Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

Disciplina: Hermenêutica Filosó�ca
Aula 2: Possibilidade de hermenêutica
Apresentação
Nesta aula, vamos ampliar nossa re�exão sobre hermenêutica partindo das seguintes questões: A relação entre sujeito e
texto é importante para um processo de hermenêutica? Como essa relação acontece?
Veremos que, no processo hermenêutico, é o sujeito que faz o contato com o texto e traz consigo um histórico de vida.
Schleiermacher vai chamar esse processo de interpretação psicológica e, em seguida, apresentará a relação da retórica com
a hermenêutica.
Objetivos
Analisar a estreita relação entre sujeito e texto no processo hermenêutico;
Reconhecer a discussão dos diferentes autores e suas ponderações sobre a relação texto e autor, compreendendo a
importância de empregar o processo hermenêutico no cotidiano da produção escrita;
Identi�car a relação entre hermenêutica e retórica, conhecendo e reconhecendo a importância de cada uma na
construção da linguagem escrita e falada.
Sujeito e texto no processo hermenêutico
No processo de re�exão sobre hermenêutica �losó�ca, é necessário que se apresente uma pequena explanação sobre o
processo hermenêutico, que acontece entre o sujeito e o texto.
Para isso, precisamos recorrer à história da hermenêutica e acompanhar a evolução desse processo, que vai sendo construído
em várias áreas do conhecimento: mitologia, exegese, direito e �loso�a.
No decorrer da história da
humanidade, em um primeiro
momento, as explicações eram
feitas através de histórias de mitos,
mas, com o passar do tempo, essas
explicações ao pé da letra já não
podiam mais ser aceitas.
Isso deu início a um processo de
interpretação “alegórica” dos mitos
e aos estoicos , que elaboraram
um processo sistemático de
interpretação, exigindo que ela fosse
além do literal, principalmente das
histórias míticas e das sagradas
escrituras.
1
Esse processo surgiu
principalmente com a Igreja
Católica, pois os exegetas faziam os
estudos das sagradas escrituras
com a intenção de tornar mais
claras as passagens bíblicas.
Decisão da forma de interpretar
Fílon de Alexandria (13-54) é considerado o criador da alegoria: um método de interpretação dos mitos que, em seguida, foi
usado pelos exegetas para interpretar as sagradas escrituras.
Com esse novo aspecto, surge um problema: decidir o que pode ser interpretado ao pé da letra ou alegoricamente.

Segundo Fílon, o autor e, conforme o caso, Deus, cuida para que o texto seja entendido
alegoricamente, enquanto espalha em seu escrito sinais objetos ou apoios da alegoria.
(GRODIN, Jean. Introdução à Hermenêutica Filosófica, 1999, p.61)
Esse questionamento lançado por Fílon tem sua resposta por meio do próprio autor, e, conforme os casos, Deus. Pois, através da
construção do texto, é possível encontrar sinais alegóricos, algo estranho, fora da normalidade, que tem por objetivo, de maneira
intencional, transmitir uma mensagem.
https://stecine.azureedge.net/webaula/estacio/go0020/aula2.html
https://stecine.azureedge.net/webaula/estacio/go0020/aula2.html
 Bíblia moralizada de Nápoles. (Fonte: Wikipedia )
Apenas uma alma que tenha razão é capaz de enxergar o que é familiar no texto e iniciar o entendimento que está por de trás das
palavras, eliminando a linguagem alegórica para encontrar o sentido presente nos vocábulos.
Para exempli�car esse procedimento, convidamos você a pegar uma Bíblia, abrir no livro de Gênesis, Capítulo 2, versículos 8 e 9:
Depois, o Senhor plantou um jardim em Éden ao oriente, e ali pôs o ser
humano que havia formado. E o Senhor Deus fez brotar da terra toda sorte
de árvores de aspecto atraente e saborosas ao paladar, a árvore da vida no
meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal.
 (Fonte: Everett Historical / Shutterstock)
Nesse trecho, é possível perceber que a palavra árvore tem dois signi�cados:
Primeiramente, o autor a menciona em um sentido de produção de frutos (árvore, raiz, caule, folhas e frutos);
Depois, menciona a árvore da vida como símbolo mítico da imortalidade, conhecido no Oriente Médio.
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Biblia_moralizada_de_N%C3%A1poles_cropped.png
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Biblia_moralizada_de_N%C3%A1poles_cropped.png
Embora sejam duas árvores diferentes, o autor parece identi�car a árvore do conhecimento
do bem e do mal, que está no meio do jardim e cujos frutos são proibidos, e a árvore da vida
ou da juventude perene.
Conexão entre os sentidos
Para Fílon de Alexandria, existe uma conexão entre o sentido
literal e o sentido alegórico comparável à conexão entre corpo
e alma, sendo possível interpretar o signi�cado oculto que se
encontra através da alegoria.
Você pode perceber na passagem bíblica do Gênesis analisada
acima que existe uma relação entre a parte e o todo. Olhando
para o segundo signi�cado de árvore, �ca difícil compreender o
texto, mas, se ampliarmos o horizonte da interpretação, vendo
o todo do livro do Gênesis, conseguimos interpretar qual foi o
sentido que o autor quis passar.
 (Fonte: Linda Hughes Photography / Shutterstock)
Saiba mais
Hans-Georg Gadamer, considerado um dos principais �lósofos que construíram uma re�exão sobre hermenêutica �losó�ca que
se expandiu para outras áreas, em sua obra Verdade e Método, chamará esse procedimento de regra hermenêutica que vêm da
retórica antiga, mas é transferida pela hermenêutica moderna.
A regra hermenêutica apresentada por Gadamer requer uma compreensão do todo a partir
do singular e do singular partir do todo.
Círculo hermenêutico
 (Fonte: Ensaios e Notas ).
Neste processo, em que o singular pertence ao todo, isto é, a palavra pertence ao texto da frase, o texto também faz parte do
todo, como as características do autor, gênero literário e contexto histórico da vida do autor.
Podemos chamar esse processo de círculo hermenêutico, que é um movimento de leitura e releitura várias vezes do mesmo
texto, tão necessário para que se comece a compreender as ideias apresentadas.
https://ensaiosenotas.files.wordpress.com/2014/11/cc3adrculo-hemernc3aautico.png
https://ensaiosenotas.files.wordpress.com/2014/11/cc3adrculo-hemernc3aautico.png
Atenção
Vale ressaltar a importância do círculo hermenêutico apresentada por Schleiermacher, já que o conhecimento completo está
presente neste círculo: em que o particular é compreendido através do geral e o geral através do particular.
Inicialmente, você pode fazer uma leitura super�cial do texto para perceber as ideias principais e depois, na releitura, fazer as
conexões entre essas ideias.
Processo hermenêutico
Para compreender um texto, é necessário elaborar um projeto, que começa na leitura inicial, em que encontramos os primeiros
sentidos do texto.
A criação de um projeto de interpretação pode ser chamada de processo hermenêutico, pois o leitor, à medida que entra em
contato com o texto, amplia o sentido dele e necessariamente modi�ca o projeto.
Essa constante mudança no projeto é a própria ação de compreender e interpretar. Nesse sentido, é fundamental que o texto
transmita a sua mensagem para o leitor, e não o leitor que dê sentido ao texto.
Até Schleiermacher, a hermenêutica era determinada pelo conteúdo a ser compreendido. Porém, ele desenvolveu esse método de
interpretação, no qual o leitor entra em contato com o texto, transferindo o contato do autor para o texto.
 Hans-Georg Gadamer em conversa com Wassili Lepanto (c. 2000) (Fonte: Wikipedia )
Schleiermacher defende que essa conversão vai se transformar em compreensão:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Hans-Georg_Gadamer#/media/File:DC260-mh15922.jpg
https://pt.wikipedia.org/wiki/Hans-Georg_Gadamer#/media/File:DC260-mh15922.jpg

É tarefa da hermenêutica esclarecer o milagre da compreensão,que não é uma
comunicação misteriosa entre almas, mas participação num sentido comum.
(GADAMER, 2011, p.73)
No processo hermenêutico de interpretação, vamos além do sentido gramatical, pois buscamos compreender e entender o texto,
o autor e os pensamentos que são expressos ali. Tentamos compreender o pensamento do autor.
Ainda segundo Schleiermacher, a arte de compreender as obras não está somente ligada à ideia de poder compreender a unidade
entre o conteúdo do texto e a tradição, mas na aceitação de que, em algum momento, a compreensão não acontece de maneira
imediata, e deve contar com a possibilidade de um mal-entendido.
 (Fonte: igor kisselev / Shutterstock)
Schleiermacher – interpretação psicológica
No processo hermenêutico de compreensão do texto, a interpretação psicológica é o complemento da interpretação gramatical,
nos transportando para o pensamento do autor e como ele é expresso no texto.
Esses processos não devem ser entendidos separados ou seguindo uma ordem, mas acontecer de forma simultânea.
Assim como na interpretação gramatical, a interpretação psicológica tem uma dependência do círculo hermenêutico, isto é, vai
acontecer na compreensão que as partes fazem parte de um todo.
O movimento de interpretação puramente psicológica tem como objetivo principal compreender como os pensamentos do autor,
através da sua vida, começaram a surgir. É necessário, portanto, que o leitor tenha conhecimento da linguagem do autor, da vida e
do momento histórico em que ele viveu para entender o todo da história.
Exemplo
Em uma das passagens bíblicas do evangelista Mateus, é possível entender a importância da interpretação psicológica.
“Ao cair da tarde, o senhor da vinha disse a seu feitor: ‘Chama os operários e paga-lhes, começando pelos últimos até os
primeiros’. Vieram aqueles da undécima hora e receberam cada qual um denário”
(Mt 20, 8-9)
Nesse trecho, �ca bem clara a necessidade de uma interpretação psicológica, pois algumas palavras ou termos não são usados
com frequência ou são, às vezes, até desconhecidos.
A palavra denário, por exemplo, faz referência a uma moeda do Império Romano que foi paga aos trabalhares da vinha.
Como é a feita a interpretação psicológica?
Ela começa com uma visão geral, por meio de uma leitura inicial.
Schleiermacher apresenta os quatro estágios de uma interpretação psicológica:
1
Após uma leitura preliminar, o intérprete deve iniciar a
descoberta da ideia central, do motivo, que moveu o autor a
escrever o texto.
2
Depois de encontrar o sentido do texto, é necessário fazer uma
interpretação técnica, que leva em conta a composição, o
gênero e a linguagem utilizada pelo autor.
3
A terceira etapa se caracteriza pela meditação do texto, em
que o intérprete desenvolve suas ideias sobre o texto.
4
Por último, o intérprete organiza os pensamentos secundários
que in�uenciaram a produção do texto, isto é, o momento de
vida em que autor se encontrava.
Fica bem claro que o primeiro movimento do intérprete é compreender a unidade da obra.
Em seguida, vem a interpretação técnica, que busca entender como o pensamento do autor
é expresso na composição do texto.
Hermenêutica e retórica
Gadamer, em sua obra Verdade e Método, apresenta a relação entre retórica e hermenêutica, buscando na história da
hermenêutica como isso se estabeleceu.
Atenção
Essa relação só é possível porque a competência de falar e de compreender podem ser alcançadas pelos humanos por meio de
um desenvolvimento com normas e exercícios.
Os primeiros indícios da retórica são encontrados na Sicília
grega 465 a.C., onde grandes debates judiciais eram feitos
sem a presença dos advogados. Sua primeira de�nição a
considera como a criadora de persuasão.
Esse conceito de oratória foi usado pelos so�stas (doutrina
�losó�ca), que eram vistos como os mestres dos discursos
em público para conquistar os estudantes e depois cobrar para
ensiná-los.
A retórica, compreendida como a arte de discursar, procurava
interpretar e transmitir as verdades religiosas que estavam
presentes nas Sagradas Escrituras.
Nesse sentido, podemos citar Philipp Melanchthon como o
fundador da hermenêutica protestante.
 (Fonte: Georgios Kollidas / Shutterstock)
Comentário
A sua forma de leitura e interpretação das verdades religiosas, além da transmissão, in�uenciaram a formação escolar
protestante.
Ele a de�ne como a arte de ordenamento e articulação de ideias para que os oradores, com um método claro, apresentem as
coisas que são obscuras. Com isso, os seus oradores �zeram grande sucesso na tradição protestante.
Gadamer, nesse aspecto, enfatiza a diferença de um texto escrito para um discursado, pois o
orador, com a sua habilidade, aproveita a possibilidade que escritor não tem: entonação de
voz, gestos e olhar.
Existem técnicas de oratória?
Você pode fazer um treinamento para aprender essas técnicas e ser pro�ssional nesta arte.
Exemplo
No meio jurídico, a técnica de oratória tem uma importância muito grande, pois os advogados, por meio da interpretação das leis,
defendem ou acusam determinada pessoa com discursos e inúmeras técnicas de oratória, com a intenção de convencer os
jurados ou os juízes.
O que hermenêutica e retórica têm em comum?
No desenvolvimento da oratória e da hermenêutica, percebe-se que existe uma ligação entre elas, pois as duas são consideradas
como artes de interpretar e compreender.
O ponto central de toda a história da retórica, analisando-a desde a Sicília grega até o presente momento, continua a colocando
como a arte de persuasão, do convencimento através do discurso, mas, na verdade, ela tem quatro funções:
1
Persuasiva
2
Heurística
3
Pedagógica
4
Hermenêutica
Contudo, a ligação da hermenêutica com a retórica tem uma tarefa essencial porque o estudioso da retórica deve interpretar o
discurso e os seus ouvintes para poder persuadir com e�ciência.
Exemplo
Mais uma vez o âmbito jurídico elucida esta questão, pois o bom advogado tem o dever de realizar uma prévia do corpo de
jurados antes do julgamento.
Caso ele opte por um discurso cientí�co com muitos dados técnicos, não conseguirá que jurados com baixa escolaridade
concordem com a sua ideia, por exemplo.
Agora, se ele usar, neste caso, parábolas, histórias ou ditos populares, conseguirá que os jurados com pouco tempo de estudo
entendam o seu ponto de vista.
Dica
As técnicas de oratória, com a interpretação do ambiente, podem ser usadas em uma entrevista de emprego ou dinâmica de
grupo, para compreender as pessoas que estão ao seu redor e o ambiente em que você está.
Dessa forma, você construirá uma comunicação de qualidade com seu interlocutor, porque entenderá tanto a pessoa a quem se
dirige quanto escolherá a melhor forma de se dirigir a ela.
Atividade
1. A criação de um projeto de interpretação do texto pede que o leitor, à medida que entre em contato com o texto, amplie o
sentido dele e necessariamente modi�que o projeto, possibilitando a compreensão e a interpretação. Esse processo chama-se:
a) Hermenêutico
b) Dialético
c) Comunicador
d) Retórico
e) Filosófico
2. Faz sentido a�rmar que o intérprete não vai diretamente ao “texto”, a partir da opinião prévia pronta e instalada. Ao contrário,
põe à prova, de maneira expressa, a opinião prévia instalada nele a �m de comprovar sua legitimidade, o que signi�ca, sua origem
e sua validade. Esse pensamento se refere à:
a) Gadamer
b) Kant
c) Aristóteles
d) Montesquieu
e) Wittgenstein
3. É a arte de ordenamento e articulação de ideias para que os oradores, com um método claro, apresentem as coisas que são
obscuras. Com isso, os oradores �zeram maior sucesso na tradição protestante. Esta de�nição se aplica à:
a) Retórica
b) Semântica
c) Filosofia
d) Semiótica
e) Pragmática
Notas
Estoicos 1
Que se refere ao estoicismo: https://pt.wikipedia.org/wiki/Estoicismo .
Referências
GADAMER Hans-Georg Verdade e método I: traços fundamentais de uma hermenêutica �losó�ca Traduçãode Flávio Paulo
https://pt.wikipedia.org/wiki/Estoicismo
https://pt.wikipedia.org/wiki/Estoicismo
GADAMER, Hans Georg. Verdade e método I: traços fundamentais de uma hermenêutica �losó�ca. Tradução de Flávio Paulo
Meurer. Nova revisão da tradução por Ênio Paulo Giachini. 15. ed. Petrópolis: Editora Vozes; Bragança Paulista: Editora
Universitária São Francisco, 2015.
GRONDIN, Jean. Introdução à hermenêutica �losó�ca. Tradução de Benno Dischinger. São Leopoldo: Unisinos, 1999.
MAZOTTI, Marcelo. As escolas hermenêuticas e os métodos de interpretação da lei. Barueri: Manole, 2010.
SCHLEIERMACHER, Friedrich. Hermenêutica: arte e técnica da interpretação. Tradução de Celso Reni Braida. Petrópolis. Editora
Vozes, 1999.
Próxima aula
Surgimento de escolas hermenêuticas;
Hermenêutica bíblica;
Hermenêutica histórica.
Explore mais
Leia as seguintes dissertações:
A história da Hermenêutica: Uma re�exão a partir do conceito de tradição
 ;
Gadamer: Hermenêutica Filosó�ca e Educação .
Leia também o texto:
Retórica e Hermenêutica e Filoso�a, de Miguel Baptista Pereira
 .
https://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/BUBD-A9ZR54/disserta__o_formatada.pdf?sequence=1
https://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/BUBD-A9ZR54/disserta__o_formatada.pdf?sequence=1
https://livros01.livrosgratis.com.br/cp134804.pdf
https://livros01.livrosgratis.com.br/cp134804.pdf
https://www.uc.pt/fluc/dfci/publicacoes/retorica__hermeneutica_e_filosofia
https://www.uc.pt/fluc/dfci/publicacoes/retorica__hermeneutica_e_filosofia

Mais conteúdos dessa disciplina