemente pelos 
direitos indígenas em seus países, pude aprender o valor de nossos 
ancestrais. Ali, compartilhei experiências com o indígenaaustraliano 
Bob Scott (diretor do Programa de Combate ao Racismo) e com o 
primeiro bispo indígena boliviano, o coordenador do Programa para 
Povos Indígenas do Conselho Mundial de Igrejas, Eugênio Poma, que 
destituiu um bispo branco da Igreja de La Paz/Bolívia. Esse era um 
programa que apoiava Nelson Mandela contra a situação de 
racismo na África. 
Participei de dezenas e dezenas de fóruns sobre Direitos 
Indígenas, na Holanda, na Bélgica, na França, na Itália, em 
Luxemburgo, na Alemanha, na Inglaterra e na África do Sul, em 
momentos diferentes, nos quais pude participar de uma luta 
árdua, apresentar denúncias e propostas para a constituição de 
instrumentos internacionais, negociações políticas e acordos de 
combate à violação dos Direitos Indígenas. Líderes indígenas 
estavam presentes, como Azelene Kaigang, do Instituto Warã e a 
feminista Concita Maia, do Mama, entre outros. Em Soweto 
(África do Sul), em 2000, meus tristes olhos aperceberam-se das 
cicatrizes deixadas pelo racismo e pelo apartheid, motivados pela 
burguesia imperialista sul-africana. Junto à delegação da Fundação 
Palmares do Ministério da Cultura, durante a gestão da arquiteta e 
socióloga negra Dra. Dulce Pereira, andamos por Soweto nas 
chamadas noites perigosas permeadas pelas “chamadas pessoas 
negras perigosas”, ainda sem direito ao transporte coletivo para as 
áreas burguesas. A circulação dessas pessoas por essas áreas só são 
requisitadas pelos patrões, que os pegam em transportes coletivos 
para trabalharem para eles e os levam de volta à origem negra. 
Em Soweto, as campanhas contra a Aids estavam por todos os 
lados; estava narrada, nos outdoors, a marca da tragédia humana. 
No Chile, pude participar e compartilhar experiências ao lado 
de lideranças indígenas não só brasileiras como de outros países. 
Ali, pude dividi-las com Sebastião Manchineri, Benedita da Silva, 
Ivanir Ribeiro, Edna Roland, Miralda do Cir, entre outros. 
No Brasil, compartilhei com os Kaiowá, a convite do Conselho 
Indigenista Missionário (Cimi) de Dourados, na década de 1980, 
assim como visitei diversos povos indígenas brasileiros, carregando 
a cartilha A terra é a mãe do índio, os jornais, os panfletos e 
manifestos do Grumin na minha bagagem política. 
Tomei conhecimento do livro A República “comunista” cristã 
dos guaranis por intermédio do meu falecido esposo, o cantor 
Taiguara, indígena Charrua do Uruguai, que, em 1977, exaltava 
esse povo e o tinha como um referencial. Mais tarde escrevi: 
 
 
O povo Guarani é um dos maiores povos indígenas do Brasil. 
Atualmente, somam cerca de 67.500 pessoas, distribuídas nos 
estados do Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São 
Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, comportadas 
nas regiões Oeste, Leste e Sul do Brasil. Os países vizinhos ao 
Brasil, como Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia, possuem 
também essa tão espiritualizada etnia indígena. Nos séculos XVII e 
XVIII, eles somavam mais de 2 milhões de indígenas, só no Brasil. 
Os indígenas Guarani de todos esses países possuem cultura 
milenar, baseada em sua ancestralidade histórica, política e 
organizativa: “ñanderekó, nanderekó, arandu” é sua visão de 
mundo, sua cosmologia, seu jeito de ser. Dotados de extrema 
espiritualidade, usufruem dela como sua autêntica religião, a qual, 
durante séculos e séculos, o sistema político por um lado, e o 
jesuítico por outro, tentaram deflagrar, apesar das boas intenções. 
O povo “combativo e guerreiro” nas suas convicções culturais 
detém conhecimentos ancestrais da mais elevada categoria, 
baseados na língua indígena, também chamada Guarani e 
preservada até os dias de hoje, após sofrer milhares de pressões 
políticas, econômicas e étnico-culturais. 
O Guarani tem como essência de vida, isto é, sua marca 
étnica, a grande prática do “caminhar”, que, na língua Guarani, é 
“guata”. O caminhar significa também evoluir e fortalecer-se 
espiritualmente. Essa prática do caminhar faz parte do movimento 
migratório dos Guarani desde o tempo da colonização. Esse 
caminhar constante é justificado pelo yv´y opa, a busca da terra 
sem males, que aqui definimos como uma terra que os permita 
viver com dignidade, sem interferências paternalistas; enfim, um 
paraíso mítico de sua ascendência. Esse caminhar cobre uma 
grande extensão, que vai do norte da Argentina (no caso do 
subgrupo Mbyá) e da Serra de Mbaracaju (no caso do subgrupo 
Xiriá ou Nhandeva) até o litoral do estado do Espírito Santo, 
passando por todos os estados já citados. 
Voltando ao passado, Sepé Tiaraju, uma das maiores 
lideranças do século XVIII, foi assassinado por um português pela 
frente e um espanhol pelas costas, simultaneamente, na batalha 
de 7 de fevereiro de 1756, em Bagé, no Rio Grande do Sul, 
Brasil. Isso depois de caminhar com seus guerreiros por dias, 
meses e anos, fazendo negociações entre os países que cobriam 
as bacias dos rios Paraguai, Paraná e Uruguai, objetivando os 
Direitos Indígenas daquele povo que estava sendo massacrado 
pela escravidão, pela imposição de uma política europeia, que já 
existia por aqui desde o século XVI, pela decadência moral, 
política e econômica de Portugal e Espanha, que impuseram o 
Tratado de Tordesilhas (1494) e o Tratado de Madri (1750). Esses 
tratados dividiam e entregavam o Brasil e toda a América Latina 
para esses dois países e só trouxeram, durante um século e meio, 
o desrespeito à cultura Guarani e à cultura indígena como um 
todo. 
De 2 milhões que eram os Guarani, hoje, somam cerca de 
67.500 pessoas. Realmente foram exterminados, mas ficaram 
filhos e filhas de líderes assassinados na atualidade, como Marçal 
Tupã-y, o pequeno Deus (líder indígena Guarani assassinado em 
25 de novembro de 1983, por defender o seu povo), que pensava 
como o chefe Maxuxi e que, como outros, criou consciência para 
as próximas gerações: “Já não podemos nós, os Guarani, calar-nos 
agora, diante dos estrangeiros [...] Eu não fico quieto não, eu 
reclamo, eu falo, eu denuncio [...] A bomba atômica é uma 
ameaça constante. Quem a programou? Quem deseja realmente 
a paz mundial? Por que os covardes ameaçam com seus aparatos 
bélicos? [...] E nós éramos... E nós somos ainda uma nação 
espoliada, explorada, esfolada” (Marçal Tupã-y, 1982, em 
discurso em reunião do movimento indígena brasileiro nas ruínas 
de São Miguel, no estado do Rio Grande do Sul, aldeamento 
indígena criado pelos jesuítas para apoiar o povo de Sepé Tiaraju, 
destruído no período da colonização). 
A partir do início do século XXI, a consciência indígena 
Guarani tem se sobrelevado e sua autoestima começou a 
despontar como a ponta de um iceberg, assim como para mais de 
400 mil indígenas que ressurgiram – como em um sonho – dos 
cantões das cidades, justamente como índios desaldeados, como 
revelou o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística 
(IBGE), em pesquisa feita em 2000. Surgirão muitos mais, neste 
século, os indiodescendentes, com caras e histórias de índios e 
índias, ignorados pela ciência que ignora certos valores, pois esse 
contingente indígena nunca mais terá vergonha nem medo de 
assumir sua identidade indígena. Não haverá de sofrer a 
discriminação social, racial e a intolerância cultural e religiosa 
sobre sua cosmovisão de vida. 
Menos de 50% das terras Guarani estão demarcadas e 
asseguradas juridicamente e muitas delas estão ameaçadas pela 
sobreposição de Unidades de Conservação Ambiental em seu 
território, projetos governamentais planejados sem passar pela 
consulta dos Guarani. 
Os Guarani, desde o passado, quando o Projeto Jesuítico, 
chamado de “República dos Guarani”, foi implantado como um 
projeto assistencial, de defesa e de desenvolvimento aos moldes 
da Igreja católica contra os colonizadores chamados de “entradas 
e bandeiras”, até hoje plantam a erva-mate. Com essa erva, se faz 
um chá tomado bem quente denominado “chimarrão” ou um 
chá bem frio denominado “tereré”, o que se tornou marca 
cultural de todo o povo nãoindígena do sul do Brasil nos dias 
atuais. 
Utilizam a agricultura de subsistência (mel do mato, palmito, 
banana, mandioca, milho e feijão) e a conservam de forma 
tradicional, assim como suas língua, religião, educação e 
organização social. Praticam com muita ênfase a medicina 
tradicional indígena e a valorização dos cânticos e dos pajés. 
Produzem e vendem artesanatos, cerâmicas, tecelagens, arcos e 
flechas para caça e pesca. 
Os Guarani do passado, junto com o padre alemão Sepp, no 
século XVII, no citado Projeto República Guarani, descobriram o 
ferro e passaram a produzir sinos para igrejas e aldeamentos, 
assim como centenas de atividades faziam parte do cotidiano 
daqueles Guarani, como a aprendizagem de línguas estrangeiras, 
matemática, astrologia, artes etc. Depois do massacre imposto 
pelo Marquês de Pombal, grande parte da população Guarani foi 
exterminada e conduzida à escravidão. Quando iam para a 
lavoura, cabisbaixos, realizavam suas tarefas com muita dor e 
muitos se suicidavam. E a melancolia surgia como uma centelha 
de esperança para um novo momento. A luta dos Guarani foi 
muito sacrificada e ardorosa, mas, hoje, esse povo canta a alegria 
de sua identidade e dignidade reconstruídas. As crianças e 
adolescentes Guarani já têm um patrimônio cultural registrado 
digitalmente, em CDs, para a posteridade. 
As orações dos Guarani, consideradas demoníacas para os 
jesuítas, eram, na realidade, o que são hoje: a verdadeira 
expressão das crenças e espiritualidade indígenas. As orações são 
dirigidas ao Sol, ao Criador, aos espíritos, aos ancestrais. A alma é 
universal, e Deus é supremo, um grande ancestral. Nas danças, 
embebedados pela erva-mate ou por uma bebida tradicional 
oriunda do kurupá, que causa uma certa excitação, divertem-se e 
entram em contato com os espíritos. O pajé, costumeiramente, 
toma a bebida para prever o futuro ou curar. Os espíritos dos 
mortos permanecem por algum tempo em suas moradas. Esses 
espíritos têm grande poder sobre os vivos. Esse povo desconhece 
castigos, punições ou coerções às crianças ou ao seu semelhante. 
 
 
Segundo o Dr. Bevilaqua, no Congresso de História Nacional 
(1915), os Guarani, antes da colonização estrangeira, possuíam 
organização política definida. Se havia defeitos ou vícios, esses 
deviam-se ao fato de o domínio Guarani ser extenso demais − e 
também é necessário relevar as diferenças climáticas, os meios 
distintos, as diferentes necessidades de cada grupo. 
Aos Guarani não cabe o termo “clãs”, e sim nações, pátrias, 
como é o conceito atual do Movimento Indígena Internacional, 
termo esse designado por “povos indígenas”, conquistado nas 
lutas em várias instâncias para que fosse efetivamente substituído 
na Declaração Universal dos Direitos Indígenas. Essa declaração 
foi trabalhada durante vinte anos, pelos próprios povos indígenas, 
ao lado dos governos, no Grupo de Trabalho sobre Povos 
Indígenas, na Subcomissão contra a Discriminação e Proteção de 
Minorias, na Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, 
de 1981 até 2001, culminando na vitória da constituição de um 
Fórum Permanente para Povos Indígenas, ocupado por indígenas 
dentro do sistema da ONU. 
O passado Guarani significava total liberdade de ação e 
pensamentos. Eram independentes e autônomos. A liberdade 
individual de cada um era por demais respeitada e aqueles que 
não estavam satisfeitos com a sua organização tinham a total 
liberdade de migrar. Reinavam o interesse comum e a igualdade 
absoluta dos direitos. Desconheciam a disciplina convencional. 
Existiam o diálogo e o respeito mútuo e tinham uma forma de 
falar direta, sem rodeios. Não havia poder central, pois a 
independência era individual. Caciques, líderes, anciãos não 
eram posições que denotavam poder. Esses elementos formavam, 
sim, um conselho, que discutia as questões sociais e políticas e 
deliberava, junto, em uníssono, a resolução de um determinado 
assunto. Dava títulos às leis de organização: “tekomonãngava”, 
literalmente, significa “o que faz a vida”. 
Lamentavelmente, os livros do passado e do presente não 
registram as formas de vida do povo Guarani. Temos muitos 
conceitos determinados pelos antropólogos, estudiosos da 
questão, dos padres, mas conceitos registrados pelos próprios 
Guarani têm sido difíceis de encontrar. Com exceção de Ignacio 
Alberto Pane, um dos primeiros antropólogos indígenas e Guarani 
que escreveu sobre a mulher indígena, verdadeiramente 
colocando-a em um patamar muito digno, no qual o matriarcado 
predominava. Esse estudioso, autêntico sociólogo Guarani, 
pesquisou durante vinte anos a cultura de seu povo e criticou 
veementemente a maioria dos estudos feitos pelos cientistas que 
se dedicaram ao estudo desse povo. Pane acreditava que os 
antropólogos distanciavam-se demais da realidade Guarani, por 
não poderem, na prática, internalizar a identidade indígena. Só 
um índio Guarani ou uma outra pessoa indígena detém esse 
conhecimento tradicional, até ancestral, por ter uma visão 
cosmológica real oriunda de suas próprias história, tradições e 
cultura. 
 
 
Exaltação é o mesmo que render homenagens. Quando 
exaltamos, não só percebemos a essência das coisas, mas 
respeitamos, reverenciamos o alvo amado. As culturas milenares, 
como no interior dos países asiáticos, valorizam muito as histórias 
de vida e preservam valores incomensuráveis. 
A sociedade moderna, tecnológica e ocidental, exalta o corpo 
físico, valoriza o dinheiro e a juventude. Os idosos não mais têm 
vez. 
Cunhataí, ao contemplar sua terra, apercebe-se de sua cultura 
e espiritualidade, após todo o sofrimento que teve pela destruição 
de seu povo, que permaneceu anestesiado, cego e infeliz pela 
devastação causada pelos colonizadores, vislumbra um momento 
novo em sua história. Após a volta dos ancestrais, dos velhos, das 
velhas, da comunhão dos novos com os velhos, reacendida pela 
compreensão de que só a valorização dos ancestrais e das 
tradições trará a perpetuação da cultura; Cunhataí compreende 
que a exaltação à natureza e à cultura a remete a planos nunca 
pisados e essa exaltação lhe dá forças para sua caminhada e 
glória. Vivera séculos para a construção dessa ideologia. Seu 
amado dá sinais de vida, apesar de ainda não poder deitar-se em 
seu colo. É um prenúncio da chegada de Jurupiranga, que 
também viajara séculos. Vejamos: 
 
 
 
Bom dia sol! Nesta noite eu renasci. 
Vi brilhar a luz em mim 
Num carapinã que aos meus ouvidos 
Zumbia o futuro de um colibri. 
 
Canto teu primeiro beijo 
Nas asas de uma imensa arara 
Preparo o sagrado beiju 
Pra te fazer delirar num calor primeiro. 
 
Pouco a pouco essa coisa louca 
Vai-me tomando feito Anhangá 
És tu que me cheira 
Que me morde 
Que me beija 
Que me penetra até sangrar. 
Corre-me nas veias quentes 
O delírio que me rouba a paz 
Agonizo-me inteira! 
Enrijeço-me solteira! 
É tua boca que me suga a fonte sagaz... 
 
Aqui sob o tronco amazônico 
Grita forte – LIBERTO – atônico 
O velho ancestral 
Um bruxo das matas 
Dos rios 
Dos lagos. 
Me traz uma cana caiana 
E me diz que é pra quem ama. 
 
Me entrega um atobá 
E diz que um homem honesto 
De olhos claros – GUERREIRO 
Repousa enfeitiçado 
Porque nele começa o primeiro reinado. 
 
Ao bruxo, lhe disse o índio astuto 
Acordando dos sonos matinais: 
Que nas asas do Pitiguary 
Viajaria no âmago das matas árduas 
E traria – rápido – o bálsamo da HISTÓRIA 
E traria – ríspido – a verdade nos matagais. 
O índio – o meu rei amante – ainda sussurrando 
Levantou áspero e sumiu pelos ventos 
Nunca mais se bateu olhos nele, no entanto... 
Mas ele deixou marcado nas pedras errantes 
Um princípio de vida pros ilustres e banais: 
“Nesta noite somos todos iguais”. 
 
 
Meu coração se esquenta com tua chegada 
E nela vejo o alvorecer 
O cantar dos pássaros 
O cocoricó dos galos 
O ciscar das aves 
Como que anunciando um novo dia 
Claro 
Aberto 
Limpo. 
 
O meu sangue se acelera nas veias 
Como o correr das garças e lebresFugindo de seus assassinos famintos. 
É você que vem de longe 
Detrás dos montes, esperança trazendo 
É você que chega 
E acalma os meus mares bravios. 
 
E a tristeza me toma de vez 
Pois jamais poderei te alcançar 
Assim como sei 
Da certeza da morte. 
E fico aqui só vendo 
O mundo correr 
E você passar... 
 
Mas estou feliz com tua chegada 
Pro bem da gente 
Pra felicidade de milhões de criancinhas. 
 
 
 
Foi no berço de Ângelo Kretã 
Que aflorou como semente na terra 
A união dos negros, mestiços e brancos... 
Índios! Como num grito de guerra 
Que se erguem por um novo amanhã 
 
Sim 
Foi no Brasil de Marçal Tupã 
E de muitos Ângelos Kretãs 
Que se uniram Manoéis da Conceição 
Elisabetes Teixeiras, Krenakes e Tukanos... 
 
É Paraná de boa gente 
Que em seu seio acolheu 
Que em seu rio de decência 
Gente forte resolveu: 
– Nunca mais a violência! 
 
Paranauê! Paranauê! 
Paraná! 
Terra dos pinheirais 
Os sem-terra – nunca mais! 
 
Das cataratas – livres – do Iguaçu 
Igarapés levam água a quem tem sede 
A garapa a quem tem fome 
RAONI – Guaíras a quem tem luta 
 
Eta! Paraná... 
Rio grande em guarani 
Num lugar a reunir 
Sindicalistas, políticos e a UNI. 
Foram representantes do povo, 
Da igreja, é uma vitória!... 
Eta! Paraná... 
Que entrou pra história! 
 
Mas pra que isso acontecesse 
Santinas, Linas e Marias 
Tiveram assassinados seus maridos 
Como o operário Santo Dias. 
 
Foram muitas Aurélias 
Durantis Irmãs guerreiras 
Margaridas e Josimos 
Que também vimos partir. 
 
Trabalhadoras as mulé agora 
Enfrentam jagunço fazendeiro 
Ao pai, ao marido, ao irmão ladeiam 
Pelos sem-terra, até a morte, guerreiam!... 
 
 
O que é da vida? 
Se sofremos... 
Se choramos... 
Por que não sorrir? 
E deixar o rio de mágoas 
Que nos sufoca. 
 
Secar ao sol da esperança 
Da vontade de viver... 
Da vontade de nossa terra 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Perdemos nossas terras, a saúde, nossa comida, 
nossos rios e tantas outras coisas mais, mas uma 
coisa nós índios não perdemos, é a resistência. 
Olívio Jecupé, escritor indígena 
 
Cunhataí passou por todos os dissabores, como foi visto nos 
capítulos anteriores. E Jurupiranga? O que aconteceu a esse 
guerreiro, enquanto sua esposa sofria de outro lado? 
No passado, estava Jurupiranga em seu território distante 
trabalhando no roçado pelo alimento diário de sua família, quando o 
chefe da tribo chegou gritando ao lado de outros homens: “Os 
colonizadores estão invadindo nossas terras, levando nossas mulheres 
e crianças, matando nossos velhos e incendiando nossas casas!”. 
Mal teve tempo Jurupiranga de enfrentar o inimigo, quando 
viu tombada sua aldeia e mortos seus familiares. Os brancos 
haviam levado sua esposa, Cunhataí, e outras mulheres para a 
escravidão e para submetê-las às suas sevícias. Foi uma verdadeira 
tragédia. 
Jurupiranga e outros homens desesperados partiram à procura 
de suas mulheres. Quando chegaram ao povoado dos colonos, 
viram centenas de indígenas de outras tribos escravizados. Seus 
amigos e parentes foram capturados, mas ele, ágil como uma 
flecha, escapou pelo interior das matas. Assim começou sua 
peregrinação pelo interior do extenso território norte-centro e sul-
americano. Atravessou rios, montanhas, vales, viu centenas de 
povos tombados pela guerra, viu aldeias inteiras destruídas, viu 
povos escravizados cabisbaixos trabalhando para os jesuítas, viu 
indígenas escravizados na lavoura do algodão, do café, do milho, 
do arroz e milhares de cadáveres. Caminhando muito mais, viu 
indígenas trabalhando nas minas de Potosi, viu a colonização pelo 
estanho, pelo ouro, pela prata, pelo carvão, pela marcassita, pela 
cana-de-açúcar, pela madeira e pelo látex. Viu centenas de povos 
tombarem à baioneta dos neoamericanos, ingleses, holandeses, 
franceses, espanhóis, portugueses e dos próprios brasileiros. 
Compreendeu que os tratados feitos entre indígenas e 
governo, na realidade, mais favoreciam ao governo. Conheceu 
centenas de guerreiros. Atravessou desertos no território 
mexicano. Adentrou o Arizona. Sucumbiu. Esqueceu os sons de 
sua flauta, esqueceu os acordes de seu povo, esqueceu o ritmo 
dos tambores. Viajou presente, passado e futuro. Passou fome, 
criou calos nos pés e nas mãos, adoeceu as piores doenças dos 
invasores, adquiriu o vírus da tuberculose, do tifo, da malária, da 
escarlatina, da loucura. Enfumaçando-se nos tempos, adquiriu o 
vírus HIV, das hepatites de todos os gêneros, o vírus do medo, da 
insegurança, do desespero e da desesperança. Percebeu, também, 
os vícios mais sórdidos dos colonizadores e neocolonizadores. Viu a 
água do planeta ser contaminada e desperdiçada. Viu a 
biodiversidade da terra ser destruída pelos corruptos e dominadores. 
Nesses séculos, Jurupiranga, com sua lança, combatia os 
inimigos, tornando-se um guerreiro sem terras, andarilho e 
solitário. Mas, quando meditava, meditava e meditava, buscando 
sua força interior, o seu self selvagem, sua iluminação. Às noites, 
sonhava com sua esposa, sua família, seus filhos, suas histórias, 
seus cânticos, que não conseguia decifrar, mas percebia a 
existência de uma grande história interior e resistia como se fosse 
um rinoceronte, no meio dos ventos, pois, de onde estava, podia 
ver todas as aldeias do mundo. Jurupiranga estava no topo do 
mundo e, dessa aldeia, podia ver o quão grandiosa era a Terra e 
os próprios territórios por onde passava. Seu casco era grosso, sua 
alma de ferro, suas mãos de aço, sua voz e sua consciência eram 
de ouro e seu olhar sábio era de diamante! Só tinha um objetivo: 
persistir em sua convicção e na sua voz interior contra os 
dominadores e reencontrar seu povo, reconstruí-lo para sempre 
na paz e no amor. 
Um dia, deitado sob uma árvore e enfraquecido pelas 
dificuldades, fome, desesperança e enfermidades, mas, enalte-
cido, glorificado pela força interior, teve um sonho. Sonhou que 
estava em uma grande sala, cheia de cadeiras envernizadas e 
muitos indígenas, inclusive representantes de seu povo, vestidos 
com vestimentas alheias e estranhas a seu tempo original. Via 
vários guerreiros usarem a palavra e serem ouvidos e respeitados. 
Ouvia várias línguas indígenas e estrangeiras. Via o grupo indígena 
apresentando papéis para uns homens brancos de roupas pretas e 
cinzas. Via mesas cobertas de mapas de territórios indígenas 
definidos por eles e via negociações serem feitas objetivando a 
paz indígena. Os homens brancos, engravatados, acatavam as 
decisões indígenas, porque havia estatutos, leis, mecanismos 
internacionais, tratados, pontos na Constituição que haviam sido 
trabalhados pelos indígenas durante séculos e séculos, aquilo 
constituía uma vitória para os povos indígenas. Os brancos diziam 
que estavam reconhecendo a dívida histórica que aquele país 
tinha para com os povos tradicionais e, por isso, tinham decidido 
– politicamente – aceitar, pacificamente, as demandas que os 
povos apresentavam para o exercício dos direitos indígenas. 
Ele pôde ver as guerras pelo poder, viu tombarem os povos do 
Oriente e esses serem massacrados pelas potências mundiais. Em um 
sobressalto e num piscar de olhos, vislumbrou a universidade 
indígena lotada de jovens, futuros antropólogos, cientistas, 
historiadores, jornalistas, juristas, contadores de sua própria história. 
Viu bibliotecas inteiras recheadas de livros escritos pelos indígenas, 
viu uma qualidade de vida nunca vista em toda a sua vida. Mulheres 
indígenas eram respeitadas quando passavam nas cidadelas, ao 
fazerem suas compras, ou quando necessitavam de recursos 
médicos, educacionais ou jurídicos. Os velhos eram venerados 
por todos. Os indígenas desaldeados e descendentes (aqueles que 
quisessem) eram reconhecidos não só pelo seu próprio povo, mas 
pela sociedade e reintegrados a seu povo original por um mecanismo 
legal aprovado no que chamavam de Congresso e Senado, por 
indígenas parlamentares. Juízas indígenas conquistaram a inclusão 
dos povos indígenas em todosos segmentos da sociedade, na mídia, 
na educação, na saúde, no trabalho, na legislação da sociedade 
envolvente. Enfim, percebeu a comunhão da nova e avançada 
tecnologia utilizada por alguns indígenas com as tecnologias e 
tradições indígenas, na qual o diálogo de jovens e velhos era uma 
realidade. Naquele ano, um prêmio Nobel da Paz foi dado a uma 
indígena guatemalteca e, mais à frente, a outro indígena, um 
escritor, que o recebeu também porque havia escrito algo que 
precisava ser escrito, com a alma, uma lição para o mundo, na 
construção da paz mundial e dos direitos não só indígenas, mas os 
direitos humanos. 
Jurupiranga sonhou ainda com toda a trajetória passada e 
sofrida de sua esposa e sonhou as histórias dos velhos e velhas. 
Chorou e chorou. Sonhou com todas as lendas, todas as músicas, 
cânticos, todas as técnicas artesanais, alimentares, agroculturais, com 
todas as regras e princípios éticos, origens de vida, princípios 
espirituais e todos os sonhos imemoriais dos pajés de todos os 
tempos; a propriedade intelectual indígena, que envolvia a mais 
nobre biodiversidade da natureza. 
Jurupiranga, ao despertar do sono eterno, confuso, como se 
não soubesse onde estava, em que tempo estava, acordou com 
uma melodia na cabeça e, reunindo forças, compôs o Hino 
Nacional Indígena, acompanhado de uma orquestra de chocalhos 
e vozes de meninas indígenas e escreveu para a posteridade as 
palavras sábias de seus avós e bisavós, o poema Terra. 
Forte, renascido, encontrou forças, por meio das lembranças 
de suas histórias, de seus ancestrais e de sua cultura e pôde 
encontrar o caminho de volta de onde saíra há cinco séculos. 
Como em um sopro divino e nas asas da luz e do amor, seguiu 
firme adentrando sua aldeia – sua nação indígena – totalmente 
refeita com a força da consciência do povo. 
 
 
Quando eu vi as araras 
seus rabos azuis azul-real 
só pôde bater forte o meu coração amante 
pela minha terra verdinha. 
 
Eram araras de todos os tamanhos 
de tantos gritos 
de tantos gestos 
e bailavam pelos ares 
dando mil voltas e gracejos. 
Elas beijavam e conversavam 
como os casais românticos 
que juram amor eterno. 
Eu te vi arara querida 
VERDE – AMARELA – AZUL E BRANCA! 
Te vi voando 
solta 
livre 
pelos ares. 
Eras tu mesma minha 
terra querida! 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Aos que não puderam encontrar sua aldeia, 
mas encontraram sua essência 
 
 
 
 
Eu não tenho minha aldeia 
Minha aldeia é minha casa espiritual 
Deixada pelos meus pais e avós 
A maior herança indígena. 
Essa casa espiritual 
É onde vivo desde tenra idade 
Ela me ensinou os verdadeiros valores 
Da espiritualidade 
Do amor 
Da solidariedade 
E do verdadeiro significado 
Da tolerância. 
 
Mas eu não tenho minha aldeia 
E a sociedade intolerante me cobra 
Algo físico que não tenho 
Não porque queira 
Mas porque de minha família foi tirada 
Sem dó, nem piedade. 
 
Eu não tenho minha aldeia 
Mas tenho essa casa iluminada 
Deixada como herança 
Pelas mulheres guerreiras 
Verdadeiras mulheres indígenas 
Sem medo e que não calam sua voz. 
 
Eu não tenho minha aldeia 
Mas tenho o fogo interno 
Da ancestralidade que queima 
Que não deixa mentir 
Que mostra o caminho 
Porque a força interior 
É mais forte que a fortaleza dos preconceitos. 
 
Ah! Já tenho minha aldeia 
Minha aldeia é Meu Coração ardente 
É a casa de meus antepassados 
E do topo dela eu vejo o mundo 
Com o olhar mais solidário que nunca 
Onde eu possa jorrar 
Milhares de luzes 
Que brotarão mentes 
Despossuídas de racismo e preconceito. 
 
 
Homem que nesta fortaleza mágica 
És capaz de transformar 
Tua dor e tua coragem sólidas 
Os vícios e os princípios másculos 
Em carinhos e créditos 
Mas amantes com fé? 
 
Homem, que me dizes – Hoje – Mulher! 
És capaz de te despir 
Deste sórdido destino 
Deste código maldito 
Que te faz muito sofrer 
E que a história impõe te dar? 
 
Homem, que me fazes, porém, sorrir... 
És capaz de te impor 
Diante da crueldade maior 
Do egoísmo secular 
 
Do poder e do julgar 
 
E defender tua mulher? 
 
Homem que me fazes, então, chorar 
É possível despertar 
Tão virgens teus fortes peitos 
Rir de teus velhos conceitos 
E ver o fêmeo em ti brotar 
Acreditando em quem te quer? 
 
Homem que não me permites errar! 
És capaz de perdoar 
Sem cobrar mil sacrifícios 
Me ceder bens ou benefícios 
E lá na frente me tomar? 
 
Então, homem! 
Contigo e por ti quero criar 
E nas matas fecundar. 
Produzir nas fábricas 
Produzir nos campos 
Produzir no lar... 
Trabalhar com as mãos 
Batalhar com as mentes 
Numa célula crente. 
É aí que eu te quero gente 
E aí, eu te quero amante... 
 
Portanto, homem, 
Eu te quero forte 
Mas também te quero fraco... 
Eu te quero rindo 
Mas te quero chorando... 
Eu te vejo indo 
Mas te quero chegando... 
Suponho-te potente 
Porém também és impotente 
Parece-me prepotente 
Mas muito esforça-te humilde... 
Eu te quero homem 
Eu te quero humano 
Eu te amo hoje 
Eu te amo sempre 
Eu te quero herói 
Porém te vejo homem 
Homem até errante 
Mas da verdade urgente. 
 
Homem! 
Concebeu a mim, não de uma costela 
Mas de uma estrela, que trabalhava bela: 
Mãe, fêmea, amante secular 
Mas com seus direitos de mulher. 
 
Todos na comunidade esperavam a volta de Jurupiranga. 
Muitos séculos haviam se passado, mas, na simbologia da volta 
daquele homem, viriam vários outros homens de outros séculos 
que a mesma dor passaram. 
Cunhataí convocou uma assembleia geral para definir como 
recepcionariam os guerreiros. E ela, no seu interior de mulher, 
pensava como receberia Jurupiranga depois de tanto tempo! Filhos, 
netos, tataranetos e todos os ancestrais antes dos tataranetos 
estariam na grande festa! Havia as plumagens e tintas mais lindas 
de toda a eternidade. As estradas pululavam de alegria, 
enlouquecidas para receberem e serem pisadas pelos guerreiros. 
As árvores, os frutos, os rios, os mares, os animais silvestres, as 
chuvas, os raios solares, as flores, as cachoeiras, as lagoas, as 
noites enluaradas e estreladas cantavam e despejavam húmus, 
néctar do amor e da prosperidade para endossar e adoçar a 
chegada de Jurupiranga. As notas musicais saltitavam no ar e as 
músicas se faziam por si sós no espaço. Enfim, os cajueiros 
explodiam de risadas e soltavam belíssimos cajus amarelos e 
avermelhados pelo chão afora. 
Cunhataí preparou uma grande festa nordestina, convocou 
todas as crianças da comunidade, convocou as velhas, as tias, as 
vizinhas e os homens para ajudarem a organizar a festança. 
Convidou todas as tribos brasileiras e estrangeiras. Os imensos 
cajus foram transformados, felizes, em uma grande caldeirada de 
doce. A comida foi preparada com amor para milhares de 
pessoas. 
Mas, quando a caldeirada do doce de caju ficou pronta, a 
calda escura começou a ferver de forma tão estranha, que foi se 
multiplicando, triplicando tão rapidamente, e, em uma fração de 
segundos, inundou, como um rio, a escola onde faziam a comida. 
A escola estava impregnada dos vícios do neocolonizador. 
Cunhataí, ao ver a escola totalmente coberta com a calda do caju, 
desesperou-se. “E agora? O que vamos fazer para que os 
guerreiros não vejam essa imundície?” 
Faltava apenas uma hora para a chegada de todos... Cunhataí, 
então, convocou todas as crianças e jovens da comunidade para 
secar toda aquela calda. Era impossível secar todo o chão. As 
crianças, alegres com a tarefa e lambendo os dedos, besuntaram-
se naquela calda morna, que crescia cada vez mais, escorrendo 
como um rio e formando um grande lago. Cunhataí observava 
todo aquele fato e se perguntava por que acontecera aquilo, 
depois de tanto trabalho que tivera para recrutar as pessoas e 
estruturar seu povo? Cunhataí, naquele momento, estava seca, 
sua pele enrugara, suas mãos amoleceram, suas carnes 
desapareceram, seus olhos cobriram-se com uma película azul 
enevoada. Estava enfraquecida, porque estava em pele e osso. 
Seus ossos jaziam no fundo do mar. Não havia mais nada a fazer.Estava em estado de choque brutal! Totalmente esfacelada, 
aniquilada. Nunca mais veria seu amado! 
No entanto, alguma coisa aconteceu fora de sua razão e 
consciência. Pensando que havia voltado à escola minutos depois, 
deparou-se com uma surpresa. Sua mãe, Alzael, e sua filha, 
Monaí, coordenaram juntas as lideranças e limparam toda aquela 
lambança da calda de caju. Limparam tudo, a festa foi um 
sucesso, os amigos ficaram mais amigos, os inimigos esqueceram 
suas diferenças. 
Cunhataí, pensando que ainda faltavam poucos minutos para 
o começo da festa, se deparou com sua mãe e filha já efetuando 
outro trabalho: o de reorganizar as sobras da festa. A mãe disse a 
ela: “Foi bom você não ter vindo, Cunhataí. Você dormiu, mas 
vieram todos os chefes e guerreiros, todos foram recebidos pelas 
esposas e famílias, nós recebemos Jurupiranga. Foi feita uma 
grande homenagem a ele, e ele se emocionou muito e chorou e 
chorou e chorou. Jurupiranga agora está na casa dos homens, 
confabulando o nosso futuro e cada coisa está no seu devido 
lugar, não há nenhum problema. A alma foi lavada e as crianças e 
jovens cantam os cânticos sagrados. As crianças já podem comer a 
caldeirada de caju, tranquilas”. 
Estagnada, perplexa, espantada, Cunhataí começou a soluçar 
por não ter assistido à festa que tanto queria e organizara. 
Era a chegada de seu marido depois de séculos, mas o povo 
assistiu e o povo trabalhou para isso. Todos os povos indígenas 
compareceram à festa e muitas horas, minutos, segundos, dias se 
passaram, e Cunhataí dormira profundamente, o sono do 
descanso merecido, o sono da mulher. Ela descansara durante 
toda aquela situação de sujeira da calda do caju e da própria 
festança para receber os guerreiros. 
A mulher, ainda tonta com o sono e com os olhos marejados 
de lágrimas, pensando que havia se passado apenas alguns 
minutos, compreendeu que não era importante ela estar presente 
quando o povo está organizado, consciente. 
Por um lado, as lágrimas de Jurupiranga foram derramadas 
pelo sofrimento e pela emoção da chegada à sua terra natal e, por 
outro lado, as lágrimas de Cunhataí foram derramadas pela 
consciência de que seu povo realmente estava forte, consciente, 
tranquilo em suas convicções, era um povo ético e construtor da 
paz. Ambas as lágrimas – unidas – devolveram as carnes, as peles 
frescas e suaves de Cunhataí. Seus ossos se constituíram de novo 
e ela pôde realmente sentir suas costas livres, soltas. Havia se 
libertado de seu casco grosso e pesado, seu fardo... e, pela 
primeira vez, uma grande alegria inundou seu coração e espírito – 
a felicidade da mulher – pois todos haviam trabalhado por esse 
objetivo. 
(Texto publicado em pôster em 1982.) 
 
BOCA VERMELHA, guerreiros das cordilheiras, 
cansado... Repousava adormecido sob o orvalho. 
Abriram-lhe os olhos rubros raios solares, 
aromas silvestres, canções da mata. 
Era Cunhataí – trêmula – errante das águas, 
envolta em folhagens, flores mas sem abrigo... 
Cantou-lhe em voz alta e compassada, 
uma canção de amor... Mas sem destino: 
(porém ele nada dizia e tudo entendia) 
 
– Desperta JURUPIRANGA! 
Vem me ver que hoje acordei suada. 
Benzo com o sumo de minha rosa aberta, enamorada, 
as manhãs de delírio, completamente cansada. 
Vem, que te sonhei a noite toda: 
puro, te revelando nas águas do Orinoco, 
sorrateiro, espreitando o massacre de Potosi 
 
Vem, que te sonhei na noite pela PAZ 
e teus dedos velozes, a guarânia, tocavam 
as vitórias felizes do Império Inca. 
Teu rosto estranhava a luz que me envolvia, 
porque – recuperado – todo o estanho eu trazia. 
 
Vem, que vou me pintar com urucum. 
Vou me encher de mil colares 
pra te esperar pro ritual. 
 
Tenso está meu corpo ofegante e penso 
no teu cheiro de homem, 
no teu corpo de homem, 
que me assanha e me esquenta. 
Me senta a teu lado, 
me toca co’as mãos 
poéticas, tão grandes e musicais. 
 
Me espera na hermosa Ponta Porã 
E faz tua amante se sentir cunhã. 
 
Me roça 
Me faz a palhoça 
pra eu morar. 
 
Me afoga em teus beijos, 
teus quentes desejos 
pra que eu veja 
um pituã pra nos cantar. 
Me traz os teus cânticos 
Me grita aos ouvidos 
compõe a cantiga 
que me faz tua AMIGA... 
E te deitas em meu colo 
que eu toda me enrolo 
em teus cabelos românticos. 
 
Me aponta teus ventos brabos 
de um país roubado, 
de tanto sangue derramado, 
chamando um xaxado 
pro gozo de amar. 
Que vou bebendo 
com muita cadência 
o fogo que expele do teu olhar. 
E nesse momento teus beijos ardentes 
explodem contentes 
queimando meus lábios, 
meus tão fartos lábios 
que te fazem delirar. 
 
Ah!... Me traz teus quenachos 
Pra que eu te dê meus penachos 
Assim... Vou te levando aos Tabajaras. 
 
Lá, dormiremos ao som das araras 
testemunhando o amor, a oiticica sagrada. 
E ungiremos com óleo todas as nossas feridas. 
Então, tomaremos o mel da manhã 
pra que todos os antepassados renasçam. 
E olharemos pro céu do amanhã 
pra que nossos filhos se elevem 
e beberemos a água do carimã 
pra suportar a dor da Nação acabada. 
 
E os POTIGUARAS, comedores de camarão 
que HOJE – carentes – 
nos recomendarão a Tupã. 
E te darão o anel do guerreiro – parceiro 
E a mim? 
Me darão a honra do Nome 
A ESPERANÇA – meu homem! 
De uma pátria sem fim. 
 
Agora, chamego! 
me cheira, 
me faz um churrasco, 
me dá chimarrão, 
uma saia de chita, 
mais um chocalho bonito 
pra Zamacueca dos Andes 
pro Toré do Sertão. 
 
Reparte essa carne-de-sol, 
esse baião temperado 
que eu tô danada assim... 
de amor por esse diabo. 
Me dá açaí geladinho 
uma rede quentinha 
pra nos sonhar agarrados 
nas libertas Ilhas Galápagos. 
 
Mas Zanzo, 
zonza, 
ao som do zabumba 
ao som das zampoñas, 
sob o azul do Amazonas 
Benzendo teu coração. 
 
Mas chora teu charango latino 
tua lhama andina, 
pelos cantos da cidade, 
pelas cidades sem flor. 
Chora meu ximango sofrido 
Porque eu estou triste aqui. 
 
E juntos, num só instante, 
depois de tanto amor incessante 
perceberemos INQUIETOS aqui, 
o JURUPARIPINDÁ 
a separar a todos os loucos Amantes. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CHEUICHE, Alcy. Sepé Tiaraju: romance dos sete povos das 
missões, Age Editora, 2016. 
 
ÉSTER, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com lobos: 
mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Editora Rocco, 
1999. 
 
FANON Frantz. Os condenados da Terra. Editora Grove Press, 
1969. 
 
LUGON Clóvis. A República “comunista” cristã dos guaranis. 
Editora Paz e Terra, 1977. 
 
PANE, Ignacio Alberto. Apuntes de sociología, Instituto 
Colorado de Cultura, 1976. 
 
POTIGUARA, Eliane. A terra é a mãe do índio. Grupo Mulher-
Educação Indígena, 1989. 
 
JORNAL PORANTIM, Conselho Indigenista Missionário (Cimi). 
 
Depoimento e testemunhos dados ao Grumin, em 1985, para 
relatórios. 
 
. 
 
 
 
 
 
 
 
 
Foto presenteada por Silvia Villalva. 
 
Eliane Potiguara é escritora, poeta, professora, ativista 
indígena e contadora de histórias, poeta de ancestralidade 
potyguara, nascida em 29/9/1950, Rio de Janeiro, bisneta do 
guerreiro paraibano e potyguara Chico Solón de Souza. 
Foi nomeada na Ordem do Mérito Cultural na classe 
“Cavaleiro”, pela contribuição à cultura pelo governo brasileiro 
em 2014. Indicada em 2005 ao Projeto Internacional “Mil 
mulheres ao Prêmio Nobel da Paz”. É formada em Letras 
(Português-Literaturas) e Educação pela UFRJ, especialização e 
extensão em Educação Ambiental pela UFOP, é fundadora do 
GRUMIN / Grupo Mulher – Educação Indígena), que recebeu, em 
1996, o II Prêmio de Cidadania Internacional, pela Fundação 
Bah’ai. Hoje, o Grumin constitui-se na Rede de Comunicação 
Indígena e Grumin Edições. Foi considerada Mulher do Ano de 
1988, pelo Conselho de Mulheres do Brasil, por seu trabalho em 
prol do desenvolvimento das mulheres indígenas no Brasil. É 
autora de A terra é a mãe do índio (1989), livro premiado pelo 
Pen Club da Inglaterra. Esse texto foi traduzido para o inglês e foi 
tese de dois mestrados (Índia e Estadoscara, metade máscara integra um movimento literário 
indígena contemporâneo no país. E, nesse diapasão, pensamos ser 
Eliane Potiguara uma dessas guerreiras que, por meio da escrita, da 
publicação, do livro literário, luta em favor das causas inerentes aos 
povos indígenas no país. Pela vida que está, sobretudo, 
representada na obra e de onde inicia este projeto, e pela voz, 
criativa, metonímica e ancestral, o projeto literário de Eliane 
enfatiza a mulher indígena na beleza, na força, na sabedoria e na 
resistência aos projetos coloniais e neocoloniais, dando forma a 
uma linguagem em prosa ou poesia, em diálogo intercultural, cuja 
matriz está em sua memória e na de seu povo, e que podemos 
acessá-la tão-somente pela propriedade intelectual dessa guerreira, 
mulher, indígena, no presente. 
Julie Dorrico 
Doutoranda em Teoria da Literatura no Programa de Pós-Graduação em 
Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). 
Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal de Rondônia. 
Pesquisa literatura indígena brasileira contemporânea com ênfase em 
autobiografia indígena. 
 
 
 
Deslocar-se, involuntariamente abandonar seu território, 
(re)construir-se. Essa é uma leitura, entre possíveis outras, de Metade 
Cara, Metade Máscara. Escrito por Eliane Potiguara, o livro narra a 
mobilidade forçada de mulheres indígenas, deslocadas sem opção de 
suas comunidades e terras para guetos nas cidades, sofrendo assim 
dupla violência por sua condição de mulheres e indígenas. 
Mergulhando no tempo, a autora encontra os fios indispensáveis que 
constroem e unem os textos-poesias: a ancestralidade potiguara, a 
história familiar, o abandono da aldeia. Trata-se, portanto de “um 
livro de resgate”. 
Marcada pelos deuses e pelo êxodo, Eliane Potiguara usa a 
literatura para revelar aspectos espíritos-existenciais dolorosos que 
transcendem às suas experiências próprias, pois seu texto é 
testemunha ocular dos efeitos do colonialismo e da colonialidade 
na vida e na história dos povos originários e seus descendentes, 
especialmente das mulheres indígenas. Abordados ainda a partir 
do olhar distorcido da mídia dominante e do senso comum, eles 
habitualmente tornam-se notícias quando se transformam em um 
problema. Mascara-se a humanidade, nega-se um lugar no 
mundo, todavia esquecem que antes de serem índios, emigrantes, 
“desaldeados” são pessoas, com particulares jeitos de ser e viver, 
e devem ser tratados com dignidade. 
O desterro transforma vidas, caminhos, corporalidades, paisa-
gens. Afetadas, essas identidades in flux se desconstroem e se 
constroem a partir de deslocamentos. Eliane Potiguara, ao mesmo 
tempo, nos aproxima de sentimentos, fragilidades, emoções íntimas 
não somente suas, mas familiares, sociais. Desse modo, a autora 
encontra na narratividade de sua escrita a ferramenta necessária de 
transformação para dar visibilidade à diversidade sociocultural e 
linguística dos povos originários, instrumentalizar lutas, pleitos, 
empoderar as mulheres indígenas, tema central na trajetória e 
pensamento dessa mulher guerreira. 
Cristiane Portela
 
Singular, à frente de seu tempo, a potiguara é protagonista do 
movimento de mulheres indígenas, denunciando, em instâncias 
nacionais e internacionais, situações de vulnerabilidade, ameaças, 
violências, opressões e discriminação contra mulheres indígenas. 
Sensível e poeticamente, todos esses temas estão reunidos em 
Metade Cara, Metade Máscara. Eliane Potiguara, sua escrita é 
movimento, denúncia, militância, transformação. 
 
Ana Paula da Silva 
Doutora em Memória Social, 
Pesquisadora Associada do Programa de Estudos dos Povos Indígenas, 
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PROÍNDIO/UERJ). 
 
 
- 
 
 
Dedicado a Marina (que eu apelidei Juçara em outros textos 
meus), esposa do líder indígena Guarani Sepé Tiaraju, século XVIII. 
Ela representa o início da solidão das mulheres motivada pela 
violência e pelo racismo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Muitas famílias indígenas foram separadas pelas invasões 
estrangeiras. Invasões do passado, invasões do presente, invasões 
do futuro. No passado, as frentes de expansão econômica, as 
frentes missionárias e as frentes de atração eram as causas das 
transformações sociais das populações indígenas. Varicela, 
escarlatina, varíola, sarampo, gripe e tuberculose, em 1763, 
fizeram 7.414 vítimas! O padre Fernandez escreveu, em um de 
seus relatórios, que os portugueses e os mamelucos de São Paulo 
tinham assassinado, em 130 anos, 2 milhões de índios Guarani 
nas bacias dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai. Muitos desses 
indígenas foram, capturados, levados para São Paulo, para o Rio 
de Janeiro e até para o Nordeste brasileiro. Em 1729, a chamada 
República Guarani somava um total de 131.658 indígenas 
escravizados. Os exércitos português e espanhol, na batalha de 7 
de fevereiro de 1756, próxima a Bagé (sudoeste do Rio Grande 
do Sul), assassinaram Sepé Tiaraju e mais 10 mil Guarani. Sua 
esposa, Marina (Juçara), levaria às costas a menina recém-nascida 
que Sepé jamais veria. Era o início da solidão das mulheres, 
motivada pela violência, pelo racismo e por todas as formas de 
intolerância referentes inclusive à espiritualidade e à cultura 
indígenas. 
Durante o processo de escravidão indígena, muitos pais e famílias 
realizavam o suicídio em massa contra essa forma de opressão. 
Despencavam dos penhascos. Isso era um ato de resistência. Então, 
percebemos que muitas famílias sofreram a separação, e é a esse 
enfoque que nos reportamos. Entre as causas da separação das 
famílias estão a violência aos territórios imemoriais dos povos 
indígenas e a migração compulsória. Isso provocou insegurança 
familiar, distúrbios, medo e pânico, causando loucura, violências 
interpessoais, suicídios, alcoolismo, timidez e a baixa autoestima 
diante do mundo. Tudo isso motivado pelo racismo contra povos 
indígenas e em prol da colonização europeia. E mais: a destruição 
dos cemitérios sagrados dos povos indígenas, que representam uma 
forte referência cultural, fez com que famílias perdessem 
definitivamente o elo com seus ancestrais, causando a 
desintegração cultural e espiritual. 
 
Dando um salto cronológico na história, já na segunda década 
do século XX, a violação aos direitos humanos dos povos 
indígenas continua. E, aqui, contamos não um caso particular, 
mas um caso comum a milhares de brasileiros, migrantes 
indígenas. Conta-se que o índio X, pai das meninas Maria de 
Lourdes, Maria Isabel, Maria das Neves e Maria Soledad, por 
combater a invasão às terras tradicionais no Nordeste, foi 
assassinado cruelmente, segundo palavras de uns velhos que 
encontrei um dia. Amarraram-lhe pedras aos pés, enfiaram um 
saco em sua cabeça e o arremessaram ao fundo das águas do 
litoral paraibano. A família colonizadora inglesa Y ainda fez 
desaparecer muitos pais e avós de família. Quase 70 anos depois, 
a empresa Z foi à falência e nunca se fez justiça a esses crimes 
organizados, objetivando interesses políticos e econômicos locais. 
As filhas do índio X e toda a sua família, amedrontadas, assim 
como outras famílias, migraram para Pernambuco, nordeste do 
Brasil. Em 31 de dezembro de 1928, nascia a pequena Elza, filha 
de Maria de Lourdes, fraquinha e enferma – tanto pelas 
condições de vida de sua família quanto por sua própria mãe ter 
somente 12 anos, uma menina ainda em formação, violentada 
sexualmente pelo colonizador. Pouco tempo depois, toda a 
família migrava de novo para o Rio de Janeiro, em um navio 
subumano que trazia os nordestinos para o sul do Brasil. Sem 
conhecer ninguém e completamente empobrecida, a família 
indígena permaneceu por uns tempos nas ruas. Quando Maria de 
Lourdes, índia, mulher, analfabeta, paraibana, nordestina e já 
separada do homem que lhe fez mais dois filhos, conseguiu 
trabalho, se estabeleceu com a família em uma área de 
prostituição chamada Zona do Mangue, próxima à Estação 
Ferroviária da CentralUnidos), no tema 
ecofeminismo; de Akajutitibirô, terrado índio potiguara (1994), 
cartilha de apoio à alfabetização para adultos e crianças, financiada 
pela Unesco; e do Jornal Grumin (versões nacional e internacional). 
É membro do Comitê Intertribal fellow da Ashoka, Enlace 
Continental de mulheres Indígenas, Associação pela Paz, Cônsul de 
Poetas del Mundo e embaixadora da Paz pelo Círculo de Escritores 
da França e Suíça. Trabalhou uma década pela Declaração 
Universal dos Direitos Indígenas na ONU em Genebra. Escreveu 
vários livros, inclusive premiados nos Estados Unidos pelo Fundo 
Livre de Expressão, indicada pelo Pen Club da Inglaterra. Participou 
de diversos congressos, feiras, festivais literários e sobre direitos 
humanos dos povos indígenas no Brasil e exterior. Autora de 
diversos livros para adultos, crianças e adolescentes em vários 
gêneros literários. 
Escreveu e publicou artigos e entrevistas em centenas de 
coletâneas, livros e jornais sobre a temática dos povos indígenas e 
seus direitos ao longo de quatro décadas de militância. 
 
 
Entre em contato com Eliane Potiguara: 
E-mails: elianepotiguara@gmail.com 
 elianepotiguara@uol.com.br 
Sites: www.elianepotiguara.org.br 
 www.grumin.org.br 
Fanpage: https://www.facebook.com/elianepotiguaraescritorado Brasil, na Praça XI, propriamente à rua 
General Pedra. 
Para que Maria de Lourdes pudesse trabalhar, a debilitada Elza 
tinha de tomar contar de seus dois irmãos. Ia à escola, levando-os 
junto, um no colo e outro pela mão. Elza, no começo da 
adolescência, acabou permanecendo seis meses entrevada na 
cama por uma doença nos ossos. Mais ou menos oito anos 
depois, a jovem Elza casou-se e teve dois filhos: um menino e 
uma menina. Lamentavelmente, seu marido foi atropelado por 
um bonde na cidade e morreu, ficando órfãs as suas crianças. A 
história se repetiu na vida de Elza, tornando-se só, como sua mãe 
Maria de Lourdes, e sofrendo todas as consequências de uma 
mulher sozinha em uma sociedade em que o pátrio poder 
dominava. 
Em 1956, quando a filha de Elza já tinha 6 anos de idade, 
Maria de Lourdes, mulher indígena, analfabeta, paraibana, 
nordestina e, então, quase mão de obra escrava nas feiras 
cariocas, iniciou o processo de criação da menina, para ajudar 
Elza, que trabalhava como faxineira em uma empresa. 
A menina, então, foi criada a sete chaves, dentro de um 
quarto mal iluminado, e quase nunca saía. Quando via o Sol, 
desmaiava. As necessidades fisiológicas e os banhos eram 
realizados ali mesmo. A cozinha apertada e fora da casa era 
cenário das caçarolas expostas; os peixes e carnes-secas eram 
pendurados como se fossem roupas no varal ou expostos no 
telhado para secar, sendo constante a presença de mandioca, 
fruta-pão, inhame, banana-da-terra e frutas em geral. Quando 
conseguiam, comiam caranguejo e o caldo com farinha, fazendo 
bolinhas com a mão. Presume-se que a índia Maria de Lourdes 
mantinha a pequena menina Potiguara no quarto objetivando a 
preservação de sua identidade moral, física e psicológica, pois 
viviam em uma área socialmente comprometida. Além disso, 
havia uma colônia de estrangeiros que vieram imigrados da 
Europa, fugindo da Segunda Guerra Mundial, como carvoeiros 
italianos, bananeiros portugueses e comerciantes espanhóis. Maria 
de Lourdes era uma curandeira: não só curou pessoas estranhas 
como também dois tumores de sua neta, alojados um no olho 
outro no mamilo, com uma mistura de minhoca amassada, teia 
de aranha e visgo de jaca. Ela trocava essa composição 
diariamente, por um período de mais de quinze dias. 
Ali, naquele pequeno mundo ou, politicamente situando, 
naquele pequeno gueto indígena, a menina foi ouvindo as 
histórias indígenas de suas tias, tias-avós (aquelas quatro 
adolescentes filhas do índio X) e mãe, todas mulheres indígenas, 
migrantes de suas terras originais. Com exceção da tia Evanilda, 
todas se casaram e, tempos depois, os maridos foram embora ou 
morreram, ficando as mulheres sozinhas com os filhos para criar e 
enfrentando o racismo e a intolerância da sociedade. A menina a 
que nos referimos teve como cenário de vida essa história e 
tornou-se uma pessoa muito observadora, calada, sensível e 
espiritualizada, herança dessas mulheres indígenas que, mesmo 
fora das terras originais e violentadas pelo processo histórico, 
político e cultural, mantiveram sua cultura, seus hábitos 
tradicionais e, principalmente, seus laços com os ancestrais, a 
cosmologia e a herança espiritual. 
Quando a menina começou a ir à escola, era a sua avó que a 
levava diariamente e permanecia do lado de fora das grades, 
tomando conta, observando todas as ações da neta. A menina nunca 
podia falar com as outras crianças, não conseguia se relacionar ou 
brincar com elas, principalmente porque a estigmatizavam por ser 
indígena e por sua avó ter hábitos de uma avó diferenciada. Aquela 
avó tinha peitos grandes, caídos, barriga inchada, vendia bananas, 
tinha algum pedaço de ouro nos dentes, misturado às grandes 
falhas, como uma necessidade de elevar seu nível social que 
testemunhava a pobreza. Mas sua fala, seu sotaque e seus hábitos 
denunciavam sua condição de migrante indígena e as crianças e 
adolescentes debochavam cruelmente, em uma atitude xenófoba, 
que deixava Potiguara extremamente infeliz, sentindo-se feia, 
magra e menor, não conseguindo compreender o sentido daquilo 
tudo. 
Porém, com a cultura indígena recebida no gueto familiar, o 
amor e a dedicação que tinha aos livros, Potiguara (com i e não 
com y) foi crescendo. Sua avó, analfabeta, sempre solicitava que a 
menina, já com 7 anos, escrevesse cartas a uma determinada 
pessoa na Paraíba e sempre chorava ao receber as respostas. Por 
isso, a avó bebia demais, bebia cachaça pura, que era escondida 
atrás das panelas, sob a pia enegrecida pelo limo e pelo tempo de 
uso. Carlos Alberto, irmão da menina, às vezes, despejava a 
bebida no ralo e substituía por água, o que deixava a idosa 
Lourdes revoltada. Foi assim que Potiguara começou a escrever, 
absorta nas histórias da própria avó e no sentimento que tudo isso 
envolvia. As histórias reais de sua avó a levavam para um mundo 
mágico e literário. 
Quando a “encarcerada domiciliar” se tornou professora 
primária, “o orgulho da família pobre, indígena e desaldeada”, a 
sua consciência crítica estava borbulhando a ponto de explodir. 
Ao tomar contato com a filosofia de educação do professor Paulo 
Freire, um dos maiores educadores populares do Brasil, 
perseguido pela ditadura militar e exilado no Chile e na África, a 
menina – agora mulher – ganhou o mundo. Incentivada por sua 
avó, já falecida pelos maus-tratos da migração, e pelo cantor e 
comunista, de origem indígena Charrua, o inesquecível Taiguara, 
com o qual se unira em 1978, Potiguara fez o retorno ao 
inconsciente coletivo visitando nações indígenas e perseguindo, 
sem medir esforços, a verdadeira história de sua tão sacrificada, 
marginalizada e discriminada família migrante do nordeste 
brasileiro, uma das áreas mais pobres do país. Nas cidades de 
Santa Maria, Bagé, Santo Ângelo e cidadelas próximas à fronteira 
do Uruguai, em 1978, pôde conhecer as mulheres indígenas que 
testemunhavam em suas peles e rugas o sofrimento que causava a 
violação dos direitos dos povos indígenas. Ali começou a segunda 
etapa de seu diálogo com as mulheres indígenas. Pensava, já 
naquela época, na organização e na articulação das mulheres 
indígenas. Há quase quatro décadas! 
Visitou as terras imemoriais de sua mãe, de sua avó paraibana 
e de seus ancestrais espirituais. Ali sentiu a essência da existência 
humana, o seu cordão umbilical queimava e seus pés não 
andavam: flutuavam... Foi lá que, em 1979, conheceu um senhor 
muito velhinho e cego, o índio Potyguara, a quem chamavam de 
Sr. Marujo, com cerca de 90 anos, que narrou como se deu a 
retirada daquela família específica do local, por volta de 1927. Foi 
impactante porque eram todas mulheres, as quatro filhas do índio 
X, mais a mãe Maria da Luz. Sua avó, a menina Maria de Lourdes, 
com apenas 12 anos, já era mãe solteira, vítima de violação sexual 
praticada por colonos que trabalhavam para a família inglesa Y, 
que escravizava a população indígena no plantio do algodão. 
Com esse testemunho, a nova cidadã, agora sabedora de suas 
raízes, tinha a certeza de que estava em casa e queria resgatar e 
preservar essa cidadania. Entrou para o movimento indígena, 
arquitetou políticas de resistência, fez um trabalho de campo que 
sensibilizou muitas pessoas, mas esbarrou com as forças 
reacionária, política e econômica locais que quase a mataram, por 
querer noticiar os fatos arbitrários e por disseminar a conscientização 
dos Direitos Indígenas entre aquele povo, que, na época, sofria o 
impacto sociopolítico e ambiental do arrendamento de terras 
indígenas e suas trágicas consequências. Sofreu humilhações 
públicas, ameaças de morte, extorsões e difamações em jornais de 
renome e em jornais locais. Sofreu também abuso sexual, o que 
prejudicou sua imagem moral, afetou seu trabalho, seu lado 
psicológico e o de seus filhos. 
Para não prejudicar a imagem histórica, política e social de um 
povo, teve de se calar na época, sendo levada pela Polícia 
Federal, na frente de seus filhos, como se fora uma assassina. Tevede depor na Procuradoria do Estado, na época do governo de 
Fernando Collor, e retirar-se, constituindo, assim, um ato de 
respeito e desapego à história de seu povo, após uma ação de 
solidariedade internacional do Pen Club da Inglaterra e da 
organização internacional denominada Escritores na Prisão, que 
defendiam os Direitos Humanos em seus países. Essa ação de 
solidariedade foi indicada por Genaro Bautista, índio mexicano, 
escritor, jornalista e coordenador do Agência de Imprensa 
Indígena (Aipin). 
 
 
Analisando esses fatos que ocorreram no final do século XX, 
percebemos que a causa principal dos conflitos, dissabores, 
amarguras e solidão está lá! Lá no início do século XX, quando o 
índio X foi dado como desaparecido e sua família mutilada. E a 
violência, a intolerância e o racismo aos direitos indígenas se 
arrastaram por muitos e muitos anos e séculos, vindo a prejudicar 
dezenas de vidas e de relações interpessoais. Assim está formalizada 
a história de muitas famílias indígenas que se separaram de seu 
território tradicional e de seus parentes. Esse é um caso a ser 
estudado também e que deve se constituir em um inquérito a 
partir de estudos antropológicos baseados em histórias e 
testemunhos, para que se consiga resgatar a dignidade e a 
cidadania dessas famílias discriminadas, exploradas e escravizadas 
por milhares de processos colonizadores ao longo do território 
nacional, como é o caso também dos Povos Ressurgidos e dos 
Quilombolas. 
A história aqui narrada não é um caso incomum. A diferença é 
que, aqui, está tendo visibilidade, quando a esmagadora maioria 
de famílias indígenas violentadas, que continua em aldeias 
indígenas ou que faz parte das famílias desaldeadas ou 
desestruturadas, permaneceu calada, enferma, enlouquecida, 
isolada na sociedade envolvente. Famílias caladas pela pressão 
política, social e econômica ou por desconhecerem os seus 
direitos ou, até mesmo, por vergonha. A vergonha é o resultado 
do estigma. A paraibana Maria de Lourdes, a avó da menina, 
tinha vergonha de sua história, assim como muitos indígenas 
desaldeados das terras amazônicas. A vergonha se transforma em 
medo, medo da discriminação social e racial. 
Esse tipo de violência e racismo e a migração dos povos 
indígenas de suas áreas tradicionais merecem estudos, pois essas 
situações não têm visibilidade no país, assim com a situação das 
mulheres indígenas que sofrem abuso, assédio, violência sexual, 
que se tornam objeto de tráfico nas mãos de avarentos e 
degradados nacionais e internacionais não é divulgada. Essa é a 
causa que estamos levantando! 
Os conflitos entre povos e o poder, no mundo inteiro, têm 
causado migrações, deslocamentos (esses povos são obrigados a 
se deslocar e a fugir por diversos motivos, sejam guerras locais, 
sejam internacionais, conflitos de raça, etnia ou religião). Muitas 
consciências já se levantaram contra essa situação e, 
principalmente, contra as consequências desses deslocamentos de 
povos de seu habitat natural, constituindo-se no chamado racismo 
ambiental. Muitos organismos da Organização das Nações Unidas 
(ONU) têm tratado desse ponto com considerável atenção. E as 
mulheres e as crianças são os mais atingidos nesses casos. 
Sobre as mulheres indígenas, a violação aos seus direitos 
humanos as tem conduzido às mãos de homens corruptos que as 
seduzem por um prato de comida, por programas ou eventuais 
promessas, que confundem esse universo feminino, pois essas 
mulheres têm valores e tradições totalmente diferentes do mundo 
urbano, envolvente e masculino. Temos como exemplo o caso de 
algumas mulheres indígenas Yanomami (Roraima), que, há mais 
de uma década, são conduzidas à prostituição, ludibriadas por 
soldados ou comerciantes. 
Em 1996, um chefe indígena no Brasil Central passou por uma 
situação muito humilhante perante os parentes de seu povo. Sua 
esposa partiu com um comerciante local, estranho à sua etnia. As 
mulheres indígenas, em suas comunidades, acabam sendo 
iludidas pelo encantamento e pelas condições da sociedade 
envolvente, assim, centenas delas acabam por sair de suas casas 
para a insegurança das cidades próximas ou das grandes cidades. 
Isso constitui tráfico de mulheres, pois a maioria acaba sendo 
empregada como doméstica com mão de obra quase escrava. 
Podemos tomar como exemplo o depoimento de Deolinda Prado, 
índia Dessana (Amazonas), dado ao Grupo Mulher-Educação 
Indígena (Grumin) há quase trinta anos, quando eu estive lá, que 
motivou a criação do primeiro núcleo de apoio às empregadas 
indígenas em Manaus, a Associação de Mulheres do Alto Rio 
Negro (Amarn). 
As mulheres indígenas também vão trabalhar como operárias 
mal remuneradas ou nas grandes plantações dos latifundiários, em 
um sistema de cativeiro, trocando seu trabalho por latas de 
sardinhas e nunca conseguindo pagar sua dívida com o 
contratante. Outras vezes, vão morar com homens sem caráter 
que as transformam em objeto de cama e mesa, submetidas a 
agressões físicas e parindo dezenas de filhos, para viverem, 
miseravelmente, nas casas de palafitas na Amazônia, dentro e fora 
do Brasil, ou sobreviverem em favelas contaminadas moral, social, 
política e fisicamente. Muitas vezes, trabalham somente pelo 
prato miserável de comida ou por um pouco de farinha de 
mandioca. 
Atualmente, com o apelo da comunicação de massa, muitas 
meninas e adolescentes querem projetar-se nos louríssimos símbolos 
sexuais das grandes redes de televisão, atuais modelos de beleza 
brasileira que deixam os homens enlouquecidos e supérfluos. É o 
que acontece com centenas de mulheres indígenas que se 
dirigem aos grandes centros urbanos como Manaus, Belém, Boa 
Vista, Recife, Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e demais capitais 
do Brasil. Muita gente desatenta pode criticar, conduzindo seu 
raciocínio para um julgamento injusto e intolerante, do tipo: “Essa 
população, então, não preserva mais os seus valores, já quer o 
mundo da sociedade envolvente!”. Outra forma de escravidão de 
mulheres indígenas é a constatação da presença delas em 
prostíbulos e em zonas de meretrício, onde vendem seu corpo 
por migalhas, contraindo Aids e outras doenças sexuais. Criando 
crianças sem futuro, famintas ou portadoras do vírus HIV. 
O sistema político, que deveria garantir o direito territorial dos 
povos indígenas, a preservação cultural e sua dignidade, nada faz. 
Entra governo e sai governo e as terras indígenas não são 
priorizadas, tampouco os direitos constitucionais e imemoriais 
desses povos são considerados. Os povos, há séculos, sobrevivem 
em um clima constante de insegurança, não se sabendo se aquele 
local em que estão enterrados seus mortos será o território de 
seus filhos! 
Os instrumentos jurídicos internacionais resultantes das 
Conferências sobre o Meio Ambiente Humano1 organizadas pela 
ONU estão aí para serem aplicados pelos governos. Mas cada 
vitória da população oprimida do mundo é uma nova batalha 
para que os governos ponham em prática os direitos conseguidos. 
 
 
Jurupiranga e Cunhataí são dois personagens do texto Ato de 
amor entre povos, de minha autoria, reproduzido nas próximas 
páginas, que sobreviveram à colonização e, poeticamente, vão 
nos contar as suas dores, lutas e conquistas. Esses personagens são 
atemporais e sem locais específicos de origem. Eles simbolizam a 
família indígena e o amor, independentemente de tempo, local, 
espaço onírico ou espaço físico; eles podem mudar de nome, ir e 
voltar no tempo e no espaço. Na sequência, há outros poemas 
também de minha autoria que falam do mesmo assunto. 
 
 
1 Conferência de Estocolmo (Estocolmo, 1972); Eco 92 ou Rio 92 (Rio de 
Janeiro, 1992); Rio+10 ou Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável 
(Johanesburgo, 2002); Rio+ 20 (2012). 
 
 
Que faço com a minha cara de índia? 
 
E meus cabelos 
E minhas rugas 
E minha história 
E meus segredos? 
 
Que faço com a minha cara de índia? 
 
E meus espíritosE minha força 
E meu Tupã 
E meus círculos? 
 
Que faço com a minha cara de índia? 
 
E meu Toré 
E meu sagrado 
E meus “cabocos” 
E minha Terra? 
 
Que faço com a minha cara de índia? 
 
E meu sangue 
E minha consciência 
E minha luta 
E nossos filhos? 
 
Brasil, o que faço com a minha cara de índia? 
 
Não sou violência 
Ou estupro 
 
Eu sou história 
Eu sou cunhã 
Barriga brasileira 
Ventre sagrado 
Povo brasileiro. 
 
Ventre que gerou 
O povo brasileiro 
Hoje está só... 
A barriga da mãe fecunda 
E os cânticos que outrora cantavam 
Hoje são gritos de guerra 
Contra o massacre imundo. 
 
 
Quem diria que a gente tão guerreira 
Fosse acabar um dia assim na vida. 
 
Quem diria que viriam de longe 
E transformariam teu homem 
Em ração para as rapinas. 
 
Quem diria que sobre os escombros 
Te esconderias e emudecerias teu filho – fruto do amor. 
 
Cenário macabro te é reservado. 
Pra que lado tu corres, 
Se as metralhadoras e catanas e enganos 
Te seguem e te mutilam? 
 
É impossível que mulher guerreira 
Possa ter seu filho estrangulado 
E seu crânio esfacelado! 
 
Quem são vocês que podem violentar 
A filha da terra 
E retalhar suas entranhas? 
 
 
Parem de podar as minhas folhas e tirar a minha enxada 
Basta de afogar as minhas crenças e torar minha raiz. 
Cessem de arrancar os meus pulmões e sufocar minha razão 
Chega de matar minhas cantigas e calar a minha voz. 
Não se seca a raiz de quem tem sementes 
Espalhadas pela terra pra brotar. 
Não se apaga dos avós – rica memória 
Veia ancestral: rituais pra se lembrar 
Não se aparam largas asas 
Que o céu é liberdade 
E a fé é encontrá-la. 
Rogai por nós, meu Pai-Xamã 
Pra que o espírito ruim da mata 
Não provoque a fraqueza, a miséria e a morte. 
Rogai por nós – terra nossa mãe 
Pra que essas roupas rotas 
E esses homens maus 
Se acabem ao toque dos maracás. 
Afastai-nos das desgraças, da cachaça e da discórdia, 
Ajudai a unidade entre as nações. 
Alumiai homens, mulheres e crianças, 
Apagai entre os fortes a inveja e a ingratidão. 
Dai-nos luz, fé, a vida nas pajelanças, 
Evitai, ó Tupã, a violência e a matança. 
Num lugar sagrado junto ao igarapé. 
Nas noites de lua cheia, ó MARÇAL, chamai 
Os espíritos das rochas pra dançarmos o Toré. 
Trazei-nos nas festas da mandioca e pajés 
Uma resistência de vida 
Após bebermos nossa chicha com fé. 
Rogai por nós, ave-dos-céus 
Pra que venham onças, caititus, seriemas e capivaras 
Cingir rios Juruena, São Francisco ou Paraná. 
Cingir até os mares do Atlântico 
Porque pacíficos somos, no entanto. 
Mostrai nosso caminho feito boto 
Alumiai pro futuro nossa estrela. 
Ajudai a tocar as flautas mágicas 
Pra vos cantar uma cantiga de oferenda 
Ou dançar num ritual Iamaká. 
 
Rogai por nós, Ave-Xamã 
No Nordeste, no Sul toda manhã. 
No Amazonas, agreste ou no coração da cunhã. 
Rogai por nós, araras, pintados ou tatus, 
Vinde em nosso encontro 
Meu Deus, NHENDIRU2! 
Fazei feliz nossa mintã3 
Que de barrigas índias vão renascer. 
Dai-nos cada dia de esperança 
Porque só pedimos terra e paz 
Pra nossas pobres – essas ricas crianças. 
 
 
Tenho medo das coisas que falo 
Que mais parecem profecias 
De tudo mais que falei 
Hoje estou tão só, triste e descontente 
Perdi o meu amor 
Perdi minha razão 
Dói-me profundo 
Profundamente meu coração. 
Choro intranquila, sofro a desgraça 
Vivo o desamor na solidão 
E por onde passo 
Há só lembranças, tristes lembranças 
De uma aldeia acabada. 
Eu tenho medo das coisas que falo 
Que mais parecem profecias 
Pois de tudo, tudo que falei 
Hoje estou sofrida, amargurada 
Perdi minha essência 
Grito traída, canto a trapaça 
Sou a própria tristeza 
Transformei-me numa constante ameaça. 
Agora não rio, não sonho 
Não suporto mais nada 
Uma dor aguda me sufoca, me maltrata 
É a dor da saudade que me mata. 
 
 
2 Nhendiru: Deus 
3 Mintã: criança. 
 
No teu universo de gestos 
Teus olhos são mensagem sem palavras 
Tua boca ainda incandescente 
Me queima o rosto na partida 
E tuas mãos... 
Ah!... Não sei mais continuar esses cânticos 
Porque a mim tudo foi roubado. 
Se ainda consigo escrever alguns deles 
Só é fruto mesmo da mágoa que me toma a alma 
Da saudade que me mata 
Da tristeza que invade todo o meu universo interno 
Apesar do sorriso na face... 
 
 
Negros olhos na tarde clara 
Se espreitam emudecidos 
No derradeiro encontro 
Às vésperas de uma nova era 
Às portas de uma nova vida. 
Mãos outrora apertadas 
Vão-se agora 
Soltas 
Entristecidas 
 
Fim de tarde em corpos loucos 
Suados, cálidos, calados 
Uniram-se num amor quietinho 
Sem nenhuma lágrima ou lamento. 
O sussurro inda retumba no espaço 
E os ecos se chocam contra os ventos 
Esquentando ossos e pulmões sozinhos 
Vai-se a graúna sussurrenta 
Vai-se mais um dia. 
O outro, e mais o outro 
Vão-se todos os dias... 
Por que largar teu ninho 
Por que sucumbir teu bem? 
Essa estância amante e sonhadora 
Se despojou da energia e do calor 
Hoje está só 
Fria 
Sem amor e sem ninguém. 
Vai-se a graúna negra do meu cais 
Cantar nos campos lisos, ensolarados 
Deixa teu rastro rude pros passarinhos 
Que pelo teu cheiro e brilho 
Eu bem sei que não molestas os arrozais. 
 
Vai-se a minha graúna querida 
Enquanto resguardo paciente o meu corpo puro 
Enquanto preservo consciente, meus beijos, juro! 
Vai-se a graúna tranquila 
Que minha fonte de amor é intocável 
E descansa sobre gozos abafados 
E esconde a grande paixão ferida 
Por isso trago nos olhos vermelhos 
A saudade e as marcas 
Pra uma nova visão de VIDA. 
 
 
Não adianta fugir dessa realidade 
Quando te trazem aos braços 
Uma criança que nem dois anos completos tem. 
E tua boca que gargalhadas davam 
Ao sabor do álcool 
Se cala 
E umedece de vez 
E te desarma 
É uma criança faminta 
Doente 
Órfã de pais 
Órfã de país. 
 
Sou um cachorro raivoso e irado 
E minhas garras cortam as gargantas 
Das feras, nos portões de ferro do mundo. 
Não me venham com análises 
Porque não sou louco. 
Sou lúcido, tanta lucidez 
Que sangro e consigo engatilhar meu coração 
 
E explodo nos ares. 
Aí, cato meus pedaços E saio pelas ruas 
Avenidas, matas 
Florestas e espaço... 
Procurando a verdade. 
 
Do teu passado de cão maldito 
Pra abanar a fome cansado do grito... 
 
Do suco extraído da própria terra 
Pra embebedar o teu berro... 
 
Da mulher violada que a ti esteve junto 
Pra satisfazer desejos imundos... 
Do teu sorriso roubado 
Pra rosnar de dor, o menino calado... 
 
Da trama criada e da boca sem paz 
Pra caírem em ti feito fera voraz... 
Por destruírem tua palhoça inteira 
E te cortarem as orelhas 
Não precisam de mais nada... 
 
Já padece teu corpo na sujeira 
E te arrematam os porcos, à baioneta... 
 
Quer ser lacaio prostituído, 
Quer ser caniça bêbada 
Ou escorregar num parque 
BICHO-MARIONETE? 
Pra agradar o poder, esconder o grito 
Pra servir de história social... 
E virar herói nacional! 
 
 
Eles criticam 
Por nos encontrar nas estradas 
Alegrem-se 
Por não nos encontrar ainda nos hospícios!... 
 
 
Meu coração em tua ausência arde 
E diverge minha mente confusa. 
Naquele rio erguia meus braços 
Eu não era eu. 
Eu mesma 
Fugia de mim na outra margem... 
 
Dentro de mim essa ausência forja 
Uma mulher fatal e louca 
Desgarrada me toma essa fera e age 
E mancha a várzea verde do meu ser 
E mancha a essência branca do meu lar... 
 
A incerteza gera em mim todos os males 
E temia o medo de nadar nos rios 
E tinha medo de andar nas matas 
E ganhava medo de existir nos vales 
Eu era o próprio medo da minha viagem... 
 
Gritou meu medo de ver gente 
Tua despedida me matou de verdade 
Rugiu ainda minha voz rouca 
Fraca, anêmica, covarde... 
 
Quebrou-se um destino 
Fora de combate 
Num desvio que eu mesma repugnei: 
É a mulher de fibra que um dia imerge 
Nas falsas e corruptas personagens... 
Mágoas, lágrimas rolam dessa existência 
Num pedido de perdão, amor primeiro. 
Perdoe-me atriste sina, a violência, 
Meu medo, minha carência 
Minha sorte! 
Antes que tudo em mim se transforme em morte... 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O processo de colonização e neocolonização dos povos 
indígenas do Brasil os conduziu ao trabalho semiescravo, em um 
regime de exploração causado pela intromissão de milhares de 
segmentos, tais como madeireiros, garimpeiros, latifundiários, 
mineradoras, caminhoneiros, empresários das hidrelétricas, 
rodovias, pistas de pouso etc. 
Tal intromissão, conivente com políticas locais, com a falta de 
vontade política e com a omissão governamental, causou, nas 
últimas décadas, o desmatamento, o assoreamento dos rios, a 
poluição ambiental e a diminuição da biodiversidade local, entre 
outros estragos. As invasões trouxeram as enfermidades, a fome, o 
empobrecimento compulsório da população indígena. E mais: as 
dificuldades locais levaram muitas pessoas à migração, à 
submissão ao trabalho semiescravo e a péssimas condições de 
moradias (favelas, casas de palafitas na periferia dos centros 
urbanos). 
As invasões trouxeram também distúrbios como a loucura, o 
alcoolismo, o suicídio, a violência interpessoal, afetando conside-
ravelmente a autoestima dos seres humanos indígenas. Podemos 
perceber claramente que todos esses sintomas são causados pelo 
racismo subliminar do poderio do Estado e pelas reações 
discriminatórias subliminares da sociedade brasileira, oriunda da 
miscigenação entre brancos e negros, índios e brancos e negros e 
índios. O desejo de ascensão da população miscigenada e/ou 
branca é construído com base no racismo implícito e no processo 
de escravidão, semiescravidão e exploração da mão de obra 
barata dos mais oprimidos segmentos da sociedade, como os 
miseráveis, pobres, negros e a população indígena. 
A colonização e a neocolonização, no entanto, são refletidas 
também por grupos de interesses religiosos que, ao longo da 
história do Brasil, vêm confundindo a cosmovisão indígena com 
ideologias e fundamentos alheios à realidade tradicional. Impor 
culturas dominantes é uma forma de racismo. O paternalismo 
oficioso e governamental e o paternalismo eclesiástico também 
são formas de racismo, por melhores que sejam as intenções. Há 
de se respeitar a espiritualidade e as tradições de ritos dos povos 
indígenas. 
A demarcação das terras indígenas nunca foi uma prioridade 
governamental. Uma política que garantisse e respeitasse os povos 
indígenas como unidades sociopolíticas e culturais distintas 
deveria ser uma prioridade como respeito histórico. Nunca se 
realizou, na prática, uma política voltada aos interesses e projetos 
econômicos de autossustentação propostos pelos indígenas, 
baseados em sua biodiversidade, com segurança para a saúde, a 
educação, a agricultura e os direitos humanos, levando em 
consideração sua cultura diferenciada. 
Por todas essas razões, há muitas décadas, muitas lideranças 
têm sido sacrificadas por lutar por seus direitos. Os casos mais 
polêmicos referem-se ao assassinato de Marçal Tupã-y, em 1983; 
ao caso dos 14 índios Tikuna assassinados, em 1988; ao caso do 
assassinato dos 16 índios Yanomami, em 1993 e ao caso do índio 
Galdino, do povo Pataxó, queimado em Brasília, um exemplo 
clássico de racismo urbano e violento, em 1997. Todos esses 
casos continuam impunes. Ainda existem outras centenas de 
casos anônimos, indefinidos, e outros abafados de indígenas que 
lutam pelos seus direitos, por temerem represálias ou por estarem 
abalados moral e psicologicamente. 
O governo brasileiro, nas últimas décadas, tem facilitado os 
interesses das mineradoras em territórios indígenas e protegido 
sempre os empresários e políticos locais. 
Uma mulher indígena Potyguara me contou um dia, em 1989: 
“Eu estava em casa sozinha, cozinhando; entrou um homem-
peixe em minha casa e me tomou o espírito e partiu. Nunca mais 
o vi, mas sempre ia à beira-mar esperar por ele”. Os dias se 
passaram, os meses, os anos... A mulher estava louca e velha. Havia 
passado toda uma vida e a velha esperava seu homem-peixe, desde 
que acontecera aquele incidente. A menina-moça estava em casa 
sozinha, entrou um colonizador local inescrupuloso, nos anos 1940, 
a violentou sexualmente e fugiu... O desastre à mente daquela 
criança foi tamanho que o universo cultural foi completamente 
confundido, tornando-a uma criança – mulher – velha maltrapilha e 
louca! Quantas histórias dessa natureza teremos? 
Um chefe da nação indígena Macuxi (Jornal do Brasil, 10 jul. 
1980) nos conta, referindo-se à situação das mulheres: 
 
Quando o branco chegou nas nossas terras, 
índio pensava que branco era do lado de 
Deus, índio pensava que Deus tinha vindo 
visitar. De fato, branco tem tudo e índio não 
tem nada: branco tem arame farpado, nós não 
temos; branco tem livro, nós não temos; 
branco tem machado de ferro, nós não temos; 
branco tem carro, nós não temos; branco tem 
avião, nós não temos [...] Mas o branco veio e 
roubou as nossas terras; e o índio não podia 
mais caçar. Falou que as terras boas eram dele, 
falou que os peixes dos rios e dos lagos eram 
dele. Depois trouxe doenças. E depois se 
aproveitou de nossas mulheres [grifo nosso]. E 
o índio se revoltou. Então o branco matou os 
nossos avós, matou-os, massacrou-os muito, e 
o índio fugia tão rápido como a coisa mais 
rápida. Então o índio entendeu que o Deus do 
branco era ruim. 
 
Exemplos como esse mostram que povos indígenas são 
colonizados, mas, na realidade, não aceitam integralmente os 
valores impostos por terceiros. Povos indígenas, na realidade, e 
até muitas vezes precariamente, dependendo da região e dos 
níveis de integração, continuam mantendo e exercendo sua 
espiritualidade e suas raízes cosmológicas, rendendo homenagens 
aos seus ancestrais e aos símbolos tradicionais da natureza. 
 
As razões de violência são caracterizadas sempre da mesma 
forma. As razões são as mesmas, o espírito de dominação do 
homem pelo homem é o mesmo, passadas gerações, séculos, 
enfim... 
 
Amílcar Cabral, poeta, escritor negro, na luta revolucionária na 
Guiné-Bissau (África), na década de 1970, afirmava que “a cultura 
deve ser utilizada como instrumento de libertação nacional”. 
Complementando o raciocínio, podemos dizer que a libertação 
do povo indígena passa radicalmente pela cultura, pela 
espiritualidade e pela cosmovisão das mulheres. O papel da 
mulher na luta pela identidade é natural, espontâneo e 
indispensável. A mulher tem a função política de gerar o filho e 
educá-lo conforme as tradições, assim como na sociedade 
envolvente. Se criarmos um adolescente em um ambiente de 
tráfico de drogas, ele poderá vir a ser um marginal. 
Com relação à cultura indígena, a mulher é uma fonte de 
energias, é intuição, é a mulher selvagem não no sentido primitivo 
da palavra, mas selvagem como desprovida de vícios de uma 
sociedade dominante, uma mulher sutil, uma mulher primeira, 
um espírito em harmonia, uma mulher intuitiva em evolução para 
com sua sociedade e para com o bem-estar do planeta Terra. Essa 
mulher não está condicionada psicológica e historicamente a 
transmitir o espírito de competição e dominação segundo os 
moldes da sociedade contemporânea. O poder dela é outro. Seu 
poder é o conhecimento passado através dos séculos e que está 
reprimido pela história. A mulher, intuitivamente, protege os seios 
e o ventre contra seu dominador e busca forças nos antepassados 
e nos espíritos da natureza para a sobrevivência da família. Todos 
esses aspectos foram mais preservados do que no homem. 
Frantz Fanon, escritor argelino (África), nos mostra em seu livro 
Os condenados da Terra como o processo de violência, tortura, 
repressão e opressão deixou o povo argelino anestesiado, 
cabisbaixo, triste, infeliz e até louco, na luta pela libertação 
nacional, na década de 1960. O mesmo aconteceu com os povos 
das Missões Guarani. Existiu, de 1610 a 1768 − portanto, durante 
um século e meio −, um tipo de sociedade chamada República 
Cristãdos Guarani ou República dos Guarani, envolvendo os 
estados do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato 
Grosso do Sul e uma parte do Paraguai, Argentina e Uruguai. Essa 
república foi criada pelos bem-intencionados jesuítas contra os 
espanhóis e portugueses, que queriam submeter e subjugar os 
Guaranis como escravos. Mas, mesmo essas missões, em que a 
população aprendia artes, ofícios, astrologia, filosofia, matemática, 
física etc., não foram o suficiente para tornar os indígenas felizes. 
Após a expulsão dos jesuítas pelo Marquês de Pombal, em 1759, 
a república foi totalmente dissolvida. Conta-se que os sobreviventes 
desse projeto, quando iam para a lavoura, permaneciam cabisbaixos, 
não mais produziam, recusavam-se à reprodução humana e, 
melancólicos, não mais cantavam. Eu senti um enorme calafrio 
andando pelas ruínas das missões, em Santo Ângelo, no Rio 
Grande do Sul, em 1978. Parecia que, nos entroncamentos, se 
ouviam os gritos de dor ecoando pelos ares e que as paredes 
estavam impregnadas do suor da escravidão e do racismo. Assim 
senti quando estive lá! Meu coração esquentava de dor e minha 
imaginação era um pesadelo. O mesmo aconteceu quando visitei 
as ruínas da igreja de São Miguel e o cemitério indígena, já na 
área Potyguara, no estado da Paraíba, em 1979. A voz dos 
oprimidos ecoa igualmente em qualquer parte do mundo. E 
temos de ouvi-la para que a justiça se faça a qualquer momento 
da história. 
Em 18 de abril de 1977, o líder indígena Marçal Tupã-y, 
assassinado em 25 de novembro de 1983, esteve nas terras do Sul 
do Brasil e disse: 
 
Eu não fico quieto não! 
Eu reclamo... 
Eu falo... 
Eu denuncio!... 
 
Voltando à história, em 1557, por meio de armas e canhões, 
os espanhóis subjugaram 40 mil Guarani da região Sul do Brasil. 
Os portugueses e os mamelucos de São Paulo assassinaram e 
escravizaram, em 130 anos (séculos XVI e XVII), 2 milhões de 
índios nas bacias dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai, no período 
da chamada Caça ao Índio no processo de escravidão e racismo. 
Após tantas violências contra as mulheres, não só as indígenas, 
como as indianas, que os homens têm o direito de queimar vivas 
em suas próprias cozinhas (pude saber desse fato quando viajei 
pelo interior do território indiano com o Programa de Combate 
ao Racismo – mesmo programa que apoiava Nelson Mandela –, 
convidada pelo Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra, 1995). 
Soube como as mulheres muçulmanas têm seus clitóris 
arrancados quando nascem, para que não sintam prazer sexual; 
assim como as mulheres chinesas têm seus pés amarrados para 
que não cresçam e não possam correr livremente pelo mundo, 
buscando o conhecimento, além de muitos outros exemplos... 
Sendo assim, parte da humanidade, sensibilizada, entendeu que 
deveria haver uma ação para defender as mulheres desses atos. 
Atos que, na realidade, são soluções que os homens encontraram 
para defender as mulheres das mãos dos colonizadores ingleses, 
holandeses, alemães etc., que chegavam aos seus países, 
invadindo-os e saqueando suas riquezas naturais e familiares, em 
nome do poder econômico, político, social e religioso. 
Como resultado das denúncias das mulheres do mundo inteiro, a 
ONU promoveu várias grandes conferências internacionais. São elas: 
a Conferência da Mulher, na Cidade do México, no México, em 
1975; a de Copenhague, na Dinamarca, em 1980; a de Nairóbi, 
no Quênia, em 1985; a do Cairo, no Egito, em 1994; a de 
Pequim, na China, em 1995 (Beijin+10), e muitas outras reuniões 
de avaliação, nas quais foram estudadas e propostas diversas 
estratégias a favor da mulher, dentre elas a que diz que “A saúde 
reprodutiva é um estado de completo bem-estar físico, mental e 
social em todas as matérias concernentes ao sistema reprodutivo, 
suas funções e processos, e não a simples ausência de doença”. 
Os direitos humanos da mulher compreendem seu direito de 
ter controle sobre sua sexualidade, incluindo sua saúde sexual e 
reprodutiva, assim como decidir livremente sobre ela, sem estar 
exposta à coerção, à discriminação e à violência, e controlar sua 
própria fecundidade como um elemento responsável para o 
desfrute de outros direitos. 
Para isso, é necessário que as políticas públicas, os programas 
estatais e comunitários facilitem o exercício responsável desses 
direitos. 
É necessário também que se adotem medidas legislativas, 
administrativas, sociais e educativas claras para defender as 
meninas, tanto na família quanto na sociedade, contra todas as 
formas de violência física ou mental, lesões ou abusos, abandono 
ou trato negligente, maus-tratos ou exploração, incluindo o abuso 
sexual. 
 
Após quinze anos de trabalho do Grumin, 
que juridicamente surgiu em uma reunião no 
Rio e Janeiro e foi, posteriormente, ampliado 
em uma assembleia na área indígena 
Potyguara, Paraíba, em 1987, apoiada pelo, 
na época, cacique João Batista Faustino, pela 
mulher mais velha da tribo que eu chamava 
de tia Severina, por Maria de Fátima da Conceição, o líder 
Djalma, entre outros − após vários debates locais, regionais e 
estaduais, cursos de capacitação, seminários nacionais e 
conferências internacionais que realizamos, chegamos à crítica 
conclusão de que não existiam estudos, cifras, estatísticas que 
documentassem as maneiras como as mulheres indígenas eram 
ameaçadas e violadas em seus direitos humanos. Também não 
era dada atenção ao modo como elas estavam se extinguindo a 
partir da mortalidade materna, por violências físicas, por conflitos 
culturais, por migração de suas terras indígenas e por conflitos 
políticos que ameaçavam suas vidas, suas famílias e o direito ao 
território indígena e à sua cosmovisão. Quando, naquela época, o 
Grumin chamava a atenção para a invisibilidade da mulher 
indígena, a antropologia, a Igreja, as entidades e o Estado, 
conservadores, nos miravam como inconsequentes, por falarmos 
em saúde e direitos reprodutivos. 
Naquela época, não existiam Organizações não Governa-
mentais (ONGs), que foram criadas a partir de 1992, motivadas 
pela Conferência Internacional do Meio Ambiente promovida 
pela ONU. Acreditavam, as entidades ligadas à questão indígena 
daquela época, que esse assunto era alheio à cultura indígena e 
influenciado pelo Movimento de Mulheres Não Indígenas, as 
feministas brasileiras ou outros movimentos populares. As 
entidades ainda viam a questão indígena de uma forma muito 
romântica, apesar de compreenderem a violação aos Direitos 
Indígenas. Eu mesma sentia os olhares questionadores quando 
distribuía o polêmico Jornal do Grumin, em um encontro muito 
conhecido em Altamira (Pará), o 1º Encontro dos Povos Indígenas 
do Xingu, sobre hidrelétricas, no final da década de 1980. 
Lembro-me como uma minoria de sociólogos, sutilmente, causava 
desconforto entre nós, indígenas, por sermos urbanos, aldeados 
do Nordeste ou desaldeados citadinos. A discriminação contra 
nossa consciência era enorme, principalmente quando vínhamos 
das cidades. Imaginem! Nós tínhamos nossas terras e fomos 
acuados para as cidades! Não somos culpados. De vítimas, 
passamos a ser discriminados como oportunistas! Vinte anos 
depois, organizações já levantam a bandeira dos indígenas 
ressurgidos, nordestinos, inclusive desaldeados e descendentes, 
como no caso da Bahia. Algum dia reconhecerão a importância 
política dos indígenas desaldeados pela violência ou pela 
migração. 
No encontro em Altamira, a guerreira Tuíra apontou o facão 
para um empresário como uma atitude de intimidá-lo. Em 
contrapartida, um líder indígena me mandou ir para a cozinha e 
me ordenou que eu ficasse fora das assembleias, segurando os 
filhos no colo, inclusive o dele! Acredito que Tuíra Kaiapó abriu 
uma brecha para a mulher indígena, mas, ainda hoje, temos que 
impulsionar as Conferências de Saúde Indígena para que se inclua 
o tema Saúde Integral e Direitos Reprodutivos em todos os fóruns 
indígenas. Há quinze anos, por exemplo, eu já via uma mulher 
indígena como líder na Coordenação Indígenada Amazônia 
Brasileira (Coiab), a guerreira Sonia Bone Guajajara, pressionada 
por veteranas mulheres indígenas como a falecida Zenilda Sateré-
Mawé, Deolinda Prado e suas amigas, que conheceram muito 
bem os guerreiros indígenas de Manaus Álvaro Tukano, o 
inesquecível Manoel Moura Tukano, entre outros, e, assim, vejo a 
multiplicação de organizações de mulheres indígenas e as vejo se 
formarem como advogadas e, quem sabe, futuras juízas, 
deputadas e vereadoras. Isso é uma vitória! 
 
 
Os cursos de capacitação, as consultas nacionais, os 
seminários sobre família e cidadania e sobre direitos reprodutivos, 
as feiras de artesanatos, os projetos de desenvolvimento 
comunitário, as cartilhas, os jornais, os panfletos e os livros de 
conscientização contra o alcoolismo, contra a violência, contra a 
desinformação, contra o analfabetismo, contra a ignorância de 
não se querer preservar e em prol resgatar a identidade indígena, 
todas essas ações e outras foram estratégias que utilizamos no 
Grumin, no período de 1988 a 1996, época em que atuei em 
campo, objetivando trazer o assunto à tona. Foi um desafio. 
Hoje já se sabe que a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) 
dispõe de uma ação nas áreas indígenas e que a Fundação 
Nacional do Índio (Funai) está aberta ao assunto, mas é preciso 
ampliar esse debate. As ONGs de apoio e as organizações 
indígenas devem facilitar a visibilidade desse assunto e interessar-
se por ele, assim como as próprias mulheres indígenas têm 
provado a necessidade de se unirem para discutir suas 
necessidades. 
Também é um desafio para os povos indígenas a discussão 
sobre o assunto, pois em seu pensamento estão enraizados os 
vícios e fatores impostos pelo colonizador, como dificuldades de 
se falar sobre sexo, desinformação, alcoolismo, incestos, gravidez 
prematura, analfabetismo, desequilíbrios emocional e psicológico 
causados pelas invasões das terras e ameaças de sobrevivência, 
falta de alimentos, roupas e medicamentos, o desprestígio das 
parteiras dos pajés e dos caciques, intrigas e competições entre 
membros comunitários, além de outros fatores. 
 
 
Os pontos de discussão e as sugestões apresentadas a seguir 
não foram criados ou imaginados. Tais referências têm base em 
consultas nacionais e regionais que realizamos ao longo de alguns 
anos. Acreditamos que possam ser analisadas, discutidas e que 
sirvam de base para futuras investigações científicas, ações políticas 
e medidas legislativas, sociais, educativas e administrativas, enfim, 
ações afirmativas para os povos indígenas, além de servirem de 
base para aprofundar o tema. Os pontos não são estáticos, são 
dinâmicos, e partiram de observações e conversas ao pé do ouvido 
e resultados de seminários e conferências organizadas pelo Grumin. 
Nada técnico ou científico. Apenas real, apenas palavras não 
contadas. O importante é não esquecer que esses temas foram 
levantados em uma época em que não se falava desse assunto, e 
que demos o pontapé inicial. Eis os pontos: 
 
 
 Que as políticas públicas reconheçam os direitos reprodutivos 
das mulheres indígenas de acordo com as tradições e culturas, 
desde que essas culturas não violentem as mulheres. 
 Que as mulheres indígenas curandeiras, pajés, líderes 
espirituais e os próprios pajés sejam valorizados pelas políticas 
públicas como conhecedores milenares da tradição indígena. 
 Que o conhecimento ancestral sobre ervas medicinais seja 
uma prioridade em benefício da saúde e da integridade da 
mulher, da comunidade e da humanidade. 
 Que as cerimônias de cura sejam respeitadas pelas políticas 
públicas. 
 Que as mulheres indígenas sejam incentivadas, por agentes de 
saúde locais e líderes do movimento indígena, a realizar seus 
partos em casa junto às parteiras tradicionais. 
 Que os métodos tradicionais de controle de natalidade, assim 
como as decisões culturais sobre concepção e parto, sejam 
reconhecidos nos hospitais públicos, caso a mulher recorra a 
eles. 
 Que a espiritualidade feminina possa ser resgatada quando ela 
queira e reconhecida dentro e fora da cultura, espiritualidade 
essa exercida em forma de pajelança e que foi abafada pela 
imposição da Igreja no período da colonização. 
 
 
 
 Que as mulheres possam buscar socorro em caso de violência 
doméstica causado por alcoolismo de seus maridos, pais ou 
irmãos e que eles sejam punidos pelos órgãos competentes. 
 Que as mulheres possam falar sobre esse assunto sem receber 
represálias. 
 Que as adolescentes e meninas sejam educadas sobre incesto, 
assédio, abuso e violência sexuais ou estupro e que tenham 
acesso garantido à defesa legal, não sendo obrigadas a 
esconder o fato por medo, pena ou risco de vida, mesmo 
dentro das áreas indígenas. 
 Que seja garantido o tratamento das consequências 
psicológicas da violência física, moral ou estupro, como 
silêncio por medo ou por não conhecer os seus direitos, 
alcoolismo, loucura, violência feminina com as crianças etc. 
 
 
 Que as mulheres indígenas e seus filhos tenham acesso 
facilitado e garantido à saúde integral, por meio das políticas 
públicas. 
 Que a concepção materna seja um ato consciente da mulher 
indígena e de seu marido e que o casal seja instruído, 
informado e conscientizado sobre a questão de esterilização 
depois do segundo ou terceiro filho, prática feita e imposta 
pelas políticas públicas. 
 Que as mulheres indígenas tenham determinação sobre seu 
parto e que a cesariana não seja uma imposição, como meio 
mais cômodo para os médicos. 
 Que as mulheres indígenas sejam incentivadas, por agentes de 
saúde locais e líderes do movimento indígena, a realizar seus 
partos em casa junto às parteiras tradicionais. 
 Que os postos de saúde locais e seus agentes estejam 
conscientizados sobre os direitos reprodutivos e sexuais das 
mulheres. 
 Que as mulheres e jovens não sejam obrigadas ao aborto 
clandestino e mecânico, que as leva à morte e a enfermidades 
irreversíveis. 
 Que a ligadura das trompas não seja imposta e sim decidida 
pela família, pela mulher. 
 Que as mulheres possam decidir sobre sua maternidade com 
dignidade e em conjunto com sua cultura e tradições. 
 Que adolescentes, meninos e homens possam ser instruídos e 
recebam apoio institucional sobre o ato da concepção e suas 
responsabilidades paternas, incluindo as responsabilidades 
políticas referentes à preservação da cultura e à garantia da 
identidade indígena. 
 Que homens e mulheres indígenas possam encontrar, juntos, 
caminhos concretos que viabilizem atitudes responsáveis com 
relação à saúde reprodutiva e desenvolvam uma relação de 
gênero mais consciente e mais democrática, baseada em 
conceitos perdidos ao longo da colonização e da 
neocolonização. 
 Que homens e mulheres indígenas possam ter acesso às 
informações sobre doenças sexualmente transmissíveis, vias 
mais fáceis de acesso a outras doenças mais graves como a Aids. 
 Que as mulheres tenham acesso à informação sobre câncer 
cervical e das mamas e sua prevenção. 
 Que o conhecimento ancestral sobre ervas medicinais seja uma 
prioridade em benefício da saúde e da integridade da mulher, 
da comunidade e da humanidade. 
 Que se introduzam no Estatuto do Índio medidas bem claras e 
específicas que defendam os direitos humanos das mulheres e 
seus direitos reprodutivos. 
 Que os agentes de saúde sejam, na maioria, indígenas ou, caso 
contrário, que sejam sensibilizados para tal. 
 Que todos os documentos produzidos pelo Movimento 
Indígena Brasileiro, órgãos governamentais ou não de saúde 
local ou nacional contenham sempre itens que denunciem a 
violação dos direitos reprodutivos das mulheres indígenas e 
proponham ações afirmativas segundo seus desejos e que 
melhorem sua qualidade de vida, defendendo seus direitos 
humanos como mulheres indígenas. 
 
Essa foi a Declaração Final dos Encontros de Mulheres 
Indígenas (Saúde e Direitos Reprodutivos), 1993 a 1996, 
organizados pelo Grumin (Grupo Mulher-Educação Indígena,

Mais conteúdos dessa disciplina