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■ ■ ■ ■ Os autores deste livro e a EDITORA GUANABARA KOOGAN LTDA. empenharam seus melhores esforços para assegurar que as informações e os procedimentos apresentados no texto estejam em acordo com os padrões aceitos à época da publicação, e todos os dados foram atualizados pelos autores até a data da entrega dos originais à editora. Entretanto, tendo em conta a evolução das ciências da saúde, as mudanças regulamentares governamentais e o constante fluxo de novas informações sobre terapêutica medicamentosa e reações adversas a fármacos, recomendamos enfaticamente que os leitores consultem sempre outras fontes fidedignas, de modo a se certificarem de que as informações contidas neste livro estão corretas e de que não houve alterações nas dosagens recomendadas ou na legislação regulamentadora. © 2020 by EDITORA GUANABARA KOOGAN LTDA. Uma editora integrante do GEN | Grupo Editorial Nacional Travessa do Ouvidor, 11 – Rio de Janeiro – RJ – CEP 20040- 040 Tels.: (21) 3543-0770 / (11) 5080-0770 / (21) 3543-0896 grupogen.com.br | faleconosco@grupogen.com.br Capa: Editorial Saúde Produção digital: Geethik Ficha catalográfica U94 2. ed. http://www.grupogen.com.br/ mailto:faleconosco@grupogen.com.br http://www.geethik.com/ UTI pediátrica / editor José Roberto Fioretto. - 2. ed. - Rio de Janeiro : Guanabara Koogan, 2020. 420 p. ; 19 cm. Inclui índice ISBN 9788527736008 1. Unidade de tratamento intensivo. 2. Emergências pediátricas. I. Título. 19-59102 CDD: 618.920025 CDU: 616-083.98-053.2 Vanessa Mafra Xavier Salgado - Bibliotecária - CRB-7/6644 Editores Associados Rossano Cesar Bonatto Professor Assistente Doutor do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Especialista em Medicina Intensiva Pediátrica pela Associação de Medicina Intensiva Pediátrica e em Pediatria pela Sociedade Brasileira de Pediatria. Médico diarista da UTI Pediátrica da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Responsável pela disciplina de Cardiologia Pediátrica da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Mário Ferreira Carpi Professor Assistente Doutor do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Especialista em Medicina Intensiva Pediátrica pela Associação de Medicina Intensiva Pediátrica e em Pediatria pela Sociedade Brasileira de Pediatria. Chefe da UTI Pediátrica da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Cristiane Franco Ribeiro Médica diarista e plantonista da UTI Pediátrica da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Especialista em Terapia Intensiva Pediátrica pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Doutora e Mestre em Fisiopatologia em Clínica Médica pela Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Colaboradores Adriana Curtolo Médica Assistente da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Carlos Fernando Ronchi Fisioterapeuta. Doutor em Fisiopatologia em Clínica Médica pela Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Professor Adjunto da Faculdade de Educação Física e Fisioterapia da Universidade Federal de Uberlândia (FAEFI-UFU). Cristina Nascimento Lassie Médica Assistente da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Dayane Campos Graçano Médica Assistente da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Fabio Joly Campos Especialista em Terapia Intensiva Pediátrica pela AMIB. Doutor e Mestre em Fisiopatologia em Clínica Médica pela Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Médico da disciplina de Cardiologia Pediátrica e responsável pela Ecocardiografia Pediátrica no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Fernanda Hallage Coltri Médica Assistente da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Fernanda Maíra Augusto Médica Assistente da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Flávia Maria Parrilha Moleiro Médica Assistente da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Haroldo Teófilo de Carvalho Médico Assistente da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Isabela Ortiz Laraia Médica Assistente da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Jacqueline Metzher Leonhardt Médica Assistente da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Jaqueline Tonelotto Especialista em Terapia Intensiva Neonatal pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Coordenadora da UTI Neonatal do Hospital Municipal Universitário de São Bernardo do Campo. Joelma Gonçalves Martin Professora Assistente Doutora do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Especialista em Medicina Intensiva Pediátrica pela Associação de Medicina Intensiva Pediátrica e em Pediatria pela Sociedade Brasileira de Pediatria. Chefe do Pronto-Socorro Pediátrico da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Juang Horng Jyh Médico Intensivista Pediátrico e Especialista em Nutrologia. Doutor em Pediatria pela Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Coordenador da Gerência de Risco Hospitalar e da Equipe Multiprofissional de Terapia Nutricional (EMTN) do Hospital Municipal Dr. Carmino Caricchio – Tatuapé/SP. Larissa Teixeira Leite Médica Assistente da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Manuella Pacífico de Freitas Segredo Médica Assistente do Serviço de Oncologia Pediátrica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Marcelo Barciela Brandão Médico da UTI Pediátrica e Pronto-Socorro de Pediatria do Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Coordenador da UTI Pediátrica do Hospital Estadual Sumaré da Unicamp. Especialista em Terapia Intensiva com Habilitação em Terapia Intensiva Pediátrica pela AMIB. Mestre e Doutor em Saúde da Criança e do Adolescente na área de Pediatria da FCM da Unicamp. Marcos Aurélio de Moraes Doutor em Pediatria pela Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Médico diarista da UTI Pediátrica da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Especialista em Medicina Intensiva Pediátrica pela AMIB e em Pediatria pela Sociedade Brasileira de Pediatria. Preceptor dos médicos residentes da UTI Pediátrica da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Marina Bortoni Médica diarista e plantonista da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Especialista em Terapia Intensiva Pediátrica pela AMIB. Martin José Faddul Alves Doutor em Pediatria pela Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Especialista em Medicina Intensiva Pediátrica pela AMIB. Médico da UTI Pediátrica da Misericórdia Botucatuense. Michele Rebequi de Souza Médica Assistente da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Natalia Amoresano Pereira Médica Assistente da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Pamella Ajej Bonani Médica Assistente da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Rafaelle Batistella Pires Médica diarista da UTI Pediátrica do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (USP) de Bauru. Especialista em Pediatria pela Sociedade Brasileira de Pediatria e em Medicina Intensiva Pediátrica pela AMIB. Renata Germano Borges de Oliveira Nascimento Freitas Doutora pela Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. Mestre em Saúde da Criança e do Adolescente pela Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. Nutricionista pelo Centro Universitário de Volta Redonda/RJ. Renata Tamie Akazawa Médica Assistente da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Roberto José Negrão Nogueira Coordenador Clínico da EMTN do Hospital de ClínicasAST = aspartato aminotransferase; GGT = gamaglutamil transferase; PCR = proteína C reativa. Adaptado de Corkins e Rayback, 2002. Introdução Os clínicos que trabalham com crianças em estado grave precisam ser treinados na aplicação de escores prognósticos, a fim de assegurar a qualidade e a utilização apropriadas do sistema de tratamento. Sistemas de escores e medidas de gravidade da doença podem ser usados para uma variedade de propósitos, incluindo apoio de decisão, avaliação de pesquisa, processos de análise de cuidado prestado e para benchmarking interno e externo. Os primeiros tipos de sistemas de escores foram usados como ferramentas de triagem para ajudar a equipe de atendimento pré- hospitalar a determinar quando um paciente gravemente ferido deveria ser encaminhado a uma unidade de terapia intensiva (UTI). Um segundo tipo de sistemas de escores de triagem mede a gravidade da doença de maneira mais precisa, acompanhando diariamente suas alterações, a fim de prever o risco de mortalidade. Geralmente, estas contagens são calculadas retroativamente em um grupo de pacientes, a fim de que a gravidade da doença ou taxa de mortalidade esperada possa ser calculada. Esse sistema pode ser complexo e utilizar muitas variáveis, algumas das quais podem não estar disponíveis no momento da avaliação inicial do doente. Precisão é fundamental em medidas de gravidade da doença para avaliar o cuidado realizado, marcando o nível de qualidade da instituição e servindo para comparação de serviços em pesquisa em saúde. • • • • • Métodos prognósticos Em unidade de terapia intensiva pediátrica (UTIP), são utilizados: DMOS (disfunção de múltiplos órgãos e sistemas): como triagem de gravidade à internação TISS (therapeutic intervention scoring system): como quantificação do custo e da necessidade de intervenção a que são submetidos os pacientes PRISM (pediatric risk mortality)/PRISM III SOFA (sequential organ failure assessment) PELOD (pediatric logistic organ dysfunction). A evolução ocorreu com a utilização de dados clínicos que pudessem ter uma possível implicação prognóstica. Destes dados, por meio de tratamento estatístico, foram obtidas as variáveis clínicas mais relevantes e estabelecido um sistema de pontuação para calcular o risco de morte de cada doente. Para a maior instabilidade era calculada, estatisticamente, uma pontuação maior. Por meio de fórmula matemática, a soma de pontos de cada paciente correlacionava-se ao risco de morte em porcentagem. Isso se tornou uma referência em terapia intensiva a partir da década de 1980, quando os intensivistas aceitaram que a piora no estado fisiológico se correlacionava diretamente com a sobrevida do paciente. Uma vantagem desse método é que a maioria dos dados clínicos e laboratoriais é aceita como importante para o prognóstico, pela maioria dos médicos, favorecendo a aceitação do escore proposto. Estes escores são chamados de escores quantitativos subjetivos. São exemplos desse tipo de escore: o PSI (physiologic stability index) e o PRISM. Após um período de observação clínica e validação estatística, tais índices sofreram as modificações matemáticas necessárias para seu aperfeiçoamento. Escores prognósticos ▶ Critérios de DMOS Embora não seja um escore propriamente, nem constitua um sistema de pontos, possibilita analisar a gravidade de cada paciente. A falência de múltiplos órgãos e sistemas foi primeiramente descrita em adultos por Knaus em 1985. A partir de 1986, em dois estudos, esta condição clínica começou a ser relatada em UTIP, com critérios modificados para a faixa etária infantil (Quadro 4.1). Nesses estudos o aumento do número de sistemas com disfunção correspondia a aumento na mortalidade. Dos pacientes com disfunção em quatro ou mais órgãos, 75% faleceram; 50% dos doentes com disfunção em três sistemas morreram; aqueles com disfunção em dois sistemas apresentaram taxa de mortalidade de 11% e apenas 1% das crianças com uma disfunção evoluiu para o óbito. Em adultos a DMOS parece evoluir ainda mais gravemente. Pacientes adultos com 3 ou mais disfunções, por 5 ou mais dias, evoluem para o óbito em 100% dos casos. ▶ TISS O TISS é um método indireto e objetivo de análise da gravidade da doença, pois estima a gravidade de acordo com a maior necessidade de intervenção terapêutica. Foi criado da observação diária de pacientes graves, dos quais evoluíam para o óbito aqueles que recebiam quantidade maior de cuidados médicos e de enfermagem, com grande incidência de procedimentos agressivos. O TISS foi criado por Cullen em 1974 e revisto por Keene em 1983. Nesta última versão são distribuídos pontos de 1 a 4 para 76 modalidades terapêuticas de monitoramento ou de rotina de enfermagem. A pontuação maior é atribuída aos procedimentos mais agressivos, como pode ser avaliado no Quadro 4.2. Em geral, após a soma dos pontos, escores altos do TISS indicam risco alto de mortalidade e elevado custo de tratamento. Porém, quando comparado com o PRISM, sua previsão é bem menos precisa. QUADRO 4.1 Critérios de disfunção de múltiplos órgãos e sistemas (DMOS) baseados em Wilkinson. Sistema cardiovascular PA média 160 bpm ( 150 bpm ((≥ 12 meses) Parada cardiorrespiratória 90 mrpm ( 70 mrpm (≥ 12 meses) PaO2 65 mmHg PaO2 /FiO2 24 h se em pós-operatório Intubação traqueal Obstrução da via respiratória e insuficiência respiratória aguda Sistema neurológico Escala de coma de Glasgow 20 mmHg persistente (> 20 min) ou necessitando de intervenção terapêutica Sistema hematológico Hemoglobina 20 s ou TTPA > 60 s na presença de PDF positivo Sistema renal Ureia sérica > 100 mg/dℓ Creatinina sérica > 2 mg/dℓ Diálise – Sistema gastrintestinal Hemorragia gastrintestinal Necessitando de hemotransfusão > 20 mℓ/kg em 24 h Sistema hepático Bilirrubina e BT > 5 mg/dℓ e TGO ou TGP ou DHL > que 2 • transaminases vezes o valor normal para idade Encefalopatia hepática ≥ Grau II (Saunders [75]) PA = pressão arterial; CIVD = coagulação intravascular disseminada; TP = tempo de protrombina; TTPA = tempo de tromboplastina parcial ativada; PDF = produto de degradação da fibrina; BT = bilirrubina total; TGO = transaminase glutâmico-oxaloacética; TGP = transaminase glutâmico-pirúvica; DHL = desidrogenase hepática láctica. Fonte: Wilkinson et al., 1987. Atualmente, o escore TISS é usado principalmente para avaliar a utilização de recursos na UTI, podendo gerar uma avaliação indireta do custo de cada paciente para a instituição. ▶ PRISM O PSI (physiological stability index) foi revisado e simplificado para o PRISM (pediatric risk mortality). Neste segundo escore de instabilidade fisiológica foram usadas técnicas estatísticas uni e multivariadas nas 34 variáveis do PSI medidas no dia de admissão. Esta revisão eliminou as práticas mais complicadas e invasivas. O resultado desta simplificação são 14 variáveis medidas rotineiramente em UTIP, representando 23 resultados. As variáveis fisiológicas do PRISM estão listadas no Quadro 4.3. QUADRO 4.2 Escore TISS revisado por Keene em 1983. 1. Recebem 4 pontos: Ventilação mecânica controlada (CMV) com ou sem uso de pressão expiratória final positiva (PEEP) • • • • • • • • • • • • • • • • • Ventilação mecânica controlada com uso contínuo ou intermitente de relaxantes musculares Tamponamento de varizes esofágicas com balão de Sengstaken-Blakemore ou de Linton Infusão arterial contínua (menos de heparina para manter o cateter pérvio) Cateter arterial pulmonar tipo Swan-Ganz Marca-passo atrialou ventricular em atividade Hemodiálise em paciente instável (primeiras 2 sessões e em diálise crônica em paciente instável) Diálise peritoneal Hipotermia 4 coletas) Infusão frequente de hemoderivados (> 5 UI/24 h) Medicação intravenosa em bolo Infusão de substância vasoativa Infusão contínua de antiarrítmicos Cardioversão para arritmia cardíaca Hipotermia por cobertor térmico para hipertermia Linha arterial Digitalização aguda (por 48 h) • • • • • • • • • • • • • • • • • • • Medida do débito cardíaco por qualquer método Diurese ativa para sobrecarga hídrica ou edema cerebral Tratamento de alcalose metabólica Tratamento de acidose metabólica Toracocentese, paracentese, pericardiocentese de emergência Anticoagulação ativa nas primeiras 48 h Flebotomia para sobrecarga hídrica Antibioticoterapia com mais de 2 antibióticos intravenosos Tratamento de convulsão ou de encefalopatia metabólica (dentro das 48 h iniciais) Tração ortopédica complicada 3. Recebem 2 pontos: Pressão venosa central (medida da PVC) 2 cateteres intravenosos periféricos Hemodiálise em paciente estável Traqueotomia nas primeiras 48 h Respiração espontânea via tubo traqueal ou traqueotomia (tubo “T” ou máscara) Alimentação gastrintestinal Reposição de perda volêmica excessiva (expansão de volume) Quimioterapia parenteral Sinais neurológicos de hora em hora • • • • • • • • • • • • • • • • • • • Múltiplas mudanças de leito Infusão de pitressina (ADH) intravenosa 4. Recebem 1 ponto: Monitoramento de eletrocardiograma (ECG) Sinais vitais de hora em hora Cateter intravenoso periférico Anticoagulação crônica Balanço hídrico standard (a cada 24 h) Exames de sangue de urgência ( 160 > 200 6 40 a 54 50 a 64 6 110 > 110 6 FC (mov/min) > 160 > 150 4 90 > 70 5 Apneia Apneia 5 PaO2 /FiO2 * 200 a 300 200 a 300 2 65 > 65 5 Escala de coma de Glasgow*** 1,5 × > 1,5 × 2 controle controle BT (mg/dℓ)**** > 3,5 > 3,5 6 K+ (mEq/ℓ) 3 a 3,5 3 a 3,5 1 6,5 a 7,5 6,5 a 7,5 1 7,5 > 7,5 5 Ca++ (mg/dℓ) 7 a 8 7 a 8 2 12 a 15 12 a 15 2 15 > 15 6 Glicose (mg/dℓ) 40 a 60 40 a 60 4 250 a 400 250 a 400 4 400 > 400 8 Bicarbonato (mEq/ℓ)***** 32 > 32 3 *Não realizar em pacientes com shunt intracardíaco ou insuficiência respiratória crônica; requer gasometria arterial. **Pode ser realizada análise de gases sanguíneos por amostra capilar. ***Realizar apenas em suspeita ou conhecimento de disfunção do sistema nervoso central; não realizar em pacientes durante paralisia, sedação e anestesia terapêutica. Escores menores que 8 correspondem a torpor e coma profundo. ****Não realizar em lactentes menores de 1 mês de idade. *****Usar valores medidos por gasometria arterial. PA = pressão arterial; FC = frequência cardíaca; FR = frequência respiratória; PaO2 /FIO2 = relação entre a captação de oxigênio (pressão arterial de oxigênio) e o aporte de oxigênio pulmonar (fração inspirada de oxigênio); PaCO2 = pressão arterial de gás carbônico); TP/TTPA = tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial ativada; BT = bilirrubina total; K+ = potássio; Ca++ = cálcio. Fonte: Pollack et al., 1988. Outra importante conclusão, deste tipo de trabalho, é que, apesar de a taxa de mortalidade geral ser mais elevada, UTIPs terciárias tendem a apresentar, para um mesmo grau de instabilidade fisiológica, medida pelo PRISM, sobrevida maior quando comparada com o resultado de UTIPs secundárias, regionais. Este dado é importante na criação de sistemas de atendimento de medicina crítica. Por exemplo, a criação de um serviço de atendimento ao politraumatizado regionalizado, já que os dados são analisados de acordo com faixas estratificadas de graus de instabilidade fisiológica. Outro uso do escore PRISM é a possibilidade de prever o risco de pacientes instáveis e gravemente enfermos adquirirem infecção nosocomial durante o período de internação na UTIP. Conforme nos mostrou Pollack em 1991, um escore PRISM ≥ 10 está associado a risco de infecção de 10,8%, e pacientes com instabilidade menor têm apenas 3,4% de risco de adquirir infecção nosocomial. Importantes usos do PRISM, além dos já descritos, incluem: informação pré-transporte de pacientes graves, embora com uso controverso; isolamento de grupos de pacientes para testar terapêuticas selecionadas; agrupar pacientes com gravidade de doença similar para estudos econômicos médicos e estudos sobre segurança e qualidade de serviços e terapêuticas. Um dado importante para controle de qualidade em UTI é, entre outros, oconhecimento dos resultados em relação ao tipo de atendimento prestado em cada Unidade. Avaliando a gravidade dos pacientes internados, usando escores prognósticos em relação aos recursos utilizados e à mortalidade encontrada, tenta-se melhorar a qualidade de vida do paciente, sua sobrevida, com o menor custo possível. Com isto está sendo possível criar categorias de pacientes, de acordo com o grau de gravidade da doença, e estimar o custo desses pacientes, para determinar se a UTI está gastando mais ou menos que a média. Além disso, é possível criar critérios de triagem de pacientes para admissão e alta da UTI; portanto, com controle interno e externo de qualidade da instituição, comparando-a com outras Unidades e definindo em que instituição deverão ser aplicados mais recursos. Isto é muito importante, já que o custo da medicina e, principalmente, do paciente extremamente grave vem aumentando muito e acima do crescimento do PIB (produto interno bruto) americano. Associado a isso, há uma política de saúde americana, de regionalização de atendimento de pacientes graves, mediante categorização dos serviços de medicina crítica, por meio da Task Force on Guidelines da Society of Critical Care Medicine (SCCM). Pacientes em cuidado intensivo realizam mais testes diagnósticos que pacientes em internação de rotina, custando quatro vezes mais do que estes. Tentar baixar os altos custos envolve: educação médica, auditoria computadorizada, incentivos fiscais, revisões pelos pares (peer reviews) etc. Já foi demonstrado que muitos dos procedimentos realizados nos pacientes não melhoram a sobrevida, podendo, ao contrário, ser lesivo e aumentar os custos. Estes dados foram extraídos de vários estudos envolvendo a avaliação da instabilidade fisiológica, comparada com o resultado do tratamento e o custo da terapêutica utilizada. A principal causa de excesso de uso de terapia intensiva foi a incerteza pela equipe médica da evolução do paciente, devido a incorreta ou ausente classificação da gravidade deste doente. A utilização diária de escores prognósticos (PRISM e TISS) diários em uma UTIP nos EUA conseguiu diminuir o custo hospitalar médio com exames laboratoriais e exames diagnósticos por imagens. É cada vez mais aceita a importância de estadiar melhor os doentes que necessitam de UTI para otimizar o uso dos recursos, e torna-se essencial em regiões onde exista carência de leitos de UTI. Portanto, uma grande importância do uso de escores prognósticos, entendendo a história natural da doença e a sua recuperação, é compreender a evolução da gravidade da doença e, após o tratamento realizado, avaliar a qualidade e a eficiência do atendimento. ▶ PRISM III O PRISM III (pediatric risk mortality III) é uma nova versão do PRISM e foi desenvolvido em um centro médico nacional infantil, em Washington, DC, com base em dados coletados de 32 UTIPs usando 11.165 internações, representando uma grande diversidade de características organizacionais e estruturais. Pode ser utilizado para uma variedade de finalidades, incluindo estimar o risco de mortalidade com base nas primeiras 12 h ou 24 h de permanência sob cuidados na UTIP, e quantificar a gravidade da doença. O PRISM III possui 17 variáveis fisiológicas subdivididas em 26 faixas e é independente da população. As variáveis mais preditoras de mortalidade são pressão arterial (PA) sistólica mínima, reflexos pupilares anormais e estupor/coma. Variáveis no PRISM original que não foram incluídas no PRISM III são PA diastólica, frequência respiratória, PaO2 /FIO2 , bilirrubina sérica e concentração de cálcio. Outros fatores de risco, incluindo dois diagnósticos agudos e dois crônicos, e quatro fatores de risco adicionais foram utilizados nos preditores finais. O PRISM III é amplamente aceito, mas existem alguns problemas com seu uso: muitas informações são necessárias para • • • • • • calculá-lo e muitas UTIs não o fazem rotineiramente. Usos de modelos de predição de mortalidade, incluindo o PRISM III, são aplicáveis a grupos de pacientes, por exemplo, para avaliar o desempenho institucional, auxiliando a melhorar as formas organizacionais e monitorar o efeito da mudança na prática observando as tendências dentro das UTIPs ao longo do tempo, além de controlar a gravidade da doença. O PRISM III leva 24 h para ser concluído e não pode ser usado para regulamentar a admissão na UTIP. A pontuação total do PRISM III é dada por (subescore cardiovascular e neurológico) + (subescore de ácido-base e gases do sangue) + (subescore de química) + (subescore de hematologia) e deve ser interpretada da seguinte forma: Subescore mínimo e escore total: 0 Subescore máximo cardiovascular e neurológico: 30 Subescore máximo de ácido-base e gases do sangue: 22 Subescore máximo de bioquímica: 10 Subescore máximo de hematologia: 12 Escore máximo total do PRISM III: 74. Quanto maior o escore total, pior o prognóstico. Uma pontuação crescente indica deterioração. Se realizado durante as primeiras 12 h na UTI, o escore é designado PRISM-12; se realizado durante as primeiras 24 h na UTI, é designado PRISM-24. O conhecimento de determinantes do desfecho em pacientes críticos não só ajudaria a melhorar a avaliação prognóstica dos pacientes, mas também indicaria no que a terapia e a pesquisa deveriam focar para melhorar os resultados a curto e longo prazos desses pacientes. O escore está descrito no Quadro 4.4. ▶ SOFA A nova definição diz que a sepse é “presença de disfunção orgânica ameaçadora à vida secundária à resposta desregulada do organismo à infecção”. O diagnóstico clínico de disfunção orgânica se baseia na variação de dois ou mais pontos no escore SOFA (sequential organ failure assessment). O SOFA é útil para prever os desfechos clínicos de pacientes gravemente enfermos durante a internação na UTI, sendo composto por dados dinâmicos do estado clínico do paciente. Para operacionalização clínica, a disfunção orgânica pode ser representada por aumento de 2 ou mais pontos na contagem de pontos do SOFA relacionado à sepse. O escore SOFA utiliza seis pontuações para medir seis diferentes sistemas: respiratório, cardiovascular, hepático, hematológico, renal e neurológico. No entanto, variáveis laboratoriais como PaO2 , contagem de plaquetas, nível de creatinina e bilirrubina são necessárias para a computação completa. A disfunção orgânica pode ser identificada como alteração aguda no total SOFA ≥ 2 pontos consequentes à infecção. A pontuação inicial do SOFA deve ser considerada zero, a menos que o paciente seja conhecido por ter disfunção orgânica preexistente (aguda ou crônica). O SOFA ≥ 2 reflete um risco global de mortalidade de aproximadamente 10% em uma população hospitalar geral com suspeita de infecção. Os pacientes que já apresentam disfunção podem deteriorar ainda mais, enfatizando a seriedade desta condição e a necessidade de rápida e adequada intervenção, se ainda não estiver instituída. QUADRO 4.4 Escore PRISM III. Grupo de idade Intervalo de idade Neonato 0 até 12 meses até 144 meses (12 anos) Adolescente > 144 meses (> 12 anos) Subescores: (1) Sinais vitais cardiovasculares e neurológicos: 5 medidas (2) Ácido-base e gases do sangue: 5 medidas (3) Testes químicos: 4 medidas (4) Testes hematológicos: 3 medidas (com PT e TTPA contados como um) Variáveis para pontuação: use os valores mais altos e/ou mais baixos para pontuação. Cardiovascular e neurológico Encontrado Pontos Pressão sistólica (mmHg) 65 0 Infantil = 45 a 65 3 Infantil 75 0 Criança = 55 a 75 3 Criança 85 0 Adolescente = 65 a 85 3 Adolescente 225 4 Infantil 225 4 Criança 205 4 Adolescente 155 4 • • • • Temperatura(°C) 40 3 Estado mental: escala de coma de Glasgow ≥ 8 0 3 mm) 7 Fixa bilateral > 3 mm 11 Considerando que: A frequência cardíaca não deve ser monitorada durante choro ou agitação iatrogênica O tamanho da pupila não deve ser avaliado após dilatação iatrogênica A temperatura corporal pode ser retal, oral, axilar ou sanguínea O estado mental não deve ser pontuado dentro de 2 h de sedação, paralisia ou anestesia. Se a sedação, a paralisia ou a anestesia forem contínuas, classifique com base na pontuação antes da sedação, paralisia ou anestesia Ácido-base e gases do sangue Encontrados Pontos Acidose (mEq/ℓ) pH > 7,28 e CO2 ≥ 17 0 pH 7,0 a 7,28 ou CO2 5 a 2 • • 16,9 pH 7,55 3 PCO2 (mmHg) 75 3 CO2 total (mEq/ℓ) ≤ 34 0 > 34 4 PaO2 (mmHg) ≥ 50 0 42,0 a 49,9 3 200 2 Potássio (mEq/ℓ) ≤ 6,9 0 > 6,9 3 Creatinina (mg/dℓ) Neonato ≤ 0,85 0 Neonato > 0,85 2 Infantil ≤ 0,90 0 Infantil > 0,90 2 Criança ≤ 0,90 0 Criança > 0,90 2 Adolescente ≤ 1,30 0 Adolescente > 1,30 2 Ureia (mg/dℓ) Neonato ≤ 11,9 0 Neonato > 11,9 3 Não neonato ≤ 14,9 0 Não neonato > 14,9 3 Considerando que: medições de sangue total para glicose aumentam 10% em relação ao soro; para potássio, 0,4 mEq/ℓ. Testes hematológicos Encontrados Pontos Contagem de leucócitos ≥ 3.000 0 200.000 0 100.000 a 200.000 2 50.000 a 99.999 4 22 ou TTPA > 85 3 Não neonato TP ≤ 22 e TTPA ≤ 57 0 Não neonato TP > 22 ou TTPA > 57 3 Considerando que: o limite superior dos intervalos de referência normais para TP e TTPA não é fornecido. Outros fatores para documentar: (1) Doença cardiovascular não operatória (2) Anomalia cromossômica (3) Câncer (4) Admissão prévia na UTI durante a internação atual (5) RCP pré-UTI na admissão atual (6) Pós-operatório (sem cateterismo) durante as últimas 24 h (7) Diabetes agudo com cetoacidose ou outra complicação grave (8) Internação em unidade de internação (não conta se em UTI 400 150 12 Cardiovascular Pressão arterial (mmHg) PAM ≥ 70 PAM 15 ou dobutamina (qualquer dose) a 15 ou epinefrina ≤ 0,1 ou norepinefrina ≤ 0,1 ou epinefrina > 0,1 ou norepinefrina > 0,1 SNC Escala de coma de Glasgow 15 13 a 14 10 a 12 6 a 9 5,0 Fluxo urinário (mℓ/d) 195 > 12 anos ≤ 150 > 150 Pressão sistólica (mmHg) 65 35 a 65 75 35 a 75 85 45 a 85 12 anos > 95 55 a 95 12 anos 70 ≤ 70 PaCO2 (mmHg) ≥ 90 > 90 Ventilação mecânica Sem ventilação Com ventilação Hematológica Contagem de leucócitos (109/ℓ) 4,5 e 1,5 a 4,4> 60 ≥ 60 INR 94%. Havendo equipamento apropriado disponível, ajuste a fração inspirada de oxigênio (FIO2 ) para a concentração mínima necessária à obtenção de saturação de oxigênio transcutâneo ou arterial > 94%, com a meta de evitar hiperoxia sem deixar de assegurar a administração adequada de oxigênio. Como a saturação arterial de oxi-hemoglobina de 100% pode corresponder à PaO2 em qualquer ponto entre 80 e 500 mmHg aproximadamente, de um modo geral, convém ajustar gradualmente a FIO2 quando a saturação for de 100%, contanto que a saturação possa ser mantida > 94%. Logo que possível, deve-se ajustar a ventilação mecânica para manter a PaCO2 adequada à patologia do paciente e evitar hiper ou hipocapnia. Passos da reanimação cardiopulmonar A seguir, são descritos alguns passos para que seja feito o procedimento de reanimação cardiopulmonar adequadamente. ▶ Circulação Verificar o pulso (braquial em lactentes e femoral ou carotídeo em crianças com peso acima de 30 kg), sem exceder 10 s Se pulso ausente ou frequência cardíaca (FC) 3 anos de idade. O tamanho mais adequado é aquele mais próximo da distância da comissura labial até a implantação da orelha Profundidade de inserção da cânula: diâmetro interno × 3 Se houver deterioração clínica após intubação, verificar DOPE (deslocamento da cânula, obstrução, pneumotórax, falha do equipamento) Após a intubação, não há necessidade de pausa entre as compressões para realizar a ventilação. Manter compressões ininterruptas a 100 bpm e ventilar com frequência de 10 ipm, ou seja, uma ventilação a cada 6 s. Estabelecimento de acesso venoso. Na impossibilidade de obter acesso venoso periférico rapidamente, considere o acesso intraósseo (IO). No caso de dificuldade de acesso venoso e IO, algumas medicações podem ser administradas pela via traqueal (ET). Tais medicações podem ser lembradas por meio da regra mnemônica “ANEL” (atropina, naloxona, epinefrina e lidocaína). Doses endotraqueais: Atropina: 0,03 mg/kg Naloxona: 0,1 mg/kg se 20 kg Epinefrina: 0,1 mg/kg (1:1.000; 0,1 mℓ/kg de epinefrina pura) Lidocaína: 2 a 3 mg/kg. A absorção por esta via é errática e, sempre que usada, o fármaco deve ser diluído em 5 mℓ de soro fisiológico (SF 0,9%)e a infusão deve ser seguida de cinco ventilações com pressão positiva. Seu uso, contudo, é desencorajado. • • • Doses dos medicamentos intravenosos (IV)/IO: Epinefrina: 0,01 mg/kg (0,1 mℓ/kg de epinefrina 1:10.000); adultos – 1 mg (1:1.000) Amiodarona: 5 mg/kg; adultos – 300 mg, podendo-se considerar uma única dose adicional de 150 mg Lidocaína: 1 a 1,5 mg/kg, seguida de 0,5 a 0,75 mg/kg em intervalos de 5 a 10 min, até dose máxima de 3 mg/kg. A Figura 5.1 ilustra a sequência de ações na avaliação da criança em RCP. FIGURA 5.1 Algoritmo para avaliação inicial do paciente. DEA = desfibrilador externo automático; SME = suporte médico de • • emergência; VR = via respiratória. ▶ Checagem do ritmo cardíaco Ritmos não tratados com choque. Assistolia e atividade elétrica sem pulso (AESP): nestes casos, deve-se manter a RCP e infundir epinefrina a cada 3 a 5 min. Ritmos tratados com choque. Fibrilação ventricular (FV) e taquicardia ventricular (TV) sem pulso. A partir do primeiro choque, as manobras de RCP devem ser retomadas (2 min) até que seja efetuado um novo choque, se necessário. Após o segundo choque, deve-se administrar epinefrina e considerar a instalação de via respiratória avançada. Em caso de terceiro choque, deve-se aplicar amiodarona ou lidocaína. As manobras de RCP devem ser retomadas (2 min) entre cada novo choque. Posicionamento das pás no tórax. Devem ser posicionadas na borda esternal superior direita e no tórax esquerdo, abaixo do braço no nível do mamilo esquerdo. Para tórax muito pequeno, posicionar uma pá na região anterior à esquerda do esterno e a outra na região interescapular. Pás pediátricas devem ser usadas em crianças com menos de 10 kg. ▶ Outras medicações Bicarbonato de sódio: uso rotineiro desencorajado. Está indicado em parada cardiorrespiratória (PCR) prolongada (> 30 min) ou hiperpotassemia. Dose: 1 mEq/kg IV ou IO em bolo, diluído 1:1 em água destilada (solução a 8,4% de bicarbonato = 1 mEq/mℓ) Gluconato de cálcio: indicado quando houver suspeita de hiperpotassemia, hipocalcemia, hipermagnesemia ou superdosagem de bloqueadores de canais de cálcio. Dose: GluCa a 10%, 0,5 a 1,0 m ℓ /kg IV lento (velocidade máxima 0,5 mℓ/kg/min) • • • Sulfato de magnésio: indicado quando houver hipomagnesemia ou torsade de pointes. Dose: sulfato Mg a 10% (100 mg de Mg em 1 m ℓ) 25 a 50 mg/kg IV ou IO em 10 a 20 min. Infunda em bolo se torsade de pointes A administração de cálcio de rotina não é recomendada para a PCR pediátrica na ausência de hipocalcemia, dose excessiva documentada de bloqueador dos canais de cálcio, hipermagnesemia ou hiperpotassemia. A administração de cálcio de rotina em PCR não produz benefícios e pode ser nociva por estar relacionada à lesão de reperfusão. Está demonstrado que o etomidato facilita a intubação traqueal em bebês e crianças com efeito hemodinâmico mínimo, mas não é recomendado para uso de rotina em pacientes pediátricos com evidência de choque séptico, pois pode causar supressão adrenal. As Figuras 5.2 e 5.3 ilustram os algoritmos da parada cardíaca sem pulso e da bradicardia. Estabilização pós-RCP Após recuperação da circulação espontânea (RCE), deve-se tratar agressivamente a hipertermia objetivando temperaturas de 36 a 37,5°C nos 5 primeiros dias, ou hipotermia (32 a 34°C) por 2 dias, seguida de normotermia por 3 dias, particularmente para pacientes que não recobraram a consciência após RCE, mantendo monitoramento contínuo de temperatura. FIGURA 5.2 Algoritmo da parada cardiorrespiratória sem pulso. RCP = reanimação cardiopulmonar; DEA = desfibrilador externo automático; FV = fibrilação ventricular; TV = taquicardia ventricular sem pulso; AESP = atividade elétrica sem pulso; IOT = intubação orotraqueal; IV = via intravenosa; VR = via respiratória; PCR = parada cardiorrespiratória; TT = tubo traqueal. FIGURA 5.3 Algoritmo da bradicardia. IO = via intraóssea; IV = via intravenosa; VR = via respiratória; RCP = reanimação cardiopulmonar; FC = frequência cardíaca; BAV = bloqueio atrioventricular, PCR = parada cardiorrespiratória. • • • • • • • • • • ∘ ∘ ∘ A estabilização cardiocirculatória no período pós-parada cardiorrespiratória cumpre os princípios descritos a seguir. ▶ Objetivos Preservar a função cerebral Evitar lesões secundárias dos órgãos Tratar a causa de base da PCR. ▶ Sistema respiratório Evitar hipoxemia, hiperoxia, hipercapnia ou hipocapnia Monitorar com gasometria arterial cerca de 15 min após estabilização dos parâmetros ventilatórios Ajustar imediatamente a FIO2 para manter SatO2 de 94 a 96% (evitar hiperoxia, mesmo por curtos períodos). ▶ Sistema cardiovascular É comum disfunção miocárdica após PCR. Deve-se realizar reposição fluídica (cristaloide), mantendo PVC (pressão venosa central) entre 8 e 12 mmHg; pode-se avaliar a adequação volêmica por meio de ultrassonografia da veia cava inferior Manter a pressão arterial média (PAM) normal para a idade Monitorar o débito cardíaco: débito urinário (DU) 1 a 2 m ℓ /kg/h em lactentes, 250 a 300 m ℓ /m2/dia em crianças e > 12 m ℓ /m2/h em adolescentes; saturação venosa central de oxigênio (SVO2 ) > 70% (exceto em cardiopatias congênitas e síndrome do desconforto respiratório agudo [SDRA]); lactato normal ou decrescente; ecocardiografia à beira do leito se possível Se houver evidência de baixo débito após adequação volêmica, introduzir uma das opções de medicação vasoativa a seguir: Epinefrina: 0,1 a 0,3 mcg/kg/min Dobutamina: 5 a 10 mcg/kg/min Milrinona: 0,375 a 0,750 mcg/kg/min. • • • • • • ▶ Sistema nervoso Evitar hiperventilação Tratar a hipertermia agressivamente (manter normotérmico) Tratar as convulsões agressivamente Manter a glicemia dentro da faixa aceitável (80 a 180 mg/dℓ). ▶ Sistema renal Evitar fármacos nefrotóxicos Ajustar doses de fármacos com excreção renal em caso de insuficiência desse órgão. O Quadro 5.1 mostra os elementos básicos do monitoramento que deve ser realizado após a RCP. QUADRO 5.1 Monitoramento na síndrome pós-parada cardíaca. Monitoramento básico (sempre indicado) Oximetria de pulso Pressão venosa central Saturação venosa central (SVO2) Temperatura Débito urinário (sonda vesical) Pressão arterial invasiva Gasometria arterial Lactato Glicemia, eletrólitos, hematócrito e hemoglobina Radiografia de tórax Monitoramento hemodinâmico avançado Ecocardiograma Monitoramento cerebral Eletroencefalograma Tomografia de crânio • • • Definição A morte encefálica (ME) é definida como a perda total e irreversível das funções cerebrais, com ausência das atividades corticais e do tronco encefálico. A causa da lesão cerebral deve ser conhecida, irreversível e capaz de provocar o quadro clínico. Sua determinação deve ser realizada por equipe especializada e experiente, de forma padronizada, além de obedecer a alguns critérios, os quais estão listados a seguir. Presença de lesão encefálica de causa conhecida, irreversível e capaz de provocar quadro clínico. O diagnóstico do coma deve ser estabelecido pela avaliação clínica e confirmado por exames de neuroimagem ou por outros métodos diagnósticos. A incerteza da presença de uma lesão irreversível, ou da sua causa, impossibilita a determinação de ME Um período mínimo de observação e tratamento intensivo em ambiente hospitalar de 6 h, após o estabelecimento do coma, deverá ser respeitado Quando a encefalopatia hipóxico-isquêmica for a causa primária do quadro, deverá ser aguardado um período mínimo de 24 h após a parada cardiorrespiratória ou reaquecimento na hipotermia terapêutica, antes de iniciar a determinação de ME. Ausência de fatores que possam confundir o quadro clínico. Neste caso a equipe deve registrar em prontuário a situação e tomar medidas adequadas para sua correção, antes do início da determinação de ME. Tais fatores são: hipotermia (temperatura central inferior a 35°C), hipotensão (de acordo com a faixa etária; para adultos: pressão arterial média igual ou inferior a 64 mmHg), distúrbio hidreletrolítico, acidobásico, endócrino ouintoxicação exógena grave (a hipernatremia grave e refratária não inviabiliza a determinação, desde que não seja a única causa), fármacos com ação depressora do sistema nervoso central (FDSNC) e bloqueadores neuromusculares (BNM) – neste caso, quando do uso dessas medicações em doses habituais e de forma continua, deve- se aguardar o intervalo de tempo de 5 meias-vidas, após sua interrupção. Quando houver insuficiência hepática e/ou renal, o intervalo de tempo deve ser individualizado e, nesses casos, deve- se preferir exames complementares que avaliem o fluxo sanguíneo cerebral, já que o eletroencefalograma sofre influência desses agentes. Diagnóstico São necessários dois exames clínicos, um teste de apneia e um exame complementar, sendo que todos os critérios devem ser preenchidos para o adequado diagnóstico da ME. Os dois exames clínicos devem ser realizados por diferentes profissionais, especificamente capacitados, em diferentes intervalos que variam com a idade do paciente. Ao menos um dos médicos deve ser especialista em uma das seguintes áreas: medicina intensiva, medicina intensiva pediátrica, neurologia, neurologia pediátrica, neurocirurgia, medicina de emergência ou estar capacitado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). O teste de apneia deverá ser realizado uma única vez por um dos médicos responsáveis pelo exame clínico e deverá comprovar ausência de movimentos respiratórios na presença de hipercapnia. O exame complementar deve comprovar de modo inequívoco ausência de • • perfusão sanguínea cerebral, atividade elétrica cerebral ou atividade metabólica encefálica. O exame clínico deve demonstrar de forma inequívoca a existência das seguintes condições: Coma não perceptivo Ausência de resposta motora supraespinal manifestada pela ausência dos reflexos fotomotor, corneopalpebral, oculocefálico, vestibulocalórico e de tosse. Ausência do reflexo fotomotor. As pupilas devem estar fixas, sem resposta ao estímulo luminoso, podem ter diâmetros variáveis ou assimétricos. Ausência do reflexo corneo palpebral. Quando se estimula o canto lateral inferior da córnea com algodão com soro fisiológico ou apenas se estimula com soro fisiológico, não há movimento de piscar de olhos. Ausência do reflexo oculocefálico. Não existe desvio dos olhos durante a movimentação rápida da cabeça nos sentidos lateral e vertical. Esse teste não deve ser feito na suspeita ou na presença de lesão cervical confirmada. Ausência do reflexo vestibulocalórico. Não existe movimentação ocular (durante a observação por 1 min) após colocação de água fria (50 a 100 mℓ a 5°C) no conduto auditivo, com a cabeça a 30°. Aguardar 3 min entre o exame de um lado para o outro e garantir que não exista ruptura timpânica ou oclusão do conduto por cerume. Ausência do reflexo da tosse. Estimular o reflexo com uma sonda de aspiração endotraqueal. Não haverá tosse ou bradicardia. Na repetição do exame clínico por outro médico será utilizada a mesma técnica do primeiro exame. Não é necessário repetir o teste de apneia quando o resultado do primeiro teste for positivo (ausência de movimentos respiratórios na vigência de hipercapnia documentada). • • • • O intervalo mínimo de tempo a ser observado entre o 1o e o 2o exame clínico é de 1 hora nos pacientes com idade igual ou maior a 2 anos. Nas demais faixas etárias, esse intervalo é variável, devendo ser observado o Quadro 6.1. QUADRO 6.1 Intervalo mínimo de tempo a ser observado entre o 1o e o 2o exame clínico de acordo com a faixa etária. Faixa etária Intervalo mínimo (h) 7 dias (recém-nato a termo) até 2 meses incompletos 24 2 a 24 meses incompletos 12 Mais de 24 meses 1 Teste de apneia. É obrigatório e pode ser realizado em qualquer momento após a abertura do protocolo de determinação de ME. Para o início do teste, o paciente deve ter temperatura central superior a 35°C, Saturação de oxigênio (SaO2 ) acima de 94% e normotenso. Os passos do teste são: Ventilar com fração inspirada de oxigênio (FIO2 ) a 100% por 10 min, no mínimo, ou o suficiente para atingir pressão arterial de oxigênio (PaO2 ) igual ou superior a 200 mmHg e pressão arterial de gás carbônico (PaCO2 ) entre 35 e 45 mmHg. A PaO2 inferior a 200 mmHg não invalida o teste, mas deve ser anotado no prontuário do paciente Manter monitoramento com saturometria, colher gasometria arterial Desconectar da ventilação mecânica e manter cateter de O2 intratraqueal, ao nível da carina, a 6 ℓ /min, ou em tubo T a 12 ℓ /min ou em pressão positiva contínua nas vias respiratórias (CPAP) com 12 ℓ/min e máximo de 10 cmH2O Observar a presença de movimentos respiratórios por 8 a 10 min • Coletar nova gasometria arterial e reconectar em ventilação mecânica. O teste é considerado positivo se a PaCO2 final for superior a 55 mmHg, na ausência de movimentos respiratórios. O teste é inconclusivo quando a PaCO2 for menor que 56, sem movimentos respiratórios. O teste é negativo quando existirem movimentos respiratórios, independente do valor da PaCO2 . Se, durante o teste, houver instabilidade hemodinâmica, arritmias, queda importante na SaO2 , deve-se interromper o procedimento e reconectar o paciente na ventilação mecânica. ▶ Exames complementares É imprescindível demostrar a ausência de fluxo sanguíneo cerebral ou de atividade elétrica cerebral ou atividade metabólica cerebral. A escolha de qual exame será realizado deve ser baseada nas condições clínicas do paciente e na disponibilidade de cada serviço, mas sempre deve ser justificada em prontuário. Angiografia cerebral. O exame deve demostrar ausência de fluxo sanguíneo intracraniano. O laudo deve se basear nas normas técnicas do Colégio Brasileiro de Radiologia. Eletroencefalograma. Constatar a ausência de atividade elétrica ou o “silêncio elétrico cerebral” (ausência de atividade elétrica com potencial superior a 2 microvolts), conforme as normas técnicas da Sociedade Brasileira de Neurofisiologia Clínica. Doppler transcraniano. Demostrar a ausência de fluxo sanguíneo pela presença de fluxo diastólico reverberante e pequenos picos sistólicos na fase inicial da sístole), conforme estabelecido pelo Departamento Científico de Neurossonologia da Academia Brasileira de Neurologia. Cintilografia, tomografia computadorizada por emissão de fóton único (SPECT) cerebral. Ausência de perfusão ou metabolismo • • • • • • • • • • encefálico, conforme as normas técnicas da Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear. Deve-se levar em consideração que os exames que avaliam o fluxo sanguíneo cerebral não são afetados por substâncias que deprimem o sistema nervoso central (SNC), sendo, por isso, mais indicados nessas situações. Em crianças com fontanelas abertas, o mais indicado é o eletroencefalograma. Critérios de exclusão para doação de órgãos Infecções virais: HIV, HTLV-I/II, hepatites virais (exceto se o receptor já for portador do mesmo sorotipo), meningoencefalite viral, infecções virais agudas (p. ex., rubéola, raiva, adenovírus, enterovírus, parvovírus) Tuberculose em atividade Sepse clinicamente não controlada (exceto se em estabilidade hemodinâmica ou regressão de vasopressor) Disfunção de múltiplos órgãos e sistemas Infecção fúngica invasiva, meningoencefalite por criptococo Infecções parasitárias: doença de Chagas e malária Neoplasias malignas atuais ou passadas, exceto: carcinoma in situ de pele, carcinoma in situ de colo uterino, alguns tumores primários de SNC (meduloblastoma, glioblastomas e astrocitomas de alto grau). Não são contraindicações à doação: Infecções bacterianas se o doador estiver com antibioticoterapia eficaz há pelo menos 48 h ou sepse controlada Sífilis e toxoplasmose Colonização por germe multirresistente, exceto se houver colonização no sítio a ser transplantado, ou não houver opção terapêutica eficaz. Exames subsidiários • • • • • • • • • • • Tipagem sanguínea: grupo ABO e fator Rh Sorologias: anti-HIV, HTLV-I/II, HBsAG, anti-HBc, anti-HBS, anti- HCV, citomegalovírus (CMV),* doença de Chagas, toxoplasmose, VDRL*Hemograma com contagem de plaquetas Eletrólitos: sódio, potássio, cálcio, magnésio e fósforo Triagem infecciosa: duas hemoculturas e culturas das topografias em que haja suspeita de infecção Doador de pulmão: gasometria arterial e radiografia de tórax Doador de coração: troponina, CKMB, eletrocardiograma (ECG), ecocardiograma (ECO) e cateterismo cardíaco* Doador de rim: ureia, creatinina e urina tipo I Doador de fígado: transaminases, gamaglutamil transpeptidase (GGT), fosfatase alcalina, bilirrubinas Doador de pâncreas: amilase e glicemia. Declaração de óbito A data e o horário da morte correspondem ao último exame que determinou a ME. A declaração de óbito (DO) deve ser preenchida pelo médico que assistiu o paciente e atestou a ME ou seu substituto. No caso de morte não natural (homicídios, acidentes, suicídio, mortes suspeitas) a DO deve ser preenchida pelo médico perito do Instituto Médico-Legal (IML). A morte encefálica equivale à morte. Portanto, após o seu diagnóstico, e no caso de não doador de órgãos, o médico deve suspender todos os suportes terapêuticos. Esta prática não configura qualquer agravo à vida, uma vez que se trata de um cadáver. Manutenção do potencial doador ▶ Monitoramento Eletrocardiograma contínuo • • • • • • • • • • • • • • • • • • • Pressão venosa central (PVC) Pressão arterial Temperatura Débito urinário. ▶ Suporte cardiovascular Tratamento do choque, se houver Manutenção da pressão arterial sistólica adequada para idade, porém toleram-se pressões menores se lactato sérico for normal (avaliar faixa de normalidade de acordo com valor de referência do laboratório do serviço) PVC 10 g/dℓ Saturação venosa central > 70% Ecocardiograma seriado Parada cardíaca: executar reanimação cardiopulmonar. ▶ Suporte ventilatório Idealmente manter o potencial doador com os seguintes parâmetros: PaO2 > 100 mmHg FIO2 para avaliação do quadro de dor em crianças em estado grave. Indicada para uso em pacientes pediátricos de qualquer faixa etária e em pacientes com déficit cognitivo. Cada categoria avaliada (face, pernas, atividade, choro e consolabilidade) recebe uma pontuação de 0 a 2. A soma da pontuação obtida ao final da avaliação tem correlação com o grau de dor do paciente (Quadro 7.1). ▶ Avaliação multidimensional na escala de dor O MAPS (multidimensional assessment of pain scale) foi desenvolvido para mensurar a dor pós-operatória em crianças com idade inferior a 2 anos de idade (pré-verbais) gravemente doentes. Compreende cinco categorias, incluindo sinais vitais (frequência cardíaca [FC] e pressão arterial [PA]), padrão de respiração, expressões faciais, movimentos corporais e estado de excitação. Cada categoria recebe uma pontuação de 0, 1 ou 2 para o cálculo de uma pontuação total que varia entre 0 (sem dor) e 10 (dor extrema), conforme o Quadro 7.2. QUADRO 7.1 Escala de FLACC. Categorias Pontuação 0 1 2 Face Nenhuma expressão especial ou sorriso Caretas ou sobrancelhas franzidas de vez em quando, introversão, desinteresse Tremor frequente do queixo, mandíbulas cerradas Pernas Normais ou relaxadas Inquietas, agitadas, tensas Chutando ou esticadas Atividade Quieta, na posição normal, movendo-se facilmente Contorcendo- se, movendo- se para frente e para trás, tensa Curvada, rígida ou com movimentos bruscos Choro Sem choro, acordada ou dormindo Gemidos ou choramingos; queixa ocasional Choro continuado, grito ou soluço; queixa com frequência Consolabilidade Satisfeita, relaxada Consolada por toques, abraços ou conversas ocasionais, pode ser distraída Difícil de consolar ou confortar Pontuações: 0 = sem dor; 1 a 3 = dor leve; 4 a 6 = dor moderada; e 7 a 10 = dor intensa. Adaptado de Crellin et al., 2015. QUADRO 7.2 Avaliação multidimensional na escala de dor. Categorias Pontuação 0 1 2 Sinais vitais (frequência cardíaca e/ou pressão arterial) Sem alterações Aumento maior que 10 bpm e/ou aumento maior que 10 mmHg Diminuição maior que 10 bpm e/ou diminuição maior que 10 mmHg Padrão respiratório Sem alteração Desenvolvimento ou aumento da insuficiência respiratória Insuficiência respiratória grave Expressões faciais Relaxada Careta Careta associada a choro silencioso ou fraco Movimentos corporais Nenhum movimento ou movimentos propositais Inquieto Movimento corporal rígido ou limitado Estado de excitação Calmo ou adormecido Hiper-reativo Irresponsivo Adaptado de Ramlet et al., 2007. ▶ Escala comportamental da dor O uso da escala comportamental da dor (behavioral pain scale) é indicado para avaliação de dor em paciente sedado ou em ventilação pulmonar. Ela avalia expressão facial, movimentos de membros superiores e sincronia com a VPM. O resultado da somatória de seus pontos varia de 3 a 12, e a pontuação igual ou maior que 6 indica dor inaceitável (Quadro 7.3). ▶ Escala de Ramsay Há muito tempo, a Escala de Ramsay é utilizada para avaliação do nível de sedação em adultos. Sua aplicação visa à realização de avaliação do nível de sedação, e sua avaliação é baseada, apenas, em parâmetros comportamentais. Os graus 2 e 3 são considerados os níveis adequados de sedação (Quadro 7.4). QUADRO 7.3 Behavioral pain scale, versão brasileira (BPS-Br). Item Descrição Pontuação Expressão facial Relaxada 1 Parcialmente contraída (p. ex., abaixamento palpebral) 2 Completamente contraída (olhos fechados) 3 Contorção facial 4 Movimentos dos membros superiores Sem movimento 1 Movimento parcial 2 Movimentação completa com flexão dos dedos 3 Permanentemente contraídos 4 Conforto com o ventilador mecânico Tolerante 1 Tosse, mas tolerante à ventilação mecânica na maior parte do tempo 2 Brigando com o ventilador 3 Sem controle da ventilação 4 Adaptado de Azevedo et al., 2016. QUADRO 7.4 Escala de Ramsay. Pontuação Parâmetros comportamentais 1 Ansiedade e/ou agitação 2 Tranquilidade, cooperação e orientação 3 Dormindo, responsividade ao comando verbal, tátil e auditivo leve 4 Resposta franca à estimulação auditiva intensa ou compressão da glabela 5 Resposta débil à estimulação auditiva intensa ou compressão da glabela 6 Irresponsividade Pontuações: 2 a 3 = sedação ideal; > 3 = sedação profunda. Adaptado de Pires et al., 2013. ▶ Escala de comportamento Comfort/Comfort-B A Escala Comfort deve ser utilizada na avaliação e no manejo da sedação em pediatria, com intervalos de 4 a 8 h ou conforme a necessidade do paciente. Deve-se pontuar cada parâmetro da escala e a somatória de pontos obtidos indicará o estado de sedação do paciente e o manejo clínico. Pontuações menores que 10 indicam paciente muito sedado, sendo necessária a diminuição das medicações. A pontuação entre 11 e 22 indica sedação adequada, e valores maiores que 23 pontos representam pacientes pouco sedados (tais pacientes necessitam de aumento da sedação). A Escala Comfort está demostrada no Quadro 7.5. QUADRO 7.5 Escala de comportamento Comfort (Comfort-B). 1. Nível de consciência: alerta Pontos Sono profundo 1 Sono superficial 2 Letargia 3 Totalmente acordado e alerta 4 Hiperalerta 5 2. Calma/agitação Pontos Calma 1 Ansiedade leve 2 Ansiedade moderada 3 Muito ansioso 4 Medo 5 3. Resposta respiratória (apenas pacientes em VPM) Pontos Ausência de tosse e de respiração espontânea 1 Respiração espontânea com pouca ou nenhuma resposta à ventilação 2 Tosse ou resistência ocasional ao ventilador 3 Respirações ativas contra o respirador ou tosse regular 4 Competição com o ventilador, tosse 5 4. Choro (apenas pacientes com respiração espontânea) Pontos Respiração silenciosa, sem som de choro 1 Resmungos, choramingos 2 Reclamações (monotonia) 3 Choro 4 Gritos 5 4. Movimento físico Pontos Sem movimento 1 Movimento leve ocasional 2 Movimento leve frequente 3 Movimento vigoroso limitado às extremidades 4 Movimento vigoroso incluindo tronco e cabeça 5 5. Tônus muscular Pontos Músculos totalmente relaxados 1 Hipotonia 2 Normotonia 3 Hipertonia com flexão de dedos e artelhos 4 Rigidez extrema com flexão de dedos e artelhos 5 8. Tensão facial Pontos Músculos faciais totalmente relaxados 1 Músculos faciais com tônus normal, sem tensão facial evidente 2 Tensão evidente em alguns músculos da face 3 Tensão evidente em todos os músculos da face 4 Músculos faciais contorcidos 5 VPM = ventilação pulmonar mecânica. Adaptado de Motta, 2017. Princípios de sedação e analgesia • • • • • • • • • • ∘ ▶ Medidas não farmacológicas Adequação do ambiente: diminuição das fontes de estímulos visuais e sonoros Uso de objetos para acalmar as crianças, principalmente os conhecidos por elas Explicação dos procedimentos Reforço positivo Fisioterapia e terapia ocupacional Presença dos pais Intervenção por meio de tratamentos psicológicos. ▶ Tratamento da dor e sedação O reconhecimento e o tratamento da dor são importantes, pois a resposta ao estresse da dor leva ao aumento de catecolaminas endógenas, ocasionando vasoconstrição arteriolar, piora da perfusão tecidual e diminuição da pressão parcial de oxigênio tecidual. Também pode ocasionar estado hipercatabólico, lipólise e hiperglicemia, além de aumentar riscos de infecção. Para escolher o melhor tratamento, é preciso individualizar cada paciente, avaliando-se: o tipo de procedimento que será realizado, a via de administração disponível, as contraindicações, os possíveis efeitos adversos e a graduação da dor (mediante as escalas). Com isso, é possível escolher a medicação adequada, devendo-se optar pela associação de medicações, o que permite a utilização de doses menores e, assim, menos efeitos adversos. De acordo com o tipo de dor, as opções são: Dor leve: analgésicos não opioides (p. ex., paracetamol, dipirona) Dor pós-operatória: considerar anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) Dor moderada: analgésicos não opioides + opioide fraco (p. ex., tramadol + dipirona) e AINEs Opção: anti-inflamatórios não hormonais(AINH) – cetoprofeno, ibuprofeno, naproxeno • • Dores intensas: opioide forte (p. ex., morfina, fentanila, metadona) Dor neuropática: associar medicações adjuvantes como gabapentina e carbamazepina. Atualmente, procura-se manter o uso de um nível leve de sedação, preconizando, inicialmente, investir na analgesia e, depois, iniciar a administração de sedativos (quando necessários) (Figura 7.3). O equilíbrio adequado entre o tratamento da dor e a ansiólise é necessário e mantém os pacientes despertos e comunicativos quanto possível. Por isso, cada UTIP deve elaborar um plano de sedação individualizado e titulado para as necessidades clínicas de cada paciente. FIGURA 7.3 Analgesia e sedação padrão para ventilação mecânica (VM). (Adaptada de Pires et al., 2013.) • • • ∘ ∘ ∘ ∘ • • • • ∘ ▶ Sedação Benzodiazepínicos São os fármacos mais utilizados para sedação. Ligam-se a receptores inibitórios do ácido gama-aminobutírico (GABA), produzindo ação hipnótica, sedativa, ansiolítica, anticonvulsivante e de relaxamento muscular. O uso de altas doses pode levar a amnésia retrógrada. ▶ Midazolam Farmacocinética: início de ação = 1 a 3 min; duração = 30 a 60 min; metabolismo = hepático Apresentação: ampola = 5 mg/mℓ (2 e 10 mℓ); comprimido = 7 e 15 mg Posologia Intravenoso (IV) ou intraósseo (IO): 0,1 a 0,2 mg/kg/dose Intranasal (IN) ou intramuscular (IM): 0,4 mg/kg/dose Dose máxima: 10 mg Infusão contínua: 2 a 10 mcg/kg/min ou 0,1 a 0,6 mg/kg/h Efeitos colaterais: depressão respiratória, hipotensão. Observações. Solúvel em água. É 4 vezes mais potente que o diazepam. Baixa toxicidade. Ampla dose terapêutica. A tolerância e a dependência desenvolvem-se após infusão prolongada (5 dias). Os sintomas de abstinência podem ocorrer quando a dose acumulada excede 60 mg/kg. ▶ Diazepam Farmacocinética: início de ação = rápido; duração = 20 a 30 minutos; metabolismo = hepático (glicuronização); eliminação = renal Apresentação: ampola = 10 mg/2 mℓ; comprimido = 5 e 10 mg Posologia Intravenoso (IV), por via oral (VO) ou via retal (VR): 0,3 a 0,5 mg/kg, conforme necessário a cada 6 ou 8 h • • • • ∘ • • Efeitos colaterais: depressão respiratória, bradicardia, sonolência, confusão e excitação paradoxal. O metabólito desmetildiazepam pode acumular-se durante o tratamento com grandes doses ou em administração crônica. Tromboflebite, dor à injeção. Observação. É pobremente solúvel em água. ▶ Lorazepam Farmacocinética: início de ação = rápido; duração/meia-vida = longa e varia de acordo com a idade; metabolismo = hepático; eliminação = renal Apresentação: comprimido = 1 e 2 mg Posologia: VO: 0,05 a 0,1 mg/kg/dose (máximo = 4 mg/dose) a cada 4 a 8 h ou conforme dose do midazolam contínuo que utilizou Efeitos colaterais: sedação, confusão mental, distúrbios visuais, síndrome de abstinência, elevação de enzimas hepáticas. Observações. Não é indicado nos casos de glaucoma de ângulo fechado e hipotensão grave. Seu uso é recomendado para tratamento de pacientes que desenvolveram abstinência após uso prolongado de outros benzodiazepínicos. A forma IV não está disponível no Brasil. ▶ Analgesia Analgésicos opioides Em geral são mais utilizados para tratamento da dor. Atuam nos receptores opioides mu causando analgesia, sedação, mas não amnésia. ▶ Morfina Farmacocinética: início de ação = dependente da via de administração, podendo variar de 1 até 60 min; duração = cerca de 4 h; metabolismo = hepático; eliminação = hepática e renal • • ∘ ∘ ∘ • • • • • • • Apresentação: ampola = 1 mg/mℓ (2 mℓ); comprimido = 10 mg Posologia: IV: 2,5 a 15 mg. Crianças: 0,05 a 0,1 mg/kg a cada 0,5 a 2 h para menores de 50 kg; e 5 a 10 mg a cada 0,5 a 2 h para maiores de 50 kg. Infusão contínua para menores de 50 kg: 0,025 mg/kg/h; e para maiores de 50 kg: 2 mg/h IM ou SC: 2,5 a 20 mg. Crianças: 0,05 a 0,2 mg/kg, até o máximo de 15 mg VO: 10 a 60 mg a cada 4 h. Crianças: 0,2 a 0,5 mg/kg a cada 4 a 6 h Efeitos colaterais: miose, bradicardia (vagal), hipotensão ortostática, liberação de histamina, broncospasmo, rigidez muscular (tronco; injeção rápida), convulsões em recém-nascidos e, quando usadas doses elevadas, depressão respiratória (tardia, após injeção espinal), náuseas, vômito, íleo paralítico, espasmo de vias biliares, retenção urinária, efeito prolongado em insuficiência renal. ▶ Fentanila Farmacocinética: início de ação = menor que 1 min; duração = de 30 a 60 min após injeção intravenosa; metabolismo = hepático; eliminação = hepática. Tem potência 100 vezes maior que a morfina Apresentação: ampola = 0,05 mg/mℓ = 50 mg/μℓ (2 e 10 mℓ) Posologia: IV ou IM: para menores de 50 kg = 2 a 4 mcg/kg; para maiores de 50 kg = 25 a 50 mcg a cada 1 a 2 h (máximo de 100 mcg/dose) Infusão contínua: para menores de 50 kg = 0,02 a 0,05 mcg/kg/min ou 1 a 3 mcg/kg/h; para maiores de 50 kg = 25 a 100 mcg/h Efeitos colaterais: depressão respiratória, hipotensão, constipação intestinal, vômito. Infusões rápidas podem causar • • • ∘ • • • • ∘ ∘ • rigidez de caixa torácica (geralmente relacionadas a doses maiores que 5 mcg/kg e rapidez de administração do fármaco). ▶ Metadona Farmacocinética: potência similar à da morfina; início de ação = rápida (tempo de ação = 2,5 h); duração = 24 h; metabolismo = hepático; eliminação = renal Apresentação: comprimido = 10 mg Posologia: VO: início de ação = 0,2 mg/kg/dose, a cada 6 a 8 h. É possível aumentar 0,05 mg/kg a cada dose, até o controle dos sintomas (máximo 10 mg/dose). As primeiras doses podem ser administradas a cada 6 a 8 h, após, a cada 12 a 48 h. Utilizar conforme a dose de fentanila contínua aplicada Efeitos colaterais: sintomas de liberação histamínica, hipotensão, bradicardia, depressão respiratória, sedação. Observação. Utilizada como tratamento de abstinência para pacientes em uso prolongado de outros narcóticos. ▶ Outras medicações utilizadas para sedação e analgesia Cetoprofeno Farmacocinética: início de ação = 5 min; duração = 8 h; pico de ação = 1 a 2 h; metabolismo = hepático; eliminação = renal. É dialisável Apresentação: comprimido = 50 e 100 mg; gotas = 20 mg/mℓ (1 mg/gota); ampola = 100 mg/2 mℓ Posologia IV ou VO: 1 mg/kg/dose a cada 8 h Máximo: 300 mg/dia Efeitos colaterais: náuseas, vômito, diarreia, dor abdominal, gastralgia, constipação intestinal, flatulência, cefaleia, vertigem, sonolência, rash cutâneo, prurido, broncospasmo, disfunção • • • ∘ ∘ ∘ ∘ ∘ ∘ renal, úlcera péptica, sangramento digestivo, perfuração intestinal. Observações. O uso desta medicação é contraindicado na presença de insuficiência hepática e renal grave. Aumenta o efeito dos anticoagulantes orais e da heparina, elevando o risco de hemorragia, e diminui a atividade dos diuréticos. Quando administrado por via intravenosa, causa ardor intenso. Paracetamol (acetaminofeno) Farmacocinética: início de ação = 30 min; duração = 4 a 6 h Apresentação: comprimido: 500 ou 750 mg; gotas: 200 mg/m ℓ (10 mg/gota); a apresentação IV não está disponível no Brasil Posologia: VO: a dose diária total de paracetamol não deve exceder tanto a dose de 75 mg/kg, 4.000 mg em um período de 24 h Crianças abaixo de 12 anos: 1 gota/kg até a dosagem máxima de 35 gotas. A dose recomendada de paracetamol varia de 10 a 15 mg/kg/dose, com intervalos de 4 a 6 horas entre cada administração. Não exceder 5 administrações (aproximadamente 50-75 mg/kg), em um período de 24 horas Crianças abaixo de 11 kg ou 2 anos: consultar o médico antes do uso. Adultos e crianças acima de 12 anos: 35 a 55 gotas, 3 a 5 vezes ao dia Dose diária máxima: 4.000 mg (275 gotas) administrados em doses fracionadas, não excedendo a dose de 1.000 mg/dose (55 gotas) com intervalos de 4 a 6 horas, no período de 24 horas Duração do tratamento: depende do desaparecimento dos sintomas. Observações. Pode causar discrasia sanguínea, insuficiência hepática e lesão renal. O uso associado a barbitúricos, hidantoína e carbamazepina aumenta o potencial de hepatotoxicidade. Pode • • • ∘ ∘ • • • • ∘ • • interferir em medidasda Unicamp. Pediatra e Nutrólogo do Hospital Centro Médico de Campinas. Especialista em Nutrição Parenteral e Enteral e em Terapia Intensiva Pediátrica. Mestre e Doutor pela Unicamp. Sandra Mara Queiroz Médica diarista da UTI Pediátrica da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Especialista em Medicina Intensiva Pediátrica pela AMIB e em Pediatria pela Sociedade Brasileira de Pediatria. Coordenadora da Comissão de Controle de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde do Hospital das Clínicas da Unesp. Tatiana de Campos Melo Médica Assistente da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Toshio Matsumoto Médico Coordenador da UTI Pediátrica e da UTI Neonatal do Hospital Municipal Infantil Menino Jesus de São Paulo. Membro do Departamento de Terapia Intensiva da Sociedade de Pediatria de São Paulo. Vinicius Leon Pereira Médico Assistente da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp. Agradecimentos Agradecemos e dedicamos este livro a todos os médicos residentes da disciplina de Medicina Intensiva e Emergências Pediátricas do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina de Botucatu – Unesp, que, ao longo de 30 anos, não só têm contribuído para o desenvolvimento da nossa especialidade e da nossa unidade de terapia intensiva, mas também, com seu vigor e entusiasmo, têm nos impulsionado para o futuro. Estendemos nossos agradecimentos a todos os docentes e médicos do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina de Botucatu, que nos apoiaram na árdua tarefa da fundação e implantação dessa UTI Pediátrica, assim como à Superintendência do Hospital das Clínicas de Botucatu, parceiro inseparável e fundamental na prestação de assistência aos pacientes pediátricos críticos. Não poderíamos deixar de agradecer igualmente a toda a equipe de médicos diaristas e plantonistas da UTI pediátrica e aos funcionários da unidade que nos auxiliam, no dia a dia, na nobre tarefa de assistir as crianças gravemente doentes. A família é o centro de nossas vidas. Nosso carinho especial a nossos pais, mães, esposas e filhos. A todos, o nosso mais sincero e profundo respeito. Finalmente, agradecemos a Deus pela vida e pelo dom que concedeu à nossa equipe para cuidar de nossos pacientes com muito profissionalismo, amor e humanidade. José Roberto Fioretto Rossano Cesar Bonatto Mário Ferreira Carpi Cristiane Franco Ribeiro Prefácio Foi com muita satisfação e honra que recebi o convite para prefaciar esta importante obra de Medicina Intensiva Pediátrica. Esta segunda edição, publicada pelos colegas da disciplina de Medicina Intensiva e Emergências Pediátricas do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp, traz informações atualizadas sobre os principais temas de UTI Pediátrica, as quais são apresentadas de modo prático e fácil para se aplicar no atendimento da criança que necessita de tratamento intensivo. A cada edição, fica patente a grande evolução desta especialidade tão recente no âmbito pediátrico. A UTI Pediátrica dá suporte a todas as especialidades pediátricas, quando a criança apresenta quadro clínico potencialmente grave ou insuficiência de algum órgão ou sistema, ou, ainda, necessita de monitoramento contínuo. Esta nova edição, elaborada por professores e profissionais que são referência na especialidade, nos traz a atualização das terapias empregadas na UTI Pediátrica, desde as mais elementares até as mais sofisticadas. Com certeza, este livro será muito útil na atualização dos intensivistas experientes e na formação de jovens médicos e residentes de todas especialidades pediátricas. Considero, portanto, esta obra indispensável na biblioteca e no dia a dia do intensivista pediátrico e do médico que atende crianças em unidades de emergência. José Oliva Proença Filho São Paulo, 2019 ■ Material Suplementar Este livro conta com o seguinte material suplementar: Bibliografia. O acesso ao material suplementar é gratuito. Basta que o leitor se cadastre e faça seu login em nosso site (www.grupogen.com.br), clicando em GEN-IO, no menu superior do lado direito. É rápido e fácil. Caso haja alguma mudança no sistema ou dificuldade de acesso, entre em contato conosco (gendigital@grupogen.com.br). http://www.grupogen.com.br/ mailto:gendigital@grupogen.com.br 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 Sumário Parte 1 Tópicos Fundamentais Monitoramento Hemodinâmico Invasivo e Não Invasivo Monitoramento Respiratório Suporte Nutricional Escores Prognósticos Reanimação Cardiopulmonar Morte Encefálica e Doação de Órgãos Sedação, Analgesia e Bloqueio Neuromuscular Interações Medicamentosas Transfusão de Hemocomponentes Ventilação Mecânica Convencional Ventilação Mecânica Oscilatória de Alta Frequência Ventilação Mecânica Não Invasiva com Pressão Positiva Interrupção da Ventilação Mecânica Intercorrências em Ventilação Mecânica Pós-Operatório em Cirurgia Cardíaca Parte 2 Condições mais Frequentes em UTI Pediátrica 16 17 Seção A Seção B 18 19 20 21 22 Seção A Seção B 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 Desequilíbrios Hidreletrolíticos e Acidobásicos Cetoacidose Diabética e Hiperglicemia no Paciente Gravemente Doente Cetoacidose Diabética Hiperglicemia no Paciente Gravemente Doente Choque Choque Séptico Insuficiência Hepática Aguda Lesão Renal Aguda e Terapia de Substituição Renal Insuficiência Respiratória Aguda Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo Asma Aguda Grave Politraumatismo Traumatismo Cranioencefálico Grave | Hipertensão Intracraniana Traumatismo Raquimedular Acidentes por Submersão Queimaduras Insuficiência Cardíaca Congestiva Crise Hipoxêmica Arritmias Cardíacas Hipertensão Aguda Grave Coagulação Intravascular Disseminada Estado de Mal Epiléptico Emergências Oncológicas Intoxicações Exógenas Agudas Doenças Cerebrovasculares 37 38 Hipertensão Intra-Abdominal e Síndrome Compartimental Abdominal Hemorragia Digestiva 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Monitoramento Hemodinâmico Invasivo e Não Invasivo Monitoramento Respiratório Suporte Nutricional Escores Prognósticos Reanimação Cardiopulmonar Morte Encefálica e Doação de Órgãos Sedação, Analgesia e Bloqueio Neuromuscular Interações Medicamentosas Transfusão de Hemocomponentes Ventilação Mecânica Convencional 11 12 13 14 15 Ventilação Mecânica Oscilatória de Alta Frequência Ventilação Mecânica Não Invasiva com Pressão Positiva Interrupção da Ventilação Mecânica Intercorrências em Ventilação Mecânica Pós-Operatório em Cirurgia Cardíaca • • • • Introdução O monitoramento hemodinâmico oferece informações referentes à perfusão dos órgãos vitais dos pacientes críticos, sendo utilizado para direcionamento das terapias instituídas, bem como para a avaliação dos resultados dessas intervenções. Os objetivos do monitoramento hemodinâmico são: Diagnóstico: avaliar a gravidade das condições que causaram o dano fisiológico Terapêutico: indicar a necessidade e quantificar a resposta das intervenções terapêuticas Prognóstico: a tendência dos parâmetros hemodinâmicos pode indicar as chances de sobrevida e ser útil na estimativa da evolução Sistemas de alarmes sonoros e/ou visuais: eficientes sistemas de alerta de monitoramento hemodinâmico contínuo. O monitoramento básico para todos os pacientes de unidade de terapia intensiva pediátrica (UTIP) inclui: eletrocardiograma (ECG) contínuo, frequência respiratória (FR), pressão arterial não invasiva (PANI), oximetria de pulso, débito urinário, temperatura e avaliação dos pulsos. A utilização de monitoramento hemodinâmico invasivo depende da condição clínica do paciente e da gravidade do caso. Pulsos arteriais A avaliação dos pulsos possibilita identificar desde colapso hemodinâmico (parada cardíaca) e estados de hipoperfusão (choque frio) até quadros hiperdinâmicos (choque quente); seu monitoramento determina ainda se houve ou não respostade glicemia em fitas reagentes, diminuindo 20% os valores médios da glicose. Dipirona Farmacocinética: início de ação = 30 min (VO); duração = 4 a 6 h Apresentação: ampola = 1 g/2 m ℓ ; gotas = 25 mg/gota; comprimido = 500 mg; solução oral = 50 mg/mℓ Posologia: VO: 10 a 25 mg/kg/dose a cada 6 h IV ou IM: 15 mg/kg/dose (0,03 mℓ/kg). Máximo 1 g/dose Efeitos colaterais: náuseas, vômito, dor abdominal, diarreia, rash cutâneo, anafilaxia, crise transitória de hipotensão, síndrome de Stevens-Johnson, depressão medular. Observação. Não administrar em pacientes com agranulocitose. Ibuprofeno Farmacocinética: início de ação = 30 min. Duração = 4 a 6 h Apresentação: comprimido = 400 mg; gotas = 200 mg/m ℓ (10 mg/gota) Posologia: VO: 5 a 10 mg/kg/dose. Máximo: 50 mg/kg/dia ou 1.600 mg/dia Efeitos colaterais: intolerância gastrintestinal, trombocitopenia. Observações. Potência analgésica maior que paracetamol. O efeito analgésico prepondera sobre o do anti-inflamatório. O uso concomitante com ácido acetilsalicílico (AAS), paracetamol, iodetos, anti-hipertensivos e outros AINEs deve ser evitado. Naproxeno Farmacocinética: pico de ação: 1 a 2 h; duração: 4 a 6 h; eliminação renal • • ∘ • • • • ∘ • Apresentação: comprimido = 250 e 500 mg; solução oral = 125 mg/5 mℓ Posologia: VO: 5 a 10 mg/kg/dose, 2 vezes/dia. Máximo: 500 mg Efeitos colaterais: intolerância gastrintestinal, hemorragia digestiva, hepatite, cefaleia, mal-estar, tontura, vertigem, distúrbios visuais, distúrbios da coagulação, alergia, rash cutâneo, prurido, edema, disfunção renal, trombocitopenias, disfunção plaquetária, agranulocitose. Observações. Seu uso não é recomendado para crianças com menos de 1 ano de idade. Tem interação medicamentosa com betabloqueadores, hidantoína, furosemida, lítio, anticoagulantes, probenecida e metotrexato. Tramadol Farmacocinética: início de ação: 20 a 30 min; duração: 3 a 7 h; metabolismo = hepático; eliminação = renal; apresenta 1/10 da potência da morfina Apresentação: ampola = 100 mg/2 m ℓ ; comprimido = 50 e 100 mg; solução oral = 100 mg/mℓ (5 mg/gotas) Posologia: VO, IV, SC, IM ou VR: 1 a 2 mg/kg/dose a cada 6 h. Máximo: 500 mg/dia Efeitos colaterais: convulsões, diaforese, taquicardia transitória, náuseas, vômito e constipação intestinal. Observações. Recomenda-se associação a tranquilizantes. Deve ser evitado em pacientes tratados com inibidores da monoamina oxidase, antidepressivos tricíclicos, inibidores seletivos da recaptação da serotonina, neurolépticos e substâncias que baixem o limiar para convulsões (carbamazepina), e intoxicação por substâncias de ação central (como etanol ou barbitúricos). Cetamina • • • ∘ ∘ • • • • ∘ ∘ • Farmacocinética: início de ação: 1 a 2 min; duração: 30 a 60 min; metabolismo hepático e eliminação renal Apresentação:ampola = 50 mg/mℓ (10 mℓ) Posologia: IV e IM: 1 a 2 mg/kg IV para sedação, e 2 a 4 mg/kg para analgesia Infusão contínua: 5 a 30 mcg/kg/min IV ou 0,5 a 2 mg/kg/h Efeitos colaterais:eleva pressão intracraniana (PIC), PA e pressão intraocular, aumenta secreções das vias respiratórias e laringospasmo, podem ocorrer taquicardia ou bradicardia, hipotensão em pacientes hipovolêmicos, movimentos clônico- tônicos, alucinações, pesadelos e delírios, diplopia, nistagmo. Observações. Promove analgesia, sedação rápida e amnésia, enquanto preserva o impulso respiratório e os reflexos protetores de vias respiratórias. Em asmáticos, promove diminuição do broncospasmo e melhora da ventilação. Pode causar aumento de secreções na via respiratória, que pode ser controlado com atropina. Associado a benzodiazepínico na infusão contínua, pode reduzir risco de alucinações. Deve ser evitada em menores de 3 meses. Dexmedetomidina Farmacocinética: α2-agonista seletivo (ações analgésica e sedativa potentes); início de ação: 5 a 10 min após bolo; duração: 60 a 120 min; metabolismo: hepático Apresentação: ampola = 100 mcg/mℓ Posologia: IV: 1 mcg/kg em 10 min Infusão contínua: 0,2 a 1 mcg/kg/h Efeitos colaterais: hipotensão e bradicardia. Observações. Administrar com cautela em pacientes com bradicardia prévia, defeito de condução nervosa, hipotensão, diminuição do débito cardíaco, insuficiência hepática e renal. Deve ser evitado em pacientes hemodinamicamente instáveis. • • • ∘ ∘ • • • • ∘ ∘ • • Clonidina Farmacocinética: α2-agonista (menos potente que a dexmedetomidina); tem efeito sedativo, hipnótico e analgésico; início de ação: 30 min a 1 h; duração: 6 a 10 h Apresentação: ampola: 150 mcg/mℓ; comprimido: 0,100, 0,150 e 0,200 mg Posologia: VO e IV: 2 a 5 mcg/kg/dose com intervalo a cada 6 ou 8 h Infusão contínua: 0,1 a 3 mcg/kg/h Efeitos colaterais: hipotensão e bradicardia. Propofol Farmacocinética: início de ação: 40 s; em geral efeitos se dissipam dentro de 10 min após a interrupção da infusão; metabolismo hepático Apresentação: ampola = 10 ou 20 mg/mℓ Posologia: IV: 1,0 a 3,0 mg/kg Infusão contínua: 0,6 a 4 mg/kg/h Efeitos colaterais: depressão respiratória, apneia, efeitos neurológicos (opistótono, mioclonia e convulsões), “síndrome de infusão do propofol” (caracterizada por plasma lipêmico, acidose metabólica, rabdomiólise, arritmias, esteatose hepática e falência renal). Observações. Associação a fentanila potencializa a depressão cardiovascular e respiratória. Não deve ser administrado em crianças com anafilaxia ao ovo e distúrbios mitocondriais. O uso de propofol em infusão contínua com limite de 4 mg/kg/h e por um período menor que 48 h é seguro e sem casos de síndrome da infusão do propofol. Tiopental Farmacocinética: início de ação: 30 s; duração: 5 a 15 min • • ∘ ∘ • • • • • Apresentação: 1.000 g/frasco-ampola Posologia: IV: 2 a 4 mg/kg Infusão contínua: 1 a 5 mg/kg/h Efeitos colaterais: efeitos inotrópicos negativos, hipotensão, depressão respiratória, broncospasmos. Observações. Contraindicado nos casos de asma aguda, porfiria e choque. O tiopental diminui a taxa metabólica cerebral, a demanda cerebral de O2 e a PIC. Bloqueadores neuromusculares Os relaxantes musculares impedem a transmissão de impulsos nervosos na junção neuromuscular, resultando na paralisação dos músculos esqueléticos. Esses fármacos não devem ser utilizados de forma independente, sendo sua associação a sedativos e analgésicos obrigatória. Seu uso geralmente é indicado como complementação da sedação e analgesia em crianças, nas quais não é possível manter uma ventilação mecânica adequada devido a comprometimento do parênquima pulmonar, tosse paroxística, agitação extrema e necessidade de imobilização transitória. ▶ Objetivos em UTI Otimizar as trocas gasosas com a diminuição do esforço respiratório, aumento da complacência da caixa torácica e eliminação de disparos dessincronizados com o ventilador Reduzir o pico pressórico com consequente diminuição do risco de barotrauma Facilitar a ventilação quando é necessária a inversão da relação inspiração/expiração Tratar rigidez em pacientes com tétano, estado de mal epiléptico ou síndrome neuroléptica maligna • Facilitar o controle da PIC de pacientes neurocirúrgicos ou com traumatismo cranioencefálico (TCE). ▶ Classificação Os bloqueadores neuromusculares (BNM) são classificados em despolarizantes e não despolarizantes, conforme elucida o Quadro 7.6. QUADRO 7.6 Classificação dos bloqueadores neuromusculares. Despolarizantes Succinilcolina Não despolarizantes Longa ação Pancurônio Ação intermediária Vecurônio Rocurônio Atracúrio Cisatracúrio Ação curta Mivacurônio Rápido início e ação curta Rapacurônio • • • ∘ ∘ ∘ • Adaptado de Gomes et al., 2010. BNM despolarizantes Os agentes despolarizantes têm ação semelhante à da acetilcolina. Ligam-se ao receptor nicotínico, provocando a abertura dos canais, levando a despolarização disseminada da placa motora e causando contrações desorganizadas e generalizadas das fibras musculares. ▶ Succinilcolina Farmacocinética: início de ação: 1 a 2 min; duração: 5 a 10 min; metabolismo plasmático (colinesterase plasmática)e eliminação renal inalterada (10%). Fármaco de escolha na sequência rápida de intubação Apresentação: 100 mg/frasco-ampola Posologia: IV: 1 a 2 mg/kg IM: 2 a 4 mg/kg Infusão contínua: não é recomendada Efeitos colaterais: fasciculações, mialgia, aumento da pressão intraocular e intragástrica, elevação do K+ sérico (0,5 a 1 mEq/ℓ), hipertermia maligna, rigidez de masseter e miólise aguda (miopatias), arritmias. Observações. Deve ser evitada em pacientes queimados, com lesão raquimedular, hiperpotassêmicos ou com síndrome do esmagamento, lesão térmica, infecção intra-abdominal grave, encefalite, acidente vascular encefálico, síndrome de Guillain-Barré, doença de Parkinson grave, tétano, imobilização corporal prolongada, ruptura de aneurisma cerebral, traumatismo craniano, polineuropatia, afogamento, choque hemorrágico com acidose metabólica e miopatias. BNMs não despolarizantes • • • ∘ ∘ • • • • ∘ ∘ Os agentes não despolarizantes agem no receptor nicotínico como antagonistas competitivos na junção neuromuscular, impedindo os efeitos da acetilcolina nos receptores colinérgicos. São muito utilizados em infusão contínua na UTIP, principalmente nos pacientes em ventilação mecânica. É recomendado que este seja retirado, quando possível, no mínimo 1 vez/dia para avaliar o nível de sedação/analgesia, a função neurológica e determinar a necessidade de continuar o bloqueio (exceto nos casos em que a medicação faz parte do protocolo de tratamento da doença, como no TCE grave). ▶ Atracúrio Farmacocinética: início de ação: 1,5 a 2 min; duração: 20 a 30 min; metabolismo plasmático (hidrólise e degradação de Hoffmann) Apresentação: ampola = 10 mg/mℓ (5 mℓ) Posologia: IV: 0,3 a 0,5 mg/kg. Para manutenção, utilizar 0,1 a 0,2 mg/kg conforme necessário. A administração deve ser lenta Infusão contínua: 2 a 15 mcg/kg/min Efeitos colaterais: hipotensão arterial (secundária a vasodilatação), taquicardia, rash cutâneo e/ou aumento do tônus broncomotor em função de liberação de histamina. Observação. Deve ser evitado em asmáticos. ▶ Rocurônio Farmacocinética: início de ação: 60 a 90 s; duração: 14 a 45 min; maior parte da eliminação é hepática e a menor parte é renal Apresentação: ampola = 10 mg/mℓ (5 mℓ) Posologia: IV: 0,6 a 1,2 mg/kg. Repetir 0,1 a 0,2 mg/kg a cada 20 a 30 min, se necessário IM: 1,8 mg/kg ∘ • • • • ∘ ∘ • • • • ∘ ∘ • • Infusão contínua: 5 a 12 mcg/kg/min Efeito colateral: tem ação prolongada na insuficiência hepática. Observação. Efeitos hemodinâmicos mínimos, duração da ação prolongada em insuficiência hepática. ▶ Pancurônio Farmacocinética: início de ação: 60 a 90 s; duração: 100 a 130 min; eliminação é 80% renal e 20% hepática Apresentação: ampola = 4 mg/2 mℓ Posologia: IV: 0,06 a 0,1 mg/kg Infusão contínua: 0,02 a 0,04 mcg/kg/min (máximo 0,6 mcg/kg/min) ou 0,02 a 0,03 mg/kg/h Efeitos colaterais: aumento de FC, PA e débito cardíaco (DC). ▶ Cisatracúrio Farmacocinética: início de ação: 90 a 160 s; duração: 25 a 30 min; metabolismo plasmático Apresentação: ampola = 2 mg/mℓ Posologia: IV: 0,15 a 0,2 mg/kg Infusão contínua: 2 a 4 mcg/kg/min Efeitos colaterais: causa liberação de histamina (de menor intensidade em relação ao atracúrio). Observações. É o fármaco de escolha em pacientes críticos, com instabilidade hemodinâmica e insuficiência renal. Seu uso é contraindicado em asmáticos. ▶ Complicações relacionadas ao uso de bloqueadores neuromusculares Efeitos psicossomáticos • • • • • • ∘ • • • • • ∘ Supressão do reflexo da tosse Disfunção neuromuscular e paralisia prolongada. Antagonistas Esses fármacos têm a capacidade de reduzir a resposta de uma medicação previamente utilizada, podendo algumas vezes anular o efeito de outro. ▶ Flumazenil Objetivo: antagonizar efeitos de benzodiazepínicos Farmacocinética: tem vida média menor que os benzodiazepínicos, causando risco de ressedação Apresentação: ampola = 0,1 mg/mℓ (5 mℓ) Posologia: IV: 0,01 mg/kg em bolo, pode ser repetido a cada 2 min, até a dose máxima de 1,0 mg (2 ampolas) Efeitos colaterais: náuseas, vômito, cefaleia, agitação, arritmia, bradicardia, hipertensão, dor torácica e outras. Observação. Deve ser evitado em pacientes epilépticos. ▶ Naloxona Objetivo: antagonizar efeitos de opioides Farmacocinética: 3 a 5 min até início da ação; duração: cerca de 30 a 60 min; metabolismo hepático; eliminação renal (25 a 40% eliminados como metabólitos em 6 h) Apresentação: ampola = 0,4 mg/mℓ (1 mℓ) Posologia: IV ou IM: diluir 1 m ℓ (0,4 mg) em 9 m ℓ de água destilada e aplicar 1 m ℓ por vez, até reversão dos sintomas. Dose máxima de 2 mg • • • • • ∘ • Efeitos colaterais: arritmias ventriculares, edema pulmonar agudo, assistolia e convulsões. Observações. Sua ação por via IM pode ser mais lenta. Muito lipossolúvel (atravessa a barreira hematencefálica e a placenta). ▶ Neostigmina Objetivo: reversão de BNM adespolarizante Farmacocinética: inibidor irreversível da colinesterase; metabolismo hepático; eliminação renal Apresentação: ampola 0,5 mg/mℓ (1 mℓ) Posologia: IV: 0,025 a 0,08 mg/kg (até o máximo de 3 mg) Efeitos colaterais: crise colinérgica: broncospasmo, hipersecreção brônquica, salivação, anorexia, vômito, diarreia, miose, sudorese, fasciculação muscular, micção e defecação involuntária, bradicardia, hipotensão, fadiga, fraqueza, confusão. Observações. Deve ser sempre associada a um anticolinérgico (atropina 0,01 mg/kg até 0,4 mg) para prevenir os efeitos muscarínicos. QUADRO 7.7 Recomendações de dosagens de sugamadex para reversão do bloqueio neuromuscular. Train of four (sequência de 4 estímulos) Recomendações de doses de sugamadex Reversão imediata/emergente após administração de bloqueador neuromuscular (rocurônio 1,2 mg/kg) 16 mg/kg 1 a 2 contrações 4 mg/kg 2 a 4 contrações 2 mg/kg • • • • • Train of four é a estimulação do nervo periférico por um equipamento. Esse método consiste na aplicação de 4 estímulos tetânicos sequenciais. A abolição de 1 ou 2 respostas indica bloqueio neuromuscular. Adaptado de Walker et al., 2018. ▶ Sugamadex Objetivo: utilizado para reversão de BNM induzido por rocurônio ou vecurônio Farmacocinética: meia-vida de aproximadamente 2 h; administrado via IV; eliminação renal Apresentação: ampola = 100 mg/mℓ Posologia: Quadro 7.7. Efeitos adversos: bradicardia, anafilaxia. Observação. Não usar quando clearence de creatininadas últimas 12 h Algum episódio de fezes amolecidas/líquidas Não = 0 Sim = 1 Vômito/náuseas/regurgitações Não = 0 Sim = 1 Temperatura > 37,8°C Não = 0 Sim = 1 Observação por 2 min antes do estímulo Estado comportamental: SBS1 ≤ 0 ou adormecido/acordado calmo = 0; SBS1 > +1 ou acordado agitado = 1 Tremor: Nenhum/leve = 0 Moderado/intenso =1 Alguma sudorese: Não = 0 Sim = 1 Movimentos descoordenados ou repetitivos: Nenhum/leves = 0 Moderados/graves = 1 Bocejos ou espirros: Nenhum ou 1 = 0 • • • Maior que 2 = 1 Observação por 1 min durante estímulo Reação ao estímulo tátil: Nenhuma/leve = 0 Moderada/intensa = 1 Tônus muscular: Normal = 0 Aumentado = 1 Recuperação após estímulo Tempo para retornar à tranquilidade (SBS1 5 min = 2 Pontuação total (0 a 12): Adaptado de Franck et al., 2008. ▶ Prevenção Realizar retirada gradual da substância Utilizar por tempo menor que 3 a 5 dias e regredindo 10 a 15% da dose a cada 6 a 8 h Nos casos de utilização prolongada, diminuir 20% da dose nas primeiras 24 h. Depois diminuir 10% a cada 12 h • • • • • • • • • Nos casos de utilização prolongada, introduzir metadona na regressão da fentanila e lorazepam na regressão do midazolam. ▶ Tratamento Existem várias estratégias para evitar e tratar a síndrome de abstinência. Segue um exemplo de como realizar o tratamento: Conversão de fentanila IV em metadona VO Potência (fentanila: metadona) = 100:1 Meia-vida (fentanila: metadona) = 1:75 a 1:100 Biodisponibilidade oral metadona = 75 a 80% Dose diária da metadona (mg) = dose total diária da fentanila (mg) dividida a cada 12 h. Após a 2a dose oral de metadona, regredir a fentanila em 50%. Após a 3a dose, diminuir a fentanila mais 50%; após a 4a dose, suspender a infusão de fentanila. Avaliar os sintomas conforme o escore WAT-1 durante todo o processo de retirada da fentanila, e se necessário adicionar tratamento com morfina em “doses resgate” de 0,05 mg/kg/dose. A dose total de morfina requerida em 24 h deve ser adicionada à dose de metadona do dia. Conversão de midazolam IV em lorazepam VO Potência (midazolam: lorazepam) → 1:2 Meia-vida (midazolam: lorazepam) → 1:6 Biodisponibilidade oral lorazepam → 60 a 70% Dose diária do midazolam (mg) dividida por 12 = dose total diária do lorazepam (mg) dividida a cada 6 h. Após a 2a dose oral de lorazepam, regredir o midazolam em 50%. Após a 3a dose, diminuir o midazolam mais 50%. Após a 4a dose, suspender infusão contínua do midazolam. Sequência rápida de intubação (SRI) • • • • • • • • A intubação orotraqueal (IOT) é um procedimento que visa manter a permeabilidade das vias respiratórias, facilitando a higiene respiratória, o manejo ventilatório com pressão positiva e, algumas vezes, a administração de medicações (p. ex., uso de óxido nítrico). A sequência rápida de intubação (SRI) tem por objetivo levar o paciente ao estado de inconsciência associado ao bloqueio neuromuscular, promovendo maior segurança para a IOT. Deve ser utilizada com cautela nos casos de vias respiratórias difíceis e obstrução das vias respiratórias superiores. A parada cardiorrespiratória é a contraindicação absoluta para sua realização. ▶ Indicações Necessidade de manutenção da permeabilidade da via respiratória e sua proteção Suporte no tratamento e diagnóstico de outras condições: proteção cerebral, choque, intoxicação, realização de exames diagnósticos, traumatismo abdominal e/ou torácico grave. ▶ Contraindicações relativas Respiração espontânea e ventilação adequada Traumatismo facial ou laríngeo grave Obstrução da via respiratória superior Distorção da anatomia facial ou da via respiratória (via respiratória difícil). ▶ Passos da SRI Anamnese e exame físico, com atenção para antecedentes de alergias, medicações, história pregressa, horário da última refeição e motivos que levaram o paciente para o serviço médico (AMPLE) Preparação: equipamento, pessoal e medicação • • • • • • • • • Monitoramento: cardiorrespiratório contínuo, oximetria de pulso, controle de PA, capnógrafo pré-oxigenação com FIO2 a 100% durante 3 a 4 min para realização do procedimento pré-medicação: recomendada a utilização de um analgésico. O uso de lidocaína é indicado nos casos de hipertensão intracraniana Sedação: a escolha da sedação depende do quadro clínico e da doença do paciente (Figura 7.4) Pressão cricoide e ventilação, se for necessário Bloqueio neuromuscular Intubação orotraqueal Observação e monitoramento pós-intubação Sedação, analgesia contínua e bloqueio neuromuscular conforme necessidade. ▶ Como escolher o laringoscópio adequado e a cânula de IOT Laringoscópio A lâmina reta é mais utilizada em lactentes e crianças menores de 8 anos de idade, com a glote mais anteriorizada e cefálica, e a lâmina curva deve ser utilizada em crianças maiores de 8 anos, adolescentes e adultos. O tamanho da lâmina poderá ser escolhido conforme indicado no Quadro 7.9. O uso do cabo infantil do laringoscópio é indicado para crianças com menos de 20 kg. FIGURA 7.4 Algoritmo para seleção de medicamentos na sequência rápida de intubação. TCE = traumatismo cranioencefálico; HIC = hipertensão intracraniana. O uso da atropina pode ser considerado: em menores de 1 ano; em menores de 5 anos quando utilizar a succinilcolina; sempre que utilizar a succinilcolina pela segunda vez em uma tentativa de intubação, sempre que a sedação utilizada for a cetamina. (Adaptada de Pires et al., 2013.) QUADRO 7.9 Lâmina de laringoscópio para cada idade. • • Idade Lâmina RN pré-termo Reta 0 RN a termo Reta 0 ou 1 Lactente Reta 1 pré-escolar Reta 2 Escolar Reta ou curva 2 ou 3 Adolescentes Curva 3 RN = recém-nascido. Adaptado de Motta et al., 2010. Cânula orotraqueal A numeração da cânula corresponde ao seu diâmetro e pode, ou não, conter cuff. O cuff, atualmente, é indicado para uso em todas as idades, objetivando diminuir o escape de ar e melhor eficácia da ventilação mecânica, garantir medidas confiáveis da mecânica ventilatória, minimizar a contaminação ambiental com outros gases e prevenir a aspiração de conteúdos gástricos e da orofaringe. Para escolher a cânula de tamanho adequado para cada paciente é recomendado o uso das fórmulas: Para cânulas sem cuff: Idade/4 +4 Cânulas com cuff: Idade/4 + 3,5. Observação. Para saber qual a posição em que a cânula deve ser fixada na rima labial, multiplica-se o resultado obtido por 3 nas fórmulas descritas anteriormente. O resultado obtido é a posição em que a cânula traqueal deverá ser mantida. • • • ∘ • • • • ∘ • ▶ pré-medicações para intubação orotraqueal Lidocaína Objetivo: reduzir o aumento da PIC produzido durante a laringoscopia Apresentação: ampola: 5 e 20 mℓ a 2% (20 mg/mℓ) Posologia: IV: 1 a 2 mg/kg IV em bolo rápido, administrar 2 a 5 min antes da laringoscopia Efeitos colaterais: depressão miocárdica e do sistema nervoso central com altas doses. Podem ocorrer convulsões com doses repetidas. Atropina Objetivo: diminuir os efeitos desfavoráveis da estimulação vagal (bradicardia e assistolia) que pode resultar de laringoscopia, assistolia ou administração de succinilcolina. Diminuir as secreções bucais Apresentação: ampola = 0,25 e 0,5 mg/mℓ (1 mℓ) Posologia: IV: 0,01 a 0,02 mg/kg (máximo 0,5 mg em crianças e 1,0 mg em adultos) Efeito colateral: bradicardia paradoxal. Observações. Segundo atualizações da American Heart Association (AHA), não há nenhuma evidência que respalde o uso rotineiro de atropina como pré-medicação durante SRI, com o objetivo de evitar bradicardia em intubações pediátricas de emergência. Esta mediação pode ser considerada em situações em que haja maior risco de bradicardia. Não há nenhuma evidência que respalde uma dose mínima de atropina, quando utilizada como pré- medicação para intubação de emergência. • • • Definição Ocorre interação medicamentosa quando a resposta esperada pelo uso de um medicamento é alterada por outro medicamento.Também podem ocorrer interações de medicações com alimentos, bebidas e até com alguns produtos químicos contaminantes do meio ambiente. Essas interações podem resultar em: Ação sinérgica ou aditiva (sinergismo farmacológico): adição ou potencialização do efeito de um ou mais medicamentos Ação antagônica (antagonismo farmacológico): anulação do efeito de um medicamento pela ação de outros Alteração idiossincrática: produção de um efeito diferente do que é habitualmente esperado pelos mesmos fármacos quando administrados isoladamente. Embora algumas interações medicamentosas possam ser deliberadamente aplicadas para a obtenção de seus benefícios terapêuticos, a maioria das interações é imprevista e acarreta perigosas reações adversas medicamentosas (RAMs). Os fármacos que apresentam janela terapêutica estreita (anticoagulantes, digitálicos, teofilina, imunossupressores) são os que mais apresentam risco de interações medicamentosas. Mecanismos Os mecanismos envolvidos nas interações medicamentosas podem ter bases farmacocinéticas (interferindo em absorção, distribuição, metabolização e excreção dos fármacos, com consequente alteração na sua concentração no organismo) ou farmacodinâmicas (efeitos fisiológicos e bioquímicos do medicamento), mas frequentemente envolvem mais de um mecanismo. As bases farmacocinética e farmacodinâmica de um fármaco podem sofrer influência genética (fatores farmacogenéticos). ▶ Interações farmacocinéticas O local de ação da substância liberada pelo fármaco é alterado por um outro composto. Interferência na absorção A via oral (VO) para a administração de fármacos é a mais frequentemente prescrita, e as interações medicamentosas que interferem na absorção do fármaco devem ser sempre averiguadas. Alteração do pH gastrintestinal. A absorção pela mucosa gastrintestinal depende da concentração do fármaco na forma não ionizada e lipossolúvel. Por esse motivo, os salicilatos (ácido fraco) são mais bem absorvidos quando estão em pH baixo (predomínio da forma não ionizada). Assim, medicamentos que alteram o pH (antiácidos, inibidores de H2, inibidores da bomba de prótons) podem modificar a absorção de outros medicamentos e reduzir a sua biodisponibilidade, como ocorre com cetoconazol e itraconazol. Por isso, é recomendável o intervalo de 2 a 3 h da administração de antiácidos para reduzir o risco de interação medicamentosa. Formação de complexos no trato gastrintestinal (TGI). Alguns fármacos podem interagir produzindo um complexo que não é absorvido pelo TGI, seja quelação ou adsorção. Os antibióticos quinolonas podem ser quelados pela administração concomitante de antiácidos contendo alumínio ou magnésio. Já a absorção de antidepressivos tricíclicos, ciclosporina, digoxina, propranolol, tiroxina e varfarina pode ser reduzida pela colestiramina, que adsorve esses fármacos. Alteração na motilidade gastrintestinal. Medicamentos que alteram a velocidade de esvaziamento gástrico podem alterar a taxa de absorção de outros fármacos quando administrados simultaneamente. Exemplos clássicos são a levodopa e a penicilina, que sofrem metabolização na mucosa gástrica. Assim, quando ocorre retardo de esvaziamento gástrico, elas podem ser degradadas pela exposição prolongada ao suco gástrico. Paracetamol, um ácido fraco, mantém-se em estado predominantemente não ionizado, tanto em suco gástrico como intestinal, e, por conseguinte, a sua taxa de absorção está diretamente relacionada com a velocidade de esvaziamento gástrico. O mesmo ocorre com clorpromazina, diazepam, fenilbutazona, propranolol e lítio. Não somente os anticolinérgicos como também os anti- histamínicos, antidepressivos tricíclicos, fenotiazinas e opioides retardam o esvaziamento gástrico. Já os agentes procinéticos, que aceleram o esvaziamento gástrico, como metoclopramida e cisaprida, aumentam a absorção de ciclosporina, diazepam, lítio, paracetamol e propranolol. Finet et al. descreveram a toxicidade medicamentosa decorrida do aumento de absorção de ciclosporina, um imunossupressor, pelo uso de cisaprida. Ação tóxica no TGI. Alguns medicamentos, como os citotóxicos, podem lesionar o intestino delgado e reduzir a absorção de alguns fármacos, com consequente perda da ação terapêutica. Este fato ocorre com fenitoína e verapamil, cuja absorção é reduzida em 20 a 35%, quando os pacientes estão em uso de carmustina, metotrexato e vincristina. Alteração da flora intestinal. A alteração da flora intestinal por antibióticos de amplo espectro de ação e, até mesmo, por eritromicina ou tetraciclina, pode afetar a metabolização de certos fármacos. Alguns medicamentos são metabolizados pela flora bacteriana intestinal, e o uso de antibióticos pode aumentar a sua concentração plasmática, extremamente perigosa no caso da digoxina, cuja concentração chega a dobrar. Os antibióticos também podem evitar a hidrólise bacteriana de conjugados medicamentosos secretados pela bile, reduzindo a sua reabsorção. Distribuição Após a absorção, o fármaco é distribuído para o seu local de ação, podendo interagir com outros fármacos neste processo. O mecanismo mais comum dessa interação é o deslocamento no local de ligação proteica, traduzido pela redução da ligação proteica no plasma de um fármaco causado pela presença do outro. Muitos medicamentos, e mesmo os seus metabólitos, apresentam alta capacidade de ligação com proteínas plasmáticas. Um dos exemplos mais clássicos desse modo de interação medicamentosa é o efeito anticoagulante da varfarina, potencializado pela fenilbutazona. A fenilbutazona é um anti- inflamatório não hormonal (AINH) que inibe a metabolização do componente S-varfarina (composto da mistura racêmica de S e R, em que a forma S é cinco vezes mais potente que a R), aumentando sua anticoagulação. Não se deve prescrever ceftriaxona para recém-nascidos (RNs) com hiperbilirrubinemia, porque a substância liga-se à proteína e desloca a bilirrubina, que livre pode contribuir para encefalopatia por hiperbilirrubinemia. Por isso, quando é necessário o uso de uma cefalosporina de terceira geração para o tratamento de um RN, recomenda-se o uso de cefotaxima, que apresenta menor ligação proteica. Metabolização As interações farmacológicas envolvendo alterações na taxa de metabolização são as que mais apresentam importância clínica. Fármacos lipossolúveis precisam ser convertidos em hidrossolúveis para serem excretados pelos rins ou pela bile. Sem dúvida, o fígado • • é o principal órgão de metabolização; entretanto, outros órgãos também podem atuar como metabolizadores (rins, intestino, pulmões, pele e até placenta). O conhecimento das vias específicas de metabolização de um medicamento e dos mecanismos moleculares de indução enzimática pode ajudar no reconhecimento de potenciais interações medicamentosas. Por esse motivo, as vias de metabolização dos fármacos geralmente são estudadas durante a fase (estágio) de desenvolvimento pré-clínico. O processo de metabolização envolve duas principais fases de reação: Fase I: envolve oxidação, hidrólise ou redução. Nesta fase, atua o sistema oxidativo hepático e participa o citocromo P450 (CYP). Na verdade, o citocromo P450 é constituído por diferentes isoformas, mas apenas algumas (CYP1, CYP2 e CYP3) são responsáveis por cerca de 90% da metabolização dos fármacos em seres humanos Fase II: envolve a conjugação do medicamento ou de metabólitos da fase I com ácido glicurônico, sulfatos ou glicina. ▶ Indução enzimática A indução enzimática pode ser desenvolvida dentro de alguns dias a algumas semanas do uso do fármaco, dependendo da dose e das características farmacocinéticas da substância indutora, bem como da cinética, da enzima afetada. Geralmente acarreta redução do efeito farmacológico ou o contrário quando os seus metabólitos são as formas ativas. De maneira geral, os fármacos indutores reduzem os níveis plasmáticos das substâncias metabolizadas pelas enzimas do citocromo P450 (CYP), que incluem: anticoncepcionais de baixa dosagem, ciclosporina, dexametasona, inibidores deproteases do vírus da imunodeficiência humana (HIV), metadona, metilprednisolona, tacrolimo e varfarina. Barbitúricos, carbamazepinas, etanol, fenitoínas, griseofulvinas, rifabutina, rifampicina e tabaco são os principais indutores enzimáticos. O uso concomitante de fenitoína ou rifampicina pode aumentar a metabolização de corticosteroides, causando falha terapêutica. O etilista crônico pode apresentar hepatotoxicidade para o paracetamol, mesmo em doses reduzidas. Já o uso de carbamazepina ou de fenitoína pode levar à redução dos níveis de ciclosporina, com risco de rejeição de transplantes. ▶ Inibição enzimática A inibição enzimática geralmente produz efeito mais rápido e mais perigoso do que a indução enzimática. Para um fármaco que apresenta meia-vida curta, os efeitos podem aparecer em 24 h da administração do agente inibidor enzimático. As alterações clínicas dependem de fatores como: doses, alterações nas propriedades farmacológicas das substâncias envolvidas (suas meia-vidas) e características do paciente (estado patológico). A maioria dessas interações envolve a inibição do sistema enzimático do citocromo P450 (CYP). Os antibióticos macrolídios (azitromicina, claritromicina e eritromicina) inibem o sistema enzimático CYP3A4, tanto no fígado como nas hemácias, acarretando riscos toxicológicos. Como exemplo, pode-se citar a inibição da metabolização de carbamazepina, ciclosporina e teofilina promovida pela eritromicina. Outros exemplos são nefrotoxicidade induzida pela ciclosporina e pelo tacrolimo, e miopatia e rabdomiólise grave causadas pelos altos níveis dos inibidores da enzima HMG-CoA redutase. Por isso, sempre que for prescrito um inibidor das isoformas da CYP3A, o médico deve estar ciente da possibilidade de ocorrerem interações graves com os fármacos metabolizados por essas enzimas. O Quadro 8.1 apresenta os fármacos inibidores enzimáticos envolvidos em interações medicamentosas. A inibição enzimática e o consequente acúmulo de fármacos podem potencializar efeitos indesejáveis como prolongar o intervalo QT com arritmias cardíacas (Quadro 8.2) do tipo torsade de pointes (taquicardia ventricular polimórfica). QUADRO 8.1 Fármacos inibidores enzimáticos. Grupos Fármacos Antibióticos Ciprofloxacino, eritromicina, isoniazida, metronidazol Antifúngicos Cetoconazol, fluconazol, itraconazol, miconazol Antivirais Indinavir, ritonavir, saquinavir Antidepressivos Fluoxetina, fluvoxamina, nefazodona, paroxetina Cardiológicos Amiodarona, diltiazem, quinidina, verapamil Gastrintestinais Cimetidina, omeprazol Reumatológicos Alopurinol, azatioprina, fenilbutazona Outros Dissulfiram, valproato de sódio QUADRO 8.2 Fármacos com potencial de acarretar prolongamento do intervalo QT. Grupos Fármacos Antiarrítmicos Amiodarona, disopiramida, quinidina, sotalol Antibióticos Cloroquina, eritromicina, pentamidina Anti- histamínicos Astemizol, terfenadina Antipsicóticos Antidepressivos tricíclicos (p. ex., imipramina), clorpromazina, haloperidol, lítio, pimozida, tioridazina Outros Cisaprida, metadona, probucol, tacrolimo ▶ Inibição do transporte Os transportadores de fármacos são determinantes fundamentais para disponibilizar alguns compostos em seus locais de ação, e interações medicamentosas significativas podem decorrer da inibição desses transportadores. O mais conhecido transportador é a glicoproteína P, que está expressa na superfície luminal das células do epitélio intestinal (inibindo a absorção de xenobióticos), na superfície luminal das células dos túbulos renais e na superfície canalicular dos hepatócitos. Sua inibição nesses locais aumenta o nível plasmático dos fármacos no estado de equilíbrio. A digoxina depende da glicoproteína P para sua eliminação e se esse transportador estiver inibido por algum fármaco, poderá ocorrer intoxicação digitálica. Os inibidores da glicoproteína P são: amiodarona, cetoconazol, diltiazem, eritromicina, itraconazol, quinidina e verapamil. Muitos desses também são inibidores do CYP3A. Os fármacos que atuam no cérebro são removidos pela glicoproteína P, dentro do endotélio capilar, que forma a barreira hematencefálica. Sua inibição amplia a concentração desses fármacos no sistema nervoso central (SNC). Excreção A maioria das interações medicamentosas que envolvem a eliminação dos fármacos ocorre nos rins. ▶ Alteração do pH urinário Somente os fármacos na forma não ionizada são lipossolúveis e capazes de se difundirem através da membrana celular dos túbulos renais. Assim, os fármacos ácidos fracos (pKa 3,0 a 7,5), em meio alcalino, permanecem na forma ionizada, moléculas lipídicas • • • insolúveis. Incapazes de se difundirem para dentro das células tubulares, são posteriormente eliminados pela urina. ▶ Alteração na excreção tubular ativa Fármacos que utilizam o mesmo sistema de transporte ativo nos túbulos renais podem competir um com o outro para serem excretados. Esta competição pode trazer vantagens terapêuticas, como no caso da administração da probenecida para aumentar a concentração do nível sérico de penicilina, por meio do retardamento da sua eliminação renal. Esse processo, entretanto, pode ser perigoso, como no caso de toxicidade por metotrexato, decorrente do uso simultâneo de salicilatos ou de outros AINH. ▶ Alteração no fluxo sanguíneo renal O fluxo sanguíneo renal é controlado parcialmente pelas prostaglandinas. Assim, o uso de inibidores de prostaglandinas (indometacina) pode reduzir a excreção renal de um fármaco (lítio), aumentando seu nível sérico. ▶ Interações farmacodinâmicas Em caso de interações farmacodinâmicas, a resposta do órgão-alvo é modificada por um segundo fármaco. As associações farmacológicas são utilizadas para obtenção de benefícios terapêuticos e pelos seus efeitos aditivos ou sinérgicos, administrando-se simultaneamente apenas doses submáximas dos fármacos, evitando os seus efeitos adversos específicos. Entretanto, também podem acarretar efeitos adversos graves, como em relação à varfarina: Quando associada aos AINH, aumenta em quase quatro vezes o risco de sangramento gastrintestinal Quando associada ao ácido acetilsalicílico, aumenta o risco de sangramento Quando associada a antibióticos que alteram a flora intestinal, acentua o efeito anticoagulante. Interações antagônicas As interações antagônicas (antagonismo) ocorrem quando um fármaco, com ação agonista em um tipo particular de receptor, interage com outro, antagonista, no mesmo receptor. Esta forma particular de interação é bastante utilizada em terapias toxicológicas. Antagonistas específicos podem ser utilizados para reverter os efeitos de outra substância no mesmo local receptor. São exemplos: opioides versus naloxona; benzodiazepínicos versus flumazenil. Sinergismo | Adição A adição (somação) dos efeitos pode ocorrer quando duas substâncias com os mesmos efeitos farmacológicos são administradas simultaneamente. Este fato pode desencadear riscos aos pacientes, a exemplo do uso concomitante de fármacos que causam depressão do SNC: anti-histamínicos e antiepilépticos e sedativos. O Quadro 8.3 mostra mais alguns exemplos dessa interação. Alteração no mecanismo de transporte Um fármaco pode interferir na captura e no transporte de outro para os locais intracelulares de ação. Distúrbios hidreletrolíticos Distúrbios hidreletrolíticos podem alterar a ação dos fármacos, particularmente daqueles que atuam no miocárdio, nos rins e na transmissão neuromuscular. Como exemplo, pode-se citar a hipopotassemia induzida por diuréticos, que provoca risco de arritmia ventricular quando se associa a medicamentos como sotalol, procainamida, quinidina ou amiodarona. Existem muitos relatos sobre as ações antagônicas sérias dos AINH frente aos diuréticos e anti-hipertensivos. Os AINH também interferem nas ações dos diuréticos de alça e dos inibidores da enzima conversora de angiotensina (ECA) no tratamento de insuficiência cardíaca. ▶ Interações farmacodinâmicas indiretas Existem várias interações farmacodinâmicas indiretas importantes. Osbetabloqueadores podem bloquear a mobilização de glicose hepática, acarretar hipoglicemia e bloquear os receptores β2- adrenérgicos pancreáticos que modulam a liberação de insulina. Os inibidores da monoamina oxidase (IMAO), quando administrados juntamente com aminas simpaticomiméticas (anfetamina, fenilpropanolamina, pseudoefedrina e tiramina), podem resultar em hipertensão aguda grave (HAG) potencialmente fatal, em decorrência da liberação maciça de norepinefrina nos nervos terminais adrenérgicos. Essa liberação é conhecida como síndrome de hiperatividade simpática, caracterizada por hipertensão, cefaleia, excitação, hiperpirexia e arritmia cardíaca. Assim, os pacientes que fazem o uso de IMAO devem ser fortemente advertidos sobre os riscos dos medicamentos contra tosse e resfriados, das drogas ilícitas e até sobre a restrição de certos alimentos que possam conter tiramina (queijos e vinhos tintos). QUADRO 8.3 Interações sinérgicas. Interação de substâncias Efeitos farmacológicos AINH e varfarina Aumenta o risco de sangramento Inibidores da enzima de conversão da angiotensina e diuréticos poupadores de potássio Aumenta o risco de hiperpotassemia Antagonistas beta-adrenérgicos e verapamil Risco de bradicardia e assistolia • • • • Aminoglicosídios e bloqueadores neuromusculares Aumenta o bloqueio neuromuscular Álcool e benzodiazepínicos Aumenta a sedação Clozapina e cotrimoxazol Aumenta o risco de depressão medular óssea Antidepressivos tricíclicos e diuréticos Risco de arritmias AINH = anti-inflamatório não hormonal. Considerações fundamentais Embora o número absoluto de interações farmacológicas impossibilite a sua memorização, a compreensão de seus mecanismos fornece estrutura conceitual para poder evitá-las Na falência circulatória, a compensação neuroendócrina pode restringir significativamente o fluxo sanguíneo renal e hepático, reduzindo, então, a eliminação de muitos fármacos, havendo a necessidade de diminuir as suas doses A maioria dos fármacos é avaliada inicialmente em adultos jovens e de meia-idade, sendo necessário lembrar que os indivíduos diferem na maneira como metabolizam os fármacos (farmacocinética) e como respondem a eles (farmacodinâmica). Essas diferenças exigem doses e esquemas posológicos diferenciados (individualizados) para que se consiga o efeito terapêutico desejado A disposição dos fármacos não varia linearmente com o peso ou a superfície corporal e não existem princípios confiáveis ou fórmulas para converter as doses dos fármacos utilizados em adultos para doses seguras e eficazes para crianças. Os ajustes posológicos devem ter como base o monitoramento dos níveis séricos terapêuticos • • • • • A farmacodinâmica em crianças também pode diferir da dos adultos, visto o exemplo dos anti-histamínicos e barbitúricos que sedam os adultos, mas que podem causar hiperatividade em lactentes A administração intravenosa rápida produz elevação abrupta na concentração do fármaco no compartimento plasmático e que depois vai caindo, à medida que este é distribuído aos compartimentos extravasculares, até que os compartimentos alcancem o equilíbrio durante a fase de eliminação. A velocidade de administração intravenosa dos fármacos é de fundamental importância, pois pode produzir efeitos tóxicos quando chegar a níveis plasmáticos altos. Isso explica por que uma injeção ou administração intravenosa muito rápida de fármacos como fenitoína, potássio ou procainamida pode causar colapso cardiovascular Apesar de certas dificuldades, como sinais e sintomas inespecíficos e da falta de informações confiáveis, os médicos que atuam em setores de emergência devem estar atentos para reconhecer e tratar adequadamente as interações medicamentosas e evitar mais iatrogenias A Food and Drug Administration recomenda que não se deve administrar ceftriaxona misturada ou infundida simultaneamente com soluções contendo cálcio, pelo menos por 48 h após a última dose. Vale relembrar que solução de Ringer, lactato de Ringer e nutrição parenteral contêm cálcio. Isso se deve ao fato de haver reação físico-química, com a formação de cristais insolúveis de ceftriaxona-cálcio. O mecanismo da oclusão de arteríolas nos pulmões e nos rins pelas partículas insolúveis da mistura deste antibiótico com cálcio causou óbitos de RN Antes de prescrever, o médico tem a obrigação de conferir todos os medicamentos utilizados pelo paciente (incluindo homeopáticos, fitoterápicos, vitaminas e até mesmo o regime e o tipo de alimentação), investigando sobre os possíveis riscos de interações medicamentosas. Considerações finais A observação dessas medidas e o conhecimento dos medicamentos utilizados pelo paciente são imprescindíveis para que ocorra uma intervenção medicamentosa eficaz na pediatria. Em 2015, Feinstein et al. realizaram um trabalho em que avaliaram a ocorrência de potenciais riscos de interação fármaco-fármaco em 49% das cerca de 500 mil internações pediátricas nos EUA. Observou-se que estes riscos aumentavam no decorrer dos dias de internação e com o aumento do número de medicações prescritas. As gravidades consideradas e as interações encontradas são listadas no Quadro 8.4. QUADRO 8.4 Principais interações farmacológicas estratificadas conforme a gravidade. Gravidade da interação fármaco-fármaco Potenciais eventos adversos Contraindicados Ácido acetilsalicílico ou ibuprofeno ou naproxeno e cetorolaco Sangramento intestinal, úlceras pépticas e perfurações Epinefrina e linesolida Aumenta o efeito hipertensivo Atropina e potássio (cloreto) Risco de lesões gastrintestinais Cálcio (cloreto ou gluconato) e ceftriaxona Formação de precipitado de cálcio-ceftriaxona (contraindicado em neonatos) Fluconazol e ondansetrona Aumenta o risco de prolongamento do segmento QT Glicopirrolato (brometo de Risco de lesões gastrintestinais glicopirrônio) e potássio (cloreto) Metoclopramida e prometazina Risco de efeitos extrapiramidais Riscos potenciais maiores Fentanila ou morfina e midazolam ou lorazepam Depressão respiratória Fentanila e hidromorfina Depressão respiratória Morfina e hidrocodona ou oxicodona Depressão respiratória Bupivacaína ou lidocaína e propofol Aumenta o efeito hipnótico do propofol Riscos potenciais moderados Ácido acetilsalicílico e furosemida Reduz os efeitos diurético e anti-hipertensivo Ciclofosfamida e ondansetrona Reduz a exposição sistêmica à ciclofosfamida Dexametasona e rocurônio ou vecurônio Reduz a efetividade dos bloqueadores neuromusculares; fraqueza muscular prolongada e miopatia Furosemida e vecurônio Aumenta ou reduz o bloqueio neuromuscular Heparina e vitamina A Aumenta o risco de sangramento Midazolam e ranitidina Aumento de biodisponibilidade de midazolam Midazolam e sevoflurano Potencializa os efeitos anestésicos do sevoflurano Propofol e succinilcolina (cloreto) Bradicardia Rocurônio e sevoflurano Aumenta a ação do rocurônio • • • • • • Definições Hemocomponentes: componentes do sangue total separados por processamento físico (centrifugação). Exemplos: concentrado de hemácias, plaquetas, plasma fresco congelado, crioprecipitado Hemoderivados: hemocomponentes preparados a partir do processamento industrial de pools de plasma, geralmente submetidos à inativação viral. Exemplos: albumina, imunoglobulinas e fatores de coagulação Componentes irradiados: utilizados para prevenir a proliferação de linfócitos T e, consequentemente, a doença do enxerto contra hospedeiro. Usados em pacientes onco-hematológicos submetidos à quimioterapia, em pacientes com imunodeficiência grave congênita ou adquirida e em recém-nascidos com pesocom peso 15% da volemia. Dose: 10 mℓ/kg. O Quadro 9.1 lista quadros clínicos específicos e suas respectivas indicações de transfusão de concentrado de hemácias. Plasma fresco congelado ▶ Considerações Ele contém fatores de coagulação (II, V, VII, IX, X e XI), proteínas pró- coagulantes e anticoagulantes, podendo ser obtido por aférese A dose recomendada para transfusão é de 10 a 20 m ℓ /kg a cada 6 h. Após 6 h da primeira transfusão, reavaliar necessidade de nova transfusão por meio de coleta de tempo de protrombina (TP) e tempo de tromboplastina parcialmente ativada (TTPA). ▶ Indicações de transfusão • • • • • • • • • • • Deficiência congênita ou adquirida de fatores de coagulação (hepatopatias, coagulação intravascular disseminada [CIVD], coagulopatia dilucional); com sangramento ativo antes da realização de procedimento invasivo; TP ou TTPA > 1,5 vez o limite superior Transfusão maciça (maior ou igual a uma volemia) se perda excessiva de sangue e TP e TTPA alterados, ou fibrinogênio 30 kg. QUADRO 9.1 Quadros clínicos específicos, indicações e contraindicações para transfundir concentrado de hemácias. Quadro clínico Indicações Contraindicações Avaliar clinicamente Falência respiratória Hb ≤ 5,0 g/dℓ Hb ≤ 7,0 g/dℓ na ausência de: Hipoxemia aguda grave Condição cianótica crônica Hipoxemia grave e Hb entre 5,0 e 7,0 g/dℓ • • • • Anemia hemolítica e clinicamente estável Choque não hemorrágico Hb 50.000/mm3: permite toracocentese, paracentese, laparotomia, inserção de cateter venoso central. ▶ Indicações de transfusão Transfusão profilática: prevenir sangramento espontâneo. Os valores recomendados são: ≤ 10.000/mm3: pacientes sem riscos adicionais de sangramento (sem febre, sepse ou em uso de antibióticos) ≤ 20.000/mm3: pacientes com fator de risco para sangramento agudo e em terapia anticoagulante ≤ 30.000/mm3: pacientes febris, sépticos, com púrpura trombocitopênica idiopática (PTI) 30.000/mm3 a 50.000/mm3: pacientes com leucemia promielocítica aguda ≤ 50.000/mm3: pacientes com CIVD, leucocitose extrema, sangramento ativo e oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO, extracorporeal membrane oxygenation) ≤ 100.000/mm3: pacientes com traumatismo cranioencefálico (TCE) e politraumatizados Transfusão terapêutica: sangramento ativo ou preparação para procedimento invasivo que possa causar sangramento, como: Púrpura trombocitopênica trombótica Trombocitopenia induzida por heparina Disfunção hepática CIVD. • • • • • • • • • ▶ Contraindicações de transfusão Trombocitopenia induzida por heparina e púrpura trombocitopênica trombótica Plaquetopenia secundária à destruição periférica: hiperesplenismo e púrpuras imunes. Albumina ▶ Considerações É a proteína mais abundante no plasma e corresponde a cerca de 60% da concentração total de proteínas Dose: albumina 20% = 0,5 a 1,0 g/kg (dose máxima de 100 g/dia). ▶ Indicações de transfusão Plasmaférese Nefropatias ou enteropatias perdedoras de proteínas Desnutrição proteica Pacientes cirróticos com ascite grave e derrame pleural Síndrome hepatorrenal. Introdução O controle seguro da função ventilatória constitui um dos pilares do tratamento intensivo. Entende-se por ventilação pulmonar mecânica (VM) o movimento de entrada e saída de oxigênio nos pulmões, produzido artificialmente por equipamento conectado diretamente ao paciente, para satisfazer as necessidades de oxigenação e ventilação nos casos de insuficiência respiratória. Objetivos do suporte ventilatório mecânico Sendo um procedimento que visa à manutenção das funções ventilatórias e/ou da oxigenação dos pacientes enquanto eles não têm condições de executá-las integralmente, os objetivos da VM podem, assim, ser resumidos em fisiológicos e clínicos. ▶ Objetivos fisiológicos Os objetivos fisiológicos são apresentados a seguir. Trocas gasosas pulmonares Ventilação alveolar. Sua avaliação é feita com base nos valores da pressão arterial de gás carbônico (PaCO2 ) e do pH. A ventilação alveolar pode ser normalizada, mantida em valores supranormais (hiperventilação proposital em casos particulares de hipertensão intracraniana) ou, até mesmo, ser subnormalizada (hipercapnia permissiva e descompensação aguda de insuficiência respiratória crônica). Oxigenação arterial. Avaliada, basicamente, pelos valores da pressão arterial de oxigênio (PaO2 ) e da saturação arterial de oxigênio (SaO2 ) e pelo conteúdo arterial de oxigênio (CaO2 ). A oxigenação arterial deve ser mantidaem níveis clínicos que possibilitem conservar os níveis aceitáveis de oxigênio nos tecidos, usando-se a fração inspirada de oxigênio (FIO2 ) não lesiva ao sistema respiratório. Atualmente considera-se aceitável SaO2 entre 88 e 90% em doenças nas quais haja risco de lesão pulmonar. Considerando-se que o CaO2 depende da hemoglobina e da PaO2 e que o oxigênio liberado para os tecidos depende do débito cardíaco (DC) e do CaO2 , esses fatores devem ser considerados ao se tentar melhorar a oxigenação arterial. Aumento do volume pulmonar Insuflação pulmonar no final da inspiração. Importante para prevenção de atelectasias e pelos seus efeitos sobre a complacência, a oxigenação e os mecanismos de defesa dos pulmões. Capacidade residual funcional (CRF). Situações nas quais ocorre diminuição da CRF podem trazer prejuízo adicional para a função respiratória. A pressão expiratória final positiva (PEEP, positive end- expiratory pressure) pode ser útil para aumentar a CRF em doenças com diminuição da complacência pulmonar, como a síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA). Redução ou manipulação do esforço respiratório Redução da carga imposta aos músculos da respiração. Esta propriedade pode ser utilizada em pacientes nos quais há sobrecarga da musculatura respiratória induzida por doenças que • • • • • • • • • cursam com diminuição da complacência pulmonar (restritivas) ou com aumento da resistência das vias respiratórias (obstrutivas). ▶ Objetivos clínicos Para satisfazer estes objetivos, deve-se considerar o caráter de suporte e não curativo da VM, evitando-se, com isso, a indução de lesão pulmonar iatrogênica. São objetivos clínicos: Reversão da hipoxemia: visa reverter os estados de hipoxia tecidual que comprometam a manutenção da homeostase celular, basicamente, aumentando a SaO2 para valores entre 88 e 90%, aumentando a ventilação alveolar e o volume pulmonar Reversão da acidose respiratória aguda: mais que normalizar a PaCO2 , é importante corrigir a acidose respiratória que esteja comprometendo funções orgânicas agudamente Alívio do desconforto respiratório até a resolução da doença de base Prevenção ou reversão de atelectasias em doenças neuromusculares ou em pós-operatórios Reversão da fadiga da musculatura ventilatória Viabilização da sedação ou do bloqueio neuromuscular Diminuição do consumo de oxigênio sistêmico e/ou miocárdico. Indicações Apesar de existirem indicações gasométricas absolutas para instituição da VM, é preciso destacar que na maioria dos casos as indicações fundamentam-se em critérios clínicos, antes que apareçam alterações gasométricas. ▶ Indicações absolutas Apneia Parada cardiorrespiratória • • • • Hipercapnia aguda acompanhada de acidose respiratória (pH 0,6 e/ou PaO2 0,6. ▶ Indicações relativas Controle seguro de função e padrão ventilatórios: hipertensão intracraniana, politraumatismo, choque etc. Diminuição do gasto metabólico com a respiração: insuficiência respiratória crônica, choque etc. Particularidades da ventilação pulmonar mecânica em pacientes pediátricos A utilização dos mesmos conceitos sobre VM em adultos para as crianças requer a revisão de considerações a respeito do desenvolvimento dos pulmões e da fisiologia pulmonar básica. O sistema de condução das vias respiratórias está completamente desenvolvido com 16 semanas de gestação; após esse período, há apenas aumento de tamanho. As unidades respiratórias terminais crescem em quantidade até os 8 anos de idade, aumentando de tamanho até a idade adulta. Esse padrão de desenvolvimento anatômico faz com que a contribuição das pequenas vias respiratórias para a resistência total das vias respiratórias seja proporcionalmente maior nos lactentes que em crianças com peso acima de 30 kg e adultos. Além disso, a ventilação proporcionada por colaterais (poros de Kohn e canais de Lambert) não se desenvolve até 1 ano de idade no caso dos poros de Kohn e até 5 anos no caso dos canais de Lambert. Outro aspecto de interesse no que se refere à dinâmica ventilatória é que a parede torácica de lactentes é muito mais complacente que a de crianças com peso acima de 30 kg e adultos, sendo o diafragma mais plano. Esses fatos tornam a função ventilatória menos efetiva nesta faixa etária, aumentando o trabalho respiratório, o que se acentua ainda mais durante doença pulmonar. No que diz respeito à fisiologia pulmonar, os componentes da mecânica pulmonar básica da criança são os mesmos do adulto. A complacência pulmonar do sistema respiratório de crianças tem o mesmo significado que para adultos. Além disso, para que certa quantidade de gás chegue aos pulmões é preciso vencer forças resistivas e elásticas. As forças resistivas são, basicamente, causadas pela resistência oferecida pelas vias respiratórias e pelo tubo traqueal, e as forças elásticas são determinadas pela complacência dos pulmões, da caixa torácica e do circuito de ventilação. Mecânica respiratória Para melhor entendimento das aplicações e limitações da VM, torna-se necessário conhecer alguns aspectos básicos de mecânica ventilatória. Para que haja fluxo de gás para o interior dos pulmões durante o ciclo respiratório, é preciso que se estabeleça um gradiente de pressão entre o alvéolo e o ar atmosférico. Durante a ventilação espontânea, esse gradiente é consequência da contração dos músculos respiratórios, sendo a pressão pleural menor que a pressão barométrica, e durante a VM com pressão positiva, a pressão pleural é maior que a pressão barométrica. O trabalho dos músculos respiratórios tem o objetivo de vencer a resistência das vias respiratórias produzida pela elasticidade da caixa torácica e dos pulmões e pelas propriedades físicas dos gases. ▶ Conceitos básicos Pressão, volume e fluxo, termos muito utilizados durante a VM, exprimem inerentes implicações matemáticas e, por isso, podem ser mal entendidos e negligenciados. Entende-se que a pressão aplicada no sistema seja responsável pela movimentação dos gases durante a ventilação. Matematicamente, pode ser entendida como a relação entre a força geradora do movimento dividida pela área em questão (P = força/área – cmH2O) e envolve: • • Componente resistivo (pressão resistiva = componente dinâmica da pressão). Parte da pressão total para produzir o movimento que se apresentará sempre que houver fluxo pela via respiratória Componente elástico (pressão elástica = pressão intrapulmonar propriamente dita). O espaço ocupado por certa quantidade de matéria expressa seu volume (litros) e a velocidade com que determinado volume de gás é movimentado denomina-se fluxo. Matematicamente: Fluxo (ℓ/min) = volume (ℓ)/tempo (min) O sistema respiratório, neste capítulo englobando os sistemas de ventilação artificiais, exibe duas características fundamentais: complacência (C) e resistência (R). Da relação entre estas, advém o conceito de constante de tempo (CT). A relação dessas diversas variáveis durante a VM pode ser expressa pela seguinte equação: P = pressão resistiva + pressão elástica = R × fluxo + volume/C Só é possível aplicar a VM de maneira lógica prevendo o comportamento do sistema respiratório nessa condição e quando se conhecem essas características e elas são relacionadas com os conceitos de volume, pressão e fluxo descritos. A ventilação distribui-se pelos pulmões, sofrendo influência da gravidade e de outros determinantes. Estando os pulmões situados dentro de uma caixa, o efeito da gravidade faz com que eles assumam uma forma globular com pressão pleural (Ppl) mais negativa no seu ápice e mais positiva na sua base. Sendo a pressão alveolar (Palv) igual em todo pulmão, as diferenças entre esta e a Ppl determinam diferenças regionais na pressão transpulmonar (Palv – Ppl). Assim, os alvéolos dependentes da gravidade são comprimidos, tornando-se menores que os alvéolos apicais e relativamente menos complacentes que os alvéolos não dependentes da gravidade. Por isso, a maior parte do volume corrente (VC) distribui-separa os alvéolos não dependentes. Os principais determinantes da ventilação são: complacência, resistência e constante de tempo. Complacência. A complacência do sistema respiratório (Csr) pode ser definida como a variação de volume com relação à variação de pressão: Csr (ℓ/cmH2O) = ΔV (ℓ)/ΔP (cmH2O) Assim, para certo volume insuflado, quanto maior a pressão gerada, menor é a complacência do pulmão, e vice-versa. Em outras palavras, a Csr reflete as características elásticas do sistema respiratório. As propriedades elásticas do sistema respiratório apresentam dois componentes: complacência pulmonar (Cp) e complacência da caixa torácica (Ct); esta última envolve os componentes ósseos, musculares e a parede abdominal. Entende-se que a complacência total do sistema respiratório seja determinada pelas complacências individuais dos pulmões e da parede do tórax. Deve-se considerar, para análise mais completa, a complacência relativa aos circuitos utilizados nos aparelhos de ventilação. Nos pacientes com doenças em que há diminuição da Csr, o efeito da complacência do circuito precisa ser considerado para o cálculo do volume corrente real recebido. Durante inspiração com pressão positiva, o gradiente de pressão transtorácica (Palv – pressão ambiente) inicialmente eleva-se a um valor máximo e depois decresce a um valor mais baixo, ou seja, um platô. Essa queda da pressão transtorácica ocorre porque, com o tempo, o gás redistribui-se dos alvéolos rígidos para os alvéolos mais complacentes, sendo necessário menor pressão para conter a mesma quantidade de gás. Por complacência dinâmica entende-se a variação de volume pela variação de pressão quando, para a medida da pressão utilizada no cálculo da Csr, considera-se a componente resistiva da pressão (complacência dinâmica = VC/pico de pressão inspiratória – pressão expiratória final), e entende-se por complacência estática • • • aquela originada do cálculo de pressão quando não há fluxo de gás (complacência estática = VC/platô de pressão inspiratória – pressão expiratória final). A complacência pulmonar normal, assim como a Ct, tem o mesmo valor (0,2 ℓ /cmH2O), enquanto a complacência estática do sistema respiratório tem o valor de 0,1 ℓ/cmH2O. Inúmeras são as doenças que determinam diminuição da Csr, podendo haver comprometimento do parênquima pulmonar, das paredes torácica e abdominal. Com relação ao pulmão, especificamente, a Cp pode estar diminuída por: Aumento do recolhimento elástico: SDRA, edema agudo de pulmão, afogamento, doença de membrana hialina e pneumonia difusa Aumento excessivo do volume pulmonar: asma, bronquiolite e PEEP ou pressão positiva contínua nas vias respiratórias (CPAP) excessiva Perda de volume pulmonar: atelectasias. A queda da complacência pode ocorrer, também, por problemas da caixa torácica, como acontece em cirurgias e/ou traumas toracoabdominais, distensão abdominal, pneumotórax, derrame pleural volumoso, deformidades torácicas etc. Resistência. Pode ser entendida como o gradiente de pressão entre dois pontos da via respiratória (P1 – P2) necessário para gerar um dado fluxo (F) de gás pelo sistema analisado. Para os chamados fluxos laminares, nos quais as moléculas gasosas obedecem à trajetória longitudinal, tem-se que: Resistência (cmH2O/ℓ/s) = ΔP (P1 – P2) (cmH2O)/F (l/s) A resistência não elástica total do sistema respiratório é resultado da fricção das moléculas de gás durante seu movimento dentro das vias respiratórias, da resistência das vias respiratórias propriamente dita e, também, da fricção dos pulmões com a caixa torácica (resistência dos tecidos viscosos). A resistência aérea corresponde a cerca de 80% da resistência total do sistema respiratório, ocorrendo a maior parte nas vias respiratórias superiores e apenas 10% nas pequenas vias respiratórias (diâmetro menor que 2 mm). De acordo com a equação de Hagen-Poiseuille para fluxos laminares, os determinantes do fluxo são: viscosidade do gás, quarta potência do raio interno do tubo, diferença de pressão nas extremidades e comprimento do tubo. F = (P1 – P2) π r4/8 μl (P1 – P2) = 8 μℓ F/π r4 Considerando: F = fluxo; P1 – P2 = diferença de pressão entre as extremidades do sistema tubular; π = constante; r = raio interno do tubo; μ = coeficiente de viscosidade; l = comprimento do tubo. Sendo a resistência diretamente proporcional ao gradiente de pressão ao longo das vias respiratórias e sendo este dependente do calibre das mesmas e do padrão de fluxo, depreende-se que aumentos na resistência requerem gradientes de pressão mais amplos entre a abertura da via respiratória e os alvéolos para que o fluxo inspiratório se mantenha. Como explicado, a resistência é inversamente proporcional à quarta potência do raio das vias respiratórias. Por isso, em adultos e crianças de mais idade, o ponto de maior resistência situa-se nos maiores brônquios e na traqueia, uma vez que as vias respiratórias periféricas têm área seccional maior comparadas às vias respiratórias proximais. Entretanto, desde a faixa etária de lactentes até os 5 anos de idade, as vias respiratórias periféricas contribuem com aproximadamente 50% da resistência total das vias respiratórias, o que significa que crianças nesta faixa etária estejam mais propensas ao desenvolvimento de obstrução grave de vias respiratórias. Adicional aumento da resistência ocorre com intubação traqueal e é nesta idade que as doenças mais frequentemente determinam aceleração da frequência respiratória (FR) e diminuição da complacência pulmonar. Tais fatores estabelecem o aumento da resistência em virtude da elevação da velocidade do fluxo e da diminuição da capacidade residual funcional. O efeito da resistência também é notado durante a expiração. Durante a exalação, as vias de condução intratorácica têm tendência ao colapso, por isso a resistência é maior durante essa fase do ciclo respiratório. Esse efeito acentua-se em doenças obstrutivas, podendo ocorrer retardo da exalação do volume inspirado. O volume residual que permanece dentro dos pulmões até o início do próximo ciclo respiratório produzirá uma pressão alveolar residual conhecida como auto-PEEP. Nestas condições, impõe-se a utilização de tempos expiratórios mais prolongados. Constante de tempo. Em condições fisiológicas, a complacência e a resistência do sistema respiratório determinam a distribuição da ventilação dentro dos pulmões. Desse modo, entende-se CT como a medida da rapidez com que ocorre o enchimento ou esvaziamento de uma unidade alveolar, ou seja, a velocidade com que ocorre o equilíbrio entre as pressões das vias respiratórias proximais e dos alvéolos. Sendo diretamente proporcional à complacência e à resistência, a CT pode ser calculada utilizando-se a seguinte equação: CT (s) = R (ℓ/s/cmH2O) × C (ℓ/cmH2O) Esta medida varia conforme o segmento dos pulmões e de acordo com o tipo de doença. Por exemplo, nas condições clínicas nas quais ocorre aumento da resistência das vias respiratórias (asma ou bronquiolite), a CT da unidade alveolar também se elevará, e tanto o enchimento quanto o esvaziamento alveolar ficarão lentos (“alvéolos lentos”). Isso exigirá, durante a VM dessas doenças, o emprego de baixas relações inspiração/expiração com prolongamento do tempo expiratório. Por outro lado, nas condições em que há diminuição da complacência (SDRA, pneumonias difusas), a CT da unidade alveolar reduzirá, e os alvéolos se encherão e esvaziarão rapidamente (“alvéolos rápidos”). Nessas situações, é possível utilizar tempos inspiratórios prolongados, visando ao recrutamento alveolar. Considerando-se que os tempos necessários para ocorrer a inspiração e a expiração normais em uma criança não intubada são, respectivamente, de 0,1 e 0,2 s e que são necessárias de 3 a 5 CT para promover completo enchimento/esvaziamento alveolar, pode- se entender que o tempo inspiratório (Tinsp) utilizado na VM varie de 0,3 a 0,5 s, em recém-nascidos e lactentes. Em crianças com peso acima de 30 kg e adultos, em condições normais, o tempo necessáriopara se processar a inspiração é de 0,3 a 0,5 s. Isto faz com que o Tinsp varie de 0,9 a 1,5 s durante VM. Trabalho respiratório. As características do sistema respiratório referentes à complacência e à resistência, além das implicações descritas, interferem no trabalho respiratório. Basicamente, duas são as forças a serem vencidas durante a respiração: recolhimento elástico dos pulmões e do tórax e resistência ao fluxo de gás oferecida pelas vias respiratórias. Assim, se houver aumento da resistência ou se houver diminuição da complacência, ocorrerá elevação do trabalho respiratório. Classificação e controles dos ventiladores mecânicos Os ventiladores mecânicos podem ser classificados de diversas maneiras. A classificação mais recente baseia-se nos princípios fisiológicos da equação do movimento (pressão = volume/complacência + resistência × fluxo) e utiliza cinco categorias: energia, transmissão da energia, controle, ondas e alarmes. Será discutido, mais detalhadamente, o controle dos ventiladores antes de serem descritos os modos básicos de VM. ▶ Esquema de controle dos ventiladores • • • • • • • Variáveis de controle. São variáveis controladas pelo ventilador para liberar a energia predeterminada para o sistema respiratório. É possível controlar pressão, volume, fluxo e tempo, sendo algumas formas de ondas estabelecidas pelos ventiladores para cada variável de controle, como: Retangular: controle de pressão ou fluxo Sinusoidal: controle de volume e fluxo Acelerante ou desacelerante: controle de fluxo. Para ventiladores com pressão controlada, o volume corrente é função do tempo, da complacência, da resistência e da amplitude da pressão. Quando o fluxo e/ou o volume são as variáveis controladas pelo ventilador, o volume corrente pode ser predeterminado ou, simplesmente, é função do padrão de fluxo inspiratório predeterminado. Variáveis de fase. São quatro as fases do ciclo respiratório: Mudança da expiração para inspiração Fase inspiratória Mudança da inspiração para expiração Fase expiratória. Uma ou mais das variáveis de controle podem ser monitoradas e, quando alcançam um valor predeterminado, ocorre mudança de uma fase para outra. Assim, pressão, volume, fluxo e tempo podem ser entendidos como variáveis de fase, sendo necessário citar a terminologia empregada: desencadeamento (disparo), limite, ciclagem e base. Mudança da expiração para inspiração. O início da ação, conhecido como “disparo” do ventilador mecânico, pode utilizar a pressão, o volume, o fluxo ou o tempo para iniciar a inspiração, sendo a variável selecionada chamada de variável de disparo ou de desencadeamento (trigger). A primeira variável de disparo utilizada foi o tempo, ou seja, o ventilador iniciava a respiração a certa frequência, independentemente do esforço inspiratório do paciente. Para possibilitar a sincronização entre os esforços do paciente e o ventilador mecânico, a pressão passou a ser utilizada como trigger. Mais recentemente, o fluxo passou a ser utilizado por ser um método mais sensível e estar associado a diminuição do trabalho respiratório. A sensibilidade do ventilador ao trigger pode ser ajustada para diminuir o trabalho respiratório imposto ao paciente. Fase inspiratória. Durante a inspiração, pressão, volume e fluxo podem alcançar valores acima daqueles observados ao final da expiração. Uma ou mais dessas variáveis podem alcançar níveis até um limite preestabelecido, chamado de variável limite. É importante frisar que a inspiração não termina quando o limite preestabelecido for alcançado (variáveis de ciclagem executam esta função). Mudança da inspiração para expiração. As variáveis de ciclagem são utilizadas para terminar a inspiração quando um valor predeterminado é alcançado. Atenção para o fato de que a variável de limite alcança seu pico antes do final da inspiração, ao passo que a inspiração é terminada quando um valor predeterminado da variável de ciclagem é alcançado. Fase expiratória. Durante a expiração, o ventilador pode alterar a maneira pela qual as variáveis de controle retornam aos seus respectivos valores basais. A variável controlada durante o tempo expiratório é chamada variável de base. Embora qualquer uma das variáveis de controle possa, teoricamente, ser controlada, a pressão é a variável de base utilizada na maioria das situações clínicas. O controle da variável de base possibilita que o ventilador controle a pressão expiratória final transrespiratória (pressão das vias respiratórias – pressão de superfície corpórea) e o volume expiratório final. Variáveis condicionais. Alguns ventiladores mecânicos mais modernos podem combinar as variáveis de controle e de fase a cada ciclo respiratório, mantendo-se o padrão ou introduzindo outro. Um exemplo clássico é o modo chamado ventilação mandatória intermitente sincronizada (SIMV). Se o ventilador não detectar o esforço inspiratório do paciente durante um tempo predeterminado (“janela de tempo”), uma respiração mandatória é liberada. Em contrapartida, se os esforços inspiratórios do paciente forem sentidos enquanto a janela da SIMV estiver aberta, uma respiração assistida é fornecida. Por outro lado, se o esforço ocorrer após o fechamento da janela, possibilitará a ocorrência de uma respiração espontânea. Modos convencionais de ventilação mecânica Dependendo se é o ventilador ou o paciente que controla o disparo, o limite e a ciclagem, quatro diferentes tipos de respiração em dois tipos de comandos (máquina e paciente) podem ser descritos, como ilustrado no Quadro 10.1. QUADRO 10.1 Classificação das respirações mecânicas. Tipos de respiração Variáveis de fase Disparo Limite Ciclagem Mandatória Máquina Máquina Máquina Assistida Paciente Máquina Máquina Suporte Paciente Máquina Paciente Espontânea Paciente Paciente Paciente Adaptado de Chatburn, 2006. ▶ Ventilação mandatória controlada Modo de ventilação no qual todas as respirações são disparadas, limitadas e cicladas pelo ventilador que libera o volume corrente a • • • • • uma frequência predeterminada (FR mecânica), não havendo mecanismo alternativo de ciclagem. O paciente recebe um volume/min fixo, e seus esforços respiratórios, caso existam, não desencadeiam a ciclagem do ventilador, não ocorrendo liberação adicional de gás quando o paciente tenta respirar espontaneamente. Tais características têm restringido o uso deste modo de ventilação a situações como: Apneia Intoxicações exógenas com depressão do centro respiratório Paralisia da musculatura respiratória Sedação e bloqueio neuromuscular Hiperventilação terapêutica nos casos de hipertensão intracraniana ou em casos de estado de mal convulsivo. ▶ Ventilação controlada a volume Libera volume corrente predeterminado durante um Tinsp também fixo, com frequência e fluxo inspiratório constantes, de modo que a fase inspiratória é encerrada quando um volume corrente predeterminado é alcançado. O ventilador controla todos os parâmetros de tempo da respiração, embora os aparelhos mais modernos possam responder ao esforço inspiratório do paciente. Além disso, o Tinsp pode ser prolongado com a interposição de pausa inspiratória. A ventilação controlada a volume (VCV) é caracteristicamente utilizada em pacientes apneicos por sedação/analgesia, traumatismo craniano, intoxicações etc. ▶ Ventilação controlada a pressão Modo de ventilação também idealizado para pacientes com quadro neurológico que os impeça de desencadear respirações eficientes. O ventilador libera pressão positiva até uma pressão limite predeterminada, acima da PEEP, durante um Tinsp e frequência pré- ajustada. O fluxo inspiratório depende da pressão na via respiratória e da complacência pulmonar. Sendo a pressão inspiratória a variável de limite, as modificações da mecânica respiratória resultarão em alterações no VC liberado. ▶ Ventilação controlada a volume e regulada a pressão A ventilação controlada a volume e regulada a pressão (PRVC), também chamada de ventilação pressométrica adaptativa, é um modo de respiração de duplo controlepositiva a terapêuticas instituídas ao paciente. Os pulsos podem ser divididos em centrais (carotídeo, axilar, braquial e femoral) e periféricos (radial, pedioso e tibial posterior). É recomendada a pesquisa dos pulsos centrais no paciente grave ou hemodinamicamente instável. Nos lactentes, a pesquisa deve ser realizada no pulso braquial, e, nas crianças com peso acima de 30 kg, no carotídeo ou femoral. As características utilizadas na avaliação do pulso são: frequência, amplitude, ritmo e simetria. A ausência dos pulsos periféricos com a presença dos centrais indica um quadro de hipoperfusão grave. Alterações na frequência, associadas ou não a alterações no ritmo, são capazes de identificar as arritmias ou disritmias cardíacas. Alterações da frequência associadas à amplitude, como frequência elevada com amplitude diminuída, indicam estado de hipoperfusão. Frequência elevada com amplitude alta indica quadro hiperdinâmico. A presença de pulso paradoxal na criança em respiração espontânea pode indicar tanto doença pulmonar obstrutiva grave como descompensação miocárdica. Diferenças na simetria podem indicar cardiopatias congênitas, como na coarctação da aorta, em que os pulsos femoral e pedioso podem estar mais fracos ou mesmo ausentes, comparados com o braquial e o radial. Monitoramento eletrocardiográfico O monitoramento eletrocardiográfico contínuo é um método não invasivo, que possibilita a identificação rápida de taquiarritmias ou bradiarritmias. A DII é a derivação mais adequada para a detecção de arritmias, pois, nesta, a onda P é mais proeminente. Qualquer alteração ou dúvida encontrada no ritmo cardíaco deve ser confirmada e mais bem avaliada com a realização de eletrocardiograma. A maior limitação desse tipo de monitoramento é que ele não permite real avaliação do estado circulatório do paciente. Temperatura O gradiente de temperatura central-periférico (dTc-p) pode ser indicador mais sensível da adequação da circulação periférica do que a medida da pressão arterial ou a frequência cardíaca. Em paciente hemodinamicamente estável, o dTc-p é de até 2°C. Valores maiores que 2°C indicam hipoperfusão importante. A exceção verifica-se nos casos de hipotermia, temperatura ambiente muito baixa ( 15 mmHg) representam situações de hipervolemia ou de baixa performance cardíaca. A PVC permite ainda avaliar a complacência cardíaca por meio do teste de infusão rápida de volume. Após aciclo a ciclo. Apresenta padrão de fluxo desacelerante, com respirações cicladas a tempo. Durante essa ventilação, a pressão e o volume são regulados de maneira que todas as respirações apresentem um volume-alvo com pressão ajustada para chegar a este volume. Este modo vem ganhando espaço pelas características protetoras que podem ser oferecidas, principalmente nas doenças restritivas. ▶ Ventilação assistida A ventilação mecânica assistida (VMA) é essencialmente idêntica aos modos controlados, exceto que os esforços inspiratórios do paciente “disparam” o ventilador, sendo, portanto, o paciente quem determina o início da inspiração. Pelo esforço do paciente, há acionamento de um sensor de pressão, que detecta redução na pressão expiratória dentro do circuito do ventilador, ou acionamento de um sensor de fluxo, que identifica movimento de ar em direção ao pulmão. O paciente controla a FR e o tempo expiratório, enquanto o volume corrente e a taxa de fluxo são prefixados. A modalidade de VMA envolve o acionamento do comando de sensibilidade. O ajuste da sensibilidade possibilita a adequação do esforço inspiratório que o paciente terá de fazer para acionar a ciclagem do ventilador e, por isso, tem influência na intensidade de trabalho muscular a ser desenvolvido pelo mesmo. Quanto menor o valor absoluto da sensibilidade, mais sensível estará o ventilador aos esforços inspiratórios do paciente e mais rápida será sua resposta, ou seja, mais precocemente se iniciará o fluxo inspiratório em resposta ao esforço do paciente, com menor gasto energético muscular. É preciso ter cuidado também para não permitir a autociclagem do respirador por turbulências de fluxo, quando o aparelho está mais sensível aos esforços do paciente. A VMA tem como uma de suas desvantagens a possibilidade de hipoventilação em caso de diminuição da FR do paciente por alteração do seu nível de consciência. Também pode haver hiperventilação quando o paciente aumenta seu esforço, desencadeando a ciclagem do ventilador em alta frequência. ▶ Ventilação mecânica assistido-controlada Combinação dos modos de ventilação assistida e controlada na qual o ventilador fornece respirações assistidas a um VC predeterminado, em resposta ao esforço inspiratório do paciente, e existe uma FR mecânica de base, predeterminada, que se iniciará caso o esforço respiratório do paciente não ocorra em tempo determinado ou quando esse esforço for insuficiente. Assim, o disparo da fase inspiratória combina um mecanismo de tempo (deflagrado pelo ventilador) com um mecanismo pressórico (esforço do paciente). O ajuste da frequência total é arbitrário. Costuma-se manter a FR mecânica em valor pouco abaixo da FR do paciente. O volume inspirado, a FR mecânica e a sensibilidade são predeterminados pelo médico. ▶ Ventilação mandatória intermitente Modo de suporte ventilatório mecânico no qual o paciente pode respirar espontaneamente e, em adição, pode receber um número de respirações mecânicas com Tinsp e FR predeterminados. A ventilação mandatória intermitente (IMV) foi originalmente descrita usando sistemas de fluxo constante, sendo modo de ventilação ciclado a tempo e limitado a pressão. A liberação de respirações mecânicas pode ocorrer em intervalo de tempo predeterminado (IMV tradicional) ou em resposta a esforço inspiratório espontâneo • • • • (IMV sincronizada). Entre as respirações mecânicas o paciente pode respirar espontaneamente com um fluxo contínuo de gás ou com sistema de fluxo de demanda. A utilização da IMV tradicional pode causar discordância entre as respirações espontâneas e as mecânicas, ou seja, quando o paciente está expirando, pode estar se iniciando um ciclo mecânico. Tal fato pode levar a distensão pulmonar com consequente barotrauma e diminuição do DC, além de exigir aumento da necessidade de sedação. A IMV tradicional tem outros inconvenientes: Dificuldade no monitoramento do gás exalado Perda de gás Maior custo, se utilizada inadequadamente Não responde às alterações do quadro clínico do paciente. Essas dificuldades levaram à introdução da SIMV. ▶ Ventilação mandatória intermitente sincronizada Em razão dos problemas que ocorrem com o emprego do modo IMV, novas modalidades ventilatórias foram introduzidas com o objetivo de sincronizar as respirações mecânicas e as espontâneas por meio de acoplamento da FR mecânica e do Tinsp com as respirações espontâneas do paciente (SIMV). A SIMV foi idealizada para desencadear uma respiração mecânica ao mesmo tempo que ocorrerem respirações espontâneas, impulsionada de acordo com a frequência estabelecida. Neste modo de ventilação, a respiração mecânica com pressão positiva é sincronizada para ser liberada logo após o início do esforço inspiratório espontâneo do paciente, ativando uma válvula de demanda. Pode haver aumento do trabalho ventilatório nos momentos de respiração espontânea, promovendo, com mais frequência, a utilização da SIMV juntamente com outro modo de ventilação, denominado pressão de suporte (descrito mais a seguir). ▶ Ventilação com liberação de pressão de via respiratória Como descrito originalmente, fornece fluxo contínuo de gás para variar a pressão de via respiratória entre dois diferentes níveis de CPAP por períodos de tempo estabelecidos enquanto viabiliza a ventilação espontânea para o paciente em ambos os níveis. Neste modo de ventilação, as pressões de vias respiratórias são intermitentemente diminuídas ou “liberadas” a partir de um nível predeterminado de CPAP a um valor mais baixo ou ao nível da pressão ambiente. O modo ventilação com liberação de pressão de via respiratória (APRV) foi desenvolvido para abrir e estabilizar alvéolos colapsados sem pico de pressão excessivo e, mais recentemente, foi incorporado a muitos ventiladores com circuitos de demanda com capacidade de sincronizar o disparo do paciente. É possível controlar o nível de CPAP, a frequência de liberação da pressão aérea, o nível para o qual a pressão é reduzida e a duração da liberação de pressão, sendo a pressão a variável de limite. A experiência com APRV é limitada, sendo praticamente inexistente em pediatria. ▶ Ventilação mandatória minuto Modo de ventilação no qual o paciente pode respirar espontaneamente e, além disso, é assegurado ao mesmo volume- minuto mínimo constante, predeterminado pelo operador, que será acionado caso a ventilação-minuto do paciente decline além do nível prefixado. O programa desses ventiladores verifica, a cada momento, a quantidade de ventilação espontânea em seu circuito. Caso a ventilação reduza além do volume-minuto predeterminado, o ventilador libera respirações mecânicas com volume fixo até que o volume-minuto predeterminado seja alcançado. Diferentemente da SIMV, em que o ventilador libera um número fixo de respirações todo o tempo, na ventilação mandatória minuto (VMM) o paciente não recebe respirações mecânicas até haja queda do volume- minuto. O fato de o ventilador não avaliar a qualidade dos ciclos • • • • • espontâneos é uma importante limitação desse modo de ventilação, que tem utilidade limitada no meio pediátrico. ▶ Ventilação de suporte Definida como respiração disparada pelo paciente, limitada pelo ventilador e ciclada pelo paciente. Ou seja, o paciente executa o trabalho de disparo e interage com o ventilador para realizar um montante variável de trabalho remanescente. Assim, a ventilação é espontânea em natureza, uma vez que o paciente inicia e termina cada respiração. Há duas formas clássicas de oferecer suporte à respiração: pressão expiratória final positiva e pressão positiva contínua nas vias respiratórias e ventilação com suporte pressórico (VPS). Pressão expiratória final positiva e pressão positiva contínua nas vias respiratórias A PEEP pode ser entendida como um nível de pressão positiva aplicada nas vias respiratórias ao final da expiração, tendo a fase inspiratória ocorrido mecanicamente. Quando esta mesma pressão for aplicada durante ventilação espontânea, utiliza-se o termo CPAP. Como esta pressão positiva é mantida durantetodo o ciclo respiratório, depreende-se que, com sua utilização, os alvéolos permanecerão abertos durante esse tempo, possibilitando melhora da oxigenação arterial. Aplica-se PEEP quando se pretende diminuir a hipoxemia arterial sem utilizar FIO2 lesivas ao pulmão. A PEEP produz seu efeito por três mecanismos: Aumento do volume pulmonar no final da expiração (CRF) Redistribuição de fluido Melhora da relação ventilação/perfusão (V/P). ▶ Efeitos fisiológicos benéficos da PEEP Aumento da capacidade residual funcional Diminuição do curto-circuito pulmonar de oxigênio (shunt) • • • • • • • • • • • • Melhora da relação ventilação-perfusão Aumento da complacência pulmonar Prevenção de atelectasia Diminuição do trabalho respiratório Diminuição da resistência total das vias respiratórias Proteção sobre o surfactante Aumento do transporte de oxigênio. ▶ Complicações mais frequentes da PEEP Diminuição do DC Barotrauma Aumento da pressão intracraniana (PIC) Interferência no fluxo plasmático renal Interferência no fluxo sanguíneo hepático. Ventilação com suporte pressórico A ventilação com suporte pressórico (VPS) é um modo de ventilação assistida, ciclada a fluxo, idealizada para manter uma pressão positiva na via respiratória constante e predeterminada durante inspiração espontânea. A principal característica da pressão de suporte é a manutenção e o suporte do esforço inspiratório do paciente, tornando possível a diminuição do trabalho ventilatório da respiração espontânea com melhora do treinamento dos músculos respiratórios. Na ventilação com pressão de suporte, após a abertura de uma válvula de demanda pelo paciente, aplica-se uma pressão positiva predeterminada no circuito, em vez de um fluxo livre de gás, facilitando a respiração espontânea. Neste modo de ventilação, o que determina o término da fase inspiratória não é o tempo, mas sim o fluxo. O paciente controla o Tinsp, a taxa de fluxo inspiratório e a FR, enquanto o limite de pressão é determinado pelo operador. Trata-se, pois, de um modo iniciado a pressão, limitado a pressão e terminado pelo fluxo. • • • • ▶ Requisitos para utilização da ventilação com suporte pressórico A VPS é um modo de ventilação assistida, logo, o aparelho de ventilação precisa reconhecer o início da inspiração espontânea para ativar a pressão de suporte. Os aparelhos utilizados para a VPS têm que liberar fluxo inspiratório maior ou igual ao solicitado pelo paciente a cada instante. Este fluxo servirá não apenas para atender à demanda inspiratória do paciente, mas também para manter o circuito do ventilador pressurizado ao nível da pressão de suporte Por tratar-se de um modo de ventilação ciclada a fluxo, o ventilador reconhecerá o final da inspiração espontânea, interrompendo a pressão de suporte assim que o fluxo inspiratório cair abaixo de um nível crítico (queda aproximada de 25% do fluxo máximo), iniciando a expiração. O nível máximo de pressão de suporte a ser oferecido deve ser ajustado para manter um volume corrente de 10 a 12 m ℓ /kg. Esta pressão serve, como o próprio nome revela, para poupar a musculatura respiratória auxiliando uma inspiração dificultosa A VPS é, na verdade, um modo de suporte ventilatório parcial, em que cada ciclo respiratório é assistido mecanicamente. O grau de suporte mecânico depende do nível de pressão predeterminado. Como descrito, a VPS vem sendo utilizada juntamente com o modo SIMV Utilizam-se, habitualmente, níveis de pressão de suporte dependendo do tipo de doença. Nas doenças obstrutivas, deve- se empregar pressão de suporte mais elevada (iniciar com 10 cmH2O), assim como se a cânula traqueal for mais fina. ▶ Ventilação com relação tempo inspiratório: expiratório invertida É um modo de ventilação controlada com pressão positiva com relação de tempo inspiratório:expiratório maior que 1:1 ou relação entre Tinsp e duração total do ciclo respiratório maior que 0,5, • • • • • • • • mantendo-se, com isso, pressão constante e predeterminada durante toda a fase inspiratória, que terminará por critério de tempo. A relação inversa pode ser obtida aumentando-se o Tinsp ou a FR. O Tinsp pode ser prolongado de várias maneiras: Aplicando-se uma pausa ao final da inspiração Retardando-se o pico de fluxo inspiratório Limitando-se a pressão inspiratória. A melhora da oxigenação provém do progressivo recrutamento alveolar com diminuição do shunt pulmonar, promovendo a passagem do sangue capilar pulmonar por áreas de maior ventilação. O encurtamento do tempo expiratório leva ao aparecimento intencional da auto-PEEP, que estabiliza os alvéolos e previne seu novo colapso com aumento da pressão média de vias respiratórias. A maior parte dos aparelhos de VM não possibilita a obtenção de gás fresco durante a fase inspiratória, tornando esta técnica incompatível com a respiração espontânea. Por isso, impõe- se o uso de sedativos e bloqueadores neuromusculares, tornando as respirações controladas com taxas de fluxo inspiratório desacelerantes. Vantagens O padrão de fluxo inspiratório decrescente utilizado promove a produção de menor pico de pressão inspiratória para determinado volume corrente A melhor ventilação de unidades alveolares com altas constantes de tempo possibilita utilização de volume corrente menor para a mesma PaCO2 e melhora da oxigenação com diminuição da FIO2 . Desvantagens Incompatibilidade com respiração espontânea Necessidade de bloqueio neuromuscular Superdistensão alveolar com possibilidade de barotrauma. Ventilação mecânica em situações específicas A introdução do suporte ventilatório mecânico para o tratamento de pacientes gravemente enfermos provocou dramática mudança de seu prognóstico, principalmente no que se refere aos casos de insuficiência respiratória. O desenvolvimento técnico-científico nesta área tem sido notável, desde a utilização dos primeiros aparelhos de VM, geradores de pressão negativa, até os mais modernos equipamentos computadorizados, que viabilizam o melhor monitoramento de funções e a introdução de novos modos de ventilação. A VM convencional tinha como objetivo a obtenção de valores normais para a PaCO2 e a PaO2 . Esses critérios obrigavam a utilização de volumes correntes elevados (10 a 15 mℓ/kg) para a normalização do pH e da oxigenação em pacientes com insuficiência respiratória aguda, independentemente de quão elevada fosse a pressão inspiratória gerada. Atualmente, entretanto, há evidências de que a VM, quando inadequadamente utilizada, induz ou agrava a lesão pulmonar em doenças como SDRA, pneumonias difusas e em casos de grave obstrução das vias respiratórias. O estudo tomográfico de pulmões de pacientes com SDRA evidenciou que a lesão pulmonar não é homogênea, havendo desde áreas normais até áreas hiperinsufladas. Esta hiperdistensão pode estar relacionada com a obstrução parcial das vias respiratórias e/ou com a redução regional do recolhimento elástico, fatores que prolongam a CT e dificultam o esvaziamento alveolar. Além disso, evidências advindas de estudos realizados em animais foram capazes de demonstrar que, após algumas horas de exposição a altas pressões de insuflação, a estrutura pulmonar mostrava alterações estruturais semelhantes às da SDRA. Assim, a imposição indiscriminada de altos volume correntes para a VM determina hiperdistensão e lesão de áreas sadias, com consequente piora da função respiratória. Volutrauma foi a denominação dada a esse tipo de lesão pulmonar induzida pela VM, consequência da hiperdistensão. Igualmente, os ciclos repetidos de enchimento e esvaziamento alveolar determinam lesão alveolar, quadro que recebeu a denominação de atelectrauma. Hickling et al., em 1990, introduziram o termo hipercapnia permissiva quando relataram diminuição da mortalidade em SDRA utilizando ventilação com baixos volumes correntes e pressão limitada. Esta maneira de ventilar possibilita, deliberadamente, que a PaCO2 se eleve a níveis entre 50 e 100 mmHg acima dos valores considerados normais. Para tanto, emprega-se volume corrente mais baixo (5a 8 m ℓ /kg), limitando-se a pressão de platô a 30 cmH2O. Cabe destacar que os valores mencionados se referem a adultos. Em Pediatria, não há estudos nos quais se possa determinar com clareza se os valores são transponíveis. Certamente, os níveis pressóricos seguros são até mais baixos em lactentes. Princípios gerais de utilização da ventilação pulmonar mecânica É preciso realizar ajustes repetidos dos parâmetros ventilatórios (modo de ventilação e intensidade) determinados ao início do tratamento, uma vez que a fisiopatologia das doenças se modifica com o tempo. A VM não é um procedimento destituído de complicações, sendo necessário implementar medidas para minimizá-las, podendo-se utilizar a hipercapnia e a hipoxemia permissivas. A hiperdistensão alveolar pode provocar lesão pulmonar induzida pela VM. Deve-se, portanto, evitar altas pressões alveolares. A hiperdistensão dinâmica (auto-PEEP) deve ser medida ou estimada. Ventilação pulmonar mecânica na SDRA Considerando-se que na SDRA ocorre importante diminuição da complacência pulmonar associada a menor tensão superficial dos alvéolos e tendência a colapso alveolar e que o alvéolo colapsado • • • • • • tem pressão de colabamento e de abertura críticas, sendo esta última maior que a primeira, sempre é preferível impedir o colabamento de um alvéolo aberto que abrir um alvéolo já colabado. ▶ Regras básicas O melhor modo de ventilação para pacientes com SDRA é aquele que mantém a oxigenação e a ventilação e com o qual a equipe tem experiência na prática clínica. Tem sido utilizado com mais frequência o modo PRVC Empregar FIO2 suficiente para alcançar SaO2 entre 88 e 90% (hipoxemia permissiva) Limitar o VC entre 5 e 8 m ℓ /kg quando a pressão de platô exceder 30 cmH2O Havendo limitação do VC e da pressão de platô, deve-se provover a elevação da PaCO2 (hipercapnia permissiva), a menos que existam contraindicações como em casos de traumatismo craniano com aumento da PIC. Nestas situações, evitar rápidas elevações da PaCO2 . A lenta redução do VC em pacientes com função renal normal pode propiciar alcalose metabólica compensatória e pH mais elevado para um volume corrente específico A principal opção para melhorar a oxigenação é a utilização da PEEP. É fundamental a triagem para o estabelecimento da melhor PEEP com subsequentes reavaliações, sendo necessário monitorar os efeitos hemodinâmicos deletérios da PEEP Se o paciente estiver utilizando ventilação controlada a volume e sem respiração espontânea, pode-se utilizar o conceito de driving pressure (pressão de platô – PEEP), cujo valor estabelecido na literatura deve ser menor que 15 cmH2O. No entanto, a maioria das crianças com SDRA é ventilada em modos pressométricos, nos quais não se identifica a pressão de platô, sendo a pressão inspiratória muito próxima da pressão de platô. Neste caso pode- se atentar para o gradiente de pressão (pressão inspiratória de pico [PIP]-PEEP). O gradiente de pressão não deve exceder 10 • • • cmH2O em pulmão normal. Não há dados em doenças nos pulmões Muitas vezes, torna-se necessário o emprego de sedação e/ou bloqueio neuromuscular, assim como mudanças de posição do paciente (supina para prona) para obter melhora da oxigenação. Deve-se considerar a necessidade de melhorar outros fatores que interfiram na liberação de oxigênio (DC e níveis de hemoglobina) O Tinsp inicial pode ser normal ou baixo (0,5 a 0,7 s) com relação I:E normal (1:2). Na impossibilidade de se manter oxigenação adequada com PEEP, pode-se aumentar o Tinsp. O DC precisa ser mais bem avaliado nessas situações, devendo-se, para tanto, determinar a saturação venosa de oxigênio (SVO2 ) A FR mecânica inicial pode ser 2/3 da frequência pré-intubação e, posteriormente, ajustada para manter a ventilação alveolar ou se ajustar ao Tinsp e a relação I:E. Doença obstrutiva de vias respiratórias | Aguda e crônica A hiperinsuflação e o prolongamento da expiração são os elementos que caracterizam os pacientes portadores de doenças obstrutivas. Há também aumento da resistência à inspiração, causado pelo edema e pelo acúmulo de secreção nas vias respiratórias. Estes fatores, em conjunto, determinam aumento do risco de complicações e óbito durante a VM quando se aplicam altos picos de pressão. A expiração incompleta pode ocasionar hiperinsuflação dinâmica (pressão alveolar positiva no final da expiração – auto- PEEP) com consequente aumento do risco de barotrauma, já elevado nesses pacientes. Outro aspecto a ser salientado é que as indicações de intubação e de VM são mais tardias, limitadas à fase mais final de fadiga e exaustão respiratória, e não estão relacionadas com simples aumentos da PaCO2 na gasometria. Para proceder à intubação é • • • • preciso atentar, principalmente, para nível de consciência, presença de acidose ou hipoxia graves e alterações hemodinâmicas. ▶ Regras básicas | Asma brônquica Veja, a seguir, as regras básicas para ventilação mecânica na asma brônquica: Não há modo de VM que seja superior nesses casos. Deve-se empregar o modo que seja reconhecidamente efetivo e com o qual a equipe tenha experiência na prática clínica. Os modos limitados a pressão parecem ser mais seguros, com monitoramento do volume corrente expirado. A PIP deve seré preciso • • • • • • • ∘ ∘ ∘ ∘ ∘ ∘ considerar problemas concomitantes (pneumotórax, edema pulmonar, rolha de secreção) e as orientações e medidas a seguir: Tanto a SIMV quanto a VPS podem ser utilizadas como modos de ventilação. A sensibilidade do aparelho de ventilação deve ser máxima Utilizar FR mecânica baixa para alcançar os níveis de PaCO2 que o paciente apresentava antes da descompensação Manter PaCO2 entre 60 e 70 mmHg empregando volume corrente de 6 a 8 mℓ/kg e pressões inspiratórias baixas O tempo expiratório deve ser prolongado, utilizando, para tanto, fluxos inspiratórios altos A PEEP pode ser normal com monitoramento da auto-PEEP. Caso exista associação a patologias que determinem diminuição da complacência pulmonar, pode ser preciso aumentar a PEEP Evitar hiperoxia usando FIO2 suficiente para manter SaO2 entre 88 e 92% Cuidados no desmame: o processo de retirada do suporte respiratório mecânico nesses pacientes pode ser dificultado se alguns cuidados não forem tomados, como: Utilizar cânula traqueal com maior diâmetro interno possível para diminuir o trabalho respiratório Evitar hiperoxia Monitorar o equilíbrio eletrolítico e acidobásico evitando hipofosfatemia, responsável por fraqueza muscular e diminuição de 2,3-difosfoglicerato (2,3-DPG), cuja queda promove desvio da curva de dissociação da hemoglobina para a esquerda, com prejuízo da liberação de oxigênio para os tecidos Usar corticosteroides, diuréticos, antiácidos e sondagem gástrica pode levar a alcalose metabólica, o que diminui a resposta do centro respiratório A ventilação exagerada com queda acentuada da PaCO2 pode provocar alcalose respiratória Evitar uso excessivo de sedação. • • • • • • • Fístula broncopleural São duas as circunstâncias que podem propiciar o aparecimento de fístula broncopleural (FBP) durante a VM: Lesões localizadas nos pulmões ou nas vias respiratórias (após trauma, cirurgia ou acesso venoso percutâneo) Complicação de uma lesão difusa do pulmão (SDRA). A FBP pode provocar atelectasias ou insuflação inadequada do pulmão ipsolateral ou contralateral e prolongar a VM, aumentando as chances de infecção e de morbimortalidade. Em alguns casos, é possível resolver as FBP por meio de reparação cirúrgica (sutura de brônquio, lobectomia para os casos de pneumonia). O papel da VM seria fornecer adequada insuflação de áreas pulmonares não envolvidas e assegurar trocas gasosas. Caso esses objetivos não sejam alcançados com ventilação convencional, deve- se considerar ventilação pulmonar independente ou ventilação oscilatória de alta frequência. ▶ Regras básicas Facilitar o fechamento da fístula Utilizar o menor volume corrente suficiente para possibilitar ventilação adequada Não há um modo de ventilação que tenha se mostrado mais efetivo que outro. Quando há grande escape de gás e dificuldade para manter ventilação adequada, é preciso escolher um ventilador capaz de liberar altas taxas de fluxo inspiratório. É preciso empregar modos de ventilação e parâmetros ventilatórios que minimizem as pressões alveolares necessárias para manter ventilação adequada Considerar a utilização de hipercapnia permissiva para as pressões e os volumes inspiratórios Minimizar a PEEP (2 a 5 cmH2O) Utilizar Tinsp normal ou baixo (0,3 a 0,6 s) com relação I:E de 1:1 ou 1:2 com altas frequências respiratórias. A FIO2 deve ser • • • • suficiente para manter SaO2 ≥ 90%. Outras possibilidades de tratamento Deve-se considerar o uso de ventilação pulmonar independente ou ventilação oscilatória de alta frequência quando escapes de gás impossibilitarem insuflação ou falha da oxigenação/ventilação. Traumatismo craniano Sabe-se que a hiperventilação com redução da PaCO2 a valores entre 25 e 30 mmHg, agudamente, determina diminuição da PIC, não necessariamente associada ao aumento da pressão de perfusão cerebral (PPC). No entanto, não há base para a aplicação de hiperventilação profilática em todos os pacientes com traumatismo craniano. É preciso considerar que o aumento da pressão média das vias respiratórias, associado ao aumento da ventilação-minuto, pode elevar paradoxalmente a PIC. Sabe-se que os pacientes com traumatismo craniano devem receber suporte ventilatório mecânico suficiente para manter os gases arteriais dentro da normalidade. ▶ Regras básicas Evitar altos picos de pressão inspiratória que possam acarretar aumento da PIC. O volume corrente deve ser de 5 a 8 mℓ/kg Minimizar a PEEP (3 a 5 cmH2O) O Tinsp e a relação I:E devem ser normais, com FR mecânica suficiente para manter PaCO2 suficiente para normalizar a PIC, se houver aumento da mesma. É aconselhável monitoramento da PIC e do hemometabolismo cerebral. Se a PIC for normal, deve- se manter PaCO2 normal Se a hiperventilação for utilizada para diminuir a PIC, o retorno à normocarbia deve ser gradual (24 a 48 h). • • • ∘ Ventilação pulmonar mecânica em paciente com insuficiência cardíaca A aplicação de pressão positiva intratorácica em pacientes com função ventricular normal pode causar queda do DC por redução da pré-carga. No entanto, quando há falência ventricular com dilatação do ventrículo, a pressão positiva leva a redução da pressão transmural aórtica e diminuição do estresse parietal com aumento do volume sistólico. O aumento do trabalho respiratório associado à elevação do consumo de oxigênio pelo miocárdio, ocasionado por alguns modos de ventilação, pode comprometer ainda mais a função miocárdica. Para tanto, tem-se dado preferência a VMI, VPS e SIMV, lembrando que, quanto mais espontânea for a respiração, menor a interferência no coração. Deve-se evitar, sempre, a ventilação controlada. Os aparelhos de ventilação mais empregados nesses pacientes são os de fluxo contínuo ciclados a tempo e limitados a pressão. Outro fator a ser considerado na VM de crianças com cardiopatias congênitas é a presença ou ausência de hiperfluxo pulmonar. Caso haja hipofluxo pulmonar, a utilização de altos picos de pressão inspiratória não é bem tolerada e se houver hiperfluxo com hipertensão pulmonar, um pouco de hiperventilação pode ser benéfico. ▶ Regras básicas Na medida do possível é aconselhável o monitoramento contínuo dos efeitos hemodinâmicos da VM Estabilidade volêmica antes do início da VM para minimizar seus efeitos colaterais Em todo paciente com maior risco (cardiopatias complexas, hipertensão pulmonar, tempo de circulação extracorpórea acima de 60 min, infecção prévia), a VM será mais prolongada, devendo-se: Evitar incisivamente a extubação acidental ∘ ∘ ∘ • • • • • Não realizar fisioterapia respiratória Aspirar secreções apenas quando indispensável Sedar com midazolam ou citrato de fentanila Para a retirada do suporte ventilatório, deve-se seguir todas as regras básicas a serem discutidas posteriormente, sem suspender a administração de fármacos inotrópicos. Ventilação pulmonar mecânica em doença neuromuscular Pacientes portadores de doença neuromuscular (síndrome de Guillain-Barré, lesão da coluna cervical etc.) geralmente têm função pulmonar normal, mas devido à fraqueza da musculatura respiratória e à diminuição do reflexo da tosse e do clareamento mucociliar, há risco aumentado de atelectasias e pneumonias. O risco de barotrauma é menor, sendo aconselhável a utilização de volumes correntes mais elevados (8 a 12 mℓ/kg) associados a taxas mais altas de fluxo inspiratório. ▶ Regras básicas Utilizar pressão inspiratória mais elevada com pressão de platô limitada em 35 cmH2O Pode ser preciso o emprego de PEEP mais elevada (5 a 10 cmH2O) Demais parâmetros (Tinsp, relação I:E e FR) devem ser basais Utilizar suporte ventilatório total ou parcial com base na capacidade muscular respiratória do paciente. Ventilação pulmonar mecânica em pós- operatório A maioria dos pacientes em pós-operatório (PO) não necessita de VM, que deve ser retirada o mais rapidamente possível para evitar complicações iatrogênicas (infecções, diminuição do DC, sedação • • • • excessiva etc.). No entanto, efeitos residuaisde anestésicos associados a alguns tipos de cirurgias torácicas e abdominais podem diminuir a capacidade residual funcional e exigir a manutenção da VM. Há uma crença de que a VM, per se, seja benéfica para o estabelecimento de condições cardiopulmonares mais fisiológicas. Isto tem feito com que alguns pacientes, que sofreram cirurgias de crânio, tórax ou abdome, permaneçam intubados por tempo prolongado desnecessariamente. Ventilação pulmonar mecânica em doença pulmonar unilateral Felizmente, não são frequentes os pacientes com doença pulmonar unilateral (DPU). Frente a estes casos é preciso implementar esforços para a colocação de tubo traqueal de duplo orifício para ventilar cada pulmão separadamente, pois as diferenças de complacência entre os pulmões são importantes. Como o pulmão doente tem menor complacência, ele será sempre menos ventilado e o paciente pode desenvolver hipoxia e hipercapnia. Assim, é preciso considerar outros modos de ventilação, como membrana de oxigenação extracorpórea, ventilação de alta frequência etc. ▶ Regras básicas Utilizar inicialmente técnicas convencionais da VM quando houver DPU Havendo dificuldade para manter oxigenação adequada, deve-se realizar triagem de ventilação para o pulmão menos envolvido em posição apropriada Se a PEEP estiver sendo aplicada, deve-se utilizar cânula traqueal de lúmen único Se com a aplicação da PEEP não se conseguir oxigenação satisfatória, deve-se implementar a ventilação pulmonar independente com tubo de duplo lúmen. • • • • • • • • Complicações da ventilação mecânica A VM não é um procedimento de fácil instituição, pois associa-se a grande número de complicações, necessitando-se de pessoal treinado para que estas sejam evitadas ou sanadas rapidamente. Neste capítulo serão citadas apenas as complicações mais frequentes para que se possa fazer um diagnóstico mais precoce das mesmas. As complicações da VM podem ser classificadas em: relacionadas com intubação traqueal, relacionadas com a VM propriamente dita e após a extubação. ▶ Relacionadas com a intubação traqueal No momento da intubação podem ocorrer: Alterações hemodinâmicas: aumento do tônus simpático, arritmias cardíacas e reflexo vagal Alterações respiratórias: laringospasmo e broncospasmo Alterações do sistema nervoso central (SNC): aumento da PIC Traumatismos: coluna cervical, partes moles, dentes, perfuração de traqueia e outros Aspiração de conteúdo gástrico e/ou corpo estranho. ▶ Relacionadas com a ventilação-minuto propriamente dita Complicações pulmonares associadas ao uso de pressão positiva Barotrauma: escape de gases das vias respiratórias para pleura, pericárdio e peritônio Volutrauma: refere-se ao estresse alveolar por hiperdistensão em repetidos ciclos de enchimento e esvaziamento Lesão alveolar por oxigênio: oxigênio em concentrações superiores a 50%, por tempo superior a 24 h, determina lesão pulmonar inflamatória com diminuição da complacência • • • • pulmonar. Em recém-nascidos, associa-se a displasia broncopulmonar e retinopatia Traqueobronquites Infecção pulmonar. Complicações cardíacas A aplicação de pressão positiva pode ocasionar diminuição do retorno venoso (pré-carga), aumento da resistência vascular pulmonar com aumento da pós-carga do ventrículo direito, diminuição do volume de sangue para o ventrículo esquerdo e alterar a interdependência ventricular por deslocamento do septo interventricular. Todos esses fatores podem determinar queda do DC. Prejuízo das funções hepática e renal A ventilação pulmonar mecânica, na medida em que diminui o DC, pode prejudicar as funções do fígado e dos rins. Alterações endocrinológicas Liberação aumentada do hormônio antidiurético com retenção de água e inibição da liberação do fator natriurético atrial. Extubação acidental, obstrução de cânula e falhas mecânicas Essas complicações relacionam-se com os procedimentos necessários para a utilização da ventilação pulmonar mecânica. ▶ Complicações após extubação Imediatas: edema laríngeo, paralisia de cordas vocais, aspiração de conteúdo gástrico, disfagia etc. Tardias: estenose subglótica, estenose glótica, granuloma de traqueia, estenose de traqueia, estenose de laringe, malacia etc. Como iniciar a ventilação mecânica Escolha o modo ventilatório com o qual a equipe tenha mais experiência. Geralmente, opta-se por modo que tenha FR predeterminada, mas que possibilite ao paciente iniciar o ciclo respiratório de acordo com sua demanda e/ou capacidade. Nesse aspecto pode-se começar com ventilação controlada a volume ou pressão com disparo combinado, paciente e ventilador, assistido- controlada ou SIMV associada à pressão de suporte. A FIO2 inicial deve ser 1,0, com exceção de pacientes portadores de cardiopatia congênita, mantendo-se nesse nível o menor tempo possível. Tão logo a SaO2 situe-se entre 90 e 94%, a FIO2 deve ser reduzida para níveis não tóxicos (60%). Em casos de SDRA, SaO2 entre 88 e 90% pode ser aceitável para minimizar a lesão pulmonar induzida pela VM. O volume corrente inicial deve ser de 8 a 10 mℓ/kg e ajustado de acordo com o resultado de gasometria. Pacientes com doença neuromuscular podem necessitar de níveis mais elevados (10 a 12 m ℓ /kg). Em pacientes com SDRA, níveis de 5 a 8 m ℓ /kg são desejáveis, mantendo-se pressão de platô menor que 30 cmH2O. Escolha a FR e o volume-minuto apropriados para atender às necessidades clínicas dos pacientes. A FR depende da idade e da doença de base, geralmente, 12/min para adolescentes, 24/min para neonatos. Selecione o Tinsp de acordo com a idade e a doença de base. Lactentes com pulmão normal podem requerer 0,6 s e crianças com idade superior a 2 anos, 0,85 a 1,0 s. Inicie com relação I:E de 1:2. Utilize PEEP para alcançar e manter recrutamento alveolar ótimo. Em doenças restritivas (SDRA), a PEEP melhora a oxigenação e viabiliza a redução da FIO2 . O valor inicial em crianças com pulmões normais é 5 cmH2O. Selecione a sensibilidade para possibilitar o mínimo esforço do paciente para iniciar a inspiração. Volte sua atenção para a autociclagem. • • • • Introdução A ventilação mecânica oscilatória de alta frequência (VOAF) é uma modalidade ventilatória que emprega frequências acima da fisiológica, entre 3 e 15 Hz (180 a 900 respirações por minuto). Na VOAF, inspiração e expiração são ativamente impulsionadas e extraídas da via respiratória por meio de um pistão ou diafragma acoplado a um sistema de fluxo contínuo. Os aparelhos mais utilizados neste tipo de ventilação são o SensorMedics 3100A (Yorba Linda, CA, EUA – neonatal e pediátrico até 50 kg) e 3100B (adulto). Indicações clínicas As principais doenças cujo tratamento com VOAF foi bem-sucedido são: Síndrome do desconforto respiratório agudo/lesão pulmonar aguda Edema pulmonar Pneumonias Síndromes de escape de ar: enfisema intersticial pulmonar, fístula broncopleural • • Doenças com resistência expiratória aumentada, como bronquiolite ou síndrome da aspiração de mecônio, também podem se beneficiar do uso da VOAF, particularmente quando a oxigenação e/ou a ventilação estão comprometidas. Em função do potencial impacto adverso da pressão intratorácica aumentada sobre a complacência intracraniana, que possibilita o desenvolvimento de hipertensão intracraniana, sugere-se que a VOAF não seja utilizada em pacientes com hipertensão intracraniana sem monitoramento da pressão intracraniana. Controle de parâmetros na VOAF Durante a VOAF, a ventilação e a oxigenação são controladas de maneira independente. A oxigenação é influenciada pela fração inspirada de oxigênio (FIO2 ) e pela pressão média de vias respiratórias (Paw). Em geral, elevações na Paw aumentam o volume pulmonar, melhorando a oxigenação. Entretanto, Paw muito altas podem causar hiperinsuflação, piorando a oxigenação. Em pulmões lesionados, o uso de Paw reduzidas resulta em perda do recrutamento das unidades pulmonares e também piora a oxigenação. A eliminação de gás carbônico é controlada de modo mais eficiente pela amplitude da oscilação do que pelafrequência respiratória. Quanto maior a amplitude de oscilação, maior será o volume corrente gerado a cada ciclo respiratório e mais gás carbônico será removido. Ao contrário da ventilação convencional, durante a VOAF, frequências respiratórias mais elevadas eliminam menos gás carbônico do que frequências mais baixas. Requisitos de transição de VMC para VOAF Os requisitos para a transição da ventilação mecânica convencional (VMC) para VOAF são descritos a seguir. Monitoramento com oximetria de pulso, relação pressão arterial de oxigênio (PaO2 )/FIO2 e capnografia • • • • ∘ ∘ ∘ ∘ ∘ ∘ • • • ∘ ∘ ∘ ■ ■ ■ Estabilidade cardiovascular, garantindo adequado volume intravascular O tubo traqueal deve estar corretamente posicionado e, de preferência, deve haver sistema fechado de sucção do tubo traqueal A sedação deve ser otimizada e, em alguns casos, a curarização será necessária Uso deve ser precoce: Quando saturação arterial de oxigênio (SaO2 ) 0,6 com pressão inspiratória (Pip) de 34 cmH2O Em pressão de platô de 30 cmH2O. Nestes casos, geralmente, a pressão média das vias respiratórias está em valores entre 20 e 24 cmH2O Quando a pressão expiratória final positiva (PEEP) for > 10 a 12 cmH2O Em crianças depois do período neonatal Em crianças com diagnóstico de síndrome do desconforto respiratório agudo. Instalação da VOAF Os parâmetros iniciais empregados são apresentados a seguir. FIO2 suficiente para manter a SaO2 ≥ 90% (100% no momento da transição da VMC para a VOAF) Tempo inspiratório de 33% do ciclo oscilatório. Em crianças com peso acima de 30 kg com hipercapnia refratária, o tempo inspiratório pode ser de 50% Frequência respiratória: Para lactentes = 10 Hz Para crianças com peso acima de 30 kg = 5 a 8 Hz De acordo com o peso do paciente: 40 kg = 5 a 8 Hz Para recém-nascidos a termo = 12 ou 15 Hz Para recém-nascidos prematuros/muito baixo peso = 15 Hz O fluxo deve permanecer entre 15 e 20 ℓ /min, dependendo do tamanho do paciente e da Paw requerida. Em recém-nascidos, utilize fluxo entre 8 e 15 ℓ/min Paw de 2 a 4 cmH2O acima da empregada na VMC. A Paw pode, posteriormente, ser aumentada para obter SaO2 ≥ 90% com FIO2 ≤ 0,6 e observando-se o grau de insuflação pulmonar no exame radiológico do tórax (adequada = 7 costelas posteriores). Para recém-nascido com doença alveolar difusa ou síndrome de escape de ar, deve-se utilizar Paw de 3 a 5 cmH2O acima da VMC. Pode-se realizar intervenção precoce de resgate em recém-nascidos, empregando-se Paw de 10 a 14 cmH2O. Tanto em recém-nascidos como em crianças com peso acima de 30 kg, se a SaO2 cair rapidamente abaixo de 90%, deve-se recrutar com ventilação manual e aumentar Paw gradativamente A amplitude de pressão (DP) será aquela suficiente para atingir movimentação da parede torácica perceptível (movimentação da clavícula até a raiz da coxa, mais facilmente visualizada), podendo ser modificada para ajustar os níveis de ventilação desejados pela avaliação da pressão arterial de gás carbônico (PaCO2 ). Mudanças na frequência respiratória também determinam alterações na PaCO2 e, ao contrário do que ocorre na ventilação convencional, na VOAF há queda da PaCO2 quando a frequência respiratória é diminuída. Em recém-nascidos a termo, a DP pode ser ≥ 25 cmH2O e nos prematuros/muito baixo peso pode ser ≥ 16 cmH2O. Retirada da VOAF Quando a melhora clínica ocorre ao ponto que a Paw possa ser reduzida parafala Maior resistência das VRS Escape pela boca Duplo tubo nasal (pronga nasal) Menor pressão de pele Sem claustrofobia Difícil fixar Escape pela boca Máscara facial total Menor escape de gás Possibilita o uso de pressões maiores Menor lesão de pele Claustrofobia Distensão gástrica Irritação da conjuntiva e da córnea Dificuldade de adaptação Capacetes Sem interface com a pele Maior espaço morto Parede complacente Reinalação de CO2 Necessita maior PIP para trocas gasosas Ruído interno VRS = vias respiratórias superiores; PIP = pico de pressão inspiratória positiva. Adaptado de Mayordomo-Colunga J et al., 2018. • ∘ ∘ ∘ ∘ ∘ ∘ • • • • • • Monitoramento O monitoramento deve ser feito cumprindo os critérios a seguir. Parâmetros clínicos a serem avaliados: Frequência respiratória (FR), relação entre saturação arterial de oxigênio e fração inspirada de O2 e frequência cardíaca (FC) Conforto do paciente Nível de consciência Uso de musculatura acessória Movimento da parede torácica Coordenação do esforço respiratório com o ventilador Pacientes em VNIPP devem ser reavaliados regularmente quanto à resposta ao tratamento e para otimizar os parâmetros do ventilador A necessidade de gasometrias varia de acordo com a evolução clínica do paciente, mas devem ser coletadas, ao menos, 1 a 2 h após o início da VNIPP e após 4 a 6 h se a 1a gasometria mostrar pouca melhora. A melhora de pH, pressão arterial de CO2 (PaCO2 ), FR e FC em 1 h são preditiva de sucesso da VNIPP Se não houver melhora na PCO2 e no pH nesse período, apesar da adequação dos parâmetros ventilatórios, a VNIPP deve ser descontinuada e a ventilação invasiva, considerada A saturação arterial de O2 (SaO2 ) deve ser monitorada continuamente A administração de O2 suplementar deve ser a necessária para manter a SaO2 ao menos entre 85 e 90% para pacientes com doença pulmonar crônica e 90 e 92% para os pacientes com doença aguda Interrupções da VNIPP podem ser feitas para medicações, fisioterapia, alimentação etc. Os pacientes devem ser ventilados pelo maior período possível no dia. Complicações • • • ∘ ∘ • • • • • • • • A seguir, são apresentados alguns tipos de complicações frequentes. ▶ Distensão gástrica Se volumosa, pode levar a restrição ventilatória e aumentar o risco de broncoaspiração Conduta: retirar da VNIPP. ▶ Lesões de face por pressão | Necrose de aletas nasais e septo nasal Prevenção: Procurar sempre o tamanho mais adequado de máscaras ou prongas, visando ao melhor encaixe Utilizar proteção no local de maior pressão Conduta: suspensão da máscara e/ou pronga. ▶ Sangramento nasal Causado pelo ressecamento da mucosa em decorrência da passagem de ar Prevenção: utilizar sempre gás adequadamente umidificado e aquecido. ▶ Irritação ocular Em função do escape de ar em direção aos olhos Prevenção: uso de interfaces adequadas com posicionamento correto Conduta: em caso de irritação relevante, consultar oftalmologista. ▶ Sinusite Prevenção: não há Tratamento: o habitual da sinusite. • • • • • • • • • • Falha de tratamento Em caso de falha ocorrida no tratamento, confira o Quadro 12.3. Deterioração clínica do paciente Não melhora ou piora das trocas em gasometria arterial Desenvolvimento de novos sintomas ou complicações como pneumotórax, retenção de muco, erosão de septo nasal Intolerância ou falha de coordenação com o ventilador Falha no alívio dos sintomas Deterioração do nível de consciência Desejo do paciente ou do cuidador de descontinuar o tratamento. QUADRO 12.3 Falha de tratamento em VNIPP. O tratamento está otimizado? Verificar o tratamento médico prescrito e o que foi feito Considerar fisioterapia para retenção de muco Houve alguma complicação? Considerar pneumotórax, pneumonia aspirativa etc. PaCO2 permanece elevada? O paciente está recebendo muito oxigênio? Ajustar FiO2 para manter a SaO2 entre 85 e 90% para pacientes crônicos e entre 90 e 92% para pacientes agudos Está havendo vazamento excessivo? Verificar o encaixe da máscara Se máscara nasal, considerar cinta de queixo ou máscara facial • • • • • • • • • • • • • O circuito está montado corretamente? Verificar se as conexões foram feitas corretamente Verificar vazamentos no circuito Está ocorrendo reinalação? Verificar a patência da valva exalatória, se houver Considerar aumento da EPAP/PEEP O paciente está sincronizado com o ventilador? Observar o paciente Ajustar FR e relação I:E (em ACV) Verificar o gatilho inspiratório (se ajustável) Verificar o gatilho expiratório (se ajustável) Considerar aumento da EPAP/PEEP O ventilador é adequado? Observar expansão torácica Aumentar IPAP/PIP ou VC Considerar aumento da FR (para aumentar volume-minuto) Considerar um modo ventilatório diferente, se possível PaCO2 melhorou, mas PaO2 mantém-se baixa? Aumentar FiO2 Considerar aumento da EPAP/PEEP • • • • • VNIPP = ventilação mecânica não invasiva com pressão positiva; PaCO2 = pressão arterial de gás carbônico; FIO2 = fração inspirada de oxigênio; SaO2 = saturação arterial de oxigênio; EPAP/PEEP = pressão expiratória nas vias respiratórias/pressão expiratória final positiva; FR = frequência respiratória; relação I:E = razão do tempo inspiratório:tempo expiratório; AVC = acidente vascular cerebral; IPAP/PIP = pressão inspiratória positiva/pico de pressão inspiratória; VC = volume corrente; PaO2 = pressão arterial de oxigênio. Adaptado de British Thoracic Society Standards of Care Committee, 2002. Sedação e analgesia Ainda não determinado o modo idealUtilizar se julgar necessário Objetivo: diminuir ansiedade ou agitação e melhorar aceitação e conforto Pode ser contínua ou intermitente Podem ser utilizados: benzodiazepínicos, cetamina (escolha na asma) e dexmedetomidina Controle da sedação pelas escalas de Comfort (17 a 26) ou Ramsay (2 ou 3). Observação. Doses de medicações e escalas: confira protocolo de sedação no Capítulo 7, Sedação, Analgesia e Bloqueio Neuromuscular. Alimentação do paciente em VNIPP As orientações para alimentação do paciente em VNIPP podem ser consultadas na Figura 12.1. • • • • FIGURA 12.1 Algoritmo de alimentação do paciente em VNIPP. NPP = nutrição parenteral; VG = via gástrica; VO = via oral; VNIPP = ventilação mecânica não invasiva com pressão positiva. Desmame A retirada do paciente da ventilação mecânica é parte fundamental do suporte ventilatório, ocupando mais da metade do tempo de ventilação. São critérios para desmame: Melhora clínica e estabilidade das condições do paciente FR e FC normais para a idade pH compensado (> 7,35) SaO2 > 90% com FIO2 após 48 h de respiração espontânea sem suporte de pressão positiva. As falhas de extubação podem ser classificadas em: • Falha de extubação precoce: ocorre com menos de 6 h da extubação • Falha de extubação intermediária: ocorre de 6 a 24 h da extubação • Falha de extubação tardia: ocorre entre 24 e 48 h da extubação. ▶ Teste de aptidão para a extubação | Teste de respiração espontânea e outros critérios Trata-se de prova formal para a respiração espontânea com o objetivo de avaliar a aptidão para a retirada do tubo traqueal e/ou do suporte ventilatório. Deve ser realizado com auxílio de pressão de suporte (PS) variável ou pressão positiva contínua nas vias respiratórias (CPAP) ≤ 5 cmH2O ou tubo T (pressão expiratória final zero) (Quadros 13.1 e 13.2). São consideradas condições gerais para o desmame: fração inspirada de oxigênio (FIO2 ) ≤ 40%; pressão expiratória final positiva (PEEP) ≤ 8 cmH2O; pressão arterial de oxigênio (PaO2 )/FIO2 > 150 mmHg; saturação arterial de oxigênio (SaO2 ) ≥ 90%. Recentemente, Toida et al. (2017) estudaram crianças graves e demonstraram que a combinação de crying vital capacity, taxa de fluxo da pressão inspiratória e pressão inspiratória máxima com valores ótimos de cut-off (17 mℓ/kg, 3,5 mℓ/s/cm e 50 cmH2O) associou-se à extubação bem-sucedida em 97,9% para os pacientes que passaram em todos os três testes, 88,8% para os que passaram em apenas um e 66,7% para os que falharam em todos. ▶ Dias livres de ventilação mecânica Consiste no número de dias, em determinado período (convencionalmente 28 dias), em que o paciente não necessita de suporte ventilatório. Para que seja considerado sucesso na descontinuação da ventilação mecânica, são necessárias, no mínimo, 48 h sem uso de ventilação com pressão positiva. Pacientes que morrem são considerados como tendo “zero dia livre” de ventilação mecânica. QUADRO 13.1 Teste de aptidão para extubação por Randolph et al. Pacientes aptos para a realização do teste de extubação Apresentam esforço respiratório espontâneo Mordem ou tossem durante a aspiração Apresentam pH entre 7,32 e 7,47 na gasometria mais recente Têm PEEP ≤ 7 cmH2O e FiO2 ≤ 0,6 Demonstram nível de consciência aceitável para extubação Precisam de aprovação do médico responsável Não têm necessidade clínica de aumento nos parâmetros ventilatórios nas últimas 24 h Não necessitam de procedimento que utilize sedação profunda planejado para as próximas 12 h Não apresentam vazamento excessivo ao redor da cânula endotraqueal que requeira manipulação ventilatória Teste Mudança da FiO2 para 0,5 (ou menos se já estiver neste nível) e da PEEP para 5 (ou menos se já estiver neste nível), mantendo a FiO2 ≥ 95% Trocar o VPS, com PS mínima ajustada de acordo com o tamanho da COT • COT tamanho 3,0 a 3,5 = VPS de 10 cmH2O • COT tamanho 4,0 a 4,5 = VPS de 8 cmH2O • COT tamanho ≥ 5 = VPS de 6 cmH2O Os pacientes permanecem monitorados por 2 h Falha* SaO2 5 anos PEEP = pressão expiratória final positiva; FIO2 = fração inspirada de oxigênio; SaO2 = saturação arterial de oxigênio; VPS = ventilação com suporte pressórico; PS = pressão de suporte; COT = cânula traqueal; FR = frequência respiratória. *Falha de extubação: 14 a 20% dos casos. QUADRO 13.2 Teste de aptidão de extubação por Newth et al. Pacientes aptos para a realização do teste de extubação Suficientemente acordados, com reflexos das vias respiratórias preservados, hemodinamicamente estáveis e com capacidade de mobilizar secreções Critérios propostos Utilizar 2 h em CPAP ≤ 5 cmH2O ou tubo T (pressão expiratória final zero) Critérios clínicos de falha Diaforese Batimento nasal Aumento do esforço respiratório Taquicardia (aumento da FC > 40) Arritmias cardíacas Hipotensão Apneia Critérios laboratoriais de falha Aumento da PETCO2 > 10 mmHg Diminuição do pH arterial 0,07 PO2 0,4 (PaO2 /FiO2 5% CPAP = pressão positiva contínua nas vias respiratórias; FC = frequência cardíaca; PETCO2 = pressão expiratória final de gás carbônico; PaO2 = pressão arterial de oxigênio; FIO2 = fração inspirada de oxigênio. SaO2 = saturação arterial de oxigênio. ▶ Ventilação mecânica prolongada Necessidade de ventilação mecânica por mais de 21 dias, por pelo menos 6 h por dia. ▶ Falência respiratória crônica Significa que um processo crônico, talvez irreversível, subjacente a uma doença respiratória de base, esteja causando insuficiência respiratória. O diagnóstico da falência respiratória crônica geralmente é confirmado após repetidas tentativas de desmame da ventilação assistida sem sucesso, por pelo menos 1 mês, em criança sem superposição de doença respiratória aguda ou em paciente sem perspectiva de ser retirado do ventilador. ▶ Falência respiratória prolongada Termo utilizado para crianças com dificuldade no desmame da assistência ventilatória mecânica, mas que ainda não estejam de acordo com o critério para o diagnóstico de falência respiratória crônica. ▶ Disfunção diafragmática induzida pela ventilação mecânica | “Silêncio muscular” Foi demonstrado que depois de 3 dias de ventilação mecânica, há destruição de miofibrilas e redução da força diafragmática em 42% dos casos, quando comparado com animais respirando espontaneamente. Curso de tempo das fases da ventilação mecânica Os diversos momentos da ventilação mecânica estão representados na Figura 13.1. Processo de desmame O processo de desmame envolve as seguintes etapas: • Diminuição gradual das pressões • Troca do modo ventilatório para outro em que o paciente tenha mais atividade • Redução gradual da frequência respiratória (FR) no modo ventilação mandatória intermitente sincronizada • Diminuição gradual da pressão de suporte quando utilizada. ▶ Testes de aptidão para extubação Estes testes exigem que o processo de desmame esteja completo. Geralmente incluem um teste de respiração espontânea (ver Quadros 13.1 e 13.2). Illustration FIGURA 13.1 Esquema do curso de tempo e pressões instituídas, durante cada fase da ventilação mecânica, em um paciente da unidade de terapia intensiva pediátrica. VM = ventilação pulmonar mecânica; P = pressão. (Adaptada de Newth et al., 2009.) Outros testes de avaliação pré-extubação O chamado teste de vazamento pode ser realizado facilmente. Ausculta-se (sem estetoscópio) o vazamento de ar ao redor da cânula traqueal (COT) com pressões de 20 a 25 cmH2O com cabeça centrada. É preditor de obstrução da via respiratória superior pós-extubação. Não deve atrasar a extubação, se as outras condições forem favoráveis. Em muitos pacientes, principalmente naqueles com muita secreção ou tempo de intubação prolongado, pode-se formar um selo de secreção ao redor da COT, o que torna o teste negativo, porém a obstrução é removida com a tosse. Técnicas clássicas para descontinuar a ventilação mecânica Técnicas utilizadas para mudar a interação de paciente com o ventilador com o objetivo de diminuir o nível de suporte fornecido pelo aparelho, obrigando o paciente a assumir maior parte do trabalho respiratório. ▶ Desmame gradual em tubo T O ventilador é retirado do paciente, sendo fornecido a ele oxigênio umidificado por meio de um tubo T. São realizadas sessões de respiração espontânea, com aumentos gradativos de duração, interpostas por períodos de suporte ventilatório estável. Iniciam-se com períodos de 5 a 10 min a cada 30 a 180 min. Gradualmente, aumenta-se o período de respiração espontânea até 30 min, após a avaliação clínica de gasometria. Se as sessões forem satisfatórias, o período é estendido até 2 h. Se houver sucesso, considera-se a extubação. ▶ Ventilação mandatória intermitente O paciente pode respirar espontaneamente entre as ventilações controladas do aparelho, de modo sincronizado (SIMV) ou não (IMV). O objetivo é repousara musculatura durante as respirações controladas e treiná-la durante as espontâneas. A evolução do desmame ocorre com a diminuição da FR. É pouco utilizada atualmente, em vista da ausência de interação do paciente com o ventilador, mas sabemos que, em certas regiões do Brasil, ainda é o modo ventilatório disponível e utilizado. Procede-se, então, da seguinte forma: • Diminuição gradual da FR (1 a 3 mov/min/vez) até 10 • Diminuição gradual das pressões das ventilações mandatórias • Desvantagem: fadiga muscular. ▶ Ventilação com suporte pressórico Todas as ventilações são deflagradas pelo paciente e limitadas a pressão. Quando o nível de suporte pressórico for relativamente alto ao esforço inspiratório do paciente, um suporte respiratório praticamente total é fornecido. A evolução do desmame ocorre com a diminuição do suporte pressórico. À medida que isso ocorre, maior é o esforço despendido pelo paciente. Assim: • PS para atingir volume corrente (VC) = 5 a 8 mℓ/kg • Diminuição da PS em 2 cmH2O/4 h, se VC-alvo se mantiver • PS = 16; pressão expiratória final positiva (PEEP) ≤ 5; fração inspirada de oxigênio (FIO2 ) ≤ 0,5; FR adequada para idade; saturação arterial de oxigênio (SaO2 ) ≥ 95% por 2 h + TPE (teste de prontidão de extubação) Se TPE falhar, reiniciá-lo. ▶ Ventilação com suporte de volume • O ventilador ajusta automaticamente a PS para atingir o VC-alvo • VC = 6 mℓ/kg e FR de backup de acordo com idade ( 5 anos = 10) • Pressão inspiratória positiva (PIP) ≤ 20; PEEP ≤ 5; FIO2 ≤ 0,5; FR adequada para idade; SaO2 ≥ 95% + TPE (máximo 2 testes em 24 h). ▶ Ventilação não invasiva com pressão positiva A ventilação não invasiva com pressão positiva (VNIPP) pode ser utilizada em diversas situações. São elas: • Como parte do desmame, quando este ainda não está completo • Após o desmame, como tratamento de insuficiência respiratória pós- extubação • Após o desmame, como profilaxia de insuficiência respiratória pós- extubação. São pacientes candidatos a utilizar VNIPP precoce como profilaxia de insuficiência respiratória pós-extubação: • Aqueles que utilizam ventilação mecânica por mais de 15 dias • Os que utilizam inotrópicos por mais de 48 h • Pacientes com idade de 1 a 3 meses • Aqueles com doença cardíaca ou pulmonar de base • Crianças com hipercapnia: pressão arterial de CO2 (PaCO2 ) > 45 mmHg. Uma vez terminado o desmame, procede-se à extubação, de acordo com o fluxograma apresentado na Figura 13.2. Desmame no paciente com insuficiência respiratória crônica ou prolongada ▶ Objetivos Os principais objetivos são: • Reduzir carga respiratória • Aumentar a força da musculatura ventilatória • Melhorar o drive respiratório central. Há algumas medidas que podem auxiliar a abordagem de pacientes com insuficiência respiratória prolongada, como as apresentadas no Quadro 13.3. Illustration FIGURA 13.2 Fluxograma do processo de extubação. FR = frequência respiratória; PS = pressão de suporte; VM = ventilação pulmonar mecânica; EOT = extubação orotraqueal; IOT = intubação orotraqueal; VMI = ventilação mecânica invasiva; VNIPP = ventilação não invasiva com pressão positiva; VRS = vias respiratórias superiores. ▶ Procedimento sprinting weaning A musculatura ventilatória deve ser exercitada em períodos nos quais treinamentos de “explosão” sejam realizados (treinamento de estresse), seguidos por períodos de descanso (Figura 13.3). É um modo alternativo de desmame para algumas crianças que não conseguem completar o desmame utilizando métodos convencionais. Os parâmetros ventilatórios são ajustados para satisfazer completamente as demandas ventilatórias da criança, utilizando-se a FR fisiológica para a idade da criança e o monitoramento não invasivo de troca de gases (SaO2 ≥ 95% e PETCO2 de 30 a 35 mmHg), com o objetivo de promover total descanso da musculatura respiratória. O paciente é, então, retirado do ventilador por curtos períodos durante a vigília, aproximadamente 4 vezes/dia. Esses períodos de treinamento devem ser interrompidos, se SaO2 45 a 50 mmHg ou se a criança desenvolver sinais de desconforto, como taquipneia, retrações, diaforese, taquicardia, hipoxia ou hipercapnia. A duração desses períodos deve ser aumentada a cada dia conforme tolerado. Inicialmente, o sprinting deve ser realizado apenas nos períodos de vigília e, depois, também, durante o sono. Esta técnica aumenta o limiar de fadiga respiratória de modo que a criança possa realizar o trabalho respiratório em melhor nível e sustentar adequada respiração espontânea. QUADRO 13.3 Abordagem do desmame da criança com insuficiência respiratória prolongada. 1. Reduzir carga respiratória Procedimento Aliviar o broncospasmo Broncodilatador inalatório Corticosteroide inalatório e outros agentes anti- inflamatórios Remover secreções excessivas Fisioterapia respiratória Se houver fraqueza muscular ventilatória, deve-se considerar dispositivo de assistência de tosse Reduzir líquido e edema pulmonares Diuréticos Tratar infecções Antibióticos Considerar antibióticos em aerossol para doentes cronicamente colonizados 2. Força e resistência da musculatura ventilatória Procedimento Aumentar Eliminar ou reduzir hiperinsuflação Adequar oxigenação; evitar hipercapnia Evitar acidose Alcançar máxima nutrição Reduzir a carga respiratória Realizar treinamento muscular Sprinting weaning (ver seção “Procedimento sprinting weaning”) 3. Melhorar o drive respiratório central Procedimento Evitar alcalose hipoclorêmica Manter Cl sérico ≥ 95 mEq/dℓ Evitar alcalose crônica Restabelecer os quimiorreceptores Ventilar para manter oxigenação (SaO2 ≥ 95) e ventilação (PETCO2 ≤ 40 cmH2O) Evitar depressão respiratória Reduzir ou evitar medicações depressoras do sistema nervoso central PETCO2 = pressão expiratória final de gás carbônico; SaO2 = saturação arterial de oxigênio. Illustration FIGURA 13.3 Mudança do limiar de fadiga após treinamento respiratório pelo sprinting weaning, possibilitando que o paciente aumente sua habilidade de respiração espontânea. Illustration 14. Intercorrências em Ventilação Mecânica Introdução A ventilação mecânica é uma das práticas mais comuns em terapia intensiva pediátrica. Sua principal função é dar suporte ao esforço respiratório espontâneo do paciente e, simultaneamente, prevenir seu trabalho respiratório excessivo. A interação do paciente com o ventilador deve, portanto, ocorrer de maneira sincrônica, proporcionando, em resumo, conforto ao paciente. Assincronia é evento frequente em ventilação mecânica, ocorrendo em 7 a 53% dos pacientes em algum momento durante esse suporte. Alguns fatores predispõem ao desenvolvimento das mais diferentes assincronias, como nível de sedação, processo da doença, esforço e drive respiratórios do paciente, e parâmetros ventilatórios preestabelecidos. A seguir serão discutidas particularidades de aspectos envolvidos na interação paciente-ventilador mecânico. Intercorrências mecânicas Na prática, a piora clínica na ventilação, após período de estabilidade, deve-se a quatro possíveis eventos comuns que justificam o agravo do paciente e precisam ser prontamente resolvidos. Esses eventos podem ser memorizados pelo acrônimo DOPE, que resulta das palavras: deslocamento, obstrução, pneumotórax, equipamento: • Deslocamento do tubo traqueal: principalmente no paciente pediátrico com via respiratória e tubo traqueal menores, deslocamentos podem ser significativos na piora súbita da ventilação. Nesse aspecto, cânulas com balonete têm menor risco de deslocamento. Para evitar tal complicação, deve-se manter o balonete adequadamente insuflado e assegurar a fixação da cânula, de espessura correta, no nível labial, observando no exame clínico possível seletivação de cânula ou extubação não programada • Obstrução do tubo traqueal/traqueostomia: geralmente verificada quando há resistência na aspiração da cânula ou ventilação manual com dispositivo bolsa-valva-máscara• Pneumotórax: sinais clínicos de pneumotórax com evento súbito de piora clínica, normalmente associado a doenças com complacência reduzida e uso de pressões elevadas • Equipamento: excluídas as causas iniciais e possíveis desconexões do circuito, e identificado o mau funcionamento do ventilador como causa da piora, retirar o paciente do aparelho até que o problema seja solucionado ou o ventilador substituído. Dissincronia paciente–ventilador Pode ocorrer em diferentes estágios da ventilação mecânica, incluindo disparo, inspiração, término da inspiração e expiração. A dissincronia deve ser prontamente revertida, uma vez que está relacionada com maior tempo de internação em unidade de terapia intensiva (UTI), maior tempo de internação hospitalar, maior necessidade de sedação, maior tempo de ventilação mecânica e demanda por maiores níveis de pressão de suporte (PS). Estudo recente demonstrou que a dissincronia paciente-ventilador é evento comum em pediatria: 1 em cada 3 respirações foi assíncrona, sendo o disparo ineficaz e a ciclagem tardia as causas mais comuns. Em adultos, a dissincronia grave paciente-ventilador (definida como índice de assincronia [IA] > 10%) ocorreu em aproximadamente 25% dos pacientes. O IA é calculado a partir do número total de respirações assíncronas dividido pelo número total de respirações (acionadas ou não) e respirações desencadeadas ineficazes multiplicado por 100. ▶ Fatores contribuidores para assincronia Atualmente todos os modos ventilatórios podem ocasionar assincronia entre ventilador e paciente, apesar dos esforços para cada vez mais serem desenvolvidos com maior interação do paciente e com o suporte mecânico. Durante ventilação assistido-controlada, a pressão aplicada para superar a impedância do sistema respiratório é a soma da pressão provida pelo ventilador (Pvent) e pelos músculos respiratórios (Pmusc), de acordo com a equação do movimento: Pvent + Pmusc = [Esr × VT] + [Rsr × V + PEEPi] Considerando: Esr = elastância do sistema respiratório; VT = volume corrente; Rsr = resistência do sistema respiratório; V = fluxo inspiratório; PEEPi = pressão expiratória final positiva intrínseca. Muitos monitores gráficos dos ventiladores mostram, em tempo real, a pressão média das vias respiratórias (Paw), o fluxo e o volume. A partir da equação de movimento, durante ventilação assistido-controlada a volume e com fluxo constante, a convexidade da curva Paw em direção ao eixo do tempo reflete aumento da contribuição de Pmusc devido ao aumento do esforço do paciente ou à inadequação do fluxo liberado. Com pressão de suporte (PS), o atraso em alcançar a mesma reflete uma condição similar. Assim, as interações paciente-ventilador são influenciadas por fatores relacionados com o paciente ou o ventilador, descritos a seguir. Fatores relacionados com o paciente ▶ Centro respiratório O decréscimo no drive neuromuscular isoladamente pode determinar disparo não efetivo do ventilador e isso é observado com mais frequência quando a variável para a sensibilidade do aparelho o torna pouco sensível aos esforços do paciente. Além disso, quando o trabalho respiratório estiver significativamente diminuído (p. ex., ventilação assistido-controlada com alto fluxo inspiratório, ventilação mandatória intermitente sincronizada com pressão de suporte [SIMV-PS] com alta proporção de respirações mandatórias e PS com alto nível de suporte de pressão) os esforços de disparo não efetivos aumentam em vista da diminuição do drive neurológico. ▶ Tempo inspiratório neural O mecanismo implícito do esforço de disparo não efetivo é o desequilíbrio entre o tempo inspiratório (Tinsp) do paciente e o do ventilador (Tinsp neural vs. Tinsp mecânico, respectivamente). Quando o Tinsp neural é mais longo que o mecânico, pode ocorrer ciclagem dupla, já que as demandas ventilatórias do paciente não foram totalmente satisfeitas. Por outro lado, quando o Tinsp neural for mais curto que o mecânico, pode haver esforço ineficaz, uma vez que o ventilador continua a liberar fluxo gasoso, invadindo o tempo expiratório (TE) neural e deixando menos tempo para a exalação. O esforço inspiratório seguinte ocorre em alto volume pulmonar e é insuficiente para ultrapassar o elevado recolhimento elástico do sistema respiratório. Consequentemente, o esforço inspiratório é perdido e o ventilador falha para liberar o fluxo. Por isso, em baixas taxas de fluxo inspiratório, durante ventilação assistido-controlada ou altos níveis de pressão de suporte, Tinsp neural curto aumenta a probabilidade de desequilíbrio Tinsp neural—Tinsp mecânico, com consequente assincronia paciente-ventilador. O Tinsp neural pode ser encurtado quando o drive respiratório aumenta, como em situações de PaCO2 elevada e acidemia, podendo aumentar a assincronia. Também pode haver encurtamento do Tinsp neural devido a parâmetros ventilatórios ajustados. Em indivíduos saudáveis conscientes sob ventilação assistido-controlada, o Tinsp neural é sensível ao fluxo inspiratório, isto é, torna-se mais curto quando o fluxo liberado aumenta. Tinsp neural encurtado combinado com Tinsp mecânico prolongado, que é função da pressão inspiratória e da ciclagem do ventilador, aumenta a probabilidade de assincronia paciente-ventilador. O desequilíbrio entre o começo do TE neural e o mecânico também podem contribuir para a assincronia. ▶ Mecânica do sistema respiratório Durante ventilação com PS, a resistência aumentada ao fluxo respiratório não apenas aumentará a Pmusc como também prolongará o Tinsp mecânico. Isso ocorre porque, em muitos ventiladores, o término da fase inspiratória em PS é determinado por uma taxa de fluxo fixa. Por isso, com o aumento da resistência ao fluxo respiratório, necessita-se de tempo substancial para que este diminua ao valor predeterminado antes que o ventilador cicle, aumentando o Tinsp mecânico. Fatores relacionados com o ventilador mecânico ▶ Disparo • Disparo ineficaz: ocorre quando o esforço inspiratório do paciente não é suficiente para disparar o ventilador, identificado quando este não acompanha um ciclo oferecido pelo ventilador, normalmente por ajuste da sensibilidade ou condições clínicas do paciente (ineficiência da musculatura respiratória, depressão do comando neural, pressão expiratória final positiva [PEEP, positive end expiratory pressure] extrínseca [auto- PEEP/hiperinsuflação dinâmica] ou Tinsp mecânico prolongado [maior que o tempo neural do paciente]). Além do ajuste do disparo, evitando-se obviamente o autodisparo, sugere-se disparo a fluxo, geralmente mais sensível que a pressão (Figura 14.1) • Duplo disparo: dois ciclos consecutivos são disparados por um único esforço do paciente. Ocorre quando o Tinsp predeterminado do ventilador é menor que o Tinsp neural do paciente. Graficamente, observam-se dois ciclos consecutivos sem intervalo entre eles, podendo ser sucessivos (Figura 14.2). Quando em assistido-controlado a pressão, pode-se aumentar a pressão controlada e/ou o Tinsp (se em PS, além do aumento da pressão, é possível reduzir a porcentagem a ser alcançada pelo ventilador para ciclagem). Quando em modos limitados a volume, deve-se aumentar o volume corrente (ou fluxo inspiratório) • Autodisparo: o ventilador é disparado sem esforço do paciente. Pode ocorrer vazamento no sistema, condensado no circuito, detecção dos batimentos cardíacos/grandes variações de pressão intratorácica ou ajuste excessivo da sensibilidade do ventilador. É identificado quando frequência respiratória é maior que a predeterminada e ciclos não são precedidos pelo esforço do paciente. Pode-se corrigi-lo reduzindo a sensibilidade do aparelho, reparando vazamentos e desprezando o condensado da tubulação. ▶ Fluxo • Fluxo inspiratório insuficiente: ocorre quando o fluxo oferecido ao paciente é inferior à sua demanda, geralmente quando este é predeterminado pelo operador e não pode ser aumentado pelos esforços do paciente (modo convencional controlado a volume). Pode ocorrer também nos modos a pressão, quando as pressões predeterminadasinfusão de 10 mℓ/kg de soro fisiológico, se a PVC aumenta menos de 2 mmHg, o paciente encontra-se hipovolêmico ou normovolêmico. Aumentos de mais de 2 mmHg indicam que o paciente está hipervolêmico ou com baixa complacência cardíaca. A PVC pode ser usada para avaliar instabilidade hemodinâmica em resposta à pressão das vias respiratórias induzida pela pressão expiratória final positiva (PEEP). Quando uma PEEP alta é aplicada, ocorre aumento da PVC, refletindo elevação da pós-carga ventricular direita. FIGURA 1.2 Traçado normal da onda de PVC. Onda a = contração atrial; onda c = contração ventricular contra a valva tricúspide fechada; onda v = esvaziamento atrial; ondas x e y = negativas. Pressão de oclusão da artéria pulmonar A pressão de oclusão da artéria pulmonar é medida por meio da inserção de um cateter em artéria pulmonar. Permite avaliação mais exata da pré-carga ventricular esquerda, pois o valor medido se correlaciona bem com a pressão em átrio esquerdo e elimina alguns erros de interpretação envolvidos na avaliação da PVC. Perante os riscos do procedimento (Quadro 1.1), seu uso é restrito a pacientes com quadros muito graves de choque refratário ao uso de catecolaminas. Débito cardíaco Nas crianças, o débito cardíaco (DC) esperado é de 150 a 200 mℓ/kg/min. O DC é frequentemente associado à superfície corpórea, conhecido como índice cardíaco (IC), em que os valores que podem ser considerados normais variam de 3,5 a 5,5 ℓ/min/m2. As principais IC(mℓ/min/m2) = VO2 /(CaO2 – CVO2 ) VO2 (lactente) = 160 a 180 VO2 (escolar) = 100 a 130 IC(mℓ/min/m2) = DC / área superfície corpórea técnicas de medida do DC incluem o princípio de Fick, técnicas de diluição, técnicas de Doppler e ecocardiografia, bioimpedância. QUADRO 1.1 Riscos da inserção do cateter em artéria pulmonar. Perfuração/ruptura cardíaca Tamponamento cardíaco Arritmias/disritmias cardíacas Ruptura da artéria pulmonar Infarto pulmonar (trombose de artéria pulmonar) Embolização pulmonar Embolização do cateter Infecção relacionada ao cateter Endocardite infecciosa Endocardite marântica (endocardite trombótica não bacteriana) ▶ Princípio de Fick Relaciona o DC ao consumo de oxigênio e a diferença do conteúdo de oxigênio arteriovenoso, sendo calculado pela seguinte fórmula: Sendo: IC = índice cardíaco; VO2 = consumo de oxigênio; CaO2 = conteúdo arterial de O2; CVO2 = conteúdo venoso de O2; DC = débito cardíaco. ▶ Técnicas de diluição O fluxo sanguíneo pode ser calculado após a introdução de um marcador por via venosa central, medindo a mudança na concentração do marcador sobre o tempo em um ponto abaixo do local onde o marcador foi introduzido. Os primeiros marcadores usados foram as tinturas e, mais tarde, a temperatura com a introdução dos cateteres de artéria pulmonar, seguida pela termodiluição transpulmonar, sendo o mais recente marcador o cloreto de lítio. O cloreto de lítio isotônico (150 mmol) é injetado em bolo (0,002 a 0,004 mmol/kg) por via venosa central ou periférica, e uma curva tempo-concentração é gerada por um eletrodo arterial íon-seletivo fixado a um manômetro em uma linha arterial (em geral, femoral ou axilar). O DC é calculado a partir da dose de lítio administrada e a área da curva tempo-concentração antes da sua recirculação, corrigida pela hemoglobina. O método é contraindicado para pacientes que fazem terapia com lítio, em uso de bloqueadores neuromusculares e com shunt esquerda-direita. ▶ Técnicas de Doppler e ecocardiografia O DC é igual ao produto da velocidade do fluxo sanguíneo pela área seccional do vaso. Como a técnica de Doppler pode ser usada para medir a velocidade do fluxo sanguíneo na aorta ascendente e a área seccional da aorta pode ser determinada tanto por um ecocardiógrafo uni como bidimensional, o produto da média da velocidade e da área seccional nos dá a taxa de fluxo, determinando assim o DC. As ondas de ultrassom podem ser emitidas e detectadas por meio de transdutores transtorácicos ou transesofágicos. Estes últimos podem oferecer medida contínua. A ecocardiografia oferece vasta quantidade de informações sobre o coração, tanto funcionais como morfológicas, além da medida do DC. Esses dados incluem função diastólica, dilatação das câmaras • • • • • • • • • cardíacas, alterações de parede, regurgitações das valvas ou interdependência das câmaras cardíacas. Fração de ejeção do ventrículo esquerdo Método do cubo Posicionar o transdutor na janela paraesternal longitudinal (entre o 3o ou o 4o espaço intercostal, na borda esternal esquerda, com o marcador apontando para o quadril esquerdo do paciente) (Figura 1.3A) Redirecionar o transdutor para a janela paraesternal transversal (marcador apontando para o quadril direito do paciente) (Figura 1.3B) Visualizar os músculos papilares e medir no modo M o diâmetro do VE na diástole e na sístole (Figura 1.3C) Fração de ejeção (FE): volume do ventrículo esquerdo (VE) diastólico – volume VE sistólico / volume VE diastólico × 100 FE normal entre 50 e 70%. Método eyeballing. Método em que o examinador analisa a imagem da contratilidade cardíaca e a classifica como: normal, moderadamente reduzida e severamente reduzida. Volume da veia cava Posicionar o transdutor na janela subcostal (abaixo do apêndice xifoide), com o marcador direcionado ao ombro direito Localizar a veia e redirecionar o marcador para a cabeça do paciente Visualizar saída do átrio direito e veia cava inferior (Figura 1.4) Infere-se que, quando a veia cava apresenta complacência sem colabamento durante a inspiração, a volemia do paciente está adequada. ▶ Bioimpedância Esta técnica é fundamentada na quantificação do fluxo sanguíneo na aorta torácica por meio da impedância de uma corrente elétrica alternada aplicada ao tórax. Eletrodos são colocados no tórax e no pescoço, e são medidas as mudanças na impedância ao fluxo da corrente elétrica. Um eletrodo aplica uma corrente elétrica enquanto o outro mede a voltagem, permitindo assim o cálculo da impedância. O método não apresenta boa acurácia em crianças com altura menor do que 125 cm. Além disso, comunicações intracardíacas interferem nos resultados. FIGURA 1.3 Posicionamento do transdutor setorial do ultrassom com marcador voltado para o ombro direito do paciente, para a obtenção da imagem inicial (A) do coração, em seu eixo maior. Em seguida, o marcador é virado em direção ao ombro esquerdo do paciente, para a obtenção da imagem do eixo menor (B), e, depois, no modo M, realizar as medidas (C). FIGURA 1.4 Imagem ultrassonográfica na janela subcostal (abaixo do apêndice xifoide) com marcador voltado para o ombro direito do paciente, observam-se o fígado acima e a veia cava inferior (VCI) logo abaixo. AD = átrio direito. Monitoramento da saturação venosa central de oxigênio A adequada oferta de oxigênio para todos os tecidos é o principal objetivo das medidas de reanimação em paciente hemodinamicamente instável. Os recursos para medir de modo eficaz a oferta e o consumo regional de oxigênio são limitados. Porém, podemos ter uma ideia da oferta global de oxigênio (DO2 ), que é o produto do débito cardíaco pelo conteúdo arterial de oxigênio. O consumo de oxigênio é a diferença entre o oxigênio liberado para os tecidos e o oxigênio que retorna para o lado direito do coração. Quando a DO2 diminui, a extração de oxigênio pelo tecido aumenta. Assim, o sangue que retorna ao átrio direito contém menos oxigênio do que o normal. Uma baixa saturação venosa central de oxigênio (SVO2 ) pode indicar que a DO2 está inadequada, sendo indicador indireto do débito cardíaco (DC). A SVO2 também será, porém, influenciada por reduções da hemoglobina e da saturação da hemoglobina arterial. A taxa de extração de oxigênio (TEO2) tem valores normais entre 0,20 e 0,30, e pode ser um indicador indireto da perfusão tecidual. É calculada pela seguinte fórmula: TEO2 = (SaO2 – SVO2 ) / SaO2 Sendo: SaO2 = saturação arterial de O2; SVO2 = saturação venosa central de O2. Outro modo de monitoramento ésão inferiores à demanda do paciente. É possível corrigi-lo aumentando o fluxo inspiratório (quando controlada a volume) ou modificando para modos a pressão, com fluxo livre • Fluxo inspiratório excessivo: quando o fluxo predeterminado é maior que a demanda do paciente (modos volumétricos) ou, quando em modos a pressão, esta seja elevada ou o tempo de subida mais rápido. Em modo a volume, a curva pressão × tempo mostra o pico de pressão sendo alcançado precocemente. Para resolvê-lo, reduzimos o fluxo. Em modo pressométrico, a pressão nas vias respiratórias é maior que a predeterminada (overshoot). Nesta situação, é possível reduzir o tempo de subida. Illustration FIGURA 14.1 Demonstração de disparo inadequado. A seta A indica estímulo insuficiente para disparar o ventilador (pequena onda de fluxo positiva e mínimo volume corrente). A seta B, o esforço que ocorre durante a exalação sem disparar o ventilador (apenas o fluxo volta à linha de base e até se tornar levemente positivo). ▶ Ciclagem • Ciclagem precoce: ocorre a interrupção do fluxo inspiratório antes do demandado pelo paciente; nesta situação, o Tinsp predeterminado é menor que o tempo neural do paciente. Em modos controlados a pressão ou a volume, determinamos o Tinsp. Quando em PS, ocorre pela pressão reduzida e/ou porcentagem elevada para ciclagem. Quando ventilado a volume, pode-se aumentar o volume corrente (ou diminuir o fluxo inspiratório). Nos modos controlados a pressão, o fluxo inspiratório é de demanda. Caso ocorra ciclagem precoce nesta situação, pode-se aumentar o Tinsp e/ou o valor da pressão controlada. Quando em PS, além do aumento da pressão, pode-se reduzir a porcentagem para ciclagem • Ciclagem tardia: o Tinsp predeterminado é maior que o demandado pelo paciente. Em modo controlado a volume, ocorre quando o uso de altos volumes correntes ocasiona o prolongamento do Tinsp ou pelo uso de fluxo inspiratório baixo. Quando em modo controlado a pressão, o Tinsp predeterminado é maior que a demanda do paciente. Intuitivamente, pode- se resolver com a simples redução do Tinsp predeterminado nas modalidades controladas. Quando em PS, aumenta-se a porcentagem para início da ciclagem. Illustration FIGURA 14.2 Representação do duplo disparo. Ventilação controlada a volume. O esforço do paciente permanece no momento da ciclagem e, portanto, é disparado um novo ciclo. Ocorre empilhamento de ar (somatória dos volumes), e a pressão nas vias respiratórias aumenta, podendo ser observado o disparo pelo alarme de limitação da pressão. ▶ Assincronia expiratória É definida como o início do fluxo inspiratório antes de o expiratório alcançar a linha de base. Auto-PEEP (PEEP intrínseca) Auto-PEEP refere-se ao grau de hiperinsuflação dinâmica ocasionada pelo aprisionamento de ar ao final da expiração, retardando a exalação do volume inspirado. A auto-PEEP ocorre quando a pressão alveolar ao final da expiração é maior que a das vias respiratórias, em virtude de um esvaziamento parcial do sistema respiratório. Geralmente em patologias obstrutivas que representam fluxo expiratório limitado, essa condição aumenta o risco de barotrauma, já elevado nesses pacientes, pois o volume retido produzirá pressão alveolar progressivamente maior a cada ciclo, uma vez que a resistência nas vias respiratórias determina uma constante de tempo maior e, assim, maior tempo para que seja alcançado o equilíbrio entre a pressão da via respiratória e a alveolar. Identifica-se essa condição por avaliação da curva fluxo × tempo, na qual o fluxo expiratório não retorna à linha de base (zero) ao final da expiração (Figura 14.3). Volume-minuto elevado. Associado a grandes volumes correntes (maior que a capacidade residual funcional do paciente), alta frequência respiratória ou a ambos, os quais aumentam o volume que deve ser exalado antes da próxima respiração e diminuem a duração da expiração. Em ambas as situações, a próxima respiração é iniciada antes da conclusão da última exalação. Tisnp prolongado. Quando o Tinsp é aumentado, há diminuição obrigatória no tempo expiratório, que pode levar a exalação incompleta e auto-PEEP. Constante de tempo desigual. Situação em que os alvéolos se esvaziam heterogeneamente (p. ex., doença obstrutiva); são particularmente suscetíveis ao desenvolvimento de auto-PEEP. Resistência ao fluxo expiratório. Resistência ao fluxo de ar (cânula endotraqueal pequena, circuito do ventilador) pode causar auto-PEEP. Limitação do fluxo expiratório. Doença obstrutiva das vias respiratórias e alteração da complacência impedem a expiração. A recomendação é que a auto-PEEP seja medida durante a ventilação controlada, realizando-se uma pausa ao final da expiração – pausa expiratória. Esse método pode subestimar a medida real, pois pressupõe que as vias respiratórias estejam pérvias, ou seja, a secreção e o próprio colapso das vias respiratórias distais comprometem essa medida. Outra opção é a medida da pressão pleural por meio de cateter esofágico, ponderando a disponibilidade e a viabilidade técnica deste monitoramento. A constante vigilância dessa complicação deve ser realizada, pois está relacionada com maior trabalho respiratório por influência no disparo da inspiração. Para resolvê-la é possível aumentar o tempo expiratório aumentando, assim, a relação I:E. Illustration FIGURA 14.3 Curva fluxo × tempo. Em A, observa-se que a curva do fluxo não alcança a linha de base (círculo). Em B, observa-se a normalização da curva fluxo × tempo, aumentando-se o tempo expiratório (TE) de B em relação ao tempo expiratório de A. Novos modos ventilatórios Com o objetivo de melhorar a sincronia e a interação do paciente com o ventilador, tornando a ventilação pulmonar mecânica mais fisiológica e adaptável às especificidades de cada paciente, modos especiais de ventilação têm sido desenvolvidos e aprimorados nos últimos anos, porém ainda sem qualquer evidência de superioridade sobre os modos convencionais. Diante do paciente com assincronia, podem ser alternativas acessórias. ▶ Volume controlado com pressão regulada O volume controlado com pressão regulada (PRVC, pressure-regulated volume-control) é o modo ventilatório ciclado a tempo e limitado a pressão. Neste modo, a pressão é modificada entre ciclos respiratórios reajustando a cada ciclo o limite de pressórico e tendo como parâmetro o volume corrente obtido no ciclo anterior para alcançar o volume corrente-alvo preestabelecido pelo profissional. A diferença para o modo controlado a volume é que a pressão é a variável de controle, em vez do fluxo. Como qualquer modo controlado a volume, indicado em situações nas quais se deseja controle do volume corrente com limitação da pressão, com o diferencial de ajustes automáticos da pressão inspiratória com a modificação dinâmica do sistema respiratório do paciente. ▶ Ventilação assistida proporcional Nesta modalidade a pressão aplicada pelo ventilador é proporcional ao esforço do paciente. Esse equilíbrio é obtido por um controle de feedback positivo que amplifica a pressão da via respiratória proporcionalmente ao volume e fluxo inspiratórios. Diferente de outros modos que liberam volume ou pressão pré-ajustadas, a ventilação assistida proporcional varia a quantidade de suporte de acordo com o esforço do paciente, assistindo a ventilação proporcional e uniformemente. Tem como vantagem a capacidade de adaptação a mudanças do esforço ventilatório que podem rapidamente ocorrer em pacientes com insuficiência respiratória, resultando em padrão respiratório mais fisiológico. Seu uso requer medida e monitoramento da mecânica do sistema respiratório para determinar o grau de alívio do esforço respiratório. Além disso, o drive respiratório precisa estar intacto desde o sistema nervoso até o diafragma. Estudos em indivíduos normais e pacientes sob ventilação mecânica têm mostrado remoção da carga sobre os músculos respiratórios, melhora do conforto do paciente e do acoplamento entre paciente e ventilador. No entanto, apesar das vantagens teóricas sobreventilação com suporte pressórico, ainda não foi confirmada a superioridade de um modo sobre outro. ▶ Compensação automática do tubo A compensação automática do tubo (ATC) visa suprir a resistência do tubo traqueal por meio de controle de alça fechada da pressão traqueal calculada. As vantagens são superar o trabalho respiratório imposto pelas vias respiratórias artificiais, melhorar a sincronia paciente-ventilador como resultado de fluxo inspiratório variável de acordo com a demanda semelhante à ventilação assistida proporcional e reduzir o aprisionamento de ar pela compensação da resistência inspiratória imposta. A equação para cálculo da pressão traqueal é a seguinte: Pressão traqueal = pressão na via respiratória proximal – (coeficiente do tubo × fluxo2) ▶ Pressão transdiafragmática No modo pressão transdiafragmática, denominado Pdi-driven servoventilation (PdiDV), cada respiração é disparada por mudança de pressão transdiafragmática (Pdi) preestabelecida ou limite de fluxo, o que ocorrer primeiro. É pouco utilizada. ▶ Ventilação neurologicamente ajustada A ventilação neurologicamente ajustada (NAVA, neurally adjusted ventilatory assist) é um modo ventilatório que detecta a atividade elétrica do diafragma por meio de um cateter no terço distal do esôfago e a utiliza como desencadeadora do disparo e ciclagem do ventilador com o objetivo de entregar o suporte inspiratório proporcional à atividade elétrica detectada do diafragma. É sugerida sua utilização quando o paciente tem drive respiratório e assincronia significativa no modo espontâneo, principalmente quando se observa que esforços são perdidos em ventilação com PS e na auto-PEEP (PEEP intrínseca). Em estudos clínicos, a NAVA associou-se à melhora da sincronia com o ventilador em comparação com PS. Complicações clínicas da ventilação mecânica ▶ Lesão pulmonar e ventilação mecânica Em linhas gerais, há duas causas de lesões pulmonares vinculadas à ventilação mecânica. A lesão pulmonar induzida pela ventilação (LPIV) e a lesão pulmonar relacionada à ventilação (LPRV). A LPIV é uma lesão pulmonar aguda causada ou amplificada pela ventilação mecânica, que afeta vias respiratórias e parênquima. Esta pode resultar em edema pulmonar, piora da hipoxemia, entre outros, que podem estar associados a aumento do tempo de ventilação mecânica, disfunção de múltiplos órgãos e sistemas e, finalmente, aumento da mortalidade. Na prática, a diferenciação entre LPIV e LPRV é desafiadora, uma vez que a piora pode provir tanto da causa pulmonar de base do paciente quanto do impacto da ventilação. A tendência, de acordo com os especialistas, é considerar a LPIV como processo de dano e a LPRV como resultado. Atualmente a ventilação mecânica visa, principalmente após a difusão do conceito de ventilação mecânica protetora, evitar ou amenizar a ocorrência de lesão pulmonar. É uma condição que remete à síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA), mas tem-se observado que também ocorre em pacientes que usam ventilação mecânica e sofrem com outras doenças que não a SDRA. A incidência nesta situação é desconhecida. Estudo observacional com 332 pacientes sob ventilação mecânica por causas não relacionadas com a SDRA incluíram altos volumes correntes, transfusões de hemoderivados, acidemia (pHimpacto no retorno venoso é determinante na repercussão hemodinâmica. O aumento da pressão intratorácica eleva a pressão no átrio direito, reduzindo a diferença de pressão entre ventrículo direito e sistema venoso. Essa redução da pré-carga ocasiona diminuição do débito cardíaco que, em última análise, é interpretado como uma situação de hipovolemia, quando há queda aparente de 8 a 10% do volume sanguíneo e, por estimulação de barorreceptores em arco aórtico, carótidas, átrios e veias intratorácicas, subsequente aumento da secreção de hormônio antidiurético (ADH), causando antidiurese e retenção hídrica. Ventrículo esquerdo. Redução da pré-carga pela diminuição do retorno venoso em virtude de aumento da resistência pulmonar e interdependência interventricular. Esta alteração implicará redução da pós-carga do ventrículo esquerdo e, portanto, sua contratilidade. Ventrículo direito. Redução da pré-carga pela redução do retorno venoso com consequente aumento da pós-carga do ventrículo direito. Esta alteração implicará redução da contratilidade do ventrículo direito. Hipotensão. Ocorre em até 5% dos pacientes como resultado principalmente da diminuição do retorno venoso, mas também estão envolvidos diminuição da contração miocárdica, alteração do metabolismo celular cardíaco, aumento da resistência pulmonar e interdependência interventricular. ▶ Pneumonia associada à ventilação Tipo de pneumonia hospitalar que cursa após pelo menos 48 h de ventilação mecânica. É a segunda causa de infecção relacionada ao cuidado de saúde em UTI, condição comum com importante impacto em aumento do tempo de ventilação mecânica, dias de internação em UTI e elevação da mortalidade. O seu correto e precoce diagnóstico, portanto, é fundamental na instituição do tratamento, bem como ao uso racional de antibióticos. As taxas são muito variáveis: 0,1 a 21,6 para cada 1.000 dias de ventilação, dependendo da interpretação do pesquisador sobre os achados clínicos/laboratoriais e definições pouco específicas, prejudicando, assim, estratégias para sua prevenção. Com o propósito de uniformizar as pesquisas envolvendo a pneumonia associada à ventilação (PAV), o Centers for Disease Control and Prevention, em janeiro de 2013, publicou definições com base na população adulta que recebia ventilação mecânica, ampliando a terminologia dos eventos relacionados à ventilação mecânica. Tais critérios têm como objetivo principal homogeneizar a interpretação de índices de qualidade em terapia intensiva e vigilância em saúde e não são determinantes no momento da decisão diagnóstica e terapêutica (Quadro 14.1). Fisiopatologia O principal mecanismo fisiopatológico da contaminação pulmonar é a aspiração (micro ou maciça) de bactérias da orofaringe para a árvore brônquica distal, aderência local e progressão até alvéolos, provocando inicialmente uma alveolite neutrofílica. Disseminação hematogênica também é relatada, além da contaminação do equipamento. Fatores de risco • Doença pulmonar crônica • Depressão do nível de consciência • Cirurgia torácica ou do abdome superior • Hipertensão intracraniana • Medicações modificadoras do pH gástrico* • Antibioticoterapia prévia, principalmente se de amplo espectro • Reintubação ou intubação prolongada • Modificações frequentes no circuito do ventilador • SDRA • Exposição a opioide • Politraumatismo • Dispositivos invasivos • Uso de bloqueadores neuromusculares e corticoterapia • Desnutrição, doença renal crônica, anemia • Hospitalização prévia. Apresentação clínica Os sintomas são frustros, uma vez que a maioria dos pacientes se encontra em ventilação mecânica com sedação contínua. Sinais como febre, aumento em quantidade/modificação característica da secreção traqueal, alterações na ausculta pulmonar, broncospasmo e taquipneia podem estar presentes. Piora progressiva da hipoxemia e leucocitose são os achados laboratoriais mais comuns, e nos exames de imagem, radiografia e tomografia computadorizada (TC) de tórax, um novo e progressivo infiltrado pulmonar. Radiografia de tórax é mandatória na suspeita de PAV. Além da identificação de anormalidades comuns (p. ex., infiltrado alveolar, broncogramas aéreos), os achados são importantes para determinar a extensão (p. ex., multilobar ou unilobar) e identificar complicações (p. ex., derrame pleural). A radiografia de tórax normal não é usual e enfraquece a suspeita de PAV; nesse cenário, a complementação com TC de tórax pode ser determinante. Alterações radiológicas são inespecíficas e isoladamente insuficientes para o diagnóstico. QUADRO 14.1 Definições de eventos associados à ventilação mecânica segundo o CDC.* Condição associada à ventilação (VAC) ≥ 2 dias de PEEP mínima diária estável ou decrescente ou FiO2 mínima diária, seguida de aumento na PEEP mínima diária ≥ 3 cmH2O ou elevação na porcentagem mínima diária da FiO2 em > 20 pontos sustentados em ≥ 2 dias Condição associada à ventilação relacionada à infecção (IVAC) VAC associada a temperatura 38°C ou contagem de leucócitos de ≤ 4.000/mm3 ou ≥ 12.000/mm3; associação de um ou mais novos antibióticos continuados por pelo menos 4 dias, em 2 dias antes ou depois do início de uma VAC, excluindo-se os primeiros 2 dias de ventilação mecânica Possível pneumonia IVAC mais Gram do aspirado endotraqueal ou lavado broncoalveolar mostrando ≥ 25 neutrófilos e ≤ 10 células/campo, ou cultura positiva para um potencial patógeno, no prazo de 2 dias antes ou depois do aparecimento de uma VAC, excluindo-se os 2 primeiros dias de ventilação mecânica Provável pneumonia IVAC mais Gram do aspirado endotraqueal ou lavado broncoalveolar mostrando ≥ 25 neutrófilos e ≤ 10 células/campo, mais aspirado endotraqueal com ≥ 105 UFC/mℓ ou cultura de lavado broncoalveolar com ≥ 104 UFC/mℓ, ou endotraqueal aspirado ou equivalente semiquantitativo de lavado broncoalveolar, no prazo de 2 dias antes ou depois do início de uma VAC, excluindo-se os primeiros 2 dias de ventilação mecânica *A partir dos critérios, observa-se que a avaliação de imagens radiológicas de tórax não é considerada nessa proposta de classificação. Segundo o CDC, evidências sugerem que achados radiológicos de tórax não são precisos na identificação de PAV, uma vez que estão sujeitos a variáveis técnicas, de interpretação e de relato dos achados. Diagnóstico Atenção. O indivíduo se encontra em, no mínimo, 48 h de ventilação mecânica com alterações clínicas, laboratoriais e radiográficas, confirmadas com a identificação do patógeno em amostra de secreção do trato respiratório inferior. Idealmente a coleta deve ser antes da introdução ou modificação da antibioticoterapia, já que esta altera a sensibilidade tanto da microscopia quanto da cultura. Uma vez obtida a amostra, antibioticoterapia ampla, de acordo com a microbiota da unidade, deve ser iniciada. Além da secreção do sistema respiratório, amostra de sangue também deve ser avaliada. A Figura 14.4 elucida um algoritmo com a evolução do manejo na PAV. Americanos e europeus divergem no modo como a cultura da secreção do sistema respiratório deve ser obtida. A guideline europeia de 2017 (European Society of Intensive Care Medicine [ESICM] e associações correlacionadas) prioriza métodos invasivos de obtenção da amostra e culturas quantitativas. Já especialistas americanos priorizam métodos não invasivos e culturas semiquantitativas para o diagnóstico, baseados na evidência de não ter havido diferença na mortalidade ou no tempo de internação em UTI quanto ao método de obtenção do patógeno no sistema respiratório, além da condição de o paciente tolerar o procedimento. Escore clínico de infecção pulmonar (CPIS, clinical pulmonary infection score) resume critérios clínicos, radiográficos, fisiológicos e microbiológicos em uma graduação numérica (Quadro 14.2). Foi utilizado por muito tempo como indicador de PAV (considerada quando pontuação total > 6). No entanto, estudos recentes mostraram sensibilidade/especificidade de aproximadamente 60%, além de ter sido concebidoessencialmente por opinião de especialistas sem estudos que comprovassem sua validação. Diagnóstico diferencial Diante da inespecificidade do quadro clínico, laboratorial e radiológico e, considerando o tempo de disponibilização das culturas, o diagnóstico inicial pode ser amplo. Ponderando história clínica e após negatividade de culturas, os principais diagnósticos diferenciais são: pneumonite aspirativa, reação medicamentosa, vasculite, tromboembolismo pulmonar, SDRA, hemorragia alveolar, contusão pulmonar. Estratégias de prevenção Por recomendação da Society for Healthcare Epidemiology of America de 2014, estabeleceram-se práticas básicas para a prevenção da PAV em pacientes criticamente enfermos, entre elas: • Evitar intubação quando possível, preferindo métodos não invasivos • Reduzir transporte quando em ventilação mecânica • Implementação de protocolos • Minimização da sedação • Manutenção e otimização do condicionamento físico • Minimização do acúmulo de secreção acima do cuff • Elevação da cabeceira a 30 a 45o • Manutenção dos circuitos do ventilador. Illustration FIGURA 14.4 Decisão terapêutica evolutiva na pneumonia associada à ventilação (PAV). A drenagem da secreção subglótica acima do cuff reduz risco de aspiração e, consequentemente, incidência de PAV. Cânulas especiais têm sido desenvolvidas para promoverem aspiração intermitente ou contínua, porém sua baixa disponibilidade e alto custo impedem seu uso rotineiro. O uso de antissépticos e/ou antibióticos não absorvíveis em orofaringe e sistema digestório podem reduzir a incidência de PAV por diminuírem a colonização bacteriana do trato respiratório superior. O uso de clorexidina tem eficácia discutível e estudos mostraram associação a aumento da mortalidade. Já a antibioticoterapia tem sido desencorajada pelas escolas europeia e americana pelo possível impacto em resistência antimicrobiana. Não há evidências sobre o uso de probióticos quanto a segurança e eficácia na prevenção de PAV. QUADRO 14.2 Escore clínico de infecção pulmonar (CPIS). Temperatura (°C) ≥ 36,5 ou ≤ 38,4 0 ≥ 38,5 ou ≤ 3,9 1 ≥ 39 ou 11.000 1 Bastões ≥ 500 1 Secreção traqueal Ausência de secreção traqueal 0 Secreção traqueal não purulenta 1 Secreção traqueal purulenta 2 Oxigenação PaO2/FiO2 > 240 ou SDRA 0 PaO2 /FiO2 ≤ 240 sem SDRA 2 Radiografia de tórax Ausência de infiltrado 0 Infiltrado difuso 1 Infiltrado localizado 2 Progressão do infiltrado pulmonar Sem progressão radiográfica 0 Progressão radiográfica (excluídos IC e SDRA) 2 Cultura do aspirado traqueal Bactéria patogênica com pouco ou nenhum crescimento 0 Bactéria patogênica com crescimento moderado a intenso 1 Mesma bactéria patogênica identificada no Gram 1 IC = insuficiência cardíaca; SDRA = síndrome do desconforto respiratório agudo; PaO2 /FIO2 = pressão arterial de oxigênio/fração inspirada de oxigênio. Etiologia Classicamente, divide-se em PAV precoce (≤ 5 dias) e tardia (> 5 dias), a depender do tempo de instalação, desde o início da ventilação mecânica, e dos agentes etiológicos mais frequentemente envolvidos. Na PAV precoce, existe a prevalência de patógenos da comunidade, entre eles S. pneumoniae, H. influenzae, S. aureus oxacilina-sensível. Na PAV tardia, a prevalência de germes hospitalares, entre as bactérias gram- negativas E. coli, Klebsiella, Pseudomonas, Acinetobacter, Serratia, Proteus, e entre as gram-positivas, o S. aureus oxacilina-resistente. Vírus, em especial o vírus sincicial respiratório (VSR), são importantes agentes etiológicos de pneumonia hospitalar em pacientes pediátricos. Infecções graves por VSR são mais prevalentes em cardiopatas, pneumopatas e portadores de imunodeficiências crônicas. PAV por fungos ocorre tardiamente, geralmente em situação de imunossupressão (corticoterapia, desnutrição, paciente oncológico) em pacientes que já utilizaram terapia antimicrobiana de amplo espectro. Tratamento Antibioticoterapia de amplo espectro deve ser iniciada logo na suspeita clínica, principalmente se associada a choque séptico ou disfunção múltipla de órgãos e sistemas, visando à cobertura de Staphylococcus aureus, Pseudomonas aeruginosa e gram-negativos, ponderando o perfil da microbiota da unidade e fatores de risco para resistência múltipla a antibióticos (antibioticoterapia prévia nos últimos 90 dias, choque séptico ao diagnóstico, SDRA, > 5 dias internação ao diagnóstico, terapia renal substitutiva antecedendo o quadro). Geralmente antibioticoterapia por 7 dias é suficiente e tão efetiva quanto tratamentos mais longos, devendo ser individualizada em pacientes gravemente enfermos (imunodeficientes, com doença oncológica metastática, abscessos/empiema). A Infectious Diseases Society of America (IDSA) propôs um fluxograma para escolha de antibioticoterapia empírica inicial com base no perfil de resistência de agentes etiológicos em UTI (Figura 14.5). Illustration FIGURA 14.5 Escolha racional de cobertura antimicrobiana. (Adaptada de Clinical Practice Guidelines by the Infectious Diseases Society of America and the American Thoracic Society, 2016.) ______________ *Diversos estudos mostraram associação do uso de medicações modificadoras do pH gástrico (p. ex., inibidores de bomba de prótons, anti- H2) à PAV. Um grande ensaio clínico randomizado comparando o uso diário de pantoprazol versus placebo demonstrou não ter havido aumento da mortalidade em um período de 90 dias nem sangramento intestinal como complicação ou incidência de PAV. Em nossa unidade, o uso de protetor gástrico profilático quando em ventilação não é realizado, exceto em condições adicionais com indicação precisa. • • Introdução Os avanços em cardiologia pediátrica, técnicas cirúrgicas e cuidados intensivos levaram a maior sobrevida de crianças com cardiopatias congênitas antes letais. Atualmente, o diagnóstico dessas cardiopatias é mais preciso e as alterações hemodinâmicas mais bem compreendidas, possibilitando conhecer amplamente as condições da criança no período pós-operatório, bem como prever as alterações intrínsecas aos procedimentos cirúrgico e anestésico. Condutas gerais ▶ Informações sobre a patologia e suas complicações Essas informações possibilitam melhor planejamento e prevenção de complicações por exemplo, a hipertensão pulmonar. ▶ Informações sobre o ato anestésico- operatório Técnica operatória Tipo de anestésico • • • • • • • • • • • • • • • • • • • Tempo de operação, de perfusão e de pinçamento aórtico Equilíbrio hídrico e de coloides Diurese Posição dos cateteres venosos e arteriais, fios de marca-passo e drenos mediastinais ou torácicos Condições ventilatórias e acidobásicas Coagulação Medicações vasoativas empregadas. ▶ Monitoramento básico Realizado de hora em hora no período pós-operatório imediato (POI), avaliando: Ritmo cardíaco Pressão arterial (PA) sistêmica (sistólica, diastólica e média) Pressão venosa central (PVC) Débito urinário Débito por sonda nasogástrica Débito por drenos de mediastino e/ou pleurais Temperatura Parâmetros respiratórios Oximetria de pulso. ▶ Monitoramento complementar Pressão do átrio esquerdo Pressão da artéria pulmonar Ecocardiografia bidimensional com Doppler. Indicações para o monitoramento complementar. Disfunção miocárdica significativa (coronária anômala esquerda, transposição das grandes artérias, hipoplasia de coração esquerdo), hipertensão arterial pulmonar no pré ou intraoperatório (drenagem anômala total de veias pulmonares, interrupção do arco aórtico, tronco arterial • • ∘ ∘ ∘ • • ∘ • • ∘ ∘ • comum), valvoplastias ou correção de defeito do septo atrioventricular com defeito residual. ▶ Aquecimento Deve-se manter a temperatura entre 36° e 36,5°C. ▶ Suporte hídrico, metabólico, eletrolítico e acidobásico Soro de manutenção (primeiras 24 h) Balanço hídrico: Com circulação extracorpórea (CEC): 30 a 40% das necessidades basais Sem CEC: 60 a 80% das necessidades basais Deverá ser usada solução isotônica, diminuindo,assim, o risco de hiponatremia Velocidade de infusão de glicose (VIG): iniciar com infusão de 2 mg/kg/min e adequar conforme glicemia Eletrólitos: potássio (2,5 mEq/kg/dia) Acidose metabólica Indicação de correção: bicarbonato (Bic) 1 ano: 60 cmH2O > 2 anos: 65 cmH2O > 15 anos: 65 cmH2O Controle adequado da dor e da ansiedade Uso de inotrópicos. ▶ pré-carga Valores das pressões atriais Pressão do átrio direito (PAD) e átrio esquerdo (PAE): 15 mmHg Se houver obstrução na via de saída ventricular direita ou hipertensão arterial pulmonar, considerar 18 mmHg para PAD Se houver hipertrofia, hipocontratilidade ou obstrução parcial da via de saída ventricular esquerda, 20 mmHg para PAE Cardiopatias com comunicação interatrial: PAD entre 5 e 10 mmHg Cirurgias do tipo Fontan ou anastomose cavopulmonar: pressão na veia cava superior entre 18 e 20 mmHg Recém-nascidos: 7 a 10 mmHg. Reposição fluídica Alíquotas de 10 mℓ/kg de cristaloides ou coloides. ▶ Pós-carga Hipertensão arterial sistêmica ▶ Causas Hipotermia Dor Hipovolemia Exacerbação de hipertensão arterial prévia ao procedimento cirúrgico Manipulação cirúrgica. • • • • • • ▶ Diagnóstico PAS > percentil 99 + 5 mmHg. ▶ Conduta Sedação e analgesia Correção da volemia Uso de nitroprussiato de sódio (0,5 a 8 mg/kg/min) Uso de anti-hipertensivos orais nos casos de persistência após a extubação do paciente e com a liberação da via oral, inicialmente associados ao nitroprussiato. As medicações e doses estão apresentadas no Quadro 15.3. Hipertensão arterial pulmonar ▶ Definição Pressão pulmonar média > 20 (em repouso) e > 30 mmHg (após esforço). Observação. No período pós-operatório, não se deve ultrapassar 50% da pressão sistêmica. ▶ Crise de hipertensão pulmonar Episódio agudo de elevação da pressão pulmonar, acima da sistêmica, com diminuição da PAS, da frequência cardíaca e da oxigenação. ▶ Conduta A conduta pode ser observada na Figura 15.1. QUADRO 15.3 Medicações utilizadas por via oral e respectivas doses. Medicações Doses (mg/kg/dia) Furosemida 1 a 6 Captopril 1 a 5 Enalapril 0,05 a 0,1 Propranolol 1 a 4 Anlodipino 0,1 Nifedipino 0,5 a 1 Hidralazina 3 a 5 ▶ Estratégias específicas para tratamento de baixo débito cardíaco Disfunção sistólica A disfunção sistólica deve ser avaliada de acordo com a sequência representada na Figura 15.2. Corrigir alterações eletrolíticas, hipotermia, alterações de pH, hipoxemia e queda de hemoglobina, pois podem contribuir para as alterações no débito cardíaco. Além disso, realizar investigação de defeitos residuais por meio de ecocardiografia Doppler e cateterismo cardíaco. FIGURA 15.1 Tratamento da hipertensão arterial pulmonar. FIGURA 15.2 Algoritmo para adequação da função sistólica. DC = débito cardíaco. Disfunção diastólica Deve ser avaliada de acordo com a sequência apresentada na Figura 15.3. Nestes casos, é importante evitar o uso de inotrópicos, • • • • avaliar a necessidade de betabloqueadores e atentar para os níveis de resistência vascular pulmonar. Arritmias cardíacas Os valores da frequência cardíaca (bpm), de acordo com a idade, estão apresentados no Quadro 15.4. ▶ Medidas gerais Correção da volemia Correção dos distúrbios hidreletrolíticos e metabólicos Controle da dor, da ansiedade e da temperatura Eletrodos de marca-passo atriais e ventriculares. FIGURA 15.3 Algoritmo para adequação da função diastólica. DC = débito cardíaco. QUADRO 15.4 Valores da frequência cardíaca (bpm) de acordo com a idade. Idade Média Limites 0 a 24 h 145 80 a 200 • • • • • • 1 a 7 dias 138 100 a 188 8 a 30 dias 162 125 a 188 1 a 3 meses 161 115 a 215 3 a 6 meses 149 100 a 215 6 a 12 meses 147 100 a 188 1 a 3 anos 130 80 a 188 3 a 5 anos 105 68 a 150 5 a 8 anos 102 75 a 150 8 a 12 anos 88 51 a 125 12 a 16 anos 83 38 a 125 ▶ Medidas específicas Taquiarritmias Nos casos de instabilidade hemodinâmica: há indicação de cardioversão elétrica imediata; considerar adenosina Com estabilidade hemodinâmica: seguir condutas terapêuticas específicas (ver Capítulo 30, Arritmias Cardíacas). Bradiarritmias Suspensão de digitálicos, betabloqueadores ou medicações que causem bloqueio do nó atrioventricular (p. ex., amiodarona) Fármacos cronotrópicos (p. ex., atropina) Se houver bloqueio atrioventricular (BAV) cirúrgico, utilizar metilprednisolona 1 mg/kg/dose, IV, a cada 6 h Marca-passo. • • • • • • • • • ∘ ∘ • • • Sistema respiratório | Suporte ventilatório ▶ Parâmetros ventilatórios Modo inicial: assistido-controladoFrequência respiratória: a esperada para a idade Pressão expiratória final positiva inicial (PEEP): 5 cmH2O Volume corrente: 6 a 8 mℓ/kg Pressão de platô: não ultrapassar 30 cmH2O Fração inspirada de oxigênio (FIO2 ) necessária para manter os seguintes valores: Cirurgia PaO2 (mmHg) SatO2 (%) Correção total 80 a 120 > 90 Paliativa (shunt) ± 45 ± 80 PaO2 = pressão arterial de oxigênio; SatO2 = saturação arterial de oxigênio. ▶ Critérios para extubação Nível de consciência adequado Estabilidade hemodinâmica Ausência de hemorragia pelos drenos: Crianças 25 kg, a drenagem deverá estar abaixo de 10% da volemia Ausência de desequilíbrio acidobásico Pressões parciais de oxigênio e gás carbônico adequados Radiografia de tórax sem sinais de complicações. Observação. Nas correções de cardiopatias mais simples (persistência do canal arterial [PCA], coarctação de aorta, • • • • • • • • • • • comunicação interatrial [CIA], comunicação interventricular [CIV]), a extubação deve ser realizada, se possível, logo após a recuperação dos efeitos anestésicos. Sistema hematológico ▶ Hematócrito e hemoglobina Cardiopatias acianóticas: Hb = 10 g/dℓ e Ht = 30 a 35% Cardiopatias cianóticas: Hb = 15 g/dℓ e Ht = 40 a 45% Blalock-Taussig modificado: Hb = 13 a 14 g/dℓ e Ht = 40%. ▶ Hemorragias A conduta está apresentada na Figura 15.4. Protamina Mecanismo de ação: neutraliza a ação anticoagulante da heparina pela formação de um complexo estável após sua ligação à molécula da substância Efeitos colaterais: anticoagulação e sangramento se usada em dose maior que a recomendada (efeito “rebote” da heparina), náuseas e vômito Dose: 1 mg para cada 100 UI de heparina Apresentação: ampolas de 1.000 UI/5 mℓ (10 mg/mℓ) Administrar 1 mg de protamina para cada 100 UI de heparina recebida Velocidade da administração: 5 mg/min Se correção menor que 100% no centro cirúrgico: completar a dose Se correção de 100% no centro cirúrgico: + 25% da dose, se necessário. FIGURA 15.4 Esquema de tratamento de hemorragias no no período pós-operatório de cirurgia cardíaca. TTPA = tempo de tromboplastina parcial ativada; TP = tempo de protrombina; PFC = plasma fresco congelado. *Volemia normal: recém-nascidos = 85 m ℓ /kg; homens = 70 m ℓ /kg; mulheres = 65 m ℓ /kg; crianças = 70 mℓ/kg. ▶ Anticoagulação A seguir são apresentadas algumas recomendações para anticoagulação. Blalock com prótese • • • • ∘ • • ∘ ■ ■ ■ ∘ ■ ■ ■ • • • ▶ Cirurgias cavopulmonares Fontan: anticoagulação por 2 anos Glenn: administrar ácido acetilsalicílico até a realização da cirurgia de Fontan Pacientes sem indicação de Fontan: anticoagulação oral. ▶ Próteses valvares Anticoagulação em próteses metálicas mitral e aórtica Início da anticoagulação: no POI (heparina com 12 h) Tromboses arteriais e sistêmicas: condições clínicas potencialmente graves que precisam ser diagnosticadas e tratadas prontamente Heparina não fracionada: Dose de ataque: não realizar no período pós-operatório imediato: Tempo de tromboplastina parcial ativada (TTPA) 30 kg e adultos: 80 U/kg) TTPA = 1,2 a 1,5: 50 U/kg TTPA > 1,5: sem dose de ataque Manutenção: Crianças 1 ano: 20 U/kg/h Crianças > 30 kg e adultos: 18 U/kg/h Solução padrão: 5 mℓ de heparina/250 mℓ, solução fisiológica a 0,9% (100 U heparina/mℓ) De modo ideal, deve-se infundir em acesso exclusivo, com troca da solução a cada 24 h. Não deve ser administrada juntamente com soluções que contenham cálcio e sua administração está contraindicada quando o TP > 1,5 e plaquetasdos grandes vasos, atresia tricúspide, Ebstein, hipoplasia de ventrículo esquerdo, atresia e estenose pulmonar com ou sem CIV, Fallot grave, insuficiência tricúspide, coarctação de aorta crítica Efeitos colaterais: apneia, hiperpirexia, bradicardia e hipotensão Dose: 0,05 a 0,1 mg/kg/min Apresentação: frascos de 500 mg/mℓ. ______________ *PAS: ≤ 1 mês = 60 mmHg; 20 mEq/ℓ), bem como a osmolalidade urinária (> 100 a 150 mOsm/kg) e o débito urinário. O tratamento consiste na reposição volêmica com solução salina a 0,9%. Síndrome da secreção inapropriada do ADH (SIHAD). Ocorre por aumento da secreção do ADH na ausência de estímulo fisiológico, ocasionando hiponatremia por retenção hídrica, porém com Na+ corporal total normal. Caracteriza-se por hiponatremia (Na+ 30 mEq/ℓ) e osmolalidade urinária também elevada (> 200 mOsm/kg), associados a redução do débito urinário. As funções renal, tireoidiana e adrenal estão normais e não há associação com distúrbio do potássio. A SIHAD pode ser causada por distúrbios no SNC (neoplasias, processos infecciosos, síndrome de Guillain-Barré, convulsões, TCE, hipertensão intracraniana); distúrbios respiratórios (todos os processos infecciosos e lesões cavitárias pulmonares); secreção ectópica de ADH (tumores cerebrais, uso de medicamentos como morfina, paracetamol e indometacina e condições pós- operatórias). A terapêutica consiste em tratar a causa básica quando possível, além de restrição hídrica (40 a 50% das necessidades basais) associada ao uso de furosemida 1 a 2 mg/kg/dose. No caso de hiponatremia sintomática, iniciar reposição com solução salina a 3%. Nos casos agudos e em paciente sintomático grave, infundirsolução na velocidade de 4 a 5 mℓ/kg/h, por até 2 h. Deve-se repetir a dosagem sérica de Na+ 1 h após início da reposição e reavaliar recalculando o déficit. O Na+ plasmático não deve aumentar mais que 12 mEq/ ℓ em 24 h pelo risco de desmielinização osmótica da ponte. Para pacientes com hiponatremia, a manutenção hídrica deve ser realizada com solução isotônica: lactato de Ringer (RL) ou solução salina a 0,9% (SF 0,9%). Glicose pode ser acrescentada na concentração de 5% se houver risco de hipoglicemia. Isso fica bem explicado no exemplo prático a seguir. Exemplo prático. Criança pesando 10 kg. Soro de manutenção: 100 mℓ/kg = 1.000 mℓ na forma de SF 0,9% ou RL. Se houver risco de hipoglicemia, acrescentar glicose a 5%, ou seja, 5 g de glicose para cada 100 mℓ de solução; neste caso 50 g, pois temos 1.000 mℓ de solução. Assim, a prescrição seria: RL – 900 mℓ; glicose a 50% – 100 mℓ. Complicação Pode ocorrer síndrome de desmielinização osmótica. A correção rápida da hiponatremia (> 12 mEq/ ℓ /dia) causa lesões difusas na ponte e nas regiões extrapontinas, com aumento da morbimortalidade. O quadro surge poucos dias após a correção rápida do Na+, com deterioração clínica neurológica progressiva e muitas vezes irreversível. O diagnóstico pode ser feito por tomografia computadorizada ou ressonância magnética de crânio, que mostram lesões • • • • • • ∘ desmielinizantes que podem surgir até 4 semanas após os primeiros sintomas. Não há tratamento específico. ▶ Hipernatremia Definida como Na+ sérico maior que 150 mEq/ ℓ . Considerada grave quando maior que 160 mEq/ℓ. Pode ser aguda, quando se instala em menos de 48 h, ou crônica. Classificação Hipernatremia hipovolêmica: ocorre devido a balanço hídrico negativo, perda de água livre, hipodipsia, diabetes melito, diabetes insípido (DI) (ver, adiante, boxe Diabetes insípido) diuréticos, enemas hipertônicos, diálise com soluções hipertônicas Hipernatremia euvolêmica: condição rara que ocorre em pacientes com distúrbios hipotalâmicos ou com hipodipsia grave. A natremia é cronicamente elevada e, em geral, os pacientes são assintomáticos. Exercícios físicos, rabdomiólise e convulsões podem causar hipernatremia transitória, que se resolve após 15 min do estresse Hipernatremia hipervolêmica: o excesso de Na+ expande-se para o CEC, apresentando sinais de hipervolemia, como edema, taquicardia e hipertensão arterial. Pode ocorrer por sobrecarga de Na+, geralmente iatrogênica e resolver-se espontaneamente se a função renal for normal. Ocorre ainda no hiperaldosteronismo primário e na síndrome de Cushing. Quadro clínico O quadro clínico irá depender do estado volêmico do paciente, bem como da velocidade de instalação dessa condição e dos níveis séricos do Na+. Pode haver irritabilidade, hiper-reflexia, tremores, tetania, convulsões, coma, congestão sistêmica, hemorragias intracranianas, arritmias cardíacas. Tratamento Tratar a causa básica Corrigir a volemia Reposição do déficit de água livre (DAC), por meio da fórmula: DAC ( ℓ ) = [(Na+ encontrado/140) – 1] × 0,6 × peso (kg). Resultado em litros ( ℓ ) de SG 5% que deve ser acrescentado ao soro de manutenção para pacientes normovolêmicos. Diabetes insípido • ° ° • ° ° Ocorre por alterações no mecanismo de ação do ADH, com dificuldade dos rins em concentrar a urina quando há aumento efetivo da osmolalidade plasmática, devido a deficiência parcial ou total da liberação de ADH (central) ou pela resposta renal deficiente à ação do ADH (nefrogênico). É caracterizado por poliúria (4 a 5 mℓ/kg/h de débito urinário), osmolalidade e Na+ urinários baixos, osmolalidade sérica elevada. Pode ser classificado em: DI central: Causas: malformações no SNC; pan-hipopituitarismo; encefalopatia hipóxico-isquêmica; TCE; neoplasias cerebrais; cirurgias no SNC; infecções no SNC; doenças granulomatosas e idiopática Tratamento: administração do análogo sintético da desmopressina (DDAVP). Spray intranasal 0,5 mcg (um jato em cada narina), titulando- se doses posteriores de acordo com a resposta individual. Tem efeito rápido, em 1 h, com duração de ação de 6 a 24 h DI nefrogênico: Causas: hereditariedade, ligada ao cromossomo X; hipopotassemia; hipercalcemia; amiloidose; uso de fármacos como lítio e anfotericina B; doença renal crônica. Não responde à administração de DDAVP Tratamento: o controle é difícil. Restrição de sal associada ao uso de diuréticos tiazídicos (hidroclorotiazida 3 mg/kg/dia) pode reduzir até 40% do débito urinário em crianças. Pode ser necessário associação com diurético poupador de potássio devido à sua espoliação. A correção deve ser programada para 48 a 72 h, com redução lenta do Na+ sérico, no máximo 0,5 a 1 mEq/ℓ/h, até 10 mEq/ℓ nas primeiras 24 h. No caso de hipovolemia ou choque, prioriza-se a homeostase hemodinâmica com infusão de alíquotas de 20 mℓ/kg de solução cristaloide (preferencialmente RL) e, só depois da estabilização hemodinâmica, proceder como descrito. Se confirmada hipervolemia, o uso de diuréticos está indicado. Complicação A redução rápida do Na+ sérico e da osmolalidade do CEC para níveis normais pode causar edema cerebral, com sequelas irreversíveis, convulsão e morte. O tratamento consiste em medidas habituais de redução de edema cerebral, como uso de solução salina a 3% ou manitol e elevação da cabeceira a 30°. Realizar hiperventilação, se desencadeada a síndrome de herniação cerebral. • • • • Distúrbios do potássio Aproximadamente 98% do potássio (K+) total do organismo encontram-se no CIC e 2% no CEC, sendo mensurável no plasma 0,4% do K+ corpóreo total. Esse íon é o principal responsável pela regulação da osmolalidade intracelular. Sua concentração nos compartimentos celulares é de fundamental importância para transmissão neuronal, excitação e contração muscular e contratilidade cardíaca. Os distúrbios do K+ ocorrem por três mecanismos principais: alterações na ingestão; distúrbios na distribuição entre os compartimentos intra e extracelulares; ou alterações na excreção. ▶ Hipopotassemia Definida pela concentração sérica de K+ menor que 3,5 mEq/ ℓ . Considerada grave se menor que 2,5 mEq/ℓ. Causas Oferta inadequada. Pode ser observada em desnutrições crônicas Perdas renais: uso de diuréticos; alguns fármacos (anfotericina B, derivados de penicilina, cisplatina, lítio, corticosteroides); hiperaldosteronismo primário; síndrome de Cushing; acidose tubular renal; cetoacidose diabética; hipercalcemia Perdas pelo trato gastrintestinal (TGI): vômito; diarreia; fístulas; laxativos; síndromes de má absorção; sondagem nasogástrica Redistribuição transcelular (sem redução no K+ corporal total): alcalose; insulina; mineralocorticoides; catecolaminas; medicações β2-adrenérgicas; ingestão excessiva de bário; hipotermia. Quadro clínico Normalmente os sintomas aparecem quando o K+ sérico está abaixo de 2,5 mEq/ ℓ . Pode haver letargia, irritabilidade, confusão, depressão, parestesias, fasciculações, hipotensão postural, palpitação, arritmias cardíacas, náuseas, vômito, distensão abdominal, íleo paralítico, poliúria, polidipsia. No eletrocardiograma (ECG) há tipicamente redução de amplitude das ondas T, depressão dos segmentos ST, prolongamento do intervalo PR, inversão de onda T e aparecimento de ondas U. Tratamento Após medidas iniciais de estabilização clínica, a reposição é realizada de acordo com a gravidade. Recomendam-se reposição com citrato de potássio a pacientes com hipopotassemia associada a acidose e reposição com fosfato de • • • • • • potássio nos pacientes com hipofosfatemia associada. O tratamento deve ser instituído como a seguir: Hipopotassemia leve (K+ entre 2,5 e 3,5 mEq/ℓ): reposição oral com xarope de KCl a 6% (1 mℓ = 0,8 mEq de K+) ou comprimido 600 mg (1 cp = 8 mEq de K+). Dose: 2 a 4 mEq/kg/dia Hipopotassemia moderada ou grave (K+infusão máxima de 0,5 a 1 mEq/kg/h, dependendo da gravidade dos sintomas. Repetir dosagem sérica em no máximo 6 h. ▶ Hiperpotassemia Definida como concentração sérica de K+ maior que 5 mEq/ℓ. Causas Pseudo-hiperpotassemia pode ocorrer após punção venosa traumática, hemólise in vitro, uso de torniquetes ou em pacientes com leucocitose ou plaquetose graves Aumento da carga total de K+: insuficiência renal, insuficiência adrenal, uso de IECA (inibidores de enzima de conversão de angiotensina), espironolactona, heparina, ciclosporina, suplementos orais ou parenterais, queimaduras, rabdomiólise, lise tumoral Deslocamento transcelular de K+: acidose, deficiência de insulina, dose excessiva de digoxina, uso de bloqueador neuromuscular despolarizante (succinilcolina). Quadro clínico Podem ocorrer cãibras, parestesia, paralisia, tetania, déficits neurológicos focais. Os achados mais comuns são anormalidades eletrocardiográficas e geralmente aparecem quando o K+ está maior que 7 mEq/ℓ: inicialmente a onda T aparece simétrica e em pico com prolongamento do intervalo PR, evolui para ausência de onda P e alargamento progressivo do intervalo QRS até fibrilação ventricular e assistolia. Tratamento O tratamento inclui estabilização clínica e tratamento específico das arritmias, bem como da causa base do distúrbio do potássio. Deve-se realizar exame eletrocardiográfico. Suspender qualquer oferta de K+ exógena. O tratamento deve ser instituído como a seguir: Hiperpotassemia leve (K+ 5 a 6 mEq/ℓ, ECG normal): ∘ • • • • • • • Furosemida (1 mg/kg/dose) Hiperpotassemia moderada (K+ 6 a 8 mEq/ℓ) a grave (K+ > 8 mEq/ℓ) ▶ Estabilização da membrana celular Gluconato de cálcio a 10%, por via intravenosa (IV), de 0,5 a 1,0 m ℓ /kg, com velocidade de infusão máxima de 0,5 mℓ/kg/min (adultos: 10 a 20 mℓ IV em 2 a 5 min), com monitoramento eletrocardiográfico contínuo. Início de ação imediata. O efeito é transitório, cerca de 30 a 60 min. ▶ Redistribuição do potássio Bicarbonato de sódio IV 1 a 2 mEq/kg em 5 min, repetir se nenhum efeito for evidenciado. Início de ação em 30 min, com duração de 2 h Solução polarizante: 0,5 a 1 g/kg de glicose com insulina na dose de 1 U/4 g de glicose por 15 a 30 min, com início de ação em 30 min e duração do efeito por 4 a 6 h (adultos: 10 U + 50 mℓ de SG 50% IV em 5 min) β2-agonista: 4 mg/kg IV em 20 min ou 10 gotas (gts) por via inalatória se 25 kg. ▶ Remoção do potássio corporal Furosemida: 1 mg/kg/dose Resinas trocadoras de potássio: Poliestireno de cálcio (Sorcal®) – dose por via oral (VO) de 1 a 2 g/kg a cada 6 h em solução glicosada a 10% (3 mℓ para cada g de resina); a dose por via retal (VR) é a mesma, com diluição em solução glicosada a 20% (5 m ℓ para cada g de resina), com 1 a 2 h de retenção (adultos: 20 a 50 g VO a cada 4 ou 6 h; ou 50 g + 200 mℓ de SG 5% VR em 1 h) Métodos dialíticos. O Quadro 16.2 resume as principais medidas farmacológicas para tratamento da hiperpotassemia, bem como início de ação e duração do efeito destas. Distúrbios do cálcio O cálcio (Ca+) intracelular é responsável por diversas reações enzimáticas, como contratilidade muscular e cardíaca, neurotransmissão, crescimento e reprodução celular, secreção glandular, ativação enzimática, agregação plaquetária e função imune. A maior parte do Ca+ corporal total está na forma mineral, nos ossos. Cerca de 1% distribui-se em três frações plasmáticas: 50% ligado à albumina, 10% em complexos aniônicos séricos e 40% em sua fração ativada ionizada (Cai). O nível de calcemia no sangue depende da vitamina D, do paratormônio e da calcitonina. Alterações no equilíbrio acidobásico influenciam a taxa de Cai, sem alterar o nível de cálcio total. A alcalose aumenta a ligação de cálcio livre à albumina, podendo provocar sintomas de hipocalcemia. A acidose tem efeito inverso. A hipoalbuminemia altera a dosagem de cálcio total, sem afetar o Cai. Para efetuar a correção desse viés, para cada alteração de 1 g/dℓ de albumina, deve-se corrigir o Ca+ sérico total em 0,8 mg/dℓ. QUADRO 16.2 Principais medidas farmacológicas para tratamento da hiperpotassemia. Fármaco Mecanismo Dose Início da ação Duração da ação Observações Gluconato de cálcio a 10% Estabilização de membrana 0,5 a 1,0 mℓ/kg (máx. 10 mℓ = 1 amp.) Imediato Minutos Infundir IV em 5 a 10 min, com monitoramento cardíaco β2-agonista Translocação de K+ para intracelular 4 mg/kg em 20 min IV OU 2,5 mg (10 gts) por inalação para menores de 25 kg e 5,0 mg (20 gts) para maiores de 25 kg 15 a 30 min 4 a 6 h Infundir IV em 20 min Nebulização em 10 a 15 min HCO3 – (se houver acidose metabólica) Translocação de K+ para intracelular 1 a 2 mEq/kg 15 a 30 min 1 a 4 h Infundir IV em 10 a 30 min Solução polarizante Translocação de K+ para intracelular Glicose 1 a 2 g/kg 15 a 30 min 4 a 6 h Infusão em 30 min Insulina 0,3 U/g glicose Monitorar glicemia Resina de troca iônica (Sorcal®) Troca/remoção 1 a 2 g/kg 1 a 2 h 4 a 6 h VO/VG/VR Diluído em SG 10%, 2 a 4 mℓ/g de resina, com 1 a 2 h de retenção, a cada 6 h Furosemida Excreção 1 mg/kg/dose 15 a 30 min 4 a 6 h IV IV = via intravenosa; VG = via gástrica; VO = via oral; VR = via retal ; SG = soro glicosado; min = minuto(s); h = hora(s). ▶ Hipocalcemia Definida como Ca+ sérico menor que 6 mg/d ℓ no recém-nascido prematuro, 7 mg/d ℓ no recém-nascido a termo e 8 mg/d ℓ em lactentes e crianças com peso acima de 30 kg; ou como Cai menor que 1 mEq/ℓ (valor de referência normal do Cai = 1,0 a 1,3 mEq/ℓ). Causas As causas mais frequentes em UTI são sepse, queimaduras, hemotransfusões (pela presença do citrato), pós-operatórios, distúrbios do magnésio, pancreatite, hipoalbuminemia, má absorção, medicações (fenobarbital, difenil-hidantoína, aminoglicosídios, furosemida, correção rápida de acidose), lise tumoral, falência renal, alcalose. Quadro clínico As manifestações clínicas relacionam-se ao nível sérico do Ca+ e também à velocidade de queda na sua concentração. São predominantemente neuromusculares e cardiovasculares e podem incluir fraqueza, espasmos musculares, clônus, parestesia, sinais de Chvostek e Trousseau, hiper-reflexia e convulsões. Os sintomas cardíacos podem se manifestar com prolongamento do intervalo QT e bloqueios, bradicardias, hipotensão, e até parada cardiorrespiratória (PCR). Pode haver ainda bronco e laringospasmo. Resposta inadequada a fármacos que agem por meio de mecanismos dependentes do cálcio, como as substâncias vasoativas, também pode ocorrer. • • • • • • Tratamento Em assintomáticos: não é necessário dose de ataque. Manter reposição IV com gluconato de cálcio a 10% na dose de 4 a 8 mℓ/kg/dia (máx. 60 mℓ/dia), por 3 a 4 dias Em sintomáticos: infusão IV de ataque, lenta, com monitoramento de ECG e acesso venoso bem assegurado. Gluconato de cálcio a 10% 1 mℓ/kg/dose na velocidade de 0,5 mℓ/kg/min (adultos: 100 a 300 mg de Ca elementar em 5 a 10 min). Após a correção rápida, realizar correção lenta ao longo das 24 h seguintes, com 2 a 4 mℓ/kg/dia de gluconato de cálcio a 10% Em hipocalcêmicos crônicos: manutenção VO 500 a 1.000 mg/m2 de superfície corporal/dia de Ca+ elementar; carbonato de Ca+ (1 g = 400 mg de Ca+ elementar). Gluconato de cálcio a 10% (1 g = 90 mg Ca+ elementar = 4,5 mEq = 10 mℓ). ▶ Hipercalcemia Definida como Ca+ sérico total maior que 10,5 mg/dℓ ou Cai > 2,7 mEq/ℓ. Causas As principais causas são hiperparatireoidismo, hipertireoidismo, insuficiência adrenal, doenças neoplásicas, fármacos (tiazídicos, vitaminas D e A, antiácidos e lítio), doenças granulomatosas, hemoconcentração. Quadro clínico Sintomas gerais inespecíficos como astenia, anorexia, fadiga, mal-estar. Pode ocorrer acometimento renal (litíase, hematúria, nefrite, poliúria e polidipsia, nefrocalcinose), cardiovascular (hipertensão arterial, arritmias e bradicardia sinusal), gastrintestinal (constipação intestinal, dor abdominal), cutâneo (prurido, calcificação metastática), esquelético (fraturas e dor óssea) e do SNC (transtornos psiquiátricos,coma). Tratamento O tratamento da hipercalcemia inclui: Restauração da volemia e aumento da excreção renal de cálcio: solução salina a 0,9% 10 a 20 m ℓ /kg/h ou 1 ℓ /1,73 m2 de superfície corporal/h + furosemida 1 a 2 mg/kg/dose a cada 2 a 4 h. Monitorar potássio e magnésio Redução da mobilização do cálcio ósseo: calcitonina 4 UI/kg por via intramuscular (IM) ou subcutânea (SC) a cada 12 h Redução da absorção intestinal de cálcio: hidrocortisona 5 mg/kg/dia IV ou prednisolona 1 a 2 mg/kg/dia VO por 2 a 3 dias • • • • • Tratamento da doença de base Correção de distúrbios eletrolíticos associados Fosfato IV ou VO: quelante do cálcio. Contraindicado se houver insuficiência renal ou hiperfosfatemia. Dose: 0,5 a 1,0 m ℓ /kg de fosfato monoácido de cálcio a 25% (contém 2 mEq/mℓ de potássio) por 24 h. Distúrbios do magnésio O magnésio (Mg+) é um íon intracelular e cofator de diversas reações enzimáticas, como a manutenção do transporte de Na+ e K+ através da membrana celular e da síntese proteica. Participa da neurotransmissão, excitabilidade cardíaca e da contração muscular. Paratormônio, vitamina D, equilíbrio acidobásico e volemia influenciam na magnesemia. ▶ Hipomagnesemia Definida quando valor sérico de Mg+ for menor que 1,8 mg/dℓ. Causas As principais causas são desnutrição, síndromes de má absorção, pancreatite aguda, diabetes melito, cetoacidose diabética, fármacos (tiazídicos, β2-agonistas, ciclosporina, anfotericina B, aminoglicosídios), insuficiência renal, hipercalcemia, hipofosfatemia, hipervolemia, hiperaldosteronismo, hipertireoidismo, hemotransfusões. Quadro clínico O quadro clínico da hipomagnesemia assemelha-se ao da hipocalcemia. Podem ocorrer arritmias cardíacas, aumento da sensibilidade à intoxicação digitálica, hipertensão arterial, convulsões, hiper-reflexia, agitação e coma. Tratamento Em assintomáticos: reposição oral com aumento da oferta na dieta Em sintomáticos ou causada por má absorção: reposição IV de sulfato de magnésio a 10% na dose de 0,2 mEq/kg a cada 6 h (1 m ℓ = 0,8 mEq). Adultos: 50 mEq de Mg IV em 8 a 24 h; se arritmias – 8 a 16 mEq em 5 min, seguidos de 8 a 16 mEq em 2 h e depois manter infusão de 4 a 8 mEq/dia. Monitorar o nível sérico de Mg+ e a função renal do paciente. ▶ Hipermagnesemia Definida quando o nível sérico de Mg+ for maior que 3 mg/dℓ. • • Causas Podem causar hipermagnesemia: insuficiência renal aguda ou crônica; iatrogenia (doses excessivas no tratamento da hipomagnesemia, pré-eclâmpsia, eclâmpsia); insuficiência adrenal, hiperparatireoidismo, hipotireoidismo, lise tumoral, rabdomiólise. Quadro clínico As manifestações clínicas relacionam-se com os níveis séricos do Mg+ e podem incluir hiporreflexia, hipotonia muscular, depressão respiratória, sonolência, alterações no ECG (aumento do intervalo PR, alargamento de QRS, aumento da amplitude de onda T), hipotensão arterial e PCR. Tratamento O tratamento baseia-se em estimular a perda renal de magnésio por meio de hidratação e diurese. Deve-se interromper qualquer administração de magnésio. O tratamento deve ser instituído como a seguir: Paciente estável, com reflexos preservados: observação rigorosa e manutenção de débito urinário Paciente instável ou com hiporreflexia: gluconato de cálcio a 10% 0,5 mℓ/kg IV (adultos: 5 a 10 mEq IV lento). Considerar diurético de alça ou diálise (se sintomas persistirem, havendo insuficiência renal ou superdosagem). Distúrbios do fósforo O fósforo (P+) exerce papel importante na produção de energia celular (ATP), na estrutura da membrana celular e de suas funções, na mineralização óssea e excreção ácida renal. Expansões de volume aumentam a excreção renal desse íon, bem como corticosteroides e vitamina D. Níveis séricos normais estão entre 2,7 e 4,5 mg/dℓ. ▶ Hipofosfatemia Definida como nível sérico menor que 2,5 mg/d ℓ e considerada grave quando inferior a 1,5 mg/dℓ. Causas As principais causas de hipofosfatemia são desnutrição crônica, alcalose respiratória, nutrição parenteral, cetoacidose diabética, queimadura extensa, intoxicação alcóolica e substâncias que reduzam a reabsorção intestinal de fósforo (hidróxido de alumínio ou de magnésio). • • Quadro clínico Todos os órgãos e sistemas podem ser afetados pela hipofosfatemia grave, porém a disfunção do sistema respiratório é o que requer mais atenção, estando inclusive relacionada a dificuldade de extubação de pacientes críticos por associar-se a debilidade do drive respiratório. Tratamento Deve-se realizar reposição quando nível sérico de P+ for menor que 2,5 mg/dℓ. Para pacientes que não tolerem ou tenham contraindicação para receber medicação VO, a reposição deve ser feita por via intravenosa. Quadros agudos e assintomáticos: 0,08 mEq/kg (2,5 mg/kg) Quadros crônicos ou de múltiplas causas ou sintomáticos: 0,16 mEq/kg (5 mg/kg). Deve-se diluir em solução salina e infundir em 6 h. Atentar para velocidade de infusão na administração do fosfato de potássio (máximo 0,5 mEq/kg/h). Deve-se ter cautela em pacientes com disfunção renal, que não estão em terapia de substituição renal, sendo que nesses casos recomenda-se administrar menos de 50% da dose empírica. 1 mℓ de fosfato de potássio = 2 mEq = 46 mg de de P+ e de K+. ▶ Hiperfosfatemia Definida como nível sérico maior que 4,5 mg/d ℓ . Deve-se ter cautela na interpretação dos valores séricos do P+ uma vez que não se pode relacioná-los com as reservas corporais totais. Causas Insuficiência renal, lise tumoral, infusão rápida de fosfato de potássio e uso de enemas de fosfato de sódio. Quadro clínico As principais manifestações da hiperfosfatemia estão relacionadas com hipocalcemia e incluem crises convulsivas, coma, arritmia cardíaca e PCR. A hiperfosfatemia prolongada está associada a depósito tecidual de fosfato de cálcio. Tratamento • • • • ∘ O tratamento da hiperfosfatemia exige identificação e correção da causa subjacente. Deve-se suspender ou ajustar a oferta de P+ exógeno. Quelantes orais de fosfato como hidróxido de alumínio e hidróxido de magnésio podem ser usados com cautela, principalmente em pacientes com insuficiência renal devido ao risco de toxicidade por estas substâncias. Sais de cálcio são preferíveis nessas situações. O sevelâmer (quelante que impede a absorção intestinal do fosfato) é reservado para casos de hiperfosfatemia associada a hipercalcemia em insuficiência renal crônica ou hiperfosfatemia refratária a outras medidas. É possível também recorrer a métodos dialíticos. Outros distúrbios eletrolíticos relacionados devem ser corrigidos. Distúrbios do equilíbrio acidobásico Os distúrbios do equilíbrio acidobásico são extremamente comuns na rotina das UTI, qualquer que seja a doença de base. A homeostase acidobásica é mantida pela integração de pulmões, rins e fígado em conjunto com os tampões fisiológicos que, em situações normais, mantêm o pH do sangue em níveis compatíveis com os processos vitais. ▶ Acidose metabólica Definida como acidemia desenvolvida por aumento na concentração de íons hidrogênio (H+) e redução na concentração de bicarbonato (HCO3 –). Mecanismos Perda de bases pelo TGI ou rins Aumento da produção ou da ingestão ácida Redução da excreção renal de ácidos. Classificação e etiologia É baseada no cálculo do anion gap (AG) ou intervalo aniônico, por meio da fórmula: AG (12 ± 2) = Na+ – (Cl– + HCO3 –) Assim, o cálculo do AG diferencia dois grupos de acidose metabólica: hiperclorêmica (AG normal) e normoclorêmica (AG aumentado), em que: AG normal (hiperclorêmica) Perda de HCO3 – pelo TGI: diarreia, fístula ou drenagem de intestino delgado ou de pâncreas, condutos ureteroentéricos ∘ ∘ • ∘ ∘ ∘ ∘ • Perda renal de HCO3 – : acidose tubular renal (tipos I, II e IV), fase precoce da insuficiência renal aguda, inibidores de aldosterona, deficiência de mineralocorticoides Outros: hiperalimentação, acidose dilucional (administração de solução salina), hiperparatireoidismo, ingestão de compostos contendo cloro AG aumentado (normoclorêmica) Aumento da produção de ácido acetoacéticoa medida direta da saturação venosa de oxigênio em veia cava superior. Utilizada em algoritmos de condução do choque séptico, melhorou a evolução destes pacientes quando mantida acima de 70%. A estimativa do débito cardíaco por meio da medida da saturação venosa central de oxigênio não é fidedigna em situações como: cardiopatia congênita (shunt intracardíaco), hiperoxia, hemoglobina baixa e síndrome do desconforto respiratório agudo (hipoxemia permissiva). Lactato sérico O lactato é produto do metabolismo quando há hipoperfusão tecidual por hipoxia e/ou aumento do consumo de energia. Assim, o seu aumento sérico demonstra desequilíbrio entre a oferta e o consumo de oxigênio pelos tecidos. Para a medida adequada, a coleta deve ser realizada no vaso arterial ou venoso misto; valores acima de 4 mmol/ ℓ são considerados aumentados. Sua análise é limitada nos pacientes com hepatopatia ou disfunção na enzima piruvato desidrogenase. A medida do lactato tem relevância no diagnóstico de hipoperfusão tecidual e no monitoramento da resposta ao tratamento empregado. Sua elevação está associada a altas taxas de mortalidade e de disfunção orgânica. Definição Conjunto de métodos empregados para identificar precocemente alterações funcionais do sistema respiratório, visando adequar as necessidades do paciente ao suporte respiratório adequado e prevenir possíveis complicações. O melhor monitoramento respiratório é o que permite ao médico mensurar as capacidades de ventilação e oxigenação. Serão abordadas duas áreas principais de monitoramento da ventilação mecânica: evolução das trocas gasosas e mecânica respiratória. Evolução das trocas gasosas ▶ Gasometria arterial A determinação mais acurada das trocas gasosas é a mensuração direta pela gasometria em amostra de sangue arterial. Avaliam-se diretamente a pressão arterial de gás carbônico (PaCO2 ), a pressão arterial de oxigênio (PaO2 ) e o potencial hidrogeniônico (pH) arterial. Além disso, outros valores diretos são obtidos como carboxi- hemoglobina, meta-hemoglobina e, indiretamente, a partir do pH e da PaCO2 , calculam-se a diferença de base, o bicarbonato (HCO3) e o CO2 total. Estima-se que, para cada aumento de 10 mmHg na PaCO2 , ocorra redução de 0,075 ou 0,0025 no pH de pacientes com insuficiência respiratória aguda ou crônica, respectivamente. Do mesmo modo, para cada aumento de 10 mEq/ ℓ no HCO3 há elevação de 0,15 ou 0,03 no pH para insuficiência respiratória aguda ou crônica, respectivamente. Em condições ideais, os pacientes com uma PaO2 de 100 mmHg apresentam a maior parte do O2 quimicamente ligado à hemoglobina (Hb), com saturação de 97,5%, sendo que 1 g de hemoglobina totalmente saturada com O2 tem capacidade de transportar 1,39 m ℓ de O2 e, em 100 m ℓ de plasma, apenas 0,003 m ℓ de O2 está dissolvido. A curva de dissociação de hemoglobina (Figura 2.1) em PaO2 elevada é horizontalizada e apresenta dificuldade em detectar shunt pouco significativo com fração inspirada de oxigênio (FIO2 ) a 100%. A posição da curva varia em função da pressão arterial de gás carbônico e de outros fatores que aumentam a afinidade da hemoglobina (desvio para a esquerda), como alcalose metabólica e respiratória, hipotermia ou elevação da 2,3-difosfoglicerato (2,3- DPG), que estabiliza a forma reduzida da Hb. A PaO2 acima de 60 mmHg implica, de acordo com a curva de dissociação de hemoglobina, saturação de oxigênio (SatO2 ) superior a 91%. • • • FIGURA 2.1 Curva de dissociação de hemoglobina. Assim, se a taxa de hemoglobina for normal, tem-se o conteúdo arterial de O2 (CaO2 ) adequado, correspondente à quantidade real deste gás transportado pelo sangue aos tecidos (DO2 ) por meio do débito cardíaco (DC). DO2 = CaO2 × DC CaO2 = [Hb × SatO2 × 1,39] + [0,0031 × PaO2 ] ▶ Indicadores de oxigenação Relação PaO2 /FIO2 Relação PaO2 /FIO2 (ou índice de Horowitz): valor normal > 300. Possibilita classificar o grau de shunt intrapulmonar em (Figura 2.2): Shunt leve: 300) Shunt moderado: entre 15 e 25% do DC (relação PaO2 /FIO2 de 300 a 200) Shunt grave: > 25% do DC (relação PaO2 /FIO2 264. Oximetria de pulso Baseia-se na curva de dissociação da oxi-hemoglobina, possibilitando seu monitoramento contínuo, não invasivo e de custo cada vez menor, em que se estima a oxi-hemoglobina com expressão da porcentagem da hemoglobina total. A maioria dos oxímetros, em circunstâncias ideais, mede os valores com margem de erro de 2% da saturação arterial de oxigênio. A oximetria de pulso apresenta excelente correlação com os resultados obtidos por meio da gasometria arterial. Considera-se que os pacientes que apresentem SatO2 de 94 a 95% estejam com a PaO2 acima de 60 mmHg e, por conseguinte, sem hipoxemia. Esse método, no entanto, apresenta alguns problemas e limitações, como a baixa acurácia, quando a saturação for abaixo de 75 a 80%, a incapacidade de detecção da hiperoxigenação e a dependência da curva de dissociação de hemoglobina. Descrevem-se alguns fatores de alteração na aferição dos valores, como: Baixa detecção do sinal: mau posicionamento do probe, movimentação, hipotermia, ausência de pulso, vasoconstrição, hipotensão e pele escura Valores falsamente baixos:e beta-hidroxibutírico: cetoacidose diabética, jejum prolongado, intoxicação por etanol Aumento da produção de ácido láctico: hipoxia tecidual, exercício muscular, erros inatos do metabolismo (carboidratos, aminoácidos e ciclo da ureia), doenças sistêmicas (leucemia, cirrose hepática, pancreatite) Diminuição da excreção ácida: insuficiência renal aguda e crônica Intoxicações: salicilatos, anti-inflamatórios não hormonais, isoniazida, ferro. A resposta compensatória à acidose metabólica é a hiperventilação. O valor da pressão arterial de gás carbônico (PaCO2 ) esperada para tal compensação pode ser calculado: PaCO2 = [(1,5 × HCO3 –) + 8] ± 2. Tratamento Inicialmente visa à correção das alterações homeostáticas e ao controle do mecanismo responsável pela acidose. Atenção. A infusão de HCO3 – pode causar efeitos colaterais como hipopotassemia, hipocalcemia, hipernatremia, sobrecarga fluídica, hiperosmolaridade, acidose paradoxal do SNC resultando em hiperventilação e alcalose respiratória, alcalemia sobreposta com desvio da curva de dissociação da oxi-hemoglobina para a esquerda e consequente redução da oferta de oxigênio aos tecidos. A indicação de reposição de HCO3 – fica restrita a situações em que o pH for menor que 7,1 e/ou HCO3 – sérico for menor que 10 mEq/ ℓ , particularmente se o mecanismo da acidose for a perda direta de HCO3 – (AG normal). Utiliza-se a fórmula: HCO3 – (mEq) = (15 – HCO3 – encontrado) × 0,3 × peso (kg). Diluir a quantidade encontrada em água destilada na relação de 1:3 e infundir em 1 a 2 h, com controle gasométrico posterior. Na PCR, o uso rotineiro de bicarbonato de sódio não é recomendado. Considerar o uso quando a duração da PCR for maior que 30 min e utilizar sempre que esta for causada por hiperpotassemia. Nessas situações a dose recomendada é 1 mEq/kg (solução 8,4% = 1 mEq/m ℓ ) IV ou IO, em bolo, diluído 1:1 em AD • • • • • • • • • • Na cetoacidose diabética é indicada reposição apenas se pH menor que 6,9, HCO3 – menor que 5 ou com hiperpotassemia grave. ▶ Alcalose metabólica Definida como alcalemia secundária a aumento na concentração de HCO3 – plasmático e consequente queda na concentração plasmática de íons H+ e aumento do pH sistêmico. Etiologia Administração de substâncias alcalinas ou precursores: bicarbonato, citrato, acetato Perda de íons H+: vômito, sondagem gástrica em drenagem, estenose hipertrófica de piloro, cloridrorreia congênita, fibrose cística Alteração na excreção renal de H+: uso de diuréticos, aumento de renina Aumento da atividade mineralocorticoide: hiperaldosteronismo primário, síndrome de Cushing Hipoparatireoidismo. Classificação Alcalose metabólica salino (cloreto)-responsiva: caracterizada por perda de cloreto, ocasionando estados de contração volumétrica e de urina virtualmente livres de cloreto (cloro urinário 10 mEq/ ℓ e, em geral, são hipertensos. Tratamento Envolve a restauração da volemia nos casos cloreto-sensíveis, e visa à correção da excreção urinária de HCO3 – por meio da infusão de solução salina ou cloreto de potássio. Cloreto-responsivo: oferta salina (NaCl 0,9% 20 mℓ/kg em bolo) Cloreto-resistente: tratar quando possível a causa do excesso mineralocorticoide, reduzir essa atividade por meio de antagonistas de aldosterona e corrigir os distúrbios eletrolíticos. ▶ Acidose respiratória • • • • • Definida como a acidemia secundária à retenção pulmonar de gás carbônico (CO2), resultante de hipoventilação. Na acidose respiratória aguda ocorre aumento de 1 mEq/ ℓ de bicarbonato para cada 10 mmHg acima do normal da PaCO2 . Na acidose crônica ocorre aumento de 4 mEq/ℓ de bicarbonato para cada 10 mmHg acima do normal da PaCO2 . Etiologia Doenças das vias respiratórias superiores: crupe, edema de glote por anafilaxia, aspiração de corpo estranho Doenças das vias respiratórias inferiores: pneumonia, edema pulmonar, síndrome do desconforto respiratório agudo, asma, bronquiolite Doenças musculoesqueléticas: cifoescoliose, tórax instável, poliomielite, síndrome de Guillain-Barré, miastenia gravis, distrofias musculares Doenças que acometem o SNC: encefalites, TCE, depressão do SNC por substâncias (sedativos, etanol, anticonvulsivantes) Outros: obesidade extrema, síndrome de Prader-Willi. Quadro clínico O quadro clínico dependerá da gravidade e da cronicidade do processo de instalação da acidose, com manifestações primordialmente neurológicas, que podem incluir: narcose (cefaleia, tremor, borramento visual, sonolência e coma), sinais de hipertensão intracraniana por vasodilatação cerebral. Pode haver sinais de hipertensão pulmonar aguda. Tratamento Tratar as causas de base e adequar a ventilação, reduzindo a PaCO2 até que o pH esteja em uma faixa aceitável (≥ 7,1). A utilização de ventilação mecânica é bastante efetiva, principalmente nos casos agudos. Nos processos pulmonares crônicos, a redução deve ser cautelosa, bem como a oferta de oxigênio. ▶ Alcalose respiratória Definida por alcalemia secundária a redução da PaCO2 decorrente do aumento da ventilação pulmonar por minuto. Na alcalose respiratória aguda ocorre queda de 2 mEq/ℓ de bicarbonato para cada 10 mmHg de redução da PaCO2 . Na alcalose respiratória crônica ocorre queda de 5 mEq/ℓ de bicarbonato para cada 10 mmHg de redução da PaCO2 . • • • • • Etiologia Qualquer mecanismo que provoque aumento na frequência respiratória: Estímulo do SNC: ansiedade, tumor, trauma, febre, algumas substâncias (salicilatos, cafeína, vasopressores, tiroxina), dor, hipertireoidismo Pulmonar: hipoxemia, pneumonia, embolia, edema, asma e bronquiolite em fase inicial Hepática: encefalopatia hepática Iatrogênica: ventilação pulmonar com volume-minuto excessivo. Tratamento Deve corrigir o distúrbio de base. Nos pacientes em ventilação mecânica, reduzir o volume-minuto. Analgesia e sedação também são estratégias que podem diminuir a hiperventilação. ▶ Distúrbios mistos Mais de um distúrbio acidobásico pode ocorrer simultaneamente, e a abordagem deve considerar o histórico do paciente e os mecanismos possíveis para causa do distúrbio. Devem-se avaliar os dados gasométricos e utilizar-se dos cálculos pelas fórmulas de compensação. O distúrbio primário é orientado pelo pH (pH > 7,4 – alcalose é o distúrbio primário; pH 30 mEq/ℓ indica alcalose metabólica • • • • • • Diferença de AG e bicarbonato encontradopresença de esmalte na unha, luz ambiente, hiperlipemia, azul de metileno e anemia • Valores falsamente elevados: elevação de carboxi-hemoglobina ou meta-hemoglobina, luz ambiente e hipotermia. A Associação de Medicina Intensiva Brasileira considera a oximetria de pulso essencial para o monitoramento de todos os pacientes que recebem suplementação de O2. ▶ Indicadores de ventilação Índice ventilatório O índice ventilatório (IV) está diretamente relacionado com a PaCO2 . Quanto pior a ventilação, maior é a PaCO2 , significando hipoventilação, e vice-versa. É expresso pela fórmula: IV = PIP × FRmec × PaCO2 /1.000 Considerando: PIP = pressão de pico inspiratório; FRmec = frequência respiratória do respirador; PaCO2 = pressão arterial de CO2. Índice de respiração rápida superficial O índice de respiração rápida superficial (IRS) indica o grau de dependência do paciente sob ventilação mecânica (VM). É obtido por: IRS = (FR/Vt)/peso Considerando: FR = frequência respiratória do paciente; Vt = volume corrente. Sendo os valores: > 100 = sugestivo de insucesso no desmame da VM; ≥ 60 e ≥ 100 = sugestivo de precaução; 10 a 20 mmHg (normalmentedos alvéolos colapsados, e a determinação do UIP evita ultrapassar o mesmo para impedir hiperdistensão alveolar (Figura 2.7). A forma das curvas de pressão e volume variam de acordo com o modo ventilatório (Figuras 2.8 e 2.9). Quando a fase expiratória é insuficiente para retornar o fluxo para zero, observa-se a presença de PEEP intrínseca. Ocorre devido à limitação do fluxo respiratório e tem como etiologia mais frequente quadros obstrutivos (p. ex., asma, bronquiolite), elevação de valores de frequência respiratória ou Vt e/ou tempo expiratório insuficiente (hiperinsuflação dinâmica) (Figura 2.10). A hiperinsuflação dinâmica pode ocasionar alterações importantes na fisiologia respiratória e na hemodinâmica e, portanto, seu monitoramento é fundamental principalmente para pacientes com quadros obstrutivos graves. Pode-se diagnosticar e monitorar a auto-PEEP a partir de simples oclusão da via expiratória ou, em alguns respiradores que apresentam pausa expiratória, chegar a um equilíbrio entre as pressões alveolar e traqueal e visualizar no ventilador o valor aferido. FIGURA 2.5 Representação esquemática das fases inspiratória e expiratória da curva pressão-volume do sistema respiratório. I = hiperdistensão das fibras colágenas; Pflex = ponto de inflexão da curva pressão-volume; II = retração elástica do tecido pulmonar; III = colapso alveolar progressivo; IV = air-trapping substancial. B. I = expansão do baby-lung; II = recrutamento de novas unidades; III = expansão elástica do tecido pulmonar; IV = hiperdistensão de fibras colágenas. FIGURA 2.6 Curva pressão-volume característica de doença pulmonar restritiva (diminuição da complacência pulmonar). FIGURA 2.7 Representação esquemática de uma curva pressão- volume com destaque para os pontos de inflexão inferior e superior. FIGURA 2.8 Modo ventilatório volume-controlado. O fluxo é tipicamente constante. FIGURA 2.9 Modo pressão-controlado. O fluxo é variável, com subida rápida na fase inspiratória até alcançar o valor de pressão predeterminado com volume secundário à integral do fluxo, tempo inspiratório e complacência, sendo mantida a pressão de platô. O curso da fase expiratória é dependente da resistência do sistema respiratório. FIGURA 2.10 Representação esquemática de curva pressão-fluxo, demonstrando a hiperinsuflação dinâmica e a pressão expiratória final positiva (PEEP) intrínseca. Palv = pressão alveolar; Paw = pressão média das vias respiratórias; Pex = pressão expiratória. Introdução O principal objetivo do suporte nutricional (SN) na unidade de terapia intensiva pediátrica (UTIPED) é minimizar as perdas decorrentes do hipercatabolismo desencadeado por lesão aguda. De fato, é fundamental o fornecimento de energia, proteína e demais nutrientes em quantidade e qualidade adequadas, de maneira que os sistemas orgânicos não fiquem sobrecarregados. Para isso, é essencial: conhecer as principais respostas metabólicas que ocorrem no estado hipercatabólico; avaliar as condições clínicas e nutricionais da criança; definir o tipo de SN (enteral e/ou parenteral); avaliar a eficiência do SN empregado. Metabolismo e estado hipermetabólico Metabolismo é o somatório das reações químicas necessárias para o funcionamento celular. Estado hipercatabólico é a condição clínica traduzida por hipoperfusão e aumento da demanda energética e proteica com uso menos eficiente dos nutrientes, o que resulta na transformação de piruvato em lactato, e deste em glicose (ciclo de Cori), com produção energética de duas moléculas de trifosfato de adenosina (ATP), em detrimento à gerada quando há perfusão e oxigenação adequadas (ciclo de Krebs: fosforilação oxidativa de piruvato para acetilcoenzima A [acetil-CoA]) com a produção de 36 moléculas de ATP. Reação metabólica ao estresse A liberação de mediadores inflamatórios desencadeia resposta hipotalâmico- hipofisária com a participação de hormônios que ocasionam alterações endocrinometabólicas. Há aumento dos hormônios envolvidos no • • • • • • • • catabolismo e diminuição da capacidade de hormônios anabólicos. Assim, haverá alteração na capacidade de atuação da insulina e, consequentemente, menor aproveitamento da glicose, resultando, portanto, em proteólise. Planejamento e tipos de suporte nutricional O planejamento da terapia nutricional é variável de acordo com a situação clínica do paciente, devendo-se considerar: Estado nutricional prévio Tipos de perda de fluido corporal envolvidos (gástrico, duodenal, jejunal, ileal), bem como sudorese, vômito, hemodiluição, terapia de substituição renal contínua e baixa ingestão de nutrientes Tipo de medicação recebida (p. ex., catecolaminas aumentam o consumo de calorias em 4 e 29% [dopamina e epinefrina, respectivamente]; sedação, analgesia e uso de relaxantes musculares podem diminuir o consumo energético em até 66%) Disfunção de órgãos associados Estimativa da oferta hídrica e calórica necessária: os principais componentes do gasto energético (GE) na criança são o metabolismo basal, o crescimento e a atividade física. Durante o estresse metabólico, estão suprimidos os gastos referentes aos dois últimos itens, os quais, associados à sedação, reduzem o gasto energético basal (GEB), não havendo a necessidade de adicionar o fator de estresse na faixa etária pediátrica Necessidades energéticas: inicialmente 55 kcal/kg/dia, em lactentes e crianças, e 21 a 30 kcal/kg/dia, em adolescentes e adultos. Na fase de recuperação nutricional, aumente gradativamente a quantidade calórica de acordo com a faixa etária (Quadros 3.1 e 3.2) Definição do momento de introdução do SN: nunca inicie nutrição de qualquer tipo se houver instabilidade hemodinâmica. Caso o paciente mantenha boa perfusão sistêmica, com ou sem substâncias vasoativas, este é o momento de iniciar a nutrição Determinação da via de administração: a prioridade é a via enteral. A via parenteral deverá ser utilizada somente quando houver contraindicação para a via enteral, quando ocorrer intolerância à mesma (diarreia, gastroparesia, distensão) ou quando houver necessidade de SN misto para alcançar os níveis nutricionais desejados. • ∘ ∘ ∘ ∘ ∘ ∘ Tipos de suporte nutricional ▶ Nutrição enteral Vantagens da nutrição enteral Utilização de processos metabólicos intestinais normais: Depuração dos alimentos pelo fígado Liberação dos hormônios gastrintestinais Liberação das enzimas digestivas Produção de bile e contração da vesícula biliar Melhor manipulação dos líquidos ofertados Maior e melhor resposta insulínica QUADRO 3.1 Necessidades hídricas de acordo com a faixa etária (podem variar de acordo com a situação clínica). Idade Necessidade hídrica (mℓ/kg/dia) Lactentes a partir do 2o mês de vida 120 a 150 (máximo de 180) 1 a 2 anos 80 a 120 (máximo de 150) 3 a 5 anos 80 a 100 6 a 12 anos 60 a 80 13 a 18 anos 50 a 70 Adaptado de Koletzko et al., 2005. QUADRO 3.2 Necessidades calóricas de acordo com a faixa etária. Idade kcal/kg/dia 0 a 1 ano 90 a 120 1 a 7 anos 75 a 90 7 a 12 anos 60 a 75 12 a 18 anos 30 a 60 • ∘ ∘ • ∘ ∘ ∘ ∘ ∘ • • • • • 18 a 25 anos 25 a 35 Adaptado de ASPEN, 2002. Estímulo trófico intestinal: Hipertrofia e hiperplasia das vilosidades intestinais Aumento em quantidade e atividade das enzimas digestivas Outras: Facilidade na preparação e administração Maior segurança em relação à nutrição parenteral (NP) Menor risco de distúrbios metabólicos Menor risco de infecções Custo reduzido. Vias de administração da dieta. As vias possíveis de administração da dieta são a gástrica e a pós-pilórica. É aconselhável a via pós-pilórica para os pacientes com alto risco de aspiração ou em caso de falha da administração por via gástrica (Quadro 3.3). Tipos de dieta Até 6 meses de idade, o ideal, exceto em situações específicas e raras, é a amamentação exclusiva com leite materno. Quando não for possível a utilização do leite humano, devem-se utilizar fórmulas de partida ou de seguimento Em lactentes com até 1 ano de idade, que necessitem de restrição hídrica enão possam receber leite humano, existe a possibilidade de, em vez das fórmulas de partida e seguimento, utilizar fórmula com 1 kcal/mℓ Após 1 ano de idade, existem no mercado várias formulações disponíveis para uso, que podem variar de acordo com a faixa etária Para indivíduos maiores de 12 anos, com peso adequado, podem-se utilizar as fórmulas destinadas a adultos. Preconiza-se iniciar com 25% das necessidades, e a velocidade da progressão dependerá da tolerância do sistema digestório e da compatibilidade metabólica. Fórmulas disponíveis Completas: são aquelas que contêm carboidratos (CH), proteínas (P), lipídios (L), vitaminas e minerais em quantidades preconizadas para idade e peso • • ∘ ∘ ∘ • ∘ ∘ Modulares: apresentam-se em um ou mais módulos de nutrientes individuais para enriquecer as formulações anteriores ou adequar-se a elas. Utilizam-se em condições clínicas específicas. Um exemplo seria a utilização de módulos de proteínas em situações de hipercatabolismo Poliméricas (CH, P, L intactos para lactentes com função digestiva normal): São fórmulas lácteas para primeiro e segundo semestres de vida Para o primeiro ano de vida, há a fórmula polimérica hipercalórica (1 kcal/mℓ) Acima de 1 ano de vida, existem as fórmulas com 1 kcal por mℓ até 1,5 kcal por mℓ. Elas podem ou não vir acrescidas de fibras. Oligoméricas (semielementares) e monoméricas (elementares): Semielementares: contêm nutrientes parcialmente digeridos (particularmente as proteínas) e não requerem função intestinal total para serem absorvidas, sendo indicadas nas síndromes de má absorção Elementares: são compostas de aminoácidos livres; classicamente são indicadas em casos de alergia grave à proteína. QUADRO 3.3 Orientações para administração de fórmulas enterais (podem variar com a situação clínica). Idade Início Seguimento Sugestões relacionadas à tolerância 0 a 12 meses 1 a 2 mℓ/kg/h 1 a 2 mℓ/kg a cada 2 a 8 h 6 mℓ/kg/h 1 a 6 anos 1 mℓ/kg/h 1 mℓ/kg a cada 2 a 8 h 1 a 5 mℓ/kg/h > 7 anos 25 mℓ/h 25 mℓ a cada 2 a 8 h 100 a 150 mℓ/h Adaptado de NASPGHAN, 2012. Proporção de macronutrientes. As fontes de energia devem ser equilibradas entre carboidratos e lipídios, aceitando-se valores de 50 a 60% e de 25 a 40%, respectivamente. Necessidades nutricionais. As dosagens recomendadas de proteínas, vitaminas e minerais para pacientes pediátricos em terapia enteral estão descritas nos Quadros 3.4 a 3.6. ▶ Nutrição parenteral Indicação. Esta modalidade nutricional é recomendada quando a NE não for possível ou não for suficiente para atender às necessidades nutricionais do paciente. De modo geral, considerando-se a partir do primeiro dia de evento, a NP deve ser iniciada em até 5 a 7 dias nos indivíduos bem nutridos e em 48 h nos desnutridos. É importante que o tempo de início seja individualizado de acordo com a condição clínica do paciente. Via de utilização. A utilização da via periférica só será possível com uma rede venosa ótima e desde que não ultrapasse a osmolaridade permitida. Dados da literatura indicam que, de modo geral, esta deve ser menor do que 850 mOsm/ℓ, porém, na prática clínica, muitas vezes não é possível utilizar soluções com osmolaridade superior a 650 ou 700 mOsm/ ℓ . Caso haja necessidade de utilização de maior concentração da NP (como na restrição hídrica), deve-se providenciar um cateter venoso central. Estudos recentes têm demonstrado que a punção de cateter guiado por ultrassonografia é mais segura que a punção guiada somente por referenciais anatômicos. QUADRO 3.4 Necessidade de proteínas para crianças e adolescentes saudáveis. Idade Proteínas* (g/kg/dia) Lactentes 2 1 a 10 anos 1,2 Adolescente (sexo masculino) 0,9 Adolescente (sexo feminino) 0,8 *Sob hipercatabolismo, a quantidade deve ser maior (em alguns casos até o dobro – ver o texto). Adaptado de ASPEN, 2002. QUADRO 3.5 Dosagens recomendadas de oligoelementos e vitaminas para neonatos a termo (nutrição enteral). Oligoelementos Dosagens recomendadas Ferro 2.000 a 4.000 mcg/kg/dia Zinco 2.000 mcg/dia Cobre 200 mcg/dia Selênio 15 mcg/dia Cromo 0,2 mcg/dia Molibdênio 2 mcg/dia Manganês 0,3 mcg/dia Iodo 110 a 130 mcg/dia Vitaminas Dosagens recomendadas B1 0,2 mg/dia B2 0,3 mg/dia B3 2 mg/dia B6 14 mcg/kg/dia Folato 65 mcg/dia B12 0,4 mcg/dia B5 1,7 mg/dia Biotina 5 mcg/dia C 40 mg A 1.333 UI/dia ou 400 mcg/dia D 400 UI/dia E 6 UI/dia Em casos de síndrome colestática, pode ser necessária a redução da dosagem ou suspensão da oferta. O monitoramento dos valores plasmáticos de cobre é indicado. UI = unidade internacional. Adaptado de ASPEN, 2012. QUADRO 3.6 Dosagens recomendadas de oligoelementos (recommended dietary allowances [RDA]) para pacientes em nutrição enteral. Oligoelementos 0 a 6 meses 7 a 12 meses 1 a 3 anos 4 a 8 anos 9 a 13 anos 14 a 18 anos Cobre (mcg) 200* 220* 340 440 700 890 Cromo (mcg) 0,2* 5,5* 11* 15* M = 25; F = 21* M = 35; F = 24* Fluoreto (mg) 0,01* 0,5* 0,7* 1* 2* 3* Iodo (mcg) 110* 130* 90 90 120 150 Ferro (mg) 0,27* 11 7 10 8 M = 11; F = 15 Manganês (mg) 0,003* 0,6* 1,2* 1,5* M = 1,9; F = 1,6 M = 2,2; F = 1,6 Molibidênio (mcg) 2* 3* 17 22 34 43 Selênio (mcg) 15* 20* 20 30 40 55 Zinco (mg) 2* 3 3 5 8 M = 11; F = 9 Vitaminas 0 a 6 meses 7 a 12 meses 1 a 3 anos 4 a 8 anos 9 a 13 anos 14 a 18 anos A (mcg)a 400* 500* 300 400 600 M = 900; F = 700 D (mcg/UI) 10/400* 10/400* 15/600 15/600 15/600 15/600 E (mg) 4* 5* 6 7 11 15 K (mcg) 2* 2,5* 30* 55* 60* 75* B1 (mg) 0,2* 0,3* 0,5 0,6 0,9 M = 1,2; F = 1,0 B2 (mg) 0,3* 0,4* 0,5 0,6 0,9 M = 1,3; F = 1,0 B3 (mg) 2* 4* 6 8 12 M = 16; F = 14 B5 (mg) 1,7* 1,8* 2* 3* 4* 5* B6 (mg) 0,1* 0,3* 0,5 0,6 1,0 M = 1,3; F = 1,2 B12 (mcg) 0,4* 0,5* 0,9 1,2 1,8 2,4 C (mg) 40* 50* 15 25 45 M = 753; F = 65 Folato (mcg) 65* 80* 150 200 300 400 Biotina (mcg) 5* 6* 8* 12* 20* 25* Colina (mcg) 125* 150* 200* 250* 375* M = 550; F = 400* *Não há valores da RDA. UI = unidade internacional; 1 mcg de atividade equivalente ao retinol = 1 mcg de retinol = 12 mcg de β- caroteno = 24 mcg de α-caroteno ou de β-criptoxantina; 1 UI de retinol = 0,3 mcg de retinol; AI = ingestão adequada; M = masculino; F = feminino; unidade internacional. Adaptado de ASPEN, 2012. Necessidades calóricas. Podem ser observadas no Quadro 3.2. • • • • Necessidades de macronutrientes. Devem ser iniciadas com 50 a 60% da necessidade calórica total diária. Veja os Quadros 3.7 a 3.9 para as necessidades de carboidratos e de proteínas de acordo com a faixa etária. Observações: Em pacientes com insuficiência renal, mas que não fazem diálise, deve- se diminuir o aporte de proteínas Na insuficiência hepática, a mudança de perfil de aminoácidos para solução rica em aminoácidos de cadeia ramificada deve ser realizada somente nos casos de encefalopatia graus III e IV A relação nitrogênio/calorias não proteicas deverá manter-se entre 1/150 (adolescentes) e 1/250 (lactentes) No hipercatabolismo, a relação pode manter-se entre 1/90 (adolescentes) e 1/150 (lactentes), dependendo da faixa etária. Também é relevante lembrar que 1 g de nitrogênio equivale a 6,25 g de proteína. QUADRO 3.7 Infusão de glicose sugerida nos primeiros dias de nutrição parenteral. Peso/dia (kg) Dia 1 (g/kg/dia) Dia 2 (g/kg/dia) Dia 3 (g/kg/dia) Dia 4 (g/kg/dia) 30 3 5 8 6 anos Inicial: 5 a 7 Máxima: 9 > 10 anos Inicial: 4 a 5 Máxima: 6 a 7 Adolescentes Inicial: 2 a 3 Máxima: 5 a 6 *Pode variar em virtude de magreza ou obesidade. VIG = velocidade de infusão de glicose. QUADRO 3.9 Recomendações sobre dosagens de aminoácidos via nutrição parenteral. Idade Quantidade de aminoácidos (g/kg/dia) Recém-nascidos a termo 1,5 a 3 2 meses a 3 anos 1 a 2,5 3a 18 anos 1 a 2 Adaptado de Koletzko et al., 2005. Necessidades de lipídios. As necessidades de lipídios podem ser observadas no Quadro 3.10. É preciso ressaltar alguns pontos importantes: Devido à frequente resistência à ação da insulina, muitas vezes os ácidos graxos são as principais fontes de energia em pacientes com estresse metabólico • • • • • • • • • • Os ácidos graxos linoleico e linolênico devem ser oferecidos nas proporções de 4,5 e 0,5% do total calórico, respectivamente Os lipídios devem prover de 25 a 40% das calorias não proteicas para a maioria dos casos até 10 anos de idade e, no máximo, 35% acima desta faixa etária A oferta diária máxima deve ser de 3 a 4 g/kg/dia (até 0,13 g/kg/h) para lactentes e de 2 a 3 g/kg/dia (0,08 a 0,13 g/kg/h) para pré-escolares e escolares Não está preconizado o uso de heparina rotineiramente para melhorar o clareamento dos lipídios Emulsões lipídicas devem ser administradas nas primeiras 24 h sempre que possível. Necessidades de micronutrientes. As necessidades de micronutrientes encontram-se descritas nos Quadros 3.11 a 3.13. QUADRO 3.10 Recomendações sobre dosagens de lipídios via nutrição parenteral. Faixa etária Dose inicial (g/kg/dia) Dose máxima (g/kg/dia) Recém-nascidos e lactentes 1 3 Crianças 1 2 Adolescentes 0,5 1 Adaptado de ASPEN, 2010. Necessidades de minerais. As necessidades são observadas no Quadro 3.14. As soluções de minerais mais comumente utilizadas encontram-se listadas a seguir, em valores aproximados: Cloreto de sódio (NaCl) 20%: 1 mℓ = 3,4 mEq sódio Acetato de sódio (2 mEq/mℓ): 1 mℓ = 2 mEq de sódio Cloreto de potássio (KCl) 19,1%: 1 mℓ = 2,56 mEq de potássio Fosfato de potássio (2 mEq/mℓ): 1 mℓ = 2 mEq de K e 1,1 mmol de fósforo inorgânico Fósforo orgânico: 1 mℓ = 1 mmol de fósforo e 2 mEq de sódio • • Gluconato de cálcio (gluc. Ca) 10%: 1 mℓ = 100 mg = 0,47 mEq de cálcio Sulfato de magnésio (MgSO4 – sulf. Mg) 10%: 1 m ℓ = 0,80 mEq de magnésio. QUADRO 3.11 Necessidades de oligoelementos na nutrição parenteral. Oligoelementos RN a termo (mcg/kg/dia) Lactentes (mcg/kg/dia) Crianças (mcg/kg/dia) *Cobre 20 20 20 (máximo de 500) *Cromo 0,2 0,2 (máximo de 5) 0,2 mcg/kg/dia (máximo de 50) *Manganês 1 1 (máximo de 50) 1 mcg/kg/dia (máximo de 50) **Selênio 2 a 3 1 a 3 1 a 3 (máximo de 100) ***Zinco 250 250 = 3 meses (máximo de 5.000) 50 mcg/kg/dia (máximo de 5.000) RN = recém-nascido. *Só disponível na solução de oligoelementos. **Só disponível à parte (não junto com outros oligoelementos). ***Disponível na solução de oligoelementos e à parte. Adaptado de ASPEN, 2012; Finch, 2015. QUADRO 3.12 Necessidades de vitaminas na nutrição parenteral.* Vitaminas Neonato a termo* Lactentes* Crianças A** 2.300 UI/dia 150 a 300 mcg/kg/dia 150 mcg/dia D 400 UI/dia 0,8 mcg ou 32 UI/kg/dia 10 mcg/400 UI/dia E 7 UI/dia 2,8 a 3,5 mg/kg/dia 7 mg/dia K*** 200 mcg/dia 10 mcg/kg/dia 200 mcg/dia B1 (tiamina) 1,2 mg/dia 0,35 a 0,5 mg/kg/dia 1,2 mg/dia B2 (riboflavina) 1,4 mg/dia 0,15 a 0,2 mg/kg/dia 1,4 mg/dia B3 (niacina) 17 mg/dia 4,0 a 6,8 mg/kg/dia 17 mg/dia B5 (ácido pantotênico) 5 mg/dia 1 a 2 mg/kg/dia 5 mg/dia B6 (piridoxina) 1.000 mcg/dia 0,15 a 0,2 mg/kg/dia 1 mg/dia B12 (cianocobalamina) 1 mcg/dia 0,3 mcg/kg/dia 1 mcg/dia C (ácido ascórbico) 80 mg/dia 15 a 25 mg/kg/dia 80 mg/dia Folato 140 mcg/dia 56 mcg/kg/dia 140 mcg/dia Biotina 20 mcg/dia 5 a 8 mcg/kg/dia 20 mcg/dia *Dose máxima de cada vitamina. **1 mg de retinol equivalente = 3.33 UI de vitamina A. ***A maioria dos polivitamínicos não contém vitamina K. Preconiza-se dose semanal intramuscular (IM) ou intravenosa (IV) dependendo do produto. Se IV, em via diferente da NP. A dose diária é de 130 mcg de 1 até 3 kg e 200 mcg se maior que 3 kg. Adaptado de ASPEN, 2012. QUADRO 3.13 Necessidades de minerais. Eletrólitos Neonatos Lactentes/crianças Adolescentes Sódio (mEq/kg) 2 a 5 2 a 6 50 a 80 mEq/dia (máximo de 150 mEq/dia) Cloro (mEq/kg) 1 a 5 2 a 5 Não definida apropriadamente Potássio (mEq/kg) 1 a 4 mEq/kg 2 a 3 40 a 60 mEq/dia (máximo de 120 mEq/dia) Cálcio (mEq/kg) 3 a 4 1 a 2,5 10 a 20 mEq/dia Fósforo (mmol/kg) 1 a 2 0,5 a 1 (1 a 2 mEq/kg) 10 a 30 mmol/dia Magnésio (mEq/kg) 0,3 a 0,5 0,3 a 0,5 8 a 24 mEq/dia Adaptado de ESPGHAN e ESPEN, 2005; Leite e Meneses, 2005. Parâmetros para estabilidade da nutrição parenteral. Os parâmetros desejáveis para garantir estabilidade da NP são apresentados no Quadro 3.14. Na relação cálcio/fósforo da formulação da NP, deve-se atentar para que o produto da multiplicação de fósforo em mmol por cálcio em mEq em 1 ℓ de solução não ultrapasse 150. Ainda é importante manter o somatório de cálcio (mEq) + magnésio (mEq) em 1 ℓ até o valor máximo de 16. Alta temperatura ambiente, pH menos ácido, infusão concomitante de quantidade exagerada de lipídios e excesso de magnésio podem facilitar esta precipitação. QUADRO 3.14 Elementos de manutenção da estabilidade da nutrição parenteral (NP).* Monitoramento Desejável Concentração de cálcio 2% Concentração máxima de glicose (quando em uso de NP com os 3 macronutrientes) 12,5% Concentração máxima da soma de sódio + potássio 130 mEq/ℓ NP Relação cálcio × fósforo (mEq × mmol) por volume de NP ao quadrado 8 semanas Sódio, potássio e cloreto Diariamente* 3 vezes/semana 2 vezes/semana 2 vezes/mês Cálcio iônico, fósforo e magnésio 3 vezes/semana 3 vezes/semana 2 vezes/semana 1 vez/mês Hemograma 2 vezes/semana 1 vez/semana 2 vezes/semana 1 vez/mês Ureia e creatinina 3 vezes/semana 2 vezes/semana 1 vez/semana 1 vez/mês Fita glicêmica 4 vezes/dia 2 vezes/dia 1 vez/dia 1 vez/mês Glicosúria 2 vezes/dia 1 vez/dia 1 vez/semana 1 vez/mês Bilirrubina total e frações, ALT, AST e GGT 1 vez/semana 1 vez/semana 2 vezes/mês 1 vez/mês Triglicerídeos Diariamente* 2 vezes/semana 1 vez/semana 1 vez/mês pré-albumina e PCR 1 vez/semana 1 vez/semana 1 vez/semana 1 vez/mês Albumina 1 vez/mês 1 vez/mês 1 vez/mês 1 vez/mês Perfil de ferro, ácido fólico e vitamina B12 Não** Não** Não** Não** Vitaminas e oligoelementos Não*** Não*** Não*** Não*** *Ou a cada 48 h. **Dependendo dos dados do hemograma ou indicação clínica, deve ser realizado. ***Quando há indicação, deve ser realizado. ALT = alanina aminotransferase;